Eusébio de Cesareia
Bispo de Cesareia · Pai da história eclesiástica
Eusébio (c. 260–340), bispo de Cesareia da Palestina, discípulo de Pânfilo, herdeiro da grande biblioteca de Orígenes. Sua História Eclesiástica é a fonte primária para tudo o que sabemos dos três primeiros séculos da Igreja, e seus Cânones harmonizaram os quatro Evangelhos.
Acervo · 103 comentários
Os cooperadores e companheiros de milícia de Paulo, como ele mesmo os chamava, eram muitos milhares, dos quais a maior parte ele julgou dignos de memória perpétua, pois tornou perene o seu testemunho acerca deles nas suas próprias cartas. Além disso, também Lucas, ao enumerar os que lhe eram conhecidos, faz menção deles por nome. Assim, Timóteo é registrado como o primeiro a ser chamado para reger a igreja de Éfeso, do mesmo modo que Tito o foi para as igrejas de Creta.
Vês aqui que ele distingue duas alianças, a antiga e a nova, e diz que a nova não seria semelhante à antiga, que fora dada aos pais. Pois a antiga aliança foi dada como lei aos judeus, quando estes haviam decaído da religião de seus antepassados e haviam abraçado os costumes e o modo de vida dos egípcios, declinando para os erros do politeísmo e as supersticiosas idolatrias dos gentios. Destinava-se a erguer os que haviam caído e a pôr de pé, mediante ensino apropriado, os que jaziam prostrados sobre o rosto. "Pois a lei, diz-se, não é para o justo, mas para os injustos e desregrados, para os ímpios e pecadores, e para os que lhes são semelhantes."
Além disso, o mesmo homem [Hegesipo], ao relatar os acontecimentos daqueles tempos, acrescenta que, até então, a Igreja permanecera virgem pura e incorrupta, pois aqueles que tentavam corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que alguns existiam, até então se ocultavam em alguma obscura escuridão. Mas quando o sagrado grupo dos apóstolos recebeu, de diversos modos, o termo da vida, e passou a geração daqueles que foram julgados dignos de ouvir com seus próprios ouvidos a divina sabedoria, então teve início a liga do ímpio erro, por causa do engano de mestres hereges que, não restando já nenhum dos apóstolos, tentaram doravante proclamar descaradamente, em oposição à pregação da verdade, "a gnose falsamente assim chamada".
Todo um bando de soldados, Amon e Zenão e Ptolomeu e Ingênuo, e com eles um ancião, Teófilo, haviam tomado posição diante do tribunal. Quando certo homem era julgado como cristão e se inclinava para negar a fé, eles, postados ali, rangiam os dentes, e faziam sinais com o rosto, e estendiam as mãos e gesticulavam com o corpo. Quando a atenção de todos se voltou para eles, antes que alguém pudesse de outro modo prendê-los, precipitaram-se primeiro ao tribunal, dizendo que eram cristãos, de sorte que o governador e seus assessores ficaram atemorizados. Os que eram julgados mostravam-se corajosíssimos diante do que estavam para padecer, enquanto seus juízes tinham medo. E estes desfilaram do tribunal e se alegraram em seu testemunho, como Deus "os conduziu triunfalmente e com glória."
---
E ele, posto que compreendia de imediato o desígnio divino do Pai, e porque discernia melhor do que qualquer outro por que era abandonado pelo Pai, humilhou-se ainda mais. Abraçou a morte por nós com toda a boa vontade e “fez-se maldição por nós”, sendo, contudo, santo e todo-bendito... “Aquele que não conheceu pecado fez-se pecado, para que nós nos tornássemos justiça de Deus nele.” Mais ainda — para lavar os nossos pecados, foi crucificado, sofrendo o que nós, que éramos pecadores, deveríamos ter sofrido, como nosso sacrifício e resgate, de sorte que bem podemos dizer com o profeta que ele carrega os nossos pecados e por nós padece, e foi ferido por nossos pecados e moído por nossas iniquidades, para que pelas suas chagas fôssemos sarados, pois o Senhor o entregou por nossos pecados. Assim, entregue pelo Pai, moído, carregando os nossos pecados, foi levado como cordeiro ao matadouro.
Não acrescentou em seguida algo como "ele me livrará da boca do leão", pois via em espírito que a sua morte estava quase iminente. Acrescenta, pois, às suas palavras: "E fui livrado da boca do leão." Diz ele: "O Senhor me livrará de toda obra má e me preservará para o seu reino celestial", indicando o seu martírio próximo, o qual profetiza ainda mais claramente no mesmo escrito, quando diz: "Pois eu já estou pronto para ser sacrificado, e o tempo da minha partida está próximo."
Conta-se que o apóstolo, depois de haver-se defendido, foi de novo enviado ao ministério da pregação, e, vindo pela segunda vez à mesma cidade, encontrou a morte pelo martírio sob Nero. Enquanto se achava detido na prisão, compôs a segunda epístola a Timóteo, indicando ao mesmo tempo que a sua primeira defesa já se dera e que o martírio estava iminente.
Santo Papias transmite relatos que, segundo diz, lhe chegaram por tradição não escrita... A estes pertence a sua afirmação de que haverá um período de cerca de mil anos após a ressurreição dos mortos, e que o reino de Cristo será estabelecido de forma material sobre esta mesma terra. Suponho que ele tenha concebido tais ideias por um mal-entendido a respeito dos relatos apostólicos, não percebendo que as coisas por eles ditas foram proferidas misticamente, em figuras. Pois parece ter sido homem de entendimento muito limitado, como se pode ver por seus discursos. Mas foi por causa dele que tantos Padres da Igreja depois dele adotaram opinião semelhante, invocando em seu próprio apoio a antiguidade do homem; como, por exemplo, Ireneu e qualquer outro que haja proclamado pontos de vista semelhantes. (História Eclesiástica 3.39.13)
"Que ninguém, pois, vos julgue quanto à comida ou à bebida, ou a respeito de dia santo, ou de lua nova, ou de dias de sábado, que são sombra das coisas que hão de vir." Pois, se as leis relativas à diferença dos alimentos, e os dias santos e o sábado, como coisas sombrias, conservavam a cópia de outras coisas que eram misticamente verdadeiras, não dirás sem razão que também o sumo sacerdote representava o símbolo de um outro Sumo Sacerdote, e que era chamado Cristo, como figura daquele outro, o único e verdadeiro Cristo.
[Paulo] reconheceu que Cristo, e nenhum outro, é o Filho de Deus. A carne que Cristo assumiu foi chamada "forma de servo" e "filho do homem". Mas quanto àquela geração que, ignorada de todos, procede do Pai e é anterior a todos os séculos, Ele era o Filho de Deus.
Lede o relato de sua compaixão. Aprouve-Lhe, sendo o Verbo de Deus, “tomar a forma de escravo”. Assim quis unir-Se à nossa condição humana comum. Tomou para Si os labores dos membros que sofrem. Fez suas as enfermidades humanas. Sofreu e trabalhou em nosso favor. Isto está de acordo com seu grande amor pela humanidade.
Aquele [sacrifício salvífico] que nenhum poder humano, angélico ou divino ainda havia suportado, Ele o aceitou por causa da nossa salvação. Por isso, sobre Ele somente o Pai conferiu o nome que está acima de todo nome, confiando-Lhe o juízo de todos. (...)
