Santo Ambrósio
Bispo de Milão · Doutor da Igreja
Ambrósio (c. 339–397), governador romano aclamado bispo de Milão por aclamação popular antes mesmo de ser batizado. Mestre catequético de Santo Agostinho, enfrentou imperadores em nome da liberdade da Igreja e impôs penitência pública a Teodósio. Seu Comentário sobre Lucas é um dos pilares da Catena nos sinópticos.
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Cristo foi feito nossa santificação, não para que mudasse o que era, mas para que nos santificasse na carne.
Como recebes tudo, a Deus invoca por tudo. O que tens vem de Deus. Reconhece sempre que dEle és devedor.
Digno era Paulo de ser observado pelos anjos, enquanto se esforçava por conquistar o prêmio de Cristo, enquanto lutava por estabelecer sobre a terra a vida dos anjos e confundir no céu a malícia dos anjos. Pois combateu contra a malícia espiritual. Justamente o mundo o observava, para seguir o seu exemplo.
Paulo mencionou primeiro a vara, para que depois pudesse confortá-los com o espírito de mansidão.
Somente por uma fuga veloz podemos evitar a ferocidade de tão raivosa senhora e escapar de tão vil servidão.
A mulher não casada possui o seu muro de virgindade, que a protege contra as tempestades deste mundo. Assim fortificada pelo recinto da proteção divina, por nenhum vento deste mundo é ela perturbada.
Uma está presa pelos laços do matrimônio, a outra é livre. Uma está sob a lei, a outra sob a graça. O matrimônio é bom, porque por ele se encontram os meios da continuidade humana. Mas a virgindade é melhor, porque por ela se alcançam a herança de um reino celestial e uma continuidade de recompensas celestiais.
Quando diz "por meio dele", negou porventura que todas as coisas foram feitas nele, por quem diz que todas as coisas são? Estas palavras, "nele" e "com ele", têm esta força: que por elas se entende uma só e mesma realidade, não algo contrário... A Escritura testemunha que estas três expressões — "com ele", "por meio dele" e "nele" — são uma só coisa em Cristo.
Está escrito: "Ide, batizai as nações em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo." "Em nome", disse ele, não "em nomes". Logo, não há um nome para o Pai, outro nome para o Filho, e outro para o Espírito Santo, porque há um só Deus, não vários nomes, porque não há dois deuses, nem três deuses.
Certamente é melhor merecer uma recompensa do que servir como mordomo. Não sejamos presos pelo jugo da escravidão, mas sirvamos na caridade do espírito.
Aquele que não considerou usurpação ser igual a Deus tomou a natureza de servo. Fez-se tudo para todos, a fim de trazer a salvação a todos. Paulo, imitador d'Ele, viveu como se estivesse fora da lei, permanecendo, contudo, sujeito à lei. Consumiu sua vida em proveito daqueles que desejava ganhar. Fez-se voluntariamente fraco pelos fracos, a fim de fortalecê-los. Correu a corrida para alcançá-los.
Tu és um atleta. Vem às vias de fato com o teu adversário, não com a cabeça, mas com os braços.
Como bom atleta, Paulo sabia aparar os golpes das potestades adversas e até mesmo feri-las quando avançavam ao ataque.
Como atleta, ele entra por último na arena. Levanta os olhos ao céu... Vê que toda a sua tarefa o espera... Castiga o seu corpo para que este não o vença no combate. Unge-o com o óleo da misericórdia. Exercita diariamente a prática da virtude. Cobre-se de pó. Corre com segurança rumo à meta da carreira. Dirige os seus golpes, dispara os seus braços, mas não contra o vazio... A terra é o estádio do homem; o céu, a sua coroa.
Todos os que comeram aquele pão [o maná] morreram no deserto, mas este alimento que recebeis, este "pão vivo que desceu do céu", confere a energia para a vida eterna. Quem come deste pão "não morrerá para sempre", pois é o corpo de Cristo. … Aquele maná estava sujeito à corrupção se guardado para o dia seguinte. Este é estranho a toda corrupção. Quem o prova santamente não poderá sentir a corrupção. Para eles a água jorrou da rocha. Para vós o sangue jorra de Cristo. A água os saciou por uma hora. O sangue vos sacia para a eternidade.
O que comemos, o que bebemos, o Espírito Santo vo-lo expressa alhures, dizendo: "Provai e vede quão suave é o Senhor. Bem-aventurado aquele que nele confia." Cristo está naquele sacramento, porque o corpo é de Cristo. Assim, o alimento não é corporal, mas espiritual.
Isto certamente não se referia à Sua divindade, mas à Sua carne, que se derramou sobre os corações do povo sedento com a corrente perpétua de Seu sangue.
Assim, toda alma que recebe o pão que desce do céu é uma casa de pão, o pão de Cristo, sendo nutrida e tendo o seu coração fortalecido pelo sustento do pão celestial que nela habita. Donde diz Paulo: "Todos nós somos um só pão." Toda alma fiel é Belém, assim como se chama Jerusalém aquela que tem a paz e a tranquilidade da Jerusalém do alto, que está nos céus. Aquele é o verdadeiro pão que, depois de partido em pedaços, alimentou toda a humanidade.
Esta é uma advertência de que ninguém deve confiar em si mesmo. Ela, que foi feita como auxiliadora, necessita da proteção do mais forte. Neste sentido, "a cabeça da mulher é o homem" (1 Cor 11,3). Contudo, embora ele acreditasse que teria o auxílio de sua mulher, caiu por causa dela. Por isso, ninguém deve confiar-se levianamente a outro, sem primeiro haver posto à prova a virtude dessa pessoa. Nem tampouco deve reclamar para si o papel de protetor daquele que crê ser inferior à sua própria força. Antes, cada um deve partilhar com o outro sua graça particular. Isto é especialmente verdadeiro quanto ao homem, que se encontra em posição de maior força, e a quem cabe o papel de protetor.
Uma atitude convém ao homem, outra à mulher... Quão indecoroso é que o homem se comporte como mulher! Carta
Desejais saber como se consagra com palavras celestiais? Atentai a quais são as palavras. Fala o sacerdote. Diz ele: Fazei por nós esta oblação escrita, racional, aceitável, a qual é figura do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo... . Antes de ser consagrado, é pão; mas quando as palavras de Cristo se lhe acrescentaram, é o corpo de Cristo... . E antes das palavras de Cristo, o cálice está cheio de vinho e água. Quando as palavras de Cristo se lhe acrescentaram, então se efetua o sangue que redimiu o povo.
Todas as vezes que recebemos, anunciamos a morte do Senhor. Se a morte, anunciamos a remissão dos pecados. Se, todas as vezes que o sangue é derramado, é derramado para a remissão dos pecados, devo sempre recebê-lo, para que sempre remita os meus pecados. Eu, que sempre peco, devo sempre ter um remédio.
Se não podemos nomear o Senhor Jesus sem o Espírito, certamente não podemos proclamá-lo sem o Espírito.
Isto não diz respeito à plenitude nem a uma porção do Espírito, porque nem a mente humana abarca a plenitude de Deus, nem Deus se divide em porções de si mesmo. Mas Ele derrama o dom da graça do Espírito, na qual Deus é adorado, assim como também é adorado em verdade, pois ninguém O adora senão aquele que atrai a si a verdade de Sua divindade com piedosa afeição.
Somos todos o único corpo de Cristo, cuja cabeça é Deus, e de quem somos os membros. Alguns talvez sejam os olhos, como os profetas. Outros são antes como os dentes, como os apóstolos que transmitiram o alimento do ensino evangélico ao nosso coração... Alguns são as mãos, que se veem a praticar boas obras. Aqueles que dispensam a força do sustento aos pobres são o seu ventre. Alguns são os seus pés, e prouvera que eu fosse digno de ser o seu calcanhar! Derrama água sobre os pés de Cristo aquele que perdoa aos humildes os seus pecados, e, ao libertar o homem comum, banha os pés de Cristo.
Segundo Paulo, a profecia não se dá apenas por meio do Pai e do Filho, mas também do Espírito Santo. Por esta razão o ofício é um só, a graça é uma só.
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Pertence à justiça de Deus que Ele reparta, e ao Seu poder que reparta segundo a Sua vontade, ou porque deseja dar a cada um aquilo que sabe ser proveitoso.
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O Espírito falou também nos patriarcas e nos profetas, e finalmente os apóstolos passaram a ser mais perfeitos depois que receberam o Espírito Santo. Assim, não há separação do poder e da graça divinos, pois embora "haja diversidade de dons, contudo é o mesmo Espírito".
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Há uma só obra porque há um só mistério, há um só batismo porque houve uma só morte pelo mundo. Há uma unidade de intenção que não se pode separar.
O homem que possui esta caridade nada teme, pois a caridade expulsa o temor. Uma vez banido e expulso o temor, a caridade tudo suporta, tudo sofre. Quem tudo sofre por amor não pode temer o martírio. Carta, A Horonaciano.
Pois agora conhecemos em parte e entendemos em parte. Mas então poderemos compreender o que é perfeito, quando não a sombra, mas a realidade da majestade e eternidade de Deus começar a resplandecer e a revelar-se desvelada diante de nossos olhos.
O Filho nada perde quando concede a todos, assim como também nada perde quando o Pai recebe o reino, nem o Pai sofre perda quando dá o que é seu ao Filho.
Com isto deixa claro que há outros apóstolos além daqueles onze.
Quão grave ofensa é não crer na ressurreição dos mortos. Se não ressuscitarmos, Cristo morreu em vão e não ressuscitou. Pois se Ele não ressuscitou por nós, de modo algum ressuscitou, porquanto não há razão para que ressuscitasse por si mesmo.
Diz Paulo isto, não porque seja mísero esperar em Cristo, mas porque Cristo preparou outra vida para os que nele esperam. Pois esta vida está sujeita ao pecado. A vida do alto é reservada para nossa recompensa.
O homem ressuscitou porque o homem morreu. O homem foi levantado de novo, mas foi Deus quem o levantou. Então ele era homem segundo a carne. Agora Deus é tudo em todos. Agora já não conhecemos Cristo segundo a carne, mas temos a graça de sua carne. Conhecemo-lo como as primícias dos que repousam, o primogênito dentre os mortos. Sem dúvida as primícias são da mesma espécie e natureza que o restante dos frutos... Portanto, assim como as primícias da morte estavam em Adão, também as primícias da ressurreição estão em Cristo.
O fruto da misericórdia divina é comum a todos, mas a ordem do mérito difere.
Se toda esperança da ressurreição está perdida, comamos e bebamos, e não percamos o gozo das coisas presentes, pois nenhuma outra nos há de vir... Os epicuristas dizem ser seguidores do prazer porque a morte nada lhes significa, porque aquilo que se dissolve não tem sensação alguma, e o que não tem sensação nada é para nós. Assim mostram que vivem apenas carnalmente, e não espiritualmente. Não cumprem o dever da alma, mas somente o da carne. Julgam que todo o dever da vida se acaba com a separação da alma e do corpo.
Alguns talvez se perguntem como corpos corrompidos podem tornar-se sãos novamente, membros dispersos reunir-se, e partes destruídas restaurar-se. Contudo, ninguém parece admirar-se de que as sementes, amolecidas e quebradas pela umidade e pelo peso da terra, cresçam e reverdeçam. Tais sementes, é certo, são apodrecidas e dissolvidas pelo contato com a terra. Mas quando a umidade generativa do solo comunica vida às sementes sepultadas e ocultas por uma espécie de calor vivificante, elas recebem a força animadora da planta que cresce. Então, gradualmente, a natureza faz erguer-se do caule aquela vida tenra chamada espiga nascente, e, como mãe cuidadosa, envolve-a numa bainha como proteção, para que não seja atingida, nesse estágio imaturo, pela geada, nem queimada pelo sol quando os grãos emergem, por assim dizer, da primeira infância.
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Tu és semeado como todas as demais coisas. Por que, pois, te admiras de que hás de ressuscitar como as demais? Crês na semente porque a vês. Não crês na ressurreição porque não a vês. "Bem-aventurados os que não viram e creram." Contudo, antes que chegue a estação própria, nem mesmo a semente é crida. Pois nem toda estação é adequada para que as sementes cresçam. O trigo é semeado num tempo e brota noutro tempo. Num tempo a videira é enxertada. Noutro começam a brotar os rebentos, a folhagem se torna luxuriante, e os cachos tomam forma. Num tempo, planta-se a oliveira. Noutro, como que grávida e sobrecarregada de uma prole de bagas, curva-se profundamente na abundância de seu próprio fruto. Mas, antes que chegue o tempo próprio para cada coisa, a produção é contida. Nem a árvore nem a planta têm em seu próprio poder o tempo de frutificar.
Não é o espiritual que vem primeiro, mas o físico, e depois o espiritual... O último é como a soma de tudo. É ele somente quem, à semelhança da causa do mundo para a qual todas as coisas foram feitas, habita em todos os elementos. O segundo homem, vindo do céu, o homem ressuscitado e celestial, vive entre as feras, nada com os peixes, voa acima das aves, fala com os anjos, habita na terra, combate no céu, sulca o mar, apascenta-se no ar, é lavrador da terra, viajante do abismo, pescador nos rios, caçador de aves no ar, herdeiro no céu, coerdeiro com Cristo.
Aquele que não creu será abandonado, e por sua incredulidade trará sobre si mesmo a sua própria condenação.
A flor da ressurreição é a imortalidade e a incorrupção. Que há de mais rico que o descanso eterno? Que fonte de maior ganho e satisfação há do que a segurança perpétua? Eis aqui o fruto multiplicado, a colheita, pela qual a natureza do homem se torna mais vigorosa e fecunda depois da morte.
Seguirei o caminho do insensato e proporei alguns exemplos tirados das coisas deste mundo inferior. "Tornei-me insensato; vós me obrigastes a isso." Que há, de fato, mais insensato do que debater acerca da majestade de Deus, o que antes suscita questões do que promove aquela instrução piedosa que se dá pela fé? Mas que os argumentos respondam aos argumentos. Que as palavras lhes deem resposta. Antes, porém, responderemos com o amor, o amor que está em Deus, procedente de coração puro, de boa consciência e de fé não fingida.
Considero liberdade não a riqueza, mas a virtude, pois esta não se dobra aos desejos do mais forte, e é alcançada e possuída pela própria grandeza de alma. O sábio é sempre livre. É sempre tido em honra; é sempre senhor das leis. A lei não foi feita para o justo, mas para o injusto. O justo é lei para si mesmo, e não necessita convocar a lei de longe, pois a traz encerrada em seu coração, e a ele se diz: "Bebe água da tua própria cisterna e das correntes do teu próprio poço".
A verdade do Senhor o circunda, de modo que não teme o terror da noite, nem a coisa que anda às escuras. Por isso, "Zabulon habitará junto ao mar." Assim, poderá contemplar os naufrágios alheios, estando ele mesmo livre de perigo. Poderá ver outros arrastados de um lado para outro no mar deste mundo, aqueles que são levados por todo vento de doutrina, enquanto ele mesmo persevera sobre o solo de uma fé inabalável.
Não é, pois, Deus bom para com todos? Ele é certamente bom para com todos, porque é o Salvador de todos, especialmente dos fiéis. E assim o Senhor Jesus veio para salvar o que estava perdido; veio, de fato, para tirar o pecado do mundo e curar as nossas chagas. Mas nem todos desejam o remédio, e muitos o evitam... Ele cura os que estão dispostos e não compele os que não o estão.
Não se lisonjeie o veneno de Apolinário porque está escrito: "E, quanto ao aspecto, foi encontrado como homem", pois com isso a humanidade de Jesus não é negada, mas antes confirmada, uma vez que, noutro lugar, o próprio Paulo fala dEle como "Mediador entre Deus e os homens, Ele mesmo homem, Cristo Jesus". É o modo costumeiro de a Escritura se exprimir, como também lemos no Evangelho: "E vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai". Assim como ali Ele é chamado Filho unigênito de Deus, assim também é dito homem, e não se nega a plenitude da humanidade que nEle havia.
Mas que é Aquele que é, ao mesmo tempo, o Altíssimo e homem, senão "o Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que Se deu a Si mesmo como resgate por nós"? Este texto refere-se, com efeito, propriamente à sua encarnação, pois a nossa redenção foi feita pelo seu sangue, o nosso perdão vem pelo seu poder, a nossa vida é assegurada pela sua graça. Dá como o Altíssimo; ora como homem. Uma coisa é ofício do Criador; outra, do Redentor. Por mais distintos que sejam os dons, um só é, contudo, o Doador, pois convinha que o nosso Criador fosse também o nosso Redentor.
Também em nossas orações a modéstia é sobremodo agradável e nos alcança muita graça de nosso Deus... Coisa nobre, pois, é a modéstia, a qual, ainda que renuncie a seus direitos, nada tomando para si, nada reivindicando e de certo modo recolhendo-se um tanto dentro da esfera de suas próprias forças, contudo é rica aos olhos de Deus, aos olhos de quem ninguém é rico. A riqueza é a modéstia, pois é a porção de Deus. Paulo ordena que a oração seja oferecida com modéstia e sobriedade. Deseja que isto venha em primeiro lugar, e que, por assim dizer, abra caminho às orações que se seguirão, para que a oração do pecador não seja jactanciosa, mas antes velada, por assim dizer, pelo rubor da vergonha. De fato, pode merecer um grau de graça muito maior, cedendo à modéstia à lembrança de sua falta.
Guardemos, pois, firmemente a modéstia e aquela moderação que acrescenta beleza a toda a vida. Pois não é coisa leve, em cada matéria, preservar a devida medida e promover a ordem, na qual se manifesta claramente aquilo que chamamos "decoro", ou o que é decente. Isto está tão intimamente ligado ao que é virtuoso que não se pode separar um do outro (...). Este decoro que oferecemos a Deus podemos crer ser muito superior às demais coisas. Convém também à mulher orar com vestes ordenadas, mas é-lhe especialmente próprio orar humildemente coberta e orar dando testemunho de pureza juntamente com sã conversação.
Penso que a proibição contida na lei contra o homem que veste trajes femininos se refere não tanto ao vestuário quanto aos costumes e aos nossos hábitos e ações, visto que um ato convém ao homem, outro à mulher. Por isso o apóstolo, como intérprete da lei, diz: "Que vossas mulheres guardem silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar, mas sim estarem sujeitas, como também diz a lei. Se, porém, quiserem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos." E a Timóteo diz: "Aprenda a mulher em silêncio, com toda submissão. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem exerça domínio sobre o homem." Quão disforme é que o homem aja como mulher! Cartas
Disse-se, além disso, que não era bom que o homem estivesse só. Sabemos, contudo, que Adão não cometeu pecado antes de a mulher ser criada. Todavia, depois da criação, foi ela a primeira a desobedecer ao mandamento divino, e ainda seduziu seu marido ao pecado. Se, pois, a mulher é responsável pelo pecado, como poderá então sua vinda ser considerada um bem? Mas, se considerares que o universo está aos cuidados de Deus, então descobrirás este fato, a saber, que o Senhor há de ter obtido para Si maior prazer em ser responsável por toda a criação do que condenação de nossa parte por fornecer o fundamento do pecado. Assim, declarou o Senhor que não era bom que o homem estivesse só, porque o gênero humano não poderia ter-se propagado do homem sozinho... Por causa, pois, das gerações sucessivas dos homens, seguiu-se que a mulher devia ser unida ao homem. Assim devemos interpretar as próprias palavras de Deus quando disse que não era bom que o homem estivesse só. Se a mulher havia de ser a primeira a pecar, o fato de ser ela a destinada a trazer a redenção não deve ser excluído das operações da divina Providência. Ainda que "Adão não foi enganado; a mulher, sendo enganada, incorreu em transgressão". Contudo, dizem-nos que a mulher "será salva pela maternidade", no curso da qual Cristo veio a nascer de mulher.
Por isso o apóstolo estabeleceu a lei, dizendo: "Se alguém é irrepreensível, marido de uma só mulher." Quem, pois, é irrepreensível, marido de uma só mulher, está incluído entre aqueles que a lei considera qualificados para o sacerdócio; mas aquele que contraiu segundas núpcias não tem a culpa da mácula, ainda que seja desqualificado do privilégio do sacerdócio.
Assim, pois, como diz a Escritura, Jacó enriqueceu-se por tais meios e criou para Cristo um rebanho excelentíssimo. Aperfeiçoou-o com o título da fé e com a diversidade das virtudes, marcas de um nome glorioso. E não se considerava pobre, pois era rico com a riqueza da fé…. E não é de admirar que Jacó possuísse a paz, pois havia erigido uma coluna e a ungido a Deus, e essa coluna é a Igreja. A essa coluna Paulo chama "baluarte da verdade". Unge-a aquele que derrama sobre Cristo o unguento da fé e sobre os pobres o da compaixão.
Quanto a mim, na verdade, quisera eu que tivessem vontade de ouvir, que pudessem crer — de ouvir com verdadeiro amor e mansidão, como homens que buscam o que é verdadeiro e não atacam toda verdade. Pois está escrito que não devemos dar ouvidos a "fábulas intermináveis e genealogias, que antes suscitam disputas do que promovem a edificação piedosa, que está na fé. Mas o fim do preceito é o amor que procede de coração puro, e de boa consciência, e de fé não fingida, de onde alguns, desviando-se, se entregaram a vãs palavras. Pois querem ser doutores da lei, não entendendo nem o que dizem, nem o que afirmam com tanta segurança." Em outro lugar, também o mesmo apóstolo diz: "Evita as questões loucas e ignorantes." A tais homens, que semeiam disputas — isto é, os hereges —, o apóstolo nos ordena que deixemos. Deles diz ainda em outro lugar que "alguns se apartarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios." –.
Alguns, de fato, o colocam assim: "Inclina meu coração aos Teus testemunhos, e não ao que é útil." A referência é àquela espécie de utilidade que sempre está à espreita de fazer ganhos nos negócios, e que foi inclinada e desviada pelos costumes dos homens para a busca do dinheiro. Pois, em regra, a maioria dos homens chama de útil apenas aquilo que é lucrativo, mas nós falamos daquela espécie de utilidade que se busca na perda terrena "para que ganhemos a Cristo", cujo ganho é "a piedade com contentamento". Grande é também o ganho pelo qual alcançamos a piedade, que é rica em Deus, não em riquezas fugazes, mas em dons eternos, e na qual não repousa provação incerta, mas graça constante e sem fim. Há, portanto, uma utilidade ligada ao corpo, e também outra que diz respeito à piedade, segundo a divisão do apóstolo: "O exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa."
Assim, pois, a viúva não se distingue apenas pela abstinência corporal, mas se assinala pela virtude. Não sou eu quem dá este preceito, mas o apóstolo. Não sou eu o único a lhes prestar honra, mas o doutor dos gentios o fez primeiro, quando disse: "Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas. Mas, se alguma viúva tiver filhos ou netos, aprenda ela primeiro a governar a própria casa e a retribuir aos pais o devido cuidado." Assim, animamos toda inclinação de afeto na viúva, para que ame seus filhos e cumpra seu dever para com os pais. De modo que, ao desincumbir-se do dever para com os pais, ela ensina a seus filhos e é ela mesma recompensada por seu próprio cumprimento do dever, pois o que realiza em favor de outros a beneficia a si mesma.
E tu, ó viúva, encontra aqueles que hão de orar por ti. Se, como verdadeira viúva e desamparada, esperas em Deus, permanece constante nas súplicas. Persiste nas orações. Trata teu corpo como morrendo cada dia, para que, morrendo, possas de novo viver. Evita os prazeres, para que tu também, estando enferma, sejas curada.
Não é a idade avançada, por si só, que faz a viúva. Antes, as virtudes da viúva podem tornar-se os deveres da velhice. Pois é certamente mais inclinada à virtude aquela que reprime o calor da juventude e o ardor impetuoso da idade jovem, não cobiçando nem a ternura de um esposo nem os abundantes deleites dos filhos. Esta se eleva acima daquela que, já debilitada no corpo, fria pela idade, de anos maduros, já não pode inflamar-se com os prazeres nem esperar descendência.
Mas se é louvável ter a alma livre deste vício da avareza, quanto mais glorioso é conquistar o amor do povo pela liberalidade. Esta não deve ser mostrada com demasiada largueza aos que são inadequados, nem concedida com demasiada parcimônia aos necessitados... Há também outra espécie de liberalidade que o Apóstolo ensina: "Se alguma mulher fiel tem parentes que são viúvas, socorra-as. Não seja onerada a Igreja, para que possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas." Útil é, pois, a liberalidade desta espécie.
E não está a temperança em harmonia com a natureza e com aquela lei divina que, no princípio de todas as coisas, deu as fontes para bebida e os frutos das árvores para alimento? Depois do dilúvio, o varão justo encontrou no vinho uma fonte de tentação para si. Usemos, pois, do alimento natural da temperança, e oxalá todos nós o pudéssemos fazer! Mas, porque nem todos são fortes, diz por isso o apóstolo: "Usa de um pouco de vinho por causa das tuas frequentes enfermidades." Devemos bebê-lo não para nosso prazer, mas para nossa enfermidade, parcamente como remédio, não excessivamente como deleite.
Quão feliz é o homem que pôde cortar pela raiz os vícios, a avareza. Certamente este não temerá esta balança. A avareza costuma embotar os sentidos dos homens e corromper seus juízos, de modo que reputam a piedade como ganho, e o dinheiro como uma espécie de recompensa da sagacidade. Mas grande é a recompensa da piedade e a aquisição da sobriedade. A posse destas virtudes é suficiente.
Por isso diz o homem de bom conselho: "Aprendi a contentar-me com o estado em que me encontro." Pois sabia que a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Por isso se contentava com o que tinha, sem buscar o que era de outrem. Basta-me, diz ele, o que tenho. Quer tenha pouco, quer tenha muito, para mim é muito.
Que a piedade te mova à justiça, à continência, à mansidão, a fim de que evites os atos pueris, e que, arraigado e fundado na graça, combatas o bom combate da fé. Não te enredes nos negócios desta vida, pois combates por Deus. Com efeito, quem milita pelo imperador é proibido pelas leis humanas de se ocupar de litígios, ou tratar de negócios legais, ou vender mercadorias. Quanto mais convém que aquele que se alista na milícia da fé se aparte de toda espécie de negócio. Contente-se ele com os frutos do seu pequeno lote de terra, se o possuir. Se não o possuir, contente-se com a paga que receberá por seu serviço.
Quando falo do Pai, não separo o Filho, porque o Filho está no seio e na solidão do Pai. Quando falo do Filho a sós, associo também o Pai, assim como o Filho também O associou, dizendo: "Eis que vem a hora em que me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo." Deste modo é o Pai chamado "o bem-aventurado e único Soberano" — de tal maneira que o Filho, que está sempre no Pai, não é dEle separado.
Não haveria propósito no mundo se ele não fosse visto. Com efeito, o próprio Deus estava na luz, porque Ele "habita numa luz inacessível", e Ele "era a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo". Mas Ele quer que a luz seja tal que possa ser percebida por olhos mortais. Aquele que deseja erigir uma casa como habitação conveniente para o cabeça de família determina primeiro como ela poderá receber luz em abundância, antes de lançar os alicerces. Este é o primeiro requisito. Se este faltar, toda a casa fica sem beleza e inabitável. É a luz que realça os demais objetos belos na casa.
Como poderia o Filho não possuir a imortalidade, Ele que tem a vida em si mesmo? Ele a possui por natureza. Ele a possui em seu Ser essencial. Deus a possui não como uma graça temporal, mas em razão de sua eterna Divindade. Ele a possui não à maneira de um dom, como um servo, mas por direito peculiar de sua geração, como o Filho coeterno. Ele tem a vida do mesmo modo que o Pai tem a vida.
De novo, isto é dito para que saibais que o Pai é, e o Filho é, e que a obra do Pai e do Filho é uma só. Notai o dito do apóstolo: “Que o próprio Deus, e nosso Pai, e nosso Senhor Jesus Cristo dirijam o nosso caminho até vós.” Nomeiam-se tanto o Pai quanto o Filho, mas há unidade de direção, porque há unidade de poder. Assim também lemos em outro lugar: “Que o próprio Senhor nosso, Jesus Cristo, e Deus, nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança pela graça, console e fortaleça vossos corações.” Quão perfeita é a unidade que o apóstolo nos apresenta, de sorte que a fonte da consolação é uma só fonte, e não muitas. Cale-se, pois, a dúvida, ou, se não se deixar vencer pela razão, que o pensamento da bondade graciosa de nosso Senhor a incline para o caminho reto.
Admoestai, pois, o povo do Senhor, e rogai-lhe que se multiplique em boas obras, que renuncie ao vício, que não acenda os fogos da paixão — não direi apenas no sábado, mas em toda estação. Que não destruam os seus corpos. Que não haja imoralidade nem impureza nos servos de Deus, porque somos servos do Filho imaculado de Deus. Que cada um se conheça a si mesmo e possua o seu vaso, e, uma vez lavrado o solo do corpo, que aguarde o fruto no tempo devido. Que a sua mão não cultive espinhos e abrolhos. Antes, que ele também diga: "A nossa terra deu o seu fruto", e que, nas paixões corporais que outrora poderiam ser vistas como espessos e selvagens bosques, se veja agora a ordem tranquila das virtudes enxertadas em cada árvore.
Mas se novamente me lembrardes vossa dor por ele haver partido tão cedo desta vida, certamente não nego que morreu em idade prematura, ele a quem quiséramos sustentar com tempo tomado de nossa própria vida, para que vivesse dos nossos próprios anos aquele que não pôde completar os seus. Mas pergunto se há ou não alguma consciência depois da morte? Se há, ele está vivo; não, antes, porque há, ele agora goza da vida eterna. Pois como não possuiria consciência aquele cuja alma vive e floresce, e há de retornar ao corpo, e fará viver de novo aquele corpo quando a ele se reunir? Clama o apóstolo: "Não queremos, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem, para que não vos entristeçais, como também os demais, que não têm esperança. Pois cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também, com Ele, Deus trará os que dormiram por meio de Jesus." A vida, portanto, os espera, a eles a quem espera a ressurreição.
Todos os homens ressuscitarão, mas ninguém se desanime, nem o justo se aflija com a sorte comum da ressurreição, uma vez que aguarda o fruto principal de sua virtude. Todos, na verdade, ressuscitarão, mas, como diz o apóstolo, "cada um em sua própria ordem". O fruto da misericórdia divina é comum a todos, mas a ordem do mérito difere. O dia dá luz a todos, o sol aquece a todos, a chuva fertiliza com flores amenas as posses de todos. Todos nascemos, e todos ressuscitaremos. Mas cada um estará em seu próprio estado, seja de viver, seja de reviver, pois a graça difere e a condição difere.... Ele é, pois, despertado para que viva, para que seja semelhante a Paulo, para que possa dizer: "Pois nós, os que estamos vivos, não precederemos os que dormem." Fala ele aqui não do modo comum de vida e do sopro de que todos igualmente agora desfrutamos, mas do mérito futuro da ressurreição.
Pois, na verdade, a morte não era parte necessária da operação divina, visto que, para aqueles que estavam postos no paraíso, uma contínua sucessão de todos os bens manava sem cessar. Por causa da transgressão, porém, a vida humana, condenada a um labor prolongado, começou a ser miserável com gemidos intoleráveis. Assim, era conveniente que se pusesse um termo aos males e que a morte restituísse o que a vida havia perdido. Pois a imortalidade, a menos que a graça sobre ela sopre, seria antes um fardo que uma vantagem. E, se se considerar com exatidão, não é a morte do nosso ser, mas do mal, pois o ser permanece, mas é o mal que perece.... Assim, ou pagaremos a pena de nossos pecados, ou alcançaremos a recompensa de nossas boas obras. Pois o mesmo ser há de ressuscitar, agora mais honrosamente por ter pago o tributo da morte. E então "os mortos que estão em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estamos vivos, seguiremos", diz-se, "e juntamente com eles seremos arrebatados nas nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor."
Havemos, pois, de pensar nos dias de festa em termos de comer e beber? Pelo contrário, que ninguém nos julgue quanto ao comer, "pois sabemos que a lei é espiritual." "Que ninguém, portanto, vos julgue pelo que comeis ou bebeis, ou a respeito de festa, ou de lua nova, ou de sábado. Estas coisas são sombra do que há de vir, mas o corpo é de Cristo." Busquemos, pois, o corpo de Cristo, que é a voz do Pai desde o céu, como que a última trombeta, mostrada a vós naquela ocasião em que os judeus disseram que trovejara para ele. Busquemos, repito, o corpo de Cristo, que a última trombeta há de nos revelar, "pois o próprio Senhor, com brado de comando, com voz de arcanjo e com trombeta de Deus, descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro."
Sobre este assunto diz o Senhor: "Quando entrardes na terra para a qual vos conduzo, e quando comerdes do fruto da terra, apresentareis uma oferta ao Senhor. Quando separardes as primícias das vossas eiras, dareis também as primícias da vossa massa ao Senhor". Somos um composto de diversos elementos misturados entre si, o frio com o quente, e o úmido com o seco. Desta mistura provêm muitos prazeres e múltiplas delícias da carne. Mas estas não são as primícias deste nosso corpo. Visto que somos compostos de alma, corpo e espírito, o primeiro lugar é ocupado por aquela mistura na qual o apóstolo deseja que encontremos a santificação. "E o próprio Deus da paz vos santifique inteiramente, e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros, irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo".
Portanto, recebestes dos sacramentos... Porque fostes batizados em nome da Trindade, em tudo quanto fizemos foi preservado o mistério da Trindade. Em toda parte o Pai, o Filho e o Espírito Santo, uma só operação, uma só santificação... Como? Deus, que vos ungiu, e o Senhor vos selou e colocou o Espírito Santo em vosso coração. Portanto, recebestes o Espírito Santo em vosso coração.
Mas tendo diante de nós a Palavra de Deus, somos capazes de formular juízos sobre o que é bom e o que é mau. De uma delas naturalmente compreendemos que devemos evitá-la como má, e da outra compreendemos que nos foi recomendada como boa. Neste particular, parece que ouvimos a própria voz do Senhor, pela qual algumas coisas são proibidas e outras aconselhadas. Se alguém não se conforma aos preceitos que se crê terem sido outrora ordenados por Deus, é tido por sujeito a castigo. Os mandamentos de Deus estão impressos em nossos corações pelo Espírito do Deus vivo. Não lemos estes mandamentos como se estivessem gravados a tinta em tábua de pedra. Daí que, em nosso próprio pensamento, formulamos uma lei... Há, pois, algo semelhante à lei de Deus que existe nos corações dos homens.
Por este dedo, como lemos, Deus escreveu nas tábuas de pedra que Moisés recebeu. Pois não foi com dedo de carne que Deus fez as formas e elementos daquelas letras que lemos; por seu Espírito Ele deu a lei. E assim disse o apóstolo: "Pois a lei é espiritual, a qual, na verdade, não está escrita com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas carnais do coração." Pois, se a letra do apóstolo é escrita no Espírito, que impede que sejamos obrigados a crer que a lei de Deus foi escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus, o qual certamente não mancha os segredos de nosso coração e mente, mas os ilumina? O Espírito Santo.
Com razão, pois, diz Paulo que "a letra mata, mas o espírito vivifica". A letra circuncidava uma pequena parte do corpo, mas o espírito que compreende guarda a circuncisão de toda a alma e do corpo, de modo que a castidade se preserve, a frugalidade se ame e as partes desnecessárias se cortem (pois nada é tão desnecessário quanto os vícios da avareza, os pecados da luxúria, os quais não pertenciam à natureza, mas que o pecado causou). A circuncisão corporal é o símbolo, mas a realidade é a circuncisão espiritual; uma corta um membro, a outra o pecado. Carta, A Clementiano.
Além disso, que maravilha há em que o Espírito opere a vida, Ele que dá vida como o Pai, que dá vida como o Filho? Além disso, quem negaria que dar vida pertence à eterna Majestade?... Vejamos, pois, se o Espírito é vivificado, ou se Ele mesmo vivifica. Ora, está escrito: "A letra mata, mas o Espírito vivifica." Logo, o Espírito dá vida. Mas, para que entendas que a vivificação do Pai, do Filho e do Espírito Santo não é dividida, aprende que há também uma unidade de vivificação, pois o próprio Deus vivifica por meio do Espírito; pois disse Paulo: "Aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos também vivificará os vossos corpos mortais, por causa do seu Espírito que habita em vós."
Assim como as crianças, assim também os judeus estão sob um pedagogo. A lei é o nosso pedagogo; um pedagogo nos conduz ao mestre; Cristo é o nosso único mestre... Um pedagogo é temido; o mestre indica o caminho da salvação. O temor nos conduz à liberdade, a liberdade à fé, a fé ao amor, o amor obtém a adoção, a adoção uma herança. Portanto, onde há fé, há liberdade, pois o escravo age por temor, o homem livre por fé. Um está sob a letra, o outro sob a graça; um na escravidão, o outro no espírito, pois "onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade".
O mesmo, pois, é o Senhor, que é o Espírito do Senhor; isto é, chamou ao Espírito do Senhor "Senhor", assim como também o apóstolo diz: "Ora, o Senhor é espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade." Tens, pois, o Senhor também chamado Espírito Santo; pois o Espírito Santo e o Filho não são uma só pessoa, mas uma só substância.
Mas negará alguém que a Divindade da Trindade eterna deva ser adorada, quando as próprias Escrituras expõem a majestade inexplicável da divina Trindade, como diz o Apóstolo em outro lugar: «Pois o Deus que ordenou que a luz brilhasse das trevas resplandeceu em nossos corações, para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo Jesus»? ... Quem é, pois, Aquele que resplandeceu para que conhecêssemos a Deus na face de Cristo Jesus? Pois disse: «Deus resplandeceu», para que a glória de Deus se tornasse conhecida na face de Jesus Cristo. Quem mais havemos de crer senão o Espírito, que se manifestou? Ou quem mais é senão o Espírito Santo, a quem se atribui o poder da Divindade? Pois os que excluem o Espírito hão de introduzir outro para receber, juntamente com o Pai e o Filho, a glória da Divindade.
Mas se te ateres à letra, a ponto de pensar, a partir do que está escrito, a saber, o Verbo se fez carne, que o Verbo de Deus se converteu em carne, não negarás porventura o que está escrito do Senhor, que Ele não fez o pecado, mas foi feito pecado? Converteu-se, pois, o Senhor em pecado? De modo algum; mas, porquanto assumiu os nossos pecados, é chamado pecado. Pois o Senhor é também chamado maldição, não porque o Senhor se convertesse em maldição, mas porque Ele mesmo tomou sobre si a nossa maldição. Diz a Escritura: "Pois maldito é todo aquele que é pendurado no madeiro." ... Está escrito que foi feito pecado, isto é, não pela natureza e operação do pecado ...; mas para que pudesse crucificar em sua carne o nosso pecado, assumiu por nós o peso das enfermidades de um corpo já culpado do pecado carnal.
Ensina-nos, pois, Paulo, que aquela espécie de tristeza tem valor que não tem por fim este mundo, mas Deus. É justo, diz ele, que vos entristeçais, de modo a sentir arrependimento diante de Deus… Notai aqueles que, no Antigo Testamento, se entristeceram no meio dos seus trabalhos corporais e alcançaram a graça, ao passo que os que se deleitaram em tais prazeres continuaram a ser punidos. Assim os hebreus, que gemiam nas obras do Egito, alcançaram a graça dos justos, e aqueles "que comeram pão com pranto e temor" foram providos de bem espiritual.
Que é o mundo senão uma arena repleta de combates? Por isso o Senhor diz no Apocalipse: "Ao vencedor darei a coroa da vida", e Paulo diz: "Combati o bom combate", e em outro lugar: "Ninguém é coroado se não tiver competido segundo as regras." Aquele que instituiu o combate é, na verdade, o Deus onipotente. Quando alguém institui um combate neste mundo, acaso não prepara tudo o que é necessário para o combate, e somente depois de ter preparado as coroas para os prêmios chama aqueles que hão de disputar a coroa, de modo que o vencedor não encontre demora, mas parta logo após lhe ser dado o seu prêmio? Os prêmios do homem são os frutos da terra e as luzes do céu. Aqueles são para o seu uso na vida presente; estas, para a sua esperança da vida eterna. Como um atleta, pois, ele entra por último na arena.... É Ele quem dirige o golpe, é Cristo quem fere; ele ergue o calcanhar, Cristo o dirige à ferida.... Ao pregar a Cristo, ele desfere feridas em todos aqueles males espirituais que são seus inimigos. Não sem merecimento, pois, o homem entra por último no estádio, e uma coroa lhe é preparada, de modo que o céu vá diante dele como sendo o seu prêmio.
