Genádio de Constantinopla
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea (séc. V). Biografia em preparação.
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A nuvem era figura que representava a graça do Espírito. Pois, assim como a nuvem cobria os israelitas e os protegia dos egípcios, também a graça do Espírito nos protege das ciladas do demônio. Do mesmo modo, assim como a travessia do mar os protegeu de seus inimigos e lhes concedeu a verdadeira liberdade, também o batismo nos protege de nossos inimigos. Foi assim que os israelitas vieram a viver sob a lei de Moisés. É assim que nós, no batismo, somos revestidos do Espírito de adoção e herdamos as alianças e confissões feitas segundo os mandamentos de Cristo.
Por fé, Paulo não entende a fé comum e universal dos crentes, mas o dom espiritual da fé. As duas coisas têm o mesmo nome, porque, quando o Espírito Santo vem sobre nós, é a nossa fé humana que se dilata para dar lugar ao dom divino.
Primeiro Paulo ora para que os romanos recebam a graça de Deus, pela qual todos os que creem gozam da salvação. Depois pede a paz, pela qual Deus concede a todos a restauração da virtude. Pois aquele que aceita o modo de vida do evangelho tem paz com Deus. Aquele que O serve é acessível a todos.
Paulo não diz "por meio de Jesus Cristo" como se este fosse uma espécie de intermediário, mas, no contexto de dar graças a Deus, diz que fazemos isso por causa do Senhor Cristo. Esta admirável dispensação que salvou nossa raça por meio dEle nos tomou cativos, juntamente com os demais, pela fé que temos nEle. Paulo se esforça ao máximo para conquistar os romanos, caso estivessem pensando que ele tivesse algo contra eles, ou que, seguindo a tradição de Pedro, viesse para lhes dar ordens; e, se de fato se aborrecessem por tal razão, poderiam recusar-se a ler sua carta e perder a bênção que ela traria. Portanto, começando pela ação de graças e pela fé, louvou-os por a manterem pura e firme, como todos faziam juntos, e então, com a palavra proclamada, falou mais pessoalmente em louvor da cidade, e, ao acrescentar "em todo o mundo", grandemente os louvou e exaltou, antes de passar a falar de encontrá-los pessoalmente.
Quando Paulo mencionou "seu espírito", não estava falando da pessoa do Espírito, mas da graça do Espírito que lhe fora dada para pregar o evangelho, e pela qual, uma vez feito digno de ser cooperador de Deus, foi capacitado a levar a cabo sua obra de missão.
Paulo diz isto por temor de fazer tropeçar os seus ouvintes, que talvez não soubessem o que dizer diante da perspectiva de participar de algum dom espiritual. Pois que poderia faltar ao ensino de Pedro? Paulo poderia ser acusado de criticar o ensino de Pedro... de julgar-se apóstolo maior que Pedro, de reivindicar para si maior intimidade com Cristo e ser mais amado por Cristo do que Pedro era. Temendo ataques desta espécie, Paulo expõe primeiramente o propósito de sua vinda, refutando assim suficientemente a acusação de presunção. Em seguida, passa a dizer não que lhes dará algo, mas que compartilhará algo com eles, o que é bem diferente... Paulo assegura-lhes que não tem a intenção de pregar-lhes nada de novo, mas antes de confirmá-los naquilo que já receberam de Pedro.
Paulo diz aos romanos que lhe será proveitoso vir até eles, afirmando que as nações que receberam o evangelho por meio dele claramente acrescentaram às suas próprias riquezas.
Aqueles que se opunham ao evangelho cristão ridicularizavam-no, escarnecendo dele por causa de sua absurdidade. Pois nada há mais ridículo do que a palavra daquele que prega que o Filho de Deus nasceu e foi criado por judeus, que não rejeita nem a cruz nem a morte, que diz, além disso, não somente que Cristo ressuscitou dos mortos, mas que ascendeu ao céu como Senhor de todas as coisas, que ressuscitará a todos os demais dentre os mortos, e outras coisas que os apóstolos pregavam. Os pagãos escarneciam destas coisas e as ridicularizavam, pensando que fariam calar os apóstolos. Por isso, São Paulo, sentindo-se obrigado a responder a esta opinião acerca dos apóstolos, iniciou seu ensinamento assim: "Não me envergonho do evangelho."