---
Quando as cópias dos três Evangelhos chegaram a São João Evangelista, diz-se que ele, enquanto confirmava sua fidelidade e exatidão, ao mesmo tempo notou algumas omissões, especialmente no início do ministério de Nosso Senhor. É certo que os três primeiros Evangelhos parecem conter apenas os eventos do ano em que São João Batista foi aprisionado e executado. Por isso, diz-se que São João foi solicitado a escrever aqueles atos de nosso Salvador anteriores à prisão do Batista, que os evangelistas anteriores haviam omitido. Portanto, qualquer pessoa, ao prestar atenção, descobrirá que os Evangelhos não discordam, mas que São João está relatando eventos de uma data diferente daquela à qual os outros se referem.
São Lucas no início do seu Evangelho, indicou a razão pela qual escreveu, a saber, porque muitos outros haviam temerariamente presumido narrar as coisas que para ele eram mais claramente conhecidas; e isto é o que diz: Visto que muitos se propuseram a ordenar a narração das coisas.
É certo que ele obteve a verdade, ou pela explicação de São Paulo, ou de outros apóstolos que a viram desde o princípio, ou daqueles que a haviam transmitido a ele.
Uns exaltarão uma coisa, outros outra, nas presentes palavras da virgem; este, por exemplo, a sua constância, aquele a prontidão de sua obediência; um que não foi seduzida por promessas tão esplêndidas e sublimes feitas pelo grande Arcanjo; outro, que não excedeu a medida ao fazer questionamentos, mas igualmente evitou tanto a leviandade de Eva quanto a desobediência de Zacarias: para mim, porém, a profundidade de sua humildade não parece menos admirável.
Não somente tendo obtido o que desejava, mas admirando-se da forma virginal e da plenitude da virtude.
É chamado tetrarca para diferenciá-lo do outro Herodes, durante cujo reinado nasceu Cristo: aquele era rei, mas este era tetrarca. Ele tinha por esposa a filha de Aretas, rei dos árabes, a qual, sendo esposa de seu irmão Filipe, tomou de modo sacrílego, ainda que tivesse prole do irmão: pois isto somente era permitido àqueles cujos irmãos haviam terminado a vida sem descendência. Por isto São João Batista havia reprovado Herodes. Primeiramente, de fato, ele ouvia atentamente seus sermões, sabendo que eram ponderados e cheios de consolação; mas a concupiscência de Herodíades o obrigava a desprezar as palavras de João: por isso também o lançou no cárcere; e isto é o que se diz: acrescentou isto a todos os males, e encarcerou João na prisão.
Expliquemos, pois, mais atentamente o sentido das próprias palavras: se, aprovando São Mateus que José era filho de Jacó, de igual modo São Lucas aprovasse que José era filho de Helí, haveria alguma controvérsia. Contudo, aprovando São Mateus, São Lucas declarava a opinião da maioria, não a própria, dizendo "como se pensava", não julgo que permaneça qualquer dúvida. Pois como houvesse entre os judeus diversas opiniões sobre Cristo, e todos o relacionassem a Davi por causa das promessas a ele feitas, muitos afirmavam que Cristo viria de Davi por Salomão e outros reis; alguns, porém, evitavam esta opinião, porque muitas coisas enormes são ditas sobre os reis; e porque Jeremias disse de Jeconias que não se originaria dele descendência para se assentar no trono de Davi: opiniões estas que São Lucas comemora, consciente de que São Mateus narra qual era a verdade da geração: e esta é a primeira razão. Há também outra mais profunda. São Mateus, com efeito, ao começar a escrever antes da concepção de Maria e do nascimento carnal de Jesus, oportunamente como em uma história antepõe a progênie carnal: de onde deriva a geração descendo dos superiores, pois quando o Verbo de Deus tomou carne, descendeu. Mas São Lucas avança para a regeneração realizada pelo batismo, e ali expõe outra sucessão de gerações, e subindo dos inferiores aos primeiros, igualmente abdica da memória dos pecadores, que São Mateus narrou (porque qualquer um que renasce em Deus torna-se alheio aos pais criminosos, feito filho de Deus), e menciona aqueles que segundo Deus conduziram uma vida honesta. Assim, pois, foi dito a Abraão: "tu irás para os teus pais", não certamente os carnais, mas os pais em Deus, pela semelhança de honestidade. Portanto, àquele que nasce em Deus, atribui pais que são segundo Deus pela equiparação de costumes.
A segunda combinação é a de São Tiago e São João; de onde se segue Tiago e João; ambos os filhos de Zebedeu, que também eram pescadores. Depois destes, menciona Felipe e Bartolomeu. São João diz que Felipe era de Betsaida, concidadão de Santo André e São Pedro; e o próprio São Bartolomeu, homem simples e desprovido de ciência mundana e amargura. São Mateus, porém, foi chamado dentre aqueles que anteriormente cobravam impostos, sobre quem acrescenta Mateus e Tomé.
Mas quando o reino celestial é considerado nos múltiplos graus de suas bem-aventuranças, o primeiro grau para aqueles que ascendem é o daqueles que por intuição divina cultivam a pobreza; tais fez Ele aqueles que primeiro se tornaram seus discípulos: por isso, na pessoa deles, diz "porque vosso é o reino de Deus", como que proferindo isto demonstrativamente aos presentes, para os quais também elevou os olhos.
Em seguida, fortalecendo os discípulos para a luta contra os adversários, que haveriam de sofrer pregando por todo o mundo, acrescenta: "Porque desta maneira faziam aos profetas os pais deles".
Com efeito, este centurião era valoroso nas batalhas e prefeito dos soldados romanos. Mas como seu servo particular jazia enfermo em casa, considerando as maravilhas que o Salvador realizava para com os demais, curando os enfermos, e julgando que estes milagres não eram realizados segundo forças humanas, envia a Ele como a Deus, sem dar atenção ao instrumento visível pelo qual conversava com os homens; donde se segue: e tendo ouvido acerca de Jesus, enviou-lhe alguns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse e salvasse o seu servo.
E, de fato, os anciãos dos judeus pedem graças por pequenas quantias gastas para a obra da sinagoga; mas o Senhor, não por causa disso, mas por uma razão maior, querendo gerar fé em todos os mortais por meio de seu poder, mostrou-se a si mesmo; donde se segue "Jesus ia com eles".
Porque creram, justificaram a Deus: pois apareceu-lhes justo em todas as coisas que fez. Os fariseus, porém, rejeitando São João, como desobedientes, não estavam em consonância com o profeta que diz: "para que sejas justificado em tuas palavras"; por isso segue: "Mas os fariseus e os doutores da lei desprezaram o desígnio de Deus a respeito de si mesmos, não sendo batizados por ele".
De modo bastante conveniente, Cristo propõe a primeira parábola à multidão, não somente àqueles que então estavam presentes, mas também àqueles que viriam depois deles, convidando-os a ouvir suas palavras, quando diz: "Saiu o semeador a semear a sua semente".
Alguns saíram da pátria celestial e desceram aos homens, não para semear, pois não eram semeadores, mas espíritos administrativos enviados para ministério. Moisés também e os profetas depois dele não inseriram nos homens os mistérios do reino dos céus; mas, afastando os insensatos do erro da iniquidade e do culto dos ídolos, como que cultivavam as almas dos homens e as reduziam a terras novas. Mas somente o semeador de todos, o Verbo de Deus, saiu para evangelizar as novas sementes, isto é, os mistérios do reino dos céus.
