Beda, o Venerável
Monge de Jarrow · Doutor da Igreja
Beda (c. 673–735), monge anglo-saxão que jamais deixou seu mosteiro de Jarrow e ainda assim iluminou toda a cristandade. Historiador, exegeta e cientista, é o único inglês citado por Dante no Paraíso. Seus comentários bíblicos, sóbrios e fiéis à tradição patrística, fizeram dele ponte entre os Padres e a Idade Média.
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Como o Evangelista havia dito que toda criatura foi feita pelo Verbo, para que ninguém por acaso acreditasse que Sua vontade era mutável, como se subitamente quisesse fazer uma criatura que desde a eternidade nunca antes havia feito, por isso cuidou de ensinar que, embora a criatura tenha sido feita no tempo, na eterna sabedoria do Criador sempre estivera disposto quando e a quem criaria; por isso diz que o que foi feito, nele era vida.
Pois os outros Evangelistas descrevem Cristo nascido no tempo, mas São João testemunha que Ele existia no princípio, dizendo: "No princípio era o Verbo". Os outros recordam que Ele apareceu subitamente entre os homens; ele testemunha que o mesmo sempre esteve junto de Deus, dizendo: "E o Verbo estava junto de Deus". Os outros O confirmam como verdadeiro homem; ele O confirma como verdadeiro Deus, dizendo: "E Deus era o Verbo". Os outros O mostram como homem que temporalmente conviveu entre os homens; ele mostra Deus junto de Deus, permanecendo no princípio, dizendo: "Este estava no princípio junto de Deus". Os outros expõem as grandes obras que realizou como homem; ele ensina que Deus Pai por meio dele fez toda criatura, dizendo: "Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito".
Ele não diz: para que todos cressem nele; pois maldito é o homem que confia no homem; mas, para que todos cressem por ele; isto é, que por seu testemunho cressem na luz.
Seja por engenho natural, seja por sabedoria divina: assim como ninguém pode existir por si mesmo, assim também ninguém pode ser sábio por si mesmo.
Deve-se saber também que nas Sagradas Escrituras, quando se fala de sangue no plural, costuma significar o pecado; por isso: "Livra-me dos sangues"(Salmos 50,16).
Além disso, deve-se saber que, se o que ele disse enarravit (narrou) se refere ao passado, então, feito homem, ele narrou o que se deve entender sobre a unidade da Trindade, como se deve avançar à sua contemplação, por quais atos se deve chegar a ela. Mas se se refere ao futuro, então ele narrará quando conduzir seus eleitos à visão de sua claridade.
Ou pecado do mundo é chamado o pecado original, que é comum a todo o mundo; pecado original esse que, bem como os pecados acrescentados de cada um, Cristo pela sua graça perdoa.
São João estava firme, porque havia subido àquela cidadela de virtudes, de onde não poderia ser derrubado por nenhuma força das tentações: seus discípulos estavam com ele, pois seguiam seu magistério com coração inabalável.
Olhou para ele não somente com os olhos exteriores, mas também com o eterno olhar da divindade, viu a simplicidade de seu coração e a elevação de sua alma, por cujo mérito haveria de ser preferido a toda a Igreja. E não convém buscar no vocábulo Pedro, como se fosse hebraico ou sírio, outra interpretação, porque tanto em grego como em latim Pedro significa o mesmo que Cefas em sírio; e em ambas as línguas o nome deriva de pedra. É chamado Pedro por causa da firmeza de sua fé, pela qual aderiu àquela pedra da qual diz o Apóstolo: "a pedra era Cristo"; que torna seguros contra as ciladas do inimigo aqueles que nele esperam, e dispensa correntes de dons espirituais.
Que também se dignou vir às núpcias, segundo a letra, confirma a fé dos que creem retamente. Além disso, insinua quão condenável é a perfídia de Taciano e Marcião, e dos demais que desprezam as núpcias. Pois se houvesse culpa no leito imaculado e nas núpcias celebradas com a devida castidade, de modo algum o Senhor teria querido comparecer a elas. Agora, porém, como boa é a castidade conjugal, melhor a continência das viúvas, e ótima a perfeição virginal, para aprovar a escolha de todos os graus, mas distinguindo o mérito de cada um, dignou-se nascer do ventre intacto da Virgem Maria; logo após nascer, foi abençoado pela boca profética da viúva Ana; e já jovem, convidado pelos celebrantes das núpcias, honra-as com a presença de sua virtude.
Como se dissesse: Ainda que parecesse recusar, todavia Ele fará isso. A mãe conhecia-O como misericordioso e compassivo. Segue-se: Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, contendo cada uma duas ou três metretas. Hidrias são chamadas as vasilhas preparadas para conter água; pois em grego a água se diz hydor.
Não permaneceu ali muitos dias, porque por pouco tempo neste mundo conversou com os homens.
Vendem, portanto, as pombas aqueles que, tendo recebido a graça do Espírito Santo gratuitamente, não a dispensam gratuitamente, como foi ordenado, mas a concedem mediante recompensa; aqueles que conferem a imposição das mãos, pela qual se recebe o Espírito Santo, se não por dinheiro, ao menos para obter o favor do povo; aqueles que outorgam as sagradas ordens não segundo o mérito da vida, mas por favor.
Pois como pediam um sinal ao Senhor, a respeito de por que Ele deveria expulsar do templo os comércios habituais, respondeu: porque o próprio templo significava o templo do seu corpo, no qual absolutamente não havia mancha alguma de pecado; como se dissesse: assim como com o meu poder purifico o templo inanimado de vossos comércios e maldades, assim também o templo do meu corpo, do qual este traz a figura, destruído por vossas mãos, ressuscitarei ao terceiro dia.
Anteriormente o Evangelista narrou o que o Senhor fez quando chegou a Jerusalém; agora, porém, permanecendo Ele mesmo em Jerusalém, relata o que foi feito por outros em relação a Ele; donde se diz: "Estando Ele em Jerusalém pela Páscoa, no dia festivo, muitos creram em seu nome, vendo os sinais que fazia".
Cuja dignidade do ofício também demonstra, quando acrescenta príncipe dos judeus; depois, o que fez, quando sujeita este veio a Jesus de noite, desejando, isto é, por meio de sua conversação secreta, aprender mais plenamente os mistérios da fé, cujos rudimentos já havia percebido pela manifestação evidente dos sinais.
Estas palavras parecem soar como se um menino pudesse entrar novamente no ventre da mãe e renascer. Mas deve-se saber que ele mesmo era idoso; e por isso apresentou o exemplo de si mesmo; como se dissesse: eu sou velho e busco minha salvação; como posso entrar no ventre de minha mãe e renascer?
Se de fato algum homem nu descer do monte para o vale, e, tomando vestimentas e armas, subir novamente ao mesmo monte, corretamente se afirma que o mesmo que antes desceu é o que subiu.
Ele conduz o mestre da lei Mosaica ao sentido espiritual da mesma lei, recordando a história antiga, e explicando que esta foi feita como figura de sua paixão e da salvação humana.
Moralmente também aqueles amam mais as trevas do que a luz, que perseguem com ódios e difamações aos seus pregadores que bem ensinam. Segue-se aquele, porém, que pratica a verdade, vem à luz, para que suas obras sejam manifestas, porque foram feitas em Deus.
Tanto quanto a doutrina da fé é proveitosa aos catecúmenos ainda não batizados, assim foi proveitoso o Batismo de São João antes do Batismo de Cristo: porque assim como ele pregava a penitência e anunciava o Batismo de Cristo, e atraía ao conhecimento da verdade que apareceu ao mundo, assim os ministros da Igreja primeiro instruem os que vêm à fé, depois repreendem seus pecados, e finalmente prometem a remissão no Batismo de Cristo, e assim os atraem ao conhecimento e ao amor da verdade.
O homem se alegra com gozo ao ouvir a voz do esposo, quando compreende que não deve alegrar-se de sua própria sabedoria, mas da sabedoria que recebeu do Senhor. Qualquer um que em suas boas obras não busca sua própria glória ou louvor, nem deseja lucros terrenos, mas celestes, este é amigo do esposo.
Não se deve entender aqui a fé que se mantém apenas em palavras, mas a que se cumpre por meio das obras.
Era necessário que Ele passasse pela Samaria, porque esta região está situada entre a Judeia e a Galileia. Samaria é uma importante cidade da província da Palestina, tão notável que toda a região a ela associada é chamada Samaria. Para qual lugar dessa região o Senhor se dirigiu, o Evangelista mostra; por isso diz: Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar.
Ou ela chama a Jacó seu pai, porque ela vivera sob a Lei de Moisés, e possuía a propriedade que Jacó dera a seu filho José.
Mas como lhes foi dada a ocasião de ver, mostra-o acrescentando: pois eles também haviam vindo para a festa. Em sentido místico, insinua-se que, quando os gentios estiverem consolidados na fé pelos dois preceitos da caridade, Cristo, próximo ao fim do mundo, retornará à sua pátria, isto é, aos judeus.
Por isso se dá a entender que também na fé há graus, como nas outras virtudes, nas quais há início, crescimento e perfeição. Portanto, a fé deste homem teve seu início quando pediu a cura de seu filho; teve seu crescimento quando acreditou na palavra do Senhor que lhe disse "teu filho vive"; e depois obteve a perfeição quando os servos lhe anunciaram.
Muita diferença, certamente, se comprova existir entre a cura do Senhor e a que pelos médicos é aplicada: esta, evidentemente, pela voz de quem ordena, e logo se cumpre; aquela, porém, através de muitos intervalos de tempo às vezes se completa.
A missão deve ser entendida como a sua encarnação. Por fim, demonstra que Deus é incorpóreo, e que não pode ser visto com olhos corporais e visíveis; donde segue: nem jamais ouvistes a sua voz, nem vistes a sua figura.
Este vício não pode ser melhor precavido, senão voltando às nossas consciências e considerando que somos pó; e se descobrimos que há algo de bom em nós, não o atribuamos a nós, mas a Deus. Somos instruídos também para sempre nos mostrarmos tais como desejamos ser vistos pelos outros. Finalmente, poderiam eles responder: então nos acusarás diante do Pai? E por isso, antecipando sua pergunta, acrescenta: "Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai".
Se alguém considerar diligentemente as palavras dos Evangelistas, facilmente reconhecerá que houve o espaço de um ano entre a decapitação de João e a paixão do Senhor. Visto que Mateus diz que o Senhor, ao ouvir da morte de João, retirou-se para um lugar deserto, e ali alimentou as multidões; e João diz que estava próxima a Páscoa dos judeus quando alimentou as multidões, demonstra-se claramente que João foi decapitado quando se aproximava a festividade pascal. E, transcorrido o espaço de um ano, Cristo padeceu na mesma festividade. Segue-se: Quando Jesus então levantou os olhos, e viu que uma grande multidão vinha a Ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão para que estes comam? Diz quando levantou os olhos Jesus, para que aprendêssemos que Ele não erguia os olhos aqui e ali, mas estava sentado modestamente atento com seus discípulos.
E visto que esta pequena embarcação não transporta pessoas indolentes, mas aqueles que remam vigorosamente, isto significa que na Igreja, não os desidiosos e os comodistas, mas os fortes e perseverantes nas boas obras, são os que chegam ao porto da salvação eterna.
Aqueles também que na oração buscam não as coisas eternas, mas as temporais, buscam Jesus não por causa de Jesus, mas por outra coisa. Significa-se misticamente que as conventículos dos hereges carecem da hospedagem de Cristo e de seus discípulos; e diz-se que outras naves sobrevieram, porque as heresias foram repentinas. Pela multidão, porém, que reconheceu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, são designados aqueles que, conhecendo os erros dos hereges, os abandonam e vêm para a verdadeira fé.
Ele diz todo de forma absoluta, para mostrar a plenitude dos fiéis. Estes são os que o Pai dá ao Filho, quando, por meio de uma inspiração oculta, faz com que creiam no Filho.
Diz, porém, no plural nos profetas, porque todos os profetas, cheios de um mesmo e único espírito, ainda que profetizassem coisas diferentes, todavia tendiam ao mesmo fim; pelo que todos os outros concordavam com qualquer um deles, como com o profeta Joel, que diz: serão todos ensinados por Deus.
Este pão o Senhor então deu, quando entregou aos discípulos o mistério do Seu corpo e sangue, e quando ofereceu a Si mesmo a Deus Pai no altar da cruz. Quanto ao que diz pela vida do mundo, não devemos entender pelos elementos, mas pelos homens, que são designados pelo nome de mundo.
E para que não se acreditasse que tinha dito estas coisas somente àqueles, logo depois introduziu uma sentença geral, dizendo: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue".
Ou deve-se dizer que escolheu os onze para um propósito, e o duodécimo para outro; os onze elegeu para que perseverassem na dignidade apostólica; e um elegeu para que, por meio de sua traição, operasse a salvação do gênero humano.
Esta conexão das palavras é tal que entendamos que, nesse meio tempo, muitas coisas puderam ser realizadas e acontecer. A Judeia e a Galileia são regiões da província da Palestina, mas a Judeia foi assim chamada pela tribo de Judá: não somente aquela região que a tribo de Judá, mas também aquela que a tribo de Benjamim possuía, foi chamada Judeia, porque os reis nasciam da tribo de Judá. Já a Galileia é assim chamada porque gera um povo semelhante ao leite, isto é, branco: pois Galileia em grego, em latim se diz leite.
Misticamente, porém, é designado que para cada um dos carnais que buscam a glória humana, o Senhor permanece na Galileia, que se interpreta santa transmigração, isto é, em seus membros, que transmigram dos vícios às virtudes, e nelas progridem. Posteriormente, no entanto, o Senhor sobe, porque os membros de Cristo não buscam a glória desta vida, mas a glória eterna. Ocultamente, porém, o Senhor sobe, porque toda a sua glória vem do interior, isto é, de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida.
No qual nos deixou um exemplo de paciência: para que sempre que falsas acusações nos forem dirigidas por alguém, as toleremos com paciência, e não objetemos as verdades que podemos apresentar, mas preguemos conselhos salutares; pois segue-se: Respondeu Jesus e lhes disse: uma obra fiz, e todos vos admirais.
Diz, porém: "Vou para aquele que me enviou", como se dissesse: ao retornar, subo ao Pai, que me ordenou encarnar. Disse que ia para aquele de quem nunca se afastou.
Significa-se também que depois que, pela graça, começou a habitar em seu templo, isto é, na Igreja, de todas as nações creram nele; do que se segue: e todo o povo vinha a ele: e sentando-se, ensinava-os.
Onde deve-se observar que Ele não diz, eu sou a luz dos Anjos ou do céu, mas a luz do mundo, isto é, dos homens que habitam nas trevas, segundo aquilo: "para iluminar aqueles que estão sentados nas trevas e na sombra da morte"(São Lucas 1,79).
Em muitos lugares o Pai dá testemunho do Filho, como naquele: "Eu hoje te gerei"(Salmos 2,7); igualmente: "Este é o meu Filho amado"(São Mateus 3,17)
Ou de outro modo. Cristo fala no gazófilo, porque proferia aos judeus sermões em parábolas; mas então, como que começou a abrir o gazófilo quando revelou aos seus discípulos as coisas celestiais: por isso também o gazófilo estava ligado ao templo: pois o que a Lei e os profetas haviam predito figuradamente, pertencia ao Senhor.
Esta conexão de palavras parece ser tal, que estas coisas poderiam ter ocorrido em um mesmo tempo e em um mesmo lugar, ou certamente em tempo diferente e em lugar diferente: visto que nada, ou algumas coisas, ou muitas coisas poderiam ter sido interpostas.
Certamente em alguns exemplares encontra-se "o que também vos falo"; mas prova-se ser mais adequado ler "porque", a fim de que este seja o sentido: "Crede que eu sou o princípio, porque por vossa causa desci a estas palavras".
"Quem tu mesmo te fazes?" Isto é, de que mérito ou de que dignidade queres ser considerado? Abraão, entretanto, estava morto no corpo, mas a alma vivia. E maior é a morte da alma, que há de viver eternamente, do que a do corpo, que há de morrer algum dia.
Misticamente, quantos maus pensamentos alguém assume, como que atira tantas pedras em Jesus; e depois, quanto ao que lhe diz respeito, se passa à deliberação, extingue Jesus.
Misticamente, depois que foi expulso dos corações dos Judeus, logo passou ao povo dos gentios. Pois o seu passar, ou fazer caminho, é descer dos céus à terra. E assim vê ao cego, quando olhou misericordiosamente para o gênero humano.
Assim ele representa a figura dos catecúmenos, que embora creiam em Jesus, todavia ainda não o conhecem, porque ainda não foram lavados. Cabia aos fariseus aprovar ou desaprovar a obra.
Nisto podem tomar como exemplo, para que ninguém rogue ao Senhor com a cerviz erguida, mas prostrado em terra, como um suplicante, implore Sua misericórdia.
Lê-se que sob Judas Macabeu foi estabelecido que esta mesma dedicação fosse renovada todos os anos em memória com ofícios solenes.
Diz, porém, "onde estava primeiro", isto é, desde a primeira idade. E permanecendo ele ali, narra que muitos vieram até ele; donde segue: "E muitos vieram a ele, e diziam: João, na verdade, não fez nenhum milagre".
O evangelista havia dito que o Senhor foi para o outro lado do Jordão, e então aconteceu que Lázaro adoeceu; por isso diz: havia um enfermo chamado Lázaro, de Betânia. Daí que em alguns exemplares encontra-se colocada a conjunção copulativa "et", para que as palavras seguintes pareçam conectadas às anteriores. Lázaro significa "ajudado". Entre todos os mortos que o Senhor ressuscitou, este foi o mais ajudado por Ele, pois o ressuscitou não apenas morto, mas quatriduano.
Ou então os discípulos, repreendidos pelas palavras anteriores do Senhor, não ousaram mais contradizer; mas Tomás, acima de todos, exortou seus companheiros a irem e morrerem com Ele, no que se mostra sua grande constância; pois assim falava, como se pudesse fazer o que exortava aos outros, esquecido de sua fragilidade, como também Pedro.
Uma gruta é uma rocha cavada. E o monumento é assim chamado porque adverte a mente; isto é, traz os mortos à memória. Segue-se: disse Jesus: tirai a pedra.
[1] O termo "monumento" (monumentum) deriva de "avisar a mente" (mentem moneat), ou seja, traz à lembrança os que já faleceram.
Por aqueles que anunciaram aos fariseus, são significados alguns que, vendo as boas obras dos servos de Deus, perseguem-nas com ódio e tentam difamá-las.
É, de fato, uma palavra composta de corrupto e íntegro: hosi, que significa salva, e Anna, que é uma interjeição de súplica. "Bendito o que vem em nome do Senhor" deve ser entendido, mais apropriadamente, como sendo "em nome do Senhor", ou seja, em nome de Deus Pai; embora também possa ser entendido como em seu próprio nome, porque Ele mesmo é o Senhor. Porém, Suas palavras dirigem melhor nosso entendimento, quando Ele diz: "Eu vim em nome de meu Pai". Certamente Ele não perde Sua divindade quando nos ensina a humildade.
O templo do Senhor, situado em Jerusalém, era tão famoso que nos dias festivos não somente os vizinhos, mas também muitas gentes de regiões longínquas vinham para lá, como declaram os Atos dos Apóstolos sobre o eunuco de Candace, rainha dos etíopes. Por este costume, portanto, estes gentios tinham vindo para adorar, dos quais se diz: "Havia alguns gentios, dentre aqueles que tinham subido para adorar no dia da festa".
Isto é, que outra coisa senão para que os meus membros sejam instruídos? Pai, salva-me desta hora
Os judeus tinham certamente muitas festividades, mas nenhuma era tão insigne e celebrada como a festividade da Páscoa; por isso diz expressamente: "Antes do dia festivo da Páscoa".
Porque verdadeiramente conhecer o bem, e não o praticar, não pertence à bem-aventurança, mas à condenação, conforme aquilo: "Àquele que sabe fazer o bem e não o faz, isso lhe é pecado"(São Tiago 4,17), acrescenta: "Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis se as praticardes".
Que reclinasse no seio e sobre o peito, não foi somente um indício de amor presente, mas também um sinal de algo futuro: a saber, que dali recebesse a voz que posteriormente emitiria, inaudita por todos os séculos.
Esta sentença pode ser pronunciada de dois modos: de um modo afirmando, como se dissesse: darás a tua vida por mim; mas agora, temendo a morte da carne, incorrerás na morte da alma; de outro modo repreendendo, como se dissesse
Mas deve-se perguntar como agora o Senhor diz: "Se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também o meu Pai", quando previamente afirmou: "para onde eu vou, sabeis, e o caminho, sabeis". Dá-se a entender, portanto, que alguns deles sabiam, outros, porém, não sabiam, entre os quais estava São Tomás.
Observe também que, quando Ele chama o Espírito Santo de Espírito da verdade, mostra que o Espírito Santo é o seu próprio Espírito; depois, quando narra que Ele é dado pelo Pai, declara que também é o Espírito do Pai; e por isso o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Ele dizia isto porque já se aproximava o tempo em que seria preso e entregue à morte: "Porque vem o príncipe deste mundo".
É certo que muitos, repletos da graça do Espírito Santo, conheceram as coisas que haveriam de vir. Mas porque muitos resplandecem em várias virtudes, sem, contudo, conhecer as coisas que hão de vir, pode-se entender esta palavra assim: "Ele vos anunciará as coisas que hão de vir", isto é, trará de volta à vossa memória os gozos da pátria celestial. Mas aos Apóstolos anunciou as coisas vindouras, a saber, os males que haveriam de sofrer pela confissão de Cristo, e os bens que receberiam em recompensa desses mesmos males.
Nem deve parecer estranho se for chamado de nascido aquele que migrou desta vida: pois assim como habitualmente se diz que nasce quando alguém, procedendo do útero materno, entra nesta luz, assim pode ser chamado de nascido quem, livre dos vínculos da carne, é elevado à luz eterna: por isso as solenidades dos santos não são chamadas de funerais, mas de nascimentos.
O que pode ser pronunciado de dois modos: afirmando ou com ironia. Se for com ironia, este é o sentido: despertastes tardiamente para crer: eis que vem a hora em que vós sereis dispersos, cada um para o que é seu, e assim por diante. Se for afirmando, o sentido é: é verdade o que credes; mas eis que vem a hora em que vós sereis dispersos, cada um para o que é seu, e me deixareis só.
Deve-se entender aquelas coisas que falou durante a ceia, algumas estando sentado até o momento em que disse: "Levantai-vos, vamos daqui"; depois, estando de pé, até o fim do hino, cujo início é este: "E levantando os olhos ao céu, disse: Pai, chegou a hora: glorifica o teu Filho".
Chama a Si mesmo palavra do Pai, porque por Ele o Pai criou todas as coisas, e contém em Si todas as palavras; como se dissesse: Eles me confiaram à memória de forma tão completa que nunca se esquecerão de Mim. Ou diz: e guardaram a tua palavra, isto é, no fato de que creram em Mim; daí se segue e agora conheceram que todas as coisas que me deste vêm de ti. Alguns, contudo, dizem que a letra é esta: agora conheci que todas as coisas que me deste vêm de ti; mas estes não têm razão. Pois como poderia o Filho ignorar o que é do Pai? Mas isto foi dito sobre os discípulos; como se dissesse: aprenderam que não há nada em Mim alheio a Ti, e que todas as coisas que ensino são tuas.
Como se dissesse: já se aproxima o tempo em que eu seja tirado do mundo, por isso é necessário que eles agora não sejam tirados do mundo, para que primeiro anunciem a mim e a ti ao mundo. Mas o que acrescenta: mas que os guardes do mal, embora possa entender-se de todo o mal, quer referir-se principalmente ao mal da cisão.
Portanto, chama de glória ao amor com que Ele foi amado pelo Pai antes da constituição do mundo. Naquela glória, Ele também nos amou antes da constituição do mundo.
A fim de que, sendo condenado por um pontífice similar, ele mesmo também fosse considerado réu de um crime menor. Ou talvez sua casa estivesse situada de tal maneira que não pudessem passar por ela. Ou por disposição divina aconteceu que aqueles que eram unidos pelo sangue, se associassem no crime. Mas o que é dito, que ele era pontífice daquele ano, soa contrário à lei, na qual estava preceituado que houvesse um único sumo pontífice, e que morto este lhe sucedesse seu filho; mas já então o pontificado estava corrompido pela ambição.
