séc. IX–XRemígio de Auxerre

Remígio de Auxerre

Monge e mestre carolíngio

Remígio (c. 841–908), monge beneditino, ensinou em Auxerre, Reims e Paris — formando uma geração inteira de mestres nos crepúsculos da era carolíngia. Suas glosas sobre a Escritura compendiam Beda, Rábano e a tradição patrística com clareza didática, e por isso Tomás o cita com frequência em Mateus.

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Evangelho de São Lucas 11, 14–16

Este endemoninhado, porém, em São Mateus é narrado não apenas como mudo, mas também cego. Três sinais, portanto, foram realizados simultaneamente em um só homem. O cego vê, o mudo fala, o possuído pelo demônio é libertado, o que se cumpre diariamente na conversão dos que creem, para que, expulso primeiramente o demônio, contemplem a luz da fé; depois, para o louvor de Deus, sejam desatadas as bocas antes silenciosas.

Evangelho de São Marcos 1, 16–20

Porque pela rede da santa pregação, os peixes, isto é, os homens, do profundo pélago, isto é, da infidelidade, atraíram para a luz da fé. Admirável, na verdade, é esta pesca. Pois os peixes, quando são capturados, logo morrem; os homens, quando são capturados pela palavra da pregação, são antes vivificados.

Evangelho de São Marcos 4, 35–41

Lê-se que o Senhor teve três refúgios, a saber: a barca, o monte e o deserto. Quantas vezes era pressionado pela multidão, refugiava-se em algum deles. Quando, portanto, o Senhor viu muitas turbas ao seu redor, querendo evitar, como homem, a sua importunação, ordenou aos seus discípulos que atravessassem para o outro lado. Segue-se: e deixando a multidão, tomaram-no, tal como estava, na barca.

Evangelho de São Marcos 5, 1–20

Por isso, porém, entraram nos porcos não por própria vontade, mas pediram que lhes fosse concedido, para demonstrar que não podem prejudicar os homens a não ser por permissão divina. Por isso não pediram para ser enviados aos homens, porque viam aquele cuja virtude os atormentava portando a forma humana; nem pediram para ser enviados aos rebanhos, porque, como animais limpos, eram oferecidos no templo de Deus. Pediram para ser enviados aos porcos, porque nenhum animal é mais imundo que o porco, e os demônios sempre se deleitam nas imundícies. Segue-se e Jesus lhes concedeu imediatamente.

Evangelho de São Marcos 6, 17–29

Pois a vontade libidinosa o obrigou a lançar mão contra aquele que sabia ser justo e santo. E por isso se dá a entender que um pecado menor se tornou causa de um pecado maior, conforme aquilo: "quem está sujo, suje-se ainda mais"(Apocalipse 22,11). Segue-se: "e tendo chegado um dia oportuno, Herodes, por ocasião do seu aniversário, deu um banquete aos príncipes, aos tribunos e aos principais da Galileia".

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Evangelho de São Marcos 8, 1–9

Ele não perguntou por ignorar quantos tinham, mas para que, ao responderem sete, quanto menor fosse o número, tanto mais o milagre se difundisse e se tornasse conhecido. Segue-se e ordenou à multidão que se reclinasse sobre a terra. Na refeição anterior, diz-se que se reclinaram sobre o feno, mas aqui sobre a terra. Segue-se e tomando os sete pães, dando graças, os partiu. No fato de que deu graças, deixou-nos o exemplo para que por todos os dons a nós concedidos celestialmente, lhe rendamos graças. E deve-se notar que o Senhor não deu os pães à multidão, mas aos discípulos, e os discípulos os deram à multidão; pois segue-se e os deu aos seus discípulos para que os servissem; e os serviram à multidão. Não só os pães, mas também os peixinhos, abençoando-os, ordenou que fossem servidos; segue-se, pois: e tinham uns poucos peixinhos, e também a estes abençoou, e mandou que os servissem. E comeram, e ficaram saciados.

Evangelho de São Marcos 9, 1–7

Ou bem, pelo pisoeiro são designados os santos pregadores e purificadores das almas; dos quais, nesta vida, nenhum pode viver de tal modo que não seja obscurecido pelas manchas de algum pecado; mas na futura ressurreição, os santos serão purificados de toda mancha de pecado. Portanto, o Senhor os fará tais quais nem eles mesmos, castigando seus próprios membros, nem qualquer pregador, por seu exemplo ou doutrina, pode fazer.

Evangelho de São Mateus 1, 1

Portanto, os Evangelistas destroem estas heresias no início dos seus Evangelhos, pois São Mateus, ao narrar como ele descende dos reis dos judeus, mostra que Ele foi verdadeiramente homem e que teve verdadeira carne. Do mesmo modo, São Lucas, quando descreve a linhagem e a pessoa sacerdotal. São Marcos, quando diz: "Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus"(São Marcos 1,1), e São João, quando diz: "No princípio era o Verbo"(São João 1,1), ambos mostram que Ele existiu antes de todos os séculos, sendo sempre Deus junto a Deus Pai.

Evangelho de São Mateus 1, 1

Jacó se interpreta como "suplantador", e sobre Cristo é dito: "Tu derrubaste debaixo de mim aqueles que se levantaram contra mim"(Salmo 18,43). Jacó gerou Judá e seus irmãos.

Evangelho de São Mateus 1, 2

Mas deve-se perguntar por que o santo Evangelista nomeou somente a Davi como rei, o que foi dito para mostrar que ele foi o primeiro rei da tribo de Judá. O próprio Cristo é Farés, o divisor, como está escrito: Separará os cordeiros dos cabritos(São Mateus 25,33). Ele é também Zarã1, o oriente, como está escrito: Eis o homem, Oriente é o seu nome(Zacarias 6,12). Ele é Esrom2, flecha, como está escrito: Fez de mim uma flecha escolhida(Isaías 49,2).

[1] זרח; em Zacarias 6,12, é זרח.

[2] חצרון, como se derivasse de חץ, e assim afirma São Jerônimo.

Evangelho de São Mateus 1, 3–6

É necessário perguntar, porém, por que o Evangelista não nomeou Bersabeia pelo seu próprio nome, como fez com as outras mulheres. Isto ocorre porque as outras mulheres, embora fossem repreensíveis, eram, contudo, louváveis por suas virtudes. Bersabeia, no entanto, não apenas foi cúmplice de adultério, mas também do homicídio de seu marido, e por isso não a nomeou pelo seu próprio nome na genealogia do Senhor.

Evangelho de São Mateus 1, 7–8

Ou Bersabee é interpretada como "o sétimo poço", ou "o poço do juramento"1, pelo qual é significada a fonte do Batismo, na qual é dado o dom do Espírito septiforme e ali se faz o juramento contra o Diabo. Cristo também é Salomão, o pacífico, conforme aquilo do Apóstolo: Ele é a nossa paz (Efésios 2,14). Roboão2 é "a amplitude do povo", segundo aquilo: Muitos virão do Oriente e do Ocidente (São Mateus 8,11).

[1] באר שבע o poço do juramento, a origem do nome é dada em Gênesis 21,28-31. "saciedade" como se derivasse de שבע

[2] Assim Jerônimo, de רחב; ou a loucura do povo, Eclesiástico 47,23

Evangelho de São Mateus 1, 8–11

Ele é também Jacó, aquele que suplanta, pois não somente Ele próprio suplantou o Diabo, mas também deu esse poder aos seus fiéis, conforme aquilo: "Eis que vos dei o poder de pisar sobre serpentes"(São Lucas 10,19). É também José, isto é, aquele que acrescenta, segundo aquilo: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância"(São João 10,10).

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Evangelho de São Mateus 1, 17

Dividiu as gerações em séries de catorze cada uma, porque o número dez significa o Decálogo, e o número quatro os quatro livros do Evangelho, mostrando nisso a conformidade da lei com o Evangelho. Repetiu três vezes o número catorze, para ensinar-nos que a perfeição da lei, da profecia e da graça consiste na fé na Santíssima Trindade.

Evangelho de São Mateus 1, 18

Ou esta palavra "conveniendi" (vir juntos) não significa o próprio ato conjugal, mas o tempo das núpcias, isto é, quando aquela que era esposa prometida começa a ser esposa de fato. Assim, o sentido é "antes que viessem juntos", ou seja, antes que celebrassem solenemente os ritos nupciais segundo o costume.

Evangelho de São Mateus 1, 18

Pois ele via grávida aquela que conhecia como casta; e porque havia lido: "sairá uma vara da raiz de Jessé", de onde sabia que Maria havia derivado sua origem, e havia lido também: "eis que uma virgem conceberá", não duvidava que esta profecia havia de ser cumprida nela1.

[1] Nota do editor: Jerônimo em loc. Ambrósio de Spir. S. ii. 5. e Pseudo-Agostinho (t. vi. p. 570.) assim aplicam estas palavras, considerando Cristo o 'Ramo' ou flor (flos) que é mencionado na cláusula seguinte. Cirilo Alex. e Teod. em loc. explicam isso como referência a Cristo.

Evangelho de São Mateus 1, 19

Porque, como foi dito, José pensava em mandar embora Maria secretamente, mas se fizesse isso, poucos seriam aqueles que não suspeitariam que ela fosse mais uma meretriz do que uma virgem, por isso o plano de José foi subitamente mudado por desígnio divino; donde se diz: "enquanto ele pensava nestas coisas".

