séc. VSão Cirilo de Alexandria

São Cirilo de Alexandria

Patriarca de Alexandria · Doutor da Encarnação

Cirilo (c. 376–444), patriarca de Alexandria e protagonista do Concílio de Éfeso, foi o grande defensor da unidade de Cristo contra Nestório. Seu Comentário sobre João é um dos cumes da exegese alexandrina: cada página respira a convicção de que o Verbo encarnado é um só Senhor, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

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1 Coríntios 8, 6

Assim como há um só Deus Pai, do qual são todas as coisas, assim também há um só Senhor Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas.

1 Coríntios 9, 19

Assim também o bem-aventurado Paulo “se fez tudo para todos”, não para que obtivesse alguma espécie de vantagem, mas para que, com a perda de uma parte, ganhasse a todos.

1 Coríntios 11, 26

Anunciando a morte segundo a carne do Filho Unigênito de Deus, isto é, de Jesus Cristo, e confessando a sua ressurreição dentre os mortos e a sua ascensão ao céu, celebramos nas igrejas o sacrifício incruento, e assim nos aproximamos das bênçãos espirituais e somos santificados, tornando-nos partícipes da carne santa e do precioso sangue de Cristo, Salvador de todos nós.

1 Coríntios 15, 3

Ele fez de sua vida um resgate pela vida de todos. Um morreu por todos, para que todos nós vivêssemos para Deus, santificados e vivificados por meio de seu sangue, justificados como dom por sua graça.

1 Coríntios 15, 20

Por amor de todos provou a morte. Embora fosse por natureza a vida e ele mesmo fosse a ressurreição, entregou o próprio corpo à morte. Por seu inefável poder, calcou aos pés a morte em sua própria carne, para tornar-se o primogênito dentre os mortos e as primícias dos que dormiram... Ainda que se diga que a ressurreição dos mortos se dá por meio de um homem, o homem por quem sabemos que se dá é o Verbo gerado de Deus. Por ele foi destruído o poder da morte.

1 Coríntios 15, 20

O Verbo não padece enquanto se o considera Deus por natureza. Todavia, os sofrimentos de sua carne deram-se segundo a economia da dispensação. Pois de que modo seria ele "o primogênito de toda criatura, por quem vieram a ser os principados e as potestades, os tronos e as dominações, no qual todas as coisas subsistem", e de que modo se tornaria o "primogênito dentre os mortos" e as "primícias dos que dormiram", se o Verbo, sendo Deus, não fizesse seu o corpo nascido para padecer? Carta

1 Coríntios 15, 21

Ele provou a morte em favor de todo homem em sua carne, a qual era capaz de padecer sem que Ele deixasse de ser vida. Assim, ainda que se diga que padeceu em sua carne, Ele não recebeu o sofrimento na natureza de sua divindade, mas em sua carne, que era receptiva ao sofrimento.

1 Timóteo 1, 7

Esta é, portanto, a fé reta e mais exata dos santos Padres, isto é, a confissão de fé. Mas, como diz Paulo, "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que não vissem resplandecer a luz do evangelho da glória de Cristo". Assim, alguns, tendo cessado de percorrer o caminho reto da verdade, espatifam-se contra os rochedos, "não entendendo nem o que dizem nem as coisas sobre as quais fazem afirmações". Pois, depois de atribuírem a glória da filiação somente ao Verbo gerado de Deus Pai, dizem que um outro filho, da semente de Davi e de Jessé, foi conjungido a Ele e tem parte na filiação e na glória própria de Deus e na própria inabitação do Verbo, e tudo quanto teve foi quase totalmente dEle, nada possuindo, porém, de seu.

2 Coríntios 3, 15

Contudo, as sombras trazem à luz a verdade, ainda que elas mesmas não sejam de modo algum a verdade. Por isso, o divinamente inspirado Moisés colocou um véu sobre o seu rosto e falou assim aos filhos de Israel, quase clamando por este ato que alguém pudesse contemplar a beleza das palavras proferidas por meio dele, não em figuras que aparecem exteriormente, mas em meditações ocultas dentro de nós. Vinde, pois, retirando o véu da lei e libertando o rosto de Moisés de seus véus, contemplemos a verdade nua.

2 Coríntios 5, 10

Por isto aprendemos que a alma não foi punida por pecados cometidos antes de haver recebido um corpo. De fato, a alma não existia antes do corpo.

2 Coríntios 5, 14

Mas como pode ser que "um morreu por todos", ele que vale mais que todos os demais, se se considerar o sofrimento simplesmente como o de algum homem? Se ele sofreu segundo a sua natureza humana, visto que fez próprios os sofrimentos do seu corpo... A morte somente dele segundo a carne se sabe valer a vida de todos, não a morte de alguém que é como nós, ainda que se tenha feito semelhante a nós, mas dizemos que ele, sendo Deus por natureza, se fez carne e foi feito homem, segundo a confissão dos Padres.

2 Coríntios 5, 16

Depois da ressurreição, era o mesmo corpo que padecera, exceto que já não tinha em si as enfermidades humanas. Pois afirmamos que já não era suscetível à fome, nem ao cansaço, nem a qualquer outra coisa desse gênero, mas era, doravante, incorruptível, e não somente isto, mas também vivificante. Pois é o corpo da vida, isto é, o corpo do Unigênito, porquanto foi feito resplandecente com a glória mais própria de sua divindade, e é conhecido como o corpo de Deus. Portanto, ainda que alguém dissesse que é divino — assim como, evidentemente, é o corpo humano de um homem —, não se afastaria da reta razão. Donde penso que o sapientíssimo Paulo disse: "E ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, agora, todavia, já não o conhecemos assim." Pois, sendo o próprio corpo de Deus, como disse, transcende todos os corpos humanos.

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2 Coríntios 5, 21

Não dizemos que Cristo se tornou pecador, longe disso; mas, sendo justo (ou antes, sendo a própria justiça, porquanto não conheceu absolutamente o pecado), o Pai o fez vítima pelos pecados do mundo.

2 Coríntios 5, 21

Por esta razão, dizemos que ele foi chamado pecado; por isso o saudosíssimo Paulo escreve: “Pois, por nós, ele o fez pecado, a ele que nada soube de pecado” — a saber, Deus Pai. Pois não dizemos que Cristo se tornou pecador. Longe disso; mas, sendo justo, ou antes, sendo em ato a própria justiça, pois não conheceu pecado, o Pai o fez vítima pelos pecados do mundo.

2 Tessalonicenses 3, 11

Há alguns outros homens que andam por aí, segundo se diz, fingindo dedicar-se apenas à oração e não fazendo trabalho algum, fazendo da piedade um pretexto para a covardia e um meio de ganhar a vida, mas não pensando retamente. Digam eles, se quiserem, que são melhores até que os santos apóstolos, os quais trabalhavam quando a ocasião lhes dava tempo para isso, e se exauriam pela palavra de Deus. Como deixaram de ler o santo Paulo, que escreve a certos homens: "Pois ouço que alguns entre vós vivem desordenadamente, nada trabalhando, mas intrometendo-se em tudo"? A Igreja não admite os que assim procedem. É necessário, sem dúvida, que os que vivem vida tranquila nos mosteiros orem continuamente. Mas não é nocivo — antes, é sobremaneira proveitoso — trabalhar, para que aquele que aceita os labores alheios para sua própria necessidade não venha a ser achado pesado para os outros. Pode, com efeito, ser possível, a partir de seus labores, socorrer a viúva e o órfão, e alguns dos mais fracos entre seus irmãos.

Atos dos Apóstolos 3, 18

Trouxeram de antemão a profecia como a necessária preparação para a fé, a fim de que, como algum tesouro régio, o que fora predito pudesse, no tempo devido, ser trazido à luz do encobrimento de sua antiga obscuridade, desvelado e tornado manifesto pela clareza da interpretação.

Colossenses 1, 15

Pois o Filho permaneceu o Verbo de Deus, ainda que Se fizesse homem, sendo o Pai em forma — quero dizer, segundo sua imagem espiritual — e sendo em tudo imutável.

Colossenses 1, 22

Notai como ele diz que foi "o Seu próprio corpo" e "a Sua própria carne" o que foi entregue por nós. Não devemos, pois, dizer que a carne e o sangue eram os de outro filho, distinto d'Ele, entendido como separado e honrado como mera conjunção, possuindo uma glória alheia, alguém que não tinha a preeminência substancialmente, mas apenas como se o nome de filiação e o da Divindade, que está acima de todo nome, lhe fossem lançados por cima como uma máscara ou um manto.

Colossenses 2, 9

Tampouco dizemos que o Verbo de Deus habitou, como num homem comum, naquele que nasceu da santa Virgem, para que Cristo não fosse tido por um homem portador de Deus. Pois ainda que o Verbo tenha "habitado entre nós", e se diga que em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da divindade", não pensamos que, feito carne, se diga que o Verbo habita nele assim como habita naqueles que são santos, nem definimos como sendo a mesma a habitação nele. Mas, unido kata phusin, e não transformado em carne, o Verbo produziu uma habitação tal como se poderia dizer que a alma do homem tem em seu próprio corpo.

Efésios 2, 10

Os seres humanos escolhem seu próprio modo de vida e lhes são confiadas as rédeas de sua própria inteligência, de sorte que sigam o curso que quiserem, seja para o bem, seja para o contrário. Mas em nossa natureza [original, criada] está implantado um zeloso desejo por tudo quanto é bom, e a vontade de ocupar-se com a bondade e a justiça. Pois é isto que queremos dizer quando afirmamos que a humanidade é "imagem e semelhança de Deus", que a criatura está naturalmente disposta para o que é bom e reto.

Filipenses 2, 7

Se O tomarmos simples e unicamente como homem feito de mulher, como poderia dizer-se que estava na forma igual ao Pai? Se fosse apenas homem, como poderia ter a plenitude que daria sentido ao seu esvaziamento? Que altura teria Ele ocupado antes, para que se dissesse que “Se humilhou a si mesmo”? Como “veio a estar na semelhança dos homens”, se já o era por natureza? Escólio sobre a Encarnação do Unigênito.

Filipenses 2, 7

Que somente por isto se perceba a diferença entre a divindade e a humanidade n’Ele. Pois a divindade e a humanidade não são idênticas quanto à qualidade natural. De outro modo, como teria o Verbo, sendo Deus, sido “esvaziado”, deixando-se descer entre seres inferiores como nós? Mas quando especulamos sobre o modo da encarnação, a mente humana vê inevitavelmente duas coisas mescladas por uma união inexprimível e não confusa, sem contudo jamais dividir os elementos unidos, mas crendo e firmemente aceitando que há um só, proveniente de ambos, que é Deus, Filho, Cristo e Senhor.

Filipenses 2, 7

Que espécie de esvaziamento é este? Assumir a carne, ainda que na forma de escravo, uma semelhança conosco, sem contudo ser semelhante a nós em sua própria natureza, mas superior a toda a criação. Assim Se humilhou a si mesmo, descendo por sua economia aos limites mortais.

Filipenses 2, 7

Ele Se deixou “esvaziar”. Não foi por nenhuma compulsão do Pai. Anuiu de livre vontade ao beneplácito do Pai.

Filipenses 2, 8

Ele "se humilhou," segundo as Escrituras, "tomando sobre si a forma de servo." Fez-se semelhante a nós para que nos fizéssemos semelhantes a ele. A obra do Espírito busca transformar-nos pela graça em cópia perfeita de seu rebaixamento.

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Filipenses 2, 10

Deus Verbo habitou como seu próprio templo o corpo tomado da mulher. Neste corpo habitava uma alma racional. Deus o refez para sua própria glória. Por esta razão a santa Escritura declara que a adoração é própria somente Àquele que é Deus por natureza. É isto que Paulo quer dizer quando escreve que "ao nome de Cristo Jesus todo joelho se dobrará".

Filipenses 2, 10

Ele adora como aquele que assumiu a natureza adoradora da humanidade. É este mesmo que agora é adorado como transcendendo a natureza adoradora da humanidade. Ele é agora conhecido como Deus.

Gálatas 4, 19

Cristo é "formado em vós" por nada mais senão pela fé irrepreensível e pelo caminho do evangelho.

Hebreus 1, 14

Em que sentido, pois, Se torna Ele "o primogênito entre muitos irmãos"? Em que sentido Se torna Ele "o primogênito dentre os mortos"? Certamente é manifesto que, porquanto nós somos por nascimento carne e sangue, como diz a Escritura, "Aquele que por nossa causa nasceu entre nós e participou da carne e do sangue" (cf. Hb 2:14), querendo transformar-nos da corrupção para a incorrupção pelo nascimento do alto, o nascimento pela água e pelo Espírito, Ele mesmo tomou a dianteira neste nascimento, atraindo sobre a água, por meio de Seu próprio batismo, o Espírito Santo; de sorte que em todas as coisas Se fez o primogênito daqueles que são espiritualmente renascidos, e deu o nome de irmãos àqueles que participaram de um nascimento semelhante ao Seu próprio, pela água e pelo Espírito. — "Contra Eunômio, Livro 2, Capítulo 8"

Hebreus 2, 14

Não era de outro modo possível ao homem, sendo de natureza perecível, escapar à morte, senão recobrando aquela graça antiga, e participando uma vez mais de Deus, que sustém todas as coisas em ser e as preserva na vida por meio do Filho no Espírito. Por isso, Seu Verbo Unigênito fez-se participante da carne e do sangue (Hb 2.14), isto é, fez-se homem, sendo, porém, Vida por natureza..., a fim de que, tendo-se unido à carne que perece segundo a lei de sua própria natureza..., pudesse restituí-la à Sua própria vida e torná-la, por meio de Si mesmo, participante de Deus Pai... E Ele reveste a nossa natureza, reformando-a segundo a Sua Vida.

Evangelho de São João 1, 14

O Verbo, unindo a Si mesmo um corpo de carne animado por uma alma racional, substancialmente, tornou-se homem de modo inefável e incompreensível, e foi chamado Filho do homem, e isto não apenas segundo a vontade ou beneplácito, nem tampouco pela simples assunção da Pessoa. As naturezas que são trazidas à verdadeira união são, de fato, diferentes; mas Aquele que procede de ambas, Cristo o Filho, é Um; a diferença das naturezas, por outro lado, não sendo destruída em consequência desta união.

Evangelho de São João 2, 5–11

Ele declarou que a sua hora ainda não havia chegado, mas para honrar a sua mãe e não a entristecer… e, sobretudo, para não parecer faltar com o respeito devido àquela que o gerou, cedeu ao pedido dela. […] Ela possuía grande autoridade, como é natural para uma mãe em relação ao seu filho, e por isso ordenou aos servos que fizessem tudo o que lhes fosse dito, para que não houvesse impedimento ao milagre.

São Cirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho de João II, 2 (PG 73, 226).

Evangelho de São Lucas 1, 1–4

Quanto ao que diz, que os apóstolos foram testemunhas oculares do Verbo, concorda com São João, que diz: "O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória"(São João 1,14). Pois o Verbo, por meio da carne, tornou-se visível.

Evangelho de São Lucas 1, 30–33

Este nome, porém, foi imposto de novo ao Verbo, congruente com a natividade da carne, segundo aquilo profético: "Serás chamado por um nome novo que a boca do Senhor nomeou"(Isaías 62,2).

Evangelho de São Lucas 1, 30–33

Contudo, o corpo puríssimo de Cristo não foi gerado de José; pois José e a Virgem procediam de uma mesma linha de parentesco, da qual o Unigênito tomou a forma da humanidade.

Evangelho de São Lucas 1, 51

Mas estas coisas devem ser entendidas mais propriamente da hoste hostil dos demônios: pois o Senhor, ao vir, dispersou estes que agiam com crueldade na terra, e restituiu à sua obediência aqueles que estavam acorrentados por eles.

Evangelho de São Lucas 1, 52

Os demônios e o diabo, os sábios dos gentios, os fariseus e os escribas possuíam grande sabedoria; no entanto, Deus os depôs e elevou aqueles que se humilhavam sob a poderosa mão de Deus, dando-lhes o poder de pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo. Os judeus também eram, outrora, soberbos em seu poder; mas a incredulidade os prostrou; enquanto dentre os gentios, os humildes e insignificantes ascenderam pelo cume através da fé.

Evangelho de São Lucas 2, 1–5

Diz, pois, que ela estava desposada, insinuando que somente os esponsais precederam a concepção que se seguiu; pois a Santa Virgem não concebeu de semente viril.

Evangelho de São Lucas 2, 6–7

Ele também encontra o homem feito bestial na alma; e por isso é colocado no presépio, lugar de alimento, para que, mudando a vida bestial, sejamos conduzidos ao conhecimento adequado ao homem, alcançando não o feno, mas o pão celestial, o corpo que dá vida.

Evangelho de São Lucas 2, 8–12

Mas aquilo que é colocado no meio, a saber, Cristo, não significa a natureza, mas a hipóstase composta. Pois em Cristo salvador confessamos que a unção foi celebrada; não de modo figurado, como antigamente nos reis pelo óleo, como que pela graça profética, nem para a realização de alguma tarefa, conforme aquilo: assim diz o Senhor ao meu ungido Ciro, o qual, ainda que fosse idólatra, foi chamado Cristo, para que, por determinação celeste, ocupasse toda a província dos babilônios. Foi, porém, ungido o salvador pelo Espírito Santo humanamente na forma de servo; e como Deus, ungindo com o Espírito Santo aqueles que creem nele.

Evangelho de São Lucas 2, 13–14

Esta paz foi feita por Cristo: pois Ele nos reconciliou por si mesmo com Deus e com o Pai, eliminando do meio a culpa hostil; pacificou dois povos em um só homem, e reuniu em um só rebanho os habitantes do céu e da terra.

Evangelho de São Lucas 2, 21

No oitavo dia era costume celebrar a circuncisão da carne: pois no oitavo dia Cristo ressuscitou dos mortos, e nos manifestou a circuncisão espiritual, dizendo: "Ide, ensinai todas as nações, batizando-as"(São Mateus 28,19).

Evangelho de São Lucas 2, 21

Segundo o preceito da lei, no mesmo dia recebeu a imposição do nome; donde se segue: foi chamado o seu nome Jesus, que se interpreta Salvador, pois foi dado à luz para a salvação de todo o mundo, a qual prefigurou com sua circuncisão; conforme diz o Apóstolo: "fostes circuncidados com uma circuncisão não feita pela mão do homem, no despojamento do corpo da carne, isto é, na circuncisão de Cristo".

Evangelho de São Lucas 2, 22–24

Depois da circuncisão aguarda-se novamente o tempo da purificação; por isso diz: "E depois de se cumprirem os dias da purificação dela segundo a Lei de Moisés".

Evangelho de São Lucas 2, 22–24

Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Oferece hóstias Aquele que em cada hóstia é honrado igualmente com o Pai; a Verdade conserva as figuras da lei; Aquele que é autor da lei como Deus, guardou a lei como homem; por isso segue: E para oferecerem uma hóstia, conforme o que estava dito na lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos.

Evangelho de São Lucas 2, 22–24

Devemos ver o que estas oferendas significam. Certamente a rola é a mais loquaz das aves; e a pomba é um animal manso. E de tal modo se fez o salvador para conosco, cultivando a mansidão perfeita, e como a rola encantou o mundo, preenchendo seu jardim com suas próprias melodias. Portanto, a rola ou a pomba eram sacrificadas, para que por meio destas figuras nos fosse revelado que Ele haveria de padecer na carne pela vida do mundo.

Evangelho de São Lucas 2, 29–32

Mas Cristo havia sido o mistério que se manifestou nos últimos tempos do mundo, tendo sido preparado antes da origem do mundo; por isso segue: "o qual preparaste diante da face de todos os povos".

Evangelho de São Lucas 2, 29–32

Mas Cristo, ao advir, fez-se luz para os que estavam nas trevas e errantes, os quais a mão diabólica oprimia. Foram, porém, chamados por Deus Pai ao conhecimento do Filho, que é a luz verdadeira.

Evangelho de São Lucas 2, 29–32

Pois ainda que alguns deles fossem desobedientes, contudo um remanescente foi salvo e chegou por Cristo à glória. As primícias destes foram os divinos apóstolos, cujos fulgores iluminam todo o universo. Cristo foi também singularmente a glória de Israel, porque segundo a carne procedeu deles; embora como Deus estivesse acima de tudo, bendito pelos séculos.

Evangelho de São Lucas 2, 39–41

Apropriadamente, de fato, associou ao incremento da idade o aumento da sabedoria, quando diz e se fortalecia, isto é, no espírito; pois conforme a medida da idade corporal, a natureza divina revelava sua própria sabedoria.

Evangelho de São Lucas 2, 42–50

Como o Evangelista havia dito que o menino crescia e se fortalecia, confirma suas próprias palavras ao relatar que Jesus subiu a Jerusalém com a santa Virgem; como é dito: E quando Jesus completou doze anos, subindo eles a Jerusalém.

Evangelho de São Lucas 2, 42–50

Ele diz isto, pois, demonstrando que transcende a medida humana, e insinuando que a sagrada Virgem tornou-se ministra do plano divino ao dar à luz a carne. Ele, porém, era natural e verdadeiramente Deus, e Filho do Pai excelso. Envergonhem-se, portanto, os seguidores de Valentino, que ao ouvirem que o templo era de Deus, ousam dizer que o Criador e Deus da lei e do templo não é o próprio Pai de Cristo.

Evangelho de São Lucas 3, 3–6

Mas, como se alguém respondesse e dissesse: de que maneira prepararemos o caminho do Senhor, ou como faremos retas as suas veredas, quando existem muitos impedimentos para aqueles que desejam levar uma vida honesta? A esta pergunta, a palavra profética responde. Pois existem certos caminhos e veredas que de modo algum são adequados para percorrer; de tal forma que em alguns lugares se elevam até outeiros e cumes, em outros são inclinados; e para remover isso, diz: todo vale será preenchido, e todo monte e colina serão humilhados. Alguns caminhos estão dispostos de maneira desigual; e enquanto ora se erguem para cima, ora se inclinam para baixo, são muito difíceis de percorrer; e quanto a isso acrescenta: e os tortuosos se tornarão retos e os ásperos se tornarão caminhos planos. Isto se entende que foi realizado pelo poder do nosso Salvador: pois outrora o caminho da conversação e da vida evangélica era difícil de percorrer, uma vez que os prazeres mundanos haviam oprimido as mentes de cada um; mas quando Deus feito homem condenou o pecado na carne, tudo foi explanado e se tornou fácil de percorrer; e nem colina, nem vale impedem aqueles que desejam avançar.

Evangelho de São Lucas 3, 7–9

Pois de que serve a nobreza carnal, se não é sustentada por atos semelhantes? É, portanto, em vão gloriar-se de bons antepassados e carecer das virtudes deles.

Evangelho de São Lucas 3, 7–9

Portanto, ele chama de machado, no presente, a ira mortífera que se abateu divinamente sobre os judeus por causa da impiedade praticada contra Cristo. Contudo, ele não anuncia que o machado ficou preso à raiz, mas que foi posto junto à raiz, isto é, colocado próximo à raiz: pois os ramos foram cortados, mas a planta não foi arrancada pela raiz; porque os remanescentes de Israel serão salvos.

Evangelho de São Lucas 4, 1–4

Outrora Deus disse: "Não permanecerá o meu espírito nestes homens, porque são carne"; mas quando fomos enriquecidos com a regeneração pela água e pelo Espírito, fomos feitos participantes da natureza divina pela participação do Espírito Santo. O Primogênito entre muitos irmãos foi o primeiro a receber o Espírito, Ele que também é o doador do Espírito, para que também a nós chegasse por meio d'Ele a graça do Espírito Santo.

Evangelho de São Lucas 4, 1–4

Ou, de outro modo. Nosso corpo terreno é nutrido com alimentos terrenos; mas a alma racional é vigorizada pelo Verbo divino para a boa disposição do espírito: pois o corpo não alimenta nossa natureza incorpórea.

Evangelho de São Lucas 4, 5–8

Como tu, cuja sorte é uma chama inextinguível, prometes ao Senhor de todas as coisas aquilo que é seu? Pensaste ter como adorador Aquele diante de cujo temor toda a criação treme?

Evangelho de São Lucas 4, 5–8

Mas como é possível que, se, segundo os herejes, o Filho é uma criatura, seja adorado? Que acusação seria feita contra aqueles que serviram à criatura e não ao Criador, se adoramos como Deus o Filho que, segundo eles, é uma simples criatura?

Evangelho de São Lucas 4, 5–8

Este mandamento, porém, o atingiu no íntimo; pois antes da vinda dele, o mesmo era adorado em toda parte: mas a lei divina, expulsando-o do domínio usurpado, estabeleceu a adoração somente daquele que é Deus por natureza.

Evangelho de São Lucas 4, 9–13

Pois Deus não concede auxílio aos que o tentam, mas aos que nele creem: por isso Cristo não mostrava milagres aos que o tentavam, mas lhes dizia: "uma geração perversa busca um sinal, e não lhe será dado"(São Mateus 12,39)

Evangelho de São Lucas 4, 14–21

Ele realizava milagres, não por meio de um poder extrínseco, e como tendo adquirido a graça do Espírito Santo, como os outros santos; mas antes, sendo por natureza Filho de Deus e partícipe de todas as coisas que são do Pai, usa como sua própria virtude e operação, aquela que é do Espírito Santo. Era conveniente que desde então Ele se tornasse conhecido, e que brilhasse o mistério de sua humanidade entre aqueles que eram do sangue de Israel; por isso segue: e sua fama se espalhou por toda a região a respeito dele.