O que diz ligatum (atado), não se deve entender que somente naquele momento estivesse atado; mas foi atado quando foi preso: assim, enviou-o atado a Caifás do mesmo modo como lhe havia sido apresentado. Ou também poderia ter acontecido que por algum tempo tivesse sido desatado, para ser interrogado, e depois de interrogado, novamente atado, e assim enviado a Caifás.
Misticamente, pela primeira negação de Pedro são designados aqueles que antes da paixão de Cristo negaram que Ele fosse Deus; pela segunda, aqueles que depois da sua ressurreição ofenderam tanto a sua divindade quanto a sua humanidade. Igualmente, pelo primeiro canto do galo é designada a ressurreição da própria cabeça, pelo segundo, aquela que no fim será celebrada de todo o corpo. Pela primeira criada, que obrigou Pedro a negar, é designada a cobiça; pela segunda, a deleição carnal; pelo servo único ou por muitos servos, os Demônios, que persuadem a negar Cristo.
Esta era, pois, o costume dos judeus, que quando julgavam alguém réu de morte, o entregavam atado ao governador, para que, ao ver o prisioneiro atado, entendesse que estava condenado à morte.
Este costume não era um preceito da lei, mas descendia da antiga tradição dos pais, para que, em memória da libertação do Egito, soltassem também um preso no dia da Páscoa. Depois, de modo exortativo, diz: "Quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus?"
Pois ao invés de um diadema, impuseram-lhe uma coroa de espinhos, e no lugar da vestimenta púrpura, que os reis antigos usavam, colocaram ao redor dele uma veste púrpura: onde não se deve considerar contraditório o que São Mateus diz, que o vestiram com uma capa escarlate, porque, como Orígenes relata, o escarlate e a púrpura são da mesma matéria: pois as cochonilhas são cortadas, e delas fluem gotas de sangue, com as quais são tingidas vestimentas de ambos os tipos. E embora os soldados fizessem isso em zombaria, para nós, entretanto, realizavam mistérios. Pois pela coroa de espinhos designa-se a aceitação de nossos pecados, que como espinhos a terra do nosso corpo produz. Na vestimenta púrpura significa-se a carne sujeita às paixões. Também se veste de púrpura, quando se glorifica com os triunfos dos santos mártires.
Ele não temeu porque ouviu a lei, pois era estrangeiro; mas temeu mais que matasse o Filho de Deus.
Lithostratos, porém, significa pavimento como que revestido de pedra; e era um lugar elevado. Segue-se: era, pois, a preparação da Páscoa, aproximadamente à hora sexta.
No qual já então se mostrava que o Seu reino não estava, como eles pensavam, destruído, mas antes fortalecido.
O Evangelista demonstra sua pessoa pelo sinal do amor: não porque somente ele, com exclusão dos demais, mas porque, mais do que os outros, era amado familiarmente pelo Senhor em virtude do privilégio da castidade, pois tendo sido chamado virgem por Ele, virgem permaneceu para sempre.
Aqui pode ser questionado como este diz "Quando Jesus havia tomado o vinagre", enquanto outro Evangelista diz: "Não quis beber". Mas isto é facilmente resolvido, pois Ele não o recebeu para beber, mas para que se cumprisse o que estava escrito.
Parasceve, isto é, preparação, era chamado o sexto dia, porque neste dia os filhos de Israel preparavam o dobro de alimentos para si mesmos. Pois era grande aquele dia de sábado, a saber, por causa da solenidade pascal. Rogaram a Pilatos que fossem quebradas as pernas deles.
Acalmada, pois, de algum modo a sua ferocidade, visto que se alegravam por ter prevalecido contra Cristo, pediu o corpo de Cristo, porque não parecia ter vindo por causa de ser discípulo, mas por piedade, para prestar os ofícios fúnebres; coisa que os homens costumam fazer não só aos bons, mas também aos maus. Juntou-se a ele também Nicodemos; por isso segue: veio também Nicodemos, que primeiramente tinha vindo a Jesus de noite, trazendo uma mistura de mirra e aloés, de cerca de cem libras.
Misticamente, Maria, que significa senhora, iluminada, iluminadora, ou estrela do mar, representa a Igreja, que é chamada de Madalena, isto é, torre: pois Magdalon em grego, em latim significa torre, conforme aquilo que é dito no Salmo 60, 4: "Foste para mim uma torre de fortaleza". E pelo fato desta mulher ter anunciado aos discípulos que Cristo ressuscitou, todos são admoestados, principalmente aqueles a quem foi confiado o ofício de pregar, para que, se algo lhes for revelado do céu, zelosamente o transmitam aos próximos.
Nisto se mostra a enfermidade dos Apóstolos, que permaneciam congregados com as portas fechadas por causa do temor dos judeus, por cujo medo haviam sido antes dispersos. Veio Jesus, e pôs-se no meio. Apareceu, porém, ao entardecer, porque era consequente que então estivessem maximamente temerosos.
Ou pelos duzentos côvados expressa-se a dupla virtude da caridade: pois pelo amor a Deus e ao próximo nos aproximamos de Cristo. O peixe assado é Cristo que padeceu: Ele dignou-se ocultar nas águas do gênero humano, quis ser capturado pelo laço de nossa noite; e aquele que se fez peixe para nós pela humanidade, tornou-se para nós pão, restaurando-nos pela sua divindade.
Ele, pois, enumera muitos, não tanto pela quantidade numérica, quanto pela diversidade multifacetada de suas heresias; aqueles que não foram agraciados com o dom do Espírito Santo, mas, esforçando-se em vão trabalho, mais ordenaram uma narrativa do que teceram a verdade da história.
De fato, São João nasceu de linhagem sacerdotal, para que com tanto maior autoridade anunciasse a mudança do sacerdócio, quanto mais claramente se evidenciasse que ele mesmo pertencia à estirpe sacerdotal.
Por Moisés, o Senhor constituiu um único sumo sacerdote, ao qual, quando morto, ordenou que outro sucedesse; e isto foi observado até os tempos de Davi, por quem, por disposição do Senhor, determinou-se que fossem instituídos mais sacerdotes: assim, agora afirma-se que Zacarias exercia seu ofício sacerdotal na ordem de seu turno, quando se diz aconteceu, porém, que, exercendo Zacarias seu ofício sacerdotal na ordem de seu turno diante de Deus, segundo o costume do sacerdócio, saiu em sorte para oferecer o incenso, entrando no templo do Senhor.
João significa "aquele no qual há graça" ou "graça do Senhor"; com este nome se declara primeiramente a graça concedida a seus pais, aos quais, em idade avançada, nasceria um filho; depois, ao próprio João, que havia de ser grande diante do Senhor; e, finalmente, aos filhos de Israel, aos quais haveria de converter ao Senhor. Por isso segue-se: "E ele será alegria e júbilo para ti".
Mas porque havia dito que Zacarias, suplicando pelo povo, fora ouvido, acrescenta: para preparar ao Senhor um povo perfeito; no qual ensina de que modo este mesmo povo deve ser salvo e aperfeiçoado; a saber, fazendo penitência conforme a pregação de São João, e crendo em Cristo.
Como se dissesse: se um homem prometesse tais sinais, seria lícito exigir impunemente um sinal; mas quando um Anjo promete, já não convém duvidar. Segue-se: e fui enviado para falar contigo, e para anunciar-te estas boas novas.
Durante o tempo de seu turno, os pontífices do templo dedicavam-se apenas aos ofícios do templo, abstendo-se não somente do contato com suas esposas, mas também de entrar em suas próprias casas; por isso diz: e aconteceu que, cumpridos os dias do seu ofício, retirou-se para sua casa. Porque, sendo necessária naquele tempo a sucessão sacerdotal da estirpe de Aarão, era necessário providenciar o tempo para substituir a descendência. Mas agora, como não se busca a sucessão carnal, mas o aperfeiçoamento espiritual, ordena-se aos sacerdotes, para que possam servir sempre ao altar, a perpétua observância da castidade. Segue-se: depois destes dias concebeu Isabel, sua esposa; isto é, depois de completos os dias do ofício de Zacarias. Estes acontecimentos ocorreram no mês de setembro, no oitavo dia das calendas de outubro, quando convinha aos judeus celebrar o jejum da Festa dos Tabernáculos, próximo ao equinócio, no qual a noite começa a ser mais longa que o dia; porque era necessário que Cristo crescesse e João diminuísse. E não era em vão que então havia dias de jejum, porque por João seria pregada aos homens a aflição da penitência. Segue-se: e ocultava-se por cinco meses.
Como a encarnação de Cristo estava para ocorrer na sexta idade do mundo, ou estava para servir ao cumprimento da lei, corretamente no sexto mês da concepção de João foi enviado o Anjo a Maria, para anunciar o Salvador que haveria de nascer: por isso se diz no sexto mês. Entenda-se por sexto mês março, em cujo vigésimo quinto dia se relata que nosso Senhor foi concebido e padeceu, assim como no vigésimo quinto dia do mês de dezembro nasceu. E se acreditamos que naquele dia ocorre o equinócio da primavera, ou neste o solstício de inverno, convém que com o aumento da luz seja concebido ou nasça Aquele que ilumina todo homem que vem a este mundo. Mas se alguém provar que antes do tempo da natividade e concepção de nosso Senhor a luz começava a crescer ou a superar as trevas, nós também dizemos que João anunciava o reino dos céus antes da manifestação de sua vinda.
Que Nestório, pois, deixe de dizer que somente um homem nasceu da Virgem, e que este não foi recebido pelo Verbo de Deus na unidade da pessoa: pois o Anjo que diz que aquele mesmo tem a Davi por pai, a quem anuncia que será chamado Filho do Altíssimo, demonstra a única pessoa de Cristo em duas naturezas. O Anjo não usa verbos no tempo futuro porque, segundo os hereges, Cristo não existiu antes de Maria, mas porque segundo a mesma pessoa, o homem junto com Deus recebe o mesmo nome de Filho.
Não conceberás, pois, por meio do sêmen viril, que não conheces, mas pela obra do Espírito Santo, do qual serás repleta: não haverá em ti o ardor da concupiscência, onde o Espírito Santo fará sombra.
Assim, pois, para que a virgem não desconfiasse de poder dar à luz, recebeu o exemplo de uma anciã estéril que haveria de dar à luz, para que aprendesse que todas as coisas são possíveis para Deus, mesmo aquelas que parecem ser contrárias à ordem da natureza; por isso segue: porque não será impossível para Deus palavra alguma.
Mas toda alma que concebeu o Verbo de Deus em sua mente, logo ascende aos elevados cumes das virtudes pelo caminho do amor, de modo que possa penetrar na cidade de Judá, isto é, na cidadela da confissão e do louvor, e permanecer nela como que por três meses, até a perfeição da fé, da esperança e da caridade.
Porque o espírito da Virgem se alegra na divindade eterna do mesmo Jesus, isto é, do Salvador, cuja carne é formada por uma concepção temporal.
Convinha, pois, que, assim como pela soberbia dos primeiros pais a morte entrou no mundo, também pela humildade de Maria se manifestasse a entrada da vida.
Pois na altura de Seu maravilhoso poder Ele está muito além de toda criatura, e está amplamente apartado de todas as obras de Suas mãos. Isto é melhor compreendido na língua grega, na qual a própria palavra que significa santo, expressa como que estar "fora da terra".
Voltando-se dos dons especiais de Deus para Seus desígnios gerais, ela descreve a condição de todo o gênero humano, E a sua misericórdia de geração em geração está sobre aqueles que O temem; como se dissesse: Não somente para mim fez grandes coisas Aquele que é poderoso, mas em todas as nações aquele que teme a Deus é aceito por Ele.
Descrevendo o estado do gênero humano, mostra o que merecem os soberbos e o que os humildes, dizendo "fez potência em seu braço", isto é, no próprio Filho de Deus: assim como teu braço é aquele com o qual operas, assim o braço de Deus é chamado seu Verbo, pelo qual operou o mundo.
O que disse "fez potência em seu braço", e o que havia dito antes, "e sua misericórdia de geração em gerações", deve ser conectado a estes versículos, continuando-se cada um individualmente: porque, certamente, através de todas as gerações do mundo, os soberbos não deixam de perecer, e os humildes de serem exaltados, pela pia e justa dispensação do poder divino. Por isso é dito: "Depôs os poderosos de seu trono, e exaltou os humildes".
Mas por semen [semente] entende não tanto aqueles gerados segundo a carne, mas aqueles que seguiram os passos da fé dele, aos quais a vinda do Salvador foi prometida para todos os séculos.
Pois é necessário que a alma casta que concebe o desejo do Verbo espiritual, submeta-se ao elevado jugo do exército celestial, e demorando-se ali como que pelo espaço de três meses, não deixe de perseverar até que seja iluminada pela luz da fé, da esperança e da caridade.
Em sentido alegórico, a celebrada natividade de São João é o início da graça do Novo Testamento; à qual os vizinhos e parentes preferiam impor o nome do pai ao invés de João: porque os judeus, que estavam unidos a ele pela observância da lei, como que por afinidade, desejavam mais seguir a justiça que vem da lei do que receber a graça da fé. Mas o vocábulo João, isto é, graça de Deus, a mãe com palavras e o pai com letras se esforçam por anunciar: porque a própria lei, os Salmos e os profetas, com claras expressões de suas sentenças, pregam a graça de Cristo, e aquele antigo sacerdócio, por meio das sombras figurativas de cerimônias e sacrifícios, dá testemunho do mesmo. E belamente Zacarias fala no oitavo dia do nascimento de seu filho: porque por meio da ressurreição do Senhor, que aconteceu no oitavo dia, isto é, depois do sétimo dia do sábado, os ocultos arcanos do sacerdócio legal foram revelados.
Pois os sinais precursores preparam o caminho para o precursor da verdade, e o futuro profeta é recomendado por auspícios enviados antes dele; de onde se segue: "Porque a mão do Senhor estava com ele".
Visitou, pois, o Senhor o seu povo, como que definhando por longa enfermidade, e redimiu com o sangue de seu Filho unigênito aqueles que estavam vendidos sob o pecado; e como Zacarias sabia que isto estava próximo de ser feito, narra, à maneira dos profetas, como se já tivesse acontecido. Diz, porém, seu povo, não porque, ao vir, encontrou-o como seu, mas porque, visitando-o, fê-lo seu.
O reino de Cristo Salvador é também chamado chifre de salvação. Pois todos os ossos estão envoltos na carne; mas o chifre ultrapassa a carne; por isso o reino de Cristo é chamado chifre de salvação, pelo qual o mundo e os prazeres da carne são superados; em figura disso, Davi e Salomão foram consagrados pelo chifre de óleo para a glória do reino.
Ele diz: "Que existem desde o princípio do mundo", porque toda a Escritura do Antigo Testamento profeticamente procede de Cristo; pois o próprio pai Adão, e os demais patriarcas, por meio de seus feitos, dão testemunho da sua dispensação.
Tendo primeiro brevemente dito "Ergueu um chifre de salvação para nós", logo a seguir explica o que havia dito, acrescentando: "salvação contra nossos inimigos"; como se dissesse: ergueu para nós um chifre, isto é, ergueu para nós salvação contra nossos inimigos e da mão de todos aqueles que nos odeiam.
Ele tinha dito que o Senhor, de acordo com as palavras dos profetas, nasceria da casa de David; diz que o mesmo, para cumprir a aliança que dispôs a Abraão, nos libertará: porque a estes patriarcas, principalmente, foi prometida sobre sua descendência tanto a congregação dos gentios quanto a encarnação de Cristo. Coloca-se David primeiro, porque a Abraão foi prometida a santa assembleia da Igreja; a David, porém, foi anunciado que dele Cristo nasceria. E, assim, depois do que foi dito sobre David, acrescenta sobre Abraão, dizendo: para fazer misericórdia com nossos pais.
Pois quem se afasta do serviço a Ele antes da morte, ou mancha com alguma impureza ou injustiça a sinceridade de sua fé, ou pretende ser santo e justo diante dos homens e não diante de Deus, ainda não serve ao Senhor em perfeita liberdade das mãos de seus inimigos espirituais, mas, seguindo o exemplo dos antigos samaritanos, esforça-se por servir igualmente aos deuses dos gentios e ao Senhor.
A menos que porventura deva-se pensar que Zacarias, principalmente para instruir aqueles que estavam presentes, assim que pôde falar, quis anunciar os futuros encargos de seu filho, os quais há muito aprendera através do Anjo. Ouçam os arianos que Cristo, a quem João precedia profetizando, é chamado Altíssimo, como se diz no Salmo 86,5: "O homem nasceu nela, e o próprio Altíssimo a fundou".
Como desejando explicar o nome de Jesus, isto é, do Salvador, faz menção frequente da salvação. Mas para que não pensassem que se prometia uma salvação temporal, acrescenta: para a remissão dos seus pecados.
Cristo é chamado corretamente de Oriente, porque nos revelou o nascimento da verdadeira luz: por isso segue para iluminar aqueles que jazem nas trevas e na sombra da morte.
O futuro pregador da penitência, para que pudesse mais livremente elevar seus ouvintes, instruindo-os, dos atrativos do mundo, passa a primeira parte de sua vida nos desertos; por isso é dito: "E o menino crescia".
Nossa cidade e nossa pátria é a pátria bem-aventurada, à qual devemos caminhar com virtudes crescendo diariamente. E diariamente a Santa Igreja, acompanhada de seu doutor, saindo da roda da conversação mundana, que é o que significa Galileia, e subindo à cidade de Judá, isto é, da confissão e do louvor, paga o tributo de sua devoção ao rei eterno, a qual, a exemplo da bem-aventurada Virgem Maria, virgem nos concebe pelo Espírito; a qual, estando desposada com um, é fecundada por outro, quando se une visivelmente ao pontífice posto sobre ela, mas é cumulada pela virtude do Espírito invisível. Por isso, com razão José se interpreta como "aumentado", indicando pelo próprio nome que o empenho do mestre que fala nada vale, se não receber o auxílio do alto para que seja ouvido.
Mas até a consumação dos séculos, o Senhor não deixa de ser concebido em Nazaré, nem de nascer em Belém, sempre que qualquer dos ouvintes, tendo recebido a flor da palavra, faz de si mesmo uma morada do pão eterno; diariamente no útero virginal, isto é, na mente dos crentes, Cristo é concebido pela fé e gerado pelo Batismo. Segue-se e deu à luz seu filho primogênito.
Pois, misticamente, estes pastores de rebanhos representam todos os doutores e reitores das almas fiéis. A noite, durante a qual mantinham vigílias sobre seu rebanho, indica os perigos das tentações, dos quais não cessam de guardar a si mesmos e aos seus súditos. E com razão, nascido o Senhor, os pastores vigiam sobre seu rebanho: porque nasceu aquele que diz: "Eu sou o bom pastor"; mas também aproximava-se o tempo em que o mesmo pastor haveria de chamar de volta às pastagens da vida suas ovelhas que estavam dispersas.
Para que não parecesse pequena a autoridade de um só Anjo, logo após um ter revelado o sacramento do novo nascimento, imediatamente apresentou-se uma multidão das hostes celestiais; pelo que se diz e subitamente fez-se com o Anjo uma multidão da milícia celestial. Bem recebe o coro de Anjos que se apresenta o nome de milícia celestial, os quais humildemente obedecem àquele chefe poderoso em batalha que apareceu para vencer as potestades do ar, e ele próprio perturba fortemente com armas celestiais aquelas mesmas potestades inimigas, para que não possam tentar os mortais tanto quanto querem. Visto que nasce Deus e homem, aos homens a paz e a Deus a glória é cantada; pelo que segue louvando a Deus, e dizendo: glória a Deus nas alturas. Um só Anjo, um só mensageiro anunciando que Deus nasceu na carne, logo a multidão da milícia celestial irrompe em louvor ao criador, tanto para dedicar devoção a Cristo como para nos instruir com seu exemplo, que sempre que algum dos irmãos fizer soar a palavra da sagrada erudição, ou nós mesmos trouxermos à mente as coisas que são da piedade, imediatamente devemos render louvores a Deus com o coração, a boca e as obras.
Os pastores do rebanho do Senhor, contemplando a vida dos pais que os precederam (na qual se conserva o pão da vida), adentram como se fossem as portas de Belém; e nada encontram ali senão a beleza virginal da Igreja, isto é, Maria; a viril assembleia dos doutores espirituais, isto é, José; e a humilde vinda de Cristo inserida nas páginas da Sagrada Escritura, como o menino Cristo posto na manjedoura.
Em sua ressurreição foi prefigurada nossa dupla ressurreição, tanto da carne quanto do espírito: pois Cristo, sendo circuncidado, ensinou à nossa natureza que deve agora ser purificada da mancha dos vícios por si mesma, e no último dia ser restaurada da corrupção da morte; e assim como o Senhor ressuscitou no oitavo dia, isto é, depois do sétimo, que é o sábado, assim também nós, após as seis idades deste mundo e após a sétima, que é o descanso das almas, e que agora se passa enquanto isso em outra vida, ressuscitaremos como no oitavo tempo.
O que diz adaperiens vulvam, significa o primogênito tanto do homem quanto do animal, e foi ordenado que ambos fossem chamados santos ao Senhor e, portanto, pertencessem ao sacerdote; de tal modo que ele recebesse um preço pelo primogênito do homem e fizesse com que todo animal imundo fosse redimido.
O justo recebeu, segundo a lei, o menino Jesus em seus braços, para significar que a justiça das obras, que, segundo a lei, é figurada pelas mãos e pelos braços, haveria de se transformar na graça humilde, certamente, mas salutar da fé evangélica. O idoso recebeu o Cristo infante, para insinuar que este século, já cansado como que pela velhice, haveria de retornar à infância e à inocência da vida cristã.
E bem a revelação dos gentios é colocada antes da glória de Israel, porque quando a plenitude dos gentios tiver entrado, então todo Israel será salvo.
Mas até a consumação dos séculos, a espada da mais dura tribulação não cessa de traspassar a alma da Igreja, quando com dor observa que os ímpios contradizem o sinal da fé; quando, ouvida a palavra de Deus, considera gemebunda que muitos ressuscitam com Cristo, mas muitos mais caem da fé; quando, revelados os pensamentos de muitos corações onde semeou a ótima semente do Evangelho, contempla a cizânia dos vícios prevalecendo mais do que devia, ou germinando sozinha.
Segundo o sentido místico, Ana representa a Igreja, que no presente está viúva pela morte de seu Esposo. Também o número dos anos de sua viuvez designa o tempo da Igreja, durante o qual, estabelecida no corpo, peregrina longe do Senhor. Sete vezes doze, de fato, perfazem oitenta e quatro: o número sete refere-se ao curso deste mundo, que gira em sete dias, enquanto o doze pertence à perfeição da doutrina apostólica. Por isso, tanto a Igreja universal quanto qualquer alma fiel que procure dedicar todo o tempo de sua vida às práticas apostólicas, é louvada por servir ao Senhor por oitenta e quatro anos. Também se harmoniza o período de sete anos durante o qual viveu com seu marido: pois em virtude do privilégio da majestade do Senhor, que encarnado ensinou, o simples número de sete anos foi expresso como sinal de perfeição. Ana também favorece os mistérios da Igreja, sendo por interpretação sua "graça", e sendo tanto filha de Fanuel, que significa "face de Deus", quanto descendente da tribo de Aser, isto é, do bem-aventurado.
São Lucas omitiu neste ponto o que sabia ter sido suficientemente exposto por São Mateus: ou seja, que o Senhor, após isto, para que não fosse encontrado e morto por Herodes, foi levado pelos seus pais ao Egito e, tendo Herodes morrido, finalmente regressou à Galileia e começou a habitar em Nazaré, sua cidade. Pois os Evangelistas costumam individualmente omitir certas coisas que ou viram ter sido mencionadas por outros, ou no Espírito preveem que serão mencionadas por outros, de modo que na sequência contínua de sua narração parecem como que não terem omitido nada; no entanto, examinando os escritos de outro Evangelista, o leitor diligente encontra os lugares onde as omissões ocorreram. Assim, após omitir muitas coisas, São Lucas diz: "E quando cumpriram tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré".
