São João Crisóstomo
Arcebispo de Constantinopla · Doutor da Igreja
João de Antioquia (c. 347–407), cognominado "Crisóstomo" — Boca de Ouro — pela eloquência incomparável de sua pregação. Arcebispo de Constantinopla, enfrentou o luxo da corte imperial e morreu no exílio por sua coragem pastoral. Suas homilias sobre João e Mateus são tesouros da exegese antioquena: atentas à letra do texto e ardentes na aplicação moral.
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Desde o início, Paulo derruba o orgulho dos coríntios, ao referir-se a si mesmo como "chamado". "Pois o que aprendi", diz Paulo, "não o descobri por mim mesmo, mas foi enquanto perseguia a igreja que fui chamado. Foi Deus quem quis que também vós fôsseis salvos deste modo." Nada de bom fizemos por nós mesmos, mas pela vontade de Deus fomos salvos. Fomos chamados porque assim Lhe pareceu bom, não porque fôssemos dignos.
Assim como Corinto é hoje a primeira cidade da Grécia, também outrora se orgulhava de muitas vantagens temporais, e mais que todas as outras, do excesso de riqueza. E por essa razão um dos escritores pagãos denominou o lugar "a rica". Pois ela se situa no istmo do Peloponeso, e tinha grandes facilidades para o comércio. A cidade era também repleta de numerosos oradores e filósofos, e um, penso eu, dos sete chamados sábios, era natural desta cidade. Ora, mencionamos estas coisas não por ostentação, nem para fazer alarde de grande erudição (pois, na verdade, que proveito há em saber tais coisas?), mas elas nos são úteis para o argumento da Epístola.
Também o próprio Paulo padeceu muitas coisas nesta cidade; e Cristo também, nesta cidade, lhe aparece e diz (At 18,10): "Não te cales, mas fala; porque tenho muito povo nesta cidade" — e ali permaneceu dois anos. Nesta cidade [At 19,16. Corinto posto aqui, por lapso de memória, em vez de Éfeso] também saiu o demônio, contra o qual os judeus, tentando exorcizá-lo, sofreram tão gravemente. Nesta cidade os que praticavam artes mágicas, arrependidos, ajuntaram seus livros e os queimaram, e pareceram ser cinquenta mil. (At 19,18. arguriou omitido.) Nesta cidade também, no tempo do procônsul Gálio, Paulo foi açoitado diante do tribunal.
O demônio, pois, vendo que uma cidade grande e populosa se apoderara da verdade, cidade admirada por sua riqueza e sabedoria, e cabeça da Grécia (pois Atenas e Lacedemônia estavam então, e desde então, em estado miserável, havendo há muito decaído delas o domínio); e vendo que com grande prontidão haviam recebido a palavra de Deus — que faz ele? Divide os homens. Pois sabia que até o mais forte de todos os reinos, dividido contra si mesmo, não subsistirá. Tinha ele também, para esse ardil, uma vantagem na riqueza e na sabedoria dos habitantes. Daí certos homens, tendo formado facções próprias, e tornando-se líderes autoproclamados do povo, alguns se aliaram a estes, e outros àqueles; uns por serem ricos; outros por serem sábios e capazes de ensinar algo fora do comum. Os quais, por sua vez, acolhendo-os, punham-se, ao que parece, a ensinar mais do que o próprio Apóstolo fazia; a isso ele aludia quando disse: "Não pude falar-vos como a espirituais" (1 Cor 3,1); sendo evidente que não sua incapacidade, mas a fraqueza deles, foi a causa de não terem sido abundantemente instruídos. E isto, "Vós já estais ricos sem nós" (1 Cor 4,8), é a observação de quem aponta nesse mesmo sentido. E isto não era coisa pequena, mas, de todas, a mais perniciosa: que a Igreja fosse despedaçada.
Diga-se de passagem, também outro pecado, além destes, era ali cometido abertamente: a saber, uma pessoa que se unira à própria madrasta não somente escapou à repreensão, como ainda era chefe da multidão, e dava ocasião aos seus seguidores para se ensoberbecerem. Por isso ele diz (cap. 5.2): "E vós estais inchados de soberba, e não vos entristecestes antes." E depois disto, novamente, alguns dos que se fingiam ser da parte mais perfeita, e que por causa da gula costumavam comer das coisas sacrificadas aos ídolos, e sentar-se à mesa nos templos, arruinavam tudo. Outros, ainda, tendo contendas e rixas por causa de dinheiro, remetiam todos os assuntos dessa natureza aos tribunais dos gentios (τοῖς ἔξωθεν δικαστηρίοις). Muitos, além disso, andavam entre eles trazendo cabelo comprido; aos quais ele ordena que sejam tosquiados. Havia ainda outra falta, não pequena: comiam nas igrejas separadamente entre si, sem dar quinhão algum aos necessitados.
E, novamente, erravam em outro ponto, estando inchados de soberba por causa dos dons; e daí vinha o ciúme uns dos outros, o que foi também a principal causa da dissensão da Igreja. Também a doutrina da Ressurreição claudicava (ἐκώλευε) entre eles: pois alguns deles não criam firmemente que houvesse ressurreição alguma dos corpos, trazendo ainda sobre si a enfermidade da tolice grega. Pois, na verdade, todas estas coisas eram progênie da loucura própria da Filosofia pagã, a qual foi mãe de todo mal. Daí, igualmente, se haviam dividido; também neste ponto tendo aprendido com os filósofos. Pois estes últimos não eram menos discordes entre si, contradizendo sempre, por amor ao domínio e vanglória, as opiniões uns dos outros, e empenhados em fazer alguma nova descoberta além de tudo o que fora dito antes. E a causa disto era terem começado a confiar em si mesmos, isto é, em seus próprios raciocínios.
Escreveram-lhe, pois, por mão de Fortunato, e Estéfanas, e Acaico, por meio dos quais também ele próprio escreve; e isto ele indicou no fim da Epístola: não, porém, sobre todos estes assuntos, mas acerca do matrimônio e da virgindade; pelo que também disse (cap. 7.1): "Ora, quanto às coisas sobre que me escrevestes", etc. E prossegue dando preceitos, tanto sobre os pontos a respeito dos quais lhe haviam escrito, quanto sobre aqueles a respeito dos quais não lhe haviam escrito; tendo aprendido com exatidão todas as suas falhas. Timóteo, também, ele envia com as cartas, sabendo que as cartas, de fato, têm grande força, mas que não pouco lhes acrescentaria também a presença do discípulo.
Ora, visto que os que haviam dividido a Igreja entre si, por sentimento de vergonha, para que não parecessem tê-lo feito por ambição, engendravam pretextos para o que havia sucedido, ensinando (segundo diziam) doutrinas mais perfeitas, e sendo mais sábios que todos os demais; Paulo se opõe primeiramente à própria enfermidade, arrancando pela raiz os males, e o seu rebento, o espírito de separação. E usa de grande ousadia de linguagem: pois estes eram seus próprios discípulos, mais que todos os outros. Pelo que diz (cap. 9.2): "Se para outros eu não sou apóstolo, ao menos para vós o sou; pois o selo do meu apostolado sois vós." Além disso, estavam eles em condição mais fraca, para dizer o mínimo, que os outros. Pelo que diz (cap. 3.1-2): "Porquanto eu não vos falei como a espirituais; pois até agora não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis." (Isto ele diz, para que não supusessem que assim falava tão-somente a respeito do tempo passado.)
Todavia, era de todo improvável que todos se tivessem corrompido; antes havia entre eles alguns que eram muito santos. E isto ele o significou no meio da Epístola, onde diz (1 Cor 4:3, 6): "Para mim é coisa muito pequena que eu seja julgado por vós"; e acrescenta: "estas coisas, porém, transferi-as, em figura, para mim mesmo e para Apolo."
Visto, pois, que da arrogância brotavam todos estes males, e de pensarem os homens que sabiam algo fora do comum, isto ele o expurga antes de tudo, e, ao começar, diz.
1. Vede como, desde o próprio início, ele imediatamente abate o orgulho deles, e lança por terra toda a sua vã imaginação, ao falar de si mesmo como chamado. Pois o que aprendi, diz ele, não o descobri por mim mesmo, nem o adquiri por minha própria sabedoria, mas, enquanto perseguia e devastava a Igreja, fui chamado. Ora, aqui tudo pertence Àquele que chama; ao que é chamado, nada (por assim dizer), senão apenas obedecer.
De Jesus Cristo. Vosso mestre é Cristo; e vós registrais os nomes de homens, como patronos de vossa doutrina?
Pela vontade de Deus. Pois foi Deus quem quis que fôsseis salvos deste modo. Nós mesmos não operamos coisa boa alguma, mas pela vontade de Deus alcançamos esta salvação; e porque assim Lhe pareceu bom, fomos chamados, não porque fôssemos dignos.
E o irmão Sóstenes. Outro exemplo de sua modéstia; ele coloca na mesma ordem que a si mesmo alguém inferior a Apolo; pois grande era a distância entre Paulo e Sóstenes. Ora, se ali onde a distância era tão vasta ele situa junto de si alguém tão abaixo dele, que poderão dizer aqueles que desprezam seus iguais?
À Igreja de Deus. Não deste ou daquele homem, mas de Deus.
Que está em Corinto. Vedes como, a cada palavra, ele abate o orgulho intumescido deles, disciplinando seus pensamentos em toda direção para o céu? Chama-a também de Igreja de Deus, mostrando que ela deve ser unida. Pois se é de Deus, é unida, e é uma só, não somente em Corinto, mas também em todo o mundo: pois o nome da Igreja (ἐκκλησία: propriamente uma assembleia) não é nome de separação, mas de unidade e concórdia.
Aos santificados em Cristo Jesus. Novamente o nome de Jesus; para os nomes de homens ele não encontra lugar. Mas o que é a santificação? O Lavacro, a Purificação. Pois ele os faz lembrar de sua própria imundície, da qual os havia libertado; e assim os persuade à humildade de espírito; pois não por suas próprias boas obras, mas pela benignidade de Deus, haviam sido santificados.
Chamados para serem santos. Pois até isto, ser salvo pela fé, não é, diz ele, de vós mesmos; pois não fostes vós que primeiro vos aproximastes, mas fostes chamados; de modo que nem sequer esta pequena coisa é inteiramente vossa. Contudo, ainda que vos tivésseis aproximado, responsáveis como sois por inúmeras iniquidades, nem assim a graça seria vossa, mas de Deus. Por isso também, escrevendo aos Efésios, ele disse, Ef 2.8, pela graça fostes salvos mediante a fé, e isto não vem de vós mesmos; nem sequer a fé é inteiramente vossa; pois não fostes vós os primeiros com vossa crença, mas obedecestes a um chamado.
Com todos os que invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Não deste ou daquele homem, mas o Nome do Senhor.
Paulo e Sóstenes à igreja de Deus que está em Corinto, tanto a que é sua como a nossa. Pois, ainda que a epístola tenha sido escrita somente aos coríntios, ele faz menção de todos os fiéis que estão em toda a terra, mostrando que a Igreja, por todo o mundo, deve ser uma só, por mais separada que esteja em vários lugares — e muito mais aquela que está em Corinto. E ainda que o lugar separe, o Senhor os une entre si, sendo Ele comum a todos. Por isso, unindo-os, acrescenta também: tanto a que é sua como a nossa. E isto é muito mais forte para unir do que aquilo para separar. Pois assim como os homens de um mesmo lugar, tendo muitos e contrários senhores, tornam-se divididos, e o fato de estarem num único lugar não os ajuda a serem de um só ânimo, dando os seus senhores ordens que discordam entre si, e puxando cada um para o seu próprio lado — segundo o que diz Cristo: Não podeis servir a Deus e a Mamom (Mt 6,24) — assim também aqueles que estão em lugares diferentes, se não têm senhores diferentes, mas um só, não são prejudicados pelos lugares quanto à unanimidade, unindo-os o único Senhor. Não digo, pois (é assim que ele fala), que somente com os coríntios, sendo vós coríntios, deveis ser de um só ânimo, mas com todos os que estão em todo o mundo, uma vez que tendes um Senhor comum. É por isto também que ele acrescenta uma segunda vez nosso; pois, tendo dito o Nome de Jesus Cristo, nosso Senhor, para que não parecesse aos incautos estar fazendo uma distinção, acrescenta de novo: tanto nosso Senhor como deles.
3. Para que meu pensamento fique mais claro, lê-lo-ei segundo o seu sentido, assim: Paulo e Sóstenes à igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os que invocam o Nome daquele que é tanto nosso Senhor como deles, em todo lugar, seja em Roma, seja onde quer que estejam: graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo.
Ou ainda assim, o que eu também creio ser antes mais correto: Paulo e Sóstenes aos que estão em Corinto, que foram santificados, chamados para serem santos, juntamente com todos os que invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo em todo lugar, tanto o seu como o nosso; isto é, graça a vós, e paz a vós, que estais em Corinto, que fostes santificados e chamados; não a vós somente, mas com todos os que, em todo lugar, invocam o Nome de Jesus Cristo, nosso Senhor e deles.
Ora, se a nossa paz é da graça, por que tendes pensamentos altivos? Por que estais tão ensoberbecidos, sendo salvos pela graça? E se tendes paz com Deus, por que quereis atribuir-vos a outros? Pois é nisto que a separação vem a consistir. Que importa que estejais em paz com este homem, e com aquele outro encontreis até graça? Minha oração é que ambas estas coisas sejam vossas da parte de Deus; ambas, digo, dEle e para com Ele. Pois nem aquelas permanecem (μένει, Savile à margem) seguras se não desfrutam do influxo do alto; nem, a menos que Deus seja seu objeto, de nada vos aproveitarão: pois de nada nos serve estarmos em paz com todos os homens, se estivermos em guerra com Deus; assim como nenhum dano nos advém, ainda que por todos os homens sejamos tidos por inimigos, se com Deus estivermos em paz. E, novamente, de nenhum ganho nos é, se todos os homens nos aprovam e o Senhor se ofende; nem há perigo algum, ainda que todos nos evitem e odeiem, se junto de Deus temos aceitação e amor. Pois aquilo que é verdadeiramente graça, e verdadeiramente paz, vem de Deus, uma vez que aquele que encontra graça diante de Deus, ainda que sofra dez mil horrores, a ninguém teme; não digo somente a nenhum homem, mas nem sequer ao próprio demônio; ao passo que aquele que ofendeu a Deus suspeita de todos os homens, ainda que pareça estar em segurança. Pois a natureza humana é instável, e não somente amigos e irmãos, mas até mesmo pais, algumas vezes, mudaram inteiramente, e amiúde, por coisa pequena, aquele a quem geraram, o rebento de sua própria plantação, tornou-se para eles, mais que todos os inimigos, objeto de perseguição. Também os filhos repudiaram seus pais. Assim, se observardes, Davi tinha o favor de Deus, Absalão tinha o favor dos homens. Qual foi o fim de cada um, e qual deles alcançou maior honra, o sabeis. Abraão tinha o favor de Deus, Faraó o dos homens; pois, para agradá-lo, entregaram-lhe a mulher do justo. Vede Santo João Crisóstomo sobre Gênesis 12:17. Qual dos dois, pois, foi o mais ilustre e o homem feliz? Todos o sabem. E por que falo dos justos? Os israelitas tinham o favor de Deus, mas eram odiados pelos homens, os egípcios; e, não obstante, prevaleceram sobre os que os odiavam e os venceram, com quão grande triunfo, bem o sabeis todos vós.
Por isto, portanto, esforcemo-nos todos com afinco; quer alguém seja escravo, ore por isto, que encontre graça diante de Deus antes que diante de seu senhor; quer seja esposa, busque a graça de Deus, seu Salvador, antes que a de seu marido; quer seja soldado, busque, com preferência ao seu rei e comandante, aquele favor que vem do alto. Pois assim, também entre os homens, sereis objeto de amor.
4. Mas como poderá o homem achar graça diante de Deus? De que outro modo, senão pela humildade de espírito? Pois Deus, diz alguém, resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes (Tg 4:6); e: o sacrifício agradável a Deus é o espírito quebrantado, τεταπεινωμένην; a um coração quebrantado e humilhado Deus não desprezará (Sl 51:17). Pois se entre os homens a humildade é tão amável, muito mais o é diante de Deus. Assim os gentios acharam graça, e os judeus de nenhum outro modo caíram da graça (Rm 10:13); pois não estavam sujeitos à justiça de Deus. O homem humilde de quem falo é agradável e aprazível a todos, habita em paz contínua e não guarda em si motivo algum para contendas. Pois ainda que o insultes, ainda que o ultrajes, seja o que for que digas, ele se calará e suportará com mansidão, e terá para com todos uma paz tão grande que não se pode sequer descrever. Sim, e também para com Deus. Pois os mandamentos de Deus são estar em paz com os homens; e assim toda a nossa vida se torna próspera, mediante a paz de uns para com os outros. Pois nenhum homem pode causar dano a Deus: Sua natureza é incorruptível e está acima de todo sofrimento. Nada torna o cristão tão admirável quanto a humildade de espírito. Ouve, por exemplo, Abraão dizendo: Mas eu não passo de pó e cinza (Gn 18:27); e ainda, Deus dizendo de Moisés que ele era o mais manso de todos os homens (Nm 12:3). Pois nada jamais foi mais humilde do que ele; o qual, sendo chefe de tão grande povo, e havendo submergido no mar o rei e todo o exército dos egípcios como se fossem moscas; e havendo operado tantos prodígios tanto no Egito quanto junto ao mar Vermelho e no deserto, e recebido testemunho tão elevado, sentia-se, contudo, exatamente como um homem comum, e, como genro, era mais humilde que seu sogro (Êx 18:24), e dele recebia conselhos, e não se indignava, nem dizia: Que é isto? Depois de feitos tão numerosos e tão grandes, vens tu a nós com teus conselhos? Isto é o que a maioria sente; ainda que um homem traga o melhor conselho, despreza-o por causa da humildade da pessoa. Mas não foi assim que ele agiu: antes, foi pela humildade de espírito que conduziu bem todas as coisas. Por isso também desprezou as cortes dos reis (Hb 11:24-26), porquanto era verdadeiramente humilde: pois o juízo são e o ânimo elevado são fruto da humildade. Pois de quão grande nobreza e magnanimidade, pensais vós, foi sinal desprezar o palácio real e a mesa régia? Uma vez que os reis, entre os egípcios, são honrados como deuses, e desfrutam de riquezas e tesouros inesgotáveis. Mas, não obstante, deixando todas estas coisas, e lançando fora os próprios cetros do Egito, apressou-se a unir-se a cativos e a homens desgastados pelo labor, cujas forças se haviam consumido no barro e no fabrico de tijolos, homens que os próprios escravos dele abominavam (pois diz ele, ἐβδελύσσοντο, Septuaginta, Êx 1:2: Os egípcios os abominavam); a estes correu ele, e a eles preferiu antes que a seus senhores. Donde é manifesto que aquele que é humilde, esse mesmo é alto e grande de alma. Pois a soberba provém de um espírito ordinário e de uma alma ignóbil, mas a moderação provém da grandeza de mente e da alma elevada.
5. E se vos aprouver, tentemos cada uma destas coisas por meio de exemplos. Pois dizei-me: que houve jamais mais exaltado do que Abraão? E, contudo, foi ele quem disse: "Não passo de pó e cinza"; foi ele quem disse: "Não haja contenda entre mim e ti" (Gn 13:8). Mas este homem, tão humilde, desprezou os despojos persas (talvez de Elão) e não fez caso dos troféus bárbaros (Gn 14:21-24); e isto fez por muita grandeza de ânimo, e por um espírito nobremente educado. Pois verdadeiramente exaltado é aquele que é verdadeiramente humilde (não o lisonjeiro, nem o dissimulado); porque uma coisa é a verdadeira grandeza, e outra a arrogância. E isto é manifesto por aqui: se um homem tem o barro por barro, e o despreza, e outro admira o barro como ouro, e o tem por grande coisa, qual dos dois, pergunto, é o homem de mente exaltada? Não é acaso aquele que se recusa a admirar o barro? E qual é o abjeto e vil? Não é acaso aquele que o admira, e lhe dá grande valor? Assim também estimai este caso: que aquele que se chama a si mesmo pó e cinza é exaltado, ainda que o diga por humildade; mas aquele que não se considera pó e cinza, antes se trata a si mesmo com afago e nutre altos pensamentos, este, por sua vez, deve ser contado entre os vis, por estimar grandes as coisas pequenas. Donde é claro que foi de uma grande elevação de pensamento que o patriarca proferiu aquela sentença: "Não passo de pó e cinza"; de elevação de pensamento, e não de arrogância.
Pois assim como nos corpos uma coisa é ser saudável e rijo (σφριγῶντα, firme e elástico), e outra coisa é estar inchado, ainda que ambos indiquem uma plenitude de carne (mas num caso de carne enferma, no outro de carne saudável); assim também aqui: uma coisa é ser arrogante, o que é, por assim dizer, estar inchado, e outra coisa é ser magnânimo, o que é estar em estado saudável. E, ainda, um homem é alto pela estatura de sua própria pessoa; outro, sendo baixo, ao calçar coturnos torna-se mais alto; ora, dizei-me, a qual dos dois deveríamos chamar alto e grande? Não é bem claro que àquele cuja altura provém de si mesmo? Pois o outro a possui como algo que não lhe é próprio; e, apoiando-se sobre coisas em si baixas, resulta uma pessoa alta. Assim é o caso de muitos homens que se elevam sobre riquezas e glória; o que não é exaltação, pois exaltado é aquele que de nada disto necessita, mas o despreza, e tem sua grandeza a partir de si mesmo. Façamo-nos, pois, humildes, para que sejamos exaltados; porque "quem se humilha será exaltado" (Lc 14:11). Ora, o homem arbitrário não é assim; antes é, de todos os caracteres, o mais vulgar. Pois também a bolha se infla, mas a inflação não é sã; por isso chamamos a estas pessoas de infladas. Ao passo que o homem sóbrio de mente não nutre altos pensamentos, nem mesmo em altas fortunas, conhecendo sua própria baixa condição; mas o vulgar, ainda em suas ninharias, entrega-se a uma fantasia soberba.
6. Adquiramos, pois, aquela altura que provém da humildade. Consideremos a natureza das coisas humanas, para que nos inflamemos com o desejo ardente das coisas futuras; pois de nenhum outro modo é possível tornar-se humilde, senão pelo amor das coisas divinas e pelo desprezo das presentes. Pois assim como um homem prestes a receber um reino, se em lugar daquela púrpura lhe oferecerem algum trivial elogio, o terá por nada; assim também nós riremos com desdém de todas as coisas presentes, se desejarmos aquela outra espécie de honra. Não vedes as crianças, quando em suas brincadeiras formam uma tropa de soldados, e arautos as precedem, e lictores, e um menino marcha no meio no lugar do general, quão pueril é tudo isso? Tais são todos os negócios humanos; e ainda mais desprezíveis que estes: hoje existem, e amanhã não existem mais. Estejamos, pois, acima dessas coisas; e não somente não as desejemos, mas até nos envergonhemos se alguém no-las oferecer. Pois assim, lançando fora o amor destas coisas, possuiremos aquele outro amor que é divino, e gozaremos da glória imortal. A qual Deus conceda a todos nós alcançar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo; com quem seja ao Pai, juntamente com o Espírito Santo e bom, a glória e o poder para todo o sempre. Amém.
A igreja deve ser una, porquanto pertence a Deus. Não existe somente em Corinto, mas em todo o mundo, e é uma só, pois o nome da igreja (ekklēsia) significa "assembleia". Não é nome de separação, mas nome de unidade e de concórdia.
Se a nossa paz procede da graça de Deus, por que tanto vos ensoberbeceis, visto que sois salvos pela graça? Como pode alguém achar graça diante de Deus senão pela humildade? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Fostes salvos pela graça, não pelas obras. E quem vos deu esta graça? Não foi Paulo, nem outro apóstolo, mas o próprio Jesus Cristo.
1. Aquilo que exorta os outros a fazer, dizendo: Sejam as vossas petições, com ação de graças, dadas a conhecer diante de Deus (Fl 4,6), isso mesmo costumava ele próprio praticar, ensinando-nos a começar sempre por estas palavras, e a dar graças a Deus antes de todas as coisas. Pois nada é tão aceitável a Deus quanto que os homens sejam gratos, tanto por si mesmos como pelos outros; por isso também quase todas as suas Epístolas ele prefacia deste modo. Mas a ocasião que o leva a fazê-lo é ainda mais premente aqui do que nas outras Epístolas. Pois quem dá graças assim o faz tanto por estar bem-aventurado quanto em reconhecimento de um favor; ora, um favor não é dívida, nem retribuição, nem pagamento — o que, na verdade, importa dizer em toda parte, mas muito mais no caso dos coríntios, que estavam boquiabertos atrás dos que dividiam a Igreja.
2. A meu Deus. Por grande afeição, ele se apropria do que é comum, e o faz seu; assim como também os profetas, de quando em quando, costumam dizer: Ó Deus, meu Deus (Sl 43,4; 62,1); e, a título de encorajamento, incita-os a usar também eles mesmos a mesma linguagem. Pois tais expressões pertencem àquele que se retira de todas as coisas seculares e caminha em direção Àquele a quem invoca com tanta veemência; visto que só pode em verdade dizer isto quem, das coisas desta vida, sempre se eleva até Deus, e sempre O prefere a tudo, e continuamente Lhe dá graças, não somente pela graça já concedida, mas por toda bênção que a qualquer tempo lhe tenha sido outorgada, pois também por esta ele Lhe oferece o mesmo louvor. Por isso não diz meramente "dou graças", mas "em todo o tempo, a vosso respeito"; instruindo-os a serem gratos sempre, e a ninguém mais senão a Deus somente.
3. Pela graça de Deus. Vedes como, de toda parte, ele tira argumentos para os corrigir? Pois onde há graça, não há obras; onde há obras, já não é graça. Se, portanto, é graça, por que sois soberbos? De onde vem que estais inchados?
Que vos foi dada. E por quem vos foi dada? Por mim, ou por outro Apóstolo? De modo algum, mas por Jesus Cristo. Pois a expressão "em Jesus Cristo" significa isto. Observai como, em vários lugares, ele emprega a palavra em, em vez de "por meio de quem"; portanto, o seu sentido não é menor. Que em tudo fostes enriquecidos. Novamente, por quem? Por Ele, é a resposta. E não apenas fostes enriquecidos, mas em tudo. Pois, então, é antes de tudo riqueza; depois, riqueza de Deus; em seguida, em tudo; e, por fim, por meio do Unigênito — refleti sobre o tesouro inefável!
Há um conhecimento que ultrapassa a palavra. Muitos têm conhecimento que não conseguem exprimir — por exemplo, os que são incultos e incapazes de exprimir-se com clareza. Mas os coríntios não eram como eles. Eram capazes tanto de entender quanto de falar.
Em toda palavra e todo conhecimento. Palavra [ou discurso], não como a dos gentios, mas a de Deus. Pois há conhecimento sem palavra, e há conhecimento com palavra. Assim, há muitos que possuem conhecimento, mas não têm o poder da fala; como os que são incultos e incapazes de exibir claramente o que têm na mente. Vós, diz ele, não sois como estes, mas competentes tanto para entender quanto para falar.
Sob a aparência de louvores e ações de graças, ele os toca com severidade. Pois não pela filosofia pagã, diz ele, nem pela disciplina pagã, mas pela graça de Deus, e pelas riquezas, e pelo conhecimento, e pela palavra dada por Ele, é que fostes capacitados a aprender as doutrinas da verdade, e a serdes confirmados no testemunho do Senhor; isto é, no Evangelho. Pois beneficiastes-vos de muitos sinais, muitas maravilhas, graça inefável, para que recebêsseis o Evangelho. Se, pois, fostes estabelecidos por sinais e graça, por que vacilais? Ora, estas são as palavras de alguém que ao mesmo tempo repreende e predispõe a seu favor.
Estes louvores não são incondicionais, como o resto da epístola torna claro. Mas são inseridos a fim de preparar os coríntios para a crítica que há de vir. Pois quem quer que comece com palavras desagradáveis suscita a hostilidade de seus ouvintes. Paulo começa louvando-os a fim de evitar isso.
4. De sorte que nenhum dom vos falta. Aqui surge uma grande questão. Aqueles que haviam sido enriquecidos em toda palavra, de modo a em nada faltarem quanto a nenhum dom, são eles carnais? Pois se assim eram no princípio, muito mais o seriam agora. Como, pois, os chama ele de carnais? Porquanto, diz ele, 1 Coríntios 3:1 não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais. Que devemos, então, dizer? Que, tendo no princípio crido e obtido todos os dons (pois de fato os buscavam com fervor), tornaram-se depois negligentes. Ou, se não é assim, que nem umas nem outras coisas são ditas a todos; mas umas aos que eram passíveis de suas censuras, outras aos que se ornavam de seus louvores. Pois quanto ao fato de ainda possuírem dons: 1 Coríntios 14:26-29 Cada um, diz ele, tem salmo, tem revelação, tem língua, tem interpretação; faça-se tudo para edificação. E: Falem dois ou três profetas. Ou podemos afirmá-lo de modo algo diverso: que, como é costume entre nós chamar a maior parte pelo todo, também aqui assim falou ele. Ademais, penso que ele alude ao seu próprio proceder; pois também ele havia manifestado sinais; como também diz na segunda Epístola a eles, 2 Coríntios 12:12-13 Na verdade os sinais de um apóstolo foram operados entre vós com toda a paciência; e ainda: Pois em que fostes inferiores às outras igrejas?
Ou, como eu dizia, ele tanto lhes recorda seus próprios milagres quanto assim fala tendo em vista aqueles que ainda eram aprovados. Pois muitos homens santos ali havia, que se haviam dedicado a ministrar aos santos, e se tornaram as primícias da Acaia; como ele declara 1 Coríntios 16:15 para o fim da epístola.
5. De todo modo, ainda que os louvores não estejam muito próximos da verdade, contudo são inseridos por precaução (οἰκονομικῶς), preparando de antemão o caminho para seu discurso. Pois quem quer que logo de início diga coisas desagradáveis, exclui suas palavras de serem ouvidas pelos mais fracos: pois se os ouvintes lhe são iguais em condição, se irritam; se muito inferiores, se vexam. Para evitar isso, ele começa com o que parecem ser louvores. Digo, parecem; pois nem mesmo esse louvor lhes pertencia, mas à graça de Deus. Pois o terem recebido a remissão dos pecados, e serem justificados, isto era do Dom vindo do alto. Por isso também ele se detém nestes pontos, que mostram a benignidade de Deus, a fim de mais plenamente purgar sua enfermidade.
6. Esperando a revelação (ἀποκάλυψιν) de nosso Senhor Jesus Cristo. Por que fazeis tanto alarde, diz ele, por que vos perturbais porque Cristo não veio? Ora, Ele já veio; e o Dia está agora mesmo às portas. E considerai sua sabedoria; como, retirando-os das considerações humanas, ele os aterroriza com a menção do tribunal temível, implicando assim que não somente os começos devem ser bons, mas também o fim. Pois com todos estes dons, e com tudo o mais que é bom, devemos ter em mente aquele Dia: e há necessidade de muitos labores para se poder alcançar o fim. Revelação é sua palavra; implicando que, embora Ele não seja visto, contudo Ele é, e está presente ainda agora, e então há de aparecer. Portanto há necessidade de paciência: pois para este fim recebestes as maravilhas, para que permaneçais firmes.
Isto não é louvor, mas repreensão dissimulada, visto que os coríntios estavam longe de ser "inculpáveis", como o resto da epístola torna claro.
7. O qual também vos confirmará até o fim, para que sejais irrepreensíveis. Aqui parece ele cortejá-los, mas o dito está livre de toda lisonja; pois ele também sabe como pressioná-los de perto; como quando diz, 1 Coríntios 4:18-21 Ora, alguns andam inchados, como se eu não houvesse de ir ter convosco; e ainda: Que quereis? Irei a vós com vara, ou com amor e espírito de mansidão? E, 2 Coríntios 13:3 Visto que buscais prova de que Cristo fala em mim. Mas também os acusa veladamente: pois dizer Ele vos confirmará, e a palavra irrepreensíveis, os assinala como ainda vacilantes, e sujeitos à repreensão.
Considera, porém, como ele sempre os prende, como que com pregos, ao Nome de Cristo. E não a nenhum homem nem mestre, mas continuamente é lembrado por ele o próprio Desejado: dispondo-se, por assim dizer, a despertar os que estavam entorpecidos após alguma embriaguez. Pois em nenhuma outra epístola ocorre o Nome de Cristo tão continuamente. Mas aqui está ele, muitas vezes em poucos versículos; e por meio dele ele entrelaça, pode-se dizer, todo o proêmio. Olhai-o desde o princípio. Paulo, chamado [para ser] apóstolo de Jesus Cristo, aos que foram santificados em Jesus Cristo, que invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo, graça [seja] convosco e paz da parte de Deus Pai, e do Senhor Jesus Cristo. Dou graças a meu Deus pela graça que vos foi dada por Jesus Cristo, assim como o testemunho de Cristo foi confirmado em vós, aguardando a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual vos confirmará irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. E eu vos rogo pelo Nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Vedes a repetição constante do Nome de Cristo? De onde é evidente até ao mais desatento que não por acaso nem inadvertidamente ele o faz, mas a fim de que, pela aplicação incessante daquele Nome glorioso, ele fomente a inflamação deles, e purgue a corrupção da enfermidade.
Paulo diz isto para que os coríntios não caiam em desespero quando ele os criticar. Ele lhes lembra que Deus não é o problema. Nós o somos, por causa de nosso pecado e incredulidade.
8. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de Seu Filho. Coisa maravilhosa! Quão grande é o que ele diz aqui! Quão vasta na magnitude do dom que ele declara! Para a comunhão do Unigênito fostes chamados, e vós vos apegais a homens? Que poderia haver de pior do que esta miséria? E como fostes chamados? Pelo Pai. Pois, visto que "por meio Dele" e "n'Ele" eram expressões que ele empregava constantemente a respeito do Filho, para que não pensassem os homens que assim o menciona como sendo inferior, ele atribui o mesmo ao Pai. Pois não por este ou por aquele, diz ele, mas pelo Pai fostes chamados; por Ele também fostes enriquecidos. Novamente, fostes chamados; não fostes vós mesmos que vos aproximastes. Mas que significa "para a comunhão de Seu Filho"? Ouvi-o declarar isto mesmo mais claramente em outro lugar: "Se sofrermos, também com Ele reinaremos; se com Ele morrermos, também com Ele viveremos" (2 Tm 2:12). Então, porque era grande coisa o que ele havia dito, acrescenta um argumento carregado de convicção irrefutável; pois, diz ele, fiel é Deus, isto é, verdadeiro. Ora, se verdadeiro, o que Ele prometeu, também há de cumprir. E Ele prometeu que nos faria participantes de Seu Filho unigênito; pois para isto também nos chamou. Porque "os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis" (Rm 11:29).
Estas coisas, por uma espécie de arte divina, ele insere assim, desde cedo, para que, após o vigor das repreensões, não caíssem em desespero. Pois certamente a parte de Deus há de se cumprir, se não formos de todo impacientes sob Seu freio (ἀφηνιάσωμεν). Como os judeus, sendo chamados, não quiseram receber as bênçãos; mas isto já não era d'Aquele que chamava, e sim da falta de bom senso deles. Pois Ele, na verdade, estava disposto a dar, mas eles, recusando-se a receber, lançaram-se fora. Pois, se Ele os tivesse chamado a um empreendimento penoso e trabalhoso, nem mesmo nesse caso seriam eles perdoáveis em desculpar-se; contudo, poderiam dizer que assim o era: mas se o chamado é para a purificação (cf. 1 Cor 1:4-7), e para a justiça, e para a santificação, e para a redenção, e para a graça, e para um dom gratuito, e para os bens reservados, que olho não viu, nem ouvido ouviu; e é Deus quem chama, e chama por Si mesmo; que perdão podem merecer os que não correm a Ele? Que ninguém, portanto, acuse a Deus; pois a incredulidade não vem d'Aquele que chama, mas dos que se lançam para longe (ἀποπηδῶντας) d'Ele.
9. Mas dirá alguém: Ele deveria trazer os homens, ainda que contra a vontade. Longe disto. Ele não usa violência, nem compele; pois quem, convidando às honras, e às coroas, e aos banquetes, e às festas, arrasta as pessoas, relutantes e amarradas? Ninguém. Pois isto é próprio de quem inflige uma afronta. Para o inferno Ele envia os homens contra a vontade deles, mas para o reino Ele chama mentes dispostas. Para o fogo Ele traz os homens amarrados e a se lamentarem; para o estado infindável das bênçãos, não assim. Do contrário, seria uma afronta às próprias bênçãos, se sua natureza não fosse tal que os homens corressem a elas de livre vontade e com muitas ações de graças.
Donde vem, pois, dizeis vós, que nem todos os homens as escolhem? De sua própria fraqueza. E por que não extirpa Ele a fraqueza deles? E como, dizei-me — de que modo — deveria Ele extirpá-la? Não fez Ele um mundo que ensina a Sua benignidade e o Seu poder? Pois, diz alguém, os céus declaram a glória de Deus (Sl 19,1). Não enviou Ele também profetas? Não nos chamou e nos honrou? Não operou maravilhas? Não deu Ele uma lei, tanto escrita quanto natural? Não enviou Ele o Seu Filho? Não comissionou Apóstolos? Não operou sinais? Não ameaçou o inferno? Não prometeu o reino? Não faz Ele, todos os dias, nascer o Seu sol? Não são tão simples e fáceis as coisas que Ele ordenou, que muitos transcendem os Seus mandamentos na grandeza da própria abnegação? Que mais havia a fazer à minha vinha, que Eu não fizesse? (Is 5,4)
10. E por que, dizeis vós, não fez Ele natural em nós o conhecimento e a virtude? Quem fala assim? O grego, ou o cristão? Ambos, na verdade, mas não a respeito das mesmas coisas: pois um levanta a sua objeção tendo em vista o conhecimento, o outro tendo em vista a conduta. Primeiramente, pois, responderemos àquele que é dos nossos; pois não considero tanto os que estão de fora, quanto os nossos próprios membros.
Que diz, pois, o cristão? Convinha que nos tivesse sido implantado o próprio conhecimento da virtude. Ele o implantou; pois, se não o tivesse feito, donde saberíamos nós o que se deve fazer, o que se deve deixar de fazer? Donde vêm as leis e os tribunais? Mas Deus deveria ter concedido não apenas o conhecimento, mas também a própria prática dele — da virtude. Pois, então, que teríeis vós a ser recompensado, se tudo fosse de Deus? Dizei-me, pois: pune Deus, do mesmo modo, a vós e ao grego, quando cometeis pecado? Certamente que não. Pois, até certo ponto, tendes confiança — a saber, aquela que provém do verdadeiro conhecimento. Que sucederia, pois, se alguém agora dissesse que, no tocante ao conhecimento, tu e o grego seríeis considerados de igual mérito? Não vos enojaria isso? Creio que sim, deveras. Pois diríeis que o grego, tendo em si mesmo os meios para alcançar o conhecimento, não o quis. Se, então, também este último dissesse que Deus deveria ter implantado em nós o conhecimento naturalmente, não o escarneceríeis, dizendo-lhe: Mas por que não o buscaste? Por que não foste diligente, como eu o fui? E permaneceríeis firmes, com muita confiança, dizendo que era extrema loucura culpar a Deus por não ter implantado o conhecimento por natureza. E isto diríeis, porque obtivestes o que pertence ao conhecimento. Assim também, se tivésseis realizado o que pertence à prática, não teríeis levantado estas questões: mas estais cansados da prática virtuosa, e por isso vos abrigais sob estas palavras irrefletidas. Mas como poderia, de algum modo, ser justo fazer com que alguém se tornasse bom por necessidade? Então teremos, em seguida, até os brutos animais a disputar conosco acerca da virtude, visto que alguns deles são mais temperantes do que nós mesmos.
Mas dizeis: Preferiria eu ter sido bom por necessidade, e assim ter perdido toda recompensa, a ser mau por deliberada escolha, para ser punido e sofrer castigo. Mas é impossível que alguém seja jamais bom por necessidade. Se, portanto, não sabeis o que deveis fazer, mostrai-o, e então vos diremos o que é justo dizer. Mas, se sabeis que a impureza é coisa má, por que não fugis do mal?
Não posso, dizes tu. Mas outros que fizeram coisas maiores que esta hão de arguir-te, e prevalecerão de sobra para fechar-te a boca. Pois tu, talvez, mesmo vivendo com esposa, não sejas casto; mas outro, mesmo sem esposa, guarda inviolada a sua castidade. Que desculpa tens, pois, para não guardares a regra, enquanto outro salta mesmo para além dos limites traçados para demarcá-la?
Mas dizes: não sou assim na constituição do meu corpo, nem na disposição do meu espírito. Isso é falta, não de poder, mas de vontade. Pois assim provo que todos possuem certa aptidão para a virtude: aquilo que um homem não pode fazer, tampouco o poderá fazer ainda que se lhe imponha necessidade; mas, se, imposta a necessidade, ele o pode, aquele que o deixa por fazer, deixa-o por escolha. A coisa que quero dizer é esta: voar para o alto e ser levado em direção ao céu, tendo um corpo pesado, é simplesmente impossível. Que sucederia, pois, se um rei ordenasse a alguém que fizesse isso, e ameaçasse de morte, dizendo: "Decreto que os homens que não voarem percam a cabeça, ou sejam queimados, ou sofram outro castigo semelhante"? Obedecer-lhe-ia alguém? De modo nenhum. Pois a natureza não é capaz disso. Mas se, no caso da castidade, se fizesse esta mesma coisa, e ele estabelecesse leis segundo as quais o impuro fosse castigado, queimado, açoitado, sofresse o extremo do tormento, não obedeceriam muitos à lei? Dirás que não: pois já está estabelecida, mesmo agora, uma lei que proíbe cometer adultério, e nem todos lhe obedecem. Não porque o temor perca sua força, mas porque a maior parte espera não ser observada. De sorte que, se, no momento em que estivessem prestes a cometer uma ação impura, o legislador e o juiz se lhes apresentassem diante, o temor seria suficientemente forte para expulsar a concupiscência. Mais ainda: se eu aplicasse outra espécie de força, inferior a esta — se eu tomasse o homem e o afastasse da pessoa amada, e o encerrasse bem preso em correntes —, ele seria capaz de suportá-lo, sem padecer grande dano. Não digamos, pois, que tal homem seja mau por natureza: pois se um homem fosse bom por natureza, jamais poderia em tempo algum tornar-se mau; e se fosse mau por natureza, jamais poderia tornar-se bom. Mas ora vemos que as mudanças se dão rapidamente, e que os homens depressa passam deste lado para aquele, e daquele recaem novamente neste. E estas coisas podemos vê-las não apenas nas Escrituras — por exemplo, que publicanos se tornaram apóstolos; e discípulos, traidores; e meretrizes, castas; e ladrões, homens de boa reputação; e magos adoraram; e ímpios passaram à piedade, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo —, mas até mesmo todo dia se pode ver acontecerem muitas coisas semelhantes. Ora, se estas coisas fossem naturais, não poderiam mudar. Pois assim nós, sendo por natureza suscetíveis, jamais poderíamos, por esforço algum, tornar-nos insensíveis. Pois aquilo que é o que é por natureza, jamais pode decair de sua condição natural. Ninguém, por exemplo, jamais passou de dormir a não dormir; ninguém, de um estado de corrupção à incorrupção; ninguém, da fome à ausência perpétua dessa sensação. Por isso, tampouco estas coisas são matéria de acusação, nem por elas nos reprovamos a nós mesmos; nem jamais alguém, querendo culpar outro, lhe disse: "Ó tu, corruptível e sujeito às paixões"; mas o adultério, ou a fornicação, ou algo de tal gênero, sempre o imputamos aos que são responsáveis; e os levamos perante juízes, que os culpam e castigam, e, nos casos contrários, concedem honras.
11. Uma vez que, portanto, tanto pela nossa conduta uns para com os outros, como pela conduta alheia quando julgada por nós, como pelas coisas acerca das quais escrevemos leis, como pelas coisas em que a nós mesmos condenamos, ainda que não haja ninguém para nos acusar; e pelos casos em que nos tornamos piores pela indolência, e melhores pelo temor; e pelos casos em que vemos outros agindo bem e alcançando o cume da moderação (φιλοσοφίας) — fica bem claro que também está em nosso poder agir bem: por que, então, nós, em sua maior parte, nos enganamos em vão com pretextos e desculpas sem coração, que não nos trazem senão, não já perdão, mas antes castigo intolerável? Quando deveríamos ter diante dos olhos aquele dia terrível, e atentar para a virtude; e, depois de um pequeno trabalho, obter as coroas incorruptíveis? Pois estas palavras não nos servirão de defesa; antes os nossos conservos, e aqueles que praticaram as virtudes contrárias, condenarão a todos os que permanecem no pecado: o cruel será condenado pelo misericordioso; o mau, pelo bom; o feroz, pelo manso; o invejoso, pelo cortês; o vanglorioso, pelo abnegado; o indolente, pelo diligente; o intemperante, pelo sóbrio. Assim julgará Deus a nós, e colocará em seu lugar ambas as companhias; concedendo a uma o louvor, e a outra o castigo. Mas Deus nos livre de que algum dos aqui presentes esteja entre os castigados e desonrados, mas antes entre os coroados e os que alcançam o reino. O que Deus a todos nós conceda obter, pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo; com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
É possível concordar quanto à forma das palavras e ainda assim abrigar dissensão, razão pela qual Paulo fala do modo como fala aqui. É possível, também, partilhar a mesma opinião com alguém sem partilhar o mesmo sentimento. Por exemplo, é possível estar unido na fé sem estar unido no amor. Eis por que Paulo diz que devemos estar unidos tanto no espírito quanto no parecer.
Ora vos rogo, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa, e que não haja divisões entre vós; mas que sejais aperfeiçoados juntos no mesmo espírito e no mesmo parecer.
Aquilo que continuamente tenho dito, que devemos moldar nossas repreensões com brandura e gradação, isto faz Paulo também aqui; pois, estando prestes a entrar em uma matéria plena de muitos perigos e bastante para arrancar a Igreja de seus fundamentos, ele usa linguagem muito branda. Sua palavra é que ele roga, e roga por meio de Cristo; como se nem ele sozinho bastasse para fazer esta súplica e prevalecer.
Mas que é isto, eu vos rogo por meio de Cristo? Tomo a Cristo para lutar ao meu lado e me socorrer, o Seu Nome injuriado e insultado. Modo de falar verdadeiramente temível! para que não se mostrassem endurecidos e desavergonhados: pois o pecado torna os homens inquietos. Por isso, se logo se os repreende asperamente, torna-se o homem feroz e impudente; mas, se se o envergonha, curva-se-lhe a cerviz, refreia-se-lhe a confiança, faz-se-lhe inclinar a cabeça. Tendo também este objetivo, Paulo se contenta, por um momento, em rogar-lhes pelo Nome de Cristo. E qual é, de todas as coisas, o objeto de seu pedido?
Que faleis todos a mesma coisa, e que não haja entre vós divisões [cismas]. A força enfática da palavra cisma, quero dizer o próprio nome, era acusação suficiente. Pois não era que se tivessem tornado muitas partes, cada uma íntegra em si mesma, mas antes que a Una [Corpo que originalmente existia] perecera. Pois, se fossem Igrejas íntegras, poderia haver muitas delas; mas, se eram divisões, então aquela primeira Una se fora. Pois o que é íntegro em si mesmo não somente não se torna múltiplo pela divisão em muitas partes, mas até mesmo a Una original se perde. Tal é a natureza das divisões.
2. Em seguida, porque tratara asperamente com eles ao usar a palavra cisma, novamente os suaviza e apazigua, dizendo: Que sejais perfeitamente unidos no mesmo espírito e no mesmo parecer. Isto é: uma vez que dissera "Que faleis todos a mesma coisa", não suponhais, acrescenta, que eu disse que a concórdia deveria estar somente nas palavras; busco aquela harmonia que é do espírito. Mas, uma vez que há também tal coisa como concordância nas palavras, e esta de coração, mas não porém em todos os assuntos, por isso acrescentou isto: Que sejais aperfeiçoados juntos. Pois aquele que está unido em uma coisa, mas em outra dissente, já não está aperfeiçoado, nem ajustado à plena concordância. Há também tal coisa como harmonia de opiniões, onde ainda não há harmonia de sentimento; por exemplo, quando, tendo a mesma fé, não estamos unidos no amor: pois assim, nas opiniões somos um (pois pensamos as mesmas coisas), mas no sentimento não. E tal era o caso naquele tempo; este escolhendo um [líder], e aquele, outro. Por esta razão diz ser necessário concordar tanto no espírito quanto no parecer. Pois não foi de nenhuma diferença de fé que surgiram os cismas, mas da divisão de seu parecer por meio da contenda humana.
3. Mas, visto que quem quer que seja repreendido permanece desavergonhado enquanto não tem testemunhas, observai como, não lhes permitindo negar o fato, ele traz alguns para dar testemunho.
Paulo tem o cuidado de mencionar quem são seus informantes sem apontar uma pessoa em particular. Isto confere plausibilidade às suas críticas sem permitir que os coríntios dirijam seus sentimentos contra qualquer pessoa em especial.
Porque me foi notificado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Nem disse isto logo no princípio, mas primeiro trouxe à frente sua acusação; como aquele que depositava confiança em seus informantes. Porque, se não fosse assim, não teria achado falta: pois Paulo não era pessoa de crer levianamente. Nem tampouco disse imediatamente "foi-me notificado", para que não parecesse culpar com base na autoridade deles; nem tampouco omite toda menção a eles, para que não parecesse falar somente de si mesmo. E, novamente, chama-os de irmãos; pois, ainda que a falta seja evidente, nada obsta a que se continue a chamar as pessoas de irmãos. Considerai também sua prudência em não falar de nenhuma pessoa distinta, mas de toda a família; de modo a não os tornar hostis para com o informante: pois, deste modo, tanto o protege quanto abre destemidamente a acusação. Pois tinha em vista o proveito não somente de um lado, mas também do outro. Por isso não diz "foi-me declarado por alguns", mas indica também a casa, para que não supusessem que ele estava inventando.
4. Que foi declarado? Que há contendas entre vós. Assim, quando os repreende, diz: "que não haja divisões entre vós"; mas, quando relata as afirmações de outros, fá-lo mais brandamente, dizendo: "porque me foi declarado... que há contendas entre vós", para que não trouxesse dificuldade sobre os informantes.
A contenda em Corinto não era sobre matérias triviais, mas sobre algo fundamental. Até mesmo os que diziam ser de Cristo estavam em falta, porque implicitamente negavam isto aos outros e faziam de Cristo cabeça de uma facção, e não cabeça de toda a igreja.
Em seguida declara também a espécie da contenda.
Que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; e eu, de Apolo; e eu, de Cefas. Contendas, digo, diz ele, quero dizer, não sobre assuntos privados, mas da espécie mais grave. Que cada um de vós diz; pois a corrupção não permeava uma parte, mas o todo da Igreja. E, no entanto, não estavam falando a respeito dele mesmo, nem de Pedro, nem de Apolo; mas ele significa que, se não se devia apoiar-se nestes, muito menos em outros. Que não haviam falado a respeito deles, diz mais adiante: "E estas coisas transferi em figura a mim mesmo e a Apolo, para que aprendais em nós a não ultrapassar aquilo que está escrito". Pois, se não era lícito a eles chamarem-se pelo nome de Paulo, e de Apolo, e de Cefas, muito menos de quaisquer outros. Se sob o Mestre e o primeiro dos Apóstolos, e um que instruíra tanto povo, não era lícito alistar-se, muito menos sob aqueles que nada eram. Por via de hipérbole, então, buscando retirá-los de sua enfermidade, ele estabelece estes nomes. Além disso, torna seu argumento menos severo, não mencionando pelo nome os rudes divisores da Igreja, mas ocultando-os, como que por detrás de uma espécie de máscaras, com os nomes dos Apóstolos.
Eu sou de Paulo; e eu, de Apolo; e eu, de Cefas. Não se estimando a si mesmo antes de Pedro, colocou seu nome por último, preferindo Pedro a si mesmo, e isto grandemente. Ordenou sua afirmação em forma de clímax (κατὰ αὔξησιν), para que não se supusesse que ele fazia isto por inveja; ou, por ciúme, para diminuir a honra de outros. Por isso também pôs seu próprio nome primeiro. Pois quem se coloca à frente para ser rejeitado não o faz por amor à honra, mas por extremo desprezo por esta espécie de reputação. Ele se coloca, vede, no caminho de todo o ataque, e então menciona Apolo, e então Cefas. Não, portanto, para engrandecer-se fez isto, mas, ao falar de coisas erradas, administra a correção requerida em sua própria pessoa primeiro.
5. Mas que aqueles que se apegavam a este ou àquele homem estavam em erro é evidente. E com razão os repreende, dizendo: "Não fazeis bem em dizer: 'Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas.'" Mas por que acrescentou "E eu, de Cristo"? Pois, ainda que estes que se apegavam a homens estivessem em erro, não certamente aqueles que se dedicavam a Cristo. Mas não era esta sua acusação, que se chamassem pelo Nome de Cristo, mas que não se chamassem todos por aquele Nome somente. E penso que ele acrescentou isto de si mesmo, desejando tornar a acusação mais grave, e apontar que, por esta regra, Cristo deveria ser considerado como pertencente a um só partido: ainda que eles mesmos não estivessem assim usando o Nome. Pois que era isto o que ele insinuava, declarou-o na sequência, dizendo:
Sempre que Paulo emprega perguntas retóricas, como faz aqui, dá a entender que todo o argumento é absurdo.
Está Cristo dividido? O que ele diz equivale a isto: Cortastes Cristo em pedaços e distribuístes o seu corpo. Eis a ira! Eis a repreensão! Eis palavras cheias de indignação! Pois sempre que, em vez de argumentar, ele apenas interroga, isso já implica uma absurdidade reconhecida.
Mas alguns dizem que ele visava a outra coisa ao dizer "Cristo está dividido": como se dissesse que ele repartiu entre os homens e dividiu a Igreja, tomando uma parte para si e dando-lhes a outra. Depois, no que se segue, ele se esforça por derrubar essa absurdidade, dizendo: Foi Paulo crucificado por vós, ou fostes batizados em nome de Paulo? Observai a sua mente amante de Cristo; como, a partir daí, ele leva toda a questão a um ponto em seu próprio nome, mostrando — e mais que mostrando — que essa honra não pertence a ninguém. E, para que ninguém pensasse que foi a inveja que o moveu a dizer tais coisas, ele se põe constantemente à frente. Observai, também, o seu modo ponderado, pois não diz: Fez Paulo o mundo? Produziu Paulo, do nada, a vossa existência? Mas apenas aquelas coisas que pertenciam aos fiéis como tesouros escolhidos, e que eram tidas em grande solicitude — essas ele especifica: a Cruz, o Batismo, e as bênçãos que se seguem a elas. Pois a benevolência de Deus para com os homens se mostra também na criação do mundo; em nada, porém, tanto quanto na (τῆς συγκαταβάσεως) condescendência por meio da Cruz. E não disse: morreu Paulo por vós? mas: foi Paulo crucificado?, consignando também o gênero da morte.
Ou fostes batizados em nome de Paulo? De novo, não diz: batizou-vos Paulo? Pois ele de fato batizou a muitos; mas a questão não era por quem tinham sido batizados, e sim em nome de quem tinham sido batizados! Pois, visto que isso também era causa de cismas — o serem chamados pelo nome daqueles que os haviam batizado —, ele corrige igualmente esse erro, dizendo: Fostes batizados em nome de Paulo? Não me digais, diz ele, quem batizou, mas em nome de quem. Pois não é aquele que batiza, mas Aquele que é invocado no Batismo, o que está em questão. Pois é Ele quem perdoa os nossos pecados.
E, nesse ponto, ele detém o discurso, e não prossegue mais o assunto. Pois não diz: Anunciou-vos Paulo os bens futuros? Prometeu-vos Paulo o reino dos céus? Por que, pergunto, não acrescenta também estas perguntas? Porque não é a mesma coisa prometer um reino e ser crucificado. Pois aquilo nem perigo trazia, nem acarretava vergonha; mas isto, tudo isso. Além disso, ele prova aquilo por meio disto: pois, tendo dito, Aquele que não poupou o seu próprio Filho, acrescenta, como não nos dará Ele também, com Ele, todas as coisas? (Rm 8:32) E, de novo, Pois, se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos. (Rm 5:10) Esta foi uma razão para não acrescentar o que acabei de mencionar; e também porque uma coisa ainda não a tinham, mas da outra já haviam feito experiência. Uma estava em promessa; a outra já se havia cumprido.
A grandeza do batismo não reside naquele que batiza, mas naquele cujo nome é invocado no batismo. Além disso, embora o batismo seja importante e até necessário para obter o reino, ainda assim é muito menor que pregar o evangelho. Uma pessoa sem excelência singular pode batizar, mas só os verdadeiramente dotados podem pregar o evangelho.
6. Dou graças a Deus por não ter batizado nenhum de vós, senão a Crispo e a Gaio. Por que vos exaltais por terdes batizado, quando eu, por minha parte, dou graças até mesmo por não o ter feito! Dizendo isso, por uma espécie de arte divina (οἰκονομικῶς), ele desfaz o orgulho inchado deles nesse ponto; não a eficácia do batismo — Deus nos livre —, mas a insensatez daqueles que se ensoberbeciam por terem sido batizadores: primeiro, mostrando que o Dom não é deles; e, segundo, dando graças a Deus por isso. Pois o Batismo é, na verdade, coisa grande; mas a sua grandeza não é obra de quem batiza, mas dAquele que é invocado no Batismo: visto que batizar nada é quanto ao labor humano, sendo muito menos que pregar o Evangelho. Sim, digo de novo, grande é, na verdade, o Batismo, e sem o batismo é impossível obter o reino. Ainda assim, um homem sem excelência singular é capaz de batizar, mas para pregar o Evangelho há necessidade de grande labor.
Paulo minimiza o seu próprio papel a fim de mostrar que não buscava honra ou glória para si mesmo.
Ele expõe também a razão pela qual dá graças por não ter batizado ninguém. Qual é, pois, essa razão? Para que ninguém diga que fostes batizados em meu próprio nome. Mas, quereria ele dizer que assim se dizia nesses outros casos? De modo algum; mas, receio, diz ele, que o mal chegasse até isso. Pois, se quando pessoas insignificantes e de pouco valor batizam, surge uma heresia, tendo eu, o primeiro anunciador do Batismo, batizado a muitos, era provável que eles, formando um partido, não só se chamassem pelo meu nome, mas também me atribuíssem o Batismo. Pois, se dos inferiores nasceu tão grande mal, dos de ordem mais alta talvez tivesse chegado a algo muito mais grave.
Tendo, pois, envergonhado os que nisto se mostravam desvairados, e acrescentando: batizei também a casa de Estéfanas, ele novamente abate o seu orgulho, dizendo ademais: não sei se batizei algum outro. Pois com isto significa que não buscava muito gozar da honra que daí proviesse por parte da multidão, nem se dispôs a essa obra por causa da glória.
Se a sabedoria humana está em guerra com a cruz e combate contra o evangelho, não é justo gloriar-se dela. Antes, devemos recuar envergonhados.
E não somente por estas, mas também pelas palavras seguintes, ele reprime grandemente o orgulho deles, dizendo: Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; pois a parte mais laboriosa, e a que necessitava de muito esforço e de uma alma de ferro, e da qual tudo dependia, era esta. E por isso foi que a Paulo se confiou tal encargo.
E por que, não sendo enviado para batizar, batizava ele? Não em contenda com Aquele que o enviou, mas laborando, nesta ocasião, para além de sua tarefa. Pois não diz: Fui proibido, mas: Não fui enviado para isto, e sim para aquilo que era de maior necessidade. Porque pregar o Evangelho é obra talvez para um ou dois; mas batizar, para todo aquele que é revestido do sacerdócio. Pois, estando o homem instruído e convencido, tomá-lo e batizá-lo é o que qualquer um poderia fazer; quanto ao mais, tudo se realiza pela vontade daquele que se aproxima e pela graça de Deus. Mas quando os incrédulos hão de ser instruídos, é preciso grande labor, grande sabedoria. E naquele tempo havia também perigo anexo. No primeiro caso, tudo já está feito, e está convencido aquele que está prestes a ser iniciado; e não é grande coisa batizar um homem já convencido. Mas no outro caso o labor é grande: mudar a vontade deliberada, alterar o rumo da mente, arrancar o erro pela raiz e plantar em seu lugar a verdade.
Não que ele diga tudo isto abertamente, nem tampouco argumenta em tantas palavras que o Batismo não tem labor, mas que a pregação o tem. Pois ele sabe sempre moderar o seu tom, ao passo que, na comparação com a sabedoria pagã, ele se mostra muito veemente, permitindo-lhe o assunto usar de maior vigor de linguagem.
Não foi, portanto, em oposição Àquele que o enviou que ele batizou; mas, como no caso das viúvas, ainda que os apóstolos tivessem dito: Não convém que deixemos a palavra de Deus para servir às mesas (At 6:2), ele desempenhou o ofício (At 12:25) τὴν διακονίαν de diácono, não em oposição a eles, mas como algo além de sua tarefa: assim também aqui. Pois ainda agora confiamos este assunto aos presbíteros mais simples, mas a palavra da doutrina aos mais sábios; pois nela está o labor e o suor. Por isso ele mesmo diz (1 Tm 5:17): Sejam os presbíteros que governam bem tidos por dignos de dobrada honra, principalmente os que labutam na palavra e no ensino. Pois assim como ensinar os lutadores nos jogos é ofício de um treinador ardoroso e hábil, mas colocar a coroa sobre a cabeça do vencedor pode ser tarefa de quem nem sequer sabe lutar (ainda que seja a coroa que adiciona esplendor ao vencedor), assim também no Batismo. É impossível salvar-se sem ele, contudo não é grande coisa o que faz aquele que batiza, encontrando a vontade já preparada.
7. Não em sabedoria de palavras, para que a Cruz de Cristo não seja tornada vã.
Tendo abatido a soberba inchação daqueles que se ensoberbeciam por causa do seu batismo, ele muda depois o seu terreno para enfrentar aqueles que se vangloriavam da sabedoria pagã, e contra estes ele veste a sua armadura com maior veemência. Pois àqueles que se inchavam com o batismo ele disse: Dou graças por não ter batizado a nenhum de vós; e: Cristo não me enviou para batizar. Não fala nem veementemente nem argumentativamente, mas, tendo apenas sugerido o seu pensamento em poucas palavras, passa adiante rapidamente. Mas aqui, logo de início, ele desfere um golpe severo, dizendo: Para que a Cruz de Cristo não seja esvaziada. Por que, pois, te vangloriar de uma coisa que deveria fazer-te esconder o rosto? Pois, se esta sabedoria está em guerra com a Cruz e combate o Evangelho, não convém gloriar-se dela, mas retirar-se com vergonha. Pois esta foi a razão pela qual os Apóstolos não eram sábios; não por alguma fraqueza do Dom, mas para que o Evangelho pregado não sofresse dano. Aquela sorte de pessoas acima mencionadas, portanto, não eram as que se empregavam em advogar a Palavra: antes estavam entre os seus difamadores. Os homens iletrados foram os que a estabeleceram. Isto era capaz de conter a vanglória, isto de reprimir a arrogância, isto de impor moderação.
Mas se não foi "por sabedoria de palavras", por que enviaram Apolo, que era eloquente? Não foi, ele responde, por confiança em seu poder de palavra, mas porque ele era poderoso nas Escrituras e refutava os judeus (At 18,24-29). E além disso, o ponto em questão era que os líderes e primeiros disseminadores da palavra não eram eloquentes; pois eram justamente estes que precisavam de algum grande poder para a expulsão do erro em primeiro lugar; e foi então, isto é, logo no início, que se fez necessária a força abundante. Ora, Aquele que pôde dispensar pessoas instruídas no início, se depois alguns, sendo eloquentes, foram admitidos por Ele, fê-lo não porque necessitasse deles, mas porque não faria distinções. Pois assim como Ele não necessitava de homens sábios para realizar o que quisesse, tampouco, se depois alguns tais se encontraram, os rejeitou por essa razão.
8. Mas provai-me que Pedro e Paulo eram eloquentes. Não podeis, pois eram homens iletrados e ignorantes! Assim, pois, como Cristo, ao enviar os seus discípulos ao mundo, tendo-lhes mostrado primeiro o Seu poder na Palestina, e dito: Quando vos enviei sem bolsa, alforje e sandálias, faltou-vos alguma coisa? (Lc 22,35), permitiu-lhes doravante possuir tanto alforje quanto bolsa; assim também Ele fez aqui: pois o ponto era a manifestação do poder de Cristo, não a rejeição de pessoas da fé por causa de sua sabedoria gentílica, se estas se aproximassem. Quando, pois, os gregos acusam os discípulos de serem indoutos, sejamos nós ainda mais prontos do que eles nessa acusação. E que ninguém diga: Paulo era sábio; antes, ainda que exaltemos aqueles dentre eles que eram grandes em sabedoria e admirados pela excelência do discurso, admitamos que todos do nosso lado eram indoutos; pois não será pequena a derrota que sofrerão de nossa parte também nesse ponto: e assim a vitória será deveras brilhante.
Ouvi certa vez um cristão a disputar de modo ridículo com um grego, e ambas as partes, nessa mútua contenda, arruinavam-se a si mesmas — disse eu estas coisas por essa razão. Pois o que o cristão deveria ter dito, isso afirmava o grego; e o que era natural esperar-se que o grego dissesse, isso o cristão alegava em seu próprio favor. Foi assim: versando a disputa sobre Paulo e Platão, o grego esforçava-se por mostrar que Paulo era indouto e ignorante; o cristão, porém, por simplicidade, ansiava por provar que Paulo era mais eloquente que Platão. E assim a vitória ficou do lado do grego, por se ter permitido que este argumento prevalecesse. Pois, se Paulo fosse pessoa mais considerável que Platão, muitos provavelmente objetariam que não foi pela graça, mas pela excelência do discurso que ele prevaleceu; de modo que a asserção do cristão favorecia o grego. E o que o grego dizia favorecia o cristão; pois, se Paulo era indouto e, todavia, venceu Platão, a vitória, como eu dizia, era gloriosa — os discípulos deste, em massa, tendo sido atraídos por aquele, por mais indouto que fosse, e convencidos, e trazidos para o seu partido. Donde é manifesto que o Evangelho não foi resultado da sabedoria humana, mas da graça de Deus.
Portanto, para que não caiamos no mesmo erro, e sejamos objeto de escárnio, ao argumentar assim com os gregos sempre que tivermos controvérsia com eles, acusemos os Apóstolos de falta de instrução; pois esta mesma acusação é louvor. E quando disserem que os Apóstolos eram rústicos, prossigamos a observação e digamos que eram também iletrados, e sem letras, e pobres, e vis, e estultos, e obscuros. Não é calúnia contra os Apóstolos dizer isso, mas é antes glória que, sendo tais, tenham ofuscado o mundo inteiro. Pois estes homens sem preparo, rústicos e iletrados venceram tão completamente os sábios, os poderosos, os tiranos, e os que floresciam em riquezas, em glória e em todos os bens exteriores, como se estes não fossem homens de modo algum: donde se manifesta que grande é o poder da Cruz; e que estas coisas não foram feitas por força humana alguma. Pois os resultados não seguem o curso da natureza; antes, o que se fez foi acima de toda natureza. Ora, quando algo se realiza acima da natureza, e sobremodo acima dela, no que concerne à retidão e à utilidade, é bem manifesto que tais coisas são feitas por algum poder e cooperação divinos. E observai: o pescador, o fabricante de tendas, o publicano, os ignorantes, os iletrados, vindos da longínqua região da Palestina, e tendo expulsado de seu próprio terreno os filósofos, os mestres de oratória, os hábeis debatedores, sozinhos prevaleceram contra eles em breve espaço de tempo; em meio a muitos perigos; a oposição de povos e reis, o esforço da própria natureza, a extensão do tempo, a veemente resistência do costume inveterado, demônios armados, o diabo em ordem de batalha a agitar tudo — reis, governantes, povos, nações, cidades, bárbaros, gregos, filósofos, oradores, sofistas, historiadores, leis, tribunais, várias espécies de suplícios, mortes inúmeras e de toda sorte. Mas, apesar de tudo isso, foram todos refutados e cederam quando o pescador falou; tal como a leve poeira que não pode suportar o ímpeto dos ventos violentos. Ora, o que digo é isto: aprendamos assim a disputar com os gregos, para que não sejamos como bestas e gado, mas estejamos preparados quanto à esperança que há em nós (1Pe 3:15). E detenhamo-nos um pouco para desenvolver este tema, que não é de somenos importância; e digamos-lhes: Como venceram os fracos os fortes; os doze, o mundo? Não usando as mesmas armas, mas, em nudez, combatendo contra homens armados.
Se dissermos, ora, que doze homens, inexperientes nas coisas da guerra, viessem a saltar no meio de um exército imenso e armado de soldados, sendo eles próprios não apenas desarmados, mas também de compleição débil; e não recebessem deles dano algum, nem sequer fossem feridos, ainda que assaltados por dez mil armas; se, enquanto os dardos os feriam, com o corpo nu e desnudo derrubassem todos os seus inimigos, sem usar arma alguma, senão golpeando com a mão, e ao fim matassem a alguns, e a outros levassem cativos, sem eles próprios receberem sequer um ferimento — acaso alguém jamais diria que tal coisa era obra de homem? E, no entanto, o troféu dos Apóstolos é muito mais admirável que esse. Pois que um homem nu escape ileso de um golpe não é de modo algum tão admirável quanto o fato de que um homem comum e iletrado — que um pescador — sobrepujasse tamanho grau de habilidade (δεινότητος): e que nem pela escassez, nem pela pobreza, nem pelos perigos, nem pela força do hábito preconcebido, nem pela tão grande austeridade dos preceitos impostos, nem pelas mortes cotidianas, nem pela multidão dos que eram enganados, nem pela grande reputação dos enganadores, se desviasse de seu propósito.
9. Seja este, digo eu, o nosso modo de os sobrepujar, e de conduzir contra eles a nossa guerra; e assombremo-los antes por nosso modo de viver do que por palavras. Pois esta é a batalha principal, este é o argumento irrefutável, o argumento da conduta. Pois ainda que déssemos dez mil preceitos de filosofia em palavras, se não exibirmos uma vida melhor que a deles, nada se ganha. Pois não é o que se diz que lhes atrai a atenção, mas o que indagam é o que fazemos; e dizem: obedecei primeiro às vossas próprias palavras, e depois admoestai os outros. Mas se, enquanto dizeis que infinitas são as bênçãos no mundo que há de vir, tu pareces estar pregado a este mundo, como se tais coisas não existissem, mais dignas de crédito me são as tuas obras do que as tuas palavras. Pois quando te vejo tomar os bens alheios, chorar imoderadamente sobre os mortos, e fazer mal em muitas outras coisas, como hei de crer que há ressurreição? E que importa se os homens não proferem isto em palavras? Pensam-no, e revolvem-no muitas vezes em seus ânimos. E é isto que detém os incrédulos de se tornarem cristãos.
Ganhemo-los, pois, por nossa vida. Muitos, mesmo entre os indoutos, dessa maneira estupefizeram as mentes dos filósofos, por terem exibido em si mesmos também aquela filosofia que consiste em obras, e por terem proferido, mediante seu modo de vida e sua abnegação, uma voz mais clara que a trombeta. Pois isto é mais forte que a língua. Mas quando eu digo que não se deve guardar rancor, e depois faço toda sorte de males ao grego, como poderei, com palavras, ganhá-lo, se por meus atos o afugento? Capturemo-los, pois, por nosso modo de vida; e com estas almas edifiquemos a Igreja, e destas acumulemos nossa riqueza. Nada há que se possa pesar contra uma alma, nem mesmo o mundo inteiro. De sorte que, ainda que dês incontáveis tesouros aos pobres, não farás obra igual à daquele que converte uma só alma. Jr 15:19 Pois aquele que extrai o precioso do vil será como a minha boca: assim Ele fala. Grande bem é, concedo, ter piedade dos pobres; mas não é nada comparável a retirá-los do erro. Pois aquele que faz isto assemelha-se a Paulo e a Pedro: sendo-nos permitido tomar o seu Evangelho, não com perigos como os deles — com o suportar de fomes e pestilências, e todos os demais males (pois o presente é uma estação de paz) — mas de modo a exibir aquela diligência que provém do zelo. Pois, mesmo estando sentados em casa, podemos praticar este gênero de pesca. Quem tiver um amigo, ou parente, ou morador de sua casa, diga estas coisas, faça estas coisas; e será semelhante a Pedro e a Paulo. E por que digo Pedro e Paulo? Ele será a boca de Cristo. Pois Ele diz: Aquele que extrai o precioso do vil será como a Minha boca. E ainda que hoje não persuadas, amanhã persuadirás. E ainda que jamais persuadas, terás por inteiro a tua recompensa. E ainda que não persuadas a todos, poucos, dentre muitos, persuadem a todos os homens; mas ainda assim discursaram a todos, e por todos têm sua recompensa. Pois não segundo o resultado das coisas bem feitas, mas segundo a intenção dos que as fazem, costuma Deus outorgar as coroas; ainda que deposites apenas dois quadrantes, Ele os recebe; e o que fez no caso da viúva, o mesmo fará também no caso dos que ensinam. Não desprezes, pois, os poucos, porque não podes salvar o mundo; nem, por ambicionares grandes coisas, te retires das menores. Se não podes cem, encarrega-te de dez; se não podes dez, não desprezes sequer cinco; se não podes cinco, não negligencies um; e se não podes um, ainda assim não te desesperes, nem retenhas o que pode ser feito por ti. Não vês como, nos negócios de comércio, os que neles se ocupam auferem lucro não somente do ouro, mas também da prata? Pois, se não desprezarmos as coisas pequenas, reteremos também as grandes. Mas, se desprezarmos as pequenas, tampouco facilmente lançaremos mão das outras. Assim se enriquecem os indivíduos, ajuntando tanto as coisas pequenas quanto as grandes. Ajamos, pois, assim, para que, enriquecidos em todas as coisas, alcancemos o reino dos céus; pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de Quem e com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
O poder da cruz não é reconhecido pelos que perecem, porquanto estão fora de si e agem como loucos, queixando-se e rejeitando os remédios que trazem a salvação.
Aos doentes e agonizantes, até os alimentos salutares são desagradáveis, os amigos e parentes são fardo pesado; e muitas vezes nem sequer os reconhecem, antes os têm por importunos. Muito semelhante a isto é, amiúde, o caso daqueles que perecem em suas almas. Pois as coisas que conduzem à salvação eles não conhecem; e os que se preocupam com elas, eles os julgam molestos. Ora, isto não decorre da natureza da coisa, mas da sua enfermidade. E assim como os insanos odeiam os que deles cuidam, e ainda os injuriam, o mesmo se dá com os incrédulos. Mas, como no caso dos primeiros, aqueles que são insultados então mais do que nunca se compadecem deles, e choram, tomando isto como o pior sintoma da doença em sua forma intensa, quando não reconhecem seus melhores amigos; assim também no caso dos gentios ajamos nós; sim, mais do que por nossas esposas devemos pranteá-los, porque não conhecem a salvação comum. Pois não deve o homem amar tão ternamente à sua esposa quanto devemos amar a todos os homens, e atraí-los para a salvação; seja o homem gentio, seja o que for. Por estes, pois, choremos; porque a palavra da Cruz lhes é loucura, sendo ela mesma Sabedoria e Poder. Pois, diz ele, a palavra da Cruz para os que perecem é loucura.
Pois, como era provável que eles, sendo a Cruz escarnecida pelos gregos, resistissem e disputassem com o auxílio daquela sabedoria que lhes provinha (segundo pensavam) de si mesmos, perturbados que estavam pela expressão dos gregos, Paulo, consolando-os, diz: não estranheis, nem tenhais por inexplicável o que está sucedendo. Esta é a natureza da coisa, que o seu poder não é reconhecido por aqueles que perecem. Pois estão fora de si, e se comportam como loucos; e assim vociferam e se enojam com os remédios que trazem saúde.
2. Mas que dizes tu, ó homem? Cristo se fez escravo por ti, tomando a forma de escravo (Fl 2,7), e foi crucificado, e ressuscitou. E quando devias, por esta razão, adorá-Lo ressuscitado e admirar a Sua benignidade — porque o que nem pai, nem amigo, nem filho fizeram por ti, tudo isto o Senhor operou por ti, o inimigo e o ofensor —, quando, digo eu, devias admirá-Lo por estas coisas, chamas tu loucura ao que está cheio de tamanha sabedoria? Pois bem, nada há de admirável nisto; porque é próprio dos que perecem não reconhecer as coisas que conduzem à salvação. Não te perturbes, portanto, pois não é acontecimento estranho nem inexplicável que coisas verdadeiramente grandes sejam escarnecidas por aqueles que estão fora de si. Ora, os que assim pensam, não podes convencê-los pela sabedoria humana. Antes, se quiseres assim convencê-los, farás justamente o contrário. Pois as coisas que transcendem o raciocínio requerem somente a fé. Assim, se nos puséssemos a convencer os homens por raciocínios de como Deus se fez homem, e entrou no ventre da Virgem, e não confiássemos a matéria à fé, eles apenas escarneceriam ainda mais. Portanto, os que indagam por raciocínios, são estes os que perecem.
E por que falo de Deus? Pois, no que respeita às coisas criadas, se quiséssemos fazer isso, grande escárnio se seguiria. Suponhamos, com efeito, um homem que, desejando explicar todas as coisas pela razão, tentasse por meio do teu discurso convencer-se de como vemos a luz; e tu, por tua vez, tentasses convencê-lo pela razão. Não poderás: pois, se disseres que basta abrir os olhos para ver, não expuseste o modo, mas o fato. Pois, dirá alguém, por que não vemos com o ouvido, e com os olhos não ouvimos? E por que não ouvimos com as narinas, e com o ouvido não cheiramos? Se, pois, estando ele em dúvida acerca destas coisas, e não podendo nós dar-lhe a explicação delas, ele há de começar a rir, não o escarneceremos antes nós? Pois, uma vez que ambos têm sua origem de um só cérebro, uma vez que os dois membros são vizinhos próximos entre si, por que não podem realizar a mesma obra? Ora, não poderemos declarar a causa nem o modo desta operação inefável e admirável; e, se o tentássemos, seríamos escarnecidos. Por isso, deixando isto ao poder de Deus e à Sua sabedoria sem limites, calemo-nos.
Assim também sucede com as coisas de Deus; se quiséssemos explicá-las pela sabedoria que é de fora, grande escárnio se seguiria — não por infirmidade delas, mas pela loucura dos homens. Pois as grandes coisas de todas nenhuma linguagem as pode explicar.
3. Ora, observai: quando digo, Ele foi crucificado; diz o grego, E como pode isto ser razoável? A Si mesmo não Se ajudou, quando suportava a crucifixão e a dura provação no momento da Cruz: como, pois, depois destas coisas ressuscitou e ajudou a outros? Pois, se Ele o pudesse fazer, antes da morte é que era o momento próprio (isto mesmo disseram os judeus). Mas Aquele que a Si mesmo não ajudou, como ajudou a outros? Não há razão nisso, diz ele. Verdade, ó homem, pois de fato está acima da razão; e inefável é o poder da Cruz. Pois que, estando Ele mesmo no meio dos horrores, Se mostrasse acima de todos os horrores; e, estando em poder do inimigo, o vencesse — isto procede de um Poder Infinito. Pois, tal como no caso dos Três Meninos, não entrarem na fornalha não seria tão espantoso quanto, havendo entrado, pisarem sobre o fogo — e no caso de Jonas, muito maior coisa foi, depois de ter sido tragado pelo peixe, não sofrer dano algum do monstro, do que se não tivesse sido tragado de todo — assim também a respeito de Cristo: não morrer Ele não seria tão inconcebível quanto, tendo morrido, romper as amarras da morte. Não digas, pois, por que não ajudou a Si mesmo na Cruz? Pois Ele se apressava para o combate corpo a corpo com a própria morte. Não desceu da Cruz, não porque não pudesse, mas porque não quis. Pois a Quem a tirania da morte não reteve, como O reteriam os cravos da Cruz?
4. Mas estas coisas, ainda que conhecidas de nós, não o são ainda aos incrédulos. Por isso disse que a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e rejeitarei a prudência dos prudentes. Nada de si mesmo, que pudesse dar ocasião de escândalo, adianta ele até este ponto; mas primeiro recorre ao testemunho da Escritura, e depois, munido dali de ousadia, adota palavras mais veementes.
Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o disputador deste mundo? Não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Pois, uma vez que na sabedoria de Deus o mundo, através de sua sabedoria, não conheceu a Deus, foi do agrado de Deus salvar, pela loucura da pregação, os que creem. Tendo dito: Está escrito: destruirei a sabedoria dos sábios, ele acrescenta a demonstração a partir dos fatos, dizendo: Onde está o sábio? Onde o escriba? — visando ao mesmo tempo tanto os gentios quanto os judeus. Pois que espécie de filósofo, qual dentre os que se dedicaram à lógica, qual dentre os versados nas coisas judaicas, nos salvou e deu a conhecer a verdade? Nenhum. Foi obra do pescador, toda ela.
Tendo, pois, extraído a conclusão que tinha em vista, e abatido o orgulho deles, e dito: Não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?, expõe também a razão pela qual assim se deram estas coisas. Pois, uma vez que na sabedoria de Deus, diz ele, o mundo, através de sua sabedoria, não conheceu a Deus, apareceu a Cruz. Ora, que significa "na sabedoria de Deus"? A sabedoria manifesta naquelas obras pelas quais foi Sua vontade dar-Se a conhecer. Pois para este fim Ele as formou, e as formou tais quais são, a fim de que, por uma espécie de proporção (ἀναλόγως), a partir das coisas que se veem se aprendesse a admiração pelo Criador. É grande o céu, e ilimitada a terra? Admira-te, pois, Daquele que os fez. Pois este céu, por grande que seja, não só foi feito por Ele, mas feito com facilidade; e também aquela terra ilimitada foi trazida à existência como se não fosse nada. Por isso, a respeito do primeiro Ele diz (Sl 102,25, Septuaginta, τῶν χειρῶν): Os céus são obra dos Teus dedos; e a respeito da terra (Is 40,23, Septuaginta): Aquele que fez a terra como que nada. Uma vez, pois, que por esta sabedoria o mundo não quis descobrir a Deus, Ele empregou o que parecia ser loucura, isto é, o Evangelho, para persuadir os homens — não pelo raciocínio, mas pela fé. Segue-se que, onde está a sabedoria de Deus, já não há mais necessidade da sabedoria do homem. Pois antes, inferir que Aquele que fez o mundo tão tal e tão grande devia, com toda a razão, ser um Deus dotado de certo poder incontrolável e inefável, e por esses meios apreendê-Lo — isto era próprio da sabedoria humana. Mas agora já não precisamos mais de raciocínios, mas somente de fé. Pois crer Naquele que foi crucificado e sepultado, e estar plenamente persuadido de que esta mesma Pessoa ressuscitou e assentou-Se nas alturas — isto não requer sabedoria, nem raciocínios, mas fé. Pois os próprios Apóstolos não entraram pela sabedoria, mas pela fé, e superaram os sábios pagãos em sabedoria e em elevação, e tanto mais quanto suscitar disputas é menos do que receber pela fé as coisas de Deus. Pois isto transcende todo entendimento humano.
Deste modo, porém, como destruiu Ele a sabedoria? Manifestando-se a nós por meio de Paulo e de outros semelhantes a ele, mostrou-a inútil. Pois, para receber a proclamação evangélica, nem o sábio se aproveita em nada da sabedoria, nem o iletrado é prejudicado em nada pela ignorância. Mas, se se pode dizer algo até admirável, a ignorância, mais do que a sabedoria, é condição apropriada para essa impressão, e mais facilmente tratável. Pois o pastor e o rústico receberão isto mais depressa, reprimindo de uma vez por todas todos os pensamentos de dúvida e entregando-se ao Senhor. Deste modo, pois, destruiu Ele a sabedoria. Porque, tendo ela primeiro se derrubado a si mesma, é depois disso sempre inútil para coisa alguma. Assim, quando devia ter exibido suas próprias forças, e pelas obras ter visto o Senhor, não o quis. Por isso, ainda que agora quisesse introduzir-se, não o pode. Pois a questão não é dessa natureza; sendo este modo de conhecer a Deus muito maior do que o outro. Vedes, pois, que a fé e a simplicidade são necessárias, e a estas devemos buscar em toda parte, e preferi-las à sabedoria que vem de fora. Pois Deus, diz ele, tornou louca a sabedoria.
Mas o que significa: tornou-a louca? Mostrou-a louca no tocante ao receber a fé. Pois, uma vez que se orgulhavam dela, não tardou Ele em expô-la. Pois que espécie de sabedoria é essa, que não pode descobrir o principal dentre as coisas boas? Fez, pois, com que ela parecesse louca, depois de ela mesma primeiro se ter condenado. Porque, se, quando se podiam fazer descobertas por meio do raciocínio, ela nada provou, agora, quando as coisas se processam em escala muito maior, como poderá ela realizar algo? Ora, quando há necessidade apenas de fé, e não de argúcia? Vedes, pois, que Deus a mostrou louca.
Foi também de Seu bom agrado salvar pela loucura do Evangelho — loucura, digo, não real, mas que parece sê-lo. Pois o que é ainda mais admirável é que Ele prevaleceu introduzindo, não uma outra sabedoria semelhante e mais excelente que a primeira, mas o que parecia ser loucura. Expulsou, por exemplo, a Platão, não por meio de outro filósofo de maior habilidade, mas por um pescador iletrado. Pois assim a derrota se tornou maior, e a vitória mais esplêndida.
Crer naquele que foi crucificado e sepultado, e estar plenamente persuadido de que ressuscitou, não requer mais raciocínio, mas tão somente fé. Os próprios apóstolos converteram-se não pela sabedoria, mas pela fé. Uma vez que a possuíram, superaram os sábios pagãos tanto em sabedoria quanto em profundidade intelectual (...). Platão foi expulso não por outro filósofo de maior habilidade, mas por pescadores iletrados.
Vasto é o alcance do que aqui se diz! Pois ele quer dizer como, por meio de contrários, Deus venceu, e como o Evangelho não é dos homens. O que ele diz é algo deste teor: Quando, diz ele, dizemos aos judeus: Crede; eles respondem: Ressuscitai os mortos, curai os endemoninhados, mostrai-nos sinais. Mas, em vez disso, que dizemos nós? Que foi crucificado e morreu aquele que se prega. E isto basta, não apenas para falhar em atrair os que relutam, mas até para afugentar os próprios que estariam dispostos. Contudo, não afugenta, antes atrai, retém e vence.
De novo: os gregos exigem de nós um estilo retórico e a agudeza da sofística. Mas a estes também pregamos a Cruz; e aquilo que, no caso dos judeus, parecia ser fraqueza, no caso dos gregos é loucura. Por isso, quando não apenas deixamos de produzir o que eles exigem, mas produzimos justamente o oposto de sua exigência (pois a Cruz não apenas não tem aparência de ser um sinal buscado pelo raciocínio, mas é a própria anulação de um sinal — não apenas não é tida por prova de poder, mas por convicção de fraqueza — não apenas não é demonstração de sabedoria, mas sugestão de loucura) — quando, portanto, aqueles que buscam sinais e sabedoria não apenas não recebem o que pedem, mas ouvem até o contrário do que desejam, e então, por meio dos contrários, são persuadidos — como não é indizível o poder daquele que é pregado? Como se a alguém açoitado pela tempestade e ansioso por um porto, se lhe mostrasse não um porto, mas outra parte ainda mais selvagem do mar, e assim se pudesse fazê-lo seguir com gratidão? Ou como se um médico pudesse atrair a si o homem ferido e necessitado de remédios, prometendo curá-lo não com fármacos, mas queimando-o de novo! Pois isto é, na verdade, resultado de grande poder. Assim também prevaleceram os Apóstolos, não simplesmente sem sinal, mas até por meio de algo que parecia contrário a todos os sinais conhecidos. Coisa que também Cristo fez no caso do cego. Pois, quando quis curá-lo, retirou a cegueira por meio daquilo mesmo que a aumentava, isto é, aplicou lodo (Jo 9,6). Assim, pois, como por meio do lodo curou o cego, também por meio da Cruz trouxe o mundo a Si. Isto, decerto, era acrescentar um escândalo, não retirar um escândalo. Assim fez Ele também na criação, operando as coisas por meio de seus contrários. Com areia, por exemplo, cercou o mar como um muro, tendo feito do fraco um freio para o forte. Colocou a terra sobre as águas, tendo ordenado que o pesado e o denso fossem sustentados pelo brando e fluido. Por meio dos profetas, ainda, com um pequeno pedaço de madeira fez subir o ferro do fundo (2Rs 6,5-7). Do mesmo modo, também com a Cruz atraiu o mundo a Si. Pois, assim como a água sustenta a terra, também a Cruz sustenta o mundo. Vedes, pois, que é prova de grande poder e sabedoria persuadir por meio das próprias coisas que nos são diretamente contrárias. Assim, a Cruz parece ser motivo de escândalo; e, no entanto, longe de escandalizar, antes atrai.
O evangelho produz exatamente o oposto daquilo que os homens desejam e esperam, mas é precisamente esse fato que os persuade, ao final, a aceitá-lo. Os apóstolos venceram sua causa não simplesmente sem sinal algum, mas por algo que parecia contrariar todos os sinais conhecidos. A cruz parece ser causa de escândalo, mas, longe de simplesmente escandalizar, ela atrai e chama a si os crentes.
A loucura e a sabedoria de que aqui se fala são mais aparentes que reais. Pois os filósofos não puderam realizar o que poucos homens sem letras realizaram, a saber, a conversão do mundo inteiro. Os filósofos falavam de trivialidades e convenceram apenas a poucos. Os apóstolos falavam de Deus, da justiça e do juízo, e converteram uma grande multidão.
João Crisóstomo, tendo em mente todas essas coisas, e tomado de espanto, disse que a loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens; falando, no que respeita à Cruz, de uma loucura e de uma fraqueza não reais, mas aparentes. Pois ele responde tendo em vista a opinião da outra parte. Porquanto aquilo que os filósofos não foram capazes de realizar por meio do raciocínio, isto o que parecia ser loucura o realizou excelentemente. Qual, pois, é o mais sábio: aquele que persuade a muitos, ou aquele que persuade a poucos, ou antes a ninguém? Aquele que persuade acerca dos maiores pontos, ou acerca de coisas que nada são? Que grandes labores suportaram Platão e seus seguidores, discorrendo para nós sobre uma linha, e um ângulo, e um ponto, e sobre números pares e ímpares, iguais entre si e desiguais, e semelhantes teias de aranha (pois de fato aquelas teias não são mais inúteis à vida do homem do que estes assuntos); e sem fazer bem a ninguém, grande ou pequeno, por meio delas, assim pôs fim à sua vida. Quão grandemente ele labutou, esforçando-se por mostrar que a alma era imortal! E assim como veio, partiu, nada tendo dito com certeza, nem tendo persuadido a nenhum ouvinte. Mas a Cruz operou persuasão por meio de homens iletrados; sim, persuadiu até o mundo inteiro: e não acerca de coisas comuns, mas em discurso sobre Deus, e sobre a piedade que é segundo a verdade, e o modo evangélico de vida, e o juízo das coisas vindouras. E de todos os homens fez filósofos: os próprios rústicos, os inteiramente iletrados. Vede como a loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a fraqueza mais forte? Como mais forte? Porque ela percorreu o mundo inteiro, e tomou tudo pela força, e enquanto os homens se esforçavam por dez mil meios para extinguir o nome do Crucificado, sucedeu o contrário: aquilo floresceu e cresceu cada vez mais, mas eles pereceram e se consumiram; e os vivos, em guerra com os mortos, não tiveram poder algum. De sorte que, quando o grego me chama de louco, mostra-se ele mesmo louco sobremaneira: pois eu, que sou tido por ele como louco, evidentemente pareço mais sábio que os sábios. Quando me chama de fraco, então mostra-se ele mesmo mais fraco. Pois as coisas nobres que publicanos e pescadores foram capazes de realizar pela graça de Deus, estas os filósofos, e retóricos, e tiranos, e em suma o mundo inteiro, correndo de dez mil modos daqui para ali, nem sequer puderam conceber. Pois o que não introduziu a Cruz? A doutrina acerca da Imortalidade da Alma; a acerca da Ressurreição do Corpo; a acerca do desprezo das coisas presentes; a acerca do desejo das coisas futuras. Sim, de homens ela fez anjos, e todos, em toda parte, praticam o desapego (φιλοσοφοῦσι) e manifestam toda sorte de fortaleza.
John Crisóstomo
7. Mas dir-se-á que também entre eles se encontraram muitos que desprezaram a morte. Dize-me: quem? Foi acaso aquele que bebeu a cicuta? Se quiserdes, porém, posso trazer-vos dez mil homens semelhantes de dentro da Igreja. Pois se fosse lícito, ao sobrevir a acusação, beber a cicuta e partir, todos se teriam tornado mais célebres do que ele. E ademais, bebeu-a quando já não lhe era dado escolher entre beber ou não beber; mas, queira ou não queira, era-lhe forçoso sofrê-la: não é isso, por certo, obra de fortaleza, mas de necessidade, e nada mais. Pois também salteadores e homicidas, caídos sob a condenação de seus juízes, sofreram coisas mais penosas. Mas entre nós tudo se passa de modo inteiramente contrário. Pois não contra a vontade suportaram os mártires, mas de livre vontade, tendo a liberdade de não padecer; mostrando assim uma fortaleza mais dura que todo o adamante. Isto, pois, como vedes, não é grande maravilha, que aquele de quem falava tenha bebido a cicuta, não estando já em seu poder o não bebê-la, e tendo além disso chegado a idade já muito avançada. Pois quando desprezou a vida, declarou ele mesmo ter setenta anos; se é que isto se pode chamar desprezo. Quanto a mim, ao menos, não poderia afirmá-lo; nem, o que é mais, poderá afirmá-lo qualquer outro. Mas mostra-me alguém que tenha permanecido firme nos tormentos por causa da piedade, como eu vos mostro dez mil em toda parte no mundo. Quem, enquanto lhe arrancavam as unhas, suportou nobremente? Quem, enquanto lhe distendiam as juntas do corpo (ἀνασκαπτομένων)? Quem, enquanto seu corpo era dilacerado (τοῦ σώματος κατὰ μέρος πορθουμένου) membro por membro? Ou sua cabeça? Quem, enquanto lhe arrancavam os ossos com alavancas (ἀναμοχλευομένων)? Quem, colocado sem intervalo sobre frigideiras? Quem, lançado num caldeirão? Mostrai-me estes exemplos. Pois morrer pela cicuta é tudo o mesmo que permanecer um homem em estado de sono. Antes, mais doce que o sono é esta espécie de morte, se é verdadeiro o relato. Mas se alguns, de fato, suportaram tormentos, também destes o louvor se reduz a nada. Pois pereceram por alguma ocasião vergonhosa: uns por revelar mistérios; outros por aspirar ao domínio; outros ainda surpreendidos nos mais torpes crimes; outros, por fim, temerária, inútil e insensatamente, sem que houvesse razão para isso, deram cabo de si mesmos. Mas não é assim entre nós. Por isso, das obras daqueles nada se diz; mas estas florescem e crescem dia a dia. O que Paulo tendo em mente, disse: A fraqueza de Deus é mais forte que os homens.
Que o Evangelho é divino, disto mesmo é evidente; a saber, donde poderia ter ocorrido a doze homens ignorantes o intento de coisas tão grandes? Homens que habitavam em pântanos, em rios, em desertos; que talvez jamais em tempo algum houvessem entrado numa cidade nem num fórum;— donde lhes ocorreu pôr-se em ordem de batalha contra o mundo inteiro? Pois que eram tímidos e sem vigor viril, o mostra aquele que escreveu a respeito deles, não se desculpando, nem suportando lançar sombra sobre suas fraquezas: o que, por si mesmo, é já um gravíssimo indício da verdade. Que diz ele, pois, a respeito deles? Que, quando Cristo foi preso, depois de dez mil prodígios, fugiram; e aquele que permaneceu, sendo o chefe dos demais, negou-O. Donde veio, pois, que aqueles que, enquanto Cristo vivia, não suportaram o assalto dos judeus, agora que Ele estava morto e sepultado, e, como dizeis, não havia ressuscitado, nem tivera com eles conversação alguma, nem lhes infundira ânimo— donde se puseram eles em ordem de batalha contra tão grande mundo? Não teriam antes dito entre si: que significa isto? A si mesmo não pôde salvar, e nos protegerá a nós? A si mesmo não defendeu quando vivo, e nos estenderá a mão agora que está morto? A si mesmo, quando vivo, não subjugou sequer uma nação; e havemos nós de convencer o mundo inteiro proferindo o Seu Nome? Como, pergunto eu, poderia tudo isto ser razoável, não digo já como algo a ser feito, mas ainda mesmo como algo a ser imaginado? Donde é manifesto que, se não O tivessem visto depois de ressuscitado, e recebido amplíssima prova do Seu poder, não se teriam aventurado a lance tão grande.
Ora, supõe-se que possuíssem inúmeros amigos: não os teriam eles, em breve, feito a todos inimigos, perturbando os antigos costumes e removendo os marcos de seus pais? Mas, como de fato sucedeu, tinham-nos por inimigos — a todos, tanto seus próprios compatriotas quanto os estrangeiros. Pois, ainda que houvessem sido recomendados à veneração por tudo quanto lhes fosse exterior, não os teriam todos os homens abominado, por introduzirem uma nova politeia? Mas agora estavam eles até mesmo destituídos de tudo; e era natural que, também por essa razão, todos de igual modo os odiassem e desprezassem. Pois a quem nomearás? Os judeus? Não, pois estes nutriam contra eles um ódio inexprimível por causa do que fora feito ao Mestre. Os gregos, então? Ora, antes de tudo, estes haviam rejeitado quem não lhes era inferior; e ninguém sabia isto tão bem quanto os gregos. Pois Platão, que quis traçar uma nova forma de governo — ou antes, uma parte do governo, e isso não alterando os costumes referentes aos deuses, mas apenas substituindo uma linha de conduta por outra —, foi expulso da Sicília e quase perdeu a vida. Isto, contudo, não sucedeu: de sorte que perdeu somente a liberdade. E se certo bárbaro não houvesse sido mais brando que o tirano da Sicília, nada teria podido resgatar o filósofo da escravidão por toda a vida numa terra estranha. E, todavia, não é o mesmo inovar nos negócios do reino e nas matérias do culto religioso. Pois esta última, mais que qualquer outra coisa, causa perturbação e aflige os homens. Porque dizer: "case-se tal homem com tal mulher, e exerçam os guardiões [da comunidade] sua guarda de tal ou qual modo" não basta para causar grande perturbação — especialmente quando tudo isto está depositado num livro, sem grande ansiedade da parte do legislador em levar as propostas à prática. Por outro lado, dizer: "não são deuses aqueles a quem os homens rendem culto, mas demônios; Aquele que foi crucificado é Deus" — bem sabeis quanta ira isto acendeu, quão severamente os homens tiveram de pagar por isso, que chama de guerra atiçou.
Pois Protágoras, que era um deles, tendo ousado dizer "não conheço deuses algum", não indo pelo mundo a proclamá-lo, mas numa única cidade, esteve no mais iminente perigo de vida. E Diágoras de Mileto, e Teodoro, que era chamado o Ateu — ainda que tivessem amigos, e aquela influência que provém da eloquência, e fossem tidos em admiração por causa de sua filosofia —, nada disso, todavia, lhes aproveitou. E também o grande Sócrates, aquele que superava em filosofia a todos entre eles, por esta razão bebeu a cicuta: porque em seus discursos acerca dos deuses foi suspeito de desviar um pouco as coisas. Ora, se a mera suspeita de inovação trouxe tamanho perigo a filósofos e sábios, e àqueles que haviam alcançado ilimitada popularidade; e se não apenas foram incapazes de fazer o que desejavam, mas foram eles mesmos também expulsos da vida e da pátria — como poderás deixar de estar em admiração e assombro, ao veres que o pescador produziu tal efeito sobre o mundo e realizou seus propósitos, tendo vencido a todos, tanto bárbaros quanto gregos?
10. Mas eles não introduziram deuses estranhos, direis, como fizeram os outros. Pois bem, é precisamente nisso que apontais o ponto mais digno de admiração: que a inovação é dupla, tanto derrubar os que existem quanto anunciar o Crucificado. Pois de onde lhes veio ao pensamento proclamar tais coisas? De onde, a confiança de que se cumpririam? A qual dos que os precederam poderiam ver ter prosperado em semelhante empreendimento? Não adoravam todos os homens demônios? Não costumavam todos fazer deuses dos elementos? Não estava a diferença apenas no modo da impiedade? Mas, não obstante, eles atacaram a todos, e a todos derrubaram, e em pouco tempo percorreram o mundo inteiro, como uma espécie de seres alados; sem fazer caso dos perigos, das mortes, da dificuldade da empresa, de sua própria pequenez, da multidão dos adversários, da autoridade, do poder, da sabedoria daqueles que guerreavam contra eles. Pois tinham um aliado maior que todas essas coisas: o poder Daquele que fora crucificado e ressuscitara. Não seria tão admirável se tivessem escolhido travar guerra contra o mundo no sentido literal (πόλεμον αἰσθητόν), como sucede nesta que de fato se realizou. Pois, segundo a lei da batalha, poderiam ter-se colocado frente aos inimigos, e, ocupando algum terreno vantajoso, ter-se disposto em ordem para enfrentar seus adversários, e ter escolhido seu momento para o ataque e o combate corpo a corpo. Mas neste caso não é assim. Pois não tinham acampamento próprio, mas estavam misturados com seus inimigos, e assim os venciam. Mesmo no meio de seus inimigos, por onde quer que andassem, escapavam-lhes das mãos, e tornavam-se superiores, e alcançavam esplêndida vitória; vitória que cumpre a profecia que diz: Mesmo no meio de teus inimigos terás domínio (Sl 110,2). Pois isto era o que estava cheio de todo o assombro: que seus inimigos, tendo-os em seu poder, e lançando-os no cárcere e nas cadeias, não somente não os venceram, como também eles próprios, por fim, tiveram de curvar-se diante deles: os açoitadores diante dos açoitados, os que os prendiam em cadeias diante dos que eram presos, os perseguidores diante dos fugitivos. Todas estas coisas, pois, poderíamos dizer aos gregos, e ainda muito mais do que estas; pois a verdade tem abundância bastante e de sobra (πολλή τῆς ἀληθείας ἡ περιουσία). E se quiserdes seguir o argumento, ensinar-vos-emos todo o método de combatê-los. Entretanto, retenhamos aqui firmemente dois pontos: Como venceu o fraco ao forte? E de onde lhes veio ao pensamento, sendo eles tais quais eram, formar tais desígnios, a não ser que gozassem de auxílio divino?
11. Até aqui, pois, o que tínhamos a dizer. Mas mostremos por nossas ações todas as excelências de conduta, e acendamos abundantemente o fogo da virtude. Pois sois luzes, diz ele, resplandecendo no meio do mundo (Fl 2,15). E a cada um de nós Deus confiou uma função maior do que confiou ao sol: maior que o céu, e a terra, e o mar; tanto maior quanto as coisas espirituais são mais excelentes que as coisas sensíveis. Quando, pois, contemplamos o orbe solar, e admiramos a beleza, e o corpo, e o fulgor deste luminar, consideremos de novo que maior e melhor é a luz que há em nós, assim como também as trevas são mais temíveis, a menos que estejamos vigilantes. E, com efeito, uma noite profunda oprime o mundo inteiro. Isto é o que nos cumpre dissipar e dissolver. Não é noite somente entre os hereges e entre os gregos, mas também na multidão do nosso lado, tanto no que toca à doutrina quanto à vida. Pois muitos descrêem inteiramente da ressurreição; muitos se fortificam com seu horóscopo (γὲνεσιν ἑαυτοῖς ἐπιτειχίζουσι); muitos se apegam a observâncias supersticiosas, e a agouros, e auspícios, e presságios. E alguns igualmente se valem de amuletos e encantamentos. Mas também a estes falaremos depois, quando tivermos concluído o que temos a dizer aos gregos.
Entretanto, guardai firmemente as coisas que foram ditas, e sede meus cooperadores nesta batalha, atraindo-os a nós e transformando-os pelo vosso modo de vida. Pois, como sempre digo, aquele que ensina a alta moral (περὶ φιλοσοφίας) deve primeiro ensiná-la em sua própria pessoa, e ser tal que os seus ouvintes não possam prescindir dele. Tornemo-nos, pois, tais, e façamos com que os gregos se afeiçoem a nós. E isto se dará se estivermos resolvidos não só a não fazer mal, mas também a sofrer mal. Não vemos que, quando os filhinhos, levados nos braços do pai, dão bofetadas no rosto daquele que os carrega, quão docemente o pai deixa o menino saciar-se de sua ira, e, quando vê que ele já desafogou sua paixão, como o seu semblante se ilumina? Ajamos, pois, do mesmo modo; e assim como os pais tratam com os filhos, assim tratemos nós com os gregos. Porque todos os gregos são crianças. E isto mesmo disseram alguns dos seus próprios escritores: que aquele povo é sempre criança, e que nenhum grego é velho. Ora, as crianças não podem suportar cuidar de coisa alguma que seja útil; assim também os gregos quereriam estar sempre a brincar; e jazem por terra, rastejando na postura e nos afetos. Além disso, as crianças, muitas vezes, quando discorremos sobre coisas importantes, não atentam a nada do que se diz, antes ficam rindo o tempo todo: tais são também os gregos. Quando discorremos sobre o Reino, eles riem. E, assim como a saliva que goteja em abundância da boca do infante, a qual muitas vezes lhe estraga o alimento e a bebida, tais são também as palavras que fluem da boca dos gregos, vãs e imundas. Ainda que se dê às crianças o alimento que lhes é necessário, elas não cessam de afligir com palavras más aqueles que lho fornecem, e é preciso suportá-las todo o tempo (διαβαστάζεσθαι). De novo, as crianças, quando veem um ladrão entrar e levar consigo a mobília, longe de resistir, até sorriem para o velhaco insidioso; mas, se lhes tirardes a cestinha ou o chocalho (σεῖστρα) ou qualquer outro dos seus brinquedos, tomam isso a peito e se afligem, se laceram e batem os pés no chão; assim também fazem os gregos: quando veem o diabo saquear todo o seu patrimônio, e até mesmo as coisas que sustentam a sua vida, riem, e correm a ele como a um amigo; mas, se alguém lhes tira alguma posse, seja riqueza, seja qualquer coisinha pueril desse gênero, choram, se lastimam. E, como as crianças expõem os seus membros sem consciência e não coram de vergonha; assim os gregos, revolvendo-se em fornicações e adultérios, e desnudando as leis da natureza, e introduzindo comércios ilícitos, não se envergonham.
Vós me destes veemente aplauso e aclamação, mas, com todo o vosso aplauso, tende cuidado de não estardes entre aqueles de quem se disseram estas coisas. Pelo que vos suplico a todos que vos torneis homens: pois, enquanto formos crianças, como havemos de lhes ensinar a virilidade? Como havemos de refreá-los da loucura pueril? Tornemo-nos, pois, homens; para que cheguemos à medida da estatura que nos foi assinalada por Cristo, e alcancemos os bens futuros: pela graça e benignidade, etc., etc.
O homem que é sábio segundo os critérios deste mundo é, na verdade, muito insensato, porque não quer lançar fora sua doutrina corrompida. Um pouco de erudição é coisa perigosa, pois torna aqueles que a possuem relutantes em aprender mais. Os iletrados são mais dóceis à persuasão, porque não são tão insensatos a ponto de se julgarem sábios.
Disse que a loucura de Deus é mais sábia que os homens; mostrou que a sabedoria humana é rejeitada, tanto pelo testemunho das Escrituras quanto pelo desfecho dos acontecimentos; pelo testemunho, quando diz: Destruirei a sabedoria dos sábios; pelo acontecimento, formulando seu argumento como pergunta, e dizendo: Onde está o sábio? Onde o escriba? Além disso, provou ao mesmo tempo que a coisa não é nova, mas antiga, como fora pressignificada e predita desde o princípio. Pois está escrito, diz ele, destruirei a sabedoria dos sábios. Com isto mostra que não foi nem inconveniente nem irracional que as coisas seguissem este curso: (pois, visto que na sabedoria de Deus o mundo, diz ele, não conheceu a Deus, aprouve a Deus, pela loucura da pregação, salvar os que creem;) e que a Cruz é demonstração de poder e sabedoria inefáveis, e que a loucura de Deus é muito mais poderosa que a sabedoria do homem. E isto, de novo, ele o prova não por meio dos mestres, mas por meio dos próprios discípulos. Pois, eis a vossa vocação, diz ele: que não somente mestres de espécie rude, mas também discípulos da mesma condição, foram objeto de Sua escolha; que Ele não escolheu muitos sábios (é esta a sua palavra) segundo a carne. E assim aquilo de que ele trata se prova superior tanto em força quanto em sabedoria, porquanto convence tanto a multidão quanto os ignorantes: sendo sumamente difícil convencer um ignorante, sobretudo quando o discurso versa sobre coisas grandes e necessárias. Contudo, eles operaram a convicção. E disto ele chama os próprios coríntios por testemunhas. Pois, eis a vossa vocação, irmãos, diz ele: considerai; examinai: pois que doutrinas tão sábias, sim, mais sábias que todas, fossem recebidas por homens comuns, testifica a maior sabedoria no mestre.
2. Mas que significa segundo a carne? Segundo o que está à vista; segundo a vida presente; segundo a disciplina dos gentios. Em seguida, para que não parecesse estar em contradição consigo mesmo (pois ele convencera tanto o procônsul, At 13:12, quanto o areopagita, At 17:34, e Apolo, At 18:26 — e, por meio de Áquila e Priscila, vimos também outros sábios se converterem ao Evangelho —), não disse: nenhum sábio, mas: não muitos sábios. Pois não foi de propósito (ἀποκεκληρωμένως) que chamou os ignorantes e passou ao largo dos sábios; antes, recebeu também estes, ainda que os outros em número muito maior. E por quê? Porque o sábio segundo a carne está repleto de extrema loucura; e é ele quem, sobretudo, corresponde ao termo insensato, quando se recusa a lançar fora sua doutrina corrompida. E assim como, no caso de um médico que quisesse ensinar a certas pessoas os segredos de sua arte, aqueles que já sabem algumas poucas coisas, tendo um modo mau e perverso de exercer a arte, ao qual fazem questão de se apegar, não suportariam aprender com docilidade, ao passo que os que nada sabiam acolheriam com a maior prontidão o que se lhes dissesse — assim também sucedeu aqui. Os iletrados estavam mais abertos ao convencimento, pois estavam livres da extrema loucura de se considerarem sábios. Pois, com efeito, o excesso de loucura está nestes mais do que em quaisquer outros — nestes, digo, que confiam ao raciocínio coisas que não podem ser apreendidas senão pela fé. Assim, suponhamos o ferreiro puxando com as tenazes o ferro em brasa; se alguém insistisse em fazê-lo com a mão, nós o julgaríamos culpado de extrema loucura: da mesma maneira, os filósofos que insistiram em descobrir estas coisas por si mesmos desprezaram a fé. E foi por isso que não encontraram nenhuma das coisas que buscavam.
Não muitos poderosos, não muitos nobres; pois também estes estão repletos de soberba. E nada é tão inútil para um conhecimento exato de Deus quanto a arrogância e o estar pregado (προσηλῶσθαι) às riquezas: pois estas dispõem o homem a admirar as coisas presentes e a não fazer caso do futuro; e obstruem os ouvidos pela multidão dos cuidados: mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo — o que é o maior sinal de vitória: que sejam iletrados aqueles por meio de quem Ele vence. Pois os gregos não sentem tanta vergonha quando são derrotados por meio dos sábios; mas então se confundem, quando veem o artesão e o tipo de pessoa que se encontra no mercado ser mais filósofo do que eles próprios. Por isso ele mesmo também disse: Para que confundisse os sábios. E não foi apenas neste caso que Ele assim procedeu, mas também no que se refere às demais vantagens da vida. Pois, prosseguindo, Ele escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes. Pois não somente chamou pessoas iletradas, mas também necessitadas, e desprezíveis, e obscuras, para humilhar aqueles que estavam em posições elevadas.
Em termos humanos, não era possível que pescadores levassem a melhor sobre filósofos, mas foi isso o que sucedeu pelo poder da graça de Deus.
E as coisas vis do mundo, e as coisas desprezadas, e as coisas que não são, para reduzir a nada as coisas que são. Ora, que chama Ele de coisas que não são? Aquelas pessoas que são tidas por nada, por causa de sua grande insignificância. Assim manifestou Ele o seu grande poder, derrubando os grandes por meio daqueles que parecem não ser nada. O mesmo exprime ele alhures, quando diz: "Porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Cor 12:9). Pois é grande poder ensinar a párias e a homens que jamais se aplicaram a nenhum ramo do saber, a discorrerem, de repente, sabiamente sobre as coisas que estão acima dos céus. Suponhamos um médico, um orador, ou qualquer outro: tanto mais o admiramos quando ele convence e instrui os que são inteiramente iletrados. Ora, se incutir num homem sem instrução as regras de uma arte já é coisa muito admirável, quanto mais as coisas que pertencem a tão elevada filosofia.
3. Mas não foi apenas por causa do prodígio, nem para mostrar o seu próprio poder, que Ele fez isto, mas também para refrear os arrogantes. E por isso disse Ele antes: Para confundir os sábios e os fortes, para reduzir a nada as coisas que são, e aqui de novo,
Pois o próprio Deus mostrou que não é possível sermos salvos somente por nós mesmos: e isto Ele o fez desde o princípio. Pois nem então podiam os homens ser salvos por si mesmos; mas era necessário que contemplassem a beleza do céu, e a extensão da terra, e ainda a massa da criação, para que, assim, fossem conduzidos pela mão até o grande artífice de todas as obras. E Ele fez isto, reprimindo de antemão a presunção que depois haveria de surgir. Assim como um mestre que houvesse ordenado a seu discípulo que o seguisse por onde quer que o conduzisse, ao vê-lo antecipar-se, desejando aprender tudo por si mesmo, o deixasse extraviar-se de todo; e, depois de lhe provar que era incapaz de adquirir o conhecimento, viesse então, por fim, a ensinar-lhe aquilo que ele mesmo tinha a ensinar: assim também Deus ordenou, no princípio, que o buscassem por meio da noção que a criação proporciona; mas, como não quiseram, Ele, depois de mostrar pela experiência que não bastam a si mesmos, os conduz de novo a Si por outro caminho. Deu-lhes por tábua o mundo; mas os filósofos não estudaram nessas coisas, nem quiseram obedecer-Lhe, nem aproximar-se dEle por aquele caminho que Ele mesmo havia ordenado. Introduz Ele, então, outro caminho, mais evidente que o primeiro; um caminho capaz de convencer que o homem não basta a si mesmo, por si só. Pois então podiam suscitar-se escrúpulos de raciocínio, e empregar-se a sabedoria gentílica, da parte daqueles a quem Ele, por meio da criação, ia conduzindo pela mão; mas agora, a menos que o homem se torne insensato, isto é, a menos que abandone todo raciocínio e toda sabedoria, e se entregue à fé, é impossível ser salvo. Vedes que, além de facilitar o caminho, extirpou com isto uma doença não pequena, a saber, ao proibir jactar-se e ter pensamentos soberbos: que nenhuma carne se glorie; pois daí veio o pecado, de que os homens insistiam em ser mais sábios que as leis de Deus; não querendo obter o conhecimento do modo como Ele o havia estabelecido: e por isso não o obtiveram de modo algum. Assim foi também desde o princípio. Disse Deus a Adão: Faze tal coisa, e tal outra não deves fazer. Ele, cuidando descobrir algo mais, desobedeceu; e até mesmo o que tinha, perdeu. Falou aos que vieram depois: Não vos detenhais na criatura; mas, por meio dela, contemplai o Criador. Estes, porém, como que descobrindo algo mais sábio do que fora ordenado, puseram em movimento sinuosidades inumeráveis. Daí continuaram a chocar-se consigo mesmos e uns com os outros, e nem encontraram a Deus, nem tiveram acerca da criatura conhecimento algum distinto; nem tampouco possuíram sobre ela opinião justa e verdadeira. Por isso, novamente, com mão bem forte (ἐκ πολλοῦ τοῦ περίοντος), abatendo a presunção deles, admitiu primeiro os incultos, mostrando com isso que todos os homens necessitam da sabedoria que vem do alto. E não somente na questão do conhecimento, mas também em todas as demais coisas, constituiu Ele tanto os homens como todas as outras criaturas de modo a terem grande necessidade dEle; para que tivessem também nisto um motivo dos mais fortes para a submissão e o apego, a fim de que, afastando-se, não perecessem. Por esta razão Ele não permitiu que bastassem a si mesmos. Pois, se ainda agora muitos, apesar de sua indigência, O desprezam, se assim não fosse, até onde não teriam se desviado na soberba? De modo que Ele os deteve de se gloriarem como faziam, não por qualquer malquerença para com eles, mas para afastá-los da destruição que daí resultaria.
Deus não escolheu apenas os iletrados, mas também os necessitados, os desprezíveis e os obscuros, a fim de humilhar os que ocupam lugares elevados.
Deus não apenas nos fez sábios, justos e santos em Cristo. Deu-nos a Cristo para que jamais necessitássemos de outra coisa para a nossa salvação.
A expressão "d'Ele", suponho eu, ele a emprega aqui não em referência à nossa introdução no ser, mas com referência à fé: isto é, ao fato de nos termos tornado filhos de Deus, não do sangue, nem da vontade da carne (João 1:13). Não penseis, pois, que, havendo Ele removido nosso motivo de glória, nos deixou assim desamparados: pois há outro, um maior motivo de glória, dom Seu. Pois sois filhos Daquele em cuja presença não é lícito gloriar-se, tendo-vos tornado tais por meio de Cristo. E, tendo dito que Deus escolheu as coisas loucas do mundo, e as vis, ele significa que estas são mais nobres do que todas as outras, por terem a Deus por Pai. E desta nossa nobreza, não este ou aquele homem, mas Cristo é a causa, tendo-nos feito sábios, e justos, e santos. Pois é isso que significam as palavras: "Ele nos foi feito sabedoria."
Quem, pois, é mais sábio do que nós, que não possuímos a sabedoria de Platão, mas o próprio Cristo, tendo Deus assim o querido?
Mas que significa "de Deus"? Sempre que fala de grandes coisas a respeito do Unigênito, ele acrescenta menção do Pai, para que ninguém pense que o Filho é ingênito. Portanto, tendo afirmado ser tão grande o Seu poder, e tendo referido tudo ao Filho, dizendo que Ele nos foi feito sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção — remetendo novamente tudo, por meio do Filho, ao Pai, ele diz: "de Deus".
Mas por que não disse "Ele nos fez sábios", e sim "foi feito para nós sabedoria"? Para mostrar a copiosidade do dom. Como se dissesse: Ele nos deu a Si mesmo. E observai como ele prossegue em ordem. Pois primeiro Ele nos fez sábios, livrando-nos do erro, e depois justos e santos, dando-nos o Espírito; e assim nos livrou de todos os nossos males, a ponto de sermos d'Ele — e isto não se entende como comunicação de essência (οὐσιώσεως), mas se diz em referência à fé. Alhures o encontramos dizendo: "Fomos feitos justiça nEle"; nestas palavras: "Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós, para que nós fôssemos feitos justiça de Deus nEle" (2 Coríntios 5:21); mas agora ele diz: "Ele foi feito justiça para nós", de modo que quem quiser possa participar copiosamente. Pois não foi este homem ou aquele que nos fez sábios, mas Cristo. Aquele, portanto, que se gloria, glorie-se nEle, não em tal ou qual homem. De Cristo procederam todas as coisas. Por isso, tendo dito "que nos foi feito sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção", ele acrescentou que, "conforme está escrito, aquele que se gloria, glorie-se no Senhor".
Por esta causa também ele havia investido veementemente contra a sabedoria dos gregos, para ensinar aos homens esta lição, e nenhuma outra: que (como de fato é apenas justo) se gloriassem no Senhor. Pois, quando por nós mesmos buscamos as coisas que estão acima de nós, nada há mais tolo, nada mais fraco do que nós. Em tal caso, podemos até ter uma língua bem afiada; mas estabilidade de doutrina não podemos ter. Antes, os raciocínios, quando sós, são como teias de aranha. Pois a tal ponto de loucura chegaram alguns, que dizem não haver nada de real em todo o ser: sim, afirmam positivamente que todas as coisas são contrárias ao que aparentam.
Não digas, pois, que algo provém de ti mesmo, mas em tudo gloria-te em Deus. A ninguém atribuas coisa alguma, jamais. Pois, se a Paulo nada se deve atribuir, muito menos a quaisquer outros. Porque diz ele: "Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento" (1 Cor 3:6). Aquele que aprendeu a gloriar-se no Senhor jamais se ensoberbecerá, mas será moderado em todo tempo, e agradecido em todas as circunstâncias. Não é assim, porém, o pensamento dos gregos; eles reportam tudo a si mesmos; por isso, até de homens fazem deuses. A tamanha vergonha os precipitou a soberba desesperada. (ἐξετραχήλισεν)
5. É tempo, pois, no que resta, de sair a campo contra estes. Recordai onde deixamos nosso discurso no dia anterior. Dizíamos que não era possível, segundo a causa e o efeito humanos, que pescadores levassem a melhor sobre filósofos. Todavia, tornou-se possível: donde é evidente que por graça assim se deu. Dizíamos que nem sequer lhes era possível conceber tão grandes façanhas: e mostramos que eles não apenas as conceberam, mas as levaram a termo com grande facilidade. Tratemos hoje do mesmo ponto de nosso argumento, a saber: donde lhes veio ao pensamento esperar vencer o mundo, senão por terem visto a Cristo depois de ressuscitado? Quê? Estariam eles fora de si, para contarem com semelhante coisa de modo inconsiderado e ao acaso? Pois isso ultrapassa toda loucura: esperar, sem a graça divina, êxito em tão grande empreendimento. Como o teriam alcançado, se estivessem insanos e delirantes? Mas, se estavam em seu perfeito juízo, como de fato os acontecimentos o mostraram, como, senão por terem recebido penhores dignos de crédito vindos dos céus e por gozarem da influência que vem do alto, empreenderam sair a tão grandes guerras, arriscar-se contra a terra e o mar, e despir-se e manter-se de pé tão nobremente, em vista de uma mudança nos costumes de todo o mundo, havia tanto tempo fixados — sendo eles apenas doze homens?
E, mais ainda, o que os levou a esperar convencer seus ouvintes, convidando-os ao céu e às moradas de cima? Ainda que tivessem sido educados em honra, riqueza, poder e erudição, nem assim seria de todo verossímil que se dispusessem a tão pesado empreendimento. Contudo, haveria então algo mais de razão em sua expectativa. Mas, tal como de fato se passa o caso, alguns deles se haviam ocupado de lagos, outros de peles, outros das cobranças de impostos: ocupações das quais nenhuma é mais imprópria para a filosofia e para persuadir os homens a nutrir altos pensamentos, sobretudo quando não se tem exemplo algum a mostrar. Antes, não só não tinham exemplos que tornassem seu êxito verossímil, como tinham exemplos contrários a toda verossimilhança de êxito, e estes bem próximos de casa. (ἔναυλα) Pois muitos, por tentarem inovações, haviam sido de todo extintos — não digo entre os gregos, pois isso nada seria, mas entre os próprios judeus, naquele mesmíssimo tempo; os quais, não com doze homens, mas com grande número de homens, se haviam dedicado à obra. Assim, tanto Teudas quanto Judas, tendo grandes multidões de homens, pereceram juntamente com seus discípulos. E o temor nascido de tais exemplos bastaria para conter estes, não estivessem eles fortemente persuadidos de que a vitória, sem o poder divino, era de todo impossível.
Ora, ainda que esperassem prevalecer, com que espécie de esperanças empreenderiam eles perigos tão grandes, senão porque tinham os olhos postos no mundo vindouro? Mas suponhamos que não esperassem menos que a vitória; que ganho esperavam obter em trazer todos os homens a Ele, que não ressuscitou, como dizeis? Pois se agora os homens que creem na promessa do reino dos céus e em bênçãos sem número enfrentam os perigos com relutância, como teriam suportado tantos em vão — antes, para seu próprio mal? Porque, se as coisas que se fizeram não aconteceram de fato, se Cristo não subiu ao céu, então, em seu obstinado zelo de inventar tais coisas e persuadir delas o mundo inteiro, estariam ofendendo a Deus, e deveriam esperar dez mil raios do alto.
6. Ou, considerando-o de outro modo: se sentiam este grande zelo enquanto Cristo vivia, com a Sua morte tê-lo-iam deixado extinguir-se. Pois Ele lhes teria parecido, não houvesse ressuscitado, uma espécie de enganador e impostor. Não sabeis vós que os exércitos, enquanto vive o general e o rei, ainda que fracos, permanecem unidos; mas, partindo aqueles que ocupam tal posto, por mais fortes que sejam, dispersam-se?
Dizei-me, pois: quais foram os argumentos sedutores sobre os quais agiram, ao se disporem a tomar o Evangelho e ir a todo o mundo? Faltava alguma espécie de impedimento que os detivesse? Se fossem loucos (pois não cessarei de repeti-lo), de modo algum teriam prosperado, porquanto ninguém segue o conselho de loucos. Mas, se prosperaram, como de fato prosperaram, e o próprio acontecimento o prova, então não houve homens mais sábios do que eles. Ora, se nenhum era tão sábio quanto eles, é bem claro que não teriam entrado levianamente na pregação. Se não O tivessem visto depois de ressuscitado, que havia de suficiente para arrastá-los a esta guerra? Que coisa não os teria antes desviado dela? Ele lhes dissera: Depois de três dias ressuscitarei, e fizera promessas acerca do reino dos céus. Disse que dominariam o mundo inteiro, depois de terem recebido o Espírito Santo; e outras dez mil coisas além destas, que ultrapassam toda a natureza. De sorte que, se nenhuma destas coisas se tivesse cumprido, ainda que cressem n'Ele enquanto vivo, depois de Sua morte não teriam crido n'Ele, a não ser que O tivessem visto depois de ressuscitado. Pois disseram: "Depois de três dias", disse Ele, "ressuscitarei" — e não ressuscitou. Prometeu que daria o Espírito, e não O enviou. Como, pois, hão de merecer crédito conosco as Suas palavras acerca do outro mundo, quando as Suas palavras acerca deste são postas à prova e achadas em falta?
Suas indagações se dirigem ainda a uma pergunta pungente: se Ele não ressuscitou, por que anunciaram que ressuscitara? Porque O amavam, dirás. Mas era antes verossímil que passassem, depois disso, a odiá-Lo, por havê-los enganado e traído; e porque, tendo-os elevado a inumeráveis esperanças, e apartado da casa, dos pais e de todas as coisas, e suscitado contra eles a hostilidade de toda a nação dos judeus, Ele os havia, afinal de contas, traído. E se, na verdade, a coisa fosse fruto de fraqueza, poderiam tê-la perdoado; mas, tal como se dava, haveria de ser reputada como fruto de malícia extrema. Pois cumpria-Lhe dizer a verdade, e não prometer o céu, sendo Ele, como dizeis, homem mortal. De sorte que o mais verossímil seria justamente o contrário: proclamar o engano e declará-Lo impostor e enganador. Assim, novamente, se veriam livres de todos os seus perigos; assim poriam fim à guerra. Além disso, vendo que os judeus deram dinheiro aos soldados para que dissessem que haviam roubado o corpo, se os discípulos se tivessem adiantado a dizer: "Nós O roubamos, Ele não ressuscitou", que honra não haveriam de gozar? Assim estava em seu poder serem honrados, mais ainda, coroados. Por que razão, pois, trocaram por insultos e perigos essas vantagens, se não foi algum poder divino que os moveu e se mostrou mais forte que tudo isso?
7. Mas, se ainda não vos convencemos, considerai também isto: que, se não fosse assim, ainda que estivessem tão bem dispostos, não haveriam de pregar este Evangelho em Seu nome, mas antes O haveriam de tratar com aversão. Pois sabeis que nem sequer os nomes daqueles que nos enganam desse modo estamos dispostos a ouvir. Mas por que razão pregaram também o Seu nome? Esperando alcançar, por meio Dele, a vitória? Na verdade, o contrário é que lhes era natural esperar: que, ainda que estivessem prestes a prevalecer, se arruinariam ao trazer à luz o nome de um enganador. Mas, se quisessem lançar à sombra os acontecimentos passados, cumpria-lhes calar; ao menos, batalhar por eles com afinco era excitar cada vez mais tanto a hostilidade séria quanto o escárnio. De onde, pois, lhes veio ao pensamento inventar tais coisas? Digo "inventar": pois o que haviam ouvido, haviam-no esquecido. Mas, se, quando não havia temor algum, esqueceram muitas coisas, e alguns nem sequer entendiam (como também o próprio Evangelista diz), agora que sobre eles vinha tamanho perigo, como poderia ser doutro modo senão que tudo lhes escapasse por completo da memória? Para que falo de palavras? Quando até o amor que tinham para com o próprio Mestre começou pouco a pouco a esmorecer, por temor do que estava para vir: do que também Ele os repreendeu. Pois, se antes disto se apegavam a Ele, e Lhe perguntavam continuamente: "Para onde vais?", depois, porém, ao prolongar Ele o discurso a tal extensão, e ao declarar os terrores que, no próprio tempo da Cruz e depois da Cruz, haveriam de sobrevir-lhes, ficaram apenas emudecidos e gelados de temor — ouvi como Ele lhes alega este mesmo ponto, dizendo: Nenhum de vós Me pergunta: Para onde vais? Mas, porque vos disse estas coisas, a tristeza encheu o vosso coração (Jo 16,5-6). Ora, se a expectativa de que Ele morreria e ressuscitaria era para eles tamanha tristeza, se não tivessem chegado a vê-Lo depois de ressuscitado, como poderia ser isso menos que um aniquilamento? Sim, teriam desejado afundar-se nas profundezas da terra, tanto pelo abatimento de haverem sido tão enganados, quanto pelo temor do futuro, sentindo-se sobremaneira angustiados.
Ademais: donde vieram as suas altas doutrinas? Pois os pontos mais elevados, disse Ele, ouvi-los-iam depois. Porque, diz Ele, João 16:12 muitas coisas tenho ainda a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. De modo que as coisas não ditas eram as mais altas. E um dos discípulos nem sequer estava disposto a partir com Ele para a Judeia, ao ouvir falar dos perigos, mas disse: Vamos também nós, para que morramos com Ele, João 11:16 tomando isso a mal, porque esperava que havia de morrer. Ora, se aquele discípulo, estando ainda com Ele, esperava morrer e por isso recuava, que não haveria de esperar depois, quando separado dEle e dos demais discípulos, e quando a exposição de sua conduta desavergonhada fosse tão completa?
8. Além disso, que tinham eles a dizer quando saíam a pregar? Pois a paixão, na verdade, todo o mundo a conhecia: porquanto fora Ele suspenso no alto, sobre o madeiro da cruz (ἰκρίου), e em pleno meio-dia, e em cidade principal, e em festa solene, e daquela da qual menos era permitido que alguém se ausentasse. Mas a ressurreição nenhum homem viu, dentre os de fora: o que não era pequeno obstáculo para persuadi-los. Ademais, que Ele fora sepultado, era assunto comum entre todos: e que os discípulos furtaram o Seu corpo, os soldados e todos os judeus o declaravam: mas que Ele ressuscitara, nenhum dos de fora sabia por tê-lo visto. Sobre que fundamento, pois, esperavam eles convencer o mundo? Pois se, quando os milagres se operavam, certos soldados foram persuadidos a testemunhar o contrário, sobre que fundamento esperavam estes, sem milagres, fazer a obra de pregadores, e sem terem sequer um vintém, convencer terra e mar acerca da ressurreição? Ademais, se por desejo de glória tentaram isto, com muito maior razão teriam atribuído as doutrinas cada um a si mesmo, e não a Ele que estava morto e desaparecido. Dir-se-á que os homens não lhes teriam dado crédito? E qual dos dois, sendo pregado, era mais provável que lhes granjeasse a fé? Aquele que fora preso e crucificado, ou aqueles que haviam escapado das mãos dos judeus?
9. Dizei-me, em seguida: com que propósito haveriam de tomar tal rumo? Não se dirigiram eles, tão logo deixaram a Judeia, às cidades dos gentios, mas percorreram, de um lado a outro, os limites daquela terra. Mas como, a não ser operando milagres, haveriam de convencer? Pois, se de fato os operaram (e operaram-nos, sim), foi isso obra do poder de Deus. Se, por outro lado, nenhum operaram e ainda assim prevaleceram, tanto mais admirável foi o acontecido. Acaso não conheciam eles os judeus — dizei-me — e sua má índole, e sua alma repleta de rancores? Pois apedrejaram até mesmo a Moisés (Nm 14,10; cf. Êx 17,4), depois do mar que haviam atravessado a pé enxuto; depois da vitória e daquele admirável troféu que ele, sem derramamento de sangue, por meio de suas próprias mãos, ergueu sobre os egípcios que os haviam escravizado; depois do maná; depois das rochas e das fontes de rios que delas brotaram; depois de inúmeros milagres na terra do Egito, no Mar Vermelho e no deserto. A Jeremias lançaram numa cisterna, e a muitos dos profetas mataram. Ouvi, por exemplo, o que diz Elias, depois daquela terrível fome, e da admirável chuva, e do fogo que fez descer do céu, e do estranho holocausto; empurrado que foi até o extremo confim de sua terra: Senhor, mataram os teus profetas, derrubaram os teus altares, e só eu fiquei, e buscam tirar-me a vida (1Rs 19,10). E, no entanto, aqueles que assim eram perseguidos não perturbavam nenhuma das instituições estabelecidas. Dizei-me, pois, que motivo teriam os homens para dar atenção a estes de quem falamos? Pois, de um lado, eram pessoas mais desprezíveis que qualquer dos profetas; de outro, introduziam exatamente as mesmas novidades que haviam levado os judeus a pregar na cruz até o seu próprio Senhor.
E, sob outro aspecto ainda, parecia menos incompreensível que Cristo proferisse tais coisas do que que eles o fizessem; pois Ele, poderiam supor, assim agia para alcançar glória para si mesmo; a estes, porém, tanto mais odiariam, por travarem guerra contra eles em favor de outrem.
10. Mas acaso as leis dos romanos os ajudaram? Antes, por elas mais se envolveram em dificuldades. Pois assim rezava a sua sentença: "Todo aquele que se faz rei não é amigo de César" (Jo 19,12). De modo que isto só bastava para os impedir: que eles, discípulos daquele que era tido por usurpador, quisessem depois fortalecer a causa dEle. Que coisa, pois, no mundo os teria lançado a correr tão grandes perigos? E com que afirmações a respeito dEle poderiam eles ganhar crédito? Que fora crucificado? Que nascera de uma pobre mulher judia, desposada com um carpinteiro judeu? Que era de uma nação odiada pelo mundo? Ora, todas estas coisas bastavam não apenas para não persuadir nem atrair os ouvintes, mas até para causar repugnância a todos; e sobretudo quando afirmadas por um fabricante de tendas e um pescador. Não teriam, então, os discípulos ponderado todas estas coisas? A natureza tímida imagina mais do que a realidade, e tais eram as suas naturezas. Sobre que fundamento, pois, esperavam eles triunfar? Antes, não tinham esperança alguma, havendo inúmeras coisas que os desviariam, se acaso Cristo não tivesse ressuscitado. Não é, pois, bem manifesto, até para os mais irrefletidos, que, se não tivessem gozado de uma graça copiosa e poderosa, e recebido penhores da ressurreição, teriam sido incapazes — não digo de fazer e empreender estas coisas — mas até mesmo de as conceber em suas mentes? Pois se, havendo tão grandes obstáculos ao seu simples projetar — não digo ao seu êxito —, ainda assim projetaram e levaram a efeito e realizaram coisas maiores do que toda expectativa, qualquer um, suponho, pode ver que não por poder humano, mas por graça divina, operaram essas coisas.
Ora, estes argumentos devemos exercitar não somente entre nós mesmos, mas uns com os outros; e assim também nos será mais fácil a descoberta do que resta.
11. E não penseis, por serdes artesão, que este gênero de exercício está fora de vosso alcance; pois também Paulo era fabricante de tendas.
Sim, dirá alguém, mas naquele tempo ele estava também repleto de graça abundante, e a partir dela falava todas as coisas. Bem; mas antes dessa graça, ele estava aos pés de Gamaliel; e mais ainda, recebeu a graça precisamente porque demonstrou um espírito digno da graça; e, depois disso, voltou novamente a pôr as mãos em seu ofício. Que ninguém, portanto, dentre os que possuem um ofício se envergonhe; mas antes aqueles que foram criados na ociosidade e nada fazem, que se servem de muitos criados e são atendidos por um séquito imenso. Pois sustentar-se por trabalho árduo e contínuo é uma espécie de ascese. As almas de tais homens são mais lúcidas, e suas mentes mais bem temperadas. Porque o homem que nada tem a fazer está mais propenso a dizer muitas coisas ao acaso, e a fazer muitas coisas ao acaso; e passa o dia inteiro ocupado com nada, tomado inteiramente por uma imensa letargia. Mas aquele que está ocupado não facilmente acolherá em si mesmo coisa alguma inútil, seja em obras, seja em palavras, seja em pensamentos; pois toda a sua alma está de todo entregue ao seu laborioso modo de vida. Não desprezemos, pois, os que se sustentam pelo trabalho de suas próprias mãos; antes chamemo-los bem-aventurados por isso mesmo. Pois dize-me: que agradecimento te é devido, quando, tendo recebido tua parte de teu pai, não segues nenhum ofício, mas dissipas tudo ao acaso? Não sabes que nem todos teremos de prestar a mesma conta, mas os que aqui gozaram de maior licença, uma conta mais rigorosa; e os que foram afligidos pelo trabalho, ou pela pobreza, ou por qualquer outra coisa desse gênero, uma não tão severa? E isto é manifesto pelo exemplo de Lázaro e do rico. Pois assim como tu, por teres negligenciado o reto uso do ócio, és justamente acusado; assim também o pobre, que, tendo pleno labor, empregou o resto de seu tempo em retos objetos, grandes serão as coroas que há de receber. Mas dirás, talvez, que ao menos os deveres de soldado te desculpariam; e lançarás sobre eles a culpa de tua falta de ócio. Tal desculpa não se funda na razão. Pois Cornélio era centurião, e nem por isso o cinto militar prejudicou o rigor de sua vida. Tu, porém, quando andas em festas com dançarinos e histriões, e desperdiças inteiramente a vida no teatro, jamais pensas em desculpar-te de tais empenhos pela necessidade do serviço militar ou pelo temor dos governantes; mas quando é a Igreja que te chama, então surgem esses impedimentos intermináveis.
E que dirás naquele dia, quando vires a chama, e os rios de fogo, e as cadeias que jamais se quebram; e ouvires o ranger de dentes? Quem se levantará por ti naquele dia, quando vires aquele que trabalhou com suas próprias mãos e viveu retamente, gozando de toda glória; e a ti mesmo, que agora vestes trajes finos e exalas perfumes, entregue a um sofrimento incurável? Que proveito te trará então tua riqueza e tua superfluidade? E o artesão — que dano lhe trará então sua pobreza?
Portanto, para que não venhamos a sofrer então, temamos agora o que é dito, e que todo o nosso tempo se gaste em ocupação com as coisas verdadeiramente indispensáveis. Pois assim, tendo propiciado a Deus quanto aos pecados passados, e acrescentando boas obras para o futuro, poderemos alcançar o Reino dos céus: pelo favor e pela benignidade, etc., etc.
Nunca coisa alguma esteve tão preparada para o combate quanto o espírito de Paulo; ou antes, direi, não o seu espírito (pois não foi ele mesmo o inventor destas coisas), mas nunca houve nada igual à graça que operava dentro dele, a qual tudo vence. Pois bastante já era o que fora dito antes para derrubar a soberba dos que se gloriavam da sabedoria; e até mesmo uma parte disso teria bastado. Mas, para aumentar o esplendor da vitória, ele torna a combater pelos pontos que vinha afirmando, pisando o inimigo já prostrado. Considerai deste modo. Ele havia trazido à luz a profecia que diz: Destruirei a sabedoria dos sábios. Mostrara a sabedoria de Deus, em que, por meio daquilo que parecia loucura, destruiu Ele a filosofia dos gentios; mostrara que a loucura de Deus é mais sábia que os homens; mostrara que não somente ensinou por meio de homens indoutos, mas também escolheu homens indoutos para que dEle aprendessem. Agora mostra que tanto a coisa mesma que foi pregada quanto o modo de pregá-la eram suficientes para escandalizar as pessoas; e, no entanto, não as escandalizaram. Assim: não somente, diz ele, são indoutos os discípulos, mas também eu mesmo, que sou o pregador.
Por isso diz: E eu, irmãos (de novo usa a palavra irmãos, para suavizar a aspereza da afirmação), não vim com excelência de palavras, anunciando-vos o testemunho de Deus. Que dizeis, então? Dizei-me: se tivésseis escolhido vir "com excelência", teríeis podido? Eu, na verdade, ainda que o quisesse, não teria podido; mas Cristo, se o quisesse, poderia. Mas não o quis, a fim de tornar mais brilhante o Seu troféu. Por isso também, em passagem anterior, mostrando que era obra Sua, vontade Sua que a palavra fosse pregada de modo indouto, disse: Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho; não com sabedoria de palavras. Mas muito maior, sim, infinitamente maior, do que o querer de Paulo, é o fato de Cristo tê-lo querido.
Não, pois, diz ele, por ostentação de eloquência, nem armado de argumentos de fora, anuncio o testemunho de Deus. Não diz a pregação, mas o testemunho de Deus; palavra esta que, por si mesma, bastava para contê-lo. Pois ia pregando a morte; e por isso acrescentou: pois nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. Este era o sentido que quis transmitir: que estava de todo destituído da sabedoria que é de fora — como de fato dizia acima: não vim com excelência de palavras; pois é claro que também esta poderia ter possuído, já que aquele cujas vestes ressuscitavam mortos e cuja sombra expelia enfermidades, muito mais capaz era a sua alma de receber a eloquência. Pois esta é coisa que se pode ensinar; mas aquilo transcende toda arte. Ora, quem conhece coisas que estão além do alcance da arte, muito mais força devia ter para as coisas menores. Mas Cristo não o permitiu, pois não convinha. Com razão, pois, diz: Pois nada me propus saber; porquanto eu, também de minha parte, tenho exatamente a mesma vontade de Cristo.
E a mim parece que ele lhes fala em tom ainda mais baixo do que a quaisquer outros, a fim de reprimir-lhes a soberba. Assim, a expressão nada me propus saber foi dita em contraposição à sabedoria que é de fora. Pois não vim tecendo silogismos nem sofismas, nem dizendo-vos outra coisa senão que Cristo foi crucificado. Eles, na verdade, têm dez mil coisas a dizer, e sobre dez mil coisas discorrem, desenrolando longos cursos de palavras, forjando argumentos e silogismos, compondo sofismas sem fim. Mas eu vim a vós dizendo nenhuma outra coisa senão que Cristo foi crucificado — e a todos eles ultrapassei; sinal este que nenhuma palavra pode exprimir do poder dAquele que prego.
Temia Paulo, de fato, o perigo? Sim, temia, pois, ainda que fosse Paulo, era ainda homem. Isto não se diz contra ele, mas antes acerca da fraqueza da natureza humana. De fato, honra o seu firme propósito de ânimo o fato de que, mesmo temendo a morte e os açoites, nada de mal fez por causa deste temor. Por isso, os que afirmam que Paulo não temia ser açoitado não somente não o honram, como diminuem a sua grandeza. Pois, se estava isento de temor, que constância ou domínio de si houve em suportar os perigos? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Este é ainda outro ponto: pois não somente são indoutos os crentes; não somente é indouto aquele que fala; não somente é de feição indouta todo o modo do ensino; não somente a própria coisa pregada bastava, por si só, para escandalizar as pessoas (pois a cruz e a morte eram a mensagem trazida); mas, juntamente com isto, havia também outros obstáculos: os perigos, as ciladas, o temor cotidiano e o ser perseguido de um lugar a outro. Pois a palavra fraqueza, nele, em muitos lugares, está no lugar das perseguições, como também alhures: A minha fraqueza que tinha na carne não a desprezastes (Gl 4,13-14); e ainda: Se é necessário gloriar-me, gloriar-me-ei do que toca à minha fraqueza (2 Cor 11,30). De quê? O governador sob o rei Aretas guardava a cidade dos damascenos, querendo prender-me (2 Cor 11,32). E de novo: Pelo que me comprazo nas fraquezas (2 Cor 12,10); e então, dizendo em que consistiam, acrescentou: nas injúrias, nas necessidades, nas angústias. E aqui faz a mesma afirmação; pois, tendo dito e eu estive em fraqueza, etc., não parou neste ponto, mas, explicando a palavra fraqueza, faz menção dos seus perigos. Acrescenta ainda: e em temor, e em muito tremor, estive convosco.
Como dizeis? Temia também Paulo os perigos? Temia, sim, e temia-os excessivamente; pois, ainda que fosse Paulo, era, contudo, homem. Mas isto não é acusação contra Paulo, e sim fraqueza da natureza humana; e é para louvor do seu firme propósito de ânimo que, mesmo temendo a morte e os açoites, nada de mal fez por causa deste temor. De modo que os que afirmam que ele não temia os açoites não somente não o honram, mas antes diminuem grandemente os seus louvores. Pois, se não temia, que constância ou que domínio de si houve em suportar os perigos? Eu, de minha parte, por isso mesmo o admiro; porque, estando em temor — e não apenas em temor, mas até em tremor diante dos seus perigos —, correu de tal modo que sempre conservou a sua coroa; e não cedeu a perigo algum na sua tarefa de purificar o mundo, semeando por toda parte, tanto por mar quanto por terra, o Evangelho.
Não diminui o evangelho dizer que foi pregado sem sabedoria. Pelo contrário, esta é a grande glória do evangelho, o sinal mais claro de que é divino e procede do céu. Quando a demonstração se faz pela sabedoria das palavras humanas, o argumento pior vence muitas vezes o melhor, porque aquele que o defende possui maior habilidade retórica. Mas neste caso não é assim, porque o Espírito não entra em alma impura, nem pode jamais ser vencido, por mais que se empregue discurso engenhoso para combatê-lo. A demonstração pelas obras e sinais é mais poderosa do que as meras palavras.
E a minha palavra e a minha pregação não estiveram em palavras persuasivas de sabedoria: isto é, não tinham a sabedoria que é de fora. Ora, se a doutrina pregada nada tinha de sutil, e os que foram chamados eram indoutos, e o que pregava era da mesma condição, e a isto se acrescentava a perseguição, e o tremor e o temor, dizei-me: como venceram, sem o poder divino? E é por isto que, tendo dito a minha palavra e a minha pregação não estiveram em palavras persuasivas de sabedoria, acrescentou, mas em demonstração do Espírito e de poder.
Percebeis como a loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a fraqueza mais forte? Eles, de sua parte, sendo indoutos e pregando tal Evangelho, em suas cadeias e perseguição venceram os seus perseguidores. Por quê? Não foi por haverem oferecido aquela evidência que é do Espírito? Pois esta é, na verdade, demonstração confessada. Pois quem, dizei-me, depois de ver mortos ressuscitados e demônios expulsos, poderia deixar de admiti-lo?
Mas, vendo que há também prodígios enganadores, como os dos feiticeiros, remove também esta suspeita. Pois não disse simplesmente de poder, mas primeiro, do Espírito, e depois, de poder: significando que as coisas feitas eram espirituais.
Não é, pois, depreciação alguma que o Evangelho não tenha sido anunciado por meio de sabedoria; antes, é um mui grande ornamento. Pois isto, há de convir-se, é o sinal mais claro de que é divino e tem suas raízes do alto, dos céus.
A sabedoria humana negou a cruz, mas a fé proclamou o poder de Deus. A sabedoria não somente falhou em revelar as coisas que as pessoas buscavam, como também as incitava a gloriar-se das próprias realizações. Mas a fé não somente lhes deu a verdade, como também as incitou a glorificar a Deus.
Vedes como, de todo modo, ele expôs claramente o grande proveito desta ignorância e a grande perda desta sabedoria? Pois esta última anulou a Cruz, mas a primeira proclamou o poder de Deus: os que possuíam a última, além de não conseguirem descobrir nenhuma das coisas de que mais necessitavam, foram levados também a gloriar-se de si mesmos; os que possuíam a primeira, além de receberem a verdade, foram levados também a gloriar-se em Deus. Além disso, a sabedoria teria persuadido a muitos a suspeitar que a doutrina era de origem humana: esta, ao contrário, demonstrou claramente ser ela divina, e ter descido do céu. Ora, quando a demonstração se faz pela sabedoria das palavras, muitas vezes até o pior triunfa sobre o melhor, por possuir maior habilidade no discurso; e a falsidade ultrapassa a verdade. Mas neste caso não é assim: pois nem o Espírito entra em alma impura, nem, tendo nela entrado, pode jamais ser subjugado, ainda que toda a possível argúcia do discurso a assalte. Porque a demonstração pelas obras e pelos sinais é muito mais evidente do que a que se faz pelas palavras.
4. Mas dirá alguém, talvez: Se o Evangelho há de prevalecer e não tem necessidade de palavras, para que a Cruz não seja reduzida a nada, por que razão são agora retidos os sinais? Por que razão? Falas tu por incredulidade, não admitindo sequer que eles se realizaram nos tempos dos Apóstolos, ou buscas verdadeiramente saber? Se por incredulidade, tomarei primeiro posição contra isso. Digo, pois: se os sinais não se realizaram naquele tempo, como puderam eles, perseguidos e caçados, e trementes, e acorrentados, e feitos inimigos comuns do mundo, e expostos a todos como alvo de maus-tratos, e sem nada de seu que atraísse — nem discurso, nem aparência, nem riqueza, nem cidade, nem nação, nem família, nem profissão (ἐπιτήδευμα), nem glória, nem coisa alguma semelhante; mas tendo tudo em contrário: ignorância, baixeza, pobreza, ódio, inimizade, e opondo-se a sociedades inteiras, e tendo tal mensagem para anunciar — como, pergunto eu, produziram eles a convicção? Pois tanto os preceitos traziam muito labor, quanto as doutrinas, muitos perigos. E os que ouviam e deviam obedecer haviam sido criados no luxo e na embriaguez, e em grande maldade. Dize-me, pois, como persuadiram eles? De onde lhes vinha a credibilidade? Pois, como acabo de dizer, se sem sinais operaram a convicção, tanto maior parece a maravilha. Não aleguem, então, o fato de que os sinais não se realizam agora como prova de que não se realizaram então. Pois, como então foram operados com proveito, agora já não são mais assim operados.
Nem se segue necessariamente, do fato de o discurso ser o único instrumento de convicção, que agora a pregação se faça em sabedoria. Pois tanto aqueles que desde o princípio semearam a palavra eram homens sem instrução (ὶδιῶται) e iletrados, e nada falavam de si mesmos, mas distribuíam ao mundo as coisas que de Deus receberam; como também nós mesmos, no presente, não introduzimos invenções nossas, mas falamos a todos as coisas que deles recebemos. E nem sequer agora persuadimos por meio de argumentação; antes, tiramos das divinas Escrituras e dos milagres então realizados a prova do que dizemos. Por outro lado, também eles, naquele tempo, não persuadiam apenas por sinais, mas também discursando. E os sinais, e os testemunhos tirados das antigas Escrituras — não a argúcia das coisas ditas — faziam com que suas palavras parecessem mais poderosas.
5. Como, pois, direis, é que outrora os sinais eram convenientes, e agora inconvenientes? Suponhamos um caso (pois ainda estou a contender contra o grego, e por isso falo hipoteticamente daquilo que certamente há de suceder), suponhamos, digo, um caso; e consinta o incrédulo em crer em nossas afirmações, ainda que seja apenas por concessão (κἄν κατὰ συνδρομήν): por exemplo, que Cristo há de vir. Quando, pois, Cristo vier, e todos os anjos com Ele, e Se manifestar como Deus, e todas as coisas Lhe forem sujeitas, não crerá também o grego? É bem manifesto que ele também se prostrará e O adorará, e O confessará Deus, ainda que sua obstinação exceda todo o cálculo. Pois quem, à vista dos céus abertos e d'Ele vindo sobre as nuvens, e de toda a assembleia das potestades celestiais espalhada em torno d'Ele, e de rios de fogo que se aproximam, e de todos que assistem tremendo, não se prostrará diante d'Ele e O crerá Deus? Dizei-me, pois: será essa adoração e esse conhecimento imputados ao grego como fé? De modo nenhum. E por que não? Porque isso não é fé. Pois a necessidade fez isso, e a evidência das coisas vistas, e não procede da escolha, mas pela imensidão do espetáculo as faculdades da mente são arrastadas. Segue-se, pois, que quanto mais evidente e avassalador for o curso dos acontecimentos, tanto mais se abrevia a parte da fé. Por esta razão não se operam agora milagres.
E que isto é a verdade, ouvi o que Ele diz a Tomé (Jo 20,29): Bem-aventurados os que não viram e creram. Portanto, na proporção da evidência com que o milagre é apresentado, diminui-se a recompensa da fé. De modo que, se também agora se operassem milagres, sucederia o mesmo. Pois que então já não O conheceremos pela fé, Paulo o mostrou, dizendo: Porque andamos por fé, e não por vista (2 Cor 5,7). Como então, ainda que crêsseis, isso não vos seria imputado, porque a coisa é tão palpável, assim também agora, supondo-se que tais milagres se fizessem como outrora se faziam. Pois quando admitimos coisas que em nenhum grau e de nenhum modo se podem demonstrar pelo raciocínio, então é fé. Por isto o inferno é ameaçado, mas não mostrado: pois se fosse mostrado, sucederia de novo o mesmo.
6. Além disso, se é por sinais que buscais, mesmo agora podeis ver sinais, ainda que não da mesma espécie: as inumeráveis predições e sobre uma variedade infindável de assuntos: a conversão do mundo, o curso abnegado (φιλοσοφίαν) dos Bárbaros, a mudança dos costumes selvagens, a maior intensidade da piedade. Que predições?, direis. Pois todas as coisas há pouco mencionadas foram escritas depois que o presente estado das coisas já havia começado. Quando? Onde? Por quem? Dizei-me. Há quantos anos? Quereis cinquenta, ou cem? Não tinham eles então, há cem anos, absolutamente nada escrito. Como, pois, reteve o mundo as doutrinas e tudo o mais, já que a memória não bastaria? Como souberam que Pedro foi crucificado? (ἀνεσκολοπίσθη) Como poderia ter ocorrido à mente de homens que vieram depois de sucedidos os fatos predizer, por exemplo, que o Evangelho seria pregado em toda parte do mundo inteiro? Que as instituições judaicas cessariam, e jamais retornariam? E os que entregaram a vida pelo Evangelho, como teriam suportado ver o Evangelho adulterado? E como teriam os escritores obtido crédito, tendo cessado os milagres? E como poderiam os escritos ter penetrado até a região dos Bárbaros, e dos Índios, e até os próprios confins do oceano, se os que os relataram não fossem dignos de crédito? Os escritores, também, quem eram? Quando, como e por que escreveram sequer? Foi para alcançar glória para si mesmos? Por que, então, inscreveram os livros com nomes de outros homens? Por quê? Por desejo de recomendar a doutrina. Como verdadeira, ou como falsa? Pois se dizeis que a ela se apegaram sabendo-a falsa, sua adesão mesma seria de todo improvável; mas se como sendo verdade, não havia necessidade de invenções como as que dizeis. E, além disso, as profecias são de tal natureza que, até agora, o tempo não pôde forçar de lado o curso predito das coisas: (ὡς μὴ δυνάσθαι βιαζὲσθαι χρόνῳ τα εἰρημένα) pois a destruição de Jerusalém, com efeito, sucedeu há muitos anos; mas há também outras predições que se estendem, desde aquele tempo, até a Sua vinda; examinai-as como quiserdes: por exemplo, esta, Eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século (Mt 28:20); e, Sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16:18); e, Este Evangelho será pregado a todas as nações (Mt 24:14); e o que fez a mulher que era meretriz; e muitas outras além destas. De onde, pois, viria a verdade desta predição, se de fato fosse uma falsificação? Como não prevaleceram as portas do inferno contra a Igreja? Como está Cristo sempre conosco? Pois, se Ele não estivesse conosco, a Igreja não teria sido vitoriosa. Como foi o Evangelho difundido por toda parte do mundo? Também aqueles que falaram contra nós bastam para testemunhar a antiguidade dos livros; refiro-me a homens como Celso e aquele de Bataneia, que veio depois dele. Pois eles, suponho, não estavam falando contra livros compostos depois de seu tempo.
[7] E além disto, há todo o mundo, que com um só consentimento recebeu o Evangelho. Ora, não poderia ter havido tão grande concórdia de uma extremidade da terra à outra, se não fosse pela Graça do Espírito; do contrário, os autores da falsificação teriam sido prontamente descobertos. Tampouco poderiam tão grandes excelências ter tido origem em invenções e falsidades. Não vedes vós todo o mundo a converter-se; o erro extinto; a austera sabedoria (φιλοσοφίαν) dos antigos monges a resplandecer mais que o sol; os coros das virgens; a piedade entre os Bárbaros; todos os homens servindo sob um só jugo? Pois não fomos somente nós que predissemos estas coisas, mas também, desde o princípio, os Profetas. Pois não haveis de, suponho eu, cavilar também contra as predições destes: porquanto os livros estão em poder dos seus inimigos, e pelo zelo de certos gregos foram transladados para a língua grega. Muitas coisas, pois, também estes predizem acerca destas matérias, mostrando que era Deus quem havia de vir entre nós.
[8] Por que, então, nem todos creem agora? Porque as coisas degeneraram: e disto somos nós os culpados. (Pois é a partir daqui que o discurso se dirige também a nós.) Pois certamente nem mesmo então confiavam eles apenas nos sinais, mas também pelo modo de vida muitos dos convertidos eram atraídos. Pois: Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, diz Ele, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt 5,16). E: Todos eram de um só coração e de uma só alma, e ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns; e a distribuição era feita a cada um, conforme a sua necessidade (At 4,32-35); e viviam uma vida angélica. E se o mesmo se fizesse agora, converteríamos o mundo inteiro, mesmo sem milagres. Mas, entretanto, atentem para as Escrituras aqueles que hão de se salvar; pois ali encontrarão tanto estes feitos nobres, quanto outros ainda maiores que estes. Pois pode-se acrescentar que os próprios Mestres superaram os feitos dos demais, vivendo em fome, em sede e em nudez. Nós, porém, desejamos gozar de grande luxo, e descanso, e comodidade; não assim eles: eles clamavam em alta voz: Até a presente hora sofremos fome e sede, e estamos nus, e somos esbofeteados, e não temos morada certa (1 Cor 4,11). E alguns correram de Jerusalém até o Ilírico (Rm 15,19), e outro até a terra dos indianos, e outro até a dos mouros, e este a uma parte do mundo, aquele a outra. Ao passo que nós não temos sequer a coragem de sair da nossa própria terra; mas buscamos vida luxuosa, e casas esplêndidas, e todas as demais superfluidades. Pois qual de nós jamais definhou de fome por causa da palavra de Deus? Qual jamais habitou num deserto? Qual jamais partiu numa longínqua peregrinação? Qual dos nossos mestres viveu do trabalho de suas próprias mãos para socorrer os outros? Qual suportou a morte a cada dia? Por isso é que também os que estão conosco se tornaram indolentes. Pois suponhamos que alguém visse soldados e generais lutando com a fome, e a sede, e a morte, e com todas as coisas terríveis, e suportando o frio e os perigos e tudo isso como leões, e assim prosperando; e depois, relaxando aquele rigor, e tornando-se enervados, e amantes das riquezas, e dados aos negócios e às transações, e então vencidos por seus inimigos — seria extrema loucura buscar a causa de tudo isto. Ora, raciocinemos assim a nosso próprio respeito e a respeito dos nossos antepassados; pois nós também nos tornamos mais fracos que todos, e estamos pregados a esta vida presente.
E se alguém for encontrado que ainda guarde um vestígio da antiga sabedoria, deixando as cidades e as praças, e a sociedade do mundo, e o governo dos outros, retira-se para os montes: e se alguém lhe perguntar a razão desse retiro, ele inventa um pretexto que não pode obter aprovação. Pois, diz ele, para que eu também não pereça, e o gume da minha virtude não se embote, aparto-me. Ora, quanto melhor não seria para ti tornares-te menos agudo, e ganhares os outros, do que, permanecendo nas alturas, negligenciares teus irmãos que perecem?
Quando, contudo, uns descuram da virtude, e os que a estimam se apartam para longe das nossas fileiras, como havemos de subjugar os nossos inimigos? Pois ainda que se operassem agora milagres, quem se deixaria persuadir? Ou qual dos de fora nos daria ouvidos, prevalecendo assim a nossa iniquidade? Porque assim é: a nossa vida reta parece aos muitos o argumento mais digno de confiança entre os dois, pois os milagres admitem má interpretação da parte dos homens obstinados e maus, ao passo que uma vida pura terá abundante poder para calar a boca do próprio diabo.
9. Estas coisas digo tanto aos que governam quanto aos governados; e, antes de todos os outros, a mim mesmo; a fim de que o modo de vida manifesto em nós seja verdadeiramente admirável, para que, ocupando os postos que nos convêm, olhemos de cima todas as coisas presentes; desprezemos as riquezas, e não desprezemos o inferno; menosprezemos a glória, e não menosprezemos a salvação; suportemos aqui a fadiga e o trabalho, para que não caiamos ali no castigo. Assim guerreemos contra os gregos; assim os tomemos cativos com um cativeiro melhor que a liberdade.
Mas, enquanto dizemos estas coisas sem cessar, uma e outra vez, elas se realizam muito raramente. Todavia, sejam feitas ou não, é justo lembrar-vo-las continuamente. Pois, se alguns se ocupam em enganar com o seu belo discurso, tanto mais é dever daqueles que atraem de volta à verdade não se cansarem de dizer o que é proveitoso. E ainda: se os enganadores se valem de tantos artifícios — gastando dinheiro, como fazem, e aplicando argumentos, e sofrendo perigos, e fazendo ostentação de seu patrocínio —, muito mais devemos nós, que estamos ganhando os homens ao engano, suportar tanto perigos quanto mortes, e todas as coisas; para que ganhemos tanto a nós mesmos quanto aos outros, e nos tornemos irresistíveis aos nossos inimigos, e assim alcancemos as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade, etc.
Paulo está dizendo que ele, um homem tido por insensato e pregador de loucura, ao levar a melhor sobre os sábios, vence a sabedoria destes não pela insensatez, mas por uma sabedoria mais perfeita. Esta sabedoria é tão vasta e tão grande que aquela outra espécie parece ser insensatez. A verdadeira sabedoria é o evangelho, o meio da salvação através da cruz de Cristo. Os perfeitos são os que creem. São, de fato, "perfeitos", porque sabem que todas as coisas humanas são absolutamente impotentes, e por isso as desprezam, convencidos de que nada têm a ganhar delas. Assim são os verdadeiros crentes.
John Chrysóstomo — Homilia sobre 1 Coríntios (excerto)
A escuridão parece ser mais conveniente que a luz para os que sofrem de enfermidade na vista; por isso preferem recolher-se a algum aposento inteiramente sombreado. Assim sucede também com a sabedoria que é espiritual. Como a sabedoria que provém de Deus pareceu loucura aos que estão de fora, assim a sabedoria própria destes — sendo, na verdade, loucura — era por eles reputada sabedoria. E o resultado foi tal como se um homem, versado na arte da navegação, prometesse atravessar sem embarcação nem velas uma extensão ilimitada de mar, e depois se empenhasse, por meio de raciocínios, em provar que tal coisa é possível; enquanto outro, ignorante de tudo isso, confiando-se a um navio, a um piloto e a marinheiros, assim navegasse em segurança. Pois a aparente ignorância deste é mais sábia que a sabedoria daquele. Excelente, com efeito, é a arte de conduzir um navio; mas quando ela professa demasiado, converte-se em espécie de loucura. E assim é toda arte que não se contenta com os seus próprios e legítimos limites. Do mesmo modo, a sabedoria que é de fora seria sabedoria de fato, se tivesse gozado do auxílio do Espírito. Mas, como confiou tudo a si mesma e supôs que de nenhum tal auxílio necessitava, tornou-se loucura, ainda que parecesse sabedoria. Por isso, tendo-a primeiro exposto pelos próprios fatos, só então — e não antes — a chama de loucura; e tendo primeiro chamado de loucura a sabedoria de Deus, segundo o cômputo daqueles, só então — e não antes — a demonstra ser sabedoria. (Pois é depois de nossas provas, e não antes, que melhor podemos confundir os contraditores.)
Suas palavras são, pois: Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; porquanto, quando eu, tido por louco e pregador de loucuras, supero os sábios, venço a sabedoria não pela loucura, mas por uma sabedoria mais perfeita — sabedoria, além disso, tão ampla e tão maior, que a outra aparece como loucura. Por isso, tendo antes chamado a esta pelo nome com que a designavam então, e tendo provado sua vitória pelos próprios fatos, e mostrado a extrema loucura do partido contrário, ele então, e não antes, lhe confere o seu verdadeiro nome, dizendo: Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos. Sabedoria é o nome que dá ao Evangelho, ao método da salvação, ao ser salvo pela Cruz. Os perfeitos são os que creem. Pois são verdadeiramente perfeitos os que reconhecem todas as coisas humanas como de todo inúteis, e que as desprezam por estarem convencidos de que nada lucram com elas: tais eram os verdadeiros crentes.
Mas não uma sabedoria deste mundo. Pois de que serve a sabedoria que é de fora, a qual termina aqui e não avança mais adiante, nem sequer aqui é capaz de aproveitar aos que a possuem?
Ora, por príncipes deste mundo, aqui, entende ele não certos demônios, como alguns suspeitam, mas os que estão investidos de autoridade, os que estão no poder, os que reputam a coisa digna de contenda: filósofos, retóricos e escritores de discursos (λογογράφους). Pois estes eram a classe dominante e frequentemente se tornavam chefes do povo.
Chama-os príncipes deste mundo porque além do presente mundo o seu domínio não se estende. Por isso acrescenta ainda: os quais estão sendo reduzidos a nada; desacreditando-a tanto por si mesma quanto por aqueles que a exercem. Pois, tendo mostrado que ela é falsa, que é insensata, que nada pode descobrir, que é fraca, mostra ainda mais que é de curta duração.
2. Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério. Que mistério? Pois certamente Cristo diz, Mateus 10:27 (ηκούσατε; texto recebido ἀκούετε): O que ouvistes ao ouvido, proclamai sobre os telhados. Como, pois, o chama mistério? Porque nem anjo, nem arcanjo, nem qualquer outro poder criado o conheceu antes que de fato se realizasse. Por isso diz, Ef 3:10, Para que agora, aos principados e potestades nos lugares celestiais, seja conhecida, por meio da Igreja, a multiforme sabedoria de Deus. E isto fez Deus em nossa honra, para que eles não ouvissem os mistérios sem nós. Pois nós mesmos também, a quantos fazemos nossos amigos, costumamos dizer isto como prova segura de amizade para com eles: que a ninguém, de preferência a eles, revelamos os nossos segredos. Ouçam isto os que expõem à vergonha os segredos do Evangelho, e a todos indiscriminadamente exibem as pérolas e a doutrina, e que lançam as coisas santas aos cães, e aos porcos, e a raciocínios inúteis. Pois o Mistério não requer argumentação; mas apenas o que ele é, isso somente deve ser declarado. Pois já não será mistério, divino e íntegro em todas as suas partes, se lhe acrescentares algo também de teu próprio.
E também em outro sentido se chama mistério; porque não contemplamos as coisas que vemos, mas algumas coisas vemos e outras cremos. Pois tal é a natureza dos nossos Mistérios. Eu, por exemplo, sinto diversamente destas coisas do que sente um incrédulo. Ouço que Cristo foi crucificado; e imediatamente admiro a Sua benignidade para com os homens: o outro ouve, e a estima como fraqueza. Ouço que Ele se fez servo; e admiro o Seu cuidado por nós: o outro ouve, e conta isso como desonra. Ouço que Ele morreu; e maravilho-me com o Seu poder, porque, estando na morte, não foi por ela retido, antes rompeu as próprias cadeias da morte: o outro ouve, e presume que seja impotência. Ele, ouvindo falar da ressurreição, diz que a coisa é uma lenda; eu, ciente dos fatos que a demonstram, prostro-me e adoro a dispensação de Deus. Ele, ouvindo falar de um lavacro, considera-o mera água: mas eu não contemplo simplesmente a coisa que se vê, mas a purificação da alma que se dá pelo Espírito. Ele considera apenas que meu corpo foi lavado; mas eu creio que também a alma se tornou pura e santa; e conto isso como o sepulcro, a ressurreição, a santificação, a justiça, a redenção, a adoção, a herança, o reino dos céus, a plenária efusão (χορηγίαν) do Espírito. Pois não julgo as coisas que aparecem pela vista, mas pelos olhos da mente. Ouço falar do Corpo de Cristo: num sentido entendo a expressão, noutro sentido a entende o incrédulo.
E tal como as crianças, olhando para os seus livros, não conhecem o sentido das letras, nem sabem o que veem; e mais ainda, se mesmo um homem adulto for inábil nas letras, o mesmo lhe sucederá; mas o versado achará muito sentido armazenado nas letras, vidas inteiras e histórias mesmo: e uma epístola nas mãos de quem é inábil será tida por mero papel e tinta; mas aquele que sabe ler tanto ouvirá uma voz quanto conversará com os ausentes, e responderá o que quiser por meio da escrita: assim é também a respeito do Mistério. Os incrédulos, ainda que ouçam, parecem não ouvir: mas os fiéis, tendo a habilidade que provém do Espírito, contemplam o sentido das coisas ali armazenadas. Foi isto mesmo, por exemplo, que Paulo significou, quando disse que ainda agora a palavra pregada está oculta: pois para os que perecem, diz ele, está oculta (2 Cor 4,3).
Sob outro aspecto, a palavra indica também que o Evangelho é contrário a toda expectativa. Por nenhum outro nome costuma a Escritura chamar o que sucede além de toda esperança e acima de todo pensamento dos homens. Pelo que também em outro lugar: "O meu mistério é para mim, e para os meus." E Paulo, de novo (1 Cor 15,51): "Eis que vos mostro um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados."
3. E ainda que seja pregado em toda parte, contudo é mistério; pois assim como nos foi ordenado que as coisas que ouvimos ao ouvido as proclamássemos sobre os telhados, assim também nos foi encarregado que não déssemos as coisas santas aos cães, nem lançássemos as nossas pérolas diante dos porcos (Mt 7,9). Pois alguns são carnais e não entendem: outros têm um véu sobre o coração e não veem: pelo que aquilo é, sobre todas as coisas, mistério, o que em toda parte é pregado, mas não é conhecido daqueles que não têm reta mente; e é revelado não pela sabedoria, mas pelo Espírito Santo, na medida em que nos é possível recebê-lo. E por esta causa não erraria quem, também a este respeito, o intitulasse mistério — a saber, aquilo cuja enunciação é vedada (ἀπόῤῥητον). Pois nem mesmo a nós, os fiéis, foi confiada certeza e exatidão inteiras. Pelo que Paulo também disse (1 Cor 13,9): "Em parte conhecemos, e em parte profetizamos: pois agora vemos por espelho, em enigma; mas então, face a face."
4. Por esta causa diz ele: "Falamos sabedoria em mistério, a sabedoria oculta que Deus preordenou antes dos séculos para nossa glória." Oculta: isto é, que nenhuma das potestades de cima a aprendeu antes de nós; nem tampouco os muitos a conhecem agora.
A qual Ele preordenou para nossa glória; e, contudo, em outro lugar diz "para a sua própria glória", pois considera a nossa salvação como sendo Sua própria glória: assim como também a chama Suas próprias riquezas (cf. Ef 3,8), ainda que Ele mesmo seja rico em bens e não necessite de nada para que seja rico.
"Preordenou", diz ele, apontando o cuidado que se teve de nós. Pois assim são tidos por mais dignos de honra e de amor aqueles que, desde o próprio princípio, se dispuseram a fazer-nos bem: o que, com efeito, é o que fazem os pais em relação aos filhos. Pois, ainda que não lhes deem os seus bens senão depois, contudo desde o início e desde o começo já o haviam predeterminado. E é isto o que Paulo se esmera em apontar agora: que Deus sempre nos amou, mesmo desde o princípio, quando ainda não éramos. Pois se não nos tivesse amado, não teria preordenado as nossas riquezas. Não consideres, pois, a inimizade que sobreveio entre nós; pois mais antiga que ela era a amizade.
Antes dos séculos (πρὸ τῶν αἰώνων), tais palavras significam eterno. Pois em outro lugar também Ele diz assim: Aquele que é antes dos séculos. O Filho também, se atentares bem, há de se encontrar eterno neste mesmo sentido. Pois a respeito d'Ele diz: Por Ele fez os séculos (Hebreus 1:2); o que equivale à subsistência antes dos séculos, pois é manifesto que aquele que faz é anterior às coisas que são feitas.
Paulo está empenhado em mostrar que Deus sempre nos amou, mesmo desde o princípio, quando ainda não existíamos. Pois, se não nos tivesse amado, não teria predestinado as nossas riquezas. Olha para além da relação rompida que se interpôs entre nós, e verás que o amor de Deus por nós é ainda mais antigo.
Ora, se não sabiam, como lhes disse Ele: "Vós me conheceis, e sabeis donde sou" (Jo 7,28)? De fato, a respeito de Pilatos, diz a Escritura que ele não sabia (cf. Jo 19,9). É provável também que nem Herodes soubesse. A estes, poder-se-ia dizer, chamam-se príncipes deste mundo; mas se alguém dissesse que isto se diz também a respeito dos judeus e dos sacerdotes, não erraria. Pois também a estes Ele diz: "Vós não conheceis nem a Mim nem a meu Pai" (Jo 8,19). Como, pois, diz Ele um pouco antes: "Vós me conheceis, e sabeis donde sou"? Todavia, o modo deste conhecimento e daquele já foi declarado no Evangelho (Hom. 49 sobre S. João); e, para não estarmos sempre tratando do mesmo assunto, a ele remetemos os nossos leitores.
Que dizer, pois? Foi-lhes perdoado o pecado quanto à Cruz? Pois Ele certamente disse: "Perdoa-lhes" (Lc 23,34). Se se arrependeram, foi-lhes perdoado. Pois até mesmo aquele que lançou incontáveis assaltantes contra Estêvão e perseguiu a Igreja, o próprio Paulo, tornou-se o campeão da Igreja. Assim também, pois, aqueles outros que escolheram arrepender-se tiveram perdão; e isto foi precisamente o que o próprio Paulo quis dizer, quando exclama (Rm 11,1-2): "Pergunto, pois: Acaso tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum. Pergunto, pois: Acaso rejeitou Deus o seu povo, que de antemão conheceu? De modo nenhum." Depois, para mostrar que o arrependimento deles não estava excluído, apresentou como prova decisiva a sua própria conversão, dizendo: "Pois também eu sou israelita."
Quanto às palavras "não sabiam", parecem-me ditas aqui não a respeito da Pessoa de Cristo, mas somente a respeito da dispensação oculta naquele acontecimento (περὶ αὐτῆς τοῦ πράγματος τῆς οἰκονομὶας): como se dissesse que não sabiam o que significava a morte e a Cruz. Pois também naquela passagem Ele não disse "não Me conhecem", mas "não sabem o que fazem"; isto é, ignoram a dispensação que se estava cumprindo, e o mistério. Pois não sabiam que a Cruz haveria de resplandecer tão brilhantemente; que se tornaria a salvação do mundo e a reconciliação de Deus com os homens; que a sua cidade seria tomada; e que haveriam de sofrer o extremo da desventura.
Pelo nome de sabedoria, ele designa tanto a Cristo quanto a Cruz e o Evangelho. Oportunamente também O chamou Senhor da glória. Pois, vendo que a Cruz é tida por coisa de ignomínia, significa que a Cruz foi grande glória; mas que era necessária grande sabedoria não só para conhecer a Deus, mas também para aprender esta dispensação de Deus: e a sabedoria que era de fora tornou-se obstáculo, não só para aquela, mas também para esta.
Poderiam Herodes e os sacerdotes que quiseram crucificar Jesus ter sido perdoados? Sim. Se se arrependessem, ser-lhes-ia perdoado. Até mesmo Paulo, que perseguiu a Igreja, foi perdoado quando se arrependeu, e assim também eles poderiam tê-lo sido. A ignorância dos príncipes não dizia respeito à pessoa de Cristo, mas antes ao significado do acontecimento que se realizava na cruz. Jesus orou para que lhes fosse perdoado, não porque não O conhecessem, mas porque não compreendiam o que faziam.
Onde estão escritas estas palavras? Ou são paráfrase de alguma passagem [como a de Isaías], ou foram escritas em algum livro que agora desapareceu. Com efeito, muitos livros foram destruídos, e pouquíssimos sobreviveram íntegros ao primeiro cativeiro, como sabemos pelos documentos que chegaram até nós. Nem todas as palavras dos profetas subsistem, mas Paulo, que era versado na lei e também falava pelo Espírito, conhecê-las-ia todas com exatidão.
Onde estão escritas estas palavras? Ora, diz-se que foi escrito, também quando a coisa se acha consignada não em palavras, mas em fatos concretos, como nos livros históricos; ou quando o mesmo sentido é expresso, ainda que não nas mesmíssimas palavras, como neste lugar: pois as palavras "Aqueles a quem não foi anunciado acerca dEle o verão, e os que não ouviram entenderão" (Is 52,15, Septuaginta; cf. Rm 15,21; Is 64,4) são idênticas às coisas que olho não viu, nem ouvido ouviu. Ou, pois, é este o seu sentido, ou, provavelmente, isto estava de fato escrito em alguns livros, e os exemplares se perderam. Pois, com efeito, muitos livros foram destruídos, e poucos se conservaram íntegros mesmo depois do primeiro cativeiro. E isto é manifesto naqueles que nos restam. Pois o Apóstolo diz (At 3,24): "Desde Samuel e os profetas que se seguiram, todos falaram acerca dEle"; e estas suas palavras não subsistem inteiramente. Paulo, contudo, versado como era na Lei e falando pelo Espírito, conheceria naturalmente tudo com exatidão. E por que falo eu do cativeiro? Já antes do cativeiro muitos livros haviam desaparecido, tendo os judeus se precipitado ao último grau da impiedade; e isto é manifesto pelo final do quarto livro dos Reis (2Rs 22,8; 2Cr 34,14), pois o livro do Deuteronômio dificilmente pôde ser encontrado, tendo sido sepultado em algum monturo.
E, além disso, há em muitos lugares profecias duplas, fáceis de apreender pelos mais sábios, a partir das quais podemos descobrir muitas das coisas que são obscuras.
7. Que, pois? Não viu olho o que Deus preparou? Não. Pois quem, entre os homens, viu as coisas que estavam para ser dispensadas? Tampouco, então, ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem. Como se entende isto? Pois, se os profetas falaram acerca disto, como diz ele: "Ouvido não ouviu, nem subiu ao coração do homem"? Não subiu; pois não fala ele apenas de si mesmo, mas de todo o gênero humano. Que, pois? Os profetas, porventura não ouviram? Sim, ouviram; mas o ouvido profético não era o ouvido do homem, pois não ouviram como homens, mas como profetas. Por isso disse ele (Is 50,4, Septuaginta): "Acrescentou-me um ouvido para ouvir", significando, por esse acréscimo, aquilo que provinha do Espírito. Donde era manifesto que, antes de ouvir, isto não havia subido ao coração do homem. Pois, após o dom do Espírito, o coração dos profetas já não era coração de homem, mas coração espiritual; como também ele mesmo diz: "Nós temos a mente de Cristo" (1 Cor 2,16), como se dissesse: Antes de recebermos a graça do Espírito e de aprendermos as coisas que nenhum homem pode dizer, ninguém de nós, nem tampouco dos profetas, as concebeu em seu coração. Como poderíamos? Visto que nem sequer os anjos as conhecem. Pois que necessidade há de falar, diz ele, acerca "dos príncipes deste mundo", visto que nenhum homem os conheceu, nem tampouco as potestades do alto?
Que espécie de coisas são, pois, estas? Que, pelo que se reputa loucura da pregação, Ele há de vencer o mundo, e as nações serão introduzidas, e haverá reconciliação de Deus com os homens, e tão grandes bênçãos hão de vir sobre nós! Como, pois, o soubemos? A nós, diz ele, Deus as revelou pelo Seu Espírito; não pela sabedoria que é de fora, pois esta, como que uma serva desonrada, não teve permissão de entrar, e inclinar-se, e olhar para dentro (cf. Jo 20,5), a fim de ver os mistérios que pertencem ao Senhor. Vedes quão grande é a diferença entre esta sabedoria e aquela? As coisas que os anjos não conheceram, estas ela nos ensinou; mas a que é de fora fez o contrário. Não somente falhou em instruir, como também impediu e obstruiu, e depois do acontecido procurou obscurecer as Suas obras, tornando a Cruz sem efeito. Não é, pois, simplesmente pelo recebermos o conhecimento que ele descreve a honra a nós concedida, nem por o recebermos juntamente com os anjos, mas, o que é mais, por ser o Seu Espírito quem no-lo transmite.