Evangelho de São Lucas 4, 14–21

Semelhantemente, confessamos que Ele foi ungido enquanto assumiu a carne; donde segue-se por isso me ungiu: pois a natureza divina não é ungida, mas aquilo que existe em comum conosco. Assim também quando diz que foi enviado, deve-se atribuir à humanidade; pois segue-se enviou-me a evangelizar os pobres.

Evangelho de São Lucas 4, 14–21

Pois talvez aos pobres de espírito Ele demonstre nessas palavras que, entre todos os dons que se obtêm por meio de Cristo, a eles foi concedido um dom gratuito. Segue-se curar os contritos de coração. Ele chama de contritos de coração os débeis, que possuem mente frágil e são incapazes de resistir aos assaltos das paixões, e a estes promete um remédio de cura.

Evangelho de São Lucas 4, 14–21

As trevas que emanam do Diabo sobre os corações humanos, Cristo, como Sol de justiça, removeu, fazendo dos homens filhos não da noite e das trevas, mas da luz e do dia; pois aqueles que outrora erravam, encontraram os caminhos dos justos. Segue-se libertar os oprimidos em remissão.

Evangelho de São Lucas 4, 14–21

Então, Ele atraía para Si as miradas de todos, de certo modo admirados de como conhecia as escrituras que não havia aprendido. Mas como era costume dos judeus dizer que as profecias proclamadas sobre Cristo se cumpriam ou em alguns de seus chefes, ou em alguns santos profetas, o Senhor anunciou isto; por isso segue: Começou então a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.

Evangelho de São Lucas 4, 22–27

Mas o que impede que seja venerável e admirável, se fosse filho, como se pensava, de José? Não vês os divinos milagres? Satanás já prostrado, muitos libertos de suas enfermidades?

Evangelho de São Lucas 4, 22–27

Como se dissesse: Quereis que Eu faça muitos prodígios entre vós, em meio aos quais fui criado; mas não me é oculta certa paixão comum, que acontece a muitos: desprezam-se de algum modo sempre até mesmo as melhores coisas quando não acontecem raramente a alguém, mas estão disponíveis à vontade; e assim também acontece com os homens: pois o familiar, porque sempre está à disposição, é privado da devida reverência por aqueles que o conhecem.

Evangelho de São Lucas 4, 31–37

Pois ainda que soubesse que eram desobedientes e duros de coração, não obstante os visita, como o bom médico visita àqueles que se encontram na última enfermidade e procura curá-los. Ensinava com confiança nas sinagogas, conforme aquelas palavras: "Nunca falei em segredo, nem em lugar obscuro da terra". Disputava também com eles no sábado, porque estavam livres. Admiraram-se, portanto, da virtude de sua doutrina e da magnitude de seu poder; por isso segue: "E estavam admirados com a sua doutrina, porque sua palavra estava revestida de autoridade". Isto é, não era suave, mas imperiosa para conduzir à salvação. Os judeus consideravam Cristo como algum dos santos ou profetas. Mas para que tivessem dele uma opinião mais elevada, transcendia a medida profética; pois não dizia: "Assim diz o Senhor", como costumavam dizer os profetas, mas como Senhor da lei, proferia coisas que estavam acima da lei, transferindo a letra para a verdade, e as figuras para a inteligência espiritual.

Evangelho de São Lucas 4, 31–37

Oportunamente, Ele frequentemente mistura aos seus ensinamentos obras elevadas: pois aqueles que a razão não dispõe para o conhecimento, a manifestação de sinais os estimula. Donde se segue: E havia na sinagoga um homem que tinha um demônio imundo.

Evangelho de São Lucas 4, 31–37

Os judeus caluniavam a glória de Cristo, dizendo: Este não expulsa os demônios senão por Beelzebub, príncipe dos demônios; para refutar isto, quando os demônios eram apresentados diante do seu poder invencível, e não toleravam o encontro com a divindade, emitiam um grito terrível; donde se segue: E exclamou em alta voz, dizendo: Deixa-nos; que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?

Evangelho de São Lucas 4, 31–37

Pois os demônios pensaram que, por meio deste tipo de louvor, fariam dele um amante da vanglória, para que se abstivesse de contrariá-los, como se recompensasse graça com graça.

Evangelho de São Lucas 4, 38–39

Observa, pois, como Cristo permanece junto ao homem pobre, ele que sofreu a pobreza por sua própria vontade por nós, para que aprendamos a conviver com os pobres, e não desprezar os aflitos e os necessitados. Segue-se: "A sogra de Simão estava acometida de grandes febres; e rogaram-lhe por ela".

Evangelho de São Lucas 4, 38–39

Recebamos, portanto, Jesus: pois quando Ele nos visita, e O carregamos em nossa mente e coração, então extinguirá o ardor dos nossos prazeres desmedidos, e nos tornará sãos, para que O sirvamos, isto é, realizemos o que Lhe é agradável.

Evangelho de São Lucas 4, 40–41

Ainda que como Deus pudesse expulsar todas as enfermidades com uma palavra, todavia Ele os toca, mostrando que sua própria carne era eficaz para oferecer remédios, pois era a carne de Deus. Assim como o fogo, quando aplicado a um vaso de bronze, imprime nele o efeito de seu próprio calor, assim o Verbo onipotente de Deus, quando uniu a si verdadeiramente o templo assumido da Virgem, animado e dotado de intelecto, o fez partícipe de seu poder, inserindo nele seu efeito. Que Ele nos toque também, ou melhor, que nós O toquemos, para que nos liberte das enfermidades das almas, bem como dos ataques dos demônios e da soberbia. Pois segue-se: "saíam também demônios de muitos, clamando e dizendo: tu és o Filho de Deus".

Evangelho de São Lucas 5, 5–7

Depois que havia ensinado suficientemente o povo, Ele retorna novamente às suas próprias magnificências, e por meio dos ofícios pesqueiros pesca os discípulos; donde segue: Quando acabou de falar, disse a Simão: Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a captura.

Evangelho de São Lucas 5, 5–7

Isto, porém, foi figura do futuro: pois não será em vão que se esforçarão os que lançam a rede da doutrina evangélica; mas congregarão as multidões dos gentios.

Evangelho de São Lucas 5, 5–7

Faz sinais aos seus companheiros para que o auxiliassem. Pois muitos seguem os trabalhos dos Apóstolos; primeiramente aqueles que produziram as Escrituras dos Evangelhos, depois deles os outros líderes e pastores dos povos, e os peritos na doutrina da divindade.

Evangelho de São Lucas 5, 8–11

Pois, trazendo à consciência os delitos cometidos, treme e se atemoriza, e como impuro, não acredita poder receber Aquele que é puro: pois aprendera da lei que se deve distinguir entre o que é manchado e o que é santo.

Evangelho de São Lucas 5, 12–16

Pois ele sabia que a lepra não cede aos experimentos dos médicos; mas viu os demônios serem expulsos pela Majestade divina, e todos os demais serem curados de outras enfermidades, o que conjecturou ser feito pela mão direita de Deus.

Evangelho de São Lucas 5, 12–16

Da majestade procede o mandato imperioso. De que modo, portanto, conta-se entre os servos o Filho unigênito, que só pelo querer pode todas as coisas? Lê-se a respeito de Deus Pai que "fez todas as coisas que quis". E aquele que exerce o poder de seu Pai, como poderá ser diferente Dele em natureza? Com efeito, tudo o que tem a mesma virtude costuma ser da mesma substância. Admira, porém, nestas coisas, Cristo operando divina e corporalmente: pois é divino assim querer que todas as coisas se realizem imediatamente, mas é humano estender a mão direita. Um só Cristo, portanto, é constituído de ambas as naturezas, porque "o Verbo se fez carne".

Evangelho de São Lucas 5, 12–16

Ou para testemunho contra eles, isto é, para repreensão deles, e para prova de que reverencio a lei. Pois quando eu te curar, envio-te à experiência dos sacerdotes, para que atestem em meu favor que não sou transgressor da lei. E embora o Senhor, ao conceder remédios, advertisse para não dizer a ninguém, instruindo-nos a evitar a soberba; contudo, a fama dele voava por toda parte, incutindo nos ouvidos de todos o milagre; donde se segue: difundia-se cada vez mais a sua fama.

Evangelho de São Lucas 5, 17–26

Os escribas e fariseus, que haviam se tornado espectadores dos prodígios de Cristo, também o ouviam ensinando; por isso é dito: e aconteceu em um dos dias, e Jesus estava sentado ensinando; e estavam os fariseus sentados, e os doutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galileia, e da Judeia, e de Jerusalém; e a virtude do Senhor estava presente para curá-los. Não como se tomasse emprestado o poder de outrem, mas como Deus e Senhor operava por sua própria virtude. Os homens frequentemente se tornam dignos dos dons espirituais, mas muitas vezes se desviam do propósito conhecido pelo doador dos dons; o que não aconteceu com Cristo: pois nele abundava a virtude divina para oferecer remédios. E como era necessário, onde tão grande multidão de escribas e fariseus se havia reunido, que algo fosse feito entre aquelas coisas que testemunhassem seu poder diante daqueles que o menosprezavam, realizou-se um milagre no paralítico; no qual, porque a arte medicinal parecia ter falhado, era carregado pelos próximos ao médico supremo e celestial; por isso segue: e eis que uns homens traziam em um leito um homem que era paralítico; e procuravam introduzi-lo e colocá-lo diante dele.

Evangelho de São Lucas 5, 17–26

Como se dissesse: Ó fariseus, vós que dizeis quem pode perdoar os pecados, senão só Deus? Respondo-vos: quem pode escrutar os segredos do coração, senão só Deus? Ele que diz pelos profetas: "Eu sou o Senhor que esquadrinha os corações e prova os rins"(Jeremias 17,10).

Evangelho de São Lucas 5, 17–26

Com isto ficou evidente que o Filho do homem tem poder na terra para perdoar pecados; o que ele disse por si mesmo e por nós. Pois ele mesmo, como Deus feito homem, como Senhor da lei, perdoa os pecados. Nós também recebemos dele uma graça tão admirável, pois foi dito aos discípulos: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados". Mas como não perdoaria ele mesmo os pecados, ele que concedeu a outros o poder de fazê-lo?

Evangelho de São Lucas 5, 27–32

Pois Levi fora um publicano, homem avaro, desenfreado quanto às coisas supérfluas, amante dos bens alheios (pois este é o ofício dos publicanos); mas foi retirado das próprias oficinas da malícia, sendo chamado por Cristo; donde segue: E disse-lhe: Segue-me.

Evangelho de São Lucas 5, 33–39

Depois que receberam a primeira palavra de Cristo, transferem-se de umas coisas para outras, querendo mostrar que os sagrados discípulos, e o próprio Jesus com eles, pouco se importavam com a lei; por isso diz: Mas eles lhe disseram: por que os discípulos de João jejuam frequentemente e fazem orações, e igualmente os dos fariseus; mas os teus comem e bebem? Como se dissessem: comeis com os publicanos e pecadores, quando a lei ordena não comungar com o imundo; mas a misericórdia vos serve de desculpa para a prevaricação. Por que então não jejuais, como é costume segundo a lei entre os que querem viver? Mas os santos jejuam para, afligindo o corpo, acalmarem as paixões dele; porém Cristo não necessitava de jejum para a perfeição da virtude, sendo como Deus livre de qualquer vínculo de paixão; nem os seus companheiros necessitavam de jejum, mas participantes de sua graça, sem jejum eram adornados com uma vida virtuosa. E se Cristo jejuou por quarenta dias, não foi para mortificar em si a paixão, mas para mostrar aos carnais a norma da abstinência.

Evangelho de São Lucas 5, 33–39

Pois a manifestação do nosso Salvador neste mundo não foi outra coisa senão uma grande festividade, unindo espiritualmente a nossa natureza a Ele como sua esposa, para que aquela que anteriormente era estéril se tornasse fecunda. Os filhos do Esposo, portanto, são reconhecidos como aqueles que foram chamados por Ele através da nova e evangélica disciplina; não, porém, os Escribas com os Fariseus, que consideram apenas a sombra da lei.

Evangelho de São Lucas 5, 33–39

Porém, quando Ele concedeu aos filhos do Esposo que não convinha que trabalhassem, como aqueles que celebravam uma solenidade espiritual, para que entre nós o jejum não fosse anulado, acrescentou prudentemente, dizendo: "Virão, porém, dias em que o Esposo lhes será tirado; então jejuarão naqueles dias".

Evangelho de São Lucas 6, 1–5

Os fariseus e os escribas, ignorantes das Sagradas Escrituras, conspiraram juntos para repreender os discípulos de Cristo; de onde segue que alguns dos fariseus diziam a eles: por que fazeis o que não é lícito nos sábados? Dize-me tu: quando nos sábados te é posta a mesa, acaso não partes o pão? Por que, então, repreendes os outros?

Evangelho de São Lucas 6, 1–5

Como se dissesse: tendo a lei de Moisés dito expressamente: Julgai com justo juízo, e não considerareis a pessoa no juízo; como agora repreendeis os meus discípulos, vós que até hoje dia exaltais a Davi como santo e profeta, mesmo ele não tendo observado o preceito de Moisés?

Evangelho de São Lucas 6, 6–11

Mas Ele ensinava realmente coisas que transcendiam o intelecto, e que abriam aos ouvintes o caminho da salvação futura por meio dele; depois, tendo precedido a doutrina, mostrva subitamente a divina virtude; de onde segue e havia ali um homem, e sua mão direita estava ressecada.

Evangelho de São Lucas 6, 6–11

Pois este é o hábito do adversário: alimenta em si a enfermidade da dor com os louvores dos outros. Mas o Senhor conhecia todas as coisas e perscruta os corações; de onde segue ele, porém, conhecia os pensamentos deles e disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te e fica de pé no meio. E, levantando-se, ficou de pé; para que talvez incitasse à piedade o cruel fariseu, e a própria condição mitigasse as chamas da inveja.

Evangelho de São Lucas 6, 6–11

A questão é muito oportuna: pois se é lícito fazer o bem no sábado, e nada impede que os que trabalham alcancem misericórdia de Deus, deixa de acumular calúnias contra Cristo; mas se não é lícito fazer o bem no sábado, e a lei proíbe a salvação das almas, tornaste-te acusador da lei. Se quisermos examinar a própria instituição do sábado, descobriremos que foi introduzida para uma obra de piedade. Pois ordenou o descanso no sábado: para que descanse o teu servo e a tua serva, o teu boi e qualquer animal teu. Mas aquele que tem misericórdia do seu boi e dos demais animais, como não terá misericórdia do homem atormentado por grave enfermidade?

Evangelho de São Lucas 6, 12–16

Examinemos, pois, naquilo que Cristo fez, de que modo nos ensina a insistir nas orações divinas, isto é, em separado e em segredo, sem que ninguém veja, removida também a preocupação mundana, para que a intenção seja elevada à intuição da divina contemplação: o que é designado pelo fato de que Jesus orava em separado no monte.

Evangelho de São Lucas 6, 12–16

Observe a extrema diligência do Evangelista; ele não apenas diz que os sagrados apóstolos foram escolhidos, mas também os enumera nominalmente, para que ninguém ouse inscrever outros no catálogo dos apóstolos. "Simão, a quem cognominou Pedro, e André, seu irmão".

Evangelho de São Lucas 6, 12–16

Mas se convém conhecer a interpretação dos nomes dos Apóstolos, saiba que Pedro significa "o que dissolve" ou "o que reconhece"; André significa "poder ilustre" ou "o que responde"; Tiago, "o que suplanta a dor"; São João, "a graça do Senhor"; São Mateus, "o doado"; Filipe, "boca grande" ou "orifício de lâmpada"; São Bartolomeu, "filho daquele que suspende as águas"; São Tomás, "abismo" ou "gêmeo"; Tiago, filho de Alfeu, "o que suplanta os passos da vida"; Judas, "confissão"; e Simão, "obediência".

Evangelho de São Lucas 6, 17–19

Celebrada a ordenação dos Apóstolos, tendo-se reunido muitos da região dos judeus, e também do litoral de Tiro e Sidon, que eram idólatras, constituiu-os doutores de todo o mundo, para que chamassem os judeus da servidão da lei, e os adoradores dos demônios do erro gentílico ao conhecimento da verdade; por isso diz: "E descendo do monte com eles, deteve-se em um lugar plano, e a turba de seus discípulos, e uma grande multidão do povo de toda a Judeia e de Jerusalém e do litoral".

Evangelho de São Lucas 6, 17–19

Mas depois que designou publicamente os sagrados apóstolos, realizou muitos e árduos milagres, para que os judeus e gentios que ali se reuniram soubessem que eles haviam sido agraciados por Cristo com a dignidade do apostolado; e que Ele não era como um dos outros homens, mas antes era Deus, como o Verbo encarnado; por isso segue: "E toda a multidão procurava tocá-lo, porque dele saía uma virtude que curava a todos". Pois Cristo não recebia virtude de outros, mas sendo por natureza Deus, enviava sua própria virtude sobre os enfermos e curava a todos.

Evangelho de São Lucas 6, 20–23

Mas à pobreza segue-se não somente a falta das coisas que provocam alegria, como também um semblante abatido por causa da tristeza; por isso segue: bem-aventurados vós que agora chorais. Ele declara bem-aventurados os que choram, não aqueles que simplesmente derramam lágrimas de seus olhos (pois isto é comum tanto aos fiéis quanto aos infiéis, quando lhes sobrevém algo triste), mas antes declara bem-aventurados aqueles que evitam uma vida despreocupada, envolvida com o pecado e entregue aos prazeres carnais, e recusam os deleites, quase chorando por seu ódio a todas as coisas mundanas.

Evangelho de São Lucas 6, 24–26

Tendo dito antes que a pobreza por amor a Deus é a causa de todo bem, e que a fome e o pranto não ficarão sem a recompensa dos santos, transfere agora o discurso para o oposto, e indica que estes mesmos serão matéria de condenação e suplício; por isso diz: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes vossa consolação".

Evangelho de São Lucas 6, 27–31

Era conveniente este modo de vida para os santos doutores, que estavam destinados a pregar em toda a parte da terra a palavra de salvação; pois se quisessem tomar vingança dos seus perseguidores, teriam deixado de chamá-los ao conhecimento da verdade.

Evangelho de São Lucas 6, 27–31

A lei antiga ordenava não ofender os outros; ou se fôssemos ofendidos primeiro, não estender nossa ira além da proporção dos que nos ofenderam; mas a perfeição da lei está em Cristo e em seus mandamentos; donde segue: e àquele que te fere numa face, oferece-lhe também a outra.

Evangelho de São Lucas 6, 27–31

Mas o Senhor quer, além disso, que sejamos desprezadores dos bens; por isso segue: E àquele que toma tua capa, não o impeças de tomar também tua túnica. Pois esta é a virtude da alma que está completamente afastada da paixão pela cobiça das riquezas. Convém, de fato, àquele que é piedoso também esquecer os males, para que possamos conferir aos que nos perseguem os mesmos benefícios com os quais ajudamos os caros amigos.

Evangelho de São Lucas 6, 27–31

Grande, portanto, é o louvor da piedade: pois esta virtude nos torna conformes a Deus, e imprime em nossas almas certos sinais, como se fossem de uma natureza sublime; donde segue "sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso".

Evangelho de São Lucas 6, 32–36

Ele neste ponto acalma aquela pior paixão de nossas consciências, que é o desprezo dos princípios: pois ainda que convenha a alguns observar-se e comportar-se segundo Deus, isso não fazem, mas examinam as coisas alheias. E se veem alguns enfraquecer-se, como se esquecidos de suas próprias paixões, fazem disso matéria de detração.

Evangelho de São Lucas 6, 32–36

Mas que receberemos uma recompensa mais abundante de Deus, que concede generosamente aos que o amam, ele explica da seguinte maneira: boa medida, recalcada, sacudida e transbordante, darão em vosso regaço.

Evangelho de São Lucas 6, 32–36

Mas o Apóstolo resolve isto dizendo: Quem semeia com parcimônia, isto é, modicamente e com mão avarenta, também colherá com parcimônia, isto é, não copiosamente; e quem semeia em bênçãos, em bênçãos também colherá, isto é, abundantemente. Se alguém, porém, não possui, se não pratica, não comete falta: pois é aceito naquilo que tem, não naquilo que lhe falta.

Evangelho de São Lucas 6, 39–42

O Senhor acrescentou às parábolas anteriores uma parábola muito necessária; por isso diz: dizia-lhes também uma similitude. Pois seus discípulos seriam os futuros doutores do mundo; por isso convinha que conhecessem o caminho da conversação honesta, tendo a mente como que iluminada pelo esplendor divino, para que os cegos não guiassem os cegos; e por isso acrescenta: Porventura pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova? E se acontecer que alguns cheguem a possuir uma virtude igual à virtude dos que ensinam, que permaneçam na medida dos mestres e sigam seus passos; por isso segue: não está o discípulo acima do mestre; mas todo aquele será perfeito, isto é, o discípulo, se for como o seu mestre; por isso também Paulo diz: sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Portanto, se Cristo não julga, por que tu julgas? Pois Ele não veio para julgar o mundo, mas para ter misericórdia.

Evangelho de São Lucas 6, 39–42

Como se dissesse: aquele que está sujeito a graves pecados, os quais chama de trave, de que maneira condena aquele que cometeu poucos males ou, às vezes, nenhum? Pois isto é o que significa a palha.

Evangelho de São Lucas 6, 43–45

Também a vida e os costumes de cada um serão significativos: pois não com ornamentos exteriores e fingidas humildades é apreendida a beleza da verdadeira felicidade, mas por aquelas coisas que alguém pratica: e colocando um exemplo disso, acrescenta: "Porque não se colhem figos dos espinhos".

Evangelho de São Lucas 6, 43–45

Mas, após mostrar que o homem bom e o mau podem ser discernidos por suas obras, assim como a árvore por seus frutos, agora explica a mesma coisa através de outra figura, dizendo: O homem bom do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau do mau tesouro tira o mal.

Evangelho de São Lucas 6, 46–49

Qual é a utilidade na observância dos mandamentos, ou que dano pode ocorrer da desobediência, mostra acrescentando: "Todo aquele que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as põe em prática, eu vos mostrarei a quem é semelhante. É semelhante a um homem que edifica uma casa, que cavou fundo e pôs os alicerces sobre a pedra".

Evangelho de São Lucas 6, 46–49

Ou edifica sobre a terra sem fundamento quem sobre a areia da dúvida, que se baseia apenas na opinião, põe o fundamento da construção espiritual, a qual poucas gotas de tentações destroem.

Evangelho de São Lucas 7, 11–17

O Senhor une prodígios a prodígios; e se antes acorreu quando chamado, aqui ele se aproxima sem ser convidado; por isso diz: E aconteceu que, em seguida, foi a uma cidade chamada Naim.

Evangelho de São Lucas 7, 11–17

Era uma paixão digna de compaixão, capaz de provocar choro e lágrimas. Por isso segue-se que quando o Senhor a viu, movido de misericórdia por ela, disse-lhe: Não chores.

Evangelho de São Lucas 7, 11–17

Por isso, Ele não realiza o milagre apenas com a palavra, mas também toca o féretro, para que conheças que o sagrado corpo de Cristo é eficaz para a salvação humana: pois é o corpo da vida e a carne do Verbo onipotente, cuja virtude possui. Assim como o ferro unido ao fogo realiza a obra do fogo, assim também, depois que a carne foi unida ao Verbo que vivifica todas as coisas, ela própria também se torna vivificadora e expulsora da morte.

Evangelho de São Lucas 7, 11–17

Este milagre foi grandioso em um povo insensível e ingrato; porque pouco depois não considerava que Ele fosse profeta, nem que fosse para a utilidade do povo. Contudo, este milagre não ficou oculto a nenhum dos habitantes da Judeia; por isso segue: "E esta notícia sobre Ele espalhou-se por toda a Judeia, e por toda a região ao redor".

Evangelho de São Lucas 7, 18–23

Alguns discípulos de São João Batista referiram-lhe o milagre que todos os habitantes da Judeia e da Galileia haviam conhecido, pelo que se segue: "E anunciaram a João seus discípulos acerca de todas estas coisas".

Evangelho de São Lucas 7, 18–23

Mas tal opinião deve ser completamente rejeitada: pois nunca encontramos na Sagrada Escritura afirmação de que São João Batista tenha anunciado aos que estavam no inferno a vinda do Salvador. Também é verdade dizer que o Batista não ignorava a virtude do mistério da encarnação do Unigênito; por isso, entre outras coisas, sabia que Ele haveria de iluminar os que permaneciam no Inferno, tendo provado a morte por todos, tanto vivos quanto mortos. Mas como a palavra da Sagrada Escritura, por um lado, predisse que Ele viria como Deus e Senhor, e outros, por outro lado, foram enviados como servos antes de Cristo, por isso o Salvador e Senhor de todos era chamado pelos profetas aquele que veio ou que há de vir, segundo aquilo: "Bendito o que vem em nome do Senhor"(Salmo 117,26); e em Habacuc: "Dentro de pouco tempo, aquele que há de vir, virá e não tardará"(Habacuc 2,3). Portanto, o divino Batista, como que recebendo o nome da Sagrada Escritura, enviou alguns de seus discípulos para perguntar se ele próprio era aquele que vem ou que há de vir.

