Santo Atanásio de Alexandria
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea (séc. IV). Biografia em preparação.
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Visto que os homens haviam rejeitado a contemplação de Deus e o buscavam na natureza e no mundo material, forjando para si deuses a partir de homens mortais e de demônios, o amoroso e universal Salvador de todos, o Verbo de Deus, tomou para Si um corpo e andou como homem, a fim de vir ao encontro dos sentidos, para que aqueles que julgam ser Deus corpóreo pudessem perceber a verdade observando o que o Senhor realiza em seu corpo, e por meio dele reconhecessem o Pai.
Pois, pelo sacrifício do próprio corpo, Ele ao mesmo tempo pôs fim à lei que se erguia contra nós e instaurou para nós um novo princípio de vida, mediante a esperança da ressurreição que nos concedeu. Pois, visto que foi pelo homem que a morte prevaleceu sobre os homens, por esta mesma causa, inversamente, pelo Verbo de Deus feito homem, veio a destruição da morte e a ressurreição da vida.
Pois o homem por natureza teme a morte e a dissolução do corpo. Mas há este fato deveras surpreendente: aquele que revestiu a fé da cruz despreza até mesmo o que naturalmente é temível e, por Cristo, não teme a morte.
Nesta passagem notamos a novidade, bem como a malícia de seus artifícios, e como ultrapassam todas as demais heresias. Sustentam sua loucura com argumentos sedutores, engenhados para enganar os simples. Os gregos, como disse o Apóstolo, investem com excelência e persuasão de palavras e com sofismas que trazem a aparência de plausibilidade. Os judeus, afastando-se amplamente das divinas Escrituras, disputam agora, como também disse o Apóstolo, acerca de "fábulas e genealogias intermináveis". Entretanto os maniqueus e os valentinianos com eles, e outros, corrompem as divinas Escrituras, propondo fábulas de sua própria invenção. Mas os arianos são mais audazes que todos, e demonstraram que as demais heresias não passam de suas irmãs mais jovens, às quais, como já disse, superam em ímpiedade, emulando-as todas, e especialmente aos judeus, em suas artimanhas.
É motivo de encorajamento para os fiéis, mas de aflição para os hereges, ver estas heresias derrubadas. Além disso, a sua ulterior questão — se o Não-originado é um ou dois — mostra quão falsas são as suas opiniões, quão traiçoeiras e cheias de engano. Não é pela honra do Pai que dizem isto, mas pela desonra do Verbo. Assim, se alguém, ignorando a sua astúcia, responder que «o Não-originado é um», eles logo despejam o seu próprio veneno, dizendo: «Logo o Filho está entre as coisas originadas», e «bem dissemos: Ele não existia antes da sua geração». Isto, por sua vez, suscita toda sorte de perturbações e confusões, separando o Filho do Pai e contando o Artífice de todas as coisas entre as suas obras. Ora, podem ser primeiramente convencidos nisto: que, embora censurem os bispos de Niceia por usarem expressões que não estão na Escritura — as quais, todavia, não são nocivas, mas antes subversivas da sua irreligião —, eles próprios incorreram na mesma falta, isto é, usaram palavras que não estão na Escritura, e ainda daquelas que mostram desprezo pelo Senhor, «não entendendo nem o que dizem, nem as coisas sobre que fazem as suas afirmações».
O que os apóstolos receberam, transmitiram sem alteração, a fim de que a doutrina dos mistérios (os sacramentos) e de Cristo permanecesse íntegra. O Verbo divino — o Filho de Deus — quer que sejamos discípulos deles (os apóstolos). Convém que eles sejam nossos mestres, e é necessário que nos submetamos somente ao seu ensinamento. Só deles, e daqueles que fielmente ensinaram sua doutrina, recebemos, como escreve Paulo, "palavras fiéis, dignas de toda aceitação".
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Mas os sectários, que decaíram do ensinamento da Igreja e naufragaram quanto à fé, pensam erroneamente que o mal possui algum tipo de existência eterna. Imaginam arbitrariamente um outro deus além do Único verdadeiro, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fantasiam que ele seja o produtor ingênito do mal e cabeça da maldade, sendo ao mesmo tempo artífice da criação. A tais homens pode-se facilmente refutar, não somente pelas divinas Escrituras, mas também pelo próprio entendimento humano, fonte mesma dessas insanas imaginações.