7. Então, para mostrar a sua grandeza, diz ele: Se o Espírito, que conhece as coisas secretas de Deus, não as houvesse revelado, não as teríamos aprendido. Tal era o cuidado que Deus tinha com todo este assunto, que o contava entre os Seus segredos. Por isso necessitávamos também daquele Mestre que conhece estas coisas perfeitamente; pois o Espírito, diz ele (1 Cor 2,10-12), perscruta todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. Pois a palavra perscrutar aqui não indica ignorância, mas conhecimento exato; é o mesmíssimo modo de falar que ele usou também acerca de Deus, dizendo: Aquele que perscruta os corações sabe qual é a mente do Espírito (Rm 8,27). Tendo, pois, falado com exatidão acerca do conhecimento do Espírito, e havendo demonstrado que ele é tão plenamente igual ao conhecimento de Deus quanto o próprio conhecimento do homem é igual a si mesmo; e, ainda, que dele aprendemos todas as coisas, e necessariamente dele; acrescentou: as quais também falamos, não em palavras que a sabedoria humana ensina, mas que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Vedes a que ponto ele nos exaltou por causa da dignidade do Mestre? Pois somos tanto mais sábios do que eles quanto é a diferença entre Platão e o Espírito Santo; tendo eles por mestres os retores dos gentios, mas nós, o Espírito Santo.
8. Mas o que significa isto — comparar coisas espirituais com espirituais? Quando algo é espiritual e de sentido duvidoso, aduzimos testemunhos das próprias coisas espirituais. Por exemplo, digo: Cristo ressuscitou — nasceu de uma Virgem; aduzo testemunhos, tipos e demonstrações: a estada de Jonas na baleia e a sua libertação depois; o parto das estéreis, Sara, Rebeca e as demais; o brotar das árvores que se deu no paraíso (Gn 2:5), quando nenhuma semente fora lançada, nenhuma chuva descera, nenhum sulco fora traçado. Pois as coisas que haviam de vir foram modeladas e prefiguradas, como que em sombra, pelas coisas anteriores, para que estas, agora, quando viessem, pudessem ser cridas. E de novo mostramos como da terra veio o homem, e como do homem somente veio a mulher, e isto sem qualquer união; como a própria terra veio do nada, sendo o poder do Grande Artífice suficiente para todas as coisas em toda parte. Assim, com coisas espirituais comparo eu coisas espirituais, e em nenhum caso tenho necessidade da sabedoria que é de fora — nem dos seus raciocínios, nem dos seus ornamentos. Pois tais homens não fazem senão agitar o entendimento fraco e confundi-lo; e não são capazes de demonstrar claramente nenhuma das coisas que afirmam, antes produzem efeito contrário. Antes perturbam a mente e a enchem de trevas e de muita perplexidade. Por isso diz: comparando coisas espirituais com espirituais. Vede como ele mostra ser isto supérfluo? E não apenas supérfluo, mas até hostil e nocivo: pois é isto que significam as expressões para que a Cruz de Cristo não seja reduzida a nada, e para que a nossa (vossa, segundo o texto recebido) fé não se apoie na sabedoria dos homens. E aponta aqui que é impossível aos que a tudo confiam com segurança nela aprender coisa alguma que seja proveitosa.
Se o Espírito, que conhece as coisas secretas de Deus, não no-las tivesse revelado, de modo algum poderíamos jamais conhecê-las. A palavra perscrutar não implica que o Espírito fosse ignorante, mas antes se refere ao conhecimento exato e minucioso. É o mesmo uso de quando Paulo fala de Deus, dizendo que Ele perscruta o coração humano.
Algumas verdades espirituais são obscuras e necessitam ser interpretadas, mas isso só se pode fazer comparando-as com outras coisas espirituais. Por exemplo, quando digo que Cristo ressuscitou, comparo isso à libertação de Jonas do ventre da baleia. E quando digo que Ele nasceu de uma virgem, comparo isso ao milagroso parto de mulheres estéreis como Sara, Rebeca e outras.
Deus nos deu uma mente a fim de que aprendêssemos e dela recebêssemos auxílio, não para que a mente se bastasse a si mesma. Os olhos são belos e úteis, mas, se escolhem ver sem luz, sua beleza se faz inútil e pode até ser nociva. Do mesmo modo, se minha alma escolhe ver sem o Espírito, torna-se um perigo para si mesma.
O homem que pode ver enxerga tudo o que pertence ao cego, mas nenhum cego pode dizer o que ele está fazendo. Do mesmo modo, nós, que cremos, podemos compreender tanto os nossos próprios assuntos quanto os dos incrédulos, mas eles são desamparados quando se trata de compreender-nos.
É necessário, pois, deixá-la de lado primeiramente. Que, pois, dirá algum homem: é estigmatizada a sabedoria exterior? E, no entanto, ela é obra de Deus. Como isso é evidente? Visto que não foi Ele quem a fez, mas foi invenção vossa. Pois, neste lugar, ele chama pelo termo sabedoria a pesquisa curiosa e a elegância superficial das palavras. Mas, se alguém disser que ele se refere ao entendimento humano, ainda assim, nesse sentido, a culpa é vossa. Pois sois vós que lhe atribuís má fama, vós que fazeis mau uso dela, vós que, em prejuízo e afronta a Deus, exigis dela coisas que ela jamais possuiu. Visto, pois, que nisso te glorias e combates contra Deus, Ele expôs a sua fraqueza. Pois também a força do corpo é coisa excelente; mas, quando Caim não a usou como devia, Deus o incapacitou e o fez tremer (Gn 4:12-14, Septuaginta: "gemendo e tremendo"; versão recebida: "fugitivo e errante"). Também o vinho é coisa boa; mas, porque os judeus se entregavam a ele imoderadamente, Deus proibiu inteiramente aos sacerdotes o uso desse fruto. E, visto que tu também abusaste da sabedoria para rejeitar a Deus, e exigiste dela mais do que ela pode dar por sua própria força, a fim de te retirar da esperança humana, ele te mostrou a sua fraqueza.
Pois (para prosseguir) é homem natural aquele que atribui tudo aos raciocínios da mente e não considera que necessita de auxílio do alto; o que é sinal de pura insensatez. Pois Deus a concedeu para que ela aprendesse e recebesse dele o auxílio, não para que se considerasse a si mesma suficiente para si mesma. Pois os olhos são belos e úteis; mas, se quisessem ver sem luz, de nada lhes aproveitaria a sua beleza, nem tampouco a sua força natural, antes lhes seria mesmo prejudicial. Assim, se o notares, também qualquer alma, se quiser ver sem o Espírito, torna-se até mesmo um impedimento para si mesma.
Como, então, dir-se-á, via ela por si mesma todas as coisas antes disso? Nunca, em tempo algum, fez ela isso por si mesma, mas tinha a criação como um livro posto diante de si, em plena vista. Mas, quando os homens, tendo deixado de caminhar na via que Deus lhes ordenara, e de conhecer, pela beleza dos objetos visíveis, o Grande Artífice, confiaram às disputas o bastão condutor do conhecimento, tornaram-se fracos e naufragaram num mar de impiedade; pois logo introduziram aquilo que era o abismo de todo mal, afirmando que nada foi produzido a partir das coisas que não existiam, mas a partir de matéria increada; e, dessa fonte, tornaram-se pais de dez mil heresias.
Além disso, em seus absurdos extremos, concordavam entre si; mas naquelas coisas em que pareciam sonhar algo de saudável, ainda que apenas como em sombras, discordavam uns dos outros, de modo que, de ambos os lados, se tornassem motivo de escárnio. Pois que, das coisas que não são, nada se produz — isso quase todos afirmaram e escreveram unanimemente, e com grande zelo. Nesses absurdos, pois, eram impelidos pelo Diabo. Mas em seus ditos proveitosos, nos quais pareciam, ainda que apenas obscuramente (ἐν αἰνίγματι), encontrar alguma parte daquilo que buscavam, nestes guerreavam entre si: por exemplo, que a alma é imortal; que a virtude não necessita de nada externo; e que ser bom, ou o contrário, não provém da necessidade nem do destino.
Vede a astúcia do Diabo? Se em algum lugar via homens dizendo algo corrupto, fazia com que todos fossem de um só parecer; mas se em algum lugar diziam algo são, suscitava outros contra eles; de modo que os absurdos não faltavam, confirmados pelo consenso geral, e as partes proveitosas pereciam, sendo entendidas de modos diversos. Observai como, em todo respeito, a alma se acha destemperada, (ἄτονος) e não é suficiente a si mesma. E isto sucedeu como se poderia esperar. Pois se, sendo tal qual é, ela aspira a não ter necessidade de nada e a apartar-se de Deus — supondo-a não caída naquela condição — a que extremo de loucura não teria insensivelmente descido? Se, dotada de um corpo mortal, esperava coisas maiores da falsa promessa do Diabo — pois "Sereis como deuses", disse ele (Gn 3,4) — a que ponto não se teria lançado, se tivesse recebido também o seu corpo, desde o princípio, imortal? Pois, mesmo depois disso, afirmou-se ingênita e da essência de Deus, pela boca corrupta dos maniqueus, e foi essa destemperança que deu ocasião à invenção dos deuses gregos. Por esta razão, ao que me parece, Deus tornou laboriosa a virtude, com vistas a curvar a alma e trazê-la à moderação. E, para que vos convençais de que isto é verdade (na medida em que, a partir de coisas pequenas, se pode conjeturar algo grande), aprendamo-lo dos israelitas. Estes, como é bem sabido, quando não levavam vida de labor mas se entregavam ao descanso, não podendo suportar a prosperidade, decaíram na impiedade. Que fez, pois, Deus diante disto? Impôs-lhes uma multidão de leis com vistas a reprimir sua licença. E, para que vos convençais de que essas leis não contribuíam para virtude alguma, mas lhes foram dadas como uma espécie de freio, proporcionando-lhes ocasião de labor perpétuo, ouvi o que diz o profeta a respeito delas: "Dei-lhes estatutos que não eram bons" (Ez 20,25). Que significa "não bons"? Tais que não contribuíam muito para a virtude. Por isso acrescenta também: "e ordenanças pelas quais não viverão".
10. Mas o homem natural não recebe as coisas do Espírito.
Pois assim como com estes olhos ninguém poderia aprender as coisas que estão nos céus, tampouco a alma, desassistida, as coisas do Espírito. E por que falo das coisas do céu? Ela não recebe sequer as da terra, todas elas. Pois, avistando ao longe uma torre quadrada, pensamos que seja redonda; mas tal opinião é mero engano dos olhos: assim também podemos estar certos de que, quando um homem, por meio apenas do entendimento, examina as coisas que estão distantes, muito ridículo há de resultar. Pois não somente não as verá tais quais de fato são, mas até as terá pelo contrário do que são. Por isso acrescentou: pois lhe são loucura. Mas isto não provém da natureza das coisas, senão de sua enfermidade, incapaz que é de alcançar a grandeza delas pelos olhos de sua alma.
11. A seguir, prosseguindo em seu contraste, ele aponta a causa disso, dizendo que ele não conhece porque tais coisas são discernidas espiritualmente: isto é, as coisas afirmadas requerem fé, e apreendê-las por raciocínios não é possível, pois sua grandeza excede em muito a pequenez de nosso entendimento. Por isso ele diz: mas o que é espiritual julga todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é julgado. Pois aquele que tem visão contempla em si mesmo todas as coisas que pertencem ao homem que não tem visão; mas nenhum cego discerne o que o outro está fazendo. Assim também no caso presente: tanto os nossos assuntos quanto os dos incrédulos, todos nós, de nossa parte, conhecemos; mas os nossos, eles já não os conhecem mais. Nós sabemos qual é a natureza das coisas presentes, qual a dignidade das coisas futuras; e o que um dia se tornará do mundo quando este estado de coisas não mais existir, e o que os pecadores sofrerão, e do que os justos se gozarão. E que as coisas presentes nada valem, e que as coisas futuras são imortais e imóveis — ambas as coisas sabemos, e a pequenez daquelas nós expomos (pois discernir é também expor) (ἀνακρίνειν, ἐλέγχειν). Todas estas coisas são conhecidas pelo homem espiritual; e o que o homem natural sofrerá quando tiver partido para aquele mundo; e do que o fiel se gozará quando tiver cumprido sua jornada desde este: nenhuma das quais é conhecida pelo homem natural.
12. Por isso também, acrescentando uma demonstração clara do que fora afirmado, ele diz: Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lO? Mas nós temos a mente de Cristo. Isto é, as coisas que estão na mente de Cristo, essas nós conhecemos, justamente as coisas que Ele quer e revelou. Pois, tendo dito que o Espírito as revelara, para que ninguém pusesse de lado o Filho, ele acrescenta que também Cristo nos mostrou estas coisas. Não querendo dizer com isto que todas as coisas que Ele conhece, nós conhecemos; mas que todas as coisas que conhecemos não são humanas, de modo a estarem abertas à suspeita, mas são de Sua mente e espirituais.
Pois a mente que temos acerca destas coisas, nós a temos de Cristo; isto é, o conhecimento que temos a respeito das coisas da fé é espiritual; de modo que, com razão, por ninguém somos julgados. Pois não é possível que um homem natural conheça as coisas divinas. Por isso também disse: Pois quem conheceu a mente do Senhor?, dando a entender que a nossa própria mente, a que temos acerca destas coisas, é a mente dEle. E isto, para que possa instruí-lO, ele não acrescentou sem razão, mas com referência ao que acabara de dizer: o homem espiritual, ninguém o discerne. Pois se nenhum homem é capaz de conhecer a mente de Deus, muito menos pode ensiná-lA e corrigi-lA. Pois este é o sentido de para que possa instruí-lO.
Vedes como, de toda parte, ele repele a sabedoria que é de fora, e mostra que o homem espiritual conhece mais coisas, e maiores? Pois, vendo que aquelas razões — que nenhuma carne se glorie; e por esta causa Ele escolheu as coisas loucas, para confundir os sábios; e para que a cruz de Cristo não fosse tornada vã — não pareciam aos incrédulos muito dignas de crédito, nem tampouco atraentes, ou necessárias, ou úteis, ele conclui apresentando a razão principal; porque deste modo mais facilmente vemos de Quem podemos ter os meios de aprender ainda as coisas elevadas, e as coisas secretas, e as coisas que estão acima de nós. Pois a razão foi absolutamente reduzida a nada por nossa incapacidade de apreender, por meio da sabedoria gentia, as coisas que estão acima de nós.
Pode-se observar, também, que era mais vantajoso aprender desta maneira, a partir do Espírito. Pois esse é o mais fácil e mais claro de todos os ensinos.
Mas nós temos a mente de Cristo. Isto é, espiritual, divina, aquela que nada tem de humano. Pois não é de Platão, nem de Pitágoras, mas é o próprio Cristo, pondo as coisas que são Suas em nossa mente.
A isto, pois, se nada mais, reverenciemos, ó amados, e resplandeça a nossa vida como excelentíssima; porquanto Ele mesmo também faz disto prova segura de grande amizade, a saber, o revelar-nos os Seus segredos: onde diz, Jo 15,15: Doravante não vos chamo mais servos, porque todos vós sois Meus amigos; porquanto todas as coisas que ouvi de Meu Pai, Eu vo-las dei a conhecer: isto é, tive confiança para convosco. Ora, se isto por si só já é prova de amizade, a saber, ter confiança: quando se manifesta que Ele não apenas nos confiou os mistérios transmitidos por palavras (τὰ διὰ ῥημάτων μυστήρια), mas também nos comunicou os mesmos transmitidos por obras (διὰ τῶν ἔργων, isto é, ações sacramentais), considerai quão vasto é o amor de que isto é fruto. A isto, se nada mais, reverenciemos; ainda que não façamos tão grande conta do inferno, seja contudo mais temível que o inferno sermos desagradecidos e ingratos para com tão grande amigo e benfeitor. E não como servos mercenários, mas como filhos e homens livres, façamos todas as coisas por amor de nosso Pai; e cessemos, enfim, de aderir ao mundo, para que também os gregos sejam envergonhados por nós. Pois ainda agora, desejando desferir toda a minha força contra eles, retraio-me de o fazer, temendo que, porventura, ainda que os superemos em argumentos e na verdade daquilo que ensinamos, atraiamos sobre nós muita zombaria pela comparação do nosso modo de vida; visto que eles, apegados ao erro e não tendo tal convicção, permanecem fiéis à filosofia, ao passo que nós fazemos exatamente o contrário. Todavia, hei de dizê-lo. Pois pode ser, pode ser que, exercitando-nos em como contender contra eles, venhamos a almejar, como rivais, tornar-nos também melhores que eles em nosso modo de vida.
14. Eu dizia há pouco que jamais teria ocorrido aos Apóstolos o pensamento de pregar o que pregaram, se não tivessem gozado da Graça Divina; e que, longe de terem êxito, nem sequer teriam concebido tal empresa. Pois bem, prossigamos hoje também o mesmo assunto em nosso discurso; e mostremos que era coisa impossível sequer ser escolhida ou pensada por eles, se não tivessem tido Cristo entre si: não porque estivessem dispostos os fracos contra os fortes, não porque poucos contra muitos, não porque pobres contra ricos, não porque iletrados contra sábios, mas porque também a força do preconceito era grande. Pois sabeis que nada há tão forte entre os homens quanto a tirania do costume antigo. De modo que, ainda que não fossem apenas doze, e não tão desprezíveis, e tais quais realmente eram, mas antes outro mundo tão vasto quanto este, com número equivalente disposto ao seu lado, ou até muito maior, mesmo assim o resultado teria sido difícil de alcançar. Pois o outro partido tinha o costume a seu favor, ao passo que a estes a própria novidade lhes era obstáculo. Porque nada perturba tanto o espírito, ainda que se faça com algum propósito benéfico, quanto inovar e introduzir coisas estranhas, e mormente quando isto se faz em matérias relativas ao culto divino e à glória de Deus. E quão grande força há nesta circunstância, agora o tornarei manifesto; tendo primeiro feito a seguinte observação: que se acrescentava também outra dificuldade no tocante aos judeus. Pois no caso dos gregos, destruíam eles tanto os seus deuses quanto as suas doutrinas inteiramente; mas não assim disputavam com os judeus, senão que aboliam muitas de suas doutrinas, ao passo que ao Deus que as instituíra ordenavam que adorassem. E, afirmando que os homens deviam honrar o legislador, diziam: não obedeçais em todos os aspectos à lei que dEle procede; por exemplo, na guarda do sábado, ou na observância da circuncisão, ou na oferta de sacrifícios, ou no fazer qualquer outra coisa semelhante. De sorte que não somente o costume era impedimento, mas também o fato de que, ao mesmo tempo em que ordenavam que se adorasse a Deus, ordenavam que se infringissem muitas de Suas leis.
15. Mas, no caso dos gregos, grande era a tirania do costume. Pois, se fosse costume de apenas dez anos — não digo de tal duração — e se tivesse tomado posse apenas de poucos homens — não digo do mundo inteiro —, quando estes se aproximaram, ainda assim a revolução seria difícil de realizar. Mas agora sofistas, e oradores, e pais, e avós, e muitos ainda mais antigos que todos estes, haviam sido tomados de antemão pelo erro: a própria terra e o mar, e montanhas e bosques, e todas as nações dos bárbaros, e todas as tribos dos gregos, e sábios e ignorantes, governantes e governados, mulheres e homens, jovens e velhos, senhores e escravos, artífices e agricultores, habitantes das cidades e dos campos; todos eles. E os que eram instruídos naturalmente diriam: Que é isto, afinal? Terão sido enganados todos os que habitam o mundo? Tanto sofistas como oradores, filósofos e historiadores, a geração presente e as que a precederam, pitagóricos, platônicos, generais, cônsules, reis, os que em todas as cidades desde o princípio foram cidadãos e colonos, tanto bárbaros como gregos? E serão os doze pescadores, e fabricantes de tendas, e publicanos mais sábios que todos estes? Ora, quem poderia suportar tal afirmação? Todavia, eles não falavam assim, nem o tinham em mente, mas os suportaram, e reconheceram que eram mais sábios que todos. Por isso venceram até mesmo a todos. E o costume não foi impedimento para isso, ainda que seja tido por invencível quando adquiriu todo o seu ímpeto pelo curso do tempo.
E para que aprendas quão grande é a força do costume, ela muitas vezes prevaleceu sobre os mandamentos de Deus. E por que digo mandamentos? Até mesmo sobre bênçãos mesmas. Pois assim os judeus, tendo o maná, exigiam alho; gozando da liberdade, lembravam-se de sua escravidão; e continuamente ansiavam pelo Egito, porque a ele estavam acostumados. Tão tirânica coisa é o costume.
Se desejas ouvir sobre isso também dos pagãos: diz-se que Platão, embora bem sabendo que tudo o que se referia aos deuses era uma espécie de embuste, condescendeu com todas as festas e todo o resto, por não poder contender com o costume; e por ter, de fato, aprendido isso de seu mestre. Pois este também, sendo suspeito de alguma inovação semelhante, esteve tão longe de conseguir o que desejava que até perdeu a vida; e isto, ainda depois de apresentar sua defesa. E quantos homens vemos agora retidos na idolatria por preconceito, e nada tendo de plausível a dizer quando são acusados de serem gregos, senão o apelo aos pais, e avós, e bisavós. Não por outra razão alguns dos pagãos chamaram o costume de segunda natureza. Mas quando doutrinas são a matéria do costume, ele se torna ainda mais profundamente enraizado. Pois um homem mudaria mais facilmente todas as coisas do que aquelas pertencentes à religião. O sentimento de vergonha, também, aliado ao costume, era suficiente para levantar um obstáculo; e o parecer aprender uma nova lição em extrema velhice, e isso por parte dos que não eram tão inteligentes. E por que estranhar que isto ocorra em relação à alma, vendo que até no corpo o costume tem grande força?
16. No caso dos Apóstolos, contudo, havia ainda outro obstáculo, mais poderoso que estes; não se tratava apenas de mudar um costume tão antigo e primitivo, mas havia também perigos sob os quais essa mudança se operava. Pois não estavam eles simplesmente conduzindo os homens de um costume a outro, mas de um costume em que não havia temor a um empreendimento que trazia consigo ameaças de perigo. Porquanto o crente devia sofrer de imediato o confisco de seus bens, a perseguição, o exílio de sua pátria; devia padecer os piores males, ser odiado por todos os homens, tornar-se inimigo comum tanto de seu próprio povo quanto dos estrangeiros. De modo que, ainda que tivessem convidado os homens a algo já costumeiro, apenas em razão da novidade, mesmo assim seria empresa difícil. Mas quando se tratava de passar de um costume a uma inovação, e com todos esses terrores por cima, considerai quão vasto era o obstáculo!
E, além disso, outra coisa não menor que as já mencionadas se acrescentava para tornar difícil a mudança. Pois, além do costume e dos perigos, estes preceitos eram mais onerosos, e aquilo de que afastavam os homens era fácil e leve. Pois o chamado que lhes faziam era da fornicação para a castidade; do amor à vida para variadas espécies de morte; da embriaguez para o jejum; do riso para as lágrimas e a compunção; da cobiça para a mais completa indigência; da segurança para os perigos: e em tudo isto exigiam a mais rigorosa circunspecção. Pois, diz ele, que a impureza, e a linguagem tola, e as brincadeiras vãs, não saiam de vossa boca (Ef 5,4). E estas coisas as diziam a homens que não conheciam senão embriagar-se e servir ao ventre; que celebravam festas compostas apenas de impureza, e riso, e toda sorte de zombarias (κωμῳδίας ἁπάσης). De modo que não somente pela matéria pertencente à severidade de vida os ensinamentos eram onerosos, mas também por serem ditos a homens criados na despreocupada indolência, na impureza, na linguagem tola, no riso e nas zombarias. Pois quem, dentre os que haviam vivido nestas coisas, ao ouvir: Se alguém não toma a sua cruz e me segue, não é digno de Mim (Mt 10,38); e: Não vim trazer paz, mas espada, e pôr em discórdia o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe (Mt 10,34), não teria sentido todo o corpo enregelar-se (ἐνάρκησε)? E quem, ao ouvir que, se alguém não renuncia à casa, à pátria e aos bens, não é digno de Mim, não teria hesitado, não teria recusado? E, no entanto, houve homens que não somente não sentiram frio algum, nem recuaram ao ouvir estas coisas, mas correram ao seu encontro e se lançaram sobre as durezas, e ansiosamente se apegaram aos preceitos ordenados. Novamente, ao ouvirem que de toda palavra ociosa havemos de dar conta (Mt 12,36); e que todo aquele que olha para uma mulher a fim de a cobiçar, já com ela cometeu adultério desde que a viu (Mt 5,28); e que todo aquele que se ira sem causa cairá no inferno — quem, dentre os homens daquele tempo, não teria sido afugentado por estas coisas? E, no entanto, todos acorriam, e muitos até saltavam para além dos limites da carreira. Qual era, então, o seu atrativo? Não era, evidentemente, o poder daquele que era pregado? Pois suponhamos que o caso não fosse como é, mas exatamente o contrário, que este lado fosse aquele, e aquele este; teria sido fácil, pergunto, reter e arrastar consigo os que resistiam? Não podemos dizer que sim. De modo que, por todos os lados, se prova divino aquele poder que operou tão excelentemente. De outro modo, dizei-me, como prevaleceram sobre os frívolos e os dissolutos, impelindo-os para o caminho severo e áspero da vida?
17. Bem; tal era a natureza dos preceitos. Vejamos, porém, se a doutrina era atraente. Ora, também sob este aspecto havia o bastante para afugentar os incrédulos. Pois que diziam os pregadores? Que devíamos adorar o crucificado, e considerá-lo Deus, a ele que nascera de uma mulher judia. Ora, quem se teria persuadido por estas palavras, se o poder divino não tivesse ido adiante? Que Ele, de fato, fora crucificado e sepultado, todos os homens sabiam; mas que ressuscitara e ascendera, ninguém senão os Apóstolos havia visto.
Mas, dir-se-á, excitaram-nos com promessas e enganaram-nos com um vão som de palavras. Ora, este mesmo tópico mostra mui particularmente (mesmo à parte de tudo quanto se disse) que a nossa doutrina não é engano algum. Pois todas as suas asperezas tiveram lugar aqui, ao passo que as suas consolações haviam de prometer somente depois da ressurreição. Isto mesmo, pois, repito-o, mostra que o nosso Evangelho é divino. Por que razão, com efeito, nenhum dentre os crentes disse: não aceito isto, nem o suporto? Tu me ameaças com asperezas aqui, e os bens que prometes são depois da ressurreição. Ora, como é evidente que haverá ressurreição? Qual dos falecidos voltou? Qual dos que repousam ressuscitou? Qual destes disse o que há de suceder depois da nossa partida daqui? Mas nada disto lhes entrou no pensamento; antes entregaram as próprias vidas pelo Crucificado. De modo que este simples fato foi, mais do que qualquer outro, prova de grande poder: primeiro, o haverem operado convicção imediata, acerca de matérias tão importantes, em pessoas que jamais em toda a sua vida haviam ouvido semelhante coisa; segundo, o haverem persuadido a aceitar as dificuldades por experiência presente, e a reputar os bens como matéria de esperança. Ora, se fossem enganadores, teriam feito o contrário: os seus bens tê-los-iam prometido como sendo daqui, ἐντεῦθεν, deste mundo, segundo Jo 18,36; as coisas temíveis não as teriam mencionado, quer dissessem respeito à vida presente, quer à futura. Pois assim procedem os enganadores e os aduladores. Nada de áspero, nada de penoso, nada de gravoso propõem eles, mas antes o contrário de tudo isso. Pois esta é a natureza do engano.
18. Mas foi a insensatez, dir-se-á, da maior parte que os levou a crer no que se lhes dizia. Como assim o dizeis? Quando estavam sob os gregos, não eram insensatos; mas, ao passarem para nós, começou então a sua insensatez? E, no entanto, não eram homens de outra espécie, nem provenientes de outro mundo, aqueles que os Apóstolos tomaram e persuadiram: eram homens que simplesmente sustentavam as opiniões dos gregos, mas as nossas receberam-nas com o acompanhamento de perigos. De sorte que, se fosse com melhor razão que mantinham as primeiras, delas não se teriam desviado, tendo já sido tão longamente educados nelas, e sobretudo quando não era possível desviar-se sem perigo. Mas, ao virem a conhecer, pela própria natureza das coisas, que tudo o que havia daquele lado era zombaria e ilusão, então, ainda sob ameaças de múltiplas mortes, saltaram fora (ἀπεπήδησαν) dos seus costumes habituais, e passaram voluntariamente para o novo; visto que esta última doutrina era segundo a natureza, e a outra contrária à natureza.
Escravos, se dizia, foram os persuadidos, e mulheres, e amas, e parteiras, e eunucos. Ora, em primeiro lugar, não é destes apenas que se compõe a nossa Igreja; e isto é claro a todos. Mas ainda que fosse destes; é isto precisamente o que torna o Evangelho digno de admiração: que doutrinas tais, que nem Platão nem os seus seguidores puderam apreender, os pescadores tiveram poder para súbito persuadir a espécie mais ignorante de todas a recebê-las. Pois se houvessem persuadido apenas os sábios, o resultado não seria tão maravilhoso; mas, ao conduzir escravos, e amas, e eunucos a tal severidade de vida que os fez rivais dos anjos, ofereceram a maior prova de sua inspiração divina. Além disso, se lhes houvessem prescrito não sei que futilidades, seria razoável talvez invocar a convicção operada nestas pessoas para mostrar a natureza fútil das coisas que se diziam: mas se coisas grandes, e elevadas, e quase transcendendo a natureza humana, e exigindo pensamentos elevados, foram a matéria de suas lições de sabedoria, quanto mais insensatez mostrardes naqueles que foram convencidos, tanto mais claramente demonstrais que aqueles que operaram a convicção eram sábios e cheios de graça divina.
Mas, dirás, eles os persuadiram pela grandeza excessiva das promessas. Mas dize-me, não é isto mesmo para ti motivo de espanto — como persuadiram homens a esperar prêmios e recompensas depois da morte? Pois isto, ainda que não houvesse mais nada, é para mim causa de assombro. Mas isto também, dir-se-á, procedeu da insensatez. Explica-me em que consiste a insensatez destas coisas: que a alma é imortal; que um tribunal imparcial nos receberá depois da vida presente; que prestaremos contas de nossos atos, e palavras, e pensamentos a Deus, que conhece todos os segredos; que veremos os maus sofrendo castigo, e os bons com coroas sobre as cabeças. Não, estas coisas não são de insensatez, mas a mais alta instrução da sabedoria. A insensatez está nas opiniões contrárias a estas.
19. Fosse então isto a única coisa — o desprezo das coisas presentes, o dar grande valor à virtude, o não buscar recompensas aqui, mas avançar muito além em esperanças, e o manter a alma tão atenta e fiel que nenhum terror presente a pudesse deter quanto à esperança do que há de ser — dize-me, a que alta filosofia deve isto pertencer? Mas queres também conhecer a força das promessas e predições em si mesmas, e a verdade das que foram proferidas tanto antes como depois deste presente estado de coisas? Eis que te mostro uma cadeia de ouro, tecida engenhosamente desde o princípio! Ele lhes disse algumas coisas sobre Si mesmo, e sobre as igrejas, e sobre as coisas vindouras; e enquanto falava, operava obras poderosas. Pelo cumprimento, portanto, do que disse, é manifesto que tanto os prodígios operados eram reais, quanto também as coisas futuras e prometidas.
Enquanto isso, para que minha intenção se torne ainda mais evidente, permita-se ilustrá-la a partir do próprio caso. Ele ressuscitou Lázaro por uma simples palavra, e mostrou-o vivo. Disse ainda: "As portas do Hades não prevalecerão contra a Igreja" (Mt 16,18); e: "Aquele que deixa pai ou mãe receberá cem vezes mais nesta vida, e herdará a vida eterna" (Mt 19,29). O milagre, pois, é um só — a ressurreição de Lázaro; mas as predições são duas, tornadas evidentes, uma aqui, outra no mundo por vir. Considerai agora como todas se provam mutuamente. Pois, se alguém não crê na ressurreição de Lázaro, que aprenda, a partir da profecia proferida acerca da Igreja, a crer no milagre. Porque a palavra dita tantos anos antes veio a cumprir-se, e recebeu efeito: pois as portas do Hades não prevaleceram contra a Igreja. Vedes que Aquele que disse a verdade na profecia, é manifesto que também operou o milagre; e Aquele que tanto operou o milagre quanto leva a cumprimento as palavras que proferiu, é manifesto que também diz a verdade nas predições das coisas ainda por vir, quando afirma: "Aquele que despreza as coisas presentes receberá cem vezes mais, e herdará a vida eterna." Pois as coisas que já foram feitas e ditas, Ele as deu como os mais seguros penhores daquelas que ainda hão de acontecer.
De todas estas coisas, pois, e das que lhes são semelhantes, colhendo-as juntas a partir dos Evangelhos, digamo-las, e assim fechemos-lhes a boca. Mas se alguém disser: Por que então o erro não foi de todo extinto? A resposta pode ser esta: Vós mesmos sois os culpados, que vos rebelais contra a vossa própria salvação. Pois Deus dispôs (ᾠκονόμησεν) este assunto de tal modo que nem sequer um resquício da antiga impiedade precisasse restar.
20. Ora, para recapitular brevemente o que foi dito: Qual é o curso natural das coisas? Que os fracos sejam vencidos pelos fortes, ou o contrário? Que prevaleçam os que dizem coisas fáceis, ou os que dizem coisas ásperas? Os que atraem os homens com perigos, ou com segurança? Os inovadores, ou os que confirmam o costume? Os que conduzem por um caminho áspero, ou por um caminho suave? Os que afastam os homens das instituições de seus pais, ou os que não estabelecem leis estranhas? Os que prometem todos os seus bens após a nossa partida deste mundo, ou os que lisonjeiam na vida presente? Que os poucos vençam os muitos, ou os muitos, os poucos?
Mas tu também, dirá alguém, fizeste promessas pertinentes a esta vida. Que, pois, prometemos nós nesta vida? A remissão dos pecados e o lavacro da regeneração. Ora, em primeiro lugar, o próprio batismo tem sua parte principal nas coisas futuras; e Paulo exclama, dizendo: "Pois morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus: quando a vossa vida se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em gloria" (Cl 3,4). Mas, se também nesta vida ele possui vantagens, como de fato possui, também isto é, mais que tudo, motivo de grande admiração: que tiveram eles poder para persuadir homens que haviam cometido incontáveis males — sim, tais quais nenhum outro cometera — a que se lavassem limpos de tudo, e a que não dessem conta de nenhuma de suas ofensas. De modo que, por esta mesma razão, seria sobretudo digno de admiração que persuadissem os Bárbaros a abraçar uma fé como esta, e a ter boas esperanças acerca das coisas futuras; e que, tendo lançado fora o antigo fardo de seus pecados, se aplicassem com o maior zelo, para o tempo futuro, àquelas fadigas que a virtude exige, e não boquiabertos diante de nenhum objeto sensível, mas elevando-se a uma altura acima de todas as coisas corpóreas, recebessem dons puramente espirituais: sim, que o persa, o sármata, o mouro e o indiano viessem a conhecer a purificação da alma, e o poder de Deus, e a Sua inefável misericórdia para com os homens, e a severa disciplina da fé, e a visitação do Espírito Santo, e a ressurreição dos corpos, e as doutrinas da vida eterna. Pois em todas estas coisas, e em quanto mais houver além destas, os pescadores, iniciando pelo Batismo diversas raças de Bárbaros, os persuadiram (φιλοσοφεῖν) a viver segundo elevados princípios.
De todas estas coisas, pois, tendo-as observado com exatidão, falemos aos gentios, e, novamente, mostremos-lhes a evidência de nossas vidas: para que, por ambos os meios, sejamos nós mesmos salvos, e eles sejam por nosso intermédio atraídos para a gloria de Deus. Pois a Ele seja a gloria para sempre. Amém.
Conhecemos as coisas que estão na mente de Cristo, as quais Ele quis e nos revelou. Isto não significa que conheçamos tudo quanto Cristo conhece, mas antes que tudo quanto conhecemos provém d'Ele e é espiritual.
Após ter derrubado a filosofia que vem de fora, e abatido toda a sua arrogância, ele passa a outro argumento. Pois era provável que dissessem: Se estivéssemos expondo as opiniões de Platão, ou de Pitágoras, ou de qualquer outro dos filósofos, com razão desferirias contra nós tão longo discurso. Mas se anunciamos as coisas do Espírito, por que razão revolves de cima a baixo (ἄνω καὶ κάτω στρέφεις) a sabedoria que vem de fora?
Ouve, pois, como ele se firma contra isto. E eu, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais. Por quê? Em primeiro lugar, diz ele, ainda que fôsseis perfeitos também nas coisas espirituais, nem ainda assim devêreis exaltar-vos; pois o que pregais não é vosso, nem coisa que vós mesmos tenhais achado por vossos próprios meios. Mas, na verdade, nem sequer estas coisas conheceis como deveis conhecê-las, senão que sois aprendizes, e os últimos de todos. Se, pois, a sabedoria gentílica é a ocasião de vossas altas imaginações, já se provou que ela é nada, antes, no tocante às coisas espirituais, é até contrária a nós; ou se é por causa das coisas espirituais, também nestas ficais aquém e tendes o vosso lugar entre os últimos. Por isso diz: Não pude falar-vos como a espirituais. Não disse: Não vos falei, para que a coisa não parecesse proceder de alguma inveja sua para com eles; mas de dois modos abate o seu alto espírito: primeiro, porque não conheciam as coisas que são perfeitas; em seguida, porque a sua ignorância provinha deles mesmos; e ainda de um terceiro modo, além destes, ao mostrar que nem mesmo agora são capazes [de suportá-las]. Pois quanto à sua incapacidade no início, isso talvez decorresse da natureza mesma do caso. De fato, porém, ele não lhes deixa sequer esta desculpa. Pois não por incapacidade sua de receber altas doutrinas diz que não as receberam, mas porque eram carnais. Contudo, no início isto não era tão censurável; mas que, depois de tanto tempo, ainda não tivessem chegado ao conhecimento mais perfeito, isto era sintoma da mais completa torpeza.
Cabe observar que ele move a mesma acusação contra os hebreus, não, porém, com tanta veemência. Pois aqueles, diz ele, são assim, em parte por causa da tribulação; mas estes, por causa de certo apetite pela maldade. Ora, as duas coisas não são a mesma. Ele dá a entender também que, num caso, sua intenção era repreender; no outro, antes, estimulá-los, quando proferiu estas palavras de verdade. Pois a estes coríntios diz: Nem ainda agora sois capazes; mas aos outros, hebreus: Por isso deixemos de falar dos primeiros rudimentos de Cristo, e avancemos para a perfeição; e ainda: Estamos persuadidos de coisas melhores a vosso respeito, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falemos.
Segundo — E como chama de carnais àqueles que haviam alcançado tão larga medida do Espírito, e a cujos louvores ele mesmo se estendera tão amplamente no início? Porque também eram carnais aqueles a quem o Senhor diz: "Apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade, não vos conheço" (Mt 7,22-23); e, no entanto, tanto expulsavam demônios, quanto ressuscitavam mortos, quanto proferiam profecias. De modo que é possível até mesmo a quem operou milagres ser carnal. Pois assim Deus operou por meio de Balaão, e a Faraó revelou coisas futuras, e a Nabucodonosor; e Caifás profetizou, sem saber o que dizia; e ainda outros expulsavam demônios em Seu nome, embora não estivessem com Ele (Lc 9,49); posto que não é por causa dos que operam que estas coisas se fazem, mas por causa de outros; nem é raro que os que eram positivamente indignos tenham sido feitos instrumentos delas. Ora, por que admirar-se, se no caso de homens indignos estas coisas se fazem por causa de outros, quando assim sucede até quando são operadas por santos? Pois diz Paulo: "Todas as coisas são vossas; seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja a vida, seja a morte" (1 Cor 3,22); e ainda: "Ele deu uns como apóstolos, e outros como profetas, e outros como pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério" (Ef 4,11-12). Pois, se não fosse assim, não haveria segurança alguma contra a corrupção universal. Porque pode acontecer que os que governam sejam maus e impuros, e seus súditos bons e virtuosos; que os leigos vivam em piedade, e os sacerdotes em maldade; e não poderia haver, por meio de tais homens, nem batismo, nem o corpo de Cristo, nem oblação, se em cada caso a graça exigisse mérito. Mas, como é, Deus costuma operar até mesmo por meio de pessoas indignas, e em nada a graça do batismo é prejudicada pela conduta do sacerdote; do contrário, quem a recebe sofreria dano. Assim, ainda que tais coisas sucedam raramente, é preciso reconhecer que sucedem. Ora, digo estas coisas para que nenhum dos presentes, ocupando-se com a vida do sacerdote, se escandalize a respeito das coisas que se celebram (τὰ τελούμενα). Pois o homem nada introduz nas coisas que nos são propostas, mas o todo é obra do poder de Deus, e é Ele quem vos inicia (ὁ μυσταγωγῶν) nos mistérios.
Terceiro — E eu, irmãos, não pude falar-vos como a espirituais, mas como a carnais. Alimentei-vos com leite, e não com alimento sólido. Porque não éreis capazes [de suportá-lo].
Pois, para que não parecesse ter dito por ambição (φιλοτιμίας ἕνεκα, para obter favor) estas coisas que acabara de dizer — "o espiritual julga todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é julgado", e "temos a mente de Cristo" — e também com vistas a reprimir-lhes o orgulho, observai o que diz. Não foi por isto, diz ele, que me calei, como se não pudesse dizer-vos mais, mas porque "sois carnais; nem ainda agora sois capazes."
Por que disse ele não "não quereis", mas "não podeis"? Justamente porque pôs isto por aquilo. Pois, quanto à falta de poder, ela provém da falta de vontade. O que constitui, para eles, motivo de acusação, mas, para o seu mestre, motivo de desculpa. Pois, se fossem incapazes por natureza, talvez se lhes pudesse perdoar; mas, uma vez que isso procedia de escolha própria, ficaram privados de toda desculpa. Ele fala, então, também do ponto particular que os torna carnais. Pois, havendo entre vós rivalidade, e inveja, e divisão, não sois carnais e não andais como homens? Embora tivesse também de que falar quanto às suas fornicações e impurezas, ele consigna antes aquela ofensa que já há bom tempo se empenhava em corrigir. Ora, se a inveja torna os homens carnais, é bem tempo de nos lamentarmos amargamente, e de nos revestirmos de saco e nos deitarmos em cinzas. Pois quem está puro desta paixão? A menos, na verdade, que eu esteja apenas conjecturando o caso alheio a partir de mim mesmo. Se a inveja torna os homens carnais, e não lhes permite ser espirituais, ainda que profetizem e realizem outras obras admiráveis; ora, quando nem sequer tanta graça está conosco, que lugar encontraremos para as nossas próprias obras, quando não somente nesta matéria, mas também em outras de maior peso, somos convictos?
4. Deste passo aprendemos que Cristo teve boa razão para dizer, Jo 3,20, que todo aquele que faz o mal não vem à luz; e que a vida impura é obstáculo às doutrinas elevadas, não permitindo que a clarividência do entendimento se manifeste. Assim como não é possível, em caso algum, que alguém que vive retamente permaneça no erro, tampouco é fácil a quem foi criado na iniquidade elevar-se rapidamente à altura das doutrinas que nos foram entregues; antes, é necessário que esteja limpo de todas as paixões aquele que há de perseguir a verdade: pois quem se livrar destas se livrará também do seu erro e alcançará a verdade. Não penseis, eu vos suplico, que a mera abstinência da cobiça ou da fornicação vos baste para este fim. Não é assim. Todas as coisas devem concorrer naquele que busca a verdade. Por isso diz Pedro, At 10,34-35: Em verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas, em toda nação, aquele que O teme e pratica a justiça Lhe é aceitável: isto é, Ele o chama e o atrai à verdade. Não vedes Paulo, que era mais veemente do que qualquer outro em guerrear e perseguir? Contudo, porque levava vida irrepreensível, e não fazia essas coisas por paixão humana, foi tanto acolhido quanto alcançou marca superior a todos. Mas, se alguém disser: como persiste no erro tal homem, um grego, que é bondoso, e bom, e humano? — a esta pergunta responderia eu: Ele possui alguma outra paixão, vanglória, ou indolência de espírito, ou falta de cuidado com a própria salvação, julgando que todas as coisas que lhe dizem respeito correm ao sabor do acaso, soltas e sem rumo. Pedro chama de irrepreensível em todas as coisas ao homem que pratica a justiça, [e Paulo diz] quanto à justiça que há na lei, tendo-me tornado irrepreensível. E também: Dou graças a Deus, a quem sirvo desde os meus antepassados com consciência pura (2Tm 1,3). Como, então, direis, foram pessoas impuras consideradas dignas do Evangelho? Porque o desejaram e o ansiaram. Assim, os primeiros, ainda que em erro, são por Ele atraídos, porquanto estão limpos das paixões; os outros, aproximando-se por si mesmos, não são repelidos. Muitos, também, mesmo por herança de seus antepassados, receberam a verdadeira religião.
A incapacidade dos Coríntios de receber alimento sólido não provinha da natureza, mas da vontade; por isso, estavam sem desculpa.
Aqui Paulo fala do problema particular que tornou os coríntios carnais. Havia outras questões, como a fornicação e a impureza, das quais trataria mais adiante, mas primeiro quer abordar algo que evidentemente já vinha há tempos tentando corrigir. Se a inveja torna os homens carnais, cada um de nós deveria clamar por causa do próprio pecado e cobrir-se de saco e cinza. Quem não está manchado por isto? Digo-o a respeito dos outros apenas porque sei quão verdadeiro é a meu próprio respeito.
Neste ponto, ele se prepara para lutar contra aqueles cuja parte era a obediência: pois no que precedeu vinha derrubando os que regem a Igreja, quando disse que a sabedoria da palavra não vale nada. Mas aqui fere os que estão em sujeição, nas palavras
Foi o facciosismo dos coríntios que produziu a inveja, e esta, por sua vez, os tornou carnais. Uma vez feitos carnais, já não estavam livres para ouvir verdades de índole mais espiritual.
E ele assinala que isto, longe de lhes ser de qualquer proveito ou de lhes fazer adquirir coisa alguma, tornara-se até obstáculo ao seu progresso nas coisas maiores. Pois foi isto que gerou a inveja, e a inveja os tornara carnais; e, feitos carnais, não lhes ficara liberdade para ouvir verdades de índole mais sublime.
Paulo se diminui a si mesmo para mostrar aos coríntios que não os está maltratando. É grande coisa ser servo, usado por Deus para trazer outros à fé, mas, comparado com a fonte e a raiz de todo bem, não é nada. Note-se também que Paulo chamou a Apolo e a si mesmo de servos, não de evangelistas. Isto porque não apenas haviam pregado o evangelho, mas também haviam ministrado ao povo em Corinto. Aquilo era matéria de palavra somente, ao passo que isto inclui também as obras.
Deste modo, depois de produzir e provar os fatos, torna sua acusação daí em diante mais aberta. Além disso, emprega o próprio nome, removendo toda aspereza e não lhes permitindo irar-se com o que se diz. Pois se Paulo é nada e não murmura, muito menos deveriam eles julgar-se maltratados. Duas maneiras, como se vê, tem ele de os apaziguar: primeiro, trazendo à frente a própria pessoa; depois, não os despojando de tudo, como se em nada houvessem contribuído. Antes, permite-lhes alguma pequena porção: por pequena que seja, permite-a. Pois, tendo dito, Quem é Paulo, e quem Apolo, acrescenta, senão ministros por quem crestes. Ora, isto em si mesmo é coisa grande, e digna de grandes recompensas: ainda que, em relação ao arquétipo e à raiz de todo bem, não seja nada. (Pois não é aquele que ministra as nossas bênçãos, mas aquele que as provê e as dá, quem é nosso Benfeitor.) E não disse, Evangelistas, mas Ministros, o que é mais. Pois não apenas haviam pregado o Evangelho, mas também nos haviam ministrado; sendo aquilo matéria de palavra somente, enquanto isto tem também obra. E assim, se até Cristo é apenas ministro dos bens, e não Ele mesmo a raiz e a fonte, (falo, é claro, enquanto Filho,) observai a que ponto esta questão é levada. (ποῦ τὸ πρᾶγμα κατάγεται — quão profundo e alto é levado a ir.) Como, pois, perguntareis, diz ele que foi feito Ministro da Circuncisão? (Rm 15,8) Fala ali de sua secreta dispensação na Carne, e não no mesmo sentido que ora mencionamos. Pois ali, por Ministro, entende Cumpridor, (πληρωτὴν, isto é, dos tipos), e não aquele que do próprio cabedal distribui as bênçãos.
Além disso, não disse, Aqueles que vos guiam à Fé, mas aqueles por quem crestes; atribuindo de novo a si mesmos a parte maior, e indicando também por isto a classe subordinada dos ministros (τοὺς διακόνους κὰντεῦθεν δηλῶν). Ora, se ministravam a outro, como vieram a arrogar para si a autoridade? Mas quereria eu que considerásseis como de modo nenhum ele lhes lança a culpa como se a houvessem arrogado a si mesmos, mas antes àqueles que lha atribuíram. Pois o fundamento do erro estava na multidão; porquanto, se um houvesse decaído, o outro se teria desfeito. Eis dois pontos que ele habilmente providenciou: primeiro, preparando-se, como que por mineração (ὑπορύξας), na parte onde era necessário derrubar o mal; e depois, da parte deles, não atraindo má vontade, nem tampouco os tornando mais contenciosos.
Assim como Cristo (ὁ Κύριος, texto recebido) deu a cada um.
Pois nem mesmo esta pequena coisa era deles, mas de Deus, que a pôs em suas mãos. Pois, para que não dissessem, Que, então? Não havemos de amar os que nos ministram? Sim, diz ele; mas deveis saber até que ponto. Pois nem mesmo esta coisa em si é deles, mas de Deus, que a deu.
Isto é, lancei primeiro a palavra na terra; mas, para que as sementes não se murchassem por causa das tentações, Apolo acrescentou a sua parte. Contudo, o todo era de Deus.
Paulo e Apolo tinham funções diferentes, mas tudo quanto faziam era de Deus.
Observais o modo como ele os apazigua, para que não se irritassem demasiadamente ao ouvir: Quem é este, e quem é aquele? Pois ambas as coisas são invidiosas, a saber, tanto dizer "Quem é este? Quem é aquele?", quanto dizer que nem o que planta nem o que rega é coisa alguma. Como, pois, ele suaviza estas expressões? Primeiro, atribuindo o desprezo à sua própria pessoa: Quem é Paulo, e quem é Apolo? E, em seguida, remetendo o todo a Deus, que deu todas as coisas. Pois, depois de ter dito que tal pessoa plantou, e acrescentado que o que planta nada é, ele subjungiu: mas Deus, que dá o crescimento. Nem ainda aqui ele se detém, mas aplica de novo outra cláusula curativa, nas palavras.
Paulo diz isto a fim de mostrar que os coríntios não têm razão para pensar que alguns dentre eles sejam superiores aos outros. Ele não permitiu que os que trabalharam arduamente se considerassem superiores aos que trabalharam menos, nem tampouco permitiu que estes tivessem inveja daqueles. Mas, a fim de evitar a tentação à ociosidade que naturalmente resulta quando todos são tratados igualmente, quer tenham trabalhado arduamente quer não, Paulo acrescenta que as recompensas serão distribuídas a cada um segundo a obra realizada.
Pois por meio disto ele estabelece também outro ponto, a saber, que não se exaltassem uns contra os outros. A sua afirmação de que são um só refere-se à incapacidade deles de fazer coisa alguma sem Deus, que dá o crescimento. E dizendo isto, não permitiu que os que trabalharam muito se levantassem contra os que contribuíram menos; nem tampouco que estes invejassem aqueles. Em seguida, visto que isto tendia a tornar os homens mais indolentes — quero dizer, sendo todos estimados como um só, quer tivessem trabalhado muito quer pouco —, observai como ele corrige isto, dizendo: Mas cada um receberá o seu próprio galardão segundo o seu próprio trabalho. Como se dissesse: Não temais, porque disse: Sois um só; pois, comparados com a obra de Deus, são um só; todavia, quanto aos trabalhos, não o são, mas cada um receberá o seu próprio galardão.
Depois ele suaviza ainda mais, tendo logrado o que desejava; e os agracia, onde é lícito, com liberalidade.
Porque somos cooperadores de Deus: vós sois lavoura de Deus, edifício de Deus.
Vedes como também a estes ele atribuiu não pequena obra, havendo antes estabelecido que o todo procede de Deus? Pois, como sempre os persuade a obedecerem aos que têm o governo sobre eles, por isso se abstém de menosprezar demasiadamente os seus mestres.
Vós sois lavoura de Deus.
Porque, havendo dito: Eu plantei, manteve-se na metáfora. Ora, se sois lavoura de Deus, é justo que sejais chamados não a partir dos que vos cultivam, mas a partir de Deus. Pois o campo não se chama do lavrador, mas do proprietário.
Vós sois edifício de Deus.
De novo, o edifício não pertence ao operário, mas ao senhor. Ora, se sois edifício, não deveis ser forçados à separação, pois isto não seria edifício. Se sois lavoura, não deveis ser divididos, mas cercados com uma única cerca, a saber, a unanimidade.
O edifício não pertence ao operário, mas ao senhor. Se sois edifício, não deveis ser cindidos em dois, pois então o edifício ruirá. Se sois lavoura, não deveis ser divididos, mas antes cercados com uma única cerca, a cerca da unanimidade.
Paulo não se exalta a si mesmo ao tomar o exemplo de um sábio arquiteto, porque toda a habilidade que possui provém inteiramente da graça de Deus que lhe foi dada. Além disso, porque é graça, não se divide, mas repousa segura sobre o único fundamento, que é Cristo.
Neste lugar ele se chama a si mesmo sábio, não se exaltando, mas para lhes dar um exemplo, e para mostrar que isto é próprio de um sábio, a saber, lançar um fundamento. Podeis observar, como um exemplo do seu comedimento, que, ao falar de si mesmo como sábio, não permitiu que isto se sustentasse como algo seu próprio; antes, atribuindo-se inteiramente a Deus, então, e não antes, se chama por aquele nome. Pois, segundo a graça de Deus, diz ele, que me foi dada. Assim, ao mesmo tempo ele significa tanto que o todo procede de Deus, quanto que isto é, sobretudo, graça, a saber, o não ser dividido, mas repousar sobre um único Fundamento.
7. Outro edifica sobre ele; mas cada um veja como edifica sobre ele.
Aqui, penso eu, e no que se segue, ele os põe à prova quanto à prática, depois de os haver, de uma vez por todas, unido e feito um só.
O fundamento já está posto, e ninguém pode mudá-lo. Edifiquemos, pois, sobre ele e apeguemo-nos a ele como os ramos se apegam à videira, de modo que não haja fenda alguma entre nós e Cristo. Pois no instante em que se abre uma fenda entre a videira e seus ramos, os ramos secam e perecem. Semelhantemente, se um edifício não está cimentado ao seu fundamento, ruirá. Portanto, não nos limitemos a apegar-nos a Cristo, mas sejamos cimentados a Ele, pois se estivermos apartados, pereceremos.
Vede como ele demonstra toda a sua proposição até mesmo a partir das noções comuns dos homens. O que ele quer dizer é isto: preguei a Cristo, entreguei-vos o fundamento. Atentai para como edificais sobre ele, para que não seja porventura em vanglória, para que não seja porventura de modo a atrair os discípulos para os homens. Não demos, pois, ouvidos às heresias. Porque nenhum outro fundamento pode alguém lançar, além do que já está lançado. Sobre este, pois, edifiquemos, e como a um fundamento apeguemo-nos a ele, como o ramo à videira; e não haja intervalo algum entre nós e Cristo. Pois, se houver algum intervalo, pereceremos imediatamente. Porque o ramo, por sua aderência, atrai para si a seiva, e o edifício se mantém em pé porque está cimentado; ao passo que, se estiver separado, perece, não tendo nada em que se apoiar. Não nos limitemos, pois, a nos apegar a Cristo, mas sejamos cimentados a Ele; porque, se estivermos separados, pereceremos. Pois os que se afastam de Ti perecerão (Sl 72,27, Septuaginta), assim está dito. Apeguemo-nos, pois, a Ele, e apeguemo-nos por nossas obras. Porque quem guarda os meus mandamentos, esse permanece em mim (Jo 14,21) — em substância. E, por conseguinte, há muitas imagens pelas quais Ele nos conduz à união. Assim, se observardes bem, Ele é a Cabeça, nós somos o corpo: pode haver algum intervalo vazio entre a cabeça e o corpo? Ele é o Fundamento, nós o edifício; Ele a Videira, nós os ramos; Ele o Esposo, nós a esposa; Ele o Pastor, nós as ovelhas; Ele é o Caminho, nós os que nele caminham. Ademais, nós somos templo, Ele o Habitante; Ele o Primogênito, nós os irmãos; Ele o Herdeiro, nós co-herdeiros com Ele; Ele a Vida, nós os que vivem; Ele a Ressurreição, nós os que ressuscitam; Ele a Luz, nós os iluminados. Todas estas coisas indicam unidade, e não permitem intervalo algum vazio, nem mesmo o menor. Porque aquele que se afasta ainda que por uma pequena distância prosseguirá até tornar-se muito distante. Pois assim o corpo, recebendo embora seja apenas um pequeno corte de espada, perece; e o edifício, ainda que haja apenas uma pequena fenda, cai em ruína; e o ramo, ainda que por pouco tempo esteja cortado da raiz, torna-se inútil. De sorte que esta ninharia não é ninharia, mas é quase o todo. Sempre, pois, que cometermos alguma pequena falta ou mesmo negligência, não negligenciemos esse pouco; pois isto, sendo desprezado, rapidamente se torna grande. Assim também, quando uma veste começou a rasgar-se e é negligenciada, tende a prolongar sua ruptura por toda a extensão; e um telhado, quando algumas telhas caíram e isto é negligenciado, faz desabar a casa inteira.
Guardemos, pois, estas coisas na memória, e jamais desprezemos as pequenas, para que não caiamos nas grandes. Mas se, porventura, as tivermos desprezado e caído no abismo dos males, ainda que ali tenhamos chegado, não nos entreguemos ao desânimo, para que não caiamos na indolência (καρηβαρίαν). Pois emergir dali é sempre árduo, para quem não estiver sumamente vigilante; e não somente por causa da distância, mas também da própria posição em que nos encontramos. Porque também o pecado é um abismo, e costuma abater e esmagar. E assim como os que caíram num poço não conseguem sair facilmente, mas necessitam que outros os puxem para cima, assim também é aquele que chegou a alguma profundidade de pecados. A tais, pois, devemos lançar cordas e puxá-los para cima. Ou antes, não precisamos apenas de outros, mas também de nós mesmos, para que, de nossa parte, nos apeguemos a nós próprios e subamos — não digo tanto quanto descemos, mas muito mais além, se o quisermos: pois por quê? Também Deus ajuda: pois Ele não quer tanto a morte do pecador quanto a sua conversão. Ninguém, pois, desespere; ninguém tenha o sentimento dos ímpios; pois a estes propriamente pertence esta espécie de pecado: o ímpio, tendo chegado a alguma profundidade de males, faz pouco caso disso. De modo que não é a multidão dos pecados dos homens que causa o seu desespero, mas o seu ânimo ímpio.
Ainda que tenhas ido a todos os extremos da maldade, dize contudo a ti mesmo: Deus é amoroso para com os homens e deseja a nossa salvação; pois ainda que os teus pecados sejam como escarlata, Eu te branquearei como a neve (Is 1:10), diz Ele — segundo a Septuaginta —; e mudar-te-ei para o hábito contrário. Não nos entreguemos, pois, ao desespero; porque cair não é tão grave quanto permanecer jazendo onde caímos; nem ser ferido é tão terrível quanto, depois de feridos, recusar a cura. Pois quem se gloriará de ter o coração casto? Ou quem dirá com confiança que está puro de pecado? (Pv 20:9, Septuaginta). Isto digo, não para vos tornar mais negligentes, mas para evitar que vos desespereis.
Quereis saber quão bom é o nosso Senhor? O publicano subiu cheio de dez mil iniquidades, e, dizendo apenas: Tem piedade de mim, desceu justificado (Lc 18:13-14). Sim, diz Deus pelo profeta: Por causa do pecado, por um pouco de tempo o entristeci (Is 57:17-18, Septuaginta), e vi que (εἶδον δτι, não está na Septuaginta) ele se entristeceu e andou pesaroso, e sarei os seus caminhos (ἰασάμην αὐτὸν, Septuaginta). Que há de igual a esta benignidade? Sob a condição ἲνα στυγνάση — cf. Jo 8:56 — ἲνα ἴδη τὴν ἡμέραν, isto é, de que ele estivesse apenas pesaroso, assim Ele fala: Perdoei-lhe os seus pecados. Mas nós não fazemos nem isto; por isso provocamos Deus à ira de modo especial. (Pois Aquele que se torna propício mesmo por pequenas coisas, quando não encontra sequer estas, indigna-Se, por certo, e exige de nós a última pena; porque isto provém de excessivo desprezo.) Quem, por exemplo, jamais se entristeceu por seus pecados? Quem se lamentou a si mesmo? Quem feriu o próprio peito? Quem tomou disso ansioso cuidado? Ninguém, ao que penso. Mas por dias sem conta choram os homens por servos mortos, pela perda de dinheiro; ao passo que, quanto à alma que dia após dia arruinamos, não lhe damos sequer um pensamento. Como, pois, poderás tornar Deus propício, se nem sequer sabes que pecaste?
Sim, dirá alguém, pequei. Sim, tua palavra a mim é dita com a língua: dize-a a mim com a mente, e com a palavra pranteia gravemente, para que tenhas contínua alegria. Pois, se de fato nos afligíssemos por nossos pecados, se pranteássemos gravemente por nossas ofensas, nenhuma outra coisa poderia nos causar tristeza — esta única dor expeliria toda sorte de abatimento. Eis, pois, outra coisa que também deveríamos ganhar por nossa confissão cabal: a saber, o não sermos submersos (βαπτίζεσθαι) pelas dores da vida presente, nem inflados por seus esplendores. E deste modo, novamente, propiciaríamos a Deus mais plenamente; assim como por nossa presente conduta O provocamos à ira. Pois dize-me: se tens um servo, e ele, após sofrer muitos males às mãos de seus conservos, não leva em conta nenhum destes, mas apenas se preocupa em não provocar seu senhor; não é ele capaz, só por isto, de dissipar tua ira? Mas que dizer, se as ofensas contra ti não lhe são de nenhum cuidado, ao passo que para com as ofensas contra seus conservos ele está cheio de zelo — não lhe imporás tu castigo mais pesado? Assim também Deus faz: quando negligenciamos a Sua ira, Ele a traz sobre nós mais pesadamente; mas quando a temos em conta, mais suavemente. Sim, antes, Ele já não a impõe mais sobre nós de modo algum. Ele quer que nós mesmos exijamos de nós a vingança por nossas ofensas, e daí em diante Ele mesmo não a exige. Pois é por isto que Ele de todo ameaça com o castigo: para que, pelo temor, destrua o desprezo; e quando a ameaça sozinha é suficiente para causar em nós o temor, Ele não permite que soframos a provação efetiva. Vede, por exemplo, o que Ele diz a Jeremias, Jr 7:17-18 (a Septuaginta transpõe a primeira e a segunda cláusulas): "Não vedes o que fazem? Seus pais acendem o fogo, seus filhos ajuntam a lenha, suas mulheres amassam a massa." Há de se temer que coisa semelhante se diga também a nosso respeito. Não vedes o que fazem? Ninguém busca as coisas de Cristo, mas todos as suas próprias. Seus filhos correm para a impureza, seus pais para a cobiça e a rapina, suas esposas, longe de reter seus maridos das pompas e vaidades da vida, antes lhes aguçam o apetite por elas. Basta que te postes na praça do mercado, que interrogues os que vêm e vão, e não verás um sequer apressando-se em diligência espiritual, mas todos correndo atrás das coisas carnais. Até quando não despertaremos de nossa embriaguez? Até quando permaneceremos afundando em sono profundo? Não nos fartamos já de males?
9. E, contudo, poder-se-ia pensar que, mesmo sem palavras, a própria experiência bastaria para te ensinar a nulidade das coisas presentes e a sua total mesquinhez. De qualquer modo, houve homens que, exercitando somente a sabedoria pagã e nada sabendo do porvir, porque haviam comprovado a grande inutilidade das coisas presentes, por isso mesmo as deixaram. Que perdão, pois, podes esperar obter, arrastando-te pelo chão e não desprezando as coisas pequenas e transitórias em favor das grandes e eternas — tu que ainda ouves ao próprio Deus declarar e revelar-te estas coisas, e que tens d'Ele tais promessas? Pois que as coisas daqui não têm poder suficiente para reter o homem, mostraram-no aqueles que, mesmo sem nenhuma promessa de coisas maiores, delas se apartaram. Que riqueza esperavam eles, que vieram à pobreza? Nenhuma. Mas foi por saberem perfeitamente que tal pobreza é melhor que a riqueza. Que espécie de vida esperavam eles, que abandonaram os deleites e se entregaram a uma severa disciplina? Nenhuma. Mas haviam-se dado conta da própria natureza das coisas, e percebido que esta, das duas, é mais conveniente, tanto para a rigorosa disciplina da alma quanto para a saúde do corpo.
Estimando, pois, devidamente estas coisas, e revolvendo continuamente em nós mesmos os bens futuros, apartemo-nos deste mundo presente, para que alcancemos aquele outro que há de vir; pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem ao Pai e ao Espírito Santo, etc., etc.
5. Se alguém edificar sobre este fundamento ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha. Pois depois da fé há necessidade de edificação; e por isso ele diz em outro lugar: Edificai-vos uns aos outros com estas palavras — talvez 1 Tessalonicenses 5:11; 4:5. Pois tanto o artífice quanto o aprendiz contribuem para a edificação. Por isso diz ele: Mas cada um veja como edifica sobre ele. 1 Coríntios 3:10. Mas se a fé fosse o assunto destes ditos, o que se afirma não seria razoável. Pois na fé todos devem ser iguais, visto que há uma só fé; Efésios 4:5; mas na bondade de vida não é possível que todos sejam iguais. Porque a fé não é em uns menor, em outros mais excelente, mas a mesma em todos os que verdadeiramente creem. Mas na vida há lugar para que alguns sejam mais diligentes, outros mais indolentes; alguns mais rigorosos, e outros mais ordinários; que alguns tenham se saído bem em coisas maiores, outros em menores; que os erros de alguns tenham sido mais graves, os de outros menos notáveis. Por isso ele diz: Ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha — a obra de cada um se manifestará: sua conduta; é disto que ele fala aqui: Se a obra de alguém que sobre ele edificou permanecer, receberá recompensa; se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda. Ao passo que, se o dito se referisse a discípulos e mestres, ele não deveria sofrer perda pelo fato de os discípulos se recusarem a ouvir. E por isso ele diz: Cada um receberá sua própria recompensa segundo seu próprio trabalho — não segundo o resultado, mas segundo o trabalho. Pois que importa se os ouvintes não deram atenção? Por isso esta passagem também prova que o dito trata de ações.
Ora, o que ele quer dizer é isto: se alguém tiver uma vida má com uma fé reta, sua fé não o abrigará do castigo, queimando-se a sua obra. A expressão será queimada significa não suportará a violência do fogo. Mas assim como se um homem, tendo armadura de ouro, atravessasse um rio de fogo, sairia da travessia ainda mais resplandecente; mas se o atravessasse com feno, longe de lucrar, destruir-se-ia além disso — assim também é o caso quanto às obras dos homens. Pois ele não diz isto como se estivesse discorrendo sobre coisas materiais sendo queimadas, mas com vistas a tornar mais intenso o temor deles, e a mostrar quão desnudo de toda defesa está aquele que permanece na maldade. Por isso ele disse: sofrerá perda: eis aqui uma punição; mas ele mesmo será salvo, ainda que assim como pelo fogo: eis, novamente, aqui uma segunda. E o que ele quer dizer é que ele mesmo não perecerá do mesmo modo que suas obras, passando ao nada, mas permanecerá no fogo.
6. Ele o chama, contudo, de Salvação, direis vós; ora, essa é a causa de ele acrescentar assim como pelo fogo: pois também nós costumávamos dizer é preservado no fogo, quando falamos daquelas substâncias que não se queimam imediatamente e se tornam cinzas. Não imagineis, pois, ao ouvir a palavra fogo, que aqueles que estão a arder passam à aniquilação. E ainda que ele chame tal punição de Salvação, não vos espanteis. Pois é seu costume, nas coisas que têm som ruim, usar expressões belas, e nas coisas boas, o contrário. Por exemplo, a palavra Cativeiro parece ser o nome de coisa má, mas Paulo a aplicou em sentido bom, quando diz: Levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. 2 Coríntios 10:5. E, novamente, a uma coisa má ele aplicou uma palavra boa, dizendo: O pecado reinou, Romanos 5:21 — aqui certamente o termo reinar é antes de som auspicioso. E assim aqui, ao dizer ele será salvo, ele apenas sugeriu obscuramente a intensidade da pena: como se tivesse dito Mas ele mesmo permanecerá para sempre no castigo. Ele então tira uma conclusão.
Nossa fé é o fundamento, e é a mesma para todos. Mas na vida, nem todos são iguais. Alguns são diligentes, outros preguiçosos. Alguns são de grandes realizações, outros mais medianos. Alguns se saem bem em coisas maiores, outros brilham em assuntos menores. Os erros de algumas pessoas são mais graves que os de outras. É por isso que aqui encontramos a variedade. Além disso, o julgamento se aplica ao esforço, não aos resultados. Um mestre não pode ser culpado meramente porque seus discípulos se recusam a ouvir.
Não é pequeno o assunto de investigação que propomos, mas antes uma questão sobre coisas de primeiríssima necessidade, que todos os homens indagam; a saber, se o fogo do inferno tem algum fim. Que ele não tem fim, Cristo mesmo o declarou quando disse: "O fogo deles não se apagará, e o verme deles não morrerá" (Mc 8:44,46,48).
Pois bem: sei que um torpor vos toma (ναρκᾶτε) ao ouvirdes estas coisas; mas que hei de fazer? Pois este é o próprio mandamento de Deus, o de continuamente fazer ressoar estas coisas em vossos ouvidos, onde Ele diz: "Adverte a este povo" (cf. Êx 19:10,20 — διαμαρτύραι, Septuaginta; aqui διάστειλαι); e, ordenados como fomos ao ministério da palavra, devemos causar dor aos nossos ouvintes, não voluntariamente, mas por necessidade. Antes, se quiserdes, evitaremos causar-vos dor. Pois Ele diz (Rm 13:3), em substância, que, se fazeis o que é bom, não temais: de modo que vos é possível ouvir-me não só sem malquerença, mas até com prazer.
Como disse, pois, que ele não tem fim, Cristo o declarou. Também Paulo, apontando a eternidade da punição, diz que os pecadores pagarão a pena de destruição, e isso para sempre (2Ts 1:9). E outra vez (1Cor 6:9): "Não vos enganeis; nem os fornicadores, nem os adúlteros, nem os efeminados herdarão o Reino de Deus." E também aos Hebreus diz (Hb 12:14): "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor." E Cristo também, àqueles que disseram: "Em teu Nome fizemos muitas maravilhas", diz: "Apartai-vos de Mim, não vos conheço, obreiros da iniquidade" (Mt 7:22). E também as virgens que foram excluídas não mais entraram. E também acerca daqueles que não Lhe deram de comer, diz (Mt 25:46): "Irão para o castigo eterno."
2. E não me digas: onde está preservada íntegra a regra da justiça, se a punição não tem fim? Antes, quando Deus faz alguma coisa, obedecei às Suas decisões, e não submetais o que é dito aos raciocínios humanos. Mas, além disso, como poderia deixar de ser justo que aquele que experimentou inúmeras bênçãos desde o princípio, e depois cometeu obras dignas de punição, e nem por ameaça nem por benefício se emendou em nada, viesse a sofrer punição? Pois, se indagais o que é a justiça absoluta, convinha que perecêssemos imediatamente desde o princípio, segundo a definição da justiça estrita. Antes, nem mesmo assim seria só segundo a regra da justiça; pois o resultado teria contido também bondade, se tivéssemos sofrido isso também. Porque, quando alguém insulta a quem não lhe fez nenhum mal, segundo a regra da justiça sofre punição; mas quando é o seu benfeitor — que, não obrigado por nenhum favor anterior, concedeu inúmeras bondades, que é o único Autor do seu ser, que é Deus, que lhe insuflou a alma, que deu dez mil dons de graça, cuja vontade é elevá-lo ao céu —, quando, digo eu, um tal ser, depois de tão grandes bênçãos, é retribuído com insulto, insulto diário, na conduta da outra parte, como poderá esta ser julgada digna de perdão? Não vedes como Ele puniu Adão por um único pecado?
Sim, dirás; mas Deus lhe dera o Paraíso e o fizera desfrutar de grande favor. Ora, decerto não é a mesma coisa que um homem peque no gozo da segurança e do repouso, ou em meio a grande aflição. Na verdade, eis a circunstância terrível: que os teus pecados são pecados de quem não está em nenhum Paraíso, mas em meio aos inúmeros males desta vida presente; que nem sequer a aflição te tornou sóbrio, como se alguém na prisão persistisse ainda em praticar o seu crime. Contudo, a ti Ele prometeu coisas ainda maiores que o Paraíso. Mas não tas deu já, para que não te enfraquecesse no tempo dos combates; nem tampouco calou a respeito delas, para que não te abatesse de todo sob os teus labores. Quanto a Adão, cometeu apenas um pecado e sobre si atraiu a morte certa; nós, porém, cometemos dez mil transgressões cada dia. Se, pois, ele por aquele único ato atraiu sobre si tão grande mal e introduziu a morte, que não sofreremos nós, que vivemos continuamente em pecados e que, em lugar do Paraíso, temos a expectativa do céu?
O argumento é penoso e aflige o ouvinte: ainda que só pelos meus próprios sentimentos, eu o sei. Pois, na verdade, meu coração se perturba e palpita; e quanto mais vejo confirmado o relato do inferno, tanto mais tremo e me encolho de temor. Mas é necessário dizer estas coisas, para que não caiamos no inferno. O que recebestes não foi o paraíso, nem árvores e plantas, mas o céu e os bens que há nos céus. Ora, se aquele que recebera menos foi condenado, e nenhuma consideração o isentou, muito mais nós, que pecamos mais abundantemente e fomos chamados a coisas maiores, sofreremos males sem remédio.
Considerai, por exemplo, quão longo tempo, por causa de um único pecado, a nossa raça permanece na morte. Cinco mil anos e mais se passaram, e a morte ainda não foi abolida, por causa de um único pecado. E nem sequer podemos dizer que Adão tivesse ouvido profetas, que tivesse visto outros punidos por pecados, e que fosse justo que por isso se atemorizasse e se corrigisse, ainda que fosse pelo exemplo. Pois ele era então o primeiro, e único; e, no entanto, foi punido. Mas tu não podes alegar nada disto, tu que, depois de tantos exemplos, te tornaste pior; a quem tão excelente Espírito foi concedido, e ainda assim atrais sobre ti não um pecado, nem dois, nem três, mas pecados sem número! Não penses, pois, que, por ser o pecado cometido num pequeno instante, também o castigo há de ser questão de um instante. Não vedes aqueles homens que, por um único furto ou por um único ato de adultério, cometido num pequeno momento de tempo, muitas vezes passaram toda a sua vida em prisões e em minas, lutando com fome contínua e com toda sorte de morte? E não havia quem os libertasse, ou dissesse: A ofensa se deu num pequeno momento de tempo; também o castigo deveria ter duração equivalente à do pecado.
3. Mas alguém dirá: “São homens os que fazem isto; quanto a Deus, Ele é benigno para com os homens.” Ora, antes de tudo, nem mesmo os homens fazem isto por crueldade, mas por humanidade. E o próprio Deus, sendo benigno para com os homens, é precisamente segundo esse mesmo caráter que Ele castiga os pecados. Pois, como é grande a sua misericórdia, grande é também a sua repreensão (Eclesiástico 16:12). Quando, portanto, me dizes que Deus é benigno para com os homens, tanto maior razão me apresentas para o castigo: a saber, o pecarmos contra um tal Ser. Por isso também Paulo disse: Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10:31). Suportai, eu vos suplico, a força ardente destas palavras, pois talvez — talvez encontreis nisto alguma consolação! Quem, dentre os homens, pode castigar como Deus castigou? Quando trouxe um dilúvio e a destruição total de uma raça tão numerosa; e de novo, pouco depois, quando fez chover fogo do alto e a todos exterminou por completo? Que castigo entre os homens se pode comparar a este? Não vedes que o castigo, mesmo neste mundo, é quase eterno? Quatro mil anos já passaram, e o castigo dos sodomitas permanece em seu auge. Pois, como é grande a sua misericórdia, grande é também o seu castigo.
Ainda mais: se Ele houvesse imposto algo penoso ou impossível, poder-se-ia talvez alegar a dificuldade das leis; mas, sendo elas sumamente fáceis, que diremos nós de não observarmos sequer estas? Suponde que sois incapazes de jejuar ou de praticar a virgindade — embora o sejais, se o quiserdes, e os que o puderam fazer são para nós uma condenação. Mas, todavia, Deus não usou de tal rigor para conosco; nem impôs estas coisas, nem as estabeleceu como leis, mas deixou a escolha ao arbítrio dos ouvintes. Não obstante, sois capazes de ser castos no matrimônio; e sois capazes de vos absterdes da embriaguez. Sois incapazes de vos despojar de todos os vossos bens? Não, certamente sois capazes; e os que assim o fizeram o comprovam. Mas, todavia, Ele não ordenou isto, mas mandou que não fôsseis rapaces e que, dos vossos bens, socorrêsseis os que estão em necessidade. Mas se alguém disser: “Não posso contentar-me sequer com uma só esposa”, engana-se a si mesmo e raciocina falsamente; e o condenam aqueles que, sem esposa, vivem em castidade. Mas, dizei-me, como podeis deixar de usar palavras injuriosas? Podeis deixar de amaldiçoar? Ora, o fazer estas coisas é que é penoso, não o abster-se delas. Que desculpa temos, pois, para não observarmos preceitos tão fáceis e leves? Nenhuma podemos alegar. Que o castigo, portanto, é eterno, é evidente por tudo quanto se disse.
4. Mas, visto que o dito de Paulo parece a alguns apontar em sentido contrário, vinde, tragamo-lo também à luz e examinemo-lo a fundo. Pois, havendo dito: Se permanecer a obra de alguém, que sobre ele edificou, receberá recompensa; e se a obra de alguém se queimar, sofrerá dano, acrescenta: ele mesmo, porém, será salvo, mas assim como pelo fogo. Que diremos, pois, a isto? Consideremos primeiro qual seja o Fundamento, e o que sejam o ouro, e as pedras preciosas, e o feno, e a estopa.
O Fundamento, pois, ele mesmo claramente o significou ser Cristo, dizendo: Pois fundamento outro ninguém pode lançar, além do que já está posto, o qual, diz ele, é Jesus Cristo.
Em seguida, parece-me que o edifício são as ações. Ainda que alguns sustentem que isto também se diz a respeito de mestres e discípulos, e das heresias corruptas: mas a razão não o admite. Pois, se assim fosse, em que sentido, destruída a obra, há de o edificador salvar-se, ainda que seja por meio do fogo? Por justiça, antes deveria o autor, dentre os dois, perecer; mas agora se há de achar que a pena mais severa é atribuída àquele que foi edificado na obra. Pois, se o mestre foi a causa da maldade, digno é de sofrer castigo mais severo: como, pois, há de ele salvar-se? Se, ao contrário, não foi ele a causa, mas os discípulos se tornaram tais por sua própria perversidade, ele não é de modo algum merecedor de castigo, não, nem tampouco de sofrer dano: ele, digo, que tão bem edificou. Em que sentido, pois, diz que sofrerá dano?
Por isto é manifesto que o discurso trata das ações. Pois, como tencionasse a seguir voltar sua força contra o homem que havia cometido fornicação, começa de longe e muito antes a lançar os preliminares. Porquanto sabia como, discorrendo sobre um assunto, preparar já no próprio discurso acerca daquela coisa os fundamentos de outra à qual pretende passar. Assim também, em sua repreensão por não se esperarem uns aos outros nas refeições, lançou os fundamentos de seu discurso acerca dos mistérios. E também, porque agora se apressa em direção ao fornicador, ao falar acerca do Fundamento, acrescenta: Não sabeis que sois o Templo de Deus? E que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir (φθείρῃ; a versão recebida traz: profanar) o Templo de Deus, Deus o destruirá. Ora, isto disse ele, já começando a agitar com temores a alma daquele que se havia mostrado impuro.
Se alguém tem a fé reta, mas leva uma vida perversa, sua fé não o livrará do castigo, porque sua obra será queimada. O homem revestido de armadura de ouro atravessará um rio de fogo e sairá dele ainda mais resplandecente; mas aquele que o atravessar levando feno perderá tudo e, além disso, a si mesmo se destruirá.
7. Não sabeis vós que sois o templo de Deus? Pois, tendo discorrido na seção anterior acerca dos que dividiam a Igreja, ataca dali em diante também aquele que se tornara culpado de impureza; não ainda, é certo, em termos explícitos, mas de modo geral, insinuando o seu modo de vida corrupto e agravando o pecado por meio do dom que já lhe havia sido concedido. Em seguida, também envergonha a todos os demais, argumentando a partir destas mesmas bênçãos que já possuíam; pois isto é o que ele sempre faz, seja a partir do futuro, seja a partir do passado, quer se trate de coisas penosas, quer de coisas animadoras. Primeiro, a partir das coisas futuras: Porque o dia o manifestará, pois é revelado pelo fogo. Depois, a partir das coisas já acontecidas: Não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?
Se alguém destruir o Templo de Deus, Deus o destruirá. Notais a veemência arrasadora de suas palavras? Contudo, enquanto a pessoa permanece desconhecida, o que é dito não é tão odioso, pois todos dividem entre si o temor da repreensão.
Deus o destruirá, isto é, fará com que ele pereça. E esta não é palavra de quem lança uma maldição, mas de quem profetiza.
Pois o Templo de Deus é santo; mas aquele que cometeu fornicação é profano.
Então, para que não parecesse deter seu zelo apenas sobre aquele, ao dizer "pois o Templo de Deus é santo", acrescenta: "o qual sois vós".
O templo de Deus é santo, mas todo aquele que cometeu fornicação é profano.
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Paulo nos pede que nos tornemos mortos para o mundo, e esta morte nos é proveitosa, porquanto é o começo de uma vida nova. Assim também nos ordena que nos tornemos loucos diante do mundo, introduzindo-nos, por isso mesmo, à verdadeira sabedoria. Tu te tornas louco para este mundo quando desprezas a sabedoria terrena e te persuades de que ela em nada contribui para tua compreensão da fé. Para os cristãos, tudo é exatamente o oposto do que parece.
8. Ninguém se engane a si mesmo. Isto também se refere àquela pessoa, como quem julga ser alguma coisa e a si mesmo se lisonjeia com a sabedoria. Mas, para que não parecesse insistir demasiadamente sobre ele em mera digressão, primeiro o lança numa espécie de agonia e o entrega ao temor, e então reconduz o discurso à falta comum, dizendo: Se alguém dentre vós parece ser sábio neste mundo, faça-se estulto, para que se torne sábio. E isto ele faz depois com grande ousadia de palavra, como quem já os houvesse suficientemente abatido e sacudido com aquele temor não somente o ânimo daquela pessoa impura, mas também o de todos os ouvintes: tão precisamente mede ele o alcance do que tem a dizer. Pois que importa que um homem seja rico, que importa que seja nobre; ele é mais vil que todos os vis, quando feito cativo pelo pecado. Pois assim como, se um homem fosse rei e se tornasse escravo de bárbaros, seria de todos os homens o mais desventurado, assim também é a respeito do pecado: pois o pecado é um bárbaro, e a alma que uma vez foi feita cativa, ele não sabe poupá-la, mas tiraniza para a ruína de todos quantos a acolhem.
9. Pois nada há tão insensato quanto o pecado: nada tão despido de razão, tão absolutamente néscio e ultrajante. Tudo é subvertido, confundido e destruído por ele, onde quer que ele pouse. Repugnante à vista, nojento e penoso. E, se algum pintor lhe traçasse o retrato, não erraria, penso eu, em figurá-lo desta maneira: uma mulher com forma de fera, selvagem, respirando chamas, hedionda, negra; tal como os poetas gentios retratam suas Cilas. Pois com dez mil mãos ela se apodera de nossos pensamentos, e vem inesperada, e despedaça tudo, como aqueles cães que mordem sorrateiramente.
Mas antes, que necessidade há da arte do pintor, quando deveríamos antes trazer à frente aqueles que se fizeram à semelhança do pecado?
A quem, pois, quereis que retratemos primeiro? Ao cobiçoso e ao rapace? E que há de mais desavergonhado do que aqueles olhos? Que há de mais impudico, mais semelhante a um cão voraz? Pois nenhum cão guarda sua posição com tamanha impudência descarada como aquele que arrebata os bens de todos os homens. Que há de mais imundo do que aquelas mãos? Que há de mais audacioso do que aquela boca, que tudo devora e não se satisfaz? Não olheis, pois, para o semblante e para os olhos como se fossem de homem. Pois tais olhares não pertencem aos olhos dos homens. Ele não vê os homens como homens; não vê o céu como céu. Nem sequer levanta a cabeça para o Senhor; mas tudo, em sua conta, é dinheiro. Os olhos dos homens costumam olhar para os pobres em aflição e enternecer-se; mas os deste rapace, à vista do pobre, cintilam como os de feras. Os olhos dos homens não contemplam os bens alheios como se fossem próprios, mas antes os próprios como se fossem de outros; e não cobiçam o que é dado a outros, mas antes despendem sobre outros os seus próprios haveres: estes, porém, não se contentam a menos que tomem para si a propriedade de todos. Pois não é olho de homem o que possuem, mas de fera. Os olhos dos homens não suportam ver o próprio corpo despojado de vestes — pois é seu, ainda que, quanto à pessoa, pertença a outrem —; mas estes, a menos que despojem a todos e alberguem em sua própria casa os bens de todos os homens, jamais se fartam; antes nunca têm bastante. De sorte que se poderia dizer que suas mãos não são apenas de feras, mas ainda muito mais selvagens e cruéis do que as destas. Pois os ursos e os lobos, quando saciados, cessam o seu modo de comer; estes, porém, não conhecem saciedade alguma. E, no entanto, para isto nos fez Deus as mãos: para socorrer os outros, não para conspirar contra eles. E se as usássemos para esse fim, melhor teria sido que nos fossem cortadas, e ficássemos sem elas. Mas tu, se uma fera despedaça uma ovelha, te afliges; quando, porém, fazes o mesmo a um de tua própria carne e sangue, pensas que teu ato nada tem de atroz? Como, pois, podes ser homem? Não vedes que chamamos de humano aquilo que está cheio de misericórdia e de benignidade? Mas quando um homem pratica algo cruel ou selvagem, desumano é o título que a tal damos. Vedes, pois, que o cunho do homem, tal como o retratamos, é mostrar misericórdia; o da fera, o contrário; segundo o dito constante: Acaso é o homem fera, ou cão? cf. 2 Rs 8:13. Pois os homens aliviam a pobreza; não a agravam. Ademais, as bocas destes homens são bocas de feras; ou antes, estas são as mais ferozes das duas. Pois também as palavras que proferem emitem veneno mais do que os dentes das feras, operando morte. E se alguém percorresse todos os pormenores, veria então claramente como a inumanidade transforma em feras aqueles que a praticam, de homens que eram.
10. Mas, se alguém sondasse também a mente desse tipo de gente, não mais chamaria a tais de feras somente, mas de demônios. Porque, primeiramente, estão cheios de grande crueldade e de ódio contra o seu consorte de servidão (Mt 18,33); e não há neles nem amor ao Reino, nem temor do inferno; nenhuma reverência aos homens, nenhuma piedade, nenhuma compaixão; mas impudência e audácia, e desprezo de todas as coisas futuras. E as palavras de Deus acerca do castigo lhes parecem fábula, e as Suas ameaças, motivo de riso. Pois tal é a mente do avarento. Uma vez, pois, que por dentro são demônios, e por fora, feras selvagens — antes, piores que feras selvagens — onde havemos de colocar os que são tais? Pois que sejam piores ainda que as feras selvagens, é manifesto por isto: as feras são o que são por natureza; mas estes, dotados pela natureza de mansidão, esforçam-se violentamente contra a natureza para se adestrarem naquilo que é selvagem. Também os demônios têm, para os ajudar, os homens que urdem intrigas, de tal modo que, se não tivessem tal auxílio, a maior parte de suas ciladas contra nós se desfaria; mas estes, quando os que foram por eles maltratados rivalizam com eles, ainda assim se esforçam por ser mais malignos do que eles. Além disso, o diabo trava guerra com o homem, não com os demônios de sua mesma espécie; mas aquele de quem falamos se apressa por todos os modos a fazer mal aos seus próprios parentes e família, e nem sequer reverencia a natureza.
Sei que muitos nos odeiam por causa destas palavras; mas eu não sinto ódio algum por eles; antes, tenho compaixão e choro por aqueles que assim estão dispostos. Ainda que quisessem golpear-me, eu de bom grado suportaria, contanto que se abstivessem desta sua mente selvagem. Pois não sou eu somente, mas também o profeta comigo, que bane a todos esses da família dos homens, dizendo: τοῖς ἀνοήτοις — "O homem que está em honra e não tem entendimento é semelhante aos animais que perecem" (Sl 49,20, Septuaginta).
Tornemo-nos, pois, homens finalmente, e olhemos para cima, para o céu; e aquilo que é segundo a Sua imagem (Cl 3,10), recebamo-lo e recobremo-lo, para que também alcancemos os bens futuros pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Como apanha Deus os sábios em sua própria astúcia? Mostrando-lhes que, precisamente quando imaginavam poder prescindir de Deus, era então que mais dEle necessitavam. Reduzem-se a tal aperto que passam a parecer inferiores a pescadores e homens sem letras, de cuja sabedoria já não podem agora prescindir.
Tal como já disse antes, tendo-se lançado, antes do tempo próprio, à acusação do fornicador, e havendo entreaberto obscuramente a questão em poucas palavras, e feito estremecer a consciência daquele homem, apressa-se de novo ao combate com a sabedoria pagã, e às suas acusações contra os que dela se ensoberbeciam e que dividiam a Igreja: a fim de que, tendo acrescentado o que restava e completado com precisão todo o assunto, deixasse então sua língua ser arrebatada por veemente ímpeto contra o homem impuro, havendo tido apenas uma escaramuça preliminar com ele no que dissera antes. Pois este dito, Ninguém se engane a si mesmo, é a expressão de quem visa principalmente a ele, subjugando-o de antemão pelo temor: e o dito acerca da palha convém sobretudo a quem alude a ele. E assim também a frase: Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Pois estas duas coisas são as mais aptas a nos afastar do pecado: quando temos em mente a punição estabelecida para o pecado, e quando computamos a soma de nossa verdadeira dignidade. Trazendo, pois, à frente o feno e a palha, ele aterroriza; mas, falando da dignidade daquela nobre geração que era deles, ele os envergonha; por aquilo procurando corrigir a espécie mais insensível, por isto, a mais ponderada.
2. Ninguém se engane a si mesmo; se alguém, entre vós, cuida ser sábio neste mundo, faça-se louco.
Assim como ele ordena que alguém se torne, por assim dizer, morto para o mundo — e esta morte em nada prejudica, antes aproveita, sendo feita causa de vida — assim também ordena que se torne louco para este mundo, introduzindo-nos por meio disso a verdadeira sabedoria. Ora, torna-se louco para o mundo aquele que despreza a sabedoria de fora, e se persuade de que ela em nada contribui para a sua compreensão da fé. Assim como, pois, aquela pobreza que é segundo Deus é causa de riqueza, e a humildade, de exaltação, e desprezar a glória é causa de glória; assim também o tornar-se louco faz o homem mais sábio que todos. Pois tudo, entre nós, se dá por contrários.
Ademais: por que não disse ele, Deponha a sabedoria, mas antes, Faça-se louco? Para depreciar ao máximo a instrução pagã. Pois não era o mesmo dizer, Deponde vossa sabedoria, e, Fazei-vos loucos. E, além disso, ele também instrui as pessoas a não se envergonharem da falta de refinamento entre nós; pois ele ridiculariza inteiramente todas as coisas pagãs. E pela mesma razão não recua diante dos nomes, confiando, como confia, no poder das coisas [de que fala].
Por isso, assim como a Cruz, embora tida por ignominiosa, tornou-se autora de inúmeras bênçãos, e o fundamento e raiz de glória inefável; assim também aquilo que era tido por loucura tornou-se para nós causa de sabedoria. Pois assim como aquele que aprendeu algo mal, a menos que abandone tudo, e torne sua alma lisa e límpida, e assim a ofereça àquele que há de escrever nela, não conhecerá com certeza nenhuma verdade salutar; assim também a respeito da sabedoria de fora. A menos que expulses tudo e varras tua mente inteiramente, e, como quem nada sabe, te entregues à fé, nada de excelente conhecerás com precisão. Pois assim também os que veem imperfeitamente, se não quiserem fechar os olhos e confiar-se a outros, mas insistirem em confiar seus próprios assuntos à sua própria vista defeituosa, cometerão muitos mais erros do que os que não veem.
Ora, direis: como poderá o homem despojar-se dessa sabedoria? Não a pondo em prática.
3. Depois, vendo que os havia exortado com tanta urgência a apartar-se dela, acrescenta a causa, dizendo: Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Pois não somente ela em nada contribui, como ainda estorva. Devemos, pois, apartar-nos dela, como coisa que causa dano. Notai com que mão soberana ele arrebata os despojos da vitória, tendo demonstrado que ela, longe de nos aproveitar em algo, é ainda antagonista.
E não se contenta com os seus próprios argumentos, mas aduz também de novo um testemunho, dizendo: Porque está escrito (Jó 5:13): Ele apanha os sábios na sua própria astúcia. Por astúcia, isto é, por suas próprias armas, sendo elas vencidas. Pois, vendo que se serviam da sua sabedoria para tornar supérflua toda necessidade de Deus, foi por ela, e não por outra coisa, que Ele os refutou, mostrando que tinham especial necessidade de Deus. De que modo e por qual método? Porque, tendo-se por ela tornado loucos, por ela, como convinha, foram apanhados. Pois aqueles que supunham não necessitar de Deus foram reduzidos a tal aperto, que pareceram inferiores a pescadores e a homens iletrados; e desde então não puderam mais passar sem eles. Por isso diz: Na sua própria astúcia Ele os apanhou. Pois a sentença destruirei a sabedoria deles foi dita quanto ao fato de não introduzir ela nada de útil; mas esta, que apanha os sábios na sua própria astúcia, com vistas a mostrar o poder de Deus.
Em seguida, declara também o modo pelo qual Deus os apanhou, acrescentando outro testemunho.
Pois o Senhor, diz ele, conhece os pensamentos dos homens (Salmo 94:11) (ἀνθρώπων, Septuaginta), que são vãos. Ora, quando a Sabedoria que é sem limites pronuncia este édito acerca deles, e os declara tais, que outra prova buscais da extrema loucura deles? Pois os juízos dos homens, na verdade, em muitos casos falham; mas o decreto de Deus é irrepreensível e incorrupto em todo caso.
4. Tendo assim erguido tão esplêndido troféu do juízo vindo do alto, ele emprega no que se segue certa veemência de estilo, voltando-a contra aqueles que estavam sob seu ministério (ἀρχομένους).
Portanto, que ninguém se glorie nos homens; pois todas as coisas são vossas. Ele retorna ao tópico anterior, mostrando que nem mesmo pelas coisas espirituais deveriam ensoberbecer-se, como se nada tivessem de si mesmos. Visto, pois, que a sabedoria de fora é nociva, e os dons espirituais não foram dados por vós, que tendes em que vos gloriar? E quanto à sabedoria de fora, Que ninguém se engane a si mesmo, diz ele, porque se ensoberbeciam de uma coisa que, na verdade, mais dano fazia que proveito. Mas aqui, visto que a coisa de que se falava era realmente vantajosa, Que ninguém se glorie. E ele ordena seu discurso mais brandamente: pois todas as coisas são vossas.
Pois, tendo-os tratado com aspereza, ele os reconforta novamente. E como acima havia dito, Somos cooperadores de Deus (1 Coríntios 3:9); e com muitas outras expressões os havia suavizado: assim também aqui diz, Todas as coisas são vossas; abatendo o orgulho dos mestres, e significando que, longe de lhes conferirem qualquer favor, eles mesmos deveriam ser gratos aos outros. Pois por causa deles foram feitos tais quais eram, sim, e ainda mais, haviam recebido graça. Mas, vendo que também estes certamente se gloriariam, por esta razão ele corta de antemão também esta enfermidade, dizendo, Como Deus deu a cada um (supra 3:5-6); e, Deus deu o crescimento: a fim de que nem uma parte se ensoberbecesse como concedente do bem, nem os outros, ouvindo pela segunda vez, Todas as coisas são vossas, se elevassem de novo. Pois, ainda que fosse por vossa causa, todavia toda a obra era de Deus. E quero que observeis como ele prossegue, fazendo suposições em seu próprio nome e no de Pedro.
Mas que quer dizer, ou a morte? Que, ainda que morram, é por vossa causa que morrem, enfrentando perigos para vossa salvação. Notai como ele novamente abate o alto espírito dos discípulos, e levanta o espírito dos mestres? De fato, ele fala com eles como com filhos de alta linhagem, que têm preceptores, e que hão de ser herdeiros de tudo.
Podemos dizer também, noutro sentido, que tanto a morte de Adão foi por nossa causa, para que fôssemos corrigidos; quanto a morte de Cristo, para que fôssemos salvos.
E vós sois de Cristo; e Cristo é de Deus. Num sentido somos de Cristo, e noutro sentido Cristo é de Deus, e num terceiro sentido o mundo é nosso. Pois nós, na verdade, somos de Cristo, como obra sua: Cristo é de Deus, como Filho genuíno, não como obra: sentido em que também o mundo não é nosso. De modo que, embora o dito seja o mesmo, o sentido é diferente. Pois o mundo é nosso, como coisa feita por nossa causa: mas Cristo é de Deus, tendo Nele o Autor de seu ser, enquanto Ele é Pai. E nós somos de Cristo, como tendo sido formados por Ele. Ora, se eles são vossos, diz ele, por que fizestes o que é justamente contrário a isto, chamando-vos pelo nome deles, e não pelo de Cristo e de Deus?
Tendo criticado os coríntios, Paulo agora se volta para animá-los uma vez mais. Ele chega mesmo a abater o orgulho dos mestres, dando a entender que deveriam ser gratos aos outros, por cuja causa foram feitos o que são.
Somos de Cristo porque por ele fomos feitos [pela graça]. Mas Cristo é de Deus, não como criatura, mas como seu próprio Filho.
Paulo honra os coríntios chamando-os de servos, e torna isto ainda mais preciso quando acrescenta o termo mordomos. Pois não devemos dar os mistérios de Deus indiscriminadamente a todos, mas somente àqueles a quem são devidos e a quem é justo que ministremos.
Considere-nos, portanto, o homem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Depois de haver abatido o ânimo deles, observai como novamente o reanima, dizendo: como ministros de Cristo. Não vás tu, pois, deixando de lado o Senhor, receber um nome dos servos e ministros. Despenseiros, diz ele, indicando que não devemos dar estas coisas a todos, mas àquele a quem se deve, e a quem convém que ministremos.
O dever de um despenseiro é administrar bem as coisas que lhe foram confiadas. As coisas não pertencem ao despenseiro, mas ao senhor — antes, o inverso: o que é seu, na verdade, pertence ao seu senhor.
Além disso, requer-se dos despenseiros que se ache um homem fiel: isto é, que ele não se aproprie para si dos bens de seu senhor, que não reivindique para si como senhor, mas administre como despenseiro. Pois a função de um despenseiro é administrar bem as coisas que lhe foram confiadas: não dizer que as coisas de seu senhor são suas próprias; mas, ao contrário, que as suas próprias são de seu senhor. Pense cada um nestas coisas, tanto aquele que tem poder na palavra quanto aquele que possui riquezas, a saber, que lhe foram confiados os bens de um senhor e que não são seus próprios; que não os retenha consigo, nem os lance à sua própria conta; mas que os impute a Deus, que os deu todos. Quereis ver despenseiros fiéis? Ouvi o que diz Pedro: "Por que olhais tão fixamente para nós, como se por nosso próprio poder ou piedade tivéssemos feito este homem andar?" (At 3,12). A Cornélio também ele diz: "Nós também somos homens de paixões semelhantes às vossas"; e ao próprio Cristo: "Eis que deixamos tudo e Vos seguimos" (Mt 19,27). E Paulo, não menos, quando disse: "Trabalhei mais abundantemente que todos eles" (1 Cor 15,10), acrescentou: "contudo, não eu, mas a graça de Deus que estava comigo". Alhures também, insurgindo-se fortemente contra os mesmos, disse: "Pois que tens tu que não tenhas recebido?" (1 Cor 4,7). Pois nada tens de teu próprio, nem riqueza, nem palavra, nem a própria vida; pois esta também é certamente do Senhor. Por isso, quando a necessidade chamar, depõe também esta. Mas se te enamoras da vida, e, sendo ordenado a depô-la, te recusas, já não és um despenseiro fiel.
E como é possível, quando Deus chama, resistir? Pois bem, é exatamente isto que eu também digo: e por isso admiro sobretudo a benignidade de Deus, porque as coisas que Ele é capaz de tirar-te, mesmo contra a tua vontade, estas Ele não quer que sejam pagas (εἰσενεχθῆναι) por ti contra a tua vontade, para que tenhas ainda recompensa por cima. Por exemplo, Ele pode tirar a vida sem o teu consentimento; mas a Sua vontade é fazê-lo com o teu consentimento, para que digas com Paulo: "Eu morro cada dia" (1 Cor 15,31). Ele pode tirar-te a glória sem o teu consentimento, e humilhar-te; mas quer recebê-la de ti com a tua própria boa vontade, para que tenhas recompensa. Ele pode fazer-te pobre, ainda que contra a tua vontade, mas quer que te tornes tal voluntariamente, para que possa tecer coroas para ti. Vedes a misericórdia de Deus para com o homem? Vedes a nossa própria estupidez brutal?
E se tendes chegado a grande dignidade, e alguma vez obtivestes algum ofício de governo eclesiástico? Não vos ensoberbeçais. Não adquiristes vós a glória, mas Deus a pôs sobre vós. Como coisa alheia, portanto, usai-a com parcimônia; nem a profanando, nem a empregando em coisas impróprias, nem vos inchando, nem a apropriando para vós mesmo; antes, tende-vos por pobre e sem glória. Pois nunca — se vos houvesse sido confiada a púrpura de um rei para guardá-la — jamais vos conviria abusar da veste e corrompê-la, mas com tanto maior exatidão guardá-la para aquele que a deu. Foi-vos dada a palavra? Não vos incheis; não sejais arrogante; pois o dom gracioso não é vosso. Não sejais invejoso quanto aos bens do vosso Senhor, mas reparti-os entre vossos conservos; e nem vos exalteis com estas coisas como se fossem vossas próprias, nem sejais parco quanto à sua distribuição. Outrossim, se tendes filhos, são de Deus os que possuís. Se tal for o vosso pensamento, sereis grato por os terdes, e, se deles privado, não o tomareis com dureza. Assim foi Jó, quando disse: Jó 1:21 O Senhor deu, o Senhor tirou.
Pois todas as coisas as temos de Cristo. Tanto a própria existência temos por meio d'Ele, quanto a vida, e o alento, e a luz, e o ar, e a terra. E se Ele nos excluísse de qualquer uma destas, estaríamos perdidos e desfeitos. Pois 1 Pe 2:11 somos peregrinos e forasteiros. E tudo isto acerca do meu e do teu são meras palavras apenas, e não correspondem às coisas. Pois se dizes que a casa é tua, é palavra sem realidade: uma vez que o próprio ar, a terra, a matéria, são do Criador; e assim sois vós mesmo também, que a formastes; e todas as demais coisas igualmente. Mas, supondo que o uso seja vosso, ainda isto é incerto, não somente por causa da morte, mas também antes da morte, por causa da instabilidade das coisas.
Considerando estas coisas continuamente, vivamos com vida disciplinada; e assim colheremos duas das maiores vantagens. Pois, em primeiro lugar, seremos gratos tanto quando tivermos quanto quando formos privados; e não seremos escravizados a coisas que passam e que não nos pertencem. Pois, seja riqueza o que Ele toma, tomou apenas o que era Seu; seja honra, ou glória, ou o corpo, ou a própria vida: ainda que Ele tire teu filho, não é teu filho que Ele tomou, mas Seu próprio servo. Pois não foste tu que o formaste, mas foi Ele quem o fez. Tu apenas ministraste ao seu aparecimento; a obra toda foi de Deus. Demos, pois, graças por termos sido considerados dignos de ser Seus ministros nesta matéria. Mas quê? Terias querido tê-lo para sempre? Isto, de novo, mostra-te invejoso, e ignorante de que era filho de outro o que tinhas, e não teu próprio. Assim como, portanto, os que se separam com resignação apenas reconhecem que possuíam o que não era seu; assim também quem se entrega à tristeza está, de fato, contando como sua a propriedade do Rei. Pois, se nós mesmos não somos nossos, como poderiam eles ser nossos? Digo nós: pois de duas maneiras somos Dele, tanto por causa da criação, quanto também por causa da fé. Por isso Davi diz: "Minha substância está contigo" — ὑπόστασις, [conforme] a Septuaginta, [ou] "esperança", [conforme] a versão recebida do verso 6, Salmo 139:14 — e Paulo também: "Pois nEle vivemos, nos movemos e existimos", Atos 17:28; e, desenvolvendo o argumento acerca da fé, diz, 1 Coríntios 6:19-20: "Vós não sois de vós mesmos, e fostes comprados por preço". Pois todas as coisas são de Deus. Quando, pois, Ele chama e escolhe retomar, não fujamos, como servos invejosos, da prestação de contas, nem defraudemos os bens de nosso Senhor. Tua alma não é tua; e como poderia tua riqueza ser tua? Como é, pois, que gastas naquilo que é desnecessário aquilo que não é teu? Não sabes que por isso seremos em breve postos à prova, isto é, se as usamos mal? Mas, visto que não são nossas, e sim de nosso Senhor, seria justo despendê-las sobre nossos consservos. Vale a pena considerar que a omissão disto foi a acusação lançada contra aquele homem rico; e também contra aqueles que não deram alimento ao Senhor. Lucas 14:21; Mateus 25:42
7. Não digas, pois: gasto apenas o que é meu, e do que é meu vivo delicadamente. Não é do que é teu, mas do que é de outros homens. De outros homens, digo, porque tal é a tua própria escolha: pois a vontade de Deus é que sejam tuas aquelas coisas que te foram confiadas em favor de teus irmãos. Ora, as coisas que não são tuas tornam-se tuas, se as gastas com os outros; mas, se as gastas contigo mesmo sem medida, as tuas próprias coisas deixam de ser tuas. Pois, visto que delas usas cruelmente, e dizes que é justo que o que é teu seja inteiramente gasto no teu próprio deleite, por isso não as chamo tuas. Porque elas são comuns a ti e a teus companheiros de serviço, assim como o sol é comum, o ar, a terra e todo o resto. Pois, como no caso do corpo, cada ministério pertence tanto ao corpo todo quanto a cada um dos membros; mas, quando é aplicado a um único membro somente, destrói a própria função desse mesmo membro: assim também sucede no caso da riqueza. E, para que o que digo se torne mais claro: o alimento do corpo, que é dado em comum aos membros, se passasse a um único membro, mesmo a esse acabaria por tornar-se estranho. Pois, quando não pode ser digerido nem proporcionar nutrição, mesmo a essa parte, digo, acaba por tornar-se estranho. Mas, se for tornado comum, tanto essa parte quanto todas as demais o têm como próprio.
Assim também no tocante à riqueza. Se dela desfrutas sozinho, tu também a perdeste, pois não colherás a sua recompensa. Mas, se a possuis em conjunto com os demais, então será mais verdadeiramente tua, e então colherás o seu proveito. Não vês que as mãos ministram, e a boca amolenta, e o estômago recebe? Acaso diz o estômago: Já que recebi, devo guardar tudo? Não uses tu, pois, eu te suplico, tal linguagem no tocante às riquezas. Pois pertence a quem recebe repartir. Assim, pois, como é um vício no estômago reter o alimento e não distribuí-lo (pois isso é prejudicial ao corpo inteiro), assim é um vício naqueles que são ricos guardar para si o que possuem. Pois isso destrói tanto a si mesmos quanto aos outros. Novamente, o olho recebe toda a luz; mas não a retém somente para si, senão que ilumina o corpo inteiro. Pois não é da sua natureza guardá-la para si, enquanto for olho. Novamente, as narinas percebem o perfume; mas não o guardam todo para si, senão que o transmitem ao cérebro, e afetam o estômago com suave aroma, e por meio deles reconfortam o homem inteiro. Somente os pés caminham; mas não se movem apenas a si mesmos, senão que transportam também o corpo todo. Do mesmo modo, faze tu: seja lá o que te tenha sido confiado, não o guardes somente para ti, visto que estarias fazendo dano ao todo e a ti mesmo mais do que a todos.
E não somente no caso dos membros se pode ver isto acontecer: pois também o ferreiro, se escolhesse não repartir com ninguém de sua arte, arruinaria tanto a si mesmo quanto a todas as demais artes. Igualmente o sapateiro, o lavrador, o padeiro, e todo aquele que exerce algum ofício necessário; se escolhesse não comunicar a ninguém os resultados de sua arte, arruinaria não somente os outros, mas também a si mesmo juntamente com eles.
Devo dizer isto: os ricos? Pois até mesmo os pobres, se seguissem a maldade de vós, que sois avarentos e ricos, vos prejudicariam grandemente e depressa vos empobreceriam; antes, vos destruiriam de todo, se, em vossa necessidade, se recusassem a repartir do que é seu: o lavrador, por exemplo, do trabalho de suas mãos; o marinheiro, do lucro de suas viagens; o soldado, da distinção conquistada nas guerras.
Portanto, se nada mais puder fazê-lo, ao menos que isto vos envergonhe, e imitai a benevolência deles. Não repartis nada de vossa riqueza com ninguém? Então não deveríeis receber nada de outrem: e nesse caso, o mundo seria posto de pernas para o ar. Pois, em toda coisa, dar e receber é o princípio de numerosas bênçãos: nas sementes, nos discípulos, nas artes. Porquanto, se alguém desejar guardar sua arte só para si, subverte a si mesmo e a todo o curso das coisas. E o lavrador, se enterrar e guardar as sementes em sua casa, causará uma fome penosa. Assim também o rico, se assim proceder quanto à sua riqueza, destruir-se-á a si mesmo antes dos pobres, amontoando sobre a própria cabeça um fogo do inferno mais penoso.
8. Portanto, assim como os mestres, por mais discípulos que tenham, transmitem algo de sua doutrina a cada um, seja também assim a vossa posse: muitos a quem tenhais feito bem. E que todos digam: a este ele livrou da pobreza, a este dos perigos. Este teria perecido, se não tivesse, depois da graça de Deus, gozado de vosso patrocínio. A doença deste curaste, a outro livraste de falsa acusação, a outro, sendo estrangeiro, acolheste, a outro, estando nu, vestiste. Riqueza inesgotável e muitos tesouros não são tão bons quanto tais palavras. Elas atraem o olhar de todos os homens mais poderosamente que vossas vestes douradas, e cavalos, e escravos. Pois estes fazem o homem parecer até odioso: (φορτικόν, conjectura de Saville para φορτικά) fazem-no ser odiado como inimigo comum; mas aquelas o proclamam pai comum e benfeitor. E, o que é maior de tudo, o favor de Deus vos espera em cada parte de vossas ações. O que quero dizer é: que um homem diga, Ele ajudou a dotar minha filha; outro, E ele proporcionou a meu filho os meios de ocupar seu lugar entre os homens: (εἰς ἄνδρας ἐμφανῆναι) outro, Ele fez cessar minha calamidade; outro, Ele me livrou dos perigos. Melhores que coroas de ouro são palavras como estas, que um homem tenha em sua cidade inumeráveis pessoas a proclamar sua beneficência. Vozes como estas são bem mais agradáveis e mais doces que as vozes dos arautos que marcham diante dos arcontes; ser chamado salvador, benfeitor, defensor (os próprios nomes de Deus); e não avarento, soberbo, insaciável e mesquinho. Não tenhamos, eu vos suplico, não tenhamos apreço por nenhum destes títulos, mas pelo contrário. Pois, se estes, proferidos na terra, tornam alguém tão esplêndido e ilustre, quando estiverem escritos no céu, e Deus os proclamar no dia que há de vir, considerai que renome, que esplendor haveis de desfrutar! O que possa ser dado a todos nós alcançar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo; com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo, seja glória, poder, honra, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo diz isto não para exaltar a si mesmo, mas para humilhar outros que se enchiam demasiadamente de si próprios. Diz Paulo que nem sequer ousaria julgar a si mesmo, porquanto não é capaz de fazer uma avaliação adequada.
Junto com todos os demais males, não sei de que modo sobreveio à natureza humana esta enfermidade da inquietação intrometida e da curiosidade fora de tempo, a qual o próprio Cristo repreendeu, dizendo: "Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mt 7,1). Coisa esta que não tem em si prazer algum, como têm todos os demais pecados, mas somente castigo e vingança. Pois, ainda que estejamos nós mesmos repletos de dez mil males, e trazendo as traves em nossos próprios olhos, tornamo-nos inquisidores exatíssimos das ofensas do próximo, que não são de modo algum maiores que argueiros. E assim sucedia esta questão em Corinto. Homens religiosos e caros a Deus eram ridicularizados e rejeitados por sua falta de instrução, ao passo que outros, transbordantes de males inumeráveis, eram tidos em alta conta por causa de sua eloquência fluente. Depois, como pessoas assentadas em público para julgar causas, eis a sorte de votos que temerariamente proferiam: fulano é digno; fulano é melhor que tal outro; este homem é inferior àquele; aquele, melhor que este. E, deixando de lamentar seus próprios maus costumes, tinham-se tornado juízes dos outros, e assim de novo atiçavam grave contenda.
Observai, pois, com que sabedoria Paulo os corrige, extirpando esta enfermidade. Pois, havendo ele dito: "Além disso, requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel", e parecendo que lhes dava com isto ensejo para julgar e perscrutar a vida de cada homem — o que agravava o espírito de partido —, para que tal não fosse o efeito sobre eles, afasta-os daquela espécie de mesquinha disputa, dizendo: "Para mim é coisa mui pequena ser julgado por vós", retomando de novo o discurso em sua própria pessoa.
2. Mas que significa: "Para mim é coisa mui pequena ser julgado por vós ou pelo dia (ἡμέρας) do homem"? Julgo-me, diz ele, indigno de ser julgado por vós. E por que digo eu "por vós"? Acrescentarei: e por (καὶ τὸ [τοῦ]) qualquer outro. Todavia, que ninguém acuse Paulo de arrogância, ainda que diga que nenhum homem é digno de pronunciar sentença acerca dele. Pois, primeiramente, não diz ele estas coisas por causa de si mesmo, mas querendo resgatar a outros do ódio que haviam incorrido da parte dos coríntios. E, em segundo lugar, não limita a questão apenas aos coríntios, mas a si mesmo também depõe deste direito de julgar, dizendo que decretar tais coisas era matéria além de sua própria decisão. Ao menos, ele acrescenta: "Não julgo, todavia, a mim mesmo."
Mas, além do que já foi dito, cumpre-nos perscrutar o fundamento sobre o qual estas expressões foram proferidas. Pois ele bem sabia, em muitos casos, falar com elevado espírito: e isto não por soberba ou arrogância, mas por uma certa excelentíssima economia [οἰκονομίας ἀρίστης], visto que também no caso presente diz isto não como quem a si mesmo se exalta, mas como quem abate as velas de outros homens, buscando com afinco revestir os santos da devida honra. Pois, em prova de que ele era um dos mais humildes, ouvi o que diz, trazendo à baila o testemunho de seus próprios inimigos sobre este ponto: A presença corporal é fraca, e a palavra desprezível (2 Coríntios 10:10); e ainda: e, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo (1 Coríntios 15:8). Mas, não obstante, vede este homem humilde quando a ocasião o reclamava, a que altura eleva o ânimo dos discípulos, não ensinando a soberba, mas instilando uma salutar coragem. Pois, discorrendo com estes mesmos, diz: E, se o mundo há de ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as causas mínimas? (1 Cor 6:2). Pois, assim como o cristão deve estar bem longe da arrogância, assim também da lisonja e do espírito vil. Assim, se alguém disser: tenho o dinheiro por nada, e todas as coisas daqui me são como sombra, e sonho, e brincadeira de criança; não devemos de modo algum acusá-lo de arrogante; pois, deste modo, teríamos de acusar de arrogância o próprio Salomão, por discorrer austeramente (φιλοσοφοῦντα) sobre estas coisas, dizendo: Vaidade de vaidades (Eclesiastes 1:2), tudo é vaidade. Mas Deus nos livre de chamarmos à regra rigorosa de vida pelo nome de arrogância. Por isso, desprezar estas coisas não é altivez, mas grandeza de alma; ainda que vejamos reis, e governantes, e potentados fazerem delas grande caso. Mas muitos pobres, levando uma vida rigorosa, as desprezam; e não devemos, por isso, chamá-los arrogantes, mas de ânimo elevado: assim como, ao contrário, se alguém for extremamente apegado a elas, não o chamamos de humilde de coração e moderado, mas de fraco, e pobre de espírito, e ignóbil. Pois, do mesmo modo, se um filho desprezasse as ocupações próprias de seu pai e afetasse modos servis, não o louvaríamos como humilde de coração, mas o repreenderíamos como baixo e servil. O que nele admiraríamos seria desprezar as coisas menores e fazer grande caso do que lhe adveio de seu pai. Pois isto é arrogância: julgar-se melhor que os próprios consservos; mas proferir o justo juízo sobre as coisas não provém de jactância, senão do rigor de vida.
Por esta razão, Paulo também, não para exaltar-se a si mesmo, mas para humilhar os outros, e para reprimir os que se levantavam de seus lugares, e para persuadi-los à modéstia, disse: Para mim é coisa muito pequena ser julgado por vós, ou pelo dia dos homens. Observai como ele também apazigua a outra parte. Pois quem quer que ouça dizer que ele a todos igualmente despreza, e não se digna ser julgado por ninguém, não mais sentirá pesar, como se ele fosse o único excluído. Pois, se tivesse dito: por vós somente, e assim se calasse; isto bastaria para feri-los como que tratados com desprezo. Mas agora, ao introduzir nem ainda pelo dia dos homens, trouxe alívio ao golpe, dando-lhes companheiros no desprezo. Antes, suaviza ainda mais este ponto, dizendo: nem tampouco eu me julgo a mim mesmo. Notai a expressão, quão inteiramente livre de arrogância: pois nem mesmo ele próprio, diz, é capaz de tamanha exatidão.
3. Ora, porquanto também esta afirmação parecia ser a de alguém que a si mesmo grandemente se exalta, também esta ele corrige, dizendo: Todavia nem por isso estou justificado. Que, pois? Não devemos nós julgar a nós mesmos e as nossas próprias faltas? Sim, decerto: há grande necessidade de o fazer quando pecamos. Mas Paulo não disse isto, pois nada, diz ele, sei contra mim mesmo. Que falta, então, havia ele de julgar, quando nada sabia contra si mesmo? Contudo, diz ele, não estava por isso justificado (1 Cor 4:4). Nós, pois, que temos a consciência repleta de dez mil chagas, e de nada de bom em nós mesmos temos consciência, mas antes de todo o contrário; que poderemos dizer?
E como poderia ser que, nada sabendo contra si mesmo, não estivesse ele justificado? Porque lhe era possível ter cometido certos pecados, sem, todavia, saber que eram pecados. A partir disto, fazei vossa estimativa de quão grande há de ser o rigor do juízo futuro. Não é, vede bem, como quem a si mesmo se considera irrepreensível que ele diz ser tão descabido que por eles seja julgado, mas para calar a boca dos que assim procediam tão irrazoavelmente. Ao menos, em outro lugar, ainda que os pecados dos homens sejam notórios, não permite ele que a outros se julgue, porquanto a ocasião assim o exigia. Pois por que julgas tu a teu irmão, diz ele (Rm 14:10), ou tu, por que desprezas a teu irmão? Pois não te foi ordenado, ó homem, que julgasses os outros, mas que examinasses os teus próprios feitos. Por que, pois, usurpas o ofício do Senhor? Do Senhor é o juízo, não teu.
A este propósito, acrescenta ele: Portanto nada julgueis antes de tempo, até que venha o Senhor; o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações, e então cada um terá o seu louvor de Deus. Que, pois? Não é justo que os nossos mestres façam isto? É justo no caso dos pecados abertos e confessados, e isso com oportunidade conveniente, e ainda assim com dor e íntima vexação: não como estes procediam então, por vanglória e arrogância. Pois nem mesmo neste caso fala ele daqueles pecados que todos reconhecem como tais, mas sobre preferir um a outro, e fazer comparações de modos de vida. Pois estas coisas só Ele sabe julgar com exatidão, quem há de julgar os nossos feitos secretos, quais destes sejam dignos de maior e quais de menor castigo e honra. Nós, porém, fazemos tudo isto segundo o que aos nossos olhos se apresenta. Pois se em meus próprios erros, diz ele, nada sei com clareza, como poderei ser digno de proferir sentença sobre outros homens? E como poderei eu, que não conheço com exatidão o meu próprio caso, julgar o estado de outrem? Ora, se Paulo assim sentia, muito mais nós. Pois (para prosseguir) ele disse estas coisas, não para se mostrar isento de falta, mas para demonstrar que, ainda que houvesse entre eles alguma tal pessoa, livre de transgressão, nem mesmo esta seria digna de julgar a vida de outros: e que, se ele, ainda que de nada em si mesmo consciente, se declara culpado, muito mais aqueles que têm dez mil pecados de que em si mesmos tomar consciência.
4. Tendo, pois, assim fechado a boca daqueles que proferem tais sentenças, ele se debate a seguir com forte sentimento prestes a irromper e recair sobre o impuro. E tal como, quando se aproxima uma tempestade, algumas nuvens carregadas de trevas correm à sua frente; depois, quando se ergue o estrondo dos trovões e converte todo o céu numa só nuvem negra, então subitamente a chuva se precipita sobre a terra: assim também sucedeu então. Pois, embora pudesse, em profunda indignação, ter tratado o fornicador, ele não o faz; antes, com palavras terríveis, primeiro reprime o orgulho inchado do homem, visto que, na verdade, o que ocorrera era um pecado duplo: a fornicação, e — o que é pior que a fornicação — não se afligir pelo pecado cometido. Pois não é tanto o pecado que ele lamenta, quanto aquele que o cometeu e ainda não se arrependeu. Assim, muitos daqueles, diz ele, hei de lamentar, não simplesmente os que pecaram outrora, mas — acrescenta ele — os que não se arrependeram da impureza e imundícia que praticaram (2 Coríntios 12:21). Pois aquele que, depois de pecar, praticou o arrependimento, é digno objeto não de lamento, mas de felicitações, tendo passado para o coro dos justos. Pois, "declara primeiro tuas iniquidades, para que sejas justificado" (Isaías 43:26); mas se, depois de pecar, alguém está desprovido de vergonha, não é tanto de lastimar por ter caído quanto por jazer onde caiu.
Ora, se é falta grave não se arrepender após os pecados, ensoberbecer-se por causa dos pecados, que espécie de castigo merece? Pois se aquele que se eleva por suas boas obras é impuro, que perdão encontrará aquele que nutre tal sentimento a respeito de seus pecados?
Sendo, pois, o fornicador dessa índole, e tendo tornado sua mente tão obstinada e inflexível por meio de seu pecado, ele naturalmente começa por derrubar-lhe o orgulho. E não antepõe a acusação, por temor de o endurecer, como se fosse escolhido para acusação diante dos demais; nem tampouco a coloca depois, para que não suponha que o que lhe dizia respeito era apenas incidental. Mas, tendo primeiro suscitado nele grande alarme por meio de sua franqueza para com os outros, então, e não antes, ele se volta a ele, dando, no curso de sua repreensão aos outros, uma antecipada parte à obstinação desse homem.
Pois estas mesmas palavras, a saber, "nada sei contra mim mesmo, mas nem por isso estou justificado", e esta, "quem me julga é o Senhor, que tanto trará à luz as coisas ocultas das trevas quanto manifestará os desígnios dos corações", não lançam leve olhar nem sobre aquela pessoa, nem sobre os que agem em conluio com ele e desprezam os santos. Pois que importa, diz ele, se alguns exteriormente parecem pessoas virtuosas e admiráveis? Ele, o Juiz, não é discernidor apenas das aparências externas, mas também traz à luz todos os segredos.
5. Por dois motivos, portanto, ou antes, por três, o juízo correto não nos pertence. Primeiro, porque, ainda que nada tenhamos consciência contra nós mesmos, necessitamos, contudo, de quem repreenda com rigor os nossos pecados. Segundo, porque a maior parte das coisas que se fazem nos escapa e permanece oculta. E, além destes, um terceiro motivo: porque muitas coisas feitas por outros nos parecem, de fato, boas, mas não procedem de uma reta intenção. Por que dizes, então, que nenhum pecado foi cometido por este ou por aquele? Que tal pessoa é melhor que tal outra? Vendo que isto não devemos pronunciar, nem sequer a respeito daquele que nada sabe contra si mesmo. Pois Aquele que discerne os segredos, é Ele quem julga com certeza. Eis, por exemplo: eu, de minha parte, nada sei contra mim mesmo; mas nem por isso estou justificado, isto é, não estou livre de contas a prestar, nem de acusações a responder. Pois ele não diz isto: não me conto entre os justos; mas: não estou puro de pecado. Pois, em outro lugar, ele diz também, em Rm 6:7, δεδικαίωται, τουτέστιν ἀπήλλακται — "Aquele que morreu está justificado do pecado", isto é, está liberto.
Novamente, muitas coisas fazemos que são, de fato, boas, mas não procedem de uma reta intenção. Pois assim louvamos muitos, não pelo desejo de torná-los notáveis, mas para, por meio deles, ferir a outros. E a coisa feita é, na verdade, correta, pois quem bem age é louvado; mas a intenção é corrupta, porque é feita por um propósito satânico. Pois isto muitos já fizeram, não por se alegrarem com o irmão, mas por desejarem ferir a outra parte.
Novamente, um homem cometeu um grande erro; outra pessoa, desejando suplantá-lo, diz que ele nada fez de errado e o consola, ao que parece, em seu erro, recorrendo à fragilidade comum da natureza. Mas, muitas vezes, faz isto não por disposição de compadecer-se, mas para torná-lo mais complacente com as próprias faltas.
Novamente, um homem repreende, muitas vezes, não tanto para corrigir e admoestar, quanto para publicamente (ἐκπομπεῦσαι καὶ ἐκτραγωδῆσαι) expor e exagerar o pecado do próximo. Os homens, contudo, não conhecem os nossos próprios desígnios; mas Aquele que perscruta os corações — Rm 8:27 — os conhece perfeitamente, e Ele há de trazer todas estas coisas à luz naquele dia. Por isso ele diz: "que trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações."
6. Vendo, pois, que nem mesmo quando nada sabemos contra nós mesmos podemos estar livres de acusações, e que, quando fazemos algo bom, mas não o fazemos de uma reta intenção, estamos sujeitos a castigo, considera quão grandemente se enganam os homens em seus juízos. Pois todas estas coisas não são alcançadas pelos homens, mas somente pelo Olho que não dorme; e, ainda que possamos enganar os homens, o nosso sofisma jamais prevalecerá contra Ele. Não digas, pois: "trevas há em redor de mim, e paredes; quem me vê?" Pois Aquele que por Si mesmo formou os nossos corações, Ele mesmo conhece todas as coisas. Como está em Sl 139:12, para Ele as trevas não são trevas. E, no entanto, aquele que está cometendo o pecado bem diz: "trevas há em redor de mim, e paredes"; pois, se não houvesse trevas em sua mente, não teria ele lançado fora o temor de Deus e agido a seu bel-prazer. Porque, a menos que o princípio dirigente seja primeiro obscurecido, é impossível a entrada do pecado sem temor. Não digas, então: "quem me vê?" Pois há Aquele que, como diz Hb 4:12, penetra até a alma e o espírito, as juntas e os tutanos; mas tu não vês a ti mesmo, nem podes penetrar a nuvem; antes, como se tivesses um muro a te cercar por todos os lados, estás sem poder para erguer os olhos ao céu.
Pois qualquer que seja o pecado que quiserdes, examinemo-lo primeiro, e vereis que assim é ele engendrado. Pois assim como os salteadores e os que perfuram as paredes, quando desejam levar consigo alguma coisa preciosa, apagam primeiro a candeia e então executam sua obra; assim também o raciocínio perverso dos homens procede no caso daqueles que cometem pecado. Pois também em nós há, sem dúvida, uma luz, a luz da razão, que sempre arde. Mas, se o espírito da maldade, avançando avidamente com seu forte sopro, extinguir essa chama, logo escurece a alma e prevalece sobre ela, e a despoja imediatamente de tudo quanto nela estava depositado. Pois quando pelo desejo impuro a alma é feita cativa, assim como a nuvem e a névoa cegam os olhos do corpo, de igual modo esse desejo intercepta a previdência da mente, e não lhe permite ver coisa alguma à distância, nem precipício, nem inferno, nem temor; mas, tendo desde então esse engano como tirano sobre si, vem ele a ser facilmente vencido pelo pecado; e ergue-se diante de seus olhos, por assim dizer, um muro sem janelas, que não permite que o raio da justiça brilhe sobre a mente, cercando-a por todos os lados, como com uma muralha, as insensatas fantasias da concupiscência. E, dali por diante, a mulher impudica está em toda parte a seu encontro: presente diante de seus olhos, diante de sua mente, diante de seus pensamentos. E assim como os cegos, ainda que estejam ao meio-dia, sob o próprio ponto central do céu, não recebem a luz, tendo os olhos cerrados; assim também estes, ainda que dez mil doutrinas de salvação ressoem em seus ouvidos de todas as partes, tendo a alma preocupada por essa paixão, tapam os ouvidos a tais discursos. E bem o sabem os que fizeram a experiência. Mas Deus não permita que o saibais por experiência própria.
7. E não somente este pecado produz tais efeitos, mas também toda afeição mal orientada. Pois transportemos, se vos aprouver, o argumento da mulher impudica para o dinheiro, e veremos aqui também uma treva espessa e ininterrupta. Pois naquele caso, visto que o objeto amado é um só e está encerrado em um só lugar, o sentimento não é tão violento; mas no caso do dinheiro, que se mostra em toda parte — nas lojas dos ourives, nas tabernas, nas fundições de ouro, nas casas dos ricos —, a paixão sopra um vento veemente. Pois quando servos que se ostentam na praça, cavalos com arreios dourados, homens ornados de vestes custosas são vistos com desejo por aquele que padece essa enfermidade, a treva que o envolve torna-se intensa. E por que falar de casas e lojas de ourives? De minha parte, penso que tais pessoas, ainda que seja apenas numa pintura ou imagem que vejam a riqueza, se convulsionam, enlouquecem e delirram. De sorte que de todos os lados a treva se ajunta ao seu redor. E se acaso avistam o retrato de um rei, não admiram a beleza das pedras preciosas, nem tampouco o ouro, nem a veste purpúrea, mas se consomem de desejo. E assim como o infeliz amante antes mencionado, ainda que veja apenas a imagem da mulher amada, se apega à coisa inanimada, assim também este, contemplando uma imagem inanimada da riqueza, é mais fortemente afetado do mesmo modo, por estar possuído de uma paixão mais tirânica. E doravante há de ou permanecer em casa, ou, se se aventurar ao Foro, voltar para casa com inúmeras feridas. Pois muitos são os objetos que afligem os seus olhos. E assim como aquele nada mais vê senão a mulher, também este passa apressado pelos pobres e por todas as demais coisas, para que não obtenha sequer um leve alívio. Mas nos ricos fixa constantemente os olhos, introduzindo pela visão deles o fogo em sua própria alma poderosa e veementemente. Pois é um fogo que devora miseravelmente aquele que nele cai; e ainda que nenhum inferno fosse ameaçado, nem tampouco castigo, esta própria condição já seria castigo: ser continuamente atormentado e jamais poder encontrar termo para o mal.
8. Bem: estas coisas por si sós bastariam para nos recomendar fugir desta enfermidade. Mas não há maior mal que a inconsideração, que faz com que os homens se agarrem a coisas que trazem tristeza de coração e nenhum proveito. Por isso exorto que corteis a paixão em seu princípio: pois assim como uma febre, no primeiro ataque, não abrasa violentamente os enfermos com sede, mas, ao crescer e intensificar-se o seu fogo, causa desde então uma sede incurável; e ainda que se lhes permitisse saciar-se de bebida, isto não apagaria a fornalha, mas a faria arder mais fero — assim também sucede com respeito a esta paixão: se não a detivermos e fecharmos as portas quando ela primeiro invade nossa alma, tendo ela penetrado, desde então torna incurável a enfermidade daqueles que a admitiram. Pois assim tanto as coisas boas quanto as más, quanto mais tempo permanecem em nós, tanto mais poderosas se tornam.
Nisto, como em todas as demais coisas, qualquer um pode ver que assim sucede. Pois uma planta há pouco fincada na terra é facilmente arrancada; mas já não o é do mesmo modo quando enraizada por longo tempo, requerendo então grande força de alavanca. E um edifício recém-erguido é facilmente derrubado por aqueles que contra ele empurram; mas, uma vez bem firmado, dá grande trabalho aos que tentam demoli-lo. E uma fera que há muito tempo fez sua morada costumeira em certos lugares é dificilmente expulsa dali.
Àqueles, pois, que ainda não estão possuídos pela paixão em questão, exorto a que não se deixem tomar cativos. Pois é mais fácil guardar-se de nela cair do que, tendo caído, dela escapar.
9. Mas aos que por ela são presos e abatidos, se consentirem em pôr-se nas mãos do Verbo que cura, prometo grande esperança de salvação, pela graça de Deus. Pois se considerarem aqueles que padeceram e caíram nessa enfermidade e se restabeleceram, terão boas esperanças quanto à remoção do mal. Quem, pois, jamais caiu nesta doença e dela facilmente se livrou? Aquele conhecido Zaqueu. Pois quem poderia ser mais afeiçoado ao dinheiro do que um publicano? Mas de uma só vez tornou-se homem de vida rigorosa (Φιλόσοφος) e extinguiu todo aquele incêndio. Do mesmo modo Mateus: pois também ele era publicano, vivendo em contínua rapina. Mas ele também de uma só vez despiu-se do mal, saciou sua sede e pôs-se a buscar o ganho espiritual. Considerando, pois, estes e outros semelhantes a eles, não desesperes tu tampouco. Pois, se quiseres, depressa poderás recuperar-te. E, se te aprouver, segundo a regra dos médicos, prescreveremos com exatidão o que deves fazer.
É necessário, pois, antes de todas as outras coisas, estar certo nisto: que jamais desanimemos, nem desesperemos de nossa salvação. Em seguida, devemos olhar não somente para os exemplos daqueles que procederam bem, mas também para os sofrimentos daqueles que perseveraram no pecado. Pois, assim como consideramos Zaqueu e Mateus, assim também devemos tomar em conta Judas, e Geazi, e Acã, e Acabe, e Ananias, e Safira, a fim de que, por uns, lancemos fora todo desespero, e, por outros, cortemos toda indolência; e que a alma não se torne descuidada dos remédios sugeridos. E ensinemo-los a dizer de si mesmos o que os judeus disseram naquele dia, aproximando-se de Pedro: Que devemos fazer para sermos salvos? E ouçam eles o que devem fazer.
10. Que devemos fazer, pois? Devemos saber quão desprezíveis são as coisas em questão, e que a riqueza é uma escrava fugitiva, e desalmada, e cerca os seus possuidores de males inumeráveis. E tais palavras, como encantamentos, façamo-las ressoar continuamente em seus ouvidos. E assim como os médicos aplacam os seus doentes quando estes pedem água fria, dizendo que lha darão, desculpando-se com a fonte, e o vaso, e o tempo oportuno, e muitas outras coisas semelhantes (pois se lhes recusassem de imediato, os deixariam enfurecidos de delírio), assim ajamos também nós para com os amantes do dinheiro. Quando dizem "desejamos ser ricos", não digamos logo que a riqueza é coisa má; antes concordemos, e digamos que também nós a desejamos; mas em tempo devido; sim, a verdadeira riqueza; sim, aquela que tem prazer imperecível; sim, aquela que se ajunta para vós mesmos, e não para outros, e estes frequentemente vossos inimigos. E produzamos as lições da verdadeira sabedoria, e digamos: não proibimos as riquezas, mas as riquezas mal adquiridas. Pois é lícito ser rico, mas sem cobiça, sem rapina e violência, e sem má fama diante de todos os homens. Com estes argumentos amansemo-los primeiro, e não discorramos ainda sobre o inferno. Pois o doente ainda não suporta tais palavras. Por isso, recorramos a este mundo para todos os nossos argumentos acerca destas coisas; e digamos: Por que é tua escolha ser rico por meio da cobiça? Para que o ouro e a prata sejam ajuntados para outros, mas para ti, maldições e acusações inumeráveis? Para que aquele a quem defraudaste seja aguilhoado pela falta das próprias necessidades da vida, e se lamente, e atraia sobre ti a censura de milhares; e ande, ao cair da tarde, pela praça, encontrando cada um pelos becos, em total perplexidade, sem saber em que confiar sequer para aquela única noite? Pois como há de ele dormir, afinal, com as dores do ventre, cercado pela fome inquieta, e isso muitas vezes enquanto geia, e a chuva cai sobre ele? E enquanto tu, tendo-te banhado, voltas para casa vindo do balneário, aquecido em vestes macias, alegre de coração e regozijando-te, e apressando-te a um banquete preparado e custoso: ele, impelido por toda parte pela praça pelo frio e pela fome, faz o seu giro, curvado e estendendo as mãos; nem tem sequer ânimo sem tremor para fazer a sua súplica pelo alimento necessário a alguém tão farto e tão inclinado a repousar; antes, muitas vezes tem de se retirar com insulto. Quando, pois, tiveres voltado para casa, quando te deitares em teu leito, quando as luzes brilharem ao redor de tua casa, quando a mesa estiver preparada e farta, naquele momento lembra-te daquele pobre e desventurado homem vagando, como os cães pelos becos, na escuridão e na lama; exceto quando, como frequentemente sucede, tem de partir dali, não para casa, nem para esposa, nem para leito, mas para um catre de palha; assim como vemos os cães uivando durante toda a noite. E tu, se vês apenas uma pequena gota caindo do teto, lanças toda a casa em confusão, chamando os teus escravos e perturbando tudo; enquanto ele, deitado em trapos, e palha, e imundície, tem de suportar todo o frio.
Que fera não se abrandaria diante de tais coisas? Quem há tão selvagem e desumano que estas coisas não o tornassem manso? E, no entanto, há alguns que chegaram a tal cúmulo de crueldade que chegam mesmo a dizer que estes merecem o que padecem. Sim, quando deveriam compadecer-se, e chorar, e ajudar a aliviar as calamidades dos homens, eles, pelo contrário, os visitam com censuras selvagens e desumanas. A estes gostaria eu de perguntar: Dizei-me, por que merecem eles o que padecem? Porventura porque desejariam ser alimentados e não perecer de fome?
Não, responderás; mas porque desejariam ser alimentados na ociosidade. E tu, não te deleitas tu na ociosidade? Que digo eu? Não estás tu muitas vezes labutando numa ocupação mais penosa que qualquer ociosidade, agarrando, e oprimindo, e cobiçando? Melhor te fora que também tu fosses ocioso desta maneira; pois melhor é ser ocioso assim do que ser cobiçoso. Mas agora tu ainda pisoteias as calamidades alheias, não somente ocioso, não somente perseguindo uma ocupação pior que a ociosidade, mas também caluniando os que passam seus dias na miséria.
E narremos ainda mais a eles os desastres de outros: os lutos intempestivos, os que habitam nas prisões, os que são despedaçados perante os tribunais, os que tremem por suas vidas; a viuvez inesperada das mulheres; a súbita reviravolta dos ricos: e com isto abrandemos os seus ânimos. Pois pelas narrações que fazemos acerca de outros, os induziremos por todos os meios a temer estes males também em seu próprio caso. Pois quando ouvirem que o filho de tal homem, que era cobiçoso e usurário, ou a esposa de tal homem, que praticou muitas ações tirânicas, após a morte do marido suportou aflições sem fim; que os injuriados se lançaram contra a esposa e os filhos, e uma guerra geral se levantou de todos os lados contra a sua casa; ainda que um homem seja o mais insensato dos seres, todavia, esperando ele mesmo padecer o mesmo, e temendo por si próprio que sofram o mesmo destino, tornar-se-á mais moderado. Ora, encontramos a vida repleta de muitas histórias deste gênero, e não nos faltarão corretivos desta espécie.
Mas quando dissermos estas coisas, não as digamos como quem dá conselho ou admoestação, para que o nosso discurso não se torne demasiado enfadonho; mas, como que na ordem da narrativa e por associação com algo mais, prossigamos em cada caso até aquele tipo de conversação, e ponhamo-los constantemente diante de histórias desta natureza, permitindo-lhes falar de nenhum outro assunto senão destes que se seguem: Como caiu a mansão esplêndida e famosa de tal homem; como está ela tão inteiramente desolada que todas as coisas que nela havia vieram a cair nas mãos de outros; quantos litígios se travaram diariamente acerca desta mesma propriedade, que alvoroço; quantos daqueles parentes daquele homem morreram ou mendigos, ou moradores de uma prisão.
Digamos todas estas coisas como quem se compadece do falecido, e como quem menospreza as coisas presentes; a fim de que, pelo temor e pela compaixão, possamos abrandar o ânimo cruel. E quando virmos os homens recolherem-se em si mesmos diante destas narrações, então, e não antes, introduzamos também à sua consideração a doutrina do inferno, não para atemorizar a estes, mas por compaixão para com outros. E digamos: Mas por que falar das coisas presentes? Pois longe, na verdade, estará a nossa preocupação de terminar nestas; um castigo ainda mais grave aguardará a todos os que assim procedem: até mesmo um rio de fogo, e um verme venenoso, e trevas intermináveis, e tormentos que não têm fim. Se com tais discursos conseguirmos lançar sobre eles um encanto, corrigiremos tanto a nós mesmos quanto a eles, e rapidamente venceremos a nossa enfermidade.
E naquele dia teremos a Deus para nos louvar: como também diz Paulo, E então cada um terá louvor da parte de Deus. Pois aquele que vem dos homens é tanto passageiro quanto, às vezes, procede de intenções nada boas. Mas aquele que vem de Deus tanto permanece continuamente quanto resplandece com clareza. Pois quando Aquele que conheceu todas as coisas antes da sua criação, e que está livre de toda paixão, concede louvor, então também a demonstração da nossa virtude se torna mesmo incontestável.
Sabendo, pois, estas coisas, procedamos de modo a sermos louvados por Deus, e a alcançarmos os maiores bens; os quais Deus conceda a todos nós alcançar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amém.
Paulo talvez tenha cometido certos pecados sem saber que eram pecados. Seu propósito aqui não é dizer que é irrepreensível, mas fechar a boca daqueles que o acusavam sem razão. Deus é o nosso juiz, porque só Ele sabe com certeza o que se passa em nossos corações.
Paulo não fala aqui daqueles pecados que todos nós reconhecemos e confessamos como tais. Fala antes de preferir uma pessoa a outra e de fazer comparações invejosas de comportamentos morais. Só Deus, que conhece todos os nossos feitos secretos, pode julgar tal coisa com exatidão. Só Ele sabe o que é mais e o que é menos digno de punição.
Enquanto havia necessidade de expressões tão duras quanto estas, Paulo absteve-se de erguer o véu e prosseguiu argumentando como se ele próprio fosse a pessoa a quem se dirigiam. Mas quando chegou o momento de ser mais brando, rasgou o véu e revelou quem eram as pessoas que ele havia ocultado sob os nomes de Paulo e Apolo. Isto não foi hipocrisia, mas mansidão e tato. Pois se tivesse dito abertamente que os homens a quem os coríntios atacavam eram santos, estes poderiam ter recebido mal a notícia. Mas, humilhando-se primeiro, ele conquistou sua atenção e seu respeito.
Enquanto houve necessidade de expressões tão duras quanto estas, absteve-se de erguer o véu, e prosseguiu argumentando como se ele próprio fosse a pessoa a quem eram dirigidas; a fim de que, contrapondo-se a dignidade das pessoas censuradas aos censores, não restasse espaço para que se lançassem em ira contra as acusações. Mas quando chegou o tempo de um proceder mais brando, então ele o despe, e remove a máscara, e mostra as pessoas ocultas sob a designação de Paulo e Apolo. E por isso disse: Estas coisas, irmãos, apliquei figuradamente a mim mesmo e a Apolo.
E como no caso dos enfermos, quando a criança, estando doente, se debate e se recusa ao alimento oferecido pelos médicos, os assistentes chamam o pai ou o preceptor, e lhes pedem que tomem o alimento das mãos do médico e o tragam, para que, por temor a eles, a criança o tome e se aquiete: assim também Paulo, pretendendo censurá-los a respeito de certas outras pessoas — das quais, segundo pensava, algumas eram injuriadas, outras honradas além da medida — não nomeou as próprias pessoas, mas conduziu o argumento em seu próprio nome e no de Apolo, a fim de que, reverenciando-os, recebessem seu modo de cura. Mas, uma vez este recebido, logo revela em favor de quem assim se expressava.
Ora, isto não foi hipocrisia, mas condescendência (συγκατάβασις) e discrição (οἰκονομία). Pois se ele tivesse dito abertamente: "Quanto a vós, os homens que julgais são santos, e dignos de toda admiração", eles poderiam ter tomado isso a mal e (κἂν ἀπεπήδησαν) recuado espantados. Mas ao dizer: A mim, porém, mui pouco importa ser julgado por vós; e novamente: Quem é Paulo, e quem é Apolo?, tornou seu discurso fácil de receber.
Esta, se atentardes, é a razão pela qual diz aqui: Estas coisas, pois, apliquei figuradamente a mim mesmo e a Apolo por amor de vós, para que em nós aprendais a não pensar além do que está escrito, significando que, se tivesse aplicado seu argumento às próprias pessoas deles, não teriam aprendido tudo quanto precisavam aprender, nem teriam admitido a correção, irritados com o que se dissesse. Mas assim como foi, reverenciando a Paulo, suportaram bem a repreensão.
2. Mas qual é o sentido de não pensar além do que está escrito? Está escrito: Por que vês o argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? (Mt 7,3); e Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, se somos um só e estamos mutuamente ligados uns aos outros, convém-nos não nos levantarmos uns contra os outros. Pois aquele que a si mesmo se humilha será exaltado, diz ele. E: Quem quiser ser o primeiro de todos, seja o servo de todos (Mt 20,26-27; Mc 10,43; não literalmente). Estas são as coisas que estão escritas.
Para que nenhum de vós se ensoberbeça a favor de um contra outro. Novamente, tendo dispensado os mestres, repreende os discípulos. Pois foram eles que fizeram com que aqueles se exaltassem.
E, além disso, os chefes não receberiam com tranquilidade tal gênero de discurso, por causa de seu desejo de glória exterior: pois estavam até cegos por essa paixão. Ao passo que os discípulos, não colhendo eles mesmos os frutos da glória, mas procurando-a para outros, tanto suportariam a repreensão com mais temperança, quanto tinham mais em seu poder do que os homens principais para destruir o mal.
Aparece, pois, que também isto é sintoma de estar ensoberbecido: exaltar-se por causa alheia, ainda que o homem não sinta tal exaltação quanto ao que é seu próprio. Pois assim como aquele que se orgulha da riqueza alheia o faz por arrogância, assim também no caso da glória alheia.
E bem chamou a isto estar ensoberbecido. Pois quando um membro particular se ergue sobre os demais, isto não é senão inflamação e enfermidade; visto que de nenhum outro modo se torna um membro mais alto que outro, senão quando sobrevém um inchaço. (Assim em nossa língua, carne soberba.) E assim também no corpo da Igreja: quem quer que esteja inflamado e ensoberbecido, este há de ser o enfermo; pois está intumescido além da proporção dos demais. Pois isto é o que entendemos por inchaço. E assim sucede no corpo, quando se ajunta algum humor espúrio e mau, em lugar do costumado alimento. Assim também nasce a arrogância: noções às quais não temos direito algum vêm sobre nós. E notai com que propriedade literal ele diz não vos ensoberbeçais: pois aquilo que está ensoberbecido tem certo tumor de espírito, por estar cheio de humor corrupto.
Estas coisas, porém, ele as diz, não para vedar todo consolo, mas o consolo tal que conduz a dano. Queres tu servir a este ou àquele? Não to proíbo: mas não o faças em prejuízo de outro. Pois não para que nos dispuséssemos uns contra os outros nos foram dados mestres, mas para que todos fôssemos mutuamente unidos. Pois assim é constituído o general sobre a hoste para este fim: para que, dos que estão separados, faça ele um só corpo. Mas se há de dissolver o exército, ocupa antes o lugar de inimigo que de general.
A partir deste ponto, deixando de lado os governados, ele se volta para os que governam. O que ele diz resume-se a isto: donde é evidente que sois dignos de louvor? Ora, aconteceu algum julgamento? Procedeu-se a algum inquérito? Algum exame? Alguma prova severa? Não, não podeis dizê-lo; e se os homens dão seu voto, seu juízo não é reto. Mas suponhamos que sejas realmente digno de louvor e possuas de fato o dom gracioso, e que o juízo dos homens não seja corrompido: mesmo assim não seria justo ensoberbecer-se; pois nada tens de ti mesmo, mas de Deus o recebeste. Por que então finges ter o que não tens? Dirás que o tens: e outros o têm contigo: pois bem, tu o tens por havê-lo recebido: não apenas isto ou aquilo, mas tudo quanto tens.
Pois não a ti pertencem estas excelências, mas à graça de Deus. Quer nomeies a fé, ela veio de Seu chamado; quer se trate da remissão dos pecados, ou dos dons espirituais, ou da palavra do ensino, ou dos milagres; tudo recebeste de lá. Ora, dize-me, que tens tu que não tenhas recebido, mas antes tenhas alcançado por ti mesmo? Nada tens a dizer. Pois bem: recebeste; e isso te faz ensoberbecer? Não; antes deveria fazer-te recolher em ti mesmo. Pois não é teu o que foi dado, mas do doador. E se o recebeste? Recebeste-o dele. E se o recebeste dele, não era teu o que recebeste; e se apenas recebeste o que não era teu, por que te exaltas como se tivesses algo de teu? Por isso acrescentou também: Ora, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houvesses recebido?
4. Assim, tendo, como vedes, fundamentado seu argumento por concessão (κατὰ συνδρομὴν), ele indica que eles têm suas deficiências, e não poucas: e diz, em primeiro lugar, que ainda que tivésseis recebido todas as coisas, não seria conveniente gloriar-vos, pois nada é vosso; mas, como de fato se passa, há muitas coisas de que estais destituídos. E no início ele apenas insinuou isto, dizendo: Não vos pude falar como a espirituais; e: Determinei nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. Mas aqui ele o faz de modo a envergonhá-los.
Mostrando que receberam de outrem tudo quanto possuem, Paulo aponta as deficiências dos coríntios, que não eram poucas.
Argumentos como estes, que apelam ao nosso senso de vergonha, têm duas vantagens. Por um lado, cortam mais fundo do que jamais o faria a invectiva aberta. Por outro, fazem com que aquele que é repreendido suporte essa ferida mais profunda com maior paciência.
Já estais fartos. E bem diz ele já; apontando, a partir do tempo, para a incredibilidade de suas afirmações e para a noção desarrazoada que tinham de si mesmos. Foi, portanto, por escárnio que lhes disse: Tão depressa chegastes ao fim; o que era impossível naquele tempo: pois todas as coisas mais perfeitas aguardam longamente no porvir; mas fartar-se com pouco denota alma débil; e imaginar-se rico a partir de pouco é coisa de alma enferma e mísera. Pois a piedade é coisa insaciável; e é próprio de mente pueril imaginar, a partir de meros começos, que se alcançou o todo: e para homens que ainda não estão sequer no prelúdio de uma matéria, ensoberbecer-se como se tivessem já tomado posse do fim.
Depois, também por meio do que se segue, ele os põe ainda mais em vergonha; pois, tendo dito Já estais fartos, acrescentou: tornastes-vos ricos, reinastes sem nós; e prouvera a Deus que reinásseis, para que também nós reinássemos convosco. Cheio de grande austeridade é o dito: por isso vem por último, sendo introduzido por ele depois daquela abundância de repreensão. Pois então é a nossa admoestação respeitada e facilmente recebida, quando, depois de nossas acusações, introduzimos as expressões humilhantes (τὰ ἐντρεπτικὰ ῥήματα). Pois isto bastaria para reprimir até a alma desavergonhada e feri-la mais agudamente do que a acusação direta, e corrigir a amargura e o sentimento endurecido que provavelmente surgiriam da censura feita. Sendo certo que isto, mais do que qualquer outra coisa, é a qualidade admirável daqueles argumentos que apelam ao nosso senso de vergonha: que possuem duas vantagens contrárias. Por um lado, cortam mais fundo do que a invectiva aberta; por outro, fazem com que aquele que é repreendido suporte essa ferida mais severa com paciência mais inteira.
5. Reinastes sem nós. Nisto há grande força, tanto no que concerne aos mestres quanto aos discípulos: e também se aponta a ignorância que tinham de si mesmos (τὸ ἀσυνείδητον), e sua grande inconsideração. Pois o que ele diz é isto: Nos trabalhos, de fato, diz ele, todas as coisas são comuns tanto a nós quanto a vós, mas nas recompensas e nas coroas sois vós os primeiros. Não que eu diga isto por vexame: por isso acrescentou também: Prouvera de fato que reinásseis; então, para que não parecesse haver alguma ironia, acrescentou: para que também nós reinássemos convosco; pois, diz ele, também nós deveríamos estar de posse (ἐπιτύχοιμεν, ms. Reg., ἐπιτύχωμεν Edd.) desses bens. Vedes como ele mostra em si mesmo, a um só tempo, sua severidade e seu cuidado para com eles e sua mente abnegada? Vedes como ele abate o seu orgulho?
Pelas coisas com que a si mesmo se aviltava, mostra-nos Paulo quão grande é. Pelas coisas de que os coríntios se orgulhavam, ele exibe a pequenez deles.
Há também grande profundidade de sentido e severidade implícita em dizer nós: e nem mesmo com isso se satisfez, mas acrescentou também sua dignidade, ferindo-os veementemente: nós, os Apóstolos; que suportamos tantos males inumeráveis; que semeamos a palavra da Piedade; que vos conduzimos a esta regra severa de vida. A estes ele apresentou por último, como condenados à morte, isto é, como sentenciados. Pois, tendo dito Para que também nós reinássemos convosco, e por essa expressão tendo abrandado sua veemência a fim de não os desanimar, retoma-a com maior gravidade e diz: Pois penso que Deus nos apresentou a nós, os Apóstolos, por último, como homens condenados à morte. Pois, segundo o que vejo, diz ele, e segundo o que dizeis, os mais abjetos de todos os homens e, enfaticamente, os condenados, somos nós, que somos postos para o sofrimento contínuo. Mas vós já tendes, em vossa fantasia, um reino, honrarias e grandes recompensas. E, querendo levar o raciocínio deles a absurdo ainda maior, e mostrá-lo incrível no mais alto grau, não disse apenas somos últimos, mas Deus nos fez últimos; nem se satisfez em dizer últimos, mas acrescentou também condenados à morte: a fim de que mesmo o mais falto de entendimento sentisse ser a afirmação de todo incrível, e suas palavras as palavras de alguém vexado e que os envergonhava veementemente.
Observai também o bom senso de Paulo. Os temas pelos quais, quando é a ocasião própria, se exalta e se mostra honrado e se engrandece; por esses mesmos ele agora os envergonha, chamando-se a si mesmo condenado. De tanta importância é fazer todas as coisas na estação conveniente. Por condenados à morte, neste lugar entende ele sentenciados, e merecedores de dez mil mortes.
6. Pois somos feitos espetáculo ao mundo, e aos anjos, e aos homens.
Que significa: Tornamo-nos espetáculo ao mundo? Não em um único canto nem em pequena parte do mundo padecemos estas coisas, diz ele; mas em toda parte e diante de todos. Mas que significa: aos anjos? É possível tornar-se espetáculo aos homens, mas não assim aos anjos, quando as coisas feitas são ordinárias. Mas os nossos combates são tais que são dignos até da contemplação angélica. Vede, pelas coisas com que a si mesmo se aviltava, como de novo se mostra grande; e pelas coisas de que se orgulhavam, como exibe a mesquinhez deles. Pois, sendo ser tolo tido por coisa mais mesquinha do que parecer sábio; ser fraco, do que ser forte; e desonrado, do que glorioso e distinto; e estando ele prestes a lançar sobre eles um conjunto de epítetos, enquanto aceitava para si o outro; significa que estes últimos são melhores que os primeiros; se ao menos por causa deles ele voltou a multidão, não digo apenas dos homens, mas também dos próprios anjos, para a contemplação de si mesmos. Pois não apenas com homens é o nosso combate, mas também com potestades incorpóreas. Por isso também um grande teatro se assenta (μέγα θέατρον κάθηται).
Paulo disse estas coisas para incitar os coríntios a considerar que deveriam buscar zelosamente emular os apóstolos em seus perigos e suas indignidades, não em suas honras e glórias. Pois é isto, não aquilo, que o evangelho requer.
Tendo saturado seu discurso de grande severidade, a qual transmite um golpe mais agudo do que qualquer acusação direta, e tendo dito: Vós reinastes sem nós; e Deus nos pôs por últimos, como homens condenados à morte, ele mostra pelo que se segue como estão condenados à morte; dizendo: Somos loucos, e fracos, e desprezados, e temos fome, e sede, e estamos nus, e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e labutamos, trabalhando com nossas próprias mãos: coisas que eram verdadeiros sinais de mestres e apóstolos genuínos. Ao passo que os outros se orgulhavam das coisas contrárias a estas: da sabedoria, da glória, da riqueza, da consideração.
Desejando, portanto, abater a presunção deles e apontar que, a respeito destas coisas, longe de tomarem crédito para si mesmos, deveriam antes envergonhar-se, ele primeiro de tudo zomba deles, dizendo: Vós reinastes sem nós. Como se dissesse: Minha sentença é que o presente não é tempo de honra nem de glória, das quais coisas vós gozais, mas de perseguição e insulto, tais como as que nós sofremos. Se, porém, não for assim; se este for antes o tempo da recompensa: então, tanto quanto vejo (mas isto ele diz por ironia), vós, os discípulos, de vossa parte vos tornastes nada menos que reis: mas nós, os mestres e apóstolos, e antes de todos com direito a receber a recompensa, não somente ficamos muito atrás de vós, mas até, como homens condenados à morte, isto é, como condenados sentenciados, passamos nossa vida inteiramente em desonras, e perigos, e fome; sim, insultados como loucos, e expulsos de um lugar a outro, e suportando todas as coisas intoleráveis.
Ora, estas coisas ele disse para que assim os fizesse também considerar que deveriam buscar zelosamente a condição dos Apóstolos; seus perigos e suas indignidades, não suas honras e glórias. Pois estas, não aquelas outras, são o que o Evangelho requer. Mas a este respeito ele não fala diretamente, para não se mostrar desagradável a eles: antes, de modo característico seu, empreende esta repreensão. Pois se ele tivesse introduzido seu discurso de maneira direta, teria falado assim: Vós errais, e estais enganados, e vos desviastes longe do modo de instrução. Pois todo apóstolo e ministro de Cristo deve ser tido por louco, deve viver em aflição e desonra; o que é, na verdade, nosso estado: ao passo que vós estais no caso contrário.
Mas assim suas expressões poderiam tê-los ofendido ainda mais, por conterem apenas louvores aos Apóstolos; e poderiam tê-los tornado mais ferozes, censurados que estavam por indolência, vanglória e luxúria. Por isso ele não conduz sua declaração deste modo, mas de outro, mais impressionante porém menos ofensivo; e por isso ele prossegue seu discurso da seguinte forma, dizendo ironicamente: Mas vós sois fortes e honrados; pois, se ele não tivesse usado ironia, teria falado neste sentido: Não é possível que um homem seja tido por louco, e outro por sábio; um por forte, e outro por fraco; requerendo o Evangelho tanto um quanto o outro. Pois se estivesse na natureza das coisas que um fosse isto, e outro aquilo, porventura haveria alguma razão no que dizeis. Mas agora não é permitido, nem ser tido por sábio, nem por honrado, nem estar livre de perigos. Do contrário, segue-se por necessidade que sois preferidos a nós à vista de Deus; vós, os discípulos, a nós, os mestres, e isto depois de nossas infindáveis dificuldades. Se isto for demasiado grave para alguém dizer, resta-vos fazer de nossa condição vosso objeto.
Novamente, também isto ele disse de maneira a envergonhá-los; dando a entender que é impossível que estes contrários se concertem, nem podem as coisas tão distantes entre si concorrer. Pois como pode ser, diz ele, que vós sejais sábios, e nós insensatos, nas coisas relativas a Cristo? Isto é: uns espancados, e desprezados, e desonrados, e tidos por nada; os outros gozando de honra, e olhados por muitos como uma espécie de gente sábia e prudente; isto lhe dá ocasião de falar assim: como se tivesse dito, Como pode ser que aqueles que pregam tais coisas sejam vistos como praticando, de fato, o seu contrário?
Nós somos fracos, mas vós sois fortes. Isto é, nós somos arrastados de um lado para outro e perseguidos; mas vós gozais de segurança e sois muito assistidos; ainda que a natureza do Evangelho não o suporte.
Nós somos desprezados, mas vós sois honrados. Aqui ele se opõe aos nobres e aos que se ensoberbeciam das vantagens exteriores.
Até esta presente hora padecemos fome e sede, e estamos nus, e somos esbofeteados, e não temos morada certa; e trabalhamos, obrando com as nossas próprias mãos. Isto é, Não é uma velha história que eu conto, mas justamente o que o próprio tempo presente testemunha a meu favor: que das coisas humanas nós não fazemos caso algum, nem tampouco de qualquer pompa exterior; mas olhamos unicamente para Deus. Coisa que também nós precisamos praticar em todo lugar. Pois não somente os anjos estão olhando, mas ainda mais do que eles Aquele que preside ao espetáculo.
7. Não desejemos, pois, que outros nos aplaudam. Pois isto é insultá-Lo; passando apressadamente por Ele, como se fosse insuficiente para nos admirar, apressamo-nos a chegar aos nossos conservos. Pois assim como aqueles que contendem num pequeno teatro buscam um grande, como se este fosse insuficiente para a sua exibição; assim também aqueles que, contendendo à vista de Deus, buscam depois o aplauso dos homens; renunciando ao maior louvor e ávidos do menor, atraem sobre si um severo castigo. Que outra coisa senão isto virou tudo de pernas para o ar? Isto é o que põe todo o mundo em confusão, que façamos todas as coisas com um olho posto nos homens, e mesmo pelas nossas boas obras, não estimemos em nada ter Deus como admirador, mas busquemos a aprovação que vem dos nossos conservos: e, quanto às coisas contrárias, desprezando-O a Ele, tememos os homens. E, contudo, certamente eles hão de estar conosco perante aquele tribunal, sem nos fazer bem algum. Mas Deus, a quem agora desprezamos, Ele mesmo há de pronunciar a sentença sobre nós.
Mas ainda assim, embora saibamos estas coisas, ainda boquiabertos aspiramos aos homens, o que é o primeiro dos pecados. Assim, estando alguém olhando, ninguém escolheria cometer fornicação; mas ainda que esteja dez mil vezes inflamado por aquela peste, a tirania da paixão é vencida pela sua reverência aos homens. Mas à vista de Deus os homens não só cometem adultério e fornicação; mas também outras coisas muito mais terríveis muitos ousaram e ainda ousam fazer. Isto, pois, só por si, não basta para fazer descer do alto dez mil raios? Adultérios, disse eu, e fornicações? Não, coisas até muito menores que estas tememos fazer diante dos homens: mas à vista de Deus já não tememos. Daqui, de fato, se originaram todos os males do mundo; porque nas coisas realmente más não reverenciamos a Deus, mas os homens.
Por esta razão, vedes, tanto as coisas verdadeiramente boas, não tidas como tais pela generalidade, tornam-se objetos de nossa aversão, não investigando nós a natureza das coisas, mas atendo-nos à opinião da multidão; como também, no caso das coisas más, procedendo segundo este mesmo princípio. Certas coisas, pois, não verdadeiramente boas, mas que parecem excelentes à multidão, perseguimo-las como bens, por este mesmo hábito. De sorte que, de ambos os lados, caminhamos para a destruição.
8. Talvez muitos achem esta observação algo obscura. Por isso devemos expô-la mais claramente. Quando cometemos a impureza (pois devemos começar pelos exemplos alegados), tememos mais aos homens do que a Deus. Havendo, pois, deste modo nos sujeitado a eles e feito deles senhores sobre nós, há também muitas outras coisas que parecem a estes nossos senhores serem más, sem que o sejam; a estas também fugimos, por nossa parte, de igual maneira. Por exemplo: viver na pobreza, muitos consideram vergonhoso; e fugimos da pobreza, não porque seja vergonhosa, nem porque estejamos assim persuadidos, mas porque nossos senhores a consideram vergonhosa, e a eles tememos. De novo, ser desonrado e desprezível, e desprovido de toda autoridade, parece igualmente à maior parte um assunto de grande vergonha e vileza. A isto também fugimos, não condenando a coisa em si mesma, mas por causa da sentença de nossos senhores.
De novo, do lado contrário também, sofremos o mesmo mal. Como a riqueza é contada coisa boa, e o orgulho, e a pompa, e o ser conspícuo. Por conseguinte, isto também perseguimos, não tampouco neste caso por considerarmos a natureza das coisas como boa, mas persuadidos pela opinião de nossos senhores. Pois o povo é nosso senhor, e a grande multidão (ὁ πολὺς ὄχλος); um senhor selvagem e um tirano severo: nem sequer sendo necessário um comando para que o escutemos; basta apenas que saibamos o que ele quer, e sem comando nos submetemos: tão grande é a boa vontade que lhe tributamos. De novo, Deus, ameaçando e admoestando dia após dia, não é ouvido; mas o povo comum, cheio de desordem, composto de toda sorte de escória, não tem necessidade de uma só palavra de comando; basta-lhe somente significar com que está bem satisfeito, e em todas as coisas lhe obedecemos imediatamente.
9. Mas como, dirá alguém, há de o homem fugir destes senhores? Adquirindo uma mente maior que a deles; olhando para a natureza das coisas; condenando a voz da multidão; antes de tudo, exercitando-se, nas coisas verdadeiramente vergonhosas, a não temer os homens, mas o Olho que jamais dorme; e, de novo, em todas as coisas boas, buscando as coroas que vêm d'Ele. Pois assim, tampouco nas demais espécies de coisas seremos capazes de suportá-los. Porque aquele que, ao agir retamente, os julga indignos de conhecer suas boas obras, e se contenta com o sufrágio de Deus, tampouco há de dar-lhes conta nas coisas de sorte contrária.
E como pode ser isto? perguntarás. Considera o que é o homem, o que é Deus; a quem abandonas, e a quem recorres em busca de refúgio; e logo estarás inteiramente certo. O homem jaz sob o mesmo pecado que tu, e a mesma condenação, e o mesmo castigo. O homem é semelhante à vaidade (Sl 144,4, Septuaginta), e não possui juízo reto, e necessita da correção que vem do alto. O homem é pó e cinza, e, se concede louvor, fá-lo-á muitas vezes ao acaso, ou por favor, ou por malquerença. E se calunia e acusa, também isto fará por igual espécie de propósito. Mas Deus não age assim: antes, é irrepreensível em Sua sentença, e puro o Seu juízo. Por isso devemos sempre fugir a Ele em busca de refúgio; e não somente por estas razões, mas porque Ele te criou, e mais que todos te poupa, e te ama melhor do que tu mesmo te amas.
Por que, então, negligenciando ter um aprovador tão admirável (θαυμαστόν), recorremos nós ao homem, que é nada, tudo temeridade, tudo ao acaso? Ele te chama de perverso e imundo quando não o és? Tanto mais compadece-te dele, e chora porque ele está corrompido; e despreza a sua opinião, porque os olhos do seu entendimento estão obscurecidos. Pois até os Apóstolos foram assim caluniados; e eles escarneceram dos seus caluniadores. Mas ele te chama de bom e benigno? Se de fato assim és, ainda assim não te ensoberbeças com tal opinião; mas se não és tal, despreza-a ainda mais, e considera a coisa como zombaria.
Queres conhecer os juízos da maior parte dos homens, quão corruptos são, quão inúteis, e dignos de escárnio; uns provindo apenas de pessoas delirantes e desvairadas, outros de crianças ainda ao peito? Ouve o que tem sido desde o princípio. Falar-te-ei de juízos, não somente do povo, mas também daqueles que passavam por mais sábios, daqueles que foram legisladores desde os tempos mais antigos. Pois quem, entre a multidão, seria tido por mais sábio do que aquele considerado digno de legislar para cidades e povos? Pois bem, a estes sábios a fornicação parece não ser nenhum mal, nem digno de castigo. Ao menos, nenhuma das leis pagãs a torna penal, nem leva os homens a julgamento por causa dela. E se alguém levasse outro a tribunal por coisas dessa espécie, a multidão o escarneceria, e o juiz não o permitiria. O jogo de dados, por sua vez, está isento de todos os seus castigos; nem jamais incorreu ninguém entre eles em pena por causa dele. A embriaguez e a gula, longe de serem crime, são consideradas por muitos até como coisa boa. E nos banquetes militares constitui ponto de grande emulação; e os que mais que todos necessitam de mente sóbria e corpo forte, esses são mais que todos entregues à tirania da embriaguez, enfraquecendo de todo o corpo e obscurecendo a alma. Contudo, dos legisladores, nenhum jamais puniu esta falta. Que pode haver pior do que esta loucura?
É, pois, a boa palavra de homens assim dispostos objeto de teu desejo, e não te escondes tu na terra? Pois ainda que todos esses te admirassem, não deverias sentir vergonha e cobrir o rosto, por seres aplaudido por homens de juízo tão corrompido?
Novamente, a blasfêmia por parte dos legisladores em geral não é reputada coisa terrível. Em todo caso, ninguém jamais foi levado a juízo e a castigo por ter blasfemado contra Deus. Mas se um homem furta a veste alheia, ou corta a bolsa de outrem, seus flancos são açoitados, e não raro é entregue à morte; ao passo que aquele que blasfema contra Deus nada tem a lhe ser imputado pelos legisladores pagãos. E se um homem seduz uma serva, tendo ele mesmo esposa, isso nada parece às leis pagãs, nem aos homens em geral.
10. Quereis ouvir ainda algumas coisas de outra espécie, que manifestam a sua insensatez? Pois assim como não punem estas coisas, há outras que impõem por lei. Quais são, pois, estas? Reúnem multidões para encher os teatros, e ali introduzem coros de meretrizes e de crianças prostituídas, sim, tais que calcam aos pés a própria natureza; e fazem sentar-se em lugar elevado todo o povo, e assim cativam a sua cidade; assim coroam estes poderosos reis, que perpetuamente admiram por seus troféus e vitórias. E, todavia, que coisa pode ser mais insípida do que esta honra? Que coisa mais desagradável do que este deleite? É, pois, dentre estes que buscais juízes para aplaudir os vossos feitos? E é em companhia de dançarinos, de afeminados, de bufões e de meretrizes que desejais gozar o som do elogio? Respondei-me.
Como podem estas coisas ser outra coisa senão provas de extrema loucura? Pois eu gostaria de lhes perguntar: é, ou não é, coisa terrível subverter as leis da natureza e introduzir comércio ilícito? Certamente dirão que é terrível; em todo caso, fazem ostentação de infligir pena a tal crime. Por que, então, trazeis à cena esses desgraçados e abusados; e não somente os trazeis, mas ainda os honrais com honras inumeráveis, e com dádivas que não se podem contar? Em outros lugares punis os que ousam tais coisas; mas aqui, como se fossem benfeitores comuns da cidade, gastais dinheiro com eles e os sustentais à custa pública.
Todavia, direis, eles são (ἄτιμοι) infames. Por que, pois, os educais? (παιδοτριβεῖς) Por que escolheis os infames para prestar honra aos reis? E por que arruinais (ἐκτραχηλίζεις, Plutarco, περὶ παίδων ἀγωγῆς, c. 17) as nossas cidades? Ou por que gastais tanto com estas pessoas? Pois se são infames, a expulsão é o mais próprio para os infames. Por que, pois, os fizestes infames? Em louvor, ou em condenação? Sem dúvida em condenação. Segue-se, pois, que embora, como após condenação, os tenhais por infames, contudo, como se fossem honrados, correis para vê-los, e os admirais, e os louvais, e os aplaudis? Que necessidade há de eu falar do gênero de encanto que se encontra nas corridas de cavalos? Ou nos combates de feras? Pois também esses lugares, cheios de toda excitação insensata, adestram o povo a adquirir um temperamento cruel, selvagem e desumano, e o exercitam em ver homens despedaçados, e sangue a correr, e a ferocidade das feras confundindo todas as coisas. Ora, todas estas coisas os nossos sábios legisladores desde o princípio introduziram, sendo elas outras tantas pragas! E as nossas cidades aplaudem e admiram.
11. Mas, se quiserdes, deixando de lado estas coisas que clara e confessadamente são abomináveis, mas que não pareceram (οὐκ ἔδοξεν — talvez não foram decretadas) [assim] aos legisladores pagãos, prossigamos até os seus preceitos graves; e vereis que também estes se acham corrompidos pela opinião da multidão. Assim, o matrimônio é tido por coisa honrosa (Hebreus 13:4) tanto por nós quanto por aqueles de fora: e é honroso. Mas, quando se celebram os matrimônios, sucedem coisas tão ridículas quanto ireis ouvir agora mesmo: porque a maior parte, possuída e iludida pelo costume, nem sequer se dá conta do seu absurdo, mas precisa que outros a instruam. Pois então se introduzem danças, e címbalos, e flautas, e palavras vergonhosas, e cânticos, e embriaguez, e orgias, e todo aquele grande monturo do Diabo (πολὺς ὁ τοῦ διαβόλου φορυτός).
Bem sei que hei de parecer ridículo ao censurar estas coisas; e incorrerei, perante a generalidade, na acusação de grande insensatez, como quem perturba as leis antigas: pois, como já disse antes, grande é o poder enganoso do costume. Mas, não obstante, não cessarei de repetir estas coisas: pois há, há certamente alguma possibilidade de que, ainda que não todos, ao menos alguns poucos acolham a nossa palavra e prefiram ser escarnecidos conosco, antes que nós rimos com eles de um riso que merece lágrimas e transbordante castigo e vingança.
Pois como pode não ser digno da mais extrema condenação que uma donzela, que passou toda a sua vida inteiramente em casa e foi educada no pudor desde a mais tenra infância, seja compelida de súbito a lançar fora toda vergonha, e, desde o próprio início do seu matrimônio, seja instruída na imprudência; e se veja posta no meio de homens dissolutos e rudes, e impudicos, e efeminados? Que mal não será implantado na noiva a partir daquele dia em diante? Impudicícia, petulância, insolência, o amor à vanglória: visto que naturalmente hão de prosseguir e desejar ter todos os seus dias tais como estes. Daí procede que as nossas mulheres se tornam dispendiosas e pródigas; daí procede que são desprovidas de pudor; daí procedem os seus incontáveis males.
E não me aleguem o costume: pois, se é coisa má, que não se faça sequer uma vez; mas, se é boa, que se faça constantemente. Pois dizei-me: não é mau cometer fornicação? Havemos, pois, de permitir que isto se faça uma única vez? De modo nenhum. Por quê? Porque, ainda que se faça uma só vez, é igualmente mau. Assim também, se é mau que a noiva seja assim tratada, que não se faça sequer uma vez; mas, se não é mau, que se faça até sempre.
Que, então — dirá alguém —, censurais o matrimônio? Dizei-me. Longe esteja isso de mim. Não sou tão insensato: mas censuro as coisas que tão indignamente se acrescentam ao matrimônio, o pintar o rosto, o tingir as sobrancelhas, e toda a demais afetação dessa espécie. Pois, na verdade, desde aquele dia ela receberá muitos amantes ainda antes do seu destinado consorte.
Mas muitos admirarão a mulher por sua beleza. E que importa isso? Ainda que seja discreta, dificilmente evitará a má suspeita; mas, se descuidada, será rapidamente tomada, tendo obtido, naquele mesmo dia, um ponto de partida para a conduta dissoluta.
Contudo, sendo tão grandes os males, a omissão destas práticas é chamada de afronta por certos homens que não são melhores que brutos animais, e eles se indignam por não ser a mulher exibida a uma multidão, por não ser posta como espetáculo teatral, comum a todos os espectadores; quando, na verdade, deveriam antes considerar afronta o fato de que estas coisas ocorrem — e um objeto de riso, e uma farsa. Pois mesmo agora sei que os homens me condenarão de muita loucura e me farão objeto de riso; mas a zombaria posso suportá-la, quando dela advém algum proveito. Pois eu seria, na verdade, digno de zombaria, se, exortando ao desprezo da opinião da multidão, fosse eu mesmo, dentre todos os homens, subjugado por esse mesmo sentimento.
Vede, pois, o que disto resulta. Não somente de dia, mas também à noite, procuram de propósito homens já bem embriagados, entorpecidos e inflamados por manjares luxuriosos, para contemplarem a beleza do rosto da donzela; nem tampouco apenas dentro de casa, mas até pela praça pública a conduzem em pompa, para fazer dela espetáculo; levando-a com tochas, já tarde na noite, de modo que seja vista por todos: com tais procedimentos não recomendando outra coisa senão que ela doravante deponha todo pudor. E nem mesmo aí param; antes, com palavras vergonhosas a conduzem. E isto, para a multidão, é lei. E escravos fugitivos e condenados, aos milhares, e de índole desesperada, prosseguem impunemente proferindo o que bem lhes apraz, tanto contra ela quanto contra aquele que está prestes a recebê-la em sua casa. E nada há de solene, mas tudo é vil e cheio de indecência. Não será, acaso, bela lição de castidade para a noiva ver e ouvir tais coisas? E há entre estes libertinos uma espécie de rivalidade diabólica, a ver quem supera o outro no zeloso emprego de impropérios e palavras torpes, com que lançam toda a assembleia na confusão, saindo vencedores aqueles que encontraram o maior tesouro de injúrias e as maiores indecências para arremessar contra os seus próximos.
Ora, sei que sou pessoa importuna, e desagradável, e taciturna, como se estivesse a cercear a vida de algum de seus prazeres. Mas eis precisamente a causa do meu pesar: que coisas tão desagradáveis sejam tidas por uma espécie de prazer. Pois como, pergunto eu, poderia deixar de ser desagradável ser injuriado e vilipendiado? Ser reprovado por todos, juntamente com tua noiva? Se alguém na praça pública falar mal de tua esposa, fazes disso um alvoroço sem fim e reputas a vida como não digna de ser vivida; e será que, desonrando-te a ti mesmo com tua futura consorte diante de toda a cidade, te comprazes e mostras semblante alegre com o caso? Que estranha loucura é esta!
Mas, diz alguém, a coisa é costumeira. Ora, por esta mesma razão devemos sobretudo pranteá-la, porque o demônio cercou a coisa com o costume. De fato, sendo o matrimônio coisa solene, e aquilo que recruta nossa raça e é causa de numerosas bênçãos, aquele maligno, corroído interiormente e sabendo que fora ordenado como baluarte contra a impureza, introduz nele, por um novo artifício, toda sorte de impureza. Em todo caso, em tais assembleias muitas virgens foram até mesmo corrompidas. E se nem sempre assim sucede, é porque, por ora, o demônio se contenta com aquelas palavras e aqueles cânticos, tão infames; com fazer exibição pública da noiva e conduzir o noivo em triunfo pela praça.
Além disso, porque tudo isto se passa à tarde, para que nem sequer as trevas sirvam de véu a tais males, trazem-se para dentro tochas em profusão, não sofrendo que a cena vergonhosa fique oculta. Pois que significa a vasta multidão, e que significa a bebedeira, e que significam as flautas? Bem claramente, para que nem mesmo os que se acham em suas casas, mergulhados [βαπτιζόμενοι] em profundo sono, permaneçam ignorantes destes procedimentos; a fim de que, despertados pela flauta e inclinando-se a espreitar pelas gelosias, se tornem testemunhas da comédia, tal qual ela é.