Evangelho de São Lucas 7, 18–23

Ou interroga por dispensação; pois como precursor conhecia o mistério da paixão de Cristo; mas para que constasse aos seus discípulos quão grande é a excelência do Salvador, enviou os mais prudentes dos seus discípulos, os quais ordenou que inquirissem, e pela viva voz do Salvador conjecturassem, se ele é aquele que era esperado; donde se segue: "Quando, porém, os homens vieram a ele, disseram: João Batista nos enviou a ti, dizendo: És tu aquele que há de vir, ou esperamos outro?" Sabendo, porém, como Deus, com qual intenção João os havia enviado, e a causa de sua vinda, naquela hora realizou milagres mais abundantes; donde se segue: "Naquela mesma hora, curou muitos de enfermidades e chagas e espíritos malignos, e a muitos cegos concedeu a visão." Não lhes diz expressamente: eu sou; mas antes os conduz a uma maior certeza do fato, para que, tomando por conveniente razão a fé nele mesmo, retornem àquele que os enviou; por isso não respondeu às palavras, mas à intenção daquele que os enviava; pois segue-se: "E respondendo, disse-lhes: Ide, anunciai a João o que vistes e ouvistes"; como se dissesse: narrai a João o que certamente ouvistes pelos profetas, mas vistes ser consumado por mim: pois então ele realizava aquelas coisas que os profetas haviam predito que ele faria; das quais se segue: "que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam".

Evangelho de São Lucas 7, 18–23

Ou, por meio disso, queria mostrar que quaisquer coisas que se passavam nos corações deles não podiam escapar da sua vista; pois eles mesmos eram os que se escandalizavam dele.

Evangelho de São Lucas 7, 23–28

O Senhor, como quem conhece os segredos dos homens, conjecturou que alguns diriam: se até hoje João ignora a Jesus, como nos mostrava ele, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo? Assim, para sanar esta paixão que havia surgido neles, excluiu o dano que procedia do escândalo; por isso se diz: E quando partiram os mensageiros de João, começou a falar às multidões a respeito de João: Que saístes a ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Como se dissesse: Vos admirastes de São João Batista, e muitas vezes fostes até ele, percorrendo tão longos caminhos do deserto; certamente em vão, se assim o julgais leviano, como semelhante a uma cana que se inclina para qualquer lado que o vento sopre. Pois tal parece ser aquele que, por leviandade, afirma ignorar o que conhece.

Evangelho de São Lucas 7, 23–28

Como, então, tanta diligência religiosa que sujeitaria as paixões carnais, chegaria a tamanha ignorância, senão pela leviandade da mente, que não se deleita com as asperezas, mas com as seduções mundanas? Portanto, se imitais a São João como alguém que não cultivava delícias, concedei-lhe o vigor competente à sua continência; mas se nada mais é devido à conduta honesta, por que, deixando de lado a reverência às coisas delicadas, admirais o habitante do deserto, sua vestimenta vil e o pelo de camelo?

Evangelho de São Lucas 7, 23–28

Mas talvez não nos convenha desculpar São João neste ponto; vós confessais que ele é digno de imitação; donde acrescenta: Mas que saístes a ver? Um profeta? Em verdade vos digo: e mais que profeta. Pois os profetas pregavam o que havia de vir: este, porém, não só pregou que viria, mas também indicou estar presente, dizendo: Eis o Cordeiro de Deus.

Evangelho de São Lucas 7, 23–28

Tendo, pois, descrito seu modo de vida pelo lugar onde habitava, pelas suas vestes e pelo concurso de pessoas que iam vê-lo, Ele introduz o testemunho do profeta, dizendo: Este é aquele de quem está escrito, eis que envio o meu anjo.

Evangelho de São Lucas 7, 23–28

Misticamente, porém, quando mostra a preeminência de João entre os nascidos de mulher, põe em oposição algo maior do que ele, a saber: Aquele que pelo Espírito Santo nasceu Filho de Deus: pois o reino é dom do Espírito de Deus. Embora, portanto, segundo as obras e a santidade, sejamos menores que aqueles que alcançaram o mistério da lei, que João significa, no entanto, alcançamos coisas maiores por Cristo, sendo feitos participantes da natureza divina.

Evangelho de São Lucas 7, 29–35

Havia um certo modo de brincar costumeiro entre os filhos dos judeus: dividia-se um grupo de crianças, que zombando das repentinas mudanças da vida presente, uns cantavam, outros se lamentavam; mas nem os que se lamentavam se alegravam com os que estavam contentes, nem os que se alegravam se solidarizavam com os que choravam; depois, acusavam-se mutuamente, reprovando a maldade da falta de compaixão. Cristo indicava que a plebe dos judeus, juntamente com seus príncipes, havia sofrido algo assim; por isso, na pessoa de Cristo, acrescenta: "A quem, pois, direi que são semelhantes os homens desta geração, e a quem se assemelham? São semelhantes aos meninos sentados na praça, falando uns com os outros e dizendo: tocamos flauta para vós, e não dançastes; lamentamos, e não chorastes".

Evangelho de São Lucas 7, 29–35

Eles presumem criminalizar um homem digno de toda admiração. Dizem que tem um demônio aquele que mortifica a lei do pecado que se esconde nos membros.

Evangelho de São Lucas 7, 29–35

Mas onde poderiam indicar que o Senhor era um glutão? Pois Cristo se encontra em toda parte reprimindo o excesso e conduzindo os homens à temperança. Porém, Ele convivia com publicanos e pecadores; por isso diziam contra Ele: amigo dos publicanos e pecadores, embora de modo algum pudesse Ele próprio cair em pecado, mas, ao contrário, tornava-se para eles causa de salvação: pois o sol não se contamina ao irradiar sobre toda a terra e frequentemente incidir sobre corpos imundos; nem o Sol da justiça será prejudicado ao conviver com os maus. Contudo, ninguém tente comparar sua própria medida com as dignidades de Cristo, mas que cada um, considerando sua própria fragilidade, evite a companhia de tais pessoas, pois "as más conversas corrompem os bons costumes". Segue-se: E a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.

Evangelho de São Lucas 7, 36–50

Uma mulher de vida desonesta, mas demonstrando um afeto fiel, veio a Cristo, como a alguém poderoso para conceder-lhe o perdão dos pecados cometidos; pois segue-se: "E eis que uma mulher que era pecadora na cidade, como soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com ungüento".

Evangelho de São Lucas 8, 4–15

Todo caminho é, de certo modo, árido e inculto, pois é pisado por todos, e nenhuma semente nele se enraíza. Assim, portanto, naqueles que têm o coração indócil não penetram as admoestações divinas, para que possam germinar o louvor das virtudes; mas tais são o caminho frequentado pelos espíritos imundos. Há também alguns que trazem a fé em si como se fosse apenas na simplicidade das palavras; a fé destes carece de raiz; sobre os quais se acrescenta: "e outro caiu sobre a pedra, e, tendo nascido, secou, porque não tinha umidade".

Evangelho de São Lucas 8, 4–15

São, porém, terra fértil e produtiva as almas honestas e boas, que em profundidade recebem as sementes da palavra, e as retêm, e as nutrem; e quanto a isso acrescenta: "e outra caiu em terra boa, e nascida produziu fruto centuplicado". Pois quando na mente limpa de todas as perturbações é infundida a palavra divina, então lança raízes em profundidade, e germina como uma espiga, e convenientemente se aperfeiçoa.

Evangelho de São Lucas 8, 4–15

Mas qual seja o sentido da parábola, saibamos por aquele que a compôs; por isso segue-se que dito isso, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Evangelho de São Lucas 8, 4–15

Pois quando entram na Igreja, consideram os divinos mistérios com alegria, mas com leveza de propósito; porém, quando saem da Igreja, esquecem-se das sagradas disciplinas; e se a fé cristã não é perturbada, permanecem; mas quando a perseguição se manifesta, têm uma mente fugitiva, porque a fé deles carece de raiz.

Evangelho de São Lucas 8, 22–25

Como os discípulos viam que todos os beneficiados por Cristo, convinha também que eles próprios gradualmente se deleitassem nos benefícios de Cristo: pois ninguém considera da mesma forma as coisas que acontecem nos corpos alheios como no seu próprio; e por isso o Senhor expôs os discípulos ao mar e aos ventos; donde se diz "Aconteceu num daqueles dias, que ele subiu a uma barca, e seus discípulos; e disse-lhes: Passemos para o outro lado do lago. E embarcaram".

Evangelho de São Lucas 8, 22–25

Se porém, estando o Senhor desperto, tivesse ocorrido a tempestade, ou os discípulos não teriam temido, ou não teriam se assustado, ou não teriam acreditado que Ele pudesse fazer tal coisa. Por esta razão Ele dorme, proporcionando ocasião para o temor; segue-se, pois: "Enquanto eles navegavam, adormeceu; e desceu uma tempestade de vento sobre o lago".

Evangelho de São Lucas 8, 22–25

Mas parece ter sido realizado com grande dispensação que não buscassem seu socorro logo que a tempestade começou a invadir a barca, mas depois que o mal se agravou, para que o poder da Divina Majestade se tornasse mais manifesto; por isso se diz: e eram compelidos, e estavam em perigo. O Senhor permitiu isso em favor do exercício, para que, tendo confessado o perigo, conhecessem a grandeza do milagre. Por isso, quando a magnitude do perigo os compelia a um medo intolerável, não tendo outra esperança de salvação senão somente o próprio Senhor das virtudes, despertaram-no. Segue-se: Aproximando-se, despertaram-no, dizendo: Mestre, perecemos.

Evangelho de São Lucas 8, 22–25

Não era possível que eles perecessem estando com eles o Onipotente; por isso Cristo, que tem poder sobre todas as coisas, levanta-se imediatamente e acalma prontamente a tempestade e o ímpeto dos ventos. E cessou a tempestade, e fez-se a tranquilidade, no que mostra ser Deus, a quem se diz: "tu dominas o poder do mar, e acalmas o movimento de suas ondas"(Salmo 88,10).

Evangelho de São Lucas 8, 22–25

Mas juntamente com a tempestade das águas, Ele aquietou também a tempestade das almas; por isso segue: disse-lhes então: onde está a vossa fé? Com estas palavras mostrou que não é a ocorrência das tentações que produz o temor, mas a fraqueza da mente. Pois assim como o ouro é provado no fogo, assim a fé nas tentações.

Evangelho de São Lucas 8, 26–39

O fato de que ele andava nu entre os sepulcros dos mortos era um sinal de ferocidade demoníaca. Deus, porém, permite por sua providência que alguns estejam sujeitos aos demônios, para que conheçamos através deles como são os demônios em relação a nós, a fim de que recusemos nos submeter a eles; e assim, pelo sofrimento de um, muitos são edificados.

Evangelho de São Lucas 8, 26–39

Notai aqui o temor anexo à audácia e ao grande desespero; pois é sinal de desespero diabólico ousar dizer "Que tenho eu contigo, Jesus, filho do Deus altíssimo?" E de temor quando suplica "Rogo-te que não me atormentes". Mas se reconheces que Ele é o Filho do Deus Altíssimo, confessas que Ele é Deus do céu e da terra, e de tudo o que neles se contém. Como, pois, usurpas não o que é teu, mas o que é dele, e dizes "Que tenho eu contigo?" E qual dos príncipes terrenos toleraria por completo que seus súditos fossem atormentados por bárbaros? Por isso segue: "Pois ele ordenava ao espírito imundo que saísse do homem". E mostra a necessidade do preceito, acrescentando: "Porque por muito tempo o arrebatava"; e era amarrado com cadeias e grilhões para ser guardado; e, rompendo as correntes, era conduzido pelo demônio aos desertos.

Evangelho de São Lucas 8, 26–39

E por isso a multidão de espíritos imundos pede para ser enviada para um rebanho de porcos imundos, semelhantes a si mesmos. Segue-se: "E rogavam a Ele que lhes permitisse entrar neles".

Evangelho de São Lucas 8, 26–39

O Senhor, portanto, concedeu-lhes poder, para que isto entre outras coisas seja para nós causa de salvação, e esperança de fortaleza. Segue-se e permitiu-lhes. É necessário considerar, pois, que os demônios são perversos, e hostis àqueles que lhes estão sujeitos; como pode ficar evidente pelo fato de que precipitaram e sufocaram os porcos nas águas; donde segue saíram, pois, os demônios do homem, e entraram nos porcos, e impetuosamente a manada se lançou pelo precipício ao lago, e afogou-se. E por isso Cristo concedeu aos que suplicavam, para que pelo acontecimento se tornasse manifesto quão cruéis são. Era também necessário mostrar que o Filho de Deus tem providência sobre as coisas não menos que o Pai, para que o esplendor da igualdade se manifeste em ambos.

Evangelho de São Lucas 8, 40–48

O que era o máximo sinal de que Ele havia verdadeiramente revestido nossa carne, e calcado aos pés toda soberba: pois eles não O seguiam de longe, mas O cercavam por todos os lados.

Evangelho de São Lucas 8, 40–48

Ele propala em seguida o que sucedeu, quando acrescenta: pois eu soube que uma virtude saiu de mim. Responde mais materialmente, conforme a opinião dos ouvintes; aqui porém se nos manifesta que ele é verdadeiro Deus, tanto pelo que milagrosamente foi feito, quanto também pelas palavras: pois transcende nossa natureza, e talvez a angélica, o poder alguém emitir virtude como se fosse de sua própria natureza; isso convém somente à natureza suprema: pois nenhuma das criaturas possui a faculdade de salvar, ou mesmo de fazer quaisquer outras coisas, isto é, milagres, a não ser por concessão divina. Ele não permitiu que a manifestação do poder divino ficasse oculta por ambição de glória, ele que muitas vezes ordenara que se guardasse silêncio sobre seus milagres, mas porque isso visava à utilidade daqueles que são chamados à graça mediante a fé.

Evangelho de São Lucas 9, 1–6

Convinha que aqueles instituídos como ministros das sagradas doutrinas pudessem realizar maravilhas, e pelos próprios efeitos fossem reconhecidos como ministros de Deus; por isso diz-se: Chamando Jesus os doze apóstolos, deu-lhes virtude e poder sobre todos os Demônios. Nisso dobra a altiva soberba do Diabo, que outrora disse: Não há quem possa contradizer-me(Isaías 50,8).

AI: I've translated the Latin passage from the Catena Aurea of Saint Thomas Aquinas into formal Brazilian Portuguese, following all your instructions. The translation maintains the theological terminology, proper formatting for biblical references, and preserves the scholarly tone of the original text. I included the biblical reference to Isaiah 50:8 that appears in the Spanish translation for completeness.
Evangelho de São Lucas 9, 1–6

Observe aqui o divino poder do Filho, que não é condizente com a natureza corporal; pois realizar milagres estava presente nos santos, não por natureza, mas pela participação do Espírito Santo. Entretanto, conceder este poder a outros era completamente alheio à sua capacidade: pois como poderia a natureza criada possuir domínio sobre os dons do Espírito? Mas nosso Senhor Jesus Cristo, existindo naturalmente como Deus, concede esta graça a quem Ele deseja, não invocando neles uma virtude alheia, mas infundindo-a de seus próprios tesouros.

Evangelho de São Lucas 9, 1–6

Mas alguém poderia dizer: de onde virão as coisas necessárias para eles? E por isso acrescenta: E em qualquer casa que entrardes, permanecei ali, e dali não saiais; como se dissesse: Seja-vos suficiente o fruto dos discípulos, os quais, recebendo de vós as coisas espirituais, vos proverão. Ordenou-lhes também que permanecessem em uma só casa, para que nem sobrecarreguem o hospedeiro, isto é, abandonando-o, nem eles mesmos incorram na suspeita de glutonaria e leviandade.

Evangelho de São Lucas 9, 1–6

Pois é muito improvável que aqueles que desprezam a palavra e o pai de família, se mostrem benignos aos seus servos, ou busquem suas bênçãos.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

Alguns, de fato, pedindo para serem libertados dos espíritos malignos, outros desejando d'Ele a remoção de suas enfermidades; também aqueles que se deleitavam com a Sua doutrina, seguiam-no com suma atenção.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

Como foi dito, pediam remédios para diversas enfermidades; e porque os discípulos viam que com um simples assentimento poderia ser realizado o que os enfermos pediam, dizem: despede-os, para que não se angustiem mais. Observa, porém, a exuberante mansidão daquele a quem se roga: não concede somente aquelas coisas que os discípulos pedem, mas também acrescenta àqueles que o seguem os bens de sua mão munificente, ordenando que lhes seja oferecido alimento; donde segue: Disse-lhes, pois: dai-lhes vós de comer.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

Mas o que lhes era ordenado era intolerável para os discípulos, pois não tinham consigo senão cinco pães e dois peixes; por isso, segue-se: E eles disseram: Não temos mais do que cinco pães e dois peixes, a não ser que nós mesmos vamos comprar alimentos para toda esta multidão.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

Mas para que o milagre se eleve a feitos ainda mais árduos, mostra-se que não era pequena a multidão de homens, quando se segue: eram cerca de cinco mil homens, excetuando-se, é claro, as mulheres e as crianças, como relata outro Evangelista.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

Ele também fez isso dispensativamente para nós, a fim de que aprendêssemos que no início da refeição, quando devemos partir o pão, devemos oferecê-lo a Deus e invocar sobre ele a bênção suprema; donde segue e abençoou, e partiu, e distribuiu aos seus discípulos, para que pusessem diante das multidões.

Evangelho de São Lucas 9, 10–17

E o milagre não chegou apenas até este ponto, mas segue: e foi recolhido o que lhes sobrou dos fragmentos, doze cestos; para que assim ficasse manifesta a certeza de que a obra de caridade para com o próximo reivindica uma abundante retribuição de Deus.

Evangelho de São Lucas 9, 18–22

Separado dos povos e colocado à parte, o Senhor se dedicava às orações; donde se diz: E aconteceu que estando sozinho orando, estavam com ele também os discípulos. Pois nisto constituía a si mesmo como modelo, ensinando aos discípulos a arte fácil dos dogmas doutrinais: entendo, pois, ser necessário que os prepostos dos povos também se destaquem pelos méritos diante de seus súditos, ocupando-se assiduamente nas coisas necessárias, e tratando daquelas coisas pelas quais Deus se aplaca.

Evangelho de São Lucas 9, 18–22

O trabalho da oração podia perturbar os discípulos: pois viam, humanamente, orar àquele a quem antes haviam visto realizar milagres com autoridade divina. E assim, para afastar perturbação dessa natureza, interroga-os, não porque ignorasse os louvores a ele atribuídos pelos de fora, mas para afastá-los da opinião da maioria e infundir neles a reta fé; donde se segue "e interrogou-os, dizendo: quem dizem as multidões que eu sou?"

Evangelho de São Lucas 9, 18–22

Vede, porém, a elegância nas interrogações. Dirige primeiramente eles às louvações exteriores, a fim de, uma vez eliminadas, gerar a verdadeira opinião. Por isso, tendo os discípulos mencionado a opinião do povo, pergunta-lhes sobre seu próprio parecer, quando acrescenta: Disse-lhes então: Vós, porém, quem dizeis que eu sou? Ó quão importante é aquele vós. Separa-os dos demais, para que evitem as opiniões destes; como se dissesse: vós, que por minha determinação fostes chamados ao apostolado, testemunhas dos meus milagres, quem dizeis que eu sou? Antecipou-se Pedro aos demais, e torna-se a voz de todo o colégio, e proferindo as eloquentes palavras do amor divino, declara a confissão de fé, quando se diz: Respondendo Pedro, disse: O Cristo de Deus. Não diz simplesmente que ele era Cristo de Deus, mas mais ainda com o artigo, o Cristo de Deus; por isso no grego se tem ton christon. Pois muitos, divinamente ungidos, foram chamados cristos de diversos modos. Alguns foram ungidos como reis, outros como profetas; nós, porém, através de Cristo, ungidos pelo Espírito Santo, obtivemos o nome de Cristo; mas um só é o Cristo de Deus e do Pai, como se somente ele tivesse como próprio Pai aquele que está nos céus: e assim São Lucas concorda certamente nas sentenças com São Mateus, que narrou que Pedro disse: tu és o Cristo, o filho de Deus vivo; mas, usando brevidade, diz que ele afirmou o Cristo de Deus.

Evangelho de São Lucas 9, 18–22

Mas deve-se notar que o prudentíssimo Pedro confessou ser Cristo um só, contra aqueles que presumem dividir o Emanuel em dois cristos. Pois ele não os interrogou dizendo: "Quem dizem os homens ser o Verbo divino?", mas o Filho do homem, a quem Pedro confessou ser o Filho de Deus. Nisso, portanto, ele é admirável e se fez digno de honras tão especiais, porque aquele que ele admirou em nossa forma, acreditou ser o Cristo do Pai, ou seja, o Verbo feito homem, que procedeu da substância do Pai.

Evangelho de São Lucas 9, 18–22

Convinha, pois, que os discípulos o pregassem em toda parte (pois esta era a obra dos eleitos por ele para o ofício apostólico); mas, como testemunha a Sagrada Escritura, há um tempo para cada coisa. Convinha, pois, que a cruz e a ressurreição se cumprissem, e então se seguisse a pregação dos apóstolos; por isso continua dizendo: "porque convém que o Filho do homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado pelos anciãos, e pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, e seja morto, e ao terceiro dia ressuscite".

Evangelho de São Lucas 9, 23–27

Os grandes e magnânimos líderes provocam à audácia os valentes em armas, não somente prometendo-lhes as honras da vitória, mas também declarando que o próprio sofrer é nobre. Algo semelhante vemos ensinar o Senhor Jesus Cristo. Pois havia predito aos apóstolos que Ele deveria suportar as calúnias dos judeus, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. Para que não pensassem que Cristo, por um lado, sofreria perseguições pela vida do mundo, enquanto a eles seria permitido levar uma vida agradável, Ele mostra que necessariamente é apropriado que aqueles que desejam obter a sua glória avancem por meio de combates semelhantes; por isso se diz: E dizia a todos.

Evangelho de São Lucas 9, 23–27

Mas que o exercício incomparável da paixão de Cristo supera as delícias e preciosidades do mundo, ele o insinua acrescentando: de que aproveita ao homem lucrar o mundo inteiro, se perder a si mesmo e causar seu próprio dano? Como se dissesse: quando alguém, olhando para a doçura ou utilidade presente, recusa-se a sofrer, mas escolhe viver esplendidamente, se for opulento, que proveito terá disso quando perder sua alma? Pois passa a figura deste mundo, e as coisas agradáveis se vão como sombra: porque os tesouros da impiedade não aproveitarão; mas a justiça livra da morte.

Evangelho de São Lucas 9, 23–27

Ele os incute temor, dizendo que descerá dos céus, não na humildade anterior e em medida proporcional a nós, mas na glória do Pai, com os Anjos servindo-lhe; pois segue-se: quando vier em sua majestade, e na do Pai e dos santos Anjos. Péssimo, portanto, e danoso será ser marcado pela inimizade e pela inércia das obras, quando tão grande juiz descer, rodeado pelas multidões de Anjos. Daqui, porém, percebas que, tendo assumido carne e sangue, o Filho não é menos Deus, já que promete vir na majestade de Deus Pai, e que a Ele, como juiz de todos, servirão os Anjos, Ele que se fez homem semelhante a nós.

Evangelho de São Lucas 9, 32–36

Ele não sabia o que dizia, pois nem havia chegado o tempo do fim do mundo, nem o de participação dos santos na esperança prometida. E quando a dispensação já estava tendo seu início, como seria conveniente que Cristo abandonasse seu amor pelo mundo, Ele que estava disposto a sofrer por ele?

Evangelho de São Lucas 9, 32–36

Como, pois, era necessário considerar aquele que verdadeiramente é o Filho como feito ou criado, quando Deus Pai trovejou do alto "Este é o meu Filho"? Como se dissesse: Não um dos filhos, mas aquele que verdadeira e naturalmente é o Filho; segundo cujo exemplo os outros são adotivos. A ele, portanto, ordenou obedecer, quando acrescenta "a ele ouvi"; e mais do que a Moisés e Elias, porque Cristo é o fim da lei e dos profetas; por isso o Evangelista significativamente acrescenta "e enquanto se fazia a voz, foi encontrado só Jesus".

Evangelho de São Lucas 9, 37–43

Por isso, penso que é melhor considerar incrédulo o pai do endemoninhado, que repreendeu os sagrados apóstolos, dizendo que eles não podiam dar ordens aos demônios; antes seria melhor, honrando a Deus, pedir-lhe a graça, pois Ele concede aos que O veneram. Mas aquele que diz que se debilita o poder sobre os espíritos malignos naqueles que receberam de Cristo essa autoridade de expulsá-los, calunia mais a graça do que aqueles que resplandecem nela, nos quais Cristo opera. Por isso, Cristo se ofende quando são acusados os santos aos quais foi confiada a palavra da pregação sagrada; por isso o Senhor o repreende, a ele e aos que concordam com ele, dizendo: "Ó geração infiel e perversa", como se dissesse: por causa da tua infidelidade, a graça não produziu seu efeito.

Evangelho de São Lucas 9, 37–43

Como se não soubessem prosseguir por caminhos retos. Cristo, porém, recusa-se a habitar com aqueles que estão assim dispostos; por isso diz: "até quando estarei convosco, e vos suportarei?" Sentindo como que desgosto da convivência com eles por causa da depravação dos mesmos.

Evangelho de São Lucas 9, 37–43

Antes, porém, não era do pai, mas do demônio que o ocupava. E acrescenta o Evangelista que a plebe se admirava das maravilhas de Deus, dizendo: E todos estavam admirados com a grandeza de Deus, o que ele diz por causa do dom de Cristo, que também conferiu aos santos apóstolos o poder de realizar milagres divinos e de imperar sobre os demônios.

