São Basílio
Bispo de Cesareia · Doutor da Igreja
Basílio Magno (c. 330–379), um dos três Padres Capadócios, bispo de Cesareia e pai do monaquismo oriental. Defensor da divindade do Verbo e do Espírito Santo contra os arianos, organizou também a primeira grande rede de caridade institucional da história — a Basilíade. Irmão de São Gregório de Nissa e amigo de São Gregório Nazianzeno.
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Deste modo salvaremos também o nosso adversário, ainda contra a sua vontade, das consequências do mal, e nós mesmos não violaremos o mandamento de Deus, sendo, como seus ministros, nem contenciosos nem cobiçosos, firmemente atentos à manifestação da verdade e jamais ultrapassando os limites estabelecidos do zelo.
O preço do homem é o sangue de Cristo. "Fostes comprados", diz a Escritura, "por um preço; não vos façais escravos dos homens." As potestades do Maligno esforçam-se por tornar vão para nós este preço. Procuram reconduzir-nos à escravidão ainda depois de sermos livres.
O próprio apóstolo praticava com grande esmero aquilo que pregava aos outros.
Paulo permite o matrimônio e o considera digno de bênção, mas o contrasta com a sua própria preocupação com as coisas de Deus, insinuando que as duas coisas são incompatíveis.
Portanto, quer se faça algo que é intrinsecamente mau e disso resulte escândalo, quer a realização de um ato lícito e dentro de nossa esfera de competência cause escândalo a alguém fraco na fé ou no conhecimento, então a pena é clara e inescapável... "Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho."
Ninguém é coroado senão aquele que combate legitimamente.
Não sejas de modo algum pedra de tropeço para os que encontras. Sê alegre, amante dos irmãos, manso, humilde. Não rebaixes o propósito da hospitalidade buscando alimentos extravagantes. Contenta-te com o que tens à mão.
Fazei todas as coisas de maneira decente e segundo a ordem, com vistas à edificação. A pessoa, o tempo, a necessidade e o lugar — tudo isso deve ser devidamente escolhido e determinado. Pela consideração de todos estes pormenores, evitar-se-á toda sombra de má suspeita.
Se, de fato, o fim do cristianismo é a imitação de Cristo, segundo a medida de sua encarnação, na medida em que se conforma à vocação de cada um, aqueles a quem foi confiado o governo de muitos outros são obrigados a animar, mediante o seu auxílio, os que ainda são mais fracos do que eles, à imitação de Cristo.
Se dois esquadros forem comparados entre si, sua retidão estará em concordância. Mas se um pedaço de madeira torto for comparado com uma régua, o torto discordará do reto. Uma vez que, portanto, o louvor a Deus é justo, é necessário um coração justo, para que o louvor lhe seja conveniente e adequado. "Ninguém pode dizer 'Jesus é Senhor', senão pelo Espírito Santo." Como, pois, poderá alguém oferecer o devido louvor se não possuir o espírito reto em seu coração? Homilia sobre o Salmo
Uma vez que ninguém tem capacidade para receber todos os dons espirituais, mas a graça do Espírito é dada proporcionalmente à fé de cada um, quando alguém vive em comunidade com outros, a graça privadamente concedida a cada indivíduo torna-se posse comum dos demais... Aquele que recebe algum destes dons não o possui para si mesmo, mas antes em vista dos outros.
Todavia, entre aqueles em quem não se assegura a harmonia, não se preserva o vínculo da paz, nem se mantém a mansidão de espírito, mas há dissensão, contenda e rivalidade. Seria grande audácia chamar a tais pessoas "membros de Cristo" ou dizer que são por Ele governados. Seria, antes, expressão de mente honesta afirmar abertamente que ali domina a sabedoria da carne e exerce soberania régia.
Nossos sofrimentos são tais que alcançaram até os confins de nosso mundo habitado. Quando um membro padece, todos os membros padecem juntamente com ele. Carta, Aos Ocidentais.
Aquele que vive em retiro solitário não discernirá facilmente os seus próprios defeitos, pois não tem quem o admoeste ou corrija com mansidão e compaixão. Com efeito, a admoestação vinda de um inimigo produz frequentemente, no homem prudente, o desejo de emenda.
Depõe a taciturnidade de homem irado que manifestas com o teu silêncio, e recobra a alegria no coração, a paz para com os irmãos e irmãs de igual sentir, e o zelo e a solicitude pela preservação das igrejas do Senhor. Carta, A Atárbio.
Ainda que mais conhecimento seja sempre adquirido por todos, ele há de sempre carecer, em todas as coisas, de sua devida plenitude, até o tempo em que, vindo aquele ser perfeito, o que é em parte será aniquilado.
"Quando eu era menino" — isto é, recém-saído de confiar à memória os primeiros elementos da divina Palavra — "falava como menino, sentia como menino, pensava como menino. Mas agora que me tornei homem" — isto é, apressando-me a alcançar a medida da idade da plenitude de Cristo — "deixei as coisas de menino".
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Mas, antes que eu trate da matéria mesma da profissão de fé, convém antepor a seguinte advertência: é impossível exprimir numa só palavra ou num só conceito, ou de todo apreender com a mente, a majestade e a glória de Deus, que são inefáveis e incompreensíveis, e a divina Escritura, embora na maior parte das vezes se sirva de palavras de uso corrente, fala obscuramente "como por espelho (1 Cor 13.12)", mesmo aos limpos de coração. Estas coisas foram prometidas àqueles que forem julgados dignos na vida futura. Mas agora, ainda que alguém seja um Paulo ou um Pedro, ainda que verdadeiramente veja o que vê, e não seja iludido nem enganado por sua imaginação, contudo vê por espelho e de modo obscuro, e aguarda com grande alegria o conhecimento perfeito, no futuro, daquilo que agora recebe em parte com ação de graças. — "Homilia sobre a Fé"
Ainda que um estranho, por ignorância, dirija suas perguntas a outra pessoa, e embora aquele que é interrogado por engano seja capaz de dar uma resposta satisfatória, deve, todavia, por causa da boa ordem, guardar silêncio e encaminhar o estranho a quem compete tal função, como fizeram os apóstolos quando o Senhor estava presente. Deste modo, a palavra será empregada de maneira ordenada e conveniente.
Paulo se refere ao modo de vida decoroso e bem ordenado na sociedade dos fiéis, no qual se mantém a relação que existe entre os membros do corpo.
Cremos e confessamos que, ressuscitando ao terceiro dia dentre os mortos, segundo as Escrituras, foi visto por seus santos discípulos e por outros, como está escrito. Subiu aos céus e assenta-se à direita do Pai, de onde há de vir, ao fim dos tempos, para ressuscitar todos os homens e retribuir a cada um segundo as suas obras.
Aquele que passa o seu tempo na moleza e em toda relaxação por causa de seu viver luxuoso, que se veste de púrpura e linho fino e banqueteia-se todos os dias com esplendor, e que foge dos labores impostos pela virtude, não trabalhou nesta vida nem viverá na futura, mas verá a vida ao longe, enquanto é atormentado no fogo da fornalha.
Esta é a glória perfeita e consumada em Deus: não se gloriar na própria justiça, mas, reconhecendo-se carente da verdadeira justiça, ser justificado somente pela fé em Cristo. Paulo gloriava-se em desprezar a própria justiça. Buscando a justiça que provém da fé, a qual é de Deus por meio de Cristo, buscava somente conhecê-lO, e o poder de sua ressurreição, e a comunhão de seus sofrimentos, tornando-se conforme à sua morte, a fim de alcançar a ressurreição dentre os mortos... É Deus quem confere eficácia aos nossos labores.
Se a permanência do Senhor na carne não se deu, o Redentor não pagou à morte o preço por nós. Ele não destruiu por seu próprio poder o domínio da morte. Se aquilo que está sujeito à morte fosse uma coisa, e aquilo que foi assumido pelo Senhor fosse outra, então a morte não teria cessado de operar as suas próprias obras, nem os sofrimentos do Deus que trazia a carne teriam sido ganho para nós. Ele não teria destruído o pecado na carne. Nós, que havíamos morrido em Adão, não teríamos sido vivificados em Cristo. Carta, Aos Cidadãos de Sozópolis.
Para nós, o fim para o qual fazemos todas as coisas e para o qual nos apressamos é a vida bem-aventurada no século vindouro.
Ele faz sua a vossa sujeição e, por causa de vossa luta contra a virtude, chama a si mesmo de sujeitado... Chama-se nu, se algum de vós está nu... Quando alguém está no cárcere, disse que ele próprio era o encarcerado. Pois Ele mesmo tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou o peso de nossos males. E uma de nossas enfermidades é a insubordinação, e também esta Ele carregou. Portanto, até mesmo as adversidades que nos sobrevêm o Senhor as faz suas, tomando sobre si os nossos sofrimentos por causa de sua comunhão conosco. Uma Apologia aos Cesarienses, Carta
Que tempestade no mar foi jamais tão feroz e selvagem quanto esta que se abate sobre as igrejas? Nela, todo marco dos Padres foi removido. Todo fundamento, todo baluarte de doutrina foi abalado. Tudo o que se sustentava sobre o que não era sólido é lançado de um lado a outro e derrubado. Atacamo-nos uns aos outros. Somos derrubados uns pelos outros. Se o inimigo não é o primeiro a ferir-nos, somos feridos pelo companheiro ao nosso lado. Se um soldado inimigo é golpeado e cai, seu próprio companheiro o pisoteia. Existe, ao menos, este laço de união entre nós: que odiamos os inimigos comuns; mas, mal o inimigo passou, já encontramos inimigos uns nos outros. E quem poderia fazer um catálogo completo de todos os naufrágios? Alguns foram ao fundo pelo ataque do inimigo, outros pela traição insuspeitada de seus aliados, outros ainda pelo erro de seus próprios oficiais. Vemos, por assim dizer, igrejas inteiras, com todas as suas tripulações, arremessadas e despedaçadas sobre os recifes submersos do ensino enganoso, enquanto outros, dentre os inimigos do Espírito de salvação, tomaram o leme e fizeram naufragar a fé.
Aqueles a quem as penas usuais não fazem voltar a si, e a quem nem sequer a exclusão das orações conduz ao arrependimento, devem ser submetidos aos cânones dados pelo Senhor. Pois está escrito: "Se teu irmão pecar, vai e mostra-lhe a sua falta, entre ti e ele a sós. Mas se ele não te ouvir, leva contigo ainda um ou dois. Se ele se recusar a ouvi-los, dize-o à igreja. E se ele se recusar a ouvir também a igreja, seja para ti como o gentio e o publicano." Ora, isto verdadeiramente se cumpriu no caso deste homem. Uma vez foi acusado; na presença de um ou dois foi convencido; uma terceira vez, na presença da igreja. Visto, pois, que solenemente lhe temos protestado e ele não se tem submetido, seja doravante excomungado. E que se anuncie a toda a aldeia que ele não deve ser admitido a nenhuma participação nas relações ordinárias da vida, de modo que, recusando-nos a conviver com ele, venha ele a tornar-se inteiramente pasto do demônio.
Certamente, o Senhor concede a autoridade para orar em todo lugar, nas palavras: "Mulher, crê-Me, vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai" (Jo 4,21). E as palavras do Apóstolo são legítimas, porque o vocábulo todo não inclui os lugares destinados ao uso humano ou a feitos humanos imundos e vergonhosos, mas abrange as regiões desde os confins de Jerusalém até todo lugar do mundo devidamente designado, em conformidade com a profecia do sacrifício, isto é, consagrado a Deus, para a celebração do glorioso mistério.
O cânon exclui absolutamente do ministério os que se casaram duas vezes.
Sua posição não deve suscitar sentimentos de soberba no superior, para que ele mesmo não perca a bênção prometida à humildade, ou "para que, ensoberbecido, não caia no juízo do diabo." As Regras Longas, q...
Cada um de nós, na verdade, instruído na Sagrada Escritura, é o administrador de algum daqueles dons que, segundo o Evangelho, nos foram repartidos. Nesta grande casa da Igreja não há somente vasos de toda espécie — de ouro, de prata, de madeira e de barro —, mas também uma grande variedade de ocupações vocacionais. A casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, tem caçadores, viajantes, arquitetos, construtores, lavradores, pastores, atletas, soldados.
Deve-se também estabelecer como essencial que a continência é exigida de modo inexorável dos que combatem pela piedade, a fim de que sujeitem o corpo, "pois todo atleta em tudo se domina a si mesmo". Contudo, para não sermos contados entre os inimigos de Deus, que têm a consciência cauterizada e que, por isso, se abstêm do alimento que Deus fez para que os fiéis dele participassem com ação de graças, devemos provar de cada iguaria quando se oferecer ocasião, a fim de mostrarmos aos que nos observam que "todas as coisas são puras para os puros" e que "toda criatura de Deus é boa, e nada há que se deva rejeitar, sendo recebido com ação de graças; pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração". O fim da continência, todavia, deve ser sempre tido em vista, de modo que satisfaçamos nossa necessidade com os alimentos mais simples e necessários para sustentar a vida, evitando o mal de nos fartarmos deles e abstendo-nos absolutamente daqueles alimentos cujo único propósito é dar deleite. As Regras Longas, q...
Isto, por certo, pareceu-me ridículo — fazer voto de abster-se de carne de porco. Ensina-os, portanto, a absterem-se de orações e promessas insensatas; permite, contudo, que o uso seja coisa indiferente. Nenhuma criatura de Deus que é recebida com ação de graças há de ser rejeitada. Portanto, o voto é ridículo; a abstinência não é necessária.
