Glossa Ordinária
Compilação medieval das escolas
A Glossa Ordinária não é um Padre, mas a grande compilação de comentários patrísticos organizada nas escolas de Laon no século XII. Tornou-se o aparato padrão de estudo da Bíblia na universidade medieval: cada versículo acompanhado das vozes da tradição. Tomás de Aquino a usa como fio condutor na Catena.
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Ou é preciso supor duas Betânias: uma além do Jordão, outra deste lado, não longe de Jerusalém, a Betânia onde Lázaro foi ressuscitado dos mortos.
Depois que o Evangelista mostrou como São João reprimiu a inveja de seus discípulos, que haviam concebido pelo progresso da doutrina de Cristo; aqui mostra como Cristo enfrentou a malícia dos fariseus, que eram movidos contra Ele pela mesma causa, por zelo de inveja; por isso diz: "Quando, pois, Jesus soube que os fariseus tinham ouvido", etc.
Porque tinha dito que o Filho vivifica aqueles que Ele quer, consequentemente mostra como se chega à vida por meio do Filho, dizendo: em verdade, em verdade vos digo, que aquele que ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna.
Isto não se encontra em Joel, mas algo semelhante: pois ali se diz: "filhos de Sião, exultai e alegrai-vos no Senhor vosso Deus: porque nos deu um doutor". De maneira mais expressa, porém, está em Isaías, onde se diz: "porei todos os teus filhos instruídos pelo Senhor".
Certamente as envia das trevas da ignorância para a luz, enquanto caminha adiante delas, como em uma coluna de nuvem e de fogo.
Eles observaram para caluniar, conforme aquilo: "O pecador observará o justo"(Salmo 36,12).
Para o qual Cristo foi enviado, para o mesmo também estes foram; donde São Paulo: "Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo, e pôs em nós a palavra da reconciliação". Porém isto que ele diz "assim como", não é posto igualmente para ele e para os apóstolos, mas como era possível aos homens. Ele diz que os enviou ao mundo, segundo era seu costume, falando do futuro como se já fosse feito.
O Evangelista havia mostrado como Judas pôde chegar ao lugar onde Cristo estava; agora mostra como chegou lá, dizendo: Judas, portanto, tendo recebido a coorte e, dos pontífices e fariseus, os guardas, veio para lá com lanternas e tochas e armas.
Assim como o tribunal é para os juízes, assim o trono ou sólio é para os reis, e a cátedra para os doutores.
Por ordem do governador, os soldados tomaram a Cristo para ser crucificado; por isso diz: Tomaram, pois, a Jesus e o conduziram.
E por isso correu para anunciar aos discípulos, para que com ela buscassem ou com ela se entristecessem; e isto é o que segue: correu, pois, e veio a Simão Pedro e ao outro discípulo a quem Jesus amava.
É uma interposição; pois segue-se "puxando a rede com peixes": para que a ordem do texto seja: os outros discípulos vieram em um barco puxando a rede com peixes: pois não longe
Ou de outro modo: "Assim quero que ele permaneça"; isto é, não quero que ele seja consumado pelo martírio, mas que espere pela plácida dissolução da sua carne, quando Eu, vindo, o receberei na eterna bem-aventurança.
Acrescenta-se também o lugar para onde é enviado, quando se diz: "à cidade da Galileia, cujo nome é Nazaré". Pois anunciava-se que viria o Nazareno, isto é, o Santo dos Santos.
Como a prosperidade humana parece consistir principalmente nas honras dos poderosos e na abundância de riquezas, depois da derrubada dos poderosos e da exaltação dos humildes, ele faz menção do esvaziamento dos ricos e da repleção dos pobres, dizendo: Ele encheu os famintos de bens, e despediu vazios os ricos.
Depois da comemoração geral da piedade e justiça divina, converte as palavras para a singular dispensação da nova encarnação, dizendo "acolheu Israel, seu servo": como um médico ao enfermo, feito visível entre os homens, para fazer de Israel, isto é, daquele que vê a Deus, seu servo.
Pois Deus realizava prodígios nele, os quais não era São João quem fazia, mas a destra divina.
Não só se admiram do mistério da encarnação, mas também de tão grande testemunho dos pastores, que não saberiam inventar coisas inauditas, mas com simples eloquência proclamavam a verdade
Um dia retornaram de Jerusalém; no segundo dia, procuraram entre os parentes e conhecidos; e não o encontrando, no terceiro dia regressaram a Jerusalém, e ali o encontraram; pelo que segue e aconteceu que, após três dias, encontraram-no no templo.
Antes mesmo que São Lucas narre algo sobre os atos de Jesus, ele diz que São João foi preso por Herodes; para mostrar que ele iria descrever principalmente somente aqueles feitos do Senhor que foram realizados naquele ano em que São João foi preso ou punido.
Que se interpreta exploração ou maldade; que foi de Nachor, que é descansou a luz; que foi de Sarug, que é correia ou aquele que segura as rédeas ou perfeição; que foi de Ragau, que é enfermo ou que apascenta; que foi de Phaleg, que é dividindo ou dividido; que foi de Heber, que é passagem; que foi de Sale, que é o que tira; que foi de Cainan, que é lamentação ou possessão deles.
Como se dissessem: Porque em Cafarnaum ouvimos que curaste a muitos, cura-te também a ti mesmo; isto é, faze coisas semelhantes em tua própria cidade, onde foste concebido e nutrido.
Levantando-se os adversários contra os milagres e a doutrina de Cristo, elegeu os apóstolos como defensores da verdade e testemunhas: a cuja eleição antepôs a oração; por isso diz: Aconteceu, pois, naqueles dias, saiu para um monte orar.
Pois ninguém pode, por si mesmo, libertar-se da dívida do pecado, a não ser que obtenha o perdão pela graça divina.
Não remove, portanto, a licença de impetrar, mas acende mais veementemente o desejo de orar, uma vez mostrada a dificuldade de conseguir; pois segue-se que "já está fechada a porta".
O Senhor prometera que o Espírito bom seria dado aos que orassem; cujo benefício, de fato, demonstra pelo milagre subsequente; de onde se diz "e Jesus estava expulsando um Demônio, e este era mudo".
Diz, pois, como, quanto ao modo de falar; que, quanto ao modo de encontrar; respondais, aos que perguntam, ou que digais, aos que desejam aprender.
Ou os ladrões são os hereges e os demônios, que estão empenhados em nos despojar dos bens espirituais. A traça, que secretamente corrói as vestes, é a inveja, que destrói o bom empenho e rompe os laços da unidade.
Como havia mencionado as penas dos pecadores, oportunamente é-lhe anunciado o castigo de alguns pecadores, de cujo exemplo Ele também ameaça com castigo a outros pecadores; por isso diz-se: Estavam presentes, no mesmo tempo, alguns que lhe anunciavam a respeito dos galileus, cujo sangue Pilatos misturou com os sacrifícios deles.
Envergonhando-se os adversários, e o povo regozijando-se com as coisas gloriosas que eram feitas por Cristo, conseqüentemente manifesta o progresso do Evangelho sob algumas similitudes; donde diz: Dizia, pois: A que é semelhante o reino de Deus e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda.
Esta questão parece pertencer àquilo de que acima se tratava: pois na parábola precedente havia dito que as aves do céu descansaram em seus ramos; pelo que se pode entender que muitos alcançariam o descanso da salvação. E porque aquele único havia perguntado por todos, o Senhor não lhe responde singularmente; por isso segue: Ele, porém, disse-lhes: esforçai-vos por entrar pela porta estreita.
Isto é, aqueles que exigem os tributos públicos, ou os arrendam, e aqueles que buscam lucros do mundo através dos negócios.
Ou ninguém lhe dava, porque quando o Diabo faz alguém seu, não mais lhe providencia abundância, sabendo que ele está morto.
Não apenas os discípulos obedeceram a Cristo trazendo um jumentinho alheio, mas também com suas próprias vestes, das quais parte puseram sobre o jumento e parte estenderam pelo caminho; por isso segue: e o conduziram a Jesus, e lançando as suas vestes sobre o jumentinho, colocaram Jesus sobre ele. E à medida que ele avançava, estendiam as suas vestes pelo caminho.
Depois que o Senhor repreendeu a avareza dos escribas que devoravam as casas das viúvas, louva a esmola de uma viúva; por isso diz: E olhando, viu os ricos que lançavam suas ofertas no gazofilácio, etc.
E descobrindo estes sinais, os discípulos cumpriram diligentemente o que lhes fora ordenado; por isso segue: E indo, encontraram conforme Jesus lhes havia dito, e prepararam a Páscoa.
Terminada a oração de Cristo, procede-se à narrativa de sua traição, na qual é traído por um discípulo; pois diz-se: E, ainda falando ele, eis que chegou uma multidão, e aquele que se chamava Judas, um dos doze, ia à frente deles.
Depois de estabelecida a condenação de Cristo, convenientemente se trata da crucificação, quando diz: E quando o conduziam, detiveram um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a levasse após Jesus.