Ensina, portanto, que há dois graus entre aqueles que recebem as sementes: o primeiro é daqueles que foram julgados dignos da vocação celestial, mas caem da graça devido à negligência e à tibieza; o segundo, porém, é daqueles que multiplicam a semente em bons frutos. Conforme São Mateus, ele estabelece três diferenças em cada grau. Pois aqueles que corrompem a semente não têm o mesmo modo de perdição; e aqueles que dela frutificam não recebem a mesma abundância. Claramente mostra as ações daqueles que perdem a semente. Alguns, de fato, sem terem pecado, perderam as sementes salutares inseridas em suas almas, subtraídas de sua atenção e memória pelos espíritos malignos e demônios que voam pelo ar, ou por homens enganosos e astutos, aos quais chamou de aves; por isso acrescenta: e enquanto semeava, outra caiu à beira do caminho.
Existem também alguns que, por avareza, apetite de prazeres e preocupações mundanas, às quais Cristo chama espinhos, fazem sufocar a semente que neles foi semeada; sobre os quais segue: "E outra caiu entre os espinhos; e os espinhos, crescendo juntamente, a sufocaram".
O Senhor verdadeiramente lhes ensinou a razão pela qual falava às multidões em parábolas; por isso acrescenta: "aos quais Ele disse: a vós é dado conhecer o mistério do reino de Deus".
Ele diz que há três causas pelas quais se destroem as sementes lançadas em nossas almas. Alguns destroem a semente escondida em suas almas, dando ouvidos levianamente aos que desejam enganar; sobre estes acrescenta: Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem; em seguida vem o Diabo e tira a palavra do coração deles, para que não se salvem crendo.
Mas alguns há que, não tendo recebido a palavra de Deus na profundidade da mente, se extinguem facilmente quando sobrevém a adversidade; sobre os quais acrescenta: Pois os que estão sobre a pedra, são aqueles que, quando ouvem, recebem a palavra com alegria; e estes não têm raízes, porque creem por algum tempo, e no tempo da tentação se afastam.
Alguns, de fato, sufocam a semente depositada neles com riquezas e prazeres, como se fossem espinhos sufocantes; sobre os quais se acrescenta: E a que caiu entre espinhos, estes são os que ouviram, e pelos cuidados, e riquezas, e prazeres da vida, indo são sufocados, e não produzem fruto.
Estas coisas, porém, foram preditas pelo Salvador por Sua providência. E assim o efeito demonstra que elas se realizam; pois ninguém se afasta da palavra do culto divino senão segundo algum dos modos preditos por Ele.
Como se dissesse: assim como a lucerna é acesa para iluminar, não para ser coberta sob um módio ou uma cama; assim também os segredos do reino dos céus proferidos em parábolas, ainda que se ocultem aos estranhos à fé, terão, no entanto, um sentido manifesto para todos; donde acrescenta: "não há coisa oculta que não venha a ser manifestada, nem escondida que não seja conhecida e venha a público"; como se dissesse: embora muitas coisas tenham sido ditas em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam por causa da sua incredulidade, toda a palavra, contudo, será esclarecida.
Dizem, porém, que esta mulher em Paneade, que é Cesareia de Filipe, de onde era natural, erigiu monumentos insignes do benefício que lhe fora concedido pelo Salvador: havia, com efeito, à entrada da casa dela, sobre uma base elevada, uma estátua de bronze de uma mulher com os joelhos flexionados e as mãos unidas, como se estivesse em oração; e, do lado oposto, outra estátua ereta, à semelhança de um homem, do mesmo material, vestida com uma túnica, estendendo a mão em direção à mulher; diante de cujos pés, sobre a mesma base, brotava uma espécie estranha de planta, que, alcançando até as bordas da túnica de bronze, dizia-se ser remédio para todas as enfermidades. Esta estátua, diziam, representava Cristo, a qual Maximino destruiu.
E para que por meio deles se possa alcançar todo o gênero humano, não só lhes dá o poder de expulsar os espíritos malignos, mas também de curar qualquer enfermidade em seu nome; de onde segue: "e para que curassem as enfermidades".
Querendo, portanto, que eles estivessem livres da cobiça das coisas e das preocupações da vida, Ele lhes fez esta recomendação: pois tomava como prova de sua fé e de sua coragem que, tendo recebido o mandamento de levar uma vida de extrema pobreza, não fugissem do que lhes foi ordenado; pois convinha que eles fizessem uma espécie de intercâmbio, recebendo virtudes salutares e recompensando com a obediência aos mandamentos; e fazendo-os soldados do Reino de Deus, os preparou para a batalha contra os inimigos, aconselhando-os a cultivar a pobreza; pois nenhum que milita para Deus se envolve nos negócios da vida secular. De que tipo, portanto, deve ser aquele que evangeliza o Reino de Deus, é designado pelos preceitos evangélicos; isto é, que não busque os apoios do auxílio secular e, aderindo totalmente à fé, pense que quanto menos buscar, mais poderá ser suprido.
Mas depois que o Senhor cingiu seus discípulos como soldados de Deus com virtudes divinas e admoestações de sabedoria, enviando-os aos judeus como doutores e médicos, eles procediam segundo isto; donde segue E havendo saído, percorriam os povoados, evangelizando e curando por toda parte: como doutores, certamente evangelizando; mas como médicos, proporcionando remédios, e confirmando as palavras com milagres.
Quando o Senhor revelou aos seus discípulos o grande mistério de sua segunda aparição, para que não parecesse que eles acreditavam apenas em suas palavras, procedeu às obras, mostrando-lhes com fé visível uma imagem de seu reino; donde se diz: "E aconteceu cerca de oito dias depois destas palavras, e tomou Pedro e Tiago e João, e subiu ao monte para orar".
Porque na cidade dos Sodomitas os Anjos não careceram de hospitalidade; mas Lot foi encontrado digno de hospedá-los. Se, pois, à chegada dos discípulos, nem um só for encontrado na cidade que os receba, como não será pior que a cidade de Sodoma? Este discurso ensinava-os a abraçar audaciosamente a regra da pobreza: pois não poderia subsistir cidade e vila, nem aldeia, sem algum habitante conhecido de Deus; pois nem Sodoma subsistiria não tendo encontrado Lot, e com sua partida toda ela repentinamente pereceu.
Mas o que será mais glorioso do que o próprio Verbo unigênito de Deus dar testemunho por nós no juízo divino, e pelo próprio efeito manifestar a recompensa do testemunho como indicação na alma daquele por quem testemunha? Pois não permanecendo fora daquele a quem presta testemunho, mas habitando nele e enchendo-o com sua luz, dará testemunho. E tendo-os fortalecido com boa esperança mediante tantas promessas, novamente os induz com as mais terríveis ameaças, dizendo: quem, porém, me negar diante dos homens, será negado diante dos Anjos de Deus.
Oportunamente coloca Ele esta ameaça, para que não desprezassem a sua confissão por causa da pena, que é ser negado pelo Filho de Deus, o que significa ser renegado pela sabedoria, e afastar-se da vida, e ser privado da luz, e ser destituído de todos os bens; e também sofrer todas estas coisas diante do Pai, que está nos céus, e dos Anjos de Deus.
Nos corvos também ele significa algo mais: para as aves que recolhem sementes o alimento está mais prontamente disponível, mas para aquelas que se alimentam de carne, como os corvos, é mais difícil de obter; contudo, nem mesmo aves deste tipo sofrem escassez de alimento por causa da providência de Deus difundida por toda parte. Ele utiliza também para o mesmo propósito um terceiro silogismo, dizendo: "Quem dentre vós, pensando, pode acrescentar um côvado à sua estatura?"
