Orígenes de Alexandria
Mestre da Escola de Alexandria
Orígenes (c. 185–254), o maior erudito bíblico da era pré-nicena, filho de mártir e ele próprio confessor da fé sob tortura. Em Alexandria e Cesareia produziu obra colossal — a Héxapla, comentários e homilias sobre quase toda a Escritura. Seu Comentário sobre João, primeiro grande comentário cristão do quarto Evangelho, explora as profundezas espirituais do texto.
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Pois o verbo ser tem dupla significação: algumas vezes declara os movimentos temporais segundo a analogia de outros verbos, outras vezes designa a substância de cada coisa sobre a qual se predica, sem qualquer movimento temporal; por isso também é chamado verbo substantivo.
É útil também observar que a palavra é dita ser feita em alguns, como em Oseias, Isaías ou Jeremias; mas em Deus não é feita, como se não existisse anteriormente nele. Assim, pelo fato de que continuamente está nele, diz-se que "o Verbo estava junto de Deus", porque nem mesmo desde o princípio esteve separado do Pai.
Deve-se acrescentar também que o Verbo, quando se manifesta aos profetas, os ilumina com a luz da sabedoria; mas junto a Deus, o Verbo é Deus, obtendo d'Ele o ser Deus; por isso colocou "o Verbo estava junto de Deus" antes de "o Verbo era Deus".
Ou de outra maneira. Depois que o Evangelista expôs três proposições, ele as resume em uma só, dizendo: este era no princípio junto de Deus. Pois na primeira das três aprendemos onde estava o Verbo, porque estava no princípio; na segunda, junto a quem, porque junto de Deus; na terceira, o que era o Verbo, porque era Deus. Como se estivesse demonstrando o Verbo já mencionado, Deus, por meio do que diz este, e reunindo na quarta proposição o que é no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e Deus era o Verbo, diz: este era no princípio junto de Deus. Alguém poderia perguntar por que não foi dito: "No princípio era o Verbo de Deus, e o Verbo de Deus estava junto de Deus, e Deus era o Verbo de Deus". Mas quem quer que confesse que a verdade é única, é evidente que também sua demonstração, que é a sabedoria, é uma só. Porém, se a verdade é uma, e a sabedoria é uma, também o Verbo, que anuncia a verdade e expande a sabedoria naqueles que são capazes de recebê-la, certamente será um só. Não dizemos isto negando que é o Verbo de Deus, mas mostrando a utilidade da omissão deste vocábulo "de Deus". O próprio São João no Apocalipse diz: e o seu nome é o Verbo de Deus.
Também errou nisso Valentino, dizendo que o Verbo forneceu ao Criador a causa da criação do mundo. Mas se a verdade das coisas é como ele entende, conviria que tivesse sido escrito que todas as coisas subsistem pelo Criador a partir do Verbo, e não, ao contrário, pelo Verbo a partir do Criador.
Ou de outra forma. Se todas as coisas foram feitas pelo Verbo, e no número de todas as coisas está a malícia e todo o fluxo do pecado, então estes foram feitos pelo Verbo; o que é falso. Portanto, quanto aos significados, o nada e o não ser são uma só coisa. E parece que o Apóstolo chama de não-seres às coisas más: "Deus chama as coisas que não são como se fossem". E toda a maldade é chamada de nada, uma vez que foi feita sem o Verbo.
Pode-se também distinguir assim sem erro: "o que foi feito nele", e depois dizer "era vida"; para que o sentido seja: todas as coisas que foram feitas por ele e nele, nele são vida, e são uma só coisa. Pois eram, isto é, subsistem nele causalmente, antes que existam em si mesmas efetivamente. Mas se perguntas como e por qual razão todas as coisas que foram feitas pelo Verbo subsistem nele de modo vital, uniforme e causal, toma exemplos da natureza das criaturas. Observa como as causas de todas as coisas que a globosidade deste mundo sensível compreende subsistem simultaneamente e uniformemente neste sol, que é o maior luminário do mundo; como a multiplicidade de ervas e frutos está contida ao mesmo tempo em cada uma das sementes; como as múltiplas regras na arte do artífice são uma só e vivem na mente de quem as dispõe; como o número infinito de linhas subsiste como um só em um único ponto; e contempla variados exemplos deste tipo, a partir dos quais, como que com as asas da teoria física, poderás inspecionar com o olhar da mente os arcanos do Verbo e, tanto quanto é permitido às razões humanas, ver como todas as coisas que foram feitas pelo Verbo, nele vivem e foram feitas.
Não deve ser desconsiderado que ele coloca a vida antes da luz dos homens: pois seria inconsistente ser iluminado aquele que não vive, e que a iluminação venha antes da vida. Se, porém, "a vida era a luz dos homens" significasse somente dos homens, Cristo seria luz e vida somente dos homens. Mas pensar isso é herético. Portanto, o que se diz de alguns, não pertence somente a eles: pois está escrito sobre Deus que Ele é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó; contudo, não se diz que Ele é Deus somente desses patriarcas. Logo, pelo fato de ser chamado luz dos homens, não se exclui que seja também luz de outros. Outro intérprete sustenta, baseando-se no texto: "façamos o homem à nossa imagem", que tudo o que foi feito à imagem e semelhança de Deus deve ser entendido pelo homem. Assim, portanto, a luz dos homens é luz de toda criatura racional.
Perguntam, porém, por que não se disse que o Verbo é a luz dos homens, mas sim a vida que está no Verbo; a estes respondemos: porque a vida de que se fala no presente, não é aquela que é comum aos seres racionais e irracionais, mas a que se une ao Verbo que se faz em nós pela participação do Verbo primário, para discernir a vida aparente e não verdadeira, e desejar a verdadeira vida. Primeiro, portanto, participamos da vida que, para alguns, é luz em potência, não em ato; a saber, aqueles que não estão ávidos por indagar o que pertence à ciência; mas para outros, torna-se luz também em ato, aqueles que, segundo o Apóstolo, aspiram aos melhores dons, isto é, à palavra da sabedoria. Se, contudo, então a vida e a luz dos homens são a mesma coisa, comprova-se que ninguém que permanece nas trevas vive perfeitamente, nem qualquer um dos que vivem permanece nas trevas.
Ou então: Não devemos entender que ilumina todo homem que vem a este mundo a partir das causas ocultas das sementes que se desenvolvem em formas corporais, mas aqueles que espiritualmente, pela regeneração da graça que é concedida no Batismo, vêm ao mundo invisível. Portanto, a verdadeira luz ilumina aqueles que vêm ao mundo das virtudes, não aqueles que precipitam-se ao mundo dos vícios.
Pois assim como a voz daquele que fala, quando cessa de falar, termina e se desvanece, assim também, se o Pai celeste deixasse de proferir o seu Verbo, o efeito do Verbo, isto é, o universo criado pelo Verbo, não mais subsistiria.
E quanto ao que segue, cheio de graça e de verdade, há dupla interpretação. Pois pode ser entendido tanto da humanidade quanto da divindade do Verbo encarnado; de tal modo que a plenitude de graça se refira à humanidade, segundo a qual Cristo é a cabeça da Igreja e o primogênito de toda criatura: porque o exemplo máximo e principal da graça, pela qual sem méritos precedentes o homem se torna Deus, manifestou-se primordialmente nele. A plenitude de graça de Cristo pode também ser entendida do Espírito Santo, cuja operação septiforme encheu a humanidade de Cristo. Já a plenitude de verdade refere-se à divindade.
É totalmente descabido o que afirma Heracleão1 ao declarar que esta proclamação foi feita não pelo Batista, mas pelo discípulo2. Pois se aquela afirmação "De sua plenitude todos nós recebemos" foi proferida pelo Batista, como não seria consequente que ele, tendo recebido da graça de Cristo, e uma segunda graça no lugar da primeira, e confessando que a lei foi dada por Moisés, mas que a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo; tenha compreendido como ninguém jamais viu a Deus, e que o Unigênito, que repousa no seio do Pai, concedeu esta interpretação ao próprio São João, e não só a ele, mas a todos aqueles que provaram da perfeição? Pois ele não anuncia isso agora pela primeira vez; porque antes que Abraão existisse, ele nos ensina que Abraão exultou por ver a sua glória.
[1] Heracleão foi um gnóstico valentiniano do século II, cujos comentários sobre o Evangelho de São João são conhecidos principalmente através das refutações de Orígenes. ↩
[2] Refere-se ao Evangelista São João, autor do quarto Evangelho. ↩
Dirá alguém que São João ignorava ser Elias; e certamente usarão este documento aqueles que defendem a teoria da reencarnação, como se a alma vestisse novamente os corpos. Pois os judeus perguntam por meio dos levitas e sacerdotes se ele era Elias, considerando verdadeiro o documento da reassunção do corpo, como se fosse tradicional, e não alheio à doutrina de seus mistérios. Por isso, portanto, diz São João: "Elias não sou"; pois desconhece sua vida primeva. Porém, como parece razoável, se como profeta foi iluminado pelo espírito e narrou tantas coisas sobre Deus e o Unigênito, que ignorasse a respeito de si mesmo se alguma vez sua alma esteve em Elias?
Tendo dado resposta aos sacerdotes e levitas, novamente foi enviada uma mensagem pelos fariseus; por isso diz-se: e os que haviam sido enviados eram dos fariseus. Segundo se pode conjecturar do próprio discurso, digo que este é o terceiro testemunho. Vede, porém, como conforme a dignidade sacerdotal e levítica, é proferido com mansidão aquele "quem és tu?" Pois nada de arrogante ou insolente se contém na pergunta deles, mas tudo o que é conveniente aos verdadeiros ministros de Deus. Porém os fariseus, segundo seu próprio nome, divididos e importunos, dirigem com discórdia palavras injuriosas ao Batista; por isso segue: e disseram-lhe: por que, então, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? Não por quererem saber, mas para proibi-lo de batizar. Depois, porém, não sei de que maneira, inclinados ao Batismo, foram a São João. A solução disto é que os fariseus, não crendo, aproximaram-se do Batismo por hipocrisia, pois temiam o povo.
Assim como as demais oblações legais estavam ligadas à oferenda contínua do cordeiro, do mesmo modo parecem-me unidas à oblação deste Cordeiro as efusões do sangue dos mártires, cuja paciência, confissão e prontidão para o bem, embotam as maquinações dos ímpios.
Uma profissão apropriada para aqueles que vieram do testemunho de São João, reconhecendo a Cristo como Mestre e expressando o desejo de contemplar a morada do Filho de Deus.
Em sentido místico, quando foi feita a preparação das núpcias em Caná da Galileia, desceu juntamente com sua mãe, irmãos e discípulos a Cafarnaum, que se interpreta como campo de consolação. Convinha, pois, que após a alegria do vinho, ao campo da consolação, juntamente com a mãe e os discípulos, subisse o salvador para consolar nos frutos futuros e na multidão dos campos aqueles que recebem sua doutrina, e a alma que o concebeu pelo Espírito Santo, e aqueles que devem ser ajudados ali. Há, com efeito, alguns que frutificam, aos quais o próprio Senhor desce juntamente com os ministros da palavra e discípulos, auxiliando a estes na presença de sua mãe. Mas aqueles que são conduzidos a Cafarnaum parecem não ser capazes de manter por muito tempo junto a si a presença de Jesus: pois a iluminação que provém de muitos dogmas, o pequeno campo da consolação inferior não comporta, sendo capaz de receber poucos.
Consideremos também, para que não pareça algo extraordinário, que o Filho de Deus, tendo apanhado cordas, preparou para si um açoite para expulsar do templo. Entretanto, resta-nos um refúgio para responder a isso: o divino poder de Jesus, para que, quando quisesse, pudesse sufocar a ira dos inimigos, por mais inumeráveis que fossem, e acalmar as turbulências das mentes; pois o Senhor dissipa os pensamentos das nações. A presente história não demonstra em nada um poder menor do que aqueles manifestados por Ele de forma mais milagrosa; pelo contrário, constata-se que esta demonstra um poder maior que o milagre pelo qual a água foi convertida em vinho, porque lá a matéria inanimada permaneceu, mas aqui são domadas as vontades de tantos milhares de homens.
Ambas as coisas, isto é, tanto o corpo de Jesus como o templo, parecem-me ser figura da Igreja, porque esta é construída de pedras vivas para formar uma casa espiritual, um sacerdócio santo, e por aquilo: vós sois o corpo de Cristo e membros uns dos outros. E ainda que a estrutura de pedras pareça se desfazer e todos os ossos de Cristo se dispersarem pelas adversidades das tribulações; contudo o templo será restaurado e ressuscitado no terceiro dia, o qual estará presente no novo céu e na nova terra. Assim como aquele corpo sensível de Cristo foi crucificado e sepultado, e depois ressuscitou; assim também todo o corpo dos santos de Cristo foi crucificado com Cristo: cada um deles não se gloria em nada senão na cruz de Cristo, pela qual ele mesmo foi crucificado para o mundo. Mas também foi sepultado com Cristo e ressuscitou com ele, porque caminha em certa novidade de vida. Mas segundo a bem-aventurada ressurreição ainda não ressuscitou; por isso não está escrito: no terceiro dia restaurarei aquilo, mas em três dias: pois sua edificação se completa em todos os três dias.
Deve-se observar como muitos viam seus sinais e criam nele. Pois não se diz que tenha feito prodígios em Jerusalém, a não ser, talvez, que tenham sido feitos, mas não estejam registrados nas Escrituras. Observa, porém, se é possível considerar entre os milagres o fato de ter feito um açoite de cordas e ter expulsado a todos do templo.
Pois é como um dogma que ninguém recebe um dom divino sem buscá-lo. O próprio Salvador é ordenado pelo Pai a pedir, para que Ele lhe dê, conforme está escrito: "Pede-me, e eu te darei as nações como herança". E o próprio Salvador diz: "Pedi e vos será dado". E por isso, Ele diz expressamente: terias pedido, e Ele te teria dado.
E onde era mais adequado que Jesus confutasse o suposto marido da Samaritana, que não era seu marido, senão junto à fonte de Jacó? Pode-se também entender que, se a lei é o marido da alma, a Samaritana, segundo uma aceitação adequada das palavras da lei, sujeitava-se ao rito dos infiéis como a um marido ilegítimo. É chamada, porém, à palavra da verdade, que haveria de ressuscitar dos mortos, para não mais morrer.
O que eu digo vós quanto à voz, refere-se aos samaritanos, quanto à anagogia, àqueles que têm uma opinião estranha em relação às Escrituras. Nós, por sua vez, quanto à palavra, refere-se aos judeus, quanto à alegoria, porém, eu o Verbo, e aqueles que verdadeiramente são formados segundo mim, obtêm a salvação a partir dos ditos judaicos.
