Fausto (de Milevo? ou Fausto de Riez?)
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea. Biografia em preparação.
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Provemos também que não foi São Mateus quem escreveu isto, mas algum outro, não sei quem, sob o seu nome. Pois o que diz? "Quando Jesus passou, viu um homem sentado na coletoria, chamado Mateus". Ora, quem, escrevendo sobre si mesmo, diz: 'viu um homem', e não 'viu-me'?
O que dizer sobre o fato de que, pela própria fala em que afirmou não pensar que veio destruir a lei, dá-se a entender que Ele a destruiria? Pois os judeus não poderiam suspeitar disso se Ele não tivesse feito algo que os conduzisse a tal.
E quanto ao fato de que também a Lei e os profetas não se regozijam com o cumprimento, como está dito no Deuteronômio: “Estes preceitos que te ordeno observarás, não acrescentarás nada a eles nem os diminuirás”?
Mas quando confessamos que Jesus foi o autor de um Novo Testamento, o que mais é isso senão confessar que Ele aboliu o Antigo Testamento?
Portanto, se Cristo disse isto, ou disse significando outra coisa, ou (que Deus não permita) disse mentindo, ou definitivamente não disse. Mas ninguém diga que Jesus mentiu; e por isto foi dito de outro modo, ou nem sequer foi dito. Quanto a mim, a fé maniqueia já me tornou protegido contra a dificuldade deste capítulo, a qual desde o princípio me persuadiu a não crer indiscriminadamente em todos os escritos que se leem em nome do Salvador. Pois existem muitos joios que, para contágio da boa semente, algum semeador noturno espalhou em todas as Escrituras.
Quando um judeu te questionar por que não observas os preceitos da Lei e dos Profetas, os quais Cristo disse que não veio abolir, mas cumprir, serás forçado ou a sucumbir a uma vã superstição, ou a declarar este capítulo falso, ou a negar que és discípulo de Cristo.
É necessário questionar se Cristo disse isto, por que o disse: se foi para acalmar o furor dos judeus que, vendo suas coisas santas pisoteadas por ele, nem sequer consideravam ouvi-lo; ou para nos instruir, a nós que cremos nele dentre os gentios, a submeter-nos ao jugo da lei. Se esta não foi sua razão para falar assim, deve ser aquela que ele disse; nem ele mesmo mentiu. Existem, pois, três tipos de leis: uma dos hebreus, que Paulo chama de lei do pecado e da morte; outra dos gentios, que ele chama de natural, dizendo: "os gentios fazem naturalmente as coisas que são da lei"; a terceira é a da verdade, sobre a qual disse: "a lei do espírito da vida". Da mesma forma, há profetas: uns são dos judeus, sobre os quais se sabe; outros dos gentios, sobre os quais Paulo diz: "disse um profeta deles mesmos"; outros da verdade, sobre os quais Jesus diz: "envio-vos sábios e profetas". E certamente, se ele tivesse apresentado as observâncias hebraicas com o propósito de cumpri-las, não haveria dúvida de que falava da lei e dos profetas dos judeus; mas quando enumera apenas os preceitos mais antigos, isto é, não matarás, não cometerás adultério, que já haviam sido promulgados por Enoque, Sete e outros justos, a quem não pareceria que ele falava da lei da verdade e dos profetas? Mas quando pareceu nomear certas coisas dos judeus, desarraigou-as completamente, ordenando o contrário: como naquilo: "olho por olho, dente por dente".