Evangelho de São Lucas 9, 44–45

Todas as obras que Jesus realizava eram dignas de admiração diante de todos: pois irradiava algo extraordinário e divino em cada uma de suas ações, conforme aquilo: "Revestirás de glória e esplendor". E ainda que todos se admirassem com as coisas que fazia, ele, entretanto, dirigiu o que segue não a todos, mas aos discípulos; por isso se diz: "Admirando-se todos de tudo o que fazia, disse aos seus discípulos: Ponde vós em vossos corações estas palavras". Mostrara no monte aos discípulos a sua glória, e depois disso libertara alguém de um espírito maligno; mas era necessário que ele suportasse a paixão por nós. Podiam, porém, os discípulos ficar perturbados, dizendo: porventura fomos enganados ao julgarmos que ele era Deus? Assim, para que soubessem o que estava para acontecer com ele, como um certo depósito, ordena-lhes que mantenham na mente o mistério da paixão, dizendo: "Ponde vós em vossos corações". O que diz "vós", distingue-os dos outros: pois não convinha que o vulgo soubesse que ele havia de padecer; mas antes deviam ser certificados de que, tendo morrido, ressuscitaria, destruindo a morte, para que não se escandalizassem.

Evangelho de São Lucas 9, 44–45

Mas dirá alguém, talvez: como os discípulos ignoraram o mistério da cruz de Cristo, quando na sombra da lei em muitos lugares se fazia menção dela? Mas, como São Paulo recorda, até o dia de hoje, quando se lê Moisés, um véu cobre o coração deles(2 Coríntios 3,15). Convém, pois, aos que se aproximam de Cristo dizer: "Desvenda os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei"(Salmo 118,18).

Evangelho de São Lucas 9, 46–50

O Diabo arma ciladas de muitos modos aos que amam a vida mais perfeita; e se por meio de atrativos carnais consegue dominar a mente de alguém, aguça o afeto pelo prazer; se alguém escapa destes laços da cobiça, suscita a paixão da glória, paixão esta da vanglória que invadiu alguns de seus apóstolos; por isso diz: entrou, porém, um pensamento neles, sobre qual deles seria o maior. Pois pensar isto é próprio de quem deseja estar acima dos outros. Considero improvável, porém, que todos os discípulos tenham incorrido nesta enfermidade; e por isso, para que não parecesse que o Evangelista estava maquinando algum crime contra algum dos discípulos, ele expressa-se de modo indeterminado, dizendo que entrou neles o pensamento.

Evangelho de São Lucas 9, 46–50

O Senhor, porém, que sabe salvar, vendo na mente dos discípulos o pensamento que surgira sobre isso, como uma raiz de amargura, antes que ela aumentasse, arrancou-a pela raiz; pois quando as paixões começam em nós, são facilmente vencidas; mas quando aumentadas, são difíceis de remover; por isso segue-se: E Jesus, vendo os pensamentos de seus corações, tomou uma criança e colocou-a junto a si. Aprenda aquele que pensa que Jesus é um mero homem que está errado; pois embora o Verbo se tenha feito carne, permaneceu Deus: porque somente Deus pode sondar os corações e as entranhas. O fato de que tomou uma criança e a colocou junto a si, foi feito pela causa da utilidade dos apóstolos e da nossa. Pois a doença da vanglória devora principalmente aqueles que se destacam entre os demais homens. Mas a criança possui uma mente sincera, um coração imaculado, e permanece na simplicidade dos pensamentos: não ambiciona honras, nem conhece o modo de qualquer prerrogativa, nem teme parecer inferior, não carrega muita severidade na mente e no coração. A estes, o Senhor abraça e ama, e considera digno de ter perto de si, como aqueles que escolheram conhecer o que lhe pertence. Pois Ele diz: Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; donde segue: E disse-lhes: Quem receber esta criança em meu nome, a mim me recebe; como se dissesse: Quando uma e a mesma é a recompensa para aqueles que honram os santos, seja talvez o menor, seja distinguido em honra e glória, porque nele Cristo é recebido; como não é vão buscar exercer prerrogativa uns sobre os outros?

Evangelho de São Lucas 9, 46–50

Ainda mais insinua o sentido das palavras anteriores, dizendo: "Pois aquele que é menor entre todos vós, este é o maior". Isto diz respeito ao homem modesto, que nada julga sublime de si mesmo devido à sua honestidade.

Evangelho de São Lucas 9, 46–50

Mas convinha ponderar mais que não era ele mesmo o autor dos milagres, mas a graça que está naquele que realiza milagres pela virtude de Cristo. O que aconteceria se aqueles que são coroados com a graça de Cristo não fossem contados entre os apóstolos? Há muitas diferenças nos dons de Cristo; mas como o Salvador havia concedido aos apóstolos o poder de expulsar espíritos imundos, eles julgaram que a ninguém mais além deles próprios fosse lícito exercer esta dignidade concedida; e por isso se aproximam perguntando se era lícito também a outros fazer isto.

Evangelho de São Lucas 9, 46–50

Como se dissesse: Por vós, que amais a Cristo, há aqueles que querem seguir as coisas que pertencem à sua glória, sendo coroados com a graça do mesmo.

Evangelho de São Lucas 9, 51–56

Tendo chegado o tempo em que convinha que o Senhor, após consumada a saudável paixão, subisse ao céu, determinou subir a Jerusalém; por isso diz: "E aconteceu que, ao completarem-se os dias de sua assunção, Ele firmou o seu rosto para ir a Jerusalém".

Evangelho de São Lucas 9, 51–56

Enviou, porém, mensageiros para preparar hospedagem para ele e seus companheiros; os quais, tendo ido à terra dos samaritanos, não foram admitidos; de onde segue e enviou mensageiros adiante dele; e indo entraram numa cidade dos samaritanos, para preparar para ele. E não o receberam.

Evangelho de São Lucas 9, 51–56

Mas o Senhor, porque conhecia todas as coisas, sabia que seus mensageiros não seriam recebidos pelos samaritanos; entretanto, ordenou-lhes que fossem adiante, porque era seu costume realizar todas as coisas para o progresso dos discípulos. Subia a Jerusalém aproximando-se o tempo da paixão. Para que, portanto, quando o vissem padecer, não se escandalizassem, considerando que era necessário ser pacientes quando alguns infligiam ultrajes, enviou como um prelúdio a rejeição dos samaritanos. Isso também lhes foi proveitoso de outro modo. Pois haveriam de ser doutores de toda a terra, percorrendo cidades e aldeias para pregar a doutrina evangélica; e às vezes encontrariam alguns que não receberiam a sagrada pregação, como não permitindo que Jesus permanecesse com eles. Ensinou-lhes, portanto, que ao anunciar a divina doutrina deveriam estar cheios de paciência e mansidão; e não hostis e iracundos, nem insurgindo-se atrozmente contra os que pecassem contra eles; mas ainda não eram assim; pelo contrário, incitados por um zelo fervoroso, queriam fazer descer fogo do céu sobre eles. Segue-se: "E quando viram isso seus discípulos Tiago e João, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?"

Evangelho de São Lucas 9, 57–62

Ainda que o Senhor de todos seja generoso, Ele não concede simples e imprudentemente a cada um os dons celestes e divinos, mas apenas àqueles que são dignos de recebê-los, que verdadeiramente afastam sua alma das manchas das iniquidades; e isto nos ensina a força das palavras evangélicas, quando se diz: Aconteceu que, enquanto eles caminhavam pelo caminho, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. Primeiramente, percebe-se muita indolência contida em sua aproximação; em seguida, demonstra-se que está cheio de excessiva impudência: pois não pedia simplesmente para seguir a Cristo, como muitos outros do povo; mas antes aspirava às dignidades apostólicas, quando Paulo diz: Ninguém assume para si esta honra, senão aquele que é chamado por Deus.

Evangelho de São Lucas 9, 57–62

De outro modo também não sem razão o julga recusável; pois convinha que ele tomasse sua cruz para seguir o Senhor, e renunciasse aos afetos da vida presente; e isto o Senhor repreende nele, não para censurá-lo, mas para corrigi-lo. Segue-se e diz Jesus: As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça.

Evangelho de São Lucas 9, 57–62

Em sentido místico, ele chama de raposas e aves do céu às malignas e astutas potestades dos demônios: como se dissesse: quando raposas e aves têm morada em ti, como Cristo poderá repousar em ti? Que comunhão tem a luz com as trevas?

Evangelho de São Lucas 9, 57–62

Ou de outro modo. O pai estava sobrecarregado pela velhice. Ele considerava estar fazendo algo honroso ao se propor a observar a devida piedade para com seu pai, conforme aquilo: "honra teu pai e tua mãe". Por isso, quando foi chamado para o ministério evangélico, e o Senhor lhe disse "segue-me", ele buscou uma pausa que fosse suficiente para sustentar seu pai decrépito, dizendo: "permite-me primeiro ir e sepultar meu pai"; não que estivesse pedindo para sepultar seu pai já falecido, pois Cristo não teria impedido quem quisesse fazer isso; mas disse "sepultar", isto é, sustentar na velhice até a morte. Mas o Senhor lhe disse: "deixa que os mortos sepultem seus mortos"; pois havia também outros cuidadores ligados pela linha de parentesco, mas, como suponho, mortos, porque ainda não haviam crido em Cristo. Aprende daqui que se deve preferir a piedade para com Deus ao amor pelos pais, a quem mostramos reverência porque por eles fomos gerados; mas o Deus de todos, quando não existíamos, nos conduziu à existência; os pais, porém, tornaram-se ministros de nossa entrada para o ser.

Evangelho de São Lucas 9, 57–62

Esta promessa é digna de ser imitada e plena de todo louvor; porém, querer se despedir daqueles que estão em casa, para obter licença deles, mostra que ele estava de alguma maneira dividido em relação ao Senhor, enquanto não se propôs perfeitamente a segui-lo com toda a mente: pois querer consultar os próximos que não consentiriam com este propósito, indica que ele estava de algum modo vacilante; por isso o Senhor reprova isto. Segue-se que Jesus lhe disse: ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus. Põe a mão no arado aquele que está inclinado a seguir; contudo, olha para trás aquele que pede um adiamento, buscando ocasião para voltar à casa e conversar com os parentes.

Evangelho de São Lucas 10, 1–2

Deus havia certificado pelos profetas que a pregação do Evangelho da salvação compreenderia não só Israel, mas também as multidões de gentios; e por isso por Cristo, após os doze apóstolos, foram instituídos outros setenta e dois; donde se diz: "Depois disto o Senhor designou também outros setenta e dois".

Evangelho de São Lucas 10, 1–2

A forma disto também era prefigurada nas palavras de Moisés, que, por ordem de Deus, escolheu setenta, nos quais Deus infundia o Espírito. Também está escrito no livro dos Números que os filhos de Israel chegaram a Elim, que se interpreta como "ascensão"; e havia ali doze fontes de água e setenta palmeiras. Pois, aqueles que se dirigem ao crescimento espiritual encontrarão doze fontes, isto é, os sagrados apóstolos, dos quais haurímos a ciência da salvação como das fontes do Salvador; e setenta palmeiras, ou seja, aqueles que agora são designados por Cristo. A palmeira é uma árvore de boa medula, bem enraizada e fértil, que sempre cresce junto às águas, alta e estendendo suas folhagens para o alto. Segue-se: "E enviou-os dois a dois".

Evangelho de São Lucas 10, 1–2

Assim como os campos espaçosos exigem muitos ceifadores, assim também a multidão dos que creem em Cristo; por isso acrescenta: rogai, pois, ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe. Observai, porém, que quando disse rogai ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe, Ele mesmo depois realizou isto. Ele é, portanto, o Senhor da messe, e por Ele e com Ele Deus Pai domina sobre todas as coisas.

Evangelho de São Lucas 10, 3–4

Narra São Lucas a seguir que os setenta discípulos adquiriram de Cristo a erudição apostólica, a modéstia, a inocência, a equidade, e a não preferir nada das coisas mundanas às sagradas pregações, aspirando de tal modo à fortaleza de espírito que não temiam nada de terrível, nem a própria morte; por isso diz: Ide.

Evangelho de São Lucas 10, 3–4

Assim, portanto, havia ordenado não ter preocupação com a própria pessoa, quando disse: "envio-vos como cordeiros entre lobos". Nem tampouco concedeu que fossem solícitos com as coisas externas ao corpo, quando disse: "não leveis bolsa nem alforja". E nem permitiu que levassem algo daquilo que ainda não está unido ao corpo; por isso acrescenta: "nem calçados". Não só proibiu levar bolsa e alforja, mas também não permitiu assumir qualquer distração do empenho, pois não quis que fossem distraídos nem mesmo com a saudação aos que encontrassem pelo caminho; por isso acrescenta: "e não saudeis a ninguém pelo caminho"; o que também foi dito anteriormente por Eliseu; como se dissesse: avançai pelo caminho reto para a obra, não trocando bênçãos por bênçãos; pois é prejuízo gastar o tempo adequado para as pregações.

Evangelho de São Lucas 10, 13–16

Por meio disso ensina que tudo o que é dito pelos santos apóstolos deve ser aceito, porque quem os ouve, ouve a Cristo. É inevitável, portanto, o castigo que ameaça os hereges que negligenciam as palavras dos apóstolos; pois segue: e quem vos despreza, a mim despreza.

Evangelho de São Lucas 10, 17–20

Acima foi dito que o Senhor enviou seus discípulos adornados com a graça do Espírito Santo, e tendo-se tornado ministros da pregação, receberam poder sobre os espíritos imundos; agora, porém, ao retornarem, confessam o poder daquele que os honrou; por isso diz: Voltaram, pois, os setenta e dois com alegria, dizendo: Senhor, até os demônios se submetem a nós em teu nome. Pareciam, de fato, alegrar-se mais por terem se tornado autores de milagres do que por terem se tornado ministros da pregação. Era melhor, porém, que eles se alegrassem naqueles que haviam conquistado, como São Paulo diz aos que foram chamados por ele: minha alegria e minha coroa.

Evangelho de São Lucas 10, 17–20

Ou de outro modo. Via Satanás como um relâmpago caindo do céu, isto é, do poder supremo para a extrema fragilidade. Pois antes da vinda do Salvador, havia subjugado a si o mundo, e era adorado por todos; mas quando o Verbo unigênito de Deus desceu do céu, caiu como um relâmpago, porque é pisoteado pelos que adoram a Cristo; donde segue e eis que vos dei poder de pisar sobre serpentes e escorpiões.

Evangelho de São Lucas 10, 17–20

Mas por que, Senhor, não permites que se alegrem com as honras por ti concedidas, quando está escrito: "Em teu nome se alegrarão todo o dia"? Mas o Senhor os eleva a uma alegria maior; por isso acrescenta: "Alegrai-vos, porém, porque vossos nomes estão escritos nos céus".

Evangelho de São Lucas 10, 21–22

Ele vislumbrou, de fato, por meio da operação do Espírito, que transmitiu aos apóstolos, a aquisição de muitos; por isso se diz que se alegrou no Espírito Santo, isto é, nos efeitos que provêm do Espírito Santo: pois como amante dos homens, considerava como motivo de alegria a conversão dos errantes; pelo que dá graças; donde segue confesso-te, Pai, Senhor do céu e da terra.

Evangelho de São Lucas 10, 21–22

Eis que, dizem aqueles cujos corações são perversos, o Filho dá graças ao Pai como sendo menor. Mas o que impede que o Filho consubstancial dê louvor ao seu próprio Genitor, que salva o mundo por meio dele? E se pensas que por causa do seu agradecimento Ele se mostra inferior, observa que Ele O chama de seu Pai e Senhor do céu e da terra.

Evangelho de São Lucas 10, 23–24

Ele se volta para eles, porque rejeitando os judeus surdos, e que traziam uma mente cega, nem querendo ver, dava-se todo inteiro aos que o amavam; e declara bem-aventurados os olhos que viam o que eles mesmos viam antes dos outros. Convém saber apenas isto, que ver não significa o ato dos olhos, mas a recreação da mente nos benefícios concedidos; como quando alguém diz: este viu bons tempos, isto é, alegrou-se nos bons tempos, conforme aquilo: "vejas os bens de Jerusalém". Muitos dos judeus viram Cristo operando coisas divinas, isto é, com o olhar corporal; porém, nem a todos convém a beatificação: pois não acreditaram, nem viram a glória de Deus com os olhos da mente. Bem-aventurados são, portanto, os nossos olhos, porque na fé vimos o Verbo feito homem por nós, imprimindo em nós a beleza de sua divindade, para nos fazer conformes a Ele pela santificação e pela justiça.

Evangelho de São Lucas 10, 25–28

Pois havia certos homens verbosos que percorriam toda a região dos judeus, acusando a Cristo e dizendo que Ele declarava inútil o preceito de Moisés, enquanto Ele mesmo introduzia algumas doutrinas novas. Querendo, portanto, o doutor da lei seduzir a Cristo para que falasse algo contra Moisés, aproxima-se tentando-o, chamando-o de mestre, não suportando ser ensinado. E como o Senhor costumava falar sobre a vida eterna àqueles que vinham até Ele, o doutor da lei utiliza as mesmas palavras dele. E como o tentava astutamente, não ouve nada além do que foi ensinado por Moisés; pois segue-se: E Ele lhe disse: Na lei, o que está escrito? Como lês?

Evangelho de São Lucas 10, 29–37

O doutor da lei, quando louvado pelo Salvador por ter respondido corretamente, irrompe em soberba, pensando que não tinha próximo, como se não houvesse alguém que pudesse ser comparado a ele em justiça. Por isso é dito: Mas ele, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? Pois de certa forma um vício após outro o toma cativo. Da astúcia com que buscou tentar a Cristo, cai no orgulho. E nisto que pergunta, quem é meu próximo? mostra-se desprovido do amor ao próximo, uma vez que não considerava ninguém como seu próximo, e consequentemente do amor de Deus; pois aquele que não ama seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê.

Evangelho de São Lucas 10, 29–37

Portanto, tendo colocado isto, oportunamente agora o Senhor interroga o perito da lei, acrescentando: "Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?" E ele disse: "Aquele que usou de misericórdia para com ele". Pois nem o sacerdote nem o levita se tornaram próximos do que sofria, mas apenas aquele que se compadeceu dele. Inútil é, com efeito, a dignidade do sacerdócio e o conhecimento da lei, se não forem confirmados por boas obras; por isso segue-se: "E Jesus lhe disse: vai e faze tu o mesmo".

Evangelho de São Lucas 10, 38–42

Por seu exemplo, portanto, ensina aos discípulos como devem comportar-se nas casas daqueles que os recebem; isto é, quando vão a uma casa, não fiquem ociosos, mas, ao contrário, encham aqueles que os recebem com ensinamentos sagrados e divinos. Aqueles, porém, que preparam a casa, devem sair ao encontro com alegria e fervor por duas razões. Primeiro, certamente, serão edificados pelos ensinamentos daqueles que recebem; depois, também receberão a recompensa da caridade; de onde se segue: Marta, porém, ocupava-se em contínuo serviço.

Evangelho de São Lucas 10, 38–42

Ou de outro modo. Quando alguns irmãos tiverem recebido a Deus, não estejam ansiosos por muitos serviços, nem peçam aquilo que não está à mão e que excede a necessidade: pois em todas as situações aquilo que é supérfluo causa peso; gera, de fato, tédio àqueles que desejam servir, enquanto aos convidados parece que são causa de trabalho para os outros.

Evangelho de São Lucas 11, 1–4

Tendo, porém, a plenitude de todo bem, por que ora, se é pleno, e em absolutamente nada necessita? A isto respondemos que lhe convém, segundo o modo de sua dispensação na carne, quando assim o quer, seguir práticas humanas no tempo conveniente para isto. Se, pois, comeu e bebeu, não incorretamente fazia uso da oração; para nos ensinar a não sermos indiferentes em relação a isto, mas a nos dedicarmos com maior atenção às orações.

Evangelho de São Lucas 11, 1–4

Porquanto entre aqueles a quem a fé ainda não chegou, o nome de Deus é ainda desprezado; mas quando os raios da verdade brilharem sobre eles, confessarão o Santo dos Santos.

Evangelho de São Lucas 11, 1–4

Ou aqueles que dizem isto parecem desejar que o Salvador de todos resplandeça novamente no mundo. Porém Ele ordenou pedir na oração aquele tempo verdadeiramente terrível, para que saibam que convém viver não de modo indolente ou negligente, a fim de que aquele tempo não lhes prepare chama e vingança, mas antes honestamente segundo a vontade dele, para que esse tempo lhes entrelace coroas. Por isso, segundo São Mateus, segue-se: Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Evangelho de São Lucas 11, 1–4

Talvez alguns pensem ser inconveniente que os santos peçam a Deus bens corporais; e por esta razão aplicam o que é dito à consideração espiritual. Eu, porém, concederei que é necessário que os santos se esforcem principalmente para obter os dons espirituais; contudo, convém observar que irrepreensivamente pedem, por ordem do Senhor, o pão comum: pois pelo fato de que ordenou pedir o pão, isto é, o alimento cotidiano, parece que não concede que eles possuam nada, mas antes cultivem uma honesta pobreza: pois não é próprio dos que têm pão pedi-lo, mas daqueles oprimidos pela penúria.

Evangelho de São Lucas 11, 1–4

Ele quer, por assim dizer, que Deus se torne imitador da paciência que os homens praticam, para que a bondade que demonstraram aos seus conservos, peçam receber de igual medida de Deus, que recompensa justamente e sabe ter misericórdia de todos.

Evangelho de São Lucas 11, 5–8

O Salvador havia ensinado antes, a pedido dos seus apóstolos, como os homens devem orar. Mas poderia acontecer que aqueles que haviam recebido esta salutar instrução, de fato derramassem suas preces conforme a forma a eles transmitida, mas o fizessem negligente e frouxamente, e então, quando não fossem atendidos na primeira ou segunda oração, desistissem de orar. Assim, para que não padecêssemos disto, Ele mostra por meio de uma parábola que a pusilanimidade nas orações é prejudicial, mas é de grande vantagem ter paciência nelas. Por isso é dito: "E disse-lhes: Qual de vós terá um amigo?"

Evangelho de São Lucas 11, 9–13

As palavras "Eu vos digo" têm força de juramento, pois Deus não mente. Sempre que Ele manifesta algo aos seus ouvintes com um juramento, mostra a inexcusável pequenez da nossa fé.

Evangelho de São Lucas 11, 9–13

Neste exemplo, o Salvador nos ensina algo necessário: frequentemente, de modo imprudente, pelo ímpeto dos prazeres, precipitamo-nos em desejos perniciosos. Portanto, quando pedimos a Deus algo semelhante, de forma alguma obteremos; para demonstrar isso, utiliza um exemplo evidente a partir daquilo que está em nosso alcance: quando teu filho te pede pão, concedes com prazer, porque pede um alimento conveniente; mas quando, por falta de discernimento, pede uma pedra para comer, não lhe ofereces, mas antes o proíbes desse desejo nocivo. O sentido é este: "Quem de vós, se o filho pedir pão" (que o pai lhe dá), "por acaso lhe dará uma pedra?" Isto é, ainda que a peça. A mesma razão aplica-se à serpente e ao peixe, sobre o qual acrescenta: "ou se pedir um peixe, por ventura lhe dará uma serpente em vez do peixe?" E semelhantemente quanto ao ovo e ao escorpião, sobre o que acrescenta: "ou se pedir um ovo, por acaso lhe oferecerá um escorpião?"

Evangelho de São Lucas 11, 9–13

Portanto, do exemplo anterior ele conclui: "Se vós, sendo maus", isto é, tendo uma mente suscetível à maldade, e não uniforme nem fixa no bem, como Deus.

Evangelho de São Lucas 11, 14–16

Outros, por sua vez, incitados por semelhantes espinhos de inveja, pediam a ele que lhes mostrasse um prodígio celeste; donde segue: outros, tentando-o, buscavam dele um sinal do céu: como se dissessem: Ainda que tenhas expulsado o demônio de um homem, isso não é, contudo, um argumento de obra divina; pois ainda não vimos algo semelhante aos milagres anteriores: Moisés, de fato, conduziu o povo pelo meio do mar, e Josué, seu sucessor, deteve o sol em Gabaon; tu, porém, nada disso nos mostraste. Pois buscar prodígios do céu indica que estavam, naquele tempo, afetados por tais pensamentos a respeito de Cristo.

Evangelho de São Lucas 11, 17–20

Com efeito, os judeus, e dos judeus, segundo a carne, surgiram os discípulos de Cristo, que haviam obtido de Cristo o poder sobre os espíritos imundos e libertavam em nome de Cristo os que por eles eram oprimidos. Portanto, quando vossos filhos derrotam Satanás em meu nome, como não há grande insensatez em dizer que eu tenho o poder de Belzebu? Sereis então condenados pela fé dos vossos filhos; por isso acrescenta: "portanto, eles serão vossos juízes".

Evangelho de São Lucas 11, 17–20

Portanto, uma vez que aquilo que dizeis tem o caráter de calúnia, é manifesto que pelo Espírito de Deus eu expulso os demônios; por isso acrescenta: Mas se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, certamente chegou a vós o reino de Deus.

Evangelho de São Lucas 11, 17–20

Ou o Espírito Santo é chamado o dedo de Deus: pois o Filho foi dito ser a mão e o braço do Pai: porquanto o Pai opera todas as coisas por meio dele. Assim como o dedo não é estranho à mão, mas naturalmente ligado a ela; assim o Espírito Santo está consubstancialmente unido ao Filho, e por meio dele o Filho opera todas as coisas.

Evangelho de São Lucas 11, 17–20

E por isto convenientemente se diz "chegou a vós o reino de Deus"; isto é, se eu, sendo homem, pelo espírito divino expulso os demônios, a natureza humana foi enriquecida em mim, e chegou o reino de Deus.

Evangelho de São Lucas 11, 21–23

Como era necessário, por muitas considerações, rebater as palavras dos seus detratores, utiliza agora um exemplo evidentíssimo, que demonstra àqueles que querem ver, que venceu o príncipe deste século pela virtude inerente a si mesmo, dizendo: "Quando o forte armado guarda o seu átrio, em paz estão as coisas que possui".