De fato, não se deve ignorar que, assim como Jesus surgiu dentre os judeus, não apenas dizendo, mas também demonstrando ser o Cristo; igualmente, entre os samaritanos, um certo Dositeu, por nome, afirmava ser ele o Cristo que fora anunciado.
E, realmente, como que de um apóstolo para os cidadãos, se serve desta mulher, inflamando-a de tal modo por palavras que, deixando o cântaro, foi à cidade para relatar aos concidadãos; donde se segue: A mulher, pois, deixou o seu cântaro, não se preocupando com o corpóreo e o mais vil, devido à utilidade de muitos. Também a nós interessa, omitidas e negligenciadas as coisas corporais, empenhar-nos em repartir com os outros dos benefícios adquiridos.
Julgavam adequado o tempo para a refeição, que era entre a retirada da mulher para a cidade e a chegada dos samaritanos a ele: pois não serviam alimentos para si na presença de algum estranho. Por isso está bem colocado entretanto.
Não será impróprio que alguém objete: como o Salvador, quando foi rogado, permanece com os samaritanos, ele que ordenou não entrar em cidade dos samaritanos? Pois é evidente que também seus discípulos entraram com ele. A isto deve-se responder que ir pelo caminho dos gentios é ser imbuído da doutrina gentílica e caminhar nela. Entrar na cidade dos samaritanos é aceitar a falsa doutrina daqueles que recebem os escritos legais, proféticos, evangélicos e apostólicos. Porém, quando eles abandonam a própria doutrina e vêm a Jesus, é lícito permanecer com eles.
Deve-se examinar o sentido destas palavras. A pátria dos profetas era, de fato, a Judeia, e não é desconhecido que de modo algum receberam honra dos judeus, conforme está dito: "A qual dos profetas não perseguiram vossos pais?" Também é admirável a veracidade deste decreto, pois se refere não apenas aos santos profetas desprezados pelos seus e ao próprio Senhor nosso; mas estende-se também a alguns seguidores da profecia, desprezados por seus concidadãos e conduzidos à morte.
Também podem ser significadas as duas vindas de Cristo, o Verbo, à alma: a primeira, de fato, proporcionando à alma a alegria do convívio espiritual através do vinho; a segunda, porém, amputando todos os vestígios de enfermidade e morte.
Onde quer que se acrescente: estas palavras Jesus falou em tal lugar, se bem observares, encontrarás a oportunidade do acréscimo. O gazofilácio é o lugar das moedas oferecidas para a honra de Deus e para a distribuição aos pobres. As moedas são as palavras divinas, que têm impressa a imagem do grande Rei. Cada um contribua para a edificação da Igreja, levando ao gazofilácio intelectual tudo o que puder para a honra de Deus e para a utilidade comum. Dentre todos os que ofereciam no gazofilácio do templo, era mais necessário que Jesus trouxesse dádivas, que eram palavras de vida eterna. Portanto, enquanto Jesus falava no gazofilácio, por ninguém foi detido: porque suas palavras eram mais fortes do que aqueles que queriam prendê-lo, pois não há fraqueza naquilo em que a palavra de Deus fala.
Mas alguém objetará assim: se ele dizia essas coisas aos que permaneciam na incredulidade, como lhes diz "e me buscareis"? Pois buscar a Jesus é buscar a verdade e a sabedoria. Mas poderás dizer que também se diz, algumas vezes, dos perseguidores que o buscavam para o capturar. Há, pois, diferentes maneiras de buscar a Jesus: nem todos o buscam para a sua salvação e proveito. Por isso, somente aqueles que o buscam corretamente encontram a paz. E diz-se que buscam corretamente aqueles que buscam o Verbo que está no princípio junto de Deus, para que Ele os conduza ao Pai.
Também outra leitura diz: e fazei vós o que ouvistes do Pai. Pois haviam ouvido do Pai o que está escrito na Lei e nos Profetas. E quem usou esta palavra contra aqueles que são de opinião contrária, mostra que não é outro o Deus que deu a Lei e os Profetas, e o Pai de Cristo. Perguntemos também aos que introduzem duas naturezas, dizendo: terem ouvido dos estranhos ao Pai, é inconveniente. Porém, se eles eram propriamente do Salvador e da natureza bem-aventurada, como procuravam matá-lo e não compreendiam a palavra do Salvador? Eles, no entanto, tomaram como muito mais ofensivo do que o Senhor disse, quem era o pai deles: pois confessam ser seu pai aquele que é pai de muitas nações; de onde segue responderam e disseram: Abraão é nosso pai.
Eu creio que isto foi dito em alusão a alguns que vinham por si mesmos, e não eram enviados pelo Pai, dos quais se diz em Jeremias: "Não os enviava, e eles corriam". Porém, como alguns que sustentam a existência de duas naturezas se valem desta passagem, deve-se objetar contra eles. Paulo odiava a Jesus quando perseguia a Igreja de Deus; por isso o Senhor lhe disse: "Por que me persegues?" Se, portanto, é verdade o que aqui se diz: "Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis", evidentemente é também verdadeira a proposição inversa: "Se não me amais, de modo algum Deus pode ser vosso Pai". Ora, Paulo durante algum tempo não amava a Jesus; houve, portanto, um tempo em que Deus não era Pai de Paulo. Logo, Paulo não foi filho de Deus por natureza, mas posteriormente foi feito filho de Deus. Quando, porém, Deus se torna pai de alguém, senão quando este guarda os seus mandamentos?
Mas como isto é dito aos judeus que criam nele? Mas considera que alguém pode, segundo uma intenção, crer, e segundo outra intenção, não crer: assim como aqueles que creem naquele que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, mas não creem naquele nascido da Virgem Maria, creem e não creem na mesma pessoa. Assim, portanto, estes a quem ele falava criam nele enquanto viam que ele era um realizador de sinais, mas não criam nas coisas profundas que eram ditas por ele.
Convém também que alguns tenham considerado que ele partilhasse a opinião dos samaritanos, que nada é reservado aos homens após a morte, mas que falava falsamente, para agradar aos judeus, sobre a ressurreição e a vida eterna. Diziam, porém, que ele tinha um demônio devido aos seus discursos que transcendiam a capacidade humana, nos quais afirmava que Deus era seu Pai, que ele havia descido do céu e outras coisas semelhantes; ou devido à suspeita deles, pois muitos opinavam que ele expulsava os demônios por meio de Belzebu, príncipe dos demônios.
Pois eles não discernem, porque não apenas Abraão, mas qualquer outro nascido de mulher, é menor que Aquele que nasceu da Virgem. Nem os judeus diziam a verdade ao afirmar "Abraão morreu", pois ele ouviu a palavra de Cristo e a guardou. E deves dizer o mesmo a respeito dos profetas, sobre os quais acrescentam: "e os profetas morreram"; porque também eles guardaram a palavra do Filho de Deus, tendo a palavra do Senhor vindo a Oseias, ou a Isaías, ou a Jeremias; pois se alguém guardou a palavra, certamente os profetas a guardaram. Portanto, mentem também nisto quando dizem: "Sabemos que tens um demônio", e nisto: "Abraão morreu e os profetas".
Elevou, de fato, os olhos para o alto, pois elevou a inteligência humana, conduzindo-a pela oração ao excelso Pai. Mas também é necessário, para aquele que deseja orar seguindo o exemplo da oração de Cristo, elevar os olhos do coração para o alto, e erguê-los das coisas presentes na memória, nos pensamentos e nas intenções. Se para aqueles que oram dignamente desta maneira é expressa por Deus uma promessa sobre sua própria oração: enquanto ainda estiveres falando, direi: eis-me aqui, o que convém pensar a respeito do Senhor e Salvador? Ele estava para orar pela ressurreição de Lázaro. Mas antecipando-se à sua oração, aquele que é o único bom Pai atendeu ao que seria dito. Portanto, para completar a oração, acrescenta a ação de graças, dizendo: Pai, dou-te graças porque me ouviste.
A perversidade de Caifás é reprovada nisso que é dito pontífice daquele ano, isto é, no qual o nosso salvador exerceu o ministério da paixão; e contudo, sendo pontífice daquele ano, disse-lhes: vós não sabeis nada, nem considerais que vos convém que um homem morra pelo povo, e não pereça toda a nação; como se dissesse: vós estais sentados e ainda atendeis ao assunto com mais indolência; mas observai que convém desprezar a salvação de um só homem pelo bem da república comum.
Tendo os pontífices e fariseus reunido o Concílio para matar Jesus, Ele, observando-se com mais cautela, não mais conversava com os judeus com tanta confiança; mas também não se dirigiu a outra cidade populosa, mas a uma remota: por isso é dito Jesus, portanto, já não andava em público entre os judeus; mas partiu dali para uma região próxima ao deserto, para uma cidade chamada Efraim.
Em sentido místico, o almoço é reconhecido como a primeira refeição; e antes do término do dia espiritual, que é considerado na vida presente, também convém aos que estão sendo introduzidos: a ceia, porém, é a refeição final; e é servida àqueles que já progrediram mais além. De outro modo, também se poderia afirmar que o almoço representa a compreensão das Escrituras antigas, enquanto a ceia simboliza os mistérios ocultos no novo testamento. Considero também que aqueles que ceiam com Jesus, e banqueteiam com Ele no último dia da vida presente, necessitam de certa ablução, não certamente quanto às partes primeiras (por assim dizer) do corpo e da alma, mas quanto às últimas e posteriores, que necessariamente aderem à terra. Diz, pois, que começou a lavar os pés; pois depois lavou e completou a ablução: porque os pés dos apóstolos estavam contaminados, conforme aquilo: "todos vós vos escandalizareis em mim nesta noite". Depois, porém, completou o lavar deles, purificando-os, para que não voltassem a sujar-se.
Creio impossível que as partes inferiores e extremas da alma não se contaminem, ainda que alguém seja considerado perfeito quanto ao que é possível ao homem; muitos, porém, mesmo depois do Batismo, ficam cobertos até o topo da cabeça com o pó dos pecados; mas os verdadeiros discípulos de Cristo necessitam apenas da lavagem dos pés.
Não foi dito aos apóstolos "para que creiais", como se não cressem; mas foi dito como se equivalesse a: para que, crendo, obreis, perseverando na credulidade, não buscando nenhuma ocasião para rejeição; pois além daquilo que os discípulos já possuíam para fortalecer a fé, obtiveram também isto: ver o cumprimento da Escritura predita.
Atente que primeiramente Satanás não entrou em Judas, mas introduziu em seu coração apenas que traísse o mestre; após o pão, porém, entrou nele. Por isso, devemos cuidar para que o Diabo não introduza em nosso coração nenhuma de suas setas inflamadas; pois, se ele introduzir, arma ciladas para que também ele mesmo entre.
Depois dos acontecimentos provenientes dos prodígios, e também dos anúncios da transfiguração, o início da glorificação do Filho do homem foi a saída de Judas do lugar onde Jesus permanecia, com Satanás, que nele entrou; por isso diz: "Quando ele saiu, disse Jesus: Agora foi glorificado o Filho do homem". Pois não é a glória do Verbo unigênito imortal que aqui se narra, mas a do homem que foi feito da descendência de Davi. Se na morte de Cristo que glorifica a Deus é verdadeiro aquilo: "Despojando os principados e potestades, os exibiu publicamente com ousadia, triunfando sobre eles na cruz", e aquilo: "Reconciliando, pelo sangue da sua cruz, seja o que está na terra, seja o que está nos céus", em todas estas coisas o Filho do homem foi glorificado, sendo Deus também glorificado nele; por isso segue-se: "E Deus foi glorificado nele", porque não é Cristo glorificado sem que também o Pai seja glorificado com ele. Mas como qualquer um que é glorificado, o é por alguém; se perguntas a respeito daquele que foi glorificado, o Filho do homem, por quem, respondendo acrescenta: "Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo".
Isso exprime a pequenez de alma ainda iminente nos discípulos. Depois da ressurreição, aqueles a quem chamava de filhinhos, tornam-se irmãos; assim como antes haviam sido servos, antes de serem filhinhos.
E observa que não se encontra facilmente alguém dentre aqueles que estavam aptos para esta obra, que prontamente passe desta vida; por isso agora a Pedro é dito "quando envelheceres, estenderás as tuas mãos".
Diz, porém, das coisas, porque Jesus não realizou sua vinda carnal segundo aparências, como afirmam os hereges; mas, sendo Ele a verdade, verdadeiramente executou sua obra. E indica o seu afeto quando diz que em nós se cumpriram; isto é, que entre nós foram manifestadas com toda clareza: pois o que em grego se lê peplirophorimenon não pode ser explicado em latim com uma só palavra: pois ele conhecia com fé certa e razão, e não vacilava em nada.
Também pode ser feito algo justo injustamente, como quando alguém por ostentação faz grandes doações aos pobres, o que não é sem justa causa de censura. Segue-se: E não tinham filho, porque Isabel era estéril, e ambos estavam avançados em idade.
Com efeito, um rosto novo apresentando-se à vista humana perturba a mente e consterna o ânimo; por isso o Anjo, conhecendo que esta é a natureza humana, primeiramente trata da perturbação, pois segue-se que o Anjo lhe disse: Não temas, Zacarias.
O sacramento de São João até agora se cumpre no mundo; todo aquele que há de crer em Jesus Cristo, antes recebe em sua alma o espírito e a virtude de São João, e prepara para o Senhor um povo perfeito.
E por isso diz, ou seja, até que Maria concebesse, e seu feto, exultando com alegria, profetizasse por cinco meses;
Se, com efeito, não tivesse tido esposo, imediatamente um pensamento tácito teria introduzido o Diabo, sobre como aquela que não se deitou com um homem estaria grávida. Esta concepção deve ser divina, deve haver algo mais sublime que a natureza humana.
Pois, se Maria soubesse que palavras semelhantes tivessem sido dirigidas a qualquer outra pessoa, como ela que tinha conhecimento da lei, uma saudação como essa nunca a teria assustado como se fosse estranha.
Vede, pois, a grandeza do Salvador, como se difunde por todo o orbe: subi aos céus, vede como preencheu os espaços celestes; descei com o pensamento aos abismos, e vede que também ali desceu. Se virdes isto, igualmente contemplareis cumprido em obras: "Este será grande".
Dizendo isto, concorda com seu filho; pois também São João sentia-se indigno da vinda de Cristo a ele. Chama, porém, de mãe do Senhor a quem ainda era virgem, antecipando o acontecimento por meio da palavra profética. A promessa divina conduziu Maria a Isabel, para que o testemunho de São João chegasse desde o ventre ao Senhor; pois desde aquele momento o Senhor constituiu João como profeta. Por isso segue: "Eis que, assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, o menino exultou no meu ventre".