Com efeito, sua língua divina manifestava sabedoria, mas sua idade revelava a fraqueza humana; por isso os judeus, entre as coisas elevadas que ouvem e as inferiores que veem, ficam perturbados por uma dúvida admirada. Nós, porém, de modo algum nos devemos admirar, sabendo, conforme a profecia de Isaías, que o menino que nasceu para nós permanece como Deus forte.
A Virgem, porém, tenha ela compreendido ou não pudesse ainda compreender, igualmente guardava todas estas coisas em seu coração como que para ruminar e investigar com mais diligência; por isso segue: e sua mãe conservava todas estas palavras, conferindo-as em seu coração.
Tanto Anás como Caifás, quando João começou sua pregação, isto é, eram príncipes dos sacerdotes, mas Anás exercia o cargo naquele ano, e Caifás no ano em que o Senhor subiu à cruz, tendo outros três desempenhado o pontificado no período intermediário; mas o Evangelista menciona principalmente aqueles que tinham relação com a paixão do Senhor. Pois com os preceitos legais já caídos em desuso devido à violência e à ambição, a ninguém se concedia a honra do pontificado por mérito de vida ou de linhagem, mas o sumo sacerdócio era outorgado pelo poder romano. José, com efeito, narra que Valério Graco, tendo afastado Anás do sacerdócio, designou como pontífice Ismael, filho de Bafi; mas não muito depois, rejeitando também a este, colocou em seu lugar a Eleazar, filho do pontífice Ananias; um ano depois, porém, afastou-o do cargo e transmitiu o ministério do pontificado a um certo Simão, filho de Caifás, o qual, não tendo exercido mais que pelo espaço de um ano, teve como sucessor a José, que também era chamado Caifás: assim, todo este tempo em que se descreve que Nosso Senhor ensinou está compreendido no período de quatro anos.
Ordenou, portanto, que não exigissem além do prescrito; donde se segue: e ele lhes disse: Não façais nada além do que vos foi estabelecido. Publicanos, porém, são chamados aqueles que coletam os impostos públicos, ou aqueles que são arrendatários dos tributos do fisco ou das coisas públicas; e também aqueles que buscam os lucros deste mundo através de negócios são considerados pelo mesmo nome; a todos eles igualmente, cada um em seu grau, proíbe de cometer fraude; para que, abstendo-se primeiramente de desejar o que é dos outros, finalmente cheguem a compartilhar seus próprios bens com os próximos. Segue-se: E os soldados perguntavam-lhe, dizendo: Que faremos nós também? Com justíssima moderação os admoesta para que não exijam pilhagem daqueles a quem deveriam beneficiar pela sua função militar; donde se segue: E disse-lhes: A ninguém oprimais, isto é, através de violência, nem calunies, isto é, através de malícia fraudulenta; e contentai-vos com vossos soldos.
Por meio da eira, de fato, figura-se a Igreja presente, na qual muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos; e a purificação desta eira se realiza agora individualmente, quando qualquer perverso é expulso da Igreja por causa de pecados manifestos, pela correção sacerdotal, ou por causa de pecados ocultos é condenado após a morte pelo rigor divino. E universalmente se completará no fim, quando o Filho do homem enviará seus Anjos e eles recolherão de seu reino todos os escândalos.
Não foi, porém, nestes dias que João foi preso, mas, segundo o Evangelho de São João, depois de alguns sinais realizados pelo Senhor, e depois que seu Batismo se tornou conhecido. Mas Lucas antecipou isto para enfatizar a malícia de Herodes, que, vendo muitos acorrerem à pregação de João, os soldados crerem, os publicanos se arrependerem, e toda a multidão receber o batismo, ele, ao contrário, não só desprezou João, mas o aprisionou e o matou.
Pois não foi então que o céu se abriu para Aquele cujos olhos interiores contemplavam as coisas celestiais; mas ali se mostra a virtude do Batismo, do qual quando alguém sai, a porta do reino celestial se abre para ele, e enquanto a carne inocente é tocada pelas águas frias, extingue-se a espada flamejante que outrora se opunha aos culpados.
Subindo lindamente do Filho de Deus batizado até Deus Pai, coloca Enoch no septuagésimo grau, o qual, tendo sido poupado da morte, foi trasladado ao Paraíso; para significar que aqueles que são regenerados pela graça da adoção dos filhos por meio da água e do Espírito Santo, entretanto, após a dissolução do corpo, serão recebidos no descanso eterno: o número setenta, por causa do sétimo dia do sábado, significa o descanso daqueles que, com o auxílio da graça de Deus, cumpriram o Decálogo da lei.
Para que ninguém duvidasse por qual espírito foi conduzido ou impelido para o deserto, como dizem os outros Evangelistas, São Lucas acrescentou oportunamente: "E era conduzido pelo Espírito no deserto durante quarenta dias", para que não se pensasse que o espírito imundo tivesse algum poder contra Aquele que, cheio do Espírito Santo, fazia tudo o que queria.
Alguém, porém, poderia perguntar como se compatibiliza o que aqui é ordenado, que só ao Senhor se deve servir, com a palavra do Apóstolo, que diz: "pela caridade servi-vos uns aos outros". Mas em grego, dulia significa serviço comum, isto é, aquele prestado tanto a Deus quanto ao homem; enquanto latria é chamado o serviço devido ao culto da divindade. Somos, portanto, ordenados a servir uns aos outros pela caridade, o que em grego é duleuin; e somos ordenados a servir somente a Deus, o que em grego é latreuin: por isso aqui se diz "e só a Ele servirás", que em grego é latreuis.
E porque a sabedoria pertence à doutrina, e a força se refere às obras, ambas se unem aqui; donde segue e ele ensinava nas sinagogas deles. Sinagoga em grego, em latim se diz congregação; nome pelo qual os judeus costumavam chamar não só a assembleia das multidões, mas também a casa na qual se reuniam para ouvir a palavra de Deus; assim como nós chamamos Igrejas tanto aos lugares como aos coros dos fiéis. Verdadeiramente há diferença entre sinagoga, que se interpreta como congregação, e Igreja, que se interpreta como convocação: porque certamente tanto os animais como quaisquer coisas podem ser congregados em um só lugar; porém não podem ser convocados senão os que usam da razão: por isso aos doutores apostólicos pareceu mais correto denominar o povo da nova graça, como dotado de maior dignidade, Igreja em vez de sinagoga. Com razão também é afirmado que foi magnificado pelos presentes com os indícios precedentes de feitos e palavras, como segue e era magnificado por todos.
Pois Naamã, que significa belo, representa o povo gentio, a quem se ordena lavar-se sete vezes; porque aquele batismo salva o que o Espírito septiforme regenera. Sua carne após o banho aparece como a de uma criança; porque a mãe graça gera todos para uma mesma infância; ou porque se conforma a Cristo, de quem se diz: "Um menino nos nasceu".
Os judeus são piores discípulos do Diabo do que o Diabo é mestre; pois ele diz: "lança-te para baixo"; estes, porém, tentam lançá-lo de fato. Mas ele, tendo subitamente mudado sua intenção, ou aturdindo-os, desceu, porque ainda lhes reservava lugar para arrependimento; por isso segue: "Ele, porém, passando pelo meio deles, seguiu seu caminho".
Por permissão divina, o homem a ser libertado do demônio é lançado ao meio, para que a virtude manifestada do Salvador convide muitos ao caminho da salvação; donde segue: e quando o demônio o lançou ao meio, saiu dele, e em nada o prejudicou. Parece, porém, contradizer o que aqui se diz a Marcos, que afirma: e agitando-o violentamente, o espírito imundo, e clamando com grande voz, saiu dele, a não ser que entendamos que Marcos disse: agitando-o violentamente, o que Lucas diz e quando o lançou ao meio; de modo que o que em seguida diz e em nada o prejudicou, seja entendido porque aquele agitar de membros e aquela vexação não o debilitou, como costumam sair os demônios mesmo com alguns membros amputados ou arrancados. Por isso, merecidamente admiram-se de tão íntegra restituição da saúde; pois segue-se: e sobreveio o temor em todos, e falavam entre si, dizendo: Que palavra é esta, que com poder e virtude ordena aos espíritos imundos, e eles saem?
Pois se dissermos que um homem libertado do demônio significa moralmente a mente purificada de pensamentos impuros; consequentemente, uma mulher atormentada pela febre, mas curada ao comando do Senhor, representa a carne controlada pelas regras da continência no ardor de sua própria concupiscência.
Os demônios confessam o Filho de Deus e, como é dito posteriormente, sabiam que Ele era o Cristo, porque, quando o Diabo O viu fatigado pelo jejum, entendeu que era verdadeiramente homem; mas como não prevaleceu na tentação, duvidava se Ele seria o Filho de Deus; agora, porém, pelo poder dos milagres, ou compreendeu ou, mais provavelmente, suspeitou que Ele fosse o Filho de Deus. Portanto, não persuadiu os judeus a crucificá-Lo porque pensasse que Ele não era o Cristo ou o Filho de Deus, mas porque não previu que seria condenado pela morte d'Ele. Sobre este mistério, escondido desde os séculos, diz o Apóstolo que "nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória".
Se, porém, no ocaso do sol misticamente se expressa a morte do Senhor, com o retorno do dia indica-se a sua ressurreição; manifestada a sua luz, é buscado pelas multidões dos fiéis, e encontrado no deserto dos gentios, é detido para que não se afaste; especialmente porque isto aconteceu no primeiro dia da semana, no qual a ressurreição foi celebrada.
Misticamente, as duas naves representam a circuncisão e o prepúcio; as quais o Senhor vê, porque em ambos os povos conhece os que são seus, e para a tranquilidade da vida futura, como que à praia, vendo-os, isto é, visitando-os misericordiosamente, os conduz. Os pescadores são os doutores da Igreja, que nos apanham pela rede da fé e, como à praia, assim à terra dos viventes nos conduzem. Mas estas redes ora são lançadas para a pesca, ora são lavadas e dobradas: porque nem todo tempo é propício para a doutrina; mas ora deve ser exercitada a língua do doutor, ora deve ser empregado o cuidado de si mesmo. A nave de Simão é a Igreja primitiva, da qual São Paulo diz: "aquele que operou em Pedro para o apostolado da circuncisão"; bem chamada de una, porque a multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma.
Ou a outra nave é a Igreja dos gentios, que também (não sendo suficiente uma só navezinha) é preenchida com peixes escolhidos, pois o Senhor conhece os que são seus. E para Ele o número dos seus eleitos é certo; e enquanto não encontra na Judeia tantos que haveriam de crer quantos Ele sabe estarem predestinados à fé e à vida eterna, como que buscando em outra nave receptáculos para os seus peixes, Ele também enche os corações dos gentios com a graça da fé. E bem se fez que, ao se romper a rede, fosse chamada uma nave aliada, pois Judas traidor, Simão Mago, Ananias e Safira, e muitos dos discípulos retiraram-se. E então Barnabé e Paulo foram separados para o apostolado dos gentios.
Isso pertence especialmente ao próprio São Pedro: pois o Senhor explica a ele o que significa esta pesca de peixes; que assim como agora ele captura peixes por meio de redes, assim também em algum momento, por meio de palavras, irá capturar homens: e toda a ordem deste acontecimento mostra o que diariamente ocorre na Igreja, da qual ele mesmo é o tipo.
Porém, quando Ele se retirou para orar, não atribuas isso àquela natureza que diz "Quero, sê limpo", mas àquela que, estendendo a mão, tocou o leproso; não que, segundo Nestório, haja dupla pessoa do Filho, mas da mesma pessoa, assim como há duas naturezas, também há duas operações.
Mas o Senhor, que estava prestes a curar o homem da paralisia, primeiro dissolve os vínculos dos pecados, para mostrar que ele foi condenado à dissolução de seus membros devido aos laços de suas culpas, e que a não ser que estes fossem relaxados, não poderia ser curado com a recuperação de seus membros; por isso segue: "Vendo a fé deles, disse: Homem, teus pecados te são perdoados".
Mas São Lucas e São Marcos, por honra ao Evangelista, calam seu nome vulgar; São Mateus, no princípio de seu discurso, tornando-se acusador de si mesmo, chama a si próprio Mateus e publicano, para que ninguém desespere da salvação devido à enormidade dos pecados, quando ele mesmo foi transformado de publicano em apóstolo.
Mas a qualquer alma que ainda não foi renovada, mas persevera na antiga malícia, os sacramentos dos novos mistérios não devem ser confiados. Aqueles que também querem misturar os preceitos da Lei com os preceitos evangélicos, como os Gálatas, colocam vinho novo em odres velhos. Segue-se: e ninguém que bebe o velho deseja imediatamente o novo; pois diz: o velho é melhor: porque os judeus, imbuídos do sabor de sua vida antiga, desprezavam os preceitos da nova graça; porque, maculados com as tradições de seus antepassados, não podiam perceber a doçura das palavras espirituais.
Pois os discípulos, não tendo tempo para comer devido à importunidade das multidões, tinham fome como homens; mas arrancando as espigas, consolavam sua fome: o que é um indício de vida mais austera, não buscando alimentos preparados, mas simplesmente comidas simples.
Mas como o Mestre havia desculpado com um exemplo convincente a violação do sábado, que censuravam nos discípulos, agora querem caluniar o próprio Mestre, observando-o; de onde se segue: "E os escribas e fariseus o observavam, para ver se curaria no sábado"; isto é, para que, se não curasse, o acusassem de crueldade ou de fraqueza; e se curasse, o acusassem do vício de transgressão; por isso segue: "Para encontrarem de que o acusar".
Em sentido místico, o monte no qual o Senhor escolheu os seus apóstolos representa a elevação da justiça, na qual eles deveriam ser instruídos e a qual deveriam pregar; assim também a lei foi dada em um monte.
Raramente você encontrará em qualquer lugar as multidões seguindo o Senhor aos lugares mais altos, ou qualquer enfermo sendo curado em um monte; mas, tendo extinguido a febre da luxúria e acendido a luz da ciência, cada homem aproxima-se, passo a passo, ao cume das virtudes. Mas as multidões que puderam tocar o Senhor são curadas pela virtude daquele toque, como anteriormente o leproso é purificado quando nosso Senhor o tocou. O toque do Salvador, então, é a obra da salvação, a quem tocar é crer Nele, ser tocado é ser curado por Seus preciosos dons.
E embora fale geralmente a todos, especialmente levanta os olhos para seus discípulos; pois segue: sobre seus discípulos; para que àqueles que recebem a palavra com ouvido atento do coração, revele mais amplamente a luz do seu significado íntimo.
Pelos falsos profetas são designados aqueles que, para captar o favor do vulgo, esforçam-se por predizer eventos futuros. Assim, o Senhor no monte descreve somente as bem-aventuranças dos justos, mas na planície descreve também os "ais" dos réprobos: porque os ouvintes ainda rudes precisam ser impelidos ao bem por meio de terrores, enquanto aos perfeitos basta serem convidados por meio de recompensas.
Mas convém levantar a questão de como encontramos nos profetas muitas imprecações contra seus inimigos. Onde deve-se observar que os profetas, por meio da imprecação, profetizaram o que havia de acontecer, não pelo desejo de quem anseia, mas pelo espírito de quem prevê.
Não somente condena como infrutífero o amor e as ações caritativas pelos pecadores, mas também o empréstimo; de onde se segue: E se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que graça tendes vós? Pois também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem o equivalente.
Ora, em uma breve sentença ele resume concisamente tudo o que havia ordenado acerca do modo de comportar-se com os inimigos, dizendo: perdoai e sereis perdoados, dai e dar-se-vos-á; onde nos ordena perdoar as injúrias e fazer o bem, para que nossos pecados sejam perdoados e nos seja dada a vida eterna.
Ou o sentido desta sentença depende do que foi dito anteriormente, onde se ordena dar esmola e perdoar as injúrias. Se, diz Ele, a ira te cegar contra o violento, e a avareza contra aquele que pede, como poderás, com teu coração corrompido, curar a corrupção dele? Se até mesmo o mestre Cristo, que como Deus poderia vingar Suas injúrias, preferiu, pelo sofrimento, tornar Seus perseguidores mais brandos, é certamente necessário que os discípulos, que são apenas homens, sigam a mesma regra de perfeição.
O tesouro do coração é o mesmo que a raiz da árvore. Aquele que, portanto, tem em seu coração o tesouro da paciência e do perfeito amor, produzindo ótimos frutos, ama seu inimigo e faz as demais coisas que acima foram ensinadas; mas aquele que mantém um tesouro ruim em seu coração, faz o contrário.
Para que ninguém se lisonjeie em vão a partir do que foi dito "Da abundância do coração a boca fala", como se apenas palavras, e não mais que isso, as obras do verdadeiro cristão fossem buscadas, consequentemente o Senhor acrescenta: "Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que digo?" Como se dissesse: Por que vos jactais de produzir folhas de reta confissão, vós que não mostrais nenhum fruto de boas obras?
O centurião, cuja fé é preferida à de Israel, representa os eleitos dentre os gentios, que como se estivessem cercados por cem soldados, são sublimes pela perfeição das virtudes espirituais: pois o número cem, que se transfere da esquerda para a direita, costuma ser usado para significar a vida celestial. É necessário, portanto, que pessoas assim supliquem ao Senhor por aqueles que ainda estão oprimidos pelo espírito de servidão; nós, porém, que cremos dentre os gentios, não podemos vir por nós mesmos ao Senhor, a quem não conseguimos ver na carne; mas devemos nos aproximar dele pela fé. Enviar os anciãos dos judeus significa obter como intercessores, por meio de súplicas, os maiores homens da Igreja que nos precederam ao Senhor, os quais, dando-nos testemunho de que cuidamos de edificar a Igreja, intercedam por nossos pecados. Belamente se diz que Jesus não estava longe da casa, porque sua salvação está perto daqueles que o temem; e quem usa corretamente a lei natural, na medida em que faz o bem que conhece, aproxima-se daquele que é o bem.
Ou o dogma de Novato é confundido, o qual, ao tentar anular a purificação dos penitentes, nega que a mãe Igreja, chorando pela extinção espiritual de seus filhos, deva ser consolada pela esperança de restituí-los à vida.
Ele não diz: "Tu és aquele que veio", mas: "Tu és aquele que há de vir?" E este é o sentido: manda-me dizer, porque serei morto por Herodes e descerei aos Infernos, se devo anunciar-Te também aos que estão nas profundezas, assim como Te anunciei aos que estão acima; ou se isto não convém ao Filho de Deus, e se enviarás outro para estes mistérios?
Esta sentença pode ser entendida de dois modos: ou chamou reino de Deus àquele que ainda não recebemos, no qual estão os Anjos, e qualquer um que entre eles é o menor, é maior que qualquer justo que carrega um corpo que oprime a alma; ou se entendeu por reino de Deus a Igreja deste tempo, o Senhor significou-se a si mesmo, que pelo tempo de nascimento era menor que São João, mas maior pela autoridade da divindade e pelo poder de domínio. Portanto, segundo a primeira exposição, distingue-se assim: "aquele que é menor no reino de Deus", e então se acrescenta: "é maior que ele"; conforme a posterior, porém, assim: "aquele que é menor", e então se acrescenta: "no reino de Deus é maior que ele".
Estas palavras foram ditas ou pela pessoa do Evangelista, ou pela pessoa do Salvador, como alguns pensam. Quando diz em si mesmos, ou contra si mesmos, significa que aquele que rejeita a graça de Deus age contra si mesmo. Ou são vituperados como tolos e ingratos por não quererem receber o conselho de Deus enviado a eles mesmos. O conselho de Deus é, portanto, aquele pelo qual decretou salvar pela paixão e morte de Cristo, o qual os fariseus e doutores da lei desprezaram.
Porque anteriormente havia sido dito: "E todo o povo que o ouviu e os publicanos justificaram a Deus, sendo batizados com o batismo de João", o mesmo Evangelista confirma com fatos o que havia proposto em palavras, a saber, que a Sabedoria foi justificada pelos justos e pelos penitentes, dizendo: "E rogava-lhe um dos fariseus que comesse com ele".
Maria é interpretada como "mar amargo" por causa do gemido de sua penitência; Magdalena como "torre", ou melhor, "pertencente à torre", da torre sobre a qual se diz: "tornou-se minha esperança, torre de fortaleza diante da face do inimigo". Joana é interpretada como "o Senhor é sua graça" ou "o Senhor misericordioso", evidentemente porque dele é tudo o que vivemos. E se Maria, purificada da imundície dos vícios, representa a Igreja dos gentios, por que Joana não designaria a mesma Igreja outrora submetida ao culto dos ídolos? Pois qualquer espírito maligno, enquanto trabalha pelo reino do Diabo, existe como procurador de Herodes. Susana é interpretada como "lírio" ou "sua graça", por causa do odorífero candor da vida celestial e do áureo ardor do amor interno.
Pois quantas vezes esta advertência aparece, seja no Evangelho, seja no Apocalipse de São João, isso significa que o que é dito possui um significado místico, e que nos é mostrado que deve ser investigado por nós mais atentamente; por isso os discípulos, ignorando, interrogavam o Salvador; pois segue: "E seus discípulos lhe perguntavam qual era esta parábola". Ninguém, porém, pense que assim que a parábola terminou os discípulos lhe perguntaram isto; mas, como São Marcos diz: "Quando Ele estava só, eles o interrogaram".
Com insistência nos ensina o Senhor a dar ouvidos à sua palavra, para que possamos continuamente meditá-la em nosso coração e também transmiti-la para o ouvido de outros; por isso segue: vede, pois, como ouvis. Porque aquele que tem, a este se lhe dará; e qualquer que não tem, ainda o que pensa que tem, ser-lhe-á tirado. Como se dissesse: Aplicai toda vossa atenção à palavra que ouvis, porque àquele que tem amor à palavra, será dado também o sentido para entender o que ama; mas quem não tem amor em ouvir a palavra, ainda que se julgue hábil por seu engenho natural ou pelo exercício literário, não desfrutará de nenhuma doçura da sabedoria. Frequentemente, de fato, o preguiçoso recebe inteligência para ser mais justamente punido por sua negligência, porque despreza conhecer o que poderia ter alcançado sem trabalho; e algumas vezes o estudioso é oprimido pela lentidão de compreensão, para que encontre maior recompensa quanto mais se esforçar em seu estudo.
Os irmãos do Senhor segundo a carne, porém, não devem ser considerados filhos da bem-aventurada Maria, Mãe de Deus, conforme afirma Elvídio, nem filhos de José com outra esposa, como alguns supõem, mas deve-se antes entender que são seus parentes.
De forma semelhante é o que aconteceu quando, após sua morte, aparecendo aos seus discípulos, repreendeu-lhes a incredulidade; e assim, acalmadas as túmidas ondas, manifestou a todos o poder de sua divindade.
Mas também os sacerdotes do nosso tempo, que pela graça do exorcismo sabem expulsar os demônios, costumam dizer que os pacientes não podem ser curados de outra maneira, a não ser que exponham abertamente em confissão tudo o que suportaram dos espíritos imundos, seja acordados ou dormindo; e sobretudo quando os espíritos fingem pedir e concretizar relações carnais com o corpo humano; por isso aqui também se acrescenta a confissão: e ele disse: legião; porque muitos demônios haviam entrado nele.
Por médicos, entenda-se tanto os falsos teólogos, como os filósofos e doutores das leis seculares, que, dissertando muito acerca das virtudes e dos vícios, prometiam dar aos mortais instruções úteis para a vida; ou entenda-se por médicos os próprios espíritos imundos, que, como se aconselhassem os homens, se faziam adorar no lugar de Deus; e quanto mais a gentilidade gastava as forças de sua natural diligência em ouvi-los, tanto menos podia ser curada da impureza de sua iniquidade.
Ou, por eles, são significados aqueles que veem o estado da sinagoga tão destituído que não acreditam que possa ser restaurado; e, por isso, não consideram necessário suplicar por sua ressurreição. Mas o que é impossível para os homens, é possível para Deus: por isso o Senhor lhe disse: "Não temas, crê somente, e ela será salva". O pai da menina é entendido como a assembleia dos doutores da Lei, que, se quiser crer, também a sinagoga que lhe está sujeita será salva.
