Beda, o Venerável
Monge de Jarrow · Doutor da Igreja
Beda (c. 673–735), monge anglo-saxão que jamais deixou seu mosteiro de Jarrow e ainda assim iluminou toda a cristandade. Historiador, exegeta e cientista, é o único inglês citado por Dante no Paraíso. Seus comentários bíblicos, sóbrios e fiéis à tradição patrística, fizeram dele ponte entre os Padres e a Idade Média.
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Ouvimos da leitura evangélica, amadíssimos irmãos, que, quando o Redentor do mundo, nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, estava para nascer no mundo, saiu um edito de César Augusto, que então ocupava o mais alto lugar quanto aos reinados terrenos. O edito dizia que todo o mundo fosse recenseado. Não devemos supor que isso tenha acontecido por acaso, mas devemos compreender que foi provido por um plano divinamente ordenado e certíssimo desse mesmo nosso Redentor. E, de fato, assim como em sua divindade o Mediador entre Deus e os homens previu a mãe de quem quis nascer, quando assim o quisesse, também em sua humanidade escolheu o tempo em que desejou para sua natividade. Além disso, Ele mesmo concedeu que esse tempo fosse tal qual quis, a saber, que, em meio à calmaria em contraste com a tempestade das guerras, uma singular tranquilidade de paz incomum cobrisse o mundo inteiro.
Por Moisés e Elias [na transfiguração] podemos com razão entender todos os que hão de reinar com o Senhor. Por Moisés, que morreu e foi sepultado, [podemos entender] aqueles que, no juízo, hão de ser ressuscitados dentre os mortos. Por Elias, por sua vez, que ainda não pagou o tributo da morte, [podemos entender] aqueles que hão de ser encontrados vivos na carne à vinda do Juiz. Num só e mesmo instante, ambos, arrebatados "nas nuvens ao encontro do Senhor nos ares", serão conduzidos à vida eterna, tão logo se consume o juízo.
Esta afirmação do Senhor... pode também ser entendida misticamente a respeito da eleição do Israel espiritual, isto é, do povo cristão, visto que o Senhor se dignou, misericordiosamente, olhar para eles quando ainda não o viam, quando ainda não haviam sido chamados por seus apóstolos à graça da fé, mas ainda jaziam ocultos sob o véu do pecado que os oprimia... E por vezes, na verdade, nas Escrituras, a figueira sugere a doçura do amor divino... Os que sob ela se colocam podem ser seus eleitos ainda quando não reconhecem a graça de sua eleição — assim como o Senhor viu Natanael quando este se achava debaixo da figueira, ainda que Natanael a Ele não visse. Pois o Senhor conhece os que são seus, e o próprio nome Natanael é sumamente apropriado à sua salvação. Pois Natanael se interpreta "dom de Deus".
Paulo impregnou o corpo de seus escritos, composto de catorze epístolas, unicamente com o aroma de Cristo, se assim me é permitido falar de Cristo. Tudo o que ali se lê ou revela os mistérios ocultos da fé, ou mostra os frutos das boas obras, ou promete os gozos do reino celeste, ou expõe as tribulações que sustentou ao pregar estas coisas, ou relata a divina consolação que recebeu no meio de suas tribulações, ou sugere, por uma exortação geral, que a todos "os que querem viver bem em Cristo" não faltarão perseguições… Ele sabia claríssimamente e predisse com voz destemida que ser morto por causa do Senhor não era outra coisa senão uma oferenda sacrifical puríssima e sobremodo aceitável ao Senhor. Por isso também Paulo glorificou a Deus, como os demais apóstolos, pois estes também amaram a Cristo com coração puro e cuidaram das ovelhas de Cristo com intenção sincera.
significado. Envolveu esta revelação em palavras místicas, para que não se manifestasse a todos e viesse a ser tida em pouca estima.
que Deus lhe deu. E João, a seu modo, reporta a glória do Filho ao Pai, e testifica que Jesus Cristo a recebeu de Deus.
anjo. Pois um anjo apareceu a João sob a forma de Cristo, como se verá mais claramente no que se segue.
João: Para que, por meio de João, Ele expusesse a todos os seus servos as coisas que ele, pelo privilégio de uma castidade singular, obteve, acima de todos os demais, o mérito de contemplar.
significado: Envolveu esta revelação em palavras místicas, para que não se manifestasse a todos e viesse a ser tida em pouca estima.
A revelação de Jesus Cristo: O progresso com que a Igreja, fundada pelos Apóstolos, havia de se estender, ou o fim com que havia de ser aperfeiçoada, era necessário que fosse revelado, a fim de fortalecer os pregadores da fé contra a oposição do mundo. E João, a seu modo, reporta a glória do Filho ao Pai, e testifica que Jesus Cristo a recebeu de Deus.
em breve: Isto é, as coisas que hão de suceder à Igreja no tempo presente.
anjo: Pois um anjo apareceu a João sob a forma de Cristo, como se verá mais claramente no que se segue.
Testemunho. Para que não duvides acerca da pessoa de João, é ele mesmo o que deu testemunho do Verbo eterno de Deus encarnado, segundo o que viu, dizendo: "cuja glória vimos, glória como do unigênito do Pai [Jo 1,14]."
bem-aventurados. Bem-aventurados são, portanto, os mestres e os ouvintes, porque aqueles que guardam a Palavra de Deus encontram que a um curto tempo de labor seguem-se alegrias sempiternas.
sete: Por meio destas sete igrejas, ele escreve a toda igreja, pois é costume que a universalidade seja denotada pelo número sete, visto que todo o tempo deste século se desenrola a partir de sete dias.
Graça: Deseja-nos ele a graça, e a paz da parte de Deus, o Pai eterno, e da parte do Espírito sete vezes sete, e da parte de Jesus Cristo, que deu testemunho ao Pai em sua Encarnação. Nomeia o Filho em terceiro lugar, visto que havia de falar mais dEle adiante. Nomeia-o também por último em ordem, pois Ele é o primeiro e o último; pois já o havia nomeado no Pai, ao dizer "Que havia de vir".
E sacerdotes. Não há um só dentre os santos que não possua espiritualmente o ofício sacerdotal, porquanto é membro do eterno Sacerdote.
traspassaram: Quando O virem como Juiz revestido de poder, na mesma forma em que O traspassaram como o menor de todos, prantearão por si mesmos com um arrependimento já tardio.
Amém: Ao interpor um Amém, ele confirma que sem dúvida há de acontecer aquilo que, pela revelação de Deus, sabe com toda certeza que há de vir a suceder.
vem: Aquele que esteve oculto, quando primeiramente veio para ser julgado, será manifestado no tempo em que houver de vir para julgar. Menciona isto para que a Igreja, que agora é oprimida pelos inimigos, mas que então há de reinar com Cristo, seja fortalecida para a perseverança nos sofrimentos.
e: Ele é o princípio a quem ninguém precede, o fim a quem ninguém sucede em Seu reino.
Eu, João: indica a pessoa, o lugar e a razão da visão; e testifica também que viu isto em espírito, para que não se suponha que foi iludido por aparição carnal.
Patmos: é história bem conhecida que João foi banido para esta ilha pelo imperador Domiciano por causa do Evangelho, e foi-lhe convenientemente concedido penetrar os segredos do céu, num tempo em que lhe era negado ultrapassar certo lugar na terra.
O dia do Senhor: indica também o tempo apropriado para uma visão espiritual, pois é costume da Escritura exprimir a razão das coisas em termos ora do lugar, ora do corpo, ora do ar, e do mesmo modo do tempo. Com efeito, os Anjos visitam Abraão ao meio-dia, Sodoma ao entardecer; Adão, depois do meio-dia, temeu a voz do Senhor que passeava; e Salomão recebeu à noite a sabedoria que não lhe seria dado reter.
Ouviu: é primeiramente admoestado por uma voz, para que dirija sua atenção à visão.
cinto: Por "peitos" entende aqui os dois Testamentos, com os quais Ele alimenta o corpo dos santos em comunhão consigo mesmo. Pois o cinto de ouro é o coro dos santos, que se apega ao Senhor em amor harmonioso, e abraça os Testamentos, "guardando", como diz o Apóstolo, "a unidade do Espírito no vínculo da paz."
veste: "Proderis", que em latim se chama "tunica talaris", e é uma vestimenta sacerdotal, mostra o sacerdócio de Cristo, pelo qual Ele Se ofereceu por nós, como vítima ao Pai, sobre o altar da cruz.
Filho do Homem: Quer dizer que é semelhante ao Filho do homem quando havia vencido a morte e ascendido ao céu. Pois "ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, todavia agora já não O conhecemos deste modo." E bem se diz "no meio", pois "todos", diz ele, "os que estão ao Seu redor Lhe oferecerão dons."
A antiguidade e a eternidade da majestade são representadas pela brancura na cabeça, à qual aderem todos os principais, como cabelos, os quais, por causa das ovelhas que hão de estar à direita, são brancos como a lã, e, por causa da multidão inumerável dos vestidos de branco e dos eleitos, que saem do céu, resplandecem como a neve.
Os olhos do Senhor são os pregadores, os quais, com fogo espiritual, trazem luz aos fiéis, e, aos incrédulos, chama que consome.
Por "pés ígneos" designa ele a Igreja do tempo derradeiro, a qual há de ser examinada e provada por aflições severas. Pois orichalcum é o latão, que, por muito fogo e diversos ingredientes, é levado à cor do ouro. Outra tradução, que o verte como "semelhante ao orichalcum do Líbano", significa que na Judeia, da qual o Líbano é um monte, a Igreja será perseguida, e sobretudo no fim. O templo também recebeu frequentemente o nome de Líbano, como lhe é dito: "Abre, ó Líbano, as tuas portas, e que o fogo devore os teus cedros."
A voz da confissão, da pregação e do louvor não ressoa somente na Judeia, mas entre muitos povos.
semblante: Tal como o Senhor apareceu no Monte, assim Ele aparecerá após o juízo a todos os santos, pois no juízo os ímpios contemplarão Aquele a quem transpassaram. Mas toda esta aparência do Filho do Homem pertence também à Igreja, pois Ele mesmo se fez o Cristo na mesma natureza com ela, e lhe concede dignidade sacerdotal e poder judicial, e "resplandecer como o sol no reino de Seu Pai".
boca: Ele, Juiz de todas as coisas visíveis e invisíveis, "depois de matar, tem poder para lançar no fogo do inferno".
mão direita: Na mão direita de Cristo está a Igreja espiritual. "À Tua direita", diz ele, "estava a rainha, vestida de ouro." E porquanto está à Sua direita, Ele diz: "Vinde, benditos de Meu Pai, recebei o reino."
o primeiro: Ele é o primeiro, porque "por Ele foram feitas todas as coisas"; o último, porque n'Ele todas as coisas são restauradas.
eu caí: Enquanto homem, ele treme diante da visão espiritual, mas o seu temor humano é banido pela clemência do Senhor.
anda: Aquele que anda no meio de vós, e sonda os corações e os rins de todos.
estrelas: Isto é, Aquele que vos tem em Sua destra, e vos busca por Seu poder.
Éfeso: Parte desta Igreja ele repreende, e parte ele louva, conforme o caráter do nome. Pois diz-se que Éfeso se interpreta "grande queda", assim como "minha vontade nela".
Eu conheço: Isto é, vejo que tu és diligente na prática das boas obras, e suportas com serenidade as injúrias insuportáveis dos ímpios, pois examinaste diligentemente as palavras e as obras dos falsos apóstolos, e não te dispuseste a ceder-lhes em coisa alguma.
vence: A "árvore da vida" é Cristo, pela visão do Qual, no paraíso celestial e no corpo presente da Igreja, as almas santas são reconfortadas. A IGREJA DE ESMIRNA
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ouvido: Ele indica que escreve para todas as igrejas as coisas que endereça a cada uma em particular; pois não era somente a Igreja dos Efésios que, se não se arrependesse, seria removida do seu lugar; nem era somente em Pérgamo o trono de Satanás, e não antes em todo lugar. Do mesmo modo, também as demais coisas das várias igrejas são comuns a toda igreja.
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o primeiro: Aquele que tanto criou todas as coisas quanto renovou todas as coisas por Sua morte. Este é um prefácio conveniente quando ele está prestes a recomendar a paciência.
Esmirna: Ele se dirige a esta igreja falando da perseverança na perseguição, e também o seu nome com isso concorda. Pois Esmirna se interpreta "mirra", a qual denota a mortificação da carne.
judeus: "Professam conhecer a Deus, mas nas obras O negam." Pois judeu é um nome de religião. E assim também diz o Apóstolo: "que é judeu interiormente, e a circuncisão é a do coração", "não na letra".
tribulação: Sim, "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Fortunato exprimiu isto belamente em um breve verso, dizendo: "Em estreito reino reina o pobre que possui a Deus."
dez dias: Refere-se a todo o tempo durante o qual são necessários os mandamentos do decálogo. Pois enquanto seguires a luz da divina palavra, hás de sofrer necessariamente o cárcere da parte do inimigo que se te opõe. Alguns entendem que se significam as dez perseguições dos pagãos, desde o imperador Nero até Domiciano.
morte: Mostra até onde se estendem os dez dias, visto que os aconselha a guardarem a fé até a morte.
Estas palavras referem-se à Igreja Universal, contra a qual o diabo exerce sempre uma inimizade da qual não há como escapar.
Mencionou convenientemente, em primeiro lugar, o Seu poder judicial, pois havia de atribuir recompensas aos vencedores e castigo aos transgressores.
Pérgamo interpreta-se "dividindo os seus chifres", pois, por Seu juízo, Ele fez distinção entre as virtudes dos fiéis e a perfídia dos nicolaítas, para que "os chifres dos pecadores fossem quebrados, e exaltados os chifres do justo."
Alguns entendem tratar-se de um mártir que padeceu em Pérgamo; outros, do Senhor Cristo, que ainda agora é morto pelos incrédulos, no que depende deles.
trono: Aprovo, na verdade, a tua paciência, porque, embora habites entre os réprobos, não Me honras apenas de nome, como quem é chamado cristão, mas com fé perfeita, mesmo em tempo de perseguição até à morte. Mas isto não aprovo, que vejo em ti mestres sedutores.
Nicolaítas: Os Nicolaítas tomam o nome de Nicolau, o diácono, de quem Clemente relata que, sendo repreendido pelo ciúme que tinha de uma esposa formosíssima, respondeu que quem quisesse poderia desposá-la; e diz que, por causa disto, os incrédulos ensinavam que os Apóstolos permitiam a todos um comércio promíscuo e comum com as mulheres. E conta-se que os Nicolaítas divulgaram algumas afirmações fabulosas e quase pagãs acerca do princípio do mundo, e que não separavam os seus alimentos dos oferecidos aos ídolos.
nome: Que sejamos chamados filhos de Deus, e o sejamos.
pedra: Isto é, um corpo que agora é branqueado pelo batismo, e depois se torna refulgente com a glória da incorruptibilidade.
maná: Aquele que houver desprezado os atrativos da carne, a despeito do conselho dos hipócritas, com justiça será saciado pela doçura do pão invisível que desce do céu.
pés: Isto ele também explica ser que "as últimas obras desta igreja são mais que as primeiras."
Tiatira: Tiatira traduz-se "para um sacrifício"; e os santos "apresentam seus corpos em sacrifício vivo."
olhos: Ele explica mais adiante o que são olhos de chama, dizendo: "Eu sou Aquele que perscruta os rins e os corações, e darei a cada um de vós segundo as vossas obras."
Sedutora: Sob o nome de Cristo, na verdade, ensinava ela a fornicação espiritual e a idolatria, pois como poderia ensinar abertamente o culto aos ídolos, visto que dizia ser profetisa na Igreja?
Jezabel: Em tua obra, na verdade, e em tua fé, és digno de louvor. Mas nisto hás de ser repreendido, que não refutas com a devida energia a sinagoga dos falsos apóstolos, que finge ser cristã. O nome Jezabel, que significa «um fluxo de sangue», pertence aos hereges; e em particular, conjectura-se que fosse ela uma mulher na igreja já mencionada, que ensinava as más obras acima referidas, a qual havia de ser figura da Jezabel espalhada por todo o mundo, à qual também manifestamente ameaça com a vingança.
Obras: Nossas obras e palavras, sem dúvida, podem ser conhecidas dos homens. Mas com que intenção se realizam, e a que fim desejamos chegar por meio delas, só o sabe Aquele que percebe o que cada um pensa, e em que se compraz. E, com aquela coerência em punir a fornicação e a idolatria, que são faltas manifestas, poder-se-ia dizer que Ele é discernidor das coisas secretas, a não ser que estes nomes se apliquem também às menores ofensas? «Destruirás», diz ele, «todos os que fornicam apartando-se de Ti.» E o mesmo apóstolo João, que ouviu isto, ao tratar dos falsos irmãos, terminou dizendo: «Filhinhos, guardai-vos dos ídolos.»
Corações: Pelos rins significa os deleites, pelo coração os pensamentos.
Filhos: Aqui ele denomina «filhos» a posteridade e as obras da mulher, e ameaça-os não com a morte momentânea do corpo, mas com a morte eterna da alma.
enviar: Não vos permitirei ser tentados além do que podeis suportar; ou então: "Guardai-vos", diz Ele, "dos falsos profetas", pois não vos envio doutrina nova; mas guardai até o fim aquilo que recebestes.
conhecido: Assim, também, os que praticam a iniquidade não conhecem a Deus, ainda que O preguem. Deste modo também Deus, que conhece a todos os homens, não conhece os que praticam a iniquidade.
vós: Assim como recomenda o arrependimento aos ímpios e os ameaça com o castigo, assim também exorta os piedosos à paciência, propondo-lhes as recompensas eternas.
abre: Os segredos da lei divina são abertos aos fiéis, e fechados aos incrédulos, unicamente pelo poder de Cristo.
Isto é, o poder régio, seja porque nasceu da linhagem de Davi, seja porque a profecia de Davi se manifestou pela dispensação de Cristo.
Filadélfia: Filadélfia se interpreta "amor fraterno", e a ela se abre a porta do reino, e a promessa de ser amada pelo Senhor.
Força: Mostra a razão pela qual a Igreja obtém estes dons, a saber, que ela não confia em suas próprias forças, mas na graça de Cristo Rei. E é louvor de Deus, seu protetor, e da devoção da Igreja, que a porta da vitória se abra a uma fé pequena, e que um pouco de poder se fortaleça pela fé.
Porta: Por poder de nenhum homem é jamais fechada contra a Igreja a porta do conhecimento celestial, que Cristo lhe abriu.
cidade: Ele será unido à unidade da Igreja, a qual, pela graça celestial, renasce para uma vida nova.
Nome: Isto é, porque somos chamados "filhos de Deus" por adoção.
templo: Aquele que houver vencido as adversidades por Minha causa será glorioso no templo da Igreja, e não temerá mais perda alguma que a adversidade possa trazer. As colunas, isto é, os homens santos, ora fortalecem a Igreja por seu sustentáculo, ora a ornam por sua elevação, como as duas colunas à porta do templo de Salomão.
nome novo: Este é o nome cristão, não porque seja novo para o Filho de Deus, que possuía esta glória antes de o mundo ser feito, mas novo para o Filho do Homem, que morreu e ressuscitou, e está assentado à direita de Deus.
A IGREJA DE LAODICEIA
Amém: Amém interpreta-se "verdadeiramente", ou "fielmente". Cristo, portanto, que na essência de Sua divindade é a verdade, declarou que, pelo mistério de Sua Encarnação, foi feito "o princípio da criação de Deus", para que Ele possa treinar a Igreja, por meio destas coisas, para a perseverança nos sofrimentos.
Laodiceia: Laodiceia significa "a amável tribo do Senhor", ou "estavam eles no vômito". Pois havia ali tanto aqueles a quem Ele disse: "Vomitar-te-ei da Minha boca", como também aqueles a quem disse isto: "A quem eu amo, repreendo e castigo". Mas, segundo o grego, interpreta-se "povo justo".
arrepende-te: Mostra que ali havia alguns que eram emulados e seguidos.
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castiga: Não te esquives de padecer a adversidade, vendo que esta é uma prova especial de que és amado pelo Senhor.
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venceu: O Senhor, como Vencedor, assentou-Se com o Pai sobre o trono, porquanto, depois do combate de Sua paixão, depois da vitória de Sua ressurreição, manifestou-Se mais claramente a todos como coigual ao Pai em poder. Observa que, em todas as igrejas, o Senhor primeiro declara o Seu próprio poder, depois recorda as obras da Igreja como dignas de louvor ou de censura, mas sempre com admoestação entremeada, e que, por último, atribui a cada uma das partes a recompensa que lhe é devida, a qual se pode entender tanto do presente quanto do futuro. Mas quando acrescenta: "Quem tem ouvidos, ouça", devemos sem dúvida entender os ouvidos do coração para a obediência aos mandamentos.
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assentar: Por "assentar-se com Ele" entende-se ser participante do poder e do juízo. "Que nos fez assentar juntamente", diz ele, "nas regiões celestiais em Cristo."
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arco-íris: O arco-íris, que é causado pelos raios do sol brilhando sobre as nuvens, e que foi primeiramente produzido depois do dilúvio como sinal de propiciação, denota que a Igreja é protegida pela intercessão dos santos que o Senhor ilumina, e estes são bem comparados a uma esmeralda, pedra de um verde profundo. Pois, assim como aguardam com fé mais perfeita uma herança que não se corrompe, assim também protegem mais poderosamente os demais por sua oração.
A cor do jaspe significa a água, a do sárdio o fogo, e sabemos que por estas duas se representa o juízo. Pois "como foi", diz Ele, "nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem."
A mesma Igreja que, por causa de sua comunhão na fé, ele havia visto sobre um só trono, contempla agora, como brotada por um duplo testamento dos patriarcas e dos Apóstolos, sobre vinte e quatro assentos, e está assentada por causa de sua dignidade judicial em Cristo. Assim, todos os membros hão de assentar-se e julgar, mas em uma só e por uma só Cabeça. Pois como poderão os santos assentar-se no juízo, estando eles de pé à direita do Juiz? Os vinte e quatro anciãos podem também ser entendidos como aqueles que, pela pregação sonora do evangelho, completam a perfeição da obra, a qual é representada pelo número seis; pois quatro vezes seis fazem vinte e quatro.
Isto é, revestidos de boas obras, buscando com incessante lembrança da mente os gozos que estão no alto. Pois, com frequência, sob o nome da cabeça, costuma-se entender a mente.
lâmpadas: Ele Se refere ao único Espírito sétuplo, pois "há um só Espírito", e ser sétuplo implica perfeição e plenitude. Mas, uma vez mencionado o Espírito Santo, segue-se convenientemente a água do batismo. Pois nela se crê que o mesmo Espírito é recebido.
proceder: É o mesmo que diz Marcos: "E eles, saindo, pregaram por toda parte, cooperando o Senhor com eles, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiam."
olhos: Todas as partes do trono de Deus, isto é, da Igreja, são preenchidas pela luz do evangelho, com o conhecimento do passado e do futuro. OS SERES VIVENTES
vidro: Por causa de nossa fé no verdadeiro batismo, este é comparado ao vidro, no qual nada mais aparece por fora além daquilo que tem por dentro. A graça do batismo é também representada pelo cristal, que se forma da água, congelada em pedra preciosa.
olhos: A santa Igreja observa-se a si mesma com vigilância, tanto diante de Deus quanto diante dos homens. O Salmista havia contemplado seus olhos por dentro, quando diz: "Toda a glória dessa filha de reis está por dentro"; e seus olhos por fora, quando acrescenta logo em seguida: "vestida ao redor de franjas de ouro, em variedade". De outro modo: quer atentes à letra, quer busques uma alegoria, no Evangelho encontrarás sempre a luz. Outra tradução traz: "Cheia de olhos, por diante e por detrás"; porque a luz do Evangelho tanto ilumina os ditos obscuros da Lei quanto derrama sobre ela o esplendor de uma nova graça.
descanso: Os santos seres viventes, por todo o tempo do século, proclamam o domínio único da Divindade, a onipotência e a eternidade da Santíssima Trindade. Pois permanece nos lugares celestiais o louvor contínuo da criatura inteligente.
asas: Elevam a Igreja ao alto pela perfeição da sua doutrina. Pois o número seis é chamado perfeito, porque é o primeiro que se completa por suas próprias partes, visto que um, que é a sexta parte de seis, e dois, que é a terça parte, e três, que é a metade, perfazem o número seis. De outro modo: as seis asas dos quatro seres viventes, que somam vinte e quatro, indicam outros tantos livros do Antigo Testamento, pelos quais se sustenta a autoridade dos Evangelistas, e se prova a sua verdade.
anjo forte. Ele indica a promulgação da Lei.
chorou. Angustiou-se, pois reconhecia a comum miséria do gênero humano.
não chores. É-lhe vedado chorar, porquanto já então se cumprira, na Paixão de Cristo, o mistério que por longo tempo permanecera oculto, quando, ao entregar Ele o espírito, rasgou-se o véu do templo.
Um Cordeiro: O mesmo Senhor, que é Cordeiro ao morrer inocentemente, tornou-se também Leão ao vencer a morte com ousadia. Diz Ticônio que o Cordeiro é a Igreja, a qual recebeu todo o poder em Cristo.
sete: O Espírito sétuplo em Cristo é comparado aos chifres, por causa da excelência do poder; e aos olhos, por causa da iluminação da graça.
redimidos: Aqui se declara ainda que os seres viventes e os anciãos são a Igreja, que é redimida pelo sangue de Cristo e reunida dentre as nações. Pois ele mostra em que céu eles estão, dizendo: "E reinarão sobre a terra."
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cantavam: Louvam os sacramentos do Novo Testamento, que se completam em Cristo, ao mesmo tempo em que exaltam com louvor essa mesma dispensação, a qual confessam pertencer somente a Cristo.
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espada: Isto é, ou contra aqueles a quem ele faz traidores da fé, ou a quem faz mártires. E a respeito disto é dito ao bem-aventurado Jó: "Aquele que o fez fez chegar a sua espada"; isto é, ou para que ele não tente os santos tanto quanto o ímpio quiser, ou para que a vingança de seu próprio furor recaia sobre si mesmo.
terra: Isto é, a sua própria paz. Mas a Igreja recebeu uma paz eterna, que lhe foi deixada por Cristo.
vermelho: Contra a Igreja vitoriosa e vencedora saiu um cavalo vermelho, isto é, um povo maligno, ensanguentado por seu cavaleiro, o diabo. Todavia, lemos em Zacarias acerca do cavalo vermelho do Senhor. Mas aquele é vermelho com o seu próprio sangue, este com o sangue alheio.
quatro (a quarta parte): Eis a loucura de Ário, que se ergueu a partir de Alexandria e alcançou até o oceano da Gália, e perseguiu os piedosos, não somente com a fome da palavra de Deus, mas também, como feras, com a espada material. Outra versão traduziu-o como "a quarta parte", porque os três cavalos maus, confiantes em seu cavaleiro, o diabo, atacam o quarto, os cavaleiros da Igreja.
pálido: Os hereges que assumem o hábito dos católicos são dignos de que a morte habite em seu meio, e eles arrastam consigo o exército dos perdidos. Pois o diabo e seus servos são, por metonímia, chamados morte e inferno. Pode-se também entender simplesmente que ali segue o castigo eterno para aqueles que aqui são espiritualmente mortos.
Quanto tempo? Não perguntam isto por ódio a seus inimigos, pelos quais rogaram nesta era; mas por amor da justiça, na qual, como aqueles que estão postos junto ao próprio Juiz, concordam com Ele, oram pela vinda do dia do juízo, no qual o reinado do pecado há de ser destruído, e há de vir a ressurreição de seus corpos sem vida. Pois também nós, no tempo presente, quando nos é ordenado orar por nossos inimigos, dizemos não obstante, quando oramos ao Senhor: "Venha o Teu reino."
voz: O grande clamor das almas é o seu grande desejo pelas coisas que sabem que o Senhor quer realizar. Pois não é lícito supor que desejem algo contrário ao beneplácito de Deus, uma vez que seus desejos estão subordinados à Sua vontade.
repouso: O desejo da ressurreição não é negado, mas diferido, a fim de que os irmãos sejam reunidos e multiplicados. Pois o próprio gozo das almas pode também ser representado pelas vestes brancas, quando aprendem, pela revelação do Senhor, que os ímpios hão de ser condenados no final, e que, até o fim dos tempos, muitos ainda hão de juntar-se ao seu número pelo martírio. Por isso, imbuídas de caridade interior e contentes com esta consolação, preferiram que suas próprias alegrias fossem diferidas para a completude do número dos fiéis.
vestes: As almas dos santos, que se alegram em sua bem-aventurada imortalidade, têm agora cada uma uma veste. Mas quando seus corpos ressuscitarem, como diz Isaías, "possuirão o dobro em sua própria terra."
lua: A Igreja, mais do que costuma, derramará seu sangue por Cristo. E disse "todo", porque o último terremoto será em todo o mundo. Mas antes disso, como está escrito, "haverá terremotos em diversos lugares."
sexto: Pela abertura do sexto selo é anunciada a última perseguição, e que o mundo é abalado por trevas e temor, assim como quando o Senhor foi crucificado no sexto dia da semana.
Isto é como se o poder de Cristo estivesse oculto, ou Sua doutrina temporariamente obscurecida, ou coberta por um véu, quando os servos do Anticristo são conduzidos a atacar os servos de Cristo.
Fala ele dos membros da Igreja, distintos segundo a natureza de seus ofícios ou poderes, e predisse que ninguém estará isento de sua parte neste turbilhão. Mas o movimento por ele causado será dessemelhante, pois nos bons será de precaução pela fuga, mas nos maus, de sucumbir pela complacência.
Assim como um pergaminho enrolado contém em si mistérios, assim há de ser com a Igreja. Naquele tempo, conhecida somente dos seus, ela evitará prudentemente a perseguição no retiro, para que, por tal ocultação, permaneça despercebida aos que estão de fora.
Por «reis» entendemos aqueles que são poderosos. Pois ele quer que se compreendam pessoas de todo grau e condição. Além disso, quem então será rei senão o único perseguidor?
Enquanto todos os fracos, naquele tempo, buscam ser fortalecidos pelos exemplos dos mais eminentes na Igreja, e ser corroborados por seus conselhos, protegidos por seus pareceres e abrigados por suas orações, suplicam que os próprios montes caiam sobre eles, movidos por um sentimento de compaixão. Pois «os altos montes são refúgio para as corças, e os rochedos, para os ouriços».
O Senhor encarnado, que é o Anjo do grande conselho, isto é, o Mensageiro da vontade de Seu Pai, nos visitou, «o Sol nascente do alto», trazendo o estandarte da cruz, com o qual há de selar os Seus na fronte.
A «grande voz do Senhor» é o clamor que se ergue nas alturas: «Arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo». <
Não danifiqueis: Desde o tempo em que o Senhor padeceu, não somente foi destruído o domínio do inimigo que se Lhe opunha, mas também o do poder mundano, como tanto vemos com os olhos quanto lemos na imagem que a pedra do monte "fez em pedaços". frontes. Pois para este fim foi despedaçado o império das nações, a fim de que a face dos santos pudesse ser livremente marcada com o selo da fé, ao qual estes resistiam. Pois, novamente, a própria figura da cruz representa o reino do Senhor estendendo-se por toda parte, como o antigo ditado prova: "Eis o mundo em quadrado, em partes distintas, para mostrar o reino da fé possuindo tudo." E não em vão foi o sagrado Nome do Senhor, de quatro letras, escrito sobre a fronte do Sumo Sacerdote, porquanto este é o sinal na fronte dos fiéis, do qual também se canta no Salmo "para os lagares": "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu Nome em toda a terra?" e o resto, até que diz: "Para que destruas o inimigo e o defensor."
Judá: Não sem razão começa por Judá, tribo da qual descendeu Nosso Senhor; e omitiu Dã, do qual, como se diz, há de nascer o Anticristo; porquanto está escrito: "Seja Dã serpente junto ao caminho, uma víbora chifruda na vereda, que morde os cascos do cavalo, para que caia o seu cavaleiro." Pois não se propôs expor a ordem da geração terrena, mas, segundo a interpretação dos nomes, as potências da Igreja, a qual, partindo da confissão e do louvor presentes, apressa-se para a destra da vida eterna. Pois este é o sentido do nome de Judá, que é posto em primeiro lugar, e de Benjamim, que vem por último. Assim, pois, Judá é posto em primeiro lugar, o qual se interpreta "confissão", ou "louvor"; porquanto, sem o primeiro passo da confissão, ninguém alcança o cume das boas obras, e, se não renunciarmos às más ações pela confissão, não somos configurados às que são boas. O segundo é Rúben, que se interpreta "vendo o filho". Que pelos "filhos" se designam as obras, o Salmista o testifica, quando, entre as bênçãos do homem que é bem-aventurado, diz, com o mais: "Teus filhos como plantas de oliveira"; e, mais adiante: "Para que vejas os filhos de teus filhos." Pois não é que aquele que teme ao Senhor não possa ser bem-aventurado, a menos que tenha gerado filhos e criado netos, visto que uma recompensa melhor aguarda as virgens fiéis; mas, nos "filhos", designa as obras, e, nos "filhos dos filhos", os frutos das obras, a saber, a recompensa eterna. Segue-se, pois, que, depois de Judá, vem Rúben, isto é, depois do início da confissão e do louvor divinos, a perfeição da ação. Mas, porque "por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus", depois de Rúben segue-se Gad, que se interpreta "tentação", ou "cingido". Pois, depois do começo de uma boa obra, é necessário que o homem seja provado por maiores tentações, e se cinja para maiores combates, a fim de que a fortaleza de sua fé seja aprovada. E assim diz Salomão: "Filho meu, quando vieres ao serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação"; e também o Salmista: "Tu me cingiste de fortaleza para a batalha." E, porque "reputamos bem-aventurados os que sustentaram o sofrimento", por esta razão, depois de Gad, é posto Aser, isto é, "o bem-aventurado", ordem que não é despropositada.
Pois "bem-aventurado é o varão que suporta a tentação, porque, depois de provado, receberá a coroa da vida." Mas, visto que aqueles que se apoiam na certa promessa desta bem-aventurança não são angustiados, antes, "alegres na esperança, pacientes na tribulação," cantam com o autor do Salmo: "Na tribulação me alargaste," e também: "Corri pelo caminho dos teus mandamentos, quando alargaste o meu coração"; e dizem, exultantes, com a mãe do bendito Samuel: "O meu coração se alargou sobre os meus inimigos, porque me alegrei na tua salvação"; segue-se, por isso, Naftali, que significa "alargamento." Segue-se, além disso, Manassés, que se interpreta "esquecimento," ou "necessidade." E pelo mistério deste nome somos admoestados a que, instruídos pela angústia das presentes tentações, e "esquecendo-nos das coisas que ficam para trás," assim nos "estendamos," como diz o Apóstolo, "para as coisas que estão diante," de modo a "não fazer provisão para a carne em suas concupiscências," mas tão somente como constrangidos pela necessidade da natureza humana. E a este respeito orou o Salmista, suspirando por coisas melhores: "Livra-me das minhas necessidades." Depois dele vem colocado Simeão, isto é, "ouviu a tristeza," ou "o nome da sua habitação"; a fim de que, também pela índole deste nome, mais claramente se inculcasse tanto aquilo que aqui se há de possuir quanto aquilo que proveitosamente se há de esperar. Pois o gozo da habitação celestial será dado àqueles cuja mente aqui se entristece por uma frutuosa penitência; aos quais também se diz: "A vossa tristeza se converterá em alegria." Em seguida vem Levi, isto é, "acrescentado," em quem entendemos ou aqueles que, por meio das coisas temporais, alcançam as eternas, como diz Salomão: "O resgate da vida do homem são as suas riquezas"; ou aqueles que, seguindo o conselho de Deus, "recebem neste mundo cem vezes mais, com tribulações, e, no mundo vindouro, a vida eterna." E a estes pertence também o que está escrito: "Quem acrescenta ciência, acrescenta dor." Pois também para este fim foi acrescentada ao bendito Jó a amargura da tribulação, para que, depois de provado, recebesse maior galardão de recompensa. E assim, não sem razão, sucede-lhe em ordem direta Issacar, que se interpreta "recompensa," porquanto, como ensina o Apóstolo, "as aflições do tempo presente não são dignas de comparação com a glória futura que em nós há de ser revelada," visto que combatemos com melhor êxito quando há esperança de uma recompensa certa. Mas Deus opera e aperfeiçoa isto na habitação da fortaleza, que é o que significa Zabulon, quando "a fortaleza se aperfeiçoa na fraqueza." De modo que o corpo, que pelos inimigos é tido por fraco, e por cuja substância material eles também se esforçam por trazer destruição à alma, encontra-se invencível por meio de Deus, que o fortalece; e a este sucede um feliz acréscimo. Isto também é denotado pela palavra José, pois ela significa dons e graças a serem acrescentados, quer entendas o acréscimo do ganho espiritual pelo duplo retorno dos talentos, quer o tomes a respeito das oferendas que se fazem a Deus Redentor pela devoção dos fiéis.
Ora, para que percebas que todos estes, que tanto pela sucessão quanto pela interpretação dos nomes se mostram não colocados sem significado, estarão à destra de Cristo, o Rei eterno, no juízo vindouro; Benjamim, isto é, "o filho da destra", é posto por último, como dito antes, como o fim da linhagem. Pois, depois que o último inimigo, a morte, tiver sido destruído, será dada aos eleitos a bem-aventurança da herança eterna. E isto, quer cada um dos fiéis seja retamente chamado filho da destra, quer toda a assembleia da Igreja, da qual se canta: "À tua direita está a rainha, com vestidura de ouro, ornada de variedade." Assim, pois, de cada tribo são selados dez mil. Pois, em quaisquer virtudes que cada um dos fiéis tenha progredido, é necessário que seja sempre fortalecido pela fé, e instruído pelos exemplos dos pais antigos. E é certíssimo que, frequentemente, o corpo dos doutores, frequentemente o de toda a Igreja, é designado pelo número doze, por causa da soma dos Apóstolos, ou dos patriarcas. Pois quer cada um seja considerado digno de louvor pela confissão, como em Judá; quer seja ilustre pela progênie das obras, em Rúben; quer seja forte pela disciplina das tentações, em Gade; quer seja feliz pela vitória nos combates, em Aser; quer seja dilatado por abundantes obras de misericórdia, em Naftali; quer seja esquecido das coisas que ficaram para trás, em Manassés; quer esteja ainda pesaroso, como no vale de lágrimas, mas sempre se alegrando no nome de sua habitação, enquanto suspira pela Jerusalém celeste, em Simeão; quer se alegre juntamente nas promessas da vida presente e da que há de vir, apoiando-se nos bens temporais, acrescentados ao bem eterno, em Levi; quer seja fortalecido pela contemplação da recompensa futura, em Issacar; quer esteja dando a vida por Cristo, em Zabulon; quer trabalhe com afinco pelo aumento da substância espiritual, e ofereça algo mais além dos mandamentos de Deus, seja na virgindade, seja na abundância de seus bens, em José; quer aguarde a destra da bem-aventurança eterna, com oração incansável, em Benjamim; convém que cada um seja selado em sua própria profissão pela regra dos pais precedentes, como pelo número doze, e que, dos méritos de cada um, se componha a mais perfeita beleza da Igreja, como a soma de cento e quarenta e quatro mil. OS QUE VIERAM DA GRANDE TRIBULAÇÃO <
multidão: Concluída a recapitulação, que fora interposta por causa do exemplo, retorna ele à ordem anterior, e anuncia a glória daqueles que hão de vencer a iniquidade da última perseguição. E o que se segue, "de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas", pode também assim ser entendido: que, após enumerar as tribos de Israel, às quais primeiramente foi pregado o Evangelho, deseja ele fazer menção também da salvação dos gentios.
vestes: Por "vestes" significa ele o batismo, por "palmas" o triunfo da Cruz, e dá a entender que em Cristo venceram eles o mundo. Mas as vestes podem também duplicar a glória que é dada pelo Espírito Santo.
caíram: Neste passo ele relata que não a multidão, nem os seres viventes, nem os anciãos adoraram, mas os anjos somente. Pois estes são a multidão, estes os seres viventes e os anciãos. Mas também se pode entender dos próprios espíritos angélicos, dos quais, como regozijando-se juntamente pela salvação dos gentios, se diz: "Alegrai-vos, gentios, com o Seu povo", e: "Adorem-nO todos os anjos de Deus."
anjos: Em todos os anjos ele representou as pessoas da grande multidão que adora o Senhor. "Todos eles", diz, "os que estão ao redor dEle oferecerão dons."
lavaram: Não fala somente dos mártires. Estes são lavados em seu próprio sangue. Mas o sangue de Jesus, o Filho de Deus, purifica toda a Igreja de todo pecado; por isso estão diante do trono de Deus. Pois são julgados dignos de ali permanecer juntos no serviço de Deus aqueles que, em meio às adversidades, são fiéis confessores do Seu Nome.
tribulação: "É necessário que por muitas tribulações entremos no Reino de Deus"; mas quem ignora que a tribulação do Anticristo será maior que todas as demais?
dia e noite: Fala Ele segundo o nosso modo de falar, e significa a eternidade.
trono: Os santos são o trono de Deus, sobre os quais e no meio dos quais o Senhor habita para sempre.
fome: Isto é o que o próprio Senhor prometeu, dizendo: «Eu sou o pão da vida: aquele que vem a Mim jamais terá fome; e aquele que crê em Mim jamais terá sede.» Sim, «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.»
o sol: «Passamos», diz ele, «pelo fogo e pela água, e Tu nos conduziste a um lugar de alívio.»
fontes: Isto é, à companhia dos santos, que são as fontes da doutrina celestial. Pode também significar-se a própria visão de Deus, «em Quem estão ocultos os tesouros da sabedoria e do conhecimento»; segundo aquilo que Davi diz: «Como o cervo anseia pelas fontes das águas, assim a minha alma anseia por Ti, ó Deus.»
lágrimas: Quando se alcançar a plenitude da bem-aventurança imortal, toda a tristeza será de imediato entregue ao esquecimento. Pois, «Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.» A visão da multidão vestida de branco pode também entender-se do tempo presente, quando «somos salvos em esperança», e, «esperando o que não vemos, com paciência o aguardamos.»
o Cordeiro: Diz ele que o Cordeiro está no meio do trono, visto que dissera acima que «o Cordeiro recebeu o livro daquele que está assentado sobre o trono»; e ensina que a Igreja é um único trono para o Pai e para o Filho, no qual habita, pela fé, um só Deus, a Trindade indivisa.
Selo: Crê-se que, após a morte do Anticristo, haverá um pequeno repouso na Igreja, o qual Daniel assim predisse: "Bem-aventurado aquele que espera e chega até os mil trezentos e trinta e cinco dias." E assim é interpretado pelo bem-aventurado Jerônimo: "Bem-aventurado", diz ele, "é aquele que, morto o Anticristo, para além dos mil duzentos e noventa dias, isto é, três anos e meio, aguarda os quarenta e cinco dias, nos quais o Senhor e Salvador há de vir em Sua própria Majestade. Ora, por que razão, depois da destruição do Anticristo, há silêncio por quarenta e cinco dias, é matéria de conhecimento divino, a menos que talvez digamos que o adiamento do reino dos santos é a prova da paciência." Observa que, no sexto selo, ele vê as maiores aflições da Igreja; no sétimo, o repouso. Pois o Senhor foi crucificado na sexta-feira da semana, e repousou no sábado, aguardando o tempo da ressurreição. Até aqui, acerca da abertura do livro selado e dos seis selos. Mas agora ele recapitula desde o princípio, pois está para dizer as mesmas coisas de outro modo.
veio: Não diz ele que veio depois; mas, ao anunciar que os anjos receberam trombetas, volta a explicar de que modo as receberam. Pois, embora a Igreja pregasse antes da vinda do Senhor, não era em todo lugar, até que foi fortalecida por Seu Espírito.
três: Não que as trombetas dos anjos tragam as pragas sobre o mundo, mas que cada um deles, a seu tempo, anuncia as que estão vindo, ou hão de vir.
águia: A voz desta águia voa diariamente pelas bocas dos eminentes doutores da Igreja, quando anunciam que a crueldade de [...] e o dia do juízo virão com todo o rigor sobre os que são amantes da terra; enquanto dizem: "Nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos, e os homens serão amantes de si mesmos"; e mais abaixo: "homens corruptos de mente, réprobos quanto à fé"; e em outro lugar: "Então será revelado o iníquo, que se opõe e se exalta sobre tudo o que se chama Deus, ou é adorado"; e ainda: "O dia do Senhor virá assim, como ladrão de noite; pois, quando disserem: paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição."
lua: A glória da Igreja, que resplandece como uma estrela, é frequentemente obscurecida por falsos irmãos, os quais, seja na prosperidade, seja na adversidade do século, fazem com que ela brilhe menos intensamente por sua defecção.
foram destruídos: Outra versão, ao dizer "e destruíram a terça parte dos navios", significa que a terça parte que estava morta matou outra terça parte, a saber, aquela que lhe vinha em seguida, por uma tradição perniciosa e pelo seguimento de doutrina infrutífera. O TERCEIRO ANJO estrela. Os hereges, que são chamados pelo apóstolo Judas "estrelas errantes", caem da altura da Igreja, e pela chama de sua própria maldade tentam corromper as fontes da divina Escritura, ousando falsificar não somente o sentido, mas também as palavras. Estes são dignos do nome de Absinto, pois uma leve mistura dele costuma tornar amarga muita doçura. morreram. Pois "muitos", como diz o Apóstolo, "seguem suas próprias luxúrias, por causa dos quais o caminho da verdade é blasfemado." Pelo povo de Deus, contudo, como ensina Moisés, toda espécie de água pode ser bebida. O QUARTO ANJO
vida: Disse ele: "Que têm vidas", para representar os vivos como espiritualmente mortos; como diz o Apóstolo acerca da viúva que vive em prazeres: "está morta, ainda que viva."
grass: A erva é toda carne, que agora se regala na moleza do luxo, mas que, quando o sol do juízo aquece, perde a flor da beleza, e, como diz o Senhor, "hoje está no campo, e amanhã é lançada ao forno." Ticônio fala assim da terça parte neste lugar: "Por terça parte entende ele os inimigos intestinos." Mas tudo o que está fora da Igreja se chama terça parte, e a Igreja é uma terça parte que há de combater um mal duplo.
O SEGUNDO ANJO
monte: À medida que a religião cristã crescia, o diabo, inchado de soberba e ardendo no fogo de sua ira, foi lançado ao mar do mundo, pois o Senhor diz: "Se disserdes a este monte: Ergue-te, e lança-te no mar, assim será feito." Não que ali já não estivesse antes, mas que, lançado fora da Igreja, começou a enfurecer-se com maior loucura contra os seus, enquanto, pela soberba do conhecimento carnal, operava neles a morte espiritual; pois "o sentir da carne é morte." Mas não foram a carne e o sangue que ensinaram os Apóstolos, e sim o Pai que está nos céus, pois eles dirigiam a nau da fé naquele mar que se entregava a ser pisado pelos pés do Senhor.
burnt up: A vida dos bons se encontra nos doutores e nos ouvintes. Pois, "Bem-aventurado," diz ele, "aquele que lê, e aquele que ouve as palavras da profecia." Mas a terça parte dos maus não tem nem uma coisa nem outra. Pois "a terra que produz fruto com paciência recebe bênção do Senhor; mas a má produz espinhos e abrolhos, cujo fim é para ser queimado." Assim também o Pai, que é o lavrador, cultiva o que é frutífero, mas corta a árvore estéril, e a entrega como lenha ao fogo.
hail: Que a pena do inferno é devida às obras de sangue, anuncia-o a voz dos pregadores, que dizem: "passarão das águas da neve ao calor excessivo." Também sob o nome de sangue se pode entender a morte espiritual da alma. Ticônio explica o versículo desta maneira: "Seguiu-se a ira de Deus, à qual havia de suceder a morte de muitos."
first: Este anúncio das pragas é bem comparado a uma trombeta, que é o sinal de batalha. Pois diz ele: "Levanta a tua voz como trombeta, e anuncia ao Meu povo as suas iniquidades"; e em outro lugar: "Haja uma trombeta na tua boca, como águia sobre a casa do Senhor," isto é, proclama em voz alta que Nabucodonosor virá para a destruição do templo.
earthquake: Sacudiu a terra com o trovão da ameaça divina, e a voz da exortação, e o relâmpago dos milagres, quando alguns perseguiam e outros seguiam; quando estes diziam: "Ele é homem bom," e aqueles: "Não, antes engana o povo."
to sound: A Igreja, inflamada pelo Espírito sétuplo, preparou-se para pregar com confiança, de modo a derrubar a glória do mundo, como os muros de Jericó, com trombetas celestiais. Pois aquele cercar por sete dias sugere também todo o tempo da Igreja.
O PRIMEIRO ANJO
earth: Assim também o Senhor no Evangelho diz: "Vim lançar fogo sobre a terra."
incense: Ofereceu incenso das orações dos santos. Pois a Igreja lhe confiou as suas orações, dizendo: "Seja a minha oração dirigida diante de Ti, como incenso." Diz-se dEle, ao mesmo tempo, que tomou as orações dos santos e que as ofereceu, porque as orações de todos podem chegar, por Ele, com suave odor ao Pai.
smoke: Quando Cristo o Senhor se ofereceu a Si mesmo em sacrifício de suave odor, foi feita aceitável a compunção de coração nos santos, pois esta provém do fogo interior, e, como a fumaça, costuma suscitar lágrimas.
stood before: Apareceu, isto é, à vista da Igreja, feito Ele mesmo o turíbulo do qual Deus recebeu o odor de suave cheiro, e foi propiciado para com o mundo. Outra versão traz: "sobre o altar"; porque sobre o altar da cruz Ele ofereceu ao Pai, por nós, o Seu próprio turíbulo de ouro, isto é, o Seu próprio corpo imaculado, concebido pelo Espírito Santo.
Ele oportunamente introduz um turíbulo cheio de fogo, pois "Deus não dá o Espírito por medida". E sabemos que isto se cumpriu de modo especial a respeito da Encarnação de Cristo, "pois nEle habita corporalmente toda a plenitude da Divindade".
não brilhou: Outra versão traz o seguinte: "E que a terça parte do dia aparecesse, e da noite igualmente". Isto é, foi ferida para este fim, que a terça parte do dia e a terça parte da noite aparecessem, quer pertencentes a Cristo, quer ao diabo. Para este fim, digo, foi ferida, isto é, entregue aos seus próprios desejos, para que, à medida que os seus pecados se tornassem mais abundantes e mais flagrantes, pudesse ela, em seu próprio tempo, ser revelada.
gafanhotos: Assim como os santos são o corpo de Cristo e membros uns dos outros, assim também os membros da carne do dragão aderem uns aos outros, e nascem uns dos outros, e a fumaça da cegueira herética gera a soberba dos ímpios, a qual fere com sua boca. E ainda que estes sejam agitados pelo vento da exaltação, contudo não abandonam os lugares da terra, pois também a fumaça da qual são produzidos, embora busque ascender, sempre torna a afundar-se em si mesma.
poder: Os hereges são comparados a potências hostis, e parecem inofensivos em seu semblante, mas guardam veneno em suas partes posteriores.
selo: Diz-se que têm o selo de Deus em suas frontes os que o possuem como devem possuí-lo; e o número destes foi contado acima, como inviolável e fixado pelo anjo que trouxe do oriente o selo do Deus vivo. Pois aqui foi aprazível a Ele usar a forma de expressão na qual se diz: "Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo", isto é, perfeita e verdadeiramente.
erva: Ele mostra que os gafanhotos são homens, pois não são enviados contra a erva, mas contra os homens, já que entendemos aqui os gafanhotos simplesmente neste sentido.
matar: Ainda que os hereges sejam sustentados pelo poder secular, e lhes seja permitido por certo tempo assaltar os bons, contudo, como diz o Senhor, "não podem matar a alma". Pois pelos cinco meses significa o tempo do século, por causa da divisão em cinco dos sentidos que usamos nesta vida. Mas quanto a haver outra tradução que traz "seis meses", isto concorda com esta interpretação, por causa dos seis períodos do século.
escorpião: Assim como o escorpião difunde veneno de suas partes posteriores, assim a impiedade dos malvados fere a partir de suas partes posteriores, quando, por ameaças ou lisonjas, faz com que as coisas temporais que estão atrás sejam preferidas aos bens eternos que estão adiante. Em oposição à parábola do Evangelho, a geração de víboras dá este escorpião à sua própria descendência.
rostos: No rosto humano ele representa uma aparência de razão; nos cabelos de mulheres, costumes frouxos e efeminados; nos dentes de leões, que costumam despedaçar e que trazem consigo um fedor natural, a ferocidade da mente e a infâmia da má doutrina; e nas couraças de ferro, corações endurecidos contra a verdade. Pois "estes, tendo a aparência da piedade, mas negando o seu poder", "vêm vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes".
cavalos: Isto é, são como os últimos perseguidores. Pois na última guerra que ele há de descrever sob o anjo seguinte, diz que os cavalos combatem; ou, mais simplesmente, assim como os cavalos são incitados à batalha não por razão própria, mas pelo impulso do cavaleiro, assim também os falsos mestres, impelidos por espírito demoníaco, atacam a Igreja.
coroas: Os vinte e quatro anciãos, que são a Igreja, têm coroas de ouro. Mas estes têm coroas semelhantes ao ouro, como que a fingir falsos triunfos de uma vitória vazia.
cinco meses: Novamente significa esta vida presente, na qual a falsidade pode prevalecer, seja para apanhar os que não aproveitam, seja para atormentar por algum tempo os espirituais.
caudas: Assim como o escorpião avança mansamente, mas fere com a cauda, também a perniciosa astúcia dos ímpios parece, na aparência, branda e inofensiva; mas, na medida em que secretamente destrói, como que de modo oculto, traz consigo a morte.
preparados: Os espíritos malignos, que a todo momento das horas e dos tempos têm fome da morte do homem, são então permitidos, para prova da Igreja, a enfurecer-se mais livremente, e hão de ser destruídos a seu tempo; mas que farão, cuidas tu, quando forem soltos aqueles que agora, estando presos, tanto dano causam?
soltos: Do mesmo modo que a profecia, que nos aponta as coisas futuras, ele próprio, em espírito, as vê já cumpridas. E disse quatro anjos, porque a perseguição há de assolar as quatro partes do mundo. Pois estes são os mesmos que ele viu acima, de pé nos quatro cantos da terra, impedidos de causar dano à terra e ao mar até que se selassem os servos de Deus.
Os espíritos malignos são envolvidos nos mesmos suplícios com aqueles cujos corações presidem. Pois lemos que "os que adoram a besta hão de ser atormentados com fogo e enxofre", e que "a fumaça dos seus tormentos sobe pelos séculos dos séculos". Observa-se que, na praga dos gafanhotos, não disse que viu cavaleiros, mas somente cavalos. Pois aqui a grandeza das perseguições manifesta a presença de um poder contrário. Por fim, aqui há cabeças de leões, mas ali há rosto de homens, e somente dentes de feras. Pois os hereges frequentemente ostentam aparência de humanidade, mas os ministros da última perseguição exigem, mediante suplícios, até mesmo aquilo que recomendavam por palavras e sinais.
Mostra que disse "jacinto" por fumaça. Estas coisas não procedem visivelmente de sua boca; mas são fonte de castigo para si mesmos e para os seus ouvintes, por causa de sua pregação nociva. "Trarei fogo", diz Ele, "do meio de ti, que há de devorar-te."
Pois os falsos mestres da antiga serpente que enganou o homem, como aqueles que se sustentam sob a proteção de príncipes, causam maior dano do que se persuadissem apenas por palavras. "Ele se assenta", diz, "à espreita, junto com os ricos."
Isto é, no seu discurso e ofício. Pois "o profeta que ensina a mentira, esse é a cauda", porque ele oculta, mediante a volubilidade de uma língua lisonjeira, uma parte que é de certo modo escondida e imunda, dizendo ao ímpio: "Tu és bom."
A uma religião ímpia acrescentam também um modo de vida profano. Depois de haver descrito a crueldade do Anticristo, a fim de mostrar a sua queda, recapitula, segundo o seu costume, o início a partir do nascimento de Cristo, e a glória da Igreja.
Havendo descrito os falsos cristãos e os hereges, a fim de abarcar todo o corpo do diabo, menciona agora também o erro dos gentios, aos quais de nada aproveita não terem sido mortos por estas pragas, visto ser evidente que permanecem ainda na iniquidade pagã. Pois nem mesmo naquela última perseguição serão os gentios compelidos a dar o seu assentimento pelas coisas acima mencionadas, mas hão de morrer na sua incredulidade.
terra: A pregação da fé cristã se estende por terra e mar. Mas, alegoricamente, os membros mais fortes são postos nos maiores perigos, os outros naqueles que lhes convêm. Pois Deus "não permite que sejamos tentados além do que podemos suportar."
livro: Este é o livro que foi mencionado acima, e que estava fechado por um véu longamente contínuo, e foi por fim desatado pela graça do Senhor, para que, como diz o Profeta, até "os surdos ouvissem as palavras do livro." E com razão o Seu rosto é como o sol, porquanto Ele agora traz um livro aberto.
não mais: Certamente, como diz o Salmista, "o tempo dos justos será para sempre". Mas a variável mudança dos tempos seculares cessará à última trombeta, pois "a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptos", e "a sua herança será para sempre".
criado: Aquele que se põe sobre o mar e sobre a terra, e estende a mão para o céu, jura convenientemente pelo Criador do céu, da terra e do mar.
amargo: Depois de a teres recebido, deleitar-te-ás com a doçura do oráculo divino; mas hás de perceber uma amargura ao começar a pregar e a praticar aquilo que aprendeste, ou, ao menos, assim se deve entender segundo Ezequiel, o qual, tendo dito que comera o livro, acrescentou: "E fui-me embora amargurado, na indignação do meu espírito."
Toma: Isto é, coloca-o nas tuas partes interiores, e escreve-o na largura do coração.
Dá: Venha ao Senhor aquele que deseja receber os sacramentos da doutrina.
de fora: Os que apenas de nome estão unidos à Igreja, e que não se aproximam nem do altar nem do santíssimo lugar, são lançados fora pela regra do Evangelho, e são ajuntados às nações. Pois "toda a glória da filha dos reis vem de dentro."
atropelar: Não somente são expulsos da Igreja, mas também combatem contra a própria Igreja, tendo os pagãos como aliados, por três anos e meio. Não é que apenas então a pisoteiem, no tempo do Anticristo; mas que, naquele tempo, todo o corpo dos ímpios, "nos quais já opera o mistério da iniquidade," se une, por assim dizer, à sua própria cabeça.
OS DOIS TESTEMUNHOS
Cilício: isto é, aqueles que são postos a fazer penitência; como diz o profeta: «Mas eu me revesti de cilício de pelos, enquanto eles me atribulavam.»
Testemunhas: Para que a crueldade dos ímpios não atemorize o ouvinte, menciona ele que também a Igreja — que de dois povos se fez una — há de tornar-se ilustre pelo dom dos milagres. A Igreja, ademais, contemplando sempre a sua Cabeça, a saber, Cristo ensinando na carne, profetizará, diz-se, por dois anos e meio. Pois os meses de três anos e meio, isto é, trinta vezes quarenta e dois, completam duzentos e sessenta dias. Mas Daniel escreve que os dias desse mesmo período, em que há de erigir-se a abominação da desolação, são mil duzentos e noventa.
águas: Não somente fazem cessar as águas, mas também tornam inúteis as que haviam descido; e isto é converter as águas em sangue. O suave odor de Cristo, que da Igreja emana com fragrância, é "para uns odor de morte para morte, para outros odor de vida para vida".
poder: Todo o poder no céu e na terra é dado à Igreja em Cristo, pois lhe foram confiadas as chaves de ligar e desligar. Mas espiritualmente também se fecha o céu, para que não chova, a fim de que a bênção da Igreja não desça sobre a terra estéril. Como diz o Senhor ao Pai acerca de sua vinha: "Mandarei às nuvens que não derramem chuva sobre ela."
testemunho: Mostra claramente que todas estas coisas acontecem antes da última perseguição, ao dizer: "quando houverem acabado o seu testemunho"; a saber, aquele que dão, até a revelação da besta, que há de sair dos corações dos ímpios. Não é que então não se esforcem corajosamente por resistir ao inimigo com esse mesmo testemunho, mas que a Igreja, segundo se supõe, ficará então destituída do dom dos milagres, enquanto o adversário resplandece com eles à vista de todos, mediante prodígios mentirosos. Pois, como diz o Senhor, "a indigência irá adiante de sua face."
matar: Vencerá naqueles que sucumbirem, matará naqueles que, com louvável paciência, forem mortos. Ou então: se ele vencer e matar espiritualmente, podemos entendê-lo de uma parte das testemunhas, como diz o Senhor no Evangelho: "Entregar-vos-ão à aflição, e vos matarão"; o que o evangelista Lucas dá a entender ter sido dito de uma parte, dizendo: "A alguns de vós matarão."
Sodoma: isto é, "silenciosa e escura", não possuindo, na verdade, nem a luz da fé, nem a voz da confissão. Pois "com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação". Estas regiões, como sinal de castigo espiritual, foram visivelmente feridas com estas pragas, isto é, com fogo devorador e água convertida em sangue.
corpos: "Se a Mim me perseguiram", diz Ele, "também a vós perseguirão". Não é de admirar, pois, se a cidade dos ímpios, que não temeu crucificar o Senhor, também escarnece de seus servos, ainda quando estes são mortos. E tais coisas como estas a história eclesiástica relata terem ocorrido muitas vezes.
sepulcros: Falou Ele do desejo e da oposição deles: não que sejam capazes de fazer com que a Igreja não seja seu memorial; como está dito: "Vós nem entrais, nem permitis que outros entrem", visto que alguns de fato entram, ainda que eles se oponham. Mas eles evidentemente conseguirão, no tocante aos corpos dos vivos e dos mortos, que nem os vivos sejam permitidos a reunir-se para sua memória pela celebração dos santos ofícios, nem os mortos tenham seus nomes recitados para sua memória, nem tenham seus corpos sepultados para sua memória como testemunhas de Deus.
verão: Não disse que os povos e as tribos verão, mas que muitos dentre os povos, que abertamente escarnecem dos santos, verão quando outros crerem.
atormentados: Por causa das pragas com que a raça humana é vexada, por causa do testemunho que prestam a Deus, até mesmo a própria vista dos justos oprime os injustos; como eles mesmos dizem: "Ele nos é penoso até de ver".
regozijar-se-ão: Todas as vezes que os justos são afligidos, os injustos exultam e banqueteiam-se, como está dito: "enquanto o ímpio se ergue, o pobre é consumido".
temor: Falou Ele de todos os vivos, porque até mesmo os justos que permanecerem vivos temerão grandemente à ressurreição dos que dormem.
Até aqui o anjo falou do futuro, e agora introduz, como já realizado, aquilo que ouve haver de suceder, a saber, que, destruído o reinado do Anticristo, os santos ressuscitaram para a glória.
Aqui distinguiu os ímpios daqueles de quem havia dito que temiam juntamente com eles.
O GRANDE TERREMOTO
É isto mesmo que disse o Apóstolo: «Seremos arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor, nos ares».
Edificados estão sobre a rocha aqueles que, por sua própria firmeza, glorificam o Senhor quando os outros caem ao terremoto. Pois «o justo se alegrará quando vir o castigo do ímpio». Alguns entendem que os dois profetas sejam e Elias, e que hão de pregar por três anos e meio, confirmando os corações dos fiéis contra a perfídia do Anticristo, que em breve há de seguir-se; e que, depois da morte deles, a crueldade deste há de enfurecer-se pelo mesmo espaço de tempo, e então, renovado enfim o combate pelos santos que, sob a proteção de seus esconderijos, eram tidos por mortos, será ele vencido. E estes, por causa de sua participação num só corpo, dizem-se ressuscitar como os próprios profetas; e, intensificando-se a perseguição à vista daqueles que já se julgavam mortos, muitos dos que se reputavam dignos do número de sete, ou de dez, hão de cair. Pois diz Daniel: «Ele confirmará a aliança com muitos por uma semana, e na metade da semana cessará a oblação e o sacrifício, e a abominação da desolação estará no templo»; e mais adiante: «e quando for posta a abominação que assola, haverá mil duzentos e noventa dias», número este que se aproxima do curso de três anos e meio. Por fim, Elias, antigamente, destruiu seus adversários pelo fogo, esteve oculto por três anos e meio e reteve a chuva; e, ao cabo, dados à morte os falsos profetas por meio do sacrifício que fora consumido, converteu Israel ao Senhor.
Quem, dentre todos os homens, se gloriará de ter o coração puro, quando «as potestades do céu serão abaladas»?
Quando sobre eles vier o terror do juízo, toda a cidade do diabo, que está edificada sobre a areia, cairá por terra com todos os seus edificadores. Pois tanto o dez quanto o sete são números perfeitos. Mas, ainda que não fosse assim, o todo se haveria de entender a partir da parte.
Este é o último ai. Por isso, a respeito dos sete anjos que tocam a trombeta, recapitula agora desde o nascimento do Senhor, como que prestes a dizer as mesmas coisas de outro modo, e mais amplamente.
morre: Concorda com a ordem, como lemos no Evangelho, que primeiro, na verdade, todas as nações sejam reunidas diante do Juiz, depois que os que estão à direita sejam dispostos em muitas moradas no Reino do Pai, mas que os ímpios sejam lançados para fora dos limites do reino, para serem queimados nas chamas malditas.
relâmpagos: Todos estes são os milagres do esplendor, e da pregação, e das guerras da Igreja. Havia dito também que estas coisas ocorreram na descrição do anúncio dos sete anjos, desde o Advento do Senhor, quando Ele se pôs sobre o altar, mas em geral desde o princípio até o fim. Então descreveu particularmente de que modo se deram, como agora também faz, que o templo de Deus se abre no céu, e que se seguem os combates.
O templo de Deus, que outrora fora posto sobre a terra, tinha a arca da aliança, encerrada dentro do véu místico: Mas agora, na Igreja, que é "o templo do Deus vivo", cuja "conversação está nos céus", a arca de Sua Encarnação está patente a todo o mundo, pois o véu do antigo templo, e a parede intermediária de separação, foram rasgados pelo sangue do Senhor. Pois, como o maná celeste em ouro puro, assim é a Divindade em um corpo santo.
Assim diz o Senhor no Evangelho: «A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz o filho, já não se lembra da angústia, pelo gozo de haver nascido um homem no mundo». E Ele mesmo expôs isto a seus discípulos, e acrescentou: «E vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará».
A Igreja, em sentido espiritual, tanto dá à luz aqueles de quem está em trabalho de parto, quanto não cessa de padecer por eles mesmo depois de já nascidos. Como ela mesma diz: «Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós».
O demônio arma ciladas contra a Igreja, e se esforça por extinguir a fé de Cristo nos corações dos fiéis, a fim de que possa, por assim dizer, matar aquele a quem foi ensinado, e a quem, por meio do ensino, deu à luz. E uma figura deste engano se mostrou em Herodes, o qual, como inimigo doméstico, finge desejar adorar o Senhor, a fim de poder matá-Lo.
Ele sugere o poder e a malícia do inimigo, a quem a Igreja vence com o auxílio do Senhor, pois ele derrubou uma hoste inumerável de anjos e de homens por meio de testemunho enganoso, como que com uma cauda. Pois a cauda é a parte do corpo que se subtrai à vista, e imunda; e que oculta, pela cobertura que oferece, as partes que são imundas, para que não apareçam. Ticônio, como é seu costume, interpreta a terça parte das estrelas que caíram como referindo-se aos falsos irmãos, de modo que outra terça parte seria a Igreja, e os inimigos exteriores a ela, a terça parte restante.
Por isso, a impiedade não pode apreender a Cristo, que espiritualmente nasce nas mentes dos ouvintes, porquanto ao mesmo tempo Ele reina com o Pai nos céus, «o qual nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez sentar juntamente nos lugares celestiais em Cristo».
filho varão: Ainda que o dragão se oponha, a Igreja sempre dá à luz a Cristo. Mas ele falou do filho varão como vencedor do diabo, que havia vencido a mulher. Pois quem, senão o filho varão, que há de "reger todas as nações com vara de ferro", governa os bons com justiça inflexível e despedaça os maus? E isto também é prometido à Igreja, porquanto se disse acima: "Eu lhe darei poder sobre as nações, e Ele as regerá com vara de ferro." Pois a Igreja, também ela, diariamente gera a Igreja, que rege o mundo em Cristo.
dias: Neste número de dias, que perfazem três anos e meio, ele compreende todos os tempos do Cristianismo, porque Cristo, de quem a Igreja é o corpo, pregou na carne por igual espaço de tempo.
A GUERRA NO CÉU
lugar: "Sê Tu para mim", diz ele, "como Deus meu protetor, e como lugar de refúgio, para que eu esteja seguro."
deserto: A Igreja se alegra em sua peregrinação neste deserto presente, como quem vive na esperança das coisas eternas. Pois recebeu poder para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do dragão vermelho, como a multidão israelita que foi alimentada com o pão celeste e venceu as serpentes ardentes pela vista da serpente de bronze.
céu: O céu significa a Igreja, na qual, diz ele, Miguel, com os seus anjos, combate contra o diabo, porque, segundo a vontade de Deus, ele peleja pela Igreja em sua peregrinação, orando e ministrando auxílio; do qual também Daniel disse que viria em socorro da Igreja na última e mais grave aflição; donde se supõe que o Anticristo há de ser morto por ele. E eles são ditos anjos dele do mesmo modo que também os nossos são ditos nossos anjos. Pois o Senhor diz: "Os seus anjos veem sempre a face de Meu Pai" — os anjos, isto é, daqueles de quem são concidadãos.
combateram: Os anjos de Satanás não são somente aqueles que lhe são semelhantes em natureza e vontade, mas devem também entender-se os homens que estão enredados em suas ciladas.
não prevaleceram: Isto é, não prevaleceram por todo o tempo.
acusados: Pois sugere que eles tanto fazem mau uso da prosperidade, quanto não têm paciência na adversidade. <
salvação: Manifesta-se claramente em que céu se dão estas coisas, pois sabemos que na Igreja a salvação é obtida pela vitória de Cristo, e por isso Ele diz: "Todo o poder Me foi dado no céu e na terra"; não aquele poder que Ele mesmo sempre teve, mas aquele que passou a ter na Igreja, como a Cabeça nos membros, desde o momento em que Ele mesmo o quis.
irmãos: Os anjos exprimem alegria pela salvação de seus irmãos, isto é, daqueles que se tornarão cidadãos, mas que agora são estrangeiros.
Ai: Assim como mostrou que a alegria há de ser a expectativa dos redimidos, mostra também que o pranto há de ser a dos que perecem. E um grande ai paira sobre aqueles de quem o inimigo perversíssimo se apodera em sua ira.
alegrai-vos: Aqui, por habitantes do céu, devem-se entender tanto os anjos quanto os homens santos, e a ambos pertence alegrar-se no Senhor, pois tanto os homens se unem aos anjos, quanto os anjos ministram à natureza humana em Cristo.
alimentada: Significa-se todo o tempo da Igreja, como contido no número dos dias acima. Pois um "tempo" designa um ano; "tempos", dois; "meio tempo", seis meses.
asas: A Igreja é sustentada pelos dois Testamentos, e evita o tumulto envenenado do mundo, buscando na afeição de seu espírito a solidão de um "espírito manso e tranquilo", enquanto assim canta com júbilo: "Eis que me retirei para longe, em fuga, e habitei no deserto." Nem importa que ali peça as asas da pomba, mas aqui receba as da águia. Pois assim como a Igreja, "cuja juventude se renova como a da águia", é ali representada por causa do dom do Espírito Santo, também o é aqui por causa do voo elevado e da visão celeste, pela qual contempla a Deus com coração puro.
mandamentos: Guardar os mandamentos de Deus na fé de Jesus Cristo é combater com o dragão e provocá-lo à batalha; e graças sejam dadas a Deus, que reduziu a nada as investidas do cruel dragão. Pois eis que, ao esforçar-se por aniquilar o Senhor encarnado, é ele vencido por Sua ressurreição. Depois, esforçando-se por privar os Apóstolos de sua ousadia no ensinar, insistiu, por assim dizer, em arrebatar do mundo a mulher, isto é, a Igreja toda. Mas, tendo trabalhado em vão para efetuar isto, ataca indistintamente toda idade dos fiéis. E assim é, como segue.
mar: Isto é, o mesmo inimigo, quando há de suscitar conjuração e guerra, põe-se sobre a multidão do povo, "que o vento dispersa da face da terra", e que costuma acolher suas maquinações.
irado: Quando viu que as perseguições não podiam prosseguir, porque eram desviadas pela boca da terra santa, preparou-se ainda mais para se apoiar no mistério da iniquidade, a fim de poder tramar continuamente.
leopardo: É representado semelhante a um leopardo, por causa da diversidade das nações; a um urso, por causa de sua malícia e furor; a um leão, por causa de sua força corporal e soberba de língua. Lemos em Daniel que o reino dos caldeus é comparado a uma leoa, o dos persas a um urso, o dos macedônios a um leopardo.
E assim o Apóstolo, falando do corpo do diabo, diz: "Cuja vinda é segundo a operação de Satanás, com toda a potência, e sinais, e prodígios de mentira, naqueles que perecem."
Ele põe o gênero pela espécie, ao dizer que a besta foi adorada, visto que os homens terrenos haveriam de adorar a própria cabeça contrafeita sob o nome da Cabeça, Que verdadeiramente foi morta, e vive.
O Anticristo, que pertence às cabeças do reino terreno, por imitação da nossa verdadeira Cabeça, ousa apresentar-se como aquele que foi morto e ressuscitou, e que há de ser aceito como o Cristo, o Qual verdadeiramente realizou isto. E diz-se que a falsidade deste embuste foi prefigurada no exemplo de Simão Mago.
Eles mesmos dizem: Quem é semelhante a Cristo? Ou quem pode vencê-Lo?
Dizem que adoram a Deus, Que deu poder a Cristo.
Pois ele não blasfema a boca aberta antes de três anos e meio, mas no mistério da iniquidade, o qual, feita a distinção, e revelado o homem do pecado, será desvelado. E então dirá: "Eu sou o Cristo"; ao passo que agora se diz: "Eis aqui o Cristo", ou "Eis ali". Ademais, "para com Deus" significa "contra Deus".
"Que se exalta", diz ele, "sobre tudo o que se chama Deus."
"Um cordeiro", isto é, como diz Pedro, "sem mácula, que na verdade foi predestinado antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos." Outra versão traduziu: "o cordeiro selado desde o princípio do mundo." Pode também entender-se, por transposição, que os nomes dos santos foram escritos desde o princípio no livro da vida.
É justo que os que servem ao autor da morte não sejam escritos no livro da vida, e que os que são iludidos pela morte fictícia da besta careçam da comunhão com "o Cordeiro, que tira os pecados do mundo". "Do Cordeiro", diz ele, como se segue.
Disse "todos", mas "os que habitam sobre a terra". Pois, "os que se apartam de Ti", diz ele, "serão escritos na terra".
Ele havia prometido que o matador de homens seria morto. Mas porque "ninguém é coroado senão aquele que combateu legitimamente", diz agora que há necessidade ora de coragem, ora de peito firme. Depois que a besta foi descrita de modo geral, primeiro na hipocrisia, depois na boca aberta das blasfêmias, descreve-a também nas pessoas dos próprios chefes, do mesmo modo na hipocrisia, e depois como revelada. A SEGUNDA BESTA
Aquele que agora persegue a Igreja com morte carnal, ou mesmo espiritual, a esse o Senhor Jesus "matará com o sopro de sua boca, e destruirá com o resplendor de sua vinda".
Ele mostra os chifres de um cordeiro, para que possa introduzir secretamente o veneno do dragão. Pois, pela falsa assunção de santidade — a qual o Senhor verdadeiramente possuía em Si mesmo —, finge possuir vida e sabedoria incomparáveis. Desta besta diz o Senhor: «Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes».
Chamou-o de outro quanto ao ofício, pois, de resto, é o mesmo. Mas aquilo que aqui se diz mar é, como testifica Daniel, a terra; pois, tendo ele visto quatro bestas subirem do mar, foi-lhe dito: «Estas quatro grandes bestas são quatro reinos, que se levantarão da terra».
Isto é, que fingiu ter vencido a morte ao ressuscitar. Pois a Escritura falara dele não como «morto», mas «como que morto»; assim como se disse dos judeus «que não entraram no Pretório, para não se contaminarem». Pois o Evangelista não afirmou que os mais corrompidos pudessem ainda contaminar-se caso entrassem no Pretório, nem os judeus, culpados de tão grandes crimes, verdadeiramente temiam contaminar-se. Mas relatou aquilo que eles simulavam, como se o estivesse afirmando.
Mostra o poder da sedução, pois sujeitou a si tanto o corpo quanto a alma que nele habita.
Os míseros discípulos seguem o seu mestre em tudo.
engana: "A vinda dele será", como está dito, "segundo a operação de Satanás, com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira." E costuma haver uma questão, a saber, se estes são chamados "sinais e prodígios de mentira" porque ele há de enganar os sentidos dos homens por meio de fantasmas, de modo a parecer fazer o que não faz; ou porque estas mesmíssimas coisas, ainda que sejam verdadeiros prodígios, conduzirão à mentira aqueles que crerem que elas só poderiam ter sido operadas por influência divina, ignorando o poder do diabo. Pois não foi por um fogo e um turbilhão fantásticos, mas verdadeiros, que ele destruiu tão grande casa como a do santo Jó, com tão grandes rebanhos. Mas quer sejam chamados "prodígios de mentira" de um modo ou de outro, é nisto que a tentação parecerá maior que todas as demais: que, enquanto o piedoso mártir submete o seu corpo aos tormentos, ele, ao mesmo tempo, realiza diante de seus olhos tantos milagres.
imagem: Isto é, que eles se assemelhem a ele, e façam uma imagem sua, "como aquele que tem a ferida da espada e vive", conforme outra versão o expressa. É isto que dizem tão falsamente: que estiveram mortos e ressuscitaram juntamente com o Anticristo, como que a sugerir que também ele faz de Deus um mediador entre si e os seus, ao passo que ele não tem, como o nosso Senhor Jesus Cristo, um outro entre quem e ele possa haver mediação.
falar: Não somente iludirá a mísera multidão, contrafazendo o espírito com fogo, mas fará dele uso também para instruir outros.
A MARCA DA BESTA
hálito: Isto é, fazendo-se imagem da besta, fingiu dar o espírito da verdade justamente àqueles em quem se cumpria a mentira.
nome: Isto é, quem participa do seu engano. Pois a marca, isto é, o sinal e o nome da besta, e o número do seu nome são uma só coisa. E é número de homem, para que não suponhamos que ele seja, como é opinião de alguns, o diabo ou um demônio, mas antes um dentre os homens, no qual Satanás há de habitar corporalmente. Pois ele é "o homem do pecado, o filho da perdição."
comprar: Por esta menção da compra e da venda, ensina ele que, assim como a Igreja transmitiu o Símbolo da fé para o bem, a fim de que fosse proveitoso para a nossa salvação, assim também eles, para o mal, se encerram dentro de uma tal definição, a saber, que não se dê licença nem de comprar nem de vender, tal como os mercadores que navegam no mesmo navio se ligam por um sinal uniforme.