Como que dizendo: Se ninguém por seu próprio engenho conseguiu dar a si mesmo uma estatura corporal, nem tampouco pode adicionar, por meio de planejamento, nem mesmo um brevíssimo instante ao limite de tempo prefixado da vida, por que deveríamos nos preocupar inutilmente com as coisas necessárias à vida?
Se algum dos mortais quiser adornar-se com vestes preciosas, veja atentamente como Deus, propagando Sua multifacetada sabedoria até mesmo às flores que brotam da terra, ornou-as com diversas cores, adaptando às delicadas membranas das flores tingimentos muitíssimo melhores que o ouro e a púrpura, a tal ponto que não foi encontrada obra tão preciosa junto a nenhum rei deleitoso, nem mesmo junto ao próprio Salomão, que entre os antigos foi célebre tanto em riquezas como em sabedoria e em deleites; donde segue: "Digo-vos, pois, que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um destes".
Pois todo homem naturalmente depende daquilo pelo qual se dedica; ali aplica toda a sua alma onde julga possuir todo o seu proveito. Portanto, se alguém tem toda a sua mente e intenção, a qual chamou de coração, nas coisas da vida presente, ocupa-se das coisas terrenas; mas se aplicar sua mente às coisas celestiais, ali terá a sua mente, de modo que pareça conviver com os homens apenas pelo corpo, mas com a alma já tenha alcançado as mansões celestiais.
Ou de outro modo, o Senhor chama fermento ao Espírito Santo, como virtude que procede da semente, isto é, da palavra de Deus. As três medidas de farinha significam o conhecimento do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que a mulher, isto é, a sabedoria divina e o Espírito Santo, concedem.
Pois os pais mencionados, antes dos tempos da Lei, abandonando o erro de muitos deuses segundo a forma evangélica, adquiriram o conhecimento do Deus sublime, aos quais se igualaram muitos dos gentios pela semelhança de vida; mas seus filhos sofreram alienação da disciplina evangélica; donde segue: e eis que são últimos os que eram primeiros, e são primeiros os que eram últimos.
O Senhor havia ensinado acima a preparar um banquete para aqueles que não podem retribuir, quando a recompensa será dada na ressurreição dos justos; e por isso, alguém, entendendo que a ressurreição dos justos e o reino de Deus são uma e a mesma coisa, louva a recompensa mencionada anteriormente; pois segue: Quando um dos que estavam à mesa com Ele ouviu estas coisas, disse-lhe: Bem-aventurado o que comer pão no reino de Deus.
Pois o sal, em sua substância, consiste de água e ar, participando de uma pequena quantidade de terra. Seca a natureza fluida dos corpos corrompidos, a fim de conservar os corpos mortos. Com razão, portanto, o Senhor compara seus discípulos ao sal, porque foram regenerados pela água e pelo espírito. E como viviam inteiramente de modo espiritual e não segundo a carne, à maneira do sal, eles transformavam a vida corrompida dos homens que viviam na terra, e, com sua vida virtuosa, deleitavam e temperavam seus seguidores.
Os primeiros profetas conheciam a pregação do reino dos céus; mas nenhum deles havia anunciado expressamente ao povo judeu, pois os judeus, tendo uma mente infantil, eram incapazes quanto à imensidão da pregação. São João, porém, foi o primeiro a pregar manifestamente que o reino dos céus se aproximara, bem como a remissão dos pecados pelo banho da regeneração; donde segue: desde então o reino de Deus é evangelizado, e todo aquele que entra nele faz força.
Grande é a luta que incumbe aos mortais na ascensão aos céus: pois que os homens vestidos de carne mortal subjuguem o prazer e todo apetite ilícito, querendo imitar a vida angélica, como isso não se faz com violência? Quem, vendo aqueles que se esforçam no culto divino e quase mortificam sua própria carne, não confessará verdadeiramente que eles impõem violência ao reino dos céus? Mas se alguém investigar o admirável propósito dos veneráveis mártires, confessará que eles impuseram violência ao reino dos céus.
Como se dissesse: Se diante da vinda do Anticristo, sua fama se espalhar, como se Cristo tivesse aparecido, não saiais, nem o sigais; pois é impossível que Aquele que uma vez foi visto na terra, volte a habitar nos cantos da terra. Será, portanto, este de quem falamos, não o verdadeiro Cristo. Pois este é o sinal claro da segunda vinda do nosso Salvador, que subitamente o esplendor de Sua vinda preencherá o mundo inteiro; e assim segue: Porque assim como o relâmpago que reluz, resplandece de uma extremidade do céu sobre tudo o que está debaixo do céu, assim será o Filho do homem em seu dia. Pois Ele não aparecerá andando sobre a terra, como qualquer homem comum, mas iluminará todo o nosso universo, manifestando a todos os homens o fulgor de Sua divindade.
Porque, no entanto, o Senhor usou o exemplo do dilúvio, para que ninguém pensasse que haveria um futuro dilúvio de água, utiliza um segundo exemplo, o de Lot, ensinando o modo de perdição dos ímpios, que o fogo enviado do céu sobrevirá aos ímpios pela ira de Deus; por isso acrescenta: "De modo semelhante como aconteceu nos dias de Lot: comiam e bebiam, compravam e vendiam, plantavam e edificavam".
Ele não disse que o fogo desceu do céu sobre os ímpios sodomitas antes que Ló saísse do meio deles; assim como o dilúvio não destruiu os habitantes da terra antes que Noé entrasse na arca: porque enquanto Noé e Ló conviviam com os ímpios, Deus suspendia sua ira, para que não perecessem juntamente com os pecadores; mas querendo destruí-los, retirou o justo. Assim também na consumação do século, não haverá o fim antes que todos os justos sejam separados dos ímpios; por isso segue: "segundo isto será o dia em que o Filho do homem se revelar".
Ele dá a entender, portanto, por isso, que haverá uma perseguição do filho da perdição contra os fiéis de Cristo. Assim, ele chama aquele dia o tempo que precede o fim do mundo; no qual quem foge, não volte, e perdendo os bens não se preocupe, nem imite a esposa de Lot, que após a fuga na saída da cidade de Sodoma, tendo voltado, morreu e tornou-se uma coluna de sal; por isso segue: lembrai-vos da mulher de Lot.
Ou pelas águias que se alimentam de animais mortos, designou os príncipes deste século e aqueles que naquele tempo perseguirão os santos de Deus, em cujo poder são deixados os indignos de serem elevados, os quais são chamados corpo ou cadáver; ou as potências vingadoras, que castigarão os ímpios, são aqui designadas pelas águias.
Alguns estimavam que no primeiro advento do Salvador seu reino viria; e julgavam que isso aconteceria logo quando ele estava prestes a subir a Jerusalém: a tal ponto os tinham impressionado os milagres divinos que ele fizera. E por isso os instrui que não receberia primeiro o reino do Pai, antes que fosse dos homens para o Pai; e por isso se diz que, ouvindo eles estas coisas, acrescentou uma parábola, porque estava perto de Jerusalém, e porque julgavam que imediatamente o reino de Deus se manifestaria.
Ou por isto, que partiu para uma região distante, designa seu próprio ascenso da terra aos céus; e quando acrescenta receber para si um reino, e voltar, manifesta sua segunda aparição gloriosa e régia. E primeiramente chama-se homem por causa de seu nascimento na carne, depois nobre; ainda não se denomina rei, porque ainda não exercia em sua primeira aparição a majestade real. Mas também acertadamente se diz que obteve para si um reino; pois concedendo-lhe o Pai, ele o obteve, conforme aquilo: eis que o Filho do homem vinha sobre as nuvens, e foi-lhe dado um reino.