O pó é sacudido dos pés dos apóstolos em testemunho do seu trabalho, de que entraram na cidade, e que a pregação apostólica chegou até seus habitantes; ou o pó é sacudido quando nada recebem deles, nem mesmo o necessário para o sustento, daqueles que desprezaram o Evangelho.
Enquanto as multidões estavam com fome, o Salvador não cria novos alimentos, mas tomando aquilo que os discípulos tinham, abençoa-os; porque vindo na carne, não prega outras coisas senão as que foram preditas; mas demonstra que as palavras proféticas estão grávidas dos mistérios da graça. Olha para o céu, para ensinar que para lá se deve dirigir o olhar da mente, e que ali deve ser buscada a luz do conhecimento. Parte e distribui aos discípulos para ser colocado diante das multidões, porque lhes revelou os sacramentos da Lei e dos Profetas, para que os pregassem ao mundo.
Belamente o Senhor, disposto a explorar a fé dos discípulos, primeiramente interroga a opinião das multidões, para que a confissão deles não pareça estar formada pela opinião do vulgo, em vez de ser comprovada pelo reconhecimento da verdade; e para que não se pense que eles acreditam no que conheceram, mas que, como Herodes, hesitam sobre o que ouviram.
Somos assim ordenados a tomar a cruz mencionada anteriormente diariamente, e, tendo-a tomado, seguir nosso Senhor, que carregou sua própria cruz; donde segue: e siga-me.
Transfigurado o Salvador, mostrou a glória da futura ressurreição, seja a sua ou a nossa; e tal como então apareceu aos apóstolos, depois do juízo aparecerá a todos os eleitos. Quanto às vestes do Senhor, entende-se que representam o coro dos seus santos, que certamente enquanto o Senhor permanecia na terra parecia desprezível; mas, quando Ele sobe ao monte, resplandece com novo brilho: pois agora somos filhos de Deus, e ainda não apareceu o que seremos; sabemos, porém, que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele(1 São João 3,2).
E nota que, assim como quando o Senhor foi batizado no Jordão, também quando foi glorificado no monte, revelou-se o mistério de toda a Trindade; porque a glória d'Aquele que confessamos no Batismo, veremos na ressurreição. E não em vão o Espírito Santo aparece aqui em uma nuvem luminosa, e lá sob a forma de uma pomba: porque quem agora guarda com coração simples a fé que recebeu, contemplará então, na luz da visão manifesta, aquilo em que havia acreditado.
Os lugares são adequados às coisas. No monte o Senhor ora, transfigura-se, revela aos discípulos os segredos da sua majestade; ao descer para as regiões inferiores, é recebido por uma multidão. Por isso diz: "E aconteceu que no dia seguinte, descendo eles do monte, uma grande multidão veio ao seu encontro". Nas alturas revela a voz do Pai, embaixo expulsa os espíritos malignos; por isso segue: "E eis que um homem da multidão exclamou, dizendo: Mestre, suplico-te, olha para meu filho".
Esta ignorância dos discípulos não nasce tanto da lentidão quanto do amor; pois sendo ainda carnais e ignorantes do mistério da cruz, não podiam crer que morreria Aquele a quem acreditavam ser verdadeiro Deus; e como estavam acostumados a ouvi-lo falar frequentemente por meio de figuras, mesmo quando ele falava sobre sua entrega, pensavam que ele estava significando aquilo figurativamente.
Ou porque tinham visto Pedro, Tiago e João serem conduzidos à parte para o monte, e as chaves do reino dos céus terem sido prometidas a Pedro, ficaram irados, porque eles três, ou Pedro, estivessem sendo preferidos diante de todos; ou porque viram Pedro igualado ao próprio Senhor no pagamento do tributo, julgavam que ele deveria ser preferido aos demais. Mas o leitor diligente encontrará que esta questão entre eles já havia sido discutida antes do pagamento do didracma. De fato, São Mateus menciona que isto aconteceu em Cafarnaum. São Marcos diz: "E vieram a Cafarnaum. E estando na casa, interrogava-os: Que discutíeis pelo caminho? Mas eles se calavam, pois pelo caminho tinham disputado entre si sobre quem deles seria o maior".
Pois os santos varões, sabendo perfeitamente que aquela morte que separa a alma do corpo não deve ser temida, contudo, devido ao sentimento daqueles que a temiam, puniram alguns pecados com a morte, para que um temor salutar fosse incutido nos vivos, e para aqueles que eram punidos com a morte, não fosse a própria morte que lhes causasse dano, mas o pecado, que poderia aumentar se continuassem a viver.
Colocar a mão no arado é também, (como se fosse por um certo instrumento de compunção), pelo madeiro e o ferro da paixão de Nosso Senhor, desgastar a dureza do nosso coração e abri-lo para produzir frutos de boas obras. Mas se alguém, tendo começado a exercitar isto, deleita-se em olhar para trás com a mulher de Lot para as coisas que havia deixado, é privado já do dom do reino futuro.
Assim como ninguém duvida que os doze apóstolos prefiguravam a ordem dos bispos, assim também deve-se saber que estes setenta e dois representavam o presbitério (isto é, a segunda ordem de sacerdotes); contudo, nos primeiros tempos da Igreja, como testemunham as Escrituras apostólicas, ambos eram chamados presbíteros, ambos também eram chamados bispos; dos quais um significa maturidade de sabedoria, o outro diligência no cuidado pastoral.
Ou para testemunho do trabalho terreno que em vão empreenderam por eles; ou para mostrar que de tal modo não buscam deles nada terreno, que nem mesmo o pó da terra deles permitem que lhes fique aderido. Ou pelos pés se designa a própria obra e o andamento da pregação; e o pó com que se cobrem é a leveza dos pensamentos terrenos, da qual nem mesmo os maiores doutores podem estar isentos. Portanto, aqueles que desprezarem a doutrina, os trabalhos e os perigos dos que ensinam, o fazem para testemunho de sua própria condenação.
Corozaim, Betsaida e Cafarnaum, também Tiberíades, que São João menciona, são cidades da Galileia, situadas na margem do lago de Genezaré, que pelos Evangelistas é chamado mar da Galileia ou de Tiberíades. O Senhor, portanto, lamenta estas cidades que, após tantos milagres e virtudes, não se arrependeram, e são piores que os gentios que violam apenas a lei natural: porque após o desprezo da lei escrita, não temeram desprezar também o Filho de Deus e sua glória; por isso segue-se: porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizadas as virtudes que foram feitas em vós, há muito tempo sentados em cilício e cinza teriam feito penitência. No cilício, que é tecido com pelos de cabras, significa a áspera memória do pecado pungente; na cinza, por sua vez, demonstra a consideração da morte, pela qual somos reduzidos a pó. Ademais, no sentar-se significa a humildade da própria consciência. Vemos hoje cumprida a palavra do Salvador: porque Corozaim e Betsaida não quiseram crer na presença do Senhor; Tiro e Sidônia, porém, que outrora foram amigas de Davi e Salomão, depois creram nos discípulos de Cristo que evangelizaram.
É-lhes proibido, sendo carnais, regozijar-se pela sujeição dos espíritos: porque expulsar os espíritos, assim como realizar outros prodígios, por vezes não procede do mérito daquele que opera; mas a invocação do nome de Cristo faz isto para condenação daqueles que o invocam, ou para utilidade daqueles que veem e ouvem.
Ou, ao dizer todas as coisas me foram entregues, Ele não se refere aos elementos do mundo, mas àqueles pequeninos a quem o Pai revelou, pelo Espírito, os sacramentos do Filho, e em cuja salvação, quando isto falava, Ele se regozijava.
Pois aqueles, observando de longe, viam-no através de um espelho e enigmaticamente; já os apóstolos, tendo o Senhor presente e aprendendo por meio de perguntas tudo o que desejavam, de modo algum tinham necessidade de serem ensinados por meio de anjos ou outras espécies de visões.
O Senhor havia dito acima que os nomes deles estavam escritos nos céus; de onde, conforme penso, o doutor da lei tomou ocasião para tentar o Senhor; por isso se diz: E eis que certo doutor da lei se levantou, tentando-o.
E com razão pôs o homem sobre seu jumento e o levou a uma hospedaria, porque ninguém, a não ser que esteja unido ao corpo de Cristo pelo Batismo, poderá entrar na Igreja.
O amor de Deus e do próximo, que anteriormente estava contido em palavras e parábolas, aqui é designado pelas próprias coisas e pela verdade; pois diz-se "Aconteceu que, enquanto iam, Ele entrou em certa aldeia".
Depois da história das irmãs, que significavam as duas vidas da Igreja, não foi em vão que se escreveu que o próprio Senhor orou e ensinou os discípulos a orar; porque a oração que Ele ensinou contém em si o mistério de ambas as vidas, e a perfeição dessas mesmas vidas não deve ser obtida por nossas próprias forças, mas por meio de orações; por isso se diz: "E aconteceu que, estando Ele orando em certo lugar".
Ou pode-se dizer que chama maus aos amantes do mundo, que dão aquilo que julgam bom segundo o seu modo de entender; coisas que são boas em sua natureza e pertencem ao uso da vida imperfeita; por isso acrescenta: "sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos". Mesmo os Apóstolos, que pelo mérito da sua eleição excederam a bondade do gênero humano, são chamados maus em comparação com a bondade divina, porque nada é bom por si mesmo, senão somente Deus. Quanto ao que se acrescenta: "quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito bom aos que lho pedirem?", para o qual São Mateus escreveu: "dará coisas boas aos que lhe pedirem", mostra que o Espírito Santo é a plenitude dos dons de Deus, porque todas as vantagens que são recebidas da graça dos dons de Deus emanam desta fonte.
Enquanto as multidões, que pareciam menos instruídas, sempre admiravam os feitos do Senhor, os escribas e fariseus esforçavam-se por negá-los ou pervertê-los por meio de interpretações sinistras, como se fossem obras não da divindade, mas do espírito imundo; por isso, segue-se: "Alguns deles, porém, disseram: pelo poder de Beelzebub, príncipe dos demônios, expulsa os demônios". Beelzebub era o deus de Accaron1: pois Beel é o próprio Baal, e zebub significa mosca. Diz-se Beelzebub como se fosse "o homem das moscas"2; de cujo rito impuríssimo derivou-se o nome do príncipe dos demônios.
[1] Accaron era uma cidade filisteia. ↩
[2] Literalmente "o senhor das moscas". ↩
O reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo não está dividido, o qual há de permanecer com estabilidade eterna. Renunciem, pois, os arianos a dizer que o Filho é inferior ao Pai, e o Espírito Santo inferior ao Filho, porque aqueles cujo reino é único, deles é também única a majestade.
Chama de seu átrio ao mundo, que está posto na maldade, no qual até a vinda do Salvador gozava de domínio; porque descansava nos corações dos infiéis sem nenhuma contradição. Mas Cristo, sendo mais forte em poder, vencedor, ao libertar todos os homens, o expulsou; por isso acrescenta: "Mas se sobrevindo outro mais forte que ele o vencer, tomará todas as suas armas, nas quais confiava, e distribuirá seus despojos".
Isto também pode ser entendido a respeito de qualquer herege ou cismático, ou mesmo de um mau católico, do qual, no tempo do Batismo, havia saído o espírito imundo, e percorre lugares áridos; isto é, o astuto insidiador explora os corações dos fiéis, que foram purificados da frouxidão dos pensamentos instáveis, para ver se pode fixar ali passos de sua iniquidade. Diz, pois: "Voltarei à minha casa de onde saí"; no que devemos temer que a culpa, que acreditávamos extinta em nós, nos oprima por nosso descuido enquanto permanecemos ociosos. Encontra-a, porém, limpa com vassouras, isto é, purificada pela graça do Batismo da mácula dos pecados, mas não repleta de nenhuma diligência de boas obras. Pelos sete espíritos maus que toma consigo, designa todos os vícios. E são chamados mais perversos porque não só terá aqueles sete vícios que são contrários às sete virtudes espirituais, mas também, por hipocrisia, simulará possuir as próprias virtudes.
Mas a mesma Mãe de Deus é, por um lado, bem-aventurada porque foi feita ministra temporal do Verbo a ser encarnado; porém, por outro lado, muito mais bem-aventurada porque permaneceu eterna guardiã do mesmo Verbo sempre digno de ser amado. Com esta sentença, ele também fere os sábios dos judeus, que não buscavam ouvir e guardar a palavra de Deus, mas negá-la e blasfemá-la.
Ele lhes concede um sinal, não do céu, porque eram indignos de vê-lo; mas das profundezas do Inferno: um sinal, a saber, de Sua encarnação, não de Sua divindade; de Sua paixão, não de Sua glorificação.
O Senhor fala aqui de si mesmo, mostrando que, embora tenha dito acima que nenhum sinal seria dado à geração iníqua a não ser o sinal de Jonas, de modo algum, porém, a claridade de sua luz deveria ser ocultada aos fiéis. Ele mesmo acendeu a candeia quando encheu o vaso da natureza humana com a chama de sua divindade; esta candeia certamente não quis escondê-la dos crentes, nem colocá-la debaixo do alqueire, isto é, encerrada na medida da lei, ou confinada dentro dos limites de uma só nação dos judeus; mas a colocou sobre o candelabro, isto é, a Igreja, porque imprimiu em nossas frontes a fé de sua encarnação, para que aqueles que com fé verdadeira quiserem entrar na Igreja, possam contemplar claramente a luz da verdade. Por fim, ordena que se lembrem de purificar e castigar não somente as obras, mas também os pensamentos e as próprias intenções do coração; pois segue-se: a candeia do teu corpo é o teu olho.
Como se dissesse: Aquele que fez ambas as naturezas do homem, deseja que ambas sejam purificadas. Isto é contra os maniqueus, que pensam que somente a alma foi criada por Deus, mas que a carne foi criada pelo Diabo. Isto também é contra aqueles que detestam os pecados corporais, como a fornicação, o furto e outros semelhantes, como gravíssimos; enquanto os espirituais, que o Apóstolo não condena menos, desprezam como leves.
Mas se a mesma sabedoria de Deus enviou profetas e apóstolos, cessem os hereges de atribuir a Cristo um princípio a partir da Virgem; deixem de proclamar um Deus da Lei e dos Profetas, e outro do Novo Testamento; embora frequentemente também a Escritura Apostólica chame de profetas não somente aqueles que predizem a futura encarnação de Cristo, mas também aqueles que anunciam as futuras alegrias do reino celestial. Porém, de modo algum creio que estes devam ser considerados superiores aos apóstolos na ordem do catálogo.
Ou Ele diz isto, porque aquelas coisas que os apóstolos outrora falaram e sofreram em meio às trevas das opressões e às sombras dos cárceres, agora, estando a Igreja propagada por todo o orbe, com a leitura de seus atos, são pregadas publicamente. Em verdade, quando diz será pregado sobre os telhados, fala segundo o costume da província da Palestina, onde costumam habitar sobre os telhados; pois seus telhados não são feitos à nossa maneira com cumes elevados, mas são feitos planos e nivelados. Portanto, diz será pregado sobre os telhados; isto é, será dito abertamente para que todos ouçam.
Portanto, é vã loucura a dos que lançam os membros mortos dos mártires para serem despedaçados pelas feras e aves, uma vez que de modo algum podem impedir a onipotência de Deus de vivificá-los e ressuscitá-los.
Ou de outro modo. Quem diz que as obras do Espírito Santo são de Beelzebub, a este não será perdoado nem no presente século, nem no futuro; não porque negamos que ele possa ser perdoado por Deus, se puder fazer penitência; mas porque acreditamos que este blasfemador, por exigência de seus méritos, assim como nunca chegará ao perdão, também não chegará aos próprios frutos dignos de penitência, segundo aquilo: "ceguei os olhos deles para que não se convertam, e eu os cure".
Por ocasião deste tolo peticionário, empenhou-se em proteger tanto as multidões quanto os discípulos contra a peste da avareza, igualmente com preceitos e exemplos; por isso segue: E disse-lhes: Vede e acautelai-vos de toda avareza. Diz, pois, de toda avareza, porque algumas coisas parecem ser feitas simplesmente, mas o juiz interno distingue com que intenção são feitas.
Este é um néscio, e será arrebatado durante a noite. Portanto, aquele que deseja ser rico para Deus, não entesourar para si, mas distribua seus bens aos pobres.
Isto é, vocês sois mais valiosos: porque o animal racional, como o homem, está ordenado de modo mais sublime na natureza das coisas do que os irracionais, como são as aves.
Deve-se notar, contudo, que Ele não diz: não queirais buscar, ou estar solícitos sobre a comida, ou bebida, ou vestimenta; mas sim sobre o que comereis ou bebereis: onde me parece que são repreendidos aqueles que, desprezando o alimento ou a vestimenta comum, buscam para si alimentos ou vestimentas mais sofisticados ou mais austeros do que aqueles com quem vivem.
Seja isso tomado simplesmente, que o dinheiro guardado perece, mas dado ao próximo produz fruto perene nos céus; ou assim, que o tesouro das boas obras, se for acumulado por ocasião de vantagem terrena, facilmente se corrompe e perece, mas se for reunido somente com intenção celestial, não pode ser maculado, nem exteriormente pelo favor dos homens, como pelo ladrão que rouba de fora, nem interiormente pela vanglória, como pela traça que destrói por dentro.
Pois quanto a distância que existe entre os méritos de bons ouvintes e bons doutores, tanta também há entre suas recompensas: a estes, ao chegar e encontrá-los vigilantes, os fará sentar à mesa; mas àqueles, quando os encontrar dispensando fiel e prudentemente, os colocará sobre tudo o que possui, isto é, sobre todas as alegrias do reino celestial: não certamente para que somente estes tenham domínio sobre elas, mas para que desfrutem de sua posse eterna mais abundantemente que os demais santos.
Ou de outro modo. Muitas vezes muito é dado também a certas pessoas privadas, às quais é concedido tanto o conhecimento da vontade do Senhor quanto a faculdade de executar o que conhecem; muito, porém, é confiado àquele a quem, junto com sua própria salvação, é também entregue o cuidado de apascentar o rebanho do Senhor. Portanto, aqueles que foram dotados de maior graça, se cometerem faltas, seguir-se-á maior vingança; contudo, a mais branda de todas as penas será a daqueles que, além do pecado que trouxeram originalmente, nenhum outro acrescentaram; e quanto aos demais que acrescentaram, cada um terá uma condenação tanto mais tolerável quanto menor foi sua iniquidade aqui.
Ou de outro modo. Pelos três são significados aqueles que têm a fé na Trindade; pelos dois, os infiéis, que divergem da unidade da fé. O pai é o Diabo, cujos filhos éramos por imitação; mas depois que veio aquele fogo celestial, Ele nos separou uns dos outros, e mostrou outro pai, que está nos céus. A mãe é a sinagoga, e a filha é a Igreja primitiva, que suportou a perseguição da mesma sinagoga da qual descende, e também contradisse a mesma sinagoga com a verdade da fé. A sogra é a sinagoga, a nora é a Igreja dos gentios: porque o esposo da Igreja, Cristo, é filho da sinagoga segundo a carne. A sinagoga, portanto, está dividida contra a nora e contra a filha, as quais persegue nos que creem de ambos os povos; mas também estas estão divididas contra a sogra e a mãe, porque não querem aceitar a circuncisão carnal.
Mas para que ninguém da multidão se desculpasse de não poder comprovar o curso dos tempos por ignorância da leitura profética, Ele vigilantemente acrescenta: "Por que também vós mesmos não julgais o que é justo?" Mostrando que eles, mesmo desconhecendo as escrituras, poderiam pelo engenho natural discernir que Aquele que fez obras que nenhum outro havia feito, estava acima do homem e era Deus; e que, portanto, após as injustiças deste século, viria o justo juízo do Criador.
Ou de outra maneira. Nosso adversário no caminho é a palavra de Deus contrária aos nossos desejos carnais na vida presente: da qual se libera aquele que se submete aos seus preceitos: caso contrário, será entregue ao juiz, porque, pelo desprezo da palavra do Senhor, o pecador será considerado réu no exame do juiz: o qual o juiz entregará ao executor, isto é, ao espírito maligno, para a vingança: que o lançará no cárcere, isto é, no Inferno; onde, porque sempre pagará as penas sofrendo, mas nunca saldando completamente, não poderá conseguir o perdão, nunca sairá de lá; mas com a terribilíssima serpente, o Diabo, pagará castigos perpétuos.
Mas como não fizeram penitência, no quadragésimo ano da paixão do Senhor, vindo os romanos (a quem Pilatos representava, como pertencente à nação deles) e começando pela Galileia (onde tinha começado a pregação do Senhor), destruíram completamente aquela nação ímpia; e não somente mancharam com sangue humano os átrios do templo, onde costumavam oferecer os sacrifícios, mas também o interior da casa.
O próprio Senhor que instituiu a sinagoga por Moisés, nascido na carne apareceu, e frequentemente ensinando na sinagoga buscou o fruto da fé, mas na mente dos fariseus não o encontrou; por isso segue-se: e veio buscando fruto nela, e não encontrou.
Mas a filha de Abraão é toda alma fiel, ou a Igreja reunida de ambos os povos na unidade da fé. Há, portanto, o mesmo mistério em soltar o boi ou o asno do presépio e levá-los para beber, como em erguer a filha de Abraão das amarras de nossas inclinações.
O homem Cristo é, o horto é a Igreja, que deve ser cultivada com suas doutrinas; dele bem se diz ter recebido o grão, porque os dons que nos concedeu juntamente com o Pai através de sua divindade, recebeu conosco por sua humanidade. Cresceu, porém, a pregação do Evangelho, disseminada por todo o orbe; cresce também na mente de cada crente, porque ninguém se torna perfeito de repente. Ao crescer, não surge à maneira das ervas, que rapidamente secam, mas à semelhança das árvores. Os ramos desta árvore são as diversidades de dogmas, nos quais as almas castas, que tendem para o alto com as asas das virtudes, nidificam e repousam.
O pai de família é Cristo, que embora esteja em toda parte pela sua divindade, já se diz estar dentro daqueles a quem alegra no céu com a sua presença visível; mas está como que fora para aqueles que, lutando nesta peregrinação, ajuda ocultamente. Ele entrará, porém, quando conduzir toda a Igreja à contemplação de Si mesmo; fechará a porta, quando tirar dos réprobos o lugar para a penitência; os quais, estando fora, baterão, isto é, separados dos justos implorarão em vão a misericórdia que desprezaram; donde segue-se que, respondendo, lhes dirá: Não sei de onde sois.
Por causa de suas artimanhas e emboscadas, Ele chama Herodes de raposa, animal cheio de astúcia, que se esconde em tocas para preparar armadilhas, que exala um odor fétido e nunca caminha por caminhos retos; todas estas características convêm aos hereges, dos quais Herodes é figura, que tentam extinguir Cristo, isto é, a humildade da fé cristã, nos corações dos fiéis.
Portanto, por um exemplo apropriado, resolve a questão, para mostrar que violam o sábado na obra da cobiça aqueles que o acusam de violar o sábado na obra da caridade; por isso segue: "E eles não podiam responder a estas coisas". Misticamente, o hidrópico é comparado àquele que é oprimido pelo fluxo excessivo dos prazeres carnais: pois a doença da hidropisia deriva seu nome do humor aquoso.
E ainda que todos ressuscitem, diz-se, contudo, a ressurreição dos justos, pois nesta ressurreição não duvidam que são bem-aventurados; portanto, aqueles que convidam os pobres para o banquete receberão recompensas no futuro; mas aquele que convida amigos, irmãos e ricos, já recebeu a sua recompensa. Mas se o faz por Deus, seguindo o exemplo dos filhos de Jó, assim como as demais obrigações do amor fraterno, aquele mesmo que ordenou recompensará.
Mas porque alguns percebem este pão apenas pela fé, como que o cheirando, mas na verdade desdenhando de atingir sua doçura através da verdadeira degustação; na parábola seguinte o Senhor repreende a lentidão de tais pessoas, mostrando-a indigna dos banquetes celestiais; pois segue-se: E Ele lhe disse: Um homem fez uma grande ceia, e convidou a muitos.
