João Cassiano
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea (séc. IV–V). Biografia em preparação.
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Os justos, aos quais não é necessário impor lei alguma, não dedicam apenas uma pequena parte — como se fosse um dízimo —, mas toda a extensão de suas vidas às obras espirituais. Estão livres do tributo legal do dízimo. Se se apresenta uma necessidade boa e santa, são livres para relaxar seu jejum sem escrúpulo algum. Pois não é um dízimo mesquinho o que é subtraído por aqueles que ofereceram tudo o que possuem, juntamente consigo mesmos, ao Senhor. Certamente, aquele que nada oferece de sua própria vontade e é compelido, por necessidade legal, sem outro recurso, a pagar seus dízimos a Deus, não pode fazê-lo sem incorrer em grave culpa de fraude. Donde resulta eminentemente claro que aquele que responde plenamente à graça não pode ser escravo da lei, vigiando as coisas proibidas e cumprindo as coisas ordenadas, e que os perfeitos são aqueles que não fazem uso sequer das coisas permitidas pela lei.
A "súplica" é um rogar ou petição pelos pecados... As "orações" são aquelas pelas quais oferecemos um voto a Deus... A "intercessão" costuma-se oferecer, nos momentos de fervor, por outros homens e mulheres — nossa família, a paz do mundo. Nas palavras de São Paulo, oramos "por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão em autoridade"... A "ação de graças" é quando a mente recolhe o que Deus fez ou está fazendo, ou contempla de antemão o bem que Ele preparou para os que O amam, e assim oferece sua gratidão num inefável arrebatamento de espírito. Por vezes oferece ainda orações mais profundas desta sorte, quando a alma contempla, em singeleza de coração, a recompensa dos santos, e assim se move, em sua felicidade, a derramar uma ação de graças sem palavras.
Orar "Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu" é orar para que os homens se façam semelhantes aos anjos, a fim de que, como os anjos cumprem a vontade de Deus no céu, também os homens cumpram a Sua vontade, e não a sua própria, na terra. Ninguém pode dizer isto sinceramente senão aquele que crê que toda circunstância, favorável ou desfavorável, é disposta pela providência de Deus para o seu bem, e que Ele pensa e cuida mais do bem do seu povo e da sua salvação do que nós mesmos cuidamos de nós. Pode entender-se assim: a vontade de Deus é a salvação de todos os homens, segundo aquele texto de Paulo: "que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade."
Pois o propósito de Deus, segundo o qual Ele não fez o homem para perecer, mas para viver eternamente, permanece imutável. Quando a sua bondade vê brilhar em nós o mínimo lampejo de boa vontade, que Ele mesmo fez saltar do duro sílex do nosso coração, Ele o alimenta, o excita e o fortalece com a sua inspiração, "querendo que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade."
Assim como os anjos cumprem a vontade de Deus no céu, também os homens podem cumprir a Sua vontade, e não a sua própria, na terra. Ninguém pode dizer isto sinceramente senão aquele que crê que toda circunstância, favorável ou desfavorável, é disposta pela providência de Deus para o bem. Deus pensa e cuida mais do nosso bem e da nossa salvação do que nós mesmos cuidamos de nós. Pode entender-se assim: a vontade de Deus é a salvação de todos.
Tudo aquilo em que a mente esteve pensando antes de orar certamente virá a ela enquanto ora. Por isso, antes de começarmos a orar, devemos nos esforçar por ser o tipo de pessoas que desejamos que Deus encontre quando oramos. A mente é condicionada por seu estado recente. Na oração, a mente recorda atos, pensamentos ou experiências recentes, e os vê dançando diante de si como fantasmas. E isto nos perturba, ou nos entristece, ou nos recorda antiga concupiscência ou antiga preocupação, ou nos faz (tenho vergonha de dizê-lo) rir como tolos de algum absurdo ou circunstância, ou reviver alguma conversa recente. Tudo aquilo que não queremos que se insinue em nosso tempo de oração devemos procurar manter fora do coração quando não estamos orando. Foram estas as palavras de São Paulo: "Orai sem cessar", e "levantando em todo lugar mãos puras, sem ira nem contenda". Obedecer a isto é impossível, a menos que a mente esteja purificada do pecado, entregue à virtude como a seu bem natural e continuamente alimentada pela contemplação de Deus.