Evangelho de São Mateus 1, 20

Ele mostra que o mesmo é o Salvador de todo o mundo e o autor de nossa salvação. Certamente, Ele salva não os incrédulos, mas o seu povo, isto é, Ele salva aqueles que creem nEle, não tanto dos inimigos visíveis quanto dos invisíveis; isto é, salva-os dos seus pecados, não lutando com armas, mas perdoando os pecados.

Evangelho de São Mateus 1, 21

Deve-se questionar quem interpretou este nome: o Profeta, ou o Evangelista, ou algum tradutor? Mas saiba-se que o Profeta não o interpretou, e que necessidade teria o santo Evangelista de interpretá-lo, já que escrevia em língua hebraica? Talvez porque este nome fosse obscuro entre os hebreus, por isso era digno de interpretação. Mas é mais crível que algum tradutor o tenha interpretado para que este nome não permanecesse obscuro entre os latinos. Finalmente, com este nome são designadas duas substâncias, a saber, da divindade e da humanidade, em uma só pessoa do Senhor Jesus Cristo, porque aquele que antes de todos os séculos foi inefavelmente gerado por Deus Pai, o mesmo se fez Emanuel no fim dos tempos, isto é, Deus conosco, da Virgem Mãe. E quando se diz Deus conosco, pode-se entender deste modo: foi feito conosco, isto é, passível, mortal e em tudo semelhante a nós, exceto no pecado; ou porque uniu a substância de nossa fragilidade, que assumiu, à substância de sua divindade na unidade da pessoa.

Evangelho de São Mateus 1, 22–23

É evidente que este nome foi bastante conhecido pelos Santos Padres e profetas de Deus, especialmente por aquele que dizia: "Desfaleceu a minha alma pela tua salvação"; e: "Exultou o meu coração na tua salvação"; e por aquele que dizia: "Exultarei em Deus, meu Jesus".

Evangelho de São Mateus 2, 1–2

Embora o Senhor não tivesse nascido ali, porque ainda que soubessem o tempo do nascimento, não conheciam, porém, o lugar. Sendo Jerusalém a cidade real, acreditavam que tal criança não deveria nascer senão na cidade real. Ou vieram para que se cumprisse o que está escrito: "De Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém"(Isaías 2,3), porque ali primeiro foi anunciado Cristo; ou para que o zelo dos magos condenasse a indiferença dos judeus. Vieram, pois, a Jerusalém, dizendo: "Onde está aquele que nasceu Rei dos judeus?"

Evangelho de São Mateus 2, 3–6

Os escribas eram assim chamados, não tanto pelo ofício de escrever, mas principalmente pela interpretação das Escrituras; pois eram doutores da lei. Segue-se que ele lhes perguntava onde o Cristo nasceria. Aqui deve-se notar que ele não disse: onde o Cristo nasceu, mas onde nasceria. Astutamente ele os interrogou, para que pudesse saber se se alegrariam com o nascimento do rei. Ele o chama Cristo, porque sabia que o rei dos judeus deveria ser ungido.

Evangelho de São Mateus 2, 7–9

Os magos ouviram de Herodes para que buscassem o Senhor, mas não para que voltassem a ele. Significavam, pois, os bons ouvintes, que praticam as boas coisas que ouvem dos maus pregadores; contudo, não imitam suas obras.

Evangelho de São Mateus 2, 9

Ou a estrela significa a graça de Deus, e Herodes o Diabo. Aquele que pelo pecado se submete ao Diabo, logo perde a graça; mas se se afastar pela penitência, logo encontra novamente a graça, que não o abandona até conduzi-lo à casa do menino, isto é, à Igreja.

Evangelho de São Mateus 2, 13–15

Por José é designada a ordem dos pregadores, por Maria a Sagrada Escritura, pelo menino o conhecimento do salvador, pela perseguição de Herodes a perseguição que a Igreja sofreu em Jerusalém, pela fuga de José para o Egito a passagem dos pregadores para as gentes infiéis: Egito, com efeito, se interpreta como trevas; pelo tempo em que esteve no Egito, o espaço de tempo desde a ascensão do Senhor até a vinda do Anticristo; pela morte de Herodes, a extinção da inveja nos corações dos judeus.

Evangelho de São Mateus 2, 17–18

Tomou, pois, o santo Evangelista, para exagerar a grandeza do luto, o recurso de dizer que até mesmo Raquel, morta, chorou seus filhos e não quis ser consolada porque já não existem.

Evangelho de São Mateus 2, 19–20

Ou certamente o Evangelista falou usando uma figura de linguagem, quando muitos são colocados no lugar de um. E nisto que diz a alma do menino, são destruídos os herejes que disseram que Cristo não assumiu uma alma, mas que em lugar da alma possuía a divindade1.

[1] ou "alma", isto é, os Apolinaristas

Evangelho de São Mateus 3, 1–3

O "Reino dos Céus" é dito de quatro modos: ou seja, Cristo, segundo aquele: "o Reino de Deus está dentro de vós"(São Lucas 17,21); a Santa Escritura, segundo aquele: "o Reino de Deus vos será tirado e será dado a um povo que produza seus frutos"(São Mateus 21,43); a Santa Igreja, segundo aquele: "o Reino dos Céus é semelhante a dez virgens"(São Mateus 25,1); o trono celeste, segundo aquele: "muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão no Reino dos Céus"(São Mateus 8,11); e tudo isto pode ser entendido aqui.

Evangelho de São Mateus 3, 4

Por São João, que se interpreta como graça de Deus, é significado Cristo, que trouxe a graça ao mundo; por sua vestimenta, designa-se a Igreja dos gentios.

Evangelho de São Mateus 3, 5–6

O batismo de São João prefigurava os catecúmenos: assim como agora os meninos são catequizados para que se tornem dignos do sacramento do Batismo, assim São João batizava, para que os batizados por ele, depois, vivendo devotamente, se tornassem dignos de aproximar-se do Batismo de Cristo. Batizava no Jordão, para que ali se abrisse a porta do reino celestial onde foi dado acesso aos filhos de Israel para entrarem na terra da promissão. Segue-se confessando seus pecados.

Evangelho de São Mateus 3, 7–10

Conta-se que São João pregava naquele lugar junto ao Jordão, onde, por ordem de Deus, foram colocadas as doze pedras que haviam sido retiradas do meio do leito do Jordão. Podia, portanto, ter acontecido que, ao apontá-las, dissesse a respeito dessas pedras.

Evangelho de São Mateus 3, 11–12

Deve-se saber que de cinco modos Cristo veio depois de São João: nascendo, pregando, batizando, morrendo e descendo aos Infernos. E adequadamente se diz que o Senhor é mais forte que São João, porque este é puro homem, enquanto aquele é Deus e homem.

Evangelho de São Mateus 3, 13–15

Ou assim: convém-nos cumprir toda justiça, isto é, mostrar o exemplo de toda justiça a ser cumprida no Batismo, sem o qual não se abre o acesso ao reino dos céus. Ou também para que os soberbos aprendam pelo exemplo de humildade, para que não desdenhem ser batizados pelos meus humildes membros, quando virem que eu fui batizado por ti, João, meu servo. Aquela é a verdadeira humildade que tem a obediência como companheira; donde se segue então o deixou, isto é, por fim consentiu em batizá-lo.

Evangelho de São Mateus 3, 16

Assim como a todos os que renascem pelo Batismo é aberta a porta do reino dos céus, também todos no Batismo recebem os dons do Espírito Santo; por isso acrescenta-se: e viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele.

Evangelho de São Mateus 3, 17

Ou se isso for referido à humanidade de Cristo, se for lido "em quem me agradei", o sentido é: porque só a Ele encontrei sem pecado. Se, porém, for lido "em quem me agradou", subentende-se constituir meu beneplácito, para que por meio dele eu realizasse o que deve ser realizado, isto é, redimir o gênero humano.

Evangelho de São Mateus 4, 5–7

O pináculo era o assento dos doutores: pois o templo não tinha o teto elevado como nossas casas têm, mas era plano na parte superior conforme o costume da Palestina, e no próprio templo havia três pavimentos. E deve-se saber que no pavimento havia um pináculo, e em cada pavimento havia um pináculo. Portanto, seja no pináculo que estava no pavimento, seja naqueles que estavam no primeiro, segundo ou terceiro pavimento, deve-se entender que o colocou naquele de onde poderia haver algum precipício.

Evangelho de São Mateus 4, 12–16

Mas é preciso considerar com mais diligência por que São João diz que o Senhor foi para a Galileia antes que João fosse enviado para o cárcere. Pois depois do vinho feito da água e da sua descida a Cafarnaum e depois da sua subida a Jerusalém, diz-se no Evangelho de São João que voltou à Judeia e batizava, e João ainda não tinha sido enviado ao cárcere. Aqui, porém, diz-se que depois que João foi entregue, retirou-se para a Galileia; e isto, de fato, diz São Marcos. Porém isto não deve parecer contraditório: pois São João descreveu a primeira chegada do Senhor à Galileia, que ocorreu antes do encarceramento de João. Mas também faz menção em outro lugar da segunda chegada, quando diz que Jesus deixou a Judeia e foi novamente para a Galileia; e somente sobre esta segunda chegada à Galileia, que aconteceu após o encarceramento de João, os outros Evangelistas falam.

Evangelho de São Mateus 4, 17

E note-se que Ele não diz: aproximou-se o reino dos cananeus ou dos jebuseus, mas o reino dos céus. A lei prometia bens temporais, mas o Senhor os reinos celestiais.

Evangelho de São Mateus 4, 18–22

Por isto também são designadas as quatro virtudes principais: a prudência refere-se a São Pedro, pelo conhecimento divino; a justiça a Santo André, pelo vigor de suas obras; a fortaleza a São Tiago, pela subjugação do Diabo; a temperança a São João, pelo efeito da graça divina.

