Mário Vitorino
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea (séc. IV). Biografia em preparação.
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Foi o Verbo encarnado quem realizou o mistério de nossa salvação. Foi Ele quem nos libertou e nos redimiu. Cremos naquele que é nosso Salvador por meio da cruz e por meio de sua ressurreição dentre os mortos.
Portanto, Deus é também Ser, sendo ao mesmo tempo existência e substância, ainda que Ele esteja acima de tudo isso, porquanto é o Pai de todas as coisas. Não devemos temer usar a palavra substância para Deus, pois, quando faltam palavras para descrever as realidades supremas, não é impróprio que tomemos termos emprestados daquilo que conhecemos e compreendemos, empregando-os nesse sentido especial.
Quando Jesus Cristo elegeu Paulo e o fez apóstolo, elegeu-o pelo Espírito, pela vontade de Deus ou pelo poder por meio do qual Deus opera sua vontade. Entendamos, pois, como frequentemente digo, que a vontade de Deus é o próprio poder, a grandeza e a substância de toda a plenitude divina. Cristo — isto é, o Verbo de Deus que estava em Cristo — é a vontade de Deus. Aqueles que considerarem isso mais atentamente hão de encontrar que Deus e Sua vontade são inseparáveis.
Em outras epístolas, quando escreve a uma igreja e a seu povo, não acrescenta "aos santos e aos fiéis". Mas agora, porque deseja mantê-los fiéis ao santo Nome, de modo que, sendo santificados, nada acrescentem superficialmente em excesso ao Nome, chama-os simplesmente por este nome: são os fiéis "em Cristo".
Tanto a graça quanto a paz removem a contenda. Transmitem a vontade de Deus. Visto, portanto, que estavam presos no erro, buscou-se primeiramente a graça em seu favor, a fim de que conhecessem a Deus e plenamente obedecessem a Deus e a Cristo, depositando toda a confiança em Cristo e em nada mais... Depois acrescenta também "paz da parte de Deus". Aquele que quer sem graça gera severa discórdia.
Deus, em seu amor, nos predestinou à adoção por meio de Cristo. Como poderia Deus ter Cristo como Filho por adoção?... Falamos de nós mesmos como herdeiros de Deus Pai e herdeiros por meio de Cristo, sendo filhos por adoção. Cristo é seu Filho, por meio de quem se realiza que nos tornemos filhos e coerdeiros em Cristo.
Nós, sendo tais quais somos, estamos cercados e retidos pelo vício e pelo pecado libidinoso. Quando somos libertados por Ele, absolvidos do pecado e perdoados de nossos pecados, somos também adotados como seus filhos. Tudo isto é, portanto, para louvor de sua glória e graça — sua glória porque Ele pode tanto, e sua graça porque Ele nos oferece isto gratuitamente.
As riquezas de Deus são derramadas sobre nós na medida em que Ele nos faz algo melhor do que éramos no início de nossa existência.
Não somente Deus tem uma vontade, mas a intenção de sua vontade é expressa em Cristo. Por isso, todas as coisas são feitas por meio dEle. Não há nada no mistério que não seja feito por meio de Jesus Cristo.
Toda esta sabedoria e prudência consiste em conhecer a Cristo e, por meio de Cristo, entender e ver a Deus. Pois toda a sabedoria restante que há no mundo, e qualquer outra sabedoria desta espécie que porventura exista fora dele, toda sabedoria e prudência, ainda assim, é vazia, vil e miserável sem Cristo.
Não são todas as coisas indiferentemente que são restauradas, mas todas as coisas que estão em Cristo — tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra —, somente aquelas que estão em Cristo. As demais lhe são estranhas. O que quer que esteja em Cristo, portanto, é isto que é revivificado e ressuscita, seja nos céus, seja na terra. Pois Ele é a salvação, Ele é a renovação, Ele é a eternidade.
Primeiramente é concedido ao crente esperar em Cristo, isto é, seguir a Cristo e crer que todas as promessas de Cristo podem ser cumpridas. Somente então será a consequência que ele viverá para o louvor da glória de Deus.
Ele passa agora às exortações específicas para os efésios, e ao mesmo tempo os adverte a não acolherem ideias contrárias. Primeiro ele se expressa com generosidade: "tendo ouvido", diz ele, "da vossa fé no Senhor Jesus Cristo". Pois esta é a soma de todas as coisas, esta é a virtude, este é o mistério: que haja fé em Cristo Jesus. Esta fé também exorta a amar todos os santos, todos os que têm fé em Cristo e foram santificados por meio dele. Assim, aquele que é fiel em Cristo ama os santos... "Por isso eu também, tendo ouvido da vossa fé, vos amo".
Toda oração que oferecemos a Deus é feita ou em ação de graças pelo que recebemos, ou em súplica para receber outra coisa. Somos exortados a orar tanto por nós mesmos quanto por aqueles que amamos. Assim diz Paulo: "faço menção de vós em minha oração". "Portanto minha principal oração é primeiramente por mim, depois por vós".
Entendamos que chegamos ao pleno mistério de Deus por duas vias: nós mesmos, por discernimento racional, podemos vir a compreender e discernir algo do conhecimento das coisas divinas. Mas há também uma certa autorrevelação divina, pela qual o próprio Deus nos revela a Sua divindade. Alguns podem perceber diretamente, por esta revelação, algo admirável, majestoso e próximo da verdade... Mas, quando recebemos a sabedoria, apreendemos o que é divino tanto pelo nosso próprio discernimento racional quanto pelo próprio Espírito de Deus. Quando chegamos a conhecer o que é verdadeiro do modo que este texto pretende, ambos os modos de conhecer correspondem-se.
Todos os nomes são invenções secundárias. Apontam primariamente para aquilo que está na ordem criada, sejam anjos, homens ou potestades temporais. Ao contrário, só é eterno em essência aquilo que possui existência sem dependência de outra coisa que exista, aquilo que vive por poder próprio. O que é eterno não tem nome em si mesmo. Tais "nomes" são acrescentados por nós, com nosso vocabulário e nossa linguagem. Cristo recebe de nós estes nomes (Filho de Deus, divino, Espírito), e contudo Ele é ainda mais do que qualquer coisa que estes nomes possam exprimir... Entre os nomes, o nome que ocupa o lugar principal, e do qual todos os demais nomes provêm, é aquele que os gregos chamam o próprio Ser. Mas Cristo está acima deste mesmo ser, e é, portanto, acima de todo nome.
Porque Ele é a fonte, a origem e o princípio em tudo o que se move, Cristo foi por isso colocado "acima de todo principado e de toda potestade". Uma coisa é o principado, outra a potestade. O principado exprime-se no ato. A potestade exprime-se na capacidade de agir. Um ato potencial pode existir não como fato presente, mas como possibilidade presente de algo. Mas, visto que o próprio Cristo é a origem de tudo e está em tudo o que é possível, Ele está "acima de toda potestade". Visto que Ele é a fonte de todos os atos, e o principado se exprime nos atos, diz-se por isso que está "acima de todo principado".
Todas estas afirmações sobre a magnificência e o poder de Cristo têm este propósito: provar que nada mais há a receber, que nenhum outro pensamento é requerido para completar a revelação. Erram, pois, os efésios se acrescentarem algo mais e introduzirem qualquer coisa da doutrina dos judeus ou do mundo.
Cristo é a plenitude da Igreja. Esta plenitude inteira está em processo de ser preenchida. Em certo estágio, tudo o que está sendo preenchido é esvaziado. Assim Cristo foi esvaziado, ou esvaziou-se a Si mesmo. Tendo recobrado novamente todas as coisas por meio do mistério da salvação, e salvo o número pleno das almas, Cristo preenche todas as coisas em todos. –.
A morte é entendida de dois modos. O primeiro é a definição familiar — quando a alma se separa do corpo ao término da vida. O segundo é que, permanecendo nesse mesmo corpo, a alma persegue os desejos da carne e vive no pecado. –.
A luz e as trevas são duas coisas, como o são a verdade e a falsidade, a bondade e a maldade. Mas não devem ser imaginadas como iguais, pois não é piedoso comparar algo a Deus, mesmo por via de contrários. Devemos, pois, entender que há dois espíritos, um da fé e outro da desobediência. Satanás e seus demônios têm sua substância do ar, isto é, da realidade material. Deriva-lhes daí, do mesmo modo, o poder sobre aqueles que pensam materialmente. O príncipe daquele poder que está no ar opera por meio da matéria. Ele é, portanto, aquele espírito que agora opera por meios materiais entre os filhos da desobediência. Ele possui as suas mentes e tem domínio sobre eles. Por isso, aquele que vive “segundo o curso deste mundo vive segundo o príncipe do poder do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.” –.
Não nos fez merecedores, uma vez que não recebemos estas coisas por mérito próprio, mas pela graça e bondade de Deus. ... Mas tudo isto, como ele frequentemente afirma e eu insisto, é em Cristo. Pois nele está todo o mistério da ressurreição, tanto a nossa quanto a de todos os demais.
O fato de vós, Efésios, serdes salvos não é algo que provenha de vós mesmos. É dom de Deus. Não provém de vossas obras, mas é a graça de Deus como dom de Deus, não a partir de nada que tenhais merecido. Uma coisa são as nossas obras, outra o que merecemos. Por isso ele distingue as duas expressões "não de vós mesmos" e "não das obras". Recordai-vos de que há obras de fé que devem ser manifestadas diariamente nos serviços aos pobres e em outras boas ações.
Refere-se Paulo às "boas obras" no tempo futuro, ou àquelas que agora realizamos? De qualquer modo que se entenda, são boas para que nelas andemos. São testemunhas da obra de Cristo em nós.
O verdadeiro caminho de Israel consiste em viver segundo o Espírito, pensar segundo o Espírito e ser circuncidado dos desejos indignos.
Cristo, diz ele, "é a nossa paz". Em outro lugar, Paulo o chama de mediador. Ele mesmo se interpôs, de sua própria vontade, entre reinos divididos. As almas nascidas da fonte da bondade de Deus estavam detidas no mundo. Havia entre elas um muro, uma espécie de cerca, uma divisória feita pelos enganos da carne e pelas concupiscências mundanas. Cristo, por seu próprio mistério, sua cruz, sua paixão e seu modo de vida, destruiu esse muro. Venceu o pecado e ensinou que ele podia ser vencido. Destruiu as concupiscências do mundo e ensinou que deviam ser destruídas. Removeu o muro que havia entre elas. Foi em sua própria carne que Ele venceu a inimizade. A obra não é nossa. Não somos chamados a libertar-nos por nós mesmos. A fé em Cristo é a nossa única salvação. –.
Assim, as suas almas foram reconciliadas com o eterno e o espiritual, com todas as coisas de cima. O Salvador, por meio do Espírito, de fato o Espírito Santo, desceu às almas. Uniu, deste modo, o que havia sido separado, as coisas espirituais e as almas, de sorte a tornar as próprias almas espirituais. Ele as estabeleceu em si mesmo, como diz, "num homem novo". Que é este homem novo? O homem espiritual, distinto do homem velho, que era a alma em luta contra a carne. –.
Ele distingue "os que estão longe" dos "que estão perto". Isto se refere aos gentios e aos judeus. Pois os judeus, evidentemente, estão próximos, e os gentios, distantes. Contudo, o próprio Salvador levou o evangelho aos gentios. Paulo aqui menciona primeiro que Cristo, por sua vinda, verdadeiramente anunciou a paz também aos que estão longe, isto é, aos gentios, como se demonstra por muitos indícios. Pois os que vêm à fé provenientes dos gentios têm, paradoxalmente, maior direito a serem chamados filhos do que os provenientes dos judeus. E, no entanto, para que isso não seja negado a estes últimos, acrescenta "e os que estão perto". .