Certamente apenas uma mente infantil, como um bebê que só pode beber leite, ignora o grande mistério de nossa salvação. A educação progride gradualmente. A escola da justiça procura conduzir-nos à maturidade, ensinando-nos primeiro lições fáceis e elementares, ajustadas à nossa limitada inteligência. Depois Deus, que nos provê de todo bem, conduz-nos à verdade, acostumando gradualmente nossos olhos obscurecidos à Sua grande luz. Nas profundas riquezas de Sua sabedoria e nos insondáveis juízos de Sua inteligência, Ele poupa nossa fraqueza e prescreve um tratamento brando. Ele sabe que nossos olhos estão acostumados às sombras tênues, por isso Se utiliza delas primeiro.
Assim, pois, o guia superior deve ter em mente o preceito do apóstolo: "Sê exemplo para os fiéis." Deve fazer de sua vida um modelo resplandecente para a observância de cada mandamento do Senhor, de sorte que não haja escusa para os que estão sob sua direção pensarem que os mandamentos do Senhor são impossíveis ou facilmente postos de lado. Deve considerar, em primeiro lugar, aquilo que é primeiro em importância. Deve estar, pelo amor de Cristo, tão confirmado na humildade que, ainda que se cale, o exemplo de seus atos possa proporcionar instrução mais eficaz do que quaisquer palavras. Se, com efeito, o objetivo do cristianismo é a imitação de Cristo segundo a medida de sua encarnação, na medida em que se conforme à vocação de cada um, aqueles a quem se confia a direção de muitos outros são obrigados a animar, por seu auxílio, os ainda mais fracos que eles próprios, à imitação de Cristo.
Uma bondade fingida para com os iníquos é uma traição à verdade, um ato de perfídia contra a comunidade e um meio de habituar-se à indiferença ao mal…. "Aos que pecam, repreende-os na presença de todos", diz o apóstolo, e logo acrescenta a razão, dizendo, "para que também os demais tenham temor". As Regras Longas, Q...
Mas, se alguém quiser ter também misericórdia do próprio corpo, como de uma posse necessária à alma e cooperadora sua na condução da vida sobre a terra, ocupar-se-á das necessidades dele apenas na medida requerida para preservá-lo e mantê-lo vigoroso, mediante moderado cuidado a serviço da alma. De modo algum lhe permitirá tornar-se ingovernável pela saciedade. Sobre o Desapego, Homilia
Relembra a gloriosa profissão que fizeste diante de Deus, dos anjos e dos homens. Recorda a augusta companhia, o santo coro das virgens, a assembleia do Senhor e a igreja dos santos. Traze também à memória tua avó, envelhecida em Cristo mas ainda jovem e forte em virtude, e tua mãe, que com ela rivaliza no Senhor e se esforça, com labores novos e insólitos, por destruir hábitos antigos. Lembra-te também de tua irmã, que igualmente as imita e aspira a superá-las, e que, pela vantagem de sua virgindade, ultrapassa as ações virtuosas de suas maiores, e diligentemente te convoca, tanto por palavra quanto por vida, a ti, sua irmã, como ela pensava, a um certame de igual fervor. Recorda estas coisas, e também o coro angélico que com elas canta a Deus, a vida espiritual na carne e a vida celeste na terra.
Mas devemos avançar contra nossos opositores, no esforço de refutar as "oposições" levantadas contra nós, derivadas da "ciência falsamente chamada". Não é lícito, afirmam eles, que o Espírito Santo seja posto em igual ordem com o Pai e o Filho, por causa da diferença de sua natureza e da inferioridade de sua dignidade. Contra eles é justo responder com as palavras dos apóstolos: "Importa antes obedecer a Deus do que aos homens."
Por que meios nos tornamos cristãos? Pela fé, seria a resposta universal. E de que modo somos salvos? Evidentemente porque fomos regenerados pela graça que nos foi dada em nosso batismo. Como poderia ser de outro modo? E, tendo reconhecido que esta salvação se estabelece por meio do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, iremos lançar fora "aquela forma de doutrina" que recebemos? Não seria antes motivo de grande gemido se nos encontrássemos agora mais distantes de nossa salvação "do que quando primeiro cremos", e negássemos agora o que então recebemos?... E se alguém não guarda sempre e em todo lugar sua confissão inicial, nem se apega a ela como proteção segura?... E se alguém, tendo sido libertado "dos ídolos" para "o Deus vivo", agora se constitui a si mesmo "estranho" às "promessas" de Deus? Ele combate contra sua própria escritura, que registrou quando professou a fé. Para mim, meu batismo foi o princípio da vida, e aquele dia da regeneração, o primeiro dos dias. É evidente que a declaração confessada na graça da adoção é a mais honrosa de todas.
Não deve o cristão fazer ostentação de vestimenta ou de calçados, pois isto é, de fato, vã ostentação. Deve ele usar roupa de pouco custo para suas necessidades corporais. Não deve gastar nada além da necessidade real, nem por mera extravagância. Isto é um abuso. Não deve buscar a honra, nem reivindicar o primeiro lugar. Cada um deve preferir todos os outros a si mesmo. Não deve ser desobediente. Aquele que é ocioso, ainda que possa trabalhar, não deve comer. Além disso, aquele que se ocupa em alguma tarefa que é retamente destinada à glória de Cristo deve limitar-se à busca do trabalho dentro de sua capacidade.
Todas as coisas são dirigidas pela bondade do Senhor. Nada do que nos acontece deve ser recebido como algo aflitivo, ainda que no presente afete a nossa fraqueza. De fato, ainda que ignoremos as razões pelas quais cada acontecimento nos é aplicado como bênção pelo Senhor, devemos, contudo, estar convencidos disto: que o que sucede é certamente vantajoso, seja para nós, como recompensa da nossa paciência, seja para a alma que foi arrebatada, para que não, demorando-se demasiado nesta vida, viesse a encher-se do mal que existe neste mundo. Pois, se a esperança dos cristãos se limitasse a esta vida, por que razão a separação prematura do corpo seria considerada penosa? Se, porém, o início da verdadeira vida para os que vivem em Deus é a libertação da alma destas cadeias corporais, por que vos entristeceis, como aqueles que não têm esperança? Portanto, tende ânimo. Não sucumbais às vossas aflições, mas mostrai que sois superiores a elas e que vos elevastes acima delas.
Depois, porquanto fora livre de grande perigo, elevou ele [Davi] esta oração de ação de graças a Deus, que o resgatara. "Bendirei ao Senhor em todo o tempo." Tendo escapado da morte, como se estabelecesse normas para a sua vida, moldou a sua alma a um preciso modo de viver, de sorte que em tempo algum cessava do louvor, mas reportava a Deus o princípio de todas as coisas, grandes e pequenas. "Não hei de crer", diz ele, "que algo se fez por minha diligência, nem que sucedeu por acaso espontâneo, mas: Bendirei ao Senhor em todo o tempo, não somente na prosperidade da vida, mas também nos tempos precários." Disto se instruiu o apóstolo, quando disse: "Alegrai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo dai graças."
Para a oração e a salmodia, contudo, como também, na verdade, para alguns outros deveres, toda hora é conveniente, de modo que, enquanto nossas mãos estão ocupadas em suas tarefas, possamos louvar a Deus ora com a língua (quando isto é possível, ou antes, quando é propício à edificação); ou, se não, com o coração... Assim adquirimos um espírito recolhido — quando em toda ação pedimos a Deus o bom êxito de nossos trabalhos e satisfazemos nossa dívida de gratidão para com Aquele que nos deu o poder de realizar a obra, e quando, como já foi dito, mantemos diante de nossa mente o propósito de agradar-Lhe. Se assim não for, como poderá haver coerência entre as palavras do apóstolo, que nos ordena "orar sem cessar", e aquelas outras palavras: "trabalhamos noite e dia"? As Regras Longas, q. [-]
A renúncia perfeita, portanto, consiste em não ter afeição por esta vida e em manter sempre diante dos olhos da alma a "sentença de morte, para que não confiemos em nós mesmos". Mas um começo se faz desapegando-se de todos os bens exteriores: propriedade, vanglória, vida em sociedade, desejos inúteis, à imitação dos santos discípulos do Senhor. Tiago e João deixaram Zebedeu, seu pai, e o próprio barco de que dependia todo o seu sustento. Mateus deixou a sua coletoria e seguiu o Senhor, não apenas abandonando os lucros do seu ofício, mas também não fazendo caso algum dos perigos que decerto haveriam de recair, tanto sobre ele quanto sobre sua família, da parte dos magistrados, por ter deixado inacabados os registros dos tributos. A Paulo, finalmente, o mundo inteiro fora crucificado, e ele ao mundo.
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É vergonhoso, na verdade, que aqueles que estão enfermos no corpo depositem tamanha confiança nos médicos que, ainda que estes cortem, queimem ou lhes causem aflição com seus remédios amargos, os considerem benfeitores, ao passo que nós não temos esta mesma disposição para com os médicos de nossas almas quando estes nos asseguram a salvação por meio de laborioso disciplinamento. Diz, contudo, o apóstolo: "Quem é, pois, o que me alegra, senão o mesmo que por mim é entristecido." ... Convém, pois, àquele que atenta para o fim, considerar como benfeitor aquele que nos causa a dor que é segundo Deus.
A vida em comunidade oferece mais bênçãos do que se pode plena e facilmente enumerar. É mais vantajosa que a vida solitária, tanto para preservar os bens que Deus nos concedeu, quanto para repelir os ataques externos do Inimigo... Para o pecador, ademais, o afastar-se do seu pecado é muito mais fácil quando teme a vergonha de incorrer na censura de muitos que atuam em conjunto — a ele, com efeito, poderiam ser aplicadas as palavras: "Basta a esse tal esta repreensão feita por muitos" — e, para o justo, há grande e plena satisfação na estima do grupo e em sua aprovação da sua conduta.
Assim como a pena é instrumento de escrita quando a mão de pessoa experiente a move para registrar o que se escreve, também a língua do homem justo, quando o Espírito Santo a move, escreve as palavras da vida eterna nos corações dos fiéis, tingida "não em tinta, mas no Espírito do Deus vivo." O escriba, portanto, é o Espírito Santo, porque é sábio e apto mestre de todos. E o Espírito escreve velozmente, porque o movimento de sua mente é veloz. O Espírito escreve pensamentos em nós, "não em tábuas de pedra, mas em tábuas carnais do coração." Na proporção do tamanho do coração, o Espírito escreve nos corações mais ou menos, seja coisas evidentes a todos, seja coisas mais obscuras, segundo a pureza prévia do coração. Por causa da rapidez com que os escritos foram concluídos, todo o mundo agora está repleto do evangelho.
A diferença entre o espírito e a letra o apóstolo a explica sucintamente em outro lugar, comparando a lei e o evangelho, ao dizer: "Pois a letra mata, mas o espírito vivifica." Por "letra" entende a lei, como é evidente também pelo que precede e pelo que se segue. Por "espírito" entende a doutrina do Senhor, pois o próprio Senhor disse: "As minhas palavras são espírito e vida."
O homem que tem em vista o seu próprio bem maior será, portanto, particularmente solícito para com a sua alma, e não poupará esforços para mantê-la imaculada e fiel a si mesma. Se o seu corpo se consome pela fome, ou pela luta contra o calor e o frio, se é afligido pela doença ou sofre violência de alguém, pouca atenção lhe dará, e, fazendo eco às palavras de Paulo, dirá em cada uma das suas adversidades: "mas ainda que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o interior se renova de dia em dia." ... Mas, se o homem quiser também ter misericórdia do seu corpo, como de uma posse necessária à alma e cooperadora sua na condução da vida terrena, ocupar-se-á das suas necessidades apenas na medida requerida para preservá-lo e mantê-lo vigoroso, mediante um cuidado moderado, a serviço da alma.
Qual é o sinal daqueles que comem o pão e bebem o cálice de Cristo? Que conservem em perpétua memória aquele que morreu por nós e ressuscitou. Qual é o sinal daqueles que guardam tal memória? Que vivam não para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Qual é o sinal do cristão? Que sua justiça abunde em todas as coisas mais que a dos escribas e fariseus, segundo a regra da doutrina que foi transmitida no evangelho do Senhor. Qual é o sinal do cristão? Que se amem uns aos outros como Cristo nos amou. Qual é o sinal do cristão? Ter sempre o Senhor diante de seus olhos. Qual é o sinal do cristão? Vigiar diariamente e a cada hora, e estar preparado naquele estado de perfeição que é agradável a Deus, sabendo que, à hora que não pensar, o Senhor virá.
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Mas, se devemos prosseguir na discussão e fazer um estudo mais profundo, contemplemos, a partir daqui, sobretudo a divina potência do Espírito Santo. Encontramos na Escritura três criações mencionadas: a primeira, a passagem do não ser ao ser; a segunda, a mudança do pior para o melhor; e a terceira, a ressurreição dos mortos. Nestas hás de encontrar o Espírito Santo cooperando com o Pai e o Filho... Ora, o ser humano é criado uma segunda vez pelo batismo, "pois, se alguém está em Cristo, é nova criatura".