Evangelho de São Lucas 11, 21–23

Pois antes da vinda do Salvador havia muita violência, roubando rebanhos alheios, isto é, de Deus, e conduzindo-os, por assim dizer, ao seu próprio redil.

Evangelho de São Lucas 11, 21–23

Pois os judeus que há muito haviam sido enredados por ele na ignorância divina e no erro, foram chamados pelos santos apóstolos ao conhecimento da verdade, e foram oferecidos a Deus Pai pela fé depositada no Filho.

Evangelho de São Lucas 11, 21–23

Como se dissesse: Eu vim para reunir os filhos de Deus por ele dispersos; mas o próprio Satanás, como não está comigo, tenta dispersar aqueles que reuni e salvei. Como, portanto, aquele que se opõe às minhas disposições poderia me fornecer poder?

Evangelho de São Lucas 11, 24–26

Depois do que foi dito, o Senhor mostra a razão pela qual o povo dos judeus caiu em tais opiniões sobre Cristo, dizendo: Quando o espírito imundo sai de um homem, anda por lugares áridos, buscando repouso. Que este exemplo se refere aos judeus, São Mateus expressou claramente dizendo: Assim acontecerá também a esta geração péssima. Pois enquanto estavam no Egito vivendo segundo os costumes dos egípcios, habitava neles o espírito maligno, que foi expulso deles quando imolaram o cordeiro como figura de Cristo, e foram ungidos com seu sangue, e assim evitaram o destruidor.

Evangelho de São Lucas 11, 24–26

O último estado também é pior que o primeiro, segundo aquelas palavras do Apóstolo: "Melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da verdade, do que, depois de o conhecerem, voltarem atrás"(2 São Pedro 2,21).

Evangelho de São Lucas 11, 29–32

Ele não disse: "Eu sou maior que Salomão", para nos ensinar a ser humildes, ainda que sejamos fecundos em graças espirituais; como se dissesse: uma mulher bárbara apressou-se para ouvir Salomão, percorrendo um caminho tão longo para ser instruída no conhecimento dos seres vivos visíveis e das virtudes das ervas; vós, porém, quando estais presentes e ouvis acerca das coisas invisíveis e celestiais a própria Sabedoria que vos instrui, e que comprova suas palavras com sinais e obras, vos afastais contra a palavra e passais insensíveis pelos milagres.

Evangelho de São Lucas 11, 33–36

Diziam os judeus que o Senhor realizava milagres, não por causa da fé, mas para obter o aplauso dos que viam. Refuta, portanto, a presente calúnia, apresentando o exemplo da lâmpada, quando diz: "Ninguém acende uma lâmpada e a coloca em um lugar escondido, nem debaixo do alqueire, mas sobre um candelabro, para que os que entram vejam a luz".

Evangelho de São Lucas 11, 37–44

Mas o próprio Cristo, que conhecia a malícia daqueles fariseus, condescendeu deliberadamente, esforçando-se para admoestá-los, à semelhança dos melhores médicos, que oferecem remédios de sua própria indústria aos mais gravemente enfermos; donde segue e tendo entrado, reclinou-se. Deu ocasião às palavras de Cristo o indócil fariseu escandalizado, porque, tendo-o por justo e profeta, não se conformava com o costume irracional deles; donde se segue o fariseu, porém, começou a pensar consigo mesmo, dizendo, porque não se havia lavado antes da refeição.

Evangelho de São Lucas 11, 37–44

Poderia o Senhor ter usado outras palavras para admoestar o fariseu insensato; contudo, aproveita a ocasião e elabora seu ensinamento a partir daquilo que estava à sua frente. Pois na hora da refeição e do alimento, toma como exemplo o cálice e o prato, mostrando que convém aos que sinceramente servem a Deus serem limpos e lavados, não somente da impureza corporal, mas também daquela que se esconde interiormente na mente, assim como qualquer dos utensílios que servem à mesa deve estar livre de contaminações tanto externas quanto internas.

Evangelho de São Lucas 11, 37–44

Ou Ele diz isto como censura aos fariseus, porque ordenavam que fossem estritamente observados pelos povos a eles sujeitos somente aqueles preceitos que eram causa de rendimentos abundantes para eles; por isso nem mesmo as menores ervas negligenciavam, mas desprezavam a obra de promover o amor a Deus e a justa aplicação do juízo.

Evangelho de São Lucas 11, 37–44

Por meio daquilo que Ele repreende neles, Ele nos torna melhores: pois quer que estejamos livres de ambição, e que não busquemos mais a aparência do que a verdadeira existência; o que então os fariseus faziam. Pois ser saudado por alguns e presidir sobre eles não demonstra que sejamos verdadeiramente dignos; isso acontece a muitos que não são bons; por isso acrescenta: "Ai de vós que sois como os sepulcros que não aparecem". Querendo ser saudados pelos homens e presidir sobre eles para serem estimados como grandes, não diferem dos sepulcros ocultos, que brilham externamente com ornamentos, mas internamente estão cheios de toda impureza.

Evangelho de São Lucas 11, 37–44

Diz aqui o apóstata Juliano que devem ser evitados os sepulcros, que o próprio Cristo diz serem imundos; mas ele ignorou o sentido das palavras do Salvador; pois Ele não ordenou que nos afastássemos dos sepulcros, mas comparou a eles o povo hipócrita dos fariseus.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

A repreensão que leva os mansos a melhorarem é geralmente intolerável para os homens soberbos; por isso, quando o Salvador repreendia os fariseus por se desviarem do caminho reto, o grupo dos doutores da lei ficava profundamente ofendido; donde se diz: Respondendo, porém, um dos doutores da lei, disse-lhe: Mestre, falando assim, também a nós nos insultas.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

Cristo, porém, dirige uma invectiva aos peritos em lei e humilha sua vã presunção; por isso segue: Ele, então, disse: Ai de vós também, peritos em lei, porque onerais os homens com cargas que não podem suportar, e vós mesmos não tocais os fardos nem com um único dedo. Utiliza um exemplo manifesto para conduzi-los. A lei era onerosa para os judeus, como confessam os discípulos de Cristo; e eles, reunindo cargas importáveis da lei e impondo-as sobre os súditos, não se preocupavam em obrar de modo algum.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

Depois, portanto, que reprovou o oneroso ofício dos peritos da lei, lança uma invectiva comum contra todos os príncipes dos judeus, dizendo: Ai de vós que edificais os monumentos dos profetas, e vossos pais os mataram.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

Ainda que, portanto, diga demonstrativamente desta geração, não expressa somente os que então estavam presentes e ouviam, mas qualquer homicida: pois o semelhante é atribuído ao semelhante.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

Chamamos a chave da ciência à própria lei: pois a lei era sombra e figura da justiça de Cristo. Convinha, portanto, aos doutores da lei, como investigadores da lei de Moisés e das palavras dos profetas, abrir de certo modo ao povo judeu as portas do conhecimento de Cristo. Isto, porém, não fizeram; mas ao contrário, desacreditavam os milagres divinos e clamavam contra a sua doutrina: por que o escutais? Assim, pois, tomaram, isto é, subtraíram, a chave da ciência; por isso segue: vós mesmos não entrastes, e impedistes os que queriam entrar. Mas também a fé é a chave da ciência: pois o conhecimento da verdade se alcança pela fé, segundo aquilo: se não crerdes, não entendereis. Tomaram, portanto, os doutores da lei a chave da ciência, não permitindo que os homens cressem em Cristo.

Evangelho de São Lucas 11, 45–54

Toma-se aqui "insistere" por instigar, ou invejar, ou enfurecer-se. Começaram, pois, a interromper o seu discurso de muitas maneiras; por isso segue-se: "e a forçar sua boca sobre muitas coisas".

Evangelho de São Lucas 12, 4–7

Uma vez que a causa da perfídia é dupla, nascendo ou de uma malícia arraigada ou de um temor acidental; para que ninguém, aterrorizado pelo medo, seja obrigado a negar a Deus, a quem conhece em seu coração, apropriadamente acrescenta: "Mas digo a vós, meus amigos, não temais aqueles que matam o corpo", etc.

Evangelho de São Lucas 12, 4–7

Pois não a todos em geral este discurso parece convir, mas àqueles que amam a Deus de todo o coração, aos quais convém dizer: "Quem nos separará do amor de Cristo?" Aqueles, porém, que não são assim, são instáveis e prontos a cair. Além disso, o Senhor diz: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos". Como, então, não é sumamente inconveniente não retribuir a Cristo o que dele recebemos?

Evangelho de São Lucas 12, 4–7

Deve-se, portanto, observar que coroas e honras são preparadas para os trabalhos daqueles contra os quais os homens prolongam sua ira até certo tempo, e para eles o fim de nossa perseguição é a morte corporal; por isso acrescenta: e depois disso não têm mais o que fazer.

Evangelho de São Lucas 12, 4–7

É, portanto, seu cuidado conhecer diligentemente a vida dos santos; donde se segue: "mas até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados"; pelo que significa que conhece com suma diligência todas as coisas que a eles dizem respeito: pois a numeração manifesta o esmero do cuidado aplicado.

Evangelho de São Lucas 12, 8–12

Diz São Paulo: "Se confessares com tua boca ao Senhor Jesus, e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo". Todo o mistério de Cristo está interpretado nestas palavras: convém, pois, primeiro confessar o Verbo nascido de Deus Pai, isto é, o Unigênito de sua própria substância, como Senhor de todas as coisas, não como tendo obtido seu domínio de fora e furtivamente, mas sendo verdadeira e naturalmente Senhor, assim como o Pai. Consequentemente, é necessário confessar que Deus o ressuscitou dentre os mortos; ou seja, o mesmo que se fez homem e padeceu na carne por nós: assim, pois, ressuscitou dentre os mortos. Qualquer um, portanto, que assim confessar a Cristo diante dos homens, a saber, como Deus e Senhor, Cristo o confessará diante dos Anjos de Deus, naquele tempo em que Ele descer com os santos Anjos na glória de seu Pai, na consumação dos séculos.

Evangelho de São Lucas 12, 8–12

Os que negam são, em primeiro lugar, aqueles que, diante da perseguição iminente, colocaram a fé em segundo plano; negam também os doutores das heresias e seus discípulos.

Evangelho de São Lucas 12, 8–12

Mas se o Salvador quer dar a entender que, se alguma palavra injuriosa é dita por nós contra um homem comum, obteremos perdão se nos arrependermos, não há dificuldade nesta passagem; porque, sendo Deus naturalmente bom, emenda aqueles que querem se arrepender. Porém, se as palavras se referem ao próprio Cristo, como não será condenado aquele que diz uma palavra contra Ele?

Evangelho de São Lucas 12, 8–12

Mas se o Espírito Santo fosse uma criatura, e não da substância divina do Pai e do Filho, de que modo uma injúria cometida contra Ele comportaria uma pena tão grande quanto a que é proclamada contra aqueles que blasfemam contra Deus?

Evangelho de São Lucas 12, 8–12

Tendo, porém, o Senhor infundido tanto temor aos que se afastam da reta confissão, ordenou-lhes, quanto ao mais, que não se preocupassem com a resposta, pois para os que estão fielmente dispostos, o Espírito Santo, como mestre que neles habita, lhes prepara palavras adequadas; por isso segue: "Quando, porém, vos conduzirem às sinagogas, e aos magistrados e potestades, não vos preocupeis como ou o que respondereis, ou o que direis".

Evangelho de São Lucas 12, 13–15

Ora, o Filho de Deus, quando se fez semelhante a nós, foi constituído por Deus Pai como Rei e Príncipe sobre o seu santo monte de Sião, anunciando o mandamento divino.

Evangelho de São Lucas 12, 13–15

Ou diz: de toda avareza, isto é, grande e pequena. Pois a avareza é inútil, conforme diz o Senhor: "Edificareis casas luxuosas, e não habitareis nelas"; e em outro lugar: "Dez jeiras de vinhas produzirão apenas um frasco pequeno, e trinta módios de semente produzirão três módios". Mas também de outro modo é inútil, o que mostra acrescentando: porque a vida de cada um não consiste na abundância das coisas que possui.

Evangelho de São Lucas 12, 16–21

Observe também de outro modo como é frívola a sua palavra, quando diz "reunirei todos os frutos que nasceram para mim", como se não acreditasse que os obtinha por graça divina, mas que eram frutos dos seus próprios trabalhos.

Evangelho de São Lucas 12, 16–21

O rico, portanto, não prepara celeiros permanentes, mas caducos; e, o que é mais insensato, atribui para si mesmo longa vida; pois segue: e direi à minha alma: alma, tens muitos bens armazenados para muitos anos. Mas, ó rico, tens certamente frutos em teus celeiros, mas os muitos anos, de onde poderás obtê-los?

Evangelho de São Lucas 12, 22–23

A alma preeminece sobre o alimento, e o corpo sobre a veste; por isso acrescenta: "A alma é mais do que a comida, e o corpo mais do que a vestimenta"; como se dissesse: Deus, que concedeu o que é maior, como não dará o que é menor? Não deixemos, portanto, que nossa atenção se detenha demasiadamente nas coisas pequenas, nem que nosso entendimento se submeta à busca de vestuário e sustento; antes, pensemos naquilo que salva a alma e a eleva ao reino dos céus.

Evangelho de São Lucas 12, 24–26

Assim como acima, elevando-nos a uma confiança espiritual, nos incentivou por meio das aves, dizendo: "vós valeis mais que muitos pardais", assim também agora, a partir das aves, nos traz uma firme e indubitável confiança, dizendo: "Considerai os corvos, que não semeiam nem colhem", isto é, para adquirir alimento, "os quais não têm despensa nem celeiro", isto é, para conservar; "e Deus os alimenta. Quanto mais vós valeis mais do que eles?"

Evangelho de São Lucas 12, 27–31

Pois basta aos prudentes, por causa apenas da necessidade, ter vestimenta adequada, não excedendo a modéstia, e de alimentos o que é suficiente. Bastam também aos santos aqueles deleites espirituais que estão em Cristo, e a glória subsequente.

Evangelho de São Lucas 12, 27–31

Era absurdo que os discípulos, que deveriam transmitir aos outros a norma e o exemplo de uma vida honesta, caíssem naquelas coisas das quais era necessário que eles aconselhassem os outros a se afastar. E por isso o Senhor acrescenta: "e vós não queirais procurar o que haveis de comer ou o que haveis de beber". Nisso também o Senhor favoreceu não pouco o estudo das sagradas pregações, admoestando os discípulos a abandonarem a solicitude humana.

Evangelho de São Lucas 12, 32–34

Mas por que não devem temer, Ele mostra, acrescentando: porque a vosso Pai agradou dar-vos o reino, como se dissesse: Como Aquele que concede coisas tão preciosas haveria de cansar-se em exercitar clemência para convosco? Embora aqui o rebanho seja pequeno tanto em natureza, como em número e em glória, no entanto a bondade do Pai concedeu também a este pequeno rebanho a sorte dos espíritos celestiais, isto é, o reino dos céus. Portanto, para que possuais o reino dos céus, desprezai as riquezas terrenas; donde se segue: vendei o que possuís e dai esmola.

Evangelho de São Lucas 12, 32–34

Este preceito talvez seja incômodo para os ricos; no entanto, para aqueles que possuem mente sã, não é inútil: pois entesouram para si o reino celestial; por isso segue: fazei para vós bolsas que não envelhecem

Evangelho de São Lucas 12, 35–40

Ou ainda, estar cingido significa agilidade e prontidão para suportar males em vista do amor divino; e o acender da lâmpada significa que não devemos permitir que alguns vivam nas trevas da ignorância.

Evangelho de São Lucas 12, 35–40

Considera também que Ele vem das núpcias como de uma solenidade, na qual sempre existe a divindade; pois nada pode causar tristeza à Natureza Incorruptível.

Evangelho de São Lucas 12, 35–40

Portanto, quando o Senhor, ao vir, encontrar os seus despertos e cingidos, tendo o coração iluminado, então os proclamará bem-aventurados; pois segue: Em verdade vos digo que se cingirá; do que percebemos que Ele nos retribuirá de modo semelhante, enquanto se cingirá com aqueles que estão cingidos.

Evangelho de São Lucas 12, 35–40

O Senhor, porém, conhece a fragilidade humana propensa ao pecado; mas, visto que é bom, não permite que desesperemos, mas antes se compadece e nos dá a penitência como antídoto de salvação; e por isso acrescenta: "E se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e assim os encontrar, bem-aventurados são aqueles servos". Dividem, pois, os que vigiam nos muros das cidades, e os que vigiam as investidas dos inimigos, a noite em três ou quatro vigílias.

Evangelho de São Lucas 12, 35–40

Da primeira vigília, contudo, não faz menção, porque a infância não é punida por Deus, mas merece perdão. Porém, a segunda e a terceira idade devem obediência a Deus, e conduzir uma vida honesta conforme a Sua vontade.

Evangelho de São Lucas 12, 41–46

Aos que possuem uma mente vigorosa convêm os árduos e excelentes mandamentos santos; mas para aqueles que ainda não atingiram esta virtude, convêm aquelas coisas das quais se exclui a dificuldade: por isso o Senhor utiliza um exemplo muito claro, mostrando que o mandamento anterior convém àqueles que foram admitidos no grau de discípulos; pois segue disse então o Senhor: Quem, pensas tu, é o dispensador fiel?

Evangelho de São Lucas 12, 41–46

Assim, o servo fiel e prudente, distribuindo oportunamente e com prudência o alimento aos servos, isto é, o sustento espiritual, será bem-aventurado, conforme a palavra do Salvador: nisso, certamente, porque obterá coisas ainda maiores e merecerá os prêmios devidos aos familiares; donde segue: "Em verdade vos digo que o constituirá sobre tudo o que possui".

Evangelho de São Lucas 12, 47–48

Porque o homem perspicaz, que inclinou sua vontade a coisas torpes, cometeu um pecado inexcusável, como que afastando-se por malícia da vontade do Senhor; mas o homem rústico implorará mais razoavelmente o perdão daquele que castiga; por isso acrescenta: "mas aquele que não conheceu, e fez coisas dignas de castigo, será açoitado com poucas chibatadas".

Evangelho de São Lucas 12, 49–53

É costume da Sagrada Escritura chamar por vezes de fogo as palavras sagradas e divinas; pois assim como aqueles que sabem purificar o ouro e a prata consomem sua impureza pelo fogo, assim o Salvador, através dos ensinamentos evangélicos, na virtude do Espírito, purifica o intelecto daqueles que creem nele. Este é, portanto, um fogo saudável e útil, pelo qual os habitantes da terra, de certo modo frios e extintos pelo pecado, se aquecem para uma vida de piedade.

Evangelho de São Lucas 12, 49–53

O Senhor apressava o incêndio deste fogo; de onde segue "e que quero senão que arda?" Pois já criam alguns de Israel, cujo começo foram os veneráveis discípulos; mas o fogo uma vez aceso na Judeia, devia ocupar todo o orbe, consumada, todavia, a dispensação de sua paixão; de onde segue: "Tenho, porém, que ser batizado com um batismo". Pois antes da venerável cruz, e sua ressurreição dos mortos, somente na Judeia se fazia menção da pregação e dos milagres dele: depois que os insanos mataram o príncipe da vida, então ordenou aos apóstolos, dizendo: "ide, ensinai a todas as gentes".

Evangelho de São Lucas 12, 49–53

Que dizes, Senhor? Não vieste para dar a paz, tu que te tornaste nossa paz, pacificando pelo sangue da cruz as coisas celestiais e terrestres; tu que disseste: "Minha paz vos dou"? Mas é manifesto que a paz é certamente útil; porém, às vezes é prejudicial e separa do amor divino, paz pela qual consentimos com aqueles que se afastam de Deus; e por causa disso, ensinou os fiéis a evitarem os pactos terrenos; por isso segue: "Pois de agora em diante haverá cinco pessoas divididas em uma casa; três contra dois, e dois contra três, o pai contra o filho".

Evangelho de São Lucas 12, 54–57

Os profetas, com efeito, anunciaram de muitas maneiras o mistério de Cristo. Convinha, pois, se fossem prudentes, direcionar sua atenção às coisas futuras; e não poderiam ignorar as tempestades futuras depois da vida presente: pois haverá vento e chuva e um castigo futuro pelo fogo; e isto é significado quando se diz uma tempestade vem. Convinha também não ignorar o tempo da salvação, isto é, a vinda do Salvador, por quem a perfeita piedade entrou no mundo; e isto é significado quando se diz dizeis que haverá calor. Daí que, em censura a eles, acrescenta: Hipócritas, sabeis discernir a face do céu e da terra; como, então, não discernis este tempo?

Evangelho de São Lucas 12, 58–59

No qual padecerás angústias até que pagues o último asse; e isto é o que acrescenta: "Digo-te que não sairás dali até que pagues também o último centavo".

Evangelho de São Lucas 13, 1–5

Porquanto eram seguidores das doutrinas de Judas da Galileia, a quem São Lucas mencionou nos Atos dos Apóstolos, que dizia: não se deve chamar ninguém de senhor; daí, muitos deles, por não reconhecerem o César como senhor, foram punidos por Pilatos. Afirmavam também que não convinha oferecer a Deus outras vítimas além daquelas estabelecidas na lei de Moisés; daí proibiam que fossem oferecidas as vítimas estabelecidas pelo povo para a salvação do imperador e do povo romano. Pilatos, então, indignado contra os galileus, ordenou que fossem mortos no meio das próprias vítimas que, segundo o rito da lei, eles pensavam oferecer, de modo que o sangue dos que ofereciam se misturava com o das vítimas oferecidas. Como o povo acreditava que aqueles haviam sofrido tais coisas justissimamente, por semearem escândalos entre o povo e incitarem os príncipes ao ódio contra os súditos, narraram isso ao Salvador, querendo saber o que lhe parecia sobre isso. Ele, entretanto, reconhece que eram pecadores, mas não afirma que sofreram tais coisas por serem piores do que os que não sofreram; por isso segue: e respondendo, disse-lhes: Pensais que estes galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem padecido tais coisas? Não, digo-vos.

Evangelho de São Lucas 13, 1–5

Removendo, portanto, as multidões das insídias intestinas provocadas sob o pretexto da religião, acrescenta: "Mas se não fizerdes penitência, e se não cessardes de conspirar contra os príncipes, o que não fazeis por inspiração divina, todos igualmente, ou de maneira semelhante, perecereis, e vosso sangue se unirá às vossas vítimas".

Evangelho de São Lucas 13, 10–17

Para destruição da corrupção, da morte e da inveja do Diabo contra nós, manifestou-se a encarnação do Verbo; e isto se evidencia pelos próprios acontecimentos; pois segue-se e eis que uma mulher que tinha um espírito de enfermidade há dezoito anos. Diz espírito de enfermidade porque esta mulher sofria pela atrocidade do Diabo, abandonada por Deus por causa de seus próprios pecados, ou pela transgressão de Adão, por causa da qual os corpos humanos incorreram em enfermidade e morte. Deus concede este poder ao Diabo para que os homens, oprimidos pelo peso da adversidade, desejem passar para coisas melhores. Mostra o tipo de enfermidade, dizendo e estava encurvada, nem podia de modo algum olhar para cima.

Evangelho de São Lucas 13, 10–17

Mostrando o Senhor que a sua vinda a este mundo dissolvia as paixões humanas, curou a mulher; donde segue que, quando Jesus a viu, chamou-a para si e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade. Voz muito apropriada a Deus, cheia de majestade suprema: pois afasta a doença com um movimento imperioso; e também lhe impõe as mãos; segue-se, com efeito: impôs-lhe as mãos, e imediatamente ela se endireitou e glorificava a Deus; nisso devemos considerar que a carne sagrada estava revestida com o poder divino: pois era a carne do próprio Deus, e não de qualquer outro, como se o Filho do Homem existisse separadamente do Filho de Deus, como alguns falsamente pensaram. Mas o chefe da sinagoga ingrata, depois que viu a mulher que rastejava pelo chão ser endireitada com um único toque e referir as maravilhas divinas, ardendo de inveja pela glória do Senhor, condena o milagre, como se parecesse estar preocupado com o sábado; donde segue: O chefe da sinagoga, respondendo indignado porque Jesus tinha curado no sábado, dizia à multidão: há seis dias nos quais se deve trabalhar; nestes vinde e curai-vos, e não no dia de sábado. Exorta aqueles que nos outros dias estão dispersos e dedicados aos seus próprios trabalhos, e não no sábado, a ver e admirar os prodígios do Senhor, para que não acreditem. Mas dize, a lei proibiu abster-se de trabalho manual no dia de sábado; acaso proibiu o que se faz com a palavra e a boca? Então cessa de comer e beber, e falar e cantar salmos no sábado. E se não lês a lei, por que tens o sábado? Além disso, se a lei proibiu o trabalho manual, como é um trabalho manual erguer uma mulher com uma palavra?

Evangelho de São Lucas 13, 10–17

O príncipe da sinagoga é repreendido como hipócrita, enquanto dá água aos animais no sábado, mas esta mulher, não tanto pela linhagem quanto pela fé filha de Abraão, não a considera digna de ser libertada do vínculo da enfermidade; por isso acrescenta: "E esta filha de Abraão, a quem Satanás manteve ligada por dezoito anos, não convinha que fosse libertada deste vínculo em dia de sábado?" Preferia, sem dúvida, ver a mulher como os quadrúpedes olhando para a terra, a que recuperasse a estatura humana, contanto que Cristo não fosse glorificado. Não tinham, porém, o que responder; mas eles mesmos eram para si próprios uma irrefutável repreensão; por isso segue: "E quando ele dizia estas coisas, envergonhavam-se todos os seus adversários"; mas o povo, como que recebendo benefícios dos milagres, alegrava-se com os sinais; por isso segue: "E todo o povo se alegrava com todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele". Pois o esplendor das obras resolvia toda questão entre aqueles que não o buscavam com mentes perversas.