Tanto judeus como gentios "têm acesso ao Pai" por meio do próprio Cristo. Mas como? "Em um só Espírito." Pois o Espírito, que é um só com Cristo, entra em nós quando cremos em Cristo. Sentimos então a presença de Deus, conhecemos a Deus e adoramos a Deus. Assim, chegamos ao Pai naquele mesmo Espírito, por meio de Cristo. Ninguém, seja judeu ou gentio, vem ao Pai senão por meio de Cristo. .
Que devemos entender por "concidadãos dos santos"? Isto implica uma distinção entre cidadãos e santos. Mas, se assim é, quem são os santos e quem são os cidadãos? Santos refere-se aos apóstolos, aos profetas e a todos os que outrora experimentaram a Deus ou falaram divinamente pelo Espírito que neles habitava. Estes de algum modo contemplaram a presença de Deus, como Abraão, seja pela carne, seja pelo Espírito, seja por ambos, carne e Espírito, como se deu com todos os apóstolos. Aqueles que depois creram em Cristo sem tal meio especial são "concidadãos dos santos e membros da casa de Deus".
Jesus Cristo e seus ensinamentos são o fundamento dos apóstolos. O edifício construído sobre este fundamento consiste na vida, no caráter e na conduta e disciplina de cada um. O fundamento primeiro é para a vida; o resto do edifício é para seu ornamento e edificação. O fundamento primeiro, digo, é crer em Cristo, esperar nele e confiar em Deus. Este fundamento é o ensinamento dos apóstolos, que se ouve também na palavra dos profetas. Note-se a ordem desta distinção, primeiro apóstolos e depois profetas. Os apóstolos contemplaram [Deus encarnado]; os profetas receberam o Espírito. Estes são os santos mencionados acima: os que viram e os que foram habitados pelo Espírito. Daí que os ensinamentos dos apóstolos e profetas sejam, na verdade, os ensinamentos de Cristo, os quais proclamam o fundamento de toda esperança eterna.
Todas as almas feitas espirituais por Cristo são unidas e edificadas em templo santo, onde Deus habita. Como Cristo está em todos e Deus em Cristo, todos são templo de Deus por meio de Cristo.
Chamou a esta pedra angular não meramente por estar no ângulo, mas porque é a primeira e mais importante pedra. Dela começa o fundamento do ângulo que une e acopla duas coisas para fazê-las uma só. As almas de cima, já com Cristo, são unidas com aquelas que vivem em santidade e recebem a Cristo num mistério que se faz presente. As almas de baixo que são de Cristo, incluindo as dos gentios, são também unidas por essa pedra angular, Jesus Cristo.
Como faz tão frequentemente, ele retorna o argumento aos indivíduos, isto é, aos Efésios. Eles mesmos foram edificados naquele mesmo templo, sobre a pedra angular. Aqui ele ajusta engenhosamente sua linguagem para formar uma exortação. Eles ainda não entraram plenamente nesta unidade, mas ainda estão sendo edificados. Há uma deficiência, e por isso ele adverte e exorta.
Resta, depois que afirmou a verdade de que toda a esperança deles está posta em Cristo e que assim todos estão sendo edificados juntos no Espírito para se tornarem morada de Deus — resta, digo, que ensine quem ele mesmo é e se ele mesmo contribui para edificá-los em conjunto por meio do evangelho, e possa dar razão da sua própria autoridade, a fim de que nele creiam. –.
Paulo indica que este mistério lhe foi dado a conhecer por revelação. Por esta passagem é evidente que um cristão, e mesmo um cristão excelentíssimo, pode ser constituído somente pela graça…. Contudo, o poder de Deus dispensa a graça de muitas maneiras. Outros chegam à fé pelo ensino, em que, por um processo legítimo de instrução e pelos mandamentos do Salvador, o homem renasce pelo Espírito e pela água, de modo a receber o espírito de Cristo, num processo de ensino mediado por homens e através de homens. Mas o que sucedeu a Paulo veio-lhe pela graça de Deus, por revelação. Ainda que ele, a meu juízo, tenha sido o único a receber esta revelação particular, Deus pode revelar-se desta forma, ou de outras, a outros. –.
Ensina que há perfeita harmonia — completa unidade e identidade — entre as revelações a ele dadas e as dadas aos apóstolos. Seu propósito é evitar a discórdia e toda aparência de haver recebido por revelação algo que não fora dado aos apóstolos pelo Cristo vivo. .
Em toda parte Paulo nos lembra que recebemos os dons de Deus não por mérito próprio, mas por graça. A graça pertence a quem a dá, não a quem a recebe. E, ao acrescentar "segundo a operação do seu poder", atribui isto também a Deus, de modo que "se faço alguma obra, é o poder de Deus. Pois não é o meu poder que opera em mim, mas o de Deus." –.
Foi dada a obra antes da graça? Ou veio a graça antes de qualquer obra? Aquilo que opera é o poder de Deus. Logo, a graça já havia sido dada. Quando se diz que Paulo foi feito ministro segundo o dom de Deus, entendemos que o dom de ser ministro foi dado antes da sua operação para o fazer ministro, e o seu ser ministro é o dom e a graça de Deus. –.
Quando fala em fazer com que “todos os homens vejam o plano”, isto inclui tanto Israel quanto os gentios. Paulo havia, sem dúvida, recebido o evangelho para os gentios. Mas também os judeus podem ver o plano, se o seguirem e obedecerem.
Cristo é o Filho unigênito de Deus, e por meio dele todo o resto é criado. Por meio dele são criadas as obras de Deus, na medida em que Deus opera nele e através dele. Todas as idades do tempo são posteriores a Cristo, sendo feitas por Cristo... Portanto, ainda que se reconheça Deus como Criador, Deus é, não obstante, Criador por meio de Cristo. O termo Criador, pois, não pertence simplesmente a Deus enquanto tal, mas pertence a Cristo, e por meio de Cristo, a Deus. Cristo, que foi eternamente gerado, criou todas as coisas no tempo. Deus operou e criou todas as coisas por meio de Cristo.
Paulo toca brevemente em todas as partes do mistério de que falamos acima quando menciona a "multiforme sabedoria de Deus", seja quanto ao fato de ter enviado o seu Filho, seja quanto ao fato de tamanha majestade ter assumido a forma de servo, seja quanto ao fato de terem sido dados dons ainda maiores. As promessas são tão grandes: a remissão dos pecados, a promessa do céu, a vida eterna, a glorificação e a nossa herança juntamente com o mesmo Cristo em sua ressurreição após a morte, e ainda a própria morte dele. Isto é o que constitui a multiforme sabedoria de Deus.
A sua expressão "por meio da Igreja" significa por meio de todos os membros de Deus e por meio de toda alma que revestiu os seus mistérios e nele depositou a sua esperança. Por meio disso compreendemos o que foi dado à humanidade. Os principados e potestades nos céus aprendem a sabedoria de Deus por meio de um mediador humano.
Por isso vemos o que significa dizer que o mistério estava oculto em Deus, pois ele acrescenta "segundo o propósito dos séculos". Isto significa que, depois que certas idades atingiram o seu termo predestinado, o mistério haveria de manifestar-se por meio da presença do Senhor, em quem estivera oculto. Pois era conveniente que fosse revelado por meio Daquele em quem estivera oculto.
Quando alguns ouvem que Paulo padece tribulações, podem esmorecer na fé. Para prevenir isso, ele argumenta, em suma: "Rogo, por causa do que me foi revelado, que não esmoreçais por causa das minhas tribulações. Estas tribulações que padeço não se devem a coisa alguma que eu tenha causado, mas antes a que vós sois fracos na fé, ou agora vacilais, ou estais fazendo alguns acréscimos desnecessários à fé. Esta é a razão pela qual suporto estas provações. Espero agora reconduzir-vos à verdadeira disciplina e observância, para que não vos aparteis de Cristo, tendo a vossa esperança somente em Cristo. Pois esta é a vossa glória."
Toda boa obra e ação se dá por meio de Cristo. O espírito de Cristo é o de um ministério de serviço. Ele mesmo é o ministério de Deus para conosco. Deus faz tudo por meio dele. Por isso diz: "Dobro os meus joelhos ao Pai."
Ao ajoelhar-nos, demonstramos a forma plena da oração e da súplica. Assim dobramos os joelhos. Não devemos apenas inclinar a mente à oração, mas também o corpo. Fazemos bem em abaixar o corpo, para que não criemos a impressão de elevação ou aparência de soberba.
Que são estas "riquezas da glória de Deus"? São "ser fortalecidos com poder por meio do seu Espírito", para que possam ser fortes contra a natureza pecaminosa, os desejos da carne e os terríveis poderes deste mundo. Este fortalecimento se dá por meio do Espírito de Deus. Mas como são as pessoas fortalecidas e firmadas por meio do Espírito de Deus? Por "habitar Cristo no homem interior", diz ele. Pois quando Cristo começa a habitar na cidadela interior da alma, as pessoas são fortalecidas com poder por meio do Espírito. Deste modo, tudo o que é de natureza hostil é expulso.
Havendo ensinado que três coisas concorrem para a maturidade em Cristo — a fé, a inteligência e a caridade —, aqui as reúne todas em breve síntese. Ora ele roga que Deus conceda todos estes dons aos efésios. Note-se a sequência que seguiu: falou primeiro da fé, "para que Cristo habite pela fé em vossos corações, no homem interior". Agora fala da inteligência, dizendo "para que possais compreender, com todos os santos, a largura, o comprimento e a profundidade". Depois acrescenta, quanto à caridade, "conhecer a caridade que excede todo conhecimento". –.
Deus é por meio de todas as coisas e em todas as coisas, e é todas as coisas e a fonte de todas, por quem todas as coisas vêm e sobre todas está. Sob este aspecto, a tarefa da inteligência é notar e conhecer o que sejam "a largura, o comprimento, a altura e a profundidade" da graça divina. Como todas estas coisas subsistem juntas, ou como se pode entendê-las como subsistindo em Deus e segundo estes aspectos, requer outra compreensão, mais elevada… Por isso ora, por fim, para que os efésios as compreendam todas em conjunto. E para que não desesperem por sua incapacidade de compreendê-las em conjunto, acrescenta: "para que possais compreender, com todos os santos". Portanto os santos compreendem estas coisas em conjunto e podem expô-las. –.
Aquele que conhece a caridade que "excede todo entendimento" exprimirá melhor a plena medida do amor a Cristo. Paulo roga que primeiro conheçam [a caridade de Cristo], antes de fazer algo. O agir procede deste conhecer. –.
Diz, em suma: "Rogo que façais estas coisas e as compreendais. Se, porém, alguém puder fazer mais e mais abundantemente, e ir além destas coisas — isto é, além do que peço ou compreendo —, louvor lhe seja dado. Contudo, quem fizer mais abundantemente receberá esta capacidade pelo mesmo poder que opera em todos nós, a saber, pelo poder de Deus e de Cristo, nosso Senhor." –.
Fala ele de várias formas de longanimidade, cada uma das quais os impede de serem arrebatados ou soberbos. A humildade vem primeiro, depois a mansidão. A humildade consiste em ter um espírito humilde. A mansidão é um freio contra a soberba e a crueldade. A paciência consiste em suportar qualquer circunstância adversa que lhes sobrevenha. Com a humildade e a mansidão aprendem a não temer o sofrimento. Com a paciência aprendem como hão de responder, caso lhes seja necessário sofrer. –.
Ao aconselhar humildade, mansidão etc., ele expõe a razão pela qual cada pessoa é chamada à paciência e à tolerância. A graça foi dada a cada um de nós segundo a medida em que Cristo a concede. Uma vez que, portanto, diferentes pessoas têm diferentes dons, não há motivo para inveja ou recusa. Ninguém deve entristecer-se com o que outro possui, nem deve recusar-se a dar a graça que recebeu. Se, pois, Cristo concede segundo a medida da graça dada a cada um, devemos todos abraçar-nos uns aos outros em amor, suportando tudo com tolerância e paciência, com mansidão e humildade.