Depois da manifestação da ressurreição de Cristo feita pelos Anjos às mulheres, a mesma ressurreição é posteriormente manifestada pela própria aparição de Cristo aos Seus discípulos; como está dito, E eis que dois deles iam naquele mesmo dia para um castelo.
E não somente pelos atos o compelem, mas também com palavras o induzem; pois segue-se dizendo: Fica conosco, pois se faz tarde, e já está o dia inclinado, isto é, para o ocaso.
Ele dizia isto para remover a opinião da multidão, que acreditava que ele era o Cristo; anunciava, porém, que Cristo era mais forte, que havia de perdoar os pecados, o que ele mesmo não era capaz de fazer.
Exposta a pregação de Cristo às multidões, trata o Evangelista da vocação dos discípulos, os quais fez ministros da sua pregação; donde segue-se e passando junto ao mar da Galileia, viu Simão, e André seu irmão.
Pois aquelas coisas que os homens muito admiram, prontamente divulgam, porque da abundância do coração a boca fala(São Mateus 12,34).
Assim como anteriormente o mestre era arguido perante os discípulos pelo convívio com pecadores em banquetes, assim agora, inversamente, os discípulos são acusados perante o mestre pela omissão dos jejuns, para que surgisse entre eles matéria de dissensão; por isso se diz e estavam os discípulos de São João e dos fariseus jejuando.
E porque já mostrou pelo exemplo que um demônio não expulsa outro demônio, mostra como ele pode ser expulso, dizendo: Ninguém pode entrar na casa do forte e roubar seus bens.
E por isto o Senhor, dizendo estas coisas, mostra que convém a eles entender tanto esta primeira, como todas as parábolas subsequentes; por isso, explicando, acrescenta: O semeador semeia a palavra.
Depois de ter apresentado a parábola da frutificação da semente do Evangelho, aqui acrescenta outra parábola para mostrar a excelência da doutrina evangélica em relação a todas as outras doutrinas; por isso diz: E dizia: A que compararemos o reino de Deus?
Do movimento do mar, em verdade, surge certo som, o qual parece ser como que uma fala do mar anunciando perigo; e por isso, convenientemente, sob uma certa metáfora, ordena a tranquilidade por um vocábulo de taciturnidade; assim como na contenção dos ventos, que com sua violência perturbam o mar, empregou a palavra admoestação. De fato, aqueles que possuem autoridade costumam, pela ameaça de penas, refrear aqueles que, com violência, perturbam a paz dos homens. Por isto, pois, dá-se a entender que assim como um rei pode conter os violentos pela admoestação, e com seus editos acalmar o murmúrio do povo submisso, assim Cristo, existindo como rei de toda a criação, por sua admoestação conteve a violência dos ventos, e impôs taciturnidade ao mar: e imediatamente seguiu-se o efeito; pois segue-se e cessou o vento, ao qual certamente havia admoestado, e fez-se uma grande tranquilidade; isto é, no mar, ao qual havia imposto taciturnidade.
O Evangelista acrescentou isso para mostrar que a menina tinha uma idade em que podia andar. Pelo seu andar, se mostra não apenas que foi ressuscitada, mas também perfeitamente curada. Segue-se: E ficaram assombrados com grande assombro; e ordenou-lhes veementemente que ninguém soubesse disso; e mandou que lhe dessem de comer.
Após a pregação dos discípulos de Cristo e a realização dos milagres, convenientemente o Evangelista acrescenta sobre a fama que se levantava entre o povo; por isso diz e o rei Herodes ouviu.
Ele o temia, digo, reverenciando-o; pois sabia que ele era justo, quanto aos homens, e santo, quanto a Deus; e o protegia, para que não fosse morto por Herodíades; e, ouvindo-o, fazia muitas coisas: porque julgava que ele falava pelo Espírito de Deus; e o ouvia de bom grado: porque considerava úteis as coisas que por ele eram ditas.
Depois que o Evangelista narrou a morte de São João, narra aquelas coisas que Cristo fez com seus discípulos após a morte de São João, dizendo: E reunindo-se os apóstolos junto a Jesus, relataram-lhe todas as coisas que haviam feito e ensinado.
O Senhor, de fato, no milagre dos pães, mostrou que era o Criador de todas as coisas; agora, porém, andando sobre as ondas, ensinou que possuía um corpo livre do peso de todos os pecados; e ao acalmar os ventos e aplacar a fúria das ondas, demonstrou que dominava sobre os elementos. Por isso diz: e imediatamente obrigou seus discípulos a subirem à barca, para que fossem adiante dele para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia o povo.
Como o Evangelista havia exposto o perigo que os discípulos haviam suportado durante a navegação, e como foram libertados, agora mostra aonde chegaram navegando, dizendo: e tendo atravessado, chegaram à terra de Genezaré, e aportaram.
Dos maus pensamentos, porém, procedem atos maus mais graves, a respeito dos quais se acrescenta: adultérios, que consistem na violação do leito alheio; fornicações, que são relações ilícitas entre pessoas não unidas pelo matrimônio; homicídios, pelos quais se inflige dano à pessoa do próximo; furtos, pelos quais se subtraem os seus bens; avareza, enquanto se retém algo injustamente; maldades, que consistem em calúnias contra o próximo; dolo, no engano deles; impudicícia, no que diz respeito a qualquer corrupção da mente ou do corpo.
Da pregação, porém, dos que foram curados por Cristo, crescia a admiração das multidões e a confissão dos benefícios de Cristo; de onde se segue: e tanto mais se admiravam, dizendo: Tudo fez bem: fez os surdos ouvirem e os mudos falarem.
Depois da refeição das multidões, o Evangelista acrescenta sobre a iluminação do cego, dizendo: e vêm a Betsaida, e trazem-lhe um cego, e rogavam-lhe que o tocasse.
Ele chama São João de Elias, não porque era Elias em pessoa, mas porque cumpria o ministério de Elias; pois assim como este será o precursor do segundo advento, assim aquele foi o do primeiro.
Nas palavras de sua petição, ele expressa a falta de fé; de onde acrescenta: Mas se podes algo, ajuda-nos, compadecido de nós. Pois quando ele diz se podes algo, manifesta que duvida de seu poder, porque vira que seu filho não fora curado pelos discípulos de Cristo. Diz também compadecido de nós, para designar a miséria do filho que sofria e do pai que sofria com ele. Segue-se: Jesus, porém, disse-lhe: Se podes crer, tudo é possível ao que crê.
Por debilitado ele diz, privado do auxílio de algum amigo, pois é melhor entrar na vida sem um amigo, do que ir com ele para a Geena.
Pois a repetição da sentença da Palavra não produz fastio, mas fome e sede; por isso os que me comem ainda terão fome; e os que me bebem ainda terão sede. Pois os eloquentes discursos melífluos da sabedoria, quando provados, oferecem múltiplos sabores aos que os amam; por isso o Senhor instrui novamente os discípulos, pois segue: e disse-lhes: qualquer que deixar sua mulher e tomar outra, comete adultério contra ela.
Como o jovem, ao ouvir o conselho do Salvador sobre abandonar os seus bens, retirara-se triste, os discípulos de Cristo, que já haviam cumprido o preceito anterior, começaram a questioná-Lo sobre sua recompensa, pensando que haviam feito algo grandioso, uma vez que o jovem, que tinha cumprido os mandamentos da lei, não pudera ouvir isso sem tristeza. Por isso Pedro interroga o Senhor por si mesmo e pelos outros, e isto é o que se diz: e Pedro começou a dizer-Lhe: Eis que nós deixamos tudo e Te seguimos.
Aquele, a saber, a quem pertence padecer: pois a divindade não pode padecer. Será entregue, a saber, por Judas, aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e aos anciãos, e o condenarão à morte, julgando-o réu de morte. E o entregarão aos gentios, a saber, a Pilatos, gentio; e seus soldados o escarnecerão; e cuspirão nele, e o açoitarão, e o matarão.
Mas o Evangelista mostra qual efeito a correção do Senhor teve sobre os ministros do templo, quando acrescenta: ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os escribas buscavam como o destruiriam; segundo aquela palavra de Amós: odiaram aquele que os repreende na porta e abominaram aquele que fala com perfeição(Amós 5,10). Porém, deste tão iníquo propósito foram temporariamente impedidos somente pelo temor: por isso acrescenta temiam-no, porque toda a multidão admirava-se com sua doutrina. Pois lhes ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas e fariseus, como é dito em outro lugar.
Depois que o Senhor, com prudente interrogação, fechou as bocas dos que O tentavam, consequentemente demonstra a malícia deles por meio de uma parábola; por isso se diz: E começou a falar-lhes em parábolas: Um homem plantou uma vinha.
Depois que o Senhor sabiamente evitou a ardilosa tentação dos fariseus, mostra-se como também confundiu os saduceus que O tentavam; por isso é dito: e vieram a Ele os saduceus, que dizem não haver ressurreição.
Depois que o Senhor refutou os fariseus e os saduceus que o tentavam, aqui se mostra como Ele satisfez ao escriba que o questionava; donde se diz: e aproximou-se um dos escribas que os ouvira disputar, e vendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe qual era o primeiro de todos os mandamentos.