Se, porém, o Senhor não pode receber nem aumento nem diminuição, o que significa quando Maria diz: "minha alma engrandece o Senhor"? Mas se eu considerar que o Senhor Salvador é a imagem do Deus invisível, e que a alma foi feita à sua imagem, para que seja imagem da imagem, então verei claramente que, à semelhança daqueles que costumam pintar imagens, quando eu engrandecer minha alma através de obras, pensamentos e palavras, a imagem de Deus se torna grande, e o próprio Senhor, cuja imagem está em minha alma, é magnificado.
Primeiramente, porém, a alma engrandece o Senhor, para que depois exulte em Deus: pois se antes não tivermos crido, não podemos exultar.
Mas que havia de humilde e desprezível naquela que trazia no ventre o Filho de Deus? Mas considera que a humildade nas Escrituras é proclamada como uma das virtudes, a qual pelos filósofos é chamada atyphia, ou metriotis, e que nós também podemos designar por circunlóquio, quando alguém não é inflado, mas rebaixa a si mesmo.
Pois a misericórdia de Deus não se limita a uma só geração, mas estende-se eternamente de geração em geração.
Mas aos que o temem, Ele fez poder em seu braço: porque ainda que te aproximes enfermo a Deus, se o temeres, conseguirás a virtude prometida
Zacarias, por interpretação, significa "aquele que se lembra de Deus"; João, porém, significa "aquele que demonstra". Ademais, a memória se refere àquilo que está ausente, e a demonstração àquilo que está presente. João, portanto, não deveria expressar a memória de Deus como ausente, mas sim demonstrá-lo com o dedo como presente, dizendo: "Eis o Cordero de Deus".
Zacarias, cheio do Espírito Santo, anuncia duas profecias gerais: a primeira sobre Cristo, a segunda sobre João. O que se demonstra claramente por meio de suas palavras, nas quais fala de João como se estivesse presente e como se já estivesse vivendo no mundo; e primeiramente fala do Salvador, dizendo: "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e realizou a redenção do seu povo".
Porque Cristo nasceu da descendência de David, segundo a carne: por isso é dito um chifre de salvação para nós na casa de David; assim como também foi dito em outro lugar: a vinha foi feita em um chifre, isto é, em Jesus Cristo.
Não pensemos, porém, que agora se fala dos inimigos corporais, mas dos espirituais. Pois o Senhor Jesus veio, forte na batalha, para destruir todos os nossos inimigos, a fim de nos livrar de suas ciladas e tentações.
Eu penso que, na vinda do Senhor Salvador, Abraão, Isaac e Jacó gozaram de sua misericórdia. Pois não é crível que aqueles que antes viram o seu dia e se alegraram, depois, na sua vinda, não recebessem benefício algum d'Ele, visto que está escrito: "Fazendo a paz pelo sangue da sua cruz, quer sobre a terra, quer nos céus"(Colossenses 1,20).
Ou de outro modo. Frequentemente alguns são libertados das mãos dos inimigos, porém não sem temor: pois quando o medo e o perigo precederam, e então alguém é arrancado das mãos dos inimigos, ele é libertado, certamente, mas não sem temor; por isso ele disse que a vinda de Cristo fez com que fôssemos arrancados das mãos dos inimigos sem temor. Pois não sentimos suas ciladas, mas subitamente separando-nos deles, Ele nos conduziu à morada de nossa própria herança.
Por isso, creio que Zacarias apressou-se para falar ao menino, porque sabia que ele, após um pouco de tempo, iria habitar no deserto, e que ele mesmo não poderia ter sua presença.
Ou crescia no espírito, não permanecendo na mesma medida em que começara; mas o espírito sempre crescia nele, sua vontade, sempre tendendo para o melhor, fazia progressos, e sua mente contemplava algo mais divino, enquanto sua memória se exercitava para guardar mais coisas em seu tesouro. E acrescenta e se fortalecia: pois a natureza humana é fraca; lemos, com efeito: "a carne é fraca". Deve, portanto, ser fortalecida pelo espírito: pois "o espírito está pronto". Muitos se fortalecem na carne; mas o atleta de Deus deve ser robustecido pelo Espírito, para que destrua a sabedoria da carne; por isso retirou-se, fugindo do tumulto das cidades por causa da multidão; segue-se, com efeito: e estava nos desertos: onde o ar é mais puro, o céu mais aberto, e Deus mais familiar: para que, como ainda não havia chegado o tempo do Batismo e da pregação, se dedicasse às orações, e conversasse com os Anjos, chamasse ao Senhor, e o ouvisse dizer: "eis-me aqui".
Para quem medita com atenção, parece figurar-se certo sacramento, em que convinha que Cristo fosse inscrito no recenseamento de todo o orbe, para que, sendo registrado com todos, santificasse a todos, e estando relacionado no censo com o mundo inteiro, proporcionasse ao mundo a comunhão de Si mesmo.
Aliás, se for necessário elevar-se a um entendimento mais secreto, direi que existiam certos pastores Anjos que regiam as coisas humanas; e como cada um deles mantinha sua própria vigilância, veio um Anjo, nascido o Senhor, e anunciou aos pastores que surgira o verdadeiro pastor. Pois os Anjos, antes da vinda do salvador, pouco podiam oferecer de utilidade aos que lhes eram confiados: pois apenas um dentre os povos individuais mal acreditava em Deus; mas agora os povos se aproximam da fé em Jesus.
Misticamente, porém, os Anjos viam que não podiam cumprir a obra que lhes fora confiada sem Aquele que verdadeiramente podia salvar; e que seu remédio era inferior ao que o cuidado dos homens exigia. Assim, como quando vem um médico principal que possui o mais elevado conhecimento em medicina, e aqueles que antes não puderam ser curados, vendo cessar a putrefação das feridas pela mão do mestre, não invejam, mas irrompem em louvores ao médico principal e a Deus, que enviou a eles, doentes, um homem de tão grande ciência; assim a multidão dos Anjos louva a Deus pela vinda de Cristo.
Mas como vieram às pressas, e não com passos vagarosos, segue-se: E encontraram Maria, aquela que havia dado à luz a Jesus durante o parto, e José, ou seja, o guardião do nascimento do Senhor, e o menino deitado na manjedoura, isto é, o próprio Salvador.
Mas o nome de Jesus, glorioso e digníssimo de todo culto, nome que está acima de todo nome, não convinha que fosse primeiramente pronunciado pelos homens, nem por eles trazido ao mundo; por isso o Evangelista acrescenta de modo significativo que foi chamado pelo Anjo antes que fosse concebido no útero.
Onde estão aqueles que negam que Cristo proclamou no Evangelho o Deus da lei? Pode-se crer que o Deus bom tenha colocado seu próprio Filho sob uma lei inimiga, que Ele mesmo não havia dado? Pois na lei de Moisés está escrito o que se segue: Que todo masculino que abrir o útero será chamado santo para o Senhor.
E tu, se queres ter Jesus e abraçá-lo com tuas mãos, esforça-te com todo empenho para ter o Espírito como guia, e vem ao templo de Deus; pois segue-se: E quando seus pais trouxeram o menino Jesus, isto é, Maria sua mãe e José, que era considerado seu pai, para fazerem por ele segundo o costume da lei; e ele o tomou em seus braços.
Se ao toque da franja da vestimenta uma mulher foi curada, que se deve pensar de Simeão, que recebeu o menino em seus braços, e rejubilava-se vendo que o pequeno que ele carregava era Aquele que viera para libertar os cativos, sabendo que ninguém poderia libertá-lo da prisão do corpo com a esperança da vida futura, senão Aquele que ele tinha em seus braços? Por isso se diz: E bendisse a Deus, e disse: agora, Senhor, deixas o teu servo partir.
Mas devemos observar se porventura o Salvador não veio igualmente para alguns para a ruína e para a ressurreição: porque como eu estava em pecado, primeiramente foi útil para mim que eu caísse e morresse para o pecado. Finalmente, também os santos profetas, quando contemplavam algo mais augusto, caíam sobre suas faces, para que os pecados fossem purificados mais plenamente pela queda: isto mesmo o Salvador primeiro concede a ti. Eras pecador; caia em ti o pecador, para que possas então ressurgir e dizer: se morremos juntos, também viveremos juntos.
Pois o Espírito Santo não habitou nela por acaso: porque o primeiro bem é possuir, se possível, a graça da virgindade; porém, se isto não for possível, e acontecer que a mulher perca o marido, que permaneça viúva: o que, na verdade, deve ter em mente não apenas após a morte do marido, mas também enquanto ele vive, para que, mesmo que não aconteça, sua vontade e seu propósito sejam coroados pelo Senhor, e diga: "Isto eu prometo, isto eu voto: se me acontecer algo humano, que não desejo, nada mais farei além de permanecer imaculada e perseverar na viuvez". Justamente, portanto, esta santa mulher mereceu receber o espírito de profecia, porque por longa castidade e por longos jejuns havia subido a este cume; donde se segue "que não se afastava do templo, servindo com jejuns e orações dia e noite".
Não é encontrado logo que é procurado: pois Jesus não é encontrado entre parentes e familiares segundo a carne: pois o parentesco humano não podia conter o Filho de Deus. Não é encontrado entre os conhecidos, porque está acima do conhecimento mortal. Não pode ser encontrado na companhia de muitos; nem o encontraram em qualquer lugar, mas no templo. E tu, portanto, busca Jesus no templo de Deus, busca-O na Igreja, onde encontrarás a palavra e a sabedoria de Cristo, isto é, o Filho de Deus.
Aprendamos, portanto, também nós, filhos, a sermos submissos aos nossos pais. E se não tivermos pais, submetamo-nos àqueles que têm idade de pais. Jesus, Filho de Deus, submete-se a José e Maria; eu, porém, devo submeter-me ao bispo, que me foi constituído como pai. Penso que José compreendia que Jesus era maior que ele e, com temor, moderava sua autoridade. Veja, pois, cada um que frequentemente aquele que está submisso é o maior; e se entender isso, não se elevará com soberba aquele que está em posição mais alta de dignidade, sabendo que lhe está sujeito alguém melhor que ele.
E no discurso profético, pregado somente aos judeus, descreve-se apenas o reino dos judeus: "A visão de Isaías nos dias de Ozias, Joatão e Acaz, reis de Judá"; mas no Evangelho, que haveria de ser pregado ao mundo inteiro, descreve-se o domínio de Tibério César, que era considerado senhor de todo o orbe. Mas se somente aqueles que são gentios tivessem de ser salvos, seria suficiente fazer menção apenas de Tibério; porém, como era necessário que também os judeus acreditassem, por isso também os reinos dos judeus são descritos, ou as tetrarquias, quando se acrescenta: "sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, e Herodes tetrarca da Galileia, e Filipe, seu irmão, tetrarca de Itureia e da região de Traconítide, e Lisânias tetrarca de Abilene".
Jordão significa o mesmo que descendente, pois desce de Deus um rio de água salutar. Quais lugares conviria que o Batista percorresse, senão os arredores do Jordão? Para que, se alguém viesse a arrepender-se, imediatamente encontrasse a umidade da corrente para receber o batismo de penitência; pois acrescenta-se: pregando o batismo de penitência para remissão dos pecados.
E certamente, se já se aproximasse a consumação e o fim dos tempos estivesse iminente, não surgiria em mim nenhuma questão: eu diria que isto foi profetizado porque seria cumprido naquele tempo. Mas visto que tantos séculos decorreram desde que o Espírito Santo disse isto, eu julgo que se profetizou ao povo israelita que seu corte estava próximo. Pois àqueles que iam a ele para serem batizados, dizia estas coisas entre outras.
Três classes são apresentadas interrogando João acerca de sua salvação: uma que a Escritura chama de multidão; outra a qual nomeia como publicanos; a terceira que é designada pela denominação de soldados.
E assim como São João esperava, junto ao rio Jordão, os que vinham ao Batismo, e a alguns repelia, dizendo: "geração de víboras", e recebia aqueles que confessavam seus pecados, assim estará o Senhor Jesus junto ao rio de fogo, perto da espada flamejante; para que todo aquele que, após o término desta vida, deseja passar ao Paraíso e necessita de purificação, Ele o batize neste rio e o conduza ao Paraíso; mas aquele que não tem o sinal dos batismos anteriores, não o batizará com o banho de fogo.
São João havia anunciado Cristo, pregava o batismo do Espírito Santo, e outras coisas que a história do Evangelho transmite: exceto estas, mostra-se que ele anunciou outras no que se diz: "muitas, de fato, e outras coisas exortando, evangelizava ao povo".
O Senhor, descendo ao mundo, assumiu a pessoa de todos os pecadores, e quis nascer da estirpe de Salomão, como refere São Mateus, cujos pecados estão escritos, e dos demais, dos quais muitos fizeram o mal à vista de Deus. Mas quando verdadeiramente ascende, e é descrito como nascendo uma segunda vez pelo Batismo, como refere São Lucas, não nasce por meio de Salomão, mas por meio de Natã, que repreendeu o pai sobre a morte de Urias e o nascimento de Salomão.
Quando, portanto, lês que Jesus estava cheio do Espírito Santo, e está escrito nos Atos sobre os Apóstolos que foram cheios do Espírito Santo, vê não julgues serem os apóstolos iguais ao Salvador: pois como quando dizes que estes vasos estão cheios de vinho ou óleo, não afirmas logo que estão cheios com igual medida; assim Jesus e Paulo estavam cheios do Espírito Santo, mas o vaso de Paulo era muito menor que o de Jesus, e, no entanto, ambos estavam repletos segundo sua própria medida. Tendo, pois, recebido o Batismo, o Salvador, cheio do Espírito Santo, que sobre Ele havia descido do céu em forma de pomba, era conduzido pelo Espírito: porque todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus; mas Este era propriamente o Filho de Deus, acima de todos.
Ou de outro modo. A todos estes, diz, Eu quero que me sejam sujeitos, para que adorem ao Senhor Deus e só a Ele sirvam; tu, porém, queres que o pecado comece por Mim, que vim aqui para destruí-lo.
De onde vem a ti, ó Diabo, esse conhecimento de que tais coisas estão escritas? Porventura leste os profetas ou as palavras divinas? De fato leste, não para que tu mesmo te tornasses melhor pela leitura deles, mas para que, a partir da simples letra, mates aqueles que são amigos da letra. Sabes que se quiseres falar de outros livros dele, não enganarás.
E agora também, se quisermos, nossos olhos podem contemplar o Salvador: pois quando diriges a visão principal do teu coração para a sabedoria e a verdade e para a contemplação do Unigênito de Deus, teus olhos contemplam Jesus.