Quando alguém conhece devidamente estes pontos oportunos, seu entendimento da fé é reto e são. Mas se erra em algum destes pontos, cai rapidamente em heresia. Assim Himeneu e Alexandre e seus companheiros foram inoportunos ao dizerem que a ressurreição já havia sucedido. Os gálatas foram inoportunos no sentido contrário, ao darem agora demasiada importância à circuncisão.
Celebremos, pois, esta alegria celeste, juntamente com os santos de outrora que guardaram esta mesma festa. Sim, eles a celebram conosco, e são para nós exemplos de vida em Cristo. Não somente lhes foi confiada a missão de pregar o Evangelho, mas, se voltarmos os olhos às suas vidas, veremos que também o viveram. Escreveu São Paulo aos Coríntios: "Sede, pois, meus imitadores" (1 Cor 4,16). Sigamo-lo, então, porque este preceito nos foi transmitido. A admoestação originalmente dirigida à igreja de Corinto alcança a todos os cristãos, de todos os tempos e em todo lugar. Pois o apóstolo Paulo foi "doutor de todas as nações na fé e na verdade".
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O que Moisés ensinou, Abraão observou. O que Abraão observou, Noé e Enoque reconheceram, discernindo o puro do impuro e tornando-se aceitáveis a Deus. Pois também Abel deste modo testemunhou, conhecendo o que aprendera de Adão. E este mesmo aprendera daquele Senhor que disse, quando veio ao fim das eras para a abolição do pecado: "Não vos dou mandamento novo, mas mandamento antigo, que ouvistes desde o princípio." Do mesmo modo também o bem-aventurado apóstolo Paulo, que o aprendera do Senhor, ao descrever as funções eclesiásticas, proibiu que os diáconos, para não dizer os bispos, fossem de língua dupla. Em sua repreensão aos gálatas, fez ampla declaração: Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que recebestes, seja anátema; como já disse, assim novamente o digo.
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Convém, pois, que vigiemos, para que não se insinue algum engano sob o disfarce de suas palavras e arrastem alguns para longe da verdadeira fé. E, se ousarem propagar as opiniões de Ário, ao verem-se avançando em curso próspero, nada mais nos resta senão usar de grande ousadia de linguagem. Pois devemos recordar as predições do apóstolo, que ele escreveu para nos precaver contra tais heresias, e que nos convém repetir. Pois sabemos que, como está escrito, "nos últimos tempos, alguns se apartarão da verdadeira fé, dando ouvidos a espíritos sedutores e a doutrinas de demônios, que se desviam da verdade."
As virtudes e os vícios são o alimento da alma, a qual pode nutrir-se de um ou de outro, voltando-se para qualquer um deles que queira. Se está inclinada à excelência moral, será alimentada pela virtude — pela justiça, pela temperança, pela mansidão, pela perseverança. Em outras palavras, é exatamente como diz São Paulo: "nutrindo-se com a palavra da verdade." Assim foi com o nosso Senhor, que disse: "Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou."
Por isso São Paulo nos exorta a exercitar a nossa fé diante das tribulações. Tendo já saído delas vitorioso, disse: "Por isso me comprazo nas perseguições e nas fraquezas." Em outro lugar disse: "Exercita-te na piedade." Sabia ele que aqueles que escolhem viver piedosamente hão de ser perseguidos, e por isso quis que os seus discípulos estivessem cientes das dificuldades que haveriam de enfrentar. Assim, quando viessem as provações e as aflições, já teriam acumulado força bastante para suportá-las com facilidade. Tu mesmo sabes que, quando esperaste por algo, ainda que árduo, experimentas uma alegria secreta quando enfim ele chega.
Mas os sábios servos do Senhor, que verdadeiramente revestiram a natureza nova, criada à semelhança de Deus, escutam o que Ele diz. Aplicam a si mesmos o mandamento dado a Timóteo: "Sê exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza." Guardam a festa da Páscoa com tal correção que até os incrédulos, vendo o seu ordenado proceder, hão de dizer: "Deus está verdadeiramente com eles."