Por esta razão também se diz à alma: "Tua juventude se renovará como a da águia." Pois o salmista falou à alma e disse: "Bendize ao Senhor, ó minha alma." E, portanto, a alma apressa-se ao Verbo e pede que seja atraída a Ele, para que não fique, porventura, para trás, pois "o Verbo de Deus corre e não está preso." Isaac, ou a Alma
Diz o apóstolo que também nós reinaremos juntamente com Cristo no reino de Cristo. "Se morremos com Ele, também com Ele viveremos; se perseveramos, também com Ele reinaremos." Mas nós por adoção, Ele por poder; nós vivemos pela graça, Ele pela natureza.
E se há aqui alguma perturbação, elevai o passo do vosso espírito às coisas que hão de vir, e descobrireis que os ímpios que julgáveis estar aqui não estarão lá. Pois aquele que é nada, não é. De fato, "o Senhor conhece os que são seus." Ele não reconhece os que não são, porque estes não reconheceram Aquele que É.
O Senhor considerou e conheceu quem eram os seus, e atraiu a si os seus santos. E aqueles a quem não escolheu, não os atraiu a si.
Assim, diz o apóstolo: "Que quereis? Que eu vá a vós com vara, ou com amor e espírito de mansidão?" Mencionou primeiro a vara, ferindo os que se haviam desviado como que com uma vara de amêndoa, para que depois os consolasse com o espírito de mansidão. Assim, o homem a quem a vara privou dos sacramentos celestiais foi restaurado pela mansidão. Semelhantes instruções deu também ao seu discípulo, dizendo: "Redargúi, exortai, repreendei", duas palavras severas e uma branda, mas severas somente para que pudesse suavizá-las. Aos corpos enfermos por excesso de fel, o alimento e a bebida amargos parecem doces, e, ao contrário, os pratos doces parecem amargos. Semelhantemente, quando a mente está ferida, adoece sob os cuidados de uma lisonja untuosa, e novamente se tempera pela amargura da correção.
Pois em um combate é necessário muito labor. Depois do combate, a uns cabe a vitória, a outros a ignomínia. Acaso se dá jamais a palma, ou se concede a coroa, antes de terminada a carreira? Bem escreve Paulo quando diz: "Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé; doravante me está reservada a coroa de justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.".
Enquanto aguardamos a plenitude do tempo, as almas aguardam a sua devida recompensa. Umas aguardam o castigo, outras a glória. E, contudo, entrementes, nem umas estão sem dano, nem outras sem ganho. Pois as primeiras se consternarão ao ver que a recompensa da glória foi reservada para os que guardam a lei de Deus, que as moradas dessas almas são preservadas pelos anjos, e que a vergonha e a ruína serão os castigos de sua negligência e rebeldia, de modo que hão de contemplar a glória do Altíssimo e corar de vergonha ao comparecer à sua vista, pois profanaram os seus mandamentos.
Pois, ao dizer eu que coisas semelhantes se escrevem do Filho como do Espírito, antes procedo ao ponto seguinte. Não afirmo que, porque algo se escreve do Filho, por isso pareça ter sido reverentemente escrito do Espírito Santo. Antes, contendo eu contra o argumento de que, porque o mesmo se escreve do Espírito, por isso se diminuiria a honra do Filho por causa do Espírito. Pois dizem eles: Não está isto escrito de Deus Pai? Mas aprendam eles que também se diz de Deus Pai: "No Senhor louvarei a palavra", e noutro lugar: "Em Deus faremos proezas", "Minha lembrança será sempre em Ti", e "Em teu nome nos alegraremos", e ainda em outro lugar: "Que suas obras se manifestem, que são operadas em Deus", e por Paulo: "Em Deus, que criou todas as coisas", e ainda: "Paulo, Silvano e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses, em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo". –.
Ouvimos que o Senhor Jesus não somente julga, mas também castiga no Espírito. Pois Ele não castigaria o Anticristo — a quem, como lemos, "o Senhor Jesus matará com o Espírito de sua boca" — se já não o tivesse julgado digno de castigo... mas a unidade da ação divina permanece indivisa, uma vez que Cristo não pode ser separado do Espírito, nem o Espírito agir à parte de Cristo. Pois a unidade da natureza divina não pode ser dividida.
Pois a santidade é uma graça do Espírito.
E também o Apóstolo ensina que o Espírito Santo santifica. Pois assim diz: "Devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados do Senhor; porque Deus vos escolheu como primícias para a salvação, na santificação do Espírito e na crença da verdade." Assim, portanto, o Pai santifica, o Filho também santifica, e o Espírito Santo santifica; mas a santificação é uma só, e a graça do sacramento é uma só. –.
A própria tradição, o ensinamento e a fé da Igreja Católica, desde o princípio, foram pregados pelos Apóstolos e preservados pelos Padres.
Isto é para que saibais que o Pai é, e o Filho é, e que a obra do Pai e do Filho é uma só.
Boa, na verdade, é a prudência, mas doce é a misericórdia. Poucos alcançam aquela, ao passo que esta chega a todos os homens. "Por causa de vossa benignidade, as almas renovadas no espírito Vos amam." Por isto se diz também à alma: "Tua juventude se renovará como a da águia." Pois o salmista falou à alma e disse: "Bendize ao Senhor, ó minha alma." E por isso a alma se apressa ao Verbo e pede que seja atraída a Ele, para que não fique, porventura, para trás, pois "o Verbo de Deus corre e não está preso." Isaac, ou A Alma
"derramarei do meu Espírito.": Ele não disse "meu Espírito", mas "do meu Espírito", pois não podemos receber a plenitude do Espírito Santo, mas recebemos tanto quanto o nosso Mestre reparte do que é seu, segundo a sua vontade.
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que Deus fez este mesmo Jesus: Não foi a Divindade, mas a carne, que foi crucificada. Isto, com efeito, era possível, porque a carne admitia ser crucificada. Não se segue, pois, que o Filho de Deus seja um ser criado.
Assim, não deu dinheiro, mas deu saúde. Quanto melhor é ter saúde sem dinheiro do que dinheiro sem saúde! O coxo se levantou; ele não esperava isso: não recebeu dinheiro, ainda que isso esperasse. Mas dificilmente se hão de encontrar riquezas entre os santos do Senhor, de sorte que se tornem para eles objeto de desprezo.
Não mentiste aos homens, mas a Deus: Primeiramente, compreendemos que ele chamou o Espírito Santo de Espírito do Senhor (vv. 3;9). Em seguida, uma vez que mencionou primeiro o Espírito Santo e acrescentou: "Não mentiste aos homens, mas a Deus", é necessário ou que compreendas a unidade da Divindade no Espírito Santo, visto que, quando o Espírito Santo é tentado, mente-se a Deus; ou, se te esforças por excluir a unidade da Divindade, tu mesmo, segundo as palavras da Escritura, certamente crês que Ele é Deus.
Então Ananias, ao ouvir estas palavras, caiu e expirou: Também aqui se deve entender que é o começo do ensino, e que estes se atreveram sobremaneira ao tentar pôr à prova o Espírito Santo. E o castigo deles se tornou grande auxílio para os demais irmãos. Pois foram instruídos e ensinados de que não se deve ousar coisas contra o Espírito Santo, nem tentar pô-lo à prova.
Que coisa, pois, é mais divina do que a operação do Espírito Santo, visto que o próprio Deus testifica que o Espírito Santo preside sobre suas bênçãos?... Pois nenhuma bênção pode ser plena senão pela inspiração do Espírito Santo. Por isso mesmo, também, o apóstolo nada achou melhor a desejar-nos do que isto, como ele próprio disse: “Não cessamos de orar e suplicar por vós, para que sejais cheios do conhecimento de Sua vontade, em toda sabedoria e entendimento espiritual, andando de modo digno de Deus.” Ensinou que esta era a vontade de Deus: que, andando em boas obras, palavras e afetos, fôssemos cheios da vontade de Deus, que põe Seu Espírito Santo em nossos corações.
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Diz o Apóstolo que Cristo é a imagem do Pai — pois O chama de imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Primogênito, observai bem, não primeiro criado, a fim de que se creia que Ele é, ao mesmo tempo, gerado, em virtude de Sua natureza, e o primeiro, em virtude de Sua eternidade.
Sê semelhante à imagem cunhada na moeda, imutável, conservando os mesmos hábitos todos os dias. Quando vires a moeda, vê a imagem; quando vires a lei, vê a Cristo, imagem de Deus, na lei. E porque Ele mesmo é a imagem do Deus invisível e incorruptível, que Ele resplandeça para ti como no espelho da lei. Confessa-O na lei, para que O reconheças no evangelho.
Se, pois, o Filho não é gerado dentro dos limites do tempo, somos livres para julgar que nada pode ter existido antes do Filho, cujo ser não está confinado pelo tempo. Se, com efeito, algo existisse antes do Filho, segue-se imediatamente que nem todas as coisas no céu e na terra foram criadas nele, e mostrar-se-ia que o apóstolo errou ao assim consigná-lo em sua epístola. Todavia, se nada existia antes de Ele ser gerado, não vejo como Aquele que foi gerado antes de todas as coisas possa ser dito posterior a qualquer outra coisa.
Assim, pois, aquele mesmo que chama o Filho de Deus de artífice ainda das coisas celestiais também afirmou claramente que todas as coisas foram feitas no Filho, para que, na renovação de suas obras, de modo algum separasse o Filho do Pai, mas antes O unisse ao Pai. Paulo, também, diz: "Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis."
Chegamos agora a esse método risível, tentado por alguns, de mostrar que subsiste uma diferença de poder entre o Pai e o Filho.... Argumenta-se que não pequena diferença de grau na majestade divina é significada na afirmação de que todas as coisas são "do" Pai e "por meio d"o Filho. Ao passo que nada há mais claro do que o fato de que aqui se dá uma razão evidente da onipotência do Filho, na medida em que, embora todas as coisas sejam "do" Pai, todas elas são não obstante "por meio d"o Filho. O Pai não está "entre" todas as coisas, pois dele se confessa que "todas as coisas te servem". Tampouco o Filho é contado "entre" todas as coisas, pois "todas as coisas foram feitas por ele", e "todas as coisas subsistem juntas nele, e ele está acima de todos os céus". O Filho, portanto, não existe "entre", mas acima de todas as coisas. De fato, segundo a carne, ele é do povo, dos judeus. Contudo, ao mesmo tempo, ele é Deus sobre todas as coisas, bendito para sempre, tendo um nome que está acima de todo nome, dizendo-se dele: "Puseste todas as coisas em sujeição debaixo de seus pés."
No que concerne, pois, à sua Divindade, o Filho de Deus possui de tal modo sua própria glória que a glória do Pai e do Filho é uma só: não é, portanto, inferior em esplendor, pois a glória é uma, nem inferior na Divindade, pois a plenitude da Divindade está em Cristo.
Considerando, ó Majestade, a razão pela qual tantos até agora se desviaram, ou pela qual muitos — ai de nós! — seguem diversos caminhos de crença acerca do Filho de Deus, o espanto não parece estar de modo algum em que o conhecimento humano tenha se visto confundido ao tratar de coisas sobre-humanas, mas em que ele não se tenha submetido à autoridade das Escrituras. Que razão há, com efeito, para admirar-se de que, por sua sabedoria mundana, os homens não tenham conseguido compreender o mistério de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento — mistério esse do qual nem mesmo os anjos puderam obter conhecimento, senão por revelação? Da Fé Cristã.
A lei demonstrou a unidade de Deus. Fala de um só Deus, como também o apóstolo quando diz de Cristo: "Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." Pois se, como diz o apóstolo, toda a plenitude da divindade habita corporalmente em Cristo, deve-se então confessar que o Pai e o Filho são de uma só divindade. Ou, se alguém quisesse separar a divindade do Filho da divindade do Pai, enquanto o Filho possui toda a plenitude da divindade corporalmente, o que mais se supõe estar reservado, visto que nada resta além da plenitude da perfeição? Portanto, a divindade é uma só.
Por isso, o Senhor permitiu que a mortalidade se insinuasse [como expiação], para que a culpa cessasse. Mas, para que o termo estabelecido pela natureza não estivesse também na morte, foi concedida a ressurreição dos mortos, a fim de que a culpa perecesse pela morte, mas a natureza se prolongasse pela ressurreição. Assim, a morte é uma passagem para todos os homens, mas é preciso que a passeis com virtuosa firmeza — uma passagem da corrupção para a incorruptibilidade, da mortalidade para a imortalidade, da inquietação para a tranquilidade…. Que é, com efeito, esta morte, senão o sepultamento dos vícios e o despertar das virtudes? Por isso, «que minha alma parta entre as almas dos justos», isto é, «que seja sepultada juntamente com eles», para que deponha os seus pecados e assuma a graça dos justos, os quais «trazem em seu corpo» e em sua alma «a morte de Cristo».
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Também é claro que, naquele que é batizado, o Filho de Deus é crucificado. Com efeito, nossa carne não poderia eliminar o pecado, a menos que fosse crucificada em Jesus Cristo…. E aos Colossenses diz: «Sepultados com ele pelo batismo, no qual também ressuscitastes com ele». Isto foi escrito com a intenção de que creiamos que ele é crucificado em nós, para que nossos pecados sejam purgados por meio dele, para que ele, que só ele pode perdoar os pecados, pregasse em sua cruz o quirógrafo que era contrário a nós.
Mas Cristo foi vendido porque tomou sobre si a nossa condição, não os nossos próprios pecados; Ele não está sujeito ao preço do pecado, porque Ele mesmo não cometeu pecado. E assim celebrou um contrato, por um preço, para a nossa dívida, não por dinheiro para si mesmo; tirou a cédula do devedor, afastou o usurário, libertou o devedor. Ele sozinho pagou o que era devido por todos. A nós não nos era permitido escapar da servidão. Ele mesmo o empreendeu em nosso favor, para que afugentasse a escravidão do mundo, restaurasse a liberdade do paraíso e concedesse nova graça mediante a honra que recebemos por sua participação em nossa natureza. Isto se diz a título de mistério.
Havemos, pois, de conceber os dias de festa em termos de comer e beber? Pelo contrário, que ninguém nos julgue quanto ao comer, "pois sabemos que a lei é espiritual." "Ninguém, portanto, vos julgue no comer ou no beber, ou a respeito de festa nova, ou de lua nova, ou de sábados. Estas coisas são sombra das que hão de vir, mas o corpo é de Cristo." Busquemos, pois, o corpo de Cristo, que a voz do Pai desde o céu, qual última trombeta, vos mostrou naquela ocasião em que os judeus disseram que trovejara por causa dEle.... Onde quer que esteja o corpo de Cristo, ali estará a verdade.
Com efeito, somos amiúde enganados pela vista, e vemos as coisas, na maior parte, diversas do que realmente são. Somos enganados também pelo ouvido. Assim, se não quisermos ser enganados, contemplemos não o que se vê, mas o que não se vê…. Por isso também o apóstolo clama: "Não toques, nem proves, nem manuseies", coisas que todas hão de perecer; pois as coisas que são para a indulgência do corpo são também para a sua corrupção.
Com o conhecimento do que Paulo vira e ouvira no paraíso, ele clamou dizendo: "Por que, como se ainda contemplásseis o mundo, estabeleceis preceitos: 'Não toques; nem manuseies; nem proves!'—coisas que todas hão de perecer pelo próprio uso!" Quis ele que estivéssemos no mundo em figura, não na posse e uso efetivos dele. Devemos usar o mundo como se não o usássemos, como que apenas de passagem, não nele residindo, atravessando-o como num sonho, não com desejo, a fim de que, com a rapidez do pensamento, pudéssemos atravessar a sombra deste mundo.
[Alguns] dizem que Paulo foi mestre de dissolução. Ora, quem será mestre de sobriedade, se ele ensinou a dissolução, pois castigava o seu corpo e o reduzia à servidão, e por muitos jejuns disse ter rendido o culto que é devido a Cristo? Fê-lo não para louvar-se a si mesmo e às suas obras, mas para ensinar-nos qual exemplo devemos seguir. Deu-nos ele instrução em dissolução quando disse: "'Não toques; nem manuseies; nem proves!' coisas que todas hão de perecer no seu uso"? E disse também que devemos viver "Não na indulgência do corpo, nem em nenhuma honra à satisfação e ao amor da carne, nem nas concupiscências do erro; mas no Espírito pelo qual somos renovados."
Devemos, pois, estar cientes de que, onde Deus plantou a árvore da vida, ali também plantou uma árvore do conhecimento do bem e do mal, no meio do paraíso. Entende-se que a plantou no meio. Portanto, no meio do paraíso havia tanto uma árvore da vida quanto uma causa de morte. Tenha-se em mente que o homem não criou a vida. Cumprindo e observando os preceitos de Deus, era possível ao homem encontrar a vida. Esta era a vida de que fala o apóstolo: "A vossa vida está escondida com Cristo em Deus". O homem, pois, estava, por assim dizer, ou na sombra da vida — porque nossa vida na terra não é senão uma sombra — ou tinha a vida, por assim dizer, como penhor, pois fora animado pelo sopro de Deus.
Pois este é o sentido da fuga: conhecer o próprio alvo, desonerar-se do mundo, desonerar-se do corpo... Este é o sentido de fugir daqui — morrer para os elementos deste mundo, esconder a própria vida em Deus, afastar-se das corrupções, não se macular com os objetos da concupiscência e ignorar as coisas deste mundo.
Assim, pois, como na cruz não foi a plenitude da Divindade, mas a nossa fraqueza, que foi posta em sujeição, assim também o Filho, doravante, se fará sujeito ao Pai na sua participação em nossa natureza. Isto se dá para que, sendo subjugadas as concupiscências da carne, o coração não tenha cuidado com as riquezas, nem com a ambição, nem com os prazeres. A intenção é que Deus seja tudo para nós, se vivermos segundo a sua imagem e semelhança, tanto quanto possamos alcançá-la, através de todas as coisas. O benefício, pois, passou do indivíduo para a comunidade; pois em sua carne domesticou Ele a natureza de toda a carne humana… Portanto, “despojando-vos de todas estas coisas”, isto é, daquelas de que lemos: “ira, malícia, blasfêmia, comunicação torpe”; como diz também mais abaixo: “Despojando-nos do velho homem com os seus feitos, revistamo-nos do novo homem, que se renova em conhecimento segundo a imagem daquele que o criou.”
Temos aqui a mensagem das Escrituras que declara: "Filhos, amai a vossos pais; pais, não provoqueis à ira a vossos filhos." A natureza implantou nos animais o instinto de amar a sua própria prole e estimar a sua própria descendência. Mas os animais nada sabem de parentescos por afinidade. Entre eles, os pais não se tornam estranhos à sua prole pelo ato de mudar de parceiro. Nada sabem de preferências concedidas aos filhos de uma união posterior, em detrimento dos de um matrimônio anterior. Têm consciência do valor de seus penhores e desconhecem distinções quanto ao amor, aos estímulos devidos ao ódio e às discriminações em atos que envolvem injustiça. As criaturas selvagens têm uma natureza simples, que não se ocupa da perversão da verdade. E assim o Senhor ordenou que aquelas criaturas às quais concedeu o mínimo de razão fossem dotadas do máximo de sentimento.
Não confies nos teus próprios esforços, mas na graça de Cristo. "Sois", diz o apóstolo, "salvos pela graça." Portanto, não se trata aqui de arrogância, mas de fé, quando celebramos: Fomos aceitos! Isto não é soberba, mas devoção.
Há muitas espécies de batismo, mas «um só batismo» é o clamor do apóstolo. Por quê? Há, entre os descrentes, os assim chamados batismos, mas não são batismos. São abluções, mas não podem ser batismos.
Aquele que está ébrio de vinho vacila e tropeça. Mas aquele que está repleto do Espírito tem assento firme em Cristo. Esta é uma bela embriaguez, que produz maior sobriedade da mente.
Quantos senhores tem aquele que foge do único Senhor! Mas nós não fujamos dele. Quem fugirá daquele a quem seguem acorrentados — mas com correntes voluntárias, que soltam e não prendem? Aqueles que estão presos com estas correntes gloriam-se e dizem: "Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus, e Timóteo." Mais glorioso nos é sermos presos por ele do que sermos libertados e soltos por outros.
Ele desejou que Filêmon imitasse não a sua juventude, mas a sua velhice. (Sobre José)
Parece que, para ele, a morte seria proveitosa, e a vida seria antes uma penalidade. Por isso diz Paulo: “para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.” A morte do corpo não é nada diante do espírito de vida. Assim também nós estamos prontos para morrer com Cristo, a fim de que vivamos com Ele.
Que significa esta partida senão a dissolução e o torpor do corpo, enquanto a alma, por sua vez, se volta para o seu repouso e se faz livre, se for fiel, "para estar com Cristo"? Sobre o Benefício da Morte
Dele viemos, por seu próprio poder fomos criados, e a Ele voltamos. "Assim, é muito melhor estar com Cristo."
Lera que Abraão, ao confessar-se refugo e cinza, encontrou a graça de Deus em sua extrema humildade. Lera que Jó, sentado sobre seu monturo, recuperou todas as suas perdas. Lera, na profecia de Davi, que «Deus levanta o necessitado da terra e o pobre do monturo».
Isto significa: "Não eu, que outrora comi da terra [como Adão]. Não eu, que outrora fui erva, como toda carne é erva, mas Cristo, que vive em mim. Isto é, ali vive aquele pão vivo que desce do céu, ali vive a sabedoria, ali vive a justiça, ali vive a ressurreição."
Diz "Seu Filho", não um dentre muitos, não "um filho", mas o Seu próprio. Quando diz "o Seu próprio", confirma que Ele possui a propriedade da geração eterna. Este é aquele a quem, em seguida, declara ter nascido de mulher, de modo a atribuir o fato de nascer não à Divindade, mas ao corpo assumido. Foi feito de mulher ao assumir a carne, e feito sob a lei ao observar a lei. Mas aquele Seu nascimento celestial é anterior à lei, ao passo que a encarnação sucede depois.
Maria, mãe do Senhor, estava diante da cruz de seu Filho. Ninguém me ensinou isto senão São João Evangelista. Outros escreveram que o mundo estremeceu na paixão do Senhor, que o céu foi coberto de trevas, que o sol escondeu-se, que o ladrão foi recebido no Paraíso após sua pia confissão. João ensinou o que os outros não ensinaram: como, estando na cruz, chamou sua mãe. Considerou mais importante que, vencedor dos suplícios, manifestasse os deveres de piedade à sua mãe, do que o fato de ser doado o reino celestial para a vida eterna. Pois se é piedoso que ao ladrão seja concedida a vida, muito mais abundante piedade é que a mãe seja honrada pelo filho com tanto afeto: eis, disse, teu filho. Eis tua mãe. Testava Cristo desde a cruz, e entre a mãe e o discípulo dividia os deveres de piedade. O Senhor estabelecia não somente um testamento público, mas também doméstico. E este testamento seu era selado por João, testemunha digna de tão grande testador. Bom testamento, não de dinheiro, mas de vida eterna, que não foi escrito com tinta, mas com o espírito do Deus vivo: minha língua é a pena de um escriba que escreve velozmente. Nem Maria era menos digna do que convinha à mãe de Cristo: fugindo os apóstolos, permanecia diante da cruz e com piedosos olhos contemplava as feridas do filho, porque olhava não para a morte do seu penhor, mas para a salvação do mundo; ou talvez porque, tendo conhecido pela morte do Filho a redenção do mundo, pensava que também ela, palácio real, com sua própria morte pudesse acrescentar algo ao benefício público; mas Jesus não necessitava de ajudador para a redenção de todos, Ele que a todos salvou sem auxílio; donde também diz: fui feito homem sem ajuda, livre entre os mortos. Aceitou, de fato, o afeto de sua mãe, mas não buscou o auxílio de outrem. Imitai-a, mães santas, que em seu Filho único e dileto deu tão grande exemplo de virtude materna: pois nem vós tendes filhos mais doces, nem aquela virgem buscava consolo em poder gerar outro filho.
Por que, então, batizais, se não é lícito aos homens perdoar os pecados? No batismo, sem dúvida, perdoam-se todos os pecados. Que diferença faz se os sacerdotes exercem esse direito que lhes foi dado através do batismo ou através da penitência? O mistério é o mesmo. Mas tu dizes: «é a graça dos mistérios que opera no batismo». E o que opera na penitência? Não é o nome de Deus? […] Vede o que o Senhor diz: «Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados». Logo, quem o diz concede a ambos os sacramentos.
Santo Ambrósio, Sobre a Penitência I, 8, 36-38 (PL 16, 480).
Porque assim como muitos no povo judeu profetizaram por inspiração do Espírito Divino, mas outros eram falsos profetas em vez de profetas; assim também agora, no Novo Testamento, muitos tentaram escrever Evangelhos, os quais os bons cambistas não aprovaram: e menciona-se um Evangelho que dizem ter sido escrito pelos doze: também ousou Basílides escrever um Evangelho: menciona-se outro segundo São Tomás, e outro segundo São Matias.
Pois aquele que se esforçou para ordenar, esforçou-se com seu trabalho, mas não completou com seu esforço: pois sem esforço são as dádivas e a graça de Deus, que onde se derrama, costuma irrigar, para que o engenho do escritor não tenha necessidade, mas transborde; e por isso bem diz das coisas que foram completadas em nós, ou que em nós transbordam: porque aquilo que transborda, a ninguém falta, e do que está completo ninguém duvida, uma vez que o efeito confirma a fé, e o resultado a manifesta.
Esta expressão é usada, não para que suponhamos que o ministério da palavra consista mais em ver do que em ouvir; mas porque pela palavra não se significa uma palavra que possa ser pronunciada pela boca, mas uma que tem existência real, devemos entender que não foi uma palavra comum, mas um Verbo celestial, ao qual os Apóstolos serviram.
Não somente viram o Senhor segundo o corpo, mas também segundo o Verbo. Viram o Verbo aqueles que com Moisés e Elias viram a glória do Verbo; outros não viram, pois puderam ver somente o corpo.
Quando diz visum est et mihi (me pareceu), não nega que pareceu bem a Deus, pois é Deus quem prepara a vontade dos homens. E ninguém duvidaria que este livro do Evangelho é mais extenso do que os outros; e por isso ele reivindica para si não coisas falsas, mas verdadeiras; e por isso diz assecuto quidem omnia visum est scribere (tendo investigado tudo, me pareceu escrever): não todas as coisas, mas de todas as coisas; porque se todas as coisas que Jesus fez fossem escritas, penso que nem o próprio mundo as poderia conter. Deliberadamente, porém, omitiu o que já foi escrito por outros, para que cada um dos livros dos Evangelhos se destacasse por certos mistérios e milagres peculiares às suas obras.
A Divina Escritura nos ensina que, com relação àqueles que são dignos de comemoração, convém louvar não somente os costumes deles mesmos, mas também os de seus pais, a fim de que, como uma herança transmitida de imaculada pureza, sobressaia naqueles que queremos louvar. Portanto, a nobreza de São João propaga-se não apenas a partir de seus pais, mas também de seus antepassados, não elevada pelo poder secular, mas venerável pela sucessão religiosa. É, portanto, completo o louvor que compreende a linhagem, os costumes, o ofício, os feitos e o juízo. O ofício era o do Sacerdócio, de onde diz: "Um sacerdote de nome Zacarias".
Sua genealogia é revelada nos antepassados mencionados. Por isso segue: "Da família de Abias", isto é, de linhagem nobre entre as famílias mais distintas.
E assim compreende os costumes na equidade. Bem diz ante Deus. Pois pode acontecer que alguém, por uma bondade afetada e popular, pareça justo aos meus olhos, mas não seja justo diante de Deus, se a justiça não for formada pela simplicidade da mente, mas simulada pela adulação. Perfeito, portanto, é o louvor de ser justo diante de Deus: somente é mais perfeito aquele que é aprovado por Aquele que não pode ser enganado. No mandamento compreende a ação, na justificação o juízo. De onde segue caminhando em todos os mandamentos e justificações do Senhor. Pois quando obedecemos aos mandamentos celestes, caminhamos nos mandamentos do Senhor; quando julgamos convenientemente, parecemos observar as justificações do Senhor. Convém, porém, prover coisas boas não só diante de Deus, mas também diante dos homens. Por isso segue sem queixa. Pois não há queixa alguma onde a bondade da mente concorda com a do ato, e muitas vezes a justiça mais rigorosa dos homens suscita queixa.
Parece que aqui Zacarias é designado como sumo sacerdote, porque uma vez por ano somente o sumo sacerdote entrava no segundo santuário, não sem sangue, que ele oferecia por si mesmo e pelos delitos do povo.
Este, pois, é aquele sumo sacerdote que ainda talvez se busca por sorte, porque o verdadeiro ainda é ignorado: pois aquele que é escolhido por sorte não é compreendido pelo juízo humano. Aquele, portanto, era buscado, e outro era prefigurado, o verdadeiro sacerdote eterno, que não pelo sangue das vítimas, mas pelo seu próprio, reconciliaria Deus Pai com o gênero humano: e naquele tempo havia mudanças, mas agora há perpetuidade.
Bem se diz que um anjo apareceu a Zacarias, que o contemplou de repente; e isto especialmente a Escritura divina costuma manter sobre os anjos ou sobre Deus; para que aquilo que não pode ser previsto, seja dito aparecer. Pois não são vistos de forma semelhante os objetos sensíveis, e Aquele em cuja vontade está o ser visto, e cuja natureza é não ser visto.
Não sem razão o Anjo apareceu no templo, porque já se anunciava a vinda do verdadeiro Sacerdote, e se preparava o sacrifício celestial, no qual os Anjos ministrariam; pois não se deve duvidar que o Anjo esteja presente quando Cristo é imolado. Apareceu à direita do altar do incenso, porque trazia a insígnia da divina misericórdia: "o Senhor está à minha direita, para que eu não seja abalado".
Ou de outra maneira. Os benefícios divinos são sempre plenos e abundantes, não limitados a uma dádiva singular, mas acumulados em copiosa profusão de bens, como aqui, onde primeiro se promete o fruto da oração, depois o parto de uma esposa estéril; cujo nome anuncia acrescentando e chamarás seu nome João.
Mas um santo não é somente a graça dos pais, mas também a salvação de muitos; donde se segue: e muitos se alegrarão em seu nascimento. Somos advertidos neste lugar a nos alegrarmos na geração dos santos, e os pais são advertidos a dar graças: pois não é um dom medíocre de Deus dar filhos, propagadores da linhagem, herdeiros da sucessão.
Depois da alegria de muitos, promete-se a grandeza da virtude, quando se diz: será grande diante do Senhor. Não declarou a grandeza do corpo, mas a da alma: diante do Senhor, a grandeza da alma é a grandeza da virtude.
Por fim, ele não expandiu os limites de algum império, não obteve triunfos de combates guerreiros; mas, o que é ainda maior, pregando no deserto, com grande força de espírito reprimiu as delícias dos homens e a lascívia do corpo: donde segue e não beberá vinho nem bebida fermentada.
A quem o Espírito Santo é infundido, há nele plenitude de grandes virtudes. Visto que São João, antes de nascer, ainda posto no útero de sua mãe, manifestou a graça do Espírito recebido, quando, exultando no ventre materno, anunciou a vinda do Senhor. Um é o espírito desta vida, outro o da graça; aquele tem seu início ao nascer e seu fim ao morrer; este não está limitado às idades, não se extingue com a morte, não é excluído do ventre materno.
Não necessitamos, porém, de testemunho de que São João converteu os corações de muitos, pois nisto as Escrituras proféticas e evangélicas nos dão sufrágio: a voz do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor; pois ele não pregava sobre si mesmo, mas sobre o Senhor, como precursor de Cristo; e por isso segue-se: e ele mesmo irá adiante dele no espírito e virtude de Elias. Bem disse que irá adiante dele, aquele que nasceu precursor e morreu precursor. E bem se acrescenta também no espírito e virtude de Elias.
Nunca o espírito existe sem a virtude, nem a virtude sem o espírito. E por isso se diz "no espírito e na virtude", porque o santo Elias possuía grande virtude e graça. Virtude para converter à fé os ânimos dos povos desviados pela perfídia; virtude de abstinência e paciência, e o espírito de profecia. Elias esteve no deserto, no deserto também João. Aquele não buscou o favor do rei Acab, este desprezou o de Herodes. Aquele dividiu o Jordão, este o converteu em banho salutar. Este, o precursor do primeiro advento do Senhor, aquele, do segundo.
Um aceno, porém, é um certo ato corporal sem palavras, que tenta indicar, mas não expressa a vontade.
Qual a causa da ocultação senão a vergonha? Há certos tempos prescritos para o matrimônio, quando é decoroso dedicar-se à procriação de filhos, enquanto os anos estão vigorosos, enquanto há esperança de ter filhos. Mas quando sobrevém a velhice madura da idade, e a idade é mais apropriada para dirigir os filhos do que para gerá-los, é vergonhoso exibir sinais de gravidez, ainda que de uma união legítima, e ser onerada com o peso de outra idade, e ter o ventre dilatado com fruto que não é de seu tempo. Envergonhava-se, portanto, por causa da idade; donde se pode entender a causa, porque já não conviviam entre si em união conjugal; pois aquela que não se envergonhava da união na velhice, não se envergonharia do parto; contudo, esta se envergonha do encargo de ser mãe, enquanto desconhece o mistério da religião. Mas aquela que se ocultava porque havia concebido um filho, começou a gloriar-se porque gerava um profeta.
E embora se envergonhasse da idade do seu parto, por outro lado alegrava-se de ter sido liberta do opróbrio, dizendo: "Assim fez o Senhor comigo".
Pois é vergonhoso para as mulheres não receberem aquela recompensa do matrimônio, que é a única causa para elas se casarem.
Em um só homem a voz de todo o povo emudeceu, porque em um só todo o povo falava a Deus: pois o Verbo de Deus passou para nós, e em nós não se cala. É mudo aquele que não entende a lei. Por que te parece mais mudo aquele que desconhece a voz do que aquele que desconhece o mistério? O povo judeu é semelhante a alguém que faz sinais, que não pode explicar a razão de seus atos.
Com acerto a Escritura apresentou ambas as coisas, que ela era desposada e virgem: virgem, para que parecesse isenta de união marital; desposada, para que não fosse marcada com a infâmia de maculada virgindade, cujo ventre crescido pareceria trazer sinais evidentes de corrupção. O Senhor preferiu que alguns duvidassem de seu nascimento a duvidar da pureza de sua mãe: conhecia a delicada modéstia da virgem e o quão facilmente atacável era a reputação de sua castidade, e não considerou que a credibilidade de seu nascimento devesse ser estabelecida por meio de danos à sua mãe. Portanto, a virgindade da santa Maria foi conservada tanto íntegra em seu pudor quanto inviolável em sua reputação: nem mesmo era adequado que permanecesse para as virgens que vivem sob má reputação um véu de desculpa, se a própria mãe do Senhor parecesse difamada. O que poderia ser imputado aos judeus ou a Herodes, se parecessem perseguir uma descendência do adultério? E como Ele mesmo poderia dizer: "Não vim abolir a lei, mas cumpri-la", se parecesse ter seu princípio na violação da lei, sendo que o fruto de uma pessoa não casada é condenado pela lei? Isso sem mencionar que maior crédito é dado às palavras de Maria, e a causa da falsidade é removida. Pois poderia parecer que, estando grávida sem ser casada, ela quisesse encobrir sua culpa com uma mentira; mas uma pessoa desposada não tem motivo para mentir, uma vez que para as mulheres o parto é a recompensa do matrimônio, a graça do leito nupcial. Além disso, a virgindade de Maria foi destinada a confundir o príncipe do mundo, que, ao percebê-la desposada com um homem, não poderia ter nenhuma suspeita sobre sua prole.
Mas, no entanto, enganou ainda mais aos príncipes deste século: pois a malícia dos demônios facilmente descobre até mesmo o que está oculto; mas, na verdade, aqueles que estão ocupados com as vaidades seculares não podem conhecer as coisas divinas. Ademais, uma testemunha mais fidedigna do pudor é apresentada, o marido, que poderia tanto apagar a injúria quanto vingar o opróbrio, se não reconhecesse o sacramento; sobre o qual se acrescenta "cujo nome era José, da casa de Davi".
Conhece a virgem por seus costumes; sozinha em suas habitações íntimas, a quem nenhum homem via, somente o Anjo encontrou: por isso se diz e tendo entrado o Anjo até ela. E para que não fosse corrompida por algum colóquio indigno, é saudada pelo Anjo.
Conhece, pois, a virgem pela sua modéstia, pois estava temerosa; porquanto segue-se que, quando ouviu, turbou-se com as suas palavras. É próprio das virgens tremer, e assustar-se com todas as aproximações de um homem, recear todas as palavras dirigidas por um homem. Aprende, ó virgem, a evitar a lascívia das palavras: Maria temia até mesmo a saudação de um anjo.
Ela admirava também a nova fórmula de bênção, que não havia sido encontrada em lugar algum antes: isto estava reservado somente para Maria.
Mas nem todos são como Maria, de modo que quando concebem o verbo do Espírito Santo, o dão à luz; há aqueles que expulsam o verbo abortivamente, antes de darem à luz; há aqueles que têm Cristo no útero, mas ainda não o formaram.
Foi dito também acerca de São João que ele seria grande; mas ele como homem grande, este como Deus grande. Pois amplamente se difunde a virtude de Deus, amplamente se estende a grandeza da substância celestial: não está confinada por lugar, não é apreendida pela opinião, não é limitada por estimativa, não é alterada pela idade.
Nem Maria devia não crer no Anjo, nem tão temerariamente usurpar as coisas divinas; por isso se diz disse então Maria ao Anjo: como se fará isto? Esta resposta é mais comedida do que as palavras do sacerdote. Esta diz como se fará isto? Ele respondeu como saberei isto? Ele nega que crê, e como quem ainda busca outro autor da fé; ela professa que fará, e não duvida que deva ser feito, mas pergunta como será feito. Maria havia lido: eis que conceberá em seu ventre, e dará à luz um filho: por isso creu que aconteceria; mas como se faria antes não havia lido: pois nem mesmo a tão grande profeta havia sido revelado como se faria: tão grande mistério não cabia a um homem, mas devia ser proclamado pela boca de um Anjo.
Vede a humildade da virgem, vede a devoção: pois segue-se disse Maria: eis aqui a serva do Senhor. Chama-se serva aquela que é escolhida para ser mãe, e não se exaltou com a promessa repentina. Pois aquela que haveria de dar à luz o manso e humilde, devia também ela mesma manifestar humildade. Do mesmo modo, chamando-se serva, não reivindicou para si mesma qualquer prerrogativa de tão grande graça, senão que fizesse o que lhe era ordenado; donde segue faça-se em mim segundo a tua palavra. Tens o obséquio, vê o voto. Eis a serva do Senhor é a disposição para o ofício; faça-se em mim segundo a tua palavra é a concepção do desejo.
O anjo, quando anunciava coisas ocultas, para confirmar a fé, pelo exemplo de uma mulher estéril anunciou a concepção à virgem. Quando Maria ouviu isso, não como incrédula do oráculo, nem como incerta do mensageiro, nem como duvidosa do exemplo, mas alegre pelo desejo cumprido, religiosa pelo dever, apressada pela alegria, dirigiu-se às montanhas; por isso diz: levantando-se Maria naqueles dias, foi às montanhas. Pois para onde, já cheia de Deus, senão para as alturas com pressa haveria de subir?
A graça do Espírito Santo não conhece esforços tardios. Aprendei, ó virgens, a não perambular pelas casas alheias, a não vos demorar nas praças, a não misturar conversas com alguém em público.
Aprendei vós, santas mulheres, a diligência que deveis mostrar para com vossas parentas grávidas. Pois Maria, que antes habitava sozinha nos recantos mais íntimos, não foi impedida pelo pudor virginal de aparecer em público, nem pela aspereza das montanhas, nem pela extensão do caminho de cumprir seu dever. Aprendei também, virgens, a humildade de Maria: veio a parenta próxima, a mais jovem à mais velha; e não apenas veio, mas também saudou primeiro; por isso segue e saudou Isabel. Convém, pois, que quanto mais casta for uma virgem, tanto mais humilde seja, e saiba mostrar deferência aos mais velhos. Seja mestra da humildade aquela em quem está a profissão da castidade. Há também uma causa de piedade: porque o superior vem ao inferior, para que o inferior seja ajudado; Maria a Isabel, Cristo a João.