Em outra passagem, contemplando a benevolência ainda mais admirável de Deus em Cristo, ele diz: “Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nós nos tornássemos justiça de Deus nele.” Diante destas palavras e de outras semelhantes, estamos sob a mais estrita obrigação — a menos que tenhamos recebido em vão a graça de Deus — primeiramente, de nos libertarmos do domínio do diabo, que conduz aos males, mesmo contra a sua vontade, aquele que é escravo do pecado. Em segundo lugar, cada um de nós, depois de renunciar às satisfações presentes e de romper o apego a esta vida, deve tornar-se discípulo do Senhor, como Ele mesmo disse: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”
Encontra-se, na verdade, em perigo aquele homem que não põe diante de si, durante toda a sua vida, a vontade de Deus como sua meta, de modo que, na saúde, manifeste o labor do amor pelo seu zelo pelas obras do Senhor, e, na enfermidade, mostre paciência e alegre constância. O primeiro e maior perigo é que, por não fazer a vontade de Deus, ele se aparta do Senhor e se corta da comunhão com os seus próprios irmãos; o segundo, que ele se aventure, embora imerecedor, a reclamar parte nas bênçãos preparadas para os que são dignos. Aqui também devemos lembrar as palavras do apóstolo: “E, cooperando, vos exortamos a que não recebais em vão a graça de Deus.” E aqueles que são chamados a ser irmãos do Senhor não devem receber com espírito leviano tão grande graça divina, nem decair de dignidade tão alta por negligência em cumprir a vontade de Deus, mas antes obedecer ao mesmo apóstolo, que diz: “Eu, prisioneiro no Senhor, vos rogo que andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados.”
"Eis agora o tempo aceitável", diz o apóstolo, "eis agora o dia da salvação". Este é o tempo do arrependimento; a vida futura, o da recompensa. Agora é o tempo de perseverar; então será o dia da consolação. Agora Deus é o auxiliador daqueles que se desviam do mau caminho; então Ele será o inquisidor temível e infalível dos pensamentos, das palavras e das obras da humanidade. Agora gozamos da Sua longanimidade; então conheceremos o Seu justo juízo, quando ressurgirmos, uns para castigo sem fim, outros para a vida eterna, e cada um receberá segundo as suas obras.
Estas palavras indicam claramente um ato absolutamente proibido, desagradável a Deus e perigoso para quem ousasse cometê-lo.
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Aqui somos instruídos a maravilhar-nos com a inefável benevolência de Deus em Cristo Jesus, e, com temor ainda maior, a purificar-nos de toda mácula da carne e do espírito.
E por que te perturba a designação de "pobre"? Recorda tua natureza — que vieste nu ao mundo e nu novamente o deixarás. Que há mais desprovido que um homem nu? Não foste chamado de nada que seja pejorativo, a menos que tu mesmo tornes reais os termos empregados, aplicando-os a ti. Quem jamais foi arrastado ao cárcere por ser pobre? Não é ser pobre o que é repreensível, mas não suportar a pobreza com nobreza. Recorda que o Senhor, "sendo rico, fez-se pobre por amor de nós."
Se, pois, guardamos em reserva quaisquer posses terrenas ou riquezas perecíveis, a mente afunda como em lodo, e a alma inevitavelmente se torna cega para Deus e insensível ao desejo das belezas do céu e dos bens que nos estão reservados por promessa. Estes não podemos possuir a menos que um desejo forte e singelo nos leve a pedi-los e alivie o labor de sua conquista. Isto, pois, é a renúncia, tal como nosso discurso a define: a ruptura dos laços desta vida material e transitória, e a liberdade das preocupações humanas, pela qual nos tornamos mais aptos a empreender o caminho que conduz a Deus. É o ímpeto desimpedido rumo à posse e ao gozo de bens inestimáveis... Em suma, é a transferência do coração humano a um modo de vida celestial... Além disto — e este é o ponto principal — é o primeiro passo para a semelhança com Cristo, que, sendo rico, fez-se pobre por amor de nós. A menos que alcancemos esta semelhança, é-nos impossível realizar um modo de vida conforme ao evangelho de Cristo. Como, com efeito, poderíamos alcançar a contrição de coração, ou a humildade de mente, ou a libertação da ira, da dor, das ansiedades — em uma palavra, de todos os movimentos destrutivos da alma —, se estivermos enredados nas riquezas e nos cuidados de uma vida mundana, e apegados a outros por afeição e associação? As Regras Longas
Os que dão a contragosto ou por constrangimento apresentam um sacrifício manchado, o qual não deve ser aceito.
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Também aqui, quem examina minuciosamente cada palavra pode alcançar conhecimento muito exato do sentido da Sagrada Escritura, de modo que a nenhum de nós reste desculpa para ser levado ao laço do pecado por crença errônea de que alguns pecados são punidos enquanto outros podem ser cometidos impunemente. Pois que diz o apóstolo? — «destruindo os conselhos e toda altura que se ergue contra o conhecimento de Deus»; de sorte que todo pecado, por ser expressão de desprezo pela lei divina, é chamado «altura que se ergue contra o conhecimento de Deus».
Uma convenção muito perversa, contudo, nos extravia, e uma tradição humana pervertida é fonte de grande mal para nós; refiro-me àquela tradição segundo a qual alguns pecados são denunciados e outros são vistos com indiferença. Crimes como o homicídio e o adultério são objeto de uma indignação violenta, mas fingida, ao passo que outros, como a ira, ou a injúria, ou a embriaguez, ou a avareza, não são julgados dignos sequer de uma simples repreensão... E certamente, onde toda altura que se ergue contra o conhecimento de Deus é levada cativa à obediência de Cristo, e toda desobediência recebe justo castigo, ali nada resta por destruir.
Tal exercício é proveitoso não só para sujeitar o corpo, mas também para demonstrar caridade ao próximo, a fim de que, por meio de nós, Deus conceda suficiência aos fracos entre nós.
Não na quantidade do dinheiro, não no orgulho do poder, não na altura da glória se alcança a vitória, mas o Senhor concede livremente o Seu auxílio àqueles que O buscam por meio da aflição excessiva. Tal foi Paulo, que fez das suas aflições o seu motivo de glória. Por isso pôde dizer: "Quando estou fraco, então sou forte." ... Vedes a que vos conduz a aflição? À esperança que não decepciona.
Se oferecemos glória a Deus no Espírito, queremos dizer que é o Espírito quem nos capacita a cumprir as exigências da verdadeira religião. Segundo este uso, pois, dizemos que estamos no Espírito; mas também não é reprovável que alguém testemunhe: "o Espírito de Deus está em mim, e ofereço glória porque a sua graça me deu a sabedoria para tanto." Convêm aqui as palavras de Paulo: "Penso que também eu tenho o Espírito de Deus", e "guarda o depósito da verdade que te foi confiado pelo Espírito Santo que habita em nós."
Não se fala do Espírito e dos anjos como se fossem iguais. O Espírito é o Senhor da vida. Os anjos são nossos auxiliares, nossos conservos, testemunhas fiéis da verdade. É costume dos santos entregar os mandamentos de Deus na presença de testemunhas. Diz São Paulo a Timóteo: "o que ouviste de mim diante de muitas testemunhas, confia a homens fiéis." Ele pede aos anjos que testemunhem com ele, pois sabe que os anjos estarão presentes quando o Senhor vier na glória de seu Pai para julgar o mundo com justiça.
Onde está Cristo, o Rei? No céu, por certo. Nesta direção vos convém, soldado de Cristo, dirigir o vosso caminho. Esquecei todas as delícias terrenas. O soldado não edifica casa. Não aspira à posse de terras. Não se ocupa de negócios tortuosos, de mercadejar por dinheiro… O soldado goza do sustento que o rei lhe provê. Não precisa fornecer o seu próprio, nem se afligir a esse respeito.
Mas, se te colocares nas mãos de um homem rico em virtude, tornar-te-ás herdeiro das boas qualidades que ele possui, e serás sumamente bem-aventurado diante de Deus e dos homens. Se, ao contrário, para poupar o corpo, buscares um mestre que condescenda, ou antes, se degrade ao nível dos teus vícios, em vão suportaste a luta da renúncia, já que te entregaste a uma vida de satisfação das paixões, escolhendo um guia cego que te conduzirá à cova.
Tendo sido plantados juntamente com ele à semelhança da sua morte, seremos certamente ressuscitados juntamente com Cristo (pois o plantio implica esta eventualidade). Mas na vida presente, somos formados no homem interior segundo a medida da encarnação em novidade de vida e obediência até a morte, plenamente persuadidos da verdade das suas palavras, para que nos tornemos dignos de dizer com verdade: "E vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim." Que isto também vale para a vida futura, o mesmo apóstolo o afirmou vigorosamente nestas palavras: "Pois se morrermos com ele, também com ele viveremos. Se sofrermos, também com ele reinaremos." ...
"Seja reduzida a nada a maldade dos pecadores." Quem profere esta oração é manifestamente discípulo dos preceitos evangélicos. Ele ora pelos que o tratam com malícia, pedindo que a maldade dos pecadores seja circunscrita por um limite e uma fronteira determinados. Tal como se alguém, orando pelos que padecem no corpo, dissesse: "Cesse a doença dos que sofrem." A fim de que o pecado, avançando lentamente, não se espalhe como um câncer, visto que ele ama o seu inimigo e deseja fazer bem aos que o odeiam, e por esta razão ora pelos que o tratam com malícia, ele roga a Deus que cesse o ulterior derramamento do pecado e que este tenha limites determinados.
Cada um de nós, na verdade, instruído na sagrada Escritura, é administrador de algum daqueles dons que, segundo o evangelho, nos foram repartidos. Nesta grande casa da igreja, não há apenas vasos de toda espécie — de ouro, de prata, de madeira e de barro —, mas também uma grande variedade de ocupações.
O Deus infinito, permanecendo imutável, assumiu a carne e combateu a morte, libertando-nos do sofrimento por meio de seu próprio sofrimento!... Ele mesmo amarrou o forte e saqueou os seus bens — isto é, a nós, que havíamos sido rebaixados por toda sorte de mal — e nos fez vasos aptos para o uso do Senhor, ficando o exercício de nosso livre-arbítrio disposto para toda boa obra.
Não deve o superior administrar repreensão aos que erram quando as suas próprias paixões estão despertas. Ao admoestar um irmão com ira e indignação, não o livra das suas faltas, mas se envolve ele mesmo no erro... Nem tampouco deve irar-se veementemente quando ele próprio é tratado com desprezo. Quando vir tal tratamento infligido a outrem, deve novamente mostrar-se indulgente para com o pecador; mas, mais que isso, deve, nesse último caso, manifestar desagrado pelo mal cometido.
O apóstolo também mostrou quanto se deve temer a incontinência, incluindo-a entre os sinais da apostasia, quando disse: "Nos últimos dias virão tempos perigosos. Os homens serão amantes de si mesmos." Depois, enumerando várias formas de iniquidade, acrescenta: "caluniadores, incontinentes." Também por ter vendido seu direito de primogenitura por uma porção de alimento, Esaú foi acusado de incontinência como o maior dos males. A primeira desobediência sobreveio aos homens como consequência da incontinência. As Regras Longas, q...
“Volta, ó minh’alma, para o teu repouso: porque o Senhor te fez merecês.” O bravo atleta aplica a si mesmo estas palavras de consolação, muito semelhantes às de Paulo, quando diz: “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé. Quanto ao mais, está-me reservada a coroa da justiça.” Estas mesmas coisas o profeta diz a si próprio: já que cumpriste suficientemente a carreira desta vida, volta então para o teu repouso, “porque o Senhor te fez merecês.” Pois um repouso eterno espera aqueles que combateram através da vida presente na observância das leis, repouso este que não é dado como pagamento de uma dívida devida às suas obras, mas concedido como graça do Deus munificente àqueles que nEle esperaram.
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Em verdade, ambos os nossos ouvidos zuniram ao saber da heresia desavergonhada e desumana daqueles que vos perseguiram. Não tiveram respeito nem pela idade, nem pelos trabalhos de uma vida bem vivida, nem pelo afeto do povo. Antes, torturaram e desonraram corpos, entregaram-nos ao exílio e saquearam quantos bens puderam encontrar, não temendo a censura dos homens nem prevendo a terrível retribuição do justo Juiz... Mas, juntamente com estas considerações, ocorreu-nos também este pensamento: Não terá o Senhor abandonado inteiramente as suas igrejas? E não será esta a última hora? Estará a apostasia encontrando entrada por meio delas, para que agora se revele o ímpio, «o filho da perdição, que se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é adorado»? Mas, se a provação é passageira, suportai-a, nobres campeões de Cristo... Pois, se toda a criação é destruída e a ordem do mundo é alterada, que espanto há em que também nós, sendo parte da criação, soframos os males comuns e sejamos entregues às aflições? ... As coroas dos mártires vos esperam, irmãos; os coros dos confessores estão prontos a estender-vos as mãos e a receber-vos em seu próprio número.
Ora, se a boa ordem, com a harmonia que a acompanha, é própria daqueles que olham para uma só fonte de autoridade e estão sujeitos a um só rei, então a desordem e a desarmonia universais são sinal de que falta liderança. Pela mesma razão, se descobrimos em nosso meio uma discórdia tal como a que mencionei, tanto uns para com os outros quanto no tocante aos mandamentos do Senhor, isso seria ou uma acusação contra nós, ou nossa rejeição do verdadeiro rei. Isso concorda com o dito escriturístico: "somente que aquele que agora o detém o fará até que seja tirado do meio", ou com a negação dele, segundo o salmista: "Disse o insensato em seu coração: Não há Deus."
Em resposta à objeção de que a doxologia na forma "com o Espírito" não tem autoridade escrita, sustentamos que, se não houvesse nenhum outro exemplo daquilo que não é escrito, então isto não deveria ser recebido. Mas se a maior parte dos nossos mistérios é admitida em nossa constituição sem autoridade escrita, então, em companhia de tantos outros, recebamos também este. Pois considero apostólico ater-se também às tradições não escritas. "Eu vos louvo," diz-se, "porque em tudo vos lembrais de mim e guardais os preceitos como vo-los entreguei," e "Retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por nossa epístola."