Em outro lugar diz o apóstolo: "E todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguição." Depois, para evitar que os homens renunciem à piedade quando perseguidos, ele os exorta a se apegarem à fé. "Tu, porém, permanece nas coisas que aprendeste e das quais foste assegurado." Assim como os irmãos se ligam fortemente entre si quando um socorre ao outro, também a fé e a piedade, procedendo da mesma família, coerem entre si. Aquele que se dedica a uma delas é fortalecido pela outra. Por conseguinte, desejando que Timóteo vivesse piamente até o fim e combatesse a batalha na fé, diz São Paulo: "Combate o bom combate da fé, e apodera-te da vida eterna."
Pois devemos caminhar segundo o padrão dos santos e dos padres, e imitá-los, e ter por certo que, se deles nos apartarmos, a nós mesmos nos excluímos também de sua comunhão. Quem, pois, desejam eles que imites? Aquele que hesitou e, desejando seguir, protelou a decisão e tomou conselho por causa de sua família? Ou o bem-aventurado Paulo que, no momento em que lhe foi confiada a dispensação, "não consultou logo com a carne e o sangue"? Pois, embora tenha dito "não sou digno de ser chamado apóstolo", ainda assim, sabendo o que recebera e plenamente ciente de quem lho dera, escreveu: "Ai de mim se não anunciar o evangelho." Mas, assim como "ai de mim" se não pregasse, assim também, ensinando e pregando o evangelho, tinha em seus convertidos a sua alegria e coroa. Eis por que o santo foi zeloso em pregar até o Ilírico e não recuou de seguir até Roma, nem mesmo de ir até as Espanhas, para que, quanto mais laborasse, tanto maior recompensa recebesse por seu labor. Gloriava-se, pois, de ter combatido o bom combate e estava confiante de que receberia a grande coroa.
Porquanto uma e mesma graça procede do Pai no Filho, assim como a luz do sol e o resplendor do sol são um só, e assim como a iluminação do sol se realiza por meio do resplendor. Assim também, quando Paulo ora pelos tessalonicenses, dizendo: “Que o próprio Deus, nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo, dirijam o nosso caminho até vós”, ele guardou a unidade do Pai e do Filho. Pois não disse: “Que dirijam”, como se uma dupla graça fosse dada de duas fontes... mas “Que Ele dirija”, para mostrar que o Pai dá a graça por meio do Filho — do que estes ímpios não se envergonharão, ainda que bem devessem.
Pois ninguém há de afastar-se do pecado e começar a viver retamente, a não ser que pondere o que faz. Somente depois de haver sido corrigido pela prática do comportamento piedoso possuirá, de fato, o galardão da fé: a coroa de justiça que Paulo possuiu, havendo combatido o bom combate. Essa coroa está reservada não somente para Paulo, mas para todos quantos lhe forem semelhantes nisto. Esta espécie de meditação e exercício na piedade nos deve ser familiar, como o foi aos santos de outrora. Deve sê-lo especialmente no tempo em que a palavra divina nos convoca a celebrar a festa. Pois que é, afinal, a festa senão o culto contínuo a Deus, o reconhecimento da piedade e a oração incessante, tudo isto realizado de coração, em pleno acordo mútuo? Quer São Paulo que assim sejamos inclinados, e por isso nos exorta: "Alegrai-vos sempre, orai sem cessar, em tudo dai graças."
Podemos assim compreender por que Paulo, não querendo que a graça do Espírito que nos foi dada se esfriasse, nos exorta: "Não extingais o Espírito." O único modo pelo qual podemos continuar a ser partícipes de Cristo é apegar-nos até o fim ao Espírito Santo, que nos foi dado desde o princípio. Disse Paulo "não extingais" não porque o Espírito esteja sob o poder dos homens, mas porque os homens maus e ingratos deveras desejam extinguir o Espírito. Demonstrando sua impureza, expulsam o Espírito por suas obras ímpias.
Aqui, novamente, faz-se alusão à economia segundo a carne. Pois a graça que a nós veio do Salvador apareceu, como diz o apóstolo, agora mesmo, e chegou quando Ele peregrinou entre nós. Contudo, esta graça foi preparada mesmo antes de virmos a existir... O Deus de todas as coisas, então, nos criou por seu próprio Verbo, e, conhecendo nossos destinos melhor do que nós, Deus previu que, ainda que fôssemos feitos "bons", seríamos transgressores do mandamento e seríamos expulsos do paraíso por desobediência. Sendo amoroso e benigno, preparou de antemão em seu próprio Verbo, por quem também nos criou, a economia de nossa salvação. Embora pela astúcia da serpente tenhamos caído dele, não haveríamos de permanecer inteiramente mortos, mas, tendo no Verbo a redenção e salvação que anteriormente nos fora preparada, poderíamos ressurgir e permanecer imortais.