Ele indica, portanto, por aqueles que recebem as minas, seus discípulos, aos quais, exibindo minas a cada um, confiando a todos igual dispensação, ordenou que negociassem. Segue-se: "E disse-lhes: negociai até que eu venha". Nenhum outro negócio havia senão a doutrina de seu reino que deveria ser pregada aos mortais atentos por seus discípulos. O mesmo é o ensinamento de todos, a mesma fé, um só Batismo; e por isso uma mina é dada a cada um.
Pelo fato de que diz cidadãos dele, significa os judeus, nascidos da mesma progênie segundo a carne, e também porque utilizava com eles igualmente o rito da lei.
Depois que o Salvador ensinou estas coisas pertencentes à sua primeira vinda, consequentemente mostra o seu glorioso e real retorno, dizendo: "E aconteceu que, quando ele voltou, tendo recebido o reino, mandou chamar os servos aos quais havia dado o dinheiro, para saber quanto cada um havia negociado".
Aqui nota que a sua vinda foi para a paz de todo o mundo; pois veio para isto, para que pregasse a paz tanto aos que estavam próximos quanto aos que estavam distantes. Mas, como não quiseram receber a paz anunciada a eles, isto estava escondido deles; por isso acrescenta: "agora, porém, estão escondidas de teus olhos". E por isso prediz muito expressamente o cerco que em breve lhes sobreviria, acrescentando: "porque virão dias contra ti, e te cercarão teus inimigos com trincheiras".
Como estas coisas se cumpriram, podemos coligir a partir do que foi narrado por Josefo, que, sendo judeu, relatou cada acontecimento tal como ocorreu, em exata concordância com as profecias de Cristo.
Quando, porém, os príncipes deveriam admirar-se com aquele que ensinava dogmas celestiais, e reconhecer por suas palavras e feitos que este era o Cristo que os profetas haviam predito, inclinados à subversão do povo, proibiam Cristo; pois segue: e disseram-lhe: Dize-nos, com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem é que te deu esta autoridade?
Pergunta, porém, acerca de São João Batista, não de onde era oriundo, mas de onde havia recebido a lei do Batismo.
Reunidos em um só lugar os príncipes do povo judeu no próprio templo, as coisas que estavam para fazer contra Ele, e o extermínio que viria sobre eles, expôs figuradamente por uma parábola; pois diz: Começou então a dizer ao povo esta parábola: Um homem plantou uma vinha.
Mas a parábola que Isaías diz repreende a vinha; porém a parábola do Salvador não é dita contra a vinha, mas sobre os cultivadores da vinha, dos quais se acrescenta: e arrendou-a a agricultores, isto é, aos anciãos do povo, e aos príncipes dos sacerdotes, e aos doutores, e a todos os nobres.
Cristo é chamado pedra por causa de Seu corpo terrestre, cortado sem mãos, segundo a visão de Daniel, por causa de Seu nascimento da Virgem. Mas a pedra não é nem de prata nem de ouro, porque Ele não é um Rei glorioso, mas um homem humilde e desprezado, pelo que os construtores O rejeitaram.
Como a história nos manifesta, era digno de admiração tudo aquilo que pertencia à estrutura do templo; e até hoje se conservam alguns vestígios, pelos quais se percebem os sinais que outrora eram das construções. Mas o Senhor proclamou àqueles que admiravam as construções do templo que nele não ficaria pedra sobre pedra; pois diz-se: "E disse a alguns, que referindo-se ao templo diziam que estava adornado de belas pedras e dons, disse: estas coisas que vedes, virão dias em que não ficará pedra sobre pedra que não seja destruída". Convinha, pois, que aquele lugar, por causa da audácia de seus adoradores, sofresse completa desolação.
Chama desolação de Jerusalém ao fato de que ela não mais seria estabelecida pelos seus, nem de acordo com o rito legal, de modo que ninguém esperasse que, após o cerco futuro, outra renovação fosse feita, como aconteceu no tempo do rei dos Persas, e do ilustre Antíoco, e novamente no tempo de Pompeu.
O Senhor, porém, prevendo a futura fome na cidade, advertia os discípulos para que, no futuro cerco, não se refugiassem na cidade como em lugar seguro e protegido por Deus; mas antes que partissem dali e fugissem para os montes; de onde se segue: "Então os que estão na Judeia, fujam para os montes".
A saber, como, quando os romanos vieram e tomaram a cidade, grandes multidões do povo judeu pereceram pelo fio da espada; por isso segue-se: e cairão ao fio da espada. Mas muitos mais morreram de fome. Estas coisas aconteceram primeiro sob Tito e Vespasiano, e depois destes, no tempo de Adriano, príncipe dos romanos, quando a terra natal se tornou inacessível aos judeus; por isso segue-se: e serão levados cativos para todas as nações. Os judeus, de fato, encheram todo o mundo e chegaram até os confins da terra; e enquanto sua terra é habitada por estrangeiros, apenas a eles tornou-se inacessível; por isso segue-se: e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que se cumpram os tempos das nações.
Pois então, quando se consumar o fim desta vida corruptível, e, como diz o Apóstolo, passar a aparência deste mundo, sucederá um novo século, no qual, em vez de luminárias sensíveis, o próprio Cristo brilhará como esplendor e rei do novo século; e será tão grande o poder e a glória desta luz que o sol, que agora radia, e a lua e as demais estrelas, serão ocultados pelo advento de uma luz maior.
E o que acontecerá ao mundo após o obscurecimento dos luminares, do qual resultará a angústia das nações, ele expressa a seguir, dizendo: e na terra haverá pressão das nações pela confusão do rugido do mar e das ondas; onde parece ensinar que o princípio da transformação do universo virá da falta da substância úmida. Pois esta, sendo primeiramente consumida ou congelada, de modo que não mais se ouça o rugido do mar, nem suas ondas toquem a areia, devido à excessiva secura, as demais partes do mundo, não mais recebendo o vapor habitual emitido pela substância úmida, sofrerão transformação; e assim, como a aparição do Salvador deverá confutar os prodígios contrários a Deus, os prenúncios de sua ira terão início com as secas, de modo que nem a tempestade, nem o fragor do mar mais se ouçam. Acontecido isto, seguir-se-á a angústia dos homens sobreviventes; por isso continua: secando-se, isto é, consumindo-se, os homens pelo temor e expectativa daquilo que há de sobrevir a todo o mundo. E o que então sobrevirá ao mundo, ele mostra a seguir, acrescentando: pois as virtudes dos céus se moverão.
Quando também o Filho de Deus vier em glória, e confundir a soberba tirania do filho do pecado, servindo-Lhe os anjos, as portas do céu, fechadas desde o princípio do mundo, se abrirão, para que as coisas excelsas sejam contempladas.
Ou as virtudes dos céus são aquelas que presidem as partes sensíveis do universo, as quais, na verdade, então serão movidas para atingirem um estado mais elevado. Pois serão liberadas no novo século do ministério pelo qual servem a Deus em relação aos corpos sensíveis segundo o estado de corrupção.