Nada no cosmos permanece intocado por Cristo. Ele, de fato, desceu às partes inferiores da terra e ascendeu acima de todos os céus. Que céus? Uns dizem três, outros mais... mas que importa isso? Cristo, que ascendeu, ascendeu acima de todos os céus, quantos quer que sejam. Pois é a eternidade que agora reina no céu, e a vida incorruptível. Todas as coisas ali vivem pelo Espírito. Esta reordenação, contudo, não ocorreu senão após a descida de Cristo. Uma vez consumado o mistério [da cruz], todas essas coisas receberam a salvação depois da paixão e da ascensão de Cristo, e foram aperfeiçoadas. Pois é isto que ele quer dizer com "para que Ele cumprisse todas as coisas", isto é, torná-las perfeitas e plenas, sem que nada faltasse... Certamente não se pode entender isto como se Ele tivesse cumprido sua missão na terra sem nada corrigir nos céus nem ali nada aperfeiçoar.
O nome de profetas é dado àqueles que, tendo recebido o Espírito de Deus, anunciaram de antemão Cristo e sua vinda. Estes foram os profetas que "existiram até Cristo". Mas, depois que Ele chegou, não houve mais razão para qualquer profecia ulterior? De que profetas fala Paulo aqui? É evidente que se trata daqueles que, estando cheios do Espírito, falavam de Deus após sua vinda, prosseguindo em expor o ensinamento divino.
Há cinco modos de falar acerca das Escrituras: falar em línguas, falar em revelação, falar em conhecimento, falar em profecia, falar em doutrina… Mas há ainda outra coisa distinta destas. É ser evangelista. Isto significa relatar o que Cristo fez e anunciar que o próprio Cristo há de ser adorado. –.
Crer em Cristo é alcançar a imortalidade e receber a vida eterna. Pois Ele mesmo é a vida. Ele mesmo é a luz. Ele mesmo é a eternidade. Ele mesmo é Aquele que vence a morte. Vencendo a morte, Ele nos venceu também a nós, mediante o mistério cumprido da salvação.
Ele nos chama a viver como aquele cujos pensamentos procedem do Espírito, tornando-se de novo o homem espiritual criado por Deus. Devemos viver à semelhança de Deus, tal como Deus dispôs quando disse: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança." Certamente Deus não tem face nem aspecto físico. Deus é Espírito. Assim também nós fomos criados segundo Deus, para pensar segundo o Espírito e, deste modo, não permitir que nada nos arraste a pensamentos mundanos e indignos.
O diabo nada pode contra nós, a menos que nós mesmos, de bom grado, lho permitamos. Isto é verdadeiro em todos os nossos atos. Assim, somos senhores de nossa própria vontade; do contrário, não mereceríamos boa recompensa por nossos bons atos, nem punição por nossos maus atos. A ocasião do diabo nasce de nosso próprio vício.
O pecado não consiste em simplesmente cometer o pecado, mas em nele persistir. Se assim é, sempre há lugar para o arrependimento. Há lugar para a correção. Por isso diz o Apóstolo: "aquele que furtava, não furte mais." Isto se deve aplicar não somente ao furto, mas também a todo pecado. Todo aquele que pecou de algum modo é agora chamado a não mais pecar.
Ele acrescenta brevemente, ao final, cinco termos — amargura, indignação, ira, gritaria, maledicência. E, no termo derradeiro, acrescentou a frase recapituladora com toda malícia. A amargura consiste em invejar e falar mal dos outros, e ações semelhantes. A indignação consiste na cobiça de vingança e castigo. A ira é o ímpeto de um ânimo que ferve e se agita além do razoável. A gritaria é uma espécie de proferimento insano e descontrolado. E a blasfêmia é pensamento ou palavra iníqua que ataca a Deus e se dirige primordialmente contra Deus.
Assim como o Pai e o Filho são de uma só substância, também são um em vontade... O Filho ofereceu-se a Si mesmo ao Pai, para que, por meio deste mistério de seu sacrifício, todas as coisas fossem renovadas por seu Espírito. Desta maneira, Ele mesmo é o aroma de suavidade.
O nome, a mente e a consciência dos santos exigem que a própria língua seja instrumento de santidade. Se alguém que é santo em seus costumes fala desnecessariamente de comportamentos abomináveis, nele pode residir o pecado. Até mesmo o falar destas coisas pode revelar quão familiarizado está com vícios que seria melhor calar.
Tendo dito o que deve ser, acrescenta o que deve ser, sobretudo, a saber, que "demos graças" — a Deus, sem dúvida, mas também aos demais homens. Por isso emprega o termo ação de graças sem qualquer restrição.
Visto que ele enumerou primeiro três pecados, e depois acrescentou outros três, seu ensinamento exige que se explique que os três primeiros são mais graves, uma vez que disse que estes três primeiros nem sequer devem ser nomeados entre os santos.
A estes ele chama "filhos da desobediência"; pois há muitos que menosprezam a promessa do reino celestial…. Eles descreem; não têm fé. A ira de Deus vem sobre os filhos da desobediência. A desobediência resume-se no diabo a quem servem. Por isso são chamados filhos dele.
Se é vergonhoso até mesmo falar destas coisas em segredo, torna-se bastante claro que estes homens praticavam obras iníquas, coisas depravadas demais até para se mencionar.
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Havendo-lhes ensinado também a aconselhar a todos os que obram mal, mostra em seguida quão grande serviço é este. Pois a admoestação torna manifestos os pecados. Ela os põe à luz. Porquanto aquele que admoesta demonstra quão grave é o comportamento que ilumina. Fazendo isto, ele efetivamente ilumina o mal, para mostrar as suas consequências. Quando aquele que comete o mal compreende isto, dissipam-se as sombras e ele entra na luz.
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Entendemos aqui "a Igreja" como significando todo crente e todo aquele que recebeu o batismo. O crente é conduzido à fé pela lavagem na água e pela invocação do Verbo. Mas como se aplica isto à conduta do marido para com a sua mulher? Isto não é de todo claro. Uma opinião possível é que o mistério do batismo esteja sendo reencenado nesta metáfora. Por outro lado, se referirmos isto à perseverança do marido, a qual implica que ele se entregue pela mulher e suporte e padeça tudo o que é dela, participando mesmo de tudo o que ela padece, ela está sendo purificada com água e com o Verbo — isto é, está sendo purificada à vista do Senhor quando Ele a torna pura e, por Sua perseverança, a prepara para ser santificada pela lavagem e pelo Verbo.
O que Cristo realiza [no batismo] é que a Igreja seja "santa e imaculada". Ela é "santa" porquanto foi purificada pela lavagem da água mediante o Verbo. Ela é "imaculada" porquanto está sem mácula nem ruga.
Já deu ele instruções, de modo geral, aos homens acerca de suas esposas e às mulheres acerca de seus maridos. Aplica agora os mesmos princípios especificamente aos efésios... Acrescentou a partícula conectiva contudo. Isto mostra que, assim como Cristo e a Igreja são um só corpo, também o marido e a mulher são uma só carne. A máxima do marido é amar sua esposa como se fosse sua própria carne.
A fé vive na justiça. A fé permanece como fonte de todas as virtudes, como Paulo repetidas vezes afirmou. A justiça não é tão forte quanto a fé, pois "o justo viverá pela fé". Mas o efeito da justiça realiza-se pela fé. Assim, neste combate, devemos esforçar-nos rumo à justiça. A fé mostra-se verdadeira fé quando vivemos justamente. Então a fé revela-se útil para nós, assim como é útil a justiça que acompanha a fé.
O evangelho há de ser levado ao estrangeiro. Há de ser pregado entre as nações. Ora, onde quer que seja pregado, é preciso que seja ouvido. Mas para que todos ouçam, é necessário usar os próprios pés para viajar. E assim viajamos com pressa e urgência.
Retorna Ele àquela virtude capital, o escudo da fé. Este contém todas as demais virtudes e as conduz todas à sua plenitude. A menos que estejamos armados com este escudo, não teremos a força para combater corajosamente e resistir a todas estas potências mortíferas. Mas, com a proteção da fé, repelimos todos estes golpes e quaisquer ataques que venham de toda a hoste das potestades.
É Cristo, na verdade, o autor da salvação. Ele é a nossa cabeça. Desceu até nós e nos redimiu por seu próprio mistério. É Ele, na verdade, quem guarda as cabeças dos fiéis. Por isso, é Ele o "elmo da salvação". Ele é o Verbo pelo qual as potestades adversas são vencidas e levadas cativas... Cristo, que é o Verbo de Deus, foi enviado para vencer toda corrupção e maldade, e até mesmo a própria morte. É neste sentido que Paulo se refere à "espada do Espírito, que é a palavra de Deus".
Alguns poderiam pensar que a expressão em todo tempo se refere apenas ao período diurno. Mas, para que pudesse ampliar a força de "em todo tempo", que diz ele? "Com toda perseverança." Isto nos convoca a uma certa disposição perseverante da mente. Não oramos como se estivéssemos adormecidos. É assim que soam alguns que oram recitando ou lendo frases familiares, ou proferindo-as rotineiramente de memória.
Isto significa que não devemos dizer ou proferir palavras específicas, nem recitá-las em nossas orações como se fossem premeditadas ou escritas. Devemos orar "no espírito" e "em todo tempo". Que os teus profundos afetos entrem em tua oração. O espírito interior, isto é, o homem interior, faz a sua oração com intenso desejo. Ele ora o tempo todo, de modo que, mesmo quando não ora em voz alta, ainda assim ora no espírito.
Os próprios santos, juntamente com os bispos, os apóstolos e os presbíteros, são chamados a orar em favor dos fiéis, dos catecúmenos e de todos os demais membros do corpo. É próprio de Paulo fazer menção de todo o povo de Deus em oração. Ele também convoca todo o povo de Deus a orar em favor de seus líderes, bispos e santos, e então acrescenta: "Orai também por mim."
Quando diz "por toda oração e súplica", penso que ele tem em mente esta distinção: é oração quando proferimos os louvores de Deus e narramos as suas grandes obras, e quando lhe damos graças e o adoramos. É súplica quando pedimos a Deus que perdoe os nossos pecados ou que nos conceda a sua graça.
Não é isto admirável? Daqueles a quem ele mesmo acabara de admoestar, aqueles a quem ele instruiu, a quem pregou o evangelho, agora ele pede ajuda. Ele lhes pede as suas orações. Prossegue explicando por que ele lhes pede que orem: "para que me seja dada a palavra". A sua oração é definida e específica, para que um proveito particular se cumpra.
"Ousadamente" significa: "para que eu não deixe de cumpri-lo plenamente, e para que as minhas cadeias não operem sobre o meu espírito de modo a impedir-me de realizar, como devo, esta tarefa de expor o mistério."
Note-se que Tíquico não é descrito como ministro de Paulo, mas como ministro no Senhor no que toca ao evangelho e ao mistério.
Tíquico é enviado para instruir os efésios não por iniciativa própria; antes, foi enviado por Paulo com este propósito. Tal era a solicitude de Paulo por eles e o seu desejo de que fossem bem instruídos.
A última parte da epístola é uma súplica. Sua oração e seu desejo são de paz aos irmãos, e também amor e, então, fé. Pois acima já havia notado que havia discórdia entre eles. Agora acrescenta ações de graças por aqueles que manifestam fé e que amam a nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, tudo se conclui com a paz contra a discórdia, o amor suscitando concórdia, e a fé em Deus.
Ele acrescenta "com amor incorruptível", ou na incorruptibilidade. Pois suas orações não são apenas para a vida presente, mas também para a que há de vir, a qual está contida na esperança e na promessa de Cristo.