"Desde Adão até Moisés reinou a morte"; mas a presença do Verbo aboliu a morte. Já não morremos todos em Adão. Em Cristo, todos revivemos.
Ora, os assim chamados deuses dos gregos, indignos do nome, não são fiéis nem em sua essência nem em suas promessas. Não permanecem em toda parte. As divindades locais reduzem-se a nada com o correr do tempo e sofrem uma dissolução natural… Mas o Deus de todos, sendo Ele, real e verdadeiramente, o único e o verdadeiro, é fiel, Ele que é sempre o mesmo… Ele é sempre o mesmo e imutável, não enganando nem em sua essência nem em sua promessa. Como novamente diz o apóstolo, escrevendo aos Tessalonicenses: "Fiel é aquele que vos chama, o qual também o fará"; pois, fazendo o que promete, é fiel às suas palavras. E assim escreve aos Hebreus quanto ao sentido da palavra "imutável": "Se somos infiéis, todavia Ele permanece fiel; Ele não pode negar-se a Si mesmo".
E o que agora escrevem não procede de nenhum zelo pela verdade, como já disse antes, mas antes o fazem como que por escárnio e por subterfúgio, com o propósito de enganar a outros. Esperam que, fazendo circular as suas cartas, possam prender os ouvidos do povo a escutar estas noções, e assim adiar o tempo em que serão levados a julgamento. Ocultando a sua impiedade da observação, procuram abrir espaço para estender a sua heresia, a qual, "como gangrena", vai corroendo por toda parte.
Himeneu e Alexandre e seus companheiros confundiram-se quanto ao tempo — anteciparam-se ao tempo — ao dizerem que a ressurreição já havia ocorrido. Os gálatas compreenderam mal as dispensações, dando tanta importância à circuncisão agora.
A fé e a piedade, com efeito, estão tão intimamente aliadas que podem ser tidas por irmãs. Todo aquele que crê no Senhor é piedoso, e aquele que é piedoso crê ainda mais. Por outro lado, aquele que se encontra em relações erradas certamente se desviará da fé, e aquele que decai da piedade decai da verdadeira fé. Paulo, reconhecendo isto, aconselhou os seus discípulos: "Evita as conversas profanas, pois elas conduzem os homens a maior impiedade." Eis por que os ariomaníacos, sendo inimigos de Cristo, deixaram a Igreja. Cavaram uma cova de incredulidade na qual eles mesmos caíram... As palavras do apóstolo Paulo contra Fileto e Himeneu permanecem como advertência contra a impiedade tal como a dos arianos: "O fundamento de Deus é firme, trazendo este selo: 'O Senhor conhece os que são seus' e 'Aparte-se da iniquidade todo aquele que profere o nome do Senhor.'"
Em outro lugar diz o Apóstolo: "E todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguição." Depois, para evitar que os homens renunciem à piedade quando perseguidos, exorta-os a permanecer firmes na fé: "Tu, porém, permanece nas coisas que aprendeste e das quais foste assegurado." Assim como os irmãos se unem fortemente quando um ajuda ao outro, também a fé e a piedade, procedendo da mesma família, coerem entre si. Aquele que dedica sua atenção a uma delas é fortalecido pela outra.
Estes homens ignorantes estão embriagados, não de vinho, mas de sua própria maldade. Fazem profissão de sacerdócio e se gloriam em suas ameaças. Não creiais neles. Quando somos postos à prova, humilhemo-nos, sem nos deixarmos fazer cativos por eles... Assim, quando somos provados por estas coisas, não devemos ser separados do amor de Deus.
Eis por que a meditação da lei é necessária, meus amados, juntamente com uma ininterrupta conversação com a virtude: "que o santo nada lhe falte, mas seja perfeito para toda boa obra". Pois por estas coisas vem a promessa da vida eterna, como Paulo escreveu a Timóteo, chamando a constante meditação de exercício, e dizendo: "Exercita-te para a piedade".