Rapidamente são declarados os benefícios da vinda de Maria e da presença do Senhor, pois segue-se: e aconteceu que, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê exultou no útero dela. Veja a distinção e a propriedade de cada palavra. Isabel ouviu primeiro a voz, mas João sentiu primeiro a graça; ela ouviu pela ordem da natureza, ele exultou pela razão do mistério; ela sentiu a vinda de Maria, ele a vinda do Senhor.
Aquela que se havia ocultado e concebido um filho, começou a exaltar-se porque carregava um profeta; e aquela que antes se envergonhava, agora bendiz. Por isso segue-se: e exclamou em alta voz, e disse: bendita tu entre as mulheres. Com voz forte clamou, quando percebeu a vinda do Senhor, porque acreditou ser um parto sagrado.
Ela não diz como quem ignora, pois sabe que é pela graça e operação do Espírito Santo que a mãe do Senhor saúda a mãe do profeta para o proveito de seu filho; mas como quem reconhece que isso não é de mérito humano, mas um dom da graça divina, assim diz: "De onde me vem isto?", isto é, por qual justiça, por quais feitos, por quais méritos?
Vês que Maria não duvidou, mas creu; e por isso obteve o fruto da fé.
Mas também vós bem-aventurados que ouvistes e crestes: pois qualquer alma que crer, também concebe e gera o Verbo de Deus, e reconhece as Suas obras.
Apressa-se a ir para a montanha não por incredulidade em relação à profecia, nem por incerteza do anúncio, nem por dúvida da prova, mas pela alegria do desejo cumprido… Logo que ela entrou, a presença do Senhor e a graça de Maria fizeram-se notar. E notai a precisão e exatidão de cada palavra: Isabel foi a primeira a ouvir a voz, mas João foi o primeiro a sentir a graça… ela concebeu no útero, ele concebeu no espírito.
Santo Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas II, 19.22-23 (PL 15, 1560).
Vede que Maria não duvidou, mas creu, e por isso alcançou o fruto da fé: «Bem-aventurada… és tu que creste». Mas também vós sois bem-aventurados, pois ouvistes e crestes. Pois a alma que crê concebe e dá à luz a Palavra de Deus e proclama as suas obras. Que a alma de Maria esteja em cada um de vós, para que engrandeça o Senhor; que o espírito de Maria esteja em cada um de vós, para que se alegre em Deus. Ela é a única mãe de Cristo segundo a carne, mas Cristo é o fruto de todos segundo a fé. Toda alma recebe a Palavra de Deus, desde que, imaculada e livre de vícios, guarde a sua pureza com pudor inviolado.
Santo Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas II, 26 (PL 15, 1561).
Assim como o pecado começou pelas mulheres, assim também as coisas boas são iniciadas pelas mulheres; por isso não parece sem propósito que tanto Isabel profetiza antes de João, quanto Maria antes do nascimento do Senhor. E segue-se que, assim como Maria é pessoa mais excelsa, também sua profecia é mais plena.
A alma de Maria, portanto, glorifica o Senhor, e seu espírito exulta em Deus; porque com alma e espírito devotados ao Pai e ao Filho, venera com piedoso afeto o único Deus, por quem são todas as coisas. Que cada um tenha a alma de Maria, para que glorifique o Senhor; que em cada um esteja o espírito de Maria, para que exulte no Senhor. Se segundo a carne uma só é a mãe de Cristo, segundo a fé, contudo, Cristo é fruto de todos. Pois toda alma recebe o Verbo de Deus, contanto que seja imaculada e livre de vícios, e preserve sua castidade com inviolável pudor.
Maria permaneceu até que se cumprisse o tempo em que Isabel devia dar à luz; por isso se diz: Permaneceu, pois, Maria com ela cerca de três meses.
Não foi, porém, somente a familiaridade a causa pela qual permaneceu tanto tempo, mas também o proveito de tão grande profeta: pois se na primeira visita tão grande proveito resultou, que à saudação de Maria o menino exultou no ventre, e a mãe do menino foi cheia do Espírito Santo; quanto pensamos ter acrescentado a presença de Santa Maria durante tão longo tempo? Por isso, com razão se diz que ela prestou este serviço, e guardou um número místico.
Se observares atentamente, nunca encontrarás a palavra plenitude senão na geração dos justos; por isso agora se diz: A Isabel, porém, completou-se o tempo de dar à luz: pois a vida do justo tem plenitude; mas os dias dos ímpios são vazios.
O nascimento dos santos produz a alegria de muitos, porque é um bem comum: a justiça é, de fato, uma virtude comum; e por isso, no nascimento de um justo, é antecipado um sinal de sua vida futura, e a graça da virtude que há de seguir é indicada, sendo prefigurada pela exaltação dos vizinhos.
De modo admirável, o santo Evangelista pensou que se devia mencionar que muitos julgavam que o menino deveria ser chamado pelo nome do pai, Zacarias; para que percebas que não desagradou à mãe nenhum nome da família, mas isso foi infundido pelo Espírito Santo, o que havia sido anunciado antes a Zacarias pelo Anjo. E certamente, estando mudo, Zacarias não podia comunicar o nome do filho à esposa; mas por profecia Isabel aprendeu o que não havia aprendido do marido. Por isso segue: "E respondendo sua mãe disse: De modo algum, mas chamar-se-á João". Não te admires se a mulher afirmou um nome que não havia ouvido, quando o Espírito Santo, que havia ordenado ao Anjo, lho revelou; nem podia ignorar o precursor do Senhor, ela que havia profetizado sobre Cristo. E bem segue: "E disseram-lhe: Não há ninguém na tua parentela que se chame por este nome"; para que entendas que o nome não pertence à família, mas ao profeta. Também Zacarias é interrogado por sinais; por isso segue: "E faziam sinais ao pai dele sobre como queria que fosse chamado". Mas como a incredulidade lhe havia tirado a fala e a audição, o que não podia expressar com a voz, expressou com a mão e com letras. Por isso segue: "E pedindo uma tabuinha de escrever, escreveu, dizendo: João é o seu nome". Isto é, não lhe impomos nós o nome, pois já recebeu o nome de Deus.
Com razão também sua língua foi imediatamente libertada: porque aquela que a incredulidade tinha atado, a fé a soltou. Acreditemos, pois, também nós, para que nossa língua, que está atada pelos vínculos da incredulidade, seja solta pela voz da razão: escrevamos no espírito os mistérios, se queremos falar. Escrevamos o prenúncio de Cristo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas carnais do coração: pois quem fala de São João, profetiza Cristo; segue-se, pois, e falava bendizendo a Deus.
Deus bom e solícito em perdoar os pecados, não somente restitui o que havia tirado, mas também concede o que não se esperava. Que ninguém, portanto, desconfie; ninguém, consciente de delitos passados, desespere das recompensas divinas. Deus sabe mudar Sua sentença, se tu souberes corrigir teu delito: visto que aquele que por tanto tempo permaneceu mudo agora profetiza; por isso se diz e Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo.
Belamente, ao profetizar acerca do Senhor, dirige suas palavras ao profeta, para mostrar que também a profecia é um dom do Senhor; para que, ao enumerar os benefícios públicos, não parecesse ingrato por silenciar sobre os seus próprios; por isso se diz: "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo".
Mas talvez alguns julguem como um excesso irracional da mente dirigir-se a uma criança de oito dias; porém, se nos atemos ao que foi dito anteriormente, compreendemos perfeitamente que aquele que, nascido, podia ouvir a voz de seu pai, também ouviu a saudação de Maria antes de nascer. O profeta sabia que os ouvidos de um profeta são diferentes, pois são abertos pelo Espírito de Deus, não pela idade corporal. Tinha a faculdade de entender aquele que possuía o afeto de exultar.
Advertir também que Isabel profetiza com poucas palavras, enquanto Zacarias com muitas; e ambos falavam cheios do Espírito Santo; mas observa-se esta disciplina, que a mulher deve estudar mais em aprender as coisas divinas do que em ensiná-las.
Belamente se descreve o tempo em que o profeta esteve no ventre materno, para que a presença de Maria não seja passada em silêncio, mas omite-se o tempo da infância, porque, fortalecido no ventre pela presença da Mãe do Senhor, ele não conheceu os impedimentos da infância.
Belamente acrescentou o nome do governador, para designar a sequência do tempo: pois se os cônsules são inscritos nas tábuas de compra, quanto mais o tempo devia ser inscrito para a redenção de todos?
E enquanto se mostra o registro secular, implica-se o espiritual, que não deve ser dedicado ao rei das terras, mas ao do céu. Esta profissão de fé é o censo das almas: abolido o antigo censo da sinagoga, preparava-se o novo censo da Igreja. Enfim, para que saibas que o censo não é de Augusto, mas de Cristo, a todo o mundo se ordena registrar-se. Quem, pois, poderia exigir o registro de todo o mundo, senão aquele que tinha domínio sobre todo o orbe? Pois não é de Augusto, mas "do Senhor é a terra e sua plenitude".
Esta é, pois, a primeira declaração das almas ao Senhor, à qual todas se declaram, não pela convocação do pregoeiro, mas do profeta que diz: "Povos todos, batei palmas". Enfim, para que saibam que o censo é de justiça, vêm a ele José e Maria, isto é, o justo e a virgem: ele que guardava o Verbo, ela que o daria à luz.
São Lucas explicou brevemente tanto o modo, como o tempo e o lugar em que Cristo nasceu segundo a carne, dizendo: "E aconteceu que, estando eles ali, completaram-se os dias para ela dar à luz". Quanto ao modo, certamente, porque concebeu sendo desposada, mas gerou sendo virgem.
Por ti, portanto, há fraqueza, em si mesmo há poder; por ti há pobreza, em si mesmo há opulência; não julgues isto que vês, mas reconhece aquilo pelo que és redimido. Mais, Senhor Jesus, devo às tuas injúrias pelas quais fui redimido, do que às tuas obras pelas quais fui criado. Não seria proveitoso nascer, se também não fosse proveitoso ser redimido.
Vede de que modo a divina providência estabelece a fé. Um Anjo instrui Maria, um Anjo instrui José, um Anjo instrui os pastores, dos quais se diz: "e havia pastores na mesma região, que velavam e guardavam as vigílias da noite sobre o seu rebanho".
Ele é derramado do útero, mas resplandece desde o céu; jaz em um abrigo terreno, mas resplandece com luz celestial.
Vede quão singularmente a Escritura pesa o valor de cada uma das palavras: pois quando se vê a carne do Senhor, vê-se o Verbo, que é o Filho. Não consideres isto como um exemplo medíocre de fé para ti: a pessoa dos pastores não é desprezível, pois busca-se a simplicidade, não se deseja a ambição. Segue-se que vieram apressadamente; pois ninguém procura a Cristo com indolência.
Não considere desprezíveis as palavras dos pastores como se fossem vulgares: pois dos pastores Maria colige a fé; donde segue: Maria, porém, conservava todas estas palavras, conferindo-as em seu coração. Aprendamos a castidade da santa Virgem em todas as coisas, a qual, não menos pudica em suas palavras que em seu corpo, reunia em seu coração as provas da fé.
Quem é o menino, senão Aquele de quem foi dito: "Um menino nasceu para nós, e um filho nos foi dado"(Isaías 9,6); e: "Ele se fez sujeito à lei, para redimir os que estavam sob a lei"(Gálatas 4,4-5)?
Pois não foi o contato viril que abriu os segredos do ventre virginal, mas o Espírito Santo infundiu a semente imaculada no útero inviolado. Aquele, portanto, que santificou o ventre alheio para que nascesse um profeta, este é o mesmo que abriu o ventre de sua própria mãe, para que o Imaculado saísse.
Pois somente o Senhor Jesus é santo em tudo entre os nascidos de mulher, que na novidade do seu imaculado nascimento não experimentou o contágio da corrupção terrena, mas o repeliu pela sua Majestade celestial. Porque se seguirmos a letra, como pode ser santo todo homem varão, quando é inegável que muitos foram perversos? Mas Ele é santo, aquele a quem as piedosas ordenações da lei divina prefiguravam como símbolo de um mistério futuro; porque somente Ele haveria de abrir o seio oculto da santa Igreja virgem para a geração dos povos.
Não somente dos Anjos e profetas, dos pastores e de seus pais, mas também dos anciãos e justos, recebeu testemunho a geração do Senhor; por isso se diz: E eis que havia um homem em Jerusalém, cujo nome era Simeão, e este homem era justo e temente
Ele desejava, na verdade, ser libertado dos laços da fragilidade corporal, mas esperava ver o que lhe fora prometido; pois sabia que bem-aventurados são os olhos que O veriam.
Vede, pois, o justo como que encerrado na prisão da massa corpórea querendo ser libertado, para que comece a estar com Cristo. Mas aquele que quer ser dispensado, venha ao templo, venha a Jerusalém, espere o Cristo do Senhor, receba em suas mãos o Verbo de Deus e o abrace como que com os braços de sua fé; então será libertado para que não veja a morte, aquele que viu a vida.
Veja a abundante graça do Senhor difundida sobre todos na geração, e como a profecia foi negada aos incrédulos, não aos justos. Eis que também Simeão profetiza que Cristo Jesus veio para a queda e ressurreição de muitos.
Ou seja, para distinguir os méritos dos justos e dos injustos, e conforme a qualidade de nossos atos, como verdadeiro e justo Juiz, decretar suplícios ou prêmios.
Ou mostra a prudência de Maria, que não era ignorante do mistério celestial: pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante que toda espada de dois fios.
Simeão tinha profetizado, uma mulher unida em matrimônio tinha profetizado, uma virgem tinha profetizado, era conveniente também que uma viúva profetizasse, para que não faltasse nenhum sexo ou condição de vida; por isso se diz: E havia uma Ana, profetisa, filha de Fanuel, da tribo de Aser.
Ana, tanto pelos deveres de sua viuvez como por seus costumes, é apresentada como digna de ser acreditada como aquela que anunciou o Redentor de todos; por isso segue-se: Esta era de idade muito avançada, e tinha vivido com seu marido sete anos desde a sua virgindade, e permaneceu viúva até os oitenta e quatro anos.
Ou do décimo segundo ano se toma o princípio da disputa do Senhor com os doutores, pois este número era devido aos evangelizadores para pregar a fé.
Depois de três dias é encontrado no templo, para que fosse um sinal de que, após três dias do triunfo de sua paixão, ressuscitaria e se mostraria à nossa fé, Aquele que se acreditava estar morto, sentado na sede celeste e em honra divina.
Existem duas gerações em Cristo: uma é paterna, outra materna; a paterna mais divina, a materna verdadeiramente aquela que desceu para nosso trabalho e uso
E te admiras se Ele se submete ao pai, quem está sujeito à mãe? Certamente, essa sujeição não é um sinal de fraqueza, mas de piedade filial. Que o herege levante a cabeça, afirmando que Aquele que é enviado necessita de auxílio alheio; porventura precisava Ele de auxílio humano, a ponto de servir à autoridade materna? Ele se submetia à serva, submetia-se ao pai aparente; e te admiras se Ele se submeteu a Deus? Ou é ato de piedade submeter-se ao homem, e sinal de fraqueza submeter-se a Deus?
O Filho de Deus, prestes a congregar a Igreja, primeiramente opera em seu servo; e por isso bem se diz que foi feita a palavra do Senhor sobre João, filho de Zacarias: para que a Igreja não começasse a partir do homem, mas a partir da Palavra. E bem se utilizou Lucas de um resumo, para declarar que João era profeta, dizendo foi feita sobre ele a palavra de Deus, não acrescentando nada mais: pois nenhum juízo próprio necessita aquele que abunda da palavra de Deus. Assim, dizendo uma só coisa, declarou tudo; mas Mateus e Marcos quiseram declarar ser ele profeta por suas vestes, seu cinto e seu alimento.
O deserto também é a própria Igreja: porque são mais os filhos da que estava abandonada, do que daquela que tem marido. Veio, portanto, a palavra do Senhor, para que a terra que antes estava deserta gerasse fruto para nós.
Feito o Verbo, a voz seguiu: pois o Verbo primeiro opera interiormente, depois segue o ofício da voz; por isso se diz "e veio por toda a região do Jordão".
E por isso muitos atribuem a São João o tipo da lei, pois a lei podia denunciar o pecado, mas não podia perdoá-lo.
São João, o precursor do Verbo, é apropriadamente chamado de voz: porque a voz, sendo inferior, precede, e o Verbo, que é mais excelente, segue.
Mostra-se nestes a prudência infundida pela misericórdia de Deus, para que façam penitência de seus pecados, temendo com devota previdência o terror do juízo futuro; ou talvez, conforme o que está escrito: "Sede prudentes como as serpentes", demonstram ter prudência natural aqueles que veem o que é proveitoso e espontaneamente o buscam, mas ainda não abandonam o que é nocivo.
Mas ainda que Deus possa converter e mudar naturezas diversas, contudo, para mim, o mistério é mais proveitoso que o milagre. Pois o que eram senão pedras aqueles que serviam às pedras, certamente semelhantes àqueles que as fizeram? Profetiza-se, portanto, que a fé há de ser infundida nos corações pétreos dos gentios, e promete pelo oráculo que, pela fé, haverá futuros filhos de Abraão. E para que saibas que os homens são comparados às pedras, também comparou os homens às árvores, quando acrescenta: "já está o machado posto à raiz da árvore". A mudança do exemplo foi feita para que, por esse processo de comparação, se compreenda que já começou para o homem um progresso mais clemente.
Faça, pois, fruto de graça quem pode, e faça fruto de penitência quem deve. O Senhor está presente buscando Seu fruto, vivificará os fecundos e repreenderá os estéreis.
Pois outros preceitos de deveres são próprios de cada um: a misericórdia é de uso comum. Por isso, é um preceito comum a todos que contribuam com aquele que não tem. A misericórdia é a plenitude das virtudes. No entanto, observa-se uma medida para a própria misericórdia conforme a possibilidade da condição humana, para que cada um não tire tudo de si mesmo, mas compartilhe o que tem com o pobre.
Ensinando, por isto, que os soldos foram estabelecidos para os militares, para que, enquanto procuram sustento, não se tornem predadores violentos.
Mas o que há de mais absurdo do que pensar que aquele que se julga estar em outro, não se crê estar em si mesmo? Aquele que pensavam que viria por meio de uma mulher, não creem que tenha vindo por meio de uma virgem; e certamente que o sinal da vinda divina foi estabelecido no parto de uma virgem, não no de uma mulher.
Ou São João via os segredos do coração. Mas consideremos por qual graça: pois é dom de Deus que revela, não virtude do homem, que mais é ajudado pelo benefício divino do que discerne por ofício natural. E respondendo rapidamente, provou não ser ele o Cristo, que opera por ofício visível: pois como o homem subsiste de duas naturezas, isto é, de alma e corpo, o visível é consagrado pelo visível, e o invisível mistério pelo invisível: pois com a água se lava o corpo, e com o espírito se purificam os delitos da alma: ainda que também na própria fonte sopre a santificação da divindade: e por isso um foi o Batismo de penitência, outro é o da graça: este Batismo é de ambos, aquele de um só: obra do homem é fazer penitência dos delitos, dom de Deus é cumprir a graça do mistério. Declinando, pois, a inveja da majestade, não por palavra mas por obra declarou não ser ele o Cristo; de onde segue: "veio após mim um mais forte que eu". Nisto que diz "mais forte que eu", comparação não fez: pois entre o Filho de Deus e o homem nenhuma comparação podia haver; mas porque muitos são fortes, ninguém é mais forte senão Cristo. Enfim, fez comparação na medida em que acrescentou "de quem não sou digno de desatar a correia das sandálias".
Pelo que também diz: "cujas sandálias não sou digno de carregar", mostra que a graça da pregação evangélica foi conferida aos apóstolos, que estão calçados no Evangelho. Parece, no entanto, dizer isto porque muitas vezes São João representa a pessoa do povo judeu.
Pelo sinal do joeirador, declara-se que o Senhor tem o direito de discernir os méritos, porque quando os grãos são ventilados na eira, os cheios são separados dos vazios como que por um exame do ar que sopra; por isso segue: E recolherá o trigo em seu celeiro; e queimará as palhas com fogo inextinguível. Por esta comparação, o Senhor mostra que no dia do juízo separará os méritos sólidos e os frutos da virtude da jactância vã e da leveza infrutífera de ações improfícuas, destinando à mansão celestial os homens de mérito mais perfeito. Pois o fruto mais perfeito é, de fato, aquele que mereceu ser conforme a Ele, que caiu como um grão de trigo, para produzir frutos em abundância.
Belamente, Lucas tomou um compêndio daquelas coisas que foram ditas pelos demais. E deve-se entender mais que o Senhor foi batizado por João, do que ele deixou expressamente; donde se diz: aconteceu, porém, que ao ser batizado todo o povo, e estando Jesus batizado e em oração, abriu-se o céu. O Senhor foi batizado, não porque quisesse ser purificado, mas para purificar as águas; para que, lavadas pela carne de Cristo, que não conheceu pecado, tivessem o direito do batismo.
Qual foi também a causa do batismo do Senhor, o próprio Senhor declara, dizendo: "Assim nos convém cumprir toda a justiça". Que justiça é esta, senão que aquilo que quiseres que outro te faça, primeiro tu mesmo comeces a fazer, e exortes os outros com teu exemplo? Ninguém, portanto, fuja do banho da graça, quando Cristo não fugiu do banho da penitência.
Com razão, pois, o Espírito se manifestou em um corpo, visto que a substância da divindade não é visível. Observemos o mistério de por que como uma pomba: a graça do batismo requer simplicidade; porque, no símbolo antigo, aquela pomba voltou outrora à arca, que foi a única livre do dilúvio.
Vimos o Espírito, mas em forma corporal; e o Pai, a quem não podemos ver, ouçamos: pois o Pai é invisível, e também o Filho é invisível segundo a divindade; mas quis manifestar-se em um corpo; e porque o Pai não possuía corpo, por isso quis provar-nos que Ele estava presente no Filho, dizendo: "Tu és meu Filho".
Corretamente "como se supunha", pois na realidade não o era; mas assim se supunha, porque Maria, que estava desposada com José, o havia gerado. Por que a genealogia de José é descrita com preferência à de Maria (sendo que Maria havia gerado Cristo pelo Espírito Santo, e José parece estar alheio à geração do Senhor), poderíamos duvidar, se o costume das Escrituras não nos instruísse, que sempre busca a origem do homem; principalmente porque na origem de José também está a origem de Maria: pois sendo José um homem justo, certamente tomou por esposa uma mulher de sua própria tribo e de sua própria pátria; e assim, no tempo do recenseamento, José subiu da casa e da pátria de Davi para se registrar com Maria, sua esposa. Ela, que declara ser da mesma casa e da mesma pátria, certamente se designa como sendo da mesma tribo e da mesma pátria; por isso, explicando a genealogia de José, acrescenta "que foi filho de Heli". Também devemos observar que São Mateus menciona que Jacó, que foi pai de José, era filho de Natã; Lucas, porém, descreve José, a quem Maria estava desposada, como filho de Heli. Como poderia um homem ter dois pais, a saber, Heli e Jacó?
Pois é sabido que Natã, que descendia de Salomão, gerou Jacó como seu filho, e faleceu deixando sua esposa ainda viva, a qual Melchi tomou por esposa, e dela nasceu Heli; novamente, Heli, ao falecer seu irmão Jacó sem filhos, uniu-se à esposa de seu irmão e gerou José, o qual segundo a lei é chamado filho de Jacó, uma vez que levantava a descendência do irmão falecido, conforme a ordem da lei antiga.
Belamente Lucas, uma vez que não podia abranger mais filhos de Jacó, para não parecer que se desviava das gerações em uma série supérflua, considerou que não deveria omitir os antigos nomes dos patriarcas, embora ocorressem em outros muito posteriores: José, Judá, Simeão e Levi. Pois reconhecemos nestes quatro tipos de virtudes: em Judá, o mistério profetizado em figura da paixão do Senhor; em José, o exemplo de castidade que precedeu; em Simeão, a vingança do pudor ultrajado; em Levi, o ofício sacerdotal; de onde segue que foi de Melchi, isto é, meu rei; que foi de Janne, isto é, direita; que foi de José, isto é, que cresce (e este foi outro José); que foi de Matatias, isto é, dom de Deus, ou algumas vezes; que foi de Amós, isto é, carregando, ou carregou; que foi de Naum, isto é, consolação, ou consolando; que foi de Hesli, isto é, ajuda-me; que foi de Nagge, isto é, meio-dia, ou meridiano; que foi de Mahath, isto é, desejo; que foi de Matatias, como acima; que foi de Semei, isto é, obediente; que foi de José, isto é, aumento; que foi de Judá, isto é, o que confessa; que foi de Joanna, isto é, Senhor, ou sua graça, ou Senhor misericordioso; que foi de Resa, isto é, misericordioso; que foi de Zorobabel, isto é, príncipe, ou mestre da Babilônia; que foi de Salatiel, isto é, minha petição a Deus; que foi de Neri, isto é, minha lâmpada; que foi de Melchi, isto é, meu reino; que foi de Addi, isto é, robusto, ou violento; que foi de Cosan, isto é, dominante; que foi de Helmadam, que é medida de Deus; que foi de Her, que é vigilante, ou vigília, ou de peles; que foi de Jesus, que é salvador; que foi de Eliezer, isto é, meu Deus auxiliador; que foi de Jorim, isto é, Senhor exultante, ou exaltando; que foi de Mathat, como acima; que foi de Levi, como acima; que foi de Simeão, isto é, ouvi a tristeza, ou sinal; que foi de Judá, como acima; que foi de José, como acima; que foi de Jona, isto é, pomba, ou doente; que foi de Eliaquim, que é ressurreição de Deus; que foi de Melcha, isto é, seu rei; que foi de Menna, que é minhas entranhas; que foi de Matatias, isto é, dom; que foi de Natã, isto é, deu, ou dando.
Por Natã, porém, reconhecemos expressa a dignidade da profecia; para que, como Cristo Jesus é o único em tudo, também em cada um de seus maiores precederiam diversos gêneros de virtudes. Segue-se que foi de David
A menção do justo Noé não deveria ser omitida entre as gerações do Senhor: para que, como nascia o edificador da Igreja, parecesse ter enviado antes Noé, o autor de sua linhagem, que anteriormente havia fundado a Igreja sob o tipo da arca. Que foi de Lamech.
Seus anos são contados além do dilúvio; para que, visto que Cristo é o único cuja vida não sente nenhuma idade, também em seus antepassados parecesse não ter sentido os dilúvios. Que foi de Enoch: e este é um manifesto indício da piedade do Senhor e da sua divindade, pois o Senhor nem experimentou a morte e retornou ao céu, já que o fundador de sua linhagem foi arrebatado ao céu. De onde é evidente que Cristo poderia não morrer, mas quis que sua morte nos aproveitasse: e aquele foi de fato arrebatado para que a malícia não mudasse seu coração; mas o Senhor, a quem a malícia do mundo não podia mudar, retornou ao lugar de onde tinha vindo pela majestade de sua própria natureza.
Seth, o último filho de Adão, não é silenciado; para que, como há duas gerações de povos, fosse significado em figura que Cristo deveria ser contado na última geração, mais do que na primeira. Segue-se "que foi de Adão".
O que poderia haver de mais belo do que a santa geração começar pelo Filho de Deus e ser conduzida até o Filho de Deus; e que o criado precedesse em figura, para que o nascido seguisse em verdade; que aquele feito à imagem fosse adiante, por causa de quem a imagem de Deus desceria? Também considerou Lucas que a origem de Cristo deveria ser referida a Deus, porque Deus é o verdadeiro gerador de Cristo, ou segundo a verdadeira geração é pai, ou segundo o batismo e a regeneração é autor do dom místico. E por isso não começou a descrever a sua geração desde o princípio, mas depois de ter explicado o seu batismo; para demonstrar que ele é Filho de Deus tanto segundo a natureza quanto segundo a graça. E que prova mais evidente da divina geração do que, estando para falar dela, colocar primeiro o Pai dizendo: "Tu és o meu Filho amado"?
Nem os Evangelistas, que seguiram a ordem antiga, parecem discrepar, nem te admires se de Abraão até Cristo há mais sucessões segundo São Lucas, e menos segundo São Mateus, visto que confessas ter a linha de descendência transcorrido por pessoas diferentes. Pois pode acontecer que alguns homens tenham vivido uma vida muito longa, enquanto os homens da geração seguinte tenham falecido em idade prematura, já que vemos quantos anciãos vivem para ver seus netos, enquanto outros partem logo após terem filhos.
Ele era, portanto, conduzido para o deserto com o propósito de provocar o Diabo: pois se aquele não tivesse combatido, este não teria vencido por mim; por mistério, para libertar do exílio aquele Adão que foi expulso do Paraíso para o deserto; por exemplo, para nos mostrar que o Diabo tem inveja de nós quando tendemos às coisas melhores, e que então deve-se ter mais cautela para que a enfermidade da mente não perca a graça do mistério; de onde segue: e era tentado pelo Diabo.
São três as coisas que contribuem para a utilidade da salvação humana: o sacramento, o deserto e o jejum. Ninguém é coroado a não ser aquele que lutou legitimamente; e ninguém é admitido à luta da virtude, a menos que, primeiramente purificado de todas as manchas dos delitos, seja consagrado com o dom da graça celestial.
Reconheceis o número místico de quarenta dias: pois lembrais que durante tantos dias as águas do abismo foram derramadas, e por meio de um jejum santificado de tantos dias, mostrou a clemência de um céu mais sereno restaurado, por tantos dias de jejum Moisés mereceu receber a lei, por tantos anos estabelecidos no deserto, os pais conseguiram o pão dos Anjos.
Somos ensinados principalmente que são três os dardos do Diabo, com os quais costuma armar-se para ferir a mente do homem: um da gula, outro da jactância, o terceiro da ambição. Assim começou por onde já havia vencido, isto é, com Adão. Aprendamos, portanto, a evitar a gula, a evitar a luxúria, porque é um dardo do Diabo. Mas o que significa tal discurso: "se és Filho de Deus", senão que ele havia conhecido que o Filho de Deus haveria de vir, mas não pensava que viesse com esta enfermidade do corpo? Uma coisa é explorar, outra é tentar: por isso professa crer n'Ele como Deus, e tenta enganá-Lo como homem.
Vês, portanto, de que tipo de armas Ele se serve, com as quais defende o homem contra os ataques da maldade espiritual e os incitamentos da gula: pois não usa de seu poder como Deus – que proveito teria isto para mim? – mas como homem recorre ao auxílio que nos é comum, para que, atento ao alimento divino da leitura, despreze a fome do corpo e obtenha o alimento da palavra: pois quem segue a palavra não pode desejar o pão terreno, visto que as coisas divinas são indubitavelmente superiores às humanas. Ao mesmo tempo, quando diz que "não só de pão vive o homem", mostra que foi o homem que foi tentado, isto é, nossa natureza que Ele assumiu, não sua divindade.
Bem se mostram em um momento de tempo as coisas seculares e terrenas: pois não se indica tanto a rapidez do olhar, quanto se expressa a fragilidade do poder efêmero. Pois em um momento todas aquelas coisas passam; e muitas vezes a honra do mundo se vai antes mesmo de chegar. Segue-se e diz-lhe: "dar-te-ei todo este poder e a glória deles, porque a mim foram entregues, e dou-os a quem quero".
Em outro lugar se lê que todo poder vem de Deus; assim, a ordenação dos poderes vem de Deus, a ambição de poder vem do mal; não é o poder que é mau, mas aquele que usa mal do poder. O que então? É bom utilizar o poder, aspirar à honra? É bom, se for concedido, não se for usurpado. Distinga, contudo, esse mesmo bem: um é o bem do século, outro é o uso da virtude perfeita. É bom buscar a Deus e o desejo de conhecer a divindade não ser impedido por nenhuma ocupação. Porém, se aquele que busca a Deus é frequentemente tentado devido à fragilidade da carne e às limitações da mente, quanto mais exposto está aquele que busca o mundo? Somos ensinados, portanto, a desprezar a ambição, porque ela está sujeita ao poder do diabo.
Segue-se o dardo da jactância, pelo qual se cai facilmente em pecado: porque enquanto os homens desejam ostentar a glória de sua virtude, caem do lugar e posição de seus méritos: por isso está dito "e o levou a Jerusalém, e o colocou sobre o pináculo do templo".
É próprio da jactância que, enquanto alguém pensa estar ascendendo a alturas maiores, pela pretensão de atos sublimes seja arrastado para baixo; donde segue: e disse-lhe: se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo.
Verdadeiramente é uma voz diabólica a que se esforça por precipitar a mente do homem do grau mais elevado de seus méritos. Ao mesmo tempo, o Diabo revela sua fraqueza e malícia, pois não pode prejudicar ninguém, a não ser que este mesmo se lance para baixo. Porque aquele que, abandonando as coisas celestiais, escolhe as terrenas, incorre em uma espécie de precipício voluntário de uma vida decadente. Simultaneamente, como o Diabo viu que sua arma estava embotada, ele que sujeitara todos ao seu próprio poder, começou a julgar que se tratava de algo mais do que um homem. Mas Satanás se transfigura em anjo de luz e, muitas vezes, a partir das Sagradas Escrituras, prepara laços para os fiéis; por isso, segue-se: "Porque está escrito: que aos seus anjos mandou a teu respeito, que te guardem, e que te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra com teu pé."
Não te deixes, pois, enganar pelo herege, que pode apresentar alguns exemplos das Escrituras; pois também o Diabo utiliza testemunhos das Escrituras, não para ensinar, mas para enganar.
Mas o Senhor, novamente, para que não se pensasse que as coisas que haviam sido profetizadas sobre Ele se cumprissem segundo o arbítrio do Diabo, mas conservando a autoridade de sua própria divindade, enfrentou a astúcia dele; para que, assim como ele tinha apresentado um exemplo das Escrituras, fosse vencido pelos exemplos das Escrituras; por isso se segue: e respondendo Jesus, disse-lhe: Está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus.
A Escritura não teria dito que toda tentação estava consumada, se nas três precedentes não estivesse a matéria de todos os delitos; porque as causas das tentações são as causas das cobiças: a saber, o deleite da carne, a esperança da glória, a avidez do poder.
Vês, portanto, que o próprio Diabo não é pertinaz no combate, mas costuma ceder à verdadeira virtude; e embora não cesse de invejar, teme insistir, porque frequentemente recusa ser derrotado. E assim, ouvido o nome de Deus, retirou-se, diz, até certo tempo; pois depois viria não para tentar, mas para lutar abertamente.
Assim o Senhor se curvou a todos os ofícios, a tal ponto que não desprezou nem mesmo o ofício de leitor; de onde segue: e levantou-se para ler, e foi-lhe entregue o livro de Isaías. Recebeu o livro, para mostrar que Ele mesmo é aquele que falou nos profetas, e para remover os sacrilégios dos pérfidos, que dizem que um é o Deus do Antigo Testamento e outro o do Novo; ou que dizem que Cristo teve seu início na virgem; pois como poderia ter começado a partir da virgem Aquele que falava antes que a virgem existisse?
Vedes a Trindade coeterna e perfeita: a própria Escritura fala de Jesus como Deus e homem perfeito no útero; fala também do Pai e do Espírito Santo, que se mostra como cooperador quando desce sobre Cristo em forma corporal como uma pomba.
Ou, é ungido universalmente com o óleo espiritual e a virtude celeste, para que irrigasse a pobreza da condição humana com o tesouro eterno da ressurreição.
Ou quando diz "ano aceitável do Senhor", refere-se a este dia estendido por tempos perpétuos, que não conhece o retorno ao ciclo de trabalho, e concede aos homens continuação de fruto e repouso. Segue-se "e tendo fechado o livro, devolveu-o ao ministro, e sentou-se".
Não é ociosamente que o Salvador se desculpa por não ter operado nenhum milagre do seu poder em sua pátria, para que ninguém porventura considere que o amor à pátria deva ser para nós de menor valor; pois segue-se: diz, pois: em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria.
Este exemplo declara que em vão esperas a ajuda da misericórdia celestial, se invejares os frutos da virtude alheia: pois Deus despreza os invejosos, e daqueles que perseguem os benefícios divinos nos outros, Ele desvia os milagres de Sua piedade. Assim, os atos da carne do Senhor são um exemplo de divindade, e suas coisas invisíveis nos são demonstradas por aquelas que são visíveis. Vede, portanto, que mal a inveja traz: por causa da inveja, a pátria é julgada indigna de que nela o cidadão opere, ela que foi digna de que nela o Filho de Deus nascesse.
Muito bem se retrata, com um exemplo de comparação apropriado, a arrogância dos cidadãos invejosos, e mostra-se que o ato do Senhor está de acordo com as antigas Escrituras; pois segue-se: E em verdade vos digo: muitas viúvas havia em Israel nos dias de Elias: não porque os dias fossem de Elias, mas porque neles Elias operou.
Misticamente, porém, diz "nos dias de Elias": porque Elias criava dias para aqueles que em suas obras viam a luz da graça espiritual; e por isso o céu se abria para os que viam os mistérios divinos, mas se fechava quando havia fome, porque não havia abundância para conhecer a divindade. Naquela viúva, a quem Elias foi enviado, está prefigurado o tipo da Igreja.
Em sentido místico, o povo toca a Igreja, para que aquele povo reunido dentre os estrangeiros, antes leproso, antes que fosse batizado no rio místico, isto é, depois dos sacramentos do Batismo, lavadas as manchas do corpo e da mente, começasse a ser uma virgem imaculada sem rugas.
Não é de admirar que perderam a salvação os que expulsaram o Salvador de seus territórios. O Senhor, pois, que havia ensinado aos apóstolos pelo seu exemplo a se fazerem tudo para todos, nem repudia os que querem, nem constrange os que não querem, nem resiste aos que o expulsam, nem abandona os que lhe suplicam. Não é pequena a inveja que se revela, quando, esquecendo-se da caridade, converte as causas do amor nos mais acerbos ódios. Pois enquanto o próprio Senhor difundia benefícios entre o povo, eles lhe dirigiam injúrias; daí segue-se: "E o conduziram até o cume do monte, sobre o qual a cidade deles estava edificada, para o precipitarem".
Entende-se também que não foi por necessidade, mas por vontade própria que sofreu a paixão corporal: pois quando quer é preso, quando quer escapa. Pois como poderia ser retido por poucos aquele que não foi retido pelo povo inteiro? Mas quis que o sacrilégio fosse obra de muitos, para que fosse afligido por poucos, mas morresse pelo mundo inteiro. Além disso, preferia ainda curar os judeus a perdê-los; para que, com o resultado ineficaz de seu furor, deixassem de querer aquilo que não podiam realizar.
O Senhor não abandonou a Judeia, nem movido pela indignação, nem ofendido pelo crime; pelo contrário, esquecendo-se da injúria e lembrando-se da clemência, ora ensinando, ora curando, abranda os corações daquela gente infiel; por isso é dito "e desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali os ensinava nos sábados".
No sábado começaram as obras da medicina divina, significando que a nova criatura começou a partir de onde a antiga criatura antes havia terminado; para designar, desde o princípio, que o Filho de Deus não está sob a lei, mas acima da lei. Apropriadamente também começou no sábado, para mostrar-se como o próprio Criador, porque entrelaça obras com obras, e prossegue a obra que Ele mesmo já havia começado antes; como se um construtor, ao decidir renovar uma casa, não começasse pelos fundamentos, mas pelo telhado a remover o que está velho, de modo que primeiramente coloque a mão onde antes havia parado. Depois começa pelas coisas menores, para chegar às maiores. Libertar os homens do demônio, também os santos podem, mas pela palavra de Deus; ordenar a ressurreição de um morto é próprio somente do poder divino.
Não deve causar estranheza a ninguém que neste livro o Diabo seja apresentado como o primeiro a pronunciar o nome de Jesus Nazareno; pois Cristo não recebeu dele o nome que o Anjo trouxe do céu à Virgem. É próprio da impudência do Diabo ser o primeiro a usurpar algo entre os homens e levá-lo como novidade aos homens, para incutir-lhes terror pelo seu poder; daí segue-se: sei quem tu és, o Santo de Deus.