Quanto ao relato de Lucas, não se descreve ainda que tivesse feito algum sinal em Cafarnaum; pois antes que viesse a Cafarnaum, lê-se que disse em Nazaré todas as coisas que ouvimos terem sido feitas em Cafarnaum. Por isso, penso que no presente discurso está escondido algum mistério, e que Nazaré precedeu como figura dos judeus, e Cafarnaum como figura dos gentios. Pois chegará o tempo em que o povo de Israel dirá: aquilo que mostraste ao mundo inteiro, mostra também a nós; prega tua palavra ao teu povo Israel, para que ao menos quando a plenitude dos gentios tiver entrado, então todo o Israel seja salvo. Por esse motivo, parece-me que convenientemente respondeu o Salvador: nenhum profeta é aceito em sua pátria, mais segundo o significado sacramental do que segundo a letra, ainda que Jeremias não tenha sido aceito em Anatoth, sua pátria, nem os demais profetas; mas parece-me mais adequado entender que digamos que a pátria de todos os profetas foi o povo da circuncisão. E as nações certamente receberam a profecia de Jesus Cristo, tendo em maior estima Moisés e os profetas que anunciavam Cristo, do que aqueles que dentre eles não receberam a Jesus.
Por isso certamente próximo ao pôr do sol, isto é, tendo transcorrido o dia, traziam-nos a Ele, porque envergonhavam-se, ou temiam os fariseus; ou porque durante o dia estavam ocupados com outras coisas; ou porque pensavam não ser lícito curar no sábado. Ele mesmo, porém, os curava; donde segue "e Ele, impondo as mãos sobre cada um deles, curava a todos".
A parábola é um discurso como se fosse um fato, porém não um fato como é dito, mas possível de acontecer; significativo das coisas por meio da transferência daquelas que são apresentadas na parábola. O enigma, por sua vez, é um processo de discurso naquelas coisas que são apresentadas como se fossem fatos; que, no entanto, não são fatos, nem possíveis de acontecer, mas significam algo de forma oculta; como o que se diz no livro dos Juízes, que as árvores foram ungir para si um rei. Não aconteceu literalmente o que se diz "saiu o semeador a semear", como narra a história, embora fosse possível que acontecesse.
Mas também aquele que quer adaptar a lucerna aos mais perfeitos discípulos de Cristo nos persuadirá pelas coisas que foram ditas sobre São João, porquanto ele era uma lucerna ardente e luminosa. Não convém, portanto, àquele que acende a lucerna racional na alma, escondê-la sob o leito onde alguém descansa, nem sob algum outro vaso: porque quem faz isto não provê para os que entram na casa, para os quais a lucerna é preparada; mas é necessário colocá-la sobre o candelabro, isto é, para toda a Igreja.
Ele indica a causa disto quando acrescenta: Porque aquele que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á; isto é, aquele que quiser, segundo a vida presente, viver e conservar a própria alma nas coisas sensíveis, este a perderá, não a conduzindo aos limites da bem-aventurança. Mas, ao contrário, acrescenta: pois quem perder a sua alma por minha causa, salvá-la-á; isto é, quem negligencia as coisas sensíveis em vista da verdade, expondo-se à morte, este, como que perdendo a alma por Cristo, antes a salvará. Assim, se salvar a alma é bem-aventurado (com relação àquela salvação que está em Deus), deve haver também uma certa boa perda da alma que se faz por causa de Cristo. Parece-me também muito semelhante àquilo que é abnegar a si mesmo, segundo o que foi dito anteriormente, convém perder a própria alma pecadora, para tomar aquela que se salva pela virtude.
Os discípulos, não podendo suportar esta glória, prostraram-se humilhados sob a poderosa destra de Deus, temendo demasiadamente, pois sabiam o que fora dito a Moisés: "Não verá o homem a minha face, e viverá"; donde segue: "e temeram ao entrarem eles na nuvem".
Não expressa, porém, claramente por quem havia de ser entregue: uns dizem que havia de ser entregue por Judas, outros pelo povo. Paulo, contudo, diz que Deus Pai o entregou por todos nós; mas Judas, entregando-o por dinheiro, traiçoeiramente o traiu; o Pai, porém, o fez por causa de sua misericórdia.
Assim como dos doze foram contados de dois em dois, como São Mateus mostra em seu catálogo: pois que dois sirvam juntos à palavra de Deus parece ser um costume antigo: pois Deus conduziu Israel para fora do Egito pelas mãos de Moisés e Aarão; Josué e Caleb, também concordando, apaziguaram o povo que havia sido provocado pelos doze exploradores; por isso é dito: "o irmão ajudado pelo irmão é como uma cidade fortificada".
Orígenes. Sacudindo o pó dos pés contra eles, de certo modo dizem: "O pó dos vossos pecados merecidamente virá sobre vós". E observe que quaisquer cidades que não recebem os apóstolos e a sã doutrina têm praças, conforme aquilo: "Larga é a via que conduz à perdição"(São Mateus 7,13).
Ele quer revelar como Verbo, não sem razão, e como justiça, que conhece dignamente os tempos de revelar e as medidas de revelação. Ele revela, removendo o véu oposto do coração, bem como as trevas que colocou como seu esconderijo. Mas como a partir disto aqueles que são de outra opinião pensam construir seu nefasto dogma, a saber, que o Pai de Jesus era desconhecido aos santos antigos; deve-se dizer a eles que o que é dito: "a quem o Filho quiser revelar", não se refere apenas ao tempo futuro, a partir de quando o Salvador proferiu isto, mas também ao tempo passado. E se quiserem tomar este verbo revelar pelo passado, deve-se dizer a eles que não é o mesmo conhecer e crer. A um é dada pelo espírito a palavra da ciência, a outro a fé no mesmo espírito1. Eram, portanto, primeiro crentes, não conhecedores.
[1] Primeira Carta aos Coríntios 12,8-9: "A um é dada pela manifestação do Espírito a palavra da sabedoria; a outro, a palavra da ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito." ↩
Mas por que diz que muitos profetas desejaram, e não todos? Porque se diz de Abraão que viu o dia de Cristo e se alegrou, visão esta que não muitos, mas poucos alcançaram. Houve, porém, outros profetas e justos não tão grandes a ponto de atingirem a visão de Abraão e o conhecimento dos apóstolos; e destes diz que não viram, mas desejaram ver.
De tudo isso se deduz indubitavelmente que a vida que é pregada conforme Deus, o Criador do mundo, e as antigas Escrituras por Ele transmitidas, é a vida perpétua. Pois o Senhor o atesta ao tomar do Deuteronômio aquela passagem "amarás ao Senhor teu Deus"; e do Levítico: "amarás ao teu próximo como a ti mesmo". Estas coisas foram ditas contra os seguidores de Valentino, Basílides e Marcião. Pois que outra coisa Ele quis que fizéssemos para buscar a vida eterna, senão o que contêm a Lei e os Profetas?
Ou os dois denários parecem-me ser o conhecimento do sacramento, de como o Pai está no Filho e o Filho no Pai, que é dado como recompensa ao Anjo da Igreja, para que cuide mais diligentemente do homem a ele confiado, a quem pela brevidade do tempo ele mesmo também havia curado. E promete-se a ele que tudo o que gastasse de seu para a cura do homem semimorto, imediatamente lhe seria restituído; por isso segue: "e tudo o que gastares a mais, eu, quando voltar, te pagarei".
Ou porque o nome de Deus é atribuído pelos que erram às culturas e às criaturas, ainda não está santificado, de modo a estar separado daqueles dos quais deveria estar separado. Convém, portanto, que oremos para que o nome de Deus seja adaptado somente ao verdadeiro Deus, ao qual se adapta o que segue: venha a nós o vosso reino; para que seja evacuado o principado, e o poder, e a virtude, e o reino do mundo, e também o pecado, que reina em nossos corpos mortais.
Alguém, porém, poderá perguntar como ocorre que alguns que oram não são ouvidos. A isso se deve responder que qualquer um que se aproxima para buscar pelo caminho reto, não omitindo nada daquilo que contribui para a obtenção do que é pedido, receberá verdadeiramente o que suplicou que lhe fosse dado. Mas se alguém se desvia do propósito da devida petição, como não pede como convém, não está realmente pedindo; disso resulta que, quando não recebe, o que aqui se diz não é falsificado; pois quando um mestre diz: "Qualquer um que vier a mim conseguirá o domínio das disciplinas", entendemos realmente que ir ao mestre é dedicar-se fervorosamente e diligentemente aos seus ensinamentos; por isso também Tiago diz: "Pedis e não recebeis porque pedis mal", isto é, por causa de vãos prazeres. Mas alguém dirá: "De fato, quando alguns pedem para obter o conhecimento divino e recuperar as virtudes, não obtêm". A este se deve responder que não pediram receber bens para si mesmos, mas para serem por eles recomendados.
Isto é, para aqueles que são de Israel: os quais ele viu não contendo em si nada divino, mas desertos e vazios para sua habitação; donde segue e quando volta, encontra-a varrida.
Isto é, se o teu corpo sensível tornou-se luminoso, sendo o corpo iluminado por uma lâmpada, de tal modo que não haja mais em ti nenhum membro tenebroso; muito mais, quando não pecares, tornar-se-á luminoso todo o teu corpo espiritual, de tal forma que seus esplendores sejam comparáveis a uma lâmpada iluminante, enquanto a luz que estava no corpo, que costumava ser escuridão, dirige-se para onde quer que o intelecto ordene.
Ele então ou diz isso sobre aquele tempo quando Deus julgará os segredos dos homens; ou diz isso porque, por mais que alguém se esforce em ocultar as boas obras de outros por meio de difamações, o bem, por sua própria natureza, não pode ficar escondido.
No sentido literal, portanto, isto significa a agudeza da divina Providência, que procede até as mínimas coisas; mas misticamente, os cinco pássaros significam justamente os sentidos espirituais, que sentem as coisas excelsas e superiores aos homens, contemplando a Deus, ouvindo a voz divina, provando o pão da vida, sentindo o odor dos unguentos de Cristo, tocando o verbo vivo; os quais, sendo vendidos por dois asses, isto é, menosprezados por aqueles que julgam loucura as coisas do espírito, não são entregues ao esquecimento diante de Deus. Diz-se, porém, que Deus se esquece de alguns por causa de seus crimes.
Pois ele estará cingido com justiça ao redor de seus lombos, segundo Isaías(Isaías 11,5).
Se não tivesse sido implantado em nossa natureza julgar o que é justo, o Salvador nunca teria dito isto.
Em sentido místico, aquele que evita a vanglória chama para um banquete espiritual os pobres, isto é, os ignorantes, para enriquecê-los; os debilitados, isto é, aqueles que têm a consciência ferida, para curá-los; os coxos, isto é, aqueles que se desviam da razão, para que façam caminhos retos; os cegos, isto é, aqueles que carecem da contemplação da verdade, para que vejam a verdadeira luz. E quanto ao que se diz "não podem retribuir-te", significa que não sabem como formular uma resposta.
Ou, de outro modo. Aqueles que compraram a granja e recusam o banquete são os que receberam outros dogmas da divindade, mas não experimentaram a palavra que possuíam. Mas aquele que comprou cinco juntas de bois é aquele que despreza a natureza intelectual e segue o sensível; por isso não pode compreender a natureza incorpórea. Aquele, porém, que tomou esposa é o que está unido à carne, amante mais dos prazeres do que de Deus.
Mas, como os gentios dizem que a prudência é uma virtude, e a definem como perícia nas coisas boas, más e neutras; ou conhecimento do que deve e não deve ser feito: é preciso considerar se esta expressão significa muitas coisas ou uma só. Diz-se, pois, que Deus preparou os céus com prudência: é certo que a prudência é boa, pela qual o Senhor preparou os céus. Diz-se também no Gênesis, segundo os Setenta, que a serpente era prudentíssima: onde não chama a prudência de virtude, mas astúcia que tem inclinação para o mal; e neste sentido se diz que o senhor louvou o administrador porque agiu prudentemente; isto é, astuta e perversamente. E talvez o que disse louvou não foi dito segundo verdadeira recomendação, mas abusivamente; como quando dizemos que alguém é elogiado em coisas medíocres e indiferentes, e que de certa forma são admiráveis os concursos e a agudeza, pelos quais se manifesta o vigor da mente.
Muitos, portanto, eram os senhores deste jumento, antes que o Salvador o tivesse por necessário; mas depois que Ele começou a ser o senhor, cessaram de existir muitos senhores: pois ninguém pode servir a Deus e às riquezas. Quando servimos à maldade, estamos sujeitos a muitas paixões e vícios. O Senhor, porém, tem necessidade do jumento, porque deseja que sejamos libertados das cadeias dos nossos pecados.
Quando também nós nos calamos, isto é, quando se esfria a caridade de muitos, as pedras clamam: pois Deus pode suscitar das pedras filhos para Abraão. E com razão lemos que as multidões que louvavam a Deus encontraram-no na descida do monte, para significar que o realizador do mistério espiritual tinha vindo a eles do céu.
Chora-se também por nossa Jerusalém, quando após os pecados a cercam os inimigos, isto é, os espíritos malignos, e lançam ao seu redor uma vala para sitiar-la, e não deixam pedra sobre pedra; especialmente se após muita continência, se após alguns anos de castidade alguém for vencido, e seduzido pelos encantos da carne, perder a paciência e a pudicícia, se cometer fornicação; não deixarão nele pedra sobre pedra, segundo aquilo: "Não me lembrarei de suas primeiras justiças"(Ezequiel 18,24).
Se, portanto, alguém vender, será expulso; e principalmente se vender pombas. Pois se aquilo que me foi revelado e confiado pelo Espírito Santo, eu vender por preço ao povo, ou não ensinar sem recompensa, o que mais faço senão vender a pomba, isto é, o Espírito Santo?
Este lugar contém algo místico. Pois há duas imagens no homem: uma que recebeu de Deus, outra do inimigo. Assim como o denário tem a imagem dos imperadores do mundo, assim também aquele que pratica as obras das trevas traz a imagem daquele cujas obras realiza. Ele diz, portanto, dai a César o que é de César, isto é, rejeitai a imagem terrena, para que possais, impondo em vós a imagem celestial, dar a Deus o que é de Deus, a saber, amar a Deus, etc., que, como diz Moisés, Deus requer de nós. Porém, Deus nos pede, não porque tenha necessidade que lhe demos algo, mas para que, depois que lhe tivermos dado, Ele nos conceda isto mesmo para nossa salvação.