Qual é o sentido geral do que precede? É que nosso evangelho é muito grande e verdadeiramente maravilhoso, se atentares cuidadosamente ao seu poder. Pois pela fé em Cristo todos são salvos, tanto aqueles a quem a lei natural iluminou quanto os que seguem a lei escrita que a ela se acrescentou. Pois quando alguém é informado acerca da ressurreição dos mortos, aprende que ele também pode ter parte nela, obedecendo ao evangelho segundo o desígnio do Salvador. E isto, diz Paulo, Deus anunciara desde a antiguidade por meio do profeta Habacuque, quando disse: "O justo viverá pela fé."
De modo geral, há dois tipos principais de pecado — a discórdia com Deus e a discórdia com o próximo. Paulo menciona ambos, colocando em primeiro lugar a discórdia com Deus, por ser o maior pecado, e chamando-a "impiedade". Menciona então o segundo tipo de discórdia, aquela com o próximo, chamando-a "iniquidade". Chega mesmo a afirmar que toda a nossa raça caiu justamente sob juízo, dizendo que suprimiram a verdade na iniquidade. Nem podem alegar ignorância, pois, conhecendo a verdade, a perverteram... E, delineando seus pecados, Paulo enumera primeiro o que é contra Deus, dizendo que tinham conhecimento claro e evidente de Deus, porque Deus se lhes revelara.
Ele nos criou com tal natureza, colocando em nós uma mente e uma razão, e concedendo-nos estas coisas a fim de que, estudando este mundo, pudéssemos chegar ao conhecimento das coisas invisíveis que são Suas. Paulo diz que estão sem desculpa a fim de os reduzir ao silêncio…. Pois Deus não Se dignou a revelar-Se aos homens para lhes dar alguma desculpa, mas para lhes mostrar que seria em seu proveito aceitá-Lo e à Sua misericórdia.
Os pagãos sabiam que havia um Deus, e é evidente que não receberam condenação por isto. Pois não foi por falta de conhecimento que foram condenados, mas justamente o contrário. Pois cada um glorificava a Deus no sentido de que, seja lá o que pensasse que Deus fosse, isso servia. Assim corromperam toda a questão por suas ideias peculiares e equivocadas. Abandonaram o modo de conhecê-Lo que vem de Deus e preferiram o seu próprio, caindo na mais profunda imbecilidade, superando-se a si mesmos em sua assim chamada sabedoria ao acrescentarem à sua insensatez, descendo até a adoração de répteis e objetos inanimados.
Paulo não diz que Deus os destruiu por causa de seus abomináveis excessos. Pois Deus não é responsável pela destruição de ninguém... Diz Paulo, antes, que Deus se afastou deles e os deixou entregues a si mesmos, para que sua falsa compreensão de Deus se manifestasse como a causa de sua vida perversa.
A paciência de Deus para convosco vos dá oportunidade para toda sorte de maldade. Reconhecei, pois, claramente que estais entesourando para vós mesmos a ira, por causa da vossa dureza.
O propósito da lei, diz Paulo, é dar-nos conhecimento do pecado, não apenas para proibir que se façam coisas inconvenientes, mas também para punir os que as fazem.
Paulo diz "para todos", significando primeiramente os judeus, porquanto foi dentre eles que a salvação primeiro surgiu, e depois os gentios, porquanto dos judeus a graça abundou também até eles, de sorte que agora ambos participam dela em conjunto. Esta graça não é dada de modo geral, mas somente àqueles "que creem"; contudo, é comum a todos estes sem distinção.
Todos os que seguem Adão morreram, porque todos herdaram dele sua natureza. Mas alguns morreram porque eles mesmos pecaram, ao passo que outros morreram apenas por causa da condenação de Adão — as crianças, por exemplo.