Alguns pregam a Cristo "por inveja", por causa de sua malícia e contenciosidade. O que sentem é simplesmente inveja. Não pregam a Cristo de modo santo e decoroso, mas tão somente para acumular aflição sobre mim e aumentar minha provação e tristeza. Querem ostentar seu deleite em minhas cadeias... Outros pregam não com o intuito de acrescentar mais aflição às minhas cadeias, mas para reclamar para si a glória da pregação. Entrementes, os fiéis pregam a Cristo "por boa vontade", em fé sincera, não por inveja, mas porque aquilo em que creem é bom. É o evangelho. Assim, enquanto uns pregam a Cristo com insolência, para trazer sobre mim castigo e tribulação, outros pregam por amor. Estes permanecem caros a mim. Não me insultam, pois estou nesta condição pela defesa do evangelho.
O resultado me é muito bem-vindo: eles pregam acerca de Cristo. Pronunciam o nome de Cristo. Confessam que Ele é Deus e Filho de Deus, ainda que em espírito diverso. Pois por esta celebração, esforço e atividade, Cristo é proclamado por todos. Assim também eu alcanço o meu desejo, que é que Cristo seja proclamado. E, sendo isso assim, enganam-se ao imaginar que me lançaram na tristeza.
Pode parecer que ele tivesse sido antes precipitado e ousado em aceitar tão voluntária e alegremente que Cristo estivesse sendo proclamado de qualquer maneira, mesmo por homens sem escrúpulos, mesmo por insolência e inveja. Mas em tudo isto ele se apoiava na garantia e na benevolência de Deus, confiante no que há de vir a ser pela graça de Cristo mediante o seu Espírito.
“Cristo está sendo magnificado em meu corpo, agora como sempre, mesmo quando meu corpo, submetido a todos os castigos, suporta-os todos e prega a Cristo incessantemente, não se atemorizando diante dos castigos nem sucumbindo sob todas as tribulações.” Ele explica as alternativas que se lhe apresentam, acrescentando: “Seja pela vida, seja pela morte: se eu vencer minhas provações pela perseverança, Cristo será proclamado. Ou, se eu morrer sob meus castigos, Ele será proclamado ainda mais. Todos reconhecerão que não fui atemorizado nem pelos castigos nem pela morte. No evangelho, ou viverei minha vida para além destes castigos, ou suportarei estes castigos até a própria morte. Em qualquer dos casos, terei perseverado na pregação do evangelho.”
Não é a própria morte que é lucro, mas morrer em Cristo. A vida é Cristo. Aquele que tem nele a esperança está sempre vivo, tanto agora quanto para sempre…. Portanto, nada conseguem, quer me entreguem à morte, quer aos tormentos em vida. Nenhuma das alternativas me prejudica. A vida sob tormentos não é castigo para mim, visto que Cristo é minha vida. E se me matam, isto também não é castigo para mim, visto que Cristo, para mim, é vida, e o morrer é lucro.
Não sei o que escolher. Se morrer, morte é ganho, e Cristo é para mim vida, e a Ele mesmo venho quando morro aqui na carne. Mas se continuar a viver aqui na carne, o fruto do meu trabalho será proclamar a Cristo e pregar o seu evangelho.
Disse acima "Cristo é para mim vida", mas não ficou então claro qual vida entendia, se na carne, se a vida após a morte. Por isso acrescenta agora estas palavras, apontando diretamente para esta vida na carne: "Se há de ser vida na carne, isso significa para mim trabalho frutuoso." "Qual é este fruto do meu trabalho? Meu trabalho é o evangelho que prego. Seu fruto é conduzir muitos à esperança da vida e da salvação, à medida que, a seu tempo, comecem a ter esperança em Cristo e a depositar fé no evangelho."
Verdadeiramente, como um pai, como um servo de Deus, renunciou ele àquele dos seus dois desejos que seria mais proveitoso somente a si mesmo, a saber, que partisse agora e estivesse com Cristo... Diz ele: "permanecerei", e acrescenta a forma mais forte: "continuarei". Isto significa: "Permanecerei até o cumprimento, isto é, o cumprimento do vosso progresso, para que obtenhais a graça. Assim, quando apresentardes a vossa fé, possais receber a graça de Deus."
Isto significa: “Vossa glória abundará em mim. Pois estarei presente para ver como a Vossa glória exulta e se multiplica em Cristo. Verei como amais a Cristo, como servis a Cristo e como vos alegrais em vosso serviço a Cristo.”
Há um só Espírito que prevalece quando cremos o evangelho sabiamente e vivemos de acordo com ele. É por isso que ele os convoca a “permanecer firmes em um só Espírito”. A tarefa da alma é vencer os afetos contrários no corpo. Portanto, ele os convoca, em efeito, a “permanecer em um só Espírito e combater juntos com uma só alma pela fé do evangelho”.
A síntese de toda a vida de um cristão consiste nisto: conduzir-se segundo o evangelho de Cristo, anunciar constantemente a Sua graça tanto a si mesmo quanto aos outros, ter esperança nEle, fazer tudo quanto se faz segundo os Seus mandamentos. Pois isto é o que significa “conduzir-se de modo digno do evangelho de Cristo”. Uma pessoa pode viver com honestidade e retidão, mas isto não é adequado ao sentido de Paulo. Antes, devemos conduzir-nos segundo o evangelho de Cristo, independentemente do que suceda, e fazê-lo de modo digno, vivendo segundo os preceitos de Cristo e fazendo o que Cristo quer.
Esta obra de intrepidez faz parte de sua explicação do que significa conduzir-se dignamente segundo o evangelho de Cristo: Nunca vos aterrorizeis, seja pelos adversários, seja por qualquer outra coisa... Pois esta mesma condição de coragem tende à nossa salvação. Ela desfere um golpe mortal contra os nossos adversários. Contudo, isto também é obra de Deus, para que não pensemos ser parte de nossa própria obra que o não nos aterrorizarmos seja causa de nossa salvação. "Pois isto também vem de Deus", diz ele, "assim como muitas vezes vos disse que todas as coisas se realizam pela vontade, pela misericórdia e pela graça de Deus."
Estava, portanto, em seu propósito que Ele nos desse o dom de confiar nEle. Este foi um dom incomparável. É somente pela fé nEle que somos abençoados com tão grande recompensa. Devemos crer de tal maneira que estejamos prontos a sofrer por Ele.
Esta é a nossa luta. Este é o nosso combate, a nossa contenda e a nossa meta. É isto que conduz à coroa e à palma da vitória: fazer tudo por ele, sofrer tudo por ele e não desviar-se. Vós, diz ele, estais agora «empenhados no mesmo combate que vistes, e agora ouvis, ser o meu». É um combate que implica cadeias, prisão e todos os riscos mortais que Paulo padeceu. «Assim os meus sofrimentos», diz ele, «se confirmam em vós por duas coisas: o que ouvis e o que vedes.»
Quando estamos em meio aos males e labutamos sob os males do mundo, se tivermos mútuo amor uns pelos outros, Deus será a nossa «consolação no amor». «Se, portanto», diz ele, «há esta consolação no amor, de modo que, porque vos amo, vós me consolais em meio aos meus males, completai o meu gozo.» ... Fez bem em colocar [o Espírito] em terceiro lugar. Pois o primeiro é ser chamado em Cristo, o seguinte é ter amor. Mas, quando ambos são verdadeiros, e já foram chamados em Cristo e desfrutam da consolação de amar e ser amados, sem dúvida ali está também a comunhão do Espírito.... A Igreja se torna um só corpo quando os que foram chamados se ligam uns aos outros no amor de Cristo, quando se ligam também no Espírito e têm o mesmo «afeto e compaixão». O afeto corresponde ao chamado em Cristo e à comunhão do Espírito; a compaixão, à consolação do amor.
Que quer ele dizer com "o mesmo amor"? Que tenhais pelo outro o mesmo amor que o outro tem por vós, não um amor dividido, mas um amor enraizado na vida em Cristo. Acrescenta então: "de uma só alma e de um só sentimento". Parece-me que ele está a sublinhar o que disse acima, mas em ordem invertida. "De uma só alma" corresponde a "o mesmo amor"; "de um só sentimento" refere-se à frase anterior: "sendo do mesmo sentir". Há, contudo, algo mais sutil neste par do que no anterior. Pois "sendo do mesmo sentir" e "de um só sentimento" diferem apenas ligeiramente. Ambos dizem respeito ao conhecimento. "Sendo do mesmo sentir" sugere um conhecimento ainda não estabelecido, ainda que a sua capacidade de conhecer se mostre a mesma... "Sendo do mesmo sentir" parece ser ainda um processo em curso. É o caminho para a vida. Mas "ter o mesmo amor" é o caminho de vida ao qual esse conhecimento conduz.
Lembrai-vos de que Deus é um, seu Filho é um e seu Espírito Santo é um, e os três são um. Se assim é, também nós devemos ser um em nossos pensamentos, de modo a "sermos do mesmo sentir" com o Deus único. Segue-se, então, que devemos "ter o mesmo amor". Ser do mesmo sentir diz respeito ao conhecimento, ao passo que ter o mesmo amor diz respeito à disciplina, à conduta de vida.
"Nada façais", diz ele, "por ambição." Pois muitos são propensos à ambição por si mesmos, ou movidos à ambição por outros. Todas estas espécies de ambição devem ser banidas. Não deve haver ambição desmedida, seja voluntária, seja constrangida, pois ambas são viciosas. Alguns se precipitam nesta ambição por especulação; outros são, por natureza, de tal temperamento que são ambiciosos. Por isso ele aconselha: "nada façais por ambição."
Se pensamos somente em nós mesmos, podemos agir em benefício próprio e ocupar-nos apenas dos nossos próprios negócios, da nossa esperança, da nossa própria salvação. Mas isto não basta. Verdadeiramente agimos em nosso próprio favor quando temos também cuidado pelos outros e nos esforçamos por lhes ser úteis. Pois, sendo todos um só corpo, cuidamos de nós mesmos quando cuidamos dos outros.
Acima ele deu duas exortações: primeiro, que se comprazam na humildade; depois, que pensem não apenas nos seus próprios negócios, mas nos dos outros. Em seguida, diz: "Tende em vós este mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus." Qual destas duas coisas, pois, entendemos ter-se manifestado em Cristo Jesus? Uma, a outra, ou ambas? Quanto à primeira, a sua humildade, é manifesta, pois Cristo humilhou-se a Si mesmo e assumiu a condição de escravo. Mas a segunda exortação também poderia aqui estar presente, visto que Ele suportou isso pelos outros e pensou nos outros mais do que em Si mesmo.
Deus é o próprio princípio da vida. Deus é o próprio ser. Deus contém a vida como princípio de vida e, assim também, o entendimento. Mas a vida e o entendimento são, em certo sentido, a forma e a imagem daquilo que existe. O que mais verdadeiramente existe é Deus. Deus é o próprio ser, como muitos concordam, e mais ainda, aquilo que está acima da existência. A forma da existência é o movimento, o entendimento e a vida... Diz-se que Cristo é "a forma de Deus" porque Cristo é vida, consciência e entendimento.
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Que significa isto — "ser igual a Deus"? Significa que Ele [o Filho] é da mesmíssima potência e substância [que o Pai]. ... É neste sentido, portanto, que Cristo era igual a Deus. Note-se que Paulo não disse que Cristo era "semelhante a Deus", pois isto implicaria que Cristo possuía alguma semelhança acidental com a substância de Deus, mas não que fosse substancialmente igual. ... Assim, Cristo é a forma de Deus. A forma de Deus é a substância de Deus. A forma e a imagem de Deus é o Verbo. O Verbo está para sempre com Deus. O Verbo é de uma só substância com o Pai, com quem, desde o princípio, permanece para sempre o Verbo.
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Seria uma espécie de usurpação se duas coisas não fossem iguais por natureza, mas fossem forçadas a se igualar ou igualadas por algum acidente. Mostra, portanto, grande confiança e proclama a própria natureza da divindade quando Paulo diz de Cristo que Ele não considerou usurpação ser igual a Deus, e contudo não considerou esta igualdade algo que precisasse fortificar.
