São Basílio
Bispo de Cesareia · Doutor da Igreja
Basílio Magno (c. 330–379), um dos três Padres Capadócios, bispo de Cesareia e pai do monaquismo oriental. Defensor da divindade do Verbo e do Espírito Santo contra os arianos, organizou também a primeira grande rede de caridade institucional da história — a Basilíade. Irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório Nazianzeno.
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Este Verbo não é um verbo humano. Pois como poderia existir no princípio um verbo humano, tendo o homem recebido o princípio de sua geração em último lugar? Portanto, não existia no princípio um verbo humano, nem tampouco dos Anjos; pois toda criatura está dentro dos limites dos séculos, tomando do Criador o princípio de seu ser. Mas ouça o Evangelho de modo conveniente: ele mesmo chamou o Unigênito de Verbo.
Novamente ele repete este "era" por causa dos que blasfemam ao dizer que houve um tempo em que Ele não existia. Onde, então, estava o Verbo? As coisas ilimitadas não são contidas em espaço. Onde estava Ele então? Com Deus. Pois nem o Pai está limitado por lugar, nem o Filho está contido por qualquer circunscrição.
Assim, pois, excluindo a acusação dos que blasfemam e dos que perguntam o que é o Verbo, responde: "E o Verbo era Deus".
Os espíritos celestiais vêm até nós, não como de si mesmos, mas por contemplarem a beleza da sabedoria divina; de onde segue: foi enviado o Anjo Gabriel por Deus.
O Senhor, porém, não se sentou no trono material de David, tendo sido transferido o reino judaico para Herodes; mas chama de trono de David aquele no qual o Senhor se assentou, um reino indissolúvel; donde segue: e reinará na casa de Jacó eternamente.
O conhecimento é dito de muitas maneiras: pois chama-se conhecimento a sabedoria de nosso Criador, e a notícia de suas grandes obras, bem como a observância dos mandamentos, e a aproximação que se faz junto a Ele, e a união nupcial, como aqui se entende.
Pois a Virgem, com intenção sublime e especulação profunda, contemplando a imensidade do mistério, como que avançando mais profundamente, magnifica a Deus; por isso se diz: E Maria disse: A minha alma magnifica ao Senhor.
O primeiro fruto do Espírito é a paz e a alegria. Porque, portanto, a santa Virgem havia bebido para si toda a graça do Espírito, merecidamente acrescenta: e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador. O mesmo ela diz de alma e espírito. A palavra exultação, tão habitual nas Escrituras, insinua certo estado alegre e jubiloso da alma naqueles que são dignos. Por isso a Virgem exulta no Senhor com inefável palpitar do coração e com o resultado de um honesto afeto manifestado. Segue-se: em Deus, meu Salvador.
O nome de Deus é chamado santo, não porque em suas sílabas contenha alguma virtude significativa, mas porque de qualquer modo que contemplemos a Deus, reconhecemos sua santidade e pureza.
O presente texto certamente nos orienta mesmo quanto às coisas sensíveis, ensinando-nos a incerteza das coisas mundanas. Pois são caducas, como uma onda que é espalhada de um lado para outro pelo ímpeto dos ventos. Tomando-o intelectualmente, o gênero humano tinha fome, com exceção dos judeus: a estes, de fato, havia enriquecido a tradição da lei e os ensinamentos dos santos profetas. Mas porque não aderiram humildemente ao Verbo humanado, foram deixados vazios, nada levando consigo, nem fé, nem ciência; e foram privados da esperança dos bens, e excluídos tanto da Jerusalém terrena quanto da vida futura. Mas aqueles dentre os gentios que a fome e a sede haviam consumido, tendo aderido ao Senhor, foram repletos de bens espirituais.
Israel significa não o Israel material, que somente o nome enobrecia, mas o espiritual, que mantinha o nome da fé, tendo os olhos dirigidos a Deus para vê-lo pela fé. Pode também referir-se ao Israel carnal, visto que dele muitos creram. Isto fez recordando-se de sua misericórdia: pois cumpriu o que prometeu a Abraão, dizendo: "porque em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra". Recordando-se desta promessa, a Mãe de Deus dizia "como falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre". Pois a Abraão foi dito: "Estabelecerei meu pacto entre mim e ti, e entre tua descendência depois de ti em suas gerações, por uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o da tua descendência depois de ti".