A heresia dos saduceus não somente nega a ressurreição dos mortos, mas também pensa que a alma perece juntamente com o corpo. Estes, portanto, armando ciladas às palavras do Salvador, propuseram a questão justamente no momento em que o viram ensinando os discípulos sobre a ressurreição; de onde segue: e interrogaram-no, dizendo: Mestre, Moisés nos escreveu que, se o irmão de alguém morrer tendo esposa, e este não tiver filhos, seu irmão tome a esposa e suscite descendência a seu irmão.
Devemos saber, porém, que aqueles que vivem em banquetes e preocupações mundanas não sobem àquela casa superior, e por isso não celebram a Páscoa com Jesus. Porque, após as palavras dos discípulos com as quais catequizaram o pai de família, isto é, o entendimento, veio também a divindade para fazer a refeição com os discípulos na casa já mencionada.
A pedra, porém, foi removida após a ressurreição por causa das mulheres, para que acreditassem que o Senhor havia ressuscitado, vendo o sepulcro vazio do corpo; por isso segue: e entrando, não encontraram o corpo do Senhor Jesus.
Por meio do que insinua que as palavras proferidas pelo Salvador acendiam o coração dos ouvintes para o amor divino.
Quanto ao ato de abençoá-los com as mãos elevadas, significa que aquele que abençoa alguém deve estar ornado com várias obras e esforços árduos em favor dos outros; pois é por isso que as mãos são erguidas ao alto.
Ou porque São Marcos e São Lucas escreveram que Pedro respondeu tu és o Cristo, não acrescentando o que está posto em São Mateus: filho de Deus vivo; por isso não escreveram a bem-aventurança relacionada à confissão. Segue-se e ordenou-lhes severamente que a ninguém dissessem acerca dele.
Marcos, porém, diz por conta própria: não sabia, pois, o que dizia. Aqui convém considerar se, porventura, falava ele isto por um excesso mental, movido por algum espírito alheio, se, porventura, aquele mesmo espírito que quis, quanto a si, escandalizar a Cristo, para que desistisse da paixão que seria salvífica para todos os homens, este mesmo operando aqui de modo sedutor quer afastar Cristo sob a aparência do bem, para que não condescendesse com os homens, nem viesse a eles, nem assumisse a morte por eles.
Após o mistério mostrado no monte, aos discípulos que desciam do monte, ordenou que sua transfiguração não fosse manifestada antes da glória de sua paixão e ressurreição; por isso diz: E, descendo eles do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dos mortos.
Se alguém, portanto, dentre aqueles que professam a doutrina eclesiástica, vir alguém oferecendo alguns dos que o mundo considera insensatos, ignóbeis e enfermos, que por esta razão são chamados meninos e infantes, não proíba, como se agisse sem juízo, aquele que oferece tais pessoas ao Salvador. Depois disso, exorta os seus discípulos, já constituídos homens, a condescender com o bem dos pequeninos, para que se façam como meninos para os meninos, a fim de ganhar os meninos. Pois Ele mesmo, estando na forma de Deus, humilhando-se, fez-se menino; razão pela qual acrescenta: "porque destes é o reino de Deus".
Pois nisso que Ele o amou ou o beijou, parece ter afirmado a veracidade de sua declaração, de que havia cumprido todas essas coisas; porque, dirigindo-se a ele com sua mente, viu um homem que respondia com boa consciência.
É mais digno dizer Rabboni, ou, como é dito em outros lugares, Senhor, do que filho de Davi; por isso, pelo que disse, filho de Davi, não lhe concedeu a cura; mas pelo que diz Rabboni; donde segue: Jesus, porém, disse-lhe: Vai, tua fé te salvou. E imediatamente viu, e o seguia pelo caminho.
Pois eles se entristeceram com a perda do ungüento, que poderia ser vendido por grande preço e dado aos pobres; contudo, isso não deveria ser feito, porque era conveniente que sobre a cabeça de Cristo fosse derramada uma santa e digna efusão; donde segue: "Ela praticou uma boa obra para comigo". E tão eficaz é o louvor desta boa obra, que nos exorta a todos a encher a cabeça do Senhor com obras odoríferas e preciosas, para que de nós se diga que fizemos uma boa obra sobre a cabeça de Cristo; porque sempre temos, enquanto estamos nesta vida, pobres conosco, que necessitam do cuidado daqueles que progrediram na palavra e se tornaram ricos na sabedoria de Deus; mas não podem ser suficientes para ter sempre, dias e noites, consigo o Filho de Deus, isto é, o Verbo e a Sabedoria de Deus; pois segue: "Porque sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem; mas a mim não me tereis sempre".
Pensando, porém, após observar em São Mateus e São Marcos, acredito que aqui são nomeadas três mulheres principais: e duas delas, de fato, ambos os Evangelistas mencionam, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago; a terceira, porém, é chamada por São Mateus de mãe dos filhos de Zebedeu; por São Marcos, entretanto, esta terceira é chamada Salomé.
Ela estava, de fato, desposada com José, mas não unida em concupiscência. A Mãe dele, diz, Mãe imaculada, Mãe incorrupta, Mãe intacta. Mãe dele; de quem? Mãe de Deus, do Unigênito, do Senhor, do Rei, do Criador de todas as coisas e Redentor de todos.
Mas se ele não tinha suspeita sobre ela, como poderia ser um homem justo, e ainda assim desejar abandonar aquela que era imaculada? Ele desejava abandoná-la porque via nela um grande sacramento, ao qual ele considerava-se indigno de se aproximar.
Ou, de outro modo. Não se deve supor que, ao mostrar-Lhe os reinos do mundo, Ele lhe tivesse mostrado, por exemplo, o reino dos persas e dos hindus; mas mostrou-Lhe o seu próprio reino, como reinava no mundo, isto é, como uns são governados pela fornicação, outros pela avareza.
Ele cura embaixo, e no monte nada faz; porque há tempo para todas as coisas debaixo do céu: tempo para ensinar, e tempo para curar. No monte ensinou, curou as almas, sanou os corações; e tendo completado isso, como descendo dos montes celestiais para salvar os carnais, veio até ele um leproso, e o adorava. Antes de pedir, começou a adorar, demonstrando reverência.
E agora também quando os santos e aceitáveis a Deus, prelados das Igrejas, entram sob teu teto, então ali mesmo o Senhor entra por meio deles; e tu consideres como se estivesses recebendo o Senhor. E quando comes e bebes o corpo e o sangue do Senhor, então o Senhor entra sob teu teto; e tu, portanto, humilhando-te a ti mesmo, digas: "Senhor, não sou digno"1. Porque onde Ele entra indignamente, ali entra para julgamento de quem O recebe.
[1] "Eu não sou digno, Senhor, que Tu venhas a mim; mas como Tu Te dignaste a habitar em uma caverna ou estábulo de animais irracionais, etc." vide Liturgia de São João Crisóstomo, também as Devoções do Bispo Andrew, e nosso Serviço de Comunhão. "Não somos dignos nem mesmo de recolher as migalhas debaixo da Tua Mesa, etc." ↩
Mas como diz ele em outro lugar, que poucos são os eleitos? Pois através de diversas gerações poucos são eleitos, mas quando reunidos no tempo da visitação, muitos serão encontrados. Segue-se "e se recostarão", não jazendo carnalmente, mas descansando espiritualmente; não bebendo temporalmente, mas banqueteando-se eternamente com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus, onde há luz, exultação, glória e longevidade de vida eterna.
Não estão, porém, perguntando "Quem é este?", mas afirmando que este é tal que os ventos e o mar lhe obedecem. Pois quem é este? Isto é, quão grande, quão forte, quão poderoso! Ele ordena a toda criatura, e ela não ultrapassa seu comando; somente os homens resistem, e por isso serão condenados no juízo. Misticamente, todos nós na barca da santa Igreja, com o Senhor, navegamos sobre este mundo tempestuoso. O próprio Senhor dorme com piedoso sono, esperando nossa paciência e a penitência dos ímpios.
Vede, pois, a prudência da mulher: não foi aos homens sedutores; não buscou ligaduras vãs; mas, deixando todos os cultos do Diabo, veio ao Senhor. Não pediu a São Tiago, não rogou a São João, não se aproximou de São Pedro: mas tomou sobre si o patrocínio da penitência, e sozinha correu ao Senhor. Mas vede um caso sem precedentes. Pede, e manifesta seu lamento em clamor; e Deus, amante dos homens, não lhe responde palavra: donde segue que não lhe respondeu palavra.
Seja, pois, irrepreensível aquele que ata ou desata outro, para que seja considerado digno de atar ou desatar no céu. Mas também àquele que puder com suas virtudes obstruir as portas do Inferno, como que em prêmio são dadas as chaves do reino dos céus; pois toda espécie de virtude, quando alguém começa a praticá-la, como que se abre por si mesma diante dele, evidentemente pelo Senhor que a abre por sua graça, de modo que a mesma virtude é tanto a porta quanto a chave da porta. Talvez também cada virtude seja em si o reino dos céus.
Ou talvez então anunciassem-no levemente, como um grande e admirável homem; mas ainda não anunciavam que Ele era o Cristo. Quem, porém, quiser afirmar que Cristo foi antes anunciado pelos apóstolos, dirá que eles queriam introduzir levemente a menção de Seu nome, para que, entretanto, feito silêncio sobre esta pregação, aquilo mesmo que levemente tinha sido ouvido sobre Cristo fosse digerido na mente dos ouvintes. Ou então esta questão deve ser resolvida assim: que parece que aquelas coisas que anteriormente foram ditas sobre o anúncio de Cristo não pertencem ao tempo que foi antes da ressurreição de Cristo, mas aos tempos futuros. Mas estas ordens que dá para que não digam a ninguém, convêm então aos apóstolos: pois é inútil pregar a Ele mesmo e calar sobre Sua cruz. Por isso ordenou-lhes que não dissessem a ninguém que ele é o Cristo, e preparava-os para que depois dissessem que Ele é o Cristo, que foi crucificado e ressuscitou dos mortos.
Enquanto Cristo ainda estava falando o princípio das coisas que Ele estava mostrando a eles, Pedro considerou-as indignas do Filho do Deus vivo. E esquecendo-se de que o Filho do Deus vivo não faz nada, e não age de maneira alguma digna de repreensão, começou a repreendê-lo; e isto é o que se diz: "E Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo".
Isso pode ser entendido de duas maneiras. Primeiro, assim: se alguém, amante da vida presente, poupa sua alma, temendo morrer e pensando que sua alma perece por esta morte; este, querendo deste modo salvar sua alma, a perderá, tornando-a alheia à vida eterna. Se alguém, desprezando a vida presente, lutar pela verdade até a morte, perderá certamente sua alma quanto à vida presente; mas como a perderá por Cristo, mais a salvará para a vida eterna. De outro modo, assim: se alguém compreende qual é a verdadeira salvação e quer adquiri-la para a salvação de sua alma, este, negando-se a si mesmo, perde sua alma quanto aos prazeres carnais por causa de Cristo; e perdendo sua alma deste modo, a salva pelas obras de piedade. Ao dizer "quem quiser", mostra que o sentido precedente e o consequente são um só. Se, portanto, o que disse acima "negue-se a si mesmo" referiu-se à morte corporal, consequentemente devemos entender que isto foi dito somente sobre a morte. Se, porém, negar-se a si mesmo é rejeitar a vida carnal, perder a alma é abandonar os prazeres carnais.
Penso também que aquele que não nega a si mesmo, nem perde sua alma quanto aos prazeres carnais, ganha o mundo, e ele mesmo causa prejuízo à sua alma; portanto, tendo-nos sido propostas duas coisas, devemos escolher mais perder o mundo e ganhar nossas almas.
Misticamente, quando alguém transcende os seis dias, conforme dissemos, vê Jesus transfigurado diante dos olhos de seu coração. Pois o Verbo de Deus tem diversas formas, aparecendo a cada um segundo o que conhece ser conveniente para quem o vê; e a ninguém se mostra além do que pode compreender; por isso não disse simplesmente que foi transfigurado, mas diante deles. Nos Evangelhos, Jesus é entendido simplesmente por aqueles que não sobem, pela prática das palavras espirituais, ao monte elevado da sabedoria; mas por aqueles que sobem, já não é conhecido segundo a carne, mas é compreendido como Deus Verbo. Diante destes, portanto, Jesus se transfigura, e não diante daqueles que estão embaixo, vivendo na conversação terrena. Aqueles diante dos quais Ele se transfigura tornam-se filhos de Deus, e lhes é mostrado que Ele é o sol da justiça; e Suas vestes se tornam brancas como a luz; estas são as palavras e as letras dos Evangelhos, com as quais Jesus está vestido, segundo aquilo que os apóstolos dizem sobre Ele.
A nube luminosa que envolve os santos é a virtude do Pai, ou talvez o Espírito Santo; também direi que nosso Salvador é aquela nube luminosa que cobre o Evangelho, a Lei e os Profetas, como compreendem aqueles que podem contemplar a sua luz nestas três coisas.
Quando diz a respeito de João, "Elias já veio", não se deve entender que veio a alma de Elias, para que não caiamos na doutrina da transmigração das almas, que é alheia à verdade da doutrina da Igreja; mas, como o Anjo predisse, ele veio "no espírito e na virtude de Elias".
Ou, porque os discípulos ainda constituídos de pouca fé não puderam curar o enfermo, por isso disse "Ó geração incrédula"; e quando diz "perversa", mostra que a malícia foi introduzida pela perversidade, fora da natureza. Penso, porém, que por causa da perversidade de todo o gênero humano, como que oprimido pela malícia deles, disse: "Até quando estarei convosco?"
Ou toda fé é comparada ao grão de mostarda, porque a fé é desprezada pelos homens, e parece pequena e vil; mas quando esta semente encontra uma alma boa, como uma terra, torna-se uma grande árvore. Assim, a enfermidade deste lunático é tão grande e tão forte para curar entre todos os males, que é comparada a uma montanha, e não pode ser expulsa senão pela fé completa daquele que deseja curar paixões deste tipo.
Parece que estas palavras são tão semelhantes àquelas que foram ditas acima, que qualquer um diria facilmente que o Senhor está repetindo as mesmas coisas; mas não é assim; pois anteriormente não foi dito que seria entregue: mas aqui ouvimos não apenas que seria entregue, mas também que seria entregue nas mãos dos homens. O Apóstolo, portanto, narra que o Filho foi entregue por Deus Pai; mas também as potestades contrárias o entregaram nas mãos dos homens.
Também é razoável compreender que, quando surgem alguns que, por meio da justiça, tomam nossos bens terrenos, os reis desta terra os enviam para exigir de nós o que é deles; e por seu exemplo o Senhor proíbe que se cause escândalo mesmo a tais homens, seja para que não pequem mais, seja para que sejam salvos. Pois o Filho de Deus, que não fez nenhuma obra servil, como tendo a forma de servo que assumiu por causa do homem, pagou tributo e imposto.