Assim, portanto, o Senhor conclui com base no que foi dito antes a questão duvidosa: pois das palavras de Davi mencionadas anteriormente, tem-se que Cristo é o Senhor de Davi; mas segundo o dito dos Escribas, tem-se que Ele é seu filho; e isto é o que se acrescenta: "O próprio Davi, pois, O chama Senhor; como, então, é Ele seu filho?"
Também poderia surgir outra preocupação nos corações dos discípulos; pois como tinham ouvido que seriam levados perante reis e governadores, para que não duvidassem de que, por falta de conhecimento próprio e de eloquência, fossem insuficientes para responder, o Senhor os consola acrescentando: "E quando vos conduzirem para vos entregar, não penseis de antemão o que haveis de dizer; mas o que vos for dado naquela hora, isso falai".
Depois de ter mencionado o duplo impedimento à fuga, que poderia surgir ou do desejo de levar consigo os bens, ou do embaraço de transportar os filhos, Ele toca no terceiro obstáculo, que é da parte do tempo, dizendo: orai, pois, para que a vossa fuga não aconteça no inverno.
Depois que o Senhor predisse o escândalo dos seus discípulos, agora o Evangelista narra sobre sua oração, na qual se crê que rogou pelos discípulos: e primeiramente descrevendo o lugar da oração, diz "E chegaram a um lugar chamado Getsêmani".
O Evangelista havia narrado anteriormente como o Senhor fora capturado pelos ministros dos sacerdotes; agora começa a narrar como Ele foi sentenciado à morte na casa do príncipe dos sacerdotes; por isso diz: "E conduziram Jesus ao sumo sacerdote".
O que ele costumava fazer para captar a graça do povo, e principalmente no dia de festa, quando de toda a província dos judeus o povo confluía para Jerusalém. E para que a improbidade maior dos judeus apareça, descreve-se consequentemente a enormidade da culpa do ladrão, a quem os judeus preferiram a Cristo; donde segue estava, porém, o que se chamava Barrabás, que com os sediciosos estava preso, o qual na sedição havia cometido homicídio: no que se mostra tanto pela gravidade da culpa notável, pois havia cometido homicídio; como pelo modo de fazê-lo, porque o fizera com a perturbação da cidade, concitando sedição; e também porque sua culpa era manifesta, pois estava preso com os sediciosos. Segue-se e tendo subido a multidão, começou a rogar como sempre fazia a eles.
Após a condenação de Cristo e os ultrajes infligidos ao condenado, o Evangelista procede a narrar sua crucificação, dizendo: "E o conduzem para fora, a fim de crucificá-lo".
Depois que o Evangelista narrou a paixão e a morte de Cristo, agora prossegue tratando daquilo que aconteceu após a morte do Senhor; por isso é dito: "E o véu do templo rasgou-se em dois, do alto até embaixo".
Depois da paixão e morte de Cristo, o Evangelista narra o seu sepultamento, dizendo: "E, quando já era tarde, posto que era a parasceve, que é o dia anterior ao sábado, veio José de Arimateia".
Porque as mulheres religiosas, depois do sepultamento do Senhor, enquanto era lícito trabalhar, isto é, até o pôr do sol, prepararam unguentos, como diz São Lucas. E como não puderam terminar por causa da brevidade do tempo, logo que passou o sábado, isto é, ao pôr do sol, quando retornou a permissão para trabalhar, apressaram-se a comprar aromas, como diz Marcos aqui, para que viessem pela manhã e ungissem o corpo de Jesus; e nem mesmo na tarde do sábado puderam ir ao sepulcro, pois já se aproximava a hora da noite; por isso segue: e muito cedo, no primeiro dia da semana, vêm ao sepulcro, tendo já nascido o sol.
Marcos, ao completar sua narração evangélica, comemora a última aparição, na qual Cristo apareceu aos discípulos após a ressurreição, dizendo: "Por fim, apareceu aos onze, quando estavam reclinados à mesa".
Outros, porém, negaram a verdadeira humanidade de Cristo. Valentino, na verdade, disse que Cristo, enviado pelo Pai, trouxe consigo um corpo espiritual ou celestial, e nada assumiu da Virgem Maria, mas através dela, como através de um canal ou tubo, passou sem assumir carne alguma. Nós, porém, não cremos que nasceu da Virgem Maria porque de outro modo não poderia existir em verdadeira carne e aparecer aos homens, mas porque assim está escrito na Escritura, à qual, se não crermos, nem cristãos nem salvos poderemos ser. Se, porém, de uma criatura celestial, ou aérea, ou úmida, quisesse transformar o corpo assumido na mais verdadeira qualidade da carne humana, quem negaria que ele poderia fazê-lo?
Porém, Judá é o único mencionado pelo nome, e isso porque o Senhor descende somente dele. Mas em cada um dos patriarcas devemos notar não apenas sua história, mas também o significado alegórico e moral que pode ser extraído deles; alegoria, ao ver a quem cada um dos pais prefigurou; instrução moral naquilo que, através de cada um dos pais, alguma virtude pode ser edificada em nós, seja pela significação de seu nome, seja pelo seu exemplo.1 Abraão é, em muitos aspectos, uma figura de Cristo, e principalmente em seu nome, que é interpretado como 'pai de muitas nações', e Cristo é pai de muitos fiéis. Abraão, além disso, saiu de sua própria parentela e habitou em terra estranha; de modo semelhante, Cristo, deixando a nação judaica, foi por meio de seus pregadores por entre os gentios.
[1] Orígenes considerava que havia três sentidos da Escritura: o literal ou histórico, o moral, e o místico ou espiritual, correspondendo às três partes do homem: corpo, alma e espírito. Homilia in Leviticum ii, 5, de Principio iv, p. 168. Pelo sentido moral entende-se, como o nome implica, uma aplicação prática do texto; pelo místico, aquele que o interpreta do mundo invisível e espiritual. ↩
Ele mesmo acolhe Rahab, isto é, a Igreja dos gentios. Pois Rahab significa fome, ou largura, ou ímpeto, porque a Igreja dos gentios tem fome e sede de justiça e, pelo ímpeto da doutrina, converte filósofos e reis. Ruth também é interpretada como 'a que vê' ou 'a que se apressa'1, e significa a Igreja que, com coração puro, vê a Deus e se apressa para o prêmio da vocação celeste.
[1] Nota editorial: E assim Jerônimo, de ראה, e talvez רוץ para o segundo. ↩
O Evangelista terminou agora as primeiras quatorze gerações, e chega à segunda série, que consiste de personagens reais, e portanto ele começa com Davi, que foi o primeiro rei na tribo de Judá, dizendo: Davi, o rei, gerou Salomão daquela que foi mulher de Urias.
Misticamente, Davi é Cristo, que venceu Golias, isto é, o Diabo. Urias, que significa "Deus é minha luz", é o Diabo, que diz: Serei semelhante ao Altíssimo. A ele estava unida a Igreja, quando Cristo, do trono da majestade de seu Pai, a amou e, tendo-a tornado bela, uniu-a a si em matrimônio. Ou Urias é o povo judaico, que por meio da lei se gloria de sua luz. Deles Cristo retirou a lei, tendo ensinado que ela falava dele mesmo. Bersabeia é "o poço da saciedade", isto é, a abundância da graça espiritual.
Ele é também Eleazar, isto é, 'Deus meu auxiliador', conforme aquele texto: "Deus meu, auxiliador meu". Ele é também Mathan, isto é, 'que doa' ou 'doado', conforme aquele texto: "deu dons aos homens", e: "assim Deus amou o mundo que deu o seu Filho unigênito".
Depois de todas as gerações dos pais, coloca por último a geração de José, esposo de Maria, por causa da qual todas as outras são introduzidas, dizendo: Jacó, porém, gerou José.
Ou neste número está significada a graça septiforme do Espírito Santo; pois este número é composto de sete; o fato de ser duplicado significa que a graça do Espírito Santo é necessária tanto para o corpo quanto para a alma para a salvação. Assim, portanto, esta genealogia divide-se em três grupos de catorze: o primeiro é de Abraão até Davi, de modo que Davi está aí incluído; o segundo é de Davi até o exílio, de modo que Davi não está aí incluído, mas o exílio está contido nele; o terceiro é do exílio até Cristo, no qual, se dissermos que Jeconias é contado duas vezes, o exílio está incluído. No primeiro são significados os homens antes da Lei, no qual encontramos alguns homens da lei natural, a saber, Abraão, Isaac e Jacó, até Salomão; no segundo são significados os homens sob a Lei: pois todos os que nele se encontram estavam sob a Lei; no terceiro, os homens da graça, porque termina em Cristo, que foi o doador da graça, na qual também a libertação do cativeiro da Babilônia foi realizada, significando a libertação do cativeiro feita por Cristo.
O que aqui é dito, "é do Espírito Santo", o Evangelista acrescentou por sua parte, para que, quando se dissesse que ela tinha em seu ventre, toda má suspeita fosse removida das mentes dos ouvintes.