Ninguém, porém, ouvindo que o Senhor jurou a Abraão, seja inclinado a jurar: pois assim como a ira dita a respeito de Deus não significa paixão, mas punição; assim também Deus não jura como o homem, mas sua palavra nos é expressa em lugar de juramento para a verdade, aprovando com sentença imutável o que foi prometido.
Pois tenebrosa era a plebe dos gentios, que estava oprimida pelo culto aos ídolos, até que a luz nascente dispersou a escuridão e expandiu o esplendor da verdade.
Se examinardes as vozes dos justos, encontrareis que todos gemem sobre este mundo e sua lastimosa demora. "Ai de mim", diz Davi, "que a minha peregrinação se prolongou!"
Pois é um sinal que indica algo admirável e oculto, que é visto pelos mais simples, mas compreendido por aqueles que possuem intelecto exercitado.
Podemos também dizer: que assim como pelo número sete, também pelo doze, (que consiste das partes do sete multiplicadas alternadamente entre si), designa-se a universalidade e perfeição das coisas ou dos tempos; e por isso, para ensinar que todos os lugares e tempos sejam ocupados, com razão o fulgor de Cristo toma seu início a partir do número doze.
Mas desde a sua primeira idade, obedecendo aos seus pais, suportou todo trabalho corporal humilde e reverentemente. Pois como fossem pessoas honestas e justas, contudo pobres e sofrendo com a escassez do necessário (como testifica o presépio que serviu ao venerável parto), é manifesto que continuamente se empenhavam em trabalhos corporais, buscando para si o necessário para a vida. Jesus, porém, obedecendo-lhes, como testifica a Escritura, também em suportar os trabalhos, sustentou uma sujeição plena.
Mas assim como os outeiros diferem dos montes em relação à altura, sendo iguais em outras coisas, assim também as potestades adversas concordam no propósito, mas distinguem-se umas das outras pela enormidade de suas ofensas.
Pois não é a capacidade do pai para a corrida que torna o cavalo veloz; mas assim como a qualidade dos outros animais é considerada em cada indivíduo, do mesmo modo o louvor próprio do homem é discernido pela comprovação dos méritos presentes que nele se encontram. De fato, é vergonhoso alguém adornar-se com honras alheias quando a virtude própria não o embeleza.
Mas aqui somos ensinados que, de tudo aquilo que excede a necessidade do próprio sustento, estamos obrigados a dar àquele que não tem, por amor a Deus, que nos concedeu generosamente tudo o que possuímos.
Mas, pelo fato de dizer "Ele vos batizará no Espírito Santo", que ninguém considere válido o batismo no qual só foi invocado o nome do Espírito: pois é necessário que a tradição estabelecida permaneça sempre intacta na graça vivificante. Porque acrescentar ou diminuir qualquer coisa exclui da vida perpétua; pois assim como cremos, assim também recebemos o batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Mas, porque não ter fome está acima da natureza humana, o Senhor assumiu a paixão da fome, indicando que ela não é pecado, e concedeu, quando quis, à natureza humana padecer e agir o que lhe é próprio; donde segue: e consumados aqueles dias, teve fome, não forçado pela necessidade que governa a natureza, mas como que provocando o Diabo para o duelo. Pois, percebendo o Diabo que onde há fome, há fraqueza, aproxima-se para tentar; e como inventor de tentações, persuadia a Cristo, que padecia fome, a satisfazer o apetite com pedras; donde segue: Disse-lhe, pois, o Diabo: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão.
Ou vem sanar os contritos de coração, isto é, dar remédio àqueles que têm o coração contrito por Satanás através do pecado: porque mais do que qualquer outra coisa, o pecado prostra o coração humano.