É nosso dever e obrigação lembrar e observar todo ano o dia especial do Domingo de Páscoa. Santo Paulo ensinou a seu discípulo Timóteo que estivesse atento às datas, dizendo: "Permanecei prontos a tempo e fora de tempo". Paulo escreveu isso, certamente, para que Timóteo fizesse as coisas quando deviam ser feitas e evitasse a culpa de fazê-las no momento errado.
E mais ainda, não saber quando é o fim, ou quando há de ocorrer o dia do fim, é na verdade coisa boa. Se os homens soubessem o tempo do fim, poderiam começar a desprezar o tempo presente, à espera dos dias derradeiros. Poderiam bem começar a argumentar que deveriam ocupar-se somente de si mesmos. Por isso, Deus também guardou silêncio quanto ao tempo da nossa morte. Se os homens soubessem o dia da sua morte, começariam de imediato a negligenciar-se pela maior parte da sua vida. O Verbo, pois, ocultou de nós tanto o fim de todas as coisas quanto o tempo da nossa própria morte, pois no fim de todas as coisas está o fim de cada um, e no fim de cada um se compreende o fim de todas. Isto é para que, permanecendo as coisas incertas e sempre em perspectiva, avancemos dia a dia como convocados, estendendo-nos para as coisas que estão diante de nós e esquecendo as que ficaram para trás. … O Senhor, pois, conhecendo o que nos era proveitoso para além de nós mesmos, assim confirmou os discípulos num correto entendimento. Estes, tendo sido instruídos, corrigiram os de Tessalônica, que estavam prestes a errar justamente no mesmo ponto.
Ora, é justo e necessário, como em toda a divina Escritura, assim também aqui, expor fielmente o tempo de que o apóstolo escreveu, e a pessoa, e o ponto em questão. Isto para que o leitor não deixe passar, por ignorância, nem estes nem quaisquer outros pormenores semelhantes, e assim perca o verdadeiro sentido do texto. Foi isto que entendeu o eunuco inquiridor, quando perguntou a Filipe: "Peço-te, de quem diz o profeta isto? De si mesmo, ou de outrem?" Temia ele que, explicando a lição de modo impróprio quanto à pessoa, se desviasse do sentido reto. E os discípulos, querendo saber o tempo do que fora predito, suplicaram ao Senhor: "Dize-nos", disseram eles, "quando serão estas coisas? E que sinal haverá da tua vinda?" E de novo, ouvindo do Salvador os acontecimentos do fim, desejaram saber o tempo deles, para que eles próprios se guardassem do erro. Desejavam também poder ensinar a outros, assim como, tendo aprendido, corrigiram os tessalonicenses, que andavam errados. Quando, pois, alguém entende retamente estes pontos, conhece retamente estes pontos, o seu entendimento da fé é reto e são. Mas, se não os entende, cai imediatamente em heresia. Assim, Himeneu e Alexandre e os seus seguidores estavam aquém do tempo, quando diziam que a ressurreição já se dera. Os gálatas, por sua vez, estavam além do tempo, ao persistirem em pensar que a circuncisão era coisa importante.
O diabo foi fisgado pelo Senhor, como um dragão, pelo anzol da Cruz; e foi apanhado numa rede de arrasto, e foi atado como escravo fugitivo, e seus lábios foram perfurados por argola e brida, e não lhe é permitido devorar nenhum dos fiéis. Agora, como um miserável pardal, é feito escárnio por Cristo; agora geme junto aos seus companheiros, sendo pisado como serpentes e escorpiões sob os calcanhares dos cristãos. (Vida de Antão 24)
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Não foi, pois, porque procedia do Pai que Ele foi chamado "Primogênito", mas porque nEle veio a existir a criação; e assim como, antes da criação, Ele era o Filho, por meio de quem se fez a criação, assim também, antes de ser chamado o Primogênito de toda a criação, o próprio Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus... Se, pois, o Verbo fosse também uma das criaturas, a Escritura teria dito dEle também que era primogênito das outras criaturas; mas, de fato, o dizerem os santos que Ele é "Primogênito de toda a criação" demonstra que o Filho de Deus é distinto de toda a criação e não é criatura... É chamado "Primogênito entre muitos irmãos" por causa do parentesco da carne, e "Primogênito dentre os mortos" porque a ressurreição dos mortos procede dEle e vem depois dEle.