As pessoas carnais e os incrédulos podem viver assim, mas nós somos totalmente incapazes disso, porque temos uma vida nova, tendo morrido para o pecado de uma vez por todas.
O batismo de Cristo no Jordão foi figura do mistério de sua ressurreição.
"Nosso velho homem" refere-se aos nossos corpos perecíveis e passíveis.
Aqui Paulo mostra que a razão pela qual já não pecamos não é que, depois do batismo, deixemos de ser feitos de carne. Até este ponto, reivindicamos a perfeição de Cristo somente pela fé, e não pela experiência. Pois ainda não nos tornamos impassíveis nem imortais... Por isso Paulo não diz: "Não pequeis", mas antes: "Não reine o pecado em vosso corpo mortal."
Paulo contrapõe "Espírito" a "letra", "novidade" a "vetustade", e por esses nomes nos mostra quão diferentes são as duas coisas.
"'Lei' e 'mandamento' são, aqui, sinônimos. O mandamento chama-se 'santo' porque nos afasta do pecado e nos separa do mal; 'justo' porque, com sua retidão, honra os que lhe obedecem e pune os que o transgridem; 'bom' porque nos conduz ao bem, e isto em razão da bondade concedida por Deus. A lei não é pecado pelo fato de me mostrar o que é mau, mas antes o contrário."
Tudo isto faz lembrar o que foi dito pelo Senhor nos Evangelhos: "O espírito está pronto, mas a carne é fraca."
Paulo não disse "homem mau" nem "homem perverso", mas antes "homem miserável"... pois, tendo mostrado que este homem contemplava o bem com a mente, mas era arrastado ao mal pela paixão da carne, apresenta-o como mais digno de misericórdia do que de castigo.
Vede quão grande é a graça de Cristo, pois nos libertou da condenação.
Fomos feitos herdeiros de uma vida isenta de dor e imortal pelo dom gratuito do Espírito, e todos nos tornamos espirituais, libertos do pecado e da morte que ele causa.
"Morte" é o estranhamento e o castigo [vindo] de Deus; "vida" é a imortalidade, e "paz" é a comunhão com Ele.
Os judeus que se opunham aos apóstolos e à sua mensagem afirmavam que uma ou outra das seguintes proposições havia de ser verdadeira. Ou o evangelho é mentira, ou Deus é mentiroso... Pois Deus prometeu a Abraão que abençoaria a sua descendência, mas agora concedeu favor a um povo impuro e estrangeiro, isto é, aos gentios, em nosso lugar. Ora, se a vossa pregação é uma via de escape a estas promessas, como afirmais, então é evidente que Deus mentiu a nossos antepassados. Se, por outro lado, é errado falar assim de Deus, então vós e a vossa mensagem sois mentira. Foi para responder a este tipo de acusação que o apóstolo Paulo quis elaborar uma posição alternativa e demonstrar tanto que a mensagem do evangelho era verdadeira quanto que Deus não mentia.
Foi muitos anos depois do fato que a Escritura testemunhou isto nas palavras do profeta Ageu [Malaquias]. Paulo acrescentou esta citação porque quis mostrar que o juízo de Deus é justo, pois, embora estivesse de acordo com sua presciência, as vidas de ambos os homens seguiram depois estes caminhos diferentes.
Paulo chama o Senhor Cristo de pedra de tropeço porque aqueles que não aceitaram nele a nova aliança tropeçaram nele e, por sua incredulidade, caíram da graça da justificação que foi dada aos homens por meio dele.
Tendo ele mesmo sido outrora um deles, Paulo compreendeu e testemunhou que os judeus combatiam o evangelho por zelo de Deus, mas era um zelo não instruído pelo verdadeiro conhecimento.
Cristo cumpriu o propósito da lei ao conceder a justiça que vem pela fé nele a todos quantos o acolheram.