Ou de outro modo. Tendo passado as coisas corporais, estarão presentes as inteligíveis e celestiais, a saber: o reino do século que não mais passará; e então serão concedidas aos dignos as promessas salutares; de onde se diz: "Quando começarem a acontecer estas coisas, olhai para cima e levantai vossas cabeças, porque vossa redenção se aproxima". Pois, recebidas as promessas de Deus que esperamos, seremos erguidos nós que antes estávamos curvados, e elevaremos nossas cabeças, antes humilhadas, porque estará presente a redenção que esperávamos, a saber, aquela que toda a criação aguarda.
Diz estas coisas aos seus discípulos, não como àqueles que haveriam de permanecer nesta vida até o fim do mundo, mas como se unindo em um só corpo os próprios crentes em Cristo, e nós, e nossos descendentes que hão de crer em Cristo até a consumação do mundo.
Assim como nesta vida, quando o inverno se vai e a primavera o sucede, o sol, enviando seus raios cálidos, aquece e vivifica as sementes escondidas no solo, que abandonam sua antiga forma, e os novos brotos surgem, revestidos de variados tons de verde; assim também a gloriosa vinda do Unigênito de Deus, iluminando o novo mundo com seus raios vivificantes, trará à luz, com corpos mais excelentes que antes, as sementes há muito ocultas em todo o mundo, isto é, aqueles que dormem no pó da terra. E, tendo vencido a morte, reinará doravante a vida do novo século.
Ou por geração Ele se refere à nova geração de Sua santa Igreja, mostrando que o povo dos fiéis durará até aquele tempo em que verá todas as coisas e contemplará com seus próprios olhos o cumprimento das palavras do Salvador.
Portanto, ensinou que as coisas supracitadas devem ser observadas para evitar o peso que delas provém; de onde segue: "Vigiai, pois, orando em todo tempo, para que sejais dignos de escapar de todas estas coisas que hão de acontecer".
Se alguém, porém, disser: se no primeiro dia dos ázimos os discípulos preparam a Páscoa para o Salvador, então nesse mesmo dia devemos nós também celebrar a Páscoa; diremos que isto não foi uma advertência, mas uma narração histórica do que ocorreu no tempo da salvífica paixão. Uma coisa é narrar fatos passados, e outra é sancionar e deixar estatutos à posteridade. Além disso, o Salvador não celebrou a Páscoa com os judeus quando estes imolavam o cordeiro: pois eles fizeram isso na Parasceve, quando padeceu o Senhor; por isso não entraram no átrio de Pilatos, para poderem comer a Páscoa. Desde que conspiraram contra a verdade, expulsaram de si a palavra da verdade, não comendo a Páscoa habitual no primeiro dia dos ázimos, dia em que se deveria imolar a Páscoa (pois estavam atentos a outra coisa), mas no dia seguinte, que era o segundo dos ázimos. O Senhor, porém, celebrou a Páscoa com os discípulos no primeiro dia dos ázimos, isto é, na quinta-feira de sábado.
Ou de outro modo. Quando o Senhor celebrava a nova Páscoa, disse oportunamente: Com desejo desejei esta Páscoa, isto é, o novo mistério do novo testamento, que entregava aos discípulos, o qual muitos profetas e justos antes dele tinham desejado; e também Ele mesmo, sedento pela salvação comum, entregava este mistério que convinha ao mundo inteiro. Mas a Páscoa de Moisés estava estabelecida para ser celebrada em um único lugar, a saber, em Jerusalém: por isso não convinha a todas as nações; e, portanto, não era desejada.
Se, porém, de outro modo após conviver com os homens, desaparecesse subitamente, fugindo da morte, seria comparado a um fantasma pelos homens; e assim como se alguém quisesse nos mostrar um vaso incombustível e capaz de resistir à natureza do fogo, o entregaria às chamas e, consequentemente, o retiraria ileso da chama, assim o Verbo de Deus, querendo mostrar que o instrumento que usou para a salvação humana era superior à morte, expôs o que era mortal à morte para demonstrar sua natureza; depois, em pouco tempo, o arrancou da morte como sinal do poder divino. E esta é a primeira causa da morte de Cristo; a segunda é a manifestação do poder divino que habitava no corpo de Cristo; pois como antigamente deificavam os homens que, tendo alcançado o fim comum da morte, chamavam de heróis e deuses, ensinou que somente aquele morto deve ser reconhecido como verdadeiro Deus, a quem adornam os prêmios da vitória, tendo prostrado a morte. A terceira razão é a vítima que devia ser imolada por todo o gênero humano; uma vez oferecida, todo o poder dos demônios pereceu, e todo erro foi dissipado. Há também outra causa da morte salvífica: para que os discípulos contemplassem com fé oculta a ressurreição após a morte; para a qual eram ensinados a elevar a própria esperança, a fim de que, desprezando a morte, entrassem alegremente no combate contra os erros.
Jazia, pois, o instrumento do Verbo extinto; uma grande pedra fechava o sepulcro, como se a morte o tivesse levado cativo; mas não tendo ainda transcorrido três dias, a vida se manifesta novamente após suficiente comprovação da morte; donde segue: e encontraram a pedra removida do sepulcro.
Os indícios de deleite e alegria, as vestes resplandecentes manifestam os anúncios da ressurreição salvífica. Pois Moisés, preparando as pragas para os egípcios, viu um anjo na chama de fogo. Mas não foram vistos assim pelas mulheres no sepulcro, mas mansos e alegres, como convinha serem vistos no reino e na alegria do Senhor. E assim como na paixão o sol se eclipsou, manifestando sinais de tristeza e angústia aos que crucificaram o Filho de Deus, assim os anjos, arautos da vida e da ressurreição, com suas vestes brancas, designavam o aspecto da festa salvífica.
Porque só ele acreditou nas mulheres que diziam ter visto Anjos; e como era de afetos mais ardentes do que os demais, ele ansiosamente se colocava à frente, olhando por toda parte pelo Senhor; como segue: E inclinando-se, viu somente os lençóis de linho postos sozinhos.
Dois Evangelistas, isto é, São Lucas e São João, escrevem que Ele apareceu apenas para os onze em Jerusalém; os outros dois, porém, disseram não apenas aos onze, mas a todos os discípulos e irmãos, que tanto o anjo quanto o Salvador lhes ordenaram que se apressassem para a Galileia; dos quais também São Paulo fez menção, dizendo: Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez. Mas a explicação mais verdadeira é que, inicialmente, quando permaneciam escondidos em Jerusalém, Ele apareceu uma ou duas vezes para consolá-los; na Galileia, porém, não no cenáculo, nem uma ou duas vezes, mas com grande poder fez uma manifestação de Si mesmo, mostrando-Se vivo para eles após a Paixão com muitos sinais, como São Lucas testemunha nos Atos.
Pois tinha sido dito: "pede-me, e dar-te-ei as nações como herança". Convinha, portanto, que os convertidos dentre os gentios fossem purificados de qualquer contágio e mancha pela sua virtude, estando como que contaminados pelo erro dos demônios da idolatria, e como recém-convertidos de uma vida execrável e impudica; e por isso diz que é necessário que seja pregada primeiramente a penitência, e consequentemente a remissão dos pecados a todas as nações: àqueles que primeiramente manifestaram verdadeira penitência de seus males, concedeu por sua graça salutar o perdão dos pecados cometidos, pelos quais também sofreu a morte.
Mas se aquelas coisas que Cristo predisse já estão produzindo efeito, e sua palavra, viva e eficaz, é percebida por todo o mundo mediante a fé que vê, é tempo de não sermos incrédulos em relação Àquele que proferiu a palavra. Pois é necessário que leve uma vida divina aquele cujas obras vivas são demonstradas como conformes às suas palavras; as quais, certamente, foram cumpridas pelo ministério dos apóstolos. Donde acrescenta: "Vós sois testemunhas destas coisas", isto é, de minha morte e ressurreição.