Estamos convencidos de que a ação empreendida por um ou dois homens piedosos é realizada pelo conselho do Espírito. Visto que nenhum motivo humano se põe diante de seus olhos, e os homens santos são movidos à ação não com a mira da vantagem pessoal, mas depois de terem proposto a si mesmos aquilo que é agradável a Deus, é evidente que é o Senhor quem dirige os seus corações. E sempre que homens espirituais são os iniciadores de planos, e o povo do Senhor os segue em harmonia de pensamento, quem duvidará de que o plano foi alcançado em comunhão com nosso Senhor Jesus Cristo, que derramou o Seu sangue pelas igrejas? Cartas
[Paulo] diz: «Sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com Ele, para que o corpo do pecado seja destruído, a fim de que não sirvamos mais ao pecado.» Por estas palavras somos ensinados que aquele que é batizado em Cristo é batizado na Sua morte, e não somente é sepultado com Cristo e com Ele plantado, mas antes de tudo é com Ele crucificado. Assim somos instruídos que, do mesmo modo que aquele que é crucificado é separado dos vivos, também aquele que foi crucificado com Cristo à semelhança da Sua morte é inteiramente apartado daqueles que vivem segundo o velho homem. Por isso o Senhor nos ordenou que nos guardássemos dos falsos profetas, e o Apóstolo diz: «E vos ordenamos, irmãos, que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebeu.» O «velho homem» de que fala o Apóstolo significa todo pecado e toda mácula, tomados individual e coletivamente, como se representassem os seus próprios membros.
«E agora permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três; porém a maior delas é a caridade.» Diante de tais declarações, tanto da parte de nosso Senhor quanto do Apóstolo, admiro-me, digo eu, de como os homens manifestam tanto zelo e tão intensa absorção na busca de bens que hão de ter fim e perecer, e não têm nenhuma consideração por aquilo que há de permanecer, especialmente a caridade, o maior de todos os bens, a marca distintiva do cristão. E não somente isto, mas mostram hostilidade para com aqueles que se esforçam em sua prática, e, combatendo contra eles, cumprem as palavras do Senhor, a saber, que eles mesmos não entram, e aos que estão entrando, impedem. Rogo-vos e suplico-vos, pois, que vos contenteis com as palavras dos santos e do próprio Senhor. Desisti das indagações curiosas e das controvérsias impróprias. Pensai nas coisas que são dignas da vossa vocação celestial. Vivei de maneira condigna ao evangelho de Cristo, apoiados na esperança da vida eterna e do reino celestial preparado para todos os que guardam os mandamentos de Deus Pai, segundo o evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor, em Espírito Santo e em verdade.
Desta maneira adquirimos um espírito recolhido — quando em cada ação suplicamos a Deus o bom êxito de nossos labores e saldamos nossa dívida de gratidão para com Aquele que nos deu o poder de realizar a obra, e quando, como já foi dito, conservamos diante da mente o propósito de agradar-Lhe. Se assim não fosse, como poderia haver coerência entre as palavras do apóstolo que nos ordena "orar sem cessar" e aquelas outras palavras: "trabalhamos noite e dia"? A ação de graças em todo tempo foi ordenada já pela própria lei, e mostrou-se necessária à nossa vida tanto pela razão quanto pela natureza. Não devemos, pois, ser negligentes em observar aquelas horas de oração costumeiramente estabelecidas nas comunidades — horas que foram necessariamente escolhidas porque cada período contém, à sua maneira própria, uma lembrança peculiar dos benefícios recebidos de Deus. Regras Longas, q...
Mas por que haveríamos de deter-nos sobre a quantidade de mal que há na ociosidade, quando o apóstolo especifica claramente que aquele que não trabalha não deve comer? Assim como o sustento diário é necessário a todos, também o labor, na medida das forças de cada um, é igualmente essencial. Salomão escreveu eloquentemente em louvor ao trabalho árduo: "E não comeu o seu pão ociosamente." E, de novo, diz o apóstolo de si mesmo: "nem comemos de graça o pão de ninguém, mas com labor e fadiga trabalhamos noite e dia." Contudo, visto que pregava o evangelho, tinha ele o direito de receber seu sustento do evangelho. ... Temos, pois, razão para temer que, porventura, no dia do juízo, também esta falta nos seja imputada, uma vez que Aquele que nos dotou da capacidade de trabalhar exige que nosso labor seja proporcional à nossa capacidade. Pois diz o Senhor: "A quem muito foi confiado, muito se exigirá dele." Regras Longas, q...
Isto também devemos ter em mente: que aquele que trabalha deve desempenhar sua tarefa não com o propósito de prover às suas próprias necessidades, mas para que cumpra o mandamento do Senhor: "Tive fome, e destes-me de comer", e assim por diante. Cuidar de si mesmo é estritamente proibido pelo Senhor nas palavras: "Não vos preocupeis com vossa vida, sobre o que haveis de comer, nem com vosso corpo, sobre o que haveis de vestir", e acrescenta: "porque os gentios é que buscam todas essas coisas". Cada um, portanto, ao realizar seu trabalho, deve colocar diante de si o propósito de servir aos necessitados, e não a própria satisfação. Assim escapará da acusação de amor-próprio e receberá do Senhor a bênção devida à caridade fraterna, do qual disse: "Enquanto o fizestes a um destes, o menor de meus irmãos, a mim o fizestes". Tampouco deve alguém pensar que o Apóstolo está em desacordo com nossa regra quando diz "que, trabalhando, comessem o próprio pão". Isto é dirigido aos desordeiros e indolentes, e significa que é melhor que cada um proveja ao menos a si mesmo, e não seja pesado para os outros, do que viver na ociosidade. As Regras Longas, q...
assim como diz o anjo que anunciou as boas-novas aos pastores: 'Hoje vos nasceu um Salvador, que é Cristo, o Senhor.' (Lc 2:11)
A fé é superior aos métodos racionais quando se trata de atrair a alma ao assentimento. Não é a necessidade lógica das provas dedutivas que engendra a fé, mas a operação do Espírito. Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te e anda! [At 3.6]. O que se seguiu a este mandato foi obra do Espírito, e os que testemunharam este milagre viram-se compelidos a confessar a divindade do Unigênito. Dize-me: que é mais compelente ao assentimento — um conjunto complicado de premissas silogísticas que encerram a conclusão lógica, ou um milagre claramente visto, tão grande que ultrapassa tudo quanto é humanamente possível? Contudo, presentemente, tais coisas não são tidas em grande estima. Com efeito, o que agora inspira confiança ao tratar-se de Deus não são as obras do Espírito, mas antes demonstrações elaboradas que depositam sua esperança na plausibilidade da sabedoria do mundo, e não na revelação poderosa e clara do Espírito. Foi por meio daqueles que criam em Deus em simplicidade de coração, sem se entregarem a investigações vãs, que o Espírito concedeu esta revelação para a salvação de muitos. — "Sobre o Salmo 115, Capítulo 1."
Nomear a Cristo é confessar o todo, pois é apontar para Deus [o Pai], que ungiu o Filho; e para o Filho, que foi ungido; e para a própria unção, que é o Espírito. Isto concorda com o ensinamento de Pedro em Atos: "Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo" (At 10,38), e com o ensinamento de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu" (Is 61,1). O Salmista diz simplesmente: "Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria" (Sl 45,7). — "Sobre o Espírito Santo, 12"
Pois Ele mesmo amarrou o forte e roubou os seus bens, isto é, a própria humanidade, a quem o nosso inimigo abusara em toda espécie de má atividade. Deus criou "vasos aptos para o uso do Senhor", isto é, nós, que fomos aperfeiçoados para toda boa obra mediante a preparação daquela parte de nós que está sob nosso próprio domínio. Assim obtivemos o nosso acesso ao Pai por meio d'Ele, sendo trasladados "do poder das trevas para participarmos da herança dos santos na luz".
Considerai também estas palavras: "À nossa imagem". Que dizeis a isto? Certamente a imagem de Deus e a dos anjos não são a mesma. Ora, é absolutamente necessário que a forma do Filho e a do Pai sejam a mesma, entendida a forma, é claro, como convém ao divino, não segundo figura corpórea, mas segundo as propriedades próprias da Divindade…. A quem Ele diz: "À nossa imagem"? A quem senão ao "resplendor de sua glória e imagem de sua substância", que é "a imagem do Deus invisível"? Homilias sobre o Hexâmeron
Pois a verdadeira paz está lá no alto. Contudo, enquanto estivemos atados à carne, fomos jungidos a muitas coisas que nos perturbavam. Busca, então, a paz, uma libertação das perturbações deste mundo. Possui uma mente serena, um estado de alma tranquilo e desimpedido, que não seja agitado pelas paixões nem arrastado por falsas doutrinas que, com sua persuasão, desafiam o assentimento — a fim de que alcances "a paz de Deus, que excede todo entendimento e guarda o teu coração." Aquele que busca a paz busca a Cristo, porque "Ele mesmo é a nossa paz", o qual fez de dois homens um só homem novo, fazendo a paz, e "fazendo a paz pelo sangue de sua cruz, seja na terra, seja nos céus."
Há, contudo, uma certa outra vida, à qual estas palavras nos chamam; e, ainda que ao presente os nossos dias sejam maus, há outros que são bons, os quais a noite não interrompe; pois Deus será sua luz sempiterna, resplandecendo sobre eles com a luz de Sua glória. Por conseguinte, quando ouvires falar dos dias bons, não penses que é esta tua vida presente que se propõe nas promessas. Com efeito, estes dias presentes são os dias corruptíveis, que o sol sensível produz; mas nada corruptível poderia convenientemente ser dom para o incorruptível. "Este mundo, tal como o vemos, está passando." Portanto, visto que a lei tem alguma sombra dos bens futuros, considera, peço-te, os sábados presentes como agradáveis e santos, na medida em que foram trazidos dos dias eternos, e as luas novas, e as festas. Mas olha para eles, peço-te, de modo próprio à lei espiritual.
Não busqueis nada com ouro exterior e adorno corporal; mas considerai a veste como digna de adornar aquele que é segundo a imagem do seu Criador, como diz o Apóstolo: “Despojando-vos do velho homem, e revestindo-vos do novo, que se vai renovando para pleno conhecimento, ‘segundo a imagem daquele que o criou’.” E aquele que se revestiu de “entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, paciência e mansidão” está vestido interiormente e adornou o homem interior.
Todos os escravos fugitivos que buscam refúgio em comunidades religiosas devem ser admoestados e enviados de volta a seus senhores em melhor disposição de ânimo, segundo o exemplo de São Paulo que, embora houvesse gerado Onésimo pelo evangelho, o reenviou a Filemom. Paulo o havia convencido de que o jugo da escravidão, suportado de maneira agradável ao Senhor, o tornaria digno do reino dos céus. Paulo não apenas exortou Filemom a anular a ameaça contra seu servo, tendo em mente as próprias palavras do Senhor: "Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará as vossas ofensas." Mas também, para que Filemom se dispusesse mais benignamente para com Onésimo, Paulo escreve: "Pois talvez ele se tenha apartado de ti por algum tempo, para que o recebesses de volta para sempre, não já como servo, mas, em vez de servo, como irmão caríssimo." Se, todavia, se tratar de um senhor perverso que dá ordens ilícitas e força o escravo a transgredir o mandamento de nosso Senhor, o Senhor Jesus Cristo, então é nosso dever opor-nos a ele, para que o nome de Deus não seja blasfemado por esse escravo, ao praticar um ato desagradável a Deus. As Regras Maiores, q...
É manifesto que o Senhor acolheu os sentimentos naturais para confirmar que sua humanidade era real e não ilusória; mas os sentimentos que provêm da maldade, todos aqueles que maculam a pureza de nossa vida, ele repudiou como indignos de sua imaculada Divindade.
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Arrastamos o nosso corpo como uma sombra sobre a terra, mas guardamos a nossa alma como aquela que participa da cidadania do céu.
"Crucificamos" a carne, decerto, sendo batizados na água do batismo, que é semelhança da cruz e de sua morte, de seu sepultamento e de sua ressurreição, como está escrito.
Este Verbo não é um verbo humano. Pois como poderia existir no princípio um verbo humano, tendo o homem recebido o princípio de sua geração em último lugar? Portanto, não existia no princípio um verbo humano, nem tampouco dos Anjos; pois toda criatura está dentro dos limites dos séculos, tomando do Criador o princípio de seu ser. Mas ouça o Evangelho de modo conveniente: ele mesmo chamou o Unigênito de Verbo.
Por que, então, Verbo? Porque nasceu impassivelmente; porque é imagem do que O gerou, manifestando todo o Pai em Si mesmo, nada separando dEle, mas existindo perfeito em Si mesmo.
Nosso verbo exterior tem também certa semelhança com o Verbo divino: pois nosso verbo manifesta toda a concepção da mente, já que aquilo que concebemos na mente, o expressamos por meio do verbo. E certamente nosso coração é como uma fonte, e o verbo proferido é como um pequeno rio que flui dele mesmo.
O Espírito Santo previu que surgiriam alguns invejosos da glória do Unigênito, que apresentariam sofismas para a subversão dos ouvintes: como se, por ter sido gerado, Ele não existisse; e antes de ser gerado, não existia. Para que ninguém, pois, ousasse tagarelar tais coisas, o Espírito Santo diz: "No princípio era o Verbo"(São João 1,1).
Novamente ele repete este "era" por causa dos que blasfemam ao dizer que houve um tempo em que Ele não existia. Onde, então, estava o Verbo? As coisas ilimitadas não são contidas em espaço. Onde estava Ele então? Com Deus. Pois nem o Pai está limitado por lugar, nem o Filho está contido por qualquer circunscrição.
Assim, pois, excluindo a acusação dos que blasfemam e dos que perguntam o que é o Verbo, responde: "E o Verbo era Deus".
Diz, pois, do altar do incenso, porque havia outro altar destinado aos holocaustos.