Este número, entre os gregos, diz-se que se encontra no nome de Titã, isto é, «um gigante», desta maneira: T trezentos, E cinco, I dez, T trezentos, A um, N cinquenta. E julga-se que o Anticristo usurpará este nome, como se a todos superasse em poder, ostentando também ser aquele de quem se escreveu: «Alegrou-se como um gigante a correr o seu caminho. A sua saída é do mais alto dos céus.» E Primásio menciona também outro nome, que contém o mesmo número: A um, N cinquenta, T trezentos, E cinco, M quarenta, O setenta, Σ duzentos, o qual significa «contrário à honra». Há, além disso, a palavra: A um, P cem, N cinquenta, O setenta, Y quatrocentos, M quarenta, E cinco, isto é, «Eu nego». Por estes nomes indicam-se tanto o carácter da pessoa como a aspereza da obra do Anticristo. Mas como tão grande cobiçador de louvor há de querer ser designado por tal sinal, requer demorada exposição. De outro modo: quem ignora que o número seis, segundo o qual o mundo foi criado, significa a perfeição da obra? E este, seja simples, seja multiplicado por dez ou por cem, demonstra que o fruto dessa mesma perfeição é sessenta vezes, ou cem vezes maior. O peso do ouro que também era trazido a Salomão a cada ano era de seiscentos e sessenta e seis mil talentos. O sedutor, pois, presumirá exigir para si a oferenda que, de direito, é devida e paga ao verdadeiro rei.
milhares: Este número finito deve entender-se como infinito, e, pela significação do mistério oculto, como próprio da hoste virginal, que ama a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento; e também ao corpo, que consta de quatro qualidades, e que em sua integridade lhe é consagrado. Pois três vezes três são nove, e quatro vezes quatro dezesseis, e dezesseis vezes nove fazem cento e quarenta e quatro. Assim, pois, quando, entre aqueles que se acham firmados no mérito da vida carnal e que aparecem no Monte Sião com o Cordeiro, se percebe multidão tão perfeita, nenhuma dúvida pode subsistir acerca dos demais membros da Igreja.
harpistas: Se todos os santos são harpistas de Deus, pois, «crucificando a carne com os seus vícios e concupiscências», O louvam no saltério e na harpa, quanto mais o são aqueles que, pelo privilégio da castidade evangélica, se fazem, de todo em todo, sacrifício perfeito ao Senhor, e que, de modo especial, «negam a si mesmos», e «tomam a sua cruz», e seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá?
águas: A grande voz dos santos é a grande devoção do amor, a qual ele afirma ter ouvido do céu, ao dizer que os que emitiam essa voz «estavam sobre o Monte Sião». Pois quis mostrar que, por Monte Sião, não entendia outra coisa senão a Igreja, a qual, para vencer as tribulações das suas aflições, é exaltada pelo sublime deleite da contemplação, e celebra a um só tempo, pelo louvor e pela imitação, os combates do seu Rei. Pois isto é, em verdade, cantar ao Cordeiro que está de pé.
O cântico antigo dizia: «Bem-aventurado aquele que tem a sua morada em Sião, e a sua casa em Jerusalém.» Mas o cântico novo é: «Alegra-te, estéril, que não davas à luz»; e ainda diz Ele: «Darei aos meus eunucos, em minha casa e dentro de meus muros, um nome melhor do que o de filhos e filhas.»
De modo especial, cantar um cântico ao Cordeiro é alegrar-se com Ele para sempre, acima de todos os fiéis, por causa da incorruptibilidade da carne. E, no entanto, o resto dos eleitos pode ouvir este cântico, ainda que não o possam entoar, porque, pela caridade, ainda se alegram com a exaltação daqueles, mesmo não se elevando eles próprios a tais recompensas.
O bem-aventurado Agostinho expôs isto mui belamente na sua exortação às virgens, dizendo: «Ide avante, ó santos jovens e donzelas de Deus, ó homens e mulheres, celibatários e não casados, ide avante perseverantemente até o fim. Louvai mais docemente ao Senhor, a Quem mais frequentemente pensais. Esperai mais auspiciosamente n'Aquele a Quem mais constantemente servis. Amai mais ardentemente Aquele a Quem mais atentamente agradais. Com os lombos cingidos e as lâmpadas acesas, aguardai o Senhor, quando Ele vier das núpcias. Trareis às núpcias do Cordeiro um cântico novo, que entoareis em vossas harpas, tal qual nenhum outro senão vós será capaz de proferir. Pois assim vos viu, no Apocalipse, aquele que, mais que todos os outros, foi amado do Cordeiro, aquele que costumava reclinar-se sobre o Seu peito. Ele mesmo vos viu, como doze mil santos harpistas, de virgindade imaculada do corpo, de inviolada verdade no coração. Seguis o Cordeiro, pois também virginal é a carne do Cordeiro. Seguis-Lhe em virgindade de coração e de carne, para onde quer que Ele vá. Pois que é seguir, senão imitar? Porque «Cristo padeceu por nós, deixando-vos exemplo, para que sigais os Seus passos.»
São escolhidos pelo Espírito Santo pelos méritos de sua vontade, como vítimas mais santas e mais puras, do santo e imaculado rebanho da Igreja. Pois o Apóstolo, não tendo mandamento do Senhor a respeito deles, roga-lhes que «apresentem os seus corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus.»
Convém que aqueles que são elevados por um voo celestial ergam também, mediante a pregação, as suas mentes terrenas do assento de seu torpor.
Voando: Havendo descrito o duvidoso e vário combate da Igreja com o dragão, enquanto ela é peregrina neste século, resta atribuir a devida recompensa a ambos os combatentes, e mostrar quais castigos aguardam os maus, ou quais galardões os bons. Assim, pois, o pregador que corre de um lado a outro pelo meio da Igreja leva consigo o Evangelho do reino eterno.
Nação: «Este Evangelho», diz Ele, «será pregado em todo o mundo, e então virá o fim».
Babilônia: Diz que já caiu a ruinosa cidade do diabo; e isto pode ser à maneira da Escritura, que costuma representar como passado aquilo que sabe haver de se cumprir inevitavelmente; ou talvez os soberbos tenham sido derrubados pelo Senhor, quando se ensoberbeciam por obra do diabo, como diz o Salmista: «Tu os derrubaste, quando se elevavam».
Nações: A ímpia cidade, que se congrega de todas as nações, ela mesma embriaga as nações, isto é, os seus próprios membros, com o vinho do erro. Mas a cidade do Senhor, que cultiva a vinha de Sorec, não deseja «embriagar-se de vinho, em que há dissolução», para que não seja privada do prometido denário da vida.
Marca: Ao dizer «na sua fronte, ou na sua mão», mostra que o diabo assinala a uns por ímpia profissão, mas a outros somente pela prática.
adoração: Isto é, aquele que houver adorado a besta e a cabeça que estava como que morta.
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atormentados: Os santos que reinam com o Senhor podem sempre contemplar o castigo dos ímpios, para que celebrem para sempre em cânticos as misericórdias do Senhor, e assim rendam maiores ações de graças ao seu Libertador. Pois a visão dos tormentos dos ímpios não aflige aqueles que partilham do mesmo sentir do justo Juiz, assim como a visão do descanso de Lázaro não pôde refrescar o rico que jazia sepultado nas chamas.
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beberá: Ao dizer "também este beberá", mostra que há outro que já bebeu, de modo a não excluir aquele que, embora não se misture visivelmente com as nações, todavia adora a besta sob o nome de Cristo. Mas justamente são derrubados pelo cálice do Senhor aqueles que dão a beber o cálice da ira da fornicação, não para que, segundo Jeremias, vomitem a malícia de um coração que há de ser purificado, mas para que sejam condenados e pereçam, adormecendo na morte eterna.
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noite: Dizem que o leão poupa o homem prostrado. Mas esta besta é mais feroz que o leão, e quanto mais é adorada, tanto maior castigo inflige.
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receber: Santo Agostinho interpreta a besta como a cidade ímpia, e a imagem da besta como a semelhança de uma ave; isto é, daqueles que são cristãos por uma aparência enganosa; e o sinal, como a marca da culpa, o qual, diz ele, é adorado, e está sujeito a ela, e em concordância com ela.
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voz: Bela é agora a concordância dos que falam. Pois eis que este proclama que o Reino do Senhor está próximo, aquele que a cidade do diabo caiu, um terceiro anuncia as chamas dos ímpios, outro o descanso dos bem-aventurados; e este tanto profere a sua voz desde o céu quanto ordena que ela, digna de memória eterna, seja confiada à escrita. Pois "os justos se alegram porque os seus nomes estão escritos nos céus", mas os ímpios "são apagados do livro da vida".
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labores: Assim como havia dito que os ímpios não têm descanso para sempre, assim, ao contrário, mostra que os fiéis, que são ajudados pelas suas obras anteriores, doravante descansam, isto é, desde a hora da morte. Pois, "quando Ele deu sono ao Seu amado, esta é a herança do Senhor". Mas "o preguiçoso não quis lavrar por causa do frio; por isso mendigará na colheita, e nada lhe será dado." A CEIFA E A VINDIMA DA TERRA
Agradeço-Te, ó Jesus, que fazes bem-aventurados no céu os que em Ti morrem na terra, e quanto mais ainda os que depõem suas vidas bem-aventuradas tanto na tua fé quanto por ela!
foice: Esta é a sentença judicial de separação, que de nenhum modo pode ser evitada. Pois estamos dentro dela, para onde quer que tentemos fugir, porque tudo o que é encerrado pela foice cai dentro dela.
coroa: Ele descreveu acima o que é esta nuvem, na aparência da mulher, e a coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. Mas pode também significar a vitória Daquele que reina.
nuvem: Até aqui se prometeu a voz da meretriz, e resta agora manifestar a pessoa do próprio Juiz, o qual, ao vir para o juízo, obumbra a glória de sua divindade com uma nuvem de carne, para que os ímpios "vejam Aquele a quem transpassaram".
ceifar: Eis que Ele diz: "Por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos se esfriará" (Mt 24,12), e, pelo calor abrasador dos males que sobre ela caem, a messe da terra quase já deixou de estar verdejante. Por isso, pois, por causa dos eleitos, os dias são abreviados, para que os grãos já maduros não caiam. E entrega tu o joio e a palha às chamas, mas o fruto celeste aos celeiros da bem-aventurança.
anjo: Os anjos, dos quais lemos no Evangelho como "os ceifeiros da terra", são todos "enviados para ministrar em favor daqueles que possuem a herança da salvação", e eles tomam conta dos diversos méritos da Igreja, e os relatam diariamente ao Senhor.
maduro: Isto é, os seus pecados estão completos. Mas também a perfeição dos bons se pode chamar madureza. Pois, como diz o santo Gregório, ainda que o fim do mundo dependa de seu próprio curso, contudo, ao alcançar os mais perversos, porque estes são justamente engolidos em sua ruína, vem a ser conhecido por meio deles.
Lança-a: Assim como a ceifa, também a vindima é em parte terrena, em parte celeste. Mas a maturidade de ambas indica o fim do mundo.
fogo: O ofício dos anjos, como diz Jerônimo, é duplo. Pois uns atribuem as recompensas aos justos, enquanto outros presidem aos diversos tormentos; como está dito: "Que faz de seus anjos espíritos, e de seus ministros um fogo abrasador." Os dois anjos que proclamam que a ceifa está seca e o trigo maduro podem ser entendidos como as orações da Igreja, a qual, com grande voz, isto é, com grande desejo, roga diariamente que venha o reino do Senhor, e com estas palavras.
lagar: Se esta ceifa da vindima pertence somente aos maus, o lagar significa castigo; mas se pertence também aos bons, o pisar do lagar, como a debulha da eira, esmaga o que é inútil e prova o que é útil. E assim diz o Apóstolo que os metais preciosos são preservados pelo fogo, enquanto o feno e a palha são consumidos, ambos os quais se fazem fora da Jerusalém celeste. Mas o lagar da ira é assim chamado segundo a mesma forma de linguagem, como se diz: "O Senhor o entregou no dia mau."
foice: Aquele que tem a foice do ceifeiro tem também a do vindimador. Pois o juízo é um só, e há de realizar-se em um só tempo; mas na ceifa e na vindima mostra o princípio e o fim da mesma aflição.
cento: Isto é, por todas as quatro partes do mundo. Pois a quaternidade se multiplica por si mesma, como nas quatro faces com quatro lados, e nas rodas. Ticônio interpreta o ceifeiro e o vindimador como a Igreja, na medida em que se torna gloriosa depois das chamas da perseguição, e detém o poder de ligar e desligar. O anjo que sai do templo, ou do altar, proclama o império do Senhor tinto de sangue, não com voz aberta, mas pela sugestão do Espírito Santo, cuja operação está em Seu corpo, e mostra que é agora o tempo de os maus serem amaldiçoados; e tem poder sobre o fogo, a saber, aquele que saiu da boca das testemunhas e devorou os seus adversários. Até aqui, acerca do combate da Igreja e do fim perfeito de ambos os combates.
sangue: Saiu a vingança, até aos chefes do povo. Pois no último combate saiu a vingança até ao diabo e seus anjos, por causa do sangue dos santos que foi derramado; como está escrito: "No sangue pecaste, e o sangue te persegue." Acerca dos cavalos, já se falou acima.
harpas: Isto é, possuem os corações dos que louvam consagrados a Deus, e melodiosos com a verdade de ambos os Testamentos; ou, a carne estendida sobre o madeiro da paixão. E aqui não se significa apenas o som da voz, mas a operação de uma boa obra.
vidro: Isto é, a translúcida fonte do Batismo, que é consagrada pelo fogo do Espírito Santo. Ou então: porque pertence à natureza do fogo, na medida em que se torna rubro pelo martírio.
vitória: Os que vencem as ciladas da besta aparecem, por conseguinte, a estar de pé sobre um batismo de fogo. Pois desejam, como diz o Apóstolo, "batalhar ardentemente pela fé uma vez entregue aos santos".
linho: "Todos quantos", diz o Apóstolo, "fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes." Pois "Ele é a pedra angular, eleita." Ou, se se entender que o singular está posto pelo plural, significa os vários ornamentos das virtudes. Outra tradução traz "linho branco", o que indica a mortificação da carne nos doutores, segundo aquilo: "Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado."
veio: Isto é o mesmo que Marcos diz: "Mas eles saíram e pregaram por toda parte."
entrar: Ninguém pode ser incorporado entre os membros da Igreja, senão aquele que ouve dos pregadores os mistérios da fé e aprende que Jesus foi constituído por Deus Juiz tanto dos vivos quanto dos mortos. Mas se interpretares a fumaça como o juízo secreto de Deus, estas coisas permanecem impenetráveis e fechadas aos mortais "até que", terminadas as pragas do século presente, "venha o Senhor, o qual há de trazer à luz até mesmo as coisas ocultas das trevas e manifestar" quanto proveito confere a vinda do Anticristo, seja de utilidade em provar a fé da Igreja, seja de juízo em cegar os olhos dos judeus, "que não receberam o amor da verdade, para que fossem salvos."
fumaça: A Igreja, quando há de pregar às nações, é primeiro inflamada em si mesma pelo fogo do amor, e envia a fumaça da piedosa confissão, enquanto "dá graças a Deus por Seu dom inefável."
terra: Os pregadores derramam a ira de Deus de duas maneiras: ou impõem os castigos dos ímpios sobre os próprios ímpios, julgando espiritualmente, como Pedro disse a Simão, "Pereça contigo o teu dinheiro"; ou a manifestam à santa Igreja pela pregação, como também disse: "Pois o juízo deles já há muito não tarda, e a sua perdição não dormita." Pode-se entender ainda um terceiro modo, em que cada pecador, ao ouvir a pregação da verdade, é destruído pela ferida mais grave da contradição, da qual disse o Senhor: "Se Eu não tivesse vindo e lhes tivesse falado, não teriam pecado."
águas: E também aqueles que fingem dar a beber coisas doces, a fim de derramarem seu veneno sobre os incautos, serão punidos com a digna retribuição de uma praga contínua.
anjo: No anjo das águas fala ele de todos os anjos dos povos, os quais em íntimo afeto se unem para cantar os louvores de Deus; porquanto, vingando o sangue de Seus servos, Ele fez que os seus assassinos bebessem a morte. <
Assim como o justo "comerá do trabalho das suas mãos", também o ímpio, exposto aos justos castigos de sua blasfêmia, é saciado, por assim dizer, com a própria língua. Feriram-se, pois, a si mesmos os que blasfemaram, por causa da ira de Deus, com a qual, quando foram traspassados, julgavam ter alegria.
O trono da besta, isto é, o seu reino, como que o poder judiciário, é escurecido por pragas desta espécie, a saber, pela falsa alegria da felicidade terrena, e é feito sem luz; como diz o Salmo: "Tu os derrubaste, quando eles estavam exaltados." Pois não disse "depois que estiveram exaltados", mas "enquanto estavam exaltados".
Assim como há reis santos aos quais, seco o Eufrates, se abre o caminho do Oriente, assim também se diz que há reis maus da terra, os quais, não reunidos do mundo inteiro num só lugar, mas cada nação em seu lugar, hão de combater contra os santos. Por "o grande dia do Senhor" entende-se todo o tempo desde a Paixão do Senhor. Pode-se também tomar "o dia" pelo dia do juízo, quando o exército do diabo, que foi reunido por todo o tempo da vida presente, há de encontrar-se com o Senhor Rei, para ser derrotado.
Pois assim como se deu com os magos de Faraó, assim se há de supor que estes farão sinais. E não sem razão os recordou, quando havia feito menção das rãs, senão para anunciar que os ministros de Satanás haveriam também então de realizar sinais semelhantes. Pois foi permitido aos magos prevalecer com seus encantamentos até o sinal das rãs.
Outra versão traz mais adequadamente: "No grande dia do Deus Todo-Poderoso: eis que Ele vem como ladrão."
Bem-aventurados aqueles cujos pecados estão cobertos, os quais escondem a torpeza de uma vida repreensível diante dos olhos dos justos no juízo, pelo manto das boas obras subsequentes. Também no Evangelho o Senhor, sob a figura do ladrão de quem se deve guardar, ordena a seus servos que vigiem.
Isto é, toda a força e confiança das nações. Pois o riso dos ímpios é sua queda, e a alegria dos injustos, sua destruição.
ira: Cai então a Babilônia, ou bebe a ira de Deus, quando recebe poder contra Jerusalém, especialmente nos últimos dias. Diz, portanto, que ela caiu pelo terremoto, o qual Ele faz em favor da Igreja. Mas se o referires ao dia do juízo, o ímpio, que agora diz em seu coração: "Deus se esqueceu", virá então à lembrança diante de Deus.
dividida: A cidade ímpia move guerra tríplice contra a Igreja de Cristo. Pois os pagãos e os judeus a atacam em conflito aberto, os hereges por defecção traiçoeira, os falsos irmãos por maus exemplos. E isto foi representado acima nos três cavalos maus, vermelho, negro e pálido.
blasfemado: Isto é, porque alguns pecados são causa de pecado, alguns são castigo de pecado, alguns são ambos; como diz Isaías: "Eis que te iraste, e nós pecamos." Neste lugar, "blasfemar contra Deus por causa do granizo" reconhece-se ser tanto pecado quanto castigo do pecado.
granizo: O granizo da ira de Deus é comparado a um talento; pois é tanto pesado em peso quanto igual em juízo, e é infligido sobre todos segundo a diversidade de suas faltas. E todas as pragas do Egito foram figuras de pragas espirituais.
sete: Isto é, o que tem tanto os reis quanto os reinos do mundo, cuja glória também mostrou ao Senhor sobre o monte. Pois, como dissemos antes, a universalidade é frequentemente indicada tanto pelo número sete quanto pelo número dez.
deserto: Pelo deserto, representa a ausência da Divindade, cuja presença é o paraíso.
besta escarlate: O demônio, mediante a impiedade, ensanguentado, blasfemo, inflado pela arrogância da presunção, exalta a corrupção dos ímpios.
cálice: O cálice de ouro cheio de abominações é a hipocrisia, porque os hipócritas "exteriormente parecem justos aos homens, mas por dentro estão cheios de toda imundícia."
dourada: Isto é, com todos os atrativos da verdade simulada. Por fim, ele explica o que há dentro desta beleza, como segue.
púrpura: Na púrpura mostra-se a falsa aparência de um domínio simulado; no escarlate, a veste ensanguentada da impiedade.
cinco: Visto que havia descrito no número sete a plenitude do domínio mundano, cuja última parte, isto é, o reino do Anticristo, ainda não havia chegado; testifica agora, por conseguinte, que cinco reis haviam passado, que o sexto estava presente, e que o sétimo havia de vir.
breve espaço: Porque o Senhor nos vê ao mesmo tempo soberbos e fracos, diz que os dias que introduziu como singularmente maus são misericordiosamente abreviados; a fim de que, na verdade, possa tanto alarmar a sua soberba pela adversidade do tempo quanto reanimar a sua fraqueza pela brevidade dele.
como reis: Diz "como reis", porque só reinam como em sonho os que se opõem ao reino de Cristo.
chifres: Os reinos do mundo ainda não manifestaram plenamente o seu poder na perseguição da Igreja. Pois, embora estes já detenham agora domínio sobre a maior parte dela, haverá então um poder ainda mais forte de jactância insana, quando também tiverem enganado a tantos por meio de sinais. Alguns entendem que, aproximando-se a última perseguição, haverá dez reis que hão de repartir entre si o mundo; segundo também a profecia de Daniel, que disse acerca da quarta besta: "E tinha dez chifres; e eis que outro chifre pequeno surgiu do meio deles, e três dos primeiros chifres foram arrancados diante de sua face"; e que o Anticristo, que há de surgir da Babilônia, submeterá o rei do Egito e da África, e que, depois de mortos estes, outros sete reis também submeterão o pescoço ao vencedor. Mas outros dizem que o Anticristo é colocado no número onze, para significar a prevaricação. Pois o onze indica um afastamento da perfeição do número dez.
escolhidos: Bem antepôs Ele "escolhidos", pois "muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos".
vencer: Para que a fraqueza do homem não temesse a crueldade do antigo inimigo, ele descreve a besta que tem sete cabeças, e está armada com os chifres de um reino secular, como vencida por Cristo triunfante; e então, para significar que Ele triunfa nos seus, acrescentou o que se segue.
odiar: Começarão a odiar com extremo horror a glória do mundo, que agora abraçam com amor dissoluto, quando ao fim virem, sendo já o Cordeiro vencedor, que eles próprios hão de ser condenados. Pode também entender-se de outro modo: ou que há sempre contendas entre os soberbos; ou que todo aquele "que ama a iniquidade odeia a sua própria alma".
carne: Quando ela for privada de suas delícias habituais, hão de queimá-la nos fogos do inferno.
desolada: Pois tornam o mundo devastado pela ira de Deus, enquanto a ele são entregues, e dele usam iniquamente.
dar: Isto é, que obedecessem ao diabo até que se cumprissem as Escrituras, nas quais Deus disse que, no tempo do quarto reino, levaria a terra à sua consumação; como lemos em Daniel: "Haverá sobre a terra o quarto reino, que será mais poderoso que todos estes reinos, e devorará, e derrubará, e destruirá toda a terra."
corações: Deus, o Juiz, diz ele, justo e poderoso, e a quem a justiça é sempre agradável, permitiu, para castigo de seus pecados anteriores, que os ímpios fizessem tais coisas, por causa das quais poderia com razão pôr fim a todo o mundo; como os Evangelhos testificam ter sucedido no caso de Sodoma e do dilúvio.
dobrado: Para que aquela que gozou de delícias temporais seja atormentada com suplícios eternos.
retribuí: É da Igreja que saem para o mundo as pragas, tanto visíveis quanto invisíveis.
afar: Ficam de longe, não em corpo, mas em espírito, enquanto cada um teme para si aquilo que vê outro padecer, por meio de calúnia e poder.
Babylon: O Espírito menciona o nome da cidade. Mas lamentam pelo mundo, porque é tomado de castigo em tão breve tempo, e toda a sua indústria é arruinada e reduzida à cessação.
desolate: Observai que cada uma das pessoas dentre as que lamentam chora não somente pela perda das riquezas, mas pela ruína súbita e imprevista do mundo enganador.
dust: Isto é, como que difamando o rosto de seus chefes, por meio dos quais foram reduzidos e pereceram; ou como que acusando a loucura do próprio coração, que é a parte principal do homem, com um arrependimento tardio demais.
rejoice: Assim também o Senhor no Evangelho, ao predizer a ruína do mundo, acrescentou: "Quando virdes estas coisas acontecerem, olhai para cima e levantai as vossas cabeças"; isto é, alegrai os vossos corações.
avenged: Este é o juízo que as almas dos santos buscavam com o grande clamor: "Até quando, ó Senhor Deus, santo e verdadeiro, não vingais o nosso sangue?"
craftsman: Todas as coisas, diz ele, que pertencem ao uso e prazer da vida humana, são tiradas dos ímpios; e acrescentou a razão naquilo que se segue.
voice: Dos cinco sentidos, havia deixado por último o som, o qual agora diz ser tirado do mundo entre as demais coisas. Como se dissesse que aquilo que é belo de ver, melodioso de ouvir, suave ao tato, doce ao olfato, delicioso ao paladar, há de passar do mundo.
Aleluia: A Igreja exalta o Senhor pelos Seus juízos com amor incessante. Pois Aleluia significa "Louvai ao Senhor". Por fim, os Salmos que têm por início "Louvai ao Senhor" começam, em hebraico, com Aleluia.
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levanta-se: "Levanta-se", diz ele, não "se levantará". Mas Babilônia sempre vai à perdição, e já em parte está ardendo, ao passo que Jerusalém passa ao paraíso, como o Senhor manifesta no pobre e no rico.
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Amém; Aleluia: Ainda que estas palavras possam ser interpretadas — pois se traduzem, como disse, por "à fé", ou "verdade", e "louvor do Senhor" — todavia, em reverência à sua sacralidade, preserva-se nelas a autoridade da língua original. Pois também a Igreja canta continuamente Aleluia no dia do Senhor, e durante todo o período dos cinquenta dias, por causa da esperança da ressurreição, a qual há de ser em louvor do Senhor.
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adorada: A Igreja adora a Deus não apenas com o serviço dos lábios, mas com a suavidade da mais alta devoção.
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bodas: São as bodas do Cordeiro, quando a Igreja há de ser unida ao Senhor na câmara nupcial do reino celestial.
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preparou: Por insistir sempre nas obras de justiça, mostrou-se digna do banquete espiritual e do reino eterno. Pode-se também entender segundo a parábola do Evangelho, que relata que, à vinda do esposo, "as virgens se levantam e aparelham as suas lâmpadas", isto é, contam consigo mesmas as suas obras, pelas quais esperam receber a bem-aventurança eterna.
verdadeiro: Isto é, hão de cumprir-se, sem dúvida, as coisas que anunciei como futuras.
ceia: Ele relata que estes não foram chamados ao jantar, mas à ceia, porquanto o banquete ao termo do dia é, sem dúvida, uma ceia. Assim, os que vêm à refeição da contemplação celeste, uma vez findo o tempo da vida presente, são chamados às núpcias do Cordeiro.
profecia: Pois tudo quanto disse o Espírito de profecia é o testemunho de Jesus, o Qual recebe testemunho da lei e dos profetas. Não me adores, pois, diz ele, como a Deus, vendo que vim para dar testemunho de Suas potestades. Até aqui, acerca da queda de Babilônia; doravante, acerca da glória futura de Jerusalém.
testemunho: Depois que o Senhor Jesus Cristo elevou acima dos céus a pessoa do homem que assumiu, temeu o anjo ser adorado pelo homem, a saber, como quem adorasse o Deus-homem acima de si mesmo. Todavia, lemos que isto se fizera antes da Encarnação do Senhor por obra dos homens, e de modo algum vedado pelos anjos.
conservo: Havia dito acima: "Eu sou o primeiro e o último." Mostra, pois, que o anjo foi enviado como figura do Senhor e da Igreja. Do mesmo modo diz também ao final: "Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testemunhar estas coisas nas igrejas."
julga: Ele julga, como Rei dos séculos. Ele faz guerra, porquanto em Seus membros Ele mesmo, por Sua compaixão, sempre combate.
branco: O Senhor, que é «o caminho, a verdade e a vida», e a quem se diz pelo profeta: «Porque fizeste coisas maravilhosas, os desígnios fiéis desde a antiguidade, Amém», ascende sobre um cavalo branco, isto é, um corpo imaculado, para vencer as potestades do ar.
olhos: ora chama de olhos do Senhor os preceitos, ora o Espírito. Diz Ele: «A tua palavra, ó Senhor, é lanterna para os meus pés»; e a respeito do Espírito: «Vim lançar fogo sobre a terra».
nome: «Ninguém o conhece senão Ele mesmo», diz, porque toda a Igreja está nEle. Pois o conhecimento perfeito do Verbo de Deus se manifesta àqueles que alcançaram ser o corpo de Cristo e seus membros. Do mesmo modo diz o Senhor: «Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu».
diademas (coroas): nEle, em quem faremos proezas, diz-se que a multidão dos santos tem o ornamento de uma coroa.
Verbo: Porque Aquele mesmo que apareceu por um tempo como homem de sofrimento, "no princípio era Deus com Deus". É chamado Verbo, porque nada em Sua natureza era visível, nem corpóreo; ou porque o Pai fez todas as coisas por meio d'Ele, cujo perfeito conhecimento de natureza, como diz acima, é conhecido só a Si mesmo e ao Pai. Pois "a paz de Deus excede todo entendimento"; isto é, a paz pela qual o próprio Deus foi reconciliado consigo mesmo excede a sabedoria de qualquer criatura, seja humana ou angélica, pois "de sua sabedoria não há número". Pois quando se diz "e aquele a quem o Filho o revelar", isto é, o Pai e o Filho, "conhece", isto se refere à capacidade da criatura.
vestidura: A vestidura de Cristo deve ser entendida segundo o lugar. Aqui, portanto, parece indicar o próprio ato da Paixão, de modo que no cavalo branco se designa o nascimento imaculado, e na vestidura tinta de sangue, a morte inocente.
linho: Isto ele mesmo explicou acima ser "a justiça dos santos"; como é dito pelo Salmista: "Vistam-se os teus sacerdotes de justiça".
exércitos: Isto é, a Igreja, em corpos brancos, O imitou. Pois, por causa da intensidade de seu combate, recebe com razão o nome de exército.
espada: Assim também diz Isaías: "E fez a minha boca como espada aguda"; e o Apóstolo: "E a espada do Espírito, que é a palavra de Deus".
lagar: Assim é, de fato. Pois também agora Ele pisa até que pise fora da cidade.
Vinde: Vinde, diz Ele, vós que tendes fome e sede de justiça, ao banquete do reino que há de vir, quando, reprimida a ferocidade dos soberbos, sereis saciados com a luz da divina justiça.
sol: Isto é, a pregação na Igreja, que tanto mais brilha e tanto mais livremente troveja quanto mais é oprimida.
pássaros: Ele chama de pássaros os santos, porquanto passam sua vida no céu. Pois "onde quer que esteja o corpo, ali se ajuntarão as águias"; e, ao reuni-los em um só corpo, dissera "voando pelo meio do céu".
poço do abismo. Ele recapitula desde o princípio, e mais amplamente, aquilo que dissera acima: "A besta que viste era, e não é; e há de subir do abismo, e irá à perdição (Ap 17, 8)". O Senhor, pois, revestido do poder de Seu Pai, desce e se encarna, para guerrear contra o príncipe deste mundo, e, quando este é atado, para saquear os seus bens.
diabo: "Diabolus" interpreta-se "o que flui para baixo". Mas em grego é chamado "o acusador". "Satanás" é "o adversário", ou "o prevaricador". Assim, é chamado "o dragão", por causa de sua malícia em ferir; "a serpente", por causa da astúcia em enganar; "o diabo", por causa da queda de sua condição; "Satanás", por causa da obstinação na oposição contra o Senhor.
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atou-o: Isto é, reteve e refreou o seu poder de seduzir os homens que haviam de ser libertados. Pois, se lhe fosse permitido exercer todo esse poder, seja pela força, seja pelo engano, ele iludiria a maioria dos fracos em tão longo tempo. Pelos "mil anos", quis significar uma parte, a saber, o que resta dos mil anos do sexto dia; no qual o Senhor nasceu e padeceu.
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e atou-o. Isto é, reteve e refreou o seu poder de seduzir os homens que haviam de ser libertados. Pois, se lhe fosse permitido exercer todo esse poder, seja pela força, seja pelo engano, ele iludiria a maioria dos fracos em tão longo tempo.
solto: «Então», diz Santo Agostinho, «será ele solto, quando também o tempo será breve. Pois, como lemos, ele há de enfurecer-se por três anos e meio, com todas as suas próprias potências e as potências dos seus, e aqueles contra quem ele fará guerra serão tais que sua violência e astúcias, por grandes que sejam, não poderão vencê-los. Mas, se ele jamais fosse solto, sua malignidade menos se manifestaria, a fidelíssima paciência da cidade santa menos se provaria, e menos, enfim, se discerniria quão bem o Deus Todo-Poderoso se serviu de sua grande maldade.» O REINADO DE MIL ANOS
Ele o interditou e, como que por um selo régio, o impediu de seduzir as nações — a saber, aquelas que foram destinadas à vida, as quais outrora ele seduzia, para que não se reconciliassem com Deus.
Ele o lançou, isto é, nos corações do povo perseguidor. Não que o diabo já não estivesse ali antes; mas, ao ser expulso dos crentes, começou a possuir os ímpios, os quais não somente estão alienados de Deus, mas odeiam com maior gravidade àqueles que servem a Deus. E isto o Senhor manifestamente demonstrou, quando o expulsou dos homens para dentro dos porcos.
E ele o lançou. Ele o lançou, isto é, nos corações do povo perseguidor. Não que o diabo já não estivesse ali antes; mas, ao ser expulso dos crentes, começou a possuir os ímpios, os quais não somente estão alienados de Deus, mas odeiam com maior gravidade àqueles que servem a Deus. E isto o Senhor manifestamente demonstrou, quando o expulsou dos homens para dentro dos porcos.
Pôs sobre ele um selo. Ele o interditou e, como que por um selo régio, o impediu de seduzir as nações — a saber, aquelas que foram destinadas à vida, as quais outrora ele seduzia, para que não se reconciliassem com Deus.
"Então", como diz Santo Agostinho, "ele será solto, quando também o tempo será breve. Pois, como lemos, ele há de enfurecer-se por três anos e meio com todas as suas próprias potências, e as potências dos seus, e aqueles contra quem fará guerra serão tais, que a sua violência e astúcias, por grandes que sejam, não poderão sobrepujá-los. Mas se ele jamais fosse solto, menos se manifestaria o seu poder maligno, menos seria comprovada a fidelíssima paciência da cidade santa, e menos, por fim, se discerniria quão bem Deus Onipotente se serviu de sua grande malícia."
adorado: Devemos entender isto tanto dos vivos quanto dos mortos. Pois tanto aqueles que ainda vivem nesta carne mortal quanto os que já partiram já agora reinam com Cristo, durante todo o intervalo que é significado pelo número de mil anos, de certo modo congruente com o tempo presente.
A PRIMEIRA RESSURREIÇÃO
almas: Aquilo que depois há de dizer se entende: "reinaram com Cristo mil anos." Reina, portanto, a Igreja com Cristo nos vivos e nos mortos. Pois "para isto", como diz o Apóstolo, "Cristo morreu, para que fosse Senhor tanto dos vivos quanto dos mortos"; e por esta razão mencionou somente as almas dos mártires, porque estes reinam sobretudo depois da morte, os que até a morte combateram pela verdade.
julgamento: Indica aquilo que se realiza nos mil anos em que Satanás está atado. Pois a Igreja, que em Cristo há de sentar-se sobre doze tronos para julgar, já agora se assenta e julga, visto que alcançou ouvir de seu Rei: "tudo o que ligares na terra será ligado nos céus."
viveram e reinaram com Cristo mil anos. Reina, portanto, a Igreja com Cristo nos vivos e nos mortos. Pois "para isto", como diz o Apóstolo, "Cristo morreu, para que fosse Senhor tanto dos vivos quanto dos mortos (Rm 14,9)"; e por esta razão mencionou somente as almas dos mártires, porque estes reinam sobretudo depois da morte, os que até a morte combateram pela verdade.
os demais: Todos quantos não tiverem ouvido a voz do Filho de Deus, e passado da morte para a vida, durante todo aquele tempo em que se dá a primeira ressurreição, isto é, a ressurreição das almas, na segunda ressurreição, que é a ressurreição da carne, hão de passar certamente, com a própria carne, para a segunda morte, isto é, para os tormentos eternos.
primeira ressurreição: Esta é certamente a primeira ressurreição, na qual ressuscitamos pelo batismo, como diz o Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são do alto." Pois, assim como a primeira morte, nesta vida, se dá pelos pecados, uma vez que "a alma que pecar, essa morrerá", assim também a primeira ressurreição se dá, nesta vida, pela remissão dos pecados.
primeira ressurreição. Esta é certamente a primeira ressurreição, na qual ressuscitamos pelo batismo, como diz o Apóstolo: "Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são do alto" (Cl 3,1). Pois, assim como a primeira morte, nesta vida, se dá pelos pecados, uma vez que "a alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18,20), assim também a primeira ressurreição se dá, nesta vida, pela remissão dos pecados.
reinarão: O Espírito, ao escrever isto, declarou que a Igreja reinaria mil anos, isto é, até o fim do mundo; e daí poderia surgir uma dúvida. Pois que se trata de um reino perpétuo é manifesto.
santos: Outra versão traz "sacerdotes de Deus e de Cristo", e não se diz apenas dos bispos e dos presbíteros, que propriamente são chamados "sacerdotes" na Igreja. Mas assim como todos nós somos chamados cristos por causa do crisma místico, assim também todos nós somos chamados sacerdotes, porque somos membros do único Sacerdote, do Qual o Apóstolo Pedro diz: "povo santo, sacerdócio real".
Bem-aventurado: Isto é, aquele que guardou o estado de haver renascido.
sacerdotes de Deus e de Cristo. não se diz apenas dos bispos e dos presbíteros, que propriamente são chamados "sacerdotes" na Igreja. Mas assim como todos nós somos chamados cristos por causa do crisma místico, assim também todos nós somos chamados sacerdotes, porque somos membros do único Sacerdote, do Qual o Apóstolo Pedro diz: "povo santo, sacerdócio real". 1Pe 2,9
Ele os seduzirá então, a fim de os congregar para este combate. Pois já antes costumava seduzi-los por todo o modo que podia, mediante muitos e diversos males. E "sairá" significa que irromperá em perseguição aberta, saindo dos esconderijos de seu ódio.
Fogo: não se deve supor que este seja o castigo final. É antes o fogo da inveja, com o qual o adversário será atormentado pela firmeza dos santos. Pois "céu" é o firmamento. Este é o fogo que saiu da boca das testemunhas de Deus, e há de devorar os seus inimigos. Pois no último dia Ele não fará chover fogo sobre eles, mas, depois de reunidos diante d'Ele e julgados, Ele os enviará ao fogo eterno, a respeito do qual se acrescenta a seguir o que segue.
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Largura: não se representa que eles tenham vindo, nem que hão de vir, a um único lugar, como se a cidade amada, isto é, a Igreja, devesse estar confinada a algum lugar particular. Antes, quis ele antes significar, pela "largura da terra", que ela seria perseguida em todas as nações; e pelo termo "acampamento", que nem mesmo então ela abandonaria a sua milícia.
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Não se deve supor que este seja o castigo final. É antes o fogo da inveja, com o qual o adversário será atormentado pela firmeza dos santos. Pois "céu" é o firmamento. Este é o fogo que saiu da boca das testemunhas de Deus, e há de devorar os seus inimigos. Pois no último dia Ele não fará chover fogo sobre eles, mas, depois de reunidos diante d'Ele e julgados, Ele os enviará ao fogo eterno.
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A besta: a besta deve ser entendida conforme o lugar do texto, ora como o diabo, ora como o Anticristo, ora como a própria cidade ímpia.
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escrito: Isto é, foram julgados a partir dos Testamentos, a saber, segundo aquilo que, a partir deles, fizeram ou deixaram de fazer. Os livros podem também ser entendidos como os feitos dos justos. Pois, enquanto os réprobos são condenados por comparação com estes, no desdobrar-se destes leem, por assim dizer, o bem que eles mesmos se recusaram a fazer
de pé: "Quando o Filho do Homem se assentar sobre o trono da Sua glória, então serão reunidas diante dEle todas as nações."
livro da vida: Outra versão traz: "que é da vida de cada um"; Assim, pois, por "os livros abertos" entende ele os Testamentos de Deus, pois o mundo será julgado segundo ambos os Testamentos. Por "o livro da vida de cada um" entende ele a memória de nossas ações, e não que o escrutador das coisas ocultas tenha um livro memorial.
O reclinar-se do discípulo sobre o peito do Mestre foi sinal não somente de amor presente, mas também de mistério futuro. Já então se prefigurava que o Evangelho que este mesmo discípulo haveria de escrever conteria os mistérios ocultos da majestade divina de modo mais copioso e profundo do que as demais páginas da sagrada Escritura. Pois, porquanto no peito de Jesus "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento", convinha que aquele que se reclinara sobre seu peito fosse também aquele a quem Ele concedera dom mais amplo de sabedoria e conhecimento singulares do que aos demais.
Como o Evangelista havia dito que toda criatura foi feita pelo Verbo, para que ninguém por acaso acreditasse que Sua vontade era mutável, como se subitamente quisesse fazer uma criatura que desde a eternidade nunca antes havia feito, por isso cuidou de ensinar que, embora a criatura tenha sido feita no tempo, na eterna sabedoria do Criador sempre estivera disposto quando e a quem criaria; por isso diz que o que foi feito, nele era vida.
Pois os outros Evangelistas descrevem Cristo nascido no tempo, mas São João testemunha que Ele existia no princípio, dizendo: "No princípio era o Verbo". Os outros recordam que Ele apareceu subitamente entre os homens; ele testemunha que o mesmo sempre esteve junto de Deus, dizendo: "E o Verbo estava junto de Deus". Os outros O confirmam como verdadeiro homem; ele O confirma como verdadeiro Deus, dizendo: "E Deus era o Verbo". Os outros O mostram como homem que temporalmente conviveu entre os homens; ele mostra Deus junto de Deus, permanecendo no princípio, dizendo: "Este estava no princípio junto de Deus". Os outros expõem as grandes obras que realizou como homem; ele ensina que Deus Pai por meio dele fez toda criatura, dizendo: "Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada foi feito".
Ele não diz: para que todos cressem nele; pois maldito é o homem que confia no homem; mas, para que todos cressem por ele; isto é, que por seu testemunho cressem na luz.
Seja por engenho natural, seja por sabedoria divina: assim como ninguém pode existir por si mesmo, assim também ninguém pode ser sábio por si mesmo.
Deve-se saber também que nas Sagradas Escrituras, quando se fala de sangue no plural, costuma significar o pecado; por isso: "Livra-me dos sangues"(Salmos 50,16).
A geração carnal de cada um tem origem no enlace conjugal, mas a espiritual é ministrada pela graça do Espírito Santo.
Além disso, deve-se saber que, se o que ele disse enarravit (narrou) se refere ao passado, então, feito homem, ele narrou o que se deve entender sobre a unidade da Trindade, como se deve avançar à sua contemplação, por quais atos se deve chegar a ela. Mas se se refere ao futuro, então ele narrará quando conduzir seus eleitos à visão de sua claridade.
Ou pecado do mundo é chamado o pecado original, que é comum a todo o mundo; pecado original esse que, bem como os pecados acrescentados de cada um, Cristo pela sua graça perdoa.
São João estava firme, porque havia subido àquela cidadela de virtudes, de onde não poderia ser derrubado por nenhuma força das tentações: seus discípulos estavam com ele, pois seguiam seu magistério com coração inabalável.
Por isso também o chama de cordeiro, porque previu que Ele haveria de oferecer espontaneamente os dons de sua lã, com a qual podemos fazer para nós uma veste nupcial, isto é, haveria de deixar-nos exemplos de vida, com os quais deveríamos ser aquecidos no amor.
O caminhar de Jesus representa a dispensação da Encarnação, pela qual Ele se dignou vir até nós e nos oferecer exemplos de como viver.
Isto é verdadeiramente encontrar o Senhor: arder em seu verdadeiro amor e também ter cuidado com a salvação fraterna.
Olhou para ele não somente com os olhos exteriores, mas também com o eterno olhar da divindade, viu a simplicidade de seu coração e a elevação de sua alma, por cujo mérito haveria de ser preferido a toda a Igreja. E não convém buscar no vocábulo Pedro, como se fosse hebraico ou sírio, outra interpretação, porque tanto em grego como em latim Pedro significa o mesmo que Cefas em sírio; e em ambas as línguas o nome deriva de pedra. É chamado Pedro por causa da firmeza de sua fé, pela qual aderiu àquela pedra da qual diz o Apóstolo: "a pedra era Cristo"; que torna seguros contra as ciladas do inimigo aqueles que nele esperam, e dispensa correntes de dons espirituais.
Que também se dignou vir às núpcias, segundo a letra, confirma a fé dos que creem retamente. Além disso, insinua quão condenável é a perfídia de Taciano e Marcião, e dos demais que desprezam as núpcias. Pois se houvesse culpa no leito imaculado e nas núpcias celebradas com a devida castidade, de modo algum o Senhor teria querido comparecer a elas. Agora, porém, como boa é a castidade conjugal, melhor a continência das viúvas, e ótima a perfeição virginal, para aprovar a escolha de todos os graus, mas distinguindo o mérito de cada um, dignou-se nascer do ventre intacto da Virgem Maria; logo após nascer, foi abençoado pela boca profética da viúva Ana; e já jovem, convidado pelos celebrantes das núpcias, honra-as com a presença de sua virtude.
Não é destituído de mistério o fato de que se relata que as bodas foram realizadas no terceiro dia. O primeiro tempo do mundo, antes da Lei, foi iluminado pelo exemplo dos Patriarcas; o segundo, sob a Lei, pelos escritos dos Profetas; o terceiro, sob a graça, pela pregação dos Evangelistas, como que pela luz do terceiro dia, no qual o Senhor apareceu encarnado. E também o fato de que as mesmas bodas são apresentadas como tendo ocorrido em Caná da Galileia, isto é, no zelo da transmigração, anuncia tipicamente que são considerados maximamente dignos da graça de Cristo aqueles que sabem arder no zelo da piedosa devoção e transmigrar dos vícios às virtudes, das coisas terrenas às eternas. Estando o Senhor reclinado nas bodas, faltou o vinho, para que, pelo vinho melhor feito por ele mesmo, se manifestasse a glória de Deus oculta no homem; de onde se segue: "e faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe diz: não têm vinho".
Como se dissesse: Ainda que parecesse recusar, todavia Ele fará isso. A mãe conhecia-O como misericordioso e compassivo. Segue-se: Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, contendo cada uma duas ou três metretas. Hidrias são chamadas as vasilhas preparadas para conter água; pois em grego a água se diz hydor.
Quando o Senhor apareceu na carne, a suavidade vinosa do sentido da lei começou paulatinamente a decair de sua primitiva virtude devido à interpretação carnal dos fariseus.
Por isso também não permaneceram ali muitos dias, por causa da festa da Páscoa, que já se aproximava; por isso segue: "e estava próxima a Páscoa dos judeus".
Não permaneceu ali muitos dias, porque por pouco tempo neste mundo conversou com os homens.
O Senhor, ao chegar a Jerusalém, dirige-se imediatamente ao templo para orar, dando-nos exemplo para que, onde quer que nos apressemos, entremos primeiro na casa de Deus, para suplicar ao Senhor; por isso é dito: e encontrou no templo vendedores de bois e ovelhas e pombas.
Mas como aqueles que vinham de longe e se apressavam, não podiam trazer consigo as coisas ordenadas para imolar ao Senhor, traziam o dinheiro delas: donde, surgida a ocasião, os Escribas e Fariseus estabeleceram que estes animais fossem vendidos no templo, para que os que vinham os comprassem e oferecessem, e depois vendessem a outros os mesmos que haviam sido oferecidos; e assim acumulavam seus lucros. Por isso também os cambistas se sentavam às mesas para que houvesse dinheiro prontamente disponível entre os compradores e vendedores das vítimas: donde se acrescenta e os cambistas sentados. O Senhor, porém, não querendo que em sua casa houvesse algum negócio terreno, nem mesmo o que se considerasse honesto, expulsou para fora todos os negociantes.
Nesta lição, exalta-se a dupla natureza de Cristo: a humana, no fato de que se relata ter tido sua mãe como companheira; a divina, no fato de que se demonstra ser verdadeiro Filho de Deus; pois segue: "e disse aos que vendiam pombas: tirai isto daqui, e não façais da casa de meu Pai casa de negociação".
Os discípulos, vendo nele este ferventíssimo zelo, recordaram-se de que foi por zelo pela casa do pai que o salvador expulsou os ímpios do templo.
Vendem, portanto, as pombas aqueles que, tendo recebido a graça do Espírito Santo gratuitamente, não a dispensam gratuitamente, como foi ordenado, mas a concedem mediante recompensa; aqueles que conferem a imposição das mãos, pela qual se recebe o Espírito Santo, se não por dinheiro, ao menos para obter o favor do povo; aqueles que outorgam as sagradas ordens não segundo o mérito da vida, mas por favor.
Ou, as ovelhas são obras de pureza e piedade. Vendem, pois, as ovelhas aqueles que exercitam obras de piedade em vista do louvor humano. Dão dinheiro em troca no templo aqueles que abertamente servem às coisas terrenas na Igreja. Fazem também da casa do Senhor uma casa de negociação, não somente estes que buscam o preço em dinheiro, ou louvor, ou honra por causa das sagradas ordens; mas também aqueles que exercitam o grau ou a graça espiritual, que receberam na Igreja por dádiva do Senhor, não com simples intenção, mas com o cuidado da retribuição humana.
Tendo feito, pois, um açoite de cordas, expulsou-os do templo; porque da parte da sorte dos santos são expulsos aqueles que, estando entre os santos, ou fingidamente fazem boas obras, ou abertamente praticam más obras. Expulsou também as ovelhas e os bois, porque mostra que tanto a vida quanto a doutrina de tais pessoas são reprováveis. Espalhou também o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas; porque, condenados no fim os réprobos, tirará também a forma das mesmas coisas que amaram. Ordenou que se retirasse do templo a venda das pombas, porque a graça do Espírito, que gratuitamente se recebe, gratuitamente deve ser dada.
Pois como pediam um sinal ao Senhor, a respeito de por que Ele deveria expulsar do templo os comércios habituais, respondeu: porque o próprio templo significava o templo do seu corpo, no qual absolutamente não havia mancha alguma de pecado; como se dissesse: assim como com o meu poder purifico o templo inanimado de vossos comércios e maldades, assim também o templo do meu corpo, do qual este traz a figura, destruído por vossas mãos, ressuscitarei ao terceiro dia.
Anteriormente o Evangelista narrou o que o Senhor fez quando chegou a Jerusalém; agora, porém, permanecendo Ele mesmo em Jerusalém, relata o que foi feito por outros em relação a Ele; donde se diz: "Estando Ele em Jerusalém pela Páscoa, no dia festivo, muitos creram em seu nome, vendo os sinais que fazia".
Por isso, somos advertidos a nunca estar seguros quanto à nossa consciência, mas sempre andar inquietos e temerosos; porque o que nos permanece oculto, não pode estar oculto ao eterno árbitro.
Cuja dignidade do ofício também demonstra, quando acrescenta príncipe dos judeus; depois, o que fez, quando sujeita este veio a Jesus de noite, desejando, isto é, por meio de sua conversação secreta, aprender mais plenamente os mistérios da fé, cujos rudimentos já havia percebido pela manifestação evidente dos sinais.
Estas palavras parecem soar como se um menino pudesse entrar novamente no ventre da mãe e renascer. Mas deve-se saber que ele mesmo era idoso; e por isso apresentou o exemplo de si mesmo; como se dissesse: eu sou velho e busco minha salvação; como posso entrar no ventre de minha mãe e renascer?
É, portanto, o Espírito Santo que sopra onde quer, porque Ele mesmo tem o poder de iluminar com a graça de Sua visita o coração de quem Ele quiser. E ouves a sua voz, quando, em tua presença, fala aquele que está repleto do Espírito Santo.
Se de fato algum homem nu descer do monte para o vale, e, tomando vestimentas e armas, subir novamente ao mesmo monte, corretamente se afirma que o mesmo que antes desceu é o que subiu.
Ele conduz o mestre da lei Mosaica ao sentido espiritual da mesma lei, recordando a história antiga, e explicando que esta foi feita como figura de sua paixão e da salvação humana.
Ele chama a Si mesmo de luz, da qual o Evangelista disse: "Era a luz verdadeira", enquanto aos pecados chama de trevas.
Moralmente também aqueles amam mais as trevas do que a luz, que perseguem com ódios e difamações aos seus pregadores que bem ensinam. Segue-se aquele, porém, que pratica a verdade, vem à luz, para que suas obras sejam manifestas, porque foram feitas em Deus.
Diz, porém, "depois destas coisas", não imediatamente após a discussão com Nicodemo, que ocorreu em Jerusalém, mas após transcorrido um intervalo de tempo, voltou da Galileia para a Judeia.
Cristo já batizando, ainda batiza João; porque ainda permanecia a sombra, e não deve o precursor cessar enquanto a verdade não for manifestada; por isso segue João estava batizando em Enom, perto de Salim. Enom em hebraico significa água; por isso, como que explicando a interpretação do nome, acrescenta porque ali havia muitas águas. Salim é uma cidade situada perto do Jordão, onde outrora reinou Melquisedeque.
Tanto quanto a doutrina da fé é proveitosa aos catecúmenos ainda não batizados, assim foi proveitoso o Batismo de São João antes do Batismo de Cristo: porque assim como ele pregava a penitência e anunciava o Batismo de Cristo, e atraía ao conhecimento da verdade que apareceu ao mundo, assim os ministros da Igreja primeiro instruem os que vêm à fé, depois repreendem seus pecados, e finalmente prometem a remissão no Batismo de Cristo, e assim os atraem ao conhecimento e ao amor da verdade.
Eis que claramente indica os atos de Cristo antes de São João ser encarcelado; os quais os outros omitiram, começando por aqueles que aconteceram depois que João foi lançado no cárcere.
Além disso, em vão é virgem no corpo aquela que não permanece virgem na mente. Cristo associou-se a esta esposa no tálamo do útero virginal, e a redimiu com o preço do seu sangue.
O Senhor, portanto, confiou sua esposa ao seu amigo, isto é, à ordem dos pregadores, que não deve ter zelo dela para si mesmo, mas para Cristo; por isso segue-se "o amigo do esposo, que está e o ouve, alegra-se grandemente por causa da voz do esposo".
O homem se alegra com gozo ao ouvir a voz do esposo, quando compreende que não deve alegrar-se de sua própria sabedoria, mas da sabedoria que recebeu do Senhor. Qualquer um que em suas boas obras não busca sua própria glória ou louvor, nem deseja lucros terrenos, mas celestes, este é amigo do esposo.
Não se deve entender aqui a fé que se mantém apenas em palavras, mas a que se cumpre por meio das obras.
Era necessário que Ele passasse pela Samaria, porque esta região está situada entre a Judeia e a Galileia. Samaria é uma importante cidade da província da Palestina, tão notável que toda a região a ela associada é chamada Samaria. Para qual lugar dessa região o Senhor se dirigiu, o Evangelista mostra; por isso diz: Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar.
Ou ela chama a Jacó seu pai, porque ela vivera sob a Lei de Moisés, e possuía a propriedade que Jacó dera a seu filho José.
Mas como lhes foi dada a ocasião de ver, mostra-o acrescentando: pois eles também haviam vindo para a festa. Em sentido místico, insinua-se que, quando os gentios estiverem consolidados na fé pelos dois preceitos da caridade, Cristo, próximo ao fim do mundo, retornará à sua pátria, isto é, aos judeus.
Por isso se dá a entender que também na fé há graus, como nas outras virtudes, nas quais há início, crescimento e perfeição. Portanto, a fé deste homem teve seu início quando pediu a cura de seu filho; teve seu crescimento quando acreditou na palavra do Senhor que lhe disse "teu filho vive"; e depois obteve a perfeição quando os servos lhe anunciaram.
Muita diferença, certamente, se comprova existir entre a cura do Senhor e a que pelos médicos é aplicada: esta, evidentemente, pela voz de quem ordena, e logo se cumpre; aquela, porém, através de muitos intervalos de tempo às vezes se completa.
Bem se descreve como tendo sido uma piscina probática. Pois aquele povo é significado pelo nome de ovelha, conforme aquilo: "Nós somos o teu povo, e as ovelhas do teu rebanho".
Finalmente, muitos gêneros de enfermos jaziam no mesmo lugar: os cegos, ou seja, aqueles que carecem da luz do conhecimento; os coxos, que não têm forças para cumprir o que lhes é ordenado; os ressecados, que carecem da abundância do amor divino.
O que significa dizer levanta-te e anda, senão erguer-te da torpeza e indolência nas quais antes jazias, e esforçares-te para progredir nas boas obras? Toma o teu leito, isto é, o teu próximo pelo qual és carregado, e também o suporta com paciência.
Porque não necessito. São João, embora tenha dado testemunho, não o fez para que Cristo crescesse, mas para que os homens fossem conduzidos ao conhecimento dele.
A missão deve ser entendida como a sua encarnação. Por fim, demonstra que Deus é incorpóreo, e que não pode ser visto com olhos corporais e visíveis; donde segue: nem jamais ouvistes a sua voz, nem vistes a sua figura.
Que vir (ou venire, no sentido de 'vir') seja usado no lugar de crer, o salmista o mostra, dizendo: "Aproximai-vos dele, e sereis iluminados"(Salmo 33,6). Acrescenta ainda: "para que tenhais vida", pois se a alma que peca morre, eles estavam mortos na alma e na mente. Prometia-lhes, portanto, a vida da alma, ou da felicidade eterna.
Este vício não pode ser melhor precavido, senão voltando às nossas consciências e considerando que somos pó; e se descobrimos que há algo de bom em nós, não o atribuamos a nós, mas a Deus. Somos instruídos também para sempre nos mostrarmos tais como desejamos ser vistos pelos outros. Finalmente, poderiam eles responder: então nos acusarás diante do Pai? E por isso, antecipando sua pergunta, acrescenta: "Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai".
Se alguém considerar diligentemente as palavras dos Evangelistas, facilmente reconhecerá que houve o espaço de um ano entre a decapitação de João e a paixão do Senhor. Visto que Mateus diz que o Senhor, ao ouvir da morte de João, retirou-se para um lugar deserto, e ali alimentou as multidões; e João diz que estava próxima a Páscoa dos judeus quando alimentou as multidões, demonstra-se claramente que João foi decapitado quando se aproximava a festividade pascal. E, transcorrido o espaço de um ano, Cristo padeceu na mesma festividade. Segue-se: Quando Jesus então levantou os olhos, e viu que uma grande multidão vinha a Ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão para que estes comam? Diz quando levantou os olhos Jesus, para que aprendêssemos que Ele não erguia os olhos aqui e ali, mas estava sentado modestamente atento com seus discípulos.
Quando as multidões viram o sinal que o Senhor havia feito, maravilharam-se, porque ainda não haviam reconhecido que Ele era Deus; por isso o Evangelista acrescenta: aqueles homens, porque eram carnais e entendiam carnalmente, quando viram o sinal que Jesus havia feito, diziam: este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo.
Então o Senhor subiu ao monte quando ascendeu ao céu, o qual é designado pelo monte.
A cevada também é alimento para os jumentos, e comida para os servos: e a lei antiga foi dada para os servos e jumentos, isto é, para os carnais.
Belamente diz: "Mas o que são estes entre tantos?" Porque a Lei antiga pouco aproveitava, até que Ele a tomou em suas mãos: isto é, cumpriu-a com obras, e ensinou que ela deveria ser entendida espiritualmente, pois a Lei a ninguém conduzia à perfeição.
As multidões, ao verem tão grande milagre, compreenderam que era piedoso e poderoso; e por isso quiseram fazê-lo rei: pois os homens desejam ter um rei piedoso para governar e poderoso para proteger. O Senhor, portanto, conhecendo isto, fugiu para o monte; isto é, subiu rapidamente; donde se diz Jesus, pois, quando soube que viriam para arrebatá-lo e fazê-lo rei, fugiu novamente ao monte, ele só. Dá-se a entender, portanto, que o Senhor, quando estava sentado no monte com seus discípulos e viu as multidões vindo até ele, havia descido do monte, e havia alimentado as multidões nas partes inferiores. Pois como poderia acontecer que ele fugisse novamente para o monte, se antes não tivesse descido do monte?
Com este modo de expressão, que usamos quando falamos com dúvida, costumamos dizer, aproximadamente vinte e cinco ou perto de trinta.
E não disse: "Eu sou Jesus", mas apenas "Eu sou", porque eles eram seus familiares, e por isso, ouvida a voz, facilmente puderam reconhecer o mestre; ou, o que é mais verdadeiro, para mostrar que Ele era aquele que disse a Moisés: "Eu sou o que sou"(Êxodo 3,14).
E visto que esta pequena embarcação não transporta pessoas indolentes, mas aqueles que remam vigorosamente, isto significa que na Igreja, não os desidiosos e os comodistas, mas os fortes e perseverantes nas boas obras, são os que chegam ao porto da salvação eterna.
Aqueles também que na oração buscam não as coisas eternas, mas as temporais, buscam Jesus não por causa de Jesus, mas por outra coisa. Significa-se misticamente que as conventículos dos hereges carecem da hospedagem de Cristo e de seus discípulos; e diz-se que outras naves sobrevieram, porque as heresias foram repentinas. Pela multidão, porém, que reconheceu que Jesus não estava ali, nem os seus discípulos, são designados aqueles que, conhecendo os erros dos hereges, os abandonam e vêm para a verdadeira fé.
Isto é, quais preceitos, observando, poderemos cumprir as obras de Deus?
Não certamente aos elementos, mas aos homens habitantes do mundo.
Ele diz todo de forma absoluta, para mostrar a plenitude dos fiéis. Estes são os que o Pai dá ao Filho, quando, por meio de uma inspiração oculta, faz com que creiam no Filho.
Diz, porém, no plural nos profetas, porque todos os profetas, cheios de um mesmo e único espírito, ainda que profetizassem coisas diferentes, todavia tendiam ao mesmo fim; pelo que todos os outros concordavam com qualquer um deles, como com o profeta Joel, que diz: serão todos ensinados por Deus.
Este pão o Senhor então deu, quando entregou aos discípulos o mistério do Seu corpo e sangue, e quando ofereceu a Si mesmo a Deus Pai no altar da cruz. Quanto ao que diz pela vida do mundo, não devemos entender pelos elementos, mas pelos homens, que são designados pelo nome de mundo.
Os judeus julgavam, pois, que o Senhor dividiria a sua carne em pedaços, e lhes daria a comer; e, por isso, contendiam, porque não entendiam.
E para que não se acreditasse que tinha dito estas coisas somente àqueles, logo depois introduziu uma sentença geral, dizendo: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue".
Havia dito antes: quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e para mostrar quão grande é a distância entre o alimento e a bebida corporais e o mistério espiritual do seu corpo e do seu sangue, acrescentou: porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.
E para mostrar a distância entre a sombra e a luz, o tipo e a verdade, acrescentou: "Não como vossos pais comeram o maná e morreram. Quem comer este pão viverá eternamente".
Sabendo o Senhor, em relação aos outros discípulos que permaneceram, se queriam partir, mesmo assim os interrogou, para que a fé deles fosse demonstrada e proposta para ser imitada por outros; do que segue: Então Jesus disse aos doze: porventura vós também quereis ir embora?
Ou deve-se dizer que escolheu os onze para um propósito, e o duodécimo para outro; os onze elegeu para que perseverassem na dignidade apostólica; e um elegeu para que, por meio de sua traição, operasse a salvação do gênero humano.
Esta conexão das palavras é tal que entendamos que, nesse meio tempo, muitas coisas puderam ser realizadas e acontecer. A Judeia e a Galileia são regiões da província da Palestina, mas a Judeia foi assim chamada pela tribo de Judá: não somente aquela região que a tribo de Judá, mas também aquela que a tribo de Benjamim possuía, foi chamada Judeia, porque os reis nasciam da tribo de Judá. Já a Galileia é assim chamada porque gera um povo semelhante ao leite, isto é, branco: pois Galileia em grego, em latim se diz leite.
Como se dissessem: tu fazes sinais, e poucos os veem; passa, pois, para a cidade real, onde estão os príncipes, para que, vistos os sinais, consigas o louvor deles. Mas, porque nem todos os discípulos sempre seguiam o Senhor, mas muitos deles estavam na Judeia, por isso acrescentam: para que também teus discípulos vejam as obras que fazes.
Para que não pareça ser contrário àquilo que o apóstolo diz: "quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho", o que aqui se diz deve ser referido não ao tempo da natividade, mas ao tempo da glorificação.
Misticamente, porém, é designado que para cada um dos carnais que buscam a glória humana, o Senhor permanece na Galileia, que se interpreta santa transmigração, isto é, em seus membros, que transmigram dos vícios às virtudes, e nelas progridem. Posteriormente, no entanto, o Senhor sobe, porque os membros de Cristo não buscam a glória desta vida, mas a glória eterna. Ocultamente, porém, o Senhor sobe, porque toda a sua glória vem do interior, isto é, de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida.
No qual nos deixou um exemplo de paciência: para que sempre que falsas acusações nos forem dirigidas por alguém, as toleremos com paciência, e não objetemos as verdades que podemos apresentar, mas preguemos conselhos salutares; pois segue-se: Respondeu Jesus e lhes disse: uma obra fiz, e todos vos admirais.
Diz, porém: "Vou para aquele que me enviou", como se dissesse: ao retornar, subo ao Pai, que me ordenou encarnar. Disse que ia para aquele de quem nunca se afastou.
Significa-se também que depois que, pela graça, começou a habitar em seu templo, isto é, na Igreja, de todas as nações creram nele; do que se segue: e todo o povo vinha a ele: e sentando-se, ensinava-os.
Quanto também ao que pertence à história, pelo fato de escrever com o dedo na terra, quis mostrar que era Ele quem outrora escrevera a lei em pedra. Segue-se: "E como perseverassem interrogando-o, ergueu-se".
Onde deve-se observar que Ele não diz, eu sou a luz dos Anjos ou do céu, mas a luz do mundo, isto é, dos homens que habitam nas trevas, segundo aquilo: "para iluminar aqueles que estão sentados nas trevas e na sombra da morte"(São Lucas 1,79).
Em muitos lugares o Pai dá testemunho do Filho, como naquele: "Eu hoje te gerei"(Salmos 2,7); igualmente: "Este é o meu Filho amado"(São Mateus 3,17)
Ou de outro modo. Cristo fala no gazófilo, porque proferia aos judeus sermões em parábolas; mas então, como que começou a abrir o gazófilo quando revelou aos seus discípulos as coisas celestiais: por isso também o gazófilo estava ligado ao templo: pois o que a Lei e os profetas haviam predito figuradamente, pertencia ao Senhor.
Esta conexão de palavras parece ser tal, que estas coisas poderiam ter ocorrido em um mesmo tempo e em um mesmo lugar, ou certamente em tempo diferente e em lugar diferente: visto que nada, ou algumas coisas, ou muitas coisas poderiam ter sido interpostas.
Notai que usa pecado no singular, e vosso no plural, para mostrar que o mesmo crime era de todos.
E Aquele que existia antes do mundo; mas eles eram do mundo, porque haviam sido criados depois que o mundo começou a existir.
Certamente em alguns exemplares encontra-se "o que também vos falo"; mas prova-se ser mais adequado ler "porque", a fim de que este seja o sentido: "Crede que eu sou o princípio, porque por vossa causa desci a estas palavras".
"Quem tu mesmo te fazes?" Isto é, de que mérito ou de que dignidade queres ser considerado? Abraão, entretanto, estava morto no corpo, mas a alma vivia. E maior é a morte da alma, que há de viver eternamente, do que a do corpo, que há de morrer algum dia.
Com estas palavras ele mostra que nada é a glória da vida presente.
Misticamente, quantos maus pensamentos alguém assume, como que atira tantas pedras em Jesus; e depois, quanto ao que lhe diz respeito, se passa à deliberação, extingue Jesus.
Pois quando o Filho afirmou que realizava as obras do Pai, demonstrou que as Suas obras e as do Pai são as mesmas: que consistem em salvar os enfermos, fortalecer os debilitados e iluminar os homens.
Misticamente, depois que foi expulso dos corações dos Judeus, logo passou ao povo dos gentios. Pois o seu passar, ou fazer caminho, é descer dos céus à terra. E assim vê ao cego, quando olhou misericordiosamente para o gênero humano.
Assim ele representa a figura dos catecúmenos, que embora creiam em Jesus, todavia ainda não o conhecem, porque ainda não foram lavados. Cabia aos fariseus aprovar ou desaprovar a obra.
É costume comum dos grandes desdenharem aprender algo de seus inferiores.
Nisto podem tomar como exemplo, para que ninguém rogue ao Senhor com a cerviz erguida, mas prostrado em terra, como um suplicante, implore Sua misericórdia.
Lê-se que sob Judas Macabeu foi estabelecido que esta mesma dedicação fosse renovada todos os anos em memória com ofícios solenes.
O Evangelista mostra que os judeus ainda persistiam em sua iniciada loucura, dizendo "queriam, portanto, prendê-lo".
Diz, porém, "onde estava primeiro", isto é, desde a primeira idade. E permanecendo ele ali, narra que muitos vieram até ele; donde segue: "E muitos vieram a ele, e diziam: João, na verdade, não fez nenhum milagre".
O evangelista havia dito que o Senhor foi para o outro lado do Jordão, e então aconteceu que Lázaro adoeceu; por isso diz: havia um enfermo chamado Lázaro, de Betânia. Daí que em alguns exemplares encontra-se colocada a conjunção copulativa "et", para que as palavras seguintes pareçam conectadas às anteriores. Lázaro significa "ajudado". Entre todos os mortos que o Senhor ressuscitou, este foi o mais ajudado por Ele, pois o ressuscitou não apenas morto, mas quatriduano.
Ou então os discípulos, repreendidos pelas palavras anteriores do Senhor, não ousaram mais contradizer; mas Tomás, acima de todos, exortou seus companheiros a irem e morrerem com Ele, no que se mostra sua grande constância; pois assim falava, como se pudesse fazer o que exortava aos outros, esquecido de sua fragilidade, como também Pedro.
O Senhor ainda não havia entrado na aldeia; por isso Marta encontrou-O quando Ele ainda estava fora da aldeia; por isso segue-se: Marta, pois, quando ouviu que Jesus estava chegando, foi ao seu encontro; Maria, porém, estava sentada em casa.
Maria, porém, não disse tudo o que Marta havia proferido, pois, segundo o costume habitual dos homens, entre lágrimas não pôde expressar tudo o que queria e tinha em seu ânimo.
É costume entre os homens chorar pelos seus mortos queridos; conforme este costume, os judeus pensavam que o Senhor chorava; por isso acrescenta-se: "Disseram então os judeus: vede como o amava!"
Uma gruta é uma rocha cavada. E o monumento é assim chamado porque adverte a mente; isto é, traz os mortos à memória. Segue-se: disse Jesus: tirai a pedra.
[1] O termo "monumento" (monumentum) deriva de "avisar a mente" (mentem moneat), ou seja, traz à lembrança os que já faleceram.
Ou, estas palavras não são de desespero, mas de admiração.
Por aqueles que anunciaram aos fariseus, são significados alguns que, vendo as boas obras dos servos de Deus, perseguem-nas com ódio e tentam difamá-las.
É, de fato, uma palavra composta de corrupto e íntegro: hosi, que significa salva, e Anna, que é uma interjeição de súplica. "Bendito o que vem em nome do Senhor" deve ser entendido, mais apropriadamente, como sendo "em nome do Senhor", ou seja, em nome de Deus Pai; embora também possa ser entendido como em seu próprio nome, porque Ele mesmo é o Senhor. Porém, Suas palavras dirigem melhor nosso entendimento, quando Ele diz: "Eu vim em nome de meu Pai". Certamente Ele não perde Sua divindade quando nos ensina a humildade.
O templo do Senhor, situado em Jerusalém, era tão famoso que nos dias festivos não somente os vizinhos, mas também muitas gentes de regiões longínquas vinham para lá, como declaram os Atos dos Apóstolos sobre o eunuco de Candace, rainha dos etíopes. Por este costume, portanto, estes gentios tinham vindo para adorar, dos quais se diz: "Havia alguns gentios, dentre aqueles que tinham subido para adorar no dia da festa".
Ele mesmo, da descendência dos patriarcas, foi semeado no campo deste mundo para que, morrendo, ressuscitasse com multiplicação: morreu sozinho, ressurgiu com muitos.
Isto é, que outra coisa senão para que os meus membros sejam instruídos? Pai, salva-me desta hora
Os judeus tinham certamente muitas festividades, mas nenhuma era tão insigne e celebrada como a festividade da Páscoa; por isso diz expressamente: "Antes do dia festivo da Páscoa".
Primeiro o Senhor realizou em atos o que depois ensinou em palavras, segundo aquele "Começou Jesus a fazer e a ensinar"(Atos dos Apóstolos 1,1).
Porque verdadeiramente conhecer o bem, e não o praticar, não pertence à bem-aventurança, mas à condenação, conforme aquilo: "Àquele que sabe fazer o bem e não o faz, isso lhe é pecado"(São Tiago 4,17), acrescenta: "Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis se as praticardes".
Que reclinasse no seio e sobre o peito, não foi somente um indício de amor presente, mas também um sinal de algo futuro: a saber, que dali recebesse a voz que posteriormente emitiria, inaudita por todos os séculos.
Esta sentença pode ser pronunciada de dois modos: de um modo afirmando, como se dissesse: darás a tua vida por mim; mas agora, temendo a morte da carne, incorrerás na morte da alma; de outro modo repreendendo, como se dissesse
Todavia, que cada um tome exemplo do arrependimento, se cair em lapso, para que não se desespere, mas confie sem hesitação que pode fazer-se merecedor do perdão.
Mas deve-se perguntar como agora o Senhor diz: "Se me conhecêsseis, certamente conheceríeis também o meu Pai", quando previamente afirmou: "para onde eu vou, sabeis, e o caminho, sabeis". Dá-se a entender, portanto, que alguns deles sabiam, outros, porém, não sabiam, entre os quais estava São Tomás.
Observe também que, quando Ele chama o Espírito Santo de Espírito da verdade, mostra que o Espírito Santo é o seu próprio Espírito; depois, quando narra que Ele é dado pelo Pai, declara que também é o Espírito do Pai; e por isso o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Ele dizia isto porque já se aproximava o tempo em que seria preso e entregue à morte: "Porque vem o príncipe deste mundo".
É certo que muitos, repletos da graça do Espírito Santo, conheceram as coisas que haveriam de vir. Mas porque muitos resplandecem em várias virtudes, sem, contudo, conhecer as coisas que hão de vir, pode-se entender esta palavra assim: "Ele vos anunciará as coisas que hão de vir", isto é, trará de volta à vossa memória os gozos da pátria celestial. Mas aos Apóstolos anunciou as coisas vindouras, a saber, os males que haveriam de sofrer pela confissão de Cristo, e os bens que receberiam em recompensa desses mesmos males.
Diz, pois: "Um pouco e já não me vereis"; porque foi detido naquela noite pelos judeus, e na manhã seguinte crucificado, e à tarde sepultado, sendo assim afastado do olhar humano.
Nem deve parecer estranho se for chamado de nascido aquele que migrou desta vida: pois assim como habitualmente se diz que nasce quando alguém, procedendo do útero materno, entra nesta luz, assim pode ser chamado de nascido quem, livre dos vínculos da carne, é elevado à luz eterna: por isso as solenidades dos santos não são chamadas de funerais, mas de nascimentos.
O que pode ser pronunciado de dois modos: afirmando ou com ironia. Se for com ironia, este é o sentido: despertastes tardiamente para crer: eis que vem a hora em que vós sereis dispersos, cada um para o que é seu, e assim por diante. Se for afirmando, o sentido é: é verdade o que credes; mas eis que vem a hora em que vós sereis dispersos, cada um para o que é seu, e me deixareis só.
Deve-se entender aquelas coisas que falou durante a ceia, algumas estando sentado até o momento em que disse: "Levantai-vos, vamos daqui"; depois, estando de pé, até o fim do hino, cujo início é este: "E levantando os olhos ao céu, disse: Pai, chegou a hora: glorifica o teu Filho".
Chama a Si mesmo palavra do Pai, porque por Ele o Pai criou todas as coisas, e contém em Si todas as palavras; como se dissesse: Eles me confiaram à memória de forma tão completa que nunca se esquecerão de Mim. Ou diz: e guardaram a tua palavra, isto é, no fato de que creram em Mim; daí se segue e agora conheceram que todas as coisas que me deste vêm de ti. Alguns, contudo, dizem que a letra é esta: agora conheci que todas as coisas que me deste vêm de ti; mas estes não têm razão. Pois como poderia o Filho ignorar o que é do Pai? Mas isto foi dito sobre os discípulos; como se dissesse: aprenderam que não há nada em Mim alheio a Ti, e que todas as coisas que ensino são tuas.
Como se dissesse: já se aproxima o tempo em que eu seja tirado do mundo, por isso é necessário que eles agora não sejam tirados do mundo, para que primeiro anunciem a mim e a ti ao mundo. Mas o que acrescenta: mas que os guardes do mal, embora possa entender-se de todo o mal, quer referir-se principalmente ao mal da cisão.
Portanto, chama de glória ao amor com que Ele foi amado pelo Pai antes da constituição do mundo. Naquela glória, Ele também nos amou antes da constituição do mundo.
A fim de que, sendo condenado por um pontífice similar, ele mesmo também fosse considerado réu de um crime menor. Ou talvez sua casa estivesse situada de tal maneira que não pudessem passar por ela. Ou por disposição divina aconteceu que aqueles que eram unidos pelo sangue, se associassem no crime. Mas o que é dito, que ele era pontífice daquele ano, soa contrário à lei, na qual estava preceituado que houvesse um único sumo pontífice, e que morto este lhe sucedesse seu filho; mas já então o pontificado estava corrompido pela ambição.
O que diz ligatum (atado), não se deve entender que somente naquele momento estivesse atado; mas foi atado quando foi preso: assim, enviou-o atado a Caifás do mesmo modo como lhe havia sido apresentado. Ou também poderia ter acontecido que por algum tempo tivesse sido desatado, para ser interrogado, e depois de interrogado, novamente atado, e assim enviado a Caifás.