Pois Mathan e Melchi, em períodos diferentes, tiveram cada um um filho com uma mesma esposa, de nome Jescha. Mathan, que descendia de Salomão, a tomou primeiro como esposa, e deixando um único filho chamado Jacob, faleceu. Após sua morte, como a lei não proíbe que uma viúva se case com outro homem, Melchi, que descendia através de Mathan, sendo da mesma tribo, mas não da mesma linhagem, tomou por esposa a viúva de Mathan, da qual ele gerou um filho de nome Heli. Assim, de diferentes linhagens paternas, Jacob e Heli tornaram-se irmãos uterinos. Um deles, isto é, Jacob, tomando a esposa do seu irmão Heli, que havia morrido sem deixar filhos, conforme o mandato da lei, gerou José, que por natureza era seu filho, razão pela qual está escrito: "E Jacob gerou José". Porém, segundo o preceito da lei, José se tornou filho de Heli, porque Jacob era seu irmão e havia tomado sua esposa para suscitar descendência ao irmão. E por isso encontra-se correta e íntegra tanto a genealogia que São Mateus enumera quanto a que São Lucas apresenta, o qual indicou a sucessão legal, que existe como uma espécie de adoção em relação aos falecidos, com um sinal bastante adequado para isso, observando que em tais sucessões não se mencionasse que alguém havia gerado.
Estas coisas, porém, não foram inventadas por nós segundo nosso arbítrio ou comentadas sem quaisquer autoridades, mas os próprios parentes do nosso Salvador segundo a carne, seja pelo desejo de demonstrar a nobreza de tal linhagem, seja para ensinar aquilo que foi realizado segundo a verdade, nos transmitiram estas coisas.
Como por causa do sacrilégio que Herodes cometera contra o Salvador e pelo crime que perpetrara contra os que tinham a mesma idade, a vingança divina o impelia à morte, seu corpo, como refere Josefo, foi invadido por uma doença diferente, de tal modo que se dizia pelos adivinhos que não eram doenças do corpo, mas suplícios da vingança divina. Ele mesmo, já cheio de furor, ordena que os nobres e os principais de toda a Judeia fossem reunidos e reclusos no cárcere, mandando que, logo que exalasse o espírito, todos fossem mortos, para que toda a Judeia chorasse involuntariamente a sua morte. Pouco antes de entregar o último suspiro, degolou seu filho Antipater, depois de ter matado anteriormente dois meninos, a saber, Alexandre e Aristóbulo. Tal foi, portanto, o fim de Herodes, que pagou dignos suplícios pelo crime que cometera em Belém contra os pequeninos e pelas insídias contra o Salvador. Isto é designado pelo Evangelista quando diz: "tendo morrido Herodes".
Contam que São João, quase até o último tempo de sua vida, pregava o Evangelho sem qualquer indicação escrita. Mas quando chegou ao seu conhecimento os três Evangelhos, ele confirmou a verdade do que neles estava dito, porém observou que faltavam algumas coisas, especialmente aquelas que o Senhor havia realizado no início de sua pregação. É certo que nos outros três Evangelhos parece estar contido apenas o que foi feito naquele ano em que São João Batista foi encarcerado ou executado. Pois São Mateus, logo após a tentação de Cristo, acrescenta: "Ouvindo, porém, que João havia sido entregue"; e São Marcos de modo semelhante. São Lucas, antes mesmo de relatar qualquer dos atos de Cristo, diz que Herodes encerrou João no cárcere. Foi pedido, portanto, ao apóstolo São João que escrevesse os feitos do Salvador que os primeiros evangelistas haviam omitido antes da prisão de São João; por isso ele diz em seu Evangelho: "Este foi o princípio dos sinais que Jesus fez".
Visto que o apóstolo disse: "Por um homem entrou a morte no mundo", era certamente necessário que a vitória sobre a morte fosse alcançada também por um homem, e que o corpo da morte se mostrasse corpo de vida, e que o reinado do pecado, que antes reinava no corpo mortal, fosse destruído, de modo que este não mais servisse ao pecado, mas à justiça.
---
Porque Deus fez o que a lei não pôde fazer, rejeitamos os costumes judaicos, sob o fundamento de que não nos foram destinados e de que é impossível acomodá-los às necessidades dos gentios, ao mesmo tempo em que aceitamos de bom grado que as profecias judaicas contêm predições acerca de nós mesmos.
O resto dos judeus proclamou o sinal do Senhor a todos os gentios e uniu a Deus, num só povo, atraídas a Ele, as almas dos gentios, que são conduzidas da perdição ao conhecimento do Senhor.
O Salmo 33 foi proferido por Davi quando ele "mudou o seu semblante diante de Abimelec, e este o despediu, e ele se retirou." O Salmo presente seria aquele que se segue a esse Salmo na sequência histórica. Pois diz a Escritura nos Reinos: "E um dos servos de Saul estava ali naquele dia." E isto indica o momento em que Davi veio à casa de Abimelec e comeu os "pães da proposição", recebendo-os do sumo sacerdote. Pois no mesmíssimo ponto do tempo, Doeg, o sírio, o guardador das mulas de Saul, veio a Saul e disse: "Vi o filho de Jessé, tendo vindo a Nobe, a Abimelec, filho de Aitube, o sacerdote, e a todos os filhos de seu pai; e ele consultou a Deus por ele, e lhe deu provisões. E o rei mandou chamar a Abimelec, o sacerdote, e a todos os filhos de seu pai, os sacerdotes do Senhor em Nobe, e todos vieram diante do rei" - momento no qual, por ordem de Saul, este mesmo Doeg matou os sacerdotes do Senhor - "homens que traziam o éfode, e feriu a cidade de Nobe ao fio da espada, homens e mulheres, crianças de peito e lactentes, e bois, e jumentos, e ovelhas."
Quando, pois, Davi soube que isto se fizera assim, proferiu as palavras que temos diante de nós, as quais não contêm nem ode, nem hino, nem qualquer outra coisa desse gênero. Pois como, diante do desastre sucedido a tantos sacerdotes, poderia ele ter cantado odes e salmos de louvor? Por isso, nada de semelhante está escrito como epígrafe, mas apenas se disse "para o fim" e "de entendimento": ["Para o fim,"] visto que os elementos finais de suas palavras narram os bens, quando diz: "Mas eu sou como uma oliveira frutífera", etc.; e ["de entendimento", visto que discernir] o sentido das palavras aqui propostas requer o entendimento que vem de Deus. Ora, quando estava com Abimelec e provou o alimento sacerdotal, mudou o seu "paladar" - ou seus "caminhos", segundo a interpretação de outros - e ergueu bênçãos e ações de graças a Deus, dizendo: "Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará sempre em minha boca", etc. Mas agora, quando soube dos atos de Doeg, o caluniador - como este destruíra tantos sacerdotes, praticando um feito diabólico - dispôs as palavras da presente passagem como que contra ele.