Mas, embora seja Verbo, não é, como dissemos, comparável às palavras humanas, compostas de sílabas; antes, é a imagem imutável de Seu próprio Pai. Pois os homens, compostos de partes e feitos do nada, falam de modo composto e divisível. Deus, porém, possui verdadeira existência e não é composto; por isso também o Seu Verbo possui verdadeira existência e não é feito de partes diversas ou de sílabas. Ele é o único Deus unigênito, que procede, em Sua bondade, do Pai como de uma boa Fonte, e ordena todas as coisas e as mantém unidas.
Porque o Verbo de Deus não foi feito para nós, mas antes nós fomos feitos para Ele, e “nele foram criadas todas as coisas”. Pois ainda que a Deus tivesse parecido bem não fazer coisas de origem determinada, o Verbo não estaria, por isso, menos com Deus, nem o Pai menos nele. Ao mesmo tempo, as coisas de origem determinada não poderiam, sem o Verbo, ser trazidas à existência; por isso foram feitas por meio dele — e com sentido e propósito. Pois, visto que o Verbo é Filho de Deus por natureza própria à sua essência e é dele, como Ele mesmo disse, as criaturas não poderiam ter vindo a existir senão por meio dele.
Pois, depois de fazer menção da criação, fala ele naturalmente do poder do Artífice nela contemplado — poder esse que, digo eu, é o Verbo de Deus, por quem todas as coisas foram feitas. Se, de fato, a criação basta por si só, sem o Filho, para dar a conhecer a Deus, cuidai para não errardes ao pensar que ela veio a existir sem o Filho. Pois, se veio a existir por meio do Filho, e "nele todas as coisas subsistem", segue-se necessariamente que aquele que contempla retamente a criação está também contemplando o Verbo que a formou, e por meio dele começa a apreender o Pai.
No passado, Cristo, o Verbo, costumava vir aos santos individualmente e santificar aqueles que O recebiam retamente. Mas nem, quando esses indivíduos nasciam primeiro, afirmavam os homens que Ele se tivesse feito homem em algum deles, nem, quando padeciam, dizia alguém que o próprio Deus padecera neles. Mas então Ele veio a nós, de Maria, uma vez, ao fim dos tempos, para a abolição do pecado (pois assim aprouve ao Pai enviar o seu próprio Filho, "feito de mulher, feito sob a lei"). E então se disse que Ele assumiu a carne e se fez homem. Foi naquela carne que padeceu por nós. Sua intenção foi mostrar, para que todos cressem, que, sendo Ele sempre Deus, e santificando aqueles a quem vinha, e ordenando todas as coisas segundo a vontade do Pai, depois, por nossa causa, fez-se homem, e "corporalmente", como diz o apóstolo, a divindade habitou na carne. Isto equivalia a dizer: "Sendo Deus, tinha o seu próprio corpo, e, usando-o como instrumento, fez-se homem por nossa causa."
Mas se alguém desce até mesmo ao Hades e se detém, atônito, diante dos heróis que ali desceram, considerando-os deuses, ainda assim poderá ver o fato da ressurreição de Cristo e de Sua vitória sobre a morte. Poderá inferir que, também entre eles, só Cristo é verdadeiro Deus e Senhor. Pois o Senhor tocou todas as partes da criação, e a todas libertou e desenganou de toda ilusão. Como diz Paulo: "Tendo despojado de Si os principados e as potestades, triunfou sobre eles na cruz"; para que ninguém, de modo algum, pudesse ainda ser enganado, mas em toda parte encontrasse o verdadeiro Verbo de Deus.
Mas os santos, e os que verdadeiramente praticam a virtude, "mortificam os seus membros" e, como fruto disso, são puros e sem mácula, confiando na promessa do nosso Salvador, que disse: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus." Estes, tendo-se tornado mortos para o mundo, os que renunciaram à mercancia do mundo, alcançam uma morte honrosa.
O Pai faz todas as coisas pelo Verbo no Espírito. Assim se preserva a Unidade da Trindade. Assim se proclama na Igreja o Deus único que está "acima de todos, e por meio de todos, e em todos (Ef 4,6)". Ele está "acima de todos" como Pai, como autor e fonte; "por meio de todos" pelo Verbo; "em todos" no Espírito Santo. - "Cartas a Serapião sobre o Espírito Santo, 1.28"
Que prova mais clara e decisiva poderia haver do que esta? Não se tornou Ele melhor por assumir uma condição inferior, mas antes, "sendo Deus, tomou a forma de servo"... Se [como pensam os arianos] foi por causa desta exaltação que o Verbo desceu, e é isto que está escrito, que necessidade haveria de que Ele se humilhasse inteiramente para buscar o que já possuía?