Misticamente, pela primeira negação de Pedro são designados aqueles que antes da paixão de Cristo negaram que Ele fosse Deus; pela segunda, aqueles que depois da sua ressurreição ofenderam tanto a sua divindade quanto a sua humanidade. Igualmente, pelo primeiro canto do galo é designada a ressurreição da própria cabeça, pelo segundo, aquela que no fim será celebrada de todo o corpo. Pela primeira criada, que obrigou Pedro a negar, é designada a cobiça; pela segunda, a deleição carnal; pelo servo único ou por muitos servos, os Demônios, que persuadem a negar Cristo.
Pretório é chamado a sede do pretor; porém os pretores são chamados prefeitos, ou preceptores, porque dão preceitos aos cidadãos.
Esta era, pois, o costume dos judeus, que quando julgavam alguém réu de morte, o entregavam atado ao governador, para que, ao ver o prisioneiro atado, entendesse que estava condenado à morte.
Este costume não era um preceito da lei, mas descendia da antiga tradição dos pais, para que, em memória da libertação do Egito, soltassem também um preso no dia da Páscoa. Depois, de modo exortativo, diz: "Quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus?"
Uma vez, pois, que abandonaram o Salvador e pediram o ladrão, até hoje o Diabo exerce seus latrocínios sobre eles.
Pois ao invés de um diadema, impuseram-lhe uma coroa de espinhos, e no lugar da vestimenta púrpura, que os reis antigos usavam, colocaram ao redor dele uma veste púrpura: onde não se deve considerar contraditório o que São Mateus diz, que o vestiram com uma capa escarlate, porque, como Orígenes relata, o escarlate e a púrpura são da mesma matéria: pois as cochonilhas são cortadas, e delas fluem gotas de sangue, com as quais são tingidas vestimentas de ambos os tipos. E embora os soldados fizessem isso em zombaria, para nós, entretanto, realizavam mistérios. Pois pela coroa de espinhos designa-se a aceitação de nossos pecados, que como espinhos a terra do nosso corpo produz. Na vestimenta púrpura significa-se a carne sujeita às paixões. Também se veste de púrpura, quando se glorifica com os triunfos dos santos mártires.
Ele não temeu porque ouviu a lei, pois era estrangeiro; mas temeu mais que matasse o Filho de Deus.
Lithostratos, porém, significa pavimento como que revestido de pedra; e era um lugar elevado. Segue-se: era, pois, a preparação da Páscoa, aproximadamente à hora sexta.
No qual já então se mostrava que o Seu reino não estava, como eles pensavam, destruído, mas antes fortalecido.
O Evangelista demonstra sua pessoa pelo sinal do amor: não porque somente ele, com exclusão dos demais, mas porque, mais do que os outros, era amado familiarmente pelo Senhor em virtude do privilégio da castidade, pois tendo sido chamado virgem por Ele, virgem permaneceu para sempre.
Outra versão diz: o discípulo a recebeu para si, o que alguns entendem como para sua mãe; mas para seu cuidado parece mais apropriado.
Aqui pode ser questionado como este diz "Quando Jesus havia tomado o vinagre", enquanto outro Evangelista diz: "Não quis beber". Mas isto é facilmente resolvido, pois Ele não o recebeu para beber, mas para que se cumprisse o que estava escrito.
Parasceve, isto é, preparação, era chamado o sexto dia, porque neste dia os filhos de Israel preparavam o dobro de alimentos para si mesmos. Pois era grande aquele dia de sábado, a saber, por causa da solenidade pascal. Rogaram a Pilatos que fossem quebradas as pernas deles.
Arimateia é a mesma que Ramata, cidade de Elcana e Samuel. Foi providencialmente ordenado que ele fosse rico, para que pudesse ter acesso ao governador; e que fosse justo, para que merecesse receber o corpo do Senhor; por isso segue-se que tomou o corpo de Jesus, porque era seu discípulo.
Acalmada, pois, de algum modo a sua ferocidade, visto que se alegravam por ter prevalecido contra Cristo, pediu o corpo de Cristo, porque não parecia ter vindo por causa de ser discípulo, mas por piedade, para prestar os ofícios fúnebres; coisa que os homens costumam fazer não só aos bons, mas também aos maus. Juntou-se a ele também Nicodemos; por isso segue: veio também Nicodemos, que primeiramente tinha vindo a Jesus de noite, trazendo uma mistura de mirra e aloés, de cerca de cem libras.
Deve-se observar, porém, que o unguento era simples; pois eles não tinham licença para preparar com diversos aromas. Segue-se: Tomaram, pois, o corpo de Jesus, e o envolveram em lençóis com os aromas, conforme é costume dos judeus sepultar.
Daqui veio o costume da Igreja, de não consagrar o corpo do Senhor em tecidos de seda ou de ouro, mas em um linho limpo.
Misticamente, o nome José é interpretado apto para a recepção de uma boa obra; pelo qual somos admoestados a nos tornarmos dignos de receber o corpo do Senhor.
Diz-se, portanto, una sabbati, isto é, o segundo ou primeiro dia depois do sábado
Misticamente, Maria, que significa senhora, iluminada, iluminadora, ou estrela do mar, representa a Igreja, que é chamada de Madalena, isto é, torre: pois Magdalon em grego, em latim significa torre, conforme aquilo que é dito no Salmo 60, 4: "Foste para mim uma torre de fortaleza". E pelo fato desta mulher ter anunciado aos discípulos que Cristo ressuscitou, todos são admoestados, principalmente aqueles a quem foi confiado o ofício de pregar, para que, se algo lhes for revelado do céu, zelosamente o transmitam aos próximos.
Nisto se mostra a enfermidade dos Apóstolos, que permaneciam congregados com as portas fechadas por causa do temor dos judeus, por cujo medo haviam sido antes dispersos. Veio Jesus, e pôs-se no meio. Apareceu, porém, ao entardecer, porque era consequente que então estivessem maximamente temerosos.
A repetição é confirmação; ou repete porque a virtude da caridade é dupla; ou porque Ele mesmo é quem fez de dois uma só coisa.
Pode-se perguntar por que este Evangelista diz que São Tomás estava ausente, quando São Lucas escreve que dois discípulos que foram a Emaús, ao retornarem a Jerusalém, encontraram os onze reunidos. Mas deve-se entender que houve um certo intervalo, durante o qual São Tomás saiu, e Jesus veio e esteve no meio deles.
Segundo o costume habitual, o Evangelista primeiro relatou a causa, depois narra como o evento ocorreu; de onde segue "manifestou-se porém deste modo".
Com este indício, como em muitas ocasiões, assim também aqui demonstra sua pessoa. Conheceu, porém, primeiro ao Senhor, seja pelo milagre desta pesca, seja pelo som da voz antes conhecida, seja pela lembrança da primeira pesca.
Diz-se, porém, que Pedro estava nu em comparação com as demais vestes que costumava usar; assim como costumamos dizer quando vemos alguém vestido com uma roupa simples: por que andas nu? Ou pode-se entender que, ao modo dos pescadores e pela diligência da pesca, andava nu.
Com o mesmo ardor com que fizera muitas outras coisas, veio a Jesus; donde segue: e lançou-se ao mar; mas os outros discípulos vieram na embarcação. Não se deve entender, contudo, que Pedro veio sobre as ondas, mas ou nadando ou com seus próprios pés, pois estavam perto da terra; segue-se, com efeito: pois não estavam longe da terra, mas a cerca de duzentos côvados.
Ou pelos duzentos côvados expressa-se a dupla virtude da caridade: pois pelo amor a Deus e ao próximo nos aproximamos de Cristo. O peixe assado é Cristo que padeceu: Ele dignou-se ocultar nas águas do gênero humano, quis ser capturado pelo laço de nossa noite; e aquele que se fez peixe para nós pela humanidade, tornou-se para nós pão, restaurando-nos pela sua divindade.
Ele, pois, enumera muitos, não tanto pela quantidade numérica, quanto pela diversidade multifacetada de suas heresias; aqueles que não foram agraciados com o dom do Espírito Santo, mas, esforçando-se em vão trabalho, mais ordenaram uma narrativa do que teceram a verdade da história.
E, contudo, também São Mateus e São João em muitas coisas que escreveram, precisavam ouvir daqueles que puderam conhecer a infância, a juventude e a genealogia dele, e estar presentes em seus feitos.
Teófilo significa amante de Deus ou amado por Deus. Todo aquele, portanto, que ama a Deus, ou deseja ser amado por Deus, considere que o Evangelho foi escrito para si, e conserve como um presente a ele dado, um penhor confiado ao seu cuidado. Não se trata de explicar a Teófilo a razão de quaisquer coisas novas e como que desconhecidas; mas promete-se expressar a verdade daquelas palavras sobre as quais ele foi instruído, como se acrescenta: "para que conheças a verdade daquelas palavras nas quais foste instruído"; isto é, para que possas conhecer em que ordem cada coisa foi dita ou feita pelo Senhor.
O tempo de Herodes, rei estrangeiro, atesta o advento do Senhor; pois havia sido predito que "não faltará o cetro de Judá, nem o chefe de sua descendência, até que venha aquele que deve ser enviado". Desde que os pais saíram do Egito, foram governados por juízes de sua própria nação até o profeta Samuel, e depois por reis até o exílio da Babilônia. Após o retorno da Babilônia, os pontífices exerciam a suprema autoridade até Hircano, que era ao mesmo tempo rei e pontífice. Sendo este morto por Herodes, o reino da Judeia foi entregue para ser governado, por ordem de César Augusto, ao mesmo Herodes, um estrangeiro; em cujo trigésimo primeiro ano, segundo a profecia supracitada, veio aquele que devia ser enviado.
De fato, São João nasceu de linhagem sacerdotal, para que com tanto maior autoridade anunciasse a mudança do sacerdócio, quanto mais claramente se evidenciasse que ele mesmo pertencia à estirpe sacerdotal.
Eram príncipes do santuário, isto é, sumos sacerdotes, tanto dos filhos de Eleazar como dos filhos de Itamar, cujos turnos, segundo seus ministérios, para entrarem na casa de Deus, David dividiu em vinte e quatro sortes; nas quais à família de Abia, da qual Zacarias se originou, coube a oitava sorte. Não foi em vão que o primeiro arauto do novo testamento nasceu com o direito da oitava sorte: pois assim como pelo número sete frequentemente, por causa do sábado, se expressa o antigo testamento, assim o novo algumas vezes é expresso pelo número oito, por causa do sacramento da ressurreição do Senhor ou da nossa.
São João foi gerado por pais justos, para que pudesse dar aos povos preceitos de justiça com tanto mais confiança, quanto estes mesmos não os havia aprendido como novidades, mas os guardava como recebidos por direito hereditário de seus progenitores. Donde se segue: "eram ambos justos diante de Deus".
Por Moisés, o Senhor constituiu um único sumo sacerdote, ao qual, quando morto, ordenou que outro sucedesse; e isto foi observado até os tempos de Davi, por quem, por disposição do Senhor, determinou-se que fossem instituídos mais sacerdotes: assim, agora afirma-se que Zacarias exercia seu ofício sacerdotal na ordem de seu turno, quando se diz aconteceu, porém, que, exercendo Zacarias seu ofício sacerdotal na ordem de seu turno diante de Deus, segundo o costume do sacerdócio, saiu em sorte para oferecer o incenso, entrando no templo do Senhor.
Não foi, porém, agora escolhido por uma nova sorte quando o incenso deveria ser oferecido, mas pela antiga sorte, quando, conforme a ordem de seu pontificado, sucedeu no turno de Abia. Segue-se: E toda a multidão do povo estava orando fora na hora do incenso. Foi ordenado que o incenso fosse levado pelo pontífice ao Santo dos Santos, enquanto todo o povo esperava fora do templo, no décimo dia do sétimo mês, e este dia era chamado dia de expiação ou de propiciação; o mistério deste dia o Apóstolo, explicando aos Hebreus, mostra que Jesus é o verdadeiro pontífice, que pelo seu próprio sangue entrou nos lugares secretos do céu, para nos reconciliar com o Pai e interceder pelos pecados daqueles que ainda esperam orando às portas.
É um indício de mérito singular quando Deus impõe ou anuncia um nome aos homens.
João significa "aquele no qual há graça" ou "graça do Senhor"; com este nome se declara primeiramente a graça concedida a seus pais, aos quais, em idade avançada, nasceria um filho; depois, ao próprio João, que havia de ser grande diante do Senhor; e, finalmente, aos filhos de Israel, aos quais haveria de converter ao Senhor. Por isso segue-se: "E ele será alegria e júbilo para ti".
Sicera é interpretada como "embriaguez"; com este vocábulo os hebreus significam tudo o que pode embriagar o povo, seja feito de frutos, seja de qualquer outra matéria. Era próprio da lei dos Nazareus abster-se de vinho e de sicera durante o tempo de consagração; daí que São João e outros semelhantes, para que possam permanecer sempre Nazareus, isto é, santos, esforçam-se por abster-se sempre destas coisas: pois não convém que se embriague com vinho, no qual está a luxúria, aquele que deseja ser repleto do mosto do Espírito Santo; por isso, justamente daquele de quem se retira a embriaguez do vinho, a graça do Espírito é acumulada. Segue-se então: "e será repleto do Espírito Santo ainda desde o ventre de sua mãe".
Quando se diz que São João - que, dando testemunho de Cristo, batizava os povos em sua fé - converteu os filhos de Israel ao Senhor seu Deus, fica evidente que Cristo é o Senhor Deus de Israel. Por isso, cessem os arianos de negar que Cristo é o Senhor Deus; envergonhem-se os fotinianos de atribuir a Cristo um princípio na Virgem; deixem os maniqueus de acreditar que um é o Deus do povo de Israel e outro é o Deus dos cristãos.
O que foi predito de Elias por Malaquias, isto é dito pelo Anjo acerca de São João, como se segue: para que converta os corações dos pais aos filhos; infundindo nos povos, por sua pregação, a ciência espiritual dos santos antigos. E os incrédulos à prudência dos justos; isto é, não pretendendo a justiça das obras da lei, mas buscando a salvação pela fé.
Mas porque havia dito que Zacarias, suplicando pelo povo, fora ouvido, acrescenta: para preparar ao Senhor um povo perfeito; no qual ensina de que modo este mesmo povo deve ser salvo e aperfeiçoado; a saber, fazendo penitência conforme a pregação de São João, e crendo em Cristo.
Como se dissesse: se um homem prometesse tais sinais, seria lícito exigir impunemente um sinal; mas quando um Anjo promete, já não convém duvidar. Segue-se: e fui enviado para falar contigo, e para anunciar-te estas boas novas.
Aqui deve-se notar que o anjo testifica tanto estar diante de Deus quanto ter sido enviado para evangelizar a Zacarias.
Dá-lhe, porém, o sinal que lhe é pedido: para que aquele que falou com descrença, agora aprenda a crer calando-se; por isso segue-se: "e eis que ficarás mudo, e não poderás falar".
Durante o tempo de seu turno, os pontífices do templo dedicavam-se apenas aos ofícios do templo, abstendo-se não somente do contato com suas esposas, mas também de entrar em suas próprias casas; por isso diz: e aconteceu que, cumpridos os dias do seu ofício, retirou-se para sua casa. Porque, sendo necessária naquele tempo a sucessão sacerdotal da estirpe de Aarão, era necessário providenciar o tempo para substituir a descendência. Mas agora, como não se busca a sucessão carnal, mas o aperfeiçoamento espiritual, ordena-se aos sacerdotes, para que possam servir sempre ao altar, a perpétua observância da castidade. Segue-se: depois destes dias concebeu Isabel, sua esposa; isto é, depois de completos os dias do ofício de Zacarias. Estes acontecimentos ocorreram no mês de setembro, no oitavo dia das calendas de outubro, quando convinha aos judeus celebrar o jejum da Festa dos Tabernáculos, próximo ao equinócio, no qual a noite começa a ser mais longa que o dia; porque era necessário que Cristo crescesse e João diminuísse. E não era em vão que então havia dias de jejum, porque por João seria pregada aos homens a aflição da penitência. Segue-se: e ocultava-se por cinco meses.
Misticamente, por Zacarias pode ser designado o sacerdócio dos judeus, e por Isabel, a própria lei, a qual, exercitada pelas doutrinas dos sacerdotes, devia gerar filhos espirituais para Deus, mas não o conseguia; porque a lei não conduz ninguém à perfeição. Ambos eram justos, porque a lei é boa, e o sacerdócio, para aquele tempo, santo; ambos avançaram em seus dias, porque, com a chegada de Cristo, já estavam inclinados à velhice. Zacarias entra no templo, porque é próprio dos sacerdotes entrar no santuário dos mistérios celestiais; a multidão estava fora, porque não pode penetrar nas coisas místicas. Enquanto coloca o incenso no altar, reconhece que João nascerá: porque enquanto os doutores ardem com a chama da leitura divina, descobrem a graça de Deus que havia de surgir por meio de Jesus; e isto pelo Anjo, porque a lei foi ordenada por anjos.
E, no entanto, Isabel concebe João, porque o interior da lei abunda nos sacramentos de Cristo. Oculta a sua concepção durante cinco meses, porque Moisés, em cinco livros, designa os mistérios de Cristo, ou porque a dispensação de Cristo é figurada nas cinco idades do mundo pelas palavras ou atos dos santos.
Como a encarnação de Cristo estava para ocorrer na sexta idade do mundo, ou estava para servir ao cumprimento da lei, corretamente no sexto mês da concepção de João foi enviado o Anjo a Maria, para anunciar o Salvador que haveria de nascer: por isso se diz no sexto mês. Entenda-se por sexto mês março, em cujo vigésimo quinto dia se relata que nosso Senhor foi concebido e padeceu, assim como no vigésimo quinto dia do mês de dezembro nasceu. E se acreditamos que naquele dia ocorre o equinócio da primavera, ou neste o solstício de inverno, convém que com o aumento da luz seja concebido ou nasça Aquele que ilumina todo homem que vem a este mundo. Mas se alguém provar que antes do tempo da natividade e concepção de nosso Senhor a luz começava a crescer ou a superar as trevas, nós também dizemos que João anunciava o reino dos céus antes da manifestação de sua vinda.
Foi como um princípio adequado para a restauração humana, que um Anjo fosse enviado por Deus à virgem, a fim de consagrá-la por um parto divino; porque a primeira causa da perdição humana foi quando a serpente foi enviada pelo Diabo à mulher, para enganá-la com o espírito de soberba; de onde se segue: à virgem.
O que não se refere apenas a José, mas também pertence a Maria. Pois era preceito da lei que cada um tomasse esposa de sua própria tribo ou família. Segue-se: e o nome da virgem era Maria.
Maria, em hebraico, significa estrela do mar; mas em siríaco é interpretada como Senhora; e com razão, porque Maria mereceu gerar o Senhor de todo o mundo e a luz perene dos séculos.
Como tinha visto que a Virgem se havia turbado com aquela saudação incomum, chamando-a pelo nome como se a conhecesse mais familiarmente, ordena-lhe que não deve temer; por isso se diz: E disse-lhe o Anjo: Não temas, Maria.
Ou por casa de Jacó entende toda a Igreja, que ou nasceu de boa raiz, ou ainda que fosse um ramo de oliveira silvestre, foi, pelo mérito da fé, enxertada na boa oliveira.
Que Nestório, pois, deixe de dizer que somente um homem nasceu da Virgem, e que este não foi recebido pelo Verbo de Deus na unidade da pessoa: pois o Anjo que diz que aquele mesmo tem a Davi por pai, a quem anuncia que será chamado Filho do Altíssimo, demonstra a única pessoa de Cristo em duas naturezas. O Anjo não usa verbos no tempo futuro porque, segundo os hereges, Cristo não existiu antes de Maria, mas porque segundo a mesma pessoa, o homem junto com Deus recebe o mesmo nome de Filho.
Não conceberás, pois, por meio do sêmen viril, que não conheces, mas pela obra do Espírito Santo, do qual serás repleta: não haverá em ti o ardor da concupiscência, onde o Espírito Santo fará sombra.
Assim, pois, para que a virgem não desconfiasse de poder dar à luz, recebeu o exemplo de uma anciã estéril que haveria de dar à luz, para que aprendesse que todas as coisas são possíveis para Deus, mesmo aquelas que parecem ser contrárias à ordem da natureza; por isso segue: porque não será impossível para Deus palavra alguma.
Tendo recebido o consentimento da virgem, logo o Anjo voltou aos céus: donde segue "e o anjo se retirou dela".
Maria é bendita por Isabel com as mesmas palavras que antes pelo Gabriel, para mostrar que ela deve ser venerada tanto pelos anjos quanto pelos homens.
Este é o fruto que é prometido a David: "Do fruto do teu ventre colocarei sobre o teu trono"(Salmo 131,11).
E não é de admirar que o Senhor, ao redimir o mundo, tenha começado sua obra por sua mãe; para que ela, por quem a salvação era preparada para todos, fosse a primeira a colher o fruto da salvação a partir do penhor.
Mas toda alma que concebeu o Verbo de Deus em sua mente, logo ascende aos elevados cumes das virtudes pelo caminho do amor, de modo que possa penetrar na cidade de Judá, isto é, na cidadela da confissão e do louvor, e permanecer nela como que por três meses, até a perfeição da fé, da esperança e da caridade.
Porque o espírito da Virgem se alegra na divindade eterna do mesmo Jesus, isto é, do Salvador, cuja carne é formada por uma concepção temporal.
Aquela cuja humildade é contemplada, com razão é chamada bem-aventurada por todos; por isso segue: eis que desde agora me dirão bem-aventurada todas as gerações.
Convinha, pois, que, assim como pela soberbia dos primeiros pais a morte entrou no mundo, também pela humildade de Maria se manifestasse a entrada da vida.
Isto se refere ao início do cântico, onde se diz: "Minha alma engrandece ao Senhor". Somente aquela alma, para quem o Senhor se digna fazer grandes coisas, pode engrandecê-lo com louvores dignos.
Pois na altura de Seu maravilhoso poder Ele está muito além de toda criatura, e está amplamente apartado de todas as obras de Suas mãos. Isto é melhor compreendido na língua grega, na qual a própria palavra que significa santo, expressa como que estar "fora da terra".
Voltando-se dos dons especiais de Deus para Seus desígnios gerais, ela descreve a condição de todo o gênero humano, E a sua misericórdia de geração em geração está sobre aqueles que O temem; como se dissesse: Não somente para mim fez grandes coisas Aquele que é poderoso, mas em todas as nações aquele que teme a Deus é aceito por Ele.
Descrevendo o estado do gênero humano, mostra o que merecem os soberbos e o que os humildes, dizendo "fez potência em seu braço", isto é, no próprio Filho de Deus: assim como teu braço é aquele com o qual operas, assim o braço de Deus é chamado seu Verbo, pelo qual operou o mundo.
O que disse "fez potência em seu braço", e o que havia dito antes, "e sua misericórdia de geração em gerações", deve ser conectado a estes versículos, continuando-se cada um individualmente: porque, certamente, através de todas as gerações do mundo, os soberbos não deixam de perecer, e os humildes de serem exaltados, pela pia e justa dispensação do poder divino. Por isso é dito: "Depôs os poderosos de seu trono, e exaltou os humildes".
Isto é, o obediente e humilde; pois aquele que desdenha humilhar-se não pode ser salvo.
Mas por semen [semente] entende não tanto aqueles gerados segundo a carne, mas aqueles que seguiram os passos da fé dele, aos quais a vinda do Salvador foi prometida para todos os séculos.
Pois é necessário que a alma casta que concebe o desejo do Verbo espiritual, submeta-se ao elevado jugo do exército celestial, e demorando-se ali como que pelo espaço de três meses, não deixe de perseverar até que seja iluminada pela luz da fé, da esperança e da caridade.
Em sentido alegórico, a celebrada natividade de São João é o início da graça do Novo Testamento; à qual os vizinhos e parentes preferiam impor o nome do pai ao invés de João: porque os judeus, que estavam unidos a ele pela observância da lei, como que por afinidade, desejavam mais seguir a justiça que vem da lei do que receber a graça da fé. Mas o vocábulo João, isto é, graça de Deus, a mãe com palavras e o pai com letras se esforçam por anunciar: porque a própria lei, os Salmos e os profetas, com claras expressões de suas sentenças, pregam a graça de Cristo, e aquele antigo sacerdócio, por meio das sombras figurativas de cerimônias e sacrifícios, dá testemunho do mesmo. E belamente Zacarias fala no oitavo dia do nascimento de seu filho: porque por meio da ressurreição do Senhor, que aconteceu no oitavo dia, isto é, depois do sétimo dia do sábado, os ocultos arcanos do sacerdócio legal foram revelados.
Pois os sinais precursores preparam o caminho para o precursor da verdade, e o futuro profeta é recomendado por auspícios enviados antes dele; de onde se segue: "Porque a mão do Senhor estava com ele".
Visitou, pois, o Senhor o seu povo, como que definhando por longa enfermidade, e redimiu com o sangue de seu Filho unigênito aqueles que estavam vendidos sob o pecado; e como Zacarias sabia que isto estava próximo de ser feito, narra, à maneira dos profetas, como se já tivesse acontecido. Diz, porém, seu povo, não porque, ao vir, encontrou-o como seu, mas porque, visitando-o, fê-lo seu.
O reino de Cristo Salvador é também chamado chifre de salvação. Pois todos os ossos estão envoltos na carne; mas o chifre ultrapassa a carne; por isso o reino de Cristo é chamado chifre de salvação, pelo qual o mundo e os prazeres da carne são superados; em figura disso, Davi e Salomão foram consagrados pelo chifre de óleo para a glória do reino.
Ele diz: "Que existem desde o princípio do mundo", porque toda a Escritura do Antigo Testamento profeticamente procede de Cristo; pois o próprio pai Adão, e os demais patriarcas, por meio de seus feitos, dão testemunho da sua dispensação.
Tendo primeiro brevemente dito "Ergueu um chifre de salvação para nós", logo a seguir explica o que havia dito, acrescentando: "salvação contra nossos inimigos"; como se dissesse: ergueu para nós um chifre, isto é, ergueu para nós salvação contra nossos inimigos e da mão de todos aqueles que nos odeiam.
Ele tinha dito que o Senhor, de acordo com as palavras dos profetas, nasceria da casa de David; diz que o mesmo, para cumprir a aliança que dispôs a Abraão, nos libertará: porque a estes patriarcas, principalmente, foi prometida sobre sua descendência tanto a congregação dos gentios quanto a encarnação de Cristo. Coloca-se David primeiro, porque a Abraão foi prometida a santa assembleia da Igreja; a David, porém, foi anunciado que dele Cristo nasceria. E, assim, depois do que foi dito sobre David, acrescenta sobre Abraão, dizendo: para fazer misericórdia com nossos pais.
Pois quem se afasta do serviço a Ele antes da morte, ou mancha com alguma impureza ou injustiça a sinceridade de sua fé, ou pretende ser santo e justo diante dos homens e não diante de Deus, ainda não serve ao Senhor em perfeita liberdade das mãos de seus inimigos espirituais, mas, seguindo o exemplo dos antigos samaritanos, esforça-se por servir igualmente aos deuses dos gentios e ao Senhor.
A menos que porventura deva-se pensar que Zacarias, principalmente para instruir aqueles que estavam presentes, assim que pôde falar, quis anunciar os futuros encargos de seu filho, os quais há muito aprendera através do Anjo. Ouçam os arianos que Cristo, a quem João precedia profetizando, é chamado Altíssimo, como se diz no Salmo 86,5: "O homem nasceu nela, e o próprio Altíssimo a fundou".
Como desejando explicar o nome de Jesus, isto é, do Salvador, faz menção frequente da salvação. Mas para que não pensassem que se prometia uma salvação temporal, acrescenta: para a remissão dos seus pecados.
Mas os judeus preferem não receber Cristo, mas esperar pelo Anticristo; porque desejam ser libertados não do domínio interior do pecado, mas do jugo exterior da servidão humana.
Cristo é chamado corretamente de Oriente, porque nos revelou o nascimento da verdadeira luz: por isso segue para iluminar aqueles que jazem nas trevas e na sombra da morte.
O futuro pregador da penitência, para que pudesse mais livremente elevar seus ouvintes, instruindo-os, dos atrativos do mundo, passa a primeira parte de sua vida nos desertos; por isso é dito: "E o menino crescia".
O Filho de Deus, prestes a nascer na carne, assim como, nascido de uma virgem, mostrou que a glória da virgindade lhe é muito agradável, também é gerado no tempo mais pacífico do mundo; porque ensinou a buscar a paz e digna-se visitar os que a seguem. Não poderia haver maior indício de paz do que reunir todo o mundo sob um único censo; cujo governante Augusto, com tanta paz reinou por doze anos próximo ao tempo do nascimento do Senhor que, tendo cessado as guerras em todo o mundo, pareceu cumprir-se literalmente a predição do profeta: donde se diz aconteceu, pois, naqueles dias, que saiu um edito de César Augusto para que se fizesse um recenseamento de todo o mundo.
Indica que esta descrição ou foi a primeira das que compreenderam todo o mundo, porque antes muitas partes das terras se lê terem sido frequentemente recenseadas; ou foi a primeira que então começou quando Cirino foi enviado à Síria.
Por superior dispensação, o registro do censo foi ordenado de tal modo que todos eram orientados a ir à sua própria pátria, conforme o que se segue: "e todos iam para se declararem, cada um em sua cidade"; o que aconteceu para que o Senhor, concebido em um lugar e nascido em outro, pudesse mais facilmente escapar do furor do astuto Herodes. Por isso segue: "José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia".
Que também cumpriu o nome de Augusto perfeitamente, porquanto desejava aumentar os seus e era capaz de aumentá-los.
Assim como naquele tempo, quando Augusto governava e Cirino presidia, cada um ia à sua cidade para se declarar no censo; assim agora, governando Cristo por meio dos doutores, que são os dirigentes da Igreja, devemos declarar o censo da justiça.
Nossa cidade e nossa pátria é a pátria bem-aventurada, à qual devemos caminhar com virtudes crescendo diariamente. E diariamente a Santa Igreja, acompanhada de seu doutor, saindo da roda da conversação mundana, que é o que significa Galileia, e subindo à cidade de Judá, isto é, da confissão e do louvor, paga o tributo de sua devoção ao rei eterno, a qual, a exemplo da bem-aventurada Virgem Maria, virgem nos concebe pelo Espírito; a qual, estando desposada com um, é fecundada por outro, quando se une visivelmente ao pontífice posto sobre ela, mas é cumulada pela virtude do Espírito invisível. Por isso, com razão José se interpreta como "aumentado", indicando pelo próprio nome que o empenho do mestre que fala nada vale, se não receber o auxílio do alto para que seja ouvido.
Naquele mesmo tempo dignou-se encarnar para que, logo após nascer, fosse registrado no censo de César, e para nossa libertação ele próprio se submetesse à servidão; por isso também o Senhor nasce em Belém, não só como sinal da coroa real, mas também pelo significado misterioso do nome.
Mas até a consumação dos séculos, o Senhor não deixa de ser concebido em Nazaré, nem de nascer em Belém, sempre que qualquer dos ouvintes, tendo recebido a flor da palavra, faz de si mesmo uma morada do pão eterno; diariamente no útero virginal, isto é, na mente dos crentes, Cristo é concebido pela fé e gerado pelo Batismo. Segue-se e deu à luz seu filho primogênito.
Ele é também unigênito na substância da divindade, primogênito na assunção da humanidade; primogênito na graça, unigênito na natureza.
Aquele que veste todo o mundo com variados ornamentos é envolvido em pobres panos, para que nós possamos receber a primeira veste. Aquele por quem todas as coisas foram feitas, tem suas mãos e pés atados, para que nossas mãos sejam erguidas para toda boa obra, e nossos pés dirigidos no caminho da paz.
Ele é contido na estreiteza de um duro presépio, Aquele cujo assento é o céu, para que nos dilate pelos gozos do reino celestial. Aquele que é o pão dos Anjos é reclinado em um presépio, para que nos alimente, como animais sagrados, com o trigo da sua carne.
Aquele que está sentado à direita do Pai necessita de um lugar de hospedagem, para nos preparar muitas moradas na casa de seu Pai; donde segue que não havia lugar para eles na hospedaria. Não nasce na casa de seus pais, mas em uma hospedaria e no caminho, porque pelo mistério da encarnação Ele se fez caminho, pelo qual nos conduz à pátria, onde fruiremos da verdade e da vida.
Em parte alguma, em toda a série do Antigo Testamento, encontramos que os Anjos, que com tanta frequência apareceram aos patriarcas, tenham aparecido com luz. Mas este privilégio foi justamente reservado para este tempo, quando surgiu nas trevas a luz para os retos de coração: donde segue-se e a claridade de Deus os cercou de resplendor.
A infância do Salvador foi inculcada em nós, tanto pelas frequentes proclamações dos Anjos quanto pelos testemunhos dos Evangelistas, para que o que foi feito por nós seja gravado mais profundamente em nossos corações. E deve-se notar que o sinal do Salvador nascido não foi recebido em púrpura de Tiro, mas envolvido em pobres panos; não devendo ser encontrado em leitos ornados de ouro, mas em manjedouras.
Pois, misticamente, estes pastores de rebanhos representam todos os doutores e reitores das almas fiéis. A noite, durante a qual mantinham vigílias sobre seu rebanho, indica os perigos das tentações, dos quais não cessam de guardar a si mesmos e aos seus súditos. E com razão, nascido o Senhor, os pastores vigiam sobre seu rebanho: porque nasceu aquele que diz: "Eu sou o bom pastor"; mas também aproximava-se o tempo em que o mesmo pastor haveria de chamar de volta às pastagens da vida suas ovelhas que estavam dispersas.
Para que não parecesse pequena a autoridade de um só Anjo, logo após um ter revelado o sacramento do novo nascimento, imediatamente apresentou-se uma multidão das hostes celestiais; pelo que se diz e subitamente fez-se com o Anjo uma multidão da milícia celestial. Bem recebe o coro de Anjos que se apresenta o nome de milícia celestial, os quais humildemente obedecem àquele chefe poderoso em batalha que apareceu para vencer as potestades do ar, e ele próprio perturba fortemente com armas celestiais aquelas mesmas potestades inimigas, para que não possam tentar os mortais tanto quanto querem. Visto que nasce Deus e homem, aos homens a paz e a Deus a glória é cantada; pelo que segue louvando a Deus, e dizendo: glória a Deus nas alturas. Um só Anjo, um só mensageiro anunciando que Deus nasceu na carne, logo a multidão da milícia celestial irrompe em louvor ao criador, tanto para dedicar devoção a Cristo como para nos instruir com seu exemplo, que sempre que algum dos irmãos fizer soar a palavra da sagrada erudição, ou nós mesmos trouxermos à mente as coisas que são da piedade, imediatamente devemos render louvores a Deus com o coração, a boca e as obras.
Desejam também paz aos homens, quando acrescentam e na terra paz aos homens: porque aqueles, a quem antes desprezavam como enfermos e abatidos, já os veneram como companheiros, nascendo o Senhor na carne.
Para quais homens pedem paz, explicam dizendo de boa vontade, isto é, para aqueles que recebem Cristo recém-nascido: pois não há paz para os ímpios, mas muita paz para os que amam o nome de Deus.
Verdadeiramente como homens que vigiavam, não disseram: vejamos o menino, mas a palavra que se fez; isto é, o Verbo que sempre existiu, vejamos como por nós se fez carne; pois este mesmo Verbo é o Senhor; segue-se, com efeito, o que o Senhor fez e nos mostrou; isto é, vejamos como o próprio Verbo se fez, e nos mostrou sua carne.
É, portanto, da justa ordem que, celebrada com digna honra a encarnação do Verbo, se chegue finalmente a contemplar a própria glória do Verbo; por isso segue: E vendo, reconheceram a palavra que lhes havia sido dita a respeito deste menino.
Pois guardando as leis do pudor virginal, ela, que havia conhecido os segredos de Cristo, não queria divulgá-los a ninguém, mas comparava aquilo que lera que deveria ser feito com aquilo que já reconhecia ter acontecido, não os proferindo pela boca, mas preservando-os guardados em seu coração.
A saber, pelos Anjos; e tinham visto, a saber, em Belém, conforme lhes fora dito; isto é, nisso glorificam a Deus porque, ao chegarem, não encontraram outra coisa senão o que lhes tinha sido dito; ou conforme lhes fora dito, dão glória e louvores a Deus: pois assim lhes foi indicado pelos Anjos, não por palavras de ordem, mas oferecendo-lhes a forma de sua devoção, quando cantavam glória a Deus nas alturas.
Misticamente, os pastores dos rebanhos intelectuais, e até mesmo todos os fiéis, devem, a exemplo destes pastores, passar em pensamento até Belém, e celebrar a encarnação de Cristo com as devidas honras. Passemos, pois, abandonando as concupiscências carnais, com todo o desejo da mente até à Belém celestial, isto é, à casa do pão vivo, para que mereçamos ver reinando no trono de seu Pai Aquele a quem eles viram chorando na manjedoura. E tamanha bem-aventurança não deve ser buscada com indolência e torpor, mas com prontidão devem-se seguir os passos de Cristo. E vendo, conheceram. E nós, com pleno amor, apressemo-nos em abraçar as coisas que foram ditas sobre nosso Salvador, para que no futuro possamos compreendê-las pela visão do perfeito conhecimento.
Os pastores do rebanho do Senhor, contemplando a vida dos pais que os precederam (na qual se conserva o pão da vida), adentram como se fossem as portas de Belém; e nada encontram ali senão a beleza virginal da Igreja, isto é, Maria; a viril assembleia dos doutores espirituais, isto é, José; e a humilde vinda de Cristo inserida nas páginas da Sagrada Escritura, como o menino Cristo posto na manjedoura.
Os pastores não ocultaram em silêncio o que haviam conhecido, porque os pastores da Igreja foram ordenados para este fim: que aquilo que aprenderam nas Escrituras possam mostrar aos seus ouvintes.
Os mestres dos rebanhos espirituais também, enquanto os demais dormem, ora elevam-se contemplando as coisas celestiais, ora percorrem buscando os exemplos dos fiéis, ora regressam ao público pelo ensino para o ofício pastoral.
Cada um também que se julga viver como pessoa privada, exerce o ofício de pastor, se, reunindo uma multidão de boas ações e de pensamentos puros, se esforça para governá-los com justa moderação, nutri-los com o alimento das Escrituras e protegê-los contra as insídias dos demônios.
Tendo relatado a natividade do Senhor, o Evangelista acrescenta: "E depois que foram consumados os oito dias para que o menino fosse circuncidado".
Para que também nos recomendasse com seu exemplo a virtude da obediência e para que, com sua compaixão, ajudasse aqueles que, colocados sob a lei, não conseguiam carregar os fardos da lei; para que Aquele que veio na semelhança da carne do pecado não rejeitasse o remédio com o qual a carne do pecado costumava ser purificada. Pois a circuncisão realizava na lei o mesmo auxílio de cura salutar contra a ferida do pecado original que agora o Batismo costuma realizar no tempo da graça revelada; exceto que ainda não podiam entrar pelas portas do reino celestial, mas, consolados após a morte com um bem-aventurado repouso no seio de Abraão, esperavam com feliz esperança a entrada na paz eterna.
Em sua ressurreição foi prefigurada nossa dupla ressurreição, tanto da carne quanto do espírito: pois Cristo, sendo circuncidado, ensinou à nossa natureza que deve agora ser purificada da mancha dos vícios por si mesma, e no último dia ser restaurada da corrupção da morte; e assim como o Senhor ressuscitou no oitavo dia, isto é, depois do sétimo, que é o sábado, assim também nós, após as seis idades deste mundo e após a sétima, que é o descanso das almas, e que agora se passa enquanto isso em outra vida, ressuscitaremos como no oitavo tempo.
Mas também isto, que no mesmo dia de sua circuncisão recebeu o nome, fez em imitação da observância antiga: pois Abraão, que primeiro recebeu o sacramento da circuncisão, no dia de sua circuncisão mereceu ser abençoado com a ampliação de seu nome.
Os eleitos também se alegram de serem participantes deste nome em sua circuncisão espiritual; de modo que, assim como de Cristo são chamados cristãos, assim também do Salvador são chamados salvos; nome que lhes foi dado por Deus não só antes de serem concebidos pela fé no ventre da Igreja, mas também antes dos tempos seculares.
Se examinares atentamente as próprias palavras da lei, certamente descobrirás que a própria genitora de Deus, assim como é isenta da união viril, também é imune ao direito legal. Pois nem toda mulher que dá à luz, mas aquela que tendo recebido semente deu à luz, é designada como impura, e pelo rito é ensinada a ser purificada; para distinguir, evidentemente, daquela que virgem concebeu e deu à luz. Mas para que nós fôssemos libertados do vínculo da lei, assim como Cristo, também a bem-aventurada Maria submeteu-se voluntariamente à lei.
Depois de trinta e três dias de sua circuncisão, é apresentado ao Senhor, dando a entender de maneira mística que ninguém, a não ser que esteja circuncidado dos seus vícios, é digno de comparecer à presença do Senhor; que ninguém, a não ser que esteja livre dos laços da mortalidade, pode perfeitamente entrar nas alegrias da cidade celestial. Segue-se: Como está escrito na lei do Senhor.
O que diz adaperiens vulvam, significa o primogênito tanto do homem quanto do animal, e foi ordenado que ambos fossem chamados santos ao Senhor e, portanto, pertencessem ao sacerdote; de tal modo que ele recebesse um preço pelo primogênito do homem e fizesse com que todo animal imundo fosse redimido.
Quando, portanto, diz "abrindo o ventre", fala segundo o modo comum de nascimento; não que se deva crer que o Senhor, ao sair, tenha privado da virgindade o sagrado abrigo do ventre virginal que, ao entrar, havia santificado.
Esta era a oferta dos pobres; pois o Senhor havia ordenado na lei que aqueles que pudessem oferecer um cordeiro pelo filho ou pela filha, oferecessem ao mesmo tempo uma rola ou uma pomba; e aqueles que não pudessem oferecer um cordeiro, oferecessem duas rolas ou dois filhotes de pomba. Assim, o Senhor, sendo rico, dignou-se a se fazer pobre, para que por sua pobreza nos fizesse participantes de suas riquezas.
Ou a pomba indica simplicidade, a rola indica castidade: porque a pomba é amante da simplicidade, e a rola é amante da castidade; de tal modo que, se por acaso perder o cônjuge, não se preocupa em buscar outro. Merecidamente, portanto, a rola e a pomba são oferecidas ao Senhor como vítimas: porque a conversação simples e casta dos fiéis é um sacrifício de justiça agradável a Ele.
Mas enquanto ambas as aves, por seu costume de gemer, designam as aflições presentes dos santos; nisto, contudo, diferem, que a rola é solitária, mas a pomba costuma voar em bandos; e por isso uma insinua as lágrimas secretas das orações, e a outra as assembleias públicas da Igreja.
Ou a pomba, que voa em bando, demonstra a frequência da vida ativa; a rola, que se alegra na solidão, anuncia os cumes da vida contemplativa. E como ambas as oferendas são igualmente aceitas pelo Criador, São Lucas, prudentemente, não disse se foram rolas ou filhotes de pombas ofertados pelo Senhor, para não preferir uma ordem de vida à outra, mas ensinar que ambas devem ser seguidas.
Pois dificilmente a justiça é preservada sem o temor: não me refiro àquele temor que se aterroriza por ter seus bens temporais subtraídos, o qual a caridade perfeita lança fora; mas ao santo temor do Senhor, que permanece pelos séculos, pelo qual o homem justo, quanto mais ardentemente ama a Deus, tanto mais cuidadosamente evita ofendê-Lo.
Ver a morte significa experimentá-la; e muito feliz será aquele que verá a morte da carne, que primeiro tiver se empenhado em ver com os olhos da carne a Cristo do Senhor, tendo sua conversação na Jerusalém celestial, frequentando os limiares do templo de Deus, isto é, seguindo os exemplos dos santos, nos quais Deus habita. E pela mesma graça do Espírito, pela qual outrora havia conhecido de antemão Aquele que viria, agora O reconhece quando vem; por isso segue: e veio pelo Espírito ao templo.
O justo recebeu, segundo a lei, o menino Jesus em seus braços, para significar que a justiça das obras, que, segundo a lei, é figurada pelas mãos e pelos braços, haveria de se transformar na graça humilde, certamente, mas salutar da fé evangélica. O idoso recebeu o Cristo infante, para insinuar que este século, já cansado como que pela velhice, haveria de retornar à infância e à inocência da vida cristã.
E bem a revelação dos gentios é colocada antes da glória de Israel, porque quando a plenitude dos gentios tiver entrado, então todo Israel será salvo.
Chama a José pai do Salvador, não porque tenha sido verdadeiramente seu pai, mas porque, para preservar a reputação de Maria, foi considerado por todos como pai.
Mas até a consumação dos séculos, a espada da mais dura tribulação não cessa de traspassar a alma da Igreja, quando com dor observa que os ímpios contradizem o sinal da fé; quando, ouvida a palavra de Deus, considera gemebunda que muitos ressuscitam com Cristo, mas muitos mais caem da fé; quando, revelados os pensamentos de muitos corações onde semeou a ótima semente do Evangelho, contempla a cizânia dos vícios prevalecendo mais do que devia, ou germinando sozinha.
Segundo o sentido místico, Ana representa a Igreja, que no presente está viúva pela morte de seu Esposo. Também o número dos anos de sua viuvez designa o tempo da Igreja, durante o qual, estabelecida no corpo, peregrina longe do Senhor. Sete vezes doze, de fato, perfazem oitenta e quatro: o número sete refere-se ao curso deste mundo, que gira em sete dias, enquanto o doze pertence à perfeição da doutrina apostólica. Por isso, tanto a Igreja universal quanto qualquer alma fiel que procure dedicar todo o tempo de sua vida às práticas apostólicas, é louvada por servir ao Senhor por oitenta e quatro anos. Também se harmoniza o período de sete anos durante o qual viveu com seu marido: pois em virtude do privilégio da majestade do Senhor, que encarnado ensinou, o simples número de sete anos foi expresso como sinal de perfeição. Ana também favorece os mistérios da Igreja, sendo por interpretação sua "graça", e sendo tanto filha de Fanuel, que significa "face de Deus", quanto descendente da tribo de Aser, isto é, do bem-aventurado.
São Lucas omitiu neste ponto o que sabia ter sido suficientemente exposto por São Mateus: ou seja, que o Senhor, após isto, para que não fosse encontrado e morto por Herodes, foi levado pelos seus pais ao Egito e, tendo Herodes morrido, finalmente regressou à Galileia e começou a habitar em Nazaré, sua cidade. Pois os Evangelistas costumam individualmente omitir certas coisas que ou viram ter sido mencionadas por outros, ou no Espírito preveem que serão mencionadas por outros, de modo que na sequência contínua de sua narração parecem como que não terem omitido nada; no entanto, examinando os escritos de outro Evangelista, o leitor diligente encontra os lugares onde as omissões ocorreram. Assim, após omitir muitas coisas, São Lucas diz: "E quando cumpriram tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré".
Deve-se observar a distinção das palavras: porque o Senhor Jesus Cristo, naquilo que era criança, isto é, havia revestido a condição da fragilidade humana, precisava crescer e ser fortalecido.
Sabedoria, porque nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente; graça, porque ao homem Jesus Cristo foi concedida grande graça para que, desde o momento em que começou a ser homem, fosse homem perfeito e Deus perfeito; muito mais ainda porque era o Verbo de Deus e Deus, e não precisava ser confortado, nem tinha necessidade de crescer. E ainda sendo criança, possuía a graça de Deus; para que, assim como nele todas as coisas eram admiráveis, também sua infância fosse admirável, a fim de que se cumprisse a sabedoria de Deus. Segue-se: e seus pais iam todos os anos a Jerusalém, no dia solene da Páscoa.
Que o Senhor fosse todos os anos com seus pais a Jerusalém na Páscoa é indicativo da humildade humana, pois é próprio do homem concorrer para oferecer sacrifícios a Deus e conciliá-lo com orações. Fez, portanto, o Senhor, nascido homem entre os homens, aquilo que Deus, por meio dos anjos, ordenou aos homens que fizessem. Por isso diz: segundo o costume do dia festivo. Sigamos, pois, o caminho de sua vida humana, se nos deleitamos em contemplar a glória de sua divindade.
Mas alguém perguntará como o Filho de Deus, sendo nutrido com tanto cuidado por seus pais, poderia ter sido deixado para trás por esquecimento. A isso se deve responder que era costume dos filhos de Israel, durante os tempos festivos, seja quando afluíam a Jerusalém ou quando retornavam às suas casas, que os homens andassem separados, as mulheres separadas, e os infantes ou crianças podiam ir indiferentemente com qualquer um dos pais. Por isso, Maria ou José supunham alternadamente que o menino Jesus, a quem não viam consigo, havia retornado com o outro progenitor; donde segue: "Mas, pensando que ele estivesse na comitiva, caminharam uma jornada de um dia, e o procuravam entre os parentes e conhecidos".
Para mostrar que Ele era homem, Ele humildemente ouvia os mestres humanos; mas para provar que Ele era Deus, Ele sublimemente respondia aos mesmos quando falavam.
Com efeito, sua língua divina manifestava sabedoria, mas sua idade revelava a fraqueza humana; por isso os judeus, entre as coisas elevadas que ouvem e as inferiores que veem, ficam perturbados por uma dúvida admirada. Nós, porém, de modo algum nos devemos admirar, sabendo, conforme a profecia de Isaías, que o menino que nasceu para nós permanece como Deus forte.
Ele não os repreende por O buscarem como filho, mas os compele a elevar os olhos da mente para aquilo que era mais devido a Ele, cujo Filho eterno Ele é. Por isso segue: "Não sabíeis que nas coisas que são de meu Pai é necessário que eu esteja?"
Pois que outra coisa faria o mestre da virtude, senão cumprir o dever de piedade? O que mais faria entre nós, senão aquilo que desejaria que fosse feito por nós?
A Virgem, porém, tenha ela compreendido ou não pudesse ainda compreender, igualmente guardava todas estas coisas em seu coração como que para ruminar e investigar com mais diligência; por isso segue: e sua mãe conservava todas estas palavras, conferindo-as em seu coração.
Pilatos foi enviado no décimo segundo ano de Tibério César para a Judeia, assumiu a administração daquela nação; e ali, por dez anos contínuos, permaneceu quase até o próprio fim do reinado de Tibério. Herodes, Filipe e Lisânias eram filhos daquele Herodes sob o qual o Senhor nasceu, entre os quais também o próprio Herodes Arquelau, irmão deles, reinou por dez anos, que, tendo sido acusado pelos judeus perante Augusto, pereceu no exílio em Viena. O próprio Augusto, para que o reino da Judeia se tornasse menos poderoso, decidiu dividi-lo em tetrarquias.
Tanto Anás como Caifás, quando João começou sua pregação, isto é, eram príncipes dos sacerdotes, mas Anás exercia o cargo naquele ano, e Caifás no ano em que o Senhor subiu à cruz, tendo outros três desempenhado o pontificado no período intermediário; mas o Evangelista menciona principalmente aqueles que tinham relação com a paixão do Senhor. Pois com os preceitos legais já caídos em desuso devido à violência e à ambição, a ninguém se concedia a honra do pontificado por mérito de vida ou de linhagem, mas o sumo sacerdócio era outorgado pelo poder romano. José, com efeito, narra que Valério Graco, tendo afastado Anás do sacerdócio, designou como pontífice Ismael, filho de Bafi; mas não muito depois, rejeitando também a este, colocou em seu lugar a Eleazar, filho do pontífice Ananias; um ano depois, porém, afastou-o do cargo e transmitiu o ministério do pontificado a um certo Simão, filho de Caifás, o qual, não tendo exercido mais que pelo espaço de um ano, teve como sucessor a José, que também era chamado Caifás: assim, todo este tempo em que se descreve que Nosso Senhor ensinou está compreendido no período de quatro anos.
Quanto poder, porém, teve a palavra do Batista, por isto se prova, quando tanto os publicanos como os soldados ele obrigou a buscar conselho para sua salvação; donde se segue: vieram também os publicanos para serem batizados, e disseram: mestre, que faremos?
Ordenou, portanto, que não exigissem além do prescrito; donde se segue: e ele lhes disse: Não façais nada além do que vos foi estabelecido. Publicanos, porém, são chamados aqueles que coletam os impostos públicos, ou aqueles que são arrendatários dos tributos do fisco ou das coisas públicas; e também aqueles que buscam os lucros deste mundo através de negócios são considerados pelo mesmo nome; a todos eles igualmente, cada um em seu grau, proíbe de cometer fraude; para que, abstendo-se primeiramente de desejar o que é dos outros, finalmente cheguem a compartilhar seus próprios bens com os próximos. Segue-se: E os soldados perguntavam-lhe, dizendo: Que faremos nós também? Com justíssima moderação os admoesta para que não exijam pilhagem daqueles a quem deveriam beneficiar pela sua função militar; donde se segue: E disse-lhes: A ninguém oprimais, isto é, através de violência, nem calunies, isto é, através de malícia fraudulenta; e contentai-vos com vossos soldos.
Como, porém, respondeu àqueles que, no segredo do coração, pensavam que ele era o Cristo, senão porque não só pensavam, mas também, como outro Evangelista declara, enviando a ele sacerdotes e levitas, perguntavam se ele era o Cristo?
O Espírito Santo também pode ser entendido pelo termo fogo: porque inflama pelo amor e pela sabedoria ilumina os corações que preenche; por isso também os apóstolos receberam o Batismo do Espírito na visão do fogo. Há aqueles que assim expõem, que no presente somos batizados no espírito, e no futuro seremos batizados no fogo; para que, assim como renascemos para a remissão de todos os pecados pela água e pelo Espírito, também então sejamos purificados de certos pecados leves pelo Batismo do fogo purificador antes do último juízo.
Por meio da eira, de fato, figura-se a Igreja presente, na qual muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos; e a purificação desta eira se realiza agora individualmente, quando qualquer perverso é expulso da Igreja por causa de pecados manifestos, pela correção sacerdotal, ou por causa de pecados ocultos é condenado após a morte pelo rigor divino. E universalmente se completará no fim, quando o Filho do homem enviará seus Anjos e eles recolherão de seu reino todos os escândalos.
Não foi, porém, nestes dias que João foi preso, mas, segundo o Evangelho de São João, depois de alguns sinais realizados pelo Senhor, e depois que seu Batismo se tornou conhecido. Mas Lucas antecipou isto para enfatizar a malícia de Herodes, que, vendo muitos acorrerem à pregação de João, os soldados crerem, os publicanos se arrependerem, e toda a multidão receber o batismo, ele, ao contrário, não só desprezou João, mas o aprisionou e o matou.
Porque ainda que todos os pecados sejam perdoados no batismo, a fragilidade desta carne terrena ainda não está fortalecida. Pois assim como, tendo atravessado o Mar Vermelho, nos alegramos pela submersão dos egípcios, mas no deserto da convivência mundana encontramos outros inimigos, que pela graça de Cristo que nos guia, são vencidos com nosso esforço, até que cheguemos à pátria.
Pois não foi então que o céu se abriu para Aquele cujos olhos interiores contemplavam as coisas celestiais; mas ali se mostra a virtude do Batismo, do qual quando alguém sai, a porta do reino celestial se abre para ele, e enquanto a carne inocente é tocada pelas águas frias, extingue-se a espada flamejante que outrora se opunha aos culpados.
Como se dissesse: Em Ti constituí Meu agrado, isto é, por meio de Ti realizarei o que Me apraz.
Também a idade de trinta anos do Salvador batizado poderia insinuar o mistério do nosso batismo, por causa da fé na Trindade e da observância do Decálogo.
Ou de outro modo, Jacó, tomando por mandato da lei a esposa de seu irmão Heli, que havia falecido sem filhos, gerou José, que era por natureza seu próprio filho, mas segundo o preceito da lei tornava-se filho de Heli.
O nome e a geração de Cainan, segundo a verdade hebraica, não se encontram nem no Gênesis, nem nas palavras dos dias, mas afirma-se que Arphaxad gerou Selaa ou Sale, seu filho, sem ninguém interposto. Saiba, portanto, que Lucas tomou esta geração da edição dos Setenta intérpretes, onde está escrito que Arphaxad, aos cento e trinta e cinco anos de idade, gerou Cainan, e o próprio Cainan, quando tinha trinta e cinco anos, gerou Sale. Segue: que foi de Arphaxad.
Subindo lindamente do Filho de Deus batizado até Deus Pai, coloca Enoch no septuagésimo grau, o qual, tendo sido poupado da morte, foi trasladado ao Paraíso; para significar que aqueles que são regenerados pela graça da adoção dos filhos por meio da água e do Espírito Santo, entretanto, após a dissolução do corpo, serão recebidos no descanso eterno: o número setenta, por causa do sétimo dia do sábado, significa o descanso daqueles que, com o auxílio da graça de Deus, cumpriram o Decálogo da lei.
Para que ninguém duvidasse por qual espírito foi conduzido ou impelido para o deserto, como dizem os outros Evangelistas, São Lucas acrescentou oportunamente: "E era conduzido pelo Espírito no deserto durante quarenta dias", para que não se pensasse que o espírito imundo tivesse algum poder contra Aquele que, cheio do Espírito Santo, fazia tudo o que queria.
O diabo, dizendo ao Salvador "Se prostrado me adorares", ouve, ao contrário, que ele mesmo deveria antes adorá-Lo como seu Senhor e seu Deus.
Alguém, porém, poderia perguntar como se compatibiliza o que aqui é ordenado, que só ao Senhor se deve servir, com a palavra do Apóstolo, que diz: "pela caridade servi-vos uns aos outros". Mas em grego, dulia significa serviço comum, isto é, aquele prestado tanto a Deus quanto ao homem; enquanto latria é chamado o serviço devido ao culto da divindade. Somos, portanto, ordenados a servir uns aos outros pela caridade, o que em grego é duleuin; e somos ordenados a servir somente a Deus, o que em grego é latreuin: por isso aqui se diz "e só a Ele servirás", que em grego é latreuis.
Por virtude do Espírito ele designa os sinais dos milagres.
E porque a sabedoria pertence à doutrina, e a força se refere às obras, ambas se unem aqui; donde segue e ele ensinava nas sinagogas deles. Sinagoga em grego, em latim se diz congregação; nome pelo qual os judeus costumavam chamar não só a assembleia das multidões, mas também a casa na qual se reuniam para ouvir a palavra de Deus; assim como nós chamamos Igrejas tanto aos lugares como aos coros dos fiéis. Verdadeiramente há diferença entre sinagoga, que se interpreta como congregação, e Igreja, que se interpreta como convocação: porque certamente tanto os animais como quaisquer coisas podem ser congregados em um só lugar; porém não podem ser convocados senão os que usam da razão: por isso aos doutores apostólicos pareceu mais correto denominar o povo da nova graça, como dotado de maior dignidade, Igreja em vez de sinagoga. Com razão também é afirmado que foi magnificado pelos presentes com os indícios precedentes de feitos e palavras, como segue e era magnificado por todos.
Reuniam-se, pois, no dia do sábado nas sinagogas, a fim de que, descansando dos negócios do mundo, pudessem permanecer com o coração tranquilo para meditar nos preceitos da Lei; por isso segue: e entrou segundo seu costume no dia do sábado na sinagoga.
Ele é também enviado para evangelizar os pobres, dizendo: Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o reino dos céus.
Ou, porque está escrito: "o coração contrito e humilhado Deus não despreza", por isso diz ter sido enviado para sanar os contritos de coração, segundo aquilo: "que cura os contritos de coração". Segue-se "e anunciar aos cativos a remissão".
Ou, pôr em liberdade os oprimidos, isto é, aliviar aqueles que haviam sido sobrecarregados com o peso intolerável da Lei.
Pois nem somente aquele ano em que o Senhor predicava foi aceitável, mas também este no qual predica o Apóstolo dizendo: "Eis agora o tempo aceitável". Após o ano aceitável do Senhor, acrescenta e o dia da retribuição, isto é, o último, quando dará a cada um segundo suas obras.
Ele leu o livro para aqueles que estavam presentes para ouvi-Lo; mas tendo-o lido, devolveu-o ao ministro; porque enquanto estava no mundo, falou abertamente, ensinando nas sinagogas e no templo; mas, estando prestes a retornar aos céus, confiou o ofício de pregar o Evangelho àqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra. Leu em pé, porque ao explicar as Escrituras que foram escritas sobre Ele, dignou-se a trabalhar na carne; mas tendo devolvido o livro, senta-se, porque Se restituiu ao trono do descanso celestial. Pois estar de pé é próprio de quem trabalha, mas sentar-se é de quem descansa ou julga. Assim também deixai que o pregador da palavra se levante e leia e trabalhe e pregue, e sente-se, isto é, aguarde a recompensa do descanso. Ele abre o livro e lê, porque ao enviar o Espírito, ensinou à Sua Igreja toda a verdade; tendo fechado o livro, devolveu-o ao ministro, porque nem tudo devia ser dito a todos, mas confiou a palavra ao mestre para ser dispensada de acordo com a capacidade dos ouvintes. Segue-se: E os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele.
Porque, na verdade, como aquela Escritura predissera, o Senhor tanto realizava grandes coisas, quanto anunciava outras maiores.
Davam-Lhe testemunho, atestando que Ele era verdadeiramente, como havia dito, Aquele sobre quem o profeta havia cantado.
Que Cristo é chamado profeta nas Escrituras, também Moisés é testemunha, que diz: "Deus vos suscitará um profeta dentre vossos irmãos"(Deuteronômio 18,15).
Sidonia significa caça inútil, Sarepta incêndio ou escassez de pão. Por todas estas coisas se exprime a gentilidade, que, entregue à caça inútil, isto é, servindo aos lucros e negócios do século, sofria o incêndio das concupiscências carnais e a escassez do pão espiritual; até que Elias, isto é, a palavra profética, cessando a inteligência das Escrituras por causa da perfídia dos judeus, veio à Igreja, para que, recebido, alimentasse e restaurasse os corações dos crentes.
Pois Naamã, que significa belo, representa o povo gentio, a quem se ordena lavar-se sete vezes; porque aquele batismo salva o que o Espírito septiforme regenera. Sua carne após o banho aparece como a de uma criança; porque a mãe graça gera todos para uma mesma infância; ou porque se conforma a Cristo, de quem se diz: "Um menino nos nasceu".
Os judeus são piores discípulos do Diabo do que o Diabo é mestre; pois ele diz: "lança-te para baixo"; estes, porém, tentam lançá-lo de fato. Mas ele, tendo subitamente mudado sua intenção, ou aturdindo-os, desceu, porque ainda lhes reservava lugar para arrependimento; por isso segue: "Ele, porém, passando pelo meio deles, seguiu seu caminho".
Ainda não tinha chegado a hora da sua Paixão, que deveria ocorrer na Parasceve da Páscoa; nem ainda tinha chegado ao lugar da Paixão, que não em Nazaré, mas em Jerusalém, era prefigurado pelo sangue das vítimas; nem havia escolhido este tipo de morte, Aquele que desde todos os séculos era anunciado que seria crucificado.
A palavra do doutor tem poder quando ele pratica aquilo que ensina; mas aquele que, por suas ações, desmente o que prega é desprezado.
Como se dissesse: Abstém-te um pouco de me afligir, tu que não tens nenhuma comunhão com a nossa fraude.
Por permissão divina, o homem a ser libertado do demônio é lançado ao meio, para que a virtude manifestada do Salvador convide muitos ao caminho da salvação; donde segue: e quando o demônio o lançou ao meio, saiu dele, e em nada o prejudicou. Parece, porém, contradizer o que aqui se diz a Marcos, que afirma: e agitando-o violentamente, o espírito imundo, e clamando com grande voz, saiu dele, a não ser que entendamos que Marcos disse: agitando-o violentamente, o que Lucas diz e quando o lançou ao meio; de modo que o que em seguida diz e em nada o prejudicou, seja entendido porque aquele agitar de membros e aquela vexação não o debilitou, como costumam sair os demônios mesmo com alguns membros amputados ou arrancados. Por isso, merecidamente admiram-se de tão íntegra restituição da saúde; pois segue-se: e sobreveio o temor em todos, e falavam entre si, dizendo: Que palavra é esta, que com poder e virtude ordena aos espíritos imundos, e eles saem?
Os santos certamente podem expulsar os demônios, mas apenas pela palavra de Deus; porém, o próprio Verbo de Deus opera virtudes por sua própria potestade.
Pois se dissermos que um homem libertado do demônio significa moralmente a mente purificada de pensamentos impuros; consequentemente, uma mulher atormentada pela febre, mas curada ao comando do Senhor, representa a carne controlada pelas regras da continência no ardor de sua própria concupiscência.
Os demônios confessam o Filho de Deus e, como é dito posteriormente, sabiam que Ele era o Cristo, porque, quando o Diabo O viu fatigado pelo jejum, entendeu que era verdadeiramente homem; mas como não prevaleceu na tentação, duvidava se Ele seria o Filho de Deus; agora, porém, pelo poder dos milagres, ou compreendeu ou, mais provavelmente, suspeitou que Ele fosse o Filho de Deus. Portanto, não persuadiu os judeus a crucificá-Lo porque pensasse que Ele não era o Cristo ou o Filho de Deus, mas porque não previu que seria condenado pela morte d'Ele. Sobre este mistério, escondido desde os séculos, diz o Apóstolo que "nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória".
Aos próprios apóstolos ordena-se que guardem silêncio sobre Ele, para que, ao ser proclamada Sua divina majestade, não fosse adiada a dispensação de Sua Paixão.
Se, porém, no ocaso do sol misticamente se expressa a morte do Senhor, com o retorno do dia indica-se a sua ressurreição; manifestada a sua luz, é buscado pelas multidões dos fiéis, e encontrado no deserto dos gentios, é detido para que não se afaste; especialmente porque isto aconteceu no primeiro dia da semana, no qual a ressurreição foi celebrada.
O lago de Genesaré é chamado de o mesmo que o mar da Galileia ou o mar de Tiberíades; mas é chamado mar da Galileia por causa da província adjacente; mar de Tiberíades, por causa da cidade próxima. Já Genesaré recebe seu nome pela natureza do próprio lago, (que, com suas águas ondulantes, acredita-se que produz uma brisa sobre si mesmo), sendo a expressão grega para "gerar uma brisa para si mesmo". Pois a água não permanece parada como a de um lago, mas é constantemente agitada pelos ventos que sopram sobre ela. É doce ao paladar e adequada para beber. Mas segundo o costume da língua hebraica, qualquer acúmulo de águas, sejam doces ou salgadas, é chamado de mar.
Misticamente, as duas naves representam a circuncisão e o prepúcio; as quais o Senhor vê, porque em ambos os povos conhece os que são seus, e para a tranquilidade da vida futura, como que à praia, vendo-os, isto é, visitando-os misericordiosamente, os conduz. Os pescadores são os doutores da Igreja, que nos apanham pela rede da fé e, como à praia, assim à terra dos viventes nos conduzem. Mas estas redes ora são lançadas para a pesca, ora são lavadas e dobradas: porque nem todo tempo é propício para a doutrina; mas ora deve ser exercitada a língua do doutor, ora deve ser empregado o cuidado de si mesmo. A nave de Simão é a Igreja primitiva, da qual São Paulo diz: "aquele que operou em Pedro para o apostolado da circuncisão"; bem chamada de una, porque a multidão dos que criam tinha um só coração e uma só alma.
A rede se rompe, mas o peixe não escapa, porque o Senhor preserva os seus em meio aos escândalos dos perseguidores.
Ou a outra nave é a Igreja dos gentios, que também (não sendo suficiente uma só navezinha) é preenchida com peixes escolhidos, pois o Senhor conhece os que são seus. E para Ele o número dos seus eleitos é certo; e enquanto não encontra na Judeia tantos que haveriam de crer quantos Ele sabe estarem predestinados à fé e à vida eterna, como que buscando em outra nave receptáculos para os seus peixes, Ele também enche os corações dos gentios com a graça da fé. E bem se fez que, ao se romper a rede, fosse chamada uma nave aliada, pois Judas traidor, Simão Mago, Ananias e Safira, e muitos dos discípulos retiraram-se. E então Barnabé e Paulo foram separados para o apostolado dos gentios.
Mas o enchimento destas embarcações cresce até o fim do mundo; mas o fato de que, uma vez cheias, afundam, isto é, são oprimidas pela submersão (pois não estão submersas, mas em perigo), o Apóstolo explica dizendo: "nos últimos dias haverá tempos perigosos, e haverá homens amantes de si mesmos", etc. Pois o afundar dos navios é quando os homens, depois de terem sido eleitos pela fé, recaem na depravação dos costumes mundanos.
Isso pertence especialmente ao próprio São Pedro: pois o Senhor explica a ele o que significa esta pesca de peixes; que assim como agora ele captura peixes por meio de redes, assim também em algum momento, por meio de palavras, irá capturar homens: e toda a ordem deste acontecimento mostra o que diariamente ocorre na Igreja, da qual ele mesmo é o tipo.
O Senhor conforta, porém, o temor dos carnais, para que ninguém, tremendo pela consciência de sua própria culpa, ou espantado pela inocência dos outros, tema empreender o caminho da santidade.
A perfeita salvação de um só homem atrai muitas multidões ao Senhor; de onde segue: e acorriam muitas multidões para ouvirem e serem curadas de suas enfermidades. Pois o leproso, para mostrar que estava curado tanto exterior quanto interiormente, mesmo proibido não se cala, como diz São Marcos, sobre o benefício que havia recebido.
Porém, quando Ele se retirou para orar, não atribuas isso àquela natureza que diz "Quero, sê limpo", mas àquela que, estendendo a mão, tocou o leproso; não que, segundo Nestório, haja dupla pessoa do Filho, mas da mesma pessoa, assim como há duas naturezas, também há duas operações.
Tipicamente, o leproso designa o gênero humano enfermo pelos pecados, cheio de lepra, porque todos pecaram e necessitam da graça de Deus, para que, estendida a mão, isto é, tocando o Verbo de Deus a natureza humana, sejam purificados da variedade do antigo erro, e ofereçam a Deus, pela purificação, seus corpos como hóstia viva.
Mas o Senhor, que estava prestes a curar o homem da paralisia, primeiro dissolve os vínculos dos pecados, para mostrar que ele foi condenado à dissolução de seus membros devido aos laços de suas culpas, e que a não ser que estes fossem relaxados, não poderia ser curado com a recuperação de seus membros; por isso segue: "Vendo a fé deles, disse: Homem, teus pecados te são perdoados".
Eles dizem a verdade: porque ninguém pode perdoar pecados senão Deus, que também perdoa por meio daqueles a quem Ele concede o poder de perdoar. E por isso se prova que Cristo é verdadeiramente Deus, porque pode perdoar pecados como Deus.
E bem descreve-se que a casa de Jesus era coberta de telhas, pois sob o desprezível véu das letras encontra-se a virtude da graça espiritual.
Mas São Lucas e São Marcos, por honra ao Evangelista, calam seu nome vulgar; São Mateus, no princípio de seu discurso, tornando-se acusador de si mesmo, chama a si próprio Mateus e publicano, para que ninguém desespere da salvação devido à enormidade dos pecados, quando ele mesmo foi transformado de publicano em apóstolo.
Mas Ele chama pecadores àqueles que, considerando seus próprios males e não acreditando que possam ser justificados pela lei, submetem-se, por meio do arrependimento, à graça de Cristo.
Pela eleição de São Mateus é expressa a fé dos gentios, que antes ansiavam pelas coisas mundanas, mas agora preparam o corpo de Cristo com diligente devoção.
Ou por isto se designa a inveja dos judeus, que se afligem com a salvação dos gentios.
Enquanto o Esposo está conosco, estamos em alegria, e não podemos jejuar nem prantear; mas quando Ele se afasta por causa dos pecados, então o jejum deve ser proclamado, e o luto deve ser requerido.
Com o vinho, por certo, somos fortalecidos interiormente, mas com a veste somos cobertos exteriormente. A veste, portanto, são as boas obras que realizamos exteriormente, com as quais brilhamos diante dos homens; o vinho é o fervor da fé, da esperança e da caridade. De outro modo, os odres velhos são os Escribas e Fariseus; o pano novo e o vinho novo são os preceitos do Evangelho.
Mas a qualquer alma que ainda não foi renovada, mas persevera na antiga malícia, os sacramentos dos novos mistérios não devem ser confiados. Aqueles que também querem misturar os preceitos da Lei com os preceitos evangélicos, como os Gálatas, colocam vinho novo em odres velhos. Segue-se: e ninguém que bebe o velho deseja imediatamente o novo; pois diz: o velho é melhor: porque os judeus, imbuídos do sabor de sua vida antiga, desprezavam os preceitos da nova graça; porque, maculados com as tradições de seus antepassados, não podiam perceber a doçura das palavras espirituais.
Pois os discípulos, não tendo tempo para comer devido à importunidade das multidões, tinham fome como homens; mas arrancando as espigas, consolavam sua fome: o que é um indício de vida mais austera, não buscando alimentos preparados, mas simplesmente comidas simples.
Outros, porém, dizem que estas coisas foram objetadas ao próprio Senhor; mas por diversas pessoas poderiam ter sido lançadas tanto ao próprio Senhor quanto aos discípulos; e a quem quer que tenha sido feita a objeção, ela se refere principalmente a Ele.
Porque esfregam as espigas: pois naqueles que querem incorporar ao corpo de Cristo, mortificam o homem velho com seus atos, afastando-os da intenção terrena
Aos sábados principalmente cura e ensina, não apenas para insinuar o sábado espiritual, mas também por causa da assembleia mais numerosa do povo.
Mas como o Mestre havia desculpado com um exemplo convincente a violação do sábado, que censuravam nos discípulos, agora querem caluniar o próprio Mestre, observando-o; de onde se segue: "E os escribas e fariseus o observavam, para ver se curaria no sábado"; isto é, para que, se não curasse, o acusassem de crueldade ou de fraqueza; e se curasse, o acusassem do vício de transgressão; por isso segue: "Para encontrarem de que o acusar".
Mas o Senhor, antecipando a calúnia que lhe preparavam, reprovou aqueles que, interpretando mal os preceitos da lei, julgavam que também das boas obras deveriam abster-se no sábado, quando a lei ordena que se abstenham de obras servis, isto é, das más, no sábado; por isso segue: Disse então Jesus a eles: Pergunto-vos, é lícito fazer o bem no sábado ou fazer o mal?
Este homem representa o gênero humano ressecado pela infecundidade de boas obras, devido à mão que no primeiro pai foi estendida para o fruto, a qual foi curada pela mão inocente estendida na cruz. E apropriadamente a mão estava ressequida na sinagoga; porque onde há maior dom de conhecimento, ali o transgressor está sujeito a maior culpa.
Ele não o cognominou Pedro pela primeira vez, mas muito antes; quando foi levado por André, diz-se: "Tu serás chamado Cephas, que se interpreta Pedro". Mas Lucas, querendo enumerar os nomes dos apóstolos, tendo necessidade de mencionar Pedro, quis brevemente dar a entender que este não era seu nome antes, mas que o Senhor o havia cognominado assim.
São Mateus, por humildade, se coloca após seu companheiro Tomás na ordem, enquanto pelos outros Evangelistas ele é posto antes. Segue-se Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote.
Em sentido místico, o monte no qual o Senhor escolheu os seus apóstolos representa a elevação da justiça, na qual eles deveriam ser instruídos e a qual deveriam pregar; assim também a lei foi dada em um monte.
Não é pelo mar próximo da Galileia que o chama de marítimo, pois isso não seria considerado milagroso; mas é assim chamado por causa do grande mar, no qual também Tiro e Sidom podiam estar compreendidas; das quais segue: "e de Tiro e de Sidom"; e como estas são cidades dos gentios, são deliberadamente mencionadas pelo nome, para indicar quão grande era a fama e o poder do Salvador, que havia atraído até mesmo cidades estrangeiras para receber cura e doutrina; por isso segue: "que vieram para ouvi-lo".
Raramente você encontrará em qualquer lugar as multidões seguindo o Senhor aos lugares mais altos, ou qualquer enfermo sendo curado em um monte; mas, tendo extinguido a febre da luxúria e acendido a luz da ciência, cada homem aproxima-se, passo a passo, ao cume das virtudes. Mas as multidões que puderam tocar o Senhor são curadas pela virtude daquele toque, como anteriormente o leproso é purificado quando nosso Senhor o tocou. O toque do Salvador, então, é a obra da salvação, a quem tocar é crer Nele, ser tocado é ser curado por Seus preciosos dons.
E embora fale geralmente a todos, especialmente levanta os olhos para seus discípulos; pois segue: sobre seus discípulos; para que àqueles que recebem a palavra com ouvido atento do coração, revele mais amplamente a luz do seu significado íntimo.
Isto é, bem-aventurados os que castigais vosso corpo e o sujeitais à servidão, que na fome e na sede vos dedicais à palavra, porque havereis de desfrutar em abundância dos gozos celestiais.
Instruindo-nos muito claramente que nunca devemos nos considerar suficientemente justos, mas sempre amar o progresso diário da justiça; cuja perfeita saciedade não podemos alcançar neste mundo, mas no futuro, como mostra o Salmista, dizendo: "Saciar-me-ei quando se manifestar a tua glória"; donde se segue "porque sereis saciados".
Aquele, portanto, que por causa das riquezas da herança de Cristo, pelo pão da vida eterna, pela esperança das alegrias celestiais, deseja padecer lágrimas, fome e pobreza, é bem-aventurado; porém, muito mais bem-aventurado é aquele que não teme preservar estas virtudes em meio às adversidades; por isso, segue-se: bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem: ainda que os homens odeiem com coração ímpio, não podem prejudicar o coração amado por Cristo. Segue-se e quando vos separarem. Separem e expulsem da sinagoga: Cristo vos encontra e vos fortalece. Segue-se e vos injuriarem. Injuriem o nome do Crucificado: Ele mesmo ressuscita consigo aqueles que morreram com Ele e os faz sentar nos lugares celestiais. Segue-se e rejeitarem o vosso nome como mau: onde significa o nome de cristãos, que pelos gentios e judeus, muitas vezes, no que dependia deles, foi apagado da memória e rejeitado pelos homens, não existindo nenhuma causa de ódio, senão por causa do Filho do homem; isto é, porque os crentes quiseram fazer do nome de Cristo o seu sobrenome. Ensina, portanto, que eles serão perseguidos pelos homens, mas que serão bem-aventurados além dos homens; por isso, segue-se alegrai-vos naquele dia e exultai: eis que a vossa recompensa é grande no céu.
Porque os que dizem a verdade comumente sofrem perseguição; e, todavia, os antigos profetas não deixaram de pregar a verdade por temor da perseguição.
Aquele rico vestido de púrpura se saciava, banqueteando-se esplendidamente todos os dias; mas sofria terrível desgraça em sua fome, quando implorava por uma gota de água do dedo de Lázaro, a quem havia desprezado.