Os espíritos celestiais vêm até nós, não como de si mesmos, mas por contemplarem a beleza da sabedoria divina; de onde segue: foi enviado o Anjo Gabriel por Deus.
O Senhor, porém, não se sentou no trono material de David, tendo sido transferido o reino judaico para Herodes; mas chama de trono de David aquele no qual o Senhor se assentou, um reino indissolúvel; donde segue: e reinará na casa de Jacó eternamente.
O conhecimento é dito de muitas maneiras: pois chama-se conhecimento a sabedoria de nosso Criador, e a notícia de suas grandes obras, bem como a observância dos mandamentos, e a aproximação que se faz junto a Ele, e a união nupcial, como aqui se entende.
Por isso também São Paulo diz que Deus enviou seu Filho nascido, não por mulher, mas de mulher. Pois quando digo "por mulher", poderia indicar uma ideia transitória do nascimento; mas quando se diz "de mulher", manifesta-se claramente a comunhão de natureza entre o filho gerado e a mãe.
Pois a Virgem, com intenção sublime e especulação profunda, contemplando a imensidade do mistério, como que avançando mais profundamente, magnifica a Deus; por isso se diz: E Maria disse: A minha alma magnifica ao Senhor.
O primeiro fruto do Espírito é a paz e a alegria. Porque, portanto, a santa Virgem havia bebido para si toda a graça do Espírito, merecidamente acrescenta: e o meu espírito exultou em Deus, meu Salvador. O mesmo ela diz de alma e espírito. A palavra exultação, tão habitual nas Escrituras, insinua certo estado alegre e jubiloso da alma naqueles que são dignos. Por isso a Virgem exulta no Senhor com inefável palpitar do coração e com o resultado de um honesto afeto manifestado. Segue-se: em Deus, meu Salvador.
Mas se em algum momento a luz penetrar em seu coração, e ao amar a Deus e desprezar as coisas corporais ele tiver alcançado, por meio daquela obscura e breve imagem, a perfeita consciência dos justos, sem qualquer dificuldade obterá alegria no Senhor.
O nome de Deus é chamado santo, não porque em suas sílabas contenha alguma virtude significativa, mas porque de qualquer modo que contemplemos a Deus, reconhecemos sua santidade e pureza.
O presente texto certamente nos orienta mesmo quanto às coisas sensíveis, ensinando-nos a incerteza das coisas mundanas. Pois são caducas, como uma onda que é espalhada de um lado para outro pelo ímpeto dos ventos. Tomando-o intelectualmente, o gênero humano tinha fome, com exceção dos judeus: a estes, de fato, havia enriquecido a tradição da lei e os ensinamentos dos santos profetas. Mas porque não aderiram humildemente ao Verbo humanado, foram deixados vazios, nada levando consigo, nem fé, nem ciência; e foram privados da esperança dos bens, e excluídos tanto da Jerusalém terrena quanto da vida futura. Mas aqueles dentre os gentios que a fome e a sede haviam consumido, tendo aderido ao Senhor, foram repletos de bens espirituais.
Israel significa não o Israel material, que somente o nome enobrecia, mas o espiritual, que mantinha o nome da fé, tendo os olhos dirigidos a Deus para vê-lo pela fé. Pode também referir-se ao Israel carnal, visto que dele muitos creram. Isto fez recordando-se de sua misericórdia: pois cumpriu o que prometeu a Abraão, dizendo: "porque em tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra". Recordando-se desta promessa, a Mãe de Deus dizia "como falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre". Pois a Abraão foi dito: "Estabelecerei meu pacto entre mim e ti, e entre tua descendência depois de ti em suas gerações, por uma aliança eterna, para que eu seja teu Deus e o da tua descendência depois de ti".
Ninguém, porém, ouvindo que o Senhor jurou a Abraão, seja inclinado a jurar: pois assim como a ira dita a respeito de Deus não significa paixão, mas punição; assim também Deus não jura como o homem, mas sua palavra nos é expressa em lugar de juramento para a verdade, aprovando com sentença imutável o que foi prometido.
Pois tenebrosa era a plebe dos gentios, que estava oprimida pelo culto aos ídolos, até que a luz nascente dispersou a escuridão e expandiu o esplendor da verdade.
Se examinardes as vozes dos justos, encontrareis que todos gemem sobre este mundo e sua lastimosa demora. "Ai de mim", diz Davi, "que a minha peregrinação se prolongou!"
O sinal da contradição é chamado propriamente de cruz na Escritura. Pois Moisés, diz, fez uma serpente de bronze, e a colocou como sinal.
Pois é um sinal que indica algo admirável e oculto, que é visto pelos mais simples, mas compreendido por aqueles que possuem intelecto exercitado.
Podemos também dizer: que assim como pelo número sete, também pelo doze, (que consiste das partes do sete multiplicadas alternadamente entre si), designa-se a universalidade e perfeição das coisas ou dos tempos; e por isso, para ensinar que todos os lugares e tempos sejam ocupados, com razão o fulgor de Cristo toma seu início a partir do número doze.
Mas desde a sua primeira idade, obedecendo aos seus pais, suportou todo trabalho corporal humilde e reverentemente. Pois como fossem pessoas honestas e justas, contudo pobres e sofrendo com a escassez do necessário (como testifica o presépio que serviu ao venerável parto), é manifesto que continuamente se empenhavam em trabalhos corporais, buscando para si o necessário para a vida. Jesus, porém, obedecendo-lhes, como testifica a Escritura, também em suportar os trabalhos, sustentou uma sujeição plena.
E porque a senda é um caminho que os precedentes haviam pisado, e que os primeiros homens haviam corrompido, a palavra ordena àqueles que se afastam do zelo dos seus predecessores que a endireitem novamente.
Mas assim como os outeiros diferem dos montes em relação à altura, sendo iguais em outras coisas, assim também as potestades adversas concordam no propósito, mas distinguem-se umas das outras pela enormidade de suas ofensas.
Convém, porém, saber que estes nomes natus e filius são ditos dos animais; enquanto genimen pode ser chamado o feto antes que seja formado; também os frutos das palmeiras são chamados genimina; raramente, porém, são aplicados aos animais, e sempre em sentido negativo.
Pois não é a capacidade do pai para a corrida que torna o cavalo veloz; mas assim como a qualidade dos outros animais é considerada em cada indivíduo, do mesmo modo o louvor próprio do homem é discernido pela comprovação dos méritos presentes que nele se encontram. De fato, é vergonhoso alguém adornar-se com honras alheias quando a virtude própria não o embeleza.
Mas aqui somos ensinados que, de tudo aquilo que excede a necessidade do próprio sustento, estamos obrigados a dar àquele que não tem, por amor a Deus, que nos concedeu generosamente tudo o que possuímos.
Mas, pelo fato de dizer "Ele vos batizará no Espírito Santo", que ninguém considere válido o batismo no qual só foi invocado o nome do Espírito: pois é necessário que a tradição estabelecida permaneça sempre intacta na graça vivificante. Porque acrescentar ou diminuir qualquer coisa exclui da vida perpétua; pois assim como cremos, assim também recebemos o batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Eles, porém, se misturam àqueles que são dignos do reino dos céus, como a palha com o trigo; contudo, não o fazem por consideração à caridade divina e do próximo, seja por meio de dons espirituais, seja por benefícios corporais.
Pois não provocando o inimigo com palavras, mas incitando-o com obras, Ele busca o deserto: porque o Diabo se deleita no deserto, não suporta estar nas cidades, entristece-se com a concórdia dos cidadãos.
Ou o Senhor permaneceu por quarenta dias sem ser tentado; pois o Diabo sabia que Ele jejuava e não tinha fome, e por isso não ousava aproximar-se; donde segue: e nada comeu naqueles dias: jejuou, de fato, mostrando que, para aquele que deseja preparar-se para as lutas das tentações, a sobriedade é necessária.
Mas, no entanto, não se deve usar a carne de tal modo que, pela falta de alimento, seu vigor natural seja enfraquecido; nem de maneira que o intelecto seja conduzido ao entorpecimento extremo por meio do excesso de debilitação. Por isso, nosso Senhor realizou isto uma só vez, mas durante todo o tempo seguinte governou seu corpo com a devida ordem; e do mesmo modo fizeram Moisés e Elias.
Mas, porque não ter fome está acima da natureza humana, o Senhor assumiu a paixão da fome, indicando que ela não é pecado, e concedeu, quando quis, à natureza humana padecer e agir o que lhe é próprio; donde segue: e consumados aqueles dias, teve fome, não forçado pela necessidade que governa a natureza, mas como que provocando o Diabo para o duelo. Pois, percebendo o Diabo que onde há fome, há fraqueza, aproxima-se para tentar; e como inventor de tentações, persuadia a Cristo, que padecia fome, a satisfazer o apetite com pedras; donde segue: Disse-lhe, pois, o Diabo: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão.
Mas Cristo, dissipador das tentações, não afasta da natureza a fome, pelo que segue: e respondeu a ele Jesus: está escrito que não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra de Deus.
Ou vem sanar os contritos de coração, isto é, dar remédio àqueles que têm o coração contrito por Satanás através do pecado: porque mais do que qualquer outra coisa, o pecado prostra o coração humano.
Pois quando viu que da saciedade se gerava não pouco opróbrio, através da fome lhes trouxe o jejum, pelo qual conteve a culpa deles, que crescia desmedidamente. Os corvos, porém, tornaram-se ministros de alimento para o justo, eles que costumavam usurpar o alimento dos outros.
Toda alma viúva e privada da virtude e do conhecimento divino, após receber o verbo divino, reconhecendo os próprios delitos, aprende a nutrir a palavra com os pães das virtudes e a irrigar a doutrina da verdade com a fonte da vida.
Neste ponto, São Lucas falou figurativamente, como se fosse um precepto feito a um ser animado sensível, dizendo assim que foi dado um comando à febre, e que a febre não omitiu a operação daquele que ordenava; por isso segue: e imediatamente levantando-se, os servia.
E não somente abandonou os lucros da coletoria de impostos, mas também desprezou os perigos que poderiam sobrevir a ele e aos seus por deixar incompletas as contas da arrecadação.
Os filhos do Esposo também não podem jejuar, isto é, não tomar o alimento da alma, mas viver de toda palavra que procede da boca de Deus.
Porém, nem todo aquele que é oprimido pela pobreza é bem-aventurado, mas sim aquele que preferiu o preceito de Cristo às riquezas mundanas. Pois muitos são pobres em seus bens, mas avarísimos em suas disposições; a estes a pobreza não salva, mas suas inclinações os condenam. Pois nada involuntário merece a bem-aventurança, visto que toda virtude é caracterizada pela liberdade da vontade. Bem-aventurado, portanto, é o pobre como discípulo de Cristo, que suportou a pobreza por nós. Pois o próprio Senhor realizou toda obra que conduz à felicidade, apresentando-se como exemplo aos que aprendem.
Mas Ele promete o riso aos que choram, não certamente o som emitido pelas mandíbulas, mas uma alegria pura e não misturada com qualquer tristeza.
Além disso, o termo "grande" às vezes tem um significado absoluto; como grande é o céu, e grande é a terra; mas às vezes tem uma relação com algo: como grande cavalo e grande boi em comparação com seus semelhantes. Assim, julgo que será grande a recompensa reservada àqueles que sofrem opróbrios por causa de Cristo, não como em comparação com as coisas que estão entre nós, mas sendo em si mesma grande, e como concedida por Deus.
Que a razão da abstinência seja necessária, é evidente pelo fato de que o apóstolo a enumera entre os frutos do espírito. Pois a sujeição do corpo não se obtém por outro meio senão pela abstinência; com a qual, como com um certo freio, convém conter o fervor da juventude. É, portanto, a abstinência a destruição do crime, a remoção das paixões, o início da vida espiritual, embotando em si o aguilhão das seduções. Mas para que não ocorra coincidência com os inimigos de Deus, convém aceitar qualquer coisa quando o tempo exigir, para mostrar que para os puros todas as coisas são puras; dirigindo-se certamente às necessidades da vida, abstendo-se porém totalmente daquelas coisas que induzem ao prazer. Contudo, nem todos podem estabelecer para si a mesma hora, nem o modo, nem a medida. Seja, porém, comum a intenção de não esperar a repleção; pois encher o ventre torna o próprio corpo inútil para suas próprias operações, sonolento e disposto ao dano.
Como o Senhor repreende agora os que riem, é evidente que nunca haverá tempo de riso para o fiel; e principalmente em meio a tão grande multidão daqueles que morrem em pecado, pelos quais convém chorar. O riso excessivo é sinal de imoderação e de um movimento desenfreado da alma; mas expressar o sentimento da alma até a alegria do semblante não é indecoroso.
É certamente próprio do inimigo prejudicar e armar ciladas. Portanto, todo aquele que de qualquer modo causa dano a alguém, é chamado seu inimigo.
Mas porque o homem consiste de corpo e alma, segundo a alma, de fato, faremos o bem, repreendendo e admoestando tais homens, e conduzindo-os pela mão à conversão; mas segundo o corpo, beneficiando-os nas necessidades da vida. Segue-se: bendizei aos que vos maldizem. Pois os que ferem suas próprias almas são dignos de lágrimas e prantos, não de maldições. Nada é mais detestável que uma alma maldizente, nem mais impuro que uma língua que profere maldições. És homem; não vomites veneno de áspides, nem te transformes em fera. Foi-te dada uma boca não para morder, mas para curar as feridas dos outros. Mas ordenou-nos que contássemos nossos inimigos no rol de nossos amigos, não de quaisquer, mas dos mais próximos, pelos quais costumamos orar; donde segue: orai pelos que vos perseguem. Contudo, muitos, ao contrário, prostrando-se e batendo com a fronte na terra, e estendendo as mãos, não oram a Deus pelos seus crimes, mas contra seus inimigos; o que nada mais é do que traspassar a si mesmo. Quando tu, que Ele proibiu de orar contra os inimigos, suplicas que te ouça amaldiçoando os inimigos, como é possível seres ouvido, quando provocas aquele que há de escutar-te, ferindo o inimigo na presença do rei, se não com as mãos, certamente com palavras? Que fazes, ó homem? Estás para obter o perdão dos teus pecados, e enches tua boca de amargura. É tempo de clemência, de oração e de gemidos, não de furor.