Ou quando não queria recebê-la em sua casa para uma coabitação contínua, quis ocultamente deixá-la, isto é, mudar o tempo das núpcias; pois a verdadeira virtude é quando nem a piedade sem justiça, nem sem piedade se conserva a justiça, as quais, separadas uma da outra, desvanecem-se. Ou era justo pela fé, pela qual acreditava que Cristo nasceria de uma virgem; por isso quis humilhar-se diante de tão grande graça.
Nascer nela e nascer dela são duas coisas diferentes: nascer dela é vir à luz; nascer nela é o mesmo que ser concebido. Ou a palavra "nascido" é usada de acordo com a presciência do Anjo que ele tem de Deus, para quem o futuro é como o passado.
Para que José não parecesse mais desnecessário para o matrimônio, já que a concepção havia acontecido sem sua ajuda, o Anjo mostra que, embora não tenha sido necessário para a concepção, ele é útil para o cuidado, pois ela dará à luz um filho, e então será necessário tanto para a mãe quanto para o filho: para a mãe, para defendê-la da infâmia, para o filho, para alimentá-lo e circuncidá-lo; circuncisão esta que é indicada quando diz e chamarás o seu nome Jesus. Pois era costume dar o nome na circuncisão.
Ou pode-se dizer que a palavra "para que" aqui não denota causa: pois não foi cumprido porque devia ser cumprido; mas é colocada consecutivamente, como em Gênesis: "suspendeu o outro na forca, para que a verdade do intérprete fosse provada", uma vez que, com a suspensão de um, a verdade do intérprete foi provada; assim também neste lugar deve-se entender que, por este fato que foi predito, a profecia foi cumprida.
Ou é chamado primogênito entre todos os eleitos pela graça; mas propriamente diz-se unigênito de Deus Pai ou de Maria. Segue-se e chamou seu nome Jesus, no oitavo dia, quando se realizava a circuncisão e se impunha o nome.
Estes magos eram reis, e se se diz que ofereceram três dons, não significa com isto que eles não fossem mais do que três, mas que neles estavam representadas todas as nações descendentes dos três filhos de Noé que seriam chamadas à fé. Se os príncipes foram três, podemos crer que o número dos que os acompanhavam era muito maior. Não vieram depois de um ano, porque então teriam encontrado o menino no Egito e não na manjedoura, mas ao décimo terceiro dia de seu nascimento. Diz-se "do oriente" para manifestar o lugar de onde vinham.
Querendo favorecer aquele a quem temia; pois o povo favorece mais do que devia a quem suporta com crueldade. Segue-se "e reunindo todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo". Onde se nota a diligência do inquiridor, para que se o encontrasse, fizesse o que depois mostrou querer; mas se não, ficaria desculpado perante os romanos.
Segundo outros, acredita-se que a estrela apareceu somente no dia do nascimento de Cristo, e tendo cumprido seu ofício, sendo nova, deixou de existir. Pois disse São Fulgêncio: "O menino recém-nascido fabricou uma nova estrela". E tendo conhecido o lugar e o tempo, não quer ignorar a pessoa do menino; por isso diz: "Ide e interrogai diligentemente acerca do menino". Ele ordenou aquilo que, mesmo sem ordem, teriam feito.
Ou a estrela é a iluminação da fé, que conduz ao auxílio mais próximo; ao se desviarem para os judeus, os magos a perdem; porque aqueles que buscam conselho dos maus perdem a verdadeira luz.
Os três homens que oferecem representam as nações vindas das três partes do mundo. Abrem seus tesouros ao manifestar a fé de seus corações por meio da confissão. Acertadamente "na casa", ensinando que não devemos ostentar com vanglória o tesouro da boa consciência. Oferecem três dons, isto é, a fé na Santíssima Trindade; ou, abrindo os tesouros das Escrituras, oferecem o sentido histórico, moral e alegórico; ou a Lógica, a Física e a Ética, fazendo com que todas sirvam à fé.
Esta resposta é dada pelo próprio Senhor, porque ninguém mais instituiu o caminho de volta senão aquele que diz: "Eu sou o caminho". Contudo, o menino não lhes fala, para que a divindade não seja revelada antes do tempo, e para que a verdadeira humanidade seja mantida. Diz, porém, "e tendo recebido resposta"; pois assim como Moisés clamava em silêncio, assim eles, com piedoso afeto, perguntavam o que a vontade divina ordenava. Diz também que "voltaram por outro caminho à sua região", porque não deviam misturar-se à infidelidade dos judeus.
Ela não quer ser consolada no presente, porque eles não existem mais, mas transfere toda sua esperança e consolação para a vida eterna.
José não foi desobediente à advertência angélica; por isso segue-se que levantando-se, tomou o menino e sua mãe e veio para a terra de Israel. Pois o Anjo não havia determinado em que lugar da terra de Israel; para que José, estando em dúvida, retornasse novamente, e com a visita mais frequente do Anjo se tornasse mais seguro; por isso segue-se mas ouvindo que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá.
Diz, pois: "Aproximar-se-á o reino dos céus", porque se não se aproximasse, ninguém poderia voltar, pois os enfermos e cegos careciam do caminho, que é Cristo.
Batismo precursor, não perdoador de pecados1
[1] Nota do editor: Tertuliano (de Bapt. 10. 11), São Jerônimo (adv. Lucifer. 7), São Gregório (Hom. in Evang. vii. 3), Teófilacto em Marc. cap. i, Santo Agostinho (de Bapt. e Donat. v. 10) consideravam que o batismo de São João dava uma espécie de remissão suspensiva ou implícita, a ser realizada na Expiação; e São Cirilo de Jerusalém, Cat. iii. 7-9, São Gregório de Nissa in laud. Bas. t. 3. p. 482. vid. Dr. Pusey sobre o Batismo, Ed. 2. pp. 242-271 ↩
Por isso foi necessário que, depois da doutrina que São João havia transmitido às multidões, o Evangelista também fizesse menção daquela doutrina com a qual instruiu aqueles que pareciam mais adiantados; e por isso diz: "Vendo, porém, muitos dos fariseus e saduceus que vinham ao seu Batismo".
Como nas palavras precedentes São João havia explicado de modo mais detalhado o que havia pregado brevemente nas palavras "Fazei penitência", agora segue uma explicação mais completa das palavras "O reino dos céus está próximo". Por isso disse: "Eu vos batizo na água para penitência".
Depois que Cristo foi anunciado ao mundo pela pregação de seu precursor, então aquele que por muito tempo estivera oculto quis manifestar-se aos homens; por isso se diz: Então veio Jesus da Galileia ao Jordão até João, para ser batizado por ele.
Ou, um esplendor tão grande circundou Cristo no Batismo, que parecia que o céu Empíreo tinha sido revelado.
Este deserto é o que está entre Jerusalém e Jericó, onde habitavam os ladrões, cujo lugar é chamado dammin, isto é, de sangue, por causa do derramamento de sangue que ali faziam os ladrões; razão pela qual se diz que o homem, ao descer de Jerusalém para Jericó, caiu em poder dos ladrões, representando a figura de Adão, que foi vencido pelos demônios. Foi, portanto, conveniente que Cristo vencesse o Diabo no mesmo lugar onde se diz que o Diabo, sob forma figurada, venceu o homem.
Por isso, portanto, conduziu-o sobre o pináculo, quando desejava tentá-lo acerca da vanglória, porque na cátedra dos doutores havia enganado a muitos com a vanglória, e por isso pensou que este, posto na sede do magistério, pudesse ensoberbecer-se com vanglória; donde segue e disse: "Se és Filho de Deus, lança-te abaixo".
Eis a antiga soberba do Diabo. Assim como no princípio quis fazer-se semelhante a Deus, agora quer usurpar para si o culto divino, dizendo "se, prostrando-te, me adorares". Portanto, quem há de adorar o Diabo, antes se prostra. Segue-se então que Jesus lhe diz: "Vai-te, Satanás".
Como refere São Lucas, veio a Nazaré, onde havia sido criado, e ali entrou na sinagoga, onde leu e disse muitas coisas, por causa das quais quiseram precipitá-lo do monte; e então desceu a Cafarnaum; de onde agora diz São Mateus: "E deixada a cidade de Nazaré, veio e habitou em Cafarnaum".
Nestas coisas, portanto, foi dado um exemplo para aqueles que abandonam os bens por amor a Cristo. Segue-se, porém, o exemplo daqueles que também pospõem os afetos carnais por Deus; daí diz: E indo adiante, viu outros dois. Note que Ele chama dois a dois, como em outro lugar se lê que os enviou dois a dois para pregar.
As turbas que seguem o Senhor são da Igreja, que espiritualmente é Galileia, passando para as virtudes; e Decápolis, que guarda os dez mandamentos; e Jerusalém e Judeia, que a visão da paz e a confissão ilustram; e além do Jordão, porque, tendo passado pelo Batismo, entra na terra prometida.
Os mansos, que possuíram a si mesmos, possuirão a herança do Pai no futuro. Mais é possuir do que ter: pois muitas coisas temos que imediatamente perdemos.