De outro modo. Se são bem-aventurados aqueles que têm fome das obras de justiça, devem, pelo contrário, ser considerados infelizes aqueles que, contentando-se com seus desejos, não experimentam fome alguma do verdadeiro bem. Segue-se: Ai de vós que rides agora, porque haveis de chorar e lamentar.
Mas porque a própria adulação, sendo a nutriz do pecado, assim como o óleo às chamas, costuma ministrar incentivo àqueles que ardem na culpa, acrescenta: Ai de vós quando todos os homens vos bendisserem.
Pelos falsos profetas são designados aqueles que, para captar o favor do vulgo, esforçam-se por predizer eventos futuros. Assim, o Senhor no monte descreve somente as bem-aventuranças dos justos, mas na planície descreve também os "ais" dos réprobos: porque os ouvintes ainda rudes precisam ser impelidos ao bem por meio de terrores, enquanto aos perfeitos basta serem convidados por meio de recompensas.
Como havia dito acima o que poderiam sofrer dos inimigos, agora mostra como devem agir com estes mesmos inimigos, dizendo: Mas a vós digo, que ouvis.
Mas convém levantar a questão de como encontramos nos profetas muitas imprecações contra seus inimigos. Onde deve-se observar que os profetas, por meio da imprecação, profetizaram o que havia de acontecer, não pelo desejo de quem anseia, mas pelo espírito de quem prevê.
Não somente condena como infrutífero o amor e as ações caritativas pelos pecadores, mas também o empréstimo; de onde se segue: E se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que graça tendes vós? Pois também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem o equivalente.
Seja por conceder bens temporais, seja por inspirar dons celestiais com graça singular
Ora, em uma breve sentença ele resume concisamente tudo o que havia ordenado acerca do modo de comportar-se com os inimigos, dizendo: perdoai e sereis perdoados, dai e dar-se-vos-á; onde nos ordena perdoar as injúrias e fazer o bem, para que nossos pecados sejam perdoados e nos seja dada a vida eterna.
Ou o sentido desta sentença depende do que foi dito anteriormente, onde se ordena dar esmola e perdoar as injúrias. Se, diz Ele, a ira te cegar contra o violento, e a avareza contra aquele que pede, como poderás, com teu coração corrompido, curar a corrupção dele? Se até mesmo o mestre Cristo, que como Deus poderia vingar Suas injúrias, preferiu, pelo sofrimento, tornar Seus perseguidores mais brandos, é certamente necessário que os discípulos, que são apenas homens, sigam a mesma regra de perfeição.
Isso, porém, diz respeito ao sentido anterior, onde advertiu que um cego não pode ser guiado por outro cego, isto é, o pecador não pode ser corrigido pelo pecador; donde se diz: Ou como podes dizer a teu irmão: irmão, deixa-me tirar o argueiro do teu olho, não vendo tu mesmo a trave que está no teu próprio olho?
Contra o hipócrita, o Senhor continua o que começara, dizendo: não há, com efeito, árvore boa que produza frutos maus, nem árvore má que produza fruto bom; como se dissesse: Se queres ter justiça verdadeira e não fingida, o que mostras com palavras, compensa também com ações; porque ainda que o hipócrita finja ser bom, não é bom aquele que pratica obras más; e ainda que repreenda o inocente, não por isso é mau aquele que pratica boas obras.
Ou, por espinhos e sarça, penso serem os cuidados do século e as picadas dos vícios; já o figo e a uva, a doçura da nova conversação e o fervor da dilecção. Não se colhem figos dos espinheiros, nem uva da sarça: porque a mente ainda oprimida pelo costume do homem velho pode simular, mas não pode produzir os frutos do homem novo. Porém, deve-se saber que, assim como o ramo fértil, envolvido pela sebe, repousa, e o espinho, portando um fruto que não é seu, o conserva para uso humano, da mesma forma os ditos ou os atos dos maus, se alguma vez aproveitam aos bons, não o fazem os próprios maus, mas é feito deles pelo conselho de Deus.
O tesouro do coração é o mesmo que a raiz da árvore. Aquele que, portanto, tem em seu coração o tesouro da paciência e do perfeito amor, produzindo ótimos frutos, ama seu inimigo e faz as demais coisas que acima foram ensinadas; mas aquele que mantém um tesouro ruim em seu coração, faz o contrário.
Por meio da locução da boca, o Senhor insinua todas as coisas que proferimos do coração, seja por palavra, por ação ou por pensamento; pois é costume das Escrituras colocar palavras no lugar de ações.
Para que ninguém se lisonjeie em vão a partir do que foi dito "Da abundância do coração a boca fala", como se apenas palavras, e não mais que isso, as obras do verdadeiro cristão fossem buscadas, consequentemente o Senhor acrescenta: "Por que me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que digo?" Como se dissesse: Por que vos jactais de produzir folhas de reta confissão, vós que não mostrais nenhum fruto de boas obras?
A pedra era Cristo, que cavou em profundidade, que arrancou pelos preceitos da humildade todas as coisas terrenas dos corações dos fiéis, para que não sirvam a Deus por causa de um benefício temporal.
Ou o fundamento da casa é a própria intenção de boa conduta, que o ouvinte perfeito da palavra firmemente estabelece no cumprimento dos mandamentos de Cristo.
A inundação acontece de três modos: ou pelos espíritos imundos, ou pelos homens ímprobos, ou pela própria inquietude da mente ou da carne; e quanto mais os homens confiam em suas próprias forças, mais se inclinam; mas enquanto se mantiverem aderidos àquela pedra invencível, não podem sequer ser abalados.
A casa do Diabo é o mundo, que jaz no maligno: a qual edifica sobre a terra, porque arrasta do céu às coisas terrenas os que lhe são obedientes; não possui fundamento, porque não subsiste por natureza própria; o mal edifica, pois todo pecado é sem substância, o qual, entretanto, seja ele qual for, desenvolve-se na natureza do bem. Visto que fundamento deriva de fundo, podemos também aceitar, não inconvenientemente, que fundamento foi posto no sentido de fundo: assim como quem se afoga em um poço é retido no fundo do poço, assim a alma que cai permanece como que em algum lugar de fundo, se se contém em alguma medida de pecado. Mas como não pode estar contente com o pecado em que cai, enquanto diariamente é lançada para coisas piores, é como se não encontrasse fundo no poço em que caiu, onde possa fixar-se. E sobrevindo qualquer tentação, tanto os verdadeiramente maus quanto os fingidamente bons tornam-se piores, até que finalmente caiam no castigo perpétuo; por isso segue-se "contra a qual a corrente bateu, e logo caiu, e foi grande a ruína daquela casa". Pode-se também entender pelo ímpeto do rio o discernimento do juízo final, quando, consumadas ambas as casas, os ímpios irão para o suplício eterno, mas os justos para a vida eterna.
Nisto porém mostram que, assim como nós à Igreja, também eles à sinagoga costumavam chamar não somente à reunião dos fiéis, mas também ao lugar onde se reuniam.
Ele diz que um homem que está submetido à autoridade do tribuno ou do governador tem, no entanto, comando sobre seus inferiores; para que se entenda que muito mais Aquele que é Deus pode, não apenas pela presença de Seu corpo, mas pelo ministério dos Anjos, cumprir o que deseja. Pois as enfermidades do corpo ou as forças contrárias deveriam ser repelidas tanto pela palavra do Senhor quanto pelo ministério dos Anjos.
Mas quem havia criado nele esta mesma fé senão Aquele que se admirava? E se outro a tivesse produzido, por que se admiraria Aquele que já sabia de antemão? Portanto, quando o Senhor se admira, indica-nos que devemos nos admirar: pois todos estes movimentos, quando atribuídos a Deus, não são sinais de uma mente perturbada, mas de um mestre que ensina.
Ele não fala de todos os patriarcas e profetas que viveram anteriormente, mas dos homens da presente época; para os quais, por esse motivo, é preferida a fé do centurião, porque aqueles foram instruídos pelos ensinamentos da lei e dos profetas, enquanto este espontaneamente acreditou sem que ninguém o ensinasse.
São Mateus explica estas coisas mais completamente, dizendo que quando o Senhor disse ao centurião: "Vai, e seja feito a ti conforme creste", o servo foi curado naquela mesma hora. Mas é próprio do bem-aventurado São Lucas abreviar ou mesmo deliberadamente omitir o que vê claramente exposto pelos outros Evangelistas; porém, o que ele sabe ter sido omitido por eles, ou brevemente mencionado, costuma elucidar com mais diligência.
O centurião, cuja fé é preferida à de Israel, representa os eleitos dentre os gentios, que como se estivessem cercados por cem soldados, são sublimes pela perfeição das virtudes espirituais: pois o número cem, que se transfere da esquerda para a direita, costuma ser usado para significar a vida celestial. É necessário, portanto, que pessoas assim supliquem ao Senhor por aqueles que ainda estão oprimidos pelo espírito de servidão; nós, porém, que cremos dentre os gentios, não podemos vir por nós mesmos ao Senhor, a quem não conseguimos ver na carne; mas devemos nos aproximar dele pela fé. Enviar os anciãos dos judeus significa obter como intercessores, por meio de súplicas, os maiores homens da Igreja que nos precederam ao Senhor, os quais, dando-nos testemunho de que cuidamos de edificar a Igreja, intercedam por nossos pecados. Belamente se diz que Jesus não estava longe da casa, porque sua salvação está perto daqueles que o temem; e quem usa corretamente a lei natural, na medida em que faz o bem que conhece, aproxima-se daquele que é o bem.
Os soldados e os servos, que obedecem ao centurião, são as virtudes naturais, cuja abundância muitos que vêm ao Senhor trazem consigo.
Naim é uma cidade da Galileia a duas milhas do monte Tabor. Por desígnio divino uma grande multidão acompanhava o Senhor, para que muitos fossem testemunhas de tão grande milagre; por isso segue-se e iam com ele seus discípulos e uma numerosa multidão.
Como se Ele dissesse: Deixe de chorar como morto aquele a quem verás em breve ressurgir vivo.
Belamente o Evangelista testifica que o Senhor foi primeiramente movido de misericórdia para com a mãe, e assim depois ressuscitou o filho, para que em um caso nos mostrasse um exemplo de piedade a ser imitada, e no outro estabelecesse a fé em seu maravilhoso poder; donde segue: "E apoderou-se de todos o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós, e Deus visitou o seu povo".
O defunto que foi levado para fora da porta da cidade à vista de muitos, significa o homem entorpecido pelo funeral letal de seus crimes, e a morte da alma não mais ocultada no aposento do coração, mas tornada manifesta ao conhecimento de muitos por indicação de palavras ou obras, como que através das portas da cidade. Pois considero a porta da cidade como sendo algum dos sentidos corporais: e com razão se diz que ele era filho único de sua mãe, porque a Igreja, mãe única, é formada de muitas pessoas: e toda alma que se lembra de ter sido redimida pela morte do Senhor reconhece que a Igreja é viúva.
Ou o dogma de Novato é confundido, o qual, ao tentar anular a purificação dos penitentes, nega que a mãe Igreja, chorando pela extinção espiritual de seus filhos, deva ser consolada pela esperança de restituí-los à vida.
Ou o féretro, no qual o morto é carregado, é a consciência mal segura do pecador desesperado: e aqueles que carregam o corpo para ser sepultado, são ou desejos impuros, ou lisonjas dos companheiros; os quais, quando o Senhor toca o féretro, pararam: porque tocada pelo temor do juízo divino, a consciência, muitas vezes refreando os prazeres carnais e aqueles que injustamente louvam, retorna a si mesma, e responde ao Salvador que a chama para a vida.
Deus visitou o seu povo, não somente uma vez incorporando o seu Verbo, mas sempre enviando-O aos nossos corações.
Não com coração simples, como eu penso, mas estimulados pela inveja: pois também em outro lugar se queixam, dizendo: "Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, eis que ele batiza; e todos vêm a ele".
Ele não diz: "Tu és aquele que veio", mas: "Tu és aquele que há de vir?" E este é o sentido: manda-me dizer, porque serei morto por Herodes e descerei aos Infernos, se devo anunciar-Te também aos que estão nas profundezas, assim como Te anunciei aos que estão acima; ou se isto não convém ao Filho de Deus, e se enviarás outro para estes mistérios?
E, o que não é menos importante do que estas coisas, acrescenta-se os pobres são evangelizados, isto é, os pobres de espírito ou de bens materiais, são iluminados interiormente, para que entre ricos e necessitados não haja nenhuma diferença na pregação. Isto comprova a verdade do Mestre; quando todo aquele que por Ele pode ser salvo é igual.
Esta sentença pode ser entendida de dois modos: ou chamou reino de Deus àquele que ainda não recebemos, no qual estão os Anjos, e qualquer um que entre eles é o menor, é maior que qualquer justo que carrega um corpo que oprime a alma; ou se entendeu por reino de Deus a Igreja deste tempo, o Senhor significou-se a si mesmo, que pelo tempo de nascimento era menor que São João, mas maior pela autoridade da divindade e pelo poder de domínio. Portanto, segundo a primeira exposição, distingue-se assim: "aquele que é menor no reino de Deus", e então se acrescenta: "é maior que ele"; conforme a posterior, porém, assim: "aquele que é menor", e então se acrescenta: "no reino de Deus é maior que ele".
Estas palavras foram ditas ou pela pessoa do Evangelista, ou pela pessoa do Salvador, como alguns pensam. Quando diz em si mesmos, ou contra si mesmos, significa que aquele que rejeita a graça de Deus age contra si mesmo. Ou são vituperados como tolos e ingratos por não quererem receber o conselho de Deus enviado a eles mesmos. O conselho de Deus é, portanto, aquele pelo qual decretou salvar pela paixão e morte de Cristo, o qual os fariseus e doutores da lei desprezaram.
A geração dos judeus é comparada a crianças, porque os doutores outrora tinham os profetas, dos quais se diz: "da boca dos infantes e lactentes aperfeiçoaste o louvor"(Salmo 8,3).
Porque anteriormente havia sido dito: "E todo o povo que o ouviu e os publicanos justificaram a Deus, sendo batizados com o batismo de João", o mesmo Evangelista confirma com fatos o que havia proposto em palavras, a saber, que a Sabedoria foi justificada pelos justos e pelos penitentes, dizendo: "E rogava-lhe um dos fariseus que comesse com ele".
Alabastro é um tipo de mármore branco entremeado de várias cores, que costuma ser escavado para vasos de unguentos, porque se diz que ele preserva os mesmos incorruptos de maneira excelente.
Como a águia que provoca seus filhotes a voar, o Senhor ergue gradualmente seus discípulos às coisas sublimes. Primeiramente, ensina nas sinagogas e realiza milagres; em seguida, escolhe os doze, a quem denomina apóstolos; depois, leva todos consigo quando prega; donde segue e os doze com ele.
Maria Madalena é a mesma cuja penitência, sem menção de seu nome, a leitura anterior narra. Pois com propriedade o Evangelista, onde comemora que ela acompanhava o Senhor em sua jornada, a manifesta por seu conhecido nome; onde, porém, descreve a pecadora, ainda que penitente, diz simplesmente mulher, para que o sinal de seu antigo erro não obscurecesse um nome de tão grande fama, da qual se relata que saíram sete demônios.
Maria é interpretada como "mar amargo" por causa do gemido de sua penitência; Magdalena como "torre", ou melhor, "pertencente à torre", da torre sobre a qual se diz: "tornou-se minha esperança, torre de fortaleza diante da face do inimigo". Joana é interpretada como "o Senhor é sua graça" ou "o Senhor misericordioso", evidentemente porque dele é tudo o que vivemos. E se Maria, purificada da imundície dos vícios, representa a Igreja dos gentios, por que Joana não designaria a mesma Igreja outrora submetida ao culto dos ídolos? Pois qualquer espírito maligno, enquanto trabalha pelo reino do Diabo, existe como procurador de Herodes. Susana é interpretada como "lírio" ou "sua graça", por causa do odorífero candor da vida celestial e do áureo ardor do amor interno.
Não podemos entender este semeador melhor do que como o Filho de Deus, que saindo do seio do Pai, aonde as criaturas não tinham acesso, veio ao mundo para dar testemunho da verdade.
Ele chama pedra ao coração duro e indomável. Isto é pois a umidade para a raiz da semente, que segundo outra parábola é o óleo para alimentar as lâmpadas das virgens, isto é, o amor e a perseverança na virtude.
Pois por fruto centuplicado, ele designa o fruto perfeito: porque o número dez é sempre tomado para indicar perfeição, pois nos dez preceitos está contida a guarda da lei. Mas o número dez multiplicado por si mesmo se eleva a cem; donde pelo centenário se significa uma grande perfeição.
Pois quantas vezes esta advertência aparece, seja no Evangelho, seja no Apocalipse de São João, isso significa que o que é dito possui um significado místico, e que nos é mostrado que deve ser investigado por nós mais atentamente; por isso os discípulos, ignorando, interrogavam o Salvador; pois segue: "E seus discípulos lhe perguntavam qual era esta parábola". Ninguém, porém, pense que assim que a parábola terminou os discípulos lhe perguntaram isto; mas, como São Marcos diz: "Quando Ele estava só, eles o interrogaram".
Retamente, portanto, ouvem em parábolas, quando, com os sentidos do coração fechados, não se preocupam em conhecer a verdade, esquecidos daquilo que o Senhor disse: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça".
Que são aqueles que não se dignam receber a palavra que ouvem com nenhuma fé, com nenhum entendimento, nem mesmo com tentativa alguma de provar a utilidade dela.
Como havia dito antes aos seus Apóstolos: "A vós é dado conhecer o mistério do reino de Deus, mas aos outros em parábolas", agora mostra que por meio deles, finalmente, o mesmo mistério deve ser revelado também aos outros, dizendo: "Ninguém acende uma candeia e a cobre com um vaso, ou a põe debaixo da cama, mas coloca-a sobre um candelabro, para que os que entram vejam a luz".
Com insistência nos ensina o Senhor a dar ouvidos à sua palavra, para que possamos continuamente meditá-la em nosso coração e também transmiti-la para o ouvido de outros; por isso segue: vede, pois, como ouvis. Porque aquele que tem, a este se lhe dará; e qualquer que não tem, ainda o que pensa que tem, ser-lhe-á tirado. Como se dissesse: Aplicai toda vossa atenção à palavra que ouvis, porque àquele que tem amor à palavra, será dado também o sentido para entender o que ama; mas quem não tem amor em ouvir a palavra, ainda que se julgue hábil por seu engenho natural ou pelo exercício literário, não desfrutará de nenhuma doçura da sabedoria. Frequentemente, de fato, o preguiçoso recebe inteligência para ser mais justamente punido por sua negligência, porque despreza conhecer o que poderia ter alcançado sem trabalho; e algumas vezes o estudioso é oprimido pela lentidão de compreensão, para que encontre maior recompensa quanto mais se esforçar em seu estudo.
Os irmãos do Senhor segundo a carne, porém, não devem ser considerados filhos da bem-aventurada Maria, Mãe de Deus, conforme afirma Elvídio, nem filhos de José com outra esposa, como alguns supõem, mas deve-se antes entender que são seus parentes.
Aqueles, portanto, que ouvem a palavra de Deus e a cumprem, são chamados mãe do Senhor, porque diariamente, por seu exemplo ou palavra, geram-no por assim dizer nos corações dos próximos; são também seus irmãos, quando eles mesmos fazem a vontade de seu Pai que está nos céus.
Pois os que vêm não podem entrar enquanto Ele ensina dentro, porque negligenciam entender espiritualmente suas palavras. Mas a multidão, adiantando-se, entrou na casa; porque, mostrando-se indiferente a Judeia, a gentilidade afluiu para Cristo. Mas os que estão do lado de fora querem ver a Cristo, aqueles que, não buscando o sentido espiritual na lei, se fixaram do lado de fora para guardar a letra; e como que preferem forçar Cristo a sair para ensinar-lhes coisas carnais, do que consentir em entrar para aprender coisas espirituais.
Deste modo, portanto, nesta navegação o Senhor manifesta ambas as naturezas em uma só e mesma pessoa, quando Aquele que como homem dorme na nave, como Deus refreia com Sua palavra o furor do mar.
Ou talvez não sejam os discípulos, mas os marinheiros e outros que estavam na barca, que se admiraram. No sentido alegórico, porém, o mar ou lago representa a agitação tenebrosa e amarga deste mundo. A barca é a árvore da cruz, por cujo benefício os fiéis, tendo atravessado as ondas deste mundo, alcançam a margem da pátria celestial.
Os discípulos, por sua vez, também sobem advertidos com Ele; donde Ele mesmo diz: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". Enquanto os discípulos navegam, isto é, enquanto os fiéis calcam o mundo e meditam em seu espírito o repouso do século futuro, e pelo sopro do Espírito Santo, ou também pelo esforço de seus próprios remos, lançam com empenho para trás as altivezas inconstantes do mundo, subitamente o Senhor adormeceu; isto é, chegou o tempo da paixão do Senhor; e desceu a tempestade, porque enquanto o Senhor suportava o sono da morte na cruz, as ondas das perseguições se levantam pelos sopros demoníacos. Pelas ondas, porém, não se perturba a paciência do Senhor, mas a fraqueza dos discípulos é sacudida e treme: eles despertam o Senhor para que não pereçam enquanto Ele dorme: porque, tendo visto a sua morte, desejam a ressurreição; a qual, se fosse diferida, eles pereceriam para sempre. Por isso, levantando-se, repreende o vento: porque com sua rápida ressurreição por meio da morte destrói a soberba do Diabo, que tinha o império da morte. Faz cessar a tempestade da água, porque, ressurgindo, enfraquece a raiva dos judeus que insultavam a sua morte.
De forma semelhante é o que aconteceu quando, após sua morte, aparecendo aos seus discípulos, repreendeu-lhes a incredulidade; e assim, acalmadas as túmidas ondas, manifestou a todos o poder de sua divindade.
Geraza é uma cidade notável da Arábia, do outro lado do Jordão, junto ao monte Galaad, que foi possuída pela tribo de Manassés, não distante do lago de Tiberíades, no qual os porcos foram precipitados.
Mas também os sacerdotes do nosso tempo, que pela graça do exorcismo sabem expulsar os demônios, costumam dizer que os pacientes não podem ser curados de outra maneira, a não ser que exponham abertamente em confissão tudo o que suportaram dos espíritos imundos, seja acordados ou dormindo; e sobretudo quando os espíritos fingem pedir e concretizar relações carnais com o corpo humano; por isso aqui também se acrescenta a confissão: e ele disse: legião; porque muitos demônios haviam entrado nele.
Misticamente, Gerasa significa as nações dos gentios, as quais o Senhor visitou após sua paixão e ressurreição por meio dos pregadores; por isso Gerasa ou Gergesi, como alguns leem, se interpreta como expulsor do habitante, isto é, do Diabo, por quem antes era habitada; ou estrangeiro que se aproxima, que antes estava distante.
Ou no fim do tempo o Senhor há de retornar aos judeus, e será recebido com boa vontade por eles através da confissão da fé.
Ou pelo príncipe da sinagoga entende-se Moisés: por isso é corretamente chamado Jairo, isto é, iluminante ou iluminado, porque aquele que recebe as palavras de vida para nos dar, e por isso ilumina os outros, é ele mesmo iluminado pelo Espírito Santo. Caiu, porém, o chefe da sinagoga aos pés de Jesus, porque o legislador com toda a progênie dos patriarcas reconheceu que Cristo, aparecendo na carne, deveria ser muito superior a eles. Pois se a cabeça de Cristo é Deus, convenientemente deve-se entender que os pés são a encarnação, pela qual tocou a terra de nossa mortalidade. Rogou, porém, que entrasse em sua casa, porque desejava ver sua vinda. Sua única filha é a sinagoga, a única que foi formada com uma instituição legal; que aos doze anos de idade, isto é, quando se aproximava o tempo da puberdade, estava morrendo; porque tendo sido nobremente educada pelos profetas, depois que chegou aos anos de compreensão, nos quais deveria gerar frutos espirituais para Deus, subitamente prostrada pela enfermidade dos erros, perdeu o caminho da vida espiritual: e se Cristo não a socorresse, teria caído na morte. Indo o Senhor para curar a menina, é comprimido pela multidão, porque dando conselhos salutares à nação judaica, foi oprimido pelos costumes de um povo carnal.
O fluxo de sangue pode ser entendido de duas maneiras, isto é, tanto sobre a prostituição da idolatria, quanto sobre aquelas coisas que são realizadas para deleite da carne e do sangue.
Pois quase na mesma idade do mundo, a Sinagoga começou a nascer entre os patriarcas, e a idolatria contaminou a nação dos gentios.
Por médicos, entenda-se tanto os falsos teólogos, como os filósofos e doutores das leis seculares, que, dissertando muito acerca das virtudes e dos vícios, prometiam dar aos mortais instruções úteis para a vida; ou entenda-se por médicos os próprios espíritos imundos, que, como se aconselhassem os homens, se faziam adorar no lugar de Deus; e quanto mais a gentilidade gastava as forças de sua natural diligência em ouvi-los, tanto menos podia ser curada da impureza de sua iniquidade.
E Ele mesmo diz: "Se alguém me serve, siga-me". Ou porque não vendo o Senhor presente na carne, ou porque completados os sacramentos da dispensação temporal, começou a seguir seus vestígios pela fé.
Ou uma mulher crédula toca o Senhor: porque aquele que é afligido desordenadamente por diversas heresias, somente é buscado fielmente pelo coração da Igreja Católica.
Misticamente, porém, estando a mulher curada do fluxo de sangue, logo é anunciada a morte da filha do príncipe: porque enquanto a Igreja foi purificada da mancha dos vícios, imediatamente a sinagoga foi dissolvida pela perfídia e pela inveja: perfídia, certamente, porque não quis crer em Cristo; inveja, porém, porque se condoeu de que a Igreja houvesse crido.
Ou, por eles, são significados aqueles que veem o estado da sinagoga tão destituído que não acreditam que possa ser restaurado; e, por isso, não consideram necessário suplicar por sua ressurreição. Mas o que é impossível para os homens, é possível para Deus: por isso o Senhor lhe disse: "Não temas, crê somente, e ela será salva". O pai da menina é entendido como a assembleia dos doutores da Lei, que, se quiser crer, também a sinagoga que lhe está sujeita será salva.
A Sinagoga também, porque perdeu a alegria do Esposo, com a qual poderia viver, jaz como morta entre os que a choram, sem compreender sequer o motivo pelo qual chora.
Levantou-se, pois, a jovem imediatamente, porque, quando Cristo fortalece a mão, o homem recobra os sentidos da morte da alma. Há, com efeito, alguns que pela oculta cogitação do pecado trazem a morte para si mesmos; e para significar que esses Ele vivifica, o Senhor ressuscitou a filha do príncipe da sinagoga. Outros, porém, fazendo o próprio mal em que se deleitam, carregam seu morto como que para fora das portas; e demonstrando que também ressuscita estes, Ele ressuscitou o filho da viúva fora das portas da cidade. Há outros ainda que pela habituação do pecado corrompem-se como que sepultando-se; e até para erguer estes está presente a graça do Salvador; para indicar isto, ressuscitou Lázaro, que estava havia quatro dias no sepulcro. Quanto mais grave é a morte da alma, tanto mais intenso deve ser o fervor do penitente. Por isso, a que jazia morta em seu aposento, ressuscita-a com voz suave; o jovem levado para fora, conforta-o com muitas palavras; mas para ressuscitar aquele que estava morto há quatro dias, gemeu em espírito, derramou lágrimas e clamou com grande voz. Mas também aqui se deve notar que os danos públicos necessitam de remédio público; os pecados leves podem ser apagados por penitência secreta. A jovem que jazia em casa ressuscita com poucas testemunhas; o jovem fora de casa é ressuscitado estando presente uma grande multidão que o acompanhava; Lázaro, chamado do sepulcro, tornou-se conhecido por muitos povos.
O pó é sacudido dos pés dos apóstolos em testemunho do seu trabalho, de que entraram na cidade, e que a pregação apostólica chegou até seus habitantes; ou o pó é sacudido quando nada recebem deles, nem mesmo o necessário para o sustento, daqueles que desprezaram o Evangelho.
Mas aqueles que, por negligência pérfida, ou mesmo por aplicação, desprezam a palavra de Deus, deve-se evitar a comunhão com eles, sacudir o pó dos pés, para que com ações vãs, que são comparáveis ao pó, não se manche o vestígio da mente casta.
Não somente narram o que eles próprios fizeram e ensinaram, mas também o que São João padeceu enquanto eles estavam ocupados ensinando, isso contam a Ele ou os seus próprios discípulos, ou os discípulos do mesmo São João, como São Mateus insinua.
Bethsaida é uma cidade na Galileia, pátria dos Apóstolos André, Pedro e Filipe, próxima ao lago de Genesaré. Ele não fez isto por temor da morte, como alguns pensam, mas poupando seus inimigos, para que não acrescentassem homicídio a homicídio; ao mesmo tempo, esperando o tempo oportuno para os seus próprios sofrimentos.
Ele, porém, como poderoso e misericordioso Salvador, recebendo os fatigados, ensinando os ignorantes, curando os enfermos, alimentando os famintos, manifesta quanto se deleita com a devoção dos fiéis; por isso segue: e acolheu-os, e falava-lhes do reino de Deus, e curava aqueles que necessitavam de cuidados.
Que, tendo abandonado a Judeia, a qual por não acreditar na profecia, cortou para si mesma a cabeça, no deserto da Igreja, que não tinha marido, dispensa abundantemente o alimento da palavra. E muitas multidões de fiéis, deixando os muros de sua antiga forma de vida e de várias doutrinas, seguem a Cristo que se dirige aos desertos dos gentios.
Quando o dia estava declinando, Ele alimenta a multidão, isto é, quando se aproxima o fim dos séculos, ou quando o Sol de justiça se põe por nós.
Ainda não havia para os apóstolos senão cinco pães da lei de Moisés e dois peixes de ambos os testamentos, que estavam encobertos nos segredos dos mistérios ocultos, como as águas cobrem o abismo. E porque são cinco os sentidos exteriores do homem, os cinco mil homens que seguiram o Senhor designam aqueles que, ainda colocados no estado secular, sabem usar bem as coisas exteriores que possuem; estes se alimentam dos cinco pães, porque tais pessoas ainda necessitam ser instruídas pelos preceitos da lei. Pois aqueles que renunciam inteiramente ao mundo são elevados à sublime refeição evangélica. Já as diversas divisões dos convidados designam as diversas congregações das Igrejas por todo o orbe terrestre, que juntas formam a única Igreja Católica.
Enquanto as multidões estavam com fome, o Salvador não cria novos alimentos, mas tomando aquilo que os discípulos tinham, abençoa-os; porque vindo na carne, não prega outras coisas senão as que foram preditas; mas demonstra que as palavras proféticas estão grávidas dos mistérios da graça. Olha para o céu, para ensinar que para lá se deve dirigir o olhar da mente, e que ali deve ser buscada a luz do conhecimento. Parte e distribui aos discípulos para ser colocado diante das multidões, porque lhes revelou os sacramentos da Lei e dos Profetas, para que os pregassem ao mundo.
Ou pelos doze cestos são figurados os doze Apóstolos e todos os doutores posteriores, em verdade desprezados externamente pelos homens, mas internamente carregados com os fragmentos do alimento salvífico.
Os discípulos estavam com o Senhor; mas Ele sozinho orou ao Pai: porque os santos podem estar unidos ao Senhor pela comunhão da fé e do amor. Em todo lugar Ele suplica sozinho, porque os desejos humanos não compreendem o conselho de Deus, nem alguém pode ser participante das coisas interiores com Cristo.
Belamente o Senhor, disposto a explorar a fé dos discípulos, primeiramente interroga a opinião das multidões, para que a confissão deles não pareça estar formada pela opinião do vulgo, em vez de ser comprovada pelo reconhecimento da verdade; e para que não se pense que eles acreditam no que conheceram, mas que, como Herodes, hesitam sobre o que ouviram.
Ele dirigiu-se belamente a todos: porque as coisas superiores, que pertencem à fé do nascimento do Senhor ou da paixão, tratou separadamente apenas com os discípulos.
Mas se alguém não renuncia a si mesmo, não se aproxima daquele que está acima dele; por isso é dito: negue-se a si mesmo.
Somos assim ordenados a tomar a cruz mencionada anteriormente diariamente, e, tendo-a tomado, seguir nosso Senhor, que carregou sua própria cruz; donde segue: e siga-me.
Pois assim como após o sétimo dia do sábado, no qual havia descansado no sepulcro, ressuscitou dos mortos, também nós, após as seis idades deste mundo e a sétima do descanso das almas, que entretanto transcorre em outra vida, ressuscitaremos como se fosse na oitava idade.
Por isso sobe ao monte para orar e ser transfigurado, a fim de mostrar que aqueles que esperam o fruto da ressurreição e desejam ver o Rei em sua glória, devem habitar com a mente nas alturas e dedicar-se continuamente às orações.
Transfigurado o Salvador, mostrou a glória da futura ressurreição, seja a sua ou a nossa; e tal como então apareceu aos apóstolos, depois do juízo aparecerá a todos os eleitos. Quanto às vestes do Senhor, entende-se que representam o coro dos seus santos, que certamente enquanto o Senhor permanecia na terra parecia desprezível; mas, quando Ele sobe ao monte, resplandece com novo brilho: pois agora somos filhos de Deus, e ainda não apareceu o que seremos; sabemos, porém, que, quando Ele aparecer, seremos semelhantes a Ele(1 São João 3,2).
E nota que, assim como quando o Senhor foi batizado no Jordão, também quando foi glorificado no monte, revelou-se o mistério de toda a Trindade; porque a glória d'Aquele que confessamos no Batismo, veremos na ressurreição. E não em vão o Espírito Santo aparece aqui em uma nuvem luminosa, e lá sob a forma de uma pomba: porque quem agora guarda com coração simples a fé que recebeu, contemplará então, na luz da visão manifesta, aquilo em que havia acreditado.
Os lugares são adequados às coisas. No monte o Senhor ora, transfigura-se, revela aos discípulos os segredos da sua majestade; ao descer para as regiões inferiores, é recebido por uma multidão. Por isso diz: "E aconteceu que no dia seguinte, descendo eles do monte, uma grande multidão veio ao seu encontro". Nas alturas revela a voz do Pai, embaixo expulsa os espíritos malignos; por isso segue: "E eis que um homem da multidão exclamou, dizendo: Mestre, suplico-te, olha para meu filho".
Não que o manso e humilde tenha sido vencido pelo tédio; mas à semelhança de um médico que, ao ver um enfermo agir contra as suas prescrições, diz: até quando virei à tua casa, ordenando eu uma coisa e fazendo tu outra? De tal modo não estava irado com o homem, mas com o vício, que imediatamente acrescentou: "Traze aqui o teu filho".
Misticamente, segundo a qualidade dos méritos, diariamente o Senhor ascende a uns, quando glorifica os perfeitos, cuja conversação está nos céus, exaltando-os mais sublimemente, e os instrui nas coisas eternas, e ensina aquelas coisas que não podem ser ouvidas pelas multidões; a outros, porém, desce, quando conforta, ensina e castiga os terrenos e insipientes. Este endemoninhado, porém, São Mateus o descreve como lunático, e São Marcos como surdo e mudo: pois significa aqueles que, como a lua, mudam, crescendo e decrescendo através de diversos vícios; que são mudos por não confessar a fé, e surdos, por nem mesmo ouvir a palavra da fé. Enquanto o jovem se aproxima do Senhor, é derrubado: porque os convertidos ao Senhor frequentemente são mais gravemente atacados pelo demônio, para que ou lhes incuta ódio à virtude, ou vingue a injúria de sua expulsão: assim como nos primórdios da Igreja infligiu tantos e tão graves combates, quanto lamentou os prejuízos repentinamente causados ao seu reino. Não repreende, porém, o jovem que sofria a violência, mas o demônio que a infligia: porque aquele que deseja corrigir o pecador deve repelir o vício repreendendo-o e odiando-o, mas deve reanimar o homem amando-o, até que, curado, possa devolvê-lo aos pais espirituais da Igreja.
Esta ignorância dos discípulos não nasce tanto da lentidão quanto do amor; pois sendo ainda carnais e ignorantes do mistério da cruz, não podiam crer que morreria Aquele a quem acreditavam ser verdadeiro Deus; e como estavam acostumados a ouvi-lo falar frequentemente por meio de figuras, mesmo quando ele falava sobre sua entrega, pensavam que ele estava significando aquilo figurativamente.
Ou porque tinham visto Pedro, Tiago e João serem conduzidos à parte para o monte, e as chaves do reino dos céus terem sido prometidas a Pedro, ficaram irados, porque eles três, ou Pedro, estivessem sendo preferidos diante de todos; ou porque viram Pedro igualado ao próprio Senhor no pagamento do tributo, julgavam que ele deveria ser preferido aos demais. Mas o leitor diligente encontrará que esta questão entre eles já havia sido discutida antes do pagamento do didracma. De fato, São Mateus menciona que isto aconteceu em Cafarnaum. São Marcos diz: "E vieram a Cafarnaum. E estando na casa, interrogava-os: Que discutíeis pelo caminho? Mas eles se calavam, pois pelo caminho tinham disputado entre si sobre quem deles seria o maior".
Nisto, porém, ou ensina que os pobres de Cristo devem ser acolhidos pelos que desejam ser maiores, simplesmente por honra a Ele; ou exorta que sejam pequenos em malícia; por isso, quando diz quem receber esta criança, acrescenta em meu nome; para que sigam pelo esforço da razão, pelo nome de Cristo, o modelo de virtude que a criança observa guiada pela natureza. Mas como também ensina que Ele é recebido na criança, e Ele mesmo nasceu criança para nós, para que não se pensasse que isso era apenas o que se via, acrescentou e quem me recebe, recebe aquele que me enviou; querendo, certamente, que se acreditasse que tal e tão grande como é o Pai, assim é Ele.
Portanto, nos hereges e nos maus católicos, não devemos detestar e proibir os sacramentos comuns, nos quais eles estão conosco e não contra nós, mas sim as divisões contrárias à paz e à verdade, nas quais eles estão contra nós, não seguindo o Senhor conosco.
Cessem, pois, os pagãos de ridicularizar como um homem crucificado, Aquele que, como Deus, evidentemente previu o tempo de sua crucificação, e que, como para ser crucificado voluntariamente, buscou com face firme, isto é, com mente resoluta e impávida, o lugar onde havia de ser crucificado.
Ou vendo que vai a Jerusalém, os samaritanos não recebem o Senhor; pois os judeus não têm relações com os samaritanos, como São João demonstra.
Pois os santos varões, sabendo perfeitamente que aquela morte que separa a alma do corpo não deve ser temida, contudo, devido ao sentimento daqueles que a temiam, puniram alguns pecados com a morte, para que um temor salutar fosse incutido nos vivos, e para aqueles que eram punidos com a morte, não fosse a própria morte que lhes causasse dano, mas o pecado, que poderia aumentar se continuassem a viver.
O Senhor repreendeu neles, não o exemplo do santo profeta, mas a ignorância de vingança que ainda havia nos que eram rudes, observando que eles não desejavam a correção por amor, mas a vingança por ódio. Assim, depois que lhes ensinou o que era amar ao próximo como a si mesmo, e tendo também infundido o Espírito Santo, não faltaram tais vinganças, embora muito mais raramente do que no Antigo Testamento: pois, como segue, o Filho do homem não veio para destruir as almas, mas para salvá-las; como se dissesse: E vós, portanto, que estais assinalados com o seu Espírito, imitai também os seus atos, agora aconselhando piedosamente, mas no futuro julgando justamente.
Por isso lhe é dito: por que desejas seguir-me por causa das riquezas e lucros deste século, quando sou de tanta pobreza que nem mesmo um pequeno abrigo tenho, e não uso um teto que seja meu?
Ele não rejeitou o discipulado; mas, tendo primeiro cumprido o dever piedoso de sepultar seu pai, deseja seguir com mais liberdade.
Colocar a mão no arado é também, (como se fosse por um certo instrumento de compunção), pelo madeiro e o ferro da paixão de Nosso Senhor, desgastar a dureza do nosso coração e abri-lo para produzir frutos de boas obras. Mas se alguém, tendo começado a exercitar isto, deleita-se em olhar para trás com a mulher de Lot para as coisas que havia deixado, é privado já do dom do reino futuro.
Se, pois, o discípulo que estava para seguir o Senhor é repreendido porque queria despedir-se em casa, o que acontecerá àqueles que, sem nenhuma utilidade, frequentemente visitam as casas daqueles que deixaram no mundo?
Oportunamente são enviados setenta e dois, porque a tantas nações do mundo havia de ser pregado o Evangelho; a fim de que, assim como primeiramente doze foram designados, por causa das doze tribos de Israel, assim também estes fossem destinados para instruir as nações estrangeiras.
Assim como ninguém duvida que os doze apóstolos prefiguravam a ordem dos bispos, assim também deve-se saber que estes setenta e dois representavam o presbitério (isto é, a segunda ordem de sacerdotes); contudo, nos primeiros tempos da Igreja, como testemunham as Escrituras apostólicas, ambos eram chamados presbíteros, ambos também eram chamados bispos; dos quais um significa maturidade de sabedoria, o outro diligência no cuidado pastoral.
Assim como a messe abundante é toda a multidão dos crentes, assim os poucos operários são os apóstolos e seus imitadores, que são enviados à messe.
Ou ele chama especialmente lobos aos escribas e aos fariseus, que são o clero dos judeus.
Depois de haver descrito a hospedagem em diferentes casas, ensina agora o que devem fazer nas cidades: a saber, comunicar-se em tudo com os piedosos, mas separar-se completamente da sociedade dos ímpios; por isso segue: E em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei o que vos for posto diante.
Ou para testemunho do trabalho terreno que em vão empreenderam por eles; ou para mostrar que de tal modo não buscam deles nada terreno, que nem mesmo o pó da terra deles permitem que lhes fique aderido. Ou pelos pés se designa a própria obra e o andamento da pregação; e o pó com que se cobrem é a leveza dos pensamentos terrenos, da qual nem mesmo os maiores doutores podem estar isentos. Portanto, aqueles que desprezarem a doutrina, os trabalhos e os perigos dos que ensinam, o fazem para testemunho de sua própria condenação.
Os próprios sodomitas, ainda que tenham sido inóspitos entre outros desregramentos da carne e da alma, em nenhum lugar entre eles foram encontrados hóspedes tais como os apóstolos: e certamente Lot era justo tanto no olhar quanto no ouvir, contudo não se diz que tenha ensinado algo ou feito sinais lá.
Corozaim, Betsaida e Cafarnaum, também Tiberíades, que São João menciona, são cidades da Galileia, situadas na margem do lago de Genezaré, que pelos Evangelistas é chamado mar da Galileia ou de Tiberíades. O Senhor, portanto, lamenta estas cidades que, após tantos milagres e virtudes, não se arrependeram, e são piores que os gentios que violam apenas a lei natural: porque após o desprezo da lei escrita, não temeram desprezar também o Filho de Deus e sua glória; por isso segue-se: porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido realizadas as virtudes que foram feitas em vós, há muito tempo sentados em cilício e cinza teriam feito penitência. No cilício, que é tecido com pelos de cabras, significa a áspera memória do pecado pungente; na cinza, por sua vez, demonstra a consideração da morte, pela qual somos reduzidos a pó. Ademais, no sentar-se significa a humildade da própria consciência. Vemos hoje cumprida a palavra do Salvador: porque Corozaim e Betsaida não quiseram crer na presença do Senhor; Tiro e Sidônia, porém, que outrora foram amigas de Davi e Salomão, depois creram nos discípulos de Cristo que evangelizaram.
Esta sentença admite duplo sentido. Ou porque serás precipitada no inferno, porque resististe com extrema soberba à minha pregação; para que, com efeito, se entenda que ela se exaltou até o céu por soberba. Ou, porque és exaltada até o céu pela minha hospedagem e pelos meus sinais, serás castigada com maiores suplícios, porque também a estes não quiseste crer. E para que ninguém pensasse que esta repreensão convinha apenas às cidades ou às pessoas que, vendo o Senhor em carne, o desprezavam, e não a todos os que ainda hoje desprezam as palavras do Evangelho; consequentemente acrescentou, dizendo: "quem vos ouve, a mim ouve".
Para que cada um, ao ouvir ou desprezar a pregação do Evangelho, entenda que não está ouvindo ou desprezando quaisquer pessoas comuns, mas o Senhor Salvador, e ainda mais, o próprio Pai; pois segue-se: "Quem me despreza, despreza aquele que me enviou"; porque no discípulo se ouve o Mestre, e no Filho é honrado o Pai.
Pode também entender-se assim: "Quem vos desdenha, a mim me desdenha"; isto é, quem não faz misericórdia a um dos meus irmãos mais pequenos, também não a faz a mim. Mas quem me desdenha, não querendo crer no Filho de Deus, desdenha aquele que me enviou: porque eu e o Pai somos um.
Não diz: "agora vejo", mas: "antes via", quando ele caiu. Quanto ao que diz: "como um relâmpago", ou significa a queda precipitada das alturas para os abismos, ou que, mesmo depois de sua queda, ele ainda se transfigura em anjo de luz.
Isto é, o poder de expulsar todo gênero de espíritos imundos dos corpos obsessos; e quanto a vós mesmos acrescenta e nada vos fará mal: embora também possa ser tomado à letra: pois São Paulo, atacado por uma víbora, não sofreu nenhum mal, e São João, tendo bebido veneno, não foi prejudicado. Considero, porém, que há esta diferença entre as serpentes que ferem com os dentes e os escorpiões que ferem com a cauda: que as serpentes significam homens ou demônios que atacam abertamente, e os escorpiões, aqueles que armam emboscadas secretamente. Ou as serpentes são aquelas que lançam o veneno da persuasão maligna contra as virtudes em seu início, e os escorpiões, aqueles que intentam corromper, no final, as virtudes já consumadas.
É-lhes proibido, sendo carnais, regozijar-se pela sujeição dos espíritos: porque expulsar os espíritos, assim como realizar outros prodígios, por vezes não procede do mérito daquele que opera; mas a invocação do nome de Cristo faz isto para condenação daqueles que o invocam, ou para utilidade daqueles que veem e ouvem.
Como se dissesse: não vos convém alegrar-vos da humilhação dos demônios, mas de vossa própria exaltação. E devemos entender de modo salutar que, quer alguém tenha realizado obras celestiais, quer terrestres, por meio delas fica como que anotado por escrito e fixado eternamente na memória de Deus.
A confissão nem sempre significa penitência, mas também ação de graças, como lemos muitas vezes nos Salmos.
Ele, portanto, dá graças por ter revelado aos Apóstolos, como a crianças pequenas, os sacramentos de sua vinda, os quais ignoraram os Escribas e Fariseus, que se consideram sábios e prudentes aos seus próprios olhos.
Daí aos sábios e aos prudentes, não opôs os insensatos e obtusos, mas os pequeninos, isto é, os humildes, para provar que Ele condenava a soberba, não a agudeza de espírito.
Ou, ao dizer todas as coisas me foram entregues, Ele não se refere aos elementos do mundo, mas àqueles pequeninos a quem o Pai revelou, pelo Espírito, os sacramentos do Filho, e em cuja salvação, quando isto falava, Ele se regozijava.
São Mateus chama mais claramente aos profetas e justos; pois eles são grandes reis, porque não souberam ceder sucumbindo aos movimentos de suas tentações, mas souberam presidi-los governando-os.
Pois aqueles, observando de longe, viam-no através de um espelho e enigmaticamente; já os apóstolos, tendo o Senhor presente e aprendendo por meio de perguntas tudo o que desejavam, de modo algum tinham necessidade de serem ensinados por meio de anjos ou outras espécies de visões.
O Senhor havia dito acima que os nomes deles estavam escritos nos céus; de onde, conforme penso, o doutor da lei tomou ocasião para tentar o Senhor; por isso se diz: E eis que certo doutor da lei se levantou, tentando-o.
Os pecados são chamados de chagas, porque por eles a integridade da natureza humana é violada. E partiram, não cessando de armar emboscadas, mas ocultando o engano de suas insídias.
E com razão pôs o homem sobre seu jumento e o levou a uma hospedaria, porque ninguém, a não ser que esteja unido ao corpo de Cristo pelo Batismo, poderá entrar na Igreja.
O amor de Deus e do próximo, que anteriormente estava contido em palavras e parábolas, aqui é designado pelas próprias coisas e pela verdade; pois diz-se "Aconteceu que, enquanto iam, Ele entrou em certa aldeia".
Depois da história das irmãs, que significavam as duas vidas da Igreja, não foi em vão que se escreveu que o próprio Senhor orou e ensinou os discípulos a orar; porque a oração que Ele ensinou contém em si o mistério de ambas as vidas, e a perfeição dessas mesmas vidas não deve ser obtida por nossas próprias forças, mas por meio de orações; por isso se diz: "E aconteceu que, estando Ele orando em certo lugar".
Ou pode-se dizer que chama maus aos amantes do mundo, que dão aquilo que julgam bom segundo o seu modo de entender; coisas que são boas em sua natureza e pertencem ao uso da vida imperfeita; por isso acrescenta: "sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos". Mesmo os Apóstolos, que pelo mérito da sua eleição excederam a bondade do gênero humano, são chamados maus em comparação com a bondade divina, porque nada é bom por si mesmo, senão somente Deus. Quanto ao que se acrescenta: "quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito bom aos que lho pedirem?", para o qual São Mateus escreveu: "dará coisas boas aos que lhe pedirem", mostra que o Espírito Santo é a plenitude dos dons de Deus, porque todas as vantagens que são recebidas da graça dos dons de Deus emanam desta fonte.
Enquanto as multidões, que pareciam menos instruídas, sempre admiravam os feitos do Senhor, os escribas e fariseus esforçavam-se por negá-los ou pervertê-los por meio de interpretações sinistras, como se fossem obras não da divindade, mas do espírito imundo; por isso, segue-se: "Alguns deles, porém, disseram: pelo poder de Beelzebub, príncipe dos demônios, expulsa os demônios". Beelzebub era o deus de Accaron1: pois Beel é o próprio Baal, e zebub significa mosca. Diz-se Beelzebub como se fosse "o homem das moscas"2; de cujo rito impuríssimo derivou-se o nome do príncipe dos demônios.
[1] Accaron era uma cidade filisteia. ↩
[2] Literalmente "o senhor das moscas". ↩
Ele respondeu não às palavras deles, mas aos pensamentos, para que assim ao menos fossem compelidos a crer no Seu poder, que via os segredos ocultos do coração.
O reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo não está dividido, o qual há de permanecer com estabilidade eterna. Renunciem, pois, os arianos a dizer que o Filho é inferior ao Pai, e o Espírito Santo inferior ao Filho, porque aqueles cujo reino é único, deles é também única a majestade.
Ou de outro modo. Designa por filhos dos judeus os exorcistas daquela gente, que expulsavam os demônios invocando a Deus; como se dissesse: se a expulsão dos demônios em vossos filhos é atribuída a Deus, e não aos demônios, por que em mim a mesma obra não haveria de ter a mesma causa? Portanto, eles mesmos serão vossos juízes, não pelo poder, mas pela operação, visto que eles atribuem a expulsão dos demônios a Deus, e vós a Beelzebub, príncipe dos demônios.
Chama de seu átrio ao mundo, que está posto na maldade, no qual até a vinda do Salvador gozava de domínio; porque descansava nos corações dos infiéis sem nenhuma contradição. Mas Cristo, sendo mais forte em poder, vencedor, ao libertar todos os homens, o expulsou; por isso acrescenta: "Mas se sobrevindo outro mais forte que ele o vencer, tomará todas as suas armas, nas quais confiava, e distribuirá seus despojos".
Suas armas são, portanto, a astúcia e os enganos da iniquidade espiritual; seus despojos, por sua vez, são os próprios homens que foram enganados por ele.
Cristo vencedor também distribui os despojos, o que é insígnia de triunfo, pois levando cativa a catividade, deu dons aos homens, ordenando alguns como apóstolos, outros evangelistas, estes como profetas, aqueles como pastores e doutores.
Isto também pode ser entendido a respeito de qualquer herege ou cismático, ou mesmo de um mau católico, do qual, no tempo do Batismo, havia saído o espírito imundo, e percorre lugares áridos; isto é, o astuto insidiador explora os corações dos fiéis, que foram purificados da frouxidão dos pensamentos instáveis, para ver se pode fixar ali passos de sua iniquidade. Diz, pois: "Voltarei à minha casa de onde saí"; no que devemos temer que a culpa, que acreditávamos extinta em nós, nos oprima por nosso descuido enquanto permanecemos ociosos. Encontra-a, porém, limpa com vassouras, isto é, purificada pela graça do Batismo da mácula dos pecados, mas não repleta de nenhuma diligência de boas obras. Pelos sete espíritos maus que toma consigo, designa todos os vícios. E são chamados mais perversos porque não só terá aqueles sete vícios que são contrários às sete virtudes espirituais, mas também, por hipocrisia, simulará possuir as próprias virtudes.
Pode-se também simplesmente entender que o Senhor acrescentou estas palavras para mostrar a distinção entre as obras de Satanás e as Suas próprias, a saber, que Ele sempre se apressa em purificar o que está contaminado, enquanto Satanás se apressa em contaminar com sujidades ainda mais graves o que foi purificado.
Enquanto os escribas e fariseus tentavam o Senhor e proferiam blasfêmias contra Ele, uma certa mulher com grande confiança confessou a sua encarnação; de onde se segue: Aconteceu, porém, que dizendo ele estas coisas, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse-lhe: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que amamentaste; onde confunde tanto a calúnia dos presentes quanto a perfídia dos futuros hereges. Pois, assim como então os judeus, blasfemando as obras do Espírito Santo, negavam o verdadeiro Filho de Deus, assim também os hereges, depois, negando que Maria sempre virgem, pela virtude cooperante do Espírito Santo, forneceu a matéria de sua carne ao unigênito Deus que iria nascer, disseram que não se deveria confessar que o filho do homem é verdadeiro e consubstancial ao Pai. Mas se a carne do Verbo de Deus, nascido segundo a carne, for declarada estranha à carne da Virgem Mãe, sem causa seria beatificado o ventre que o carregou e os seios que o amamentaram. Como, pois, se acreditaria ter Ele sido nutrido pelo leite daquela de cuja semente se nega ter sido concebido, quando, segundo os físicos, ambos os líquidos são considerados como emanando da mesma fonte de origem? Mas Ele afirma serem bem-aventurados não apenas aquela que mereceu gerar corporalmente o Verbo de Deus, mas também todos aqueles que procuram conceber espiritualmente o mesmo Verbo pela audição da fé, e pelo cuidado das boas obras, procuram gerá-lo e como que alimentá-lo, seja em seu próprio coração, seja no coração do próximo; pois segue-se: Mas ele disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam.
Mas a mesma Mãe de Deus é, por um lado, bem-aventurada porque foi feita ministra temporal do Verbo a ser encarnado; porém, por outro lado, muito mais bem-aventurada porque permaneceu eterna guardiã do mesmo Verbo sempre digno de ser amado. Com esta sentença, ele também fere os sábios dos judeus, que não buscavam ouvir e guardar a palavra de Deus, mas negá-la e blasfemá-la.
O Senhor havia sido questionado por duas espécies de perguntas, pois alguns o caluniam dizendo que expulsava os demônios em nome de Beelzebub, aos quais até este ponto respondeu; e outros, tentando-o, pediam dele um sinal do céu, e a estes agora começa a responder; por isso segue: E como as multidões afluíssem, começou a dizer: Esta geração, esta geração é perversa.
Ele lhes concede um sinal, não do céu, porque eram indignos de vê-lo; mas das profundezas do Inferno: um sinal, a saber, de Sua encarnação, não de Sua divindade; de Sua paixão, não de Sua glorificação.
Não certamente pelo poder de julgamento, mas pela comparação com um feito melhor; por isso segue-se que veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e eis que mais do que Salomão está aqui. Aqui, neste lugar, não é um pronome, mas um advérbio de lugar, e significa: isto é, presentemente entre vós está quem é incomparavelmente superior a Salomão.
Mas se a rainha do Austro, que sem dúvida é considerada uma eleita, se levantar no julgamento com os réprobos, mostra-se uma única ressurreição de todos os mortais, tanto dos bons como dos maus; e isto não conforme as fábulas dos judeus mil anos antes do juízo, mas no próprio juízo futuro.
O Senhor fala aqui de si mesmo, mostrando que, embora tenha dito acima que nenhum sinal seria dado à geração iníqua a não ser o sinal de Jonas, de modo algum, porém, a claridade de sua luz deveria ser ocultada aos fiéis. Ele mesmo acendeu a candeia quando encheu o vaso da natureza humana com a chama de sua divindade; esta candeia certamente não quis escondê-la dos crentes, nem colocá-la debaixo do alqueire, isto é, encerrada na medida da lei, ou confinada dentro dos limites de uma só nação dos judeus; mas a colocou sobre o candelabro, isto é, a Igreja, porque imprimiu em nossas frontes a fé de sua encarnação, para que aqueles que com fé verdadeira quiserem entrar na Igreja, possam contemplar claramente a luz da verdade. Por fim, ordena que se lembrem de purificar e castigar não somente as obras, mas também os pensamentos e as próprias intenções do coração; pois segue-se: a candeia do teu corpo é o teu olho.
Quando, porém, acrescenta: "Se, pois, o teu corpo for luminoso", etc., chama de corpo inteiro a todas as nossas obras. Se, portanto, fizeres algo bom com boa intenção, não tendo em tua consciência nenhuma parte de pensamento tenebroso; ainda que aconteça que algum próximo seja prejudicado por tua boa ação, tu, contudo, pela simplicidade do teu coração, serás agraciado aqui com a graça e, no futuro, com a glória da luz. O que significa quando acrescenta: "E como uma lâmpada resplandecente te iluminará". Estas coisas foram ditas especialmente contra a hipocrisia dos fariseus, que buscavam sinais com dolo.
São Lucas não diz: "e quando falava estas coisas"; mas "quando falava", para mostrar que Ele não havia terminado as palavras que se propusera a dizer imediatamente, mas com algumas palavras interpostas, foi convidado a almoçar com o fariseu.
Assim, depois que lhe foi anunciado que sua mãe e seus irmãos estavam lá fora, ele disse: "Pois aquele que fizer a vontade do Senhor, este é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe", entende-se que Ele entrou no banquete a pedido do fariseu.
Como se dissesse: Aquele que fez ambas as naturezas do homem, deseja que ambas sejam purificadas. Isto é contra os maniqueus, que pensam que somente a alma foi criada por Deus, mas que a carne foi criada pelo Diabo. Isto também é contra aqueles que detestam os pecados corporais, como a fornicação, o furto e outros semelhantes, como gravíssimos; enquanto os espirituais, que o Apóstolo não condena menos, desprezam como leves.
Ele diz "o que sobra", isto é, o que excede o necessário para o alimento e vestuário. Pois não se ordena fazer esmola de modo que te consumas na pobreza, mas para que, satisfeitas as necessidades do teu corpo, sustentes o indigente quanto puderes. Ou pode ser entendido assim: o que sobra, ou seja, o único remédio que resta para aqueles que estão preocupados com tantos crimes, dai esmola: esta palavra se aplica a todas as coisas que são feitas com proveitosa misericórdia. Pois não só dá esmola quem oferece alimento ao faminto e outras coisas semelhantes, mas também aquele que concede perdão ao pecador e ora por ele; e quem corrige e castiga com alguma pena corretiva, também dá esmola.
Quão miserável é a consciência que, ao ouvir a palavra de Deus, julga ser um insulto contra si mesma, e ao recordar a pena dos infiéis, sempre se reconhece como condenada.
Eles ouvem, com razão, que não tocavam as cargas da lei nem com um dedo; isto é, nem ao menos no mínimo cumpriam aquela lei que presumiam guardar e transmitir para ser guardada, contra o costume de seus pais, sem a fé e a graça de Cristo.
Eles simulavam, de fato, para captar o favor da multidão, que contemplavam com horror a perfídia de seus pais, honrando magnificamente as memórias dos profetas que foram mortos por eles; mas por esse mesmo testemunho manifestam quanto consentem com a iniquidade paterna, agindo com injúrias contra o Senhor anunciado pelos profetas; por isso segue-se: "Por isso também a sabedoria de Deus disse: Enviarei a eles profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e perseguirão".
Mas se a mesma sabedoria de Deus enviou profetas e apóstolos, cessem os hereges de atribuir a Cristo um princípio a partir da Virgem; deixem de proclamar um Deus da Lei e dos Profetas, e outro do Novo Testamento; embora frequentemente também a Escritura Apostólica chame de profetas não somente aqueles que predizem a futura encarnação de Cristo, mas também aqueles que anunciam as futuras alegrias do reino celestial. Porém, de modo algum creio que estes devam ser considerados superiores aos apóstolos na ordem do catálogo.
Pergunta-se como o sangue de todos os profetas e justos é exigido de uma só geração de judeus, quando muitos dos santos, tanto antes da encarnação como depois, foram mortos por outras nações. Mas é costume das Escrituras frequentemente considerar duas gerações de homens, a dos bons e a dos maus.
Por que desde o sangue de Abel, que foi o primeiro a sofrer o martírio, não é de admirar; mas por que até o sangue de Zacarias, é questionável, uma vez que muitos foram mortos depois dele até o nascimento de Cristo, e logo após seu nascimento, os Inocentes foram assassinados; a não ser, talvez, porque Abel era um pastor de ovelhas, e Zacarias era um sacerdote, e este foi morto no campo, aquele no átrio do templo, mártires de ambas as classes, isto é, tanto leigos quanto aqueles consagrados ao ofício do altar, sob seus nomes são representados.
Mas quão verdadeiros eram os crimes de perfídia, simulação e impiedade que os fariseus e doutores da lei ouviram contra si mesmos, eles próprios o testemunham, pois, em vez de se arrependerem, empenham-se em atacar com armadilhas o doutor da verdade; segue-se, com efeito: "E enquanto lhes dizia estas coisas, começaram os fariseus e os doutores da lei a insistir gravemente".
Pois assim como um pouco de fermento corrompe toda a massa de farinha, assim a hipocrisia privará a alma de toda a sinceridade e verdade das virtudes.
Ou Ele diz isto, porque aquelas coisas que os apóstolos outrora falaram e sofreram em meio às trevas das opressões e às sombras dos cárceres, agora, estando a Igreja propagada por todo o orbe, com a leitura de seus atos, são pregadas publicamente. Em verdade, quando diz será pregado sobre os telhados, fala segundo o costume da província da Palestina, onde costumam habitar sobre os telhados; pois seus telhados não são feitos à nossa maneira com cumes elevados, mas são feitos planos e nivelados. Portanto, diz será pregado sobre os telhados; isto é, será dito abertamente para que todos ouçam.
Portanto, é vã loucura a dos que lançam os membros mortos dos mártires para serem despedaçados pelas feras e aves, uma vez que de modo algum podem impedir a onipotência de Deus de vivificá-los e ressuscitá-los.
O dipondius é um tipo de peso levíssimo, composto de dois asses.
Não se deve ler "Vós sois mais numerosos", o que se referiria à comparação de número, mas "vós sois de mais valor", isto é, de maior dignidade aos olhos de Deus.
Foi dito anteriormente que todas as obras e palavras ocultas devem ser reveladas; agora, porém, conclui que esta revelação não se realizará em qualquer reunião insignificante, mas na presença da cidade celestial e do Rei e Juiz eterno, dizendo: "Digo-vos, pois: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos Anjos de Deus".
Mas para que não se julgasse que, por ter dito que aqueles que o negarem serão negados, que a condição de todos, isto é, tanto daqueles que negam deliberadamente quanto daqueles que negam por fraqueza ou ignorância, fosse considerada igual, logo acrescentou: "Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas àquele que blasfemar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado".
Ou de outro modo. Quem diz que as obras do Espírito Santo são de Beelzebub, a este não será perdoado nem no presente século, nem no futuro; não porque negamos que ele possa ser perdoado por Deus, se puder fazer penitência; mas porque acreditamos que este blasfemador, por exigência de seus méritos, assim como nunca chegará ao perdão, também não chegará aos próprios frutos dignos de penitência, segundo aquilo: "ceguei os olhos deles para que não se convertam, e eu os cure".
Não obstante, nem todos aqueles que confessam que o Espírito Santo não existe, ou que não é Deus, mas que é inferior ao Pai e ao Filho, são culpados deste crime de blasfêmia irremissível: porque o fazem levados pela ignorância humana, não pela inveja diabólica, como os príncipes dos judeus.
Pois quando somos levados por causa de Cristo diante dos juízes, devemos oferecer nossa vontade por Cristo; mas quanto à resposta, a graça do Espírito Santo nos será proporcionada; de onde se segue: "Porque o Espírito Santo vos ensinará naquela mesma hora o que deveis dizer".
Aquele que quer impor o incômodo da divisão de terras ao Mestre que está recomendando as alegrias da paz celestial, com razão é chamado homem, segundo aquilo: "Uma vez que há entre vós inveja, contenda e divisões, não sois homens?"(1 Coríntios 3,3).
Por ocasião deste tolo peticionário, empenhou-se em proteger tanto as multidões quanto os discípulos contra a peste da avareza, igualmente com preceitos e exemplos; por isso segue: E disse-lhes: Vede e acautelai-vos de toda avareza. Diz, pois, de toda avareza, porque algumas coisas parecem ser feitas simplesmente, mas o juiz interno distingue com que intenção são feitas.
Este é um néscio, e será arrebatado durante a noite. Portanto, aquele que deseja ser rico para Deus, não entesourar para si, mas distribua seus bens aos pobres.
Isto é, vocês sois mais valiosos: porque o animal racional, como o homem, está ordenado de modo mais sublime na natureza das coisas do que os irracionais, como são as aves.
Deixai, portanto, o cuidado de cobrir o corpo Àquele por cuja providência vedes ter acontecido que tendes um corpo de tamanha estatura.
Deve-se notar, contudo, que Ele não diz: não queirais buscar, ou estar solícitos sobre a comida, ou bebida, ou vestimenta; mas sim sobre o que comereis ou bebereis: onde me parece que são repreendidos aqueles que, desprezando o alimento ou a vestimenta comum, buscam para si alimentos ou vestimentas mais sofisticados ou mais austeros do que aqueles com quem vivem.
Pois ele indica que uma coisa é o que se dá principalmente, outra o que se acrescenta: porque em nossa intenção deve estar a eternidade, mas em nosso uso deve estar a temporalidade.
O Senhor também chama de pequeno o rebanho dos eleitos, seja em comparação com o maior número dos réprobos, ou melhor, por causa da devoção à humildade.
Como se dissesse: não temais que faltem as coisas necessárias desta vida àqueles que lutam pelo reino de Deus; mais ainda, vendei o que possuís para dar esmolas, o que é feito dignamente quando alguém, tendo uma vez por amor ao seu Senhor renunciado a todos os seus bens, não obstante, depois disso trabalha com suas mãos, para que possa tanto ganhar o seu sustento quanto dar esmolas.
Isto é, fazendo esmolas, cuja recompensa permanece eternamente; onde não se deve pensar que este seja um preceito para que nenhum dinheiro seja reservado pelos santos, seja para uso próprio ou dos pobres; uma vez que se lê que o próprio Senhor, a quem os Anjos serviam, tinha bolsas onde conservava as ofertas dos fiéis; mas para que não se sirva a Deus por causa dessas coisas, e a justiça não seja abandonada por temor da pobreza.
Seja isso tomado simplesmente, que o dinheiro guardado perece, mas dado ao próximo produz fruto perene nos céus; ou assim, que o tesouro das boas obras, se for acumulado por ocasião de vantagem terrena, facilmente se corrompe e perece, mas se for reunido somente com intenção celestial, não pode ser maculado, nem exteriormente pelo favor dos homens, como pelo ladrão que rouba de fora, nem interiormente pela vanglória, como pela traça que destrói por dentro.
Isto, porém, deve ser entendido não somente acerca do dinheiro, mas de todas as paixões: para o luxurioso, os banquetes são tesouros; para o lascivo, as diversões; para o amante, a sensualidade.
O Senhor havia ensinado duas coisas na parábola anterior; a saber, que Ele viria subitamente, e que eles deveriam esperá-Lo preparados. Mas não fica claramente evidente sobre qual destas coisas, ou se sobre ambas, Pedro interrogou, ou a quem ele comparou a si mesmo e a seus companheiros, quando disse "dizes isto a nós ou a todos?". E certamente deve-se entender que, ao dizer "nós" e "todos", não se referia a outros senão aos apóstolos e aos semelhantes aos apóstolos, e aos demais fiéis; ou aos cristãos e infiéis; ou àqueles que, morrendo individualmente, isto é, um por um, recebem a vinda de seu juiz querendo ou não querendo, e àqueles que no juízo universal serão encontrados vivos na carne. É admirável, porém, se Pedro duvidou que todos devam viver sóbria, pia e justamente, esperando a bem-aventurada esperança; ou que o juízo futuro seria inesperado para cada um e para todos. Donde resta entender que, conhecendo bem estas duas coisas, ele perguntava aquilo que podia não saber; a saber, se aqueles sublimes preceitos da vida celestial, pelos quais ordenara vender os bens, fazer bolsas que não envelhecem, vigiar com os lombos cingidos e lâmpadas ardentes, pertenciam somente aos apóstolos e seus semelhantes, ou a todos os que hão de se salvar.
Pois quanto a distância que existe entre os méritos de bons ouvintes e bons doutores, tanta também há entre suas recompensas: a estes, ao chegar e encontrá-los vigilantes, os fará sentar à mesa; mas àqueles, quando os encontrar dispensando fiel e prudentemente, os colocará sobre tudo o que possui, isto é, sobre todas as alegrias do reino celestial: não certamente para que somente estes tenham domínio sobre elas, mas para que desfrutem de sua posse eterna mais abundantemente que os demais santos.
Nota que, entre os vícios do servo mau, é atribuído o fato de pensar que o retorno de seu senhor é tardio; porém, entre as virtudes do bom, não é numerado que ele esperasse que este fosse rápido, mas apenas que serviu fielmente. Nada é melhor, portanto, do que suportar pacientemente ignorar aquilo que não pode ser conhecido; mas apenas nos esforcemos para que sejamos encontrados idôneos.
Neste servo é narrada a condenação de todos os superiores maus, os quais, negligenciado o temor do Senhor, não só se entregam à luxúria, mas também estimulam os seus subordinados com injúrias; ainda que também possa ser entendido tipicamente que ferir os servos e as servas é corromper os corações dos fracos com mau exemplo; e comer, beber e embriagar-se é ocupar-se com crimes e seduções mundanas, que enlouquecem o homem. Sobre a sua pena, acrescenta-se: "virá o senhor daquele servo no dia em que não espera", isto é, no dia do juízo ou da morte, "e o dividirá".
Ou o dividirá, separando-o da comunhão dos fiéis, e associando-o àqueles que nunca pertenceram à fé; por isso segue: e porá a sua parte com os infiéis; porque aquele que não tem cuidado dos seus e dos domésticos, negou a fé e é pior que um infiel, como diz o Apóstolo.
Ou de outro modo. Muitas vezes muito é dado também a certas pessoas privadas, às quais é concedido tanto o conhecimento da vontade do Senhor quanto a faculdade de executar o que conhecem; muito, porém, é confiado àquele a quem, junto com sua própria salvação, é também entregue o cuidado de apascentar o rebanho do Senhor. Portanto, aqueles que foram dotados de maior graça, se cometerem faltas, seguir-se-á maior vingança; contudo, a mais branda de todas as penas será a daqueles que, além do pecado que trouxeram originalmente, nenhum outro acrescentaram; e quanto aos demais que acrescentaram, cada um terá uma condenação tanto mais tolerável quanto menor foi sua iniquidade aqui.
Acrescenta, porém: "Com batismo tenho que ser batizado"; isto é, primeiro devo ser banhado com a tintura do próprio sangue; e assim inflamar os corações dos que creem com o fogo do Espírito.
Ele manifesta como a terra há de ser abrasada depois do batismo da sua paixão e da vinda do fogo espiritual, acrescentando: "Pensais que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas separação".
Ou de outro modo. Pelos três são significados aqueles que têm a fé na Trindade; pelos dois, os infiéis, que divergem da unidade da fé. O pai é o Diabo, cujos filhos éramos por imitação; mas depois que veio aquele fogo celestial, Ele nos separou uns dos outros, e mostrou outro pai, que está nos céus. A mãe é a sinagoga, e a filha é a Igreja primitiva, que suportou a perseguição da mesma sinagoga da qual descende, e também contradisse a mesma sinagoga com a verdade da fé. A sogra é a sinagoga, a nora é a Igreja dos gentios: porque o esposo da Igreja, Cristo, é filho da sinagoga segundo a carne. A sinagoga, portanto, está dividida contra a nora e contra a filha, as quais persegue nos que creem de ambos os povos; mas também estas estão divididas contra a sogra e a mãe, porque não querem aceitar a circuncisão carnal.
Ou aqueles que, a partir da mudança dos elementos, puderam facilmente prever, quando quiseram, o estado dos ventos, poderiam também, se desejassem, compreender o tempo da vinda do Senhor pelos ditos dos profetas.
Mas para que ninguém da multidão se desculpasse de não poder comprovar o curso dos tempos por ignorância da leitura profética, Ele vigilantemente acrescenta: "Por que também vós mesmos não julgais o que é justo?" Mostrando que eles, mesmo desconhecendo as escrituras, poderiam pelo engenho natural discernir que Aquele que fez obras que nenhum outro havia feito, estava acima do homem e era Deus; e que, portanto, após as injustiças deste século, viria o justo juízo do Criador.
Ou de outra maneira. Nosso adversário no caminho é a palavra de Deus contrária aos nossos desejos carnais na vida presente: da qual se libera aquele que se submete aos seus preceitos: caso contrário, será entregue ao juiz, porque, pelo desprezo da palavra do Senhor, o pecador será considerado réu no exame do juiz: o qual o juiz entregará ao executor, isto é, ao espírito maligno, para a vingança: que o lançará no cárcere, isto é, no Inferno; onde, porque sempre pagará as penas sofrendo, mas nunca saldando completamente, não poderá conseguir o perdão, nunca sairá de lá; mas com a terribilíssima serpente, o Diabo, pagará castigos perpétuos.
Mas como não fizeram penitência, no quadragésimo ano da paixão do Senhor, vindo os romanos (a quem Pilatos representava, como pertencente à nação deles) e começando pela Galileia (onde tinha começado a pregação do Senhor), destruíram completamente aquela nação ímpia; e não somente mancharam com sangue humano os átrios do templo, onde costumavam oferecer os sacrifícios, mas também o interior da casa.
Pois Pilato, que se interpreta "boca do martelador", significa o diabo, sempre pronto para ferir; o sangue expressa o pecado, os sacrifícios representam as boas ações. Pilato, portanto, mistura o sangue dos galileus com seus sacrifícios, quando o diabo mancha a esmola e outras boas obras dos fiéis, seja pela deleição da carne, seja pela ambição do louvor humano, seja por qualquer outra peste. Aqueles hierosolimitanos esmagados pela queda da torre significam os judeus que, recusando-se a fazer penitência, perecerão dentro de suas próprias muralhas. Não é em vão o número dezoito, que entre os gregos é representado por I e H (isto é, pelas mesmas letras com as quais começa o nome de Jesus): significa, com efeito, que os judeus hão de perecer principalmente porque não quiseram receber o nome do Salvador. Aquela torre significa aquele que é a torre da fortaleza, que merecidamente está em Siloé, que se interpreta "enviado"; pois significa aquele que, enviado pelo Pai, veio ao mundo, e que esmagará todos sobre os quais cair.
O próprio Senhor que instituiu a sinagoga por Moisés, nascido na carne apareceu, e frequentemente ensinando na sinagoga buscou o fruto da fé, mas na mente dos fariseus não o encontrou; por isso segue-se: e veio buscando fruto nela, e não encontrou.
O que, de fato, foi executado pelos romanos, pelos quais a nação judaica foi extirpada e expulsa da terra prometida.
Mas a filha de Abraão é toda alma fiel, ou a Igreja reunida de ambos os povos na unidade da fé. Há, portanto, o mesmo mistério em soltar o boi ou o asno do presépio e levá-los para beber, como em erguer a filha de Abraão das amarras de nossas inclinações.
O homem Cristo é, o horto é a Igreja, que deve ser cultivada com suas doutrinas; dele bem se diz ter recebido o grão, porque os dons que nos concedeu juntamente com o Pai através de sua divindade, recebeu conosco por sua humanidade. Cresceu, porém, a pregação do Evangelho, disseminada por todo o orbe; cresce também na mente de cada crente, porque ninguém se torna perfeito de repente. Ao crescer, não surge à maneira das ervas, que rapidamente secam, mas à semelhança das árvores. Os ramos desta árvore são as diversidades de dogmas, nos quais as almas castas, que tendem para o alto com as asas das virtudes, nidificam e repousam.
O Satum é um tipo de medida, conforme o costume da província da Palestina, que contém um módio e meio.
Ou, pelo fermento Ele diz amor, que faz ferver e excita a mente. A mulher, isto é, a Igreja, esconde o fermento do amor em três medidas, porque ela ordena que amemos a Deus de todo o coração, de toda a alma e com todas as nossas forças. E isto até que fermente tudo, isto é, até que a caridade transforme toda a mente em sua perfeição, o que aqui se inicia, mas no futuro se aperfeiçoará.
Provocados pelo amor à salvação; e não poderão, desencorajados pela aspereza do caminho
O pai de família é Cristo, que embora esteja em toda parte pela sua divindade, já se diz estar dentro daqueles a quem alegra no céu com a sua presença visível; mas está como que fora para aqueles que, lutando nesta peregrinação, ajuda ocultamente. Ele entrará, porém, quando conduzir toda a Igreja à contemplação de Si mesmo; fechará a porta, quando tirar dos réprobos o lugar para a penitência; os quais, estando fora, baterão, isto é, separados dos justos implorarão em vão a misericórdia que desprezaram; donde segue-se que, respondendo, lhes dirá: Não sei de onde sois.
Ou misticamente, come diante do Senhor e bebe quem recebe avidamente o alimento da palavra; por isso, como que explicando, acrescenta-se: "Em nossas praças ensinaste". Pois a Escritura nos lugares mais obscuros é alimento, porque, ao ser explicada, é como que partida e engolida; é bebida nos lugares mais claros, onde é sorvida tal como se encontra. Mas o banquete das festividades não beneficia aquele a quem a piedade da fé não recomenda; o conhecimento das Escrituras não torna conhecido por Deus aquele a quem a iniquidade das obras mostra indigno; por isso, acrescenta: "E vos dirá: Não sei de onde sois. Apartai-vos de mim, operários de iniquidade".
Mostram-se duas penas da Geena; a saber, do frio e do calor; por isso segue: "ali haverá choro e ranger de dentes": pois o choro costuma ser provocado pelo ardor, e o ranger de dentes pelo frio. Ou o ranger de dentes revela um sentimento de indignação, porque aquele que se arrepende tarde, também tarde se irrita consigo mesmo.