Evangelho de São Mateus 4, 23–25

Ou seguem ao Senhor "da Galileia", isto é, da volubilidade do mundo, e da Decápole, que é uma região de dez cidades, e significa os transgressores do Decálogo, e de Jerusalém, porque antes eram detidos em inocente paz, e da Judeia, isto é, da confissão diabólica, e do outro lado do Jordão, os quais antes estavam estabelecidos no paganismo, mas passando pela água do Batismo vieram a Cristo.

Evangelho de São Mateus 5, 1–3

Deve-se saber isto, que o Senhor teve três refúgios, como lemos: a barca, o monte e o deserto; a um destes Ele costumava retirar-se sempre que era oprimido pelas multidões.

Evangelho de São Mateus 5, 7

Misericordioso se diz aquele que tem um coração compassivo, pois considera a miséria alheia como sua própria e se aflige com o mal do outro como se fosse seu próprio mal.

Evangelho de São Mateus 5, 11–12

Pois o homem recebe grande consolação quando posto em tribulação, ao recordar-se das paixões de outros, dos quais recebe exemplo de paciência; como se dissesse: lembrai-vos de que vós sois apóstolos daquele de quem eles foram profetas.

Evangelho de São Mateus 5, 13

O sal também é transformado em outra natureza por meio da água, do ardor do sol e do sopro do vento; assim também os varões apostólicos, pela água do Batismo, pelo ardor da dileção e pelo sopro do Espírito Santo, foram transformados em regeneração espiritual. A sabedoria celeste, pregada pelos apóstolos, seca os humores das obras carnais, remove o fedor e a podridão da má conversação, e o verme do pensamento libidinoso, sobre o qual diz o profeta: "o verme deles não morrerá"(Isaías 66,24).

Evangelho de São Mateus 5, 17–19

"Amen" é uma palavra hebraica, e em latim se diz "vere" (verdadeiramente), "fideliter" (fielmente), ou "fiat" (faça-se). O Senhor utiliza esta palavra por duas razões: seja pela dureza daqueles que eram tardos em crer, seja por causa dos crentes, para que atendessem mais profundamente às coisas que seguem.

Evangelho de São Mateus 5, 43–48

Posto que a perfeição do amor não pode ir além do amor aos inimigos, por isso, depois que o Senhor ordenou amar os inimigos, acrescentou "Sede, pois, vós perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito". Ele, com efeito, é perfeito como onipotente, o homem, porém, como auxiliado pelo Onipotente. Pois, assim como às vezes nas Escrituras o termo "como" é tomado no sentido de verdade e igualdade, como nesta passagem: "Assim como estive com Moisés, assim estarei contigo"; outras vezes, porém, para expressar semelhança, como aqui.

Evangelho de São Mateus 6, 5–6

E este é o sentido: seja suficiente para ti que somente aquele conheça tua oração que conhece os segredos de todos os corações, porque aquele mesmo que é observador será o que te ouvirá.

Evangelho de São Mateus 6, 16

O fruto do jejum dos hipócritas se manifesta quando é acrescentado: "Para que pareçam aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam sua recompensa", isto é, aquela que desejaram.

Evangelho de São Mateus 6, 22–23

Ou de outro modo. A fé é comparada a uma lâmpada, porque por ela o progresso do homem interior, isto é, a ação, é iluminada para que não tropece, conforme aquilo do Salmo 118,105: "Tua palavra é lâmpada para os meus pés"; a qual, se for limpa e simples, todo o corpo será luminoso; mas se estiver suja, todo o corpo estará em trevas. Ou de outro modo. Pela lâmpada entende-se o chefe da Igreja, que bem se chama olho, porque deve prover as coisas salutares para o povo que lhe está sujeito, o qual é entendido pelo corpo. Se, portanto, o chefe da Igreja errar, quanto mais errará o povo que lhe está sujeito?

Evangelho de São Mateus 6, 28–30

Espiritualmente, pelas aves são designados os santos varões, que renascem da água do sagrado Batismo e pelo zelo desprezam as coisas terrenas e buscam as celestiais, dentre os quais são considerados de maior valor os apóstolos, que são príncipes de todos os santos. Pelos lírios entendem-se os santos varões que, sem o trabalho das cerimônias legais, agradaram a Deus só pela fé; dos quais se diz: "meu amado para mim, que se apascenta entre os lírios". Também a Santa Igreja é entendida pelo lírio, por causa da brancura da fé e do odor da boa conduta; da qual se diz: "como o lírio entre os espinhos". Pelo feno designam-se os infiéis; dos quais se diz: "secou-se o feno e caiu a sua flor"(Isaías 40,7). Pelo forno, a condenação eterna; sendo este o sentido: se Deus concede bens temporais aos infiéis, quanto mais nos concederá os bens eternos!

1

[1] Vide o Hino do Breviário, Magnae Deus Potentiae.

Evangelho de São Mateus 7, 9–11

Pelo peixe podemos entender a palavra acerca de Cristo, e pela serpente, o próprio Diabo. Ou pelo pão se entende a doutrina espiritual; pela pedra, a ignorância; pelo peixe, a água do Sagrado Batismo; pela serpente, a astúcia do Diabo ou a infidelidade.

Evangelho de São Mateus 8, 1–4

Moralmente, pelo leproso designa-se o pecador, pois o pecado torna a alma impura e inconstante; este se prostra diante de Cristo quando se envergonha de seus pecados anteriores; e, contudo, deve confessar e pedir o remédio da penitência; pois o leproso mostra sua ferida e pede o remédio. O Senhor estende a mão quando concede o auxílio da divina misericórdia; e imediatamente consegue a remissão dos pecados; nem deve a Igreja reconciliar-se com ele, senão pelo juízo do sacerdote.

Evangelho de São Mateus 8, 5–9

Ou, pelo centurião são designados aqueles que primeiros dentre os gentios creram, e foram perfeitos em virtude: pois centurião é chamado aquele que comanda cem soldados; e o número cem é um número perfeito. Corretamente, portanto, o centurião roga pelo seu servo, porque as primícias dos gentios rogaram a Deus pela salvação de toda a gentilidade.

Evangelho de São Mateus 8, 10–13

Ou de outro modo. Chama trevas exteriores às nações estrangeiras: quanto à história, o Senhor prediz com estas palavras a ruína dos judeus, pois por causa da infidelidade haveriam de ser levados cativos, e dispersos pelos diversos reinos da terra. O choro costuma vir do fogo, o ranger de dentes do frio. Atribui-se, portanto, o choro àqueles que habitam em lugares mais quentes, como na Índia e na Etiópia; o ranger de dentes, por sua vez, atribui-se àqueles que permanecem em lugares mais frios, como são a Hircânia e a Cítia.

Evangelho de São Mateus 8, 14–15

Ou pela sogra de Pedro pode-se entender a Lei, que segundo o Apóstolo, se tornava enferma pela carne, isto é, pela inteligência carnal. Mas quando o Senhor, pelo mistério da Encarnação, apareceu visivelmente na sinagoga, e cumpriu a Lei por obras, e ensinou que ela devia ser entendida espiritualmente, imediatamente ela, associada à graça do Evangelho, recebeu tanta força que, a que fora ministra da morte e da pena, tornou-se depois ministra da vida e da glória.

Evangelho de São Mateus 8, 16–17

Cristo, Filho de Deus, autor da salvação humana, fonte e origem de toda piedade, concedia a medicina celestial; por isso segue: e expulsava os espíritos com a palavra, e curou todos os que estavam enfermos. Pois os demônios e as doenças Ele repelia somente com a palavra, para que com estes sinais e virtudes mostrasse que Ele tinha vindo para a salvação do gênero humano.

Evangelho de São Mateus 8, 18–22

Ou fez isto como homem querendo evitar a importunidade das multidões. Pois estavam fixos nele admirando-o, e querendo vê-lo. Quem, de fato, se afastaria daquele que operava tais milagres? Quem não desejaria ver seu rosto simples e a boca que falava tais coisas? Pois se Moisés tinha o rosto glorificado, e Estêvão como o de um Anjo, compreende como convinha que aparecesse então o Senhor de todos; por isso o profeta diz: "És formoso em beleza mais que os filhos dos homens"(Salmos 44,3).

Evangelho de São Mateus 8, 28–34

Mas todas as vezes que estes eram atormentados pela sua virtude e viam-no realizando sinais e milagres, julgavam que ele era o Filho de Deus; porém, quando o viam ter fome, sede e padecer coisas semelhantes, duvidavam e acreditavam que fosse um puro homem. Deve-se considerar que tanto os judeus incrédulos, quando diziam que Cristo expulsava os demônios por Beelzebub, quanto os arianos, quando diziam que ele é uma criatura, merecem ser condenados não só pelo juízo de Deus, mas também pela confissão dos demônios, que afirmam que Cristo é o Filho de Deus. Corretamente dizem: "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?" Isto é, nada há de comum entre a nossa malícia e a tua graça, porque, segundo o Apóstolo, não há sociedade entre a luz e as trevas(2 Coríntios 6,14).

Evangelho de São Mateus 9, 9–13

Ele teve em pouca consideração os perigos humanos que lhe poderiam sobrevir por parte dos príncipes, pois deixou incompletas as contas de seu ofício; por isso segue "e levantando-se, seguiu-o". E porque abandonou os lucros terrenos, com justiça ele se tornou dispensador dos talentos do Senhor.