Ou, pelo luto se entendem dois gêneros de compunção: a saber, pelas misérias deste mundo e pelo desejo das coisas celestiais; daí que a filha de Caleb pediu a irrigação superior e inferior. Este tipo de luto, porém, não possui senão o pobre e o manso, que, como não ama o mundo, reconhece que é miserável e, por isso, deseja o céu. Convenientemente, portanto, promete-se consolação aos que choram, para que aquele que se entristeceu no presente, alegre-se no futuro. É maior a retribuição daquele que chora do que a do pobre e do manso: pois é mais alegrar-se no reino do que tê-lo e possuí-lo; muitas coisas possuímos com dor.
Com razão, portanto, é dispensada misericórdia aos misericordiosos, para que recebam mais do que teriam merecido; e assim como recebe mais aquele que tem além da saciedade do que aquele que tem apenas o suficiente para a saciedade, assim a glória da misericórdia é maior do que a das coisas precedentes.
Convenientemente, a pureza de coração é colocada em sexto lugar, porque no sexto dia o homem foi criado à imagem de Deus, imagem esta que foi obscurecida no homem pela culpa, mas é reformada nos corações puros pela graça. Merecidamente, segue-se após o que foi dito anteriormente, porque, se aquelas virtudes não precederem, o coração puro não é criado no homem.
Os pacíficos possuem, portanto, a mais elevada dignidade; assim como aquele que é chamado filho do rei é o mais importante na casa real. Esta bem-aventurança é colocada em sétimo lugar, porque no sábado da verdadeira paz será concedido o descanso, após as idades passadas.
Alegrai-vos com a mente, e exultai com o corpo, porque a vossa recompensa não é somente grande, como a dos outros, mas é abundante nos céus.
Depois que, portanto, aqueles que são cabeças de outros, faltarem, não são aptos para nenhum uso, a não ser para que sejam lançados fora do ofício de ensinar.
Depois que exortou os ouvintes a se prepararem para suportar todas as coisas pela justiça e a não esconderem o que haveriam de receber, mas a aprenderem com benevolência para ensinar aos outros, começa a instruí-los sobre o que devem ensinar, como se lhe perguntassem: o que é isto que não queres que seja escondido, pelo qual ordenas que tudo seja tolerado? Porventura dirás algo além daquilo que está escrito na Lei? Por isso diz: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas".
Ou então, o que diz "se não for mais abundante", deve ser interpretado em relação ao entendimento dos fariseus e escribas, e não ao conteúdo do antigo testamento.
Ou, o olho direito é a vida contemplativa, que escandaliza quando se torna causa de indolência ou arrogância, ou quando por nossa fraqueza não conseguimos contemplar com pureza. A mão direita é a boa obra, ou a vida ativa, que escandaliza quando nos enredamos pela frequência dos assuntos mundanos e pelo tédio da ocupação. Se, portanto, alguém não pode desfrutar da vida contemplativa, não permaneça inerte no ócio afastado da vida ativa; nem, enquanto se ocupa com ações, deixe secar a fonte interna de doçura.
O Senhor havia ensinado anteriormente que não se deve cobiçar a esposa alheia; consequentemente, aqui ensina que não se deve abandonar a própria, dizendo: "Foi dito também: quem repudiar sua esposa, dê-lhe carta de divórcio".
O Senhor havia ensinado anteriormente que não se deve fazer injúria ao próximo, proibindo a ira junto com o homicídio, a concupiscência junto com o adultério, e o abandono da esposa com documento de repúdio. Agora, consequentemente, ensina a abster-se da injúria a Deus, quando proíbe não apenas o perjúrio como um mal, mas também o juramento como ocasião de mal; por isso diz: "Ouvistes também que foi dito aos antigos: não perjurarás". Pois está escrito no Levítico: "Não perjurarás em meu nome"; e para que não fizessem das criaturas seus deuses, ordenou-lhes que dirigissem a Deus seus juramentos, e não jurassem pelas criaturas; por isso acrescenta: "Cumprirás, porém, ao Senhor os teus juramentos"; isto é, se acontecer de jurares, jurarás pelo Criador, não pela criatura; como está escrito no Deuteronômio: "Temerás ao Senhor teu Deus, e jurarás pelo seu nome".
Como anteriormente o Senhor havia ensinado que não se deve causar injúria ao próximo, nem irreverência ao Senhor, consequentemente, aqui ensina como o cristão deve comportar-se diante daqueles que lhe causam injúria; por isso diz: "Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente".
Amar aquele que nos ama é próprio da natureza; mas amar ao inimigo é próprio da caridade; e por isso segue: "Se amais àqueles que vos amam, qual será vossa recompensa", isto é, no céu? Nenhuma: pois destes é dito: "Já recebestes vossa recompensa". Mas estas coisas convém fazer, e aquelas não omitir.
Depois que Cristo preencheu a lei quanto aos preceitos, começa agora a completá-la quanto às promessas, para que cumpramos os preceitos de Deus pela recompensa celestial, não pelas coisas terrenas que a lei prometia. Todas as coisas terrenas reduzem-se principalmente a duas: a saber, à glória humana e à abundância de bens terrenos; ambas as quais parecem ser prometidas na lei. Sobre a glória, diz-se no Deuteronômio: "O Senhor te fará mais elevado que todas as nações que habitam sobre a terra"(Deuteronômio 28,1). Sobre a abundância dos bens temporais, acrescenta-se no mesmo lugar: "O Senhor te fará abundar em todos os bens". E por isso o Senhor exclui estas duas coisas da intenção dos fiéis, a saber, a glória e a abundância de bens terrenos. Mas deve-se saber que o desejo de glória é próximo à virtude.
E por isso menciona os lugares públicos, quando diz "nas sinagogas e nas ruas"; e o fim pretendido quando acrescenta "para serem honrados pelos homens".
Ou, "os ângulos das praças" são os lugares onde um caminho cruza outro caminho e forma uma encruzilhada.
Condena, porém, o multilóquio da oração que provém da infidelidade; de onde segue: como fazem os gentios. Pois para os gentios era necessária a multiplicidade de palavras, por causa dos demônios, que não sabiam o que eles pediam, a não ser que fossem instruídos por suas palavras; donde se segue: pois pensam que por seu muito falar serão ouvidos.
Entre os conselhos salutares e divinos pelos quais auxiliou os fiéis, propôs uma forma de orar e compôs orações com breves palavras, para que haja confiança em alcançar rapidamente aquilo que quer que se peça com brevidade; por isso diz: "Pai nosso que estás nos céus".
É de forma adequada que se segue que, após a adoção como filhos, peçamos o reino que é devido aos filhos; de onde se segue venha a nós o vosso reino.
Isto é, ao teu Pai celestial que é invisível, ou que habita no coração pela fé; jejua para Deus aquele que se mortifica por amor a Ele, e o que subtrai de si mesmo, oferece generosamente a outro. E teu Pai, que vê no oculto, te recompensará.
Ou; parece referir-se a dois tipos de servos. Alguns, de fato, servem livremente por amor, outros servilmente por temor. Se, portanto, alguém por amor serve a um de dois senhores contrários, é necessário que odeie o outro; se, porém, serve por temor, é necessário que, enquanto suporta um, despreze o outro. Mas a coisa terrena, ou Deus, se domina no coração do homem, este é atraído em sentidos contrários por ambos: pois Deus atrai para o alto aquele que O serve, enquanto a coisa terrena atrai para baixo; e por isso, como que concluindo, acrescenta: "não podeis servir a Deus e às riquezas".
Ele ensina não apenas pelo exemplo das aves, mas também comprova pela experiência que, para que existamos e vivamos, nosso cuidado não é suficiente, mas atua a divina providência, dizendo: "Quem de vós, pensando, pode acrescentar um côvado à sua estatura?"
Ele diz "de pouca fé", porque é pouca a fé que não está segura nem mesmo das coisas mínimas.
Há também outra preocupação supérflua procedente do vício dos homens, quando reservam frutos e dinheiro mais do que é necessário, e, deixando de lado as coisas espirituais, estão atentos àquelas, como que desesperando da bondade de Deus; e isto é proibido; donde se acrescenta: "todas estas coisas os gentios buscam".
Ele havia proibido a preocupação com as coisas presentes; agora proíbe a preocupação vã com as coisas futuras que provém do vício dos homens, quando diz: "Não vos preocupeis, pois, com o amanhã".
Diz, porém, "para que não porventura", porque podem arrepender-se de sua imundícia.1
[1] Nota do editor: a glosa tem 'guia non possunt'. ↩
Pedimos com a fé, buscamos com a esperança, batemos com a caridade. Primeiramente deves pedir, para que tenhas; depois buscar, para que encontres; e, tendo encontrado, observar, para que entres.
Pois de Deus não recebemos senão bens, seja qual for a aparência que eles nos apresentem: porque todas as coisas cooperam para o bem dos que lhe são amados.
De outro modo, o Espírito Santo é o distribuidor de todos os bens espirituais, para que as obras de caridade sejam cumpridas; por isso acrescenta: "Tudo, portanto..."
Ou, de outra maneira. Ainda que seja difícil fazer para os outros o que queres que te façam, no entanto deve-se fazer assim, para que entremos pela porta estreita.
Da comparação precedente, conclui o que já havia dito acima, como algo manifesto, dizendo: "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis".