Misticamente, o homem que na sinagoga tinha um espírito imundo representa o povo judeu, que, enredado nos laços do Diabo, maculava a simulada pureza corporal com as sujidades interiores da mente; e com razão tinha um espírito imundo, porque havia perdido o Espírito Santo: pois o Diabo havia entrado onde Cristo havia saído.
Depois que Lucas apresentou antes um homem liberto do espírito maligno, introduz a cura de uma mulher. Pois o Senhor havia vindo para curar ambos os sexos; e primeiro devia ser curado aquele que primeiro foi criado; por isso diz: "Levantando-se da sinagoga, entrou na casa de Simão".
Mas se examinarmos estas coisas com um conselho mais elevado, devemos compreender a saúde da alma e do corpo: de modo que primeiro o espírito, que sofria com as insídias da serpente, seja libertado. De fato, Eva não sentiu fome antes que a astúcia da serpente a tentasse; e por isso, contra o próprio autor do pecado, primeiro deveria operar a medicina da salvação. Talvez também, como símbolo daquela mulher, nossa carne definhava com várias febres de pecados; nem diria eu que a febre do amor é menor do que a do calor.
Aconteceu que, quando o Senhor havia concedido a muitos vários tipos de curas, a multidão não deixou de buscar a cura nem pelo tempo, nem pelo lugar: a noite caiu, e eles o seguiam; encontraram um lago, e as multidões o pressionavam; por isso diz: "E aconteceu que, como as multidões se aglomerassem ao redor dele".
Misticamente, a nau de Pedro, que segundo São Mateus flutua, segundo São Lucas enche-se de peixes, para que reconheças tanto os princípios da Igreja flutuante quanto os tempos posteriores de abundância. Não se perturba aquela que tem Pedro; perturba-se aquela que tem Judas: em ambas está Pedro; mas aquele que por seus méritos é firme, é perturbado pelos alheios. Acautelemo-nos, portanto, do traidor, para que por causa de um só não flutuemos muitos. Onde há pouca fé, há perturbação; onde há perfeito amor, há segurança. Finalmente, ainda que a outros seja ordenado que lancem suas redes, somente a Pedro é dito "lança-te ao profundo", isto é, à profundidade das disputas. O que é tão profundo quanto conhecer o Filho de Deus? E quais são as redes dos apóstolos que se ordena lançar, senão os entrelaçamentos de palavras, e como que certas sinuosidades do discurso, e os recônditos das disputas, que não deixam escapar aqueles que capturaram? E bem são as redes instrumentos apostólicos de pesca, que não matam os que são capturados, mas os conservam, e conduzem os que flutuam das profundezas para as alturas. Diz, porém: "Mestre, por toda a noite trabalhamos e nada pegamos"; porque não é obra da eloquência humana, mas dom da vocação superior. Aqueles que antes nada haviam capturado, na palavra do Senhor encerram uma grande multidão de peixes.
A outra nave é o judaísmo, do qual são escolhidos São João e São Tiago. Estes, portanto, vieram da sinagoga para a nave de Pedro, isto é, para a Igreja, para que enchessem ambas as naves: pois todos dobram os joelhos em nome de Jesus, seja judeu, seja grego.
Podemos também entender pela outra nave outra Igreja, uma vez que de uma só Igreja derivam-se várias.
Pedro admirava-se dos dons divinos; e quanto mais temia, menos presumia; daí diz-se que quando viu isto Simão Pedro, prostrou-se aos joelhos de Jesus, dizendo: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador.
Diga tu também: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador", para que Deus responda: "Não temas". Confessa teu pecado ao Senhor indulgente. Vês quão bom é o Senhor, que concede aos homens tanto que possuem o poder de vivificar; donde segue: "De agora em diante serás pescador de homens".
Misticamente, porém, aqueles a quem Pedro captura pela palavra, ele nega que sejam seu despojo, nega que sejam seu dom. "Retira-te de mim, Senhor", diz ele. Não temas também tu atribuir ao Senhor o que é teu, pois aquilo que era seu Ele concedeu a nós.
O quarto milagre, desde que o Senhor chegou a Cafarnaum, foi a cura do leproso. Se no quarto dia Ele iluminou o sol e o fez mais claro que os demais, devemos considerar esta obra mais ilustre que as anteriores, da qual se diz: "E aconteceu que, estando ele em uma cidade, eis que um homem cheio de lepra". Apropriadamente não se menciona um lugar específico onde o leproso foi curado, para indicar que não foi apenas um povo de alguma cidade particular, mas todos os povos que foram curados.
Prostrar-se de face por terra é sinal de humildade e pudor, para que cada um se envergonhe das manchas de sua vida; mas o pudor não reprimiu sua confissão: mostrou a ferida e pediu o remédio, dizendo: "Senhor, se queres, podes purificar-me". Acerca da vontade do Senhor, não duvidou como quem descrê de sua piedade, mas, consciente de sua própria iniquidade, não presumiu; porém, é plena de religião e fé a confissão que coloca na vontade do Senhor todo o poder.
Ele cura do mesmo modo pelo qual fora suplicado; por isso segue: e Jesus estendendo a mão, tocou-o. A Lei proíbe tocar os leprosos; mas aquele que é o Senhor da lei não obedece à lei, mas faz a lei. Não o tocou porque sem o toque não pudesse purificá-lo, mas para provar que não estava sujeito à lei, nem temia o contágio como os homens, pois não podia ser contaminado Aquele que libertava os outros; e ao mesmo tempo, pelo contrário, para que a lepra fosse afugentada pelo toque do Senhor, ela que costumava contaminar quem a tocava.
E neste ponto, quando acrescenta "quero, sê limpo", tens a Sua vontade, tens também o efeito de Sua piedade.
Diz, pois, quero, por causa de Fotino; ordena, por causa de Ário; toca, por causa de Maniqueu. Não há nada intermediário entre a obra de Deus e seu preceito, para que compreendas o afeto do que cura e a virtude da obra; por isso segue: e imediatamente a lepra afastou-se dele. Mas para que a lepra não possa passar para o médico, cada um, pelo exemplo da humildade do Senhor, evite a jactância; pois segue: e ordenou-lhe que não o dissesse a ninguém: para que, certamente, ensinasse que nossos benefícios não devem ser divulgados, mas ocultados, para que não apenas nos abstenhamos da recompensa do dinheiro, mas também da graça. Ou talvez a causa do silêncio ordenado seja porque considerava melhores aqueles que creram mais por fé espontânea do que pela esperança dos benefícios.
E para que também o sacerdote compreendesse que não fora curado pela ordem da lei, mas pela graça de Deus que está acima da lei; e ao ordená-lo que oferecesse o sacrifício segundo o preceito de Moisés, o Senhor mostrou que não vinha abolir a lei, mas cumpri-la; donde se segue: E oferece por tua purificação como ordenou Moisés.
Ou porque a lei é espiritual, parece ter ordenado um sacrifício espiritual; por isso disse como ordenou Moisés; e finalmente acrescentou em testemunho para eles.
Se, porém, a palavra é a medicina da lepra, o desprezo da palavra é a lepra da mente.
Grande é o Senhor, que perdoa a uns pelos méritos de outros; e enquanto aprova uns, relaxa os erros de outros. Por que junto a ti, ó homem, não tem valor o teu semelhante, quando junto a Deus um servo tem tanto o mérito de interceder quanto o direito de impetrar? Se desconfias do perdão de pecados graves, recorre a intercessores, recorre à Igreja para que reze por ti, por cuja contemplação o Senhor pode perdoar o que poderia negar a ti.
Assim, o Filho de Deus recebe testemunho deles mesmos a partir de suas obras; pois é mais forte para a fé aquilo que os inimigos confessam involuntariamente, e mais pernicioso para a culpa o que negam aqueles que são deixados com suas próprias afirmações; donde segue: "Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?" Grande é a demência do povo infiel, que embora tenha confessado que só a Deus pertence o poder de perdoar pecados, não crê em Deus quando Ele perdoa os pecados.
O Senhor, querendo salvar os pecadores, demonstra ser Deus por meio do conhecimento dos pensamentos ocultos; por isso segue: Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, respondendo, disse-lhes: Que pensais em vossos corações?
E não houve demora alguma na cura; um só momento foi para as palavras e para os remédios; de onde segue e imediatamente, levantando-se diante deles, tomou o leito em que jazia, e partiu para sua casa, glorificando a Deus.
Os incrédulos observam-no levantando-se, e admiram-se quando ele parte; por isso segue-se: "E o espanto apoderou-se de todos, e glorificavam a Deus".
Mas eles preferem temer os milagres da obra divina a acreditar neles. Donde segue-se: e ficaram cheios de temor, dizendo: vimos coisas admiráveis hoje. Mas se tivessem acreditado, certamente não teriam temido, mas amado; pois o amor perfeito lança fora o temor. Não foi, entretanto, nem ociosa nem limitada a cura deste paralítico, visto que se diz que Nosso Senhor orou primeiro, não pela necessidade de súplica, mas para dar o exemplo.
Cada enfermo deve empregar pregadores da cura desejada, pelos quais a estrutura de nossa vida que se desfez e os passos claudicantes de nossas ações sejam reformados pelo remédio da palavra celestial. Haja, portanto, alguns monitores da mente, que elevem a alma do homem, ainda que entorpecida pela debilidade do corpo exterior, às coisas superiores, com cujos auxílios novamente seja fácil levantar-se e humilhar-se, e seja colocado diante de Jesus, digno de ser visto pelo olhar do Senhor; pois o Senhor contempla os humildes.
O Senhor, porém, mostrando a plena esperança da ressurreição, perdoa os pecados das almas e remove a debilidade da carne: isto é, de fato, curar o homem todo. Embora, portanto, seja grandioso para os homens perdoar pecados, todavia é muito mais divino conceder a ressurreição aos corpos, visto que Deus é a ressurreição. O leito que é ordenado levantar nada mais é do que o corpo humano.
Ou voltar à sua própria casa, isto é, retornar ao Paraíso: pois aquela é a verdadeira casa que primeiro acolheu o homem, não perdida por direito, mas por fraude. Justamente, portanto, é restituída, pois veio Aquele que aboliria o laço da fraude e restauraria o direito.
Ele ordena que o siga, não com o passo do corpo, mas com o afeto da mente. Assim, aquele que foi chamado pela palavra, abandonou o que era seu, ele que costumava tomar o que era dos outros; de onde segue e deixando tudo, levantando-se, seguiu-o.
Pois ao comer com pecadores, Ele não nos proíbe também de participar de banquetes com os gentios.
Esta é a voz da serpente: foi a primeira voz que a serpente emitiu dizendo a Eva: "Por que Deus disse: não comais"(Gênesis 3,1), etc.? Assim difundem o veneno de seu pai.
Mas como, embora tenha amado as justiças, nem David viu o justo desamparado, se o justo é abandonado e o pecador é chamado? A não ser que entendas que chama justos àqueles que presumem da lei e não buscam a graça do Evangelho. Porém, ninguém é justificado pela lei, mas redimido pela graça. Não chama, portanto, aqueles que se dizem justos: pois os usurpadores da justiça não são chamados à graça; pois se a graça procede da penitência, certamente quem despreza a penitência, renuncia à graça.
Mas quem recebe Cristo na morada interior, é alimentado com os maiores deleites de prazeres transbordantes. Assim, de bom grado o Senhor entra e repousa em seu afeto. Mas novamente acende-se a inveja dos pérfidos, e prefigura-se a forma de seu castigo futuro: pois enquanto os fiéis banqueteiam no reino dos céus, a perfídia jejua será atormentada.
Ao mesmo tempo também é mostrada a diferença entre os êmulos da lei e os da graça: que aqueles que seguem a lei sofrerão fome eterna da mente; mas aqueles que receberam a palavra no interior da alma, revigorados pela abundância do alimento celestial e da fonte, não podem ter fome nem sede. E por isso, aqueles que jejuavam na alma, murmuravam.
Ou, de outra maneira. Não se rejeita aquele jejum pelo qual a carne é mortificada e a luxúria do corpo é castigada; este jejum nos recomenda a Deus. Mas não podemos jejuar os que temos a Cristo, e nos banqueteamos com a carne e o sangue de Cristo.
Mas quais são aqueles dias nos quais Cristo nos será tirado, uma vez que Ele próprio disse: "estarei convosco até a consumação do mundo"? Mas ninguém pode tirar-te Cristo, a não ser que tu mesmo te retires Dele.
Por fim, foi dito sobre o jejum da alma, como demonstram as palavras seguintes; pois segue-se: e lhes dizia uma parábola: ninguém põe um remendo, isto é, uma parte retirada de uma vestimenta nova, em uma vestimenta velha. Chamou o jejum de vestimenta velha, a qual o Apóstolo julgou que deveria ser despojada, dizendo: despojai-vos do homem velho com seus atos. Portanto, na mesma forma convém a série de preceitos, para que não misturemos os atos do homem velho e do novo.
A fragilidade da condição humana é revelada quando nossos corpos são comparados às peles de animais mortos.
Não somente na compreensão das palavras, mas também no próprio costume e aparência dos gestos o Senhor começa a despojar o homem da observância da antiga lei; donde se diz: aconteceu, pois, num sábado segundo-primeiro, que passando ele pelos campos de trigo, seus discípulos colhiam espigas e comiam, debulhando-as com as mãos.
O Senhor, porém, argui os defensores da lei de desconhecerem as coisas que são da lei, trazendo o exemplo de Davi; donde segue: e respondendo Jesus a eles, disse: nem isto lestes que fez Davi, quando tinha fome ele e os que estavam com ele?
Este não é um mistério medíocre. Pois o campo é este mundo; a semeadura do campo é a fecundidade numerosa de santos na linhagem do gênero humano; as espigas do campo são os frutos da Igreja, que os apóstolos, debulhando com suas obras, alimentavam-se, nutrindo-se com nosso progresso, e como se das vagens dos corpos, extraíam os frutos das mentes para a luz da fé através dos admiráveis milagres de suas obras preclaras.
Mas os judeus pensavam não ser isto lícito no sábado; Cristo, porém, pelo dom da nova graça, designava o ócio da lei como obra da graça: admirável, contudo, é que tenha dito segundo-primeiro, e não primeiro-segundo sábado: porque aquele sábado que era primeiro foi abolido pela lei; e este primeiro foi feito o que foi constituído segundo. O sábado, portanto, é chamado segundo conforme o número, e primeiro conforme a operação da graça: pois é melhor o sábado em que se concede impunidade, do que aquele em que se prescreve uma pena. Ou talvez este seja primeiro na predestinação do conselho, e segundo na sanção do decreto. Ademais, quando Davi fugiu com seus companheiros, prefigurou-se a Cristo na lei, que com seus apóstolos se ocultava do príncipe do mundo. Como então aquele observador e defensor da lei comeu pães, e ele mesmo deu àqueles que estavam com ele, pães que não era lícito comer senão aos sacerdotes; a não ser para demonstrar por aquela figura que o alimento sacerdotal deveria passar ao uso dos povos; ou porque todos devemos imitar a vida sacerdotal; ou porque todos os filhos da Igreja são sacerdotes? Pois somos ungidos em um sacerdócio santo, oferecendo a nós mesmos como hóstias espirituais a Deus. Se, portanto, o sábado foi feito para os homens; e a utilidade dos homens requeria que o homem faminto, que por muito tempo esteve privado dos frutos da terra, evitasse os jejuns da antiga fome: certamente a lei não é violada, mas cumprida.
Aqui o Senhor progride para outras coisas; pois aquele que dispusera salvar o homem todo, curava por cada um dos membros; donde se diz: Aconteceu, pois, em outro sábado, que entrou na sinagoga e ensinava.
A lei, porém, nas circunstâncias presentes, prefigurou a forma das coisas futuras; nas quais, com efeito, haverá férias dos males, não dos bens: pois ainda que as obras seculares repousem, não é, contudo, ato ocioso de uma boa obra descansar nos louvores a Deus.
Ouviste, portanto, as palavras daquele que diz: estende a tua mão. Esta é uma medicina comum e universal; e tu, que pensas ter a mão sã, cuida para que não se contraia pela avareza ou pelo sacrilégio. Estende-a com frequência para ajudar ao próximo, para dar proteção à viúva, para livrar da injúria aquele que vês injustamente sujeito ao ultraje; estende-a ao pobre que te suplica; estende-a ao Senhor pelos teus pecados: assim a mão é estendida, assim a mão é curada.
Não queiras abrir os ouvidos insidiosos, pensando que o Filho de Deus roga por causa de fraqueza, para obter o que não pode realizar; pois sendo Ele mesmo o Autor do poder, Mestre da obediência, nos instrui pelo Seu próprio exemplo para os preceitos da virtude.
Em toda parte também Ele ora sozinho: porque os desejos humanos não compreendem os desígnios de Deus; e ninguém pode ser partícipe dos segredos de Cristo. Mas nem todo aquele que ora sobe ao monte, apenas aquele que ora progredindo das coisas terrenas para as superiores; mas não aquele que está preocupado com as riquezas ou honras do mundo. Todos os elevados sobem ao monte: por isso no Evangelho encontrarás que somente os discípulos subiram ao monte com o Senhor. A ti, porém, é dado, ó cristão, um modelo; é prescrita uma forma que deves imitar, quando segue: e passou a noite em oração a Deus. Pois o que te convém fazer pela tua salvação, quando Cristo passa a noite em oração por ti?
O que te convém fazer quando pretendes iniciar alguma obra de piedade, quando Cristo, antes de enviar os apóstolos, primeiramente orou? Pois segue-se: "E quando amanheceu, chamou seus discípulos, e escolheu doze dentre eles, aos quais também deu o nome de apóstolos"; os quais, certamente, destinou como semeadores da fé para propagar o auxílio da salvação humana por todo o orbe terrestre. Observe também o conselho celestial: não escolheu alguns sábios, nem ricos, nem nobres, mas pescadores e publicanos, para enviá-los; para que não parecesse ter atraído alguns para sua graça por meio de riquezas ou do poder e autoridade da nobreza; para que prevalecesse a razão da verdade, não a graça da disputa.
Observe com diligência todas as coisas, como Ele ascende com os Apóstolos e desce para a multidão; como a multidão não o segue aos lugares elevados; finalmente, onde Ele desce, encontra os enfermos, pois nas alturas não podem estar os enfermos.
Estando Ele prestes a proferir os oráculos da Divindade, começa a tornar-se mais sublime; e embora estivesse em um lugar humilde, contudo elevou os olhos; por isso se diz e Ele, tendo elevado os olhos. O que é elevar os olhos senão manifestar uma luz mais interior?
São Lucas colocou somente quatro bem-aventuranças, porém São Mateus colocou oito; mas nestas oito estão contidas aquelas quatro, e naquelas quatro estão estas oito. Pois este [São Lucas] abrangeu como que as quatro virtudes cardeais; aquele [São Mateus] revelou naquelas oito uma ordem mística: assim como a oitava é a perfeição da nossa esperança, assim também a oitava é a suma das virtudes. Mas ambos os Evangelistas colocaram como primeira bem-aventurança a da pobreza: pois em ordem ela é a primeira, e como que a progenitora das virtudes; porque aquele que desprezar as coisas seculares, este merecerá as sempiternas; nem pode alguém alcançar o mérito do reino celestial que, oprimido pela cobiça do mundo, não tem a capacidade de emergir dela; por isso segue-se que dizia: bem-aventurados os pobres.
Porque os judeus perseguiram os profetas até à morte corporal.
Assim, quando Ele diz "Bem-aventurados os pobres", tens a temperança, que se abstém do pecado, despreza o mundo e não busca coisas sedutoras. "Bem-aventurados os que tendes fome": tens a justiça; pois quem se compadece do faminto, compadecendo-se dá generosamente, e dando generosamente torna-se justo, porque sua justiça permanece para sempre. "Bem-aventurados os que agora chorais": tens a prudência, que consiste em chorar pelas coisas cotidianas e buscar as que são eternas. "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem": tens a fortaleza; mas aquela que não merece ódio por crimes, mas que sofre perseguição por causa da fé. Pois assim se chega à coroa do sofrimento, se desprezares o favor dos homens e seguires o divino. Portanto, a temperança traz consigo a pureza do coração, a justiça traz a misericórdia, a prudência traz a paz, e a fortaleza traz a mansidão. As virtudes estão interligadas e encadeadas de tal modo que quem possui uma parece possuir muitas; e aos santos compete uma virtude, mas aquela que for mais abundante, mais abundante é o prêmio. Quanta hospitalidade em Abraão, quanta humildade! Mas como ele se destacou na fé, mereceu acima dos demais o principado da fé. Portanto, a cada um muitos prêmios, porque muitos são os incentivos às virtudes; mas o que for mais abundante em algum mérito, será também mais transbordante na recompensa.
Embora nas riquezas pecuniárias haja muitos atrativos para os delitos, existem também muitos incentivos para as virtudes; ainda que a virtude não requeira subsídios, e seja mais louvável a contribuição do pobre que a liberalidade do rico; todavia, a autoridade da sentença celestial não condena aqueles que possuem riquezas, mas aqueles que não sabem usar delas. Pois assim como aquele pobre é mais louvável quando dá com prontidão de afeto, assim é mais culpável o rico que deveria retribuir com gratidão a Deus pelo que recebeu, e não esconder sem uso o patrimônio dado para o bem comum. Não é, portanto, a riqueza, mas o afeto que está no crime. E embora não haja punição mais grave do que preservar com temor ansioso o que servirá para o proveito dos sucessores, contudo, como os desejos de acumulação da avareza são alimentados por certo prazer, aqueles que tiveram sua consolação na vida presente, perderam a remuneração eterna. Podemos, entretanto, entender aqui por rico o povo dos Judeus, ou os hereges, ou certamente os Fariseus, que, deleitando-se na abundância de palavras e em certo patrimônio de eloquência ambiciosa, ultrapassando a simplicidade da verdadeira fé, acumularam tesouros inúteis. Segue-se ai de vós que estais saciados, porque tereis fome.
E observa que São Mateus provocou os povos à virtude e à fé por meio de prêmios; este, porém, também os afastou dos crimes e dos pecados com a denunciação dos suplícios futuros.
Não ociosamente, após progredir na enumeração de muitos feitos celestiais, chegou mais tardiamente a este lugar, para que o povo, fortalecido pelos milagres divinos, fosse ensinado a avançar para além do caminho da lei, seguindo os vestígios das virtudes. Enfim, entre as três maiores virtudes, esperança, fé e caridade, a maior é a caridade, que é ordenada quando se diz "amai vossos inimigos".
A filosofia parece ter dividido a justiça em três partes: uma para com Deus, que se chama piedade; outra para com os pais ou o restante do gênero humano; a terceira para com os mortos, para que a estes sejam prestados os devidos ritos fúnebres. Mas o Senhor, indo além do oráculo da lei e do ápice da profecia, corrigiu o dever da piedade também para com aqueles que nos ofenderam, quando acrescenta: "porém, amai vossos inimigos".
Quão grande é a recompensa da misericórdia que é recebida no privilégio da adoção divina! Pois segue-se: "E sereis filhos do Altíssimo". Segui, portanto, a misericórdia, para que mereçais a graça. Amplamente difundida está a misericórdia de Deus; Ele derrama Sua chuva sobre os ingratos, a terra fértil não nega seus frutos aos maus. Daí segue-se: "Porque Ele é benigno para com os ingratos e para com os maus".
O Senhor acrescentou que não devemos julgar temerariamente, para que não sejas obrigado, consciente de teu próprio delito, a proferir sentença contra outro. Por isso diz: "Não julgueis".
Naqueles espinhos do mundo não se pode encontrar aquela figueira que, por ser melhor em seus frutos fecundos, é bem adequada como imagem da ressurreição; ou porque, como leste: "as figueiras deram seus figos verdes", fruto esse que na sinagoga veio antes imaturo, caduco e inútil; ou porque nossa vida é imatura no corpo e madura na ressurreição. Por isso, devemos afastar de nós as preocupações seculares, que mordem a alma e queimam a mente, para que possamos alcançar os frutos maduros de um cultivo diligente. Isto, pois, refere-se ao mundo e à ressurreição; o outro refere-se à alma e ao corpo, quando acrescenta: "nem vindimam uvas do espinheiro"; ou porque ninguém pelos pecados adquire fruto para sua alma, a qual, como a uva, próxima à terra se corrompe e nas alturas amadurece; ou porque ninguém pode escapar da condenação da carne, senão aquele a quem Cristo redimiu, que como uva pendeu no madeiro.
Ou Ele ensina que a obediência aos preceitos celestiais é o fundamento de todas as virtudes, por meio da qual esta nossa casa não pode ser abalada nem pela torrente dos prazeres, nem pelo assalto da malícia espiritual, nem pela chuva mundana, nem pelas nebulosas disputas dos hereges; de onde se segue: "Sobrevindo, porém, uma inundação, o rio investiu contra aquela casa, e não pôde movê-la".
Belamente, ao completar os preceitos, ensina a maneira de executar suas ordens: pois imediatamente o servo de um centurião gentil é apresentado ao Senhor para ser curado; donde segue como o servo de um certo centurião, estando gravemente enfermo, estava para morrer, o qual lhe era precioso. Ao dizer que estava para morrer, o Evangelista não se enganou; pois realmente estaria para morrer, se não tivesse sido curado por Cristo.
O que certamente não fazia porque estando ausente não pudesse curar; mas para dar-te um exemplo de humildade a ser imitada, não quis ir ao filho do régulo, para que não parecesse ter se rendido às riquezas; aqui ele mesmo se dirigiu, para que não parecesse ter desprezado a condição servil no servo do centurião. O centurião, porém, deixando de lado o orgulho militar, adota a reverência, sendo fácil para a fé e pronto para a honra; de onde segue: "e quando não estava longe da casa, enviou-lhe o centurião amigos, dizendo: Senhor, não te incomodes". Pois conjecturou que a saúde era dada aos homens por Cristo não pelo poder do homem, mas pelo de Deus. Os judeus, de fato, haviam alegado sua dignidade; mas ele mesmo se declarou indigno não apenas do benefício, mas também de receber o Senhor: "pois não sou digno de que entres debaixo do meu teto".
E bem diz São Lucas que os amigos foram enviados pelo centurião para encontrar o Senhor, para que, por sua própria presença, não parecesse causar constrangimento ao Senhor, e tê-lo chamado em retribuição de bons ofícios; por isso segue: "Por isso nem mesmo me julguei digno de ir a ti; mas dize apenas uma palavra, e meu servo será curado."
E, certamente, se leres assim: "Em ninguém encontrei tanta fé em Israel", o sentido é simples e fácil; mas se, segundo os gregos, leres: "Nem mesmo em Israel encontrei tanta fé", fé desta espécie é preferida mesmo à dos mais eleitos e dos que veem a Deus.
A fé do senhor é provada, e a saúde do servo é restabelecida; por isso segue: E os que tinham sido enviados, voltando para casa, encontraram são o servo que estivera enfermo. É possível, portanto, que o mérito do senhor aproveite também aos servos, não só pelo mérito da fé, mas também pelo zelo da disciplina.
Misticamente, pelo servo do centurião expressa-se o povo das nações, que estava retido pelos vínculos da servidão mundana, enfermo de paixões mortais, que deveria ser curado pelo benefício do Senhor.
Mas o centurião não quer que Jesus seja incomodado; porque aquele que o povo dos judeus crucificou, o povo das nações deseja mantê-lo inviolado de injúria; e, quanto ao que se refere ao mistério, viu que Cristo ainda não era penetrável nos corações dos gentios.
É apropriado observar que sete ressurreições são narradas antes da do Senhor; das quais a primeira é a do filho da viúva de Sarepta, a segunda a do filho da Sunamita, a terceira a que foi realizada pelas relíquias de Eliseu, a quarta a que aconteceu em Naim, a quinta a da filha do chefe da sinagoga, a sexta a de Lázaro, a sétima na paixão de Cristo, pois muitos corpos dos santos ressuscitaram; a oitava é a de Cristo, que permaneceu livre da morte posteriormente, como sinal de que a ressurreição comum, que acontecerá na oitava era, não será vencida pela morte, mas permanecerá indissolúvel.
Pois esta viúda, cercada por uma grande multidão de pessoas, vejo ser mais do que uma mulher, a qual chama de volta do cortejo fúnebre à vida a ressurreição do adolescente, seu filho único, pela contemplação de suas lágrimas, ela a quem se proíbe chorar por aquele a quem a ressurreição era devida.
Este morto, porém, era conduzido ao sepulcro no esquife pelos quatro elementos materiais; mas tinha a esperança de ressuscitar, porque era carregado em madeira; a qual, embora antes não nos fosse proveitosa, depois que Cristo a tocou, começou a servir para a vida; para que fosse um sinal de que a salvação do povo seria restituída pelo patíbulo da cruz. Pois jazemos sem vida no segredo, quando ou o fogo de um desejo imoderado arde intensamente, ou a umidade fria transborda, e por certa condição preguiçosa do corpo terreno, o vigor de nossas almas se embota.
Se, portanto, teu pecado é tão grave que não o possas lavar com tuas próprias lágrimas de penitência, que a mãe Igreja chore por ti, que a multidão te assista; logo ressuscitarás dos mortos e começarás a falar palavras de vida; todos temerão (pois pelo exemplo de um todos são corrigidos); também louvarão a Deus, que nos concedeu tão grandes remédios para evitar a morte.
Mas como poderia acontecer que, tendo dito dele: eis aquele que tira o pecado do mundo, ele ainda não acreditasse que Ele é o Filho de Deus? Pois ou é insolência atribuir a Cristo uma ação divina que não se conhece, ou é perfídia ter duvidado a respeito do Filho de Deus. Alguns, porém, entendem sobre o próprio João que ele era, de fato, um profeta tão grande que reconhecia Cristo; mas, entretanto, não como alguém que duvida, mas como um piedoso vidente que acreditava que viria, não acreditando que morreria. Portanto, não duvidou na fé, mas na piedade, assim como também Pedro, quando disse: "Tem compaixão de ti, Senhor, isto não te acontecerá".
Testemunho pleno, sem dúvida, pelo qual o profeta reconheceria o Senhor: pois dele havia sido profetizado que o Senhor dá alimento aos famintos, ergue os abatidos, liberta os cativos, ilumina os cegos; e que aquele que faz estas coisas reinará eternamente. Portanto, estes não são sinais de poder humano, mas de virtude divina. Deste Evangelho, porém, encontram-se raros ou nenhum exemplo: somente Tobias recuperou os olhos; e esta foi medicina de um Anjo, não de um homem; Elias ressuscitou um morto; ele mesmo, no entanto, rogou e chorou, enquanto este ordenou; Eliseu fez com que um leproso fosse purificado; todavia, ali não prevaleceu a autoridade do preceito, mas a figura do mistério.
Mas, contudo, esses são ainda pequenos exemplos do testemunho do Senhor: a plenitude da fé é a cruz do Senhor, sua morte e sepultura; por isso acrescentou: E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim. Pois a cruz poderia causar escândalo mesmo aos eleitos; mas não há maior testemunho do que este da pessoa divina; pois nada parece mais além do humano do que ter-se oferecido todo pelo mundo.
Misticamente, porém, em São João, acima dissemos que estava o tipo da lei, que foi preanunciadora de Cristo. Envia, pois, São João os seus discípulos a Cristo, para que obtenham o complemento do conhecimento, porque a plenitude da lei é Cristo; e talvez estes discípulos sejam os dois povos, dos quais um dentre os judeus acreditou, o outro dentre os gentios, que por isso acreditou, porque ouviu. Quiseram, portanto, também estes ver, porque bem-aventurados os olhos que veem. Quando, porém, tiverem chegado ao Evangelho, e reconhecido que os cegos são iluminados, que os coxos andam, então dirão: com nossos olhos observamos; pois parece-nos ter visto o que lemos; ou talvez em uma certa parte do nosso corpo, todos parecemos ter investigado a série da paixão do Senhor; pois a fé por meio de poucos chega a muitos. A lei, portanto, anuncia que Cristo há de vir, a Escritura do Evangelho confirma que Ele veio.
Não é em vão que a pessoa de São João é aqui louvada, que, posposto o amor da vida, não alterou a forma da justiça nem pelo terror da morte. Pois este mundo parece ser comparado a um deserto, ainda estéril, ainda inculto; no qual o Senhor nos nega que devamos avançar de tal modo que pensemos que homens inflados pela mente da carne, vazios de virtude interior, e que se vangloriam com a frágil sublimidade da glória secular, devam ser imitados por nós como um exemplo e imagem, homens que, sujeitos às tempestades deste mundo, são perturbados por uma vida inconstante, com razão comparados a uma cana.
E ainda que o cuidado com vestes delicadas efeminize muitos, parece, contudo, que aqui se refere a outro tipo de vestimenta, a saber, os corpos humanos, com os quais nossa alma se veste. Ora, as vestes delicadas são os atos voluptuosos e os costumes; estes, porém, cujos membros lânguidos se entregam aos prazeres, são excluídos do reino celestial; deles se apoderaram os príncipes deste mundo e das trevas: estes são, pois, os reis que dominam os êmulos de suas obras.
Na verdade, maior profeta (ou mais que profeta), naquele em quem se encontra o fim dos profetas: porque muitos desejaram ver aquele que ele contemplou, aquele que ele batizou.
Ele preparou o caminho do Senhor não somente na ordem do nascimento segundo a carne, e como mensageiro da fé, mas também como precursor de Sua gloriosa paixão; por isso segue-se que preparará o teu caminho diante de ti. Mas se Cristo também é profeta, como é este homem maior que todos? Mas é dito: entre os nascidos de mulher, não de virgem. Pois Ele foi maior do que aqueles, a quem poderia ser igual pelo modo de nascimento; como segue-se: Pois eu vos digo: entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta que São João Batista.
Por fim, a tal ponto não pode haver qualquer comparação entre São João e o Filho de Deus, que aquele é considerado inferior até mesmo aos anjos; daí segue-se: Mas aquele que é menor no reino de Deus é maior do que ele.
Pois esta é uma natureza diferente, que não deve ser comparada com as gerações humanas: não pode, de fato, haver qualquer comparação entre Deus e os homens.
Deus é justificado pelo Batismo, quando os homens, confessando seus próprios pecados, se justificam; pois aquele que peca e confessa seu pecado a Deus, justifica a Deus, cedendo a Ele que vence, e esperando d'Ele a graça. No Batismo, portanto, Deus é justificado, no qual há tanto a confissão quanto o perdão dos pecados.
Não condenemos, pois, como os fariseus, o conselho de Deus que está no Batismo de São João; este é o conselho que o Anjo do grande conselho encontrou. Ninguém despreza o conselho de São João, quem, pois, rejeitará o conselho de Deus?
Cantaram, pois, os profetas, transmitindo com modulações espirituais os oráculos da salvação pública; choraram com trenos lamentosos, abrandando os duros corações dos judeus. Este cântico não era entoado no foro, nem nas praças, mas em Jerusalém: pois ela mesma é o foro do Senhor, no qual são estabelecidos os direitos dos preceitos celestiais.
O Filho de Deus é sabedoria por natureza, não por progresso; a qual é justificada pelo Batismo, nisso que não é rejeitada por contumácia, mas é reconhecida pela justiça como dom de Deus. Nisto, portanto, está a justificação de Deus, se parecer transferir seus dons, não aos indignos e culpados, mas aos inocentes, que pelo banho se tornaram santos e justos.
Bem diz "por todos", porque acerca de todos a justiça é reservada, para que seja feita a acolhida dos fiéis e a rejeição dos infiéis.
Como se dissesse: O uso da água é fácil, não é fácil o derramamento de lágrimas; tu não usaste o que era acessível, esta derramou o que não era fácil: lavando com lágrimas os meus pés, lavou suas próprias manchas; enxugou-os com os cabelos, para que através deles atraísse para si o sagrado suor, e com os quais antes havia caçado a juventude para o pecado, agora caçou a santidade.
Neste lugar, porém, muitos parecem experimentar um escrúpulo de questão, se os Evangelistas não parecem ter discordado acerca da fé.
São Mateus introduziu esta mulher derramando unguento sobre a cabeça de Cristo, e por isso não quis chamá-la de pecadora; pois a pecadora, segundo São Lucas, derramou unguento sobre os pés de Cristo. Portanto, pode não ser a mesma, para que os Evangelistas não pareçam estar em contradição uns com os outros. A dificuldade também pode ser resolvida pela diferença de mérito e de tempo, de modo que a primeira mulher ainda fosse pecadora, e esta última mais perfeita.
Ou o príncipe deste mundo é um certo leproso, e a casa de Simão o leproso é a terra; portanto, o Senhor desceu daqueles lugares mais elevados à terra; e esta mulher, que tem a forma da alma ou da Igreja, não poderia ter sido curada se Cristo não tivesse vindo à terra. Com razão ela toma a aparência de pecadora, porque Cristo também assumiu a forma de pecador. Assim, se considerares uma alma que se aproxima fielmente de Deus, não com pecados torpes e obscenos, mas servindo piedosamente à palavra de Deus, tendo a confiança de uma castidade imaculada; ela ascende à própria cabeça de Cristo: e a cabeça de Cristo é Deus. Mas quem não segura a cabeça de Cristo, que segure os pés. O pecador aos pés, o justo à cabeça. No entanto, também aquela que pecou tem unguento.
Apresenta também tu a penitência após os pecados; onde quer que ouvires o nome de Cristo, corre para lá; quando souberes que Jesus entrou na casa interior de alguém, apressa-te também; quando encontrares a sabedoria, quando encontrares a justiça repousando em algum recôndito, corre aos seus pés; isto é, busca mesmo a parte mais baixa da sabedoria, confessa com lágrimas os teus pecados. E talvez por isso Cristo não lavou os seus pés, para que nós os lavássemos com nossas lágrimas. Benditas lágrimas, que não só podem lavar o nosso delito, mas também regar os passos do Verbo celestial, para que Seus caminhos abundem em nós. Benditas lágrimas, nas quais não há somente a redenção dos pecadores, mas também o conforto dos justos.
Espalha também os teus cabelos, estende diante dele todas as dignidades do teu corpo; não são medíocres os cabelos que podem secar os pés de Cristo.
Não é de pouco mérito aquela de quem se diz: Desde que entrou, não cessou de beijar os meus pés, de modo que ela não saiba falar senão de sabedoria, nem amar senão a justiça, nem tocar senão a castidade, nem beijar senão a modéstia.
Bem-aventurado aquele que pode ungir com óleo os pés de Cristo; mas mais bem-aventurado aquele que unge com unguento: pois esparge a essência de muitas flores reunidas em uma só; e talvez este unguento não possa ser oferecido por outro senão pela Igreja sozinha, que tem inumeráveis flores de diversos aromas: e por isso ninguém pode amar tanto quanto aquela que ama em muitos. Na casa do fariseu, isto é, na casa da lei e do profeta, não o fariseu, mas a Igreja é justificada: pois o fariseu não acreditou, esta acreditava; a lei não tem mistério, pelo qual as coisas ocultas são purificadas; e, portanto, o que é menor na lei, é consumado no Evangelho. Os dois devedores são dois povos que estão obrigados àquele usurário do tesouro celestial. Não devemos a este usurário dinheiro material, mas o metal examinado dos méritos, as moedas das virtudes; cujos méritos são avaliados pelo peso da gravidade, pela aparência da justiça, pelo som da confissão. Não é medíocre este denário, no qual a imagem do rei é formada. Ai de mim, se eu não tiver o que recebi: ou porque dificilmente alguém pode pagar integralmente a dívida a este usurário, ai de mim, se eu não pedir que me seja perdoada a dívida. Mas quem é este povo que deve mais, senão nós, a quem mais foi confiado? A eles foram confiados os oráculos de Deus; a nós é confiado o parto da virgem Emmanuel, isto é, Deus conosco, a cruz do Senhor, a morte, a ressurreição. Portanto, não há dúvida de que deve mais quem mais recebe. Segundo os homens, talvez ofenda mais quem mais deveu; mas pela misericórdia do Senhor a causa é mudada, para que ame mais quem mais deveu, se alcançar a graça. E por isso, já que não há nada que possamos dignamente retribuir a Deus, ai de mim também se eu não amar. Devolvamos, portanto, amor pela dívida; pois ama mais aquele a quem mais é dado.