Que "Deus O exaltou sobremaneira" não significa que a natureza essencial do Verbo tenha, por fim, sido exaltada. Pois Deus Filho é e sempre foi igual a Deus Pai. A exaltação é da humanidade... O texto diz "Ele se humilhou" com referência à assunção da carne. Assim também diz "Ele O exaltou" com referência à carne. Era a raça humana que necessitava disto, por causa da humilhação de sua carne e da morte que dela decorre. Assim, o Verbo, que é imortal e imagem do Pai, "tomou a forma de servo" e sofreu a morte de cruz como homem por nossa causa. Fez isto a fim de que assim Se apresentasse como oferenda ao Pai. É, pois, como homem que se diz ter sido exaltado por nossa causa. Donde todos nós morremos em Cristo e, por sua morte, podemos de novo ser exaltados no próprio Cristo.
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A glória do Pai consiste em que o gênero humano não apenas foi criado, mas foi recriado quando se perdera. Foi-lhe restituída a vida, uma vez mais, quando estava morto, a fim de tornar-se templo renovado de Deus. Pois também as potestades nos céus, os anjos e os arcanjos, O adoram, e agora adoram o Senhor "em nome de Jesus". Esta alegria e exaltação pertence aos homens, porque o Filho de Deus, tendo Ele mesmo Se feito homem, é agora adorado. As potestades celestes não se ofendem ao contemplar-nos a todos sendo conduzidos à nossa morada celeste, participantes que somos de Seu corpo. Isto não poderia ter acontecido de outro modo. Aconteceu somente porque, "estando na forma de Deus e tomando a forma de servo, Ele Se humilhou", consentindo em assumir a nossa condição corporal "até a morte".
Cristo é o verdadeiro Filho, e por isso, quando recebemos o Espírito, somos feitos filhos. Pois diz: "não recebestes o espírito de escravidão para vos conduzir de volta ao temor, mas recebestes o Espírito da filiação adotiva" [Rm 8,15]. Mas quando somos feitos filhos no Espírito, é claro que somos chamados filhos de Deus em Cristo... E quando o Espírito nos é dado — disse o Salvador: "Recebei o Espírito Santo" [Jo 20,22] — Deus [o Pai] está em nós... Mas quando Deus está em nós, também o Filho está em nós. Pois o próprio Senhor disse: "Eu e o Pai viremos e faremos morada com ele" [Jo 14,23]. Em seguida, o Filho é vida — pois Ele disse: "Eu sou a vida" [Jo 14,6] — e por isso se diz que somos vivificados no Espírito... Mas quando somos vivificados no Espírito, diz-se que o próprio Cristo vive em nós. Pois diz: "Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim." (Gl 2,19-20). — "Cartas a Serapião Sobre o Espírito Santo, Carta 1, Capítulo 19"
Contudo, o amor de Deus para com a humanidade é tal que, por graça, Ele se torna Pai daqueles em relação aos quais antes era apenas Criador. Torna-Se Pai deles quando as criaturas recebem "em seus corações o Espírito do Filho, clamando: Aba, Pai" [Gl 4,6], como diz o Apóstolo. Estes são os que, recebendo o Verbo, recebem d'Ele autoridade "para se tornarem filhos de Deus" (Jo 1,12). Sendo criaturas por natureza, não se tornariam "filhos" senão recebendo o Espírito do Filho natural e verdadeiro. Foi, pois, para realizar isto e para tornar a humanidade capaz de receber a divindade que "o Verbo Se fez carne" (Jo 1,14)... Por conseguinte, o Pai chama de "filhos" àqueles em quem vê o Seu próprio Filho, e diz: "Gerei", pois "gerar" significa "filhos", ao passo que "fazer" indica as obras. Portanto, não somos primeiro gerados, mas feitos [criados], pois está escrito: "Façamos a humanidade" (Gn 1,26). Mas quando depois recebemos a graça do Espírito, somos então também ditos gerados. — "Contra os Arianos, 2.59"
Tão longe chegou a sua impiedade que passaram a adorar os demônios e a proclamá-los deuses, satisfazendo assim as suas próprias concupiscências.