Pois quando viu que da saciedade se gerava não pouco opróbrio, através da fome lhes trouxe o jejum, pelo qual conteve a culpa deles, que crescia desmedidamente. Os corvos, porém, tornaram-se ministros de alimento para o justo, eles que costumavam usurpar o alimento dos outros.
Neste ponto, São Lucas falou figurativamente, como se fosse um precepto feito a um ser animado sensível, dizendo assim que foi dado um comando à febre, e que a febre não omitiu a operação daquele que ordenava; por isso segue: e imediatamente levantando-se, os servia.
E não somente abandonou os lucros da coletoria de impostos, mas também desprezou os perigos que poderiam sobrevir a ele e aos seus por deixar incompletas as contas da arrecadação.
Os filhos do Esposo também não podem jejuar, isto é, não tomar o alimento da alma, mas viver de toda palavra que procede da boca de Deus.
Porém, nem todo aquele que é oprimido pela pobreza é bem-aventurado, mas sim aquele que preferiu o preceito de Cristo às riquezas mundanas. Pois muitos são pobres em seus bens, mas avarísimos em suas disposições; a estes a pobreza não salva, mas suas inclinações os condenam. Pois nada involuntário merece a bem-aventurança, visto que toda virtude é caracterizada pela liberdade da vontade. Bem-aventurado, portanto, é o pobre como discípulo de Cristo, que suportou a pobreza por nós. Pois o próprio Senhor realizou toda obra que conduz à felicidade, apresentando-se como exemplo aos que aprendem.
Como o Senhor repreende agora os que riem, é evidente que nunca haverá tempo de riso para o fiel; e principalmente em meio a tão grande multidão daqueles que morrem em pecado, pelos quais convém chorar. O riso excessivo é sinal de imoderação e de um movimento desenfreado da alma; mas expressar o sentimento da alma até a alegria do semblante não é indecoroso.
Quase todos nós, porém, agimos contra este mandamento; e especialmente os poderosos ou príncipes, não apenas se sofreram insultos, mas também se não lhes foi prestada reverência, considerando adversários todos aqueles que os reverenciaram menos do que julgaram ser dignos. Contudo, é uma grande infâmia para um príncipe estar pronto à vingança: pois como ensinará a outro a não retribuir mal com mal, aquele que se apressa em retribuir a quem o prejudica?
Porque com a mesma medida que cada um de vós mede ao praticar boas obras ou ao pecar, com essa mesma receberá recompensas ou castigos.
Em verdade, o conhecimento de si mesmo parece ser o mais difícil de todos: pois não somente o olho, vendo as coisas exteriores, não utiliza a visão sobre si mesmo; mas também o nosso próprio intelecto, quando rapidamente conjectura sobre o pecado alheio, é lento para a percepção dos próprios defeitos.
A qualidade das palavras manifesta o coração de onde procedem, mostrando claramente a disposição de nossos corações; por isso segue: "Porque da abundância do coração a boca fala".
Assentar, porém, o fundamento sobre a pedra, isto é apoiar-se na fé de Cristo, para que permaneça imóvel nas adversidades, sejam elas provenientes dos homens ou de Deus.
Ouvir pertence ao intelecto; por isso, o Senhor nos desperta para escutar atentamente a menção daquelas coisas que são ditas.
Mas Ele deixou sua própria vida como modelo de conduta irrepreensível para aqueles que estão dispostos a obedecê-lo; como diz: "Vinde após mim", não insinuando com isso um seguimento corporal, pois isso seria impossível para todos, estando nosso Senhor já nos céus, mas uma devida imitação de sua vida segundo as capacidades de cada um.
Pois a obscuridade da Lei havia passado: assim como o fumo é causado pelo fogo, assim a nuvem é causada pela luz. Mas, como a nuvem é sinal de tranquilidade, o repouso da futura morada é manifestado pela cobertura de uma nuvem.
Ao mesmo tempo, por isto indicou também que, se alguns são iguais nos dons espirituais, isto não deixará prevalecer neles a paixão da própria opinião.