Evangelho de São Mateus 9, 14–17

Por vestimenta velha, Ele quer dar a entender os discípulos, porque ainda não haviam sido renovados em todas as coisas. O pano rude, isto é, novo, Ele chama a nova graça, ou seja, a doutrina evangélica, da qual o jejum é uma parte; e por isso não convinha que os preceitos mais severos do jejum lhes fossem confiados, para que não acontecesse de, pela austeridade do jejum, se quebrarem e perderem a fé que tinham; por isso acrescenta: "pois ele tira a plenitude do vestido, e pior se torna o rasgão".

Evangelho de São Mateus 9, 18–22

No que deve ser louvada a sua humildade; porque não se aproximou de frente, mas por trás, e julgou-se indigna de tocar os pés do Senhor; e não tocou a totalidade da veste, mas apenas a franja: pois o Senhor tinha franja segundo o preceito da lei. Os fariseus também tinham franjas, as quais magnificavam, nas quais até mesmo prendiam espinhos. Mas as franjas do Senhor não tinham a função de ferir, mas sim de curar; e por isso segue-se dizia, pois, dentro de si: se tocar apenas a sua veste, ficarei curada: no que a sua fé é admirável, porque desesperando da cura dos médicos nos quais havia gasto seus bens, como diz São Marcos, entendeu que estava presente um médico celestial, e nele colocou toda a sua atenção, e por isso mereceu ser salva; donde se segue e Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: tem confiança, filha: a tua fé te salvou.

Evangelho de São Mateus 9, 27–31

Aquele, porém, que podia devolver a vista aos cegos, não ignorava se eles acreditavam; mas os interrogou para que a fé deles, que era levada no coração, ao confessarem pela boca, se tornasse digna de maior recompensa, segundo aquilo do Apóstolo: "pela boca se faz confissão para a salvação"(Romanos 10,10).

Evangelho de São Mateus 9, 32–34

Pois o povo Gentio era mudo, porque não podia abrir sua boca na confissão da verdadeira fé e no louvor de seu Criador; ou porque, dedicando culto a ídolos mudos, tornou-se semelhante a eles. Era possesso do demônio porque, pela morte da infidelidade, estava submetido ao império do Diabo.

Evangelho de São Mateus 9, 35–38

Mas depois que o Filho de Deus olhou do céu para a terra a fim de ouvir os gemidos dos cativos (Salmo 102,19), logo começou a crescer uma grande colheita; pois a multidão do gênero humano não teria se aproximado da fé, se o Autor da salvação humana não tivesse olhado do céu para a terra; e por isso segue: "Então disse aos seus discípulos: A colheita é verdadeiramente grande, mas os operários são poucos".

Evangelho de São Mateus 10, 1–4

Interpreta-se Iscariotes como memória do Senhor, porque seguiu o Senhor; ou memorial da morte, porque meditou em seu coração como entregar o Senhor à morte; ou sufocação, porque estrangulou a si mesmo. E deve-se saber que dois discípulos foram chamados por este nome, pelos quais todos os cristãos são designados: por Judas, irmão de Tiago, aqueles que perseveram na confissão da fé; por Judas Iscariotes, aqueles que, abandonando a fé, voltam atrás.

Evangelho de São Mateus 10, 5–8

Os enfermos são os fracos que não têm forças para viver bem; os leprosos são os impuros na obra ou no deleite carnal; os mortos são os que praticam obras de morte; os endemoniados são aqueles que foram reduzidos ao poder do Diabo.

Evangelho de São Mateus 10, 9–10

O Senhor mostra com estas palavras que os santos pregadores foram restituídos à dignidade do primeiro homem, que enquanto possuía os tesouros celestiais, não cobiçava estas coisas; mas logo que os perdeu pelo pecado, começou a desejar estas outras.

Evangelho de São Mateus 10, 11–15

Especialmente, contudo, faz menção a Sodoma e Gomorra, para por isso demonstrar que aqueles pecados são mais odiosos a Deus que são feitos contra a natureza, pelos quais o mundo foi destruído pelas águas do dilúvio, quatro cidades foram subvertidas, e o mundo é diariamente afligido por diversos males.

Evangelho de São Mateus 10, 16–18

Belamente o Senhor ordena que os pregadores tenham a prudência da serpente; porque o primeiro homem foi enganado por uma serpente; como se Ele dissesse: Como o inimigo foi astuto para enganar, sede vós, portanto, prudentes para resgatar; ele louvou a árvore, vós também louvai a virtude da Cruz.

Evangelho de São Mateus 10, 19–20

Ele menciona duas coisas: como ou o que; das quais uma se refere à sabedoria, a outra ao ofício da palavra. Pois como Ele mesmo subministrava as palavras que deveriam falar, e a sabedoria com que as proferiam, não era necessário aos santos pregadores ocupar-se com o que falariam ou como falariam.

Evangelho de São Mateus 10, 21–22

Isto é, aquele que não abandonar os preceitos da fé, e não desfalecer nas perseguições, será salvo: pois pelas perseguições terrenas receberá os prêmios do reino celestial. E deve-se notar que a palavra "fim" nem sempre significa consumação, mas às vezes perfeição, conforme aquilo: "Cristo é o fim da Lei"(Romanos 10,4). Donde também pode ser o sentido: quem perseverar até o fim, isto é, em Cristo.

Evangelho de São Mateus 10, 23

Além disso, deve-se saber que, assim como o preceito de perseverar nas perseguições pertence especialmente aos apóstolos e a seus sucessores, homens fortes, assim também a licença para fugir convém bastante aos fracos na fé, aos quais o piedoso Mestre condescende: para que, se eles se oferecessem voluntariamente ao martírio, colocados nos tormentos talvez negassem; pois era mais leve fugir do que negar. Mas embora, fugindo, não demonstrassem em si a constância da fé perfeita, ainda assim eram de grande mérito; porque estavam preparados para abandonar tudo por Cristo, isto é, fugindo. Porém, se não lhes tivesse dado licença para fugir, alguns diriam que eles eram alheios à glória do reino celestial.

Evangelho de São Mateus 10, 24–25

E como esta sentença parecia não estar de acordo com as palavras anteriores, Ele mostra aonde as palavras se dirigem, acrescentando: "Se ao pai de família chamaram Belzebu, quanto mais aos seus domésticos?"

Evangelho de São Mateus 10, 26–28

Alguns, porém, dizem que por estas palavras o Senhor prometeu aos seus discípulos que por meio deles seriam revelados todos os mistérios ocultos que se escondiam sob o véu da letra da lei; por isso o Apóstolo diz: "Quando se converterem a Cristo, então o véu será retirado"(2 Coríntios 3,16). E o sentido é: por que deveis temer os vossos perseguidores, sendo vós de tão grande dignidade que por vós os mistérios ocultos da Lei e dos Profetas sejam manifestados?

Evangelho de São Mateus 10, 29–31

Misticamente, Cristo é a cabeça, os Apóstolos são os cabelos; os quais se diz belamente estarem numerados, porque os nomes dos santos estão escritos nos céus.

Evangelho de São Mateus 10, 32–33

A confissão que aqui se deve entender é aquela sobre a qual diz o Apóstolo: "Com o coração se crê para a justiça, e com a boca se confessa para a salvação"(Romanos 10,10). Portanto, para que ninguém pense que pode ser salvo sem a confissão da boca, não apenas diz "quem me confessar", mas acrescenta "diante dos homens"; e novamente acrescenta "e quem me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus".

Evangelho de São Mateus 10, 37–39

A alma, porém, neste lugar não deve ser entendida como substância, mas como esta vida presente; e o sentido é: quem encontrar a sua alma, isto é, esta vida presente; ou seja, aquele que deseja esta luz e seu amor e seus prazeres para que sempre possa encontrá-los, esta que sempre deseja conservar, perdê-la-á, e prepara sua alma para a condenação eterna.

Evangelho de São Mateus 10, 40–42

Alguns entendem por profeta o próprio Senhor Jesus Cristo, sobre quem Moisés diz: "Deus vos suscitará um profeta"(Deuteronômio 18,18); e igualmente por justo, porque ele é incomparavelmente justo. Portanto, aquele que recebe um profeta ou um justo em nome do profeta ou do justo, isto é, de Cristo, receberá a recompensa daquele por cujo amor o recebe.

Evangelho de São Mateus 11, 1

Belamente passa da doutrina especial, com a qual havia instruído os Apóstolos, para a geral, pregando nas cidades; porque para isso desceu dos céus à terra, para iluminar a todos: neste ato são admoestados também os santos pregadores para que procurem ser úteis a todos.

Evangelho de São Mateus 11, 12–15

Como se dissesse: quem tem os ouvidos do coração para ouvir, isto é, para entender, que entenda; pois Ele não disse que João era Elias em pessoa, mas em espírito.

Evangelho de São Mateus 11, 16–19

O que significa, porém, quando diz "aos seus semelhantes"? Porventura os judeus infiéis eram iguais aos santos profetas? Mas Ele diz isto porque haviam nascido de uma só estirpe.

Evangelho de São Mateus 11, 20–24

Portanto, o Senhor, que conhece todas as coisas, empregou neste lugar uma palavra dubitativa, a saber, "talvez", para demonstrar que o livre arbítrio foi concedido aos homens. Segue: "Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá mais tolerância para a terra de Sodoma do que para vós". E deve-se saber que, pelo nome de cidade ou terra, o Senhor não repreende os edifícios ou as paredes das casas, mas os homens que neles habitam; segundo a figura de linguagem que é a metonímia, na qual, por aquilo que contém, se mostra aquilo que é contido. Por isso, quando diz "haverá mais tolerância no dia do juízo", demonstra claramente que existem diversos suplícios no Inferno, assim como diversas moradas no reino dos céus.