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Devemos compreender que este "esvaziar-se a si mesmo" não consiste em nenhuma perda ou privação de seu poder, mas no fato de que Ele se rebaixou ao nível mais ínfimo e condescendeu às tarefas mais humildes. Ao cumpri-las, esvaziou-se momentaneamente de seu poder. Assumindo a carne e a forma e semelhança humanas, padeceu, morreu e cumpriu todas as coisas que pertencem à humanidade.
Não é como se Paulo estivesse na menor incerteza quanto à identidade de Cristo ao dizer que Cristo foi "achado em semelhança humana". Não disse "em semelhança humana" como se nosso Senhor talvez não fosse verdadeiramente homem, mas um fantasma. Antes, foi achado em semelhança humana ao mesmo tempo em que era Deus, sendo, porém, também verdadeiramente homem na carne, com um corpo humano físico que assumira.
O Filho foi enviado pelo Pai e cumpre a vontade do Pai. O mistério aqui declarado é que foi por sua própria vontade que Ele veio e assumiu a forma e imagem de servo…. O Pai está no Filho e o Filho no Pai…. Assim, o que o Pai quis, o Filho também quis, e o que o Filho quis, o Pai quis.
Como poderia Ele ter assumido somente a forma humana e não a substância humana? Pois revestiu-se da carne, esteve na carne e padeceu na carne. Este é o mistério e o meio de nossa salvação…. Que significa, pois, "esvaziou-se a si mesmo"? Que o Logos universal não era universal em seu ser efetivo enquanto logos da carne e fazendo-se carne. Portanto, Ele não apenas fingiu tornar-se homem, mas tornou-se homem.
Recebeu Ele "o nome que está acima de todo nome". Recebeu este nome por causa de sua palavra salvífica, por causa do mistério de sua paixão, onde a morte foi vencida pela própria morte de Cristo. Por meio desta graça recebeu Ele o nome. Foi então que o nome com razão Lhe foi conferido. Mas a realidade a que o nome apontava já fora dada antes. O Verbo, a própria potência de Deus, não se tornou real pela primeira vez apenas quando entrou na carne. Antes, possuía sua realidade como potência, sabedoria, ação e obra de Deus desde o princípio, quando era chamado Verbo e quando de fato era o Verbo. É este mesmo Verbo que agora revestiu a carne... que recebeu o título de Filho, título este que está acima de todo nome.
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O temor há de referir-se à alma, o tremor ao corpo. Mas é grande mistério, o qual devemos guardar no coração quando o ouvimos, que, ao pensarmos e mostrarmos solicitude pelos outros, tanto mais operamos a nossa própria salvação, e além disso que está em nosso poder operar a salvação para nós mesmos.
"Tenho glória por vosso intermédio, porque possuís a palavra da vida" — isto é, porque conheceis a Cristo, que é o Verbo da vida, "porque o que foi feito em Cristo era vida". Logo, Cristo é o Verbo da vida. Por isso percebemos quão grande é o proveito e a glória daqueles que corrigem as almas dos outros.
Quer dizer: "Estando preparado para morrer por vós, contanto que possa servir-vos e fortalecer vossa fé, alegro-me e regozijo-me por todos vós. Alegrai-vos, pois, também vós e regozijai-vos comigo, para que mostremos igual solicitude uns para com os outros e nos alegremos reciprocamente uns nos outros."
Porque todo ato nosso deve ser reportado a Deus, a fim de que por Deus se complete, diz ele: "Espero no Senhor Jesus."
À incumbência dada a Timóteo como aquele "que fielmente se preocupa convosco", acrescenta ele esta explicação: os outros "buscam os seus próprios interesses"; isto é, preocupam-se em proteger e guardar o que é seu, e nisto não são cristãos. Pois que é ser cristão? É buscar antes, em todo companheiro e irmão, aquilo que é de Cristo.
Diz ele "serviu comigo", e não "serviu-me".
Ele recomenda o caráter de Epafrodito chamando-o "meu irmão e companheiro de milícia". Ele é irmão na lei e companheiro de milícia no acampamento e na obra do evangelho. E é chamado "vosso apóstolo". Observai que ele chama Epafrodito de apóstolo. Todo aquele que é enviado por causa do evangelho pode justamente ser chamado apóstolo.
Embora tivesse prometido enviar Timóteo prontamente, contudo, porquanto ainda fala de certa demora, envia agora Epafrodito.
Muitos são preservados e apiedados por Deus porque algo se realiza por meio deles que pertence ao ministério da salvação. Ao mesmo tempo, devemos também orar pelos que estão enfermos, para que não nos entristeçamos com a perda daqueles cujo auxílio necessitamos na realização, na comunicação e no anúncio da graça divina.
Observai que benefícios experimentamos do Senhor ainda nesta vida. Por isso não devemos apressar-nos para a morte. Pois ainda que este mundo seja um viveiro de pecado e, por isso, deva ser evitado, o desejo de viver no mundo procede de vossa natureza e não é pecado. A vida deve ser desejada. Assim, é correto dizer: "Deus teve misericórdia dele".
Por que acrescenta Paulo a frase "e eu tenha menos ansiedade"? Porque já dissera que Epafrodito ministrara às suas necessidades. Não quis que parecesse que estava triste por enviá-lo de volta. Visto que Epafrodito desejava estar com eles, e visto que estes se alegrariam ao vê-lo, Paulo poderia então "ter menos ansiedade".
A divina Escritura fala de cães que são úteis e são defensores da Igreja, como David ensina no Salmo, dizendo que esses cães se saciam com o sangue dos inimigos no templo de Deus. E aqui ele fala do gênero oposto de cães, que são evidentemente os judeus, porque são "obreiros" e "maus obreiros". Pois as obras são o único exercício de suas vidas, sem nenhum conhecimento de Deus, e de suas obras esperam a salvação.
É porque Paulo ainda persevera na comunhão do sofrimento, que é muitíssimo semelhante à própria morte, que ele diz "que, se possível, eu alcance a ressurreição dentre os mortos". Não pode haver dúvida quanto a ele alcançar a ressurreição. Mas o que é este alcançar a ressurreição dos mortos? É a vida perfeita e plena de cada indivíduo, que é extraída da comunhão dos sofrimentos de Cristo por todos os meios, a qual aparecerá claramente naquele tempo final, quando ocorrer a ressurreição dentre os mortos, isto é, quando os mortos retornarem à vida.
Nós que cremos em Cristo suportamos com Ele os sofrimentos, e de fato todos os sofrimentos, até mesmo até a cruz e a morte. Do conhecimento de todos estes e da participação no sofrimento vem a ressurreição. E assim, como somos participantes de sua morte e de seu fardo, somos habilitados a participar de sua ressurreição.
Cristo, por seus sofrimentos, libertou a todos quantos o seguem. Ele abraça a todos, mas sobretudo aos que o seguem. Aquele que deseja seguir e abraçar a Cristo está obrigado a segui-lo em todos os seus sofrimentos. Somente assim poderá abraçar a Cristo como Cristo o abraça. Pois, se Cristo libertou a todos por seus sofrimentos, é nos sofrimentos que Ele abraça a todos.
Se se comparassem a Paulo, os filipenses compreenderiam quão longe estavam das bênçãos da liberdade. Quão frequentemente ele participara de tantos sofrimentos de Cristo: fora açoitado, encarcerado, lançado às feras e sobrecarregado de outros males. Não obstante, nem mesmo ele julgava já ter alcançado a Cristo, enquanto ainda vivia.
Eis, pois, dois preceitos para aquele que há de viver o resto da vida caminhando à maneira cristã. Primeiro, aquele que ainda vive sob o governo divino, por mais bem e retamente que tenha agido no passado, não deve pensar em todas as ações que já realizou como se por elas merecesse obter algo. Antes, deve lançá-las ao esquecimento, buscando sempre as novas tarefas que restam. Segundo, deve, não obstante, continuar vivendo sob a regra divina, "prosseguindo" continuamente para essas coisas e observando a regra de Cristo, até mesmo até a morte.
Supondo que esta afirmação seja completa e autônoma, e não precise ser ligada às palavras que se seguem, penso que deve ser entendida assim: "Se há algo no que eu disse que interpretais ou entendeis de modo diferente, permito que vosso entendimento se desenvolva." Lembrai-vos de que ele fala dos perfeitos, pois assim o diz: "nós que somos perfeitos." ... "A seu tempo, 'Deus vos revelará isto', posto que tanto o que entendeis quanto o que eu disse são convenientes."
Há dois tipos de incompreensão a respeito de Cristo, ou antes, uma só classe com duas descrições, os quais são inimigos de Cristo. Pois alguns, em seus pensamentos carnais, escarnecem da cruz de Cristo, pensando em Cristo como mero homem elevado sobre uma cruz... Estes não atentam senão para a carne. Para eles, "seu deus é o ventre" e sua "glória está na torpeza". Estes são os que "pensam coisas terrenas" e cujo fim é a morte. Por outro lado, há aqueles que pensam em Cristo apenas como espírito. Não o pensam encarnado nem crucificado. Estes também são inimigos da cruz de Cristo, tendo a morte como fim.
Uma exortação é mais forte quando acompanhada daquilo que é temível em sua alternativa... Paulo exprime afeto cordial ao descrever os males padecidos por aqueles que vivem de outro modo, dizendo: "Digo-o com lágrimas."
Neste lugar de culto habita o mistério da ressurreição. Pois o que se cumpriu em Cristo na carne foi isto: que Ele salvasse as almas e também fizesse com que a imortalidade fosse dada à carne por meio da ressurreição. Isto Ele realizou pelo poder de Sua cruz.
Quando ressuscitarmos e formos transformados e feitos espirituais na alma, no corpo e no espírito (pois estes três constituem um só homem e são um só espírito), o corpo em que fomos humilhados será ressuscitado. Será da mesma e igual forma ao corpo da própria glória de Cristo. Assim também seremos espíritos, como Ele mesmo é espírito.
A caridade, soma de toda virtude para o cristão, não se realiza convenientemente se os fiéis não permanecem unidos como um só, pensando em harmonia. É isto que Paulo aqui quer dizer com "Permanecei firmes no Senhor, meus amados". Podemos compreender que ele deseja que estejam unidos no entendimento pelo fato de os chamar, [literalmente], "irmãos caríssimos". O amor mútuo é o resultado de pensar em uníssono e de permanecer unidos em Cristo. Quando todos têm igual fé em Cristo, todos nós permanecemos unidos nele.
Ele pede que estas mulheres busquem um entendimento comum no Senhor. A partir de sua fé em Cristo, devem pensar e compreender o que o evangelho diz acerca de Cristo. Mas ele diz "peço", dando a entender que isto redundará em proveito delas. "Não ordeno nem mando; peço."
Disse acima que ele prometera que Epafrodito viria a Filipos, e então mostrei que Paulo o enviou quando disse "e assim o enviei com maior presteza". Portanto, isto agora é, por assim dizer, acrescentado, para que lhe dê uma ordem na carta, rogando-lhe e suplicando-lhe que diga àquelas mulheres, Evódia e Síntique, que tenham um mesmo sentir no Senhor…. E que é a Epafrodito que ele dá esta ordem, para que ajude as ditas mulheres a alcançarem um mesmo sentir, pode-se perceber pelo fato de que ele diz: "rogo-te e suplico-te, verdadeiro companheiro", ao passo que acima disse: "julguei necessário Epafrodito, meu irmão e companheiro de milícia".
Isto significa que a consequência de terem unidade no entendimento e na fé é que se alegram no Senhor e são sempre caros uns aos outros. "Alegrai-vos," diz ele, "no Senhor" — isto é pouco: "outra vez digo: alegrai-vos." Pois quando estais unidos de coração, alegrai-vos no Senhor, e quando vos alegrais no Senhor, estais unidos de coração e permaneceis juntos no Senhor.