Mas como pode aquele que se converteu e se tornou como uma criança pequena ainda ser capaz de se escandalizar? Podemos explicar isto da seguinte maneira: todo aquele que crê no Filho de Deus e vive segundo os atos evangélicos, anda convertido como uma criança; mas aquele que não se converte para se tornar como uma criança, é impossível que entre no reino dos céus. No entanto, em toda multidão de crentes, há alguns recém-convertidos para que se tornem como crianças pequenas, mas que ainda não se tornaram; estes são considerados pequeninos em Cristo e são receptores de escândalo.
Ou os escândalos vindouros são os Anjos de Satanás. E não penseis que tais escândalos existam segundo a natureza ou substância; mas o livre arbítrio em alguns gerou escândalo, não querendo suportar o trabalho pela virtude. Não pode, porém, existir o verdadeiro bem, a não ser que tenha a impugnação do mal. Assim, pois, é necessário que venham os escândalos, assim como é necessário suportar a malícia dos celestiais; que tanto mais se irritam quanto mais a palavra de Cristo, prevalecendo nos homens, expulsa deles as forças malignas. Buscam, porém, instrumentos pelos quais operam os escândalos, para os quais há maior ai: pois muito pior será para aquele que escandaliza do que para aquele que é escandalizado; donde segue "contudo, ai do homem por quem vem o escândalo".
Alguns querem que um Anjo seja dado como auxiliador aos homens desde que, pelo banho da regeneração, nasceram como crianças em Cristo; dizendo que não é credível que um Anjo santo presida sobre os incrédulos e os que erram; mas no tempo da infidelidade e dos pecados, o homem está sob os Anjos de Satanás. Outros, porém, querem que, logo que nasce alguém dentre aqueles que foram preconhecidos por Deus, ele receba um Anjo que lhe é preposto.
E esta é também a causa pela qual não somos ouvidos quando oramos, porque não estamos em consenso uns com os outros sobre todas as coisas na terra, nem em doutrina nem em conversação. Assim como na música, se não houver harmonia de vozes, não deleita quem escuta, assim na Igreja, se não houver consenso, Deus não Se deleita nela, nem ouve suas vozes.
Ou, porque o número seis parece denotar a obra e o trabalho, e o sétimo o repouso, diz que se deve conceder remissão aos irmãos que vivem neste mundo e que pecam nas coisas deste mundo. Mas se alguém pecar além desses pecados, já não terá mais remissão.
O Filho de Deus, assim como é sabedoria, justiça e verdade, assim também Ele mesmo é reino; não, porém, de algum daqueles que estão abaixo, mas de todos aqueles que estão acima: em cujos sentidos reinam a justiça e as demais virtudes; os quais foram feitos céus pelo fato de que portam a imagem celestial. Este reino dos céus, isto é, o Filho de Deus, quando foi feito à semelhança da carne do pecado, então se fez semelhante a um homem rei, unindo o homem a si mesmo.
O Senhor curava as multidões além do Jordão, onde o Batismo era administrado. Verdadeiramente todos são salvos das enfermidades espirituais pelo Batismo; e muitos seguem a Cristo como estas multidões, mas não se levantando como São Mateus, que se levantou e seguiu o Senhor.
Talvez alguém diga que Jesus, ao afirmar "qualquer que repudiar sua esposa, a não ser por fornicação", permitiu repudiar a esposa, assim como Moisés, o qual, conforme relatado, ordenou isto devido à dureza de coração dos judeus. Mas a isto deve-se responder que, se segundo a lei a adúltera é apedrejada, não é segundo isto que se entende a coisa torpe, por causa da qual Moisés permitiu o libelo de repúdio; pois em caso de adultério não era necessário dar um libelo de repúdio. Mas talvez Moisés tenha chamado toda culpa da mulher de coisa torpe; a qual, se for encontrada na esposa, é-lhe escrito um libelo de repúdio. Deve-se perguntar, porém: se ordena repudiar a esposa somente por causa da fornicação, o que acontece se a mulher não tiver fornicado, mas tiver feito algo mais grave: por exemplo, for descoberta como envenenadora, ou assassina dos filhos? Mas o Senhor, explicando o assunto em outro lugar, disse: "quem a repudiar, exceto por causa de fornicação, faz com que ela cometa adultério", dando-lhe ocasião para segundas núpcias.
Pois já haviam experimentado, a partir de suas virtudes anteriores, que mediante a imposição de suas mãos e a oração, são repelidos os males. Oferecem-lhe, portanto, as crianças, considerando que é impossível que, depois que o Senhor lhes tenha conferido a virtude divina pelo toque, possam a ruína ou algum demônio tocá-los.
Talvez estes preceitos sejam suficientes para que alguém possa ingressar, por assim dizer, no princípio da vida; porém, nem estes nem outros semelhantes a estes são suficientes para introduzir alguém nos aspectos interiores da vida. Mas quem transgredir um destes mandamentos, nem mesmo no princípio da vida entrará.
Mas neste mundo, porque em lugar dos irmãos carnais encontrará muitos irmãos segundo a fé: assim também pais, todos os bispos e presbíteros; e filhos, todos aqueles que têm a idade de filhos. São também irmãos os Anjos, e irmãs todas aquelas que se apresentaram a Cristo como virgens castas; tanto as que ainda estão na terra, como as que já vivem nos céus. Por campos e casas em abundância, entenda o repouso do Paraíso e a cidade de Deus. E além de todas estas coisas, possuirão a vida eterna.
Talvez Ele diga a Adão: "Amigo, não te faço injustiça. Não combinaste comigo por um denário? Toma o que é teu, e vai-te." Tua é a salvação, que é o denário. "Quero dar também a este último assim como a ti." Não seria improvável alguém considerar que este último seja o apóstolo São Paulo, que trabalhou apenas uma hora, e foi igualado a todos os que foram antes dele.
Aqui, porém, não se relata que os discípulos tenham dito ou feito algo quando ouviram estas tristes coisas que haveriam de acontecer a Cristo, recordando o que o Senhor disse a Pedro, para não ouvirem coisas semelhantes ou piores. E agora, certamente, os escribas que se julgam conhecedores das divinas escrituras condenam Jesus à morte, e com suas línguas o açoitam e crucificam pelo fato de quererem suprimir a sua doutrina; Ele, porém, após desaparecer por um breve momento, ressurge aparecendo àqueles que receberam o poder de vê-lo.
Pois se num reino terreno parecem ser honrados aqueles que se sentam com o rei, não é de admirar se uma mulher, com simplicidade feminina ou inexperiência, julgou que devia pedir tais coisas; e os próprios irmãos, ainda imperfeitos e não pensando nada mais elevado sobre o reino de Cristo, pensavam tais coisas a respeito daqueles que se sentarão com Jesus.
Pois ainda que os Anjos e Marta O servissem, todavia não veio para ser servido, mas para servir; e cresceu tanto servindo, que cumpriu o que se segue: e desse sua alma em redenção por muitos, a saber, por aqueles que creram nele; desse, digo, à morte. Mas, como Ele era o único livre entre os mortos e mais forte que todo poder da morte, libertou da morte todos os que quiseram segui-lo. Portanto, os príncipes das Igrejas devem imitar a Cristo acessível, que falava com as mulheres, impunha as mãos sobre as crianças, e lavava os pés dos discípulos; para que eles façam semelhantemente aos irmãos. Nós, porém, somos tais que parecemos exceder até a soberba dos príncipes deste mundo; ou não compreendendo, ou desprezando o mandamento de Cristo; e buscamos, como os reis, tropas que nos precedam, e nos mostramos terríveis e de difícil acesso, principalmente aos pobres, não tendo nenhuma afabilidade, nem permitindo que a tenham conosco.
Em sentido místico, Jericó é entendida como o mundo, ao qual Cristo desceu. E aqueles que estão em Jericó não sabem sair da sabedoria do mundo, a não ser que vejam não apenas Jesus saindo de Jericó, mas também os seus discípulos. Vendo isto, portanto, grandes multidões o seguiram, desprezando o mundo e todas as coisas mundanas, para que, sob a condução de Cristo, subam à Jerusalém celestial. Podemos chamar os dois cegos de Judá e Israel, que antes da vinda de Cristo estavam cegos, porque não viam a palavra verdadeira que estava na Lei e nos Profetas; no entanto, sentados junto ao caminho da Lei e dos Profetas, e entendendo-O apenas segundo a carne, clamavam somente para aquele que foi feito da descendência de Davi segundo a carne.
Por isso também, ao subir ao céu, ordenou aos seus discípulos que absolvessem os pecadores, dando-lhes o Espírito Santo. E uma vez absolvidos, progredindo e nutridos pela divindade do Verbo, são considerados dignos de serem enviados de volta ao lugar de onde foram tirados, não mais para as obras anteriores, mas para lhes pregarem o Filho de Deus; e isto é o que significa quando diz "e imediatamente os deixará".
Em sentido místico, o templo de Deus é a Igreja de Cristo. Há muitos nela que não vivem, como devem, espiritualmente, mas militam segundo a carne; estes, por seus atos, fazem da casa de oração, construída de pedras vivas, uma caverna de ladrões. Se devemos expor mais cuidadosamente as três espécies expulsas do templo, podemos dizer: todos aqueles dentre o povo cristão que não se ocupam de outra coisa senão de compras e vendas, e raramente permanecem em orações ou em outras ações justas, estes são os que vendem e compram no templo de Deus. Os diáconos que não tratam bem o dinheiro das Igrejas e se enriquecem com os bens dos pobres, estes são os cambistas, que têm mesas de dinheiro, as quais Cristo derruba. Que os diáconos presidem às mesas do dinheiro eclesiástico, aprendemos nos Atos dos Apóstolos1. Os bispos que entregam as Igrejas a quem não devem, estes são os que vendem as pombas, isto é, a graça do Espírito Santo, cujas cátedras Cristo derruba.
[1] Atos 6,2. ↩
Misticamente, o Senhor, deixando os príncipes e os escribas, colocou-se fora da Jerusalém terrena, que por isso caiu. Ele veio a Betânia, à casa da obediência, isto é, à Igreja; onde, tendo descansado após o princípio da fundação da Igreja, retorna à cidade que pouco antes havia deixado, e retornando, teve fome.
De onde podemos considerar que o Senhor falou nesta parábola àqueles que prometem pouco ou nada, mas que demonstram com obras; e contra aqueles que prometem grandes coisas, mas nada fazem segundo sua promessa.
Como Caifás1, assim também estes, não por si mesmos, profetizaram contra si, que os oráculos de Deus deveriam ser retirados deles e dados aos gentios, que poderiam dar fruto no tempo devido. Ou o Senhor, a quem mataram, veio imediatamente ressuscitando dos mortos, e levou a um fim terrível aqueles maus lavradores, e entregou Sua vinha a outros lavradores, isto é, aos Apóstolos, ou seja, àqueles do povo judeu que creram.
[1] São João 11,49. ↩
Eles conhecem algo do que é verdade, considerando-o como profeta; não compreendem, porém, sua grandeza, segundo a qual era o Filho de Deus. Os príncipes temem as multidões que assim pensam dele e estão prontas a lutar por ele, pois não podem alcançar o conhecimento que as multidões têm, não sentindo nada digno acerca dele. Depois, deve-se saber que há diferença entre os que desejam prender Jesus. De um modo, os príncipes e fariseus buscavam prendê-lo; de outro modo, a esposa que diz: "Segurei-o e não o deixarei ir", pretendendo retê-lo ainda melhor, conforme diz: "Subirei à palmeira e segurarei sua altura". Todos os que não pensam corretamente sobre a divindade querem prender Jesus para matá-lo. Outras palavras, além da palavra de Cristo, é possível compreender e reter; mas a palavra da verdade ninguém pode compreender, isto é, entender; nem reter, isto é, refutar; nem separar do entendimento dos que creem; nem mortificar, isto é, destruir.
Que digam aqueles que pecam contra Deus da lei e dos profetas e de toda a criação, se este que é chamado homem e apresentado como irado, é o próprio Pai de Cristo. E se disserem que este mesmo é ele, devem ser constrangidos a confessar que muitas coisas são ditas sobre ele segundo a natureza passível dos homens: não porque ele mesmo seja passível, mas porque se comporta segundo o costume da natureza passível dos homens. E conforme esta consequência, convém receber também a ira de Deus, e a penitência, e outras coisas deste tipo nos profetas. Segue-se "e enviando seus exércitos".
Deus também é aquele que diz: "Eu sou o que sou". Assim, portanto, é impossível que se diga ser Deus daqueles que não existem. E vede que Ele não diz: Eu sou o Deus de Abraão, Isaac e Jacó; mas o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Em outro lugar, porém, diz assim: "O Deus dos hebreus enviou-me a ti". Pois aqueles que estão perfeitissimamente unidos a Deus, quando comparados aos demais homens, possuem a Deus inteiramente em si: por isso não se diz ser Deus deles coletivamente, mas individualmente; como quando dizemos: aquele campo é deles, mostramos que cada um deles não o possui inteiramente. Mas se dizemos que o campo é daquele, demonstramos que ele possui o campo todo. Portanto, quando se diz o Deus dos hebreus, demonstra-se a imperfeição deles, porque cada um deles possuía apenas algo pequeno de Deus. Diz-se, porém, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, porque cada um deles possuía a Deus inteiramente. E isso não representa pequeno louvor aos patriarcas, que viviam para Deus.
Ou de outro modo. Que o segundo mandamento seja semelhante ao primeiro, significa que é o mesmo em dever e mérito em ambos: pois nem o amor a Deus sem Cristo, nem o amor a Cristo sem Deus pode ser útil para a salvação. Segue-se: "nestes dois mandamentos se baseiam toda a Lei e os Profetas".
Deus também não coloca os inimigos dele como escabelo dos pés de Cristo somente para sua perdição, mas para a salvação deles próprios.
Os discípulos de Cristo são melhores que as demais multidões; e encontrarás nas Igrejas alguns que se aproximam com mais afeto à palavra de Deus, que são discípulos de Cristo, enquanto os demais são apenas seu povo. E por vezes diz algumas coisas somente aos discípulos, outras vezes às multidões junto com os discípulos, como neste caso; por isso segue dizendo: sobre a cátedra de Moisés, e assim por diante. Aqueles que professam a lei de Moisés, e se gloriam de interpretá-la, estes se assentam sobre a cátedra de Moisés. Portanto, os que não se afastam da letra da lei chamam-se Escribas; os que, professando algo maior, dividem-se a si mesmos como melhores que a multidão, chamam-se Fariseus, que se interpreta como "separados"; mas aqueles que entendem e expõem Moisés segundo o sentido espiritual, estes se assentam, de fato, sobre a cátedra de Moisés, mas não são Escribas nem Fariseus, mas melhores que estes, discípulos amados de Cristo. Após a vinda de Cristo, porém, assentam-se sobre a cátedra da Igreja, que é a cátedra de Cristo.