Evangelho de São Mateus 11, 28–30

"Vinde", diz, não com os pés, mas com os costumes; não com o corpo, mas com a fé. Pois este é o acesso espiritual pelo qual qualquer pessoa se aproxima de Deus; e por isso segue: "tomai o meu jugo sobre vós".

Evangelho de São Mateus 12, 1–8

Ele chama a Si mesmo de Filho do homem; e o sentido é: Aquele que vós julgais ser um simples homem é Deus, Senhor de todas as criaturas e também do sábado; e, portanto, pode modificar a lei conforme Sua vontade, porque foi Ele quem a fez.

Evangelho de São Mateus 12, 14–21

O Senhor Jesus Cristo é chamado servo do Deus Onipotente1, não segundo a sua divindade, mas segundo a dispensação da carne que assumiu; porque, cooperando o Espírito Santo, recebeu carne da Virgem sem mácula de pecado. Alguns livros têm: "eleito, a quem escolhi", pois foi eleito por Deus Pai, isto é, predestinado para que fosse Filho próprio de Deus, não adotivo.

[1] Nosso Senhor é dito propriamente servo quanto à Sua natureza humana, por Santo Atanásio, Orat. in Arian. i. 43. São Hilário, de Trin. xi. 13. São Gregório de Nissa, Orat. xxxvi. p. 578. São Gregório de Nissa, de Fide ad Simpl. p. 471. Santo Ambrósio, de Fid. vs. Pseudo-Agostinho, Alterc.cum Paec. 15. São Cirilo de Alexandria, ad Theodor. in Anathem. 10. p. 223. Mas isto veio a ser negado durante a controvérsia Adocionista, os mesmos hereges que negavam que Nosso Senhor era o verdadeiro Filho de Deus em Sua natureza humana, afirmando que Ele era um servo. Teodoreto atribui a opinião a Apolinar, "que nenhum de nós jamais ousou proferir." Eranist. ii. fin.

Evangelho de São Mateus 12, 22–24

O que diz então, refere-se ao que está acima, quando tendo curado o homem que tinha a mão seca, saiu da sinagoga. Ou pode ser tomado em um sentido mais extenso de tempo; Então, a saber, quando estas coisas estavam sendo ditas ou feitas.

Evangelho de São Mateus 12, 31–32

Deve-se saber, todavia, que os pecados não são perdoados indistintamente a todas as pessoas, mas apenas àqueles que tiverem feito penitência digna por suas culpas. Estas palavras destroem o erro de Novaciano, que dizia que os fiéis, após a queda, não podiam levantar-se pela penitência, nem merecer o perdão de seus pecados, principalmente aqueles que, sob perseguição, negavam a fé.1 Segue-se: "mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada".

[1] Nota do editor: Novaciano, um presbítero de Roma, separou-se da Igreja em meados do século terceiro e formou uma seita, baseando-se no fato de que a Igreja restaurava os que haviam caído durante a perseguição após seu arrependimento. Consequentemente, eles consideravam que a Igreja estava em estado de corrupção e foram levados a afirmar que ninguém estava no favor de Deus se tivesse pecado gravemente após o Batismo.

Evangelho de São Mateus 12, 36–37

Das palavras anteriores ainda depende a sentença seguinte, quando se diz: "Por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado". Não há dúvida de que cada um será condenado pelas palavras más que profere; contudo, pelas boas palavras ninguém é justificado, a não ser que as pronuncie do íntimo do coração e com devota intenção.

Evangelho de São Mateus 12, 41–42

O Senhor mostra nestas palavras que haverá uma só ressurreição dos maus e dos bons, contra certos hereges, que disseram que uma seria a ressurreição dos bons, e outra a dos maus. Também é destruída por estas palavras a fábula dos judeus, que costumam dizer que, antes do juízo, mil anos se celebrará a ressurreição; mostrando abertamente nestas palavras que, tão logo se celebre a ressurreição, se celebrará também o juízo. "E a condenarão".

Evangelho de São Mateus 12, 43–45

O Diabo supunha que poderia ter descanso eterno entre os gentios, mas acrescenta-se: "e não encontrou", porque quando o Filho de Deus apareceu no mistério de Sua Encarnação, os gentios creram.

Evangelho de São Mateus 13, 10–17

A vós, digo, que aderistes a Mim e credes em Mim. Pelo mistério do reino dos céus, ele denomina a doutrina evangélica. "A eles", isto é, àqueles que estão fora e não querem crer nEle, a saber, os escribas e fariseus, e todos os outros que perseveram na infidelidade, não lhes é dado. Aproximemo-nos, portanto, com os discípulos ao Senhor, com coração puro, para que Ele nos considere dignos de nos interpretar a doutrina evangélica, conforme aquilo: "Aqueles que se aproximam dos seus pés, receberão da sua doutrina"(Deuteronômio 33,3).

Evangelho de São Mateus 13, 10–17

Portanto, produz fruto trinta vezes aquele que ensina a fé na Santa Trindade; sessenta vezes, porém, quem recomenda a perfeição das boas obras (pois pelo número seis foi completado todo o ornamento do mundo); produz fruto cem vezes aquele que promete a vida eterna: pois o número cem passa da esquerda para a direita; pela esquerda designa-se a vida presente, pela direita a futura1. De outro modo: a semente da palavra de Deus produz fruto trinta vezes quando gera bons pensamentos; sessenta vezes quando [gera] boa linguagem, cem vezes quando conduz ao fruto das boas obras.

[1] Gênesis 2,1

Evangelho de São Mateus 13, 24–30

Eles se aproximam de Deus não com o corpo, mas com o coração e o desejo da mente; entendendo, por seu ensinamento, que isto foi feito pela astúcia do Diabo; donde segue: "e disse-lhes: um homem inimigo fez isto".

Evangelho de São Mateus 13, 34–35

Parábola em grego, em latim diz-se similitude, pela qual a verdade é demonstrada. De fato, mostra na própria similitude certas figuras de palavras e imagens da verdade.

Evangelho de São Mateus 13, 36–43

Por isso, o Senhor chamou-se a si mesmo Filho do homem, para que, com esta denominação, nos deixasse um exemplo de humildade; ou porque havia de acontecer que certos hereges negariam que Ele fosse verdadeiro homem; ou para que, mediante a fé em sua humanidade, pudéssemos elevar-nos ao conhecimento da divindade. Segue-se: E o campo é o mundo.

Evangelho de São Mateus 13, 53–58

Ele ensinava nas sinagogas, onde muitos se reuniam, porque por causa da salvação de muitos desceu dos céus à terra. Segue-se de modo que se admiravam e diziam: de onde vem a este esta sabedoria e estas virtudes? A sabedoria refere-se à doutrina; as virtudes, por sua vez, à realização dos milagres.

Evangelho de São Mateus 14, 1–5

Talvez alguém pergunte por que São Mateus diz "naquele tempo ouviu Herodes", tendo dito muito antes que, morto Herodes, o Senhor regressou do Egito. Mas esta questão se resolve se entendermos que houve dois Herodes: pois, morto o primeiro Herodes, sucedeu-lhe seu filho Arquelau, que depois de dez anos foi relegado ao exílio em Viena, cidade da Gália. Depois, César Augusto ordenou que aquele reino fosse dividido em tetrarquias, e deu três partes aos filhos de Herodes. Este Herodes, pois, que decapitou João, é filho do Herodes maior, sob o qual o Senhor nasceu; e para mostrar isso o Evangelista acrescenta tetrarca.

Evangelho de São Mateus 14, 6–12

E deve-se saber que é costume não apenas das mulheres ricas, mas também das pobres, educar suas filhas com tanto recato que dificilmente são vistas por estranhos. Mas esta mulher impudica educou sua filha impudicamente, a quem não ensinou o pudor, mas a dança. E não menos repreensível é Herodes, que esqueceu que sua casa era um palácio real, que a referida mulher transformou em teatro. Por isso segue: e agradou a Herodes; por isso, com juramento, prometeu dar-lhe qualquer coisa que lhe pedisse.

Evangelho de São Mateus 14, 15–21

Pela tarde, designa-se a morte do Senhor; porque depois que aquele verdadeiro sol se pôs no altar da cruz, saciou os famintos. Ou pela tarde é designada a última era do mundo, na qual o Filho de Deus, vindo, restaurou as multidões dos que nele criam.

Evangelho de São Mateus 14, 34–36

O Evangelista havia narrado anteriormente que o Senhor ordenara aos seus discípulos que subissem para a barca e que fossem adiante dele para o outro lado do estreito; agora, perseverando na intenção começada, diz onde chegaram na travessia, dizendo: "E tendo atravessado, vieram à terra de Genesaré".

Evangelho de São Mateus 15, 1–6

Quanto ao tipo dessas tradições, São Marcos demonstra quando diz: "Os fariseus e todos os judeus, se não lavarem as mãos frequentemente, não comem pão". É por isso que eles repreendem os discípulos, dizendo: "Pois não lavam suas mãos quando comem pão".

Evangelho de São Mateus 15, 7–11

Qualquer um, porém, que tenha fé tão grande que compreenda que a criatura de Deus não pode ser contaminada de modo algum, santifique o alimento pela palavra de Deus e pela oração, e coma o que quiser; de tal modo, entretanto, que esta liberdade não se torne um obstáculo aos fracos, como diz o Apóstolo.

Evangelho de São Mateus 15, 12–14

Toda doutrina falsa e observância supersticiosa com seus autores não pode permanecer; e porque não provém de Deus Pai, com eles será erradicada. Somente aquela que é de Deus Pai permanecerá.