Existe diferença entre renunciar a todas as coisas e deixar todas as coisas: pois é próprio de poucos homens perfeitos deixar todas as coisas, isto é, postergar os cuidados do mundo; enquanto que é próprio de todos os fiéis renunciar a todas as coisas, isto é, possuir as coisas do mundo de tal modo que, por meio delas, não sejamos retidos no mundo.
Havia dito anteriormente que a torre das virtudes não somente deveria ser iniciada, mas também completada: a isto pertence o que se diz: boa é a sal. É bom temperar os segredos do coração com o sal da sabedoria espiritual, ou melhor, com os apóstolos tornar-se sal da terra.
Porém apascentar porcos é praticar aquelas coisas nas quais os espíritos imundos se deleitam. Segue-se: E desejava encher seu ventre das siliquas que os porcos comiam.
Ele de modo algum presume aspirar ao afeto de filho, que não duvida que todas as coisas que são do pai são suas, mas deseja a condição de servo assalariado, como quem vai servir por uma recompensa; mas declara que nem mesmo esta ele poderia merecer, exceto pela dignação paterna.
Enquanto os escribas e fariseus murmuravam sobre Ele receber pecadores, o Salvador lhes propôs três parábolas sucessivamente. Nas duas primeiras, Ele insinua a alegria que tem com os anjos na salvação dos penitentes. Mas nesta terceira, não apenas demonstra Sua própria alegria e a de Seus anjos, mas também repreende o murmúrio daqueles que eram invejosos; pois diz: "E seu filho mais velho estava no campo".
Depois que o Salvador repreendeu em três parábolas aqueles que murmuravam pela recepção dos penitentes, logo acrescenta uma quarta e quinta parábola sobre dar esmola e praticar a frugalidade; pois a ordem de pregação mais adequada é que depois da penitência se acrescente a esmola; por isso diz: E dizia também a seus discípulos: Havia um homem rico que tinha um administrador.
Ouça, pois, o avarento que não se pode servir simultaneamente às riquezas e a Cristo; e, contudo, Ele não disse: "quem tem riquezas", mas "quem serve às riquezas"; pois aquele que é servo das riquezas, guarda-as como servo; mas aquele que sacudiu o jugo da servidão, distribui-as como senhor. Mas quem serve a mamona, serve certamente àquele que, por mérito de sua perversidade, é preposto sobre estas coisas terrenas e é chamado príncipe deste século.
Mas para que não pensassem que, quando disse "a lei e os profetas até João", estivesse anunciando a destruição da lei ou dos profetas, Ele afasta essa ideia acrescentando: "Mais fácil é passarem o céu e a terra do que cair um só ápice da lei". Porque passa a figura deste mundo, mas da lei nem mesmo o cume de uma só letra, isto é, nem as coisas mínimas carecem de sacramentos espirituais. E, contudo, a lei e os profetas até João, porque não se podia mais profetizar como vindouro aquele que, pela pregação de João, já estava claramente presente. E quanto ao que predissera sobre a perpétua inviolabilidade da lei, Ele confirma com um testemunho tirado dela, como exemplo, dizendo: "Todo aquele que deixa sua esposa e casa com outra, comete adultério; e quem casa com a repudiada pelo marido, comete adultério"; para que deste único exemplo aprendessem que Ele não veio para dissolver, mas para cumprir os preceitos da lei.
O Senhor havia advertido acima que se fizessem amigos das riquezas de iniquidade; ouvindo isso, os fariseus zombavam dele; em seguida, confirma com exemplos o que havia proposto, dizendo: "Havia um certo homem rico", etc.
Fala segundo o costume da região da Palestina; sendo que entre os antigos judeus a pena para os crimes maiores era que fossem submergidos no profundo com uma pedra atada. E na verdade, é mais útil para um inocente concluir a vida corpórea com uma pena, ainda que atrocíssima, contudo temporal, do que, sendo culpado para com o irmão, merecer a morte perpétua da alma. Corretamente, aquele que pode ser escandalizado é chamado de pequenino: pois aquele que é grande, o que quer que veja, o que quer que sofra, não se desvia da fé. Portanto, tanto quanto pudermos sem pecado, devemos evitar o escândalo dos próximos. Se, porém, o escândalo é tomado da verdade, é mais útil permitir o escândalo do que abandonar a verdade.
Deve-se considerar, porém, que Ele não ordena perdoar indiscriminadamente a quem peca, mas àquele que se arrepende: pois com esta ordem podemos evitar os escândalos, se não causarmos dano a ninguém, se corrigirmos o pecador com zelo de justiça, se abrirmos as entranhas da misericórdia ao arrependido.
Ou bem, o Senhor aqui compara a fé perfeita ao grão de mostarda, porque em sua aparência é humilde, mas fervorosa no coração. Em sentido místico, pela amoreira – cujo fruto e ramos brilham com uma cor vermelha de sangue – expressa-se o Evangelho da cruz, que pela fé dos apóstolos foi desarraigado do povo judeu, no qual estava contido como que em linhagem de sua origem, através das palavras de pregação, e foi plantado no mar dos gentios.
Como se dissesse: Depois que eu tiver me deleitado com a obra da tua pregação, e tiver sido restaurado com o seleto alimento da tua compunção, então finalmente passarás, e te alimentarás eternamente com o banquete eterno da minha sabedoria.
Ele caiu sobre a face, porque se envergonha dos males que se lembra ter cometido: e é ordenado a levantar-se e ir, porque aquele que, conhecendo sua própria enfermidade, jaz humildemente, é exortado, pela consolação da palavra divina, a avançar para obras mais dignas. Se, porém, a fé salvou aquele que se inclinou para agradecer, portanto a perfídia perde aqueles que negligenciaram dar glória a Deus pelos benefícios recebidos; eis por que se deve aumentar a fé mediante a humildade, assim como se determina na parábola anterior, assim aqui se demonstra pelas próprias ações.
Pois aquele tempo não pode ser observado nem pelos homens, nem pelos anjos, como o tempo da encarnação que foi manifestado pelos vaticínios dos profetas e pelos anúncios dos anjos; por isso acrescenta: nem dirão: eis aqui, ou: eis ali. Ou de outro modo: Perguntam sobre o tempo do reino de Deus, porque, como se diz adiante, pensavam que, vindo o Senhor a Jerusalém, imediatamente o reino de Deus seria manifestado; por isso o Senhor responde que o reino de Deus não virá com observação.
E belamente diz coruscando sob o céu: porque o juízo será realizado sob o céu, isto é, no meio do ar, conforme aquilo do Apóstolo: seremos arrebatados com eles nas nuvens ao encontro de Cristo no ar. Se, porém, o Senhor aparecer no juízo como um relâmpago, ninguém então poderá permanecer oculto em sua mente: porque pelo próprio fulgor do juiz tudo será penetrado. Pode-se também entender esta resposta do Senhor sobre aquela sua vinda pela qual diariamente vem à Igreja. Pois, muitas vezes os hereges perturbaram a Igreja, dizendo que em seu dogma permanecia a fé de Cristo, a ponto de os fiéis daqueles tempos desejarem que o Senhor, ainda que por um dia, se fosse possível, voltasse à terra, para que por si mesmo revelasse como é a verdade da fé. E não vereis, diz ele: porque não é necessário que o Senhor retorne com visão corporal: porque uma vez mostrou o vigor do Evangelho por todo o mundo universal.
Em sentido místico, Lot, que se interpreta como "o que declina", é o povo dos eleitos, que enquanto mora em Sodoma, isto é, entre os réprobos, como peregrino, declina dos seus crimes tanto quanto pode. Porém, com a saída de Lot, Sodoma perece, porque na consumação do século, sairão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e os lançarão na fornalha de fogo. Contudo, o fogo e o enxofre, que menciona terem chovido do céu, não significam a própria chama do suplício eterno, mas a chegada repentina daquele dia.
O Salvador, interrogado sobre duas coisas, a saber, onde os bons serão assumidos e onde os maus serão deixados, respondeu a uma e deixou a outra para ser subentendida; donde segue: E Ele lhes disse: Onde estiver o corpo, ali se congregarão também as águias.
Porém, quando o Onipotente Criador aparecer na forma do Filho do homem, tão grande será a raridade dos eleitos que não tanto pelo clamor dos fiéis, quanto pela indiferença dos outros, deverá ser acelerada a ruína de todo o mundo. O que o Senhor aqui diz como que duvidando, não é que Ele duvide, mas que repreende: pois também nós, às vezes, acerca de coisas que temos como certas, proferimos palavras de dúvida ao repreender; como quando se diz a um servo: Considera, porventura não sou teu senhor?
Tipicamente, o Fariseu representa o povo judeu, que por causa das justificações da lei exalta seus méritos; já o Publicano representa o gentio, que estando longe de Deus, confessa seus pecados; dos quais um, por sua soberba, afastou-se humilhado, enquanto o outro, por seu lamento, mereceu aproximar-se e ser exaltado.
Por isso disse significativamente "de tais", não "destes", para mostrar que não é a idade que reina, mas os costumes; e que àqueles que têm semelhante inocência e simplicidade, são prometidos os prêmios.
Um certo príncipe, tendo ouvido do Senhor que somente aqueles que quisessem ser semelhantes às crianças entrariam no reino de Deus; e por isso pede que lhe seja exposto, não por parábola, mas claramente, por quais méritos de obras poderá conseguir a vida eterna; por isso diz: E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Mestre bom, que devo fazer para possuir a vida eterna?
O sentido, portanto, é este: aquele que, por buscar o reino de Deus, desprezou todos os afetos, calcou todas as riquezas, delícias e prazeres do mundo, receberá muito mais no tempo presente. Por ocasião desta sentença, alguns constroem a fábula judaica de mil anos após a ressurreição dos justos, quando tudo o que deixamos por causa de Deus nos será devolvido com múltiplos juros, e além disso nos será concedida a vida eterna. E não veem os inexperientes que, embora nas demais coisas a promessa seja digna, no que diz respeito às esposas, que segundo os outros Evangelistas seriam centuplicadas, revela-se a torpeza, especialmente quando o Senhor testifica que na ressurreição não haverá matrimônio; e segundo São Marcos, confirma que aquilo que foi deixado, neste tempo será recebido com perseguições, as quais eles dogmatizam estar ausentes naqueles mil anos.
Prevendo, pois, que haveriam de surgir alguns hereges, que diriam que Cristo ensinara coisas contrárias à lei e aos profetas, mostra que pelos anúncios proféticos foi celebrada a consumação de sua paixão e da glória posterior.
Perambulando o Senhor veio ao lugar onde Zaqueu havia subido no sicômoro, porque enviando pregadores pelo mundo, nos quais ele mesmo falava e ia, veio ao povo das nações, que já estava elevado pela fé em sua paixão; e olhando para cima o viu, porque o elegeu pela graça. Algumas vezes o Senhor permanecia na casa de um príncipe dos fariseus; mas enquanto ele realizava obras dignas de Deus, eles o criticavam com língua venenosa: por isso, detestando seus crimes, retirou-se dizendo: "Vossa casa vos será deixada deserta". Hoje, porém, convém que ele permaneça na casa do pequeno Zaqueu, isto é, que descanse no coração das nações humildes, resplandecendo a graça da nova lei. Quanto ao fato de ser ordenado a descer do sicômoro e assim preparar uma morada na casa, isto é o que diz o Apóstolo: "Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos". E ainda que tenha morrido por fraqueza, vive pelo poder de Deus. É evidente que os judeus sempre odiaram a salvação dos gentios; mas a salvação, que outrora enchia as casas dos judeus, hoje brilha para o povo das nações, porque também este povo é filho de Abraão, crendo em Deus.
Aquele servo é a assembleia daqueles que foram enviados para evangelizar aos incircuncisos, cuja mina, isto é, a fé evangélica, produziu cinco minas: porque converteu à graça da fé evangélica as nações antes escravizadas aos cinco sentidos do corpo. Segue-se: e a este disse: e tu sê também sobre cinco cidades; isto é, brilha de modo sublime pela fé e pela conduta daquelas almas que tu instruíste.
Demonstrando também que a parábola anterior referia-se ao destino daquela mesma cidade, que estava prestes a matá-lo e que seria destruída por um desastre inimigo. Segue-se: E aconteceu que, quando se aproximou de Betfagé e Betânia, junto ao monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos. Betfagé era um lugar dos sacerdotes no monte das Oliveiras; Betânia também era uma cidade, ou pequena vila, situada na encosta do mesmo monte, a cerca de quinze estádios de Jerusalém.
Eles haviam visto muitas virtudes do Senhor, mas admiravam-se especialmente da ressurreição de Lázaro; pois, como diz São João: por isso a multidão veio ao seu encontro, porque ouviram que Ele havia realizado este sinal. Deve-se observar que não era esta a primeira vez que o Salvador ia a Jerusalém, mas havia ido muitas vezes antes, como São João comemora.
Isto pode ser entendido de dois modos: ou porque, temendo o tumulto do povo, não sabiam o que fazer com Jesus, a quem haviam decidido destruir; ou porque buscavam destruir Jesus porque, sendo seu magistério negligenciado, viam muitos afluindo para ouvi-lo.
Como se dissesse: Aquele a quem vós confessais ter recebido a profecia do céu deu testemunho de mim; e dele ouvistes com que poder faço estas coisas; segue-se, pois, se dissermos: dos homens, todo o povo nos apedrejará: pois estão certos de que João é um profeta. Viram, portanto, que de qualquer modo que respondessem, cairiam em um laço, temendo o apedrejamento, mas mais ainda a confissão da verdade; donde se segue e responderam que não sabiam donde era. Como, pois, não quiseram confessar aquilo que sabiam, foram repelidos, de modo que o Senhor não lhes disse o que sabia; donde se segue e Jesus disse-lhes: nem eu vos digo com que poder faço estas coisas. Por duas razões principalmente o conhecimento da verdade deve ser ocultado aos que perguntam: quando aquele que pergunta é menos capaz de entender aquilo que pergunta; ou quando por ódio ou desprezo da verdade se torna indigno de que lhe seja revelado o que pergunta.
Ou, em sentido moral, a cada um dos fiéis é dada uma vinha para cultivar, quando o mistério do Batismo lhe é confiado para que o exercite. Um servo é enviado, depois um segundo, e um terceiro, quando a Lei, os Salmos e os Profetas são lidos. Mas o servo enviado é ultrajado ou espancado quando a palavra ouvida é desprezada ou blasfemada. Aquele que é enviado como herdeiro, esse homem mata, tanto quanto pode, quando pisa o Filho de Deus pelo pecado. Destruídos os maus vinhateiros, a vinha é dada a outro, quando com o dom da graça, que o soberbo desprezou, o humilde é enriquecido.
E assim buscando matá-lo, demonstravam ser verdadeiro o que Ele havia dito na parábola. Pois Ele mesmo é o Herdeiro, cuja morte injusta diziam que deveria ser vingada; e aqueles colonos perversos são os que buscavam matar o Filho de Deus. Isto também ocorre diariamente na Igreja, quando qualquer um que seja irmão somente de nome, ou se envergonha ou teme combater, por causa da multidão dos bons, aquela unidade de fé e paz eclesiástica que ele aborrece. E como os príncipes buscavam prender o Senhor, o que não podiam fazer por si mesmos, tentavam realizá-lo pelas mãos do governador; por isso segue: e observando-o enviaram espias que simulavam ser justos.
Havia duas heresias entre os judeus: uma dos fariseus, que preferiam a justiça das tradições e observâncias, por isso eram chamados de separados pelo povo; a outra dos saduceus, que se interpretava como justos, reivindicando para si o que não eram. Quando aqueles se retiraram, estes se aproximaram para tentá-lo; donde se diz: "Aproximaram-se, porém, alguns dos saduceus, que negam existir ressurreição".
Ele não proíbe sentar-se nos primeiros lugares, ou reclinar-se à mesa, àqueles a quem isto compete por ordem do ofício, mas ensina que se deve ter cuidado com aqueles que amam isto indevidamente, repreendendo a disposição, não a posição; embora também não careça de culpa se os mesmos que querem participar dos litígios no foro desejam ser chamados de mestres na sinagoga. Por duas razões nos é ordenado tomar cuidado com os desejosos de vanglória: para que não sejamos levados pela sua simulação, considerando boas as coisas que fazem; ou para que não sejamos inflamados pela emulação, regozijando-nos em vão por sermos louvados pelos bens que eles simulam. Não só buscam os louvores dos homens, mas também o dinheiro; pois segue-se que devoram as casas das viúvas, simulando longas orações. Pois, simulando ser justos e de grande mérito diante de Deus, não hesitam em receber dinheiro dos fracos e daqueles perturbados pela consciência de seus pecados, como se fossem seus patronos no juízo futuro.
Em sentido místico, os ricos que lançavam suas oferendas no gazofilácio significam os judeus ensoberbecidos pela justiça da lei; a viúva pobre representa a simplicidade da Igreja, que é chamada de pobrezinha porque rejeitou tanto o espírito de soberba quanto os pecados como se fossem riquezas mundanas; e é viúva porque seu Esposo por ela suportou a morte. Ela lança no gazofilácio duas pequenas moedas, porque na presença de Deus, junto ao qual são conservadas as oblações de nossas obras, apresenta suas oferendas, seja o amor a Deus e ao próximo, seja a fé e a oração: as quais superam todas as obras dos soberbos judeus. Pois os judeus lançam nas oferendas de Deus a partir do que lhes sobra, porque presumem de sua própria justiça; mas a Igreja lança todo o seu sustento, porque compreende que tudo o que vive é um dom de Deus.
Muitos, com efeito, quando era iminente a destruição de Jerusalém, surgiram como príncipes que diziam ser cristos, e que o tempo da libertação se aproximava. Muitos heresiarcas na Igreja também pregaram que o dia do Senhor estava próximo, os quais o Apóstolo condena na epístola aos Tessalonicenses. Muitos também vieram em nome de Cristo, sendo anticristos; o primeiro deles foi Simão Mago, do qual diziam: "este é a virtude de Deus, que se chama grande".
Os apóstolos são também advertidos para que não se aterrorizem com estes presságios, e para que não abandonem Jerusalém e a Judeia. Pode-se também entender o reino contra reino, e a pestilência daqueles cuja palavra se espalha como um câncer, e a fome de ouvir a palavra de Deus, e a comoção de toda a terra, e a separação da verdadeira fé, como referindo-se aos hereges, que, lutando uns contra os outros, proporcionam vitória à Igreja.
Ou de outro modo: Não perecerá um só cabelo da cabeça dos discípulos do Senhor, porque não somente as ações valorosas ou as palavras dos santos, mas até o mais tênue pensamento será recompensado com digna mercê.
Que é precisamente o que o Apóstolo comemora dizendo: "Caiu a cegueira em parte sobre Israel", e assim todo o Israel será salvo; o qual, tendo alcançado a salvação prometida, espera-se, não sem fundamento, que retornará ao solo pátrio.
Assim, como é dito em Jó, as colunas do céu tremem e temem ao seu comando(Jó 26,11). O que farão, pois, as tábuas, quando tremem as colunas? O que sofre o arbusto do deserto, quando o cedro do Paraíso é sacudido?
Mas pelo céu que passará, não devemos entender o céu etéreo ou sideral, nem o aéreo, pelo qual as aves do céu são nomeadas. Porém, se a terra passará, como diz o Eclesiastes: "A terra permanece eternamente"? Claramente, pois, o céu e a terra passarão pela forma que agora têm, mas subsistirão eternamente em sua essência.
E certamente se algum médico sábio ordenasse evitar o suco de alguma erva, para que não sobrevenha uma morte repentina, com grande cuidado observaríamos as ordens do médico; mas agora, quando o Salvador nos adverte que devemos evitar a embriaguez, a glutonaria e as preocupações do século, não temem ser feridos e consumidos por elas; porque o crédito que dão às palavras do médico, desdenham conceder às palavras do Senhor.
O que o Senhor ordenou por palavras, confirma com seus exemplos: pois aquele que nos exortou a vigiar e orar antes da vinda do juiz e do incerto fim de cada um, ele mesmo, aproximando-se o tempo de sua paixão, insiste no ensino, nas vigílias e nas orações; por isso se diz durante o dia estava ensinando no templo: no que insinua com seu exemplo que vigiar dignamente para Deus consiste em mostrar ao próximo, por palavras ou por atos, o caminho da verdade.
A Páscoa, que em hebraico é chamada de phase, não é nomeada a partir da Paixão, mas do Trânsito; pois o anjo exterminador, vendo o sangue nas portas dos israelitas, passou por elas e não feriu seus primogênitos. Ou o próprio Senhor, concedendo auxílio ao seu povo, caminhou sobre eles. Esta é a diferença entre a Páscoa e os Ázimos: a Páscoa é apenas o único dia chamado no qual o cordeiro era sacrificado à tarde, isto é, no décimo quarto dia da lua do primeiro mês; mas no décimo quinto dia, quando saíram do Egito, seguia-se a festividade dos Ázimos por sete dias, até o vigésimo primeiro dia do mesmo mês; por isso a Escritura do Evangelho costuma usar indiferentemente um pelo outro; daí que aqui se diz dia dos Ázimos, que é chamado Páscoa. Significa-se por este mistério que Cristo, tendo padecido uma vez por nós, ordenou que durante todo o tempo deste século, que se desenvolve em sete dias, vivamos nos ázimos de sinceridade e verdade.
Muitos, porém, se horrorizam com o crime de Judas, mas não se precavem: pois quem despreza os direitos da caridade e da verdade, trai a Cristo, que é a verdade e a caridade; principalmente quando não peca por fraqueza ou ignorância, mas, à semelhança de Judas, busca oportunidade para que, na ausência de testemunhas, transforme a verdade em mentira, a virtude em crime.
Preparam a Páscoa onde a ânfora de água é levada; porque é chegado o tempo em que para os observadores da verdadeira Páscoa, o sangue típico é removido do limiar; e é consagrado o Batismo da fonte vivificante para remover os pecados.
Mas é muito mais lógico que, assim como antes negou que comeria do cordeiro figurativo, agora também negue que voltará a provar da bebida da Páscoa, até que, manifestada a glória do Reino de Deus, a fé do mundo inteiro se revele; para que por meio da mudança espiritual dos dois maiores mandamentos da lei, a saber, o comer e o beber da Páscoa, aprendas que todos os Sacramentos da lei foram transferidos para uma observância espiritual.
Pois então os Apóstolos comungaram depois da ceia, porque era necessário que a Páscoa figurativa fosse primeiro completada, e então passassem ao Sacramento da verdadeira Páscoa. Mas agora, em honra de tão grande Sacramento, os mestres da Igreja consideram correto que sejamos primeiro reconfortados com o banquete espiritual, e depois com o terreno.
E, contudo, não o designa especialmente, para que, sendo mais claramente repreendido, não se tornasse mais impudente. Lança a acusação de forma coletiva, para que o culpado faça penitência. E prediz também o castigo, para que aquele a quem a vergonha não vencera, fosse corrigido pelos suplícios anunciados; por isso segue: e na verdade o Filho do homem vai, segundo o que está determinado.
Nesta regra, contudo, ensinada pelo Senhor, os maiores têm necessidade de não pouca discrição; para que, certamente, à semelhança dos reis das nações, não se deleitem em dominar sobre os súditos e em serem exaltados pelos louvores deles; e, no entanto, contra os vícios dos delinquentes, erguem-se pelo zelo da justiça. Às palavras de exortação, Ele acrescenta Seu próprio exemplo; por isso segue: "Pois quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve".
Pois não é o início do sofrimento, mas a perseverança, que é agraciada com a glória do reino celestial; porque à perseverança, que é chamada constância ou fortaleza da mente, dizemos ser a coluna de todas as virtudes. O Filho de Deus, portanto, conduz ao reino eterno aqueles que permanecem com Ele nas tentações. Porque se fomos plantados juntos na semelhança da sua morte, seremos também na semelhança da sua ressurreição; por isso segue-se "e eu disponho para vós, como meu Pai dispôs para mim, um reino".