Que se pode dizer dos próprios cânticos, entulhados como estão de toda imundícia, introduzindo amores monstruosos, e uniões ilícitas, e subversões de casas, e cenas trágicas sem fim; e fazendo contínua menção dos títulos de amigo e amante, senhora e amada? E, o que é ainda mais grave, que jovens mulheres se façam presentes a estas coisas, tendo-se despojado de todo pudor; em honra da noiva — ou antes, deveria dizer, para insultá-la — expondo até mesmo a própria salvação , e no meio de jovens dissolutos, representando um papel despudorado com seus cânticos desordenados, com suas palavras torpes, com sua harmonia diabólica. Dizei-me, pois: ainda perguntais donde vêm os adultérios? Donde as fornicações? Donde as violações do matrimônio?
12. Mas não são mulheres nobres nem honestas, direis, as que fazem estas coisas. Por que, então, zombais de mim por esta repreensão, tendo vós mesmos conhecimento desta lei, antes que eu dissesse coisa alguma? Digo eu: se tais procedimentos são corretos, permiti então que também as mulheres bem-nascidas os pratiquem. Pois que importa se aquelas outras vivem na pobreza? Não são elas também virgens? Não deveriam elas também zelar pela castidade? Ora, eis aqui uma virgem dançando em um teatro público de jovens licenciosos; e pergunto: não vos parece ela mais desonrada que uma meretriz?
Mas se disserdes: são as servas que fazem estas coisas — nem assim vos absolvo eu da minha acusação; pois nem a estas deveriam tais coisas ter sido permitidas. Pois daqui têm origem todos estes males, de que de nossa própria casa não fazemos caso algum. Mas basta, a título de desprezo, dizer: Ele é escravo, e: Elas são servas. E, contudo, dia após dia ouvimos: Gl 3:28 Em Cristo Jesus não há escravo nem livre. Ademais, fosse um cavalo ou um jumento, não o negligenciarias, mas tomarias todo cuidado para não o ter de espécie inferior; e vossos escravos, que têm almas como as vossas próprias, negligenciais? E por que digo escravos, quando poderia dizer filhos e filhas? Que se dever, então, seguir? Não pode deixar de ser senão que a tristeza (λύπην, ou talvez λύμην, dano) há de imediatamente entrar, quando todas estas coisas vão à ruína. E frequentemente também hão de sobrevir perdas gravíssimas, perdendo-se preciosos ornamentos de ouro em meio à multidão e à confusão.
13. Depois, pois, do matrimônio, se porventura nascer um filho, também aqui veremos a mesma insensatez e muitas práticas [σύμβολα] cheias de absurdo. Pois quando chega o tempo de impor nome ao recém-nascido, não cuidando de chamá-lo pelo nome dos santos, como faziam a princípio os antigos, acendem lâmpadas e lhes dão nomes, e ao filho impõem o nome daquela que permanece ardendo por mais tempo; daí conjecturando que ele há de viver longos anos. Ora, se acontecerem muitos casos de morte prematura da criança — e são muitos —, grande riso haverá da parte do demônio, por ter feito escárnio deles como se fossem crianças tolas. Que diremos dos amuletos e dos guizos que se penduram na mão, e da trama escarlate, e das demais coisas cheias de tamanha loucura, quando deveriam revestir a criança com nada mais senão a proteção da Cruz? Mas agora é desprezado aquilo que converteu o mundo inteiro e deu ao demônio a ferida mortal e derrubou todo o seu poder; enquanto o fio, e a trama, e os demais amuletos dessa espécie são encarregados da segurança da criança.
Poderei mencionar ainda outra coisa mais ridícula que esta? Que ninguém, porém, nos acuse de falar fora de propósito, se nosso discurso avançar também sobre esse exemplo. Pois quem quiser limpar uma úlcera não hesitará em primeiro sujar as próprias mãos. Qual é, pois, este costume tão sumamente ridículo? Conta-se, na verdade, por nada — e por isso me aflijo —, mas é o começo da loucura e da demência extrema. As mulheres no banho, as amas e as servas, tomam lama e, esfregando-a com o dedo, fazem um sinal na testa da criança; e se alguém perguntar o que significam a lama e o barro, a resposta é: afasta o olho mau, o feitiço e a inveja. Coisa espantosa! Que poder há na lama! Que força no barro! Que potência tão grande é esta que ele possui! Ele afasta toda a hoste do demônio. Dizei-me, podeis deixar de vos esconder de vergonha? Nunca chegareis a compreender as ciladas do demônio, como, desde a mais tenra vida, ele vai introduzindo pouco a pouco os diversos males que engendrou? Pois se a lama tem tal efeito, por que não fazeis também o mesmo à vossa própria testa, sendo vós homem e tendo já formado o caráter, e sendo mais provável que tenhais quem vos inveje do que a criança? Por que não besuntais também o corpo todo? Digo: se na testa sua virtude é tão grande, por que não vos ungis inteiramente de lama? Tudo isto é alegria e teatro para Satanás, sendo o fim a que se encaminham estes enganados não apenas o escárnio, mas o fogo do inferno.
14. Ora, que entre os gregos tais coisas se façam não é de admirar; mas que entre os que adoram a Cruz (τὸν σταυρὸν προσκυνοῦσι) e são partícipes de mistérios inefáveis, e professam tão alta filosofia (τοσαῦτα φιλοσοφοῦσιν), prevaleça semelhante inconveniência, isto é, sobretudo, de lamentar-se uma vez e outra. Deus vos honrou com a unção espiritual; e vós contaminais vosso filho com lama? Deus vos honrou, e vós desonrais a vós mesmos? E quando devêreis inscrever em sua testa a Cruz, que confere invencível segurança, renunciais a isto e vos lançais na loucura de Satanás?
Ora, se alguns consideram estas coisas como coisas triviais, saibam que elas são fonte de grandes males; e que nem mesmo a Paulo pareceu certo desprezar as coisas menores. Pois, dizei-me, que coisa pode haver menor do que um homem cobrir a sua cabeça? E, no entanto, vede quão grande questão ele faz disso e com quão grande empenho o proíbe; dizendo, entre outras coisas, "Desonra a sua cabeça" (1 Cor 11:4). Ora, se aquele que se cobre desonra a sua cabeça, aquele que unta seu filho com lama, como pode isto ser menos do que torná-lo abominável? Pois como, quero eu saber, poderá ele levá-lo às mãos do sacerdote? Como podes exigir que naquela fronte seja posto o selo pela mão do presbítero, onde tu vinhas untando a lama? Não, meus irmãos, não façais estas coisas, mas desde a mais tenra vida cercai-os com a armadura espiritual e ensinai-os a selar a fronte com a mão (τῇ χειρὶ παιδεύτε σφραγίζειν τὸ μέτωπον); e antes que sejam capazes de fazê-lo com a própria mão, imprimi vós mesmos sobre eles a Cruz.
Por que haveria eu de falar das outras observâncias satânicas no caso das dores do parto e dos nascimentos, que as parteiras introduzem para malefício de suas próprias cabeças? Dos clamores que se dão à morte de cada pessoa, e quando ela é levada à sepultura; das lamentações irracionais, da loucura que se pratica nos funerais; do zelo pelos monumentos dos homens; do enxame importuno e ridículo das carpideiras; das observâncias de dias; refiro-me aos dias de entrada no mundo e de partida?
15. São estas, pois, eu vos suplico, as pessoas cuja boa opinião buscais? E que pode ser senão o extremo da loucura buscar com afinco o louvor de homens tão corruptos em suas ideias, homens cuja conduta é toda ao acaso? Quando deveríamos sempre recorrer ao Olho que jamais dorme, e olhar para a Sua sentença em tudo quanto fazemos e dizemos? Pois estes, ainda que aprovem, não terão poder algum para nos aproveitar. Mas Ele, se aceitar as nossas obras, tanto aqui nos fará gloriosos, quanto no dia futuro nos fará partícipes dos bens inefáveis: os quais, que a todos nós seja dado alcançar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo; com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos infinitos. Amém.
Paulo fala tanto do presente quanto do passado, porque o cristão deve estar sempre vivendo desta maneira, e não apenas ocasionalmente. O atleta pode ser coroado após uma única vitória, mas se em seguida vier a perder, não será coroado uma segunda vez.
Até a presente hora temos fome e sede, e estamos nus. Vedes que toda a vida dos cristãos deve ser assim; e não apenas por um dia ou dois? Pois embora o atleta que é vitorioso em um único combate seja coroado, ele não é coroado novamente se sofrer uma queda.
E temos fome; contra os luxuriosos. E somos esbofeteados; contra os que se ensoberbecem. E não temos morada certa; pois somos expulsos de um lugar a outro. E estamos nus; contra os ricos.
E labutamos; agora contra os falsos apóstolos, que não suportam nem labor nem perigo, ao passo que eles próprios recebem os frutos. Mas não é assim conosco, diz ele: mas junto com nossos perigos externos, também nos esforçamos ao máximo com labor perpétuo. E o que é ainda mais, ninguém pode dizer que nos afligimos com estas coisas, pois o contrário é nossa retribuição para com aqueles que assim nos tratam: este, digo eu, é o ponto principal, não nosso sofrer o mal, pois isto é comum a todos, mas nosso sofrer sem desalento ou vexação. Mas nós, longe de nos desanimarmos, estamos cheios de exultação. E uma prova segura disto é nossa retribuição com o contrário àqueles que nos fazem mal.
Ora, quanto ao fato de que assim eles fizeram, ouvi o que se segue.
Sendo injuriados, bendizemos; sendo perseguidos, suportamos; sendo difamados, suplicamos; somos feitos como a escória do mundo. Este é o sentido de loucos por causa de Cristo. Pois quem sofre o mal e não se vinga nem se aflige é tido por louco pelos pagãos; e desonrado e fraco. E para que não tornasse seu discurso demasiado desagradável ao referir os sofrimentos de que falava à cidade deles, que diz ele? Somos feitos a escória, não de vossa cidade, mas do mundo. E outra vez, o refugo de todos os homens; não somente de vós, mas de todos. Assim como, portanto, quando discorre sobre a providência de Cristo, deixando de lado a terra, o céu, toda a criação, é a Cruz que ele traz à frente; assim também, quando deseja atraí-los a si, passando por alto todos os seus milagres, ele fala de seus sofrimentos por causa deles. Assim também é nosso método, quando somos injuriados por alguém e desprezados, trazer à frente tudo quanto suportamos por eles.
O refugo de todos os homens, ainda até agora. Este é um golpe vigoroso que ele desferiu ao final, de todos os homens; não somente dos perseguidores, diz ele, mas também daqueles por quem sofremos estas coisas: Oh, quão grandemente lhes sou obrigado! É a expressão de alguém seriamente preocupado; não sofrendo ele mesmo, mas desejando fazê-los sentir (πλῆξαι) que aquele que tem inúmeras queixas a fazer deveria até saudá-los. E por isso Cristo nos ordenou suportar os insultos com mansidão, para que exercitássemos a nós mesmos num elevado grau de virtude, e envergonhássemos mais a outra parte. Pois este efeito não se produz tão bem pela repreensão quanto pelo silêncio.
Paulo diz que o ponto principal não é que ele e seus companheiros apóstolos estejam sofrendo, pois isto é comum a todos. O que é peculiar a eles é que sofrem sem desespero ou ira. Pelo contrário, estão cheios de regozijo, e o provam retribuindo com o bem o mal que recebem.
Cristo nos ordenou suportar os insultos com mansidão, tanto para que crescêssemos nós mesmos em virtude quanto para que envergonhássemos nossos adversários. Este efeito é melhor produzido não pela repreensão, mas pelo silêncio.
Não falar contra os pecados teria sido impossível, pois estes permaneceriam sem correção. Mas, tendo falado, deixar a ferida sem cuidado teria sido cruel. Por isso Paulo se desculpa por ser severo, porque isto, longe de destruir o efeito do bisturi, faz com que ele penetre ainda mais fundo, ao mesmo tempo em que busca abrandar a dor da ferida. Quando se diz a alguém que estas coisas são ditas por amor e não por censura, ele estará mais disposto a receber a correção.
3. Vendo, pois, que o golpe não podia ser bem suportado, apressa-se a curá-lo, dizendo: Não escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas para vos admoestar como a filhos meus amados. Pois não é para vos envergonhar, diz ele, que falo estas coisas. A própria coisa que fizera com suas palavras, diz que não a fizera: antes admite tê-la feito, mas não com ânimo malévolo e rancoroso. Ora, este modo de abrandar é o melhor de todos, se dissermos o que temos a dizer e acrescentarmos a desculpa quanto ao nosso motivo. Pois não falar era impossível, já que permaneceriam sem correção; por outro lado, tendo falado, deixar a ferida sem cuidado seria duro. Por isso, junto com sua severidade, ele se desculpa: pois isto, longe de destruir o efeito do bisturi, antes o faz penetrar mais fundo, enquanto modera a dor plena da ferida. Pois quando se diz a alguém que não por censura, mas por amor são ditas estas coisas, mais prontamente ele recebe a correção.
Contudo, também aqui há grande severidade, e um forte apelo ao seu sentimento de vergonha (ἐντροπή), no fato de não ter dito: Como mestre, nem tampouco como apóstolo, nem tampouco como quem vos tem por discípulos (o que bem conviria às suas prerrogativas sobre eles); mas: como a filhos meus amados eu vos admoesto. E não simplesmente filhos, mas amados. Perdoai-me, diz ele. Se algo desagradável foi dito, tudo procede do amor. E não disse: repreendo, mas: admoesto. Ora, quem não suportaria um pai aflito, e no ato de dar bom conselho? Por isso não disse isto antes, mas depois de haver desferido o golpe.
Que dizer, pois? Poderiam alguns perguntar: Não nos poupam os outros mestres? Não digo isto, mas: eles não levam sua indulgência tão longe. Isto, porém, não o disse ele de imediato, mas por meio de suas designações e títulos o deu a entender; sendo Tutor e Pai os termos que emprega.
Paulo não reivindica aqui dignidade alguma, mas antes mostra a profundidade de seu amor. À dignidade pertence o mestre, mas ao amor pertence o pai.
4. Pois ainda que, diz ele, tenhais dez mil tutores em Cristo, não tendes, contudo, muitos pais. Não está aqui expondo sua dignidade, mas a grandeza sobeja de seu amor. Assim, também não feriu os outros mestres, pois acrescenta a cláusula em Cristo; antes os abrandou, designando não como parasitas, mas como tutores, aqueles dentre eles que eram zelosos e pacientes no trabalho; e manifestou também seu próprio cuidado ansioso por eles. Por isso não disse: não muitos senhores, mas: não muitos pais. Tão pouco era seu propósito estabelecer algum título de dignidade, ou argumentar que dele haviam recebido o maior benefício: antes, concedendo aos outros o grande esforço que haviam despendido pelos coríntios (pois esta é a força da palavra Tutor), reserva para si a superioridade no amor, pois esta, por sua vez, é a força da palavra Pai.
E não diz meramente: ninguém vos ama tanto — afirmação que não admitia contestação; mas traz também à luz um fato real. Qual é ele, pois? Pois em Cristo Jesus eu vos gerei mediante o Evangelho. Em Cristo Jesus. Não a mim mesmo atribuo isto. Novamente, golpeia aqueles que davam seus próprios nomes ao seu ensino. Pois vós, diz ele, sois o selo do meu apostolado. E novamente: eu plantei; e neste lugar: eu gerei. Não disse: preguei a palavra, mas: gerei, usando os termos do parentesco natural (τοῖς τῆς φύσεως ὀνόμασι). Pois seu único cuidado naquele momento era mostrar o amor que tinha por eles. Pois eles, na verdade, vos receberam de mim e vos conduziram adiante; mas o fato de serdes crentes veio a se dar por meu intermédio. Assim, tendo dito como a filhos, para que não supusésseis que a expressão fosse lisonja, produz também o fato concreto.
Considerai também aqui, eu vos suplico, a alma nobre, a alma mais ardente e mais aguda que o fogo: como estava ele, na verdade, especialmente desejoso de estar presente ele mesmo junto aos coríntios, assim perturbados e desfeitos em partidos. Pois sabia bem quão grande auxílio aos discípulos era sua presença, e quão grande dano sua ausência. E a primeira coisa ele declarou na Epístola aos Filipenses, dizendo: Não como na minha presença somente, mas agora muito mais na minha ausência, operai a vossa própria salvação com temor e tremor. A segunda ele indica nesta Epístola, dizendo: Ora, alguns estão inchados, como se eu não fosse vir a vós; mas virei. Estava, ao que parece, ansioso e desejoso de estar ele mesmo presente. Mas, não sendo isto possível por algum tempo, ele os corrige com a promessa de sua vinda; e não somente com isto, mas também com o envio de seu discípulo. Por isto, diz ele, vos enviei Timóteo. Por esta causa: como assim? Porque cuido de vós como de filhos, e como de quem os gerou. E a mensagem vem acompanhada de recomendação de sua pessoa: que é meu filho amado e fiel no Senhor. Ora, isto ele disse, tanto para mostrar seu amor por ele, quanto para prepará-los a olhá-lo com respeito. E não simplesmente fiel, mas no Senhor; isto é, nas coisas que pertencem ao Senhor. Ora, se nas coisas mundanas é grande louvor que um homem seja fiel, muito mais nas coisas espirituais.
Se, pois, ele era seu filho amado, considerai quão grande era o amor de Paulo, ao escolher separar-se dele por causa dos coríntios. E, sendo também fiel, será irrepreensível no ministério de seus assuntos.
O qual vos fará lembrar. Não disse: ensinará, para que não se ofendessem, como quem estava habituado a aprender do próprio Paulo. Por isso também, perto do final, ele diz: Pois este faz a obra do Senhor, assim como eu também. Ninguém, pois, o despreze. Pois não havia inveja entre os apóstolos, mas tinham em vista uma só coisa: a edificação da Igreja. E se aquele que era empregado lhes era inferior, apoiavam-no (συνεκρότουν), por assim dizer, com todo empenho. Por isso não se contentou em dizer: ele vos fará lembrar; mas, propondo-se a extirpar por completo sua inveja — pois Timóteo era jovem — com este propósito, digo, acrescenta: os meus caminhos; não os dele, mas os meus; isto é, seus métodos (τὰς οἰκονομίας), seus perigos, seus costumes, suas leis, suas ordenanças, seus cânones apostólicos, e todo o restante. Pois, tendo dito: estamos nus, e somos esbofeteados, e não temos morada certa: de todas estas coisas, diz ele, ele vos fará lembrar; e também das leis de Cristo, destruindo todas as heresias. Então, elevando ainda mais seu argumento, acrescenta: que estão em Cristo; atribuindo tudo, como era seu costume, ao Senhor, e estabelecendo sobre este fundamento a credibilidade do que se segue. Por isso acrescenta: assim como ensino em toda parte, em cada igreja. Nada de novo vos disse: destes meus procedimentos todas as outras Igrejas têm conhecimento, tanto quanto vós. Além disso, chama-os caminhos em Cristo, para mostrar que nada têm de humano, e que, com o auxílio dali provindo, ele faz tudo bem.
2. E, tendo dito estas coisas e assim os tendo abrandado, e estando prestes a entrar em sua acusação contra o homem impuro, profere novamente palavras cheias de ira; não que sentisse assim em si mesmo, mas para os corrigir: e, entregando o fornicador, dirige seu discurso aos demais, como não o julgando digno sequer de palavras suas; assim como agimos para com nossos servos quando nos deram grande ofensa.
Em seguida, depois de haver dito: envio Timóteo, para que não se acomodassem demasiado com isto.
O verdadeiro objetivo de Paulo era que os coríntios imitassem a Cristo. Mas, por causa de sua fraqueza, ele se apresenta a si mesmo como modelo intermediário a ser seguido. É somente porque imita a Cristo que ele exorta o povo a imitá-lo a ele.
Rogo-vos que sejais meus imitadores, assim como eu o sou de Cristo. κάθως κὰγὼ Χριστοῦ, omitido em nossa versão: a Vulgata o traz — vede 1 Cor 11:1. Coisa espantosa! Quão grande é a ousadia de palavra de nosso mestre! Quão acabada a imagem, quando ele pode até exortar outros a isto! Não que o faça por vanglória, mas dando a entender que a virtude é coisa fácil. Como se dissesse: Não me digais: "Não sou capaz de te imitar; tu és Mestre, e grande Mestre." Pois a diferença entre mim e vós não é tão grande quanto entre Cristo e mim; e, no entanto, eu O imitei.
Por outro lado, escrevendo aos Efésios, não interpõe menção alguma de si mesmo, mas conduz a todos diretamente a um só ponto: "Sede imitadores de Deus", é a sua palavra (Ef 5:1). Mas aqui, como o seu discurso se dirigia a pessoas fracas, ele se inclui de passagem.
E, além disso, dá a entender também que é possível, mesmo assim, imitar a Cristo. Pois quem copia a impressão perfeita do selo copia o modelo original.
Vejamos, pois, de que modo ele seguiu a Cristo: pois esta imitação não requer tempo nem arte, mas tão somente um propósito firme. Assim, se entrarmos na oficina de um pintor, não seremos capazes de copiar o retrato, ainda que o vejamos dez mil vezes. Mas para copiá-lo a ele, basta-nos o ouvir. Quereis, pois, que tragamos diante de vós a tábua e vos esboce o modo de vida de Paulo? Pois bem, que seja produzida essa pintura, muito mais brilhante que todas as imagens dos Imperadores: pois sua matéria não são tábuas coladas, nem tela estendida; mas a matéria é obra de Deus: sendo, como é, uma alma e um corpo: uma alma, obra de Deus, não dos homens; e um corpo, igualmente.
Aplaudistes aqui? Não; não é aqui o momento para aplausos, mas no que se segue: pois é para aplaudir, digo eu, e também para imitar: pois até aqui não temos senão a matéria que é comum a todos, sem exceção alguma: visto que uma alma não difere de outra alma enquanto alma: mas o propósito do coração é que mostra a diferença. Pois, assim como um corpo não difere de outro enquanto corpo, mas o corpo de Paulo é semelhante ao de qualquer outro — somente os perigos tornam um corpo mais brilhante que outro — assim também é no caso da alma.
Ora, suponhamos ser a nossa tábua a alma de Paulo: esta tábua estava outrora coberta de fuligem, cheia de teias de aranha (pois nada há mais vil que a blasfêmia); mas quando veio Aquele que transforma todas as coisas, e viu que não por indolência ou torpor haviam sido assim traçadas as suas linhas, mas por inexperiência e por não possuir ele os matizes (τὰ ἄνθη) da verdadeira piedade (pois zelo, na verdade, tinha, mas as cores não estavam ali, porquanto não tinha o zelo segundo o conhecimento), dá-lhe Ele o matiz da verdade, isto é, a graça: e num só momento manifestou-se a imagem imperial. Pois, tendo recebido as cores e aprendido aquilo que ignorava, não aguardou tempo algum, mas de imediato apareceu como um artista excelentíssimo. E mostra primeiro a cabeça do Rei, pregando a Cristo; depois também o restante do corpo, o corpo de uma vida cristã perfeita. Ora, sabemos que os pintores se recolhem e executam todas as suas obras com grande esmero e em quietude, sem abrir as portas a ninguém; mas este homem, expondo a sua tábua à vista do mundo, em meio à oposição universal, ao clamor, à perturbação, sob tais circunstâncias trabalhou esta Imagem Régia, e não foi impedido. E por isso disse ele: Somos feitos espetáculo ao mundo; em meio à terra, ao mar, ao céu e a todo o globo habitável, e ao mundo tanto material quanto inteligível, ali traçava ele o seu retrato.
Quereis ver também as demais partes dele, da cabeça para baixo? Ou quereis que, de baixo, conduzamos a descrição para cima? Contemplai, pois, uma estátua de ouro, ou antes, de algo mais precioso que o ouro, e tal que pudesse erguer-se no céu; não fixada com chumbo nem colocada num só lugar, mas apressando-se de Jerusalém até o Ilírico (Rm 15,19), e partindo para a Espanha, e como que levada em asas por todas as partes do mundo. Pois que poderia haver de mais belo que estes pés que visitaram toda a terra debaixo do sol? Esta mesma beleza também o profeta desde antigo proclama, dizendo (Is 52,7): Quão belos são os pés dos que anunciam o Evangelho da paz! Vistes quão formosos são os pés? Quereis ver também o peito? Vinde, mostrar-vo-lo-ei também, e o contemplareis muito mais esplêndido que estes belos pés, sim, mais ainda que o próprio peito do antigo legislador. Pois Moisés, na verdade, carregava tábuas de pedra; mas este homem trazia dentro de si o próprio Cristo: era a própria imagem do Rei que ele portava.
Por esta causa era ele mais venerável que o Propiciatório e os Querubins. Pois deles não saía tal voz como daqui; mas eles falavam com os homens principalmente sobre as coisas sensíveis, ao passo que da língua de Paulo falava-se sobre as coisas acima dos céus. Ademais, do Propiciatório falavam-se oráculos somente aos judeus; mas daqui, a todo o mundo: e ali era por meio de coisas sem vida; mas aqui, por uma alma animada pela virtude.
O Propiciatório era mais resplandecente ainda do que o céu, não brilhando com a variedade das estrelas nem com os raios do sol, mas ali estava o próprio Sol da justiça, e dali enviava Ele os Seus raios. De novo, de tempos em tempos, neste nosso céu, alguma nuvem que o cruza torna-o por vezes sombrio; mas aquele peito jamais teve tal tempestade a varrê-lo. Ou antes, muitas tempestades e frequentes o varreram: mas não lhe escureceram a luz; antes, no meio da tentação e dos perigos, a luz resplandecia. Por isso também ele mesmo, quando preso com sua cadeia, exclamava sem cessar: 2Tm 2,9 A palavra de Deus não está presa. Assim, continuamente, por meio daquela língua, Ela enviava os Seus raios. E nenhum temor, nenhum perigo tornava sombrio aquele peito. Talvez pareça o peito superar os pés; contudo, tanto estes, como pés, são belos, quanto este, como peito.
Quereis ver também o ventre com sua própria beleza? Ouvi o que ele diz a respeito: 1Co 8,13 Se a comida faz meu irmão tropeçar, jamais comerei carne enquanto o mundo durar; Rm 14,21 Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer coisa alguma pela qual teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça; 1Co 6,13 Os alimentos são para o ventre, e o ventre para os alimentos. Que pode haver mais belo em seu gênero do que este ventre assim instruído a permanecer quieto, e ensinado a toda a temperança, sabendo tanto ter fome e passar necessidade, como também suportar a sede? Pois, como um cavalo bem adestrado com áureo freio, assim também este caminhava com passos medidos, tendo vencido a necessidade da natureza. Pois era Cristo que nele caminhava. Ora, sendo este tão temperante, é bem manifesto que todo o restante do corpo do vício estava abolido.
Quereis ver também as mãos? Aquelas que ele agora tem? Ou preferis contemplar primeiro sua antiga maldade? At 8,3 Entrando (este mesmo homem) nas casas, arrastava, outrora, homens e mulheres, com mãos não de homem, mas de alguma fera selvagem. Mas, tão logo recebeu as cores da Verdade e a experiência espiritual, já não eram estas mãos de homem, mas espirituais; dia após dia sendo atadas com cadeias. E jamais feriram alguém, mas foram feridas inúmeras vezes. Certa vez, até mesmo uma víbora At 28,3-5 reverenciou aquelas mãos: pois já não eram mãos de um ser humano; e por isso nem mesmo se prendeu a elas.
E quereis ver também as costas, semelhantes aos demais membros? Ouvi o que ele diz também a este respeito. 2Co 11,24-25 Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes naufraguei, uma noite e um dia estive no abismo.
7. Mas, para que também nós não caiamos num abismo interminável, e sejamos arrastados longe e para todo lado, percorrendo cada um dos seus membros em particular; vinde, deixemos o corpo e contemplemos outra espécie de beleza, a saber, aquela que procede das suas vestes; às quais até os demônios prestaram reverência; e por isso tanto fugiram eles, quanto as enfermidades tomaram a fuga. E onde quer que Paulo se mostrasse, todos se retiravam e saíam do caminho, como se houvesse aparecido o campeão do mundo inteiro. E assim como aqueles que foram muitas vezes feridos na guerra, se veem sequer alguma parte da armadura daquele que os feriu, sentem um estremecimento; do mesmo modo também os demônios, à simples vista de lenços, ficavam atônitos. Onde estão agora os ricos, e os que nutrem altivos pensamentos acerca da riqueza? Onde os que enumeram os seus próprios títulos e as suas vestes custosas? Se compararem a si mesmos com estas coisas, tudo quanto possuem de próprio lhes parecerá barro e imundície. E por que falo eu de vestes e ornamentos de ouro? Ora, ainda que alguém me concedesse a posse do mundo inteiro, estimaria eu mais poderoso o simples prego de Paulo do que todo aquele domínio: a sua pobreza, mais que todo o luxo; a sua desonra, mais que toda a glória; a sua nudez, mais que todas as riquezas; nenhuma segurança eu compararia com os golpes daquela sagrada cabeça; nenhum diadema, com as pedras de que foi ele alvo. Esta coroa desejemos ardentemente, amados; e, se agora não há perseguição, preparemo-nos entretanto. Pois não foi somente pelas perseguições que aquele de quem falamos se tornou glorioso: pois disse ele também (1 Cor 9:27) — ὑποπιέζω, no texto recebido; ὑπωπίαζω, na outra leitura — subjugo o meu corpo; ora, nisto pode-se alcançar a excelência sem perseguições. E exortou a que não (Rm 3:14) façamos provisão para a carne, a fim de satisfazer-lhe as concupiscências. E outra vez (1 Tm 6:8): tendo sustento e cobertura, sejamos com isso contentes. Pois para estes fins não temos necessidade de perseguições. E procurou também moderar os ricos, dizendo (1 Tm 6:9): os que querem tornar-se ricos caem em tentação.
Se, portanto, também nós assim nos exercitarmos, quando entrarmos no combate seremos coroados; e, ainda que não haja perseguição diante de nós, receberemos por estas coisas muitas recompensas. Mas, se regalarmos o corpo e vivermos a vida de um porco, mesmo em paz pecaremos muitas vezes e traremos vergonha sobre nós.
Não vedes com quem lutamos? Com as potências incorpóreas. Como, pois, sendo nós mesmos carne, havemos de vencê-las? Pois, se para lutar com homens é preciso ser-se temperante no comer, muito mais o é para lutar com os espíritos malignos. Mas, quando juntamente com a plenitude da carne estamos ainda presos à riqueza, de onde haveremos de superar os nossos antagonistas? Pois a riqueza é uma cadeia, uma pesadíssima cadeia, para os que não sabem usá-la; um tirano selvagem e desumano, que impõe todas as suas ordens à maneira de ultraje sobre os que o servem. Todavia, se quisermos, deporemos do trono esta amarga tirania, e a faremos ceder-nos, em vez de a ela obedecermos. Como, pois, se há de fazer isto? Distribuindo a nossa riqueza a todos. Pois, enquanto ela se ergue contra nós, cada um sozinho, como qualquer salteador no deserto, ela leva a cabo todos os seus maus desígnios; mas, quando a trazemos para o meio de outros, ela não mais nos dominará, presa como estará em cadeias, por todos os lados, por todos os homens.
8. E digo estas coisas, não porque as riquezas sejam pecado: o pecado está em não distribuí-las aos pobres, e no mau uso delas. Pois Deus nada fez de mau, mas todas as coisas muito boas; de modo que as riquezas também são um bem — isto é, se não dominam os seus possuidores; se por meio delas se remedeiam as necessidades do nosso próximo. Pois tampouco é boa aquela luz que, em vez de dissipar as trevas, antes as intensifica; nem eu chamaria riqueza àquilo que, em vez de eliminar a pobreza, antes a aumenta. Porquanto o rico não busca tomar dos outros, mas socorrer os outros; mas aquele que busca receber dos outros já não é rico, mas é, propriamente, pobre. De sorte que não são as riquezas o mal, mas a mente indigente que converte a riqueza em pobreza. Estes são mais miseráveis que aqueles que pedem esmola nas ruas estreitas, carregando alforge e mutilados no corpo. Digo que, vestidos de trapos como estão, não são tão desventurados quanto os que trajam sedas e vestes resplandecentes. Os que se pavoneiam na praça pública são mais dignos de compaixão que os que rondam as encruzilhadas das ruas, entram nos pátios, e clamam desde seus subterrâneos, pedindo caridade. Pois estes, por sua parte, proferem louvores a Deus, e dizem palavras de misericórdia e de rigorosa moralidade. E por isso deles nos compadecemos, e estendemos a mão, e jamais os censuramos. Mas os que são ricos para maus fins — a crueldade e a desumanidade, a rapina e a luxúria satânica estão nas palavras que arrotam. E por isso são de todos detestados e escarnecidos. Considerai, pois: qual dos dois, entre todos os homens, é tido por vergonhoso — mendigar aos ricos ou aos pobres? Todos, suponho, veem isso de imediato: aos pobres. Ora, isto — se o notardes — é o que fazem os ricos; pois não ousaram recorrer aos que são mais ricos que eles mesmos; ao passo que os que mendigam recorrem aos abastados: pois um mendigo não pede esmola a outro mendigo, mas a um rico; o rico, porém, despedaça o pobre.
Dizei-me ainda: qual é mais digno — receber daqueles que são bem dispostos e vos são devedores, ou, quando os homens são relutantes, constrangê-los e importuná-los? Evidentemente, não perturbar os que são relutantes. Mas isto também fazem os ricos: pois os pobres recebem de mãos dispostas, e que lhes são devedoras; mas os ricos, de pessoas relutantes e contrariadas, o que é indício de maior pobreza. Pois se ninguém quisesse sequer ir a um banquete, a menos que o anfitrião se sentisse devedor ao convidado, como pode ser honroso tomar sua parte de alguma propriedade por constrangimento? Não é por isto que nos desviamos dos cães e fugimos de seus latidos — porque, ao nos assediarem tanto, praticamente nos forçam a nos afastar? Isto também fazem os nossos ricos.
Mas, dizem, que o temor acompanhe o dom é mais digno. Antes, isto é, de tudo, o mais vergonhoso. Pois aquele que move céu e terra por seus ganhos, quem pode ser tão escarnecido quanto ele? Pois até aos cães, não raro, por medo, lançamos o que quer que tivéssemos em mãos. O que, pergunto de novo, é mais vergonhoso? Que mendigue aquele que se veste de trapos, ou aquele que traja seda? Assim, quando um rico corteja anciãos e pobres a fim de se apossar de seus bens — e isto quando há filhos —, que perdão pode merecer?
Além disso: se quiserdes, examinemos as próprias palavras; o que dizem os ricos mendigos, e o que dizem os pobres. Que diz, pois, o pobre? Que aquele que dá esmola jamais terá de dar com medida (μετριάσει, talvez corrupto: conj. πεινάσει, jamais padecerá fome); que ele dá do que é de Deus; que Deus é amigo dos homens, e recompensa mais abundantemente; palavras todas de elevada moralidade, e de exortação, e de conselho. Pois recomenda-te que olhes para o Senhor, e tira-te o temor da pobreza vindoura. E pode-se perceber muita instrução nas palavras daqueles que pedem esmola: mas quais são as dos ricos? Ora, as de porcos, e cães, e lobos, e todas as outras feras. Pois alguns deles discorrem perpetuamente sobre banquetes, e iguarias, e delícias, e vinho de toda espécie, e unguentos, e vestes, e todo o resto dessa extravagância. E outros, sobre os juros do dinheiro e empréstimos. E, fazendo contas e aumentando a massa das dívidas até uma quantia intolerável, como se tivesse começado no tempo dos pais ou avós dos homens, a um roubam a casa, a outro o campo, e a outro o escravo, e tudo quanto possui. Para que falar de seus testamentos, que são escritos com sangue em vez de tinta? Pois ou cercando-os de algum perigo intolerável, ou então enfeitiçando-os com alguma promessa mesquinha, a todo aquele em quem vejam alguma pequena posse, persuadem-no a preterir todos os seus parentes — e isto muitas vezes quando estes perecem de pobreza — e a inscrever, em lugar deles, o próprio nome. Existe loucura ou ferocidade de feras de qualquer espécie que estas coisas não lancem à sombra?
8. Por isso vos suplico: fujamos de tal riqueza como esta, tão vergonhosa quanto é e tão farta de mortes; e obtenhamos aquela que é espiritual, e busquemos os tesouros nos céus. Pois quantos possuem estes são os ricos, são os abastados, gozando das coisas aqui e ali; sim, de todas as coisas. Porquanto, quem quiser ser pobre, segundo a palavra de Deus, tem abertas para si as casas de todos os homens. Pois a quem, por amor de Deus, cessou de possuir coisa alguma, cada um contribuirá do que é seu. Mas quem quiser reter um pouco com injustiça, fecha diante de si as portas de todos. Para que, então, alcancemos tanto os bens daqui como os que ali estão, escolhamos a riqueza que não pode ser removida, aquela abundância imortal: a qual Deus conceda a todos nós alcançar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, etc.
Paulo mostra quanto ama os coríntios ao enviar-lhes seu filho dileto e amado, Timóteo, escolhendo assim separar-se dele por causa dos coríntios.
Ora, alguns se ensoberbecem, como se eu não estivesse para ir ter convosco. Pois ali ele lança o olhar tanto sobre estes quanto sobre certos outros, abatendo a sua altivez: porquanto o amor da preeminência é a falta, quando os homens abusam da ausência de seu mestre para servir à própria vontade. Pois quando se dirige ao povo, observai como o faz apelando ao seu pudor; quando, porém, se dirige aos autores do mal, seu modo é mais veemente. Assim, aos primeiros diz: Somos como a escória de todos; e, suavizando-os, diz: Não escrevo isto para vos envergonhar; mas aos segundos: Ora, como se eu não estivesse para ir ter convosco, alguns se ensoberbecem; mostrando que a sua vontade própria arguía uma disposição pueril de ânimo. Pois assim também os meninos, na ausência do mestre, tornam-se mais negligentes.
Isto, pois, é uma coisa aqui indicada; e outra é que sua presença bastava para corrigi-los. Pois assim como a presença do leão faz todos os viventes encolherem-se, assim também a de Paulo faz aos corruptores da Igreja.
E conhecerei, não a palavra dos que se ensoberbecem, mas o poder. Pois não de qualquer excelência própria, mas da ausência de seu mestre, nasceu esta vontade própria. A qual, por sua vez, era também sinal de um ânimo desdenhoso para com ele. E eis por que, tendo dito: Enviei-vos Timóteo, não acrescentou logo: Virei; mas aguardou até haver formulado contra eles a acusação de se ensoberbecerem: depois disso é que diz: Virei. Pois, se o houvesse posto antes da acusação, teria sido antes uma apologia de si mesmo, como quem não faltara, e não uma ameaça; nem mesmo assim a afirmação teria sido persuasiva. Mas, colocando-a como está, depois da acusação, fez-se tal que eles ao mesmo tempo o cressem e o temessem.
Notai também quão firme e seguro torna o seu terreno: pois não diz simplesmente Virei, mas: Se o Senhor quiser; e não fixa tempo determinado. Pois, como pudesse porventura tardar em vir, com essa incerteza quis mantê-los em ansiosa vigilância. E, para que não recaíssem outra vez nisto, acrescentou logo em seguida:
3. E conhecerei, não a palavra dos que se ensoberbecem, mas o poder. Não disse: conhecerei não a sabedoria, nem os sinais, mas o quê? não a palavra: com o termo que emprega, ao mesmo tempo deprime uma coisa e exalta outra. E por ora se volta contra a generalidade dos que favoreciam o fornicador. Pois, se falasse dele, não diria o poder, mas as obras, as obras corruptas que praticava.
Ora, por que não buscais a palavra? Não porque me falte a palavra, mas porque todos os nossos feitos consistem "em poder". Assim, pois, como na guerra a vitória não é dos que muito falam, mas dos que muito realizam; assim também neste caso, não os que falam, mas os que agem é que alcançam a vitória. Vós, diz ele, vos orgulhais deste belo falar. Ora bem, se se tratasse de um certame e de um tempo próprio de oradores, com razão poderíeis exultar nisso: mas, tratando-se de Apóstolos que pregam a verdade e a confirmam por sinais, por que vos ensoberbeceis de uma coisa supérflua e vã, e de todo ineficaz para o propósito presente? Pois de que aproveitaria uma exibição de palavras para ressuscitar os mortos, ou expulsar espíritos malignos, ou operar qualquer outro tal prodígio? Mas é disto que agora necessitamos, e é nisto que se funda a nossa causa.
Pois o Reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder. Por sinais, diz ele, e não por belo falar, prevalecemos: e que a nossa doutrina é divina e verdadeiramente anuncia o Reino dos Céus, disso damos a maior prova, a saber, os nossos sinais, que operamos pelo poder do Espírito. Se os que agora se ensoberbecem desejam ser algo de grande, logo que eu chegar, mostrem se possuem tal poder. E que eu não os encontre a abrigar-se atrás de uma pompa de palavras: pois essa espécie de arte nada é para nós.
"As ações falam mais alto que as palavras", diz Paulo. "Se esses coríntios que agora se mostram arrogantes querem provar algo, mostrem-me, quando eu chegar, se são capazes dos mesmos milagres que eu opero. Não quero encontrá-los escondidos atrás de um muro de palavras, pois isso nada significa para mim."
Paulo deixa aos coríntios a decisão de como ele deve vir a eles. Também nós temos uma escolha: ou podemos cair no inferno, ou podemos alcançar o reino. Mas se dizes que estás disposto a fazer o que é reto, mas não és capaz, enganas-te. Tudo isso significa que não estás disposto com suficiente firmeza.
Nesta sentença há muito de terror e de mansidão. Pois dizer *saberei* era a linguagem de quem ainda se conteve; mas dizer *que quereis? Devo ir a vós com vara?* são as palavras de quem, doravante, sobe à cátedra do mestre, e dali passa a discorrer com eles, assumindo toda a sua autoridade.
Que significa *com vara*? Com castigo, com vingança: isto é, destruirei; ferirei de cegueira: coisa semelhante à que Pedro fez no caso de Safira, e ele mesmo no caso de Elimas, o mago. Pois, doravante, ele já não fala pondo-se em estreita comparação com os demais mestres, mas com autoridade. E também na segunda Epístola parece dizer o mesmo, quando escreve: *já que buscais uma prova de que Cristo fala em mim.*
Irei com vara, ou em amor? Mas então? Ir com vara, não era isso mesmo um sinal de amor? De amor certamente era. Mas, porque por seu grande amor ele se retrai em castigar, por isso se exprime assim.
Além disso, quando falou do castigo, não disse *em espírito de mansidão*, mas, simplesmente, *com vara*: e, no entanto, também disso o Espírito era autor. Pois há um espírito de mansidão, e um espírito de severidade. Ele, porém, não escolhe chamá-lo assim, mas o designa a partir de seu aspecto mais brando (ἀπὸ τῶν χρηστοτέρων). E por razão semelhante também de Deus, ainda quando Se vinga, afirma-se muitas vezes que Ele é benigno e longânimo, e rico em misericórdia e piedade; mas que Ele é propenso a castigar apenas uma ou duas vezes, e parcamente, e por alguma causa premente.
5. Considerai, pois, a sabedoria de Paulo: tendo em suas próprias mãos a autoridade, deixa tanto a sua quanto a que está no poder de outros, dizendo: *que quereis?* A questão está à vossa disposição.
Pois também de nós dependem ambos os lados da alternativa: tanto o cair no inferno quanto o alcançar o reino, pois Deus assim o quis. Pois, eis, diz ele, fogo e água: para qualquer lado que quiserdes, podeis estender a mão (Eclo 15,16). E: *Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o bem da terra* (Is 1,19); mas, se não quiserdes, a espada vos devorará.
Mas talvez alguém diga: eu quero (e ninguém é tão destituído de entendimento que não queira); mas o querer não me basta. Não, mas basta, se quiserdes devidamente, e fizerdes as obras de quem quer. Mas, tal como estais, não quereis grandemente.
Ora tentemos isto também noutras coisas, se assim vos parecer bem. Pois dizei-me: aquele que deseja casar-se, contenta-se com o simples desejar? De modo nenhum; mas põe-se a procurar mulheres que lhe favoreçam a pretensão, pede a amigos que velem com ele, e ajunta dinheiro. De igual modo, o mercador não se contenta em sentar-se em casa e desejar, mas primeiro aluga um navio, depois escolhe marinheiros e remadores, depois toma dinheiro a juros, e se informa cuidadosamente sobre o mercado e o preço das mercadorias. Não é, pois, estranho que os homens se mostrem tão diligentes nas coisas terrenas, mas que, havendo de arriscar-se pelo céu, se contentem apenas com o desejar? Antes devo dizer que nem mesmo nisto se mostram propriamente diligentes. Pois aquele que quer uma coisa como deve, põe também a mão nos meios que conduzem ao objeto do seu desejo. Assim, quando a fome vos obriga a tomar alimento, não esperais que os manjares venham a vós por si mesmos, mas nada omitis para ajuntar o sustento. Do mesmo modo na sede, no frio e em todas as demais coisas semelhantes, sois diligentes e devidamente providos para cuidar do corpo. Fazei, pois, isto também a respeito do Reino de Deus, e certamente o alcançareis.
Pois para este fim Deus vos fez agentes livres, para que não acusásseis depois a Deus, como se alguma necessidade vos houvesse atado: mas vós, precisamente naquilo em que fostes honrados, murmurais.
Pois de fato tenho ouvido muitas vezes pessoas dizerem: Mas por que fez Ele, então, que minha bondade dependesse de mim? Ora, como havia Ele de vos conduzir, adormecidos e dormentes, enamorados de toda a iniquidade, vivendo em delícias e regalando-vos a vós mesmos; como havia Ele de vos elevar ao céu? Se o houvesse feito, não vos teríeis abstido do vício. Pois se agora, ainda ante a ameaça, não vos desviais da vossa maldade, tendo Ele proposto como termo da vossa carreira nada menos que o céu, quando teríeis cessado de tornar-vos cada vez mais negligentes e muito piores?
Nem tampouco podereis alegar: Mostrou-me Ele, na verdade, quais coisas eram boas, mas não me deu auxílio algum, pois abundante é também a promessa que Ele vos faz de socorro.
6. Mas, dizeis, a virtude é penosa e desagradável; ao passo que ao vício se mistura grande prazer; e uma é estreita e apertada, mas o outro largo e espaçoso.
Dize-me, pois: são elas tais em toda a sua extensão, ou somente no princípio? Pois, na verdade, o que aqui dizes, dizes, sem o pretenderes, em favor da virtude; tão poderosa é a verdade. Suponhamos, com efeito, que houvesse dois caminhos, um que conduzisse a uma fornalha, e outro a um Paraíso; e que o caminho para a fornalha fosse largo, e o caminho para o Paraíso, estreito: qual deles preferirias tomar? Pois, ainda que agora contradigas por amor da contradição, não poderás contradizer aquilo que é manifestamente reconhecido por todos, por mais desavergonhado que sejas. Ora, que se deve antes escolher o caminho cujo começo é difícil, mas não o seu fim, procurarei ensinar-te a partir do que é bem evidente. E, se te aprouver, tomemos primeiro em consideração as artes. Estas têm, com efeito, o seu começo cheio de fadiga, mas o seu fim proveitoso. Mas dirás tu que ninguém se aplica a uma arte sem que alguém o obrigue; pois, acrescentas, enquanto o menino é senhor de si mesmo, preferirá antes descansar no princípio, e no fim suportar o mal, por maior que seja, do que viver arduamente no começo, e depois colher o fruto desses trabalhos. Ora, fazer tal escolha procede de um entendimento entregue a si mesmo (ὀρφανικῆς διανοίας) e de infantil ociosidade; mas a escolha contrária procede do bom senso e da virilidade. Assim também é conosco: se não fôssemos crianças no entendimento, não seríamos semelhantes àquele menino já mencionado, desamparado (ὀρφάνῳ) como está e sem discernimento, mas semelhantes àquele que tem pai. Devemos, pois, lançar fora o nosso próprio entendimento pueril, e não increpar as coisas em si mesmas; e devemos estabelecer um auriga sobre a nossa consciência, que não nos permita satisfazer o apetite, mas nos faça correr e lutar vigorosamente. Pois que outra coisa senão absurdo é habituarmos os nossos filhos, com sofrimento, desde o princípio, a ocupações que têm começos laboriosos, mas cujo fim é bom e agradável; ao passo que nós mesmos, nas coisas espirituais, tomamos precisamente o rumo contrário?
E, no entanto, mesmo nessas coisas terrenas não é de todo evidente que o fim há de ser bom e agradável: pois já sucedeu que a morte prematura, ou a pobreza, ou a falsa acusação, ou a reviravolta da fortuna, ou outras coisas semelhantes, das quais há muitas, privaram os homens, depois de longa fadiga, de todos os seus frutos. E mais ainda: os que se dedicam a tais empreendimentos, ainda que tenham êxito, não é grande o ganho que colherão. Pois com a vida presente todas essas coisas se dissolvem. Mas aqui, não é para coisas tão infrutíferas e perecíveis que corremos a nossa carreira, nem temos temores quanto ao fim; antes, maior e mais segura é a nossa esperança depois desta partida. Que perdão pode, pois, haver, que desculpa para os que não se querem despojar de si mesmos em vista dos males que se hão de suportar por causa da virtude?
E ainda perguntam eles: Por que é estreito o caminho? Ora, tu não julgas correto que qualquer fornicário, ou lascivo, ou ébrio, entre nas cortes dos reis terrenos; e reclamas tu que os homens sejam admitidos no próprio céu com libertinagem, e luxúria, e embriaguez, e avareza, e toda sorte de iniquidade? E como podem tais coisas ser perdoáveis?
7. Não, replicais, não é isso que digo, mas por que não tem a virtude um caminho largo? Em boa verdade, se estivermos dispostos, seu caminho é muitíssimo fácil. Pois qual é mais fácil, dizei-me: escavar uma parede e tomar os bens alheios, e assim ser lançado no cárcere; ou contentar-se com o que se tem, e estar livre de todo temor? Não disse, porém, tudo. Pois qual é mais fácil, dizei-me: roubar os bens de todos e deleitar-se em poucos deles por breve tempo, e depois ser atormentado e açoitado eternamente; ou, tendo vivido em justa pobreza por breve tempo, viver para sempre depois em delícias? (Não indaguemos ainda qual seja o mais proveitoso, mas, por ora, qual seja o mais fácil.) Ou, ainda, qual é mais aprazível: ver um bom sonho e ser punido na realidade; ou, tendo tido um sonho desagradável, estar realmente em gozo? Sem dúvida, o último. Dizei-me, pois, em que sentido chamais a virtude áspera? Concedo que é áspera, quando cotejada com a nossa negligência. Todavia, que é na verdade fácil e suave, ouvi o que diz Cristo: Mt 11,30: Meu jugo é suave, e meu fardo é leve. Se, porém, não percebeis a leveza, é manifestamente por falta de ânimo corajoso; pois onde este se acha, até as coisas pesadas se fazem leves; e pela mesma razão, onde não se acha, até as coisas leves se fazem pesadas. Pois dizei-me: que poderia haver mais doce e mais facilmente obtido que o banquete do maná? Contudo os judeus estavam descontentes, ainda que desfrutassem de tão deleitoso alimento. Que há de mais amargo que a fome e todas as demais durezas que suportou Paulo? Contudo ele saltava de alegria, regozijava-se e dizia: Cl 1,24: Agora me alegro em meus sofrimentos. Qual é, pois, a causa? A diferença da disposição interior. Se, portanto, formardes esta como convém, vereis a facilidade da virtude.
Que dizeis, então? Torna-se ela tal somente pela disposição daqueles que a buscam? Ela é tal não somente pela disposição destes, mas também por natureza. O que assim demonstro: se uma fosse inteiramente coisa penosa, e a outra inteiramente do gênero contrário, então com alguma verossimilhança poderiam alguns decaídos dizer que esta era mais fácil que aquela. Mas se ambas têm seus começos, uma na dureza, outra no prazer, e seus respectivos fins, todavia, precisamente opostos a estes; e se esses fins são ambos infinitos — em uma o prazer, em outra o fardo —, dizei-me, qual é a mais fácil de escolher?
Por que, então, muitos não escolhem o que é fácil? Porque uns não creem; e outros, que creem, têm o juízo corrompido, e preferiram o prazer por uma estação ao que é sempiterno. Não é, pois, isto fácil? Não é assim: mas isto provém de uma alma enferma. E assim como a razão pela qual os que estão em febre anseiam por bebida fresca não é por cálculo de que o luxo momentâneo é mais aprazível que ser abrasado do princípio ao fim, mas porque não podem refrear o desejo desordenado, assim também estes. Pois, se alguém os conduzisse à sua punição no exato momento de seu prazer, certamente jamais o teriam escolhido. Assim vedes em que sentido o vício não é coisa fácil.
8. Mas, se quiserdes, tentemos examinar de novo este mesmo ponto por meio de um exemplo tirado da própria matéria em questão. Dizei-me, pois: qual é mais agradável e mais fácil? (Somente que não tomemos de novo o desejo da maioria como nossa regra nesta matéria; pois convém decidir não pelos enfermos, mas pelos sãos; assim como, se me mostrásseis dez mil homens em febre, desejando por escolha coisas nocivas para depois sofrerem por causa delas, eu não admitiria semelhante escolha;) qual, repito, traz mais alívio, dizei-me: desejar muitas riquezas, ou estar acima desse desejo? Quanto a mim, penso que é o segundo. Se não o credes, que o argumento seja levado aos próprios fatos.
Suponhamos, pois, um homem que deseja muito, e outro que nada deseja. Qual dos dois está em melhor estado, dizei-me, e qual é mais digno de respeito? Mas deixemos isso de lado. Pois nisto já estamos de acordo, que o segundo possui um caráter mais nobre que o primeiro. E não é isso que agora investigamos, mas sim qual dos dois vive a vida mais fácil e mais agradável. Ora, pois: o amante do dinheiro não desfruta nem sequer daquilo que possui; pois aquilo que ama não se dispõe a gastar, mas antes se deixaria retalhar (κατακόψειε) a si mesmo, e separar-se-ia mais depressa da própria carne do que do seu ouro. Já aquele que despreza as riquezas ganha isto, entretanto: que desfruta do que possui com tranquilidade e com grande segurança, e que se estima a si mesmo mais do que a elas. Qual, pois, é mais agradável: desfrutar do que se tem com liberdade, ou viver sob um senhor — a saber, a riqueza — e não ousar tocar sequer numa única coisa, ainda que sua? Ora, parece-me que é quase o mesmo que se dois homens, tendo esposas e amando-as extremamente, não estivessem nas mesmas condições em relação a elas; mas a um fosse permitido o convívio e a intimidade com sua esposa, e ao outro nem sequer lhe fosse permitido aproximar-se da sua.
Há ainda outra coisa que desejo mencionar, a qual indica o prazer de um e o desconforto do outro. Aquele que é cobiçoso de lucro jamais se deterá em tal desejo, não só porque lhe é impossível obter os bens de todos os homens, mas também porque, seja o que for que tenha alcançado, a si mesmo se julga nada possuir. Mas o desprezador das riquezas terá tudo isso por supérfluo, e não precisará atormentar a sua alma com desejos sem fim. Digo atormentar; pois nada corresponde tão plenamente à definição de tormento quanto o desejo privado de satisfação — coisa que, aliás, marca de modo particular a sua mente perversa. Considerai-o deste modo. Aquele que cobiça riquezas e aumentou o seu tesouro é justamente o tipo de homem que sente como se nada tivesse. Pergunto então: que coisa há mais complicada do que esta enfermidade? E o estranho não é somente isto, mas que, ainda possuindo, julga não possuir as próprias coisas que tem em mãos, e, como se não as tivesse, lamenta-se a si mesmo. Ainda que obtivesse os bens de todos os homens, maior seria a sua dor. E, se lograr cem talentos, aflige-se por não ter recebido mil; e se recebeu mil, sente-se ferido no mais fundo por não serem dez mil; e se recebe dez mil, amargamente se lastima (κατακόπτεται) por não serem dez vezes tanto. E a aquisição de mais se lhe converte em tanto maior pobreza; pois quanto mais recebe, tanto mais deseja. Assim, pois, quanto mais recebe, tanto mais pobre se torna, visto que quem mais deseja, mais verdadeiramente pobre é. Quando, pois, tem cem talentos, não é ele muitíssimo pobre? Pois deseja mil. Quando obteve mil, torna-se ainda mais pobre. Pois já não são mil, como antes, mas dez mil o que declara desejar. Ora, se dizeis que desejar e não obter é prazer, pareceis-me ignorar por completo a natureza do prazer.
9. Para mostrar que uma coisa desta espécie não é prazer, mas tormento, tomemos outro exemplo, e assim o investiguemos. Quando temos sede, não sentimos prazer em beber precisamente porque saciamos a sede; e não é, pois, um prazer beber justamente porque isso nos livra de um grande tormento — refiro-me ao desejo de beber? Suponho que qualquer um o pode dizer. Mas se houvéssemos de permanecer sempre nesse estado de desejo, estaríamos, quanto ao tormento, tão mal quanto o rico da parábola de Lázaro; pois o seu tormento consistia justamente nisto, que, desejando veementemente uma única gota, não a obtinha. E isto mesmo me parece que sofrem continuamente todos os avarentos, e que se assemelham a ele, no ponto em que suplica para obter aquela gota, e não a obtém. Pois a alma deles arde ainda mais do que a dele.
Bem disse alguém que todos os amantes do dinheiro estão como que numa espécie de hidropisia; pois, assim como estes, trazendo muita água em seus corpos, tanto mais se abrasam, assim também os avarentos, trazendo consigo grande riqueza, são ávidos de mais. A razão é que nem uns conservam a água nas partes do corpo em que deveria estar, nem os outros o seu desejo nos limites de um pensamento decoroso.
Fujamos, pois, desta estranha e vã (ξένην καὶ κενὴν: um jogo com o som das palavras) enfermidade; fujamos da raiz de todos os males; fujamos daquilo que é o inferno presente; pois é um inferno o desejo destas coisas. Basta apenas expor a alma de cada um — a daquele que despreza as riquezas e a daquele que não as despreza — e vereis que um é semelhante ao homem fora de si, que não escolhe nem ouvir nem ver coisa alguma; o outro, semelhante a um porto livre de ondas; e este é amigo de todos, como aquele é inimigo de todos. Pois quer alguém lhe tome algo do que é seu, isto não lhe causa aborrecimento; quer, ao contrário, alguém lhe dê algo, isto não o ensoberbece; mas há nele certa liberdade, acompanhada de inteira segurança. Aquele é forçado a lisonjear e a fingir diante de todos; este, diante de ninguém.
Ora, se amar o dinheiro é ser, ao mesmo tempo, pobre, temeroso, dissimulado e hipócrita, e estar cheio de temores e de grande angústia penal e castigo, ao passo que aquele que despreza as riquezas possui todos os gozos contrários — não é, pois, inteiramente claro que a virtude é a mais agradável?
Ora, poderíamos ter percorrido também todos os demais males pelos quais se demonstra que não há vício algum que traga consigo prazer, se já não houvéssemos falado tão amplamente sobre isto.
Por isso, sabendo estas coisas, escolhamos a virtude, a fim de que gozemos tanto do prazer que há aqui quanto alcancemos os bens que hão de vir, pela graça e benignidade, etc., etc.
A extrema torpeza do feito faz Paulo recuar. Ele passa apressadamente sobre o assunto com certo pejo, agravando a acusação ao dar a entender que até mesmo falar disso era intolerável.
Ao discorrer sobre as suas divisões, ele não se dirigiu a eles de imediato com veemência, mas antes com mais brandura; e depois terminou em acusação, dizendo assim: "Pois me foi manifestado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós" (1 Cor 1,11). Mas aqui não é assim; antes, ele investe imediatamente e torna a repreensão da acusação a mais geral possível. Pois não disse: Por que tal homem cometeu fornicação? mas: Ouve-se que há fornicação entre vós; a fim de que, não podendo tomá-la como coisa de todo alheia à acusação, ficassem antes tomados daquela ansiedade que naturalmente sobrevém quando todo o corpo é ferido e a Igreja incorreu em opróbrio. Pois ninguém, diz ele, dirá assim: "tal homem cometeu fornicação", mas: "na Igreja dos coríntios cometeu-se aquele pecado."
E não disse: Comete-se fornicação, mas: Ouve-se — e tal que nem mesmo entre os gentios se nomeia. Pois assim continuamente ele faz dos gentios um tema de opróbrio para os fiéis. Assim, escrevendo aos tessalonicenses, disse: "Que cada um de vós saiba possuir o seu próprio vaso em santificação... não na paixão da concupiscência, como também os demais gentios" (1 Ts 4,4-5). E aos colossenses e efésios: "Que não mais andeis como andam também os outros gentios" (Ef 4,17; cf. Cl 3,6-7). Ora, se o cometerem os mesmos pecados era imperdoável quando ainda excediam os próprios gentios, que lugar poderemos encontrar para eles? Dizei-me: visto que entre os gentios, assim ele fala, não somente não ousam tal coisa, mas nem sequer lhe dão nome. Vedes a que ponto ele agravou a acusação? Pois quando são convencidos de haver inventado tais modos de imundícia que os próprios incrédulos, longe de ousá-los, nem sequer conhecem, o pecado há de ser sobremodo grande, além de toda palavra. E a cláusula "entre vós" é dita também com ênfase; isto é, Entre vós, os fiéis, que fostes agraciados com tão altos mistérios, partícipes de segredos, convidados ao banquete celeste. Notais com que sentimento de indignação transbordam as suas palavras? Com que ira contra todos? Pois se não fora a grande cólera de que estava repleto, se não se estivesse levantando contra todos eles, teria falado assim: Tendo ouvido que tal e tal pessoa cometeu fornicação, ordeno-vos que o punais. Mas, como está, não o faz assim; antes desafia a todos de uma só vez. E, com efeito, se lhe tivessem escrito primeiro, é isso provavelmente o que teria dito. Mas, visto que, longe de escreverem, haviam ainda lançado o pecado à sombra, por isso ele ordena o seu discurso com mais veemência.
1 Coríntios 5:1
2. Que um de vós tenha a mulher de seu pai. Por que não disse: que abusasse da mulher de seu pai? A extrema torpeza do feito o fez recuar. Ele passa apressadamente por isso, portanto, com uma espécie de escrúpulo, como se já o houvesse mencionado explicitamente antes. E com isto agrava ainda mais a acusação, dando a entender que se ousam entre eles coisas tais que até mesmo falar delas com clareza era intolerável para Paulo. Por isso também, ao prosseguir, ele usa o mesmo modo de falar, dizendo: aquele que assim fez isto; e novamente se envergonha e cora ao dizê-lo abertamente — o que também costumamos fazer diante de assuntos extremamente vergonhosos. E não disse "sua madrasta", mas "a mulher de seu pai", de modo a ferir com muito maior severidade. Pois, quando os meros termos bastam para transmitir a acusação, ele prossegue com eles simplesmente, sem nada acrescentar.
E não me digais, diz ele, que o fornicador é apenas um: a acusação tornou-se comum a todos. Por isso logo acrescentou: e vos ensoberbeceis; não disse "com o pecado", pois isto implicaria falta de toda razão; mas "com a doutrina" que ouvistes daquela pessoa. Isto, porém, ele não expôs por si mesmo, mas o deixou indeterminado, para infligir um golpe mais pesado.
E notai o bom senso de Paulo. Tendo primeiro derrubado a sabedoria de fora, e assinalado que ela nada é por si mesma, ainda que nenhum pecado a ela se associasse; então, e não antes, discorre também sobre o pecado. Pois, se por meio de comparação com o fornicador, que talvez fosse algum sábio, ele tivesse sustentado a grandeza de seu próprio dom espiritual, nada de grande teria feito; mas, mesmo sem estar associada ao pecado, derrubar a sabedoria pagã e demonstrar que ela nada é — isto sim indicava sua extrema inutilidade. Por isso, primeiro, como disse, tendo feito a comparação, menciona depois também o pecado do homem.
E com este, na verdade, não se digna a debater, e por isso assinala a extrema grandeza de sua desonra. Mas aos outros diz: devíeis chorar e lamentar, e cobrir os vossos rostos; mas agora fazeis o contrário. E esta é a força da cláusula seguinte: e vos ensoberbeceis, e não pranteastes antes.
E por que havemos de chorar? poderia alguém dizer. Porque o opróbrio se estendeu até a todo o corpo de vossa Igreja. E que bem havemos de obter com nosso choro? Que tal homem seja tirado do meio de vós. Nem mesmo aqui menciona seu nome; antes, diria eu, em parte alguma; o que, em todas as coisas monstruosas, é nosso costume habitual.
E não disse: não o expulsastes antes; mas, como no caso de qualquer doença ou peste, há necessidade de pranto, diz ele, e de intensa súplica, "para que ele seja tirado". E devíeis ter usado de oração para isto, e nada deixado por fazer para que fosse cortado fora.
Nem tampouco os acusa por não lhe terem dado informação, mas por não terem pranteado de modo que o homem fosse tirado; dando a entender que, mesmo sem seu Mestre, isto deveria ter sido feito, por causa da notoriedade da ofensa.
Notai a sua energia. Não os deixa sequer aguardar a sua presença, nem receber primeiro a ele para só depois proferir a sentença de vínculo: mas, como quem se apressa a expulsar algum contágio antes que este se espalhe pelo restante do corpo, apressa-se a refreá-lo. E por isso acrescenta a cláusula: já julguei, como se estivesse presente. Estas coisas, além disso, disse não somente para instá-los à declaração de sua sentença e não lhes dar ocasião de tramar outra coisa, mas também para os atemorizar, como quem sabia o que havia de ser feito e já ali o determinara. Pois este é o sentido de estar presente em espírito: assim como Eliseu estava presente com Geazi, e disse: Não foi porventura o meu coração contigo? (2Rs 5.26). Maravilhoso! Quão grande é o poder do dom, pois faz a todos estarem juntos e como que um só; e os capacita a conhecer as coisas que estão longe. Já julguei, como se estivesse presente.
Não lhes permite ter nenhum outro artifício. Já proferi a minha decisão como se estivesse presente: que não haja demoras nem adiamentos; pois nada mais há de ser feito.
Depois, para que não parecesse demasiado autoritário e o seu discurso não soasse antes como algo arbitrário, notai como os torna também partícipes da sentença. Pois, tendo dito já julguei, acrescenta: acerca daquele que assim cometeu isto, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, estando vós reunidos, e o meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entregar tal homem a Satanás.
Ora, que significa em nome de nosso Senhor Jesus Cristo? Segundo Deus; não possuído por nenhum preconceito humano.
Alguns, contudo, leem assim: aquele que assim cometeu isto, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, colocando ali uma parada ou pausa, e a seguir acrescentam o que se segue, dizendo: estando vós reunidos e o meu espírito, entregar tal homem a Satanás; e afirmam que o sentido desta leitura é o seguinte: aquele que fez isto em nome de Cristo, diz São Paulo, entregai-o a Satanás; isto é, aquele que fez insulto ao nome de Cristo, aquele que, depois de se ter tornado crente e de ser chamado segundo aquela denominação, ousou fazer tais coisas, entregai-o a Satanás. Mas a mim a primeira exposição (ἐκδοσις. Parece significar enunciação.) me parece a mais verdadeira.
Que é isto, então? Estando vós reunidos em nome do Senhor. Isto é: em nome Dele, em cujo favor vos reunistes, congregando-vos.
E o meu espírito. Novamente se coloca à frente deles, a fim de que, quando proferissem a sentença, não cortassem o transgressor de outro modo senão como se ele estivesse presente; e para que ninguém ousasse julgá-lo perdoável, sabendo que Paulo estaria ciente dos procedimentos.
4. Depois, tornando-o ainda mais temível, diz: com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo; isto é, ou que Cristo é capaz de vos dar tal graça, de modo que tenhais poder para o entregar ao diabo; ou que Ele mesmo, junto convosco, profere aquela sentença contra ele.
E não disse: entregai tal homem a Satanás, mas entregai; abrindo-lhe as portas do arrependimento, e entregando tal homem como que a um pedagogo. E, de novo, diz-se tal homem: em nenhum lugar consegue suportar mencionar o seu nome.
Para a destruição da carne. Como se deu no caso do bem-aventurado Jó, ainda que não pelo mesmo motivo. Pois naquele caso foi para coroas mais resplandecentes, mas aqui é para a soltura dos pecados; a fim de que o açoitasse com uma úlcera dolorosa ou alguma outra enfermidade. Verdade é que em outro lugar diz: Do Senhor somos julgados (1 Cor 11,32), quando padecemos estas coisas. Mas aqui, desejoso de fazê-los sentir mais severamente, ele o entrega a Satanás. E assim também isto que Deus havia determinado se cumpriu, que a carne do homem fosse castigada. Pois, visto que o comer desregrado e a luxúria carnal são os progenitores das concupiscências, é a carne que ele castiga.
Para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus; isto é, a alma. Não que esta fosse salva sozinha, mas porque era coisa assente que, se aquela fosse salva, sem controvérsia alguma o corpo também participaria de sua salvação. Pois, assim como se tornou mortal por causa do pecado da alma, assim também, se esta praticar a justiça, aquele, por sua vez, gozará de grande glória.
Mas alguns sustentam que o Espírito é o Dom Gracioso que se extingue quando pecamos. A fim, pois, de que isto não aconteça, diz ele, que seja punido; para que, tornando-se assim melhor, atraia sobre si a graça de Deus, e seja achado tendo-a a salvo naquele dia. De modo que tudo procede como de quem exerce o ofício de ama ou de médico, não simplesmente açoitando nem punindo ao acaso e temerariamente. Pois o ganho é maior que a punição: sendo uma por um tempo, a outra eterna.
E não disse simplesmente que o espírito seja salvo, mas naquele dia. Bem e oportunamente lhes recorda aquele dia, a fim de que tanto se aplicassem mais prontamente à cura, quanto o repreendido acolhesse antes as suas palavras, não como que de ira, mas como o cuidado previdente de um pai ansioso. Por esta razão também disse: para a destruição da carne — passando a estabelecer limites ao diabo, e não lhe permitindo ir um passo além. Como no caso de Jó, disse Deus (Jó 2,6): Mas não toques na sua vida.
5. Então, tendo concluído a sua sentença, e proferido-a brevemente sem se demorar nela, traz de novo uma repreensão, dirigindo-se contra eles.
Paulo não permite que os coríntios aguardem a sua vinda, mas profere a sentença à distância. Assim procedeu para não dar aos coríntios margem alguma para desculpas. Deviam eles agir imediatamente e da maneira mesma e precisa que fora descrita.
Paulo diz que os coríntios são culpados, porquanto, ao se orgulharem deste homem, o impediram de se arrepender. Indica aqui que o problema concerne a toda a igreja, não a um indivíduo apenas. Por isso se serve do símbolo do fermento, o qual, embora seja em si mesmo coisa pequena, transforma toda a massa em sua própria natureza. Este homem fará o mesmo, se lhe for permitido ficar impune.
Vosso orgulho não é bom: significando que eram eles, até o presente momento, que o haviam impedido de se arrepender, por se orgulharem dele. Em seguida mostra que dá este passo a fim de poupar não somente aquela pessoa, mas também aqueles a quem escreve. Para tal efeito acrescenta,
Não sabeis vós que um pouco de fermento leveda toda a massa? Pois, diz ele, ainda que a ofensa seja dele, se for negligenciada terá poder para corromper também o restante do corpo da Igreja. Porquanto, quando o primeiro transgressor escapa ao castigo, depressa outros cometerão também as mesmas faltas.
Nestas palavras indica, além disso, que o combate e o perigo deles dizem respeito a toda a Igreja, não a uma só pessoa. Para tal propósito necessita também da similitude do fermento. Pois assim como este, diz ele, embora seja pouco, transforma em sua própria natureza toda a massa; assim também este homem, se for deixado impune e este pecado ficar por vingar, corromperá igualmente todos os demais.
Paulo não se refere apenas a este homem, mas também a outros. O fermento velho não é somente a fornicação, mas o pecado de toda espécie, que deve ser extirpado para que a massa seja pura.
Purga o velho fermento, isto é, esse iníquo. Não que fale a respeito deste apenas; antes, dirige o olhar a outros que estão com ele. Pois o velho fermento não é somente a fornicação, mas também o pecado de toda espécie. E não disse purificai, mas purgai inteiramente; limpai com exatidão, de modo que não reste sequer vestígio nem sombra de coisa semelhante. Ao dizer, pois, purgai, ele significa que ainda havia iniquidade entre eles. Mas, ao dizer, para que sejais nova massa, assim como sois sem fermento, afirma e declara que a maldade não prevalecia sobre muitos deles. Contudo, ainda que diga, como sois sem fermento, não o entende como fato de que todos fossem limpos, mas quanto ao tipo de pessoas que deveis ser.
6. Pois também a nossa páscoa foi sacrificada por nós, a saber, Cristo; celebremos, portanto, a festa: não com o velho fermento, nem com o fermento da malícia e da maldade, mas com os pães ázimos da sinceridade e da verdade. Assim também Cristo chamou sua doutrina de Fermento. E ele mesmo, mais adiante, se detém sobre a metáfora, lembrando-lhes uma antiga história, e da páscoa e dos pães ázimos, e das bênçãos deles, tanto então quanto agora, e de seus castigos e de suas pragas.
É festa, portanto, todo o tempo em que vivemos. Pois, embora tenha dito, Celebremos a festa, não foi tendo em vista a presença da Páscoa ou de Pentecostes que o disse; mas assinalando que todo o tempo é festa para os cristãos, por causa da excelência dos bens que lhes foram dados. Pois que coisa boa não sobreveio? O Filho de Deus se fez homem por ti; libertou-te da morte; e chamou-te a um reino. Tu, pois, que obtiveste e ainda estás obtendo tais coisas, como poderia ser menos que teu dever celebrar a festa por toda a tua vida? Ninguém, então, se abata por causa da pobreza, da doença e da astúcia dos inimigos. Pois é festa, sim, todo o nosso tempo. Por isso diz Paulo: Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos (Fp 4:4). Nos dias de festa ninguém veste roupas imundas. Nem nós, então, o façamos. Pois se fez um casamento, um casamento espiritual. Pois, o reino dos Céus, diz Ele, é semelhante a um certo rei que quis fazer (Mt 22:1) núpcias para seu filho. Ora, onde há um rei fazendo núpcias, e núpcias para seu filho, que coisa pode ser maior que esta festa? Ninguém, então, entre vestido de trapos. Não é sobre vestes que discorremos, mas sobre ações imundas. Pois se, onde todos traziam vestimenta brilhante, um só, sendo achado nas núpcias com vestes imundas, foi lançado fora com desonra, considerai quão grande rigor e pureza requer a entrada naquele banquete nupcial.
7. Não é, porém, somente por esta razão que ele lhes recorda os pães ázimos, mas também para apontar a afinidade do Antigo Testamento com o Novo; e para mostrar também que era impossível, depois dos pães ázimos, entrar de novo no Egito; mas que, se alguém quisesse voltar, sofreria as mesmas coisas que aqueles sofreram. Pois aquelas coisas eram sombra destas; por mais obstinado que seja o judeu. Por isso, se o interrogares, ele dirá algo que não é grande coisa — ou antes, é grande o que ele dirá, mas nada semelhante ao que nós dizemos, porque ele não conhece a verdade. Pois ele, por sua parte, dirá que os egípcios que os detinham foram de tal modo mudados pelo Todo-Poderoso que eles mesmos os instaram e os expulsaram, eles que antes os retinham à força; e que não lhes permitiram sequer levedar a massa. Mas se um homem me perguntar a mim, ele não ouvirá falar do Egito nem de Faraó; mas de nossa libertação do engano dos demônios e das trevas do diabo; não de Moisés, mas do Filho de Deus; não de um Mar Vermelho, mas de um Batismo transbordante de dez mil bênçãos, onde o homem velho é afogado.
De novo, se perguntares ao judeu por que ele expulsa todo fermento de todos os seus limites, aqui ele ficará mesmo em silêncio e nem sequer saberá apresentar razão alguma. E isto é porque, embora algumas das circunstâncias fossem tanto tipos das coisas futuras quanto também devidas às coisas que então aconteciam, outras não o eram assim, para que os judeus não procedessem enganosamente, para que não permanecessem na sombra. Pois dize-me, que significa o Cordeiro ser Macho, e Sem Mácula, e de um ano, e que não se lhe quebre osso? E que significa o mandamento de chamar também os vizinhos (Êx 12,4), e que fosse comido de pé e à tarde; ou o fortificar da casa com o sangue? Ele nada mais terá a dizer senão, repetidamente, tudo acerca do Egito. Mas eu posso dizer-te o sentido tanto do Sangue quanto da Tarde, e do Comer todos juntos, e da regra de que todos estivessem de pé.
8. Mas expliquemos primeiro por que o fermento é lançado fora de todos os seus limites. Qual é, pois, o sentido oculto? É necessário que o crente seja libertado de toda iniquidade. Pois assim como entre eles perece aquele com quem quer que se encontre fermento velho, assim também entre nós, onde quer que se encontre iniquidade — visto que, sendo tão grande o castigo naquilo que é sombra, no nosso caso ele não pode deixar de ser muito maior. Pois se eles com tanto cuidado limpam suas casas de fermento, e perscrutam até os buracos dos ratos, muito mais devemos nós perscrutar a alma, de modo a lançar fora todo pensamento impuro.
Isto, porém, era feito por eles antigamente; mas agora não mais. Pois em toda parte há fermento, onde quer que se encontre um judeu. Pois é no meio das cidades que se guarda a festa dos pães ázimos: coisa que agora é antes um jogo de representação do que uma lei. Pois, uma vez vinda a Verdade, os Tipos já não têm mais lugar.
De modo que, também por meio deste exemplo, ele expulsa poderosamente o fornicador da Igreja. Pois, diz ele, longe de sua presença aproveitar, ela até prejudica, ferindo o estado comum do corpo. Pois não se sabe donde vem o mau odor enquanto a parte corrupta está oculta, e assim se o imputa a todo o corpo. Por isso ele insta fortemente com eles para que purguem o fermento, a fim de que sejais, diz ele, uma massa nova, assim como sois ázimos.
1 Coríntios 5:7-8. Pois a nossa Páscoa foi imolada por nós, isto é, Cristo. Não disse: morreu, mas, mais apropriadamente ao assunto em questão, foi imolada. Não busqueis, portanto, pães ázimos dessa espécie, já que também não tendes cordeiro da mesma espécie. Não busqueis fermento dessa natureza, visto que o vosso pão ázimo não é como esse.
9. Assim, no caso do fermento material, o que é ázimo poderia tornar-se fermentado, mas jamais o contrário; ao passo que aqui há a possibilidade de ocorrer justamente o oposto. Isto, porém, ele não declarou abertamente: e observai a sua sabedoria. Na epístola anterior, não dá ao fornicador nenhuma esperança de retorno, mas ordena que toda a sua vida seja gasta em penitência, para que não o tornasse menos diligente mediante a promessa. Pois não disse: Entregai-o a Satanás, para que, tendo-se arrependido, seja de novo recomendado à Igreja. Mas o que diz? Para que seja salvo no último dia. Pois o conduz até aquele momento a fim de torná-lo cheio de ansiedade. E que favores lhe reservava depois do arrependimento, não revela, imitando o seu próprio Senhor. Pois assim como Deus diz, Jonas 3:4 (segundo os Setenta; o texto recebido traz quarenta dias) — Ainda três dias, e Nínive será destruída, e não acrescentou: mas se ela se arrepender, será salva; assim também ele não disse aqui: Mas se ele se arrepender dignamente, confirmaremos o nosso amor para com ele (2 Cor 2:8). Antes, aguarda que ele realize a obra, para que então receba o favor. Pois se tivesse dito isso desde o início, poderia tê-lo libertado do temor. Por isso, não apenas não age assim, como também, pelo exemplo do fermento, não lhe concede sequer uma esperança de retorno, mas o reserva para aquele dia: Purificai-vos (diz ele) do fermento velho; e, não celebremos a festa com o fermento velho. Mas tão logo se arrependeu, tornou a recebê-lo com toda a solicitude.
10. Mas por que o chama de velho? Ou porque a nossa vida anterior era dessa natureza, ou porque aquilo que é velho está prestes a desaparecer (Heb 8:13) e é insípido e repugnante, o que é a natureza do pecado. Pois Ele não simplesmente condena o velho, nem simplesmente louva o novo, mas o faz com referência à matéria em questão. E assim, em outro lugar, diz: O vinho novo é como um novo amigo; mas, se envelhecer, então com prazer o beberás (Eclo 9:15 [Sirácida]) — no caso da amizade, concedendo o seu louvor antes ao velho do que ao novo. E de novo: O Ancião de dias se assentou (Dan 7:9) — aqui novamente, tomando o termo antigo entre aquelas expressões laudatórias que conferem a mais alta glória. Em outros lugares, a Escritura toma o termo velho no sentido de censura; pois, vendo que as coisas têm aspectos variados por serem compostas de muitas partes, ela usa as mesmas palavras tanto em sentido bom quanto em sentido mau, não segundo o mesmo matiz de significado. Do que podeis ver um exemplo na censura lançada alhures ao velho: Envelheceram, e claudicaram dos seus caminhos (Sl 17:46, segundo os Setenta). E de novo: Envelheci no meio de todos os meus inimigos (Sl 6:7, segundo os Setenta). E de novo: Ó tu que envelheceste em dias maus (Dan 13:52, História de Susana). Assim também o Fermento é frequentemente tomado pelo reino dos Céus, ainda que aqui seja censurado. Mas ali é usado sob um aspecto, e aqui sob outro.
11. Mas tenho a firme convicção de que o dito acerca do fermento se refere também aos sacerdotes que permitem que uma vasta porção do fermento velho permaneça dentro, não expurgando de suas fronteiras — isto é, da Igreja — os cobiçosos, os extorsionários, e tudo quanto haveria de excluir do Reino dos Céus. Pois a cobiça é, com efeito, um fermento velho; e onde quer que pouse, e em qualquer casa que penetre, torna-a imunda: e ainda que ganheis pouco por vossa injustiça, isso fermenta a totalidade de vossa substância. Por isso não raras vezes o ganho desonesto, sendo pequeno, lançou fora o patrimônio honestamente acumulado, por mais abundante que fosse. Pois nada há mais podre que a cobiça. Podeis trancar o armário desse homem com chave, e porta, e ferrolho: fazeis tudo em vão, enquanto encerrais lá dentro a cobiça, o pior dos ladrões, capaz de levar tudo consigo.
Mas dirás: e se há muitos cobiçosos que não experimentam isto? Em primeiro lugar, hão de experimentá-lo, ainda que sua experiência não venha de imediato. E ainda que agora escapem, temei tanto mais: pois estão reservados para maior castigo. Acrescentai a isto que, no caso de eles próprios escaparem, ainda assim aqueles que herdarem sua riqueza haverão de suportar a mesma sorte. Mas como pode isto ser justo, direis? É perfeitamente justo. Pois aquele que sucedeu a uma herança repleta de injustiça, ainda que ele mesmo não tenha cometido rapina alguma, detém não obstante a propriedade alheia; e disto está perfeitamente ciente; e é justo que por isso padeça. Pois se fulano ou sicrano houvesse roubado, e vós recebêsseis a coisa, e depois viesse o dono reclamá-la de volta; valer-vos-ia, em defesa, dizer que não fostes vós quem se apoderou dela? De modo nenhum. Pois qual seria vossa alegação, acusados que fôsseis? Dizei-me. Que foi outro quem se apoderou dela? Pois bem: mas sois vós quem a mantém em posse. Que foi ele quem roubou? Mas sois vós quem dela gozais. Por isso, até mesmo as leis dos pagãos reconhecem estas regras, as quais, absolvendo os que se apoderaram e furtaram, mandam que exijais satisfação daquelas pessoas em cuja posse por acaso encontrardes vossos bens todos depositados.
Se, pois, conheceis quem sejam os lesados, restituí, e fazei o que fez Zaqueu, com muito acréscimo. Mas se não os conheceis, ofereço-vos ainda outro caminho; não vos excluo do remédio. Distribuí todas estas coisas aos pobres: e assim mitigareis o mal.
Mas se alguns transmitiram estas coisas até mesmo a filhos e descendentes, ainda assim, em retribuição, sofreram outros desastres.
12. E por que falo eu das coisas desta vida presente? Naquele dia, ao menos, nada disso se dirá, quando ambos aparecerem nus, tanto o espoliado quanto os espoliadores. Ou antes, não igualmente nus. Quanto às riquezas, na verdade, ambos serão igualmente despojados; mas um estará carregado das acusações a que deu ocasião. Que faremos, pois, naquele dia, quando, diante do tremendo tribunal, for trazido ao meio aquele que foi maltratado e perdeu tudo o que tinha, e não tiveres ninguém que fale uma palavra por ti? Que dirás ao Juiz? Agora, na verdade, podes até corromper o julgamento, por serem os juízes apenas homens; mas naquele tribunal, e naquele tempo, já não será assim: não, nem mesmo agora o poderás. Pois já neste mesmo instante aquele tribunal está presente: porquanto Deus tanto vê os nossos feitos quanto está próximo do injuriado, ainda que não invocado; sendo certo que todo aquele que sofre injustiça, por mais indigno que em si mesmo seja de obter qualquer reparação, tem contudo, visto que o que se faz não agrada a Deus, mui certamente Quem o vingue.
Como então, dirás, vai bem tal homem, sendo ele ímpio? Não será assim até o fim. Ouve o que diz o Profeta: Não te irrites por causa dos malfeitores, porque, como a erva, depressa se secarão (Sl 37,1-2). Pois onde, dize-me, onde está aquele que praticou a rapina, depois de sua partida daqui? Onde estão as suas brilhantes esperanças? Onde o seu augusto nome? Não passaram todos e se foram? Não é um sonho e uma sombra, tudo quanto foi seu? E isto deves esperar no caso de todo homem semelhante, tanto em sua própria pessoa enquanto vive, quanto na daquele que há de vir depois dele. Mas não é assim o estado dos santos, nem te será possível dizer as mesmas coisas também no caso deles, que seja sombra, e sonho, e conto, o que a eles pertence.
13. E, se vos apraz, tomemos por exemplo aquele que disse estas coisas, o fabricante de tendas, o cilício, o homem cuja própria linhagem se ignora. Direis: Como é possível tornar-se alguém tal qual ele foi? Desejas então isto de todo o coração? Estás inteiramente ansioso por te tornares tal? Sim, direis. Pois bem, vai pelo mesmo caminho por onde ele foi, e aqueles que com ele estavam. Ora, por que caminho foi ele? Um diz: Em fome, e sede, e nudez (2 Cor 11,27). Outro: Não tenho prata nem ouro (At 3,6). Assim, nada tinham e, contudo, possuíam tudo (2 Cor 6,10). Que pode haver de mais nobre que este dito? Que mais bem-aventurado, ou mais abundante em riquezas? Outros, na verdade, se orgulham das coisas contrárias, dizendo: Tenho tantos e tantos talentos de ouro, e extensões de terra sem fim, e casas, e escravos; mas este homem se gloria de estar nu de todas as coisas; e não se acanha diante da pobreza, (o que é próprio dos insensatos,) nem esconde o rosto, antes até a traz como um ornamento.
Onde estão agora os ricos, aqueles que contam os seus juros, simples e compostos, aqueles que de todos tomam e jamais se saciam? Ouvistes a voz de Pedro, aquela voz que apresenta a pobreza como mãe da riqueza? Aquela voz que nada tem, e contudo é mais rica que aqueles que trazem diademas? Pois esta é aquela voz que, nada possuindo, ressuscitou mortos, e pôs de pé os coxos, e expulsou demônios, e concedeu tais dons de graça, quais os que se vestem de púrpura e comandam legiões poderosas e temíveis jamais puderam conceder. Esta é a voz daqueles que agora estão transladados aos céus, daqueles que alcançaram aquela altura.
14. Assim é possível que aquele que nada possui venha a possuir os bens de todos os homens. Assim pode aquele que nada possui adquirir os bens de todos: ao passo que, se viéssemos a obter os bens de todos os homens, ficaríamos privados de tudo. Talvez pareça este dito um paradoxo; mas não o é. Mas, dirás tu, como possui aquele que nada tem os bens de todos? Acaso não possui muito mais aquele que tem o que pertence a todos? De modo algum: antes, o contrário. Pois aquele que nada tem dispõe de tudo, como também eles dispunham. E por todo o mundo todas as casas lhes estavam abertas, e aqueles que os hospedavam tinham a sua chegada como um favor, e eles vinham a estes como a amigos e parentes. Assim vieram à mulher vendedora de púrpura (At 16:14), e ela, como uma serva, lhes pôs diante o que tinha. E ao carcereiro; e este lhes abriu toda a sua casa. E a inumeráveis outros. Assim tinham tudo e nada tinham: pois diziam (At 4:32) que nenhuma das coisas que possuíam era sua própria; por isso todas as coisas eram suas. Pois aquele que considera comuns todas as coisas não somente usará do que é seu, mas também das coisas alheias como se lhe pertencessem. Mas aquele que separa as coisas e se estabelece senhor apenas do que é seu, nem mesmo destas será senhor. E isto se torna claro por um exemplo. Aquele que absolutamente nada possui, nem casa, nem mesa, nem vestido de reserva, mas por amor de Deus está privado de tudo, usa as coisas que são comuns como próprias; e receberá de todos o que quer que deseje, e assim aquele que nada tem possui os bens de todos. Mas aquele que possui algumas coisas, nem mesmo destas será senhor. Pois, primeiro, ninguém dará a quem já possui bens; e, segundo, o que lhe pertence pertencerá a salteadores e ladrões e delatores e às vicissitudes das circunstâncias, e será de qualquer outro antes que dele. Paulo, por exemplo, percorreu todo o mundo, nada consigo levando, ainda que não fosse nem a amigos nem a parentes. Antes, no princípio, era inimigo comum de todos: mas, não obstante, teve os bens de todos os homens depois que lhes conseguiu a entrada. Anania e Safira, porém, apressando-se por lucrar um pouco mais do que era seu, perderam tudo juntamente com a própria vida. Aparta-te, pois, do que é teu, para que uses os bens alheios como próprios.
15. Mas devo parar: não sei como fui arrebatado a tal transporte, ao proferir palavras como estas a homens que consideram grande coisa repartir ainda que seja pouquíssimo do que é seu. Portanto, que estas minhas palavras tenham sido ditas aos perfeitos. Mas aos mais imperfeitos, isto é o que podemos dizer: Dai do que tendes ao necessitado. Aumentai vossa substância. Pois, diz Ele, "Aquele que dá ao pobre, empresta a Deus" (Pv 19,17). Mas, se estais apressados e não aguardais o tempo da recompensa, considerai aqueles que emprestam dinheiro a homens: pois nem mesmo estes desejam receber o juro imediatamente; antes, anseiam que o capital permaneça um bom tempo nas mãos do devedor, contanto apenas que a restituição seja segura e não tenham desconfiança do devedor. Que assim se faça, pois, também no caso presente. Deixai-o com Deus, para que Ele vos pague o salário multiplicado. Não busqueis ter tudo aqui; pois, se aqui recolherdes tudo, como o recebereis de volta ali? E é por isso que Deus os armazena ali, visto que a presente vida está cheia de corrupção. Mas Ele dá também aqui; pois, "Buscai", diz Ele, "o reino dos céus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6,33). Pois bem, olhemos para o reino, e não nos apressemos pela restituição do total, para que não diminuamos nossa recompensa. Antes, aguardemos a estação propícia. Pois o juro, nestes casos, não é da espécie ordinária, mas é tal como convém dar-se a Deus. Havendo, pois, recolhido isto em grande abundância, assim partamos daqui, a fim de que obtenhamos tanto as bênçãos presentes quanto as futuras; pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora, doravante, e para todo o sempre. Amém.
O fermento velho refere-se, entre outras coisas, aos sacerdotes que permitem que uma quantidade enorme do fermento velho permaneça dentro da Igreja, a saber, os cobiçosos, os extorsores e aqueles culpados de fazer o que quer que os excluísse do reino dos céus.
Pois, tendo ele dito: Não vos antes lamentastes, para que fosse tirado do meio de vós aquele que cometeu tal ato; e: Purgai o fermento velho; e sendo provável que supusessem ser seu dever evitar todos os fornicadores — pois, se aquele que pecou comunica algo de seu próprio mal aos que não pecaram, muito mais convém guardar-se dos que estão de fora (pois, se não se deve poupar a um amigo por causa de tal mal proveniente dele, muito menos a quaisquer outros) — e, sob esta impressão, era provável que se separassem também dos fornicadores entre os gregos, e assim, tornando-se a coisa impossível, mais se afligiriam em seu ânimo: usou ele deste modo de correção, dizendo: Escrevi-vos que não vos misturásseis com fornicadores, mas não de todo com os fornicadores deste mundo — usando a palavra "de todo" como coisa já reconhecida. Pois, para que não pensassem que ele lhes imputava isto como se fossem antes imperfeitos, e tentassem fazê-lo sob a errônea impressão de que eram perfeitos, mostra-lhes que isto seria mesmo impossível de realizar, por mais que o desejassem. Pois seria necessário buscar outro mundo. Por isso acrescentou: Porque então vos seria necessário sair do mundo. Vedes como não é ele senhor severo, e como, em sua legislação, atenta constantemente não só ao que se pode fazer, mas também ao que se pode fazer com facilidade? Pois como seria possível, diz ele, a um homem que tem o cuidado de uma casa e de filhos, e que se ocupa dos negócios da cidade, ou que é artesão ou soldado (sendo a maior parte dos homens gregos), evitar os impuros que se encontram em toda parte? Pois por "fornicadores do mundo" entende ele os que estão entre os gregos. Mas agora vos escrevo que, se algum irmão for tal, com esse tal nem sequer comais. Aqui também ele alude a outros que viviam na maldade.
Mas como pode ser irmão aquele que é idólatra? Como sucedeu outrora com os samaritanos, que escolheram a piedade apenas pela metade. E, além disso, ele estabelece de antemão o terreno para o discurso acerca das coisas oferecidas em sacrifício aos ídolos, que depois disto pretende tratar.
Ou cobiçoso. Pois com estes também ele entra em conflito. Por isso disse também: Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sois antes defraudados? Antes vós mesmos fazeis injustiça e defraudais.
Ou bêbado. Pois isto também ele lhes imputa mais adiante; como quando diz: Um tem fome e outro está embriagado; e: as comidas para o ventre, e o ventre para as comidas.
Ou maldizente, ou extorsor: pois também estes ele já havia repreendido antes.
2. Em seguida, acrescenta também a razão pela qual lhes proíbe não se misturarem com os pagãos daquela índole, dando a entender que isto não é apenas impossível, mas também supérfluo.
Acaso não se importava Paulo com os que estavam fora da Igreja? Certamente que se importava! Mas somente depois que houvessem recebido o evangelho, e ele os tivesse submetido ao ensino de Cristo, é que lhes impunha exigências. Enquanto desprezassem a Cristo, seria inútil falar-lhes de seus mandamentos.
Pois que tenho eu a ver com julgar os que estão de fora? Chamando de dentro os cristãos, e de fora os gregos, assim como também em outro lugar diz, em 1 Tm 3:7: Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora. E na Epístola aos Tessalonicenses fala na mesma linguagem, dizendo, em 2 Ts 3:14: Não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. E: Não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como a um irmão. Aqui, contudo, não acrescenta a razão. Por quê? Porque, naquele caso, quis suavizá-los, mas neste, não assim. Pois a falta, neste e naquele caso, não era a mesma; antes, entre os tessalonicenses era menor. Pois ali repreende a indolência; aqui, porém, a fornicação e outros pecados gravíssimos. E se alguém quisesse passar-se aos gregos, não o impede de comer com tais pessoas; também isto pela mesma razão. Assim também procedemos nós; pois por nossos filhos e por nossos irmãos nada deixamos de fazer, mas dos estranhos não fazemos tanto caso. Como, pois? Não cuidava Paulo também dos que estavam de fora? Sim, cuidava deles; mas somente depois que recebessem o Evangelho, e ele os tivesse sujeitado à doutrina de Cristo, é que lhes estabelecia leis. Mas, enquanto desprezavam, era supérfluo falar os preceitos de Cristo àqueles que não conheciam o próprio Cristo.
Não julgais vós os que estão de dentro, ao passo que aos que estão de fora, Deus os julga? Pois, tendo dito: Que tenho eu a ver com julgar os que estão de fora?, para que ninguém pensasse que estes ficavam impunes, ergue sobre eles outro tribunal, e este temível. E isto disse, tanto para atemorizar àqueles quanto para consolar a estes; dando a entender também que este castigo, que é temporário, os arrebata daquele que é imorredouro e perpétuo: o que também claramente declarou em outro lugar, dizendo, em 1 Cor 11:32: Mas, sendo agora julgados, somos castigados, para que não sejamos condenados com o mundo.
Peço desculpas pela resposta anterior — foi um erro. Segue a tradução correta e completa:
3. Removei o iníquo do meio de vós. Serviu-se ele de uma expressão que se encontra no Antigo Testamento (Dt 17,7), em parte para sugerir que também estes serão grandemente beneficiados, como que libertos de alguma peste grave; em parte para mostrar que tal procedimento não é nenhuma inovação, mas que já desde o princípio pareceu bom ao legislador que os tais fossem cortados. Naquele caso, porém, procedeu-se com mais severidade; neste, com mais mansidão. Por isso, com razão se poderia perguntar por que ali ele consentiu que o pecador fosse severamente punido e apedrejado, e aqui não; antes o conduz ao arrependimento. Por que, então, foram traçadas as linhas de um modo naquele caso e de outro neste? Por duas razões: uma, porque estes eram levados a uma provação maior e necessitavam de maior longanimidade; a outra, e mais verdadeira, porque estes, por sua impunidade, mais facilmente se corrigiriam, podendo chegar ao arrependimento; ao passo que aqueles, com toda a probabilidade, avançariam para maior maldade. Pois, se ao verem o primeiro sofrer o castigo persistiam nas mesmas coisas, muito mais seria esse o seu ânimo se ninguém tivesse sido castigado. Por essa razão, naquela dispensação a morte é imediatamente infligida ao adúltero e ao homicida; mas nesta, se pelo arrependimento são absolvidos, escaparam ao castigo. Contudo, tanto aqui se podem ver alguns exemplos de castigo mais pesado, quanto no Antigo Testamento alguns menos severos, a fim de que se signifique de todo modo que as alianças são aparentadas entre si e de um só e mesmo legislador: e podeis ver o castigo seguir-se imediatamente tanto naquela aliança quanto nesta, e em ambas, muitas vezes, depois de longo intervalo. Ora, e frequentemente nem sequer depois de longo intervalo, sendo o próprio arrependimento tomado como satisfação pelo Onipotente. Assim, no Antigo Testamento, Davi, que cometera adultério e homicídio, foi salvo por meio do arrependimento; e no Novo, Ananias, que subtraiu apenas uma pequena porção do preço da terra, pereceu juntamente com sua mulher. Ora, se estes exemplos são mais frequentes no Antigo Testamento, e os do gênero contrário no Novo, a diferença das pessoas produz a diferença no tratamento adotado em tais matérias.
Paulo emprega uma expressão tirada do Antigo Testamento, em parte porque sugere que os coríntios muito ganharão ao serem libertados de uma espécie de praga, e em parte para mostrar que tal coisa não é novidade alguma, mas remonta ao princípio. Até Moisés, o legislador, julgou que homens semelhantes deviam ser eliminados, ainda que o fizesse com maior severidade do que aqui se demonstra. Moisés teria mandado apedrejar o homem, mas Paulo pensa somente em conduzi-lo ao arrependimento.
Diz Paulo que os cristãos não devem submeter suas disputas a arbitragem estranha. Pois como poderia ser algo diverso do absurdo que um homem em desacordo com seu amigo escolha o inimigo comum de ambos como reconciliador? Como evitarias sentir vergonha quando um pagão se assenta em juízo sobre um cristão? E se não é lícito litigar perante pagãos acerca de assuntos privados, como poderíamos submeter-lhes outras coisas de maior importância para decisão? Observai também como fala Paulo. Ele não chama os pagãos de "incrédulos", mas de "injustos", e aos cristãos chama de "santos", empregando a designação apropriada a fim de dissuadi-los de envolver-se com os tribunais seculares.
Também aqui ele renova sua queixa sobre fundamentos já reconhecidos; pois naquele outro lugar diz: *Ouve-se realmente que há fornicação entre vós*. E aqui: *Ousa algum de vós?* Dando, desde o primeiro lance, sinais de sua indignação, e dando a entender que a coisa de que fala procede de um espírito temerário e sem lei.
Ora, por que razão introduziu ele de passagem aquele discurso sobre a avareza e sobre o dever de não litigar sem recorrer à Igreja? Em cumprimento de sua própria regra. Pois é costume seu corrigir as coisas à medida que as encontra em seu caminho; assim como, ao falar das mesas que usavam em comum, lançou-se ao discurso sobre os mistérios. Assim, pois, vede: tendo feito menção dos irmãos avarentos, abrasado de solicitude para corrigir os que estavam em pecado, não suporta observar rigorosamente a ordem; mas corrige de novo o pecado que fora introduzido fora do curso regular, e então retorna ao assunto anterior.
Ouçamos, pois, o que ele diz também sobre isto. *Ousa algum de vós, tendo uma questão, litigar diante dos injustos, e não diante dos santos?* Por algum tempo emprega aqueles termos pessoais para expor, desacreditar e censurar o seu proceder; nem subverte inteiramente, desde o início, o costume de buscar julgamento diante dos crentes: mas, depois de os haver abatido com muitas palavras, então tira de todo o recurso ao litígio. Pois, primeiramente, diz ele, se alguém há de litigar, seria errado fazê-lo diante dos injustos. Mas não deveis litigar de modo algum. Isto, porém, ele acrescenta depois. Por ora, esquadrinha inteiramente o assunto anterior, a saber, que não submetam as questões a arbitragem externa. Pois, diz ele, como pode não ser absurdo que aquele que está em desavença (μικροψυχοῦτα) com seu amigo tome o seu inimigo por reconciliador entre ambos? E como podereis evitar o pejo e o rubor quando um grego se assenta para julgar um cristão? E se, em questões particulares, não é lícito litigar diante de gregos, como haveremos de submeter-nos às suas decisões em outras coisas de maior importância?
Observai, ademais, como ele fala. Não diz: *Diante dos incrédulos*, mas: *Diante dos injustos*; usando a expressão de que tinha mais particular necessidade para o assunto que tratava, a fim de os deter e afastar. Pois vede que seu discurso versava sobre o litigar, e os que se acham empenhados em pleitos nada buscam tanto quanto que os juízes tenham grande interesse pelo que é justo; toma ele isto como fundamento de dissuasão, quase dizendo: Aonde ides? Que fazeis, ó homem, trazendo sobre vós o contrário do que desejais, e, para obter justiça, entregando-vos a homens injustos? E porque teria sido intolerável dizer-lhes de imediato que não litigassem, não acrescentou isto logo, mas apenas mudou os juízes, trazendo de fora para dentro da Igreja a parte empenhada no processo.
5. Depois, visto que parecia facilmente exposto ao desprezo — refiro-me a sermos julgados por aqueles que estavam dentro, e sobretudo naquele tempo (pois talvez não fossem capazes de compreender um ponto de direito, nem eram tais como os juízes pagãos, versados nas leis e na retórica, visto que a maior parte deles era de homens sem instrução) — notai como ele os torna dignos de crédito, chamando-os primeiramente de Santos.
Mas, visto que isto dava testemunho da pureza de vida, e não da exatidão em ouvir uma causa, observai como ele trata ordenadamente também esta parte, dizendo assim: Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Como, pois, podeis vós, que haveis de julgá-los em vosso dia, suportar ser julgados por eles agora? Eles não julgarão, na verdade, assentando-se em pessoa e exigindo contas, mas hão de condenar. Isto, pelo menos, ele o disse claramente: E se o mundo é julgado em vós, sois indignos de julgar as coisas mínimas? Não diz "por vós", mas "em vós": assim como quando Ele disse, Mt 12:42, A rainha do sul se levantará e condenará esta geração; e: Os homens de Nínive se levantarão e condenarão esta geração. Pois, contemplando o mesmo sol e partilhando de todas as mesmas coisas, nós seremos achados crentes, e eles descrentes, e não poderão refugiar-se na ignorância. Pois nós os acusaremos, simplesmente pelas coisas que fizemos. E muitos outros modos semelhantes de julgamento se encontrarão ali.
Depois, para que ninguém pense que ele fala de outras pessoas, observai como generaliza o seu discurso: E se o mundo é julgado em vós, sois indignos de julgar as coisas mínimas?
A coisa é uma desonra para vós, diz ele, e uma vergonha inefável. Pois, sendo provável que se sentissem desconcertados por serem julgados pelos que estavam de dentro, ao contrário, diz ele, a desonra está em serdes julgados pelos que estão de fora: pois essas são as controvérsias bem pequenas, não estas.
É uma vergonha que os cristãos sejam julgados por estranhos em questões triviais, quando nós os julgaremos em coisas de muito maior importância.
Alguns dizem que aqui se aludem aos sacerdotes, mas afastemos tal ideia. Seu discurso é acerca dos demônios. Pois se estivesse falando de sacerdotes corruptos, tê-los-ia mencionado acima, quando disse: o mundo é julgado em vós (pois a Escritura costuma chamar também de "o mundo" aos homens maus); e não teria dito duas vezes a mesma coisa, nem, como se estivesse dizendo algo de maior consequência, a teria posto depois. Mas ele fala acerca daqueles anjos sobre os quais Cristo diz: Apartai-vos para o fogo que está preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25,41). E Paulo diz que os anjos dele se disfarçam em ministros de justiça (2 Cor 11,15). Pois quando as próprias potências incorpóreas forem achadas inferiores a nós, que estamos revestidos de carne, sofrerão castigo mais pesado.
Mas se alguns ainda contendessem que ele fala de sacerdotes, perguntemos: que espécie de sacerdotes? Aqueles, sem dúvida, cujo modo de vida foi mundano. Em que sentido, então, diz ele: Julgaremos os anjos, quanto mais as coisas que dizem respeito a esta vida? Ele menciona os anjos em contraposição às coisas relativas a esta vida: bem provável, pois estão eles removidos da necessidade destas coisas, por causa da excelência superior de sua natureza.
Dizem alguns que Paulo pensava em sacerdotes corruptos quando disse isto, mas isso não pode estar correto. Ele está, na verdade, falando dos demônios.
Querendo instruir-nos com toda a força possível de que não deveriam entregar-se aos de fora, seja qual for a questão, tendo suscitado o que parecia ser uma objeção, ele mesmo a responde desde logo. Pois o que diz equivale a isto: Talvez alguém diga: Ninguém entre vós é sábio, nem apto para proferir sentença; todos são desprezíveis. Que se segue, pois? Ainda que nenhum seja sábio, diz ele, ordeno-vos que confieis as causas aos de menor consideração entre vós.
Mas isto digo para vos mover à vergonha. São estas as palavras de quem expõe a objeção deles como pretexto vão; e por isso acrescenta: Acaso não há entre vós nenhum sábio, nem sequer um só? Será, diz ele, tão grande a escassez? Tão grande a falta de pessoas sensatas entre vós? E o que acrescenta fere ainda mais fundo. Pois, tendo dito: Acaso não há entre vós nenhum sábio, nem sequer um só?, ele acrescenta: que possa julgar a causa de seu irmão. Porquanto, quando irmão litiga com irmão, jamais há necessidade de entendimento ou talento naquele que medeia a causa, contribuindo grandemente para a solução de tal contenda o sentimento e o parentesco.
Mas irmão litiga com irmão, e isso perante infiéis. Observai com que efeito ele antes desqualificou os juízes chamando-os injustos; ao passo que aqui, para mover à vergonha, os chama Infiéis. Pois é, na verdade, extremamente vergonhoso que o próprio sacerdote não pudesse ser o autor da reconciliação sequer entre irmãos, sendo necessário recorrer aos de fora. De modo que, ao dizer aqueles que são de nenhuma estima, seu intento principal não era (οὐ τοῦτο εἰπε προηγουμένως) que os réprobos da Igreja fossem constituídos juízes, mas antes reprová-los. Pois que convinha recorrer aos que eram capazes de decidir, ele o mostrou ao dizer: Acaso não há entre vós nenhum sábio, nem sequer um só? E, com grande veemência, lhes tapa a boca, dizendo que, ainda que não houvesse um só sábio, dever-se-ia antes deixar a audiência a vós, ainda que insensatos, do que fazer com que os de fora julgassem. Pois que outra coisa pode ser senão um absurdo que, surgindo uma contenda numa casa, a ninguém de fora chamemos, e nos envergonhemos se a notícia se espalhar entre estranhos do que se passa dentro de portas; e que, onde está a Igreja, o tesouro dos Mistérios inefáveis, ali tudo se publique fora?
A acusação é dupla: tanto o litigar quanto o fazê-lo perante infiéis. Pois se o próprio litigar com um irmão já é, por si só, uma falta, fazê-lo ainda perante estranhos, que perdão pode admitir?
Quando irmãos litigam entre si, não há necessidade de que o mediador demonstre entendimento e discernimento. O sentimento fraterno e o parentesco contribuem grandemente para a solução de tais contendas. Levar semelhante contenda perante infiéis apenas agrava tudo e impede uma feliz resolução do problema.
Vedes para que lugar ele reservou este ponto? E como desembaraçou a discussão dele em tempo oportuno? Pois ainda não trato, diz ele, de quem causa a injúria ou de quem a sofre. Até aqui, o próprio ato de litigar submete cada uma das partes à sua censura, e, nesse respeito, uma não é de modo algum melhor que a outra. Mas se alguém litiga justa ou injustamente, isso é já outro assunto inteiramente distinto. Não digas, pois: quem cometeu a injustiça? Pois, nesse terreno, eu já vos condeno de imediato, ainda que seja apenas pelo ato de litigar.
Ora, se não saber suportar quem comete a injustiça já é uma falta, que acusação poderá igualar a própria injustiça cometida? Por que não sofrer antes a injustiça? Por que não ser antes defraudado?
O justo trata tudo com moderação, demonstrando o notável grau de seu próprio bom senso e ensinando não apenas aos que então estavam presentes, mas também a todos os pósteros, a jamais resolvermos nossas divergências com nossos parentes por meio de contendas.
Aqui podem estar envolvidos até quatro delitos. O primeiro é não saber suportar a injustiça sofrida. O segundo é cometer a injustiça. O terceiro é reservar a solução da questão aos injustos. E o quarto é que tal coisa se faça contra um irmão na fé.
Mais uma vez, é um delito duplo, talvez até triplo ou quádruplo. Um, não saber suportar a injustiça sofrida. Outro, cometer de fato a injustiça. Um terceiro, confiar a solução dessas questões justamente aos injustos. E ainda um quarto, que isso se faça contra um irmão. Pois as ofensas dos homens não se julgam pela mesma regra quando cometidas contra uma pessoa qualquer e quando cometidas contra o próprio membro. Pois deve ser um grau maior de temeridade aventurar-se a isso. No outro caso, atropela-se apenas a natureza da coisa; mas neste, também a qualidade da pessoa.
8. Tendo assim, como vedes, confundido-os com argumentos tirados de princípios gerais e, antes disso, das recompensas propostas, ele encerra a exortação com uma ameaça, tornando o seu discurso mais peremptório, e dizendo assim: 1 Cor 6:9 — Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os que abusam de si mesmos com homens, 1 Cor 6:10 nem os cobiçosos, nem os ladrões, nem os ébrios, nem os maldizentes, nem os extorsores herdarão o reino de Deus. Que dizeis? Ao discorrer sobre os cobiçosos, trouxe ele sobre nós tão vasta multidão de homens iníquos? Sim, diz ele, mas, ao fazer isso, não confundo meu discurso, antes prossigo em ordem regular. Pois, assim como, ao discorrer sobre os impuros, fez menção de todos em conjunto, assim também, ao mencionar os cobiçosos, apresenta a todos, tornando deste modo suas repreensões familiares àqueles que têm tais coisas em sua consciência. Pois a menção contínua do castigo reservado a outros torna a repreensão fácil de ser recebida, quando esta vem a chocar-se com nossos próprios pecados. E assim, no caso presente, ele profere sua ameaça, não de modo algum como quem tem consciência de que eles façam tais coisas, nem como quem os chama a prestar contas — o que teria força especial para reter o ouvinte e impedi-lo de se esquivar —, mas antes com o discurso não tendo respeito algum a ele, sendo proferido de modo indefinido, e assim ferindo secretamente a sua consciência.
Não vos enganeis. Aqui ele alude a certos que sustentam (o que de fato a maioria dos homens afirma agora) que Deus, sendo bom e benigno para com o homem, não toma vingança de nossos malfeitos: Não temamos, pois. Pois Ele jamais exigirá justiça de ninguém por coisa alguma. E é por causa destes que ele diz: Não vos enganeis. Pois pertence ao extremo do erro e da ilusão, depois de confiar no bem, deparar-se com o contrário; e imaginar acerca de Deus coisas que nem mesmo em um homem alguém suporia. Por isso diz o Profeta na pessoa d'Ele: Sl 49:21 — Concebeste a iniquidade de que Eu seria semelhante a ti; Eu te reprovarei e porei diante de teu rosto as tuas iniquidades. E Paulo aqui: Não vos enganeis; nem os fornicadores (põe primeiro aquele que já fora condenado), nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os ébrios, nem os maldizentes herdarão o reino de Deus.
Muitos têm atacado esta passagem como extremamente severa, visto que ele coloca o ébrio e o maldizente junto com o adúltero, o abominável e o que abusa de si mesmo com homens. E, no entanto, os delitos não são iguais: como, pois, é igual a sentença do castigo? Que diremos então? Primeiramente, que a embriaguez não é coisa pequena, nem tampouco a maledicência, visto que o próprio Cristo entregou ao inferno aquele que chamou seu irmão de louco. E muitas vezes esse pecado tem gerado a morte. Além disso, também o povo judeu cometeu os maiores dos seus pecados por meio da embriaguez. Em seguida, não é ainda do castigo que ele discorre até este ponto, mas da exclusão do reino. Ora, do reino, tanto um quanto outro são igualmente lançados fora; mas se no inferno hão de encontrar alguma diferença, não pertence à presente ocasião indagá-lo. Pois esse assunto não nos ocupa agora.
Paulo não restringe suas acusações a uma breve lista de espécies de pecado, mas condena a todos igualmente. Não visa tanto a pecados particulares quanto faz uma admoestação geral, que secretamente convencerá a quem quer que tenha tais coisas em sua consciência.
Diz Paulo isto para fazer os coríntios envergonharem-se de si mesmos. Pede-lhes que considerem os grandes males dos quais Deus os havia livrado. Mas Deus não limitou a Sua salvação à mera libertação. Estendeu grandemente o benefício, tornando-os limpos, prosseguindo em seguida a torná-los santos e, por fim, a torná-los justos aos Seus olhos. Mesmo a simples libertação de nossos pecados já teria sido um grande dom, mas Deus prosseguiu daí a encher-nos de inúmeras bênçãos.
Para envergonhá-los sobremaneira, acrescenta isto: como se dissesse: Considerai de quantos males Deus vos livrou; quão grande experimento e demonstração de benignidade Ele vos concedeu! Não limitou Sua redenção à mera libertação, mas estendeu grandemente o benefício: pois também vos fez limpos. Foi isto, pois, tudo? Não: mas também vos santificou. Nem ainda é isto tudo: também vos justificou. Ora, bastaria já grande dom a mera libertação de nossos pecados: mas agora Ele também vos encheu de inumeráveis bênçãos. E isto Ele fez, No Nome de nosso Senhor Jesus Cristo; não neste nome ou naquele: sim, também, No Espírito de nosso Deus.
Sabendo, pois, estas coisas, amados, e tendo em mente a grandeza da bênção que se operou, continuemos a viver sobriamente, puros de todas as coisas que foram enumeradas; e evitemos os tribunais que há nos foros dos gentios; e a nobre linhagem que Deus gratuitamente nos concedeu, essa mesma guardemo-la até o fim. Pois considerai quão cheio de vergonha é que um grego se assente e reparta a justiça para convosco.
Mas direis: e se aquele que está dentro julgar contra a lei? Por que haveria de fazê-lo? Dizei-me. Pois eu gostaria de saber por que espécie de leis administra justiça o grego, e por quais o cristão? Não é bem claro que as leis dos homens são a regra do grego, mas as de Deus, a do cristão? Certamente, pois, com este último há maior chance de justiça, visto que estas leis são até enviadas do céu. Pois no tocante àqueles de fora, além do que já foi dito, há também muitas outras coisas a suspeitar; talento nos oradores e corrupção nos magistrados e muitas outras coisas que são a ruína da justiça. Mas entre nós, nada disto.
Que então, direis, se o adversário for pessoa de alta posição? Pois bem, por esta razão mais que qualquer outra se deve ir a juízo nos tribunais cristãos: pois nos tribunais de fora ele há de levar a melhor sobre vós de qualquer maneira. Mas e se ele não se contentar, mas tanto desprezar os de dentro quanto arrastar à força a instância de fora? Melhor seria submeter-se de bom grado ao que provavelmente haveríeis de sofrer por compulsão, e não ir a juízo, para que tenhais também recompensa. Pois, Mateus 5:40, Se alguém quiser demandar-vos e tirar-vos a túnica, deixai-lhe também a capa; e, Mateus 5:25, Concilia-te depressa com teu adversário, enquanto estás no caminho com ele. E que necessidade há de falar de nossas próprias regras? Pois até os advogados nos tribunais pagãos muitas vezes nos dizem isto, afirmando que seria melhor resolver as questões fora do tribunal. Mas, ó riqueza, ou antes, ó absurdo amor à riqueza! Ela subverte todas as coisas e as derriba; e todas as coisas são para a multidão contos ociosos e fábulas por causa do dinheiro! Ora, que os que dão trabalho aos tribunais sejam homens do mundo, não é maravilha: mas que muitos dos que já disseram adeus ao mundo façam exatamente o mesmo, isto é coisa de que todo perdão está excluído. Pois se quiserdes ver quão longe devêreis manter-vos desta espécie de necessidade, refiro-me à dos tribunais, segundo a regra da Escritura, e aprender para quem as leis foram instituídas, ouvi o que diz Paulo; 1 Timóteo 1:9: Para o justo a lei não foi feita, mas para os sem lei e os insubordinados. E se ele diz estas coisas acerca da Lei mosaica, muito mais se dirão acerca das leis dos gentios.
10. Ora, pois, se cometeis injustiça, é evidente que não podeis ser justos; mas se, sendo injuriados, suportais — pois esta é marca peculiar do homem justo — não tendes necessidade das leis que estão de fora. Mas como, dizeis vós, poderei suportar quando for injuriado? E, no entanto, Cristo ordenou algo ainda mais que isto. Pois não somente ordenou que, quando injuriado, o suportásseis, mas até que dêsseis em abundância mais ainda ao que vos fizer o mal; e que, em vosso zelo por sofrer o mal, superásseis a avidez dele em fazê-lo. Pois não disse: ao que quiser demandar-te em juízo e tirar-te a túnica, dá a túnica; mas: juntamente com essa dá também a capa. Mas eu vos mando, diz Ele, vencê-lo sofrendo o mal, não fazendo o mal: pois esta é a vitória certa e esplêndida. Por isso também Paulo prossegue dizendo: Ora, pois, já é de todo um defeito (ἥττημα, na versão recebida, uma falta) em vós terdes demandas uns com os outros. E: Por que, antes, não sofreis o dano? Pois que o injuriado vence, mais do que aquele que não pode suportar ser injuriado, isto vos mostrarei com evidência. Aquele que não pode suportar a injúria, ainda que force o outro a comparecer em juízo e obtenha a sentença a seu favor, ainda assim é ele o mais vencido de todos. Pois sofreu aquilo que não queria; visto que o adversário o obrigou tanto a padecer dor quanto a ir a juízo. Pois que importa que tenhais prevalecido? E que importa que tenhais recuperado todo o dinheiro? Entretanto suportastes o que não desejáveis, tendo sido compelidos a decidir a questão por lei. Mas se suportardes a injustiça, venceis; privados, é certo, do dinheiro, mas de modo algum da vitória que está anexa a tal domínio de si mesmo. Pois o outro não tinha poder para obrigar-vos a fazer o que não quiseis.
E para mostrar que isto é verdade: dizei-me, quem venceu no monturo? Quem foi vencido? Jó, que foi despojado de tudo, ou o diabo, que o despojou de tudo? Evidentemente o diabo, que o despojou de tudo. A quem admiramos pela vitória, ao diabo que feriu, ou a Jó que foi ferido? Claramente, a Jó. E, no entanto, ele não pôde reter as suas riquezas perecíveis, nem salvar os seus filhos. Por que falo de riquezas e de filhos? Ele não pôde assegurar para si a saúde do corpo. Contudo, este é o vencedor, aquele que perdeu tudo quanto tinha. As suas riquezas, na verdade, não pôde conservar; mas a sua piedade conservou com todo o rigor. Aos seus filhos, porém, quando pereciam, não pôde socorrer. E que, pois? Visto que o que sucedeu tanto os tornou mais gloriosos quanto, além disso, deste modo ele se resguardou contra o trato despeitoso. Ora, se ele não tivesse sofrido o mal e sido injuriado pelo diabo, não teria alcançado aquela vitória insigne. Se fosse coisa má sofrer injustiça, Deus no-lo não teria ordenado: pois Deus não ordena coisas más. Quê, não sabeis que Ele é o Deus da Glória? Que não poderia ser da Sua vontade cercar-nos de vergonha, e escárnio, e perda, mas antes introduzir-nos (προξενῆσαι) ao contrário destas coisas? Portanto Ele nos manda sofrer injustiça, e faz tudo para nos retirar das coisas mundanas, e para nos convencer do que é glória, e do que é vergonha; do que é perda, e do que é ganho.
Considerando isso, escolhamos por nossa livre vontade seguir princípios rigorosos, e não sejamos como os insensatos, que julgam não terem sido lesados apenas quando o sofrer a injustiça é resultado de uma provação. Mas, muito pelo contrário, esse é o maior dano; assim como em todo caso em que exercemos domínio próprio nessas coisas não voluntariamente, mas depois de sermos vencidos naquela outra esfera. Pois não é vantagem alguma que um homem vencido numa provação a suporte; porque ela se torna, a partir de então, matéria de necessidade. Qual é, pois, a vitória esplêndida? Quando a desprezas: quando te recusas a litigar.
Como dizes? "Fui despojado de tudo", diz alguém, "e me exortas a guardar silêncio? Fui tratado vergonhosamente, e me exortas a suportá-lo mansamente? E como poderei ser capaz disso?" Ora, é facílimo, se olhares para cima, para o céu; se contemplares a beleza que está à vista; e para onde Deus prometeu receber-te, se suportares a injustiça nobremente. Faze isto, pois: e, olhando para cima, para o céu, pensa que és feito semelhante a Ele, que ali está assentado sobre os Querubins. Pois também Ele foi injuriado, e o suportou; foi ultrajado, e não se vingou; foi golpeado, e não sustentou a sua própria causa. Antes, retribuiu, em sentido contrário, àqueles que tais coisas lhe faziam, mesmo com benefícios sem número; e nos ordenou que fôssemos imitadores dEle. Considera que saíste nu do ventre de tua mãe, e que nu partirás, tu e aquele que te fez a injustiça; antes, ele, por sua parte, com feridas inumeráveis, gerando vermes. Considera que as coisas presentes são apenas por um tempo; conta os túmulos de teus antepassados; informa-te com exatidão dos acontecimentos passados; e verás que o malfeitor te fez mais forte. Pois a sua própria paixão ele agravou — refiro-me à sua cobiça —; mas a tua, ele a aliviou, retirando o alimento da fera. E, além de tudo isto, libertou-te de cuidados, de agonia, de inveja, de delatores, de perturbação, de ansiedade, de temor perpétuo; e o hediondo montão de males, sobre a própria cabeça o amontoou.
"Que farei, pois", diz alguém, "se tiver de lutar com a fome?" Suporta isto com Paulo, que diz: "Até esta presente hora, tanto padecemos fome como sede, e estamos nus" (1 Cor 4,11). Mas ele o fez, dirás, por causa de Deus: faze-o tu também por causa de Deus. Pois, quando te abstens de vingar-te, é por causa de Deus que o fazes.
"Mas aquele que me fez a injustiça deleita-se com os ricos." Antes, com o diabo. Mas sê tu coroado com Paulo.
Portanto não temeis a fome, pois, como está escrito, o Senhor não deixará morrer de fome a alma dos justos (Pv 10,3). E outro, de novo, diz: Lançai sobre o Senhor o vosso cuidado, e Ele vos sustentará (Sl 55,23). Pois, se os pardais do campo são por Ele sustentados, como não vos sustentará a vós? Não sejamos, pois, de pouca fé nem de alma pequena, ó meus amados! Pois Aquele que prometeu o reino dos céus e tão grandes bens, como não haveria de dar as coisas presentes? Não cobicemos as coisas supérfluas, mas atenhamo-nos ao suficiente, e seremos sempre ricos. Que seja o abrigo o que buscamos, e o alimento, e obteremos todas as coisas: tanto estas quanto outras, muito maiores.
Mas se ainda estais tristes e prostrados, gostaria de mostrar-vos a alma do malfeitor depois de sua vitória, como se tornou em cinzas. Pois em verdade o pecado é dessa natureza: enquanto se comete, proporciona certo prazer; mas, uma vez concluído, o prazer fugaz se vai, não se sabe como, e em seu lugar vem o abatimento. E este é o nosso sentimento quando fazemos mal a alguém: depois, ao menos, condenamo-nos a nós mesmos. Assim também, quando usurpamos, temos prazer; mas depois somos picados pela consciência. Vedes na posse de alguém a casa de um pobre? Não choreis por aquele que foi despojado, mas pelo espoliador: pois este não infligiu, mas sofreu um mal. Porque roubou do outro as coisas presentes; mas a si mesmo lançou fora dos bens que não se podem exprimir. Pois, se aquele que não dá ao pobre irá para o inferno, que sofrerá aquele que toma os bens do pobre?
Contudo, diz alguém, qual é o proveito, se eu sofro o mal? Em verdade, o proveito é grande. Pois não é do castigo daquele que vos fez mal que Deus forma a vossa recompensa: já que isso não seria coisa grande. Pois que grande bem há nisto, se eu sofro mal e ele sofre mal? E, contudo, conheço muitos que consideram isto o maior consolo, e que pensam ter recebido tudo de volta quando veem aqueles que os haviam insultado sofrendo castigo. Mas Deus não limita a isto a Sua recompensa.
Quereis, pois, saber verdadeiramente quão grandes são os bens que vos aguardam? Ele vos abre todo o céu; faz-vos concidadãos dos Santos; ajusta-vos a tomar parte em seu coro; dos pecados vos absolve; com a justiça vos coroa. Pois, se os que perdoam aos que os ofendem hão de alcançar perdão, aqueles que não somente perdoam, mas que também dão largamente por cima, que bênção não hão de herdar?
Portanto, não o suporteis com espírito mesquinho, mas orai antes por aquele que vos injuriou. É por vós mesmos que fazeis isto. Tomou-vos ele o dinheiro? Pois bem: tomou-vos também os pecados; o que se deu com Naamã e Geazi. Quanta riqueza não daríeis para ter as vossas iniquidades perdoadas? Isto, crede-me, é o que agora sucede. Pois, se suportais nobremente e não amaldiçoais, tendes cingida sobre vós uma coroa gloriosa. Não é palavra minha, mas ouvistes a Cristo dizendo: Orai por aqueles que vos maltratam. E considerai quão grande é a recompensa: Para que sejais semelhantes a vosso Pai que está nos céus. Assim, pois, de nada fostes privados; antes, fostes ganhadores; não recebestes injúrias, antes fostes coroados; nisto vos tornastes mais disciplinados na alma, sois feitos semelhantes a Deus, sois libertos do cuidado do dinheiro, sois feitos possuidores do reino dos céus.
Restrinjamo-nos, pois, portanto, considerando todas estas coisas, amados, quanto às injúrias, a fim de que sejamos libertos do tumulto da vida presente, e lancemos fora toda tristeza infrutuosa de espírito, e alcancemos o gozo que há de vir; pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora, doravante, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Quer Paulo dizer que, se somos livres para escolher, então devemos permanecer livres e não nos tornarmos escravos de nenhum desejo particular. Todo aquele que ordena retamente os seus desejos permanece senhor deles; mas, uma vez ultrapassado este limite, perde o domínio e torna-se seu escravo.
Aqui ele lança um olhar de relance aos glutões. Pois, como se dispõe a atacar de novo o fornicador, e a fornicação nasce da luxúria e da falta de moderação, castiga vigorosamente esta paixão. Não é possível que fale assim a respeito de coisas proibidas, visto que estas não são lícitas em nenhum caso; fala antes das coisas que parecem indiferentes. Para ilustrar o que digo: é lícito, afirma ele, comer e beber; mas não convém fazê-lo com excesso. E assim, aquela sua reviravolta admirável e inesperada, que amiúde costuma empregar — cf. Rm 12,21; 1 Cor 7,23 —, trazendo o seu argumento a girar por completo até ao seu contrário, também aqui a consegue introduzir; e significa que fazer o que está em seu poder não só não convém, como tampouco é sinal de poder, mas antes de escravidão.
E primeiramente dissuade-os com base na inconveniência da coisa, dizendo "não convêm"; em seguida, com base na sua contrariedade a si mesma, dizendo "não me deixarei dominar por nenhuma delas". Eis o seu sentido: Tens liberdade para comer, diz ele; pois bem, permanece na liberdade, e cuida para que não te tornes escravo deste apetite; pois quem dele usa retamente é seu senhor, mas quem excede a medida devida já não é seu senhor, mas seu escravo, porquanto a gula reina soberana dentro dele. Percebeis como, ali onde o homem pensava ter autoridade, Paulo mostra que ele está sob autoridade? Pois este é o seu costume, como já dizia antes, virar todas as objeções ao contrário. É precisamente o que fez aqui. Reparai: cada um deles dizia: tenho poder para viver luxuriosamente. Ele responde: ao fazê-lo, não ages tanto como quem tem poder sobre uma coisa, mas antes como quem está tu mesmo sujeito a algum tal poder. Pois não tens poder nem sequer sobre o teu próprio ventre, enquanto vives dissoluto, mas é ele que tem poder sobre ti. E o mesmo podemos dizer tanto das riquezas quanto de outras coisas.
"Alimentos para o ventre." Por "ventre" entende ele aqui não o estômago, mas a voracidade do estômago. Como quando diz, em Fl 3,19: "cujo deus é o ventre" — não falando daquela parte do corpo, mas da gulodice. Para provar que assim é, ouvi o que se segue: "e o ventre para os alimentos; mas o corpo não é para a fornicação, e sim para o Senhor." E, no entanto, também o ventre é do corpo. Mas ele põe dois pares de coisas: alimentos e gula (a que chama ventre); Cristo e o corpo.
Que significa, então, "alimentos para o ventre"? Os alimentos, diz ele, estão em boa relação com a gula, e ela com eles. Não pode, portanto, conduzir-nos a Cristo, mas arrasta-nos para estas coisas. Pois é uma paixão forte e brutal, que nos escraviza e nos põe a servir o ventre. Por que, pois, te agitas e te desfazes em ânsia pelo alimento, ó homem? Pois o termo desse serviço é este mesmo, e nada mais se verá dele: mas, como quem serve a uma senhora qualquer, ele persiste mantendo esta escravidão, e não avança além, não tendo outro ofício senão este mesmo, infrutífero. E ambos estão ligados entre si e juntos se destroem: o ventre com os alimentos, e os alimentos com o ventre, desenrolando uma espécie de curso interminável; tal como de um corpo corrupto podem nascer vermes, e de novo pelos vermes o corpo é consumido; ou como uma onda que se ergue alta e se quebra, sem ter efeito ulterior. Mas estas coisas não as diz ele a respeito do alimento e do corpo, mas é a paixão da gulodice e do excesso nos manjares que censura; e o que se segue o demonstra. Pois prossegue:
"Mas Deus reduzirá a nada tanto um como os outros" — falando não do estômago, mas do desejo desmedido; não do alimento, mas da alta mesa. Pois com o primeiro não se ira, antes até lhe estabelece regras, dizendo em 1 Tm 6,8: "Tendo alimento e cobertura, com isso nos contentaremos." Contudo, assim estigmatiza a coisa toda em seu conjunto, deixando ele a sua emenda (dado o conselho) confiada à oração.
Mas dizem alguns que estas palavras são profecia, declarando o estado que haverá na vida futura, e que ali não há comer nem beber. Ora, se aquilo que é moderado há de ter fim, muito mais nos convém abster-nos do excesso.
Depois, para que ninguém suponha que o corpo é objeto da sua censura, e desconfie de que, partindo de uma parte, culpa o todo, e diga que a natureza do corpo era a causa da gula ou da fornicação, ouvi o que se segue. Não censuro, diz ele, a natureza do corpo, mas a licença desmedida do espírito. E por isso acrescenta: "Ora, o corpo não é para a fornicação, mas para o Senhor"; pois não foi formado para este fim, para viver dissolutamente e cometer fornicação, assim como tampouco o ventre foi feito para ser guloso; mas para que seguisse a Cristo como Cabeça, e para que o Senhor fosse posto à frente do corpo. Sejamos tomados de vergonha, sejamos tomados de horror, por que, tendo sido julgados dignos de tamanha honra — a de nos tornarmos membros d'Aquele que se assenta no alto —, nos maculemos com tão grandes males.
2. Tendo agora suficientemente condenado o glutão, serve-se também da esperança das coisas futuras para nos desviar desta maldade.
Não ataca Paulo a natureza do corpo, mas a licença desenfreada do espírito, que abusa do corpo. O corpo não foi feito para o fim da fornicação, nem foi criado para a gula. Estava destinado a ter Cristo por cabeça, para que o pudesse seguir. Devemos ser tomados de vergonha e de horror se nos maculamos com tão grandes males, uma vez que fomos julgados dignos da grande honra de sermos membros d'Aquele que se assenta no alto.
Se o nosso corpo é membro de Cristo, e Cristo ressuscitou dentre os mortos, certamente o nosso corpo há de seguir a Sua liderança.
Percebeis novamente sua sabedoria apostólica? Pois ele está sempre estabelecendo a credibilidade da Ressurreição a partir de Cristo, e especialmente agora. Porque, se o nosso corpo é membro de Cristo, e Cristo ressuscitou, o corpo também certamente seguirá a Cabeça.
Por meio de seu poder. Pois, tendo afirmado uma coisa incrível e não apreensível por raciocínios, ele deixou inteiramente ao Seu poder incompreensível as circunstâncias da própria Ressurreição de Cristo, produzindo também isto como não pequena demonstração contra eles. E acerca da Ressurreição de Cristo ele não inseriu isto: pois não disse, E Deus também ressuscitará o Senhor; — pois a coisa já havia passado e se cumprido — mas como? E Deus tanto ressuscitou o Senhor; nem havia necessidade de qualquer prova. Mas acerca da nossa ressurreição, visto que ainda não se cumpriu, ele não falou assim, mas como? E ressuscitará também a nós por meio de Seu poder: pela confiança a ser depositada no poder do Operador, ele fecha a boca dos contraditores.
Além disso: se ele atribui ao Pai a Ressurreição de Cristo, que isto não vos perturbe de modo algum. Pois não como se Cristo fosse impotente ele estabeleceu isto, pois é Ele mesmo quem diz, Jo 2, 19: Destruí este templo, e em três dias o levantarei; e novamente, Jo 10, 18: Tenho poder para depor a Minha vida, e tenho poder para retomá-la de novo. E também Lucas, em Atos, diz, cf. At 1, 3: A quem também Se mostrou vivo. Por que, então, fala Paulo assim? Porque tanto os atos do Filho são imputados ao Pai, quanto os do Pai ao Filho. Pois Ele diz, Jo 5, 19: Tudo quanto Ele faz, isto o Filho também faz igualmente.
E muito oportunamente ele aqui fez menção da Ressurreição, refreando por essas esperanças a tirania do desejo glutão; e como que dizendo: comestes, bebestes em excesso: e qual é o resultado? Nada, senão somente a destruição. Fostes unidos a Cristo; e qual é o resultado? Uma coisa grande e maravilhosa: a futura Ressurreição, aquela gloriosa, que transcende toda expressão!
Estejamos, portanto, longe de continuar a duvidar da Ressurreição; mas, se algum ainda duvida, pense ele em quantas coisas Ele fez a partir do nada, e admita isto também como prova daquela outra. Pois as coisas que já passaram são de longe mais estranhas, e carregadas de um assombro que a tudo supera. Considerai apenas: Ele tomou terra e a amassou, e fez o homem — terra que antes disto não existia. Como, pois, tornou-se a terra homem? E como foi ela mesma produzida a partir do nada? E como, todas as coisas que dela foram feitas? As infinitas espécies de criaturas irracionais; de semeaduras; de plantas — sem que dores de parto precedessem umas, sem que chuvas descessem sobre outras; sem que se visse lavoura, nem bois, nem arado, nem coisa alguma que para sua produção contribuísse? Por isto mesmo a coisa sem vida e sem sentido foi feita, desde o princípio, para fazer brotar tantas espécies de plantas e de criaturas irracionais, a fim de que, desde o primeiro instante, Ele vos instruísse na doutrina da Ressurreição. Pois isto é mais inexplicável do que a Ressurreição. Porque não é o mesmo reacender uma lâmpada extinta e mostrar um fogo que jamais apareceu. Não é o mesmo reerguer uma casa que caiu e produzir uma que nunca em absoluto existiu. Pois, naquele caso, se nada mais, ao menos a matéria era dada para com ela trabalhar; mas neste, nem mesmo a substância aparecia. Por isto Ele fez primeiro aquilo que parecia ser o mais difícil, para que, por meio disto, admitísseis aquilo que é o mais fácil — mais difícil, digo, não para Deus, mas na medida em que nossos raciocínios podem acompanhar a questão. Pois para Deus nada é difícil; mas, assim como o pintor que fez um retrato fará dez mil com facilidade, também para Deus é fácil fazer mundos sem número e sem fim. Ou melhor: assim como vos é fácil conceber uma cidade e mundos sem limite, assim também a Deus é fácil fazê-los; ou, antes ainda, é-lhe muito mais fácil. Pois vós consumis tempo, ainda que breve, em vossa concepção; mas Deus, nem isto — antes, na medida em que as pedras são mais pesadas do que qualquer das coisas mais leves, e mesmo do que nossas mentes, nessa mesma medida nossa mente é sobrepujada pela rapidez da obra criadora de Deus.
Admirais-vos de Seu poder sobre a terra? Pensai ainda em como o céu foi feito, não existindo ainda; como as estrelas inumeráveis, como o sol, como a lua — todas estas coisas ainda não existindo. Dizei-me ainda: depois de feitas, como se firmaram, e sobre quê? Que fundamento têm? E que tem a terra? Que vem logo após a terra? E, novamente, que vem depois daquilo que vem logo após a terra? Vedes em que redemoinho se lança o olho de vossa mente, a menos que vos refugieis prontamente na fé e no incompreensível poder do Criador?
1Coríntios 15:35-44
Mas, se preferires colher conjeturas também das coisas humanas, poderás pouco a pouco alar as asas do teu entendimento. Que coisas humanas serão essas, perguntar-se-á? Não vês os oleiros, como refazem o vaso que se despedaçara e se tornara disforme? Os que fundem o minério extraído da mina, como em suas mãos a terra se transforma (τὴν γῆν χρύσιον ἀποφαίνουσι) em ouro, ou prata, ou cobre? E os que trabalham o vidro, como transmutam a areia numa substância una, compacta e transparente? Falarei dos curtidores de couro, dos tintureiros de vestes purpúreas — como fazem com que aquilo que recebera sua tintura pareça uma coisa, quando era outra? Falarei da geração de nossa própria raça? Não é acaso uma pequena semente, a princípio sem forma nem cunho, que entra no ventre que a recebe? De onde, pois, vem a tão intrincada formação do ser vivo? Que é o trigo? Não é lançado à terra como semente nua? Depois de lançada, não apodrece? De onde vêm a espiga, a barba, o colmo, e todas as demais partes? Não cai muitas vezes um pequeno grão de figo ao solo e produz raiz, ramos e fruto? E, diante disso, admites cada uma dessas coisas sem curiosas indagações, e só a Deus exiges contas, quando Ele muda a feição de nosso corpo? E como poderiam tais coisas ser perdoáveis?
Isto e coisas semelhantes dizemos aos gregos. Pois aos que são obedientes às Escrituras, não tenho ocasião alguma de falar.
Digo: se pretendes perscrutar curiosamente todas as Suas obras, que terá Deus a mais que os homens? E, no entanto, mesmo dos homens há muitos acerca dos quais não indagamos assim. Muito mais, pois, devemos abster-nos de investigação impertinente sobre a sabedoria de Deus, e de exigir-lhe contas: primeiro, porque digno de fé é Aquele que o afirma; segundo, porque a matéria não admite investigação por raciocínios. Pois Deus não é tão miseravelmente pobre a ponto de operar somente aquilo que possa ser apreendido pela fraqueza de teus raciocínios. E, se não compreendes a obra de um artesão, muito menos compreenderás a de Deus, o melhor dos artífices. Não descreias, pois, da Ressurreição, para que não te apartes demasiado da esperança daquilo que há de vir.
Mas qual é o sábio argumento dos contraditores; ou antes, direi, o seu argumento sumamente insensato? Ora, dizem eles, quando o corpo se mistura com a terra e se torna terra, e esta, por sua vez, é removida para outro lugar, como há de ressuscitar? A ti isto parece impossível, mas não ao Olho que não dorme. Pois para Ele todas as coisas são claras. E tu, naquela confusão, não vês distinção alguma de partes; mas Ele as conhece todas. Pois nem sequer o coração de teu próximo conheces, nem o que nele há; mas Ele conhece tudo. Se, pois, por não saberes como Deus ressuscita os homens, não crês que Ele os ressuscite, hás de descrer também que Ele conhece o que há em tua mente? Pois também isso não é evidente à vista. E, no entanto, no corpo há matéria visível, ainda que se dissolva; mas aqueles pensamentos são invisíveis. Acaso Aquele que conhece com toda certeza as coisas invisíveis não haveria de ver as coisas visíveis, e distinguir facilmente as partes dispersas do corpo? Suponho que isto é evidente a todos.
Não descreais, pois, da Ressurreição; porque esta é uma doutrina do Diabo. É nisto que o Diabo se empenha com afinco, não somente em que a Ressurreição seja posta em descrença, mas também em que as boas obras sejam abolidas. Pois o homem que não espera que há de ressuscitar e prestar contas das coisas que fez não se aplicará prontamente à virtude; e, por sua vez, virá a descrer inteiramente da Ressurreição: porque ambas as coisas se sustentam mutuamente, o vício pela incredulidade, e a incredulidade pelo vício. Pois a consciência repleta de muitas maldades, temendo e tremendo diante da retribuição vindoura, e não querendo prover-se de consolo mudando-se para o que é mais excelente, apraz-se em repousar na incredulidade. Assim, quando negais a ressurreição e o juízo, o outro, por seu turno, dirá: Logo, tampouco terei eu de prestar contas dos meus feitos ousados.
4. Mas por que diz Cristo? Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus (Mt 22,29). Porque Deus não teria operado tantas coisas se tivesse a intenção não de nos ressuscitar, mas de nos dissolver e apagar em aniquilamento. Não teria estendido este céu, não teria alargado a terra por baixo, não teria feito todo o restante do universo apenas para esta breve vida. Ora, se todas estas coisas são para a vida presente, que não fará Ele para a que há de vir? Se, ao contrário, não houver vida futura alguma, somos, nesse aspecto, de muito menor conta do que as coisas que foram feitas por nossa causa. Pois tanto o céu quanto a terra, e o mar, e os rios, são mais duradouros do que nós; e até mesmo alguns dos irracionais, visto que o corvo, e a espécie dos elefantes, e muitas outras criaturas, gozam mais longamente da vida presente. A nós, ademais, a vida é breve e penosa, mas não a eles. A deles é longa, e mais livre de aflições e cuidados.
Que, pois? Dizei-me: fez Ele os escravos melhores que os senhores? Não, rogo-vos, não raciocineis assim, ó homem, nem sejais tão pobres de entendimento, nem ignorantes das riquezas de Deus, tendo tal Senhor. Pois desde o princípio Deus quis fazer-te imortal, mas tu não quiseste. Visto que também as coisas daquele tempo eram sombrios indícios da imortalidade: o convívio com Deus; a ausência de inquietação na vida; a isenção de aflição, e de cuidados, e de fadigas, e das demais coisas que pertencem a uma existência temporária. Pois Adão não tinha necessidade nem de vestimenta, nem de abrigo, nem de qualquer outra provisão desse gênero; antes, era semelhante aos Anjos; e muitas das coisas futuras conhecia de antemão, e estava repleto de grande sabedoria. Até o que Deus fez em segredo, ele o sabia, refiro-me com respeito à mulher: pelo que também disse: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne (Gn 2,23). O labor veio a existir depois: assim também o suor, assim a vergonha, e a covardia, e a falta de confiança. Mas naquele dia não havia aflição, nem dor, nem lamentação. Contudo, ele não permaneceu naquela dignidade.
Que, pois, dirá alguém, hei de fazer? Devo perecer por causa dele? Respondo, em primeiro lugar: não é por causa dele; pois tampouco tu permaneceste sem pecado: ainda que não seja o mesmo pecado, ao menos há algum outro que cometeste. E, ademais, não foste prejudicado pelo castigo dele, mas antes foste beneficiado. Pois, se houvesses de permanecer inteiramente mortal, porventura o que se diz teria alguma razão de ser. Mas agora és imortal, e, se quiseres, podes brilhar mais que o próprio sol.
5. Mas dirá alguém: se eu não tivesse recebido um corpo mortal, não teria pecado. Dize-me então: acaso ele tinha um corpo mortal quando pecou? Certamente que não; pois se fosse mortal antes, não teria sofrido a morte como castigo depois. E que um corpo mortal não é impedimento algum para a virtude, mas antes mantém os homens em ordem e é de grandíssima utilidade, torna-se evidente pelo que se segue. Se a mera expectativa da imortalidade já ensoberbeceu de tal modo Adão, a que cúmulo de arrogância não teria chegado se fosse de fato imortal? E, tal como as coisas são, depois de pecar podes desfazer-te de teus pecados, sendo o corpo abjeto, caduco e sujeito à dissolução; pois estes pensamentos bastam para tornar sóbrio o homem. Mas se tivesses pecado num corpo imortal, teus pecados seriam, ao que tudo indica, mais duradouros.
Não é, pois, a mortalidade a causa do pecado: não a acuseis; antes, a vontade perversa é a raiz de todo o mal. Pois por que não foi Abel em nada pior por causa de seu corpo? Por que não são os demônios em nada melhores por serem incorpóreos? Quereis ouvir por que o tornar-se mortal o corpo, longe de prejudicar, foi antes positivamente útil? Vede quanto ganhais com isso, se fordes sóbrios. Ele vos arrasta para trás e vos afasta da maldade, mediante aflições, dores, trabalhos e outras coisas semelhantes. Mas ele tenta os homens à impureza, dirás talvez. Não é o corpo, mas a incontinência, que faz isso. Pois todas essas coisas que mencionei certamente pertencem ao corpo: por isso é impossível que o homem que entrou nesta vida escape à doença, à dor e ao abatimento de espírito; mas que não cometa impureza, isso é possível. Assim se manifesta que, se as paixões do vício fizessem parte da natureza do corpo, seriam elas universais, visto que todas as coisas naturais o são; mas cometer fornicação não o é. A dor, na verdade, provém da natureza; mas cometer fornicação procede de propósito deliberado.
John Chrysostom disse: Não culpes, pois, o corpo; não permitas que o Diabo te subtraia a honra que Deus te concedeu. Pois, se o quisermos, o corpo é um excelente freio para conter os ímpetos desregrados da alma, para abater a soberba, para reprimir a arrogância, para servir-nos nas maiores conquistas da virtude. E não me venhas falar daqueles que perderam o juízo; pois vemos frequentemente cavalos que, tendo derrubado os seus cocheiros, precipitam-se com as rédeas soltas por sobre precipícios, e nem por isso culpamos as rédeas. Porque não foi o rompimento delas a causa de tudo, mas foi o cocheiro, por não as segurar, a ruína de tudo. Raciocina, pois, assim também neste caso. Se vês um jovem, vivendo em orfandade, praticando inúmeros males, não culpes o corpo, mas o cocheiro que se deixa arrastar — refiro-me à faculdade racional do homem. Pois, assim como as rédeas não causam nenhum incômodo ao cocheiro, sendo antes o cocheiro a causa de toda a desgraça, por não as segurar devidamente (e por isso mesmo elas frequentemente lhe exigem satisfação, enredando-se nele, arrastando-o e obrigando-o a partilhar da sua própria desventura), assim também é no caso presente. "Eu, dizem as rédeas, ensanguentei a boca do cavalo enquanto me seguraste; mas, desde que me lançaste fora, exijo satisfação pelo teu desprezo, e enredo-me em ti, e arrasto-te, para não sofrer de novo o mesmo tratamento." Que ninguém, pois, culpe as rédeas, mas sim a si mesmo e à sua própria mente corrompida. Pois há também sobre nós um cocheiro, a saber, a razão; e as rédeas são o corpo, que liga os cavalos ao cocheiro; se estas, pois, estiverem em bom estado, não sofrerás dano algum; mas, se as soltares, terás aniquilado e arruinado tudo. Sejamos, pois, temperantes, e lancemos toda a culpa não sobre o corpo, mas sobre a mente perversa. Pois esta é a obra própria do Diabo: fazer com que os homens insensatos acusem o corpo, e a Deus, e o próximo, em vez de acusarem a sua própria mente pervertida — para que, não descobrindo a causa, não se libertem da raiz dos males.
Mas vós, cientes do seu desígnio, dirigi contra ele a vossa ira; e, tendo posto o cocheiro sobre o carro, voltai o olhar da vossa mente para Deus. Pois, em todos os demais casos, aquele que institui os jogos nada contribui, apenas aguarda o desfecho. Mas neste caso, Ele é tudo em todos — Aquele que instituiu o combate, a saber, Deus. A Ele, pois, tornemos propício, e certamente obteremos os bens que nos estão reservados; pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem, com o Pai e o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora, doravante e para todo o sempre. Amém.
Tendo passado do fornicário ao cobiçoso, ele retorna deste àquele, não mais discorrendo doravante com ele, mas com os outros que não haviam cometido fornicação. E, no ato de resguardá-los para que não caiam nos mesmos pecados, ataca-o novamente. Pois aquele que cometeu o pecado, ainda que dirijas as palavras a outro, é picado até mesmo assim; estando a sua consciência inteiramente despertada e açoitando-o.
Ora, o temor do castigo, na verdade, bastava para mantê-los na castidade. Mas, vendo que ele não quer corrigir estas coisas apenas pelo temor, usa tanto ameaças quanto razões.
Ora, naquela outra ocasião, tendo exposto o pecado, prescrito o castigo, e apontado o dano que o convívio com o fornicário trazia a todos, ele deixou o assunto e passou ao tema da cobiça; e, tendo ameaçado o cobiçoso e todos os demais que mencionou com a expulsão do reino, assim concluiu o seu discurso. Mas aqui ele empreende a obra da admoestação de modo ainda mais terrível. Pois, assim como aquele que apenas castiga um pecado e nada faz para apontar a sua mais extrema iniquidade não produz tão grande efeito com o seu castigo, assim também aquele que somente envergonha e não consegue aterrorizar pelo seu modo de punir não atinge com muita agudeza os homens de mente endurecida. Por isso Paulo faz ambas as coisas: aqui ele envergonha, dizendo: Não sabeis que havemos de julgar os anjos? ali, novamente, ele aterroriza, dizendo: Não sabeis que os cobiçosos não herdarão o Reino de Deus?
E, quanto ao fornicário, ele novamente utiliza esta ordem de discurso. Pois, tendo-o aterrorizado com o que dissera antes — primeiramente excluindo-o e entregando-o a Satanás, e depois lembrando-lhe daquele dia que há de vir —, ele o envergonha de novo, dizendo: Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? falando doravante como a filhos de nobre estirpe. Pois, ao passo que dissera: Ora, o corpo é para o Senhor, agora o indica mais claramente. E também noutro lugar faz esta mesma coisa, dizendo: 1 Cor 12.27 Ora, vós sois o corpo de Cristo, e membros em particular. E a mesma figura ele emprega frequentemente, não com o mesmo propósito, mas ora para mostrar o Seu amor, ora para aumentar-lhes o temor. Mas aqui ele a empregou para sobressaltá-los e enchê-los de pavor. Tomarei, pois, os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? Que nunca aconteça. Nada pode ser mais apto a infundir horror do que esta expressão. Não disse ele: Tomarei os membros de Cristo e os unirei a uma meretriz? mas o quê? fazê-los membros de uma meretriz; o que certamente feriria mais agudamente.
Em seguida, ele demonstra como o fornicário se torna isto, dizendo assim: Não sabeis que aquele que se ajunta a uma meretriz é um só corpo? Como isto é evidente? Porque os dois, diz Ele, se tornarão um só.
Paulo busca envergonhar o fornicário, dizendo que, se ele realmente pertence a Cristo, deveria saber melhor do que entregar-se a tão aviltante comportamento. Ele fala em termos vívidos acerca da meretriz a fim de sobressaltar os seus ouvintes e enchê-los de pavor. Nada poderia ser mais apto a feri-los de horror do que esta expressão.
Pois a conjunção não permite que os dois sejam mais dois, mas os faz ambos um só.
2. Observai agora novamente como ele prossegue por meio dos termos nus, conduzindo a sua acusação nos nomes da meretriz e de Cristo.
Fugi da fornicação.
Não disse: abstende-vos da fornicação, mas Fugi: isto é, com todo o zelo procurai para vós mesmos a libertação desse mal. Todo pecado que o homem comete é fora do corpo; mas aquele que se prostitui peca contra o próprio corpo. Isto é menos do que o que precedeu; mas, como lhe era necessário falar dos fornicadores, ele amplifica essa culpa com argumentos tirados de toda parte, tanto das coisas maiores quanto das menores, tornando hediondo o delito. E, de fato, aquele argumento anterior era dirigido aos mais religiosos, mas este aos mais fracos. Pois isto também é próprio da sabedoria de Paulo: não somente alegar as coisas grandes com que envergonhar os homens, mas também as menores, e a consideração do que é vergonhoso e indecoroso.
Que dizeis, então? Acaso o homicida não mancha a sua mão? E o cobiçoso e o extorsionário? Suponho que isto seja evidente a todos. Mas, como não era possível mencionar algo pior que o fornicador, ele amplifica o crime de outra maneira, dizendo que, no fornicador, todo o corpo se torna maculado. Pois ele fica tão poluído como se tivesse caído num vaso de imundície e sido imerso na sujeira. E este é também o nosso costume. Pois, por causa da cobiça e da extorsão, ninguém se apressaria a ir ao banho, mas, como se nada tivesse acontecido, regressa à sua casa. Ao passo que, depois do trato com uma meretriz, como quem se tornou de todo impuro, vai ao banho. A tal ponto a consciência conserva, deste pecado, uma espécie de sentimento de vergonha extraordinária. Ambos, contudo, são maus, tanto a cobiça quanto a fornicação; e ambos lançam no inferno. Mas, assim como Paulo faz tudo com boa disposição, também com quaisquer argumentos que tivesse, engrandeceu o pecado da fornicação.
O que Paulo diz aqui aplica-se evidentemente, e igualmente bem, ao homicida, ao cobiçoso e ao extorsionário. Mas, como não era possível mencionar algo pior que a fornicação, Paulo engrandece o delito ao dizer que, no fornicador, todo o corpo é maculado. É um pecado contra si mesmo de um modo que os outros não são.
Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós? Não disse simplesmente do Espírito, mas que está em vós; o que era próprio de quem também consolava. E de novo, explicando-se ainda mais, acrescentou: que tendes de Deus. Mencionou também Aquele que o deu, tanto exaltando o ouvinte quanto o pondo em temor, seja pela grandeza do depósito, seja pela munificência daquele que o fez.
E não sois vossos. Isto não é apenas para envergonhar, mas até mesmo para forçar os homens à virtude. Pois por que, diz ele, fazes o que queres? Não és senhor de ti mesmo. Mas isto ele disse, não para tirar o livre-arbítrio. Pois assim como, ao dizer, Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm, ele não tira a nossa liberdade, também aqui, ao escrever, Não sois vossos, não faz nenhuma infração à liberdade de escolha, mas afasta do vício e indica o cuidado tutelar do Senhor. E por isso acrescentou: Porque fostes comprados por preço.
Mas se eu não sou meu, sobre que fundamento me exiges deveres a cumprir? E por que continuas a dizer novamente, Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais são de Deus? Que significa, pois, não sois vossos? E que pretende ele provar com isso? Estabelecê-los num estado de segurança contra o pecado, e contra o seguir os desejos impróprios da mente. Pois de fato temos muitos desejos impróprios: mas devemos reprimi-los, pois podemos. E se não pudéssemos, a exortação seria em vão. Observai, portanto, como ele assegura o seu fundamento. Pois, tendo dito, Não sois vossos, não acrescenta, Mas estais sob compulsão; mas, Fostes comprados por preço. Por que dizes isto? Certamente por outro fundamento, poderia alguém talvez dizer, deverias ter persuadido os homens, apontando que temos um Senhor. Mas isto é comum também aos gregos juntamente conosco: ao passo que a expressão, Fostes comprados por preço, pertence-nos de modo peculiar. Pois ele nos relembra a grandeza do benefício e o modo da nossa salvação, significando que, quando estávamos alienados, fomos comprados: e não simplesmente comprados, mas, por preço.
Glorificai, pois, tomai e carregai a Deus no vosso corpo e no vosso espírito. Ora, estas coisas ele diz, para que não apenas fujamos da fornicação no corpo, mas também no espírito de nossa mente nos abstenhamos de todo pensamento perverso, e de afugentar a graça.
Os quais são de Deus. Pois, tendo dito vosso, acrescentou por isso, os quais são de Deus: relembrando continuamente que todas as coisas pertencem ao Senhor, tanto o corpo quanto a alma e o espírito: Pois alguns dizem que as palavras no espírito significam o Dom gracioso; pois se Este está em nós, Deus é glorificado. E isto se dará, se tivermos um coração limpo.
Vede que Ele falou destas coisas como sendo de Deus, não apenas porque Ele as trouxe à existência, mas também porque, quando elas se alienaram, Ele as reconquistou uma segunda vez, pagando, como preço, o sangue do Filho. Observai como Ele levou o todo à consumação em Cristo, como Ele nos ergueu até o céu. Vós sois membros de Cristo, diz ele, vós sois templo do Espírito. Não vos torneis, pois, membros de uma meretriz: pois não é o vosso corpo que é insultado; visto que ele não é, de forma alguma, o vosso corpo, mas de Cristo. E disse ele estas coisas, tanto para manifestar Sua benignidade em que o nosso corpo é Seu, quanto para nos retirar de toda licenciosidade má. Pois se o corpo é de outro, não tendes autoridade, diz ele, para insultar o corpo de outro; e especialmente quando ele é do Senhor; nem tampouco para poluir um templo do Espírito. Pois se aquele que invade uma casa privada e nela se introduz para se entregar à devassidão deve responder por isso com a mais severa das penas, pensai que coisas terríveis há de padecer aquele que faz do templo do Rei covil de salteador.
Considerando, pois, estas coisas, reverencia Aquele que habita dentro de ti. Pois é o Paráclito. Estremece diante d'Aquele que te está enlaçado e a ti se apega; pois é Cristo. Fizeste, de fato, de ti mesmo membro de Cristo? Pensa assim, e permanece casto; de Quem eles eram membros, e de Quem se tornaram. Outrora eram membros de uma meretriz, e Cristo os fez membros de Seu próprio Corpo. Não tens, portanto, doravante nenhuma autoridade sobre eles. Serve Àquele que te libertou.
Pois supondo que tivesses uma filha, e, em extrema loucura, a tivesses entregado por aluguel a um proxeneta, e a fizesses viver a vida de uma meretriz, e então o filho de um rei viesse a passar, e a libertasse dessa escravidão, e a unisse a si mesmo em matrimônio; não terias, daí em diante, poder algum para trazê-la de volta ao lupanar. Pois tu a entregaste de uma vez por todas, e a vendeste. Tal como isto é também o nosso caso. Nós entregamos por aluguel a nossa própria carne ao Diabo, aquele funesto proxeneta: Cristo viu e a libertou, e a retirou daquela má tirania; não é, pois, mais nossa, mas d'Aquele que a libertou. Se estiveres disposto a usá-la como noiva de um Rei, não há quem to impeça; mas se a levares de volta para onde ela estava antes, sofrerás precisamente o que devem sofrer aqueles que são culpados de tais ultrajes. Por isso deverias antes adorná-la do que desonrá-la. Pois não tens autoridade sobre a carne nas concupiscências más, mas somente naquelas coisas que Deus possa ordenar. Deixa ao menos que o pensamento te ocorra de quão grande ultraje Deus a libertou. Pois, em verdade, jamais meretriz alguma se expôs tão vergonhosamente quanto a nossa natureza antes disto. Pois roubos, homicídios, e todo pensamento mau entravam e se deitavam com a alma, e por um pequeno e vil salário, o prazer presente. Pois a alma, estando misturada com todos os desígnios e atos maus, colhia esta recompensa e nenhuma outra.
Antes disso, porém, embora fosse mau ser assim, não era tão mau; mas depois do céu, depois dos átrios do Rei, depois de participar dos tremendos Mistérios, tornar a contaminar-se — que perdão terá isto? Ou não pensais vós que também os avarentos, e todos quantos antes enumerou, têm o Diabo por seu companheiro de leito? E não julgais que as mulheres que se enfeitam para a corrupção têm comércio com ele? Ora, quem contestará esta palavra? Mas, se alguém for contencioso, descubra a alma das mulheres que se comportam de modo tão indecoroso, e verá certamente o demônio perverso estreitamente enlaçado com elas. Porque é difícil, irmãos, é difícil, e talvez até impossível, que, estando o corpo assim enfeitado, se enfeite ao mesmo tempo a alma; antes, uma há de ser necessariamente descuidada enquanto a outra é tratada com esmero. Pois a natureza não permite que estas coisas se deem juntamente.
4. Por isso diz: Aquele que se ajunta à meretriz é um corpo; mas aquele que se ajunta ao Senhor é um espírito. Porque tal homem se torna, doravante, espírito, ainda que o corpo o envolva. Pois, não havendo nele nada de corpóreo, nem grosseiro, nem terreno, o corpo apenas o envolve; visto que todo o seu governo está na alma e no Espírito. Deste modo é Deus glorificado. Por isso, tanto na Oração nos é ordenado dizer: Santificado seja o Vosso Nome; quanto Cristo também diz: Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
Assim também os céus O glorificam, sem proferirem voz alguma, mas, pela contemplação de que são, atraindo admiração e reportando a glória ao Grande Artífice. Glorifiquemo-Lo, pois, também nós — ou antes, mais do que eles. Pois podemos, se quisermos. Porque nem tanto o céu, nem o dia, nem a noite glorificam a Deus quanto uma alma santa. Pois assim como aquele que contempla a beleza do céu diz: Glória a Vós, ó Deus! Quão formosa obra formastes! — assim também, ao contemplar a virtude em algum homem: e muito mais ainda neste segundo caso. Porque destas obras da criação nem todos glorificam a Deus; antes, muitos afirmam mesmo que as coisas que existem se movem por si mesmas; e outros atribuem a demônios a fatura do mundo e a providência; e estes, na verdade, erram grande e imperdoavelmente. Mas, quanto à virtude do homem, ninguém terá poder de sustentar tais opiniões desavergonhadas, antes há de certamente glorificar a Deus quando vir aquele que O serve vivendo no bem. Pois quem poderá deixar de se maravilhar quando um homem, partícipe de nossa comum natureza, e vivendo entre os demais homens, como o adamante, não cede em nada ao enxame das paixões? Quando, em meio ao fogo, e ao ferro, e às feras, é ainda mais duro que o adamante, e a todos vence por amor do Verbo da piedade? Quando é injuriado, e abençoa; quando é caluniado, e louva; quando é ultrajado, e ora por aqueles que o injuriam; quando é objeto de tramas, e faz o bem àqueles que contra ele combatem e lhe armam ciladas? Porque estas coisas, e outras semelhantes a estas, glorificarão a Deus muito mais do que o céu. Pois os gregos, quando contemplam os céus, não sentem temor algum; mas quando veem um homem santo exibindo um gênero de vida austero, com todo rigor, recolhem-se e a si mesmos se condenam. Visto que, quando aquele que participa da mesma natureza que eles é tão superior a eles — muito mais do que o céu é superior à terra —, ainda contra sua própria inclinação, pensam que é um poder divino o que opera estas coisas. Por isso diz Ele: E glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.
5. Queres também aprender, de outro lugar, como pela vida de Seus servos Deus é glorificado, e como pelos milagres? Nabucodonosor certa vez lançou os Três Jovens na fornalha. Então, quando viu que o fogo não prevalecera contra eles, disse — Dn 3,28 (Septuaginta, acrescentando ἐκ τῆς καμίνου) — Bendito seja Deus, que enviou o Seu Anjo e livrou os Seus servos da fornalha, porque confiaram Nele e mudaram a ordem do rei. Que dizes tu? Foste desprezado, e admiras aqueles que cuspiram sobre ti? Sim, diz ele, e precisamente por isto, porque fui desprezado. E do prodígio ele dá esta razão. De modo que não foi somente por causa do milagre que se deu glória a Deus naquele momento, mas também por causa do propósito daqueles que foram lançados na fornalha. Ora, se alguém examinasse este ponto e o outro, tais como são em si mesmos, isto se mostraria não menor do que aquele: pois persuadir almas a afrontar uma fornalha não é, quanto ao assombro, menor do que livrar de uma fornalha. Pois como poderia não ser espantoso que o Imperador do mundo, cercado de tantas armas, e legiões, e generais, e vice-reis, e cônsules, com a terra e o mar sujeitos ao seu domínio, fosse desprezado por crianças cativas; que os acorrentados vencessem o que os acorrentava, e triunfassem sobre todo aquele exército? Não havia no rei e em sua companhia poder algum para fazer o que quisessem, não, nem mesmo tendo as fornalhas por aliadas. Mas aqueles que eram nus, e escravos, e estrangeiros, e poucos (pois que número poderia ser mais desprezível do que três?), estando acorrentados, venceram um exército inumerável. Pois já então a morte era desprezada, uma vez que Cristo estava, doravante, prestes a peregrinar no mundo. E assim como, quando o sol está prestes a nascer, mesmo antes de aparecerem os seus raios a luz do dia já começa a clarear; assim também, quando então o Sol da Justiça estava para vir, a morte já começava a retirar-se. Que poderia ser mais esplêndido do que aquele teatro? Que mais conspícuo do que aquela vitória? Que mais assinalado do que aqueles seus novos troféus?
O mesmo se faz também em nosso tempo. Ainda agora há um rei da fornalha babilônica, ainda agora ele acende uma chama mais fera do que aquela. Há ainda agora uma tal imagem, e alguém que ordena que a admirem. A seu lado estão sátrapas e soldados e música enfeitiçadora. E muitos contemplam com admiração esta imagem, tão variada, tão grande. Pois algo da mesma espécie que aquela imagem é a cobiça, a qual não despreza nem sequer o ferro, e, por dessemelhantes que sejam os materiais de que é composta, ordena que se admire tudo, tanto o bronze quanto o ferro, e coisas ainda muito mais ordinárias do que eles.
Mas assim como estas coisas eram, assim também ainda agora há alguns que são êmulos daquelas crianças: os quais dizem, aos vossos deuses não servimos, e as vossas imagens não adoramos; mas suportamos tanto a fornalha da pobreza quanto toda outra angústia, por causa das leis de Deus. E os ricos, por sua parte, tal como aqueles de então, muitas vezes também adoram esta imagem e são queimados. Mas os que nada possuem, apesar mesmo disso, e ainda que na pobreza, estão mais no orvalho do que os que vivem na afluência. Assim como então os que lançavam ao fogo foram queimados; mas os que estavam no meio dele se encontravam como que em orvalho de chuva. Então também aquele tirano ficou mais queimado pela chama, sua ira o inflamando violentamente, do que aquelas crianças. Quanto a elas, o fogo não teve poder sequer de tocar as pontas de seus cabelos; mas mais ferozmente do que aquele fogo a ira lhe queimava a mente. Pois considerai que coisa era esta, que, com tantos a observar, ele fosse escarnecido por crianças cativas. E era sinal de que a tomada da cidade deles também não se dera por seu próprio poder, mas por causa do pecado da multidão que havia entre eles. Pois, se ele não teve poder para vencer estes homens acorrentados, e isto quando lançados numa fornalha, como poderia ter vencido os judeus em guerra regular, se todos eles fossem tais como estes? Donde é evidente que os pecados da multidão traíram a cidade.
6. Mas notai também a isenção de vanglória das crianças. Pois não saltaram para dentro da fornalha, mas guardaram de antemão o mandamento de Cristo, onde Ele diz: Orai para que não entreis em tentação (Mt 26.41). Nem tampouco recuaram quando foram levadas a ela; mas permaneceram no meio nobremente, nem contendendo sem convocação, nem tampouco, quando convocadas, mostrando covardia; mas prontas para tudo, e nobres, e cheias de toda ousadia de palavra.
Que Deus há no céu, poderoso para nos livrar (Dn 3,17): também ouçamos o que eles dizem, para que também disto aprendamos o seu ânimo sublime. Não tomam cuidado de si mesmos, mas, mesmo prestes a serem queimados, todo o seu pensamento é a glória de Deus. Pois o que dizem equivale a isto: para que porventura, se formos queimados, não venhais a acusar a Deus de fraqueza, agora vos declaramos com precisão toda a nossa doutrina. Há um Deus no céu, não como esta imagem aqui na terra, coisa inanimada e muda, mas capaz de arrebatar até do meio da fornalha de fogo ardente. Não o condeneis, pois, de fraqueza por permitir que caíssemos nela. Tão poderoso é Ele que, depois de nossa queda, é capaz de arrebatar-nos de novo do meio da chama. Mas, se não, sabei, ó rei, que não serviremos aos vossos deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que erguestes. Observai que eles, por uma dispensação especial, ignoram o futuro: pois, se o tivessem previsto, nada haveria de admirável em fazerem o que fizeram. Que maravilha seria, com efeito, se, tendo garantia de segurança, desafiassem todos os terrores? Então, na verdade, Deus seria glorificado por ter sido capaz de livrá-los da fornalha; mas eles não seriam admirados, visto que não teriam se lançado em perigo algum. Por esta causa Ele permitiu que ignorassem o futuro, para que os glorificasse ainda mais. E, assim como se acautelaram (ἠσφαλίξοντο) com o rei, para que este não condenasse a Deus de fraqueza ainda que eles fossem queimados, também Deus realizou ambos os propósitos: manifestar o Seu próprio poder e fazer aparecer mais conspícuo o zelo dos jovens.
De onde, pois, surgiu a sua dúvida e o não se sentirem inteiramente confiantes de que seriam preservados em todo caso? Porque se julgavam a si mesmos, sem dúvida, demasiado insignificantes e indignos de tal benefício. E, para provar que não digo isto por conjectura, quando caíram na fornalha, lamentaram-se desta maneira, dizendo (Dn 3,29-33): Pecamos, cometemos iniquidade, não podemos abrir a boca. E por isto disseram: Mas se não. Mas se não disseram isto claramente, a saber, Deus é capaz de nos livrar; mas, se não nos livrar, por causa do nosso pecado não nos livrará; não vos admireis disto. Pois teriam parecido aos bárbaros estar acobertando a fraqueza de Deus sob o pretexto dos seus próprios pecados. Por isso, só do Seu poder é que falam; a razão não a alegam. E, além disso, eram bem disciplinados para não serem demasiado curiosos acerca dos juízos de Deus.
Com estas palavras, então, entraram no fogo; e não lançaram insulto sobre o rei, nem derrubaram a estátua. Pois assim deve ser o homem corajoso: temperante e brando, e isso sobretudo nos perigos; a fim de que não pareça lançar-se a tais combates com ira e vanglória, mas com fortaleza e domínio de si. Pois quem procede com insolência incorre na suspeita destes vícios; mas aquele que suporta, e é forçado à luta, e atravessa a prova com mansidão, não só é admirado como valente, mas também o seu domínio de si e a sua ponderação fazem com que seja não menos exaltado. E foi isto que fizeram naquele momento, manifestando toda fortaleza e mansidão, e nada fazendo por recompensa, nem por paga ou retribuição. "Ainda que Ele não queira" — assim está escrito — "livrar-nos, não serviremos aos vossos deuses"; pois já temos a nossa recompensa em sermos julgados dignos de ser guardados de toda impiedade, e para isso entregar os nossos corpos para serem queimados.
Nós, pois, tendo já a nossa recompensa (pois de fato a temos, em havermos sido agraciados com o pleno conhecimento d'Ele, agraciados com sermos feitos membros de Cristo), tenhamos o cuidado de não os fazermos membros de uma meretriz. Pois com esta palavra mais tremenda devemos concluir o nosso discurso, para que, tendo o temor da ameaça em plena eficácia, permaneçamos mais puros que o ouro, ajudando-nos este temor a que assim sejamos. Pois assim poderemos, livres de toda fornicação, ver a Cristo. A quem Deus nos conceda a todos contemplar com ousadia naquele dia, pela graça e pela benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo; a quem seja a glória, para todo o sempre. Amém.
Que pretende Paulo provar quando diz que não somos de nós mesmos? Quer resguardar-nos do pecado e de seguir os desejos impróprios da mente. Temos muitos desejos impróprios, mas devemos contê-los, e podemos fazê-lo. Se não pudéssemos, não haveria sentido em exortar-nos deste modo. Paulo não diz que estamos sob compulsão, mas que fomos comprados — e comprados por grande preço, recordando-nos o modo pelo qual nossa salvação foi obtida.
Tendo corrigido as três coisas mais graves que lhes eram imputadas — uma, a dissensão da Igreja; outra, a do fornicador; a terceira, a do avarento —, passa a usar, doravante, um modo de falar mais brando. E intercala alguma exortação e conselho acerca do matrimônio e da virgindade, dando aos ouvintes algum descanso de assuntos mais desagradáveis. Mas na segunda Epístola faz o contrário: começa pelos tópicos mais brandos e termina pelos mais aflitivos. E também aqui, depois de concluído o discurso sobre a virgindade, lança-se novamente a matéria mais próxima da repreensão; não dispondo tudo em ordem regular, mas variando o discurso em um e outro gênero, conforme a ocasião exigia e a necessidade das coisas em questão o requeria.
Por isso diz: Ora, quanto às coisas sobre as quais me escrevestes. Pois lhe haviam escrito, perguntando se era lícito abster-se da própria mulher, ou não; e, respondendo por escrito a isto e dando regras acerca do matrimônio, introduz também o discurso sobre a virgindade: Bom é ao homem não tocar em mulher. Pois, diz ele, se perguntas qual é o caminho excelente e sobremaneira superior, é melhor não ter relação alguma com mulher; mas se perguntas o que é seguro e útil à tua própria fraqueza, une-te pelo matrimônio.
Mas, visto que era provável, como também sucede agora, que o marido estivesse disposto e a mulher não, ou talvez o contrário, observa como ele discute cada caso. Alguns, na verdade, dizem que este discurso foi por ele dirigido aos sacerdotes. Eu, porém, julgando pelo que se segue, não poderia afirmar que assim fosse: pois ele não teria dado seu conselho em termos gerais. Porque, se escrevesse estas coisas somente para os sacerdotes, teria dito: Bom é ao mestre não tocar em mulher. Mas agora ele o fez de aplicação universal, dizendo: Bom é ao homem — não somente ao sacerdote. E de novo: Estás livre de mulher? Não busques mulher. Não disse: Tu que és sacerdote e mestre, mas indefinidamente. E todo o seu discurso prossegue inteiramente no mesmo tom. E, ao dizer: Por causa das fornicações, tenha cada homem sua própria mulher, pela própria causa alegada para a concessão, conduz os homens à continência.
Alguns pensam que isto foi escrito principalmente para os sacerdotes, mas, a julgar pelo que se segue, isto não pode estar certo. Se ele tivesse em mente somente os sacerdotes, tê-lo-ia dito; mas, ao longo deste [capítulo], fala de pessoas em geral. Paulo permite o matrimônio como uma concessão, mas o próprio fato de que ele se destina a evitar a fornicação mostra que, na realidade, procura incentivar a virgindade.
Ora, qual é o sentido da devida honra? A mulher não tem poder sobre o próprio corpo; mas é ao mesmo tempo escrava e senhora do marido. E, se recusas o serviço que é devido, ofendeste a Deus. Mas, se desejas abster-te, isto deve ser com a permissão do marido, ainda que seja por breve tempo. Por isso é que ele chama a coisa de dívida, para mostrar que ninguém é senhor de si mesmo, mas que são servos um do outro.
Quando, pois, vires uma meretriz a tentar-te, dize: Meu corpo não é meu, mas de minha mulher. O mesmo diga também a mulher àqueles que quisessem minar sua castidade: Meu corpo não é meu, mas de meu marido.
Ora, se nem o marido nem a mulher têm poder sequer sobre o próprio corpo, muito menos o têm sobre seus bens. Ouvi, todos vós que tendes maridos e todos vós que tendes mulheres: que, se não deveis considerar vosso próprio corpo como vosso, muito menos vosso dinheiro.
Em outro lugar, concedo, Ele dá ao marido larga precedência, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo, dizendo (ἡ ἀποστροφή σου, LXX, Gênesis 3:16): O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. Paulo faz o mesmo, estabelecendo assim uma distinção, e escrevendo (Ef 5:25-33): Maridos, amai vossas mulheres; e que a mulher reverencie o seu marido. Mas aqui não ouvimos mais falar de maior e menor, senão que é um e o mesmo direito. Ora, por que é isto? Porque seu discurso versava sobre a castidade. Em todas as outras coisas, diz ele, tenha o marido a prerrogativa; mas não assim onde a questão é sobre a castidade. O marido não tem poder sobre o próprio corpo, nem tampouco a mulher. Há grande igualdade de honra, e nenhuma prerrogativa.
A esposa não tem poder sobre o próprio corpo, mas é ao mesmo tempo serva e senhora do marido. Se rejeitas isto, ofendeste a Deus. Mas se quiseres abster-te sexualmente, isso só deve ser com a permissão de teu marido, e ainda assim por pouco tempo. Em outras partes da Escritura, certas prerrogativas são concedidas ao marido no matrimônio, mas não aqui. No que tange à castidade, marido e mulher têm direitos iguais.
Grandes males nascem desse tipo de continência, quando levada ao excesso. Adultérios, fornicações e a ruína de famílias têm muitas vezes daí resultado. Se um homem casado comete fornicação, quanto mais o fará se sua esposa se lhe recusa? A menos que haja mútuo consentimento, a continência, nesse caso, é na verdade uma forma de furto.
1 Coríntios 7:5. Não vos priveis um ao outro, salvo por mútuo consentimento.
Que significa isto, pois? Não pratique a mulher a continência, diz ele, se o marido a isso for contrário; nem tampouco o marido, sem o consentimento da mulher. E por quê? Porque desta espécie de continência nascem grandes males. Pois adultérios e fornicações, e a ruína de famílias, muitas vezes daí têm nascido. Porque, se os homens, tendo suas próprias mulheres, cometem fornicação, muito mais o farão se os privardes desta consolação. E bem diz ele: Não vos priveis; privação aqui, e dívida acima, para mostrar o rigor do direito de domínio de que se trata. Pois que alguém pratique a continência contra a vontade do outro, isto é privá-lo; mas não assim, quando com o consentimento do outro: tanto quanto eu não me considero privado, se, depois de persuadido, me tirardes alguma coisa. Pois só priva aquele que toma contra a vontade do outro e à força. Coisa que muitas mulheres fazem, operando pecado e não justiça, e por isso se tornando responsáveis pela impureza do marido, e rasgando tudo em pedaços. Quando, ao contrário, deveriam estimar a concórdia acima de todas as coisas, pois esta é mais importante que tudo o mais.
Consideremo-lo, se vos aprouver, tendo em vista casos concretos. Suponhamos, pois, marido e mulher, e que a mulher pratique a continência sem o consentimento do marido; ora bem, se, em razão disso, ele vier a cometer fornicação, ou, ainda que se abstenha da fornicação, se irrite e se inquiete e se abrase e contenda e cause toda sorte de perturbação à mulher — onde está todo o proveito do jejum e da continência, uma vez feita a brecha no amor? Não há nenhum. Pois que estranhos opróbrios, quanta perturbação, quão grande guerra necessariamente há de surgir! Pois quando, numa casa, marido e mulher estão em discórdia, a casa não estará em melhor situação que um navio em tempestade, quando o piloto está em desavença com o timoneiro. Por isso diz ele: Não vos priveis um ao outro, salvo por consentimento, por um tempo, para vos dedicardes à oração. É de uma oração de fervor incomum que ele aqui fala. Pois, se está proibindo que os que têm relação conjugal orem, como poderia ter lugar o orar sem cessar? É possível, pois, viver com a mulher e ainda assim dedicar-se à oração. Mas pela continência a oração se faz mais perfeita. Pois não disse ele simplesmente: Para que oreis; mas: Para que vos dedicardes a ela; como se aquilo de que fala pudesse causar, não impureza, mas grande ocupação.