Evangelho de São Mateus 15, 15–20

O Senhor costumava falar parabolicamente; e por isso Pedro, quando ouviu: "o que entra pela boca não contamina o homem", pensou que Ele tivesse falado em parábola; e, portanto, interrogou, como se segue: "Pedro, porém, respondendo, disse-lhe: explica-nos esta parábola". E, porque ele falou isso em nome dos outros, por isso junto com os outros foi repreendido pelo Senhor; donde segue: "Mas Ele disse: ainda vós também estais sem entendimento?"

Evangelho de São Mateus 15, 21–28

Com estas palavras também nos é dado um exemplo de catequizar e batizar as crianças: porque esta mulher não diz: salva minha filha, ou ajuda-a; mas tem misericórdia de mim e ajuda-me. Daqui, portanto, descende o costume na Igreja de que os fiéis prometam a fé a Deus pelos seus pequeninos, quando estes não têm idade e razão suficientes para que possam por si mesmos prometer a fé a Deus; de modo que assim como pela fé desta mulher foi curada sua filha, assim também pela fé dos homens Católicos são perdoados os pecados aos pequeninos. Alegoricamente, esta mulher significa a santa Igreja reunida dentre os gentios. Pois pelo fato de que o Senhor, deixando os Escribas e Fariseus, veio para as regiões de Tiro e Sidônia, prefigurava-se que haveria de deixar os Judeus e passar para os gentios. Esta mulher saiu dos limites de sua terra, porque a Igreja santa afastou-se dos antigos erros e vícios.

Evangelho de São Mateus 15, 29–31

Este mar é chamado por diversos nomes: é denominado mar da Galileia por causa da Galileia adjacente; mar de Tiberíades por causa da cidade de Tiberíades. Segue-se: "E subindo ao monte, sentou-se ali".

Evangelho de São Mateus 15, 32–38

Ou porque os que, corrigindo por penitência os pecados cometidos, se convertem ao Senhor pelo pensamento, pela palavra e pela obra. Estas multidões o Senhor não quis despedir em jejum, para que não desfalecessem no caminho: porque os pecadores convertidos pela penitência perecem em sua passagem por este século transitório, se forem despedidos sem o alimento da sagrada doutrina.

Evangelho de São Mateus 16, 1–4

Admirável é verdadeiramente a cegueira dos fariseus e dos saduceus; pois pediam um sinal do céu, como se não fossem sinais aqueles que viam ser realizados. Que sinal pediam, São João o manifesta: pois relata que após a refeição dos cinco pães, a multidão aproximou-se do Senhor e disse: "Que sinal fazes tu, para que vejamos e acreditemos em ti? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: pão do céu lhes deu para comer". Por isso também aqui dizem: "Mostra-nos um sinal do céu"; isto é, faz com que por um ou dois dias chova maná, para que todo o povo se alimente, como foi feito por muito tempo no deserto. Ele, porém, examinando os pensamentos deles, como Deus, e sabendo que mesmo se lhes mostrasse um sinal do céu, não acreditariam, não quis dar-lhes o sinal que pediam; por isso segue: "Mas ele, respondendo, disse-lhes: Ao entardecer, dizeis: Fará bom tempo".

Evangelho de São Mateus 16, 5–12

Estavam ligados ao seu Mestre com tão grande amor que não queriam afastar-se dele nem mesmo por um instante. É de se observar, portanto, quão alheios estavam do apetite de prazeres, pois tão pouco cuidado tinham com as coisas necessárias que até se esqueceram de tomar pães, sem os quais a fragilidade humana não pode subsistir. Segue-se: "Olhai atentamente e guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus".

Evangelho de São Mateus 16, 26–28

O que aqui se diz, portanto, foi cumprido nos três discípulos, para os quais o Senhor, transfigurado no monte, mostrou as alegrias da promessa eterna; estes viram "Ele vindo em Seu reino", isto é, resplandecendo naquela claridade, na qual, concluído o juízo, será contemplado por todos os santos.

Evangelho de São Mateus 17, 1–4

Ou de outra maneira. Tendo contemplado a majestade do Senhor e de seus dois servos, Pedro ficou tão deleitado que esqueceu todas as coisas temporais e desejava permanecer ali perpetuamente. E se Pedro então se inflamou tanto, quão grande será a suavidade e a doçura de ver o Rei em seu esplendor e participar dos coros dos Anjos e de todos os santos? Certamente ao dizer "Senhor, se queres", Pedro manifesta a devoção de um súdito e a obediência de um servo fiel.

Evangelho de São Mateus 17, 5–9

Diz, pois: "Ouvi-o", como se dissesse em outros termos: afastem-se as sombras legais e os símbolos dos profetas; e segui somente a resplandecente luz do Evangelho. Ou diz "Ouvi-o" para mostrar que Ele é aquele que Moisés havia predito, dizendo: "Deus vos suscitará um Profeta dentre vossos irmãos: assim como a mim, a ele ouvireis"(Deuteronômio 18,18). Assim, o Senhor teve testemunhas de todos os lados: do céu, a voz do Pai; do Paraíso, Elias; dos Infernos, Moisés; dos homens, os apóstolos, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e nos infernos(Filipenses 2,10).

Evangelho de São Mateus 17, 14–17

Convém saber também que o Senhor não começou a sofrer a improbidade dos judeus somente naquele momento, mas desde muito tempo antes; e por isso aqui diz: "Até quando vos sofrerei?" Como se dissesse: porque desde há longo tempo comecei a sofrer vossas improbidades, por isso sois indignos de minha presença.

Evangelho de São Mateus 17, 18–20

Ou também, aqui se entende por jejum o geral, pelo qual nos abstemos não apenas dos alimentos, mas de todos os deleites carnais e das paixões pecaminosas. Semelhantemente, a oração deve ser entendida em sentido geral, que consiste nas obras pias e boas, sobre a qual diz o apóstolo: "Orai sem cessar"(1 Tessalonicenses 5,17).

Evangelho de São Mateus 17, 21–22

Frequentemente o Senhor predisse aos Seus discípulos os mistérios da Sua paixão, para que quando acontecessem, eles os suportassem mais levemente por já terem sido conhecidos de antemão; e por isso aqui se diz: "E estando eles na Galileia, Jesus lhes disse: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão".

Evangelho de São Mateus 18, 10–14

Como que dissesse: Não desprezeis os pequeninos, porque eu me dignei fazer-me homem pelos homens. Pois quando diz "o que estava perdido", deve-se subentender o gênero humano: pois todos os elementos mantêm sua ordem; mas o homem errou, porque perdeu sua ordem estabelecida.

Evangelho de São Mateus 18, 23–35

Ou, por Reino dos Céus se entende adequadamente a santa Igreja, na qual o Senhor opera aquilo que fala nesta parábola. Pelo termo homem às vezes se designa o Pai, como naquela passagem: "O Reino dos Céus é semelhante a um homem rei, que preparou núpcias para seu filho"; outras vezes, porém, designa-se o Filho; aqui, contudo, pode-se entender ambos, o Pai e o Filho, que são um só Deus. Deus é chamado Rei porque rege e governa todas as coisas que criou.

Evangelho de São Mateus 19, 1–8

O Apóstolo diz1 que este mistério está em Cristo e na Igreja; pois o Senhor Jesus Cristo como que deixou o seu Pai quando desceu dos céus à terra, e deixou a sua mãe, isto é, a sinagoga, por causa de sua infidelidade; e uniu-se à sua esposa, ou seja, à Santa Igreja; e os dois são uma só carne, isto é, Cristo e a Igreja em um só corpo.

[1] Efésios 5,32

Evangelho de São Mateus 19, 13–15

Era também costume entre os antigos que as crianças pequenas fossem apresentadas aos mais idosos, para que através de suas mãos ou suas palavras fossem abençoadas; e conforme este costume as crianças pequenas foram oferecidas ao Senhor.

Evangelho de São Mateus 19, 16–22

Demonstra-se, pois, por estas palavras que a lei dava aos seus cumpridores não somente bens temporais, mas também a vida eterna. E porque ele tinha ouvido isto, ficou inquieto e interrogou. Por isso, segue-se: "Ele lhe disse: Quais?"

Evangelho de São Mateus 19, 23–26

Por isso o Senhor, explicando o sentido deste trecho, disse: "Difícil é aos que confiam nas riquezas entrar no Reino dos Céus"(São Marcos 10,24). Confiam nas riquezas aqueles que colocam toda a sua esperança nelas.

Evangelho de São Mateus 19, 27–30

Pode-se também referir especialmente à tristeza do rico, que parecia ser o primeiro, cumprindo os preceitos da Lei, mas que se tornou o último porque preferiu a substância terrena a Deus. Os santos apóstolos pareciam ser os últimos; mas, deixando tudo, pela graça da humildade, tornaram-se os primeiros. Há também muitos que, após empenhar-se em boas obras, afastam-se delas; e tendo sido os primeiros, tornam-se os últimos.

Evangelho de São Mateus 20, 1–16

Denário, pois, é chamado aquele que antigamente era contado por dez moedas, e tem a figura do rei. Corretamente, portanto, pelo denário é designado o prêmio da observância do Decálogo. Belamente, portanto, diz "tendo feito acordo pelo denário diário", porque cada um trabalha no campo da santa Igreja pela esperança da futura remuneração.

Evangelho de São Mateus 20, 20–23

Ou de outro modo: "Não é coisa minha dá-lo a vós", isto é, a soberbos tais como vós sois, mas aos humildes de coração, "para os quais está preparado por meu Pai".