Muitos também que antes eram fervorosos, depois se tornam tíbios; muitos que antes eram frios, subitamente se inflamam; muitos desprezados neste mundo, serão glorificados no futuro; outros, gloriosos entre os homens, no fim serão condenados.
Por causa de suas artimanhas e emboscadas, Ele chama Herodes de raposa, animal cheio de astúcia, que se esconde em tocas para preparar armadilhas, que exala um odor fétido e nunca caminha por caminhos retos; todas estas características convêm aos hereges, dos quais Herodes é figura, que tentam extinguir Cristo, isto é, a humildade da fé cristã, nos corações dos fiéis.
Por Jerusalém, Ele não se refere às pedras e aos edifícios da cidade, mas a seus habitantes, e Ele a chora com afeto de pai.
Belamente, Aquele que chamara Herodes, que tramava sua morte, de raposa, compara-se a si mesmo com uma ave; pois as raposas sempre tendem a armar ciladas fraudulentamente para as aves.
Essa mesma cidade, que Ele havia chamado de ninho, agora também chama de casa dos judeus. Pois, morto o Senhor, vieram os romanos e, saqueando-o como um ninho vazio, levaram o lugar, a gente e o reino deles.
Ou diz "não me vereis", como se dissesse: a não ser que façais penitência e confesseis que eu sou o Filho do Pai Onipotente, na segunda vinda não vereis a minha face.
Quando se diz que Jesus respondeu, refere-se ao que foi dito antes: "e eles o observavam"; pois o Senhor conhece os pensamentos dos homens.
Mas os interrogados calam-se com razão, porque veem que qualquer coisa que dissessem seria contra si mesmos. Pois se é lícito curar no dia de sábado, por que observam ao Salvador se ele cura? Se não é lícito, por que eles mesmos cuidam de seus rebanhos no sábado? Por isso segue-se: mas eles se calaram.
No que assim convence os fariseus que o observavam, condenando-os também de avareza, pois na libertação do animal consultavam sua própria avareza. Quanto mais, portanto, devia Cristo libertar o homem, que é muito melhor que um animal!
Portanto, por um exemplo apropriado, resolve a questão, para mostrar que violam o sábado na obra da cobiça aqueles que o acusam de violar o sábado na obra da caridade; por isso segue: "E eles não podiam responder a estas coisas". Misticamente, o hidrópico é comparado àquele que é oprimido pelo fluxo excessivo dos prazeres carnais: pois a doença da hidropisia deriva seu nome do humor aquoso.
Muito bem, portanto, no exemplo ele menciona o boi e o asno, para significar ou os sábios e os ignorantes, ou ambos os povos, isto é, o judeu oprimido pelo jugo da lei, e o gentio não dominado por razão alguma: pois o Senhor tira todos os que estão submersos no poço da concupiscência.
Mas como o Evangelista chama esta admoestação de parábola, devemos examinar brevemente o que significa misticamente. Quem quer que seja convidado a participar nas núpcias de Cristo e da Igreja, unido aos membros da Igreja pela fé, não se exalte, como se fosse superior aos demais, gloriando-se de seus méritos: pois dará lugar a um convidado mais honrado, quando for superado pela agilidade daqueles que o seguiram em Cristo, e com rubor ocupa o último lugar, quando, reconhecendo que os outros são melhores, humilha qualquer pensamento elevado que tenha sobre suas próprias obras. Mas alguém se coloca no último lugar, de acordo com aquele dito: "quanto maior és, humilha-te em todas as coisas". E quando o senhor vier, encontrando alguém humilde, beatificando-o com o nome de amigo, ordenará que suba mais alto: pois quem quer que se humilhe como uma criança, este será o maior no reino dos céus. E belamente é dito "então terás glória", para que não comeces a buscar agora o que está reservado para ti no fim. Também se pode entender isto nesta vida; porque diariamente o Senhor entra em suas núpcias, desprezando os soberbos e frequentemente concedendo aos humildes tantos dons de seu espírito, que a assembleia dos que estão à mesa, isto é, dos fiéis, os glorifica com admiração. Da conclusão geral que se segue, fica claramente manifesto que o discurso precedente do Senhor deve ser entendido tipicamente. Pois nem todo aquele que se exalta diante dos homens é humilhado; ou quem se humilha à vista dos homens é exaltado por eles: mas quem se eleva por seus méritos, será humilhado pelo Senhor; e quem se humilha por seus benefícios, será exaltado por Ele.
Não proíbe, como um delito, que os irmãos, os amigos e os ricos celebrem mutuamente convites; mas mostra que, assim como outros comércios da necessidade humana, de nada vale para alcançar as recompensas da vida celestial; por isso acrescenta: "não seja que também eles te convidem novamente, e te seja dada retribuição". Não diz: "e te será pecado". Semelhante a isto é o que diz em outro lugar: "e se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que graça tereis?" Há, no entanto, certos banquetes mútuos entre irmãos e vizinhos, que não só recebem retribuição no presente, mas também condenação no futuro; aqueles que são celebrados por contribuição de todos, ou costumam ser oferecidos por turnos pelos companheiros: nos quais se reúnem para que se façam coisas vergonhosas, e pela abundância se incite diverso prazer da luxúria.
E ainda que todos ressuscitem, diz-se, contudo, a ressurreição dos justos, pois nesta ressurreição não duvidam que são bem-aventurados; portanto, aqueles que convidam os pobres para o banquete receberão recompensas no futuro; mas aquele que convida amigos, irmãos e ricos, já recebeu a sua recompensa. Mas se o faz por Deus, seguindo o exemplo dos filhos de Jó, assim como as demais obrigações do amor fraterno, aquele mesmo que ordenou recompensará.
Mas porque alguns percebem este pão apenas pela fé, como que o cheirando, mas na verdade desdenhando de atingir sua doçura através da verdadeira degustação; na parábola seguinte o Senhor repreende a lentidão de tais pessoas, mostrando-a indigna dos banquetes celestiais; pois segue-se: E Ele lhe disse: Um homem fez uma grande ceia, e convidou a muitos.
Existe diferença entre renunciar a todas as coisas e deixar todas as coisas: pois é próprio de poucos homens perfeitos deixar todas as coisas, isto é, postergar os cuidados do mundo; enquanto que é próprio de todos os fiéis renunciar a todas as coisas, isto é, possuir as coisas do mundo de tal modo que, por meio delas, não sejamos retidos no mundo.
Havia dito anteriormente que a torre das virtudes não somente deveria ser iniciada, mas também completada: a isto pertence o que se diz: boa é a sal. É bom temperar os segredos do coração com o sal da sabedoria espiritual, ou melhor, com os apóstolos tornar-se sal da terra.
Como se dissesse: se alguém, uma vez iluminado pelo condimento da verdade, retornar à apostasia, por qual outro doutor será corrigido? Aquele que, tendo ele mesmo saboreado a doçura da sabedoria, a rejeitou, quer aterrorizado pelas adversidades do mundo, quer seduzido por seus atrativos; por isso segue: não é útil nem para a terra, nem para o esterco; mas será lançado fora. Pois o sal, quando deixa de servir para condimentar os alimentos e secar as carnes, já não será apto para nenhum uso: nem é útil para a terra, cuja germinação impede quando nela lançado, nem será proveitoso para o esterco na agricultura. Assim, aquele que, após o conhecimento da verdade, retrocede, nem ele mesmo pode produzir fruto de boas obras, nem é capaz de cultivar outros; mas deve ser lançado fora, isto é, separado da unidade da Igreja.
Que ele ouça também não desprezando, mas obedecendo e fazendo o que diz
Porém apascentar porcos é praticar aquelas coisas nas quais os espíritos imundos se deleitam. Segue-se: E desejava encher seu ventre das siliquas que os porcos comiam.
Pois ser enviado à vila é estar subjugado ao desejo da substância mundana.
Ele de modo algum presume aspirar ao afeto de filho, que não duvida que todas as coisas que são do pai são suas, mas deseja a condição de servo assalariado, como quem vai servir por uma recompensa; mas declara que nem mesmo esta ele poderia merecer, exceto pela dignação paterna.
Isto é, em sua operação, para que através das obras a fé resplandeça, e pela fé as obras sejam confirmadas.
Enquanto os escribas e fariseus murmuravam sobre Ele receber pecadores, o Salvador lhes propôs três parábolas sucessivamente. Nas duas primeiras, Ele insinua a alegria que tem com os anjos na salvação dos penitentes. Mas nesta terceira, não apenas demonstra Sua própria alegria e a de Seus anjos, mas também repreende o murmúrio daqueles que eram invejosos; pois diz: "E seu filho mais velho estava no campo".
Depois que o Salvador repreendeu em três parábolas aqueles que murmuravam pela recepção dos penitentes, logo acrescenta uma quarta e quinta parábola sobre dar esmola e praticar a frugalidade; pois a ordem de pregação mais adequada é que depois da penitência se acrescente a esmola; por isso diz: E dizia também a seus discípulos: Havia um homem rico que tinha um administrador.
O arrendatário é certamente o governante da propriedade rural, por isso recebeu o nome derivado da propriedade; já o ecônomo é o administrador tanto do dinheiro quanto dos frutos e de todas as coisas que o senhor possui.
Cados em grego é uma ânfora contendo três urnas. Segue-se que disse a ele: "Toma tua cautela, senta-te depressa e escreve cinquenta", perdoando-lhe metade da dívida. Segue-se depois que disse a outro: "E tu, quanto deves?" Ele respondeu: "Cem coros de trigo". Um coro contém trinta módios. Segue-se que lhe disse: "Toma tuas letras e escreve oitenta", perdoando-lhe a quinta parte. Assim, simplesmente pode-se entender que qualquer um que alivie a indigência do pobre, seja pela metade ou pela quinta parte, será agraciado com a recompensa de sua misericórdia.
Os filhos da luz e os filhos deste século são chamados, da mesma maneira que os filhos do reino e os filhos da perdição; pois cada um é denominado filho daquele cujas obras realiza.
Ouça, pois, o avarento que não se pode servir simultaneamente às riquezas e a Cristo; e, contudo, Ele não disse: "quem tem riquezas", mas "quem serve às riquezas"; pois aquele que é servo das riquezas, guarda-as como servo; mas aquele que sacudiu o jugo da servidão, distribui-as como senhor. Mas quem serve a mamona, serve certamente àquele que, por mérito de sua perversidade, é preposto sobre estas coisas terrenas e é chamado príncipe deste século.
Cristo havia aconselhado os escribas e fariseus a não presumirem de sua própria justiça, mas a receberem os pecadores penitentes e a redimirem seus pecados por meio de esmolas; mas eles escarneciam do mestre da misericórdia, da humildade e da parcimônia. Por isso diz: "Ouviam, porém, todas estas coisas os fariseus, que eram avarentos, e zombavam dele", por duas razões: ou porque ordenava coisas menos úteis, ou porque sugeria superfluamente aquilo que eles já faziam.
Os fariseus, porém, zombavam do Salvador quando este disputava contra a avareza, como se Ele ensinasse coisas contrárias à lei e aos profetas, nos quais se lê que muitos homens riquíssimos agradaram a Deus; e também o próprio Moisés predisse ao povo que governava que, se seguisse a lei, abundaria em todos os bens terrenos; a estes o Senhor, respondendo, mostra que entre a lei e o Evangelho, assim como nas promessas, também nos preceitos não há mínima diferença; por isso acrescenta: a lei e os profetas até João.
Mas para que não pensassem que, quando disse "a lei e os profetas até João", estivesse anunciando a destruição da lei ou dos profetas, Ele afasta essa ideia acrescentando: "Mais fácil é passarem o céu e a terra do que cair um só ápice da lei". Porque passa a figura deste mundo, mas da lei nem mesmo o cume de uma só letra, isto é, nem as coisas mínimas carecem de sacramentos espirituais. E, contudo, a lei e os profetas até João, porque não se podia mais profetizar como vindouro aquele que, pela pregação de João, já estava claramente presente. E quanto ao que predissera sobre a perpétua inviolabilidade da lei, Ele confirma com um testemunho tirado dela, como exemplo, dizendo: "Todo aquele que deixa sua esposa e casa com outra, comete adultério; e quem casa com a repudiada pelo marido, comete adultério"; para que deste único exemplo aprendessem que Ele não veio para dissolver, mas para cumprir os preceitos da lei.
O Senhor havia advertido acima que se fizessem amigos das riquezas de iniquidade; ouvindo isso, os fariseus zombavam dele; em seguida, confirma com exemplos o que havia proposto, dizendo: "Havia um certo homem rico", etc.
Fala segundo o costume da região da Palestina; sendo que entre os antigos judeus a pena para os crimes maiores era que fossem submergidos no profundo com uma pedra atada. E na verdade, é mais útil para um inocente concluir a vida corpórea com uma pena, ainda que atrocíssima, contudo temporal, do que, sendo culpado para com o irmão, merecer a morte perpétua da alma. Corretamente, aquele que pode ser escandalizado é chamado de pequenino: pois aquele que é grande, o que quer que veja, o que quer que sofra, não se desvia da fé. Portanto, tanto quanto pudermos sem pecado, devemos evitar o escândalo dos próximos. Se, porém, o escândalo é tomado da verdade, é mais útil permitir o escândalo do que abandonar a verdade.
Deve-se considerar, porém, que Ele não ordena perdoar indiscriminadamente a quem peca, mas àquele que se arrepende: pois com esta ordem podemos evitar os escândalos, se não causarmos dano a ninguém, se corrigirmos o pecador com zelo de justiça, se abrirmos as entranhas da misericórdia ao arrependido.
Pelo número sete não se estabelece um limite ao perdão a ser concedido, mas ordena-se perdoar ou todos os pecados, ou sempre perdoar ao penitente: pois costuma-se frequentemente indicar pelo número sete a totalidade de qualquer coisa ou tempo.
Ou bem, o Senhor aqui compara a fé perfeita ao grão de mostarda, porque em sua aparência é humilde, mas fervorosa no coração. Em sentido místico, pela amoreira – cujo fruto e ramos brilham com uma cor vermelha de sangue – expressa-se o Evangelho da cruz, que pela fé dos apóstolos foi desarraigado do povo judeu, no qual estava contido como que em linhagem de sua origem, através das palavras de pregação, e foi plantado no mar dos gentios.
Ou o servo sai do campo, quando, interrompida por um tempo a obra da pregação, o doutor recorre à consciência, reconsiderando consigo mesmo seus atos ou palavras; ao qual o Senhor não diz imediatamente passa, desta vida mortal; recosta-te, isto é, reconforta-te na sede eterna da vida bem-aventurada.
Ele manda preparar com o que ceie, isto é, após o trabalho da pregação pública, mostrar também a humildade da própria consideração: com tal ceia o Senhor deseja ser alimentado. Cingir-se, porém, é conter a mente humilhada de todos os limites das cogitações flutuantes, pelas quais os passos das obras costumam ser impedidos: pois quem cinge as vestes, o faz para que ao caminhar não seja envolto para cair. Servir a Deus, na verdade, é professar não ter qualquer força sem o auxílio de sua graça.
Como se dissesse: Depois que eu tiver me deleitado com a obra da tua pregação, e tiver sido restaurado com o seleto alimento da tua compunção, então finalmente passarás, e te alimentarás eternamente com o banquete eterno da minha sabedoria.
Servos, porque comprados por um preço; inúteis, porque o Senhor não necessita de nossos bens, ou porque os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação com a glória futura. Esta, portanto, é a perfeição da fé nos homens, quando, tendo cumprido todos os preceitos, reconhecem-se imperfeitos.
Ele caiu sobre a face, porque se envergonha dos males que se lembra ter cometido: e é ordenado a levantar-se e ir, porque aquele que, conhecendo sua própria enfermidade, jaz humildemente, é exortado, pela consolação da palavra divina, a avançar para obras mais dignas. Se, porém, a fé salvou aquele que se inclinou para agradecer, portanto a perfídia perde aqueles que negligenciaram dar glória a Deus pelos benefícios recebidos; eis por que se deve aumentar a fé mediante a humildade, assim como se determina na parábola anterior, assim aqui se demonstra pelas próprias ações.
Pois aquele tempo não pode ser observado nem pelos homens, nem pelos anjos, como o tempo da encarnação que foi manifestado pelos vaticínios dos profetas e pelos anúncios dos anjos; por isso acrescenta: nem dirão: eis aqui, ou: eis ali. Ou de outro modo: Perguntam sobre o tempo do reino de Deus, porque, como se diz adiante, pensavam que, vindo o Senhor a Jerusalém, imediatamente o reino de Deus seria manifestado; por isso o Senhor responde que o reino de Deus não virá com observação.
Ou o reino de Deus significa que Ele próprio está colocado no meio deles, isto é, reinando em seus corações pela fé.
Ou diz o dia de Cristo o reino de Deus, que esperamos haver de vir; e bem diz um só dia, porque naquela glória da bem-aventurança não há nenhuma interrupção de trevas. É bom, portanto, desejar o dia de Cristo. Todavia, não devemos pela grandeza do desejo criar sonhos para nós, como se estivesse iminente o dia do Senhor; donde segue e vos dirão: eis aqui, eis ali: não queirais ir, nem os sigais.
E belamente diz coruscando sob o céu: porque o juízo será realizado sob o céu, isto é, no meio do ar, conforme aquilo do Apóstolo: seremos arrebatados com eles nas nuvens ao encontro de Cristo no ar. Se, porém, o Senhor aparecer no juízo como um relâmpago, ninguém então poderá permanecer oculto em sua mente: porque pelo próprio fulgor do juiz tudo será penetrado. Pode-se também entender esta resposta do Senhor sobre aquela sua vinda pela qual diariamente vem à Igreja. Pois, muitas vezes os hereges perturbaram a Igreja, dizendo que em seu dogma permanecia a fé de Cristo, a ponto de os fiéis daqueles tempos desejarem que o Senhor, ainda que por um dia, se fosse possível, voltasse à terra, para que por si mesmo revelasse como é a verdade da fé. E não vereis, diz ele: porque não é necessário que o Senhor retorne com visão corporal: porque uma vez mostrou o vigor do Evangelho por todo o mundo universal.
Ele chama de geração não somente a dos judeus, mas também a de todos os réprobos, pelos quais ainda agora o Filho do homem, em seu corpo, isto é, na Igreja, padece muitas coisas e é reprovado. Ele insere, porém, algo sobre sua paixão, falando sobre a glória de sua vinda, para que mitigassem a dor de sua paixão com a esperança da prometida glorificação, e ao mesmo tempo preparassem a si mesmos, se amassem a glória do reino, a não temer o perigo da morte.
A vinda do Senhor, que Ele havia comparado ao raio que rapidamente atravessa os céus, agora Ele compara aos dias de Noé e Lot, quando uma súbita destruição sobreveio aos homens; por isso diz: "E como aconteceu nos dias de Noé, assim será nos dias do Filho do homem".
Misticamente, Noé constrói a arca, quando o Senhor edifica a Igreja reunindo os fiéis de Cristo como madeiras polidas: e quando ela estiver perfeitamente concluída, Ele entra nela, quando no dia do juízo, como eterno habitante, a ilumina com a presença da sua visão. Mas enquanto a arca é edificada, os iníquos se entregam à lascívia; quando, porém, Ele entra, eles perecem: porque aqueles que aqui insultam os santos em suas lutas, lá, quando estes forem coroados, serão castigados com a eterna condenação.
Deixando de lado aquele infando crime dos sodomitas, recorda somente aqueles delitos que poderiam ser considerados leves ou nulos, para que compreendas com que pena são castigados os ilícitos, se os lícitos praticados com imoderação são punidos com fogo e enxofre; pois segue: "E no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, e a todos destruiu".
Porque aquele que agora, não sendo visto, vê todas as coisas, aparecendo então, julgará todas as coisas. E aparecerá para julgar especialmente naquele tempo em que, vendo todos esquecidos de seus juízos, os contemplar cativos a este mundo.
Em sentido místico, Lot, que se interpreta como "o que declina", é o povo dos eleitos, que enquanto mora em Sodoma, isto é, entre os réprobos, como peregrino, declina dos seus crimes tanto quanto pode. Porém, com a saída de Lot, Sodoma perece, porque na consumação do século, sairão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e os lançarão na fornalha de fogo. Contudo, o fogo e o enxofre, que menciona terem chovido do céu, não significam a própria chama do suplício eterno, mas a chegada repentina daquele dia.
Havia dito anteriormente o Senhor que aquele que está no campo não deve voltar atrás; e para que não pensasses que isso era dito somente daqueles que abertamente voltariam do campo, isto é, que negariam publicamente o Senhor, Ele prossegue mostrando que há alguns que, embora pareçam ter a face voltada para a frente, com a alma, contudo, olham para trás; por isso diz: Digo-vos, pois: naquela noite estarão dois em um leito; um será tomado, e o outro será deixado.
AI: I've translated the Latin text to Brazilian Portuguese, maintaining a formal theological tone and following all the specified formatting instructions. The translation respects the source text's meaning while incorporating insights from the reference translations in English and Spanish to ensure accuracy.O Salvador, interrogado sobre duas coisas, a saber, onde os bons serão assumidos e onde os maus serão deixados, respondeu a uma e deixou a outra para ser subentendida; donde segue: E Ele lhes disse: Onde estiver o corpo, ali se congregarão também as águias.
Deve-se dizer, pois, que ora sempre e não desfalece aquele que não deixa de rezar nas horas canônicas; ou que todas as coisas que o justo realiza e diz segundo Deus devem ser consideradas como oração.
Porém, quando o Onipotente Criador aparecer na forma do Filho do homem, tão grande será a raridade dos eleitos que não tanto pelo clamor dos fiéis, quanto pela indiferença dos outros, deverá ser acelerada a ruína de todo o mundo. O que o Senhor aqui diz como que duvidando, não é que Ele duvide, mas que repreende: pois também nós, às vezes, acerca de coisas que temos como certas, proferimos palavras de dúvida ao repreender; como quando se diz a um servo: Considera, porventura não sou teu senhor?
Tipicamente, o Fariseu representa o povo judeu, que por causa das justificações da lei exalta seus méritos; já o Publicano representa o gentio, que estando longe de Deus, confessa seus pecados; dos quais um, por sua soberba, afastou-se humilhado, enquanto o outro, por seu lamento, mereceu aproximar-se e ser exaltado.
Por isso disse significativamente "de tais", não "destes", para mostrar que não é a idade que reina, mas os costumes; e que àqueles que têm semelhante inocência e simplicidade, são prometidos os prêmios.
Um certo príncipe, tendo ouvido do Senhor que somente aqueles que quisessem ser semelhantes às crianças entrariam no reino de Deus; e por isso pede que lhe seja exposto, não por parábola, mas claramente, por quais méritos de obras poderá conseguir a vida eterna; por isso diz: E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Mestre bom, que devo fazer para possuir a vida eterna?
Ou não se deve pensar que ele tenha mentido, mas simplesmente confessado como havia vivido, isto é, ao menos exteriormente; de outro modo, São Marcos jamais diria que Jesus, olhando para ele, o amou.
Portanto, qualquer um que quiser ser perfeito deve vender o que tem, não em parte, como fizeram Ananias e Safira, mas tudo.
Como que dissesse: Fizemos o que ordenaste; que prêmio, pois, nos darás? E porque não é suficiente deixar todas as coisas, acrescenta o que é perfeito, dizendo e te seguimos.
O sentido, portanto, é este: aquele que, por buscar o reino de Deus, desprezou todos os afetos, calcou todas as riquezas, delícias e prazeres do mundo, receberá muito mais no tempo presente. Por ocasião desta sentença, alguns constroem a fábula judaica de mil anos após a ressurreição dos justos, quando tudo o que deixamos por causa de Deus nos será devolvido com múltiplos juros, e além disso nos será concedida a vida eterna. E não veem os inexperientes que, embora nas demais coisas a promessa seja digna, no que diz respeito às esposas, que segundo os outros Evangelistas seriam centuplicadas, revela-se a torpeza, especialmente quando o Senhor testifica que na ressurreição não haverá matrimônio; e segundo São Marcos, confirma que aquilo que foi deixado, neste tempo será recebido com perseguições, as quais eles dogmatizam estar ausentes naqueles mil anos.
Prevendo, pois, que haveriam de surgir alguns hereges, que diriam que Cristo ensinara coisas contrárias à lei e aos profetas, mostra que pelos anúncios proféticos foi celebrada a consumação de sua paixão e da glória posterior.
Pois uma vez que os discípulos desejavam acima de tudo a sua vida, não podiam ouvir falar de sua morte; e como sabiam que Ele era não apenas um homem imaculado, mas também verdadeiro Deus, pensavam que de maneira alguma poderia morrer. E como frequentemente estavam acostumados a ouvir Ele falar em parábolas, sempre que dizia algo sobre sua paixão, acreditavam que deveria ser interpretado alegoricamente, referindo-se a outra coisa; por isso segue: esta palavra estava oculta deles, e não entendiam o que lhes era dito. Os judeus, porém, como haviam conspirado contra sua vida, entendiam que Ele falava de sua paixão quando dizia: é necessário que o Filho do homem seja levantado; por isso disseram: nós ouvimos da lei que Cristo permanece eternamente; e como tu dizes: é necessário que o Filho do homem seja levantado?
Não somente pelo benefício da luz obtido, mas também pelo mérito da fé que o obteve.
Eis que o camelo, tendo ali deposto sua carga, passa pelo buraco da agulha: isto é, o rico e o publicano, abandonado o amor às riquezas e desprezado o ganho das fraudes, recebe a bênção da acolhida do Senhor. Segue-se: e apressando-se desceu, e o recebeu com alegria.
Zaqueu é chamado filho de Abraão, não porque tenha nascido da estirpe dele, mas porque imitou a sua fé: assim como aquele abandonou sua terra e a casa paterna, assim este deixava seus bens distribuindo-os aos pobres. E apropriadamente diz "ele também", para declarar que não somente aqueles que viveram justamente, mas também aqueles que se arrependem da injustiça, pertencem aos filhos da promessa.
Misticamente, Zaqueu, que se interpreta "justificado", significa o povo crente proveniente dos gentios, que estava oprimido e diminuído pela ocupação das coisas temporais, mas foi santificado por Deus; ele quis ver o Salvador quando entrava em Jericó, enquanto buscava participar da fé que Cristo trouxe ao mundo.
Ou a turba, isto é, o costume dos vícios que increpava o cego que clamava, também impede este que olha para cima; mas assim como o cego venceu a turba clamando mais, assim também o pequeno, abandonando as coisas terrenas e subindo à árvore da cruz, transcende a turba que o impede. Pois o sicômoro, que é uma árvore semelhante à amoreira em suas folhas, mas superior em altura, razão pela qual é chamada pelos latinos de "elevada", é chamada de figueira louca: e a mesma cruz do Senhor alimenta os crentes como a figueira, enquanto pelos incrédulos é ridicularizada como loucura. A esta árvore Zaqueu, pequeno em estatura, sobe para que possa ser exaltado, quando qualquer humilde e consciente da própria fraqueza clama: "longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Perambulando o Senhor veio ao lugar onde Zaqueu havia subido no sicômoro, porque enviando pregadores pelo mundo, nos quais ele mesmo falava e ia, veio ao povo das nações, que já estava elevado pela fé em sua paixão; e olhando para cima o viu, porque o elegeu pela graça. Algumas vezes o Senhor permanecia na casa de um príncipe dos fariseus; mas enquanto ele realizava obras dignas de Deus, eles o criticavam com língua venenosa: por isso, detestando seus crimes, retirou-se dizendo: "Vossa casa vos será deixada deserta". Hoje, porém, convém que ele permaneça na casa do pequeno Zaqueu, isto é, que descanse no coração das nações humildes, resplandecendo a graça da nova lei. Quanto ao fato de ser ordenado a descer do sicômoro e assim preparar uma morada na casa, isto é o que diz o Apóstolo: "Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos". E ainda que tenha morrido por fraqueza, vive pelo poder de Deus. É evidente que os judeus sempre odiaram a salvação dos gentios; mas a salvação, que outrora enchia as casas dos judeus, hoje brilha para o povo das nações, porque também este povo é filho de Abraão, crendo em Deus.
A mina, a qual os gregos chamam mna, pesa cem dracmas; e toda palavra da Escritura, por sugerir a perfeição da vida celestial, resplandece como que com o peso do número cem.
O primeiro servo é a ordem dos doutores enviados à circuncisão, que recebeu uma mina para negociar, porque foi ordenado a pregar uma só fé; mas esta mina adquiriu dez minas, porque associou a si pela doutrina o povo constituído sob a lei. Segue-se e disse-lhe: Muito bem, servo bom: porque foste fiel no pouco, terás poder sobre dez cidades. No pouco o servo é fiel, porque não adultera a palavra de Deus. Pois tudo o que percebemos de dons no presente, em comparação com os futuros, é pouco.
Aquele servo é a assembleia daqueles que foram enviados para evangelizar aos incircuncisos, cuja mina, isto é, a fé evangélica, produziu cinco minas: porque converteu à graça da fé evangélica as nações antes escravizadas aos cinco sentidos do corpo. Segue-se: e a este disse: e tu sê também sobre cinco cidades; isto é, brilha de modo sublime pela fé e pela conduta daquelas almas que tu instruíste.
Ou envolver o dinheiro em um sudário é esconder os dons recebidos sob o ócio de um corpo indolente. Mas aquilo que ele pensara ter dito como desculpa, converte-se em sua própria culpa; por isso segue: Ele lhe diz: Por tua própria boca te julgo, servo mau. É chamado servo mau por ser preguiçoso em exercer seu trabalho e soberbo em acusar o julgamento do senhor. Sabias que sou homem austero, tomando o que não pus e ceifando o que não semeei; por que, então, não deste o meu dinheiro ao banco? Como se dissesse: se me conhecias como severo e buscador de coisas alheias, por que este pensamento não te incutiu temor, para que soubesses que eu procuraria o que é meu com maior diligência? O dinheiro ou a prata é a pregação do Evangelho e a palavra divina, porque as palavras do Senhor são palavras puras, prata provada pelo fogo. E esta palavra do Senhor deveria ser dada ao banco, isto é, ser intimada aos corações prontos e preparados.
Pois aquele que recebe o dinheiro da palavra do mestre pela fé, é necessário que o devolva com juros por meio das obras; ou que, a partir daquilo que ouviu, procure também compreender outras coisas que ainda não aprendeu da boca do pregador.
Misticamente, porém, isto, como entendo, indica que, entrando a plenitude dos gentios, todo o Israel será salvo, e então a abundância da graça espiritual, que agora exercemos tibiamente, será concedida aos doutores daquele povo.
Demonstrando também que a parábola anterior referia-se ao destino daquela mesma cidade, que estava prestes a matá-lo e que seria destruída por um desastre inimigo. Segue-se: E aconteceu que, quando se aproximou de Betfagé e Betânia, junto ao monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos. Betfagé era um lugar dos sacerdotes no monte das Oliveiras; Betânia também era uma cidade, ou pequena vila, situada na encosta do mesmo monte, a cerca de quinze estádios de Jerusalém.
Segundo os outros Evangelistas, não apenas os discípulos, mas também muitos da multidão estendiam suas vestes no caminho.
Belamente são descritas as cidades situadas no monte das Oliveiras, isto é, no próprio Senhor, que reaviva a unção dos carismas espirituais com a luz da ciência e da piedade.
Eles haviam visto muitas virtudes do Senhor, mas admiravam-se especialmente da ressurreição de Lázaro; pois, como diz São João: por isso a multidão veio ao seu encontro, porque ouviram que Ele havia realizado este sinal. Deve-se observar que não era esta a primeira vez que o Salvador ia a Jerusalém, mas havia ido muitas vezes antes, como São João comemora.
Isto é, em nome de Deus Pai, embora possa entender-se também em seu próprio nome, porque Ele próprio é o Senhor. Porém, suas palavras melhor dirigem nosso entendimento, quando diz: "Eu vim em nome de meu Pai"; pois Cristo é mestre de humildade. Cristo não é chamado rei para exigir tributo, ou para armar exércitos com ferro, ou para derrotar visivelmente os inimigos, mas porque rege as mentes e conduz ao reino dos céus os que creem; pois o fato de ter querido ser rei de Israel é indício de misericórdia, não aumento de poder. Mas, como Cristo apareceu na carne como propiciação de todo o mundo, belamente entoam juntos em seu louvor tanto os seres celestes como os terrestres: pois, nascendo Ele, os exércitos celestiais cantam; e quando Ele está prestes a voltar aos céus, os mortais retribuem com louvores; donde se segue: paz no céu.
Admirável a demência dos invejosos; aquele a quem não hesitam em chamar de mestre, porque o conheciam como quem ensina a verdade, julgam que seus discípulos devem ser repreendidos, como se eles próprios fossem melhor instruídos.
E tendo sido crucificado o Senhor, enquanto os seus conhecidos calavam-se por medo, as pedras e rochas cantavam, pois depois que entregou o espírito, a terra moveu-se, e as pedras se partiram, e os sepulcros se abriram.
Também quando o Senhor descia do monte das Oliveiras, as multidões descem: porque, uma vez humilhado o autor da misericórdia, é necessário que aqueles que precisam de sua misericórdia imitem seus passos.
Ou porque Ele ensinava diariamente no templo, ou porque havia expulsado os ladrões do templo, ou porque, vindo ali como rei e senhor, recebeu o louvor de um hino celestial da multidão dos que criam.
Isto pode ser entendido de dois modos: ou porque, temendo o tumulto do povo, não sabiam o que fazer com Jesus, a quem haviam decidido destruir; ou porque buscavam destruir Jesus porque, sendo seu magistério negligenciado, viam muitos afluindo para ouvi-lo.
Ou quando dizem: "Com que poder fazes estas coisas?", duvidam do poder de Deus e querem insinuar que é do Diabo o que ele faz. E acrescentando também: "Ou quem é que te deu este poder?", negam muito manifestamente o Filho de Deus, a quem julgam realizar sinais não por suas próprias forças, mas por forças alheias. Poderia, no entanto, o Senhor refutar a calúnia dos tentadores com uma resposta clara; mas prudentemente interroga, para que pelo seu silêncio ou por sua sentença sejam condenados; segue-se, com efeito: "Respondendo, disse-lhes: Também eu vos interrogarei uma palavra; respondei-me: O batismo de João era do céu ou dos homens?"
Como se dissesse: Aquele a quem vós confessais ter recebido a profecia do céu deu testemunho de mim; e dele ouvistes com que poder faço estas coisas; segue-se, pois, se dissermos: dos homens, todo o povo nos apedrejará: pois estão certos de que João é um profeta. Viram, portanto, que de qualquer modo que respondessem, cairiam em um laço, temendo o apedrejamento, mas mais ainda a confissão da verdade; donde se segue e responderam que não sabiam donde era. Como, pois, não quiseram confessar aquilo que sabiam, foram repelidos, de modo que o Senhor não lhes disse o que sabia; donde se segue e Jesus disse-lhes: nem eu vos digo com que poder faço estas coisas. Por duas razões principalmente o conhecimento da verdade deve ser ocultado aos que perguntam: quando aquele que pergunta é menos capaz de entender aquilo que pergunta; ou quando por ódio ou desprezo da verdade se torna indigno de que lhe seja revelado o que pergunta.
O homem, pois, que plantou a vinha é o mesmo que, segundo outra parábola, conduziu os operários à sua vinha.
E adequadamente colocou fruto, não produção: pois não se encontrou produção alguma desta vinha. O primeiro servo enviado foi Moisés, que durante quarenta anos exigia dos cultivadores algum fruto da lei que havia dado; mas foi atormentado por causa deles, porque exasperaram o seu espírito; por isso segue que, após o açoitarem, o despediram de mãos vazias(Salmos 77,32).
Por outro servo entende-se Davi, que foi enviado para que, após os decretos da lei, com a melodia de seus salmos, incitasse os cultivadores da vinha ao exercício das boas obras; mas contra este disseram: "Que parte temos nós em Davi, ou que herança temos no filho de Isaí?" Por isso segue "Mas eles, após açoitá-lo e ultrajá-lo, o despediram de mãos vazias". Mas nem assim desistiu; segue, pois: "E enviou ainda um terceiro": pelo qual se entende o coro dos profetas, que com seus contínuos testemunhos convocaram o povo. Mas a qual dos profetas não perseguiram? Por isso segue: "E eles, após feri-lo, o expulsaram". Nestas três classes de servos pode-se compreender a figura de todos os doutores sob a lei, como o Senhor manifesta em outro lugar, dizendo: "porque é necessário que se cumpra tudo o que está escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos a meu respeito".
O que o senhor da vinha diz com dúvida, não vem da ignorância: pois o que é que Deus Pai desconhece? Mas se diz que ele está incerto, para que a livre vontade do homem seja preservada.
O Senhor prova de maneira muito clara que os príncipes dos judeus crucificaram o Filho de Deus não por ignorância, mas por inveja. Pois eles compreenderam que era Ele a quem foi dito: darei a ti as nações como tua herança; segue-se, pois, que lançaram-no fora da vinha e o mataram; porque Jesus, para santificar o povo por seu sangue, padeceu fora da porta.
Ou foi lançado fora da vinha e morto, porque primeiro foi repelido do coração dos infiéis, e depois foi entregue à cruz.
Como se dissesse: Como há de cumprir-se esta profecia, senão porque Cristo, rejeitado e morto por vós, deve ser pregado aos gentios que nele crerão, para que, como pedra angular, edifique para Si um templo a partir de ambos os povos?
Ou de outro modo. Aquele que é pecador, e todavia crê n’Ele, cai certamente sobre a pedra e é quebrantado, pois é preservado pela penitência para a salvação; mas sobre quem ela cair, isto é, sobre quem a própria pedra se lançar, porque o negou, o reduzirá a pó, de modo que não reste nem mesmo um caco com o qual se possa tomar um pouco de água. Ou fala daqueles que caem sobre Ele, que o desprezam agora; por isso ainda não perecem totalmente, mas são quebrantados, de modo que não andam retamente; mas sobre os quais Ele cai, virá sobre eles do alto no juízo com a pena da perdição; por isso os reduzirá a pó, para que sejam como o pó que o vento lança da face da terra.
Ou, em sentido moral, a cada um dos fiéis é dada uma vinha para cultivar, quando o mistério do Batismo lhe é confiado para que o exercite. Um servo é enviado, depois um segundo, e um terceiro, quando a Lei, os Salmos e os Profetas são lidos. Mas o servo enviado é ultrajado ou espancado quando a palavra ouvida é desprezada ou blasfemada. Aquele que é enviado como herdeiro, esse homem mata, tanto quanto pode, quando pisa o Filho de Deus pelo pecado. Destruídos os maus vinhateiros, a vinha é dada a outro, quando com o dom da graça, que o soberbo desprezou, o humilde é enriquecido.
E assim buscando matá-lo, demonstravam ser verdadeiro o que Ele havia dito na parábola. Pois Ele mesmo é o Herdeiro, cuja morte injusta diziam que deveria ser vingada; e aqueles colonos perversos são os que buscavam matar o Filho de Deus. Isto também ocorre diariamente na Igreja, quando qualquer um que seja irmão somente de nome, ou se envergonha ou teme combater, por causa da multidão dos bons, aquela unidade de fé e paz eclesiástica que ele aborrece. E como os príncipes buscavam prender o Senhor, o que não podiam fazer por si mesmos, tentavam realizá-lo pelas mãos do governador; por isso segue: e observando-o enviaram espias que simulavam ser justos.
Uma pergunta suave e enganosa provoca ao respondente a temer mais a Deus do que a César; pois segue: e não aceitas a pessoa do homem, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. E isso dizem a fim de que Ele diga que não se devem pagar tributos, para que imediatamente os oficiais do governador, que, segundo os outros Evangelistas, se lê que estavam presentes, o prendam como autor de sedição contra os romanos; por isso, consequentemente, perguntam: é-nos lícito dar tributo a César, ou não? Havia, pois, uma grande divisão entre o povo, dizendo alguns que, para segurança, pela qual os romanos lutavam por todos, deviam-se pagar tributos; enquanto os fariseus, ao contrário, diziam que o povo de Deus, que dava dízimos e primícias, não devia estar sujeito às leis humanas.
Aqueles, porém, que pensam que a interrogação do Salvador é fruto de ignorância, aprendam pelo presente trecho que Jesus bem poderia saber de quem era a imagem na moeda; mas Ele pergunta para responder adequadamente às palavras deles; pois segue-se que eles, respondendo, disseram: De César. Não devemos supor que se refere a César Augusto, mas a Tibério. Pois todos os reis romanos, desde o primeiro, Caio César, foram chamados Césares. E a partir da resposta deles, convenientemente o Senhor resolve a questão; pois segue-se que lhes disse: dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
Dai também a Deus o que é de Deus, isto é, os dízimos, as primícias, as oblações e as vítimas.
Mas aqueles que deveriam haver crido, maravilharam-se de tão grande sabedoria, pois a astúcia de suas insídias não encontrou lugar; donde segue: e não puderam repreender suas palavras diante do povo, e maravilhados com sua resposta, calaram-se.
Havia duas heresias entre os judeus: uma dos fariseus, que preferiam a justiça das tradições e observâncias, por isso eram chamados de separados pelo povo; a outra dos saduceus, que se interpretava como justos, reivindicando para si o que não eram. Quando aqueles se retiraram, estes se aproximaram para tentá-lo; donde se diz: "Aproximaram-se, porém, alguns dos saduceus, que negam existir ressurreição".
Eles inventam esta fábula, que acusa de delírio aqueles que afirmam a ressurreição dos mortos. Portanto, opõem a torpeza da fábula para negar a verdade da ressurreição; por isso acrescentam: "Na ressurreição, pois, de qual deles será a mulher? Visto que os sete a tiveram por esposa".
Ou estes sete irmãos correspondem aos réprobos, que durante toda a vida deste século, que gira em sete dias, permanecem estéreis em boas obras; sendo eles levados um após o outro pela morte, por fim a própria vida mundana, como esposa infecunda, também passará.
O que não deve ser entendido como se somente os dignos fossem ou ressuscitar, ou permanecer sem núpcias; mas todos, mesmo os pecadores, ressuscitarão, e permanecerão sem núpcias naquele século futuro. O Senhor, porém, para incitar os ânimos à busca da glória da ressurreição, quis fazer menção apenas dos eleitos.
Ou são iguais aos anjos, e filhos de Deus, porque, renovados pela glória da ressurreição, sem qualquer temor da morte, sem qualquer mácula de corrupção, sem qualquer ato da condição terrena, gozam da perpétua visão de Deus.
Ou ele diz isto, para que, depois de ter provado que as almas permanecem após a morte (o que os saduceus negavam), fosse introduzida como consequência também a ressurreição dos corpos, que junto com as almas praticaram boas ou más ações. A verdadeira vida é aquela em que os justos vivem para Deus, mesmo quando morrem corporalmente. Para comprovar a verdade da ressurreição, ele poderia ter utilizado exemplos muito mais manifestos dos profetas, mas os saduceus recebiam apenas os cinco livros de Moisés, rejeitando os oráculos dos profetas.
E porque foram refutados nos seus discursos, não mais O interrogaram; por isso segue-se: e não mais ousavam perguntar-Lhe coisa alguma: mas, prendendo-O, entregaram-No ao poder romano; pelo que entendemos que os venenos da inveja podem, certamente, ser vencidos, mas dificilmente se aquietam.
Isto é, apresentarem-se em público vestidos com roupas mais elegantes; circunstância que, entre outras, é descrita como um dos pecados do rico.
Ele não proíbe sentar-se nos primeiros lugares, ou reclinar-se à mesa, àqueles a quem isto compete por ordem do ofício, mas ensina que se deve ter cuidado com aqueles que amam isto indevidamente, repreendendo a disposição, não a posição; embora também não careça de culpa se os mesmos que querem participar dos litígios no foro desejam ser chamados de mestres na sinagoga. Por duas razões nos é ordenado tomar cuidado com os desejosos de vanglória: para que não sejamos levados pela sua simulação, considerando boas as coisas que fazem; ou para que não sejamos inflamados pela emulação, regozijando-nos em vão por sermos louvados pelos bens que eles simulam. Não só buscam os louvores dos homens, mas também o dinheiro; pois segue-se que devoram as casas das viúvas, simulando longas orações. Pois, simulando ser justos e de grande mérito diante de Deus, não hesitam em receber dinheiro dos fracos e daqueles perturbados pela consciência de seus pecados, como se fossem seus patronos no juízo futuro.
Ou porque buscam dos homens louvores e dinheiro, são castigados com maior condenação.
Como em grego phylattin significa guardar, e gaza na língua persa é chamado de riquezas, gazophylacium é o nome comumente dado ao lugar onde se guardam as riquezas. Era uma arca que tinha uma abertura na parte superior, colocada junto ao altar, à direita de quem entrava na casa do Senhor, na qual os sacerdotes, que guardavam as ofertas, depositavam todo o dinheiro que era trazido ao templo do Senhor. Mas o Senhor, assim como examina os que trabalham em sua casa, também observa os que trazem dons; e a quem considera digno, louva; a quem reprova, condena; por isso segue: viu também uma certa viúva pobrezinha depositando duas pequenas moedas.
É aceitável para Deus qualquer coisa que ofereçamos com bom ânimo, Ele que pesa o coração, e não a substância, nem considera quanto há em seu sacrifício, mas de quanto é oferecido; de onde segue: "Porque todos estes deram para as oferendas de Deus do que lhes sobra; mas esta, de sua pobreza, deu todo o sustento que tinha".
Em sentido místico, os ricos que lançavam suas oferendas no gazofilácio significam os judeus ensoberbecidos pela justiça da lei; a viúva pobre representa a simplicidade da Igreja, que é chamada de pobrezinha porque rejeitou tanto o espírito de soberba quanto os pecados como se fossem riquezas mundanas; e é viúva porque seu Esposo por ela suportou a morte. Ela lança no gazofilácio duas pequenas moedas, porque na presença de Deus, junto ao qual são conservadas as oblações de nossas obras, apresenta suas oferendas, seja o amor a Deus e ao próximo, seja a fé e a oração: as quais superam todas as obras dos soberbos judeus. Pois os judeus lançam nas oferendas de Deus a partir do que lhes sobra, porque presumem de sua própria justiça; mas a Igreja lança todo o seu sustento, porque compreende que tudo o que vive é um dom de Deus.
A dispensação divina também providenciou que a própria cidade e o templo fossem destruídos, para que ninguém ainda pequeno na fé, vendo-os permanecer, enquanto admirado contemplasse os ritos dos sacrifícios, fosse arrebatado pela visão.
Muitos, com efeito, quando era iminente a destruição de Jerusalém, surgiram como príncipes que diziam ser cristos, e que o tempo da libertação se aproximava. Muitos heresiarcas na Igreja também pregaram que o dia do Senhor estava próximo, os quais o Apóstolo condena na epístola aos Tessalonicenses. Muitos também vieram em nome de Cristo, sendo anticristos; o primeiro deles foi Simão Mago, do qual diziam: "este é a virtude de Deus, que se chama grande".
Os apóstolos são também advertidos para que não se aterrorizem com estes presságios, e para que não abandonem Jerusalém e a Judeia. Pode-se também entender o reino contra reino, e a pestilência daqueles cuja palavra se espalha como um câncer, e a fome de ouvir a palavra de Deus, e a comoção de toda a terra, e a separação da verdadeira fé, como referindo-se aos hereges, que, lutando uns contra os outros, proporcionam vitória à Igreja.
Ou de outro modo: Não perecerá um só cabelo da cabeça dos discípulos do Senhor, porque não somente as ações valorosas ou as palavras dos santos, mas até o mais tênue pensamento será recompensado com digna mercê.
Até aqui foram ditas as coisas que aconteceriam durante quarenta anos, ainda não chegando o fim; aqui se expõe com as palavras do Senhor o próprio fim da desolação que foi causada pelo exército romano, quando diz "Quando virdes Jerusalém cercada por um exército, sabei então que está próxima a sua desolação".
A história eclesiástica narra que todos os cristãos que estavam na Judeia, quando se tornou iminente a destruição de Jerusalém, sendo advertidos pelo Senhor, partiram daquele lugar e habitaram além do Jordão, numa cidade chamada Pela, até que se completasse a desolação da Judeia.
Mas como, estando a cidade já cercada por um exército, os que estão no meio dela se retirarão? A não ser que o que prometeu então não se refira ao próprio tempo do cerco, mas ao momento próximo anterior ao cerco, quando o soldado romano começou a se dispersar primeiramente pelos territórios da Galileia e da Samaria.
E estes são os dias da vingança, isto é, os dias que pedem vingança pelo sangue do Senhor.
Diz, pois, ai das gestantes, sob o presente cativeiro, e das que amamentam ou das que dão de mamar, como alguns interpretam, cujos ventres ou mãos, sobrecarregados pelo fardo dos filhos, impedem não minimamente a necessidade de fuga.
Que é precisamente o que o Apóstolo comemora dizendo: "Caiu a cegueira em parte sobre Israel", e assim todo o Israel será salvo; o qual, tendo alcançado a salvação prometida, espera-se, não sem fundamento, que retornará ao solo pátrio.
Ele manifesta ordenadamente o que acontecerá após o cumprimento dos tempos das nações, dizendo: "haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas".
Assim, como é dito em Jó, as colunas do céu tremem e temem ao seu comando(Jó 26,11). O que farão, pois, as tábuas, quando tremem as colunas? O que sofre o arbusto do deserto, quando o cedro do Paraíso é sacudido?
Ele recomenda fortemente o que assim anuncia. E, se é permitido dizer, seu juramento é o que diz amen dico vobis: pois amen se interpreta como verdadeiro. Portanto, a verdade diz: Em verdade vos digo: o que se não dissesse, de modo algum poderia mentir. Por geração, porém, ou diz todo o gênero humano, ou especialmente os judeus.
Mas pelo céu que passará, não devemos entender o céu etéreo ou sideral, nem o aéreo, pelo qual as aves do céu são nomeadas. Porém, se a terra passará, como diz o Eclesiastes: "A terra permanece eternamente"? Claramente, pois, o céu e a terra passarão pela forma que agora têm, mas subsistirão eternamente em sua essência.
E certamente se algum médico sábio ordenasse evitar o suco de alguma erva, para que não sobrevenha uma morte repentina, com grande cuidado observaríamos as ordens do médico; mas agora, quando o Salvador nos adverte que devemos evitar a embriaguez, a glutonaria e as preocupações do século, não temem ser feridos e consumidos por elas; porque o crédito que dão às palavras do médico, desdenham conceder às palavras do Senhor.
O que o Senhor ordenou por palavras, confirma com seus exemplos: pois aquele que nos exortou a vigiar e orar antes da vinda do juiz e do incerto fim de cada um, ele mesmo, aproximando-se o tempo de sua paixão, insiste no ensino, nas vigílias e nas orações; por isso se diz durante o dia estava ensinando no templo: no que insinua com seu exemplo que vigiar dignamente para Deus consiste em mostrar ao próximo, por palavras ou por atos, o caminho da verdade.
Misticamente, também nós, quando em meio à prosperidade vivemos sóbria, pia e justamente, ensinamos de dia no templo, porque oferecemos aos fiéis o modelo de boas obras; mas durante as noites, permanecemos no monte das Oliveiras, porque nas trevas das angústias respiramos pelo consolo espiritual: e também a nós o povo vem pela manhã, quando, abandonando as obras das trevas ou dissipando as névoas das tribulações, nos imita.
A Páscoa, que em hebraico é chamada de phase, não é nomeada a partir da Paixão, mas do Trânsito; pois o anjo exterminador, vendo o sangue nas portas dos israelitas, passou por elas e não feriu seus primogênitos. Ou o próprio Senhor, concedendo auxílio ao seu povo, caminhou sobre eles. Esta é a diferença entre a Páscoa e os Ázimos: a Páscoa é apenas o único dia chamado no qual o cordeiro era sacrificado à tarde, isto é, no décimo quarto dia da lua do primeiro mês; mas no décimo quinto dia, quando saíram do Egito, seguia-se a festividade dos Ázimos por sete dias, até o vigésimo primeiro dia do mesmo mês; por isso a Escritura do Evangelho costuma usar indiferentemente um pelo outro; daí que aqui se diz dia dos Ázimos, que é chamado Páscoa. Significa-se por este mistério que Cristo, tendo padecido uma vez por nós, ordenou que durante todo o tempo deste século, que se desenvolve em sete dias, vivamos nos ázimos de sinceridade e verdade.
Não, de fato, temendo uma sedição, mas tomando precauções para que Ele não fosse retirado de suas mãos com o auxílio do povo. E estas coisas, segundo atesta São Mateus, ocorreram dois dias antes da Páscoa, estando eles reunidos no átrio de Caifás.
Não é contrário a isto o que São João diz, que depois do bocado entrou nele Satanás: pois agora entrou como para tentar a um estranho, mas então entrou como se fosse próprio para atraí-lo a fazer qualquer coisa que quisesse.
Muitos, porém, se horrorizam com o crime de Judas, mas não se precavem: pois quem despreza os direitos da caridade e da verdade, trai a Cristo, que é a verdade e a caridade; principalmente quando não peca por fraqueza ou ignorância, mas, à semelhança de Judas, busca oportunidade para que, na ausência de testemunhas, transforme a verdade em mentira, a virtude em crime.
Chama dia dos ázimos da Páscoa ao décimo quarto dia do primeiro mês, quando, tendo afastado o fermento, costumavam matar a Páscoa, isto é, o cordeiro, ao entardecer.
Como que dizendo: "Não temos domicílio, não temos abrigo". Ouçam isto aqueles que se preocupam em edificar casas. Reconheçam que Cristo, Senhor de todas as coisas, não tinha onde reclinar sua cabeça.
Explicando esta Páscoa, o Apóstolo diz: Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós; esta Páscoa, na verdade, era necessário que fosse sacrificada, como havia sido determinado pelo conselho e definição do Pai. E embora no dia seguinte, isto é, na décima quinta lua, tenha sido crucificado, naquela noite, quando o cordeiro era imolado pelos judeus, sendo preso e amarrado, consagrou o início de sua imolação, ou seja, de sua Paixão.
Preparam a Páscoa onde a ânfora de água é levada; porque é chegado o tempo em que para os observadores da verdadeira Páscoa, o sangue típico é removido do limiar; e é consagrado o Batismo da fonte vivificante para remover os pecados.
A hora para comer a Páscoa designa o décimo quarto dia do primeiro mês estendendo-se até a tarde, quando a lua do décimo quinto dia já aparece sobre a terra.
Ele deseja, portanto, primeiro comer a Páscoa típica com os discípulos, e assim declarar ao mundo os mistérios de Sua Paixão.
Assim, pois, o Senhor mostrou-se como aprovador da Páscoa legal; e ensinando que isto pertencia à figura de sua própria dispensação, proíbe que doravante seja representada na carne. Por isso acrescenta: "Pois vos digo que já não comerei dela até que se cumpra no reino de Deus"; isto é, não mais celebrarei a Páscoa mosaica até que, espiritualmente entendida, se cumpra na Igreja. Pois a Igreja é o reino de Deus, conforme aquilo: "O reino de Deus está dentro de vós". E àquela antiga Páscoa, à qual desejava pôr fim, pertence também o que se segue: "E tendo tomado o cálice, deu graças e disse: Tomai e dividi entre vós". Por isso deu graças, porque as coisas antigas estavam para passar e todas as coisas haveriam de se tornar novas.
Isto pode também ser tomado simplesmente, que desde esta hora da ceia até o tempo da ressurreição, quando haveria de vir no reino de Deus, Ele não beberia vinho: pois que depois disso Ele tomou comida e bebida, como testifica São Pedro dizendo: "nós que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos".
Mas é muito mais lógico que, assim como antes negou que comeria do cordeiro figurativo, agora também negue que voltará a provar da bebida da Páscoa, até que, manifestada a glória do Reino de Deus, a fé do mundo inteiro se revele; para que por meio da mudança espiritual dos dois maiores mandamentos da lei, a saber, o comer e o beber da Páscoa, aprendas que todos os Sacramentos da lei foram transferidos para uma observância espiritual.
Terminadas as solenidades da antiga Páscoa, passou à nova, a qual deseja que a Igreja celebre em memória de sua redenção, substituindo a carne e o sangue do cordeiro pelo Sacramento de sua própria Carne e Sangue na figura do pão e do vinho, tendo-se feito sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec. Por isso se diz: E tomado o pão, deu graças; assim como havia dado graças ao terminar a antiga festa, deixando-nos o exemplo de glorificar a Deus no princípio e no fim de toda boa obra. Segue-se: E partiu-o. Ele mesmo parte o pão que oferece, para mostrar que a partição de Seu Corpo, isto é, Sua Paixão, não ocorrerá sem a Sua vontade. E deu-lhes, dizendo: Este é o meu corpo, que será entregado por vós.
Subentende-se "deu a eles", para que a construção seja completa.
Porque verdadeiramente o pão fortalece, e o vinho produz sangue na carne, o primeiro refere-se ao Corpo de Cristo, o segundo ao Seu Sangue. Mas, visto que tanto nós devemos permanecer em Cristo, quanto Cristo em nós, o vinho do cálice do Senhor é misturado com água; pois, como testemunha São João: as muitas águas são os povos.
Pois então os Apóstolos comungaram depois da ceia, porque era necessário que a Páscoa figurativa fosse primeiro completada, e então passassem ao Sacramento da verdadeira Páscoa. Mas agora, em honra de tão grande Sacramento, os mestres da Igreja consideram correto que sejamos primeiro reconfortados com o banquete espiritual, e depois com o terreno.
E, contudo, não o designa especialmente, para que, sendo mais claramente repreendido, não se tornasse mais impudente. Lança a acusação de forma coletiva, para que o culpado faça penitência. E prediz também o castigo, para que aquele a quem a vergonha não vencera, fosse corrigido pelos suplícios anunciados; por isso segue: e na verdade o Filho do homem vai, segundo o que está determinado.
Mas também ai daquele homem que, aproximando-se indignamente da mesa do Senhor, à semelhança de Judas, entrega o Filho do Homem, não aos judeus, mas aos pecadores, isto é, aos seus próprios membros pecadores. E embora os onze apóstolos soubessem que não pensavam nada contra o Senhor, todavia, porque confiam mais no Mestre do que em si mesmos, temendo a própria fragilidade, perguntam sobre o pecado, do qual não tinham consciência; segue-se, pois: "E eles começaram a perguntar entre si quem seria dentre eles que isto havia de fazer".
Assim como os bons procuram nas Escrituras os exemplos dos Padres, pelos quais progridam e se humilhem, assim os réprobos, se por ventura encontram algo repreensível nos eleitos, costumam acolhê-lo com satisfação, como se por isso encobrissem suas próprias iniquidades. Por isso, muitos leem ardentemente que houve contenda entre os discípulos de Cristo.
Vejamos também não o que os discípulos carnais fizeram, mas o que o Mestre espiritual ordenou; pois segue: "Disse-lhes, então: Os reis dos gentios dominam sobre eles", etc.
Nesta regra, contudo, ensinada pelo Senhor, os maiores têm necessidade de não pouca discrição; para que, certamente, à semelhança dos reis das nações, não se deleitem em dominar sobre os súditos e em serem exaltados pelos louvores deles; e, no entanto, contra os vícios dos delinquentes, erguem-se pelo zelo da justiça. Às palavras de exortação, Ele acrescenta Seu próprio exemplo; por isso segue: "Pois quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve".
Ou Ele se refere àquele serviço em que, segundo São João, sendo o Senhor e Mestre, lavou os pés deles. Embora pelo próprio termo servir possam ser compreendidas todas as coisas que Ele fez na carne, por servir Ele também significa que derrama Seu sangue por nós.
Pois não é o início do sofrimento, mas a perseverança, que é agraciada com a glória do reino celestial; porque à perseverança, que é chamada constância ou fortaleza da mente, dizemos ser a coluna de todas as virtudes. O Filho de Deus, portanto, conduz ao reino eterno aqueles que permanecem com Ele nas tentações. Porque se fomos plantados juntos na semelhança da sua morte, seremos também na semelhança da sua ressurreição; por isso segue-se "e eu disponho para vós, como meu Pai dispôs para mim, um reino".
Ou a mesa proposta a todos os santos para que desfrutem é a glória celestial da vida; na qual, aqueles que têm fome e sede de justiça serão saciados, fruindo do desejado gozo do verdadeiro bem.
Esta, pois, é a mudança operada pela direita do Altíssimo, para que aqueles que agora, em humildade, alegram-se em servir aos seus conservos, então, sublimes sobre a mesa do Senhor, sejam alimentados com os manjares da vida perpétua; e que aqueles que aqui permanecem com o Senhor nas tentações, sendo injustamente julgados, lá venham com Ele como juízes justos sobre seus tentadores; donde se segue: "e vos senteis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel".
Da sublimidade desta promessa, pois, Judas é excluído: pois mesmo antes que o Senhor dissesse isto, deve-se crer que ele já havia saído: são excluídos também todos aqueles que, tendo ouvido as palavras do incompreensível sacramento, voltaram atrás.
Para que os onze apóstolos não se gloriassem e atribuíssem às suas próprias forças o fato de que somente eles, quase sozinhos entre tantos milhares de judeus, se dizia terem permanecido com o Senhor nas tentações, mostra-lhes que, se não tivessem sido protegidos pelo socorro do Senhor que os ajudava, poderiam ter sido abatidos pela mesma tempestade que os demais; por isso segue: disse, pois, o Senhor a Simão: Simão, eis que Satanás vos pediu para vos peneirar como trigo; isto é, pediu para vos tentar e, como quem purifica o trigo, agitar-vos ventilando; nisso ensina que a fé de ninguém é tentada pelo Diabo, senão com a permissão de Deus.
Como o Senhor havia dito que orara pela fé de Pedro, este, consciente do seu afeto presente e da fé ardente, mas ignorante da sua futura queda, não acredita que pudesse de maneira alguma afastar-se de Cristo; por isso segue: E ele lhe disse: Senhor, estou pronto para ir contigo tanto para a prisão como para a morte.
Deve-se saber, porém, que com a permissão de Deus, os temerosos às vezes sofrem uma queda como remédio para a soberba precedente. Mas ainda que o delito do temeroso pareça ser o mesmo que o dos outros, ele difere não pouco: pois o temeroso peca por causa de certas ciladas e quase contra sua vontade; os outros, porém, não tendo cuidado nem consigo mesmos, nem com Deus, pecam, não distinguindo entre pecar e agir virtuosamente. Por isso, julgo que o modo de comando para eles deve ser diverso: pois o temeroso, necessitando de certa ajuda, deve suportar ordens relativas àquilo mesmo em que pecou; os outros, porém, tendo destruído todo o bem da alma, devem ser afligidos e admoestados, e submetidos a preceitos, até que lhes seja confirmado que Deus é um justo juiz, e tremam.
Pois Ele não forma os discípulos na mesma regra de vida no tempo de perseguição como no tempo de paz. Quando enviou os discípulos para pregar, ordenou que não levassem nada pelo caminho, determinando certamente que aquele que anuncia o Evangelho, do Evangelho viva. Mas estando iminente o momento da morte, e toda aquela gente perseguindo tanto o pastor quanto o rebanho, estabelece uma regra adequada ao tempo, permitindo que tomem o necessário para o sustento, até que, acalmado o furor dos perseguidores, retorne o tempo de evangelizar; onde nos dá também o exemplo de que, quando uma justa causa urge, podemos sem culpa intermitir algo do rigor de nosso propósito.
Ou as duas espadas são suficientes para o testemunho de que o Salvador sofreu voluntariamente: uma para ensinar aos apóstolos a audácia de lutar pelo Senhor e a virtude de curar que havia no Senhor; a outra que, nunca retirada da bainha, mostrava que não lhes era permitido fazer em sua defesa nem mesmo tudo o que poderiam.
Como o Senhor havia de ser entregado pelo seu discípulo, dirigiu-Se ao lugar de seu retiro habitual, onde poderia ser encontrado mais facilmente; por isso segue-se: E tendo saído, foi, como era seu costume, ao monte das Oliveiras.
Apropriadamente conduz ao monte das Oliveiras os discípulos já instruídos nos mistérios do seu corpo, para designar que todos os que são batizados em sua morte devem ser confirmados com o carisma do Espírito Santo.
É impossível que a alma humana não seja tentada; por isso não diz: orai para que não sejais tentados; mas orai para que não entreis em tentação; isto é, para que a tentação não vos vença por completo.
Também somente Ele ora por todos, Aquele que sozinho haveria de padecer por todos, mostrando que Sua oração está tão distante da nossa quanto Sua Paixão.
Ou Ele pede que este cálice seja afastado de Si, não por temor do sofrimento, mas por compaixão para com o povo anterior, para que este não beba o cálice que Lhe foi oferecido; por isso, não diz expressamente "afasta de mim o cálice", mas "este cálice", isto é, o cálice do povo judaico, que não pode ter desculpa de ignorância, pois me profetiza diariamente.
Ao aproximar-se da paixão, o Salvador tomou em si mesmo a voz dos enfermos, para que quando aquilo que não queremos que aconteça estiver prestes a ocorrer, assim, devido à nossa fraqueza, peçamos que não suceda, enquanto por meio da fortaleza estejamos preparados para que a vontade do nosso Criador, mesmo contra a nossa vontade, seja feita.
Em outro lugar lemos que os anjos aproximaram-se e o serviam. Como testemunho, portanto, de ambas as naturezas, diz-se que os anjos tanto lhe serviram quanto o confortaram. Pois o Criador não necessitava da proteção de sua criatura; mas feito homem, assim como por nós se entristeceu, assim também por nós é confortado.
Ninguém atribua este suor à enfermidade, porque é contra a natureza suar sangue; mas antes, entenda-se que por meio disto foi declarado a nós que Ele já tinha obtido o efeito de sua oração, a saber, que purificaria com seu sangue a fé dos discípulos, que a fragilidade terrena ainda acusava.
Demonstra, pois, o Senhor em seguida que orou por seus discípulos, os quais exorta a participarem de suas orações, vigiando e orando; segue-se, pois, e lhes diz: "Por que dormis? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação".
Pois o Senhor nunca se esquece de Sua piedade. Enquanto eles trazem a morte ao justo, Ele cura as feridas dos Seus perseguidores.
Ou este servo é o povo judeu, subjugado pelos príncipes dos sacerdotes a um indevido ofício: que na paixão do Senhor perdeu a orelha direita, isto é, a compreensão espiritual da lei; a qual orelha é cortada pela espada de Pedro; não porque ele tire o sentido de entendimento dos que ouvem, mas porque revela aos negligentes que foi retirado pelo juízo divino. Mas a mesma orelha direita, naqueles que creram no mesmo povo, foi restituída pela divina bondade ao seu antigo ofício. Segue-se: Disse então Jesus aos que tinham vindo a ele, aos príncipes dos sacerdotes e aos magistrados do templo e aos anciãos: Como a um ladrão saístes com espadas e varapaus.
Como se dissesse: Por isso vos reunis contra mim nas trevas, porque o vosso poder, com o qual vos armais assim contra a luz do mundo, está nas trevas. Pergunta-se, porém, como Jesus dirigiu-se aos príncipes dos sacerdotes, aos magistrados do templo e aos anciãos que vieram a ele, quando segundo os outros Evangelistas, eles mesmos não vieram, mas aguardaram no átrio de Caifás e enviaram seus ministros. Mas responde-se a esta contradição que eles vieram não por si mesmos, mas pelo poder de sua ordem através daqueles que enviaram para prender Cristo.
Ora, o príncipe dos sacerdotes significa Caifás, que, segundo São João, era o pontífice daquele ano.
Mas o fato de Pedro seguir o Senhor ao longe, quando este se dirigia à Paixão, significa que a Igreja haveria de segui-lo, isto é, imitar a Paixão do Senhor, mas de modo muito diferente: pois a Igreja padece por si mesma, mas Ele padeceu pela Igreja.
Nesta negação de Pedro, afirmamos que não somente nega a Cristo aquele que diz que Ele não é Cristo, mas também aquele que, sendo cristão, nega que o seja.
Mas ele acrescenta: "Pois és galileu"; não porque os galileus falassem uma língua diferente dos habitantes de Jerusalém, que eram hebreus, mas porque cada província e região, tendo suas peculiaridades próprias, não pode evitar um tom vernáculo de linguagem. Segue-se: "E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes".
Frequentemente a Sagrada Escritura costuma designar o mérito das causas pelo mérito dos tempos; assim Pedro, que pecou à meia-noite, arrependeu-se ao canto do galo; pois segue-se imediatamente: "e logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo". Porque o erro que cometeu nas trevas do esquecimento, corrigiu-o pela lembrança da verdadeira luz.
Este galo, misticamente, creio que deve ser entendido como algum dos doutores, que increpa os que jazem e estão sonolentos, dizendo: "Vigiai, justos, e não queirais pecar"(1 Coríntios 15,34).
Pois o seu olhar é compadecer-se; porque não somente quando se pratica a penitência, mas também para que ela possa ser praticada, é necessária a misericórdia de Deus.
Faziam isso como insulto àquele que quis ser considerado como profeta pelo povo. Mas aquele que foi então golpeado com bofetadas dos judeus, é golpeado também agora com blasfêmias dos falsos cristãos. Eles O vendaram, não para que Ele não visse aqueles crimes, mas para esconder deles mesmos a face d'Ele. Os hereges, porém, e os judeus, e os maus católicos, provocando-O com atos reprováveis, como que zombando, dizem: quem foi que te feriu? Enquanto estimam que seus pensamentos e obras das trevas não são conhecidos por Ele.
Não desejavam a verdade, mas preparavam a calúnia. Visto que esperavam que Cristo viria apenas como homem, da estirpe de David, perguntavam-lhe isto para que, se ele dissesse: Eu sou o Cristo, o caluniassem, acusando-o de arrogar para si o poder real.
Pois frequentemente havia declarado que Ele era o Cristo: como quando dizia: "Eu e o Pai somos um"; e outras coisas semelhantes. "E se vos perguntar, não me respondereis, nem me soltareis". Pois Ele havia perguntado a eles como diziam que Cristo era filho de David, quando David em espírito O chamou de seu Senhor; mas eles não quiseram nem crer nas Suas palavras, nem responder às Suas perguntas. E porque procuravam caluniar a descendência de David, ouvem algo ainda mais: segue-se "Mas desde agora o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus".
Entenderam que Ele se chamava o Filho de Deus nestas palavras: "O Filho do homem estará sentado à direita do poder de Deus".
Para que se cumprisse a palavra de Jesus que Ele profetizou sobre a sua própria morte: "Será entregado aos gentios", isto é, aos romanos. Porque Pilatos era romano, e os romanos o haviam enviado a Judeia como governador.
Tendo sido apresentadas contra o Senhor duas acusações, a saber, que Ele proibia dar tributos a César, e que dizia ser Cristo Rei, pode ter acontecido que Pilatos tivesse ouvido aquilo que o Senhor disse: "Dai a César o que é de César", e por isso, menosprezando esta acusação como uma evidente mentira dos judeus, julgou que devia interrogá-lo apenas sobre aquilo que não sabia, a respeito da afirmação sobre o reino. Segue-se: "Pilatos, porém, o interrogou, dizendo: Tu és o Rei dos judeus?", etc.
Ele responde ao governador com as mesmas palavras que usou aos príncipes dos sacerdotes, para que pela própria sentença seja condenado; pois segue-se: e ele, respondendo, disse: tu dizes.
Mas com estas palavras não acusam a Ele, mas a si mesmos. Pois ter ensinado ao povo, e pelo ensinamento tê-lo despertado da indolência do tempo anterior, e ao fazer isso ter percorrido toda a terra prometida, não é indício de crime, mas de virtude.
Pilatos, considerando que não devia interrogar o Senhor a respeito da acusação prévia, tendo encontrado uma ocasião, desejava antes libertá-lo do julgamento; por isso diz-se: Pilatos, porém, ouvindo falar da Galileia, perguntou se o homem era galileu. E para não ser obrigado a proferir sentença contra aquele que reconhecia ser inocente e entregue por inveja, enviou-o para que Herodes o ouvisse, para que ele mesmo, que era o tetrarca daquela pátria, o absolvesse ou o punisse. Segue-se: E quando soube que era da jurisdição de Herodes, enviou-o a Herodes, que também estava em Jerusalém naqueles dias.
Ou esta aliança entre Herodes e Pilatos significa que os gentios e os judeus, embora diferindo em raça, religião e caráter, concordam entre si em perseguir os cristãos
Pereçam, portanto, os escritos que, compostos após tanto tempo contra Cristo, não demonstram que ele foi acusado perante Pilatos por artes mágicas, mas que seus autores devem ser acusados diante do Senhor por perfídia e falsidade.
Como se dissesse: Eu o sujeitarei a todos os açoites e escárnios que desejardes, contanto que não tenhais sede do sangue inocente. Segue-se: Mas ele tinha necessidade de soltar-lhes um pela festa, etc. Necessidade esta não imposta por decreto da lei imperial, mas obrigatória pela tradição anual do povo, a quem com tais coisas se alegrava em agradar.
Até hoje os judeus mantêm seu pedido: pois, tendo-lhes sido dada a escolha, preferiram um ladrão a Jesus, um assassino ao Salvador; justamente perderam a salvação e a vida, e sujeitaram-se tanto a latrocínios e sedições que perderam sua pátria e seu reino.
Com o pior tipo de morte desejam matar o inocente, isto é, crucificando-o. Pois os que pendiam no madeiro da cruz, com os pés e as mãos pregados ao lenho por cravos, eram mortos por uma morte prolongada, para que sua dor não terminasse rapidamente. Mas a morte na cruz havia sido escolhida por nosso Senhor, para que, tendo vencido o Diabo, a colocasse como troféu nas frontes dos fiéis.
Esta correção, com a qual Pilato procurava satisfazer ao povo, para que sua fúria não chegasse ao ponto de crucificar o Salvador, não só as palavras de São João testemunham que ele ofereceu, mas também que a executou juntamente com escárnios e açoites. Mas visto que toda a acusação que apresentaram contra o Senhor eles viam invalidada pelo cuidadoso interrogatório de Pilatos, por fim recorreram apenas a súplicas; por isso segue: mas eles insistiam com grandes clamores, pedindo que fosse crucificado; e as vozes deles prevaleciam.
BEDA. Simão significa "obediente", e Cirene "herdeiro"; por este homem, portanto, designa-se o povo dos gentios, que outrora peregrinos e estrangeiros à aliança, agora pela obediência tornaram-se herdeiros de Deus. Simão, saindo da aldeia, carrega a cruz após Jesus, porque, abandonando os ritos pagãos, abraça obedientemente os passos da Paixão de nosso Senhor. Pois em grego a aldeia chama-se pagos, de onde os pagãos derivam seu nome.
Uma grande multidão, de fato, seguia a cruz do Senhor, mas não com a mesma disposição: pois o povo que havia exigido a sua morte, para alegremente contemplá-lo morrendo; já as mulheres, para chorar por aquele que estava prestes a morrer. Contudo, não era apenas o pranto das mulheres que o seguia, pois também havia um inumerável grupo de homens profundamente entristecido com a sua paixão; mas como o sexo feminino, por ser considerado menos estimado, podia manifestar com mais liberdade o que sentia.
Cuja imediata ressurreição pode dissolver a morte, cuja morte destruirá toda morte e o próprio autor da morte. Deve-se observar, porém, que quando ele as chama de filhas de Jerusalém, não estavam presentes apenas as mulheres que vieram com ele da Galileia, mas também cidadãos e mulheres da própria cidade que se uniram a eles.
No qual dia, significa o tempo da vinda do cerco e da captura pelos romanos, sobre os quais acima dissera: ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias. É natural, de fato, com a iminente captura pelo inimigo, buscar refúgios elevados ou escondidos, nos quais os homens possam se ocultar; de onde se segue, então começarão a dizer aos montes: caí sobre nós; e aos outeiros: cobri-nos. Refere, pois, Josefo que, com a aproximação dos romanos, os judeus buscaram rapidamente as cavernas dos montes e as grutas dos outeiros. Pode-se também entender, a partir do que diz sobre as estéreis que devem ser consideradas bem-aventuradas, sobre aqueles que, de ambos os sexos, se fizeram eunucos pelo reino dos céus; e quando se diz aos montes e outeiros caí sobre nós e cobri-nos, é porque todos os que se lembram de sua fragilidade, ao irromper o momento das tentações, buscaram ser defendidos pelos exemplos, conselhos e orações de homens sublimes. Segue-se: Porque se no lenho verde fazem isto, no seco que se fará?
Ou como se dissesse a todos: Se eu, que não cometi pecado, chamado árvore da vida, não saio do mundo sem sofrer o fogo da minha Paixão, que tormento pensais que aguarda àqueles que estão vazios de frutos?
Ou diferentemente: Fora do portão havia lugares onde se cortavam as cabeças dos condenados, e receberam o nome de Calvário, isto é, dos decapitados. E assim, para a salvação de todos, como culpado entre culpados é crucificado; para que onde abundou o pecado, superabundasse também a graça.
Os dois ladrões crucificados com Cristo significam aqueles que, sob a fé de Cristo, submetem-se ou às lutas do martírio ou às regras de uma continência mais rigorosa; mas aqueles que fazem isto pela glória eterna imitam as ações do ladrão da direita; enquanto aqueles que o fazem para obter o louvor humano imitam os atos do ladrão da esquerda.
Nem se deve pensar que Ele orou aqui em vão; mas naqueles que depois da Sua paixão acreditaram, alcançou o que rogava. Note-se, com efeito, que não orou por aqueles que reconheceram estar crucificando o Filho de Deus, e não quiseram confessar; mas por aqueles que não sabiam o que faziam, tendo o zelo de Deus, mas não segundo o conhecimento; donde acrescenta "Porque não sabem o que fazem".
Na sorte, porém, a graça de Deus foi recomendada: porque quando se lança a sorte, não se cede aos méritos de qualquer pessoa, mas ao oculto juízo de Deus.
Porque até mesmos aqueles que não querem, confessam que Ele salvou outros; pois segue-se que dizem: "A outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o Cristo, o eleito de Deus".
E deve-se notar que os judeus, blasfemando, ridicularizam o nome de Cristo, que lhes foi confiado pela autoridade das Escrituras; enquanto os soldados, como desconhecedores das Escrituras, não insultam a Cristo, o escolhido de Deus, mas ao rei dos judeus.
Porque todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte. Pelo Batismo, quando éramos pecadores, somos purificados; mas alguns, enquanto louvam a Deus que sofreu na carne, são coroados; outros, enquanto recusam ter a fé ou as obras do Batismo, são privados do dom que receberam.
Mas Lucas, querendo juntar milagre a milagre, acrescenta: "E o véu do templo rasgou-se ao meio". Isto aconteceu quando o Senhor expirou, como São Mateus e São Marcos testemunham, mas Lucas o narrou por antecipação.
Ao invocar o Pai, declara-se ser o Filho de Deus, mas ao entregar o Seu Espírito, manifesta não a fraqueza da Sua força, mas a confiança no mesmo poder com o Pai.