Deve-se saber, porém, que com a permissão de Deus, os temerosos às vezes sofrem uma queda como remédio para a soberba precedente. Mas ainda que o delito do temeroso pareça ser o mesmo que o dos outros, ele difere não pouco: pois o temeroso peca por causa de certas ciladas e quase contra sua vontade; os outros, porém, não tendo cuidado nem consigo mesmos, nem com Deus, pecam, não distinguindo entre pecar e agir virtuosamente. Por isso, julgo que o modo de comando para eles deve ser diverso: pois o temeroso, necessitando de certa ajuda, deve suportar ordens relativas àquilo mesmo em que pecou; os outros, porém, tendo destruído todo o bem da alma, devem ser afligidos e admoestados, e submetidos a preceitos, até que lhes seja confirmado que Deus é um justo juiz, e tremam.
Ou as duas espadas são suficientes para o testemunho de que o Salvador sofreu voluntariamente: uma para ensinar aos apóstolos a audácia de lutar pelo Senhor e a virtude de curar que havia no Senhor; a outra que, nunca retirada da bainha, mostrava que não lhes era permitido fazer em sua defesa nem mesmo tudo o que poderiam.
Ao aproximar-se da paixão, o Salvador tomou em si mesmo a voz dos enfermos, para que quando aquilo que não queremos que aconteça estiver prestes a ocorrer, assim, devido à nossa fraqueza, peçamos que não suceda, enquanto por meio da fortaleza estejamos preparados para que a vontade do nosso Criador, mesmo contra a nossa vontade, seja feita.
Em outro lugar lemos que os anjos aproximaram-se e o serviam. Como testemunho, portanto, de ambas as naturezas, diz-se que os anjos tanto lhe serviram quanto o confortaram. Pois o Criador não necessitava da proteção de sua criatura; mas feito homem, assim como por nós se entristeceu, assim também por nós é confortado.
Como se dissesse: Por isso vos reunis contra mim nas trevas, porque o vosso poder, com o qual vos armais assim contra a luz do mundo, está nas trevas. Pergunta-se, porém, como Jesus dirigiu-se aos príncipes dos sacerdotes, aos magistrados do templo e aos anciãos que vieram a ele, quando segundo os outros Evangelistas, eles mesmos não vieram, mas aguardaram no átrio de Caifás e enviaram seus ministros. Mas responde-se a esta contradição que eles vieram não por si mesmos, mas pelo poder de sua ordem através daqueles que enviaram para prender Cristo.
Mas o fato de Pedro seguir o Senhor ao longe, quando este se dirigia à Paixão, significa que a Igreja haveria de segui-lo, isto é, imitar a Paixão do Senhor, mas de modo muito diferente: pois a Igreja padece por si mesma, mas Ele padeceu pela Igreja.
Faziam isso como insulto àquele que quis ser considerado como profeta pelo povo. Mas aquele que foi então golpeado com bofetadas dos judeus, é golpeado também agora com blasfêmias dos falsos cristãos. Eles O vendaram, não para que Ele não visse aqueles crimes, mas para esconder deles mesmos a face d'Ele. Os hereges, porém, e os judeus, e os maus católicos, provocando-O com atos reprováveis, como que zombando, dizem: quem foi que te feriu? Enquanto estimam que seus pensamentos e obras das trevas não são conhecidos por Ele.
Mas com estas palavras não acusam a Ele, mas a si mesmos. Pois ter ensinado ao povo, e pelo ensinamento tê-lo despertado da indolência do tempo anterior, e ao fazer isso ter percorrido toda a terra prometida, não é indício de crime, mas de virtude.
Pilatos, considerando que não devia interrogar o Senhor a respeito da acusação prévia, tendo encontrado uma ocasião, desejava antes libertá-lo do julgamento; por isso diz-se: Pilatos, porém, ouvindo falar da Galileia, perguntou se o homem era galileu. E para não ser obrigado a proferir sentença contra aquele que reconhecia ser inocente e entregue por inveja, enviou-o para que Herodes o ouvisse, para que ele mesmo, que era o tetrarca daquela pátria, o absolvesse ou o punisse. Segue-se: E quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, que também estava em Jerusalém naqueles dias.
Esta correção, com a qual Pilato procurava satisfazer ao povo, para que sua fúria não chegasse ao ponto de crucificar o Salvador, não só as palavras de São João testemunham que ele ofereceu, mas também que a executou juntamente com escárnios e açoites. Mas visto que toda a acusação que apresentaram contra o Senhor eles viam invalidada pelo cuidadoso interrogatório de Pilatos, por fim recorreram apenas a súplicas; por isso segue: mas eles insistiam com grandes clamores, pedindo que fosse crucificado; e as vozes deles prevaleciam.
Cuja imediata ressurreição pode dissolver a morte, cuja morte destruirá toda morte e o próprio autor da morte. Deve-se observar, porém, que quando ele as chama de filhas de Jerusalém, não estavam presentes apenas as mulheres que vieram com ele da Galileia, mas também cidadãos e mulheres da própria cidade que se uniram a eles.
Ou diferentemente: Fora do portão havia lugares onde se cortavam as cabeças dos condenados, e receberam o nome de Calvário, isto é, dos decapitados. E assim, para a salvação de todos, como culpado entre culpados é crucificado; para que onde abundou o pecado, superabundasse também a graça.
Nem se deve pensar que Ele orou aqui em vão; mas naqueles que depois da Sua paixão acreditaram, alcançou o que rogava. Note-se, com efeito, que não orou por aqueles que reconheceram estar crucificando o Filho de Deus, e não quiseram confessar; mas por aqueles que não sabiam o que faziam, tendo o zelo de Deus, mas não segundo o conhecimento; donde acrescenta "Porque não sabem o que fazem".
Porque todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte. Pelo Batismo, quando éramos pecadores, somos purificados; mas alguns, enquanto louvam a Deus que sofreu na carne, são coroados; outros, enquanto recusam ter a fé ou as obras do Batismo, são privados do dom que receberam.
Mas Lucas, querendo juntar milagre a milagre, acrescenta: "E o véu do templo rasgou-se ao meio". Isto aconteceu quando o Senhor expirou, como São Mateus e São Marcos testemunham, mas Lucas o narrou por antecipação.
Que feriam seus peitos, porque é sinal de penitência e luto, pode ser entendido de duas maneiras: ou bem porque doíam-se por aquele cuja vida amaram ter sido injustamente morto; ou bem porque tremiam ao recordar que haviam pedido a morte daquele que agora estava mais glorificado na morte. Deve-se notar, porém, que os gentios, temendo a Deus, O glorificam com voz de confissão aberta; os judeus, ferindo apenas o peito, voltam silenciosos para casa.
Decurião é chamado aquele que pertence à ordem da cúria e administra os ofícios da cúria, o qual também costuma ser chamado curial por cuidar dos deveres civis. José é louvado, portanto, por ter sido de grande dignidade no mundo, mas de maior mérito diante de Deus; por isso segue-se: varão bom e justo (este não havia consentido no conselho e nos atos deles) de Arimateia, cidade da Judeia. Arimateia é a mesma cidade de Ramata, de Elcana e Samuel.
As mulheres religiosas não somente no dia da preparação, mas também transcorrido o sábado, isto é, ao pôr do sol, tão logo retornou a permissão para trabalhar, compraram aromas para que, indo, ungissem o corpo de Jesus, como testifica São Marcos; no entanto, sendo já o início da noite, não puderam ir ao sepulcro; e por isto diz-se: "No primeiro dia da semana, bem de madrugada, vieram ao sepulcro, trazendo os aromas que haviam preparado". Um do sábado, ou o primeiro do sábado, é o primeiro dia depois do sábado, dia que o costume cristão chama de domingo por causa da ressurreição do Senhor. O fato de as mulheres terem vindo bem de madrugada ao sepulcro mostra o grande fervor da caridade em buscar e encontrar o Senhor.
Quando falavam sobre o Senhor, Ele se aproxima e os acompanha; para que tanto acenda em suas mentes a fé na ressurreição, quanto cumpra o que havia prometido, isto é, que "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles"; por isso segue: "E aconteceu que, enquanto conversavam e questionavam entre si, o próprio Jesus, aproximando-se, caminhava com eles".
Se, pois, Moisés e os profetas falaram de Cristo, e predisseram que Ele entraria na glória por meio da Paixão, como pode gloriar-se de ser cristão aquele que nem investiga de que modo as Escrituras se referem a Cristo, nem deseja alcançar por meio do sofrimento aquela glória que aspira ter com Cristo?
Os discípulos conheciam Cristo como verdadeiro homem, pois haviam convivido com Ele por tanto tempo; mas depois que Ele morreu, não acreditavam que a verdadeira carne pudesse ressurgir do sepulcro no terceiro dia. Pensavam, portanto, estar vendo o espírito que Ele emitiu na paixão; por isso segue: turbados e aterrorizados, julgavam ver um espírito. Este erro dos apóstolos é a seita dos Maniqueus.
Para insinuar, portanto, a verdade de sua ressurreição, não só dignou-se ser tocado pelos discípulos, mas também comer com eles, para que não considerassem que ele lhes apareceu não de modo sólido, mas imaginário; por isso segue e tendo comido diante deles, tomando as sobras, deu-lhes. Ele comeu por poder, não por necessidade: de um modo a terra sedenta absorve a água, de outro modo o sol ardente; aquela por indigência, este por potência.
Mas Cristo teria perdido o fruto de Sua Paixão se não houvesse a verdade da ressurreição; por isso acrescenta: e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia. Depois, tendo recomendado a verdade de seu corpo, recomenda a unidade da Igreja, acrescentando: e pregar em seu nome a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações.
E observe que Lucas, dentre os quatro animais do céu, é designado pelo vitelo; com cujo sacrifício, aqueles que eram escolhidos para o sacerdócio, receberam a ordem de serem iniciados, porque ele assumiu a tarefa de expor o sacerdócio de Cristo mais amplamente que os demais; e seu Evangelho, que começou pelo ministério do templo através do sacerdócio de Zacarias, completou-o com a devoção no templo: e concluiu com os apóstolos ali como ministros do novo sacerdócio futuro, não no sangue das vítimas, mas no louvor a Deus e na bênção: para que no lugar de oração e entre as devoções de louvores esperem com corações preparados a prometida vinda do Espírito Santo.
Deve-se comparar este princípio do Evangelho com o princípio de São Mateus, no qual diz: livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão; aqui, porém, é chamado filho de Deus: pois de ambos deve-se entender um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e do homem. E apropriadamente o primeiro Evangelista o nomeia filho do homem, e o segundo, filho de Deus, para que nosso entendimento se elevasse gradualmente das coisas menores às maiores, e pela fé e pelos sacramentos da humanidade assumida, ascendesse ao conhecimento da eternidade divina. Apropriadamente também, aquele que estava para descrever a geração humana começou pelo filho do homem, a saber, Davi ou Abraão; apropriadamente também aquele que iniciava seu livro desde o começo da pregação evangélica preferiu chamar Jesus Cristo de filho de Deus, porque era próprio da natureza humana receber a verdade da carne da linhagem dos patriarcas, e foi próprio da potência divina pregar o Evangelho ao mundo.
Mas João é chamado anjo, não por comunhão de natureza, segundo a heresia de Orígenes1, mas pela dignidade do ofício; pois anjo em grego, em latim se diz mensageiro, nome pelo qual pôde ser chamado corretamente aquele homem que foi enviado por Deus, para que desse testemunho da luz, e anunciasse ao mundo o Senhor, vindo na carne; uma vez que é evidente que todos os que exercem o sacerdócio podem, pelo ofício de evangelizar, ser chamados anjos, como diz o profeta Malaquias: "Os lábios do sacerdote guardam a ciência, e de sua boca buscam a lei, porque ele é o Anjo do Senhor dos exércitos"(Malaquias 2,7).
[1] Orígenes ensinava que todos os seres racionais, anjos, demônios e homens, eram de uma só natureza, diferindo apenas em posição e condição, de acordo com seus méritos (in Joan, tom. ii, 17) e capazes de mudança: que os homens tinham sido anjos: que os anjos tomaram natureza humana para servir ao homem, e que São João Batista era um anjo, citando este texto. (in Joan, ii, 25.) v Huet, Orig. II, qu. 5, No. 14, 24, 25. ↩
Assim então João não proclama o Senhor ainda manifestamente como Senhor ou Filho de Deus, mas somente como um homem mais forte que ele mesmo. Pois seus ouvintes ainda não eram capazes de compreender os mistérios ocultos de tão grande Sacramento, que o Filho eterno de Deus, tendo assumido a natureza humana da virgem, havia nascido recentemente no mundo; mas gradualmente, pelo reconhecimento de sua humildade glorificada, eles deveriam ser introduzidos à fé em sua Divina Eternidade. A estas palavras, contudo, ele acrescenta, como se declarasse veladamente que Ele era o verdadeiro Deus: Eu vos batizo com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo. Pois quem pode duvidar que ninguém, senão Deus, pode conceder a graça do Espírito Santo?
A mesma voz nos ensinou também que nós, pela água da ablução e pelo Espírito de santificação, podemos tornar-nos filhos de Deus. O mistério da Trindade também é demonstrado no Batismo: o Filho é batizado, o Espírito desce em forma de pomba, a voz do Pai prestando testemunho ao Filho é ouvida.
Deve-se considerar também que Cristo habita entre as feras como homem, mas, como Deus, utiliza o ministério dos Anjos. E nós, quando no deserto de uma santa conversação toleramos com mente imaculada os costumes bestiais dos homens, merecemos o ministério dos Anjos; pelos quais, livres do corpo, seremos transferidos à eterna bem-aventurança.
Ninguém, porém, pense que a entrega de São João à prisão ocorreu imediatamente após o jejum de quarenta dias do Senhor; pois quem quer que leia o Evangelho de São João, encontrará que o Senhor ensinou muitas coisas antes da entrega de São João, e realizou muitos milagres: pois se tem no Evangelho dele: "Este foi o início dos sinais que Jesus fez", e depois: "Pois São João ainda não tinha sido lançado na prisão". Conta-se que quando São João leu os volumes de São Mateus, São Marcos e São Lucas, aprovou de fato o texto da história, e confirmou que eles disseram a verdade, mas que haviam narrado a história de apenas um ano, no qual também padeceu, após o encarceramento de São João. Assim, omitindo o ano cujos atos haviam sido expostos pelos três, narrou os feitos do tempo anterior, antes que São João fosse encarcerado na prisão. Quando, portanto, São Marcos disse que Jesus veio à Galileia, pregando o Evangelho do reino, acrescenta, dizendo: "Porquanto o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo".
Pode-se questionar como ele chamou dois pescadores de cada barco (primeiro Pedro e André, depois, avançando um pouco mais, os outros dois, filhos de Zebedeu), quando São Lucas diz que Tiago e João foram chamados para ajudar Pedro e André, e que foi somente a Pedro que Cristo disse: "não temas; de agora em diante serás pescador de homens", e também diz que "ao mesmo tempo, quando trouxeram seus barcos para terra, eles o seguiram". Devemos, portanto, entender que o acontecimento que São Lucas menciona ocorreu primeiro, e depois eles, como era seu costume, haviam voltado à pesca. De modo que o que São Marcos relata aqui aconteceu posteriormente; pois neste caso eles seguiram o Senhor sem puxar seus barcos para a terra (o que teriam feito se pretendessem voltar), e o seguiram como alguém que os chamava e ordenava que o seguissem.
Os escribas também ensinavam aos povos aquilo que está escrito em Moisés e nos profetas; mas Jesus, como Deus e Senhor do próprio Moisés, com a liberdade de sua vontade, ou acrescentava à lei aquilo que parecia faltar, ou, modificando-a, pregava aos povos, como lemos em São Mateus: "Foi dito aos antigos (...) eu, porém, vos digo"(São Mateus 5,27).
Visto que pela inveja do Diabo a morte entrou no mundo inteiro, por isso o remédio da salvação devia primeiro operar contra o próprio autor da morte; e por isso se diz: e havia na sinagoga deles um homem com o espírito imundo.
Quanto ao fato de que distribui com mais frequência nos sábados os dons de sua medicina e doutrina, ensina que Ele não está sob a lei, mas acima da lei, e que não escolhe o sábado judaico; e que o descanso é estimado pelo Senhor, se, aplicando-nos à salvação das almas, nos abstemos da obra servil, isto é, de todas as coisas ilícitas. Segue-se que imediatamente a deixou a febre; e os servia. A saúde que é conferida pelo comando do Senhor retorna toda de uma vez, acompanhada de tanta força que ela é capaz de servir àqueles que a ajudaram. Se dissermos que o homem libertado do demônio significa, no sentido moral da interpretação, a alma purificada de pensamentos impuros, convenientemente a mulher curada da febre pelo comando de Deus significa a carne, refreada do ardor de sua concupiscência pelos preceitos da continência.
Misticamente, porém, se no ocaso do sol está expressa a morte do Salvador, por que não haveria de ser indicada pelo retorno da aurora a sua ressurreição? E assim, manifestada a luz, Ele partiu para o deserto dos gentios, e lá orava em seus fiéis, porque excitava os corações deles à virtude da oração pela graça do Espírito Santo.
Se alguém, de fato, se questiona como o Senhor parece aprovar o sacrifício judaico, quando a Igreja não o recebe, lembre-se que Ele ainda não havia oferecido seu holocausto na paixão. Pois não convinha que os sacrifícios significativos fossem removidos antes que aquilo que era significado fosse confirmado pelo testemunho dos apóstolos que pregavam e pela fé dos povos crentes.
Compreende-se também que, devido aos pecados, muitas fraquezas do corpo ocorrem; e por isso talvez primeiro sejam perdoados os pecados, para que, removidas as causas da debilidade, a saúde seja restituída. De fato, por cinco causas os homens são afligidos pelos sofrimentos da carne: ou para aumentar os méritos, como Jó e os mártires; ou para conservar a humildade, como Paulo pelo anjo de Satanás; ou para entender e corrigir os pecados, como Maria, irmã de Moisés, e este paralítico; ou para a glória de Deus, como o cego de nascença e Lázaro; ou como início da condenação, como Herodes. É admirável a virtude do poder divino, onde sem nenhuma demora de tempo, por ordem do Salvador, a saúde rapidamente acompanha; donde segue de tal forma que todos se admiravam. Deixando o maior, isto é, a remissão dos pecados, admiram somente o que aparece, ou seja, a saúde do corpo.
Chamam-se publicanos àqueles que exigem os tributos públicos, ou aos que são os arrendatários dos tributos do fisco ou das coisas públicas, e também são classificados pelo mesmo termo aqueles que buscam os lucros deste século por meio de negócios. Assim, haviam visto que o publicano, convertido dos pecados para uma vida melhor, encontrara lugar para a penitência, e por isso não desesperam da salvação. E os publicanos não vêm a Jesus permanecendo em seus vícios anteriores, como os fariseus e os escribas, mas fazendo penitência, como indica a seguinte passagem do Evangelista, dizendo era grande o número dos que o seguiam. Pois o Senhor ia aos banquetes dos pecadores para ter ocasião de ensiná-los e oferecer alimentos espirituais aos que o convidavam, o que concorda com as figuras dos mistérios; porque aquele que recebe Cristo internamente em sua morada é alimentado com as maiores delícias das abundantes alegrias. E assim o Senhor entra voluntariamente e repousa no afeto daquele que nele creu; e este é o convívio espiritual das boas obras, do qual o povo rico tem necessidade e o pobre se banqueteia.
Mas São João não bebe vinho nem cerveja; o Senhor come e bebe com os pecadores: porque a abstinência aumenta o mérito daquele que não possuía nenhum poder sobre a natureza; o Senhor, porém, a quem naturalmente competia perdoar os pecados, por que evitaria aqueles a quem podia tornar mais puros que os abstinentes? Mas também Cristo jejuou, para não se desviar do preceito; comeu com os pecadores, para que contemplasses a graça e reconhecesses o poder. E segue e lhes diz Jesus: Acaso podem os filhos das núpcias jejuar enquanto o esposo está com eles?
Em sentido místico, os discípulos atravessam os campos de trigo, quando os santos doutores observam com a solicitude de uma piedosa preocupação aqueles que instruíram na fé; e entendemos que estes nada melhor têm fome senão da salvação dos homens. Arrancar as espigas é retirar os homens da intenção terrena; esfregá-las com as mãos é, pelos exemplos das virtudes, despir a pureza da mente da concupiscência da carne, como se fossem cascas; comer os grãos é fazer com que cada um, purificado das sujeiras dos vícios pela boca dos pregadores, seja incorporado aos membros da Igreja. E corretamente se menciona que os discípulos fizeram isso caminhando diante da face do Senhor: porque é necessário que a palavra do doutor preceda, e assim o coração do ouvinte seja iluminado pela graça subsequente da visita divina. Acertadamente, nos sábados: porque também os próprios doutores, ao pregar, trabalham pela esperança do descanso futuro, e exortam seus ouvintes a se esforçarem em trabalhos pela eterna quietude.
E prevendo a calúnia dos judeus, que eles lhe haviam preparado, arguiu-os, porque violavam os preceitos da lei com uma interpretação equivocada; por isso segue e diz-lhes: É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Isso, porém, pergunta porque estimavam que no sábado devia-se abster até mesmo das boas obras, quando a lei manda abster-se das más, dizendo: não fareis nele nenhuma obra servil, isto é, o pecado: porque quem comete o pecado, é servo do pecado. O mesmo é o que havia dito antes, fazer o bem ou fazer o mal, e o que depois acrescenta, salvar a alma ou perdê-la? Isto é, curar o homem ou não; não porque Deus, sumo bem, possa ser para nós autor de perdição, mas porque o seu não salvar, pelo costume da Escritura, é chamado de perder. Se, porém, alguém se admira de por que o Senhor, quando estava para curar o corpo, interrogou sobre a salvação da alma, entenda que, ou a alma foi posta no lugar do homem, segundo o costume das Escrituras, como se diz: essas são as almas que saíram da coxa de Jacó; ou porque fazia aqueles milagres para a salvação da alma; ou porque a própria cura da mão significava a salvação da alma.
Pois estes, vendo as obras de suas virtudes e ouvindo as palavras de sua doutrina, o perseguiam; mas aqueles, conduzidos apenas pela fama de suas virtudes, vinham em grandíssima multidão para ouvi-lo e pedir o auxílio da salvação; por isso segue-se: e disse aos discípulos que tivessem uma barca à sua disposição.
Pois neste sacramento os filhos de Israel acampavam outrora ao redor do tabernáculo, de modo que em cada lado do quadrado permaneciam três tribos. Ora, três vezes quatro fazem doze, e os apóstolos foram enviados em três grupos de quatro para pregar, a fim de que, pelas quatro regiões de todo o mundo, batizassem as nações em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Segue-se e deu-lhes poder para curar enfermidades e expulsar demônios; a saber, para que a grandeza dos feitos atestasse a grandeza das promessas celestiais, e fizessem coisas novas aqueles que pregavam coisas novas.
Quão bem-aventurada era verdadeiramente a frequência da multidão confluente, que tinha tanto cuidado para obter a salvação, que ao autor da salvação com aqueles que estavam com ele não restava nem mesmo uma hora livre para comer; mas a quem a multidão externa frequenta, a este a estima dos parentes menospreza; pois segue-se e quando os seus ouviram isso, saíram para contê-lo. Porque, como não podiam compreender a altura da sabedoria que ouviam, acreditavam que ele havia falado como que em estado alienado; de onde segue-se diziam, pois, que estava fora de si.
Nem todavia aqueles, que não acreditam que o Espírito Santo seja Deus, são considerados culpados de um crime de blasfêmia irremissível, porque fazem isto conduzidos não por inveja diabólica, mas por ignorância humana.
Os irmãos do Senhor não devem ser considerados filhos da sempre virgem Maria, conforme Helvidio 1, nem filhos de José com outra esposa, conforme pensam alguns, mas antes devem ser entendidos como seus parentes.
[1] A virgindade perpétua da Mãe de Deus é considerada por White, Bramhall, Patrick e Pearson entre as tradições que sempre foram mantidas na Igreja Católica. Para um relato dos hereges que a negaram, veja Bp. Pearson sobre o Credo, Art. 3, p. 272, nota x., também Catena Aurea em São Mateus, p. 58, nota c. ↩
Ou produz trinta, quando alguém infunde a fé na Santa Trindade nos corações dos eleitos; sessenta, quando ensina a perfeição das boas obras; cem, quando mostra os prêmios do reino celestial: pois ao contar cem, passa-se para a mão direita1: por isso esse número é adequadamente colocado como significado da felicidade eterna. A terra boa, porém, é a consciência dos eleitos, que faz o contrário de todas as três terras mencionadas anteriormente: pois tanto recebe de bom grado a semente da palavra que lhe foi confiada, quanto, uma vez recebida, a conserva constantemente em meio às adversidades e prosperidades até o tempo dos frutos.