Evangelho de São Mateus 21, 1–9

O Senhor, portanto, enviou os discípulos do monte das Oliveiras para a aldeia, porque desde a Igreja primitiva dirigiu os pregadores ao mundo. Enviou dois, por causa das duas ordens de pregadores, o que manifesta o Apóstolo quando diz: "quem operou em Pedro para o apostolado da circuncisão, operou também em mim entre os gentios"(Gálatas 2,8); ou porque há dois preceitos de caridade; ou por causa dos dois testamentos; ou por causa da letra e do espírito.

Evangelho de São Mateus 22, 1–14

Isto é, todo sacramento da dispensação humana já foi cumprido e completado. Mas os que foram convidados, isto é, os judeus, não foram dignos: porque, desconhecendo a justiça de Deus e querendo estabelecer a sua própria, julgaram-se indignos da vida eterna. Rejeitado, portanto, o povo judaico, o povo gentio foi admitido a estas núpcias; donde se segue: "Ide, pois, às saídas dos caminhos, e a quantos encontrardes, convidai-os para as núpcias".

Evangelho de São Mateus 22, 23–33

Não, de fato, foram os saduceus, mas as multidões que se admiraram. Isto também acontece diariamente na Igreja: pois quando os adversários da Igreja são vencidos pela inspiração divina, as multidões de fiéis se alegram.

Evangelho de São Mateus 22, 41–46

Quando diz "senta-te à minha direita", não se deve entender que Deus seja corpóreo, de modo que tenha direita ou esquerda; mas estar sentado à direita de Deus significa permanecer na honra e na igualdade da dignidade paterna.

Evangelho de São Mateus 23, 5–12

O que deve ser entendido assim: todo aquele que se exalta por seus próprios méritos será humilhado diante de Deus; e aquele que se humilha por causa dos benefícios recebidos será exaltado diante de Deus.

Evangelho de São Mateus 23, 23–24

Mostra o Senhor por estas palavras que todos os preceitos da lei, tanto os maiores quanto os menores, devem ser cumpridos. São repreendidos, porém, aqueles que fazem esmolas dos frutos da terra, pensando que de forma alguma podem pecar; aos quais de nada aproveitam as esmolas, a não ser que se esforcem para cessar dos pecados.

Evangelho de São Mateus 23, 32–36

Deve-se questionar também como Ele disse "até o sangue de Zacarias", uma vez que o sangue de muitos outros santos foi derramado posteriormente. Isto se resolve da seguinte maneira: Abel era pastor de ovelhas e foi morto no campo; Zacarias era sacerdote e foi assassinado no átrio do templo. Portanto, o Senhor comemora estes dois, porque por meio deles são designados todos os santos mártires, tanto da ordem laical quanto da ordem sacerdotal.

Evangelho de São Mateus 24, 1–2

Por disposição divina, foi providenciado que, uma vez revelada já a luz da graça, o templo com suas cerimônias fosse abolido: para que porventura algum pequenino na fé, enquanto visse todas aquelas coisas que haviam sido instituídas pelo Senhor e santificadas pelos profetas ainda permanecendo, afastando-se gradualmente da sinceridade da fé, passasse ao judaísmo carnal.

Evangelho de São Mateus 24, 3–5

O monte das Oliveiras não tem árvores infrutíferas, mas oliveiras, com as quais se nutre a luz para afugentar as trevas, e mediante as quais se proporciona descanso aos cansados e saúde aos enfermos. Sentado sobre o monte das Oliveiras diante do templo, o Senhor discorre sobre a ruína dele e a destruição da nação judaica, para que até mesmo pela posição do corpo demonstre que, permanecendo tranquilo na Igreja, condena a soberba dos ímpios.

Evangelho de São Mateus 24, 9–14

Pode-se também referir todo este lugar à consumação do século. Pois então muitos se escandalizarão apartando-se da fé, vendo a multidão e as riquezas dos maus, e os milagres do Anticristo, e perseguirão seus companheiros; e o Anticristo enviará falsos profetas que seduzirão a muitos; e abundará a iniquidade, porque o número dos maus aumentará; e esfriará a caridade, porque o número dos bons diminuirá.

Evangelho de São Mateus 24, 15–22

Pois consta que todas essas coisas se cumpriram com a iminente desolação de Jerusalém: com efeito, aproximando-se o exército romano, todos os cristãos que estavam na província, como refere a história eclesiástica1, avisados por um milagre divino, retiraram-se para mais longe e, atravessando o Jordão, vieram à cidade de Pela, e ali permaneceram por algum tempo sob a proteção do rei Agripa, de quem se faz menção nos Atos dos Apóstolos; e o próprio Agripa, com a parte dos judeus que lhe obedecia, estava sujeito ao império romano.

[1] Eusébio, História Eclesiástica, III, 5.

Evangelho de São Mateus 24, 31

Ou de outro modo. Para que ninguém pensasse que somente das quatro partes do mundo, e não das regiões mediterrâneas e lugares; por isso acrescenta "desde o mais alto dos céus até os seus confins". Por "o mais alto do céu" entende-se o meio do orbe, porque o mais alto do céu preside ao meio do orbe. Pelos "confins dos céus", significa os limites da terra, onde os círculos celestes, distantes entre si, parecem se assentar sobre a terra.

Evangelho de São Mateus 24, 32–35

E os simples, certamente, referem estas palavras à destruição de Jerusalém, e consideram que foi dito àquela geração que presenciou a paixão de Cristo, que não haveria de passar antes que acontecesse a destruição daquela cidade. Não sei, porém, se poderão explicar palavra por palavra, desde aquilo que diz: "não ficará aqui pedra sobre pedra", até aquilo que diz: "está próximo às portas"; talvez em alguns pontos poderão, mas em outros absolutamente não poderão.

Evangelho de São Mateus 24, 36–41

Ou por estas palavras são demonstradas três ordens da Igreja: pelos dois no campo a ordem dos pregadores1, aos quais foi confiado o campo da Igreja; pelos dois na mó a ordem dos casados2, que enquanto por diversos cuidados ora se voltam para estas coisas, ora para aquelas, como que puxam mós em círculo; pelos dois no leito a ordem dos continentes3, cujo repouso é designado pelo nome de leito. Nestas ordens, porém, há bons e maus, justos e injustos; e por isso dentre eles alguns serão deixados, e alguns serão tomados.

[1] praedicatores

[2] conjugati

[3] continentes

Evangelho de São Mateus 24, 45–51

Deve-se notar que, assim como há grande diferença de méritos entre os bons pregadores e os bons ouvintes, assim também há grande diferença de prêmios. Aos bons ouvintes, se os encontrar vigilantes, fará sentar-se à mesa, como diz São Lucas; mas aos bons pregadores constituirá sobre todos os seus bens; donde segue: em verdade vos digo que o constituirá sobre todos os seus bens.

Evangelho de São Mateus 25, 31–45

E deve-se notar que, neste lugar, seis obras de misericórdia são mencionadas pelo Senhor; as quais, qualquer que se esforce por cumprir, merecerá receber o reino preparado para os eleitos desde a fundação do mundo.

Evangelho de São Mateus 26, 1–2

Misticamente, a Páscoa é chamada assim, seja porque naquele dia Cristo passou deste mundo ao Pai, da corrupção à incorrupção, da morte à vida; seja porque, com sua passagem salvífica, redimiu o mundo da escravidão demoníaca.

Evangelho de São Mateus 26, 3–5

São condenados, pois, tanto porque se reuniram, quanto porque eram príncipes dos sacerdotes: pois quanto mais numerosos são os que se reúnem para realizar algum mal, e quanto mais elevados e mais nobres forem, tanto pior é considerado o mal que se comete, e tanto maior é a pena que lhes é preparada. Para mostrar a simplicidade e a inocência do Senhor, o Evangelista acrescenta que prendessem a Jesus com dolo e o matassem: pois naquele em quem não podiam encontrar nenhuma causa de morte, fizeram conselho para que o prendessem com dolo e o matassem.

Evangelho de São Mateus 26, 6–13

O Senhor mostrou com estas palavras, como que por meio de um raciocínio, que não deveriam ser culpados aqueles que, enquanto Ele ainda vivia em corpo mortal, lhe ofereciam algo de seus bens; pois os pobres sempre existiriam na Igreja, aos quais os fiéis, quando quisessem, poderiam fazer o bem; Ele, porém, haveria de permanecer corporalmente com eles por breve tempo; por isso acrescenta: "A mim, porém, não me tereis sempre".

Evangelho de São Mateus 26, 17–19

Mas talvez alguém dirá: se aquele cordeiro típico trazia a figura deste verdadeiro cordeiro, por que Cristo não padeceu naquela noite quando costumava-se imolar o cordeiro? Mas deve-se saber que na mesma noite Ele entregou aos discípulos os mistérios de seu sangue e corpo para serem celebrados; e assim, detido e atado pelos judeus, consagrou o princípio de sua imolação, isto é, de sua paixão. Segue-se: "Aproximaram-se de Jesus os discípulos, dizendo: Onde queres que preparemos para ti comer a Páscoa?" Entre aqueles discípulos que se aproximaram de Jesus, interrogando, estimo que também estivesse Judas, o traidor.

Evangelho de São Mateus 26, 20–25

O que pode ser entendido assim: tu dizes, e dizes a verdade; ou tu disseste, e não eu; para que ainda lhe fosse concedido lugar para penitência, enquanto sua perversidade não se manifestasse mais abertamente.