O mestre moral, que oferece a si mesmo como exemplo para os outros, ao prescrever aos demais que aquele que não deixar pai ou mãe não é digno do Filho de Deus, primeiro submete-se a este preceito; não que ele rejeite os deveres da piedade materna, pois seu próprio mandamento é: quem não honrar pai e mãe, morrerá de morte; mas porque reconhece que deve mais aos mistérios paternos do que aos afetos maternos. E não são os pais rejeitados injuriosamente, mas ensina-se que os laços das mentes são mais sagrados que os dos corpos. Portanto, aqui não é negada a mãe, como alguns hereges procuram capturar armadilhas, pois ela também é reconhecida desde a cruz; mas a forma dos preceitos celestes é preferida à necessidade corporal.
Em sentido místico, não deveria ficar do lado de fora aquele que buscava a Cristo; por isso Ele diz: "Aproximai-vos d'Ele e sereis iluminados". Se, pois, estão do lado de fora, nem mesmo os próprios pais são reconhecidos; e talvez não sejam reconhecidos para nosso exemplo, assim como nós não somos reconhecidos se ficamos do lado de fora. Também não é descabido entender que pela figura dos pais Ele demonstra os judeus, dos quais Cristo procede segundo a carne, e que a Igreja deve ser preferida à sinagoga.
Acima, lemos que Ele passava a noite em oração; como é que aqui Ele dorme durante a tempestade? Mas expressa-se a segurança do poder; como, enquanto todos temiam, somente Ele descansava intrépido, mas descansava com o sono do corpo enquanto estava atento ao mistério da divindade; pois nada acontece sem o Verbo.
Acalmada, pois, a tempestade pelo comando de Cristo, os discípulos, estupefatos pelo milagro, sussurravam entre si; donde se segue que, temendo, maravilharam-se, dizendo uns aos outros: quem, pensas, é este, que até aos ventos ordena e ao mar, e lhe obedecem? Não disseram isto os discípulos entre si como ignorantes de quem Ele era; pois conheciam que Jesus era Deus e Filho de Deus: admiram-se, porém, da abundância do poder inato e da glória da divindade; ainda que fosse semelhante a nós e visível segundo a carne; por isso dizem quem é este? Isto é, de que qualidade e quão grande, e com quanta virtude e majestade? Pois é obra imperiosa, comando dominador, não petição servil.
Assim, o Senhor, que se sabia ter vindo à terra para um mistério divino, tendo deixado seus parentes, subiu ao barco.
E note-se que ninguém pode partir do curso desta vida sem tentação, porque o exercício da fé é tentação. Estamos, portanto, sujeitos às tempestades da maldade espiritual; mas, como marinheiros vigilantes, despertemos o Piloto, que não serve, mas comanda os ventos; que, embora já não durma o sono de seu próprio corpo, cuidemos, contudo, para que não durma para nós por causa do sono de nosso corpo, e descanse. Com razão são repreendidos aqueles que temiam, estando Cristo presente, pois certamente aquele que se apega a Ele não pode perecer.
Mas os demônios não podiam suportar o resplendor da luz celestial, como aqueles que têm os olhos doentes não podem suportar os raios do sol.
Ainda que o número dos curados por Cristo seja discordante em São Lucas e São Mateus, todavia o mistério é concordante: pois, assim como este que tinha o Demônio é figura do povo gentio, do mesmo modo aqueles dois tomam semelhantemente a figura do povo gentio: porque quando Noé gerou três filhos, Sem, Cham e Japhet, somente a família de Sem foi chamada para a possessão de Deus: dos outros dois proliferaram os povos de diversas nações. Diz que tinha o Demônio há muito tempo, visto que desde o dilúvio até o advento do Senhor era atormentado. Estava nu, porém, porque perdeu a cobertura de sua natureza e virtude.
Ou que são os corpos dos infiéis senão certos sepulcros nos quais a palavra de Deus não habita?
Estes são como porcos que, semelhantes a animais imundos, privados de razão e palavra, mancharam os ornamentos de suas virtudes naturais com os atos impuros de sua vida.
Impetuosamente se precipitam, porque não são contidos pela consideração de mérito algum; mas como que lançados para baixo, dos lugares mais elevados para os inferiores, através do declive da impiedade, perecem entre as correntezas deste mundo, interrompido o comércio do espírito. Pois naqueles que são levados de um lado para outro pelo agitado fluxo do prazer, não pode existir o comércio vital daquele espírito. Vemos, portanto, que o próprio homem é o causador de sua desgraça: pois se alguém não vivesse à maneira dos porcos, jamais o Diabo teria poder sobre ele; ou se o tivesse, não seria para destruí-lo, mas para prová-lo: e talvez o Diabo, porque depois da vinda do Senhor já não podia mais arrebatar os bons, não busca a ruína de todos os homens, mas dos mais frágeis; como um ladrão que não ataca os armados, mas arma emboscadas contra os desarmados. Viram isto os pastores dos rebanhos, e fugiram: pois nem os professores de filosofia nem os príncipes da sinagoga podem trazer remédio aos povos que perecem: somente Cristo é quem tira os pecados dos povos.
Ou na cidade dos gerasenos parece existir a imagem da sinagoga, pois rogavam que se afastasse, porque eram tomados de grande temor; pois a mente enferma não compreende a palavra de Deus, nem pode sustentar o peso da sabedoria. E por isso não foi molesto por mais tempo, mas subiu das coisas inferiores às superiores, isto é, da sinagoga à Igreja: e regressou pelo lago: pois ninguém passa da Igreja para a sinagoga sem perigo de salvação; mas aquele que deseja passar da sinagoga para a Igreja, tome sua cruz, para que evite o perigo.
Mas quando Ele estava prestes a ressuscitar a morta, para inspirar fé, curou primeiro a hemorroísa; assim como a ressurreição temporal é celebrada na paixão do Senhor, para que aquela perpétua seja acreditada. E aconteceu que, enquanto Ele ia, era comprimido pela multidão.
Misticamente, Cristo havia deixado a sinagoga em Gerasa, e Aquele que os seus não receberam, nós, estrangeiros, recebemos.
Porém, quem pensamos ser o príncipe da sinagoga senão a Lei, em consideração à qual o Senhor não abandonou completamente a sinagoga?
Mas enquanto o Verbo de Deus se apressa em direção a esta filha do príncipe, para salvar os filhos de Israel, a santa Igreja reunida dentre os gentios, que perecia pela queda em graves crimes, tomou primeiro pela fé a saúde preparada para outros.
Que significa que esta filha do príncipe morria aos doze anos e esta mulher padecia de fluxo de sangue há doze anos, senão para que se entenda que enquanto a Sinagoga estava vigorosa, a Igreja sofria?
Mas assim como aquela mulher havia gasto toda a sua fortuna em médicos, assim também a congregação dos gentios havia perdido todos os dons da natureza.
Ouvindo, porém, que o povo dos judeus estava doente, começou a esperar o remédio de sua salvação; reconheceu que havia chegado o tempo em que o Médico viria do céu: levantou-se para encontrá-lo, mais pronta na fé, mais retraída pelo pudor: pois isto é próprio do pudor e da fé, reconhecer a enfermidade, não desesperar do perdão. Assim, pudorosa, tocou a orla, fiel aproximou-se, religiosa acreditou, sábia reconheceu que estava curada: assim o santo povo dos gentios, que acreditou em Deus, envergonhou-se do pecado para abandoná-lo, manifestou a fé para crer, demonstrou devoção para rogar, revestiu-se de sabedoria para sentir sua própria cura, tomou confiança para confessar que havia se apoderado do que era alheio. Por trás, porém, é tocado Cristo, porque está escrito: "Andarás após o Senhor teu Deus".
Não creem os que O comprimem; creem os que O tocam: pela fé se toca a Cristo, pela fé se vê. E finalmente, para expressar a fé daquela que cria, diz: "Eu conheci a virtude que de mim saiu"; o que é um indício mais evidente de que a divindade não está confinada dentro da possibilidade da condição humana, nem dentro dos limites do corpo, mas a virtude eterna transborda para além dos limites de nossa mediocridade. Pois o povo gentio não é libertado pelo auxílio humano, mas a congregação das nações é dom de Deus, que mesmo com pouca fé inclina para si a misericórdia eterna. Porque se considerarmos quanta é a nossa fé, e compreendermos quão grande é o Filho de Deus, veremos que em comparação a Ele apenas tocamos a orla, não podemos alcançar as partes superiores de sua vestimenta. Se, portanto, também nós desejamos ser curados, toquemos pela fé a orla de Cristo. Mas não fica oculto a Ele quem quer que O toque. Bem-aventurado aquele que tocou a parte extrema do Verbo; pois quem pode compreender o todo?
Mas ainda também os servos do príncipe eram incrédulos a respeito da ressurreição, que Jesus havia predito na Lei e cumprido no Evangelho; por isso dizem: não o incomodes; como se fosse impossível para Ele ressuscitar a morta.
Assim, quando chegou à casa, escolheu poucos para serem testemunhas da futura ressurreição: pois a ressurreição não foi imediatamente acreditada por muitos. Qual é, então, a causa de tão grande diferença? Anteriormente, o filho da viúva é ressuscitado publicamente; aqui, muitos são afastados como testemunhas. Mas penso que nisso se manifesta a piedade do Senhor, porque a viúva, mãe de filho único, não suportava demoras. Há também uma forma de sabedoria: no filho da viúva, a Igreja que rapidamente haveria de crer; na filha do chefe da sinagoga, os judeus que haveriam de crer, mas poucos dentre muitos. Por fim, quando o Senhor disse "a menina não está morta, mas dorme", zombavam dele: pois todo aquele que não crê, zomba. Chorem, portanto, seus mortos aqueles que os consideram mortos; onde existe a fé na ressurreição, não há aparência de morte, mas de descanso.
Tomando o Senhor a mão da jovem, curou-a. Bem-aventurado aquele cuja mão a sabedoria toma, conduzindo-o aos seus recintos íntimos, ordenando-lhe que coma: pois o pão celestial é a palavra de Deus. Daí também aquela sabedoria que encheu os altares do corpo e sangue de Deus com alimentos. "Vinde, comei do meu pão e bebei do vinho que preparei para vós"(Provérbios 9,5).
Também podem aqueles que querem, interpretar isto em um sentido tal que esse trecho pareça descrever apenas uma disposição espiritual, que aparenta ter despojado, como se fosse, uma certa vestimenta do corpo; não somente rejeitando o poder e desprezando as riquezas, mas também renunciando aos próprios prazeres da carne.
Afirma ser alheio ao pregador do reino celestial correr de casa em casa e alterar os direitos do hospitalidade inviolável. Mas, assim como julga-se que a graça da hospitalidade deve ser oferecida, da mesma forma, se não forem recebidos, deve-se sacudir o pó e sair da cidade, como segue: "E quem não vos receber, ao sairdes daquela cidade, sacudi até o pó dos vossos pés em testemunho contra eles".
Ou não é pequena a recompensa da boa hospitalidade que aqui se ensina, para que não somente concedamos paz aos hóspedes, mas também, se alguns pecados da leviandade terrena os obscurecem, sejam removidos ao receberem os vestígios da pregação apostólica.
É evidente que o povo foi saciado não com escasso alimento, mas com comida multiplicada. Podes ver, por incompreensível rito, como entre as mãos dos que distribuíam, multiplicavam-se as porções que não haviam partido, e os fragmentos intactos, por si mesmos, deslizavam espontaneamente sob os dedos dos que os partiam.
Misticamente, depois que aquela que recebeu o tipo da Igreja foi curada do fluxo de sangue, e depois que os Apóstolos foram destinados a evangelizar, é concedido o alimento da graça celestial. Mas observa a quem é concedido: não aos ociosos, não àqueles na cidade, como que residindo na sinagoga ou em dignidades seculares, mas àqueles que buscam a Cristo no deserto.
Aqueles, porém, que não são altivos, são recebidos pelo próprio Cristo; e com eles fala a palavra de Deus, não sobre coisas seculares, mas sobre o reino; e àqueles que carregam as feridas das paixões corporais, Ele concede generosamente Sua medicina. Em toda parte, porém, preserva-se a ordem do mistério: para que primeiro seja concedida a medicina às feridas pela remissão dos pecados, e depois a abundância do alimento da mesa celestial transborde.
Embora esta multidão ainda não seja alimentada com alimentos mais substanciais: primeiro, como leite, há cinco pães; segundo, sete; terceiro, o próprio Corpo de Cristo, que é o alimento mais sólido. Se alguém, porém, teme buscar alimento, que deixe todas as suas coisas e se apresse para a palavra de Deus. Quando alguém começa a ouvir a palavra de Deus, começa a sentir fome. Os apóstolos começam a ver aquele que tem fome. E se aqueles que comem ainda não sabem o que comem, Cristo sabe; Ele sabe que não comem o alimento deste mundo, mas o alimento de Cristo. Pois os apóstolos ainda não haviam entendido que o alimento do povo que crê não devia ser comprado e vendido. Cristo sabia que nós, ao contrário, devíamos ser redimidos com um resgate, mas que seu banquete seria gratuito.
Este pão, porém, que Jesus parte, é misticamente a palavra de Deus e o discurso sobre Cristo; que quando é dividido, aumenta; pois a partir de poucos sermões, Ele ministrou alimento abundante para os povos. Deu-nos sermões como pães, que enquanto são provados por nossa boca, são duplicados.
Não sem motivo são recolhidos pelos discípulos os fragmentos que sobraram do que as multidões haviam comido, pois as coisas divinas se encontram mais facilmente entre os eleitos do que entre o povo. Bem-aventurado aquele que pode recolher até mesmo o que sobrou aos sábios. Mas por qual razão Cristo encheu doze cestos, senão para cumprir aquela palavra concernente ao povo judeu: "Suas mãos serviram com o cesto"? Este é o povo que antes recolhia lama nos cestos, mas agora, pela cruz de Cristo, reúne o alimento da vida celestial. E isto não é tarefa de poucos, mas de todos. Pois pelos doze cestos, como que de cada uma das tribos, difunde-se o fundamento da fé.
Não é, porém, ociosa a opinião da multidão que os discípulos respondem, quando se acrescenta: mas eles responderam e disseram: alguns João Batista, que sabiam ter sido decapitado; outros, porém, Elias, que acreditavam que viria; outros, porém, que um dos antigos profetas ressuscitou. Mas investigar isto pertence a outra sabedoria diferente da nossa: pois se para o apóstolo Paulo é suficiente nada saber senão a Cristo Jesus, e este crucificado, que mais devo eu desejar saber além de Cristo?
Em um só nome há a expressão tanto de sua divindade quanto de sua encarnação, e a fé de sua paixão. Ele, portanto, compreendeu todas as coisas, tendo expressado tanto a natureza quanto o nome no qual está toda a virtude.
Mas o Senhor Jesus Cristo não queria ser pregado inicialmente, para que não surgisse nenhum tumulto; conforme segue: E ele, repreendendo-os, ordenou que não dissessem a ninguém. Por muitas razões ordena aos discípulos que se calem: para enganar o príncipe deste mundo, para evitar a jactância, para ensinar a humildade. Portanto, Cristo não quis se gloriar; e tu, que nasceste ignóbil, glorias-te? Igualmente, para que os discípulos ainda rudes e imperfeitos não fossem oprimidos pelo peso de tão grandiosa pregação. Assim, são proibidos de evangelizá-lo como Filho de Deus, para que depois o evangelizassem crucificado.
Talvez porque o Senhor sabia que o mistério da Paixão e da Ressurreição seria difícil de acreditar, mesmo para seus discípulos, Ele mesmo quis ser o anunciador da sua própria Paixão e Ressurreição.
Sempre o Senhor, assim como impulsiona para os prêmios futuros das virtudes e ensina o quanto é útil o desprezo das coisas seculares, também sustenta a fraqueza da mente humana com a recompensa das coisas presentes. É certamente árduo carregar a cruz, oferecer a alma aos perigos e o corpo à morte; negar o que és, quando queres ser o que não és; e raramente, por mais excelsa que seja a virtude, troca as coisas presentes pelas futuras. Assim, o bom Mestre, para que ninguém se deixe quebrantar pelo desespero ou pelo tédio, imediatamente promete que será visto pelos fiéis, dizendo: digo-vos, pois, em verdade: há aqui alguns presentes que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus.
Portanto, se nós queremos não temer a morte, permaneçamos onde Cristo está: porque somente aqueles que podem estar com Cristo não buscarão provar a morte; nisto se pode discernir pela própria qualidade da palavra, que nem sequer terão a mais leve sensação da morte os que parecem ter merecido a comunhão com Cristo. Certamente a morte do corpo é provada pelo saborear, a vida da alma é mantida pela posse; pois aqui não se nega a morte do corpo, mas a da alma.
Ou, São Pedro subiu, que recebeu as chaves do reino dos céus; São João, a quem foi confiada a mãe de Nosso Senhor; São Tiago, que foi o primeiro a subir ao trono sacerdotal.
Misticamente, depois das palavras acima ditas, mostra-se a transfiguração de Cristo; pois aquele que ouve as palavras de Cristo e crê, verá a glória da ressurreição: pois no oitavo dia ocorreu a ressurreição; por isso também muitos Salmos são escritos para a oitava; ou talvez para nos mostrar o que havia dito, que aquele que por causa da palavra de Deus perder a sua alma, a salvará, já que restituirá as suas promessas na ressurreição.
Mas São Mateus e São Marcos recordaram que estes foram tomados após seis dias: sobre o que poderíamos dizer que após seis mil anos, pois mil anos aos olhos de Deus são como um só dia. Mas computam-se mais de seis mil anos; e preferimos entender os seis dias simbolicamente, porque em seis dias foram criadas as obras do mundo, para que pelo tempo entendamos as obras, e pelas obras entendamos o mundo. E, portanto, cumpridos os tempos do mundo, mostra-se a ressurreição futura, ou porque aquele que ascendeu acima do mundo, e transcendeu os momentos deste século, colocado como que num lugar sublime, esperará eternamente os frutos da ressurreição futura.
Eu pensaria que nos três que são levados ao monte, estava misticamente compreendido o gênero humano, porque de três filhos de Noé descende todo o gênero humano, se não percebesse que foram escolhidos. Três, portanto, são escolhidos para subir ao monte; porque ninguém pode ver a glória da ressurreição, senão aquele que tiver preservado o mistério da Trindade com incorrupta sinceridade de fé.
Ou de outro modo. De acordo com a tua capacidade, a palavra ou é diminuída ou é aumentada para ti; e a menos que ascendas ao cume da mais alta prudência, não te aparece quanta glória há no Verbo de Deus. Os vestidos do Verbo são os discursos das Escrituras e certos revestimentos do intelecto divino. E assim como o vestido branco resplandeceu, assim também, nos olhos da tua mente, o sentido das divinas leituras torna-se branco. Daí que aparecem Moisés e Elias, isto é, a lei e os profetas no Verbo; pois nem a lei pode existir sem o Verbo, nem o profeta, a não ser aquele que profetizou sobre o Filho de Deus.
Pois o incompreensível esplendor da divindade oprime os sentidos do nosso corpo: porque se a vista corporal não pode suportar os raios do sol quando diretamente fixados nos olhos que o contemplam, como a corrupção dos nossos membros carnais poderia suportar a glória de Deus? E talvez estivessem oprimidos pelo sono para que, após o descanso, pudessem contemplar a visão da ressurreição. Por isso, quando estavam despertos, viram Sua majestade. Pois ninguém, a não ser aquele que vigia, vê a glória de Cristo. Pedro ficou encantado, e como os atrativos deste mundo não o seduziam, foi arrebatado pela glória da ressurreição. Por isso segue-se: E aconteceu que, quando eles se afastavam dele, disse Pedro a Jesus: Mestre, é bom estarmos aqui.
Pedro, porém, não apenas pelo afeto, mas também pela devoção de seus atos, sendo mais excelente, como um operário incansável para edificar três tabernáculos, promete o ministério de um obséquio comum; pois segue: "E façamos três tabernáculos: um para ti, e um para Moisés, e um para Elias".
Nem a condição humana permite, neste corpo corruptível, fazer um tabernáculo a Deus, seja na alma, seja no corpo, seja em qualquer outro lugar. E embora não soubesse o que dizia, oferecia, contudo, seu serviço; ao qual não uma petulância irrefletida, mas uma devoção prematura acumula frutos de piedade: pois o que ignorava era próprio de sua condição; o que prometia, de sua devoção.
Porque esta sombra é do Espírito divino, a qual não obscurece os afetos dos homens, mas revela as coisas ocultas.
Conhece, porém, esta nuvem não como uma escuridão de ar condensado e que reveste o céu com o horror das trevas, mas uma nuvem luminosa, que não nos umedeceu com águas pluviais, mas onde o orvalho da fé regou as mentes dos homens na voz emitida de Deus onipotente; pois segue: e veio uma voz da nuvem, dizendo: Este é o meu Filho amado. Não é Elias o filho, não é Moisés o filho; mas este é o Filho, que só vedes.
Afastaram-se, portanto, aqueles onde o Senhor começara a ser designado. Três também no princípio são vistos, um no fim: pois na fé perfeita são um. Portanto, também eles são como que recebidos no corpo de Cristo, porque também nós seremos um em Cristo Jesus; ou talvez porque a Lei e os Profetas provêm do Verbo.
Pois aquele que recebe um imitador de Cristo, recebe a Cristo; e aquele que recebe a imagem de Deus, recebe a Deus. Mas como não podíamos ver a imagem de Deus, ela se tornou presente para nós por meio da encarnação do Verbo, para que a divindade, que está acima de nós, fosse reconciliada conosco.
Pois São João, amando muito, e por isso sendo muito amado, pensa que devem ser excluídos do privilégio aqueles que não praticam a obediência.
Não foi repreendido João, porque o fazia por amor, mas é instruído, para que conhecesse a diferença entre os fracos e os fortes. E por isso o Senhor, ainda que recompense os mais fortes, não exclui os fracos; por isso segue: e Jesus lhes disse: não o proibais: pois quem não é contra vós, é por vós. Bem dito, Senhor: pois também José e Nicodemos, discípulos ocultos por medo, no devido tempo não te negaram seus serviços. Mas, contudo, porque em outro lugar disseste: quem não está comigo, está contra mim, e quem não colhe comigo, desperdiça, explica-nos, para que não pareça haver contradição. E penso que, se alguém considera o Perscrutador dos corações, não deve duvidar que cada ação de uma pessoa é discernida pela intenção de seu coração.
Por que, então, aqui Ele nega que devam ser proibidos aqueles que podem, pela imposição de mãos, comandar os espíritos imundos em nome de Jesus? Segundo São Mateus, Ele diz a estes: "Não vos conheço". Mas devemos advertir que não há discordância entre estas sentenças; mas deve-se considerar que não somente as obras do ofício nos clérigos são requeridas, mas também as obras de virtude; e tão grande é o nome de Cristo, que mesmo aos pouco santos proporciona socorro para proteção, embora não proporcione socorro para a graça: por isso, ninguém atribua a si a graça de purificação de um homem, na qual operou a virtude do nome eterno; pois o Diabo não é vencido por mérito teu, mas por seu próprio ódio.
Aprenda que Ele não quis ser recebido por aqueles que sabia não estarem convertidos com mente sincera; pois se quisesse, teria feito devotos dos indevotos; mas Deus chama a quem considera digno, e torna religioso a quem quer. Por que não O receberam, o Evangelista menciona dizendo que a sua face era como de quem ia para Jerusalém.
Pois eles sabiam que a Finéias foi imputada a justiça porque matou os sacrílegos, e que, às preces de Elias, desceu fogo do céu, para que fosse vingada a injúria do profeta34.
[3] Referência a Números 25,7-13, onde Finéias mata os idólatras e isso lhe é contado como justiça. ↩
[4] Referência a 2 Reis 1,10-12, onde Elias invoca fogo do céu que consome os soldados enviados pelo rei Acazias. ↩
Mas seja vingado aquele que teme; quem não teme não busca vingança. De igual modo, mostra-se que havia nos apóstolos os méritos dos profetas, quando presumem por direito de petição obter aquela mesma autoridade que o profeta mereceu; e com razão presumem que ao seu comando desceria fogo do céu, pois eram filhos do trovão.
Pois nem sempre se deve vingar aqueles que pecaram; porque às vezes a clemência produz mais fruto, para ti na paciência, para o caído na correção. Enfim, os samaritanos creram mais depressa, dos quais neste momento o fogo é afastado.
Ou, compara as raposas aos hereges: animal ardiloso e sempre atento às emboscadas, que pratica a rapina da fraude: nada deixa seguro, nada ocioso, nada permite ficar protegido, porque dentro das próprias moradas dos homens busca sua presa. Assim são os hereges, que não sabem preparar casa para si, mas tentam enganar os outros com suas artimanhas. Este animal nunca se domestica; por isso diz o apóstolo: "evita o homem herético depois de uma correção". As aves do céu frequentemente são usadas como símile da maldade espiritual; e constroem como que ninhos nos corações dos ímpios: e assim, quando a astúcia domina os afetos de cada um, não pode haver qualquer posse de divindade; mas quando encontra uma mente inocente, sobre ela de certo modo reclina a força de sua majestade, porque por uma graça mais abundante se insere nos corações dos bons. Assim, portanto, não parece conforme à razão que julguemos ser simples e fiel aquele que é rejeitado pela dignação do Senhor, quando havia prometido o serviço de uma dedicação incansável. Mas o Senhor não busca a aparência dos préstimos, mas a pureza do afeto; nem é admitido o serviço daquele cujo dever não é aprovado: pois a hospedagem da fé deve ser circunspecta, para que, enquanto revelamos aos infiéis os íntimos segredos de nossa casa, não caiamos na perfídia alheia por uma credulidade imprevidente. Portanto, para que compreendas que Deus não despreza o culto, mas a fraude; aquele que repudiou o fraudulento, escolheu o inocente; pois segue: "Disse, no entanto, a outro: Segue-me". Mas isto diz àquele cujo pai já sabia estar morto; por isso segue: "ele, porém, disse: Senhor, permite-me primeiro ir e sepultar meu pai".
Mas o Senhor chama aqueles que Ele tem misericórdia; por isso segue-se: E Jesus lhe disse: Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus. Tendo nós recebido como dever religioso o sepultamento do corpo humano, como é que se proíbe até mesmo o sepultamento do corpo morto do pai, a não ser que entendas que as coisas humanas devem ser postergadas às divinas? Bom é o empenho, mas maior é o impedimento; pois quem divide seu empenho, diminui seu afeto; quem divide seu cuidado, posterga seu progresso; portanto, primeiro devem ser realizadas as coisas que são mais importantes. Pois também os apóstolos, para que não fossem ocupados com o trabalho da distribuição, ordenaram ministros para os pobres.
Não se proíbe, portanto, o sepultamento do funeral paterno, mas a piedade da divina religião é preferida à necessidade de parentesco. Aquilo é deixado aos semelhantes, isto é ordenado aos que foram deixados. Mas como os mortos podem sepultar os mortos, a não ser que entendas aqui uma dupla morte: uma da natureza, outra da culpa? Há também uma terceira morte, na qual morremos para o pecado e vivemos para Deus.
Ou porque a garganta dos ímpios é um sepulcro aberto, prescreve-se que seja abolida a memória daqueles cujo mérito perece juntamente com o corpo; nem o filho é afastado do dever para com o pai, mas o fiel é separado da comunhão com o infiel; não há interdição do dever, mas um mistério de religião, que não haverá comunhão nossa com os gentios mortos.
São, pois, estes animais contrários entre si, de modo que uns são devorados pelos outros, ou seja, os cordeiros pelos lobos. Mas o bom pastor não quer que seu rebanho tema os lobos; por isso, estes discípulos não são enviados como presa, mas para estender a graça; pois a solicitude do bom Pastor faz com que os lobos nada possam empreender contra os cordeiros. Envia, portanto, os cordeiros entre os lobos, para que se cumprisse aquilo: "Então os lobos e os cordeiros pastarão juntos".
Ou os hereges devem ser comparados aos lobos: os lobos são feras que espreitam os rebanhos e rondam ao redor das cabanas dos pastores. Não ousam entrar nas habitações das casas; exploram o sono dos cães, a ausência ou a negligência dos pastores; atacam a garganta das ovelhas para estrangulá-las rapidamente; ferozes, vorazes, de natureza corporal mais rígida, de modo que não podem facilmente se curvar, são levados por certo ímpeto próprio, e por isso frequentemente são frustrados. Se veem primeiro algum homem, são impelidos por certa força da natureza a roubar-lhe a voz; mas se o homem os vê primeiro, ficam perturbados, segundo se conta. Assim, os hereges espreitam os rebanhos de Cristo, rosnam ao redor dos apriscos durante a noite: pois é sempre noite para os pérfidos, que cobrem a luz de Cristo com névoas de interpretação perversa; contudo não ousam entrar nos estábulos de Cristo, e por isso não são curados, como foi curado aquele que caiu entre ladrões, no estábulo. Exploram a ausência do pastor, porque na presença dos pastores não podem atacar as ovelhas de Cristo; também por certa rigidez e dureza de mente, de modo algum costumam desviar-se de seu erro; a estes, Cristo, o verdadeiro intérprete das Escrituras, ilude, para que em vão derramem seus ímpetos e não possam fazer mal; e se surpreendem alguém com o ardil de sua astuta disputa, fazem-no emudecê-lo; pois é mudo aquele que não confessa a palavra de Deus com a mesma glória que lhe é própria. Acautela-te, portanto, para que o herege não te tire a voz, para que não sejas tu o primeiro a ser apanhado: pois ele serpenteia enquanto sua perfídia permanece oculta. Porém, se reconheceres as invenções de sua impiedade, não poderás temer a perda da voz piedosa. Invadem a garganta, infligem feridas aos órgãos vitais, enquanto atacam a alma. Se também ouvires alguém ser chamado de sacerdote, e conheceres seus roubos, por fora é ovelha, por dentro lobo, que deseja saciar sua raiva com a insaciável crueldade da matança humana.
O Senhor, portanto, não proibiu estas coisas porque o exercício da benevolência Lhe desagradasse, mas porque a intenção de perseguir a devoção Lhe era mais agradável.
O Senhor também não deseja nada mortal em nós. Pois a Moisés é ordenado que retire o calçado mortal e terreno, quando foi enviado para libertar o povo. Porém, se alguém se pergunta por que razão no Egito se ordena comer o cordeiro calçado, mas os Apóstolos são enviados a pregar o Evangelho sem calçado; este deve considerar que, quem está no Egito, deve ainda precaver-se da mordida da serpente, pois há muitos venenos no Egito. E aquele que celebra a Páscoa em figura pode estar exposto à ferida, mas o ministro da verdade não teme veneno.
Ou seja, para que levemos o anúncio da paz, e que a nossa primeira entrada seja celebrada com a bênção da paz.
Ambrósio. Acrescenta-se outra virtude, para que ninguém mude de casa em casa com vaga facilidade; pois segue-se não passeis de casa em casa: isto é, que conservemos a constância no amor à hospitalidade, e não rompamos facilmente qualquer vínculo de amizade.
Depois ensina a sacudir o pó dos pés, se alguém não considerou que deviam ser recebidos com a hospedagem da cidade, dizendo: "Em qualquer cidade em que entrardes, e não vos receberem, saindo para suas praças, dizei: até mesmo o pó dos pés, que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós".
O Senhor ensina que estarão sujeitos a pena mais grave aqueles que não seguirem o Evangelho do que aqueles que julgaram que a lei devia ser violada, dizendo: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida!"
Por último, revela o mistério celestial pelo qual agradou a Deus revelar sua graça aos pequeninos, mais do que aos prudentes do mundo; por isso, segue-se: porque escondeste estas coisas dos sábios e prudentes, e as revelaste aos pequeninos.
Ou quando lês "todas as coisas", reconheces o Onipotente, não inferior ao Pai; quando lês "entregadas", confessas o Filho, a quem, pela natureza de uma única substância, todas as coisas pertencem por direito próprio, não concedidas como dom pela graça. E depois de ter dito que todas as coisas lhe foram entregues pelo Pai, eleva-se à sua própria glória e excelência, mostrando que em nada é superado pelo Pai; por isso acrescenta: "E ninguém sabe quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho". Pois a mente das criaturas não é capaz de compreender o modo da substância Divina, que supera todo entendimento, e cuja beleza transcende as mais elevadas contemplações. Somente por Si mesma é conhecida a natureza Divina. Assim, o Pai, por aquilo que é, conhece o Filho; e o Filho, por aquilo que é, conhece o Pai, sem que intervenha qualquer diferença quanto à natureza divina. Que Deus existe, cremos; mas o que Ele é por natureza, é incompreensível. E se o Filho fosse criado, como poderia conhecer sozinho o Pai, ou como poderia ser conhecido só pelo Pai? Pois conhecer a natureza divina é impossível a qualquer criatura; mas conhecer qualquer coisa criada, o que ela é, não ultrapassa todo entendimento, embora supere nossos sentidos.
Para que saibas, porém, que assim como o Filho revela o Pai àqueles a quem quer, também o Pai revela àqueles a quem quer o Filho; ouve o Senhor dizendo: "Bem-aventurado és tu, Simão Bar-Jona, porque a carne e o sangue não to revelou, mas meu Pai que está nos céus"(São Mateus 16,17).
Pois era um daqueles que se consideram versados na lei, que detêm as palavras da lei, mas ignoram sua força; e pelo próprio princípio da lei demonstra serem ignorantes da lei, provando que desde o princípio a lei anunciou o Pai e o Filho e proclamou o sacramento da encarnação do Senhor: pois ele respondendo disse: amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de toda a tua mente.
Respondeu também que não conhecia o seu próximo, porque não acreditava em Cristo; e quem não conhece Cristo, não conhece a lei. Pois ignorando a verdade, como pode conhecer a lei que anuncia a verdade?
Quem são, pois, estes ladrões, senão os Anjos da noite e das trevas, nas mãos dos quais não teria caído, se, desviando-se do mandamento celestial, não se tivesse exposto ao seu encontro?
Ou eles nos despojam das vestes da graça espiritual que recebemos, e assim costumam infligir feridas: pois se conservarmos imaculadas as vestes que recebemos, não podemos sentir as chagas dos ladrões.
Este Samaritano também estava descendo; pois quem é aquele que desceu do céu, senão aquele que subiu ao céu, o Filho do Homem que está no céu?(São João 3,13)
Vindo, pois, se fez vizinho assumindo nossa compaixão, e próximo pelo dom da misericórdia; donde segue: e vendo-o, foi movido de misericórdia.
Ou liga nossas feridas com um mandamento mais austero, e assim como com o óleo acalenta pela remissão do pecado, de igual modo com o vinho compunge pelo anúncio do juízo.
Ou coloca-nos sobre o seu jumento quando carrega os nossos pecados e sofre por nós: pois o homem tornou-se semelhante ao jumento; e por isso nos colocou sobre o seu jumento, para que não fôssemos como o cavalo e o mulo: para que, pela assunção do nosso corpo, abolisse a enfermidade da nossa carne.
Mas como este Samaritano não podia permanecer por muito tempo na terra, era necessário que regressasse ao lugar de onde descera; por isso segue: e no dia seguinte tirou dois denários, e deu-os ao hospedeiro, e disse: Cuida dele. Qual é este outro dia, senão talvez aquele da ressurreição do Senhor, do qual foi dito: "Este é o dia que o Senhor fez"? Os dois denários são os dois Testamentos, que trazem impressa em si a imagem do Rei eterno, com cujo preço nossas feridas são curadas.
Bem-aventurado, pois, aquele estalajadeiro que pode curar as feridas de outrem; bem-aventurado aquele a quem Jesus diz: "o que gastares a mais, na volta eu te devolverei". Mas quando voltarás, Senhor, senão no dia do juízo? Pois embora estejas em toda parte sempre e, estando no meio de nós, não és percebido por nós, virá o tempo em que toda carne te contemplará retornando. Devolverás, portanto, o que deves aos bem-aventurados, dos quais és devedor. Oxalá sejamos nós devedores idôneos, para que possamos pagar o que recebemos!
Não é o parentesco que faz o próximo, mas a misericórdia, porque a misericórdia é segundo a natureza; pois nada é tão conforme à natureza quanto ajudar aquele que compartilha nossa natureza.
Que o desejo de sabedoria te conduza, assim como a Maria: pois esta é uma obra maior, esta é a mais perfeita, para que a preocupação do ministério não te afaste do conhecimento da palavra celestial. Nem censures, nem julgues ociosos aqueles que vires dedicados ao estudo da sabedoria.
Quem é mais amigo nosso do que aquele que entregou seu corpo por nós? Aqui nos é dado outro modo de preceito, para que em todos os momentos, não somente nos dias, mas também nas noites, a oração seja oferecida; pois segue: e irá até ele à meia-noite: assim como pediu Davi quando disse: à meia-noite me levantava para te louvar; e não temeu despertar aquele que dormia, pois sabia que Ele sempre está vigilante. Pois se aquele tão santo, e que estava ocupado com as necessidades do reino, sete vezes ao dia dizia louvor ao Senhor; o que devemos fazer nós, que tanto mais devemos rogar quanto mais frequentemente pecamos pela fragilidade da carne e da mente? E quanto ao fato de que, amando ao Senhor teu Deus, não só para ti, mas também para os outros poderás merecer? Pois segue: e lhe dirá: amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu veio a mim de viagem, e não tenho o que lhe oferecer.
Esta é a porta que também São Paulo pede que lhe seja aberta, suplicando ser ajudado não só por suas próprias orações, mas também pelas do povo, para que se lhe abra a porta da palavra para anunciar o mistério de Cristo. E talvez seja aquela porta que São João viu aberta, a quem foi dito: "Sobe aqui e te mostrarei o que é necessário que aconteça".
Mas aquele que promete algo deve infundir esperança da promessa, para que a obediência seja devotada aos mandatos e a fé às promessas; e por isso acrescenta: "porque todo aquele que pede recebe, e quem busca encontra, e a quem bate, se abrirá".
Portanto, o preceito que nos manda orar frequentemente traz consigo a esperança de conseguir o que pedimos. A razão para persuadir esteve primeiro no preceito, depois se manifesta no exemplo; o que Ele mostra acrescentando: "Qual de vós, sendo pai, se o filho lhe pedir pão, porventura lhe dará uma pedra?"
Nisso também mostra que o seu reino é indivisível e eterno; e, portanto, aos que não depositam esperança em Cristo, mas pensam que Ele expulsa os demônios pelo príncipe dos demônios, nega-lhes que pertençam ao reino eterno, o que se refere também ao povo judeu. Pois como pode o reino dos judeus ser eterno, quando Jesus é negado pelo povo da lei, Ele que é devido pela lei? Assim, em parte, a fé do povo judaico combate a si mesma; combatendo-se, divide-se; dividindo-se, dissolve-se; e, portanto, o reino da Igreja permanecerá eternamente, porque a fé indivisível é um só corpo.
E, no entanto, não penses que a união de nossos membros possa ser entendida como uma divisão na virtude; pois não pode haver divisão em algo indivisível; e por isso a designação de dedo deve ser referida à forma da unidade, não à distinção do poder.
Ao mesmo tempo, mostra também que há um poder imperial do Espírito Santo, no qual está o Reino de Deus, e que nós, nos quais habita o Espírito, somos uma casa real.
Assim, em um só homem está a comparação de todo o povo judaico, do qual o espírito imundo havia saído através da Lei. Mas como entre os gentios, cujos corações antes eram áridos, mas depois pela água do Batismo foram umedecidos pelo orvalho do Espírito, por causa da fé em Cristo o Diabo não pôde encontrar repouso (pois para os espíritos imundos Cristo é um incêndio); por isso regressou ao povo dos judeus; daí segue "E não o encontrando, diz: voltarei à minha casa de onde saí".
Adornada com uma aparência exterior e superficial, permanece interiormente mais poluída na alma: pois nem com a irrigação da fonte sagrada lavava ou extinguia seu ardor; e merecidamente o espírito imundo voltava a ela, trazendo consigo sete espíritus mais perversos; por isso segue e então vai, e toma consigo outros sete espíritos piores que ele; e, entrando, habitam ali: porque certamente profanou o mistério da semana da lei e do oitavo dia. E assim, como para nós é multiplicada a graça septiforme do Espírito; para eles se acumula toda a injúria dos espíritos imundos: pois por vezes a universalidade é compreendida neste número.
Para que saibas que o povo da sinagoga é desfigurado, onde a bem-aventurança da Igreja é louvada. Assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do homem para os judeus; por isso acrescenta: "Pede um sinal; e não lhe será dado outro sinal, senão o sinal de Jonas profeta".