Pois as virtudes superiores não são naturalmente santas, mas recebem sua medida de santificação segundo a analogia do amor divino. E assim como o ferro colocado no fogo não deixa de ser ferro, embora pela veemente união com a chama, tanto em efeito quanto em aparência, transforme-se em fogo; assim também as virtudes celestes possuem a santificação implantada nelas pela participação daquilo que é naturalmente santo: pois Satanás não teria caído se por natureza fosse incapaz do mal.
Quando se diz com toda a tua mente, isto não admite divisão em outras coisas: pois qualquer amor que gastes nas coisas inferiores, necessariamente faltará ao todo. Assim como em um vaso cheio de líquido, quanto dele se derrama para fora, tanto necessariamente subtrai da sua plenitude; assim também na alma, quanto de seu amor se derramar para coisas ilícitas, tanto necessariamente diminuirá do amor a Deus.
Esta interpretação também se adequa aos lugares, se alguém os examinar: pois Jericó ocupa as partes baixas da Palestina; Jerusalém, porém, está situada no cume, ocupando o topo do monte. Desceu, portanto, o homem das alturas para as partes baixas, para ser capturado pelos ladrões, que habitavam o deserto; por isso segue: "e caiu nas mãos dos ladrões".
É absurdo também tomar alimentos para o sustento do corpo e, por meio deles, voltar a prejudicar o corpo e impedi-lo de cumprir o ofício dos mandamentos divinos. Se, portanto, vier algum pobre, que receba o modelo e o exemplo de moderação nos alimentos; e não preparemos nossa mesa por causa daqueles que querem viver em delícias: pois uniforme é a vida do cristão, tendendo a uma única intenção, a saber, a glória de Deus; enquanto multiforme e variada é a vida daqueles que são de fora, mudando conforme a vontade. Mas tu, por que, enquanto preparas à mesa para teu irmão abundância de alimentos por causa do deleite, o acusas de volúpia, e difundes sobre ele os opróbrios da gula, censurando seus prazeres naquilo mesmo que lhe preparas? O Senhor não elogiou Marta, ocupada com frequentes serviços.
Existem dois modos de oração. Um de louvor com humildade; o segundo, porém, de petição, mais moderado. Portanto, sempre que oras, não irrompes primeiro em petição. Mas condenas teu próprio afeto, como se obrigado por necessidade suplicas a Deus. Contudo, quando começas a orar, abandona toda criatura visível e invisível; mas toma como exórdio o louvor daquele que criou todas as coisas; por isso segue-se e disse-lhes: quando orardes, dizei: Pai.
Talvez também por isso Ele adie, como que intensificando tua assiduidade e frequência para com Ele, e para que reconheças o que é o dom de Deus, e guardes com temor o que te foi concedido. Pois tudo aquilo que alguém adquire com muito trabalho, esforça-se para guardar em segurança, para que não perca seu trabalho se o perder.
Ele também distribui os despojos, demonstrando as fiéis proteções dos Anjos para a salvação dos homens.
Um sinal é uma coisa colocada em evidência, contendo em si a declaração de algo oculto; assim como o sinal de Jonas representa a descida de Cristo aos Infernos e sua ascensão, e a ressurreição dos mortos; por isso acrescenta "Pois como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também o Filho do homem o será para esta geração".
Esta voz "ai", que é proferida com dores intoleráveis, convém àqueles que pouco depois serão arrastados para grave suplício
Foi-lhe permitido deliberar sobre todas as coisas e manifestar seu próprio propósito, a fim de que mereça uma sentença digna de seus afetos. Mas enquanto ele fala em segredo, suas palavras são examinadas no céu, de onde lhe vêm as respostas; pois segue: "Mas Deus lhe disse: insensato, nesta noite pedirão a tua alma". Ouve o nome de insensato, que convenientemente te pertence, que nenhum homem te impôs, mas o próprio Deus.
E para que entendas esta elevação, lembra-te da vaidade de tua própria juventude; se alguma vez estando só pensaste sobre a vida e promoções, passando de um principado a outro, abraçaste riquezas, edificaste palácios, fizeste bem aos amigos, vingaste-te dos inimigos. Ora, tal abstração é pecado: pois a delectação direcionada às coisas supérfluas desvia da verdade; pelo que convenientemente acrescenta todas estas coisas as gentes do mundo buscam, isto é, o prazer, as riquezas e coisas semelhantes.