A tolerância é a paciência individual que observa a devida medida sem forçar além da própria condição. Quando vivemos entre estranhos e vivemos de modo condizente com nossa condição humilde, Deus nos elevará. Assim é aqui; fazemos bem em reconhecer nossa condição humilde. "Portanto, seja a vossa moderação", diz ele, "conhecida de todos." Por que nos diz isto? Para que façamos aqui um espetáculo agradável? Não, mas para que, quando Cristo vier, Ele possa elevar nossa condição humilde e exaltar nossa moderação.
"Em nada estejais ansiosos." Isto significa: não vos preocupeis convosco mesmos. Não deis pensamento desnecessário nem vos inquieteis com o mundo ou com as coisas mundanas. Pois tudo o que vos é necessário nesta vida, Deus o provê. E será ainda melhor naquela vida que é eterna.
Quando a paz de Deus vier sobre nós, compreenderemos a Deus. Não haverá discórdia, nenhum desacordo, nenhuma disputa contenciosa, nada sujeito a questionamento. Isto dificilmente se dá na vida mundana. Mas assim será quando tivermos a paz de Deus, na qual todo entendimento será nosso. Pois a paz é o estado de já estar em repouso, já seguro.
"Tudo o que é verdadeiro" — Que coisas verdadeiras são estas? Elas se acham expostas no evangelho: que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e tudo o que acompanha esta boa-nova. Quando vossos pensamentos são verdadeiros, segue-se que serão honestos. O que é verdadeiro não é corrompido, o que significa que é honesto. O que não é corrompido é verdadeiro. Logo, o que é verdadeiro e honesto será também justo, pois é feito justo, ou justificado. E o que é feito justo é puro, uma vez que recebe a santificação de Deus. Tudo o que é justo, honesto, verdadeiro e puro é amável, e também gracioso. Pois quem não ama estas virtudes santas? Quem não fala e pensa bem delas?… Desta enumeração, alguns itens pertencem à própria virtude verdadeira, ao passo que os últimos pertencem ao fruto da virtude. À virtude pertence amar a verdade, a honestidade, a justiça e a pureza. Ao fruto da virtude pertence aquilo que é amável e gracioso.
Ao dizer "se há alguma excelência, algum louvor", ele toma boa nota da natureza das coisas. Pois todas as coisas acontecem pela graça de Deus, que governa e rege por meio do Espírito que envia em nós. Nada contamos como nosso, senão a graça somente. É por isso que ele fala condicionalmente: "se alguma excelência", pois as virtudes que em nós se nutrem não são de nós, mas da graça de Deus. Assim, nem mesmo o louvor é nosso. Por isso ele diz também: "se há algo digno de louvor".
Em seguida, aponta ele para a bênção, como já fizera antes: Fazei isto, e "o Deus da paz será convosco". Era isto o que os Filipenses mais necessitavam: que não houvesse discórdia, que todos pensassem uma mesma coisa. Assim haverá paz em sua igreja. O Deus da paz, que é o Pai, com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, comunicará a paz a toda alma que com Deus se faça íntima.
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"Estas coisas", diz ele, "praticai". E acima disse "pensai" nestas coisas. Acrescenta agora praticai, para mostrar que estas coisas não são boas apenas para serem pensadas, mas para serem postas em obra.
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"Não estou necessitado," diz Paulo, "nem peço estas coisas por necessidade própria minha. Mas deveis praticar a benevolência simplesmente a fim de que a vossa abundância de benevolência seja para mim o fruto das vossas boas obras... Quando eu ou peço a Deus em vosso favor, ou lhe dou graças por vossa causa, há fruto para mim na minha oração por vossa causa, contanto que eu saiba que abundais em benevolência."
Muitos, ao que parece, creram até mesmo dentre a casa de César. São estas pessoas que, de outro modo, andariam com soberba e nada mais pensariam senão em César. A estas pessoas foi revelado o poder do Evangelho. Muitos outros que creram são gente humilde. A todos ele saúda igualmente, com humildade e afabilidade, onde quer que se encontrem. A palavra "especialmente", referida aos "da casa de César", torna manifesto que estes se esforçam por ser agradáveis no serviço.
Sabia ele que os filipenses, ao contrário daqueles a quem se dirigiu em suas outras epístolas, mantinham-se firmes na doutrina correta. Não haviam sido seduzidos por falsos apóstolos. Escreve aqui, pois, apenas uma breve carta de exortação. Roga que "a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito". Pois, se o Espírito habita neles, responderão retamente.
Sua razão para dizer "por Cristo e Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos" é que aquilo que Deus faz, Ele o faz por meio de Cristo. E para que ninguém dissesse: "Como aprendeste tu de Cristo?", visto que Paulo não fora anteriormente seguidor de Cristo, e Cristo estava morto, ele disse que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos. Com isto ele dá a entender que é o próprio Cristo, aquele que o ensinou, quem foi ressuscitado — ressuscitado, isto é, pelo poder de Deus Pai.
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Enquanto costumava chamar-se simplesmente Paulo, o apóstolo, aos romanos e aos coríntios, a fim de sobressaltar os gálatas e repreendê-los por um grave erro, ele associou a si mesmo todos os irmãos que estavam com ele, dizendo que eles próprios escreviam aos gálatas, fazendo-os sentir a vergonha de pensarem contrariamente a todos, de modo a dar maior peso às suas próprias exortações e ao evangelho que ele prega.
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Possivelmente porque o próprio Salvador não é homem [meramente], como alguns pensam. Nem porque é enviado em forma de homem é, por isso, homem, mas Deus, tomando em mistério a carne para vencer a carne… Se "de um homem" significa uma coisa, "à maneira de homem" significará outra. E, novamente, se "eu não recebi de um homem" é uma coisa, "não à maneira de homem" será outra. Portanto, "à maneira de homem" pode ser entendido como significando "para que compreendais de modo corpóreo", visto que o argumento recebido é aquele "que eu não recebi de homem".
O propósito de narrar isto acerca de si mesmo é mostrar que ele não aprendeu de homem algum nem por meio de homem, mas de Deus e de Jesus Cristo. O escopo disto é impedir que os gálatas acolhessem outra opinião, ou supusessem que algo devesse ser acrescentado ao evangelho.
O Deus que me fez nascer, que me separou desde o ventre de minha mãe, também me chamou por sua graça. Pois ninguém conhece a Deus senão aquele que foi chamado.
Pois, se o fundamento da Igreja foi lançado em Pedro, a quem tudo fora revelado, como diz o evangelho, sabia Paulo que devia ver Pedro. Quando fala de ver Pedro, é como quem vê aquele a quem Cristo confiara tamanha autoridade, e não como quem devesse aprender algo dele... "Como", dá a entender, "poderia eu aprender de Pedro, em tão pouco tempo, este tão grande conhecimento de Deus?"
Que prova ele com tudo isto? Que seu evangelho havia persuadido a todos, mesmo em sua ausência. –.
Por “glorificaram a Deus em mim” ele quer dizer que o proclamaram grande. Pois o que há de tão magnífico quanto ver a própria opinião revertida e receber aquele a quem antes se atacava? Sendo assim, também vós não deveis seguir senão o evangelho que vos foi pregado por aquele que é um prodígio entre os gentios, porque prega a fé de Cristo. .
Estes homens ele teve como testemunhas, por meio dos quais provou que seu evangelho lhe fora dado por revelação, visto que disse “Barnabé subiu comigo”, e também levou consigo Tito, cuja fé e evangelho eram aprovados por todos. .
“Para que eu não estivesse correndo ou tivesse corrido em vão.” Isto é [ele diz], “para que eu não deixasse de pregar um evangelho pleno. Pois se eu tivesse pregado algo menor, teria corrido em vão ou agora correria em vão.” .
Isto é, aqueles por meio de quem os mandamentos e o evangelho de Deus estavam sendo transmitidos, tais como os apóstolos e os demais. “A estes homens”, diz ele, “expus em particular meu evangelho, que prego entre os gentios, para que, se houvesse algo que eles transmitissem de modo diverso, pudessem corrigi-lo, ou pudessem emendar algo que eu mesmo transmitisse de modo diverso. Esta, portanto, foi a causa de minha subida a Jerusalém, e por esta razão me foi revelado que eu deveria subir, para que se tornasse mais prontamente conhecido que meu evangelho aos gentios e o evangelho deles aos judeus eram o mesmo.” Ora, o propósito de expô-lo em particular era que a vergonha fosse afastada dentre eles, e que comunicassem uns aos outros os mistérios que conheciam. Visto que todos partilhavam uma só opinião e um só evangelho, do que se esforçava ele em persuadi-los? De que não acrescentassem nada de novo nem lhe ajuntassem coisa alguma. Esta é a causa do presente pecado dos gálatas em seguir o judaísmo e a prática da circuncisão, do sábado e de outras coisas. .
[Refere-se] àqueles que surgiram desses mesmos pseudoapóstolos, mas que, não obstante, «são alguma coisa», isto é, sofreram mudança e agora seguem o evangelho. Ainda que tenham surgido desses impostores, são agora íntegros, pois isso é verdadeiramente ser alguma coisa. «Nada me importa», diz ele, «o que quer que fossem outrora, em algum tempo passado». E acrescenta a razão: Deus não faz acepção de pessoas, mas atenta para a disposição mental e a fé de cada um. Seja grego ou judeu, seja o que quer que se tenha sido, não é isso que Deus aceita, mas o que se é e se se recebeu a fé e o evangelho. .
«Não a mim somente», diz ele, «deram a destra da comunhão, mas também a Barnabé, que era meu companheiro». Fez essa adição para que não parecesse que somente ele havia recebido essa confiança. –.
Isto é, os que sustentavam a igreja eram como colunas que sustentam telhados e outras coisas. «Estes homens, então», diz ele, «sendo de tal qualidade e tão grandes, deram-me as suas destras», isto é, uniram-se em amizade, paz e firmeza, e declararam que possuíam um único evangelho. «Em vista deste acordo, ó Gálatas, pecais e não seguis nem o meu evangelho, nem o de Pedro, Tiago e João, que são as colunas da igreja, quando acrescentais coisas que não são aprovadas por nenhum deles». –.
Quando Paulo e Barnabé mantinham estas discussões com João, Pedro e Tiago, o evangelho foi aceito e estabelecido do modo como Paulo o descreve. A única coisa que não ouviram de bom grado nesta disputa foi que as obras não fizessem parte da salvação. Sua única injunção, contudo, foi que se lembrassem dos pobres. Assim, concordam também neste ponto: que a esperança da salvação não reside na atividade de fazer obras em favor dos pobres, mas simplesmente ordenam — o quê? — que nos lembremos dos pobres. Não que devamos despender nisso todo o nosso esforço, mas que devamos partilhar com aqueles que não têm o que nós podemos ter. Somos instruídos apenas a que nos lembremos dos pobres, não a que ponhamos nosso cuidado e pensamento na nossa própria capacidade de reter a salvação por este meio. Assim, ele é quase corrigido e admoestado nesta matéria, mas isto não é tudo o que Paulo diz. "Que nos lembrássemos", diz ele, não "que fizéssemos isto", mas "que os mantivéssemos em mente", o que é menos do que pôr nossa obra nisto e cumprir somente isto. Acrescenta que tomou cuidado até desta matéria fora do evangelho que pregava, o qual consistia em lembrar-se dos pobres e conceder-lhes o que pudesse. Em verdade, na realidade, ninguém é pobre se, simplesmente guardando a fé e confiando em Deus, aguarda as riquezas de sua salvação.
Mas em que sentido pecava Pedro? Ele não havia adotado este artifício para atrair os judeus, encontrando-os em seus próprios termos (o que o próprio Paulo havia feito e se gloria de ter feito, encontrando os judeus em seus próprios termos, mas em proveito deles). Antes, o pecado de Pedro consistia no fato de que se retirava, por temor daqueles que eram da circuncisão.