[1] Ele alude ao modo de contar entre os antigos. Todos os números eram indicados pelos dedos da mão esquerda, quer estendidos ou variadamente dobrados, até cem; e então mudavam para a direita. Consulte Caelius Rhodiginus, Lectionum Antiq. lib. 23, cap. 11, 12. ↩
Ou porque o tempo de nossa vida está contido sob uma certa medida da divina providência, é corretamente comparado a um alqueire; e o leito da alma é o corpo, no qual ela habita e repousa temporariamente. Aquele, pois, que, por amor da vida temporal e das seduções carnais, oculta a palavra de Deus, cobre a lâmpada com um alqueire ou com um leito; mas coloca a lâmpada sobre o candelabro aquele que submete seu corpo ao ministério da palavra de Deus; por isso, nestas palavras, ele ensina figuradamente a forma de pregar; donde se segue: pois não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar manifesto; como se dissesse: Não vos envergonheis do Evangelho, mas em meio às trevas das perseguições, elevai a luz da palavra de Deus sobre o candelabro de vosso corpo, mantendo fixamente em vossa mente aquele dia em que Deus iluminará o que está escondido nas trevas; pois então o louvor eterno vos aguarda, e aos vossos adversários, a pena eterna.
O homem que semeia, por muitos é entendido como sendo o próprio Salvador, enquanto por outros é entendido como o próprio homem semeando em seu coração.
Mas que o Senhor não tenha admitido aquele que desejava estar com Ele, significa que cada um, após a remissão dos pecados, deve compreender que precisa entrar em sua boa consciência e servir ao Evangelho pela salvação dos outros, para que depois possa descansar com Cristo.
Por isso uma mulher crédula toca o Senhor, enquanto a multidão o oprime: porque aquele que é oprimido por diversas heresias, ou por costumes perversos, é venerado somente pelo coração fiel da Igreja Católica. A Igreja dos gentios, porém, vem por trás: porque não vendo o Senhor presente na carne, mas depois de já cumpridos os mistérios de sua Encarnação, chegou à graça de sua fé; e assim, ao merecer ser salva dos seus pecados pela participação nos seus sacramentos, como que secou a fonte do seu sangue pelo toque em suas vestes. O Senhor, porém, olhava ao redor para ver aquela que tinha feito isso: porque a todos os que merecem ser salvos, Ele julga dignos do seu olhar e da sua misericórdia.
Pois para os homens ela estava morta, que eram incapazes de ressuscitá-la; para Deus, porém, ela dormia, em cuja disposição tanto a alma vivia, quanto a carne descansava para ressurgir. Daí surgiu o costume entre os cristãos de chamar de dormentes aos mortos, de cuja ressurreição não se duvida. Segue-se e escarneciam dele.
Não se admira como se fosse algo inesperado e imprevisto aquele que conhece todas as coisas antes mesmo que aconteçam; mas aquele que conhece o oculto dos corações, quando quer mostrar aos homens algo admirável, manifesta diante dos homens que se admira. E por certo é admirável a cegueira dos judeus, que nem quiseram crer no que seus profetas diziam sobre Cristo, nem naquele Cristo que nasceu entre eles. Em sentido místico, Jesus é desprezado em sua casa e em sua pátria, isto é, no povo dos judeus; e por isso realizou poucos sinais ali, para que não se tornassem completamente desculpáveis. Já maiores sinais realiza diariamente entre o povo dos gentios, não tanto quanto à saúde dos corpos, mas quanto à salvação das almas.
Benigno e clemente Senhor e Mestre não inveja aos seus servos e discípulos as suas virtudes; e assim como Ele mesmo curara toda languidade e toda enfermidade, também deu aos seus apóstolos o poder; donde segue: e convocou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e lhes deu poder sobre os espíritos imundos. Mas há grande distância entre dar e receber: Ele, o que quer que faça, faz pelo poder do Senhor; eles, se fazem algo, confessam sua fraqueza e o poder do Senhor, dizendo: em nome de Jesus, levanta-te e anda.
Aqui somos ensinados quão grande foi a inveja dos judeus. Pois, eis que acreditavam que São João, de quem foi dito que não fez nenhum milagre, podia ressuscitar dos mortos, sem que ninguém o atestasse. Mas Jesus, aprovado por Deus com virtudes e sinais, cuja ressurreição Anjos, apóstolos, homens e mulheres proclamavam, preferiram acreditar que fora levado furtivamente, ao invés de supor que Ele havia ressuscitado. E esses homens, ao dizerem que São João ressuscitara dos mortos, e que por isso obras poderosas eram realizadas nele, tinham pensamentos corretos sobre o poder da ressurreição, pois os homens, quando ressuscitarem dos mortos, terão muito maior poder do que possuíam quando ainda eram oprimidos pela fraqueza da carne. Segue-se: outros, porém, diziam que era Elias.
Uma antiga história narra que Filipe, filho de Herodes o grande, sob o qual o Senhor fugiu para o Egito, irmão deste Herodes, sob o qual Cristo padeceu, tomou por esposa Herodíades, filha do rei Aretas; porém, depois, seu sogro, tendo surgido certas desavenças contra o genro, tirou sua filha e, para tristeza do marido anterior, uniu-a em núpcias ao inimigo dele, Herodes. Portanto, São João Batista repreendeu Herodes e Herodíades, porque contraíram núpcias ilícitas, e porque não é lícito, estando vivo o irmão legítimo, tomar a esposa dele.
Ele mostra qual foi a necessidade de conceder descanso aos discípulos quando acrescenta: pois eram muitos os que iam e vinham, e nem sequer tinham tempo para comer, onde se demonstra a felicidade daquele tempo, tanto pelo trabalho dos que ensinavam quanto pelo zelo dos que aprendiam. Segue-se: e subindo a um barco, foram para um lugar deserto, à parte. Não foram apenas os discípulos, mas tomando o Senhor consigo, subiram ao barco e dirigiram-se a um lugar deserto, como São Mateus demonstra. Ele prova a fé das multidões: buscando a solidão, explora se elas se preocupam em segui-lo; e elas, seguindo-o não em jumentos ou em diversos veículos, mas com o próprio esforço dos pés, mostram quanto cuidado têm com sua salvação. Segue-se: e viram-nos partir, e muitos os reconheceram, e correram a pé de todas as cidades para lá, e chegaram antes deles. Quando se diz que os pedestres chegaram antes, mostra-se que os discípulos com o Senhor não chegaram à outra margem do mar ou do Jordão, mas foram a lugares próximos da mesma região, aos quais também os habitantes locais podiam chegar a pé antes deles.
Sobre o feno, pois, os que se reclinam são alimentados com alimentos do Senhor, aqueles que, pela continência, tendo pisado as concupiscências, dedicam esforço em ouvir e cumprir as palavras de Deus. O Salvador, porém, não cria novos alimentos: porque, vindo na carne, não prega outras coisas senão as que foram pregadas; mas demonstra quão cheios estão de mistérios da graça os escritos da lei e dos profetas. Olha para o céu, para que ensine que ali se deve buscar a luz. Parte o pão e o distribui aos discípulos para ser colocado diante das multidões: porque revelou os sacramentos da profecia aos santos doutores, para que os preguem por todo o mundo. O que sobra às multidões é recolhido pelos discípulos: porque os mistérios mais secretos, que não podem ser compreendidos pelos ignorantes, não devem ser negligentemente omitidos, mas devem ser investigados pelos perfeitos. Pois pelos doze cestos são figurados os doze apóstolos e os doutores seguintes, exteriormente desprezados pelos homens, mas interiormente repletos das sobras do alimento saudável. Pois é sabido que com cestos costumam-se realizar trabalhos servis.
Teodoto, que outrora foi bispo de Pharan, escreveu que o Senhor não tinha peso corporal segundo a carne, mas que andava sobre o mar sem peso; mas a fé Católica proclama que Ele tinha peso segundo a carne. Pois Dionísio, notável entre os escritores eclesiásticos, em seu opúsculo sobre os nomes divinos, fala deste modo: "Ignoramos como, com pés não submersos que tinham peso corporal e carga material, Ele andava sobre a substância úmida e instável?"
[nota do editor: Esta opinião da qual Teodoro é acusado era uma posição mantida pelos Fantasiastas, uma seita dos Monofisitas. A negação do corpo humano de Nosso Senhor era uma consequência natural de negar-Lhe uma alma humana, pois como poderia um corpo humano conter, por assim dizer, Sua Divindade? Teodoro era Bispo de Pharan, na Arábia, e foi condenado como autor da heresia Monotelita no Concílio de Latrão sob o Papa Martinho I, em 649 d.C. A passagem de Dionísio é citada na Ação 3 do Concílio, e ocorre em De Div. Nom, c. 1]
Misticamente, porém, entende pela franja de seu vestido o menor mandamento; o qual todo aquele que transgredir, será chamado o menor no reino dos céus(São Mateus 5,19): ou a assunção da carne, pela qual chegamos ao Verbo de Deus, e depois fruímos de sua majestade.
Pode-se também dar a isto brevemente este sentido: a oferenda que vem de mim te será proveitosa. Obrigais, diz ele, os filhos a dizerem aos seus pais: qualquer oferenda que eu estava para oferecer a Deus, a gasto em teu sustento, e te é proveitosa, ó pai e mãe; como se dissessem: não é proveitosa; de modo que, eles, temendo aceitar o que viam consagrado a Deus, preferiam levar uma vida de pobreza a comer das coisas consagradas.
Pois os judeus, vangloriando-se de serem parte de Deus, chamam comuns os alimentos que todos os homens usam, como ostras, lebres e animais desse tipo. Nem mesmo o que é oferecido aos ídolos é impuro, enquanto alimento e criatura de Deus; é a invocação dos demônios que o torna impuro. E Ele acrescenta a causa disso, dizendo: porque não entra no seu coração. O lugar principal da alma, segundo Platão, é o cérebro; mas, segundo Cristo, está no coração.
Por causa da humilde e fiel palavra da mãe, o demônio abandonou a filha; onde se dá o exemplo para catequizar e batizar os infantes, visto que, pela fé e confissão dos pais, as crianças pequenas são libertadas do Diabo no Batismo, embora ainda não possam por si mesmas compreender ou realizar algo de bom ou de mal.
O que ele diz, ephphatha, isto é, abri-vos, refere-se propriamente aos ouvidos: pois os ouvidos devem ser abertos para ouvir, e a língua, para que pudesse falar, devia ser liberada das amarras de sua lentidão; donde segue e imediatamente foram abertos os seus ouvidos, e foi solto o vínculo de sua língua, e falava corretamente: onde ambas as naturezas de um e mesmo Cristo manifestamente se distinguem. Olhando para o céu, como homem suplicando a Deus, gemeu; mas logo com uma só palavra, como sendo poderoso na divina majestade, curou. Segue-se e mandou-lhes que a ninguém o dissessem.
Pois quando o Senhor partiu os pães, isto significa a revelação dos sacramentos; quando deu graças, mostra o quanto se alegra pela salvação do gênero humano; quando deu os pães aos discípulos para que os servissem à multidão, significa que concedeu aos apóstolos os dons espirituais da ciência, e por meio do ministério deles quis distribuir à sua Igreja o alimento da vida.
Assim como antes, quando estava prestes a alimentar a multidão que cria, dava graças, assim agora geme por causa da insensata petição dos fariseus. Pois, trazendo consigo os afetos da natureza humana, assim como se alegra pela salvação dos homens, assim também se entristece pelos seus erros; por isso segue-se: e gemendo em espírito disse: Por que esta geração busca um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não será dado um sinal; isto é, não será dado, conforme aquilo: Jurei uma vez por minha santidade, se eu mentir a Davi; isto é, não mentirei a Davi.
Ou ainda: ao cuspir nos olhos do cego, impõe suas mãos para que veja, porque removeu a cegueira do gênero humano tanto pelos dons invisíveis quanto pelos sacramentos da humanidade assumida; pois a saliva, que procede da cabeça do homem, designa a graça do Espírito Santo. Mas aquele que com uma só palavra poderia curar totalmente e de uma só vez, cura gradualmente, para mostrar a magnitude da cegueira humana, que dificilmente e como que passo a passo retorna à luz; e nos revela sua graça, pela qual auxilia cada etapa rumo à perfeição. Ademais, quem quer que esteja oprimido por uma cegueira de tão longa duração, que não seja capaz de discernir entre o bem e o mal, vê homens como se fossem árvores caminhando, porque vê as ações da multidão sem a luz do discernimento.
Por isso primeiramente interroga a opinião dos homens, para examinar a fé dos discípulos, a fim de que a confissão deles não parecesse fundamentada na opinião do vulgo. Segue-se que lhe responderam, dizendo: uns dizem que João Batista, outros que Elias, outros, porém, como que um dos profetas.
Ou então o reino de Deus presente é chamado Igreja. Alguns dos discípulos haveriam de viver no corpo até que vissem a Igreja construída e erguida contra a glória do mundo; pois era conveniente prometer algo concernente à vida presente aos discípulos ainda rudimentares, para que pudessem ser edificados com maior fortaleza para o tempo futuro.
E deve-se notar que, assim como quando o Senhor foi batizado no Jordão, também no monte, quando foi glorificado, todo o mistério da Santíssima Trindade é revelado: porque veremos na ressurreição aquela glória da Trindade que nós fiéis confessamos no Batismo, e a louvaremos todos juntos. E não é sem razão que o Espírito Santo aqui apareceu em uma nuvem luminosa, e lá na forma de uma pomba: porque aquele que agora com coração simples guarda a fé que recebeu, contemplará então o que acreditou com o esplendor da visão clara. Quando, porém, a voz soou sobre o Filho, Ele foi encontrado sozinho: porque quando Ele se manifestar aos Seus eleitos, Deus será tudo em todos; mais ainda, Cristo com os Seus, como a Cabeça com o corpo, resplandecerá por todas as coisas.
Restituirá, porém, todas as coisas, certamente aquelas que Malaquias mostra, dizendo: "Eis que vos enviarei Elias profeta, para converter o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais"(Malaquias 4,5-6). Restituirá também aquilo que deve à morte, e que, vivendo por longo tempo, adiou pagar.
Mas aquele a quem o ímpio inimigo tornou semelhante à morte, o piedoso Salvador salvou pelo toque de sua piedosa mão direita; donde segue que Jesus, tomando-o pela mão, o levantou, e ele se ergueu. Pelo que, assim como se mostrou ser o verdadeiro Deus pela potência de salvar, também declarou ter a verdadeira natureza da carne pelo modo do toque humano. Pois nega o insensato Maniqueu1 que Ele tenha sido verdadeiramente revestido de carne; porém Ele mesmo, ao erguer, purificar e iluminar tantos enfermos com seu toque, condenou aquela heresia antes mesmo que nascesse. Segue-se: E quando entrou em casa, seus discípulos lhe perguntaram em segredo: Por que não pudemos nós expulsá-lo?
[1] "Seu princípio fundamental do mal intrínseco da matéria e o estado degradado da mente, que suas especulações sobre o nascimento segundo a carne trouxeram consigo, envolveu a negação da Encarnação de Nosso Senhor e, como consequência, da realidade de toda a Sua vida." (Nota a, sobre as Confissões de Santo Agostinho, Oxf. Tr. p. 325) ↩
Parece que a disputa entre os discípulos sobre o primado surgiu porque viram Pedro, Tiago e João serem conduzidos separadamente ao monte, e algo secreto lhes ter sido confiado; mas também porque a Pedro, segundo São Mateus, foram prometidas as chaves do reino dos céus. Vendo, porém, os pensamentos dos discípulos, o Senhor cuida de sanar o desejo de glória com a humildade, e que o primado não deve ser buscado, primeiramente os adverte com o simples mandamento da humildade; por isso segue: e sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e servo de todos.
E corretamente aquele que pode se escandalizar é chamado pequenino: pois aquele que é grande, qualquer coisa que tenha que sofrer, não se afasta da fé; mas aquele que é pequeno de ânimo, e fraco, busca ocasiões pelas quais se escandalize. Por isso devemos cuidar principalmente daqueles que são pequenos na fé, para que por nossa causa não se ofendam, e se afastem da fé, e decaiam da salvação.
Podemos também entender assim: que o altar de Deus é o coração dos eleitos; e as hóstias e sacrifícios a serem oferecidos neste altar são as boas obras dos fiéis. Mas em todos os sacrifícios deve-se oferecer o sal, porque nenhuma obra é boa se o sal da sabedoria não a purifica de toda corrupção do louvor vão e dos demais pensamentos maus ou supérfluos.
O que, portanto, Deus uniu, fazendo uma só carne do homem e da mulher, isso o homem não pode separar, mas somente Deus. O homem separa quando, por causa do desejo de uma segunda esposa, abandonamos a primeira; Deus separa quando, por consenso mútuo, por causa do serviço a Deus, temos esposas como se não as tivéssemos1.
[1] Referência a Primeira Carta aos Coríntios 7,5 e 7,29, onde São Paulo fala sobre a abstinência temporária por mútuo consentimento e sobre viver como se não tivesse esposa. ↩
Isto é, se não tiverdes tal inocência e pureza de ânimo como a que tem o menino, não podereis entrar no reino dos céus. De outra maneira: O reino de Deus, isto é, a doutrina do Evangelho, somos ordenados a receber como um menino, porque assim como o menino, ao aprender, não contradiz seus mestres, nem compõe raciocínios e palavras resistindo a eles, mas recebe fielmente o que ensinam, e com temor obedece e aprende; assim também nós, obedecendo simplesmente e sem qualquer contradição, devemos receber a palavra do Senhor. Segue-se e abraçando-os, e impondo-lhes as mãos, os abençoava.
Mas por este único Deus, que é bom, não se deve entender apenas o Pai, mas também o Filho, que diz: "Eu sou o bom pastor"(São João 10,11); e também o Espírito Santo, porque é dito: "o Pai que está nos céus dará o Espírito bom aos que lhe pedirem"(São Lucas 11,13). Pois a própria Trindade una e indivisível, Pai, Filho e Espírito Santo, é o único e bom Deus. O Senhor, portanto, não nega ser bom, mas indica que é Deus; não nega que é bom Mestre, mas declara que nenhum mestre é bom senão Deus.
Pode certamente ser entendido de modo mais profundo o que disse receberá cem vezes mais. De fato, o número cem, transferido da esquerda para a direita, ainda que pareça ter a mesma figura na flexão dos dedos que tinha o número dez na esquerda, cresce muito em grandeza quantitativa. Isto significa que todos os que desprezaram as coisas temporais pelo reino de Deus, nesta vida cheia de perseguições, degustam com fé certa a alegria do mesmo reino, e na expectativa da pátria celestial, que se significa pela direita, desfrutam do deleite de todos os eleitos. Mas como muitos não consumam os esforços das virtudes com a mesma intenção de piedade com que começaram, logo acrescenta muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos primeiros. Diariamente vemos muitos que, permanecendo em hábito laico, sobressaem pelos grandes méritos de sua vida; e outros que, desde a primeira idade, fervorosos no zelo espiritual, ao fim se esgotam entorpecidos pelo ócio, e com inerte estultícia, o que começaram pelo espírito, consomem pela carne.
Para que nem eles mesmos fossem mortos com Ele, ou ao menos para que aquele, cuja vida e magistério os alegrava, não sucumbisse nas mãos dos inimigos. Prevendo, porém, o Senhor que os ânimos dos discípulos seriam perturbados por sua paixão, prediz-lhes tanto a pena de sua paixão como a glória de sua ressurreição; por isso segue: e tomando novamente os doze, começou a dizer-lhes o que lhe havia de acontecer.
Pergunta-se, porém, como Tiago e João beberam o cálice do martírio, ou como foram batizados com o Batismo do Senhor, quando a Escritura narra que apenas o apóstolo Tiago foi decapitado por Herodes, enquanto João terminou sua vida por morte natural. Mas se lermos as histórias eclesiásticas, nas quais se relata que também ele, por causa do martírio, foi lançado em um caldeirão de óleo fervente, e imediatamente relegado à ilha de Patmos; assim veremos que o espírito de martírio não faltou a João; e que João bebeu o cálice da confissão, que também os três jovens beberam na fornalha de fogo, embora o perseguidor não tenha derramado seu sangue. Segue-se: "Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me cabe conceder a vós, mas é para aqueles para quem está preparado".
No qual Ele ensina que aquele é maior que for menor, e que se torna senhor aquele que se faz servo de todos. Em vão, portanto, uns haviam buscado coisas imoderadas, ou outros sofrem pelo desejo de grandezas, pois não se chega ao cume das virtudes pelo poder, mas pela humildade. Depois, propõe um exemplo; para que, se dessem pouco valor às palavras, se envergonhassem com as obras; e diz: pois nem o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos.
Em sentido místico, Jericó, que se interpreta como lua, designa o defeito de nossa mutabilidade. O Senhor, aproximando-se de Jericó, devolveu a luz ao cego: porque vindo na carne e aproximando-se da paixão, trouxe muitos à fé. Pois não foi nos primeiros tempos de sua encarnação, mas poucos anos antes de padecer, que revelou ao mundo o mistério do Verbo.
Betânia significa casa da obediência: porque ensinando a muitos antes de sua paixão, fez para si uma morada de obediência; e diz-se estar situada no monte das Oliveiras, porque nutre a Igreja com a unção dos carismas espirituais e com a luz da ciência e da piedade. Enviou, porém, seus discípulos ao povoado que estava diante deles; isto é, destinou os doutores para que penetrassem, evangelizando, nas partes indoutas do mundo, como nas muralhas de uma cidadela que lhes estava oposta.
Assim como fala por parábolas, assim também opera; por isso, tendo fome, busca fruto na figueira, embora saiba que ainda não é tempo, e, contudo, a condena à perpétua esterilidade, para mostrar que o povo judeu, por causa das folhas, isto é, das palavras de justiça que tinha sem fruto, ou seja, sem boas obras, não poderia ser salvo, mas seria cortado e lançado ao fogo. Tendo fome, portanto, isto é, desejando a salvação do gênero humano, viu a figueira, isto é, o judeu, que tinha folhas, ou seja, as palavras da lei e dos profetas, e procurou nela o fruto das boas obras, ensinando, corrigindo, fazendo milagres; e não encontrou, e por isso a condenou. Tu também, se não queres ser condenado por Cristo no juízo, evita ser árvore estéril; mas, antes, oferece ao Cristo pobre o fruto da piedade de que Ele necessita.
Como o Espírito Santo apareceu sobre o Senhor na forma de uma pomba, corretamente pelos nomes de pombas são designados os carismas do Espírito Santo. A pomba, portanto, é vendida quando a imposição das mãos, pela qual o Espírito Santo é recebido, é oferecida por um preço. E derruba as cadeiras dos que vendem pombas: porque aqueles que vendem a graça espiritual são privados do sacerdócio, seja diante dos homens, seja diante dos olhos de Deus.
A figueira secou desde as raízes, para mostrar que a nação ímpia não deveria ser corrigida apenas por um tempo ou em parte pelas incursões externas, e libertada pela penitência, como frequentemente aconteceu; mas deveria ser ferida pela condenação eterna. Ou secou desde as raízes, para mostrar que seria destituída completamente não só do favor humano exteriormente, mas também do favor divino interiormente: pois perdeu tanto a vida nos céus, quanto a pátria na terra.
O Senhor poderia certamente refutar com uma resposta franca as calúnias dos que o tentavam; mas prudentemente os interroga, para que sejam condenados por seu próprio silêncio ou por suas palavras: o que se evidencia pelo que se segue: e eles pensavam consigo mesmos, dizendo: Se dissermos: do céu, ele nos dirá: por que então não crestes nele? Como se dissesse: Aquele que confessais ter recebido do céu o dom da profecia deu testemunho de mim, e dele ouvistes em virtude de qual poder faço estas coisas. Segue-se: se dissermos: dos homens. Viram, portanto, que qualquer que fosse sua resposta, cairiam em armadilha, temendo ser apedrejados, mas temendo ainda mais a confissão da verdade; pelo que segue: e respondendo, disseram a Jesus: não sabemos.