E depois vos ajunteis outra vez, para que Satanás não vos tente. Assim, para que não parecesse tratar-se de um preceito expressamente estabelecido, acrescenta ele a razão. E qual é ela? Para que Satanás não vos tente. E, para que entendais que não é somente o diabo quem causa este crime, refiro-me ao adultério, acrescenta ele: por causa da vossa incontinência.
Mas isto digo por permissão, não por mandamento. Pois eu quereria que todos os homens fossem como eu mesmo sou; em estado de continência. Isto ele faz em muitos lugares, quando aconselha sobre assuntos difíceis; propõe-se a si mesmo como exemplo, e diz: Sede meus imitadores.
Contudo, cada um tem de Deus o seu próprio dom, um deste modo, e outro daquele. Assim, depois de os haver acusado gravemente, dizendo, por vossa incontinência, ele novamente os consola com as palavras, cada um tem de Deus o seu próprio dom; não declarando que para essa virtude não haja necessidade de zelo da nossa parte, mas, como eu dizia antes, a fim de consolá-los. Pois, se fosse um dom, e o homem em nada contribuísse para ele, como diríeis vós, Mas 1 Coríntios 7:8 digo aos solteiros e às viúvas: bom lhes é se permanecerem como eu; 1 Coríntios 7:9 mas, se não podem conter-se, casem-se? Vedes o forte discernimento de Paulo, como ao mesmo tempo assinala que a continência é melhor, e contudo não força a pessoa que não pode alcançá-la, temendo que porventura surja algum escândalo?
Porque melhor é casar do que abrasar-se. Ele indica quão grande é a tirania da concupiscência. O que ele quer dizer é algo como isto: se tens de suportar grande violência e ardente desejo, retira-te das tuas dores e fadigas, para que não sejas porventura subvertido.
Paulo frequentemente se apresenta como exemplo quando trata de assuntos difíceis. Eis aqui mais um caso disso.
Paulo afirma que a continência é melhor, mas não tenta pressionar aqueles que não podem alcançá-la. Ele reconhece quão forte é o impulso da concupiscência e diz que, se este conduz a muita violência e ardente desejo, então é melhor pôr fim a isso do que ser corrompido pela imoralidade.
As opiniões de Paulo sobre este assunto não procedem dele mesmo, mas de Deus, que fala por meio dele.
4. Mas aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor.
Porque se trata de uma lei expressamente estabelecida por Cristo, a qual está prestes a ler-lhes, acerca de não repudiar a esposa senão por fornicação (Mt 5,32; 19,9; Mc 10,11; Lc 16,18); por isso diz: Não eu. Verdade é que o que antes fora dito, ainda que não expressamente declarado, também é decreto d'Ele. Mas isto, como se vê, Ele o havia entregado em palavras expressas. De modo que as expressões eu e não eu têm esta diferença de sentido. Pois para que não imaginásseis que até mesmo suas próprias palavras eram humanas, acrescentou: Pois penso que eu também tenho o Espírito de Deus.
Ora, o que é que o Senhor ordenou aos casados? Que a esposa não se aparte do marido (1 Cor 7,11); mas se se apartar, que permaneça sem se casar, ou se reconcilie com o marido. Aqui, visto que tanto por motivo de continência quanto por outros pretextos, e por causa das fraquezas de temperamento (μικροψυχίας), sucedia que se davam separações: melhor seria, diz ele, que tais coisas de todo não ocorressem; mas se, todavia, ocorrerem, que a esposa permaneça com o marido, se não para coabitar com ele, ao menos de modo a não introduzir outro para ser seu marido.
As separações devem ser evitadas ao máximo possível, mas, se não o forem, a esposa não deve tomar outro marido.
Como, ao discorrer sobre a separação dos que se prostituem, ele tornou fácil a questão pela correção que aplicou às suas palavras, dizendo: Não totalmente, porém, com os que se prostituem deste mundo; assim também neste caso ele provê a abundante facilidade do dever, dizendo: Se alguma mulher tem marido descrente, ou marido tem mulher descrente, não a deixe. Que dizes? Se ele for descrente, que permaneça com a mulher, mas não se for fornicário? E, no entanto, a fornicação é pecado menor que a descrença. Concedo, a fornicação é pecado menor: mas Deus poupa extremamente as vossas fraquezas. E é isto que Ele faz a respeito do sacrifício, dizendo: Deixa o sacrifício, e reconcilia-te com teu irmão (Mt 5,24). Isto também no caso do homem que devia dez mil talentos. Pois também a este não o castigou por dever-lhe dez mil talentos, mas por exigir de volta cem denários de seu conservo é que tomou vingança dele.
Depois, para que a mulher não temesse, como se se tornasse impura por causa do trato com o marido, diz: Pois o marido descrente é santificado na mulher, e a mulher descrente é santificada no marido. E, no entanto, se aquele que se une a uma meretriz é um só corpo, é bem claro que também a mulher que se une a um idólatra é um só corpo. Bem: é um só corpo; contudo ela não se torna impura, mas a pureza da esposa vence a impureza do marido; e, novamente, a pureza do marido crente vence a impureza da esposa descrente.
Como, pois, neste caso a impureza é vencida, e por isso o trato conjugal é permitido; ao passo que, na mulher que se prostitui, o marido não é condenado por expulsá-la? Porque aqui há esperança de que o membro perdido seja salvo por meio do matrimônio; mas naquele outro caso o matrimônio já foi dissolvido; e ali, novamente, ambos estão corrompidos; mas aqui a falta está apenas em um dos dois. Quero dizer algo como isto: a que se tornou culpada de fornicação é totalmente abominável: se, pois, aquele que se une a uma meretriz é um só corpo, ele também se torna abominável por ter trato com uma meretriz; por onde toda a pureza se dissipa. Mas, no caso que temos diante de nós, não é assim. Mas como? O idólatra é impuro, mas a mulher não é impura. Pois se ela fosse, de fato, partícipe naquilo em que ele é impuro, refiro-me à sua impiedade, ela mesma se tornaria também impura. Mas agora o idólatra é impuro de um modo, e a esposa mantém com ele comunhão de outro modo, no qual ele não é impuro. Pois o matrimônio e a mistura dos corpos é aquilo em que consiste a comunhão.
Novamente, há esperança de que este homem seja reconquistado por sua esposa, pois ela lhe pertence completamente: mas para com o outro caso não é isso muito fácil. Pois como poderá aquela que o desonrou em tempos passados, e se tornou de outro, e destruiu os direitos do matrimônio, ter poder para reconquistar aquele a quem ofendeu; a ele, ademais, que ainda lhe permanece como um estranho?
Novamente, naquele caso, depois da fornicação o marido não é marido: mas aqui, ainda que a esposa seja idólatra, os direitos do marido não são destruídos.
Ele não recomenda simplesmente a coabitação com o incrédulo, mas com a ressalva de que este o queira. Por isso disse: E ele mesmo consinta em habitar com ela. Pois, dize-me, que mal há quando os deveres da piedade permanecem inatacados e há boas esperanças acerca do incrédulo, em que os já unidos assim permaneçam e não introduzam ocasiões de guerra desnecessária? Pois a questão agora não é acerca dos que ainda não se uniram, mas dos que já estão unidos. Não disse: Se alguém quiser tomar mulher incrédula, mas: Se alguém tem mulher incrédula. O que significa: Se, depois de casados ou de haverem contraído núpcias, algum dos cônjuges recebeu a palavra da piedade, e então a outra parte, que permaneceu na incredulidade, ainda deseja habitar com ele, que o matrimônio não se desfaça. Pois, diz ele, o marido incrédulo é santificado na mulher. Tão grande é a superabundância de vossa pureza.
Que, pois, o grego é santo? Certamente não; pois não disse: Ele é santo; mas: Ele é santificado em sua mulher. E isto disse não para significar que ele é santo, mas para livrar a mulher tão completamente quanto possível de seu temor, e conduzir o homem a desejar a verdade. Pois a imundície não está nos corpos em que há comunhão, mas na mente e nos pensamentos. E aqui segue a prova: a saber, que se vós, permanecendo imunda, tiverdes prole, o filho, não sendo de vós somente, é decerto imundo ou meio limpo. Mas agora não é imundo. A este propósito acrescenta: do contrário, vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos; isto é, não imundos. Mas o Apóstolo os chama santos pela intensidade da expressão, lançando de novo fora o pavor que nasce daquela espécie de suspeita.
Se aquele que se une a uma meretriz torna-se um só corpo com ela, claro está que a mulher que se une a um idólatra torna-se um só corpo com ele. Isto é verdadeiro; mas, neste caso, ela não se torna impura por causa disso. Pelo contrário, a sua pureza vence a impureza do marido, assim como a pureza do marido crente vence a impureza da esposa incrédula. Como pode ser isto, se o marido não é condenado por repudiar a esposa que se prostituiu? A razão é que, neste caso, há esperança de que o membro perdido seja salvo por meio do matrimônio, ao passo que, naquele outro, o matrimônio já se dissolvera pela fornicação. Um homem incrédulo pode ser reconquistado pela esposa crente, se esta lhe permanecer fiel. Mas, para a meretriz, as coisas não são tão fáceis, pois como poderia ela reconquistar aquele a quem ofendeu? O mesmo se dá com o marido crente que tem esposa incrédula.
Se um descrente deseja que sua consorte se junte a ele em sacrificar aos ídolos, é melhor que o matrimônio seja dissolvido, para que não haja ruptura na piedade.
Mas se o descrente se aparta, que se aparte, pois neste caso a questão já não é fornicação. Mas qual é o sentido de: se o descrente se aparta? Por exemplo: se ele te ordenar que sacrifiques e participes de sua impiedade em razão do matrimônio, ou então que te separes, seria melhor que o matrimônio fosse dissolvido, e que não se fizesse ruptura na piedade. Por isso acrescenta: Nem o irmão, nem tampouco a irmã, estão sujeitos à servidão em tais casos. Se dia após dia ele te afligir e mantiver combates por essa causa, é melhor separar-se. Pois é a isto que ele alude, dizendo: Mas Deus nos chamou em paz. Porque foi a outra parte que forneceu o motivo da separação, tal como aquele que cometeu a impureza.
Pois como sabes tu, ó mulher, se hás de salvar teu marido? Isto se refere novamente àquela expressão: que ela não o abandone. Isto é, se ele não provoca nenhuma perturbação, permanece, diz ele, pois há até proveito nisso; permanece, aconselha, dá conselho e persuade. Pois nenhum mestre terá tanto poder para persuadir quanto uma esposa. E ele não lhe impõe, por um lado, nenhuma necessidade, nem exige absolutamente dela esse ponto, para que ela não venha a fazer de novo o que seria demasiado doloroso; nem, por outro lado, lhe diz que desespere: mas deixa a questão em suspenso pela incerteza do futuro, dizendo: Pois como sabes tu, ó mulher, se hás de salvar teu marido? Ou como sabes tu, ó marido, se hás de salvar tua mulher?
5. E ainda: Somente ande cada um conforme Deus lhe repartiu, cada um como o Senhor o chamou. Foi alguém chamado estando circuncidado? Não se torne incircunciso. Foi alguém chamado na incircuncisão? Não se circuncide. A circuncisão nada é, e a incircuncisão nada é; mas sim a guarda dos mandamentos de Deus. Permaneça cada um na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes com isso. Estas coisas, diz ele, em nada contribuem para a fé. Não sejas, pois, contencioso nem te perturbes; pois a fé baniu todas essas coisas.
Permaneça cada um na vocação em que foi chamado. Foste chamado tendo esposa descrente? Continua a tê-la. Não expulses tua esposa por causa da fé. Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes com isso. Continua a ser escravo. Foste chamado estando na incircuncisão? Permanece incircunciso. Sendo circuncidado, te tornaste crente? Continua circuncidado. Pois este é o sentido de: Conforme Deus repartiu a cada um. Porque estas coisas não são obstáculos à piedade. Tu és chamado sendo escravo; outro, com esposa descrente; outro, sendo circuncidado.
Coisa admirável! Onde ele colocou a escravidão? Assim como a circuncisão não aproveita, e a incircuncisão não prejudica, tampouco prejudica a escravidão, nem a liberdade. E, para assinalar isto com clareza incomparável, diz: Mas ainda que possas tornar-te livre, antes usa disso: isto é, antes permanece escravo. Ora, com que fundamento possível ele diz àquele que poderia ser libertado que permaneça escravo? Ele pretende mostrar que a escravidão não é dano algum, mas antes vantagem.
Ora, não ignoramos que alguns dizem que as palavras usa disso antes se referem à liberdade, interpretando-as assim: se podes tornar-te livre, torna-te livre. Mas a expressão seria muito contrária ao modo de Paulo, se ele assim o pretendesse. Pois ele não teria, ao consolar o escravo e significar que este não era em nada prejudicado, dito a ele que se libertasse. Uma vez que talvez alguém dissesse: E então, se eu não puder? Sou um homem prejudicado e degradado. Não é isto, pois, o que ele diz: mas, como disse, pretendendo assinalar que o homem nada ganha ao ser feito livre, diz: Ainda que tenhas em teu poder tornar-te livre, permanece antes na escravidão.
Em seguida acrescenta também a causa: Pois aquele que foi chamado no Senhor sendo servo é liberto do Senhor; do mesmo modo, aquele que foi chamado sendo livre é servo de Cristo. Pois, diz ele, nas coisas que dizem respeito a Cristo, ambos são iguais: e assim como tu és escravo de Cristo, também o é teu senhor. Como, pois, é o escravo um homem livre? Porque Ele te libertou não somente do pecado, mas também da escravidão exterior, ainda que permaneças escravo. Pois Ele não permite que o escravo seja escravo, ainda que seja um homem que permanece na escravidão: e esta é a grande maravilha.
Mas como é o escravo um homem livre, permanecendo escravo? Quando está livre das paixões e das enfermidades da mente: quando olha com desdém para as riquezas, e a ira, e todas as demais paixões semelhantes.
Um escravo é livre porque foi libertado das paixões e das enfermidades da mente. A liberdade legal é, em comparação, de somenos importância.
Homens livres podem escravizar-se a si mesmos ao consentirem em servir a outros por gula, avareza ou desejo de poder. Tal homem pode ser, tecnicamente, livre; mas, na realidade, é mais escravo do que qualquer outro.
Foste comprado por preço: não vos torneis servos de homens. Este dito não se dirige apenas aos escravos, mas também aos livres. Pois é possível que aquele que é escravo não seja escravo; e que aquele que é livre seja escravo. E como pode alguém ser escravo e não escravo? Quando faz tudo para Deus: quando nada finge, e nada faz por servilismo ostensivo para com os homens: assim é que aquele que é escravo dos homens pode ser livre. Ou, ainda, como se torna escravo aquele que é livre? Quando serve os homens em algum serviço mau, seja por gula, seja por desejo de riqueza, seja por amor de cargos. Pois este, ainda que seja livre, é mais escravo do que qualquer homem.
Considerai ambos os pontos. José era escravo, mas não escravo dos homens; por isso, mesmo na escravidão, era mais livre do que todos os livres. Com efeito, não cedeu à sua senhora; não cedeu aos desígnios que aquela que o possuía desejava. Ela, por sua vez, era livre; contudo, ninguém jamais se assemelhou tanto a um escravo quanto ela, cortejando e suplicando ao seu próprio servo. Mas não logrou persuadir aquele que era livre a fazer o que não queria. Isto, pois, não era escravidão, mas liberdade da espécie mais elevada. Pois que impedimento à virtude tinha ele por causa de sua escravidão? Ouçam os homens, tanto escravos quanto livres. Qual era o escravo? Aquele que era suplicado, ou aquela que suplicava? Aquela que rogava, ou aquele que desprezou sua súplica?
De fato, há limites postos aos escravos por Deus mesmo; e até que ponto se deve observá-los também foi determinado, sendo errado transgredi-los. A saber, quando o vosso senhor não ordena nada que desagrade a Deus, é justo segui-lo e obedecer-lhe; mas não além disso. Pois assim o escravo se torna livre. Mas, se fores além, ainda que sejas livre, te tornaste escravo. Ao menos é isto que ele dá a entender, dizendo: Não vos torneis servos de homens.
Mas, se não é este o sentido — se ele ordenava que abandonassem seus senhores e se esforçassem contenciosamente por tornar-se livres —, em que sentido os exortava, dizendo: Permaneça cada um na vocação em que foi chamado? E, em outro lugar, Quantos servos estão sob o jugo, tenham seus próprios senhores por dignos de toda honra; e os que têm senhores crentes, não os desprezem, porque são irmãos que participam do benefício. E, escrevendo também aos Efésios e aos Colossenses, ele ordena e exige as mesmas regras. Donde é evidente que não é esta a escravidão que ele anula, mas aquela que, causada pelo vício, recai também sobre os homens livres: e esta é a pior espécie de escravidão, ainda que seja livre aquele que a ela está sujeito. Pois que proveito tiveram os irmãos de José de sua liberdade? Não eram eles mais servis do que todos os escravos, tanto ao dizer mentiras a seu pai, quanto ao usar de falsos pretextos com os mercadores, bem como com seu irmão? Mas não era assim o homem livre; antes, em toda parte e em todas as coisas, era verdadeiro. E nada tinha poder para escravizá-lo, nem cadeia, nem cativeiro, nem o amor de sua senhora, nem o estar em terra estranha. Mas permaneceu livre em toda parte. Pois esta é a liberdade no sentido mais verdadeiro, quando, mesmo no cativeiro, resplandece.
Sob tal servidão, semelhante coisa é o Cristianismo; na escravidão ele confere a liberdade. E assim como aquele corpo que por natureza é invulnerável então se manifesta invulnerável quando, tendo recebido um dardo, não padece dano algum; assim também aquele que é verdadeiramente livre então se manifesta, quando, mesmo sob senhores, não é escravizado. Por esta causa, o preceito é: permanece escravo. Mas se fosse impossível a um escravo ser Cristão tal como deve ser, os gregos condenariam a verdadeira religião de grande fraqueza; ao passo que, se puderem ser ensinados que a escravidão em nada prejudica a piedade, admirarão a nossa doutrina. Pois se a morte não nos fere, nem os açoites, nem as cadeias, muito menos a escravidão. O fogo, o ferro e inúmeras tiranias, e as doenças e a pobreza e as feras e incontáveis coisas mais terríveis que estas, não puderam ferir os fiéis; antes, os tornaram ainda mais fortes. E como poderá a escravidão feri-los? Não é a escravidão em si, amados, que fere; mas a verdadeira escravidão é a do pecado. E se não fores escravo neste sentido, sê ousado e alegra-te. Ninguém terá poder para te fazer qualquer mal, tendo tu o temperamento que não pode ser escravizado. Mas se fores escravo do pecado, ainda que sejas dez mil vezes livre, nenhum proveito tens de tua liberdade.
Pois dize-me: que proveito há quando, embora não estejas sob o jugo de um homem, te deitas em sujeição às tuas paixões? Pois os homens, na verdade, sabem muitas vezes ter compaixão; mas aqueles senhores jamais se saciam de tua destruição. Estás sob o jugo de um homem? Ora, teu senhor também é escravo teu, ao providenciar teu alimento, ao cuidar de tua saúde e ao zelar por teu calçado e todas as demais coisas. E tu não temes tanto ofender a teu senhor, quanto ele teme que te falte alguma dessas necessidades. Mas ele se assenta, enquanto tu permaneces de pé. E que importa isso? Pois isto pode dizer-se tanto de ti quanto dele. Muitas vezes, ao menos, quando tu jazes dormindo docemente, ele não apenas está de pé, mas suporta intermináveis desconfortos na praça; e ele vela mais penosamente do que tu.
Por exemplo: que sofreu José de sua senhora, que se possa comparar ao que ela sofreu de seu mau desejo? Pois ele, na verdade, não fez as coisas que ela queria impor-lhe; mas ela cumpriu tudo quanto sua senhora lhe ordenava — refiro-me ao seu espírito de impureza — o qual não cessou até havê-la posto em aberta vergonha. Que senhor ordena tais coisas? Que tirano selvagem? Suplica a teu escravo — eis a palavra; adula a pessoa comprada com teu dinheiro; implora ao cativo; ainda que ele te rejeite com repugnância, ataca-o de novo; ainda que lhe fales muitas vezes, e ele não consinta, espreita quando estiver a sós, e força-o, e torna-te objeto de escárnio. Que pode haver mais desonroso, que mais vergonhoso do que estas palavras? E se nem mesmo por estes meios progrides, pois bem, acusa-o falsamente e engana teu marido. Observa quão vis, quão vergonhosas são as ordens, quão impiedosas e selvagens e frenéticas. Que ordem dá jamais o senhor a seu escravo, semelhante àquelas que a lascívia dela então impôs àquela mulher régia? E, contudo, ela não ousa desobedecer. Mas José nada padeceu de semelhante, senão tudo ao contrário, o que lhe trouxe glória e honra.
Quereis ver ainda outro homem sob ordens severas de uma senhora cruel, sem ânimo para desobedecer a qualquer delas? Considerai Caim, e que mandamentos lhe impôs a sua inveja. Ela lhe ordenou que matasse o irmão, que mentisse a Deus, que afligisse o pai, que rejeitasse a vergonha; e ele fez tudo isso, e em nada se recusou a obedecer. E por que admirar-se de que sobre uma só pessoa seja tão grande o poder desta senhora? Ela tem destruído, muitas vezes, nações inteiras. Por exemplo, as mulheres midianitas tomaram os judeus, e quase os reduziram ao cativeiro; a própria formosura delas, acendendo o desejo, foi o meio pelo qual venceram toda aquela nação. Paulo, pois, para expulsar esta espécie de escravidão, disse: Não vos façais servos dos homens; isto é, não obedeçais aos homens que ordenam coisas irracionais: nem tampouco obedeçais a vós mesmos. Tendo, pois, erguido o ânimo deles e feito-o subir às alturas
7. Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; mas dou o meu parecer, como quem alcançou misericórdia do Senhor para ser fiel.
Prosseguindo o seu caminho em ordem regular, passa ele, em seguida, a tratar da virgindade. Pois, depois de os haver exercitado e instruído em suas palavras sobre a continência, avança para algo maior, dizendo: não tenho mandamento, mas julgo ser bom. Por que razão? Pela mesma razão que havia mencionado a respeito da continência.
Estás ligado à mulher? Não busques separar-te. Estás livre de mulher? Não busques mulher.
Estas palavras não trazem contradição alguma ao que fora dito antes, mas antes a mais completa concordância com elas. Pois também ali diz ele: A não ser por consentimento; assim como aqui diz: Estás ligado à mulher? Não busques a separação. Não há aqui contradição. Pois é o ser contra o consentimento que constitui a dissolução; mas se, de comum acordo, ambos vivem em continência, não há dissolução.
Então, para que isto não parecesse estar a estabelecer uma lei, acrescenta: "mas, se te casares, não pecaste" (1 Cor 7,28). Alega ele em seguida o estado presente das coisas, a angústia atual, a brevidade do tempo e a aflição. Pois o matrimônio traz consigo muitas coisas, às quais aliás já aludira, tanto aqui como também no discurso sobre a continência: ali, dizendo que a mulher não tem poder sobre o próprio corpo; e aqui, com a expressão: Estás ligado.
Mas, se te casares, não pecaste. Não está ele a falar daquela que escolheu a virgindade, pois, se a isso se chegasse, teria ela pecado. Porquanto, se as viúvas são condenadas por terem relação com segundas núpcias depois de terem uma vez escolhido a viuvez, muito mais o serão as virgens.
Mas os tais terão tribulação na carne. E prazer também, dirás tu; mas observa como ele diminui isto pela brevidade do tempo, dizendo: "o tempo se abrevia" (1 Cor 7,28); isto é, somos exortados a partir agora e a sair, mas tu corres ainda mais para dentro. E, no entanto, ainda que o matrimônio não tivesse tribulações, mesmo assim deveríamos avançar em direção às coisas que hão de vir. Mas, quando há também aflição, que necessidade há de atrair sobre si um fardo adicional? Que ocasião há de tomar tal carga, quando, mesmo depois de a tomar, deves usá-la como se não a tivesses? Pois até os que têm mulheres devem ser, diz ele, como se não as tivessem.
Depois, tendo interposto algo acerca do futuro, traz de volta o seu discurso ao presente. Pois alguns dos seus tópicos são espirituais; como aquele: uma cuida das coisas que são do seu marido, a outra das que são de Deus. Outros dizem respeito à vida presente; como: Eu quisera que estivésseis livres de cuidados. Mas, com tudo isto, deixa-o ele à própria escolha delas; porquanto aquele que, depois de provar o que é melhor, recorre à compulsão, parece como que não confiar nas suas próprias afirmações. Por isso, antes as atrai por concessão, e as contém do seguinte modo:
Não está Paulo a falar da mulher que escolheu a virgindade, pois, se tal mulher decide casar-se, pecou de fato. Se as viúvas são condenadas por contraírem segundas núpcias, quanto mais isto é verdade daquelas que foram chamadas a permanecer virgens.
Paulo defende a causa da castidade, mas, ao final, remete-a à livre escolha de cada um. Se, depois de tudo isso, recorresse à compulsão, pareceria não crer verdadeiramente em suas próprias palavras.
E isto digo para proveito vosso, não para lançar sobre vós um laço, mas por aquilo que é decoroso, e para que sirvais ao Senhor sem distração. Ouçam as virgens que não é por aquele único ponto que se define a virgindade; pois aquela que se preocupa com as coisas do mundo não pode ser virgem, nem decorosa. Assim, quando disse: Há diferença entre a esposa e a virgem, acrescentou isto como a diferença, e aquilo em que se distinguem uma da outra. E, estabelecendo a definição da virgem e da que não é virgem, nomeia, não o matrimônio nem a continência, mas o ócio das ocupações e a multiplicidade das ocupações. Pois o mal não está na coabitação, mas no impedimento ao rigor de vida.
Mas se alguém julga que se porta de modo indecoroso para com sua virgem.
Aqui parece falar do matrimônio; mas tudo quanto diz refere-se à virgindade; pois permite até mesmo um segundo matrimônio, dizendo: somente no Senhor. Ora, que significa, no Senhor? Com castidade, com honra: pois isto se requer em toda parte, e deve ser buscado, pois de outro modo não podemos ver a Deus.
Ora, se passamos de leve pelo que ele diz sobre a virgindade, que ninguém nos acuse de negligência; pois, com efeito, um livro inteiro foi por nós composto sobre este tema, e como ali já percorremos, com toda a exatidão que nos foi possível, cada ramo do assunto, consideramos ser desperdício de palavras introduzi-lo novamente aqui. Pelo que, remetendo o ouvinte àquela obra no que a isto concerne, diremos aqui apenas isto: Devemos seguir a continência. Pois, diz ele, segui a paz, e a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor. Portanto, para que sejamos julgados dignos de vê-lO, seja na virgindade, seja no primeiro matrimônio ou no segundo, sigamos isto, para que alcancemos o Reino dos céus, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo; ao Qual, com o Pai e o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora, doravante e pelos séculos eternos. Amém.
O mal não está na coabitação, mas no impedimento à pureza de vida.
Paulo repreende os que julgam ser mais sábios que os demais, dizendo que todos possuem ciência — os que a si mesmos se proclamam sábios nada têm de singular a esse respeito. Se alguém tem ciência, mas carece de amor, não somente nada mais ganhará, como também será derrubado daquilo que já possui. A ciência não é produtora do amor; antes, impede o incauto de alcançá-lo, inchando-o e exaltando-o. A arrogância causa divisões, mas o amor congrega as pessoas e conduz ao verdadeiro conhecimento.
Ora é necessário dizer primeiro qual é o sentido desta passagem: pois assim compreenderemos com facilidade o discurso do Apóstolo. Porquanto aquele que vê levantar-se uma acusação contra alguém, se antes não perceber a natureza da ofensa, não entenderá o que se diz. Que era, pois, aquilo de que ele então acusava os coríntios? Uma acusação grave, e causa de muitos males. Pois bem, qual era ela? Muitos entre eles, tendo aprendido que Mateus 15:11 não são as coisas que entram que contaminam o homem, mas as que dele saem, e que os ídolos de madeira e de pedra, e os demônios, não têm poder para prejudicar nem para ajudar, tinham feito uso desmedido deste seu conhecimento perfeito, em dano tanto de outros quanto de si mesmos. Pois entravam onde havia ídolos, e participavam das mesas ali servidas, e com isso produziam um mal grande e ruinoso. De um lado, aqueles que ainda conservavam o temor dos ídolos e não sabiam desprezá-los, tomavam parte naquelas refeições, porque viam os mais perfeitos fazê-lo; e daí lhes advinha o maior prejuízo, pois não tocavam o que lhes era posto diante com o mesmo ânimo que os outros, mas como coisas oferecidas em sacrifício aos ídolos; e a coisa se tornava um caminho para a idolatria. De outro lado, os mesmos que pretendiam ser mais perfeitos eram prejudicados de modo não pequeno, participando das mesas dos demônios.
Esta era, pois, a matéria da queixa. Ora, este bem-aventurado varão, estando prestes a corrigi-la, não começou logo a falar com veemência; pois aquilo que se fazia procedia mais da insensatez do que da malícia: por isso, à primeira vista, havia necessidade antes de exortação do que de repreensão severa e ira. Observai aqui a sua boa prudência, como começa logo por admoestar.
Ora, quanto às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos conhecimento. Deixando de lado os fracos, como sempre faz, discorre primeiro com os fortes. E foi isto o que fez também na Epístola aos Romanos, dizendo, Romanos 14:10 Mas tu, por que julgas o teu irmão? pois este é o tipo de pessoa capaz de receber também a repreensão com prontidão. Exatamente o mesmo faz, pois, também aqui.
E, em primeiro lugar, ele desfaz a presunção deles, declarando que isto mesmo que consideravam como próprio seu, a saber, o possuir conhecimento perfeito, era comum a todos. Assim, diz ele, sabemos que todos nós temos conhecimento. Pois, se lhes concedendo terem pensamentos elevados, houvesse primeiro mostrado quão nocivo era isto para os outros, não lhes teria feito tanto bem quanto mal. Porque a alma ambiciosa, quando se ufana de alguma coisa, ainda que essa mesma coisa prejudique os outros, apega-se fortemente a ela por causa da tirania da vanglória. Por isso Paulo examina primeiro a própria questão em si mesma, tal como já havia feito no caso da sabedoria de fora, demolindo-a com mão firme. Naquele caso, porém, procedeu como se poderia esperar, pois toda a questão era inteiramente censurável, e sua tarefa era muito fácil. Por isso ele a declara não apenas inútil, mas até contrária ao Evangelho. Mas no caso presente não era possível fazer isto. Pois o que se tinha era conhecimento, e conhecimento perfeito. Nem era seguro derrubá-lo, e contudo de nenhum outro modo era possível expulsar a presunção que dele resultava. Que faz ele, então? Primeiro, ao mostrar que era coisa comum, refreia aquele inchado orgulho deles. Pois os que possuem algo grande e excelente exaltam-se mais quando o possuem sozinhos; mas, se se demonstra que o possuem em comum com outros, já não têm tanto desse sentimento. Primeiro, pois, ele o torna propriedade comum, porque eles o consideravam pertencer somente a si mesmos.
Em seguida, tendo-o tornado comum, ele não se faz partícipe dele sozinho, juntamente com eles; pois desta maneira também os teria antes exaltado, pois, assim como ser o único possuidor exalta, também ter um ou dois companheiros, talvez entre pessoas principais, produz este mesmo efeito. Por esta razão ele não menciona a si mesmo, mas a todos: não disse "eu também tenho conhecimento", mas "sabemos que todos nós temos conhecimento".
2. Este é, pois, um modo, e o primeiro, pelo qual ele derrubou o orgulho deles; o seguinte tem maior força. Qual é, então? É que ele mostra que nem mesmo esta coisa em si era completa em todos os pontos, mas imperfeita, e extremamente imperfeita. E não apenas imperfeita, mas também prejudicial, a menos que outra coisa lhe fosse unida. Pois, tendo dito que temos conhecimento, acrescentou: O conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica; de modo que, quando está sem o amor, eleva os homens a uma arrogância absoluta.
Ainda assim, dirás, sem conhecimento tampouco o amor teria proveito algum. Ora, isto ele não o disse; mas, omitindo-o como coisa por todos concedida, dá a entender que o conhecimento tem extrema necessidade do amor. Pois aquele que ama, por cumprir o mandamento mais absoluto de todos, ainda que tenha algumas faltas, prontamente será agraciado com o conhecimento por causa de seu amor; como Cornélio e muitos outros. Mas aquele que tem conhecimento, porém não tem amor, não somente nada mais ganhará, como também será lançado fora daquilo mesmo que possui, caindo em muitos casos na arrogância. Parece, pois, que o conhecimento não é produtor de amor, mas, pelo contrário, afasta dele a quem não está precavido, inchando-o e ensoberbecendo-o. Pois a arrogância costuma causar divisões; mas o amor tanto une quanto conduz ao conhecimento. E, para tornar isto manifesto, ele diz: Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele. De modo que não proíbo isto, diz ele, a saber, que tenhais conhecimento perfeito; mas que o tenhais com amor, isto é o que ordeno; caso contrário, não é ganho, mas antes perda.
Vedes como já ele faz soar a primeira nota de seu discurso acerca do amor? Pois, uma vez que todos estes males brotavam da seguinte raiz, isto é, não do conhecimento perfeito, mas de não amarem grandemente nem pouparem o próximo — donde procedia tanto a discórdia entre eles quanto a sua autossatisfação, e tudo o mais de que os acusara —, tanto antes disto quanto depois ele continuamente provê ao amor, corrigindo assim a fonte de todos os bens. Ora, diz ele, por que vos inchais com o conhecimento? Pois, se não tendes amor, até mesmo por ele sereis prejudicados. Que há, com efeito, pior do que a jactância? Mas, se se lhe acrescentar o outro, também o primeiro estará em segurança. Pois, ainda que saibas algo mais que teu próximo, se o amas, não te exaltarás, mas o conduzirás também ao mesmo conhecimento. Por isso, tendo dito: O conhecimento incha, acrescentou: mas o amor edifica. Não disse: Comporta-se modestamente, mas algo muito maior e mais proveitoso. Pois o conhecimento deles não somente os inchava, como também os dispersava. Por esta razão ele opõe um ao outro.
3. E, então, acrescenta uma terceira consideração, que era bastante para os fazer descer de seu pedestal. Qual é, pois, esta? Que, ainda que a caridade se ajunte a ele, nem mesmo assim este nosso conhecimento é perfeito.
Qualquer que seja a ciência que possamos ter, ela é ainda imperfeita. Como é, pois, que alguns pretendem ter um conhecimento pleno e exato de Deus? No que a Deus concerne, nem sequer podemos dizer quão errônea é a nossa percepção d'Ele.
Mas, se alguém julga saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber. Este é um golpe mortal. Não me detenho, diz ele, no fato de que o conhecimento é comum a todos. Não digo que, odiando o teu próximo e sendo arrogante, causas dano sobretudo a ti mesmo. Mas, ainda que o possuas por ti só, ainda que sejas modesto, ainda que ames o teu irmão, mesmo assim és imperfeito quanto ao conhecimento. Pois ainda não sabes coisa alguma como convém saber. Ora, se ainda não possuímos conhecimento exato de nada, como é que alguns se precipitaram a tal ponto de frenesi a ponto de dizer que conhecem a Deus com toda exatidão? Ao passo que, ainda que tivéssemos conhecimento exato de todas as demais coisas, nem assim seria possível possuir este conhecimento em tal medida. Pois quão distante Ele está de todas as coisas, nem mesmo é possível dizê-lo.
E observai como ele abate o orgulho inchado deles: pois não disse que, quanto às questões que ora se apresentam, não tendes o devido conhecimento, mas sim quanto a tudo. E não disse "vós", mas "ninguém", seja Pedro, seja Paulo, seja quem quer que seja. Pois com isto ao mesmo tempo os aplacava e cuidadosamente os mantinha sob rédea.
Não conhecemos a Deus, mas Ele nos conhece. Por isso disse Cristo: "Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi a vós" (Jo 15,16). Este é o fruto do amor e a morte do orgulho.
Mas se alguém ama a Deus, este, não diz ele, conhece a Ele, mas é conhecido por Ele. Pois não fomos nós que O conhecemos, mas Ele nos conheceu. E por isso disse Cristo: Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi a vós. E Paulo, em outro lugar: Então conhecerei plenamente, assim como também fui conhecido.
Observai agora, peço-vos, por que meios ele abate a soberba deles. Primeiro, mostra que não foram eles sós os que conheceram as coisas que conheciam; pois todos nós, diz ele, temos conhecimento. Em seguida, que a própria coisa era nociva enquanto estivesse sem amor; pois o conhecimento, diz ele, ensoberbece. Em terceiro lugar, que mesmo unido ao amor não é completo nem perfeito. Pois se alguém julga saber alguma coisa, ainda não sabe nada como convém saber, assim fala. Além disso, que nem sequer têm isto de si mesmos, mas por dom de Deus. Pois não disse "conheceu a Deus", mas "é conhecido por Ele". Novamente, que esta mesma coisa provém do amor que eles não têm como convém. Pois, se alguém, diz ele, ama a Deus, este é conhecido por Ele. Tendo, pois, assim tão amplamente aplacado a irritação deles, começa a falar doutrinariamente, dizendo assim.
4. Quanto, pois, ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que nenhum ídolo é coisa alguma no mundo, e que não há Deus senão um só. Vede em que estreito ele se colocou! Pois, na verdade, sua intenção é provar ambas as coisas: que se deve abster-se deste tipo de banquete, e que este não tem poder algum para prejudicar os que dele participam — coisas que não estavam muito de acordo entre si. Pois, quando lhes fosse dito que aquilo não lhes causava dano algum, naturalmente correriam a isso como a coisas indiferentes. Mas, sendo proibidos de tocá-las, suspeitariam, ao contrário, que era o poder de causar dano que motivava a proibição. Por isso, vede, ele derruba a opinião deles acerca dos ídolos, e então estabelece como primeira razão para a abstenção os escândalos que colocam diante de seus irmãos; nestas palavras: Quanto, pois, ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que nenhum ídolo é coisa alguma no mundo. Novamente, ele torna isto propriedade comum e não permite que isto seja apenas deles, mas estende o conhecimento por toda a terra. Pois não somente entre vós, diz ele, mas por toda parte na terra prevalece esta doutrina. Que é, pois, isto? Que nenhum ídolo é coisa alguma no mundo; que não há Deus senão um só. Que, então? Não há ídolos? Não há estátuas? Certamente há; mas não têm poder algum: nem são deuses, mas pedras e demônios. Pois ele agora se opõe a ambas as partes; tanto aos mais grosseiros dentre eles quanto aos que eram tidos por amantes da sabedoria. Assim, vendo que os primeiros não conhecem mais do que meras pedras, os outros afirmam que certos poderes nelas residem, os quais também chamam deuses; aos primeiros, portanto, diz que nenhum ídolo é coisa alguma no mundo, aos outros, que não há Deus senão um só.
Observais como ele escreve estas coisas, não simplesmente estabelecendo doutrina, mas em oposição aos de fora? Coisa que, na verdade, devemos sempre observar atentamente, quer ele fale de modo abstrato, quer se oponha a determinadas pessoas. Pois isto contribui de modo não pequeno para a exatidão de nossas visões doutrinárias, e para a compreensão precisa de suas expressões.
5. Pois ainda que haja os que são chamados deuses, seja no céu, seja na terra, como de fato há muitos deuses e muitos senhores; para nós, contudo, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós para Ele; e um só Senhor Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas, e nós por meio dele. Uma vez que dissera que o ídolo não é nada e que não há outro Deus; e havia, contudo, ídolos e havia os que eram chamados deuses; para que não parecesse estar contradizendo fatos evidentes, prossegue dizendo: Pois ainda que haja os que são chamados deuses, como de fato há — não absolutamente há, mas são chamados, não possuindo isto em realidade, mas apenas em nome: seja no céu, seja na terra — no céu, referindo-se ao sol e à lua e ao restante do coro dos astros; pois também a estes os gregos adoravam; mas sobre a terra, os demônios e todos aqueles que haviam sido feitos deuses dentre os homens — para nós, contudo, há um só Deus, o Pai. Havendo, na primeira instância, expressado isto sem a palavra Pai, e dito não há Deus senão um só, acrescenta agora também isto, depois de haver lançado fora inteiramente os demais.
Em seguida, apresenta o que é, na verdade, o maior indício da divindade: de quem são todas as coisas. Pois isto implica também que aqueles outros não são deuses. Porquanto está dito (Jr 10:11): Pereçam os deuses que não fizeram os céus e a terra. Depois acrescenta o que não é menos do que isto: e nós para Ele. Pois quando diz de quem são todas as coisas, refere-se à criação e ao trazer as coisas do nada à existência. Mas quando diz e nós para Ele, fala da palavra da fé e da apropriação mútua (οἰκειώσεως), como também dissera antes (1 Cor 1:30): mas dele sois vós também em Cristo Jesus. De duas maneiras somos dele: por termos sido feitos quando não éramos, e por termos sido feitos crentes. Pois isto também é uma criação; coisa que ele igualmente declara em outro lugar (Ef 2:15): para que criasse em si mesmo, dos dois, um novo homem.
E há um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas, e nós por meio dele. E quanto a Cristo, novamente, devemos conceber isto do mesmo modo. Pois por meio dele a raça dos homens foi tanto produzida do nada à existência, quanto fez retorno do erro à verdade. De sorte que, quanto à expressão de quem, não se deve entendê-la à parte de Cristo. Pois dele, por meio de Cristo, é que fomos criados.
6. Nem tampouco, se observardes, distribuiu ele os nomes como se pertencessem exclusivamente a cada um, atribuindo ao Filho o nome Senhor, e ao Pai, Deus. Pois a Escritura costuma também, frequentemente, permutá-los; como quando diz (Sl 110:1): Disse o Senhor ao meu Senhor; e novamente (Sl 65:8): Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu; e (Rm 9:5): dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é Deus sobre todas as coisas. E em muitos casos podeis ver estes nomes trocando de lugar. Além disso, se fossem atribuídos a cada natureza separadamente, e se o Filho não fosse Deus, e Deus como o Pai, mas permanecendo Filho: depois de haver dito mas para nós há um só Deus, teria sido supérfluo acrescentar a palavra Pai, com vistas a declarar o Ingênito. Pois a palavra Deus teria bastado para explicar isto, se fosse tal que O designasse somente a Ele.
E isto não é tudo; há ainda outra observação a fazer: que, se dizes, Porque está escrito "um só Deus", logo a palavra Deus não se aplica ao Filho; observa que o mesmo se dá também quanto ao Filho. Pois também o Filho é chamado um só Senhor, e nem por isso sustentamos que o termo Senhor se aplique só a Ele. Assim, pois, a mesma força que tem a expressão Um, aplicada ao Filho, tem-na também aplicada ao Pai. E como o Pai não é excluído de ser o Senhor, no mesmo sentido em que o Filho é Senhor, pelo fato de Este, o Filho, ser chamado um só Senhor; assim também não se exclui o Filho de ser Deus, no mesmo sentido em que o Pai é Deus, pelo fato de o Pai ser denominado um só Deus.
7. Ora, se alguém disser: Por que ele não fez menção do Espírito? nossa resposta poderia ser esta: seu argumento era dirigido contra os idólatras, e a contenda dizia respeito a muitos deuses e muitos senhores. E é por isso que, havendo chamado ao Pai de Deus, chama ao Filho de Senhor. Ora, se ele não ousou chamar ao Pai de Senhor juntamente com o Filho, para que não suspeitassem que falava de dois Senhores; nem tampouco chamar ao Filho de Deus juntamente com o Pai, para que não se supusesse que falava de dois Deuses: por que estranhar que não tenha mencionado o Espírito? Sua contenda era, até aqui, com os gentios; seu propósito, significar que entre nós não há pluralidade de Deuses. Por isso se apega continuamente a esta palavra, Um; dizendo: Não há Deus senão Um; e, para nós há um só Deus e um só Senhor. Donde é evidente que, para poupar a fraqueza dos ouvintes, ele se valeu deste modo de explicação, e por esta razão não fez menção alguma do Espírito. Pois, se não for este o motivo, tampouco deveria ele fazer menção do Espírito em outros lugares, nem uni-Lo ao Pai e ao Filho. Porque, se Ele for excluído do Pai e do Filho, muito mais não deveria ser posto na mesma categoria que Eles na matéria do Batismo; onde mais especialmente aparece a dignidade da Divindade e são outorgados dons que só a Deus pertence conceder. Assim, pois, expus a razão por que, neste lugar, Ele é passado em silêncio. Dize-me tu agora, se não for esta a verdadeira razão, por que Ele é colocado na mesma fileira que Eles no Batismo? Mas não poderás dar outra razão senão a de que Ele é de igual honra. De todo modo, quando não está sob tal constrangimento, ele O coloca na mesma categoria, dizendo assim: A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus e Pai, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós (2 Cor 13:14); e ainda: Há diversidade de dons, mas o mesmo Espírito; e há diversidade de ministérios, mas o mesmo Senhor; e há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos (2 Cor 12:4). Mas, porque agora seu discurso era dirigido aos gregos e à parte mais fraca dos convertidos dentre os gregos, por esta razão ele o dispensa com parcimônia (ταμιεύεται) até este ponto. E é isto o que fazem os profetas a respeito do Filho: em nenhum lugar fazendo menção dEle claramente, por causa da fragilidade dos ouvintes.
Mas nem em todos há conhecimento, diz ele. Que conhecimento tem ele em mente? Acerca de Deus, ou acerca das coisas oferecidas em sacrifício aos ídolos? Pois ou aqui ele alude aos gregos que dizem haver muitos deuses e senhores, e que não conhecem Aquele que é verdadeiramente Deus; ou aos convertidos dentre os gregos que ainda eram bastante fracos, tais como os que ainda não sabiam claramente que não deviam temer os ídolos e que um ídolo nada é no mundo. Mas, ao dizer isto, ele suaviza e encoraja brandamente estes últimos. Pois não havia necessidade de mencionar tudo o que tinha a repreender, sobretudo porque tencionava visitá-los novamente com maior severidade.
8. Mas alguns, estando habituados ao ídolo, comem como de coisa sacrificada a um ídolo, e sua consciência, sendo fraca, é maculada. Ainda tremem diante dos ídolos, diz ele. Pois não me fales do estabelecimento presente, nem de que recebestes a verdadeira religião de vossos antepassados. Antes, retrocedei com o pensamento àqueles tempos, e considerai quando o Evangelho apenas começava a espalhar-se, e a impiedade ainda estava em seu auge, e altares ardiam, e sacrifícios e libações se ofereciam, e a maior parte dos homens era gentia; pensai, digo, naqueles que de seus antepassados haviam recebido a impiedade, e que eram descendentes de pais e avós e bisavós semelhantes a si mesmos, e que haviam padecido grandes misérias por causa dos demônios. Como deviam sentir-se após a súbita mudança! Como haveriam de enfrentar e tremer diante dos assaltos dos demônios! Por causa deles também ele emprega certa reserva, dizendo: Mas alguns, com a consciência do ídolo. Assim ele nem os expôs abertamente, para não os ferir duramente; nem tampouco os passa inteiramente por alto: mas os menciona de modo velado, dizendo: Ora, alguns, com a consciência do ídolo até agora, comem como de coisa sacrificada a um ídolo; isto é, com os mesmos pensamentos que tinham em tempos anteriores: "e sua consciência, sendo fraca, é maculada;" não sendo ainda capazes de desprezá-lo e escarnecê-lo de uma vez por todas, mas ainda em certa dúvida. Assim como se um homem pensasse que, ao tocar um cadáver, se contaminaria segundo o costume judaico, e então, vendo outros tocá-lo com consciência limpa, mas não tocando ele mesmo com o mesmo ânimo, se contaminasse. Este era o estado de seu sentimento naquele tempo. Pois alguns, diz ele, com a consciência do ídolo, o fazem até agora. Não sem propósito acrescentou ele até agora; mas para significar que nada ganhavam ao recusar condescender. Pois este não era o modo de trazê-los, mas antes por outro modo, persuadindo-os pela palavra e pelo ensino.
E sua consciência, sendo fraca, é maculada. Em nenhum lugar ainda ele expõe seu argumento acerca da natureza da coisa, mas se volta ora para um lado, ora para outro, no tocante à consciência daquele que participa. Pois temia que, no desejo de corrigir o fraco, infligisse golpe pesado ao forte, tornando-o também fraco. Por isso poupa a um não menos que ao outro. Nem permite que se pense que a coisa em si tenha alguma importância, mas torna seu argumento bastante amplo, a fim de prevenir qualquer suspeita desse gênero.
Quando as pessoas eram proibidas de tocar nos ídolos, suspeitavam que isso se devia ao fato de estes terem poder para lhes causar dano. Paulo, portanto, torna clara sua posição. Ele afirma categoricamente que ídolo nenhum é coisa alguma, mas que é necessário evitá-los para não dar ocasião de escândalo aos que são fracos na fé.
O alimento em si mesmo nada significa. Mas, ao prosseguir, Paulo revela todo o dano que poderia advir de comer carne sacrificada aos ídolos.
9. Mas a comida não nos recomenda a Deus. Pois nem se comermos somos melhores, nem se não comermos somos piores. Vedes como ele novamente abate o seu ânimo altivo? Depois de haver dito que não apenas eles, mas todos nós, temos conhecimento, e que ninguém conhece coisa alguma como deveria conhecer, e que o conhecimento ensoberbece; tendo-os então apaziguado, e dito que este conhecimento não está em todos, e que é a fraqueza a causa de estes serem contaminados — para que não dissessem: E que nos importa, se o conhecimento não está em todos? Por que, pois, não tem tal homem conhecimento? Por que é ele fraco? — digo, para que não replicassem nestes termos, ele não passou imediatamente a apontar com clareza que, por temor do dano alheio, se deveria abster: mas, havendo primeiro travado uma espécie de escaramuça à menção deste, aponta algo que vai além disto. Que é, pois, isto? Que, ainda que ninguém fosse ferido nem se seguisse perversão alguma de outrem, nem mesmo neste caso seria correto proceder assim. Pois o primeiro tópico, por si só, labora em vão. Visto que aquele que ouve que outrem é ferido enquanto ele próprio tem o ganho, não está muito disposto a abster-se; mas antes o faz quando descobre que ele mesmo de modo algum é beneficiado pela coisa. Por isso ele estabelece isto primeiro, dizendo: Mas a comida não nos recomenda a Deus. Vede quão pouco ele estima aquilo que se tinha por proceder de perfeito conhecimento! Pois nem se comermos somos melhores (isto é, estamos em posição mais elevada na estima de Deus, como se houvéssemos feito algo bom ou grande); nem se não comermos somos piores, isto é, ficamos de algum modo aquém dos demais. Até aqui, pois, ele significou que a coisa em si é supérflua, e como nada. Pois aquilo que, sendo feito, não aproveita, e que, sendo deixado por fazer, não prejudica, há de ser supérfluo.
10. Mas, ao prosseguir, ele desvela todo o dano que provavelmente adviria da questão. Por ora, contudo, o seu tema é o que sucedeu aos irmãos.
Ele não disse: A vossa liberdade se tornou tropeço, nem o afirmou positivamente, para que não os tornasse mais desavergonhados; mas como? Atentai; atemorizando-os, e envergonhando-os, e levando-os a repudiar tal conduta. E não disse: Este vosso conhecimento, o que teria soado mais como louvor; nem esta vossa perfeição; mas: a vossa liberdade; coisa que parecia saber antes a temeridade, obstinação e arrogância. Tampouco disse: Aos irmãos, mas: Aos que dentre os irmãos são fracos; agravando a sua acusação por não pouparem sequer os fracos, e ainda por cima seus irmãos. Pois seja que não os corrijais, nem os desperteis: mas por que os fazeis tropeçar e cair, quando devíeis antes estender-lhes a mão? Mas para isto não tendes ânimo: pois bem, ao menos evitai derrubá-los. Pois, se alguém fosse perverso, requereria castigo; se fraco, requereria cura: mas este não é apenas fraco, é também irmão.
Paulo está dizendo que, se não estamos dispostos a corrigir os nossos irmãos mais fracos, ao menos não os façamos tropeçar.
Depois de haver dito: Atentai para que esta vossa liberdade não se torne tropeço, ele explica como e de que maneira ela assim se torna: e emprega continuamente o termo fraqueza, para que o mal não pareça provir da natureza da coisa, nem os demônios pareçam formidáveis. Como assim: No presente, diz ele, um homem está prestes a apartar-se inteiramente de todos os ídolos; mas quando vos vê comprazerdes em demorar-vos junto a eles, toma esta circunstância como recomendação e nele próprio permanece também. De sorte que não é apenas a fraqueza dele, mas também o vosso comportamento inoportuno, que serve para adiantar a cilada contra ele; pois sois vós que o tornais mais fraco.
Amplifiquemos este pensamento, de modo a dizer: "Se alguém vir a vós, que tendes conhecimento da piedade, passar o dia inteiro naquelas associações insensatas e nocivas, não se animará a consciência do fraco a perseguir tais ações com maior afinco?" Aquele bem-aventurado apóstolo disse isto para refrear os que eram descuidados, ainda depois de terem conhecimento da piedade, os quais se expunham a lugares de idolatria e causavam escândalo aos demais.
Não é apenas a sua fraqueza, mas também o teu comportamento inoportuno, que conspira contra ele e o torna ainda mais fraco.
Pois há duas coisas que te privam de desculpa nesse dano: uma, que ele é fraco; outra, que é teu irmão — antes, devo dizer, há também uma terceira, e mais terrível que todas. Qual é, pois? Que, ao passo que Cristo não recusou nem mesmo morrer por ele, tu não podes suportar sequer acomodar-te a ele. Por estes meios, vês, ele recorda também ao homem perfeito o que ele mesmo era antes, e que também por ele Cristo morreu. E não disse: "por quem até morrer era teu dever"; mas, o que é muito mais forte, que até Cristo morreu por sua causa. Não recusou, pois, o teu Senhor morrer por ele, e tu o tens em tão pouca conta que nem mesmo te absténs, por causa dele, de uma mesa contaminada? Sim, permites que ele pereça, depois de tão grande salvação operada, e, o que é ainda mais grave, "por um bocado de carne"? Pois não disse "pela tua perfeição", nem "pelo teu conhecimento", mas "pela tua comida". De sorte que as acusações são quatro, e extremamente graves: que era um irmão, que era fraco, e alguém de quem Cristo fez tanta conta que até morreu por ele, e que, depois de tudo isso, por um bocado de carne, ele é destruído.
Há duas coisas que te privam de qualquer desculpa nesse dano. A primeira é que ele é fraco; a segunda, que é teu irmão. Acrescentaria também uma terceira desculpa, ainda pior que as outras. Qual é? Que, ao passo que Cristo morreu por ele, tu não consegues sequer levantar um dedo para ajudá-lo minimamente.
Observais como, tranquila e gradualmente, ele conduziu a ofensa deles até o próprio cume da iniquidade? E de novo, ele faz menção da fraqueza dos outros: e assim, a própria coisa que estes julgavam militar a seu favor, ele a volta em toda parte contra a cabeça deles mesmos. E não disse: pondo tropeços em seu caminho, mas sim: ferindo; de modo que, pela força de sua expressão, indicasse a crueldade deles. Pois que pode haver de mais selvagem do que um homem que fere os enfermos? E, contudo, nenhuma ferida é tão grave quanto fazer alguém tropeçar. Com efeito, muitas vezes isto é também causa de morte.
Mas de que modo pecam eles contra Cristo? De um modo, porque Ele considera como próprias as coisas que dizem respeito a Seus servos; de outro modo, porque os que são feridos vêm a compor o Seu Corpo e aquilo que Lhe é parte; de um terceiro modo, porque essa obra Sua, que Ele edificou com o Seu próprio sangue, estes a destroem por causa de sua ambição.
Os que ferem uma consciência fraca pecam contra Cristo. Ele considera como próprias as coisas que dizem respeito a Seus servos. Os que são feridos compõem o Seu próprio corpo. Estes homens estão destruindo a obra que Cristo edificou com o Seu próprio sangue.
Isto é próprio dos melhores mestres: aplicar a si mesmo as coisas de que fala. Paulo não se preocupa com o certo e o errado da questão em nenhum sentido objetivo. Sua única preocupação é que seu irmão não venha a tropeçar.
11. Portanto, se a carne fizer meu irmão tropeçar, jamais comerei carne. Isto é próprio do melhor dos mestres: ensinar em sua própria pessoa as coisas que ele mesmo prega. Nem disse ele se justa ou injustamente; mas em todo caso. Não digo eu — pois este é o seu tom — a carne oferecida em sacrifício a um ídolo, que já é proibida por outra razão; mas se mesmo alguma daquelas coisas que estão dentro da licença e são permitidas causa tropeço, dessas também me absterei: e não um ou dois dias, mas por todo o tempo de minha vida. Pois ele diz: Jamais comerei carne. E não disse: Para que eu não destrua meu irmão, mas simplesmente: Para que eu não faça meu irmão tropeçar. Pois de fato procede da mais extrema insensatez que as coisas que são tão grandemente cuidadas por Cristo, e tais que Ele mesmo escolheu morrer por elas, nós as estimemos tão inteiramente abaixo de nossa consideração a ponto de nem sequer nos abstermos de carnes por causa delas.
Ora, estas coisas poderiam ser oportunamente ditas não somente a eles, mas também a nós, propensos como somos a estimar levianamente a salvação de nossos próximos e a proferir aquelas palavras satânicas. Digo satânicas: pois a expressão — Que me importa, ainda que tal homem tropece, e tal outro pereça? — tem o sabor de sua crueldade e de sua mente desumana. E, contudo, naquele caso, também a fraqueza dos que se escandalizavam tinha alguma parte no resultado: mas em nosso caso não é assim, pois pecamos de tal maneira que escandalizamos até os fortes. Pois quando ferimos, e saqueamos, e usurpamos, e tratamos os livres como se fossem escravos, a quem isto não seria suficiente para escandalizar? Não me digas que tal homem é sapateiro, outro tintureiro, outro latoeiro: mas tem em mente que ele é um crente e um irmão. Pois estes são aqueles cujos discípulos nós somos; os pescadores, os publicanos, os fabricantes de tendas, d'Aquele que foi criado na casa de um carpinteiro; e que se dignou ter a esposa prometida do carpinteiro por mãe; e que foi posto, depois de suas faixas de pano, numa manjedoura; e que não tinha onde reclinar a cabeça — d'Aquele cujas jornadas eram tão longas que a própria caminhada bastava para exauri-Lo; d'Aquele que era sustentado por outros.
12. Pensai nestas coisas, e considerai o orgulho do homem como nada. Mas contai o fabricante de tendas tanto quanto vosso irmão, como aquele que é carregado num carro e tem inumeráveis servos e pavoneia-se na praça pública: antes, o primeiro mais que o segundo; visto que o termo irmão seria mais naturalmente usado onde há maior semelhança. Qual, pois, se assemelha ao pescador? Aquele que é sustentado pelo trabalho diário e não tem nem servo nem morada, mas está inteiramente cercado de privações; ou aquele outro que está rodeado de tamanha pompa, e que age contrariamente às leis de Deus? Não desprezeis, pois, aquele que dos dois é mais vosso irmão, pois ele se aproxima mais do modelo apostólico.
Não, porém, dirás tu, por sua própria vontade, mas por compulsão; pois ele não faz isto por seu próprio ânimo. Como assim? Não ouviste: Não julgueis, para que não sejais julgados? Mas, para te convenceres de que ele não o faz contra sua inclinação, aproxima-te e dá-lhe dez mil talentos de ouro, e o verás afastá-los de si. E assim, ainda que ele não tenha recebido riqueza alguma por herança de seus antepassados, quando, todavia, está em seu poder tomá-la, e ele não a deixa aproximar-se, nem a acrescenta aos seus bens, ele exibe uma poderosa prova do seu desprezo pela riqueza. Pois assim era João, o filho de Zebedeu, aquele homem extremamente pobre: contudo, suponho que não devemos, por isso, dizer que sua pobreza lhe foi imposta à força.
Sempre, pois, que vires alguém cravando pregos, golpeando com o martelo, coberto de fuligem, não o tenhas por isso em pouca conta, mas antes, por essa mesma razão, admira-o. Pois até Pedro se cingiu, manuseou a rede de arrasto e foi pescar depois da Ressurreição do Senhor.
E por que digo Pedro? Pois este mesmo Paulo, depois de suas incessantes corridas de um lado para outro e de todos aqueles vastos milagres, de pé numa oficina de fazedor de tendas, costurava peles: enquanto os anjos o reverenciavam e os demônios tremiam. E não se envergonhou de dizer: Às minhas necessidades, e às daqueles que estavam comigo, estas mãos ministraram (At 20,34). Que digo eu, que não se envergonhou? Antes, gloriava-se precisamente nisto.
Mas dirás tu: quem há agora que possa comparar-se com a virtude de Paulo? Também eu sei que não há ninguém, mas nem por isso devem ser desprezados os que agora vivem: pois se, por amor de Cristo, prestas honra, ainda que alguém seja o último de todos, contudo, se for crente, será justamente honrado. Pois supõe que um general e um simples soldado se apresentem ambos diante de ti, sendo ambos amigos do rei, e tu abras tua casa a ambos: em qual das duas pessoas parecerias prestar maior honra ao rei? Evidentemente na do soldado. Pois havia no general, além de sua lealdade ao rei, muitas outras coisas próprias a merecer de ti tal sinal de respeito: mas o soldado não tinha outra coisa senão sua lealdade ao rei.
Por isso Deus nos ordenou que chamássemos aos nossos banquetes e às nossas festas os coxos, os aleijados e aqueles que não podem retribuir-nos; pois estas são, mais que quaisquer outras, propriamente chamadas boas obras, as que se fazem por amor de Deus. Ao passo que, se hospedas algum homem grande e distinto, não é tão pura misericórdia o que fazes, mas uma parte, muitas vezes, é atribuída a ti mesmo, tanto pela vanglória, quanto pela retribuição do favor, quanto pela tua elevação na estima de muitos homens por causa do teu hóspede. De todo modo, creio que poderia apontar muitos que, com este propósito, cortejam os mais distintos entre os santos, a saber, para que, por meio deles, gozem de maior intimidade com os governantes, e para que os achem, dali em diante, mais úteis a seus próprios negócios e a suas famílias. E muitos tais favores pedem em recompensa a esses santos; coisa que macula a retribuição de sua hospitalidade, buscando-a eles com tal ânimo.
E que necessidade há de dizer isto a respeito dos santos? Pois aquele que busca, mesmo de Deus, a recompensa dos seus trabalhos na vida presente, e segue a virtude por causa dos bens deste mundo, certamente diminui a sua recompensa. Mas aquele que pede que todas as suas coroas lhe sejam dadas inteiramente ali, esse é achado muito mais admirável; como aquele Lázaro, que já agora ali recebe todos os seus bens (Lc 16,25); como aqueles Três Jovens, os quais, estando prestes a ser lançados na fornalha, disseram: Há um Deus nos céus, capaz de nos livrar; e, se não, saiba o rei que não servimos aos teus deuses, nem adoramos a imagem de ouro que levantaste (Dn 3,17-18); como Abraão, que chegou a oferecer o seu filho e a imolá-lo; e isto não o fez por nenhuma recompensa, mas estimando esta única coisa como a maior recompensa: obedecer ao Senhor.
A estes imitemos também nós. Pois assim seremos visitados com a retribuição de todas as nossas boas obras, e isso abundantemente, porque tudo fazemos com este ânimo; assim alcançaremos também as coroas mais resplandecentes. E conceda Deus que todos nós as alcancemos, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora, doravante e pelos séculos infinitos dos séculos. Amém.
A coisa verdadeiramente grande era que os cristãos coríntios eram obra de Paulo no Senhor. Também Judas foi apóstolo e viu a Cristo, mas, porque não tinha a obra de um apóstolo, de nada lhe aproveitaram estas coisas.
Uma vez que ele havia dito: Se a carne fizer meu irmão tropeçar, jamais comerei carne — coisa que ainda não fizera, mas professara que faria, se a necessidade o exigisse — para que ninguém dissesse: "Vanglorias-te ao acaso, e és severo no discurso, e proferes palavras de promessa, coisa fácil a mim ou a qualquer outro; mas, se estas palavras procedem do coração, mostra por obras algo de que te privaste para não fazer teu irmão tropeçar" — por esta causa, digo, no que se segue ele é obrigado a entrar também na prova disto, e a apontar como costumava renunciar até mesmo a coisas permitidas para não dar ofensa, ainda que sem lei alguma que o constrangesse a fazê-lo.
E ainda não chegamos à parte admirável do assunto: pois, se é admirável que ele se abstenha até mesmo de coisas lícitas para evitar a ofensa, mais admirável ainda é o seu costume de fazê-lo ao custo de tanto trabalho e perigo. Pois por que, diz ele, falar das carnes sacrificadas aos ídolos? Visto que, ainda que Cristo tivesse ordenado que os que pregam o Evangelho vivam à custa de seus discípulos, eu não o fiz assim, mas escolhi, se necessário fosse, terminar minha vida com fome e morrer da mais penosa das mortes, a fim de evitar receber daqueles a quem instruo.
Não porque de outro modo eles fossem levados a tropeçar, mas porque o seu não receber os edificaria — coisa muito maior de se fazer. E, para testemunhar isto, ele convoca os próprios coríntios, entre os quais costumava viver em trabalho e em fome, sustentado por outros, e reduzido a estreitezas, a fim de não os ofender. E, no entanto, não havia fundamento algum para que se ofendessem, pois seria apenas uma lei que ele estava cumprindo. Mas, apesar de tudo isso, por uma espécie de obra supererrogatória, costumava poupá-los.
Ora, se ele fez mais do que estava estabelecido para que não se ofendessem, e se absteve de coisas permitidas para edificar a outros, que deverão merecer aqueles que não se abstêm das carnes sacrificadas aos ídolos? E isto, quando muitos perecem por causa delas? Coisa da qual, mesmo à parte de todo escândalo, se deveria recuar, por ser ela a mesa dos demônios.
A suma, pois, de todo este tópico é esta, que ele desenvolve em muitos versículos. Mas devemos retomá-la e adentrar de novo no que ele alegou. Pois ele não a expôs assim expressamente, como eu a formulei; nem salta de imediato sobre ela; mas começa por outro tópico, falando assim:
2. Não sou eu apóstolo? Pois, além de tudo quanto foi dito, isto também não faz pequena diferença: que é o próprio Paulo quem assim se conduz. Como se segue: para impedir que alegassem — "Podes provar dos sacrifícios", selando ao mesmo tempo esta questão — por algum tempo ele não resiste a essa afirmação, mas argumenta que, ainda que fosse lícito, o dano de teus irmãos deveria impedir-te de fazê-lo; e depois prova que nem sequer é lícito. Neste lugar particular, contudo, ele estabelece o primeiro ponto a partir de circunstâncias relativas a si mesmo. E, tencionando dizer logo adiante que nada recebera deles, não o expõe de imediato, mas afirma primeiro sua própria dignidade: Não sou eu apóstolo? Não sou livre?
Assim, para impedir que dissessem: "É verdade; não recebeste, mas a razão de não teres recebido foi não ser lícito" — ele expõe, portanto, primeiro as causas pelas quais teria podido razoavelmente receber, se assim o quisesse.
Além disso: para que não parecesse haver algo de invidioso em relação a Pedro e aos que eram como Pedro, ao dizer estas coisas (pois eles não costumavam recusar-se a receber), primeiro mostra que estes tinham autoridade para receber, e depois, para que ninguém dissesse que Pedro tinha autoridade para receber mas ele não, predispõe o ouvinte com estes encômios de si mesmo. E percebendo que era necessário louvar-se a si mesmo (pois esse era o meio de corrigir os coríntios), mas repugnando-lhe dizer algo grandioso acerca de si, vede como temperou ambos os sentimentos conforme a ocasião exigia: limitando o próprio panegírico não pelo que sabia de si mesmo, mas pelo que a matéria de necessidade requeria. Pois poderia ter dito: Eu, mais que todos, tinha direito de receber, ainda mais do que eles, porque "trabalhei mais abundantemente do que todos eles". Mas isto omite, sendo ponto em que os superava; e apenas aqueles pontos em que eles eram grandes, e que constituíam justos fundamentos para o seu direito de receber, esses é que consigna, como segue:
Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Isto é: não tenho autoridade sobre mim mesmo? Estou sob alguém que me possa dominar e proibir-me de receber?
Mas eles têm vantagem sobre ti, por terem estado com Cristo.
Nem tampouco isto me é negado. Tendo isto em vista, diz:
Não vi eu a Jesus Cristo, nosso Senhor? Pois por último de todos, diz ele, como a um nascido fora de tempo, também a mim Ele me apareceu (1 Cor 15,8). Ora, isto também não era pequena dignidade, pois muitos profetas, diz Ele, e justos desejaram ver o que vós vedes, e não o viram (Mt 13,17); e: Dias virão em que desejareis ver um só destes dias (Lc 17,22).
Que importa, porém, ainda que sejas "apóstolo", e "livre", e tenhas "visto a Cristo", se não exibiste nenhuma obra de apóstolo? Como, pois, poderia ser justo que recebesses? Por isso, depois disto, acrescenta:
Não sois vós a minha obra no Senhor? Pois isto é o grande ponto; e aquelas outras coisas de nada valem, apartadas desta. O próprio Judas era apóstolo, e livre, e viu a Cristo; mas, porque não tinha a obra de apóstolo, todas aquelas coisas de nada lhe aproveitaram. Vedes, pois, por que acrescenta também isto, e os chama a serem testemunhas disso.
Ademais, porque era coisa grandiosa o que proferira, vede como a tempera, acrescentando: no Senhor: isto é, a obra é de Deus, não minha.
Mais uma vez, Paulo estabelece seu argumento por concessão, pois o mundo inteiro o tinha como seu apóstolo.
Se para os outros não sou apóstolo, ao menos o sou para vós.
Vede quão longe está ele de amplificar aqui sem necessidade? Ora, tinha ele o mundo inteiro para mencionar, e nações bárbaras, e mar e terra. Contudo, não menciona nada disso, mas estabelece seu argumento por concessão, concedendo até mais do que necessitava. Como se dissesse: Por que haveria eu de deter-me em coisas supérfluas, se estas somente já bastam ao meu propósito presente? Não falo, observai, das minhas realizações em outras regiões, mas daquelas que têm a vós por testemunhas. Donde se segue que, se de nenhuma outra parte, ao menos de vós tenho eu direito de receber. Contudo, daqueles de quem tinha eu maior direito de receber — vós mesmos, de quem fui mestre —, destes não recebi.
Se para os outros não sou apóstolo, ao menos o sou para vós. Novamente, ele estabelece seu argumento por concessão. Pois o mundo inteiro o tinha por apóstolo. Contudo, diz ele, não digo isso; não contendo nem disputo, mas o que vos concerne exponho. "Pois o selo do meu apostolado sois vós": isto é, sua prova. E se alguém, ademais, desejar saber donde sou eu apóstolo, sois vós as pessoas que apresento: pois todos os sinais de um apóstolo exibi entre vós, e em nenhum faltei. Como também diz na Segunda Epístola: "Ainda que eu nada seja, contudo os sinais do apóstolo foram operados entre vós em toda paciência, por sinais, e prodígios, e obras poderosas" (2 Cor 12:12). Pois em que fostes feitos inferiores às demais Igrejas? Por isso diz: O selo do meu apostolado sois vós. Pois exibi milagres, e ensinei pela palavra, e sofri perigos, e mostrei uma vida irrepreensível. E estes tópicos podeis ver plenamente expostos nestas duas Epístolas, como ele lhes apresenta a demonstração de cada um com toda exatidão.
3. Minha defesa para com os que me examinam é esta. Que significa: Minha defesa para com os que me examinam é esta? Para aqueles que buscam saber por que sou provado apóstolo, ou que me acusam de receber dinheiro, ou perguntam a causa de eu não receber, ou quisessem mostrar que não sou apóstolo: para todos estes, a instrução que vos dei e estas coisas que estou para dizer podem valer como plena explicação e defesa. Quais são, pois, estas coisas?
Portanto, do que antes foi alegado, e de eu vos ter instruído, e disto que agora disse, tenho matéria suficiente para fazer minha defesa diante de vós: e a todos os que me examinam enfrento neste fundamento, alegando tanto o que precedeu quanto o que se segue: Não temos nós direito de comer e de beber? Não temos nós direito de levar conosco uma mulher crente? E, contudo, tendo-o, dele me abstenho?
Que quer isto dizer, pois? Acaso ele não costumava comer nem beber? Seria bem verdadeiro dizer que, em muitos lugares, ele realmente não comia nem bebia: pois, diz ele, "até esta hora sofremos fome, e sede, e nudez" (1 Cor 4:11). Aqui, contudo, não é este o seu sentido; mas qual é? Não comemos nem bebemos à custa daqueles a quem instruímos, ainda que tenhamos direito de assim receber.
Não temos nós direito de levar conosco uma mulher crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas? Observai sua habilidade. O corifeu ocupa o último lugar em sua disposição: pois este é o momento de apresentar o mais forte de todos os seus argumentos. Nem era tão admirável poder alguém apontar exemplos desta conduta nos demais, quanto no principal campeão e naquele a quem foram confiadas as chaves do céu. Mas ele não menciona Pedro sozinho, senão todos eles: como se dissesse: quer busqueis os de menor quer os de maior eminência, em todos encontrais exemplos desta sorte.
Pois também os irmãos do Senhor, libertos de sua incredulidade primeira (cf. Jo 7:5), vieram a estar entre os aprovados, ainda que não tenham alcançado o grau dos apóstolos. E, por conseguinte, o lugar do meio é o que lhes foi atribuído, colocando-se os que estavam nos extremos antes e depois.
(Vede a humildade de seu ânimo e sua alma pura de inveja, como ele cuida de não ocultar aquele que sabia ser participante consigo desta mesma perfeição.) Pois, se as demais coisas são comuns, como não haveria de ser esta comum também? Tanto eles quanto nós somos apóstolos, e somos livres, e vimos a Cristo, e exibimos as obras dos Apóstolos. Portanto, também nós temos igualmente o direito tanto de viver sem trabalhar quanto de ser sustentados por nossos discípulos.
O apostolado era muito mais perigoso que a milícia. Pois a sua guerra não era apenas contra os homens, mas também contra os demônios. Os apóstolos eram, a um só tempo, soldados, lavradores e pastores — não da terra, nem de animais irracionais, nem em guerras tais como as que se percebem pelos sentidos, mas de almas racionais, e postos em ordem de batalha contra os demônios.
4. Que soldado milita jamais à sua própria custa? Pois, tendo já provado, o que era o ponto mais forte, a partir dos Apóstolos, que é lícito proceder assim, ele passa em seguida aos exemplos e ao uso comum, como costuma fazer: Que soldado milita à sua própria custa?, diz ele. Mas considera, peço-te, quão apropriados são os exemplos ao assunto que se propõe, e como menciona primeiro aquilo que é acompanhado de perigo, a saber, a milícia, as armas e as guerras. Pois tal coisa era o Apostolado, ou antes, muito mais arriscado que estas. Porque não era apenas contra os homens a sua guerra, mas também contra os demônios, e contra o príncipe destes seres estava a sua ordem de batalha. O que ele diz, portanto, é isto: nem mesmo os governantes pagãos, por cruéis e injustos que sejam, exigem de seus soldados que suportem o serviço e o perigo e vivam à custa própria. Como, pois, poderia Cristo jamais ter exigido isto?
Nem se contenta ele com um só exemplo. Pois, para aquele que é algo simples e rude, também isto costuma vir como grande alívio, a saber, ver que o costume comum caminha junto com as leis de Deus. Por isso, ele passa também a outro tópico e diz: Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Pois, assim como pelo primeiro indicou os seus perigos, por este indica o seu labor e abundante fadiga e cuidado.
Acrescenta igualmente um terceiro exemplo, dizendo: Quem apascenta um rebanho e não come do leite do rebanho? Ele mostra o grande cuidado que convém ao mestre demonstrar para com aqueles que estão sob o seu governo. Pois, de fato, os Apóstolos eram, a um só tempo, soldados, lavradores e pastores — não da terra, nem de animais irracionais, nem em guerras tais como as que se percebem pelos sentidos, mas de almas racionais, e postos em ordem de batalha contra os demônios.
Deve-se notar também como em toda parte ele preserva a moderação, buscando apenas o útil, não o extraordinário. Pois não disse: Que soldado milita e não se enriquece?, mas: Que soldado milita jamais à sua própria custa? Nem disse: Quem planta uma vinha e não ajunta ouro, ou deixa de recolher todo o fruto?, mas: Quem não come do seu fruto? Nem disse: Quem apascenta um rebanho e não faz mercadoria dos cordeiros? Mas o quê? E não come do leite do rebanho? Não dos cordeiros, mas do leite — significando que um pequeno alívio deve bastar ao mestre, a saber, apenas o seu alimento necessário. (Isto se refere àqueles que devorariam tudo e recolheriam a totalidade do fruto.) Assim também ordenou o Senhor, dizendo: O trabalhador é digno do seu alimento. Mateus 10:10
E não é só isto que ele estabelece por suas ilustrações, mas mostra também que espécie de homem deve ser o sacerdote. Pois deve possuir tanto a coragem do soldado quanto a diligência do lavrador e o zelo do pastor, e, depois de tudo isso, não buscar nada além do necessário.
5. Tendo mostrado, como vedes, tanto a partir dos Apóstolos, que não é proibido ao mestre receber, quanto a partir de ilustrações encontradas na vida comum, ele passa também a um terceiro tópico.
Pois, visto que até agora nada havia alegado das Escrituras, mas apenas apresentara o costume comum, não penses, diz ele, que me confio somente nestas coisas, nem que recorro às opiniões dos homens como fundamento destas prescrições. Pois posso mostrar que estas mesmas coisas são também agradáveis a Deus, e leio uma lei antiga que as prescreve. Por isso também conduz o seu discurso sob a forma de uma pergunta, o que costuma fazer-se nas coisas plenamente reconhecidas, dizendo assim: Digo eu estas coisas segundo os homens? Isto é, fortaleço-me apenas com exemplos humanos? Ou não diz a lei também o mesmo?
Por que menciona Paulo isto, quando poderia ter usado o exemplo dos sacerdotes? A razão é que quis provar a sua causa além de toda sombra de dúvida. Se Deus cuida dos bois, quanto mais cuidará do labor dos mestres? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
E por que razão mencionou ele isto, tendo já o exemplo dos sacerdotes? Querendo estabelecê-lo muito além do que o caso requeria. Além disso, para que ninguém dissesse: E que temos nós a ver com o dito acerca dos bois? ele o desenvolve com maior exatidão, dizendo: Acaso é dos bois que Deus cuida? Pois bem, dize-me, não cuida Deus dos bois? Na verdade, Ele cuida deles, mas não a ponto de fazer uma lei a respeito de coisa semelhante. De sorte que, se não estivesse a insinuar algo de grande importância, adestrando os judeus à misericórdia para com os brutos, e através destes, discorrendo com eles também acerca dos mestres, não teria tomado tanto interesse a ponto de fazer uma lei que proibisse açaimar os bois.
Nisto assinala também outra coisa: que o trabalho dos mestres é, e deve ser, grande.
E ainda outra coisa. Qual é, pois? Que tudo quanto o Antigo Testamento diz a respeito do cuidado com os brutos, tem em seu sentido principal referência à instrução dos homens: como de fato todo o restante; os preceitos, por exemplo, acerca das diversas vestes; e aqueles acerca das vinhas e das sementes, e de não fazer a terra produzir cultivos diversos, e aqueles acerca da lepra; e, em uma palavra, todo o restante: pois, sendo eles de índole mais rude, discorria Deus com eles a partir destes temas, fazendo-os progredir pouco a pouco.
E vede como, no que se segue, ele nem sequer o confirma, por ser evidente e manifesto por si mesmo. Pois, tendo dito: Acaso é dos bois que Deus cuida? acrescentou: ou o diz ele de todo por causa de nós? Não acrescentou o "de todo" ao acaso, mas para que não deixasse ao ouvinte coisa alguma a replicar.
E ele se detém na metáfora, dizendo e declarando: Sim, por causa de nós foi escrito, porque convém que o que ara, are com esperança; isto é, que o mestre deve gozar dos frutos de seus trabalhos; e o que debulha deve debulhar com esperança de participar. E observai a sabedoria dele, em que, da semente, transferiu a questão para a eira; manifestando também aqui, uma vez mais, os muitos labores dos mestres, pois eles mesmos, em suas próprias pessoas, tanto aram quanto pisam a eira. E, quanto à aração, porque nada havia ainda a colher, mas somente labor, usou a palavra esperança; mas, quanto ao pisar a eira, logo permite o fruto, dizendo: O que debulha é participante de sua esperança.
Além disso, para que ninguém dissesse: É esta, pois, a recompensa de tantos labores? acrescenta: em esperança, isto é, a que há de vir. Nenhuma outra coisa, portanto, declara a boca deste animal não açaimada, senão isto: que os mestres que labutam devem também gozar de alguma recompensa.
Paulo assinala que os que contribuem para com seus mestres recebem mais do que dão.
Eis que acrescenta também um quarto argumento para o dever de prestar sustento. Pois, havendo dito: Que soldado jamais milita à sua própria custa? e quem planta uma vinha? e quem apascenta um rebanho? e havendo introduzido o boi que debulha o grão, assinala igualmente outra causa, a mais razoável, por força da qual poderiam eles justamente receber; a saber, o terem outorgado dons muito maiores, não mais como quem apenas labutou. Que é isto, pois? Se semeamos entre vós as coisas espirituais, será grande coisa que ceifemos as vossas coisas carnais? Vedes uma alegação justíssima e mais cheia de razão do que todas as anteriores? Pois naqueles exemplos, diz ele, carnal é a semente, carnal também é o fruto; mas aqui não é assim, senão que a semente é espiritual, e a recompensa carnal. Assim, para prevenir pensamentos soberbos naqueles que contribuem para com seus mestres, significou que estes recebem mais do que dão. Como se dissesse: Os lavradores, tudo quanto semeiam, isto mesmo recebem; nós, porém, semeando em vossas almas coisas espirituais, ceifamos coisas carnais. Pois tal é a espécie de sustento por eles dado. Além disso, e ainda mais para os fazer corar.
Vede ainda outro argumento, e este também tirado de exemplos, ainda que não da mesma espécie. Pois não é a Pedro que ele menciona aqui, nem aos Apóstolos, mas a certos outros, espúrios, contra os quais depois entra em combate, e a respeito dos quais diz: "Se alguém vos devora, se vos toma cativos, se se exalta, se vos fere no rosto" (2 Cor 11:20), e já vai preludiando o combate contra eles. Por isso não disse: Se outros recebem de vós, mas, apontando a insolência, a tirania e a mercancia deles, diz: se outros participam deste direito sobre vós, isto é, vos dominam, exercem autoridade, usam-vos como servos, não somente vos tomando cativos, mas com muita autoridade. Por isso acrescentou: não o faremos nós ainda mais?, o que não teria dito se o discurso fosse acerca dos Apóstolos. Mas é evidente que ele alude a certos homens pestilentos e enganadores deles. De sorte que, além da lei de Moisés, vós mesmos fizestes uma lei em favor do dever da contribuição.
E tendo dito, não o faremos nós ainda mais?, ele não demonstra por que ainda mais, mas deixa às consciências deles a tarefa de convencê-los disso, querendo ao mesmo tempo tanto alarmá-los quanto envergonhá-los mais completamente.
7. Contudo, não usamos deste direito; isto é, não recebemos. Vedes como, tendo já por tantas razões demonstrado que receber não é ilícito, ele em seguida diz, não recebemos, para que não parecesse abster-se disso como de coisa proibida? Pois não porque é ilícito, diz ele, deixo eu de receber; pois é lícito, e isto de muitas maneiras já mostramos: pelos Apóstolos; pelas coisas da vida, o soldado, o lavrador e o pastor; pela lei de Moisés; pela própria natureza do caso, visto que semeamos entre vós coisas espirituais; pelo que vós mesmos fizestes a outros. Mas, tendo estabelecido estas coisas, para que não parecesse envergonhar os Apóstolos, que tinham por costume receber, envergonhando-os e significando que não como de coisa proibida ele se abstém disso; assim também, novamente, para que, pela abundância de suas provas, exemplos e razões, pelos quais apontara a legitimidade de receber, não parecesse estar ansioso por receber ele mesmo e, por isso, dizer estas coisas, ele agora o corrige. E depois o estabelece mais claramente onde diz: E não escrevi estas coisas para que assim se faça no meu caso; mas aqui suas palavras são: não usamos deste direito.
E, o que é ainda maior, nem sequer poderia alguém dizer isto: que, achando-nos em abundância, recusamos servir-nos dela; antes, quando a necessidade sobre nós pesava, não cedemos à necessidade. O que também na segunda Epístola ele diz: Espoliei outras igrejas, tomando delas salário para vos servir; e, estando presente convosco e padecendo necessidade, a ninguém fui pesado (2 Cor 11.8-9). E, nesta mesma Epístola, novamente: E até esta hora padecemos fome, e sede, e nudez, e somos esbofeteados (1 Cor 4.11). E aqui de novo ele alude à mesma coisa, dizendo: Mas suportamos tudo. Pois, ao dizer suportamos tudo, insinua tanto a fome quanto as grandes angústias e todas as demais coisas. Mas nem ainda assim, diz ele, fomos compelidos a quebrantar a lei que a nós mesmos impusemos. Por quê? Para que não causássemos nenhum empecilho ao Evangelho de Cristo. Pois, sendo os coríntios de ânimo antes fraco, para que não vos ferêssemos, diz ele, ao receber, escolhemos fazer ainda mais do que nos era ordenado, antes que impedir o Evangelho, isto é, a vossa instrução. Ora, se nós, numa matéria que nos era deixada livre, e ainda quando suportávamos tanta aflição e tínhamos os Apóstolos por modelo, usamos de abstinência para não causarmos empecilho (e não disse subversão, mas empecilho; nem simplesmente empecilho, mas qualquer empecilho), a fim de que não causássemos, por assim dizer, nem a mais leve suspensão ou demora ao curso da Palavra — se agora, diz ele, usamos de tão grande cuidado, quanto mais deveis vós abster-vos, que tanto ficais muito aquém dos Apóstolos quanto não tendes lei alguma que possais alegar, dando-vos permissão; mas, pelo contrário, estendeis a mão a coisas proibidas e a coisas que tendem a grande dano do Evangelho, e não apenas a seu empecilho — e nem sequer tendo em vista necessidade premente alguma. Pois todo este discurso ele o havia movido por causa destes coríntios, que faziam tropeçar seus irmãos mais fracos ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos.
8. Ouçamos também nós estas coisas, amados, para que não desprezemos os que se escandalizam, nem causemos nenhum empecilho ao Evangelho de Cristo, para que não traiamos a nossa própria salvação. E não me digas tu, quando teu irmão se escandaliza, que isto ou aquilo, pelo qual ele se escandaliza, não foi proibido, que é permitido. Pois tenho algo maior a dizer-te: ainda que o próprio Cristo o tenha permitido, se vês, contudo, algum sendo prejudicado, detém-te e não uses da permissão. Pois isto mesmo fez Paulo: quando podia receber, tendo Cristo lhe concedido permissão, não recebeu. Assim misturou o nosso Senhor, em sua misericórdia, muita mansidão aos seus preceitos, para que não fosse tudo puramente da ordem, mas para que fizéssemos também muito de nosso próprio ânimo. Pois estava em seu poder, se assim não o tivesse querido, estender ainda mais os mandamentos e dizer: aquele que não jejua continuamente, seja castigado; aquele que não guarda a sua virgindade, seja punido; aquele que não se despoja de tudo quanto possui, sofra a mais severa pena. Mas não o fez assim, dando-vos ocasião, se o quiserdes, de serdes prontos a fazer mais. Por isso, tanto quando discorria sobre a virgindade, disse: Quem é capaz de receber isto, receba-o; como no caso do rico, algumas coisas ordenou, mas outras deixou à determinação do seu ânimo. Pois não disse: Vende o que tens, mas: Se queres ser perfeito, vende.
Diante disso, não apenas não nos adiantamos a fazer mais, e a ultrapassar os preceitos, mas ficamos muito aquém até mesmo da medida das coisas ordenadas. E enquanto Paulo suportou a fome para não impedir o Evangelho, nós não temos ânimo sequer para tocar no que está em nossos próprios depósitos, ainda que vejamos inumeráveis almas ruírem. Sim, dirá alguém, que a traça coma, e não coma o pobre; que o verme devore, e não se vista o nu; que tudo se consuma pelo tempo, e não se alimente Cristo — e isto quando Ele tem fome. Mas quem disse isto?, perguntar-se-á. Ora, esta é precisamente a grande queixa: que não em palavras, mas em obras, estas coisas são ditas; pois seria menos grave se proferidas em palavras do que se cumpridas em obras. Pois não é isto o que clama, dia após dia, a desumana e cruel tirana Cobiça, aos que ela leva cativos? Que vossos bens sejam postos diante de delatores, e ladrões, e traidores, para o luxo, e não diante dos famintos e necessitados, para o seu sustento. Não sois vós, então, que fazeis os ladrões? Não sois vós que forneceis combustível ao fogo dos invejosos? Não sois vós que fazeis vagabundos e traidores, pondo diante deles vossa riqueza como isca? Que loucura é esta — pois loucura é, e franca demência — encher vossos cofres de vestes, e desprezar aquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus, nu e trêmulo de frio, e a custo se mantendo em pé.
Mas ele finge, dirá alguém, este tremor e esta fraqueza. E não temes que um raio do céu, aceso por esta palavra, caia sobre ti? (Pois estou a arrebentar de ira: suportai-me.) Tu, digo, que te regalas e te engordas, e prolongas tuas bebedeiras até a meia-noite, e te aconchegas em macias cobertas, não te julgas sujeito a julgamento, usando tão sem lei os dons de Deus — pois o vinho não foi feito para que nos embriagássemos, nem o alimento, para que regalássemos o apetite, nem as carnes, para que distendêssemos o ventre. Mas do pobre, do desventurado, daquele que é como morto, deste exiges contas rigorosas, e não temes o tribunal de Cristo, tão pleno de todo temor e terror? Ora, se ele representa o hipócrita, fá-lo por necessidade e por indigência, por causa de vossa crueldade e desumanidade, que o obrigam ao uso de tais máscaras, recusando toda inclinação à misericórdia. Pois quem é tão desventurado e miserável que, sem urgente necessidade, por um pedaço de pão, se submeta a tal ignomínia, e se lastime a si mesmo, e suporte tão severo castigo? De sorte que esta sua hipocrisia anda por aí como arauto de vossa desumanidade. Pois, uma vez que, suplicando e rogando, e proferindo lastimosas expressões, e gemendo e chorando, e perambulando o dia inteiro, não obtém sequer o alimento necessário, ele concebeu talvez também este artifício — cuja ignomínia e cuja culpa recaem não tanto sobre ele mesmo quanto sobre vós. Pois ele, na verdade, é digno de piedade, porque caiu em tamanha necessidade; mas nós somos dignos de inumeráveis castigos, porque forçamos os pobres a padecer tais coisas. Pois, se nós cedêssemos facilmente, jamais ele teria escolhido suportar tais coisas.
Depois de tanto sofrimento, para que falo eu de nudez e de tremor? Pois contarei uma coisa ainda mais horrenda de se estremecer: que alguns foram compelidos a privar até mesmo seus filhos da visão em tenra idade, a fim de que pudessem tocar a nossa insensibilidade. Pois, uma vez que, enquanto podiam ver e andavam nus, nem por sua idade nem por suas desventuras conseguiam obter o favor dos impiedosos, acrescentaram a tantos males ainda uma tragédia mais severa, para que pudessem remover a sua fome; julgando ser coisa mais leve serem privados desta luz comum e daquele fulgor solar que a todos é dado, do que lutar contra a fome contínua e suportar a mais miserável das mortes. Assim, posto que não aprendestes a compadecer-vos da pobreza, mas antes vos deleitais nas desventuras alheias, eles satisfazem o vosso desejo insaciável, e tanto para si quanto para nós acendem uma chama mais feroz no inferno.
9. E para convincer-vos de que esta é a razão pela qual estas e semelhantes coisas se fazem, contar-vos-ei uma prova reconhecida, que homem algum poderá contestar. Há outros pobres, de ânimo leviano e inconstante, que não sabem suportar a fome, antes preferindo padecer tudo a padecê-la. Estes, tendo muitas vezes tentado tratar conosco por gestos e palavras lastimosas, e vendo que de nada lhes aproveitava, deixaram tais súplicas, e doravante até os nossos próprios taumaturgos são por eles superados: uns mastigando o couro de sapatos gastos, outros cravando pregos agudos na cabeça, outros deitando-se em poças geladas com o ventre nu, e outros suportando coisas ainda mais horrendas do que estas, a fim de atrair para si os espectadores ímpios. E tu, enquanto tais coisas se passam, ficas rindo e admirando, fazendo assim belo espetáculo das misérias alheias, com o que a nossa comum natureza a si mesma se desonra. E que mais poderia fazer um demônio feroz? Depois disso, dás-lhe dinheiro em abundância, para que faça estas coisas mais prontamente. Mas àquele que ora, e invoca a Deus, e se aproxima com modéstia, não concedes nem resposta nem sequer um olhar; antes lhe diriges, a atormentá-lo continuamente, aquelas expressões repugnantes: Deve este sujeito viver? Ou sequer respirar e ver este sol? — ao passo que para com aqueles outros te mostras alegre e liberal, como se estivesses constituído para distribuir o prêmio daquela ridícula e satânica indecência. Pelo que, com mais propriedade, a estes que instituem tais espetáculos, e nada dão até verem outros a castigarem-se a si mesmos, se poderiam dirigir estas palavras: Devem estes homens viver, respirar sequer, ou ver o sol, eles que transgridem contra a nossa comum natureza, que insultam a Deus? Pois quando Deus diz: Dai esmolas, e Eu vos darei o reino dos céus, não O ouves; mas quando o Diabo te mostra uma cabeça trespassada de pregos, subitamente te tornas liberal. E o artifício do espírito maligno, pejado de tanto malefício, operou mais sobre ti do que a promessa de Deus, que traz inumeráveis bênçãos. Se se houvesse de depositar ouro para impedir que estas coisas se fizessem, ou que, feitas, se olhassem, não há nada que não devesses praticar e suportar, para te livrares de tamanha loucura; mas tu tudo maquinas para que se façam, e olhas para a sua feitura. Ainda perguntas, pois, dize-me, para que serve o fogo do inferno? Não, não perguntes mais isso, mas antes como há um só inferno? Pois de quantos castigos não são dignos os que promovem este espetáculo cruel e desapiedado, e riem daquilo que tanto eles quanto vós deveríeis chorar; sim, antes, dos dois, mais dignos sois vós, que os obrigais a tais indecorosos feitos.
Mas eu não os obrigo, dizes. Que outra coisa senão obrigar é isso, gostaria eu de saber? Aos que são mais modestos, e derramam lágrimas, e invocam a Deus, mal suportas sequer escutá-los; mas para com estes outros achas prata em abundância, e trazes contigo muitos para os admirarem.
Mas cessemos, dizeis vós, compadecendo-nos deles. E sois vós também que ordenais isto? Não, ó homem, não é compaixão exigir castigo tão severo por umas poucas moedas, ordenar que os homens se mutilem por causa do alimento necessário e cortem em muitos pedaços a pele de suas cabeças tão impiedosa e lastimosamente. Com brandura, dizeis, pois não somos nós que perfuramos essas cabeças. Oxalá fôsseis vós, e o horror não seria tão horrendo. Pois aquele que mata um homem comete coisa muito mais grave do que aquele que lhe ordena matar-se a si mesmo, o que de fato sucede no caso dessas pessoas. Pois padecem dores mais amargas quando são compelidas a ser elas mesmas as executoras dessas ímpias ordens.
E tudo isto em Antioquia, onde os homens foram primeiro chamados cristãos, onde se criam os mais civilizados dentre os homens, onde antigamente floresceu tão abundantemente o fruto da caridade. Pois não somente aos que estavam próximos, mas também aos que se achavam mui distantes, costumavam eles enviar socorro, e isto quando se esperava a fome.
10. Que devemos, pois, fazer? Perguntais vós. Cessar desta prática selvagem; e persuadir a todos os que estão em necessidade de que, fazendo estas coisas, nada lucrarão, mas que, se se aproximarem modestamente, hão de encontrar grande a vossa liberalidade. Uma vez que disto se apercebam, ainda que sejam os mais miseráveis dentre todos os homens, jamais escolherão castigar-se tão severamente, eu vos garanto; antes, ainda vos darão graças por os livrardes tanto do escárnio quanto da dor desse modo de vida. Mas, como as coisas estão, por aurigas até mesmo os vossos próprios filhos deixaríeis ir, e por dançarinos lançaríeis fora as vossas próprias almas, ao passo que por Cristo faminto não poupais a menor parte de vossa substância. Mas, se dais uma pequena moeda de prata, pensais nisso como se houvésseis desembolsado tudo quanto possuís, não sabendo que não o dar, mas o dar liberalmente, é isto a verdadeira esmola. Por isso, também não são simplesmente os que dão que o profeta proclama e chama bem-aventurados, mas os que distribuem liberalmente. Pois ele não diz simplesmente: Deu; mas o quê? Sl 112,8 Espalhou, deu aos pobres. Pois que proveito há, quando, dessa fonte, dais como que um copo de água tirado do mar, e nem sequer a magnanimidade de uma viúva podeis emular? E como direis: Tende piedade de mim, ó Senhor, segundo a vossa grande piedade, e segundo a multidão de vossas misericórdias apagai a minha transgressão, não tendo vós mesmo piedade segundo nenhuma grande piedade, e talvez nem sequer segundo alguma pequena? Pois confesso que muito me envergonho quando vejo muitos dos ricos cavalgando seus corcéis de freios dourados, com um séquito de servos vestidos de ouro, e possuindo leitos de prata e outra e mais pompa ainda, e contudo, quando há necessidade de dar a um pobre, tornam-se mais mendigos que o mais pobre de todos.
11. Mas qual é o seu discurso constante? Ele tem, dizem eles, a esmola comum da igreja. E que tens tu com isso? Pois não sereis salvo porque eu dou; nem, se a Igreja concede, tereis apagado os vossos próprios pecados. Por esta razão não dais vós, porque a Igreja deve dar aos necessitados? Porque os sacerdotes oram, jamais orareis vós mesmo? E porque outros jejuam, permanecereis continuamente embriagados? Não sabeis que Deus instituiu a esmola não tanto por causa dos pobres quanto por causa das próprias pessoas que a concedem?
Do que já foste servo do sacerdote? Ora, é isto mesmo, antes de mais, um pecado grave. Não examinarei, contudo, a questão com demasiado rigor. Fazei vós mesmos tudo em pessoa, e assim colhereis dupla recompensa. Pois, de fato, o que dizemos em favor da esmola não é para que a ofereçais a nós, mas para que vós mesmos ministreis com vossas próprias mãos. Porque, se trazeis vossa esmola a mim, talvez sejais levados cativos pela vanglória, e muitas vezes também vos retirareis ofendidos por suspeita de algo mau; mas, se fazeis tudo por vós mesmos, livrar-vos-eis tanto das ofensas quanto da suspeita irracional, e maior será vossa recompensa. Não é, pois, para vos obrigar a trazer aqui vosso dinheiro que digo estas coisas, nem por indignação por serem os sacerdotes malfalados. Porquanto, se alguém deve indignar-se e afligir-se, sois vós que deveis ser nossa aflição, vós que dizeis este mal. Pois aos que são malfalados falsa e vãmente é maior a recompensa, mas aos que assim falam mais pesada é a condenação e o castigo. Não digo, pois, estas coisas em favor deles, mas por solicitude e cuidado para convosco. Pois que maravilha é que alguns em nossa geração sejam suspeitados, quando no caso daqueles santos varões que imitavam os anjos, que nada possuíam de próprio — refiro-me aos Apóstolos —, houve murmuração no ministério às viúvas (At 6:1), de que os pobres eram negligenciados? Quando ninguém dizia ser sua propriedade qualquer coisa que possuísse, mas tinham tudo em comum? (At 4:32)
Não apresentemos, pois, estes pretextos, nem tomemos como desculpa que a Igreja é rica. Mas, quando virdes a grandeza de seu patrimônio, lembrai-vos também das multidões de pobres que estão em seu rol, das multidões de seus enfermos, de suas ocasiões de despesas intermináveis. Investigai, examinai; não há quem o proíba — antes, estão até prontos a vos prestar contas. Mas quero ir muito mais longe. A saber: quando já tivermos prestado nossas contas e provado que nossa despesa não é menor que nossa renda — antes, por vezes maior — gostaria de vos fazer ainda esta pergunta: quando partirmos daqui e ouvirmos Cristo dizer: Tivestes-me fome, e não me destes de comer; nu, e não me vestistes — que diremos? Que desculpa apresentaremos? Traremos à baila tal ou qual pessoa que desobedeceu a estes mandamentos? Ou alguns dos sacerdotes que foram suspeitados? Ora, que tens tu com isso? Pois Eu te acuso, diz Ele, das coisas em que tu mesmo pecaste. E a desculpa para estas coisas seria ter lavado as próprias ofensas, não apontar para outros cujos erros foram os mesmos que os teus.
De fato, a Igreja, por causa de vossa mesquinhez, é obrigada a ter o patrimônio que agora tem. Pois, se os homens fizessem tudo segundo as leis, sua renda deveria ser vossa boa vontade, a qual seria tanto cofre seguro quanto tesouro inesgotável. Mas agora, quando ajuntais para vós mesmos tesouros sobre a terra e encerrais tudo em vossos próprios celeiros, enquanto a Igreja é obrigada a arcar com despesas de bandos de viúvas, coros de virgens, hospedagens de estrangeiros, aflições de forasteiros, infortúnios de prisioneiros, necessidades de enfermos e aleijados, e outras causas semelhantes — que se há de fazer? Afastar-nos de tudo isto e fechar tantos portos? Quem então poderia suportar os naufrágios que se seguiriam; os prantos, as lamentações, os gemidos que nos chegariam de toda parte?
Não falemos, pois, ao acaso o que nos vem à mente. Pois agora, como acabo de dizer, estamos verdadeiramente preparados para vos prestar contas. Mas ainda que fosse o contrário, e vós tivésseis mestres corruptos, saqueando e usurpando tudo, nem ainda assim a maldade deles seria desculpa para vós. Pois o Amigo dos homens e Onissapiente, o Filho Unigênito de Deus, vendo todas as coisas, e conhecendo a possibilidade de que, no decorrer de tão longo tempo e em mundo tão vasto, houvesse muitos sacerdotes corruptos; para que a negligência dos que estão sob seu governo não crescesse por causa do descuido destes, removendo toda desculpa para a indiferença; Sobre a cadeira de Moisés, diz Ele, sentam-se os escribas e os fariseus; tudo, pois, quanto vos disserem que guardeis, guardai-o e fazei-o, mas não façais conforme as obras deles: dando a entender que, ainda que tenhais um mau mestre, isto não vos aproveitará, se não atentardes para as coisas que são ditas. Pois não pelo que fez o vosso mestre, mas pelo que ouvistes e desobedecestes, por isso, digo eu, é que Deus profere sobre vós a sua sentença. De modo que, se fizerdes as coisas ordenadas, então estareis com muita ousadia; mas se desobedecerdes às coisas ditas, ainda que mostrásseis dez mil sacerdotes corruptos, isto de modo algum vos aproveitará. Pois também Judas foi apóstolo, mas nem por isso isto será jamais desculpa para o sacrílego e o cobiçoso. Nem poderá ninguém, quando acusado, dizer: Mas o Apóstolo foi ladrão, e sacrílego, e traidor; antes, isto mesmo será sobretudo o nosso castigo e a nossa condenação, que nem sequer pelos males alheios fomos corrigidos. Por esta razão também estas coisas foram escritas, para que fujamos de toda emulação de tais coisas.
Pelo que, deixando este e aquele, atentemos para nós mesmos. Pois cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. Para que, pois, possamos prestar esta conta com boa defesa, ordenemos bem a nossa própria vida e estendamos mão liberal aos necessitados, sabendo que esta somente é a nossa defesa, a de nos mostrarmos ter feito retamente as coisas ordenadas; nenhuma outra há, qualquer que seja. E se pudermos apresentar isto, escaparemos àquelas dores intoleráveis do inferno, e alcançaremos os bens vindouros; aos quais possamos todos chegar, pela graça e misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Muito mais forte era o caso dos apóstolos do que o dos sacerdotes. O sacerdócio era uma honra, mas os apóstolos estavam expostos a perigos, matanças e mortes violentas. Ao dizer "Vimos entre vós o bem espiritual", ele aponta para as tempestades, os perigos, as ciladas, os males inefáveis suportados na pregação. Mas Paulo não quis desprezar as coisas da antiga lei, nem exaltar o que lhe era próprio. Ele mesmo proveu de seus próprios bens. Computou o valor delas não a partir dos perigos, mas a partir da grandeza do dom de Deus. Não disse "se nos expusemos ao perigo", mas "se semeamos entre vós as coisas espirituais".
Grande cuidado toma ele em mostrar que o receber não era coisa proibida. Por isso, tendo dito tanto anteriormente, não se contentou, mas prossegue também até a Lei, fornecendo um exemplo mais próximo do ponto do que o anterior. Pois não era a mesma coisa aduzir os bois e aduzir a lei expressamente dada acerca dos sacerdotes.
Mas considerai, peço-vos, também nisto a sabedoria de Paulo, como ele menciona a questão de modo a lhe conferir dignidade. Pois não disse: Os que ministram as coisas sagradas recebem daqueles que as oferecem. Mas o quê? Comem do templo: de sorte que nem os que recebem sejam censurados, nem os que dão se ensoberbeçam. Por isso também o que se segue ele estabeleceu do mesmo modo.
Pois tampouco disse: Os que servem ao altar recebem daqueles que sacrificam, mas: têm sua porção com o altar. Porque as coisas oferecidas já não pertenciam mais àqueles que as ofereciam, mas ao templo e ao altar. E não disse: Recebem as coisas sagradas, mas: comem do templo, indicando novamente a moderação deles, e que não lhes convém enriquecer nem amealhar dinheiro. E, ainda que diga que têm sua porção com o altar, não fala de uma distribuição igual, mas de um socorro a eles dado como o que lhes é devido. E, no entanto, o caso dos Apóstolos era muito mais forte. Pois, no primeiro caso, o sacerdócio era uma honra; no segundo, porém, eram perigos, matanças e mortes violentas. Por isso, todos os demais exemplos juntos não se igualavam ao dito: Se semeamos entre vós as coisas espirituais; visto que, ao dizer semeamos, aponta ele para as tempestades, o perigo, as ciladas, os males inefáveis que suportaram na pregação. Não obstante, sendo tão grande a superioridade, não quis ele nem rebaixar as coisas da antiga lei, nem exaltar as que lhe pertenciam; antes, ainda restringe as suas próprias, computando a superioridade não a partir dos perigos, mas a partir da grandeza do dom. Pois não disse: se nos arriscamos ou nos expusemos a ciladas, mas: se semeamos entre vós as coisas espirituais.
E a parte dos sacerdotes, tanto quanto possível, ele exalta, dizendo: Os que ministram as coisas sagradas, e os que servem ao altar, com a intenção de assinalar sua contínua servidão e paciência. Novamente, assim como havia falado dos sacerdotes entre os judeus, a saber, tanto os levitas quanto os sumos sacerdotes, também expressou cada uma das ordens, tanto a inferior quanto a superior; a uma, dizendo: os que ministram as coisas sagradas; e a outra, dizendo: os que servem ao altar. Pois nem a todos era ordenada a mesma obra; mas a uns eram confiados os ofícios mais rudes, a outros os mais elevados. Compreendendo, pois, todos estes, para que ninguém dissesse: Por que nos falas da antiga lei? Não sabes que o nosso é o tempo dos mandamentos mais perfeitos? depois de todos esses tópicos, colocou aquele que é o mais forte de todos, dizendo:
Assim também ordenou o Senhor que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho. (1 Cor 9,14)
Nem sequer aqui diz que são sustentados pelos homens, mas, assim como no caso dos sacerdotes disse do templo e do altar, assim também aqui, do Evangelho; e assim como ali diz comer, aqui diz viver, não fazer mercadoria nem entesourar riquezas. Pois o trabalhador, diz Ele, é digno do seu sustento.
2. Mas eu não usei de nenhuma destas coisas:
Que dizer, pois, se não usaste destas coisas até agora, diz alguém, mas pretendes usá-las no futuro, e por isso dizes estas coisas? Longe disso; pois logo ele corrigiu tal suposição, dizendo assim:
E não escrevo estas coisas para que assim se faça no meu caso.
E vede com que veemência ele repudia e repele a ideia:
Pois melhor me fora morrer, do que alguém tornar vã a minha glória.
E não uma nem duas vezes, mas muitas vezes usa ele esta expressão. Pois acima disse: Não usamos deste direito; e depois disto novamente, que eu não abuse do meu direito; e aqui, mas eu não usei de nenhuma destas coisas. Estas coisas; que coisas? Os muitos exemplos. Isto é, muitas coisas que me davam licença; o soldado, o lavrador, o pastor, os Apóstolos, a lei, as coisas feitas por nós a vós, as coisas feitas por vós aos outros, os sacerdotes, a ordenação de Cristo; por nenhuma destas fui induzido a abolir minha própria lei, e a receber. E não me faleis do passado (ainda que eu pudesse dizer que já muito suportei mesmo em tempos passados por esta causa), contudo não me apoio somente nisso, mas também quanto ao futuro empenho-me a mim mesmo, de que preferiria antes morrer de fome a ser privado destas coroas.
Pois melhor me fora morrer, diz ele, do que alguém tornar vã a minha glória.
Não disse ele que alguém abolisse minha lei, mas, minha glória. Pois para que ninguém dissesse que ele o faz sim, mas não de bom grado, e sim com lamento e pesar, querendo mostrar o excesso de sua alegria e a abundância de seu zelo, chega mesmo a chamar a coisa de glória. Tão longe estava ele de se afligir, que até se gloria, e prefere morrer a decair desta glória. Tanto mais caro lhe era, mais do que a própria vida, este seu proceder.
3. Em seguida, ele o exalta também por outra consideração, e significa que era coisa grande, não para mostrar-se célebre (pois longe estava ele de tal disposição), mas para significar que se alegra, e com o intuito de mais abundantemente afastar toda suspeita. Pois por isso, como já disse antes, também a chamou de glória: e que diz ele?
Que dizes? Dize-me. Se pregas o Evangelho, não é para ti motivo de glória; mas é, se fazes o Evangelho de Cristo sem encargo? É isto, pois, maior do que aquilo? De modo nenhum; mas sob outro aspecto tem alguma vantagem, visto que uma coisa é preceito, e a outra é boa obra de minha livre vontade: pois as coisas feitas além do preceito têm grande recompensa neste sentido; mas as que se fazem em cumprimento de preceito, não tanto: e assim, neste respeito, diz ele, uma é mais do que a outra; não na própria natureza da coisa. Pois que se iguala à pregação, visto que faz os homens rivalizarem até com os próprios anjos? Contudo, visto que uma coisa é preceito e dívida, e a outra prontidão da livre vontade, neste respeito esta é mais do que aquela. Por isso diz ele, explicando o mesmo que há pouco mencionei:
Pois se faço isto de minha própria vontade, tenho recompensa; mas se não de minha própria vontade, uma mordomia me é confiada; tomando as palavras de minha própria vontade e não de minha própria vontade, quanto a lhe ser confiada ou não confiada. E assim devemos entender a expressão, pois necessidade me é imposta; não como se ele fizesse alguma destas coisas contra a sua vontade — longe disso —, mas como estando vinculado às coisas ordenadas, e em contradistinção à liberdade quanto ao receber, antes mencionada. Por isso também Cristo disse aos discípulos: Quando tiverdes feito tudo, dizei: Somos servos inúteis; pois fizemos o que era nosso dever fazer.
Qual é, pois, minha recompensa? Que, ao pregar o Evangelho, faça eu o Evangelho sem encargo. Que dizer, pois, dize-me, não tem Pedro recompensa alguma? Antes, quem jamais poderia ter uma tão grande quanto a dele? E que diremos dos demais Apóstolos? Como, pois, disse ele, Se faço isto de minha própria vontade, tenho recompensa; mas se não de minha própria vontade, uma mordomia me é confiada? Vedes aqui também sua sabedoria? Pois não disse: Mas se não de minha própria vontade, não tenho recompensa alguma, mas: uma mordomia me é confiada; dando a entender que ainda assim ele tem recompensa, mas tal qual a obtém aquele que cumpriu o que foi ordenado, não tal qual pertence àquele que, de seus próprios recursos, foi generoso e excedeu o preceito.
Qual é, pois, a recompensa? Que, ao pregar o Evangelho, diz ele, faça eu o Evangelho sem encargo, de modo a não usar plenamente meu direito no Evangelho. Vede como em toda parte usa ele o termo direito, dando a entender isto, como já observei muitas vezes: que nem mesmo os que recebem são dignos de censura. Mas acrescentou, no Evangelho, em parte para mostrar a razoabilidade disso, em parte também para proibir que se estenda a questão a todo e qualquer caso. Pois o mestre deve receber, mas não também o mero zangão.
Que coisa pode igualar-se à pregação? Pois ela faz com que os homens rivalizem até mesmo com os próprios anjos.
Aqui, novamente, ele introduz outro degrau elevado, ainda mais avançado. Pois grande coisa é mesmo não receber, mas isto que ele está prestes a mencionar é muito mais do que isso. Que é, pois, o que ele diz? Não somente não recebi, diz ele, não somente não usei deste direito, mas até me fiz escravo, e numa escravidão múltipla e universal. Pois não somente em dinheiro, mas — o que era muito mais do que dinheiro — em trabalhos numerosos e diversos cumpri esta mesma regra: e fiz-me escravo quando a ninguém estava sujeito, não tendo necessidade alguma em nenhum respeito (pois este é o sentido de "embora fosse livre de todos os homens"); e não a uma só pessoa fui escravo, mas ao mundo inteiro.
Por isso também acrescentou: fiz-me servo de todos. Isto é: para pregar o Evangelho fui ordenado, e para proclamar as coisas confiadas à minha guarda; mas o planejar e conceber inúmeras coisas além disso, tudo isso proveio do meu próprio zelo. Pois eu estava obrigado apenas a investir o dinheiro, ao passo que fiz tudo a fim de obter dele um retorno, tentando mais do que me fora ordenado. Assim, fazendo, como fazia, todas as coisas por livre escolha, zelo e amor a Cristo, tinha ele um desejo insaciável pela salvação da humanidade. Por isso também costumava ultrapassar, em muito, as linhas traçadas, elevando-se de todos os modos mais alto que o próprio céu.
5. Em seguida, tendo mencionado sua servidão, descreve no que se segue os diversos modos dela. E quais são estes?
Paulo não se fez judeu em realidade, mas somente em aparência. Como poderia ser de outro modo, visto que estava tão determinado a convertê-los e a livrá-los de sua situação? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
E fiz-me, diz ele, para os judeus como judeu, a fim de ganhar os judeus. E como se deu isto? Quando circuncidou, a fim de abolir a circuncisão. Por isso não disse "judeu", mas "como judeu", o que foi disposição sábia. Que dizes? O arauto do mundo, aquele que tocou os próprios céus e resplandeceu tão brilhante em graça, desce ele, de uma só vez, tão baixo? Sim. Pois isto é ascender. Porque não deves atentar somente ao fato de ele descer, mas também ao de erguer aquele que estava curvado e trazê-lo consigo às alturas.
Aos que estão debaixo da lei, como debaixo da lei, não estando eu mesmo debaixo da lei, a fim de ganhar os que estão debaixo da lei. Ou é isto explicação do que precedeu, ou ele indica algo mais além do anterior: chamando judeus aqueles que o eram originalmente e desde o princípio; mas "debaixo da lei", os prosélitos, ou os que se tornaram crentes e ainda assim aderiam à lei. Pois já não eram propriamente judeus, mas "debaixo da lei". E quando esteve ele debaixo da lei? Quando rapou a cabeça; quando ofereceu sacrifício. Ora, estas coisas foram feitas, não porque sua mente se mudasse (pois tal conduta teria sido maldade), mas porque seu amor condescendia. Pois, a fim de trazer para esta fé aqueles que eram verdadeiramente judeus, ele mesmo se fez tal, não em realidade, mostrando-se tal apenas na aparência, mas não sendo tal de fato, nem fazendo estas coisas a partir de uma mente assim disposta. Com efeito, como poderia sê-lo, ele que era tão zeloso por converter também os outros, e fazendo estas coisas somente a fim de libertar da degradação aqueles que as praticavam?
Aos que estão sem lei, como se sem lei estivesse. Estes não eram judeus, nem cristãos, nem gregos; mas estavam "fora da Lei", como Cornélio, e outros semelhantes a ele, se os havia. Pois também entre estes, ao fazer sua aparição, costumava assumir muitos dos seus costumes. Mas alguns dizem que ele alude ao seu discurso com os atenienses, a partir da inscrição encontrada no altar, e que por isso diz: aos que estão sem lei, como se sem lei estivesse.
Depois, para que ninguém pensasse que se tratava de uma mudança de propósito, acrescentou: não estando sem lei para com Deus, mas sob a lei de Cristo; isto é, longe de estar sem lei, não estou simplesmente sob a Lei, mas possuo aquela lei que é muito mais excelsa do que a antiga, a saber, a do Espírito e da graça. Por isso também acrescenta: de Cristo. Em seguida, tendo-os já persuadido quanto ao seu discernimento, expõe também o proveito de tal condescendência, dizendo: para que eu pudesse ganhar os que estão sem lei. E em toda parte ele apresenta a causa de sua condescendência, e não se detém sequer aqui.
Paulo se fez tudo para todos, não na expectativa de ganhar a todos, mas para que pudesse salvar ao menos alguns. Não era possível que toda a semente se salvasse, mas tampouco poderia ser que toda ela perecesse. Alguém tão ardentemente zeloso quanto Paulo certamente haveria de obter algum êxito.
Aos fracos me fiz fraco, para ganhar os fracos: nesta parte ele vem ao caso destes, tendo em vista os quais também todas estas coisas foram ditas. Todavia, aquelas eram coisas muito maiores, mas esta é mais pertinente ao propósito; donde também a colocou depois delas. E, de fato, fez o mesmo igualmente em sua Epístola aos Romanos, quando tratava da questão dos alimentos; e assim em muitos outros lugares.
Em seguida, para não perder tempo nomeando todos separadamente, diz: fiz-me tudo para todos, para que de todo modo eu possa salvar alguns.
Vedes até onde isto é levado? Fiz-me tudo para todos, não esperando, contudo, salvar a todos, mas para que eu possa salvar, ainda que sejam poucos. E tão grande cuidado e serviço empreendi, como naturalmente faria quem estivesse prestes a salvar a todos, embora longe de esperar ganhar a todos: o que era verdadeiramente magnânimo e prova de zelo ardente. Pois igualmente o semeador semeou por toda parte, e não salvou toda a semente, não obstante tivesse feito sua parte. E, tendo mencionado a escassez daqueles que se salvam, acrescentando novamente: de todo modo, consolou aqueles para quem isto era motivo de tristeza. Pois, ainda que não seja possível que toda a semente se salve, todavia não pode ser que toda ela pereça. Por isso disse: de todo modo, porque alguém assim tão ardentemente zeloso há de ter, com certeza, algum êxito.
Percebeis a humildade de Paulo, como, na recompensa dos galardões, ele se coloca como um dentre os muitos, ainda que tivesse excedido a todos os demais em seus labores? É evidente que sua recompensa também seria maior, mas ele não tenta reivindicar o primeiro prêmio. Pelo contrário, contenta-se simplesmente em partilhar com os demais as coroas que lhes estão reservadas.
Isto é, para que eu mesmo pareça ter acrescentado alguma contribuição própria, e possa participar das coroas reservadas aos fiéis. Pois assim como falou de viver do Evangelho, isto é, dos crentes, assim também aqui, para que eu seja participante juntamente no Evangelho, para que eu possa partilhar com aqueles que creram no Evangelho. Percebeis sua humildade, como, na recompensa dos galardões, ele se coloca como um dentre muitos, ainda que a todos tivesse excedido em seus labores? Donde é evidente que ele também na sua recompensa quereria assim proceder. Contudo, não reivindica gozar do primeiro prêmio, mas se contenta se, porventura, puder partilhar com os demais as coroas que lhes estão reservadas. Mas disse estas coisas, não porque fizesse isto por alguma recompensa, mas para que, ao menos por este meio, os atraísse, e por estas esperanças os induzisse a fazer todas as coisas por causa dos irmãos. Vedes sua sabedoria! Vedes a excelência de sua perfeição? Como operou além do que lhe fora ordenado, não recebendo quando lícito lhe era receber. Vedes a extrema grandeza de sua condescendência? Como aquele que estava sob a lei de Cristo, e guardava esta lei suprema, para com os que estavam sem lei, se fez como sem lei; para com os judeus, como judeu; mostrando-se, em ambos os casos, preeminente, e superior a todos.
6. Fazei também vós isto, e não penseis que, sendo eminentes, vos rebaixais quando, por causa do irmão, vos sujeitais a alguma humilhação. Pois isto não é cair, mas descer. Porquanto aquele que cai jaz prostrado, dificilmente podendo levantar-se de novo; mas aquele que desce, também se levantará com muita vantagem. Assim também Paulo desceu, na verdade, sozinho, mas ascendeu com o mundo inteiro; não representando um papel, pois não teria buscado o proveito daqueles que se salvam, se estivesse representando. Visto que o hipócrita busca a perdição dos homens, e finge, para receber, não para dar. Mas o Apóstolo não assim: antes, como médico, como mestre, como pai — um para com o enfermo, outro para com o discípulo, o terceiro para com o filho — condescende para a correção deles, não para o seu dano; assim também procedeu ele.
Para mostrar que as coisas que foram ditas não eram fingimento — num caso em que não é constrangido a fazer ou dizer tal coisa, mas pretende exprimir seu afeto e sua confiança — ouvi-o dizer: Rm 8,39 — nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem potestades, nem coisas presentes, nem coisas por vir, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura, poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Vedes um amor mais ardente que o fogo? Amemos também nós assim a Cristo. Pois, de fato, é fácil, se quisermos. Porque nem o Apóstolo era assim por natureza. Por esta razão, vedes, sua vida anterior foi registrada, tão contrária a esta, para que aprendamos que a obra é fruto de escolha, e que, para o que quer, todas as coisas são fáceis.
Não desesperemos, pois, mas ainda que sejas maldizente, ou avarento, ou seja o que for que sejas, considera que Paulo foi (1 Tm 1:13-16) blasfemo, e perseguidor, e ultrajante, e o maior dos pecadores, e súbito se ergueu ao próprio cume da virtude, e sua vida anterior em nada lhe foi impedimento. E, no entanto, ninguém se apegou ao vício com tamanho furor quanto ele à guerra contra a Igreja. Pois, naquele tempo, nela empenhou a própria vida; e porque não tinha dez mil mãos com que apedrejar a Estêvão com todas elas, disso se afligia. Não obstante, ainda assim encontrou meio de apedrejá-lo com mais mãos, a saber, as das falsas testemunhas cujas vestes guardava. E, de novo, quando entrava nas casas como fera, e de nenhum outro modo se lançava, senão arrastando, dilacerando homens e mulheres, enchendo tudo de tumulto e confusão e inumeráveis contendas. Tão terrível era, por exemplo, que os Apóstolos (At 9:26), mesmo depois de sua tão gloriosa mudança, ainda não ousavam associar-se a ele. Contudo, depois de todas essas coisas, tornou-se tal qual foi: pois não preciso dizer mais.
7. Onde estão agora os que erguem a necessidade do fado contra a liberdade da vontade? Ouçam eles estas coisas, e calem-se suas bocas. Pois nada há que impeça a quem quer tornar-se bom, ainda que antes fosse dos mais vis. E, de fato, estamos mais aptamente dispostos a isso, porquanto a virtude é conforme à nossa natureza, e o vício contrário a ela, tal como a enfermidade e a saúde. Pois Deus nos deu olhos, não para que olhássemos lascivamente, mas para que, admirando a Sua obra, adorássemos o Criador. E que este é o uso de nossos olhos, evidente é pelas coisas que se veem. Pois o brilho do sol e do céu vemos de distância incomensurável, mas a beleza de uma mulher não se pode discernir tão de longe. Vês que para este fim principalmente nos foi dado o olho? De novo, fez Ele o ouvido para que acolhêssemos, não palavras blasfemas, mas doutrinas salvíficas. Por isso vês que, quando recebe algo dissonante, estremece tanto nossa alma quanto o próprio corpo. Pois, diz um (Eclo 27:5), a conversa daquele que muito jura faz eriçar os cabelos. E se ouvimos algo cruel ou desumano, de novo nossa carne se arrepia; mas se algo decoroso e benigno, até exultamos e nos alegramos. De novo, se nossa boca profere palavras torpes, faz-nos envergonhar e esconder-nos, mas se palavras graves, profere-as com facilidade e toda liberdade. Ora, das coisas que são conforme a natureza ninguém se envergonharia, mas sim das que são contra a natureza. E as mãos, quando furtam, escondem-se e buscam desculpas; mas se dão esmolas, até se gloriam. De sorte que, se quisermos, temos de todo lado grande inclinação para a virtude. Mas se me falares do prazer que nasce do vício, considera que também disto colhemos mais da virtude. Pois ter boa consciência, e ser respeitado por todos, e nutrir boas esperanças, é, de todas as coisas, a mais aprazível para quem penetrou a natureza do prazer, assim como o contrário é, de todas as coisas, a mais penosa para quem conhece a natureza da dor; tal como ser reprovado por todos, ser acusado pela própria consciência, tremer e temer tanto o futuro quanto o presente.
E para que o que digo se torne mais evidente, suponhamos, para argumento, um homem que tem esposa, mas que profana o leito nupcial do seu próximo e se compraz nesse ímpio roubo, deleitando-se em sua cúmplice de adultério. Depois, oponhamos-lhe outro que ama a própria esposa. E para que a vitória seja maior e mais evidente, suponhamos que este último, que se deleita apenas com a própria mulher, tenha também alguma inclinação pela outra, a adúltera, mas reprima a sua paixão e nada faça de mau (ainda que nem isso seja pura castidade). Concedamos, porém, mais do que é necessário, para que te convenças de quão grande é o prazer da virtude; foi por essa razão que assim compusemos a narrativa.
Ora, tendo-os posto lado a lado, perguntemos a ambos qual é a vida mais aprazível: e ouvirás um deles gloriar-se e exultar na vitória sobre a sua concupiscência; quanto ao outro — ou antes, não há necessidade de aguardar que ele nos informe coisa alguma. Pois hás de vê-lo, ainda que o negasse inúmeras vezes, mais miserável do que os que estão no cárcere. Porque teme e suspeita de todos: de sua própria esposa, do marido da adúltera, da própria adúltera, dos servos, dos amigos, dos parentes, das paredes, das sombras, de si mesmo; e, o que é pior de tudo, tem a sua consciência a clamar contra ele, latindo em alta voz todos os dias. E se lhe ocorrer também trazer à memória o tribunal de Deus, nem sequer conseguirá manter-se em pé. E o prazer é breve, mas a dor que dele provém é incessante. Pois tanto à tarde quanto à noite, no deserto, na cidade e em toda parte, o acusador o persegue, apontando-lhe uma espada afiada e o castigo intolerável, e com esse terror o consome e o esgota. Já o outro, o casto, está livre de todas essas coisas, e vive em liberdade, e com serenidade contempla sua esposa, seus filhos, seus amigos, e a todos encara com olhos desassombrados. Ora, se aquele que está enamorado, mas é senhor de si mesmo, goza de tão grande prazer, quanto mais aquele que não cede a semelhante paixão, mas é verdadeiramente casto — que porto, que bonança será tão doce e tão serena quanto a mente à qual ele há de chegar? E por isso poderás ver poucos adúlteros, mas muitos castos. Se, porém, aquela vida fosse a mais aprazível, seria preferida pela maioria. E não me fales do terror das leis. Pois não é isso que os detém, mas a excessiva insensatez do vício, e o fato de que as suas dores são maiores que os seus prazeres, e a sentença da consciência.
8. Tal é, pois, o adúltero. Agora, se te apraz, tragamos à tua vista o avarento, expondo novamente outra paixão iníqua. Pois também a ele veremos temeroso das mesmas coisas e incapaz de gozar de verdadeiro prazer: pois, trazendo à memória tanto os que ele lesou quanto os que com estes se compadecem, e a sentença pública de todos a seu respeito, sofre dez mil agitações.
Mas esta não é a sua única tribulação; nem sequer do seu objeto amado pode ele gozar. Pois tal é o modo dos cobiçosos: não é para gozarem que possuem, mas para não gozarem. Mas se isto vos parece um enigma, ouvi a seguir algo ainda pior que isto e mais desconcertante: que não somente deste modo são privados do prazer de seus bens, por não ousarem usá-los como quereriam, mas também por jamais se saciarem deles, vivendo em contínua sede — do que pode haver coisa mais penosa? Mas o justo não é assim, antes está livre tanto do tremor quanto do ódio, do medo e desta sede incurável; e assim como todos os homens amaldiçoam a um, assim também todos conspiram para abençoar o outro; e assim como aquele não tem amigo, este não tem inimigo.
Ora, sendo estas coisas assim reconhecidas, que pode haver de mais desagradável que o vício, ou de mais aprazível que a virtude? Antes, ainda que falássemos para sempre, ninguém poderá representar em discurso nem a dor deste, nem o prazer daquela, até que o experimentemos. Pois então acharemos o vício mais amargo que o fel, quando tivermos provado plenamente o mel da virtude. Não que o vício não seja já agora desagradável, e repugnante, e pesado — e isto nem mesmo os seus próprios devotos contestam —; mas quando dele nos afastamos, então discernimos mais claramente a amargura de seus preceitos. Mas se a multidão corre para ele, não é de admirar, pois também as crianças frequentemente, escolhendo as coisas menos aprazíveis, desprezam as que são mais deleitáveis, e os doentes, por uma gratificação momentânea, perdem a alegria perpétua e mais certa. Mas isto provém da fraqueza e loucura dos que estão possuídos por alguma paixão, não da natureza das coisas. Pois é o homem virtuoso quem vive no prazer; ele é, na verdade, o rico, e na verdade o livre.
Mas se alguém concedesse à virtude o resto — a liberdade, a segurança, a isenção de cuidados, o não temer a ninguém, o não suspeitar de ninguém — mas não lhe concedesse o prazer, rir, e isto copiosamente, ocorre-me, confesso, como o único partido a tomar. Pois que outra coisa é o prazer, senão a isenção de cuidado, e de medo, e de desalento, e o não estar sob o poder de ninguém? E quem está no prazer, dizei-me: o homem em frenesi e convulsão, que é açoitado por várias concupiscências e nem sequer é ele mesmo; ou aquele que está livre de todas estas ondas, e está assentado no amor da sabedoria, como que num porto? Não é evidente que este último? Mas isto pareceria ser coisa peculiar à virtude. De modo que o vício tem apenas o nome de prazer, mas da substância está destituído. E antes do gozo, é loucura, não prazer; mas depois do gozo, logo também isto se extingue. Ora, pois, se nem no princípio nem depois se pode discernir o seu prazer, quando aparecerá ele, e onde?
Um homem se enamora de uma mulher formosa e graciosa: enquanto não obtém o que deseja, é como os que estão fora de si, tomados de frenesi; mas, depois de a ter obtido, apaga-se o seu apetite. Se, portanto, nem no princípio ele sente prazer (pois o afeto é loucura), nem no fim (pois, satisfazendo a sua concupiscência, esfria a sua fantasia desvairada), onde afinal havemos de encontrá-lo? Não assim, porém, são as nossas obras; antes, tanto no princípio estão livres de toda perturbação, quanto até o fim o prazer permanece em seu viço; e mais ainda: não há fim para o nosso prazer, nem têm limite os nossos bens, nem jamais se desfaz este prazer.
Diante, pois, de todas estas considerações, se amamos o prazer, apeguemo-nos à virtude, para que alcancemos os bens tanto presentes quanto futuros; aos quais possamos todos chegar, pela graça e misericórdia, etc.
Paulo diz isto não porque julgue que um só será salvo, mas porque quer mostrar quanta diligência é necessária para se alcançar o triunfo. Não basta crer somente e depois combater de qualquer maneira. Se não corrermos a nossa carreira de tal modo que sejamos irrepreensíveis e nos aproximemos do prêmio, isso de nada nos aproveitará. Ainda que penses ser perfeito em teu conhecimento, não obtiveste ainda tudo; é necessário, pois, que continues a correr, a fim de alcançares o prêmio.
Tendo mostrado a multiforme utilidade da condescendência, e que esta é a mais alta perfeição, e que ele mesmo, havendo-se elevado acima de todos rumo à perfeição — ou antes, havendo ido além dela ao recusar-se a receber —, desceu de novo abaixo de todos; e havendo-nos dado a conhecer os tempos próprios de cada uma destas coisas, tanto da perfeição quanto da condescendência, ele os toca mais agudamente no que se segue, insinuando veladamente que aquilo que por eles foi feito, e que se tinha por marca de perfeição, é uma espécie de trabalho supérfluo e inútil. E não o diz assim tão claramente, para que não se ensoberbecessem; mas os métodos de prova por ele empregados tornam isto evidente.
E havendo dito que eles pecam contra Cristo e destroem os irmãos, e que de nada lhes aproveita este conhecimento perfeito, se a caridade não se lhe acrescentar, ele novamente recorre a um exemplo comum, e diz:
Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só recebe o prêmio? Ora, ele diz isto não como se também aqui um só, dentre muitos, houvesse de ser salvo; longe disso; mas para expor a extrema diligência que nos cumpre empregar. Pois assim como ali, ainda que muitos desçam à arena, nem todos são coroados, mas isto sucede a um só; e não basta descer ao combate, nem ungir-se e lutar: assim também aqui não basta crer e combater de qualquer maneira; mas, se não corrermos de tal modo que, até o fim, nos mostremos irrepreensíveis e nos aproximemos do prêmio, isso de nada nos aproveitará. Pois ainda que te consideres perfeito quanto ao conhecimento, não alcançaste ainda o todo; o que ele insinua ao dizer: correi de tal modo que o alcanceis. Ainda não haviam, ao que parece, alcançado. E, havendo dito isto, ensina-lhes também o modo.
Que significa, todas as coisas? Ele não se abstém de uma e falha em outra, mas domina inteiramente a gula, a lascívia, a embriaguez e todas as suas paixões. Pois isto, diz ele, sucede até mesmo nos jogos pagãos. Com efeito, nem o excesso de vinho é permitido aos que competem no tempo do certame, nem a lascívia, para que não enfraqueçam o vigor, nem tampouco lhes é lícito ocupar-se com qualquer outra coisa; antes, apartando-se inteiramente de tudo, dedicam-se somente ao seu exercício. Ora, se ali tais coisas se observam onde a coroa cabe a um só, muito mais aqui, onde o estímulo à emulação é mais abundante. Pois aqui não há um só a ser coroado, e as recompensas também excedem em muito os trabalhos. Por isso mesmo ele o expõe de modo a envergonhá-los, dizendo: Eles, pois, o fazem para alcançar uma coroa corruptível, mas nós, uma incorruptível.
Assim, tendo-os envergonhado a partir dos que estão de fora, ele em seguida se apresenta também a si mesmo, o que constitui um método de ensino excelentíssimo; e, com efeito, encontramo-lo agindo assim em toda parte.
Mas que significa, não incertamente? Mirando um alvo, diz ele, e não ao acaso e em vão, como fazeis vós. Pois que proveito tendes em entrar nos templos dos ídolos e exibir, em nome da verdade, essa perfeição? Nenhum. Mas não assim sou eu; antes, tudo quanto faço, faço-o pela salvação do meu próximo. Se manifesto perfeição, é por causa deles; se condescendência, também por causa deles; se supero a Pedro em recusar receber sustento, é para que não se escandalizem; se desço mais abaixo que todos, circuncidando-me e rapando a cabeça, é para que não se subvertam. Isto é, não incertamente. Mas tu, dize-me, por que comes nos templos dos ídolos? Ora, não podes alegar nenhuma causa razoável. Pois a comida não te recomenda a Deus; nem se comes és melhor, nem se não comes és pior. 1 Coríntios 8:8. Manifestamente, pois, corres ao acaso: e isto é, incertamente.
Assim luto eu, não como quem golpeia o ar. Diz isto, mostrando de novo que não agia ao acaso nem em vão. Pois tenho alguém a quem golpear, a saber, o diabo. Mas tu não o golpeias, senão que simplesmente desperdiças as tuas forças.
Até aqui, pois, suportando-os inteiramente, assim fala. Pois, havendo tratado com eles de modo algo veemente na parte precedente, agora, pelo contrário, retém a sua repreensão, reservando para o final do discurso a ferida mais profunda de todas. Visto que aqui diz que agem ao acaso e em vão; mas depois significa que isso se dá com risco de nada menos que a ruína total da sua própria alma, e que, mesmo à parte de todo prejuízo aos irmãos, nem eles mesmos são inocentes em ousar agir assim.
Se Paulo — homem de tal porte e estatura, que percorreu o mundo inteiro como criatura alada, que se mostrou superior às necessidades corporais e foi privilegiado a ouvir aquelas palavras secretas que ninguém mais até hoje ouviu — se ele escreveu estas palavras: "Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, para que, pregando a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado", se, pois, aquele homem, objeto de tão grande favor, apesar de proeza tão manifesta, sentiu necessidade de fustigar o seu corpo, reduzi-lo à servidão, submetê-lo à autoridade da alma e colocar os seus ímpetos sob o domínio da virtude da alma... que diremos então nós, privados que somos destas virtudes e sem nada a mostrar além de uma profunda indiferença? Afinal, esta guerra não admite trégua, admite? Não tem tempo determinado para o assalto, tem? Homilias sobre o Gênesis;
Aqui Paulo dá a entender que os coríntios estão sujeitos às concupiscências do ventre e a elas se entregam, satisfazendo a sua própria cobiça sob pretexto de perfeição. Se Paulo, que a tantos ensinara, temia ser reprovado ao final, que diremos nós? A mera crença não basta; é necessário que nos comportemos de modo irrepreensível, se esperamos herdar a salvação.
Aqui ele dá a entender que estão sujeitos à concupiscência do ventre e lhe entregam as rédeas, e sob pretexto de perfeição satisfazem a sua própria cobiça; pensamento que antes já se esforçava por exprimir, quando disse: os alimentos para o ventre, e o ventre para os alimentos (1 Cor 6:13). Pois, uma vez que a fornicação é causada pelo luxo, e este também gerou a idolatria, naturalmente ele investe muitas vezes contra esta enfermidade; e, mostrando quão grandes coisas sofreu pelo Evangelho, coloca isto também entre elas. Como fui, diz ele, além dos preceitos, e isto quando não me era leve coisa (pois suportamos tudo, como se diz), assim também aqui me submeto a muito labor para viver sobriamente. Por mais obstinado que seja o apetite e a tirania do ventre, contudo eu o refreio e não me entrego à paixão, mas suporto todo labor para não ser por ela desviado.
Pois não suponhais, eu vos rogo, que é tomando as coisas com facilidade que chego a este resultado desejável. Pois é uma corrida e uma luta multiforme, e uma natureza tirânica que continuamente se ergue contra mim, buscando libertar-se. Mas eu não a suporto, e sim a domino, e a reduzo à sujeição com muitos combates. Ora, isto ele diz para que ninguém, desesperando, se afaste dos combates em prol da virtude, por ser laborioso o empreendimento. Por isso diz: eu me esbofeteio e reduzo à servidão. Não disse: eu mato; nem: eu castigo — pois a carne não deve ser odiada — mas: eu me esbofeteio e reduzo à servidão; o que é próprio de um senhor, não de um inimigo; de um mestre, não de um adversário; de um treinador de ginástica, não de um antagonista.
Para que não suceda que, tendo pregado a outros, eu mesmo venha a ser reprovado.
Ora, se Paulo temia isto, ele que a tantos ensinara, e o temia depois de sua pregação e de haver-se tornado um anjo e assumido a liderança do mundo inteiro; que poderemos nós dizer?
Pois não penseis, diz ele, que, por terdes crido, isto seja suficiente para a vossa salvação: pois se a mim nem a pregação, nem o ensino, nem o converter inúmeras pessoas basta para a salvação, a menos que eu exiba também a minha própria conduta irrepreensível, muito menos bastará a vós.
3. Em seguida, ele passa novamente a outras ilustrações. E assim como acima alegara os exemplos dos Apóstolos, e os do costume comum, e os dos sacerdotes, e o seu próprio, assim também aqui, tendo exposto os dos jogos olímpicos e o de sua própria carreira, ele novamente passa às histórias do Antigo Testamento. E, porque o que tem a dizer será algo desagradável, torna geral a sua exortação, e discorre não somente acerca do assunto que tem diante de si, mas também, de modo geral, acerca de todos os males entre os coríntios. E, quanto aos jogos pagãos: Não sabeis vós?
Não quero, irmãos, que ignoreis.
Ora, isto disse ele, dando a entender que não estavam eles muito bem instruídos acerca destas coisas. E que é isto que não quereis que ignoremos?
Que nossos pais, diz ele, estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar; e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar; e todos comeram do mesmo alimento espiritual; e todos beberam da mesma bebida espiritual, porque bebiam de uma Pedra espiritual que os seguia; e a Pedra era Cristo. Mas da maioria deles Deus não Se agradou.
E por que razão diz ele estas coisas? Para mostrar que, assim como de nada lhes aproveitou o gozo de tão grande dom, tampouco a estes aproveitará o terem alcançado o Batismo e participado dos Mistérios espirituais, se não perseverarem e não manifestarem uma vida digna desta graça. Por isso também introduz ele os tipos, tanto do Batismo quanto dos Mistérios.
Mas que quer dizer: Foram batizados em Moisés? É como nós, que, crendo em Cristo e em Sua ressurreição, somos batizados, como destinados a participar em nossas próprias pessoas dos mesmos mistérios; pois somos batizados, diz ele, pelos mortos, isto é, por nossos próprios corpos; assim também eles, depositando confiança em Moisés, isto é, tendo-o visto atravessar primeiro, aventuraram-se também eles próprios pelas águas. Mas, porquanto quer ele aproximar o Tipo da Verdade, não se exprime assim, mas emprega os termos da Verdade mesmo a respeito do Tipo.
Além disso: isto era símbolo da Fonte batismal, e o que se segue, da Sagrada Mesa. Pois, assim como vós comeis o Corpo do Senhor, assim eles o maná; e assim como vós bebeis o Sangue, assim eles a água da pedra. Porque, ainda que fossem coisas sensíveis as que se produziam, contudo eram espiritualmente exibidas, não segundo a ordem da natureza, mas segundo a graciosa intenção do dom, e, juntamente com o corpo, nutriam também a alma, conduzindo-a à fé. Por isso, vede, quanto ao alimento nenhuma observação fez ele, pois era inteiramente diverso, não apenas no modo, mas também na natureza (pois era maná); mas quanto à bebida, visto que somente o modo do provimento era extraordinário e requeria prova, por isso, tendo dito que beberam a mesma bebida espiritual, acrescentou: porque bebiam de uma Pedra espiritual que os seguia, e ajuntou: e a Pedra era Cristo. Pois não era a natureza da pedra que fazia brotar a água (tal é o seu sentido), do contrário teria ela igualmente jorrado antes daquele tempo; mas outra sorte de Pedra, uma Pedra espiritual, operou tudo, a saber, Cristo, que em toda parte estava com eles e realizava todas as maravilhas. Por isso, vede, disse ele: que os seguia.
Percebes a sabedoria de Paulo, como em ambos os casos aponta Ele como o Doador, e assim aproxima o Tipo da Verdade? Pois Aquele que lhes propôs aquelas coisas, diz ele, o mesmo preparou também esta nossa Mesa; e a mesma Pessoa tanto os fez atravessar o mar quanto a vós pelo Batismo; e diante deles pôs o maná, mas diante de vós o Seu Corpo e Sangue.
4. Quanto ao Seu dom, pois, assim é o caso: observemos agora também o que se segue, e consideremos se, quando eles se mostraram indignos do dom, Ele os poupou. Ora, isto não podeis dizer. Por isso também acrescentou: Mas Deus não Se comprazeu na maior parte deles; ainda que os houvesse honrado com tão grande honra. Sim, de nada lhes aproveitou, mas a maior parte pereceu. A verdade é que todos pereceram, mas para que não parecesse profetizar destruição total também a estes, por isso disse: a maior parte. E, no entanto, eram inumeráveis, mas o seu número de nada lhes aproveitou: e estes eram todos outros tantos sinais de amor; mas nem isto lhes aproveitou, visto que eles mesmos não manifestaram os frutos do amor.
Assim, visto que a maioria dos homens não crê nas coisas ditas acerca do inferno, por não estarem presentes nem à vista, ele alega as coisas outrora feitas como prova de que Deus pune todos os que pecam, ainda que lhes tenha concedido inumeráveis benefícios: pois se não credes nas coisas futuras, assim ele diz, certamente não haveis de descrer nas coisas passadas. Considerai, por exemplo, quão grandes benefícios Ele lhes concedeu: do Egito e da escravidão ali os libertou, do mar fez seu caminho, do céu fez descer o maná, de baixo fez brotar estranhas e maravilhosas fontes de águas; esteve com eles em todo lugar, fazendo prodígios e cercando-os por todos os lados: contudo, visto que não manifestaram nada digno deste dom, Ele não os poupou, mas a todos destruiu.
Por que diz Paulo estas coisas? Ele mostrava que, assim como os israelitas nenhum proveito tiraram do grande dom de que gozavam, assim também os cristãos de Corinto nada haveriam de obter do batismo ou da sagrada comunhão, a menos que prosseguissem e manifestassem vida digna daquela graça.
Os israelitas não estavam na terra da promessa quando Deus lhes fez estas coisas. Assim foi que os visitou com dupla vingança, porquanto não lhes permitiu ver a terra que lhes fora prometida, e, além disso, os castigou severamente.
Pois foram derrubados, diz ele, no deserto. Declarando por esta palavra tanto a destruição total, quanto os castigos e a vingança infligidos por Deus, e que nem sequer alcançaram as recompensas que lhes haviam sido propostas. Nem estavam eles na terra da promessa quando Ele lhes fez estas coisas, mas fora dela e longe, em algum lugar bem distante daquela terra; visitando-os Ele assim com dupla vingança, tanto por não lhes permitir ver a terra — e isto ainda que prometida a eles —, quanto pelo castigo severo de fato.
E que têm estas coisas a ver conosco? Perguntais vós. A vós, seguramente, pertencem.
Assim como os dons são simbólicos, também os castigos o são. O Batismo e a santa Comunhão foram prefigurados na profecia. Do mesmo modo, a certeza do castigo para os que se mostram indignos deste dom foi proclamada de antemão por nossa causa, para que aprendêssemos, com estes exemplos, a vigiar nossos passos.
Pois, assim como os dons são figuras, também os castigos são figuras: e assim como o Batismo e a Mesa foram delineados profeticamente, também, pelo que se seguiu, foi proclamada de antemão, por nossa causa, a certeza do castigo que sobrevém aos que são indignos deste dom, a fim de que, por estes exemplos, aprendêssemos a sobriedade. Por isso acrescenta também:
Para que não cobicemos as coisas más, como eles também cobiçaram. Pois assim como, nos benefícios, os tipos precederam e a substância se seguiu, tal será a ordem também nos castigos. Vedes como ele significa não apenas o fato de que estes serão castigados, mas também a medida disso, mais severamente que aqueles antigos? Pois, se um é tipo e o outro substância, é necessário que os castigos excedam tanto quanto excedem os dons.
E vede a quem ele trata primeiro: aos que comiam nos templos dos ídolos. Pois, tendo dito que não deveríamos cobiçar as coisas más — o que era geral —, acrescenta o que é particular, dando a entender que cada um de seus pecados nascia de uma cobiça perversa.
Vedes como Paulo chama os israelitas mesmo de idólatras? Ele o diz primeiro, e depois apresenta exemplos para sustentar sua afirmação. Ele nos dá também a razão de sua idolatria, que é a gula.
Nem sejais idólatras, como alguns deles foram; como está escrito: "O povo assentou-se para comer e beber, e levantou-se para folgar."
Ouvis como ele chega mesmo a chamá-los idólatras? Aqui, com efeito, faz a afirmação, mas depois traz a prova. E também assinalou a causa pela qual correram àquelas mesas; e esta foi a gula. Por isso, havendo dito que não cobicemos as coisas más, e havendo acrescentado nem sejais idólatras, ele nomeia a causa de tal transgressão; e esta foi a gula. Pois o povo, diz ele, assentou-se para comer e beber, e acrescenta o fim disso: levantaram-se para folgar. Pois assim como eles, diz ele, da sensualidade passaram à idolatria, assim há o temor de que também vós caiais de uma na outra. Vedes como ele significa que estes, homens perfeitos por assim dizer, eram mais imperfeitos do que os outros a quem censuravam? Não somente neste aspecto, o de não suportarem seus irmãos em tudo, mas também no de que uns pecaram por ignorância, e os outros por gula. E da ruína dos primeiros ele atribui a estes o castigo, mas não permite que estes lancem sobre outrem a causa do próprio pecado, antes os declara responsáveis tanto pelo dano alheio quanto pelo seu próprio.
Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram. Por que faz ele aqui menção da fornicação de novo, havendo já discorrido tão amplamente sobre ela antes? É sempre costume de Paulo, quando move acusação de muitos pecados, tanto expô-los em ordem quanto proceder separadamente com os tópicos propostos, e novamente, em seus discursos sobre outras coisas, fazer menção também dos anteriores: o que também Deus costumava fazer no Antigo Testamento, a respeito de cada transgressão em particular, lembrando aos judeus o bezerro e trazendo-lhes à memória aquele pecado. Isto, pois, também faz Paulo aqui, ao mesmo tempo lembrando-lhes aquele pecado e ensinando que o progenitor deste mal também foi o luxo e a gula. Por isso também acrescenta: Nem forniquemos, como alguns deles fornicaram, e caíram num só dia vinte e três mil.
E por que não nomeia ele igualmente o castigo da idolatria deles? Ou porque era claro e mais notório, ou porque a praga não foi tão grande naquele momento quanto no caso de Balaão, quando se ajuntaram a Baal-Peor, aparecendo as mulheres midianitas no acampamento e atraindo-os à lascívia segundo o conselho de Balaão. Que este mau conselho foi de Balaão, Moisés o mostra depois, na afirmação seguinte ao fim do Livro dos Números: "Balaão também, filho de Beor, mataram à espada na guerra de Midiã, e tomaram os despojos... E irou-se Moisés, e disse: Por que guardastes com vida todas as mulheres? Pois estas foram para os filhos de Israel tropeço, segundo a palavra de Balaão, para os fazerem apartar-se e desprezar a palavra do Senhor por causa de Peor."
Por que menciona Paulo de novo a fornicação, quando já disse tanto a respeito dela? É sempre costume de Paulo, quando admoesta as pessoas a respeito de muitos pecados, expô-los em ordem antes de proceder a tratá-los individualmente, e depois referir-se aos tópicos anteriores à medida que percorre a lista. O próprio Deus faz isto no Antigo Testamento quando, ao mencionar cada transgressão particular, volta sempre ao bezerro de ouro, lembrando aos judeus aquele pecado. Paulo faz isto aqui, lembrando-lhes o pecado da fornicação e apontando que a causa daquele mal foi a indolência e a gula.
Por isto ele novamente insinua outra acusação, que igualmente declara no fim, culpando-os por contenderem acerca de sinais. E de fato foram destruídos por causa das provações, dizendo: quando virão os bens? Quando os galardões? Pelo que também acrescenta, corrigindo-os e alarmando-os por este motivo,
O que se requer não é apenas sofrer por Cristo, mas suportar nobremente e com toda a alegria o que sofremos, pois esta é a natureza de toda coroa de atleta. Se não o fizermos assim, o castigo virá sobre nós, que recebemos o infortúnio de má vontade. Por isto os apóstolos se alegravam quando eram açoitados, e Paulo se gloriava em seus sofrimentos.
Pois o que se requer não é apenas sofrer por Cristo, mas também suportar nobremente as coisas que nos sobrevêm, e com toda a alegria: pois esta é a natureza de toda coroa. E, com efeito, a menos que assim seja, antes o castigo acompanhará os homens que recebem a calamidade de má vontade. Pelo que os apóstolos, quando eram açoitados, se alegravam, e Paulo se gloriava em seus sofrimentos.
Novamente os aterroriza, falando dos fins, e os prepara para esperar coisas maiores do que as que já haviam sucedido. Pois que havemos de sofrer castigo é manifesto, diz ele, pelo que foi dito, mesmo para os que não creem nas afirmações acerca do fogo do inferno; mas que o castigo será também gravíssimo, é evidente pelos benefícios mais numerosos de que gozamos, e pelas coisas das quais aquelas eram apenas figuras. Pois se num dom um excede o outro, é bastante evidente que assim será também no castigo. Por esta razão ele os chamou tipos, e disse que foram escritos para nós, e fez menção de um fim, a fim de lembrar-lhes a consumação de todas as coisas. Pois não serão tais as penas então, que admitam termo e se desfaçam, mas o castigo será eterno; pois assim como os castigos neste mundo terminam com a vida presente, assim os do porvir permanecem continuamente. Mas quando disse "os fins dos séculos", não quer dizer outra coisa senão que o temível juízo está, doravante, próximo.
Paulo menciona o fim dos séculos a fim de sobressaltar os coríntios. Pois as penas que então vierem não terão limite de tempo, mas serão eternas. Ainda que os castigos deste mundo terminem com a nossa vida presente, os do porvir permanecem para sempre.
Mais uma vez, Paulo abate o orgulho dos que pensam saber tudo. Pois se os israelitas, que tiveram privilégios tão grandes, sofreram estas coisas, e se alguns foram punidos apenas por terem sido ouvidos a queixar-se, quanto mais sofreremos nós, se não formos cautelosos. Quem quer que confie em si mesmo logo cairá. Pois o modo como estamos de pé neste mundo não é seguro, nem o será até que sejamos libertos das ondas desta vida presente para o porto tranquilo do descanso eterno. Portanto, não te orgulhes de tua posição, mas atenta para que não tropeces. Se o próprio Paulo temia que isso lhe pudesse acontecer, quanto mais devemos nós também temer.
Novamente, ele derruba o orgulho daqueles que tinham em alta conta o seu conhecimento. Pois se aqueles que gozavam de tão grandes privilégios padeceram tais coisas; e alguns, por murmurarem apenas, foram visitados com tamanho castigo, e outros por tentarem a Deus, e nem a sua multidão moveu Deus a arrepender-Se, nem o terem alcançado coisas tão excelsas os livrou; muito mais assim há de ser em nosso caso, se não formos sóbrios. E bem disse ele: aquele que pensa estar em pé — pois isto nem sequer é estar em pé como se deve estar, confiar em si mesmo: pois rapidamente cairá tal homem; já que eles também, se não tivessem sido soberbos e confiantes em si mesmos, mas de ânimo submisso, não teriam padecido tais coisas. Donde é evidente que, sobretudo, o orgulho, e a negligência da qual provém também a gula, são as fontes destes males. Por isso, ainda que estejas em pé, todavia acautela-te para não caíres. Pois o nosso estar em pé aqui não é um estar em pé seguro, não, até que sejamos libertados das ondas desta vida presente e tenhamos navegado para o porto tranquilo. Não te ensoberbeças, portanto, com o teu estar em pé, mas guarda-te de tua queda; pois se Paulo temia, ele que era mais firme que todos, muito mais devemos nós temer.
6. Ora, a palavra do Apóstolo, como vimos, foi: Portanto, aquele que pensa estar em pé, acautele-se para não cair; mas nós não podemos dizer nem sequer isto; estando todos nós, por assim dizer, caídos, e jazendo prostrados por terra. Pois a quem hei de dizer isto? Àquele que comete extorsão todos os dias? Não, ele jaz prostrado com poderosa queda. Ao fornicador? Também ele está lançado por terra. Ao ébrio? Também ele está caído, e nem sequer sabe que está caído. De sorte que não é a ocasião para esta palavra, mas antes para aquela sentença do profeta, que ele disse até mesmo aos judeus, Jeremias 8:4 — Aquele que cai, não se levanta ele de novo? Pois todos estão caídos, e não têm ânimo para se levantarem. De modo que a nossa exortação não é acerca de não cair, mas acerca da capacidade que têm os caídos de se levantarem. Levantemo-nos, pois, ainda que tarde, amados, levantemo-nos, e coloquemo-nos em pé nobremente. Até quando jazeremos prostrados? Até quando estaremos ébrios, embriagados pelo desejo excessivo das coisas desta vida? É oportuno agora dizer, Jeremias 6:10 — A quem falarei e testificarei? Tão surdos se tornaram todos os homens até mesmo à própria instrução da virtude, e daí ficaram repletos de abundância de males. E fosse possível discernir as suas almas despidas; como nos exércitos, quando termina a batalha, pode-se ver alguns mortos e alguns feridos, assim também na Igreja poderíamos ver. Por isso vos suplico e imploro, estendamos a mão uns aos outros e levantemo-nos completamente. Pois eu mesmo sou dos que estão feridos, e careço de que se me apliquem alguns remédios.
Não desespereis, contudo, por causa disto. Pois que importa se as feridas são graves? Ainda assim não são incuráveis; tal é o nosso médico: apenas sintamos as nossas feridas. Ainda que tenhamos chegado ao extremo mesmo da maldade, muitos são os caminhos de salvação que Ele nos abre. Assim, se te abstiveres de irar-te contra o teu próximo, os teus próprios pecados serão perdoados. Pois se perdoardes aos homens, diz Ele, também vosso Pai celestial vos perdoará (Mt 6,14). E se deres esmolas, Ele te remitirá os pecados; pois rompe com os teus pecados, diz Ele, por meio de esmolas (Dn 4,24). E se orares com fervor, gozarás do perdão: e isto significa a viúva que prevaleceu sobre aquele juiz cruel pela importunidade de sua oração. E se acusares os teus próprios pecados, tens alívio: pois declara primeiro as tuas iniquidades, para que sejas justificado (Is 43,26); e se te entristeceres por causa destas coisas, também isto te será um remédio poderoso: pois vi, diz Ele, que ele se afligiu e andou triste, e curei os seus caminhos (Is 57,17). E se, ao sofreres algum mal, o suportares nobremente, terás afastado tudo. Pois foi isto também que Abraão disse ao rico, que Lázaro recebeu os seus males, e eis que aqui é consolado. E se tiveres piedade da viúva, os teus pecados são lavados. Pois julgai, diz Ele, o órfão, e defendei a viúva, e vinde, e arrazoemos juntos, diz o Senhor. E ainda que os vossos pecados sejam como escarlata, eu os farei brancos como a neve; e ainda que sejam vermelhos como o carmesim, eu os farei brancos como a lã (Is 1,17-18). Pois nem sequer uma única cicatriz das feridas Ele permite que apareça. Sim, e ainda que tenhamos chegado àquela profundeza de miséria em que caiu aquele que devorou a fazenda de seu pai e se alimentou de bolotas, e nos arrependamos, seremos sem dúvida salvos. E ainda que devamos dez mil talentos, se nos prostrarmos diante de Deus e não guardarmos rancor, tudo nos é perdoado. Ainda que tenhamos vagueado até àquele lugar aonde a ovelha se desgarrou de seu pastor, ainda dali Ele nos recobra: apenas queiramos nós, amados. Pois Deus é misericordioso. Por isso, tanto no caso daquele que devia dez mil talentos, Ele Se contentou com sua prostração diante d'Ele; quanto no caso daquele que havia devorado os bens de seu pai, com o seu simples retorno; quanto no caso da ovelha, com a sua disposição de ser carregada.
7. Considerando, pois, a grandeza de Sua misericórdia, façamo-Lo aqui propício a nós, e vamos à Sua face com uma plena confissão (Sl 95:2, Septuaginta), para que não partamos daqui sem desculpa, e tenhamos de suportar o extremo castigo. Pois se na vida presente exibirmos ainda que seja uma diligência mediana, alcançaremos as maiores recompensas; mas se partirmos sem termos aqui melhorado em nada, ainda que ali nos arrependamos com o maior fervor, de nada nos aproveitará. Pois era nosso dever esforçar-nos enquanto ainda permanecíamos dentro da liça, e não, depois de dissolvida a assembleia, lamentar-nos e chorar ociosamente — como fez aquele rico, deplorando-se e carpindo-se a si mesmo, mas sem proveito algum e em vão, visto que negligenciara o tempo em que devera fazer tais coisas. E não somente ele, mas também muitos outros há, semelhantes a ele, agora entre os ricos: não querendo desprezar a riqueza, mas desprezando suas próprias almas por causa da riqueza; dos quais não posso deixar de me admirar, quando vejo homens intercedendo continuamente junto a Deus por misericórdia, ao mesmo tempo em que se infligem a si mesmos um dano incurável, e não poupam sua própria alma como se ela fosse uma inimiga. Não brinquemos, pois, amados, não brinquemos nem nos iludamos a nós mesmos, suplicando a Deus que tenha misericórdia de nós, enquanto nós mesmos preferimos tanto o dinheiro quanto o luxo, e, na verdade, todas as coisas, a essa misericórdia. Pois se alguém trouxesse à tua presença um caso e dissesse, acusando a tal homem, que, estando destinado a sofrer dez mil mortes e tendo em seu poder livrar-se da sentença mediante uma pequena soma, ele preferiu antes morrer a desfazer-se de qualquer parte de seus bens — não dirias que ele é digno de alguma misericórdia ou compaixão? Ora, deste mesmo modo raciocina também tu a respeito de ti mesmo. Pois nós também agimos assim, e, menosprezando nossa própria salvação, somos poupadores de nosso dinheiro. Como, pois, suplicas a Deus que te poupe, quando tu mesmo és tão impiedoso contigo próprio, e honras o dinheiro acima de tua alma?
Por isso também me admiro sobremaneira ao ver quão grande feitiçaria se oculta na riqueza — ou antes, não na riqueza, mas nas almas daqueles que são enganados. Pois há, sim, há aqueles que zombaram totalmente dessa feitiçaria. Pois qual, entre as coisas ali contidas, é realmente capaz de enfeitiçar-nos? Não é matéria inanimada? Não é transitória? Não é a posse dela indigna de confiança? Não está repleta de temores e de perigos? Antes, de assassinatos e conjurações? De inimizade e ódio? De descuido e de muito vício? Não é pó e cinza? Que loucura é esta que aqui há? Que doença?
Mas, dizes tu, não devemos apenas lançar tais acusações contra os que estão assim enfermos, mas também destruir a paixão. E de que outro modo a destruiremos, senão apontando sua vileza e quão repleta está de inumeráveis males?
Mas não é fácil persuadir disto a um amante, no tocante aos objetos de seu amor. Pois bem, devemos propor-lhe outra espécie de beleza. Mas a beleza incorpórea ele não vê, estando ainda em sua enfermidade. Pois bem, mostremos-lhe alguma beleza de espécie corpórea, e digamos-lhe: Considera os prados e as flores que neles há, mais cintilantes que qualquer ouro, e mais elegantes e transparentes que toda sorte de pedras preciosas. Considera as límpidas correntes de suas fontes, os rios que, como azeite, fluem silenciosamente da terra. Sobe ao céu e contempla o fulgor do sol, a beleza da lua, as estrelas que se agrupam como flores. Mas que é isto, dirás, uma vez que não fazemos uso delas como da riqueza? Antes, fazemos delas uso maior que da riqueza, visto que seu uso é mais necessário, e seu gozo mais seguro. Pois não tens receio de que, como o dinheiro, alguém as tome e delas se vá: mas podes estar sempre confiante de possuí-las, e isso sem ansiedade nem cuidado. Mas se te entristeces por goza-las em comum com os demais, e não as possuis sozinho como o dinheiro, não é o dinheiro, mas a mera cobiça, que me pareces amar; nem sequer o dinheiro seria objeto de teu desejo, se houvesse sido posto ao alcance de todos em comum.
8. Portanto, já que encontramos o objeto amado — refiro-me à Cobiça —, vem, e mostrar-te-ei como ela te odeia e te abomina, quantas espadas contra ti afia, quantos poços te escava, quantos laços te atam, quantos precipícios te prepara; para que assim, ao menos, desfaças o encanto. De onde, pois, haveremos de obter este conhecimento? Das estradas, das guerras, do mar, dos tribunais de justiça. Pois ela tanto encheu o mar de sangue, como amiúde tinge de vermelho, contra a lei, as espadas dos juízes, e arma aqueles que, dia e noite, à espreita, se emboscam nas estradas, e persuade os homens a esquecerem a natureza, e faz parricidas e matricidas, e introduz toda sorte de males na vida do homem. Razão pela qual Paulo a intitula raiz destas coisas (1 Tm 6:10). Ela não permite que seus amantes estejam em condição melhor que a dos que trabalham nas minas. Pois, assim como estes, perpetuamente encerrados nas trevas e em correntes, labutam sem proveito, assim também aqueles, sepultados nas cavernas da avareza, sem que ninguém lhes faça violência alguma, atraem voluntariamente sobre si o castigo, atando a si mesmos grilhões que não se podem romper. E os condenados às minas, ao menos quando a tarde chega, são liberados de suas fadigas; mas estes, tanto de dia quanto de noite, cavam nestas desditosas minas. E, para aqueles, há um limite definido daquele árduo trabalho; mas estes não conhecem limite algum, antes, quanto mais cavam, tanto maior dureza desejam. E que importa se aqueles o fazem contra a vontade, ao passo que estes o fazem por vontade própria? Nisto me dizes, precisamente, a parte grave da enfermidade: que lhes é até impossível libertar-se dela, pois nem sequer odeiam sua miséria. Mas, como o porco no lamaçal, também estes se deleitam em revolver-se no fétido lodaçal da avareza, padecendo coisas piores que aqueles condenados. Quanto ao fato de estarem em condição pior, ouve as circunstâncias de um, e então conhecerás o estado do outro.
Ora, diz-se que aquele solo impregnado de ouro possui certas fendas e recônditos naquelas cavernas tenebrosas. O malfeitor, pois, condenado a trabalhar naquele lugar, tomando para tal fim uma lâmpada e uma picareta, assim, conta-se, adentra, e leva consigo um vaso para dali verter óleo na lâmpada, porque há trevas mesmo de dia, sem um raio de luz, como antes disse. Depois, quando a hora do dia o chama à sua mísera refeição, ele mesmo, dizem, ignora o tempo, mas seu carcereiro, lá do alto, golpeando violentamente a caverna, por aquele estrépito declara aos que trabalham embaixo o fim do dia.
Não estremeceis ao ouvir tudo isto? Vejamos agora se não há, no caso dos avarentos, coisas ainda mais penosas que estas. Pois também estes têm, em primeiro lugar, um carcereiro mais severo, a saber, a avareza — e tanto mais severo quanto, além do corpo, acorrenta também a alma. E também estas trevas são mais terríveis que aquelas. Pois não são sensíveis, mas eles, produzindo-as interiormente, para onde quer que vão, consigo as carregam. Pois o olho de sua alma está extinto; razão pela qual, mais que a todos, Cristo os chama de miseráveis, dizendo: Mas, se a luz que há em ti são trevas, quão grandes são essas trevas! (Mt 6:23). E aqueles, pelo menos, têm uma lâmpada que resplandece; mas estes são privados até deste raio de luz; e por isso, a cada dia, caem em incontáveis armadilhas. E os condenados, quando a noite os alcança, têm um respiro, navegando para aquele porto tranquilo comum a todos os infelizes — refiro-me à noite; mas contra os avarentos, até este porto é bloqueado pela própria avareza: tais pensamentos penosos têm eles mesmo à noite, pois então, sem perturbação de ninguém, com todo o vagar, a si mesmos se despedaçam.
Tais são as suas circunstâncias neste mundo; mas as daqueles no mundo vindouro, que discurso as poderá exibir? As fornalhas intoleráveis, os rios que ardem em fogo, o ranger de dentes, as cadeias que jamais se desatam, o verme envenenado, as trevas sem raio de luz, as misérias que não têm fim. Temamo-las, amados, temamos a fonte de tão grandes castigos, a insaciável loucura, a destruidora de nossa salvação. Pois é impossível amar ao mesmo tempo o dinheiro e a própria alma. Convençamo-nos de que a riqueza é pó e cinza, que nos abandona quando daqui partimos, ou antes, que muitas vezes até antes de nossa partida ela nos escapa voando, e nos prejudica tanto quanto ao futuro como quanto à vida presente. Pois, antes mesmo do fogo do inferno e daquele castigo, já aqui ela nos cerca de inumeráveis guerras, e suscita contendas e disputas. Porque nada é tão apto a causar guerra como a avareza; nada tão apto a produzir a mendicância, quer se manifeste na riqueza, quer na pobreza. Pois também nas almas dos pobres surge esta grave enfermidade, e agrava ainda mais a sua pobreza. E se se encontrar um pobre avarento, semelhante homem não sofre castigo em dinheiro, mas em fome. Pois não se permite gozar com conforto dos seus modestos recursos, mas tanto tortura o próprio ventre com a fome quanto castiga todo o seu corpo com a nudez e o frio, e em toda parte aparece mais esquálido e imundo do que qualquer prisioneiro; e vive sempre a lamentar-se e a gemer, como se fosse mais infeliz que todos, ainda que existam dez mil mais pobres do que ele. Este homem, quer vá à praça, sai dali com muitos golpes; quer vá aos banhos, quer ao teatro, ainda receberá mais feridas, não somente dos espectadores, mas também daqueles que estão sobre o palco, onde contempla não poucas mulheres impudicas resplandecendo em ouro. Este mesmo homem, quer navegue pelo mar, ao considerar os mercadores e seus navios ricamente carregados e seus enormes lucros, nem sequer se julgará vivo; quer viaje por terra, ao contar os campos, as fazendas suburbanas, as estalagens, os banhos, as rendas que deles provêm, considerará dali em diante a própria vida como não valendo a pena ser vivida; quer o encerres em casa, ele apenas roçará e reabrirá as feridas recebidas na praça, e assim fará maior injúria à própria alma; e conhece um único consolo para os males que o oprimem: a morte e a libertação desta vida.
E estas coisas não somente o pobre, mas também o rico sofrerá, se cair nesta enfermidade, e tanto mais do que o pobre, quanto mais veementemente a tirania sobre ele pressiona, e maior é a embriaguez. Por isso também se julgará mais pobre que todos; ou antes, ele é mais pobre. Pois a riqueza e a pobreza não se determinam pela medida da substância, mas pela disposição do espírito: e mais pobre de todos é justamente aquele que sempre anseia por mais e jamais consegue deter esta perversa concupiscência.
Por todas estas razões, pois, fujamos da cobiça, a fabricante de mendigos, a destruidora de almas, a amiga do inferno, a inimiga do reino dos céus, a mãe de todos os males juntos; e desprezemos a riqueza para que possamos gozar da riqueza, e com a riqueza gozemos também dos bens que nos estão reservados; aos quais possamos todos nós alcançar, etc.
Paulo dá a entender que há tentações que não podemos suportar. Quais são elas? Bem, todas, em rigor. Pois a capacidade de suportá-las provém da graça de Deus, a qual obtemos pedindo-a. Deus nos dá paciência e nos concede pronto livramento. Desse modo, a tentação se torna suportável.
Assim, tendo-os grandemente aterrorizado ao relatar os antigos exemplos, e lançando-os em agonia ao dizer: Aquele que pensa estar em pé, cuide para não cair; embora já tivessem suportado muitas tentações, e nelas se tivessem exercitado muitas vezes — pois estive convosco, diz ele, em fraqueza, e em temor, e em muito tremor (1 Cor 2,3) —, para que não dissessem: Por que nos aterrorizar e alarmar? Não somos inexperientes nestas tribulações, pois fomos perseguidos e expulsos, e suportamos perigos muitos e contínuos; reprimindo-lhes novamente o orgulho, ele diz: nenhuma tentação vos sobreveio senão a humana, isto é, pequena, breve, moderada. Pois ele usa a expressão "humana" a respeito daquilo que é pequeno; como quando diz: falo à maneira dos homens, por causa da fraqueza da vossa carne (Rm 6,19). Não penseis, pois, diz ele, grandes coisas, como se tivésseis vencido a tempestade. Pois nunca vistes um perigo que ameaçasse a morte, nem uma tentação que intentasse a matança: o que também disse aos Hebreus: ainda não resististes até o sangue, lutando contra o pecado (Hb 12,4).
Depois, tendo-os aterrorizado, vede como novamente os reergue, recomendando ao mesmo tempo a moderação; nas palavras: Fiel é Deus, que não permitirá que sejais tentados além do que podeis suportar. Há, portanto, tentações que não somos capazes de suportar. E quais são elas? Todas, por assim dizer. Pois a capacidade reside na influência graciosa de Deus; um poder que atraímos por nossa própria vontade. Por isso, para que saibais e vejais que não somente aquelas que excedem nosso poder, mas nem mesmo estas que são comuns ao homem é possível suportar facilmente sem o auxílio de Deus, ele acrescentou:
Mas, com a tentação, dará também a saída, para que a possais suportar.
Pois, diz ele, nem mesmo aquelas tentações moderadas, como eu observava, podemos suportar por nosso próprio poder: mas até nelas necessitamos de Seu auxílio em nosso combate, para que as atravessemos e, até que as tenhamos atravessado, as suportemos. Pois Ele dá a paciência e traz um pronto alívio; de modo que também assim a tentação se torna suportável. Isto ele insinua veladamente, ao dizer: dará também a saída, para que a possais suportar; e a Ele refere todas as coisas.
Novamente ele os corteja pelo nome do parentesco, e os exorta a se livrarem deste pecado com toda a presteza. Pois não disse simplesmente "apartai-vos", mas "fugi"; e chama a coisa de idolatria, e já não os manda deixá-la apenas por causa da injúria ao próximo, mas significa que a própria coisa em si mesma basta para trazer grande destruição.
É sinal de que alguém está muito seguro da retidão de sua causa quando está disposto a deixar que os próprios acusados sejam seus juízes.
Porquanto clamara em alta voz e agravara a acusação, chamando-a idolatria, para que não parecesse exasperá-los e tornar odioso o seu discurso, no que se segue remete a decisão a eles mesmos, e assenta os seus juízes no tribunal com um elogio. Pois falo como a sábios, diz ele: o que é sinal de quem está muito confiante em seu direito, o fazer do próprio acusado o juiz de suas alegações.
Assim também ele mais eleva o ouvinte, quando discorre não como quem ordena nem como quem estabelece a lei, mas como quem aconselha com eles e como quem de fato pleiteia perante eles. Pois com os judeus, por terem disposição mais tola e pueril, Deus não discorria assim, nem em todo caso lhes fazia saber as razões dos preceitos, mas simplesmente os ordenava; mas aqui, porque temos o privilégio de grande liberdade, somos até admitidos como conselheiros. E discorre como com amigos, e diz: não necessito de outros juízes; proferi vós mesmos esta sentença sobre mim; tomo-vos por árbitros.
Paulo o chamou cálice de bênção, porque, ao tê-lo em nossas mãos, exaltamo-lo em nossos hinos, admirando-nos e maravilhando-nos com o seu dom inefável, bendizendo-o por ter derramado esta bebida para que não permanecêssemos no erro, e não só por tê-la derramado, mas também por tê-la repartido a todos nós. Isto é o que fazem os que amam. Quando veem aqueles a quem amam a desejar o que pertence a estranhos e a desprezar o que é seu, dão o que é seu próprio, e assim os persuadem a apartar-se dos dons daqueles outros.
Que dizes, ó bem-aventurado Paulo? Quando queres apelar à reverência do ouvinte, quando fazes menção de mistérios tremendos, dás o título de cálice de bênção a esse cálice temível e sobremaneira tremendo? Sim, diz ele; e não é título mesquinho o que se proferiu. Pois quando o chamo "bênção", quero dizer ação de graças; e quando o chamo ação de graças, desdobro todo o tesouro da bondade de Deus, e trago à memória aqueles poderosos dons. Pois também nós, recontando sobre o cálice as inefáveis misericórdias de Deus e tudo quanto nos foi dado participar, assim nos achegamos a Ele e comungamos; dando-Lhe graças por haver livrado do erro toda a raça humana; por haver aproximado os que estavam longe; por haver constituído seus próprios irmãos e coerdeiros os que não tinham esperança e estavam sem Deus no mundo. Por estas e por todas as coisas semelhantes, dando graças, assim nos aproximamos. Como, pois, não são inconsequentes os vossos atos, diz ele, ó coríntios, bendizendo a Deus por vos ter livrado dos ídolos, e no entanto correndo de novo às suas mesas?
"O cálice de bênção que abençoamos, não é porventura a comunhão do Sangue de Cristo?" Muito persuasivamente falou ele, e com temor reverente. Pois o que diz é isto: o que está no cálice é o que fluiu do Seu lado, e disso participamos. Mas o chamou cálice de bênção, porque, tendo-o em nossas mãos, assim O exaltamos em nosso hino, admirando-nos, atônitos com o Seu dom inefável, bendizendo-O, entre outras coisas, por haver derramado esta mesma bebida para que não permanecêssemos no erro; e não só por tê-la derramado, mas também por tê-la repartido a todos nós. Por isso, se desejas sangue, diz Ele, não tinjas de vermelho o altar dos ídolos com o degolamento de animais brutos, mas o Meu altar com o Meu sangue. Dize-me: que pode haver mais tremendo do que isto? Que mais ternamente bondoso? Isto também fazem os que amam. Quando veem aqueles a quem amam a desejar o que pertence a estranhos e a desprezar o que é seu, dão o que lhes é próprio, e assim os persuadem a apartar-se dos dons daqueles outros. Os que amam, contudo, mostram esta liberalidade em bens, em dinheiro e em vestes, mas em sangue jamais ninguém o fez. Ao passo que Cristo, mesmo nisto, exibiu o Seu cuidado e o Seu fervoroso amor para conosco. E na antiga aliança, porque estavam em estado imperfeito, o próprio sangue que costumavam oferecer aos ídolos Ele Se submeteu a receber, para os separar daqueles ídolos; o que, também isso, foi prova do Seu inefável afeto; mas aqui transferiu o culto para algo muito mais tremendo e glorioso, mudando o próprio sacrifício, e, em vez do degolamento de criaturas irracionais, ordenando que se oferecesse a Si mesmo.
4. "O pão que partimos, não é porventura a comunhão do Corpo de Cristo?" Por que, então, não disse "a participação"? Porque pretendia exprimir algo mais e assinalar quão estreita era a união: que comungamos não somente participando e tomando parte, mas também sendo unidos. Pois, assim como aquele corpo está unido a Cristo, assim também nós estamos unidos a Ele por este pão.
Mas por que acrescenta também "que partimos"? Pois, embora na Eucaristia se veja isto feito, na cruz, porém, não foi assim, mas antes o contrário. Pois, diz um, "nenhum osso Lhe será quebrado". Mas o que Ele não sofreu na cruz, isto sofre na oblação por vossa causa, e Se submete a ser partido, para que possa encher a todos os homens.
Além disso, porque disse "uma comunhão do Corpo", e o que comunga é coisa diversa daquilo com que comunga, também esta que parece ser uma pequena diferença ele removeu. Pois, tendo dito "uma comunhão do Corpo", buscou de novo exprimir algo mais próximo.
O corpo de Cristo não é muitos corpos, mas um só corpo. Pois, assim como o pão, que consiste de muitos grãos, torna-se um só, a ponto de os grãos separados já não se distinguirem, ainda que continuem a existir, assim também nós somos unidos uns aos outros e a Cristo. Mas, se todos somos nutridos da mesma fonte e nos tornamos um com Ele, por que não manifestamos também o mesmo amor e não nos tornamos um também nisto? Assim era nos tempos antigos, como vemos em Atos: "Pois a multidão dos que criam era de um só coração e uma só alma."
Pois nós, que somos muitos, somos um pão, um corpo. Pois por que falo eu de comunhão?, diz ele; nós somos esse mesmíssimo corpo. Pois que é o pão? O Corpo de Cristo. E que se tornam os que dele participam? O Corpo de Cristo: não muitos corpos, mas um corpo. Pois, assim como o pão, que consiste de muitos grãos, é feito um só, de modo que os grãos em nenhuma parte aparecem — existem, na verdade, mas sua diferença não se vê por causa da conjunção —, assim somos conjuntos tanto uns com os outros quanto com Cristo: não havendo um corpo para ti, e outro para que teu próximo se nutra, mas o mesmíssimo para todos. Por isso também acrescenta:
Pois todos participamos de um só pão. Ora, se todos somos nutridos do mesmo e todos nos tornamos o mesmo, por que não manifestamos também o mesmo amor, e não nos tornamos também nisto um só? Pois este era também o antigo modo, no tempo de nossos antepassados: pois a multidão dos que criam, diz o texto, era de um só coração e alma (At 4,32). Não é assim, porém, agora, mas de todo o contrário. Muitas e várias são as contendas entre todos, e piores que feras selvagens nos mostramos uns para com os membros dos outros. E Cristo, na verdade, tanto se rebaixou, tornando-se um contigo: mas tu não te dignas unir-te com a devida exatidão nem sequer ao teu irmão, antes te separas, tendo recebido do Senhor o privilégio de tão grande amor e vida. Pois Ele não deu simplesmente nem mesmo o seu próprio corpo; mas, porque a antiga natureza da carne, que fora formada da terra, havia primeiro se tornado morta pelo pecado e destituída de vida, introduziu Ele, por assim dizer, outra sorte de massa e fermento, a sua própria carne — por natureza, na verdade, a mesma, mas isenta de pecado e cheia de vida — e a todos deu para dela participarem, a fim de que, nutridos por esta e deixando de lado a antiga matéria morta, pudéssemos ser mesclados juntamente naquilo que é vivo e eterno, por meio desta mesa.