Tendo exposto a doutrina de Cristo, mostra o efeito desta doutrina na multidão, dizendo: "E aconteceu que, quando Jesus concluiu estas palavras, as multidões admiravam-se da sua doutrina".
Tu podes, pelo ministério dos Anjos, sem a presença corporal, dizer à enfermidade que se retire, e ela se retirará; e à saúde que venha, e ela virá.
Ou, a barca é a Igreja presente, na qual Cristo atravessa com os seus o mar deste mundo, e acalma as águas das perseguições. Por isso nos maravilhamos e damos graças.
Estas palavras, "para que saibais", podem ser de Cristo ou do Evangelista; como se o Evangelista dissesse: eles duvidavam que Ele perdoasse os pecados; mas para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar os pecados, diz ao paralítico. Se, no entanto, se considerar que Cristo pronunciou estas palavras, elas serão entendidas assim: vós dubitais que eu possa perdoar os pecados; mas para que saibais que o Filho do homem tem poder para perdoar os pecados: esta oração é certamente imperfeita; mas segue-se o ato no lugar da consequência; por isso diz: "diz ao paralítico: levanta-te e toma o teu leito".
Os publicanos eram aqueles que estavam envolvidos em negócios públicos, os quais sem pecado ou dificilmente ou nunca podem ser tratados. E foi um belo presságio: porque aquele que havia de ser Apóstolo e Doutor dos gentios, em sua primeira conversão, atrai após si um rebanho de pecadores para a salvação; para que já realizasse pelo exemplo o que devia realizar também pela palavra.
Como se dissesse: por isso o pano novo, isto é, o recente, não deve ser posto em uma vestimenta velha, porque frequentemente tira da vestimenta a sua plenitude, isto é, a sua perfeição; e então se faz uma ruptura pior. Pois um fardo pesado imposto ao inexperiente frequentemente destrói aquele bem que antes havia nele.
Deve-se entender que foi a partir daquela hora em que ela tocou a franja de Seu manto; não a partir daquela hora em que Jesus se voltou para ela: pois ela já havia sido curada, como os outros Evangelistas mostram claramente e como pode ser inferido das palavras do Senhor.
Após a cura da mulher com hemorragia, segue-se a ressurreição da morta, quando se diz: "E tendo Jesus chegado à casa do príncipe".
A colheita, portanto, são os homens que podem ser ceifados pelos pregadores e separados do conjunto dos perdidos, como os grãos extraídos da palha, para depois serem guardados nos celeiros.
Desde a cura da sogra de Pedro até aqui os milagres narrados tiveram uma continuação; e foram realizados antes do sermão que foi pronunciado na montanha: o que temos indubitavelmente a partir da eleição de São Mateus, que é relatada entre esses acontecimentos: pois ele foi um dos doze escolhidos na montanha para o apostolado. Aqui, porém, retorna à ordem dos fatos, tal como ocorreu, após a cura do servo do centurião, dizendo "e convocando os seus doze discípulos".
Porque a manifestação do Espírito, como diz o Apóstolo, é dada para utilidade da Igreja, depois de conceder poder aos Apóstolos, Jesus os envia para que exerçam este poder para o bem dos outros; por isso se diz: "Jesus enviou estes doze".
Por isso acrescenta: "nem dinheiro em vossas cintas". Pois há dois tipos de coisas necessárias: um pelo qual se compram as coisas necessárias, que se entende pelo dinheiro nas cintas; outro são as próprias coisas necessárias, que se entende pelo alforje.
Como se dissesse: rogai pela paz ao vosso hospedeiro, para que seja adormecida toda repugnância contra a verdade.
Por isso é necessário que sejais como serpentes, isto é, astutos; pois segundo seu costume, vos entregarão primeiramente aos Concílios, proibindo-vos de pregar em meu nome; depois, se não vos corrigirdes, vos açoitarão; e finalmente sereis conduzidos perante reis e governadores.
Depois de haver apresentado a consolação, acrescenta os perigos mais graves: por isso diz "E o irmão entregará o irmão à morte, e o pai ao filho; e os filhos se insurgirão contra os pais, e os entregarão à morte".
Como se dissesse: Não vos indigneis por tolerardes o que eu tolero, porque eu sou o Senhor, fazendo o que eu quero, e o Mestre, ensinando o que sei ser útil para vós.
Ou de outra maneira: "O que vos digo em trevas", isto é, enquanto ainda estais no temor carnal, "dizei-o na luz", isto é, na confiança da verdade, quando fordes iluminados pelo Espírito Santo; "e o que ouvis ao ouvido", isto é, o que percebeis apenas pela audição, "pregai-o", completando-o com obras, estando sobre os telhados, isto é, sobre vossos corpos, que são as moradas das vossas almas.
Ou de outro modo. Isto diz, como se dissesse: não vim entre os homens para confirmar os afetos carnais, mas para cortá-los com a espada espiritual; por isso acertadamente se diz: "e os inimigos do homem são os seus domésticos".
Parece acontecer em muitos casos que os pais amem mais aos filhos do que os filhos amem aos pais; por isso, tendo ensinado gradualmente que seu amor deve ser preferido ao amor dos pais, ensina consequentemente que também deve ser preferido ao amor dos filhos, dizendo: "E quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim".
Nota-se que Deus olha mais para o piedoso afeto de quem dá do que para a quantidade da coisa oferecida. Ou, os "mínimos" são aqueles que nada possuem neste mundo e serão juízes com Cristo.
Deve-se observar, porém, que São Jerônimo e São Gregório não disseram que João deveria anunciar a vinda de Cristo ao Inferno para converter à fé alguns dos que não criam, mas para trazer consolo da próxima vinda aos justos que permaneciam na expectativa de Cristo.
Depois outros profetas foram enviados para anunciar a vinda de Cristo; este, porém, para preparar o seu caminho: donde segue que preparará o teu caminho diante de ti: isto é, tornará acessíveis a ti os corações dos ouvintes, pregando a penitência e batizando.
Como havia dito anteriormente: "quem é menor no reino dos céus é maior do que João", para que não parecesse que São João estava excluído do reino dos céus, Ele remove esta impressão acrescentando: "Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos o arrebatam".
Como se dissesse: tão grande é São João; mas vós não quisestes crer nem nele nem em mim; e por isso a quem vos compararei? Por geração entende coletivamente os judeus, junto a si mesmo e a São João.
Até então Ele tinha reprovado os judeus de forma geral; agora, porém, repreende nominalmente algumas cidades, nas quais havia pregado especialmente, mas que todavia não queriam converter-se: daí diz-se "Então começou a exprobrar as cidades nas quais foram feitas muitas de suas virtudes, porque não tinham feito penitência".
Isto é, tu que fazes os céus e deixas na terrenalidade aqueles que queres. Ou, literalmente,
Narrada a pregação com os milagres de um ano antes da questão de São João, passa aos fatos que ocorreram em outro ano, isto é, após a morte de São João, quando já em todas as coisas se contradiz a Cristo; por isso se diz: "Naquele tempo Jesus passou pelas plantações de trigo em um sábado".
O Senhor havia refutado anteriormente os fariseus que caluniavam os milagres de Cristo pelo fato de que parecia quebrar o sábado; mas como, com maior iniquidade, pervertiam os próprios milagres de Cristo feitos por virtude divina, atribuindo-os ao espírito imundo, por isso o Evangelista apresenta primeiro o milagre a partir do qual tomaram ocasião para blasfemar, dizendo: "Então lhe foi apresentado um endemoninhado, cego e mudo".
Portanto, Ele os refuta com um dilema necessário. Pois ou Cristo expulsa os demônios pelo poder de Deus, ou pelo príncipe dos demônios. Se pelo poder de Deus, suas calúnias são em vão; se pelo príncipe dos demônios, o reino dele está dividido e não subsistirá; e por isso eles se afastam do reino dele; o que indica que eles escolheram para si mesmos, quando não creem nEle.
Entendendo os discípulos que eram obscuras as coisas que o Senhor dizia ao povo, quiseram intimar ao Senhor para que não falasse em parábolas: donde se diz: e aproximando-se os discípulos disseram-lhe: por que lhes falas em parábolas?
Explicando a parábola, ele acrescenta: todo aquele que ouve a palavra do reino, isto é, a minha pregação que serve para alcançar o reino dos céus, e não a compreende. E de que modo não compreende, ele explica: pois vem o maligno, isto é, o Diabo, e arrebata o que foi semeado em seu coração. Todo aquele, digo, que é assim, este é o que foi semeado à beira do caminho. Deve-se notar, porém, que o termo "semeado" é compreendido de diferentes modos. Pois diz-se tanto da semente semeada quanto do campo semeado: ambos os sentidos se encontram aqui. Quando ele diz arrebata o que foi semeado, deve-se entender sobre a semente; mas quando segue à beira do caminho foi semeado, não se deve entender da semente, mas do lugar da semente, isto é, do homem, que é como um campo semeado com a semente da palavra divina.
Como se dissesse: Eu que antes falei pelos profetas, agora em minha própria pessoa abrirei minha boca em parábolas, e extrairei do tesouro do meu segredo; emitirei mistérios que estavam escondidos desde a fundação do mundo.