Mas alguém perguntará: com base em que consideração é necessário vender o que se possui? Porventura porque estas coisas são naturalmente nocivas, ou por causa da tentação que acontece às almas através delas? A isto deve-se responder, primeiramente, que se cada uma das coisas que existem fosse má por si mesma, não seria criatura de Deus; pois toda criatura de Deus é boa. E consequentemente, porque o mandamento do Senhor não ensina a rejeitar como más as coisas que possuímos, mas a distribuí-las, dizendo e dai esmola.
O corpo não é de fato dividido, de modo que uma parte seja exposta aos tormentos e a outra escapar; pois isto é uma fábula, e não próprio de um justo julgamento que, tendo o todo delinquido, apenas metade sofra a pena; nem a alma é cortada ao meio, visto que toda ela possui uma consciência culpada e coopera com o corpo para realizar o mal; mas sua divisão é a eterna separação da alma do Espírito. Pois agora, embora a graça do Espírito não esteja nos indignos, parece, contudo, estar de algum modo presente, esperando a conversão deles para a salvação; mas naquele momento será totalmente separada da alma. O Espírito Santo, portanto, é o prêmio dos justos e a principal condenação dos pecadores, pois aqueles que são indignos O perderão.
Mas dirás: se este realmente suporta muitos castigos, e aquele poucos, como alguns dizem que não impõe fim aos suplícios? Mas deve-se saber que o que aqui se diz não indica a quantidade das penas, mas a diferença: pois alguém pode ser digno da chama inextinguível, seja mais branda ou mais intensa; e do verme que nunca acaba, atormentando de modo mais suave ou mais forte.
Deve-se notar, porém, que as conjecturas dos astros são necessárias para a vida humana, contanto que não se investiguem os seus indícios além da justa medida. É possível, de fato, perceber algo sobre as chuvas futuras; e muito mais sobre o calor e o ímpeto dos ventos, sejam particulares ou universais, violentos ou suaves. Quanta utilidade é proporcionada à vida pela conjectura destes, quem não sabe? Pois importa ao navegante prognosticar os perigos das tempestades, ao viajante a mudança do ar, ao agricultor a abundância dos frutos.
É próprio da divina misericórdia não infligir penas silenciosamente, mas anteceder com ameaças, chamando à penitência; assim como fez com os ninivitas, e agora com o cultivador dizendo "Corta-a", estimulando-o certamente ao cuidado dela, e despertando a alma estéril para produzir os devidos frutos.
A cabeça dos animais irracionais, de fato, está inclinada para o chão, e olha para a terra; a cabeça do homem está erguida para o céu, e seus olhos contemplam as coisas superiores. Convém, pois, ao homem buscar as coisas do alto e transcender as coisas terrenas com o olhar.
Assim como no caminho terreno o desvio do reto tem grande amplitude, da mesma forma aquele que se afasta do caminho que conduz ao reino dos céus encontra-se em uma vasta extensão de erro. Porém, o caminho reto é estreito, sendo qualquer desvio perigoso, seja para a direita, seja para a esquerda; como em uma ponte, onde aquele que se desvia para qualquer um dos lados mergulha no rio.
Ele também comparou os filhos de Jerusalém aos filhotes no ninho; como se dissesse: as aves que costumam voar nas alturas estão protegidas dos danos daqueles que as espreitam; tu, porém, serás como um filhote necessitando do auxílio alheio. Assim, quando a mãe voa para longe, serás retirado do ninho, como incapaz de te proteger e fraco para fugir; por isso segue: eis que a vossa casa vos será deixada deserta.