Os judeus eram partícipes do altar, mas isto é diferente da comunhão cristã. Os judeus partilhavam de algo que era queimado, mas nós partilhamos do Cristo vivo. É com Ele que temos comunhão.
Novamente, da antiga aliança ele os conduz também a este ponto. Pois, porquanto estavam eles muito abaixo da grandeza das coisas que haviam sido ditas, persuade-os tanto a partir das coisas antigas quanto daquelas a que estavam habituados. E diz bem, segundo a carne, como se eles próprios fossem segundo o Espírito. E o que ele diz é da seguinte natureza: até mesmo a partir de pessoas de espécie mais grosseira podeis ser instruídos de que os que comem os sacrifícios têm comunhão com o altar. Vedes como ele insinua que os que pareciam ser perfeitos não têm perfeito conhecimento, se não sabem nem isto — que o resultado desses sacrifícios é, para muitos, com frequência, certa comunhão e amizade com os demônios, atraindo-os a prática pouco a pouco? Pois, se entre os homens a partilha do sal e da mesa se torna ocasião e sinal de amizade, é possível que isto suceda também no caso dos demônios.
Mas considera tu, peço-te, como, a respeito dos judeus, ele não disse que são partícipes de Deus, mas que têm comunhão com o altar; pois o que sobre ele era colocado era queimado: mas, a respeito do Corpo de Cristo, não é assim. Mas como é? É uma Comunhão do Corpo do Senhor. Pois não com o altar, mas com o próprio Cristo, temos nós comunhão.
Mas, tendo dito que eles têm comunhão com o altar, temendo depois que parecesse discorrer como se os ídolos tivessem algum poder e pudessem causar algum dano.
Como se ele tivesse dito: Ora, estas coisas afirmo eu, e procuro afastar-vos dos ídolos, não como se pudessem causar algum dano ou tivessem algum poder — pois o ídolo é nada —, mas quero que os desprezeis. E, se quereis que os desprezemos, diz alguém, por que nos afastas com tanto cuidado deles? Porque não são oferecidos ao vosso Senhor.
Eis a razão pela qual não devemos comer alimento que foi sacrificado aos ídolos. A imundície não está no alimento, mas nas intenções dos que sacrificam e na disposição dos que recebem.
Não corras, pois, para as coisas contrárias. Pois nem mesmo se fosses filho de um rei, e gozasses do privilégio da mesa de teu pai, se a deixasses para escolher participar da mesa dos condenados e dos prisioneiros no cárcere, teu pai o permitiria; antes, com grande veemência, te afastaria dali — não porque a mesa pudesse causar-te dano, mas porque desonra a tua nobreza e a mesa régia. Pois, na verdade, também estes são servos que ofenderam; desonrados, condenados, prisioneiros reservados para castigo intolerável, réus de dez mil crimes. Como, pois, não te envergonhas de imitar a turba glutona e vulgar, de modo que, quando estes condenados dispõem uma mesa, ali corres e participas dos manjares? Eis aqui a causa pela qual busco afastar-te. Pois a intenção dos que sacrificam, e a pessoa dos que recebem, tornam imundas as coisas que te são postas diante.
E não quereria eu que tivesses comunhão com o demônio. Percebes a bondade de um pai cuidadoso? Percebes também a própria palavra, quanta força tem para exprimir o seu sentimento? Pois é meu desejo, diz ele, que nada tenhas em comum com eles.
6. Em seguida, porque introduziu o dito à maneira de exortação, para que nenhum dos mais grosseiros o tomasse levianamente como se houvesse licença, visto que disse "eu quereria" e "julgai vós"; ele afirma positivamente no que se segue e estabelece a lei.
E ele se contenta com os simples termos, com o propósito de os manter afastados. Depois, falando também ao seu senso de vergonha,
Provocamos nós o Senhor a zelos? Somos nós mais fortes do que Ele? Isto é: acaso o tentamos, para ver se Ele é capaz de nos castigar, e o irritamos, passando para o lado dos adversários e tomando posição junto aos Seus inimigos? E isto disse ele, lembrando-lhes uma antiga história e a transgressão de seus pais. Pelo que também se serve desta expressão, da qual outrora se serviu Moisés contra os judeus, acusando-os de idolatria diante da pessoa de Deus. Pois eles, diz Ele, moveram-Me a zelos com aquilo que não é Deus; provocaram-Me à ira com os seus ídolos (Dt 32,21).
Somos nós mais fortes do que Ele? Vedes quão terrivelmente, quão temerosamente ele os repreende, abalando-lhes profundamente os próprios nervos, e, por seu modo de os reduzir ao absurdo, tocando-os no vivo e abatendo o seu orgulho? Mas, dirá alguém, por que não expôs ele estas coisas desde o princípio, as quais seriam as mais eficazes para os afastar? Porque é seu costume provar o seu ponto por muitos particulares, e colocar o mais forte por último, e prevalecer provando mais do que era necessário. Por esta razão, pois, começou pelos tópicos menores, e assim se encaminhou para aquele que é a suma de todos os males; visto que, assim, também aquele último ponto se tornou mais facilmente admitido, tendo-se abrandado o seu ânimo pelas coisas ditas anteriormente.
Vedes com que aspereza Paulo repreende os coríntios, abalando-lhes os próprios nervos e reduzindo-os ao absurdo? Perguntareis, porventura, por que não disse isto desde o princípio. É que é costume de Paulo provar seu ponto por meio de muitos pormenores, colocando o mais forte por último e prevalecendo no argumento por provar mais do que estritamente necessário. Assim, começou aqui pelas questões menores e foi ascendendo até o maior dos males, de modo que as mentes dos coríntios já estivessem preparadas pelo que fora dito antes. Deste modo, o último ponto é mais facilmente absorvido.
Vede a exatidão de sua sabedoria? Porquanto era provável que dissessem: Eu sou perfeito e senhor de mim mesmo, e não me faz dano participar do que se põe diante de mim; Ainda assim, diz ele, perfeito és e senhor de ti mesmo; não atentes, porém, a isto, mas sim se o resultado não envolve dano, antes subversão. Pois mencionou ambas as coisas, dizendo: Nem tudo convém, nem tudo edifica; e usando a primeira com referência a si mesmo, a segunda, ao irmão: visto que a cláusula não convém encerra uma indicação velada da ruína daquele a quem fala; e a cláusula não edifica, do tropeço do irmão.
Por isso acrescenta também: Ninguém busque o que é seu; o que ele insiste em toda parte por toda a Epístola, e na aos Romanos; quando diz: Porque também Cristo não agradou a si mesmo (Rm 15,3); e novamente: Assim como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito (1Co 10,33). E novamente aqui; não o desenvolve, contudo, plenamente neste lugar. Isto é, uma vez que no que precedera o havia estabelecido longamente, e mostrado que em nenhuma parte busca o que é seu, mas tanto aos judeus se fez como judeu quanto aos que estão sem lei como sem lei, e não usou de sua própria liberdade e direito ao acaso, mas para o proveito de todos, servindo a todos; aqui interrompeu, contentando-se com poucas palavras, conduzindo-os por estas poucas à lembrança de tudo quanto fora dito.
7. Sabendo, pois, estas coisas, consultemos também nós, amados, o bem dos irmãos e conservemos com eles a unidade. Pois a isto nos conduz aquele sacrifício temível e tremendo, admoestando-nos sobretudo a aproximarmo-nos dele com um só ânimo e fervorosa caridade, e assim, tornando-nos águias, subirmos até o próprio céu, e ainda além do céu. Pois onde quer que estiver o cadáver, diz Ele, aí também se ajuntarão as águias (Mt 24,28), chamando ao seu corpo cadáver por causa de sua morte. Pois se Ele não tivesse caído, não teríamos ressuscitado. Mas nos chama águias, dando a entender que aquele que se aproxima deste Corpo deve estar nas alturas e nada ter de comum com a terra, nem se enrodilhar para baixo nem rastejar; mas deve sempre remontar-se para o céu, e olhar para o Sol da Justiça, e ter o olho de sua mente perspicaz. Pois às águias, não às gralhas, pertence o direito a esta mesa. Aqueles também então O encontrarão descendo do céu, os que agora dignamente possuem este privilégio, assim como os que dele participam indignamente sofrerão os mais extremos tormentos.
Pois se ninguém receberia um rei sem considerar bem o que faz — mas por que digo um rei? Nem sequer uma veste real alguém tocaria inadvertidamente com mãos imundas —, ainda que estivesse em solidão, ainda que sozinho, ainda que ninguém estivesse presente: e, no entanto, a veste não é senão certos fios fiados por vermes; e se admiras a tinta, esta também não é senão o sangue de um peixe morto; contudo, ninguém escolheria arriscar-se a tocá-la com mãos poluídas: digo, pois, que se até a veste de um homem é algo que ninguém ousaria tocar sem consideração, que diremos do Corpo Daquele que é Deus sobre todas as coisas, imaculado, puro, associado à Natureza Divina, o Corpo pelo qual somos e vivemos; pelo qual as portas do inferno foram derrubadas e os santuários do céu abertos? Como havemos de receber isto com tamanha insolência? Não nos matemos, rogo-vos, não nos matemos por nossa irreverência, mas com todo temor e pureza aproximemo-nos dEle; e quando o vires posto diante de ti, dize a ti mesmo: Por causa deste Corpo já não sou terra e cinza, já não sou prisioneiro, mas livre; por causa deste espero o céu, e receber os bens que nele há, a vida imortal, a porção dos anjos, a conversação com Cristo; este Corpo, pregado e açoitado, foi mais forte do que a morte pôde suportar; este Corpo o próprio sol viu sacrificado, e desviou os seus raios; por este tanto se rasgou o véu naquele momento, como as rochas se fenderam, e toda a terra foi abalada. Este é ainda aquele mesmo Corpo, o ensanguentado, o traspassado, e do qual jorraram as fontes salutares, uma de sangue, outra de água, para todo o mundo.
Queres também de outra fonte conhecer o seu poder? Pergunta àquela que padecia de fluxo de sangue, a qual não tocou nEle mesmo, mas na veste de que estava revestido; nem sequer nela toda, mas apenas na orla: pergunta ao mar, que O carregou sobre seu dorso: pergunta até mesmo ao próprio Diabo, e dize: De onde te vem esse golpe incurável? De onde não tens já poder algum? De onde estás cativo? Por quem foste tu capturado em tua fuga? E ele não dará outra resposta senão esta: O Corpo que foi crucificado. Por este foram os seus aguilhões despedaçados; por este foi a sua cabeça esmagada; por este foram os principados e as potestades expostos ao escárnio público. Pois, diz ele, tendo despojado de si os principados e as potestades, os expôs abertamente ao escárnio, triunfando sobre eles nele mesmo (Cl 2,15).
Pergunta também à Morte, e dize: donde vem que o teu aguilhão foi arrancado? Que a tua vitória foi abolida? Que os teus nervos foram cortados? E tu te tornaste o escárnio de moças e crianças, tu que antes eras um terror até para reis e para todos os homens justos? E ela atribuirá isso a este Corpo. Pois quando este foi crucificado, então os mortos foram ressuscitados, então aquele cárcere foi arrombado, e os portões de bronze foram quebrados, e os mortos foram soltos, e os guardas do portão do inferno todos se encolheram de pavor. E, no entanto, se Ele fosse um dentre os muitos, a morte, pelo contrário, deveria ter-se tornado mais poderosa; mas não foi assim. Pois Ele não era um dentre os muitos. Por isso a morte foi dissolvida. E assim como os que tomam alimento que não conseguem reter, por causa disso vomitam também o que antes estava alojado neles; assim também aconteceu com a morte. Aquele Corpo, que ela não pôde digerir, ela recebeu; e por isso teve de lançar fora o que tinha dentro de si. Sim, ela se contorceu em dores enquanto O retinha, e ficou angustiada até que O vomitasse. Por isso diz o Apóstolo: "Tendo soltado as dores da morte" (At 11,24). Pois jamais mulher em trabalho de parto sofreu tanta angústia quanto ela foi despedaçada e dilacerada ao meio, enquanto retinha o Corpo do Senhor. E o que aconteceu ao dragão babilônico, quando, tendo tomado o alimento, arrebentou pelo meio, isso também lhe aconteceu. Pois Cristo não saiu novamente pela boca da morte, mas, tendo arrebentado e rasgado bem ao meio o ventre do dragão, assim, das Suas câmaras secretas (Sl 19,5), gloriosíssimo Ele saiu e lançou os Seus raios não apenas a este céu, mas até o próprio trono altíssimo. Pois até ali Ele o levou consigo.
Este Corpo Ele nos deu tanto para segurar quanto para comer; coisa própria de um amor intenso. Pois aqueles a quem beijamos veementemente, muitas vezes também mordemos com os dentes. Por isso também Jó, indicando o amor de seus servos para com ele, disse que eles, muitas vezes, por causa de sua grande afeição para com ele, diziam: "Ah, quem nos dera fartar-nos da sua carne!" (Jó 31,31). Assim também Cristo nos deu para nos fartarmos da Sua carne, atraindo-nos a um amor maior.
8. Aproximemo-nos, pois, dEle com fervor e com amor inflamado, para que não tenhamos de suportar castigo. Pois, na proporção da grandeza dos benefícios que nos foram concedidos, tanto mais severamente somos castigados quando nos mostramos indignos da liberalidade. Este Corpo, mesmo jazendo numa manjedoura, os Magos reverenciaram. Sim, homens profanos e bárbaros, deixando sua pátria e seu lar, tanto empreenderam uma longa viagem quanto, ao chegarem, com temor e grande tremor O adoraram. Imitemos, então, ao menos aqueles Bárbaros, nós que somos cidadãos do céu. Pois eles, na verdade, quando O viram apenas numa manjedoura e numa cabana, e nada do que agora vedes estava à vista, aproximaram-se com grande reverência; mas vós O contemplais não na manjedoura, mas sobre o altar, não uma mulher segurando-O nos braços, mas o sacerdote de pé ao lado, e o Espírito, com extrema generosidade, pairando sobre os dons diante de nós dispostos. Vós não vedes meramente este mesmo Corpo, como eles viram, mas conheceis também o Seu poder, e toda a economia, e não ignorais nenhuma das coisas santas que por Ele se realizam, tendo sido exatamente iniciados em todas elas.
Exortemo-nos, pois, a despertar e a encher-nos de temor, e mostremos uma reverência muito superior à daqueles Bárbaros, para que não venhamos, por aproximações temerárias e descuidadas, a amontoar fogo sobre nossas próprias cabeças. Mas isto digo, não para nos afastar de aproximar-nos, mas para nos guardar de aproximar-nos sem consideração. Pois, assim como o aproximar-se ao acaso é perigoso, também o não comungar dessas ceias místicas é fome e morte. Porque esta Mesa é o nervo de nossa alma, o vínculo de nosso entendimento, o fundamento de nossa confiança, nossa esperança, nossa salvação, nossa luz, nossa vida. Quando, munidos deste sacrifício, partimos para o mundo exterior, com muita confiança pisaremos o sagrado limiar, protegidos por todos os lados como que por uma espécie de armadura de ouro.
E por que falo do mundo vindouro? Pois já aqui este mistério faz da terra, para vós, um céu. Abri, ainda que uma só vez, as portas do céu, e olhai para dentro — antes, não do céu, mas do céu dos céus —, e então contemplareis o que venho dizendo. Pois o que há de mais precioso entre todas as coisas, isto vos mostrarei repousando sobre a terra. Porque, assim como nos palácios reais o mais glorioso de tudo não são as paredes, nem os tetos dourados, mas a pessoa do rei sentado no trono, assim também no céu o Corpo do Rei. Mas isto vos é agora permitido ver sobre a terra. Pois não são anjos, nem arcanjos, nem céus e céus de céus que vos mostro, mas o próprio Senhor e Dono destes. Percebes como aquilo que é mais precioso que todas as coisas é visto por ti sobre a terra? E não somente visto, mas também tocado; e não somente tocado, mas igualmente comido; e, depois de o receberes, vais para casa?
Purifica, então, tua alma; prepara teu entendimento para o recebimento destes mistérios. Pois se te fosse confiado levar o filho de um rei, com os mantos, a púrpura e o diadema, lançarias fora todas as coisas que há sobre a terra. Mas agora que não é filho de homem, por mais régio que fosse, mas o próprio Filho unigênito de Deus, a Quem recebeste, não estremeces de temor reverente, dize-me, e não lanças fora todo o amor de todas as coisas mundanas, e não tens outra ornamentação senão aquela com que deves adornar-te? Ou ainda olhas para a terra, e amas o dinheiro, e suspiras pelo ouro? Que perdão, pois, podes ter? Que desculpa? Não sabes que todo este luxo mundano é abominável a teu Senhor? Não foi por isto que, ao nascer, foi Ele posto numa manjedoura, e tomou para Si uma mãe de condição humilde? Não foi por isto que disse Ele àquele que buscava lucro: "Mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça"? (Mt 8,20)
E que fizeram os discípulos? Não observaram eles a mesma lei, sendo hospedados em casas de pobres, alojando-se um com um curtidor, outro com um fabricante de tendas, e com o vendedor de púrpura? Pois não indagavam pelo esplendor da casa, mas pelas virtudes das almas dos homens.
A estes, pois, imitemos também nós, apressando-nos além da beleza das colunas e dos mármores, e buscando as moradas que estão acima; e pisemos sob nossos pés toda a soberba daqui de baixo, com todo amor ao dinheiro, e adquiramos um espírito elevado. Pois, se formos sóbrios de entendimento, nem sequer todo este mundo é digno de nós, muito menos pórticos e arcadas. Por isso, rogo-vos, adornemos nossas almas, preparemos esta casa que também haveremos de ter conosco quando partirmos, para que alcancemos até mesmo os bens eternos, pela graça e misericórdia, etc.
A ignorância é ditosa. O alimento não é impuro em si mesmo; somente as intenções humanas podem torná-lo impuro. Aqueles que não conhecem quais sejam essas intenções podem, pois, comê-lo com boa consciência.
Tendo dito que não podiam beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios, e havendo, de uma vez por todas, afastado-os daquelas mesas — por exemplos judaicos, por raciocínios humanos, pelos tremendos Mistérios, pelos ritos solenizados entre os ídolos — e havendo-os enchido de grande temor, para que não os impelisse este mesmo temor a outro extremo, forçando-os, com escrúpulo maior do que o necessário, a alarmar-se de que porventura, mesmo sem seu conhecimento, entrasse alguma coisa tal, seja do mercado, seja de outra parte — para livrá-los deste aperto, diz ele: Tudo o que se vende no açougue, comei, sem perguntar nada por causa da consciência. Pois, diz ele, se comeis em ignorância e não sabendo, não estais sujeitos à pena, sendo isso então questão não de cobiça, mas de ignorância.
E não os livra apenas desta ansiedade, mas também de outra, estabelecendo-os em plena segurança e liberdade. Pois nem sequer lhes permite interrogar — isto é, indagar e perguntar se é sacrifício idolátrico ou coisa nenhuma dessas — mas simplesmente comer tudo o que vier do mercado, sem sequer se informar disto: o que é o que se põe diante de nós. De modo que também aquele que come, se o faz em ignorância, pode livrar-se da ansiedade. Pois tal é a natureza daquelas coisas que não são más em sua essência, mas que, pela intenção do homem, o tornam impuro. Por isso diz: sem perguntar nada.
Nada é impuro, a não ser que nós mesmos o tornemos assim por nossa intenção e por nossa desobediência.
Pois do Senhor é a terra, e a sua plenitude. Não dos demônios. Ora, se a terra, os frutos e os animais são todos Seus, nada é impuro; mas torna-se impuro de outro modo, a partir de nossa intenção e de nossa desobediência. Por isso, ele não apenas concedeu permissão
Observai novamente a sua moderação. Pois não ordenou nem estabeleceu por lei que se retirassem, mas tampouco o proibiu. E, ainda mais, caso se retirassem, ele os livra de toda suspeita. Qual, pois, poderá ser a razão disto? Que tão grande escrupulosidade não parecesse nascer de algum temor e covardia. Pois quem se põe a indagar com escrúpulo assim o faz por estar receoso; mas quem, ao ouvir o fato, se abstém, abstém-se por desprezo, ódio e aversão. Por isso Paulo, propondo-se estabelecer ambos os pontos, diz: Tudo o que vos for posto diante, comei.
Notai o equilíbrio de Paulo. Ele não ordenou aos cristãos que se apartassem do convívio com os incrédulos, mas tampouco o proibiu. As pessoas que fazem indagações escrupulosas assim o fazem por temor, e isso é errado. Por outro lado, se alguém vem a saber que o alimento foi sacrificado aos ídolos e então toma a decisão consciente de abster-se, fá-lo por desprezo e aversão à idolatria, e não por temor, e isso é aceitável diante de Deus.
Assim, não é de modo algum por algum poder que possuam, mas como coisas malditas, que ele ordena que delas se abstenham. Nem, pois, como se pudessem ferir-vos, delas fugi (pois não têm força alguma); nem tampouco, porque não têm força, delas participeis indiferentemente: pois é a mesa de seres hostis e degradados. Por isso disse: não comais por causa daquele que vo-lo mostrou, e por causa da consciência. Porque do Senhor é a terra, e a sua plenitude. Vedes como, tanto quando ordena que comam quanto quando devem abster-se, ele traz à frente o mesmo testemunho? Pois não proíbo, diz ele, por esta razão, como se pertencessem a outros (pois do Senhor é a terra), mas pela razão que mencionei, por causa da consciência; isto é, para que ela não seja ferida. Deve-se, então, indagar com escrúpulo? De modo algum, diz ele, pois não disse a vossa consciência, mas a dele. Pois já disse: "por causa daquele que vo-lo mostrou". E, novamente, v. 29, consciência, digo, não a vossa própria, mas a do outro.
2. Mas talvez alguém diga: Aos irmãos, na verdade, como é natural, poupais, e não nos permitis provar por causa deles, para que a consciência deles, sendo fraca, não se anime a comer os sacrifícios oferecidos aos ídolos. Mas se for algum gentio, que é isso para ti? Não foi tua própria palavra: "Que tenho eu com julgar os que estão de fora?" (1 Cor 5:12). Por que, então, ao contrário, cuidas dele? Não é por ele o meu cuidado, responde ele, mas também neste caso é por ti. Ao que também acrescenta:
Pois por que é julgada a minha liberdade por consciência alheia? — chamando de liberdade aquilo que ficou sem cautela nem proibição. Pois isto é liberdade, livre da servidão judaica. E o que quer dizer é isto: Deus me fez livre e acima de todo alcance de dano, mas o gentio não sabe julgar a minha regra de vida, nem enxergar a liberalidade de meu Senhor, mas condenará e dirá a si mesmo: "O cristianismo é uma fábula; abstêm-se dos ídolos, evitam os demônios, e contudo se apegam às coisas a eles oferecidas: grande é a sua gula." E então? poder-se-ia dizer. Que mal nos faz, ainda que ele nos julgue injustamente? Mas quanto melhor é não lhe dar ocasião alguma para julgar! Pois se te abstiveres, ele nem sequer dirá isto. Como, dizeis, não o dirá? Pois quando me vir não fazer estas indagações, seja no açougue, seja no banquete, o que o impediria de usar esta linguagem e condenar-me, como a quem participa sem discernimento? Não é assim de modo algum. Pois participas, não como de sacrifícios idólatras, mas como de coisas puras. E se não fazes indagação minuciosa, é para significar que não temes as coisas que te são postas diante; sendo esta a razão pela qual, quer entres numa casa de gentios, quer vás ao mercado, não te permito que faças perguntas; a saber, para que não te tornes temeroso e perplexo, e a ti mesmo ocasiones incômodo desnecessário.
O que Paulo quer dizer é isto. Deus o fez livre e o colocou fora do alcance do dano, mas o gentio não compreende a sua regra de vida. Não pode ver a natureza da liberdade cristã e dirá a si mesmo que o cristianismo é uma mentira, porque, embora os cristãos evitem os demônios, estão prontos a comer coisas que lhes foram oferecidas, tão grande é a sua gula. Tal juízo pode ser injusto, mas é melhor não dar ao gentio ocasião alguma para julgar.
Se por graça participo, por que sou mal falado por aquilo mesmo pelo qual dou graças? De que 'participas por graça'? Dize-me. Dos dons de Deus. Pois tão grande é a Sua graça, que torna a minha alma imaculada e acima de toda poluição. Porque, assim como o sol, lançando seus raios sobre muitos lugares imundos, deles se retira puro, assim também, e muito mais, nós, vivendo em meio ao mundo, permanecemos puros, se o quisermos, tanto quanto o poder que temos é ainda maior que o dele. Por que, então, te abténs? — dizes tu. Não como se eu me tornasse impuro, longe disso; mas por causa do meu irmão, e para que eu não me torne participante com os demônios, e para que eu não seja julgado pelo incrédulo. Pois, neste caso, já não é mais a natureza da coisa, mas a desobediência e a amizade com os demônios que me tornam impuro, e o propósito do coração é que opera a poluição.
Mas o que significa: por que sou mal falado por aquilo pelo qual dou graças? Eu, de minha parte, diz ele, dou graças a Deus por me haver assim colocado no alto, e acima da condição baixa dos judeus, de modo que de nenhuma parte sou eu ferido. Mas os gentios, não conhecendo a minha excelsa regra de vida, suspeitarão o contrário, e dirão: 'Eis aqui cristãos que indulgenciam um gosto por nossos costumes; são uma espécie de hipócritas, que abominam os demônios e os detestam, e contudo correm às suas mesas; e o que poderia haver de mais insensato? Concluímos que não por amor da verdade, mas por ambição e amor ao poder se entregaram a esta doutrina.' Que loucura seria, pois, que, quanto àquelas coisas pelas quais tenho sido tão beneficiado a ponto de por elas render solenes graças, quanto a estas eu me tornasse causa de maledicência? Mas estas coisas, mesmo assim, dizes tu, o gentio as alegará, quando me vir sem indagar. De modo algum. Pois nem todas as coisas estão tão cheias de sacrifícios a ídolos que ele deva suspeitar disso; nem tu mesmo os provas como sacrifícios a ídolos. Mas não sejas então demasiado escrupuloso, nem tampouco, por outro lado, quando alguém disser que é sacrifício a ídolo, participes disso. Pois Cristo te deu graça e te colocou no alto e acima de toda injúria daquela parte, não para que fosses mal falado, nem para que a circunstância que para ti tem sido tal ganho a ponto de ser matéria de especial ação de graças, viesse a prejudicar a outros de modo a fazê-los até blasfemar. Ora, por que, diz ele, não digo eu ao gentio: 'Eu como, de modo algum sou ferido, e não faço isto como quem tem amizade com os demônios'? Porque não podes persuadi-lo, ainda que o digas dez mil vezes: fraco como é e hostil. Pois se o teu irmão ainda não foi persuadido por ti, muito menos o inimigo e o gentio. Se ele está possuído por sua consciência do sacrifício ao ídolo, muito mais o incrédulo. E, além disso, que necessidade temos nós de tão grande incômodo?
Que, pois? Visto que temos conhecido a Cristo e damos graças, enquanto eles blasfemam, abandonaremos por isso também este costume? Longe disso. Pois a coisa não é a mesma. Porquanto, num caso, grande é o nosso ganho em suportar o opróbrio; no outro, não haverá vantagem alguma. Por isso também disse antes: pois nem se comermos somos melhores, nem se não comermos somos piores (1 Cor 8,8). E além disto mostrou também que a coisa devia ser evitada, de modo que também por outra razão deviam eles se abster, não somente por esta causa, mas também pelas demais razões que assinalou.
Tenham todas as coisas que empreendeis e realizais esta raiz e este fundamento, a saber, que tendam à glória de Deus… Quando Paulo disse "Se fazeis alguma coisa" ["tudo quanto fizerdes"], encerrou toda a nossa existência numa única palavra, desejando que jamais realizemos qualquer ato de virtude tendo em vista a glória humana.
Percebes como, partindo do assunto que tinha diante de si, ele levou a exortação ao que era geral, dando-nos um único fim, o mais excelente de todos, a saber, que Deus em todas as coisas seja glorificado?
Não deis ocasião de escândalo, quer aos judeus, quer aos gregos, quer à Igreja de Deus: isto é, não deis pretexto a ninguém; pois, no caso suposto, tanto se ofende o teu irmão, como o judeu tanto mais te odiará e condenará, como também o gentio de igual modo te escarnecerá como a um homem glutão e hipócrita.
Não devem, porém, os irmãos receber dano de nossa parte apenas, mas, quanto em nós estiver, nem sequer aqueles que estão de fora. Pois, se somos luz, e fermento, e luminares, e sal, devemos iluminar, não escurecer; ligar, não desligar; atrair a nós os incrédulos, não afugentá-los. Por que, então, pões em fuga aqueles que deverias atrair a ti? Pois também os gentios se escandalizam quando nos veem voltar a tais coisas: porque não conhecem a nossa mente, nem que a nossa alma já se elevou acima de toda mancha sensível. E os judeus, igualmente, e os irmãos mais fracos padecerão do mesmo mal.
Vedes quantas razões ele assinalou pelas quais devemos abster-nos das carnes sacrificadas aos ídolos? Por causa de sua inutilidade, por causa de sua desnecessidade, por causa do dano ao irmão, por causa da maledicência do judeu, por causa do escárnio do gentio, porque não devemos ser participantes com os demônios, porque a coisa é uma espécie de idolatria.
Além disso, porque havia dito: não deis ocasião de escândalo, e os fez responsáveis pelo dano causado, tanto aos gentios como aos judeus; e o dito era grave; vede como ele o torna aceitável e leve, colocando-se a si mesmo à frente.
Não devem os irmãos receber dano de nossa parte apenas, mas tampouco aqueles que estão fora da Igreja. Se somos luz, e fermento, e luminares, e sal, devemos iluminar, não escurecer; ligar, não desligar; atrair a nós os incrédulos, e não afugentá-los. Os gentios escandalizam-se quando nos veem fazer tais coisas, porque não compreendem que fomos libertados delas. Igualmente, os judeus e os irmãos mais fracos também padecerão, pela mesma razão.
Esta é a regra do mais perfeito cristianismo, um marco exatamente estabelecido, o ponto que se ergue mais alto que todos os demais. Nada pode tornar alguém mais semelhante a Cristo do que cuidar do próximo.
Esta é uma regra do mais perfeito cristianismo, este é um marco exatamente estabelecido, este é o ponto que se ergue mais alto que todos; a saber, o buscar aquilo que é para o proveito comum: o que também o próprio Paulo declarou, acrescentando, assim como eu também sou de Cristo. Pois nada pode assim tornar um homem imitador de Cristo quanto o cuidado com o próximo. Ainda que jejues, ainda que te deites sobre o chão, e até te estrangules a ti mesmo, mas não tenhas cuidado do teu próximo, nada de grande realizaste, mas ainda estás longe desta Imagem, embora assim procedendo. Contudo, no caso presente, a própria coisa em si mesma é naturalmente útil, a saber, o abster-se das carnes sacrificadas aos ídolos. Mas eu, diz ele, tenho feito muitas daquelas coisas que também eram sem proveito: por exemplo, quando usei da circuncisão, quando ofereci sacrifício; pois estas, se alguém as examinasse em si mesmas, antes destroem os que as seguem e os fazem cair da salvação: não obstante, submeti-me até mesmo a estas por causa da vantagem que delas provinha: mas aqui não há nada semelhante. Pois naquele caso, a menos que sobrevenha certo benefício e a menos que sejam feitas por causa dos outros, então a coisa se torna prejudicial: mas nesta, ainda que ninguém seja feito tropeçar, mesmo assim se deve abster das coisas proibidas.
Mas não somente a coisas nocivas me submeti, mas também a coisas laboriosas. Pois, roubei outras Igrejas, diz ele, tomando salário delas; e quando era lícito comer e não trabalhar, não busquei isto, mas antes escolhi perecer de fome do que ofender a outro. Por isto diz ele, agrado a todos em todas as coisas. Ainda que seja contra a lei, ainda que seja laborioso e arriscado, o que deve ser feito, tudo suporto pelo proveito dos outros. Assim, pois, sendo acima de todos em perfeição, tornou-se abaixo de todos em condescendência.
4. Pois nenhuma ação virtuosa pode ser muito excelsa, quando não distribui o seu benefício também aos outros: como se mostra por aquele que trouxe o único talento a salvo, e foi cortado em pedaços por não o ter multiplicado. E tu, então, irmão, ainda que permaneças sem alimento, ainda que durmas sobre o chão, ainda que comas cinzas e estejas sempre a lamentar, e não faças bem a nenhum outro; nenhuma grande obra farás. Pois assim também aquelas grandes e nobres pessoas que houve no princípio fizeram disto o seu principal cuidado: examina com exatidão a vida delas, e verás claramente que nenhuma delas jamais olhou para as coisas próprias, mas cada uma para as coisas do seu próximo, donde também resplandeceram mais. Pois assim Moisés (para mencioná-lo primeiro) operou muitas e grandes maravilhas e sinais; mas nada o fez tão grande quanto aquela bendita voz que proferiu a Deus, dizendo, Se perdoares o pecado deles, perdoa; mas se não, apaga-me também a mim. Assim também foi Davi: pelo que também disse, Eu, o pastor, pequei, e obrei perversamente, mas estas, as ovelhas, que fizeram elas? Esteja a Tua mão sobre mim e sobre a casa de meu pai. Assim igualmente Abraão não buscou o seu próprio proveito, mas o proveito de muitos. Pelo que tanto se expôs a perigos como suplicou a Deus por aqueles que de nenhum modo lhe pertenciam.
Estes, pois, tornaram-se assim gloriosos. Mas quanto aos que buscaram o que era seu, considerai que dano também receberam. O sobrinho, por exemplo, deste último mencionado, porque atendeu ao dito: "Se fores para a direita, eu irei para a esquerda" (Gn 13:9), e aceitando a escolha, buscou o próprio proveito, nem mesmo o próprio proveito encontrou: mas esta região foi consumida pelo fogo, enquanto aquela permaneceu intacta. Jonas, por sua vez, não buscando o proveito de muitos, mas o seu próprio, esteve mesmo em perigo de perecer: e enquanto a cidade permanecia firme, ele mesmo foi arremessado e submerso no mar. Mas quando buscou o proveito de muitos, então também encontrou o seu. Assim também Jacó, entre os rebanhos, não buscando o próprio ganho, teve por porção riquezas em abundância. E também José, buscando o proveito de seus irmãos, encontrou o seu. Ao menos, sendo enviado por seu pai (Gn 37:14), não disse: "Que é isto? Não ouviste que, por causa de uma visão e de certos sonhos, eles chegaram a tentar despedaçar-me, e fui responsabilizado por meus sonhos, e sofro castigo por ser amado por vós? Que não farão, pois, quando me tiverem em seu meio?" Nada disto disse, nada disto pensou, mas preferiu o cuidado de seus irmãos a tudo. Por isso gozou também de todos os bens que se seguiram, os quais o tornaram sobremaneira brilhante e o declararam glorioso. Assim também Moisés — pois nada impede que dele façamos menção uma segunda vez, e vejamos como desprezou o que era seu e buscou as coisas alheias — digo, este Moisés, versado na corte de um rei, porque considerou o opróbrio de Cristo (Hb 11:26) riqueza maior que os tesouros do Egito; e tendo lançado tudo isso mesmo de suas mãos, tornou-se partícipe das aflições dos hebreus; — de tal modo que, longe de ser ele mesmo escravizado, a eles também libertou da escravidão.
Bem: estas são, sem dúvida, grandes coisas e dignas de uma vida angélica. Mas a conduta de Paulo excede em muito a estas. Pois todos os demais, deixando os próprios bens, escolheram tornar-se partícipes das aflições alheias: mas Paulo fez algo muito maior. Pois não foi que consentisse em ser partícipe das desventuras alheias, mas escolheu ele mesmo estar em todos os extremos, para que outros homens gozassem de bênçãos. Ora, não é o mesmo que alguém que vive na fartura lance fora a sua fartura e sofra a adversidade, e que alguém, sofrendo ele só e sozinho a adversidade, faça com que outros estejam em segurança e honra. Pois no primeiro caso, ainda que seja grande coisa trocar a prosperidade pela aflição por causa do próximo, contudo traz alguma consolação ter partícipes na desventura. Mas consentir em estar ele só na angústia, para que outros gozem de seus bens — isto pertence a uma alma muito mais enérgica, e ao próprio espírito de Paulo.
Não vim de novo, mas por outra e maior excelência ultrapassa a todos os que antes mencionamos. Isto é, Abraão e todos os demais expuseram-se aos perigos da vida presente, e todos estes não faziam senão pedir esta espécie de morte de uma vez por todas; mas Paulo orava (Rm 9:3) para que pudesse cair da glória do século vindouro, por amor da salvação de outros.
Poderia mencionar ainda um terceiro ponto de superioridade. E qual é ele? Que alguns daqueles, embora intercedessem pelas pessoas que conspiravam contra eles, fizeram-no todavia por aqueles cuja tutela lhes fora confiada; e sucedeu com eles o mesmo que sucederia se alguém se levantasse em defesa de um filho selvagem e sem lei, mas ainda assim um filho: ao passo que Paulo desejava ser anátema em lugar daqueles cuja guarda não lhe fora confiada. Pois aos gentios é que fora enviado. Percebeis a grandeza de sua alma e a altura de seu espírito, que transcende o próprio céu? A este homem procurai emular; mas se não podeis, ao menos segui aqueles que resplandeceram na antiga aliança. Pois assim encontrareis o vosso próprio proveito, se buscardes o do vosso próximo. Portanto, quando vos sentirdes relutantes em cuidar de vosso irmão, considerando que de nenhuma outra forma podeis ser salvos, ao menos por vossa própria causa levantai-vos por ele e por seus interesses.
5. E ainda que o que já foi dito seja suficiente para vos convencer de que de nenhuma outra forma é possível assegurar o nosso próprio benefício, se contudo quiserdes também vos certificar disso pelos exemplos da vida comum, concebei um fogo que acontecesse acender-se em algum lugar numa casa, e então alguns dos vizinhos, tendo em vista o próprio interesse, recusando-se a enfrentar o perigo, mas fechando-se em casa e ali permanecendo, temerosos de que alguém encontrasse caminho para dentro e subtraísse alguma parte dos bens domésticos; quão grande castigo hão de suportar? Pois o fogo virá e igualmente consumirá tudo o que é deles; e, por não terem atentado ao proveito do vizinho, perdem também o seu próprio. Pois assim Deus, querendo unir-nos a todos uns aos outros, impôs às coisas tal necessidade, que no proveito de um vizinho está atado o do outro; e o mundo inteiro está assim constituído. E por isso também num navio, se sobrevier uma tempestade, e o timoneiro, deixando de lado o proveito de muitos, buscar apenas o seu próprio, rapidamente afundará tanto a si quanto a eles. E de cada uma das artes também podemos dizer que, se buscasse apenas o seu próprio proveito, a vida jamais poderia subsistir, nem sequer a própria arte que assim busca o seu. Por isso o lavrador não semeia apenas o grão suficiente para si mesmo, pois há muito teria feito perecer de fome tanto a si quanto aos outros; mas busca o proveito de muitos: e o soldado sai a campo contra os perigos, não para salvar-se a si mesmo, mas para colocar também as suas cidades em segurança: e o mercador não traz para casa apenas o suficiente para si só, mas também para muitos outros.
Mas se alguém disser: cada homem faz isto não atentando para o meu interesse, mas para o seu próprio, pois se aplica a todas estas coisas para obter para si dinheiro, glória e segurança, de sorte que, buscando o meu proveito, busca o seu próprio — isto também eu digo, e há muito desejava ouvi-lo de vós, e para isto ordenei todo o meu discurso: a saber, para significar que o teu próximo então busca o seu próprio proveito, quando atenta para o teu. Pois, como os homens de nenhum outro modo se decidiriam a buscar as coisas do seu próximo, senão fossem reduzidos a esta necessidade, por isso Deus assim entrelaçou as coisas, e não permite que cheguem ao seu próprio proveito senão primeiro percorrendo o proveito dos outros.
Ora, isto é natural ao homem, seguir assim a vantagem dos seus próximos; mas convém que alguém se persuada não por esta razão, mas pelo que apraz a Deus. Pois não é possível salvar-se querendo isto; mas ainda que exercites a mais alta perfeição da obra e negligencies os outros que perecem, não alcançarás confiança alguma diante de Deus. De onde isto se evidencia? Do que o bem-aventurado Paulo declarou. Pois, se distribuir todos os meus bens para sustento dos pobres, e entregar o meu corpo para ser queimado, e não tiver amor, nada me aproveita, diz ele (1 Cor 13,3). Vês quanto Paulo exige de nós? E, contudo, aquele que distribuiu os seus bens para sustento dos pobres, não buscava o seu próprio bem, mas o do próximo. Mas isto só não basta, diz ele. Pois quer que se faça com sinceridade e muita compaixão. Por isso também Deus o estabeleceu como lei, para que nos trouxesse ao vínculo do amor. Quando, pois, Ele exige tão larga medida, e nós não rendemos sequer a menor, de que indulgência seremos dignos?
E como, dirá alguém, disse Deus a Ló, por meio dos Anjos: "Salva a tua vida" (Gn 19,17)? Diz quando e por quê. Quando o castigo já estava próximo, não quando havia oportunidade de correção, mas quando já estavam condenados e incuravelmente enfermos, e velhos e moços se haviam precipitado nas mesmas paixões, e doravante era necessário que fossem queimados, e naquele dia em que os raios estavam para ser lançados. E, além disso, isto não foi dito acerca do vício e da virtude, mas do castigo infligido por Deus. Pois que devia ele fazer, dize-me? Ficar sentado a aguardar o castigo, e, sem em nada os aproveitar, ser queimado? Não, isto seria a extrema loucura.
Pois eu não afirmo isto, que se deva trazer sobre si o castigo sem discernimento e ao acaso, à parte da vontade de Deus. Mas, quando um homem se demora longamente no pecado, então eu te ordeno que te adiantes e o corrijas: se quiseres, por causa do teu próximo; mas, se não, ao menos pelo teu próprio proveito. É verdade, o primeiro é o melhor caminho; mas, se ainda não alcanças essa altura, faze-o ao menos por isto. E que ninguém busque o seu próprio para que encontre o seu próprio; e, tendo em mente que nem a pobreza voluntária, nem o martírio, nem qualquer outra coisa pode testificar em nosso favor, se não tivermos a virtude coroante do amor, guardemos esta acima das demais, para que por ela também obtenhamos todas as outras bênçãos, tanto as presentes como as prometidas; às quais possamos todos chegar pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
As mulheres coríntias costumavam orar e profetizar (pois naqueles dias as mulheres também profetizavam) com a cabeça descoberta. Entrementes, os homens, que haviam gasto longo tempo na filosofia, usavam cabelos longos e cobriam a cabeça ao orar, o que era costume grego. Paulo já os havia admoestado acerca destas coisas. Parece que alguns lhe deram ouvidos, mas que outros foram desobedientes. Aqui ele louva os obedientes antes de passar a corrigir os demais.
Tendo concluído o discurso acerca dos sacrifícios aos ídolos como lhe convinha, e tendo-o tornado perfeitíssimo em todos os aspectos, ele passa a outra questão, a qual era também ela uma queixa, mas não tão grave. Pois o que eu disse antes, isto também agora digo, que ele não expõe todas as graves acusações continuamente, mas, dispondo-as em devida ordem, insere entre elas as matérias mais leves, mitigando aquilo que, de outro modo, os leitores sentiriam como ofensivo em seu discurso, por causa da repreensão contínua.
Por isso também deixou para o fim a mais séria de todas, a que se refere à ressurreição. Por ora, porém, passa a outra coisa, mais leve, dizendo: Ora, eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim. Assim, quando a falta é confessada, ele tanto acusa veementemente quanto ameaça; mas quando é posta em dúvida, primeiro a prova e depois repreende. E o que era confessado, ele agrava; mas o que era provável de ser contestado, ele mostra ser confessado. A fornicação deles, por exemplo, era coisa confessada. Por isso não havia necessidade de mostrar que havia falta; mas, nesse caso, ele provou a magnitude da transgressão, e conduziu seu discurso por via de comparação. Novamente, o irem eles a juízo perante estranhos era uma falta, mas não tão grave. Por isso ele a considerou de passagem, e a provou. Já a questão dos sacrifícios aos ídolos era posta em dúvida. Era, contudo, um mal gravíssimo. Por isso ele tanto mostra que se trata de falta, quanto a amplifica por seu discurso. Mas, ao fazer isso, ele não apenas os afasta dos vários crimes, como também os convida aos seus contrários. Assim, disse não apenas que não se deve cometer fornicação, mas igualmente que se deve exibir grande santidade. Por isso acrescentou: Portanto, glorificai a Deus em vosso corpo e em vosso espírito (1 Cor 6:20). E tendo dito novamente que não se deve ser sábio segundo a sabedoria deste mundo, não se contenta com isso, mas ordena que também se torne insensato (1 Cor 3:18). E onde os aconselha a não irem a juízo perante os que estão de fora, e a não cometerem injustiça, ele vai mais além, e tira até mesmo o próprio ir a juízo, aconselhando-os não apenas a não cometerem injustiça, mas até mesmo a sofrerem injustiça (cap. VI, 7-8).
E, discorrendo acerca dos sacrifícios aos ídolos, disse não que se deve abster-se apenas das coisas proibidas, mas também das coisas permitidas quando há escândalo; e não apenas não ofender os irmãos, mas nem sequer os gregos, nem os judeus. Assim, não deis ocasião de tropeço, diz ele, nem aos judeus, nem aos gregos, nem à Igreja de Deus (1 Cor 10:32).
2. Tendo, pois, concluído todos os discursos acerca destas coisas, passa em seguida também a outra acusação. E qual foi ela? As mulheres entre eles costumavam orar e profetizar sem véu e com a cabeça descoberta (pois então as mulheres também profetizavam); mas os homens chegavam ao ponto de usar cabelos longos, como quem tivesse passado o tempo na filosofia, e cobriam as cabeças ao orar e profetizar — sendo cada um destes um costume grego. Ora, uma vez que já os havia admoestado acerca destas coisas quando estivera presente, e alguns talvez lhe tivessem dado ouvidos e outros lhe desobedecido, também em sua epístola ele novamente aquece o lugar, à maneira de um médico, pelo seu modo de dirigir-se a eles, e assim corrige a ofensa. Que já os havia admoestado anteriormente em pessoa, é evidente pelo que começa dizendo. Por que outro motivo, não tendo dito nada acerca deste assunto em parte alguma antes na Epístola, mas passando de outras acusações, diria ele imediatamente: Ora, eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os preceitos assim como vo-los entreguei?
Vedes que alguns obedeceram, os quais ele louva; e outros desobedeceram, os quais ele corrige pelo que se segue depois, dizendo: Mas, se alguém quer ser contencioso, nós não temos tal costume (1 Cor 11,16). Pois se, tendo alguns procedido bem e outros desobedecido, ele tivesse incluído a todos na acusação, teria tanto tornado mais audaciosos os primeiros quanto feito os outros mais negligentes; ao passo que agora, louvando e aprovando uns, e repreendendo outros, ele tanto reanima mais eficazmente os primeiros quanto faz os outros recuarem diante dele. Pois a acusação, mesmo por si só, era tal que bem poderia feri-los; mas agora, ocorrendo em contraste com outros que procederam bem e são louvados, ela vem com um aguilhão mais agudo. Contudo, por ora ele não começa pela acusação, mas por elogios, e grandes elogios, dizendo: Ora, eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim. Pois tal é o caráter de Paulo: ainda que se trate apenas de pequenas coisas, ele tece uma trama de alto louvor; nem é por lisonja que assim procede — longe disso; como poderia ele agir deste modo, a quem nem o dinheiro era desejável, nem a glória, nem qualquer outra coisa semelhante? Mas é pela salvação deles que ele ordena todo o seu proceder. E por isto amplifica o elogio, dizendo: Ora, eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim.
Em tudo o quê? Pois até aqui seu discurso versava apenas sobre não usarem eles cabelos longos e não cobrirem a cabeça; mas, como disse, ele é muito generoso em seus louvores, tornando-os assim mais prontos. Por isso diz:
Que vos lembrais de mim em tudo, e guardais os preceitos assim como vo-los entreguei. Aparece então que ele costumava, naquele tempo, entregar também muitas coisas não por escrito, o que ele mostra igualmente em muitos outros lugares. Mas naquele tempo apenas as entregou, ao passo que agora acrescenta uma explicação de sua razão; assim tanto tornando mais firmes os primeiros, os obedientes, quanto abatendo o orgulho dos outros, que se opõem a si mesmos. Além disso, ele não diz: vós obedecestes, enquanto outros desobedeceram, mas, sem suscitar suspeita, o insinua pelo seu modo de ensinar no que se segue.
A palavra cabeça é aqui empregada em dois sentidos diferentes, pois de outro modo resultaria absurdo. A distância entre Cristo e o homem é muito maior do que entre o homem e a mulher, de um lado, ou entre Cristo e Deus, de outro, e é de espécie diversa. Cristo e Deus são iguais em substância, mas diferentes quanto à relação, e o mesmo se aplica ao homem e à mulher. Mas entre Deus e Cristo o Filho, de um lado, e o homem [e a mulher], de outro, há uma vasta diferença tanto de substância quanto de relação.
Este é o seu relato da razão da coisa, e ele a expõe para tornar os mais fracos mais atentos. Aquele que é fiel, como convém, e firme, não requer razão nem causa alguma para as coisas que lhe são ordenadas, mas se contenta com a simples ordenança. Mas aquele que é mais fraco, quando também conhece a causa, então tanto retém o que se disse com mais cuidado quanto obedece com muito maior prontidão.
Por isso ele não expôs a causa até ver o mandamento transgredido. Qual é, pois, a causa? A cabeça de todo homem é Cristo. Será Ele, pois, cabeça também do gentio? De modo algum. Pois, se somos o Corpo de Cristo, e cada um de per si membros dele (1 Cor 12:27), e é deste modo que Ele é nossa cabeça, não pode Ele ser cabeça dos que não estão no Corpo nem se contam entre os membros. De sorte que, quando diz "de todo homem", deve-se entender isso do crente. Percebes como em toda parte ele apela ao pejo do ouvinte, argumentando a partir do alto? Assim, tanto quando discorria sobre o amor, quanto sobre a humildade, quanto sobre a esmola, foi dali que extraiu seus exemplos.
3. Mas a cabeça da mulher é o homem; e a cabeça de Cristo é Deus. Aqui os hereges se arremessam contra nós com uma certa declaração de inferioridade, que a partir destas palavras arquitetam contra o Filho. Mas tropeçam contra si mesmos. Pois, se o homem é a cabeça da mulher, e a cabeça é da mesma substância que o corpo, e a cabeça de Cristo é Deus, o Filho é da mesma substância que o Pai. Não, dizem eles, não é a Sua condição de outra substância que pretendemos mostrar a partir daí, mas que Ele está sob sujeição. Que diremos, pois, a isto? Em primeiro lugar, quando algo humilde se diz d'Ele enquanto unido à Carne como está, não há nisso desdouro algum para a Divindade no que se diz, pois a Economia admite tal expressão. Todavia, dize-me como pretendes provar isto a partir da passagem? Ora, assim como o homem governa a esposa, diz ele, assim também o Pai governa o Cristo. Logo, também, assim como Cristo governa o homem, assim igualmente o Pai governa o Filho. Pois lemos: a cabeça de todo homem é Cristo. E quem jamais poderia admitir isto? Pois, se a superioridade do Filho em comparação a nós há de ser a medida da superioridade do Pai em comparação ao Filho, considera a que baixeza O reduzirás. De sorte que não devemos aplicar todas as coisas segundo a mesma medida no que toca a nós mesmos e a Deus, ainda que a linguagem usada a respeito de ambos seja semelhante; antes devemos atribuir a Deus uma certa excelência própria, e tão grande quanto convém a Deus. Pois, se não concederem isto, seguir-se-ão muitos absurdos. Assim: a cabeça de Cristo é Deus; e Cristo é a cabeça do homem, e este da mulher. Portanto, se escolhermos tomar o termo "cabeça" no mesmo sentido em todas as cláusulas, o Filho estará tão distante do Pai quanto nós estamos d'Ele. E mais, a mulher estará tão distante de nós quanto nós estamos do Verbo de Deus. E o que o Filho é para o Pai, isto tanto nós somos para o Filho quanto a mulher, de novo, para o homem. E quem suportaria isto?
Mas entendeis vós o termo cabeça de maneira diversa no caso do homem e da mulher, do que o entendeis no caso de Cristo? Portanto, no caso do Pai e do Filho, devemos entendê-lo também de maneira diversa. De que modo entendê-lo diversamente? pergunta o objetor. Segundo a ocasião. Pois, se Paulo tivesse a intenção de falar de domínio e sujeição, como dizeis, não teria trazido à baila o exemplo da esposa, mas antes o do escravo e do senhor. Pois, ainda que a esposa esteja sujeita a nós, é como esposa, como livre, como igual em honra. E também o Filho, embora Se tenha feito obediente ao Pai, foi como Filho de Deus, foi como Deus. Pois, assim como a obediência do Filho ao Pai é maior do que encontramos nos homens para com os autores de seu ser, assim também Sua liberdade é maior. Uma vez que não se dirá, decerto, que as circunstâncias da relação do Filho para com o Pai sejam maiores e mais íntimas do que entre os homens, e as do Pai para com o Filho, menores. Pois, se admiramos o Filho por ter sido obediente até a morte, e morte de cruz, e reputamos isto como a grande maravilha a Seu respeito, devemos admirar também o Pai, por ter gerado tal Filho, não como escravo sob mando, mas como livre, prestando obediência e dando conselho. Pois quem aconselha não é escravo. Mas, de novo, quando ouvirdes falar de conselheiro, não o entendais como se o Pai estivesse em necessidade, mas que o Filho tem a mesma honra Daquele que O gerou. Não forceis, portanto, o exemplo do homem e da mulher em todos os pormenores.
Pois entre nós, na verdade, a mulher é razoavelmente sujeita ao homem: uma vez que a igualdade de honra causa contenda. E não só por esta causa, mas também em razão do engano que sucedeu no princípio (1 Tm 2:14). Por isso vedes que ela não foi sujeitada logo que foi feita; nem, quando Ele a trouxe ao homem, ela ouviu tal coisa da parte de Deus, nem o homem lhe disse tal palavra: disse, na verdade, que ela era osso de seu osso, e carne de sua carne (Gn 2:23); mas de domínio ou sujeição em nenhum lugar lhe fez menção. Mas quando ela fez mau uso de seu privilégio, e ela, que fora feita auxiliadora, se revelou uma tentadora e arruinou tudo, então lhe é dito, justamente, para o futuro: o teu desejo será para o teu marido (Gn 3:16).
Para explicar isto: era provável que este pecado tivesse lançado a nossa raça num estado de guerra (pois o haver ela sido feita a partir dele não teria contribuído em nada para a paz, uma vez sucedido isto — antes, isto mesmo teria feito o homem ainda mais duro, que ela, feita como fora a partir dele, não haveria de poupar sequer a quem era membro de si mesma); por isso Deus, considerando a malícia do Diabo, e o que de inimizade era provável que surgisse de seu perverso desígnio, ergueu o baluarte desta palavra, e por meio desta sentença e do desejo implantado em nós, o removeu: derrubando assim o muro de separação, isto é, o ressentimento causado por aquele pecado dela. Mas em Deus, e naquela Essência imaculada, não se deve supor tal coisa.
1 Coríntios 3:22-23 Todos são vossos, e vós de Cristo, e Cristo de Deus. Que se segue então? Serão todos, do mesmo modo, nossos, como nós somos de Cristo, e Cristo de Deus? De maneira nenhuma; antes, mesmo para os mais simples, a diferença é evidente, ainda que a mesma expressão seja empregada acerca de Deus, de Cristo e de nós. E também noutro lugar, tendo chamado o marido de cabeça da mulher, acrescentou: Efésios 5:23 Assim como Cristo é a Cabeça, e Salvador, e Defensor da Igreja, assim também deve ser o homem para com sua própria mulher. Devemos, pois, entender do mesmo modo o que está dito no texto, tanto isto quanto tudo o que depois se escreve aos Efésios sobre este assunto? Longe disso. É impossível. Pois, ainda que as mesmas palavras se digam de Deus e dos homens, não têm a mesma força em relação a Deus e em relação aos homens, mas de um modo devem ser entendidas estas, e de outro aquelas. Não, porém, tampouco de modo totalmente diverso em tudo: pois, do contrário, parecerão ter sido introduzidas ao acaso e em vão, sem que colhamos delas proveito algum. Mas, assim como não devemos receber todas as coisas igualmente, tampouco devemos rejeitar todas em absoluto.
Ora, para que o que digo se torne mais claro, procurarei manifestá-lo por um exemplo. Cristo é chamado a Cabeça da Igreja. Se eu nada devo tomar do que há de humano nesta ideia, gostaria de saber por que se emprega a expressão. Se, por outro lado, eu entender tudo desse modo, resultará extrema absurdidade. Pois a cabeça está sujeita às mesmas paixões que o corpo e é passível das mesmas coisas. Que deveremos, pois, deixar de lado, e que deveremos aceitar? Devemos deixar de lado estas particularidades que mencionei, mas aceitar a noção de uma união perfeita e de um princípio primeiro; e nem mesmo estas ideias em absoluto, mas também aqui devemos formar, tanto quanto nos seja possível, uma noção daquilo que nos é demasiado elevado e conveniente à Divindade: pois tanto a união é mais certa quanto o princípio mais honroso.
De novo, ouves a palavra Filho; não admitas, neste caso, todas as particularidades; mas tampouco deves rejeitá-las todas: antes, admitindo tudo o que é próprio de Deus, como, por exemplo, que Ele é da mesma essência, que é de Deus, deixa sobre a terra as coisas que são incongruentes e pertencem à fraqueza humana.
De novo, Deus é chamado Luz. Admitiremos, então, todas as circunstâncias que pertencem à luz natural? De maneira nenhuma. Pois esta luz cede à escuridão, é circunscrita pelo espaço, é movida por outro poder, e se obscurece; nenhuma destas coisas é lícito sequer imaginar daquela Essência. Não rejeitaremos, porém, por isso todas as coisas, mas colheremos algo de proveitoso do exemplo. A iluminação que nos vem de Deus, a libertação das trevas — isto será o que dali havemos de recolher.
4. Isto quanto baste em resposta aos hereges: mas devemos também percorrer ordenadamente toda a passagem. Pois talvez alguém aqui pudesse também duvidar, perguntando a si mesmo que espécie de falta seria estar a mulher descoberta, ou o homem coberto? Que espécie de falta seja esta, aprende-o agora daqui.
Símbolos numerosos e diversos foram dados tanto ao homem quanto à mulher: a ele, o de comando; a ela, o de sujeição. E entre eles, também este, que ela devesse ser coberta, enquanto ele mantém a cabeça descoberta. Ora, se estes são símbolos, vedes que ambos erram quando perturbam a devida ordem e transgridem a disposição de Deus e os próprios limites que lhes competem, tanto caindo o homem na condição inferior da mulher, quanto levantando-se a mulher contra o homem por meio de suas vestes exteriores.
Pois, se não é lícito o intercâmbio de vestimentas, de modo que nem ela se vista com capa, nem ele com manto ou véu (porquanto a mulher, diz Ele, não trajará o que pertence ao homem, nem o homem vestirá as roupas de mulher — Deuteronômio 22:5), muito mais indecoroso é que estas coisas se permutem. Pois aquelas foram ordenadas pelos homens, ainda que Deus depois as ratificasse; mas esta, pela natureza — refiro-me ao estar coberta ou descoberta. Quando, porém, digo Natureza, digo Deus, pois Ele é Quem criou a Natureza. Quando, portanto, transtornais estes limites, vede quão grandes males daí decorrem.
E não me digais que o erro é pequeno. Pois, primeiro, é grande até por si mesmo, sendo, como é, desobediência. Depois, ainda que fosse pequeno, tornou-se grande pela grandeza das coisas de que é sinal. Todavia, que é matéria de grande importância, torna-se evidente pelo modo tão eficaz com que serve à boa ordem entre os homens, sendo por ele mantidos regularmente em seus respectivos lugares tanto o que governa quanto o que é governado.
De sorte que aquele que transgride perturba todas as coisas, trai os dons de Deus e lança por terra a honra que lhe foi outorgada do alto — não somente o homem, porém, mas também a mulher. Pois também para ela é a maior das honras preservar sua própria posição, assim como, entre as ignomínias, o comportamento de rebelde. Por isso é que ele estabeleceu isto acerca de ambos.
Pois havia, como disse, tanto homens que profetizavam quanto mulheres que tinham este dom naquele tempo, como as filhas de Filipe (At 21,9), como outras antes delas e depois delas: acerca das quais também o profeta falara outrora: vossos filhos profetizarão, e vossas filhas terão visões (Jl 2,28 e At 2,17).
Pois bem: ao homem ele não obriga a estar sempre descoberto, mas somente quando ora. Pois todo homem, diz ele, que ora ou profetiza com a cabeça coberta, desonra a sua cabeça. Mas à mulher ele ordena que esteja coberta em todo tempo. Por isso também, tendo dito: Toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, não se deteve apenas neste ponto, mas prosseguiu dizendo: pois é uma só e a mesma coisa como se estivesse rapada. Ora, se ser rapada é sempre coisa desonrosa, é evidente também que estar descoberta é sempre motivo de opróbrio. E nem sequer com isto se contentou, mas acrescentou ainda, dizendo: A mulher deve ter sobre a cabeça sinal de autoridade, por causa dos anjos. Com isto ele significa que não somente no momento da oração, mas também continuamente, ela deve estar coberta. Quanto ao homem, porém, já não se trata mais de cobrir-se, mas de trazer cabelo comprido, que assim ele forma o seu discurso. Estar coberto, pois, ele o proíbe somente quando o homem ora; mas o trazer cabelo comprido ele o desaprova em todo tempo. Por isso, no tocante à mulher, disse: Mas se ela não estiver velada, que se tosquie também; assim igualmente no tocante ao homem: Se ele tiver cabelo comprido, é para ele desonra. Não disse: se estiver coberto, mas: se tiver cabelo comprido. Por isso também disse no início: Todo homem que ora ou profetiza tendo algo sobre a cabeça desonra a sua cabeça. Não disse: coberto, mas: tendo algo sobre a cabeça; significando que, ainda que ore com a cabeça descoberta, se contudo tiver cabelo comprido, é semelhante a alguém coberto. Pois o cabelo, diz ele, foi dado como cobertura.
A mulher não adquire a dignidade do homem por trazer a cabeça descoberta; antes perde a sua própria. Sua vergonha e opróbrio provêm, pois, tanto do desejo de assemelhar-se ao homem quanto de seus atos.
Assim, no início, ele simplesmente exige que a cabeça não esteja descoberta; mas, ao prosseguir, sugere tanto a continuidade do preceito, dizendo que é uma mesma e idêntica coisa como se estivesse tosquiada, quanto a observância dele com todo cuidado e diligência. Pois não disse apenas coberta, mas coberta por inteiro, significando que ela seja cuidadosamente envolta por todos os lados. E, reduzindo-a ao absurdo, apela para a vergonha delas, dizendo, à maneira de severa repreensão: mas, se não estiver coberta, tosquie-se também. Como se dissesse: Se rejeitais o véu instituído pela lei de Deus, rejeitai igualmente o que foi instituído pela natureza.
Mas, se alguém disser: Não, como pode isto ser vergonha para a mulher, se ela se eleva à glória do homem? poderíamos responder assim: Ela não se eleva, mas antes decai da sua própria honra. Pois não permanecer dentro dos nossos próprios limites e das leis ordenadas por Deus, mas ir além deles, não é acréscimo, mas diminuição. Porque, assim como aquele que cobiça os bens alheios e usurpa o que não é seu não ganha coisa alguma a mais, mas antes se diminui, tendo perdido até mesmo o que possuía (o que também aconteceu no paraíso), assim também a mulher não adquire a dignidade do homem, mas perde até mesmo o decoro da mulher que possuía. E não só daí provém sua vergonha e opróbrio, mas também da sua cobiça.
Tendo, pois, tomado o que era reconhecidamente vergonhoso, e havendo dito: mas, se é vergonha para a mulher ser tosquiada ou rapada, declara em seguida a sua própria conclusão, dizendo: cubra-se. E não disse: tenha cabelos compridos, mas: cubra-se, ordenando que ambas as coisas fossem uma só, e estabelecendo-as por ambos os caminhos, tanto pelo que era costumeiro quanto pelos seus contrários: pois ele afirma que o véu e o cabelo são uma mesma coisa, e também que aquela que é rapada é a mesma que a que tem a cabeça descoberta. Pois é uma mesma e idêntica coisa, diz ele, como se estivesse tosquiada. Mas, se alguém disser: E como é a mesma coisa, se esta mulher tem o véu da natureza, e aquela que é rapada nem sequer tem este? respondemos que, quanto à sua vontade, ela também rejeitou aquele, por trazer a cabeça descoberta. E, se ela não está desprovida de cabeleira, isto é obra da natureza, não sua. De modo que, assim como aquela que é rapada tem a cabeça descoberta, assim também esta, de igual maneira. Por esta razão Ele deixou à natureza que lhe provesse um véu, para que, também por meio dele, ela aprendesse esta lição e se velasse.
Em seguida, expõe também uma causa, como quem discorre com homens livres — coisa que em muitos lugares tenho notado. Qual é, pois, a causa?
É esta ainda outra causa. Não somente, diz ele, porque tem a Cristo por sua Cabeça não deve o homem cobrir a cabeça, mas também porque governa sobre a mulher. Pois o governante, quando se apresenta diante do rei, deve trazer o símbolo do seu governo. Assim, portanto, como nenhum governante ousaria apresentar-se sem cinto militar e manto diante daquele que traz o diadema, assim tampouco tu, sem os símbolos do teu governo (um dos quais é o não estar coberto), ores diante de Deus, para que não insultes tanto a ti mesmo quanto Àquele que te honrou.
E o mesmo, igualmente, pode-se dizer a respeito da mulher. Pois também para ela é opróbrio não ter os símbolos da sua sujeição. Ora, a mulher é a glória do homem. Portanto, o governo do homem é natural.
5. Em seguida, tendo confirmado o seu ponto, expõe de novo outras razões e causas, conduzindo-te à primeira criação.
Nenhum governador deveria apresentar-se diante do rei sem os símbolos de seu ofício. Tal homem jamais ousaria aproximar-se do trono real sem seu cinturão militar e seu manto; do mesmo modo, aquele que se aproxima do trono de Deus deve trazer os símbolos de seu ofício, que neste caso se representam por trazer a cabeça descoberta.
Mas se ser de alguém já é glória para aquele de quem se é, muito mais o é ser imagem dele.
Esta é, de novo, uma segunda superioridade — ou antes, também uma terceira e uma quarta: a primeira, que Cristo é a cabeça de nós, e nós, da mulher; a segunda, que nós somos a glória de Deus, mas a mulher, a nossa; a terceira, que nós não somos da mulher, mas ela, de nós; a quarta, que nós não somos para ela, mas ela, para nós.
Estar coberta é sinal de sujeição e de autoridade. Isto induz a mulher a ser humilde e a preservar sua virtude, pois a virtude e a honra dos que são governados consistem em habitar na obediência.
Por esta causa: por qual causa, dize-me? Por todas estas que foram mencionadas, diz ele; ou antes, não somente por estas, mas também por causa dos anjos. Pois ainda que desprezes teu marido, diz ele, reverencia ao menos os anjos.
Segue-se que estar coberta é sinal de sujeição e de autoridade. Pois isso a induz a olhar para baixo e a envergonhar-se, e a preservar íntegra a sua própria virtude. Pois a virtude e a honra do que é governado consistem em permanecer na sua obediência.
Ademais: o homem não é obrigado a isto, pois ele é a imagem de seu Senhor; mas a mulher o é, e razoavelmente. Considera, pois, a enormidade da transgressão quando, sendo honrado com tão elevada prerrogativa, te cobres de vergonha, usurpando a veste da mulher. E fazes o mesmo que faria aquele que, tendo recebido um diadema, o lançasse fora de sua cabeça e, em seu lugar, tomasse a veste de um escravo.
Tendo falado da glória do homem, Paulo agora restabelece o equilíbrio, para que não exalte o homem além do que lhe é devido, nem oprima a mulher. No Senhor, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher... Cada um dos dois é causa do outro, sendo Deus a causa de todos.
Assim, porquanto havia atribuído grande superioridade ao homem, tendo dito que a mulher provém dele, é para ele e está sob ele, para que não exaltasse os homens além do devido nem deprimisse as mulheres, vede como introduz a correção, dizendo: Todavia, nem o homem existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Não examines, peço-te, diz ele, apenas as primeiras coisas, isto é, a criação. Pois, se indagares o que vem depois, cada um dos dois é causa do outro; ou antes, nem mesmo assim um é causa do outro, mas Deus é causa de todos. Por isso diz: nem o homem existe sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor.
Contudo, quaisquer excelências que pertençam ao homem, pertencem, em última instância, a Deus. Devemos, pois, obedecer-lhe e não nos queixar disso.
Não disse "da mulher", mas repete a expressão de 1 Coríntios 11:7, referente ao homem. Pois ainda subsiste íntegra esta prerrogativa particular do homem. Contudo, tais excelências não são propriedade do homem, mas de Deus. Por isso acrescenta também: mas todas as coisas de Deus. Se, portanto, todas as coisas pertencem a Deus, e é Ele quem ordena estas coisas, obedece tu e não contradigas.
Paulo tem por hábito referir-se às coisas ordinárias do cotidiano a fim de envergonhar os seus ouvintes. Afinal, se até os bárbaros conhecem estas coisas, que há de errado com eles? Não podem ver o que é evidente? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Julgai vós mesmos: é decoroso que a mulher ore a Deus com a cabeça descoberta? Novamente ele os põe como juízes das coisas ditas, o que também fizera a respeito dos sacrifícios aos ídolos. Pois assim como ali diz: julgai vós o que digo (1 Coríntios 10:15), assim também aqui: julgai vós mesmos; e aqui ele insinua algo ainda mais grave. Pois diz que a afronta aqui recai sobre o próprio Deus, ainda que não se exprima desta maneira, mas de um modo mais brando e mais enigmático: é decoroso que a mulher ore a Deus com a cabeça descoberta?
Seu costume constante de alegar razões comumente aceitas, adota-o também neste lugar, recorrendo ao costume comum, e sobremaneira envergonhando aqueles que aguardavam aprender dele estas coisas, as quais até pela prática ordinária dos homens poderiam ter aprendido. Pois tais coisas não são desconhecidas nem sequer dos Bárbaros: e vede como em toda parte ele se serve de expressões penetrantes: todo homem que ora tendo a cabeça coberta desonra a sua cabeça; e novamente: mas se é vergonha para a mulher ser tosquiada ou rapada, que se cubra; e aqui de novo: se o homem tem cabelo comprido, é para ele uma vergonha; mas se a mulher tem cabelo comprido, é para ela uma glória, pois o cabelo lhe foi dado como cobertura.
E se lhe foi dado como cobertura, dirás tu, por que precisa ela acrescentar outra cobertura? Para que não somente a natureza, mas também a sua própria vontade tenha parte no reconhecimento de sua sujeição. Pois, quanto a que deves estar coberta, a própria natureza, antecipando-se, promulgou uma lei. Acrescenta agora, peço-te, também a tua parte, para que não pareças subverter as próprias leis da natureza; prova de insolentíssima temeridade, a de contender não só conosco, mas também com a natureza. É por isto que Deus, acusando os judeus, disse (Ezequiel 16:21-22): Matastes vossos filhos e vossas filhas: isto está além de todas as vossas abominações. E novamente, Paulo, repreendendo os impuros dentre os romanos, assim agrava a acusação, dizendo que o costume deles era não somente contra a lei de Deus, mas até mesmo contra a natureza. Pois mudaram o uso natural naquele que é contra a natureza (Romanos 1:26). Por esta razão, pois, também aqui ele emprega este argumento, significando isto mesmo: tanto que não está promulgando nenhuma lei estranha, quanto que, entre os gentios, suas invenções seriam todas reputadas como uma espécie de novidade contra a natureza. Assim também Cristo, insinuando o mesmo, disse: Tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles; mostrando que Ele não está introduzindo coisa alguma nova.
Opor-se a este ensinamento é contenciosidade, o que é irracional. Poderiam os coríntios objetar; mas, se o fizerem, estarão contrariando a prática da Igreja universal.
É contenciosidade, pois, o opor-se a tais coisas, e não qualquer exercício da razão. Não obstante, ainda assim é um tipo medido de repreensão o que ele adota, para enchê-los mais de autorrepreensão; o que, na verdade, tornava a sua palavra mais severa. Pois nós, diz ele, não temos tal costume, a ponto de contender e de lutar e de opor-nos. E não parou nem aqui, mas acrescentou também: nem as Igrejas de Deus; significando que elas resistem e opõem-se a si mesmas ao mundo inteiro, ao não ceder. Contudo, ainda que os coríntios fossem então contenciosos, agora, porém, o mundo inteiro tanto recebeu quanto guardou esta lei. Tão grande é o poder do Crucificado.
Mas temo que, tendo assumido o vestuário, todavia nas obras algumas de nossas mulheres se encontrem imodestas e de outros modos descobertas. Por isso também, escrevendo a Timóteo, Paulo não se contentou com estas coisas, mas acrescentou outras, dizendo que se adornem com traje modesto, com pudor e sobriedade; não com cabelos entrançados, ou ouro (1 Tm 2,9). Pois se não convém ter a cabeça descoberta, mas em toda parte trazer o sinal da autoridade, muito mais convém exibir o mesmo nas obras. Assim, ao menos, as mulheres de outrora também costumavam chamar seus maridos de senhores (1 Pd 3,6), e ceder-lhes a precedência. Porque eles, de sua parte, dizes tu, costumavam amar suas próprias esposas. Sei isso tão bem quanto tu: não o ignoro. Mas quando vos exortamos acerca de vossos próprios deveres, não se ocupe toda a vossa atenção com os deles. Pois assim, quando exortamos os filhos a serem obedientes aos pais, dizendo que está escrito honra a teu pai e a tua mãe, respondem-nos: mencionai também o que se segue, "e vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos" (Ef 6,1-4). E os servos, quando lhes dizemos que está escrito que obedeçam a seus senhores, e não sirvam apenas à vista, também eles, por sua vez, exigem de nós o que se segue, pedindo-nos que demos o mesmo conselho aos senhores. Pois Paulo, viram eles, ordenou também que estes se abstivessem de ameaças. Mas não façamos assim, nem indaguemos as coisas ordenadas a outros, quando somos advertidos a respeito das nossas próprias: pois nem o obteres um parceiro nas acusações te livrará da culpa; antes, olha para uma só coisa, como te livrares das acusações que pesam sobre ti mesma. Visto que também Adão lançou a culpa sobre a mulher, e ela, por sua vez, sobre a serpente, mas isso de modo algum os livrou. Não digas tu, pois, de tua parte, isto a mim agora, mas cuida com toda a consideração de render o que deves a teu marido: pois também, quando converso com teu marido, aconselhando-o a te amar e acarinhar, não permito que ele traga à frente a lei estabelecida para a mulher, mas exijo dele aquilo que está escrito para si mesmo. E ocupa-te tu, portanto, somente com as coisas que a ti pertencem, e mostra-te tratável para com teu consorte. E assim, se é realmente por causa de Deus que obedeces a teu marido, não me fales das coisas que devem ser feitas por ele, mas naquilo de que foste responsabilizada pelo legislador, isso realiza com exatidão. Pois isto é, sobretudo, obedecer a Deus: não transgredir a lei ainda que padecendo coisas contrárias a ela. E pela mesma regra, aquele que, sendo amado, ama, não é tido como fazendo algo grande. Mas aquele que serve a uma pessoa que o odeia, este, acima de tudo, é o homem que recebe a coroa. Do mesmo modo, pois, considera tu também que, se teu marido te causar desgosto, e tu o suportares, receberás uma coroa gloriosa; mas se ele for manso e brando, que haverá para Deus recompensar em ti? E digo estas coisas, não ordenando aos maridos que sejam ásperos; mas persuadindo as esposas a suportar mesmo a aspereza de seus maridos. Pois quando cada um se esforça por cumprir seu próprio dever, também a parte do próximo logo se seguirá: como quando a esposa está preparada para suportar até mesmo um comportamento rude no marido, e o marido se abstém de maltratá-la em seu momento de ira; então tudo se torna uma calmaria e um porto livre de ondas.
7. Assim também era com os antigos. Cada um se ocupava em cumprir o seu próprio dever, não em exigir o do próximo. Assim, se observardes, Abraão tomou consigo o filho do irmão: sua esposa não achou nisso motivo de censura. Ele lhe ordenou empreender uma longa jornada; ela não protestou sequer contra isso, mas o seguiu. E ainda, depois daquelas muitas misérias e labores e fadigas, tendo-se tornado senhor de tudo, cedeu a precedência a Ló. E longe de Sara ofender-se com isso, ela nem sequer abriu a boca, nem proferiu palavra tal como muitas mulheres destes dias proferem, ao verem seus próprios maridos saírem em posição inferior em tais partilhas, especialmente ao lidar com inferiores; recriminando-os, e chamando-os néscios e insensatos e afeminados e traidores e estúpidos. Mas nada disso ela disse ou pensou, antes se comprazia em tudo quanto por ele era feito.
E outra coisa, e maior ainda: depois que a Ló foi posta em suas mãos a escolha, e ele lançara sobre o tio a parte inferior, um grande perigo o acometeu.
O que ouvindo o patriarca, armou todos os seus, e lançou-se contra todo o exército dos persas apenas com os seus próprios domésticos, e nem então ela o reteve, nem disse, como seria natural, "Ó homem, para onde vais, precipitando-te tu mesmo, e expondo-te a tão grandes riscos, por causa de quem te fez injúria e se apoderou de tudo o que era teu, derramando teu sangue? E ainda que tu mesmo te desprezes, tem ao menos compaixão de mim, que deixei casa e pátria e amigos e parentes, e te segui em tão longa peregrinação; e não me lances na viuvez, e nas misérias da viuvez." Nada disso ela disse: nem sequer pensou nisso, mas suportou tudo em silêncio.
Depois disso, permanecendo estéril o seu ventre, ela mesma não padece a aflição das mulheres nem se lamenta: mas ele se queixa, ainda que não à sua esposa, mas a Deus. E vede como cada um preserva a parte que lhe é própria: pois ele não desprezou a Sara por ser sem filhos, nem lhe lançou em rosto coisa alguma tal; e ela, por sua vez, se afadigava por lhe proporcionar algum consolo para sua esterilidade por meio da serva. Pois estas coisas ainda não haviam sido proibidas então como agora. Porque agora não é lícito às mulheres condescenderem com seus maridos em tais coisas, nem aos homens, com ou sem o conhecimento da esposa, formarem tais uniões, ainda que a aflição de sua falta de filhos os atormentasse infinitamente: pois também eles ouvirão a sentença, que o seu verme não morrerá, nem o seu fogo se apagará. Porque agora não é permitido, mas então não havia sido proibido. Por isso tanto sua esposa lhe ordenou isto, como ele obedeceu, e nem mesmo assim por causa do prazer. Mas eis que se dirá: como ele lançou fora Agar novamente por ordem dela. Pois bem, isto é o que eu quero apontar, que tanto ele lhe obedecia em tudo, como ela a ele. Mas não atentes apenas a estas coisas, antes examina, tu que insistes neste argumento, também no que precedera: o insulto de Agar contra ela, o vangloriar-se contra sua senhora; do que pode haver coisa mais vexatória para uma mulher livre e honrada?
8. Não espere pois a esposa pela virtude do marido para então mostrar a sua própria, pois isto nada tem de grande; nem tampouco o marido, pela obediência da esposa, para então exercitar o autodomínio; pois nem isto seria mais obra sua; mas ofereça cada um, como disse, a sua própria parte em primeiro lugar. Pois se aos gentios que nos ferem na face direita devemos oferecer também a outra face, muito mais se deve suportar a aspereza de comportamento num marido.
E não digo isto para que a esposa seja espancada; longe disso: pois esta é a mais extrema afronta, não para a que é espancada, mas para aquele que a espanca. Mas ainda que por algum infortúnio te tenha cabido tal companheiro de jugo, não o leves a mal, ó mulher, considerando a recompensa que está reservada para tais coisas, e também o louvor delas nesta vida presente. E a vós, maridos, também isto digo: fazei disto uma regra, que não pode haver ofensa tal que vos traga a necessidade de ferir a esposa. E por que digo esposa? Pois nem sobre a sua própria serva poderia um homem livre suportar desferir golpes e lançar mão violenta. Mas se é grande vergonha para um homem espancar uma serva, muito mais estender a mão direita contra aquela que é livre. E isto se pode ver mesmo pelas legislações pagãs, que já não obrigam a que foi assim tratada a viver com aquele que a espancou, como indigna de sua companhia. Pois certamente procede de extrema iniquidade que a tua companheira de vida, ela que nas relações mais íntimas e no mais alto grau está unida a ti; que ela, como uma vil serva, seja desonrada por ti. Por isso também tal homem, se de fato se deve chamá-lo homem, e não antes fera selvagem, direi que era como um parricida e um matador de sua própria mãe. Pois se por causa da esposa fomos mandados a deixar até mesmo pai e mãe, não os prejudicando, mas cumprindo uma lei divina; e uma lei tão grata aos próprios pais que até eles, as mesmíssimas pessoas que deixamos, se alegram com ela e a levam a efeito com grande empenho; que outra coisa senão extremo frenesi pode ser insultar aquela por causa de quem Deus nos ordenou deixar até mesmo os nossos pais?
Mas bem podemos perguntar: será apenas loucura? Há também a vergonha: gostaria de saber quem pode suportá-la. E que descrição poderia apresentá-la diante de nós, quando gritos e lamentos são levados pelas vielas, e há uma correria até a casa daquele que assim se desonra a si mesmo, tanto dos vizinhos quanto dos transeuntes, como se alguma fera selvagem estivesse devastando lá dentro? Melhor fora que a terra se abrisse para tragar um homem tão insensato, do que ser ele visto sequer no fórum depois disso.
Mas a mulher é insolente, dirá alguém. Considera, contudo, que ela é mulher, o vaso mais fraco, ao passo que tu és homem. Pois para isto foste ordenado como governante, e a ela foste designado em lugar de cabeça, para que suportasses a fraqueza daquela que está posta sob ti. Torna, pois, o teu governo glorioso. E glorioso será quando a que a ele está sujeita não sofrer desonra alguma de tua parte. E assim como o monarca aparecerá tanto mais digno quanto mais dignidade manifestar o oficial sob ele; mas se este desonrar e depreciar a grandeza daquela dignidade, estará indiretamente cortando não pequena porção também da própria glória do monarca: assim também tu, ao desonrares aquela que governa logo abaixo de ti, macularás em grau não comum a honra do teu próprio governo.
Considerando, pois, todas estas coisas, domina-te a ti mesmo: e pensa também, além disso, naquela noite em que o pai, tendo-te chamado, entregou-te sua filha como uma espécie de depósito, e, separando-a de todos, de sua mãe, de si mesmo, da família, confiou à tua destra a sua inteira guarda. Considera que (sob Deus) por meio dela tens filhos e te tornaste pai, e sê também por isso brando para com ela.
Não vês os lavradores, como cuidam a terra que uma vez recebeu a semente, com todos os variados métodos de cultivo, ainda que ela tenha dez mil desvantagens; por exemplo, ainda que seja solo desfavorável ou produza ervas daninhas, ou ainda que seja vexada por chuva excessiva por causa da natureza do lugar? Faze também isto. Pois assim serás o primeiro a desfrutar tanto do fruto quanto da bonança. Visto que tua mulher é para ti tanto um porto quanto um poderoso encanto curativo para alegrar teu coração. Ora bem: se livrares o teu porto dos ventos e das ondas, desfrutarás de muita tranquilidade ao regressares da praça; mas se o encheres de clamor e tumulto, não fazes senão preparar para ti mesmo um naufrágio mais grave. Para evitar isto, pois, faça-se o que aconselho: quando algo desagradável acontecer na casa, se ela estiver errada, consola-a e não agraves o desconforto. Pois ainda que percas tudo, nada é mais penoso do que ter em casa uma mulher sem benevolência a partilhar contigo a morada. E qualquer ofensa que possas mencionar, não me dirás nada tão doloroso quanto estar em discórdia com ela. De sorte que, ainda que fosse apenas por razões como estas, seja o amor dela mais precioso que todas as coisas. Pois se os fardos uns dos outros devem ser suportados, muito mais os da própria esposa.
Ainda que seja pobre, não a repreendas; ainda que seja tola, não a pisotees, mas antes a instrui: porque ela é membro de ti, e vos tornastes uma só carne. Mas ela é frívola, e beberrona, e colérica. Deves então entristecer-te por estas coisas, não te irar; e suplicar a Deus, e exortá-la e dar-lhe conselho, e fazer tudo para remover o mal. Mas se lhe bateres, agravas a enfermidade: pois a ferocidade se remove pela moderação, não por ferocidade rival. Com estas coisas, tem também em mente a recompensa da parte de Deus: que, quando te é permitido repudiá-la, e não o fazes por temor a Deus, mas suportas defeitos tão grandes, temendo a lei estabelecida em tais matérias, que proíbe repudiar a esposa seja qual for a enfermidade que ela tenha, receberás uma recompensa inefável. E, ainda antes da recompensa, serás grandíssimo ganhador, tanto tornando-a mais obediente quanto tornando-te tu mesmo mais brando por isso. Diz-se, por exemplo, que um dos filósofos pagãos, que tinha uma má esposa, frívola e briguenta, quando perguntado por que, tendo tal mulher, a suportava, respondeu que era para ter em casa uma escola e lugar de treino de filosofia. "Pois serei", diz ele, "mais manso para com todos os demais, sendo aqui disciplinado todos os dias." Proferiste um grande brado? Pois eu, neste momento, estou grandemente pranteando, ao ver que os pagãos se mostram melhores amantes da sabedoria do que nós; nós que somos mandados imitar os anjos, ou antes, que somos mandados seguir o próprio Deus no tocante à mansidão.
Mas, para prosseguir: diz-se que, por esta razão, o filósofo, tendo uma esposa má, não a expulsou; e alguns dizem que foi exatamente este o motivo de ele tê-la desposado. Eu, porém, visto que muitos homens têm disposições não de todo razoáveis, aconselho que, primeiramente, façam tudo quanto possam e tenham cuidado em escolher uma companheira adequada e repleta de toda virtude. Caso suceda, contudo, que errem o alvo, e aquela que trouxeram para casa se revele uma esposa não boa nem tolerável, então eu gostaria que, ao menos, procurassem ser como este filósofo, e a instruíssem em tudo, não considerando nada mais importante do que isto. Pois nem mesmo o mercador, antes de haver estabelecido com seu sócio um acordo capaz de assegurar a paz, lançará o navio ao largo, nem se aplicará ao restante da transação. E empreguemos, então, todo esforço para que aquela que é nossa sócia no negócio da vida e neste nosso navio seja conservada em toda paz no seu interior. Pois assim também as demais coisas de nossa vida transcorrerão em bonança, e com tranquilidade percorreremos nosso curso pelo oceano da vida presente. Comparados com isto, sejam a casa, os servos, o dinheiro, as terras, e o próprio negócio do Estado, tidos em menor conta em nossa avaliação. E seja mais precioso do que tudo aos nossos olhos que aquela que conosco se assenta aos remos não esteja em motim e desunião conosco. Pois assim os demais assuntos prosseguirão com maré favorável, e também nas coisas espirituais nos encontraremos muito mais livres de estorvo, puxando este jugo em concórdia; e, havendo feito todas as coisas bem, alcançaremos os bens reservados em promessa; aos quais possamos todos chegar, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo reconheceu que os coríntios, em vez de se aproximarem mais de Deus, estavam recaindo nos costumes do mundo, e por isso necessitavam de sua repreensão, a fim de que retornassem ao seu estado anterior.
É necessário, ao examinarmos a presente acusação, expor primeiro também a ocasião dela. Pois assim, novamente, nosso discurso se tornará mais inteligível. Qual é, pois, essa ocasião?
Assim como no caso dos três mil que creram no princípio, todos tomavam suas refeições em comum e tinham todas as coisas em comum; tal era também o costume no tempo em que o Apóstolo escreveu isto: não exatamente o mesmo, mas como que certo transbordamento daquela comunhão que permanecia entre eles descia também sobre os que vieram depois. E porque, naturalmente, uns eram pobres e outros ricos, não punham todos os seus bens no meio, mas abriam as mesas em dias determinados, ao que parece; e, concluído o serviço solene, após a comunhão dos Mistérios, todos iam a um banquete comum, trazendo os ricos suas provisões consigo, e sendo os pobres e destituídos por eles convidados, e todos banqueteando-se em comum. Mas depois também este costume se corrompeu. E a razão foi estarem eles divididos e se apegarem, uns a este partido, outros àquele, dizendo: Eu sou de fulano, e eu de sicrano; coisa que, para corrigi-la, disse ele no princípio da Epístola: Porque me foi notificado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, que há contendas entre vós. E digo isto, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo; e eu de Apolo; e eu de Cefas. Não que Paulo fosse a pessoa a quem eles se apegavam, pois ele não o teria suportado; mas, querendo, por condescendência, arrancar pela raiz este costume, introduziu a si mesmo, indicando que, se alguém tivesse inscrito sobre si até mesmo o nome dele ao romper com o corpo comum, ainda assim o que se fazia era profano e extrema iniquidade. E se, no caso dele, era iniquidade, muito mais no caso daqueles que lhe eram inferiores.
2. Sendo assim rompido este costume, costume excelentíssimo e utilíssimo (pois era fundamento de amor, conforto da pobreza, corretivo das riquezas, ocasião da mais alta filosofia e instrução de humildade), vendo, porém, tão grandes vantagens a caminho de serem destruídas, naturalmente lhes fala com severidade, dizendo assim: Mas, dando-vos este preceito, não vos louvo. Pois, na admoestação anterior, como havia muitos que guardavam as ordenanças, começou de outro modo, dizendo assim: Ora, louvo-vos porque em tudo vos lembrais de mim; mas aqui, ao contrário: Mas, dando-vos este preceito, não vos louvo. E eis a razão por que não a colocou logo após a repreensão dos que comem dos sacrifícios aos ídolos. Mas, porque aquela era excessivamente dura, interpõe o discurso acerca do uso de cabelo comprido, para não haver de passar de uma série de veementes repreensões a outras novamente odiosas, e assim parecer demasiado áspero; e então retorna ao tom mais veemente, e diz: Mas, dando-vos este preceito, não vos louvo. Que é isto? Aquilo que estou para dizer-vos. Que é, dando-vos este preceito, não vos louvo? Não vos aprovo, diz ele, porque me reduzistes à necessidade de dar conselho: não vos louvo, porque necessitastes de instrução a este respeito, porque tendes necessidade de uma admoestação minha. Percebeis como, já desde o início, ele assinala que o que se fazia era coisa muito profana? Pois, quando aquele que erra não deveria sequer precisar de um aceno para evitar o erro, o erro pareceria imperdoável.
E por que não louva? Porque vos ajuntais, diz ele, não para melhor, mas para pior; isto é, porque não progredis para a virtude. Pois convinha que a vossa liberalidade aumentasse e se multiplicasse, mas antes tomastes do costume que já prevalecia, e dele tomastes de tal modo que até necessitastes de admoestação de minha parte, para que retornásseis à ordem anterior.
Além disso, para não parecer que dizia estas coisas apenas por causa dos pobres, não avança de imediato ao discurso sobre as mesas, para que não venha a tornar sua repreensão de tal sorte que possam facilmente vir a menosprezá-la, mas busca uma expressão a mais confundente e temível. Pois que diz ele?
Paulo tempera sua crítica ao dizer que apenas em parte crê no que lhe foi relatado [acerca de suas facções], porquanto deseja exortá-los a retornar ao reto estado das coisas.
E ele não diz: "Temo que não ceeis em comum"; pois ouço que banqueteais em particular, e não com os pobres: mas aquilo que era mais capaz de abalar profundamente seus ânimos, isso ele consignou: o nome de divisão, que era também a causa deste mal; e assim lhes recordou novamente o que fora dito no início da Epístola, e que lhes fora significado pelos da casa de Cloe (1 Cor 1:11). E em parte o creio.
Assim, para que não dissessem: Mas, e se os acusadores falam falsamente? — ele não diz: Eu o creio, para que não os tornasse antes ainda mais temerários; nem tampouco, por outro lado: Não o creio, para que não parecesse repreender sem motivo; mas: Em parte o creio, diz ele, isto é, creio-o em pequena parte; deixando-os inquietos e convidando-os a retornar à correção.
Ao falar aqui de facções, Paulo não tinha em mente as heresias doutrinárias, ainda que também a elas se aplique. O próprio Cristo disse que era necessário que viessem ocasiões de escândalo (Mt 18,7). Não destruiu Ele com isso o livre-arbítrio do homem, nem decretou necessidade ou compulsão alguma sobre a vida humana, mas predisse qual seria o resultado inevitável do mal presente na mente humana. As divisões não sobrevieram porque Cristo as predisse; antes, Ele as predisse porque eram inevitáveis.
1 Coríntios 11:19 — Aqui ele designa por facções não as que dizem respeito às doutrinas, mas estas divisões presentes. Mas ainda que tivesse falado das heresias doutrinárias, nem mesmo assim lhes teria dado qualquer pretexto. Pois o próprio Cristo disse: é necessário que venham ocasiões de tropeço (Mt 18:7), não destruindo com isso a liberdade do arbítrio, nem impondo necessidade e compulsão alguma sobre a vida do homem, mas predizendo o que certamente adviria da má disposição dos homens; o qual haveria de suceder, não por causa de sua predição, mas porque os incuravelmente dispostos são assim inclinados. Pois não foi por tê-lo predito que estas coisas aconteceram; mas porque estavam certamente para acontecer, por isso as predisse. Pois, se as ocasiões de tropeço fossem de necessidade, e não da disposição daqueles que as introduzem, seria supérfluo dizer Ele: Ai daquele homem por quem vem a ocasião. Mas estas coisas discutimos mais amplamente quando estávamos naquela passagem; agora devemos proceder ao que temos diante de nós.
Ora, que ele disse estas coisas acerca destas facções relativas às mesas, e daquela contenda e divisão, manifestou-o também pelo que se segue. Pois havendo dito: ouço que há divisões entre vós, não se deteve aqui, mas, significando quais divisões ele designa, prossegue dizendo: cada um toma antes do outro a sua própria ceia; e ainda: Quê? Não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus? Todavia, é evidente que era destas coisas que falava. E se ele as chama divisões, não vos maravilheis. Pois, como disse, ele deseja tocá-los por meio da expressão; ao passo que, se fossem divisões de doutrina, não teria discorrido com eles tão mansamente. Ouvi-o, por exemplo, quando fala de alguma coisa dessa natureza, quão veemente é tanto na afirmação quanto na repreensão: na afirmação, como quando diz: Se mesmo um anjo vos anunciar outro evangelho além do que recebestes, seja anátema (Gl 1:8); mas na repreensão, como quando diz: Qualquer de vós que se justifica pela lei, decaístes da graça (Gl 5:4). E ora chama de cães os corruptores, dizendo: Guardai-vos dos cães (Fp 3:2); ora, tendo a consciência cauterizada com ferro em brasa (1Tm 4:2). E ainda, anjos de Satanás (2Co 11:14-15); mas aqui não disse coisa semelhante, senão que falou em tom brando e comedido.
Nesta parte, porém, o que significa: "para que os aprovados sejam manifestos entre vós"? Que resplandeçam ainda mais. E o que ele quer dizer é isto: que os inabaláveis e firmes não são de modo algum prejudicados por isso, mas antes se mostram ainda mais, e isso os torna mais gloriosos. Pois a palavra "para que" nem sempre indica causa, mas frequentemente também o resultado das coisas. Assim o próprio Cristo a usa, quando diz: "Para juízo vim a este mundo, para que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegados" (Jo 9:39). Assim também Paulo, em outro lugar, discorrendo sobre a lei, escreve: "E a lei entrou para que a ofensa abundasse" (Rm 5:20). Mas nem a lei foi dada com este fim, que se multiplicassem as ofensas dos judeus (embora isso tenha resultado); nem Cristo veio com este fim, que os que veem se tornassem cegos, mas para o contrário; contudo, tal foi o resultado. Assim, pois, também aqui se deve entender a expressão "para que os aprovados sejam manifestos". Pois de modo algum foi com esta intenção que surgiram as heresias, a saber, para que os aprovados se manifestassem, mas, tendo essas heresias ocorrido, tal foi o resultado. Ora, estas coisas ele disse para consolar os pobres, aqueles dentre eles que suportavam nobremente aquela espécie de desprezo. Por isso não disse "para que se tornem aprovados", mas "para que os aprovados sejam manifestos", mostrando que já antes disso eles eram tais, mas estavam misturados com a multidão, e, ao desfrutarem do alívio que lhes era proporcionado pelos ricos, não se destacavam muito; mas agora esta contenda e esta rivalidade os tornaram manifestos, assim como a tempestade revela o piloto. E não disse "para que vós pareçais aprovados", mas "para que os aprovados sejam manifestos", isto é, aqueles dentre vós que são tais. Pois nem quando acusa os expõe abertamente, para não os tornar mais temerários; nem quando louva, para não os tornar mais soberbos; mas deixa ambas as expressões em suspenso, permitindo que a própria consciência de cada um faça a aplicação do que ele diz.
Nem me parece aqui que ele esteja consolando somente os pobres, mas também aqueles que não violavam o costume. Pois era provável que houvesse entre eles também os que o observavam.
E é por isso que disse: "em parte o creio". Justamente, pois, chama de aprovados a estes, que não somente observavam o costume com os demais, mas até sem eles guardavam esta boa lei sem perturbação. E faz isso, procurando, por meio de tais louvores, tornar mais diligentes tanto os outros quanto estas mesmas pessoas.
4. Então, por fim, ele acrescenta a própria forma da ofensa. E qual é ela?
Vês tu como, apelando eficazmente à vergonha deles, já mesmo à maneira de narrativa ele engenha dar-lhes seu conselho? Pois o aspecto de vossa assembleia, diz ele, é diverso. É de amor e de afeição fraterna. Ao menos um lugar vos recebe a todos, e estais juntos em um só rebanho. Mas o Banquete, quando a ele chegais, não guarda semelhança alguma com a Assembleia dos que adoram. E não disse ele: Quando vos ajuntais, isto não é comer em comum; isto não é festejar uns com os outros; mas, de outro modo ainda, e muito mais temerosamente, os repreende, dizendo que não é possível comer a Ceia do Senhor, remetendo-os agora deste ponto àquela noite em que Cristo entregou os augustos Mistérios. Por isso também chamou de ceia a refeição matinal. Pois também naquela ceia estavam todos reclinados juntos à mesa: e todavia certamente não era tão grande a distância entre o rico e o pobre quanto entre o Mestre e os discípulos. Pois esta é infinita. E por que digo o Mestre e os discípulos? Pensa no intervalo entre o Mestre e o traidor: e não obstante, o próprio Senhor tanto se assentou à mesa com eles quanto não o lançou fora, mas tanto lhe deu sua porção de sal quanto o fez participante dos Mistérios.
Em seguida explica ele como não é possível comer a Ceia do Senhor.
Os coríntios desonravam a si mesmos ao converter a Ceia do Senhor em uma refeição particular, privando-a assim de sua maior prerrogativa. A Ceia do Senhor deve ser comum a todos, porque é do Senhor, cuja propriedade não pertence a este ou àquele servo, mas deve ser partilhada por todos em comum.
Percebes tu como ele dá a entender que eles antes desonravam a si mesmos? Pois aquilo que é do Senhor, fazem-no assunto particular: de modo que eles mesmos são os primeiros a sofrer indignidade, privando sua própria mesa de sua maior prerrogativa. Como e de que maneira? Porque a Ceia do Senhor, isto é, do Amo, deve ser comum. Pois a propriedade do amo não pertence a este servo sem pertencer também àquele, mas a todos em comum. De sorte que, por "Ceia do Senhor", exprime ele isto: a comunidade do banquete. Como se dissesse: Se é de vosso Senhor e Amo, como de fato é, não deveis subtraí-la como coisa particular, mas, como pertencente a vosso Senhor e Amo, pô-la em comum diante de todos. Pois este é o sentido de "do Senhor". Mas agora tu não permites que ela seja do Senhor, não permitindo que seja comum, mas banqueteando-te à parte. Por isso também prossegue, dizendo:
Cada um toma antecipadamente sua própria ceia. E não disse: retira, mas toma antecipadamente, censurando-os tacitamente tanto pela avidez quanto pela precipitação. Isto ao menos mostra também o que se segue. Pois, tendo dito isto, acrescentou de novo: e um tem fome, e outro se embriaga; cada uma das quais mostrava falta de moderação, tanto a ânsia quanto o excesso. Vê também uma segunda falta pela qual essas mesmas pessoas são lesadas: a primeira, que desonram sua ceia; a segunda, que são ávidas e se embriagam; e o que é ainda pior, mesmo quando os pobres têm fome. Pois aquilo que se destinava a ser posto diante de todos em comum, disso se alimentavam eles sozinhos, e chegavam tanto à fartura quanto à embriaguez. Por isso também não disse: um tem fome, e outro se farta; mas: se embriaga. Ora, cada uma destas coisas, mesmo por si só, é digna de censura: pois é falta embriagar-se mesmo sem desprezar o pobre; e desprezar o pobre sem se embriagar é acusação. Quando, pois, ambas se ajuntam ao mesmo tempo, considera quão sobremaneira grande é a transgressão.
Em seguida, tendo apontado sua profanação, acrescenta sua repreensão no que se segue, com grande indignação.
Vês tu como ele transferiu a acusação, da indignidade feita ao pobre, para a Igreja, a fim de que suas palavras causassem impressão mais funda de repulsa? Eis agora aqui uma quarta acusação, quando não somente o pobre, mas também a Igreja é insultada. Pois assim como fazeis da Ceia do Senhor uma refeição particular, assim também, de novo, do lugar, usando a Igreja como uma casa. Pois ela foi feita Igreja, não para que nós, os que nos ajuntamos, fôssemos divididos, mas para que os que estão divididos fossem unidos: e isto mostra o próprio ato de congregar-se.
E envergonhar os que não têm. Não disse: e matar de fome os que não têm, mas antes, de modo a fazê-los corar muito mais, envergonhá-los; para apontar que não é o alimento o que tanto lhe importa, quanto o agravo que se lhes faz. Eis aqui de novo uma quinta acusação: não apenas desconsiderar o pobre, mas ainda envergonhá-lo. Ora, isto disse ele, em parte tratando com reverência os interesses do pobre, e dando a entender que estes não se afligem tanto pelo ventre quanto pela vergonha; e em parte também levando o ouvinte à compaixão.
Tendo, pois, apontado tão grandes impiedades — indignidade feita à Ceia, indignidade feita à Igreja, o desprezo praticado para com os pobres —, relaxa de novo os tons de sua repreensão, dizendo subitamente: Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo. Nisto se poderia especialmente admirar dele que, havendo necessidade de ferir e repreender mais veementemente após a prova de tão grandes ofensas, faz antes o contrário, cede, e lhes permite recobrar o fôlego. Qual poderia, pois, ser a causa? Ele tocara mais dolorosamente que de costume ao agravar a acusação, e, sendo excelentíssimo médico, adapta a incisão às feridas, não cortando superficialmente aquelas partes que requerem golpe profundo (pois já o ouvistes como cortou, dentre essas mesmas pessoas, aquele que cometera fornicação); nem entregando ao bisturi aquelas coisas que requerem o remédio mais brando. Por esta razão, pois, também aqui conduz seu discurso mais suavemente, e, sob outro aspecto igualmente, procurou sobretudo torná-los brandos para com os pobres: e é por isso que discorre com eles antes em tom contido.
5. Em seguida, querendo também, a partir de outro assunto, envergonhá-los ainda mais, retoma os pontos que eram mais essenciais e deles tece seu discurso.
Paulo nos lembra que o Mestre renunciou a tudo, inclusive a Si mesmo, por nós, ao passo que nós relutamos até em partilhar um pouco de alimento com nossos irmãos na fé. Mas se vindes para um sacrifício de ação de graças, não façais nada indigno desse sacrifício. Não desonreis vossos irmãos nem os negligencieis em sua fome, não vos embriagueis, e não insulteis a Igreja. Quando vierdes, dai graças pelo que desfrutastes, e não vos aparteis de vosso próximo.
Por que faz ele aqui menção dos Mistérios? Porque esse argumento era muito necessário ao seu propósito presente. Assim: Vosso Mestre, diz ele, considerou todos dignos da mesma Mesa, ainda que ela seja muito temível e exceda em muito a dignidade de todos; mas vós os considerais indignos até mesmo da vossa, por mais pequena e humilde que ela seja: e, embora eles não vos levem vantagem alguma nas coisas espirituais, vós os roubais nas coisas temporais. Pois estas também não são vossas.
Contudo, ele não se expressa assim, para que seu discurso não se torne áspero: antes o formula de modo mais brando, dizendo que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão.
E por que nos lembra o tempo, e aquela noite, e a traição? Não indiferentemente nem sem alguma razão, mas para enchê-los sobremaneira de compunção, ainda que fosse apenas pela consideração do tempo. Pois, ainda que alguém seja de pura pedra, quando considera aquela noite — como Ele estava com seus discípulos, muito angustiado, como foi traído, como foi atado, como foi levado, como foi julgado, como padeceu todo o mais em ordem —, torna-se mais brando que a cera, e se retira da terra e de toda a pompa deste mundo. Por isso ele nos conduz à lembrança de todas essas coisas, por meio de seu tempo, de sua mesa e de sua traição, envergonhando-nos e dizendo: Vosso Mestre entregou até a Si mesmo por vós; e tu nem sequer partilhas um pouco de alimento com teu irmão, e por teu próprio bem.
Mas como diz ele que o recebeu do Senhor? Pois certamente não estava presente então, mas era um dos perseguidores. Para que saibais que a primeira mesa não teve vantagem alguma sobre a que vem depois dela. Pois ainda hoje também é Ele quem faz tudo, e a entrega tal como então.
E não somente por isso nos lembra ele daquela noite, mas também para nos conduzir à compunção de outro modo. Pois assim como particularmente recordamos aquelas palavras que ouvimos por último dos que partem; e a seus herdeiros, se ousarem transgredir seus mandamentos, quando os queremos envergonhar dizemos: Considerai que esta foi a última palavra que vosso pai vos disse, e até a tarde em que estava para exalar o último suspiro repetia estas ordens: assim também Paulo, propondo-se ainda por este meio tornar seu argumento cheio de temor, diz: Lembrai-vos de que este foi o último rito misterioso que Ele vos deu, e naquela noite em que estava para ser morto por nós, ordenou estas coisas, e, havendo-nos entregue aquela Ceia, depois disso nada mais acrescentou.
Em seguida, passa também a narrar as próprias coisas que se fizeram, dizendo: Tomou pão, e, havendo dado graças, o partiu, e disse: Tomai, comei: isto é o Meu Corpo, que é partido por vós. Se, portanto, vindes para um sacrifício de ação de graças, não façais, por vossa parte, nada indigno desse sacrifício: de modo algum desonreis a vosso irmão, nem o negligencieis em sua fome; não vos embriagueis, não insulteis a Igreja. Assim como vindes dando graças pelo que desfrutastes, assim retribuí também vós, e não vos aparteis de vosso próximo. Pois Cristo, por sua parte, deu igualmente a todos, dizendo: Tomai, comei. Deu seu Corpo igualmente, e tu não dás sequer o pão comum igualmente? Sim, foi ele de fato partido igualmente para todos, e se tornou o Corpo igualmente para todos.
Por que menciona Paulo que o cálice é o da nova aliança? Porque havia também um cálice da antiga aliança, que continha as libações e o sangue dos animais. Pois, depois de sacrificar, os sacerdotes costumavam recolher o sangue num cálice e numa taça, e então derramá-lo. Mas agora, em lugar do sangue dos animais, Cristo introduziu o seu próprio sangue.
Que dizes? Fazes memória de Cristo, e desprezas os pobres, e não tremes? Ora, se um filho ou irmão houvesse morrido, e fizesses memória dele, terias sido ferido pela consciência se não tivesses cumprido o costume e convidado os pobres: e, fazendo memória de teu Mestre, não dás sequer, simplesmente, uma porção da Mesa?
Mas que é isto que Ele diz: Este cálice é a Nova Aliança? Porque havia também um cálice da Antiga Aliança: as libações e o sangue das criaturas irracionais. Pois, depois de sacrificar, costumavam receber o sangue num cálice e numa taça, e assim derramá-lo. Visto, pois, que em lugar do sangue dos animais Ele trouxe o seu próprio Sangue, para que ninguém se perturbasse ao ouvir isto, ele lhes lembra aquele antigo sacrifício.
6. Em seguida, havendo falado acerca daquela Ceia, ele une as coisas presentes às coisas daquele tempo, para que, assim como naquela mesma noite, reclinados naquele mesmo leito e recebendo do próprio Cristo este sacrifício, assim também agora os homens fossem afetados.
Pois assim como Cristo, a respeito do pão e do cálice, disse: Fazei isto em memória de Mim, revelando-nos a causa da entrega do Mistério, e além do que disse, declarando ser esta causa suficiente para fundamentar o nosso temor religioso — (pois quando consideras o que o teu Senhor padeceu por ti, mais facilmente te negarás a ti mesmo) — assim também diz aqui Paulo: todas as vezes que comeis, anunciais a Sua morte. E esta é aquela Ceia. Depois, dando a entender que ela permanece até o fim, diz: até que Ele venha.
Por que assim? É porque aquele que profana a ceia é semelhante a um sacerdote que derrama o sangue, fazendo a morte parecer um morticínio e não um sacrifício. É semelhante àqueles que trespassaram Jesus na cruz. Não o fizeram para beber o Seu sangue, mas para derramá-lo. Aquele que se aproxima da ceia indignamente faz quase o mesmo, e nada com isso ganha.
Por que assim? Porque ele o derramou, e faz a coisa parecer um morticínio, e não mais um sacrifício. Assim como, pois, aqueles que outrora O traspassaram, não O traspassaram para que bebessem, mas para que derramassem o Seu Sangue, assim também procede aquele que se aproxima dele indignamente, e daí nenhum proveito colhe. Vedes quão temível ele torna o seu discurso, e quão veementemente os increpa, significando que, se assim hão de beber, participam indignamente dos elementos? Pois como poderia ser de outro modo senão indignamente, sendo ele quem negligencia o faminto? Quem, além de desprezá-lo, ainda o cobre de vergonha? Pois se o não dar aos pobres lança alguém fora do reino, ainda que seja virgem — ou antes, o não dar liberalmente (porquanto também aquelas virgens tinham azeite, somente não o tinham em abundância) —, considerai quão grande há de ser o mal de ter cometido tantas impiedades?
Que impiedades? dizes tu. Por que dizes: que impiedades? Participaste de tal Mesa, e quando devias ser mais brando que todos e semelhante aos anjos, ninguém se tornou tão cruel quanto tu. Provaste o Sangue do Senhor, e nem ainda assim reconheces o teu irmão. De que indulgência, pois, és digno? Ao passo que, se mesmo antes disto o não conhecesses, devias ter vindo a conhecê-lo a partir da Mesa; mas agora desonras a própria Mesa: tendo ele sido julgado digno de dela participar, e não o julgando tu digno do teu alimento. Não ouviste quanto padeceu aquele que exigia os cem denários? Como tornou vão o dom que lhe fora concedido? Não te vem à mente o que foste e o que te tornaste? Não te lembras de que, se este homem é pobre de posses, tu eras muito mais mendigo em boas obras, cheio de dez mil pecados? Não obstante, Deus te livrou de todos esses, e te contou digno de tal Mesa; mas nem assim te tornaste mais misericordioso: por conseguinte, nada mais resta senão que sejas entregue aos algozes.
7. Ouçamos também estas palavras, todos nós quantos, neste lugar, nos aproximamos desta santa Mesa juntamente com os pobres, mas que, ao sairmos, parecemos não os ter sequer visto, antes nos embriagamos e passamos negligentemente pelo faminto — as mesmíssimas coisas de que os coríntios eram acusados. E quando se faz isto? perguntareis. Em todo tempo, na verdade, mas sobretudo nas festas, quando, mais que em qualquer outro tempo, tal não deveria suceder. Não é assim que, nessas ocasiões, logo após a Comunhão, se seguem a embriaguez e o desprezo do pobre? E tendo participado do Sangue, quando fora tempo de jejuar e vigiar, entregais-vos ao vinho e à orgia. E, no entanto, se por acaso vos alimentastes pela manhã de alguma coisa boa, guardai-vos de que outro manjar insípido não estrague o sabor do primeiro; e agora que banqueteastes com o Espírito, introduzis um deleite satânico. Considerai o que fizeram os Apóstolos quando participaram daquela santa Ceia: não se voltaram eles às orações e ao canto de hinos? Às vigílias sagradas? Àquela longa obra de ensino, tão repleta de toda abnegação? Pois foi então que Ele lhes relatou e transmitiu aquelas coisas grandes e admiráveis, quando Judas já saíra para chamar os que haviam de crucificá-Lo. Não ouvistes como também os três mil que participaram da Comunhão perseveraram na oração e no ensino, e não em banquetes ébrios e orgias? Mas vós, antes de participardes, jejuais, para que de algum modo pareçais dignos da Comunhão; porém, depois de terdes participado, quando devêreis aumentar a vossa temperança, desfazeis tudo. E, contudo, decerto não é o mesmo jejuar antes disto e depois disto. Pois, ainda que nos cumpra ser temperantes em ambos os tempos, é sobretudo depois de termos recebido o Esposo que o devemos ser. Antes, para que vos torneis dignos de recebê-Lo; depois, para que não sejais achados indignos daquilo que recebestes.
Sabei, então? Deveríamos jejuar após recebê-la? Não digo isto, nem uso de qualquer compulsão. Isto, na verdade, seria bom; contudo, não o imponho, mas vos exorto a não vos banquetear com excesso. Pois se jamais se deve viver luxuriosamente, e Paulo o mostrou quando disse: a que se entrega ao prazer está morta enquanto vive (1 Tm 5:6), muito mais estará morta então. E se o luxo é morte para a mulher, muito mais para o homem; e se isto, feito em outra ocasião, é fatal, muito mais o é após a comunhão dos Mistérios. E tu, tendo recebido o pão da vida, praticas uma ação de morte e não te horrorizas? Não sabes quão grandes males são trazidos pelo luxo? Riso intempestivo, expressões desordenadas, bufonaria carregada de perdição, futilidade improfícua, e todas as outras coisas que nem convém nomear. E estas coisas fazes tu depois de teres gozado da Mesa de Cristo, naquele dia mesmo em que foste tido por digno de tocar a Sua carne com a tua língua. Que se deve fazer, então, para impedir estas coisas? Purificai a vossa mão direita, a vossa língua, os vossos lábios, que se tornaram um limiar para Cristo pisar. Considerai o tempo em que vos aproximastes e preparastes uma mesa material; elevai a vossa mente àquela Mesa, à Ceia do Senhor, à vigília dos discípulos, naquela noite, aquela santa noite. Aliás, se se examinar com exatidão, este próprio estado presente é noite. Vigiemos, então, com o Senhor; sejamos compungidos em nossos corações com os discípulos. É a estação das orações, não da embriaguez; sempre, na verdade, mas especialmente durante uma festa. Pois uma festa é, por isso, instituída, não para que nos comportemos indecorosamente, não para que acumulemos pecados, mas antes para que apaguemos os que já existem.
Sei, na verdade, que digo estas coisas em vão; contudo, não cessarei de as dizer. Pois, se não todos me obedecerdes, certamente não sereis todos desobedientes; ou antes, ainda que todos fôsseis desobedientes, a minha recompensa será maior, embora a vossa condenação seja maior. Todavia, para que ela não seja maior, para este fim não cessarei de falar. Pois, talvez, talvez, pela minha perseverança eu possa alcançar-vos.
Por isso vos suplico que não façamos isto para condenação; nutramos a Cristo, demos-Lhe de beber, vistamo-Lo. Estas coisas são dignas daquela Mesa. Ouvistes hinos sagrados? Vistes um casamento espiritual? Gozastes de uma Mesa régia? Fostes cumulados do Espírito Santo? Juntastes-vos ao coro dos Serafins? Tornastes-vos partícipes das potestades do alto? Não rejeiteis tão grande alegria, não desperdiceis o tesouro, não introduzais a embriaguez, mãe do desalento, alegria do demônio, progenitora de dez mil males. Pois dela procede um sono semelhante à morte, e pesadume de cabeça, e enfermidade, e esquecimento, e uma imagem da condição dos mortos. Ademais, se não escolherias encontrar-te com um amigo estando embriagado, quando tens Cristo dentro de ti, ousarias, dizei-me, forçar sobre Ele tamanho excesso?
Invite Cristo a cear convosco; dai-Lhe a participar do vosso, ou antes, do que é seu próprio. Isto traz prazer sem limite, e em seu vigor, eternamente. Mas as coisas dos sentidos não são assim; antes, tão logo aparecem, se desvanecem; e aquele que delas gozou não estará em condição melhor do que aquele que não gozou, ou antes, em condição pior. Pois um está estabelecido, por assim dizer, num porto, enquanto o outro se expõe a uma espécie de torrente, um exército sitiante de enfermidades, e nem mesmo tem poder para suportar o primeiro embate do mar.
Para que estas coisas, pois, não sejam assim, sigamos a moderação. Pois assim estaremos em bom estado de corpo, e possuiremos nossas almas em segurança, e seremos livrados dos males presentes e futuros: dos quais possamos todos ser livrados, e alcançar o reino, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Em tua consciência, onde ninguém está presente senão Deus, que tudo vê, julga-te a ti mesmo, examina os teus pecados. Quando refletires sobre toda a tua vida, traz os teus pecados ao tribunal da mente. Corrige os teus erros, e assim, com consciência limpa, toca a mesa sagrada e participa do santo sacrifício. Sobre o Jejum, Homilia.
Não nos é lícito tocar a mesa com concupiscências profanas, que são mais nocivas que as enfermidades. Por concupiscências profanas entendo as do corpo, as do dinheiro, as da ira, as da malícia, e assim por diante. Convém a todo aquele que se aproxima esvaziar-se primeiro de todas essas coisas, e só então tocar aquele puro sacrifício.
Que significam estas palavras, quando outro objeto nos é proposto? Este é o costume de Paulo, como já antes dissemos, não somente tratar daquelas coisas que a si mesmo propusera, mas também, se lhe ocorre algum argumento incidental ao seu propósito, prossegui-lo também com grande diligência, especialmente quando se relaciona a assuntos muito necessários e urgentes. Assim, quando discorria com os casados, e lhe sobreveio a questão dos servos, tratou-a com grande empenho e por extenso. De novo, quando falava do dever de não recorrer àqueles tribunais, tendo então caído na admoestação a respeito da cobiça, discorreu longamente também sobre esse assunto. Ora, o mesmo fez ele também aqui: pois, tendo uma vez encontrado ocasião de lembrar-lhes os Mistérios, julgou necessário prosseguir com esse assunto. Pois, na verdade, não era este assunto ordinário. Por isso também discorreu muito solenemente acerca dele, provendo para aquilo que é a soma de todos os bens, a saber, que se aproximassem daqueles Mistérios com consciência pura. Donde não se contentou apenas com as coisas ditas antes, mas acrescenta ainda estas, dizendo:
Que o homem, pois, se examine a si mesmo: o que também diz na segunda Epístola: examinai-vos a vós mesmos, provai-vos a vós mesmos (2 Cor 13:5); não como nós agora fazemos, aproximando-nos por causa da estação antes que por qualquer fervor de mente. Pois não consideramos como nos aproximar preparados, purgados os males que havia em nós, e cheios de compunção, mas como comparecer nas festas e sempre que todos o façam. Mas não foi assim que Paulo nos ordenou vir: ele conhece apenas uma estação de acesso e comunhão, a saber, a pureza da consciência do homem. Pois, se nem sequer aquele banquete que os sentidos percebem pode ser tomado por nós quando febris e cheios de maus humores, sem risco de perecer, muito mais nos é ilícito tocar esta Mesa com concupiscências profanas, que são mais graves que as febres. Ora, quando digo concupiscências profanas, refiro-me tanto às do corpo, quanto às do dinheiro, quanto às da ira, quanto às da malícia, e, em uma palavra, a todas as que são profanas. E convém a quem se aproxima primeiro esvaziar-se de todas essas coisas, e assim tocar aquele puro sacrifício. E nem, se estiver indolentemente disposto e relutante, deve ser compelido a aproximar-se por causa da festa; nem tampouco, se penitente e preparado, deve alguém impedi-lo por não ser festa. Pois a festa é uma manifestação de boas obras, e reverência de alma, e exatidão de conduta. E se tiveres estas coisas, poderás em todo tempo celebrar festa e em todo tempo aproximar-te. Por isso diz: Que cada um se examine a si mesmo, e então que se aproxime. E não ordena que se examine a outro, mas a si mesmo, fazendo do tribunal não um tribunal público, e da condenação algo sem testemunha.
Que dizes, dize-me? É esta Mesa, que é causa de tantas bênçãos e transborda de vida, tornada juízo? Não por sua própria natureza, diz ele, mas pela vontade daquele que se aproxima. Pois, assim como a presença Dele, que nos transmitiu aquelas grandes e inefáveis bênçãos, condenava ainda mais aqueles que não a recebiam, assim também os Mistérios se tornam provisões de maior castigo para os que deles participam indignamente.
Mas por que come juízo para si mesmo? Por não discernir o corpo do Senhor: isto é, por não perscrutar, por não trazer à mente, como deveria, a grandeza das coisas que lhe são propostas; por não estimar o peso do dom. Pois, se viesses a conhecer com exatidão quem é Aquele que jaz diante de ti, e quem é Aquele que a si mesmo se dá, e a quem se dá, não precisarias de outro argumento, mas isto te bastaria para usares de toda vigilância; a menos que já estivesses de todo decaído.
Como pode a mesa, que é causa de tantas bênçãos, e que transborda de vida, tornar-se causa de juízo? Não é por sua própria natureza, diz Paulo, mas por causa da disposição daquele que a ela se aproxima. Pois, assim como a presença de Cristo, que nos transmitiu aquelas grandes e inefáveis bênçãos, condenava aqueles que não as recebiam, assim também a santa Comunhão se torna meio de maior castigo para os que dela participam indignamente.
Aqui Paulo não toma seu exemplo do antigo Israel, como fizera antes, mas dos próprios coríntios, para que a lição os atingisse mais profundamente. As pessoas buscavam explicação para as mortes prematuras em seu meio, e aqui Paulo a fornece.
Aqui ele já não traz seus exemplos de outros, como fizera no caso dos sacrifícios aos ídolos, relatando as antigas histórias e os castigos no deserto, mas dos próprios coríntios; o que também tornou o discurso apto a feri-los mais agudamente. Pois, dizendo ele come juízo para si mesmo, e é culpado, para que não parecesse falar meras palavras, aponta também para os fatos, e chama a eles próprios por testemunhas; coisa que mais toca os homens do que a ameaça, ao mostrar que a ameaça redundou em algum fato real. Não se contentou, porém, com estas coisas somente, mas a partir delas introduziu e confirmou também o argumento acerca do fogo do inferno, aterrorizando-os de ambos os modos; e resolvendo uma questão que em toda parte se debate. Digo isto porque, uma vez que muitos perguntam uns aos outros donde provêm as mortes prematuras, donde as longas enfermidades dos homens, ele lhes diz que estes acontecimentos inesperados são, em muitos casos, condicionados a certos pecados. Que, pois? Aqueles que gozam de saúde contínua, dirás, e chegam a uma verde velhice, acaso não pecam? Ora, quem ousaria dizer isto? Como, então, dirás, não sofrem castigo? Porque ali sofrerão um mais severo. Mas nós, se quisermos, nem aqui nem ali precisamos sofrê-lo.
Paulo não disse "se nos punimos", mas apenas se estivéssemos dispostos a reconhecer nossa falta, a julgar-nos verdadeiramente a nós mesmos, a condenar nossa própria transgressão, então estaríamos livres do castigo tanto neste mundo quanto no outro. Pois aquele que condena a si mesmo propicia a Deus de duas maneiras: primeiro, reconhecendo seus pecados; segundo, sendo mais cuidadoso no futuro.
E não disse: se nos punimos a nós mesmos, se nos vingamos de nós mesmos, mas se estivéssemos apenas dispostos a reconhecer nossa falta, a pronunciar sentença sobre nós mesmos, a condenar as coisas mal feitas, estaríamos livres do castigo tanto neste mundo quanto no outro. Pois aquele que condena a si mesmo propicia a Deus de duas maneiras: reconhecendo seus pecados e estando mais precavido para o futuro. Mas, uma vez que não estamos dispostos a fazer nem sequer esta coisa leve como deveríamos fazê-la, ainda assim Ele não suporta punir-nos com o mundo, mas ainda assim nos poupa, exigindo o castigo neste mundo, onde a pena é por um tempo e a consolação, grande; pois o resultado é tanto a libertação dos pecados quanto uma boa esperança das coisas futuras, aliviando os males presentes. E ele diz estas coisas, ao mesmo tempo consolando os enfermos e tornando os demais mais sérios.
Paulo chama nosso castigo de disciplina, porque se assemelha mais à admoestação do que à condenação, mais à cura do que à vingança, e mais à correção do que à punição. Ele faz com que o presente pareça menos penoso, comparando-o com um mal maior do qual escaparemos, a saber, o juízo do mundo.
Em vez de passarmos ociosamente pelo que se considera pecados leves, exijamos diariamente de nós mesmos uma prestação de contas quanto às palavras e aos olhares, e executemos sentença sobre nós mesmos, a fim de estarmos livres do castigo mais tarde. Esta é a razão pela qual Paulo disse: "Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados." Assim, se nos julgarmos por nossos pecados todos os dias aqui, evitaremos a severidade do juízo naquele outro lugar. Mas, se formos negligentes, "seremos julgados e disciplinados pelo Senhor." Tomemos, pois, a iniciativa de pronunciar sentença sobre nós mesmos com toda boa vontade, mantendo o tribunal da consciência sem que ninguém o saiba. Examinemos nossos próprios pensamentos e determinemos um veredicto justo, para que, pelo temor do castigo iminente, nossa mente se abstenha de ser arrastada para baixo e, ao invés disso, refreie seus impulsos, e, mantendo diante de si aquele olho que não dorme, afaste os avanços do diabo.
Ele não disse: somos punidos; não disse: sofremos vingança; mas: somos disciplinados. Pois o que se faz pertence mais à admoestação do que à condenação, mais à cura do que à vingança, mais à correção do que à punição. E não só isso, mas, pela ameaça de um mal maior, ele torna leve o presente, dizendo: para que não sejamos condenados com o mundo. Vedes como ele introduz também o inferno e aquele tremendo tribunal, e significa que aquele julgamento e castigo é necessário e há de ser em todo caso? Pois se os fiéis, e aqueles de quem Deus especialmente cuida, não escapam sem castigo em qualquer coisa em que ofendam (e isto é evidente pelas coisas presentes), muito mais os incrédulos e os que cometem os pecados imperdoáveis e incuráveis.
Assim, estando ainda no auge o temor deles e permanecendo o terror do inferno, escolhe ele trazer novamente também a exortação em favor dos pobres, por causa da qual disse todas estas coisas; dando a entender que, se não fizerem isto, hão de participar indignamente. Ora, se o não repartir de nossos bens exclui daquela Mesa, muito mais o arrebatá-los violentamente. E não disse: "portanto, quando vos ajuntardes, reparti com os que têm necessidade", mas, o que soa de modo mais reverente, "esperai-vos uns aos outros". Pois isto também preparou o caminho e insinuou aquilo, e de maneira conveniente introduziu a exortação.
Paulo acrescenta que tratará de tudo o mais quando vier. É provável que os coríntios tivessem objetado que nem tudo poderia ser corrigido por carta. Por isso, Paulo lhes diz que, entrementes, cuidem destas coisas, e que ele fará o resto a seu tempo.
Ao permitir isso, ele o impede, e de modo mais forte do que se o proibisse absolutamente. Pois ele o retira da igreja e o envia para casa, com isto os repreendendo severamente e ridicularizando-os, como escravos do ventre e incapazes de conter-se. Pois não disse: se algum despreza os pobres, mas: se algum tem fome, discorrendo como que com crianças impacientes, como com brutos animais escravizados ao apetite. Pois seria de fato muito ridículo que, por terem fome, fossem eles comer em casa.
Contudo, não se contentou com isto, mas acrescentou também outra coisa mais temível, dizendo que a vossa reunião não seja para juízo: que não vos reunais para castigo, para punição, insultando a Igreja, desonrando o vosso irmão. Pois para isto vos reunis, diz ele, para que vos ameis uns aos outros, para que aproveiteis e sejais aproveitados. Mas se o contrário suceder, melhor vos fora alimentar-vos em casa.
Isto, todavia, disse ele para que mais os atraísse a si. Sim, este era o próprio propósito tanto de apontar o dano que daí adviria, quanto de dizer que a condenação não era pequena, e de aterrorizá-los de todo modo, pelos Mistérios, pelos enfermos, pelos que haviam morrido, pelas demais coisas antes mencionadas.
Depois também os alarma novamente de outro modo, dizendo: e o mais porei em ordem quando vier: referindo-se ou a alguma outra coisa, ou a este mesmo assunto. Pois, sendo provável que eles ainda tivessem algumas razões a alegar, e não sendo possível endireitar tudo por carta, as coisas que vos tenho ordenado, diz ele, que sejam observadas por ora; mas se tendes alguma outra coisa a mencionar, que seja guardada para a minha vinda; falando ou deste assunto, como disse, ou de outras coisas não muito urgentes. E isto ele faz para que também por aí os torne mais sérios. Pois, estando ansiosos por sua vinda, corrigiriam o erro. Pois a permanência de Paulo em qualquer lugar não era coisa ordinária; e para significar isto disse: alguns se ensoberbecem, como se eu não houvesse de vir a vós (1 Cor 4:18); e noutro lugar, de novo: não só como na minha presença, mas agora muito mais na minha ausência, operai a vossa própria salvação com temor e tremor (Fp 2:12). E por isso não apenas prometeu que viria, para que não descressem dele e se tornassem mais negligentes; mas também expõe uma causa necessária para a sua permanência com eles, dizendo: o mais porei em ordem quando vier; o que implica que a correção das coisas restantes, ainda que ele não a desejasse em caso algum, o teria atraído para lá.
4. Ouvindo, pois, todas estas coisas, tomemos grande cuidado com os pobres, e refreemos o nosso apetite, e livremo-nos da embriaguez, e sejamos cuidadosos em participar dignamente dos Mistérios; e tudo quanto sofrermos, não o tomemos com amargura, nem por nós mesmos nem por outros; como quando sucede morte intempestiva ou doenças longas. Pois isto é libertação da punição, isto é correção, isto é excelentíssima admoestação. Quem diz isto? Aquele que tem Cristo falando nele.
Após isso, contudo, muitas de nossas mulheres se deixam levar por tal insensatez, que chegam a exceder os próprios incrédulos no excesso de sua dor. Algumas assim procedem cegadas pela paixão, mas outras por ostentação, e para evitar a censura dos que estão de fora; e estas últimas, a meu ver, são as mais destituídas de desculpa. "Para que tal pessoa não me acuse", diz ela, "que Deus seja meu acusador; para que homens mais insensatos que os brutos animais não me condenem, que a lei do Rei de todas as coisas seja pisada aos pés." Ora, quantos raios não merecem tais palavras?
De novo: se alguém te convida a um banquete fúnebre depois de tua aflição, ninguém tem nada a dizer contra isso, porque há uma lei dos homens que ordena tais coisas; mas quando Deus, por Sua lei, proíbe teu pranto, todos assim a contradizem. Não te vem à memória Jó, ó mulher? Não te recordas de suas palavras diante da desgraça de seus filhos, palavras que adornaram aquela cabeça santa mais que dez mil coroas, e proclamaram mais alto que muitas trombetas? Não fazes caso algum da grandeza de suas desgraças, daquele naufrágio sem precedentes, e daquela tragédia estranha e portentosa? Pois tu, porventura, perdeste um, ou um segundo, ou um terceiro filho; mas ele, tantos filhos e filhas; e aquele que tinha muitos filhos, subitamente se fez sem filho algum. E nem sequer gradualmente se lhe consumiram as entranhas: mas de um só golpe lhe foi arrebatado todo o fruto de seu corpo. Nem foi pela lei comum da natureza, quando já houvessem chegado à velhice, mas por uma morte tanto intempestiva quanto violenta; e todos juntos, e quando ele não estava presente nem sentado junto deles, para que ao menos, ouvindo suas últimas palavras, pudesse ter algum consolo para fim tão amargo; mas, contra toda expectativa, e sem que ele soubesse coisa alguma do que se passava, todos foram de uma só vez arrebatados, e sua casa se tornou seu sepulcro e sua armadilha.
Não somente a intempestividade de sua morte, mas também muitas outras coisas havia para afligi-lo: como o fato de estarem todos na flor da idade, todos virtuosos e amorosos, todos juntos, de modo que nenhum de um sexo ou de outro lhe restara; o fato de que isso não lhe sobreveio pela lei comum da natureza; o fato de vir depois de tão grande perda; e o fato de que, não tendo ele consciência de pecado algum, nem seu nem deles, ainda assim sofreu estas coisas. Pois cada uma destas circunstâncias já bastaria por si só para perturbar o ânimo; mas quando as encontramos todas concorrendo juntas, imaginai a altura daquelas ondas, quão grande o excesso daquela tempestade. E o que há de particularmente maior e pior que sua perda é que ele nem sequer sabia por que motivo tudo isso lhe sucedera. Por isso, então, não tendo causa alguma a atribuir ao infortúnio, ele se eleva ao beneplácito de Deus, e diz: O Senhor deu, o Senhor tirou; como aprouve ao Senhor, assim se fez; bendito seja o nome do Senhor para sempre (Jó 2:21). E disse ele estas coisas quando se via, a ele que perseguira toda virtude, na última extremidade; enquanto os homens maus e impostores prosperavam, na fartura, banqueteando-se por todos os lados. E não proferiu nenhuma palavra tal como é provável que alguns dos mais fracos teriam proferido: Foi para isto que criei meus filhos e os eduquei com todo o esmero? Foi para isto que abri minha casa a todos os que passavam, para que, depois de tantas diligências empreendidas em favor dos necessitados, dos nus, dos órfãos, eu recebesse esta recompensa? Mas em lugar destas, ofereceu ele aquelas palavras, melhores que todo sacrifício, dizendo: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu ali retornarei. Se, todavia, rasgou as vestes e rapou a cabeça, não vos maravilheis. Pois era pai, e pai amoroso; e convinha que se mostrasse tanto a compaixão de sua natureza quanto o autodomínio de seu espírito. Ao passo que, não o tivesse feito, talvez alguém julgasse este autodomínio mera insensibilidade. Por isso, ele indica ao mesmo tempo seu afeto natural e o rigor de sua piedade, e em sua dor não foi derrubado.
5. E ainda, quando sua provação prosseguiu, ele é de novo adornado com outras coroas por causa de sua resposta à esposa, dizendo: Se recebemos o bem da mão do Senhor, não suportaremos também o mal? (Jó 2:10). Pois, com efeito, sua esposa era por essa altura a única que lhe restava, tendo sido tudo o mais completamente destruído — tanto seus filhos quanto seus bens e o próprio corpo — e ela reservada para tentá-lo e enlaçá-lo. E esta foi, na verdade, a razão pela qual o diabo não a destruiu junto com os filhos, nem pediu sua morte, porque esperava que ela contribuísse muito para o enlaçamento daquele santo homem. Por isso, deixou-a como uma espécie de instrumento, e formidável, para si mesmo. Pois se até do paraíso, diz ele, lancei fora a humanidade por meio dela, muito mais poderei fazê-lo tropeçar sobre o monturo.
Aos poucos, observai a astúcia dele. Não se serviu ele deste estratagema quando os bois, os asnos ou os camelos se perderam, nem mesmo quando a casa caiu e os filhos foram sepultados sob ela; mas, contemplando por longo tempo o combatente, permite-lhe que ela fique silenciosa e quieta. Mas quando a fonte de vermes irrompeu, quando a pele começou a apodrecer e a cair, e a carne a definhar exalando o mais ofensivo dos corrimentos, e a mão do demônio o exauria com dor mais aguda que grelhas e fornalhas e qualquer chama, consumindo-o por todos os lados e devorando-lhe o corpo mais cruelmente que qualquer fera, e quando um longo tempo se havia gasto nesta miséria — então é que ele a traz a ele, já temperada e desgastada. Se, ao contrário, ela se tivesse aproximado dele no início de seu infortúnio, nem o teria encontrado tão desnervado, nem teria tido em seu poder inchar e exagerar assim o infortúnio com suas palavras. Mas agora, quando o viu, ao longo do tempo, sedento por alívio, e desejoso do fim daquilo que o oprimia com tanta violência, é então que ela vem sobre ele. Pois, para mostrar que ele estava totalmente exaurido, e que já se tornara incapaz até de respirar, e mais, desejava até morrer, ouvi o que ele diz: Pois eu quisera poder lançar mão sobre mim mesmo, ou pedir a outro que o fizesse por mim. E observai, peço-vos, a maldade de sua mulher, de que tópico ela logo começa: a saber, da duração do tempo, dizendo: Até quando resistirás?
Ora, se muitas vezes, mesmo quando não havia realidades, as palavras sozinhas prevaleceram para desvirilizar uma pessoa, considerai o que era de se esperar que ele então sentisse, quando, além destas palavras, as próprias coisas também o feriam; e o que, ao que parece, era o pior de tudo, era também uma esposa que assim falava, e uma esposa que se havia inteiramente abatido e se entregava, e por isso buscava lançá-lo também no desespero. Contudo, para que vejamos mais claramente a máquina de guerra que foi trazida contra aquele muro adamantino, ouçamos as próprias palavras. Quais são, pois, estas? Até quando resistirás? Como se dissesse: Eis que aguardo ainda um pouco mais, esperando a esperança de minha salvação. Não, diz ela, o tempo já expôs a insensatez de tuas palavras, pois, prolongando-se, não mostra, contudo, nenhum modo de escape. E estas coisas ela disse, não apenas para empurrá-lo ao desespero, mas também para o reprovar e escarnecer.
Ora ele, sempre a consolá-la enquanto ela o pressionava, e a dissuadi-la, assim falava: Aguarda ainda um pouco, e logo haverá um fim para estas coisas. Repreendendo-o, pois, ela diz: Dirás agora novamente a mesma coisa? Pois já muito tempo se passou, e nenhum fim destas coisas apareceu. E observa a sua malícia, que ela não faz menção alguma dos bois, das ovelhas ou dos camelos, sabendo que ele não estava muito atormentado por estes; mas vai diretamente à natureza, e o faz lembrar-se de seus filhos. Pois, à morte deles, ela o viu rasgar as vestes e rapar os cabelos. E não disse: teus filhos estão mortos, mas, muito patética, disse: tua memória pereceu da terra, a coisa pela qual teus filhos eram desejáveis. Pois se, mesmo agora, depois que a ressurreição foi dada a conhecer, os filhos são desejados porque preservam a memória dos que partiram, muito mais então o seriam. Por isso também a sua maldição, a partir desta consideração, se torna mais amarga. Pois naquele caso, aquele que amaldiçoou não disse: Sejam seus filhos inteiramente desarraigados, mas, a sua memória da terra. Teus filhos e tuas filhas. Assim, ao passo que ela disse "a memória", ela novamente, com precisão, faz menção de ambos os sexos. Mas se tu, diz ela, não te importas com estas coisas, ao menos considera o que é meu. As dores do meu ventre e os trabalhos que suportei em vão, com tristeza. Ora, o que ela quer dizer é isto: eu, que suportei mais, sou injustiçada por tua causa, e, tendo suportado as fadigas, sou privada dos frutos.
E vede como ela nem faz menção expressa da perda dos bens, nem se cala e passa apressadamente por ela; mas, naquele aspecto sob o qual esta também poderia ser narrada de modo mais patético, é nisso que ela veladamente a refere. Pois quando diz, eu também sou uma vagabunda e uma escrava, andando de lugar em lugar, de casa em casa, ela ao mesmo tempo sugere a perda e indica a sua grande angústia: sendo estas expressões tais que ainda mais realçam aquela desventura. Pois venho às portas de outros, diz ela; nem apenas mendigo, mas sou também errante e sirvo uma servidão estranha e incomum, rodeando por toda parte e trazendo comigo os sinais da minha calamidade, ensinando a todos os homens os meus infortúnios; o que é mais lastimável de tudo, mudar de casa em casa. E não parou nem mesmo com estas lamentações, mas prosseguiu dizendo: Esperando pelo sol, quando se puser, e eu descansarei das minhas misérias e das dores que me cercam, pelas quais agora sou angustiada. Assim, aquilo que é doce para os outros, diz ela, contemplar a luz, isto para mim é penoso: mas a noite e as trevas são coisa desejável. Pois só isto me dá descanso das minhas fadigas, só isto se torna um consolo para as minhas misérias. Mas dize alguma coisa contra o Senhor, e morre. Percebes aqui também a sua astuta maldade? Como ela não introduziu logo, no próprio ato de aconselhar, o conselho mortífero, mas, tendo primeiro relatado piedosamente as suas desventuras e prolongado a tragédia, encerra em poucas palavras o que recomendaria, e nem sequer o declara claramente, mas, lançando uma sombra sobre isso, oferece-lhe a libertação que ele tanto ansiava, e promete a morte, a coisa que ele então mais que tudo desejava.
Considera também nisto a malícia do demônio: sabendo ele o ardente amor de Jó para com Deus, não permite que sua mulher acuse a Deus, para que ele não se voltasse desde logo contra ela como contra uma inimiga. Por esta razão, ela em nenhum momento O menciona, mas insiste continuamente nas calamidades mesmas.
E acrescenta tu, além do que já se disse, esta circunstância: que foi uma mulher quem deu tal conselho, admirável oradora para enganar os incautos. Muitos, ao menos, mesmo sem acidentes exteriores, foram derrubados pelo conselho de uma mulher somente.
6. Que fez, pois, o bem-aventurado santo, mais firme que o diamante? Olhando-a com amargura, já pelo semblante antes mesmo de falar, repeliu os artifícios dela: pois ela, sem dúvida, esperava suscitar fontes de lágrimas; mas ele se tornou mais fero que um leão, cheio de ira e indignação — não por causa dos seus sofrimentos, mas por causa das sugestões diabólicas dela; e, tendo manifestado sua ira pelo olhar, em tom contido profere sua repreensão; pois mesmo na desgraça conservava o domínio de si. E que diz ele? "Por que falas como uma das mulheres insensatas?" Não te ensinei assim, diz ele, não te criei assim; e é por isso que agora nem mesmo reconheço minha própria esposa. Pois estas palavras são conselho de "mulher insensata", e de alguém fora de si. Não vês aqui um exemplo de ferida aplicada com moderação, e de golpe suficiente apenas para curar a doença?
Depois, após a repreensão, ele traz, por outro lado, um conselho bastante consolador e muito razoável, falando assim: se recebemos os bens de nossos das mãos do Senhor, não haveremos de suportar os males? Pois recorda, diz ele, aquelas coisas anteriores e considera o Autor delas, e suportarás nobremente também estas. Vedes a modéstia deste homem? Que ele não atribui de modo algum sua paciência à própria coragem, mas diz que ela foi parte da consequência natural do que sucedera. Pois em troca de quê nos deu Deus aqueles bens anteriores? Que recompensa Lhe pagamos? Nenhuma, mas por pura bondade. Pois foram dádiva, não recompensa; graça, não galardão. Pois bem, suportemos também estas coisas nobremente.
Guardemos, tanto homens como mulheres, este discurso, e gravemos em nossas mentes estas palavras, e as que as precederam: e, esboçando em nossas mentes, como em quadro, a história de seus sofrimentos — refiro-me à perda dos bens, ao luto pelos filhos, à doença do corpo, aos opróbrios, aos escárnios, aos artifícios de sua mulher, à cilada do demônio, em uma palavra, a todas as calamidades daquele justo, e isto com exatidão —, provejamo-nos de um mui amplo porto de refúgio: para que, suportando todas as coisas nobre e agradecidamente, possamos tanto lançar fora, na vida presente, todo desalento, quanto receber as recompensas que pertencem a este bom modo de tomar as coisas; pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo chama os dons de espirituais porque são obra somente do Espírito, nada devendo à iniciativa humana.
Ora, quanto aos dons espirituais, irmãos, não quero que sejais ignorantes. Sabeis que, quando éreis gentios, éreis levados a esses ídolos mudos, como quer que fôsseis levados.
Este lugar todo é muito obscuro; mas a obscuridade provém de nossa ignorância acerca dos fatos referidos e da cessação destes, sendo eles tais que então costumavam ocorrer, mas agora já não sucedem mais. E por que não acontecem agora? Eis que a própria causa da obscuridade nos suscita, de novo, outra questão: a saber, por que então aconteciam, e agora não mais o fazem?
Isto, todavia, deixemo-lo para outra ocasião; por ora, porém, expunhamos o que sucedia então. Pois bem: o que sucedia então? Quem quer que fosse batizado, imediatamente falava em línguas — e não somente em línguas, mas muitos também profetizavam, e alguns ainda realizavam muitas outras obras admiráveis. Pois, como estes, vindos dos ídolos, sem clara noção nem instrução alguma nas antigas Escrituras, recebiam de imediato, ao serem batizados, o Espírito, e todavia não viam o Espírito, por ser Ele invisível, a graça de Deus concedia, por isso, alguma prova sensível daquela operação. E um falava logo em persa, outro em latim, outro em índico, outro em alguma outra língua semelhante: e isto manifestava aos que estavam de fora que era o próprio Espírito quem falava na pessoa mesma que falava. Por isso também assim o chama, dizendo: Mas a cada um é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum (1 Cor 12,7), chamando os dons de manifestação do Espírito. Pois assim como os próprios Apóstolos haviam recebido primeiro este sinal, assim também os fiéis o foram recebendo — refiro-me ao dom das línguas — e não somente este, mas também muitos outros: de modo que muitos até ressuscitavam mortos, e expulsavam demônios, e realizavam muitas outras maravilhas semelhantes; e tinham dons também, uns menores, outros maiores. Mas mais abundante do que todos, entre eles, era o dom das línguas; e isto se tornou para eles causa de divisão — não por sua própria natureza, mas pela perversidade daqueles que o haviam recebido: pois, de um lado, os possuidores dos dons maiores se ensoberbeciam contra os que tinham os menores; e estes, por sua vez, entristeciam-se e invejavam os possuidores dos maiores. E o próprio Paulo, à medida que prossegue, dá a entender isto mesmo.
Uma vez que, pois, daqui recebiam eles um golpe fatal na dissolução de sua caridade, grande cuidado põe ele em corrigi-lo. Pois isto sucedeu também em Roma, ainda que não do mesmo modo. E por isso, na Epístola aos Romanos, ele o aborda, é certo, mas de modo obscuro e breve, dizendo assim: Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, sendo muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de per si membros uns dos outros. E tendo dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada, seja profecia, profetizemos segundo a proporção da nossa fé; seja ministério, ocupemo-nos do nosso ministério; ou o que ensina, no seu ensino (Rm 12:4-8). E que os romanos também estavam caindo em arbitrariedade por isso, ele o indica no início daquele discurso, dizendo assim: Porque digo, pela graça que me foi dada, a todo homem que está entre vós, que não pense de si mais altamente do que convém pensar; mas que pense com sobriedade, conforme Deus repartiu a cada um a medida da fé (Rm 12:3). Com estes, contudo (pois a enfermidade da divisão e do orgulho não havia progredido a ponto algum), ele discorreu assim; mas aqui, com grande ansiedade, pois a moléstia se havia espalhado grandemente.
E não era esta a única coisa que os perturbava, mas havia também no lugar muitos adivinhos, porquanto a cidade era, mais do que de costume, dada aos costumes gregos, e isto, juntamente com o mais, tendia a escândalo e perturbação entre eles. Esta é a razão pela qual ele começa por primeiramente estabelecer a diferença entre a adivinhação e a profecia. Por esta causa também receberam eles o discernimento de espíritos, para que discernissem e conhecessem qual é o que fala por um espírito puro, e qual por um impuro.
Porquanto não era possível fornecer, a partir de si mesmas, no mesmo momento, a evidência das coisas ditas (pois a profecia fornece a prova de sua própria verdade não no tempo em que é proferida, mas no tempo do acontecimento); e não era fácil distinguir o verdadeiro profeta do impostor (pois o próprio diabo, maldito como é, havia entrado naqueles que profetizavam [cf. 1Rs 22:23], introduzindo falsos profetas, como se, na verdade, também eles pudessem predizer as coisas futuras); e, além disso, os homens eram facilmente enganados, porque as coisas ditas não podiam, por ora, ser postas à prova, antes ainda de se terem cumprido os acontecimentos a respeito dos quais era a profecia (pois era o fim que comprovava o falso profeta e o verdadeiro) — a fim de que os ouvintes não fossem enganados antes do fim, ele lhes dá um sinal que, mesmo antes do acontecimento, servia para indicar um e outro. E daqui, tomando sua ordem e princípio, ele passa também assim ao discurso acerca dos dons, e corrige igualmente a contenda que daí surgira. Por ora, contudo, começa o discurso acerca dos adivinhos, dizendo assim,
2. Ora, a respeito dos dons espirituais, irmãos, não quero que sejais ignorantes; chamando de espirituais aos sinais, porque são obras do Espírito somente, nada contribuindo o esforço humano para a operação de tais maravilhas. E, tencionando discorrer a respeito deles, primeiramente, como disse, estabelece a diferença entre a adivinhação e a profecia, dizendo assim,
Sabeis que, quando éreis gentios, éreis levados como que arrastados para aqueles ídolos mudos, da maneira como quer que fôsseis levados. Ora, o que ele quer dizer é isto: Nos templos dos ídolos, diz ele, se alguém em algum momento era possuído por um espírito imundo e começava a adivinhar, era arrastado por aquele espírito como que a ferros, tal qual alguém arrastado à força — nada sabendo das coisas que proferia. Pois isto é próprio do adivinho: estar fora de si, estar sob compulsão, ser empurrado, ser arrastado, ser conduzido como um louco. O profeta, porém, não assim; antes, com mente sóbria, temperamento composto e sabendo o que diz, profere todas as coisas. Portanto, mesmo antes do acontecimento, distingue tu por isto o adivinho do profeta. E considera como ele livra o seu discurso de toda suspeita, chamando por testemunhas os próprios que fizeram a experiência da coisa. Como se dissesse: para que não penseis que minto, nem que calunio precipitadamente a religião dos gentios, fingindo como inimigo, sede vós mesmos minhas testemunhas, sabendo, como sabeis, quando éreis gentios, como éreis então puxados e arrastados.
Mas se alguém disser que também estes são suspeitos por serem crentes, eis que até mesmo dentre os de fora vo-lo hei de manifestar. Ouvi, por exemplo, Platão dizendo assim: Até mesmo os que proferem oráculos, e os adivinhos, dizem muitas e excelentes coisas, mas nada sabem do que dizem. Ouvi ainda outro, um poeta, dando o mesmo testemunho. Pois, tendo certa pessoa, por certos ritos místicos e feitiçarias, aprisionado um demônio num homem, e adivinhando o homem, e sendo na sua adivinhação lançado por terra e dilacerado, e não podendo suportar a violência do demônio, mas estando à beira de perecer naquela convulsão, diz ele às pessoas que praticavam tais artes místicas:
Soltai-me, eu vo-lo suplico: o poderoso deus já não pode a mortal carne suster.
E ainda:
Desatai minhas grinaldas, e banhai-me os pés nas gotas da fonte pura; apagai estas linhas místicas, e deixai-me ir.
Ora, estas coisas e outras semelhantes — pois poder-se-iam mencionar muitas mais — mostram-nos ambos estes fatos que se seguem: a compulsão que sujeita os demônios e os faz escravos; e a violência à qual se submetem os que uma vez se entregaram a eles, a ponto de se desviarem até mesmo da razão natural. E também a Pitonisa (pois sou forçado agora a trazer à baila e a expor outro costume vergonhoso dos gentios, o qual seria bom passar em silêncio, porque não convém a nós mencionar tais coisas; mas para que conheçais mais claramente a sua vergonha, é necessário mencioná-lo, para que ao menos por isso venhais a conhecer a loucura e a excessiva zombaria daqueles que se servem dos adivinhos): esta mesma Pitonisa, pois, diz-se que, sendo mulher, senta-se por vezes a cavaleiro sobre o trípode de Apolo, e assim o espírito maligno, ascendendo de baixo e entrando pela parte inferior do seu corpo, enche a mulher de loucura, e ela, com os cabelos desgrenhados, começa a bacantear e a espumar pela boca, e assim, estando em frenesi, profere as palavras da sua loucura. Bem sei que vos envergonhais e corais ao ouvir estas coisas; mas eles se gloriam tanto na vergonha quanto na loucura que descrevi. Estas coisas, pois, e todas as semelhantes, trazia Paulo à memória quando dizia: Sabeis que, quando éreis gentios, éreis levados como que arrastados para aqueles ídolos mudos, da maneira como quer que fôsseis levados.
E porque discorria com aqueles que bem sabiam, não expõe tudo com cuidado exato, não querendo ser-lhes penoso, mas tendo apenas feito recordação e trazido tudo à memória deles, logo abandona o ponto, apressando-se para o assunto que tem diante de si.
Mas que quer dizer: para aqueles ídolos mudos? Estes adivinhos costumavam ser levados e arrastados até eles. Mas, se eles mesmos são mudos, como davam respostas a outros? E por que o demônio os conduzia às imagens? Como homens tomados em guerra e acorrentados, e ao mesmo tempo tornando plausível o seu engano. Assim, para impedir que os homens pensassem tratar-se apenas de pedra muda, empenhavam-se em cravar o povo aos ídolos, para que o próprio estilo e título deles fosse inscrito sobre estes. Mas os nossos ritos não são tais. Ele, porém, não expôs os nossos, refiro-me às profecias. Pois isso era bem sabido de todos eles, e a profecia era exercida entre eles, como convinha à sua condição, com entendimento e com inteira liberdade. Por isso, vede, tinham poder tanto para falar quanto para calar-se. Pois não estavam presos por necessidade, mas honrados com um privilégio. Por esta causa Jonas fugiu; por esta causa Ezequiel se demorou; por esta causa Jeremias se escusou. E Deus não os impele por compulsão, mas aconselhando, exortando, ameaçando; não obscurecendo o entendimento deles; pois causar distração, e loucura, e grande escuridão é obra própria do demônio; mas é obra de Deus iluminar e, com ponderação, ensinar as coisas necessárias.
3. Esta, pois, é a primeira diferença entre um adivinho e um profeta; mas há uma segunda e diversa, que ele em seguida expõe.
O que Paulo quer dizer é que, se alguém num templo pagão fosse em algum tempo possuído por um espírito imundo e começasse a adivinhar, era arrastado por aquele espírito como homem acorrentado, e não tinha ideia alguma do que dizia. Pois é próprio do adivinho estar fora de si, estar sob compulsão, ser empurrado, ser arrastado, ser saudado como louco. Mas o profeta não é assim, porque tem a mente sóbria e o temperamento composto, e sabe exatamente o que diz.
Quando vires, diz ele, alguém que não pronuncia o Seu nome, ou que O anatematiza, sabe que é adivinho. E quando vires outro que fala todas as coisas em Seu Nome, entende que este é espiritual. Que diremos então, perguntas tu, a respeito dos Catecúmenos? Pois, se ninguém pode dizer que Jesus é Senhor senão pelo Espírito Santo, que diremos daqueles que de fato pronunciam o Seu Nome, mas estão destituídos do Seu Espírito? Mas o seu discurso, neste momento, não versava sobre estes — pois não havia então Catecúmenos —, mas sobre crentes e incrédulos. Que diremos então, acaso nenhum demônio invoca o nome de Deus? Não diziam os endemoninhados: Sabemos quem és, o Santo de Deus? Não disseram a Paulo: estes homens são servos do Deus Altíssimo? Diziam, sim, mas sob açoite, sob constrangimento; jamais por vontade própria e sem serem açoitados.
Mas aqui convém indagar tanto por que o demônio proferia estas coisas quanto por que Paulo o repreendeu. Em imitação de seu Mestre; pois assim também Cristo repreendia, já que não era Sua vontade receber testemunho da parte deles. E por que também o diabo praticava isto? Com a intenção de confundir a ordem das coisas, de usurpar a dignidade dos Apóstolos, e de persuadir a muitos a prestarem atenção a eles — o que, se sucedesse, facilmente os teria feito parecer dignos de crédito, e introduziria assim os seus próprios desígnios. Para que, pois, estas coisas não se dessem, e o engano não tivesse princípio, ele lhes tapa a boca mesmo quando diziam a verdade, para que os homens, em suas falsidades, de modo algum lhes dessem ouvidos, mas antes fechassem inteiramente os ouvidos às coisas por eles ditas.
4. Havendo, portanto, manifestado os adivinhos e os profetas tanto pelo primeiro sinal quanto pelo segundo, ele passa em seguida a discorrer sobre as maravilhas; não transitando sem razão a este tópico, mas de modo a remover a dissensão que daí havia surgido, e a persuadir tanto os que tinham a porção menor a não se afligirem quanto os que tinham a maior a não se ensoberbecerem. Por isso também assim começou.
Se ninguém pode dizer que Jesus é Senhor senão pelo Espírito, que poderemos dizer daqueles que de fato pronunciam o seu nome, mas não possuem o Espírito? Aqui é preciso entender que Paulo não falava dos catecúmenos que ainda não haviam sido batizados, mas dos crentes e dos incrédulos.
E primeiramente ele se volta para aquele que recebera o dom menor, e que por isso se afligia. Pois, diz ele, por que estás abatido? Porque não recebeste tanto quanto outro? Considera, todavia, que se trata de um dom gratuito e não de uma dívida, e poderás assim aplacar a tua dor. Por esta razão falou assim logo no princípio: há diversidades de dons. E não disse de sinais, nem de maravilhas, mas de dons, prevalecendo sobre eles pelo nome de dons gratuitos, não apenas para que não se afligissem, mas até para que fossem gratos. E considera ainda isto, diz ele: que ainda que sejas feito inferior na medida do que se te deu, pelo fato de te haver sido concedido receber da mesma fonte que o outro que recebeu mais, tens igual honra. Pois certamente não podes dizer que o Espírito concedeu o dom a ele, e um anjo a ti, já que o Espírito o concedeu tanto a ti quanto a ele. Por isso acrescentou: mas o mesmo Espírito. De modo que, ainda que haja diferença no dom, não há, contudo, diferença no Doador. Pois da mesma Fonte bebeis, tanto tu quanto ele.
Ainda que o dom que te foi concedido seja menor do que o dom concedido a outrem, o Doador é o mesmo, e por isso tens igual honra com ele. É a mesma Fonte da qual ambos bebeis o refrigério.
Assim, enriquecendo a consolação, acrescenta ele também a menção do Filho, e do Pai. E de novo, designa estes dons por outro nome, visando com isto também a um aumento da consolação. Por isso também assim disse: há diversidades de ministérios, mas o mesmo Senhor. Pois aquele que ouve falar de um dom, e recebeu quinhão menor, talvez se entristeça; mas quando falamos de ministério, o caso é diverso, pois a coisa implica labor e suor. Por que te entristeces, então, diz ele, se ele ordenou a outro que labutasse mais, poupando-te a ti?
Aquele que ouve falar dos dons poderia perturbar-se se outrem possuísse um maior. Mas quando se trata de serviço, as coisas se invertem. Neste caso, implicam-se labor e suor. Por que te queixas se a outros foi dado fazer mais, a fim de que fosses poupado? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Dons, serviço e operação, tudo isto se reduz, ao fim, à mesma coisa, pois são formas diversas do mesmo ministério.
E que é, diz alguém, uma operação? e que é um dom? e que é um ministério? São apenas diferenças de nomes, pois as coisas são as mesmas. Pois o que é um dom, isso mesmo é um ministério, e isso também ele chama de operação. Assim, cumpre o teu ministério (2 Tm 4,5); ministério, e: engrandeço o meu ministério (Rm 11,13); ofício; e escrevendo a Timóteo, diz: Por isso te lembro que reavives o dom de Deus que há em ti (2 Tm 1,6). E de novo, escrevendo aos Gálatas, disse: pois aquele que operou em Pedro para o apostolado, o mesmo operou poderosamente em mim para com os gentios (Gl 2,8). Vedes que ele dá a entender que não há diferença entre os dons do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Não confundindo as Pessoas — longe disso! — mas declarando a igual honra da Essência. Pois aquilo que o Espírito concede, isso mesmo diz que Deus também opera; e isso mesmo, que o Filho igualmente ordena e outorga. Ora, se um fosse inferior ao outro, ou este àquele, não o teria assim exposto, nem teria sido este o seu modo de consolar quem estava perturbado.
5. Ora, depois disso, ele o consola também de outra maneira: pela consideração de que a medida concedida lhe é proveitosa, ainda que não seja tão ampla. Pois, tendo dito que é o mesmo Espírito, e o mesmo Senhor, e o mesmo Deus, e tendo por isso reconfortado o ouvinte, traz de novo outra consolação, dizendo assim: mas a cada um é dada a manifestação do Espírito para o que é útil. Pois, para que ninguém dissesse: e daí que seja o mesmo Senhor, o mesmo Espírito, o mesmo Deus? Eu, contudo, recebi menos — ele diz que assim mesmo era proveitoso.
Ora, chama aos milagres uma manifestação do Espírito, com razão evidente. Pois para mim, que sou crente, aquele que tem o Espírito se manifesta pelo fato de ter sido batizado; mas ao incrédulo isto de modo algum se manifestará, senão pelos milagres: de sorte que também daqui, novamente, provém não pequena consolação. Pois, ainda que haja diferença de dons, a evidência, contudo, é uma só: pois quer tenhas muito, quer pouco, és igualmente manifesto. De modo que, se desejas mostrar isto, que tens o Espírito, tens demonstração suficiente.
Portanto, agora que tanto o Doador é um só, quanto a coisa dada é pura benevolência, e por meio dela se dá a manifestação, e isto te é mais proveitoso — não te aflijas como se fosses desprezado. Pois não foi para te desonrar que Deus o fez, nem para te declarar inferior a outro, mas para te poupar e tendo em vista o teu bem. Receber mais do que se tem capacidade de suportar — isto, antes, é improveitoso, e prejudicial, e justa causa de abatimento.
Qualquer que seja a medida do Espírito que te foi dada, é para o teu proveito, de sorte que não há razão para te queixares do que parece ser um dom pequeno.
Vede como em toda parte ele faz este acréscimo, dizendo, através do mesmo Espírito, e segundo o mesmo Espírito? Pois sabia que a partir daí a consolação era grande.
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Os coríntios se vangloriavam de falar em línguas, razão pela qual Paulo o colocou por último em sua lista.
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Assim, posto que se gloriavam nisto, por isso ele o colocou por último.
O remédio universal de sua consolação procede da mesma raiz, do mesmo tesouro, da mesma corrente. Por isso Paulo se detém por vezes nesta expressão, a fim de nivelar as aparentes desigualdades e consolá-los.
O remédio universal em que consiste a sua consolação é que todos recebem de uma mesma raiz, de um mesmo tesouro, de umas mesmas correntes. E por isso, detendo-se repetidas vezes nesta expressão, ele nivela a desigualdade aparente e os consola. E acima, na verdade, ele aponta tanto o Espírito quanto o Filho e o Pai como aqueles que concedem os dons; mas aqui contentou-se em mencionar apenas o Espírito, para que também por isso possais compreender que a dignidade Deles é a mesma.
Mas que é a palavra de sabedoria? Aquela que Paulo tinha, que João tinha, o filho do trovão.
E que é a palavra de conhecimento? Aquela que a maioria dos fiéis possuía, tendo, de fato, conhecimento, mas não sendo por isso capaz de ensinar, nem de transmiti-lo facilmente a outrem.
E a outro, fé: não entendendo por esta fé a fé das doutrinas, mas a fé dos milagres; a respeito da qual diz Cristo: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Remove-te, e ele se removerá (Mt 17:20). E também os Apóstolos, a respeito desta, Lhe suplicaram, dizendo: Aumenta-nos a fé (Lc 17:5); pois esta é a mãe dos milagres. Mas possuir o poder de operar milagres e os dons de curas não é a mesma coisa: pois aquele que tinha o dom de cura costumava apenas realizar curas; ao passo que aquele que possuía os poderes para operar milagres costumava também castigar. Pois o milagre não consiste apenas em curar, mas também em castigar: assim como Paulo infligiu cegueira; assim como Pedro matou.
A outro, profecias; e a outro, discernimento de espíritos. Que é o discernimento de espíritos? É saber quem é espiritual e quem não é; quem é profeta e quem é enganador: como disse aos tessalonicenses: não desprezeis as profecias (1 Ts 5:20-21), mas examinai tudo, retende o que é bom. Pois grande era, naquele tempo, o ímpeto dos falsos profetas, esforçando-se o diabo, sub-repticiamente, por substituir a verdade pela falsidade. A outro, diversos gêneros de línguas; a outro, a interpretação das línguas. Pois um sabia o que ele mesmo dizia, mas não era capaz de interpretá-lo a outrem; enquanto outro havia adquirido ambos os dons, ou um dos dois. Ora, este parecia ser um grande dom, porque tanto os Apóstolos o receberam primeiro, quanto a maioria entre os coríntios o havia obtido. Mas não assim a palavra do ensino. Por isso, aquela ele coloca em primeiro lugar, mas esta em último; pois esta era em vista daquela, e assim eram, de fato, todas as demais: tanto as profecias, quanto a operação de milagres, e os diversos gêneros de línguas, e a interpretação das línguas. Pois nenhuma é igual a esta. Por isso também disse: Os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dobrada honra, especialmente os que trabalham na palavra e no ensino (1 Tm 5:17). E a Timóteo escreveu, dizendo: Aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino; não negligencies o dom que há em ti (1 Tm 4:13-14). Vedes como ele o chama também de dom?
6. A seguir, a consolação que antes deu, quando disse o mesmo Espírito, também aqui novamente ele a coloca diante de nós, dizendo: Mas todas estas obras opera um só e o mesmo Espírito, repartindo particularmente a cada um assim como quer. E ele não apenas dá consolação, mas também tapa a boca do contraditor, dizendo aqui: repartindo particularmente a cada um assim como quer. Pois era necessário também atar, não apenas curar, como faz também na Epístola aos Romanos, quando diz: Mas quem és tu, que replicas contra Deus? (Rm 9:20). Assim também aqui: repartindo particularmente a cada um assim como quer.
Vede que aquilo que era próprio do Pai, isto ele o significa ser também próprio do Espírito. Pois, assim como acerca do Pai diz: mas é o mesmo Deus que opera todas as coisas em todos; assim também acerca do Espírito: mas todas estas coisas opera um só e o mesmo Espírito. Mas, dir-se-á, Ele o faz, sendo movido por Deus. Não, ele em nenhum lugar disse isto, mas tu o forjas. Pois quando diz, que opera todas as coisas em todos, ele diz isto acerca dos homens; dificilmente dirás que entre esses homens ele numera também o Espírito, por mais multiforme que sejas em teu delírio e loucura. Pois porque tinha dito através do Espírito, para que não suponhas que esta palavra, através, denote inferioridade ou o ser movido, ele acrescenta que o Espírito opera, não é operado, e opera como quer, não como lhe é ordenado. Pois assim como acerca do Pai, o Filho diz que Ele ressuscita os mortos e vivifica; do mesmo modo também acerca de Si mesmo, que Ele vivifica a quem quer (Jo 5:21); assim também do Espírito, em outro lugar, que Ele faz todas as coisas com autoridade e que não há nada que O impeça (pois a expressão, sopra onde quer [Jo 3:8], ainda que dita do vento, é apta a estabelecer isto); mas aqui, que Ele opera todas as coisas como quer. E de outro lugar aprender que Ele não é uma das coisas que são movidas, mas uma das que movem. Pois quem conhece, diz ele, as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? Do mesmo modo, as coisas de Deus ninguém as conhece senão o Espírito de Deus (1 Cor 2:11). Ora, que o espírito do homem, isto é, a alma, não necessita ser movida para que conheça as coisas de si mesma, é, suponho, evidente para todos. Portanto, tampouco o Espírito Santo, para que conheça as coisas de Deus. Pois o sentido é este: as coisas secretas de Deus são conhecidas pelo Espírito Santo assim como pela alma do homem as coisas secretas de si mesma. Mas se esta não é movida para tal fim, muito menos Aquele que conhece as profundezas de Deus e não necessita de nenhuma moção para tal conhecimento requereria alguma Potência que O movesse para dar dons aos Apóstolos.
Mas além destas coisas, aquilo também de que antes falei, mencionarei novamente agora. Que é, pois, isto? Que, se o Espírito fosse inferior e de outra substância, não haveria proveito algum em sua consolação, nem em ouvirmos as palavras, do mesmo Espírito. Pois aquele que recebeu do rei, concedo, pode achar bastante consolador que ele mesmo lhe tenha dado; mas se é do escravo, ele fica então antes irritado, quando alguém o repreende com isso. De modo que também por isto é evidente que o Espírito Santo não é da substância do servo, mas do Rei.
7. Por isso, assim como ele os consolou, quando disse que há diversidades de ministérios, mas o mesmo Senhor; e diversidades de operações, mas o mesmo Deus; assim também quando disse acima, há diversidades de dons, mas o mesmo Espírito; e depois disto novamente quando disse: Mas todas estas coisas opera um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada um particularmente como Ele quer.
Não fiquemos, peço-vos, perplexos, diz ele; nem nos aflijamos, dizendo: "Por que recebi isto e não recebi aquilo?"; nem exijamos contas do Espírito Santo. Pois, se sabes que Ele os concedeu por cuidado providencial, considera que dessa mesma providência Ele deu também a medida deles, e contenta-te e alegra-te no que recebeste; mas não murmures pelo que não recebeste; antes, reconhece o favor de Deus por não teres recebido coisas além de tua capacidade.
5. E se nas coisas espirituais não convém ser demasiadamente curioso, muito mais nas coisas temporais; antes, cumpre estar quieto e não perquirir sutilmente por que um é rico e outro pobre. Pois, antes de tudo, nem todo rico o é por Deus, mas muitos o são até por iniquidade, rapina e avareza. Pois aquele que proibiu ser rico, como poderia ter concedido aquilo que proibiu receber?
Mas, para que eu, muito além do que o caso exige, feche a boca dos que a este respeito nos contradizem, vinde, elevemos nosso discurso mais alto, ao tempo em que as riquezas costumavam ser dadas por Deus; e respondei-me. Por que era Abraão rico, ao passo que Jacó carecia até de pão? Não eram ambos, um e outro, justos? Não diz Ele, a respeito dos três igualmente: Eu sou o Deus de Abraão, e de Isaque, e de Jacó? (Êx 3:6). Por que, então, era um rico, e o outro um servo assalariado? Ou antes, por que era rico Esaú, que era ímpio e assassino de seu irmão, enquanto Jacó esteve em servidão por tão longo tempo? Por que, ainda, viveu Isaque em conforto todos os seus dias, e Jacó em labores e misérias? Por cuja causa disse também: Poucos e maus são os dias da minha vida (Gn 47:9).
Por que viveu Davi, que foi profeta e rei ao mesmo tempo, também ele, em labores durante todo o seu tempo? Ao passo que Salomão, seu filho, passou quarenta anos em segurança acima de todos os homens, no gozo de profunda paz, glória e honra, percorrendo toda sorte de delícias? Qual poderia ser, ainda, a razão de que, entre os próprios profetas, um fosse mais aflito, e outro menos? Porque assim convinha a cada um. Por isso, a respeito de cada um, deve ser nosso comentário: Os teus juízos são um grande abismo (Sl 36:6). Pois, se aqueles homens grandes e admiráveis não foram exercitados por Deus de modo igual, mas um pela pobreza, e outro pela riqueza; um pelo conforto, e outro pela tribulação; muito mais devemos nós agora trazer estas coisas à memória.
8. Mas, além disso, convém considerar também que muitas das coisas que acontecem não se dão segundo a Sua vontade, mas provêm da nossa maldade. Não digas, pois: Por que é rico um homem ímpio, e pobre outro que é justo? Pois, antes de tudo, também disso se pode dar razão, e dizer que o justo nenhum dano recebe de sua pobreza, antes, um acréscimo ainda maior de honra; e que o mau, em suas riquezas, possui apenas um tesouro de castigo para o seu caminho futuro, a menos que se converta; e que, mesmo antes do castigo, muitas vezes as suas riquezas se lhe tornam causa de inúmeros males, e o conduzem a dez mil ciladas. Mas Deus o permite, ao mesmo tempo para significar o livre-arbítrio da vontade, e também para ensinar a todos os demais a não enlouquecer nem delirar por dinheiro.
Como se dá, então, quando um homem sendo ímpio é rico, e nada de terrível padece? perguntais. Ora, se sendo bom possui riquezas, possui-as justamente; mas se é mau, que diremos? Que ainda nisso é ele digno de compaixão. Pois a riqueza acrescentada à maldade agrava o mal. Mas é ele homem bom, e pobre? Ainda assim em nada é prejudicado. É ele então homem mau, e pobre? Isto lhe sucede tão justamente e por mérito, ou antes até com proveito para si mesmo. Mas tal homem, dizeis, recebeu as riquezas de seus antepassados e as dissipa com meretrizes e parasitas, e nenhum mal padece. Que dizeis? Comete ele fornicação, e dizeis que nenhum mal padece? É ele ébrio, e cuidais que está em delícias? Gasta ele sem proveito algum, e julgais que é de invejar? Ora, que pode haver pior do que esta riqueza que destrói a própria alma? Mas vós, se o corpo estivesse distorcido e mutilado, diríeis que era caso de grande lamentação; e vedes toda a sua alma mutilada, e ainda o considerais feliz? Mas ele não o percebe, dizeis. Pois bem, precisamente por isso é ele ainda mais digno de compaixão, como todos os que estão fora de si. Pois aquele que sabe que está enfermo há de, por certo, buscar o médico e submeter-se aos remédios; mas aquele que o ignora não terá chance alguma de libertação. Chamais tal homem de feliz, dizei-me?
Mas não é de admirar: pois a maior parte ignora o verdadeiro amor à sabedoria. Por isso sofremos a mais extrema pena, sendo castigados e nem sequer nos apartando do castigo. Por esta causa há iras, abatimentos e tumultos contínuos; porque, tendo Deus nos mostrado uma vida sem tristeza, a vida da virtude, deixamos esta e traçamos outro caminho, o caminho das riquezas e do dinheiro, cheio de males infinitos. E fazemos o mesmo que faria alguém que, não sabendo discernir a beleza dos corpos dos homens, mas atribuindo tudo às vestes e aos ornamentos que trazem, ao ver uma mulher formosa e dotada de beleza natural, passasse rapidamente por ela, mas, ao contemplar uma feia, disforme e deformada, porém vestida de belos trajes, a tomasse por esposa. Assim também, de algum modo semelhante, é afetada a multidão a respeito da virtude e do vício. Acolhem aquela que é deformada por natureza por causa de seus ornamentos exteriores, mas se apartam daquela que é bela e amável por causa de sua beleza não adornada, pela qual razão deveriam sobretudo escolhê-la.
9. Portanto, envergonho-me de que, entre os gentios insensatos, haja alguns que praticam esta filosofia, se não em obras, ao menos quanto ao juízo, e que conhecem a natureza perecível das coisas presentes; ao passo que, entre nós, alguns nem sequer compreendem estas coisas, mas têm o próprio juízo corrompido; e isto embora a Escritura ressoe sem cessar em nossos ouvidos, dizendo: Aos seus olhos é desprezado o réprobo, mas honra os que temem ao Senhor (Sl 15,4); o temor do Senhor excede a tudo; teme a Deus e guarda os Seus mandamentos, pois nisto consiste todo o homem (Ec 12,13); não tenhas inveja dos maus (Sl 49,16); toda carne é erva, e toda a glória do homem como a flor da erva (Is 40,7). Pois, ainda que ouçamos estas e outras semelhantes coisas todos os dias, permanecemos, contudo, pregados à terra. E assim como as crianças ignorantes, que aprendem continuamente as suas letras, se são interrogadas sobre a ordem delas quando estão desarranjadas, nomeando uma em lugar de outra, provocam muito riso; assim também vós, quando aqui as recitamos em ordem, nos seguis de algum modo; mas quando vos perguntamos fora daqui, sem ordem estabelecida, o que devemos antepor e o que depor entre as coisas, e qual depois de qual, não sabendo responder, vos tornais ridículos. Não é, dizei-me, motivo de grande riso que aqueles que esperam a imortalidade e os bens que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração do homem, se afadiguem por coisas que aqui se demoram e as tenham por invejáveis? Pois, se ainda tendes necessidade de aprender que as riquezas não são coisa grande, que as coisas presentes são sombra e sonho, que se dissolvem e voam como fumaça, permanecei, por ora, fora do santuário; ficai no vestíbulo, já que ainda não sois dignos de entrar nos átrios do palácio lá do alto. Pois, se não sabeis discernir a natureza delas, que é instável e está continuamente passando, quando sereis capazes de desprezá-las?
Mas, se dizeis que o sabeis, cessai de indagar curiosamente e de vos ocupardes com qual seja a razão pela qual este é rico e aquele é pobre; pois fazeis o mesmo quando propondes tais perguntas, como se andásseis a perguntar por que um é belo e outro moreno, ou um tem nariz aquilino e outro, nariz achatado. Pois, assim como estas coisas em nada nos importam, seja como for, assim tampouco a pobreza ou a riqueza, e ainda menos que elas. Mas tudo depende do modo como delas usamos. Se és pobre, podes viver alegremente, renunciando a ti mesmo; se rico, és o mais miserável de todos os homens, se foges da virtude. Pois estas são as coisas que verdadeiramente nos importam, as coisas da virtude. E se estas não se acrescentarem, o restante é inútil. Por esta razão também surgem essas incessantes perguntas, porque a maioria julga que as coisas indiferentes lhes são importantes, mas das coisas importantes não fazem nenhuma conta, visto que o que nos importa é a virtude e o amor da sabedoria.
Porque então estais não sei onde, a alguma distância remota dela, por isso há confusão de pensamentos, por isso as muitas ondas, por isso a tempestade. Pois quando os homens caem da glória celestial e do amor do céu, desejam a glória presente e tornam-se escravos e cativos. E como se dá que desejemos isto, perguntais? Do não desejarmos grandemente aquilo. E isto mesmo, donde provém? Da negligência. E donde a negligência? Do desprezo. E donde o desprezo? Da insensatez e do apego às coisas presentes e da relutância em investigar acuradamente a natureza das coisas. E donde, por sua vez, provém isto último? De não atendermos à leitura da Escritura, nem conversarmos com homens santos, e de seguirmos as assembleias dos ímpios.
Para que, pois, isto não seja sempre assim, e para que onda sobre onda, ao nos receber, não nos leve para o alto-mar das misérias e de todo nos afogue e destrua, enquanto há tempo, sustentemo-nos e, firmados sobre a rocha — refiro-me à das doutrinas e palavras divinas —, contemplemos do alto o marulho desta vida presente. Pois assim tanto escaparemos nós mesmos dele, quanto, tendo içado a outros que naufragavam, obteremos os bens que hão de vir, pela graça e misericórdia, etc.
Paulo fala de Cristo quando talvez pudesse muito bem ter dito a igreja. Ao fazê-lo, eleva o nível do discurso e apela cada vez mais ao senso de reverência dos ouvintes.
Depois de acalmá-los mediante as considerações de que a dádiva outorgada procedia de favor gratuito; de que tudo receberam de um só e mesmíssimo Espírito; de que foi dada para que se lucrasse com ela, de modo que ainda pelos dons menores se fizesse uma manifestação; e tendo, além disso, fechado-lhes a boca quanto ao dever de se submeterem à autoridade do Espírito (pois todas estas coisas, diz ele, opera um só e mesmíssimo Espírito, distribuindo a cada um em particular assim como Ele quer; por onde não é lícito ser demasiado curioso): ele passa agora a acalmá-los de igual modo mediante outro exemplo comum, e recorre à própria natureza, como era seu costume fazer.