Quase todos nós, porém, agimos contra este mandamento; e especialmente os poderosos ou príncipes, não apenas se sofreram insultos, mas também se não lhes foi prestada reverência, considerando adversários todos aqueles que os reverenciaram menos do que julgaram ser dignos. Contudo, é uma grande infâmia para um príncipe estar pronto à vingança: pois como ensinará a outro a não retribuir mal com mal, aquele que se apressa em retribuir a quem o prejudica?
Tal espécie de avareza, em grego tocos, isto é, parto, em latim fenus, quase como feto, por causa da fecundidade do mal, assim penso, é chamada. Ou talvez se diga parto por causa das dores do parto, que costuma induzir nas almas daqueles que tomam empréstimos com usura. Os animais com o progresso do tempo nascem, crescem e parem; mas o fenus, logo quando nasce, começa a parir. Os animais que parem mais rapidamente, mais rapidamente cessam de parir; mas o dinheiro dos avarentos ao mesmo tempo aumenta com todo o tempo. Os animais, quando transferem sua força de parir para sua própria prole, eles mesmos cessam de parir; mas os dinheiros dos usurários tanto geram novos quanto renovam os antigos. Portanto, ninguém atenderá a esta besta mortífera. Mas, dizes, ó pobre, há grande necessidade e utilidade em que eu tome um empréstimo. E qual é esta utilidade? Novamente virá a ti a pobreza, e a mesma necessidade com acréscimo. Medita desde já de onde restituirás. De onde o dinheiro se multiplicará tanto para ti que seja suficiente tanto para a necessidade de uso quanto para a restituição? Mas dizes: como, portanto, me sustentarei se não tomar um empréstimo? Há mil maneiras de providenciar o sustento. Tens mãos, trabalha, serve, enfim, mendiga: tudo é mais tolerável para ti do que tomar dinheiro com usura. Entretanto, o rico diz: que tipo de empréstimo é aquele ao qual nenhuma esperança de retribuição está associada? Considera a força da palavra, e admirarás a humanidade do legislador. Quando quiseres dar ao pobre por causa do Senhor, o mesmo é tanto dom quanto empréstimo: dom, na verdade, porque não esperas recepção; empréstimo, por outro lado, por causa da magnificência do Senhor, que, tendo aceitado poucas coisas por meio do pobre, devolverá grandes coisas por elas; de onde se segue e será grande a vossa recompensa. Não queres ter o Senhor do universo obrigado a ti mesmo para pagar? Ou se algum rico na cidade prometer que pagará por outro, aceitarás a sua fiança, mas não aceitarás a Deus como pagador pelos pobres?
Porque com a mesma medida que cada um de vós mede ao praticar boas obras ou ao pecar, com essa mesma receberá recompensas ou castigos.
Em verdade, o conhecimento de si mesmo parece ser o mais difícil de todos: pois não somente o olho, vendo as coisas exteriores, não utiliza a visão sobre si mesmo; mas também o nosso próprio intelecto, quando rapidamente conjectura sobre o pecado alheio, é lento para a percepção dos próprios defeitos.
A qualidade das palavras manifesta o coração de onde procedem, mostrando claramente a disposição de nossos corações; por isso segue: "Porque da abundância do coração a boca fala".
Assentar, porém, o fundamento sobre a pedra, isto é apoiar-se na fé de Cristo, para que permaneça imóvel nas adversidades, sejam elas provenientes dos homens ou de Deus.
Ouvir pertence ao intelecto; por isso, o Senhor nos desperta para escutar atentamente a menção daquelas coisas que são ditas.
Mas Ele deixou sua própria vida como modelo de conduta irrepreensível para aqueles que estão dispostos a obedecê-lo; como diz: "Vinde após mim", não insinuando com isso um seguimento corporal, pois isso seria impossível para todos, estando nosso Senhor já nos céus, mas uma devida imitação de sua vida segundo as capacidades de cada um.
A abnegação de si mesmo é, de fato, um esquecimento total das coisas passadas e um afastamento das próprias vontades.
O desejo de suportar a morte por Cristo, e a mortificação dos membros que estão sobre a terra, e dispor-se virilmente a sustentar todo perigo por Cristo, e não se apegar à vida presente, isto é tomar a sua cruz; donde se segue e tome a sua cruz cada dia.
A perfeição, portanto, consiste em se manter impassível no afeto mesmo em relação à própria vida, e ter pronta a resposta da morte, de modo a não confiar de maneira alguma em si mesmo. A perfeição, porém, toma seu início a partir do desprendimento das coisas exteriores, como as possessões, ou a vanglória, ou precisamente a afeição a coisas inúteis.
Pois a obscuridade da Lei havia passado: assim como o fumo é causado pelo fogo, assim a nuvem é causada pela luz. Mas, como a nuvem é sinal de tranquilidade, o repouso da futura morada é manifestado pela cobertura de uma nuvem.
Ao mesmo tempo, por isto indicou também que, se alguns são iguais nos dons espirituais, isto não deixará prevalecer neles a paixão da própria opinião.
Ele é chamado Satanás porque se opõe ao bem; pois isto é o que significa o nome hebraico; mas é chamado Diabo porque coopera conosco para o mal e é um acusador. Sua natureza é incorpórea, seu lugar é o ar.
Pois as virtudes superiores não são naturalmente santas, mas recebem sua medida de santificação segundo a analogia do amor divino. E assim como o ferro colocado no fogo não deixa de ser ferro, embora pela veemente união com a chama, tanto em efeito quanto em aparência, transforme-se em fogo; assim também as virtudes celestes possuem a santificação implantada nelas pela participação daquilo que é naturalmente santo: pois Satanás não teria caído se por natureza fosse incapaz do mal.
Alguns, porém, são inscritos não na vida, mas, segundo Jeremias, na terra; para que assim se compreenda uma dupla descrição, destes para a vida, daqueles para a perdição. Quanto ao que é dito: sejam apagados do livro dos viventes, isto se entende daqueles que eram considerados dignos de serem inscritos no livro de Deus; e segundo isto, diz-se que ocorre uma mudança na Escritura, quando caímos da virtude para o pecado, ou vice-versa.
Quando se diz com toda a tua mente, isto não admite divisão em outras coisas: pois qualquer amor que gastes nas coisas inferiores, necessariamente faltará ao todo. Assim como em um vaso cheio de líquido, quanto dele se derrama para fora, tanto necessariamente subtrai da sua plenitude; assim também na alma, quanto de seu amor se derramar para coisas ilícitas, tanto necessariamente diminuirá do amor a Deus.
Se alguém, porém, pergunta de que modo o amor divino pode ser obtido, diremos que o amor divino é inenarrável: pois nem aprendemos de outrem a nos alegrar com a presença da luz, nem a abraçar a vida, ou a amar nossos pais ou filhos; e muito menos a doutrina do amor divino. Mas certa semente de razão nos foi implantada intrinsecamente, tendo causas para que o homem se una a Deus; razão essa que, recebendo a doutrina dos preceitos divinos, costuma cultivar diligentemente, fomentar cuidadosamente e conduzir à perfeição da graça divina. Pois naturalmente amamos o bem, amamos também o que nos é próprio e familiar, e também espontaneamente derramamos toda a nossa afeição sobre nossos benfeitores. Se, portanto, Deus é bom, e tudo deseja o bem, o que voluntariamente se aperfeiçoa, naturalmente existe em nós; a Ele, mesmo que não o conheçamos por sua bondade, pelo fato de que procedemos dele, estamos obrigados a amá-lo acima de tudo, como algo que nos é familiar. É também maior benfeitor que todos os que naturalmente amamos. É, portanto, o primeiro e principal mandamento o do amor divino; o segundo, que completa o primeiro e é por ele completado, pelo qual somos exortados a amar o próximo: por isso segue e ao teu próximo como a ti mesmo. Recebemos de Deus o poder para a execução deste mandamento. Quem não sabe que o homem é um animal manso e comunicativo, e não solitário e silvestre? Pois nada é tão próprio da nossa natureza como comunicar-nos uns com os outros, necessitar mutuamente uns dos outros e amar o que nos é familiar. Das coisas, portanto, das quais o Senhor previamente nos deu as sementes, consequentemente exige os frutos.
Esta interpretação também se adequa aos lugares, se alguém os examinar: pois Jericó ocupa as partes baixas da Palestina; Jerusalém, porém, está situada no cume, ocupando o topo do monte. Desceu, portanto, o homem das alturas para as partes baixas, para ser capturado pelos ladrões, que habitavam o deserto; por isso segue: "e caiu nas mãos dos ladrões".
Ou pode-se entender que o despojaram, depois de infligirem feridas: pois os ferimentos precedem a nudez, para que compreendas que o pecado precede a ausência da graça.
Toda obra e toda palavra do nosso Salvador é uma regra de piedade e virtude. Pois para este fim revestiu o nosso corpo, para que nós imitemos sua conversação o quanto pudermos.
É absurdo também tomar alimentos para o sustento do corpo e, por meio deles, voltar a prejudicar o corpo e impedi-lo de cumprir o ofício dos mandamentos divinos. Se, portanto, vier algum pobre, que receba o modelo e o exemplo de moderação nos alimentos; e não preparemos nossa mesa por causa daqueles que querem viver em delícias: pois uniforme é a vida do cristão, tendendo a uma única intenção, a saber, a glória de Deus; enquanto multiforme e variada é a vida daqueles que são de fora, mudando conforme a vontade. Mas tu, por que, enquanto preparas à mesa para teu irmão abundância de alimentos por causa do deleite, o acusas de volúpia, e difundes sobre ele os opróbrios da gula, censurando seus prazeres naquilo mesmo que lhe preparas? O Senhor não elogiou Marta, ocupada com frequentes serviços.
Existem dois modos de oração. Um de louvor com humildade; o segundo, porém, de petição, mais moderado. Portanto, sempre que oras, não irrompes primeiro em petição. Mas condenas teu próprio afeto, como se obrigado por necessidade suplicas a Deus. Contudo, quando começas a orar, abandona toda criatura visível e invisível; mas toma como exórdio o louvor daquele que criou todas as coisas; por isso segue-se e disse-lhes: quando orardes, dizei: Pai.
Como se dissesse: O pão quotidiano, que corresponde à nossa substância para a vida diária, não o confies a ti mesmo; mas recorre a Deus por causa dele, expondo-lhe a necessidade da natureza.
Não convém, contudo, que peçamos em oração as aflições corporais; universalmente, de fato, ordenou-nos orar para não entrarmos em tentação; mas, depois que alguém já entrou nela, convém pedir ao Senhor a virtude de perseverar, para que se cumpra em nós aquilo: aquele que perseverar até o fim será salvo.
Talvez também por isso Ele adie, como que intensificando tua assiduidade e frequência para com Ele, e para que reconheças o que é o dom de Deus, e guardes com temor o que te foi concedido. Pois tudo aquilo que alguém adquire com muito trabalho, esforça-se para guardar em segurança, para que não perca seu trabalho se o perder.
Se alguém também por torpor se entrega aos seus desejos, e se torna traidor de si mesmo nas mãos dos inimigos, a este Deus não ajuda nem atende, porque pelo pecado se fez alheio a Deus. Convém, portanto, oferecer tudo quanto lhe interessa; clamar, porém, a Deus, para que o ajude. Deve-se, contudo, implorar o auxílio divino não com negligência, nem com a mente vagando de um lado para outro, porque tal pessoa não só não obterá o que pede, mas irritará mais o Senhor. Pois se alguém, estando diante de um príncipe, mantém fixo o olhar interior e exterior, para que não seja porventura punido, quanto mais diante de Deus se deve permanecer atento e temeroso? Se, porém, debilitado pelo pecado, não podes orar com firmeza, tanto quanto possas, refreia-te a ti mesmo, para que, estando diante de Deus, dirijas a Ele o teu intelecto; e Deus perdoa, porque não por negligência, mas por fragilidade não podes, como convém, permanecer diante de Deus. Se, portanto, assim te constranges, não te retires até que recebas. Por isso, quando por vezes pedes e não recebes, é porque pediste de maneira imprópria, ou sem fé, ou levianamente, ou coisas que não te convêm, ou desististe. Frequentemente, porém, alguns objetam dizendo: por que oramos? Acaso Deus ignora o que nos é necessário? Ele conhece, certamente, e nos dá todas as coisas espirituais em abundância mesmo antes de as pedirmos; mas as obras de virtude e o reino dos céus, é necessário primeiro desejá-los, e, desejando-os, buscá-los, empregando através da fé e da paciência tudo quanto lhe interessa, em nada repreendido pela própria consciência.
Ele também distribui os despojos, demonstrando as fiéis proteções dos Anjos para a salvação dos homens.
Um sinal é uma coisa colocada em evidência, contendo em si a declaração de algo oculto; assim como o sinal de Jonas representa a descida de Cristo aos Infernos e sua ascensão, e a ressurreição dos mortos; por isso acrescenta "Pois como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também o Filho do homem o será para esta geração".