Evangelho de São Lucas 13, 18–21

Ou de outro modo: O Reino de Deus é o Evangelho, pelo qual adquirimos o poder de reinar com Cristo. Assim como a semente de mostarda é superada em tamanho pelas sementes de outras plantas, mas cresce tanto que se torna abrigo para muitas aves; assim também a doutrina do Salvador estava no princípio entre poucos, mas depois recebeu aumento.

Evangelho de São Lucas 13, 22–30

A porta estreita também significa as tribulações e a paciência dos santos. Assim como a vitória nas batalhas atesta o vigor do soldado, também a vigorosa perseverança nos trabalhos e tentações fará o homem preclaro.

Evangelho de São Lucas 13, 22–30

Não parece, no entanto, que o Senhor satisfaça àquele que pergunta se são poucos os que se salvam, quando declara o caminho pelo qual cada um pode se tornar justo. Mas deve-se observar que era costume do Salvador não responder aos que o interrogavam segundo o que lhes parecia, quando perguntavam sobre coisas inúteis, mas considerando o que seria útil aos ouvintes. Que proveito haveria para os ouvintes em saber se são muitos os que se salvam ou poucos? Era mais necessário, porém, conhecer o modo pelo qual alguém chega à salvação. Portanto, por dispensação, nada diz sobre o vanilóquio da questão, mas transfere seu discurso para algo mais necessário.

Evangelho de São Lucas 13, 22–30

Mas que sejam detestáveis aqueles que não podem entrar, declarou-o por um evidente exemplo, acrescentando: "Quando o pai de família houver entrado, e fechado a porta, começareis a estar do lado de fora, e a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos". Como se o pai de família, que convidou muitos para um banquete, tendo entrado com os convidados, e fechada a porta, depois chegassem outros batendo.

Evangelho de São Lucas 13, 22–30

Isto convém aos israelitas, que segundo o rito da lei, oferecendo vítimas a Deus, comiam e se alegravam. Ouviam também nas sinagogas os livros de Moisés, que em seus escritos não transmitia o que era seu, mas o que era de Deus.

Evangelho de São Lucas 13, 31–35

As palavras precedentes do Senhor provocaram a ira nos ânimos dos fariseus; pois viam que os povos, já contritos, estavam recebendo sua fé. Por isso, como se estivessem perdendo o ofício de presidir os povos e diminuindo em seus lucros, simulando amá-lo, persuadem-no a retirar-se dali; de onde se diz: no mesmo dia aproximaram-se alguns fariseus, dizendo-lhe: Sai e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. Cristo, porém, que perscruta os rins e os corações, responde-lhes de modo suave e figurado; de onde segue: E disse-lhes: Ide e dizei àquela raposa.

Evangelho de São Lucas 13, 31–35

Ou, de outra forma. Parece que este discurso foi modificado e não se refere à pessoa de Herodes, como alguns pensaram, mas mais às ficções farisaicas. Pois quase mostra o próprio fariseu permanecendo próximo quando disse "ide e dizei a esta raposa", como se tem no Grego; por isso ordenou que se dissesse aquilo que poderia perturbar a multidão dos fariseus: "eis que", disse, "expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado". Ele promete realizar aquilo que desagradava aos judeus: isto é, que ordenaria aos espíritos imundos e livraria os enfermos de suas doenças, até que por sua própria vontade suportasse o patíbulo da cruz. Porque os fariseus acreditavam que Ele, que era o Senhor das virtudes, temia a mão de Herodes, Ele exclui isso dizendo: "contudo, é necessário que eu caminhe hoje e amanhã e no dia seguinte". Quando diz "é necessário", de modo algum mostra uma necessidade que se impõe sobre Ele, mas antes que segue por sua livre vontade para onde quisesse, até que chegasse ao fim da venerável cruz, cujo tempo Cristo já mostra estar próximo quando diz "hoje e amanhã".

Evangelho de São Lucas 13, 31–35

O Senhor havia se afastado de Jerusalém, como que abandonando aqueles que eram indignos de sua presença; depois, tendo realizado muitos milagres, retornou novamente a Jerusalém, onde a multidão o encontrou dizendo: Hosanna ao Filho de Davi: bendito o que vem em nome do Senhor.

Evangelho de São Lucas 14, 1–6

Embora o Senhor conhecesse a malícia dos fariseus, Ele se tornava seu convidado, para que pudesse beneficiar os presentes com suas palavras e milagres; donde se segue: e aconteceu que, entrando Jesus na casa de um dos principais fariseus em um sábado para comer pão, eles o observavam: isto é, se Ele desprezaria a reverência à lei, e se faria algo do que era proibido no dia de sábado. E assim, chegando um hidrópico ao meio deles, com uma interrogação repreendeu a insolência dos fariseus, que queriam acusá-lo; donde se diz: e eis que um homem hidrópico estava diante dele. E respondendo Jesus, disse aos doutores da lei e aos fariseus: É lícito curar no sábado?

Evangelho de São Lucas 14, 1–6

Menosprezando, pois, as insídias dos judeus, liberta de sua enfermidade o hidrópico, o qual, por medo dos fariseus, não pedia remédio por causa do sábado, mas apenas permanecia presente, para que Jesus, vendo-o, tivesse compaixão dele e o salvasse. E o Senhor, conhecendo isso, não pergunta se ele queria ser curado, mas imediatamente o sanou; por isso segue: E ele, tomando-o, curou-o e o despediu.

Evangelho de São Lucas 14, 1–6

Mas como os fariseus calaram-se ineptamente, Cristo desfez sua inflexível impudência, utilizando para isso considerações sérias; donde segue: e respondendo-lhes, disse: Qual de vós, se o seu jumento ou boi cair em um poço, não o tirará imediatamente no dia de sábado?

Evangelho de São Lucas 14, 7–11

Porque o lançar-se prontamente a honras que não nos convêm indica que somos temerários, e enche nossos feitos de vitupério; donde se segue "não aconteça que alguém mais honrado que tu tenha sido convidado por ele, e vindo aquele que te convidou e a ele, te diga: dá lugar a este"; e então começarás com rubor a ocupar o último lugar.

Evangelho de São Lucas 14, 7–11

Se alguém não deseja ser colocado à frente dos outros, obtém isso pela sentença divina; donde segue-se: "Para que quando vier aquele que te convidou, te diga: amigo, sobe mais para cima". Ao dizer estas coisas, não o repreende severamente, mas o exorta com mansidão: basta uma advertência entre os discretos; e assim, pela humildade, alguém é coroado com honra; donde segue-se: "Então terás glória diante dos que estão sentados contigo à mesa".

Evangelho de São Lucas 14, 7–11

Tendo mostrado, portanto, com um exemplo tão simples, o desprezo pelos ambiciosos e a exaltação dos não ambiciosos, acrescenta o grande ao pequeno, proferindo uma sentença geral, quando diz: porque todo aquele que se exalta será humilhado; e quem se humilha será exaltado: o que é dito segundo o juízo divino, não segundo o costume humano, segundo o qual muitos que cobiçam honras as conseguem, enquanto outros que se humilham permanecem sem glória.

Evangelho de São Lucas 14, 15–24

O Criador de todas as coisas, portanto, e Pai da Glória, preparou uma grande ceia consumada em Cristo. Pois nos últimos tempos, e como que no ocaso do nosso século, o Filho de Deus brilhou para nós; e suportando a morte por nós, deu-nos seu próprio corpo para comer. Por isso também o cordeiro era imolado à tarde, segundo a lei de Moisés. Com razão, portanto, o banquete que foi preparado em Cristo foi chamado de ceia.

Evangelho de São Lucas 14, 15–24

Este servo que foi enviado é o próprio Cristo, que sendo por natureza Deus e verdadeiro Filho de Deus, esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo. Foi enviado, porém, na hora da ceia: pois o Verbo do Pai não tomou nossa natureza desde o princípio, mas no último tempo. Acrescenta ainda que todas as coisas estão preparadas; pois o Pai preparou em Cristo os bens conferidos ao mundo por meio dele: a remoção dos pecados, a participação do Espírito Santo, o esplendor da adoção; para isto Cristo chamou pelos ensinamentos evangélicos.

Evangelho de São Lucas 14, 15–24

Mas quem podemos entender que foram aqueles que se recusaram a vir pelas causas anteriormente mencionadas, senão os príncipes dos judeus, os quais vemos sendo repreendidos por estas coisas em toda a Sagrada Escritura?

Evangelho de São Lucas 14, 15–24

Porém, recusando os príncipes dos judeus sua vocação, como eles mesmos diziam: "Porventura algum dos príncipes creu nele?"(São João 7,48), indignou-se o pai de família, como contra aqueles que mereciam sua indignação e ira; donde segue: Então irado o pai de família, etc.

Evangelho de São Lucas 14, 15–24

Assim, portanto, diz-se que o pai de família se indignou contra os príncipes dos judeus, e foram chamados, em lugar deles, aqueles que eram da multidão dos judeus, tendo mente frágil e impotente. Pois, falando Pedro, primeiramente três mil, depois cinco mil creram, e posteriormente muitíssimo povo; por isso diz: "Disse ao seu servo: sai depressa pelas praças e ruas da cidade, e introduz aqui os pobres e os debilitados, os cegos e os coxos".

Evangelho de São Lucas 14, 25–27

Não se deve rejeitar a vida que se vive no corpo, mas conservá-la, assim como também São Paulo a conservou, para que ainda vivendo no corpo pregasse a Cristo; mas quando foi necessário desprezar a vida para completar sua carreira, ele confessa que sua alma não lhe é preciosa.

Evangelho de São Lucas 14, 28–33

Pois enfrentamos uma batalha contra as potestades espirituais da maldade nas regiões celestes; mas também nos oprime uma multidão de outros inimigos, a concupiscência carnal, a lei que atua em nossos membros, e diversas paixões, isto é, uma temível multidão de inimigos.

Evangelho de São Lucas 15, 1–7

Observa aqui a grandeza do reino do nosso Salvador. Pois diz que há cem ovelhas, referindo o número das naturezas racionais que lhe estão sujeitas à multidão completa; pois o número cem é perfeito, constituído de dez dezenas. Mas destas uma se desviou, a saber, o gênero humano, que habita a terra.

Evangelho de São Lucas 15, 1–7

Porventura ter-se-ia enfurecido com as demais, movido pela compaixão a uma só? De modo algum: pois aquelas estão em segurança, protegidas pela poderosíssima mão direita; mas era mais necessário ter misericórdia da que perecia, para que a multidão restante não parecesse incompleta: pois com uma recuperada, o centenário recupera sua própria espécie.

Evangelho de São Lucas 15, 8–10

Pela parábola precedente, na qual o gênero humano era chamado de ovelha errante, éramos ensinados que somos criaturas do sublime Deus, que nos fez, e não nós a nós mesmos; de cujo pasto somos ovelhas: acrescenta-se uma segunda parábola, pela qual o gênero humano é comparado à dracma que se perdeu; através da qual mostra que fomos feitos à semelhança e imagem real, isto é, do sumo Deus: pois a dracma é uma moeda que tem impressa a figura real; por isso diz "ou qual mulher que, tendo dez dracmas", etc.

Evangelho de São Lucas 15, 11–16

Mas alguns dizem que pelo filho mais velho é significado Israel segundo a carne; pelo outro, porém, que se afastou do pai, está descrita a multidão dos gentios.

Evangelho de São Lucas 15, 11–16

Mas como os judeus são acusados muitas vezes na Sagrada Escritura de diversos crimes, como podem convir àquele povo as palavras do filho mais velho que diz: "eis que por tantos anos te sirvo, e nunca transgredi teu mandamento"? Este é, portanto, o sentido da parábola. Aos fariseus e escribas que o acusavam porque recebia os pecadores, propõe a presente parábola, na qual chama homem a Deus, que é pai de dois irmãos, a saber, dos justos e dos pecadores; dos quais o primeiro grau é dos justos que desde o princípio seguem a justiça, o segundo grau é dos homens que pela penitência são reconduzidos à justiça.

Evangelho de São Lucas 15, 25–32

O que nós mesmos algumas vezes experimentamos; pois alguns vivem uma vida extraordinária e ótima; outro, porém, na própria velhice, muitas vezes se converte a Deus, ou talvez estando prestes a encerrar seu último dia, e dilui suas culpas, pela misericórdia do Senhor. Isto, alguns rejeitam por importuna pusilanimidade, não atentando para a mente do Salvador, que se alegra com a salvação dos que estão perecendo.

Evangelho de São Lucas 16, 8–13

Assim, pois, ensinava Cristo aos que abundam em riquezas a amar fervorosamente a amizade dos pobres e a entesourar nos céus. Conhecia, porém, a indolência da mente humana, de que modo os que ambicionam riquezas não dispensam nenhuma obra caritativa aos necessitados. Que, portanto, a tais pessoas não provenha nenhum fruto dos dons espirituais, mostra com exemplos manifestos, acrescentando: "Quem é fiel no mínimo, também é fiel no maior; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito". O Senhor nos abre, porém, os olhos do coração, explicando o que dissera, quando acrescenta: "Se, pois, não fostes fiéis na iníqua riqueza, quem vos confiará a verdadeira?" É, portanto, mínimo a riqueza da iniquidade, isto é, as riquezas terrenas, que aos que saboreiam as coisas superiores parecem nada. Julgo, portanto, que alguém é fiel no pouco quando reparte destes mínimos bens socorro aos oprimidos pela miséria. Assim, se no pouco formos infiéis, de que modo obteremos dele o verdadeiro, isto é, o abundante dom dos carismas divinos, que imprime na alma humana a imagem divina? Que a intenção das palavras do Senhor tenda a isso é evidente pelo que segue; pois diz: "E se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?"

Evangelho de São Lucas 16, 8–13

A conclusão de todo o discurso é o que segue: "Não podeis servir a Deus e a mamona". Transfiramos, portanto, todo o nosso empenho para um deles, renunciando às riquezas.

Evangelho de São Lucas 16, 19–21

Ou de outra maneira. O presente discurso sobre o rico e Lázaro foi escrito de maneira similitudinária em parábola, para que se torne conhecido que aqueles que abundam em riquezas terrenas, a menos que queiram socorrer as necessidades dos pobres, incorrerão em grave sentença. Refere, porém, a tradição dos judeus que houve naquele tempo em Jerusalém um certo Lázaro, oprimido por extrema pobreza e enfermidade, de quem o Senhor faz menção, introduzindo-o como exemplo para maior manifestação do seu discurso.

Evangelho de São Lucas 17, 7–10

O Senhor ensina que o direito do poder senhorial requer, como devida submissão, a sujeição dos servos, quando acrescenta: "Porventura tem gratidão para com aquele servo porque fez o que lhe fora ordenado? Não creio." Por isto é eliminada a doença da soberba. Por que te orgulhas? Ignoras que, se não pagas o que deves, um perigo te ameaça; mas se pagas, não fazes nada digno de agradecimento? Segundo aquilo de São Paulo: "Se eu evangelizar, não tenho do que me gloriar; pois me é imposta essa obrigação: ai de mim se eu não evangelizar!" Considera, pois, que aqueles que entre nós dominam não expressam gratidão quando alguns dos seus subordinados cumprem os deveres que lhes foram determinados; mas, por benevolência, frequentemente provocando o afeto dos seus, geram neles maior desejo de servir. Assim também Deus exige de nós o serviço por direito de senhor; mas, como é clemente e bom, promete honras aos que trabalham; e a magnitude de sua benevolência supera enormemente os esforços dos súditos.

Evangelho de São Lucas 17, 11–19

Depois o Salvador manifesta sua glória, atraindo Israel à fé; por isso segue e ao entrar em certa aldeia, dez homens leprosos vieram ao seu encontro, expulsos das cidades e povoados, e considerados como imundos segundo o rito da lei mosaica.

Evangelho de São Lucas 17, 20–21

Como o Salvador mencionava frequentemente o reino de Deus nos discursos que dirigia aos outros, os fariseus zombavam dele; por isso diz: interrogado, porém, pelos fariseus: quando viria o reino de Deus? Como se dissessem de modo irrisório: antes que venha aquele de quem falas, a morte na cruz te alcançará. O Senhor, porém, demonstrando paciência, quando injuriado não responde com injúrias; mas, antes, não se desdenha de responder àqueles que eram maus; pois segue: respondeu-lhes e disse: o reino de Deus não virá com sinais observáveis; como se dissesse: Não indagueis sobre os tempos em que novamente se estabelecerá o tempo do reino dos céus.

Evangelho de São Lucas 17, 20–21

Somente declara que serve para a utilidade de qualquer homem aquilo que se acrescenta: "Eis que o reino de Deus está dentro de vós", isto é, em vossos afetos e em vosso poder está alcançá-lo: pois qualquer homem justificado pela fé em Cristo e ornado com virtudes pode obter o reino dos céus.

Evangelho de São Lucas 17, 22–25

Porque o Senhor havia dito que o reino de Deus está dentro de vós, quis que seus discípulos estivessem preparados para a paciência, a fim de que, tornados fortes, pudessem entrar no reino de Deus. Prediz-lhes, portanto, que antes que venha do céu, no fim do mundo, a perseguição irromperá sobre eles; por isso diz: E disse aos seus discípulos: Virão dias em que desejareis ver um só dia do Filho do homem, e não o vereis; significando que tão grande será a perseguição, que desejarão ver um só dia dele, isto é, daquele tempo em que ainda conviviam com Cristo. Na verdade, os judeus afligiram a Cristo com muitos impropérios e injúrias; mas, em comparação com males maiores, os menores parecem preferíveis.

Evangelho de São Lucas 17, 22–25

Os discípulos, porém, opinavam que, indo a Jerusalém, imediatamente mostraria o reino de Deus. Portanto, eliminando esta opinião, torna conhecido a eles que primeiro convinha sofrer a salvífica paixão, depois ascender ao Pai, e de cima resplandecer, para que julgue com justiça por toda a terra; de onde acrescenta: mas primeiro é necessário que ele padeça muitas coisas e seja reprovado por esta geração.

Evangelho de São Lucas 17, 31–33

Como também alguém perde a própria alma para salvá-la, manifesta São Paulo dizendo de alguns: "que crucificaram sua carne com os vícios e concupiscências", isto é, com trabalho e piedade enfrentando os combates.

Evangelho de São Lucas 17, 34–37

Por dois homens que estão em um mesmo leito, parece designar os ricos que descansam nas delícias mundanas; pois o leito é um sinal de repouso. Nem todos os que abundam em riquezas são ímpios, mas alguns são probos e eleitos na fé; este, portanto, será tomado, mas o outro, que não é assim, será deixado. Pois quando o Senhor descer para o juízo, enviará seus Anjos que, deixando os demais na terra abandonados para sofrer a pena, conduzirão a Ele os santos e justos, conforme as palavras do Apóstolo: "seremos arrebatados nas nuvens ao encontro de Cristo nos ares".

Evangelho de São Lucas 17, 34–37

Pelos que moem juntos parece indicar os pobres e os oprimidos pelo trabalho; ao que também pertence o que segue: "Dois estarão no campo: um será tomado, e o outro será deixado". Pois entre estes não há pequena diferença: porque alguns suportam virilmente o fardo da pobreza, levando uma vida honesta e humilde, os quais serão tomados; mas outros são prontíssimos para as coisas profanas, os quais serão deixados.

Evangelho de São Lucas 17, 34–37

Como, portanto, dissera que alguns seriam levados, os discípulos inquirem utilmente e bem para onde seriam levados; por isso segue: Respondendo, dizem-lhe: Onde, Senhor?

Evangelho de São Lucas 17, 34–37

Como se dissesse: Assim como, quando um cadáver é jogado fora, todas as aves que se alimentam de carne humana se reúnem em torno dele; da mesma forma, quando o Filho do homem vier, todas as águias, isto é, os santos, acorrerão até Ele.

Evangelho de São Lucas 18, 1–8

Ou melhor; Quantas vezes os outros nos causam ofensas, consideremos glorioso o esquecimento dos males; mas quando pecam contra a própria glória de Deus, guerreando contra os ministros do dogma divino, então recorremos a Deus implorando auxílio e clamando contra aqueles que atacam a Sua glória.

Evangelho de São Lucas 18, 18–23

Pensou, porém, surpreender a Cristo criticando o preceito mosaico, enquanto introduzia os seus próprios estatutos. Aproximou-se, pois, do mestre e, chamando-o de bom, diz que quer ser ensinado. Como ele perguntava com intenção de tentar, Aquele que apanha os sábios em sua própria astúcia, responde-lhe convenientemente; pois segue-se disse-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus.

Evangelho de São Lucas 18, 18–23

Aquele príncipe não foi capaz de conter o vinho novo, sendo ele um odre velho; mas rompeu-se pela tristeza; por isso segue-se: "quando ele ouviu estas coisas, entristeceu-se, porque era muito rico".

Evangelho de São Lucas 18, 24–30

Convenientemente, quando o rico despreza muitas coisas, espera uma recompensa; mas aquele que, possuindo pouco, abdica daquilo que tem, era conveniente perguntar o que se devia esperar; por isso segue: Disse, pois, Pedro: Eis que deixamos tudo. São Mateus acrescenta: O que haverá, pois, para nós?

Evangelho de São Lucas 18, 24–30

É necessário dizer também que aqueles que renunciam a poucas coisas, no que concerne ao propósito e à obediência, são pesados na mesma balança com os opulentos, usando de iguais afetos, enquanto voluntariamente promovem o abandono das coisas que possuem; por isso segue-se: em verdade vos digo: não há ninguém que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou esposa, ou filhos, ou campos pelo reino de Deus, e não receba muito mais neste tempo, e no século futuro a vida eterna. Ele eleva todos os ouvintes à mais aceitável esperança, prometendo com juramento, quando acrescenta ao discurso a palavra "amém". Pois quando a doutrina divina chama o mundo à fé de Cristo, talvez alguns, olhando para seus pais infiéis, não queiram perturbá-los vindo à fé; e semelhante é a razão quanto a outros parentes. Mas alguns abandonam o pai e a mãe, e desprezam o amor de todo o parentesco pelo amor de Cristo.

Evangelho de São Lucas 18, 24–30

Dizemos isto, portanto, que aquele que renuncia às coisas temporais e carnais, conquistará para si coisas muito maiores; pois também os apóstolos, tendo deixado poucas coisas, obtiveram múltiplos dons carismáticos, e foram considerados célebres em todos os lugares. Seremos, pois, semelhantes a eles: se alguém deixar sua casa, receberá as mansões celestiais; se o pai, terá o Pai celestial; se se afastar dos irmãos, Cristo o receberá como irmão; ao deixar a esposa, encontrará a sabedoria divina, da qual gerará frutos espirituais; encontrará a Jerusalém celestial, que é nossa mãe; e dos irmãos e irmãs, unidos pelo vínculo espiritual de seu propósito, receberá nesta vida um amor muito mais gracioso.

Evangelho de São Lucas 18, 31–34

E para que saibam que Ele conhecia de antemão a Sua Paixão, e voluntariamente se entregou a ela; para que não dissessem: como caiu nas mãos dos inimigos Aquele que nos prometia salvar? Por isso narra em ordem a sequência da Paixão, acrescentando: porque será entregue aos gentios, e será escarnecido, e açoitado, e cuspido.

Evangelho de São Lucas 18, 31–34

Os discípulos, contudo, ainda não conheciam de maneira detalhada o que os profetas haviam predito; mas depois que ressuscitou, abriu-lhes o entendimento para que compreendessem as Escrituras; por isso segue e eles nada destas coisas entenderam.

Evangelho de São Lucas 18, 35–43

Muita gente estava ao redor de Cristo, e o cego na verdade não o conhecia, mas sentia o seu efeito, e alcançava pelo afeto o que não recebia pela visão; por isso segue e quando ouviu a multidão que passava, perguntou o que era aquilo. E os que viam falavam segundo a opinião deles; segue-se, disseram-lhe, pois, que Jesus Nazareno passava. Mas o cego clamava verdades: uma coisa lhe ensinam, outra proclama; pois segue e clamou dizendo: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim. Quem te ensinou isto, ó homem? Por acaso leste os livros estando privado da luz? De onde, pois, conheceste a luz do mundo? Verdadeiramente o Senhor ilumina os cegos.

Evangelho de São Lucas 18, 35–43

Tendo sido criado no judaísmo, ele não ignorava que da linhagem de Davi Deus nasceria segundo a carne; e por isso fala a Ele como a Deus, dizendo: tem misericórdia de mim. Que possam imitá-lo aqueles que dividem Cristo em dois: pois este dirige-se a Cristo como Deus, e o chama filho de Davi. Admirem a constância de sua confissão: pois alguns queriam impedir que ele confessasse sua fé. Segue-se: e os que iam adiante o repreendiam para que se calasse. Mas por tais impedimentos não se diminuía sua audácia. A fé sabe resistir a tudo e triunfar sobre tudo: é útil, de fato, abandonar a vergonha pelo culto divino. Pois se por causa do dinheiro alguns são impudentes, não convém, pela salvação da alma, revestir-se de uma boa impudência? Por isso segue-se: ele, porém, gritava muito mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim. A voz daquele que invoca com fé detém a Cristo, pois Ele olha para os que O invocam com fé; e por isso, merecidamente chama o cego e ordena que se aproxime; donde segue-se: parando-se, pois, Jesus ordenou que o trouxessem a Ele, para que, certamente, aquele que primeiro O tocara pela fé, se aproximasse também corporalmente. O Senhor interroga o cego que se aproxima; pois segue-se: e quando ele se aproximou, interrogou-o, dizendo: Que queres que te faça? Interroga-o conforme sua providência, não como ignorante, mas para que os presentes soubessem que ele não pedia dinheiro, mas a eficácia divina, como a Deus; por isso segue-se: e ele disse: Senhor, que eu veja.