Ou de outro modo. Por escândalos pode-se entender aqueles que oferecem ao próximo ocasião de ofensa ou ruína; por aqueles que praticam a iniquidade, todos os pecadores.
Porque acima o Evangelista havia mostrado como os fariseus caluniavam os milagres de Cristo, e seus concidadãos, mesmo admirando estes milagres, desprezavam a Cristo, refere agora qual opinião Herodes havia concebido sobre Cristo ao ouvir sobre seus milagros: por isso diz: "Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, ouviu a fama de Jesus".
O Salvador, tendo ouvido a morte do seu Batista, retirou-se para um lugar deserto: de onde segue que quando Jesus ouviu isto, retirou-se dali em uma barca para um lugar deserto e apartado.
De modo que o sentido seja: qualquer um, isto é, quem quer que seja dentre vós, ó jovens, tenha dito, isto é, puder dizer ou disser, ao pai ou à mãe: ó pai, a dádiva que vem de mim, já devotada a Deus, te será proveitosa. Admirável; como se dissesse: não deves tomar, para que não sejas culpado de sacrilégio. Ou pode ser lido com esta elipse: qualquer que disser ao pai, etc., subentenda-se: cumprirá o mandamento de Deus, ou cumprirá a lei, ou será digno da vida eterna.
Ou também o honravam recomendando a pureza exterior, mas como lhes faltava a interior, que é a verdadeira, seu coração estava longe de Deus, e tal honra lhes era inútil; por isso segue: "Em vão me prestam culto, ensinando doutrinas e mandamentos de homens".
Ou então, essa plantação significa os doutores da Lei com seus seguidores, que não tinham Cristo como fundamento. E por que devem ser arrancados pela raiz, acrescenta: "Deixai-os: são cegos e guias de cegos".
E visto que este tipo de palavras do Senhor haviam tomado ocasião da maldade dos fariseus, que preferiam suas tradições aos preceitos divinos, consequentemente conclui a inconveniência da tradição mencionada, dizendo: "mas comer com as mãos não lavadas não contamina o homem".
Os filhos são os judeus gerados e nutridos no culto de um só Deus pela lei; o pão é o Evangelho, os milagres e outras coisas que pertencem à nossa salvação. Não é, portanto, conveniente que sejam tirados dos filhos e dados aos gentios, que são cães, enquanto os judeus os repudiem.
Mudos são aqueles que não louvam a Deus; cegos são aqueles que não compreendem o caminho da vida; surdos são aqueles que não obedecem; coxos são aqueles que não andam corretamente pelos caminhos difíceis das boas obras; débeis são aqueles que são enfermos nas boas obras.
Os sete pães são a Escritura do Novo Testamento, na qual a graça do Espírito Santo é revelada e dada; e não são de cevada, como acima, porque aqui não se encontra, como na Lei, o alimento vital coberto por figuras como por uma palha muito aderente; aqui não há dois peixes, como na Lei onde dois eram ungidos, a saber, o rei e o sacerdote; mas poucos, isto é, os santos do Novo Testamento, que, arrancados das ondas do século, suportam este mar turbulento e, com seu exemplo, nos restauram para que não desfaleçamos no caminho.
Ou de outro modo. O céu está avermelhado e triste; isto é, os apóstolos sofrerão após a ressurreição; depois dos quais podeis saber que eu julgarei no futuro; porque se não poupo aos meus bons que sofram, não pouparei a outros no futuro. Portanto, "a face do céu sabeis discernir, mas os sinais dos tempos não podeis". Sinais dos tempos Ele chama à sua vinda ou paixão, à qual se assemelha o céu rosado da tarde; e à tribulação que será antes da sua vinda, à qual se pode comparar a vermelhidão da manhã com um céu triste.
Assim como o Senhor havia deixado os fariseus por causa de sua infidelidade, consequentemente ensina também aos seus discípulos que devem precaver-se contra a doutrina deles: donde segue-se "e, quando os seus discípulos chegaram à outra margem, esqueceram-se de levar pães".
Especialmente também a concedeu a Pedro, para nos convidar à unidade. Por isso o constituiu como príncipe dos apóstolos, para que a Igreja tivesse um principal vigário de Cristo, ao qual recorressem os diversos membros da Igreja, caso houvesse divergências entre si. Pois se houvesse diversas cabeças na Igreja, o vínculo da unidade seria rompido. Alguns, porém, dizem que por isso diz sobre a terra: porque não foi dado aos homens o poder de ligar ou absolver os mortos, mas os vivos. Aquele, porém, que absolvesse ou ligasse os mortos, não o faria sobre a terra, mas depois da terra.
Ou as vestiduras de Cristo significam os santos, dos quais Isaías diz: "De todos estes te vestirás como de um ornamento"(Isaías 49,18); e são comparados à neve, porque serão brancos pelas virtudes, e todo o calor dos vícios estará afastado deles. Segue-se: "E apareceram-lhes Moisés e Elias falando com ele".
Deve-se notar que o mistério da segunda regeneração (que certamente será na ressurreição, onde a carne será ressuscitada) convém bem com o mistério da primeira, que é no Batismo, onde a alma é ressuscitada. Pois no Batismo de Cristo, a operação de toda a Trindade foi demonstrada; esteve ali o Filho encarnado, apareceu o Espírito Santo na forma de uma pomba, e o Pai foi ali declarado na voz: e semelhantemente na transfiguração, que é sacramento da segunda regeneração, toda a Trindade apareceu: o Pai na voz, o Filho no homem, o Espírito Santo na nuvem. Questiona-se, porém, por que o Espírito Santo ali na pomba, aqui na nuvem foi revelado. Certamente costuma manifestar seus dons através de formas específicas. No Batismo, porém, concede a inocência, que é designada pela ave da simplicidade. Mas na ressurreição dará claridade e refrigério; por isso, na nuvem designa-se o refrigério, e no fulgor da nuvem a claridade dos corpos ressurgentes. Segue-se: "E, ouvindo isso, os discípulos caíram sobre seus rostos e temeram grandemente".
Para que o sentido seja: direis a este monte, isto é, ao soberbo Diabo: passa daqui, isto é, do corpo possuído para o alto mar, isto é, para as profundezas do Inferno, e ele passará; e nada vos será impossível, isto é, nenhuma enfermidade será incurável.
Como os discípulos, tendo ouvido a paixão do Senhor, estavam muito tristes, para que ninguém atribuísse a paixão de Cristo à necessidade, não à humildade, acrescenta um fato no qual se demonstra a liberdade e a humildade de Cristo: por isso diz e quando chegaram a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro aqueles que cobravam o didracma, e disseram-lhe: o vosso Mestre não paga o didracma?
"A não ser que vos convertais" desta ambição e inveja na qual estais no momento presente, e vos torneis todos tão inocentes e humildes em disposição quanto sois fracos em vossos anos, "não entrareis no reino dos céus"; e visto que não há outro caminho para entrar, "aquele que se humilhar como esta criancinha, este será o maior no reino dos céus"; pois quanto mais um homem for humilde agora, tanto mais será exaltado no reino dos céus.
O Senhor havia dito que é mais vantajoso para aquele que escandaliza que lhe seja suspendida uma mó de asno ao pescoço; e atribuindo a razão disso, acrescenta: "Ai do mundo por causa dos escândalos", isto é, por causa dos escândalos.
Por isso, não devem ser desprezados, porque são tão caros a Deus que os Anjos lhes são designados para custódia; donde segue: pois eu vos digo que os Anjos deles nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus.
Ou, dize-o a toda a Igreja, para que ele sofra maior vergonha. Depois de todas estas coisas segue-se a excomunhão, que deve ser feita pela boca da Igreja, isto é, pelo sacerdote; quando ele excomungando, toda a Igreja opera com ele: por isso segue-se se não ouvir a Igreja, seja para ti como um gentio e um publicano.
Não somente, porém, sobre a excomunhão, mas também sobre toda petição que é feita pelos que consentem na unidade da Igreja, Ele dá confirmação, quando acrescenta: "novamente vos digo, que se dois de vós concordarem sobre a terra", seja recebendo um penitente, seja rejeitando um soberbo, "sobre qualquer coisa que pedirem", que não seja contrária à unidade da Igreja, "ser-lhes-á feito por meu Pai que está nos céus". Ao dizer "que está nos céus", mostra que Ele está acima de todas as coisas, e por isso pode cumprir o que é pedido. Ou "está nos céus", isto é, nos santos; o que serve para provar que lhes será concedido tudo o que pedirem que seja digno, porque têm consigo Aquele a quem pedem. Por isso é firme a sentença dos que consentem, porque Deus habita com eles; e por isso segue: "Porque onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles".
Impôs também as mãos sobre eles, enquanto homens os continham, para significar que a graça de seu auxílio era necessária.
De outra maneira diz-se que havia em Jerusalém certa porta que se chamava buraco da agulha, pela qual o camelo não podia passar senão depois de deposto o fardo e de joelhos dobrados; por isto se significa que os ricos não podem passar pelo caminho estreito que conduz à vida, a não ser que depostos os fardos dos pecados e das riquezas, ao menos não as amando.