Na Igreja de Cristo também se encontram aqueles que tomam para si os primeiros lugares das mesas, para que se tornem diáconos; consequentemente ambicionam arrebatar as primeiras cátedras daqueles que são chamados presbíteros; e alguns maquinam para que sejam chamados bispos pelos homens, isto é, Rabi. Porém o discípulo de Cristo ama, de fato, os primeiros lugares nos banquetes espirituais, para que coma as melhores porções dos alimentos espirituais; ama também, quando os apóstolos se sentam sobre os doze tronos, as primeiras cátedras, apressando-se por suas boas ações a mostrar-se digno de tais cátedras; assim também ama as saudações que se fazem nas assembleias celestiais, isto é, nas congregações celestiais dos primogênitos. Mas o justo não deseja ser chamado Rabi nem pelos homens, nem por qualquer outro, porque um só é o mestre de todos; por isso acrescenta: "vós, porém, não queirais ser chamados Rabi".
Cristo, como verdadeiro filho de Deus que deu a lei, de acordo com a semelhança das bênçãos que estão na lei, disse também as bem-aventuranças daqueles que são salvos; conforme a semelhança, porém, das maldições colocadas na lei, lança ai contra os pecadores, dizendo "ai de vós, Escribas e Fariseus hipócritas". Aqueles que reconhecem que é bondade pronunciar tais coisas contra os pecadores, entendam que semelhante é o propósito de Deus nas maldições da lei; seja aquela maldição, seja este ai, não recai sobre o pecador por parte de quem o pronuncia, mas por causa dos pecados, pelos quais se torna digno de receber essas coisas que Deus anunciou com propósito disciplinar, para que os homens se convertam ao bem: assim como um pai repreendendo o filho, profere palavras de maldição; no entanto, não deseja que ele se torne digno daquelas maldições, mas antes que se afaste delas. A causa deste ai, porém, ele acrescenta: "porque fechais o reino dos céus diante dos homens; vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando". Estes dois preceitos são naturalmente inseparáveis: pois é suficiente para a exclusão o fato de que não permite que outros entrem.
Por meio deste trecho aprendemos que, mesmo entre aqueles que estarão destinados à Geena, haverá diferença de tormentos; quando um é simplesmente filho da Geena, e outro o é duplamente. Mas também aqui é necessário considerar se é possível que alguém se torne filho da Geena de modo geral, como, por exemplo, um judeu ou um gentio, ou ainda de modo especial, quando por cada uma das espécies de pecados alguém se torna filho da Geena; de modo que o justo, segundo o número de suas justiças, tenha um aumento de glória, enquanto o pecador, segundo o número de seus pecados, seja multiplicado na Geena.
Da mesma maneira, visto que os judeus tinham o costume de jurar pelo céu, para repreendê-los acrescenta: "Quem jura pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está sentado". Portanto, não evitam o perigo, como acreditam, pelo fato de não jurarem por Deus, mas pelo trono de Deus, isto é, pelo céu.
Ou "peneirando o mosquito", isto é, expulsando de si os pecados mínimos, aos quais chamou de mosquitos; mas engolindo o camelo, isto é, cometendo os delitos máximos, aos quais chama de camelos, animais evidentemente tortuosos e grandes. Moralmente, os Escribas são aqueles que não estimam que haja nada nas Escrituras além do que demonstra o simples discurso; os Fariseus, por sua vez, são todos aqueles que justificam a si mesmos e se separam dos demais, dizendo: "não te aproximes de mim, pois sou puro". A hortelã, o endro e o cominho são condimentos dos alimentos, não alimentos principais. Assim, em nossa conduta, há certas coisas necessárias para a justificação, como o juízo, a misericórdia e a fé; outras são como condimentos de nossos atos, tornando-os mais suaves: como a abstinência do riso, o jejum, a genuflexão e coisas semelhantes. Como não se consideram cegos aqueles que não veem? Pois de nada serve ser um dispensador cauteloso nas coisas mínimas, quando as principais são negligenciadas. O presente discurso, portanto, confunde a estes, não proibindo observar as coisas leves, mas ordenando guardar com mais cautela as coisas principais.
Pois toda justiça simulada é morta, a qual não é feita por causa de Deus; mais ainda, tal justiça é perversa, assim como um homem morto não é homem; e assim como os mímicos, que assumem as personagens de outros, e não são as próprias pessoas que simulam. Portanto, há neles tantos ossos e imundícies quantos bens simulam com má intenção. Parecem justos exteriormente diante dos homens; não perante aqueles a quem a Escritura chama de deuses, mas perante aqueles que morrem como homens.
E também nos ditos proféticos, a narrativa segundo a história é o corpo, enquanto o sentido espiritual é a alma; os sepulcros são as próprias letras das Escrituras e os livros. Aqueles, portanto, que atendem somente à história, honram os corpos dos profetas postos nas letras, como se estivessem em sepulcros; e são chamados de fariseus, isto é, "separados", como se estivessem separando a alma dos profetas de seu corpo.
Ou os Escribas que são enviados por Cristo são, segundo o Evangelho, aqueles a quem o espírito vivifica e a letra não mata, como matava a letra da Lei, a qual, seguindo-a, incorriam em vãs superstições. A simples narrativa do Evangelho é suficiente para a salvação. Os Escribas da lei, porém, ainda flagelam os Escribas do Novo Testamento através da detração em suas sinagogas; mas também os hereges, que são os fariseus espirituais, com suas línguas flagelam os cristãos e os perseguem de cidade em cidade, algumas vezes corporalmente, outras vezes espiritualmente, querendo expulsá-los como se fosse de sua própria cidade da Lei, dos Profetas e do Evangelho, para outro Evangelho.
Ele chama-os filhos de Jerusalém, conforme o que dizemos que os sucessores de cidadãos precedentes são sempre filhos. Ele diz, porém, "quantas vezes quis", ainda que seja manifesto que Ele ensinou aos judeus uma só vez em corpo: pois Cristo sempre esteve presente em Moisés e nos profetas e nos Anjos, ministrando à salvação humana em cada geração. Se alguém, porém, não for congregado por Ele, será julgado como se não tivesse querido ser congregado.
Todo homem também, que recebendo em si a palavra de Deus, torna-se templo; se depois de pecar ainda conserva parcialmente vestígios de fé e religião, seu templo está em parte destruído e em parte subsistente. Mas aquele que, depois de pecar, não tem cuidado de si mesmo, diminui gradualmente, até que se afaste completamente do Deus vivo; e assim não ficará pedra sobre pedra dos mandamentos de Deus que não seja destruída.
O agricultor, residente no Monte das Oliveiras, é a Palavra de Deus confirmada na Igreja, isto é, Cristo, que sempre enxerta os ramos do zambujeiro na boa oliveira dos patriarcas. Aqueles que têm confiança diante de Cristo desejam conhecer o sinal da vinda de Cristo e da consumação do século. Há, porém, uma dupla vinda da palavra na alma. A primeira é aquela estulta pregação sobre Cristo, quando pregamos que Cristo nasceu e foi crucificado; a segunda vinda ocorre nos varões perfeitos, dos quais se diz: "anunciamos a sabedoria entre os perfeitos"(1 Coríntios 2,6); e a esta segunda vinda se acrescenta a consumação do século no varão perfeito, para quem o mundo está crucificado.
Convém, porém, que estas coisas aconteçam antes que vejamos a perfeição da sabedoria que está em Cristo, mas não virá logo o fim que buscamos, pois o fim pacífico está longe destes homens.
Moralmente, quem está para ver, segundo a palavra de Deus, aquela gloriosa vinda em sua alma, necessariamente sofrerá, na medida de seu progresso, insídias das operações contrárias, como um grande atleta, e Cristo será odiado nele por todos: não tanto pelos gentios segundo a carne, quanto pelos gentios das iniquidades espirituais. Nas questões, poucos serão os que alcançarão mais plenamente a verdade; muitos se escandalizarão e cairão dela, sendo traidores e acusadores uns dos outros por causa da dissensão sobre os dogmas da verdade; o que será causa para que se odeiem mutuamente. Muitos também transmitirão de modo não salutar o discurso sobre as coisas futuras, e interpretarão os profetas de modo que não deveriam: a estes chama pseudoprofetas, que seduzem a muitos; e farão esfriar o amor ardente que antes existia na simplicidade da fé. Mas quem puder permanecer no propósito da tradição apostólica, esse será salvo; e assim o Evangelho pregado nas almas de todos será para testemunho a todos os gentios, isto é, a todos os pensamentos incrédulos das almas.
Ou porque não será então tempo de ter misericórdia nem sobre as grávidas, nem sobre as que amamentam, nem sobre seus infantes. E como que falando aos judeus, que consideravam que no sábado não era conveniente andar um caminho mais longo do que a jornada do sábado, acrescenta: "Orai para que vossa fuga não aconteça no inverno ou no sábado".
A expressão "se possível é" é um discurso exagerado: pois ele não pronunciou, nem disse que os eleitos seriam induzidos ao erro; mas quer mostrar que frequentemente os discursos dos hereges são muito persuasivos, e capazes de comover até mesmo aqueles que agem1 sabiamente.
[1] Nota: outros textos trazem "audiunt" (ouvem). ↩
Moralmente, pode-se dizer que o sol que será obscurecido é o Diabo, que no fim do mundo será convencido, pois embora seja trevas, simula ser o sol; a lua, que parece ser iluminada por este sol, é toda a Igreja dos malignos, que frequentemente promete ter e dar luz, mas então, convencida com seus dogmas reprováveis, perderá seu brilho; e todos aqueles que, seja por meio de dogmas ou por falsas virtudes, prometiam verdade aos homens, mas os seduziam com mentiras, estes são apropriadamente chamados estrelas que caem de seu céu, por assim dizer, onde estavam colocados nas alturas, exaltando-se contra a ciência de Deus. Para recomendação deste discurso, usaremos o exemplo dos Provérbios que diz: "A luz dos justos é sempre inextinguível"(Provérbios 4,18); mas a luz dos ímpios será extinta. Então a claridade de Deus aparecerá em todo aquele que portou a imagem do celestial; e os celestiais se alegrarão, mas os terrenos lamentarão. Ou a Igreja é o sol, a lua e as estrelas, à qual foi dito: "formosa como a lua, eleita como o sol"(Cântico dos Cânticos 6,9).
Ou vem com grande poder diariamente à alma do homem que crê nas nuvens proféticas; isto é, nas Escrituras dos profetas e apóstolos, que declaram o Verbo de Deus acima da natureza humana em seus intelectos; assim também dizemos que aparece grande glória àqueles que entendem; glória que certamente se vê no segundo advento do Verbo, que é próprio dos perfeitos. E assim, talvez todas as coisas que foram ditas pelos três Evangelistas sobre a vinda de Cristo, cuidadosamente comparadas entre si e bem discutidas, sejam encontradas como pertencentes a isto: que Ele vem diariamente em Seu corpo, que é a Igreja; sobre cuja vinda Ele disse em outro lugar: "daqui em diante vereis o Filho do homem sentado à direita do poder de Deus, e vindo nas nuvens do céu"; excetuando-se aqueles lugares onde Ele promete por Si mesmo aquela última vinda.
Como havia feito menção do pranto, que será para que espontaneamente profiram contra si mesmos a sentença e condenem a si mesmos; para que não se pense que nesse pranto terminarão os seus males, acrescenta: e enviará seus Anjos com trombeta e grande voz.
Assim como a figueira, no tempo do inverno, tem em si escondida a virtude vital, mas depois, quando a própria virtude vital começa a surgir para manifestação, passado o inverno e com sua própria vitalidade, seus ramos se tornam tenros e produzem folhas; assim também o mundo e cada um daqueles que são salvos, antes da vinda de Cristo, tinham como que no inverno a virtude vital escondida em si; mas quando Cristo os inspira, seus ramos tornam-se tenros e de coração não duro; e aquelas coisas que estavam escondidas neles brotam em folhas e mostram frutos manifestos; para estes, está próximo o verão e a vinda da glória do Verbo de Deus.
Ou de outro modo: Enquanto a Igreja, que é o corpo de Cristo, não sabe aquele dia e hora, também o próprio Filho é dito não saber aquele dia e hora. Diz-se, porém, que sabe segundo o significado próprio, como é costume nas Escrituras. Pois o Apóstolo diz que o salvador não conheceu o pecado, porque não pecou. Mas o Filho prepara o conhecimento daquele dia e hora para os co-herdeiros de sua promessa, para que todos juntamente saibam, isto é, experimentem na própria realidade, naquela hora e dia que Deus preparou para os que o amam.
O pai de família é o entendimento do homem, a casa é sua alma, e o ladrão é o Diabo. Todo discurso contrário é aquele que não entra na alma do negligente pela entrada natural, mas como quem escava a casa, primeiramente destruindo certas edificações naturais da alma, isto é, os entendimentos naturais, e através dessa mesma brecha, adentrando, despoja a alma. Algumas vezes alguém encontra o ladrão no próprio ato de escavação e, agarrando-o, lançando-lhe palavras golpeantes, mata-o. O ladrão não vem durante o dia, quando a alma do homem estudioso está iluminada pelo sol da justiça, mas na noite, isto é, no tempo em que ainda permanece a malícia; na qual quando alguém se encontra, é possível que, mesmo não tendo a virtude do sol, seja iluminado por algum esplendor do verbo, que é a lâmpada; permanecendo ainda na malícia, mas tendo, contudo, o propósito de melhorar e a vigilância para que esse seu propósito não seja minado. Ou no tempo das tentações, ou de quaisquer calamidades, o ladrão costuma vir principalmente, querendo escavar a casa da alma.
Ou o choro será para aqueles que indevidamente riram neste mundo; e para aqueles que descansaram irracionalmente, haverá ranger de dentes: pois não querendo suportar dores materiais, sendo compelidos pelos tormentos, rangem os dentes, a saber, aqueles que mastigaram a acerbidade da malícia. A partir disto, é possível reconhecer que o Senhor coloca sobre sua família não apenas os fiéis e prudentes, mas também os maus; e que não os salva o fato de terem sido constituídos pelo Senhor sobre sua família, mas sim que deem alimento a seu tempo, e que se abstenham de golpear e de comilanças.