Esta voz "ai", que é proferida com dores intoleráveis, convém àqueles que pouco depois serão arrastados para grave suplício
Não fazendo certamente algo de bom a partir da abundância dos frutos, para que mais se manifeste a longanimidade divina, que estende sua bondade até aos maus, chovendo sobre justos e injustos. Quais são, pois, as coisas que este homem retribui ao benfeitor? Não se lembra da natureza comum, nem considera que deve distribuir aos necessitados o que lhe sobra. E os celeiros estavam a estourar pela abundância do que estava guardado; entretanto, o ânimo avaro de modo algum se satisfazia, não querendo abrir mão dos antigos por causa da avareza, não conseguindo acolher os novos por causa da multidão. Por isso, seus planos eram imperfeitos e seus cuidados estéreis. Donde segue: "e pensava dentro de si, dizendo: Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos?" Queixa-se igualmente como os pobres. Acaso aquele que a indigência oprime não diz: "Que farei? De onde tirarei o sustento e o calçado?" Tais coisas o rico também profere, pois as riquezas que fluem dos celeiros oprimem sua alma, para que, por acaso, ao saírem, não aproveitem aos necessitados; semelhantemente aos glutões, que preferem estourar de tanto comer a repartir as sobras com os indigentes.
Havia, de fato, à disposição dizer: abrirei meus celeiros, chamarei os necessitados; mas pensa não em distribuir, mas em acumular; pois segue-se: e disse: farei isto: destruirei meus celeiros. Fazes bem: pois são dignos de destruição os depósitos de iniquidade: destrói os celeiros, dos quais ninguém recebeu consolo. Acrescenta: e construirei maiores. Mas se completares estes, porventura os destruirás novamente? O que há de mais tolo do que trabalhar infinitamente? Teus celeiros são, se quiseres, as casas dos pobres. Mas dirás: a quem faço injustiça, conservando o que é meu? Pois segue-se: e ali recolherei todos os meus frutos, e os meus bens. Dize-me: quais são os teus? De onde os tomaste e trouxeste para a vida? Assim como aquele que, chegando antes aos espetáculos, impediria os que vêm, apropriando-se daquilo que está destinado ao uso comum; semelhantes são os ricos, que consideram ser seus os bens comuns que antecipadamente tomaram; pois se cada um, recebendo o suficiente para a sua necessidade, deixasse o supérfluo para o indigente, não haveria rico nem pobre.
Contudo, se confessas que estas coisas te foram concedidas por Deus, porventura é injusto Deus ao distribuir-nos as coisas desigualmente? Por que tu tens abundância enquanto outro mendiga, senão para que tu obtenhas os méritos de uma boa administração, e ele seja honrado com a recompensa da paciência? Não és tu um espoliador, ao considerar como teu o que recebeste para distribuir? É o pão do faminto o que tu reténs, a túnica do nu que conservas em tua câmara, o calçado do descalço que apodrece em tua posse, a prata do indigente que manténs enterrada. Por isso, injurias a tantos quanto poderias beneficiar.
És tão imprevidente para com os bens da alma, que atribuis os alimentos corporais à alma. Se ela possui virtude, se é fecunda em boas obras, se se uniu a Deus, possui muitos bens e se regozija com boa alegria. Mas porque és totalmente carnal e sujeito às paixões, clamas a partir do ventre, não da alma.
Foi-lhe permitido deliberar sobre todas as coisas e manifestar seu próprio propósito, a fim de que mereça uma sentença digna de seus afetos. Mas enquanto ele fala em segredo, suas palavras são examinadas no céu, de onde lhe vêm as respostas; pois segue: "Mas Deus lhe disse: insensato, nesta noite pedirão a tua alma". Ouve o nome de insensato, que convenientemente te pertence, que nenhum homem te impôs, mas o próprio Deus.
E para que entendas esta elevação, lembra-te da vaidade de tua própria juventude; se alguma vez estando só pensaste sobre a vida e promoções, passando de um principado a outro, abraçaste riquezas, edificaste palácios, fizeste bem aos amigos, vingaste-te dos inimigos. Ora, tal abstração é pecado: pois a delectação direcionada às coisas supérfluas desvia da verdade; pelo que convenientemente acrescenta todas estas coisas as gentes do mundo buscam, isto é, o prazer, as riquezas e coisas semelhantes.
Mas quanto às coisas necessárias para a vida, Ele acrescenta: "vosso Pai sabe que tendes necessidade destas coisas".
Mas alguém perguntará: com base em que consideração é necessário vender o que se possui? Porventura porque estas coisas são naturalmente nocivas, ou por causa da tentação que acontece às almas através delas? A isto deve-se responder, primeiramente, que se cada uma das coisas que existem fosse má por si mesma, não seria criatura de Deus; pois toda criatura de Deus é boa. E consequentemente, porque o mandamento do Senhor não ensina a rejeitar como más as coisas que possuímos, mas a distribuí-las, dizendo e dai esmola.
Ele não diz agindo por acaso, mas assim fazendo. Pois não somente convém vencer, mas também lutar legitimamente, o que consiste em executar cada coisa como recebemos nos mandamentos.
O corpo não é de fato dividido, de modo que uma parte seja exposta aos tormentos e a outra escapar; pois isto é uma fábula, e não próprio de um justo julgamento que, tendo o todo delinquido, apenas metade sofra a pena; nem a alma é cortada ao meio, visto que toda ela possui uma consciência culpada e coopera com o corpo para realizar o mal; mas sua divisão é a eterna separação da alma do Espírito. Pois agora, embora a graça do Espírito não esteja nos indignos, parece, contudo, estar de algum modo presente, esperando a conversão deles para a salvação; mas naquele momento será totalmente separada da alma. O Espírito Santo, portanto, é o prêmio dos justos e a principal condenação dos pecadores, pois aqueles que são indignos O perderão.
Mas dirás: se este realmente suporta muitos castigos, e aquele poucos, como alguns dizem que não impõe fim aos suplícios? Mas deve-se saber que o que aqui se diz não indica a quantidade das penas, mas a diferença: pois alguém pode ser digno da chama inextinguível, seja mais branda ou mais intensa; e do verme que nunca acaba, atormentando de modo mais suave ou mais forte.
Deve-se notar, porém, que as conjecturas dos astros são necessárias para a vida humana, contanto que não se investiguem os seus indícios além da justa medida. É possível, de fato, perceber algo sobre as chuvas futuras; e muito mais sobre o calor e o ímpeto dos ventos, sejam particulares ou universais, violentos ou suaves. Quanta utilidade é proporcionada à vida pela conjectura destes, quem não sabe? Pois importa ao navegante prognosticar os perigos das tempestades, ao viajante a mudança do ar, ao agricultor a abundância dos frutos.
É próprio da divina misericórdia não infligir penas silenciosamente, mas anteceder com ameaças, chamando à penitência; assim como fez com os ninivitas, e agora com o cultivador dizendo "Corta-a", estimulando-o certamente ao cuidado dela, e despertando a alma estéril para produzir os devidos frutos.
A cabeça dos animais irracionais, de fato, está inclinada para o chão, e olha para a terra; a cabeça do homem está erguida para o céu, e seus olhos contemplam as coisas superiores. Convém, pois, ao homem buscar as coisas do alto e transcender as coisas terrenas com o olhar.
O hipócrita é aquele que, no teatro, assume uma pessoa diferente da sua própria. Assim também nesta vida presente, alguns trazem uma coisa em seu coração, e mostram outra superficialmente aos homens.
Assim como no caminho terreno o desvio do reto tem grande amplitude, da mesma forma aquele que se afasta do caminho que conduz ao reino dos céus encontra-se em uma vasta extensão de erro. Porém, o caminho reto é estreito, sendo qualquer desvio perigoso, seja para a direita, seja para a esquerda; como em uma ponte, onde aquele que se desvia para qualquer um dos lados mergulha no rio.
Pois a alma vacila, quando considera as coisas eternas, escolhendo a virtude; quando contempla as coisas presentes, preferindo os prazeres; aqui vê o ócio da carne, ali a sujeição da mesma; aqui a embriaguez, ali a sobriedade; aqui os risos dissolutos, ali a abundância de lágrimas; aqui as danças, ali as orações; aqui as flautas, ali os prantos; aqui a luxúria, ali a castidade.
Ele talvez fala àqueles que o Apóstolo descreve em sua própria pessoa, dizendo: "Se eu falar as línguas dos homens e dos Anjos, e tiver toda a ciência, e distribuir todos os meus bens para alimentar os pobres, mas não tiver caridade, nada me aproveita". Porque aquilo que não é feito em vista do amor divino, mas para adquirir louvor dos homens, não encontra louvor junto a Deus.
Ele também comparou os filhos de Jerusalém aos filhotes no ninho; como se dissesse: as aves que costumam voar nas alturas estão protegidas dos danos daqueles que as espreitam; tu, porém, serás como um filhote necessitando do auxílio alheio. Assim, quando a mãe voa para longe, serás retirado do ninho, como incapaz de te proteger e fraco para fugir; por isso segue: eis que a vossa casa vos será deixada deserta.
Ocupar, portanto, o último lugar nos banquetes, conforme o mandamento do Senhor, é conveniente, mas novamente precipitar-se neste lugar com contenda é reprovável, pois destrói a ordem e causa tumulto; e a contenda movida sobre isto vos equiparará aos que disputam sobre a primazia. Por isso, como aqui diz o Senhor, convém àquele que oferece o banquete atribuir a ordem dos lugares. Assim, suportaremos uns aos outros com paciência e honestamente, seguindo todas as coisas segundo a ordem, não para a aparência da maioria; nem pareceremos praticar a humildade por meio de veemente contradição, mas, antes, alcançaremos a humildade pela paciência: pois é maior indício de soberbia a repugnância do que o primeiro lugar à mesa, quando o ocupamos com autoridade.
Ele diz: "Não posso vir", porque o intelecto humano, inclinando-se para as seduções mundanas, torna-se frágil para agir nas coisas divinas.
Não que a paixão da ira aconteça à substância divina; mas tal operação, que em nós se produz pela ira, diz-se ira e indignação de Deus.
Carregando também a cruz, anunciava a morte do Senhor, dizendo: "Para mim o mundo está crucificado, e eu para o mundo"(Gálatas 6,14); o que também nós antecipamos no próprio Batismo, onde nosso homem velho é crucificado, para que seja destruído o corpo do pecado.
Ou a torre é uma alta atalaia adequada para a custódia da cidade e a percepção das incursões inimigas: à semelhança desta, nos foi dado o intelecto para preservar os bens e prever o que é contrário; para a edificação desta, o Senhor ordena que, sentados, calculemos se temos capacidade suficiente para chegar ao fim.
Mas a intenção do Senhor nos exemplos mencionados não é certamente oferecer a possibilidade ou dar liberdade a qualquer um para tornar-se Seu discípulo ou não, como de fato é lícito não começar um fundamento ou não tratar da paz; mas mostrar a impossibilidade de agradar à vontade divina entre aquelas coisas que distraem a alma e entre as quais ela se encontra em perigo, tornando-se vendável pelas astúcias do Demônio.
Além disso, o juízo maduro e a gravidade de um homem mais velho contribuem mais para sua firmeza do que a brancura de seus cabelos; e não é repreendido aquele que é jovem em idade, mas o jovem em costumes, que vive segundo suas paixões.
Ou se sucederes a um patrimônio, recebeste o que foi acumulado pelos injustos; pois dentre muitos predecessores é necessário encontrar pelo menos um que injustamente tenha usurpado bens alheios. Suponhamos, porém, que nem teu pai tenha cometido extorsão; de onde, então, tens teu dinheiro? Se de fato respondes: "De mim mesmo", ignoras a Deus, não tendo conhecimento do teu Criador; mas se respondes: "De Deus", dize-nos a razão pela qual o recebeste. Porventura a terra e sua plenitude não são do Senhor? Portanto, se as nossas coisas pertencem ao Senhor comum, também pertencerão aos nossos conservos.
O inferno é um certo lugar comum no interior da terra, obscurecido por todos os lados e opaco, no qual há uma espécie de orifício que se estende para o profundo, através do qual se manifesta a descida das almas condenadas aos males.
Mas ele recebe um digno prêmio, o fogo e as penas do inferno, a língua ressequida; em vez da lira sonora, gemidos; em vez de bebida, o intenso desejo de uma gota; em vez de espetáculos enormes, a profunda escuridão; em vez da bajulação incessante, o verme vigilante. Por isso segue: "Que refresque minha língua, porque sou atormentado nesta chama".
Diz, porém: "Orava em si mesmo"; como se não orasse diante de Deus, porque voltava-se a si mesmo pelo pecado da soberba; segue-se pois: "Deus, graças te dou".
O soberbo difere do maledicente apenas na aparência externa: este último ocupa-se em injuriar os outros, enquanto aquele eleva a si mesmo com temerária presunção.
Semelhantemente, também é possível ser exaltado de forma louvável, quando, a saber, não pensas em coisas baixas, mas tua mente está elevada para a virtude pela magnanimidade. Tal elevação de ânimo é eminência nas tristezas, desprezo das coisas terrenas, conversação nos céus; e parece que tal sublimidade da mente tem a mesma diferença para com a elevação que a arrogância gera, assim como a corpulência de um corpo bem disposto difere da inchação da carne quando está tumefacta pela hidropisia.
Receberemos, pois, o reino de Deus como uma criança, se estivermos dispostos em relação à doutrina do Senhor como uma criança sob instrução, de modo algum contradizendo ou disputando com os mestres, mas de maneira crédula e obediente absorvendo os ensinamentos.
Não se deve entender que somente são ladrões os que cortam bolsas ou cometem roubos nos banhos; mas também aqueles que, sendo constituídos chefes de legiões, ou a quem se confia o governo das cidades e dos povos, tomam algumas coisas furtivamente, ou as exigem pública e violentamente.