A isto claramente se refere São Paulo quando diz: "o exercício corporal para pouco é proveitoso, mas a piedade" (pela qual ele certamente entende a caridade) "para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida que agora é e da que há de vir". O que se diz proveitoso para pouco não pode ser proveitoso para sempre, nem pode, por si mesmo, conduzir o homem à vida perfeita. A expressão "para pouco" poderia significar uma de duas coisas. Poderia significar "por pouco tempo", visto que estes exercícios corporais não hão de durar tanto quanto o homem que os pratica. Ou poderia significar "de pouco proveito apenas". A austeridade corporal traz os primeiros começos do progresso, mas não gera aquela caridade perfeita que tem a promessa desta vida e da vida futura.
Ninguém — ainda que a si mesmo se chame cristão ou monge mil vezes — confessa a Deus enquanto peca. Ninguém se lembra de Deus enquanto permite o que o Senhor detesta. É como fingir-se servo fiel enquanto não se dá conta dos mandamentos do seu senhor. Diz São Paulo acerca de uma viúva: "A que vive em deleites, viva está morta." É esta a morte de que ele fala. Muitos, cujos corpos estão vivos, estão mortos e no inferno, e não podem louvar a Deus. E muitos, cujos corpos estão mortos, bendizem e louvam a Deus juntamente em espírito... No Apocalipse, descrevem-se as almas dos mártires orando a Deus e igualmente a Ele louvando.
Esta é, pois, a vitória perfeita sobre a cobiça: não permitir que dela reste, em nosso coração, sequer um vislumbre da mais ínfima parcela, pois sabemos que não teremos mais poder de extingui-la se nutrirmos em nós ainda que a mínima centelha dela. E melhor poderemos conservar incólume esta virtude se permanecermos em um mosteiro e, como diz o Apóstolo, tendo sustento e vestimenta, com isso nos contentarmos.
As riquezas são compreendidas de modo tríplice na Sagrada Escritura — a saber, como más, boas e indiferentes…. As indiferentes são aquelas que podem ser tanto boas quanto más, pois podem inclinar-se para um lado ou para outro, segundo o desejo e o caráter daqueles que delas se servem. A respeito destas, diz o bem-aventurado apóstolo: "Manda aos ricos deste mundo que não sejam soberbos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos dá abundantemente todas as coisas para delas gozarmos, que façam o bem, que sejam liberais e generosos, que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, a fim de alcançarem a verdadeira vida." … Quando, pois, abandonamos as riquezas visíveis deste mundo, não rejeitamos os bens que nos são próprios, mas os alheios, ainda que nos gloriemos de tê-los adquirido por nosso próprio labor ou de os termos herdado de nossos antepassados. Pois, como já disse, nada é nosso senão esta única coisa, que é possuída pelo coração, que se apega à alma e que jamais poderá ser arrebatada por ninguém.
Também o salmista declara que esta é a ordem que devemos seguir. Diz ele: «Bem-aventurados os que são incontaminados no seu caminho, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que atendem aos seus testemunhos.» … Deste modo mostra claramente que ninguém pode lograr aplicar-se ao exame correto da Palavra de Deus, a menos que em sua vida cotidiana avance imaculado pelo caminho de Cristo. Portanto, aqueles que mencionaste não podem possuir este conhecimento se são impuros. O que possuem é uma falsa erudição, assim enganosamente chamada, aquela mesma sobre a qual diz o apóstolo: «Ó Timóteo, guarda o que te foi confiado. Em tudo o que disseres, evita as novidades profanas e as pretensões de uma ciência falsamente chamada.»
O bem-aventurado apóstolo, como verdadeiro e espiritual médico, seja vendo já insinuar-se esta enfermidade que brota do espírito de letargia, seja prevendo através do Espírito Santo que ela haveria de surgir entre os monges, apressa-se em preveni-la com os medicamentos curativos de suas prescrições. Pois, ao escrever aos Tessalonicenses, primeiro soa como hábil e excelente médico, aplicando o remédio suave e brando de suas palavras à enfermidade de seus pacientes. Começa pela caridade... para que esta ferida mortal, tratada com remédio mais brando, cessasse sua supuração maligna e suportasse mais facilmente o tratamento mais severo. Escreve: "Mas quanto à caridade fraterna, não necessitais que vos escreva, pois vós mesmos sois ensinados por Deus a amar-vos uns aos outros. Pois isto fazeis para com todos os irmãos em toda a Macedônia." Primeiro começou com a aplicação suave do elogio e tornou seus ouvidos submissos e prontos para o remédio das palavras curativas.... Por fim, com dificuldade, irrompe naquilo a que antes se dirigia. Deu o primeiro alvo: "Esforçai-vos por viver quietos." Depois Paulo acrescenta um segundo: "Cuidai de vossos próprios assuntos." E também um terceiro: "Trabalhai com vossas próprias mãos, como vos ordenamos." ... [O resultado é] que aquele que não trabalha diligente e pacificamente com suas próprias mãos para seu sustento diário certamente olhará com inveja os dons e as bênçãos alheias. Vedes que condições graves e vergonhosas podem brotar unicamente do mal do ócio.