Ou, se preferires, o Pai diz ao Filho; pois o Pai opera por meio do Filho, e o Filho por meio do Espírito Santo, não por causa de alguma diferença de substância ou dignidade.
E o sentido é: bendito, isto é, glorioso seja, aquele que vem, isto é, que se encarnou, em nome do Senhor, isto é, do Pai, glorificando-o. Novamente repetem: hosanna, isto é, salva, eu te suplico; e determinam onde queriam ser salvos, nas alturas, isto é, nos lugares celestiais, não nos terrenos. Ou por isto que se acrescenta, hosanna, isto é, salvação nas alturas, claramente se mostra que a vinda de Cristo não é somente a salvação do homem, mas de todo o mundo, unindo as coisas terrenas às celestiais.
O Criador não comete injustiça contra o possuidor; mas a criatura é modificada por seu livre-arbítrio para a utilidade dos outros.
Ou, "Todas as coisas estão preparadas", isto é, a entrada no reino está preparada por meio da fé em minha encarnação, a qual antes estava fechada.
De três modos acontece que alguém não ensine a verdade. Primeiro, da parte do próprio ensinante: porque ou não conhece a verdade, ou não a ama; e contra isto dizem "sabemos que és veraz". Segundo, da parte de Deus, cujo temor colocado de lado, alguns não anunciam puramente a verdade sobre Ele, que conheceram; e contra isto dizem "e ensinas o caminho de Deus em verdade". Terceiro, da parte do próximo, por cujo temor ou amor alguém silencia a verdade; e para excluir isto dizem "e não tens cuidado de ninguém", isto é, do homem: "pois não consideras a pessoa dos homens".
Ou com todo o coração, isto é, com o intelecto; com toda a alma, isto é, com a vontade; com toda a mente, isto é, com a memória, para que nada queiras, sintas ou recordes que lhe seja contrário.
Que os inimigos sejam submetidos ao Filho pelo Pai, não significa a fraqueza do Filho, mas a unidade de natureza; pois também o Filho sujeita os inimigos ao Pai, porque glorifica o Pai sobre a terra. E desta autoridade conclui: "Se, pois, Davi o chama Senhor, como é seu filho?"
Ou ainda: "atam cargas", isto é, recolhem tradições de todas as partes, que não aliviam a consciência, mas a sobrecarregam.
E porque era evidente quem era o Pai de todos, nisto que havia dito "que estás nos céus", quer explicar quem é o Mestre de todos; por isso repete novamente o preceito sobre o mestre, dizendo: "Não vos chameis mestres, porque um só é vosso Mestre: Cristo".
Isto é, que com vossa superstição nada pretendeis senão fazer presa do povo que vos está sujeito
E para que por acaso não irrompessem em tamanha insanidade a ponto de dizerem que o ouro é mais sagrado que o templo, e a dádiva mais que o altar, convence-os por outra razão: a saber, porque no juramento que se faz pelo templo e pelo altar, está contido o juramento que se faz pelo ouro ou pela dádiva; e isto é o que acrescenta: "aquele, pois, que jura pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele".
Ele não se refere apenas aos presentes, mas a toda geração precedente e futura: porque todos são uma cidade e um único corpo do Diabo.
Ambas as afirmações podem ser defendidas, se a difusão da pregação do Evangelho for entendida de diferentes modos. Pois se for entendida quanto ao fruto da pregação, que é fundar em cada nação uma Igreja de crentes em Cristo, como expõe Santo Agostinho, é um sinal que deve preceder o fim do mundo; contudo, não precedeu a destruição de Jerusalém. Mas se for entendida quanto à fama da pregação, assim foi completada antes do fim de Jerusalém, estando os discípulos de Cristo dispersos pelas quatro partes do mundo.
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[1] Esta Glosa parece ser uma nota de São Tomás, em confirmação do ponto de vista de São Crisóstomo, que se refere à tomada de Jerusalém. cf. Irineu Haeres. i. 2 e 3. ↩
Depois que o Senhor precaveu os fiéis contra a sedução do Anticristo e de seus ministros, mostrando que viria de maneira manifesta, agora demonstra a ordem e o modo de sua vinda, dizendo: "E logo depois da tribulação daqueles dias, o sol escurecerá", etc.
Raro é o servo fiel que serve ao Senhor por causa do Senhor, apascentando as ovelhas de Cristo não por lucro, mas por amor a Cristo; prudente que discerne a capacidade, a vida e os costumes dos súditos: aquele que o Senhor constitui, isto é, que é chamado por Deus, e não se impôs a si mesmo.
Na parábola precedente foi demonstrada a condenação daqueles que não haviam preparado óleo suficiente para si mesmos, seja pelo óleo se entenda o esplendor das boas obras, seja a alegria da consciência, seja a esmola que se dá em dinheiro. Esta parábola, porém, é proposta contra aqueles que não somente não querem auxiliar aos próximos com dinheiro, mas nem com a palavra, nem de qualquer outro modo, mas escondem tudo; por isso diz: "Porque assim como um homem, partindo para fora, chamou seus servos e lhes entregou seus bens".
O Evangelista mostra a preparação e a maquinação da paixão do Senhor, que Cristo havia prenunciado; por isso diz: "então se reuniram os príncipes dos sacerdotes".
Tendo apresentado o conselho dos príncipes sobre a morte de Cristo, o Evangelista deseja mostrar o seu cumprimento, revelando como Judas fez um acordo com os judeus, para entregar Cristo; mas primeiro antepõe a causa da traição. Pois ele sentiu pesar porque o unguento que a mulher derramou sobre a cabeça de Cristo não fora vendido, para que pudesse tomar algo do preço: por isso quis compensar esta perda pela traição do Mestre. Diz, portanto: "Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso".
Tendo exposto a ocasião da traição, o Evangelista passa a narrar, em seguida, acerca da traição de Judas; por isso diz: "Então foi um dos doze", etc.
O Evangelista havia tratado das coisas que eram preliminares à paixão de Cristo, isto é, do anúncio da paixão, do conselho dos príncipes e do tratado da traição; agora, porém, começa a expor o tempo e a sequência da paixão, dizendo "No primeiro dia dos ázimos".
O que deve ser entendido quanto ao pão de trigo: pois o Senhor se comparou ao grão de trigo dizendo: "Se o grão de trigo não cair na terra", etc. Tal pão também é apropriado para o sacramento, porque seu uso é mais comum: pois outros pães são feitos quando este falta. E porque Cristo até o último dia demonstrou não ser contrário à lei, como foi dito acima nas palavras de São Crisóstomo1, e na véspera, quando a Páscoa era imolada segundo o preceito da lei, devia-se comer pão ázimo e rejeitar todo o fermentado, é manifesto que este pão que o Senhor tomou para entregar aos discípulos era ázimo.
[1] ed. nota: Esta Glossa é parcialmente da Glossa sobre Graciano de Cons. d. ii. c. 5. A próxima passagem tem o título 'Gregório no Registro' nas edições, e é assim citada por São Tomás, Summa 3. q. 74. art. 4. mas não pode ser encontrada em São Gregório. ↩
Mas, sustentando a opinião de outros santos, a saber, que Judas recebeu os sacramentos de Cristo, deve-se dizer que quando ele diz convosco, deve-se entender que se refere à maior parte deles, não necessariamente a todos.
Como foi dito acima que o Senhor se ofereceu espontaneamente aos seus perseguidores, consequentemente o Evangelista mostra como foi detido por eles; por isso diz: "Ainda Ele falando, eis que Judas, um dos doze, chegou".
O que deve ser referido ao tempo em que o Evangelista escreveu isto. Em seguida, confirma o mesmo com um testemunho profético, dizendo: Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que disse: e tomaram as trinta moedas de prata, preço do avaliado, a quem avaliaram os filhos de Israel, e as deram pelo campo do oleiro, assim como me ordenou o Senhor.
Diz-se que Pilatos respondeu, dizendo isto, seja em resposta ao que sua esposa havia anunciado, seja ao pedido do povo, que segundo o costume pedia que lhes fosse libertado alguém no dia da festa.
Depois que o Evangelista recordou o que pertence à zombaria de Cristo, agora começa a narrar o processo da sua crucificação: por isso diz "e depois que zombaram dele, despiram-no da clâmide, e vestiram-no com as suas próprias vestes, e conduziram-no para crucificá-lo".
Apresentado como Cristo foi conduzido ao lugar da paixão, o Evangelista prossegue com a própria paixão, expondo o gênero de morte, quando diz "e depois que o crucificaram".
Diz-se que Deus o abandonou na morte, porque o expôs ao poder dos perseguidores; subtraiu a proteção, mas não desfez a união.
Depois que o Evangelista relatou a ordem da paixão e morte do Senhor, agora trata de sua sepultura, dizendo: "Ao entardecer, veio um homem rico, de Arimateia, chamado José, que também era discípulo de Jesus".
E para que não se afastassem da mentira por temor do governador, receando serem punidos por negligência, acrescentaram: "E se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o persuadiremos e vos deixaremos seguros".