Assim como o tipo de Jonas é um sinal da paixão do Senhor, também é um testemunho dos graves pecados que os judeus cometeram. Ao mesmo tempo, pode-se observar tanto o oráculo da majestade quanto o indício da piedade: pois pelo exemplo dos ninivitas tanto é anunciado o suplício quanto é demonstrado o remédio; donde também os judeus não devem desesperar da indulgência, se quiserem fazer penitência.
Nisto, condenando o povo dos judeus, expressa veementemente também o mistério da Igreja, que, à semelhança da rainha do Austri, através do zelo de aprender a sabedoria, se reúne desde os limites de toda a terra, para conhecer as palavras do pacífico Salomão: verdadeiramente rainha, cujo reino é indivisível, surgindo de povos diversos e distantes em um só corpo.
De acordo com o mistério, a Igreja consiste de duas partes: ou aqueles que desconhecem o pecado, o que certamente pertence à rainha do Austro; ou aqueles que deixam de pecar, o que certamente pertence aos ninivitas que fazem penitência. Pois a penitência elimina o delito, e a sabedoria o previne.
Ou o lâmpada é a fé; conforme o que está escrito: "A lâmpada para os meus pés é a tua palavra, Senhor". Pois a Palavra de Deus é a nossa fé. Mas uma lâmpada não pode brilhar a menos que tenha recebido luz de outra fonte; assim também as faculdades de nossa mente e sentidos são acesas, para que a moeda que estava perdida possa ser encontrada. Ninguém, portanto, coloque a fé sob a lei: pois a lei está dentro de uma medida, além da medida está a graça; a lei obscurece, a graça ilumina.
Veja que nossos corpos são representados pela menção de coisas terrenas e frágeis, que ao caírem de uma pequena altura quebram-se em pedaços, e aquelas coisas que a mente medita interiormente, facilmente expressa através dos sentidos e ações do corpo, assim como aquelas coisas que o cálice contém dentro brilham por fora. Por isso também posteriormente, pela palavra cálice é sem dúvida mencionada a paixão do corpo. Percebes, portanto, que não é o exterior do cálice e do prato que nos contamina, mas as partes interiores. Pois ele disse: "Mas o vosso interior está cheio de rapina e iniquidade".
O Senhor, porém, como bom preceptor, ensinou como devemos purificar a impureza do nosso corpo, dizendo: "No entanto, dai como esmola o que sobra; e eis que todas as coisas são puras para vós". Vedes quantos remédios. A misericórdia nos purifica, a palavra de Deus nos purifica, conforme o que está escrito: "Vós já estais puros por causa da palavra que vos falei".
Todo este belíssimo trecho é direcionado para que, visto que nos convida ao estudo da simplicidade, condene as coisas supérfluas e terrenas dos judeus. E, no entanto, a eles mesmos é prometida a abolição dos pecados, se conseguirem misericórdia.
Ou juízo, porque não submetem a exame tudo aquilo que fazem; caridade, porque não amam a Deus com o coração. Mas para que Ele não nos fizesse zelosos da fé, em detrimento das boas obras, resume em poucas palavras a perfeição do homem fiel, para que seja aprovado tanto pela fé quanto pelas obras, dizendo: "estas coisas deveríeis fazer, e não omitir aquelas".
Ele reprova também a arrogância dos judeus que se jactam, enquanto buscam a preeminência: pois segue-se: Ai de vós, fariseus, que amais as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações na praça.
E como os sepulcros que não aparecem, enganam pela aparência e iludem pela visão os que passam; de onde segue: e os homens que andam por cima deles não o sabem; isto é, de tal modo que embora exteriormente prometam coisas belas, interiormente encerram toda espécie de podridão.
Este é um bom argumento contra a vaníssima superstição dos judeus: porque ao edificar os sepulcros dos profetas, condenavam os feitos de seus pais; mas ao emular os crimes paternos, voltavam contra si mesmos a sentença: pois não a edificação, mas a emulação é considerada como crime; por isso acrescenta "verdadeiramente dais testemunho de que consentis com as obras de vossos pais: porque eles os mataram, e vós edificais seus sepulcros".
A sabedoria de Deus é Cristo. De fato, em São Mateus lê-se: "Eis que eu vos envio profetas e sábios"(São Mateus 23,34).
São acusados também ainda sob o nome de judeus, e declarados sujeitos ao suplício futuro, aqueles que, ao usurparem para si o ensinamento do conhecimento divino, tanto impedem os outros, quanto não conhecem eles próprios aquilo que professam.
O Salvador entrelaçou um belíssimo ensinamento sobre como manter a simplicidade e emular a fé, para que não divulguemos, à maneira da perfídia judaica, uma coisa em nosso coração e simulemos outra com a voz; visto que no último momento os segredos ocultos dos pensamentos que acusam ou também defendem irão revelar o segredo da nossa mente. Por isso, acrescenta: "Nada há, porém, encoberto que não seja revelado, nem oculto que não seja conhecido".
Ele também ensina que a morte não deve ser terrível, pois a imortalidade a redimirá com juros muito mais abundantes.
A morte, com efeito, é o fim da natureza, não da pena; e por isso, sendo a morte o término do suplício corporal, mas a pena da alma eterna, e devendo-se temer somente a Deus, a cujo poder a natureza não prescreve, mas a mesma natureza está sujeita, conclui: "assim vos digo, temei a este".
O Senhor havia inspirado o afeto pela simplicidade, tinha erguido a virtude do espírito; somente a fé vacilava: bem a fortaleceu com exemplos de coisas mais humildes, acrescentando: Não se vendem cinco pardais por dois asses, e nenhum deles está em esquecimento diante de Deus? Como se dissesse: se Deus não tem esquecimento dos pardais, como poderia ter dos homens?
Porventura, alguém dirá: como é que o Apóstolo disse: "Porventura Deus se preocupa com os bois?", uma vez que o boi é mais valioso que um pardal? Mas uma coisa é o cuidado, outra é o conhecimento.
Ou de outro modo. O pardal bom é aquele a quem a natureza concede a capacidade de voar: pois a natureza nos deu a graça de voar, mas o prazer a tirou, o qual carrega a alma com alimentos dos males, e a inclina para a natureza de uma massa corpórea. Portanto, os cinco sentidos do corpo, se buscarem o alimento das imundícies terrenas, não podem voltar a voar para os frutos das obras superiores. É, portanto, mau pardal aquele que, pelo vício da torpeza terrena, aboliu a capacidade de voar, como são estes pardais que se vendem por dois asses, isto é, pelo preço da luxúria mundana: pois o adversário os destina, como a escravos cativos, a um preço de valor mais baixo; mas o Senhor, como a serviços preciosos, que fez à sua imagem, os estima dignos de sua obra e nos redimiu por um grande preço.
Por fim, o número dos cabelos não deve ser entendido como um cálculo numérico, mas como a facilidade de conhecimento. E são bem denominados como numerados, porque aquilo que desejamos preservar, nós contamos.
Se, pois, tão grande é a majestade de Deus que um dentre os pardais, ou o número de nossos cabelos não está além da ciência de Deus, quão indigno é considerar que o Senhor ou ignore ou despreze os corações dos fiéis, Ele que conhece coisas tão insignificantes! Por isso, conclui adequadamente: "Não temais, portanto: vós valeis mais que muitos pardais".
Ele também teceu manifestamente a fé, estimulando-nos, e colocou a virtude como fundamento para a própria fé: pois assim como a fé é o incentivo para a fortaleza, assim também a fortaleza é o fundamento sólido da fé.
Certamente entendemos que o Filho do homem é Cristo, que foi gerado pelo Espírito Santo na virgem, sendo que sua única progenitora na terra é a virgem. Porventura o Espírito Santo é maior que Cristo, para que aqueles que pecam contra Cristo consigam perdão, enquanto os que cometem faltas contra o Espírito Santo não mereçam alcançar a remissão? Mas onde há unidade de poder, não existe questão de comparação.
Assim, pois, alguns pensam que devemos entender que o Filho e o Espírito Santo são o mesmo, salva a distinção das pessoas e a unidade da substância; porque Cristo, que é Deus e homem, é um Espírito, como está escrito: "O Espírito diante de vossa face é Cristo, o Senhor". O mesmo Espírito é santo, pois tanto o Pai é santo, como o Filho é santo, e o Espírito é santo. Se, portanto, Cristo é ambos, qual é a diferença senão para que saibamos que não nos é lícito negar a divindade de Cristo?
Todo o trecho anterior é direcionado a nos preparar para suportar o sofrimento pela confissão do Senhor, ou pelo desprezo da morte, ou pela esperança da recompensa, ou pela denunciação do suplício que permanecerá para aquele a quem nunca será concedido o perdão. E como a avareza geralmente costuma tentar a virtude, também para abolir este vício, acrescenta-se um preceito e um exemplo, quando se diz: E alguém da multidão disse-lhe: Mestre, dize a meu irmão que divida comigo a herança.
Bem, portanto, declina das coisas terrenas Aquele que por causa das coisas divinas havia descido, e não se digna a ser juiz de litígios e árbitro de posses, tendo o julgamento dos vivos e dos mortos e o arbítrio dos méritos. Não se deve, portanto, considerar o que pedes, mas a quem o solicitas; nem penses que se deve perturbar com coisas menores aquele cujo ânimo está voltado para as maiores. Por isso, não sem razão é refutado este irmão, que desejava ocupar o dispensador das coisas celestiais com as corruptíveis, quando entre irmãos não deve ser um juiz intermediário, mas a piedade fraterna deve dividir o patrimônio: embora o patrimônio da imortalidade, não o do dinheiro, deva ser esperado pelos homens.
Pois em vão acumula riquezas quem não sabe usar delas; nem são nossas aquelas coisas que não podemos levar conosco. Somente a virtude é companheira dos defuntos, somente a misericórdia nos segue, a qual adquire para os defuntos moradas eternas.
Nada há mais eficaz para fomentar a fé de que todas as coisas podem ser concedidas por Deus aos que creem, do que o fato de que aquele espírito etéreo perpetua a união vital, a associação da alma e do corpo em íntima comunhão, sem que falte, até que chegue o dia supremo da morte. Como, portanto, a alma está revestida com o corpo como com uma vestimenta, e o corpo é animado pelo vigor da alma, é absurdo supor que nos faltará o suprimento de alimento, nós que possuímos a substância perpétua da vida.
É grande o exemplo que devemos seguir com fé: pois às aves do céu, às quais não se destina nenhum exercício de cultivo, nenhum proveito da fertilidade das colheitas, a providência divina concede alimento incessante. É verdade, pois, que a causa de nossa pobreza parece ser a avareza: porque para aquelas aves o uso do alimento é abundante sem trabalho, justamente porque não sabem reclamar com algum domínio especial os frutos dados para o alimento comum. Nós perdemos as coisas comuns quando reivindicamos as próprias: pois nem é próprio algo onde nada é perpétuo, nem a abundância é certa quando o resultado é incerto.
Não parece inútil que a flor seja comparada ao homem, ou certamente que ela seja preferida, quase mais do que aos homens, em Salomão: para que, pela claridade da cor, pensemos estar expressa a glória dos anjos celestiais, que verdadeiramente são as flores deste mundo, pois o mundo é ornado por seus esplendores, e eles exalam o bom odor da santificação; os quais, não impedidos por nenhuma solicitude, não exercitados por nenhuma prática de trabalho, conservam em si a graça da liberalidade divina e os dons da natureza celestial. Por isso, com razão, aqui Salomão é mostrado vestido com sua glória, e em outro lugar coberto, porque revestia a fraqueza da natureza corpórea, como que encoberta por certa virtude da mente, com a glória das obras. Mas os anjos, cuja natureza mais divina permanece isenta da injúria corporal, com razão são preferidos até mesmo ao maior dos homens. Contudo, não devemos desesperar da misericórdia de Deus para conosco, aos quais o Senhor promete, pela graça da ressurreição, uma aparência semelhante à dos anjos.
Mostra também que nem no presente, nem no futuro faltará a graça aos fiéis, desde que aqueles que desejam as coisas divinas não busquem as terrenas. Com efeito, é inconveniente que os homens se preocupem com o alimento, quando militam por um reino. O rei sabe de que modo há de sustentar, alimentar e vestir sua família; por isso segue: "Buscai primeiramente o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas".
Ou ainda, a forma do preceito anterior é geral para todos; mas o exemplo seguinte parece ter sido proposto aos dispensadores, isto é, aos sacerdotes; donde se segue: E disse o Senhor: Quem, pensas, é o dispensador fiel e prudente que o senhor constituiu sobre a sua família, para lhes dar a medida de trigo no tempo oportuno?
Aos administradores, isto é, aos sacerdotes, parecem ter sido propostas as coisas precedentes, para que saibam que devem sofrer uma grave pena no futuro, se negligenciarem governar a família do Senhor. Mas como é exíguo o progresso de afastar-se do erro por medo do suplício, por isso o Senhor inflama-os a buscar o desejo da divindade, dizendo: "Vim trazer fogo à terra"; não certamente aquele que consome os bens, mas o que é autor da boa vontade, que melhora os vasos de ouro da casa do Senhor, mas consome o feno e a palha.
Tão grande é a condescendência do Senhor que ele declara ter dentro de si o desejo de infundir-nos devoção, consumar em nós a perfeição e apressar por nós a sua paixão; por isso segue: "E como me angustio até que se cumpra!" Alguns códices têm "et coangor", isto é, entristeço-me: pois embora nada tivesse em si que lhe causasse dor, angustiava-se com nossas aflições e, no momento da morte, manifestava tristeza que assumira não por medo de sua própria morte, mas pela demora de nossa redenção. Pois aquele que se angustia até a perfeição, está seguro da perfeição: porque o que o afeta é a condição do afeto corporal, não o temor da morte: pois quem assumiu um corpo, devia sujeitar-se a tudo o que é próprio do corpo, como ter fome, sede, angustiar-se e entristecer-se. A divindade, porém, não pode ser alterada por estes afetos. Ao mesmo tempo, também mostra que na luta da paixão, a morte do corpo é o término da ansiedade, não o acúmulo da dor.
Ainda que pareça haver uma subordinação entre seis pessoas (a do pai e do filho, da mãe e da filha, da sogra e da nora), são na verdade apenas cinco, porque a mesma pessoa pode ser considerada mãe e sogra: aquela que é mãe do filho é sogra da esposa dele.
Na interpretação mística, uma casa é um homem. Lemos frequentemente sobre dois, a alma e o corpo; se estes dois concordarem, formam um só: um é o que serve; outro é aquele a quem se submete. Há três afecções da alma: uma racional, outra concupiscível, a terceira irascível. Assim, dois se dividem contra três, e três contra dois. Pois pela vinda de Cristo, o homem que era irracional tornou-se racional. Éramos carnais, terrenos; Deus enviou seu espírito aos nossos corações, tornamo-nos filhos espirituais. Podemos também dizer que nesta casa há outros cinco, isto é, olfato, tato, paladar, visão e audição. Se, portanto, segundo o que ouvimos ou lemos pelo sentido da visão e da audição, excluímos as voluptuosidades supérfluas do corpo, que são percebidas pelo paladar, tato e olfato, dividimos dois contra três, porque o estado da mente não é capturado pelos atrativos dos vícios. Ou se considerarmos os cinco sentidos corporais, os vícios e pecados do corpo já se separam. Também podem ser vistos a carne e a alma separadas do olfato, tato e paladar da luxúria: pois o sexo mais forte da razão é levado a afetos viris, enquanto este [a carne] se esforça por manter uma razão mais branda. Destas coisas, portanto, cresceu o movimento de diversos desejos; mas quando a alma retorna a si mesma, rejeita os herdeiros degenerados; pois a carne sofreu por estar presa em seus próprios desejos, que gerou para si mesma, como nos espinhos do mundo: mas o prazer, como se fosse uma nora do corpo e da alma, casa-se com o movimento do desejo corrupto. Portanto, enquanto permaneceu em uma casa, com vícios em harmonia, o consenso era indivisível, e nenhuma divisão parecia existir; mas quando Cristo enviou à terra o fogo, pelo qual consumiria os delitos do coração, ou a espada, pela qual os segredos são penetrados; então a carne e a alma, renovadas pelos mistérios da regeneração, eliminam o vínculo da posteridade, para que os pais sejam divididos contra os filhos, quando o movimento intemperante rejeita a intemperança, e a alma declina da associação com a culpa. Os filhos também são divididos contra os pais, quando os homens renovados afastam-se dos vícios antigos, e o prazer juvenil foge da disciplina de uma casa séria.
Ou o nosso adversário é o Diabo, que semeia os atrativos do pecado, para que tenha como participantes no suplício aqueles que teve como companheiros no erro: também é adversário para nós todo uso dos vícios: finalmente, é adversária para nós a má consciência, que nos aflige aqui e nos acusará e trairá no futuro. Empenhemo-nos, portanto, enquanto estamos neste curso da vida, para que sejamos libertados do ato ímprobo, como de um mau adversário; para que, enquanto vamos com o adversário ao magistrado, ele não condene nosso erro no caminho. Mas quem é o magistrado senão aquele em quem reside todo o poder? Este magistrado, por sua vez, entrega o réu ao juiz, a saber, àquele a quem concedeu poder sobre os vivos e os mortos, isto é, a Jesus Cristo, por quem as coisas ocultas são repreendidas e é determinada a pena da obra ímproba. Ele mesmo entrega ao cobrador e envia à prisão; pois diz: "Tomai-o e lançai-o nas trevas exteriores". E mostra que seus cobradores são os Anjos, dos quais diz: "Sairão os Anjos e separarão os maus do meio dos justos, e os lançarão na fornalha de fogo". Mas acrescenta: "Digo-te: não sairás dali até que pagues o último centavo". Pois se aqueles que pagam dinheiro não se livram do nome do débito antes que a quantidade total da dívida principal seja paga até o mínimo, seja qual for o tipo de pagamento; assim, pela compensação da caridade e outros atos, ou por qualquer tipo de satisfação, dissolve-se a pena do pecado.
No sentido místico, naqueles cujo sangue Pilatos misturou com os seus sacrifícios, parece haver uma certa figura, referindo-se àqueles que, por coação diabólica, não oferecem um sacrifício puro, cuja oração é para o pecado, como está escrito a respeito de Judas, que, estando entre os sacrifícios, premeditou a traição do sangue do Senhor.
A vinha do Senhor Sabaoth era aquela que ele entregou para o saque dos gentios. A comparação desta árvore com a sinagoga é adequada: porque assim como esta árvore, abundante em folhas flutuantes, frustra a esperança de seus possuidores com a vã expectativa dos frutos esperados, assim também na sinagoga, enquanto seus doutores, infecundos em obras, gloriam-se com palavras redundantes como folhas, a sombra vã da lei exubera. Esta árvore também é a única que desde o início produz frutos no lugar de flores, e os frutos caem para que outros frutos os sucedam; permanecem, contudo, alguns dos primeiros, muito raros, que não caem. De fato, o primeiro povo da sinagoga caiu como fruto inútil para que da seiva da antiga religião emergisse o novo povo da Igreja; no entanto, os primeiros de Israel, como exemplo do figo que amadurece, superaram os demais pela graça dos mais belos frutos, aos quais é dito: "vos sentareis sobre doze tronos". Alguns, porém, pensam que esta figueira não é figura da sinagoga, mas da malícia e da improbidade; estes, contudo, em nada se diferenciam, exceto que escolhem o gênero em vez da espécie.
Buscava, porém, o Senhor, não porque ignorasse que a figueira não tinha fruto; mas para mostrar em figura que a sinagoga já deveria ter fruto. Finalmente, pelo que se segue, ensina que Ele não veio antes do tempo, Ele que veio durante três anos; assim pois está escrito: disse, então, ao cultivador da vinha: eis que há três anos venho procurando fruto nesta figueira e não encontro. Veio a Abraão, veio a Moisés, veio a Maria, isto é, veio no sinal, veio na lei, veio no corpo: reconhecemos sua vinda pelos benefícios: em um momento a purificação, em outro a santificação, em outro a justificação; a circuncisão purificou, a lei santificou, a graça justificou. Portanto, o povo dos judeus não pôde ser purificado, porque tinha a circuncisão do corpo, não da alma; nem ser santificado, porque ignorando a virtude da lei, seguia mais as coisas carnais do que as espirituais; nem justificado, porque não fazendo penitência por seus delitos, desconhecia a graça. Com razão, portanto, nenhum fruto foi encontrado na sinagoga; e por isso se ordena cortá-la; pois segue corta-a, pois: por que ocupa também a terra? Mas o bom cultivador, e talvez aquele em quem está o fundamento da Igreja, pressentindo que outro seria enviado aos gentios, e ele mesmo àqueles que são da circuncisão, intervém religiosamente para que não seja cortada, confiante em sua vocação de que também o povo dos judeus poderia ser salvo pela Igreja; de onde se segue mas ele, respondendo, disse-lhe: Senhor, deixa-a também este ano. Reconheceu rapidamente que a dureza e a soberba dos judeus eram as causas de sua esterilidade. Assim, vem cultivar quem sabe repreender os vícios; donde acrescenta até que eu cave ao redor dela. Promete que a dureza dos corações deles será escavada com enxadas apostólicas, para que um montão de terra não cubra e esconda a raiz da sabedoria. E acrescenta e colocarei esterco, isto é, o afeto da humildade, pelo qual se estima que até o judeu se tornará frutífero no Evangelho de Cristo; donde acrescenta e se produzir fruto, bem, isto é, será bom; senão, no futuro a cortarás.
Logo indicou o que havia dito a respeito da sinagoga; mostra que certamente veio a essa mesma árvore, aquele que nela pregava; por isso diz: estava ensinando na sinagoga deles nos sábados.
Por fim, Deus descansou das obras do mundo, não das obras santas, pois sua operação é sempiterna e contínua, como diz o Filho: "meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho", para que à semelhança de Deus cessem nossas obras mundanas, não as religiosas. Por isso o Senhor respondeu-lhe especificamente; pois segue: "Respondeu-lhe, pois, o Senhor e disse: Hipócrita, cada um de vós não solta no sábado seu boi ou seu jumento da manjedoura e o leva para beber?"
Ou a figueira representa a sinagoga. Finalmente, na mulher enferma sucede como que uma figura da Igreja, que tendo cumprido a medida da lei e da ressurreição, elevada ao sublime cume naquele descanso perpétuo, não pôde sentir a inclinação da nossa fraqueza. Nem de outro modo poderia ser curada esta mulher, senão porque cumpriu a lei e a graça: pois nos dez preceitos da lei está a perfeição, e no número oito a plenitude da ressurreição.
A obra do sábado é sinal do que virá, quando cada um, após ter cumprido a lei e a graça, será libertado, pela misericórdia de Deus, das moléstias da fragilidade corporal. Por que, porém, indicou outro animal, senão para mostrar que no futuro os povos judeu e gentio aplacarão a sede do corpo e os calores deste mundo pela abundância da fonte do Senhor; e assim, pela vocação dos dois povos, a Igreja há de ser salva?
Em outro lugar, o grão de mostarda é mencionado, quando é comparado. Se, portanto, o reino dos céus é como um grão de mostarda, e a fé é como um grão de mostarda, certamente a fé é o reino dos céus que está dentro de nós. O grão de mostarda é algo simples e humilde, mas se começar a ser triturado, libera sua força; e a fé parece simples no início, mas se for atacada pelas adversidades, derrama a graça de sua virtude. Os grãos de mostarda são os mártires. Eles tinham o odor da fé, mas estava oculto: veio a perseguição, foram triturados pela espada, e espalharam os grãos de seu martírio por todos os confins do mundo. O próprio Senhor é um grão de mostarda: quis ser triturado, para que pudéssemos dizer: "Somos o bom odor de Cristo"; quis ser semeado como um grão de mostarda, que um homem tomou e colocou em seu jardim: pois no jardim Cristo foi capturado e sepultado, onde também ressuscitou e se tornou uma árvore; por isso segue que "se tornou uma grande árvore". Pois Nosso Senhor é um grão quando é sepultado na terra, e uma árvore quando é elevado ao céu. É também uma árvore que dá sombra ao mundo; por isso segue "e as aves do céu repousaram em seus ramos", isto é, as potestades celestiais, e todos aqueles que por suas obras espirituais mereceram alçar voo. Pedro é um ramo, Paulo é um ramo, em cujo regaço, por certos recônditos da disputa, nós que estávamos longe, voamos, tendo tomado as asas das virtudes. Portanto, semeia Cristo em teu jardim. O jardim é certamente um lugar cheio de flores, onde a graça de tua obra floresce, e o múltiplo odor de várias virtudes é exalado. Lá, portanto, está Cristo onde está o fruto da semente.
Muitos pensam que o fermento é Cristo, porque o fermento, originado da farinha, supera seu gênero em virtude, não em aparência: assim também Cristo, igual aos pais segundo o corpo, mas incomparável em dignidade, sobressaía-se. Portanto, a Santa Igreja representa a figura da mulher, acerca da qual se acrescenta que a mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo fosse fermentado.
Nós somos a farinha desta mulher, que esconde o Senhor Jesus nos recônditos interiores de nossa mente, até que o calor da sabedoria celestial penetre os segredos mais profundos de nosso ser. E porque diz que o fermento está escondido em três medidas, parece conveniente que acreditemos que o Filho de Deus estava escondido na Lei, encoberto nos Profetas, e cumprido nas pregações evangélicas. No entanto, convém-me seguir o que o próprio Senhor ensinou, que o fermento é a doutrina espiritual da Igreja. Pois a Igreja santifica o homem renascido no corpo, na alma e no espírito, com o fermento espiritual, quando estas três coisas concordam num certo equilíbrio de desejos, e aspira uma harmonia igual de prazeres. E assim, se nesta vida as três medidas permanecerem no mesmo até que fermentem e se tornem uma só, haverá no futuro uma comunhão incorruptível para aqueles que amam a Cristo.
Primeiramente foi curado o hidrópico, no qual o fluxo exuberante da carne agravava as funções da alma e extinguia o ardor do espírito; depois ensina-se a humildade, quando no banquete nupcial se refreia o desejo pelo lugar superior; por isso diz: "Dizia também aos convidados uma parábola, observando como escolhiam os primeiros lugares, dizendo-lhes: Quando fores convidado para bodas, não te sentes no primeiro lugar".
Assim, portanto, ao homem de milícia veterana é prescrito o desprezo das riquezas, pois aquele que, atento às coisas inferiores, adquire para si posses terrenas, não pode alcançar o reino dos céus, quando o Senhor diz: "Vende tudo o que tens e segue-me". Segue: "E outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou prová-las".
Ou o matrimônio não é repreendido, mas a integridade é chamada a uma maior honra, pois a mulher não casada pensa nas coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a que está casada pensa nas coisas do mundo.
Ou sejam considerados excluídos do convívio desta ceia três tipos de homens: os gentios, os judeus e os hereges. Os judeus impõem a si mesmos o jugo da lei pelo ministério corporal. Cinco jugos são os dez mandamentos, ou então os cinco livros da antiga lei. Mas a heresia, por seu turno, como Eva, tenta o afeto da fé com rigor feminino. E o Apóstolo diz que a avareza deve ser evitada, para que, impedidos à maneira dos gentios, não sejamos incapazes de chegar ao reino de Cristo. Portanto, aquele que comprou uma propriedade é estranho ao reino, e aquele que escolheu o jugo da lei em vez do dom da graça, e aquele que se desculpa por ter que se casar. Segue-se: e voltando, o servo anunciou estas coisas ao seu senhor.
Ele convida os pobres, os débeis e os cegos, para mostrar que nenhuma fraqueza do corpo exclui do reino, e que mais raramente delinque aquele a quem falta o atrativo para pecar; ou que a enfermidade dos pecados é perdoada pela misericórdia do Senhor; por isso envia às praças, para que dos caminhos mais largos venham para o caminho estreito.
Ou, ele envia para os caminhos e ao redor das sebes, porque aptos estão para o reino dos céus aqueles que, não ocupados com os desejos dos bens presentes, apressam-se para os futuros, estabelecidos em certo caminho da boa vontade; e aqueles que, como a sebe, que separa o terreno cultivado do inculto, e impede a invasão das bestas, sabem distinguir o bem do mal, e contra as tentações da maldade espiritual, estender a proteção da fé.
Pois se o Senhor, por tua causa, renuncia à sua própria mãe, dizendo: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?", por que tu pretendes ser preferido ao teu Senhor? Mas o Senhor não ordena que ignoremos a natureza, nem que sejamos cruéis, senão que nos submetamos à natureza de tal modo que veneremos seu Autor, e não nos afastemos de Deus por amor a nossos pais.
Aprendeste nos textos anteriores a não te ocupares com os negócios seculares, a não preferires as coisas caducas às perpétuas. Mas como a fragilidade humana não pode manter um passo firme em um mundo tão escorregadio, o bom Médico te mostrou remédios mesmo contra o erro, e o Juiz misericordioso não negou a esperança do perdão; donde se segue: "Aproximavam-se dele os publicanos e pecadores para o ouvirem".
Rico é o Pastor, do qual todos nós somos a centésima parte; por isso segue-se e se perder uma delas
Os Anjos, porém, visto que são racionais, não sem motivo se alegram na redenção dos homens; donde segue "Digo-vos que assim haverá alegria no céu sobre um pecador que faz penitência, mais do que sobre noventa e nove justos que não necessitam de penitência". Isto sirva como incentivo à virtude, se cada um acreditar que sua conversão será agradável às assembleias dos Anjos, cujo patrocínio deve buscar ou cuja ofensa deve temer.
São Lucas expôs três parábolas sucessivamente: a da ovelha que estava perdida e foi encontrada; a da dracma que estava perdida e foi encontrada; a do filho que estava morto e reviveu; para que, estimulados por este triplo remédio, curássemos nossas feridas. Cristo como pastor te carrega em seu próprio corpo, a Igreja como mãe te procura, Deus como Pai te recebe: a primeira é misericórdia, a segunda intercessão, a terceira reconciliação.
Vê-se, pois, que o patrimônio divino é dado aos que o pedem; e não consideres culpa do pai ter dado ao mais jovem: nenhuma idade é frágil no reino de Deus, nem a fé se faz pesada pelos anos. Certamente ele próprio se julgou capaz quando pediu: e quem dera não tivesse se afastado do pai; não teria conhecido o impedimento da idade; pois segue-se que não muitos dias depois, tendo reunido tudo, o filho mais jovem partiu para uma região distante
Justamente começou a sentir necessidade aquele que abandonou os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus, e a profundidade das riquezas celestiais. Segue-se: e foi, e uniu-se a um dos cidadãos daquela região.
As siliquas são um tipo de legume, vazio por dentro, mole por fora, com o qual o corpo não se refaz, mas se enche, sendo mais um fardo do que de utilidade.
Pois o que há de mais distante do que afastar-se de si mesmo, e separar-se não por regiões, mas por costumes? Com efeito, aquele que se separa de Cristo é um exilado da pátria e um cidadão do mundo. Merecidamente, portanto, desperdiça seu patrimônio aquele que se afasta da Igreja.
Sobreveio, pois, naquela região uma fome não de alimentos, mas de boas obras e virtudes, que são os jejuns mais miseráveis: porque aquele que se afasta da palavra de Deus, tem fome, pois não só de pão vive o homem, mas de toda palavra de Deus, e quem se afasta do tesouro, fica na indigência. Começou, portanto, a estar na indigência e a sofrer fome, porque nada é suficiente para uma vontade pródiga. Partiu, então, e uniu-se a um dos cidadãos: pois quem se une, está em um laço; e parece que este cidadão é o príncipe deste mundo. Finalmente, é enviado para a sua propriedade rural, que compra aquele que se escusa do reino.
Ele apascenta aqueles porcos, nos quais o demônio pediu para entrar, que vivem em sujeiras e em fetidez.
Desejava, pois, encher o seu ventre com as vagens: pois não há outro cuidado para os luxuriosos senão encher o seu ventre.
Adequadamente retorna a si, porque se afastou de si mesmo; e aquele que retorna a Deus, restitui-se a si mesmo; e quem se afasta de Cristo, renuncia a si mesmo.
Pois o filho, que tem o penhor do Espírito Santo em seu coração, não busca os lucros de recompensa secular, mas conserva o direito de herdeiro. Há também bons trabalhadores que são contratados para a vinha; estes não abundam em alfarrobas, mas em pães.
Quão misericordioso é Aquele que, após ser ofendido, não se desdenha de ouvir o nome de Pai! Pequei. Esta é a primeira confissão diante do Autor da natureza, do Protetor da misericórdia, do Árbitro da culpa. Mas se Deus conhece todas as coisas, Ele ainda assim espera a voz da tua confissão; pois com a boca se faz confissão para a salvação, porque alivia o peso do erro aquele que se encarrega a si mesmo; e exclui a inveja da acusação quem antecipa o acusador confessando. Em vão quererias ocultar-te dAquele a quem nada escapa, e sem perigo revelas o que sabes já ser conhecido. Confessa antes para que Cristo interceda por ti, a Igreja rogue por ti, o povo chore por ti; nem temas não alcançar. Teu Advogado promete o perdão, teu Patrono promete a graça, teu Defensor te promete a reconciliação com o afeto paterno. Mas acrescenta: contra o céu e diante de ti.
Ou pelos pecados da alma designam-se os dons celestiais do Espírito diminuídos; ou porque não convinha desviar-se do seio daquela mãe Jerusalém que está no céu. Aquele que foi derribado não deve exaltar-se; por isso acrescenta já não sou digno de ser chamado teu filho. E para que pelo mérito de sua humildade possa ser elevado, acrescenta faz-me como um dos teus trabalhadores assalariados.
Ele corre ao teu encontro, pois te escuta quando tratas de temas secretos dentro de tua mente; e quando ainda estás longe, ele corre para que ninguém te impeça. Ele te abraça também (pois no correr há presciência, no abraço clemência), e como que por um impulso de afeto paterno, cai sobre teu pescoço para erguer aquele que está caído e para reconduzir ao céu aquele que, carregado de pecados, estava inclinado para a terra. Prefiro, portanto, ser filho a ser ovelha: pois a ovelha é encontrada pelo pastor, mas o filho é honrado pelo pai.
Ou a estola é o manto da sabedoria, com o qual os apóstolos cobrem a nudez do corpo. Recebeu, porém, a primeira sabedoria; pois existe também outra que não conhece o mistério. O anel, por sua vez, é o sinal da fé sincera e a expressão da verdade; sobre o qual segue "e dai-lhe um anel em sua mão".
Apropriadamente a carne do bezerro, porque é a vítima sacerdotal que se oferecia pelos pecados. E o apresenta celebrando quando diz celebremos um banquete, para mostrar que o alimento do Pai é a nossa salvação; e a alegria do Pai é a redenção dos nossos pecados.
Aquele pereceu que existiu. Portanto, os gentios não existem, o cristão existe. Pode-se, contudo, também aqui entender uma só espécie do gênero humano. Existiu Adão, e nele todos fomos; pereceu Adão, e nele todos pereceram. O homem, portanto, naquele homem que perecera é reformado. Pode também parecer que foi dito a respeito daquele que faz penitência, porque não morre senão o que alguma vez viveu. E, na verdade, os gentios, quando creem, são vivificados pela graça; mas aquele que caiu, revive pela penitência.
Ao filho mais jovem, isto é, ao povo vindo dos gentios, Israel, como irmão mais velho, invejou o benefício da bênção paterna; o que faziam os judeus, porque Cristo banqueteava com os gentios; de onde segue: indignou-se, porém, e não queria entrar.
O judeu requer um cabrito, o cristão um cordeiro; e por isso Barrabás é liberado para eles, para nós o cordeiro é imolado. Esta mesma realidade também se vê no cabrito, porque os judeus perderam o rito do antigo sacrifício. Ou aqueles que buscam um cabrito esperam pelo Anticristo.
O filho insolente é semelhante ao publicano que se justificava, pois observava a lei conforme a letra; acusava impiedosamente o irmão, por ter esbanjado os bens paternos com meretrizes; pois segue-se: mas logo que veio este teu filho, que devorou tua substância com meretrizes, mataste para ele o vitelo cevado.
Mas o bom pai ainda desejava salvá-lo, dizendo "tu sempre estás comigo", seja como judeu na lei, seja como justo na comunhão.
Pois se deixar de invejar, todas as coisas são suas, seja como judeu possuindo os sacramentos do Antigo Testamento, ou como batizado possuindo também os do Novo.
Ou de outro modo. Aqui se destaca o irmão referido como aquele que vem da vila, isto é, ocupado com trabalhos terrenos, ignorando as coisas que são do Espírito de Deus, de modo que nunca sequer procura que um cabrito seja morto por ele: pois não é por inveja, mas pelo perdão do mundo que o cordeiro é imolado. O invejoso procura um cabrito, o inocente deseja que o cordeiro seja imolado por ele. Por isso também é chamado mais velho, porque rapidamente alguém envelhece pela inveja; por isso também está do lado de fora, porque a malevolência o exclui; por isso não pode ouvir o coro e a sinfonia, isto é, não algum incentivo teatral à lascívia, mas a concórdia do povo que canta em harmonia, a qual ressoa a doce suavidade da alegria pelo pecador salvo; pois aqueles que se consideram justos, indignam-se quando a alguém que confessa um pecado é concedido o perdão. Quem és tu para contradizer o Senhor, para que ele não relaxe a culpa, quando tu perdoas a quem quiseres? Mas devemos favorecer os pecados que são perdoados após a penitência; para que, enquanto invejamos o perdão de outro, nós mesmos não o mereçamos do Senhor. Não invejemos aqueles que retornam de uma região distante, porque também nós estivemos em uma região distante.
Disto, portanto, aprendemos que nós não somos os senhores, mas antes os administradores de propriedades alheias.
Ou chamou a Mamona de iníqua, porque pelos vários atrativos das riquezas a cobiça tenta os nossos afetos, para que queiramos servir às riquezas.
Ou, de outro modo: Fazei para vós amigos da riqueza iníqua, para que, sendo generosos com os pobres, possamos angariar a graça dos anjos e dos demais santos.
As riquezas são estranhas para nós, porque estão além da natureza, nem nascem conosco, nem passam conosco. Cristo, porém, é nosso, porque é a vida do homem. Enfim, Ele veio aos seus próprios.
Não porque sejam dois, mas um só é o Senhor; pois ainda que existam aqueles que servem a mamona, contudo este não conhece quaisquer direitos de senhorio, mas eles mesmos impõem sobre si o jugo da servidão. Um só é o Senhor porque um só é Deus: de onde fica evidente que um só é o domínio do Pai e do Filho; e a razão disto ele atribui acrescentando: "ou odiará um e amará o outro; ou se apegará a um e desprezará o outro".
Não porque a Lei tivesse findado, mas porque a pregação do Evangelho começou, pois as coisas menores parecem ser completadas quando sucessivamente vêm as maiores.
A lei ensinou muitas coisas conforme a natureza, sendo mais indulgente com os desejos naturais, para nos chamar ao zelo pela justiça; Cristo intervém na natureza, porque também amputa os prazeres naturais. Mas por isso fazemos violência à natureza, para que ela não nos submerja nas coisas terrenas, mas se eleve às celestes.
Mas penso que primeiro se deve falar da lei do matrimônio, para que depois disputemos sobre a proibição do divórcio. Alguns pensam que todo matrimônio provém de Deus, porque está escrito: "o que Deus uniu, o homem não separe". Como, então, disse o Apóstolo: "se o infiel se afasta, que se afaste"? Nisso mostra que nem todo matrimônio provém de Deus, pois certamente os cristãos não se unem aos gentios pelo juízo de Deus. Não queiras, portanto, repudiar a tua esposa, para não negares que Deus é o autor da tua união. Pois se deves tolerar e corrigir os costumes dos estranhos, muito mais deves fazê-lo com os costumes de tua esposa: a qual, se for repudiada enquanto está grávida de filhos pequenos, é algo duro se excluíres a mãe e retiveres os penhores, acrescentando à ofensa dos pais também a injúria à piedade; mais duro ainda se por causa da mãe expulsares também os filhos. Suportarás que teus filhos, vivendo tu ainda, estejam sob o domínio de um padrasto, ou que, estando a mãe viva, estejam sob uma madrasta? Quão perigoso é expores ao erro a frágil idade da adolescência; quão ímpio é abandonares na velhice aquela cuja juventude desfloraste. Suponhamos que a repudiada não se case novamente; isto também te deveria desagradar, pois ela guarda fidelidade a ti, que és adúltero. Suponhamos que se case; a necessidade dela é teu crime, e o que consideras matrimônio é adultério. Isto, porém, em sentido moral: pois acima propusera que o reino de Deus é evangelizado; e tendo dito que da lei nem um ápice pode cair, acrescentou: todo aquele que deixa sua esposa e toma outra, comete adultério, etc.; Cristo é o esposo, a Igreja é a esposa, esposa pela caridade, virgem pela integridade. Portanto, aquele que Deus trouxe ao seu Filho, não o separe a perseguição, não o afaste a luxúria, não o roube a filosofia, não o contamine o herege, nem o separe o judeu. Adúlteros são todos aqueles que desejam adulterar a verdade da fé e da sabedoria.