Quando a mente é liberta da concupiscência, estabelecida na tranquilidade e não vacila em sua intenção rumo ao único bem supremo, o monge cumprirá o preceito de São Paulo: "Orai sem cessar", e "levantando em todo lugar mãos santas, sem ira nem contenda". Pela pureza de coração, a mente é afastada dos afetos terrenos e reformada à semelhança de um espírito angélico. Então, qualquer pensamento que a mente receba, qualquer coisa que ela considere, qualquer coisa que faça, será uma oração de verdadeira pureza e sinceridade.
Há, portanto, dois graus de temor. Um é próprio dos principiantes — isto é, daqueles que ainda estão sob o jugo e sob o pavor servil. A respeito deste se diz: "O servo temerá o seu senhor." E no Evangelho: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor." E, por conseguinte, diz: "O servo não permanece para sempre na casa; o filho permanece para sempre." Pois ele nos ensina a passar do temor da pena para a pleníssima liberdade do amor e para a confiança dos amigos e filhos de Deus. E o bem-aventurado Apóstolo, que havia já muito ultrapassado o grau do temor servil, graças ao poder do amor do Senhor, desdenha as coisas inferiores e professa ter sido dotado de bens maiores.
Aquele que deseja extinguir os desejos naturais da carne deve primeiro apressar-se a vencer aqueles vícios cujo fundamento é contrário à nossa natureza. Pois, se desejamos experimentar a força do conselho do Apóstolo, devemos primeiro aprender quais são as leis e qual é a disciplina do certame do mundo. Isso, para que, finalmente, por comparação com estas, possamos conhecer o que o bem-aventurado Apóstolo quis ensinar a nós que combatemos no certame espiritual.
Disse o Abba Germano: "Visto que nos deste os remédios contra toda ilusão, e visto que as ciladas diabólicas que costumavam nos perturbar nos foram desveladas por teu ensino e pelo dom do Senhor, suplicamos-te que nos expliques igualmente por inteiro esta sentença do Evangelho: 'O meu jugo é suave e o meu peso é leve.' Pois parece bastante contrária às palavras do profeta, que diz: 'Por causa das palavras dos teus lábios, guardei caminhos árduos.' De fato, também o Apóstolo diz: 'Todos os que querem viver devotamente em Cristo padecem perseguição.' Ora, tudo o que é árduo e se refere à perseguição não pode ser nem leve nem suave." Disse o Abba Abraão: "Demonstraremos pela prova fácil da própria experiência que as palavras de nosso Senhor e Salvador são verdadeiríssimas, se empreendermos o caminho da perfeição de modo legítimo e segundo a vontade de Cristo… Pois que pode ser pesado ou árduo para aquele que tomou sobre si o jugo de Cristo com toda a mente, está estabelecido em verdadeira humildade, medita constantemente na paixão do Senhor e se regozija em todas as adversidades que lhe sobrevêm?" Conferências.
Enfim, aos próprios tessalonicenses, a quem na primeira epístola Paulo tratara com a suave aplicação de suas palavras, na segunda epístola ele se esforça por curar com remédios mais severos e ásperos, como convém àqueles que não haviam se aproveitado de um tratamento mais brando. E já não emprega o tratamento de palavras suaves, nem expressões mansas e afáveis como "Mas nós vos rogamos, irmãos". Antes diz: "Nós vos ordenamos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente." Na primeira carta, Paulo roga; na segunda, ordena. Na primeira vemos a bondade de quem persuade; na segunda, a severidade de quem protesta e ameaça. "Nós vos ordenamos, irmãos", porque, quando primeiro vos rogamos, desprezastes as nossas palavras. Agora ao menos obedecei às nossas ameaças. Paulo torna severo este mandamento, não por sua palavra nua, mas pela invocação imprecatória do nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele teme que voltem a desprezar seu ensinamento como mera palavra humana, tendo-o em pouca conta. E assim, bem diretamente, como médico bem experimentado que opera em membros infeccionados, aos quais não podia aplicar o remédio de um tratamento brando, Paulo tenta curar mediante uma incisão com o bisturi espiritual... Ele os manda apartar-se daqueles que não quiserem dar tempo ao trabalho, e cortá-los como membros contaminados pelas chagas purulentas do ócio. Isto para que a moléstia da ociosidade, como um contágio mortífero, não infeccione também a porção sã de seus membros pelo avanço gradual da infecção.