Comparando a lei com a glória da graça, diz Paulo que nem mesmo Moisés poderia ser justificado pela lei, a não ser que cumprisse todos os mandamentos da lei.
O apóstolo se exprime desta maneira... porque deseja mostrar que a lei e a graça são completamente incompatíveis e que jamais podem coexistir. É de necessidade que uma expulse a outra.
O espírito de estupor impediu-os de fazer a difícil escolha do arrependimento e da conversão.
Paulo chama o Senhor Cristo de "primícias", porque Ele era, segundo a carne, um dentre eles, e, por Sua ressurreição, tornou-Se o primeiro a reivindicar a herança.
Uma vez removidos e perdoados os seus pecados, a sua salvação será manifesta e indiscutível.
Sendo ilimitada a plenitude das misericórdias de Deus para conosco, sinto-me compelido, e a todos exorto, a que sejamos separados e oferecidos a Deus como sacrifício completo. Pois o presente sacrifício não conduz à morte, como aquele sob a lei, mas, santificando-nos, conduz à vida eterna, porquanto é agradável a Deus, sendo a oferta das criaturas racionais muito mais preciosa que a das irracionais.
Disse Paulo isto em crítica aos irmãos que corriam atrás dos dons carismáticos. Deus não nos deu Seu dom para que nos odiássemos uns aos outros, nem para que as coisas espirituais se tornassem pretexto de contenda, mas para que gozássemos de harmonia, amizade e da salvação comum de todos. Nenhum de vós possui coisa alguma por direito próprio; antes, tanto aquele que é digno do maior quanto aquele que é digno do menor dos dons carismáticos recebeu-o de Deus. Sabendo disto, deve cada um usá-lo segundo a medida de sua fé.
"Na proporção da nossa fé" não se aplica apenas à profecia, mas pode ser estendido por analogia a todos os dons.
A misericórdia de Deus não vos abandona nestas circunstâncias, antes sois constante e ubiquamente socorridos por Ele em todas as coisas.
Paulo chama os crentes de "santos" porque foram chamados à santidade.
Paulo quer que exibam tamanho amor fraterno, de modo que os que desejam persegui-los não tenham nenhuma desculpa para fazê-lo.
Paulo diz que quer que os cristãos tenham o espírito reto, ainda que outros pensem de modo diverso.
"Tributo" e "renda" são a mesma coisa.
A cada dia o fim se aproxima mais, e já estamos no limiar da ressurreição.
Quem seria tão desumano que despojasse de toda compaixão para com os fracos e os pisasse aos pés, não lhes oferecendo sequer o socorro de que necessitam na adversidade? Paulo faz disto um preceito absoluto, e o acompanha do ensino de que a lei e todo o comportamento que ela implicava foram abolidos em Cristo. Contudo, estava ele consciente de que a herança étnica pesava mais gravemente sobre o judeu, o qual sentia que pecaria contra os irmãos se agisse contra a lei.
Mais uma vez toma Paulo o tema que antes propusera e, acrescentando a palavra irmão, mostra quão inconveniente é esta espécie de julgamento.
Vede quão admiravelmente desenvolve Paulo o seu argumento. Começa pelo mais baixo, referindo-se ao alimento. Depois passa a chamar de "irmão" aquele contra quem se peca. Em seguida, chama "destruição" ao que lhe foi feito. Em quarto lugar, diz que este ultraje foi cometido contra alguém "por quem Cristo morreu". Em quinto lugar, diz que aquele que assim procede faz com que a piedade seja blasfemada, e, em sexto lugar, que não chegamos à fé em Cristo para podermos desfrutar disto ou daquilo, mas para podermos participar da justiça, isto é, da isenção de pecado, da paz e do gozo.
Por "o Deus de toda esperança" Paulo quer dizer que Deus nos abençoou com a esperança das coisas vindouras.
A explicação de por que Paulo ainda não conseguira visitar os romanos parece ser que ele cria que Pedro já viera até eles como seu mestre; assim, ele foi a lugares onde ainda ninguém havia pregado o evangelho de Cristo.