Ocupar, portanto, o último lugar nos banquetes, conforme o mandamento do Senhor, é conveniente, mas novamente precipitar-se neste lugar com contenda é reprovável, pois destrói a ordem e causa tumulto; e a contenda movida sobre isto vos equiparará aos que disputam sobre a primazia. Por isso, como aqui diz o Senhor, convém àquele que oferece o banquete atribuir a ordem dos lugares. Assim, suportaremos uns aos outros com paciência e honestamente, seguindo todas as coisas segundo a ordem, não para a aparência da maioria; nem pareceremos praticar a humildade por meio de veemente contradição, mas, antes, alcançaremos a humildade pela paciência: pois é maior indício de soberbia a repugnância do que o primeiro lugar à mesa, quando o ocupamos com autoridade.
Não que a paixão da ira aconteça à substância divina; mas tal operação, que em nós se produz pela ira, diz-se ira e indignação de Deus.
Carregando também a cruz, anunciava a morte do Senhor, dizendo: "Para mim o mundo está crucificado, e eu para o mundo"(Gálatas 6,14); o que também nós antecipamos no próprio Batismo, onde nosso homem velho é crucificado, para que seja destruído o corpo do pecado.
Mas a intenção do Senhor nos exemplos mencionados não é certamente oferecer a possibilidade ou dar liberdade a qualquer um para tornar-se Seu discípulo ou não, como de fato é lícito não começar um fundamento ou não tratar da paz; mas mostrar a impossibilidade de agradar à vontade divina entre aquelas coisas que distraem a alma e entre as quais ela se encontra em perigo, tornando-se vendável pelas astúcias do Demônio.
Além disso, o juízo maduro e a gravidade de um homem mais velho contribuem mais para sua firmeza do que a brancura de seus cabelos; e não é repreendido aquele que é jovem em idade, mas o jovem em costumes, que vive segundo suas paixões.
Ou se sucederes a um patrimônio, recebeste o que foi acumulado pelos injustos; pois dentre muitos predecessores é necessário encontrar pelo menos um que injustamente tenha usurpado bens alheios. Suponhamos, porém, que nem teu pai tenha cometido extorsão; de onde, então, tens teu dinheiro? Se de fato respondes: "De mim mesmo", ignoras a Deus, não tendo conhecimento do teu Criador; mas se respondes: "De Deus", dize-nos a razão pela qual o recebeste. Porventura a terra e sua plenitude não são do Senhor? Portanto, se as nossas coisas pertencem ao Senhor comum, também pertencerão aos nossos conservos.
Mas ele recebe um digno prêmio, o fogo e as penas do inferno, a língua ressequida; em vez da lira sonora, gemidos; em vez de bebida, o intenso desejo de uma gota; em vez de espetáculos enormes, a profunda escuridão; em vez da bajulação incessante, o verme vigilante. Por isso segue: "Que refresque minha língua, porque sou atormentado nesta chama".
Semelhantemente, também é possível ser exaltado de forma louvável, quando, a saber, não pensas em coisas baixas, mas tua mente está elevada para a virtude pela magnanimidade. Tal elevação de ânimo é eminência nas tristezas, desprezo das coisas terrenas, conversação nos céus; e parece que tal sublimidade da mente tem a mesma diferença para com a elevação que a arrogância gera, assim como a corpulência de um corpo bem disposto difere da inchação da carne quando está tumefacta pela hidropisia.
Receberemos, pois, o reino de Deus como uma criança, se estivermos dispostos em relação à doutrina do Senhor como uma criança sob instrução, de modo algum contradizendo ou disputando com os mestres, mas de maneira crédula e obediente absorvendo os ensinamentos.
Não se deve entender que somente são ladrões os que cortam bolsas ou cometem roubos nos banhos; mas também aqueles que, sendo constituídos chefes de legiões, ou a quem se confia o governo das cidades e dos povos, tomam algumas coisas furtivamente, ou as exigem pública e violentamente.
Não apenas segundo o gênero humano, nascido da semente de Davi segundo a carne. Partiu, porém, para uma região longínqua, não tanto separada pela distância local quanto pela condição das coisas: pois o próprio Deus está perto de cada um de nós, quando nossas boas obras nos ligam a Ele; e está distante sempre que, aderindo à perdição, nos afastamos Dele. A esta região terrena, portanto, chegou distante de Deus, para receber o reino dos gentios, conforme aquilo: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança"(Salmo 2,8).