Ou o óleo é a palavra da doutrina, com a qual os vasos das almas são cheios; pois nada conforta tanto como o discurso moral, que é chamado óleo de luz. As prudentes, portanto, tomaram este tipo de óleo, que lhes fosse suficiente, mesmo tardando a saída e demorando o verbo a vir para a sua consumação; mas as néscias tomaram lâmpadas no princípio certamente acesas; porém não tomaram óleo suficiente que lhes bastasse até o fim, sendo negligentes quanto à recepção da doutrina, que conforta a fé e ilumina a luz das boas obras; donde se segue "mas tardando o esposo, todas cochilaram e adormeceram".
Parece-me que este servo estava entre os que creem, mas não agem com confiança, querendo esconder-se e fazendo tudo para não serem reconhecidos como cristãos. Aqueles que são assim parecem-me ter temor a Deus e considerá-lo como alguém austero e implacável; isto significa quando diz: "Senhor, sei que és um homem duro". Entendemos, de fato, que o nosso Senhor colhe onde não semeou, pois o justo semeia no espírito, do qual colherá vida eterna. Ele também colhe onde não semeou e recolhe onde não espalhou, porque considera como concedido a si mesmo tudo o que for semeado entre os pobres.
Ou, porque Ele voltará com glória para cá, de modo que seu corpo seja tal como foi quando foi transfigurado no monte. E o seu trono é dito ser ou alguns dos santos mais perfeitos, dos quais está escrito: "porque ali se assentaram os tronos para o juízo"(Salmos 121,5); ou certas virtudes angélicas, das quais se diz: "sejam Tronos, sejam Dominações"(Colossenses 1,16).
Atenta que, tendo antes dito: vinde, benditos, e depois: afastai-vos, malditos, precisamente porque é próprio do bom Deus recordar primeiro as boas ações dos bons do que as más ações dos maus, aqui primeiro nomeia o castigo dos maus, depois a vida dos bons: para que primeiro evitemos os males que são objetos de temor; e depois busquemos os bens que são objetos de honra.
Não disse: depois de dois dias será a Páscoa, ou virá, para não dar a entender que seria aquela Páscoa que costumava acontecer segundo a lei, mas a Páscoa será feita1, isto é, qual nunca havia sido feita.
[1] Nota: τὸ πάσχα γίνεται (to pascha ginetai) ↩
Não os verdadeiros sacerdotes e anciãos, mas aqueles de um povo que parecia ser o povo de Deus, mas que na verdade era o povo de Gomorra, não compreendendo o sumo sacerdote de Deus, armaram ciladas contra Ele; e não reconhecendo o primogênito de toda criatura(Colossenses 1,15), conspiraram contra Aquele que era mais ancião que todos eles.
Uma vez que São Mateus e São Marcos expõem que este fato ocorreu na casa de Simão, o leproso; São João, porém, que Jesus veio onde estava Lázaro; e não Simão, mas Maria e Marta serviam. Além disso, segundo São João, seis dias antes da Páscoa veio a Betânia, quando Maria e Marta lhe prepararam uma ceia; aqui, porém, quando reclina na casa de Simão, a Páscoa estava para acontecer depois de dois dias. E, segundo São Mateus e São Marcos, os discípulos se indignam por boa intenção; segundo São João, porém, somente Judas, por desejo de furtar; mas segundo São Lucas, ninguém murmura.
Mas que oportunidade Judas buscava, Lucas explica mais claramente dizendo: "e buscava oportunidade para entregá-lo sem a multidão"; isto é, quando o povo não estava ao redor dele, mas quando estava retirado com os discípulos; o que de fato realizou, entregando-o após a ceia, quando estava retirado no horto de Getsêmani. E desde então até agora, tal oportunidade parece ser buscada por aqueles que querem trair a palavra de Deus em tempo de perseguição, quando a multidão dos crentes não está ao redor da palavra da verdade.
Talvez alguém argumente1 que, pelo fato de Jesus ter celebrado a Páscoa segundo o costume judaico, convém que nós também o façamos como imitadores de Cristo; não considerando que Jesus foi feito sob a lei, não para deixar sob a lei aqueles que estavam sob a lei, mas para tirá-los da lei; quanto mais, portanto, não convém àqueles que antes estavam fora da lei entrarem nela? Mas celebramos espiritualmente aquelas coisas que na lei são ordenadas a serem celebradas corporalmente, para que celebremos a Páscoa "com os ázimos da sinceridade e da verdade", segundo a vontade do Cordeiro que diz: "Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis vida em vós"(São João 6,53).
[1] Por exemplo, os Ebionitas. ↩
Esta é a própria conduta dos homens extremamente maus, que após partilharem do sal e do pão, armam emboscadas contra as pessoas, especialmente contra aquelas que não lhes têm inimizade alguma. E se isto ocorre após a mesa espiritual, verás ainda mais abundantemente a grandeza de sua malícia, não se recordando nem do amor do mestre nos bens corporais, nem de sua doutrina nos bens espirituais. Assim são todos na Igreja que armam emboscadas contra seus irmãos, com os quais frequentemente estiveram juntos à mesma mesa do corpo de Cristo.
O Senhor ensinava aos discípulos que haviam recebido o pão da bênção e bebido o cálice de ações de graças, a oferecer um hino ao Pai por todos estes dons; por isso é dito: e, tendo cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras: para que do alto passassem ao alto, porque o fiel não pode fazer coisa alguma no vale.
Não convinha que ele fosse capturado no lugar onde havia comido a Páscoa com seus discípulos; convinha, porém, que antes de ser entregue orasse e escolhesse um lugar puro para oração; por isso segue: e disse aos seus discípulos: sentai-vos aqui enquanto eu vou ali e oro.
Encontrando-os dormindo, desperta-os com a palavra para ouvirem, e ordena-lhes que vigiem, dizendo: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação", para que primeiro vigiemos, e assim, vigilantes, oremos. Vigia aquele que faz boas obras, e que age com solicitude para não incorrer em alguma doutrina tenebrosa: assim, pois, é atendida a oração daquele que vigia.
Ou aquele sono que agora ordena aos seus discípulos não é o mesmo sono que antes foi descrito que lhes sobreveio. Lá os encontrou dormindo, não descansando, mas tendo os olhos pesados; agora ordena-lhes não simplesmente que durmam, mas que descansem; para que se observe a ordem, de modo que primeiramente vigiemos orando, para não entrarmos em tentação; para que depois durmamos e descansemos; para que quando alguém encontrar um lugar para o Senhor, um tabernáculo para o Deus de Jacó, suba sobre o leito de seu estrado e dê sono aos seus olhos. Talvez também a alma, não podendo sempre suportar os trabalhos, como que encarnada, consiga algumas pausas sem repreensão, que moralmente são chamadas de sonos, para que tendo um descanso por algum tempo, seja renovada e ressuscitada.
Se alguém perguntar por que Judas entregou Jesus com um beijo, segundo alguns, foi porque quis manter a reverência ao Mestre, não ousando lançar-se manifestamente contra Ele; segundo outros, fez isso temendo que, se porventura se mostrasse um adversário declarado, ele mesmo se tornaria a causa de sua evasão, pois Jesus poderia, segundo sua opinião, escapar e tornar-se inacessível. Eu, porém, penso que todos os traidores da verdade, fingindo amar a verdade, usam o sinal do beijo. Todos os hereges, assim como Judas, dizem a Jesus: Rabi. Jesus, contudo, responde placidamente; donde segue: "E Jesus lhe disse: Amigo, a que vieste?" Diz "amigo", censurando sua simulação: por este nome não conhecemos nas Escrituras nenhum dos bons sendo chamado: pois ao mau é dito: "Amigo, como entraste aqui?"(São Mateus 22,12) E: "Amigo, não te faço injustiça"(São Mateus 20,13).
Por isto se demonstra que, segundo a semelhança das legiões da milícia mundana, existem também legiões de anjos da milícia celeste que combatem contra as legiões dos demônios, pois entende-se que toda milícia é constituída por causa dos adversários. Ele não dizia isto como se necessitasse do auxílio dos anjos, mas de acordo com a percepção de Pedro, que queria prestar-lhe auxílio. Pois os anjos têm mais necessidade do auxílio do Filho Unigênito de Deus do que Ele do auxílio deles.
Depois que disse a Pedro: "recolhe a tua espada", o que é um exemplo de paciência; depois que também restituiu a orelha amputada, como relata outro Evangelista1, o que havia sido indício de suma benignidade e divina virtude, acrescenta-se: "Naquela hora disse Jesus às turbas", para que, se não se recordavam dos benefícios passados, pelo menos reconhecessem os presentes: "Como a um ladrão saístes com espadas e varas para me prender".
[1] São Lucas 22,51 ↩
A partir deste lugar aprendemos a desprezar as vozes dos caluniadores e falsas testemunhas, para que não consideremos dignos de resposta aqueles que dizem coisas inconvenientes contra nós, principalmente onde é maior e mais forte calar livremente do que defender-se sem qualquer proveito.
Ou, pela primeira criada se entende a sinagoga dos judeus, que frequentemente compeliu os fiéis a negar; pela segunda, a congregação dos gentios, que também perseguiram os cristãos; pelos terceiros que estavam no átrio, os ministros de diversas heresias.
Quando o Diabo se afasta de alguém, observa o tempo para retornar; e depois que o conheceu, e induziu ao segundo pecado, observa também o lugar para o terceiro engano. Assim como aquele que primeiro tomou a mulher de seu pai, depois se arrependeu deste mal; mas posteriormente o Diabo quis exagerar esta mesma tristeza, para que a própria tristeza, tornando-se mais abundante, absorvesse o entristecido. Algo semelhante aconteceu com Judas: pois depois que se arrependeu, não guardou seu coração, mas recebeu uma tristeza mais abundante enviada pelo Diabo, porque este queria absorvê-lo; por isso segue e, retirando-se, enforcou-se com um laço. Se, porém, tivesse buscado o lugar do arrependimento e observado o tempo da penitência, talvez tivesse encontrado Aquele que disse: "Não quero a morte do pecador"(Ezequiel 33,11). Ou talvez pensou em preceder o Mestre que estava para morrer, e encontrá-lo com a alma nua, para que confessando e suplicando merecesse misericórdia; e não percebeu que não convém ao servo de Deus expulsar-se a si mesmo desta vida, mas esperar o juízo de Deus.
Viam, pois, que convinha que aquele dinheiro, que era o preço do sangue, fosse empregado antes com os mortos. Mas como há diferenças também entre os lugares de sepulturas, usaram o preço do sangue de Jesus para comprar o campo de um oleiro, para que nele fossem sepultados os peregrinos, não segundo o seu desejo, nos sepulcros dos seus pais; por isso segue: "E, tendo deliberado, compraram com ele o campo do oleiro para sepultura dos estrangeiros".
O governador admirou-se da constância dele: talvez sabendo que ele era adequado para pronunciar acusação, e mesmo assim via-o permanecer em tranquila e serena sabedoria, e em gravidade imperturbável. Mas admirava-se veementemente: pois parecia-lhe digno de grande milagre que Cristo, apresentado a um julgamento criminal, permanecesse imperturbável diante da morte, que por todos os homens é considerada terrível.
Assim, de fato, os gentios concedem certos favores àqueles que lhes são submetidos, até que o seu jugo se confirme sobre eles; contudo, este costume existiu também entre os judeus: pois Saul não matou Jônatas, por todo o povo pedir pela sua vida1.
[1] 1 Samuel 14. ↩
Ou, a cana foi um mistério, porque antes que acreditássemos, confiávamos na vara de cana do Egito, ou de qualquer outro reino contrário a Deus; a qual Ele tomou para triunfar sobre ela com o madeiro da cruz. Golpeiam, porém, com esta cana a cabeça de Cristo Jesus, porquanto aquele reino sempre golpeia a Deus Pai, cabeça do Salvador.
Ou também que, tendo saído, embargaram a Simão; mas aproximando-se ao lugar onde iriam crucificá-lo, impuseram a cruz sobre ele mesmo, para que a carregasse. Não por acaso Simão foi embargado; mas segundo disposição de Deus foi conduzido a isto, para que fosse encontrado digno da Escritura evangélica e do ministério da cruz de Cristo. Não somente convinha ao Salvador receber sua cruz, mas também a nós convinha carregá-la, cumprindo a benéfica obrigação para nós; e contudo não nos teria aproveitado tanto recebê-la, como nos aproveitou quando Ele mesmo a recebeu1.
[1] Nota. ↩
E o príncipe dos sacerdotes, segundo a letra da lei, portava em sua cabeça a santificação do Senhor escrita; porém o verdadeiro príncipe dos sacerdotes e rei Jesus tem na cruz escrito "Este é o Rei dos Judeus"; mas ao subir ao Pai, em vez de letras e do nome pelo qual é chamado, tem o próprio Pai.
Mas também o ladrão que foi salvo pode simbolizar o mistério daqueles que, depois de muitas iniquidades, creram em Cristo.
A partir deste texto alguns caluniam a verdade evangélica. Pois o eclipse do sol sempre ocorreu, desde o princípio dos tempos, em seu tempo próprio; mas o eclipse do sol, que costuma ocorrer segundo o curso normal dos tempos, não acontece em outro momento senão na conjunção do sol e da lua, quando a lua, correndo por baixo, impede os raios do sol que lhe vêm ao encontro: porém, no tempo em que Cristo padeceu, é manifesto que não havia conjunção da lua com o sol, posto que era tempo pascal, quando é costume celebrar quando a lua está cheia. Alguns dentre os fiéis, querendo apresentar alguma defesa contra isto, disseram que aquele eclipse do sol ocorreu convenientemente como os demais novos prodígios, realizado contra o curso normal.
Estas mesmas grandes obras ainda acontecem diariamente; o véu do templo é rasgado para os Santos, a fim de revelar as coisas que estão contidas nele. Os terremotos, isto é, toda carne, por causa da nova palavra e das novas coisas do Novo Testamento. As pedras são partidas, ou seja, o mistério dos Profetas, para que possamos ver os mistérios espirituais escondidos em suas profundezas. Os sepulcros são os corpos das almas pecadoras, isto é, almas mortas para Deus; mas quando pela graça de Deus estas almas forem ressuscitadas, seus corpos, que antes eram sepulcros, tornam-se corpos de Santos, e parecem sair de si mesmos, e seguem Aquele que ressuscitou, e caminham com Ele em novidade de vida; e aqueles que são dignos de ter sua conversação nos céus entram na Cidade Santa em diversos tempos, e aparecem para muitos que veem suas boas obras. "O centurião, porém, e os que com ele estavam guardando Jesus, vendo o terremoto e as coisas que aconteciam, temeram grandemente, dizendo: Verdadeiramente este era o Filho de Deus".
Não se diz que a mãe dos filhos de Zebedeu estivesse sentada defronte ao sepulcro; provavelmente ela só pôde chegar até a cruz. Porém estas, como maiores na caridade, não estiveram ausentes também dos eventos que ocorreram depois.