Talvez, com efeito, neste ponto ele tivesse guardado silêncio sobre o pecado que diz ter repreendido em Pedro, pois bastava que Pedro tivesse sido corrigido pela repreensão pública e pela acusação aberta de Paulo. Mas é proveitoso e extremamente necessário para esta epístola. Ele tem duas razões para relatar o episódio. Primeiro, que seu próprio evangelho não foi reprovado, e ele mesmo, quando repreendeu Pedro, nenhuma reprovação ouviu de Pedro. Em seguida, isto também, como disse, era extremamente pertinente: é porque os gálatas pensavam que precisavam acrescentar aos princípios do evangelho para obter a vida... que esta epístola lhes está sendo escrita. Por isso é muito bom contar a história, porque é exatamente esta a falta que foi repreendida por Paulo em Pedro e também pelo povo. Deste modo, segue-se que também os gálatas estão pecando.
O que devemos então entender por "sua insinceridade"? Nem sequer Pedro, Barnabé e os demais judeus haviam verdadeiramente chegado ao ponto de viver suas vidas segundo o costume judaico. Fingiam até fazê-lo como medida ocasional, por causa dos temores daqueles que os cercavam. E, portanto, diz ele, até Barnabé aquiesceu na insinceridade deles.
Suponhamos que nós, depois de recebermos a fé em Cristo, façamos em Cristo o que os judeus fazem. Suponhamos que recebemos a fé em Cristo e desejamos ser justificados nela. Suponhamos que entendemos que o homem não é justificado pelas obras da lei. Não seríamos então, ao observarmos as obras da lei, feitos pecadores? Seria então o caso de que Cristo, a quem recebemos para não pecar, tornar-se-ia ele mesmo ministro do pecado. Ora, quando, depois de o termos recebido, retornamos ao pecado — isto é, à antiga aliança — é Cristo feito ministro do pecado? Que esta possibilidade, diz Paulo, esteja longe de nós. Não se deve pensar deste modo nem agir de maneira a fazer de Cristo ministro do pecado, quando ele padeceu para que o pecado perecesse.
Ora, é possível ver Paulo a falar de duas leis — uma de Moisés, outra de Cristo — de modo que ele estaria dizendo estar morto para aquela lei que foi dada aos judeus, por meio da lei que foi dada por Cristo... isto é: "Estou morto, pela lei de Cristo, para a lei outrora dada aos judeus." Mas pode-se também ver Paulo a fazer o que ele mesmo e o próprio Salvador frequentemente fazem, de modo que fala de duas leis porque ela é, por assim dizer, ela mesma dúplice: uma coisa quando entendida carnalmente, outra quando entendida espiritualmente... Assim, o sentido será: "Pois eu, pela lei" — agora entendida espiritualmente — "estou morto para a lei", evidentemente aquela lei que se entende carnalmente. E, sendo assim, "estou morto para a lei carnal" porque entendo a lei espiritualmente, "a fim de que viva para Deus." Pois o que significa alguém viver para Deus é que ele entenda os preceitos contidos na lei não carnalmente, mas espiritualmente, isto é, o que é ser verdadeiramente circuncidado e o que é o verdadeiro sábado.
Para que não parecesse desesperar sem necessidade, corrigiu ele mesmo sua própria repreensão, dizendo "se é que foi em vão". Pois eles podiam ser corrigidos. Se assim for, o que padeceram não será sem sentido. O sentido que terão será a perseverança na fé, o prêmio e a confirmação das promessas derivadas da fé em Cristo.
Comentário tão sutil requer paciência para ser compreendido. Ele tanto repreende negativamente quanto admoesta positivamente. Repreende-os dizendo "tanto padecestes em vão". Ao mesmo tempo os admoesta dizendo "tanto padecestes", ciente de que suportaram com fortaleza muitas coisas quando receberam a fé.
Depois de confirmar que padeceram e que, por conseguinte, o Espírito lhes foi dado, prossegue ele, com razão, perguntando se Deus operou virtudes neles a partir das obras da lei ou a partir da audição da fé. "Evidentemente não a partir das obras", diz ele, "pois não foi de vós mesmos que procedeu obra alguma, mas ouvistes na fé e fostes atentos à fé. E por esta razão Deus operou virtudes em vós; e, se operou, foi porque vos deu o Espírito."
Todo mistério que é realizado por nosso Senhor Jesus Cristo pede somente a fé. O mistério foi realizado naquele tempo por nossa causa e visava à nossa ressurreição e libertação, caso tenhamos fé no mistério de Cristo e em Cristo. Pois os patriarcas prefiguraram e predisseram que o homem seria justificado pela fé. Portanto, assim como foi imputado como justiça a Abraão o ter tido fé, também nós, se tivermos fé em Cristo e em todo o seu mistério, seremos filhos de Abraão. Toda a nossa vida será reputada como justiça.
De sua expressão "obras da lei" devemos entender que há também boas obras na vida cristã, especialmente aquelas que o apóstolo frequentemente recomenda, como que devemos ter presentes os pobres e os demais preceitos de vida contidos nesta mesma epístola. O cumprimento de todas essas obras é a vocação de todo cristão. As obras malditas da lei aqui referidas são, portanto, outras coisas: evidentemente as observâncias [de dias], os sacrifícios de cordeiros e outras obras semelhantes que praticam concernentes à circuncisão e à escolha dos alimentos. Mas agora a festa pascal foi consumada por Cristo.
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Dissemos que a lei dada por Moisés nada ensina senão pecados, admoestando-nos sobre quais são os pecados e como devem ser evitados. E a Escritura não tira outra conclusão, mas estabelece todos os seus preceitos à luz do pecado e com referência a ele…. Não foi dada para que dela se buscasse a vida, mas foi dada para que, por sua forma escrita, pudesse tanto abarcar todos os pecados em seu ensinamento quanto mostrar que deveriam ser evitados. Portanto, a justiça não provém da lei; isto é, a justificação e a salvação não provêm da lei, mas da fé, como foi prometido.
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Uma vez que Deus deu a lei, não é plausível que essa mesma lei seja vista como tendo sido dada contra as promessas. Certamente seria contra as promessas se nos enredasse em outras coisas, a saber, que devêssemos cumprir as obras exigidas pela lei e não esperar da fé aquilo que é prometido, que devêssemos obter pela fé uma herança em Deus. Mas vejamos qual é a sua resposta a isto. Primeiro ele o nega inequivocamente: "De modo nenhum!" Isto é, não é justo que Deus tenha feito com que a promulgação da lei fosse contrária às promessas…. E em seguida ele acrescenta a razão.
A lei não era vazia nem contrária às promessas. Como diz ele que era necessária? Porque olhava para diante, para a fé que havia de vir, e a promessa veio por meio da fé. "Antes", diz ele, "antes que a lei viesse, estávamos sob um tutor; isto é, sob a lei como uma espécie de guardião e custódio, vivíamos uma vida pura pela evitação e pelo arrependimento dos pecados, de modo que, quando Cristo viesse, nós, como que confinados para aquela fé que havia de vir, esperássemos a sua vinda; e, preparados pela lei, tivéssemos fé nele; e, evitando o pecado e praticando as obras da lei, pudéssemos facilmente ter o que fora prometido a partir de seu advento, a saber, a fé em Cristo."
"Que a fé veio" significa que o próprio Cristo veio — pois foi então que a fé surgiu. Começou a haver um tempo para que a fé viesse plenamente e para que nós crêssemos naquele em quem está toda a salvação, em contraste com os judeus, que não creram [nele]. –.
A metáfora da herança refere-se ao recebimento da vida eterna. Mas como isso se dá? Pela fé em Jesus Cristo, quando cremos nele, que é o Filho de Deus e que ele mesmo nos salva e que consumou todo mistério em nosso favor. Todas estas coisas são relatadas no evangelho. Mas o que aqui se deve notar é que, ao afirmar Paulo este fato, dirige-se às suas pessoas, oferecendo incentivos para persuadi-los mais prontamente. "Todos vós", diz ele, "sois filhos de Deus." Antes, dissera: "Estamos sob um tutor." Agora, como que os nomeia de novo, dizendo "sois filhos de Deus" — mas filhos pela fé em Cristo Jesus. –.
Julgava-se que os elementos do mundo possuíam em si, ao mesmo tempo, movimentos próprios e, por assim dizer, certas consequências necessárias do movimento de outros seres, como os astros, por cuja revolução a vida humana era submetida à necessidade. E assim os homens serviam aos elementos, conforme os astros ordenavam e o curso do mundo exigia. –.
Porque é trazido ao mundo por uma mulher, pode-se dizer que foi feito, mas feito para este propósito temporal: ser sujeito à lei... Deviam os gálatas compreender por isto que haviam caído em erro, pois o próprio Salvador, em quem criam, foi feito sujeito à lei, embora permanecesse Senhor da lei. –.
Assim como há uma plenitude nas coisas, assim também a há nos tempos. Pois cada coisa tem sua plenitude numa perfeição plena e copiosa que abunda em tudo. Cristo é a plenitude das coisas. A plenitude dos tempos é a consumação da liberdade. Para que sua plenitude seja íntegra e perfeita, Cristo reúne seus membros que estão dispersos, e assim se realiza sua plenitude. Do mesmo modo, pois, realizou-se a plenitude dos tempos quando todos se haviam tornado maduros para a fé e os pecados haviam crescido ao extremo, de sorte que se buscava necessariamente um remédio no juízo de todas as coisas. Por isso veio Cristo quando se completou a plenitude do tempo. –.
Visto que a lei, por seus preceitos, mantinha os homens presos, por assim dizer, tão somente à decência de vida, mas não à esperança da libertação e da eternidade, Deus enviou seu próprio Filho. Enviou-o sujeito à lei, isto é, à lei de Israel, para que redimisse os que ali estavam e viviam sob a lei. Ora, isto é coisa grande, o dizer ele que [Cristo veio] não apenas para lhes mostrar o caminho da vida ou para os incitar à eternidade com preceitos severos, mas para os redimir. Este é o mistério do que ele realizou: a redenção de todos os que nele creram, para que se tornassem filhos por adoção. Quando, portanto, veio de Cristo tão grande benefício, nada mais havia que se lhe acrescentasse. A lei já não era mais coisa de servidão. .
Eis todo o conjunto dessas três potências mediante uma só potência e uma só Divindade. Pois Deus, diz ele, que é o Pai, enviou o Seu próprio Filho, que é Cristo, e novamente Cristo, que, sendo Ele mesmo a potência de Deus, é Deus... enviou o espírito do Seu Filho, que é o Espírito Santo.
Não conhecer a Deus é não conhecer a Cristo, pois Deus é conhecido por meio de Cristo. Mas agora, desde que Cristo apareceu, o qual me ensinou e revelou a Deus por Si mesmo — tanto a Si mesmo como Deus, quanto o Pai por Si mesmo —, já não é permitido não conhecer a Deus.
Quando introduz os "rudimentos pobres deste mundo", isto parece antes dizer respeito aos pagãos, que fazem para si deuses até mesmo a partir dos elementos deste mundo... Todavia, uma vez que todo o seu discurso e todo este tratado foram empreendidos para repreender os Gálatas por sua conversão ao judaísmo, e todas essas coisas devem ser entendidas a respeito dos judeus, como entendemos "voltais de novo à fraqueza"? Quando, portanto, diz os "rudimentos pobres" deste mundo, refere-se àqueles que, entendendo a lei carnalmente, se apegaram aos elementos contingentes deste mundo. Pois a carne está sempre a ter fome. Anseia pelo sustento de comida e bebida e pelos objetos do desejo, os quais, todavia, são todos fracos.
Preserva ele a essência do seu próprio ensinamento: que aqueles que vêm a Cristo são os que Deus envia e Deus chama, e aqueles que conhecem a Deus são os que Deus conhece... Pois aqueles que são conhecidos de Deus recebem o Espírito, pelo qual conhecem a Deus.