Assim também nos ensina a empreender as obras mais humildes com grande afeto e diligência, sabendo que tudo o que se faz tendo Deus diante dos olhos não é pequeno, mas digno do Reino dos Céus.
Isso acontece como que para aqueles que são condenados, que não têm nada a opor à evidência clara do direito. É próprio da divina misericórdia não infligir castigos em silêncio, mas predizê-los com ameaças, chamando-os ao arrependimento; por isso, segue-se: "virá e destruirá aqueles lavradores, e dará a vinha a outros".
A embriaguez é o uso excessivo do vinho; a crápula, porém, é a ansiedade e náusea que ocorre na embriaguez, chamada assim pelo vocábulo grego referente ao movimento da cabeça. Assim como devemos usar os alimentos para não sentirmos fome, também devemos usar as bebidas para não sofrermos de sede, evitando diligentemente o excesso. Pois a ingestão de vinho é enganosa. A alma livre do vinho será a mais prudente e melhor; mas umedecida pelos vapores do vinho, fica velada como por uma nuvem. A curiosidade desta vida, embora pareça não conter nada de proibido, se todavia não contribuir para o culto divino, deve ser evitada; e por que disse isto, mostra acrescentando: "e sobrevenha sobre vós repentinamente aquele dia".
Aprende, pois, de que modo convém comer o Corpo de Cristo, ou seja, em memória da obediência de Cristo até a morte; para que os que vivem não vivam mais em si mesmos, mas naquele que por eles morreu e ressuscitou.
Assim como nas enfermidades corporais há muitas que não são sentidas pelos que padecem, mas que antes confiam mais no diagnóstico dos médicos do que consideram sua própria insensibilidade; assim também nas paixões da alma, se alguém não sentir o pecado em si mesmo, deve, contudo, acreditar naqueles que podem conhecer melhor seus pecados.
Não exalte, portanto, a dignidade àquele que preside, para que não caia da bem-aventurança da humildade. Saiba, porém, que a verdadeira humildade é o serviço de muitos. Pois assim como aquele que serve a muitos feridos, e limpa a supuração de qualquer ferida, não toma o serviço como motivo de orgulho; muito mais aquele a quem são confiados os cuidados das enfermidades fraternas, como ministro de todos, devendo prestar contas por todos, deve pensar e ser solícito; e assim aquele que é maior, faça-se como o menor. Convém também que o serviço corporal seja oferecido por aqueles que presidem, a exemplo do Senhor que lavou os pés dos discípulos; donde segue e aquele que precede, como o que serve. Não se deve temer que no súdito se dissolva o propósito da humildade, quando é servido pelo superior, mas por imitação propaga-se a humildade.
Ou o Senhor não ordena levar bolsa e alforja e comprar espada; mas prediz o que há de acontecer, a saber, que os apóstolos, esquecidos do tempo da Paixão, dos dons e da lei do Senhor, ousariam tomar espadas: pois muitas vezes a Escritura utiliza a forma imperativa do discurso no lugar da profecia. Contudo, em muitos livros não se encontra receba, tome ou compre; mas tomará e comprará.
Li também no livro de alguém, que este "Filho" não deve ser entendido como o unigênito, mas como o adotivo, pois não teria colocado os Anjos antes do Filho unigênito, dizendo assim: "nem os Anjos do céu, nem o Filho"1
[1] Ver mais sobre esta passagem em Santo Hilário de Trin. ix. 58, citado na Catena sobre São Marcos 13,32, e São Basílio adv. Eunom. iv. ↩
Nomear Cristo é confessar o todo, pois é apontar para Deus [o Pai], que ungiu o Filho; para o Filho, que foi ungido; e para a própria unção, que é o Espírito. Isto está em conformidade com o ensinamento de Pedro nos Atos: "Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo" (At 10,38); e com o ensinamento de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu" (Is 61,1). O Salmista diz simplesmente: "Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria" (Sl 45,7). — *Sobre o Espírito Santo, 12*