Que feriam seus peitos, porque é sinal de penitência e luto, pode ser entendido de duas maneiras: ou bem porque doíam-se por aquele cuja vida amaram ter sido injustamente morto; ou bem porque tremiam ao recordar que haviam pedido a morte daquele que agora estava mais glorificado na morte. Deve-se notar, porém, que os gentios, temendo a Deus, O glorificam com voz de confissão aberta; os judeus, ferindo apenas o peito, voltam silenciosos para casa.
Por isso, merecidamente, por meio do centurião é designada a fé da Igreja, que confirma o Filho de Deus enquanto a sinagoga silencia. Cumpre-se, pois, o que o Senhor lamenta ao Pai, dizendo: "Afastaste de mim amigo e próximo, e meus conhecidos por causa da miséria"; por isso segue: "E todos os seus conhecidos estavam de longe".
Decurião é chamado aquele que pertence à ordem da cúria e administra os ofícios da cúria, o qual também costuma ser chamado curial por cuidar dos deveres civis. José é louvado, portanto, por ter sido de grande dignidade no mundo, mas de maior mérito diante de Deus; por isso segue-se: varão bom e justo (este não havia consentido no conselho e nos atos deles) de Arimateia, cidade da Judeia. Arimateia é a mesma cidade de Ramata, de Elcana e Samuel.
Assim, portanto, apto para sepultar o corpo do Senhor pela justiça de seus méritos, foi digno de consegui-lo pela nobreza de seu poder secular; donde segue: e depositado, envolveu-o em um lençol. Pela simples sepultura do Senhor, condena-se a ambição dos ricos, que nem mesmo nos túmulos podem carecer de suas riquezas.
A saber, de uma pedra; para que se fosse edificado de muitas pedras, depois da ressurreição, cavados os alicerces do túmulo, fosse dito que tinha sido furtivamente levado. Também é colocado em um sepulcro novo; pois segue-se "no qual ninguém ainda havia sido posto": para que depois da ressurreição, permanecendo outros corpos, não se suspeitasse que outro havia ressuscitado. E como o homem foi feito no sexto dia, corretamente o Senhor crucificado no sexto dia cumpriu o mistério da reparação humana; de onde segue "e era o dia da Parasceve", que se interpreta como preparação; nome pelo qual chamavam a sexta-feira, porque naquele dia preparavam as coisas que seriam necessárias para o sábado. E como no sétimo dia o Criador descansou de sua obra, no sábado o Senhor descansou no sepulcro; donde segue "e o sábado começava a raiar". Acima, porém, lemos que estavam todos os seus conhecidos de longe, e as mulheres que o haviam seguido. Portanto, tendo estes conhecidos de Jesus regressado às suas casas após seu cadáver ter sido depositado, somente as mulheres, que o amavam mais ardentemente, seguiram o funeral, desejando observar o lugar onde era colocado; pois segue-se "e as mulheres que tinham vindo com ele da Galileia, seguindo-o, viram o sepulcro e como seu corpo foi colocado": para que pudessem, no tempo conveniente, oferecer a dádiva de sua devoção.
Depois de sepultado o Senhor, enquanto era permitido trabalhar, isto é, até o pôr do sol, ocuparam-se em preparar os unguentos. Pois era ordenado que o silêncio do sábado, ou seja, o descanso, fosse observado desde a tarde até a tarde; segue-se, pois: e no sábado silenciaram conforme o mandamento.
Também envolve a Jesus em um lençol limpo aquele que o recebe com mente pura.
Quanto ao fato de que o Senhor é crucificado no sexto dia e descansa no sepulcro no sétimo, significa que na sexta era do mundo nós devemos necessariamente sofrer pelo Senhor e como que ser crucificados para o mundo; já na sétima, isto é, após a morte, os corpos certamente repousam nos túmulos, mas as almas descansam com o Senhor. Até aqui também as santas mulheres, isto é, as almas humildes ardentes de amor, servem diligentemente à Paixão de Cristo; e se porventura possam imitá-la, com cuidadosa atenção ponderam cada passo, em que ordem foi completada a mesma paixão; a qual, lida, ouvida e recordada, logo se voltam a preparar as obras de virtude, nas quais Cristo se deleita, para que, terminada a parasceve da vida presente, possam no tempo da ressurreição encontrar Cristo com os aromas das ações espirituais, no abençoado descanso.
As mulheres religiosas não somente no dia da preparação, mas também transcorrido o sábado, isto é, ao pôr do sol, tão logo retornou a permissão para trabalhar, compraram aromas para que, indo, ungissem o corpo de Jesus, como testifica São Marcos; no entanto, sendo já o início da noite, não puderam ir ao sepulcro; e por isto diz-se: "No primeiro dia da semana, bem de madrugada, vieram ao sepulcro, trazendo os aromas que haviam preparado". Um do sábado, ou o primeiro do sábado, é o primeiro dia depois do sábado, dia que o costume cristão chama de domingo por causa da ressurreição do Senhor. O fato de as mulheres terem vindo bem de madrugada ao sepulcro mostra o grande fervor da caridade em buscar e encontrar o Senhor.
As santas mulheres, quando os Anjos estavam ao seu lado, não caíram por terra, mas diz-se que inclinaram o rosto para a terra; nem lemos que qualquer dos santos, no tempo da ressurreição do Senhor, tenha adorado prostrado por terra, seja ao próprio Senhor, seja aos Anjos que lhes apareceram. Daí surgiu o costume eclesiástico de que, seja em memória da ressurreição do Senhor, seja na esperança da nossa ressurreição, em todos os dias do Senhor e durante todo o tempo do Pentecostes, não oremos com os joelhos dobrados, mas com os rostos inclinados para a terra. Não era, porém, no sepulcro, que é o lugar dos mortos, que devia ser procurado Aquele que ressuscitou dos mortos para a vida; e por isso se acrescenta: disseram-lhes, isto é, os Anjos às mulheres: por que buscais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui, mas ressuscitou. No terceiro dia, como Ele mesmo havia predito entre os discípulos, tanto homens quanto mulheres, celebrou o triunfo de sua ressurreição; de onde se segue: recordai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo: é necessário que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia. Pois no dia da Preparação, entregando o espírito na hora nona, sepultado à tarde, na manhã do primeiro dia da semana ressuscitou.
Esteve um dia e duas noites no sepulcro, porque uniu a luz de sua morte simples às trevas da nossa morte dupla.
Esta é irmã de Lázaro, e Joana, esposa de Cusa, procurador de Herodes; e Maria, mãe de Tiago, isto é, mãe de Tiago menor e de José. E geralmente sobre as outras acrescenta-se e as demais que com elas estavam, as quais diziam estas coisas aos apóstolos. Para que a mulher não suportasse o opróbrio de uma culpa perpétua entre os homens, aquela que havia transmitido o pecado ao homem, transmitiu-lhe também a graça.
Segundo o sentido místico, pelo fato de as mulheres virem muito cedo ao sepulcro, é-nos dado um exemplo para que, dispersas as trevas dos vícios, nos aproximemos do corpo do Senhor; pois aquele sepulcro tinha a figura do altar do Senhor, no qual os mistérios do Corpo de Cristo devem ser consagrados não em seda, não em pano tingido, mas à semelhança da mortalha com que José o envolveu, em linho puro; para que, assim como Ele ofereceu à morte por nós a verdadeira substância da natureza terrena, também nós, em comemoração dele, coloquemos no altar o linho puro, branco proveniente do fruto da terra e castigado por múltiplos modos, como que por um tipo de mortificação. Os aromas que as mulheres trazem significam o odor das virtudes e a suavidade das orações, com as quais devemos aproximar-nos do altar. A remoção da pedra insinua a abertura dos sacramentos, que estavam cobertos pelo véu da letra da lei, que foi escrita em pedra; tendo-se removido esta cobertura, o corpo morto do Senhor não é encontrado, mas é anunciado vivo: porque, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos. Assim como, quando o corpo do Senhor foi posto no sepulcro, lê-se que os Anjos assistiram, assim também no momento da consagração do mistério do corpo de Cristo deve-se crer que eles assistem. Nós, portanto, seguindo o exemplo das mulheres devotas, sempre que nos aproximamos dos mistérios celestiais, por causa da presença angélica, ou por reverência à sagrada oblação, com toda humildade inclinemos nosso rosto para a terra, recordando que somos cinza e pó.
Esta é Nicópolis, cidade insigne da Palestina, que depois da expugnação da Judeia sob o príncipe Marco Aurélio Antonino foi restaurada, e com o estado mudou também o nome. O estádio, pelo qual os gregos, tendo Hércules como autor, segundo dizem, medem as distâncias dos caminhos, é a oitava parte de uma milha; e, portanto, sessenta estádios significam sete mil e quinhentos passos: este espaço de caminho é adequado àqueles que caminhavam certos sobre a morte e sepultura do Senhor, mas dúbios sobre a ressurreição do Senhor: pois ninguém duvida que a ressurreição, que foi feita após o sétimo dia do sábado, está contida no número oito. Os discípulos, portanto, que caminhavam falando sobre o Senhor, tinham completado a sexta milha do caminho iniciado: porque se lamentavam que ele, vivendo sem queixa até à morte, que sofreu no sexto dia do sábado, havia chegado. Tinham completado também a sétima, porque não duvidavam que ele havia descansado no sepulcro; mas da oitava tinham percorrido apenas a metade, porque não acreditavam perfeitamente na glória da ressurreição já celebrada.
Quando falavam sobre o Senhor, Ele se aproxima e os acompanha; para que tanto acenda em suas mentes a fé na ressurreição, quanto cumpra o que havia prometido, isto é, que "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles"; por isso segue: "E aconteceu que, enquanto conversavam e questionavam entre si, o próprio Jesus, aproximando-se, caminhava com eles".
Ou diz isto porque o consideravam um peregrino, cujo rosto não reconheciam. Mas na verdade era um peregrino para eles, pois, tendo já alcançado a glória da ressurreição, estava muito distante da fragilidade da natureza deles, e permanecia estranho à fé deles, que ainda desconhecia sua ressurreição. Mas o Senhor ainda pergunta; pois segue-se: E Ele lhes disse: Que coisas? E apresenta-se a resposta deles, quando se acrescenta: E disseram-lhe: A respeito de Jesus de Nazaré, que foi um varão profeta. Confessam-no como profeta, mas nada dizem sobre o Filho de Deus; ou porque ainda não acreditavam perfeitamente, ou porque temiam cair nas mãos dos judeus perseguidores, ou porque não sabiam quem Ele era, ou ocultando a verdade que acreditavam. Para recomendá-lo, acrescentam: poderoso em obras e palavras.
Com razão, pois, andavam tristes; porque em certo modo se culpavam a si mesmos por terem esperado a redenção naquele que já haviam visto morto, e não acreditavam que ressuscitaria; e, acima de tudo, lamentavam que tivesse sido morto sem causa, aquele que sabiam ser inocente.
Se, pois, Moisés e os profetas falaram de Cristo, e predisseram que Ele entraria na glória por meio da Paixão, como pode gloriar-se de ser cristão aquele que nem investiga de que modo as Escrituras se referem a Cristo, nem deseja alcançar por meio do sofrimento aquela glória que aspira ter com Cristo?
Parece que o Senhor apareceu primeiro a Pedro, dentre todos os homens que os quatro Evangelistas e o Apóstolo Paulo mencionaram.
Os discípulos conheciam Cristo como verdadeiro homem, pois haviam convivido com Ele por tanto tempo; mas depois que Ele morreu, não acreditavam que a verdadeira carne pudesse ressurgir do sepulcro no terceiro dia. Pensavam, portanto, estar vendo o espírito que Ele emitiu na paixão; por isso segue: turbados e aterrorizados, julgavam ver um espírito. Este erro dos apóstolos é a seita dos Maniqueus.
Que pensamentos, senão falsos e perniciosos? Pois Cristo teria perdido o fruto da sua paixão, se não houvesse a verdade da ressurreição; como se o bom agricultor dissesse: O que ali plantei, encontrarei, isto é, a fé, que desce ao coração, porque vem do alto. Porém estes pensamentos não desceram do alto, mas subiram do abismo para o coração, como a erva daninha.
Nos quais, evidentemente, apareceram claramente as marcas dos cravos; mas, segundo São João, também lhes mostrou o lado, que havia sido perfurado pela lança, a fim de que, mostrando a cicatriz das feridas, curasse a ferida da dúvida deles. Costumam, porém, os gentios levantar calúnias neste ponto, como se o Senhor não tivesse sido capaz de curar as feridas infligidas a Si mesmo; a estes se deve responder que não é consequente que aquele que se prova ter feito coisas maiores não pudesse fazer as menores; mas, certamente, pela graça da dispensação, aquele que destruiu a morte não quis apagar os sinais da morte: primeiramente, para que por isso estabelecesse nos seus discípulos a fé na sua ressurreição; depois, para que, suplicando ao Pai por nós, sempre mostrasse que tipo de morte suportou pelo homem; em terceiro lugar, para que insinue aos redimidos pela sua morte quão misericordiosamente foram ajudados, expondo os sinais da mesma morte; finalmente, para que anuncie no juízo quão justamente são condenados os ímpios.
Para insinuar, portanto, a verdade de sua ressurreição, não só dignou-se ser tocado pelos discípulos, mas também comer com eles, para que não considerassem que ele lhes apareceu não de modo sólido, mas imaginário; por isso segue e tendo comido diante deles, tomando as sobras, deu-lhes. Ele comeu por poder, não por necessidade: de um modo a terra sedenta absorve a água, de outro modo o sol ardente; aquela por indigência, este por potência.
Comeu, portanto, depois da ressurreição, não como quem necessita de alimento, nem como quem significa que na ressurreição que esperamos necessitaremos de alimentos; mas para que desse modo confirmasse a natureza do corpo ressuscitado. Misticamente, o peixe assado que Cristo comeu significa Cristo que padeceu: pois Ele mesmo, tendo-se dignado estar oculto nas águas do gênero humano, quis ser capturado no laço da nossa morte; e como que foi assado na tribulação no tempo da sua paixão: mas tornou-se para nós favo de mel na ressurreição. No favo de mel, quis expressar ambas as naturezas de sua pessoa. Pois o favo de mel está na cera; e o mel na cera é a divindade na humanidade.
Depois que foi visto, tocado e comeu, para que não parecesse ter iludido em nada os sentidos humanos, estendeu as mãos às Escrituras; por isso segue-se: e disse-lhes: estas são as palavras que vos falei quando ainda estava convosco; isto é, quando ainda estava na carne mortal, na qual vós também estais: então, de fato, estava ressuscitado na mesma carne, mas já não estava com eles na mesma mortalidade; e acrescenta: que era necessário que se cumprissem todas as coisas que estão escritas na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim.
Depois de haver se apresentado para ser visto pelos olhos e palpado pelas mãos, e tendo relembrado as Escrituras da lei, em seguida lhes abriu o entendimento para que compreendessem o que era lido; por isso diz: "Então lhes abriu o sentido para que entendessem as Escrituras".
Mas Cristo teria perdido o fruto de Sua Paixão se não houvesse a verdade da ressurreição; por isso acrescenta: e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia. Depois, tendo recomendado a verdade de seu corpo, recomenda a unidade da Igreja, acrescentando: e pregar em seu nome a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações.
Não somente porque a eles foram confiados os oráculos de Deus, e deles é a adoção dos filhos e a glória; mas também para que os gentios, envolvidos em vários erros, sejam provocados a ter esperança principalmente por este sinal da piedade divina, vendo que até àqueles que crucificaram o Filho de Deus é concedido o perdão.
Mas acerca desta virtude, isto é, do Espírito Santo, o Anjo também diz a Maria: "E a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra"; e o próprio Senhor diz em outro lugar: "Porque eu conheci que de mim saiu uma virtude".
Omitindo todas as coisas que durante quarenta dias puderam ser feitas pelo Senhor com seus discípulos, ele une silenciosamente ao primeiro dia da ressurreição o último dia em que ascendeu ao céu, dizendo: e conduziu-os para fora até Betânia. Primeiramente, por causa do nome da cidade, que significa "casa da obediência": pois aquele que desceu por causa da desobediência dos perversos, ascendeu por causa da obediência dos convertidos. Depois, por causa da situação dessa mesma vila, que se diz estar situada ao lado do monte das Oliveiras; porque, certamente, a casa da Igreja obediente estabeleceu os fundamentos de sua fé, esperança e caridade no lado daquele sumo monte, isto é, em Cristo. E ele abençoa aqueles a quem havia entregado os preceitos de seu ensinamento; por isso segue: e levantando suas mãos, abençoou-os.
Tendo o Senhor subido ao céu, os discípulos, adorando onde por último haviam estado seus pés, imediatamente retornaram a Jerusalém, onde lhes havia sido ordenado esperar a promessa do Pai; segue-se: e eles, após adorá-lo, regressaram a Jerusalém com grande alegria. Manifestam grandes alegrias, porque se regozijam que seu Deus e Senhor, depois do triunfo da ressurreição, também penetrou nos céus.
E observe que Lucas, dentre os quatro animais do céu, é designado pelo vitelo; com cujo sacrifício, aqueles que eram escolhidos para o sacerdócio, receberam a ordem de serem iniciados, porque ele assumiu a tarefa de expor o sacerdócio de Cristo mais amplamente que os demais; e seu Evangelho, que começou pelo ministério do templo através do sacerdócio de Zacarias, completou-o com a devoção no templo: e concluiu com os apóstolos ali como ministros do novo sacerdócio futuro, não no sangue das vítimas, mas no louvor a Deus e na bênção: para que no lugar de oração e entre as devoções de louvores esperem com corações preparados a prometida vinda do Espírito Santo.
Deve-se comparar este princípio do Evangelho com o princípio de São Mateus, no qual diz: livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão; aqui, porém, é chamado filho de Deus: pois de ambos deve-se entender um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus e do homem. E apropriadamente o primeiro Evangelista o nomeia filho do homem, e o segundo, filho de Deus, para que nosso entendimento se elevasse gradualmente das coisas menores às maiores, e pela fé e pelos sacramentos da humanidade assumida, ascendesse ao conhecimento da eternidade divina. Apropriadamente também, aquele que estava para descrever a geração humana começou pelo filho do homem, a saber, Davi ou Abraão; apropriadamente também aquele que iniciava seu livro desde o começo da pregação evangélica preferiu chamar Jesus Cristo de filho de Deus, porque era próprio da natureza humana receber a verdade da carne da linhagem dos patriarcas, e foi próprio da potência divina pregar o Evangelho ao mundo.
Estando prestes a escrever seu Evangelho, São Marcos, convenientemente, apresenta primeiro os testemunhos dos profetas, a fim de que demonstrasse a todos que o que ele haveria de escrever deveria ser recebido sem escrúpulo de dúvida, pois mostrava que estas coisas tinham sido previamente preditas pelos profetas. E ao mesmo tempo, por um único e mesmo início de seu Evangelho, ele prepara os judeus, que haviam recebido a Lei e os Profetas, para receberem a graça do Evangelho e aqueles sacramentos que seus próprios profetas haviam predito; e também convoca os gentios, que vieram ao Senhor pela proclamação do Evangelho, a receberem e venerarem a autoridade da Lei e dos Profetas; por isso ele diz: como está escrito no profeta Isaías: Eis que eu envio o meu anjo diante da tua face.
Ou deve-se entender de outro modo: porque ainda que estas palavras não se encontrem em Isaías, seu sentido, contudo, se encontra em muitos outros lugares; e mais claramente naquilo que acrescentou voz que clama no deserto. Pois o que disse Malaquias sobre o anjo que seria enviado diante da face do Senhor, para preparar os seus caminhos, é o mesmo que disse Isaías que haveria de se ouvir a voz que clama no deserto, a qual diria: preparai o caminho do Senhor. Em ambas as sentenças, de modo semelhante, proclama-se que deve ser preparado o caminho do Senhor. Poderia também ter acontecido que, ao escrever o Evangelho, viesse à mente de São Marcos o nome de Isaías em vez de Malaquias, como costuma acontecer; o que, entretanto, sem nenhuma dúvida teria corrigido, ao menos advertido por outros que puderam ler sua obra enquanto ele ainda vivia na carne; a não ser que pensasse que à sua memória, que era regida pelo Espírito Santo, não em vão ocorrera um nome de profeta em lugar de outro. Pois assim se insinua que quaisquer coisas que o Espírito Santo disse pelos profetas, tanto cada uma delas pertence a todos, como todas a cada um.
Mas João é chamado anjo, não por comunhão de natureza, segundo a heresia de Orígenes1, mas pela dignidade do ofício; pois anjo em grego, em latim se diz mensageiro, nome pelo qual pôde ser chamado corretamente aquele homem que foi enviado por Deus, para que desse testemunho da luz, e anunciasse ao mundo o Senhor, vindo na carne; uma vez que é evidente que todos os que exercem o sacerdócio podem, pelo ofício de evangelizar, ser chamados anjos, como diz o profeta Malaquias: "Os lábios do sacerdote guardam a ciência, e de sua boca buscam a lei, porque ele é o Anjo do Senhor dos exércitos"(Malaquias 2,7).
[1] Orígenes ensinava que todos os seres racionais, anjos, demônios e homens, eram de uma só natureza, diferindo apenas em posição e condição, de acordo com seus méritos (in Joan, tom. ii, 17) e capazes de mudança: que os homens tinham sido anjos: que os anjos tomaram natureza humana para servir ao homem, e que São João Batista era um anjo, citando este texto. (in Joan, ii, 25.) v Huet, Orig. II, qu. 5, No. 14, 24, 25. ↩
Assim como São João pôde ser chamado Anjo por ter precedido a face do Senhor evangelizando, assim também pôde ser corretamente chamado voz, porque precedia o Verbo de Deus com seu som; por isso segue a voz do que clama no deserto. Pois é conhecido que o Filho unigênito é chamado Verbo do Pai; e a partir de nossa própria maneira de falar sabemos que primeiro soa a voz, para que depois se possa ouvir o verbo.
O que ele clamava se revela em seguida, quando diz: preparai o caminho do Senhor, fazei retas as suas veredas. Pois, todo aquele que prega a fé reta e as boas obras, que outra coisa faz senão preparar o caminho para o Senhor que vem aos corações dos seus ouvintes, para que, naturalmente, a força da graça penetre esses corações e a luz da verdade os ilumine? E faz retas as veredas quando forma pensamentos puros na alma por meio da palavra da pregação.
É evidente que São João Batista não apenas pregou o batismo de penitência, mas também o conferiu a alguns; porém, não podia dar o batismo para a remissão dos pecados; pois a remissão dos pecados só nos é concedida no batismo de Cristo. Diz-se, portanto, pregando o batismo de penitência para a remissão dos pecados: porque ele pregava o batismo que perdoava os pecados, já que não podia conferi-lo: para que assim como precedia ao Verbo encarnado do Pai com a palavra da pregação, assim também com seu batismo, pelo qual os pecados não podiam ser perdoados, precedesse o batismo de penitência, pelo qual os pecados são perdoados.
Um exemplo para os que desejam o Batismo é tomado daqui, de confessar os pecados e prometer uma vida melhor. Daí as seguintes palavras: confessando seus pecados.
Diz: vestido de pelos, não de lã. Um é indício de veste austera, outro é indício de luxúria e moleza. Quanto ao cinto de pele com o qual estava cingido, como Elias, é indício de mortificação. Além disso, o que se segue e comia gafanhotos e mel silvestre, é congruente com o habitante da solidão, para que não satisfizesse as delícias dos alimentos, mas a necessidade da carne humana.
Pode também a aparência e o alimento de João expressar a qualidade da sua conduta interior: pois usava vestes mais austeras, porque não incentivava a vida dos pecadores com adulações, mas os repreendeu com o vigor de uma áspera invectiva; tinha uma cinta de couro ao redor dos lombos, porque crucificou a sua carne com os vícios e concupiscências; comia gafanhotos e mel silvestre, porque algo doce saboreava a sua pregação para as multidões, julgando o povo se ele mesmo seria o Cristo; mas antes chegou ao fim, compreendendo seus ouvintes que não era ele o Cristo, mas precursor e profeta de Cristo. No mel, com efeito, está a doçura, nos gafanhotos está o voo ligeiro; donde segue e pregava dizendo: virá depois de mim aquele que é mais forte do que eu.
Assim então João não proclama o Senhor ainda manifestamente como Senhor ou Filho de Deus, mas somente como um homem mais forte que ele mesmo. Pois seus ouvintes ainda não eram capazes de compreender os mistérios ocultos de tão grande Sacramento, que o Filho eterno de Deus, tendo assumido a natureza humana da virgem, havia nascido recentemente no mundo; mas gradualmente, pelo reconhecimento de sua humildade glorificada, eles deveriam ser introduzidos à fé em sua Divina Eternidade. A estas palavras, contudo, ele acrescenta, como se declarasse veladamente que Ele era o verdadeiro Deus: Eu vos batizo com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo. Pois quem pode duvidar que ninguém, senão Deus, pode conceder a graça do Espírito Santo?
Somos batizados pelo Senhor no Espírito Santo, não apenas quando no dia do nosso Batismo somos lavados na fonte da vida para a remissão dos pecados, mas também diariamente pela graça desse mesmo Espírito somos inflamados para realizar aquelas coisas que agradam a Deus.
Foi batizado, e para que com o seu batismo se comprovasse o batismo de João, e para que, santificando as águas do Jordão, através da descida da pomba, mostrasse a vinda do Espírito Santo no banho dos crentes; por isso segue-se e logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito Santo descendo como uma pomba, e permanecendo nele. Os céus abrem-se não pela separação dos elementos, mas pelos olhos espirituais, pelos quais Ezequiel, no princípio do seu livro, comemora que foram abertos. E isto, que viu os céus abertos após o Batismo, certamente foi feito para nossa graça, para quem pela lavagem da regeneração abre-se a porta do reino celestial.
O fato de que o Espírito Santo foi visto descendo no Batismo era um sinal da graça espiritual que nos é conferida no Batismo.
Bem certamente na forma de pomba desceu o Espírito Santo, porque é um animal de grande simplicidade, e alheio à malícia do fel, para que figuradamente nos insinuasse que busca corações simples, e não se digna habitar nas mentes dos ímpios.
A pomba pousou sobre a cabeça de Jesus, para que ninguém pensasse que a voz do Pai foi dirigida a João, e não ao Senhor. E bem acrescentou: "permanecendo nele"; pois isto é especial para Cristo, que o Espírito Santo, uma vez enchendo-O, nunca se retira. Pois aos seus fiéis, às vezes a graça do Espírito é conferida para sinais de virtudes e para fazer milagres, às vezes é retirada; entretanto, para a realização da piedade e da justiça, para a conservação do amor a Deus e ao próximo, a graça do Espírito nunca está ausente. E a voz do Pai mostrou que Ele mesmo, que veio a João para ser batizado com os outros, era o verdadeiro Filho de Deus, querendo batizar no Espírito Santo; donde segue-se: "E veio uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado, em ti me agradei". Não que isto tenha informado ao próprio Filho de algo que Ele ignorava, mas mostra-nos o que devemos crer.
A mesma voz nos ensinou também que nós, pela água da ablução e pelo Espírito de santificação, podemos tornar-nos filhos de Deus. O mistério da Trindade também é demonstrado no Batismo: o Filho é batizado, o Espírito desce em forma de pomba, a voz do Pai prestando testemunho ao Filho é ouvida.
E para que não surgisse dúvida a ninguém sobre qual espírito o havia enviado ao deserto, São Lucas colocou primeiramente, com deliberação, que Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão; e então acrescentou: e era conduzido pelo Espírito ao deserto, para que não se pensasse que o espírito imundo tivesse algum poder sobre Ele, que estando cheio do Espírito Santo, indo aonde queria, fazia o que queria.
Ele se retira também ao deserto, para nos ensinar que, deixando os atrativos do mundo e a companhia dos perversos, devemos em tudo servir aos mandamentos divinos. É tentado sozinho pelo Diabo, para nos insinuar que todos os que querem viver piedosamente em Cristo sofrem perseguições; donde segue e estava no deserto quarenta dias e quarenta noites, e era tentado por Satanás. É tentado durante quarenta dias e quarenta noites, para indicar que enquanto vivemos aqui e servimos ao Senhor, seja que a prosperidade nos agrade, o que pertence aos dias, seja que a adversidade nos aflija, o que condiz com a figura da noite, em todo o tempo o adversário está presente, e não cessa de impedir nosso caminho com tentações: pois os quarenta dias e noites insinuam todo o tempo deste século; porque é quadripartido o mundo no qual servimos ao Senhor; dez são os preceitos por cuja observância lutamos contra o inimigo; e dez multiplicado por quatro, são quarenta. Segue-se e estava com as feras.
Deve-se considerar também que Cristo habita entre as feras como homem, mas, como Deus, utiliza o ministério dos Anjos. E nós, quando no deserto de uma santa conversação toleramos com mente imaculada os costumes bestiais dos homens, merecemos o ministério dos Anjos; pelos quais, livres do corpo, seremos transferidos à eterna bem-aventurança.
Preso São João, o Senhor começa a pregar adequadamente; por isso se segue: pregando o Evangelho do reino de Deus. Pois cessando a lei, consequentemente surge o Evangelho.
Ninguém, porém, pense que a entrega de São João à prisão ocorreu imediatamente após o jejum de quarenta dias do Senhor; pois quem quer que leia o Evangelho de São João, encontrará que o Senhor ensinou muitas coisas antes da entrega de São João, e realizou muitos milagres: pois se tem no Evangelho dele: "Este foi o início dos sinais que Jesus fez", e depois: "Pois São João ainda não tinha sido lançado na prisão". Conta-se que quando São João leu os volumes de São Mateus, São Marcos e São Lucas, aprovou de fato o texto da história, e confirmou que eles disseram a verdade, mas que haviam narrado a história de apenas um ano, no qual também padeceu, após o encarceramento de São João. Assim, omitindo o ano cujos atos haviam sido expostos pelos três, narrou os feitos do tempo anterior, antes que São João fosse encarcerado na prisão. Quando, portanto, São Marcos disse que Jesus veio à Galileia, pregando o Evangelho do reino, acrescenta, dizendo: "Porquanto o tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo".
Pescadores e iletrados são enviados a pregar, para que a fé dos crentes seja considerada estar no poder de Deus, não na eloquência ou na doutrina. Segue-se: "e imediatamente, deixando as redes, seguiram-no".
Pode-se questionar como ele chamou dois pescadores de cada barco (primeiro Pedro e André, depois, avançando um pouco mais, os outros dois, filhos de Zebedeu), quando São Lucas diz que Tiago e João foram chamados para ajudar Pedro e André, e que foi somente a Pedro que Cristo disse: "não temas; de agora em diante serás pescador de homens", e também diz que "ao mesmo tempo, quando trouxeram seus barcos para terra, eles o seguiram". Devemos, portanto, entender que o acontecimento que São Lucas menciona ocorreu primeiro, e depois eles, como era seu costume, haviam voltado à pesca. De modo que o que São Marcos relata aqui aconteceu posteriormente; pois neste caso eles seguiram o Senhor sem puxar seus barcos para a terra (o que teriam feito se pretendessem voltar), e o seguiram como alguém que os chamava e ordenava que o seguissem.
Os escribas também ensinavam aos povos aquilo que está escrito em Moisés e nos profetas; mas Jesus, como Deus e Senhor do próprio Moisés, com a liberdade de sua vontade, ou acrescentava à lei aquilo que parecia faltar, ou, modificando-a, pregava aos povos, como lemos em São Mateus: "Foi dito aos antigos (...) eu, porém, vos digo"(São Mateus 5,27).
Visto que pela inveja do Diabo a morte entrou no mundo inteiro, por isso o remédio da salvação devia primeiro operar contra o próprio autor da morte; e por isso se diz: e havia na sinagoga deles um homem com o espírito imundo.
Pois os demônios, vendo o Senhor na terra, acreditavam que seriam imediatamente julgados.
Pode parecer haver contradição sobre como, ao sair, o espírito o dilacerou, ou, como têm alguns códices, o convulsionou, enquanto segundo São Lucas, não lhe causou nenhum dano. Mas o próprio São Lucas diz: "e tendo o demônio o lançado por terra no meio de todos, saiu dele sem lhe fazer mal algum". Por isso, entende-se que Marcos, ao dizer "convulsionando-o" ou "dilacerando-o", refere-se ao que São Lucas expressa com as palavras: "tendo-o lançado por terra no meio de todos"; e quando acrescenta "sem lhe fazer mal algum", entende-se que aquele agitar de membros e o tormento não o debilitaram, como costumam fazer os demônios ao saírem, mesmo amputando ou arrancando alguns membros. Vendo o poder do milagre, admiram a novidade da doutrina do Senhor e são estimulados a investigar o que ouviram por meio do que viram; por isso segue: "e todos ficaram admirados, a ponto de perguntarem entre si". Pois os sinais eram feitos para que se acreditasse mais firmemente no Evangelho do reino de Deus que era pregado, enquanto aqueles que prometiam alegrias celestiais aos homens na terra mostravam coisas celestiais e obras divinas mesmo na terra. Pois antes, segundo testemunha o Evangelista, "estava ensinando-os como quem tem autoridade", e agora, conforme atesta a multidão, "com autoridade ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem". Segue-se: "e imediatamente sua fama se espalhou por toda a região da Galileia".
Primeiramente era conveniente que a língua da serpente fosse detida, para que não espalhasse mais veneno; depois que a mulher, que foi a primeira a ser seduzida, fosse curada da febre da concupiscência carnal; por isso diz: E logo, saindo da sinagoga, foram à casa de Simão e André, com Tiago e João.
No Evangelho de São Lucas está escrito que eles rogaram a Ele por ela. Ora, às vezes o Salvador, depois de ser rogado, às vezes por sua própria vontade, cura os enfermos, mostrando que Ele sempre atende às preces dos fiéis, quando eles também oram contra as más paixões, e às vezes lhes dá a entender coisas que eles não compreendem absolutamente, ou então, quando oram a Ele devotamente, perdoa a sua falta de entendimento; como o Salmista suplica a Deus: Purifica-me, Senhor, dos meus erros ocultos(Salmos 18,13). Por isso Ele a cura quando Lhe suplicam; pois segue: e aproximando-se, levantou-a, tomando-a pela mão.
Quanto ao fato de que distribui com mais frequência nos sábados os dons de sua medicina e doutrina, ensina que Ele não está sob a lei, mas acima da lei, e que não escolhe o sábado judaico; e que o descanso é estimado pelo Senhor, se, aplicando-nos à salvação das almas, nos abstemos da obra servil, isto é, de todas as coisas ilícitas. Segue-se que imediatamente a deixou a febre; e os servia. A saúde que é conferida pelo comando do Senhor retorna toda de uma vez, acompanhada de tanta força que ela é capaz de servir àqueles que a ajudaram. Se dissermos que o homem libertado do demônio significa, no sentido moral da interpretação, a alma purificada de pensamentos impuros, convenientemente a mulher curada da febre pelo comando de Deus significa a carne, refreada do ardor de sua concupiscência pelos preceitos da continência.
Pois o diabo, que conhecera como homem fatigado pelo jejum de quarenta dias, sem conseguir provar pela tentação se Ele era o Filho de Deus, agora pelo poder dos milagres entendeu, ou antes suspeitou, ser Ele o Filho de Deus. Portanto, não persuadiu os judeus a crucificá-Lo porque pensava que Ele não era o Filho de Deus, mas porque não previu que seria condenado pela morte d'Ele.
Misticamente, porém, se no ocaso do sol está expressa a morte do Salvador, por que não haveria de ser indicada pelo retorno da aurora a sua ressurreição? E assim, manifestada a luz, Ele partiu para o deserto dos gentios, e lá orava em seus fiéis, porque excitava os corações deles à virtude da oração pela graça do Espírito Santo.
Depois que a língua serpentina dos demônios foi silenciada, e a mulher, que primeiro foi seduzida, foi curada da febre, em terceiro lugar, o homem, que ouviu as palavras da esposa que mal o aconselhou, é purificado da lepra de seus erros, para que a ordem da restauração no Senhor fosse a mesma que a ordem da queda nos primeiros pais. Por isso segue-se: e veio a ele um leproso, suplicando-lhe.
Ele duvidou da vontade do Senhor, não como um incrédulo na piedade, mas consciente de sua própria imundície, não presumiu. Segue-se: "Jesus, porém, compadecido dele, estendeu a sua mão, e tocando-o, disse-lhe: Quero, sê limpo". Não se deve, como pensam muitos dos latinos, juntar e ler: "quero limpar-te"; mas separadamente, para que primeiro diga "quero", e depois ordene: "sê limpo".
Ele também o tocou para provar que não poderia ser contaminado Aquele que libertava outros. Ao mesmo tempo, é admirável que Ele o curou do mesmo modo como havia sido suplicado. Se queres, disse o leproso, podes tornar-me limpo. Eu quero, respondeu; eis que tens a Minha vontade; sê limpo, agora tens o efeito da Minha compaixão.
Não há nada, pois, entre a obra de Deus e o preceito, porque no preceito está a obra: disse, e foram feitas(Salmo 148,5). Segue-se e ameaçou-o, e logo o mandou embora, e disse-lhe: Olha não o digas a ninguém.
Para que certamente o sacerdote entendesse que ele havia sido curado não pela ordem da lei, mas pela graça de Deus que está acima da lei. Segue-se e oferece por tua purificação o que Moisés ordenou, em testemunho para eles.
Se alguém, de fato, se questiona como o Senhor parece aprovar o sacrifício judaico, quando a Igreja não o recebe, lembre-se que Ele ainda não havia oferecido seu holocausto na paixão. Pois não convinha que os sacrifícios significativos fossem removidos antes que aquilo que era significado fosse confirmado pelo testemunho dos apóstolos que pregavam e pela fé dos povos crentes.
A perfeita salvação de um só conduz muitas multidões ao Senhor; por isso segue-se de modo que já não podia entrar manifestamente na cidade, mas permanecia fora em lugares desertos.
Mas estendida a mão do Salvador, isto é, encarnado o Verbo de Deus, e tocando a natureza humana, esta é purificada das diversas partes do antigo erro.
Mesmo depois de realizado o milagre na cidade, o Senhor retira-se para o deserto, para mostrar que prefere uma vida tranquila e afastada das preocupações do século, e que é por causa deste desejo que Ele se dedica à cura dos corpos.
Porque a misericórdia divina não abandona nem mesmo as pessoas carnais, concede-lhes a graça de sua visitação, pela qual também eles podem tornar-se espirituais; após o deserto, o Senhor retorna à cidade; donde se diz e entrou novamente em Cafarnaum depois de oito dias.
É certamente digno de se observar quanto vale a própria fé de cada um perante Deus, quando a fé alheia vale tanto que um homem inteiro se levanta repentinamente, curado interior e exteriormente, e pelos méritos de uns são perdoados a outros os seus erros.
Mas o Senhor, a fim de curar o homem da paralisia, primeiro dissolveu os vínculos dos pecados, para mostrar que ele havia sido condenado ao relaxamento dos membros devido aos laços das culpas, e que não poderia ser curado com a recuperação dos membros a não ser que estes fossem relaxados. Admirável, porém, é a humildade: chama de filho ao desprezado e débil, com todas as juntas dos membros dissolvidas, a quem os sacerdotes não se dignavam tocar; ou certamente o chama de filho porque lhe são perdoados os seus pecados. Segue-se: Estavam ali sentados alguns dos escribas e raciocinando em seus corações: O que este homem fala? Ele blasfema.
Ele, que também perdoa por meio daqueles a quem concedeu o poder de perdoar; e, portanto, prova-se que Cristo é verdadeiramente Deus, pois pode, como Deus, perdoar os pecados. Assim, erram os judeus, os quais, embora creiam que Cristo é Deus e que pode perdoar pecados, não acreditam, contudo, que Jesus é o Cristo. Mas muito mais loucamente erram os arianos, os quais, embora vencidos pelas palavras do Evangelho, não ousem negar que Jesus é Cristo e que pode perdoar pecados, não temem, entretanto, negar que Ele é Deus. Mas Ele próprio, desejando salvar os pérfidos, tanto pelo conhecimento das coisas ocultas como pelo poder de suas obras, manifesta que é Deus; pois segue-se: "Mas Jesus, conhecendo imediatamente em seu espírito que assim raciocinavam entre si, disse-lhes: Por que pensais estas coisas em vossos corações?" No que mostra ser Deus, que pode conhecer as coisas ocultas do coração, e de certo modo fala silenciosamente: com a mesma majestade e poder com que vejo vossos pensamentos, posso também perdoar os pecados dos homens.
Assim, realiza-se um sinal carnal, para que seja comprovado o espiritual; ainda que seja da mesma virtude perdoar os defeitos tanto do corpo quanto da alma; por isso segue: e imediatamente aquele levantou-se, e tomando seu leito, saiu na presença de todos.
Compreende-se também que, devido aos pecados, muitas fraquezas do corpo ocorrem; e por isso talvez primeiro sejam perdoados os pecados, para que, removidas as causas da debilidade, a saúde seja restituída. De fato, por cinco causas os homens são afligidos pelos sofrimentos da carne: ou para aumentar os méritos, como Jó e os mártires; ou para conservar a humildade, como Paulo pelo anjo de Satanás; ou para entender e corrigir os pecados, como Maria, irmã de Moisés, e este paralítico; ou para a glória de Deus, como o cego de nascença e Lázaro; ou como início da condenação, como Herodes. É admirável a virtude do poder divino, onde sem nenhuma demora de tempo, por ordem do Salvador, a saúde rapidamente acompanha; donde segue de tal forma que todos se admiravam. Deixando o maior, isto é, a remissão dos pecados, admiram somente o que aparece, ou seja, a saúde do corpo.
Ora, quando o Senhor estava pregando na casa, não podem alcançar nem chegar à porta, porque enquanto Cristo pregava na Judeia, os gentios ainda não conseguiam entrar para ouvi-lo, aos quais, contudo, embora estivessem fora, Ele dirigiu as palavras de Sua doutrina por meio dos pregadores.
Ou porque são quatro as virtudes pelas quais o homem, com confiança no coração, se eleva para merecer a salvação; virtudes que alguns chamam prudência, fortaleza, temperança e justiça. Desejam, pois, oferecer o paralítico a Cristo; mas, com a multidão interposta, encontram-se impedidos por todos os lados: porque frequentemente a alma, após a indolência do corpo enfermo, desejando ser renovada pelo remédio da graça divina, é retardada pelo obstáculo dos antigos costumes; muitas vezes, em meio às próprias doçuras da oração secreta e, por assim dizer, do suave colóquio com o Senhor, uma multidão de pensamentos, intervindo, impede a agudeza da mente de ver a Cristo. Não devemos, portanto, permanecer nas partes inferiores onde as multidões tumultuam, mas buscar o teto da casa, isto é, a sublimidade da Sagrada Escritura, e meditar na lei do Senhor.
Ou, com o teto aberto, o enfermo é baixado, porque, revelados os mistérios das Escrituras, chega-se ao conhecimento de Cristo, isto é, desce-se à sua humildade pela piedade da fé. O fato de o enfermo ser baixado com seu leito significa que Cristo deve ser conhecido pelo homem, ainda constituído nesta carne. Levantar-se do leito é a alma afastar-se dos desejos carnais, onde jazia enferma. Tomar o leito é conter a própria carne pelos freios da continência, e separá-la dos prazeres terrenos pela esperança dos prêmios celestiais. E levar o leito e ir para casa é retornar ao Paraíso. Ou então, o homem que estava enfermo e agora está curado leva de volta para casa seu leito, quando a alma, após receber a remissão dos pecados, retorna, mesmo com seu próprio corpo, à vigilância interna de si mesma.
Depois que o Senhor ensinou em Cafarnaum, saiu para o mar, a fim de não somente instruir a vida civil dos homens, mas também para pregar o Evangelho do reino aos habitantes do mar, e ensiná-los a desprezar os movimentos ondulantes das coisas passageiras, e a superá-los pela firmeza da fé; donde se diz: e Jesus saiu para o mar, e toda a multidão vinha a ele, e os ensinava.
Assim também a mesma pessoa é Levi e Mateus; mas São Lucas e São Marcos, por reverência e honra ao Evangelista, não quiseram usar o nome comum; porém o próprio São Mateus, conforme o que está escrito: "o justo é acusador de si mesmo", se denomina Mateus e publicano, para mostrar aos leitores que ninguém que se converte deve desconfiar da salvação, uma vez que ele próprio foi repentinamente transformado de publicano em Apóstolo. Diz que estava sentado no teloneum, isto é, no lugar onde se cuida e se administra os impostos. Pois telos em grego é o mesmo que vectigal, imposto, em latim.
Seguir é imitar: por isso, para que pudesse imitar a Cristo pobre não tanto pelo passo, mas pelo afeto, deixou o próprio quem costumava roubar o alheio. E não apenas abandonou os lucros dos impostos, mas também desprezou o perigo que poderia advir dos príncipes deste século, porque deixou as contas dos impostos imperfeitas e não ajustadas. O próprio Senhor, que exteriormente o chamou com palavra humana para que o seguisse, interiormente o inflamou por inspiração divina para que logo seguisse àquele que o chamava.
Chamam-se publicanos àqueles que exigem os tributos públicos, ou aos que são os arrendatários dos tributos do fisco ou das coisas públicas, e também são classificados pelo mesmo termo aqueles que buscam os lucros deste século por meio de negócios. Assim, haviam visto que o publicano, convertido dos pecados para uma vida melhor, encontrara lugar para a penitência, e por isso não desesperam da salvação. E os publicanos não vêm a Jesus permanecendo em seus vícios anteriores, como os fariseus e os escribas, mas fazendo penitência, como indica a seguinte passagem do Evangelista, dizendo era grande o número dos que o seguiam. Pois o Senhor ia aos banquetes dos pecadores para ter ocasião de ensiná-los e oferecer alimentos espirituais aos que o convidavam, o que concorda com as figuras dos mistérios; porque aquele que recebe Cristo internamente em sua morada é alimentado com as maiores delícias das abundantes alegrias. E assim o Senhor entra voluntariamente e repousa no afeto daquele que nele creu; e este é o convívio espiritual das boas obras, do qual o povo rico tem necessidade e o pobre se banqueteia.
Se pela eleição de Mateus e vocação dos publicanos se expressa a fé dos gentios, que antes cobiçavam os lucros do mundo, certamente a soberba dos Escribas e Fariseus insinua a inveja dos judeus, que se atormentam com a salvação dos gentios. Segue-se: "Ouvindo isto, Jesus lhes disse: Não necessitam de médico os sãos, mas os que estão enfermos". Ele repreende os Escribas e Fariseus que, considerando-se justos, evitavam a companhia dos pecadores. Ele se denomina médico, que por um admirável modo de curar foi ferido por causa de nossas iniquidades, e por suas chagas fomos curados; chama de sãos e justos aqueles que, querendo estabelecer sua própria justiça, não se submetem à justiça de Deus; por outro lado, chama de enfermos e pecadores aqueles que, vencidos pela consciência de sua própria fragilidade e vendo que não podem ser justificados pela Lei, submetem seus pescoços à graça de Cristo pelo arrependimento; donde se segue: "Pois não vim chamar os justos, mas os pecadores"; não para que permaneçam pecadores, mas para que se convertam à penitência.
Mas São João não bebe vinho nem cerveja; o Senhor come e bebe com os pecadores: porque a abstinência aumenta o mérito daquele que não possuía nenhum poder sobre a natureza; o Senhor, porém, a quem naturalmente competia perdoar os pecados, por que evitaria aqueles a quem podia tornar mais puros que os abstinentes? Mas também Cristo jejuou, para não se desviar do preceito; comeu com os pecadores, para que contemplasses a graça e reconhecesses o poder. E segue e lhes diz Jesus: Acaso podem os filhos das núpcias jejuar enquanto o esposo está com eles?
Em sentido místico, pode-se explicar assim que os discípulos de João e os fariseus jejuam: porque todo aquele que se gloria das obras da lei sem fé, e que segue as tradições dos homens, e recebe a pregação de Cristo com o ouvido do corpo, não com a fé do coração, abstendo-se dos bens espirituais, definha com o coração em jejum; mas aquele que é incorporado aos membros de Cristo por um amor fiel não pode jejuar, porque se alimenta de sua carne e sangue. Segue-se ninguém costura um remendo de pano novo, isto é, novo, a uma veste velha
Pois Ele compara os seus discípulos a odres velhos, que mais facilmente se romperiam com o vinho novo, isto é, com os preceptos espirituais, do que poderiam contê-lo. Serão, porém, odres novos quando, após a ascensão do Senhor, forem renovados pelo desejo de sua consolação; e então o vinho novo virá para os odres novos; isto é, o fervor do Espírito Santo encherá os corações dos espirituais. O mestre também deve ter cuidado para não confiar os segredos dos novos mistérios a uma alma que persiste na antiguidade da malícia.
Nem era conveniente costurar um pano novo, que é alguma partícula da doutrina, que pertence à temperança da vida nova, a qual ensina o jejum geral de toda alegria das deleitações temporais: porque se isso acontece, a doutrina se divide, e não convém à antigüidade. Pelo vestido novo insinuam-se as boas obras, que são feitas exteriormente; pelo vinho novo expressa-se o fervor da fé, esperança e caridade, pelo qual somos reformados interiormente.
Lemos também no que segue, que eram muitos os que vinham e iam, e nem sequer tinham tempo para comer, e por isso, conforme a natureza humana, tinham fome.
Isso, porém, não contém nenhuma dissonância: pois ambos estavam lá, quando David, ao chegar, pediu pães e os recebeu: a saber, Abimelech, o príncipe dos sacerdotes, e Abiatar, seu filho. Após Abimelech ter sido morto por Saul, Abiatar fugiu para David e, tendo se tornado companheiro durante todo o seu exílio, posteriormente, quando este já reinava, recebeu também o grau de sumo sacerdote, e o filho tornou-se de muito maior excelência que o pai; por isso foi digno de que o Senhor, mesmo durante a vida do pai, fizesse menção dele como sumo sacerdote. Segue-se "e dizia-lhes: o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado". Pois maior cuidado deve ser dedicado à saúde e à vida do homem do que à observância do sábado. Assim foi ordenado que se guardasse o sábado, de modo que, se houvesse necessidade, não seria considerado culpado aquele que violasse o sábado; por isso não foi proibido circuncidar no sábado, porque era necessário fazê-lo; e os Macabeus, diante de uma necessidade premente, lutaram no dia de sábado; por isso, estando os discípulos com fome, o que não era lícito pela lei tornou-se lícito pela necessidade da fome; assim como hoje, se um doente quebrar o jejum, de modo algum é considerado culpado. Segue-se, portanto, "o Filho do homem é Senhor também do sábado"; como se dissesse: Se David, rei, alimentado com o pão sacerdotal, é desculpável, quanto mais o Filho do homem, verdadeiro Rei e Sacerdote, e Senhor do sábado, não é culpado pela colheita de espigas no sábado?
Em sentido místico, os discípulos atravessam os campos de trigo, quando os santos doutores observam com a solicitude de uma piedosa preocupação aqueles que instruíram na fé; e entendemos que estes nada melhor têm fome senão da salvação dos homens. Arrancar as espigas é retirar os homens da intenção terrena; esfregá-las com as mãos é, pelos exemplos das virtudes, despir a pureza da mente da concupiscência da carne, como se fossem cascas; comer os grãos é fazer com que cada um, purificado das sujeiras dos vícios pela boca dos pregadores, seja incorporado aos membros da Igreja. E corretamente se menciona que os discípulos fizeram isso caminhando diante da face do Senhor: porque é necessário que a palavra do doutor preceda, e assim o coração do ouvinte seja iluminado pela graça subsequente da visita divina. Acertadamente, nos sábados: porque também os próprios doutores, ao pregar, trabalham pela esperança do descanso futuro, e exortam seus ouvintes a se esforçarem em trabalhos pela eterna quietude.
Da mesma forma, caminham pelos campos semeados com o Senhor aqueles que se deleitam em meditar nas palavras sagradas, e sentem fome quando desejam encontrar nelas o pão da vida; e isto nos sábados, quando, com a mente tranquila, alegram-se de estar livres de pensamentos turbulentos; colhem as espigas e, ao friccionar, limpam-nas até chegar ao que é próprio para comer, quando tomam para si, meditando, os testemunhos das Escrituras, aos quais chegam pela leitura, e os examinam continuamente até encontrar neles a medula do amor. Esta verdadeira nutrição da mente é desagradável aos insensatos, mas é aprovada pelo Senhor.
Porque o Mestre havia desculpado com um exemplo convincente a destruição do sábado, que acusavam nos discípulos, agora querem caluniar a Ele mesmo observando-o, para que, se curasse no sábado, o acusassem de transgressão, e se não curasse, o acusassem de crueldade ou fraqueza. Segue-se: e disse ao homem que tinha a mão seca: Levanta-te no meio.
E prevendo a calúnia dos judeus, que eles lhe haviam preparado, arguiu-os, porque violavam os preceitos da lei com uma interpretação equivocada; por isso segue e diz-lhes: É lícito no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Isso, porém, pergunta porque estimavam que no sábado devia-se abster até mesmo das boas obras, quando a lei manda abster-se das más, dizendo: não fareis nele nenhuma obra servil, isto é, o pecado: porque quem comete o pecado, é servo do pecado. O mesmo é o que havia dito antes, fazer o bem ou fazer o mal, e o que depois acrescenta, salvar a alma ou perdê-la? Isto é, curar o homem ou não; não porque Deus, sumo bem, possa ser para nós autor de perdição, mas porque o seu não salvar, pelo costume da Escritura, é chamado de perder. Se, porém, alguém se admira de por que o Senhor, quando estava para curar o corpo, interrogou sobre a salvação da alma, entenda que, ou a alma foi posta no lugar do homem, segundo o costume das Escrituras, como se diz: essas são as almas que saíram da coxa de Jacó; ou porque fazia aqueles milagres para a salvação da alma; ou porque a própria cura da mão significava a salvação da alma.
Misticamente, porém, o homem que tinha a mão seca indica o gênero humano, ressequido pela infecundidade das boas obras, mas curado pela misericórdia do Senhor: cuja mão direita, que no primeiro pai, ao colher os frutos da árvore proibida, secara, pela graça do Redentor, enquanto estendia suas mãos inocentes na árvore da cruz, foi restituída à saúde pelos sucos das boas obras. E com razão estava na sinagoga a mão seca: porque onde o dom da ciência é maior, ali mais grave é o perigo da culpa inexcusável.
Os fariseus, considerando um crime que, à palavra do Senhor, a mão direita que estava enferma se estendesse curada, fizeram conselho sobre as palavras do Salvador; por isso diz: Saindo, porém, os fariseus, imediatamente faziam conselho com os herodianos contra Ele, sobre como O perderiam; como se cada um deles não fizesse coisas maiores nos sábados, carregando alimentos, oferecendo o cálice e executando outras coisas necessárias para o sustento. Nem certamente Aquele que disse, e foram feitas, podia ser convencido de ter trabalhado no sábado.
Ou chama Herodianos aos ministros de Herodes, o Tetrarca, os quais, por causa das inimizades que seu senhor tinha contra São João, também perseguiam com insídias e ódio ao Salvador, a quem São João pregava. Segue-se: "Jesus, porém, com seus discípulos retirou-se para o mar"; como homem que foge das insídias dos perseguidores, porque ainda não havia chegado a hora de sua paixão, nem havia lugar fora de Jerusalém adequado para sua Paixão; nisso também deu exemplo aos seus, que se fossem perseguidos em uma cidade, fugissem para outra.
Pois estes, vendo as obras de suas virtudes e ouvindo as palavras de sua doutrina, o perseguiam; mas aqueles, conduzidos apenas pela fama de suas virtudes, vinham em grandíssima multidão para ouvi-lo e pedir o auxílio da salvação; por isso segue-se: e disse aos discípulos que tivessem uma barca à sua disposição.
Prostravam-se, portanto, ambos diante do Senhor, tanto os que tinham pragas de enfermidades corporais, como os que eram atormentados por espíritos imundos; mas os enfermos com a simples intenção de obter a saúde, enquanto os endemoninhados, ou melhor, os demônios que neles habitavam, forçados pelo poder do temor divino, eram compelidos não só a prostrar-se diante dele, mas também a confessar sua majestade; donde segue: e clamavam dizendo: tu és o Filho de Deus. Onde é admirável a cegueira dos arianos, que depois da glória da ressurreição negam o Filho de Deus, a quem os demônios confessam como Filho de Deus mesmo quando ainda estava revestido de carne mortal. Segue-se: e ameaçava-os severamente para que não o manifestassem. Pois ao pecador Deus disse: por que tu narras as minhas justiças?(Salmo 50,16) Proíbe-se, portanto, ao pecador que pregue o Senhor, para que ninguém, ao ouvir a pregação, siga o erro; pois o Diabo é um mestre ímprobo, que frequentemente mistura falsidades com verdades, para que sob a aparência de verdade encubra o testemunho da fraude. Ademais, não só aos demônios, mas também aos curados por Cristo e aos apóstolos, antes da paixão, ordena-se que se calem a respeito dele; para que, sendo pregada a divina majestade, não se adiasse a dispensação da paixão. Segundo a alegoria, porém, nisto que o Senhor, saindo da sinagoga, retirou-se para o mar, prefigurou a salvação dos gentios, aos quais se dignou vir pela fé, tendo deixado a Judeia por causa de sua perfídia. Corretamente, pois, as nações agitadas por diversos desvios de erros são comparadas à instabilidade do mar. E muita gente de diversas províncias seguiu-o; porque, pregando os apóstolos, recebeu benignamente muitas nações que vinham a ele. A barca, porém, que serve ao Senhor no mar é a Igreja reunida dentre os gentios. Por causa da multidão, para que não o comprimisse, subiu à barca; porque, fugindo das mentes turbadas dos carnais, alegra-se em vir àqueles que desprezam a glória do século, e fazer ali sua morada. Há, porém, diferença entre comprimir o Senhor e tocá-lo: comprimem-no quando com pensamentos ou atos carnais perturbam a paz na qual a verdade permanece; toca-o, porém, quem pela fé e amor o recebe no coração: donde aqueles que o tocaram, declara-se que foram salvos.
Depois de ter proibido aos espíritos malignos que O pregassem, Ele elegeu homens santos para expulsar os espíritos imundos e pregar o Evangelho. Por isso é dito, e subindo ao monte, chamou a Si aqueles que Ele queria.
Pois não era fruto da escolha e do esforço deles, mas da divina condescendência e graça, que fossem chamados ao Apostolado. Também o monte no qual o Senhor escolheu Seus Apóstolos demonstra a elevada justiça na qual eles deveriam ser instruídos e que haveriam de pregar aos homens.
Pois neste sacramento os filhos de Israel acampavam outrora ao redor do tabernáculo, de modo que em cada lado do quadrado permaneciam três tribos. Ora, três vezes quatro fazem doze, e os apóstolos foram enviados em três grupos de quatro para pregar, a fim de que, pelas quatro regiões de todo o mundo, batizassem as nações em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Segue-se e deu-lhes poder para curar enfermidades e expulsar demônios; a saber, para que a grandeza dos feitos atestasse a grandeza das promessas celestiais, e fizessem coisas novas aqueles que pregavam coisas novas.
Por isso, o Senhor quis que ele primeiramente fosse chamado de outra maneira, para que pela própria mudança do nome o sacramento fosse recomendado. Portanto, o mesmo que em grego ou em latim é Pedro, em siríaco é Cefas; e em ambas as línguas o nome é derivado de pedra, e não há dúvida de que se trata daquela sobre a qual Paulo diz: a pedra era Cristo(1 Coríntios 10,4); pois assim como Cristo era a verdadeira luz, e concedeu aos apóstolos que fossem chamados a luz do mundo, assim também a Simão, que acreditava na pedra, Cristo concedeu o nome de Pedra.
Isso deve ser entendido a partir do que precede: subindo ao monte, chamou a si.
Porque André é um nome grego, e significa viril, de andros, que é varão, porque aderiu virilmente ao Senhor. Segue-se e Felipe.
Tadeu é aquele mesmo que Lucas no Evangelho e nos Atos dos Apóstolos nomeia Judas de Tiago; pois era irmão de Tiago, irmão do Senhor, como ele mesmo escreveu em sua epístola. Segue-se e Simão Cananeu, e Judas Iscariotes, que também o traiu. Isto ele colocou com um acréscimo, para distinção de Simão Pedro e Judas de Tiago. Simão, porém, é chamado Cananeu por Caná, aldeia da Galileia; Judas, por sua vez, Iscariotes é assim chamado pela aldeia em que nasceu, ou se diz que vem da tribo de Issacar.
O Senhor conduz os apóstoles eleitos no monte para uma casa, como se os admoestasse que, após receber o grau do apostolado, deveriam retornar à sua consciência; donde se diz: e vêm a uma casa, e a multidão se reúne novamente, de modo que não podiam nem comer pão.
Quão bem-aventurada era verdadeiramente a frequência da multidão confluente, que tinha tanto cuidado para obter a salvação, que ao autor da salvação com aqueles que estavam com ele não restava nem mesmo uma hora livre para comer; mas a quem a multidão externa frequenta, a este a estima dos parentes menospreza; pois segue-se e quando os seus ouviram isso, saíram para contê-lo. Porque, como não podiam compreender a altura da sabedoria que ouviam, acreditavam que ele havia falado como que em estado alienado; de onde segue-se diziam, pois, que estava fora de si.
Muito difere entre aqueles que não entendem a palavra de Deus por causa da lentidão de entendimento, como eram aqueles dos quais se falou, e aqueles que propositadamente blasfemam contra o que entendem, dos quais se acrescenta: e os Escribas que tinham descido de Jerusalém diziam que ele tinha Beelzebub. Pois aquilo que não podiam negar, esforçavam-se por perverter com interpretação maliciosa; como se não fossem obras da divindade, mas do espírito mais imundo, isto é, Beelzebub, que era o deus de Acarom. Pois Beel é o próprio Baal, e zebub significa mosca; Beelzebub, portanto, é interpretado como homem das moscas, por causa da imundície do sangue dos sacrifícios, de cujo rito impuríssimo o chamavam de príncipe dos demônios, quando acrescentam: e pelo príncipe dos demônios expulsa os demônios.
Os escribas também, descendo de Jerusalém, blasfemam; mas a multidão, vinda de Jerusalém e de outras regiões da Judeia ou dos gentios, seguiu o Senhor; porque assim estava para ser no tempo da paixão, que uma multidão do povo dos judeus O conduzisse a Jerusalém com palmas e louvores, e os gentios desejassem vê-Lo; mas os escribas e fariseus tramavam acerca de Sua morte.
O Senhor também amarrou o forte, isto é, o Diabo, ou seja, impediu-o de seduzir os eleitos, e entrando na casa, isto é, no mundo, saqueou sua casa e seus vasos, isto é, os homens: porque arrancados dos laços do Diabo, reuniu-os à sua Igreja. Ou saqueou sua casa, porque todas as partes do mundo, sobre as quais outrora dominava o antigo inimigo, distribuiu aos apóstolos e seus sucessores, para que convertessem os povos ao caminho da vida. E mostrou o Senhor que grande crime cometiam os que clamavam ser do Diabo aquilo que reconheciam ser de Deus, quando acrescenta: em verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e as blasfêmias com que tiverem blasfemado. Todos os pecados e blasfêmias não são indistintamente perdoados a todos os homens, mas àqueles que fizeram digna penitência pelos seus erros nesta vida; e assim nem Novato tem razão, que nega dever ser concedido perdão aos penitentes que caíram no martírio; nem Orígenes, que afirma que após o juízo universal, embora transcorridos volumes de séculos, todos os pecadores conseguirão o perdão dos pecados; erro que as seguintes palavras do Senhor refutam, quando acrescenta: mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não terá remissão eternamente.
Nem todavia aqueles, que não acreditam que o Espírito Santo seja Deus, são considerados culpados de um crime de blasfêmia irremissível, porque fazem isto conduzidos não por inveja diabólica, mas por ignorância humana.
Os irmãos do Senhor não devem ser considerados filhos da sempre virgem Maria, conforme Helvidio 1, nem filhos de José com outra esposa, conforme pensam alguns, mas antes devem ser entendidos como seus parentes.
[1] A virgindade perpétua da Mãe de Deus é considerada por White, Bramhall, Patrick e Pearson entre as tradições que sempre foram mantidas na Igreja Católica. Para um relato dos hereges que a negaram, veja Bp. Pearson sobre o Credo, Art. 3, p. 272, nota x., também Catena Aurea em São Mateus, p. 58, nota c. ↩
Solicitado, portanto, pelo dever da palavra, ele se abstém de sair, não por recusar o cumprimento de sua piedade maternal, mas demonstra dever-se mais aos mistérios paternos do que aos afetos maternos. Nem desdenha injuriosamente os irmãos, mas preferindo a obra espiritual ao parentesco carnal, ensina que a união dos corações é mais religiosa que a dos corpos; donde segue: "e olhando ao redor para os que estavam sentados à sua volta, disse: eis minha mãe e meus irmãos".
Misticamente, a mãe e os irmãos de Jesus são a sinagoga, da qual segundo a carne ele foi gerado, e o povo dos judeus, os quais, enquanto o salvador ensina dentro, vêm e não conseguem entrar, pois não são capazes de entender espiritualmente o que é dito. A multidão, porém, antecipando-se, entra, porque, enquanto a Judeia demorava, a gentilidade acorreu a Cristo: os parentes que ficam de fora querem ver o Senhor, enquanto os judeus se fixaram na observância exterior da letra, e preferem forçar Cristo a sair para ensinar coisas carnais, a consentirem eles mesmos em entrar para aprender coisas espirituais. Se, portanto, os próprios pais, estando fora, não são reconhecidos, como seremos nós reconhecidos, se estivermos fora? 1 Pois dentro está o Verbo, dentro está a luz.
[1] Veja Ambrósio em Lucas, 6, 37. ↩
Se examinarmos o Evangelho de São Mateus, fica evidente que esta doutrina do Senhor junto ao mar foi proferida no mesmo dia em que o sermão anterior foi celebrado na casa: pois, terminado o primeiro sermão, São Mateus imediatamente acrescentou, dizendo: "Naquele dia, saindo de casa, Jesus sentou-se à beira-mar".
Tendo deixado a casa, começou a ensinar junto ao mar, porque, após abandonar a sinagoga, veio para reunir, por meio dos apóstolos, a multidão do povo gentio; donde se segue: e reuniu-se a ele uma grande multidão, de modo que, entrando em uma barca, sentou-se no mar.
Esta barca prefigurava a Igreja que havia de ser edificada no meio das nações, na qual o Senhor consagra para si uma morada querida. Segue-se: e dizia-lhes muitas coisas em parábolas.
Ou saiu para semear, quando depois de ter chamado à Sua fé a parte eleita da sinagoga, derramou os dons da Sua graça para também chamar os gentios.
Ou o caminho é a mente tão pisada pelo assíduo movimento de maus pensamentos, que não pode germinar nela suficientemente a semente da palavra. E, portanto, qualquer boa semente que tocar a vizinhança de tal caminho, perece e é arrebatada pelos demônios; donde segue: e vieram as aves do céu e a comeram. Corretamente os demônios são chamados aves do céu, seja porque são de natureza celestial e espiritual, seja porque habitam no ar. Ou os que estão perto do caminho são os negligentes e indolentes. Segue-se: Outra caiu sobre pedregais. Chama pedra à dureza da mente obstinada, terra à leveza da alma obediente, sol ao fervor da perseguição violenta. A profundidade da terra, que deveria receber a semente de Deus, é a probidade do ânimo exercitado nas disciplinas celestiais e instituído regularmente para obedecer às palavras divinas. Os lugares pedregosos, que não têm força para acolher raízes, são aqueles corações que se deleitam apenas com a doçura da palavra ouvida e com as promessas celestiais por um tempo; mas no tempo da tentação recuam, porque há pouco desejo salutar neles para que concebam a semente da vida.
Como se dissesse: vós que sois dignos de aprender tudo o que é adequado à pregação, aprendereis a manifestação das parábolas. Para estes, porém, usei parábolas porque não são dignos de aprender por causa de sua malícia. Pois aqueles que não mantinham a obediência à lei que haviam recebido, foi justo que não tivessem participação na nova palavra, mas que permanecessem alheios a ambas. Mostra, pois, pela obediência dos discípulos que, pelo contrário, os demais tornaram-se indignos da doutrina mística. Depois, introduzindo a voz profética, confunde a maldade deles, como algo há muito tempo refutado. Por isso segue: para que vendo vejam e não percebam, e ouvindo ouçam e não entendam; como se dissesse: para que se cumpra a profecia que isto prediz.
Para aqueles que estão fora, tudo acontece em parábolas, tanto os feitos quanto as palavras do Salvador: pois nem nas virtudes que Ele operava, nem nos mistérios que pregava, conseguiam reconhecê-Lo como Deus; e por isso não são capazes de alcançar a remissão dos seus pecados.
Nesta exposição do Senhor, compreende-se toda a diversidade daqueles que podem ouvir as palavras de salvação, mas não conseguem alcançar a salvação. Pois há alguns que não percebem a palavra que ouvem com nenhuma fé, nenhum entendimento, e sem ao menos tentar aproveitar sua utilidade; destes Ele diz os que estão junto ao caminho. Porque os espíritos imundos arrebatam imediatamente a palavra confiada aos seus corações, como aves levam a semente do caminho pisado. Há os que experimentam a utilidade da palavra ouvida e sentem desejo por ela; mas para que não alcancem o que aprovam, alguns são impedidos pelo terror das adversidades desta vida, outros são retardados pelos encantos da prosperidade; dos primeiros diz-se os que caíram em terreno pedregoso; dos outros diz-se os que foram semeados entre espinhos. As riquezas, porém, são chamadas espinhos porque dilaceram a mente com as picadas de seus pensamentos; e quando arrastam até o pecado, como que fazem sangrar com a ferida infligida. Diz também e as preocupações do mundo, e a falsidade das riquezas; pois quem quer que seja enganado pelo vão desejo de riquezas, necessariamente logo é afligido pelo peso dos cuidados contínuos. Acrescenta ainda e as concupiscências das outras coisas; porque quem, desprezando os mandamentos de Deus, erra desejando concupiscentemente outras coisas, não pode alcançar a alegria da bem-aventurança. E tais concupiscências sufocam a palavra; porque não permitem que um bom desejo entre no coração, e, por assim dizer, bloqueiam a entrada do sopro vital. Excetuam-se dessas diferentes classes de homens os gentios, que nem merecem ouvir as palavras de vida.
Ou produz trinta, quando alguém infunde a fé na Santa Trindade nos corações dos eleitos; sessenta, quando ensina a perfeição das boas obras; cem, quando mostra os prêmios do reino celestial: pois ao contar cem, passa-se para a mão direita1: por isso esse número é adequadamente colocado como significado da felicidade eterna. A terra boa, porém, é a consciência dos eleitos, que faz o contrário de todas as três terras mencionadas anteriormente: pois tanto recebe de bom grado a semente da palavra que lhe foi confiada, quanto, uma vez recebida, a conserva constantemente em meio às adversidades e prosperidades até o tempo dos frutos.
[1] Ele alude ao modo de contar entre os antigos. Todos os números eram indicados pelos dedos da mão esquerda, quer estendidos ou variadamente dobrados, até cem; e então mudavam para a direita. Consulte Caelius Rhodiginus, Lectionum Antiq. lib. 23, cap. 11, 12. ↩
Ou porque o tempo de nossa vida está contido sob uma certa medida da divina providência, é corretamente comparado a um alqueire; e o leito da alma é o corpo, no qual ela habita e repousa temporariamente. Aquele, pois, que, por amor da vida temporal e das seduções carnais, oculta a palavra de Deus, cobre a lâmpada com um alqueire ou com um leito; mas coloca a lâmpada sobre o candelabro aquele que submete seu corpo ao ministério da palavra de Deus; por isso, nestas palavras, ele ensina figuradamente a forma de pregar; donde se segue: pois não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar manifesto; como se dissesse: Não vos envergonheis do Evangelho, mas em meio às trevas das perseguições, elevai a luz da palavra de Deus sobre o candelabro de vosso corpo, mantendo fixamente em vossa mente aquele dia em que Deus iluminará o que está escondido nas trevas; pois então o louvor eterno vos aguarda, e aos vossos adversários, a pena eterna.
Isto é, se alguém tem a capacidade de entender a palavra de Deus, não se afaste, não volte seu ouvido para fábulas, mas preste atenção àquilo que a verdade disse, aplicando o ouvido para examinar, as mãos para cumprir, a língua para proclamar. Segue-se: "E dizia-lhes: Vede o que ouvis".
Ou de outro modo. Se vos esforçardes diligentemente em fazer todo o bem que podeis, e em transmiti-lo aos vossos próximos, estará presente a piedade divina, que vos conferirá, no tempo presente, o discernimento para compreender coisas mais elevadas e o afeto para realizar obras mais excelentes, e no futuro acrescentará a recompensa eterna; e por isso acrescenta-se e se acrescentará a vós.
Pois às vezes um leitor engenhoso, por negligenciar-se, priva-se da sabedoria que aquele de intelecto mais lento, trabalhando com maior diligência, saboreia.
O homem que semeia, por muitos é entendido como sendo o próprio Salvador, enquanto por outros é entendido como o próprio homem semeando em seu coração.
Ou ainda, a barca na qual Ele subiu é tomada como símbolo da árvore de Sua paixão, pela qual os fiéis alcançam a segurança da margem segura. As outras embarcações que se diz estarem com o Senhor significam aqueles que estão imbuídos da fé na cruz de Cristo, e não são atormentados pelo turbilhão das tribulações; ou que, após as tempestades da tentação, desfrutam da serenidade da paz. E enquanto os discípulos navegam, Cristo adormece, porque o tempo da Paixão de nosso Senhor sobreveio aos seus fiéis quando meditavam no descanso de seu futuro reino. Por isso se relata que isto aconteceu ao entardecer, para que não apenas o sono de nosso Senhor, mas também a própria hora do declínio da luz, significasse o ocaso do verdadeiro Sol. Além disso, quando Ele subiu à cruz, da qual a popa do navio era uma imagem, Seus perseguidores blasfemos se ergueram como ondas contra Ele, impelidos pelas tempestades dos demônios, pelas quais, no entanto, Sua própria paciência não é perturbada, mas Seus insensatos discípulos ficam tomados de espanto. Os discípulos despertam o Senhor, porque buscavam, com os mais fervorosos desejos, a ressurreição d'Aquele que tinham visto morrer. Erguendo-se, Ele ameaçou o vento, porque quando triunfou em Sua ressurreição, prostrou o orgulho do diabo. Ordenou ao mar que se acalmasse, isto é, ao ressuscitar, abateu a fúria dos judeus. Os discípulos são repreendidos, porque após Sua ressurreição, Ele os repreendeu por sua incredulidade. E nós também, quando marcados com o sinal da cruz do Senhor, decidimos abandonar o mundo, embarcamos no navio com Cristo; tentamos atravessar o mar; mas Ele adormece enquanto navegamos em meio ao rugido das águas, quando em meio aos esforços de nossas virtudes, ou em meio aos ataques dos espíritos malignos, dos homens perversos, ou de nossos próprios pensamentos, a chama do nosso amor esfria. Em meio a tempestades desse tipo, esforcemo-nos diligentemente para despertá-Lo; Ele logo conterá a tempestade, derramará paz sobre nós, conceder-nos-á o porto da salvação.
Geraza é uma cidade notável da Arábia, além do Jordão, próxima ao monte Galaad, que a tribo de Manassés ocupou, não longe do lago de Tiberíades, no qual os porcos foram precipitados.
E quão grande é a impiedade dos judeus, ao dizerem que Ele expulsou os demônios pelo príncipe dos demônios, quando os próprios demônios confessam que nada têm em comum com Ele!
Pois é grande tormento para o Demônio deixar de ferir o homem; e quanto mais duramente o possui, tanto mais gravemente o abandona; segue-se, com efeito: "E dizia-lhe: sai, espírito imundo, deste homem".
Confessada publicamente a enfermidade que furiosamente tolerava, a virtude do curador aparece mais graciosa. Mas também os sacerdotes de nosso tempo, que pela graça do exorcismo sabem expulsar, costumam dizer que os pacientes não podem ser curados de outra maneira, a não ser que, tanto quanto possam compreender, exponham abertamente confessando tudo o que sofreram dos espíritos imundos pela visão, audição, paladar, tato ou qualquer outro sentido do corpo ou da alma, estando acordados ou dormindo. E suplicava-lhe com insistência que não o expulsasse para fora daquela região.
Por isso, na verdade, permitiu que pela morte dos porcos fosse oferecida aos homens ocasião de salvação
Ou conhecedores de sua própria fragilidade, julgavam-se indignos da presença do Senhor. Segue-se: e quando entrava no barco, começou a suplicar-lhe aquele que havia sido atormentado pelo demônio, para que pudesse estar com ele.
Misticamente, porém, Gerasa ou Gergese, como alguns leem, interpreta-se como aquele que expulsa um habitante ou um estrangeiro que se aproxima: porque o povo dos gentios tanto expulsou o inimigo do coração, como aquele que estava longe tornou-se próximo.
Aquele que habitava nos sepulcros, porque se deleitava em obras mortas, isto é, em pecados, e sempre enfurecia-se noite e dia, porque tanto na prosperidade quanto na adversidade não cessava do serviço dos espíritos malignos; mas pela torpeza das obras jazia como que nos sepulcros, pelo orgulho da soberba vagava pelos montes, pelas palavras de duríssima infidelidade como que se feria com pedras. Diz, porém: Legião é meu nome, porque o povo dos gentios estava submetido a diversos cultos de idolatria. Que os espíritos imundos, ao saírem do homem, entram nos porcos e os precipitam no mar, significa que, libertado o povo dos gentios da condenação dos demônios, aqueles que não quiseram crer em Cristo, praticam ritos sacrílegos em lugares ocultos.
Mas que o Senhor não tenha admitido aquele que desejava estar com Ele, significa que cada um, após a remissão dos pecados, deve compreender que precisa entrar em sua boa consciência e servir ao Evangelho pela salvação dos outros, para que depois possa descansar com Cristo.
Eis para o que tendia a interrogação: para que a mulher confessasse a verdade sobre sua longa infidelidade, sua súbita credulidade e cura; e assim ela mesma se confirma na fé e dá exemplo aos outros. Segue-se: E ele lhe disse: Filha, tua fé te salvou; vai em paz e fica livre de teu mal. Não disse: "tua fé te salvará", mas "te salvou", como se dissesse: no momento em que creste, já foste curada.
Dirigindo-se para curar a jovem, o Senhor é comprimido pela multidão, porque, oferecendo conselhos salutares à gente da Judeia, foi sobrecarregado pelos costumes nocivos dos povos carnais. A mulher que sofria de fluxo de sangue, mas curada pelo Senhor, é a Igreja, congregada dentre os gentios; pois o fluxo de sangue pode ser corretamente entendido tanto sobre a contaminação da idolatria quanto sobre aquelas coisas que são praticadas pelo deleite da carne e do sangue. Mas enquanto o Verbo de Deus decidia salvar a Judeia, o povo dos gentios, com esperança certa, antecipou-se à salvação preparada e prometida a outros.