A púrpura é a cor do manto real, extraída de conchas marinhas cortadas ao redor com ferro; o bisso, por sua vez, é um tipo de linho branco e muito fino.
Isso parece mais uma narrativa do que uma parábola, quando também se exprime o nome.
A insolência e a arrogância dos ricos é subentendida por indícios competentes; pois segue: e ninguém lhe dava. Pois a tal ponto se esquecem da condição humana que, como se estivessem situados acima da natureza, extraem das misérias dos pobres incentivos para seus próprios prazeres, riem do indigente, insultam o necessitado e, daqueles a quem deveriam ter misericórdia, estes os despojam.
Ele também é atormentado, porque para o luxurioso é uma pena carecer de suas delícias; a água também é um refrigério para a alma que se encontra em meio às dores.
Entre o rico e o pobre há, portanto, um grande abismo, porque depois da morte os méritos não podem ser mudados; donde segue "para que os que querem passar daqui para vós não possam, nem de lá passar para cá".
Mais tarde, porém, este rico começa a ser mestre, quando já não tem tempo nem para aprender nem para ensinar.
Neste lugar o Senhor evidentemente declara que o Antigo Testamento é o fundamento da fé, refutando a perfídia dos judeus e excluindo as iniquidades dos hereges.
Ou ainda, Lázaro é pobre neste mundo, mas rico para Deus: pois nem toda pobreza santa, nem todas as riquezas são criminosas; mas assim como a luxúria infama as riquezas, assim a santidade recomenda a pobreza. Ou há algum homem apostólico, pobre em palavras, mas rico em fé, que mantém a verdadeira fé, não requerendo o ornamento das palavras. A tal pessoa comparo aquele que, frequentemente açoitado pelos judeus, oferecia as feridas de seu corpo para serem lambidas, como se fossem por certos cães. Bem-aventurados cães, para os quais goteja o humor de tais feridas, de modo a encher o coração e a boca daqueles cujo ofício é guardar a casa, preservar o rebanho, afastar o lobo! E porque a palavra é pão, e nossa fé é da palavra, as migalhas são como certas doutrinas da fé, isto é, os mistérios das Escrituras. Mas os arianos, que buscam a aliança do poder real para atacar a verdade da Igreja, não parecem estar em púrpura e linho fino? E estes, quando defendem o contrafação em vez da verdade, abundam em discursos fluentes. A rica heresia compôs muitos Evangelhos, e a fé pobre manteve este único Evangelho, que recebeu. A rica filosofia fez para si muitos deuses, a pobre Igreja conheceu apenas um. Não parecem essas riquezas serem pobres, e essa pobreza ser rica?
Depois do rico que é atormentado nas penas, acrescenta o preceito de conceder perdão àqueles que se convertem do erro, para que o desespero não impeça ninguém de afastar-se da culpa; por isso diz: "Atentai para vós mesmos".
Para que o perdão não seja difícil, nem a indulgência seja relaxada; para que uma repreensão severa não desanime, nem a condescendência convide à culpa; por isso em outro lugar se diz: "Corrija-o entre você e ele somente". Pois uma correção amigável é mais proveitosa do que uma acusação turbulenta. Aquela incute pudor, esta provoca indignação. Preserve-se antes o que teme perder aquele que é admoestado: é bom, de fato, que aquele que é corrigido acredite que és mais amigo do que inimigo; pois mais facilmente se acolhem conselhos do que se sucumbe à injúria. O temor é um frágil guardião da perseverança, mas o pudor é um bom mestre do dever: pois quem teme é reprimido, não emendado. Adequadamente disse "se pecar contra ti": pois não é a mesma condição pecar contra Deus e contra o homem.
Ou porque no sétimo dia Deus descansou de suas obras, após a semana deste mundo é-nos prometido um descanso duradouro, para que, assim como cessarão as más obras deste mundo, também se acalme a severidade da vingança.
Ou isto se diz quando a fé exclui o espírito imundo: pois o fruto da amoreira primeiro embranquece na flor, e depois de formado se avermelha, e enegrecido amadurece. O diabo também, caído por prevaricação da alva flor da natureza angélica e do brilhante resplendor de seu poder, tornou-se horrível pelo negro odor do pecado.
Entende-se que ninguém se recosta sem antes ter passado. Por isso também Moisés passou antes, para ver a grande visão. Assim como tu não dizes apenas ao teu servo "recosta-te", mas exiges dele outro serviço, assim também o Senhor não permite que te limites a uma única obra e trabalho, porque enquanto vivemos, devemos sempre trabalhar; donde segue: "e não lhe diga: prepara-me o que ceie, e cinge-te, e serve-me, até que eu coma e beba?"
Não te jactes, pois, se bem serviste, fizeste o que devias fazer. O sol obedece, a lua se submete, os Anjos servem; e nós, portanto, não exijamos louvor para nós mesmos. Por isso conclui dizendo: Assim também vós, quando tiverdes feito tudo, dizei: Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer.
Depois da parábola mencionada anteriormente, são repreendidos os ingratos; pois diz-se: "E aconteceu que, indo Jesus a Jerusalém, passava pelo meio da Samaria e da Galileia".
Ele declara corretamente que a causa do dilúvio procedeu dos nossos pecados, pois Deus não criou o mal, mas nossos méritos o encontraram para si mesmos. Não porque os matrimônios sejam condenados, nem porque os alimentos sejam condenados, visto que nestes há suporte para a sucessão, naqueles há subsídios para a natureza; mas em todas as coisas se busca a moderação: pois tudo que é excessivo provém do mal.
Como é necessário que por causa dos ímprobos os probos sofram neste século contrição do coração e da alma, para que recebam mais abundante recompensa no futuro, são instruídos com certos remédios quando se diz: "Naquela hora, quem estiver no telhado, e seus vasos estiverem na casa, não desça para apanhá-los"; isto é, se alguém já ascendeu ao cume superior de sua casa e ao pináculo das virtudes mais elevadas, não se incline às obras terrenas deste mundo.
A qual, por ter olhado para trás, perdeu o dom de sua natureza: pois atrás está Satanás, atrás também está Sodoma. Por isso, foge da intemperança, afasta-te da luxúria, recorda-te que aquele que não se voltou para seus antigos interesses conseguiu escapar porque chegou à montanha; ela, porém, por ter olhado para trás, nem mesmo com a ajuda de seu marido pôde chegar à montanha, mas permaneceu onde estava.
Ele corretamente diz "noite", porque o Anticristo é a hora das trevas, pois o Anticristo infunde trevas nos corações dos homens, quando diz ser o Cristo; mas Cristo, como o relâmpago que resplandece, brilha, para que possamos ver naquela noite a glória da ressurreição.
Ou do mesmo leito da enfermidade humana, um é deixado, isto é, reprovado; e o outro é tomado, isto é, arrebatado ao encontro de Cristo nos ares. Segue: duas estarão moendo juntas: uma será tomada, e a outra será deixada.
Ou pelas que moem parece significar aqueles que buscam alimento em fontes ocultas e trazem à vista das profundezas para o exterior. E talvez este mundo seja uma espécie de moinho; a alma, porém, está encerrada como em uma prisão corporal. Neste moinho, portanto, a sinagoga ou a alma sujeita aos pecados, moendo o trigo umedecido e corrompido por grave umidade, não pode separar o interior do exterior; e por isso é deixada, porque sua farinha desagrada. Mas a santa Igreja, ou a alma não manchada por contágio algum de pecados, que mói tal trigo que tenha sido torrado pelo calor do sol eterno, oferece a Deus boa farinha das profundezas dos homens. Quem sejam os agricultores, podemos descobrir se advertirmos que existem duas mentes em nós: uma do homem exterior, que se corrompe; outra do interior, que é renovada pelo sacramento. Estes, portanto, são os que trabalham em nosso campo; dos quais um, pela diligência, produz bom fruto, o outro perde por negligência. Ou interpretemos que são dois povos neste mundo, que é comparado a um campo: dos quais um, que é fiel, é tomado; o outro, que é infiel, é deixado.
Pois Deus não é injusto, de modo que separe, na recompensa de seus méritos, homens de semelhantes esforços no modo de viver e de indistinta qualidade de ações. Porém, o hábito de viver em sociedade não iguala os méritos dos homens, porque nem todos realizam aquilo que começam, mas somente aquele que perseverar até o fim será salvo.
Pois as almas dos justos são comparadas às águilas, porque buscam as coisas elevadas, abandonam as coisas baixas, e dizem que alcançam uma vida longa. Quanto ao corpo, não podemos ter dúvida, especialmente se nos lembrarmos que José recebeu o corpo de Pilatos. Não te parecem águias ao redor do corpo, as mulheres e a assembleia dos apóstolos ao redor do sepulcro do Senhor? Não te parecem águias ao redor do corpo, quando ele vier nas nuvens, e todo olho o verá? Este é o corpo sobre o qual foi dito: "Minha carne é verdadeiramente comida". Ao redor deste corpo estão as águias que voam com asas espirituais. São também águias ao redor do corpo aqueles que creem que Jesus Cristo veio na carne. A Igreja também é o corpo, na qual pela graça do batismo somos renovados em Espírito.
Pode parecer duro a alguns que os discípulos proibiam as criancinhas de se aproximarem do Senhor; segue-se, pois, que ao verem isso, os discípulos os repreendiam. Onde se pode entender ou um mistério, ou um sentimento. Nem faziam isso por inveja ou por aspereza de espírito contra as crianças; mas prestavam ao Senhor os serviços de uma solícita servidão, para que não fosse comprimido pelas multidões. Deve-se, de fato, rejeitar nossa própria utilidade quando há injúria à divindade. No mistério, porém, porque desejavam ardentemente que se salvasse primeiro o povo judeu, do qual haviam nascido segundo a carne. Conheciam, certamente, o mistério de que a vocação era devida a ambos os povos: pois até pela mulher cananeia haviam suplicado; mas talvez ainda desconhecessem a ordem; de onde se segue: Jesus, porém, chamando-os, disse: Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais: pois deles é o reino de Deus. Uma idade não é preferida a outra: de outro modo, seria prejudicial crescer. Por que, então, diz que as crianças são aptas para o reino dos céus? Talvez porque desconhecem a malícia, não sabem fraudar, não ousam agredir, ignoram a impureza, não apetecem riquezas, honra, ambição. Mas desconhecer essas coisas não é virtude, mas desprezá-las: pois não é virtude não poder pecar, mas não querer. Não se designa, portanto, a infância, mas a bondade que emula a simplicidade infantil.
Por fim, isto o Salvador expressou, dizendo: "Em verdade vos digo: qualquer que não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele". Qual criança deve ser imitada pelos apóstolos de Cristo senão aquela de quem Isaías disse: "Um menino nos nasceu"? Aquele que, quando era amaldiçoado, não amaldiçoava? Assim, na infância há uma certa venerável velhice de costumes, e na velhice, uma inocência infantil.
Esse tentador, um chefe, chamou-o de bom mestre, quando deveria tê-lo chamado de Deus bom; pois embora a bondade exista na divindade, e a divindade na bondade, contudo, ao acrescentar mestre bom, referiu-se à bondade em parte, não na totalidade; pois Deus é bom na totalidade, o homem apenas em parte.
Não se nega bom, mas designa a Deus. Bom, na verdade, não é ninguém, a não ser aquele que está pleno de bondade. Pois se alguém se admira de que ninguém é bom, deve também admirar-se do a não ser Deus. Que se o Filho não é excluído de Deus, certamente Cristo não é excluído do que é bom: pois como não seria bom aquele que nasceu do Bom? Porque a árvore boa produz bons frutos. Como não seria bom, quando a substância de sua bondade, assumida do Pai, não degenerou no Filho, a qual não degenerou no Espírito? Teu bom Espírito me conduzirá à terra reta. E se é bom o Espírito que recebeu do Filho, bom é também aquele que o transmitiu. Assim, como este que o tenta é perito na lei, como se demonstra em outro livro, a ele bem disse ninguém é bom a não ser um só Deus: para adverti-lo, porque está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus; mas antes confessarás ao Senhor, porque é bom.
A honra, porém, não consiste apenas em prestar reverência, mas também em ser generoso. Pois honrar é recompensar conforme os méritos. Alimenta teu pai, alimenta tua mãe; e ainda que os alimentes, não terás retribuído todas as dores e sofrimentos que tua mãe suportou por ti. A ele deves tudo o que tens, a ela deves tudo o que és. Que julgamento merecerás, se a Igreja alimentar aqueles que tu não queres alimentar! Mas dirás: o que eu iria oferecer aos meus pais, prefiro entregar à Igreja. Deus não busca uma oferta que fará passar fome aos teus pais; pois assim como a Escritura diz que os pais devem ser alimentados, também diz que eles devem ser deixados por causa de Deus, se impedirem o afeto de uma mente devota. Segue-se: "Ele disse: Todas estas coisas tenho guardado desde a minha juventude".
Neste cego, porém, está representado o tipo do povo gentio, que pelo sacramento do Senhor recebeu a claridade da luz perdida. E não importa se em um cego recebe a medicina, ou em dois; visto que, descendendo de Cam e Jafet, filhos de Noé, nos dois cegos, apresentava os dois fundadores de sua raça.
Ou, Ele interrogou o cego, para que acreditássemos que ninguém pode ser salvo sem confessar.
Zaqueu sobre o sicômoro, o cego à beira do caminho: a um deles o Senhor espera para mostrar misericórdia, ao outro confere a grande glória de permanecer em sua casa. E diz-se: "E tendo entrado, Jesus caminhava por Jericó: e eis que um homem chamado Zaqueu; e este era chefe dos publicanos, e ele próprio rico". E apropriadamente é apresentado como chefe dos publicanos: pois quem desesperará de si mesmo, quando este alcançou a graça, cuja renda provinha da fraude? E ele também era rico, para que saibas que nem todos os ricos são avarentos.
O que significa que ele não tenha expressado a estatura de nenhum outro senão deste? Veja se talvez era pequeno em malícia, ou ainda pequeno na fé: pois ainda não estava disposto quando subiu, ainda não havia visto a Cristo.
Sem ser convidado, Ele convida a Si mesmo; por isso segue: e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje é necessário que eu permaneça em tua casa: pois sabia quão abundante seria a recompensa de sua hospitalidade; mas ainda que não tivesse ouvido a voz, Ele já havia percebido o desejo de quem o convidaria.
Aprendam os ricos que o erro não está nas riquezas, mas naqueles que não sabem como usá-las: pois as riquezas, assim como são impedimentos para os ímprobos, são também auxílios à virtude para os bons.
Belamente acrescentou que o Senhor havia de passar por aquela parte, onde estava o sicômoro, ou onde estava quem haveria de crer, para que preservasse o mistério e semeasse a graça; pois assim tinha vindo para que, por meio dos judeus, chegasse aos gentios. Viu, pois, a Zaqueu no alto; porque já a sublimidade da fé resplandecia entre os frutos das boas obras e na altura da árvore fecunda. Zaqueu, porém, está acima da árvore, porque está acima da lei.
Mas as dez cidades são as almas, sobre as quais com justiça se coloca aquele que tiver confiado o dinheiro do Senhor e as palavras castas, provadas como prata, às mentes dos homens: pois assim como se diz que Jerusalém é edificada como uma cidade, assim são as almas pacíficas; e assim como os Anjos presidem, assim também aqueles que mereceram a vida dos Anjos. Segue-se: E veio outro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco minas.
Ou talvez de outro modo. Aquele que adquiriu cinco minas possui as virtudes morais, porque cinco são os sentidos do corpo; aquele que adquiriu dez, possui o dobro, isto é, os mistérios da lei e as virtudes morais. Podemos também aqui entender por dez minas as dez palavras, ou seja, a doutrina da lei; e por cinco minas, os ensinamentos da disciplina; mas quero que o conhecedor da lei seja perfeito em todas as coisas. E com razão, porque fala dos judeus, apenas dois apresentam o dinheiro multiplicado, não certamente pelos juros do dinheiro, mas pelos lucros da argumentação.
Nada se diz dos outros servos, que como devedores pródigos perderam o que haviam recebido. Nos dois servos que lucraram, são designados os poucos que em duas ocasiões foram destinados ao cultivo da vinha; nos restantes, todos os judeus. Segue-se "e lhe disseram: Senhor, ele tem dez minas". E para que isto não parecesse injusto, acrescenta "digo-vos, pois, que a todo aquele que tiver, será dado".
Pois eles estavam na aldeia, e o jumentinho estava atado com sua mãe, e não podia ser solto senão pelo comando do Senhor. A mão apostólica o solta. Tal ato, tal vida, tal graça. Sê tu assim, para que possas soltar os que estão atados. Na jumenta, São Mateus Evangelista representou como que a mãe do erro; aqui, porém, no jumentinho expressou a generalidade do povo gentio. E com razão "no qual ninguém ainda se sentou", porque ninguém antes de Cristo chamou os povos das nações para a Igreja. Atado, porém, era mantido pelos vínculos da perfídia, sujeito a um senhor iníquo pela servidão ao erro; mas não podia reivindicar para si o domínio, a quem fizera senhor não a natureza, mas a culpa; e por isso quando se diz senhor, reconhece-se um só. Miserável servidão, cujo direito é incerto: pois tem muitos senhores quem não tem um só. Os estranhos atam para possuir; este solta, para manter: pois sabe que os dons são mais poderosos que os vínculos.
E não é sem propósito que dois discípulos são enviados, Pedro a Cornélio, Paulo aos demais: e por isso não designou as pessoas, mas definiu o número. Contudo, se há alguém que deseje saber quais pessoas, pode considerar que se trata de Filipe, a quem o Espírito Santo enviou a Gaza, quando batizou o eunuco da rainha Candace.
Aqueles, portanto, que foram enviados, ao desamarrarem o jumentinho, não usaram suas próprias palavras, mas disseram como Jesus lhes havia dito; para que reconheças que não por seu próprio discurso, mas pela palavra de Deus, e não em seu próprio nome, mas no de Cristo, infundiram a fé nos povos gentios; e que as potestades adversárias, que reivindicavam para si a obediência das nações, cederam ao mandato divino.
Não é porque agradou ao Senhor do mundo ser levado sobre o dorso de uma jumenta, mas para que, por um mistério oculto e por uma presença mais interior, o Guia místico tomasse assento nas profundezas secretas das almas dos homens, dirigindo os passos da mente, refreando a lascívia da carne. Sua palavra é um freio, Sua palavra é um aguilhão.
A multidão, portanto, reconhecendo a Deus, chama-o de rei, repete a profecia e declara que veio o esperado filho de Davi segundo a carne; por isso segue-se, dizendo: bendito o rei que vem em nome do Senhor.
Nem é surpreendente que as pedras, contra sua natureza, respondam com louvores ao Senhor, a quem seus algozes, mais duros que as rochas, proclamam em alta voz, isto é, a multidão que, em breve, haveria de crucificar a Deus, negando-O em seus corações enquanto O confessam com suas bocas; ou talvez seja dito porque, quando os judeus foram silenciados após a Paixão do Senhor, as pedras vivas, como São Pedro as chama, estavam prontas a clamar.
Pois Deus não quer que seu templo seja uma casa de comércio, mas a morada da santidade; nem estabelece o serviço sacerdotal na venda do ofício religioso, mas na obediência gratuita e voluntária.
Geralmente, portanto, o Senhor ensina que os contratos seculares devem estar ausentes do templo de Deus. E espiritualmente expulsou os cambistas, que buscam lucro com o dinheiro do Senhor, isto é, com a Sagrada Escritura, e não discernem o bem do mal.
A maioria, no entanto, deriva variadas significações da designação de vinha; mas Isaías claramente menciona que a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel. Esta vinha, quem mais senão Deus a fundou?
Não porque o Senhor se deslocou de um lugar para outro, pois Ele está sempre presente em toda parte; mas porque Ele está mais presente para aqueles que O amam, e está ausente para os que O negligenciam. Esteve ausente por muito tempo, para que Sua exigência não parecesse prematura, pois quanto mais indulgente é a liberalidade, tanto mais inexcusável se torna a obstinação.
Aconteceu, porém, que Ele enviou muitos outros, a quem os judeus desonraram e despediram como inúteis, dos quais não conseguiram obter proveito; por isso segue: e enviou ainda outro servo.
Os pérfidos judeus, desejando afastar o Filho unigênito enviado a eles, como quem remove um herdeiro, mataram-no crucificando-o, e expulsaram-no negando-o; de onde segue: "quando os lavradores o viram, consideraram entre si, dizendo: este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança seja nossa". Cristo é o herdeiro e também o testador; herdeiro, porque sobreviveu à sua própria morte, e dos testamentos que Ele mesmo estabeleceu, obtém como que os proveitos hereditários em nossos progressos.
Ele sabiamente os interroga, para que se condenem por suas próprias palavras; segue-se, pois: Que fará, então, com eles o senhor da vinha?
Ele diz que virá o senhor da vinha, porque no Filho está presente também a majestade paterna; ou porque nos últimos tempos Ele se manifestará mais graciosamente presente pelo Seu Espírito nos corações dos homens.
A vinha também é figura de nossa imagem: pois o agricultor é o Pai onipotente, a videira é Cristo; e nós verdadeiramente somos os ramos. Corretamente o povo de Cristo é denominado vinha; seja porque ostenta na fronte o sinal da cruz; seja porque seu fruto é colhido na última estação do ano; seja porque para todos, como nas fileiras ordenadas das vinhas, tanto para pobres como para ricos, para servos e senhores na Igreja, há uma distribuição igual, sem distinção; e como a videira se une às árvores, assim o corpo à alma. O diligente agricultor costuma cavar e podar esta vinha, para que não cresça luxuriante na sombra das folhas, e para que a jactância infrutuosa das palavras não impeça o amadurecimento de sua índole natural. Aqui deve haver a vindima do mundo inteiro, onde está a vinha do mundo inteiro.
Neste ponto o Senhor nos ensina que devemos ser circunspectos nas nossas respostas aos hereges ou aos judeus; como disse em outro lugar: "Sede astutos como serpentes"(São Mateus 10,16).
Tu, portanto, se não queres estar sujeito ao César, não queiras possuir aquilo que é do mundo. E com razão decreta que primeiro devem ser devolvidas as coisas que são de César, pois ninguém pode pertencer ao Senhor a não ser que primeiro renuncie ao mundo. Quão pesadas são as cadeias de prometer a Deus e não cumprir! Maior é o contrato da fé do que o do dinheiro.
Segundo a letra da lei, uma mulher é obrigada a casar, ainda que contra sua vontade, para que o irmão suscite a descendência do irmão falecido; mas o espírito é mestre da castidade.
Em sentido místico, esta mulher é a sinagoga, que teve sete maridos, como foi dito à Samaritana: "Tiveste cinco maridos", porque a Samaritana segue apenas os cinco livros de Moisés, enquanto a sinagoga segue principalmente sete. E de nenhum deles recebeu a semente de uma posteridade hereditária por causa de sua perfídia; e por isso não pôde ter parte com seus maridos na ressurreição, porque interpretou erroneamente o preceito espiritual segundo o sentido carnal: pois não se refere a algum irmão carnal que deveria suscitar a descendência do irmão falecido, mas àquele irmão que, do povo morto dos judeus, tomaria para si como esposa a sabedoria do culto divino, e dela suscitaria descendência nos Apóstolos, os quais, como remanescentes dos judeus falecidos, ainda informes, deixados no útero da sinagoga, mereceram ser preservados pela mistura de uma nova semente, segundo a eleição da graça.
Não são repreendidos neste lugar porque confessam a Cristo como filho de David, pois aquele cego, confessando-o como filho de David, mereceu a saúde; e os meninos, dizendo: "Hosana ao filho de David", ofereciam a Deus a glória de uma excelsa proclamação; mas são repreendidos porque não creem no Filho de Deus; por isso acrescenta: "E o próprio David diz no livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor". O Pai é Senhor e o Filho é Senhor; mas não são dois senhores, mas um só Senhor; porque o Pai está no Filho, e o Filho no Pai. Ele mesmo se assenta à direita do Pai, porque, sendo igual ao Pai, não é segundo de ninguém; segue-se, portanto: "Senta-te à minha direita". Não é preferido quem se senta à direita, nem sofre injúria quem é enviado: não se busca graus de dignidade onde há a plenitude da divindade.
Portanto, devemos crer que Cristo é Deus e homem; a quem os inimigos são submetidos pelo Pai, não por fraqueza do seu poder, mas pela unidade de natureza, porque um opera no outro: pois também o Filho submete os inimigos ao Pai, porque glorifica o Pai na terra.
Foi, portanto, dito com verdade sobre o templo feito por mãos humanas, que seria destruído: pois nada existe feito por mãos que ou a antiguidade não consuma, ou a força não derrube, ou o fogo não queime. Contudo, há também outro templo, a saber, a sinagoga, cuja antiga estrutura, ao surgir a Igreja, dissolve-se. Há também um templo em cada um, que cai quando a fé falta, e principalmente se alguém falsamente invoca o nome de Cristo, pelo qual combate o sentimento interior.
São Mateus acrescentou uma terceira interrogação, para que tanto o tempo da destruição do templo, quanto o sinal de sua vinda e a consumação do século fossem inquiridos pelos discípulos. Interrogado, porém, o Senhor sobre quando seria a futura destruição do templo e qual seria o sinal de sua vinda, instrui sobre os sinais, mas não se preocupa em revelar o tempo; pois segue que disse: "vede que não sejais enganados".
Mas das palavras celestiais ninguém é maior testemunha do que nós, sobre quem recaiu o fim do mundo. Quantas guerras e quantos rumores de guerras temos recebido!
A ruína do mundo, portanto, será precedida por certas enfermidades do mundo, a saber, fome, pestilência e perseguição.
Há também outras guerras que o homem cristiano suporta; combates de diversas paixões e conflitos de desejos. São muito mais perigosos os inimigos domésticos que os estranhos.
Em alguns lugares, Cristo fala por meio de seus discípulos, como aqui; em outro lugar, o Pai; em outro, o Espírito do Pai fala. Estas coisas não discordam, mas concordam entre si: o que um fala, os três falam, porque a voz da Trindade é uma só.
Os judeus, pois, julgaram que a abominação da desolação fora então realizada, porque os romanos, escarnecendo do rito da observância judaica, lançaram uma cabeça de porco no templo.
Misticamente, a abominação da desolação é a vinda do Anticristo, porque com sacrílegos infaustos contamina o interior das mentes, sentando-se, segundo a história, no templo, para reivindicar para si o trono do poder divino. Segundo a interpretação espiritual, é corretamente introduzido que ele deseja confirmar nos afetos de cada um o vestígio de sua perfídia, disputando a partir das Escrituras que ele é Cristo. Então se aproximará a desolação, pois muitos, afastando-se da verdadeira religião, desistirão; então será o dia do Senhor, pois assim como a primeira vinda do Senhor foi para redimir os pecados, também a segunda será para reprimir as faltas, para que não mais pessoas caiam no erro da perfídia. Há também outro Anticristo, isto é, o Diabo, que se esforça para sitiar Jerusalém, isto é, a alma pacífica, com o exército de sua lei. Portanto, quando o Diabo está no meio do templo, há a abominação da desolação. Mas quando a presença espiritual de Cristo brilha para qualquer um que trabalha, o iníquo é removido do meio, e a justiça começa a reinar. Há também um terceiro Anticristo, como Ário e Sabélio e todos os que nos seduzem com má intenção. Estas são as grávidas às quais se diz ai, que estendem a gordura de sua carne, e nas quais os passos das almas interiores se tornam lentos, esgotadas das virtudes e fecundas em vícios. Mas nem aquelas grávidas estão livres de condenação, que, estabelecidas no esforço de boas ações, ainda não deram nenhum progresso da obra empreendida. Há as que concebem pelo temor de Deus, mas nem todas dão à luz: pois há as que excluem a palavra abortiva antes de dar à luz. Há também as que têm Cristo no útero, mas ainda não o formaram. Portanto, aquela que dá à luz a justiça, dá à luz a Cristo. Também nós nos apressemos a desmamar nossos pequeninos, para que o dia do juízo ou da morte não nos encontre como pais de imperfeitos. O que assim acontecerá, se guardares no coração todas as palavras da justiça, e não esperares o tempo da velhice; mas na primeira idade rapidamente concebas a sabedoria sem corrupção de teu corpo, rapidamente a nutras. Mas no fim, toda a Judeia será submetida às nações que hão de crer pela boca da espada espiritual, que é a palavra de dois gumes.
Estes sinais são expressos com mais clareza por São Mateus: "Então o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu".
Também para muitos que se afastam da religião, a fé clara será obscurecida pela nuvem da perfídia; porque o sol celestial, nessa fé, diminui ou aumenta; e assim como nas mudanças mensais, isto é, dos meses, a lua desaparece com a interposição da terra, quando estiver em oposição ao sol; assim também a santa Igreja, quando os vícios da carne se opõem à luz celestial, não pode receber o fulgor da luz divina dos raios de Cristo: pois nas perseguições, o amor desta vida frequentemente exclui a luz do sol divino. Caem também as estrelas, isto é, os homens que brilham em glória, se a amargura da perseguição se torna forte, o que é necessário acontecer até que a multidão da Igreja seja completada: assim são provados os bons, assim são revelados os fracos.
Logo, serão tão graves as diversas angústias das almas que, por causa da multidão dos delitos e pela má consciência e temor do juízo futuro, o orvalho da fonte sagrada secará em nós. Assim como a vinda do Senhor é esperada, para que sua presença se manifeste em todo o círculo do homem ou do mundo, o que ocorre em cada um, quando recebem Cristo com todos os seus afetos; assim também as virtudes dos céus, na vinda do Senhor, alcançarão um aumento de graça, e se comoverão pela plenitude da divindade que mais de perto se infunde. Há também virtudes dos céus, que proclamam a glória de Deus, que serão movidas por uma infusão mais plena de Cristo, para que vejam a Cristo.
São Mateus, porém, falou somente da figueira, aqui se fala de todas as árvores. A figueira, entretanto, tem duplo significado: ou quando o que é duro amadurece, ou quando os pecados se manifestam com exuberância. Seja, portanto, quando o fruto verdeja em todas as árvores e a figueira fecunda já floresce; isto é, quando toda língua confessa a Deus, confessando também o povo judeu, devemos esperar a vinda do Senhor, na qual como nos tempos de verão serão colhidos os frutos da ressurreição; seja quando o homem de iniquidade se revestir da jactância leve e frágil, como as folhas da sinagoga, devemos conjecturar que o juízo se aproxima: pois o Senhor se apressa em recompensar a fé e em dar fim ao pecar.
Primeiramente, observai a majestade da divindade: quando fala com os discípulos, já conhece o que em outro lugar irá acontecer; depois, contemplai sua condescendência: porque não escolhe a pessoa de um rico ou poderoso, mas busca um pobre, e o humilde abrigo do pobre é preferido aos amplos palácios dos nobres. O Senhor conhecia o nome daquele cujo mistério e encontro conhecia; mas é designado sem nome, para que seja considerado de condição humilde.
Ou o cântaro é uma medida mais perfeita; mas a água é aquela que mereceu ser sacramento de Cristo; a que mereceu lavar, não ser lavada.
Nos aposentos superiores, ele tem um grande aposento preparado, para que percebas quão grandes eram seus méritos, nos quais o Senhor com seus discípulos repousava na deleitação de suas sublimes virtudes.
Se os apóstolos disputavam, isso não é apresentado como uma desculpa, mas proposto como uma advertência. Sejamos cautelosos, portanto, para que nenhuma contenda sobre a precedência possa surgir entre nós para nossa perdição.
Deve-se observar, porém, que nem toda humildade se define pelo empenho em honrar: podes, com efeito, prestar deferência a alguém por causa do favor mundano, do temor do poder, ou da consideração de utilidade; busca-se a tua edificação, não a honra do outro; e por isso é dada a todos uma única forma de sentença, para que não haja jactância sobre a prelação, mas empenho na humildade.
O reino de Deus não é deste mundo. Porém, não há igualdade com o Senhor, mas emulação de semelhança; pois somente Cristo é a plena imagem de Deus, por causa da expressa unidade da claridade paterna nele; o homem justo, porém, é à imagem de Deus, se, para imitar a semelhança da divina conversação, despreza este mundo pelo conhecimento de Deus; por isso também comemos o corpo de Cristo, para que possamos ser participantes da vida eterna; razão pela qual segue para que comais e bebais à minha mesa no meu reino. Pois não vos é prometido alimento e bebida como recompensa, mas a comunicação da graça celestial e da vida.
Os doze tronos, porém, não são como assentos corporais para sentar; mas porque, segundo a semelhança divina, Cristo julga pelo conhecimento dos corações, não pela interrogação dos atos, recompensando a virtude e condenando a impiedade; assim os apóstolos são formados para um juízo espiritual, para recompensa da fé, execração da perfídia, refutando o erro com virtude e perseguindo os sacrílegos com ódio.
Pedro de fato, ainda que pronto no espírito, todavia ainda fraco no afeto do corpo, é declarado que negará o Senhor: de fato, não podia igualar a constância da intenção Divina. A Paixão do Senhor tem êmulos, mas não tem iguais.
Mas aquele que proíbe ferir, por que manda comprar espada, a não ser talvez para que haja uma defesa preparada, não uma retaliação necessária; e para que pareça que poderia ter se vingado, mas não quis? Donde se segue: "E quem não tem", isto é, bolsa, "venda sua túnica e compre uma espada".
Ou porque a lei não proíbe restituir o golpe, talvez Ele diga a Pedro, quando este oferece dois gládios: "Basta", como se fosse lícito até o Evangelho; para que haja na lei a erudição da equidade, e no Evangelho a perfeição da bondade. Existe também o gládio espiritual, para que vendas teu patrimônio e compres a palavra com a qual os recônditos da mente são revestidos. Existe também o gládio da paixão, para que despojes o corpo e, com os despojos da carne imolada, compres para ti a sagrada coroa do martírio. Chama ainda a atenção que os discípulos apresentaram dois gládios: para que talvez um seja do Novo Testamento e outro do Antigo, pelos quais nos armamos contra as insídias do Diabo. Além disso, o Senhor diz: "Basta", como se nada faltasse àquele a quem a doutrina de ambos os Testamentos municiou.
Diz, pois: "Se quiseres, afasta de mim este cálice"; como homem recusando a morte, como Deus mantendo a sua própria sentença.
Horrorizam-se muitos neste ponto, que tomam a tristeza do Salvador como argumento de fraqueza arraigada desde o princípio, em vez de assumida temporariamente. Eu, porém, não apenas julgo que isso não deve ser desculpado, mas em nenhum outro momento admiro tanto sua piedade e majestade: pois menos teria me concedido, se não tivesse assumido meu afeto; assumiu minha tristeza para me conceder sua alegria. Confiantemente nomeio tristeza, porque anuncio a cruz. Devia, portanto, assumir a dor, para vencê-la. Pois não merecem louvor de fortaleza aqueles que suportaram mais o estupor das feridas do que a dor. Quis, portanto, nos instruir sobre como venceríamos a morte e, o que é ainda maior, a tristeza da morte futura. Sofres, portanto, Senhor, não por tuas, mas por minhas feridas. Pois ele se tornou enfermo por causa de nossos delitos: e talvez esteja triste porque, após a queda de Adão, era necessário partirmos deste mundo por tal passagem, sendo necessário morrer. Nem isto se afasta da verdade; mas estava triste por seus perseguidores, os quais sabia que haveriam de pagar as penas de um imenso sacrilégio.
Eu penso que isto deve ser pronunciado na forma de interrogação, como se ele advertisse o traidor com um sentimento de amor.
Diz, pois: "Entregas com um beijo?", isto é, com a garantia do amor infliges uma ferida, e com o instrumento de paz impões a morte? Servo, trais teu Senhor; discípulo, teu Mestre; escolhido, Aquele que te escolheu?
Grande, ó Senhor, manifestação de poder, grande disciplina de virtude! E o plano da traição é revelado, e ainda assim a paciência não é negada. Mostra quem o atraiçoaria, enquanto manifesta o que estava oculto; revela quem o entregaria, quando diz Filho do homem, porque é a carne, não a divindade, que é apreendida. Aquilo, porém, que mais confunde o ingrato é que ele entregou Aquele que, sendo Filho de Deus, por nós quis ser Filho do homem; como se dissesse: Por tua causa assumi, ó ingrato, aquilo que entregas, ó hipócrita.
O Senhor o beijou, não para nos ensinar a dissimular, mas para que não parecesse evitar o traidor, e para comover mais o traidor, a quem não negava os gestos de amor.
Pois Pedro, versado na lei e impelido pelo ardor de seus afetos, sabendo que foi reputado como justiça a Fineias o ter matado os sacrílegos, feriu o servo do príncipe dos sacerdotes.
Mas quando o Senhor limpou a ferida ensanguentada, acrescentou os mistérios divinos, para que o servo do príncipe deste mundo, não pela condição da natureza, mas pela culpa, recebesse a ferida na orelha, o qual não ouvira as palavras da sabedoria. Ou se Pedro quis ferir a orelha, ensinou que não deveria ter orelha na aparência, quem não a tivesse no mistério. Mas por que Pedro? Porque ele mesmo obteve o poder de ligar e desligar; e, portanto, com a espada espiritual corta a orelha interior daquele que entende mal. Mas o próprio Senhor restaura a audição, demonstrando que também eles, se se converterem, podem ser curados, os que foram feridos na paixão do Senhor: porque todo pecado é purificado pelos mistérios da fé.
Os infelizes não compreenderam o mistério, nem veneraram tão clemente disposição de piedade, pela qual Ele não permitiu que mesmo seus inimigos fossem feridos; pois está escrito prendendo-o, conduziram-no à casa do príncipe dos sacerdotes. Quando lemos que Jesus foi detido, acautelemo-nos para não pensar que Ele foi detido segundo a divindade e contra Sua vontade, como se fosse fraco; pois Ele é detido e amarrado segundo a verdade de Sua natureza corporal.
Bem o seguia de longe, já próximo de negá-lo: pois não poderia ter negado, se tivesse permanecido próximo a Cristo. Mas nisto se faz reverente, que não abandonou o Senhor, mesmo quando temia: o medo é da natureza, o cuidado é da piedade.
Já então na casa do príncipe dos sacerdotes o fogo ardia; consequentemente segue-se: havendo acendido o fogo no meio do átrio, e estando todos sentados ao redor, estava Pedro no meio deles. Acercou-se Pedro para se aquecer, porque, estando o Senhor preso, o calor da alma já havia esfriado nele.
O que significa que primeiro uma criada o denuncia, quando certamente os homens poderiam mais facilmente tê-lo reconhecido, senão para que esse sexo parecesse pecar na morte do Senhor, a fim de que esse mesmo sexo fosse redimido pela paixão do Senhor? Pedro, ao ser denunciado, nega: pois é melhor que Pedro tenha negado do que o Senhor ter faltado com a verdade; por isso segue: Mas ele negou, dizendo: Mulher, não o conheço.
Mas São Pedro negou, porque prometeu imprudentemente: não nega no monte, não no templo, não em sua casa, mas no pretório dos judeus: ele nega ali onde Jesus está preso, onde não existe verdade. E negando diz "não o conheço": seria, de fato, temerário dizer que conhecia aquele a quem a mente humana não pode compreender: pois ninguém conhece o Filho senão o Pai. Pela segunda vez nega a Cristo; pois segue-se: "e pouco depois, outro vendo-o disse: e tu és um deles".
Pois preferiu negar-se a si mesmo do que negar a Cristo; ou porque parecia negar a companhia de Cristo, verdadeiramente negou-se a si mesmo.
E pela terceira vez também é interrogado; pois segue-se, e transcorrido um intervalo de aproximadamente uma hora, outro afirmava dizendo: Em verdade este também estava com ele.
Isto é, desconheço vossos sacrilégios. Mas nós nos desculpamos, ele mesmo não se desculpou; pois não é suficiente uma resposta evasiva de quem confessa Jesus, mas uma confissão aberta: e por isso Pedro não é apresentado como tendo respondido assim deliberadamente; porque depois se recordou, e chorou.