Evangelho de São Mateus 26, 26

Por isto também mostrou que preencheu a natureza humana, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, com a graça do poder divino, e a enriqueceu com o dom da eterna imortalidade. Mas para mostrar que seu corpo não estava sujeito à paixão senão por sua própria vontade, acrescenta-se "e partiu-o".

Evangelho de São Mateus 26, 27–29

Ou de outro modo: "Não beberei deste fruto da videira"; isto é, não mais me deleitarei nas oblações carnais da sinagoga, nas quais a imolação do cordeiro pascal costumava ocupar lugar preeminente. Chegará, porém, o tempo da minha ressurreição, e o dia em que, constituído no reino do Pai, isto é, elevado à glória da eterna imortalidade, beberei convosco aquilo novo, isto é, me alegrarei como com um novo gozo na salvação daquele povo já renovado pela água do Batismo.

Evangelho de São Mateus 26, 30–35

O que Ele afirma pelo seu poder de presciência, o outro nega por amor; de onde podemos extrair uma lição prática: que na mesma proporção em que confiamos no ardor da nossa fé, devemos temer a fraqueza da nossa carne. Pedro parece censurável, primeiro, porque contradisse as palavras do Senhor; segundo, porque se colocou acima dos demais; e terceiro, porque atribuiu tudo a si mesmo, como se tivesse poder para perseverar vigorosamente. Sua queda foi então permitida para curá-lo disso; não que ele tenha sido impelido a negar, mas foi deixado a si mesmo, e assim convencido da fragilidade da natureza humana.1

[1] Nota do editor: Remígio tomou emprestado isto de São Crisóstomo, neste local.

Evangelho de São Mateus 26, 36–38

Neste lugar são refutados os maniqueus, que disseram que Ele assumiu um corpo fantástico; do mesmo modo aqueles que disseram que Ele não tinha uma verdadeira alma, mas em lugar da alma, a divindade1.

[1] Exemplo: Apolinário.

Evangelho de São Mateus 26, 39–44

Ou de outro modo. Com estas palavras mostra que tomou verdadeira carne da Virgem, e teve verdadeira alma; por isso agora diz que seu espírito está pronto para padecer, mas a carne está fraca, temendo a dor da Paixão. Segue: "Foi novamente pela segunda vez, e orou dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade".

Evangelho de São Mateus 26, 47–50

Um, certamente por número, não por mérito. Disse isto para demonstrar o monstruoso crime daquele que da dignidade apostólica se havia tornado traidor. Segue-se "e com ele uma grande multidão com espadas e paus". E para que o Evangelista mostrasse que por causa da inveja ele foi capturado, acrescenta "enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo".

Evangelho de São Mateus 26, 51–54

Podemos também entender por Anjos os exércitos romanos: pois com Tito e Vespasiano todas as línguas se levantaram contra a Judeia, e cumpriu-se: "porque lutará por ele o mundo inteiro contra os insensatos"(Sabedoria 5,21).

Evangelho de São Mateus 26, 55–58

Neste fato, demonstra-se a fragilidade dos apóstolos: pois aqueles que, no ardor da fé, haviam prometido morrer com Ele, agora, por medo, fogem esquecidos de sua promessa. O que também vemos cumprir-se naqueles que, por amor a Deus, prometem fazer grandes coisas, e depois não as cumprem: contudo, não devem desesperar, mas ressurgir com os apóstolos e recuperar-se pela penitência.

Evangelho de São Mateus 26, 69–75

Espiritualmente, pelo fato de que Pedro antes do primeiro canto do galo negou, são designados aqueles que antes da ressurreição de Cristo não acreditavam que Ele era Deus, perturbados por Sua morte. Pelo fato de que depois do canto do galo negou, são designados aqueles que erram em ambas as naturezas do Senhor, tanto segundo Deus quanto segundo o homem. Pela primeira serva é designada a cupidez; pela segunda, a delectação carnal; pelos que estavam presentes, entendem-se os Demônios: por estes os homens são arrastados à negação de Cristo.

Evangelho de São Mateus 27, 1–5

Como se dissessem: que nos importa a nós se ele é justo? Tu verás, isto é, tua obra se manifestará tal como ela é. Alguns, porém, quiseram ler estas palavras conjuntamente, para que o sentido seja: qual conceito devemos ter de ti, que confessas ser justo aquele que tu mesmo entregaste?

Evangelho de São Mateus 27, 15–26

São João explica qual foi aquela inveja, quando narra que eles disseram: "Eis que o mundo inteiro vai atrás dele"(São João 12,19), e "se o deixarmos assim, todos crerão nele"(São João 11,48). Deve-se notar também que, no lugar daquilo que São Mateus diz: "Jesus, que é chamado Cristo", São Marcos diz: "Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?"(São Marcos 15,9). Pois somente os reis dos judeus eram ungidos, e dessa unção eram chamados Cristos.

Evangelho de São Mateus 27, 27–30

Ou de outro modo. Pela capa escarlate é designada a carne do Senhor, que é chamada vermelha devido ao derramamento de sangue; pela coroa de espinhos, a aceitação de nossos pecados, porque Ele apareceu "na semelhança da carne do pecado"(Romanos 8,3).

Evangelho de São Mateus 27, 31–34

Pois este Simão não era de Jerusalém, mas peregrino e estrangeiro, isto é, Cireneu. Cirene é uma cidade da Líbia. Simão interpreta-se 'obediente', e Cireneu 'herdeiro'; por isso, por ele se designa adequadamente o povo dos gentios, que era estrangeiro aos testamentos de Deus, mas pela fé tornou-se concidadão dos santos, e membro da família e herdeiro de Deus.

Evangelho de São Mateus 27, 35–38

Por disposição divina, sucedeu que tal título fosse colocado sobre a sua cabeça, para que por este meio os judeus reconhecessem que nem mesmo matando-o puderam fazer com que não o tivessem como rei: pois pelo patíbulo da morte não perdeu o império, mas antes o fortaleceu.

Evangelho de São Mateus 27, 45–50

Ou de outro modo. Os judeus eram vinagre, degenerados do vinho dos patriarcas e profetas; possuíam corações fraudulentos, como uma esponja com esconderijos cavernosos e tortuosos. Pelo caniço designa-se a Sagrada Escritura, que neste fato se cumpria: assim como a língua hebraica ou grega é chamada a locução que se faz pela língua, assim também o caniço poderia ser chamado letra, ou Escritura, que se faz por meio do caniço.

Evangelho de São Mateus 27, 51–56

Alguém perguntará o que aconteceu com aqueles que ressuscitaram quando o Senhor ressurgiu. Deve-se crer, certamente, que ressuscitaram para que fossem testemunhas da ressurreição do Senhor. Alguns, no entanto, disseram que morreram novamente e se converteram em cinzas, assim como Lázaro e os demais que o Senhor ressuscitou. Mas de modo algum se deve dar crédito ao que dizem estes: porque seria maior tormento para aqueles que ressuscitaram se morressem novamente do que se não tivessem ressuscitado. Sem hesitação, portanto, devemos crer que aqueles que ressuscitaram dos mortos quando o Senhor ressurgiu, quando Ele ascendeu aos céus, também eles igualmente ascenderam.

Evangelho de São Mateus 27, 57–61

Arimateia é a mesma cidade que Ramatha, de Helcana e Samuel, que está situada na região de Canaã, próxima a Dióspolis. Este José, segundo a condição secular, foi de grande dignidade; mas é louvado por ter muito maior mérito diante de Deus, pois é descrito como justo. Convinha, de fato, que fosse tal homem que sepultasse o corpo do Senhor, para que, pela justiça de seus méritos, fosse digno de tal ofício.

Evangelho de São Mateus 27, 62–66

Por causa disto, dizem que Ele havia declarado "Após três dias ressuscitarei", em consequência daquilo que tinha dito anteriormente: "Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia", etc. Mas vejamos de que modo Ele pode ser considerado como tendo ressuscitado depois de três dias. Alguns quiseram entender as três horas de trevas como uma noite, e a luz que sucedeu às trevas como um dia, mas estes não conhecem a força da linguagem figurada. De modo figurado, a sexta-feira, na qual Ele padeceu, compreende a noite precedente; segue-se depois a noite do sábado com seu próprio dia; e a noite do dia do Senhor também inclui seu próprio dia; e, por conseguinte, é verdade que Ele ressuscitou depois de três dias.

Evangelho de São Mateus 28, 1–7

Deve-se saber que São Mateus, falando em sentido místico, esforçou-se para nos mostrar quanta dignidade recebeu aquela sacratíssima noite, pela honra da morte vencida e da ressurreição do Senhor; por isso disse "na tarde do sábado que amanhece para o primeiro dia da semana". Como a ordem habitual do tempo faz com que as tardes não amanheçam para o dia, mas antes escureçam para a noite, mostra-se com estas palavras que o Senhor tornou toda esta noite festiva e resplandecente pela luz de sua ressurreição.

Evangelho de São Mateus 28, 16–20

O que o Salmista diz do Senhor ressuscitado: "Tu o constituíste sobre as obras de tuas mãos"(Salmo 8,6), é o que agora o Senhor diz de si mesmo: "Foi-me dado todo o poder no céu e na terra". E aqui deve-se saber que, antes que o Senhor ressuscitasse dos mortos, já sabiam os Anjos que estavam sujeitos ao homem Cristo. Querendo, pois, Cristo fazer saber também aos homens que lhe fora dado todo o poder no céu e na terra, enviou pregadores para que anunciassem a palavra de vida a todas as nações; por isso se segue: "Ide, pois, e ensinai a todas as gentes".