Por isso uma mulher crédula toca o Senhor, enquanto a multidão o oprime: porque aquele que é oprimido por diversas heresias, ou por costumes perversos, é venerado somente pelo coração fiel da Igreja Católica. A Igreja dos gentios, porém, vem por trás: porque não vendo o Senhor presente na carne, mas depois de já cumpridos os mistérios de sua Encarnação, chegou à graça de sua fé; e assim, ao merecer ser salva dos seus pecados pela participação nos seus sacramentos, como que secou a fonte do seu sangue pelo toque em suas vestes. O Senhor, porém, olhava ao redor para ver aquela que tinha feito isso: porque a todos os que merecem ser salvos, Ele julga dignos do seu olhar e da sua misericórdia.
Pois para os homens ela estava morta, que eram incapazes de ressuscitá-la; para Deus, porém, ela dormia, em cuja disposição tanto a alma vivia, quanto a carne descansava para ressurgir. Daí surgiu o costume entre os cristãos de chamar de dormentes aos mortos, de cuja ressurreição não se duvida. Segue-se e escarneciam dele.
Assim, pois, como preferiam zombar da palavra daquele que ressuscita em vez de nela crer, com razão são excluídos do lugar, como indignos de testemunhar seu poder ressuscitador e o mistério da ressurreição. Por isso, prossegue: Mas Ele, tendo feito sair a todos, toma consigo o pai e a mãe da menina e aqueles que estavam com Ele, e entra onde a menina estava deitada.
Misticamente, salva a mulher do fluxo de sangue, logo a morte da filha do chefe da sinagoga é anunciada; porque enquanto a Igreja dos gentios, limpa da mancha dos vícios, e pelo mérito da fé é chamada filha, imediatamente a sinagoga é dissolvida pelo zelo da perfídia e juntamente da inveja; da perfídia, certamente, porque não quis crer em Cristo; da inveja, na verdade, porque se afligiu por a Igreja crer. E aquilo que diziam os mensageiros ao chefe da sinagoga: "por que incomodas ainda o Mestre?", hoje é dito por aqueles que veem o estado da sinagoga abandonada por Deus, a ponto de não crerem que possa ser restaurada, e por isso julgam que não se deve suplicar por sua ressurreição. Mas se o chefe da sinagoga, isto é, a assembleia dos doutores da lei, quiser crer, também a sinagoga que lhe está sujeita será salva. Porque a sinagoga perdeu a alegria da habitação do Senhor pelo mérito de sua infidelidade, jaz como morta entre os que choram e se lamentam. O Senhor, tomando a menina pela mão, a ressuscitou; porque, a não ser que primeiro sejam purificadas as mãos dos judeus, que estão cheias de sangue, a sinagoga morta não ressurgirá. Na cura da mulher com hemorragia e na ressurreição da menina, mostra-se a salvação do gênero humano, que foi assim dispensada pelo Senhor, para que primeiro alguns de Israel viessem à fé, depois entrasse a plenitude dos gentios, e assim todo Israel fosse salvo. A menina tinha doze anos, e durante doze anos a mulher sofria: porque os pecados dos que não criam apareceram no início da fé dos que criam; donde se diz: "Abraão creu em Deus, e foi-lhe reputado como justiça".
E é de notar que os erros mais leves e cotidianos podem ser curados pelo remédio de uma penitência mais leve: por isso o Senhor ressuscita a menina deitada no aposento com uma voz muito fácil, dizendo menina, levanta-te; mas para que o morto de quatro dias pudesse escapar da clausura do sepulcro, fremiu em espírito, turbou-se a si mesmo, derramou lágrimas. Quanto mais grave, portanto, for a morte da alma, tanto mais acrimonioso é necessário que o fervor do penitente seja. Mas isto também deve ser notado, que uma culpa pública necessita de um remédio público: por isso Lázaro, chamado do sepulcro, tornou-se conhecido aos povos; porém os pecados leves podem ser apagados por uma penitência secreta: por isso a menina, deitada em casa, levanta-se diante de poucas testemunhas, e a estas se ordena que não o manifestem a ninguém. A multidão também é lançada fora para que a menina seja ressuscitada: porque se primeiro não for expulsa das partes mais secretas do coração a multidão de cuidados seculares, a alma que jaz morta no interior não ressuscita. Bem ressuscitou e andou: porque a alma ressuscitada dos pecados não só deve se levantar da imundície dos crimes, mas também deve avançar nas boas obras, e logo é necessário que seja saciada com o pão celestial, isto é, tornada participante da palavra divina e do altar.
Sua pátria era Nazaré, na qual fora criado. Mas quão grande a cegueira dos nazarenos, que desprezam, apenas por conhecerem sua origem, aquele que poderiam reconhecer como Cristo por suas palavras e feitos! Segue-se e chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, admiravam-se de sua doutrina, dizendo: de onde vêm a este homem todas estas coisas? E que sabedoria é esta que lhe foi dada, e que tão grandes maravilhas são operadas por suas mãos? Por sabedoria refere-se à sua doutrina, e por poderes, às curas e milagres que realizava. Segue-se: não é este o carpinteiro, filho de Maria?
Pois ainda que as coisas humanas não sejam comparáveis às divinas, o exemplo é, contudo, perfeito: porque o Pai de Cristo opera pelo fogo e pelo Espírito. Segue-se o irmão de Tiago, e de José, e de Judas, e de Simão; e não estão aqui conosco suas irmãs? Testemunham que seus irmãos e irmãs estavam com Ele: os quais, contudo, não devem ser considerados filhos de José ou de Maria, como querem os hereges; mas, antes, conforme o costume da Sagrada Escritura, devem ser entendidos como seus parentes; assim como Abraão e Ló são chamados irmãos, sendo Ló filho do irmão de Abraão. E escandalizavam-se dele. O escândalo e o erro dos judeus é nossa salvação e a condenação dos hereges. A tal ponto desprezavam o Senhor Jesus Cristo que o chamavam carpinteiro e filho de carpinteiro. Segue-se e Jesus lhes dizia: um profeta não é sem honra senão em sua pátria, e em sua casa, e entre seus parentes. Que o Senhor seja chamado Profeta nas Escrituras, também Moisés o testemunha, predizendo sua futura encarnação aos filhos de Israel, dizendo: o Senhor vosso Deus suscitará um profeta dentre vossos irmãos. Não somente Ele, que é o Senhor dos profetas, mas também Elias, e Jeremias, e os demais profetas, foram menos estimados em sua pátria do que em cidades estrangeiras; porque é quase natural que os cidadãos invejem sempre seus concidadãos: pois não consideram as obras presentes do homem, mas recordam-se da fragilidade da infância.
Não se admira como se fosse algo inesperado e imprevisto aquele que conhece todas as coisas antes mesmo que aconteçam; mas aquele que conhece o oculto dos corações, quando quer mostrar aos homens algo admirável, manifesta diante dos homens que se admira. E por certo é admirável a cegueira dos judeus, que nem quiseram crer no que seus profetas diziam sobre Cristo, nem naquele Cristo que nasceu entre eles. Em sentido místico, Jesus é desprezado em sua casa e em sua pátria, isto é, no povo dos judeus; e por isso realizou poucos sinais ali, para que não se tornassem completamente desculpáveis. Já maiores sinais realiza diariamente entre o povo dos gentios, não tanto quanto à saúde dos corpos, mas quanto à salvação das almas.
Benigno e clemente Senhor e Mestre não inveja aos seus servos e discípulos as suas virtudes; e assim como Ele mesmo curara toda languidade e toda enfermidade, também deu aos seus apóstolos o poder; donde segue: e convocou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, e lhes deu poder sobre os espíritos imundos. Mas há grande distância entre dar e receber: Ele, o que quer que faça, faz pelo poder do Senhor; eles, se fazem algo, confessam sua fraqueza e o poder do Senhor, dizendo: em nome de Jesus, levanta-te e anda.
Tanta deve ser a confiança do pregador em Deus, que mesmo não providenciando os recursos para a vida presente, saiba com toda certeza que estes não lhe faltarão, para que, enquanto sua mente está ocupada com coisas temporais, não providencie menos das coisas eternas para os outros.
E quanto às duas túnicas, parece-me que se manifesta um duplo vestuário: não que nos lugares da Cítia, rígidos pela neve glacial, alguém deva contentar-se com uma só túnica; mas por túnica entendamos vestimenta, para que, vestidos com uma, não guardemos outra por temor das necessidades futuras.
Alegoricamente, pela sacola designam-se os fardos do mundo, pelo pão as delícias temporais, pelo dinheiro na bolsa o ocultamento da sabedoria; porque qualquer um que recebe o ofício de doutor, não deve deixar-se oprimir pelos fardos dos negócios seculares, nem entregar-se aos desejos carnais, nem ocultar o talento da palavra que lhe foi confiado sob o ócio de um torpor indolente. Segue-se "e dizia-lhes: Em qualquer casa em que entrardes, permanecei ali até que partais dali". Onde dá um mandamento geral de constância, para que guardem os direitos do vínculo da hospitalidade, afirmando ser alheio ao pregador do reino celestial correr de casa em casa.
De onde é evidente que este costume da santa Igreja, de ungir os energúmenos ou quaisquer outros enfermos com óleo consagrado pela bênção pontifical, foi transmitido pelos próprios apóstolos.
Aqui somos ensinados quão grande foi a inveja dos judeus. Pois, eis que acreditavam que São João, de quem foi dito que não fez nenhum milagre, podia ressuscitar dos mortos, sem que ninguém o atestasse. Mas Jesus, aprovado por Deus com virtudes e sinais, cuja ressurreição Anjos, apóstolos, homens e mulheres proclamavam, preferiram acreditar que fora levado furtivamente, ao invés de supor que Ele havia ressuscitado. E esses homens, ao dizerem que São João ressuscitara dos mortos, e que por isso obras poderosas eram realizadas nele, tinham pensamentos corretos sobre o poder da ressurreição, pois os homens, quando ressuscitarem dos mortos, terão muito maior poder do que possuíam quando ainda eram oprimidos pela fraqueza da carne. Segue-se: outros, porém, diziam que era Elias.
Uma antiga história narra que Filipe, filho de Herodes o grande, sob o qual o Senhor fugiu para o Egito, irmão deste Herodes, sob o qual Cristo padeceu, tomou por esposa Herodíades, filha do rei Aretas; porém, depois, seu sogro, tendo surgido certas desavenças contra o genro, tirou sua filha e, para tristeza do marido anterior, uniu-a em núpcias ao inimigo dele, Herodes. Portanto, São João Batista repreendeu Herodes e Herodíades, porque contraíram núpcias ilícitas, e porque não é lícito, estando vivo o irmão legítimo, tomar a esposa dele.
Porque Herodias temia que Herodes algum dia se arrependesse, ou se tornasse amigo de seu irmão Filipe, e assim as núpcias ilícitas fossem dissolvidas pelo repúdio. Segue-se: Herodes, porém, temia João, porque sabia que ele era um homem justo e santo.
Apenas de todos os mortais, lê-se que Herodes e Faraó celebraram o dia de seu nascimento com festivas alegrias; mas ambos os reis, com infausto auspício, mancharam sua festividade com sangue; Herodes, porém, com tanto maior impiedade, quanto matou o santo e inocente mestre da verdade; e isto por causa de um voto e a pedido de uma dançarina; pois segue e tendo entrado a filha da própria Herodíades, e dançado, e agradado a Herodes e aos que estavam reclinados com ele, o rei disse à donzela: pede-me o que quiseres, e eu to darei.
Não se desculpa do homicídio pelo juramento: por isso talvez jurou, para encontrar ocasião de matar; e se tivesse pedido a morte do pai ou da mãe, Herodes certamente não a teria concedido. Segue-se e tendo ela saído, disse à sua mãe: que pedirei? E ela disse: a cabeça de São João Batista. Digno prêmio de sangue é pedido por tal obra de dança. Segue-se e voltando imediatamente com pressa ao rei, pediu dizendo: quero que me dês agora mesmo, num prato, a cabeça de São João Batista.
É costume das Escrituras que o historiador narre eventos como eram cridos por todos naquele tempo; assim como José é chamado pai de Jesus pela própria Maria; da mesma forma, agora se diz que Herodes ficou contristado, porque assim pensavam os convivas, pois o hipócrita mostrava tristeza no rosto, quando tinha alegria no coração; e ele desculpa a maldade por meio do juramento, para que sob pretexto de piedade se tornasse ímpio. Por isso segue: por causa do juramento, e por causa dos que estavam à mesa com ele, não quis contrariá-la.
O que acrescenta depois, e por causa dos que estavam reclinados à mesa com ele, quer tornar todos partícipes de seu crime, para que em um banquete luxurioso e impuro fossem servidos manjares ensanguentados; por isso segue: mas, enviando um executor, ordenou que fosse trazida a cabeça de São João em um prato.
Herodes, porém, não se envergonhou de apresentar a cabeça do homem assassinado diante dos convivas. Mas não se lê que Faraó tenha cometido tal insanidade. No entanto, de ambos os exemplos prova-se ser mais útil para nós recordar frequentemente o dia da nossa morte futura, temendo e vivendo castamente, do que celebrar com luxúria o dia do nosso nascimento. Pois o homem nasce para o trabalho no mundo, e os eleitos passam pela morte do mundo para o descanso. E decapitou-o na prisão, e trouxe a cabeça em um prato, e deu-a à jovem, e a jovem deu-a à sua mãe.
Josefo narra que João foi conduzido preso ao castelo de Maqueronta, e ali decapitado; e a história eclesiástica narra que ele foi sepultado em Sebaste, cidade da Palestina, que outrora era chamada Samaria. A decapitação de São João, porém, insinua a diminuição da sua fama, pela qual Cristo era considerado pelo povo, assim como a exaltação do Salvador na cruz designava o progresso da fé: porque aquele mesmo que antes era considerado profeta pelas multidões, foi reconhecido como Filho de Deus por todos os fiéis. Por isso São João, que devia diminuir, nasceu quando a luz do dia começa a decrescer; o Senhor, porém, naquela época do ano em que os dias começam a crescer.
Não somente é necessário ensinar, mas também fazer. Os apóstolos não apenas relatam ao Senhor o que eles próprios tinham feito e ensinado, mas também, enquanto estavam ocupados ensinando, os discípulos, tanto os seus quanto os de São João, relatam ao Senhor o que São João sofreu, conforme São Mateus descreve. Segue-se: E lhes disse: Vinde vós, à parte, a um lugar deserto, e descansai um pouco.
Ele mostra qual foi a necessidade de conceder descanso aos discípulos quando acrescenta: pois eram muitos os que iam e vinham, e nem sequer tinham tempo para comer, onde se demonstra a felicidade daquele tempo, tanto pelo trabalho dos que ensinavam quanto pelo zelo dos que aprendiam. Segue-se: e subindo a um barco, foram para um lugar deserto, à parte. Não foram apenas os discípulos, mas tomando o Senhor consigo, subiram ao barco e dirigiram-se a um lugar deserto, como São Mateus demonstra. Ele prova a fé das multidões: buscando a solidão, explora se elas se preocupam em segui-lo; e elas, seguindo-o não em jumentos ou em diversos veículos, mas com o próprio esforço dos pés, mostram quanto cuidado têm com sua salvação. Segue-se: e viram-nos partir, e muitos os reconheceram, e correram a pé de todas as cidades para lá, e chegaram antes deles. Quando se diz que os pedestres chegaram antes, mostra-se que os discípulos com o Senhor não chegaram à outra margem do mar ou do Jordão, mas foram a lugares próximos da mesma região, aos quais também os habitantes locais podiam chegar a pé antes deles.
São Mateus diz que curou os enfermos deles: pois isto é verdadeiramente ter misericórdia dos pobres, abrir-lhes o caminho da verdade ensinando-os, e afastar as moléstias do corpo.
Deixando também a Judeia, os santos pregadores, no deserto da Igreja, oprimidos pelo peso das tribulações entre os judeus, obtiveram descanso pela concessão da graça da fé aos gentios.
Mas quando Cristo busca os desertos dos gentios, muitas multidões de fiéis, abandonando os muros de sua antiga forma de vida, O seguem.
O termo "hora muito adiantada" indica que era tarde. Por isso São Lucas diz: "O dia havia começado a declinar".
Ele também incita os apóstolos, dizendo isto, a partirem o pão, para que, testemunhando eles que nada tinham, a grandeza do sinal se tornasse mais notória.
Em sentido místico, ao declinar do dia, o Salvador alimenta as multidões famintas: porque ou quando o fim dos séculos se aproxima, ou quando o sol da justiça se põe por nós, somos salvos da corrupção da fome espiritual. Ele convida os apóstolos para a fração do pão, insinuando que diariamente por meio deles nossos corações em jejum devem ser alimentados, isto é, por suas cartas e exemplos. Pelos cinco pães, são figurados os cinco livros da lei mosaica; pelos dois peixes, são figurados os Salmos e os Profetas.
Pois assim como são cinco os sentidos do homem exterior, os cinco mil homens que seguiram o Senhor designam aqueles que, ainda vivendo no estado secular, souberam fazer bom uso das coisas exteriores.
Sobre o feno, pois, os que se reclinam são alimentados com alimentos do Senhor, aqueles que, pela continência, tendo pisado as concupiscências, dedicam esforço em ouvir e cumprir as palavras de Deus. O Salvador, porém, não cria novos alimentos: porque, vindo na carne, não prega outras coisas senão as que foram pregadas; mas demonstra quão cheios estão de mistérios da graça os escritos da lei e dos profetas. Olha para o céu, para que ensine que ali se deve buscar a luz. Parte o pão e o distribui aos discípulos para ser colocado diante das multidões: porque revelou os sacramentos da profecia aos santos doutores, para que os preguem por todo o mundo. O que sobra às multidões é recolhido pelos discípulos: porque os mistérios mais secretos, que não podem ser compreendidos pelos ignorantes, não devem ser negligentemente omitidos, mas devem ser investigados pelos perfeitos. Pois pelos doze cestos são figurados os doze apóstolos e os doutores seguintes, exteriormente desprezados pelos homens, mas interiormente repletos das sobras do alimento saudável. Pois é sabido que com cestos costumam-se realizar trabalhos servis.
Justamente nos causa admiração o motivo pelo qual São Marcos diz que, após o milagro dos pães, os discípulos atravessaram o mar para Betsaida, quando São Lucas parece dizer que aquele milagre foi realizado nas proximidades de Betsaida; a menos que, talvez, entendamos que o que São Lucas diz sobre "um lugar deserto, que é Betsaida", não se refira ao interior da própria cidade, mas aos lugares desertos que pertencem a ela. São Marcos, porém, diz "que fossem adiante dele para Betsaida", onde a própria cidade é indicada. Segue-se: "E, tendo-os despedido, foi ao monte para orar".
Nem todo aquele que ora sobe ao monte, mas somente aquele que ora bem, que busca a Deus orando; porém, quem suplica por riquezas ou honra mundana, ou pela morte de um inimigo, jazendo nas profundezas, envia a Deus preces vis. Por que razão o Senhor, tendo despedido o povo, retirou-se ao monte para orar, São João declara dizendo: "Jesus, pois, sabendo que viriam para arrebatá-lo e fazê-lo rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte"(São João 6,15). Segue-se: "e quando era já tarde, o barco estava no meio do mar, e ele sozinho em terra".
Teodoto, que outrora foi bispo de Pharan, escreveu que o Senhor não tinha peso corporal segundo a carne, mas que andava sobre o mar sem peso; mas a fé Católica proclama que Ele tinha peso segundo a carne. Pois Dionísio, notável entre os escritores eclesiásticos, em seu opúsculo sobre os nomes divinos, fala deste modo: "Ignoramos como, com pés não submersos que tinham peso corporal e carga material, Ele andava sobre a substância úmida e instável?"
[nota do editor: Esta opinião da qual Teodoro é acusado era uma posição mantida pelos Fantasiastas, uma seita dos Monofisitas. A negação do corpo humano de Nosso Senhor era uma consequência natural de negar-Lhe uma alma humana, pois como poderia um corpo humano conter, por assim dizer, Sua Divindade? Teodoro era Bispo de Pharan, na Arábia, e foi condenado como autor da heresia Monotelita no Concílio de Latrão sob o Papa Martinho I, em 649 d.C. A passagem de Dionísio é citada na Ação 3 do Concílio, e ocorre em De Div. Nom, c. 1]
Estupefatos estavam os discípulos ainda carnais pela grandeza das virtudes, contudo não podiam ainda reconhecer nele a verdade da majestade divina; de onde segue estava, pois, o coração deles obcecado. Misticamente, porém, o trabalho dos discípulos remando e o vento contrário designam os trabalhos da santa Igreja, que entre as ondas do mundo adverso e o sopro dos espíritos imundos, tenta chegar ao repouso da pátria celeste. E bem se diz que a barca estava no meio do mar, e ele sozinho em terra: porque algumas vezes a Igreja é afligida por tamanha pressão dos gentios, que parece que seu próprio Redentor a tivesse abandonado completamente. Mas o Senhor vê os seus trabalhando no mar: porque para que não desfaleçam nas tribulações, os fortalece com o olhar de sua piedade, e algumas vezes os liberta com auxílio manifesto. Na quarta vigília, porém, vem a eles aproximando-se a alvorada: porque quando o homem eleva a mente à luz do auxílio do alto, estará presente o Senhor, e os perigos das tentações serão acalmados.
Muitas vezes, porém, a piedade celestial parece ter abandonado os fiéis colocados em tribulação, de modo que se poderia pensar que Jesus quis passar ao largo dos discípulos que trabalhavam no mar. E ainda há hereges que julgam que o Senhor era um fantasma, e que não assumiu verdadeira carne da Virgem.
Em qualquer coração em que esteja presente pela graça de seu amor, logo todas as lutas dos vícios, do mundo adverso e dos espíritos malignos são subjugadas e colocadas em repouso.
Mas eles O conheceram pela fama, não por Sua face; ou devido à grandeza dos sinais, e Sua aparência era conhecida por muitos. Vede, pois, quanta fé havia nos homens da terra de Genesaré, que não se contentavam apenas com a saúde dos presentes, mas enviavam às outras cidades circunvizinhas, para que todos corressem ao médico; donde se segue: e percorrendo toda aquela região, começaram a trazer em leitos aqueles que estavam mal, para onde ouviam que Ele estava.
Misticamente, porém, entende pela franja de seu vestido o menor mandamento; o qual todo aquele que transgredir, será chamado o menor no reino dos céus(São Mateus 5,19): ou a assunção da carne, pela qual chegamos ao Verbo de Deus, e depois fruímos de sua majestade.
Os homens da terra de Genezaré, que pareciam menos instruídos, não apenas vêm eles mesmos, mas também trazem seus enfermos ao Senhor, para que mereçam ao menos tocar a franja de sua veste. Mas os fariseus e os escribas, que deveriam ser os doutores do povo, correm ao Senhor, não para buscar a cura, mas para promover disputas de questões; por isso se diz e os fariseus se reuniram a ele, e alguns dos escribas, vindos de Jerusalém; e quando viram alguns dos seus discípulos comerem pão com mãos comuns, isto é, não lavadas, os censuraram.
Pois tomando as palavras espirituais dos Profetas em sentido carnal, observavam, lavando apenas o corpo, mandamentos que diziam respeito à purificação do coração e das obras, dizendo: Lavai-vos, purificai-vos(Isaías 1,16); e: Purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor(Isaías 52,11). É, portanto, uma tradição humana supersticiosa que homens que já estão limpos se lavem mais frequentemente porque comem pão, e que não comam ao retornar do mercado sem se lavarem. Mas é necessário para aqueles que desejam participar do pão que desce do céu, purificar frequentemente suas más obras por meio de esmolas, lágrimas e outros frutos de justiça. É também necessário que um homem lave completamente as contaminações que contraiu dos cuidados dos negócios temporais, dedicando-se posteriormente a bons pensamentos e obras. Em vão, porém, os judeus lavam suas mãos e se purificam depois do mercado, enquanto recusam ser lavados na fonte do Salvador; em vão observam a lavagem de seus vasos, aqueles que negligenciam lavar os pecados imundos de seus corpos e de seus corações. Segue-se: Então os escribas e fariseus perguntaram-lhe: Por que os teus discípulos não andam conforme a tradição dos anciãos, mas comem o pão com mãos comuns?
A honra nas Escrituras não se refere tanto às saudações e aos sinais de respeito que devem ser prestados, quanto à esmola e à entrega de presentes: honra, diz o Apóstolo, as viúvas que verdadeiramente são viúvas(1 Timóteo 5,3).
Pode-se também dar a isto brevemente este sentido: a oferenda que vem de mim te será proveitosa. Obrigais, diz ele, os filhos a dizerem aos seus pais: qualquer oferenda que eu estava para oferecer a Deus, a gasto em teu sustento, e te é proveitosa, ó pai e mãe; como se dissessem: não é proveitosa; de modo que, eles, temendo aceitar o que viam consagrado a Deus, preferiam levar uma vida de pobreza a comer das coisas consagradas.
Pois é um ouvinte vicioso aquele que quer entender as coisas obscuras como manifestas, ou as coisas manifestas como ditas obscuramente.
Pois os judeus, vangloriando-se de serem parte de Deus, chamam comuns os alimentos que todos os homens usam, como ostras, lebres e animais desse tipo. Nem mesmo o que é oferecido aos ídolos é impuro, enquanto alimento e criatura de Deus; é a invocação dos demônios que o torna impuro. E Ele acrescenta a causa disso, dizendo: porque não entra no seu coração. O lugar principal da alma, segundo Platão, é o cérebro; mas, segundo Cristo, está no coração.
Assim, portanto, os alimentos não tornam os homens impuros, mas a malícia, que produz paixões procedentes do interior; por isso segue: "E dizia: o que sai do homem, isso sim contamina o homem."
Por isto são condenados aqueles que pensam que os pensamentos são colocados neles pelo diabo, e não nascem de sua própria vontade má. O diabo pode incitar e ser cúmplice dos maus pensamentos, mas não pode ser o seu autor.
Tendo também entrado na casa, ordenou aos seus discípulos que não revelassem a ninguém naquela região desconhecida quem Ele era, para que por seu exemplo aprendessem, aqueles aos quais Ele conferia a graça de curar os enfermos, a recusar tanto quanto pudessem a glória do favor humano na manifestação dos milagres, sem, contudo, cessar da pia obra de virtude, quando a fé dos bons justamente merecesse que os milagres fossem feitos, ou a infidelidade dos perversos necessariamente os compelisse. Pois Ele mesmo deu a conhecer sua entrada naquele lugar à mulher gentílica e a quem quis.
Como se dissesse: Acontecerá que também vós, que sois dos gentios, alcançareis a salvação; mas primeiro é necessário que os judeus, que pelo mérito da antiga eleição costumam ser chamados pelo nome de filhos de Deus, sejam restaurados com o pão celestial; e assim, finalmente, o alimento da vida seja ministrado aos gentios. Segue-se: não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães.
Por causa da humilde e fiel palavra da mãe, o demônio abandonou a filha; onde se dá o exemplo para catequizar e batizar os infantes, visto que, pela fé e confissão dos pais, as crianças pequenas são libertadas do Diabo no Batismo, embora ainda não possam por si mesmas compreender ou realizar algo de bom ou de mal.
Decápolis é uma região de dez cidades, para além do Jordão, a oriente, defronte da Galileia. Portanto, quando se diz que o Senhor veio ao mar da Galileia, pelo meio dos confins da Decápolis, não significa que Ele entrou nos próprios limites da Decápolis; pois não se diz que Ele atravessou o mar, mas antes que veio até os limites do mar, e chegou até o lugar que estava em frente ao meio das costas da Decápolis, as quais estavam situadas a uma distância do outro lado do mar. Segue-se, e trouxeram-lhe um surdo e mudo, e rogavam-lhe que impusesse a mão sobre ele.
Ele olhou para o céu, a fim de ensinar-nos que de lá deve ser procurada a fala para os mudos, a audição para os surdos, e a saúde para todos os enfermos. E Ele gemeu, não porque fosse necessário para Ele pedir algo ao Pai com gemidos, pois Ele, juntamente com o Pai, concede todas as coisas aos que pedem, mas para nos dar um exemplo de gemido, quando pelos nossos próprios erros e pelos erros de nossos próximos, invocamos a proteção da Divina misericórdia.
O que ele diz, ephphatha, isto é, abri-vos, refere-se propriamente aos ouvidos: pois os ouvidos devem ser abertos para ouvir, e a língua, para que pudesse falar, devia ser liberada das amarras de sua lentidão; donde segue e imediatamente foram abertos os seus ouvidos, e foi solto o vínculo de sua língua, e falava corretamente: onde ambas as naturezas de um e mesmo Cristo manifestamente se distinguem. Olhando para o céu, como homem suplicando a Deus, gemeu; mas logo com uma só palavra, como sendo poderoso na divina majestade, curou. Segue-se e mandou-lhes que a ninguém o dissessem.
Ou é surdo e mudo aquele que nem tem ouvidos para ouvir as palavras de Deus, nem abre sua boca para proferi-las; e é necessário que aqueles que já aprenderam a falar e a ouvir os divinos oráculos apresentem tais pessoas ao Senhor para serem curadas.
Por que sustentam por três dias os que vêm de longe? São Mateus diz mais completamente: "e subindo ao monte, sentou-se; e aproximaram-se dele grandes multidões, tendo consigo muitos enfermos, e os lançaram aos pés dele, e os curou"(São Mateus 15,29-30).
Nesta passagem, pois, deve-se considerar em nosso único e mesmo Redentor a distinta operação da divindade e da humanidade, e assim o erro de Eutiques1, que presume estabelecer a doutrina de uma única operação em Cristo, deve ser expulso para longe dos limites cristãos. Pois quem não vê que, quando o Senhor se compadece da multidão, está expressando um afeto e compaixão próprios da fragilidade humana? E quando alimenta quatro mil homens com sete pães e poucos peixinhos, isto é obra da virtude divina. Segue-se e recolheram o que sobejara dos pedaços, sete cestos.
[1] Isto é, os Monotelitas. ↩
Isto verdadeiramente, em sentido típico, distingue-se entre esta refeição e aquela dos cinco pães e dois peixes: que naquela foi significada a letra do Antigo Testamento, plena de graça espiritual; mas aqui é mostrada a verdade e a graça do Novo Testamento que deve ser ministrada aos fiéis. A multidão, porém, espera o Senhor durante três dias para a cura dos enfermos, como narra São Mateus, quando os eleitos, na fé da Santa Trindade, suplicam pelos pecados com perseverante insistência. Ou porque se convertem ao Senhor em obra, palavra e pensamento.
Os que voltam à penitência depois dos crimes da carne, depois dos roubos, das violências e dos homicídios, vêm ao Senhor de longe; pois quanto mais alguém errou em obras más, tanto mais se afastou de Deus Todo-Poderoso. Os crentes dentre os gentios vieram de longe para Cristo; já os judeus, de perto, pois haviam sido instruídos a respeito dele pelas letras da lei e dos profetas. Na ocasião anterior, porém, da refeição com cinco pães, as multidões reclinavam-se sobre a relva verde; aqui, porém, sobre a terra; porque pela Escritura da lei somos ordenados a reprimir os desejos da carne, mas no Novo Testamento somos ordenados a abandonar até mesmo a própria terra e os bens temporais.
Pois quando o Senhor partiu os pães, isto significa a revelação dos sacramentos; quando deu graças, mostra o quanto se alegra pela salvação do gênero humano; quando deu os pães aos discípulos para que os servissem à multidão, significa que concedeu aos apóstolos os dons espirituais da ciência, e por meio do ministério deles quis distribuir à sua Igreja o alimento da vida.
O que sobrava depois de saciadas as multidões, os apóstolos recolhem, porque os preceitos mais elevados de perfeição, que a multidão não pode alcançar, pertencem àqueles que transcendem o modo de vida geral do povo de Deus; e, contudo, se recorda que a multidão ficou saciada, porque, ainda que não possam abandonar suas posses, nem cumprir o que se diz acerca das virgens, não obstante, ouvindo os mandamentos da lei de Deus, chegam à vida eterna.
Os fariseus certamente pedem um sinal do céu, para que Aquele que pela segunda vez saciou muitos milhares de homens com poucos pães, agora, à semelhança de Moisés, com o maná enviado do céu e espalhado por toda parte, restaure todo o povo nos últimos tempos; o que buscam no Evangelho de São João, dizendo: "Que sinal fazes tu para que vejamos e acreditemos em ti? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: deu-lhes pão do céu para comer".
Assim como antes, quando estava prestes a alimentar a multidão que cria, dava graças, assim agora geme por causa da insensata petição dos fariseus. Pois, trazendo consigo os afetos da natureza humana, assim como se alegra pela salvação dos homens, assim também se entristece pelos seus erros; por isso segue-se: e gemendo em espírito disse: Por que esta geração busca um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não será dado um sinal; isto é, não será dado, conforme aquilo: Jurei uma vez por minha santidade, se eu mentir a Davi; isto é, não mentirei a Davi.
Não devia ser dado um sinal celeste à geração dos que tentam o Senhor. Contudo, à geração dos que buscam o Senhor, Ele mostra um sinal do céu, quando, à vista dos Apóstolos, subiu ao céu. E deixando-os, entrou novamente no barco, e partiu para o outro lado.
Mas alguém pergunta: como não tinham pães aqueles que, logo depois de encher sete cestos, subiram à barca? Porém a Escritura testifica que se esqueceram de levá-los consigo; o que é indício de quão pouco cuidado da carne tinham nas demais coisas, pois a própria necessidade de refazer o corpo lhes escapou da mente pela intenção de acompanhar o Senhor.
Ou a levedura dos fariseus é antepor os decretos da lei divina às tradições dos homens; pregar a lei com palavras e impugná-la com os atos; tentar o Senhor e não crer em sua doutrina ou em suas obras. Já a levedura de Herodes é o adultério, o homicídio, a temeridade do juramento, a simulação da religião e o ódio a Cristo e ao seu precursor.
Por ocasião do preceito que o Salvador havia ordenado, dizendo: guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes, ensina-lhes o que significam os cinco pães e os sete, sobre os quais acrescenta: não vos lembrais de quando parti os cinco pães? etc. Pois se o fermento anteriormente mencionado significasse tradições perversas, por que os alimentos com os quais o povo de Deus foi nutrido não significariam a verdadeira doutrina?
Sabendo que o toque do Senhor podia tanto purificar um leproso, como dar visão a um cego. Segue-se e tomando pela mão o cego, conduziu-o para fora da aldeia.
Vendo certamente as formas dos corpos entre as sombras, mas não sendo capaz de distinguir os contornos dos membros, com a visão ainda obscurecida, assim como as árvores densamente agrupadas costumam aparecer àqueles que as observam de longe, ou à luz noturna, de modo que não se pode facilmente discernir se são árvores ou homens.
Ou dá exemplo aos seus para que não busquem o favor do povo por conta das coisas admiráveis que fazem. Misticamente, Betsaida é interpretada como casa do vale, isto é, o mundo, que é o vale de lágrimas. Conduzem ao Senhor um cego, isto é, aquele que não vê o que foi, o que é e o que será. Rogam-lhe que o toque. Pois quem é que é tocado senão aquele que é compungido?
O Senhor nos toca quando ilumina nossa mente com o sopro do seu Espírito, e nos estimula para que reconheçamos nossa própria enfermidade e nos dedicemos ao estudo das boas ações. Ele segura a mão do cego, para fortalecê-lo na execução das boas obras.
Ou ainda: ao cuspir nos olhos do cego, impõe suas mãos para que veja, porque removeu a cegueira do gênero humano tanto pelos dons invisíveis quanto pelos sacramentos da humanidade assumida; pois a saliva, que procede da cabeça do homem, designa a graça do Espírito Santo. Mas aquele que com uma só palavra poderia curar totalmente e de uma só vez, cura gradualmente, para mostrar a magnitude da cegueira humana, que dificilmente e como que passo a passo retorna à luz; e nos revela sua graça, pela qual auxilia cada etapa rumo à perfeição. Ademais, quem quer que esteja oprimido por uma cegueira de tão longa duração, que não seja capaz de discernir entre o bem e o mal, vê homens como se fossem árvores caminhando, porque vê as ações da multidão sem a luz do discernimento.
Por isso primeiramente interroga a opinião dos homens, para examinar a fé dos discípulos, a fim de que a confissão deles não parecesse fundamentada na opinião do vulgo. Segue-se que lhe responderam, dizendo: uns dizem que João Batista, outros que Elias, outros, porém, como que um dos profetas.
Isto, porém, ele disse com o afeto de quem ama e deseja; como se dissesse: Isto não pode ocorrer, nem meus ouvidos podem aceitar que o Filho de Deus seja morto.
Depois de mostrar aos discípulos o mistério de sua paixão e ressurreição, Ele os exorta, juntamente com a multidão, a seguir o exemplo de sua paixão; por isso segue-se: e convocando a multidão com seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer me seguir, negue-se a si mesmo.
Pois negamos a nós mesmos quando evitamos o que éramos outrora, e esforçamo-nos para alcançar aquele ponto ao qual somos novamente chamados. E a cruz é tomada por nós quando ou nosso corpo é mortificado pela abstinência, ou nossa alma é afligida pela compaixão pelo próximo.
Ou então Ele diz isto, porque no tempo de perseguição deve-se entregar a vida; mas, no tempo de paz, devem-se quebrantar os desejos terrenos: o que significa quando diz que aproveitará ao homem? e assim por diante. Muitas vezes, porém, somos impedidos pelo hábito da vergonha, de modo que não conseguimos expressar com a voz a retidão que conservamos na mente; e por isso é acrescentado porque quem se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos Anjos.
Foi, na verdade, por uma piedosa providência que, tendo saboreado por um breve momento a contemplação da alegria permanente, pudessem suportar com maior fortaleza as adversidades.
Ou então o reino de Deus presente é chamado Igreja. Alguns dos discípulos haveriam de viver no corpo até que vissem a Igreja construída e erguida contra a glória do mundo; pois era conveniente prometer algo concernente à vida presente aos discípulos ainda rudimentares, para que pudessem ser edificados com maior fortaleza para o tempo futuro.
Transfigurado, pois, o Salvador, não perdeu a substância da verdadeira carne, mas mostrou a glória da ressurreição futura, seja a sua, seja a nossa: ele aparecerá a todos os eleitos após o juízo, tal como apareceu então aos apóstolos. Segue-se e as suas vestes tornaram-se resplandecentes.
Se a humanidade transfigurada de Cristo e a companhia de apenas dois santos, vistos por um momento, deleita a tal ponto que Pedro desejaria, mesmo servindo-os, deter sua partida, quão grande será a felicidade de gozar da visão da Divindade entre os coros dos Anjos para sempre? Segue-se: "pois não sabia o que dizia". Ainda que Pedro, pelo estupor da fragilidade humana, não soubesse o que dizia, todavia, dá prova dos sentimentos que estavam dentro dele; pois a causa de não saber o que dizer era seu esquecimento de que o reino foi prometido aos Santos pelo Senhor, não em alguma região terrena, mas no céu; ele não se lembrava de que ele e seus companheiros Apóstolos ainda estavam cercados pela carne mortal e não podiam suportar o estado da vida imortal, ao qual sua alma já o havia transportado, porque na casa de nosso Pai no céu, não é necessária uma casa feita por mãos humanas. Mas novamente, até este momento, ele é apontado como um homem ignorante, que deseja fazer três tabernáculos para a Lei, os Profetas e o Evangelho, uma vez que estes de maneira alguma podem ser separados uns dos outros.
Porque Pedro buscava um tabernáculo material, recebeu a sombra de uma nuvem, para que aprendesse que na ressurreição eles não serão protegidos pela cobertura de casas, mas pela glória do Espírito Santo; daí segue-se e formou-se uma nuvem que os cobriu. E porque perguntaram imprudentemente, por isso não mereceram resposta do Senhor; mas o Pai responde pelo Filho; de onde segue-se e veio uma voz da nuvem dizendo: Este é o meu Filho muito amado; a ele ouvi.
Aquele a quem Moisés predisse que deveria ser ouvido por toda alma que quisesse ser salva, quando viesse na carne, já vindo na carne, Deus Pai mostrou aos discípulos que deveria ser ouvido. Segue-se e imediatamente, olhando ao redor, não viram mais ninguém, senão somente Jesus com eles. Pois onde o Filho começou a ser designado, logo os servos se retiraram, para que não se pensasse que a voz paterna fora emitida para eles.
Com razão se consideram como as vestes do Senhor os seus santos, que resplandecerão com nova brancura. E pelo pisoador deve-se entender Aquele a quem o Salmista diz: Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado, pois Ele não pode dar aos seus fiéis na terra a claridade que lhes está reservada nos céus.
Moisés e Elias, dos quais sabemos que um morreu e o outro foi arrebatado aos céus, significam a futura glória de todos os santos, que certamente no tempo do juízo ou serão encontrados vivos na carne, ou tendo já provado a morte serão ressuscitados, e igualmente reinarão com Ele.
E deve-se notar que, assim como quando o Senhor foi batizado no Jordão, também no monte, quando foi glorificado, todo o mistério da Santíssima Trindade é revelado: porque veremos na ressurreição aquela glória da Trindade que nós fiéis confessamos no Batismo, e a louvaremos todos juntos. E não é sem razão que o Espírito Santo aqui apareceu em uma nuvem luminosa, e lá na forma de uma pomba: porque aquele que agora com coração simples guarda a fé que recebeu, contemplará então o que acreditou com o esplendor da visão clara. Quando, porém, a voz soou sobre o Filho, Ele foi encontrado sozinho: porque quando Ele se manifestar aos Seus eleitos, Deus será tudo em todos; mais ainda, Cristo com os Seus, como a Cabeça com o corpo, resplandecerá por todas as coisas.
Ou então, os discípulos julgavam que esta transformação de glória era aquela que haviam visto no monte, e dizem: Se já vieste em glória, como é que aparece teu precursor? Principalmente porque haviam visto Elias partir.
Restituirá, porém, todas as coisas, certamente aquelas que Malaquias mostra, dizendo: "Eis que vos enviarei Elias profeta, para converter o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais"(Malaquias 4,5-6). Restituirá também aquilo que deve à morte, e que, vivendo por longo tempo, adiou pagar.
Ou assim: e como está escrito, isto é, da mesma forma como os profetas escreveram muitas coisas diversas acerca da Paixão de Cristo, também Elias, quando vier, terá de padecer muitas coisas e será desprezado pelos ímpios.
Em todos os lugares, deve-se notar a diferença entre a mentalidade dos Escribas e a da multidão: pois se narra que os Escribas não demonstraram nenhuma devoção, fé, humildade ou reverência a Ele; mas, quando o Senhor chegou, toda a multidão, imediatamente estupefata, temeu, e correndo, O saudou; de onde segue e correndo, saudou-O.
Pode-se compreender, se não me engano, que a questão suscitada era sobre o porquê eles, sendo discípulos do Salvador, não puderam curar o endemoninhado que estava colocado no meio; o que pode ser deduzido a partir do que se segue, quando se diz: e respondendo um da multidão disse: Mestre, trouxe a ti meu filho que tem um espírito mudo.
Contudo, ele não estava irado com o homem, mas com o vício, de modo que imediatamente acrescentou: "Trazei-o a mim." E trouxeram-no a ele. E quando o viu, imediatamente o espírito o perturbou; e, sendo jogado ao chão, revolvia-se espumando.
Envergonhe-se Juliano1, que ousa dizer que todos os homens nascem na carne sem o contágio do pecado, como se fossem inocentes em tudo, assim como Adão quando foi criado. Pois o que tinha este menino para que desde a infância fosse atormentado por um demônio tão cruel, se não estivesse de modo algum preso pela cadeia do pecado original? Visto que é evidente que ele ainda não poderia ter tido pecado próprio.
[1] Nota editorial: Juliano foi bispo de Eclano na Campânia; ele era bem conhecido por Santo Agostinho, que antes de sua queda fala dele com grande afeição. Ao recusar-se, no entanto, a concordar com a condenação de Pelágio pelo Papa Zósimo, foi deposto e expulso da Itália. Ele escreveu muito contra Santo Agostinho, por quem foi refutado em obras que ainda existem. A opinião especialmente referida no texto era que Adão teria morrido, mesmo que tivesse permanecido inocente, e portanto que a morte e a doença não são consequências do pecado original. Ele morreu na Sicília em grande pobreza, por volta do ano 453 d.C. ↩
O Senhor deu uma resposta adequada ao que pedia: pois este disse: se algo podes, ajuda-nos; e o Senhor: se podes, disse, crer. Ao contrário, o leproso, que clamava com fé: Senhor, se queres, podes me purificar(São Mateus 8,2), recebeu uma resposta condizente com sua fé: Quero: sê purificado.
Ninguém se torna perfeito repentinamente, mas na boa conduta cada um começa pelas coisas mínimas para chegar às grandes. Pois um é o princípio da virtude, outro o progresso, e outro a perfeição. Porque, portanto, pela inspiração oculta da graça, pelos graus de seus próprios méritos, a fé cresce1, ao mesmo tempo, aquele que ainda não acreditava perfeitamente simultaneamente cria e era incrédulo.
[1] Esta sentença de Beda pode ser considerada uma exposição das palavras de Nosso Senhor: "porque ao que não tem, até o que tem lhe será tirado". A conexão entre graça e mérito, como usada pelos Padres, pode ser ilustrada a partir de São Tomás, seu fiel discípulo. Ele define uma operação meritória como aquela cuja recompensa está além da natureza do operador; de modo que o mérito implica a infusão de um hábito sobrenatural, isto é, da graça, não apenas como sua causa eficiente, mas como sua causa formal. Summa 1 Q62, Art 4. ↩
Mas aquele a quem o ímpio inimigo tornou semelhante à morte, o piedoso Salvador salvou pelo toque de sua piedosa mão direita; donde segue que Jesus, tomando-o pela mão, o levantou, e ele se ergueu. Pelo que, assim como se mostrou ser o verdadeiro Deus pela potência de salvar, também declarou ter a verdadeira natureza da carne pelo modo do toque humano. Pois nega o insensato Maniqueu1 que Ele tenha sido verdadeiramente revestido de carne; porém Ele mesmo, ao erguer, purificar e iluminar tantos enfermos com seu toque, condenou aquela heresia antes mesmo que nascesse. Segue-se: E quando entrou em casa, seus discípulos lhe perguntaram em segredo: Por que não pudemos nós expulsá-lo?
[1] "Seu princípio fundamental do mal intrínseco da matéria e o estado degradado da mente, que suas especulações sobre o nascimento segundo a carne trouxeram consigo, envolveu a negação da Encarnação de Nosso Senhor e, como consequência, da realidade de toda a Sua vida." (Nota a, sobre as Confissões de Santo Agostinho, Oxf. Tr. p. 325) ↩
Misticamente, o Senhor, nas alturas, revela aos discípulos os mistérios do reino; abaixo, repreende as multidões pelos pecados de infidelidade e expulsa os espíritos malignos daqueles que são atormentados; pois aos que ainda são carnais e insensatos, Ele conforta, ensina e corrige; e aos perfeitos, instrui mais livremente acerca das coisas eternas.
Pois muitas vezes, quando nos esforçamos para retornar a Deus após os pecados, somos atacados por maiores e novas ciladas do antigo inimigo: o que faz para ou incutir em nós ódio à virtude, ou vingar a injúria de sua expulsão.
Ou por este endemoninhado se significa que aqueles que estão sujeitos ao vínculo da culpa original vêm ao mundo para serem salvos pela graça de Cristo. O fogo deve ser referido ao fervor da ira, a água aos prazeres da carne, que costumam dissolver a mente pelas delícias. Não foi ao menino que sofria violência, mas ao demônio que a infligia, que dirigiu a ameaça; porque aquele que deseja corrigir o pecador deve exterminar o vício repreendendo-o e execrando-o, mas confortar o homem amando-o.
Enquanto o Senhor ensina aos Apóstolos como o demônio perversíssimo deve ser expulso, instrui a todos para a vida; ou seja, que saibamos que as provações mais graves, sejam de espíritos imundos ou de homens, devem ser superadas com jejuns e orações; e também que a ira do Senhor, quando acendida para vingança de nossos crimes, pode ser aplacada por este remédio singular. O jejum, porém, é geral, não só abstendo-se de alimentos, mas de todos os prazeres carnais, e mais ainda, de todas as paixões viciosas. Da mesma forma, a oração geral não consiste apenas nas palavras com as quais invocamos a clemência divina, mas também em todas as coisas que realizamos com a devoção da fé em obséquio ao nosso Criador, como testemunha o Apóstolo, que diz: "Orai sem cessar"(1 Tessalonicenses 5,17).
Ele sempre mistura as coisas tristes com as prósperas, para que quando elas vierem repentinamente, não aterrorizem os Apóstolos, mas sejam suportadas com ânimos preparados.
Esta ignorância dos discípulos não nasce tanto da lentidão de intelecto, quanto do amor pelo Salvador, pois ainda sendo carnais e ignorantes do mistério da cruz, não podiam crer que aquele a quem reconheciam como verdadeiro Deus pudesse morrer; e como estavam acostumados a ouvi-lo falar frequentemente por figuras, e horrorizando-se com o evento de sua morte, queriam que também naquelas coisas que ele falava abertamente sobre a sua entrega e paixão, algo fosse significado figurativamente. Segue-se e vieram a Cafarnaum.
Parece que a disputa entre os discípulos sobre o primado surgiu porque viram Pedro, Tiago e João serem conduzidos separadamente ao monte, e algo secreto lhes ter sido confiado; mas também porque a Pedro, segundo São Mateus, foram prometidas as chaves do reino dos céus. Vendo, porém, os pensamentos dos discípulos, o Senhor cuida de sanar o desejo de glória com a humildade, e que o primado não deve ser buscado, primeiramente os adverte com o simples mandamento da humildade; por isso segue: e sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quer ser o primeiro, será o último de todos e servo de todos.
No qual, ou simplesmente mostra que os pobres de Cristo devem ser recebidos com honra pelos que querem ser maiores, por Sua honra; ou sugere que sejam como crianças na malícia, para que conservem a simplicidade sem arrogância, a caridade sem inveja e a devoção sem ira. E quando abraça a criança, significa que os humildes são dignos de seu abraço e amor. Acrescentou também em meu nome, para que sigam por indústria da razão, em nome de Cristo, o modelo de virtude que a criança observa, tendo a natureza como guia. Mas como ensinava que Ele mesmo era recebido nas crianças, para que não se pensasse que nele havia apenas o que se via, acrescentou: e quem me recebe, não recebe a mim, mas àquele que me enviou; querendo assim que acreditemos que Ele é da mesma natureza e de igual grandeza que seu Pai.
São João, amando o Senhor com singular devoção, julgou que devia ser excluído do benefício aquele que não utilizasse corretamente o ofício; por isso diz-se respondeu-lhe João dizendo: Mestre, vimos alguém expulsando demônios em teu nome, e ele não nos segue, e o proibimos.
No qual ensina que ninguém deve ser afastado do bem que já possui em parte, mas antes deve ser estimulado àquilo que ainda não alcançou.
E corretamente aquele que pode se escandalizar é chamado pequenino: pois aquele que é grande, qualquer coisa que tenha que sofrer, não se afasta da fé; mas aquele que é pequeno de ânimo, e fraco, busca ocasiões pelas quais se escandalize. Por isso devemos cuidar principalmente daqueles que são pequenos na fé, para que por nossa causa não se ofendam, e se afastem da fé, e decaiam da salvação.
Porque acima o Senhor havia ensinado para não escandalizarmos aqueles que creem nele, agora consequentemente admoesta quanto devemos tomar cuidado com aqueles que nos escandalizam, isto é, que com sua palavra ou exemplo se esforçam por nos impelir à ruína do pecado; por isso diz: E se tua mão te escandalizar, corta-a.
Certamente Ele chama de nossa mão ao amigo necessário, de cujo auxílio cotidiano temos necessidade; mas se tal pessoa quiser nos prejudicar em assuntos da alma, deve ser excluída de nossa companhia, para que, se quisermos ter parte com o perdido nesta vida, não pereçamos juntamente com ele no futuro; por isso segue-se: é melhor para ti entrar debilitado na vida, do que, tendo duas mãos, ir para a Geena, para o fogo inextinguível.
Assim como o verme é a dor que acusa interiormente, assim o fogo é a pena que se enfurece exteriormente. Ou no verme designa-se a putrefação da Geena, assim como no fogo, seu ardor.
O pé é chamado de amigo por causa do serviço de percorrer, como que acomodado para nossos usos. Segue-se que se teu olho te escandaliza. O olho é chamado de amigo útil, tanto por sua solicitude quanto pela sua agudeza de percepção.
Mas porque o Senhor fez menção três vezes do verme e do fogo, para que possamos evitar este tormento, acrescenta pois todos serão salgados com fogo. Porque o fedor dos vermes costuma nascer da corrupção da carne e do sangue; por isso, a carne fresca é temperada com sal, para que, secando-se a umidade do sangue, não possa criar vermes. E, de fato, o que é salgado com sal afasta a podridão dos vermes; mas o que é salgado com fogo, isto é, o que é conservado em fogos aspergidos com sal, não só repele os vermes, mas também consome a própria carne. A carne e o sangue, portanto, criam vermes: porque o deleite carnal, ao qual não resiste o condimento da continência, gera para os luxuriosos o castigo eterno; quem deseja evitar este fedor, deve esforçar-se por castigar tanto o corpo com o sal da continência, quanto a mente com o condimento da sabedoria, da mancha do erro e dos vícios. Pois o sal designa a doçura da sabedoria, e o fogo a graça do Espírito Santo. Diz, portanto, todos serão salgados com fogo: porque todo eleito deve ser purificado da corrupção da concupiscência carnal pela sabedoria espiritual. Ou então, o fogo é o da tribulação, pelo qual a paciência dos fiéis é exercitada, para que possa ter sua obra perfeita.
Podemos também entender assim: que o altar de Deus é o coração dos eleitos; e as hóstias e sacrifícios a serem oferecidos neste altar são as boas obras dos fiéis. Mas em todos os sacrifícios deve-se oferecer o sal, porque nenhuma obra é boa se o sal da sabedoria não a purifica de toda corrupção do louvor vão e dos demais pensamentos maus ou supérfluos.
Ou o sal é bom: é bom ouvir frequentemente a palavra de Deus e temperar os recônditos do coração com o sal da sabedoria espiritual.
Até aqui, Marcos narrou o que o Senhor fez e ensinou na Galileia; aqui ele começa a relatar o que Ele fez e ensinou ou padeceu na Judeia, primeiramente além do Jordão, ao oriente; e isto é o que é dito: e levantando-se dali, veio para os confins da Judeia além do Jordão. Depois também para este lado do Jordão, quando veio a Jericó, Betânia e Jerusalém. E embora toda a província dos judeus fosse geralmente chamada Judeia, para distingui-la de outras nações, mais especialmente, contudo, sua região meridional era chamada Judeia, para distingui-la da Samaria, da Galileia, da Decápole e das outras regiões na mesma província.
É notável a diferença de disposição entre as multidões e os fariseus: aquelas se reúnem para serem ensinadas e para que seus enfermos sejam curados, como São Mateus relata; estes se aproximam para enganar o Salvador, tentando-O; por isso segue-se e, aproximando-se, os fariseus o interrogavam se é lícito ao homem repudiar sua esposa, tentando-O.
Ele não diz: macho e fêmeas, o que exigiria o sentido de repudiar as esposas anteriores, mas macho e fêmea, para que fossem unidos pelo vínculo de uma só esposa.
E semelhantemente, porque diz juntar-se-á à sua mulher, não a suas mulheres. Segue-se e os dois serão uma só carne.
Assim, o resultado do matrimônio é de dois se tornarem uma só carne. A virgindade, sendo unida ao Espírito, torna-se um só espírito.
O que, portanto, Deus uniu, fazendo uma só carne do homem e da mulher, isso o homem não pode separar, mas somente Deus. O homem separa quando, por causa do desejo de uma segunda esposa, abandonamos a primeira; Deus separa quando, por consenso mútuo, por causa do serviço a Deus, temos esposas como se não as tivéssemos1.
[1] Referência a Primeira Carta aos Coríntios 7,5 e 7,29, onde São Paulo fala sobre a abstinência temporária por mútuo consentimento e sobre viver como se não tivesse esposa. ↩
Em São Mateus, porém, está escrito mais completamente: qualquer que deixar sua esposa, a não ser por fornicação(São Mateus 19,9). Há, portanto, apenas uma causa carnal, a fornicação; uma espiritual, o temor de Deus, para que a esposa seja deixada, como se lê que muitos fizeram por causa da religião1. Não há, contudo, nenhuma causa prescrita pela lei de Deus para que, estando viva aquela que foi deixada, outra seja tomada.
[1] Nota editorial: Maridos e esposas nunca foram autorizados a tomar votos monásticos sem consentimento mútuo, ver Bingham, livro 7, capítulo 3; onde também são incidentalmente dados muitos exemplos de pessoas casadas que assim renunciaram ao mundo. ↩
Isto é, se não tiverdes tal inocência e pureza de ânimo como a que tem o menino, não podereis entrar no reino dos céus. De outra maneira: O reino de Deus, isto é, a doutrina do Evangelho, somos ordenados a receber como um menino, porque assim como o menino, ao aprender, não contradiz seus mestres, nem compõe raciocínios e palavras resistindo a eles, mas recebe fielmente o que ensinam, e com temor obedece e aprende; assim também nós, obedecendo simplesmente e sem qualquer contradição, devemos receber a palavra do Senhor. Segue-se e abraçando-os, e impondo-lhes as mãos, os abençoava.
Abraçando também os pequeninos, Ele os abençoou, significando que os humildes de espírito são dignos de Sua bênção, graça e amor.
Um homem tinha ouvido do Senhor que somente aqueles que desejam ser semelhantes às crianças são dignos de entrar no reino dos céus, e por isso pede que lhe seja explicado não por parábolas, mas abertamente, por quais méritos de obras pode-se conseguir a vida eterna; por isso se diz: e quando saiu para o caminho, veio correndo um homem e, ajoelhado diante dele, perguntava-lhe, dizendo: Bom Mestre, que farei para alcançar a vida eterna?
Mas por este único Deus, que é bom, não se deve entender apenas o Pai, mas também o Filho, que diz: "Eu sou o bom pastor"(São João 10,11); e também o Espírito Santo, porque é dito: "o Pai que está nos céus dará o Espírito bom aos que lhe pedirem"(São Lucas 11,13). Pois a própria Trindade una e indivisível, Pai, Filho e Espírito Santo, é o único e bom Deus. O Senhor, portanto, não nega ser bom, mas indica que é Deus; não nega que é bom Mestre, mas declara que nenhum mestre é bom senão Deus.
Deve-se notar, porém, que a justiça da lei, quando observada em seu devido tempo, conferia não somente os bens da terra, mas também a vida a seus discípulos; daí que o Senhor, consequentemente, disse àquele que perguntava sobre a vida eterna: "Conheces os mandamentos: não cometas adultério, não mates", e outros. Esta é, com efeito, a inocência infantil que nos é proposta para imitação, se quisermos entrar no reino de Deus; por isso segue: "Ele, respondendo, disse: Mestre, tudo isso observei desde a minha juventude". Não se deve pensar que este homem tenha interrogado o Senhor com intenção de tentá-lo, como alguns pensaram, ou que tenha mentido sobre sua vida, mas simplesmente confessado como havia vivido; o que fica evidente pelo que se segue: "Jesus, olhando para ele, amou-o e disse-lhe". Se, portanto, ele fosse culpado de mentira ou dissimulação, de modo algum Jesus, ao contemplar os segredos de seu coração, seria descrito como tendo-o amado.
Pois o Senhor ama aqueles que guardam os mandamentos da lei, embora sejam inferiores; mas, não obstante, Ele mostra àqueles que desejam ser perfeitos o que falta na lei, porque não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la; por isso segue-se: e disse-lhe: uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu, e vem, segue-me. Pois quem quiser ser perfeito deve vender o que tem, não em parte, como fizeram Ananias e Safira, mas tudo.
Porque segue ao Senhor aquele que o imita, e caminha por suas pegadas. Segue-se que a esta palavra, afastou-se entristecido, indo-se muito aflito.
Mas como há grande diferença entre ter e amar as riquezas, por isso Salomão não diz: quem possui, mas quem ama as riquezas não colherá fruto delas(Eclesiastes 5,10), o Senhor expõe aos discípulos atônitos as palavras da sentença anterior; donde segue: E Jesus, novamente respondendo, disse-lhes: filhinhos, quão difícil é para aqueles que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus. Onde deve-se notar que Ele não diz: quão impossível, mas quão difícil; porque o que é impossível de nenhum modo pode ser feito, mas o que é difícil pode ser alcançado, ainda que com trabalho.
Como, pois, no Evangelho Mateus e José, ou no Antigo Testamento, numerosos ricos entraram no Reino de Deus, a não ser, talvez, porque aprenderam, por inspiração do Senhor, a considerar as riquezas como nada ou a abandoná-las por completo? Mas em um sentido mais elevado, é mais fácil Cristo padecer por aqueles que O amam do que os amantes do século poderem converter-se a Cristo. Pois pelo nome de camelo, Ele quis significar a Si mesmo, porque carregou o fardo de nossas fraquezas; e pela agulha, Ele significa as picadas, isto é, as dores suportadas na Paixão. Portanto, o buraco da agulha indica as estreitezas da Paixão, pelas quais, rasgadas como que as vestimentas de nossa natureza, dignou-se a remendá-las de certo modo. Segue-se: os quais se admiravam ainda mais, dizendo entre si: quem, então, pode salvar-se? Como incomparavelmente maior é a multidão dos pobres, que pode salvar-se enquanto os ricos se perdem, entenderam, contudo, que todos os que amam as riquezas, mesmo que não possam adquiri-las, são contados no número dos ricos. Segue-se: e Jesus, olhando para eles, disse: aos homens é impossível, mas não a Deus. O que não se deve entender como se os cobiçosos e soberbos pudessem entrar no Reino dos Céus com sua cobiça e soberba; mas é possível a Deus que sejam convertidos da cobiça e soberba à caridade e humildade.
E porque não é suficiente apenas deixar, acrescenta o que é perfeito: e te seguimos; como se dissesse: Fizemos o que ordenaste; o que, portanto, nos darás como prêmio? Mas, enquanto Pedro interrogava apenas acerca dos discípulos, o Senhor faz uma resposta universal: donde segue respondendo Jesus disse: em verdade vos digo, não há ninguém que tenha deixado casa ou irmãos ou irmãs ou pai ou mãe ou filhos ou terras. Mas dizendo isto, não indica que devamos abandonar nossos pais, não os ajudando, nem que nos separemos de nossas esposas; mas nos instrui a preferir a honra de Deus às coisas seculares.
Alguns, porém, por ocasião desta sentença em que se diz "receberá cem vezes tanto, agora neste tempo", etc., dogmatizam a fábula judaica dos mil anos após a ressurreição dos justos, quando tudo o que deixamos por Deus seria devolvido com multiplicados juros, além do que, seria concedida a vida eterna. Não percebem que, embora a promessa seja digna no que diz respeito às demais coisas, no caso das cem esposas, segundo os outros Evangelistas, manifesta-se a torpeza. Especialmente quando o Senhor testemunha que na ressurreição não haverá casamento, e afirma que aquelas coisas que foram deixadas por causa dele serão recebidas neste tempo com perseguições, as quais eles afirmam estarem ausentes em seus mil anos.
Pode certamente ser entendido de modo mais profundo o que disse receberá cem vezes mais. De fato, o número cem, transferido da esquerda para a direita, ainda que pareça ter a mesma figura na flexão dos dedos que tinha o número dez na esquerda, cresce muito em grandeza quantitativa. Isto significa que todos os que desprezaram as coisas temporais pelo reino de Deus, nesta vida cheia de perseguições, degustam com fé certa a alegria do mesmo reino, e na expectativa da pátria celestial, que se significa pela direita, desfrutam do deleite de todos os eleitos. Mas como muitos não consumam os esforços das virtudes com a mesma intenção de piedade com que começaram, logo acrescenta muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos primeiros. Diariamente vemos muitos que, permanecendo em hábito laico, sobressaem pelos grandes méritos de sua vida; e outros que, desde a primeira idade, fervorosos no zelo espiritual, ao fim se esgotam entorpecidos pelo ócio, e com inerte estultícia, o que começaram pelo espírito, consomem pela carne.
Os discípulos lembravam-se do discurso em que o Senhor havia predito que sofreria muitas coisas dos sumos sacerdotes e escribas; e, por isso, a caminho de Jerusalém, ficaram espantados. E é isso o que se quer dizer quando está escrito: estavam no caminho subindo a Jerusalém, e Jesus ia adiante deles.
Para que nem eles mesmos fossem mortos com Ele, ou ao menos para que aquele, cuja vida e magistério os alegrava, não sucumbisse nas mãos dos inimigos. Prevendo, porém, o Senhor que os ânimos dos discípulos seriam perturbados por sua paixão, prediz-lhes tanto a pena de sua paixão como a glória de sua ressurreição; por isso segue: e tomando novamente os doze, começou a dizer-lhes o que lhe havia de acontecer.
Ou eles não sabem o que pedem, os que buscam do Senhor um assento de glória, o qual ainda não mereciam.
Pergunta-se, porém, como Tiago e João beberam o cálice do martírio, ou como foram batizados com o Batismo do Senhor, quando a Escritura narra que apenas o apóstolo Tiago foi decapitado por Herodes, enquanto João terminou sua vida por morte natural. Mas se lermos as histórias eclesiásticas, nas quais se relata que também ele, por causa do martírio, foi lançado em um caldeirão de óleo fervente, e imediatamente relegado à ilha de Patmos; assim veremos que o espírito de martírio não faltou a João; e que João bebeu o cálice da confissão, que também os três jovens beberam na fornalha de fogo, embora o perseguidor não tenha derramado seu sangue. Segue-se: "Mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me cabe conceder a vós, mas é para aqueles para quem está preparado".
Ou então, não é meu dar a vós, isto é, aos soberbos; pois assim ainda éreis. A outros está preparado; e sede vós outros, isto é, humildes, e a vós está preparado.
No qual Ele ensina que aquele é maior que for menor, e que se torna senhor aquele que se faz servo de todos. Em vão, portanto, uns haviam buscado coisas imoderadas, ou outros sofrem pelo desejo de grandezas, pois não se chega ao cume das virtudes pelo poder, mas pela humildade. Depois, propõe um exemplo; para que, se dessem pouco valor às palavras, se envergonhassem com as obras; e diz: pois nem o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos.
Ele não disse, porém, que dava a sua alma em redenção por todos, mas por muitos, isto é, por aqueles que quisessem crer nEle.
São Mateus menciona dois cegos sentados junto ao caminho que clamaram ao Senhor e receberam a visão; São Lucas, porém, relata que quando se aproximava de Jericó, de modo semelhante, um cego foi por Ele iluminado; nisto ninguém, pelo menos nenhum homem sábio, pensará que os Evangelistas escrevem coisas contrárias entre si, mas que um escreve mais completamente o que o outro omitiu. Deve-se entender, portanto, que um deles era o mais importante, o que se evidencia pelo fato de que São Marcos menciona o seu nome e o nome de seu pai.
Porventura, Aquele que podia restituir a visão ignorava o que o cego queria? Por isso, pois, Ele pergunta para que se Lhe peça; para isso pergunta, para que excite o coração à oração.
Pois o cego despreza qualquer coisa que busque além da luz; porque, ainda que o cego possa ter qualquer coisa, sem a luz ele não pode ver o que possui.
Em sentido místico, Jericó, que se interpreta como lua, designa o defeito de nossa mutabilidade. O Senhor, aproximando-se de Jericó, devolveu a luz ao cego: porque vindo na carne e aproximando-se da paixão, trouxe muitos à fé. Pois não foi nos primeiros tempos de sua encarnação, mas poucos anos antes de padecer, que revelou ao mundo o mistério do Verbo.
Quanto ao fato de que, aproximando-se de Jericó, curou um cego, e ao partir de Jericó, dois, isto significa que antes de sua paixão pregou somente a um povo, o dos judeus; mas depois de sua ressurreição e ascensão, por meio dos apóstolos, revelou tanto aos judeus quanto aos gentios os mistérios de sua divindade e humanidade. O que São Marcos escreve sobre um só cego curado refere-se à salvação dos gentios, para que a figura correspondesse à salvação daqueles que instruía na fé. São Mateus, porém, que escrevia seu Evangelho para os crentes entre os hebreus, e que haveria de chegar também ao conhecimento dos gentios, diz acertadamente que dois cegos foram curados, para ensinar que a graça da fé pertencia a ambos os povos. Enquanto o Senhor partia de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, o cego estava sentado junto ao caminho, mendigando; porque, quando o Senhor ascendeu aos céus, e muitos fiéis o seguiram, e inclusive todos os eleitos desde o princípio do mundo entraram junto com Ele pela porta do reino celestial1, logo o povo dos gentios começou a ter esperança de sua própria iluminação; este mendiga sentado junto ao caminho, porque ainda não havia entrado no caminho da verdade, embora se esforçasse para chegar a ele.
[1] Isto se refere à opinião de que, pela descida de Nosso Senhor ao inferno, os Patriarcas foram libertados do limbo dos Pais, onde haviam sido confinados, e foram levados por Ele a um lugar de felicidade; veja as autoridades citadas em Pearson sobre o Credo, Art. 5. ↩
O povo dos gentios, tendo conhecido a fama do nome de Cristo, procurava tornar-se partícipe dele; a isto se opunham muitos, primeiro os judeus, depois também os gentios, para que o mundo que deveria ser iluminado não invocasse a Cristo; contudo, o furor dos que o atacavam não podia privar da salvação aqueles que estavam predestinados para a vida. Ao passar, ele ouviu o cego que clamava: porque por sua humanidade se compadeceu aquele que pelo poder de sua divindade expulsou as trevas de nossa mente; pois o fato de Jesus ter nascido e padecido por nós é como se Ele passasse, porque esta ação é temporal; mas permanecer é próprio de Deus, que dispõe todas as coisas de modo imutável. O Senhor chama o cego que clama quando envia a palavra da fé ao povo dos gentios por meio dos pregadores; estes, chamando o cego, ordenam-lhe que tenha ânimo, que se levante e venha ao Senhor, quando, pregando aos ignorantes, mandam-lhes ter esperança de salvação, erguer-se da inércia dos vícios e preparar-se para o estudo das virtudes. Atirando fora o manto, salta aquele que, tendo abandonado os impedimentos do mundo, com passo desimpedido apressa-se em direção ao doador da luz eterna.
Imitemos, pois, também nós a ele: não busquemos do Senhor riquezas, nem bens terrenos, nem honras, mas busquemos a luz, que podemos ver somente com os Anjos, à qual a fé é o caminho; por isso também ao cego é respondido: "tua fé te salvou". Vê e segue aquele que pratica o bem que compreende: pois segue a Jesus quem pratica o bem que compreende, quem imita aquele que não quis prosperar neste mundo, mas tolerou opróbrios e escárnios. E porque caímos do gozo interno pela deleitação das coisas corporais, Ele mostra com quanta amargura se retorna àquele lugar.
Betânia é uma pequena vila, ou cidade, na encosta do monte das Oliveiras, onde Lázaro foi ressuscitado dos mortos. Como, porém, enviou seus discípulos e para quê, mostra acrescentando: e disse-lhes: ide à aldeia que está diante de vós.
Hosanna, porém, é uma palavra hebraica composta de duas partes, uma corrompida e outra íntegra; pois hosy significa entre eles "salva" ou "salvifica"; enquanto anna é uma interjeição deprecativa, assim como entre os latinos heu é uma exclamação de dor.
Lemos, porém, no Evangelho de São João, que fugiu para o monte para que não o fizessem rei. Agora, no entanto, quando vem a Jerusalém para padecer, não foge daqueles que o proclamam rei, para ensinar abertamente que não era rei de um império temporal e terreno, mas eterno nos céus, e que chegaria ao reino pelo desprezo da morte. É de notar também quanta é a consonância da multidão com a voz de Gabriel, que disse: "o Senhor Deus lhe dará o trono de David, seu pai", a saber, para que o próprio Cristo chamasse por palavras e ações ao reino celeste àquela nação à qual David outrora ofereceu o governo de um reino temporal.
Betânia significa casa da obediência: porque ensinando a muitos antes de sua paixão, fez para si uma morada de obediência; e diz-se estar situada no monte das Oliveiras, porque nutre a Igreja com a unção dos carismas espirituais e com a luz da ciência e da piedade. Enviou, porém, seus discípulos ao povoado que estava diante deles; isto é, destinou os doutores para que penetrassem, evangelizando, nas partes indoutas do mundo, como nas muralhas de uma cidadela que lhes estava oposta.
Pois o potro da jumenta, lascivo e livre, significa o povo das nações, sobre o qual nenhum homem havia ainda se sentado, porque nenhum doutor sábio havia, com os ensinamentos de salvação, colocado o freio da correção para obrigá-los a refrear suas línguas do mal, ou para compeli-los ao caminho estreito da vida. Mas encontraram o potro amarrado à porta do lado de fora, porque o povo gentio estava amarrado pelas cadeias de seus pecados diante da porta da fé, isto é, fora da Igreja.
Ou bem: estava parado na encruzilhada, porque não seguia o caminho certo da vida e da fé, mas, levado pelo erro, seguia muitos e duvidosos caminhos das seitas.
Ou os mestres do erro, que se opunham aos doutores que vinham para a salvação dos gentios; mas depois que o poder da fé do Senhor apareceu aos crentes, o povo dos fiéis, livre das queixas dos adversários, era conduzido ao Senhor, a quem portava no coração. As vestimentas dos apóstolos que eles colocam sobre ele podem ser entendidas como a doutrina das virtudes, ou o discernimento das Escrituras, ou as variedades dos dogmas eclesiásticos, com as quais eles cobrem os corações dos homens, antes nus e frios, para que se tornem dignos de ter Cristo como quem neles se assenta.
Ou também, muitos estendem suas vestes no caminho, porque os santos mártires, despindo-se do revestimento de sua própria carne, preparam o caminho com seu sangue para os mais simples servos de Deus. Muitos também estendem suas vestes no caminho, porque domam seus corpos pela abstinência, para preparar o caminho de Deus até o monte, ou para oferecer bons exemplos aos que os seguem. E cortam ramos das árvores aqueles que, na doutrina da verdade, colhem as sentenças dos Padres de suas palavras, e por sua humilde pregação as espalham no caminho de Deus, quando Ele vem à alma do ouvinte.
E porque todos os eleitos, tanto os que podiam existir na Judeia, como os que agora existem na Igreja, creram e creem no Mediador entre Deus e os homens, tanto os que iam à frente como os que seguiam clamavam hosanna.
Aproximando-se o tempo da paixão, o Senhor quis aproximar-se do lugar da paixão, para que através disto desse a entender que se sujeitava à morte por sua própria vontade; por isso se diz e entrou em Jerusalém no templo. O fato de que, ao entrar na cidade, primeiro dirigiu-se ao templo, demonstra-nos previamente a forma de religião que devemos seguir, de modo que, quando por ventura entramos em algum lugar onde há uma casa de oração, primeiro nos dirijamos a ela. Deve-se também entender que o Senhor era de tanta pobreza, e a ninguém adulou, que na maior cidade não encontrou nenhum hóspede, nenhuma morada, mas habitava em uma pequena aldeia com Lázaro e suas irmãs: pois sua aldeia era Betânia; por isso segue e tendo olhado tudo ao redor, para ver se alguém o receberia como hóspede, sendo já a hora da tarde, saiu para Betânia com os doze. Não fez isso apenas uma vez, mas durante todos os cinco dias, desde que subira a Jerusalém até o tempo da paixão, costumava sempre fazer o mesmo, para que durante o dia ensinasse no templo, mas à noite, saindo, permanecesse no monte das Oliveiras. Segue-se e no outro dia, quando saía de Betânia, teve fome.
Ele olha ao redor, todos os corações; e como naqueles que contradizem a verdade não encontra onde reclinar a cabeça, retira-se para os fiéis, e nos que obedecem, faz sua morada: pois Betânia significa casa da obediência.
Assim como fala por parábolas, assim também opera; por isso, tendo fome, busca fruto na figueira, embora saiba que ainda não é tempo, e, contudo, a condena à perpétua esterilidade, para mostrar que o povo judeu, por causa das folhas, isto é, das palavras de justiça que tinha sem fruto, ou seja, sem boas obras, não poderia ser salvo, mas seria cortado e lançado ao fogo. Tendo fome, portanto, isto é, desejando a salvação do gênero humano, viu a figueira, isto é, o judeu, que tinha folhas, ou seja, as palavras da lei e dos profetas, e procurou nela o fruto das boas obras, ensinando, corrigindo, fazendo milagres; e não encontrou, e por isso a condenou. Tu também, se não queres ser condenado por Cristo no juízo, evita ser árvore estéril; mas, antes, oferece ao Cristo pobre o fruto da piedade de que Ele necessita.
O que o Senhor fez por meio de uma figura, ao amaldiçoar a figueira infrutífera, logo depois mostrou mais claramente, expulsando os ímpios do templo. Pois a figueira não pecou se não tinha fruto antes do tempo; mas sim os sacerdotes; por isso diz e vêm a Jerusalém; e tendo entrado no templo, começou a expulsar os vendedores e compradores no templo. E certamente deve-se crer que Ele encontrou no templo à venda ou sendo compradas apenas aquelas coisas que eram necessárias para o ministério do templo. Se, portanto, o Senhor não permite que na sua casa se realizem negócios temporais que poderiam ser livremente realizados em outro lugar, quanto mais merecem maior ira celestial aqueles que praticam nos edifícios consagrados a Deus aquelas coisas que nunca é lícito fazer? Segue-se e as mesas dos cambistas.
Como o Espírito Santo apareceu sobre o Senhor na forma de uma pomba, corretamente pelos nomes de pombas são designados os carismas do Espírito Santo. A pomba, portanto, é vendida quando a imposição das mãos, pela qual o Espírito Santo é recebido, é oferecida por um preço. E derruba as cadeiras dos que vendem pombas: porque aqueles que vendem a graça espiritual são privados do sacerdócio, seja diante dos homens, seja diante dos olhos de Deus.
Ele fala daqueles vasos que eram levados para o templo para fins de comércio. Quanto ao restante, não se deve pensar que o Senhor expulsasse do templo os vasos consagrados a Deus, ou proibisse que fossem introduzidos no templo; nisso ele apresenta um exemplo do juízo futuro, pois afasta os réprobos da Igreja e, para que não voltem a perturbar a Igreja, os restringe com castigo eterno. Mas também os pecados que estavam nos corações dos fiéis, a compunção divinamente infundida os remove; e para que não se repitam, a graça divina os auxilia. Segue-se: e os ensinava, dizendo: Não está escrito que a minha casa será chamada casa de oração para todas as nações?
A todas as nações, diz, não apenas à nação judaica, nem somente na cidade de Jerusalém, mas em todo o orbe terrestre; e de modo algum [casa] de touros, bodes e carneiros, mas de oração.