Ele não ensina, contudo, a vender as propriedades porque sejam más por natureza; caso contrário, não seriam criaturas de Deus: por isso não admoesta a rejeitá-las como más, mas a dispensá-las; e alguém é condenado não porque as possui, mas porque abusa delas; pelo que, a dispensação dos bens segundo os mandamentos de Deus apaga os pecados e confere o reino; de onde acrescenta: e dá aos pobres.
Quando o Senhor diz "Dai aos pobres", creio não ser conveniente a ninguém agir com negligência, mas dispor de todas as coisas diligentemente, principalmente por si mesmo, se estiver em condições; caso contrário, por meio daqueles que se sabe que disporão fiel e prudentemente; pois maldito é aquele que executa com negligência as obras do Senhor(Jeremias 48,10).
O mercador não se entristece nas feiras ao negociar o que possui, adquirindo para si o que lhe é necessário; tu, porém, te entristeces dando pó, para adquirires a vida bem-aventurada.
Não apenas segundo o gênero humano, nascido da semente de Davi segundo a carne. Partiu, porém, para uma região longínqua, não tanto separada pela distância local quanto pela condição das coisas: pois o próprio Deus está perto de cada um de nós, quando nossas boas obras nos ligam a Ele; e está distante sempre que, aderindo à perdição, nos afastamos Dele. A esta região terrena, portanto, chegou distante de Deus, para receber o reino dos gentios, conforme aquilo: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança"(Salmo 2,8).
Assim também nos ensina a empreender as obras mais humildes com grande afeto e diligência, sabendo que tudo o que se faz tendo Deus diante dos olhos não é pequeno, mas digno do Reino dos Céus.
Isso acontece como que para aqueles que são condenados, que não têm nada a opor à evidência clara do direito. É próprio da divina misericórdia não infligir castigos em silêncio, mas predizê-los com ameaças, chamando-os ao arrependimento; por isso, segue-se: "virá e destruirá aqueles lavradores, e dará a vinha a outros".
Cada animal recebeu interiormente do Criador de todas as coisas, Deus, causas próprias para a preservação da sua existência. Por isso, Cristo também nos deu esta advertência, para que aquilo que neles se dá por natureza, ocorra em nós com o auxílio da razão e da cautela: fugindo do pecado, como os irracionais fogem dos alimentos mortíferos, e buscando a justiça, como eles procuram as ervas nutritivas. Por isso diz: "Atendei a vós mesmos", isto é, para que possais discernir entre o que é saudável e o que é nocivo. Mas como é possível atender de duas maneiras, seja pelos olhos do corpo, seja pela virtude intelectiva, e o olho do corpo não alcança a virtude, resta, portanto, que isto tenha sido dito sobre a operação do intelecto: "Atendei", isto é, olhai ao vosso redor com circunspecção, mantendo vigilante a luz da alma para vossa proteção. E não disse "atendei ao que é vosso" ou "ao que está ao vosso redor", mas "a vós mesmos". Pois vós sois o intelecto e a alma; vosso corpo são os sentidos; e o que está ao vosso redor são as riquezas, as artes e os demais utensílios da vida, aos quais ele não exorta que atendais, mas sim à alma, que deve receber o cuidado principal. Esta mesma advertência cura os enfermos e aperfeiçoa os sãos; conserva o presente e providencia o futuro; não julga as ações dos outros, mas examina as próprias; não permite que o intelecto se torne escravo das paixões, mas submete o irracional da alma ao racional. E acrescenta por que se deve estar atento, dizendo: "para que vossos corações não se tornem pesados na embriaguez, na ebriedade e nos cuidados desta vida".
A embriaguez é o uso excessivo do vinho; a crápula, porém, é a ansiedade e náusea que ocorre na embriaguez, chamada assim pelo vocábulo grego referente ao movimento da cabeça. Assim como devemos usar os alimentos para não sentirmos fome, também devemos usar as bebidas para não sofrermos de sede, evitando diligentemente o excesso. Pois a ingestão de vinho é enganosa. A alma livre do vinho será a mais prudente e melhor; mas umedecida pelos vapores do vinho, fica velada como por uma nuvem. A curiosidade desta vida, embora pareça não conter nada de proibido, se todavia não contribuir para o culto divino, deve ser evitada; e por que disse isto, mostra acrescentando: "e sobrevenha sobre vós repentinamente aquele dia".
Aprende, pois, de que modo convém comer o Corpo de Cristo, ou seja, em memória da obediência de Cristo até a morte; para que os que vivem não vivam mais em si mesmos, mas naquele que por eles morreu e ressuscitou.
Assim como nas enfermidades corporais há muitas que não são sentidas pelos que padecem, mas que antes confiam mais no diagnóstico dos médicos do que consideram sua própria insensibilidade; assim também nas paixões da alma, se alguém não sentir o pecado em si mesmo, deve, contudo, acreditar naqueles que podem conhecer melhor seus pecados.
Não exalte, portanto, a dignidade àquele que preside, para que não caia da bem-aventurança da humildade. Saiba, porém, que a verdadeira humildade é o serviço de muitos. Pois assim como aquele que serve a muitos feridos, e limpa a supuração de qualquer ferida, não toma o serviço como motivo de orgulho; muito mais aquele a quem são confiados os cuidados das enfermidades fraternas, como ministro de todos, devendo prestar contas por todos, deve pensar e ser solícito; e assim aquele que é maior, faça-se como o menor. Convém também que o serviço corporal seja oferecido por aqueles que presidem, a exemplo do Senhor que lavou os pés dos discípulos; donde segue e aquele que precede, como o que serve. Não se deve temer que no súdito se dissolva o propósito da humildade, quando é servido pelo superior, mas por imitação propaga-se a humildade.
Ou o Senhor não ordena levar bolsa e alforja e comprar espada; mas prediz o que há de acontecer, a saber, que os apóstolos, esquecidos do tempo da Paixão, dos dons e da lei do Senhor, ousariam tomar espadas: pois muitas vezes a Escritura utiliza a forma imperativa do discurso no lugar da profecia. Contudo, em muitos livros não se encontra receba, tome ou compre; mas tomará e comprará.
Li também no livro de alguém, que este "Filho" não deve ser entendido como o unigênito, mas como o adotivo, pois não teria colocado os Anjos antes do Filho unigênito, dizendo assim: "nem os Anjos do céu, nem o Filho"1
[1] Ver mais sobre esta passagem em Santo Hilário de Trin. ix. 58, citado na Catena sobre São Marcos 13,32, e São Basílio adv. Eunom. iv. ↩
Achareis que o mundo não foi concebido ao acaso nem sem propósito, mas para contribuir a algum fim útil e para grande proveito de todos os seres. É, na verdade, um lugar de exercício para as almas racionais e uma escola para alcançar o conhecimento de Deus. Por meio dos objetos visíveis e perceptíveis, oferece à mente orientação para a contemplação do invisível. Homilia Primeira, A Criação dos Céus e da Terra
Em todas as coisas visíveis, claras lembranças do Benfeitor nos tomam. Não daremos nenhuma ocasião aos pecados, nem deixaremos lugar algum em nossos corações para o inimigo, se tivermos a Deus como habitante em nós pela lembrança constante d'Ele.
A tradição humana pervertida é para nós fonte de grande mal, na medida em que alguns pecados são denunciados enquanto outros são vistos com indiferença. Crimes como o homicídio e o adultério são objeto de uma indignação violenta, mas fingida, ao passo que outros, como a ira, a maledicência, a embriaguez ou a avareza, não são julgados dignos sequer de uma simples admoestação.
Se preferirmos uma vida de prazer à vida de obediência aos mandamentos, como poderemos esperar uma vida de bem-aventurança, a comunhão dos santos e as delícias da companhia angélica na presença de Cristo? Tais expectativas são, na verdade, fantasias de uma mente insensata. As Regras Longas, Prefácio.
Para os que estão bem preparados, as tribulações são como certos alimentos e exercícios para os atletas, que conduzem o competidor à herança da glória. Quando somos injuriados, bendizemos; caluniados, suplicamos; maltratados, damos graças; afligidos, gloriamo-nos em nossas aflições.
Há muitas passagens desta natureza, que expõem com clareza e esplendor a grande e inefável benevolência de Deus, ao perdoar gratuitamente os nossos pecados e ao conceder-nos os meios e o poder de praticar obras justas para a glória de Deus e de seu Cristo, na esperança de recebermos a vida eterna por Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Por estas palavras somos ensinados que aquele que é batizado em Cristo é batizado em sua morte, e não somente é sepultado com Cristo e plantado juntamente com Ele, mas antes de tudo é crucificado com Ele. Assim somos instruídos de que, tal como aquele que é crucificado é separado dos vivos, também aquele que foi crucificado com Cristo à semelhança de sua morte é inteiramente apartado daqueles que vivem segundo o velho homem.
Ele é libertado, é resgatado, é purificado de todo pecado, e não somente do pecado em palavra e em obra, mas também de todos os movimentos irracionais da mente.
Este preceito seria cumprido com êxito, creio eu, se estivéssemos dispostos a conservar sempre a mesma disposição de espírito que tivemos na hora do perigo. Pois certamente percebemos, em alguma medida, a vaidade da vida, bem como a inconstância e a instabilidade das coisas humanas, que se transformam com tanta facilidade. E, com toda probabilidade, sentimos contrição por nossas faltas passadas e prometemos que, no futuro, se fôssemos salvos, serviríamos a Deus com vigilante exatidão.
Quando veio o mandamento, isto é, o poder do discernimento do bem, a mente não prevaleceu sobre os pensamentos mais baixos, mas permitiu que sua razão fosse escravizada pelas paixões. Então o pecado reviveu, mas a mente morreu, sofrendo a morte por causa de suas transgressões.
Vence aquele que não cede diante dos que o arrastam pela força; mas é mais que vencedor aquele que voluntariamente convida as tribulações para demonstração de sua perseverança.
O juízo se dará segundo a graça, e o Juiz há de examinar como usaste as graças que te foram concedidas.
Paulo claramente atribui a cada um a forma de ministério que lhe é própria e lhe proíbe invadir o território alheio, ao dizer isto.
Ninguém tem capacidade para receber todos os dons espirituais, mas a graça do Espírito é dada proporcionalmente à fé de cada um.
O governante se salva não por muito poder, mas pela graça divina.
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A verdadeira e perfeita obediência dos súditos ao seu superior manifesta-se não somente em absterem-se de toda ação inconveniente segundo o seu conselho, mas também em não fazerem sequer o que é aprovado sem o seu consentimento.
Justo é submeter-se à autoridade superior, sempre que por isso não se viole um mandamento de Deus.
O cristão deve servir, de todos os modos, a todo aquele que se aborrece com ele, ao menos na medida do que lhe for possível.
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Se "tudo o que não procede da fé é pecado, e a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus", então tudo o que está fora da sagrada Escritura, não procedendo da fé, é pecado.
Nomear Cristo é confessar o todo, pois é apontar para Deus [o Pai], que ungiu o Filho; para o Filho, que foi ungido; e para a própria unção, que é o Espírito. Isto está em conformidade com o ensinamento de Pedro nos Atos: "Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo" (At 10,38); e com o ensinamento de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu" (Is 61,1). O Salmista diz simplesmente: "Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria" (Sl 45,7). — *Sobre o Espírito Santo, 12*
Por isso, o comum Diretor de nossas vidas, o grande Mestre, o Espírito da verdade, sábia e engenhosamente propôs as recompensas, a fim de que, erguendo-nos acima dos labores presentes, avançássemos em espírito para o gozo dos bens eternos. "Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios". O que é, pois, verdadeiramente bom é, principal e primeiramente, o mais bem-aventurado. E este é Deus. Assim também Paulo, quando estava para fazer menção de Cristo, disse: "segundo a manifestação de nosso bendito Deus e Salvador Jesus Cristo". Pois verdadeiramente bem-aventurada é a Bondade mesma, para a qual todas as coisas olham, a qual todas as coisas desejam, natureza imutável, dignidade senhorial, existência serena; modo de vida feliz, no qual não há alteração, ao qual nenhuma mudança toca; fonte que flui, graça abundante, tesouro inesgotável.
Todo gênero de auxílio vem às nossas almas por meio de Cristo. Vários títulos apropriados foram concebidos para cada espécie particular de cuidado. Quando Ele apresenta a si mesmo uma alma irrepreensível, uma alma que, como pura virgem, não tem mácula nem ruga, é chamado Esposo. Mas quando recebe alguém paralisado pelos golpes maléficos do demônio e cura o peso grave dos seus pecados, é chamado Médico. Porventura, por Ele cuidar de nós, pensaremos menos Dele? Ou não seremos antes tomados de assombro diante do poderoso poder e do amor do nosso Salvador para com a humanidade, Ele que pacientemente suportou padecer as nossas enfermidades conosco e se condescendeu à nossa fraqueza? Nem o céu, nem a terra, nem os grandes oceanos, nem todas as criaturas que vivem nas águas e na terra seca, nem as plantas, os astros, o ar, ou as estações, ou a vasta extensão do universo podem ilustrar tão bem a grandeza soberana do poder de Deus quanto Ele mesmo o fez. O Deus infinito, permanecendo imutável, assumiu a carne e combateu contra a morte, libertando-nos do sofrimento por meio do seu próprio sofrimento! Sobre o Espírito Santo
Se aquele que foi corrigido de seus primeiros pecados e foi julgado digno de perdão torna a cair, prepara para si mesmo um juízo mais iracundo. Aquele que, depois da primeira e da segunda admoestação, permanece em sua falta, deve ser denunciado ao superior, para que talvez se envergonhe ao ser repreendido de novo. Mas, se nem mesmo assim se corrige, deve ser cortado do meio dos demais como causa de escândalo, e ser tido como um pagão e um publicano.