Pois quando discorria acerca do cabelo dos homens e das mulheres, depois de tudo o mais, tirou dali também matéria para corrigi-los, dizendo: Não vos ensina a própria natureza que, se o homem tem cabelo comprido, isso lhe é desonra? Mas se a mulher tem cabelo comprido, isso lhe é glória? (1 Cor 11:14-15) E quando falava a respeito dos sacrifícios aos ídolos, proibindo tocá-los, extraiu um argumento também dos exemplos dos que estão de fora, tanto fazendo menção dos jogos olímpicos, onde diz, os que correm no estádio, todos, em verdade, correm, mas um só recebe o prêmio (1 Cor 9:24), como confirmando estas considerações a partir de pastores, soldados e lavradores. Por onde traz à tona também aqui um exemplo comum, com o qual insiste e combate arduamente para provar que ninguém foi de fato posto em condição pior — coisa que era maravilhosa e surpreendente poder demonstrar, e apta a reconfortar os mais fracos —, refiro-me ao exemplo do corpo. Pois nada de tal modo consola o de espírito pequeno e de dons inferiores, nem de tal modo o persuade a não se entristecer, quanto o convencer-se de que não foi deixado com menos que sua parte. Por onde também Paulo, elaborando este ponto, assim se exprime: Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros.
Vedes sua exata consideração? Ele aponta que a mesma coisa é ao mesmo tempo uma e muitas. Por onde também acrescenta, pressionando o ponto com mais vigor: E todos os membros do corpo, sendo um só, sendo muitos, são um só corpo. Não disse: sendo muitos, são de um só corpo, mas que o próprio corpo, um só, é muitos; e esses muitos membros são esta única coisa. Se, portanto, o uno é muitos, e os muitos são um, onde está a diferença? Onde a superioridade? Onde a desvantagem? Pois todos, diz ele, são um; e não simplesmente um, mas, considerados rigorosamente quanto àquilo mesmo que é principal — isto é, o seu ser um corpo —, encontram-se todos sendo um; mas quando considerados quanto às naturezas particulares, então a diferença se manifesta, e a diferença está em todos igualmente. Pois nenhum deles, por si só, pode fazer um corpo, mas cada um é igualmente deficiente para fazer um corpo, e há necessidade de um concurso conjunto, pois quando os muitos se tornam um, então, e não antes, há um corpo. Por onde também, insinuando veladamente esta mesma coisa, disse: E todos os membros do corpo, sendo um só, sendo muitos, são um só corpo. E não disse: os superiores e os inferiores, mas sendo muitos, o que é comum a todos.
E como é possível que sejam um? Quando, deixando de lado a diferença dos membros, consideras o corpo. Pois a mesma coisa que é o olho, esta mesma coisa é também o pé, no que respeita ao seu ser membro e constituir um corpo. Pois não há diferença nisto. Nem podes dizer que um dos membros faz um corpo por si mesmo, mas outro não. Pois todos são iguais nisto, pela própria razão de que todos são um só corpo.
Como o corpo e a cabeça são um só homem, assim disse ele que a Igreja e Cristo são um. Por isso ele pôs Cristo em lugar da Igreja, dando este nome ao Seu corpo. Assim, diz ele, como o nosso corpo é uma coisa só, embora composto de muitos membros, assim também na Igreja somos todos uma coisa só. Pois, embora a Igreja seja composta de muitos membros, contudo estes muitos formam um só corpo.
2. Tendo assim, como vedes, restaurado e reerguido por este exemplo comum aquele que se julgava depreciado, deixa ele novamente o tópico da experiência comum e passa a outro, de ordem espiritual, trazendo maior consolação e indicativo de grande igualdade de honra. Qual é, pois, este?
Ora, o sentido é este: aquilo que nos constituiu em um só corpo e nos regenerou é um só Espírito; pois não foi em um Espírito que um foi batizado, e em outro, outro. E não somente é uno aquilo que nos batizou, mas também é uno aquilo em que Ele nos batizou, isto é, aquilo para o qual nos batizou. Pois fomos batizados não para que se formassem tantos corpos diversos, mas para que todos preservássemos uns com os outros a natureza perfeita de um só corpo; isto é, para que todos fôssemos um só corpo, em um só fomos batizados.
De modo que é uno tanto Aquele que o formou quanto aquilo em que o formou. E não disse ele que todos viéssemos a ser do mesmo corpo, mas que todos fôssemos um só corpo. Pois ele sempre se esforça por usar as expressões mais expressivas. E bem disse ele "todos nós", acrescentando também a si mesmo. Pois nem mesmo eu, o Apóstolo, tenho neste ponto algo mais do que tu, diz ele. Pois tu és o corpo assim como eu, e eu assim como tu, e todos temos a mesma Cabeça e passamos pelas mesmas dores do nascimento. Por isso somos também o mesmo corpo. E por que falo eu, diz ele, dos judeus? Visto que até mesmo os gentios, que estavam tão distantes de nós, Ele trouxe para a inteireza de um só corpo. Por isso, tendo dito "todos nós", não parou aí, mas acrescentou: "quer judeus quer gregos, quer escravos quer livres". Ora, se, estando antes tão distantes, fomos unidos e nos tornamos um, muito mais depois que nos tornamos um não podemos ter razão para nos entristecer e nos abater. Sim, a diferença, de fato, não tem lugar. Pois se a gregos e judeus, a escravos e livres, Ele concedeu as mesmas bênçãos, como pode ser que, tendo assim concedido, Ele os divida, agora que outorgou uma perfeição maior de unidade mediante a provisão de seus dons?
E todos fomos feitos beber de um só Espírito.
Uno é aquele que formou o corpo, e uno é também o corpo que Ele formou.
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Isto é: chegamos à mesma iniciação, desfrutamos da mesma Mesa. E por que não disse ele que somos nutridos pelo mesmo corpo e bebemos o mesmo sangue? Porque, ao dizer "Espírito", declarou ambos, tanto a carne quanto o sangue. Pois por ambos somos feitos beber do Espírito.
Mas a mim parece que ele fala agora daquela visitação do Espírito que se realiza em nós depois do Batismo e antes dos Mistérios. E disse "fomos feitos beber" porque esta linguagem metafórica lhe convinha extremamente bem ao assunto proposto: como se tivesse dito, a respeito das plantas e de um jardim, que pela mesma fonte todas as árvores são regadas, ou pela mesma água; assim também aqui, todos bebemos o mesmo Espírito, desfrutamos da mesma graça, diz ele.
Se, pois, um só Espírito tanto nos formou quanto a todos nos reuniu em um só corpo — pois este é o sentido de "fomos batizados em um só corpo" — e nos concedeu uma só mesa, e a todos nos deu a mesma rega (pois este é o sentido de "fomos feitos beber em um só Espírito"), e uniu pessoas tão amplamente separadas; e se muitas coisas se tornam um corpo quando se fazem uma: por que, pergunto, ficais continuamente a lançar mão de suas diferenças? Mas se dizes: "Porque há muitos membros e diversos", sabe que isto mesmo é a maravilha e a excelência peculiar do corpo, quando as coisas que são muitas e diversas se fazem uma. Pois se não fossem muitas, não seria tão maravilhoso e incrível que fossem um só corpo; antes, nem sequer seriam corpo algum.
3. Isto, porém, ele expõe por último; mas por ora passa aos próprios membros.
Observa que Paulo associa o pé à mão, que está pouco acima dele, e do mesmo modo o ouvido ao olho. E isso porque somos propensos a invejar não aos que estão muito acima de nós, mas somente aos que estão um pouco acima.
Pois se, sendo um feito inferior e outro superior, isso não permitisse que ambos fossem do corpo, o todo se desfaria. Não digas, portanto: não sou do corpo, porque sou inferior. Pois também o pé ocupa o posto inferior, e contudo é do corpo: porquanto o ser ou não ser parte do corpo não provém de estar um posto neste lugar e outro naquele (o que constitui a diferença de posição), mas de estarem conjuntos ou separados. Pois o ser ou não ser corpo advém de terem sido feitos um só, ou não. Mas observa, peço-te, sua maneira ponderada de proceder, como aplica as palavras deles aos nossos membros. Pois assim como disse acima: Isso transferi em figura a mim mesmo e a Apolo (1 Cor 4:6), assim também aqui, para tornar seu argumento livre de invídia e aceitável, introduz os membros falando: de modo que, ao ouvirem a natureza responder-lhes, sendo assim convencidos pela própria experiência e pela voz geral, nada mais tenham a opor. Pois dize, se quiseres, isto mesmo, murmura quanto quiseres, não podes estar fora do corpo. Pois assim como a lei da natureza, muito mais o poder da graça guarda todas as coisas e as preserva íntegras. E vede como manteve a regra de nada ter de supérfluo; não desenvolvendo seu argumento sobre todos os membros, mas apenas sobre dois, e estes os extremos; tendo especificado tanto o mais honroso de todos, o olho, quanto o mais humilde de todos, os pés. E não faz o pé discorrer com o olho, mas com a mão, que está montada um pouco acima dele; e o ouvido com os olhos. Pois, porque costumamos invejar não aos que estão muito acima de nós, mas aos que estão um pouco mais elevados, por isso ele também conduz assim sua comparação.
Assim, tendo incorrido na diferença dos membros, e tendo mencionado pés, mãos, olhos e ouvidos, ele os conduziu à consideração de sua própria inferioridade e superioridade: vede como novamente os consola, insinuando que assim convinha; e que serem muitos e diversos é precisamente o que os faz ser um corpo. Mas se todos fossem um só, não seriam corpo. Por isso, diz ele: Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Isso, porém, ele só menciona depois; mas aqui aponta também algo mais: que, além da impossibilidade de que algum deles sozinho fosse corpo, isso ainda tiraria a existência dos demais.
Pois se todo o corpo fosse audição, onde estaria o olfato, diz ele.
4. Depois, porque, afinal de contas, ainda estavam perturbados, o que fizera acima, o mesmo faz também agora. Pois, assim como ali primeiro alegou a conveniência para consolá-los e depois lhes fechou a boca, dizendo com veemência: Mas todas essas coisas opera um só e o mesmo Espírito, repartindo particularmente a cada um como Ele quer; assim também aqui, tendo exposto as razões pelas quais mostrou que era proveitoso que todos fossem assim, remete de novo o todo ao conselho de Deus.
Assim como disse do Espírito, como Ele quer, assim também aqui, como Lhe aprouve. Ora, não busques mais adiante a causa de ser assim e não de outro modo. Pois ainda que tivéssemos dez mil razões a dar, não seríamos capazes de mostrar tão bem que está bem feito quanto quando dizemos que, como aprouve ao melhor Artífice, assim se fez. Pois, como é conveniente, assim Ele quer. Ora, se neste nosso corpo não perquirimos curiosamente acerca dos membros, muito mais na Igreja. E vede sua ponderação em que não expõe a diferença que provém da natureza deles, nem a que vem de sua operação, mas a que vem de sua situação local. Pois agora, diz ele, Deus colocou os membros, cada um deles, no corpo, como Lhe aprouve. E disse bem: cada um, apontando que o uso se estende a todos. Pois não podes dizer: este Ele mesmo colocou, mas não aquele; antes, cada um segundo Sua vontade está assim situado. De modo que também ao pé é proveitoso que esteja assim posicionado, e não apenas à cabeça: e se invertesse a ordem e, deixando seu próprio lugar, fosse a outro, ainda que parecesse ter melhorado sua condição, seria a desfeita e ruína do todo. Pois tanto cai do seu próprio posto quanto não alcança o outro.
Deus colocou cada parte do corpo onde Lhe aprouve escolher; por isso não devemos perquirir mais além acerca do motivo de tê-lo feito do modo como o fez. Pois ainda que pudéssemos apresentar dez mil explicações, jamais encontraríamos uma melhor do que esta: que aprouve ao Criador fazê-lo do modo que escolheu.
5. E se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Mas agora são muitos os membros, e um só o corpo.
Tendo assim, pela disposição do próprio Deus, silenciado suficientemente, ele novamente apresenta razões. E não faz isto sempre, nem aquilo sempre, mas alterna e varia o seu discurso. Porquanto, por um lado, aquele que apenas silencia confunde o ouvinte, e, por outro lado, aquele que o acostuma a exigir razões para todas as coisas prejudica-o na questão da fé; por esta causa, pois, Paulo pratica continuamente tanto uma coisa quanto a outra, para que eles tanto creiam quanto não se confundam; e, depois de os silenciar, ele novamente também apresenta uma razão. E notai o seu zelo no combate e a inteireza da sua vitória. Pois, precisamente a partir daquilo em que supunham ser desiguais em honra — porque neles havia grande diversidade —, precisamente a partir disso ele mostra que, por esta mesma razão, são iguais em honra. Como, eu o direi.
Se todos fossem um só membro, diz ele, onde estaria o corpo?
Ora, o que ele quer dizer é isto: se não houvesse entre vós grande diversidade, não poderíeis ser um corpo; e não sendo corpo, não poderíeis ser um só; e não sendo um só, não poderíeis ser iguais em honra. Donde se segue, por sua vez, que se todos fósseis iguais em honra, não seríeis um corpo; e não sendo corpo, não seríeis um só; e não sendo um só, como poderíeis ser iguais em honra? Mas, como estão as coisas, porque nem todos sois dotados de um só e mesmo dom, por isso sois um corpo; e, sendo corpo, sois todos um só, e em nada diferis uns dos outros nisto, a saber, que sois um corpo. De sorte que esta mesma diferença é o que principalmente causa a vossa igualdade em honra. E, por conseguinte, ele acrescenta: Mas agora são muitos os membros, e um só o corpo.
Que também nós, pois, meditemos nestas coisas e lancemos fora toda inveja, sem murmurarmos contra os que possuem dons maiores, nem desprezarmos os que possuem os menores. Pois assim o quis Deus; não nos oponhamos, portanto, a nós mesmos. Mas se ainda assim te perturbas, considera que a tua obra é, muitas vezes, tal que teu irmão não é capaz de realizá-la. De modo que, ainda que sejas inferior, nisto tens a vantagem; e, ainda que ele seja maior, neste ponto ele está em pior condição; e assim se estabelece a igualdade. Pois no corpo, até os pequenos membros parecem contribuir não pouco, e os próprios membros grandes são, muitas vezes, prejudicados por eles — quero dizer, pela sua remoção. Assim, que há no corpo mais insignificante que o cabelo? E, no entanto, se o removeres — por mais insignificante que seja — das sobrancelhas e das pálpebras, terás destruído toda a graça do rosto, e o olho já não parecerá igualmente belo. E, contudo, a perda é de coisa ínfima; mas, não obstante, ainda assim toda a formosura se destrói. E não somente a formosura, mas também muito da utilidade dos olhos. A razão é que cada um dos nossos membros possui tanto uma operação própria quanto uma comum; e, igualmente, há em nós uma beleza que é peculiar e outra que é comum. E estas espécies de beleza parecem, na verdade, estar divididas, mas estão perfeitamente ligadas entre si, e, quando uma se destrói, a outra perece juntamente com ela. Para explicar-me melhor: suponhamos olhos brilhantes, face sorridente, lábio vermelho, nariz reto e fronte aberta; contudo, se maculares apenas a mínima destas coisas, terás maculado a beleza comum de todas; tudo se enche de abatimento; tudo parecerá disforme ao olhar, o que antes era tão belo: assim, se apenas esmagares a ponta do nariz, terás trazido grande deformidade sobre tudo; e, no entanto, é a mutilação de um único membro. E, igualmente, na mão, se retirares a unha de um só dedo, verás o mesmo resultado. Se agora quiseres ver o mesmo suceder também quanto à função, retira um dedo, e verás os demais menos ativos e já não desempenhando igualmente a sua parte.
Uma vez que, pois, a perda de um membro é deformidade comum, e a sua integridade, beleza para todos, não nos ensoberbeçamos nem pisoteemos os nossos irmãos. Pois é por meio daquele pequeno membro que até o grande é formoso e belo, e é pelas pálpebras — por mais tênues que sejam — que o olho se adorna. De sorte que aquele que guerreia contra o seu irmão guerreia contra si mesmo: pois o dano causado não alcança somente aquele, mas também ele próprio há de sofrer não pequena perda.
7. Para que isto, pois, não aconteça, cuidemos do próximo como de nós mesmos, e transportemos agora também esta imagem do corpo para a Igreja, e sejamos diligentes para com todos como para com nossos próprios membros. Pois na Igreja há membros muitos e diversos: e alguns são mais honrosos e outros mais deficientes. Por exemplo, há coros de virgens, há assembleias de viúvas, há confrarias dos que resplandecem no santo matrimônio; em suma, muitos são os graus de virtude. E do mesmo modo, também, na esmola. Pois alguns se esvaziam de todos os seus bens; outros cuidam somente de uma suficiência e nada mais buscam além do necessário; outros dão do seu supérfluo: contudo, todos estes se adornam mutuamente; e, se o maior desprezasse o menor, causaria a si mesmo o maior dano. Assim, suponhamos que uma virgem trate com desdém uma mulher casada: ela cortou não pequena parte de sua recompensa; e, por sua vez, aquele que se esvaziou de tudo, se repreender ao que não o fez, esvaziou-se de grande parte do fruto de seus trabalhos. E por que falo de virgens, e viúvas, e homens sem posses? Que há de mais humilde do que os que mendigam? E, no entanto, até estes cumprem um ofício da maior importância na Igreja, apegando-se às portas do santuário e fornecendo um dos seus maiores ornamentos: e sem eles não poderia haver a perfeição da plenitude da Igreja. Coisa esta que, ao que parece, também os Apóstolos, observando-a, estabeleceram por lei desde o princípio — como acerca de todas as demais coisas, assim também quanto a haver viúvas: e tamanho cuidado tiveram com este assunto que chegaram a instituir sobre elas sete diáconos. Pois assim como bispos e presbíteros e diáconos e virgens e continentes entram em minha enumeração, quando estou contando os membros da Igreja, assim também as viúvas. E, na verdade, não é ofício humilde o que elas exercem. Pois tu, na verdade, vens aqui quando queres: mas estas, tanto de dia como de noite, cantam salmos e permanecem atentas: não fazendo isto somente por causa das esmolas — pois, se este fosse o seu objetivo, poderiam andar pela praça e mendigar pelas ruelas — mas há nelas também piedade em não pequeno grau. Ao menos, vede em que fornalha de pobreza se encontram; contudo jamais ouvireis delas palavra blasfema, nem impaciente, à maneira de muitas mulheres de homens ricos. Ora, algumas delas frequentemente se deitam para descansar em jejum, e outras permanecem constantemente enregeladas de frio; não obstante, passam o seu tempo em ação de graças e dando glória. Ainda que lhes dês apenas um centavo, elas agradecem e imploram dez mil bênçãos sobre quem dá; e, se nada lhes deres, não se queixam, mas, ainda assim, abençoam, e se têm por felizes de desfrutar do seu alimento cotidiano.
Sim, responde-se, pois, queiram ou não, precisam suportá-lo. Ora, dize-me: por que proferiste esta expressão amarga? Não há artes vergonhosas que trazem ganho aos idosos, tanto homens como mulheres? Não tinham elas poder para se sustentar por tais meios em grande abundância, se tivessem escolhido lançar fora todo cuidado com a vida reta? Não vês quantas pessoas daquela idade, tornando-se alcoviteiros e alcoviteiras e por outros tais ministérios, tanto vivem, como vivem em luxo? Não assim estas, mas preferem antes perecer de fome do que desonrar a própria vida e trair a sua salvação; e permanecem sentadas durante todo o dia, preparando para ti um remédio de salvação.
Nenhum médico, ao estender a mão para aplicar o bisturi, opera tão eficazmente para cortar a corrupção de nossas feridas quanto opera o pobre que estende a sua mão direita e recebe a esmola, para apagar as cicatrizes que as feridas deixaram. E o que é verdadeiramente admirável, é que eles realizam essa excelente cirurgia sem dor nem sofrimento; e nós, que somos postos à frente do povo e vos damos tantos e tão salutares conselhos, não discorremos mais verdadeiramente do que discorre aquele que se assenta diante das portas da igreja, por seu silêncio e por seu semblante. Pois também nós fazemos ressoar estas coisas em vossos ouvidos todos os dias, dizendo: Não te ensoberbeças, ó homem; a natureza humana é coisa que logo declina e está pronta a decair; nossa juventude se apressa para a velhice, nossa formosura para a deformidade, nossa força para a fraqueza, nossa honra para o desprezo, nossa saúde declina para a enfermidade, nossa glória para a vileza, nossas riquezas para a pobreza; nossos negócios são como uma corrente violenta que jamais se detém, mas se apressa sempre a descer o declive.
O mesmo conselho dão eles também, e mais do que isto, por seu próprio aspecto e por sua própria experiência, o que é espécie ainda mais evidente de conselho. Quantos, por exemplo, dentre os que agora se assentam ali fora, estiveram no vigor da juventude e realizaram grandes feitos? Quantas dessas pessoas de aspecto repugnante superaram muitos, tanto em vigor de corpo quanto em beleza de semblante? Não o descreiais, tampouco o escarneçais. Pois certamente a vida está repleta de milhares de exemplos semelhantes. Porque, se de pessoas humildes e baixas muitos frequentemente se tornaram reis, que maravilha é que, de grandes e gloriosos, alguns se tenham tornado humildes e baixos? Posto que aquilo é bem mais extraordinário, mas isto é de ocorrência constante. De modo que ninguém deve ser incrédulo de que algum destes floresceu outrora nas artes, nas armas e na abundância de riquezas, mas antes deve compadecer-se deles com grande compaixão e temer por si mesmo, para que não venhamos também nós, algum dia, a padecer as mesmas coisas. Pois também nós somos homens e estamos sujeitos a esta rápida mudança.
8. Mas talvez algum dos insensatos, e daqueles que costumam escarnecer, objete ao que foi dito, e nos escarneça inteiramente, dizendo: Até quando não cessarás de introduzir continuamente, em teus discursos, homens pobres e mendigos, e de nos profetizar desventuras, e de anunciar a pobreza vindoura, querendo fazer de nós mendigos? Não por desejo de vos fazer mendigos, ó homem, digo eu estas coisas, mas apressando-me a abrir-vos as riquezas do céu. Pois também aquele que, ao homem são, faz menção dos enfermos e narra a sua aflição, não o diz para o adoecer, mas para o conservar na saúde, cortando-lhe a negligência pelo temor daquelas calamidades. A pobreza vos parece coisa terrível e temível, até no seu mero nome. E por isso mesmo somos pobres, porque tememos a pobreza; ainda que tenhamos dez mil talentos. Pois não é pobre aquele que nada tem, mas aquele que treme diante da pobreza. Pois também nas calamidades dos homens não são aqueles que sofrem grandes males que lamentamos e reputamos infelizes, mas aqueles que não sabem suportá-los, ainda que sejam pequenos. Ao passo que aquele que sabe suportá-los é, como todos sabem, digno de louvores e de coroas. E para provar que assim é, a quem aplaudimos nos jogos? Àqueles que são muito golpeados e não se afligem, mas mantêm a cabeça erguida; ou àqueles que fogem após os primeiros golpes? Não são estes por nós até coroados como varonis e nobres, ao passo que daqueles rimos como afeminados e covardes? Façamos, pois, o mesmo nos assuntos da vida. A quem tudo suporta com facilidade, coroemo-lo, como fazemos com aquele nobre campeão; mas choremos sobre aquele que se encolhe e treme diante dos perigos, e que, antes de receber o golpe, já está morto de medo. Pois assim também nos jogos: se alguém, antes mesmo de levantar as mãos, à simples vista do adversário estendendo a destra, fugisse, ainda que não recebesse ferimento algum, seria escarnecido como fraco e efeminado e inexperiente em tais lutas. Ora, isto é semelhante ao que sucede àqueles que temem a pobreza, e nem sequer podem suportar a expectativa dela.
Manifestamente, pois, não somos nós que vos fazemos infelizes, mas vós mesmos. Pois como poderia o demônio doravante deixar de zombar de vós, vendo-vos já antes do golpe atemorizados e trementes diante da ameaça? Ou antes, quando tu apenas estimas isto uma ameaça, ele já não terá necessidade sequer de te ferir, mas, deixando-te conservar tua riqueza, pela expectativa de vê-la arrebatada te tornará mais brando que qualquer cera. E porque é da nossa natureza, por assim dizer, não considerar os objetos de nosso temor tão terríveis depois de os termos sofrido, como antes e enquanto ainda não experimentados: por isso, a fim de impedir-te de adquirires sequer esta virtude, ele te retém no próprio auge do temor; pelo medo da pobreza, antes de toda experiência dela, derretendo-te como cera ao fogo. Sim, e tal homem é mais brando que qualquer cera e vive uma vida mais miserável que a do próprio Caim. Pois pelas coisas que possui em excesso, teme; pelas que não possui, se aflige; e, novamente, quanto ao que possui, treme, guardando sua riqueza dentro de si como um escravo fugitivo obstinado, e assediado por não sei quantas paixões variadas e inexplicáveis. Pois desejo inexplicável, e temor múltiplo, e ansiedade, e tremor de todos os lados os agitam. E são como um vaso impelido por ventos contrários de toda parte, e suportando muitos mares pesados. E quanto melhor seria para tal homem partir do que suportar uma tempestade contínua? Pois também para Caim seria mais tolerável ter morrido do que tremer para sempre.
Para que nós, pois, de nossa parte não padeçamos estas coisas, ridicularizemos o artifício do demônio, rompamos suas cordas, cortemos a ponta de sua terrível lança e fortifiquemos toda entrada. Pois se rides do dinheiro, ele não tem onde ferir, não tem onde se agarrar. Então tereis arrancado pela raiz a raiz dos males; e quando a raiz já não existir, tampouco crescerá nenhum fruto mau.
9. Pois bem: estas coisas sempre dizemos e nunca deixamos de as dizer; mas se os nossos dizeres produzem algum bem, o dia o declarará, mesmo aquele dia que é revelado pelo fogo, que prova a obra de cada um (1 Cor 3:13), que mostra quais lâmpadas são brilhantes e quais não o são. Então se manifestará quem tem óleo e quem não o tem. Mas que ninguém então se encontre destituído do consolo; antes, que todos, trazendo consigo abundância de misericórdia, e tendo suas lâmpadas brilhantes, entrem juntamente com o Esposo.
Visto que nada há mais temível e cheio de angústia do que aquela voz que os que partiram sem abundante esmola hão de então ouvir do Esposo: Não vos conheço (Mt 25:12). Mas que nunca ouçamos esta voz, mas antes aquela outra, tão agradável e desejável: Vinde, benditos de meu Pai, herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo (Mt 25:34). Pois assim viveremos a vida feliz, e gozaremos de todos os bens que ultrapassam mesmo o entendimento humano; aos quais possamos todos alcançar, pela graça e misericórdia, etc.
Se não houvesse entre vós grande diversidade, não poderíeis ser um corpo. Se não fôsseis um corpo, não poderíeis ser unificados. Se não fôsseis um só, não seríeis iguais em honra. É porque nem todos sois dotados do mesmo dom que sois um corpo.
Tendo reprimido a inveja dos que ocupavam posição inferior, e tendo removido o abatimento que provavelmente sentiriam por terem sido concedidos a outros dons maiores, ele humilha também o orgulho destes últimos que haviam recebido os dons maiores. O mesmo, com efeito, já havia feito em seu discurso a respeito dos primeiros. Pois a afirmação de que se tratava de um dom, e não de uma conquista, tinha por fim declarar isto mesmo. Mas agora o faz novamente, com ainda maior veemência, insistindo na mesma imagem. Pois, partindo do corpo no que se segue, e da unidade daí resultante, avança para a comparação efetiva dos membros, assunto sobre o qual eles particularmente buscavam ser instruídos. Porquanto não havia tanto poder para consolá-los na circunstância de serem todos um só corpo, quanto na convicção de que, nas próprias coisas com que haviam sido dotados, não ficavam muito atrás. E diz: O olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem tampouco a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós.
Pois ainda que o dom seja menor, nem por isso deixa de ser necessário; e assim como, ausente um, muitas funções ficam impedidas, também sem o outro há uma mutilação na plenitude da Igreja. E não disse "não quererá dizer", mas "não pode dizer". De sorte que, ainda que o quisesse, ainda que efetivamente o dissesse, isso está fora de questão, nem é a coisa consentânea com a natureza. Por esta razão, tomando os dois extremos, ele põe à prova seu argumento neles, primeiro a respeito da mão e do olho, e, em segundo lugar, a respeito da cabeça e dos pés, dando maior força ao exemplo.
Pois que há mais desprezível que o pé? Ou que há mais honroso e mais necessário que a cabeça? Pois esta, a cabeça, mais que qualquer outra coisa, é o próprio homem. Contudo, não é ela por si mesma suficiente, nem poderia sozinha realizar todas as coisas; pois, se assim fosse, nossos pés seriam um acréscimo supérfluo.
2. E nem sequer parou aqui, mas busca ainda outra amplificação, coisa que sempre costuma fazer, esforçando-se não apenas por estar em condições iguais, mas até por ir além.
Os dons maiores não podem prescindir dos menores, porque, se até mesmo os menores forem prejudicados, o corpo não funcionará devidamente. Que há mais inferior que o pé? Ou que há mais honroso ou necessário que a cabeça? Mas a cabeça, por mais importante que seja, não se basta a si mesma, nem pode fazer tudo por si só. Se assim fosse, não haveria necessidade de ter pés.
Antes, muito mais são necessários aqueles membros do corpo que parecem ser mais fracos:
Em cada cláusula acrescentando o termo corpo, e assim consolando um e refreando outro. Pois não afirmo apenas isto, diz ele, que os maiores têm necessidade dos menores, mas que têm também muita necessidade. Porquanto, se há em nós algo fraco, se há algo desonroso, isto é ao mesmo tempo necessário e goza de maior honra. E bem disse "que parecem" e "que julgamos", indicando que o juízo não provém da natureza das coisas, mas da opinião da maioria. Pois nada em nós é desonroso, visto que é obra de Deus. Assim, que há em nós considerado menos honroso que nossos membros genitais? Contudo, gozam de maior honra. E os muito pobres, ainda que tenham o resto do corpo nu, não suportam expor nus aqueles membros. Ora, isto certamente não é a condição das coisas desonrosas; mas era natural que fossem desprezados mais que o resto. Pois assim, numa casa, o servo que é desonrado, longe de gozar de maior atenção, nem sequer recebe igual porção. Pela mesma regra, igualmente, se este membro fosse desonroso, em vez de ter maiores privilégios, não deveria sequer gozar dos mesmos; ao passo que agora tem por sua parte mais honra: e isto também a sabedoria de Deus o operou. Pois a algumas partes, por sua natureza, Ele deu que não necessitassem disto; mas a outras, não o tendo concedido por natureza, Ele nos obrigou a outorgá-lo. Contudo, não são por isso desonrosas. Pois também os animais, por sua natureza, têm suficiência, e não necessitam de vestimenta, nem de calçado, nem de teto, a maior parte deles; e nem por isso é nosso corpo menos honroso que eles, pelo fato de necessitar de todas estas coisas.
Antes, muito mais, se se considerasse com exatidão, estas partes em questão são, pela própria natureza, tanto honrosas quanto necessárias. O que, em verdade, o próprio Paulo imitou, dando seu juízo em favor delas não a partir de nosso cuidado e de gozarem de maior honra, mas a partir da própria natureza das coisas.
Por isso, quando as chama fracas e menos honrosas, usa a expressão "que parecem"; mas quando as chama necessárias, já não acrescenta "que parecem", mas ele mesmo dá seu juízo, dizendo que são necessárias; e muito propriamente. Pois são úteis para a procriação dos filhos e a sucessão de nossa raça. Por isso também os legisladores romanos castigam os que mutilam estes membros e fazem eunucos dos homens, como pessoas que causam dano à nossa estirpe comum e afrontam a própria natureza.
Mas ai dos dissolutos que trazem opróbrio às obras das mãos de Deus! Pois assim como muitos costumam amaldiçoar o vinho por causa dos ébrios, e o sexo feminino por causa das impudicas, assim também consideram vis estes membros por causa daqueles que deles não se servem como convém. Mas impropriamente. Pois o pecado não é atribuído à coisa como parte de sua natureza, mas a transgressão é produzida pela vontade daquele que a ela se atreve.
Mas alguns supõem que as expressões "membros fracos", e "menos honrosos", e "necessários", e "que gozam de mais abundante honra", são usadas por Paulo a respeito dos olhos e dos pés, e que ele fala do olho como mais fraco e necessário, porque, ainda que deficiente em força, tem a vantagem na utilidade; mas dos pés como os menos honrosos, pois estes também recebem de nós grande consideração.
3. A seguir, para não elaborar ainda outra amplificação.
Isto é, para que ninguém dissesse: Ora, que gênero de discurso é este, desprezar os honrosos e cortejar os menos honrados? Não fazemos isto por desprezo, diz ele, mas porque estes "não têm necessidade". E vede quão grande medida de louvor assim expõe em breves palavras, e prossegue apressadamente: coisa feita do modo mais conveniente e útil. E nem sequer se contenta com isto, mas acrescenta também a causa, dizendo: Mas Deus assim temperou o corpo, dando mais abundante honra àquela parte que carecia dela:
Nada em nós é desonroso, visto que é obra de Deus. Que há em nós que seja menos estimado que os órgãos genitais? Não obstante, eles gozam de maior honra, e mesmo os muito pobres, que podem estar de outro modo inteiramente nus, não podem permitir que essas partes fiquem descobertas.
Paulo assinala que, para se evitar a divisão no corpo, maior atenção se deve dar às partes menores, a fim de que não sejam feridas nem se sintam excluídas. Se fossem maltratadas, seriam destruídas, e sua destruição seria a ruína do corpo.
Ora, se Ele o temperou em conjunto, não permitiu que aparecesse aquilo que é mais indecoroso. Pois o que é misturado torna-se uma só coisa, e não aparece o que era antes: do contrário, não poderíamos dizer que foi temperado. E vede como ele se apressa continuamente para além dos defeitos, dizendo, ao que faltava. Não disse, ao que é desonroso, ao que é inconveniente, mas, ao que faltava (ao que faltava; como assim? Por natureza), concedendo mais abundante honra. E por quê? Para que não houvesse cisma no corpo. Assim, porque, embora gozassem de uma reserva infinita de consolação, todavia se entregavam à tristeza como se tivessem recebido menos que os outros, ele mostra que eram antes honrados. Pois sua frase é: Concedendo mais abundante honra ao que faltava.
Em seguida, acrescenta também a razão, mostrando que, tendo em vista o proveito deles, tanto fez com que faltasse quanto o honrou mais abundantemente. E qual é a razão? Para que não houvesse cisma, diz ele, no corpo. (E não disse, nos membros, mas, no corpo.) Pois haveria, de fato, uma grande e injusta vantagem, se alguns membros fossem cuidados tanto pela natureza quanto por nossa providência, e outros nem sequer por uma delas. Então seriam cortados uns dos outros, por incapacidade de suportar a ligação. E, uma vez cortados estes, haveria dano também aos demais. Vedes como ele aponta que, por necessidade, maior honra é dada ao que falta? Pois, se assim não fosse, diz ele, o prejuízo se tornaria comum a todos. E a razão é que, a menos que estes recebessem grande consideração de nossa parte, seriam tratados rudemente, por não terem o auxílio da natureza: e este rude tratamento seria sua ruína; sua ruína dividiria o corpo; e, tendo o corpo sido dividido, os demais membros também pereceriam, os quais são muito maiores que estes.
Vedes que o cuidado destes últimos está ligado ao provimento daqueles? Pois eles não têm seu ser tanto em sua própria natureza, quanto em serem um, em virtude do corpo. Por isso, se o corpo perecer, de nada lhes aproveita a saúde que possuem separadamente. Mas, se o olho permanecer, ou o nariz, preservando sua função própria, contudo, quando se rompe o vínculo da união, não haverá para eles utilidade alguma depois; ao passo que, supondo que este permaneça, e aqueles sejam feridos, ambos se sustentam por meio dele e prontamente retornam à saúde.
Mas talvez alguém diga: isto, com efeito, no corpo tem sua razão, que "o que padece falta recebeu mais abundante honra"; mas entre os homens, como se há de comprovar isto? Ora, é justamente entre os homens que se pode ver isto acontecer mais notavelmente. Pois assim os que vieram à hora undécima receberam primeiro o seu salário; e a ovelha que se extraviara induziu o pastor a deixar as noventa e nove e correr atrás dela, e, achada esta, ele a carregou e não a açoitou; e o filho pródigo obteve mais honra do que aquele que fora aprovado; e o ladrão foi coroado e proclamado antes dos Apóstolos. E também no caso dos talentos podeis ver isto acontecer: pois àquele que recebera cinco talentos e àquele que recebera dois foram concedidas as mesmas recompensas; sim, pela própria circunstância de haver recebido dois, foi ele o mais favorecido com grande cuidado providencial. Porquanto, se lhe houvessem confiado os cinco, com sua incapacidade ele teria caído por completo; mas, tendo recebido os dois e cumprido o seu próprio dever, foi julgado digno das mesmas honras que aquele que ganhara os cinco, tendo ainda esta vantagem: com menos trabalho obter a mesma coroa. E, no entanto, também ele era homem, tal como o que negociara com os cinco. Não obstante, seu Senhor não o convoca de modo algum a uma prestação rigorosa de contas, nem o compele a fazer o mesmo que seu companheiro de serviço, nem lhe diz: Por que não podes ganhar os cinco? (ainda que pudesse justamente tê-lo dito), mas lhe outorgou igualmente a sua coroa.
4. Sabendo, pois, estas coisas, vós que sois maiores, não pisoteeis os menores, para que, em vez deles, não vos prejudiqueis a vós mesmos. Pois, quando estes são cortados fora, todo o corpo é destruído. Porquanto, que outra coisa é um corpo senão a existência de muitos membros? Como também o próprio Paulo diz, que o corpo não é um membro, mas muitos. Se, portanto, esta é a essência de um corpo, cuidemos que os muitos permaneçam muitos. Porquanto, a menos que isto se conserve inteiramente, o golpe atinge as partes vitais; razão pela qual também o Apóstolo não exige apenas isto, que não sejam separados, mas também que estejam estreitamente unidos. Por exemplo, tendo dito que não haja cisma no corpo, não se contentou com isto, mas acrescentou que os membros tivessem o mesmo cuidado uns pelos outros. Acrescentando também esta outra causa de os menores gozarem de mais honra. Pois não somente para que não se separem uns dos outros Deus assim o dispôs, mas também para que haja abundante amor e concórdia. Pois, se o ser de cada um depende da segurança do seu próximo, não me faleis de menor e maior: neste caso não há mais e menos. Enquanto o corpo permanece, podeis ver também a diferença, mas, quando perece, já não mais. E perecerá, a menos que também as partes menores permaneçam.
Se, pois, mesmo os membros maiores hão de perecer quando os menores forem cortados, estes devem cuidar do mesmo modo dos menores, e assim como de si mesmos, porquanto na segurança destes permanecem igualmente os maiores. Assim, pois, ainda que digais dez mil vezes que tal membro é desonrado e inferior, se contudo não provês por ele do mesmo modo que por ti mesmo, se o negligencias como inferior, o dano recairá sobre ti mesmo. Por isso ele disse não somente que os membros cuidassem uns dos outros, mas acrescentou que tivessem o mesmo cuidado uns pelos outros, isto é, que do mesmo modo os pequenos gozassem do mesmo cuidado providencial que os grandes.
Não digas, pois, que tal homem é pessoa ordinária, mas considera que ele é membro daquele corpo que mantém coeso o todo; e, assim como o olho, também ele faz com que o corpo seja corpo. Pois onde o corpo é edificado, ali ninguém tem algo a mais que o seu próximo, uma vez que não é isto que constitui um corpo — haver uma parte maior e outra menor —, mas sim serem muitas e diversas. Pois, assim como tu, por seres maior, contribuíste para formar o corpo, assim também ele, por ser menor. De modo que a sua deficiência relativa, quando se trata de edificar o corpo, revela-se de igual valor à tua nesta nobre contribuição; sim, ele vale tanto quanto tu mesmo. E isto se torna evidente a partir daqui: não havendo nenhum membro maior ou menor, nem mais ou menos honroso, mas sendo todos olho, ou todos cabeça — não perecerá o corpo? Todos o veem. Igualmente, se todos forem inferiores, sucederá a mesma coisa. De modo que também sob este aspecto os menores se provam iguais. E, se é necessário dizer algo mais, o propósito de serem os menores menores é que o corpo subsista. De sorte que é por causa de ti que ele é menor, para que tu continues a ser grande. E aqui está a razão pela qual ele exige de todos o mesmo cuidado. E, tendo dito que os membros devem ter o mesmo cuidado uns pelos outros, ele explica novamente a mesma coisa.
Partilhar todas as coisas em comum, tanto os bens quanto os males, é o único modo de alcançar a comunhão perfeita.
Sim, foi com esta única mira, diz ele, que Ele tornou comum o cuidado que exige, estabelecendo unidade em tão grande diversidade, mas de sorte que houvesse comunhão completa em todos os acontecimentos. Porque, se o nosso cuidado pelo próximo é a salvação comum, segue-se também que a nossa glória e a nossa tristeza hão de ser comuns. Três coisas, portanto, ele aqui reclama: não estarem divididos, mas unidos em perfeição; terem uns pelos outros semelhante cuidado; e considerarem comum tudo quanto sucede. E assim como acima disse que Ele deu mais abundante honra à parte que carecia, porquanto dela necessita, significando que a própria inferioridade se tornara introdução para maior honra, assim também aqui os iguala quanto ao cuidado que mutuamente se dá entre eles. Pois foi para isto, diz ele, que Ele os fez participantes de maior honra, para que não viessem a receber menor cuidado. E não somente por isto, mas também por tudo quanto lhes sucede, seja bom, seja penoso, os membros se acham ligados uns aos outros. Assim, muitas vezes, quando um espinho se finca no calcanhar, o corpo inteiro o sente e dele cuida: tanto as costas se curvam como o ventre e as coxas se contraem, e as mãos, saindo como guardas e servas, arrancam o que assim se fincara, e a cabeça se inclina sobre ele, e os olhos o observam com muito cuidado. De maneira que, ainda que o pé tenha inferioridade por não poder subir, contudo, ao fazer descer a cabeça, obtém igualdade, e é agraciado com a mesma honra; e sobretudo quando são os pés a causa de a cabeça descer, não por favor, mas por direito que sobre ela reclamam. E assim, se por ser mais honrada ela tem vantagem, contudo, sendo tal, deve tal honra e cuidado ao membro menor, e igualmente lhe deve semelhante compaixão: nisto ela indica grande igualdade. Pois que há de mais desprezível que o calcanhar? Que mais honroso que a cabeça? Contudo, este membro alcança àquele, e a todos move consigo ao mesmo tempo. De novo, se algo padecem os olhos, todos se queixam e todos ficam ociosos: nem os pés caminham, nem as mãos trabalham, nem o estômago goza do alimento a que está acostumado; e, no entanto, a aflição é dos olhos. Por que fazes definhar o estômago? Por que deténs teus pés? Por que atas tuas mãos? Porque estão ligados aos pés, e de modo inefável o corpo inteiro padece. Pois, se não participasse do sofrimento, não suportaria participar do cuidado. Por isso, tendo dito que os membros tenham o mesmo cuidado uns pelos outros, acrescentou: se um membro padece, todos os membros padecem com ele; ou se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. E como se alegram com ele, perguntas? A cabeça é coroada, e todo o homem é honrado. A boca fala, e os olhos riem e se deleitam. Contudo, o crédito não pertence à formosura dos olhos, mas à língua. De novo, se os olhos parecem formosos, embelezada fica toda a mulher: como também estes outros, quando um nariz reto e um pescoço ereto e outros membros são louvados, alegram-se e mostram-se contentes; e, de novo, derramam lágrimas em grande abundância sobre suas mágoas e desventuras, ainda que eles próprios permaneçam ilesos.
6. Consideremos, pois, todos nós estas coisas, e imitemos o amor destes membros; não façamos de modo algum o contrário, calcando aos pés as misérias do nosso próximo e invejando os seus bens. Pois isto é próprio de loucos e de pessoas fora de si. Assim como aquele que arranca o próprio olho dá a mais grave prova de insensatez, também aquele que devora a própria mão exibe clara evidência de completa loucura.
Ora, se isto se verifica quanto aos membros, do mesmo modo, quando sucede entre os irmãos, imprime sobre nós a reputação de loucura e traz um dano não pequeno. Pois enquanto ele resplandece, também a tua formosura se manifesta, e todo o corpo se embeleza. Porque ele de modo algum reserva a beleza somente para si, mas permite que também tu te glories. Mas, se o extingues, trazes uma escuridão comum sobre todo o corpo, e a desventura que causas é comum a todos os membros: assim como, se o preservas em brilho, preservas o viço do corpo inteiro. Pois ninguém diz: o olho é belo; mas o quê? tal mulher é bela. E se ele também é louvado, isso vem depois do elogio comum. Assim também sucede na Igreja. Quero dizer: se há pessoas de renome, a comunidade colhe o bom nome disso. Pois os inimigos não costumam dividir os elogios, mas uni-los. E, se alguém é brilhante na palavra, não o louvam a ele somente, mas igualmente a Igreja toda. Pois não dizem apenas: tal homem é admirável; mas o quê? os cristãos têm um mestre admirável; e assim tornam comum a posse.
7. E agora perguntemos: acaso os pagãos se unem entre si, e tu divides e guerreias contra o teu próprio corpo, e te opões aos teus próprios membros? Não sabes que isto subverte tudo? Pois até mesmo um reino, diz Ele, dividido contra si mesmo não subsistirá (Mt 12,25).
Mas nada divide e separa tanto quanto a inveja e o ciúme, essa moléstia grave e isenta de todo perdão, e em certo sentido pior que a raiz de todos os males (1 Tm 6,12). Pois o cobiçoso alegra-se quando ele próprio recebe; mas o invejoso alegra-se quando outro deixa de receber, e não quando ele próprio recebe. Pois considera as desventuras alheias como benefício para si, mais do que a prosperidade; e anda como inimigo comum do gênero humano, ferindo os membros de Cristo — do que o que poderia haver mais próximo da loucura? Um demônio inveja, mas invejam os homens, e não a nenhum demônio; tu, porém, sendo homem, invejas homens, e te opões ao que é da tua própria tribo e família, o que nem mesmo um demônio faz. E que perdão obterás, que desculpa? Tremendo e empalidecendo à vista de um irmão em prosperidade, quando deverias coroar-te a ti mesmo, e alegrar-te, e exultar.
Se realmente desejais emulá-lo, isto não vos proíbo: emulai, mas com vistas a assemelhar-vos a quem é aprovado — não para deprimi-lo, mas para que alcanceis o mesmo elevado ponto, para que exibais a mesma excelência. Esta é a rivalidade salutar, a imitação sem contenda: não vos afligirdes com os bens alheios, mas indignar-vos com os males próprios — cujo contrário é o resultado da inveja. Pois, negligenciando os seus próprios males, ela definha à vista da boa fortuna de outros homens. E assim o pobre não se aflige tanto com a sua própria pobreza quanto com a abundância do vizinho — do que pode haver algo mais penoso? Sim, nisto o invejoso, como antes disse, é pior que o cobiçoso: um se regozija por alguma aquisição própria, enquanto o outro encontra seu deleite em que alguém deixe de receber algo.
Por isso vos suplico que, abandonando este mau caminho, vos mudeis para uma justa emulação (pois é coisa violenta este gênero de zelo, e mais ardente que qualquer fogo), e ganheis com isso poderosas bênçãos. Assim também Paulo costumava conduzir os de origem judaica à fé, dizendo: "Se de algum modo eu puder provocar à emulação os que são minha carne, e salvar alguns deles" (Rm 11,14). Pois aquele cuja emulação é semelhante ao que Paulo desejava não definha ao ver o outro em reputação, mas ao ver-se a si mesmo deixado para trás; não assim o invejoso, mas à vista da prosperidade alheia. E ele é uma espécie de zangão, prejudicando os trabalhos de outros homens, jamais ele mesmo ansioso por se elevar, mas chorando quando vê outro elevar-se, e fazendo tudo para derrubá-lo. A que, pois, poderíamos comparar esta paixão? Parece-me semelhante a um asno indolente e pesado de tanta carne que, atrelado junto a um corcel alado, nem ele mesmo estivesse disposto a levantar-se, e tentasse arrastar o outro para baixo com o peso da sua carcaça. Pois assim este homem não tem nenhum pensamento nem ansiedade de livrar-se ele mesmo deste profundo sono, mas faz tudo para suplantar e derrubar aquele que voa em direção ao céu, tornando-se exato emulador do diabo: pois também ele, vendo o homem no paraíso, não buscou mudar a sua própria condição, mas lançá-lo fora do paraíso. E de novo, vendo-o assentado no céu e os demais apressando-se para lá, mantém-se no mesmo plano, suplantando os que se apressam para lá, e com isso amontoando mais abundantemente a fornalha para si mesmo. Pois em cada caso isto acontece: tanto aquele que é invejado, se for vigilante, torna-se mais eminente, quanto aquele que inveja acumula para si mais males. Assim também José se tornou eminente, assim Arão o sacerdote: a conspiração dos invejosos fez com que Deus, uma e outra vez, desse o Seu voto a favor dele, e foi a ocasião do florescer da vara. Assim Jacó alcançou a sua abundante riqueza e todas aquelas outras bênçãos. Assim os invejosos trespassam a si mesmos com dez mil males. Sabendo, como sabemos, todas estas coisas, fujamos de tal emulação. Pois, dizei-me, por que invejais? Porque vosso irmão recebeu graça espiritual? E de quem a recebeu? Respondei-me. Não foi de Deus? Claramente, então, Ele é o objeto da inimizade a que vos entregais, Ele o doador do dom. Vedes para onde tende o mal, e com que espécie de ponta está coroando o monte dos vossos pecados, e quão profunda é a cova de vingança que ele está a cavar para vós?
Fujamos dela, pois, amados, e não invejemos a outros, nem deixemos de orar por nossos invejosos, fazendo tudo quanto pudermos para extinguir a paixão deles: nem sintamos como os insensatos que, dispostos a exigir castigo dos tais, fazem tudo quanto está ao seu alcance para atear ainda mais a chama. Mas não façamos assim; antes choremos por eles e lamentemo-nos. Pois eles é que são os feridos, tendo contínuo verme a roer-lhes o coração e recolhendo em si uma fonte de veneno mais amargo que qualquer fel. Eia, pois, supliquemos ao Deus misericordioso, tanto que mude o estado de ânimo deles quanto que jamais caiamos nós nessa enfermidade: pois inacessível é, na verdade, o céu para aquele que tem esta chaga consumidora, e, antes mesmo do céu, também esta vida presente não vale a pena ser vivida por ele. Pois não é tão completamente costume a traça e o verme roerem através a madeira e a lã em que habitam, quanto a febre da inveja devora os próprios ossos do invejoso e destrói todo o domínio de si em sua alma.
A fim, pois, de que livremos tanto a nós mesmos quanto a outros destes males inumeráveis, expulsemos de dentro de nós esta má febre, esta que é mais grave que qualquer gangrena: para que, tendo recuperado a força espiritual, tanto acabemos o curso presente quanto obtenhamos as coroas futuras; às quais possamos todos alcançar, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Pois, para que ninguém diga: Que exemplo é o do corpo para nós? Visto que o corpo é escravo da natureza, mas as nossas boas obras procedem da vontade; ele aplica isso aos nossos próprios assuntos; e, para significar que devemos ter a mesma concórdia de propósito que eles têm por natureza, diz: Ora, vós sois o corpo de Cristo. Mas, se o nosso corpo não deve ser dividido, muito menos o corpo de Cristo, e tanto menos quanto a graça é mais poderosa que a natureza.
Mas que significa a expressão, cada um em particular? Ao menos na medida em que vos diz respeito; e na medida em que uma parte deve naturalmente ser edificada a partir de vós. Pois, tendo dito o corpo — quando, todavia, a Igreja de Corinto não era todo o corpo, mas a Igreja em cada parte do mundo —, disse por isso cada um em particular: isto é, a Igreja entre vós é uma parte da Igreja existente em toda parte e do corpo que se compõe de todas as Igrejas; de modo que não somente convosco mesmos, mas também com toda a Igreja por todo o mundo, deveis estar em paz, se ao menos sois membros de todo o corpo.
A igreja de Corinto não era, por si mesma, todo o corpo, mas era parte de uma comunidade de fé universal. Portanto, os coríntios deviam estar em paz com a igreja em todo outro lugar, se esta é membro verdadeiro do corpo.
A ordem procede do superior para o inferior, e isso deliberadamente, porque os coríntios costumavam colocar o dom de línguas no topo da lista.
Portanto, aquilo que eu antes mencionei, isso também ele agora faz. Porque eles se orgulhavam grandemente a respeito das línguas, ele o coloca por último, em toda parte. Pois os termos "primeiramente" e "em segundo lugar" não são empregados por ele aqui ao acaso, mas para, por enumeração, apontar em ordem o mais honroso e o inferior. Por isso também colocou os apóstolos em primeiro lugar, os quais possuíam em si todos os dons. E não disse que Deus estabeleceu na Igreja certos homens, apóstolos simplesmente, ou profetas, mas emprega "primeiro", "segundo" e "terceiro", significando esta mesma coisa de que vos falei.
Em segundo lugar, profetas. Pois estes costumavam profetizar, como as filhas de Filipe, como Ágabo, como estas mesmas pessoas entre os coríntios, dos quais ele diz: Falem os profetas, dois ou três (1 Cor 14,29). E escrevendo também a Timóteo, disse: Não negligencies o dom que há em ti, que te foi dado por profecia (1 Tm 4,14). E eram muito mais numerosos os que profetizavam. E se Cristo diz: A Lei e os Profetas profetizaram até João (Mt 11,13), Ele o diz a respeito daqueles profetas que outrora anunciaram a Sua vinda.
Em terceiro lugar, doutores. Pois aquele que profetiza fala todas as coisas a partir do Espírito; mas aquele que ensina, por vezes discorre também a partir de seu próprio entendimento. Por isso também disse: Sejam os presbíteros que governam bem considerados dignos de dupla honra, especialmente os que labutam na palavra e na doutrina (1 Tm 5,17); ao passo que aquele que fala todas as coisas pelo Espírito não labuta. Esta é, pois, a razão pela qual o colocou depois do profeta, porque um é inteiramente dom, mas o outro é também trabalho do homem. Pois fala muitas coisas de seu próprio entendimento, concordando, contudo, com as sagradas Escrituras.
3. Depois, milagres; depois, dons de curas. Vedes como ele novamente distingue as curas do poder, o que também fizera antes. Pois o poder é mais do que a cura: visto que aquele que tem poder tanto castiga quanto cura, mas aquele que tem o dom das curas apenas realiza curativos. E observai quão excelente foi a ordem de que se utilizou, ao colocar a profecia antes dos milagres e das curas. Pois acima, quando disse: A um é dado pelo Espírito a palavra da sabedoria, e a outro a palavra da ciência, falou sem colocá-los em ordem, mas indiferentemente. Aqui, ao contrário, estabelece um primeiro e um segundo posto. Por que razão, então, coloca a profecia em primeiro lugar? Porque também na antiga aliança a matéria tem esta ordem. Por exemplo, quando Isaías discorria com os judeus, e exibia uma demonstração do poder de Deus, e trazia à luz a evidência da inutilidade dos demônios, apresentou também isto como a maior evidência de Sua divindade: o predizer as coisas futuras (Is 41,22-23). E o próprio Cristo, depois de operar tantos sinais, diz que este não era pequeno sinal de Sua divindade: e continuamente acrescenta: Mas estas coisas vos disse Eu, para que, quando acontecerem, creiais que Eu Sou (Jo 13,19; 14,29; 16,4).
Sejam, pois, os dons de cura justamente inferiores à profecia. Mas por que também o são em relação ao ensino? Porque não é a mesma coisa anunciar a palavra da pregação e semear a piedade nos corações dos ouvintes, e operar milagres: uma vez que estes se fazem tão-somente em vista daquilo. Quando, pois, alguém ensina tanto pela palavra quanto pela vida, esse é maior que todos. Pois a esses ele chama, por excelência, mestres — os que tanto ensinam pelas obras quanto instruem pela palavra. Foi isto, por exemplo, o que fez os próprios Apóstolos tornarem-se Apóstolos. E esses mesmos dons também certos outros, de nenhum grande valor, receberam no princípio, como aqueles que disseram: Senhor, não profetizamos nós em Teu nome, e não fizemos muitas obras poderosas? — e depois disso lhes foi dito: Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade (Mt 7:22). Mas esse duplo modo de ensinar — refiro-me àquele pelas obras e pelas palavras — nenhum homem mau jamais o empreenderia. Quanto a colocar ele os profetas em primeiro lugar, não te maravilhes disso. Pois não está falando dos profetas simplesmente, mas daqueles que, pela profecia, também ensinam e dizem tudo para o proveito comum: o que, prosseguindo, ele nos torna mais claro.
Socorros, governos. Que é socorros? Amparar os fracos. Será isto, pois, um dom, dize-me? Em primeiro lugar, também isto procede do Dom de Deus — a aptidão para o ofício de protetor, a dispensação das coisas espirituais; além do que, ele chama dons até mesmo a muitas das nossas próprias boas obras; não para que percamos o ânimo, mas para mostrar que em todo caso necessitamos do auxílio de Deus, e para os preparar a serem agradecidos, e assim torná-los mais prontos e despertar-lhes o espírito.
Diversos gêneros de línguas. Vedes onde ele colocou este dom, e como em toda parte lhe atribui o último lugar?
4. Além disso, uma vez que também por este catálogo ele havia apontado uma grande diferença, e agitado a supracitada enfermidade dos que possuíam dons menores, ele se lança sobre eles no que se segue com grande veemência, porque já lhes havia dado aquelas muitas provas de que não eram deixados muito inferiores. O que quero dizer é: porque era provável que, ao ouvirem estas coisas, dissessem — E por que não fomos todos feitos Apóstolos? —, ao passo que acima ele se havia servido de um tom de discurso mais apaziguador, provando longamente a necessidade deste resultado, mesmo a partir da imagem do corpo; pois o corpo, diz ele, não é um só membro; e ainda: mas se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? — e do fato de que foram dados para uso; pois a cada um, diz ele, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum; — e de todos serem regados pelo mesmo Espírito; — e de o que é concedido ser um dom gratuito e não uma dívida; pois há, diz ele, diversidades de dons, mas o mesmo Espírito; — e de a manifestação do Espírito se fazer igualmente através de todos; pois a cada um, diz ele, é dada a manifestação mediante o Espírito; — e do fato de que estas coisas foram configuradas segundo o beneplácito do Espírito e de Deus; pois todas estas coisas, diz ele, opera um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada um em particular como quer; e: Deus dispôs os membros, cada um deles, no corpo, como Lhe aprouve; — e de que os membros inferiores também são necessários; pois os que parecem, diz ele, ser mais fracos são necessários; — de que são igualmente necessários, na medida em que os maiores também têm necessidade dos menores; pois a cabeça, diz ele, não pode dizer aos pés: não tenho necessidade de vós; — de que estes últimos gozam de ainda mais honra; pois ao que carece, diz ele, Ele deu mais abundante honra; — de que o cuidado deles é comum e igual; pois todos os membros têm o mesmo cuidado uns pelos outros; — e de que há uma só honra e uma só dor de todos eles; pois, quer, diz ele, um membro sofra, todos os membros sofrem com ele; quer um membro seja honrado, todos os membros se alegram com ele; — ao passo que, digo eu, ele os havia acima exortado por meio destes tópicos, aqui e doravante ele usa uma linguagem que os abate e os repreende. Pois, como eu disse, não nos convém sempre exortar as pessoas, nem sempre silenciá-las. Por isso também o próprio Paulo, porque longamente os exortou, doravante os ataca com veemência.
E ele não se detém no primeiro e no segundo dom, mas prossegue até o último, seja significando isto, que nem todos podem ser tudo (como ali diz: se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?), seja estabelecendo também algum outro ponto juntamente com estes, que sirva novamente como consolação. Que é, pois, isto? Ele está significando que até os dons menores são disputados com igual empenho quanto os maiores, pela circunstância de que nem mesmo estes foram dados absolutamente a todos. Pois por que, diz ele, te afliges por não teres dons de cura? Considera que aquilo que tens, ainda que seja menor, muitas vezes não é possuído por quem tem o maior.
Assim como Deus não concedeu os dons maiores a todos, também deu os dons menores a alguns e não a outros. Fez isto a fim de obter a máxima harmonia e caridade, visto que cada um veria sua necessidade dos outros e, por conseguinte, seria aproximado deles.
Pois assim como os grandes dons Deus não os concedeu a todos os homens, mas a uns este, a outros aquele, assim também no tocante aos menores, tampouco os propôs a todos. E isto Ele fez, procurando com isso abundante harmonia e caridade, para que cada um, necessitando do outro, fosse aproximado de seu irmão. Esta economia Ele estabeleceu também nas artes, também nos elementos, também nas plantas, e em nossos membros, e absolutamente em todas as coisas.
5. Em seguida acrescenta ainda a mais poderosa consolação, suficiente para restaurá-los e aquietar suas almas perturbadas. E que é isto?
Ora, dizendo isto, ele insinuou brandamente que eles próprios eram a causa de terem recebido os dons menores, e que estava em seu poder, se quisessem, receber os maiores. Pois quando diz, desejai ardentemente, exige deles toda diligência e desejo pelas coisas espirituais. E não disse os dons maiores, mas os melhores, isto é, os mais úteis, os que trariam proveito. E o que ele quer dizer é isto: continuai a desejar os dons; e eu vos aponto uma fonte de dons. Pois tampouco disse um dom, mas um caminho, para exaltar ainda mais aquilo que se propõe a mencionar. Como se dissesse: Não é um, dois ou três dons que vos aponto, mas um caminho que conduz a todos estes: e não apenas um caminho, mas também um caminho mais excelente, e que está aberto em comum a todos. Pois não é como os dons, que são concedidos a uns estes, a outros aqueles, mas não todos a todos; também aqui não é assim: antes, é um dom universal. Por isso também convida a todos a ele. Desejai ardentemente, diz ele, os melhores dons, e contudo eu vos mostro um caminho ainda mais excelente; querendo dizer o amor para com o próximo.
Em seguida, tencionando prosseguir para o discurso acerca dela e o encômio desta virtude, primeiro rebaixa aqueles dons por comparação com ela, dando a entender que nada são sem ela; e isto com grande ponderação. Pois se tivesse discorrido de imediato sobre o amor, e, tendo dito, mostro-vos um caminho, tivesse acrescentado, mas isto é o amor, sem conduzir seu discurso por meio de comparação, talvez alguns escarnecessem do que foi dito, não compreendendo claramente a força da coisa mencionada, mas ainda ansiando por aqueles dons. Por isso não o desvenda de imediato, mas primeiro excita o ouvinte com a promessa, e diz, mostro-vos um caminho ainda mais excelente; e assim, tendo-o levado a desejá-lo, nem mesmo então prossegue diretamente para ele, mas, aumentando ainda mais e estendendo o desejo deles, discorre primeiro sobre esses mesmos dons, e mostra que sem o amor nada são; reduzindo-os à mais extrema necessidade de amarem uns aos outros; vendo também que da negligência dele nascera aquilo que causara todos os seus males. De modo que também sob este aspecto poderia justamente parecer grande, se os dons não apenas não os uniam, mas os dividiam ainda quando unidos: ao passo que este, quando muitos estavam assim divididos, os reuniria por virtude própria e faria deles um só corpo. Isto, contudo, ele não diz de imediato, mas assenta aquilo que principalmente ansiavam; a saber, que a coisa era um dom, e um caminho o mais excelente para todos os dons. De sorte que, ainda que não queiras amar teu irmão por amizade, ao menos por obteres um sinal melhor e um dom abundante, cultiva o amor.
6. E vede donde ele primeiro começa; daquilo que era maravilhoso e grande a seus olhos, o dom de línguas. E ao apresentar este dom, não o menciona apenas no grau em que o possuíam, mas muito além disso. Pois não disse, se eu falo em línguas,
Ao longo de todo o discurso, quer conduzi-los ainda mais alto, e aguça-lhes o apetite pelo maior de todos os dons.
Que quer dizer «dos homens»? De todas as nações, em toda parte do mundo. E não se contentou ele com esta amplificação, mas recorre ainda a outra, muito maior, acrescentando as palavras — e dos anjos — e não tiver amor, tornei-me como bronze que soa, ou como címbalo que retine.
Vedes a que ponto ele primeiro exaltou o dom, e a que ponto, depois, o rebaixou e o lançou por terra? Pois não disse simplesmente: nada sou, mas: tornei-me como bronze que soa, coisa insensata e inanimada. Mas por que como bronze que soa? Porque emite, na verdade, um som, mas ao acaso e em vão, e para nenhum bom fim. Pois, além de não aproveitar nada, sou tido pela maioria dos homens como alguém que causa importuno incômodo, pessoa enfadonha e fastidiosa. Vedes como aquele que carece de amor se assemelha às coisas inanimadas e insensatas?
Ora, ele fala aqui das línguas dos anjos, não porque atribua corpo aos anjos, mas o que quer dizer é isto: ainda que eu falasse tal como os anjos costumam discorrer entre si, sem isto nada sou, antes sou peso e incômodo. Assim (para mencionar outro exemplo), quando diz: a Ele se dobrará todo joelho, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra (Fp 2,10), não diz isto como se atribuísse aos anjos joelhos e ossos — longe disso —, mas é a sua intensa adoração que pretende figurar sob o modo que nos é conhecido: assim também aqui chama de língua não um instrumento de carne, mas pretende indicar o seu mútuo trato pela maneira que entre nós se conhece.
7. Em seguida, para que o seu discurso seja aceitável, não se detém ele no dom das línguas, mas passa também aos demais dons; e, tendo depreciado todos na ausência do amor, retrata então a sua imagem. E porque preferiu conduzir o seu argumento por amplificação, começa do menor e ascende ao maior. Pois, ao passo que, quando indicou a sua ordem, colocou o dom das línguas por último, agora o numera em primeiro lugar; ascendendo, gradualmente, como disse, aos dons maiores. Assim, tendo falado das línguas, passa imediatamente à profecia.
Em outras palavras, diz Paulo, se não tenho amor, não sou apenas inútil, mas um verdadeiro estorvo.
Ao nomear a profecia e a fé, Paulo incluiu todo dom espiritual, pois os milagres consistem ou em palavra ou em obra.
E este dom, novamente, com uma excelência. Pois, assim como naquele caso não mencionou as línguas, mas as línguas de todo o gênero humano, e, ao prosseguir, as dos anjos, e então significou que o dom nada era sem o amor: assim também aqui não menciona apenas a profecia, mas a mais alta profecia: tendo dito, se eu tiver profecia, acrescentou, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência; exprimindo também este dom com intensidade.
Depois disto, passa também aos demais dons. E, de novo, para que não parecesse fatigá-los, nomeando cada um dos dons, estabelece a mãe e fonte de todos, e isto também com uma excelência, dizendo assim: e se eu tiver toda a fé. Nem com isto se contentou, mas acrescentou ainda aquilo que o próprio Cristo apontou como o maior, dizendo: de modo a remover montanhas, e não tiver amor, nada sou. E considerai como, também aqui, novamente rebaixa a dignidade das línguas. Pois, quanto à profecia, assinala a grande vantagem que dela advém, o entendimento dos mistérios e o ter toda a ciência; e quanto à fé, obra não pequena, a saber, remover montanhas; quanto às línguas, porém, tendo mencionado apenas o próprio dom, dele se aparta.
Mas considerai também isto, eu vos peço: como, em suma, ele compreendeu todos os dons ao nomear a profecia e a fé, pois os milagres consistem ou em palavras ou em obras. E como diz Cristo que o menor grau de fé é o poder remover um monte? Pois como se falasse de algo muito pequeno, assim se exprimiu quando disse: se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: remove-te, e ele se removerá (Mt 17,20); ao passo que Paulo diz que isto é toda a fé. Que se deve, pois, dizer? Visto que remover um monte era coisa grande, por isso também o mencionou, não como se toda a fé apenas a isto fosse capaz, mas porque isto parecia grande à gente mais grosseira por causa do vulto da massa exterior; e a partir disto também exalta o seu tema. E o que ele diz é isto:
Se eu tiver toda a fé, e puder remover montanhas, mas não tiver amor, nada sou.
Admirável amplificação! Pois também estas coisas ele as expõe com outro acréscimo: não disse ele, se eu der aos pobres a metade dos meus bens, ou duas ou três partes, mas, ainda que eu dê todos os meus bens. E não disse, dar, mas, distribuir em pedaços, de modo que ao dispêndio se acrescente também a administração com todo cuidado.
Mas ainda não expus toda a excelência, até que eu traga à luz os testemunhos de Cristo que foram proferidos acerca da esmola e da morte. Quais são, pois, os Seus testemunhos? Ao rico Ele diz: Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá aos pobres, e vem, segue-me (Mt 19,21). E discorrendo igualmente sobre o amor ao próximo, Ele diz: Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida por seus amigos (Jo 14,13). Donde é evidente que mesmo diante de Deus isto é o maior de tudo. Mas, eu declaro, disse Paulo, que ainda que déssemos a vida por causa de Deus, e não simplesmente a déssemos, mas de tal modo que fôssemos até queimados (pois este é o sentido de, se eu entregar o meu corpo para ser queimado), não teríamos grande proveito se não amássemos o próximo. Ora, não é de admirar que se diga que os dons não são de grande proveito sem a caridade, uma vez que os nossos dons são consideração secundária relativamente ao nosso modo de vida. De todo modo, muitos exibiram dons, e contudo, tornando-se viciosos, foram punidos: como aqueles que profetizaram em Seu nome, e expulsaram muitos demônios, e realizaram muitas obras poderosas; como Judas, o traidor; ao passo que outros, exibindo, como crentes, uma vida pura, de nada mais necessitaram para a sua salvação. Por isso, que os dons devessem, como disse, requerer isto, não é de admirar; mas que uma vida mesmo exata de nada valesse sem ela, isto é o que traz à tona com força a intensidade da expressão e causa grande perplexidade: sobretudo também quando Cristo parece adjudicar Suas grandes recompensas a ambas estas coisas, refiro-me ao abandono de nossos bens, e aos perigos do martírio. Pois tanto ao rico Ele diz, como antes observei, Se queres ser perfeito, vende os teus bens, e dá aos pobres, e vem, segue-me: quanto, discorrendo com os discípulos, sobre o martírio Ele diz: Quem perder a sua vida por Minha causa, encontrá-la-á; e, Quem Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai que está nos céus. Pois grande é, em verdade, o labor desta façanha, e quase que ultrapassa a própria natureza, e isto bem o sabem aqueles a quem foram concedidas estas coroas. Pois nenhuma linguagem pode representá-lo diante de nós: tão nobre é a alma a que pertence este feito, e tão extraordinariamente admirável é ele.
9. Contudo, este feito tão admirável de que Paulo falou não trazia nenhum proveito grande sem o amor, ainda que a ele se juntasse a entrega dos próprios bens. Por que motivo, pois, falou ele assim? Isso procurarei agora explicar, tendo primeiro indagado o seguinte: como é possível que aquele que dá todos os seus bens para alimentar os pobres possa estar carecendo de amor? Concedo, de fato, que aquele que está pronto para ser queimado e que possui os dons pode, talvez, não ter amor; mas aquele que não apenas dá os seus bens, senão que os distribui até em pedaços, como não haveria de ter amor? Que diremos, então? Ou que ele supôs como real um caso irreal — coisa que costuma sempre fazer, quando pretende propor-nos algo em excesso; como quando, escrevendo aos gálatas, diz: Se nós, ou um anjo do céu, vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema (Gl 1,8). E, no entanto, nem ele mesmo nem um anjo estavam para fazer tal coisa; mas, para significar que pretendia levar o assunto ao ponto extremo, estabeleceu até aquilo que jamais, de modo algum, poderia acontecer. E, de novo, quando escreve aos romanos e diz: Nem anjos, nem principados, nem potestades poderão separar-nos do amor de Deus; pois isto tampouco estava para ser feito por anjos algum; mas também aqui ele supõe uma coisa que não era; como, de fato, também no que se segue, ao dizer nem qualquer outra criatura, quando não há nenhuma outra criatura, pois já havia abrangido toda a criação, tendo falado de todas as coisas, tanto as de cima quanto as de baixo. Não obstante, também aqui menciona o que não era, por via de hipótese, a fim de mostrar o seu desejo extremado. Ora, a mesma coisa faz ele também aqui, dizendo: Se alguém der tudo o que possui, e não tiver amor, nada lhe aproveita.
Ou, então, podemos dizer isto, ou que sua intenção é que os que dão estejam também estreitamente unidos aos que se retiram, e não apenas deem sem compaixão, mas com piedade e condescendência, inclinando-se e condoendo-se juntamente com os necessitados. Pois foi por isso mesmo que a esmola foi instituída por Deus: uma vez que Deus poderia ter sustentado os pobres igualmente sem isso, mas, para que nos unisse à caridade e para que fôssemos inteiramente fervorosos uns para com os outros, ordenou que fossem sustentados por nós. Por isso diz-se também em outro lugar: melhor é a boa palavra que o dom (Eclo 18,16-17); e, eis que uma palavra está acima de um bom dom (Eclo 18,16-17). E Ele mesmo diz: Misericórdia quero, e não sacrifício (Mt 9,30; Os 6,6). Pois, como é costume tanto que os homens amem aqueles de quem recebem benefícios, quanto que os que recebem benefícios se afeiçoem mais benevolamente para com os seus benfeitores, estabeleceu ele esta lei, constituindo-a vínculo de amizade.
10. Mas a questão proposta acima para exame é: como, tendo Cristo dito que ambas estas coisas pertencem à perfeição, afirma Paulo que estas, sem a caridade, são imperfeitas? Não O contradizendo, longe disso; mas concordando com Ele, e exatamente. Pois assim, no caso do homem rico, disse Ele não apenas: vende os teus bens e dá-os aos pobres, mas acrescentou: e vem, segue-Me. Ora, nem mesmo o segui-Lo prova tão completamente ser alguém discípulo de Cristo quanto o amar-se uns aos outros. Pois, nisto todos conhecerão, diz Ele, que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13,35). E também quando diz: Quem perder a sua vida por Minha causa, achá-la-á (Mt 10,39); e: qualquer que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai que está nos céus; não quer Ele dizer com isto que não seja necessário ter caridade, mas declara a recompensa que está reservada para estes trabalhos. Que juntamente com o martírio exige Ele também isto, é o que noutro lugar fortemente insinua, dizendo assim: Vós certamente bebereis do Meu cálice, e sereis batizados com o batismo com que Eu sou batizado (Mt 20,23); isto é, sereis mártires, sereis mortos por Minha causa; mas sentar-se à Minha direita e à Minha esquerda (não como se alguém se sentasse à direita e à esquerda, mas significando a mais alta precedência e honra) não Me pertence dá-lo, diz Ele, mas àqueles para quem está preparado. Então, significando para quem está preparado, chama-os e diz: qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, seja servo de todos vós (Mt 20,26); estabelecendo a humildade e a caridade. E a caridade que Ele exige é intensa; pelo que não Se deteve nem mesmo aqui, mas acrescentou: assim como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a Sua vida em resgate por muitos; mostrando que devemos amar de tal modo que até sejamos mortos por aqueles a quem amamos. Pois isto, sobretudo, é amá-Lo. Pelo que também diz a Pedro: Se Me amas, apascenta as Minhas ovelhas (Jo 21,16).
11. E para que aprendais quão grande obra de virtude é esta, esbocemo-la em palavra, já que em obras não a vemos aparecer em parte alguma; e consideremos, se ela existisse em toda parte em abundância, quão grandes benefícios daí adviriam: como não haveria então necessidade de leis, nem de tribunais, nem de castigos, nem de vingança, nem de qualquer outra coisa semelhante, pois, se todos amassem e fossem amados, ninguém injuriaria a outro. Sim, os homicídios, e as contendas, e as guerras, e as divisões, e as rapinas, e as fraudes, e todos os males seriam removidos, e o vício seria desconhecido até mesmo de nome. Os milagres, porém, não teriam efetuado isto; antes ensoberbecem os que não estão de sobreaviso, para vanglória e loucura.
Novamente: eis, na verdade, o aspecto admirável do amor — todos os demais bens vêm atrelados a seus males: pois aquele que dá de seus bens é amiúde ensoberbecido por isso; o eloquente é acometido de uma paixão desenfreada pela glória; o de espírito humilde, por essa mesma razão, não raro tem de si mesmo, em sua consciência, elevada opinião. Mas o amor está livre de todo tal malefício. Pois jamais alguém poderia ensoberbecer-se contra aquele a quem ama. E não suponhais, peço-vos, apenas uma pessoa amando, mas todos igualmente; e então vereis a sua virtude. Ou antes, se quiserdes, suponde primeiro uma única pessoa amada e uma amando; amando, contudo, como convém amar. Ora, este viverá na terra como se estivesse no céu, gozando por toda parte de uma paz serena e tecendo para si inumeráveis coroas. Pois tanto da inveja, quanto da ira, do ciúme, do orgulho, da vanglória, da concupiscência má e de todo amor profano, e de toda enfermidade, tal homem manterá pura a sua própria alma. Sim, assim como ninguém faria a si mesmo uma injúria, tampouco este a faria a seus próximos. E sendo tal, permanecerá ele ao lado do próprio Gabriel, mesmo enquanto ainda caminha sobre a terra.
Tal é, pois, aquele que possui o amor. Mas aquele que opera milagres e possui perfeito conhecimento, sem este, ainda que ressuscite dez mil dentre os mortos, não será de grande proveito, apartado como está de todos e não suportando misturar-se com nenhum de seus companheiros de serviço. Por nenhuma outra razão senão esta disse Cristo que o sinal do amor perfeito para com Ele é o amor aos seus próximos. Pois, se me amas, diz Ele, ó Pedro, mais do que estes, apascenta as minhas ovelhas (Jo 21,15). Vedes como também aqui, de modo velado, Ele novamente dá a entender em que caso isto é maior que o martírio? Pois se alguém tivesse um filho amado, por quem daria até mesmo a própria vida, e algum outro amasse o pai, mas não desse atenção alguma ao filho, grandemente irritaria ao pai; nem este sentiria o amor voltado a si mesmo, por causa do desprezo ao seu filho. Ora, se isto se dá no caso de pai e filho, muito mais no caso de Deus e dos homens: posto que certamente Deus é mais amoroso do que quaisquer pais.
Por isso, tendo dito: O primeiro e grande mandamento é: Amarás o Senhor teu Deus, acrescentou — Ele não o deixa em silêncio, mas o estabelece também — e o segundo é semelhante a ele: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. E vede como, com quase a mesma excelência, Ele exige também isto. Pois, quanto a Deus, diz: com todo o teu coração; e quanto ao teu próximo: como a ti mesmo, o que equivale a: com todo o teu coração.
Sim, e se isto fosse devidamente observado, não haveria nem escravo nem livre, nem quem governasse nem quem fosse governado, nem rico nem pobre, nem pequeno nem grande; nem jamais se teria conhecido demônio algum: não digo apenas Satanás, mas qualquer outro espírito semelhante que houvesse, ainda que fossem cem ou dez mil tais, não teriam poder algum, enquanto existisse o amor. Pois antes suportaria a erva a aplicação do fogo do que o demônio a chama do amor. Ele é mais forte que qualquer muralha, mais firme que qualquer diamante; ou, se podeis nomear alguma matéria mais forte que esta, a firmeza do amor a todas transcende. A ele nem a riqueza nem a pobreza vencem: antes, não haveria pobreza, nem riqueza sem limites, se houvesse amor, mas somente as partes boas de cada condição. Pois de uma colheríamos a sua abundância, e de outra a sua ausência de cuidados; e não teríamos de suportar nem as ansiedades das riquezas, nem o temor da pobreza.
12. E por que menciono as vantagens que dele decorrem? Antes, considerai quão grande bênção é, em si mesmo, exercer o amor; que alegria produz, em quão grande graça estabelece a alma; coisa que, sobretudo, é qualidade própria e escolhida sua. Pois as demais partes da virtude têm, cada uma, seus incômodos atrelados a si; assim o jejum, a temperança, a vigília têm a inveja, a concupiscência e o desprezo. Mas o amor, junto com o proveito, traz também grande prazer, e nenhum incômodo, e, como abelha industriosa que colhe o doce de cada flor, o deposita na alma daquele que ama. Ainda que alguém seja escravo, torna a escravidão mais doce que a liberdade. Pois aquele que ama não se regozija tanto em mandar quanto em ser mandado, ainda que mandar seja doce: mas o amor muda a natureza das coisas e se apresenta com todas as bênçãos em suas mãos, mais suave que qualquer mãe, mais rico que qualquer rainha, e torna leves e fáceis as dificuldades, fazendo fáceis as nossas virtudes, mas muito amargo o vício para nós. Assim, por exemplo: gastar parece penoso, mas o amor o torna agradável; receber os bens alheios parece agradável, mas o amor não sofre que isto pareça agradável, antes forma o nosso espírito para evitá-lo como um mal. Novamente, falar mal parece ser agradável a todos; mas o amor, ao mesmo tempo em que torna isto amargo, faz agradável o falar bem; pois nada nos é tão doce quanto louvar aquele a quem amamos. Novamente, a ira tem uma certa espécie de prazer; mas, neste caso, já não mais, antes lhe são cortados todos os seus nervos. Ainda que aquele que é amado entristeça a quem o ama, a ira em nenhuma parte se manifesta; mas lágrimas, e exortações, e súplicas; tão longe está o amor de se exasperar: e, se vier a contemplar alguém em erro, se condói e sofre; e ainda esta mesma dor traz consigo prazer. Pois as próprias lágrimas e a tristeza do amor são mais doces que qualquer alegria e regozijo. Por exemplo: os que riem não são tão reconfortados quanto os que choram por seus amigos. E, se disto duvidais, detende-lhes as lágrimas; e eles se lamentarão disso não de outro modo senão como pessoas intoleravelmente maltratadas. Mas há, dirá alguém, um prazer indecoroso no amor. Retirai-vos, e calai-vos, quem quer que sejais. Pois nada há tão puro de tal prazer quanto o amor genuíno.
Não vos falo desta espécie ordinária, vulgar e de baixo espírito, que é antes uma enfermidade do que amor, mas daquela que Paulo busca, a qual considera o proveito dos que são amados; e vereis que nenhum pai é tão afetuoso quanto os que são desta têmpera. E assim como aqueles que amam o dinheiro não podem suportar gastá-lo, mas antes preferem estar em apuros a ver diminuir sua riqueza, assim também aquele que é benevolamente afeiçoado a alguém preferiria sofrer dez mil males a ver o seu amado ferido.
13. Como, pois — dirá alguém — quis a mulher egípcia que amava José prejudicá-lo? Porque amava com aquele amor diabólico. José, contudo, não com este, mas com aquele que Paulo exige. Considerai, então, quão grande amor testemunhavam as suas palavras, e a ação de que ela lhe falava. "Insulta-me, e faze-me adúltera, e ofende a meu marido, e derruba toda a minha casa, e lança-te fora da tua confiança para com Deus" — expressões próprias de quem, longe de amá-lo, nem sequer amava a si mesma. Mas porque ele verdadeiramente amava, procurou desviá-la de tudo isso. E, para vos convencer de que era por zelo dela, aprendei a natureza disso a partir do seu conselho. Pois não somente a repeliu, mas também introduziu uma exortação capaz de apagar toda chama: a saber, "se por minha causa", diz ele, "meu senhor não sabe coisa alguma do que há em sua casa". Logo a faz lembrar-se de seu marido, para envergonhá-la. E não disse "teu marido", mas "meu senhor", o que era mais apto a contê-la e a induzi-la a considerar quem ela era, e de quem se enamorava — uma senhora, de um escravo. Pois, se ele é senhor, tu és senhora. Envergonha-te, pois, do trato íntimo com um servo, e considera de quem és esposa, e com quem te ligarias, e para com quem te tornas ingrata e inconsiderada, e que eu retribuo a ele maior benevolência. E vede como ele exalta os seus benefícios. Pois, como aquela mulher bárbara e depravada não podia conceber sentimento elevado, ele a envergonha por considerações humanas, dizendo: "Nada sabe por minha causa", isto é, ele é grande benfeitor meu, e não posso ferir o meu patrono em parte vital. Fez-me senhor segundo de sua casa, e nada me foi negado, senão tu. Aqui ele se esforça por elevar o ânimo dela, a fim de, ao menos assim, persuadi-la a envergonhar-se, e de significar a grandeza da honra que ela recebia. Nem parou sequer aí, mas acrescentou igualmente um nome capaz de contê-la, dizendo: "Porque tu és sua mulher; como, pois, farei esta maldade?" Mas que dizes tu? Que teu marido não está presente, nem sabe que é ofendido? Mas Deus o verá. Ela, porém, em nada se aproveitou do seu conselho, mas ainda buscava atraí-lo. Pois, desejando saciar o seu próprio frenesi, e não por amor de José, fazia estas coisas; e isto é evidente pelo que fez depois. Como o instituir um julgamento, e trazer acusação, e dar falso testemunho, e expor a uma fera aquele que nenhum mal fizera, e lançá-lo num cárcere — ou antes, de sua parte, até o matou, de tal modo armou o juiz contra ele. Que, pois? Era José também tal como ela? De modo algum, antes ao contrário em tudo, pois nem contradisse nem acusou a mulher. Sim, poder-se-á dizer: porque não seria crido. E, no entanto, era grandemente amado; e isto é evidente não somente pelo princípio, mas também pelo fim. Pois se o seu senhor bárbaro não o amasse grandemente, tê-lo-ia mesmo morto no seu silêncio, sem fazer defesa alguma — sendo ele egípcio e governante, e ofendido, como supunha, no seu leito conjugal, e por um servo, e um servo a quem havia sido tão grande benfeitor. Mas todas estas coisas cederam à sua estima por ele, e à graça que Deus sobre ele derramara. E, junto com esta graça e este amor, tinha ele também outras provas não pequenas, caso quisesse justificar-se: as próprias vestes.
Pois, se fosse ela a que sofrera violência, seria a sua própria veste que estaria rasgada, seu rosto lacerado, em vez de reter ela as vestes dele. Mas ele ouviu, diz ela, que eu levantei minha voz, e deixou suas vestes, e saiu. E por que, então, tu as tomaste dele? Pois a quem sofre violência, a única coisa desejável é livrar-se do intruso.
Mas não somente por isto, senão também pelos acontecimentos subsequentes, poderei demonstrar sua benevolência e seu amor. Sim, ainda quando caiu na necessidade de mencionar a causa de sua prisão e de sua permanência ali, nem então declarou o curso inteiro da história. Mas que diz ele? Eu também nada fiz: antes, fui roubado da terra dos hebreus; e em nenhum lugar mencionou a adúltera, nem se vangloria do assunto — o que seria o sentimento de qualquer um, senão por vanglória, ao menos para não parecer ter sido lançado naquela cela por causa má. Pois se os homens, no próprio ato de fazer o mal, de modo algum se abstêm de acusar as mesmas coisas, ainda que fazê-lo lhes traga vergonha, de que admiração não é digno aquele que, puro como era, não mencionou a paixão da mulher nem fez exibição de seu pecado; nem, quando subiu ao trono e se tornou governante de todo o Egito, lembrou-se do agravo cometido pela mulher, nem exigiu punição alguma?
Vedes como ele cuidava dela? Mas o dela não era amor, senão loucura. Pois não era a José que ela amava, mas buscava satisfazer sua própria concupiscência. E as próprias palavras também, se alguém as examinasse com exatidão, vinham acompanhadas de ira e de grande sede de sangue. Pois que diz ela? Trouxeste um servo hebreu para escarnecer de nós — recriminando o marido pela bondade; e exibiu as vestes, havendo-se tornado ela mesma mais feroz que qualquer fera selvagem: mas não assim ele. E por que falo eu de sua benevolência para com ela, quando ele foi tal, como sabemos, para com seus irmãos que o queriam matar, e nunca disse contra eles uma só palavra dura, nem dentro nem fora de casa?
14. Diz, portanto, Paulo, que o amor de que falamos é a mãe de todos os bens, e antepõe-no aos milagres e a todos os demais dons. Pois assim como, onde há vestes e sandálias de ouro, requeremos ainda alguma outra insígnia por meio da qual se distinga o rei, mas se vemos a púrpura e o diadema, não requeremos ver nenhum outro sinal de sua realeza — assim também aqui, quando o diadema do amor está sobre nossa cabeça, é suficiente para apontar o genuíno discípulo de Cristo, não apenas a nós mesmos, mas também aos incrédulos. Pois, nisto, diz Ele, todos conhecerão que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros (Jo 13:35). De modo que este sinal é, sem dúvida, maior do que todos os sinais, porquanto por ele se reconhece o discípulo. Pois, ainda que alguém opere dez mil sinais, mas viva em contenda com o outro, será escárnio para os incrédulos. Assim como, se não fizerem sinal algum, mas se amarem uns aos outros exatamente, permanecerão reverenciados e invioláveis diante de todos os homens. Pois é por isto que admiramos o próprio Paulo, não pelos mortos que ressuscitou, nem pelos leprosos que purificou, mas porque disse: quem enfraquece, e eu não enfraqueço? Quem se escandaliza, e eu não me abraso? (2 Cor 11:29). Pois ainda que tivésseis dez mil milagres para comparar com isto, nada teríeis de igual a dizer. Visto que o próprio Paulo também disse que grande recompensa lhe estava reservada, não por ter operado milagres, mas porque se fez fraco para com os fracos. Pois qual é o meu galardão? diz ele. Que, pregando o evangelho, torne o evangelho de Cristo sem custo algum (1 Cor 9:18). E, quando se antepõe aos Apóstolos, não diz: operei milagres mais abundantemente do que eles, mas: trabalhei mais abundantemente do que todos eles (1 Cor 15:10). E até mesmo pela fome estava disposto a perecer pela salvação dos discípulos. Pois melhor me fora morrer, diz ele, do que alguém tornar vã a minha glória (1 Cor 9:15) — não porque se gloriasse, mas para que não parecesse repreendê-los. Pois em nenhum lugar costuma gloriar-se de suas próprias realizações, quando a ocasião não o exige; mas, ainda que seja compelido a fazê-lo, chama a si mesmo de insensato. Se, porém, alguma vez se gloria, é nas fraquezas, nas injúrias, na grande compaixão para com os que são ofendidos: assim como aqui também diz: quem enfraquece, e eu não enfraqueço? Estas palavras são maiores ainda do que os perigos. Por isso também as coloca por último, ampliando o seu discurso.
Do que, pois, devemos julgar-nos dignos, nós que não desprezamos as riquezas por amor de nós mesmos, nem sequer renunciamos ao supérfluo de nossos bens? Mas não assim Paulo; antes, ele costumava entregar tanto a alma quanto o corpo, para que aqueles mesmos que o apedrejavam e o açoitavam com varas pudessem alcançar o reino. Pois assim, diz ele, Cristo me ensinou a amar; Ele que nos deixou o novo mandamento acerca do amor, o qual também Ele mesmo cumpriu em ato. Pois sendo Senhor de todas as coisas e daquela Natureza Bendita, dos homens — que Ele criara do nada e sobre os quais derramara inumeráveis benefícios — destes mesmos, que O insultavam e cuspiam sobre Ele, não Se apartou; antes, até Se fez homem por amor deles, e conversou com meretrizes e publicanos, e curou os endemoninhados, e prometeu o céu. E depois de todas estas coisas, prenderam-nO e O açoitaram com varas, ataram-nO, flagelaram-nO, escarneceram dEle e, por fim, O crucificaram. E nem mesmo assim Se apartou, mas até quando estava no alto, sobre a cruz, disse: Pai, perdoa-lhes o pecado. E ao ladrão que antes disto O ultrajava, transportou-o para o próprio paraíso; e fez do perseguidor Paulo um Apóstolo; e entregou os Seus próprios discípulos, que Lhe eram íntimos e inteiramente devotados, à morte, por amor dos judeus que O crucificaram.
Recordando, pois, em nossas mentes todas estas coisas, tanto as de Deus quanto as dos homens, emulemos estes altos feitos, e apossemo-nos do amor que está acima de todos os dons, para que alcancemos tanto as bênçãos presentes quanto as futuras: as quais possamos todos nós alcançar, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo desconsidera até os sacrifícios mais extremos, se forem feitos sem amor.
Em seguida, ele traça um esboço da beleza incomparável da caridade, adornando sua imagem com todos os aspectos da virtude, como que com muitas cores reunidas com precisão.
A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não se ensoberbece, não se ensancha.
Assim, tendo ele mostrado que tanto a fé, como a ciência, e a profecia, e as línguas, e os dons, e a cura, e uma vida perfeita, e o martírio, se a caridade estiver ausente, não trazem grande proveito, necessariamente traça em seguida um esboço de sua beleza incomparável, adornando sua imagem com as partes da virtude como que com uma sorte de cores, e compondo todos os seus membros com exatidão. Mas não passes tu apressadamente, amado, pelas coisas ditas, antes examina cada uma delas com muito cuidado, para que conheças tanto o tesouro que há na coisa quanto a arte do pintor. Considera, por exemplo, por onde ele desde logo começou, e o que pôs em primeiro lugar, como causa de toda a sua excelência. E o que é isto? A longanimidade. Esta é a raiz de toda abnegação. Por isso também certo sábio disse: O homem longânimo é de grande entendimento; mas o de espírito impaciente é sobremaneira insensato.
E comparando-a também a uma cidade forte, disse que ela é mais segura do que esta. Pois é ao mesmo tempo uma arma invencível e uma sorte de torre inexpugnável, repelindo com facilidade todos os aborrecimentos. E assim como uma centelha, caindo no mar profundo, não lhe causa dano algum, mas ela própria facilmente se extingue, assim também sobre uma alma longânime, seja o que for de inesperado que caia, isto de fato rapidamente se desvanece, mas a alma não perturba: pois em verdade não há coisa alguma tão impenetrável quanto a longanimidade. Podes falar de exércitos, de dinheiro, de cavalos, de muralhas, de armas, ou de qualquer outra coisa que seja; não nomearás nada semelhante à longanimidade. Pois aquele que se cerca dessas coisas, muitas vezes, sendo vencido pela ira, é derrubado como uma criança sem valor, e enche tudo de confusão e tempestade: mas este outro, estabelecido como que num porto, goza de uma calma profunda. Ainda que o cerques de prejuízos, não moveste a rocha; ainda que tragas sobre ele o insulto, não abalaste a torre: e ainda que o firas com açoites, não feriste o diamante.
Sim, e por isso é chamado longânimo, porque possui uma sorte de alma longa e grande. Pois aquilo que é longo também se chama grande. Mas esta excelência nasce da caridade, contribuindo com não pequeno proveito tanto para os que a possuem quanto para os que dela desfrutam. Pois não me fales daqueles miseráveis perdidos que, fazendo o mal e não sofrendo nada, se tornam piores: pois aí, não da longanimidade dele, mas dos que dela abusam, provém este resultado. Não me fales, portanto, destes, mas daquelas pessoas mais brandas, que daí colhem grande benefício. Pois quando, tendo feito mal, nada sofrem, admirando a mansidão do que sofreu, colhem com isso uma lição muito grande de domínio de si mesmos.
Mas Paulo não para aqui, senão que acrescenta também os outros elevados feitos da caridade, dizendo: é benigna. Pois havendo alguns que praticam sua longanimidade não com vistas à própria abnegação, mas ao castigo daqueles que os provocaram, para fazê-los arrebentar de ira, diz que a caridade não tem tampouco este defeito. Por isso também acrescentou: é benigna. Pois não é de modo algum com vistas a atear o fogo, naqueles que estão inflamados de ira, que os tratam com mais brandura, mas antes para aplacá-lo e extingui-lo: e não somente suportando nobremente, mas também suavizando e consolando, curam a chaga e sanam a ferida da paixão.
Não é invejosa. Pois é possível que alguém seja ao mesmo tempo longânimo e invejoso, e por isso aquela excelência se estraga. Mas a caridade evita também isto.
Não trata com leviandade; isto é, não é temerária. Pois tal qualidade torna considerado, grave e constante aquele que ama. Com efeito, um dos sinais dos que amam ilicitamente é precisamente a falta deste ponto; ao passo que aquele a quem esta caridade é conhecida é, de todos os homens, o mais inteiramente livre destes males. Pois, não havendo ira no íntimo, tanto a temeridade quanto a insolência são de todo removidas: a caridade, como um excelente lavrador, assenta sua sede no interior da alma e não permite brotar nenhum destes espinhos.
Não se ensoberbece. Pois vemos muitos que se estimam sobremodo por causa destas mesmas excelências — por exemplo, por não serem invejosos, nem rancorosos, nem mesquinhos de ânimo, nem temerários: males estes que não são próprios apenas da riqueza e da pobreza, mas até das coisas naturalmente boas. A caridade, porém, purga perfeitamente todos eles. E considera: quem é longânimo não é, por isso mesmo, também benigno; mas, se não for benigno, a coisa se torna vício, e corre perigo de cair na malícia. Por isso a caridade fornece um remédio — a saber, a benignidade — e preserva pura a virtude. Ademais, o homem benigno torna-se muitas vezes excessivamente complacente; mas também isto ela corrige. Pois a caridade, diz ele, não trata com leviandade, não se ensoberbece: o benigno e longânimo é muitas vezes ostentoso; mas também este vício ela remove.
E vede como ele a adorna não somente pelo que ela possui, mas também pelo que ela não possui. Pois diz que ela tanto introduz a virtude quanto extirpa o vício — ou antes, não permite sequer que este brote. Assim, não disse: Ela é invejosa, é certo, mas vence a inveja; nem: é arrogante, mas castiga essa paixão; mas sim: não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece — o que é, na verdade, sobremaneira admirável, que ela realize seus bens até mesmo sem labuta, e que, sem guerra nem batalha, seu troféu se erga: não permitindo que aquele que a possui labute para alcançar a coroa, mas conferindo-lhe, sem esforço algum, o seu prêmio. Pois onde não há paixão a combater contra a razão sóbria, que labuta poderia haver?
2. Não se porta com indecência. Mas, diz ele, por que digo que ela "não se ensoberbece", quando está ela tão longe deste sentimento que, ao padecer as coisas mais vergonhosas por aquele a quem ama, nem sequer reputa a coisa uma indecência? De novo, não disse que ela padece a indecência mas suporta a vergonha nobremente; disse, antes, que ela nem mesmo experimenta qualquer sentimento de vergonha. Pois, se os amantes do dinheiro suportam toda sorte de opróbrios por causa daquele seu sórdido comércio, e, longe de esconder o rosto, ainda se exultam nisso: muito mais aquele que possui esta louvável caridade nada recusará, seja o que for, pela segurança daqueles a quem ama; nem coisa alguma que possa padecer o envergonhará.
E para que não busquemos nosso exemplo em coisa alguma vil, examinemos esta mesma sentença em sua aplicação a Cristo, e então veremos a força do que foi dito. Pois o nosso Senhor Jesus Cristo foi cuspido e açoitado com varas por servos miseráveis; e não somente não reputou isto como coisa indecorosa, mas até se exultou e chamou a tal coisa de glória; e trazendo consigo um ladrão e homicida antes de todos os outros ao paraíso, e conversando com uma meretriz, e isto quando os circunstantes todos O acusavam, não considerou a coisa vergonhosa, mas antes permitiu que ela Lhe beijasse os pés, e que banhasse o Seu corpo com suas lágrimas, e as enxugasse com seus cabelos, e isto em meio a uma companhia de espectadores que eram adversários e inimigos; porque o amor nada faz de inconveniente.
Por isso também os pais, ainda que sejam os primeiros dentre os filósofos e oradores, não se envergonham de balbuciar com seus filhos; e nenhum dos que os veem os censura por isso, mas a coisa é tida por tão boa e reta que é até digna de oração. E, ainda mais, caso os filhos se tornem viciosos, os pais persistem em corrigi-los, cuidando deles, abreviando as afrontas que sofrem, e não se envergonham. Porque o amor nada faz de inconveniente, mas, como que com certas asas douradas, encobre todas as ofensas do amado.
Assim também Jônatas amava a Davi; e ouvindo seu pai dizer (1 Samuel 20:30): "Filho de servas fugitivas de suas casas, criado por mulheres", não se envergonhou, ainda que as palavras fossem plenas de grande opróbrio. Pois o que ele quer dizer é isto: filho de vis meretrizes enlouquecidas por homens, que correm atrás dos transeuntes, ó desvirilizado e efeminado desgraçado, que nada tens de homem, mas vives para a vergonha de ti mesmo e da mãe que te gerou. Que fez, pois, Jônatas? Entristeceu-se com estas coisas, e escondeu o rosto, e se afastou de seu amado? De modo nenhum; antes, muito ao contrário, exibiu sua afeição como ornamento. E, no entanto, um era naquele tempo rei, e filho de rei, a saber, Jônatas; o outro, um fugitivo e errante, refiro-me a Davi. Mas nem ainda assim se envergonhou de sua amizade. Porque o amor não se porta de modo inconveniente. Sim, esta é sua admirável qualidade: que não somente não permite que o ofendido se entristeça e se sinta ferido, mas até o dispõe a exultar. Assim, também ele, de quem falamos, depois de todas estas coisas, como que lhe puseram uma coroa, foi e se lançou ao pescoço de Davi. Pois o amor não sabe o que seja a vergonha. Por isso se gloria naquilo mesmo por que outro esconderia o rosto. Visto que a vergonha está, não em saber amar; mas em, quando amas, incorrer em perigo e suportar tudo pelo amado.
Mas quando digo "tudo", não suponhais que quero dizer também as coisas nocivas; por exemplo, auxiliar um jovem em um caso amoroso, ou qualquer coisa danosa que alguém suplique a outrem que faça por ele. Pois tal pessoa não ama, e isto vos mostrei há pouco a partir da mulher egípcia: visto que, na verdade, somente ama aquele que busca o que é proveitoso ao amado; de sorte que, se alguém não persegue isto, ainda que faça dez mil profissões de amor, é mais hostil que qualquer inimigo.
Assim também Rebeca, outrora, porque se apegava excessivamente a seu filho, tanto perpetrou um engano quanto não se envergonhou de ser descoberta, nem temeu, embora o risco não fosse pequeno; antes, quando o próprio filho lhe levantava escrúpulos, ela disse: sobre mim caia a tua maldição, meu filho. Vedes, mesmo numa mulher, a alma do Apóstolo? Como Paulo escolheu — se é lícito comparar o pequeno com o grande — ser anátema pelos judeus (Rm 9,3), assim também ela, para que seu filho fosse abençoado, escolheu não ser menos que amaldiçoada. E os bens ela lhe cedeu, pois não seria, ao que parece, abençoada com ele, mas os males estava preparada para suportar sozinha; e, no entanto, alegrou-se, e apressou-se, mesmo havendo tamanho perigo diante dela, e afligia-se com a demora do negócio: pois temia que Esaú os antecipasse e tornasse vã a sua sabedoria. Por isso também corta a conversa e apressa o jovem, e, apenas permitindo-lhe responder ao que fora dito, apresenta uma razão suficiente para persuadi-lo. Pois não disse: dizes essas coisas sem razão, e em vão temes, tendo teu pai envelhecido e sido privado da clareza da vista; mas quê? sobre mim caia a tua maldição, meu filho. Somente não estragues o plano, nem percas o objeto de nossa caça, nem abandones o tesouro.
E este mesmo Jacó, não serviu ele por salário junto a seus parentes duas vezes sete anos? Não esteve ele, junto com a escravidão, sujeito ao escárnio por causa daquele engano? Que, pois? Sentiu ele o escárnio? Considerou-o um comportar-se indecorosamente, o fato de que, sendo livre, e de nascimento livre, e bem educado, suportou tratamento de escravo entre os seus próprios parentes — coisa que costuma ser a mais penosa, quando alguém recebe tratamento injurioso de seus amigos? De modo algum. E a causa foi o seu amor, que fez o tempo, embora longo, parecer breve. Pois eram, diz ele (Gn 29,20), a seus olhos como poucos dias. Tão longe estava ele de sentir-se ferido e de envergonhar-se por causa dessa sua servidão. Justamente, pois, disse o bem-aventurado Paulo: o amor não se comporta com indecência.
3. 1. Não busca o que é seu, não se exaspera.
Thus tendo dito não se porta com indecência, mostra também a disposição de alma por causa da qual ela não se porta com indecência. E qual é essa disposição? Não buscar o que é seu. Pois ao amado tem por tudo, e somente então julga porta-se com indecência, quando não pode livrá-lo de semelhante indecência; de modo que, se lhe for possível beneficiar o amado mediante a própria indecência, nem sequer conta a coisa como indecência; pois o outro, doravante, é tu mesmo, quando amas: já que isto é amizade, que o amante e o amado já não sejam duas pessoas divididas, mas de certo modo uma só pessoa; coisa que de nenhum modo se dá senão a partir do amor. Não busques, pois, o que é teu, para que encontres o que é teu. Pois quem busca o que é seu, não encontra o que é seu. Por isso também disse Paulo: Ninguém busque o proveito próprio, mas cada um o do seu próximo (1 Cor 10,24). Pois o teu proveito está no proveito do teu próximo, e o dele, no teu. Assim como aquele que tivesse o seu próprio ouro enterrado na casa do vizinho, se se recusasse a ir buscá-lo e escavá-lo ali, jamais o buscará; assim também aqui, aquele que não quiser buscar o seu proveito na vantagem do seu próximo, não alcançará as coroas devidas a isto: tendo Deus mesmo, portanto, assim disposto as coisas, a fim de que fôssemos mutuamente atados uns aos outros: e assim como quem desperta uma criança adormecida para que siga o irmão, quando ela por si mesma não o quer, põe na mão do irmão aquilo que ela deseja e anseia, para que, por desejo de obtê-lo, persiga aquele que o detém, e assim de fato sucede: assim também aqui, o proveito de cada um Ele o deu ao seu próximo, para que daí corramos uns atrás dos outros, e não sejamos separados.
E, se quiserdes, vede isto também em nosso caso, nós que vos falamos. Pois o meu proveito depende de vós, e a vossa vantagem, de mim. Assim, por um lado, aproveita a vós serdes ensinados as coisas que agradam a Deus, mas com isto fui eu encarregado, para que o recebêsseis de mim, e por isso fôsseis obrigados a correr a mim; e, por outro lado, aproveita a mim que vos torneis melhores: pois a recompensa que hei de receber por isto será grande; mas isto, por sua vez, está em vós; e por isso sou eu obrigado a seguir-vos, para que vos torneis melhores, e para que eu receba o meu proveito de vós. Por isso também diz Paulo: Pois qual é a minha esperança? Não sois vós mesmos? E de novo: Minha esperança, e meu gozo, e a coroa da minha exultação (1 Ts 2,19). De modo que o gozo de Paulo eram os discípulos, e o gozo deles, eles o tinham. Por isso ele até chorava quando os via perecer.
Novamente, o proveito deles dependia de Paulo; por isso disse ele: Pela esperança de Israel é que estou preso com esta cadeia. Atos 28:20 E ainda: Estas coisas suporto por causa dos eleitos, para que obtenham a vida eterna. 2 Tm 2:10 E isto também se pode ver nas coisas do mundo. Pois a mulher, diz ele, não tem poder sobre o seu próprio corpo, nem tampouco o marido; mas a mulher sobre o do marido, e o marido sobre o da mulher. 1 Cor 7:4 Assim também nós, quando queremos unir a algum outro, fazemos isto: não deixamos a nenhum deles em seu próprio poder, mas, estendendo uma cadeia entre ambos, fazemos com que um seja retido pelo outro, e o outro por aquele. Quereis ver isto também no caso dos governantes? Aquele que julga não se assenta em juízo por si mesmo, mas buscando o proveito do seu próximo. Os governados, por sua vez, buscam o proveito do governante mediante sua assiduidade, seu serviço, e todas as demais coisas. Os soldados tomam as armas por nós, pois por nossa causa se expõem ao perigo; nós, por eles, estamos em apertos, pois de nós vêm o seu sustento.
Mas se disserdes que cada um faz isto buscando o que é seu, digo eu também o mesmo, mas acrescento que é pelo bem do outro que se obtém o próprio. Assim, o soldado, se não combater por aqueles que o sustentam, não terá quem por isso lhe preste serviço; e este, por sua vez, se não alimentar o soldado, não terá quem se arme em seu favor.
4. Vede o amor, como se estende por toda parte e tudo administra? Mas não vos canseis, até que vos tenhais familiarizado inteiramente com esta cadeia de ouro. Pois, tendo dito não busca os seus interesses, menciona novamente os bens que disto procedem. E quais são estes?
Não se irrita, não suspeita mal. Vede novamente o amor, não apenas subjugando o vício, mas nem sequer permitindo que ele venha a surgir. Pois não disse: ainda que provocada, ela vence, mas sim: não se irrita. E não disse: não pratica o mal, mas: nem sequer o pensa; isto é, tão longe está de maquinar qualquer mal, que nem sequer o suspeita do ente amado. Como, pois, poderia praticá-lo, ou como poderia irritar-se? Ela que nem sequer suporta admitir uma suspeita má, donde provém a fonte da ira.
Ele adorna a caridade não apenas pelo que ela possui, mas também pelo que ela não possui. A caridade tanto suscita a virtude como expulsa o vício, não lhe permitindo germinar de modo alguum.
Não se alegra com a injustiça: isto é, não sente prazer com os que padecem mal; e não só isto, mas também, o que é muito maior, alegra-se com a verdade. Ela sente prazer, diz ele, com os que são bem falados, como diz Paulo: Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram (Rm 12,15).
Por isso não tem invídia, por isso não se ensoberbece: pois, com efeito, considera como seus os bens dos outros.
Vedes como, pouco a pouco, a caridade transforma em anjo aquele que nutre? Pois, quando ele está vazio de ira, puro de invídia e livre de toda paixão tirânica, considerai que, a partir de então, é libertado até da própria natureza do homem, e chega à própria serenidade dos anjos.
Contudo, ele não se contenta com isto, mas tem ainda algo mais a dizer, segundo o seu plano de expor por último os pontos mais fortes. Por isso diz: tudo sofre. Por sua longanimidade, por sua bondade; sejam essas coisas pesadas ou penosas, sejam injúrias, açoites ou mesmo a morte, ou seja o que for. E isto, de novo, pode-se perceber pelo caso do bem-aventurado Davi. Pois que poderia ser mais intolerável do que ver um filho levantar-se contra ele, aspirar à usurpação e sedento do sangue paterno? Contudo, isto suportou aquele bem-aventurado, e nem assim pôde tolerar proferir uma só palavra amarga contra o parricida; mas, ainda quando deixou todo o resto a seus capitães, deu uma ordem terminante quanto à sua segurança. Pois forte era o fundamento de sua caridade. Por isso também, tudo sofre.
Ora, o Apóstolo aqui insinua o seu poder; e, pelo que se segue, a sua bondade. Pois tudo espera, diz ele, tudo crê, tudo suporta. Que é tudo espera? Não desespera, diz ele, do ser amado, mas, ainda que este seja indigno, continua a corrigi-lo, a prover por ele, a cuidar dele.
Tudo crê. Pois não apenas espera, diz ele, mas também crê, por causa de seu grande afeto. E, ainda que esses bens não se realizem conforme a sua esperança, e a outra pessoa se mostre ainda mais intolerável, ela suporta até isso. Pois, diz ele, tudo suporta.
Por sua longanimidade, a caridade tudo sofre, sejam essas coisas pesadas ou penosas, sejam injúrias, açoites ou mesmo a morte.
E quanto aos nossos inimigos e aos gentios? Não deveríamos odiá-los? Não, não odiamos a eles, mas a sua doutrina; não a pessoa, mas a conduta perversa e a mente corrompida. Não é de admirar descobrir que as profecias e as línguas hão de cessar, mas e quanto à ciência? Paulo prossegue explicando por que também a inclui.
Vedes quando ele pôs a coroa sobre o arco, e o que há de peculiar a este dom, dentre todas as coisas? Pois o que existe e não falha? Não se separa, não se dissolve com a duração. Pois ela tudo suporta: pois, aconteça o que acontecer, aquele que ama jamais pode odiar. Esta é, pois, a maior de suas excelências.
Tal foi Paulo. Por isso também disse: Para ver se de alguma maneira posso incitar à emulação os que são minha carne (Rm 11:14); e permanecia esperançoso. E a Timóteo deu esta ordem, dizendo: E o servo do Senhor não deve contender, mas ser manso para com todos... corrigindo com mansidão os que se opõem, se porventura Deus lhes conceder o conhecimento da verdade (2 Tm 2:24-25).
Que então, dirá alguém, se forem inimigos e gentios, devemos odiá-los? Deve-se odiar, não a eles, mas à sua doutrina; não o homem, mas a conduta perversa, a mente corrupta. Pois o homem é obra de Deus, mas o engano é obra do diabo. Não confundas, pois, as coisas de Deus com as coisas do diabo. Visto que os judeus eram, ao mesmo tempo, blasfemos, perseguidores e injuriosos, e diziam dez mil males a respeito de Cristo — odiava-os, pois, Paulo, ele que, mais que todos os homens, amava a Cristo? De modo algum; antes, ele os amava, e tudo fazia por amor deles: e ora dizia: O desejo do meu coração e a minha súplica a Deus é por eles, para que sejam salvos (Rm 10:1; 9:3); ora dizia: Eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor deles. Assim também Ezequiel, vendo-os mortos, diz: Ai, Senhor! Apagarás Tu o remanescente de Israel? (Ez 9:8) E Moisés: Se perdoares o seu pecado, perdoa-o (Êx 32:32).
Por que, então, diz Davi: Não odeio eu, Senhor, os que Te odeiam? E não me consumo eu contra os Teus inimigos? Odeio-os com ódio perfeito (Sl 139:21-22).
Ora, em primeiro lugar, nem tudo o que é dito nos Salmos por Davi é dito na pessoa de Davi. Pois é ele mesmo quem diz: Habitei nas tendas de Quedar (Sl 120:5); e: Junto aos rios da Babilônia, ali nos assentamos e choramos (Sl 137:1); e, no entanto, ele jamais viu a Babilônia, nem as tendas de Quedar.
Mas, além disso, exige-se agora de nós um domínio de nós mesmos mais completo. Por isso também, quando os discípulos suplicaram que descesse fogo, tal como no caso de Elias, disse Cristo: Não sabeis de que espírito sois (Lc 9:55). Pois, naquele tempo, não somente a impiedade, mas também os próprios ímpios, foram mandados odiar, a fim de que a amizade com eles não se tornasse ocasião de transgressão. Por isso ele rompeu os laços com eles, tanto pelo sangue quanto pelo matrimônio, e por todos os lados os cercou.
Não obstante, agora, porquanto ele nos conduziu a um domínio de nós mesmos mais pleno e nos colocou em altura superior a esse mal, ordena-nos antes que os acolhamos e os apaziguemos. Pois nenhum dano recebemos deles, mas eles é que se beneficiam de nós. Que diz ele, pois? Não devemos odiar, mas compadecer-nos. Porque, se odiares, como converterás com facilidade aquele que está em erro? Como orarás pelo incrédulo? Que se deve orar por ele, ouve o que diz Paulo: Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens (1 Tm 2,1). Ora, que nem todos fossem então crentes, é, suponho, evidente a qualquer um. E, de novo: pelos reis e por todos os que estão em eminência. Que estes, porém, fossem ímpios e transgressores, isto também é igualmente manifesto. Além disso, mencionando também a razão da oração, acrescenta: pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. Por isso, se ele encontrar uma esposa gentia vivendo com um crente, não dissolve o matrimônio. E, todavia, que há mais estreitamente unido do que o homem à sua esposa? Pois os dois serão uma só carne (Gn 2,24), e grande, nesse caso, é o encanto, e ardente o desejo. Mas, se devêssemos odiar os ímpios e os transgressores da lei, iríamos adiante odiar também os pecadores; e assim, em processo regular, serás apartado dos mais equânimes dentre teus irmãos, ou antes, de todos: pois não há um sequer, não, nem um só, sem pecado. Porque, se é nosso dever odiar os inimigos de Deus, não se deve odiar somente os ímpios, mas também os pecadores; e assim seremos piores que as feras selvagens, evitando a todos e inchados de soberba, tal como aquele fariseu. Mas não foi assim que Paulo nos ordenou; senão como? Admoestai os desordeiros, confortai os pusilânimes, sustentai os fracos, sede longânimos para com todos (1 Ts 5,14).
6. Que quer, pois, dizer quando afirma: Se alguém não obedece à nossa palavra por esta epístola, notai a esse homem, para que não tenhais companhia com ele (2 Ts 3,14)? Em primeiro lugar, diz isto a respeito dos irmãos; contudo, nem mesmo assim sem limitação, mas isto também com mansidão. Pois não cortes o que se segue, mas ajunta também a cláusula seguinte: como, tendo dito não terdes companhia com ele, acrescentou, todavia, não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como irmão. Vês como nos ordenou odiar a obra que é má, e não o homem? Pois é obra do diabo, com efeito, dilacerar-nos uns dos outros, e ele sempre empregou grande diligência para tirar o amor, a fim de cortar o caminho da correção, e retê-lo a ele no erro e a ti na inimizade, e assim bloquear o caminho da sua salvação. Pois, quando tanto o médico odeia o enfermo e dele foge, quanto o enfermo se aparta do médico, quando será restaurado o achacado, visto que nem um invocará o auxílio do outro, nem o outro irá a ele?
Mas dize-me, por que razão te apartas dele e o evitas? Porque é ímpio? Em verdade, por esta mesma causa deverias acolhê-lo e assisti-lo, para que o levantes em sua enfermidade. Mas, ainda que ele esteja incuravelmente enfermo, a ti foi ordenado que cumprisses a tua parte. Pois também Judas estava incuravelmente enfermo, e nem por isso Deus deixou de assisti-lo. Não te canses, portanto, tu tampouco. Pois ainda que, depois de muito labor, não consigas livrá-lo de sua impiedade, receberás contudo a recompensa do libertador, e o farás admirar-se de tua mansidão, de modo que todo este louvor redundará em Deus. Porquanto, ainda que operasses maravilhas, e ressuscitasses os mortos, e fizesses qualquer outra obra, jamais os gentios se admirariam de ti tanto quanto quando te virem exibir um temperamento manso, brando e suave. E isto não é pequena façanha, pois muitos serão até inteiramente libertados de seu mau caminho; nada havendo que tenha tal poder de atrair os homens quanto o amor. Pois, quanto àquelas outras coisas — refiro-me aos sinais e prodígios — antes te terão inveja; mas por esta te admirarão e te amarão; e, se te amarem, também abraçarão a verdade a seu tempo. Se, porém, ele não se tornar crente de imediato, não te admires nem te apresses, nem exijas tudo de uma só vez; deixa-o antes, por ora, louvar e amar, e a isto, no devido tempo, ele chegará.
Ora, para que claramente conheçais quão grande coisa é esta, ouvi como também Paulo, comparecendo diante de um juiz descrente, fez sua defesa. Considero-me feliz, diz ele, por haver de fazer minha defesa diante de ti. (At 26:2) E dizia ele isto, não para lisonjeá-lo — longe disso — mas desejando ganhá-lo pela sua mansidão. E em parte o ganhou, e aquele que até então era tido por condenado tomou cativo o seu juiz, e a vitória é confessada pelo próprio que foi feito cativo, com grande voz, na presença de todos, dizendo: Por pouco me persuades a fazer-me cristão. (At 26:28-29) Que diz, pois, Paulo? Estendeu ainda mais largamente a sua rede, e diz: Prouvera a Deus que não somente tu, mas também todos quantos hoje me ouvem, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias. Que dizes, ó Paulo? Exceto estas cadeias? E que confiança te resta, se te envergonhas destas coisas, e delas foges, e isto diante de tão grande multidão? Não te glorias em toda parte, em tuas Epístolas, desta mesma causa, e a ti mesmo te chamas prisioneiro? Não trazes em toda parte esta cadeia, à nossa vista, como um diadema? Que sucedeu, pois, agora, que declinas destas cadeias? Eu mesmo não as declino, diz ele, nem delas me envergonho, mas condesço com a fraqueza deles. Pois ainda não são capazes de receber a minha glória; e aprendi de meu Senhor a não pôr 'remendo de pano novo em vestido velho' (Mt 9:16); por isso assim falei. Pois, na verdade, até este tempo ouviram maus relatos acerca de nossa doutrina, e abominam a cruz. Se, pois, eu acrescentasse também as cadeias, maior se tornaria o seu ódio; removi-as, portanto, para que o restante se tornasse aceitável. Assim é que a eles parece coisa vergonhosa estar atado, porquanto ainda não provaram da Glória que está conosco. Cumpre, pois, condescender: e quando houverem aprendido da verdadeira vida, então conhecerão também a beleza deste ferro, e o esplendor que provém destas cadeias. Além disso, discorrendo com outros, chama até mesmo a coisa de dom gratuito, dizendo: Foi-vos concedido, da parte de Cristo, não somente crer nEle, mas também padecer por Ele. (Fp 1:29) Mas, para o tempo então presente, grande coisa era que os ouvintes não se envergonhassem da cruz: por cuja causa procede ele gradualmente. Assim, tampouco quem introduz alguém a um palácio, antes que contemple o vestíbulo, o obriga, estando ainda de fora, a perscrutar o que está dentro: pois desse modo nem sequer parecerá admirável, a menos que se entre e assim se familiarize com tudo.
Assim, pois, tratemos também nós com a laia dos gentios: com condescendência, com amor. Pois o amor é grande mestre, e capaz tanto de retirar os homens do erro, como de reformar o caráter, e de conduzi-los pela mão à abnegação, e de pedras fazer homens.
8. E se quiseres conhecer o seu poder, traze-me um homem tímido e receoso de todo som, e trêmulo às sombras; ou colérico, e áspero, e antes fera do que homem; ou lascivo e dissoluto; ou de todo entregue à maldade; e entrega-o nas mãos do amor, e introduze-o nesta escola; e verás bem depressa aquela criatura covarde e tímida tornada corajosa e magnânima, e lançando-se a todas as coisas com alegria. E o que é admirável, não é por alguma mudança na natureza que estas coisas resultam, mas na própria alma covarde o amor manifesta o seu peculiar poder; e é quase como se alguém fizesse uma espada de chumbo, não transformada em aço, mas permanecendo na natureza do chumbo, realizar a obra do aço. Assim: Jacó era homem simples, habitando em casa, e inexperiente em labores e perigos, vivendo uma espécie de vida remissa e fácil, e como uma virgem em seu aposento; assim também era ele constrangido, na maior parte do tempo, a permanecer dentro de portas e guardar a casa; afastado do foro e de todos os tumultos do foro, e de todas essas coisas, e permanecendo mesmo em ócio e quietude. Que sucedeu, pois? Depois que a tocha do amor o inflamou, vede como fez a este homem simples e caseiro forte para suportar e amante do labor. E disto ouvi não o que eu digo, mas o que o próprio patriarca diz: como, repreendendo o seu parente, suas palavras são: Estes vinte anos estive contigo. E como foste tu estes vinte anos? (Pois isto também ele acrescenta:) Consumido pelo calor de dia, e pela geada de noite, e o sono se apartou dos meus olhos. Assim fala aquele homem simples, que permanecia em casa, e vivia aquela vida fácil.
De novo, que era tímido é evidente, pois, esperando ver Esaú, estava morto de temor. Mas vede outra vez como este homem tímido se tornou mais ousado que um leão sob a influência do amor. Pois, pondo-se à frente como algum campeão diante dos demais, estava pronto para ser o primeiro a receber aquele irmão selvagem e sedento de sangue, tal como o supunha, e a comprar com o próprio corpo a salvação de suas mulheres: e a quem temia e ante quem estremecia, desejava ser ele mesmo o primeiro a contemplar na fileira. Pois este temor não era tão forte quanto o seu afeto por suas mulheres. Vedes como, sendo tímido, tornou-se subitamente arrojado, não por mudar de caráter, mas por ser vigorado pelo amor? Pois que também depois disto era tímido, é evidente pela sua mudança de lugar em lugar.
Mas que ninguém considere o que foi dito como acusação contra aquele varão justo: pois ser tímido não é reprovação, porquanto isto é da natureza do homem; mas o fazer alguma coisa indecorosa por causa da timidez. Pois é possível que alguém tímido por natureza se torne corajoso pela piedade. Que fez Moisés? Não foi ele, por temor de um único egípcio, que fugiu, e se retirou em desterro? Contudo, este fugitivo, que não pôde suportar a ameaça de um único homem, depois que provou o mel do amor, nobremente e sem constrangimento de ninguém, se apressou a perecer juntamente com aqueles a quem amava. Pois se perdoares o seu pecado, diz ele, perdoa; e se não, risca-me, peço-te, do Teu livro que escreveste.
9. Além disso, que o amor torna também moderado o feroz, e casto o dissoluto, já não temos necessidade de exemplos: sendo isto evidente a todos os homens. Ainda que um homem seja mais selvagem do que qualquer fera, nenhuma ovelha é tão mansa quanto ele se torna por obra do amor. Pois que poderia ser mais feroz e frenético do que Saul? Mas quando sua filha deixou seu inimigo escapar, ele não proferiu contra ela sequer uma palavra amarga. E aquele que sem piedade passou a fio da espada todos os sacerdotes por causa de Davi, vendo que sua filha o havia mandado embora de casa, não se indignou contra ela nem mesmo com palavras; e isto quando tamanha fraude fora tramada contra ele: porque era refreado pelo freio mais forte do amor.
Ora, assim como a moderação, também a castidade é efeito ordinário do amor. Se um homem ama a sua própria mulher como deve amá-la, ainda que seja sobremaneira inclinado à dissolução, não suportará pôr os olhos em outra mulher, por causa do afeto que tem por ela. Pois o amor, diz alguém, é forte como a morte (Ct 8,5). De sorte que de nenhuma outra fonte procede o comportamento dissoluto senão da falta de amor.
Visto, pois, que o amor é o Artífice de toda virtude, implantemo-la com todo o rigor em nossas próprias almas, para que ela produza para nós muitas bênçãos, e para que tenhamos o seu fruto continuamente abundante, o fruto que é sempre fresco e nunca perece. Pois assim havemos de obter nada menos que bênçãos eternas: as quais possamos todos nós obter, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, e também ao Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Tendo mostrado a excelência da caridade a partir de sua necessidade tanto para os dons espirituais quanto para as virtudes da vida; e mediante a enumeração de todas as suas boas qualidades, demonstrando ser ela o fundamento da exata abnegação; a partir de outro fundamento, um terceiro, ele indica novamente o seu valor. E isto ele faz, primeiramente, por desejar persuadir aos que pareciam ser tidos por inferiores de que está em seu poder possuir o principal de todos os sinais, e de que não estarão em pior situação que os possuidores dos dons, se tiverem esta, mas antes muito melhor; em segundo lugar, no que respeita, por outro lado, aos que possuíam os maiores dons e por isso se ensoberbeciam, procurando rebaixá-los e mostrar que nada possuem se não tiverem esta. Pois assim ambos se amariam mutuamente, sendo removidas por este meio tanto a inveja quanto a soberba; e, amando-se reciprocamente, expulsariam ainda mais estas paixões. Porque a caridade não tem inveja, não se ensoberbece. De modo que, de todos os lados, ele lhes ergue uma muralha inexpugnável e uma multiforme unanimidade, a qual primeiro remove todas as suas desordens, e por isso mesmo se torna ainda mais forte. Por isso também ele apresentou inúmeras razões que pudessem consolar o seu abatimento. Assim: é o mesmo Espírito, diz ele, quem dá; e Ele dá para o proveito comum; e reparte como quer, e é um dom o que Ele reparte, não uma dívida. Ainda que recebas apenas um pouco, igualmente contribuis para o corpo, e mesmo assim desfrutas de muita honra. E aquele que tem mais precisa de ti, que tens menos. E a caridade é o maior dom, e "o caminho mais excelente".
Ora, tudo isto ele disse com o duplo propósito de ligá-los uns aos outros: tanto porque não deveriam considerar-se diminuídos enquanto tivessem esta, quanto porque, após buscá-la e alcançá-la, doravante não sentiriam a fraqueza humana; tendo, ao mesmo tempo, a raiz de todos os dons, e não sendo mais capazes de contenda ainda que nada tivessem. Pois aquele que uma vez é levado cativo pela caridade fica livre da contenda.
E é por isso que, apontando-lhes quão grandes vantagens daí colheriam, ele delineou os seus frutos; reprimindo, mediante os seus elogios a ela, as suas desordens: visto que cada uma das coisas por ele mencionadas era remédio suficiente para curar as suas feridas. Por isso também disse: é longânima, aos que estavam em contenda uns com os outros; é benigna, aos que se mantinham mutuamente afastados e guardavam segredo rancor; não tem inveja, aos que olhavam com inveja para os seus superiores; não se vangloria, aos que estavam separados; não se ensoberbece, aos que se vangloriavam contra os outros; não se porta com indecência, aos que não julgavam ser seu dever condescender; não busca os seus interesses, aos que desprezavam os demais; não se irrita, não suspeita mal, aos que eram insolentes; não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade, aos que, por sua vez, eram invejosos; tudo sofre, aos que eram traiçoeiros; tudo espera, aos desesperançados; tudo suporta, jamais falha, aos que facilmente se separavam.
2. Ora, depois que já mostrara, sob todos os aspectos, ser ela sobremodo grande, novamente o faz a partir de outro ponto de suma importância, exaltando-lhe a dignidade mediante nova comparação, e dizendo assim: mas, quer haja profecias, serão aniquiladas; quer haja línguas, cessarão. Pois se ambas estas foram introduzidas em ordem à fé, uma vez que esta se acha semeada por toda parte, o uso delas torna-se doravante supérfluo. Mas o amar-se uns aos outros não cessará; antes, ainda progredirá mais, tanto aqui quanto além, e então mais do que agora. Pois aqui há muitas coisas que enfraquecem o nosso amor: a riqueza, os negócios, as paixões do corpo, as desordens da alma; mas ali nada disso há.
Ora, embora não seja de admirar que as profecias e as línguas sejam aniquiladas, que o conhecimento seja aniquilado — eis o que pode suscitar certa perplexidade. Pois isto também ele acrescentou: quer haja conhecimento, será aniquilado. Que, pois? Havemos, então, de viver na ignorância? Longe disso. Antes, é então especialmente provável que o nosso conhecimento se torne mais intenso. Pelo que também disse: Então conhecerei, assim como também sou conhecido. Por esta razão, se atentardes bem, para que não supusésseis que isto fosse aniquilado igualmente com a profecia e as línguas, tendo dito, quer haja conhecimento, será aniquilado, não se calou, mas acrescentou também o modo do seu desvanecimento.
Conhecemos em parte, e em parte profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
Não é, portanto, o conhecimento que é aniquilado, mas a circunstância de que nosso conhecimento é em parte. Pois não conheceremos apenas tanto, mas muito mais ainda. Mas, para que também o torne evidente por exemplo: agora sabemos que Deus está em toda parte, mas como, não sabemos. Que Ele fez, a partir das coisas que não são, as coisas que são, sabemos; mas do modo, ignoramo-lo. Que Ele nasceu de uma virgem, sabemos; mas como, ainda não sabemos. Mas então conheceremos algo mais e mais claramente acerca destas coisas. Em seguida, ele também assinala quão grande é a distância entre as duas coisas, e que a nossa deficiência não é pequena.
O que daí se implica não é que o nosso conhecimento haverá de desaparecer por completo, mas que as suas imperfeições se revelarão sobremodo limitadas. Conheceremos tudo quanto agora conhecemos, ainda que de modo imperfeito, mas conheceremos também muito mais além disso. Sabemos, por exemplo, que Deus está em toda parte, mas não sabemos como isso é possível. Sabemos que Ele fez a criação a partir do nada, mas não temos ideia de como. Sabemos que Cristo nasceu de uma virgem, mas não sabemos como. E assim por diante.
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Aqui Paulo assinala quão grande é a diferença entre o que agora conhecemos e o que haveremos de conhecer no futuro.
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E por meio de outro exemplo manifesta de novo a mesma coisa.
Deus, evidentemente, não tem face. Paulo emprega essa imagem para designar maior clareza e perspicuidade. Alguém que esteja sentado nas trevas, durante a noite, não correrá atrás da luz do sol enquanto não puder vê-la. Mas, quando raiar a aurora e o fulgor do sol começar a brilhar sobre ele, acabará por seguir a sua luz.
Mas então face a face. Não que Deus tenha face, mas para exprimir a noção de maior clareza e perspicuidade. Vedes como aprendemos todas as coisas por gradual acréscimo?
Agora conheço em parte; mas então conhecerei também como fui conhecido. Vedes de que dois modos ele derriba a soberba deles? Tanto porque o conhecimento deles é em parte, quanto porque nem isto possuem de si mesmos. Pois "eu não O conhecia, mas Ele Se fez conhecer a mim", diz ele. Por isso, assim como agora Ele primeiro me conheceu, e Ele mesmo se apressou em vir ao meu encontro, assim também eu me apressarei ao Seu encontro então, muito mais do que agora. Pois assim aquele que se assenta nas trevas, enquanto não vê o sol, não se apressa por si mesmo a ir ao encontro da beleza de seu raio, o qual, na verdade, se mostra assim que começa a brilhar; mas quando percebe o seu esplendor, então também ele mesmo, por fim, segue-lhe a luz. Este é, pois, o sentido da expressão "como também fui conhecido". Não que O conheçamos assim como Ele é, mas que, assim como Ele Se apressou agora até nós, assim também nós nos apegaremos a Ele então, e conheceremos muitas das coisas que agora são secretas, e gozaremos daquela mui bem-aventurada comunhão e sabedoria. Pois se Paulo, que tanto sabia, era uma criança, considerai o que devem ser aquelas coisas. Se isto é um espelho e um enigma, infere daí, por sua vez, quão grande coisa é a Face aberta de Deus.
3. Mas, para que eu vos abra alguma pequena parte desta diferença, e possa comunicar à vossa alma algum tênue raio deste pensamento, quisera que recordásseis as coisas tal como eram na Lei, agora que a graça já resplandeceu. Pois também aquelas coisas que precederam a graça tinham certa aparência grande e admirável; contudo, ouvi o que diz Paulo delas, depois que a graça veio: "Aquilo que foi glorificado não teve glória, neste particular, por causa da glória que a sobrepuja" (2 Coríntios 3:10).
Mas, para que o que digo se torne ainda mais claro, apliquemos o argumento a algum dos ritos então celebrados, e então vereis quão grande é a diferença. E, se quiserdes, tragamos à baila aquela páscoa e esta, e então percebereis a nossa superioridade. Pois os judeus, na verdade, a celebravam, mas a celebravam como que num espelho, e obscuramente. Estes mistérios ocultos, porém, jamais em tempo algum conceberam em sua mente, nem tampouco as coisas que eles prefiguravam. Viam um cordeiro imolado, e o sangue de um animal, e ombreiras de portas aspergidas com ele; mas que o Filho de Deus encarnado seria imolado, e libertaria o mundo inteiro, e concederia tanto a gregos quanto a bárbaros provar deste Sangue, e abriria o céu a todos, e ofereceria o que ali está a toda a raça humana, e, havendo tomado a Sua carne ensanguentada, a exaltaria acima do céu, e do céu dos céus, e, numa palavra, acima de todas as hostes do alto, dos anjos e arcanjos e de todas as demais potestades, e a faria, resplandecendo em glória inefável, assentar-se sobre o próprio trono do Rei, à destra do Pai — estas coisas, digo, ninguém, nem dentre eles nem dentre o resto da humanidade, jamais pressentiu ou foi capaz sequer de conceber.
4. Mas o que dizem aqueles que de nada se retraem? Que a expressão *agora conheço em parte* é dita segundo as dispensações; pois o Apóstolo possuía o conhecimento perfeito de Deus. E ora ele se chama a si mesmo criança? Como vê ele em espelho? Como obscuramente, se possui a soma do conhecimento? E por que o refere como algo peculiar ao Espírito, e a nenhuma outra potência na criação, dizendo: *Pois quem, dentre os homens, conhece as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém conhece, senão o Espírito de Deus* (1 Cor 2,11)? E Cristo, por sua vez, diz que isto pertence somente a Si, dizendo assim: *Não que alguém tenha visto o Pai, senão Aquele que vem de Deus, Este viu o Pai* (Jo 6,46), dando o nome de visão ao mais claro e perfeito conhecimento.
E como aquele que conhece a Essência ignoraria as dispensações? Visto que aquele conhecimento é maior do que este.
Ignoramos nós, pois, a Deus? — diz ele. Longe disso. Que Ele é, sabemo-lo; mas o que Ele é, quanto à Sua Essência, ainda não sabemos. E para que compreendas que não a respeito das dispensações disse ele as palavras *agora conheço em parte*, ouve o que se segue. Acrescenta, pois: *mas então conhecerei, assim como também fui conhecido*. Ora, ele não era conhecido pelas dispensações, mas por Deus.
Que ninguém, portanto, considere isto pecado pequeno ou simples, mas duplo, e tríplice, sim, e múltiplo. Pois não somente há aqui a impiedade de se gloriarem em conhecer aquelas coisas que pertencem somente ao Espírito e ao Filho unigênito de Deus, mas também que, quando Paulo não pôde adquirir sequer este conhecimento que é em parte sem a revelação do alto, estes homens dizem ter obtido o todo por seus próprios raciocínios. Pois nem sequer são capazes de apontar que a Escritura em alguma parte nos tenha discorrido acerca destas coisas.
5. Mas, contudo, deixando a sua loucura, atentemos às palavras que se seguem acerca do amor. Pois ele não se contentou com estas coisas.
A fé e a esperança cessarão quando aparecerem as coisas em que se creu e que se esperou. Mas o amor, então, torna-se ainda maior e mais ardente.
Fé e esperança, na verdade, cessam quando os bens crídos e esperados sobrevêm. E, para mostrá-lo, disse Paulo: Ora, a esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, por que ainda o espera? (Rm 8:24). E ainda: Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem (Hb 11:1). De sorte que estas cessam quando aquelas se manifestam; mas o amor, então, é mais elevado ainda, e se torna mais veemente. Eis outro encômio do amor. Pois não se contenta ele com o que já foi dito, mas se esforça por descobrir ainda mais. E observai: disse que é um grande dom, e um caminho ainda mais excelente do que esses. Disse que, sem ele, nenhum grande proveito há em nossos dons; delineou longamente sua imagem; pretende, agora, de outro modo novamente exaltá-lo, e mostrar que é grande por sua permanência. Por isso disse também: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor. Como, pois, é o amor o maior? Naquilo em que aquelas passam.
Se, agora, tão grande é a virtude do amor, com razão acrescenta e diz: Segui o amor. Pois há, na verdade, necessidade de segui-lo, e de uma espécie de veemente correr atrás dele: de tal modo ele foge de nós, e tantas são as coisas que nos fazem tropeçar nessa direção. Por isso temos sempre necessidade de grande empenho para alcançá-lo. E, para apontar isto, não disse Paulo: segui o amor, mas: persegui-o; incitando-nos e inflamando-nos a lançar mão dele.
Pois assim Deus, desde o princípio, arquitetou dez mil modos para implantá-lo em nós. Assim, primeiramente, concedeu uma só cabeça a todos, Adão. Pois por que não brotamos todos da terra? Por que não plenamente formados, como ele foi? A fim de que tanto o nascimento quanto a criação dos filhos, e o ser gerado de outrem, nos ligassem mutuamente entre nós. Por essa causa também não fez a mulher da terra: e porque a identidade de substância não bastava igualmente para nos envergonhar até à unanimidade, a menos que tivéssemos também o mesmo progenitor, proveu Ele também a isto: pois, se agora, sendo apenas separados por lugar, nos consideramos alheios uns aos outros, muito mais teria isto acontecido se nossa raça tivesse tido duas origens. Por essa causa, portanto, como que a partir de uma só cabeça, ligou Ele todo o corpo do gênero humano. E porque, desde o princípio, pareciam ser de certo modo dois, vede como os prende novamente juntos, e os reúne em um só por meio do matrimônio. Pois, por isso, diz Ele, deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher; e serão uma só carne (Gn 2:24). E não disse: a mulher, mas: o homem, porque nele o desejo é também mais forte. E, sim, por essa causa o fez também mais forte, para que dobrasse a parte superior ao domínio absoluto dessa paixão, e a sujeitasse à mais fraca. E, uma vez que também o matrimônio havia de ser necessariamente introduzido, fez Ele daquele de quem ela procedera o esposo da mulher. Pois todas as coisas, aos olhos de Deus, são segundas em relação ao amor. E se, tendo as coisas assim começado, logo o primeiro homem se tornou tão frenético, e o diabo semeou entre eles tão grande guerra e inveja, que não teria feito, se não tivessem brotado de uma só raiz?
Além disso, para que um fosse sujeito e o outro governasse (pois a igualdade costuma amiúde suscitar contenda), Ele não permitiu que houvesse uma democracia, mas uma monarquia; e, como num exército, pode-se observar esta ordem em toda família. No posto de monarca, por exemplo, está o marido; mas no posto de tenente e general, a mulher; e aos filhos também é atribuída uma terceira posição de comando. Depois destes, uma quarta ordem, a do servo. Pois estes também exercem domínio sobre seus inferiores, e algum deles é amiúde posto sobre todos, guardando sempre o posto do senhor, mas ainda assim como servo. E juntamente com esta, ainda outra hierarquia; e entre os próprios filhos, ainda outra, segundo a idade e o sexo, visto que entre os filhos a mulher não possui igual autoridade. E em toda parte Deus estabeleceu governos a curtos intervalos e cerrados entre si, para que todos permanecessem em concórdia e muita boa ordem. Por isso, mesmo antes de a estirpe se multiplicar em multidão, quando apenas os dois primeiros existiam, Ele ordenou que ele governasse, e ela obedecesse. E, para que novamente Ele não a desprezasse como inferior, nem a separasse dele, vede como Ele a honrou, e os fez um só, mesmo antes de sua criação. Pois "façamos para o homem", diz Ele, "uma ajuda idônea", implicando que ela foi feita para a necessidade dele, e por isso atraindo-o a ela, que fora feita por causa dele; visto que a todas as coisas que são feitas por nossa causa somos mais benignamente inclinados. Mas, para que ela, por outro lado, não se ensoberbecesse por lhe ter sido concedida como ajuda, nem rompesse este vínculo, Ele a fez da costela dele, significando que ela é parte do corpo todo. E, para que também o homem não se ensoberbecesse por isso, Ele não mais permitiu que aquilo pertencesse somente a ele, o que antes era somente seu, mas operou o contrário disto, introduzindo a procriação dos filhos, e, também aqui, dando ao homem a honra principal, contudo sem permitir que o todo fosse dele.
Vedes quantos vínculos de amor Deus operou? E estes, na verdade, por força da natureza, Ele os depositou em nós como penhores de concórdia. Pois tanto o sermos da mesma substância conduz a isto (porque todo animal ama o seu semelhante), quanto o ter sido a mulher produzida do homem, e novamente os filhos de ambos. Donde também surgem muitas espécies de afeição. Pois a um amamos como pai, a outro como avô; a uma como mãe, a outra como ama; e a um como filho, ou neto, ou bisneto novamente, e a outra como filha, ou neta; e a um como irmão, a outro como sobrinho; e a uma como irmã, a outra como sobrinha. E que necessidade há de enumerar todos os nomes de consanguinidade?
E Ele concebeu também outro fundamento de afeição. Pois, tendo proibido o matrimônio entre parentes, conduziu-nos para fora, a estranhos, e novamente os atraiu a nós. Pois, já que por este parentesco natural não era possível que estivessem ligados a nós, Ele nos ligou de novo pelo matrimônio, unindo famílias inteiras pela única pessoa da noiva, e mesclando raças inteiras com raças.
Pois não te cases, diz o Senhor, Levítico 18:6, com tua irmã, nem com a irmã de teu pai, nem com donzela alguma que tenha contigo tal consanguinidade que impeça totalmente o matrimônio; nomeando os graus de tal parentesco. Basta, para o teu afeto por elas, que sejais fruto das mesmas dores de parto, e que as demais estejam contigo em relação diversa. Por que estreitas a largueza do amor? Por que descartas ociosamente um fundamento de afeto por ela, de modo que pudesses antes prover-te de uma fonte distinta de onde brotasse o afeto; refiro-me a tomar esposa de outra família, e por meio dela uma cadeia de parentes, tanto mãe quanto pai, e irmãos, e seus laços!
7. Vedes por quantos modos Ele nos ligou uns aos outros? Contudo, nem isto Lhe bastou, mas fez também que necessitássemos uns dos outros, para que assim também nos unisse, porque as necessidades, acima de tudo, geram amizades. Por nenhuma outra razão não permitiu Ele que todas as coisas fossem produzidas em todo lugar, senão para que também por aí nos obrigasse a mesclar-nos uns com os outros. Mas, tendo-nos posto em necessidade uns dos outros, tornou, por outro lado, fácil o convívio. Pois, se assim não fosse, o assunto se tornaria penoso e difícil de outra maneira. Porquanto, se alguém que necessitasse de um médico, ou de um carpinteiro, ou de qualquer outro artífice, tivesse de empreender uma longa peregrinação estrangeira, tudo se perderia. Eis, pois, por que Ele fundou também as cidades, e reuniu a todos num só lugar. E, consequentemente, para que pudéssemos com facilidade manter convívio com terras distantes, estendeu entre nós a planície do mar, e nos deu a rapidez dos ventos, tornando assim fáceis as nossas viagens. E, no princípio, chegou mesmo a reunir todos os homens num só sítio, e não os dispersou até que aqueles que primeiro receberam o dom abusassem de sua concórdia para o pecado. Todavia, Ele nos uniu de todas as maneiras: tanto pela natureza, quanto pela consanguinidade, quanto pela língua, quanto pelo lugar; e, assim como não quis que caíssemos do paraíso (pois, se o quisesse, não teria sequer ali colocado o homem que formara, mas foi aquele que desobedeceu a causa disso), assim também não foi Sua vontade que os homens tivessem línguas diversas; pois, do contrário, tê-lo-ia feito assim desde o princípio. Mas, ora, toda a terra era de uma só língua, e todos tinham uma só fala. Gênesis 11:1
Eis aqui a razão pela qual, quando foi necessário que a terra fosse destruída, nem ainda então nos fez Ele de outra matéria, nem transladou o homem justo, mas, deixando-o no meio do dilúvio, como uma espécie de centelha do mundo, dali reacendeu a nossa raça, mesmo por meio do bem-aventurado Noé. E, desde o princípio, estabeleceu Ele apenas um único domínio, pondo o homem sobre a mulher. Mas, depois que a nossa raça se precipitou numa extrema desordem, instituiu Ele também outros domínios, os dos senhores e os dos governantes, e isto também por amor. Isto é, visto que o vício era coisa apta a dissolver e subverter a nossa raça, colocou Ele os que administram a justiça no meio de nossas cidades como espécie de médicos, para que, expulsando o vício, como se fora uma peste ao amor, pudessem reunir a todos em um só corpo.
E que não somente nas cidades, mas também em cada família houvesse grande concórdia, Ele honrou o homem com o principado e a superioridade; a mulher, por sua vez, armou-a com o desejo: e o dom também da procriação dos filhos confiou-o a ambos em comum, e ainda lhes proveu outras coisas aptas a conciliar o amor; não confiando tudo ao homem, nem tudo à mulher, mas repartindo também estas coisas separadamente a cada um: a ela confiando a casa, e a ele o mercado; a ele a obra de alimentar, pois é ele quem lavra a terra; a ela a de vestir, pois o tear e a roca são da mulher. Porque é o próprio Deus quem deu ao gênero feminino a habilidade para o trabalho tecido. Ai da cobiça, que não sofre que apareça esta diferença! Pois a efeminação geral chegou a tal ponto que introduziu os nossos homens aos teares, e pôs em suas mãos as lançadeiras, e a trama, e os fios. Não obstante, ainda assim resplandece a providência da economia divina. Pois ainda grandemente necessitamos da mulher em outras coisas mais necessárias, e requeremos o auxílio dos que nos são inferiores naquelas coisas que mantêm unida a nossa vida.
8. E é tão forte a compulsão desta necessidade que, ainda que alguém seja mais rico que todos os homens, nem assim se vê livre desta estreita conjunção, e de sua carência daquilo que lhe é inferior. Pois não são, como vemos, somente os pobres que necessitam dos ricos, mas também os ricos dos pobres; e estes requerem aqueles mais do que os outros a estes. E para que o vejais mais claramente, suponhamos, se assim vos parecer bem, duas cidades, uma somente de ricos, e a outra somente de pobres; e nem naquela dos ricos haja algum pobre, nem nesta dos pobres algum rico; mas purguemos ambas inteiramente, e vejamos qual será a mais capaz de sustentar-se a si mesma. Pois se acharmos que a dos pobres é capaz, é evidente que os ricos mais necessitarão deles.
Ora então, naquela cidade dos abastados não haverá fabricante algum, nem construtor, nem carpinteiro, nem sapateiro, nem padeiro, nem lavrador, nem latoeiro, nem cordoeiro, nem qualquer outro ofício semelhante. Pois quem, dentre os ricos, escolheria jamais seguir estes ofícios, vendo que os próprios homens que os tomam em mãos, quando se tornam ricos, já não suportam o incômodo causado por estes trabalhos? Como, pois, subsistirá esta nossa cidade? Os ricos, responder-se-á, dando dinheiro, comprarão estas coisas dos pobres. Pois bem, não serão então suficientes para si mesmos; e o fato de necessitarem dos outros o prova. Mas como construirão as casas? Comprarão isto também? Mas a natureza das coisas não pode admitir isto. Portanto, hão de necessariamente convidar os artífices para lá, e destruir a lei que fizemos no início, quando fundávamos a cidade. Pois vos lembrais de que dissemos: não haja nela nenhum pobre. Mas eis que a necessidade, ainda contra a nossa vontade, os convidou e os trouxe para dentro. Donde é evidente que é impossível a uma cidade subsistir sem pobres: pois se a cidade continuasse recusando-se a admitir algum destes, já não será mais cidade, mas perecerá. Manifestamente, pois, não se sustentará a si mesma, a menos que reúna os pobres como uma espécie de conservadores, para tê-los dentro de si.
A cidade dos pobres, privada dos ricos, permaneceria em igual condição de penúria? Examinemos primeiro, em nosso discurso, a natureza das riquezas, e apontemo-las claramente. Que são, pois, as riquezas? Ouro, prata, pedras preciosas, vestes de seda, púrpura e bordadas de ouro. Tendo agora visto o que são as riquezas, afastemo-las de nossa cidade dos pobres; e, se havemos de fazê-la puramente uma cidade de pobres, que nela não apareça ouro algum, nem sequer em sonho, nem vestes de tal qualidade; e, se quiserdes, tampouco prata, nem vasos de prata. Que sucede, então? Viverá, por isso, aquela cidade e seus negócios em penúria? Dizei-me. De modo algum. Pois suponde, primeiramente, que haja necessidade de construir; não se requerem ouro, prata e pérolas, mas perícia, e mãos — e não mãos quaisquer, senão as que se fizeram calosas, e dedos endurecidos, e grande força, e madeira, e pedras. Suponde, novamente, que se queira tecer uma veste; tampouco aqui temos necessidade de ouro e prata, mas, como antes, de mãos e perícia, e mulheres que trabalhem. E que dizer, se alguém precisa da lavoura, e de cavar a terra? São os ricos os que se requerem, ou os pobres? Evidente é a todos: os pobres. E quando o ferro também há de ser forjado, ou qualquer coisa semelhante há de fazer-se, é desta raça de homens que mais necessitamos. Que consideração resta, pois, em que possamos ter necessidade dos ricos? A não ser que a coisa requerida seja destruir esta cidade. Pois, se essa sorte de gente nela entrasse, e estes filósofos (pois assim chamo aos que nada supérfluo buscam) viessem a cobiçar ouro e joias, entregando-se à ociosidade e ao luxo, arruinariam tudo desde aquele dia em diante.
9. Mas, dirá alguém, se a riqueza não fosse útil, por que teria sido dada por Deus? E de onde é evidente que ser rico procede de Deus? Diz a Escritura: "Minha é a prata, e Meu é o ouro", e a quem Eu quiser, o darei. Ageu 2:8. Aqui, se não fosse coisa indecorosa, poderia neste mesmo instante rir alto, em escárnio dos que assim falam: porque, à maneira de crianças pequenas admitidas à mesa de um rei, que junto com o alimento levam à boca tudo quanto lhes cai às mãos, assim também estes, junto com as divinas Escrituras, introduzem sub-repticiamente suas próprias invenções. Pois isto, "Minha é a prata, e Meu é o ouro", sei que foi dito pelo Profeta; mas aquilo, "a quem Eu quiser, o darei", não está acrescentado, mas é trazido por estes, a escória do povo. E quanto ao primeiro dito, por que foi pronunciado, explicarei. O profeta Ageu, porque continuamente prometia aos judeus, após o retorno da Babilônia, que lhes mostraria o templo em seu antigo aspecto, e alguns duvidavam da coisa dita, e a consideravam quase impossível que, depois de reduzida a pó e cinza, a casa aparecesse de novo tal como era — ele, para remover-lhes a incredulidade, na pessoa de Deus diz estas coisas; como se dissesse: Por que temeis? E por que recusais crer? "Minha é a prata, e Meu é o ouro", e não necessito tomar emprestado de outros para assim embelezar a casa. E, para mostrar que este é o sentido, acrescenta: e a glória desta última casa será maior que a glória da primeira. Não introduzamos, pois, teias de aranha sobre o manto real. Pois, se alguém, surpreendido a tecer um fio falsificado numa veste de púrpura, há de sofrer a mais severa punição, muito mais nas coisas espirituais; visto que não é pecado comum o que assim se comete. E por que digo isto, acrescentando e retirando? Por um simples ponto, e por uma simples circunstância na entonação da leitura, não poucas vezes se fizeram nascer pensamentos ímpios.
Donde vêm, pois, os ricos, dirá alguém? Pois está escrito: "Riquezas e pobreza vêm do Senhor." Perguntemos, então, àqueles que nos objetam estas coisas, se toda riqueza e toda pobreza vêm do Senhor. De modo algum! Pois quem ousaria afirmar isso? Vemos, com efeito, que tanto pela rapina quanto pelo ímpio arrombamento de sepulcros, e pela feitiçaria, e por outros artifícios semelhantes, muitos ajuntam grande fortuna, e seus possuidores não são dignos sequer de viver. Que diremos, pois, dize-me: que esta riqueza vem de Deus? Longe disso! Donde vem, então? Do pecado. Pois assim a meretriz, ultrajando o próprio corpo, se enriquece; e o jovem de bela aparência, vendendo muitas vezes sua flor com ignomínia, a si mesmo traz ouro; e o violador de sepulcros, arrombando os túmulos alheios, ajunta riqueza injusta; e o ladrão, escavando através dos muros. Nem toda riqueza, portanto, vem de Deus. Que diremos então, pergunta alguém, a este dito? Familiarizai-vos primeiro com uma espécie de pobreza que não procede de Deus, e então passaremos ao próprio dito. Quero dizer: quando algum jovem dissoluto dissipa sua fortuna seja com meretrizes, seja com feiticeiros, seja com quaisquer outros desejos maus semelhantes, e se torna pobre, não é evidentíssimo que isto não veio de Deus, mas da sua própria devassidão? Do mesmo modo, se alguém pela ociosidade se torna pobre, se alguém pela insensatez é reduzido à mendicância, se alguém, empreendendo práticas perigosas e ilícitas; não é bem evidente que nenhum destes, nem outros semelhantes, foi reduzido a esta sua pobreza por Deus?
Fala, pois, a Escritura falsamente? De modo nenhum! Mas agem tolamente os que negligenciam examinar com a devida exatidão todas as coisas escritas. Pois se, de um lado, se reconhece que as Escrituras não podem mentir, e, de outro, se prova que nem toda riqueza vem de Deus, a fraqueza dos leitores inconsiderados é a causa da dificuldade.
10. Ora, seria justo dispensar-vos, tendo assim absolvido a Escritura, para que sofrêsseis de nossa parte esta punição pela vossa negligência para com as Escrituras; mas, porque muito vos poupo e já não posso suportar ver-vos confusos e perturbados, acrescentemos também a solução, tendo primeiro mencionado quem falou, e quando foi dito, e a quem. Pois não fala Deus da mesma maneira a todos, como também nós não tratamos da mesma maneira as crianças e os homens. Quando, então, foi dito, e por quem, e a quem? Por Salomão, no Antigo Testamento, aos judeus, que não conheciam senão as coisas dos sentidos, e por estas provavam o poder de Deus. Pois estes são os que dizem: Pode Ele também dar pão? e: Que sinal nos mostras Tu? Nossos pais comeram o maná no deserto — cujo deus é o ventre (Sl 78,24; Mt 12,38; Jo 6,31; Fl 3,19). Visto, pois, que O provavam por estas coisas, diz-Lhes: Isto também é possível a Deus, fazer tanto rico quanto pobre; não que seja Ele próprio, é claro, quem sempre os faz, mas que O pode fazer, quando quiser. Assim como quando diz: Que repreende o mar e o seca, e resseca todos os rios (Na 1,4), e todavia isto nunca se cumpriu literalmente. Como, pois, diz assim o profeta? Não como algo que se faça sempre, mas como coisa que Lhe é possível fazer.
Que espécie de pobreza, pois, Ele concede, e que espécie de riqueza? Lembra-te do patriarca, e conhecerás a espécie de riqueza que é dada por Deus. Pois Ele enriqueceu tanto a Abraão quanto, depois dele, a Jó, como o próprio Jó diz: Se recebemos o bem da mão do Senhor, não receberemos também o mal? (Jó 2:10). E daí teve início também a riqueza de Jacó. Há também uma pobreza que provém d'Ele, aquela que é louvada, tal como Ele uma vez quis apresentar ao conhecimento daquele rico, dizendo: Se queres ser perfeito, vende os teus bens e dá aos pobres, e vem, segue-Me (Mt 19:21). E novamente aos discípulos, estabelecendo uma lei e dizendo: Não provejais nem ouro, nem prata, nem duas túnicas (Mt 9:10). Não digas, pois, que toda riqueza é dom Seu: visto que se apontam casos de riqueza amealhada tanto por assassinos quanto por rapina, e por dez mil outros artifícios.
Mas o discurso retorna outra vez à nossa questão anterior, a saber: se os ricos não nos são de nenhuma utilidade, por que motivo são feitos ricos? Que devemos dizer, pois? Que não são úteis aqueles que a si mesmos se fazem ricos; ao passo que aqueles que são feitos ricos por Deus são, sem dúvida, utilíssimos em sumo grau. E aprende isto das próprias obras daqueles que agora mencionamos. Assim, Abraão possuía riqueza para todos os estrangeiros e para todos os necessitados. Pois aquele que, à aproximação de três homens, como supunha, sacrificou um bezerro e amassou três medidas de flor de farinha, e isto sentado à porta de sua tenda no calor do dia — considera com que liberalidade e prontidão costumava despender seus bens com todos, oferecendo, juntamente com seus haveres, também o serviço do próprio corpo, e isto em idade já tão avançada; sendo porto para os estrangeiros, para todos os que se achavam em qualquer espécie de necessidade, e nada possuindo como próprio, nem sequer o próprio filho: pois, por mandado de Deus, chegou de fato a entregá-lo; e, juntamente com o filho, entregou também a si mesmo e a toda a sua casa, quando se apressou a arrebatar o filho de seu irmão do perigo; e isto não o fez por amor ao lucro, mas por pura humanidade. Quando, por exemplo, aqueles que foram salvos por ele quiseram pôr os despojos à sua disposição, ele os rejeitou todos, até mesmo um fio e a correia de uma sandália (Gn 14:23).
Tal foi também o bem-aventurado Jó. Pois minha porta, diz ele, estava aberta a todo aquele que vinha (Jó 20:15); eu era olhos para o cego, e pés para o coxo; eu era pai dos desamparados, o estrangeiro não pernoitava fora, e o desamparado, qualquer que fosse sua necessidade, dela não carecia, nem eu permitia que um só desamparado saísse de minha porta com o regaço vazio. E muito mais ainda do que isto — para que não recontemos agora tudo — ele continuamente fazia, despendendo toda a sua riqueza com os necessitados.
Queres também olhar para aqueles que se tornaram ricos, mas não por Deus, para que aprendas como empregaram sua riqueza? Contempla aquele da parábola de Lázaro, como não repartiu sequer uma porção de suas migalhas. Contempla Acabe, como nem mesmo a vinha ficou livre de sua extorsão; contempla Geazi; contempla todos os que lhes são semelhantes. Assim, os que fazem aquisições justas, como tendo recebido de Deus, despendem segundo os mandamentos de Deus; mas os que, no ato de adquirir, ofendem a Deus, fazem o mesmo também ao despender: consumindo-o com meretrizes e parasitas, ou enterrando-o e trancando-o, sem nada gastar com os pobres.
E por que, dirá alguém, permite Deus que tais homens sejam ricos? Porque Ele é longânimo; porque quer conduzir-nos ao arrependimento; porque preparou o inferno; porque estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo (At 17:31). Pois, se Ele costumasse punir de imediato os que são ricos e não virtuosos, Zaqueu não teria tido tempo determinado para o arrependimento, a ponto de restituir em quádruplo tudo quanto houvesse tomado injustamente, e de acrescentar a metade dos seus bens; nem Mateus teria podido converter-se e tornar-se Apóstolo, pois antes teria sido arrebatado, como o seria se isso se desse fora do tempo devido; nem tampouco muitos outros semelhantes a estes. Por isso Ele os suporta, chamando a todos ao arrependimento. Mas, se não quiserem, e permanecerem na mesma obstinação, hão de ouvir Paulo dizer que, segundo a sua dureza e o coração impenitente, entesouram para si mesmos ira para o dia da ira, e da revelação, e do justo juízo de Deus (Rm 2:5); da qual ira, para que a possamos escapar, façamo-nos ricos com as riquezas do céu, e sigamos a louvável condição da pobreza. Pois assim havemos de alcançar também os bens vindouros: os quais a todos nós seja dado alcançar, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Assim, tendo já com exatidão percorrido diante deles toda a excelência do amor, exorta-os em seguida a apreendê-lo com prontidão. Por isso também disse: Segui-o; pois aquele que persegue não contempla senão aquilo que persegue, e para lá se estende, e não cessa até que o alcance. Aquele que persegue, quando por si mesmo não pode alcançá-lo, recorre àqueles que vão adiante, suplicando com muita veemência aos que estão próximos que o detenham e o mantenham detido até que ele chegue. Façamos, pois, também nós isto. Quando por nós mesmos não alcançamos o amor, peçamos àqueles que lhe estão próximos que o detenham, até que o alcancemos, e, tendo-o apreendido, não mais o deixemos escapar, para que de novo não nos fuja. Pois continuamente ele nos escapa, porque não o usamos como devemos, mas preferimos a ele todas as coisas. Devemos, portanto, esforçar-nos por retê-lo perfeitamente. Pois, se isto se fizer, não necessitaremos daí em diante de muito labor, antes quase nenhum; mas, tomando o nosso descanso e guardando festa, avançaremos pelo caminho estreito da virtude. Por isso diz: Segui-o.
Em seguida, para que não pensassem que por nenhum outro fim introduziu o discurso da caridade senão para extinguir os dons, acrescenta o que se segue:
Procurai, contudo, com zelo os dons espirituais; mas antes para que profetizeis.
Os coríntios julgavam que falar em línguas fosse um grande dom, porque foi este o que os apóstolos primeiro receberam, e com grande manifestação. Mas isto não era razão para julgá-lo o maior de todos os dons. A razão pela qual os apóstolos o receberam primeiro foi que ele era sinal de que haviam de ir a toda parte, pregando o evangelho.
Paulo reputa este dom como superior porque é usado para o bem comum. Ele sempre atribui maior honra àqueles dons que hão de ser usados para o proveito de todos.
Neste ponto, faz uma comparação entre os dons e rebaixa o das línguas, mostrando que não é de todo inútil, nem por si só muito proveitoso. Pois, com efeito, estavam eles grandemente inchados por causa deste dom, porque era tido por grande. E era tido por grande porque os Apóstolos o receberam primeiro, e com tão grande manifestação; não devia, contudo, por isso ser estimado acima de todos os outros. Por que razão, então, os Apóstolos o receberam antes dos demais? Porque haviam de ir a todo lugar. E assim como, no tempo em que se edificava a torre, a única língua se dividiu em muitas, assim então as muitas línguas frequentemente se reuniam em um só homem, e a mesma pessoa costumava discorrer tanto em persa, como em romano, como em índico, e em muitas outras línguas, soando o Espírito dentro dele; e o dom se chamava dom de línguas porque ele podia de uma só vez falar várias línguas. Vede, pois, como ele tanto o rebaixa quanto o eleva. Assim, dizendo: Aquele que fala em línguas, não fala aos homens, mas a Deus, pois ninguém o entende, rebaixou-o, dando a entender que o proveito dele não era grande; mas, acrescentando: mas em espírito fala mistérios, de novo o elevou, para que não parecesse supérfluo, inútil e dado em vão.
Mas aquele que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação.
Vedes por que meio ele significa a natureza escolhida deste dom? Isto é, pelo benefício comum? E como em toda parte atribui a maior honra àquilo que tende ao proveito de muitos? Pois não falam também aos homens aqueles primeiros? Dizei-me. Mas não tanto para edificação, exortação e consolação. De modo que o ser impulsionado pelo Espírito é comum a ambos, tanto àquele que profetiza quanto àquele que fala em línguas; mas nisto tem vantagem o primeiro (refiro-me àquele que profetiza), em que é também proveitoso aos ouvintes. Pois aqueles que falavam em línguas não eram entendidos pelos que não tinham o dom.
Que, pois? Não edificavam a ninguém? Sim, diz ele, a si mesmos somente:
A diferença entre as línguas e a profecia é precisamente a diferença entre o benefício ao indivíduo e o benefício a toda a Igreja.
E como, se ele não sabe o que diz? Ora, por ora, fala daqueles que entendem o que dizem — entendem-no eles mesmos, mas não sabem como traduzi-lo aos outros.
Mas aquele que profetiza edifica a Igreja. Ora, quão grande é a diferença entre uma só pessoa e a Igreja, tão grande é o intervalo entre estes dois. Vedes a sua sabedoria, como não repele o dom nem o reduz a nada, mas significa que ele tem alguma vantagem, ainda que pequena, e tal que baste apenas ao seu possuidor?
2. Em seguida, para que não julgassem que por inveja para com eles rebaixa as línguas (pois a maior parte tinha este dom), a fim de corrigir a sua suspeita.
Mas antes e maior — não atentai à oposição, mas à superioridade. De modo que também daqui se torna evidente que ele não despreza o dom, mas os conduz a coisas melhores, mostrando tanto o seu cuidado para com eles quanto um espírito livre de toda inveja. Pois não disse: Quisera que dois ou três, mas: que todos vós falásseis em línguas — e não somente isto, mas também: que profetizásseis; e isto antes daquilo, pois maior é aquele que profetiza. Pois, tendo já estabelecido e provado isto, passa em seguida também a afirmá-lo; não, contudo, simplesmente, mas com uma ressalva. Assim, acrescenta: a menos que interprete; pois, se for capaz de fazer isto, isto é, de interpretar, tornou-se igual ao profeta — assim fala, porque então são muitos os que colhem o proveito disso; coisa que se deve especialmente observar, como isto, através de tudo, antes de qualquer outra coisa, é o seu objetivo.
Paulo diz isto a fim de mostrar que se interessa em beneficiar a igreja, não em diminuir os que possuem o dom de línguas. Ele mesmo poderia possuir este dom, mas seria inútil e não faria diferença alguma para a igreja, se não fosse interpretado.
E por que falo eu, diz ele, dos demais? Antes, seja o próprio Paulo aquele que fala em línguas: pois nem ainda assim advirá proveito algum aos ouvintes. E isto diz ele para significar que busca o proveito deles, não guardando rancor algum contra os que possuem o dom; posto que nem mesmo em sua própria pessoa se furta a apontar a inutilidade dele. E, de fato, é seu costume constante tratar os tópicos desagradáveis em sua própria pessoa: como no início da Epístola disse: Quem, pois, é Paulo? E quem é Apolo? E quem é Cefas? Isto mesmo, pois, faz também aqui, dizendo: Nem ainda eu vos aproveitarei, se não vos falar ou por revelação, ou por profecia, ou por ciência, ou por doutrina. E o que ele quer dizer é: se eu não disser algo que possa tornar-se inteligível para vós e que seja claro, mas apenas ostentar que possuo o dom de línguas — línguas que não entendeis —, sair-vos-eis sem proveito algum. Pois como poderíeis aproveitar-vos de uma voz que não entendeis?
E por que digo eu, diz ele, que em nosso caso isto é inútil, e que somente é útil aquilo que é claro e de fácil apreensão pelos ouvintes? Pois até nos instrumentos musicais, que carecem de vida, pode-se ver isto: seja flauta, seja harpa, se forem tocadas ou sopradas de modo confuso e sem arte, sem cadência própria nem harmonia, não cativarão nenhum dos ouvintes. Pois até nesses sons inarticulados há necessidade de alguma distinção: e se não tocares ou não soprares a flauta segundo a arte, nada terás feito. Ora, se das coisas sem vida exigimos tanta distinção, harmonia e conveniência, e nesses sons inarticulados nos esforçamos e nos empenhamos por infundir tanto sentido, muito mais nos homens, dotados de vida e razão, e nos dons espirituais, deve-se ter a significação por objetivo.
Se exigimos precisão até nos instrumentos sem vida, quanto mais a exigiremos nos seres vivos? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Assim, das coisas meramente ornamentais, ele conduz seu argumento até as que são mais necessárias e úteis; e diz que não só na harpa, mas também na trombeta se pode ver este efeito produzido. Pois também nela há certas medidas; e ora emitem uma nota belicosa, ora uma que não o é tanto: e ora conduzem à linha de batalha, ora chamam de volta dela: e, se alguém não souber isto, há grande perigo. O que é justamente o que ele quer dizer, e o mal que está manifestando, quando diz: quem se preparará para a guerra? Assim, pois, se não tiver esta qualidade, é a ruína de tudo. E que tem isto a ver conosco?, diz alguém. Na verdade, isto vos concerne muito particularmente.
Se falar em línguas é inútil, por que foi dado? Foi dado para o benefício da pessoa que o possui. Mas, se há de ajudar também a outros, é necessário que haja interpretação.
4. Mas, se é inútil, por que foi dado?, diz alguém. Para que fosse útil àquele que o recebeu. Mas, se há de sê-lo também para outros, é necessário que se acrescente a interpretação. Ora, isto diz ele, aproximando-os uns dos outros; para que, se alguém não tiver por si mesmo o dom de interpretação, tome consigo outro que o tenha, e torne útil o seu próprio dom por meio dele. Por isso, em toda parte aponta a sua imperfeição, a fim de uni-los entre si. De todo modo, aquele que o considera suficiente por si mesmo, não tanto o enaltece quanto o deprecia, não permitindo que resplandeça pela interpretação. Pois, na verdade, excelente e necessário é o dom, mas o é quando tem quem explique o que é dito. Posto que também o dedo é coisa necessária, mas, quando o separas dos demais membros, não será igualmente útil: e a trombeta é necessária, mas, quando soa ao acaso, é antes um incômodo. Nem tampouco virá à luz arte alguma, sem matéria que lhe esteja sujeita; nem a matéria toma forma, se nenhuma figura lhe é atribuída. Suponde, pois, que a voz seja como a matéria subjacente, e a distinção como aquela forma, a qual, não estando presente, não haverá proveito algum na matéria.
Há, porventura, tantos gêneros de vozes no mundo, e nenhum gênero é sem significação: isto é, tantas línguas, tantas vozes de citas, trácios, romanos, persas, mouros, indianos, egípcios, e inumeráveis outras nações.
Se, pois, eu não conheço o sentido da voz, serei bárbaro para aquele que fala. Pois não penseis, diz ele, que isto sucede apenas em nosso caso; antes, em tudo se pode ver isto acontecer: de modo que não digo isto para depreciar a voz, mas para significar que ela me é inútil, enquanto não for inteligível. Em seguida, para que não torne a acusação desagradável, ele formula sua censura igualmente para ambos, dizendo: Ele me será bárbaro, e eu a ele. Não pela natureza da voz, mas por nossa ignorância. Vede como, pouco a pouco, ele conduz os homens àquilo que é próprio do assunto. O que é seu costume fazer: buscar seus exemplos de longe, e terminar com o que mais propriamente pertence à matéria. Pois, tendo falado de flauta e harpa, em que há muito de inferior e de improveitoso, chega à trombeta, coisa mais útil; depois, daí passa à própria voz mesma. Assim também antes, quando discorria para mostrar que não era vedado aos Apóstolos receber, começando primeiro pelos lavradores, e pastores, e soldados, depois conduziu o discurso ao que está mais próximo do assunto, os sacerdotes na antiga aliança.
Mas rogo-vos que considereis como, em toda parte, ele empenhou diligência em livrar o dom de censura, e em fazer recair a acusação sobre os que o recebem. Pois não disse: serei bárbaro, mas: para aquele que fala, bárbaro. E, de novo, não disse: aquele que fala será bárbaro, mas: aquele que fala será bárbaro para mim.
5. Que se deve fazer, pois? diz ele. Ora, longe de depreciá-lo, antes se deve recomendá-lo e ensiná-lo; como de fato ele próprio também faz. Pois, depois de o ter acusado e reprovado e mostrado sua inutilidade, passa a aconselhá-los.
Vede seu propósito em toda parte, como ele olha continuamente e em todos os casos para uma só coisa, a utilidade geral, o proveito da Igreja; estabelecendo isto como uma espécie de regra? E não disse: para que obtenhais os dons, mas: para que abundeis, isto é, para que os possuais mesmo em grande fartura. Assim, longe de eu querer que não os possuais, antes quero que neles abundeis, contanto apenas que os manejeis tendo em vista a vantagem comum. E como se há de fazer isto?
A edificação da Igreja é a pedra de toque de Paulo em tudo quanto diz.
Aqui mostra que está em seu poder obter o dom. Pois, ore ele, diz, isto é, contribua ele com sua própria parte, já que, se pedirdes diligentemente, certamente recebereis. Pedi, pois, não somente o dom da língua, mas também o da interpretação, para que vos torneis úteis a todos, e não encerreis o dom em vós mesmos apenas. Pois, se eu oro em língua, diz ele, meu espírito ora, mas meu entendimento fica sem fruto. Vede como, conduzindo pouco a pouco seu argumento a um ponto, significa que não somente aos outros é tal homem inútil, mas também a si mesmo; se ao menos seu entendimento é infrutuoso? Pois, se alguém falasse somente em persa, ou em qualquer outra língua estrangeira, e não entendesse o que diz, então, decerto, também para si mesmo será dali em diante bárbaro, não somente para outro, por não conhecer o sentido do som. Pois houve outrora muitos que tinham também um dom de oração, juntamente com uma língua; e oravam, e a língua falava, orando ou em língua persa ou latina, mas seu entendimento não sabia o que era falado. Por isso também disse: Se eu oro em língua, meu espírito ora, isto é, o dom que me é dado e que move minha língua, mas meu entendimento fica sem fruto.
Que será, pois, aquilo que é melhor em si mesmo, e que faz bem? E como se deve proceder, ou que se há de pedir a Deus? Orar, tanto com o espírito, isto é, com o dom, quanto com o entendimento. Por isso também disse: Orarei com o espírito, e orarei também com o entendimento; cantarei com o espírito, e cantarei também com o entendimento.
6. Ele significa aqui também a mesma coisa, que tanto fale a língua, quanto o entendimento não ignore as coisas faladas. Pois, se assim não for, haverá também outra confusão.
Observai como, novamente aqui, ele traz sua pedra ao prumo, buscando em toda parte a edificação da Igreja. Ora, por indoutos entende os leigos, e significa que também ele próprio sofre não pequeno prejuízo quando não pode dizer o Amém. E o que diz é isto: se abençoardes em língua bárbara, não sabendo o que dizeis, nem podendo interpretar, o leigo não pode responder o Amém. Pois, não ouvindo as palavras "para todo o sempre", que estão ao final, ele não diz o Amém. Depois, de novo, consolando-o quanto a isto, para que não parecesse ter o dom em muito pouca conta; a mesma espécie de observação que fez acima, que fala mistérios, e fala a Deus, e edifica a si mesmo, e ora com o espírito, tencionando não pequeno consolo destas coisas, isto também profere aqui, dizendo: pois tu, na verdade, dás bem graças, visto que falas movido pelo Espírito; mas o outro, nada ouvindo nem sabendo o que se diz, ali permanece, sem receber grande proveito disso. 7. Além disso, porque tinha depreciado os possuidores deste dom, como se não tivessem coisa tão grande; para que não parecesse tê-los em pouca conta, como estando ele próprio destituído dele.
E isto ele faz também em outro lugar, tencionando, a saber, tirar as vantagens do judaísmo e mostrar que doravante elas nada são; começa declarando que ele próprio tinha sido dotado delas, sim, e isso em muitíssimo excesso; e então as chama perda, dizendo assim: Se algum outro pensa ter confiança na carne, mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguindo a Igreja; quanto à justiça que há na lei, tido por irrepreensível (Fp 3,4-7). E então, tendo significado ter ele a vantagem sobre todos, diz: Mas o que para mim era ganho, isso reputei perda por causa de Cristo. Assim também faz aqui, dizendo: Falo em línguas mais que todos vós. Não vos glorieis, pois, como se somente vós tivésseis o dom. Pois eu também o possuo, sim, mais que vós.
Paulo reivindica o dom para si mesmo a fim de mostrar quão pouco importante ele é. Faz o mesmo em outro lugar, quando aponta ser judeu mais qualificado do que seus críticos.
Que é isto: falar com o meu entendimento, para que eu possa também instruir aos outros? É entender o que digo, e palavras que eu possa tanto interpretar aos outros quanto falar com inteligência e ensinar aos ouvintes. Mais do que dez mil palavras em língua estranha. Por quê? Para que eu instrua a outros, diz ele. Pois uma tem somente ostentação; a outra, grande utilidade: sendo isto o que ele em toda parte busca, quero dizer, o proveito comum. E, no entanto, o dom das línguas era estranho, mas o da profecia, familiar, antigo e já antes concedido a muitos; aquele, ao contrário, então pela primeira vez dado: contudo não foi por ele muito estimado. Por isso tampouco o empregava; não porque não o possuísse, mas porque sempre buscava as coisas mais proveitosas: estando ele, como estava, livre de toda vanglória, e considerando uma só coisa, a saber, como poderia tornar melhores os ouvintes.
8. E eis aqui a razão da faculdade que ele possuía de atentar para o que era conveniente, tanto a si mesmo quanto aos outros: a saber, porque estava livre de vanglória. Pois aquele que dela é de fato escravo, longe de discernir o que é bom para os outros, nem sequer conhecerá o que é seu próprio.
Tal era Simão, o qual, por atentar à vanglória, não via sequer a sua própria vantagem. Tais eram também os judeus, que por causa disso sacrificaram ao diabo a própria salvação. Daí também nasceram os ídolos, e por essa loucura se inflamaram os filósofos pagãos, naufragando em suas falsas doutrinas. E observai a perversidade desta paixão: como por causa dela alguns deles se fizeram pobres, e outros cobiçaram riquezas. Tão potente é a sua tirania que prevalece até nos contrários diretos. Assim, um se vangloria da castidade, e outro, ao contrário, do adultério; este, da justiça, e aquele, da injustiça; assim também do luxo e do jejum, da modéstia e da temeridade, das riquezas e da pobreza. Digo pobreza: pois alguns, dentre os que estavam de fora, quando estava em seu poder receber, por causa da admiração se abstinham de receber. Mas não assim os Apóstolos: que estavam puros de vanglória, demonstraram-no por suas obras; pois, quando alguns os chamavam deuses e estavam prontos para lhes sacrificar bois com grinaldas, eles não apenas proibiram o que se fazia, mas ainda rasgaram as suas vestes (At 14,13-14). E, depois de terem posto de pé o coxo, quando todos, de boca aberta, os fitavam, disseram: Por que olhais tão fixamente para nós, como se por nosso próprio poder tivéssemos feito este homem andar? E aqueles, entre os homens que admiravam a pobreza, escolheram para si um estado de pobreza; mas estes, entre pessoas que desprezavam a pobreza e louvavam a riqueza. E estes, se recebiam alguma coisa, ministravam-na aos necessitados. Assim, não a vanglória, mas a benevolência, foi o motivo de tudo quanto fizeram. Mas aqueles, ao contrário, como inimigos e pragas da natureza comum, e não de outro modo, faziam tais coisas. Assim, um lançou todos os seus bens ao mar sem propósito algum, imitando insensatos e loucos; e outro deixou toda a sua terra ao pasto comum das ovelhas. Assim, faziam tudo por vanglória. Mas não assim os Apóstolos; antes, tanto recebiam o que lhes era dado quanto distribuíam aos necessitados com tão grande liberalidade que chegavam a viver em fome contínua. Mas se estivessem enamorados da glória, não teriam praticado isto — o receber e o distribuir — por temor de que se levantasse contra eles alguma suspeita. Pois quem lança fora o que é seu por causa da glória, muito mais recusará receber o que é dos outros, para não ser tido como necessitado dos outros nem incorrer em suspeita alguma. Mas estes, vede, tanto ministravam aos pobres quanto eles mesmos mendigavam por eles. Tão verdadeiramente eram mais amorosos do que quaisquer pais.