Evangelho de São Lucas 18, 35–43

Do que fica evidente que foi libertado de uma dupla cegueira, corporal e intelectual: pois não teria glorificado a Cristo como Deus se não tivesse verdadeiramente visto; e tornou-se também ocasião para outros glorificarem a Deus; pois segue-se e todo o povo, quando viu, deu louvor a Deus.

Evangelho de São Lucas 19, 1–10

A turba é a confusão de uma multidão ignorante, que não pôde ver o cume elevado da sabedoria. Portanto, Zaqueu, enquanto estava na turba, não viu a Cristo; mas, tendo superado a ignorância vulgar, mereceu contemplar aquele que desejava ver.

Evangelho de São Lucas 19, 11–27

Esta parábola descreve os mistérios de Cristo do primeiro até o último. Pois Deus feito homem é o Verbo que existe desde o princípio; e embora tenha se tornado servo, é, contudo, nobre segundo seu inefável nascimento do Pai.

Evangelho de São Lucas 19, 11–27

Subindo, pois, aos céus, está sentado à direita da majestade nas alturas; e ao subir, dispensou aos que nele creem diferentes carismas divinos, assim como aos servos são confiadas as faculdades do senhor, para que, lucrando algo, possam receber louvores por seu serviço; donde segue: E tendo chamado dez de seus servos, deu-lhes dez minas. A Sagrada Escritura costuma usar o número dez como sinal de perfeição: quem quiser exceder este número ao contar, deverá começar novamente pela unidade, como se ao chegar a dez tivesse alcançado a meta; e por isso, na dispensação dos talentos, diz-se que aquele que atinge a meta do divino ofício recebeu dez minas.

Evangelho de São Lucas 19, 11–27

Grande, no entanto, é a diferença destes para aqueles que negaram o reino de Deus; sobre os quais se acrescenta: "Mas os seus cidadãos o odiavam, e enviaram uma embaixada após ele, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós". Isto é o que Cristo reprovou aos judeus, dizendo: "Agora, porém, viram e odiaram a mim e a meu Pai"(São João 15,24). Renunciaram, contudo, ao seu reino, dizendo a Pilatos: "Não temos rei senão César"(São João 19,15).

Evangelho de São Lucas 19, 11–27

Quando Cristo retornar, tendo assumido seu reino, os ministros da palavra merecerão louvores e se deleitarão com as honras celestiais, porque multiplicaram o talento adquirindo muitos outros; por isso, acrescenta: "Veio então o primeiro, dizendo: Senhor, tua mina rendeu dez minas".

Evangelho de São Lucas 19, 11–27

É próprio dos doutores incutir nos ouvintes um discurso salutar e proveitoso; mas é obra da virtude divina atrair os obedientes para a escuta, e tornar fecundo o seu entendimento. Não foi, porém, este servo louvado, nem mereceu honra; mas antes foi condenado como indolente; por isso segue-se: e disse aos que estavam presentes: tirai dele a mina, e dai-a àquele que tem dez minas.

Evangelho de São Lucas 19, 37–40

Mas o Senhor não repreendeu os que o glorificavam como Deus, mas antes reprimiu os que os repreendiam, dando assim testemunho acerca da glória de sua divindade; por isso segue: aos quais ele disse: Digo-vos que se estes se calarem, as pedras clamarão.

Evangelho de São Lucas 19, 41–44

Pois Cristo se compadecia deles, querendo que todos os homens sejam salvos: o que não nos seria manifesto, se não tivesse sido evidenciado por meio de algum sinal humano: pois as lágrimas derramadas são sinais de tristeza.

Evangelho de São Lucas 19, 41–44

Ou de outro modo. Se conhecesses também tu: pois não eram dignos de compreender as Escrituras divinamente inspiradas, que narram o mistério de Cristo: pois sempre que Moisés é lido, um véu obscurece o coração deles. E porque não contemplaram a verdade, tornaram-se indignos da salvação que emana de Cristo; por isso segue: ao menos neste teu dia, o que te traria a paz.

Evangelho de São Lucas 19, 45–48

Havia no templo uma multitude de mercadores, que vendiam animais para serem imolados nos sacrifícios segundo o rito da lei. Mas já havia chegado o tempo de cessar a sombra e resplandecer a verdade de Cristo; por isso Cristo, que com o Pai era igualmente adorado no templo, ordenou que se corrigissem os ritos da lei, e que o templo se tornasse uma casa de oração; por isso continua dizendo-lhes: Está escrito que a minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela uma caverna de ladrões.

Evangelho de São Lucas 19, 45–48

Era conveniente que, devido ao que Cristo havia dito e feito, O adorassem como Deus; mas eles, de modo algum fazendo isto, buscavam matá-lo; pois segue-se: Mas os príncipes dos sacerdotes e os escribas e os principais do povo procuravam fazê-lo perecer.

Evangelho de São Lucas 19, 45–48

Mas o povo tinha uma estima mais elevada de Cristo do que os escribas, e fariseus, e príncipes dos judeus, os quais, não aceitando a fé de Cristo, repreendiam aos outros; por isso segue: E não encontravam o que fazer contra ele; pois todo o povo estava suspenso, ouvindo-o.

Evangelho de São Lucas 20, 1–8

Como se dissesse: Segundo a lei mosaica, somente aos exorcistas de sangue levítico foi dada a autoridade de ensinar, bem como o poder sobre os átrios sagrados; mas tu, nascido da tribo de Judá, usurpas os poderes que nos foram confiados. Mas se conhecesses, ó fariseu, as Escrituras, lembrarias que este é o sacerdote que, segundo a ordem de Melquisedeque, oferece a Deus aqueles que nele creem por um culto que transcende a lei. Por que, então, te inquietas, ao serem expulsos dos átrios sagrados o que parecia apropriado às vítimas legais, quando ele chama à verdadeira justificação pela fé?

Evangelho de São Lucas 20, 1–8

Mas eles não hesitaram em fugir da verdade. Pois Deus enviou São João como uma voz clamando: preparai o caminho do Senhor. Temeram, porém, dizer a verdade, para que não lhes fosse dito: por que não acreditastes? E evitam repreender o precursor, não por temor divino, mas do povo; donde se segue: mas eles ponderavam entre si, dizendo: se dissermos: do céu, ele dirá: por que, então, não acreditastes nele?

Evangelho de São Lucas 20, 9–18

Ou Deus ausentou-se da vinha pelo decorrer de muitos anos: porque depois que foi visto descer em forma de fogo sobre o monte Sinai, não mais lhes ofereceu visivelmente sua presença. Todavia, não houve intervalo em que Deus não enviasse profetas e justos para adverti-los; donde segue que, no tempo da vindima, enviou um servo aos lavradores, para que estes lhe dessem do fruto da vinha.

Evangelho de São Lucas 20, 9–18

O senhor da vinha também delibera consigo mesmo sobre o que fazer, não porque careça de auxiliares, mas porque, tendo experimentado todo tipo de meio para a salvação humana, e o povo não sendo de modo algum ajudado, acrescenta algo maior; por isso, consequentemente diz: "Enviarei meu filho amado: talvez quando o virem, o respeitarão".

Evangelho de São Lucas 20, 9–18

Foram excluídos, portanto, os príncipes dos judeus, como que se opondo à vontade do Senhor, e tornando estéril a vinha que lhes fora confiada; e o cultivo da vinha foi dado aos sacerdotes do novo testamento. Mas quando perceberam o sentido da parábola, recusam-se a aceitá-la; donde segue: ao ouvirem isso, disseram-lhe: não permita Deus. Contudo, não escaparam devido à sua pertinácia e desobediência à fé de Cristo.

Evangelho de São Lucas 20, 9–18

A Sagrada Escritura compara ao ângulo o encontro de ambos os povos, isto é, do Israelita e do Gentio, em uma só fé: pois o Salvador uniu ambos os povos em um novo homem, reconciliando-os em um só corpo com o Pai. Salutar é, portanto, a pedra para o ângulo feito por ela; mas causa prejuízo aos judeus que resistem a esta união espiritual.

Evangelho de São Lucas 20, 19–26

Convinha, certamente, aos príncipes dos judeus, entendendo que a parábola era dita sobre eles, afastarem-se assim do mal, como instruídos acerca do futuro; mas não considerando isso, buscam ocasião para seus crimes; donde se diz: e os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam lançar as mãos sobre ele naquela hora. Nem os refreou o preceito da lei, que diz: não matarás o inocente e o justo; mas reprimiu seu nefando propósito o temor do povo; pois segue: e temeram o povo. Preferem, com efeito, o temor humano à reverência divina. E qual tenha sido a ocasião deste propósito, acrescenta-se: pois reconheceram que contra eles dissera esta parábola.

Evangelho de São Lucas 20, 19–26

Pois pareciam ser levianos; porém eram astutos, esquecidos de Deus que diz: "Quem é este que me oculta o conselho?" Assim, dirigem-se a Cristo, Salvador de todos, como a um homem comum; donde se segue para que o surpreendessem em alguma palavra, e o entregassem ao governo e ao poder do governador.

Evangelho de São Lucas 20, 27–40

Assim como a multidão dos Anjos é certamente muito numerosa, não sendo propagada por geração, mas existindo por criação; assim também para aqueles que ressuscitam não há necessidade de novas núpcias; por isso segue-se e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.

Evangelho de São Lucas 20, 41–44

Ou, o estar sentado à direita do Pai prova sua glória suprema, pois aqueles cujo trono é igual, igual é também a majestade. Mas estar sentado, quando se diz de Deus, significa o reino universal e o poder. Está sentado, portanto, à direita de Deus Pai, porque o Verbo, procedendo da substância do Pai, feito carne, não se despojou da divina dignidade.

Evangelho de São Lucas 20, 41–44

E nós, portanto, aos novos fariseus, que não confessam nem que o verdadeiro Filho de Deus, nem que Deus nasceu da sagrada Virgem, mas dividem um único Filho em dois, apresentamos tal questão: de que modo o filho de Davi é seu Senhor, e não por um senhorio humano, mas divino?

Evangelho de São Lucas 20, 45–47

As paixões dos Escribas eram o amor à vanglória e o amor ao lucro. Para que os discípulos evitassem estes detestáveis crimes, Ele lhes dá esta advertência, e acrescenta: "E amam saudações nas praças".

Evangelho de São Lucas 21, 1–4

Ela oferecia dois óbolos, que havia adquirido com o suor de sua fronte para seu sustento diário; ou aquilo que diariamente pede pelo auxílio alheio, ela doa a Deus, mostrando-lhe que sua pobreza é frutífera. Vence, portanto, aos outros, e por justo juízo é coroada por Deus; por isso segue-se e lhes disse: "Em verdade vos digo que esta pobre viúva depositou mais do que todos".

Evangelho de São Lucas 21, 5–8

De modo algum, porém, os discípulos haviam percebido a força das palavras; mas julgavam que tinha sido dito sobre a consumação do século; e por isso perguntavam em que tempo deveriam acontecer; donde se segue: "Perguntaram-lhe, pois, dizendo: Mestre, quando serão estas coisas, e que sinal haverá quando começarem a acontecer?"

Evangelho de São Lucas 21, 5–8

Antes da sua descida do céu, surgirão alguns, aos quais não devemos dar ouvidos: pois o Verbo unigênito de Deus, quando veio para salvar o mundo, quis permanecer oculto, a fim de suportar a cruz por nós; mas sua segunda vinda não será em segredo, como antes, mas terrível e manifesta: pois descerá na glória de Deus Pai, com os Anjos servindo-o, para julgar o mundo com justiça; por isso conclui não vades, portanto, atrás deles.

Evangelho de São Lucas 21, 12–19

Ou Ele diz isto, porque antes que Jerusalém fosse tomada pelos romanos, os discípulos, tendo sofrido perseguições dos judeus, foram encarcerados e apresentados aos príncipes. São Paulo foi enviado a Roma ao César, e compareceu diante de Festo e Agripa. Segue-se: E isto vos acontecerá em testemunho.

Evangelho de São Lucas 21, 25–27

Deve-se entender também grande. Pois na primeira aparição, Ele se apresentou com nossa enfermidade e humildade; mas a segunda celebrará com seu próprio poder e grande majestade.

Evangelho de São Lucas 21, 37–38

Mas quais eram as coisas que ensinava, senão aquelas que transcendiam o culto da lei? Aproximava-se, pois, o tempo em que a sombra deveria ser transformada em verdade.

Evangelho de São Lucas 21, 37–38

Mas, porque sua linguagem era com poder, e com autoridade ele transpunha para o culto espiritual as coisas que haviam sido entregues em figuras por Moisés e pelos profetas, o povo o ouvia avidamente; por isso se segue: e todo o povo madrugava, isto é, apressava-se em vir pela manhã, a ele no templo, para ouvi-lo. E ao povo que vinha a Ele antes do amanhecer, era apropriado dizer: "Deus, meu Deus, por ti anseio desde a aurora"(Salmo 62,2).

Evangelho de São Lucas 22, 14–18

Depois que os discípulos prepararam a Páscoa, trata-se da refeição pascal; donde se diz: E quando chegou a hora, sentou-se à mesa, e os doze apóstolos com ele.

Evangelho de São Lucas 22, 14–18

Ele diz isto porque o discípulo avarento procurava o momento oportuno para a traição; mas para que não o entregasse antes da festa da Páscoa, o Senhor não havia revelado nem a casa, nem o homem com quem celebraria a Páscoa; que esta foi a causa é evidente por estas palavras.

Evangelho de São Lucas 22, 19–20

E não duvides que isto seja verdade, pois Ele manifestamente diz: este é o meu corpo; mas antes recebe as palavras do Salvador com fé. Sendo Ele a verdade, não mente. Portanto, deliram os que dizem que a bênção mística deixa de santificar se algumas relíquias permanecerem para o dia seguinte: pois o sacrossanto corpo de Cristo não será alterado; mas a virtude da bênção e a graça vivificadora permanecem nele continuamente. Pois a virtude vivificadora de Deus Pai é o Verbo unigênito, que se fez carne, não deixando de ser o Verbo, mas tornando a carne vivificadora. Se em algum líquido mergulhares um pouco de pão, perceberás que este absorve a qualidade daquele. Assim, o Verbo vivificador de Deus, unindo-se à sua própria carne, tornou-a vivificadora. Porventura, então, porque a vida de Deus está em nós, existindo o Verbo de Deus em nós, nosso corpo será vivificador? Mas uma coisa é termos em nós o Filho de Deus segundo a relação de participação; outra é Ele mesmo ter-se feito carne, isto é, ter feito seu próprio corpo aquele tomado da pura Virgem. Convinha, pois, que Ele se unisse de certo modo aos nossos corpos por meio da sua carne sagrada e precioso sangue, que recebemos como bênção vivificadora no pão e no vinho. Para que não nos horrorizássemos vendo carne e sangue postos sobre os altares sagrados, Deus, condescendendo com nossas fragilidades, infunde nos dons oferecidos a força da vida, convertendo-os na realidade da sua própria carne, para que o corpo da vida seja encontrado em nós como uma espécie de semente vivificadora; donde se segue fazei isto em minha memória.

Evangelho de São Lucas 22, 24–27

Mas também belas palavras lhes são oferecidas pelos súditos; por isso segue: e aqueles que têm poder sobre eles são chamados benfeitores. Mas eles, como estranhos às leis sagradas, estão sujeitos a tais enfermidades; mas vossa excelência está na humildade; por isso segue: vós, porém, não assim; mas aquele que é maior entre vós, faça-se como o menor.

Evangelho de São Lucas 22, 28–30

Mas, a partir das coisas que existem entre nós, Ele designa as espirituais: pois gozam de uma certa prerrogativa junto aos reis terrenos aqueles que se sentam com eles como convivas. Portanto, a partir do juízo humano, Ele mostra quem será colocado diante d'Ele nas mais altas honras.

Evangelho de São Lucas 22, 31–34

Ou para mostrar que os homens, sendo como nada, (quanto à natureza humana e à inclinação de nossa mente para cair), não convém que desejem estar acima de seus irmãos; e por isso, deixando de lado os demais, vem a Pedro, que era o chefe deles; de onde segue: "Eu, porém, roguei por ti, para que tua fé não desfaleça".

Evangelho de São Lucas 22, 34–38

O Senhor havia predito a Pedro que ele O negaria, a saber, no tempo de sua captura; mas como uma vez foi feita menção de sua captura, consequentemente anuncia o conflito que sobreviria contra os judeus; por isso diz: e disse-lhes: quando vos enviei sem bolsa, e alforje, e calçados, faltou-vos porventura alguma coisa? Pois o Salvador havia enviado os santos Apóstolos para pregar nas cidades e aldeias o reino dos céus, ordenando-lhes que, ao irem, não tivessem cuidado de coisa alguma corporal, mas que depositassem nele toda a esperança de vida.

Evangelho de São Lucas 22, 39–42

Durante o dia, conversava em Jerusalém, mas quando sobrevinha a escura noite, no monte das Oliveiras conversava com seus discípulos; por isso segue: e os discípulos o seguiram.

Evangelho de São Lucas 22, 39–42

Mas para não os beneficiar somente com palavras, afastando-se um pouco, orava; por isso segue-se: e ele afastou-se deles à distância de um arremesso de pedra. Por toda parte encontra-se ele orando em separado, para que aprendas que devemos falar com Deus sublime com mente atenta e coração tranquilo. Não insistia nas preces como necessitando do auxílio alheio, ele que é a virtude mais onipotente do Pai; mas para que aprendamos que não devemos adormecer nas tentações, mas antes insistir mais nas orações.

Evangelho de São Lucas 22, 47–53

Diz, porém, aquele que se chamava Judas, como tendo seu nome em abominação; e acrescenta: um dos doze, para significar a iniquidade do traidor: pois aquele que havia sido honrado igualmente aos apóstolos, tornou-se causa do assassinato contra Cristo.

Evangelho de São Lucas 22, 47–53

Nisso o Senhor não culpa os príncipes dos judeus por não terem preparado com antecedência as insídias para sua morte, mas reprova aqueles que temerariamente opinavam que o haviam dominado contra a sua vontade; como se dissesse: então não me prendestes porque eu não queria; e nem agora poderíeis, se eu não me submetesse espontaneamente às vossas mãos; por isso segue: mas esta é a vossa hora; isto é, um breve tempo vos foi concedido para exercerdes em mim a vossa crueldade, favorecendo o Pai os meus desejos. Diz também que este poder foi dado às trevas, isto é, ao Diabo e aos judeus, para se insurgirem contra Cristo, e é o que se acrescenta: e o poder das trevas.

Evangelho de São Lucas 22, 63–71

Quando, porém, se fala de uma posição sentada e de um trono a respeito de Deus, designa-se a dignidade régia que preside a todas as coisas. Pois não acreditamos que exista um tribunal colocado, sobre o qual cremos que o Senhor de tudo se apoia; nem tampouco que exista de modo algum direita ou esquerda junto à natureza divina: pois a figura, o lugar e a posição sentada são próprios dos corpos. De que maneira, porém, o Filho parecerá ser de igual honra e igualmente entronizado, se não é um Filho segundo a natureza, possuindo em si a propriedade natural do Pai?

Evangelho de São Lucas 22, 63–71

Dizendo Cristo isso, exaltou-se a multidão dos fariseus, apropriando-se da palavra como uma ignomínia; por isso segue: Então disseram eles: Que necessitamos nós de mais testemunho? Nós mesmos o ouvimos de sua própria boca.

Evangelho de São Lucas 23, 26–32

Significando que no futuro as mulheres seriam privadas de seus filhos; pois, quando a guerra irromper na terra dos judeus, todos perecerão juntos, tanto os grandes como os pequenos; por isso segue: Porque eis que virão dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os seios que não amamentaram.

Evangelho de São Lucas 23, 33

O único Filho de Deus não sofreu aquelas coisas que são próprias do corpo em sua própria natureza pela qual é Deus, mas antes em sua natureza terrena. Pois convém que ambas as coisas sejam afirmadas sobre um e mesmo filho: a saber, que não sofreu divinamente, e que sofreu humanamente.

Evangelho de São Lucas 23, 38–43

Um dos ladrões proferia as mesmas blasfêmias que os judeus; pois segue: "E um dos ladrões que estavam pendurados, blasfemava contra ele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós". O outro refreava as suas palavras; pois segue: "Mas respondendo o outro, repreendia-o, dizendo: Nem tu temes a Deus, estando na mesma condenação?" E também confessou seu próprio delito, acrescentando: "E nós, na verdade, justamente, pois recebemos o digno castigo de nossos feitos".

Evangelho de São Lucas 23, 44–46

Depois que entregaram à cruz o Senhor de todas as coisas, a estrutura do mundo chorava seu próprio Senhor, e a luz escureceu ao meio-dia, segundo Amós, por isso é dito: "Era quase a hora sexta, e as trevas estenderam-se por toda a terra até a hora nona"; o que era um sinal manifesto de que as almas dos que o crucificaram sofreriam obscuridade.

Evangelho de São Lucas 23, 44–46

Esta voz ensina que as almas dos santos não são mais confinadas no Inferno como antes, mas estão junto de Deus, tendo Cristo se feito o princípio desta mudança.

Evangelho de São Lucas 24, 1–12

Quando, portanto, não encontraram o corpo de Cristo, que havia ressuscitado, eram conduzidas por diversos pensamentos; e, por causa do amor a Cristo e pela solicitude demonstrada, mereceram a visão angelical; pois segue: E aconteceu que, estando elas consternadas em sua mente sobre isto, eis que dois homens apresentaram-se junto a elas com vestes resplandecentes.

Evangelho de São Lucas 24, 1–12

Instruídas, pois, as mulheres pelas declarações dos Anjos, apressando-se, relataram estas coisas aos discípulos; por isso segue: e recordaram-se das palavras dele; e saindo do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze, e a todos os demais. Pois a mulher que outrora fora ministra da morte, foi a primeira a perceber e anunciar o venerável mistério da ressurreição. Alcançou, portanto, o gênero feminino tanto a absolvição da ignomínia quanto o repúdio da maldição.

Evangelho de São Lucas 24, 36–40

Enquanto a fama da ressurreição se divulgava por toda parte através dos apóstolos, e o afeto dos discípulos estava elevado para a visão de Cristo, veio o desejado; e aos que o procuravam e esperavam, Ele se revela; e não se discute sobre outro, mas evidentemente se oferece a si mesmo; por isso diz: Enquanto falavam estas coisas, Jesus se pôs em pé no meio deles.

Evangelho de São Lucas 24, 36–40

Envergonhemo-nos, pois, de abandonar o dom da paz, que Cristo nos deixou ao partir daqui. A paz é tanto uma realidade quanto um nome doce, que reconhecemos ser de Deus, conforme aquilo: "a paz de Deus", e que Deus pertence a ela, conforme aquilo: "Deus da paz", e que ela mesma é Deus, conforme aquilo: "ele é a nossa paz". A paz é um bem recomendado por todos, mas observado por poucos. Qual é a causa? Talvez a ambição de domínio ou de riquezas, ou a inveja, ou o ódio, ou o desprezo, ou algo semelhante a estes que vemos incorrer nos que desconhecem a Deus. De fato, a paz é principalmente de Deus, que une todas as coisas; de quem nada é tão próprio quanto a unidade da natureza e o estado pacífico. Ela é transmitida aos Anjos e potestades divinas, que se mantêm pacificamente em relação a Deus e uns aos outros; difunde-se por toda a criação, cujo ornamento ela é; permanece em nós, segundo a alma, pela investigação e comunicação das virtudes, e segundo o corpo, na justa proporção dos membros e elementos: dos quais o primeiro se chama beleza, o segundo saúde.

Evangelho de São Lucas 24, 36–40

Isto foi um sinal evidentíssimo de que aquele que é visto não é outro, mas aquele mesmo que haviam visto morto no madeiro e colocado no sepulcro, a quem não se ocultava nada daquilo que havia no homem.

Evangelho de São Lucas 24, 36–40

Comprovando o Senhor que a morte havia sido vencida e que a natureza humana em Cristo já se livrara da corrupção, primeiro mostra suas mãos e pés, e os furos dos cravos; por isso acrescenta: "Vede minhas mãos e meus pés, porque sou eu mesmo".

Evangelho de São Lucas 24, 41–44

O Senhor havia mostrado aos discípulos suas mãos e pés, para certificar aos discípulos que o corpo que havia padecido ressuscitou. Mas para certificá-los ainda mais, pediu algo para comer; donde se diz: "Como eles ainda não acreditassem e estivessem maravilhados de alegria, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que se possa comer?"

Evangelho de São Marcos 2, 1–12

Acusam-no de blasfêmia, precipitando a sentença de morte: pois havia na lei o mandamento de que qualquer um que blasfemasse contra Deus fosse punido com a morte. Isto, porém, lhe imputavam, porque atribuía a si mesmo o poder divino de perdoar pecados; por isso segue-se: Quem pode perdoar pecados senão só Deus? Pois somente o juiz de todos tem o poder de perdoar pecados.

Evangelho de São Marcos 5, 1–20

Vede o demônio dividido por duas paixões, a audácia e o temor: reluta e roga; como que intentando alguma questão, quer saber o que há de comum entre ele e Jesus; como se dissesse: por que causa me expulsas dos homens, sendo que são meus?

Evangelho de São Marcos 5, 1–20

Em seguida, orando, acrescenta: "Eu te conjuro por Deus que não me atormentes"; pois considerava a expulsão como um tormento; ou também estava sendo atormentado invisivamente.

Evangelho de São Marcos 5, 1–20

Considere o invencível poder de Cristo; Ele abala a Satanás, para quem as palavras de Cristo são fogo e chama: conforme diz o Salmista, derreteram-se os montes diante da face de Deus(Salmos 97,5), isto é, os poderes sublimes e soberbos. Segue-se e perguntou-lhe: qual é o teu nome?