A figueira secou desde as raízes, para mostrar que a nação ímpia não deveria ser corrigida apenas por um tempo ou em parte pelas incursões externas, e libertada pela penitência, como frequentemente aconteceu; mas deveria ser ferida pela condenação eterna. Ou secou desde as raízes, para mostrar que seria destituída completamente não só do favor humano exteriormente, mas também do favor divino interiormente: pois perdeu tanto a vida nos céus, quanto a pátria na terra.
Os pagãos que escreveram contra a Igreja costumam censurar os nossos, porque não tiveram plena fé em Deus, pois nunca puderam transferir montanhas. Aos quais se deve responder que nem tudo o que foi feito na Igreja está escrito, assim como a Escritura também testemunha sobre os feitos do próprio Cristo. Poderia, contudo, ter sido feito, se a necessidade o exigisse, como lemos que foi feito pelas preces do bem-aventurado padre Gregório, bispo de Neocesareia do Ponto, homem notável por seus méritos e virtudes, para que uma montanha cedesse tanto espaço de terra quanto os habitantes da cidade necessitavam.
Ou porque pelo nome de montanha se significa o Diabo devido à sua soberbia, a montanha, ao comando daqueles que são fortes na fé, é tomada da terra e lançada ao mar, quando, ao pregarem os santos doutores a palavra de Deus, o espírito imundo é expulso do coração daqueles que são preordenados à vida e é permitido exercer a fúria de sua tirania nas mentes turbulentas e amargas dos infiéis; contra os quais ele se enfurece tanto mais cruelmente, quanto mais se lamenta por ter sido afastado de ferir os primeiros. Por isso vos digo: tudo o que pedirdes orando, crede que o recebereis, e vos acontecerá.
Deve-se notar, porém, a distinção entre os que suplicam: aquele que tem fé perfeita, a qual opera pela caridade, pode, orando ou até mesmo ordenando, transferir montanhas espirituais, como fez São Paulo com Elimas, o mago; aqueles, porém, que ainda não conseguiram alcançar o vestígio de tal perfeição, peçam que lhes sejam perdoados os pecados, e conseguirão, contanto que primeiro eles mesmos perdoem aos que pecaram contra eles. Mas se desdenharem fazer isso, não só não poderão realizar virtudes pela oração, mas nem sequer poderão conseguir o perdão de seus pecados; e isto é o que se segue: que se vós não perdoardes, tampouco vosso Pai que está nos céus vos perdoará vossos pecados.
E, certamente, quando dizem com que poder fazes estas coisas?, eles duvidam de que seja o poder de Deus, e querem dar a entender que o que Ele faz é obra do diabo; e acrescentando também quem te deu este poder?, eles manifestamente negam que Ele é o Filho de Deus, pois acreditam que Ele faz milagres não por Seu próprio poder, mas pelo poder de outro.
O Senhor poderia certamente refutar com uma resposta franca as calúnias dos que o tentavam; mas prudentemente os interroga, para que sejam condenados por seu próprio silêncio ou por suas palavras: o que se evidencia pelo que se segue: e eles pensavam consigo mesmos, dizendo: Se dissermos: do céu, ele nos dirá: por que então não crestes nele? Como se dissesse: Aquele que confessais ter recebido do céu o dom da profecia deu testemunho de mim, e dele ouvistes em virtude de qual poder faço estas coisas. Segue-se: se dissermos: dos homens. Viram, portanto, que qualquer que fosse sua resposta, cairiam em armadilha, temendo ser apedrejados, mas temendo ainda mais a confissão da verdade; pelo que segue: e respondendo, disseram a Jesus: não sabemos.
Como se dissesse: Não vos digo o que sei, porque não quereis confessar o que sabeis. Deve-se notar, porém, que a ciência da verdade deve ser ocultada aos que a buscam principalmente por duas razões: a saber, quando aquele que busca ou tem menor capacidade para compreender o que busca; ou, por desprezo da verdade, ou por alguma outra razão, é indigno de que lhe seja revelado o que busca.
Ou então, a cerca é o muro da cidade, o lagar é o altar, ou aqueles lagares dos quais três Salmos recebem o seu título.
Não por mudança de lugar; mas parece afastar-se da vinha, para que deixasse aos vinhateiros a liberdade de operarem segundo seu arbítrio. Segue-se: e enviou aos agricultores, em tempo oportuno, um servo, para que recebesse dos agricultores do fruto da vinha.
O servo que primeiro foi enviado, é entendido como o legislador Moisés. Mas o açoitaram e o mandaram embora sem nada: porque irritaram a Moisés nos acampamentos. Segue: e novamente enviou a eles outro servo, e a este também feriram na cabeça e o trataram de modo afrontoso. Este outro servo significa o rei Davi e os demais Salmistas; mas a este feriram na cabeça e trataram afrontosamente, porque menosprezaram os cânticos dos Salmistas e rejeitaram o próprio Davi, dizendo: que parte temos nós com Davi? Segue: e novamente enviou outro, e a este mataram, e a muitos outros, açoitando a uns e matando a outros. Pelo terceiro servo e seus companheiros, entende-se o coro dos profetas. Mas qual dos profetas não perseguiram? Nestes três graus de servos, como o Senhor mesmo proclama em outro lugar, pode-se compreender a figura de todos os doutores sob a lei, quando diz: porque é necessário que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim.
Ou, de outro modo. Quando diz "talvez respeitarão meu filho", isto não vem da ignorância; mas diz-se que Deus duvida, para que o livre arbítrio seja reservado ao homem.
O Senhor prova manifestissimamente que os príncipes dos judeus crucificaram o Filho de Deus não por ignorância, mas por inveja. Pois entenderam que este era aquele a quem foi dito: "Dar-te-ei as nações por herança"(Salmo 2,8). Esta morte dele os maus lavradores esforçavam-se por antecipar, quando os judeus, crucificando-o, tentavam extinguir a fé que vem por ele, e preferir mais a sua própria justiça que vem da lei, e esforçavam-se por introduzi-la às nações que deveriam ser instruídas. Segue-se "e apreendendo-o, mataram-no e lançaram-no fora da vinha".
ChatGPTMas isso foi assim divinamente ordenado, como logo confirmou com um exemplo profético, acrescentando: Nunca lestes esta Escritura: a pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular? Como se dissesse: como se cumprirá esta profecia, senão pelo fato de que Cristo, por vós rejeitado e morto, foi entregue para ser pregado aos gentios, para que, como pedra angular, fundasse dois povos sobre si mesmo, e de ambos os povos edificasse para si uma única cidade de fiéis, um único templo? Pois aos mesmos mestres da sinagoga, a quem acima chamara de lavradores, agora chama de construtores, porque as mesmas pessoas, que pareciam cultivar o povo, para que produzissem frutos de vida, como uma vinha, também eram encarregadas de construir e adornar este povo, para ser como uma casa digna de ter a Deus como habitante.
Os príncipes dos sacerdotes, porém, mostravam ser verdadeiras as coisas que o Senhor havia dito; o que fica evidente pelo que se segue: e procuravam prendê-lo. Pois ele próprio é o herdeiro, cuja injusta morte dizia que seria vingada pelo pai. Moralmente, a cada um dos fiéis, quando lhe é confiado o mistério do Batismo, é entregue uma vinha para que a cultive. Mas o servo enviado é insultado, espancado e expulso, quando a palavra ouvida ou é desprezada ou, o que é pior, até mesmo blasfemada. Além disso, mata o herdeiro enviado, tanto quanto está em seu poder, aquele que pisoteou o Filho de Deus. Destruído o mau cultivador, a vinha é dada a outro, quando o humilde será enriquecido com aquele dom da graça que o soberbo desprezou. Mas isto, que os príncipes dos sacerdotes, querendo pôr as mãos em Jesus, são contidos pelo temor da multidão, acontece diariamente na Igreja, quando qualquer um que é irmão apenas de nome, ou se envergonha ou teme atacar a unidade da fé eclesiástica e da paz, a qual não ama, por causa da multidão de bons irmãos que habitam juntos nela.
Os sumos sacerdotes, procurando prender o Senhor, temeram a multidão: e por isso o que não puderam fazer por si mesmos, tentaram realizar por meio dos poderes terrenos, para que eles próprios parecessem isentos da morte dele; e por isso diz: e enviam a ele alguns dos fariseus e herodianos, para o apanharem em palavras.
Porém, esta branda e fraudulenta pergunta provoca o respondente a temer mais a Deus do que a César, e a dizer que os tributos não devem ser pagos, para que imediatamente os herodianos, ao ouvirem, o considerem um autor de sedição contra os romanos; e, por isso, acrescentam: e não te importas com ninguém; pois não consideras a aparência das pessoas.
O denário é um tipo de moeda que era contado por dez moedas e tinha a imagem de César; donde segue: e lhes disse: de quem é esta imagem e inscrição? Dizem-lhe: de César. Aqueles que pensam que a interrogação do Salvador é ignorância, e não disposição, aprendam disto que Ele poderia saber de quem era a imagem; mas interroga para responder adequadamente ao discurso deles; donde segue: respondendo, pois, Jesus disse-lhes: dai, portanto, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
Isto é, os dízimos, as primícias, as oblações e as vítimas, assim como Ele mesmo pagou os tributos por si e por Pedro, e deu a Deus o que é de Deus, cumprindo a vontade de seu Pai.
Pois com razão eles forjam uma fábula deste tipo, que atribui loucura àqueles que afirmam a ressurreição dos corpos. Pode, porém, ter ocorrido que verdadeiramente em algum momento algo assim tenha acontecido entre eles.
Deve-se considerar aqui que o costume Latino aqui não corresponde ao idioma Grego. Pois nubere (casar-se) é dito propriamente das mulheres, e os homens uxores ducere (tomam esposas); mas nós devemos entender simplesmente o que foi dito, que nubere está escrito em referência aos homens, e nubi em referência às esposas.
Ou porque, tendo provado que as almas permanecem após a morte (pois não poderia ocorrer que Deus fosse Deus daqueles que de modo algum subsistissem), consequentemente introduzia-se também a ressurreição dos corpos, que junto com as almas praticaram boas e más ações.
Mostra, a partir do que diz "é maior que todos os holocaustos e sacrifícios", que frequentemente se debatia uma grave questão entre os escribas e fariseus sobre qual seria o mandamento primeiro ou o maior da lei divina; pois alguns louvavam as oferendas e sacrifícios, enquanto outros preferiam as obras de fé e de amor, porque muitos dos pais antes da lei agradavam a Deus somente pela fé que opera por meio do amor. Nesta opinião, este escriba declara que estava. Segue-se: "Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus".
Por isso, pois, não estava longe do reino de Deus, porque se provou ser um defensor daquela sentença que é própria do Novo Testamento e da perfeição evangélica.
A interrogação de Jesus nos é útil até hoje contra os judeus: pois aqueles que confessam que o Cristo há de vir, afirmam que Ele é um simples homem e varão santo da linhagem de David. Perguntemos, pois, a eles, instruídos pelo Senhor: se é um simples homem e somente filho de David, como David o chama seu Senhor no Espírito Santo? Porém, não são repreendidos por chamá-lo filho de David, mas por não acreditarem que Ele é Filho de Deus. Segue-se: "E uma grande multidão o ouvia de boa vontade".
Andar em estolas, significa apresentar-se em público vestido com roupas demasiadamente ornamentadas, pecado no qual, entre outros, descreve-se ter incorrido aquele rico que banqueteava-se esplendidamente todos os dias.
É preciso notar, porém, que não proíbe que sejam saudados nas praças, nem ocupem os primeiros assentos ou posições à mesa aqueles a quem isto compete pela ordem do seu ofício; mas ensina que aqueles que amam estas coisas desordenadamente, quer as possuam ou não, devem ser evitados pelos fiéis como homens ímprobos, repreendendo, evidentemente, a intenção e não a posição; embora não careça de culpa que aqueles mesmos que desejam ser chamados mestres da sinagoga na cátedra de Moisés se envolvam em litígios na praça pública. Por duas razões, certamente, somos ordenados a estar atentos aos ávidos de vanglória: para que não sejamos seduzidos por sua simulação, julgando serem boas as coisas que fazem; ou para que não sejamos inflamados pela emulação, alegrando-nos em vão com os bens que simulam possuir, querendo ser louvados.
Não somente buscam louvores dos homens, mas também riquezas; por isso segue que devoram as casas das viúvas sob pretexto de longas orações. Existem aqueles que, simulando ser justos, perturbados pela consciência de seus pecados, não hesitam em receber dinheiro como se fossem ser defensores delas no juízo futuro; e enquanto a mão estendida ao pobre costuma auxiliar as orações, eles principalmente pernoitam em orações para tirar do pobre suas moedas.
O Senhor, que havia aconselhado a evitar o desejo de primazia e vanglória, também discerne com seguro exame aqueles que trazem ofertas à casa do Senhor; por isso é dito: e Jesus, sentado defronte do tesouro, observava como a multidão lançava dinheiro no tesouro. Na língua grega, "phylaxe" significa guardar, e "gaza", em língua persa, chama-se às riquezas; daí que o lugar onde se guardam as riquezas sói se chamar "gazophylacium": nome com que se designava tanto a arca onde se recolhiam as ofertas do povo para as necessidades do templo, quanto os pórticos onde eram guardadas. Tens um exemplo dos pórticos no Evangelho: "Estas palavras foram ditas no gazofílacio, enquanto ensinava no templo"(São João 8,20). E tens também da arca no livro dos Reis: "E o pontífice Joiada trouxe um gazofílacio"(2 Reis 12,9).
Os calculadores chamam de quadrante à quarta parte de qualquer coisa, seja de um lugar, de um tempo ou de dinheiro. Talvez, portanto, neste lugar signifique a quarta parte de um siclo, isto é, cinco óbolos. Segue-se: "E chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos os que lançaram no gazofilácio". Pois Deus não pesa a substância dos ofertantes, mas a consciência; nem considera quanto se dá em seu sacrifício, mas de quanto se oferta. Por isso acrescenta: "Porque todos lançaram do que lhes sobrava, mas esta, da sua penúria, lançou tudo o que tinha, todo o seu sustento".
Alegoricamente, os ricos que depositavam suas oferendas no tesouro designam os judeus que se orgulhavam da justiça da lei. A viúva pobre designa a simplicidade da Igreja: pobre, de fato, porque rejeitou o espírito de soberba e as concupiscências das coisas temporais; e viúva porque Jesus, seu esposo, suportou a morte por ela. Ela coloca no tesouro dois pequenos tostões: porque traz a dileção a Deus e ao próximo, ou as oferendas da fé e da oração, que são consideradas pequenas por sua própria fragilidade, mas por mérito da piedosa intenção são aceitas e superam todas as obras dos judeus soberbos. O judeu coloca no tesouro do que lhe é abundante, pois presume de sua própria justiça. A Igreja coloca todo o seu sustento nas oferendas de Deus, porque compreende que tudo o que vive não é por seu próprio mérito, mas por dom divino.
Porque uma vez fundada a Igreja de Cristo, a Judeia haveria de expiar as penas merecidas pela sua perfídia, apropriadamente o Senhor, após ter louvado na pobre viúva a devoção da Igreja, sai do templo e predisse a sua futura ruína e que as construções, agora admiráveis, não muito depois seriam desprezadas; por isso se diz: "E, ao sair do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras e que estruturas!"
Por disposição divina, foi providenciado que, uma vez manifestada por todo o mundo a graça da fé evangélica, o próprio templo com suas cerimônias fosse removido; para que não acontecesse que alguém pequeno na fé, se visse permanecerem aquelas coisas que foram instituídas por Deus, pouco a pouco resvalasse da sinceridade da fé que está em Cristo Jesus para o judaísmo carnal.
Com a retirada do Senhor do templo, todo o edifício da lei e a estrutura dos mandamentos foram destruídos de tal modo que nada pode ser cumprido pelos judeus; e, removida a cabeça, todos os membros lutam entre si.
Porque, tendo o Senhor respondido claramente a alguns que louvavam as edificações do templo que todas estas coisas seriam destruídas, os discípulos interrogaram secretamente sobre o tempo e os sinais da destruição predita; pelo que é dito: "E estando ele sentado no monte das Oliveiras, defronte do templo, interrogavam-no". O Senhor senta-se no monte das Oliveiras, defronte do templo, quando discorre sobre a ruína e a destruição do templo, para que mesmo na posição do corpo concorde com as palavras que profere, designando misticamente que, permanecendo tranquilo entre os santos, detesta a loucura dos soberbos. Pois o monte das Oliveiras designa a frutífera sublimidade da santa Igreja.
Muitos, de fato, com a iminente destruição de Jerusalém, apareceram declarando serem cristos, e que o tempo da liberdade já se aproximava; muitos também na própria Igreja, inclusive nos tempos dos apóstolos, surgiram como heresiarcas; muitos também vieram em nome de Cristo como Anticristos, o primeiro dos quais é Simão, o mago, a quem, como lemos nos Atos dos Apóstolos, os que estavam em Samaria davam ouvidos, dizendo: "esta é a virtude de Deus que se chama grande"; por isso também aqui se acrescenta: "e enganarão a muitos". Mas desde o tempo da paixão do Senhor no povo dos judeus, que escolheram o ladrão sedicioso e rejeitaram Cristo salvador, não cessaram nem as guerras dos inimigos, nem as sedições dos cidadãos; por isso segue: "quando ouvirdes, porém, guerras e rumores de guerras, não temais". Mas com estas coisas se aproximando, os apóstolos são advertidos a não se aterrorizarem, a não abandonarem Jerusalém e a Judeia; porque, evidentemente, não seria imediatamente o fim; mas antes seria adiado por quarenta anos; e isto é o que se acrescenta: "pois é necessário que estas coisas aconteçam; mas ainda não é o fim", isto é, a desolação da província e a última destruição da cidade e do templo. Segue-se: "pois se levantará nação contra nação, e reino contra reino".
Consta que isto aconteceu literalmente no tempo da sedição judaica. Mas pode-se entender o reino contra reino, e a pestilência daqueles cujas palavras se espalham como um câncer, e a fome de ouvir a palavra de Deus, e a comoção de toda a terra, e a separação da verdadeira fé, mais propriamente nos hereges que, combatendo uns contra os outros, fazem a vitória da Igreja.
O Senhor manifesta por qual mérito foram infligidas tantas adversidades a Jerusalém e a toda a província dos judeus, quando diz: "Mas tomai cuidado de vós mesmos: porque vos entregarão aos concílios, e nas sinagogas sereis açoitados". Certamente a maior causa da destruição para o povo judaico foi que, depois de matarem o Salvador, também atormentavam com ímpia crueldade os arautos do seu nome e fé.
Que isto foi completado desta maneira, atestam as histórias eclesiásticas, nas quais se relata que todos os apóstolos, muito antes da destruição da província da Judéia, foram dispersos por todo o mundo para pregar o Evangelho, exceto São Tiago, filho de Zebedeu, e São Tiago, irmão do Senhor, que já haviam derramado seu sangue na Judéia pela palavra do Senhor. Portanto, como o Senhor sabia que os corações dos discípulos ficariam entristecidos pela destruição e perdição de sua gente, ele os conforta com este consolo, para que soubessem que, mesmo rejeitados os judeus, não lhes faltariam companheiros de alegria e do reino celestial, e que, pelo contrário, de todos os homens de todo o mundo, seriam reunidos muitos mais do que os que pereceram na Judéia.
Pois quando somos levados perante os juízes por causa de Cristo, devemos oferecer apenas nossa vontade por Cristo. Quanto ao resto, o próprio Cristo, que habita em nós, fala; e a graça do Espírito Santo será dada em nossa resposta: por isso segue "não sois vós que falais, mas o Espírito Santo".
Isto é frequentemente visto nas perseguições, e não há qualquer afeto fiel entre aqueles cuja fé é diferente.
Quando somos provocados a compreender, é mostrado que o que foi dito tem sentido místico. Mas pode ser entendido simplesmente ou sobre o Anticristo, ou sobre a imagem de César, que Pilatos colocou no templo, ou sobre a estátua equestre de Adriano, que esteve por muito tempo no próprio Santo dos Santos. Também a abominação, segundo a antiga Escritura, é chamada de ídolo; e por isso acrescentou da desolação, porque o ídolo foi colocado no templo desolado e deserto.
Consta que estas coisas foram realizadas literalmente, quando, aproximando-se a guerra romana e o extermínio da gente judaica, todos os cristãos que estavam na província, advertidos pelo oráculo, retiraram-se para longe, como narra a história eclesiástica, e, refugiando-se além do Jordão, permaneceram por um tempo na cidade de Pela, sob a proteção do rei Agripa dos judeus, do qual se faz menção nos Atos dos Apóstolos, que com aquela parte dos judeus que queria obedecer-lhe, sempre viveu sujeito ao império dos romanos.
Das que, a saber, sobrecarregadas pelo peso dos úteros ou das mãos dos filhos, impedem em não pequena medida a necessidade da fuga.
Porém, nestes grandes males, o único refúgio é que Deus, que dá a virtude de padecer, abrevie o poder de perseguir. Por isso segue: "e se o Senhor não abreviasse aqueles dias".
Ou de outro modo. Estas coisas que diz a partir daquele lugar, serão dias de tribulação, convêm propriamente aos tempos do Anticristo, quando não só tormentos mais frequentes e mais acerbos do que os habituais anteriormente serão infligidos aos fiéis; mas, o que é mais grave, a operação de sinais também acompanhará aqueles que infligem os tormentos. Esta tribulação, quanto mais grave foi em relação ao peso das pressões precedentes, tanto mais moderada será quanto à brevidade do tempo. Pois durante três anos e meio, conforme se pode conjecturar da profecia de Daniel e do Apocalipse de São João, crê-se que a Igreja será impugnada por todo o orbe. Mas segundo o sentido espiritual, quando virmos a abominação da desolação estar onde não deve, isto é, as heresias e os crimes reinarem entre aqueles que pareciam estar consagrados aos mistérios celestiais, então qualquer um de nós que permaneça na Judeia, isto é, na confissão da verdadeira fé, deve ascender ao mais alto cume das virtudes quanto mais pessoas virmos seguir os amplos caminhos dos vícios.
Então, aquele que está sobre o teto, isto é, aquele que, elevando-se em espírito acima dos atos carnais, vive espiritualmente, como que em um ar livre, não desça aos ínfimos atos de sua primitiva conduta de vida, nem retome aqueles desejos do mundo ou da carne que abandonou. Pois por nossa casa deve-se entender ou este mundo, ou a própria carne em que habitamos.
Mas se for entendido sobre a consumação do mundo, Ele ordena que nossa fé e amor por Cristo não se resfriem, e que não nos tornemos preguiçosos e frios na obra de Deus, tomando um sábado das virtudes.
Alguns, porém, referem isso ao tempo do cativeiro judaico, quando muitos, dizendo-se cristos, atraíam para si multidões enganadas; mas durante o cerco da cidade não havia nenhum fiel, a quem a divina exortação para não seguir falsos mestres devesse ser feita; por isso é melhor entender isso em relação aos hereges que, vindo contra a Igreja, mentiam ser cristos; o primeiro destes foi Simão Mago, e o último, maior que todos os outros, será o Anticristo. Segue-se: "Vós, portanto, estai atentos: eis que vos predisse todas as coisas".
Porque as estrelas no dia do juízo parecerão obscuras, não por uma diminuição de sua própria luz, mas pela claridade da verdadeira luz que sobrevém, isto é, do Juiz supremo; embora nada impeça de entender verdadeiramente que o sol e a lua, juntamente com as demais estrelas, sejam temporalmente privados de sua luz, assim como consta ter acontecido com o sol no tempo da paixão do Senhor. Além disso, encerrado o dia do juízo, quando houver novo céu e nova terra, então se cumprirá o que diz Isaías: "a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes maior"(Isaías 30,26). Segue-se: "e as virtudes que estão no céu se moverão".
Que admiração há em que os homens sejam perturbados diante deste juízo, cuja aparição faz tremer até mesmo as potestades angélicas? O que farão as tábuas, quando tremem as colunas? O que padecerá o arbusto do deserto, quando o cedro do Paraíso é sacudido?
Dos quatro ventos, diz dos quatro partes do mundo: oriente, ocidente, Aquilão e Austro. E para que ninguém pensasse que somente dos quatro cantos da terra, e não mais propriamente de todos os seus confins, juntamente com as regiões mediterrâneas, seriam congregados os eleitos, apropriadamente acrescentou desde os confins da terra até os confins do céu; isto é, desde os extremos limites da terra até os seus últimos termos, onde para aqueles que observam de longe, o círculo do céu parece assentar-se sobre os limites da terra. Ninguém, portanto, naquele dia permanecerá entre os eleitos que não vá ao encontro do Senhor no ar, quando Ele vier para o juízo. Também os réprobos vêm ao juízo, para que, uma vez concluído, sejam dispersos e pereçam da face de Deus.
Com o exemplo da árvore, o Senhor ensinou um modelo do fim, dizendo: "Da figueira, porém, aprendei a parábola. Quando o seu ramo já estiver tenro e brotarem as folhas, sabeis que está próximo o verão; assim também vós, quando virdes estas coisas acontecerem, sabei que está próximo, às portas."
Esta frutificação da figueira pode ser entendida misticamente sobre o estado da sinagoga, que foi condenada a eterna esterilidade, ao vir a ela o Senhor, porque não tinha o fruto da justiça naqueles que então eram incrédulos. Mas, como disse o Apóstolo que "quando a plenitude dos gentios tiver entrado, todo o Israel será salvo", o que significa isto senão que a árvore da figueira, há muito estéril, produzirá o fruto que havia negado? Quando isto acontecer, não duvidarás que o verão da verdadeira paz está próximo.
Com o nome de geração ele significa ou todo o gênero humano, ou especialmente os judeus.
O céu que passará não é o etéreo ou sidéreo, mas o aéreo devemos entender. Pois onde quer que tenha podido chegar a água do dilúvio, ali, segundo a sentença do bem-aventurado Pedro, chegará o fogo do juízo. Passarão, porém, o céu e a terra na imagem que agora têm, todavia subsistirão em sua essência sem fim.
O homem que, partindo para longe, deixou sua casa, é Cristo, que, ascendendo vitorioso ao Pai após a ressurreição, deixou a Igreja corporalmente, a qual, contudo, nunca privou da proteção de sua presença divina.
Páscoa, que em hebraico se diz phase, não é denominada da paixão, como muitos consideram, mas do passar adiante: porque o exterminador, vendo o sangue nas portas dos Israelitas, passou adiante, e não os feriu; ou o próprio Senhor, proporcionando auxílio ao seu povo, caminhou acima deles.
Isto, porém, segundo a Escritura do Antigo Testamento, é a diferença entre a Páscoa e os ázimos: que somente aquele dia em que o cordeiro era imolado à tarde, isto é, no décimo quarto dia da lua do primeiro mês, chamava-se Páscoa; mas no décimo quinto dia da lua, quando saíram do Egito, seguia-se a festividade dos ázimos, a qual foi estabelecida por sete dias, isto é, até o vigésimo primeiro dia do mesmo mês, à tarde. Porém os Evangelistas costumam usar indistintamente tanto o dia dos ázimos para a Páscoa, quanto a Páscoa para os dias dos ázimos; por isso também Marcos aqui diz: "era, pois, a Páscoa e os ázimos dois dias depois": porque também o dia da Páscoa devia ser celebrado com pães ázimos; e nós, como que fazendo uma Páscoa perpétua, somos sempre instruídos a passar deste mundo.
Não é que temessem uma sedição, como demonstra o simples discurso; mas receavam que, com o auxílio do povo, Ele fosse retirado de suas mãos.
O Senhor, prestes a padecer por todo o mundo e redimir todas as nações com o Seu sangue, permanece em Betânia, isto é, na casa da obediência; donde se diz: "E estando em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e estando à mesa, veio uma mulher".
Diz, porém, "de Simão, o leproso", não porque fosse ainda leproso naquele tempo, mas porque, tendo sido antes leproso, depois foi purificado pelo Salvador, permanecendo o nome antigo, para que se manifeste o poder daquele que o curou.
O alabastro é um tipo de mármore branco, entremeado com várias cores, que costumam escavar para fazer vasos de unguentos, porque dizem que conserva estes muito bem, sem se corromperem. O nardo, por sua vez, é um arbusto aromático com grande raiz, como dizem, grossa, mas curta e negra, e frágil. Ainda que seja untuoso, exala um aroma como o do cipreste, de sabor áspero, com folhas pequenas e densas, cujas pontas se espalham em espigas; por isso os perfumistas celebram o nardo pelo duplo dom de suas espigas e folhas. E isto é o que diz Marcos: "unguento de nardo puro, precioso"; porque evidentemente aquele unguento que Maria trouxe ao Senhor não foi feito apenas da raiz do nardo, mas também, para que fosse mais precioso, pelo acréscimo de suas espigas e folhas, era aumentada a graça do seu odor e virtude.
E quanto ao que diz "e fremuerunt in eam" (e murmuraram contra ela), de maneira alguma devemos crer que tenha sido dito sobre os apóstolos que amam a Cristo, mas antes sobre Judas, mencionado em número plural.
Parece-me, com efeito, que neste lugar fala da presença corporal, que de modo algum estaria com eles depois da ressurreição como então estava vivendo com eles em toda convivência e familiaridade.
Como se dissesse: vós julgais que há desperdício do bálsamo; mas isto é o serviço de minha sepultura.
Deve-se notar que, assim como Maria alcançou glória em todo o mundo pelo obséquio que prestou ao Senhor, assim também, ao contrário, aquele que não temeu depreciar seu obséquio, foi difamado ampla e largamente; mas o Senhor, recompensando com digno louvor o que é bom, passou em silêncio as futuras afrontas do ímpio.
O infeliz Judas deseja compensar com o preço de seu Mestre a perda que ele pensava ter feito pelo derramamento do unguento. Por isso se diz: "E Judas Iscariotes, um dos doze, foi aos sumos sacerdotes para entregar-lhes a ele".
Mas ao dizer "saiu", mostra que ele não foi convidado pelos príncipes, nem constrangido por qualquer necessidade; mas por vontade própria concebeu o plano de sua mente criminosa.
Muitos hoje se horrorizam com o crime de Judas, que vendeu por dinheiro o seu Senhor, Mestre e Deus, como uma maldade monstruosa e abominável, mas não tomam cuidado consigo mesmos: pois quando, por interesse em recompensas, desprezam os direitos da caridade e da verdade, traem a Deus, que é a Caridade e a Verdade.
Ele chama de primeiro dia dos ázimos ao décimo quarto dia do primeiro mês, quando, tendo descartado o fermento, costumavam imolar, isto é, matar o cordeiro ao entardecer; o que o apóstolo, explicando, diz: "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós"(1 Coríntios 5,7). Pois, embora tenha sido crucificado no dia seguinte, isto é, no décimo quinto dia da lua, na noite em que o cordeiro era imolado, contudo, entregando aos seus discípulos os mistérios de seu corpo e sangue para serem celebrados, e sendo preso e amarrado pelos judeus, consagrou o princípio de sua imolação, isto é, de sua paixão.
E é indício da presença da divindade que, enquanto falava com os discípulos, soubesse o que estava para acontecer em outro lugar; por isso segue-se: "E foram os seus discípulos, e vieram à cidade, e encontraram conforme lhes havia dito, e prepararam a Páscoa".
Ou ainda, a água designa o banho da graça, e o cântaro indica a fragilidade daqueles por meio dos quais esta mesma graça deveria ser mostrada ao mundo.
Ou, o cenáculo grande é espiritualmente a Lei, que saindo das estreitezas da letra e em um lugar sublime, isto é, no alto aposento da mente, recebe o Salvador. Deliberadamente os nomes, tanto do portador da água quanto do senhor da casa, são omitidos, para indicar que se concede a faculdade a todos os que desejam celebrar a verdadeira Páscoa, isto é, ser imbuídos dos Sacramentos de Cristo e recebê-Lo na morada de sua mente.
O Senhor, que havia predito sobre Sua paixão, também prediz sobre o traidor, dando-lhe ocasião para arrependimento; para que, tendo compreendido que seus pensamentos eram conhecidos, arrependesse-se de seu ato; por isso é dito: E, chegada a tarde, veio com os doze, e estando eles sentados e comendo, Jesus disse: Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de trair.
Judas, a saber, que, enquanto os outros estavam entristecidos e retiravam suas mãos, mete a mão com o mestre no prato; e porque antes dissera "um de vós me entregará", e o traidor persevera no mal, ele o acusa mais manifestamente; e, no entanto, não designa o nome próprio.
Mas também hoje e para sempre ai daquele homem que se aproxima malignamente da mesa do Senhor. Pois ele, à imitação de Judas, entrega o Filho do homem, não aos judeus pecadores, mas aos seus próprios membros pecadores. Segue-se: "Melhor seria para aquele homem se não tivesse nascido".
Concluídos os ritos solenes da antiga Páscoa, passou para a nova, ou seja, para substituir a carne e o sangue do cordeiro pelo sacramento do seu próprio corpo e sangue; de onde se diz "E enquanto comiam, Jesus tomou o pão": para mostrar que Ele mesmo era aquele a quem o Senhor jurou: "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque"(Salmo 109,4). Segue-se "e abençoando-o, partiu-o".
Ele mesmo também parte o pão que oferece aos discípulos, para mostrar que a divisão do seu Corpo não havia de acontecer contra a sua vontade ou sem a sua intervenção; também o abençoou, porque Ele, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, encheu a natureza humana, que assumiu para sofrer, com a graça do poder divino. Abençoou o pão e o partiu, porque se dignou submeter à morte a humanidade que assumiu, de tal modo que demonstrou haver nela o poder da imortalidade divina; e assim ensinou que, por isso, mais rapidamente a ressuscitaria dos mortos. Segue-se: "E deu-lhes, e disse: Tomai, isto é o meu corpo".
Porque também nós devemos permanecer em Cristo, e Cristo deve permanecer em nós, o vinho do cálice do Senhor é misturado com água. Pois segundo o testemunho de São João, as águas são os povos1; e não é lícito a ninguém oferecer nem água sozinha, nem vinho sozinho, para que tal oblação não signifique que a cabeça deve ser separada dos membros, e nem que Cristo poderia ter padecido sem o amor por nossa redenção, nem que nós possamos ser salvos ou oferecidos ao Pai sem a Sua Paixão. Segue-se: "E todos beberam dele".
[1] Apocalipse 17,15: "E disse-me: As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, multidões, nações e línguas." ↩
Isto se refere à distinção do Antigo Testamento, que foi consagrado com o sangue de bodes e bezerros, dizendo o legislador durante a aspersão: "Este é o sangue do testamento que Deus vos ordenou"(Hebreus 9,19-20, ref. Êxodo 24,8). Segue-se: "que será derramado por muitos".
Ou de outro modo. Isaías testemunha que a videira ou vinha do Senhor é chamada a sinagoga, dizendo: "A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel"(Isaías 5,7). Indo, pois, o Senhor para a paixão, diz: "já não beberei do fruto da videira", como se abertamente dissesse: não mais me deleitarei com as cerimônias carnais da sinagoga, nas quais também os ritos sagrados do cordeiro pascal ocuparam lugar principal. Pois chegará o tempo de minha ressurreição; chegará aquele dia em que, posto no reino de Deus, isto é, elevado à glória da vida imortal, me inundarei de alegria convosco pela salvação do mesmo povo, regenerado da fonte da graça espiritual.
Também pode entender-se por este hino aquele que o Senhor, segundo São João, entoava dando graças ao Pai, no qual, com os olhos elevados ao céu, orava por si mesmo, pelos discípulos e por aqueles que haviam de crer pela palavra deles.
Belamente também o Senhor conduz seus discípulos, já imbuídos dos sacramentos, ao monte das Oliveiras, para designar tipicamente que devemos, pela recepção dos sacramentos, ascender aos mais elevados dons de virtudes e carismas do Espírito Santo, com os quais sejamos ungidos no coração.
O Senhor prediz aos discípulos o que haveriam de sofrer; para que, quando padecerem, não desesperem da salvação, mas, fazendo penitência, sejam libertos; donde segue e Jesus lhes disse: todos vós vos escandalizareis por minha causa nesta noite.
Isto está escrito em outras palavras no profeta Zacarias, e da pessoa do profeta é dito ao Senhor: "Fere o pastor, e as ovelhas serão dispersadas". Pois o Profeta pede a Paixão do Senhor; o Pai responde: Ferirei o pastor, segundo as preces dos inferiores. O Filho é enviado e ferido pelo Pai, isto é, Ele se encarna e padece.
E, portanto, Pedro prometia no ardor da fé, e o Salvador, como Deus, conhecia o que estava por vir; por isso segue e diz-lhe Jesus: Em verdade te digo que tu hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás.
A fé do Apóstolo São Pedro e seu ardente afeto pelo Senhor é consequentemente demonstrado; pois segue-se: Mas ele falava ainda mais veementemente: Ainda que me seja necessário morrer contigo, não te negarei.
Até hoje é mostrado o lugar do Getsêmani, no qual o Senhor orou, ao pé do monte das Oliveiras. Getsêmani é interpretado como o vale dos pingues, ou das gorduras. Quando o Senhor ora no monte, Ele nos ensina que, ao orar, devemos buscar as coisas sublimes. Mas quando ora no vale da gordura, nos insinua que sempre se deve conservar nas orações a humildade e a gordura do amor interior. Ele mesmo, pelo vale da humildade e pela gordura da caridade, sofreu a morte por nós.
Como sendo Deus, constituído em corpo, Ele expõe a fragilidade da carne, para que fosse excluída a impiedade daqueles que rejeitam o sacramento da encarnação; pois aquele que assumiu um corpo, devia necessariamente assumir tudo o que pertence ao corpo, como ter fome, sede, angústia e tristeza; porque a divindade não pode sofrer mudança por estes afetos.
Ele não proíbe o sono da dormição, cujo tempo não era iminente diante do perigo, mas o sono da infidelidade e torpor da mente. Avançando, porém, um pouco, prostrou-se sobre seu rosto, e mostrou a humildade da mente pela postura do corpo; por isso segue: e tendo avançado um pouco, prostrou-se por terra, e orava para que, se fosse possível, passasse dele aquela hora.
Ele ora para que o cálice passe, para mostrar que era verdadeiramente homem; por isso acrescenta: "afasta de mim este cálice". Porém, lembrando-se do motivo pelo qual foi enviado, cumpre a dispensação para a qual foi enviado, e clama: "mas não o que eu quero, senão o que tu queres"; como se dissesse: Se a morte pudesse morrer sem que eu morra segundo a carne, passe o cálice; mas, como isso não pode ocorrer de outro modo, "não o que eu quero, mas o que tu queres". Muitos ainda se entristecem diante da morte futura, mas tenham o coração reto, evitem a morte quando puderem; mas, se não puderem, digam aquilo que por nossa causa o Senhor disse.
Ele não diz: Orai para não serdes tentados, porque é impossível à alma humana não ser tentada, mas para que não entreis em tentação; isto é, para que a tentação não vos supere.
Ele repreende aqui os temerários, que pensam poder conseguir tudo o que acreditam. Mas quanto mais confiamos no ardor de nossa mente, tanto mais devemos temer em razão da fragilidade da carne. Este trecho também se coloca contra aqueles que dizem haver uma só operação e uma só vontade no Senhor. Pois ele mostra duas vontades: a humana, que por causa da fraqueza da carne recusa o sofrimento; e a divina, que é muito disposta. Segue-se: "E novamente, afastando-se, orou dizendo as mesmas palavras".
Depois que o Senhor orou pela terceira vez e havia impetrado que o temor dos apóstolos fosse corrigido mediante a penitência que se seguiria, seguro de sua paixão, dirigiu-se aos seus perseguidores, sobre cuja chegada o Evangelista diz: "Estando ainda falando, chegou Judas Iscariotes, um dos doze".
Judas tinha ainda algo do pudor de discípulo, pois não o entregou abertamente aos perseguidores, mas pelo sinal do ósculo; donde se segue: havia, porém, o traidor lhes dado um sinal, dizendo: aquele a quem eu beijar, esse é; prendei-o e levai-o com cautela.
Com inveja e confiança perversa chama de mestre, e dá um beijo a quem entrega. Recebe, porém, o Senhor o beijo do traidor, não para ensinar-nos a dissimular, mas para que não parecesse que fugia da traição; cumprindo ao mesmo tempo aquilo do Salmo 119, 7: "Com aqueles que odiavam a paz, eu era pacífico". Segue-se "e lançaram as mãos nele, e o prenderam".
Pedro fez isto, como declara São João, com o mesmo ardor de espírito com que fazia todas as coisas; pois sabia como Finéias, ao punir os sacrílegos, recebeu a recompensa da justiça e do sacerdócio perpétuo.
Como se dissesse: é insensato buscar com espadas e bastões aquele que voluntariamente se entregou em vossas mãos, e investigar durante a noite, por meio de um traidor, como a alguém que se esconde, aquele que ensinava diariamente no templo.
Nisto se cumpre a palavra que o Senhor dissera, que todos os discípulos se escandalizariam nele naquela mesma noite. Segue-se: Um certo jovem, porém, o seguia, coberto com um lençol sobre o corpo nu: subentendendo-se o corpo, porque não tinha outro vestuário além do lençol. Segue-se: E o prenderam. Mas ele, largando o lençol, fugiu nu deles: isto é, daqueles cuja presença e feitos ele detestava, não do Senhor, cujo amor, mesmo estando ausente no corpo, conservou fixo em sua mente.
Ele designa como Sumo Sacerdote a Caifás, que, como São João escreve, era pontífice daquele ano, a respeito de quem Josefo testemunha que comprara para si o pontificado do príncipe romano. Segue-se: "E reuniram-se todos os sacerdotes, e os escribas, e os anciãos".
Merecidamente seguia ao longe aquele que em breve haveria de negá-lo: pois não poderia ter negado a Cristo se tivesse permanecido próximo a Ele. Segue-se que sentou-se com os servos ao fogo, e aquecia-se.
É o fogo da caridade, do qual se diz: "vim trazer fogo à terra"(São Lucas 12,49); o qual, descendo sobre os fiéis, ensinou-lhes a louvar o Senhor em várias línguas. Há também o fogo da cobiça, do qual se diz: "todos os adúlteros, como um forno ardente"(Oséias 7,4). Este fogo aceso no pátio de Caifás por instigação do espírito maligno, armava as línguas dos pérfidos para negar e blasfemar o Senhor. Pois o que o maligno sinédrio realizava dentro da casa, isto figurava o fogo aceso no pátio entre os frios da noite. Porque como abunda a iniquidade, esfria-se a caridade de muitos(São Mateus 24,12). Entorpecido por este frio momentaneamente, Pedro desejava aquecer-se às brasas dos servos de Caifás, porque buscava o consolo do conforto temporal na sociedade dos pérfidos. "Os sumos sacerdotes, porém, e todo o Conselho buscavam testemunho contra Jesus, para entregá-lo à morte".
Quanto mais Jesus se calava diante das falsas testemunhas indignas de sua resposta e dos sacerdotes ímpios, tanto mais o sumo sacerdote, dominado pela fúria, o provocava a responder, para que encontrasse em qualquer ocasião de suas palavras um motivo para acusá-lo; por isso diz-se: e levantando-se o sumo sacerdote no meio, interrogou a Jesus, dizendo: não respondes nada ao que estes testemunham contra ti? Irado e impaciente, o príncipe, não encontrando motivo para calúnia, levanta-se de seu assento, para demonstrar com o movimento do corpo a insanidade de sua mente.
Se, pois, para ti em Cristo, ó judeu, ó pagão e herege, o desprezo, a fraqueza e a cruz são uma afronta, vê que por isto o Filho do homem está para se sentar à direita de Deus Pai, e há de vir em sua majestade sobre as nuvens do céu.
Mas com um mistério mais elevado aconteceu que, na paixão do Senhor, o pontífice dos judeus rasgou suas próprias vestimentas, isto é, o éfode; enquanto a túnica do Senhor não pôde ser rasgada nem pelos próprios soldados que o crucificaram. Figurava-se, assim, que o sacerdócio dos judeus seria rompido por causa dos crimes de seus próprios pontífices; mas a solidez da Igreja, que costuma ser chamada de veste do seu Redentor, jamais pode ser despedaçada.
Quando lhe dizem: "Profetiza: quem é que te golpeou?", fazem isto como que para insultar Aquele que quis ser considerado como profeta pelos povos.
Mas que significa o fato de que primeiro uma criada o denuncia, quando certamente os homens poderiam reconhecê-lo melhor, senão para que se visse também aquele sexo como pecador na morte do Senhor, e aquele mesmo sexo fosse redimido pela paixão do Senhor? Segue-se: "Mas ele negou dizendo: Nem conheço, nem sei o que dizes".
Os outros Evangelistas nada mencionam deste cantar do galo; contudo, não negam o fato, assim como muitos omitem em silêncio coisas que outros narram. Segue: "E a serva, quando o viu novamente, começou a dizer aos que estavam ao redor: Este é um deles".
Nesta negação de Pedro, aprendemos que não apenas nega Cristo aquele que diz que Ele não é Cristo, mas também aquele que, sendo cristão, nega que o é. Pois o Senhor não disse a Pedro: "Negarás que és meu discípulo", mas "Me negarás"; negou, portanto, a Cristo quando negou ser seu discípulo. E pouco depois, os que estavam presentes diziam novamente a Pedro: "Verdadeiramente tu és um deles, pois também és galileu". Não que os galileus falassem uma língua diferente dos habitantes de Jerusalém, que certamente eram hebreus, mas porque cada província e região tem suas próprias particularidades, e não pode evitar um modo vernáculo de pronunciar.
Quão nocivos são os conselhos dos perversos. Entre os infiéis negou conhecer o homem a quem entre os discípulos havia confessado como Deus. A Sagrada Escritura costuma designar o mérito das causas pelo estado dos tempos; assim Pedro, que negou à meia-noite, arrependeu-se ao canto do galo; donde se segue: e imediatamente o galo cantou pela segunda vez. E Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes. E começou a chorar.
Os judeus tinham o costume de entregar ao juiz, atado, aquele que condenassem à morte; por isso, após a condenação de Cristo, o Evangelista acrescenta: e imediatamente pela manhã, os sumos sacerdotes, realizando um conselho com os anciãos e os Escribas e todo o Concílio, amarrando Jesus, o levaram e o entregaram a Pilatos. Contudo, deve-se notar que não foi então que o amarraram pela primeira vez; mas logo que o prenderam à noite no horto, como São João declara, o amarraram.
Pilatos nada mais perguntando sobre o crime senão se ele era rei dos judeus, os judeus são acusados de impiedade, porque nem falsamente puderam encontrar algo que objetassem contra o Salvador. Segue-se: "E respondendo-lhe, disse: Tu o dizes". Assim responde, para que dissesse a verdade, e sua palavra não desse ocasião à calúnia.
O gentio é, verdadeiramente, aquele que condena Jesus, mas ele atribui a causa ao povo dos judeus. Segue-se: "Jesus, porém, não respondeu mais nada, de modo que Pilatos se admirava". Ele não quis responder nada, para que, diluindo a acusação, não fosse absolvido pelo governador, e a utilidade da cruz fosse adiada.
Pilatos forneceu muitas oportunidades para libertar o Salvador: primeiro contrastando um ladrão com o Justo; por isso é dito: "Ora, durante a festa, ele costumava soltar-lhes um dos presos, qualquer um que eles pedissem."
A petição dos judeus os acompanha até hoje, a qual conseguiram com tanto esforço; pois como, dada a escolha, elegeram um ladrão em vez de Jesus, um assassino em vez do Salvador, merecidamente perderam a salvação e a vida, e se submeteram de tal modo aos latrocínios e sedições que perderam sua pátria e reino, que amaram mais que a Cristo, e nunca recuperaram a liberdade, o corpo e a alma. Depois, Pilatos apresenta outra ocasião para libertar o Salvador, quando segue: "E Pilatos, respondendo, disse-lhes: Que quereis, pois, que eu faça ao rei dos judeus?"
Os judeus, satisfazendo sua insanidade, não respondem à interrogação do governador; por isso segue: "Eles, porém, gritavam cada vez mais: crucifica-o!", para que se cumprisse aquilo de Jeremias: "Minha herança tornou-se para mim como um leão na floresta; levantou sua voz contra mim"(Jeremias 12,8). Segue-se: "Pilatos, porém, querendo satisfazer ao povo, soltou-lhes Barrabás e, depois de mandar açoitar Jesus, entregou-o para ser crucificado".
Devemos entender que Jesus foi flagelado não por outro senão pelo próprio Pilatos; pois São João escreve: "Pilatos tomou Jesus, e o flagelou"(São João 19,1); o que devemos supor que ele fez para que os judeus, satisfeitos com as penas e opróbrios de Jesus, cessassem de ter sede por seu sangue.
Pois como tinha sido chamado Rei dos Judeus, e os escribas e sacerdotes lhe haviam objetado como crime que Ele usurpava o domínio sobre o povo israelita, por escárnio o fazem, para que, despojado de suas vestes anteriores, o vistam de púrpura, que os antigos reis usavam.
E em vez da diadema, puseram-Lhe uma coroa de espinhos; pelo que segue: e puseram-lhe, tecendo-a, uma coroa de espinhos. E em lugar do cetro real, dão-lhe uma cana, como escreve São Mateus, e o adoram como rei; donde segue: e começaram a saudá-lo: ave, rei dos judeus. E que os soldados o adoravam, como se falsamente tivesse dito ser Deus, fica claro pelo que se segue: e batiam em sua cabeça com uma cana, e cuspiam nele, e pondo-se de joelhos, o adoravam, como se falsamente tivesse dito ser Deus.
Ou, na púrpura com a qual o Senhor foi vestido, está implícita a sua própria carne, que Ele expôs aos sofrimentos; na coroa de espinhos que carregava, representa-se o tomar sobre si de nossos pecados.
Mas ferem a cabeça de Cristo aqueles que negam que Ele seja verdadeiro Deus. E como com uma cana costuma-se escrever a Escritura, como que com uma cana ferem a cabeça de Cristo aqueles que, contradizendo a Sua divindade, esforçam-se por confirmar seu erro com a autoridade da Sagrada Escritura. Cospem em Seu rosto aqueles que rejeitam com palavras execráveis a presença de Sua graça. Existem também hoje aqueles que O adoram com fé segura como verdadeiro Deus, mas por suas ações perversas desprezam Suas palavras como se fossem fabulosas, e pospõem as promessas da Sua palavra aos prazeres temporais. E assim como Caifás, sem saber o que dizia, disse: "É necessário que um homem morra pelo povo"(São João 11,50), assim também os soldados fazem estas coisas sem o saber.
Ou também porque este Simão, conforme é relatado, não era hierosolimita, mas cireneu (pois Cirene é uma cidade da Líbia), com razão são designados por ele os povos gentios, que antes eram peregrinos e hóspedes dos testamentos, mas agora, pela obediência, são herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo. Donde, apropriadamente, Simão é interpretado como obediente, e Cirene como herdeiro. Diz-se que vinha de uma vila: vila em grego diz-se pagos, donde chamamos pagãos àqueles que vemos alheios à cidade de Deus. Saindo, pois, da vila, Simão carrega a cruz após Jesus, quando o povo das nações, abandonando os ritos pagãos, abraça obedientemente os vestígios da paixão do Senhor. Segue-se: "E o conduziram ao lugar do Gólgota, que significa lugar da Caveira". Fora da cidade e além da porta, há lugares nos quais são cortadas as cabeças dos condenados; e esses lugares tomaram o nome de Calvário, isto é, dos decapitados. Por isso o Senhor foi crucificado ali, para que onde antes era o campo dos condenados, ali fossem erguidos os estandartes do martírio.
A vide amarga produziu vinho amargo, com o qual deram de beber ao Senhor Jesus, para que se cumprisse o que está escrito: "deram-me fel como alimento, e em minha sede deram-me vinagre para beber"(Salmo 68,22)
Ou então, no madeiro transversal da cruz, onde estão pregadas as mãos, está representada a alegria da esperança; pois pelas mãos entendemos as obras, pela largura a alegria daquele que as realiza, porque a tristeza produz angústias; pela altura, à qual a cabeça está unida, a expectativa da retribuição pela sublime justiça de Deus; pelo comprimento, no qual todo o corpo está estendido, a tolerância, donde são chamados longânimes; pela profundidade, que está fixada na terra, o próprio sacramento secreto. Enquanto, portanto, nossos corpos trabalham aqui para a destruição do corpo do pecado, é para nós o tempo da cruz.
O título, porém, aqui colocado sobre a cruz, mostra que nem matando-o puderam conseguir que não tivessem como rei aquele que lhes restituirá segundo suas obras. Segue-se: "E crucificam com ele dois ladrões, um à sua direita e um à sua esquerda".
Em sentido místico, os ladrões que foram crucificados com o Senhor significam aqueles que, sob a fé e confissão de Cristo, submetem-se ao combate do martírio ou a quaisquer regras de disciplina mais rigorosa. Mas aqueles que fazem isso pela glória eterna são designados pela fé do ladrão da direita; enquanto aqueles que o fazem tendo em vista o louvor humano imitam a mentalidade e os atos do ladrão da esquerda.
Assim também confessam, ainda que contra sua vontade, que Ele salvou a muitos. Portanto, vossa própria sentença vos condena: pois aquele que salvou a outros poderia salvar a si mesmo. Segue-se: "Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos".
A claríssima luz retirou seus raios do mundo, para que não visse o Senhor pendente, ou para que os ímpios blasfemadores não gozassem de sua luz; por isso diz: "E chegada a hora sexta, trevas se fizeram por toda a terra até a hora nona".
Pois quando Adão pecou, está escrito que ele ouviu a voz do Senhor Deus passeando no Paraíso à brisa depois do meio-dia; e na hora em que o primeiro Adão, pelo pecado, trouxe a morte a este mundo, na mesma hora o segundo Adão, morrendo, destruiu a morte. E deve-se notar que o Senhor foi crucificado quando o sol se retirava do centro do mundo; mas ao nascer do sol, celebrou os mistérios de sua Ressurreição; porque morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. Nem te deves admirar da humildade de suas palavras, das queixas como de alguém abandonado, quando contemplas o escândalo da cruz, conhecendo a forma de servo. Pois assim como a fome, a sede e a fadiga não eram coisas próprias da Divindade, mas aflições corporais; assim também o que Ele disse: "Por que me abandonaste?", era próprio de uma voz corporal, porque o corpo, por natureza, nunca deseja ser separado da vida que a ele está unida. Embora o próprio Salvador dissesse isto, na verdade mostrava a fragilidade do corpo; falava, portanto, como homem, trazendo consigo nossos sentimentos, pois quando colocados em perigo, imaginamos que somos abandonados por Deus.
Mas penso que estes eram soldados romanos, que não entendiam a propriedade da língua hebraica; porém, por ter dito "Eli, Eli", julgavam que Elias estava sendo chamado por Ele. Mas se quisermos entender que foram os judeus que disseram isto, deve-se supor que o fizeram para difamá-lo de fraqueza, como se implorasse o auxílio de Elias. Segue-se: "Mas, correndo um deles e enchendo uma esponja de vinagre", etc. São João mostra mais plenamente a razão pela qual foi dado vinagre para o Senhor beber, dizendo que Jesus, para que se cumprisse a Escritura, disse: "Tenho sede". Eles, porém, ofereceram à sua boca uma esponja cheia de vinagre.
Agora a evidente causa do milagre do centurião é exposta, que vendo o Senhor assim expirar, isto é, emitir o espírito, disse: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus"; pois ninguém tem o poder de enviar o espírito, senão aquele que é o Criador das almas.
Ele se refere a Tiago o Menor como Tiago de Alfeu, que também era chamado irmão do Senhor, porque era filho de Maria, a irmã da mãe do Senhor, a quem João menciona dizendo: "Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, e a irmã de sua Mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena". E parece chamá-la Maria de Cléofas, pelo seu pai ou por algum parentesco. Mas era chamado Tiago o Menor para distingui-lo de Tiago o Maior, isto é, o filho de Zebedeu, que foi chamado entre os primeiros dos Apóstolos por nosso Senhor. Além disso, era costume judaico, e não era considerado repreensível segundo os costumes de um povo antigo, que as mulheres fornecessem aos mestres alimento e vestimenta de seus bens. Por isso segue: "Que também quando Ele estava na Galileia O seguiam, e O serviam". Elas serviam ao Senhor com seus bens materiais, para que Ele colhesse seus bens carnais, enquanto elas colhiam os bens espirituais Dele, e para que Ele mostrasse um modelo para todos os mestres, que devem se contentar com alimento e vestimenta de seus discípulos. Mas vejamos quais companheiras Ele tinha consigo, pois continua: "E muitas outras mulheres que subiram com Ele a Jerusalém".
Parasceve em grego, em latim significa preparação: nome pelo qual os judeus que viviam entre os gregos chamavam o sexto dia da semana, porque nesse dia costumavam preparar o que era necessário para o descanso do sábado. Como, pois, o homem foi feito no sexto dia, e no sétimo dia o Criador descansou de toda sua obra, apropriadamente o Salvador, crucificado no sexto dia, cumpriu o mistério da restauração humana. E no sábado, descansando no sepulcro, esperava o evento da ressurreição, que viria no oitavo dia. Assim também nós, nesta idade do mundo, devemos ser crucificados para o mundo; no sétimo dia, isto é, quando alguém paga o débito da morte, é necessário que nossos corpos descansem nos túmulos, e nossas almas, após as boas obras, em secreta paz com o Senhor, até que na oitava idade também os próprios corpos, glorificados na ressurreição, recebam a incorrupção junto com as almas. Convinha, pois, que aquele que sepultou o corpo do Senhor, fosse digno de tal ministério por seus méritos de justiça, e pela nobreza do poder secular pudesse obter a faculdade de servir; e por isso se diz que era um nobre decurião que esperava o reino de Deus. Decurião é chamado porque pertence à ordem da cúria e administra o ofício da cúria, que também é chamado curial por ocupar-se dos encargos civis. Arimateia é a mesma cidade de Ramataim, cidade de Elcana e Samuel.
Não era, porém, qualquer desconhecido ou pessoa de mediana posição que podia dirigir-se ao governador e obter o corpo do crucificado. Segue-se: "José, comprando um lençol de linho fino, e descendo-o, envolveu-O na mortalha de linho".
Podemos também, segundo a compreensão espiritual, entender que o corpo do Senhor não deve ser envolvido em ouro, nem em pedras preciosas, nem em seda, mas em linho puro: daqui originou-se o costume da Igreja de celebrar o sacrifício do altar não em seda, nem em pano tingido, mas em linho terreno, assim como o corpo do Senhor foi sepultado em lençol limpo: conforme lemos nos atos pontificais ter sido estabelecido pelo bem-aventurado Silvestre1; ainda que isto também signifique que aquele que envolve Jesus em lençol limpo é quem o recebe com mente pura. Segue-se "e o colocou num sepulcro que estava talhado na rocha, e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro". Diz-se que o sepulcro do Senhor era uma câmara redonda, talhada na rocha subjacente, de tal altura que um homem em pé mal poderia alcançar o teto com a mão estendida; e tem a entrada pelo oriente, à qual uma grande pedra foi rolada e colocada em sua parte setentrional. O próprio sepulcro, isto é, o lugar do corpo do Senhor, foi feito da mesma rocha, tendo sete pés de comprimento, elevando-se três palmos acima do pavimento, lugar este que não se abre por cima, mas pelo lado meridional está totalmente aberto, por onde o corpo era introduzido. A cor do monumento e do local diz-se ser uma mistura de branco e vermelho.
[1] São Silvestre foi Papa de 314 a 335. Sobre seu decreto a respeito do Corporal usado na celebração da Santa Eucaristia, veja Bona de Rebns Lit., i.e. 25. 11. ↩
Em São Lucas lemos que seus conhecidos e as mulheres que o haviam seguido estavam a distância. Retornando então a suas casas estes que eram conhecidos de Jesus, após o sepultamento de seu corpo, somente as mulheres, que estavam ligadas a Ele com um amor mais profundo, depois de seguir o funeral, cuidaram de observar como Ele fora sepultado, para que pudessem, em momento oportuno, oferecer-Lhe o sacrifício de sua devoção. Mas no dia da "parasceve", isto é, da preparação, as santas mulheres, isto é, as almas humildes, fazem o mesmo quando ardem de amor pelo Salvador e diligentemente seguem os passos de Sua Paixão nesta vida, onde seu futuro descanso deve ser preparado; e elas ponderam com piedosa minúcia a ordem em que Sua Paixão foi consumada, se porventura forem capazes de imitá-la.
Assim como as mulheres que vieram muito cedo à manhã ao sepulcro, segundo a história, mostram grande fervor de caridade, assim também segundo o sentido místico nos é dado um exemplo, para que, com a face iluminada e tendo dissipado as trevas dos vícios, nos empenhemos em oferecer ao Senhor o aroma das boas obras e a suavidade das orações.
Ou ainda, o primeiro dia dos sábados é o primeiro dia desde o dia dos sábados, isto é, dos descansos, que se guardavam nos sábados. Segue-se: E diziam entre si: Quem nos removerá a pedra da entrada do sepulcro?
Mateus mostra suficientemente como a pedra foi removida pelo Anjo. Esta remoção da pedra insinua misticamente a revelação dos sacramentos de Cristo, que estavam encobertos pelo véu da letra da lei: pois a lei foi escrita em pedra. Segue-se "era realmente muito grande".
Viram, porém, um jovem sentado à direita, isto é, na parte meridional daquele lugar onde estava posto o corpo: pois o corpo que jazia de costas, tendo a cabeça para o ocidente, necessariamente tinha sua direita para o sul.
Esta aparição, como e onde foi feita, São João ensina plenissimamente. Mas o Senhor ressuscitou de manhã do sepulcro, no qual já havia sido depositado ao anoitecer, para que se cumprisse aquilo do Salmista: "À tarde demorará o pranto, e de manhã a alegria"(Salmo 29,6).
No princípio também a mulher foi indutora da culpa para o homem; agora aquela que primeiro provou a morte, primeiro vê a ressurreição, para que não suporte o opróbrio de culpa perpétua diante dos homens; e aquela que havia transmitido a culpa ao homem, transmitiu-lhe também a graça; pois segue-se ela indo anunciou àqueles que com ele tinham estado, enquanto lamentavam e choravam.
É conveniente que esta mulher, que foi a primeira a anunciar a alegria da ressurreição do Senhor, seja recordada como tendo sido curada de sete demônios, para que ninguém que se arrependa dignamente de seus pecados desespere do perdão pelo que tenha feito, e para que se mostre que "onde abundou o pecado, superabundou a graça"1.
[1] Romanos 5,20. ↩
O que mais diremos aqui sobre as criancinhas, que por sua idade ainda não são capazes de crer? Pois sobre os adultos não há questão alguma. Na Igreja do Salvador, as criancinhas creem por meio de outros, assim como de outros contraíram os pecados que lhes são perdoados no Batismo. Segue-se: "E estes sinais acompanharão aos que crerem: em Meu nome expulsarão os demônios, falarão novas línguas, pegarão serpentes".
Observe que, quanto mais tardiamente São Marcos iniciou seu Evangelho, tanto mais o estendeu escrevendo sobre tempos distantes: pois começou desde o início da pregação evangélica que foi feita por São João, e chegou em sua narrativa até aquele tempo em que os apóstolos semearam a mesma palavra do Evangelho por todo o mundo.
Maria é interpretada como "Estrela do Mar" em hebraico, "Senhora" em siríaco, pois gerou para o mundo a Luz da salvação e o Senhor.1 E a quem ela foi desposada é mostrado, José.
[1] Nota editorial: sobre a rebelião deles. Santo Ambrósio interpreta como "Deus da minha raça", e "amargura do mar". de Instit. Virg. 33. Não é necessário dar a origem destas várias interpretações. ↩
O fato de que o Senhor foi levado pelos pais para o Egito significa que os eleitos frequentemente são forçados a fugir de suas casas pela improbidade dos maus, ou mesmo a serem condenados ao exílio. Certamente Ele mesmo, que haveria de ordenar aos seus: "quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra", primeiro fez o que preceituou, fugindo como homem diante de outro homem na terra, Ele a quem, pouco antes, uma estrela havia mostrado aos magos para ser adorado desde o céu.
Nesta morte das crianças, está representada a morte preciosa de todos os mártires de Cristo: o fato de que crianças pequenas foram mortas significa que pelo mérito da humildade se chega à glória do martírio; o fato de que foram mortas em Belém e em todos os seus arredores mostra que na Judeia, de onde teve origem a Igreja, e em todo o mundo, a perseguição haveria de se enfurecer; o fato de que as crianças de dois anos foram mortas indica os perfeitos na doutrina e nas obras; quanto aos menores que essa idade, os simples; o fato de que aqueles foram mortos, e Cristo escapou, insinua que os corpos dos mártires podem ser destruídos pelos ímpios, mas Cristo não pode ser tirado deles.
A matança dos meninos por causa do Senhor, a morte de Herodes não muito depois, e o retorno de José com o Senhor e sua mãe à terra de Israel, significa que todas as perseguições que seriam movidas contra a Igreja seriam vingadas pela morte dos perseguidores, a paz seria novamente restaurada à Igreja, e os santos que estavam escondidos retornariam a seus próprios lugares. Ou o retorno de Jesus à terra de Israel após a morte de Herodes indica que, com a pregação de Enoque e Elias, os judeus, uma vez extinta a chama do ciúme moderno, receberão a verdadeira fé1.
[1] Que Enoque e especialmente Elias virão no fim do mundo e por sua pregação converterão os judeus é afirmado por Tertuliano (de Anima 35, de Resur. c. 22), Orígenes (in Joann, i. tom. 5, in Matt. tom. 13), Hilário (in Matt. xx. 10, xxvi. 5), Crisóstomo (in Matt. xvii. 10), Agostinho (Cidade de Deus 20, 29. Op. Imp. contra Julian. vi. 30), Papa Gregório (in Job. lib. xiv. 23, in Joann. Hom. vii. 1) e Damasceno (de Fid. Orth. iv. 26 fin). ↩
Assim também clamou em todos aqueles que desde o princípio disseram algo divinamente inspirados; e, no entanto, somente este é voz: porque por meio dele se mostra presente o Verbo que outros anunciaram de longe.
Ou o próprio Cristo acendeu uma lâmpada, que encheu o vaso de barro da natureza humana com a chama de sua divindade, a qual não quis esconder dos que creem, nem colocar debaixo do alqueire, isto é, confinar sob a medida da lei, ou restringir dentro dos limites de uma só nação. Ele chama candelabro à Igreja, sobre a qual colocou a lâmpada, porque fixou em nossas frontes a fé em sua encarnação.
Se alguém questiona como o Senhor, que parece aprovar o sacrifício de Moisés, não é recebido pela Igreja, lembre-se de que Cristo ainda não havia oferecido seu corpo em holocausto por meio da paixão. Não convinha suprimir os sacrifícios simbólicos antes que aquele que estava sendo simbolizado fosse confirmado pelo testemunho dos apóstolos que pregavam e pela fé dos povos crentes. Este homem representa o gênero humano que, não somente leproso, mas também, segundo o Evangelho de São Lucas, é descrito como cheio de lepra. "Todos pecaram e necessitam da glória de Deus", isto é, aquela glória de que, estendida a mão do salvador, ou seja, encarnado o Verbo de Deus e tocando a natureza humana, sejam purificados da vaidade dos antigos erros; e os que por muito tempo foram considerados abomináveis e expulsos do acampamento do povo de Deus, possam finalmente ser restituídos ao templo e ao sacerdote, e oferecer seus corpos como sacrifício vivo; isto é, àquele a quem se diz: "Tu és sacerdote para sempre".
Misticamente, a casa de Pedro é a lei ou a circuncisão; a sogra é a sinagoga, que de certo modo é mãe da Igreja confiada a Pedro. Ela tem febre, porque sofre com o ardor da inveja, perseguindo a Igreja; o Senhor toca-lhe a mão quando converte suas obras carnais em uso espiritual.
Tomando carnalmente aquelas palavras dos profetas, nas quais se diz: "Lavai-vos e sede limpos"(Isaías 1,16), eles observavam isso apenas lavando o corpo; por isso estabeleceram que não se devia comer senão com as mãos lavadas.
O Senhor, portanto, encontrou a ovelha quando restaurou o homem; e há maior alegria no céu sobre esta ovelha encontrada do que sobre as noventa e nove, porque há maior motivo para louvor divino na restauração dos homens do que na criação dos Anjos. Pois Ele criou os Anjos admiravelmente, mas restaurou o homem mais admiravelmente.
Ou pelas noventa e nove ovelhas que deixou nos montes, significa os soberbos, aos quais falta a unidade para a perfeição. Quando, portanto, encontra o pecador, alegra-se mais sobre ele, isto é, faz com que os seus se alegrem mais sobre ele do que sobre os falsos justos.
Desde o princípio da criação do mundo até agora, o curso dos tempos era assim distinguido, que o dia precedia a noite: porque o homem, caindo pelo pecado da luz do Paraíso, precipitou-se nas trevas e misérias deste século. Mas agora, muito apropriadamente, o dia segue à noite, quando pela fé na ressurreição somos reconduzidos das trevas do pecado e da sombra da morte à luz da vida, pela generosidade de Cristo.
Que também o terremoto, ressurgindo o Senhor do sepulcro, assim como também morrendo na cruz, fez-se grande, significa que os corações terrenos devem, pela fé em sua paixão primeiramente, e pela ressurreição, ser sacudidos para a penitência, movidos por um salutar temor.
Porque Cristo é Deus e homem, entre os atos da humanidade nunca Lhe faltam os ministérios dos Anjos devidos a Deus. Segue-se: "e chegando, revolveu a pedra", não para abrir a porta ao Senhor para que saísse, mas para fornecer aos homens a prova de que Ele já havia saído. Pois Aquele que, sendo mortal, pôde entrar no mundo nascendo do ventre fechado da Virgem, o mesmo, feito imortal, pôde sair do mundo ressuscitando de um sepulcro selado.
E corretamente o Anjo apareceu em pé, que anunciava a vinda do Senhor ao mundo, para que estando em pé indicasse que o Senhor vinha para combater o príncipe deste mundo. Mas o arauto da Ressurreição é lembrado como estando sentado, para que ao sentar-se significasse que Ele, tendo vencido o autor da morte, já havia subido ao trono do reino eterno. Estava sentado sobre a pedra revolvida, com a qual a entrada do sepulcro havia sido fechada, para ensinar que Ele, por Sua própria força, havia destruído as prisões do Inferno.
O Senhor é corretamente visto pelos seus discípulos na Galileia, uma vez que Ele já havia passado da morte para a vida, da corrupção para a incorrupção; pois tal é a interpretação de Galileia, 'Transmigração'. Felizes mulheres! que mereceram anunciar ao mundo o triunfo da Ressurreição! Mais felizes almas, que no dia do juízo, quando os réprobos forem atingidos pelo pavor, terão merecido entrar na alegria da bem-aventurada ressurreição!
Depois que o bem-aventurado São Mateus afirmou a ressurreição do Senhor anunciada pelo Anjo, relata também a visão do Senhor realizada pelos discípulos, dizendo: "os onze discípulos partiram para a Galileia, ao monte onde Jesus lhes havia designado". Pois o Senhor, encaminhando-se para a Paixão, disse aos discípulos: "depois que eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galileia". O Anjo também disse às mulheres: "dizei aos seus discípulos que Ele irá adiante de vós para a Galileia". Por isso, a obediência dos discípulos segue a ordem do Mestre. Corretamente os onze discípulos vão adorá-lo: pois um já havia perecido, aquele que traíra seu Senhor e Mestre.
Aquele que antes de sua paixão havia dito: "Não ireis pelo caminho dos gentios", ressurgindo dos mortos, diz: "Ide, ensinai todas as nações". Por isso, sejam confundidos os judeus, que dizem que Cristo veio somente para a salvação deles; envergonhem-se também os donatistas1, que desejando confinar Cristo localmente, disseram que Ele está somente na África, não em outras regiões.
[1] Donatistas foram seguidores de um cisma cristão na África do Norte durante o século IV, que alegavam que a eficácia dos sacramentos dependia da santidade do ministro que os administrava. ↩
Pergunta-se, porém, por que aqui Ele diz "eis que estou convosco", quando em outro lugar se lê que Ele disse: "vou para aquele que me enviou"(São João 16,5). Mas umas coisas são as que se atribuem à humanidade, e outras as que se atribuem à divindade. Foi ao Pai pela humanidade, mas permanece com os discípulos na forma pela qual é igual ao Pai. Quanto ao que diz "até à consumação do século", põe o finito pelo infinito; pois aquele que no presente século permanece com os eleitos, protegendo-os, o mesmo permanecerá com eles depois do fim, recompensando-os.
A lei, com efeito, foi dada por meio de Moisés, e nela se determinava, por preceito celestial, o que devia ser feito e o que devia ser evitado; mas o que ela ordenava somente pela graça de Cristo se cumpria. Por um lado, aquela lei era capaz de apontar o pecado, ensinando a justiça e mostrando aos transgressores do que eram acusados. Por outro lado, a graça de Cristo, derramada nos corações dos fiéis pelo espírito da caridade, faz com que se cumpra aquilo que a lei ordenava.
A vida eterna não é dada injustamente por bons méritos. Antes, o mérito é primeiramente dado gratuitamente por um Salvador benevolente.
Aquele que veio em semelhança de carne pecaminosa — não em carne pecaminosa — não se afastou do remédio pelo qual a carne pecaminosa era ordinariamente purificada... Não por necessidade, mas a título de exemplo, submeteu-se à água do batismo, pela qual quis que o povo da nova lei da graça fosse lavado da mácula do pecado.
Pela graça do batismo, os homens podem, ao receber o Espírito Santo, ser transformados de filhos do diabo em filhos de Deus.
Quando vemos tão extraordinários herdeiros do reino celestial sofrerem tão grandemente durante o tempo de seu exílio mortal, que resta a nós fazer, nestas circunstâncias... senão humilhar-nos ainda mais diante de nosso benevolente Criador e Redentor, à medida que nos tornamos mais claramente conscientes de que não podemos segui-los imitando nem suas vidas nem suas mortes? Homilias sobre os Evangelhos.
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A certeza de nossa esperança é prefigurada pelo ovo. Nenhuma prole ainda se discerne no ovo, mas o nascimento da ave futura é esperado. Os fiéis ainda não contemplam a glória da pátria lá no alto, na qual creem no tempo presente, mas aguardam sua vinda em esperança.
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Se ostentarmos nossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, Ele, por condescendência celestial, dignar-se-á fazer com que sejamos recompensados com a mesma glória daqueles que entregaram seus corpos à morte pela causa do Senhor.
Tiago demonstra aqui que aqueles a quem escrevia estavam repletos de fé, mas vazios no tocante às obras.
Aqui Tiago nos mostra mais claramente quem são estes ricos, cuja humilhação e ruína expusera anteriormente. São homens que antepõem suas riquezas a Cristo, que são eles mesmos estranhos à sua doutrina, e que usam de seu poder para oprimir os que creem. Levam os pobres a juízo e blasfemam o nome de Cristo. Que houve, no tempo dos apóstolos, muitos homens da classe alta que faziam este tipo de coisa, isso é claro tanto pelos Atos dos Apóstolos quanto pelas epístolas de Paulo.
É manifesto que as palavras, por si sós, de nada aproveitarão àquele que está nu e faminto. Aquele cuja fé não ultrapassa as palavras é inútil. Tal fé está morta sem as obras de caridade cristã, as quais somente podem restituí-la à vida.
Pode-se crer no que Deus diz, pode-se crer que Deus existe, e pode-se crer nEle, o que significa amá-lO tão intensamente que se deseja fazer o que Ele ordena. Há muitos ímpios ao redor que conseguem realizar as duas primeiras destas coisas. Eles creem que Deus quer dizer o que diz, e estão bastante dispostos a aceitar que Ele existe. Mas é preciso ser não apenas cristão de nome, mas cristão em obra e em modo de vida, para amar a Deus e fazer o que Ele ordena. A fé com amor é cristã; a fé sem amor é demoníaca.
Ainda que o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras, incorrem em grave erro aqueles que daí entendem não importar que vivam vidas más ou pratiquem obras iníquas e horrendas, contanto que creiam em Cristo, porquanto a salvação vem pela fé. Expõe aqui Tiago de que modo devem ser entendidas as palavras de Paulo. Por isso se serve do exemplo de Abraão, ao qual também Paulo recorreu como exemplo de fé, para mostrar que o patriarca praticou igualmente boas obras à luz de sua fé. É, pois, errado interpretar Paulo de maneira a sugerir que fosse indiferente Abraão ter posto ou não sua fé em prática. O que Paulo quis dizer foi que ninguém obtém o dom da justificação com base no mérito derivado de obras realizadas de antemão, porquanto o dom da justificação provém unicamente da fé.
Serve-se Tiago, com destreza, do exemplo de Abraão a fim de admoestar aqueles judeus que se imaginavam dignos seguidores de seu grande patriarca. Para mostrar-lhes que não se achavam à altura nas horas de provação, e para pôr à prova a fé destes por meio de exemplos concretos, toma Tiago a Abraão como modelo. Pois que maior provação poderia haver do que exigir de um homem que sacrificasse seu filho amado e herdeiro? Quanto mais teria preferido Abraão dar aos pobres todo o alimento e vestes que possuía, a ser constrangido a oferecer, por mandado de Deus, este supremo sacrifício? Não faz Tiago senão fazer eco ao que se lê na Epístola aos Hebreus: "Pela fé, Abraão, quando provado, ofereceu Isaque; e aquele que recebera as promessas ofertava seu unigênito, do qual fora dito: 'Em Isaque será chamada a tua descendência'" (Hb 11,17-18). Contemplando um só e mesmo sacrifício, louvou Tiago a magnificência da obra de Abraão, ao passo que Paulo louvou a constância de sua fé. Mas, em verdade, ambos dizem exatamente a mesma coisa, pois um e outro sabiam que Abraão fora perfeito tanto na fé quanto nas obras, e cada qual apenas ressaltou o aspecto do episódio de que seu próprio auditório mais necessitava ouvir.
Tinha Abraão em Deus uma fé tão viva que estava pronto a fazer tudo quanto Deus lhe pedisse. Por isso lhe foi a fé reputada como justiça; e para que soubéssemos o pleno sentido disto, ordenou Deus a Abraão que sacrificasse seu filho. Foi pelo perfeito cumprimento do mandamento divino que se manifestou perfeita a fé que trazia em seu coração.
As obras aqui mencionadas são obras de fé. Ninguém pode ter obras perfeitas se não tiver fé, mas muitos têm fé perfeita sem obras, posto que nem sempre dispõem de tempo para praticá-las.
Deve ter havido alguns que argumentariam que Abraão foi um caso singular, visto que a ninguém se pediria hoje tal sacrifício, e que, portanto, o seu exemplo na verdade não vale. Para responder a esta objeção, Tiago perscruta as Escrituras e remete ao caso de Raabe, mulher ímpia e, ainda por cima, estrangeira, que não obstante foi justificada pela sua fé, porquanto realizou obras de misericórdia e mostrou hospitalidade aos membros do povo de Deus, ainda que com isso pusesse em perigo a própria vida.