9. Observai também as suas leis, quão moderadas e livres de toda vanglória. Assim: Tendo, diz ele, sustento e cobertura, contentemo-nos com isso. 1 Tm 6:8. Não como aquele de Sinope, o qual, vestido de trapos e vivendo num tonel para nenhum bom fim, a muitos assombrava, mas a ninguém aproveitava: ao passo que Paulo nada disso fazia; (pois tampouco tinha em vista a ostentação;) antes se vestia com trajes ordinários e com toda decência, e habitava continuamente numa casa, e mostrava toda exatidão na prática de todas as demais virtudes; o que o cínico desprezava, vivendo impuramente e publicamente se desonrando, arrastado pela sua louca paixão pela glória. Pois, se alguém perguntar a razão de ele viver num tonel, não encontrará outra senão a vanglória somente. Paulo, porém, também pagava aluguel pela casa em que habitava em Roma. Ainda que aquele que era capaz de coisas muito mais severas, muito mais teria tido forças para isto. Mas ele não olhava para a glória, esse monstro selvagem, esse temível demônio, essa peste do mundo, essa víbora venenosa. Pois, assim como aquele animal rasga com os dentes as entranhas de quem a gerou, assim também esta paixão despedaça a quem a engendra.
10. Por que meios, pois, poderá alguém encontrar remédio para esta multiforme enfermidade? Trazendo à memória aqueles que a pisaram sob os pés, e, com os olhos postos na imagem destes, ordenando também a própria vida. Pois assim procedeu o patriarca Abraão — e ninguém me acuse de tautologia se com frequência dele faço menção, e em todas as ocasiões: isto é precisamente o que mais o revela admirável, e priva de toda desculpa os que se recusam a imitá-lo. Pois, se apresentássemos um homem que se saísse bem neste particular, e outro naquele, poderia alguém dizer que a virtude dificilmente se alcança, pois quase impossível seria lograr êxito em todas essas coisas juntas, das quais cada um dos santos realizou apenas uma parte. Mas quando se encontra uma só e mesma pessoa a possuir todas elas, que desculpa terão aqueles que, depois da lei e da graça, não conseguem alcançar a mesma medida daqueles que viveram antes da lei e da graça? Como, pois, venceu e subjugou este Patriarca tal monstro, quando teve contenda com seu sobrinho? (Gn 13:8). Pois assim foi: saindo-se pior e perdendo a primeira parte, não se afligiu. Mas sabeis vós que, em tais assuntos, para os de ânimo vulgar, a vergonha é pior que a perda — e particularmente quando alguém, tendo tudo em seu próprio poder, como então ele o tinha, e tendo sido o primeiro a conceder a honra, não foi honrado em retorno. Contudo, nada disso o afligiu, mas ele se contentou em receber o segundo lugar, e, sendo agravado pelo jovem — ele, ancião, tio agravado por sobrinho —, não se indignou nem o levou a mal, mas o amou igualmente e o serviu. De novo, tendo saído vitorioso naquela grande e terrível batalha, e tendo posto em fuga com grande poder os bárbaros (Gn 14), não acrescenta à vitória a ostentação, nem ergue troféu. Pois desejava apenas salvar, não exibir-se a si mesmo. De novo, hospedou estrangeiros, e nem sequer aqui procedeu com vanglória, mas ele mesmo correu ao encontro deles e se inclinou diante deles, não como quem concede, mas como quem recebe benefício, e os chama de senhores, sem saber quem eram os que a ele haviam chegado, e apresenta sua própria esposa como se fora serva (Gn 18). E também no Egito, antes disso, quando se havia mostrado tão extraordinário homem, e havia recebido de volta esta mesma mulher, sua esposa, e havia gozado de tão grande honra (Gn 12), a nenhum homem o revela. E, embora os habitantes daquele lugar o chamassem príncipe, ele mesmo pagou o preço do sepulcro (Gn 23:6). E quando enviou para desposar uma esposa para seu filho, não deu ordem de que falassem dele em termos altos e dignos (Gn 24), mas somente que trouxessem a noiva.
11. Examinareis também a conduta dos que vivem sob a graça, quando de todos os lados grande era a glória do ensinamento que os cercava, e vereis então também esta paixão expulsa? Considerai, peço-vos, este mesmo Apóstolo que diz estas coisas, como sempre atribui tudo a Deus, como de seus pecados faz menção continuamente, mas de suas boas obras nunca, a não ser que porventura seja necessário corrigir os discípulos; e ainda que a isto seja compelido, chama a coisa de loucura, e cede o primeiro lugar a Pedro, e não se envergonha de trabalhar com Priscila e Áquila, e por toda parte se esforça por mostrar-se humilde, não se pavoneando na praça, nem arrastando consigo multidões, mas colocando-se entre os obscuros. Por isso também disse: mas a presença corporal é fraca (2 Cor 10:10) — isto é, fácil de ser desprezada, e de modo algum acompanhada de ostentação. E de novo: rogo a Deus que não façais mal algum, não para que pareçamos aprovados. E que maravilha há em que ele despreze esta glória? Vede que ele despreza a glória do céu, e o reino, e o inferno, por aquilo que era agradável a Cristo; pois deseja ser ele mesmo anátema, separado de Cristo, pela glória de Cristo. Pois se diz que está disposto a sofrer isto por causa dos judeus, di-lo por este motivo: para que nenhum dos que carecem de entendimento pensasse em se apropriar das promessas feitas a eles. Se, portanto, estava pronto a passar por cima dessas coisas, que maravilha há em que despreze as coisas humanas?
12. Mas os homens de nosso tempo são subjugados por todas as coisas, não apenas pelo desejo de glória, mas também, por outro lado, pelo insulto e pelo temor da desonra. Assim, se alguém vos louva, isso vos ensoberbece, e se vos censura, isso vos abate. E como os corpos débeis são feridos por acidentes comuns, assim também as almas que se arrastam pela terra. Pois a tais não somente a pobreza, mas também a riqueza destrói; não somente a tristeza, mas igualmente a alegria, e a prosperidade mais que a adversidade. Pois a pobreza compele à sabedoria, mas a riqueza conduz muitas vezes a algum grande mal. E como os que estão em febre são difíceis de contentar em qualquer coisa, assim também os que estão depravados na mente por todos os lados recebem dano.
Sabendo, pois, estas coisas, não fujamos da pobreza, não admiremos as riquezas: mas preparemos nossa alma para ser suficiente em todas as condições. Pois assim, quem edifica uma casa não considera como nem a chuva possa descer, nem o raio de sol nela incida (pois isto seria impossível), mas como possa ser feita capaz de suportar tudo. E de novo, quem constrói um navio não projeta nem planeja coisa alguma para impedir que as ondas se quebrem contra ele, ou que alguma tempestade se levante no mar (pois isto também seria impossível): mas que os costados do navio estejam prontos para enfrentar tudo. E de novo, quem cuida do corpo não visa a que não haja desigualdade na temperatura, mas a que o corpo possa facilmente suportar todas essas coisas. Assim, pois, procedamos a respeito da alma, e não nos preocupemos nem em fugir da pobreza, nem em tornar-nos ricos, mas em regular cada uma dessas condições para nossa própria segurança.
Wherefore, deixando de lado estas coisas, tornemos nossa alma apta tanto para a riqueza quanto para a pobreza. Pois, ainda que nenhuma calamidade, das que o homem está sujeito a sofrer, sobrevenha — o que na maior parte é impossível —, mesmo assim, melhor é aquele que não busca a riqueza, mas sabe suportar todas as coisas com facilidade, do que aquele que é sempre rico. E por quê? Primeiro, porque tal homem tem sua segurança de dentro, ao passo que o outro a tem de fora. E assim como é melhor soldado aquele que confia em suas forças corporais e em sua perícia no combate, do que aquele que tem sua força somente em sua armadura, assim também aquele que se apoia em sua riqueza, comparado com aquele que é guarnecido por sua virtude, é inferior. Segundo, porque, ainda que não caia em pobreza, é impossível que esteja isento de perturbação. Pois a riqueza tem muitas tempestades e perturbações; não assim, porém, a virtude, mas somente prazer e segurança. E, além disso, ela põe o homem fora do alcance dos que lhe armam ciladas, ao passo que a riqueza faz exatamente o contrário, tornando-o fácil de ser atacado e apanhado. E assim como entre os animais os cervos e as lebres são de todos os mais facilmente apanhados, por causa de sua timidez natural, ao passo que o javali selvagem, e o touro, e o leão não cairiam facilmente no caminho dos que os espreitam; assim também se pode ver no caso dos ricos e no daqueles que vivem voluntariamente na pobreza. Um é como o leão e o touro; o outro, como o cervo e a lebre. Pois a quem não teme o homem rico? Não há ladrões, potentados, invejosos, delatores? E por que falo de ladrões e delatores, num caso em que o homem suspeita até de seus próprios domésticos?
13. E por que digo isto apenas enquanto ele vive? Nem mesmo morto se vê livre da vilania dos ladrões, nem a morte tem poder de colocá-lo em segurança, mas os malfeitores o despojam mesmo depois de morto — tão perigosa coisa é a riqueza. Pois não somente escavam as casas, mas até arrombam sepulcros e caixões. Que, pois, poderia haver de mais miserável do que este homem, uma vez que nem mesmo a morte pode lhe conceder tal segurança, mas aquele corpo miserável, ainda privado de vida, não se vê livre dos males da vida, apressando-se aqueles que cometem tal maldade a guerrear mesmo contra o pó e as cinzas, e isso muito mais cruelmente do que quando estava vivo? Pois então, é possível que, entrando em seu armazém, removessem os seus cofres, mas se abstivessem de sua pessoa, e não chegassem a despojar o próprio corpo; agora, porém, as mãos malditas dos violadores de túmulos nem sequer se abstêm disto, mas o movem e o revolvem, e com muita crueldade o insultam. Pois, depois de haver sido entregue à terra, despojado tanto de sua cobertura de terra quanto daquilo que constituem as suas vestes fúnebres, deixam-no assim para ser lançado fora.
Que inimigo há, pois, tão mortífero quanto a riqueza, a qual destrói tanto a alma dos vivos quanto insulta o corpo dos mortos, não lhe permitindo sequer jazer sepultado na terra — o que é comum até mesmo aos condenados e aos que foram surpreendidos nos mais vis crimes? Pois destes, tendo os legisladores exigido a pena de morte, nada mais inquirem; mas destes outros, a riqueza, mesmo depois da morte, exige um castigo dos mais amargos, expondo-os nus e insepultos, espetáculo terrível e digno de pena: pois nem mesmo aqueles que sofrem isto por sentença e pela ira de seus juízes padecem tão gravemente quanto estes. Pois aqueles, na verdade, permanecem insepultos o primeiro e o segundo dia, e depois são entregues à terra; mas estes, quando já foram entregues à terra, são então despidos e insultados. E se os ladrões se retiram sem levar também o caixão, ainda assim não há nisso gratidão alguma à riqueza, mas sim, também neste caso, à pobreza. Pois é ela quem o guarda. Ao passo que, com toda certeza, se tivéssemos confiado à riqueza ainda que fosse isto tão-somente, e, deixando de moldá-lo em pedra, o tivéssemos forjado em ouro, também isto teríamos perdido.
Tão infiel é a riqueza, a qual não pertence tanto aos que a possuem quanto aos que se esforçam por arrebatá-la. De sorte que é argumento supérfluo pretender mostrar que a riqueza é irresistível, visto que nem sequer no dia de sua morte os seus possuidores obtêm segurança. E, no entanto, quem não se reconcilia com o defunto, seja fera, seja demônio, ou seja o que for? Bastando a própria visão para dobrar até mesmo aquele que é de todo férreo e de todo insensível. Por isso, sabeis, quando alguém vê um cadáver, ainda que veja nele um inimigo público ou particular, chora por ele juntamente com seus mais caros amigos; e a sua ira extingue-se com a vida, e a compaixão é introduzida. E seria impossível, em tempo de luto e de préstito fúnebre, distinguir um inimigo daquele que não o é. Tanto reverenciam todos os homens a natureza comum, e os costumes que a respeito dela se instituíram. Mas a riqueza, nem mesmo alcançando isto, depõe a sua ira contra os seus possuidores; antes, torna inimigos dos mortos aqueles que em nada foram lesados — se é que despojar o corpo morto é ato de pessoas muito amargas e hostis. E a natureza, por sua parte, reconcilia com ele então até os seus inimigos: mas a riqueza faz inimigos daqueles que nada têm de que o acusar, e trata cruelmente o corpo em sua total desolação. E, no entanto, naquele caso há muitas coisas que poderiam levar à compaixão — o fato de ser um cadáver, a sua incapacidade de mover-se, a sua tendência à terra e à corrupção, a ausência de quem o socorra: mas nada disto abranda aqueles malditos miseráveis, por causa da tirania sob que se encontram, vinda de sua vil cobiça. Pois a paixão da avareza, como algum tirano impiedoso, está à mão, ordenando aqueles mandamentos desumanos e, tendo feito deles feras, assim os conduz até os túmulos. Sim, como feras que atacam os mortos, nem sequer se absteriam de sua carne, se os seus membros lhes fossem de algum modo úteis. Tal é o nosso gozo da riqueza: sermos insultados até mesmo depois da morte, e privados da sepultura que até os mais desesperados criminosos obtêm.
14. Estamos, pois, ainda, dizei-me, apegados a tão funesto inimigo? De modo algum, eu vos suplico, de modo algum, meus irmãos! Mas fujamos dele sem sequer voltar o olhar para trás; e, se ele vier a cair em nossas mãos, não o guardemos dentro de nós, mas amarremo-lo bem pelas mãos dos pobres. Pois estes são os laços que têm mais poder para retê-lo, e desses tesouros jamais tornará a escapar; e assim este infiel permanece, doravante, fiel, dócil, manso, sendo a mão direita da Misericórdia quem sobre ele produz este efeito.
Como disse, pois, se algum dia ele vier a nós, entreguemo-lo a ela; mas, se não vier, não o busquemos, nem nos atormentemos, nem tenhamos por felizes os que o possuem; pois que espécie de noção de felicidade é esta? A menos que também queirais dizer que são invejáveis os que lutam com feras, porque aqueles animais de alto preço são encerrados e reservados para si mesmos pelos que promovem tais combates — os quais, todavia, não ousando eles próprios aproximar-se ou tocá-los, mas temendo-os e tremendo diante deles, os entregam a outros. Algo semelhante a isto, digo eu, é o caso dos ricos, quando encerraram sua riqueza em seus tesouros como se fosse alguma fera selvagem, e dia após dia dela recebem inúmeras feridas: nisto, ao contrário das feras, dessemelhantes; pois estas, quando as conduzis para fora, então, e não antes, ferem os que as encontram; mas aquela, quando está encerrada e guardada, então destrói os seus possuidores e tesouristas.
Mas façamos mansa esta fera. E ela será mansa, se não a encerrarmos, mas a dermos nas mãos de todos os que dela têm necessidade. Assim colheremos desta parte as maiores bênçãos, tanto vivendo na vida presente com segurança e boa esperança, quanto, no dia que há de vir, permanecendo em pé com ousadia; à qual todos possamos chegar, pela graça e misericórdia, etc. etc.
Como era de esperar, depois de sua longa argumentação e demonstração, ele adota um estilo mais veemente e uma abundância de repreensão; e menciona um exemplo apropriado ao assunto. Pois também as crianças costumam maravilhar-se com bagatelas e ficar agitadas, mas das coisas verdadeiramente grandes não têm tanta admiração. Visto, pois, que estes também, possuindo o dom das línguas, que era o menor de todos, pensavam possuir tudo; por isso ele diz: Não sejais crianças, isto é, não sejais desprovidos de entendimento onde deveríeis ser ponderados, mas sede aí crianças e símplices, onde há iniquidade, onde há vanglória, onde há orgulho. Pois quem é infante na maldade deve também ser sábio. Porquanto, assim como a sabedoria com maldade não seria sabedoria, também a simplicidade com insensatez não seria simplicidade, sendo necessário tanto na simplicidade evitar a insensatez, quanto na sabedoria evitar a maldade. Pois assim como nem os remédios amargos nem os doces, em excesso, fazem bem, tampouco faz bem a simplicidade por si só, nem a sabedoria por si só: e por isso Cristo, ordenando-nos misturar ambas, disse: Sede prudentes como as serpentes, e símplices como as pombas (Mt 10,16).
Mas o que é ser infante na maldade? É nem sequer saber o que é a maldade: sim, tal ele quis que fossem. Pelo que também disse: Ouve-se dizer que há entre vós fornicação (1 Cor 5,1). Não disse "há", mas "ouve-se dizer": como se dissesse: não estais destituídos de conhecimento da coisa; já ouvistes falar dela há algum tempo. Digo que ele os queria, ao mesmo tempo, homens e crianças: homens, porém, na sabedoria; crianças, na maldade. Pois assim também o homem pode tornar-se homem, se for também criança: mas enquanto não for criança na maldade, tampouco será homem. Pois o ímpio, em vez de maduro, será apenas insensato.
Ser menino no mal é nem sequer saber o que é o mal.
Ora, isto certamente não está escrito em parte alguma na Lei; mas, como disse antes, ele chama sempre de Lei a todo o Antigo Testamento: tanto os profetas quanto os livros históricos. E ele apresenta seu testemunho tirado do profeta Isaías, de novo diminuindo veladamente a glória do dom, para o proveito deles; contudo, mesmo assim, o expõe com louvor. Pois a expressão "nem ainda assim" tem a força de indicar que o milagre era suficiente para os espantar; e, se não creram, a culpa foi deles. E por que Deus o operou, se eles não haviam de crer? Para que, em todo caso, parecesse cumprir a Sua parte.
As línguas são um sinal para os incrédulos, não para sua instrução — como o é a profecia, tanto para os crentes quanto para os incrédulos —, mas para os espantar.
Tendo, pois, demonstrado, até mesmo a partir da profecia, que o sinal em questão não é de grande utilidade.
Grande é, neste passo, a dificuldade que parece surgir do que se diz. Pois se as línguas são para sinal aos que não creem, como diz ele, se os que não creem virem-vos falando em línguas, dirão que estais loucos? E se a profecia não é para os incrédulos, mas para os que creem, como poderão também os incrédulos lucrar com ela?
Pois se entrar, diz ele, quando estiverdes profetizando, algum que não creia, ele é convencido por todos e julgado por todos.
E não somente isto, mas também depois disto nasce daí uma outra questão: visto que a língua parecerá, ao contrário, maior que a profecia. Pois se as línguas são para sinal aos incrédulos, mas a profecia aos que creem, aquilo que atrai os estranhos e faz deles domésticos é maior do que aquilo que rege os já domésticos. Que significa, pois, aquela expressão? Nada difícil nem obscuro, nem contrário ao que precedeu, mas antes muito conforme a ele, se atentarmos bem: a saber, que a profecia é conveniente a ambos, mas a língua não o é da mesma maneira. Por isso, tendo dito da língua que é para sinal, acrescenta: não aos que creem, mas aos incrédulos, e a estes para sinal, isto é, para espanto, não tanto para instrução.
Mas também no caso da profecia, dirá alguém, ele fez essa mesma coisa, dizendo: "mas a profecia não serve para os incrédulos, mas para os que creem." Pois o que crê não tem necessidade de ver sinal, mas requer somente ensino e catequese. Como dizes, pois, dirá ele, que a profecia é de proveito para ambos, quando Paulo diz "não para os incrédulos, mas para os que creem"? Se examinares com exatidão, entenderás o que se diz. Pois não disse que a profecia não é útil aos incrédulos, mas que não é para sinal, como a língua, isto é, um mero sinal sem proveito; nem tampouco a língua é de algum modo útil aos crentes, pois sua única obra é espantar e confundir; sendo a palavra sinal uma daquelas que podem ser tomadas de dois modos: como quando diz, mostra-me um sinal (Sl 86,17), e acrescenta, para o bem; e ainda, tornei-me como um prodígio para muitos (Sl 71,7), isto é, um sinal.
No trecho recém-apresentado, o Apóstolo introduz o termo *sinal* não como algo que naturalmente produzisse algum proveito, e por isso acrescentou o que dele resultava. E o que era isso? Dirão, diz ele, que estais loucos. Isto, porém, não em razão da natureza do sinal, mas de sua insensatez. Mas quando ouvirdes falar de incrédulos, não suponhais que sejam sempre as mesmas pessoas, mas ora aqueles que estão incuravelmente enfermos e permanecem incorrigíveis, ora aqueles que podem ser transformados; tais como eram os que, nos tempos dos Apóstolos, admiravam as grandes obras de Deus ao ouvi-las; como no caso de Cornélio. Seu propósito, portanto, é este: que a profecia é proveitosa tanto entre os incrédulos quanto entre os que creem; ao passo que a língua, quando ouvida pelos incrédulos e inconsiderados, em vez de aproveitar-lhes, faz antes com que zombem dos que falam como se fossem loucos. Pois, de fato, ela lhes serve apenas de sinal, isto é, apenas para os deixar atônitos; ao passo que os que tinham entendimento também se aproveitavam dela, sendo esse justamente o fim para o qual o sinal foi dado. Assim como, pois, houve não apenas alguns que os acusaram de embriaguez, mas também muitos que os admiraram por relatarem as maravilhosas obras de Deus. Parece, então, que os zombadores eram os que não tinham entendimento. Por isso Paulo não disse simplesmente: dirão que estais loucos, mas acrescentou: indoutos e incrédulos.
Mas a profecia não é apenas um sinal, mas também é conveniente e útil para a fé e para o proveito de ambas as classes. E isto, se não diretamente, ao menos na sequência ele o explicou mais claramente, dizendo: é redarguido por todos. Pois, se todos profetizam, diz ele, e entra algum incrédulo ou indouto, é redarguido por todos; é julgado por todos; e assim são manifestados os segredos de seu coração; e assim cairá com o rosto em terra e adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós.
De sorte que não somente nisto a profecia é maior, em ser proveitosa para cada uma das classes, mas também em atrair os mais desavergonhados dentre os incrédulos. Pois não era a mesma espécie de maravilha quando Pedro convenceu Safira, o que foi obra de profecia, e quando falava em línguas: mas naquele caso todos se recolhiam em si mesmos, ao passo que, quando falava em línguas, ele obtinha fama de estar fora de si.
3. Tendo, portanto, afirmado que a língua de nada aproveitava e, novamente, qualificado esta afirmação ao dirigir a acusação aos judeus, ele passa a assinalar que ela até mesmo causa dano. E por que motivo foi dada? Para que se manifestasse com interpretação: pois, sem isto, ela produz até mesmo o efeito contrário entre os que não a compreendem. Pois se, diz ele, todos falam em línguas, e ali entram descrentes ou indoutos, dirão que estais loucos; como, de fato, também os Apóstolos incorreram na suspeita de estarem embriagados: pois estes homens, diz o texto, estão cheios de vinho novo (At 2,13); mas a culpa não é do sinal, e sim da inépcia deles; por isso acrescentou "indoutos e descrentes", para mostrar que a suspeita provém da ignorância e da falta de fé destes; pois, como já disse, o intento dele é situar este dom não entre as coisas que se desprezam, mas entre as que não aproveitam grandemente, e isto a fim de os reprimir e conduzi-los à necessidade de buscar um intérprete. Pois, uma vez que a maior parte não atentava para isto, mas dele se servia para ostentação e rivalidade, é disto sobretudo que ele os afasta, dando a entender que o seu crédito é prejudicado, ao atraírem sobre si a suspeita de loucura. E é isto sobretudo o que Paulo continuamente se esforça por estabelecer, quando quer desviar os homens de alguma coisa: mostra que a pessoa sofre prejuízo precisamente naquelas coisas que deseja.
Assim faze tu igualmente: se queres afastar os homens do prazer, mostra que a coisa é amarga; se queres desviá-los da vanglória, mostra que a coisa é plena de desonra: assim também costumava fazer Paulo. Quando queria arrancar os ricos do seu amor ao dinheiro, não dizia apenas que a riqueza é coisa nociva, mas também que lança em tentações. Pois os que desejam ser ricos, diz ele, caem em tentação (1 Tm 6,9). Assim, visto que ela parece livrar das tentações, ele lhe atribui o contrário daquilo que os ricos supunham. Outros, por sua vez, apegavam-se à sabedoria de fora, como se por meio dela estabelecessem a doutrina de Cristo; ele demonstra que ela não apenas não presta nenhum auxílio à cruz, mas antes a esvazia. Apegavam-se a litigar perante estranhos, julgando indigno ser julgados pelos seus, como se os de fora fossem mais sábios: ele mostra que litigar diante dos de fora é vergonhoso. Apegavam-se às coisas sacrificadas aos ídolos, como quem exibia perfeito conhecimento: ele insinua que isso é antes sinal de conhecimento imperfeito, o não saber como se conduzir nas coisas que dizem respeito ao próximo. Assim também aqui, porque andavam enlouquecidos por este dom de línguas, por seu amor à glória, ele mostra que isto, pelo contrário, mais que qualquer outra coisa lhes traz vergonha, não apenas privando-os da glória, mas ainda envolvendo-os em suspeita de loucura. Mas não disse isto de imediato; antes, tendo dito muitíssimas coisas primeiro, quando já tornara o seu discurso aceitável, então introduz esse tópico tão contrário à opinião deles. E isto, de fato, não é senão a regra comum: que aquele que pretende abalar profundamente uma opinião arraigada e converter os homens ao seu contrário não deve de imediato declarar os opostos; do contrário, tornar-se-á ridículo aos olhos daqueles que estão preocupados pela convicção contrária. Porquanto aquilo que está muito além da expectativa não pode desde o princípio ser facilmente aceito, mas é preciso primeiro bem solapá-lo com outros argumentos, e só então dar-lhe o giro contrário.
Assim, por exemplo, fez ele ao discorrer sobre o matrimônio: quero dizer, visto que muitos o consideravam coisa que traz alívio, e ele queria insinuar que o abster-se do matrimônio era o verdadeiro alívio; se tivesse dito isto de imediato, não o teria tornado tão facilmente aceitável: ao passo que agora, tendo-o declarado depois de muita outra matéria e ajustando exatamente o momento de sua introdução, tocou fortemente os ouvintes. Isto mesmo fez também a respeito da virgindade. Pois, tendo dito muito antes disto, e depois disto ainda mais, por fim diz: Eu vos poupo, e: Quereria que estivésseis livres de cuidados (1 Cor 7,28-32).
Vossa vontade seja feita. É isto que ele faz em relação às línguas, mostrando que elas não apenas privam de glória, mas também trazem vergonha sobre os que as possuem, aos olhos dos incrédulos. A profecia, ao contrário, está isenta de censura entre os incrédulos, e possui grandíssimo crédito e utilidade. Pois ninguém dirá, a respeito dos que profetizam, que estão loucos; nem ninguém escarnecerá dos que profetizam; mas, pelo contrário, se maravilhará e os admirará. Pois ele é reprovado por todos, isto é, as coisas que tem em seu coração são trazidas à luz e mostradas a todos: ora, não é a mesma coisa alguém entrar e ver um falando persa e outro sírio, e entrar e ouvir os segredos de sua própria mente; como, por exemplo, se ele entra como tentador e com má intenção, ou sinceramente; ou que tal e tal coisa foi por ele feita, e tal outra planejada. Pois isto é muito mais terrível e mais proveitoso do que aquilo. Por esta razão, portanto, quanto às línguas ele diz: estais loucos; não afirmando isto, contudo, de si mesmo, mas do juízo alheio: isto é, dirão, diz ele, que estais loucos; aqui, ao contrário, ele se vale tanto do veredito dos próprios fatos quanto do daqueles que são os beneficiados. Pois ele é reprovado por todos, diz, é julgado por todos; e assim os segredos de seu coração são manifestados; e então ele cairá sobre o rosto e adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós. Vedes que isto não admite duas interpretações, como no caso anterior, em que o que se faz pode ser posto em dúvida, e aqui e ali um incrédulo poderia atribuí-lo à loucura? Ao passo que aqui não haverá tal coisa, mas ele tanto se admirará quanto adorará, confessando primeiro por seus atos, e depois também por suas palavras. Assim também Nabucodonosor adorou a Deus, dizendo: Em verdade, o vosso Deus é o Deus que revela os segredos, visto que pudeste revelar este segredo (Dn 2,47). Vedes o poder da profecia, como transformou aquele selvagem e o trouxe sob instrução e o introduziu à fé?
Vedes o fundamento e a regra do Cristianismo? Como é obra do artífice edificar, assim é obra do cristão aproveitar aos seus próximos em todas as coisas.
Mas, tendo ele veementemente rebaixado o dom, para que não parecesse supérfluo — pois com vistas a derribar-lhes a soberba, e nada mais, é que assim procedeu —, torna a enumerá-lo entre os demais dons, dizendo: tem salmo, tem doutrina, tem língua. Pois também antigamente costumavam compor salmos por dom, e ensinar por dom. Contudo, que todos estes atentem para uma só coisa, diz ele: a correção do próximo; que nada se faça ao acaso. Pois se não vens para edificar teu irmão, para que vens tu aqui de todo? Em verdade, não faço muita conta da diferença dos dons. Uma só coisa me concerne, uma só coisa é meu desejo: fazer todas as coisas para edificação. Assim também aquele que tem o dom menor ultrapassará aquele que tem o maior, se isto não faltar. Sim, é para isto que os dons são outorgados, para que cada um seja edificado; pois, a menos que isto se dê, o dom antes se converterá em condenação de quem o recebe. Pois que proveito, dize-me, há em profetizar? Que proveito há em ressuscitar os mortos, quando não há quem disso se aproveite? Mas se este é o fim dos dons, e se é possível efetuá-lo de outro modo, sem dons, não te glories tu por causa dos sinais, nem te lamentes tu a quem os dons são negados.
Paulo não proíbe o falar em línguas, por mais que rebaixe o dom, mas insiste em que seja mantido sob controle e usado para a edificação de toda a igreja.
Que dizes, dize-me? Tendo falado tanto acerca das línguas, que o dom é coisa inútil, coisa supérflua, se não tiver intérprete, ordenas de novo falar em línguas? Não ordeno, diz ele, nem tampouco proíbo; como quando diz: se algum dos que não creem vos convidar a um banquete e vos dispuserdes a ir, não o diz estabelecendo lei para que vades, mas não vo-lo impedindo: assim também aqui. E fale ele consigo mesmo e com Deus. Se não suporta calar-se, diz ele, mas é tão ambicioso e vanglorioso, que fale consigo mesmo. E assim, por este mesmo permitir, grandemente os refreou e os envergonhou. O que também faz alhures, discorrendo sobre o trato conjugal, e dizendo: mas isto digo por causa de vossa incontinência. Mas não assim falou quando discorria sobre a profecia. Como então? Em tom de mandamento e de legislação: falem os profetas, dois ou três. E em nenhuma parte aqui busca ele o intérprete, nem tapa a boca daquele que profetiza, como no ponto anterior, dizendo: se não houver intérprete, cale-se; porque, de fato, aquele que fala em língua não se basta a si mesmo. Por isso, se alguém tem ambos os dons, que fale. Mas se não os tem, e ainda assim deseja falar, que o faça com o auxílio do intérprete. Pois o profeta é intérprete, mas de Deus; ao passo que tu o és do homem. Mas se não houver intérprete, cale-se; pois nada se deve fazer superfluamente, nada por ambição. Apenas que fale consigo mesmo e com Deus; isto é, mentalmente, ou quieta e silenciosamente: ao menos, se há de falar. Pois este não é decerto o tom de quem estabelece uma lei, mas pode ser o de quem os envergonha ainda mais por sua própria permissão; como quando diz: mas se algum tiver fome, coma em casa: e, parecendo dar permissão, com isto os toca ainda mais acremente. Pois não vos ajuntais para este fim, diz ele, para que mostreis que tendes um dom, mas para que edifiqueis os ouvintes; o que também antes disse: façam-se todas as coisas para edificação.
Em nenhuma parte acrescentou ele "quando muito", como no caso das línguas. E como é isto, pergunta alguém? Pois ele dá a entender que nem sequer a profecia se basta a si mesma, se ao menos permite que outros a julguem. Não, ela é decerto de todo suficiente; e por isto não tapou a boca do profeta, como fez com o outro, quando não há intérprete; nem, como naquele caso disse, se não houver intérprete, cale-se, disse também no caso do profeta, se não houver quem discirna, que não profetize; mas tão somente resguardou o ouvinte; pois foi para satisfação dos ouvintes que disse isto, para que nenhum adivinho se lançasse entre eles. Pois disto também de início mandou que se acautelassem, quando introduziu uma distinção entre adivinhação e profecia; e agora manda que discirnam e espreitem o assunto, para que nenhum mestre satânico penetrasse sub-repticiamente.
Que quer dizer isto que é dito? Se, quando profetizas — diz ele — e estás falando, o espírito de outro o instigar, cala-te desde então. Pois aquilo que ele disse acerca das línguas, isto mesmo aqui também exige, que se faça alternadamente, apenas de modo mais divino aqui. Porque não usou a mesma expressão — alternadamente — mas sim: se a outro for feita uma revelação. Pois que necessidade havia ainda de que, quando o segundo fosse movido a profetizar, o primeiro falasse? Deveriam então ambos? Não, isto seria profano e produziria confusão. Deveria o primeiro? Isto também seria despropositado. Pois para este fim, quando um falava, o Espírito movia o outro, a fim de que também este dissesse algo.
Assim, pois, consolando aquele que fora silenciado, diz ele: Pois todos vós podeis profetizar, um por um, para que todos aprendam e todos sejam consolados. Vedes como novamente declara a razão pela qual faz todas as coisas? Pois se àquele que fala em línguas de todo proíbe falar, quando não tem intérprete, por causa da inutilidade, razoavelmente também ordena que se restrinja a profecia, se não tiver esta qualidade, mas antes gerar confusão e perturbação e tumulto intempestivo.
Vedes como o envergonhou com seriedade e temor? Pois para que o homem não contendesse nem fosse faccioso, significa que o próprio dom estava sob sujeição. Pois por espírito aqui, entende ele o seu funcionamento efetivo. Mas se o espírito está sujeito, muito mais tu, seu possuidor, não podes com justiça ser contencioso.
7. Depois significa que isto é agradável também a Deus.
Verdadeiramente, a igreja era mais semelhante ao céu no tempo de Paulo, porque o Espírito governava todas as coisas e movia cada um dos membros por sua vez. Mas agora parece que temos apenas os símbolos daqueles dons. Também nós temos apenas dois ou três a falar no serviço, mas estes são apenas uma pálida sombra do que então prevalecia. A igreja presente é como uma mulher que caiu de seus dias outrora prósperos e que retém apenas os sinais exteriores daquela prosperidade, exibindo as caixas e cofres em que guardava a sua riqueza, mas que agora estão vazios. Isto é verdadeiro não só quanto aos dons, mas também quanto à vida e à virtude.
Vedes por quantas razões o conduz ao silêncio e o aplaca, cedendo lugar ao outro? Por uma, e a principal, que ele não ficaria assim tolhido; pois todos vós podeis profetizar, diz ele, um a um. Por uma segunda, que isto parece bom ao próprio Espírito; pois os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Além destas, que isto é conforme a mente de Deus; pois Deus, diz ele, não é Deus de confusão, mas de paz: e por uma quarta, que em toda parte do mundo prevalece este costume, e nenhuma coisa estranha lhes é imposta. Pois assim, diz ele, ensino em todas as Igrejas dos santos.
Que coisa agora pode ser mais tremenda do que isto? Pois, em verdade, a Igreja era então um céu, governando o Espírito todas as coisas, e movendo a cada um dos que presidiam, e fazendo-o inspirado. Mas agora retemos apenas os símbolos daqueles dons. Pois também agora falam dois ou três, e por sua vez, e quando um se cala, outro começa. Mas estes são apenas sinais e memoriais daquelas coisas. Por isso, quando começamos a falar, o povo responde: com o teu Espírito, indicando que antigamente assim costumavam falar, não por sua própria sabedoria, mas movidos pelo Espírito. Mas não é assim agora (falo do meu próprio caso, até certo ponto). Mas a presente Igreja é semelhante a uma mulher que decaiu de seus antigos e prósperos dias, e em muitos aspectos retém apenas os símbolos daquela antiga prosperidade; exibindo, na verdade, os repositórios e cofres de seus ornamentos de ouro, mas despojada de sua riqueza: a tal se assemelha a presente Igreja. E não digo isto a respeito dos dons; pois nada haveria de maravilhoso se fosse apenas isto; mas também a respeito da vida e da virtude. Assim, o rol de suas viúvas e o coro de suas virgens conferiam então grande ornamento às igrejas; mas agora ela está feita desolada e vazia, e restam apenas os sinais. Há, na verdade, viúvas agora, há também virgens; mas não retêm aquele adorno que devem ter as mulheres que se preparam para tais lutas. Pois a distinção própria da virgem é cuidar somente das coisas de Deus, e esperar n'Ele sem distração: e a marca da viúva também deveria consistir não tanto em não contrair segundas núpcias, quanto nas outras coisas — a caridade para com os pobres, a hospitalidade, a perseverança contínua nas orações, todas aquelas outras coisas que Paulo, escrevendo a Timóteo, exige com grande exatidão. Pode-se ver também as mulheres casadas exibindo entre nós grande decoro. Mas isto não é a única coisa exigida, mas antes aquela atenção diligente aos necessitados, pela qual aquelas mulheres de outrora resplandeciam mais brilhantemente. Não como a generalidade hoje em dia: pois então, em vez de ouro, se vestiam com o belo ornato da esmola; mas agora, tendo deixado isto, são enfeitadas por todos os lados com cordões de ouro tecidos da cadeia de seus pecados.
Falarei também de outro repositório esvaziado de seu esplendor hereditário? Todos se reuniam antigamente e cantavam salmos em comum. Isto também fazemos agora: mas então, entre todos, havia uma só alma e um só coração: mas agora, nem sequer numa única alma se pode ver aquela unanimidade; antes, grande é a guerra em toda parte.
A paz, mesmo agora, a todos, aquele que preside na Igreja a pede, entrando como que na casa de seu Pai: mas desta paz o nome é frequente, a realidade em nenhuma parte.
8. Outrora, as próprias casas eram igrejas; agora, porém, a própria igreja é uma casa, ou antes, pior que qualquer casa. Pois numa casa pode-se ver muita boa ordem: já que tanto a senhora da casa está sentada em sua cadeira com toda a decência, quanto as servas tecem em silêncio, e cada um dos domésticos tem em mãos a tarefa que lhe foi designada. Mas aqui é grande o tumulto, grande a confusão, e nossas assembleias em nada diferem da taverna de um vinhateiro, tão alto é o riso, tão grande a perturbação; como nos banhos, como nos mercados, o clamor e o tumulto são universais. E estas coisas se dão somente aqui: pois em outros lugares nem sequer é permitido dirigir-se ao vizinho dentro da igreja, ainda que se tenha reencontrado um amigo há muito ausente — mas isso se faz fora, e muito propriamente. Pois a igreja não é loja de barbeiro, nem de perfumista, nem qualquer outro armazém de mercador na praça, mas um lugar de anjos, um lugar de arcanjos, um palácio de Deus, o próprio céu. Assim, pois, como se alguém tivesse partido o céu e te houvesse trazido para lá, ainda que visses teu pai ou teu irmão, não ousarias falar; assim também aqui não se deve proferir nenhum outro som senão os que são espirituais. Pois, em verdade, as coisas deste lugar são também um céu.
E se não crês, olha para esta mesa, lembra-te por causa de Quem ela está posta, e por quê; considera Quem é Aquele que aqui vem adiante; treme de temor ainda antes do momento. Pois assim, quando alguém vê somente o trono de um rei, já em seu coração se levanta, aguardando a vinda do rei. E tu, pois, do mesmo modo, estremece de temor ainda antes desse momento tremendo: ergue-te a ti mesmo, e antes que vejas os véus retirados e o coro dos anjos avançando, ascende tu mesmo até o próprio céu.
Mas o não iniciado não sabe destas coisas. Pois bem, é necessário, tendo-o também em vista, introduzir outros tópicos. Pois nem para com ele haveremos de carecer de razões capazes de comovê-lo por inteiro e fazê-lo alçar voo.
Tu, pois, que não conheces estas coisas, quando ouvires o profeta dizer: Assim diz o Senhor, deixa a terra, ascende também tu ao céu, considera quem é Aquele que por meio dele discorre contigo.
Mas, tal como estão as coisas, para um bufão que provoca riso, ou para uma mulher meretriz e depravada, reúne-se tão vasta assembleia de espectadores, escutando em completo silêncio o que se diz, e isso sem que ninguém ordene silêncio; e não há tumulto, nem clamor, nem o menor ruído sequer: mas quando Deus fala desde o céu sobre assuntos tão terríveis, comportamo-nos mais impudentemente que os cães, e até às mulheres meretrizes tributamos maior respeito que a Deus.
Faz isso arrepiar tua carne, ao ouvires estas coisas? Pois então, muito mais razão há para que se arrepie quando as fazeis.
9. Aquilo que Paulo disse acerca dos que desprezavam os pobres e banqueteavam sozinhos — Quê, não tendes casas em que comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus, e envergonhais os que nada têm? (1 Cor 11:22) — o mesmo permiti-me também dizer daqueles que promovem alvoroço e mantêm conversas neste lugar. Quê? Não tendes casas em que trivializar? Ou desprezais a Igreja de Deus, e corrompeis até mesmo aqueles que seriam modestos e quietos? Mas é doce e agradável para vós conversardes com vossos amigos. Não vo-lo proíbo, mas que isso se faça em casa, no mercado, nos banhos. Pois a igreja não é lugar de conversação, mas de ensino. Ora, porém, ela em nada difere do mercado; e, se não for palavra demasiado ousada, talvez nem sequer do teatro; de tal modo se enfeitam mais lascivamente as mulheres que aqui se reúnem do que as impudicas que ali se encontram. Por conseguinte, vemos que até a este lugar muitos libertinos são atraídos por elas; e se alguém está a tentar ou pretende corromper uma mulher, não há, suponho, lugar que lhe pareça mais adequado do que a igreja. E se algo há de ser vendido ou comprado, a igreja parece mais conveniente do que o mercado. Pois também sobre tais assuntos há aqui mais conversa do que nas próprias lojas. Ou se alguém deseja dizer ou ouvir alguma maledicência, achareis que também isto se encontra aqui mais do que no foro exterior. E se quereis ouvir algo sobre assuntos políticos, ou os negócios de famílias particulares, ou o acampamento, não vades ao tribunal, nem vos assenteis na botica do farmacêutico; pois aqui, aqui digo eu, estão os que relatam todas essas coisas com maior exatidão; e as nossas assembleias são qualquer coisa antes de serem uma igreja.
Será que vos toquei no vivo? Eu, por mim, penso que não. Pois enquanto permanecerdes nas mesmas práticas, como hei de saber que fostes tocados pelo que foi dito? Portanto, é necessário que eu retome os mesmos tópicos novamente.
Serão, pois, estas coisas de suportar? Serão estas coisas de tolerar? Cansamo-nos e afligimo-nos a cada dia para que não partais sem terdes aprendido algo útil; e nenhum de vós se vai embora sequer um pouco melhor, mas antes mais prejudicado. Sim, e vindes reunir-vos para vosso próprio julgamento, não tendo já mais nenhum manto para o vosso pecado, e afastais os mais modestos, perturbando-os por toda parte com as vossas frivolidades.
Mas que diz a multidão? Não ouço o que se lê, diz um, nem sei quais são as palavras que se proferem. Porque fazeis tumulto e confusão, porque não vindes com alma reverente. Que dizes? Não sei o que se diz. Pois bem, por essa mesma razão devias tu prestar atenção. Mas se nem sequer a obscuridade desperta a tua alma, muito mais, se as coisas fossem claras, apressar-te-ias a passar por elas. Sim, esta é a razão por que nem todas as coisas são claras, para que não vos entregueis à indolência; nem obscuras, para que não caiais em desespero.
Segue a tradução do trecho:
E ao passo que aquele eunuco e bárbaro nada disso disse, mas, cercado como estava por uma multidão de assuntos tão importantes e em viagem, tinha um livro nas mãos e lia: tu, que abundas em mestres, e que tens outros que te leem em particular, me alegas escusas e pretextos? Não sabes o que se diz? Roga, pois, para que aprendas: mas certamente é impossível ignorar todas as coisas. Pois muitas coisas são por si mesmas evidentes e claras. E além disso, ainda que ignores tudo, mesmo assim deverias estar quieto, para não perturbar os que estão atentos; a fim de que Deus, aceitando a tua quietude e a tua reverência, torne claras também as coisas obscuras. Mas não podes calar-te? Pois bem, retira-te, para que não te tornes também um mal para os outros.
Pois, na verdade, deveria haver sempre uma só voz na igreja, assim como há um só corpo. Por isso, tanto aquele que lê profere sua voz sozinho, quanto o próprio Bispo se contenta em permanecer sentado em silêncio; e aquele que salmodia salmodia sozinho; e ainda que todos profiram a resposta, a voz se eleva como de uma só boca. E aquele que pronuncia uma homilia a pronuncia sozinho. Mas, quando há muitos conversando sobre muitos e diversos assuntos, por que vos perturbamos sem proveito algum? Pois certamente, a menos que pensásseis que apenas vos perturbamos sem proveito, não discorreríeis sobre coisas de nenhuma consequência no meio do nosso discurso acerca de matérias tão elevadas.
10. Portanto, não somente em vossa conduta, mas na própria estimativa que fazeis das coisas, há grande perversão. E vos abrís em bocejos atrás de superfluidades, e, deixando a verdade, perseguis toda sorte de sombras e sonhos. Não são todas as coisas presentes uma sombra e sonhos, e piores que uma sombra? Pois, antes mesmo de aparecerem, já fogem; e antes de se terem esvaído, o incômodo que causam é muito, e maior que o prazer. Ainda que alguém adquira neste mundo e sepulte na terra tamanha abundância de riquezas, passada a noite, nu partirá daqui, e não é de admirar. Pois também aqueles que são ricos apenas em sonho, ao levantar-se do leito, nada têm daquilo que lhes parecia possuir enquanto dormiam. Assim são também os cobiçosos de lucro: ou antes, não assim, mas em condição muito pior. Pois aquele que sonha ser rico nem tem o dinheiro que imaginava ter, nem se descobre haver-lhe advindo qualquer outro mal dessa fantasia ao despertar; mas este, além de privado de suas riquezas, tem ainda de partir cheio dos pecados que delas nascem; e, tendo gozado em sua riqueza apenas de uma fantasia, os males resultantes de sua riqueza não os vê mais em fantasia, mas na própria verdade das coisas; e o seu prazer foi em sonhos, mas o castigo que se segue ao seu prazer não se revela mais um sonho, senão matéria de experiência real. Antes ainda, mesmo antes desse castigo, já aqui paga a mais pesada pena, no próprio ato de acumular riquezas, gerando em si mesmo inúmeras tristezas, ansiedades, acusações, calúnias, tumultos, perturbações.
A fim, pois, de nos livrarmos tanto dos sonhos quanto dos males que não são sonhos, escolhamos, em vez da cobiça, a esmola; em vez da rapina, a misericórdia para com a humanidade. Pois assim obteremos os bens tanto presentes quanto futuros, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Onde diz a lei isto? Em Gênesis [:]: "O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará."
Tendo cessado a perturbação tanto das línguas quanto das profecias, e havendo estabelecido uma norma para prevenir a confusão — que os que falam em línguas o façam por vez, e que os que profetizam se calem quando outro começa —, ele passa em seguida à desordem suscitada pelas mulheres, cortando a sua intempestiva ousadia de fala; e isto muito oportunamente. Pois se aos que possuem os dons não é permitido falar sem consideração, nem quando quiserem, ainda que sejam movidos pelo Espírito, muito menos às mulheres que tagarelam vãmente e sem proveito. Por isso ele reprime a sua loquacidade com muita autoridade, e trazendo consigo a lei, assim lhes cose a boca; não exortando aqui simplesmente ou dando conselho, mas antes impondo-lhes veementemente os seus mandamentos, mediante a citação de uma lei antiga sobre esse assunto. Pois tendo dito: "Estejam as vossas mulheres caladas nas igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas estejam sujeitas", acrescentou: "como também diz a lei". E onde diz a lei isto? "O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará" (Gn 3:16). Vedes a sabedoria de Paulo, que espécie de testemunho ele aduziu, um que não apenas lhes impõe silêncio, mas silêncio com temor, e com tanto temor quanto convém a uma serva guardar-se quieta. Por isso, tendo ele mesmo dito que não lhes é permitido falar, não acrescentou "mas que se calem", mas em vez de "calar-se" estabeleceu algo maior, a saber, o estar sujeitas. E se isto se dá em relação aos maridos, muito mais em relação aos mestres, aos pais e à assembleia geral da Igreja. Mas se elas não devem sequer falar, dirá alguém, nem perguntar, para que fim hão de estar presentes? Para que ouçam o que lhes convém; mas as questões que se interrogam, que as aprendam em casa com seus maridos.
A mulher é de ânimo mais brando que o homem e mais sujeita a ser inundada pela emoção. Assim ele estabelece os maridos como protetores, para o benefício de ambos. Paulo requer que os maridos sejam atentos e que as mulheres sejam ordeiras. Deste modo os maridos haveriam de comunicar às suas esposas exatamente o que ouviram.
Assim, não somente, ao que parece, não lhes é permitido falar, diz ele, ao acaso, mas nem sequer perguntar coisa alguma na igreja. Ora, se não devem perguntar, muito mais é contrário à lei o seu falar a bel-prazer. E qual poderá ser a causa de ele as colocar sob tão grande sujeição? Porque a mulher é de algum modo um ser mais fraco e facilmente arrebatado e leviano de ânimo. Aqui vedes por que ele lhes pôs por cima os maridos como mestres, para benefício de ambos. Pois assim ele tornou as mulheres ordeiras, e fez os maridos solícitos, como tendo de transmitir a suas esposas muito exatamente o que ouviram.
Além disso, porque elas supunham que isto lhes fosse um ornamento — refiro-me ao seu falar em público —, ele novamente conduz o discurso ao ponto oposto, dizendo: "Pois é vergonhoso que a mulher fale na igreja". Isto é, primeiro ele deduziu isto da lei de Deus, depois da razão comum e do nosso costume recebido; mesmo quando discorria com as mulheres acerca do cabelo longo, disse: "Não vos ensina a própria natureza?" (1 Cor 11:14). E em toda parte podeis encontrar este ser o seu modo, não apenas a partir das divinas Escrituras, mas também a partir do costume comum, de as envergonhar.
2. Mas, além destas coisas, ele também as envergonha pela consideração daquilo em que todos concordavam, e do que se prescrevia em toda parte; tópico este que também aqui ele estabeleceu.
Aqui Paulo introduz o exemplo das outras igrejas, indicando que Corinto não tem direito de reivindicar estatuto excepcional.
Assim ele traz também as outras Igrejas como sustentando esta lei, tanto abatendo a perturbação pela consideração da novidade da coisa, quanto tornando aceitável a sua palavra pela voz geral. Por isso também noutro lugar disse: "Quem vos há de lembrar os meus caminhos que são em Cristo, assim como ensino em toda parte em todas as Igrejas" (1 Cor 4:17). E de novo: "Deus não é Deus de confusão, mas de paz, como em todas as Igrejas dos santos" (1 Cor 14:33). E aqui: "Quê? Foi de vós que saiu a palavra de Deus? Ou veio ela só até vós?" Isto é, nem primeiros nem sós sois crentes, mas o mundo inteiro. O que também, escrevendo aos Colossenses, disse: "assim como está frutificando e crescendo em todo o mundo" (Cl 1:6), falando do Evangelho.
Mas ele o converte também noutra ocasião em encorajamento para os seus ouvintes; como quando diz que os deles foram as primícias, e foram manifestos a todos. Assim, escrevendo aos Tessalonicenses, disse: "Pois de vós ressoou a palavra do Senhor", e "em todo lugar a vossa fé para com Deus se divulgou" (1 Ts 1:8). E de novo aos Romanos: "A vossa fé é proclamada por todo o mundo". Pois ambas as coisas são aptas a envergonhar e a incitar, tanto o serem louvados por outros, quanto o terem outros como partícipes em seu juízo. Por isso também aqui diz: "Quê? Foi de vós que saiu a palavra de Deus? Ou veio ela só até vós?" Pois nem isto podeis dizer, diz ele; fomos feitos mestres dos demais, e não pode ser justo que aprendamos de outros; nem que a fé permaneceu somente neste lugar, e que nenhum precedente de outras partes deva ser recebido. Vedes por quantos argumentos ele os envergonhou? Introduziu a lei, assinalou a vergonha da coisa, apresentou as outras Igrejas. 3. Em seguida, o que é o mais forte de tudo ele coloca por último, dizendo: "Deus ordena estas coisas ainda neste tempo por meu intermédio".
E por que acrescentou isto? Dando a entender que não está usando de violência nem de contenda, o que é sinal daqueles que não desejam estabelecer as suas próprias coisas, mas visam ao que é proveitoso aos outros. Por isso também noutro lugar diz: "Mas, se alguém parece ser contencioso, nós não temos tal costume" (1 Cor 11:16). Mas ele não faz isto em toda parte, senão apenas onde as ofensas não são muito grandes, e então antes como que os envergonhando. Pois quando discorre acerca de outros pecados, não fala assim. Mas como? "Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os efeminados herdarão o Reino de Deus" (1 Cor 6:9-10). E de novo: "Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará" (Gl 5:2). Mas aqui, como o seu discurso era acerca do silêncio, ele não os increpa muito asperamente, atraindo-os antes por isto mesmo. Depois, como sempre costuma fazer, retorna ao assunto anterior, de onde se desviara para dizer estas coisas.
Pois este é também o seu costume: não apenas desenvolver o que tem diante de si, mas também, partindo daí, corrigir tudo o que lhe pareça de algum modo afim a isso, e novamente retornar ao primeiro assunto, para não parecer desviar-se do tema. Assim, quando discorria sobre a concórdia deles em seus banquetes, digrediu para a sua Comunhão nos Mistérios, e, tendo-os daí envergonhado, retorna novamente ao primeiro ponto, dizendo: Portanto, quando vos ajuntardes para comer, esperai-vos uns aos outros (1 Cor 11,33).
E aqui, do mesmo modo, tendo discorrido sobre a boa ordem quanto aos dons, e sobre o dever de não desfalecer no menor, nem se ensoberbecer por causa do maior; tendo então feito uma digressão daí para a sobriedade própria das mulheres, e havendo-a estabelecido, retorna novamente ao seu assunto, dizendo: Portanto, irmãos, desejai ardentemente profetizar, e não proibais falar em línguas. Vedes como, até o fim, preservou a diferença entre estas coisas? E como significa que uma é muito necessária, a outra nem tanto? Por isso, de uma diz: desejai ardentemente; mas da outra: não proibais.
4. Em seguida, como que em breve resumo, pondo todas as coisas em ordem
Nada edifica tanto quanto a boa ordem, a paz e o amor, assim como nada é mais destrutivo do que os seus contrários. Não é somente nas coisas espirituais, mas em tudo, que se pode observar isto.
Novamente, desferindo golpe contra os que preferiram portar-se sem decoro sem causa alguma, e incorrer na imputação de loucura, e não guardam a sua própria ordem. Pois nada edifica tanto quanto a boa ordem, quanto a paz, quanto o amor; assim como as coisas que lhes são contrárias tendem a derribar. E não somente nas coisas espirituais, mas também em todas as demais se pode observar isto. Assim, seja numa dança, seja num navio, seja num carro, seja num acampamento, se confundires a ordem, e, lançando os maiores fora do seu próprio lugar, introduzires os menores na sua posição, destróis tudo, e assim as coisas se transtornam. Não destruamos, pois, a nossa ordem, nem coloquemos a cabeça abaixo e os pés acima: ora, isto se faz quando lançamos por terra a reta razão, e colocamos as nossas concupiscências, paixões e prazer acima da parte racional; donde violentas são as ondas, e grande a confusão, e intolerável a tempestade, estando todas as coisas envoltas em trevas.
E, se quiserdes, examinemos primeiro o desdouro que daí nasce, e depois o prejuízo. Como, pois, poderá isto tornar-se-nos claro e perfeitamente conhecido? Tragamos à frente um homem nessa disposição de ânimo, enamorado de uma meretriz e vencido por uma paixão desonrosa; e então veremos a zombaria a que isto conduz. Pois que pode haver de mais vil do que um homem que vigia as portas diante das câmaras das meretrizes, e é espancado por uma mulher de má vida, e chora, e se lamenta, e converte a sua glória em vergonha? E se quiserdes também ver o prejuízo, lembrai-vos, peço-vos, do dispêndio de dinheiro, dos riscos extremos, das contendas com os amantes rivais, das feridas, dos golpes recebidos em tais refregas.
Tais são também os que se acham possuídos pela cobiça das riquezas; ou antes, portam-se com maior indecoro. Pois, ao passo que aqueles se ocupam inteiramente com uma só pessoa, os avarentos se atarefam igualmente com os bens de todos os homens, tanto pobres quanto ricos, e cobiçam coisas que não existem; o que, sobre todas as coisas, denota a selvageria da sua paixão. Pois não dizem: quisera eu possuir os bens de tal ou de tal outra pessoa somente, mas querem que os próprios montes se tornem ouro, e as casas, e tudo quanto veem; e saem para um outro mundo, e esta paixão a sentem em grau ilimitado, e em ponto algum cessam do seu cobiçar. Que discurso poderá pôr-nos diante dos olhos a tempestade desses pensamentos, as ondas, as trevas? E onde as ondas e a tempestade são tão grandes, que prazer pode haver? Não há nenhum; mas tumulto, e angústia, e negras nuvens que, em vez de chuva, trazem grande tristeza de coração: coisa semelhante ao que costuma suceder no caso dos que se enamoram de formosura que não lhes pertence. Por isso, os que não têm nenhum amor apaixonado estão em maior prazer do que quaisquer amantes.
Assim, porém, ninguém contestaria. Mas a mim mesmo aquele que ama, e todavia refreia a sua paixão, parece viver mais deleitosamente do que aquele que continuamente frui de sua amante. Pois ainda que a prova seja bastante difícil, contudo, mesmo com essa desvantagem, o argumento há de ser arriscado: não sendo a causa da dificuldade acrescida a natureza da coisa, mas antes a falta de ouvintes aptos para esta elevada moralidade. Assim: dize-me, é mais agradável ao amante ser desprezado pela sua amada, ou ser honrado, e olhá-la de cima? Evidentemente o último. A quem, pois, dize-me, dará a meretriz maior valor? Àquele que lhe é escravo e já se acha levado cativo à sua vontade, ou àquele que está acima das suas redes e voa mais alto que as suas flechas? Todos hão de ver que é o último. E de quem tomará ela maior cuidado, do que caiu, ou do que ainda não caiu? Do que ainda não caiu, sem dúvida. E qual será mais objeto de desejo, o que está subjugado, ou o que ainda não foi tomado? Aquele que até agora ainda não foi tomado. E se disso duvidais, hei de produzir a minha prova a partir do que se passa em vós mesmos. Assim: de qual mulher se enamoraria mais um homem, de uma que facilmente se submete e se entrega a ele, ou de uma que lhe nega e lhe dá trabalho? Evidentemente desta última; porquanto, por isso mesmo, o anelo se acende mais veementemente. Por certo, então, também no caso da mulher haverá exatamente o mesmo. E honrarão e admirarão mais a quem as despreza. Mas se isto é verdade, também o é igualmente aquilo, a saber, que goza de maior prazer quem é mais honrado e amado. Pois também o general deixa em paz a cidade já uma vez tomada, mas àquela que resiste e sustenta a luta cerca com toda diligência; e o caçador, quando o animal já está apanhado, guarda-o encerrado nas trevas, como faz a meretriz com o seu amante, mas persegue o que dele foge.
Mas dir-se-á que um frui do seu desejo, o outro não. Mas a liberdade da desonra, e de não ser escravo sob os seus tirânicos mandos, o não ser conduzido e arrastado por ela como um servo, espancado, cuspido, precipitado de cabeça — considerais isto, dizei-me, um pequeno prazer? De modo algum; se alguém examinasse com exatidão estas coisas, e pudesse reunir em uma soma os seus insultos, queixas, intermináveis contendas, umas nascidas de seus temperamentos, outras de sua leviandade, suas inimizades, e tudo o mais, tais como só quem as sente conhece — há de achar que não há guerra alguma que não tenha mais tréguas do que esta miserável vida deles. Que prazer, então, dizei-me, tendes em mente? O temporário e breve gozo do trato carnal? Mas a este logo sobrevêm a contenda, e as tempestades, e a fúria, e novamente a mesma loucura.
6. E estas coisas foram ditas por nós como quem fala discorrendo com jovens licenciosos, que não muito pacientemente suportam ouvir os nossos discursos acerca do reino e do inferno.
E agora que também trazemos à frente estes tópicos, nem sequer é possível dizer quão grande é o prazer do continente; se alguém formar em sua própria mente as suas coroas, os seus prêmios, o seu convívio com os anjos, a proclamação dele diante do mundo, a sua ousadia, aquelas bem-aventuradas e imortais esperanças suas.
1 Coríntios 13:4-7... na verdade, o intercurso possui certo prazer, e por isso os incontinentes o repetem sem cessar; ao passo que o continente sofre continuamente dor, digladiando-se com a tirania da natureza. Não, porém — encontrar-se-á exatamente o resultado contrário. Pois é antes com o impudico que se acha presente esta violência e este tumulto, havendo em seu corpo uma tempestade violenta, e nenhum mar em meio à tormenta é tão gravemente açoitado quanto ele; jamais resistindo à sua paixão, mas sempre recebendo golpes dela — como os possessos e aqueles que são continuamente dilacerados no íntimo por espíritos malignos. Ao passo que o temperante, como nobre atleta, desferindo continuamente golpes contra ela, colhe os melhores prazeres, e mais doces do que dez mil daquele gênero; e esta vitória, e sua boa consciência, e aqueles ilustres troféus são ornamentos com que continuamente se adorna.
Quanto ao outro, se depois de seu intercurso tem um breve descanso, isso não deve contar por nada. Pois de novo sobrevém a tempestade, e de novo há ondas. Mas aquele que se comanda a si mesmo não permite que tal tumulto o tome de forma alguma, nem que o mar se levante, nem que a fera brame. E ainda que sofra alguma violência ao refrear tal ímpeto, também o outro a sofre, recebendo continuamente golpes e punhaladas, incapaz de suportar o aguilhão; e é como se houvesse um cavalo selvagem, furioso e a debater-se, e um homem o contivesse com o freio, dominando-o com toda a perícia, enquanto outro, largando-lhe as rédeas para escapar do incômodo, fosse por ele arrastado e levado de um lado para outro.
Se falei estas coisas mais abertamente do que convém, que ninguém me culpe por isso. Pois não desejo fazer bela figura por uma gravidade de palavras, mas tornar graves os meus ouvintes.
Por isso também os profetas não poupam tais palavras, desejando extirpar a licenciosidade dos judeus, e antes os increpam de modo ainda mais desnudo do que nós agora fazemos nestas coisas que dissemos. Pois assim também o médico, desejando remover uma úlcera, não considera como há de manter as mãos limpas, mas como há de livrar o paciente da úlcera; e aquele que quer erguer ao alto o humilde, primeiro se faz a si mesmo humilde; e aquele que busca matar o conspirador mancha-se de sangue tanto quanto o outro, e isto o torna ainda mais ilustre. Pois se alguém visse um soldado que regressa da guerra, manchado de sangue e de miolos, não se enojará dele nem dele se apartará por isso, mas antes o admirará ainda mais. Assim, pois, façamos nós também: quando virmos alguém regressar coberto de sangue após a matança de seu mau desejo, admiremo-lo ainda mais e façamo-nos partícipes de sua batalha e vitória, e digamos àqueles que se entregam a este amor desvairado: mostrai-nos o prazer que colheis da luxúria; pois o continente possui aquilo que provém de sua vitória, mas tu, de parte alguma possuis coisa nenhuma. Mas ainda que mencionasses aquilo que se liga ao ato criminoso, contudo o outro é mais manifesto e satisfatório. Pois tu tens do gozo algo breve e mal perceptível; mas ele, de sua consciência, tem um gozo maior, e duradouro, e mais doce. O convívio de uma mulher não possui, por certo, tal poder quanto o dommínio de si mesmo, para preservar a alma imperturbada e dar-lhe asas.
Portanto, isto: o homem continente, como disse, evidencia assim para nós o seu prazer; mas em teu caso, vejo o abatimento que provém da derrota, ao passo que o prazer, desejando vê-lo, não o encontro. Pois qual julgas ser o instante do prazer? Aquele que precede a ação criminosa? Não, não é assim, pois é tempo de loucura e delírio e frenesi: ranger os dentes e estar fora de si não é prazer algum; e se fosse prazer, não produziria em ti os mesmos efeitos que padecem os que estão em sofrimento. Pois os que golpeiam com os punhos e são golpeados rangem os dentes, e as mulheres em trabalho de parto, atormentadas pelas dores, fazem o mesmo. De modo que isto não é prazer, mas antes frenesi, e confusão, e tumulto. Diremos, então, que é o instante posterior à ação? Tampouco. Pois nem sequer poderíamos dizer que a mulher recém-parida está em prazer, mas em alívio de certas dores. Ora, isto de modo algum é prazer, mas antes fraqueza e desfalecimento; e há grande diferença entre estas duas coisas. Qual é, pois, o instante do prazer, dize-me? Não há nenhum. Mas se há algum, é tão breve que sequer chega a manifestar-se. Ao menos, tendo buscado zelosamente por muitos modos descobri-lo e apreendê-lo, não o pudemos. Mas o tempo do prazer do homem casto não é assim; é antes mais amplo e evidente a todos. Ou melhor, toda a sua vida está em prazer, sua consciência coroada, as ondas aplacadas, sem que nenhuma perturbação se levante nele de parte alguma.
Visto, pois, que a vida deste homem está mais em prazer, ao passo que a vida gasta no amor do prazer está em abatimento e inquietações, fujamos da licenciosidade, apeguemo-nos à continência, para que também alcancemos os bens que hão de vir, pela graça e misericórdia, etc., etc.
Quando Paulo chama os cristãos de Corinto de seus irmãos, estabelece o fundamento para a maior parte de suas asserções subsequentes. Pois nos tornamos irmãos por meio da obra de Cristo em sua vida terrena e em sua morte. Afinal, que é o evangelho senão a mensagem de que Deus se fez homem, foi crucificado e ressuscitou? Foi isto que o anjo Gabriel anunciou à Virgem Maria, o que os profetas pregaram ao mundo e o que todos os apóstolos verazmente proclamaram.
Agora vos dou a conhecer, irmãos, o evangelho que vos preguei, o qual também recebestes, no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se retiverdes as palavras com que vo-lo preguei.
Tendo concluído o discurso sobre os dons espirituais, ele passa àquilo que é de todas as coisas o mais necessário, o tema da ressurreição. Pois também nisto eles estavam grandemente enfermos. E assim como nos corpos dos homens, quando a febre se apodera das partes sólidas — refiro-me aos nervos, às veias e aos elementos primários —, o mal se torna incurável, a menos que receba grande atenção; assim também naquele tempo estava para acontecer. Porquanto até aos próprios elementos da piedade o mal ia progredindo. Por isso Paulo usa de grande solicitude. Pois já não era de costumes o seu discurso, nem sobre ser um fornicário, outro avarento, e outro trazer a cabeça coberta; mas sobre a própria soma de todos os bens. Pois quanto à própria ressurreição andavam eles em dissensão. Porque, sendo esta toda a nossa esperança, contra este ponto o diabo fazia veemente resistência, ora subvertendo-a inteiramente, ora dizendo que já havia passado; o que também Paulo, escrevendo a Timóteo, chamou de gangrena — refiro-me a esta doutrina perversa — e aos que a introduziam ele estigmatizou, dizendo: Dos quais são Himeneu e Fileto, que quanto à verdade erraram, dizendo que a ressurreição já é passada, e transtornam a fé de alguns (2 Tm 2,17-18). Ora, uma vez diziam assim, mas outra vez que o corpo não ressuscita, mas que a purificação da alma é a ressurreição.
Mas estas coisas aquele demônio perverso os persuadiu a dizer, não querendo apenas subverter a ressurreição, mas também mostrar que todas as coisas feitas por nossa causa são uma fábula. Pois, se fossem persuadidos de que não há ressurreição dos corpos, ele os teria persuadido gradualmente também de que nem Cristo ressuscitara. E a partir daí introduziria também isto, em devido tempo: que Ele não viera nem fizera o que fez. Pois tal é a astúcia do diabo. Por isso também Paulo a chama de sutil astúcia, porque ele não manifesta desde logo o que pretende efetuar, por temor de ser descoberto, mas, revestindo-se de uma máscara de um tipo, fabrica artimanhas de outro tipo; e, como um inimigo astucioso que ataca uma cidade murada, secretamente a solapa por baixo, de modo a ser dificilmente percebido e a lograr êxito em seus intentos. Portanto, sendo continuamente descobertas tais ciladas de sua parte, e sendo estas suas astutas emboscadas rastreadas por este admirável e poderoso homem, ele disse: Pois não ignoramos os seus desígnios (2 Co 2,11). Assim também aqui ele desvenda toda a sua astúcia e aponta todos os seus estratagemas, e tudo quanto ele desejaria efetuar, Paulo o põe diante de nós, percorrendo tudo com muita exatidão. E, com efeito, por isso ele colocou este assunto depois dos demais, tanto porque era extremamente necessário, quanto porque ele envolve a totalidade de nossa condição.
E observai a sua ponderação: como primeiramente, tendo assegurado o que lhe é próprio, avança em seguida ainda mais no seu discurso, e aos que estão de fora reduz abundantemente ao silêncio. Ora, ele assegura o que lhe é próprio, não por meio de raciocínios, mas por coisas que já haviam acontecido e que eles mesmos tinham recebido e crido terem sucedido: coisa que era mais que tudo capaz de os envergonhar, e apta a prendê-los. Pois, se ainda assim se recusassem a crer, já não seria a Paulo, mas a si mesmos que desmentiriam: o que constituía uma censura àqueles que, uma vez por todas, o haviam recebido e mudado de pensamento. Por esta razão, pois, ele também começa daí, dando a entender que não necessita de outras testemunhas para provar que fala a verdade, senão daquelas mesmas pessoas que foram enganadas.
2. Mas, para que o que digo se torne mais claro, importa que no que se segue atentemos às próprias palavras. Quais são, pois, estas? Faço-vos conhecido, irmãos, diz ele, o evangelho que vos preguei. Vede com que modéstia ele começa? Vede como, desde o princípio, ele mostra que não está introduzindo coisa nova nem estranha? Pois aquele que faz conhecido o que já era conhecido, mas que depois caiu em esquecimento, torna a fazê-lo conhecido recordando-o à memória.
E, ao chamá-los de irmãos, já desde aí lançou o fundamento de não pequena parte da prova das suas afirmações. Pois por nenhuma outra causa nos tornamos irmãos, senão pela dispensação de Cristo segundo a carne. E esta é justamente a razão pela qual assim os chamou, ao mesmo tempo os apaziguando e cortejando, e igualmente lembrando-lhes as suas inúmeras bênçãos.
E o que se segue é de novo demonstrativo da mesma coisa. Que é, pois, isto? O evangelho. Pois a soma dos evangelhos tem daí a sua origem: de Deus ter-Se feito homem, e ter sido crucificado, e ter ressuscitado. Este mesmo evangelho também Gabriel pregou à Virgem, este mesmo também os profetas ao mundo, este mesmo também todos os apóstolos.
O qual vos preguei, o qual também recebestes, no qual também permaneceis firmes. Pelo qual também sois salvos, na palavra com que vo-lo preguei; se o retiverdes firmemente, a menos que tenhais crido em vão.
Vede como ele os chama a serem, eles mesmos, testemunhas das coisas ditas? E não diz, o que ouvistes, mas, o que recebestes, exigindo-o deles como uma espécie de depósito, e mostrando que não somente por palavra, mas também por obras, e sinais, e prodígios o receberam, e que deveriam guardá-lo em segurança.
Em seguida, porquanto falava de coisas há muito passadas, referiu-se também ao tempo presente, dizendo, no qual também permaneceis firmes, tomando deles a vantagem de que a negação lhes estivesse fora do alcance, ainda que o desejassem quanto quisessem. E eis por que, no início, não disse, eu vos ensino, mas, eu vos faço conhecido o que já foi manifestado.
E como diz ele que permanecem firmes aqueles que foram tão agitados pelas ondas? Finge ignorância para o proveito deles; o que também faz no caso dos Gálatas, mas não da mesma maneira. Pois, uma vez que naquele caso não podia fingir ignorância, articula o seu discurso de outra forma, dizendo, tenho confiança em vós, no Senhor, de que não haveis de pensar de outro modo (Gl 5:10). Não disse, que não pensáveis de outro modo, porque a sua falta era reconhecida e evidente, mas responde pelo futuro; e, no entanto, também isto era incerto; mas foi para atraí-los a si mais eficazmente. Aqui, porém, ele finge ignorância, dizendo, no qual também permaneceis firmes.
Segue-se, então, a vantagem; pela qual também sois salvos, nas palavras com que vo-lo preguei. Assim, pois, a presente exposição é para clareza e interpretação da doutrina. Pois a doutrina em si mesma, diz ele, não necessitais aprender, mas dela ser lembrados e corrigidos. E isto diz ele, não lhes deixando, de uma vez por todas, lugar algum para se precipitarem na temeridade.
Mas que quer dizer: nas palavras com que vo-lo preguei? De que modo, diz ele, eu disse que se dá a ressurreição? Pois que haja ressurreição, não direi que disso duvidais; mas buscais, talvez, alcançar mais clara ciência daquela palavra. Isto, pois, vos hei de prover; pois, com efeito, estou bem certo de que retendes a doutrina. Em seguida, porque afirmava diretamente aquilo em que também permaneceis firmes, para que com isso não os tornasse mais remissos, de novo os alarma, dizendo: Se a retendes firmemente, a menos que tenhais crido em vão; dando a entender que o golpe é desferido sobre o ponto capital, e que a contenda não é por coisas comuns, mas em prol de toda a fé. E por ora o diz com reserva, mas à medida que avança e se aquece, lança fora o véu e passa a clamar, dizendo: Mas, se Cristo não ressuscitou, vã é então a nossa pregação, vã é também a vossa fé; ainda estais em vossos pecados; porém, no princípio, não assim; pois assim convinha proceder, branda e gradualmente.
Os coríntios não precisavam aprender a doutrina, que já conheciam, mas precisavam ser dela relembrados e corrigidos dos erros que tinham em seu entendimento.
Como poderia Cristo morrer pelos pecadores se ele mesmo fosse pecador? Se, de fato, ele morreu por nossos pecados, então é claro que ele mesmo havia de ser sem pecado. Portanto, não morreu ele a morte do pecado, mas a morte do corpo. Isto é o que as Escrituras proclamam em toda parte.
Tampouco aqui ele diz: eu vos disse, nem: eu vos ensinei, mas usa novamente a mesma expressão, dizendo: eu vos entreguei o que também recebi; e tampouco aqui diz: fui ensinado, mas: recebi — estabelecendo estas duas coisas: primeiro, que ninguém deve introduzir nada de si mesmo; depois, que pela demonstração de seus feitos eles foram plenamente persuadidos, não por meras palavras; e, pouco a pouco, ao tornar seu argumento digno de crédito, remete tudo a Cristo, e significa que nada nessas doutrinas era de origem humana.
Mas que significa isto: Pois eu vos entreguei em primeiro lugar? — pois essa é sua palavra. No princípio, não agora. E, dizendo isto, ele traz o tempo como testemunha, e mostra que seria a maior das vergonhas que aqueles que por tanto tempo haviam sido persuadidos mudassem agora de parecer; e não só isso, mas também que a doutrina é necessária. Por isso também foi entregue entre as primeiras coisas, e desde o começo imediatamente. E o que foi que assim entregastes? Dizei-me. Mas isto ele não diz de imediato, e sim, antes: eu recebi. E o que recebestes? Que Cristo morreu por nossos pecados. Não disse logo que há ressurreição de nossos corpos, ainda que seja precisamente isto que na verdade estabelece, mas ao longe e por outros caminhos, dizendo que Cristo morreu, e lançando como que uma base sólida e um fundamento inabalável da doutrina acerca da ressurreição. Pois nem sequer disse simplesmente que Cristo morreu — ainda que isto mesmo bastasse para declarar a ressurreição —, mas com um acréscimo: Cristo morreu por nossos pecados.
3. Mas antes vale a pena ouvir o que dizem aqui os que estão infectados pelas doutrinas maniqueístas, que são ao mesmo tempo inimigos da verdade e guerreiam contra a própria salvação. Que alegam, pois, estes? Por morte aqui, dizem eles, Paulo não significa outra coisa senão estarmos nós no pecado; e por ressurreição, sermos libertados de nossos pecados. Vedes como nada é mais fraco que o erro? E como é levado por suas próprias asas, e não necessita de guerra vinda de fora, mas por si mesmo se trespassa? Considerai, por exemplo, estes homens, como também eles se trespassaram a si mesmos por suas próprias afirmações. Pois, se isto for morte, e Cristo não tomou um corpo, como vós supondes, e ainda assim morreu, Ele estava em pecado segundo vós. Pois eu, na verdade, digo que Ele tomou para Si um corpo, e que Sua morte, digo eu, foi a da carne; mas tu, negando isto, serás obrigado a afirmar aquilo outro. Ora, se Ele estava em pecado, como diz Ele: Quem dentre vós Me convence de pecado? e: Vem o príncipe deste mundo, e nada tem em Mim? (Jo 8.46; 14.30) e ainda: Assim nos convém cumprir toda a justiça? (Mt 3.15) Aliás, como teria Ele de todo morrido por pecadores, se Ele mesmo estivesse em pecado? Pois aquele que morre por pecadores deve ele mesmo ser sem pecado. Porquanto, se ele mesmo também pecasse, como morreria por outros pecadores? Mas, se por pecados alheios Ele morreu, morreu sendo sem pecado; e, se sendo sem pecado morreu, morreu — não a morte do pecado, pois como poderia isso, sendo Ele sem pecado? — mas a morte do corpo. Por isso também Paulo não disse simplesmente: Ele morreu, mas acrescentou: por nossos pecados — forçando assim, contra sua vontade, estes hereges à confissão de Sua morte corporal, e significando também por isto que, antes da morte, Ele era sem pecado; pois aquele que morre pelos pecados de outros, segue-se que ele mesmo deve ser sem pecado.
Nem se contentou ele com isto, mas acrescentou: segundo as Escrituras; com o que, de novo, tornou seu argumento digno de crédito, e ao mesmo tempo deu a entender de que morte estava falando: pois é a morte do corpo que as Escrituras por toda parte proclamam. Pois: Perfuraram as minhas mãos e os meus pés (Sl 21,18), diz Ele; e: Olharão para Aquele a quem traspassaram (Jo 19,37; Zc 12,10). E muitos outros exemplos — para não enumerá-los todos, um a um — pode-se ver neles armazenados, uns em palavras, outros em tipos, os quais expõem o Seu sacrifício na carne e que Ele foi imolado por nossos pecados. Pois: Pelos pecados do meu povo, diz um, foi Ele levado à morte; e: O Senhor O entregou por nossos pecados; e: Ele foi ferido por nossas transgressões (Is 53). Mas, se não suportas o Antigo Testamento, ouve João, que clama e declara tanto o Seu sacrifício no corpo quanto a causa dele: assim, Eis, diz ele, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29); e Paulo, dizendo: Àquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós, para que nEle nos tornássemos justiça de Deus (2 Cor 5,21); e outra vez: Cristo nos resgatou da maldição da lei, feito maldição por nós (Gl 3,13); e outra vez: despojando-Se dos principados e potestades, os expôs publicamente, triunfando sobre eles (Cl 2,15); e outras inúmeras sentenças que mostram o que se deu em Sua morte no corpo, e por causa de nossos pecados. Sim, e o próprio Cristo diz: por vós Eu Me santifico; e: agora o príncipe deste mundo já está condenado; mostrando que, não tendo pecado, foi Ele imolado.
Isto serve para confirmar que Cristo morreu uma morte humana genuína, e nos remete uma vez mais às Escrituras como prova. Em nenhuma parte as Escrituras entendem por morte a morte do pecado, quando fazem menção da morte de nosso Senhor, mas somente a morte do corpo, e um sepultamento e ressurreição desse mesmo corpo.
E isto também confirma os pontos anteriores, pois aquilo que é sepultado é sem dúvida um corpo. E aqui ele já não acrescenta mais, segundo as Escrituras. Tinha ele com que fazê-lo, contudo não o acrescenta. Por que razão? Ou porque o sepultamento era evidente a todos, tanto então quanto agora, ou porque a expressão, segundo as Escrituras, é posta para ambas as coisas em comum. Por que, então, acrescenta ele, segundo as Escrituras, neste lugar, e que Ele ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras, e não se contenta com a cláusula anterior, assim dita em comum? Porque isto também era, para a maioria dos homens, obscuro: por isso ele traz aqui novamente as Escrituras por inspiração, tendo assim concebido este pensamento tão sábio e divino.
Como é, então, que ele faz o mesmo a respeito de Sua morte? Porque também naquele caso, ainda que a cruz fosse evidente a todos e à vista de todos Ele estivesse nela estendido, contudo a causa já não era igualmente evidente. O fato mesmo de sua morte todos conheciam, mas que Ele padeceu isto pelos pecados do mundo já não era igualmente conhecido pela multidão. Por isso ele traz o testemunho das Escrituras.
Isto, porém, já foi suficientemente provado pelo que dissemos. Mas onde disseram as Escrituras que Ele foi sepultado, e que ao terceiro dia haveria de ressuscitar? Pela figura de Jonas, a qual Ele mesmo também alega, dizendo: Como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim também estará o Filho do Homem três dias e três noites no coração da terra (Mt 12,40). Pela sarça no deserto. Pois assim como ela ardia, e não se consumia (Ex 3,2), assim também aquele corpo verdadeiramente morreu, mas não foi retido pela morte continuamente. E também o dragão em Daniel prefigura isto. Pois assim como o dragão, tendo tomado o alimento que o profeta lhe deu, se rompeu ao meio, assim também o Hades, tendo engolido aquele Corpo, foi rasgado ao meio, o próprio Corpo cortando seu ventre e ressuscitando.
Ora, se desejais ouvir também em palavras aquilo que vistes em figuras, escutai Isaías, que diz: Sua vida é tirada da terra (Is 53,8-11), e apraz ao Senhor purificá-Lo de Sua ferida... para mostrar-Lhe a luz: e Davi, antes dele: Não deixarás Minha alma no Hades, nem permitirás que Teu Santo veja a corrupção (Sl 16,10).
Por isso Paulo também vos remete às Escrituras, para que aprendais que não sem causa nem ao acaso foram estas coisas feitas. Pois como poderiam sê-lo, quando tantos profetas as descrevem e proclamam de antemão? E em nenhuma parte as Escrituras entendem por morte a morte do pecado, quando fazem menção da morte de nosso Senhor, mas a do corpo, e um sepultamento e ressurreição da mesma espécie.
O evangelho nos diz que ele apareceu primeiro a Maria. Mas, no que toca aos homens, apareceu ele primeiro àqueles que mais desejavam vê-lo. Mas quais dos apóstolos são aqui referidos? Pois Matias não foi acrescentado ao seu número senão depois da ascensão. Contudo, é provável que Cristo tenha aparecido ainda depois de sua ascensão ao céu. Paulo não especifica o tempo, mas apenas registra a experiência.
E que apareceu a Cefas: nomeia logo o mais digno de crédito de todos. Depois, aos doze.
Paulo não afirma que alguns morreram, mas sim que adormeceram, confirmando, deste modo, a verdade da ressurreição.
Deve ser este Tiago, o irmão do Senhor, a quem ele ordenou como primeiro bispo de Jerusalém. Os apóstolos aqui mencionados incluiriam os setenta e outros além dos Doze.
Paulo pode ter sido o último, mas certamente não foi o menor, pois foi mais ilustre que muitos dos que vieram antes dele — na verdade, mais ilustre que todos eles.
Ora, uma vez que mencionara a prova das Escrituras, acrescenta também a prova dos acontecimentos, apresentando como testemunhas da ressurreição, depois dos profetas, os apóstolos e outros homens fiéis. Pois se ele quisesse dizer aquela outra ressurreição, a libertação do pecado, seria vão dizer: "Apareceu a este e àquele"; porque este é o argumento de quem estabelece a ressurreição do corpo, não de quem ensina obscuramente a libertação dos pecados. Por isso ele não disse "apareceu" apenas uma vez, embora lhe fosse suficiente fazê-lo, empregando a expressão de modo geral: mas agora, duas e três vezes, e quase em cada caso particular dos que O viram, ele emprega tal expressão. Pois "apareceu", diz ele, "a Cefas"; "apareceu a mais de quinhentos irmãos"; "apareceu também a mim". Contudo, certamente o Evangelho diz o contrário, que Ele foi visto primeiro por Maria (Mc 16,9). Mas entre os homens, foi visto primeiro por aquele que mais do que todos desejava vê-Lo.
Mas de quais doze apóstolos ele fala aqui? Pois foi depois de ter sido recebido nas alturas que Matias foi tomado no número, não imediatamente depois da ressurreição. É provável, porém, que Ele tenha aparecido mesmo depois de ter sido recebido nas alturas. Em todo caso, este nosso apóstolo, após a ascensão de Cristo, foi tanto chamado quanto O viu. Por isso ele não fixa o tempo, mas simplesmente e sem definir enumera a aparição. Pois é provável, de fato, que muitas se tenham dado; por isso também João disse: "Esta foi a terceira vez que Ele se manifestou" (Jo 21,14).
Depois, "apareceu a mais de quinhentos irmãos". Alguns dizem que "acima" significa "acima, desde o céu"; isto é, não andando sobre a terra, mas por cima e do alto Ele lhes apareceu: acrescentando que era propósito de Paulo confirmar, não somente a ressurreição, mas também a ascensão. Outros dizem que a expressão "mais de quinhentos" significa simplesmente "mais de quinhentos" em número.
"Dos quais os mais permanecem até agora." Assim, embora eu relate acontecimentos antigos, diz ele, tenho, contudo, testemunhas vivas. "Mas alguns já dormiram." Não disse "estão mortos", mas "dormiram", confirmando também por esta expressão, uma vez mais, a ressurreição. "Depois disso, foi visto por Tiago." Suponho que seja seu irmão. Pois se diz que o próprio Senhor o ordenou e o fez bispo em Jerusalém, o primeiro. "Depois, por todos os apóstolos." Pois havia também outros apóstolos, como os setenta.
"E, por último, apareceu também a mim, como a um nascido fora do tempo devido." Isto é antes uma expressão de modéstia do que outra coisa. Pois não foi porque ele era o menor que, por isso, Ele lhe apareceu depois dos demais. Visto que, mesmo que Ele o tenha chamado por último, ele apareceu contudo mais ilustre do que muitos que vieram antes dele, sim, mais ilustre do que todos. E os quinhentos irmãos tampouco eram certamente melhores do que Tiago, pelo fato de Ele lhes ter aparecido antes dele.
Por que não Se manifestou a todos ao mesmo tempo? Para que primeiramente semeasse os germes da fé. Pois aquele que O viu primeiro e ficou exata e plenamente assegurado, anunciou-o aos demais: então o relato destes, chegando antes, colocava o ouvinte na expectativa desta grande maravilha, e preparava de antemão o caminho para a fé da visão. Portanto nem Se manifestou a todos juntos, nem no início a muitos, mas a um só primeiramente, e este o chefe de toda a companhia e o mais fiel: pois havia, na verdade, grande necessidade de uma alma fidelíssima para ser a primeira a receber esta visão. Pois aqueles que O viram depois que outros O tinham visto, e ouviram-no destes, tinham em tal testemunho algo que contribuía não pouco para a própria fé e tendia a preparar de antemão o seu ânimo; mas aquele que primeiro foi julgado digno de vê-lO, tinha necessidade, como disse, de grande fé, para não se perturbar diante de uma visão tão contrária à expectativa. Por isso Se manifesta primeiro a Pedro. Pois aquele que primeiro O confessou como Cristo foi justamente também julgado digno de primeiro contemplar Sua ressurreição. E não somente por isso Se manifesta a ele primeiro, mas também porque ele O havia negado, para consolá-lo mais abundantemente e significar que dele não se desesperava, concedeu-lhe, antes dos demais, mesmo esta visão, e a ele primeiro confiou Suas ovelhas. Por isso também Se manifestou primeiro às mulheres. Porque este sexo foi feito inferior, por isso tanto em Seu nascimento quanto em Sua ressurreição este é o primeiro a provar de Sua graça.
Mas depois de Pedro, Se manifesta também a cada um a intervalos, ora a menos, ora a mais, fazendo-os assim testemunhas e mestres uns dos outros, e tornando Seus apóstolos dignos de crédito em tudo quanto disseram.
6. E, por fim, apareceu também a mim, como a um aborto. Que significam aqui estas expressões de humildade, ou em que ponto são oportunas? Pois, se ele deseja mostrar-se digno de crédito e inscrever-se entre as testemunhas da ressurreição, faz o contrário do que deseja: já que lhe conviria antes exaltar-se e mostrar que era grande — o que em muitos lugares ele faz, quando a ocasião o exige. Ora, a própria razão pela qual aqui também fala modestamente é justamente o fato de estar prestes a fazer isso. Não de imediato, contudo, mas com seu próprio e peculiar bom senso: pois, tendo primeiro falado modestamente e acumulado contra si mesmo muitas acusações, ele então engrandece as coisas que lhe dizem respeito. Qual seria a razão? Que, ao chegar a proferir aquela grande e elevada expressão a seu próprio respeito — trabalhei mais abundantemente do que todos —, seu discurso se torne mais aceitável, tanto por isso quanto por ser dito como consequência do que precedeu, e não como tópico principal. Por isso também, escrevendo a Timóteo, e pretendendo dizer coisas grandes a seu próprio respeito, primeiro expõe as acusações contra si mesmo. Pois assim todas as pessoas, ao falarem em altos termos de outros, falam livremente e com ousadia; mas aquele que é compelido a louvar-se a si mesmo, e sobretudo quando também se chama a si mesmo por testemunha, fica desconcertado e envergonhado. Por isso também este bem-aventurado varão primeiro declara sua própria miséria, e só então profere aquela elevada expressão. Isto ele faz, em parte para abrandar o que há de ofensivo em falar de si mesmo, e em parte para que, por meio disso, pudesse recomendar à crença deles o que teria de dizer depois. Pois aquele que verdadeiramente declara as coisas que lhe são desonrosas e nenhuma delas oculta — como o fato de ter perseguido a Igreja, de ter devastado a fé —, faz com que, por isso mesmo, também as coisas que lhe são honrosas fiquem acima de toda suspeita.
E considerai a extraordinária grandeza de sua humildade. Pois, tendo dito e por fim apareceu também a mim, não se contentou com isso: Porque muitos que são últimos serão primeiros, diz Ele, e os primeiros, últimos (Mt 20,16). Por isso acrescentou: como a um aborto. Nem sequer parou aqui, mas acrescenta também seu próprio juízo, e com uma razão
Aquele que suportou o cárcere, as feridas e os açoites, que envolveu o mundo em sua rede de epístolas, que foi chamado por uma voz celestial, humilhou-se, dizendo: “Sou o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado apóstolo.”
Paulo diz isto porque era homem humilde, e também porque era realmente o que pensava de si mesmo. Foi-lhe perdoado ter perseguido a Igreja, mas essa vergonha ele jamais esqueceu. Ela lhe ensinou a grandeza da graça de Deus para com ele.
E não disse isto apenas dos doze, mas também de todos os demais apóstolos. E disse todas estas coisas tanto por falar com modéstia quanto porque realmente assim estava disposto, como já disse, preparando de antemão o caminho para o que pretendia dizer e tornando-o mais aceitável. Pois, se tivesse vindo a público e dito: Deveis crer em mim que Cristo ressuscitou dos mortos, pois eu O vi, e de todos sou o mais digno de crédito, na medida em que trabalhei mais — a expressão poderia ter ofendido os ouvintes; mas, detendo-se primeiro nos temas humilhantes e naqueles que envolvem acusação, ele tanto suavizou o que poderia soar áspero em tal narrativa quanto preparou o caminho para que dessem crédito ao seu testemunho.
Por esta razão, portanto, ele não afirma simplesmente, como disse, ser o último e indigno da denominação de apóstolo, mas também expõe a razão, dizendo: porque persegui a Igreja. E, no entanto, todas essas coisas lhe foram perdoadas, mas ele mesmo jamais as esqueceu, desejando significar a grandeza do favor de Deus:
Viste como ele colheu o benefício da liberalidade de Deus e como, em seguida, contribuiu abundantemente com sua própria parte, mediante seu zelo, seu fervor, sua fé, sua coragem, sua paciência, seu ânimo elevado e sua vontade destemida? Por isso mereceu receber do alto uma medida maior de socorro.
Conheceis Paulo, que tanto trabalhou e ergueu tantos troféus em combate contra o demônio. Percorreu fisicamente o mundo conhecido. Circundou a terra, o oceano, o ar — rodeou o mundo como se tivesse asas. Foi apedrejado, espancado e morto. Sofreu tudo pelo nome de Deus, chamado do alto por uma voz celestial... Sabemos, compreendemos, disse ele, a graça que recebemos, e ela não me encontrou desatento.
Se Paulo era tão humilde, por que chamou atenção para seus trabalhos? Ele teve de fazê-lo a fim de justificar seu direito de ser testemunha fidedigna e mestre.
Vedes de novo outro excesso de humildade? Em que os defeitos a si mesmo imputa, mas das boas obras nada; antes a tudo refere a Deus. Em seguida, para que não tornasse com isso o seu ouvinte negligente, diz: E a Sua graça, que me foi concedida, não foi vã. E isto ainda com reserva: pois não disse: manifestei uma diligência digna de Sua graça, mas: não foi vã.
Mas trabalhei mais abundantemente que todos eles. Não disse: fui honrado, mas: trabalhei; e tendo perigos e mortes a referir, pelo nome de trabalho de novo abate a sua expressão.
Depois, praticando de novo a sua costumeira humildade, também isto rapidamente ultrapassa e refere tudo a Deus, dizendo: Todavia não eu, mas a graça de Deus que estava comigo. Que poderia haver de mais admirável que tal alma? Que, tendo-se em tantos modos rebaixado a si mesmo e proferido uma única palavra elevada, nem sequer esta chama de sua; encontrando de todos os lados modos, tanto do que precede quanto do que se segue, de restringir esta expressão elevada, e isto porque foi por necessidade que a ela chegou.
Mas considerai quão abundante ele é nas expressões de humildade. Pois assim, a mim, por último de todos, Ele apareceu, diz. Por isso tampouco menciona a si mesmo junto de qualquer outro, e diz, como a um nascido fora do tempo devido, e que ele mesmo é o menor dos apóstolos, e nem sequer digno desta designação. E não se contentou nem mesmo com isto, mas, para que não parecesse humilde apenas de palavra, apresenta tanto as razões quanto as provas: de ser ele nascido fora do tempo devido, o ter visto a Jesus por último; e de não ser digno sequer do nome de apóstolo, o ter perseguido a Igreja. Pois quem é simplesmente humilde de coração não faz isto; mas quem também expõe as razões profere tudo a partir de um espírito contrito. Por isso também em outro lugar faz menção destas mesmas coisas, dizendo: E dou graças àquele que me deu forças, Cristo Jesus, nosso Senhor, por me haver considerado fiel, designando-me para o seu serviço, ainda que antes eu fosse blasfemo, e perseguidor, e violento (1 Tm 1,12-13).
Mas por que motivo proferiu ele, afinal, aquela mesma expressão elevada, trabalhei mais abundantemente que eles? Percebeu que a ocasião o compelia. Pois se não tivesse dito isto, se apenas se houvesse depreciado a si mesmo, como poderia com ousadia invocar-se a si mesmo por testemunha, e contar-se entre os demais?
Paulo não espera que os coríntios escolham entre ele e os demais apóstolos. Justifica as suas próprias credenciais como mestre, mas ao mesmo tempo afirma também as dos outros. Não há diferença entre eles, visto que a sua autoridade é a mesma.
Quer então seja eu, quer sejam eles, assim pregamos, e assim crestes.
Tendo exaltado os Apóstolos e a si mesmo rebaixado, e depois tendo de novo a si mesmo exaltado acima deles, para estabelecer uma igualdade (pois de fato estabeleceu uma igualdade, quando mostrou que tinha vantagens sobre eles assim como eles sobre ele), e havendo assim se provado digno de crédito, nem por isso os dispensa, mas de novo se põe em fileira com eles, apontando a concórdia deles em Cristo. Contudo não o faz de modo a parecer ter sido apenas anexado a eles, mas de modo a aparecer ele mesmo na mesma ordem. Pois assim era proveitoso ao Evangelho. Por isso também era igualmente zeloso, por um lado, para não parecer desprezá-los; por outro, para que, por causa da honra a eles prestada, não fosse ele tido em pouca conta pelos que estavam sob a sua autoridade. Por isso também agora de novo se iguala a eles, dizendo:
Quer então seja eu, quer sejam eles, assim pregamos. De quem quer que escolherdes aprender, diz ele, aprendei; não há diferença entre nós. E não disse: se não me quiserdes crer a mim, crede a eles; mas, ao mesmo tempo que se faz digno de crédito e diz que é por si mesmo suficiente, afirma o mesmo também deles, por si mesmos. Pois a diferença das pessoas não produzia efeito algum, sendo a autoridade das mesmas igual. E na Epístola aos Gálatas faz isto mesmo, tomando-os consigo, não como quem também precisasse deles, mas dizendo antes que ele mesmo era suficiente: Pois os que eram de reputação nada me acrescentaram (Gl 2,6); todavia, ainda assim, busca a concordância com eles. Pois deram-me, diz ele, as suas destras (Gl 2,9). Pois se o crédito de Paulo dependesse sempre de outros e devesse ser confirmado por testemunho alheio, os discípulos daí receberiam dano infinito. Não é, pois, para exaltar-se a si mesmo que ele faz isto, mas por zelo pelo Evangelho. Por isso também aqui diz, igualando-se a eles: Quer seja eu, quer sejam eles, assim pregamos.
Bem disse: pregamos, indicando a sua grande ousadia de linguagem. Pois não falamos secretamente, nem em algum canto, mas proferimos uma voz mais clara que uma trombeta. E não disse: pregávamos, mas: ainda agora, assim pregamos. E assim crestes. Aqui não disse: credes, mas: crestes. Porque estavam abalados no espírito, por isso ele retornou aos tempos passados, e passa a acrescentar o testemunho vindo deles mesmos.
Para a testemunha convinha ser fidedigna, e ser homem de grande estatura. Mas quanto ele se afadigou mais abundantemente do que eles, já o indicou acima, dizendo: Não temos nós direito de comer e de beber, como também os demais Apóstolos? E de novo, aos que estão sem lei, como sem lei. Assim, tanto onde era preciso mostrar exatidão, ultrapassou a todos, quanto onde era necessário condescender, exibiu de novo essa mesma grande superioridade.
Mas alguns aduzem o fato de haver sido ele enviado aos gentios e de haver percorrido a maior parte do mundo. De onde é evidente que ele gozou de mais graça. Pois, se ele trabalhou mais, também a graça foi maior; mas ele gozou de mais graça porque também exibiu mais diligência. Vedes como, por meio daquelas mesmas particularidades com que contende e se esforça por lançar à sombra as coisas que lhe dizem respeito, ele se mostra ser o primeiro de todos?
8. E, ouvindo estas coisas, façamos nós também aberta demonstração de nossos defeitos, mas de nossas excelências nada digamos. Ou, se a ocasião no-lo impuser, falemos delas com reserva e imputemos tudo à graça de Deus; o que, com efeito, faz também o Apóstolo, lançando a cada momento uma marca infamante sobre sua vida anterior, mas imputando à graça o seu estado posterior, a fim de significar a misericórdia de Deus a partir de toda circunstância: tanto de havê-lo salvo tal como ele era, quanto de, uma vez salvo, havê-lo tornado de novo tal como ele é. Que nenhum, pois, dentre os que estão em pecado desespere, nem nenhum dentre os que estão em virtude confie em si, mas que um seja sobremaneira temeroso, e o outro, diligente. Pois nem o homem indolente poderá permanecer na virtude, nem o diligente será fraco para escapar do mal. E de ambas estas coisas é exemplo o bem-aventurado Davi, o qual, depois de haver adormecido um pouco, teve uma grande queda; e, quando foi compungido no coração, de novo se apressou a subir à sua antiga altura. Pois, de fato, ambas as coisas são igualmente males, tanto o desespero quanto a indolência; uma lançando rapidamente o homem desde o próprio arco dos céus; a outra não permitindo que o caído se levante de novo. Por isso, com respeito à primeira, disse Paulo: Aquele que pensa estar em pé, veja não caia (1 Cor 10,12); mas quanto à outra: Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações (Hb 4,7); e ainda: Levantai as mãos cansadas e os joelhos paralisados (Hb 12,12). E também àquele que havia cometido fornicação, mas se arrependera, por isso mesmo depressa consola, para que tal homem não fosse tragado por excessiva tristeza (2 Cor 2,7).
Por que então vos abateis por causa de outras dores, ó homem? Pois se pelos pecados — nos quais somente a dor é proveitosa — o excesso já causa grande mal, muito mais o causará em todas as demais coisas. Por que, pois, te afliges? Por teres perdido dinheiro? Ora, pensa naqueles que nem sequer se saciam de pão, e muito depressa alcançarás consolação. E, em cada uma das coisas que te são penosas, não pranteies o que sucedeu, mas dá graças pelas desgraças que não sucederam. Tinhas dinheiro e o perdeste? Não chores a perda, mas dá graças pelo tempo em que dele gozaste. Dize como Jó: Recebemos o bem da mão do Senhor, e não receberemos o mal? (Jó 2:10). E, juntamente com isso, usa também deste argumento: que, ainda que tenhas perdido teu dinheiro, todavia teu corpo ainda o tens são, e não tens, na tua pobreza, de te afligir por estar ele também mutilado. Mas sofreu também teu corpo algum ultraje? Nem por isso é este o fundo das calamidades humanas, mas ainda estás no meio do tonel, sendo carregado. Pois muitos, juntamente com a pobreza e a mutilação, lutam também com um demônio e vagueiam pelos desertos; outros, por sua vez, suportam outras coisas mais penosas que estas. Pois nunca nos toque em sorte padecer tudo quanto é possível a alguém suportar.
Considerando, pois, sempre estas coisas, tende em mente os que sofrem pior, e não vos perturbeis por nenhuma dessas coisas; mas, quando pecardes, somente então suspirai, então chorai — isto não vo-lo proíbo, antes vo-lo ordeno; ainda que mesmo então com moderação, lembrando-vos de que há retorno, há reconciliação. Mas vês outros na fartura e a ti mesmo na pobreza, e outro em vestes preciosas e em preeminência? Não olhes, porém, somente para estas coisas, mas também para as misérias que delas nascem. E também na tua pobreza, não consideres somente a mendicidade, mas leva em conta também o prazer que dali provém. Pois a riqueza tem, na verdade, um rosto alegre, mas seu interior está cheio de trevas; e a pobreza, ao contrário. E, se desdobrares a consciência de cada homem, verás na alma do pobre grande segurança e liberdade; mas na do rico, confusões, desordens, tempestades. E, se te afliges vendo-o rico, ele também se perturba muito mais do que tu quando contempla alguém mais rico que ele. E, assim como tu o temes, também ele teme outro, e não tem, nisto, vantagem alguma sobre ti. Mas tu te perturbas ao vê-lo em cargo público, porque te achas em condição privada e és um dos governados. Recorda, porém, o dia em que ele deixará de exercer o cargo. E, mesmo antes desse dia, os tumultos, os perigos, as fadigas, as lisonjas, as noites sem sono, e todas as misérias.
9. E dizemos estas coisas àqueles que não têm senso para a elevada moralidade: pois, se soubésseis disto, haveria outras e maiores coisas com que poderíamos confortar-vos; mas, por ora, cumpre-nos usar de tópicos mais rudes para arrazoar convosco. Quando, pois, vires alguém rico, pensa naquele que é mais rico do que ele, e o verás na mesma condição que tu mesmo. E depois dele, olha também para aquele que é mais pobre do que tu, considera quantos se deitaram famintos, e perderam seu patrimônio, e vivem num cárcere, e rogam pela morte todos os dias. Pois nem a pobreza engendra tristeza, nem a riqueza, prazer, mas tanto uma quanto outra costumam ser produzidas em nós por nossos próprios pensamentos. E considera, começando de baixo: o gari se aflige e se vexa por não poder livrar-se deste seu ofício tão miserável e tido por tão vergonhoso; mas se o livrares deste, e fizeres com que ele, com segurança, tenha fartura das coisas necessárias à vida, ele se afligirá de novo por não ter mais do que precisa; e se lhe concederes mais, ele desejará dobrá-las de novo, e por isso se vexará não menos do que antes; e se lhe concederes o dobro ou o triplo, ele ficará desanimado de novo porque não tem parte no governo do Estado; e se também nisto o provês, ele se julgará miserável por não ser um dos mais altos magistrados do Estado. E, quando tiver obtido esta honra, lamentará por não ser governador; e, quando for governador, por não sê-lo de uma nação inteira; e, quando de uma nação inteira, por não sê-lo de muitas nações; e, quando de muitas nações, por não sê-lo de todas. Quando se tornar vice-rei, vexar-se-á de novo por não ser rei; e, se rei, por não sê-lo sozinho; e, se sozinho, por não sê-lo também das nações bárbaras; e, se das nações bárbaras, por não sê-lo do mundo inteiro; e, se do mundo inteiro, por que não também de outro mundo? E assim seu curso de pensamento, prosseguindo sem fim, não lhe permite jamais estar satisfeito. Vedes como, ainda que de humilde e pobre fizesses um homem rei, não removes o seu abatimento, sem primeiro corrigir o rumo de seu pensamento, enamorado como está de possuir sempre mais?
Eis, deixai-me mostrar-vos também o contrário, que ainda que de uma posição mais alta façais descer a uma mais baixa aquele que tem discernimento, não o lançareis no abatimento e na tristeza. E, se quiserdes, desçamos a mesma escada, e fazei descer o sátrapa de seu trono e, em hipótese, privai-o daquela dignidade. Digo que ele não se afligirá por isso, se escolher ter em mente as coisas de que falei. Pois não computará as coisas de que foi privado, mas o que ainda tem, a glória proveniente de seu cargo. Mas se lhe tirardes também isto, ele computará os que estão em posições privadas e jamais ascenderam a tal domínio, e para consolação suas riquezas lhe bastarão. E se também o expulsardes disto novamente, olhará para os que têm posses moderadas. E se lhe tirardes até a riqueza moderada, e lhe permitirdes participar apenas do alimento necessário, ele poderá pensar naqueles que não têm sequer isto, mas lutam com fome incessante e vivem no cárcere. E ainda que o façais entrar naquele cárcere, ao refletir sobre os que jazem sob doenças incuráveis e dores irremediáveis, ele se verá em circunstâncias muito melhores. E assim como o gari antes mencionado, nem mesmo sendo feito rei, colherá qualquer alegria, assim também este homem jamais se afligirá se se tornar prisioneiro. Não é, pois, a riqueza o fundamento do prazer, nem a pobreza o da tristeza, mas o nosso próprio juízo, e o fato de que os olhos de nossa mente não são puros, nem se fixam em parte alguma e permanecem, mas sem limite adejam para longe. E assim como os corpos sadios, se são nutridos só de pão, permanecem em boa e vigorosa condição, mas os enfermos, ainda que gozem de dieta farta e variada, tornam-se por isso mesmo mais fracos; assim também costuma acontecer no tocante à alma. O de espírito mesquinho, nem mesmo num diadema e honras inefáveis pode ser feliz; mas o que se abnega, ainda em grilhões e cadeias e pobreza, gozará de um prazer puro.
10. Tendo, pois, estas coisas em mente, olhemos sempre para os que estão abaixo de nós. Há, na verdade, concedo, outra consolação, mas de um tom elevado em moralidade, e que se ergue acima da grosseria da multidão. Qual é ela? Que a riqueza é nada, a pobreza é nada, a desonra é nada, a honra é nada, mas por breve tempo e só em palavras diferem umas das outras. E juntamente com isto há também outro tópico apaziguador, maior que este: a consideração das coisas que hão de vir, tanto más quanto boas, as coisas que são verdadeiramente más e verdadeiramente boas, e o ser consolado por elas. Mas visto que muitos, como disse, se mantêm afastados destas doutrinas, por isso fomos compelidos a demorar-nos em outros tópicos, para que, em curso, pudéssemos conduzir a elas os que recebem o que fora dito antes.
Muitas dessas construções gregas exigem cuidado para soar naturais em português culto. Vou traduzir mantendo o registro solene.
Consideremos, pois, todas estas coisas e, por todos os meios, disponhamo-nos retamente, e jamais nos entristeceremos com estas ocorrências inesperadas. Pois nem, se víssemos homens ricos numa pintura, diríamos que houvessem de ser invejados, do mesmo modo que, ao ver ali retratados homens pobres, não os chamaríamos de infelizes e dignos de compaixão — ainda que estes sejam certamente mais duradouros do que aqueles a quem reputamos ricos. Porquanto alguém permanece rico na pintura por mais tempo do que na própria natureza das coisas. Pois um, muitas vezes, perdura tal qual aparece até cem anos, ao passo que o outro, algumas vezes, sem sequer ter tido um ano de vida para desfrutar de suas posses, subitamente se viu despojado de tudo. Meditando, pois, sobre todas estas coisas, edifiquemos de todas as partes a alegria como uma muralha exterior contra a nossa tristeza irracional, a fim de que possamos tanto passar a vida presente com prazer, quanto alcançar os bens vindouros, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo fundamenta seu argumento acerca da ressurreição dos mortos no fato da ressurreição de Cristo. A realidade desta garante a realidade daquela.
Vedes quão excelentemente ele argumenta, demonstrando a ressurreição a partir do fato de Cristo ter sido ressuscitado, depois de ter estabelecido este último de muitos modos? Pois tanto os profetas o disseram, diz ele, como o próprio Senhor o mostrou por Sua aparição, e nós o pregamos, e vós crestes; tecendo assim seu quádruplo testemunho: o testemunho dos profetas, o testemunho do desfecho dos acontecimentos, o testemunho dos apóstolos, o testemunho dos discípulos; ou antes, um quíntuplo. Pois esta mesma causa também implica a ressurreição: a saber, o fato de Ele ter morrido pelos pecados de outros. Se, portanto, isto foi provado, é evidente que o outro ponto também se segue, a saber, que os demais mortos igualmente ressuscitam. E por isso, como acerca de um fato já admitido, ele os desafia e interroga, dizendo: Ora, se Cristo foi ressuscitado, como dizem alguns entre vós que não há ressurreição dos mortos?
Com isto, novamente, abatendo a audácia dos contraditores: pois não disse "como dizeis vós", mas "como dizem alguns entre vós". E nem acusa a todos, nem declara abertamente as próprias pessoas que acusa, para não os tornar mais desmedidos; nem, por outro lado, oculta a coisa inteiramente, a fim de os corrigir. Para este propósito, portanto, separando-os da multidão, despe-se para o combate contra eles, enfraquecendo-os e confundindo-os por isto, e mantendo os demais, em seus conflitos com estes, mais firmes na verdade, não permitindo que desertassem para os que se ocupavam em destruí-los: estando ele, de fato, preparado para adotar um modo de falar veemente.
Além disso, para que não dissessem: isto, na verdade, é claro e evidente a todos, que Cristo ressuscitou, e ninguém o duvida; isto, porém, não implica necessariamente também aquilo outro, a saber, a ressurreição da humanidade — pois uma coisa fora antes proclamada e sucedeu, e foi testificada por Sua aparição, a saber, o fato da ressurreição de Cristo; mas a outra ainda está em esperança, isto é, a nossa própria parte — vede o que ele faz: do outro lado, novamente, ele a demonstra, o que é prova de grande poder. Assim, por que dizem alguns, diz ele, que não há ressurreição dos mortos? Pois, sem dúvida, também aquele primeiro ponto é, por sua vez, subvertido por isto, a saber, o fato de que Cristo foi ressuscitado.
Vedes o vigor de Paulo, e seu espírito para o combate, tão invencível? Como não somente a partir do que é evidente demonstra o que é duvidoso, mas também, a partir do que é duvidoso, se esforça por demonstrar aos contraditores aquela primeira proposição evidente? Não porque o que já sucedera necessitasse de demonstração, mas para significar que isto era igualmente digno de fé quanto aquilo.
3. E que espécie de consequência é esta? diz alguém. Pois que, se Cristo não foi ressuscitado, então também os outros não sejam ressuscitados, isto sim se segue; mas que, se os outros não são ressuscitados, então também Cristo não tenha sido ressuscitado, que razão pode haver nisto? Visto, pois, que isto não parece muito razoável, vede como ele o elabora sabiamente, semeando de antemão suas sementes desde o começo, desde o próprio fundamento do Evangelho: a saber, que, tendo morrido por nossos pecados, Ele foi ressuscitado; e que Ele é as primícias dos que dormiram. Pois as primícias — de que pode Ele ser primícias, senão dos que são ressuscitados? E como pode Ele ser primícias, se não ressuscitam aqueles de quem Ele é primícias? Como, pois, não são eles ressuscitados?
Novamente, se não são ressuscitados, por que foi Cristo ressuscitado? Por que veio Ele? Por que assumiu Ele a carne, se não estava para ressuscitar a carne novamente? Pois Ele mesmo não tinha necessidade disto, mas por nossa causa. Mas estas coisas ele estabelece depois, à medida que avança; por ora ele diz: Se os mortos não são ressuscitados, tampouco Cristo foi ressuscitado, como se aquilo estivesse ligado a isto. Pois se Ele não pretendesse ressuscitar a Si mesmo, não teria operado aquela outra obra. Vedes como, pouco a pouco, toda a economia é derrubada por aquelas palavras deles e por sua incredulidade na ressurreição? Mas ainda nada diz ele acerca da encarnação, e sim acerca da ressurreição. Pois não foi Sua encarnação, mas Sua morte, que aboliu a morte; visto que, enquanto Ele tinha carne, a tirania da morte ainda dominava.
Logicamente, Paulo teria dito aqui que, se Cristo não tivesse sido ressuscitado, os fatos históricos seriam negados; mas, em vez disso, diz algo muito mais pertinente, e na verdade aterrador, aos coríntios. Pois se Cristo não tivesse ressuscitado dos mortos, então a pregação de Paulo seria inútil, e a fé deles não teria sentido algum.
Embora o que se seguisse naturalmente fosse: mas se Cristo não ressuscitou, combateis contra coisas evidentes, e contra tantos profetas, e contra a verdade dos fatos; contudo ele afirma algo muito mais temível para eles: então é vã a nossa pregação, vã é também a vossa fé. Pois deseja abalar completamente o espírito deles: perdemos tudo, diz ele, tudo está perdido, se Ele não ressuscitou. Vedes quão grande é o mistério da economia? Assim: se depois da morte Ele não pôde ressuscitar, nem o pecado é dissolvido, nem a morte é abolida, nem a maldição removida. E não somente pregamos em vão, mas também vós crestes em vão.
4. E não apenas por isto demonstra a impiedade destas más doutrinas, mas ainda contende com afinco contra elas
Sim, e somos encontrados falsas testemunhas de Deus: porque testemunhamos d'Ele que ressuscitou a Cristo; a quem Ele não ressuscitou, se acaso os mortos não ressuscitam.
Mas se isto é absurdo (pois é uma acusação contra Deus e uma calúnia), e Ele não O ressuscitou, como dizeis, não somente isto, mas outros absurdos também se seguirão.
E de novo estabelece tudo, e o retoma novamente
Pois se não tivesse a intenção de fazer isto, não teria vindo ao mundo. E ele não nomeia isto, mas o fim, a saber, a Sua ressurreição; por meio dela atraindo todas as coisas.
cercando a ressurreição de Cristo, mediante o ponto mais forte tornando forte e claro até mesmo aquilo que parece fraco e duvidoso.
Ainda estais em vossos pecados. Pois se Ele não ressuscitou, tampouco morreu; e se não morreu, tampouco tirou o pecado: sendo a Sua morte a remoção do pecado. Pois eis, diz alguém, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). Mas como o tira? Por Sua morte. Por isso também O chamou Cordeiro, como um que foi imolado. Mas se Ele não ressuscitou, tampouco foi imolado: e se não foi imolado, tampouco o pecado foi tirado: e se não foi tirado, estais nele: e se estais nele, pregamos em vão: e se pregamos em vão, crestes em vão que fostes reconciliados. E ademais, a morte permanece imortal, se Ele não ressuscitou. Pois se Ele também foi retido pela morte e não desatou as suas dores, como libertou todos os outros, estando Ele mesmo ainda retido por ela?
Se Cristo não ressuscitou, tampouco foi imolado, e se não foi imolado, os nossos pecados não foram tirados. Se os nossos pecados não foram tirados, ainda estamos neles, e toda a nossa fé é vã.
E por que falo de vós, diz ele, quando também todos aqueles pereceram, os quais fizeram tudo e já não estão sujeitos à incerteza do futuro? Mas pela expressão em Cristo, entende ou a fé, ou aqueles que morreram por Sua causa, que suportaram muitos perigos, muitas misérias, que caminharam pela via estreita.
Onde estão aqueles maniqueus de boca impura que dizem que a ressurreição aqui significa a libertação do pecado? Pois estes silogismos compactos e contínuos, valendo também reciprocamente, não indicam nada do que dizem, mas o que afirmamos. É verdade, ressuscitar se diz daquele que caiu: e por isso ele continua explicando, e não diz somente que Ele foi ressuscitado, mas acrescenta ainda isto, dentre os mortos. E os coríntios também não duvidavam do perdão dos pecados, mas da ressurreição dos corpos.
Mas que necessidade há, afinal, de que, salvo se a humanidade não estivesse sem pecado, tampouco o próprio Cristo o estivesse? Ao passo que, se Ele não houvesse de ressuscitar os homens, seria natural dizer: por que veio Ele e assumiu a nossa carne e ressuscitou? Mas em nossa suposição não é assim. E, quer os homens pequem, quer não pequem, há sempre em Deus uma impossibilidade de pecar, e o que nos sucede não O alcança, nem um caso corresponde ao outro por via de conversão, como na questão da ressurreição do corpo.
Que dizes, ó Paulo? Como é que só nesta vida temos esperança, se nossos corpos não ressuscitarem, permanecendo a alma e sendo imortal? Porque, ainda que a alma permaneça, ainda que seja infinitamente imortal, como de fato o é, sem a carne não receberá aqueles bens ocultos, como tampouco, na verdade, será punida. Pois todas as coisas hão de manifestar-se diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que fez por meio do corpo, segundo o que tiver feito, seja bem, seja mal (2 Cor 5,10). Por isso diz: se só nesta vida temos esperança em Cristo, somos os mais dignos de lástima de todos os homens. Pois, se o corpo não ressuscitar, a alma permanece sem coroa, privada daquela bem-aventurança que há nos céus. E, se assim é, nada então gozaremos; e, se nada então, na vida presente está nossa recompensa. Que poderá, pois, nisto, haver de mais miserável do que nós? — diz ele.
Mas disse ele estas coisas tanto para confirmá-los na doutrina da ressurreição do corpo quanto para persuadi-los acerca daquela vida imortal, a fim de que não julgassem que todos os nossos cuidados terminam com o mundo presente. Pois, tendo suficientemente estabelecido o que se propunha pelos argumentos anteriores, e havendo dito que, se os mortos não ressuscitam, tampouco Cristo ressuscitou; mas, se Cristo não ressuscitou, perecemos, e ainda estamos em nossos pecados — acrescenta ele novamente isto, derrubando por completo sua arrogância. Pois, assim, quando pretende introduzir alguma das doutrinas necessárias, primeiro abala inteiramente a dureza de seus corações pelo temor; o que, com efeito, fez aqui, havendo tanto lançado acima aquelas sementes quanto os tornado ansiosos, como os que houvessem caído de tudo; e agora, novamente, de outro modo, e de maneira que o sentissem mais severamente, fazendo esta mesma coisa e dizendo: "somos os mais dignos de lástima de todos os homens", se, depois de tão grandes combates e mortes e daqueles males inumeráveis, havemos de decair de tão grandes bens, e nossa felicidade se limita à vida presente. Pois, de fato, tudo depende da ressurreição. De modo que, também por isto, é evidente que seu discurso não era de uma ressurreição dos pecados, mas dos corpos, e da vida presente e futura.
Ainda que a alma permaneça, sendo infinitamente imortal, sem a carne não receberá aqueles bens ocultos. Se o corpo não ressuscitar, a alma permanece sem coroa, privada dos bens que lhe estão reservados nos céus. Nesse caso, nada temos a esperar, e nossas recompensas se limitam a esta vida. Que poderia haver de mais miserável do que isso? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Havendo indicado quão grandes males nascem de não crer na ressurreição, retoma ele o discurso e diz: Mas agora Cristo ressuscitou dentre os mortos; acrescentando continuamente, dentre os mortos, de modo a fechar a boca dos hereges. As primícias dos que dormem. Ora, se são as primícias deles, é necessário que também eles ressuscitem. Se, porém, ele estivesse falando da ressurreição dos pecados, e ninguém há sem pecado — pois até Paulo diz: Nada tenho contra mim mesmo, mas nem por isso estou justificado —, como haveria, segundo vós, algum que ressuscitasse? Vedes que seu discurso era acerca dos corpos? E, para tornar isso digno de crédito, ele traz continuamente à frente Cristo, que ressuscitou na carne.
Em seguida, ele também apresenta uma razão. Pois, como disse, quando alguém afirma mas não expõe a razão, seu discurso não é facilmente recebido pela multidão. Qual é, pois, a razão?
A própria natureza humana que fora derrubada devia ela mesma também alcançar a vitória. Pois foi por este meio que o opróbrio foi apagado.
Mas se por um homem, sem dúvida por um que tinha corpo. E observai a sua ponderação, como também sob outro fundamento ele torna seu argumento inevitável. Assim: aquele que foi vencido, diz ele, deve também em sua própria pessoa renovar o combate; a natureza que foi derrubada deve ela mesma também alcançar a vitória. Pois assim o opróbrio foi apagado.
Mas vejamos de que espécie de morte ele está falando.
Que dizer, pois? Dizei-me: morreram todos em Adão a morte do pecado? Como, então, foi Noé justo em sua geração? E como Abraão? E como Jó? E como todos os demais? E que direi mais? Serão todos vivificados em Cristo? Onde estão, então, os que são levados ao fogo do inferno? Assim, se isto se diz do corpo, a doutrina se sustenta; mas, se se diz da justiça e do pecado, já não se sustenta.
Além disso, para que, ao ouvirdes que a vivificação é comum a todos, não suponhais também que os pecadores são salvos
Não imagineis, pelo fato de que todos hão de ressuscitar dentre os mortos, que todos hão de gozar dos mesmos benefícios. Mesmo considerando apenas o castigo, há grande diferença nos graus do sofrimento que há de ser infligido. Quanto mais, pois, haverá diferença entre a sorte dos pecadores, de um lado, e a dos justos, de outro.
Não imagineis, pois, porque ouvis falar de ressurreição, que todos hão de gozar dos mesmos benefícios. Pois, se no castigo nem todos hão de sofrer igualmente, mas a diferença é grande, muito mais, onde há pecadores e justos, há de ser ainda maior a separação.
Cristo as primícias, depois os que são de Cristo; isto é, os fiéis e os aprovados.
Então virá o fim.
Pois quando estes houverem ressuscitado, todas as coisas terão fim, não como agora, quando, depois da ressurreição de Cristo, as coisas ainda permanecem em suspenso. Por isso acrescentou: na sua vinda, para que saibais que ele fala daquele tempo, quando Ele houver entregado o reino a Deus, mesmo ao Pai; quando Ele houver abolido todo principado, e toda autoridade e poder.
6. Atendei-me aqui com cuidado, e vede que nada do que digo vos escape. Pois a nossa contenda é com inimigos; por isso devemos primeiro praticar a redução ao absurdo, o que também Paulo faz muitas vezes, pois assim encontraremos mais facilmente o que dizem para ser refutado. Perguntemo-lhes, pois, primeiramente, que significa o dito: Quando ele houver entregado o reino a Deus, mesmo ao Pai? Pois, se tomarmos isto tal como está, e não em sentido digno da Divindade, Ele não mais o reterá depois disso. Porque aquele que entrega a outrem uma coisa deixa, por isso mesmo, de retê-la para si. E não haverá apenas este absurdo, mas também se encontrará que a outra pessoa que a recebe não era dela possuidora antes de assim a ter recebido. Portanto, segundo eles, nem o Pai era antes Rei, governando os nossos assuntos, nem parecerá que o Filho, depois destas coisas, será Rei. Como, pois, primeiramente, acerca do Pai, diz o próprio Filho: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho (Jo 5,17); e dele diz Daniel: que o seu reino é reino eterno, que não passará (Dn 7,14)? Vedes quantos absurdos se produzem, e quão contrários às Escrituras, quando se toma o que foi dito ao modo dos homens?
Mas que principado, então, diz ele aqui, que Cristo depõe? O dos anjos? De modo algum. O dos fiéis? Tampouco é este. Que principado, pois? O dos demônios, acerca do qual diz: A nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas (Ef 6,12). Pois agora ele ainda não está perfeitamente deposto, atuando eles em muitos lugares; mas então cessarão.
Que principado e poder destruirá Cristo? O dos anjos? Certamente não! O dos fiéis? Não. Que principado é, pois? O dos demônios, acerca do qual diz que a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados, as potestades e as forças das trevas neste presente século.
Também daqui se produz outro absurdo, a menos que tomemos isto também de modo condigno à Divindade. Pois a expressão até é de fim e limitação; mas, em referência a Deus, isto não existe.
Como assim o último? Depois de tudo, depois do diabo, depois de todas as demais coisas. Pois assim também, no princípio, a morte entrou por último; tendo vindo primeiro o conselho do diabo, e a nossa desobediência, e depois a morte. Virtualmente, pois, já agora está ela abolida; mas atualmente, então.
No princípio, a morte entrou por último, depois do conselho do diabo e de nossa desobediência. Semelhantemente, a morte será a última coisa a ser destruída.
Por que fala Paulo da sujeição do Filho ao Pai, quando acaba de tratar da sujeição de todas as coisas a Cristo? O apóstolo fala de um modo quando se refere à Divindade em si mesma, e de outro modo quando se refere à dispensação divina. Por exemplo, uma vez estabelecido o contexto da encarnação de nosso Senhor, Paulo não teme falar de suas numerosas humilhações, pois estas não são inconvenientes ao Cristo encarnado, ainda que evidentemente não possam aplicar-se a Deus. No presente contexto, de qual dessas duas coisas está ele tratando? Visto que acaba de mencionar a morte e a ressurreição de Cristo, nenhuma das quais pode aplicar-se a Deus, é claro que tem em mente a dispensação divina da encarnação, na qual o Filho voluntariamente Se sujeitou ao Pai. Note-se, porém, que ele introduz uma correção ao dizer que Aquele que Lhe sujeitou todas as coisas é, Ele mesmo, excetuado da regra geral. Isso serve para nos lembrar que Cristo, o Filho, é também verdadeiramente Deus.
E, no entanto, antes ele não disse que fora o Pai quem lhe sujeitou as coisas, mas Ele mesmo é quem as aboliu. Pois quando Ele houver abolido, diz ele, todo principado e toda potestade: e ainda, pois convém que Ele reine até que haja posto todos os Seus inimigos debaixo de Seus pés. Como, pois, diz ele aqui: o Pai?
E não somente há esta perplexidade aparente, mas ele teme também com um temor muito inexplicável, e usa de uma correção, dizendo: Exceto Aquele que Lhe sujeitou todas as coisas, como se alguns viessem a suspeitar se o próprio Pai não estaria porventura sujeito ao Filho — do que o que poderia haver de mais irracional? Não obstante, ele teme isto.
Como é isto, pois? Pois, na verdade, há muitas questões que se seguem umas às outras. Pois bem, dai-me então vossa atenção diligente; posto que, de fato, é necessário que primeiro falemos do escopo de Paulo e de sua mente, o qual se pode encontrar em toda parte resplandecendo, e depois acrescentemos nossa solução: sendo isto mesmo um ingrediente de nossa solução.
Qual é, pois, a mente de Paulo, e qual é seu costume? Ele fala de um modo quando discorre acerca da Divindade sozinha, e de outro quando cai no argumento da economia. Assim, tendo uma vez tomado posse da Carne de nosso Senhor, ele usa livremente depois disso todas as expressões que O humilham; sem temor, como se aquela fosse capaz de suportar todas as expressões desse tipo. Vejamos, pois, também aqui, se seu discurso é acerca da simples Divindade, ou se, em vista da encarnação, ele afirma d'Ele as coisas que diz: ou antes, apontemos primeiro onde ele fez isto de que falei. Onde, pois, fez ele isto? Escrevendo aos filipenses, ele diz: O qual, subsistindo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-Se a Si mesmo, sem reputação, tomando a forma de servo, feito à semelhança dos homens: e, achado na aparência como homem, humilhou-Se a Si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus também O exaltou sobremaneira. Fp 2,6-9
Vedes como, quando discorria acerca da Divindade sozinha, ele proferiu aquelas grandes coisas, que Ele estava em forma de Deus e que era igual Àquele que O gerou, e a Ele reporta o todo? Mas quando Ele Se vos mostrou feito carne, ele rebaixou de novo o discurso. Pois, a menos que distingais estas coisas, há grande discordância entre as coisas ditas. Pois, se Ele fosse igual a Deus, como exaltou sobremaneira a um igual a Si mesmo? Se Ele estava em forma de Deus, como Lhe deu um nome? Pois quem dá, dá a quem não tem, e quem exalta, exalta a quem antes fora abatido. Ele se achará, pois, imperfeito e necessitado, antes de haver recebido a exaltação e o Nome; e muitos outros corolários absurdos daí se seguirão. Mas se acrescentardes a encarnação, não errareis em dizer estas coisas. Considerai, pois, também aqui estas coisas, e com esta mente recebei as expressões.
8. Ora, juntamente com estas, exporemos também outras razões pelas quais esta perícope da Escritura foi assim composta. Mas por ora é necessário mencionar isto: primeiro, que o discurso de Paulo era sobre a ressurreição, coisa tida por impossível e largamente descrida; em seguida, que ele escrevia aos coríntios, entre os quais havia muitos filósofos que sempre escarneciam de tais coisas. Pois, embora em outras coisas altercassem uns com os outros, nesta todos, como que com uma só boca, conspiravam, declarando dogmaticamente que não há ressurreição. Contendendo, pois, por assunto tão descrido e ridicularizado, tanto por causa do preconceito que se havia formado quanto por causa da dificuldade da coisa; e querendo demonstrar a sua possibilidade, ele primeiro a estabelece a partir da ressurreição de Cristo. E tendo-a provado tanto pelos profetas quanto pelos que a viram, quanto pelos que creram: uma vez obtida uma reductio ad absurdum já admitida, ele prova no que se segue também a ressurreição da humanidade. Pois se os mortos não ressuscitam, diz ele, tampouco Cristo foi ressuscitado.
Além disso, tendo urgido de perto estes argumentos recíprocos nos versículos anteriores, ele o tenta novamente de outra maneira, chamando-O de primícias, e apontando para o Seu abolir todo principado, e autoridade, e poder, e por último a morte. Como, pois, seria a morte posta abaixo, diz ele, a não ser que Ele primeiro solte os corpos que ela detinha? Uma vez, pois, que havia falado grandes coisas do Unigênito, que Ele entrega o reino, isto é, que Ele mesmo faz suceder estas coisas, e Ele mesmo é vencedor na guerra, e põe todas as coisas sob os Seus pés, ele acrescenta, para corrigir a incredulidade da multidão, que é necessário que Ele reine até que tenha posto todos os Seus inimigos sob os Seus pés. Não como pondo fim ao reino usou ele a expressão até que, mas para tornar digno de crédito o que fora dito, e induzi-los à confiança. Pois não, diz ele, porque ouviste que Ele abolirá todo principado, e autoridade, e poder — a saber, o diabo, e as hostes dos demônios (por numerosas que sejam), e as multidões dos incrédulos, e a tirania da morte, e todos os males — não temas tu, como se a Sua força estivesse exausta. Pois até que Ele tenha feito todas estas coisas, é necessário que reine; não dizendo isto no sentido de que, depois de o ter cumprido, Ele não reina; mas estabelecendo antes o seguinte: que, ainda que não seja agora, sem dúvida há de ser. Pois o Seu reino não é cortado; antes, Ele governa, e prevalece, e permanece até que tenha posto em ordem todas as coisas.
E este modo de falar poder-se-ia encontrar também no Antigo Testamento; como quando se diz: Mas a palavra do Senhor permanece para sempre (Sl 119,89); e: Tu és o mesmo, e os Teus anos não faltarão (Sl 102,27). Ora, estas e semelhantes coisas diz o Profeta quando anuncia coisas que um longo espaço de tempo há de realizar, e que hão de, de todo modo, acontecer; expulsando o temor dos ouvintes mais rudes.
Mas que a expressão até, dita a respeito de Deus, e para sempre, não significam um fim, ouve o que diz alguém: Desde a eternidade até a eternidade Tu és Deus (Sl 90,2); e novamente: Eu sou, Eu sou; e Até a vossa velhice, Eu sou Ele (Is 46,4).
Por esta causa, com efeito, ele põe a morte por último, para que, a partir da vitória sobre as demais coisas, esta também fosse facilmente admitida pelo incrédulo. Pois, quando Ele destrói o diabo que introduziu a morte, muito mais dará Ele fim à sua obra.
9. Uma vez, pois, que a tudo referiu a Ele — a abolição de todo principado e potestade, o aperfeiçoamento de Seu reino (refiro-me à salvação dos fiéis, à paz do mundo, à supressão dos males, pois isto é aperfeiçoar o Seu reino), a destruição da morte — e não disse "o Pai por Ele", mas "Ele mesmo há de abolir" e "Ele mesmo há de pôr sob Seus pés", e em parte alguma mencionou Aquele que O gerou, temeu depois que, por causa disto, entre alguns dos mais irracionais, ou parecesse o Filho ser maior que o Pai, ou ser um princípio distinto e ingênito. E por isso, resguardando-se com brandura, tempera a grandeza de suas expressões, dizendo: "porque Ele pôs todas as coisas em sujeição debaixo de Seus pés", referindo novamente ao Pai estes elevados feitos — não como se o Filho fosse desprovido de poder, pois como poderia sê-lo Aquele de quem antes testemunhou coisas tão grandes, e a quem referiu tudo o que fora dito? Mas foi pela razão que mencionei, e a fim de mostrar que são comuns ao Pai e ao Filho todas as coisas que se fizeram em nosso favor. E que Ele mesmo, só por Si, era suficiente para pôr todas as coisas em sujeição debaixo de Si, ouvi de novo a Paulo, dizendo (Fp 3.21): "que transformará o corpo de nossa humilhação, para ser conforme ao corpo de Sua glória, segundo a operação pela qual Ele é poderoso até para sujeitar a Si todas as coisas."
Depois também emprega uma correção, dizendo: "Mas quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, é evidente que se exceptua Aquele que a Ele todas as coisas sujeitou" — testemunhando, ainda daí, não pequena glória ao Unigênito. Pois, se Ele fosse menor e muito inferior, jamais este receio teria sido por ele concebido. Nem tampouco se contenta com isto, mas acrescenta ainda outra coisa, como segue — digo, para que ninguém, em dúvida, perguntasse: "E que importa se o Pai não foi posto debaixo Dele? Isto de modo algum impede que o Filho seja o mais poderoso" — temendo esta ímpia suposição, porque aquela expressão não bastava para apontar também isto, acrescentou, indo muito além dela: "Mas, quando todas as coisas Lhe houverem sido sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará", mostrando Sua grande concórdia com o Pai, e que Ele é o princípio de todos os demais bens e a primeira Causa, que gerou Um tão grande em poder e em feitos.
10. Mas, se ele disse mais do que a matéria exigia, não vos maravilheis. Pois, à imitação de seu Mestre, ele assim procede: uma vez que também Ele, propondo-Se mostrar Sua concórdia com Aquele que O gerou, e que não veio sem o pensamento d'Ele, condesce tanto — não digo, quanto a prova da concórdia exigia, mas quanto a fraqueza dos presentes requeria. Pois Ele ora a Seu Pai por nenhuma outra causa senão esta; e, expondo a razão, diz: "para que creiam que Tu me enviaste" (Jo 11:42). À imitação, pois, d'Ele, Paulo aqui, em seu modo de falar, vai além do que era necessário; não para que tivésseis alguma suspeita de uma servidão forçada — longe disso —, mas para que ele pudesse expulsar mais inteiramente aquelas doutrinas ímpias. Pois assim, quando ele se propõe a extirpar algo pela raiz, costuma fazê-lo, e com muito mais além disso. Assim também, por exemplo, quando ele falou de uma esposa crente e um marido incrédulo, convivendo um com o outro pela lei do matrimônio, para que a esposa não se considerasse contaminada por aquele trato e pelos abraços do incrédulo, ele não disse que a esposa não é imunda, nem que ela de modo algum é prejudicada pelo incrédulo, mas — o que era muito mais — que o incrédulo é até mesmo "santificado" por ela; não querendo significar que o pagão se tornava santo por meio dela, mas, pela força mui grande da expressão, ansioso por remover o temor dela. Assim também aqui, seu zelo de afastar aquela doutrina ímpia por meio de uma expressão muito forte foi a causa de ele se exprimir como se exprimiu. Pois, quanto a suspeitar o Filho de fraqueza, é extrema impiedade (por isso ele o corrige, dizendo: "Ele porá todos os inimigos debaixo de Seus pés"); assim também, por outro lado, é ainda mais ímpio considerar o Pai inferior a Ele. Por isso ele também o afasta com força excessiva. E observai como ele o formula. Pois ele não disse simplesmente "Ele é excetuado, o que Lhe submeteu todas as coisas", mas "é manifesto"; "pois, ainda que se admita", diz ele, "não obstante eu o torno certo".
E, para que aprendais que esta é a razão das coisas ditas, eu vos perguntaria isto: sobrevém ao Filho, naquele momento, uma sujeição adicional? E como poderia isto ser senão ímpio e indigno de Deus? Pois a maior sujeição e obediência é esta: que Aquele que é Deus tomou a forma de servo. Como, pois, será Ele sujeitado? Vedes que, para afastar a noção ímpia, ele usou esta expressão? E isto também em sentido conveniente, ainda que reservado? Pois Ele se torna Filho e Pessoa divina, e assim obedece; não humanamente, mas como Aquele que age livremente e tem toda autoridade. De outro modo, como está Ele co-entronizado? Como, assim como o Pai ressuscita, também Ele ressuscita a quem quer (Jo 5:21)? Como todas as coisas que o Pai tem são d'Ele, e tudo o que Ele tem é do Pai (Jo 16:15)? Pois estas frases nos indicam uma autoridade exatamente medida por aquela d'Aquele que O gerou.
11. Mas o que significa isto: Quando Ele entregar o reino? A Escritura reconhece dois reinos de Deus: um por apropriação, outro por criação. Assim, Ele é Rei de todos, tanto gregos quanto judeus, quanto demônios e Seus adversários, no que respeita à Sua criação; mas é Rei dos fiéis, dos que Lhe são voluntários e submissos, no que respeita a tê-los feito Seus. Este é o reino que se diz também ter começo. Pois a este respeito diz Ele no Salmo segundo: Pede-Me, e Eu te darei as nações por herança (Sl 2,8). A este respeito também Ele mesmo disse a Seus discípulos: Toda a autoridade Me foi dada por Meu Pai (Mt 28,18), remetendo tudo Àquele que O gerou, não como se por Si mesmo não fosse suficiente, mas para significar que é Filho, e não ingênito. Este reino, pois, Ele entrega, isto é, conduz a um justo termo.
Que razão, pois, dirá alguém, pode haver para que nada tenha dito acerca do Espírito? Porque acerca d'Ele não discorria agora, nem confunde todas as coisas entre si. Pois também quando diz: Há um só Deus, o Pai, e um só Senhor Jesus, sem dúvida não é por considerar o Espírito inferior que assim se cala, mas porque, para o momento, não era isso o urgente, e assim se expressou. Pois costuma também fazer menção apenas do Pai, e nem por isso devemos excluir o Filho; costuma também falar apenas do Filho e do Espírito, e nem por isso devemos negar o Pai.
Mas o que significa que Deus seja tudo em todos? Que todas as coisas estejam dependentes d'Ele, que ninguém suponha duas autoridades sem princípio, nem outro reino apartado; que nada exista independente d'Ele. Pois quando os inimigos estiverem prostrados sob os pés do Filho, e Ele, tendo-os lançado sob Seus pés, não estiver em discórdia com Seu Pai, mas em perfeita e inteira concórdia com Ele, então Ele mesmo será tudo em todos.
Mas dizem alguns que Ele disse isto para declarar a remoção da maldade, como se todos então cedessem e ninguém mais resistisse nem cometesse iniquidade. Pois onde não há pecado, é evidente que Deus será tudo em todos.
12. Mas, se os corpos não ressuscitam, como são verdadeiras estas coisas? Pois permanece o pior de todos os inimigos, a morte, tendo obrado tudo quanto lhe aprouve. Não, diz alguém, pois não mais pecarão. E que tem isso? Pois não está ele aqui a discorrer sobre a morte da alma, mas sobre a do corpo? Como, pois, é ela derrubada? Pois a vitória consiste nisto: no reaver daquilo que foi arrebatado e retido. Mas, se os corpos dos homens hão de permanecer retidos na terra, segue-se que a tirania da morte permanece, ficando estes corpos, por sua parte, presos, e não havendo outro corpo em que ela seja vencida. Mas, se aquilo de que Paulo falou vier a suceder, como sem dúvida sucederá, manifestar-se-á a vitória de Deus, e essa gloriosa, em ser Ele capaz de ressuscitar os corpos que por ela eram retidos. Pois também então é vencido o inimigo, quando alguém toma os despojos, e não quando os deixa permanecer em poder do outro; mas, se não se ousa tomar o que é seu, como poderemos dizer que foi vencido? A este modo de vitória refere-se o próprio Cristo nos Evangelhos, ao dizer que venceu, falando assim: Quando houver amarrado o forte, então saqueará também os seus bens (Mt 12,29). Pois, se assim não fosse, não seria de modo algum uma vitória manifesta. Pois, assim como na morte da alma aquele que morreu é justificado do pecado (Rm 6,7) — e contudo não podemos dizer que isto seja uma vitória, pois não é vencedor aquele que nada mais acrescenta à sua maldade, mas aquele que aboliu o antigo cativeiro de suas paixões —, assim também neste caso eu não chamaria de esplêndida vitória o fato de a morte ser impedida de continuar a devorar os corpos dos homens, mas antes o serem estes corpos, dantes por ela retidos, arrebatados dela.
Mas, se ainda porfiarem e disserem que estas coisas foram ditas a respeito da morte da alma, como é ela destruída por último? Pois, no caso de cada um, já por ocasião de seu Batismo foi ela perfeitamente destruída. Se, porém, falares do corpo, admissível é a expressão; quero dizer, tal afirmação de que ela será destruída por último.
Mas, se alguém duvidar por que, discorrendo sobre a ressurreição, não trouxe ele à baila os corpos que ressuscitaram no tempo de nosso Senhor, nossa resposta poderia ser esta: que isto não poderia ser alegado em favor da ressurreição. Pois apontar aqueles que, depois de ressuscitados, tornaram a morrer, não convinha a quem se empenhava em provar que a morte é inteiramente destruída. E é esta mesma a razão por que disse ele que ela é destruída por último, para que jamais viesses a suspeitar de que ela ressurgisse. Pois, tirado o pecado, muito mais cessará a morte, sendo de todo fora de razão que, secada a fonte, subsista ainda a corrente que dela mana; e que, aniquilada a raiz, permaneça o fruto.
13. Uma vez que, pois, no último dia serão destruídos os inimigos de Deus, juntamente com a morte, o diabo e os espíritos malignos, não nos abatamos com a prosperidade dos inimigos de Deus. Porquanto os inimigos do Senhor, no próprio instante de sua glória e exaltação, perecem; sim, como fumaça se desvanecem (Sl 37,20). Quando vires algum inimigo de Deus opulento, cercado de guarda-costas e de numerosos aduladores, não te abatas, mas lamenta, chora, invoca a Deus, para que O inscreva no rol de Seus amigos: e quanto mais ele prospera, sendo inimigo de Deus, tanto mais o pranteia. Pois pelos pecadores devemos sempre gemer, mas sobretudo quando gozam de riquezas e de abundância de bons dias; assim como se deve gemer pelos enfermos, quando comem e bebem em demasia.
Há, porém, alguns que, ao ouvirem estas palavras, são de índole tão infeliz que, ao ouvi-las, suspiram amargamente e dizem: A mim é que cabem as lágrimas, que nada possuo. Disseste bem: que nada possuo — não porque não tenhas o que outro tem, mas porque reputas ditosa aquela coisa que assim se chama; sim, por isso mesmo és digno de lamentações infinitas: tal como se alguém, vivendo com saúde, reputasse feliz o que jaz enfermo sobre um leito macio — este último não é nem de longe tão desventurado e miserável quanto aquele, porque não tem sequer noção das próprias vantagens. Precisamente semelhante resultado se pode observar também no caso destes homens; e mais: por isto se acha toda a nossa vida confundida e transtornada. Pois estas sentenças perderam a muitos, e os entregaram ao diabo, e os fizeram mais dignos de compaixão do que os que se consomem de fome. Sim, que os que anelam por mais são mais desventurados que os mendigos, por estarem possuídos de tristeza maior e mais amarga que a destes, é evidente pelo que se segue.
Certa vez sobreveio à nossa cidade uma seca, e todos tremiam ante o último dos males, e suplicavam a Deus que os livrasse deste temor. E via-se então cumprir-se o que fora dito por Moisés (Dt 28,23): tornaram-se os céus de bronze, e uma morte, a mais horrenda de todas as mortes, aguardava-os a cada dia. Mas depois, quando aprouve ao Deus misericordioso, contra toda expectativa foi trazida do céu uma grande e copiosa chuva, e daí em diante todos viviam em festa e regozijo, como que ressurgidos das próprias portas da morte. Mas, no meio de tão grandes bênçãos e da alegria comum a todos, um daqueles homens sobremaneira ricos andava com o semblante sombrio e abatido, morto de tristeza; e, indagando muitos a razão pela qual, no gozo comum de todos os homens, ele só se entristecia, não pôde sequer conter em si a paixão selvagem, mas, açoitado pela tirania do mal, declarou diante de todos o motivo. Pois — disse ele — tendo eu em meu poder dez mil medidas de trigo, não tenho mais meio de as vender. Havemos então de reputar feliz, dizei-me, a este por tais palavras, pelas quais mereceria ser apedrejado? A este que era mais cruel que qualquer fera, inimigo comum de todos? Que dizes, homem? Entristeces-te porque nem todos pereceram, para que pudesses ajuntar ouro? Não ouviste o que diz Salomão (Pr 11,26): Ao que retém o trigo, o povo o amaldiçoará? Mas andas por aí como inimigo comum dos bens do mundo, e adversário da liberalidade do Senhor do mundo, e amigo de Mamom, ou antes, seu escravo? Pois não merece ser cortada aquela língua, e apagado aquele coração, que produziram tais palavras?
14. Vedes como o ouro não permite que os homens sejam homens, mas antes feras e demônios? Pois que poderia haver de mais lamentável do que este rico, cuja oração diária é que sobrevenha a fome, a fim de que ele possa ter um pouco mais de ouro? E sua paixão, a esta altura, já se voltou contra si mesma: pois ele nem sequer se alegra com a abundante colheita dos frutos da terra, mas antes, por essa mesma razão, tanto mais se aflige (a tal ponto chegou!), porque suas posses são infinitas. Ainda que aquele que possui muito devesse alegrar-se, este homem, por essa mesma causa, está abatido. Vedes, como eu disse, que os ricos não colhem tanto prazer do que já possuem quanto suportam de tristeza pelo que ainda não se lhes acrescentou? Pois aquele que tinha inumeráveis quantidades de trigo mais se afligia e lamentava do que aquele que padecia fome. E enquanto este, tendo apenas o alimento necessário, coroava-se de alegria, saltava de contentamento e dava graças a Deus, aquele outro, que tinha tanto, se consumia de aflição e julgava-se arruinado. Não é, pois, a superfluidade que nos causa o prazer, mas um espírito temperante; pois sem este, ainda que alguém obtenha e possua tudo, sentir-se-á como quem foi privado de tudo, e lamentará em conformidade — visto que também este homem de quem agora falamos, ainda que tivesse vendido tudo quanto possuía pelo preço mais alto que desejasse, tornaria a afligir-se por não ter sido por mais; e se pudesse obter mais, buscaria de novo outro acréscimo; e se tivesse vendido o alqueire por uma libra, ainda assim se atormentaria de tristeza, porque o meio alqueire não pudesse ser vendido pelo mesmo preço. E se o preço não fosse fixado tão alto desde o início, não te maravilhes. Pois também os ébrios não se inflamam logo de início, mas, quando já se carregaram de muito vinho, então acendem a chama com maior violência: assim também estes homens, quanto mais acumulam, tanto maior pobreza descobrem em si mesmos, e são precisamente os que mais ganham do que os outros aqueles que mais se acham em necessidade.
15. Mas não digo estas coisas apenas a este homem, senão também a cada um daqueles que se acham tão enfermos: aqueles, digo, que elevam o preço de suas mercadorias e fazem tráfico da pobreza de seus vizinhos. Pois da humanidade ninguém em parte alguma faz conta: mas em toda parte a cobiça traz muitos ao mercado no tempo da venda. E o azeite e o vinho são vendidos por um mais depressa, por outro mais lentamente, mas nenhum dos dois por consideração aos outros; antes, um busca o lucro, o outro evitar o prejuízo pela deterioração de seu produto. Assim, porque a maioria dos homens, não fazendo muita conta das leis de Deus, encerra e guarda tudo em casa, Deus, por outros meios os conduzindo à humanidade — para que, ainda que por necessidade, façam algo de bondade — infundiu neles o temor de maior perda, não permitindo que os frutos da terra se conservem por muito tempo, a fim de que, por mero pavor do dano de sua deterioração, exponham à venda aos necessitados, mesmo contra sua vontade, aquilo que iniquamente enterram em casa e guardam. Contudo, depois de tudo isto, alguns são tão insaciáveis que nem sequer assim se corrigem. Muitos, por exemplo, chegaram a esvaziar barris inteiros, sem dar sequer uma taça ao pobre, nem uma moeda ao necessitado, mas, depois que se tornou vinagre, derramam tudo por terra, e destroem seus barris juntamente com o fruto. Outros, ainda, que não dariam nem uma parte de um único pão ao faminto, lançaram celeiros inteiros a algum rio: e porque não deram ouvidos a Deus, que lhes ordenava dar aos necessitados, à ordem da traça, ainda que a contragosto, esvaziaram tudo o que tinham em suas casas, em total destruição e desperdício; atraindo sobre suas próprias cabeças, juntamente com esta perda, muito escárnio e muitas maldições.
E tal é o curso de seus negócios aqui; mas o porvir, que palavras no-lo poderão apresentar? Pois assim como estes homens, neste mundo, lançam aos rios seu grão roído pela traça, tornado inútil; assim também os autores de tais coisas, precisamente por isto se tornando inúteis, Deus os lança no rio de fogo. Porque assim como o grão pela traça e pelo verme, assim são suas almas devoradas pela crueldade e pela desumanidade. E a razão destas coisas é estarem eles pregados às coisas presentes, e boquiabertos apenas por esta vida. Donde também tais homens estão cheios de infinita tristeza; pois nomeai qualquer prazer que quiserdes, o temor de seu fim basta para aniquilar tudo, e tal homem está morto, ainda que esteja vivo. 1 Tm 5:6
Ora, que os incrédulos tenham estes sentimentos, não é maravilha; mas quando aqueles que participaram de tão grandes mistérios, e aprenderam tão altas regras de abnegação a respeito das coisas futuras, se comprazem em habitar nas coisas presentes, que indulgência merecem?
16. Donde, pois, provém este seu amor a habitar nas coisas presentes? De entregarem sua mente ao luxo, e engordarem sua carne, e tornarem delicada sua alma, e fazerem pesado seu fardo, e grandes suas trevas, e espesso seu véu. Pois no luxo, a parte melhor é escravizada, mas a pior prevalece; e aquela é cegada por todos os lados e arrastada em sua condição mutilada; enquanto esta puxa e conduz os homens por toda parte, embora devesse estar na categoria das coisas que são conduzidas.
Desde que grande é, na verdade, o vínculo entre a alma e o corpo — tendo o Criador engenhado isto, para que ninguém nos induzisse a abominá-lo como algo alheio. Pois Deus, na verdade, ordenou-nos que amássemos os nossos inimigos; mas o demônio prevaleceu a tal ponto que induziu alguns até mesmo a odiar o seu próprio corpo. Pois, quando um homem diz que ele é do demônio, nada mais prova senão isto, que é o cúmulo do delírio senil. Pois, se ele fosse do demônio, que seria esta tão perfeita harmonia, tal que o torna apto em tudo para as energias da alma que se autodomina? Mas, diz alguém, se ele é apto, como é que o corpo a cega? Não é o corpo que cega a alma; longe disso, ó homem; mas o deleite. Mas de onde nos vem o desejo do deleite? Não de termos um corpo, de modo algum; mas de uma má escolha. Pois o corpo requer alimento, não alimento excessivo; o corpo precisa de nutrição, não de ser quebrado e desfeito. Vedes que não somente à alma, mas ao próprio corpo que recebe o alimento, o deleite é hostil. Pois ele se torna mais fraco em vez de forte, e mais mole em vez de firme, e enfermiço em vez de saudável, e mais pesado em vez de leve, e mais frouxo em vez de compacto, e desfavorecido em vez de formoso, e insípido em vez de aromático, e impuro em vez de limpo, e cheio de dor em vez de estar à vontade, e inútil em vez de útil, e velho em vez de jovem, e decadente em vez de forte, e lento e embotado em vez de ágil, e mutilado em vez de íntegro. Ao passo que, se ele fosse do demônio, não deveria receber dano das coisas do demônio — refiro-me ao pecado.
17. Mas nem o corpo, nem o alimento, são do demônio, mas somente o deleite. Pois por meio dele aquele espírito maligno leva a cabo os seus inumeráveis males. Assim fez ele vítimas de todo um povo. Pois o amado engordou, diz o texto, e engrossou, e se dilatou, e recalcitrou (Dt 32,15). E daí também teve início aquele fogo abrasador sobre Sodoma. E, para declarar isto, disse Ezequiel: Mas esta foi a iniquidade de Sodoma: em soberba, e fartura de pão, e refinamentos, ela se tornou dissoluta (Ez 16,4). Por isso também disse Paulo: a que se entrega ao prazer está morta ainda quando vive (1 Tm 5,6). Como se há de entender isto? Porque, como um sepulcro, ela traz consigo o seu corpo, estreitamente atado a inumeráveis males. E, se o corpo assim perece, como será afetada a alma; de que desordem, que ondas, que tempestade se encherá ela? Por isto, vedes, torna-se ela inapta para todo dever, e não terá poder para falar, ou ouvir, ou tomar conselho, ou fazer com facilidade coisa alguma que seja necessária. Mas, assim como um piloto, quando a tempestade supera a sua perícia, é submerso no abismo, junto com o navio e os marinheiros e tudo o mais: assim também a alma, juntamente com o corpo, é afogada no penoso abismo da insensibilidade.
Deveras, Deus estabeleceu o estômago em nossos corpos como uma espécie de moinho, dando-lhe uma força proporcionada e fixando uma medida determinada que ele deve moer a cada dia. Se, portanto, alguém lança nele mais do que isso, o excesso, permanecendo indigesto, causa dano ao corpo inteiro. Daí procedem as enfermidades, as fraquezas e as deformidades: pois, na verdade, o luxo torna a mulher bela não somente enfermiça, mas também repugnante à vista. Pois quando ela está continuamente exalando hálitos desagradáveis, e respira vapores de vinho estragado, e está mais corada do que convém, e estraga a simetria que convém a uma mulher, e perde toda a sua decência, e seu corpo se torna flácido, suas pálpebras avermelhadas e inchadas, e seu volume desmedidamente grande, e sua carne um peso inútil — considerai quanto desgosto tudo isso produz.
Além disso, ouvi um médico dizer que muitos foram impedidos de alcançar a estatura que lhes era própria por nada tanto quanto pela vida luxuriosa. Pois, obstruído o sopro vital pela multidão de coisas que se lançam dentro e ocupado ele na digestão de tais coisas, aquilo que deveria servir ao crescimento é gasto nesta digestão de superfluidades. Que necessidade há de falar da gota, do catarro disperso por toda parte, das demais enfermidades daí originadas, de toda essa abominação? Pois nada é tão repugnante quanto uma mulher que se regala a si mesma com muito alimento. Por isso, entre as mulheres mais pobres pode-se ver mais beleza: consumindo-se as superfluidades e não se apegando a elas, como um barro supérfluo, de nenhum uso e proveito. Pois seu exercício diário, e seus labores, e suas fadigas, e sua mesa frugal, e sua dieta parca, ministram-lhes muita sanidade de corpo, e daí também muito viço.
18. Mas se falardes do prazer do luxo, achareis que ele não vai além da garganta: pois, tão logo passa a língua, se esvai, deixando atrás de si no corpo muito que é repugnante. Pois não olheis, eu vos peço, para os voluptuosos apenas à mesa, mas quando os virdes levantar-se, então segui-os, e vereis corpos antes de feras e de criaturas irracionais que de seres humanos. Vê-los-eis com dor de cabeça, inchados, atados, necessitando de leito e de repouso e de muito descanso, e como homens que são açoitados em grande tempestade e precisam que outros os salvem, e almejam aquela condição em que estavam antes de se incharem até quase arrebentar: carregando seus ventres como fardo semelhante ao das mulheres grávidas, e mal podem dar um passo, e mal podem ver, e mal podem falar, e mal podem fazer coisa alguma. Mas se acontece de dormirem um pouco, veem de novo sonhos estranhos e cheios de toda sorte de fantasias.
Que se dirá daquela outra loucura sua? A loucura da luxúria, quero dizer, pois também esta tem daqui as suas fontes. Sim, assim como cavalos enlouquecidos atrás da fêmea, assim eles, aguilhoados pelo ferrão de sua embriaguez, saltam sobre todos, mais irracionais que aqueles, e mais frenéticos em seus ímpetos; e cometendo muitas outras indecências que nem sequer é lícito nomear. Pois já não sabem, de fato, o que padecem, nem o que fazem.
Sendo assim, não se dá o mesmo com aquele que se abstém do luxo: antes, ele se assenta no porto, contemplando os naufrágios alheios, e goza de um prazer puro e duradouro, seguindo aquela vida que convém ao homem livre. Sabendo, pois, estas coisas, fujamos dos maus banquetes do luxo e apeguemo-nos a uma mesa frugal; a fim de que, tendo bom hábito tanto de alma quanto de corpo, possamos praticar toda a virtude e alcançar os bens futuros, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
O pecado introduziu a morte no mundo, e somos batizados na esperança de que nossos corpos mortos sejam ressuscitados na ressurreição. Se não há ressurreição, nosso batismo é vão, e nossos corpos permanecerão tão mortos quanto agora estão.
De outra sorte, que farão os que se batizam pelos mortos? Se os mortos absolutamente não ressuscitam, por que então se batizam eles pelos mortos?
Toma ele em mãos, de novo, outro assunto, estabelecendo o que disse ora a partir daquilo que Deus faz, ora a partir das próprias coisas que eles praticam. E não é este pequeno argumento para a defesa de qualquer causa, quando alguém apresenta os próprios contraditores como testemunhas, por suas ações mesmas, daquilo que afirma. Que é, pois, o que ele quer dizer? Ou quereis que eu mencione primeiro como os que estão infectados da heresia marcionita pervertem esta expressão? E bem sei que hei de suscitar muito riso; contudo, mesmo por essa razão, tanto mais a mencionarei, para que mais completamente eviteis esta enfermidade: a saber, que, quando entre eles morre algum catecúmeno, ocultando o homem vivo sob o leito do morto, aproximam-se do cadáver e falam com ele, perguntando-lhe se deseja receber o batismo; então, como ele nada responde, aquele que se acha oculto por baixo diz em seu lugar que sem dúvida desejaria ser batizado; e assim o batizam em lugar do defunto, como homens que zombam sobre um palco. Tão grande poder tem o demônio sobre as almas dos pecadores descuidados. Depois, chamados a prestar contas, alegam esta expressão, dizendo que até o Apóstolo disse: Os que se batizam pelos mortos. Vedes o extremo ridículo em que incorrem? Convém, pois, responder a tais coisas? Não creio; a não ser que fosse necessário discorrer com loucos sobre o que dizem em seu delírio. Mas, para que nenhum dos mais simplórios seja levado cativo, é preciso submeter-se a responder até mesmo a estes homens. Assim, pois: se este era o sentido de Paulo, por que ameaçou Deus aquele que não é batizado? Pois é impossível que doravante alguém deixe de ser batizado, uma vez inventado este expediente; e, além disso, a culpa já não recairia sobre o morto, mas sobre o vivo. Mas a quem falou Ele: Se não comerdes a Minha carne e não beberdes o Meu sangue, não tereis vida em vós mesmos? Aos vivos, ou aos mortos, dizei-me? E, de novo: Se alguém não nascer de novo da água e do Espírito, não pode ver o reino de Deus. Pois, se isto fosse permitido, e não houvesse necessidade da mente de quem recebe, nem de seu assentimento enquanto vive, que impediria tanto gregos como judeus de assim se tornarem crentes, fazendo outros homens, depois de seu falecimento, estas coisas em seu lugar?
Mas, para não prolongar em vão o trabalho de desfazer suas mesquinhas teias de aranha, vinde, desenvolvamos diante de vós a força desta expressão. Que é, pois, o que Paulo está dizendo?
Trata-se, pois, deste ponto: depois da enunciação daquelas palavras místicas e temíveis, e das regras terríveis dos dogmas que desceram do céu, acrescentamos ainda isto ao final, quando estamos prestes a batizar, ordenando-lhes que digam: Creio na ressurreição dos mortos, e é nesta fé que somos batizados. Pois depois de termos confessado isto juntamente com o restante, somente então somos mergulhados na fonte daquelas correntes sagradas. Isto, pois, é o que Paulo lhes recorda ao dizer: se não há ressurreição, por que então sois batizados pelos mortos? isto é, pelos corpos mortos. Pois de fato é tendo isto em vista que sois batizados: a ressurreição do vosso corpo morto, crendo que ele já não permanece morto. E tu, na verdade, fazes menção à ressurreição dos mortos com palavras; mas o sacerdote, como numa espécie de imagem, significa-te por meio do próprio ato aquilo que creste e confessaste com palavras. Quando, sem sinal algum, crês, então ele te dá também o sinal; quando fizeste a tua parte, então também Deus te assegura plenamente. Como, e de que maneira? Pela água. Pois o ser batizado e imerso, e depois emergir, é símbolo da descida ao Hades e do retorno de lá. Por isso também Paulo chama o batismo de sepultamento, dizendo: Fomos, pois, sepultados com Ele pelo batismo na morte (Rm 6,4). Por isto ele torna crível também aquilo que há de vir, isto é, a ressurreição de nossos corpos. Pois o apagar dos pecados é coisa muito maior do que o levantar de um corpo. E, declarando isto, disse Cristo: Pois qual é mais fácil, dizer: Perdoados são os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? (Mt 9,5). O primeiro, diz Ele, é o mais difícil; mas, visto que não credes nisto por estar oculto, e fazeis do mais fácil, em vez do mais difícil, a demonstração do meu poder, tampouco recusarei conceder-vos esta prova. Então diz Ele ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa.
E como é isto difícil, dirá alguém, se é possível também aos reis e governantes? Pois também eles perdoam adúlteros e homicidas. Estás a brincar, ó homem, ao dizeres isto. Pois perdoar pecados só a Deus é possível. Mas os governantes e reis, quer sejam adúlteros os que perdoam, quer homicidas, livram-nos, na verdade, do castigo presente; mas o pecado deles não purgam. Ainda que promovam a cargos os que perdoaram, ainda que os revistam da própria púrpura, ainda que lhes ponham o diadema sobre a cabeça, com isso apenas os fariam reis, mas não os poderiam libertar do seu pecado. Só Deus é quem faz isto; o que, com efeito, na Pia da Regeneração há de realizar. Pois a Sua graça toca a própria alma, e dali arranca o pecado pela raiz. Eis a razão por que aquele que foi perdoado pelo rei pode ainda ser visto com a alma impura, mas a alma do batizado já não o é, senão mais pura que os próprios raios do sol, e tal qual foi originalmente formada — antes, muito melhor do que aquilo. Pois é abençoada com um Espírito, que por todos os lados a inflama e intensifica a sua santidade. E assim como, ao refundir ferro ou ouro, tu o tornas puro e novo outra vez, assim também o Espírito Santo, refundindo a alma no batismo como numa fornalha e consumindo os seus pecados, faz com que ela resplandeça com mais pureza que todo o ouro mais puro.
Além disso, a credibilidade da ressurreição dos nossos corpos ele te significa novamente a partir do que se segue: a saber, que, tendo o pecado introduzido a morte, agora que a raiz está seca, não se deve depois disso duvidar da destruição do fruto. Por isso, tendo primeiro mencionado a remissão dos pecados, confessas em seguida também a ressurreição dos mortos; uma te conduz, como que pela mão, à outra.
Ainda mais, porque o termo Ressurreição não basta para indicar tudo: pois muitos, depois de ressuscitarem, partiram de novo, como os do Antigo Testamento, como Lázaro, como aqueles ao tempo da crucificação — manda-se dizer também a vida eterna, para que ninguém tenha mais ideia de morte depois daquela ressurreição.
Estas palavras, portanto, Paulo, trazendo-as à memória deles, diz: Que farão os que são batizados pelos mortos? Pois se não há ressurreição, diz ele, estas palavras não passam de cenário. Se não há ressurreição, como os persuadimos a crer em coisas que não concedemos? Tal como se alguém, mandando outro entregar um documento de que recebera tal soma, nunca lhe desse a quantia nele nomeada, e todavia, depois da assinatura, lhe exigisse as quantias especificadas. Que restará então ao signatário fazer, tendo-se ele tornado responsável, sem ter recebido aquilo que admitiu ter recebido? Isto, pois, diz ele aqui também acerca dos que são batizados. Que farão os que são batizados, diz ele, tendo subscrito a ressurreição dos corpos mortos, e não a recebendo, mas sofrendo fraude? E que necessidade havia, afinal, desta confissão, se o fato não se seguisse?
Vede novamente donde ele se esforça por estabelecer a doutrina: por seu próprio testemunho — ou antes, não somente pelo seu, mas também pelo dos demais apóstolos. E isto tampouco é coisa pequena: que os mestres que ele apresenta estavam repletos de veemente convicção, e a manifestavam não apenas com palavras, mas também com as próprias obras. Por isso, vede, ele não diz simplesmente "estamos persuadidos", pois isto só não bastaria para persuadi-los; antes, fornece a prova pelos fatos — como se dissesse: confessar estas coisas em palavras talvez não vos pareça maravilha alguma; mas se também vos apresentarmos a voz que as obras fazem soar, que tereis a dizer contra isso? Ouvi, pois, como também pelos nossos perigos, dia após dia, confessamos estas coisas. E não disse "eu", mas "nós", tomando consigo todos os apóstolos juntamente, e assim ao mesmo tempo falando com modéstia e conferindo credibilidade ao seu discurso.
Pois que tereis a dizer? Que vos enganamos ao pregar estas coisas, e que nossas doutrinas provêm de vanglória? De modo algum; nossos perigos não vos permitem proferir tal sentença. Pois quem escolheria estar em contínuo perigo sem propósito e sem efeito algum? Por isso também disse: Por que também nós estamos em perigo a toda hora? Pois ainda que alguém o escolhesse por vanglória, tal escolha seria apenas por uma vez ou outra, não por toda a vida, como a nossa. Pois nós consagramos toda a nossa vida a este propósito.
Protesto-vos, pela glória que tenho de vós em Cristo Jesus nosso Senhor, morro cada dia: gloriando-me aqui, referindo-se ao progresso deles. Assim, tendo já dado a entender que seus perigos eram muitos, para que não parecesse dizer isto por modo de lamentação, longe de entristecer-se, diz ele, glorio-me mesmo em padecer isto por vossa causa. E duplamente, diz, disso se deleita: tanto por estar em perigo por causa deles quanto por contemplar o seu proveito. Depois, fazendo o que lhe é costumeiro, porque proferira coisas grandes, remete tudo a Cristo.
Mas como morre ele cada dia? Por sua prontidão e preparação para tal evento. E por que profere ele estas palavras? De novo, também por meio delas, para estabelecer a doutrina da ressurreição. Pois quem escolheria, diz ele, sofrer tantas mortes, se não houvesse ressurreição nem vida após esta? Sim, se aqueles que creem na ressurreição dificilmente se exporiam ao perigo por ela, a menos que fossem de coração muito nobre, muito menos o incrédulo (assim ele fala) escolheria sofrer tantas e tão terríveis mortes. Vede, pois, como pouco a pouco ele se eleva a tamanha altura. Havia dito: estamos em perigo; acrescentou: a toda hora; depois: cada dia; depois: não apenas "estou em perigo", diz ele, mas até "morro"; e conclui, assim, apontando também de que espécie eram tais mortes.
Quem escolheria uma vida de perigo constante se nisso não houvesse propósito algum? Alguns fazem coisa semelhante num momento de vã jactância, mas isto não é o mesmo que consagrar toda a própria vida a tal empresa, ao longo de muitos anos.
Paulo se alegra em seus sofrimentos porque vê os resultados maravilhosos que estes produzem em pessoas como os cristãos coríntios.
Se, ao modo dos homens, combati com feras em Éfeso, que me aproveita isso?
Que significa "ao modo dos homens"? Quanto pertence aos homens, combati com feras: pois, que importa se Deus me arrebatou daqueles perigos? De modo que sou eu quem mais deveria estar em cuidado destas coisas — eu, que suporto tão grandes perigos e ainda não recebi retribuição alguma. Pois se nenhum tempo de recompensa está por vir, mas nosso galardão se encerra neste presente mundo, nossa é a maior perda. Porquanto vós crestes sem perigo, mas nós somos trucidados a cada dia.
Mas tudo isto ele o disse, não porque não tivesse proveito no próprio sofrimento, mas por causa da fraqueza de muitos, e para firmá-los na doutrina da ressurreição — não porque ele mesmo corresse por salário, pois lhe era recompensa suficiente fazer o que era agradável a Deus. De sorte que, quando acrescenta: Se somente nesta vida esperamos em Cristo, somos de todos os homens os mais dignos de compaixão, também ali é por causa deles, para que pelo temor desta desventura derrubasse a incredulidade deles quanto à ressurreição. E, condescendendo com sua fraqueza, assim fala. Pois, na verdade, o grande galardão é agradar a Cristo em todo tempo; e, à parte a recompensa, é retribuição bem grande estar em perigo por Sua causa.
4. Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos.
Esta palavra, tende por certo, é dita em escárnio; por isso ele mesmo não a formulou de si, mas convocou o profeta de mais elevado som, Isaías, o qual, discorrendo sobre certas pessoas insensatas e réprobas, empregou estas palavras: Os que matam bois e degolam ovelhas para comer carne e beber vinho; que dizem: Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. Estas coisas se revelam aos ouvidos do Senhor dos Exércitos, e esta iniquidade não vos será perdoada até que morrais (Is 22.13-14, Septuaginta). Ora, se então foram privados de perdão os que assim falavam, muito mais o serão no tempo da Graça.
Depois, para que não tornasse seu discurso demasiado áspero, não se detém longamente na sua redução ao absurdo, mas de novo volta seu discurso à exortação.
Paulo cita Isaías [22.13-14] a fim de escarnecer desta sugestão. Isaías, afinal, falava de pessoas duras e réprobas que costumavam falar assim. Se estas não puderam encontrar perdão sob a lei, quanto menos estarão prontas a ser perdoadas pelo evangelho da graça! Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
E isto disse ele, tanto para os repreender como carentes de entendimento (pois aqui, por uma expressão caridosa, chama de boa a facilidade de ser enganado), quanto também, na medida do possível, para lhes conceder alguma indulgência quanto ao passado, tendo em vista o seu retorno, e para lhes retirar e transferir a outros a maior parte de suas acusações, e assim, também por este meio, atraí-los ao arrependimento. O que faz igualmente na Epístola aos Gálatas, dizendo: Mas aquele que vos perturba sofrerá o seu julgamento, seja quem for. Gálatas 5:10
Diz isto Paulo tanto para repreender sua conduta passada quanto para mostrar que lhes concede alguma indulgência, na esperança de que agora se arrependam e retornem ao caminho reto.
Paulo fala aqui como se estivesse a dirigir-se a ébrios e a loucos, pois são pessoas assim que costumam operar mudanças repentinas de comportamento. Aqueles que não têm conhecimento de Deus são os que não creem na ressurreição dos mortos.
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Awake up righteously and sin not.
Como se falasse a ébrios e a loucos. Pois lançar subitamente fora das mãos todas as coisas era próprio de ébrios e de loucos, ao não mais verem o que viam nem crerem no que antes confessavam. Mas o que significa, righteously? Com vistas ao que é proveitoso e útil. Pois é possível despertar iniquamente, quando alguém se acha inteiramente incitado para dano da própria alma. E bem acrescentou, sin not, dando a entender que daí procediam os pecados de sua incredulidade. E em muitos lugares ele veladamente significa isto, que uma vida corrupta é a genitora das doutrinas más; como quando diz: O amor ao dinheiro é raiz de todos os males, ao qual, buscando alguns, se desviaram da fé (1Tm 6:10). E, ainda mais, muitos dos que têm consciência da própria maldade e não quisessem pagar-lhe a pena, por este mesmo temor são também prejudicados em sua fé quanto à ressurreição: assim como os que vivem virtuosissimamente desejam contemplá-la mesmo diariamente.
For some have no knowledge of God; I speak this to move you to shame.
Vede como novamente ele transfere suas acusações a outros. Pois não disse: Vós não tendes conhecimento, mas: alguns não têm conhecimento. Porquanto descrer da ressurreição é a disposição de quem não está plenamente ciente de que o poder de Deus é irresistível e suficiente para todas as coisas. Pois, se das coisas que não são Ele fez as que são, muito mais será capaz de ressuscitar as que foram dissolvidas.
E porque os havia tocado no vivo e sobremodo escarnecido, acusando-os de gula, de insensatez, de loucura, moderando essas expressões, diz: I speak to move you to shame, isto é, para vos endireitar, para vos reconduzir, para vos tornar melhores, por esta vossa vergonha. Pois temia que, se cortasse fundo demais, os fizesse recuar assustados.
5. Não consideremos, porém, estas palavras como ditas somente àqueles, mas como dirigidas também agora a todos os que padecem da mesma enfermidade e vivem uma vida corrupta. Pois, na verdade, não somente aqueles que professam doutrinas corruptas, mas também os que estão possuídos de graves pecados, esses são embriagados e frenéticos. Por isso, com justiça se lhes pode dizer também a eles: Despertai — e especialmente àqueles que jazem oprimidos pelo letargo da avareza, os que roubam iniquamente. Pois há um roubo que é bom, o roubo do Céu, que não prejudica. E, ainda que, no tocante ao dinheiro, seja impossível que alguém se torne rico sem que outro primeiro se torne pobre, nas coisas espirituais isto não se dá assim, mas de todo ao contrário: é impossível que alguém se torne rico sem tornar mais abundante o tesouro alheio. Pois, se não ajudas a ninguém, não poderás enriquecer-te. Assim, ao passo que nas coisas temporais o repartir causa diminuição, nas coisas espirituais, ao contrário, o repartir opera aumento, e o não repartir é o que produz grande pobreza e acarreta extremo castigo. E isto é significado por aquele que enterrou o talento. E também aquele que possui uma palavra de sabedoria, ao comunicá-la a outro, aumenta a sua própria abundância, tornando sábios a muitos; mas aquele que a esconde em casa priva-se a si mesmo de sua abundância, por negligenciar granjear o proveito de muitos. Igualmente, aquele que tinha outros dons, ao curar a muitos, aumentava o seu próprio dom: e não se esvaziava a si mesmo pelo repartir, e enchia a muitos outros com o seu próprio dom espiritual. E em todas as coisas espirituais esta regra permanece inabalável. Assim também no Reino, aquele que faz muitos participantes consigo do Reino terá, por isso mesmo, mais completamente os seus frutos em retorno; mas aquele que não se esforça por ter algum partícipe será ele mesmo lançado fora dessas muitas bênçãos. Pois, se a sabedoria deste mundo sensível não se esgota, ainda que dez mil a arrebatem à força, nem o artífice, ao formar muitos artífices, perde a sua própria arte; muito menos aquele que se apossa do Reino o diminui, mas então é que a nossa riqueza se multiplicará, quando chamarmos muitos a nós para esse fim.
Apossemo-nos, pois, das coisas que não se podem esgotar, mas antes crescem enquanto delas nos apossamos; apossemo-nos das coisas que a ninguém permitem defraudar-nos por falsa acusação, nem a ninguém dão motivo de nos invejar por elas. Pois, se houvesse um lugar que tivesse uma fonte de ouro a jorrar em contínuo fluxo, e que manasse tanto mais quanto mais dela se tirasse; e houvesse outro lugar que tivesse um tesouro enterrado na terra — de qual deles desejarias enriquecer-te? Não seria do primeiro? Evidentemente. Mas, para que isto não seja mera especulação de palavras, considera o que se diz a respeito do ar e do sol. Pois estes são tomados por todos, e a todos satisfazem. Estes, contudo, quer os homens deles usufruam quer não, permanecem os mesmos, sem diminuição; mas o que eu disse é coisa muito maior, pois a sabedoria espiritual não permanece a mesma, seja distribuída, seja não distribuída — antes, cresce na distribuição.
Mas se alguém não suporta o que acabo de dizer, e ainda se apega à pobreza das coisas mundanas, agarrando-se às coisas que padecem diminuição, que também a respeito destas se recorde do alimento do maná (Êx 16.20) e trema diante do exemplo daquele castigo. Pois o que então sucedeu, isso mesmo se pode agora também ver no caso dos avarentos. Mas o que então sucedeu foi que dali nasceram vermes de sua avareza. Isto mesmo também agora lhes sucede. Porque a medida do alimento é a mesma para todos; pois não temos senão um único estômago a encher; somente que vós, os que comeis com luxúria, tendes mais a expelir. E, assim como naquele caso os que em suas casas ajuntavam mais que a quantidade lícita não ajuntavam maná, mas mais vermes e podridão, assim também, tanto na luxúria quanto na avareza, os glutões e os beberrões não ajuntam mais iguarias, mas mais corrupção.
6. Contudo, tanto piores que aqueles são os homens do nosso tempo, porquanto aqueles experimentaram isto uma vez por todas e receberam correção; mas estes, introduzindo cada dia em suas próprias casas este verme muito mais grave que aquele, nem o percebem nem se saciam. Que estas coisas se assemelham àquelas quanto ao trabalho inútil que sobre elas empregamos (pois quanto ao castigo, estas são muito piores), eis aqui para vós a prova a considerar.
Em que, pergunto, difere o rico do pobre? Não tem ele um só corpo a vestir? Um só ventre a alimentar? Em que, pois, leva ele vantagem? Nos cuidados, em desperdiçar-se a si mesmo, em desobedecer a Deus, em corromper a carne, em dissipar a alma. Sim, estas são as coisas em que leva vantagem sobre o pobre: pois, se tivesse muitos ventres a encher, talvez tivesse algo a alegar, como que sua necessidade era maior e mais premente a exigência do gasto. Mas ainda agora, dirá alguém, podem replicar que enchem muitos ventres, os de seus servos, os de suas servas. Mas isto se faz, não por necessidade nem por humanidade, mas por mera soberba; pelo que não se pode tolerar sua desculpa.
Ora, para que necessitais de muitos servos? Pois assim como em nosso vestuário devemos seguir apenas a necessidade, e em nossa mesa, assim também em nossos servos. Que necessidade há, pois? Nenhuma absolutamente. Pois, de fato, um só senhor precisaria empregar um só servo; ou antes, dois ou três senhores um só servo. Mas se isto vos parece penoso, considerai aqueles que não têm nenhum e gozam de atendimento mais pronto. Pois Deus tornou os homens suficientes para servir a si mesmos, ou antes, também ao próximo. E se não o credes, ouvi Paulo dizendo: Estas mãos serviram às minhas necessidades, e às daqueles que estavam comigo (At 20:34). Depois que ele, mestre do mundo e digno do céu, não desdenhou servir a inúmeros outros, julgais vergonha, a menos que conduzais rebanhos inteiros de escravos, não sabendo que isto, em verdade, é o que mais vos traz vergonha? Pois para este fim Deus vos concedeu tanto mãos quanto pés, para que não tivésseis necessidade de servos. Visto que não foi de modo algum por necessidade que a classe dos escravos foi introduzida, senão já junto com Adão teria sido formado um escravo; mas é a pena do pecado e o castigo da desobediência. Mas quando Cristo veio, Ele pôs fim também a isto. Pois em Cristo Jesus não há nem escravo nem livre (Gl 3:28). De modo que não é necessário ter um escravo; ou, se é de algum modo necessário, que seja apenas um, ou, quando muito, dois. Que significam os enxames de servos? Pois assim como os vendedores de ovelhas e os traficantes de escravos, assim também os nossos ricos fazem sua ronda, nos banhos e no foro.