Cristo é o verdadeiro Filho, e assim, quando recebemos o Espírito, somos feitos filhos. Pois está escrito: "não recebestes o espírito de escravidão, que vos reconduz ao temor, mas recebestes o Espírito de filiação adotiva" (Rm 8,15). Ora, quando somos feitos filhos no Espírito, é claro que somos chamados filhos de Deus em Cristo... E quando o Espírito nos é dado — disse o Salvador: "Recebei o Espírito Santo" [Jo 20,22] — Deus [o Pai] está em nós... Mas, quando Deus está em nós, também o Filho está em nós. Pois o próprio Senhor disse: "Eu e o Pai viremos e faremos morada nele" [Jo 14,23]. Além disso, o Filho é vida — pois disse: "Eu sou a vida" [Jo 14,6] — e assim se diz que somos vivificados no Espírito... Mas, quando somos vivificados no Espírito, diz-se que o próprio Cristo vive em nós. Pois está escrito: "Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" [Gl 2,19-20]. — "Cartas a Serapião sobre o Espírito Santo, Carta 1, Capítulo 19"
Mas o herege, ainda que use termos da Escritura, será interpelado — por ser igualmente perigoso e depravado — com as palavras do Espírito: "Por que anuncias as minhas leis e tomas na tua boca o meu pacto?" Assim, o diabo, embora falando a partir das Escrituras, é silenciado pelo Salvador. O bem-aventurado Paulo, ainda que fale a partir de escritores profanos — "Os cretenses são sempre mentirosos", e "Dele também somos geração", e "As más companhias corrompem os bons costumes" —, tem, contudo, sentido religioso, por ser santo, sendo "doutor dos gentios, na fé e na verdade", por ter "a mente de Cristo".
Todas as coisas feitas por Deus são belas e puras, pois o Verbo de Deus nada fez de inútil ou de impuro… Mas, como os dardos do diabo são variados e sutis, ele se esforça por perturbar os de mente mais simples, e tenta impedir os exercícios ordinários dos irmãos, semeando secretamente entre eles pensamentos de imundície e de mácula. Vinde, dissipemos brevemente o erro do maligno pela graça do Salvador, e confirmemos a mente dos simples… Pois dize-me, amado e piíssimo amigo, que pecado ou impureza há em qualquer secreção natural — como se alguém pretendesse fazer matéria culpável das limpezas do nariz ou dos escarros da boca? E podemos acrescentar também as secreções do ventre, tais como são de necessidade física da vida animal. Além disso, se cremos ser o homem, como dizem as divinas Escrituras, obra das mãos de Deus, como poderia proceder alguma obra manchada de um Poder puro?… Mas, quando alguma excreção corporal se dá independentemente da vontade, então a experimentamos, como as demais coisas, por uma necessidade da natureza.
Como poderia Ele ter-Se dado a Si mesmo, se não tivesse revestido a carne? Ofereceu a Sua carne e deu-Se a Si mesmo por nós, a fim de que, sofrendo a morte nela, "reduzisse a nada aquele que detinha o poder da morte, isto é, o diabo." Por esta razão damos continuamente graças em nome de Jesus Cristo. Não reduzimos a nada a graça que nos veio por meio dEle. Pois a vinda do Salvador na carne foi o resgate e a salvação de toda a criação.
Talvez, assim envergonhados pelo mau odor de seus nomes, eles [os hereges] possam vir a compreender a profundeza da impiedade em que caíram. Estaria em nosso direito não lhes responder de modo algum, segundo o conselho apostólico: "Ao homem herético, depois de uma e outra admoestação, rejeita-o, sabendo que o tal está pervertido e peca, estando já condenado por si mesmo." Isto tanto mais se aplica quanto o profeta diz acerca de tais homens: "O insensato proferirá insensatez, e seu coração imaginará vaidades." Mas, uma vez que eles, à semelhança de seu chefe, andam como leões buscando a quem, entre os simples, devorar, somos compelidos a escrever em resposta à vossa piedade, para que os irmãos, mais uma vez instruídos por vossa admoestação, possam ainda reprovar com maior firmeza o vão ensinamento desses homens.