Evangelho de São Mateus 1, 1

Diz, pois, o apóstolo acerca do Unigênito que sendo ele em forma de Deus, não julgou como usurpação ser igual a Deus. Quem é, portanto, aquele que está na forma de Deus? Ou como foi esvaziado e desceu à humildade segundo a forma do homem? E de fato, se os mencionados hereges, dividindo Cristo em duas partes, isto é, em homem e em Verbo, dizem que o homem sofreu o esvaziamento, separando dele o Verbo de Deus, deve-se mostrar primeiro que ele está e esteve na forma e na igualdade de seu Pai, para que pudesse suportar o modo de esvaziamento. Mas nenhuma das criaturas, se entendida segundo sua própria natureza, está na igualdade do Pai. Como, então, se diz que foi esvaziado, e de qual eminência desceu para ser homem? Ou como se entende que assumiu a forma de servo como se não a tivesse desde o princípio? Mas dizem que o Verbo, existindo igual ao Pai, habitou no homem nascido de mulher: e este é o esvaziamento. Certamente ouço o Filho dizendo aos santos apóstolos: se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e a ele viremos, e nele faremos morada. Ouves como disse que naqueles que o amam, ele e Deus Pai coabitam? Acaso, então, diremos que ele foi esvaziado e esvaziado e tomou a forma de servo porque faz morada nas almas daqueles que o amam? E o Espírito que habita em nós, pensais que também ele cumpre a dispensação da humanação?

Evangelho de São Mateus 1, 1

Consideramos loucos aqueles que supuseram que sequer a sombra de mudança poderia ocorrer na natureza do divino Verbo; pois permanece o que sempre foi, e não é mudado, nem é capaz de transformação.

Evangelho de São Mateus 1, 18

O que alguém verá na santa virgem diferente das demais? Se ela não for Mãe de Deus, mas de Cristo ou do Senhor, como diz Nestório, não seria absurdo, se alguém quisesse, chamar de genitora de Cristo a mãe de qualquer um dos ungidos. Mas somente a santa virgem, entre todas as outras, é entendida e chamada genitora de Cristo. Pois ela gerou não um simples homem, segundo vós, mas antes o Verbo do Deus Pai encarnado e feito homem. Mas talvez digas: dize-me, pensas que a virgem tornou-se mãe da divindade? E a isto também respondemos que da própria substância de Deus nasceu o seu Verbo e, sem princípio de tempo, sempre coexistiu com o Genitor; mas nos últimos tempos, porque se fez carne, isto é, unido à carne que possui alma racional, diz-se também que nasceu carnalmente por meio de uma mulher. Este sacramento é de algum modo semelhante ao nosso nascimento; pois as mães dos seres terrenos ministram à natureza a carne coagulada que gradualmente se aperfeiçoa na forma humana. Mas Deus introduz o espírito no ser animado. E embora sejam somente mães dos corpos terrenos, ao darem à luz, diz-se que geraram todo o ser animado e não apenas uma parte dele. Percebemos que algo semelhante aconteceu na geração do Emanuel; pois da substância do Pai nasceu o Verbo de Deus; mas porque assumiu a carne, tornando-a própria, é necessário confessar que nasceu segundo a carne por meio de uma mulher. Sendo, portanto, verdadeiramente Deus, como poderá alguém duvidar em chamar a santa virgem de genitora de Deus?

Evangelho de São Mateus 1, 18

Mas se disséssemos que o santo corpo de Cristo foi feito do céu e não da própria Maria, como afirma Valentino, como poderíamos entender que Maria é a Mãe de Deus? O nome da mãe mostra isso quando acrescenta Maria.

Evangelho de São Mateus 16, 13–19

Segundo esta promessa do Senhor, a Igreja apostólica de Pedro permanece imaculada de toda sedução e fraude herética, acima de todos os prepostos e bispos, e acima de todos os primados das Igrejas e dos povos, em seus pontífices, na plenitude da fé e na autoridade de Pedro. E enquanto outras Igrejas têm de se envergonhar pelo erro de alguns de seus membros, esta sozinha reina estabelecida inabalável, impondo silêncio e fechando a boca de todos os hereges; e nós, como necessidade para a salvação, não enganados pela soberba, nem embriagados pelo vinho da soberba, confessamos e pregamos juntamente com ela o modelo da verdade e da santa tradição apostólica.

Epístola aos Romanos 1, 4

Assim como Cristo foi predestinado a ser Filho de Deus em poder, também nós fomos predestinados a ser filhos de Deus, não porém em poder, mas por graça, tendo sido feitos dignos de tal vocação e a tendo recebido somente pela vontade de Deus Pai. Há aqui uma grande diferença entre o Emanuel e nós. Pois, ainda que ele tenha nascido da semente de Davi segundo a carne, e assim possamos dizer que o Filho de Deus foi um de nós na sua humanidade, todavia, em poder e em verdade, Ele é o Filho natural, e é por meio dele que também nós somos feitos filhos (...). Estamos nós para com ele na mesma relação em que as imagens estão para com o seu original.

Epístola aos Romanos 3, 27

Pois quem se gloriará, ou por que motivo, quando todos se tornaram inúteis e se desviaram do caminho reto, e ninguém mais pratica boas obras? Por isso diz que toda glorificação está excluída... Como assim? Alcançamos a remissão dos nossos pecados anteriores e fomos justificados gratuitamente pela misericórdia e graça de Cristo.

Epístola aos Romanos 3, 31

Por causa de sua humanidade, o Emanuel é chamado profeta, sendo, à semelhança de Moisés, o mediador entre Deus e a humanidade. A lei era sombra, mas ainda assim apresentava uma imagem da verdade. Além disso, a verdade dificilmente destrói as suas imagens; antes, as torna mais claras.

Epístola aos Romanos 4, 2

Que poderemos dizer àqueles que insistem em que Abraão foi justificado pelas obras, porque estava pronto para sacrificar seu filho Isaac sobre o altar? Abraão já era um homem idoso quando Deus lhe prometeu que teria um filho e que sua descendência seria tão numerosa quanto as estrelas do céu. Abraão creu piedosamente que todas as coisas são possíveis a Deus, e assim exerceu essa fé. Deus o reputou justo por isso e deu a Abraão uma recompensa digna de tão pia disposição de alma, a saber, o perdão de seus pecados anteriores…. Assim, ainda que Abraão tenha sido também justificado por sua prontidão em sacrificar Isaac, isso deve ser considerado uma demonstração evidente de uma fé que já era muito robusta.

Epístola aos Romanos 5, 12

A morte entrou no primeiro homem, e nos primórdios de nossa raça, por causa do pecado, e bem depressa corrompeu toda a raça. Além disso, a serpente, inventora do pecado, tendo vencido Adão por causa da infidelidade deste, abriu para si um caminho de entrada na mente do homem: "Corromperam-se... não há quem faça o bem". Portanto, tendo-nos desviado da face do Deus santíssimo, e porque a mente do homem se inclinava voluntariamente para o mal desde a sua adolescência, vivemos uma vida absurda, e a morte vencedora nos devorou por conseguinte... Pois, uma vez que todos copiamos a transgressão de Adão e assim todos pecamos, incorremos em pena igual à sua. Contudo o mundo não ficou sem esperança, pois ao fim o pecado foi destruído, Satanás foi derrotado e a própria morte foi abolida.

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Epístola aos Romanos 5, 13

A lei de Moisés era o poder que restringia a fraqueza dos pecadores. Revelou-se não a resposta ao pecado, mas antes uma provocação à ira. Pois era necessário que os transgressores sofressem as penas prescritas pela lei, e onde houvesse transgressão, havia também pecado. Assim, se o pecado trouxe consigo a morte, pode-se sem dúvida dizer que a morte, tendo nascido do pecado, foi fortalecida por isto mesmo. Mas quando o pecado foi removido, a morte também se enfraqueceu, e desapareceu junto com seu progenitor. Por isso havia morte no mundo até a vinda da lei. Pois enquanto a lei era válida, o crime da transgressão podia ser imputado aos que haviam caído, mas uma vez removida a lei, também desapareceu a acusação de transgressão. Portanto, quando cessou a culpa, também a morte chegou ao fim.

Epístola aos Romanos 5, 18

Que tem a nós a culpa de Adão? Por que somos considerados responsáveis pelo seu pecado, se nem sequer havíamos nascido quando ele o cometeu? Não disse Deus: "Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais, mas a alma que pecou, essa morrerá"? Como, pois, defenderemos esta doutrina? A alma, digo eu, que pecou, essa morrerá. Tornamo-nos pecadores por causa da desobediência de Adão do seguinte modo…. Depois que ele caiu em pecado e se entregou à corrupção, luxúrias impuras invadiram a natureza de sua carne, e ao mesmo tempo nasceu a lei perversa de nossos membros. Pois nossa natureza contraiu a doença do pecado por causa da desobediência de um só homem, isto é, Adão, e assim muitos se tornaram pecadores. Isto não porque tenham pecado juntamente com Adão, pois ainda não existiam, mas porque possuíam a mesma natureza que Adão, a qual caiu sob a lei do pecado. Assim, do mesmo modo que a natureza humana adquiriu em Adão, por causa da desobediência, a fraqueza da corrupção, e os desejos maus a invadiram, assim também essa mesma natureza foi depois libertada por Cristo, que foi obediente a Deus Pai e não cometeu pecado.

Epístola aos Romanos 5, 20

A lei entrou para que se tornasse manifesta a múltipla face da queda daqueles que estavam sob a lei. Ninguém jamais poderia ser feito justo em razão da fraqueza da natureza humana; antes, cada um se condenava por seus próprios crimes de transgressão. A lei veio como reveladora de nossa comum fraqueza, para que o gênero humano aparecesse ainda mais claramente necessitado do auxílio do remédio de Cristo.

Epístola aos Romanos 6, 3

Cristo morreu para o pecado uma vez por todas; mas, no que Ele vive, vive para Deus. Nós sofremos uma morte semelhante à sua e fomos, na prática, sepultados juntamente com Ele. Pois, ao trazermos em nossos corpos a sua mortificação, fomos com Ele sepultados.

Epístola aos Romanos 6, 4

Assim como fomos sepultados, devemos também ressuscitar com Cristo em sentido espiritual. Pois, se ser sepultado juntamente com Cristo significa morrer para o pecado, então é evidente que ressuscitar com Ele significa viver na justiça.

Epístola aos Romanos 6, 5

O Emanuel entregou a sua alma por nós; morreu na carne. Também nós fomos sepultados juntamente com Ele quando fomos batizados. Significa isto que a nossa carne morreu do mesmo modo que a Sua? De modo nenhum. Vinde, e vos explicarei em que sentido fomos sepultados com Ele numa morte semelhante à Sua. Cristo morreu na carne a fim de remover o pecado do mundo, mas nós não morremos tanto para a carne quanto para a culpa, como está escrito. Assim, cabe-nos agora quebrantar o poder do pecado dentro de nós, mortificando os nossos membros terrenos... Como morremos uma morte semelhante à Sua, assim também seremos conformados à Sua ressurreição, porquanto viveremos em Cristo. É verdade que a carne há de reviver, mas ainda assim viveremos de outro modo, consagrando-Lhe as nossas almas e sendo transformados em santidade e numa espécie de vida gloriosa no Espírito Santo.

Epístola aos Romanos 6, 6

Talvez alguns pensem que "o corpo do pecado" se refira à nossa carne terrena, que foi unida à alma como espécie de castigo, visto que a alma pecou antes que os corpos fossem criados. Alguns pensam e falam assim, mas, sendo esta uma ideia pagã, devemos rejeitá-la como incompatível com a verdade. Diz, pois, Paulo que nosso corpo terreno é o corpo do pecado e nosso velho homem, porque herdou do velho Adão a necessidade da corrupção... Além disso, por causa de sua fraqueza, contraiu amor pela maldade, e assim o pecado aparece na carne como defeito congênito. Fomos crucificados com Cristo no momento em que sua carne foi crucificada, porque ela de algum modo incluía em si mesma a natureza humana universal, assim como a natureza humana universal contraiu em Adão a enfermidade da maldição no mesmo instante em que ele incorreu na maldição.

Epístola aos Romanos 7, 7

Paulo não disse que não tinha pecado à parte da lei, mas antes que dele não tinha conhecimento. Portanto, a lei não é causa do pecado, mas antes o instrumento que o aponta, tornando-o manifesto aos que não sabiam o que ele era. E não fez isso para que, uma vez conhecido o pecado, os que o cometiam nele perseverassem…. Pelo contrário, sua intenção era converter os homens a coisas melhores, dando-lhes a conhecer os seus pecados.

Epístola aos Romanos 7, 8

Penso que o que Paulo quer dizer aqui é algo assim: ainda que aquele que peca por ignorância seja culpado, haverá castigo mais severo para aquele que peca conscientemente.

Epístola aos Romanos 7, 9

Não éramos justos antes que a lei viesse, mas, dado que o pecado estava morto enquanto não havia lei que o condenasse, vivíamos tendo a desculpa de não sabermos o que era que devíamos fazer.

Epístola aos Romanos 7, 12

A lei era santa porque testemunhava que os que a guardavam eram santos, justos e bons, e não eram culpados de pecado de maneira alguma.

Epístola aos Romanos 7, 13

Mesmo os que não conhecem a vontade de Deus merecem o castigo divino, porque pecam, ainda que por ignorância. Contudo, têm alguma desculpa, pois, quando a lei lhes for explicada, provavelmente se desculparão diante daqueles que estão sob a lei, em razão de sua ignorância. Mas os que escolheram pecar e o fazem não por ignorância cometeram um crime de loucura e rejeitaram por completo a Deus. Tais pessoas são ditas "pecadoras sobremaneira". Aquele que peca por ignorância ainda é pecador, mas não é, nem é dito, "pecador sobremaneira".

Epístola aos Romanos 7, 14

Uma coisa é a vontade do Espírito, outra é a da carne. Estas duas vontades combatem entre si e jamais podem chegar a acordo. O homem é carnal, mas a lei é espiritual. Como, pois, poderá a lei tornar-se suportável para aqueles que tão arduamente lutam contra a enfermidade do pecado? Há aqui sabedoria, pois, se o homem é carnal, é ele, em certo sentido, cativo e reduzido à condição de escravidão.

Epístola aos Romanos 7, 15

Parece que isto se refere aos gentios ignorantes, cujos pensamentos Paulo reproduz. Pois, tendo confiado seu destino e futuro às próprias concupiscências, a ponto de considerar que os ídolos vãos têm algum poder sobre nossas vidas, privam o homem de sua glória, que é a capacidade de viver livremente e de ter pleno e completo domínio sobre sua própria vontade para fazer o que deseja... Pode ser que alguém que seja forçado a agir contra sua vontade não possa ser culpado por isso, mas, ao mesmo tempo, nenhuma pessoa racional o louvará tampouco por sua piedade e justiça. Pois por que alguém deveria ser louvado por fazer coisas contra a própria vontade, ainda que forçado a isso por um poder sobre o qual não tem controle? — Explicação da Epístola aos Romanos

Epístola aos Romanos 7, 21

Se o pecado inere à minha carne e a corrompe, bem pode ser que a lei ofereça auxílio e dê conselho, mas, ainda assim, não me liberta do pecado. Contudo, para aqueles que estão presos pela fraqueza do pecado, dificilmente basta saber que deveriam agir melhor; o que necessitam é a força para fazer o que é reto e conforme a lei.

Epístola aos Romanos 8, 2

Penso ser necessário, para uma explicação exata dos sentidos aqui contidos, dizer o seguinte: Paulo chama de "lei do pecado e da morte" às concupiscências da carne, que nos arrastam a toda sorte de maldade. Do mesmo modo, chama de "lei do Espírito da vida" à vontade espiritual, isto é, à inclinação da mente para fazer o que é reto. … Esta lei não nos libertou por si mesma; antes, restituiu-nos à liberdade pelos méritos de Cristo. Assim como os que pecaram sob a lei foram necessariamente presos também pelos laços da morte, assim também é necessário que os que não estão sob a lei, mas que foram libertados por Cristo, levem vidas de santidade e se mostrem superiores à corrupção, porque já não estão sob a lei da morte.

Epístola aos Romanos 8, 3

Deus nos livre de que Paulo jamais dissesse que o corpo de Cristo foi feito de carne pecaminosa! Antes, foi em semelhança da carne pecaminosa, pois, embora fosse semelhante aos nossos corpos, dificilmente se pode compará-lo a eles no sentido de que não podia adoecer de impureza carnal. Já desde o ventre, o corpo de Cristo foi um templo santo, e ninguém teme afirmar que, enquanto carne, ao atingir a idade da razão, comportou-se do modo como a carne normalmente se comporta. Não obstante, porque o Verbo que tudo santifica habitava em seu corpo, a potencialidade para o pecado foi condenada, para que o fruto dessa bênção pudesse também alcançar-nos a nós. Pois fomos transformados à sua semelhança, não apenas em espírito, mas também em corpo. Quando Cristo habita em nós pelo Espírito Santo e pela bênção sacramental, então a lei do pecado é verdadeiramente condenada em nós. Assim é verdadeiramente dito que aquilo que era impossível à lei, a qual fora enfraquecida pela carne, tornou-se possível por meio de Cristo, que condenou e destruiu o pecado na carne, para que a justiça da lei se cumprisse em nós.

Epístola aos Romanos 8, 15

Fomos enriquecidos com o Espírito de Deus, pois seu Espírito veio habitar em nossos corações, e tomamos nosso lugar entre os filhos de Deus, sem contudo deixar de ser o que somos. Pois somos homens segundo a natureza, ainda que clamemos: "Abba! Pai!" Carta

Epístola aos Romanos 8, 17

Dificilmente se podem realizar boas obras sem sofrimento; contudo, o sofrimento dos santos é nutrido por uma grande esperança. Pois nada terreno é prometido, mas antes a glória eterna.

Epístola aos Romanos 8, 19

A criação aguarda a revelação dos filhos de Deus em algum momento futuro ainda desconhecido. Quem pode saber quando isto será? Mas, pelo desígnio secreto de Deus, que ordena todas as coisas para o melhor, ela chegará a esse fim. Pois, quando os filhos de Deus, que viveram uma vida justa, tiverem sido transformados da desonra para a glória e da corrupção para a incorrupção, então também a criação será transformada em algo melhor.

Epístola aos Romanos 8, 20

A criação visível e tangível nada sabe das promessas que nos foram feitas, porquanto não possui entendimento delas. Pois, se acaso viesse a criação a adquirir algum entendimento dessas coisas, dificilmente suportaria tão vil servidão, nem quereria estar sujeita ou manter amizade com aqueles cujas vidas não produzem bom fruto algum. Não obstante, diz Paulo que a criação está sujeita em esperança, pois um dia os santos e os eleitos serão salvos, e então será removido o jugo que lhe foi imposto por Deus. ... Entrementes, geme a criação e de certo modo trabalha e se aflige, e se tivesse ela alguma percepção de nossas obras, provavelmente romperia em pranto.

Epístola aos Romanos 8, 23

O corpo corruptível pesa sobre a alma, e o corpo terreno arrasta para baixo a mente cheia de cuidados. Pois, tão logo o Espírito venha habitar em nós e nos volte para o estudo da virtude, o amor da carne salta a combatê-lo, e a lei que está em nossos membros, propensa a concupiscências vãs, começa uma luta amarga. Eis por que gememos, aguardando a libertação de nossos corpos como fruto da adoção.

Epístola aos Romanos 8, 24

Cremos que também os nossos corpos hão de vencer a corrupção e a morte. Por ora isto é esperança, porquanto ainda não é coisa presente, mas é certeza futura.

Epístola aos Romanos 8, 28

Ser chamado segundo o propósito de Deus é ser chamado segundo a vontade. Mas de quem é essa vontade — daquele que chama ou daqueles que são chamados? Naturalmente, todo impulso que conduz à justiça procede de Deus Pai. O próprio Cristo disse uma vez: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxer." Não obstante, não é errado afirmar que alguns são chamados segundo o propósito de Deus e também segundo as suas próprias intenções.

Epístola aos Romanos 8, 29

Se, enquanto unigênito, tornou-se ele o "primogênito entre muitos irmãos" e, contudo, permanece unigênito, que paradoxo há em que, ainda que padecendo na carne segundo sua humanidade, seja conhecido como impassível segundo sua divindade? Carta

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Epístola aos Romanos 8, 30

Disse Jesus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei." Ele chama a todos a si, e a ninguém falta a graça de Seu chamado, pois, ao dizer todos, a ninguém exclui. Mas àqueles que outrora previu que haveriam de vir a existir, a esses predestinou a participar dos bens futuros e os chamou a receber a justificação pela fé nEle e a não mais pecar.

Epístola aos Romanos 9, 5

Deus escolheu Israel para si desde o princípio, razão pela qual o chamou primogênito. Mas os israelitas caíram, porque foram soberbos, ímpios e, o que é pior, homicidas de seu Senhor. Por isso pereceram, pois foram rejeitados e abandonados, excluídos da companhia de Deus, postos atrás até mesmo dos gentios e cortados da esperança prometida a seus antepassados.

Epístola aos Romanos 9, 21

Não é possível dizer, com base nesta passagem, que existam diferentes tipos de natureza humana, nem a Sagrada Escritura afirma que alguns homens tenham sido feitos cruéis ou obstinados, ou mesmo vasos de honra e de iniquidade, nem lhes atribui semelhante natureza. Antes, deve-se entender que alguns homens são feitos à semelhança de vasos de barro e que nós os usamos ora para honra, ora para desonra.

Epístola aos Romanos 10, 11

Não deve Israel supor que a salvação pela fé lhe seja bênção peculiar. Pois diz a Escritura que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo, seja judeu, seja gentio, seja escravo, seja livre. O Deus universal salva a todos sem distinção, porque a Ele pertencem todas as coisas. Assim dizemos que todas as coisas são recapituladas em Cristo.

Epístola aos Romanos 11, 1

Sabiamente, Paulo não faz parecer pior do que é a situação de Israel. Ainda que diga que a nação se debate em sua cegueira, ele consegue, neste ponto, dizer algo positivo.

Epístola aos Romanos 11, 7

Israel procurou encontrar a justiça na figura que era a lei, mas não a obteve. Todavia, os que foram selados foram eleitos e a obtiveram por causa da sua crença, sendo justificados pela fé. Os demais foram cegados, tendo-se endurecido e tornado rebeldes.

Epístola aos Romanos 11, 11

Admiro-me, ó Paulo, da tua bondade, e do modo tão artificioso com que teces as palavras da divina dispensação. Afirmas que os gentios foram chamados não porque os israelitas tivessem perdido toda a esperança de salvação depois de terem tropeçado em Cristo, a pedra de tropeço, mas antes para que eles imitassem aqueles que foram tão inesperadamente acolhidos por Deus, para que reconhecessem a sua iniquidade, para que quisessem compreender melhor do que antes e para que aceitassem o redentor.

Epístola aos Romanos 11, 26

Ainda que tenha sido rejeitado, Israel também será salvo por fim, esperança que Paulo confirma ao citar este texto da Escritura. Pois, de fato, Israel será salvo em seu próprio tempo e será chamado no fim, depois da vocação dos gentios.

Epístola aos Romanos 11, 30

Paulo mostra que tanto judeus quanto gentios eram culpados da mesma coisa e que, igualmente, foram purificados por uma única e mesma graça.

Epístola aos Romanos 14, 14

Cristo havia dito: "Não é o que entra pela boca que contamina o homem, mas o que sai da boca — isso é que contamina o homem." Isto se aplica também aos alimentos.

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Epístola aos Romanos 15, 7

Somos todos um só corpo e membros uns dos outros. Cristo nos obriga a estarmos unidos uns aos outros pelos vínculos da caridade.

Tiago 2, 20

Assim como a fé sem obras é morta, também o inverso é verdadeiro. Resplandeça, pois, a integridade na fé juntamente com as glórias de uma vida reta. (Cartas 55.2)

Tiago 2, 21

De um lado, diz o bem-aventurado Tiago que Abraão foi justificado pelas obras quando atou Isaque, seu filho, sobre o altar; de outro lado, porém, diz Paulo que ele foi justificado pela fé — o que parece contraditório. Isto, contudo, há de entender-se no sentido de que Abraão creu antes de ter Isaque, e Isaque lhe foi dado como recompensa de sua fé. Do mesmo modo, quando atou Isaque ao altar, não realizou meramente a obra que lhe era exigida, mas fê-lo com a fé de que em Isaque sua descendência seria tão inumerável quanto as estrelas do céu, crendo que Deus era poderoso para ressuscitá-lo dentre os mortos (Rm 4,18-25).

Tiago 2, 22

Ofereceu Ele a vítima espiritual e anunciou que as leis da natureza foram vencidas. Abriu o coração de seu inextinguível amor pela humanidade e mostrou que nada na terra se pode comparar ao amor de Deus.

Tito 2, 11

Dizemos, pois, que ele saiu de uma mulher, e à semelhança da carne do pecado, ele que por nossa causa se fez como nós somos e, contudo, está acima de nós enquanto é entendido como Deus…. O mesmo era ao mesmo tempo Deus e homem. Não consigo compreender como estes homens saqueiam esta admirável e nobre economia do Unigênito. Eles ligam a ele um homem em termos de uma relação adornada de honras exteriores e radiante numa glória que não lhe é própria, pois então ele não é verdadeiramente Deus. Tratam-no como alguém que tem comunhão e participação com Deus, e que é, assim, um filho falsamente chamado, um salvador salvo, um redentor redimido; tudo o que contradiz o que o bem-aventurado Paulo escreveu.