Por fim, aqueles a quem Jesus olha, choram seus delitos; de onde segue: e Pedro recordou-se da palavra do Senhor que havia dito: Antes que o galo cante, me negarás três vezes. E saindo para fora, Pedro chorou amargamente. Por que chorou? Porque errou como homem: leio suas lágrimas, não leio sua satisfação. As lágrimas lavam o delito que, por pudor, envergonha-se de confessar com palavras. Negou na primeira e na segunda vez, e não chorou, porque ainda o Senhor não o havia olhado; negou pela terceira vez, Jesus olhou para ele, e chorou amargamente. E tu, se quiseres merecer o perdão, lava com lágrimas a tua culpa.
O Senhor, porém, preferiu provar que era Rei, a dizê-lo, para que não pudessem ter motivo de condenação aqueles que confessam o mesmo que objetam. Segue-se: Vós dizeis que eu sou.
O Senhor é acusado e permanece em silêncio, porque não necessita de defesa. Busquem ser defendidos aqueles que temem ser vencidos. Portanto, silenciando, Ele não confirma a acusação, mas a despreza, não a refutando. O que, pois, temeria Aquele que não busca a própria salvação? A Salvação de todos entrega a sua própria, para adquirir a de todos.
Ele permaneceu em silêncio e nada fez: pois a incredulidade daquele não merecia ver as coisas divinas; e o Senhor evitava a ostentação; e talvez figurativamente em Herodes estejam representados todos os ímpios, que se não acreditaram na Lei e nos Profetas, não podem ver as obras maravilhosas de Cristo no Evangelho.
Não é sem propósito que Ele é vestido por Herodes com uma veste branca, como sinal de Sua imaculada Paixão, pois o Cordeiro de Deus sem mácula tomaria sobre Si os pecados do mundo.
Na figura também de Herodes e Pilato, que de inimigos se tornaram amigos por meio de Jesus Cristo, preserva-se a representação do povo de Israel e do povo gentio, pois pela paixão do Senhor haveria de acontecer a futura concórdia de ambos; de tal modo, porém, que primeiro o povo das nações receba a palavra de Deus, e transmita ao povo judeu a devoção de sua fé, para que eles também vistam com a glória de sua majestade o corpo de Cristo, que antes haviam desprezado.
Aqui Pilatos absolve Cristo pelo juízo, mas crucifica-o pelo ministério. É enviado a Herodes, e devolvido a Pilatos; donde segue: mas nem Herodes: pois vos remeti a ele; e eis que nada digno de morte foi praticado por ele. Embora nenhum dos dois o declare réu, por medo, contudo, Pilatos obedece com empenho à crueldade alheia.
Não sem razão pedem a absolvição do homicida aqueles que clamavam pela morte do inocente. Tais são as leis da iniquidade, que o que a inocência odeia, o crime ama. Nisso, porém, a interpretação do nome revela uma figura: pois Barrabás, em latim, significa filho do pai. Aqueles, portanto, a quem é dito: "vós tendes por pai o Diabo", revelam-se como os que haveriam de preferir ao verdadeiro Filho de Deus o filho de seu pai, isto é, o Anticristo.
Cristo, portanto, carregando a cruz, já trouxe como vencedor seu troféu; a cruz é imposta sobre os ombros, porque, quer Simão, quer Ele mesmo a tenha carregado, Cristo a carregou no homem e o homem a carregou em Cristo. Nem discordam as sentenças dos Evangelistas, quando concorda o mistério. E há uma boa ordem para nosso avanço, que primeiro Ele mesmo erguesse os troféus de sua cruz, depois os entregasse aos mártires para serem erguidos. Não é judeu quem carrega a cruz, mas estrangeiro e peregrino, e não vai à frente, mas segue, conforme o que está escrito: "tome sua cruz e siga-me".
Convém, pois, considerar de que modo Ele sobe à cruz: vejo-O nu. Portanto, assim suba aquele que se prepara para vencer o mundo, de modo que não busque os auxílios do mundo. Foi vencido Adão, que buscou vestimentas; venceu Aquele que depôs suas vestes, e assim subiu tal como a natureza, por obra de Deus, nos formou; de tal modo habitara no Paraíso o primeiro homem, de tal modo entrou no Paraíso o segundo homem. Acertadamente, prestes a subir à cruz, depôs as vestes reais, para que saibas que padeceu como homem, não como Deus Rei, embora Cristo seja ambos.
E com razão o título é colocado acima da cruz; porque o reino que Cristo possui não é do corpo humano, mas do poder divino. Leio o título de Rei dos Judeus, quando leio: "Meu reino não é deste mundo"; leio a causa de Cristo escrita acima de sua cabeça, quando leio: "E o Verbo era Deus"; pois a cabeça de Cristo é Deus.
É dado um belíssimo exemplo de busca de conversão, pois tão rapidamente é concedido o perdão ao ladrão. Rapidamente o Senhor perdoa, porque rapidamente ele se converte, e a graça é mais abundante que a súplica: pois sempre o Senhor concede mais do que lhe é pedido. Aquele suplicava que se lembrasse dele; sobre o Senhor, porém, segue-se: E Jesus lhe disse: Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. Pois vida é estar com Cristo; e onde Cristo está, ali está o seu reino.
Mas também deve ser solucionado aquilo, porque outros, a saber, São Mateus e São Marcos, apresentam dois ladrões ultrajando; este, um ultrajando, um protestando: talvez este também primeiramente tenha ultrajado, mas repentinamente se converteu. Também poderia ter sido dito no plural acerca de um só, como é aquilo: "andavam em peles de cabras (...) foram serrados", quando se ensina que apenas Elias teve uma pele de ovelha, e Isaías foi serrado. Misticamente, os dois ladrões significam os dois povos pecadores que haveriam de ser crucificados com Cristo pelo Batismo; cuja dissensão igualmente significa a diversidade dos que creem.
O sol também se eclipsou para os sacrílegos, para obscurecer o espetáculo do terrível crime; trevas foram derramadas sobre os olhos dos infiéis, para que a luz da fé ressurgisse.
O véu também é rasgado, pelo qual é declarada a divisão dos dois povos e a profanação da sinagoga. O véu antigo é rasgado, para que a Igreja nova suspenda os véus de sua fé. O véu da sinagoga é levantado, para que contemplemos com os olhos da mente os mistérios internos da religião agora revelados.
Depois que bebeu o vinagre, cumpriu-se todo o mistério da mortalidade assumida, e permaneceu somente a imortalidade; por isso segue: e clamando com voz forte, Jesus disse: Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito.
A carne morre para que o espírito ressuscite; é encomendado ao Pai, para que também as coisas celestiais sejam libertas do vínculo da iniquidade, e para que seja feita a paz no céu, que as coisas terrenas haveriam de seguir.
Seu espírito é, portanto, encomendado ao Pai; mas como Ele está nas alturas, também ilumina as regiões inferiores, para que todas as coisas sejam redimidas; pois Cristo é todas as coisas, e em Cristo estão todas as coisas.
Como se dissesse: entregou o espírito, porque não o perdeu contra a vontade; pois o que se entrega é voluntário, o que se perde é necessário.
Ó corações dos judeus, mais duros que as rochas! O Juiz absolve, o oficial crê, o traidor condena seu próprio crime com a morte, os elementos fogem, a terra estremece, os sepulcros se abrem; no entanto, a dureza dos judeus permanece imóvel, enquanto todo o mundo é abalado.
Misticamente, o justo sepulta o corpo de Cristo: pois tal é a sepultura de Cristo, que não contém fraude nem iniquidade. Com razão São Mateus chamou este homem de rico: pois recebendo o rico, ele desconheceu a pobreza da fé. O justo envolve o corpo de Cristo com um lençol; veste também tu o corpo do Senhor com Sua própria glória, para que também tu sejas justo; e se crês que está morto, cobre-o, contudo, com a plenitude de Sua divindade; mas também a Igreja é vestida com a graça da inocência.
Não é sem razão que um Evangelista chama de sepulcro novo, e outro diz ser o sepulcro de José; pois prepara-se um túmulo para aqueles que estão sob a lei da morte; mas o vencedor da morte não tem sepulcro próprio. Que comunhão pode haver entre o túmulo e Deus? Ele é encerrado sozinho no sepulcro, porque a morte de Cristo, embora seja comum segundo a natureza, é especial segundo o poder. E bem é Cristo sepultado no monumento do justo, para que descanse na habitação da justiça. Pois este monumento o homem justo talhou na pedra da dureza gentílica com a palavra penetrante, para que se estendesse às nações o poder de Cristo. E muito apropriadamente foi colocada uma pedra contra o sepulcro. Qualquer um que em si mesmo tenha sepultado bem a Cristo, deve guardá-lo diligentemente, para não o perder, nem permitir que haja entrada para a perfídia.
Mas surge deste lugar uma grande dúvida para muitos: se aqui muito de madrugada, enquanto São Mateus afirmou que as mulheres vieram ao sepulcro na tarde do sábado. Mas podes pensar que os Evangelistas falaram de tempos diferentes, assim como se pode conjeturar que eram pessoas diferentes de mulheres e diferentes visões. Mas o que está escrito, "na tarde do sábado, que amanhece no primeiro dia da semana", que o Senhor ressuscitou, deve-se entender assim: que a ressurreição não deve ser crida como tendo ocorrido nem de manhã do domingo, que é o primeiro depois do sábado, nem no sábado; pois como se completariam os três dias? Portanto, Ele não ressuscitou quando o dia estava anoitecendo, mas na tarde da noite. Finalmente, o texto grego diz "tarde". Tarde, porém, significa tanto a hora ao final do dia quanto a lentidão de qualquer coisa; como quando dizemos: "tarde me foi sugerido". Assim, tarde é também o momento profundo da noite; de onde as mulheres têm a possibilidade de se aproximar do sepulcro, estando os guardas adormecidos. E para que saibas que aconteceu durante a noite, algumas mulheres sabem, outras não sabem: sabem as que observam noites e dias, não sabem as que se retiraram. Uma Maria Madalena não sabe, segundo São João: pois a mesma pessoa não poderia antes saber e depois ignorar. Portanto, se há várias Marias, talvez também haja várias Marias Madalenas; pois aquele primeiro é o nome de uma pessoa, o segundo é tomado de um lugar.
Mas como é que São Marcos menciona um jovem sentado com vestes brancas, e São Mateus também um, mas São João e São Lucas relatam que foram vistos dois anjos sentados com vestes brancas?
Não é permitido às mulheres ensinar na Igreja, mas elas interrogam seus maridos em casa. A mulher, portanto, é enviada àqueles que são de sua casa. E quais eram estas mulheres, ele mostra acrescentando: "era Maria Madalena".
Ou o Senhor mostrou-se a si mesmo à parte a dois dos discípulos já ao entardecer, a saber, a Amaão e a Cléofas.
Por isso considero mais conveniente que o Senhor certamente tenha ordenado aos discípulos que o vissem na Galileia; mas àqueles que, por medo, permaneciam encerrados no recinto, primeiramente se ofereceu a si mesmo.
Depois, porém, tendo seus ânimos fortalecidos, aqueles onze seguiram para a Galileia. Ou nada impede que seja dito que haviam poucos reunidos na sala e um número maior no monte.
Mas, persuadidos pelos exemplos das virtudes, não acreditamos que São Pedro e São João pudessem duvidar. Por que, então, São Lucas os apresenta como estando perturbados? Em primeiro lugar, porque a declaração da maioria inclui a opinião de poucos; em segundo lugar, porque, embora São Pedro tivesse acreditado na ressurreição, ainda assim poderia ficar assombrado quando o Senhor, estando as portas trancadas, subitamente se apresentasse com seu corpo.
Consideremos, pois, com qual graça, segundo São João, os apóstolos acreditaram e se alegraram, enquanto segundo São Lucas são repreendidos como incrédulos. E parece-me que São João, como Apóstolo, tratou de coisas maiores e mais elevadas; este das coisas seguintes e próximas ao humano; este usando um percurso histórico, aquele um compêndio: pois sobre aquele não se pode duvidar, porque dá testemunho daquelas coisas nas quais ele mesmo esteve presente; e por isso consideramos ambos verdadeiros; pois ainda que no princípio São Lucas diga que eles não acreditaram, depois demonstra que acreditaram.
O Senhor disse isto para mostrar-nos a forma de sua ressurreição, pois o que se apalpa é corpo. E em corpo ressuscitaremos; porém aquele mais sutil, e este mais espesso, pois ainda está composto da qualidade do lodo terreno. Cristo, portanto, não penetrou pelos espaços fechados por meio da natureza incorpórea, mas pela qualidade da corporeidade ressuscitada.
Consideremos, portanto, como segundo São João receberam o Espírito Santo; aqui, porém, são ordenados a permanecer na cidade, até que sejam revestidos da virtude do alto. Mas ou insuflou o Espírito Santo àqueles onze como aos mais perfeitos, e promete concedê-lo aos demais depois; ou insuflou ali os mesmos que aqui prometeu. Nem parece haver contradição, pois há diversidades de graças. Portanto, insuflou ali uma operação, aqui promete outra: ali foi concedida a graça de remitir os pecados, o que parece ser mais augusto; e por isso é insuflado por Cristo, para que creias que o Espírito Santo procede de Cristo, e creias que o Espírito procede de Deus: pois somente Deus perdoa os pecados. Lucas, porém, descreve a graça das línguas derramada.
O bom Senhor, de fato, exige esforço, provê as forças, não quer mandá-los embora em jejum, para que não desfalecessem no caminho; isto é, ou no curso desta vida, ou antes que cheguem à fonte da vida, ou seja, ao Pai, e compreendam que Cristo procede do Pai; para que, porventura, quando aceitarem que Ele nasceu de uma virgem, não comecem a estimar Seu poder como sendo de homem e não de Deus. Portanto, o Senhor Jesus divide o alimento, e certamente quer dar a todos, e a ninguém nega; Ele é o dispensador de todas as coisas; mas quando Ele parte o pão para dar aos discípulos, se tu não estenderes as mãos para receber o teu alimento, desfalecerás no caminho, e não poderás culpar Aquele que se compadece e distribui.
Ou o encontraram amarrado diante da porta: porque quem quer que esteja fora de Cristo, está fora no caminho; mas quem está em Cristo, não está fora. Na encruzilhada, ou no lugar onde dois caminhos se encontram, acrescentou, onde ninguém tem posse certa, nem manjedoura, nem alimento, nem estábulo. Miserável é a servidão cujo direito é instável; pois tem muitos senhores aquele que não tem um só. Os estranhos o amarram para possuí-lo, Cristo o desata para mantê-lo, pois Ele sabe que as dádivas são laços mais fortes que os grilhões.
Por isso também elegeu dois autores da linhagem: um que recebeu a promessa concernente à descendência dos povos, outro que obteve o oráculo acerca da geração de Cristo. E por isso, ainda que seja posterior na ordem de sucessão, é descrito primeiro porque é mais importante ter recebido a promessa sobre Cristo do que sobre a Igreja, que existe por meio de Cristo; pois aquele que salva é superior àquilo que é salvo.
Pois Abraão foi o primeiro que mereceu o testemunho da fé; ele creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça(Gênesis 15,6). Era conveniente, portanto, que ele fosse apresentado como o primeiro na linha de descendência, sendo o primeiro a merecer a promessa da restauração da Igreja, Em ti serão benditas todas as nações da terra(Gênesis 22,18). E novamente está terminando em Davi, para que Jesus fosse chamado seu filho; por isso a ele é preservado o privilégio de que dele viesse o princípio da genealogia do Senhor.
Lucas, porém, evitou mencioná-los, para expor a imaculada linhagem da raça sacerdotal. Mas o plano de São Mateus não se afastou da justiça da razão, pois quando evangelizava que aquele que tomaria sobre si os pecados de todos nasceu segundo a carne, sujeito a injúrias, submetido ao sofrimento. Nem mesmo julgou que deveria excluí-lo da afirmação de piedade, para que não recusasse a injúria de uma origem manchada; ao mesmo tempo para que a Igreja não se envergonhasse de ser congregada de pecadores, quando o Senhor nasceu de pecadores; finalmente, para que o benefício da redenção começasse também com seus antepassados, para que ninguém pensasse que a mancha de origem poderia ser impedimento à virtude, nem se vangloriasse insolentemente de sua nobreza.
Veja, pois, que não foi em vão que São Mateus mencionou ambos, ainda que apenas a comemoração de Farés fosse necessária, porque em ambos existe um mistério. Pois pelos gêmeos é descrita a dupla vida dos povos: uma segundo a lei, a outra segundo a fé.
Mas como Ruth, sendo estrangeira, casou-se com um judeu, e por qual razão o Evangelista considerou necessário mencionar na genealogia de Cristo essa união, que conforme a sequência da lei era adúltera? Portanto, visto que o salvador não procedeu de uma geração legítima, isso parece ser inadequado, a menos que retorneis ao pronunciamento apostólico de que "a lei não foi estabelecida para os justos, mas para os injustos". Pois sendo ela estrangeira e moabita, especialmente quando a lei de Moisés proibia tais matrimônios e excluía os moabitas da Igreja, como entrou na Igreja senão porque, santa e imaculada em seus costumes, se elevou acima da lei? Portanto, ela excedeu o propósito da lei e mereceu ser contada entre os antepassados da linhagem do Senhor, escolhida pela afinidade de espírito, não do corpo. E é um grande exemplo para nós, pois nela precedeu a figura de todos nós que, reunidos dentre os gentios, entramos na Igreja do Senhor.
Mas São David é mais excelente nisto, que ele mesmo reconheceu ser homem e não negligenciou lavar com lágrimas de penitência o pecado do qual se fizera culpado ao tomar a esposa de Urias, mostrando-nos que ninguém deve confiar em sua própria força, pois temos um adversário poderoso que não pode ser vencido por nós sem o auxílio de Deus. E geralmente observarás pecados muito graves acontecendo com homens ilustres, para que não sejam considerados mais do que homens por causa de suas outras virtudes excelentes, mas para que vejas que, como homens, eles sucumbem à tentação.
Pois os livros dos reis indicam que existiram dois Joaquim, pois assim está escrito: Joaquim adormeceu com seus pais, e Joaquim seu filho reinou em seu lugar. Este filho é aquele a quem Jeremias deu o nome de Jeconias. E bem quis São Mateus diferir do profeta, para não chamar simultaneamente de Joaquim e Jeconias, porque estabeleceu um fruto maior da piedade divina. Pois o Senhor não buscou a nobreza de linhagem nos homens, mas quis apropriadamente nascer de cativos e pecadores, ele que vinha para pregar a remissão aos cativos. Portanto, o Evangelista não suprimiu um deles, mas indicou ambos porque ambos foram chamados de Jeconias.
Sobre quem Jeremias diz: "Escreve este homem como destronado, porque não se levantará da sua descendência alguém que se sente no trono de Davi". Como é dito pelo profeta que ninguém da descendência de Jeconias reinará? Pois se Cristo reinou, e Cristo é da descendência de Jeconias, o profeta mentiu. Mas ali não se nega que haverá descendentes futuros de Jeconias; e por isso Cristo é da sua descendência; e que Cristo tenha reinado, não é contra o profeta: pois Ele não reinou com honra secular; Ele mesmo disse: "Meu reino não é deste mundo". Jeconias, porém, gerou Salatiel.
Não devemos considerar que deva ser ignorado o fato de que, embora tenha havido dezessete reis da Judeia desde David até Jeconias, São Mateus enumerou apenas catorze gerações. Devemos observar que pode haver muito mais sucessões ao trono do que gerações de homens; pois alguns podem viver mais tempo e gerar filhos mais tarde, ou podem permanecer completamente sem descendência; por isso, o número de reis e de gerações não coincidiria.
Novamente, portanto, quando de Jeconias até José contam-se doze gerações, depois comemora que foram descritas catorze gerações. Mas se observares diligentemente, também aqui poderás encontrar a razão das catorze gerações. Pois doze são contadas a partir de José, a décima terceira é Cristo; e a história indica que houve dois Joakim, isto é, dois Jeconias, pai e filho. Portanto, o Evangelista não suprimiu nenhum deles, mas indicou ambos. Assim, adicionando o Jeconias menor, contam-se catorze gerações.
Pois o que é de algo, ou é da substância ou é do poder desse algo: da substância, como o Filho que vem do Pai; do poder, como todas as coisas vêm de Deus, assim como Maria concebeu em seu ventre pelo Espírito Santo.
São Mateus ensinou belamente o que deve fazer o justo que descobrir a desonra de sua esposa, para que se mantenha isento de sangue e casto quanto ao adultério. E por isso diz que "era justo". Em todo lugar, portanto, em José se preserva a graça e a pessoa do justo, para que a testemunha seja honrada; pois a língua do justo profere o julgamento da verdade.
Mas ninguém abandona aquilo que não recebeu; e, portanto, ao querer abandoná-la, confessava tê-la recebido.
Não te inquiete que ele a chame de cônjuge; pois não se trata de um roubo de sua virgindade, mas de um testemunho de sua união matrimonial, e uma declaração da celebração de seu casamento.
Conta-se que ladrões idumeus, entrando em Ascalão, trouxeram cativo, entre outros, Antípater1. Este, instruído nos mistérios dos judeus, uniu-se em amizade a Hircano, rei da Judeia, que o enviou em seu lugar a Pompeu; e porque obteve sucesso no fruto da embaixada, por essa graça ambicionou uma parte do reino. Morto, porém, Antípater, seu filho Herodes, sob Antônio, por decreto do senado, foi designado para reinar sobre os judeus; no que fica claro que Herodes buscou o reino sem nenhuma afinidade com a raça dos judeus.
[1] A mesma história da ascendência de Herodes é dada por Africano, Euseb. Hist. i. 7. mas Josefo diz (Antiq. xiv. 1. n. 3. de Bell. Jud. i. 6. n. 2.) que Herodes era um idumeu, de nascimento nobre, e que seu pai Antipas era governador da Idumeia sob Alexandre Janeu. ↩
Esta estrela, pois, é o caminho, e o caminho é Cristo, porque segundo o mistério da encarnação, Cristo é a estrela: pois ele mesmo é a estrela resplandecente e matutina; de onde, onde Herodes está, ela não é vista; mas onde Cristo está, novamente ela é vista e mostra o caminho.
Por isso começou por onde já havia vencido antes, a saber, pela gula; de onde lhe disse: "Se és Filho de Deus, dize que estas pedras se tornem pães". O que significa tal início de discurso, senão que ele reconhecera que o Filho de Deus haveria de vir, mas não acreditava que tivesse vindo por causa da fraqueza da carne? Uma coisa é própria do que explora, outra do que tenta; ele professa crer em Deus, e esforça-se por enganar o homem.
Mas como Satanás se transfigura em Anjo de luz e prepara, das próprias Escrituras divinas, um laço para os fiéis, utiliza testemunhos das Escrituras, não para ensinar, mas para enganar; por isso segue: "está escrito: que mandou aos seus Anjos acerca de ti".
A ambição tem um perigo doméstico: para que domine sobre outros, primeiro serve; curva-se em obséquio para dominar com honra, e enquanto quer ser mais sublime, torna-se mais submissa. Por isso, claramente acrescenta: "Se, caindo, me adorares".
Ali, portanto, começa a bem-aventurança no juízo divino, onde se considera estar a miséria humana.
Quando eu me contentar simplesmente em ser pobre, resta que eu modere meus costumes. Pois de que me aproveita carecer das coisas do século, se eu não for manso? Convenientemente, portanto, segue-se "Bem-aventurados os mansos".
Abranda, portanto, teu afeto, para que não te ires, ou certamente, estando irado, não peques. É, com efeito, precioso moderar o impulso com a reflexão; e não se considera de menor virtude refrear a ira do que não se irar de modo algum, visto que frequentemente o primeiro é tido como mais sereno, e o segundo como mais vigoroso.
Quando fizeres isso, ou seja, para que sejas pobre e manso, lembra-te que és pecador, e chora os teus pecados; de onde se segue bem-aventurados os que choram. E adequadamente a terceira bem-aventurança é a daquele que chora os pecados, porque é a Trindade que perdoa os pecados.
Depois que chorei meus pecados, começo a ter fome e sede de justiça. Pois um enfermo, quando está em grave doença, não tem fome; donde segue: bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça.
Aquele que concede misericórdia perde a misericórdia, a não ser que se compadeça com um coração puro; pois se busca a jactância, não há fruto algum; por isso segue-se bem-aventurados os puros de coração.
Quando tiveres esvaziado teu interior de toda mancha de pecado, para que dissensões e contendas não procedam de teu afeto, começa a paz em ti mesmo, para que assim possas levar a paz aos outros; de onde se segue bem-aventurados os pacíficos.
Ou de outro modo: o primeiro reino dos céus é proposto aos santos na libertação do corpo, o segundo consiste em estar com Cristo após a ressurreição. Após a ressurreição, começarás a possuir a tua terra, liberto da morte, e nessa mesma posse encontrarás consolação. À consolação segue-se o deleite, ao deleite a divina misericórdia. Aquele de quem o Senhor se compadece, também o chama, e assim chamado, vê aquele que o chama. Aquele que vê é admitido no direito da divina geração, e então, finalmente, como filho de Deus, deleita-se nas riquezas do reino celestial. Aquele, portanto, começa, este se completa.
E, portanto, ninguém encerre sua fé dentro da medida da Lei, mas recorra à Igreja, na qual resplandece a graça do Espírito septiforme.
Toda a sentença da disciplina cristã está contida na misericórdia e na piedade; e por isso começa pela esmola, dizendo: "Quando, pois, deres esmola, não toques a trombeta diante de ti".
Toda verdade, por quem quer que seja dita, provém do Espírito Santo.
Os dois endemoninhados também figuram o povo gentio, pois tendo Noé gerado três filhos, Cam, Sem e Jafé, somente a família de Sem foi chamada à possessão de Deus, enquanto dos outros dois brotaram os povos das nações.
Pois, segundo o antigo costume, flautistas eram trazidos para suscitar lamentações entre os mortos.
Não deve, portanto, ser escolhida descuidadamente a casa em que os apóstolos hão de entrar, para que não haja motivo para a mudança de hospedagem; contudo, a mesma cautela não é ordenada ao anfitrião, para que, enquanto se escolhe o hóspede, não se diminua a hospitalidade. Segue-se: "Entrando em uma casa, saudai-a, dizendo: Paz a esta casa".
Alguns, porém, entendem isso assim: que João é certamente um grande profeta, pois reconheceu a Cristo e anunciou a futura remissão dos pecados; mas, no entanto, como um piedoso profeta, aquele que acreditava que viria, não acreditava que morreria. Portanto, duvidou não pela fé, mas pela piedade. Também Pedro duvidou dizendo: "Sê propício a ti, Senhor: não se faça isto".
E talvez estes dois discípulos que enviou sejam os dois povos: um que dentre os judeus acreditou, o outro que dentre os gentios.
Pode, portanto, não ser a mesma pessoa, para que não pareça que os Evangelistas disseram coisas contraditórias entre si. Também pode resolver-se a questão pela diversidade de mérito e de tempo, de modo que aquela ainda fosse pecadora, e esta já mais perfeita.
E para que não haja horror algum pelo sangue, e ainda assim opere o preço da redenção.
Por isso aprende que os mistérios cristãos são anteriores aos judaicos. Melquisedeque ofereceu pão e vinho, sendo em tudo semelhante ao Filho de Deus, a quem é dito: "Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque"(Salmo 109,4); e sobre quem aqui se diz "Jesus tomou o pão".
Este pão, antes das palavras sacramentais, é pão comum; quando sobrevém a consagração, de pão se faz a carne de Cristo. A consagração, então, por quais palavras se dá, e por quais expressões, senão pelas do Senhor Jesus? Pois se há tamanha força em sua palavra que começaram a existir as coisas que não existiam, quanto mais eficaz não é para que sejam as coisas que já eram, e em outra coisa se transformem? Se, de fato, a palavra celestial operou em outras coisas, não operará nos sacramentos celestiais? Portanto, do pão se faz o corpo de Cristo, e o vinho se torna sangue pela consagração da palavra celestial.1 Perguntas pelo modo? Aceita-o. É costume que não seja gerado homem senão de homem e mulher: mas, porque quis o Senhor, do Espírito Santo e da Virgem nasceu Cristo.
[1] Sobre esta notável passagem, pode-se observar, primeiro, que Santo Ambrósio está se referindo à criação, e seu significado é: "Se sua palavra teve poder para fazer essas coisas", isto é, céu e terra, "começarem a existir, as quais não existiam, quanto mais não é eficaz para fazer aquelas coisas", isto é, o pão, não começar, mas "continuar a ser, as quais já eram, e são transformadas em algo diferente?" Em segundo lugar, ele ilustra a mudança com nossa própria mudança na regeneração. "Tu mesmo eras, mas eras a antiga criatura; depois que foste consagrado, começaste a ser uma nova criatura." Em terceiro lugar, não há introdução da palavra "substância", isto é, não há afirmação de transubstanciação. ↩
Antes, pois, de ser consagrado, é pão; mas quando as palavras de Cristo que diz "este é o meu corpo" são pronunciadas, é o corpo de Cristo.
Por isso também se celebra em duas espécies: pois o que recebemos é eficaz para a proteção do corpo e da alma
Se Melchisedech ofereceu pão e vinho, o que significa a mistura da água? Ouça a razão. Moisés tocou a pedra, e a pedra produziu água em abundância; mas a pedra era Cristo. E um dos soldados tocou com a lança o lado de Cristo, e do seu lado fluiu água e sangue; a água para purificar, o sangue para redimir.1
[1] ap. Graciano de Cons. d ii, 83, cf. Pascásio sobre o Corpo e Sangue 11. ↩
Triste, porém, está não Ele mesmo, mas Sua alma: pois não está triste a sabedoria, nem a substância divina, mas a alma: porque tomou a minha alma, tomou o meu corpo.
Uma só é a graça da parte do Pai e do Filho, e uma só é a paz da parte do Pai e do Filho, mas esta graça e esta paz são fruto do Espírito.
É justo, meu filho, que tenhas começado pela lei e sido confirmado no evangelho, de fé em fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé."
Podemos, pois, facilmente compreender que o Criador dos anjos, das dominações e das potestades é aquele que, num momento de seu poder, fez do nada esta grande beleza do mundo, a qual não tinha em si mesma existência, e deu substância às coisas ou às causas que em si mesmas não existiam.
Os gentios mostram a obra da lei escrita em seus corações. Há, portanto, algo semelhante à lei de Deus que existe nos corações dos homens.
Se os homens tivessem podido guardar a lei natural que Deus Criador implantou no peito de cada um, não teria havido necessidade daquela lei que, escrita em tábuas de pedra, enredou e emaranhou a fraqueza da natureza humana, em vez de livrá-la e libertá-la.
Porventura mente Deus? Não mente. É impossível a Deus mentir. Será esta impossibilidade fruto de alguma fraqueza? De modo nenhum! Como poderia Ele ser a causa de todas as coisas, se houvesse algo que não pudesse causar? Que é, pois, impossível a Ele? Nada que seja difícil ao seu poder, mas tão somente aquilo que é contrário à sua natureza. Impossível lhe é, diz-se, mentir. Tal impossibilidade não provém da fraqueza, mas do seu poder e grandeza, pois a verdade não admite mentira alguma.
Não exijo de Cristo uma razão. Se sou convencido pela razão, nego a fé. Abraão creu em Deus. Creiamos nós também, para que nós, que somos herdeiros de sua estirpe, sejamos igualmente herdeiros de sua fé.
Ainda que pelo pecado de um só homem a morte tenha passado a todos os homens, aquele a quem não recusamos reconhecer como pai do gênero humano tampouco podemos deixar de reconhecer como autor da morte... Em Adão eu caí, em Adão fui lançado fora do paraíso, em Adão morri. Como me chamaria Deus de volta, senão me encontrasse em Adão? Pois, assim como em Adão sou culpado do pecado e devedor à morte, assim também em Cristo sou justificado.
Quando o mal se manifestara e a inocência fora destruída, não havia quem fizesse o bem, nem sequer um. O Senhor veio restaurar a graça à natureza, mais ainda, dar-lhe acréscimo, para que onde o pecado abundou, a graça superabundasse.
O pecado abundou pela lei, porquanto pela lei veio o conhecimento do pecado, e tornou-se nocivo para mim conhecer aquilo que, por minha fraqueza, eu não podia evitar. É bom conhecer de antemão o que se deve evitar; mas, se não posso evitar algo, é nocivo tê-lo conhecido. Assim se converteu a lei em seu contrário; contudo, tornou-se-me útil pelo próprio acréscimo do pecado, pois fui humilhado.
O batismo é semelhança da morte quando desces à água, e, quando ressurges, torna-se semelhança da ressurreição. Assim, segundo a interpretação do apóstolo, tal como a ressurreição de Cristo foi uma regeneração, também a ressurreição a partir da fonte batismal é uma regeneração.
Até que este preço fosse pago por todos os homens mediante o derramamento do sangue do Senhor para a remissão de todos, o sangue era exigido de cada homem que, pela lei e pelo rito costumeiro, seguia os sagrados preceitos da religião. Uma vez que o preço foi pago por todos depois que Cristo, o Senhor, padeceu, já não há necessidade de que o sangue de cada indivíduo seja derramado pela circuncisão, pois no sangue de Cristo foi solenizada a circuncisão de todos, e em sua cruz todos fomos crucificados com Ele, e sepultados juntamente em seu túmulo, e plantados juntamente na semelhança de sua morte, a fim de que já não sejamos escravos do pecado.
Nas Escrituras aprendemos que há três espécies de morte. A primeira é quando morremos para o pecado e vivemos para Deus. Bem-aventurada é aquela morte que, fugindo do pecado e consagrada a Deus, nos separa daquilo que é mortal e nos consagra àquele que é imortal. A segunda morte é a partida desta vida (...). A terceira morte é aquela de que se diz: "Deixai os mortos sepultar os seus mortos".
Pensas que alguém que tem conhecimento do pecado pode evitá-lo? Paraíso
Temos um médico — sigamos o seu remédio! O nosso remédio é a graça de Cristo, e o corpo da morte é o nosso corpo. Sejamos, pois, exilados do corpo para que não sejamos exilados de Cristo. Ainda que estejamos no corpo, não sigamos o que é do corpo. Não desprezemos os direitos da natureza, mas antepondo-lhes prefiramos os dons da graça.
Não é estranho que aquele que faz morrer as obras da carne viverá, visto que aquele que tem o Espírito de Deus torna-se filho de Deus. É por esta razão que ele é filho de Deus, para que receba não o espírito de escravidão, mas o espírito de adoção de filhos, porquanto o Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
A própria criação será igualmente liberta de sua escravidão à corrupção quando resplandecer a graça da recompensa divina.
Mostra Paulo que a graça da alma não é coisa pequena, pois por sua força e poder eleva-se o gênero humano à adoção de filhos de Deus, tendo em si aquilo que lhe foi dado à imagem e semelhança de Deus.
A lua labuta por ti e, por vontade de Deus, é feita sujeita.... És tu quem sofre mudanças por vontade própria, não a lua. A lua geme e padece dores de parto em suas mudanças. Tu, sem entendimento, frequentemente te alegras nisso. A lua aguarda amiúde a tua libertação do pecado, para que ela mesma possa ser liberta da servidão da qual toda a criação participa. Mas tu pões obstáculos à tua libertação do pecado e à liberdade da lua. O fato de que tu próprio ainda aguardas aquela conversão que tarda em vir, ao passo que a lua sofre mudança, é resultado não da insensatez da lua, mas da tua.
A adoção como filhos é a redenção de todo o corpo.
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Quem pode afligir-se por lhe ter sido tirada uma segurança que lhe era particularmente cara, quando, para nosso consolo, o Pai entregou à morte, por nós, o Seu único Filho? Sobre a Morte de seu Irmão Sátiro
Sei que sois tementes a Deus, misericordiosos, brandos e serenos, que tendes no coração a fé e o temor de Deus, mas muitas vezes algumas coisas escapam à nossa percepção. Há os que têm zelo por Deus, mas não segundo o conhecimento. É preciso cuidado (...) para que esta condição não se insinue furtivamente em almas piedosas.
Com estas duas trombetas gêmeas, do coração e da boca, chegamos àquela terra santa, a saber, a graça da ressurreição. Que soem, pois, sempre em harmonia para nós, a fim de que ouçamos sempre a voz de Deus. Que as vozes dos anjos e dos profetas nos despertem e nos movam a apressar-nos para as coisas mais altas.
“Dele” significa o princípio e a origem da substância do universo, isto é, por sua vontade e poder…. “Por meio dele” significa a continuação do universo; “para ele” significa o seu fim.
Isto está escrito para que a ira alheia não te arraste ao pecado quando desejas oferecer resistência, quando desejas ser vingado. Podes retirar a culpa dele e de ti mesmo, se decidires ceder ao outro.
Mas Deus não pode nem estar em dúvida, nem pode ser enganado. Pois só está em dúvida quem ignora o futuro. Quem prediz uma coisa enquanto outra sucede é enganado quanto ao futuro. Não assim com Deus. Que há mais evidente do que o fato de a Escritura afirmar que o Pai disse uma coisa do Filho, e essa mesma Escritura provar que outra coisa sucedeu? O Filho foi açoitado, foi escarnecido, foi crucificado e morreu. Sofreu na carne coisas muito piores do que aqueles servos que haviam sido antes constituídos. Foi o Pai enganado? Ignorava-o Ele? Era incapaz de socorrer? Aquele que é a verdade não pode errar. Está escrito que "o Deus sempre veraz não pode mentir". Como poderia ignorar aquele que tudo conhece? Que não poderia fazer aquele que tudo pode? Da Fé Cristã.
Expus as faltas que fui ensinado a evitar. Mas é o apóstolo quem é o mestre das virtudes. Ele ensina que o bispo … seja "marido de uma só mulher." Não é, com isso, o bispo excluído inteiramente do matrimônio … mas antes exortado, pela castidade no matrimônio, a preservar a graça do seu batismo…. Há muitos que argumentam que "marido de uma só mulher" se diz do matrimônio contraído depois do batismo, sob o fundamento de que a falta que constituiria impedimento foi lavada no batismo…. Mas, onde houve segundo matrimônio, este não se dissolve. O pecado é lavado no batismo; a lei, não.
Quem é aquele que nasce do Espírito e se faz Espírito? É aquele que é renovado no Espírito da sua mente. É aquele que é regenerado pela água e pelo Espírito Santo. Recebemos a esperança da vida eterna pelo lavacro da regeneração e renovação do Espírito Santo. E em outro lugar o apóstolo Pedro diz: "Sereis batizados com o Espírito Santo". Pois quem é batizado com o Espírito Santo senão aquele que nasce de novo pela água e pelo Espírito Santo? Por isso o Senhor disse acerca do Espírito Santo: "Em verdade, em verdade vos digo, se alguém não nascer de novo da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus". E por isso declarou que nós nascemos dele para o reino de Deus, sendo renascidos pela água e pelo Espírito.
Bem-aventurado aquele servo [Paulo] que pode dizer: "Alimentei-vos com leite, e não com carne; pois até agora não podíeis suportá-la." ... Contudo ele — sendo homem tão grande e escolhido por Cristo para o cuidado de Seu rebanho, a fim de fortalecer os fracos e curar os enfermos — rejeita, imediatamente após uma única admoestação, o herege do rebanho que lhe foi confiado. Isto faz por temor de que a mácula de uma ovelha errante infeccione todo o rebanho com uma chaga que se propaga. Ordena, ademais, que se evitem as questões tolas e as contendas. Da Fé Cristã, Prólogo.
Este covil do monstro [das heresias], vossa sacra Majestade, é espesso e cheio (segundo dizem os homens do mar) de covis ocultos, e toda a vizinhança circundante, onde as rochas da incredulidade ecoam ao uivo de seus cães negros, devemos passar com os ouvidos tapados. Pois está escrito: "Cerca teus ouvidos de espinhos"; e ainda: "Guardai-vos dos cães. Guardai-vos dos maus obreiros"; e, mais uma vez: "Ao homem herético, depois de uma e outra admoestação, evita-o, sabendo que o tal está pervertido e peca, estando já condenado por seu próprio juízo." Assim, pois, como pilotos prudentes, ajustemos as velas de nossa fé para o rumo em que possamos passar com maior segurança, e sigamos novamente as costas das Escrituras.