De modo que se veja que ele diz isto aos judeus e a respeito dos judeus — isto é, aos gálatas, que combinam o modo de vida dos judeus com o seu — acrescenta: "Observais dias, meses, estações e anos." ... Pois uma coisa é observar os dias, como por exemplo descansar no sábado; outra é observar os meses, como por exemplo observar as luas novas; ... outra é observar os anos; e outra ainda são as estações, como o jejum, a Páscoa, a festa dos ázimos e outras coisas deste gênero.
A fraqueza em meu corpo não foi obstáculo para vós, mas me recebestes como a um anjo de Deus, isto é, como a um mensageiro, um pregador enviado por Deus (pois é isto um anjo de Deus); e me recebestes como a Cristo Jesus, a quem eu vos pregava. E assim, verdadeiramente recebestes a Cristo Jesus, se me recebestes como a um anjo de Deus, do mesmo modo que recebestes a Cristo Jesus.
Estáveis satisfeitos naquele tempo em que recebestes o evangelho, porque fostes zelosos no início. Contudo, agora, visto que não vejo o acabamento do edifício, sou forçado a dizer: "Onde está a vossa satisfação?"
Visto que "emular" significa duas coisas — uma, quando alguém emula o que lhe agrada por ser bom; outra, quando os homens são emuladores por sentirem inveja —, estes, diz ele, vos emulam de modo mau, querendo dizer com isso que são imitadores por inveja…. Quando acrescenta a expressão "para que os emuleis", [isto é] "para que os sigais", usou assim, em passagens diferentes, o duplo sentido da emulação, pois emulação é imitação, sobretudo quando também se dirige ao que é bom…. [Ele prossegue:] "Emulai, pois, os dons melhores — não os da lei judaica, que não são dons nem são melhores; mas emulai aquelas coisas que são boas e são dons melhores. Isto é, tudo quanto pertence à fé e à caridade, emulai-o em relação a Cristo e segui-o. É sempre bom emular as coisas melhores. A emulação em si mesma não é boa, mas a emulação das coisas melhores é sempre boa, e não somente quando estou presente." –.
Filhos são ditos em muitos sentidos: ora por amor, ora por natureza, ora por sangue, ora ainda por religião. É isto que Paulo entende agora por "meus filhos", seja porque, quando o novo nascimento se dá mediante o batismo fiel, aquele que conduz os batizados até a maturidade, ou os recebe já plenamente prontos, é chamado pai deles, seja porque, ao chamá-los de volta a Cristo, os faz seus próprios filhos.
Foi-lhe necessário acrescentar uma exortação a que perseverassem do mesmo modo pelo qual haviam primeiramente começado a receber dele o evangelho, e não retornassem à escravidão sob a lei. Diz "ficai firmes", o que não é possível a quem está sob jugo pesado. Pois este curva submissamente o pescoço e, por isso, não pode ficar firme.
Refere-se evidentemente àquela liberdade pela qual nossa mãe [a Igreja] é livre, e ela é livre, evidentemente, pela fé. Pois esta é a verdadeira liberdade: guardar a fé em Deus e crer em todas as promessas de Deus. Portanto, pela fé, Cristo nos reconduziu à liberdade e nos fez livres pela liberdade da fé.
Toda a virtude daquele que crê em Cristo é pela graça de Deus. A graça não provém de méritos, mas da prontidão para crer em Deus. Por isso [escreve Paulo]: "Já decaístes da graça, se pondes vossa justificação na lei, porque (por exemplo) servis às obras, porque observais o sábado ou por causa de vossa circuncisão. Se credes que sois justificados por isso, decaístes da graça e fostes reduzidos a nada quanto a Cristo. Já não tendes vossa fé a partir de Cristo, nem esperais para vós a graça de sua paixão e ressurreição, se credes que a justificação provém da lei."
Em toda parte diz ele que a fé no evangelho de Cristo não atribui valor algum à condição social, ao sexo, ou às obras realizadas em respeito ao corpo, a partir do corpo, ou em vista do corpo, tais como a circuncisão, as obras e outras coisas dessa espécie. Nenhuma destas, diz ele, possui valor salvífico em Cristo. Vã é, portanto, a circuncisão, nem pela incircuncisão alcançamos valor em Cristo. Porque concebemos nele a fé, e porque cremos em suas promessas, e porque por meio de sua ressurreição também nós ressuscitamos, e padecemos todas as coisas com Ele, e ressuscitamos para a vida com Ele, mas também por Ele, é certa a nossa fé. Por esta fé vêm as obras convenientes à salvação. Isto se realiza por meio do amor que temos a Cristo e a Deus, e assim para com todo homem. Pois são estas duas relações, sobretudo, que endireitam a vida e cumprem todo o sentido da lei. Elas contêm todos os mandamentos do Decálogo — segue-se necessariamente que aquele que guarda a fé guardará também o amor, visto que estas duas coisas cumprem todos os preceitos da lei de Cristo.
Todo fermento corrompe o pão, e o pão corrompido é farinha. Quando a massa de farinha é deixada, ela azeda, e então vem o fermentar. Ora, quando se põe uma pequena porção de fermento na massa, a massa se corrompe. "Vós", diz ele, "deveis ser pão ázimo. Por isso aquele pequeno acréscimo vosso, que julgáveis coisa de pouca monta, a saber, a vossa observância da circuncisão e o restante, porque é corrupto, corrompe a massa do nosso evangelho. Se assim é, não tendes plena esperança em Cristo, nem tampouco Cristo vos considera como seus, ou como povo cuja esperança dele depende. Pois é a fé que liberta, e, como já disse, não tem fé aquele que espera algum auxílio à parte de Cristo, ainda que seja juntamente com Cristo."
Toda a obra da lei se cumpre por este único mandamento: o amor. Pois quem ama o outro não mata, nem comete adultério, nem furta.... Ora, o próprio Paulo acrescenta um texto: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Mas devemos entender por "próximo" todo ser humano, e então contemplar constantemente Cristo como nosso próximo. "E vós também deveis amar-vos uns aos outros, mas em espírito." Aqui ele parece agora, como que negligenciando a questão e a discussão anteriores, exortá-los a evitar a discórdia. E isto pode acontecer se vos amardes uns aos outros no Espírito, não na carne, nem pelas obras da carne, nem nas observâncias naturais. Pois quem ama o outro não sente inveja, nem furta do outro, nem o despreza ou maltrata.
Toda a essência do evangelho consiste em pensar segundo o Espírito, viver segundo o Espírito, crer segundo o Espírito, nada ter da carne na mente, nos atos e na vida. Isso significa também não depositar esperança alguma na carne. "Andai, pois", diz ele, "no Espírito" — isto é, "Estai vivos. Se assim fizerdes, não consumareis o desejo da carne. Não admitireis em vossa consciência pecado algum, que nasce da carne."
Alguns gálatas, que julgavam dever adotar o modo de vida judaico, de modo a observar o sábado, submeter-se à circuncisão e fazer outras coisas semelhantes segundo seu entendimento carnal, poderiam ter esperança na carne e a partir da carne. Todo aquele, pois, que tem esperança na carne e semeia a sua própria esperança na carne, terá colheita da carne, isto é, fruto da carne. Mas que fruto? Corrupção, diz ele; pois de fato a carne se corrompe, e este é o seu fim, que ela se torna corrupta e pútrida. Perece e morre. Todas as coisas, pois, que são da carne tornam-se pútridas e sofrem corrupção... Melhor é, portanto, ter esperança no Espírito, para que tenhamos esperança naquilo que provém do Espírito: a esperança e o fruto do Espírito. Isto é o que significa semear no Espírito: a vida eterna. Pois esta vida presente é, de fato, vida, mas não vida eterna. Mas aquele que aqui vive segundo o Espírito e age conforme o Espírito, e nada faz de corrupto, semeia para si a vida eterna. E esta será a sua colheita: que, ao partir, receberá a vida eterna.
Acrescenta ele outro princípio que é geralmente enunciado, mas que é pertinente ao que disse acima, para impedir que sigam algo além do evangelho (isto é, acrescentando também um modo de vida legalista e obras). Não vos enganeis, diz ele, pois todas as coisas que se fundam à parte do evangelho estão sujeitas ao erro. E acrescentou à sua sentença a força da necessidade: "Deus", diz ele, "não se deixa escarnecer." Não diz: "Deus conhece tudo", para que não esperassem algum perdão barato para o seu erro, ou algo que se pudesse ocultar. Antes, "Deus não se deixa escarnecer", e Paulo esclarece o que sucederá àqueles que erram e àqueles que se apegam à vida mundana.
Não basta fazer o bem; pois a nossa bondade não será reconhecida por Deus imediatamente se fizermos o bem, mas somente se "não desfalecermos em fazer o bem". Muitos começam, muitos de certo modo perseveram, mas depois desistem, seja por cansaço, seja por serem desviados. Justamente os adverte para que de nenhum modo desfaleçam, a fim de que, pelo cansaço, não abandonem aquilo que começaram quando começaram a fazer o bem.
Por isso devemos trabalhar, e devemos trabalhar o bem, e trabalhá-lo para com todos, de modo que não haja acepção de pessoas. Nada devemos fazer senão fazer o bem, e o bem a todos. Pois, com efeito, se o amor edifica e toda pessoa é amada, então todo bem que operamos devemos operá-lo em favor de todos... Contudo, ele faz a distinção de que o bem que operamos em favor de todos deve ser operado, sobretudo, em favor dos domésticos da fé, isto é, daqueles que chegaram à fé crente em Cristo e em Deus. Ele chega ao ápice do seu argumento ao exortar isto. Isto era particularmente pertinente aos gálatas. Pois eles, fazendo certos acréscimos à fé a partir do judaísmo, não agiam a partir da fé. Criam que colheriam fruto das obras e da mera observância ritual. Por isso acrescenta: "Façamos o bem, sobretudo, aos domésticos da fé, porque estes adotaram a fé somente no evangelho", isto é, em Cristo e em Deus.
Ele dá o mais forte imperativo possível ao bem-fazer: o tempo é curto. A vida rapidamente chega ao seu termo. O fim do mundo está próximo. "Enquanto temos oportunidade" significa ou enquanto temos a nossa própria vida, ou enquanto há vida neste mundo.
Quando Paulo escreve que a cruz é glória, ele quer dizer evidentemente "a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". Quando, naquele mistério, o seu corpo pendeu da cruz e nela esmagou o poder deste mundo, todo o mundo foi crucificado por meio dele. Na cruz, ele se identificou com cada pessoa no mundo. Ao fazer isso, tornou universal tudo quanto padeceu, isto é, fez com que toda a carne fosse crucificada em sua morte. Por isso, eu também estou fixado à cruz e ao mundo. "Eu" designa aquele que vivia segundo a carne, cujos pensamentos eram carnais. Tal homem está agora "pregado ao mundo", isto é, as coisas mundanas nele estão sujeitas à morte.
O ponto de Paulo é este: "Tudo o que Cristo experimentou na cruz — a marca dos cravos, a lançada em seu lado, os demais sinais da crucifixão — eu os trago em meu próprio corpo. Eu também padeci. Portanto, vós também deveis suportar muita — na verdade, toda — adversidade, pois estareis com Cristo se padecerdes com Cristo e começardes, por ato próprio, diante dos adversários, a sofrer o que Cristo sofreu." Por estas palavras Paulo revela o que ele mesmo estava padecendo, quanto partilhava com Cristo e o que também devemos sofrer se quisermos viver em Cristo.
Sem dúvida isto é dito de Cristo, pois Ele mesmo há de julgar...
"Ter o pensamento posto no Espírito é vida." Pois o erro, a imprudência e a ignorância são passionais, rebeldes contra si mesmas, contraditórias consigo mesmas. E por isso "ter o pensamento posto na carne", que é imprudência, é morte, porque não conhece a Deus. Portanto, "ter o pensamento posto no Espírito é vida e paz."