Certa vez, o abade Serapião zombou finamente desta falsa humildade. Chegou à sua cela um homem que fazia grande alarde de humildade no trajar e no falar. Serapião, como de costume, pediu-lhe que fizesse uma oração. O visitante recusou-se, dizendo que era culpado de tais crimes que não merecia sequer respirar o mesmo ar. Recusando a esteira, sentou-se no chão. Menos ainda permitiu que Serapião lhe lavasse os pés. Após a ceia, é costume haver uma conferência religiosa. Serapião, então, com bondade e mansidão, começou a admoestá-lo por ser um vagabundo ocioso e desregrado, tanto mais que era jovem e forte. Disse-lhe que devia estabelecer-se numa cela, sujeitar-se às regras dos anciãos e sustentar-se com o próprio trabalho, em vez de viver da hospitalidade alheia. Visto que São Paulo trabalhava para a difusão do evangelho, poderia razoavelmente ter vivido à custa de outros. Contudo, preferiu trabalhar noite e dia para obter o pão cotidiano para si e para os que o assistiam e não podiam trabalhar... Deveis conservar a verdadeira humildade de coração — pois a verdadeira humildade não provém da afetação de postura ou de linguagem, mas de um rebaixamento interior da mente.
Ó Teófilo: pois o nosso Senhor nos ensinou, por Seu próprio exemplo, que devemos guardar esta ordem, como dEle se diz: que Jesus começou a fazer e a ensinar.
Isto é o que disse o apóstolo: "Observais os meses, os tempos e os anos". Ou ainda: "Não toques, não proves, não manuseies". E não há dúvida de que isto se diz a respeito das superstições da lei. Mergulhar nelas é ser adúltero afastado de Cristo.
Esta é a espada que, para nossa saúde, derrama o sangue nocivo que anima a matéria de nossos pecados, cortando e excisando tudo quanto encontra em nossa alma que seja carnal ou terreno e, uma vez que nos tenha feito mortos aos vícios, faz-nos viver para Deus e florescer nas virtudes espirituais.
Vede como ele se alegrava na dignidade de suas cadeias, pelo exemplo das quais na verdade incitava outros. Mas não pode haver dúvida de que, onde há amor uniforme ao Senhor, há também deleite uniforme nas cadeias trazidas por causa do Senhor: como está escrito: "Ora, a multidão dos que creram era de um coração e de uma alma".
Não somente o início de nossa conversão, mas também a sua continuação, mediante a perseverança no sofrimento por ela, são dons que nos são dados pelo Senhor.
Quem poderia ser tão presunçoso e cego a ponto de ousar confiar em seu próprio juízo e discernimento, quando o vaso de eleição testemunha que necessita da parceria de seus coapóstolos? Conferências.
Uma só e mesma Jerusalém pode ser entendida de quatro modos: historicamente, como a cidade dos judeus; alegoricamente, como a Igreja de Cristo; anagogicamente, como a cidade celeste de Deus, que é a mãe de todos; e tropologicamente, como a alma humana, que sob este nome é frequentemente repreendida ou louvada pelo Senhor.
Uma guerra interior é travada todos os dias dentro de nós. Os desejos da carne e do espírito habitam em uma só e mesma pessoa. A concupiscência da carne precipita-se de cabeça no vício, deleitando-se nos prazeres mundanos que parecem satisfazer. Em contrapartida, o desejo oposto do espírito é tão ávido por aderir inteiramente às ocupações espirituais que, de modo exagerado, chega a escolher excluir até mesmo os usos necessários da carne. Ao querer estar tão inseparavelmente unido às coisas espirituais, recusa-se a cuidar da própria fragilidade corporal.
Devemos orar com sumo silêncio, para que a intenção de nossa súplica permaneça oculta até mesmo dos nossos inimigos, que nos espreitam com extrema atenção quando estamos orando.
Devemos, com efeito, orar frequentemente, mas brevemente, para que, enquanto nos detivermos em oração, o inimigo insidioso não possa introduzir algo em nosso coração.
E que nos apressemos com sumo desejo em direção àquela região na qual confessamos que nosso Pai habita.
Ou porque o santo conhece, pelo testemunho de sua consciência, que quando o reino de Deus aparecer, ele será participante dele.
Quando diz "hoje", mostra que deve ser tomado diariamente, e que esta oração deve ser proferida em todos os tempos, pois não há dia em que não tenhamos necessidade, por meio da recepção deste pão, de fortalecer o coração do homem interior.
Ainda que esta expressão hoje possa ser entendida da presente vida; isto é, enquanto permanecemos neste mundo, concede-nos este pão.