A matéria que temos diante de nós foi proferida muito antes, no tempo, da história referente ao Salmo 50. Pois [a história de Doeg] ocorreu, e [as palavras] foram proferidas, enquanto Saul ainda vivia, e antes do reinado de Davi. Muitos e longos anos depois, após a morte de Saul, e ao fim do seu próprio reinado, Davi fez a confissão contida no Salmo 50, o qual ele colocou antes [do 51] por causa de sua ligação com o Salmo 49, como já mostrei. Aqueles Salmos, em número de 20, do 51 ao 70, com epígrafes "de Davi", tomaram sua matéria de um ponto de origem diferente: com efeito, parecem ter sido proferidos ainda quando Saul vivia, antes de Davi reinar. Pois o que agora temos diante de nós foi proferido enquanto Saul ainda vivia, "quando Doeg, o idumeu, veio e anunciou a Saul... 'Davi veio à casa de Abimelec.'" Mas também o Salmo 53 foi proferido "quando os zifeus vieram e disseram a Saul: 'Olha - não está Davi escondido entre nós?'" Também o Salmo 55 tem esta epígrafe: "Quando os filisteus o prenderam em Gate" - e este período também precede o reinado de Davi, enquanto Saul ainda vivia. E o Salmo 56 dá a epígrafe: "De Davi, quando fugia de Saul para a caverna." Do mesmo modo também o Salmo 58 diz [na epígrafe]: "Quando Saul enviou e vigiou a sua casa, a fim de matá-lo." O Salmo 59, contudo, ainda que tenha sido proferido depois da morte de Saul, quando Davi já era rei, ainda precedeu os atos referentes a Urias. Isto é indicado pelo cabeçalho, que mostra o período de tempo envolvido ao dizer: "Quando incendiou a Mesopotâmia da Síria, e a Síria de Sobá, e Joabe voltou e feriu o Vale do Sal - doze mil." E isto precede cronologicamente a confissão expressa no Salmo 50. Além disso, o Salmo 62 foi proferido por Davi "quando estava no deserto da Idumeia", enquanto Saul ainda vivia. Considerai como, mais ou menos, a maioria da segunda parte do livro dos Salmos de Davi (à parte o 50) inclui aqueles que foram proferidos por ele antes do período de seus atos referentes a Urias.
A primeira parte do mesmo livro, contudo, do primeiro Salmo até o 40, [parece] contradizer aquela ordem; pois aquela parte incluía os que datam de depois da confissão do Salmo 50. O terceiro Salmo, pois, foi proferido por Davi "quando fugia de Absalão, seu filho." E ele fugia de seu filho depois dos acontecimentos ligados a Urias. Mas também no sexto Salmo ele lamentava os mesmos atos, dizendo: "Cansei-me em meu gemido; lavarei toda noite o meu leito - com minhas lágrimas molharei o meu colchão." E o sétimo Salmo, proferido "pelas palavras de Cuz, filho de Jamim," pertenceria ao mesmo período de tempo. Além disso, também se provou que o Salmo 17 foi proferido ao fim da vida de Davi. Mas também o Salmo 37, com a epígrafe "para memória", tendo o mesmo curso de pensamento que o sexto, começa com as mesmas palavras, dizendo: "Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me corrijas no teu furor." E, avançando, ele faz a mesma confissão que aquela do Salmo 50, além de outras passagens, também quando diz: "Pois as minhas transgressões passaram por cima da minha cabeça... As minhas chagas cheiraram mal e apodreceram diante da minha insensatez."
E se reunires estes indícios para ti mesmo, descobrirás que a maioria dos Salmos da primeira parte foi proferida depois do período da história referente a Urias, ao passo que os que se seguem ao Salmo 50 precedem cronologicamente os atos [de Davi] referentes a Urias. Por que razão, pois, os primeiros na sequência cronológica não foram postos em primeiro lugar - e, ao invés, aqueles que foram proferidos primeiro, enquanto Saul ainda vivia, estão na segunda parte dos Salmos - e aqueles que são cronologicamente últimos estão na primeira parte? Penso que têm esta disposição para que o discurso não se movesse do melhor para o pior; pois a frase "para o fim, para que não sejas destruído" parece ter sido observada também no caso da disposição dos Salmos. Por esta razão, a matéria mais sombria foi posta primeiro, de modo que a matéria mais agradável / mais útil fosse guardada para segundo lugar, sendo as coisas piores escondidas e feitas desaparecer pela aparição das melhores em segundo lugar. E é provável que Davi quisesse lançar um véu sobre a sua falta posteriormente por meio de suas boas obras anteriores. E alguém poderia dizer que ele dispôs suas confissões primeiro segundo uma tremenda piedade, porque "o justo é o seu próprio acusador na abertura do processo." Mas, visto que tantas coisas sobre a disposição aparente [no livro dos Salmos] já te foram reveladas, é agora tempo de passar também às palavras do Salmo 51 que temos diante de nós.
Ora bem, ele escreve as palavras em questão depois de saber o que Doeg, o sírio, havia realizado por meio de suas calúnias contra Davi. Por isso fala como que dirigindo-se a ele: "Por que te gloria na maldade, ó poderoso?" - ou como que se dirigindo ao demônio, que nele operava. Pois ele não ignorava aquele que se opunha a ele em todo tempo e sempre lutava contra ele, ora através de Saul, no caso presente através de Doeg, e em outras ocasiões de diferentes modos através de diferentes pessoas. Assim, pois, aquele que é impotente, e fraco, e pequeno na maldade, quando o caráter melhor prevalece nele, visto que é mais débil na maldade, esconde-se ao pecar e é aguilhoado por sua consciência, e se arrepende, e concebe para si um remédio para sua própria maldade mediante a confissão e o verdadeiro arrependimento. Aquele, porém, que é poderoso na maldade, enlouquece e se gloria nela, como que tornando-se mais majestoso por uma grande boa obra.
E a passagem que temos diante de nós parece-me descrever o caráter que é o oposto daquele que fez a confissão anterior no Salmo 50. Pois naquele Salmo, depois de ter uma vez decaído...
De modo que os justos, quando o virem, temerão e dele zombarão.
Isto foi dito como que a Doegue, que era sírio por descendência, mas vivia no meio de Israel — e suponho que talvez até tenha entrado no tabernáculo de Deus junto com a multidão, fingindo-se piedoso. Mas foi dito também a todo aquele que é poderoso na maldade, que usa a língua em vez da espada para a destruição das almas: o "agricultor das almas" o arrancaria tal como a alguma raiz amarga e destrutiva, ainda que por breve tempo pareça ter sido plantado no tabernáculo de Deus e em sua Igreja. Tal homem, depois de arrancado e lançado para longe do tabernáculo dos santos, jazerá como espetáculo lastimável, para proveito e castigo dos que o veem — estes hão de tomar com seus olhos o severo juízo de Deus contra tal homem e hão de se esforçar e guardar a si mesmos para não caírem em situação semelhante. Depois, quando trouxerem à memória a antiga jactância daquele que era poderoso na maldade, sua grandeza e arrogância, mas virem também a humilhação e a destruição que o perseguiram depois disso, o considerarão objeto de riso, ponderando como caiu tão baixo de tamanha altura. E aceitarão o juízo de Deus, confessando que é justo. Então, também percorrerão as razões pelas quais o ímpio sofreu essas coisas e justificarão o juízo de Deus. Pois ele não devia ter-se ensoberbecido nas riquezas, nem ter-se exaltado na vaidade da vida presente, mas ter feito somente de Deus sua esperança e auxílio, e não ter vacilado nessa esperança. Mas abandonou a boa âncora de sua própria alma, e, pendurando suas esperanças em vãs riquezas, fez de si mesmo motivo de escárnio, não obtendo senão o riso por sua vã e insensata jactância.