Os príncipes dos sacerdotes, porém, mostravam ser verdadeiras as coisas que o Senhor havia dito; o que fica evidente pelo que se segue: e procuravam prendê-lo. Pois ele próprio é o herdeiro, cuja injusta morte dizia que seria vingada pelo pai. Moralmente, a cada um dos fiéis, quando lhe é confiado o mistério do Batismo, é entregue uma vinha para que a cultive. Mas o servo enviado é insultado, espancado e expulso, quando a palavra ouvida ou é desprezada ou, o que é pior, até mesmo blasfemada. Além disso, mata o herdeiro enviado, tanto quanto está em seu poder, aquele que pisoteou o Filho de Deus. Destruído o mau cultivador, a vinha é dada a outro, quando o humilde será enriquecido com aquele dom da graça que o soberbo desprezou. Mas isto, que os príncipes dos sacerdotes, querendo pôr as mãos em Jesus, são contidos pelo temor da multidão, acontece diariamente na Igreja, quando qualquer um que é irmão apenas de nome, ou se envergonha ou teme atacar a unidade da fé eclesiástica e da paz, a qual não ama, por causa da multidão de bons irmãos que habitam juntos nela.
O denário é um tipo de moeda que era contado por dez moedas e tinha a imagem de César; donde segue: e lhes disse: de quem é esta imagem e inscrição? Dizem-lhe: de César. Aqueles que pensam que a interrogação do Salvador é ignorância, e não disposição, aprendam disto que Ele poderia saber de quem era a imagem; mas interroga para responder adequadamente ao discurso deles; donde segue: respondendo, pois, Jesus disse-lhes: dai, portanto, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
Pois com razão eles forjam uma fábula deste tipo, que atribui loucura àqueles que afirmam a ressurreição dos corpos. Pode, porém, ter ocorrido que verdadeiramente em algum momento algo assim tenha acontecido entre eles.
Mostra, a partir do que diz "é maior que todos os holocaustos e sacrifícios", que frequentemente se debatia uma grave questão entre os escribas e fariseus sobre qual seria o mandamento primeiro ou o maior da lei divina; pois alguns louvavam as oferendas e sacrifícios, enquanto outros preferiam as obras de fé e de amor, porque muitos dos pais antes da lei agradavam a Deus somente pela fé que opera por meio do amor. Nesta opinião, este escriba declara que estava. Segue-se: "Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus".
A interrogação de Jesus nos é útil até hoje contra os judeus: pois aqueles que confessam que o Cristo há de vir, afirmam que Ele é um simples homem e varão santo da linhagem de David. Perguntemos, pois, a eles, instruídos pelo Senhor: se é um simples homem e somente filho de David, como David o chama seu Senhor no Espírito Santo? Porém, não são repreendidos por chamá-lo filho de David, mas por não acreditarem que Ele é Filho de Deus. Segue-se: "E uma grande multidão o ouvia de boa vontade".
Não somente buscam louvores dos homens, mas também riquezas; por isso segue que devoram as casas das viúvas sob pretexto de longas orações. Existem aqueles que, simulando ser justos, perturbados pela consciência de seus pecados, não hesitam em receber dinheiro como se fossem ser defensores delas no juízo futuro; e enquanto a mão estendida ao pobre costuma auxiliar as orações, eles principalmente pernoitam em orações para tirar do pobre suas moedas.
Alegoricamente, os ricos que depositavam suas oferendas no tesouro designam os judeus que se orgulhavam da justiça da lei. A viúva pobre designa a simplicidade da Igreja: pobre, de fato, porque rejeitou o espírito de soberba e as concupiscências das coisas temporais; e viúva porque Jesus, seu esposo, suportou a morte por ela. Ela coloca no tesouro dois pequenos tostões: porque traz a dileção a Deus e ao próximo, ou as oferendas da fé e da oração, que são consideradas pequenas por sua própria fragilidade, mas por mérito da piedosa intenção são aceitas e superam todas as obras dos judeus soberbos. O judeu coloca no tesouro do que lhe é abundante, pois presume de sua própria justiça. A Igreja coloca todo o seu sustento nas oferendas de Deus, porque compreende que tudo o que vive não é por seu próprio mérito, mas por dom divino.
Porque uma vez fundada a Igreja de Cristo, a Judeia haveria de expiar as penas merecidas pela sua perfídia, apropriadamente o Senhor, após ter louvado na pobre viúva a devoção da Igreja, sai do templo e predisse a sua futura ruína e que as construções, agora admiráveis, não muito depois seriam desprezadas; por isso se diz: "E, ao sair do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras e que estruturas!"
Consta que isto aconteceu literalmente no tempo da sedição judaica. Mas pode-se entender o reino contra reino, e a pestilência daqueles cujas palavras se espalham como um câncer, e a fome de ouvir a palavra de Deus, e a comoção de toda a terra, e a separação da verdadeira fé, mais propriamente nos hereges que, combatendo uns contra os outros, fazem a vitória da Igreja.
O Senhor manifesta por qual mérito foram infligidas tantas adversidades a Jerusalém e a toda a província dos judeus, quando diz: "Mas tomai cuidado de vós mesmos: porque vos entregarão aos concílios, e nas sinagogas sereis açoitados". Certamente a maior causa da destruição para o povo judaico foi que, depois de matarem o Salvador, também atormentavam com ímpia crueldade os arautos do seu nome e fé.
Ou de outro modo. Estas coisas que diz a partir daquele lugar, serão dias de tribulação, convêm propriamente aos tempos do Anticristo, quando não só tormentos mais frequentes e mais acerbos do que os habituais anteriormente serão infligidos aos fiéis; mas, o que é mais grave, a operação de sinais também acompanhará aqueles que infligem os tormentos. Esta tribulação, quanto mais grave foi em relação ao peso das pressões precedentes, tanto mais moderada será quanto à brevidade do tempo. Pois durante três anos e meio, conforme se pode conjecturar da profecia de Daniel e do Apocalipse de São João, crê-se que a Igreja será impugnada por todo o orbe. Mas segundo o sentido espiritual, quando virmos a abominação da desolação estar onde não deve, isto é, as heresias e os crimes reinarem entre aqueles que pareciam estar consagrados aos mistérios celestiais, então qualquer um de nós que permaneça na Judeia, isto é, na confissão da verdadeira fé, deve ascender ao mais alto cume das virtudes quanto mais pessoas virmos seguir os amplos caminhos dos vícios.
Alguns, porém, referem isso ao tempo do cativeiro judaico, quando muitos, dizendo-se cristos, atraíam para si multidões enganadas; mas durante o cerco da cidade não havia nenhum fiel, a quem a divina exortação para não seguir falsos mestres devesse ser feita; por isso é melhor entender isso em relação aos hereges que, vindo contra a Igreja, mentiam ser cristos; o primeiro destes foi Simão Mago, e o último, maior que todos os outros, será o Anticristo. Segue-se: "Vós, portanto, estai atentos: eis que vos predisse todas as coisas".
O céu que passará não é o etéreo ou sidéreo, mas o aéreo devemos entender. Pois onde quer que tenha podido chegar a água do dilúvio, ali, segundo a sentença do bem-aventurado Pedro, chegará o fogo do juízo. Passarão, porém, o céu e a terra na imagem que agora têm, todavia subsistirão em sua essência sem fim.
O homem que, partindo para longe, deixou sua casa, é Cristo, que, ascendendo vitorioso ao Pai após a ressurreição, deixou a Igreja corporalmente, a qual, contudo, nunca privou da proteção de sua presença divina.
Páscoa, que em hebraico se diz phase, não é denominada da paixão, como muitos consideram, mas do passar adiante: porque o exterminador, vendo o sangue nas portas dos Israelitas, passou adiante, e não os feriu; ou o próprio Senhor, proporcionando auxílio ao seu povo, caminhou acima deles.
O alabastro é um tipo de mármore branco, entremeado com várias cores, que costumam escavar para fazer vasos de unguentos, porque dizem que conserva estes muito bem, sem se corromperem. O nardo, por sua vez, é um arbusto aromático com grande raiz, como dizem, grossa, mas curta e negra, e frágil. Ainda que seja untuoso, exala um aroma como o do cipreste, de sabor áspero, com folhas pequenas e densas, cujas pontas se espalham em espigas; por isso os perfumistas celebram o nardo pelo duplo dom de suas espigas e folhas. E isto é o que diz Marcos: "unguento de nardo puro, precioso"; porque evidentemente aquele unguento que Maria trouxe ao Senhor não foi feito apenas da raiz do nardo, mas também, para que fosse mais precioso, pelo acréscimo de suas espigas e folhas, era aumentada a graça do seu odor e virtude.
Muitos hoje se horrorizam com o crime de Judas, que vendeu por dinheiro o seu Senhor, Mestre e Deus, como uma maldade monstruosa e abominável, mas não tomam cuidado consigo mesmos: pois quando, por interesse em recompensas, desprezam os direitos da caridade e da verdade, traem a Deus, que é a Caridade e a Verdade.
Ele chama de primeiro dia dos ázimos ao décimo quarto dia do primeiro mês, quando, tendo descartado o fermento, costumavam imolar, isto é, matar o cordeiro ao entardecer; o que o apóstolo, explicando, diz: "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós"(1 Coríntios 5,7). Pois, embora tenha sido crucificado no dia seguinte, isto é, no décimo quinto dia da lua, na noite em que o cordeiro era imolado, contudo, entregando aos seus discípulos os mistérios de seu corpo e sangue para serem celebrados, e sendo preso e amarrado pelos judeus, consagrou o princípio de sua imolação, isto é, de sua paixão.
O Senhor, que havia predito sobre Sua paixão, também prediz sobre o traidor, dando-lhe ocasião para arrependimento; para que, tendo compreendido que seus pensamentos eram conhecidos, arrependesse-se de seu ato; por isso é dito: E, chegada a tarde, veio com os doze, e estando eles sentados e comendo, Jesus disse: Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de trair.
Concluídos os ritos solenes da antiga Páscoa, passou para a nova, ou seja, para substituir a carne e o sangue do cordeiro pelo sacramento do seu próprio corpo e sangue; de onde se diz "E enquanto comiam, Jesus tomou o pão": para mostrar que Ele mesmo era aquele a quem o Senhor jurou: "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque"(Salmo 109,4). Segue-se "e abençoando-o, partiu-o".
O Senhor prediz aos discípulos o que haveriam de sofrer; para que, quando padecerem, não desesperem da salvação, mas, fazendo penitência, sejam libertos; donde segue e Jesus lhes disse: todos vós vos escandalizareis por minha causa nesta noite.
Como sendo Deus, constituído em corpo, Ele expõe a fragilidade da carne, para que fosse excluída a impiedade daqueles que rejeitam o sacramento da encarnação; pois aquele que assumiu um corpo, devia necessariamente assumir tudo o que pertence ao corpo, como ter fome, sede, angústia e tristeza; porque a divindade não pode sofrer mudança por estes afetos.
Depois que o Senhor orou pela terceira vez e havia impetrado que o temor dos apóstolos fosse corrigido mediante a penitência que se seguiria, seguro de sua paixão, dirigiu-se aos seus perseguidores, sobre cuja chegada o Evangelista diz: "Estando ainda falando, chegou Judas Iscariotes, um dos doze".
É o fogo da caridade, do qual se diz: "vim trazer fogo à terra"(São Lucas 12,49); o qual, descendo sobre os fiéis, ensinou-lhes a louvar o Senhor em várias línguas. Há também o fogo da cobiça, do qual se diz: "todos os adúlteros, como um forno ardente"(Oséias 7,4). Este fogo aceso no pátio de Caifás por instigação do espírito maligno, armava as línguas dos pérfidos para negar e blasfemar o Senhor. Pois o que o maligno sinédrio realizava dentro da casa, isto figurava o fogo aceso no pátio entre os frios da noite. Porque como abunda a iniquidade, esfria-se a caridade de muitos(São Mateus 24,12). Entorpecido por este frio momentaneamente, Pedro desejava aquecer-se às brasas dos servos de Caifás, porque buscava o consolo do conforto temporal na sociedade dos pérfidos. "Os sumos sacerdotes, porém, e todo o Conselho buscavam testemunho contra Jesus, para entregá-lo à morte".
Mas com um mistério mais elevado aconteceu que, na paixão do Senhor, o pontífice dos judeus rasgou suas próprias vestimentas, isto é, o éfode; enquanto a túnica do Senhor não pôde ser rasgada nem pelos próprios soldados que o crucificaram. Figurava-se, assim, que o sacerdócio dos judeus seria rompido por causa dos crimes de seus próprios pontífices; mas a solidez da Igreja, que costuma ser chamada de veste do seu Redentor, jamais pode ser despedaçada.
Quão nocivos são os conselhos dos perversos. Entre os infiéis negou conhecer o homem a quem entre os discípulos havia confessado como Deus. A Sagrada Escritura costuma designar o mérito das causas pelo estado dos tempos; assim Pedro, que negou à meia-noite, arrependeu-se ao canto do galo; donde se segue: e imediatamente o galo cantou pela segunda vez. E Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes. E começou a chorar.
Os judeus tinham o costume de entregar ao juiz, atado, aquele que condenassem à morte; por isso, após a condenação de Cristo, o Evangelista acrescenta: e imediatamente pela manhã, os sumos sacerdotes, realizando um conselho com os anciãos e os Escribas e todo o Concílio, amarrando Jesus, o levaram e o entregaram a Pilatos. Contudo, deve-se notar que não foi então que o amarraram pela primeira vez; mas logo que o prenderam à noite no horto, como São João declara, o amarraram.
A petição dos judeus os acompanha até hoje, a qual conseguiram com tanto esforço; pois como, dada a escolha, elegeram um ladrão em vez de Jesus, um assassino em vez do Salvador, merecidamente perderam a salvação e a vida, e se submeteram de tal modo aos latrocínios e sedições que perderam sua pátria e reino, que amaram mais que a Cristo, e nunca recuperaram a liberdade, o corpo e a alma. Depois, Pilatos apresenta outra ocasião para libertar o Salvador, quando segue: "E Pilatos, respondendo, disse-lhes: Que quereis, pois, que eu faça ao rei dos judeus?"
Pois como tinha sido chamado Rei dos Judeus, e os escribas e sacerdotes lhe haviam objetado como crime que Ele usurpava o domínio sobre o povo israelita, por escárnio o fazem, para que, despojado de suas vestes anteriores, o vistam de púrpura, que os antigos reis usavam.
Em sentido místico, os ladrões que foram crucificados com o Senhor significam aqueles que, sob a fé e confissão de Cristo, submetem-se ao combate do martírio ou a quaisquer regras de disciplina mais rigorosa. Mas aqueles que fazem isso pela glória eterna são designados pela fé do ladrão da direita; enquanto aqueles que o fazem tendo em vista o louvor humano imitam a mentalidade e os atos do ladrão da esquerda.
Assim também confessam, ainda que contra sua vontade, que Ele salvou a muitos. Portanto, vossa própria sentença vos condena: pois aquele que salvou a outros poderia salvar a si mesmo. Segue-se: "Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos".
Pois quando Adão pecou, está escrito que ele ouviu a voz do Senhor Deus passeando no Paraíso à brisa depois do meio-dia; e na hora em que o primeiro Adão, pelo pecado, trouxe a morte a este mundo, na mesma hora o segundo Adão, morrendo, destruiu a morte. E deve-se notar que o Senhor foi crucificado quando o sol se retirava do centro do mundo; mas ao nascer do sol, celebrou os mistérios de sua Ressurreição; porque morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. Nem te deves admirar da humildade de suas palavras, das queixas como de alguém abandonado, quando contemplas o escândalo da cruz, conhecendo a forma de servo. Pois assim como a fome, a sede e a fadiga não eram coisas próprias da Divindade, mas aflições corporais; assim também o que Ele disse: "Por que me abandonaste?", era próprio de uma voz corporal, porque o corpo, por natureza, nunca deseja ser separado da vida que a ele está unida. Embora o próprio Salvador dissesse isto, na verdade mostrava a fragilidade do corpo; falava, portanto, como homem, trazendo consigo nossos sentimentos, pois quando colocados em perigo, imaginamos que somos abandonados por Deus.
Agora a evidente causa do milagre do centurião é exposta, que vendo o Senhor assim expirar, isto é, emitir o espírito, disse: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus"; pois ninguém tem o poder de enviar o espírito, senão aquele que é o Criador das almas.
Não era, porém, qualquer desconhecido ou pessoa de mediana posição que podia dirigir-se ao governador e obter o corpo do crucificado. Segue-se: "José, comprando um lençol de linho fino, e descendo-o, envolveu-O na mortalha de linho".
Assim como as mulheres que vieram muito cedo à manhã ao sepulcro, segundo a história, mostram grande fervor de caridade, assim também segundo o sentido místico nos é dado um exemplo, para que, com a face iluminada e tendo dissipado as trevas dos vícios, nos empenhemos em oferecer ao Senhor o aroma das boas obras e a suavidade das orações.
No princípio também a mulher foi indutora da culpa para o homem; agora aquela que primeiro provou a morte, primeiro vê a ressurreição, para que não suporte o opróbrio de culpa perpétua diante dos homens; e aquela que havia transmitido a culpa ao homem, transmitiu-lhe também a graça; pois segue-se ela indo anunciou àqueles que com ele tinham estado, enquanto lamentavam e choravam.
O que mais diremos aqui sobre as criancinhas, que por sua idade ainda não são capazes de crer? Pois sobre os adultos não há questão alguma. Na Igreja do Salvador, as criancinhas creem por meio de outros, assim como de outros contraíram os pecados que lhes são perdoados no Batismo. Segue-se: "E estes sinais acompanharão aos que crerem: em Meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, pegarão serpentes".
Observe que, quanto mais tardiamente São Marcos iniciou seu Evangelho, tanto mais o estendeu escrevendo sobre tempos distantes: pois começou desde o início da pregação evangélica que foi feita por São João, e chegou em sua narrativa até aquele tempo em que os apóstolos semearam a mesma palavra do Evangelho por todo o mundo.
Maria é interpretada como "Estrela do Mar" em hebraico, "Senhora" em siríaco, pois gerou para o mundo a Luz da salvação e o Senhor.1 E a quem ela foi desposada é mostrado, José.
[1] Nota editorial: sobre a rebelião deles. Santo Ambrósio interpreta como "Deus da minha raça", e "amargura do mar". de Instit. Virg. 33. Não é necessário dar a origem destas várias interpretações. ↩
O fato de que o Senhor foi levado pelos pais para o Egito significa que os eleitos frequentemente são forçados a fugir de suas casas pela improbidade dos maus, ou mesmo a serem condenados ao exílio. Certamente Ele mesmo, que haveria de ordenar aos seus: "quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra", primeiro fez o que preceituou, fugindo como homem diante de outro homem na terra, Ele a quem, pouco antes, uma estrela havia mostrado aos magos para ser adorado desde o céu.
Nesta morte das crianças, está representada a morte preciosa de todos os mártires de Cristo: o fato de que crianças pequenas foram mortas significa que pelo mérito da humildade se chega à glória do martírio; o fato de que foram mortas em Belém e em todos os seus arredores mostra que na Judeia, de onde teve origem a Igreja, e em todo o mundo, a perseguição haveria de se enfurecer; o fato de que as crianças de dois anos foram mortas indica os perfeitos na doutrina e nas obras; quanto aos menores que essa idade, os simples; o fato de que aqueles foram mortos, e Cristo escapou, insinua que os corpos dos mártires podem ser destruídos pelos ímpios, mas Cristo não pode ser tirado deles.
A matança dos meninos por causa do Senhor, a morte de Herodes não muito depois, e o retorno de José com o Senhor e sua mãe à terra de Israel, significa que todas as perseguições que seriam movidas contra a Igreja seriam vingadas pela morte dos perseguidores, a paz seria novamente restaurada à Igreja, e os santos que estavam escondidos retornariam a seus próprios lugares. Ou o retorno de Jesus à terra de Israel após a morte de Herodes indica que, com a pregação de Enoque e Elias, os judeus, uma vez extinta a chama do ciúme moderno, receberão a verdadeira fé1.
[1] Que Enoque e especialmente Elias virão no fim do mundo e por sua pregação converterão os judeus é afirmado por Tertuliano (de Anima 35, de Resur. c. 22), Orígenes (in Joann, i. tom. 5, in Matt. tom. 13), Hilário (in Matt. xx. 10, xxvi. 5), Crisóstomo (in Matt. xvii. 10), Agostinho (Cidade de Deus 20, 29. Op. Imp. contra Julian. vi. 30), Papa Gregório (in Job. lib. xiv. 23, in Joann. Hom. vii. 1) e Damasceno (de Fid. Orth. iv. 26 fin). ↩
Assim também clamou em todos aqueles que desde o princípio disseram algo divinamente inspirados; e, no entanto, somente este é voz: porque por meio dele se mostra presente o Verbo que outros anunciaram de longe.
Ou o próprio Cristo acendeu uma lâmpada, que encheu o vaso de barro da natureza humana com a chama de sua divindade, a qual não quis esconder dos que creem, nem colocar debaixo do alqueire, isto é, confinar sob a medida da lei, ou restringir dentro dos limites de uma só nação. Ele chama candelabro à Igreja, sobre a qual colocou a lâmpada, porque fixou em nossas frontes a fé em sua encarnação.
Se alguém questiona como o Senhor, que parece aprovar o sacrifício de Moisés, não é recebido pela Igreja, lembre-se de que Cristo ainda não havia oferecido seu corpo em holocausto por meio da paixão. Não convinha suprimir os sacrifícios simbólicos antes que aquele que estava sendo simbolizado fosse confirmado pelo testemunho dos apóstolos que pregavam e pela fé dos povos crentes. Este homem representa o gênero humano que, não somente leproso, mas também, segundo o Evangelho de São Lucas, é descrito como cheio de lepra. "Todos pecaram e necessitam da glória de Deus", isto é, aquela glória de que, estendida a mão do salvador, ou seja, encarnado o Verbo de Deus e tocando a natureza humana, sejam purificados da vaidade dos antigos erros; e os que por muito tempo foram considerados abomináveis e expulsos do acampamento do povo de Deus, possam finalmente ser restituídos ao templo e ao sacerdote, e oferecer seus corpos como sacrifício vivo; isto é, àquele a quem se diz: "Tu és sacerdote para sempre".
Misticamente, a casa de Pedro é a lei ou a circuncisão; a sogra é a sinagoga, que de certo modo é mãe da Igreja confiada a Pedro. Ela tem febre, porque sofre com o ardor da inveja, perseguindo a Igreja; o Senhor toca-lhe a mão quando converte suas obras carnais em uso espiritual.
Tomando carnalmente aquelas palavras dos profetas, nas quais se diz: "Lavai-vos e sede limpos"(Isaías 1,16), eles observavam isso apenas lavando o corpo; por isso estabeleceram que não se devia comer senão com as mãos lavadas.
O Senhor, portanto, encontrou a ovelha quando restaurou o homem; e há maior alegria no céu sobre esta ovelha encontrada do que sobre as noventa e nove, porque há maior motivo para louvor divino na restauração dos homens do que na criação dos Anjos. Pois Ele criou os Anjos admiravelmente, mas restaurou o homem mais admiravelmente.
Que também o terremoto, ressurgindo o Senhor do sepulcro, assim como também morrendo na cruz, fez-se grande, significa que os corações terrenos devem, pela fé em sua paixão primeiramente, e pela ressurreição, ser sacudidos para a penitência, movidos por um salutar temor.
Aquele que antes de sua paixão havia dito: "Não ireis pelo caminho dos gentios", ressurgindo dos mortos, diz: "Ide, ensinai todas as nações". Por isso, sejam confundidos os judeus, que dizem que Cristo veio somente para a salvação deles; envergonhem-se também os donatistas1, que desejando confinar Cristo localmente, disseram que Ele está somente na África, não em outras regiões.
[1] Donatistas foram seguidores de um cisma cristão na África do Norte durante o século IV, que alegavam que a eficácia dos sacramentos dependia da santidade do ministro que os administrava. ↩