Contudo, não serei demasiado rigoroso. Permitir-vos-emos guardar um segundo servo. Mas se acumulais muitos, não o fazeis por humanidade, mas por autoindulgência. Pois se fosse por cuidado com eles, eu vos ordenaria que não ocupásseis nenhum deles em vos servir, mas que, tendo-os comprado e ensinado ofícios pelos quais pudessem sustentar-se, os deixásseis livres. Mas quando açoitais, quando os pondes em cadeias, isto não é mais obra de humanidade.
E sei que estou causando desgosto aos meus ouvintes. Mas que devo fazer? Pois para isto fui constituído, e não cessarei de dizer estas coisas, quer daí resulte algo, quer não. Pois que significa abrir-vos caminho na praça do mercado? Andais, pois, entre feras, para que afasteis os que vos saem ao encontro? Não temais; nenhum destes morde os que se aproximam de vós e caminham perto. Mas considerais uma afronta caminhar ao lado de outros homens? Que loucura é esta, que prodigiosa insensatez, quando um cavalo vos segue de perto, não pensardes que ele vos traga qualquer insulto; mas se for um homem, a menos que seja afastado cem milhas, considerardes que ele vos desonra. E por que tendes também servos para carregar fasces, empregando homens livres como escravos, ou antes, vós mesmos vivendo mais desonrosamente que qualquer escravo? Pois, em verdade, mais vil que qualquer servo é aquele que traz consigo tanto orgulho.
Portanto, nem sequer vislumbrarão a verdadeira liberdade aqueles que se escravizaram a esta paixão penosa. Antes, se é preciso expulsar e afastar, que não sejam os que se aproximam de ti, mas o teu próprio orgulho aquilo que expulsas; não por meio do teu servo, mas por ti mesmo; não com este chicote, mas com aquele que é espiritual. Pois agora o teu servo afasta os que caminham ao teu lado, mas tu mesmo és afastado do teu lugar elevado, mais vergonhosamente, pela tua própria vontade própria, do que qualquer servo poderia afastar o teu próximo. Mas se, descendo do teu cavalo, afastares o orgulho pela humildade, sentar-te-ás mais alto e te colocarás em maior honra, sem necessitar de servo algum para isso. Quero dizer que, quando te tiveres tornado modesto e caminhares sobre o chão, estarás sentado no carro da humildade, que te eleva até os próprios céus, aquele carro que possui corcéis alados; mas se, caindo dele, passares para o da arrogância, não estarás em condição melhor que a dos mendigos que são arrastados pelo chão — antes, muito mais miserável e digno de compaixão que eles: pois a estes a imperfeição dos seus corpos os obriga a serem assim arrastados, mas a ti, a doença da tua própria arrogância. Porque todo aquele que se exaltar, diz Ele, será humilhado (Mt 23,12). Para que, pois, não sejamos humilhados, mas exaltados, aproximemo-nos daquela exaltação. Pois assim também encontraremos repouso para as nossas almas, segundo o oráculo divino, e alcançaremos a verdadeira e mais excelsa honra; a qual possamos todos nós alcançar, pela graça e misericórdia, etc., etc.
Por que argumenta Paulo desta maneira, em vez de simplesmente remeter os seus ouvintes ao poder de Deus, como faz noutros lugares? Aqui ele trata com pessoas que não creem no que ele diz, pelo que lhes apresenta razões para isso.
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Mas dirá alguém: Como ressuscitam os mortos? E com que qualidade de corpo vêm? Insensato, aquilo mesmo que semeias não é vivificado, se antes não morrer.
Sendo o apóstolo, em grande medida e em toda parte, manso e humilde, adota aqui um estilo antes mordaz, por causa da impiedade dos contraditores. Não se contenta, porém, com isto, mas emprega também razões e exemplos, subjugando com eles até os mais contenciosos. E acima disse: Visto que por um homem veio a morte, por um homem veio também a ressurreição dos mortos; mas aqui resolve uma objeção trazida pelos gentios. E vede como novamente ele modera a veemência de sua censura; pois não disse "mas talvez digas", mas apresentou o objetor de modo indefinido, a fim de que, ainda que usasse seu estilo impetuoso com toda liberdade, não ferisse demasiado severamente os seus ouvintes. E propõe duas dificuldades, uma tocante ao modo da ressurreição, outra, à espécie dos corpos. Pois de ambas eles, de sua parte, faziam questão, dizendo: Como é ressuscitado aquilo que se dissolveu? e: com que qualidade de corpo vêm? Mas que significa "com que qualidade de corpo"? É como se dissessem: com este mesmo que se gastou, que pereceu, ou com algum outro?
Então, para mostrar que os objetos de sua indagação não são pontos questionáveis, mas admitidos, ele lhes sai imediatamente ao encontro de modo mais agudo, dizendo: Insensato, aquilo mesmo que semeias não é vivificado, se antes não morrer. O que também costumamos nós fazer no caso daqueles que contradizem coisas reconhecidas.
2. E por que não apelou ele desde logo para o poder de Deus? Porque está discorrendo com incrédulos. Pois quando seu discurso se dirige a crentes, não tem grande necessidade de razões. Por isso, tendo dito noutro lugar: Ele transformará o corpo da nossa humilhação, para ser conforme ao corpo da sua glória (Fl 3), e tendo indicado algo mais que a ressurreição, não estabeleceu analogias, mas, em vez de qualquer demonstração, trouxe à tona o poder de Deus, prosseguindo a dizer: segundo a operação pela qual Ele é capaz de sujeitar a Si todas as coisas. Mas aqui ele também insiste em razões. Isto é, tendo-o estabelecido a partir das Escrituras, acrescenta ainda, no que se segue, estas coisas a mais, com os olhos postos naqueles que não obedecem às Escrituras; e diz: Ó insensato, aquilo que semeias: isto é, de ti mesmo tens a prova destas coisas, pelo que fazes todos os dias, e ainda duvidas? Por isso te chamo insensato, porque das coisas diariamente feitas por ti mesmo és ignorante, e, sendo tu mesmo artífice de uma ressurreição, duvidas a respeito de Deus. Por isso, com muita ênfase, disse: aquilo que tu semeias, tu que és mortal e perecível.
E vede como usa expressões apropriadas ao propósito que tinha em vista: assim, não é vivificado, diz ele, se antes não morrer. Deixando, como vedes, os termos próprios da semente, como brotar, e crescer, e dissolver-se, adota aqueles que correspondem à nossa carne, a saber, é vivificado, e, se antes não morrer; os quais não pertencem propriamente às sementes, mas aos corpos.
Depois disse ele, não: depois de morto vive, mas — o que é coisa maior — vive precisamente porque morre. Vedes como ele volta constantemente, como já observei, o argumento contra os próprios adversários? Assim, o que eles tomavam por sinal seguro de que não ressuscitamos, isso mesmo ele converte em demonstração de que ressuscitamos. Diziam eles: o corpo não ressuscita, porque está morto. Que responde, pois, ele, revertendo o argumento? Antes, ao contrário: se não morresse, não poderia ressuscitar; e por isso ressuscita, porque morreu. Pois, como Cristo assinala isto mesmo com maior clareza, ao dizer: Se o grão de trigo não cair na terra e morrer, permanece só; mas, se morrer, dá muito fruto (Jo 12,24), assim também Paulo, tomando este exemplo, não disse: não vive, mas: não é vivificado — assumindo, uma vez mais, o poder de Deus, e mostrando que não é a natureza da terra, mas o próprio Deus, quem tudo opera.
E qual poderia ser a razão de não ter ele antes alegado o que era mais afim à matéria — refiro-me à semente do gênero humano? (Pois também a nossa geração começa a partir de uma espécie de corrupção, tal como a do grão.) Porque não tinha igual força, ao passo que este segundo exemplo era mais completo: pois ele quer um caso de algo que pereceu inteiramente, ao passo que aquele era apenas uma parte; por isso alega antes o outro. Além disso, aquele procede de um corpo vivo e cai num ventre vivo; mas aqui não é carne, senão a terra, aquilo em que a semente é lançada, e nela mesma se dissolve, como o corpo que está morto. Por esta razão, pois, também sob este aspecto o exemplo era mais apropriado.
Pois as coisas antes ditas respondem à questão de como ressuscitam; mas esta é a dúvida, com que espécie de corpo vêm. Mas que quer dizer: não semeias o corpo que há de ser? Não uma espiga inteira de grão, nem grão novo. Pois aqui o seu discurso já não trata da ressurreição, mas do modo da ressurreição, qual é a espécie de corpo que há de ressuscitar; se será da mesma espécie, ou melhor e mais glorioso. E ele toma ambas as coisas da mesma analogia, dando a entender que será muito melhor.
Mas os hereges, não considerando nada disto, arremetem contra nós e dizem: um corpo cai e outro corpo ressuscita. Como, pois, há ressurreição? Pois a ressurreição é daquilo que caiu. Mas onde está aquele admirável e surpreendente troféu sobre a morte, se um corpo cai e outro ressuscita? Pois já não parecerá que Ele restituiu aquilo que tomara cativo. E como pode a alegada analogia convir às coisas antes mencionadas? Ora, não é uma substância que se semeia e outra que se ressuscita, mas a mesma substância aperfeiçoada. Do contrário, nem sequer Cristo teria retomado o mesmo corpo quando Se tornou as primícias dos que ressuscitam; mas, segundo vós, Ele teria lançado fora o corpo anterior, embora este não tivesse pecado, e tomado outro. Donde, pois, viria esse outro? Pois este corpo era da Virgem; mas aquele, donde seria? Vedes a que absurdo chegou o argumento? Pois por que mostra Ele as próprias marcas dos cravos? Não foi para provar que é o mesmo corpo que foi crucificado, e o mesmo novamente que ressuscitou dos mortos? E que significa também o Seu tipo de Jonas? Pois certamente não foi um Jonas que foi tragado e outro que foi lançado em terra seca. E por que disse Ele também: Destruí este templo, e em três dias o levantarei? Pois aquilo que foi destruído, o mesmo claramente Ele levantou de novo. Pelo que também o Evangelista acrescentou que Ele falava do templo do Seu corpo (Jo 2,19-21).
Que é, pois, o que ele diz: Não semeias o corpo que há de ser? Isto é, não a espiga: pois é a mesma, e não é a mesma; a mesma, porque a substância é a mesma; mas não a mesma, porque esta é mais excelente, permanecendo a substância a mesma, mas tornando-se maior a sua beleza, e ressuscitando novo o mesmo corpo. Pois, se assim não fosse, não haveria necessidade de ressurreição, quero dizer, se não houvesse de ressuscitar aperfeiçoado. Pois por que derrubaria Ele de todo a Sua casa, senão porque estava para edificá-la mais gloriosa?
Isto agora, vedes bem, ele disse aos que pensam que é corrupção total. Em seguida, para que ninguém de novo suspeitasse, a partir daqui, que se fala de outro corpo, ele qualifica o dito obscuro, e ele mesmo interpreta o que havia dito, não permitindo que o ouvinte desviasse dali o pensamento para qualquer outra direção. Que necessidade há, pois, de nossos raciocínios? Ouvi-o a ele mesmo falando e explicando a frase: Não semeias o corpo que há de ser. Pois logo acrescenta: mas um simples grão, seja porventura de trigo, seja de outra espécie; isto é, não é o corpo que há de ser; não assim revestido, por exemplo; não tendo caule e barba, mas um simples grão, seja porventura de trigo, seja de outra espécie.
Sim, diz alguém, mas nesse caso é obra da natureza. De que natureza, dize-me? Pois também nesse caso é certamente Deus quem faz tudo; não a natureza, nem a terra, nem a chuva. Pelo que também ele, manifestando estas coisas, omite tanto a terra como a chuva, a atmosfera, o sol e as mãos dos lavradores, e acrescenta: Deus lhe dá um corpo como Lhe aprouve. Não te ponhas, pois, a indagar curiosamente, nem te ocupes com o como e de que maneira, quando ouvires falar do poder e da vontade de Deus.
E a cada semente o seu próprio corpo. Onde está, pois, a matéria alheia de que falam? Pois Ele dá a cada uma o que lhe é próprio. De modo que, quando diz: Não semeias o que há de ser, não diz isto, que uma substância se ressuscita em lugar de outra, mas que ela é aperfeiçoada, que é mais gloriosa. Pois a cada uma das sementes, diz ele, o seu próprio corpo.
4. Daqui, no que se segue, introduz ele também a diferença da ressurreição que então haverá. Pois não penseis que, porque o grão é semeado e todos nascem como espigas de grão, por isso há também na ressurreição uma igualdade de honra. Pois, em primeiro lugar, nem sequer nas sementes há uma única categoria, mas algumas são mais valiosas e outras inferiores. Pelo que também acrescentou: a cada semente o seu próprio corpo.
Contudo, não se contenta com isto, mas busca outra diferença, maior e mais manifesta. Pois, para que não suponhais, ao ouvir, como disse, que todos ressuscitam, que todos gozam da mesma recompensa, ele já havia lançado, mesmo nos versículos precedentes, as sementes deste pensamento, dizendo: Mas cada um em sua própria ordem. Mas ele o traz à luz aqui também mais claramente
Nem toda carne é a mesma carne. Pois por que falo eu, diz ele, a respeito das sementes? A respeito dos corpos discutamos este ponto, acerca do qual ora discorremos. Pelo que também acrescenta e diz:
Mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos animais, outra a das aves e outra a dos peixes.
Aqui Paulo distingue diferentes espécies de ressurreição. Não penseis que, pelo fato de o grão ser semeado e todo ele nascer como espigas, por isso toda ressurreição será igual em honra. Pois até mesmo no mundo das sementes, algumas são mais valiosas que outras.
E que quer ele dizer com estas expressões? Por que, partindo da ressurreição do corpo, lançou-se ele ao discurso dos astros e do sol? Não se lançou fora, nem se apartou do seu propósito; longe disso: antes, permanece nele. Pois, havendo estabelecido a doutrina acerca da ressurreição, insinua no que se segue que grande será então a diferença de glória, ainda que haja uma só ressurreição. E, por ora, divide o todo em duas partes: em corpos celestiais e corpos terrestres. Que os corpos ressuscitam, significou-o pelo grão; mas que nem todos estarão na mesma glória, significa-o por isto. Pois, assim como a incredulidade quanto à ressurreição torna os homens negligentes, assim também os torna indolentes o pensar que todos alcançarão a mesma recompensa. Por isso corrige a ambas. E a primeira, nos versículos precedentes, já a havia completado; mas esta agora começa. E, tendo feito duas ordens, a dos justos e a dos pecadores, subdivide novamente estas mesmas duas em muitas partes, significando que nem os justos nem os pecadores alcançarão o mesmo; nem os justos, todos eles, igualmente uns aos outros, nem os pecadores igualmente aos outros pecadores.
Ora, faz ele, como se vê, primeiramente, uma separação entre justos e pecadores, quando diz: corpos celestiais e corpos terrestres — pelos terrestres insinuando estes últimos, e pelos celestiais, os primeiros. Depois, introduz ainda uma diferença de pecadores entre si, dizendo: Nem toda carne é a mesma carne, mas há uma carne dos peixes, outra das aves, e outra dos animais. E, no entanto, todos são corpos; mas alguns estão em maior, outros em menor vileza. E isso também quanto ao seu modo de viver, e quanto à própria constituição.
E, tendo dito isto, ascende de novo ao céu, dizendo: Uma é a glória do sol, e outra a glória da lua. Pois, assim como nos corpos terrenos há diferença, assim também nos celestiais; e essa diferença não é ordinária, mas se estende até ao extremo: havendo não somente diferença entre o sol, a lua e as estrelas, mas também entre estrela e estrela. Pois que importa que estejam todas no céu? Contudo, umas têm maior, outras menor porção de glória. Que aprendemos daqui? Que, ainda que todos estejam no reino de Deus, nem todos gozarão da mesma recompensa; e ainda que todos os pecadores estejam no inferno, nem todos suportarão o mesmo castigo.
Paulo muda de metáforas a fim de sublinhar o fato de que, ainda que haja uma só ressurreição, haverá grandes diferenças de honra de um corpo a outro.
Assim, como? Com considerável diferença. Deixando, pois, esta doutrina como suficientemente provada, volta ele novamente à prova mesma da ressurreição e ao modo dela, dizendo:
5. Semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção. E observai a sua consideração. Assim como, no caso das sementes, empregou o termo próprio aos corpos, dizendo, não é vivificado, se não morrer, assim, no caso dos corpos, emprega a expressão pertencente às sementes, dizendo, semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção. Não disse é produzido, para que não pensásseis tratar-se de obra da terra, mas ressuscita. E por semeadura entende aqui, não a nossa geração no ventre, mas o sepultamento na terra dos nossos corpos mortos, a sua dissolução, as suas cinzas. Por isso, havendo dito, semeia-se em corrupção, ressuscita em incorrupção,
É semeado em fraqueza. Pois antes de trinta dias tudo se vai, e a carne não pode manter-se unida nem resistir um só dia. É ressuscitado em poder. Pois nada mais prevalecerá contra ele por toda a eternidade futura. Eis por que ele necessitou daquelas analogias anteriores, para que muitos, ao ouvirem estas coisas — que são ressuscitados em incorrupção, e glória, e poder —, não supusessem que não há diferença entre os que ressuscitam. Pois todos, de fato, ressuscitam tanto em poder quanto em incorrupção; e, nesta glória de sua incorrupção, ainda assim nem todos se encontram no mesmo estado de honra e segurança.
Que dizes tu? Não é este corpo espiritual? É, com efeito, espiritual, mas aquele o será muito mais. Pois agora, muitas vezes, tanto a abundante graça do Espírito Santo se retira quando os homens cometem grandes pecados; como também, permanecendo o Espírito presente, a vida da carne depende da alma: e o resultado, em tal caso, é um vazio, sem o Espírito. Mas naquele dia não será assim: antes, Ele habitará continuamente na carne dos justos, e a vitória será Sua, estando também presente a alma natural. Pois ou foi algo desta natureza que ele deu a entender ao dizer "corpo espiritual", ou que ele será mais leve e mais sutil, e tal que até possa ser levado pelos ares; ou, antes, ele quis dizer ambas as coisas. E se não credes nesta doutrina, contemplai os corpos celestes, tão gloriosos e (por este tempo) tão duráveis, e que permanecem numa tranquilidade incorruptível; e crede, a partir disso, que Deus pode também tornar incorruptíveis estes corpos corruptíveis, e muito mais excelentes que os que são visíveis.
Não é também espiritual o nosso corpo presente? Sim, é, mas então o será mais. Pois agora a graça do Espírito Santo, muitas vezes, abandona aqueles que cometem grandes pecados, e ainda que permaneça, a vida da carne depende da alma, de modo que o Espírito não desempenha nenhum papel. Mas depois da ressurreição já não será assim, porque então o Espírito habitará permanentemente na carne dos justos, e a vitória será dEle, ainda que a alma esteja também viva.
E, contudo, uma coisa está de fato escrita, mas a outra não está escrita. Como, pois, disse ele "está escrito"? Ele adaptou a expressão conforme o desfecho dos acontecimentos, como é seu costume fazer continuamente, e, na verdade, como é o costume de todo profeta. Pois assim também Jerusalém, disse o profeta, seria chamada cidade de justiça; contudo não foi assim chamada. Que, pois? Falou o profeta falsamente? De modo algum. Pois ele fala do desfecho dos acontecimentos. E também Cristo deveria ser chamado Emanuel; contudo não foi assim chamado. Mas os fatos proferem esta mesma voz; assim também aqui, o último Adão tornou-se espírito vivificante.
E estas coisas ele disse para que aprendêsseis que os sinais e penhores, tanto da vida presente quanto da que há de vir, já vieram sobre nós; a saber, da vida presente, Adão, e da vida futura, Cristo. Pois, ao estabelecer as coisas melhores como objetos de esperança, ele significa que o seu começo já se realizou, e que a sua raiz e a sua fonte já vieram à luz. Mas, se a raiz e a fonte são evidentes a todos, não há necessidade de duvidar dos frutos. Por isso diz: O último Adão tornou-se espírito vivificante. E também em outro lugar: Ele vivificará também os vossos corpos mortais mediante o Seu Espírito que habita em vós. É, pois, obra do Espírito vivificar.
Além disso, para que ninguém dissesse: por que as coisas piores são as mais antigas? E por que uma espécie, a saber, a natural, se realizou não apenas em suas primícias, mas por inteiro, enquanto a outra apenas em suas primícias? — ele significa que também os princípios de cada uma foram assim ordenados.
O apóstolo disse estas coisas para que aprendêssemos que os sinais e as promessas, tanto desta vida presente quanto da que há de vir, já vieram agora sobre nós. Ele expõe as coisas melhores como objetos de esperança e indica que já começaram, porque a sua raiz e a sua fonte já foram reveladas. Se assim é, não há necessidade de duvidar de que os frutos aparecerão a seu tempo.
No desígnio de Deus, as coisas vão sempre progredindo para melhor. É por isso que Paulo diz que as coisas menores já se cumpriram e que as melhores estão por vir... . Pois o agricultor, vendo o grão se dissolver, não se entristece.
E não pergunta ele o motivo, mas se contenta com a ordenação de Deus, tendo a evidência a partir dos fatos que testificam essa excelentíssima economia de Deus, e implicando que nosso estado sempre avança para o melhor; ao mesmo tempo, acrescentando também com isso credibilidade ao seu argumento. Pois, se o menor já se cumpriu, muito mais devemos esperar o melhor.
7. Visto, pois, que havemos de desfrutar tão grandes bênçãos, tomemos nosso posto nesta fileira, e não pranteemos os que partiram, mas antes aqueles que terminaram mal a sua vida. Pois assim o lavrador, quando vê o grão dissolver-se, não se lamenta; antes, enquanto o vê permanecer sólido na terra, está em temor e tremor, mas quando o vê dissolvido, alegra-se. Pois o início da futura colheita é a sua dissolução. Alegremo-nos, pois, também nós, quando cai a casa corruptível, quando o homem é semeado. E não te maravilhes se ele chamou o sepultamento de semeadura; pois, em verdade, esta é a melhor semeadura: porquanto àquela semeadura sucedem mortes, e labores, e perigos, e cuidados; mas a esta, se vivemos bem, sucedem coroas e recompensas; e àquela, a corrupção e a morte, mas a esta, a incorrupção e a imortalidade, e aquelas bênçãos infinitas. Àquele gênero de semeadura acompanhavam abraços, e prazeres, e sono; mas a este, apenas uma voz que desce do céu, e tudo é ao mesmo tempo levado à perfeição. E aquele que ressuscita não é mais conduzido a uma vida cheia de fadiga, mas a um lugar de onde a angústia, e a tristeza, e o suspiro fugiram.
Se necessitas de proteção, e por isso choras teu marido, recorre a Deus, o Protetor comum, e Salvador, e Benfeitor de todos, àquela aliança irresistível, àquele socorro pronto, àquele abrigo permanente que em toda parte está presente, e que nos é como um muro por todos os lados.
Mas o teu convívio com ele era coisa desejável e amável. Eu também o sei. Mas se confiares esta dor à razão sã, e considerares contigo mesma quem foi que o tomou, e que, suportando-o nobremente, ofereces a tua alma como sacrifício ao nosso Deus, nem mesmo esta onda te será forte demais para resistires. E o que o tempo há de realizar, faze-o tu mesma pelo teu próprio domínio de ti. Mas se cederes à fraqueza, a tua emoção, é certo, cessará com o tempo, porém não te trará nenhuma recompensa.
E, juntamente com estas razões, colige também exemplos, alguns da vida presente, outros das Sagradas Escrituras. Considera que Abraão imolou o próprio filho, e não derramou lágrima nem proferiu palavra amarga. Mas esse, dirás, era Abraão. Ora, tu, por certo, foste chamada a um campo de ação ainda mais nobre. E Jó, na verdade, se afligiu, mas tão somente quanto convinha a um pai que amava seus filhos e estava muito solícito pelos que partiram; ao passo que o que agora fazemos é, sem dúvida, próprio de quem odeia e é inimigo. Pois, se quando um homem fosse levado à corte e coroado, tu te ferisses a ti mesma e te lamentasses, eu não diria que eras amiga daquele que foi coroado, mas grande inimiga e adversária. Não, dizes tu, nem mesmo agora choro por ele, mas por mim mesma. Pois bem, mas isto não é próprio de pessoa afeiçoada, desejar, por causa de ti mesma, que ele ainda estivesse no combate e sujeito à incerteza do futuro, quando poderia estar coroado e ter chegado ao ancoradouro; ou que fosse arremessado em pleno oceano, quando poderia estar já em porto.
8. Mas eu não sei para onde ele foi, dizeis vós. Por que não sabeis, dizei-me? Pois, conforme viveu bem ou não, é evidente para onde irá. Ora, é justamente por isso que eu lamento, dizeis vós, porque ele partiu sendo pecador. Isto é mero pretexto e escusa. Pois, se esta fosse a razão do vosso pranto pelo falecido, deveríeis tê-lo formado e corrigido enquanto vivia. O fato é que em toda parte olhais para o que vos concerne a vós mesmos, não a ele.
Mas concedamos que ele tenha partido com pecado sobre si; ainda assim, por isto mesmo se deve alegrar, porque foi detido em seus pecados e não acrescentou à sua iniquidade; e ajudai-o quanto for possível, não com lágrimas, mas com orações e súplicas, esmolas e oferendas. Pois não em vão foram estas coisas concebidas, nem em vão fazemos menção dos falecidos no curso dos divinos mistérios, e nos aproximamos de Deus em favor deles, suplicando ao Cordeiro que está diante de nós, que tira o pecado do mundo — não em vão, mas para que algum alívio lhes advenha por isso. Não em vão clama aquele que está junto ao altar, quando os tremendos mistérios são celebrados, "por todos os que dormiram em Cristo, e por aqueles que fazem comemorações em favor deles". Pois, se não houvesse comemorações por eles, tais palavras não seriam proferidas: já que o nosso ofício não é mero espetáculo de teatro, Deus nos livre! Sim, é por ordenação do Espírito que estas coisas se fazem.
Prestemos, pois, socorro a eles e façamos comemoração por eles. Pois, se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício de seu pai, por que duvidais de que, quando também nós oferecemos pelos falecidos, algum consolo lhes sobrevenha? Visto que Deus costuma conceder as petições daqueles que rogam por outros. E isto Paulo o significou, dizendo que, "para que, por muitas pessoas, seja reconhecida com ação de graças em vosso favor a graça que nos foi concedida por muitos" (2 Cor 1,11). Não nos cansemos, pois, de prestar socorro aos falecidos, tanto oferecendo em favor deles quanto obtendo orações por eles: pois a comum Expiação do mundo está mesmo diante de nós. Por isso, com ousadia intercedemos então por todo o mundo, e mencionamos os seus nomes juntamente com os dos mártires, dos confessores, dos sacerdotes. Pois, na verdade, um só corpo somos todos nós, ainda que alguns membros sejam mais gloriosos do que outros; e é possível, de toda fonte, colher perdão para eles: das nossas orações, das nossas dádivas em favor deles, daqueles cujos nomes são mencionados juntamente com os seus. Por que, pois, vos afligis? Por que chorais, quando está em vosso poder colher tanto perdão para o falecido?
9. É, pois, porque vos tornastes desamparada e perdestes um protetor? Não, jamais dizei isto. Pois não perdestes, por certo, o vosso Deus. E assim, enquanto O tiverdes, Ele vos será melhor do que marido, e pai, e filho, e parente: já que, mesmo quando estes viviam, era Ele quem fazia todas as coisas.
Nestas coisas, portanto, pensai, e dizei com Davi: "O Senhor é a minha luz e a minha Salvação, a quem temerei?" (Sl 27,1). Dizei: "Vós sois Pai dos órfãos, e Juiz das viúvas" (Sl 68,5); e atraí o Seu auxílio, e O tereis a cuidar de vós agora mais do que antes, na medida em que vos encontrais em estado de maior dificuldade.
Terá perdido um filho? Não o perdeste; não digas isso. Isto é sono, não morte; remoção, não destruição; uma peregrinação do pior para o melhor. Não provoques, pois, a ira de Deus; antes propicia-O. Pois se o suportares nobremente, daí advirá algum alívio tanto para o que partiu quanto para ti mesmo; mas se fizeres o contrário, mais ainda acendes a ira de Deus. Pois se, quando um servo era castigado por seu senhor, tu te puseste ao lado a queixar-te, mais exasperarias o senhor contra ti. Não faças, pois, assim; antes dá graças, para que também por isso esta nuvem de tristeza seja dissipada de ti. Dize com aquele bem-aventurado: o Senhor deu, e o Senhor tirou (Jó 1:21). Considera quantos outros, mais agradáveis à Sua vista, jamais receberam filhos, nem foram chamados pais.
"Nem eu quisera tê-lo sido assim", dizes, "pois certamente seria melhor não ter tido a experiência do que, após ter provado o prazer, dele decair." Não, eu te suplico, não digas isso, não provoques assim também a ira do Senhor; mas pelo que recebeste, dá-Lhe graças; e pelo que não tens até o fim, dá-Lhe glória. Jó não disse o que tu dizes ingratamente, que seria melhor não ter recebido, mas por uma coisa deu graças, dizendo: o Senhor deu; e pela outra bendisse a Deus, dizendo: o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor para sempre. E a sua mulher assim ele silenciou, justificando-se contra ela e proferindo aquelas admiráveis palavras: Recebemos o bem da mão do Senhor, e não receberíamos o mal? E, no entanto, depois disso ainda mais feroz tentação lhe sobreveio; mas nem ainda assim ele se abateu, antes de igual modo a suportou nobremente e glorificou a Deus.
Faze tu também isto, e considera contigo mesmo que não foi o homem que o tomou, mas Deus, que o fez, que mais do que tu mesmo cuida dele e sabe o que lhe é bom; que não é inimigo nem emboscado. Vê quantos, vivendo, tornaram intolerável a vida a seus pais. "Mas não vês tu os de coração reto?", dizes. Vejo também estes, mas nem estes estão tão seguros quanto o teu filho está. Pois, embora agora sejam aprovados, ainda assim é incerto qual será o seu fim; mas por ele já não tens mais nenhum temor, nem tremes que algo lhe aconteça ou que sofra alguma mudança.
Estas coisas considera também a respeito de uma boa esposa e guardiã de tua casa, e por todas as coisas dá graças a Deus. E ainda que venhas a perder uma esposa, dá graças. Talvez seja vontade de Deus conduzir-te à continência; Ele te chama a um campo mais nobre de combate; foi-Lhe agradável libertar-te deste laço. Se assim nos governarmos a nós mesmos, ganharemos tanto o gozo desta vida quanto obteremos as coroas que hão de vir, etc., etc.
A diferença anterior era entre a vida presente e a vida futura, mas esta diferença é entre a vida antes da graça revelada e a vida depois que a graça é revelada.
Tendo dito que o natural veio primeiro e o espiritual depois, ele novamente afirma outra diferença, falando do terreno e do celestial. Pois a primeira diferença era entre a vida presente e aquela que há de vir; mas esta é entre aquela antes da graça e aquela depois da graça. E ele a expôs tendo em vista o modo mais excelente de vida, dizendo — (pois, para impedir os homens, como eu disse, de tal confiança na ressurreição que os tornasse negligentes quanto à sua prática e à perfeição, também a partir deste tema ele novamente os torna solícitos e os exorta à virtude, dizendo) — O primeiro homem é da terra, terreno; o segundo homem é o Senhor, do céu: chamando o todo pelo nome de homem, e denominando um a partir da parte melhor, e o outro a partir da pior.
O homem celestial indica, de um lado, uma vida elevada e austera, e, de outro, algo bem diverso [o homem de pó].
Que, pois? Não morreu também Este? Morreu, na verdade, mas disso nenhum dano recebeu; antes, por isso mesmo pôs fim à morte. Vedes como, também nesta parte de seu discurso, ele se serve da morte para estabelecer a doutrina da ressurreição? Pois, tendo, como já disse, o princípio e a cabeça, assim ele fala, não duvideis de todo o corpo.
Além disso, ele também estrutura, mediante isso, sua exortação acerca do melhor modo de vida, propondo os padrões de uma vida elevada e austera e os daquela que não o é, e apresentando os princípios de ambas: de uma, Cristo; da outra, Adão. Por isso não disse simplesmente da terra, mas terreno, isto é, grosseiro, pregado às coisas presentes; e, ao contrário, a respeito de Cristo, o Senhor do céu.
2. Mas se alguém disser que, por isso, o Senhor não tem corpo, porque se diz que Ele é do céu — ainda que o quanto já se disse baste para lhes fechar a boca —, nada nos impede de silenciá-los também por esta consideração: que significa "o Senhor do céu"? Fala ele de sua natureza, ou de sua vida mui perfeita? É, suponho, evidente a todos que ele fala de sua vida.
"Trazer uma imagem" não diz respeito tanto à nossa natureza em si mesma, quanto às nossas escolhas e ao nosso modo de proceder.
Mas, além disso, eu bem gostaria de perguntar-vos: acaso é da natureza que se diz aquilo que é da terra, terreno, e o Senhor do céu? Sim, dirá alguém. Que, pois? Era Adão somente terreno, ou possuía também outra espécie de substância congênere aos seres celestiais e incorpóreos, à qual a Escritura chama alma e espírito? Todos veem que ele possuía também isto. Portanto, tampouco o Senhor era somente do alto, ainda que se diga que é do céu, mas Ele também assumiu a nossa carne. Ora, o sentido de Paulo é este: assim como trouxemos a imagem do terreno, isto é, as obras más, tragamos também a imagem do celestial, o modo de vida que há nos céus. Se, porém, ele estivesse falando da natureza, a coisa não necessitaria de exortação nem de conselho. De modo que, também por isto, é evidente que a expressão se refere ao nosso modo de vida.
Por isso também introduz o dito à maneira de conselho e o chama de imagem, mostrando também aqui novamente que fala da conduta, não da natureza. Pois por isso nos tornamos terrenos, porque fizemos o mal: não porque fomos originalmente formados terrenos, mas porque pecamos. Pois primeiro veio o pecado, e depois a morte, e depois a sentença: Pó és, e ao pó voltarás (Gn 3:19). Então também entrou o enxame das paixões. Pois não é simplesmente o nascer da terra que faz um homem terreno (já que também o Senhor era desta mesma massa e barro), mas o fazer coisas terrenas, assim como também se torna celestial ao realizar coisas próprias do céu.
Mas basta: pois por que haveria eu de labutar demais na prova disto, quando o próprio apóstolo passa a nos desenvolver o pensamento?
Por "carne", Paulo aqui designa as más ações voluntárias. O corpo em si mesmo não é o obstáculo; antes, é por causa de nossa maldade que não podemos herdar o reino de Deus.
Vês como ele novamente se explica, aliviando-nos do trabalho? O que ele faz frequentemente: pois por carne ele aqui designa as más obras dos homens, o que ele fez também em outros lugares; como quando diz: Mas vós não estais na carne; e novamente: Assim, pois, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Rm 8,8-9. De modo que, quando diz: Ora, digo isto, ele não quer dizer outra coisa senão isto: portanto disse eu estas coisas para que aprendêsseis que as más obras não conduzem a um reino. Assim, a partir da ressurreição, ele introduziu imediatamente também a doutrina do reino; por isso acrescenta também: nem a corrupção herda a incorrupção, isto é, nem a maldade herdará aquela glória e o gozo das coisas incorruptíveis. Pois em muitos outros lugares ele chama a maldade por este nome, dizendo: Aquele que semeia para a carne, da carne colherá corrupção. Gl 6,8. Ora, se ele estivesse falando do corpo e não do mau proceder, não teria dito corrupção. Pois em nenhum lugar ele chama o corpo de corrupção, uma vez que ele não é corrupção, mas coisa corruptível: por isso, ao passar a discorrer também sobre ele, não o chama corrupção, mas corruptível, dizendo: pois é necessário que este corruptível se revista de incorruptibilidade.
3. Em seguida, tendo completado sua exortação acerca de nosso modo de vida, segundo seu costume constante de entrelaçar estreitamente um assunto a outro, ele passa novamente à doutrina da ressurreição do corpo:
É algo pavoroso e inefável, e que todos ignoram, o que ele está prestes a dizer: o que também indica a grandeza da honra que lhes confere; refiro-me ao fato de lhes falar mistérios. Mas o que é isto?
Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados. Ele quer dizer o seguinte: nem todos morreremos, 'mas todos seremos transformados', mesmo aqueles que não morrem. Pois eles também são mortais. Não temas, pois, porque hás de morrer, diz ele, como se não fosses ressuscitar: pois há, há alguns que escaparão até mesmo a isto, e ainda assim isto não lhes basta para aquela ressurreição, mas mesmo aqueles corpos que não morrem devem ser mudados e transformados em incorrupção.
Até mesmo os que não morrerem serão transformados, porquanto também eles são mortais.
Depois de haver discorrido longamente sobre a ressurreição, oportunamente aponta também seu caráter deveras admirável. E assim o faz: não é isto somente maravilhoso, diz ele, que nossos corpos primeiro se voltem à corrupção, e depois sejam ressuscitados; nem que os corpos que ressuscitam depois de sua corrupção sejam melhores que estes presentes; nem que passem a um estado muito melhor, nem que cada um receba de volta o que é seu e não o de outro; mas que coisas tão numerosas e tão grandes, e que ultrapassam toda razão e concepção humanas, sejam realizadas num momento, isto é, num instante de tempo: e para mostrar isto mais claramente, diz ele, num piscar de olhos, no tempo em que se pode fechar uma pálpebra. Ademais, porque dissera algo grande e cheio de espanto — que resultados tão numerosos e tão grandes se dessem tão rapidamente — alega, para prová-lo, a credibilidade Daquele que os realiza; como segue: Porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. A expressão nós, ele a usa não de si mesmo, mas dos que então se encontrarem vivos.
O que foi mortal será revestido de imortalidade. Depois da ressurreição de nossos corpos, Ele prometeu conceder-nos o gozo do reino, a vida com os santos, o gozo por toda a eternidade, e aqueles bens inefáveis "que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração do homem."
O corpo permanece, mas a sua mortalidade e corrupção se dissipam quando sobre ele sobrevêm a imortalidade e a incorruptibilidade.
Assim, para que ninguém, ouvindo que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, suponha que os nossos corpos não hão de ressuscitar, acrescenta ele: é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Ora, o corpo é corruptível, o corpo é mortal; de sorte que o corpo, de fato, permanece, pois é o corpo que se reveste; mas a sua mortalidade e corrupção se dissipam quando sobre ele sobrevêm a imortalidade e a incorruptibilidade. Não te interrogues, pois, doravante, sobre como há de viver uma vida sem fim, agora que já ouviste que ele se torna incorruptível.
Assim, visto que falava de coisas grandes e ocultas, recorre novamente à profecia (Os 13,14) para confirmar sua palavra: “A morte foi tragada pela vitória”, isto é, inteiramente; dela não resta sequer um fragmento, nem esperança de retorno, tendo a incorruptibilidade consumido a corrupção.
A incorruptibilidade tragará a corrupção, sem deixar vestígio algum da vida anterior.
Como um homem que oferece um sacrifício na esperança da vitória, Paulo é inspirado a ver o futuro como algo que já se realizou, e pisa sobre a morte como se ela houvesse caído a seus pés. A morte se foi, está consumada, desvaneceu-se. Cristo não somente a venceu, mas a destruiu e a eliminou por completo.
Vedes a nobreza de sua alma? Como, à maneira de quem oferece sacrifícios pela vitória, tendo-se tornado inspirado e vendo já as coisas futuras como coisas passadas, salta e pisa sobre a morte caída a seus pés, e clama em triunfo sobre sua cabeça prostrada, exclamando poderosamente e dizendo: Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ó sepulcro, onde está a tua vitória? Ela se foi de todo, pereceu, desvaneceu-se inteiramente, e em vão fizeste todas aquelas coisas de outrora. Pois Ele não somente desarmou a morte e a venceu, mas ainda a destruiu, e a fez cessar totalmente de existir.
Sem a lei, o pecado era fraco. Existia, é certo, mas não tinha poder de condenar, porque, ainda que o mal se praticasse, não era claramente apontado. Não foi, pois, pequena a mudança que a lei introduziu. Primeiro, fez-nos conhecer melhor o pecado, e depois aumentou o castigo. Mas, se o efeito da lei foi aumentar o pecado quando pretendia refreá-lo, a culpa não está na lei, mas no modo como dela se abusou.
Vedes como o discurso trata da morte do corpo? Portanto, também da ressurreição do corpo. Pois, se estes corpos não ressuscitam, como é tragada a morte? E não só isto, mas como é a lei a força do pecado? Que o pecado é, de fato, o aguilhão da morte, e mais amargo que ela, e que por ele ela tem o seu poder, é evidente; mas como é também a lei a força deste? Porque sem a lei o pecado era fraco, praticado, na verdade, mas não podendo condenar de modo tão pleno: pois, ainda que o mal se cometesse, não era tão claramente apontado. De sorte que não foi pequena a mudança que a lei introduziu, fazendo-nos primeiro conhecer melhor o pecado, e depois aumentando o castigo. E se, pretendendo refrear o pecado, ela apenas o desenvolveu de modo mais temível, isto não é acusação contra o médico, mas contra o abuso do remédio. Pois, se até mesmo a presença de Cristo tornou mais pesado o fardo dos judeus, nem por isso devemos culpá-la; antes, quanto mais a admiramos, tanto mais devemos odiá-los, por terem sido prejudicados por coisas que deveriam ter-lhes aproveitado? Sim, para mostrar que não era a lei em si mesma que dava força ao pecado, o próprio Cristo a cumpriu inteiramente e foi sem pecado.
Mas quisera eu que considerásseis como, também a partir deste ponto, ele confirma a ressurreição. Pois, se esta era a causa da morte, a saber, o cometermos pecado, e se Cristo veio e tirou o pecado, e nos libertou dele mediante o batismo, e, juntamente com o pecado, pôs fim também à lei em cuja transgressão o pecado consiste, por que ainda duvidais da ressurreição? Pois, depois de tudo isto, por onde há de a morte prevalecer? Pela lei? Não, pois ela está abolida. Pelo pecado? Não, pois ele está inteiramente destruído.
Pois o troféu Ele mesmo o erigiu, mas fez-nos também participar das coroas. E isto não por dívida, mas por pura misericórdia.
Não devemos apenas trabalhar no Senhor, mas fazê-lo abundantemente, até transbordar. O trabalho do homem depois de sua expulsão do paraíso foi castigo por suas transgressões, mas este trabalho é o fundamento das recompensas que hão de vir.
5. Portanto, irmãos, sede firmes e inabaláveis.
Justa e oportuna é esta exortação depois de tudo quanto precedeu. Pois nada perturba tanto quanto o pensamento de que somos açoitados sem causa ou proveito.
Sempre abundando na obra do Senhor: isto é, na vida pura. E ele não disse "operando o que é bom", mas "abundando", para que o façamos abundantemente e ultrapassemos os limites da liça.
Sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.
Que dizeis? Trabalho, outra vez? Mas seguido de coroas, e estas acima dos céus. Pois aquele primeiro trabalho, na expulsão do homem do paraíso, era o castigo de suas transgressões; mas este é o fundamento das recompensas vindouras. De modo que não pode, de fato, ser trabalho, tanto por esta razão quanto pelo grande auxílio que recebe do alto — o que é a causa de ele também acrescentar: no Senhor. Pois o propósito daquele era que sofrêssemos castigo; mas o deste, que obtenhamos os bens vindouros.
Não durmamos, pois, meus amados. Porque não pode, não pode ser que alguém, por indolência, alcance o reino dos céus, nem os que vivem luxuriosa e molemente. Sim, é grande coisa se, esforçando-nos e subjugando o corpo e suportando inúmeros trabalhos, formos capazes de alcançar aquelas bênçãos. Não vedes quão vasta é esta distância entre o céu e a terra? E quão grande é o combate que se avizinha? E quão propenso ao mal é o homem? E com quanta facilidade o pecado nos assedia? E quantas ciladas há no caminho?
Por que, então, atraímos sobre nós mesmos tão grandes cuidados, além dos da natureza, e nos damos mais trabalho, e tornamos maior o nosso fardo? Não basta ter de cuidar de nosso alimento, vestimenta e moradas? Não basta ter de pensar nas coisas necessárias? Ainda que até destas nos afaste Cristo, dizendo: Não vos inquieteis pela vossa vida, sobre o que haveis de comer, nem pelo vosso corpo, sobre o que haveis de vestir (Mt 6,25). Ora, se não se deve estar ansioso pelo alimento e vestimenta necessários, nem pelo amanhã, aqueles que acumulam tão grande massa de escombros e se sepultam debaixo dela, quando terão poder para emergir? Não ouvistes Paulo dizendo: Nenhum soldado em serviço se enreda nos negócios desta vida (2 Tm 2,4)? Mas nós até vivemos luxuriosamente, e comemos e bebemos em excesso, e suportamos açoites por causa de coisas externas, mas nas coisas do céu nos comportamos covardemente. Não sabeis que a promessa é demasiado alta para o homem? Não pode ser que aquele que caminha sobre o solo ascenda às abóbadas do céu. Mas nós nem sequer nos esforçamos por viver como homens, e nos tornamos piores que os brutos.
Da tribuna diante da qual havemos de comparecer, não sabeis vós disso? Não considerais que tanto de nossas palavras quanto de nossos pensamentos se nos há de pedir conta, e nem sequer de nossas ações tomamos cuidado? Pois todo aquele que olhar para uma mulher a fim de a cobiçar, diz Ele, já com ela adulterou em seu coração (Mt 5,28). E, no entanto, aqueles que hão de responder por um simples olhar ocioso não se abstêm sequer de jazer apodrecendo no próprio pecado. Qualquer que disser a seu irmão: Louco, será lançado no fogo do inferno (Mt 5,22). Mas nós ainda os desonramos com dez mil injúrias e tramamos astuciosamente contra eles. Aquele que ama a quem o ama não é melhor que os gentios (Mt 5,46-47); mas nós ainda os invejamos. Que indulgência, pois, haveremos de ter, quando, mandados que somos a transpor os limites antigos, para nós mesmos tecemos um fio de vida ainda mais escasso do que o deles? Que alegação nos há de livrar? Quem se levantará para nos socorrer quando formos castigados? Ninguém há; mas será necessário que, chorando e lamentando e rangendo os dentes, sejamos arrastados, atormentados, para aquela treva sem raios de luz, para as dores que nenhuma oração pode afastar, para os castigos que não se podem abrandar.
Por isso rogo e suplico, e abraço os vossos próprios joelhos, para que, enquanto temos este escasso viático da vida, sejais compungidos em vosso coração pelo que se disse, para que vos convertais, para que vos torneis melhores; a fim de que não lamentemos em vão, como aquele rico, naquele mundo depois de nossa partida, e não continuemos daí por diante em lamentações incuráveis. Pois ainda que tenhais pai, ou filho, ou amigo, ou quem quer que seja que tenha confiança diante de Deus, nenhum destes jamais vos há de livrar, tendo vos destruído as vossas próprias obras. Pois tal é aquela tribuna: ela julga somente por nossas ações, e de nenhum outro modo é possível ali salvar-se.
E estas coisas digo, não para vos entristecer nem para vos lançar no desespero, mas para que, nutridos por vãs e frias esperanças, e depositando confiança neste ou naquele, não venhamos a negligenciar a nossa própria bondade. Pois se formos negligentes, não haverá nem justo, nem profeta, nem apóstolo, nem ninguém que se ponha ao nosso lado; mas se tivermos sido diligentes, tendo em suficiência a alegação que vem das obras de cada um, partiremos com confiança, e alcançaremos os bens que estão reservados para os que amam a Deus; aos quais possamos todos nós chegar, etc., etc.
Paulo exorta os coríntios mencionando os gálatas, pois certamente se envergonhariam de serem tidos por inferiores a tais provincianos.
Ora, quanto à coleta para os santos, fazei vós também assim como ordenei às igrejas da Galácia.
Tendo concluído o seu discurso acerca das doutrinas, e estando prestes a entrar naquilo que pertence antes à moral, ele deixa de lado todo o resto e avança para o principal dos bens, discorrendo sobre a esmola. Nem discute a moral em geral, mas, tendo tratado somente desta matéria, encerra o assunto. Coisa, todavia, manifestamente diversa do que fez em toda parte; pois da esmola, e da temperança, e da mansidão, e da longanimidade, e de tudo o mais, trata ele nas outras Epístolas em sua conclusão. Por que razão, pois, aborda ele aqui somente esta parte da moral prática? Porque também a maior parte do que fora dito antes era de natureza ética: refiro-me a onde castigou o fornicador; onde corrigia os que litigavam entre os gentios; onde aterrorizava os beberrões e os gulosos; onde condenava os sediciosos, os contenciosos e os que amavam ter a preeminência; onde os que se aproximavam indignamente dos Mistérios foram por ele entregues àquela sentença intolerável; onde discorreu acerca do amor. Por esta causa, digo eu, o assunto que mais o pressionava, a saber, o socorro requerido para os santos, este somente ele menciona.
E observai a sua consideração. Depois de os haver persuadido acerca da ressurreição, e de os haver tornado mais fervorosos, então, e não antes, discute também este ponto.
É verdade, de fato, que sobre estas coisas já lhes havia falado antes, quando disse: Se vos semeamos as coisas espirituais, será muito que colhamos as vossas coisas carnais? E: Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Mas, porque conhecia a grandeza desta obra moral, não se recusa a acrescentar nova menção ao final de sua carta.
E chama a coleta de λογία (contribuição), tornando, já desde o início, a coisa fácil de se ver. Pois, quando a contribuição é feita por todos em conjunto, torna-se leve aquilo que é cobrado de cada um.
Mas, tendo falado sobre a coleta, não disse ele logo: Cada um de vós ponha de parte, em casa, o que ajuntar; embora isto fosse, sem dúvida, a consequência natural; mas, tendo primeiro dito: Assim como ordenei às igrejas da Galácia, acrescentou isto, acendendo a emulação deles com o relato das boas obras alheias, e apresentando-o sob a forma de narração. E isto mesmo fez também ao escrever aos romanos; pois também a estes, ao parecer narrar o motivo por que se dirigia a Jerusalém, introduz em seguida o seu discurso sobre a esmola: Mas agora vou a Jerusalém, para ministrar aos santos; porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia fazer uma certa contribuição para os pobres dentre os santos (Rm 15:25). Só que a estes estimula com a menção dos macedônios e dos coríntios; a estes, com a dos gálatas. Pois diz: Assim como ordenei às igrejas da Galácia, fazei vós também; porque decerto se envergonhariam, depois, de serem tidos por inferiores aos gálatas. E não diz: Aconselhei, nem: Recomendei; mas: Ordenei, o que é mais autoritativo. E não apresenta uma única cidade, ou duas, ou três, mas uma nação inteira; o que faz também em suas instruções doutrinais, dizendo: Assim como em todas as igrejas dos santos. Pois, se isto é eficaz para a convicção das doutrinas, muito mais o será para a imitação das ações.
O próprio dia já bastava para exortá-los a dar esmolas. Pois o dia do Senhor foi o dia em que recebemos todas as bênçãos que agora possuímos. É a raiz e o princípio de nossa nova vida em Cristo. Não é esta, contudo, a única razão por que é próprio para a esmola. É também o dia de descanso, em que nossas almas podem repousar de seus labores e abrir-se para mostrar compaixão. Além disso, a participação na sagrada Comunhão nesse dia infunde em nós grande zelo.
No primeiro dia da semana, isto é, no dia do Senhor, ponha cada um de vós de parte, em sua própria casa, aquilo que puder, segundo a prosperidade que lhe for concedida. Observai como ele os exorta já a partir do próprio tempo: pois o dia, por si só, bastava para conduzi-los à esmola. Por isso, diz ele, recordai-vos do que alcançastes neste dia: como todas as bênçãos inefáveis, e aquilo que é a raiz e o princípio de nossa vida, nele se deram. Mas não é somente por esta razão que a estação se mostra propícia a um zelo benevolente, senão também porque ela traz repouso e isenção dos trabalhos: as almas, uma vez liberadas das fadigas, tornam-se mais dispostas e mais aptas a exercer a compaixão. Além disso, a participação, nesse mesmo dia, em Mistérios tão tremendos e imortais, infunde grande fervor. Nele, pois, ponha cada um de vós de parte — não este ou aquele indivíduo apenas, mas cada um de vós, seja pobre ou rico, mulher ou homem, escravo ou livre — a sua contribuição em reserva. Não disse ele: leve-a à igreja, para que não se envergonhassem por causa da pequenez da soma; mas, tendo por acréscimos graduais aumentado a sua oferta, que então a apresente, quando eu tiver chegado; por enquanto, guarda-a, diz ele, em casa, e faze de tua casa uma igreja, e do teu pequeno cofre um tesouro. Torna-te guardião de uma riqueza sagrada, mordomo autoconstituído dos pobres. Tua mente benevolente te confere este sacerdócio.
Deste nosso tesouro, ainda hoje subsiste um sinal; mas o sinal permanece, e a coisa mesma em parte alguma se encontra.
3. Ora, sei que muitos desta congregação hão de novamente encontrar defeito em mim quando eu tratar destes assuntos, e dizer: Não sejais, eu vos suplico, não sejais áspero e desagradável para com vossos ouvintes. Considerai a disposição deles; cedei à mente dos que ouvem. Pois nisto vós realmente nos envergonhais; fazeis-nos corar. Mas eu não posso suportar tais palavras: pois nem Paulo se envergonhou de ser continuamente importuno acerca destes mesmos pontos, e de falar palavras tais como usam os mendigos. Concedo, na verdade, que se eu dissesse: dá-mo, e guarda-o em minha casa, talvez houvesse algo de que envergonhar-me no que eu dissesse; contudo, dificilmente mesmo nesse caso, pois lemos que os que servem ao altar têm sua porção com o altar (1 Cor 9:13). No entanto, alguém talvez pudesse encontrar defeito, como se eu estivesse a arquitetar um argumento em proveito próprio. Mas agora é pelos pobres que faço minha súplica; não, não tanto pelos pobres, quanto por vós mesmos, que ofereceis o dom. Por isso também ouso falar abertamente. Pois que vergonha há em dizer: Dai a vosso Senhor em sua fome; Vesti-o, andando ele nu; Recebei-o, sendo ele estrangeiro? Vosso Senhor não se envergonha diante do mundo inteiro de falar assim: Tive fome, e não me destes de comer — Ele que carece de toda necessidade e de nada precisa. E hei eu de me envergonhar e hesitar? Longe disto. Esta vergonha é da cilada do demônio. Não me envergonharei, pois, mas direi, e ousadamente: Dai ao necessitado; eu o direi com voz mais alta que os próprios necessitados. Verdade é que, se alguém puder mostrar e provar que, ao dizer estas coisas, estamos vos atraindo para nós mesmos, e sob pretexto dos pobres estamos nós próprios lucrando, tal proceder seria digno, não digo de vergonha, mas de dez mil raios; e a própria vida seria mais do que mereceriam pessoas que assim se comportassem. Se, ao contrário, pela graça de Deus, em nada somos importunos por nós mesmos, mas fizemos o Evangelho sem custo para vós — laborando, é certo, de modo algum como Paulo, mas contentando-nos com o nosso próprio — com toda ousadia de linguagem direi: Dai ao necessitado; sim, e não deixarei de dizê-lo, e dos que não dão serei severo acusador. Pois assim, se eu fosse um general e tivesse soldados, não me envergonharia de exigir sustento para meus homens: porquanto ponho veementemente meu coração em vossa salvação.
4. Mas para que meu argumento seja tanto mais forte quanto mais eficaz, tomarei Paulo por companheiro, e, como ele, discorrerei e direi: Cada um de vós ponha à parte, em si mesmo, conforme tiver prosperado. Observai também como ele evita ser pesado. Não disse: tanto, ou tanto, mas conforme tiver prosperado, seja muito, seja pouco. Tampouco disse: o que alguém houver ganhado, mas conforme tiver prosperado — significando que o provimento vem de Deus. E não somente isto, mas também, por não lhes ordenar que depositassem tudo de uma vez, torna fácil o seu conselho: pois o ajuntar pouco a pouco impede toda percepção do peso e do custo. Aqui vedes também a razão por que não lhes ordenou que o produzissem imediatamente, mas lhes deu longo prazo; cuja causa, acrescentando-a, ele diz: Para que não haja coletas quando eu vier — o que significa, para que não sejais, quando chegar a ocasião de pagar as contribuições, então compelidos a recolhê-las. E isto também, em grau não ordinário, novamente os animou: a expectativa de Paulo haveria de torná-los mais diligentes.
Paulo deixa aos coríntios a escolha dos portadores de sua mensagem, a fim de evitar qualquer aparência de parcialidade.
Não disse: esta pessoa, ou aquela, mas: a quem quer que aprovardes, a quem quer que escolherdes, livrando assim o seu ministério de toda suspeita. Por isso lhes deixa o direito de votar na escolha daqueles que a hão de levar. Longe está de dizer: O pagamento é vosso, mas o privilégio de escolher os que hão de levá-lo não é vosso. Em seguida, para que não pensassem que estaria de todo ausente, acrescenta as suas cartas, dizendo: A quem quer que aprovardes, enviarei com cartas. Como se dissesse: Eu também estarei com eles e participarei do ministério, por meio de minhas cartas. E não disse: Estes enviarei para levar a vossa esmola, mas: a vossa liberalidade; para significar que praticavam grandes feitos; para assinalar que eles próprios eram os que lucravam. E, alhures, chama-a ora de bênção, ora de distribuição (2 Cor 9:5-13). A primeira, para que não os tornasse menos ativos; a segunda, para que não os ensoberbecesse. Mas, em nenhum caso, chamou-a de esmola.
Aqui, novamente, os exorta à liberalidade. Como quem diz: se for tanto, diz ele, que requeira também a minha presença, nem isto recusarei. Mas não prometeu isto desde o início, nem disse: Quando tiver vindo, eu o levarei. Pois não lhe teria dado tanta importância, se assim o houvesse estabelecido desde o princípio. Depois, porém, acrescenta-o bem e a seu tempo. Eis, pois, a razão por que não prometeu logo, nem tampouco se calou de todo a esse respeito: mas, tendo dito, Enviarei, acrescenta então, por fim, a si mesmo também. E aqui, de novo, deixa a decisão a critério deles; ao dizer: Se for conveniente que eu também vá: ao passo que isto dependia deles, a saber, tornar a sua coleta grande; tão grande até que afetasse os seus planos e o levasse, em pessoa, a empreender a viagem.
5. Mas irei ter convosco, diz ele, quando tiver passado pela Macedônia. Isto já havia dito acima; então, porém, com indignação: pelo menos acrescentou (1 Cor 4:19): E conhecerei não a palavra dos que andam inchados, mas o poder. Aqui, contudo, com mais brandura; para que até desejassem ardentemente a sua vinda. Depois, para que não dissessem: Por que honras os macedônios mais do que a nós?, não disse: Quando eu partir, mas: Quando tiver passado pela Macedônia; pois de fato passo pela Macedônia.
Mas convosco talvez eu permaneça, ou até mesmo passe o inverno. Pois não desejo de modo algum tomar-vos apenas de passagem, mas permanecer entre vós e passar algum tempo convosco. Pois quando escreveu esta carta, estava ele em Éfeso, e era inverno; como se pode saber pelo que diz: Ficarei em Éfeso até Pentecostes; mas depois disso partirei para a Macedônia, e, tendo-a percorrido, estarei convosco no verão; e talvez passe convosco até o inverno. E por que disse "talvez", e não afirmou positivamente? Porque Paulo não conhecia todas as coisas de antemão; e isso por bons desígnios. Por isso tampouco afirma de modo absoluto, a fim de que, se não viesse a acontecer, tivesse a que recorrer; primeiro, por ter sido indefinida a sua menção anterior; e, em segundo lugar, pelo poder do Espírito, que o conduzia para onde Ele queria, não para onde ele mesmo desejava. E isto também exprime na segunda Epístola, quando se desculpa por causa de sua demora, dizendo: Ou, ao propor isto, propus-me segundo a carne, de modo que em mim haveria o sim, sim, e o não, não? (2 Cor 1:17).
Para que me encaminheis na minha jornada, aonde quer que eu vá. Também isto é sinal de amor e de grande força de afeto.
Ora, disse ele estas coisas tanto para significar o seu amor quanto para atemorizar os pecadores, não, contudo, abertamente, mas sob demonstração exterior de amizade.
Como era de esperar-se, ele lhes conta tudo exatamente, informando-os como a amigos. Pois também isto é sinal de amizade: dizer a razão por que não estava com eles, por que se demorava e onde permanecia.
Foi precisamente porque as oportunidades eram tão grandes que Paulo teve tantos adversários. O demônio está sempre ativo quando corre o risco de perder sua presa.
Ora, se era grande, como poderia haver adversários? Por esta mesma razão eram muitos os adversários, porque grande era a fé dos homens; porque grande e larga era a entrada. Mas que significa: Uma porta grande? Há muitos preparados para receber a fé, muitos prontos a se aproximar e a se converter. Há para mim uma entrada espaçosa, estando já as coisas chegadas a tal ponto que o ânimo dos que se aproximam está em seu vigor para a obediência da fé. Por isso, veemente era o sopro do hálito do demônio, porque via muitos a se apartarem dele.
Vedes, pois, que por ambas as razões era necessário que ele permanecesse: tanto porque o ganho era abundante, quanto porque a luta era grande.
E com isto também os animou, a saber, dizendo que doravante a palavra opera em toda parte e brota prontamente. E, se há muitos que conspiram contra ela, também isto é sinal do progresso do Evangelho. Pois em momento algum se enfurece aquele demônio maligno, senão ao ver seus bens sendo abundantemente saqueados. Mt 12
6. Nós, pois, quando desejamos realizar algo grande e nobre, não atentemos para isto, a saber, a grandeza do trabalho que isso acarreta, mas olhemos antes para o ganho. Observai, por exemplo, Paulo, que não por isso se demorava, não por isso recuava, porque havia muitos adversários; mas, porque havia uma porta grande, avançava e perseverava. Sim, e, como eu dizia, isto era sinal de que o demônio estava sendo despojado, pois não é, ficai certos, por feitos pequenos e insignificantes que os homens provocam à ira aquele monstro maligno. E assim, quando virdes um homem justo a realizar obras grandes e excelentes, e contudo a padecer inúmeros males, não vos maravilheis; antes, bem poderia alguém maravilhar-se se o demônio, recebendo tantos golpes, se mantivesse quieto e suportasse mansamente as feridas. Assim como não deveríeis surpreender-vos se uma serpente, continuamente aguilhoada, se enfurecesse e saltasse sobre quem a aguilhoou. Ora, nenhuma serpente se insinua tão feroz contra vós quanto o demônio, que salta contra todos; e, como um escorpião com o ferrão erguido, ele se ergue direito. Não vos perturbe isto, então: pois é certo que aquele que retorna da guerra, da vitória e da matança, há de estar necessariamente ensanguentado, e muitas vezes também terá recebido feridas. Fazei vós, pois, de vossa parte, quando virdes alguém a dar esmolas e a realizar inúmeras outras boas obras, e assim a diminuir o poder do demônio, e depois a cair em tentações e perigos, não vos perturbeis por isso. É justamente por esta razão que ele caiu em tentações, porque feriu poderosamente o demônio.
E como permitiu Deus isto? Direis vós. Para que fosse coroado mais insignemente; para que o outro recebesse ferida mais grave. Pois, quando, depois de benefícios conferidos, um homem padece, e isso gravemente, e contudo continuamente dá graças, é isto um golpe contra o demônio. Pois é grande coisa, mesmo quando nossos negócios fluem prosperamente, mostrar misericórdia e apegar-se à virtude; mas é coisa muito maior, em calamidade grave, não desistir desta nobre ocupação; este é aquele de quem mais verdadeiramente se pode dizer que o faz por amor de Deus. Assim, pois, ainda que estejamos em perigo, amados, ainda que padeçamos por grande que seja, apliquemo-nos com maior zelo aos nossos labores por amor da virtude. Pois esta não é de modo algum a estação da retribuição.
Não busquemos aqui, pois, as nossas coroas, para que, quando as coroas vierem em sua estação própria, não diminuamos a nossa recompensa. Porque, assim como entre os artífices, os que se sustentam a si mesmos e trabalham recebem paga mais alta, ao passo que os que têm seu sustento provido por seus patrões são privados de não pequena parte do salário; assim também sucede com os santos: aquele que faz imenso bem e padece extremo mal tem a sua recompensa íntegra e um galardão muito mais abundante, não somente pelos bens que fez, mas também pelo mal que sofreu. Mas aquele que goza aqui de descanso e de deleites não terá lá coroas tão resplandecentes. Não busquemos, pois, aqui a nossa recompensa. Antes, alegremo-nos precisamente quando, fazendo o bem, padecemos o mal. Porque Deus tem reservado para nós, naquele mundo, não somente o galardão das nossas boas obras, mas também o das nossas tentações.
Mas, para me explicar mais claramente: suponhamos dois homens ricos e misericordiosos, e que ambos dêem aos pobres; que um continue em suas riquezas e goze de toda prosperidade, e que o outro caia em pobreza, em enfermidades e em calamidades, e ainda assim dê graças a Deus. Ora, quando estes partirem para o outro mundo, qual receberá o maior galardão? Não é inteiramente claro que será aquele que esteve enfermo e em adversidade, visto que, embora tenha feito o bem e padecido o mal, não sentiu segundo a fraqueza humana? Suponho que isto seja claro a todos. E, na verdade, esta é a estátua adamantina, este é o servo prudente. Vide Mt 25.21. Mas, se não devemos fazer bem algum pela esperança do reino, e sim porque assim apraz a Deus, o que é mais do que reino algum, que merece aquele que, por não receber aqui a sua recompensa, se tornou mais remisso quanto à virtude?
Não nos perturbemos, pois, quando virmos que um tal, que convidava as viúvas e fazia banquetes contínuos, perdeu a sua casa num incêndio, ou sofreu algum outro desastre semelhante. Sim, pois precisamente por isso receberá o seu galardão. Porque nem mesmo Jó foi tão admirado por suas esmolas quanto o foi por seus sofrimentos posteriores. Por esta razão também os seus amigos são pouco estimados e tidos em nenhuma conta, porque buscavam as recompensas do mundo presente e, tendo isto em vista, proferiram sentença contra o justo. Não busquemos, pois, aqui a nossa retribuição; não nos tornemos pobres e necessitados, pois é certamente de extrema mesquinhez, quando se nos propõe o céu e as coisas que estão acima do céu, andarmos a olhar em redor para as coisas que aqui estão. Não façamos isso de modo algum; mas, quaisquer que sejam as coisas inesperadas que sobre nós venham, guardemos firmemente os mandamentos de Deus continuamente, e obedeçamos ao bem-aventurado Paulo.
1CORÍNTIOS 15 (continuação)
7. Façamos, pois, um pequeno cofre para os pobres em casa; e junto ao lugar em que costumais orar, aí seja ele posto: e, todas as vezes que entrardes para orar, primeiro depositai a esmola, e então enviai para cima a vossa oração; e, assim como não quereríeis orar com as mãos por lavar, tampouco o façais sem esmola: pois nem mesmo o Evangelho pendurado junto ao vosso leito é mais importante do que o terdes esmolas ali guardadas em depósito; porque, se pendurardes o Evangelho e nada fizerdes, ele não vos trará tão grande proveito. Mas, se tiverdes este pequeno cofre, tereis uma defesa contra o diabo, dareis asas à vossa oração, tornareis santa a vossa casa, tendo ali armazenado o alimento para o Rei (Mt 25:34). E, por esta razão, seja o pequeno cofre colocado também junto ao leito, e a noite não será perturbada por fantasias. Somente que nada seja lançado nele que seja fruto da injustiça. Pois isto é caridade; e não pode ser que a caridade jamais brote da dureza de coração.
Quereis também que eu mencione os recursos de que deveis tirar os vossos depósitos, de modo que também nisto se torne fácil esta espécie de contribuição? O artesão, por exemplo, o sapateiro, ou o cortador de couro, ou o fundidor de bronze, ou qualquer outro artífice — quando vender algum artigo de seu ofício, dê ele as primícias do seu preço a Deus: lance ele aqui uma pequena porção, e destine algo a Deus da sua porção, ainda que seja antes escassa. Pois não peço nenhuma grande coisa; mas quanto os que ainda são crianças entre os judeus, cheios como estão de inúmeros males, tanto lançavam, tanto lancemos nós, que aguardamos o céu. E isto não o digo estabelecendo uma lei, nem proibindo mais, mas recomendando um depósito de não menos que a décima parte. E isto praticai não somente ao vender, mas também ao comprar e ao receber recompensa. Guardem também esta lei, quanto às suas rendas, os que possuem terras; sim, seja ela lei para todos os que ajuntam os seus proventos por meio honesto. Pois com os que exigem usura nada tenho eu que ver, nem com os soldados que fazem violência a outros e voltam em seu próprio proveito as calamidades dos seus vizinhos. Porquanto, dessa parte, nada aceitará Deus. Mas estas coisas as digo àqueles que ajuntam a sua substância por meio de trabalho justo.
Sim, e se nos estabelecermos neste hábito, seremos sempre depois picados pela consciência se alguma vez omitirmos esta regra; e, passado algum tempo, nem sequer o julgaremos coisa difícil; e, pouco a pouco, chegaremos a coisas maiores, e, praticando como desprezar as riquezas, e arrancando a raiz dos males, tanto passaremos a vida presente em paz, como obteremos a vida futura; a qual possa ser o quinhão de todos nós alcançar etc. etc.
Poder-se-ia pensar que isto seja alguma crítica à autoconfiança de Timóteo, mas Paulo o diz por causa dos coríntios, porque, se se voltarem contra ele, só a si mesmos prejudicarão.
Talvez alguém possa pensar que há neste conselho algo indigno da coragem de Timóteo. Mas não é por causa de Timóteo que isto é dito, mas por causa dos ouvintes: para que não se prejudicassem a si mesmos por conspirarem contra ele; visto que ele, por sua parte, tinha sempre o seu posto no meio dos perigos. Pois, como um filho serve a um pai, diz ele, assim ele serviu comigo na promoção do Evangelho (Fp 2:22). Mas para que, da ousadia para com o discípulo, não passassem também ao mestre, tornando-se piores, ele os detém de longe, dizendo que ele esteja convosco sem temor; isto é, que nenhuma daquelas pessoas desesperadas se levante contra ele. Pois talvez tencionasse repreendê-los acerca das coisas sobre as quais também Paulo havia escrito; e de fato Paulo declarou tê-lo enviado precisamente por esta razão. Pois vos enviei Timóteo, diz ele (1 Cor 4:17), que vos fará lembrar os meus caminhos em Cristo, como por toda parte ensino em cada Igreja. Para que, então, não fossem, por confiança em sua alta linhagem e riqueza, e no apoio do povo, e na sabedoria exterior, atacá-lo, cuspir sobre ele e conspirar contra ele, ofendidos pelas repreensões que dele procediam; ou para que, em vingança pela repreensão do mestre, não exigissem dele satisfação, punindo assim o outro; por isso diz que esteja sem temor convosco. Como se dissesse: Não me faleis daqueles que estão de fora, os gentios e os incrédulos. É a vossa parte que exijo, vós para quem também toda a Epístola foi composta, as mesmas pessoas a quem, no início e no princípio, ele havia atemorizado. Por isso diz: convosco.
Em seguida, em virtude do seu ministério, ele o apresenta como pessoa em quem se deve confiar plenamente, dizendo: Pois ele realiza a obra do Senhor. Isto é: não atentai, diz ele, para o fato de não ser rico, nem de elevada instrução, nem de idade avançada; mas para quais ordens lhe são impostas, que obra está realizando. "Pois ele realiza a obra do Senhor." E isto lhe serve em lugar de toda nobreza, riqueza, idade e sabedoria.
E não se contenta com isto, mas acrescenta: Assim como eu também. E um pouco acima: Que é meu filho amado e fiel no Senhor; ele vos fará lembrar os meus caminhos em Cristo. Vendo, pois, que ele era jovem, e que lhe fora confiado, sozinho, o aperfeiçoamento de povo tão numeroso, sendo ambas as coisas tendentes a trazer-lhe desprezo, acrescenta, como era de esperar-se,
Que ele venha a mim; pois o espero com os irmãos. Também esta era a linguagem de quem os quisesse alarmar. Isto é, a fim de que se tornassem mais ponderados, sabendo que tudo lhe seria contado, qualquer que fosse o tratamento dispensado a Timóteo, acrescenta, por isso, pois o espero. E, além disso, com isto mostra tanto que Timóteo é digno da confiança deles — visto que, estando prestes a partir, o espera —, quanto significa o amor que lhes tem, parecendo que, por causa deles, despediu de si alguém tão útil.
Apolo era provavelmente mais idoso que Timóteo, e alguns em Corinto talvez se perguntassem por que Paulo não o enviou em seu lugar. Por isso, Paulo os tranquiliza chamando Apolo de seu irmão e dizendo que de fato procurou animá-lo a ir, mas ele não quis naquele momento específico. Paulo não pretendia, com isso, censurar Apolo. Quis apenas dizer que não era ainda o tempo oportuno para que ele viesse.
Este homem parece ter sido, ao mesmo tempo, bem instruído e mais idoso que Timóteo. Para que não dissessem, então: Por que razão, afinal, não enviou o homem já formado, mas o jovem em seu lugar? — observai como ele também suaviza este ponto, tanto chamando-o de irmão quanto dizendo que muito o rogara. Pois, para que não parecesse ter tido Timóteo em maior honra e tê-lo exaltado mais, e por isso não o haver enviado, e assim fazer irromper com maior abundância a inveja deles, acrescenta: Muito o roguei que viesse. Que aconteceu, então? Não anuiu o outro, nem consentiu? Resistiu e mostrou-se contencioso? Não é isto o que ele diz; mas, para que não suscitasse preconceito contra Apolo, e também para desculpar-se a si mesmo, diz que de modo algum era da vontade dele vir agora. Depois, para impedir que dissessem que tudo isto era desculpa e pretexto, acrescentou: mas virá a vós quando tiver oportunidade. Isto era, ao mesmo tempo, uma justificativa para ele e um consolo para aqueles que desejavam vê-lo, pela esperança que dava de sua vinda.
2. Depois, indicando que não nos mestres, mas em si mesmos, deveriam eles ter suas esperanças de salvação
Não na sabedoria que é de fora; pois ali não é possível permanecer firme, mas sim ser arrastado; assim como na fé podeis permanecer firmes. Portai-vos varonilmente, sede fortes. Que tudo o que fizerdes seja feito em amor. Ora, ao dizer estas coisas, parece, de fato, estar a aconselhar; mas está a repreendê-los como indolentes. Por isso diz: Vigiai, como se estivessem adormecidos; Permanecei firmes, como se estivessem a oscilar de um lado para outro; Portai-vos varonilmente, como se estivessem a mostrar covardia; Que tudo o que fizerdes seja feito em amor, como se estivessem em dissensões. E a primeira advertência refere-se aos enganadores, a saber, Vigiai, permanecei firmes: a seguinte, aos que conspiram contra nós, Portai-vos varonilmente: a terceira, aos que formam facções e se esforçam por dividir, Que tudo o que fizerdes seja feito em amor; a qual coisa é o vínculo da perfeição, e a raiz e fonte de todas as bênçãos.
Mas que significa, Todas as coisas em amor? Quer alguém repreenda, diz ele, quer governe ou seja governado, quer aprenda ou ensine, que tudo seja em amor: visto que, de fato, todas as coisas que foram mencionadas surgiram do descuido dele. Pois, se este não tivesse sido descuidado, não se teriam ensoberbecido, não teriam dito: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo. Se este existisse, não teriam ido a juízo perante os pagãos, ou antes, de modo algum teriam ido a juízo. Se este existisse, aquela pessoa notória não teria tomado a mulher de seu pai: não teriam desprezado os irmãos fracos; não teria havido facções entre eles; não se teriam vangloriado de seus dons. Por isso é que ele diz: Que tudo seja feito em amor.
Se o amor estivesse presente, os coríntios não se teriam ensoberbecido, não se teriam dividido em facções, não teriam ido a juízo perante os pagãos, ou, na verdade, de modo algum teriam ido a juízo. Se houvesse amor na igreja, aquela pessoa notória não teria tomado a mulher de seu pai, não teriam desprezado os irmãos mais fracos, e não se teriam gloriado de seus dons espirituais.
Estéfanas e sua família não foram apenas os primeiros a se converter; foram também um exemplo luminoso para todos os demais. Convém que os primeiros estabeleçam um exemplo para os que vêm depois e sejam servos dos outros, como evidentemente o foram estes.
3. Ora eu vos rogo, irmãos — conheceis a casa de Estéfanas, que é as primícias da Acaia, e que se dedicaram a ministrar aos santos.
Já no início ele menciona este homem, dizendo: Batizei também a casa de Estéfanas; e agora fala dele como primícias não somente de Corinto, mas de toda a Grécia. E não é pequeno encômio este, o de que fora o primeiro a vir a Cristo. Por isso também, na Epístola aos Romanos, louvando certas pessoas por este motivo, disse: Os quais também estavam em Cristo antes de mim (Rm 16,7). E não disse que foram os primeiros a crer, mas primícias; dando a entender que, juntamente com a sua fé, mostraram também uma vida excelentíssima, provando-se dignos em tudo, como sucede com os frutos. Pois assim devem as primícias ser melhores que o restante daquilo de que são primícias: espécie de louvor que Paulo atribuiu também a estes por esta expressão — a saber, que não somente tiveram fé genuína, como eu dizia, mas exibiram ainda grande piedade, e o cume da virtude, e liberalidade na esmola.
E não somente por isto, mas também por outro aspecto ele assinala a piedade deles, isto é, por terem enchido de religião toda a sua casa.
E que floresceram também em boas obras, ele o declara pelo que se segue, dizendo: Se dedicaram a ministrar aos santos. Ouvi quão vastos são os louvores da sua hospitalidade? Pois não disse: ministram, mas: se dedicaram — este gênero de vida escolheram inteiramente, este é o seu ofício, no qual estão sempre ocupados.
Que também vós vos sujeiteis a tais homens, isto é, que partilheis com eles tanto no dispêndio de dinheiro quanto no serviço pessoal: que sejais partícipes com eles. Pois tanto o trabalho lhes será leve quando tiverem companheiros, como os frutos de sua ativa beneficência se estenderão a mais pessoas.
E não disse apenas: sede cooperadores, mas acrescentou: obedecei a quantas instruções derem, dando a entender a mais estrita obediência. E, para que não parecesse estar favorecendo-os, acrescenta: e a todo aquele que ajuda na obra e labora. Que isto, diz ele, seja regra geral: pois não falo deles individualmente, mas se houver algum semelhante a eles, que tenha também as mesmas vantagens. E por isso, quando começa a louvá-los, invoca a eles próprios como testemunhas, dizendo: Rogo-vos, conheceis a casa de Estéfanas. Pois vós mesmos também sabeis, diz ele, quanto labutam, e não necessitais aprendê-lo de nós.
É evidente que estes deviam ser as pessoas que informaram Paulo sobre a situação em Corinto, e sem dúvida os coríntios não lhes agradeceriam por isso. Eis por que Paulo os louva e exorta os coríntios a lhes tributar honra e respeito.
Assim, sendo natural que estivessem grandemente irritados contra estas pessoas — pois foram elas que vieram e lhe mostraram tudo acerca da divisão, e por meio delas também lhe haviam escrito as perguntas sobre as virgens e sobre os casados —, vede como ele os abranda; tanto no início de sua Epístola, ao dizer: Porque me foi notificado a vosso respeito, meus irmãos, pelos da casa de Cloé, ocultando assim de imediato estes e trazendo à frente os outros (pois parece que estes últimos deram sua informação por meio dos primeiros); como também aqui de novo, dizendo: Supriram o que de vossa parte faltava, e reanimaram o meu espírito e o vosso — significando que vieram em lugar de todos, e escolheram empreender tão grande viagem em favor deles. Como, pois, poderá este louvor peculiar deles tornar-se comum? Se me consolardes daquilo que de vossa parte faltou, mediante a vossa bondade para com eles; se os honrardes, se os receberdes, se com eles comunicardes em fazer o bem. Por isso diz: Reconhecei, pois, aos que são tais. E, ao louvar os que vieram, abraça em seu louvor também os outros, os que enviaram juntamente com os enviados: quando diz: 'Reanimaram o meu espírito e o vosso, reconhecei, pois, aos que são tais', porque por vossa causa deixaram pátria e lar. Percebeis a sua consideração? Dá a entender que estes haviam obrigado não somente a Paulo, mas igualmente aos coríntios, na medida em que traziam em si mesmos toda a cidade. Coisa que tanto lhes acrescentava crédito, como não permitia que os outros se apartassem deles, na medida em que, em suas próprias pessoas, se haviam apresentado a Paulo.
Áquila e Priscila vos saúdam muito no Senhor — pois com eles se hospedava, sendo ele fabricante de tendas — com a igreja que está em sua casa. Não é pequena excelência esta também, a de que fizeram da sua própria casa uma igreja.
Tendo-os unido entre si mediante a sua exortação, Paulo passa a ordenar-lhes que selem a sua união por meio do ósculo santo, o qual une e produz um só corpo. O ósculo é santo quando está livre de engano e hipocrisia.
4. Todos os irmãos vos saúdam. Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo. Este acréscimo do ósculo santo, ele o faz somente aqui. Qual seria a razão? Andavam eles em grande discórdia uns com os outros, por dizerem: Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo; por haver um que tinha fome, e outro que se embriagava; por terem contendas, invejas e demandas judiciais. E dos dons espirituais nascia muita inveja e grande soberba. Havendo, pois, unido a todos pela sua exortação, exorta-os naturalmente a usar também do ósculo santo como meio de união: pois este une e produz um só corpo. E é santo quando isento de engano e hipocrisia.
A saudação de próprio punho, de mim, Paulo, dá a entender que a Epístola foi composta com grande seriedade;
Com esta só palavra, Paulo infunde temor em todos eles. Mas não somente isso; ele também aponta o caminho da virtude. À medida que se intensifica o nosso amor pela vinda de Deus, não há espécie alguma de pecado que não seja extinta.
Com esta só palavra, ele infunde temor em todos: naqueles que fizeram de seus membros membros de uma meretriz; naqueles que puseram tropeços no caminho de seus irmãos por meio das coisas oferecidas em sacrifício aos ídolos; naqueles que se denominaram a si mesmos por nomes de homens; naqueles que se recusam a crer na ressurreição. E não somente infunde temor, mas também aponta o caminho da virtude e a fonte do vício, a saber, que, assim como, quando o nosso amor para com Ele se torna intenso, não há espécie alguma de pecado que por ele não seja extinta e lançada fora, assim também, quando esse amor é demasiado fraco, ele faz brotar o mesmo pecado.
Maran atha. Por que razão se emprega esta palavra? E por que também em língua hebraica? Visto que a arrogância era a causa de todos os males, e que essa arrogância a sabedoria de fora produzia, sendo ela a soma e a substância de todos os males, coisa que sobretudo perturbava Corinto; ao reprimir a arrogância deles, ele não usou sequer a língua grega, mas a hebraica: significando que, longe de se envergonhar daquela espécie de simplicidade, ele a abraça antes com muito ardor.
Mas que significa Maran atha? O Senhor nosso veio. Por que razão, pois, emprega ele esta locução em particular? Para confirmar a doutrina da Economia: e é desta classe de tópicos, mais que de qualquer outra, que ele reuniu os argumentos que são as sementes da Ressurreição. E não somente isso, mas também para os repreender; como se dissesse: O Senhor comum de todos condescendeu em descer até este ponto, e vós permaneceis no mesmo estado, e persistis em vossos pecados? Não estais tocados pelo excesso de Seu amor, pela coroa de Suas bênçãos? Sim, considerai somente isto, diz ele, e vos bastará para o progresso em toda virtude, e sereis capazes de extinguir todo pecado.
Isto é próprio de um mestre, que ajuda não apenas com conselhos, mas também com orações.
O amor de Paulo não é, de modo algum, carnal, mas espiritual e genuíno. Por isso ele lhe imprime o selo, acrescentando as palavras "em Cristo Jesus".
Assim, para evitar que pensassem que terminava adulando-os, ele diz: Em Cristo Jesus. Não havendo nisso nada de humano ou carnal, mas sendo antes de uma natureza espiritual. Por isso é inteiramente genuíno. Pois, na verdade, a expressão era a de alguém que ama profundamente. Foi assim: porque ele estava separado deles quanto ao lugar, como que estendendo uma mão direita, ele os encerra nos braços do seu amor, dizendo: Meu amor esteja com todos vós; como se dissesse: Com todos vós eu estou. Com isso ele dá a entender que as coisas escritas não vieram de ira ou de cólera, mas de solícito cuidado, visto que, depois de tão grave acusação, ele não se afasta, mas antes os ama, e os abraça mesmo estando longe, por meio destas epístolas e escritos lançando-se em seus braços.
5. Pois assim deve proceder aquele que corrige: uma vez que aquele que age apenas por ira nada mais faz do que satisfazer o próprio sentimento; mas aquele que, depois de corrigir o pecador, presta também os ofícios do amor, mostra que também aquelas palavras, tudo quanto disse em repreensão, eram palavras de terno afeto. Assim castiguemos também uns aos outros; e que nem o corretor se encolerize, (pois isto não pertence à correção, mas à paixão,) nem o corrigido o leve a mal. Pois o que se faz é cura, não desprezo. Ora, se os médicos usam o cautério e não são censurados, e isso frequentemente, ainda que muitas vezes não alcancem o seu objetivo; mas até mesmo em sua dor os que sofrem o cautério e a amputação consideram benfeitores aos que lhes provocam essa dor; muito mais deve estar assim disposto aquele que recebe a repreensão, e dar ouvidos ao corretor como a um médico, e não como a um inimigo. E nós também, os que repreendemos, aproximemo-nos com grande mansidão, com grande prudência. E se vires um irmão cometendo pecado, como Cristo ordenou, não faças pública a tua repreensão, mas somente entre ti e ele: Mateus 18:15 não o injuriando nem insultando quando está abatido, mas com dor e coração compungido. E mostra-te também pronto a receber repreensão, se cometeres erro em alguma coisa.
Ora, para que o que digo fique mais claro, ponhamos um caso imaginário e assim examinemos a nossa regra. Pois Deus não permita que de fato tenhamos, na realidade, semelhante ilustração. Suponhamos algum irmão morando na mesma casa com uma virgem, em honra e castidade, e ainda assim não escapando de todo à má fama. Se então ouvires falar dessa convivência deles, não sejas desdenhoso, nem digas: Ora, não tem ele entendimento? Não sabe ele mesmo o que lhe convém? Ganhar amor de graça, tudo bem, mas não ganhes ódio de graça. Ora, que tenho eu a ver com assumir uma inimizade gratuita? Estas são palavras insensatas de feras selvagens, ou antes, de demônios: pois não é verdade que é odiado gratuitamente aquele que assim age para a correção do irmão; antes, é para grandes bênçãos e coroas inefáveis.
Sim, mas dirás, porventura: Quê? Não tem ele entendimento? Ouvirás de mim que não o tem, embriagado como está pela paixão. Pois se nos tribunais dos gentios não se permite que os que sofrem injúria falem em causa própria enquanto ardem de ira (ainda que não haja falta alguma nesse gênero de simpatia), quanto mais aqueles a quem o mau hábito mantém sob sujeição? Por isso digo que, por múltipla que seja a sabedoria daquele que peca, não tem ele o espírito desperto. Pois que poderia haver de mais sábio que Davi, o homem que disse: As coisas obscuras e ocultas da tua sabedoria me fizeste conhecer? Mas quando pôs sobre a mulher do soldado olhos injustos, então, segundo o que ele próprio disse acerca dos que navegam no mar bravio, toda a sua sabedoria foi tragada; e ele teve necessidade de que outros o corrigissem, e nem sequer percebia em meio a que males se achava. Por isso também, lamentando as suas ofensas, disse: Como pesado fardo pesaram gravemente sobre mim; as minhas chagas cheiraram mal e apodreceram por causa da minha loucura. Aquele, pois, que comete pecado não tem entendimento; pois está embriagado e está nas trevas. Não digas, então, estas coisas, nem acrescentes ainda aquela outra observação: Não me importa em nada isso. Cada um levará o seu próprio fardo. Antes, também contra ti mesmo se ergue uma grave acusação, porquanto, vendo alguém em erro, não o restauras. Pois se não era lícito, segundo a lei dos judeus, desprezar o animal do próprio inimigo, aquele que não despreza o jumento nem a alma de um inimigo que perece, mas sim a de um amigo, que perdão obterá?
Sim, nem tampouco nos basta por escusa que ele mesmo tenha entendimento; pois também nós, depois de muitas e variadas exortações, não fomos suficientes, nem nos provamos úteis, a nós mesmos. Tem isto, pois, em mente também a respeito daquele que está em erro: que é natural que ele receba o melhor conselho antes de ti do que de si mesmo.
E não digas: Mas que me importam a mim estas coisas? Teme antes aquele que primeiro proferiu esta palavra; pois o dito Sou eu guarda do meu irmão? tende para o mesmo ponto que este. Esta é a mãe de todos os nossos males: estimarmos como estranhos a nós os cuidados do nosso próprio corpo. Que dizes? Não te importas com teu irmão? Quem, então, há de cuidar dele? O incrédulo, que se regozija sobre ele, e o vitupera, e o insulta? Ou o demônio, que o incita e o suplanta?
E de onde vem isto? Como saberei eu, diz ele, que hei de conseguir alguma coisa, ainda que fale e aconselhe o que é reto? Mas como é evidente que não farás bem algum? Ora, isto, por sua vez, é extrema loucura: permanecendo o fim na obscuridade, incorrer na múltipla culpa de uma indiferença confessa. E, no entanto, Deus, que prevê o futuro, muitas vezes fala e não faz proveito algum; contudo, nem ainda assim desiste; e isto, sabendo que nem sequer há de persuadir os homens. Ora, se Aquele que sabe de antemão que não há de alcançar vantagem alguma não cessa da obra da correção, que escusa terás tu, que ignoras por completo o futuro e, contudo, desfaleces e te entorpeces? Sim, e muitos, por tentativas frequentes, alcançaram êxito; e quando mais desesperavam, então mais alcançaram o seu intento. E ainda que não alcances proveito algum, terás cumprido a tua própria parte.
Não sejais, pois, desumanos, nem impiedosos, nem descuidados: pois que estas palavras procedem de crueldade e indiferença é manifesto pelo que se segue: a saber, qual a razão de que, quando um dos membros do teu corpo padece dor, não digas: Que me importa? Ora, donde é manifesto que, se dele se cuida devidamente, é restaurado? E, contudo, nada deixas por fazer, a fim de que, ainda que não obtenhas proveito, não tenhas de culpar-te pela omissão de coisa alguma que devesse ter sido feita. A este propósito pergunto: haveremos de tomar tal cuidado pelos membros do nosso corpo e negligenciar os de Cristo? Antes, como poderiam tais coisas merecer perdão? Pois se, dizendo-te: Tem cuidado do teu próprio membro, nenhuma impressão causo em ti, para que ao menos por temor te tornes melhor, trago à tua memória o corpo de Cristo. Mas como não há de ser coisa horrenda ver a Sua carne apodrecer-se, e negligenciá-la? E se tivesses um servo ou um jumento aflito por uma chaga gangrenada, não poderias ter coração para o negligenciar: e vês tu o Corpo de Cristo cheio de podridão, e passas apressado? E não pensas que tais coisas merecem inúmeros raios? Por esta causa tudo anda de pernas para o ar, por causa desta nossa desumanidade, por causa de nossa indiferença. Pelo que agora, eu vos suplico, que esta crueldade seja lançada fora dentre nós.
6. Aproxima-te daquele de quem falo, como quem habita com uma virgem, e dize algum pequeno elogio de teu irmão, compondo-o a partir das demais excelências que ele possui. E fomenta-o com teus louvores como que com água morna, e assim mitiga o tumor de sua ferida. Fala também de ti mesmo como mísero; acusa a comum raça dos homens; assinala que todos estamos em pecados; pede perdão, dizendo que empreendes coisas grandes demais para ti, mas que o amor te persuade a ousar tudo. Depois, ao dar teu conselho, não o faças imperiosamente, mas de modo fraterno. E quando, por todos estes meios, tiveres reduzido o inchaço e abrandado a dor que há de surgir da repreensão cortante que lhe está reservada, e quando, uma vez e outra, tiveres suplicado e rogado que não se ire, quando o tiveres com estas coisas contido, então usa o bisturi; nem apertando a questão demasiado de perto, nem tampouco a deixando escapar; de modo que ele não fuja para um lado, nem tampouco a menospreze para o outro. Pois se não cortares até o vivo, nada de bom terás feito, e se teu golpe for violento, farás com que ele se afaste sobressaltado.
Por isso, mesmo depois de tudo isto, estando já no ponto exato da repreensão, mistura de novo o louvor às tuas censuras. E vendo que este proceder, considerado em si mesmo, não pode ser matéria de elogio (pois não é louvável habitar sob o mesmo teto com uma donzela que é virgem), toma por tema o propósito daquele que assim procede, para efetuar isto; e dize: Sei bem que fazes isto por amor de Deus, e que a desolação e o desamparo daquela pobre mulher tocaram os teus olhos e te moveram a estender-lhe a mão. E ainda que ele não o faça com esta intenção, fala tu assim; e depois disto acrescenta também o que se segue, escusando-te novamente e dizendo: Estas coisas não digo para te instruir, mas para te lembrar. Tu o fazes por amor de Deus; eu também o sei. Mas vejamos se daí não se produz outro mal. E se não houver nenhum, guarda-a em tua casa e apega-te a este excelente propósito; ninguém há que to impeça. Mas se dali surgir algum dano maior que a vantagem, tomemos cuidado, peço-te, para que, enquanto nos esforçamos por consolar uma alma, não ponhamos pedra de tropeço no caminho de dez mil. E não acrescentes logo os castigos devidos aos que dão escândalo, mas toma também o seu próprio testemunho, dizendo: Não tens necessidade de aprender estas coisas de mim; tu mesmo sabes quão grande pena está ameaçada "se alguém escandalizar um destes pequeninos". E assim, tendo adoçado o teu discurso e abrandado a sua ira, aplica o remédio da tua correção. E se ele de novo alegar a condição desamparada daquela mulher, nem ainda assim exponhas o seu pretexto, mas dize-lhe: Que nada disto te cause temor; terás plena justificação, o escândalo dado aos outros, pois não por indiferença, mas por cuidado para com eles, deste fim a este teu propósito.
E que a matéria do teu conselho seja breve, pois não há necessidade de muito ensino; mas que as expressões de indulgência, ao contrário, sejam muitas e cerradas umas às outras. E recorre continuamente ao tema do amor, lançando à sombra a aspereza do que dizes, e dando-lhe pleno poder, e dizendo: Isto é o que eu, de minha parte, aconselho e recomendo; mas quanto a seguir o conselho, só tu és juiz, pois não te obrigo nem te forço, mas submeto toda a questão ao teu próprio discernimento.
Se assim regularmos a nossa repreensão, facilmente poderemos corrigir os que erram: ao passo que o que agora fazemos é, por certo, mais próprio da conduta de feras ou de criaturas irracionais do que de homens. Pois, se alguns agora percebem que outrem comete erros desta espécie, com a própria pessoa em nada conferenciam, mas sim, à maneira de velhas tolas que beberam demais, cochicham umas com as outras. E o dito — "Grangeia o amor sem motivo, mas não grangeies o ódio sem motivo" — não tem, no juízo delas, lugar algum aqui. Antes, quando lhes apraz falar mal, não se importam de ser odiadas sem motivo, ou antes, direi melhor, de serem punidas; pois não é só ódio o que daí se produz, mas também punição. Mas, quando há necessidade de correção, alegam tanto isto quanto inumeráveis outros pretextos. Ora, então seria o momento de pensar em tais coisas, quando falas mal, quando caluniás. Refiro-me ao dito: "Não sejas odiado sem motivo", e "nada posso fazer", e "não é cuidado meu". Mas, como estão as coisas, no primeiro caso és veementemente e vãmente curioso, e não te importas com o ódio e com males inumeráveis; mas, quando devias tomar cuidado da salvação do teu irmão, então te apraz ser uma espécie de pessoa desobrigada e inofensiva. E, contudo, da maledicência nasce ódio tanto da parte de Deus quanto da dos homens; e isto não é grande cuidado teu: mas, dando conselho em particular, e repreensões desse gênero, tanto ele quanto Deus se farão teus amigos. E, ainda que ele te odeie, Deus não deixa, antes ainda mais, de te amar por isso. Aliás, nem mesmo ele te odiará como quando o seu ódio provinha da tua maledicência: pois naquele caso te evitará como a um adversário e inimigo, ao passo que agora te considerará mais venerável que qualquer pai. E, se aparentemente o levar a mal, interiormente e em particular te ficará muito obrigado.
7. Tendo, pois, estas coisas em mente, cuidemos dos nossos próprios membros, e não afiemos a língua uns contra os outros, nem profiramos palavras que possam causar dano, minando a fama do próximo, e, como em guerra e em batalha, desferindo e recebendo golpes. Pois, afinal, que proveito há em jejuar ou vigiar, quando a língua está embriagada, e se banqueteia a uma mesa mais imunda que a de carne de cão; quando se tornou voraz por sangue, e derrama imundície, e faz da boca um canal de esgoto, ou antes, algo ainda mais abominável do que isso? Pois o que dali procede contamina o corpo: mas o que vem da língua muitas vezes sufoca a alma.
Digo estas coisas, não por preocupação com os que são caluniados falsamente — pois estes são até dignos de coroas, quando suportam nobremente o que se lhes diz —, mas por preocupação convosco, que assim falais. Pois àquele que é caluniado falsamente, as Escrituras o proclamam bem-aventurado; mas ao maldizente expulsam-no dos santos Mistérios, e até mesmo do próprio recinto sagrado. Pois está dito: "Àquele que às escondidas maldiz o seu próximo, a este eu persegui" (Sl 101,5). E diz ainda que tal homem é indigno de ler os livros sagrados. Pois, "Por que", diz Ele, "anuncias os Meus justos preceitos, e tomas a Minha aliança na tua boca?" (Sl 50,16). E, acrescentando logo a causa, diz: "Tu te assentavas e falavas contra o teu irmão" (Sl 49,20). E aqui, com efeito, Ele não acrescenta distintamente se são verdadeiras ou falsas as coisas que se dizem. Mas alhures também isto faz parte da Sua proibição, dando a entender que, ainda que digas verdades, tais coisas não devem ser proferidas por ti. Pois, "Não julgueis", diz Ele, "para que não sejais julgados" (Mt 7,1); visto que também aquele que falou mal do publicano foi condenado, ainda que fosse verdade o que imputava ao seu próximo.
Que faremos então, direis, se alguém for temerário e corrompido — não devemos corrigi-lo? Não devemos denunciá-lo? Devemos tanto denunciá-lo quanto corrigi-lo, mas do modo que antes mencionei. Se, porém, o fazes injuriando-o, cuidado para que a imitação daquele fariseu não te faça cair no seu mesmo estado. Pois nenhuma vantagem daí resulta: nenhuma para ti que falas, nenhuma para o que te ouve, nenhuma para o acusado. Este, por sua vez, torna-se mais insolente: pois enquanto não é observado, sente vergonha; mas tão logo se torna manifesto e notório, lança fora também o freio que aquele sentimento lhe impunha.
E o ouvinte, por sua vez, será ainda mais prejudicado. Pois, seja consciente em si mesmo de boas obras, ei-lo que se ensoberbece e incha com a acusação levantada contra outrem; seja consciente de faltas, torna-se então mais ávido pela iniquidade.
Em terceiro lugar, o próprio que fala também incorrerá no mau conceito do ouvinte, e provocará contra si maior ira de Deus.
Por isso, rogo-vos, lancemos fora de nós toda palavra que seja imprópria. Se houver alguma coisa boa para a edificação, esta falemos.
Mas tens desejo de vingar-te do outro? Por que então punir-te a ti mesmo em vez dele? Não; tu antes, que tão ardentemente buscas reparação daqueles que te afligiram, vinga-te como Paulo recomendou que se tomasse vingança: "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber" (Rm 12,20). Mas se assim não fazes, e somente tramas contra ele, apontas a espada contra ti mesmo.
Portanto, se aquele outro falar mal, responde-lhe com louvores e elogios. Pois assim poderás ao mesmo tempo vingar-te dele e livrar-te a ti mesmo de suspeita maligna. Porquanto aquele que sente dor ao ouvir falar mal de si é tido como afetado por causa de alguma consciência de mal; mas aquele que ri e escarnece do que se diz demonstra o mais inequívoco sinal de não ter consciência em si mesmo de coisa alguma má.
Vendo, pois, que não proveitas nem a quem te ouve, nem a ti mesmo, nem àquele que é acusado, e que apenas voltas a espada contra ti próprio, aprende, ao menos por tais considerações, maior sobriedade. Pois devera o homem ser movido pelo pensamento do reino dos céus e do que agrada a Deus; mas, visto que és de disposição mais grosseira e mordes como fera selvagem, sê ao menos por isto instruído: que estes argumentos, tendo-te corrigido, possas ordenar-te a ti mesmo simplesmente pela consideração do que agrada a Deus e, tendo chegado a estar acima de toda paixão, obtenhas as bênçãos celestiais — as quais Deus conceda a todos nós obter, pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo e Sua misericórdia para com o gênero humano; com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo, seja glória, poder, honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Notai bem a sua referência a «meu verdadeiro filho». Timóteo não é filho carnal de Paulo. De que espécie de filho se trata, então? Faz sequer sentido chamá-lo «filho»? Poderia alguém dizer que, se não era filho de Paulo, havia de ser filho de outrem. Que se dirá, então? Era ele de outra substância? Não é assim, pois, depois de dizer «meu próprio filho», acrescenta: «na fé». Isto mostra que era realmente seu próprio filho, e verdadeiramente dele proveniente, não havendo diferença essencial entre pai e filho na fé. A semelhança que com ele guardava dizia respeito à sua fé, tal como nos nascimentos humanos há uma semelhança substancial. O filho assemelha-se ao pai entre os homens, mas a analogia é ainda mais estreita na relação dos homens com Deus pela fé. Ainda que o pai e o filho sejam da mesma linhagem, podem diferir em muitos particulares, como na cor, na figura, no entendimento, na idade, na inclinação da mente, nos dotes da alma e do corpo, e em muitas outras coisas podem ser semelhantes ou dessemelhantes. Mas na relação entre o Pai e o Filho divinos não há tal dessemelhança.
1. Timóteo foi também um dos discípulos do apóstolo Paulo. Das qualidades extraordinárias deste jovem dá testemunho Lucas, que nos informa ter ele bom testemunho dos irmãos que estavam em Listra e Icônio (At 16:2). Tornou-se, de uma só vez, discípulo e mestre, dando esta singular prova de sua prudência: ouvindo Paulo pregar sem insistir na circuncisão, e sabendo que este outrora se opusera a Pedro nesse ponto, escolheu não apenas não pregar contra ela, mas submeter-se a esse rito. Pois, diz-se, Paulo tomou-o e circuncidou-o (At 16:3), ainda que já fosse de idade adulta, e assim lhe confiou toda a sua economia. O afeto de Paulo por ele é suficiente prova de seu caráter. Pois em outro lugar diz dele: Vós conheceis a sua prova, que como filho ao pai serviu comigo no Evangelho (Fp 2:22). E aos Coríntios escreve novamente: Enviei-vos Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor (1 Cor 4:17). E ainda: Ninguém o despreze, pois ele faz a obra do Senhor, como também eu a faço (1 Cor 16:10-11). E aos Hebreus escreve: Sabei que o nosso irmão Timóteo está livre (Hb 13:23). Com efeito, o seu amor por ele manifesta-se por toda parte, e os milagres que ainda hoje se operam atestam os seus méritos. 2. Se se perguntar por que ele dirige Epístolas somente a Tito e a Timóteo, sendo que Silas era também aprovado, como o era Lucas — pois escreve: Só Lucas está comigo (2 Tm 4:11) —, e Clemente era um de seus companheiros, de quem diz: com Clemente e os demais meus cooperadores (Fp 4:3) —, por que razão então escreve apenas a Tito e a Timóteo? É porque já lhes havia confiado o cuidado das igrejas, e lugares determinados lhes haviam sido designados, ao passo que os outros estavam junto dele. Pois tão eminente era Timóteo em virtude, que a sua juventude não foi impedimento à sua promoção; por isso escreve: Ninguém despreze a tua mocidade (1 Tm 4:12; 5:2); e ainda: as mais jovens, como irmãs. Pois onde há virtude, todo o resto é supérfluo, e não pode haver impedimento algum. Por isso, quando o Apóstolo discorre sobre os Bispos, entre as muitas coisas que deles requer, não faz menção particular à idade. E se fala do Bispo como marido de uma só mulher, tendo os filhos em sujeição (1 Tm 3:2-4), isto não é dito como se fosse necessário que tivesse mulher e filhos; mas para que, se alguém, vindo da vida secular, viesse a ser promovido a esse ofício, fosse tal que soubesse presidir à sua própria casa e filhos, e a todos os demais que lhe fossem confiados. Pois se um homem fosse secular e deficiente nestes pontos, como se lhe confiaria o cuidado da Igreja?
3. Mas, dir-se-á, por que dirige uma Epístola a um discípulo já constituído no ofício de Mestre? Não deveria ele ter sido aperfeiçoado para o seu ofício antes de ser enviado? Sim; mas a instrução de que necessitava não era a própria de um discípulo, mas a que convinha a um Mestre. Perceber-se-á, pois, ao longo de toda a Epístola, que ele adapta as suas instruções a um Mestre. Assim, logo ao princípio, não diz: Não deis atenção aos que ensinam de outro modo, mas: Ordena-lhes que não ensinem outra doutrina (1 Tm 1:3).
Grande e admirável é a dignidade de um Apóstolo, e encontramos Paulo constantemente expondo as causas dela, não como quem a si mesmo se atribui a honra, mas como quem dela foi encarregado, estando sob a necessidade de assim proceder. Pois quando fala de si mesmo como chamado, e isso pela vontade de Deus, e ainda em outro lugar, uma necessidade me é imposta (1 Cor 9:16), e quando diz, para isto fui separado, por tais expressões toda ideia de arrogância e ambição é removida. Pois assim como merece a mais severa censura aquele que se intromete num ofício que não lhe foi dado por Deus, assim também aquele que recusa e se retrai quando este lhe é oferecido incorre em outra espécie de culpa, a da rebeldia e da desobediência. Por isso Paulo, no início desta Epístola, assim se exprime: Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por mandado de Deus. Não diz aqui, Paulo chamado, mas por mandado. Começa desta maneira para que Timóteo não sinta nenhuma fraqueza humana, supondo que Paulo se dirige a ele nos mesmos termos que a seus discípulos. Mas onde é dado este mandado? Lemos nos Atos dos Apóstolos: O Espírito disse: Separai-me Paulo e Barnabé (At 13:2). E em toda parte de seus escritos Paulo acrescenta o nome de Apóstolo, para instruir seus ouvintes a não considerarem as doutrinas que ele transmitia como procedentes de homem. Pois um Apóstolo nada pode dizer de si mesmo, e ao chamar-se Apóstolo, ele de imediato remete seus ouvintes Àquele que o enviou. Em todas as suas Epístolas, portanto, começa assumindo este título, dando assim autoridade às suas palavras, como aqui diz, Paulo, apóstolo de Jesus Cristo segundo o mandado de Deus nosso Salvador. Ora, não parece que o Pai em parte alguma lhe tenha dado tal mandado. É sempre Cristo quem a ele se dirige. Assim, Ele me disse: Parte, pois Eu te enviarei para bem longe, aos gentios (At 22:21); e ainda: É necessário que compareças diante de César (At 27:24). Mas o que quer que o Filho ordene, isto ele considera ser o mandado do Pai, assim como os mandados do Espírito são os mandados do Filho. Pois foi enviado pelo Espírito, foi separado pelo Espírito, e isto ele diz ter sido o mandado de Deus. Que, pois? Diminui isso o poder do Filho, o fato de que Seu Apóstolo tenha sido enviado pelo mandado do Pai? De modo algum. Pois observai como ele representa o poder como comum a ambos. Tendo dito, segundo o mandado de Deus nosso Salvador, ele acrescenta, e do Senhor Jesus Cristo, nossa esperança. E observai com que propriedade ele aplica os títulos. E de fato, o Salmista aplica isto ao Pai, dizendo: A esperança de todos os confins da terra (Sl 64:5). E ainda, o bem-aventurado Paulo, em outro lugar, escreve: Pois para isto trabalhamos e sofremos afronta, porque temos esperança no Deus vivo. O mestre deve sofrer perigos ainda maiores que o discípulo. Pois ferirei o pastor, (diz Ele,) e as ovelhas se dispersarão (Zc 13:7). Por isso o diabo se enfurece com maior violência contra os mestres, porque, com a destruição destes, também o rebanho se dispersa. Pois, ao matar a ovelha, ele diminui o rebanho, mas quando extermina o pastor, arruína todo o rebanho, de sorte que antes o ataca, por operar maior dano com menor esforço, e numa só alma efetuando a ruína de todas. Por esta razão Paulo, no início, eleva e encoraja a alma de Timóteo, dizendo: Temos a Deus por nosso Salvador e a Cristo por nossa esperança.
Muito padecemos, mas grandes são as nossas esperanças; estamos expostos a laços e perigos, mas para nos salvar não temos o homem, senão Deus. O nosso Salvador não é fraco, pois é Deus, e quaisquer que sejam os nossos perigos, eles não hão de nos vencer; nem a nossa esperança é envergonhada, pois é Cristo. Porque de duas maneiras nos é dado suportar os perigos: quando deles somos prontamente livrados, ou quando, sob eles, somos sustentados por boas esperanças.
Mas Paulo jamais se chama a si mesmo Apóstolo do Pai, senão sempre de Cristo. Porque a ambos faz comuns todas as coisas. Ao próprio Evangelho ele chama Evangelho de Deus. E o que quer que aqui padeçamos, dá a entender, as coisas presentes são como nada.
A Timóteo, meu próprio filho na fé. Isto também é motivo de encorajamento. Pois, se ele demonstrou tal fé a ponto de ser chamado, de modo peculiar, próprio filho de Paulo, poderia também estar confiante quanto ao futuro. Pois é próprio da fé não se abater nem perturbar-se, ainda que sobrevenham circunstâncias que pareçam contrárias às promessas. Mas observai que diz meu filho, e mesmo meu próprio filho, e todavia não é da mesma substância. Mas que dizer? Seria ele de espécie irracional? Bem, dir-se-á, não era filho de Paulo, o que não implica ser 'de' outrem. Que se dirá, então? Era de outra substância? Tampouco era assim, pois, depois de dizer meu próprio filho, acrescenta na fé, para mostrar que era realmente seu próprio filho, e verdadeiramente dele proveniente. Não havia diferença. A semelhança que com ele guardava dizia respeito à sua fé, tal como nos nascimentos humanos há uma semelhança quanto à substância. O filho assemelha-se ao pai entre os homens, mas, no que respeita a Deus, a proximidade é maior. Pois aqui, um pai e um filho, ainda que da mesma substância, diferem em muitos particulares, como na cor, na figura, no entendimento, na idade, na inclinação da mente, nos dotes da alma e do corpo, e em muitas outras coisas podem ser semelhantes ou dessemelhantes; mas na Essência divina não há tal dessemelhança. Por mandamento. Esta é uma expressão mais forte que chamado, como se aprende de outras passagens. Assim como aqui chama Timóteo de meu próprio filho, do mesmo modo diz aos Coríntios: em Cristo Jesus eu vos gerei, isto é, na fé; mas acrescenta a palavra próprio, para mostrar a particular semelhança dele consigo mesmo, bem como o seu próprio amor e grande afeto por ele. Notai novamente o na aplicado à fé. Meu próprio filho, diz ele, na fé. Vede que honrosa distinção, ao chamá-lo não apenas de seu filho, mas de seu próprio filho.
Graça, misericórdia e paz da parte de Deus nosso Pai e de Jesus Cristo nosso Senhor. Por que se menciona aqui a misericórdia, e não nas outras Epístolas? Esta é uma marca a mais de seu afeto. Sobre o seu filho invoca maiores bênçãos, com a solícita apreensão de um pai. Pois tal era a sua solicitude, que dá a Timóteo instruções que não deu em nenhum outro caso, quanto a cuidar de sua saúde corporal; onde diz: Usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades (1 Tm 5:23). Os mestres, de fato, têm maior necessidade de misericórdia.
Da parte de Deus nosso Pai, diz ele, e de Jesus Cristo nosso Senhor. Também aqui há consolação. Pois, se Deus é nosso Pai, Ele cuida de nós como filhos, como diz Cristo: Que homem há dentre vós que, pedindo-lhe o filho pão, lhe dê uma pedra? (Mt 7:9)
Observai a mansidão da expressão, mais própria de um servo do que de um senhor. Pois não diz eu ordenei, ou mandei, ou sequer exortei, mas eu vos roguei. Mas este tom não é para todos: só a discípulos mansos e virtuosos se deve tratar assim. Os corruptos e insinceros devem ser tratados de modo diverso, como o próprio Paulo prescreve em outro lugar: Repreende-os com toda autoridade (Tt 2,15); e aqui diz ordena, não roga, mas ordena a alguns que não ensinem outra doutrina. Que significa isto? Que a Epístola que Paulo lhes enviara não bastava? Não; bastava; mas os homens costumam por vezes desprezar as epístolas, ou talvez isto se tenha dado antes de as Epístolas terem sido escritas. Ele próprio havia passado algum tempo naquela cidade. Ali estava o templo de Diana, e ali fora exposto àqueles grandes sofrimentos. Pois, depois de dissolvida a assembleia no Teatro, e de ter chamado a si e exortado os discípulos, viu-se obrigado a partir por mar, ainda que depois a eles retornasse. Valeria a pena indagar se foi então que colocou Timóteo ali. Pois diz: para que ordenasses a alguns que não ensinassem outra doutrina: não menciona as pessoas pelo nome, para que, pela franqueza da repreensão, não os tornasse mais desavergonhados. Havia naquela cidade certos falsos apóstolos, vindos dos judeus, que queriam obrigar os fiéis a observar a lei judaica, falta que ele nota em toda parte em suas Epístolas; e isto não faziam por motivos de consciência, mas antes por vanglória, e pelo desejo de ter discípulos, por inveja do bem-aventurado Paulo e por espírito de oposição a ele. É a isto que se refere ensinar outra doutrina.
Por “fábulas” não entende ele a lei; longe disso, mas antes invenções, falsificações e doutrinas espúrias. Pois parece que alguns doutores judaicos gastavam todo o seu discurso nesses pontos infrutíferos. Enumeravam seus pais e avós, a fim de granjearem reputação de conhecimento histórico e erudição… Por que as chama “intermináveis”? Porque não tinham fim, ou nenhum fim de utilidade, ou nenhum de fácil apreensão para nós. Observai como reprova o questionar cético. Pois onde há fé, não há necessidade de suspeita. Onde não há lugar para curiosidade, as questões são supérfluas.
Que é operado pela fé? A recepção das misericórdias de Deus, a fim de que nos tornemos melhores, de nada duvidando nem disputando, mas repousando na confiança.
Por fábulas ele não entende a lei; longe disso; mas invenções, falsificações e doutrinas espúrias. Pois, ao que parece, os judeus desperdiçavam todo o seu discurso nesses pontos infrutíferos. Enumeravam seus pais e avós, para obterem a reputação de conhecimento histórico e de investigação erudita. Para que ordenes a alguns, diz ele, que não ensinem outra doutrina, nem se apeguem a fábulas e genealogias intermináveis. Por que as chama de intermináveis? É porque não tinham fim, ou nenhum fim de proveito algum, ou nenhum fim fácil de apreendermos. Observa como ele reprova a inquirição. Pois onde há fé, não há necessidade de inquirição. Onde não há lugar para a curiosidade, as perguntas são supérfluas. A inquirição é a subversão da fé. Pois quem busca ainda não achou. Quem inquire não pode crer. Por isso é seu conselho que não nos ocupemos com questões, pois, se questionamos, isso já não é fé; porquanto a fé faz repousar o raciocínio. Mas por que, então, diz Cristo: "Buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á" (Mt 7:7); e: "Perscrutai as Escrituras, pois nelas cuidais ter a vida eterna" (Jo 5:39)? O buscar ali referido diz respeito à oração e ao desejo veemente; e Ele ordena perscrutar as Escrituras, não para introduzir os labores da inquirição, mas para pôr-lhes fim, a fim de que assentemos e determinemos o seu verdadeiro sentido — não para que estejamos sempre questionando, mas para que, com isso, tenhamos concluído. E com justiça disse: Ordena a alguns que não ensinem outra doutrina, nem se apeguem a fábulas e genealogias intermináveis, que mais promovem questões do que a dispensação de Deus, que é pela fé. Com justiça disse: a dispensação de Deus. Pois grandes são as bênçãos que Deus está disposto a dispensar; mas a grandeza delas não se concebe pelo raciocínio. Deve ser, pois, esta a obra da fé, que é o melhor remédio de nossas almas. Esta inquirição, portanto, opõe-se à dispensação de Deus. Pois que é dispensado pela fé? Receber Suas misericórdias e tornar-nos homens melhores; não duvidar nem disputar de coisa alguma, mas repousar em confiança. Pois o que promove questões desaloja a fé e aquilo que a fé operou e edificou. Cristo disse que devemos ser salvos pela fé; isto esses mestres puseram em questão e até negaram. Pois, sendo o anúncio presente, mas o seu desfecho futuro, requeria-se a fé. Mas eles, tomados de antemão pelas observâncias legais, lançavam impedimentos no caminho da fé. Parece também aqui aludir aos gregos, quando fala de fábulas e genealogias, pois estes enumeravam seus deuses.
Moral. Não demos, pois, ouvidos a questões. Pois fomos chamados Fiéis, para que sem hesitação crêssemos no que nos foi transmitido, e não nutríssemos dúvida alguma. Pois se as coisas afirmadas fossem humanas, deveríamos examiná-las; mas, sendo elas de Deus, só nos cabe reverenciá-las e crê-las. Se não cremos, como seremos persuadidos da existência de Deus? Pois como sabes tu que Deus existe, quando O pões em juízo? O conhecimento de Deus melhor se demonstra crendo n'Ele sem provas nem demonstrações. Até os gregos sabem isto; pois criam no que seus deuses lhes diziam, afirma alguém, mesmo sem prova; e o quê? — Que eram descendência dos deuses. Mas por que falo dos deuses? No caso daquele homem, embusteiro e feiticeiro — falo de Pitágoras —, procederam do mesmo modo, pois dele se dizia: Ele o disse. E sobre seus templos havia uma imagem do Silêncio, com o dedo sobre a boca, comprimindo os lábios, exortando significativamente a todos quantos passavam a que se calassem. E eram as doutrinas deles tão sagradas, e as nossas o são menos? E ainda por cima dignas de escárnio? Que loucura extrema é esta! Os dogmas dos gregos, de fato, são questionados com razão. Pois eram de tal natureza, não passando de disputas, conflitos de raciocínios, dúvidas e conclusões. Mas as nossas estão bem longe de tudo isso. Pois a sabedoria humana inventou as deles, ao passo que as nossas foram ensinadas pela graça do Espírito. As doutrinas deles são loucura e insensatez; as nossas são verdadeira sabedoria. Entre eles não há mestre nem discípulo; antes, todos igualmente são disputadores. Aqui, seja mestre, seja discípulo, cada um deve aprender daquele de quem deve aprender, e não duvidar, mas obedecer; não disputar, mas crer. Pois todos os antigos alcançaram bom testemunho pela fé, e sem esta tudo se transtorna. E por que falo disto quanto às coisas celestiais? Achamos, examinando bem, que as coisas terrenas não menos dependem dela. Pois sem ela não haveria comércio, nem contratos, nem coisa alguma semelhante. E se ela é tão necessária aqui, nas coisas que são falsas, quanto mais o será naquelas. A isto, pois, sigamos; a isto apeguemo-nos; assim baniremos de nossas almas todas as doutrinas destruidoras, como, por exemplo, as que dizem respeito à natividade e ao fado. Se crês que há ressurreição e juízo, poderás expulsar de tua mente todas essas falsas opiniões. Crê que há um Deus justo, e não crerás que possa haver uma natividade injusta. Crê que há um Deus e uma Providência, e não crerás que possa haver uma natividade que a tudo mantém unido. Crê que há um lugar de castigo e um Reino, e não crerás numa natividade que retira nosso livre-arbítrio e nos sujeita à necessidade e à força. Não semeeis, nem planteis, nem vades à guerra, nem vos ocupeis em obra alguma! Pois, queirais ou não, as coisas hão de suceder segundo o curso da natividade! Que necessidade temos ainda de oração? E por que merecerias ser cristão, se existe esta natividade? Pois então não serias responsável. E de onde procedem as artes da vida? Vêm também estas da natividade? Sim, dizes, e está destinado a alguém tornar-se sábio mediante labor. Mas podes mostrar-me alguém que tenha aprendido uma arte sem labor? Não podes. Não é, pois, da natividade, mas do labor, que ele deriva sua perícia.
Mas por que um homem corrupto e perverso enriquece, sem herdar de seu pai, ao passo que outro, em meio a trabalhos infinitos, permanece pobre? Tais são, com efeito, as questões que levantam, discorrendo sempre sobre riqueza e pobreza, e jamais tomando o caso do vício e da virtude. Ora, nesta questão, não fales daquilo, mas mostra-me um homem que se tornou mau enquanto se esforçava por ser bom; ou alguém que, sem se esforçar, se tornou bom. Pois, se o Fado tem algum poder, seu poder deveria manifestar-se nas coisas mais importantes: no vício e na virtude, não na pobreza e na riqueza. Perguntas ainda: por que um homem é doentio e outro saudável? Por que um é honrado, outro desonrado? Por que a este tudo sucede bem, enquanto aquele outro não encontra senão fracassos e impedimentos? Deixa de lado a noção de nascimento, e saberás. Crê firmemente que há um Deus e uma Providência, e todas estas coisas se esclarecerão. Mas não posso, dizes, conceber que haja Providência, quando há tamanha desordem. Poderei crer que o bom Deus dá riquezas ao fornicador, ao homem corrupto e desonesto, e não ao virtuoso? Como poderei crer nisto? Pois é preciso que haja fatos para fundamentar a crença. Pois bem, procedem estes casos de um nascimento justo, ou injusto? Injusto, dizes. Quem, então, o fez? Não foi Deus, dizes, ele era ingênito. Mas como pode o ingênito produzir estas coisas? Pois são contradições. Estas coisas não são, portanto, de modo algum, obras de Deus. Perguntaremos, então, quem fez a terra, o mar, os céus, as estações? O nascimento, respondes. Produziu, pois, o nascimento nas coisas inanimadas tal ordem e harmonia, mas em nós, para quem estas coisas foram feitas, tanta desordem? Como se alguém, ao construir uma casa, cuidasse de torná-la magnífica, mas não dedicasse pensamento algum à sua família. Mas quem preserva a sucessão das estações? Quem estabeleceu as leis regulares da natureza? Quem determinou os cursos do dia e da noite? Estas coisas são superiores a qualquer nascimento desta sorte. Mas estas, dizes, vieram a ser por si mesmas. E, no entanto, como pode um sistema tão bem-ordenado surgir por si mesmo?
Mas de onde, direis, vêm os ricos, os saudáveis, os afamados, e como se fazem alguns ricos pela cobiça, outros por herança, outros pela violência? E por que sofre Deus que os ímpios prosperem? Respondemos: porque a retribuição, segundo o merecimento de cada um, não se dá aqui, mas está reservada para o porvir. Mostra-me isso a acontecer agora! Mas, dizeis, dá-me isto aqui, e não busco o porvir. Ora, é justamente porque buscais o aqui que não recebeis. Pois se, quando o gozo terreno não está ao vosso alcance, buscais as coisas presentes tão avidamente a ponto de preferi-las às futuras, que fareis se estivésseis na posse de um prazer sem mescla? Deus, pois, vos mostra que essas coisas são nada, e indiferentes; porque, se não fossem indiferentes, Ele não as concederia a tais homens. Reconhecereis que é indiferente ser alguém alto ou baixo, negro ou branco; assim também é ser rico ou pobre. Pois dizei-me: não são as coisas necessárias concedidas a todos igualmente, como a capacidade para a virtude, a distribuição dos dons espirituais? Se entendêsseis retamente as misericórdias de Deus, não vos queixaríeis de faltar-vos as coisas mundanas, enquanto desfrutásseis destes melhores dons igualmente com os outros; e, conhecendo essa igual distribuição, não desejaríeis superioridade no resto. Como se um servo, desfrutando da bondade de seu senhor o alimento, o vestuário e a moradia, e todas as demais coisas necessárias igualmente com seus companheiros de servidão, se ensoberbecesse por ter unhas mais compridas, ou mais cabelo na cabeça; assim é para um cristão exaltar-se por causa dessas coisas, que ele desfruta apenas por um tempo. Por esta razão é que Deus nos retira essas coisas, para extinguir essa loucura, e transferir os nossos afetos delas para o céu. Mas, não obstante, não aprendemos a sabedoria. Como se uma criança, possuindo um brinquedo, o preferisse às coisas necessárias, e seu pai, para conduzi-la contra sua vontade ao que lhe era melhor, a privasse do brinquedo; assim Deus nos tira essas coisas, para que nos conduza ao céu. Se perguntais, então, por que Ele permite que os ímpios sejam ricos, é porque não são eles elevados em Sua estima. E se também os justos são ricos, é antes porque Ele permite que assim seja, que porque os faz ricos. Ora, dizemos estas coisas superficialmente, como a homens que não conhecem as Escrituras. Mas nossos discursos seriam desnecessários se crêsseis e atentásseis à palavra divina, pois esta vos ensinaria todas as coisas. E para que entendais que nem as riquezas, nem a saúde, nem a glória são coisa alguma, posso mostrar-vos muitos que, podendo ganhar riqueza, não a buscam; podendo desfrutar de saúde, mortificam seus corpos; podendo ascender à glória, fazem de seu propósito ser desprezados. Mas não há homem bom que jamais se tenha esmerado em ser mau. Cessemos, pois, de buscar as coisas de baixo, e busquemos as coisas celestiais; pois assim poderemos alcançá-las, e desfrutaremos das delícias eternas, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo. A Quem, com o Pai e o Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Nada é tão prejudicial ao gênero humano quanto desprezar a amizade e não cultivá-la com o maior cuidado; assim como nada, por outro lado, é tão proveitoso quanto persegui-la com todo o nosso empenho. Isto Cristo o demonstrou, quando diz: Se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á feito por meu Pai (Mt 18,19); e novamente: Porque a iniquidade se multiplicará, o amor de muitos esfriará (Mt 24,12). Foi isto que deu ocasião a todas as heresias. Pois os homens, porque não amavam seus irmãos, invejaram os que gozavam de alta reputação, e da inveja passaram a ambicionar o poder, e do amor ao poder introduziram as heresias. Por isso, tendo Paulo dito que encarregasses a alguns que não ensinassem outra doutrina, mostra agora que o modo pelo qual isto se pode efetuar é pela caridade. Assim, pois, como quando ele diz: Cristo é o fim da lei (Rm 10,4), isto é, seu cumprimento, e isto se liga ao anterior, assim também este mandamento está implicado no amor. O fim da medicina é a saúde, mas onde há saúde não é necessário fazer muito alarde; assim onde há amor, não há necessidade de muito mandar. Mas de que amor ele fala? Daquele que é sincero, que não está apenas nas palavras, mas que flui da disposição, do sentimento e da compaixão. De um coração puro, diz ele, seja quanto a uma reta conversação, seja quanto a um afeto sincero. Pois também uma vida impura produz divisões. Pois todo aquele que faz o mal odeia a luz (Jo 3,20). Há, na verdade, amizade também entre os ímpios. Ladrões e assassinos podem amar-se mutuamente, mas isto não procede de uma boa consciência, não de um coração puro, mas de um coração impuro, não de uma fé não fingida, mas daquela que é falsa e hipócrita. Pois a fé aponta para a verdade, e uma fé sincera produz o amor, o qual aquele que verdadeiramente crê em Deus não pode suportar deixar de lado.
"Por causa do aumento da iniquidade, o amor de muitos esfriará." Foi isto que deu ocasião a todas as heresias. Pois aqueles que não amam seus irmãos e irmãs facilmente chegam a invejar os que gozam de alta reputação. Da inveja, passaram a ambicionar o poder, e do amor ao poder introduziram as heresias. Por isso, tendo Paulo dito que encarregasses a alguns que não ensinassem outra doutrina, mostra agora que o modo pelo qual isto se pode efetuar é pela caridade.
Bem disse ele: desviou-se, pois é necessária arte para atirar reto e não fora do alvo, para ter-se a direção do Espírito. Pois são muitas as coisas que nos desviam do rumo correto, e devemos manter os olhos fixos em um só objeto.
Desejando ser mestres da lei. Eis aqui outra causa do mal: o amor ao poder. Por isso Cristo disse: Não sejais chamados Rabi (Mt 23,8); e o Apóstolo, de novo: Pois nem mesmo eles guardam a lei, mas querem que vos circuncideis para se gloriarem em vossa carne (Gl 6,13). Desejam, quer dizer, a primazia, e por essa causa desprezam a verdade.
Não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam. Aqui os censura, porque não conhecem o fim e o propósito da Lei, nem o período pelo qual ela haveria de ter autoridade. Mas, se isso decorria da ignorância, por que é chamado pecado? Porque não proveio somente de desejarem ser mestres da lei, mas de não conservarem a caridade. E, na verdade, a própria ignorância nasceu destas causas. Pois, quando a alma se entrega às coisas carnais, a clareza de sua visão se obscurece, e, decaindo da caridade, cai na contenda, e o olho do entendimento se cega. Porque aquele que é possuído por algum desejo destas coisas temporais, embriagado como está pela paixão, não pode ser juiz imparcial da verdade.
Não sabendo o que afirmam. Pois é provável que falassem da lei e se estendessem sobre suas purificações e demais ritos corporais. O Apóstolo, então, abstendo-se de censurar tais coisas — como sendo nada, ou quando muito sombra e figura das realidades espirituais —, prossegue de modo mais atraente a louvar a lei, chamando aqui de lei o Decálogo, e por meio dele descartando o restante. Pois, se mesmo estes preceitos punem os transgressores e se tornam inúteis para nós, muito mais os outros.
A lei, parece dizer, é boa, e, de novo, não é tão boa. Que dizer, pois? Suponhamos que alguém dela use ilicitamente: não é ela boa? Não; ainda assim a própria lei, enquanto tal, permanece boa. O que ele quer dizer é isto: se alguém cumpre a lei em suas ações, ela é boa. Pois isto é "usar dela licitamente", no sentido aqui pretendido. Mas, quando alguém proclama a lei em palavras e a negligencia nas obras, isso é usar dela ilicitamente. Pois tal pessoa dela usa, mas não para seu próprio proveito. Além disso, a lei, se dela usares corretamente, te envia a Cristo. Pois, uma vez que seu escopo é justificar, quando a própria lei falha em justificar, ela te envia àquele que pode justificar. Alguns podem guardar a lei, mas apenas superficialmente. Guarda-se a lei como um freio que se traz apenas para simular o gesto da constrição, mas não, de fato, para a constrição em si mesma. O freio, aqui, não serve à verdadeira necessidade do cavalo empinado que por ele deveria ser guiado, mas existe apenas para causar boa aparência. Os fiéis usam a lei licitamente quando a si mesmos se governam segundo seu espírito, mas não são constrangidos pela sua letra. Usa a lei licitamente aquele que tem consciência de que ela não é necessária para a salvação. Os fiéis cumprem a lei não por temor dela, mas por aquele princípio de virtude que ela torna possível. Os fiéis usam a lei não como estando sob temor dela, mas tendo diante dos olhos, antes, a condenação de sua própria consciência que o castigo do porvir.
A lei, parece dizer, é boa, e, de novo, não é boa. Que dizer, pois? Se alguém dela não usa licitamente, não é ela boa? Não; ainda assim é boa. Mas o que ele quer dizer é isto: se alguém a cumpre em suas ações — pois isto é usar dela licitamente, no sentido aqui pretendido. Mas, quando a expõem em palavras e a negligenciam nas obras, isso é usar dela ilicitamente. Pois tal pessoa dela usa, mas não para seu próprio proveito. E pode-se ainda nomear outro modo além deste. Qual é? Que a lei, se dela usares retamente, te envia a Cristo. Pois, uma vez que seu escopo é justificar o homem, e ela falha em realizar isto, remete-nos àquele que pode fazê-lo. Outro modo, ainda, de usar a lei licitamente é quando a guardamos, mas como coisa supérflua. E como, coisa supérflua? Assim como o freio é usado propriamente não pelo cavalo empinado que o mastiga, mas por aquele que o traz apenas por causa da aparência, assim usa a lei licitamente aquele que a si mesmo governa, ainda que não como constrangido por sua letra. Usa a lei licitamente aquele que tem consciência de que dela não necessita, pois aquele que já é tão virtuoso que a cumpre não por temor dela, mas por um princípio de virtude, dela usa licita e seguramente: isto é, se alguém assim dela usa, não como estando sob temor dela, mas tendo diante dos olhos, antes, a condenação da consciência que o castigo do porvir. Além disso, chama de homem justo àquele que alcançou a virtude. Usa, portanto, a lei licitamente aquele que não precisa ser por ela instruído. Pois, assim como se põem sinais diante das crianças na leitura, mas aquele que faz o que eles indicam sem seu auxílio, por outro conhecimento, mostra mais destreza e é melhor leitor, assim aquele que está acima da lei não está sob a pedagogia da lei. Pois guarda-a em grau muito mais alto aquele que a cumpre não por temor, mas por inclinação virtuosa; visto que aquele que teme o castigo não a cumpre da mesma maneira que aquele que visa à recompensa. Aquele que está sob a lei não a cumpre como aquele que está acima da lei. Pois viver acima da lei é usar dela licitamente. Usa-a licitamente e a guarda aquele que realiza coisas além da lei e que não necessita de suas instruções. Pois a lei, em sua maior parte, é proibição do mal; ora, isto sozinho não torna o homem justo, mas antes a realização de boas ações além disso. Daí que aqueles que se abstêm do mal como escravos não alcançam a medida da lei. Pois ela foi instituída para o castigo da transgressão. Tais homens, na verdade, dela usam, mas é para temer seu castigo. Diz-se: Não queres, pois, temer a autoridade? Faze o que é bom (Rm 13,3): o que implica que a lei ameaça com castigo somente aos maus. Mas de que serve a lei àquele cujas ações merecem uma coroa? Assim como o cirurgião só é útil ao que tem algum ferimento, e não ao homem são e saudável. Mas para os sem lei e os desobedientes, para os ímpios e para os pecadores. Chama também os judeus de sem lei e desobedientes. A lei, diz ele, opera ira, isto é, para os malfeitores. Mas o que, para aquele que é digno de recompensa? Pela lei vem o conhecimento do pecado (Rm 3,20). Que dizer, então, a respeito do justo? A lei não foi feita, diz ele, para o homem justo. Por quê? Porque ele está isento de seu castigo, e não espera aprender dela qual é o seu dever, uma vez que tem dentro de si a graça do Espírito para guiá-lo. Pois a lei foi dada para que os homens fossem disciplinados pelo temor de suas ameaças. Mas o cavalo dócil não necessita do freio, nem o homem que pode prescindir da instrução necessita do pedagogo.
Mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e sacrílegos, para os matadores de pais e matadores de mães. Assim, não se detém ele na menção dos pecados em geral, nem somente destes, mas percorre as várias espécies de pecado, para envergonhar os homens, por assim dizer, de estarem sob a direção da lei; e, tendo assim particularizado alguns, acrescenta uma referência aos omitidos, ainda que o que enumerara bastasse para afastar os homens. De quem, pois, diz ele estas coisas? Dos judeus, pois eram matadores de pais e matadores de mães: eram profanos e sacrílegos, pois também a estes ele se refere quando diz ímpios e pecadores, e, sendo tais, era necessário que a lei lhes fosse dada. Pois não adoraram eles repetidas vezes os ídolos? Não apedrejaram a Moisés? Não se tingiram as suas mãos no sangue dos seus próprios parentes? Não os acusam constantemente os profetas destas coisas? Mas para os que são instruídos por uma filosofia celeste, estes mandamentos são supérfluos. Para os matadores de pais e matadores de mães, para os homicidas, para os fornicadores, para os que se contaminam com homens, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e se houver alguma outra coisa contrária à sã doutrina; pois todas as coisas que mencionara eram as paixões de uma alma corrompida e, portanto, contrárias à sã doutrina.
Assim, a Lei ainda é necessária para a confirmação do Evangelho, mas para os que lhe obedecem torna-se desnecessária. E ele chama o Evangelho de glorioso. Havia alguns que se envergonhavam de suas perseguições e dos sofrimentos de Cristo; e por causa destes, assim como de outros, ele o chamou de Evangelho glorioso, mostrando assim que os sofrimentos de Cristo são a nossa glória. E talvez ele aluda também ao futuro. Pois, se o nosso estado presente está exposto à vergonha e ao opróbrio, não será assim no porvir; e é às coisas futuras, e não às presentes, que pertence o Evangelho. Por que, então, disse o Anjo: Eis que vos trago novas de grande alegria, porque hoje vos nasceu um Salvador (Lc 2,10)? Porque Ele nasceu para ser o Salvador deles, ainda que os Seus milagres não tivessem início desde o Seu nascimento. Segundo o Evangelho, diz ele, do Deus bendito. A glória que ele designa é ou a do serviço de Deus, ou esta: que, se as coisas presentes estão repletas de Sua glória, muito mais o estarão as coisas futuras; quando os Seus inimigos forem postos debaixo de Seus pés (1 Cor 15,25), quando não houver mais oposição alguma, quando os justos contemplarem todos aqueles bens venturosos que olho não viu, nem ouvido ouviu, e que não subiram ao coração do homem (1 Cor 2,9). Pois Eu quero, diz o nosso Salvador, que eles também estejam comigo onde Eu estou, para que contemplem a Minha glória que Vós me destes (Jo 17,24).
Moral. Aprendamos, pois, quem são estes, e reputemo-los bem-aventurados, considerando quais felicidades então hão de gozar, de que luz e de que glória então hão de participar. A glória deste mundo é vil e não perdura; ou, se permanece, permanece apenas até à morte, e depois disso extingue-se por completo. Pois a sua glória, diz a Escritura, não descerá após ele (Sl 49,17). E, para muitos, ela não dura sequer até o fim da vida. Mas nada de semelhante há de se pensar quanto àquela glória; ela permanece, e não terá fim. Pois tais são as coisas de Deus: duradouras, e acima de toda mudança ou termo. Porque a glória daquele estado não vem de fora, mas de dentro. Quero dizer: não consiste em multidão de servos, nem de carros, nem em vestes preciosas. Independentemente destas coisas, o próprio homem se acha revestido de glória. Aqui, sem estas coisas, o homem aparece nu. Nos banhos, vemos os ilustres, os obscuros e os vis, igualmente despidos. Muitas vezes os grandes ficaram expostos ao perigo em público, abandonados em alguma ocasião por seus servos. Mas naquele mundo os homens trazem consigo a sua glória, e os Santos, como os Anjos, onde quer que apareçam, têm em si mesmos a sua glória. Sim, antes, como o sol não necessita de vestimentas, nem requer auxílio alheio, mas onde quer que apareça, a sua glória logo resplandece; assim há de ser então.
Busquemos, pois, aquela glória do que nada há mais venerável, e deixemos a glória do mundo, como coisa vílima e sem préstimo algum. Não te glories de teus trajes e vestimentas (Eclo 11:4). Este era o conselho dado desde a antiguidade aos simples. Com efeito, a dançarina, a meretriz, a histriã trazem sobre si vestes mais vistosas e mais custosas que as tuas. E além disso, essa jactância seria de coisa que, se apenas as traças a atacarem, pode roubar-te o gozo. Vedes quão instável é esta glória da vida presente? Envaideces-te com aquilo que os insetos fazem e destroem. Pois insetos da Índia, dizem, fiam aqueles fios delicados de que se tecem as tuas vestes. Busca antes uma veste tecida das coisas de cima, um vestido admirável e resplandecente, vestimenta de ouro verdadeiro; ouro não escavado por mãos de malfeitores nas minas, mas fruto da virtude. Vistamo-nos de uma veste que não é manufatura de pobres nem de escravos, mas tecida pelo próprio Senhor. Mas dirás: minhas vestes são bordadas de ouro! E que te importa isso? Aquele que a teceu, não o que a veste, é o objeto de admiração, pois a ele verdadeiramente se deve. Não é o bastidor sobre o qual a roupa se estende na tinturaria, mas o seu fazedor, que se admira. Contudo, o bastidor a traz vestida, e a tem atada sobre si. E assim como este a traz, mas não para uso, do mesmo modo fazem algumas destas mulheres, em benefício da veste, para arejá-la, dizem, a fim de que não seja comida pela traça! Não será, pois, o cúmulo da loucura andar solícita por coisa tão vil, fazer o que quer que seja, arriscar tua salvação por ela, escarnecer do Inferno, desafiar a Deus, e passar por alto Cristo faminto? Não me fales das preciosas especiarias da Índia, da Arábia e da Pérsia, as úmidas e as secas, os perfumes e unguentos, tão custosos e tão inúteis. Por que, ó mulher, prodigalizas perfumes sobre um corpo cheio de impureza por dentro? Por que gastas com o que é ofensivo, como se alguém desperdiçasse perfumes sobre a imundície, ou destilasse bálsamos sobre um tijolo? Há, se o desejares, um ungüento precioso e uma fragrância com que poderias ungir tua alma; não trazida da Arábia, nem da Etiópia, nem da Pérsia, mas do próprio céu; comprada não com ouro, mas com vontade virtuosa e fé não fingida. Compra este perfume, cujo odor é capaz de encher o mundo. Foi deste que os Apóstolos exalaram o cheiro. Pois somos (diz ele) bom odor, para uns de morte, para outros de vida (2 Cor 2:15-16). E que significa isto? Que sucede, como se diz, que o porco se sufoca com os perfumes! Mas esta fragrância espiritual perfumou não somente os corpos, mas as vestes dos Apóstolos; e as vestes de Paulo estavam de tal modo impregnadas dela, que expulsavam demônios. Que folha balsâmica, que cássia, que mirra tão suave ou tão eficaz quanto este perfume? Pois, se punha os demônios em fuga, que não poderia operar? Com este ungüento nos providenciemos. E a graça do Espírito no-lo proverá por meio da esmola. Destes exalaremos o odor quando passarmos para o outro mundo. E assim como aqui, aquele que se perfuma com suaves odores atrai sobre si a atenção de todos, e, seja no banho, seja na assembleia, seja em qualquer outro ajuntamento de homens, todos o seguem e o observam; assim também naquele mundo, quando entrarem as almas que exalam esta fragrância espiritual, todos se levantarão e lhe darão lugar. E até mesmo aqui os demônios e todos os vícios temem aproximar-se dela, e não a podem suportar, pois ela os sufoca.
Não portemos, pois, conosco aquele perfume que é sinal de afeminação, mas este, que é sinal de virilidade, verdadeiramente admirável, que nos enche de uma santa confiança. Este é um aroma que não é produto da terra, mas brota da virtude, que não murcha, mas floresce para sempre. É este que torna honrados aqueles que o possuem. Com este somos ungidos em nosso Batismo, e então exalamos seu doce odor; mas cabe ao nosso cuidado, depois, conservar esse odor. Antigamente os Sacerdotes eram ungidos com óleo, como emblema da virtude cuja fragrância o Sacerdote deve difundir ao seu redor.
Mas nada é mais ofensivo do que o odor do pecado, o qual fez o Salmista dizer: *Minhas chagas cheiram mal e apodrecem* (Sl 38,5). Pois o pecado é mais imundo do que a própria putrefação. Que coisa, por exemplo, é mais ofensiva do que a fornicação? E, se isto não se percebe no momento de sua prática, contudo, depois de cometida, percebe-se sua natureza ofensiva, a impureza nela contraída, a maldição e a abominação que a acompanham. Assim é com todo pecado. Antes de ser cometido, tem algo de prazer, mas depois de cometido, o prazer cessa e se desvanece, e a dor e a vergonha o sucedem. Mas com a justiça é o contrário. No princípio é acompanhada de labor, mas ao fim, de prazer e repouso. Mas mesmo aqui, assim como, num caso, o prazer do pecado não é prazer algum, por causa da expectativa da desonra e do castigo, assim, no outro, o labor não se sente como labor, por causa da esperança da recompensa. E qual é o prazer da embriaguez? A pobre satisfação de beber, e mal essa. Pois quando sobrevém a insensibilidade, e o homem nada vê diante de si, e está em pior estado que um louco, que gozo resta? Antes, bem se poderia dizer que não há prazer algum na própria fornicação. Pois, quando a paixão privou a alma de seu juízo, pode haver ali deleites verdadeiros? Tanto valeria dizer que a sarna é um prazer! Chamaria eu de verdadeiro prazer aquele em que a alma não é afetada pela paixão, nem agitada nem dominada pelo corpo. Pois que prazer pode haver em ranger os dentes, em distorcer os olhos, em irritar-se e inflamar-se além do decoro? Mas tão longe está de ser agradável que os homens se apressam a escapar dele, e, uma vez passado, ficam em sofrimento. Se, porém, fosse prazer, quereriam não escapar dele, mas nele permanecer. Tem, pois, apenas o nome de prazer.
Mas não são assim os prazeres de que nós gozamos; são verdadeiramente deleitáveis, não agitam nem inflamam. Deixam a alma livre, e a alegram e dilatam. Tal era o prazer de Paulo, quando disse: *Nisto me regozijo, e ainda me regozijarei*; e novamente: *Regozijai-vos sempre no Senhor* (Fp 1,18 e 4,4). Pois o prazer pecaminoso é acompanhado de vergonha e condenação; é gozado em segredo, e é acompanhado de infinita inquietação. Mas de tudo isto o verdadeiro prazer está isento. Sigamos, pois, este, para que alcancemos os bens futuros, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual, etc.
Se pecaste e Deus perdoou o teu pecado, recebe o teu perdão e dá graças. Mas não te esqueças do teu pecado. Não que devas afligir-te com o pensamento dele, mas para que instruas a tua alma a não relaxar-se nem recair de novo nos mesmos laços. Foi isto o que fez Paulo, não ocultando os seus atos de blasfemo, perseguidor e ultrajador. É como se dissesse: "Seja a vida do teu servo abertamente exposta, para que a benignidade do Senhor se manifeste tanto mais. Pois, ainda que tenha recebido a remissão dos pecados, não rejeito a memória desses pecados." E isto não só tornou transparente a benignidade do Senhor, como fez também o próprio homem mais notável. Pois, quando souberes quem ele foi antes, tanto mais te admirarás dele. Quando vires o que ele veio a ser a partir do que era, tanto mais o louvarás. Assim, se muito pecaste, tu mesmo, ao seres transformado, esperarás tanto mais ao vê-lo. Tal exemplo consola os que estão em desespero e faz com que se levantem de novo.
Considerai como ele abunda nas expressões de humildade. Pois assim, "por último de todos, apareceu também a mim", diz ele. Considera-se a si mesmo somente "como a um abortivo". Ele próprio é "o menor de todos os apóstolos", e nem sequer digno deste título. E não se contentou nem mesmo com isto, mas, para que não parecesse humilde apenas de palavra, expõe as razões e as provas: de ser "como a um abortivo", o ter visto a Jesus por último; e de ser indigno até do nome de apóstolo, "o ter perseguido a Igreja". Pois quem é verdadeiramente humilde de coração expõe as razões da sua contrição. A Timóteo faz menção destas mesmas coisas, dizendo: "Dou graças àquele que me deu forças para isto, Cristo Jesus, nosso Senhor, porque me julgou fiel, constituindo-me para o seu serviço, ainda que antes eu tenha sido blasfemo, perseguidor e ultrajador."
As vantagens que provêm da humildade são geralmente reconhecidas, e, contudo, é coisa que não se encontra facilmente. Há afetação de fala humilde de sobra, mas humildade de espírito não se encontra em parte alguma. Esta qualidade foi tão cultivada pelo bem-aventurado Paulo, que ele está sempre à procura de motivos para ser humilde. Os que têm consciência de grandes méritos devem lutar muito consigo mesmos se quiserem ser humildes. E ele também era daqueles sujeitos a violentas tentações, pois sua própria boa consciência o inchava como um humor que se acumula. Observai, pois, o seu método neste passo. "Foi-me confiado", dissera ele, "o glorioso Evangelho de Deus", do qual os que ainda aderem à lei não têm direito de participar; pois esta é agora oposta ao Evangelho, e a diferença entre ambos é tal, que os que são movidos por uma ainda não são dignos de participar da outra; como se disséssemos que os que necessitam de castigos e de correntes não têm direito de ser admitidos no cortejo dos filósofos. Estando, pois, cheio de altivos pensamentos, e tendo usado expressões magníficas, rebaixa-se ele imediatamente, e leva também os outros a fazer o mesmo. Tendo, pois, dito que o Evangelho lhe fora confiado, para que isto não parecesse dito por orgulho, contém-se logo, acrescentando por via de correção: "Dou graças a Cristo Jesus, nosso Senhor, que me deu forças, porque me considerou fiel, colocando-me no ministério." Assim, em toda parte, vemos que ele oculta o seu próprio mérito e atribui tudo a Deus, mas apenas na medida em que não retira o livre-arbítrio. Pois o incrédulo poderia talvez dizer: Se tudo é de Deus, e nós nada contribuímos de nós mesmos, ao passo que Ele nos converte, como se fôssemos mero pau e pedra, da maldade para o amor da sabedoria, por que então fez Ele Paulo tal qual foi, e não Judas? Para remover esta objeção, notai a prudência de sua expressão: "O qual me foi confiado", diz ele. Isto foi excelência e mérito seus, mas não inteiramente seus; pois diz: "Dou graças a Cristo Jesus, que me deu forças." Esta é a parte de Deus; depois, novamente a sua própria: "Porque me considerou fiel." Certamente porque ele seria útil quanto à sua própria parte.
Por que, pois, não alcançaram misericórdia os demais judeus? Porque o que fizeram, não o fizeram ignorantemente, mas voluntariamente, sabendo bem o que faziam…. Assim, o amor ao poder era em toda parte um obstáculo em seu caminho. Quando admitiram que ninguém pode perdoar pecados senão só Deus, e Cristo imediatamente fez precisamente aquilo — perdoar o pecado — que haviam confessado ser sinal de divindade, isto não podia ser caso de ignorância. Mas terá agido Paulo por semelhante ignorância?... Paulo não agiu, como certos outros judeus, por amor ao poder, mas por zelo. Pois qual foi o motivo de sua viagem a Damasco? Julgava a doutrina perniciosa e temia que sua pregação se espalhasse por toda parte…. É por isso que se condena a si mesmo, dizendo: "Não sou digno de ser chamado apóstolo." É por isso que confessa sua ignorância, a qual foi consequência de sua incredulidade.
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Ele reconhece, assim, tanto a sua própria parte quanto a de Deus, e, embora atribua a maior parte à providência divina, atenua a sua própria contribuição, mas somente na medida, como dissemos antes, em que isso é compatível com o livre-arbítrio. E que significa isto: Quem me capacitou? Eu vos direi. Ele tinha um fardo tão pesado a sustentar, que necessitava de muito auxílio do alto. Pois considerai o que era estar exposto diariamente a insultos, e escárnios, e ciladas, e perigos, zombarias, e afrontas, e mortes; e não desfalecer, nem vacilar, nem retroceder, mas, embora assaltado todos os dias por dardos inumeráveis, suportar varonilmente, e permanecer firme e imperturbável. Isto não foi efeito de poder humano algum, e, contudo, também não da influência divina apenas, mas também de sua própria resolução. Pois que Cristo o escolheu com presciência do que ele viria a ser, isto é manifesto pelo testemunho que Ele lhe deu antes do início de sua pregação. Ele é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios e dos reis (At 9,15). Pois assim como aqueles que carregam o estandarte real na guerra requerem tanto força quanto destreza, para que não o deixem cair nas mãos do inimigo; assim também aqueles que sustentam o nome de Cristo, não só na guerra, mas na paz, necessitam de uma força poderosa, para preservá-lo incólume dos ataques dos acusadores. Grande, na verdade, é a força requerida para sustentar o nome de Cristo, e sustentá-lo bem, e carregar a Cruz. Pois aquele que, em ação, ou palavra, ou pensamento, faz algo indigno de Cristo, não sustenta o Seu nome, e não tem Cristo habitando nele. Pois aquele que sustenta esse nome o carrega em triunfo, não na assembleia dos homens, mas através dos próprios céus, enquanto todos os anjos ficam maravilhados, e o assistem, e o admiram.
Dou graças ao Senhor, que me capacitou. Observai como ele dá graças a Deus até mesmo por aquilo que era a sua própria parte. Pois ele reconhece como um favor Dele o ter sido um vaso escolhido. Pois isto, ó bem-aventurado Paulo, era a tua própria parte. Porque Deus não faz acepção de pessoas. Mas dou-Lhe graças por ter-me julgado digno deste ministério. Pois isto é prova de que Ele me estimou fiel. O mordomo numa casa não apenas agradece ao seu senhor por ser confiado, mas considera isso como sinal de que ele o tem por mais fiel do que a outros: assim é aqui. Observai, então, como ele magnifica a misericórdia e a benignidade de Deus, ao descrever a sua vida anterior, ele que outrora, diz, foi blasfemo, e perseguidor, e injuriador. E quando fala dos judeus ainda incrédulos, ele antes atenua a culpa deles. Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas não segundo o conhecimento (Rm 10,2). Mas de si mesmo diz: Que foi blasfemo e perseguidor. Observai o seu rebaixar-se a si mesmo! Tão livre estava ele do amor-próprio, tão cheio de humildade, que não se contenta em chamar-se perseguidor e blasfemo, mas agrava a sua culpa, mostrando que ela não se deteve nele mesmo, que não bastava ter sido blasfemo, mas que, no furor de sua blasfêmia, perseguiu aqueles que desejavam ser piedosos. Mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade.
Por que, então, os demais judeus não alcançaram misericórdia? Porque o que fizeram, não o fizeram por ignorância, mas voluntariamente, sabendo bem o que faziam. Disto temos o testemunho do Evangelista: Muitos dentre os judeus creram nEle, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, pois amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus (Jo 12,42-43). E Cristo lhes disse ainda: Como podeis crer, vós que recebeis honra uns dos outros? (Jo 5,44). E os pais do cego disseram estas coisas por temor dos judeus, para não serem expulsos da sinagoga (Jo 9,22). E os próprios judeus diziam: Vede que nada aproveitais? Eis que o mundo se vai após Ele (Jo 12,19). Assim, o amor ao poder lhes obstruía o caminho em toda parte. Ora, tendo eles admitido que ninguém pode perdoar pecados senão só Deus, e tendo Cristo feito imediatamente aquilo mesmo que haviam confessado ser sinal de divindade, não podia isto ser caso de ignorância. Mas onde estava Paulo então? Talvez se deva dizer que estava sentado aos pés de Gamaliel, e não tomava parte com a multidão que conspirava contra Jesus, pois Gamaliel não parece ter sido homem ambicioso. Como se explica, pois, que depois se encontrasse Paulo unido à multidão? Viu ele a doutrina crescer, estar prestes a prevalecer e ser geralmente abraçada. Pois, em vida de Cristo, os discípulos conviviam com Ele, e depois com seus mestres; mas, quando se deu a separação completa, Paulo não agiu como os demais judeus, por amor ao poder, mas por zelo. Pois qual foi o motivo de sua viagem a Damasco? Julgava perniciosa aquela doutrina, e temia que sua pregação se espalhasse por toda parte. Mas, no caso dos judeus, não era o cuidado com a multidão, mas o amor ao poder, que lhes movia as ações. Por isso dizem: Virão os romanos e tomarão tanto o nosso lugar quanto a nossa nação (Jo 11,48). Que temor era este que os agitava, senão o temor do homem? Mas é digno de indagação como pôde ser ignorante alguém tão versado na lei quanto Paulo. Pois é ele quem diz: o qual antes havia prometido pelos seus santos profetas (Rm 4,2). Como é, pois, que não sabeis, vós que sois zelosos da lei de vossos pais, vós que fostes educados aos pés de Gamaliel? E, no entanto, aqueles que passavam os dias em lagos e rios, e até mesmo os publicanos, abraçaram o Evangelho, ao passo que vós, que estudais a lei, o perseguis! É por isto que ele se condena a si mesmo, dizendo: Não sou digno de ser chamado apóstolo (1 Cor 9,9). É por isto que confessa sua ignorância, a qual foi produzida pela incredulidade. Por esta causa, diz ele, é que alcançou misericórdia. Que quer ele dizer, então, quando afirma: Contou-me fiel? Não queria ele ceder direito algum de seu Senhor: até mesmo a parte que lhe cabia, a Ele a atribuía, nada assumindo para si, nem reivindicando como próprio a glória que era devida a Deus. Por isso, em outro lugar, encontramo-lo a exclamar: Senhores, por que fazeis estas coisas? Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós (At 14,15). Assim também: Contou-me fiel. E ainda: Trabalhei mais do que todos eles, todavia não eu, mas a graça de Deus que estava comigo (1 Cor 15,10). E ainda: É Ele que opera em nós tanto o querer quanto o efetuar (Fl 2,13). Assim, ao reconhecer que alcançou misericórdia, confessa que merecia castigo, pois a misericórdia é para os que assim se encontram. E ainda, em outro lugar, diz ele acerca dos judeus: Endurecimento em parte sobreveio a Israel (Rm 11,25).
Isto é acrescentado para que, ouvindo que ele alcançou misericórdia, não entendamos por isso apenas que, sendo merecedor de castigo, como perseguidor e blasfemo, todavia não foi punido. Mas a misericórdia não se limitou a isto, a que o castigo não lhe fosse infligido; muitos outros grandes favores estão nela implicados. Pois Deus não somente nos livrou do castigo iminente, mas também nos fez justos, e filhos, e irmãos, e herdeiros, e co-herdeiros. Por isso diz ele que a graça sobreabundou. Porquanto os dons concedidos ultrapassavam a misericórdia, visto que não são tais que proviessem somente de misericórdia, mas de afeto e de amor excessivo. Tendo assim discorrido largamente sobre o amor de Deus, o qual, não se contentando em mostrar misericórdia a um blasfemo e perseguidor, lhe conferiu em abundância outras bênçãos, ele se precaveu contra aquele erro dos incrédulos que suprime o livre-arbítrio, acrescentando: com fé e amor que há em Cristo Jesus. Somente isto, diz ele, contribuímos nós. Cremos que Ele é poderoso para nos salvar.
Moral. Amemos, pois, a Deus por meio de Cristo. Que significa por meio de Cristo? Que foi Ele, e não a Lei, quem nos capacitou a isto. Observai que bênçãos devemos a Cristo, e que bênçãos à Lei. E não diz ele meramente que a graça abundou, mas que sobreabundou, ao trazer de uma só vez à adoção aqueles que mereciam castigo infinito.
E observai ainda que em é usado por meio de. Pois não é somente a fé necessária, mas também o amor. Visto que há ainda muitos que creem que Cristo é Deus, e contudo não O amam, nem agem como os que O amam. Pois como se explica que antepõem tudo a Ele — dinheiro, nascimento, destino, augúrios, adivinhações, presságios? Quando vivemos em desafio a Ele, dizei-me, onde está o nosso amor? Tem alguém um amigo caloroso e afetuoso? Que ame a Cristo ao menos igualmente. Assim, se não mais, que ame Àquele que deu Seu Filho por nós, Seus inimigos, que não tínhamos mérito algum próprio. Mérito, disse eu? Que havíamos cometido inúmeros pecados, que O havíamos desafiado além de todo atrevimento, e sem causa! Todavia Ele, depois de inúmeras provas de bondade e de cuidado, nem mesmo então nos rejeitou. No exato momento em que Lhe fazíamos a maior ofensa, foi então que Ele deu Seu Filho por nós. E ainda nós, depois de tão grandes benefícios, depois de sermos feitos Seus amigos, e havidos por dignos, por Ele, de todas as bênçãos, não O amamos como a um amigo! Que esperança, pois, pode ser a nossa? Estremeceis, talvez, com a palavra, mas eu quisera que estremecêsseis com o fato! Como assim? Como se há de mostrar que nem sequer como a amigos amamos a Deus, perguntais? Procurarei demonstrar-vo-lo — e prouvera Deus que as minhas palavras fossem infundadas e sem propósito! Mas receio que os fatos as confirmem. Considerai, pois: os amigos que verdadeiramente o são sofrerão, muitas vezes, prejuízo por aqueles a quem amam. Mas por Cristo, ninguém sofrerá prejuízo, nem sequer se contentará com a sua condição presente. Por um amigo, prontamente suportamos insultos e empreendemos contendas; mas por Cristo, ninguém pode suportar inimizade: e o ditado é: Sê amado sem motivo — mas não sejas odiado sem motivo.
Nenhum de nós deixaria de socorrer um amigo que padecesse fome; mas quando Cristo vem a nós dia após dia, e não pede grande coisa, senão apenas pão, nem sequer o consideramos, ainda que estejamos nauseabundamente fartos e inchados de gula: ainda que nosso hálito denuncie o vinho de ontem, e vivamos em luxúria, e dissipemos nossos bens com meretrizes, e parasitas, e aduladores, e ainda com monstros, idiotas e anões; pois os homens convertem os defeitos naturais de tais criaturas em matéria de divertimento. Ademais, aos amigos que verdadeiramente o são, não invejamos, nem nos mortificamos com o seu êxito; e todavia sentimos isto para com (o ministro de) Cristo, e nossa amizade para com os homens mostra-se mais poderosa que o temor de Deus, pois os invejosos e os insinceros manifestamente respeitam mais os homens que a Deus. E como se dá isto? Deus vê o coração, e contudo o homem não se abstém de praticar o engano diante de Seus olhos; mas se esse mesmo homem fosse surpreendido em engano pelos homens, julgar-se-ia perdido, e enrubesceria de vergonha. E para que falar disto? Se um amigo está em tribulação, nós o visitamos, e temeríamos ser condenados se a isso déssemos delonga por pouco tempo. Mas não visitamos a Cristo, ainda que Ele morra repetidas vezes no cárcere; ora, se temos amigos entre os fiéis, visitamo-los, não porque sejam cristãos, mas porque são nossos amigos. Assim, nada fazemos por temor ou por amor de Deus, mas algumas coisas por amizade, outras por costume. Quando vemos um amigo partir em viagem, choramos e nos perturbamos, e se presenciamos sua morte, o pranteamos, ainda que saibamos que não estaremos separados por muito tempo, que ele nos será restituído na Ressurreição. Mas, ainda que Cristo se aparte de nós, ou antes, ainda que O rejeitemos diariamente, não nos afligimos, nem estranhamos feri-Lo, ofendê-Lo, provocá-Lo, fazendo o que Lhe é desagradável; e o que é temível não é que não O tratemos como amigo; pois eu mostrarei que O tratamos até mesmo como inimigo. Como, perguntais? Porque a mente carnal é inimizade contra Deus, como disse Paulo, e isto sempre trazemos conosco. E perseguimos a Cristo quando Ele se adianta até nós e chega às nossas próprias portas. Pois as ações iníquas realizam isto efetivamente, e todos os dias O submetemos a ultrajes por nossa cobiça e nossa rapina. E porventura alguém, pregando a Sua palavra e beneficiando a Sua Igreja, obtém boa reputação? Logo, torna-se objeto de inveja, porque faz a obra de Deus. E pensamos que o invejamos a ele, mas nossa inveja recai sobre Cristo. Fingimos desejar que o benefício proceda não de outros, mas de nós mesmos. Mas isto não pode ser por amor de Cristo, senão por amor de nós mesmos; do contrário, seria coisa indiferente que o bem fosse feito por outros ou por nós. Se um médico se visse incapaz de curar seu filho, ameaçado de cegueira, rejeitaria o auxílio de outro que fosse capaz de operar a cura? Longe disso! Seja meu filho restituído à saúde, quase lhe diria, seja por ti, seja por mim. E por quê? Porque ele não consideraria a si mesmo, mas o que era proveitoso a seu filho. Assim também, se nosso respeito fosse para com Cristo, isto nos levaria a dizer: Faça-se o bem, seja por nós mesmos, seja por qualquer outro. Como disse Paulo: Quer por pretexto, quer por verdade, Cristo é anunciado (Fp 1.18). No mesmo espírito respondeu Moisés, quando alguns quiseram excitar seu desagrado contra Eldade e Medade, porque profetizavam: Tens tu ciúmes por mim? Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta!
Nm 11:29 Esses sentimentos de ciúme procedem da vanglória; e não são eles os de opositores e inimigos? Alguém fala mal de ti? Ama-o! É impossível, dizes. Não; se quiseres, é bem possível. Pois, se amas somente aquele que fala bem de ti, que recompensa tens? Não é por causa do Senhor, mas por causa da palavra amável do homem, que assim procedes. Alguém te injuriou? Faze-lhe o bem! Pois em beneficiar aquele que te beneficiou há pouco mérito. Foste gravemente ofendido e sofreste prejuízo? Faze questão de retribuir com o contrário. Sim, eu vos suplico. Seja este o modo pelo qual cumprimos a nossa parte. Cessemos de odiar e de injuriar os nossos inimigos. Ele nos ordena que amemos os nossos inimigos (Mt 5:44); mas nós O perseguimos, ao passo que Ele nos ama. Longe esteja tal coisa! Todos nós o dizemos com palavras, mas não o fazemos com as obras. Tão obscurecidas estão as nossas mentes pelo pecado, que toleramos em nossos atos aquilo que em palavras julgamos intolerável. Desistamos, pois, das coisas que são nocivas e ruinosas à nossa salvação, para que possamos obter aquelas bênçãos que, como amigos Seus, podemos alcançar. Pois Cristo diz: Quero que, onde Eu estiver, também estejam os Meus discípulos, para que contemplem a Minha glória (Jo 17:24); a qual possamos todos nós alcançar, pela graça e pelo amor de Jesus Cristo.
Não é humildade pensar que se é pecador quando de fato se é pecador. Mas quando alguém tem consciência de ter realizado muitos e grandes feitos, e não obstante não se imagina algo grande em si mesmo, essa é a verdadeira humildade. Quando um homem, como Paulo, pode dizer: "Nada tenho na consciência", e pode ainda acrescentar: "Mas nem por isso estou justificado", e pode dizer também: "Cristo Jesus veio salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" — essa é a verdadeira humildade. Verdadeiramente humilde é aquele que realiza feitos elevados, mas, em seu próprio pensamento, vê-se a si mesmo como humilde.
Este favor de Deus supera de tal modo a esperança e a expectativa humanas, que muitas vezes não é crido. Pois Deus concedeu-nos coisas que a mente do homem jamais buscou, jamais pensou. É por essa razão que os Apóstolos despendem largo discurso em assegurar a crença nos dons que nos são concedidos por Deus. Pois assim como os homens, ao receberem algum grande bem, perguntam a si mesmos se não é sonho, por não o crerem, assim se passa com os dons de Deus. Que era, pois, o que se tinha por incrível? Que aqueles que eram inimigos e pecadores, não justificados pela lei nem pelas obras, fossem imediatamente, pela fé somente, elevados ao mais alto favor. Sobre este ponto discorreu Paulo longamente em sua Epístola aos Romanos, e aqui novamente com extensão. Fiel é esta palavra, diz ele, e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.
Como os judeus eram principalmente atraídos por isto, ele os persuade a não se aterem à lei, visto que não podiam alcançar a salvação por ela sem a fé. Contra isto ele contende; pois lhes parecia incrível que um homem que dissipara toda a sua vida passada em ações vãs e ímpias fosse depois salvo por sua fé somente. Por essa razão diz ele: É esta uma palavra digna de fé. Mas alguns não somente descreram, senão que ainda objetaram, como os gregos fazem agora. Façamos, pois, o mal, para que venha o bem. Esta foi a consequência que tiraram, em escárnio de nossa fé, das suas palavras: Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm 3, 8 e 5, 20). Assim, quando lhes discorremos sobre o inferno, dizem: Como pode isto ser digno de Deus? Quando um homem encontra seu servo em falta, perdoa-o e o tem por digno de perdão — e Deus há de punir eternamente? E quando falamos do Lavacro e da remissão dos pecados por meio dele, dizem também que isto é indigno de Deus, que aquele que cometeu ofensas sem número tenha seus pecados remitidos. Que perversidade de espírito é esta, que espírito de contenda manifesta! Certamente, se o perdão é um mal, a punição é um bem; mas se a punição é um mal, a remissão dela é um bem. Falo segundo as noções deles, pois segundo as nossas, ambos são bens. Isto hei de mostrar em outra ocasião, pois o presente não bastaria para matéria tão profunda, e que requer ser argumentada com esmero. Devo expor isto à vossa Caridade em tempo oportuno. Por ora, prossigamos com o assunto proposto. Fiel é esta palavra, diz ele. Mas por que há de ser crida?
Isto se manifesta tanto pelo que precede quanto pelo que se segue. Observai como ele nos prepara para esta afirmação, e como depois nela se detém. Pois já havia declarado antes que Ele usou de misericórdia para comigo, blasfemo e perseguidor; isto foi a modo de preparação. E não somente usou de misericórdia, mas me reputou fiel. Longe estamos, pois, quer ele dizer, de descrer que Ele usou de misericórdia. Pois ninguém, ao ver um prisioneiro admitido num palácio, poderia duvidar se ele obteve mercê. E esta era visivelmente a situação de Paulo, pois ele faz de si mesmo o exemplo. Nem se envergonha de chamar-se pecador, antes disso se compraz, pois assim melhor pode demonstrar o milagre da consideração de Deus para com ele, e que Este o tivera por digno de tão extraordinária benignidade.
Ora, como é que aqui ele chama a si mesmo pecador, e mais, o principal dos pecadores, quando em outro lugar ele afirma que, quanto à justiça que há na lei, era irrepreensível? (Fp 3:6) É porque, com respeito à justiça que Deus operou, isto é, a justificação que verdadeiramente se busca, até mesmo aqueles que são justos segundo a lei são pecadores, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3:23). Por isso ele não diz simplesmente justiça, mas a justiça que há na lei. Assim como um homem que adquiriu riqueza parece, em relação a si mesmo, rico, mas, comparado aos tesouros dos reis, é muito pobre e o mais pobre dentre os pobres; assim também é neste caso. Comparados aos Anjos, até os homens justos são pecadores; e se Paulo, que operou a justiça que há na lei, foi o principal dos pecadores, que outro homem poderá ser chamado justo? Pois ele não diz isto para condenar a sua própria vida como impura — que não se imagine tal coisa —; mas, comparando a sua própria justiça legal com a justiça de Deus, mostra que ela nada vale, e não somente isso, mas prova que aqueles que a possuem são pecadores.
Vede como ele mais uma vez se humilha e se rebaixa a si mesmo, apontando uma razão nova e menos honrosa. Pois dizer que obteve misericórdia por causa de sua ignorância não significa tanto que aquele que obteve misericórdia era pecador, ou que estava sob grave condenação; mas dizer que obteve misericórdia para que nenhum pecador, doravante, desesperasse de encontrar misericórdia, mas que cada um pudesse ter certeza de alcançar igual favor — isto é um excesso de humilhação tal que, mesmo ao chamar-se o principal dos pecadores, um blasfemo e perseguidor, e indigno de ser chamado Apóstolo, ele não havia dito nada semelhante a isto. Isto se tornará claro por um exemplo. Suponhamos uma cidade populosa, cujos habitantes fossem todos perversos, uns mais, outros menos, mas todos merecedores de condenação; e que houvesse, entre essa multidão, um mais merecedor de castigo que todos os demais, culpado de toda sorte de maldade. Se se declarasse que o rei estava disposto a perdoar a todos, isso não seria tão prontamente crido quanto se vissem este miserável, o mais perverso de todos, efetivamente perdoado. Já não poderia então haver dúvida alguma. Isto é o que Paulo diz: que Deus, querendo dar aos homens plena certeza de que perdoa todas as suas transgressões, escolheu, como objeto de Sua misericórdia, aquele que era mais pecador que todos; pois, argumenta ele, quando eu obtive misericórdia, já não poderia haver dúvida quanto aos demais: como diríamos familiarmente, Se Deus perdoa a tal homem, jamais castigará a ninguém; e assim mostra que ele próprio, ainda que indigno de perdão, para a salvação dos outros, primeiro obteve esse perdão. Portanto, diz ele, já que eu sou salvo, que ninguém duvide da salvação. E observai a humildade deste bem-aventurado varão: ele não diz que em mim Ele mostrasse Sua longanimidade, mas toda a longanimidade; como se dissesse, maior longanimidade Ele não poderia mostrar em caso algum senão no meu, nem encontrar pecador que assim exigisse todo o Seu perdão, toda a Sua longanimidade; não apenas uma parte, como aqueles que são pecadores apenas em parte, mas toda a Sua longanimidade.
Para modelo daqueles que haveriam de crer depois. Isto é dito para consolo, para encorajamento. Mas, porque havia falado tão elevadamente do Filho, e do grande amor que Ele manifestou, para que não se pensasse que ele excluísse o Pai disto, atribui a glória também a Ele.
Paulo apontou a todos os feitos que outrora ousara cometer. Pensava ele que era melhor que sua vida anterior fosse publicada a todos, a fim de tornar evidente a grandeza do dom de Deus, do que encobrir sua inefável e indescritível misericórdia por recusar-se a proclamar a todos os seus próprios pecados. Relatou, portanto, em detalhe, suas perseguições, suas ciladas, seus combates contra a Igreja. Diz ele: "Não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus"; e ainda: "que Jesus veio para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro." E de novo: "Ouvistes qual foi outrora o meu procedimento no judaísmo; como, sobremaneira, eu perseguia a Igreja de Deus e a assolava." De fato, para dar, por assim dizer, alguma espécie de retribuição a Cristo por Sua longanimidade para com ele, revelando abertamente que espécie de homem era e que inimigo e adversário Ele havia salvo, revelou com toda franqueza a batalha que, no princípio, travara com zelo abrasador contra Cristo. E, por isso, ofereceu boa esperança até mesmo aos que haviam desesperado de si mesmos.
Deus, de fato, diz que chamou Paulo por causa de sua excelente capacidade, como disse a Ananias: "porque este é para mim um instrumento escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios e dos reis." Isto é, ele era capaz de servir e de realizar grandes feitos. Deus dá isto como razão de seu chamado. Mas o próprio Paulo, em toda parte, o atribui à graça e à inexprimível misericórdia de Deus. Diz ele isto nas palavras: "recebi misericórdia por esta razão: para que em mim, como o primeiro, Jesus Cristo mostrasse toda a Sua paciência, como exemplo para os que haviam de crer nele para a vida eterna."
Devemos primeiro voltar nossas palavras à oração. Digo isto porque, algumas vezes, quando a oração acompanha um ensinamento, ela nos serve para fornecer uma demonstração das coisas que buscamos provar... E Paulo frequentemente faz isso no início de suas epístolas. Ele primeiro menciona a Deus, e só então prossegue ao seu ensinamento, depois de render a Deus a glória e o louvor que Lhe são devidos. Ouvi: "Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, único Deus de sabedoria, honra e glória pelos séculos dos séculos! Amém."
Hb 1,2 e At 4,12 aparecem em ambos os formatos no corpus; usarei vírgula (padrão mais frequente).
Segue a tradução do trecho 1 de 5:
Por estas coisas, pois, glorificamos não somente o Filho, mas também o Pai. Aqui discutamos com os heréticos. Falando do Pai, diz ele: Ao único Deus. Não é, pois, o Filho Deus? O único imortal. Não é, pois, o Filho imortal? Ou não possui Ele mesmo aquilo que doravante há de dar-nos? Sim, dizem eles, Ele é Deus e imortal, mas não tal como o Pai. Que, pois? É Ele de essência inferior, e por isso de imortalidade inferior? Que seria, então, uma imortalidade maior e uma menor? Pois a imortalidade não é outra coisa senão o não estar sujeito à destruição. Ora, há uma glória maior e uma menor; mas a imortalidade não admite ser maior ou menor: assim como não há uma saúde maior e uma menor. Pois uma coisa há de ser ou destrutível, ou de todo indestrutível. Somos nós, homens, pois, imortais tal como Ele? Longe esteja! De modo nenhum! Por quê? Porque Ele a possui por natureza, mas nós por concessão. Por que, então, fazeis a diferença? Porque o Pai, diz ele, é feito tal como é por nenhum outro; mas o Filho é o que é, a partir do Pai. Isto também confessamos, não negando que o Filho é gerado do Pai incorruptivelmente. E glorificamos o Pai, quer ele dizer, por haver gerado o Filho tal como Ele é. Assim vedes que o Pai é sobremodo glorificado, quando o Filho fez grandes coisas. Pois a glória do Filho reverte novamente a Ele. E, uma vez que O gerou onipotente e tal como Ele mesmo é em Si, não é mais a glória do Filho do que a do Pai, que Ele seja autossuficiente, e por Si mesmo sustido, e livre de enfermidade. Foi dito do Filho: Pelo qual fez os mundos (Hb 1,2). Ora, entre nós se observa uma distinção entre criação e obra. Pois um trabalha e labuta e executa, outro governa; e por quê? Porque aquele que executa é o inferior. Mas ali não é assim; nem está a soberania com Um, e a obra com o Outro. Pois, quando ouvimos: Pelo qual fez os mundos, não excluímos o Pai da criação. Nem, quando dizemos: Ao Rei imortal, negamos o domínio ao Filho. Pois estas coisas são comuns a Um e a Outro, e cada uma pertence a Ambos. O Pai criou, na medida em que gerou o Filho criador; o Filho governa, como Senhor de todas as coisas criadas. Pois Ele não trabalha por salário, nem em obediência a outros, como fazem os trabalhadores entre nós, mas por Sua própria bondade e amor à humanidade. Mas foi o Filho alguma vez visto? Ninguém pode afirmar isto. Que significa, pois, Ao Rei imortal, invisível, ao único Deus sábio? Ou quando se diz: Não há outro nome pelo qual devamos ser salvos; e novamente: Não há salvação em nenhum outro? (At 4,12).
A Ele seja honra e glória para sempre. Amém.
Ora, honra e glória não são meras palavras; e visto que Ele nos honrou não somente com palavras, mas com o que fez por nós, honremo-Lo também nós com obras e feitos. Contudo, esta honra a nós toca, ao passo que aquela não O alcança, pois Ele não necessita da honra que vem de nós, mas nós necessitamos daquela que vem d'Ele.
Ao honrá-Lo, portanto, é a nós mesmos que honramos. Aquele que abre os olhos para contemplar a luz do sol recebe ele mesmo deleite, ao admirar a beleza do astro, mas nenhum favor faz a esse luminar, nem lhe acresce o esplendor, pois ele permanece o que era; muito mais isto é verdadeiro no que respeita a Deus. Aquele que admira e honra a Deus o faz para sua própria salvação e sumo proveito; e como assim? Porque segue a virtude, e é honrado por Ele. Pois àqueles que Me honram, diz Ele, honrarei. (1 Sm 4:30) Como, pois, é Ele honrado, se de nossa honra nenhuma vantagem colhe? Assim como se diz que Ele tem fome e sede. Pois assume tudo quanto é nosso, para que de algum modo nos atraia a Si. Diz-se que recebe honras, e mesmo insultos, para que temamos. Mas, com tudo isto, não somos atraídos a Ele!
Moral. Glorifiquemos, pois, a Deus, e levemos a Deus tanto em nosso corpo quanto em nosso espírito (1Cor 6,20). E como há de alguém glorificá-lO no corpo? Pergunta-se, e como no espírito? A alma é aqui chamada espírito para distingui-la do corpo. Mas como poderemos glorificá-lO no corpo e no espírito? Glorifica-O no corpo quem não comete adultério nem fornicação, quem evita a gula e a embriaguez, quem não afeta um exterior ostentoso, quem provê para si apenas o que é suficiente para a saúde: e assim também a mulher, que não se perfuma nem pinta o rosto, mas se contenta em ser tal qual Deus a fez, sem lhe acrescentar artifício próprio. Pois por que acrescentas teus próprios ornamentos à obra que Deus fez? Não te basta a Sua obra-prima? Ou te esforças por lhe acrescentar graça, como se, na verdade, fosses tu a melhor artífice? Não é por ti mesma, mas para atrair multidões de amantes, que assim adornas a tua pessoa e insultas o teu Criador. E não digas: Que posso fazer? Não é vontade minha, mas devo fazê-lo por causa de meu marido. Não posso conquistar o seu amor senão consentindo nisto. Deus te fez bela para que fosse admirado até mesmo em tua beleza, e não para que fosse insultado. Não lhe faças, portanto, tão má retribuição, mas paga-o antes com modéstia e castidade. Deus te fez bela para aumentar as provas da tua modéstia. Pois é muito mais difícil para a que é formosa ser modesta do que para aquela que não possui tais atrativos que a cortejem. Por que nos diz a Escritura que José era de bela presença e formoso rosto (Gn 39,6), senão para que ainda mais admirássemos a sua modéstia unida à formosura? Fez-te Deus bela? Por que te fazes de outro modo? Pois é como se alguém cobrisse uma estátua de ouro com uma camada de lama; assim é com as mulheres que usam pinturas. Untas-te de terra vermelha e branca! Mas as de aspecto vulgar, dizes tu, bem podem recorrer a isto. E por quê? Para ocultar a sua feiura? É um esforço vão. Pois quando a aparência natural foi jamais aperfeiçoada pelo que é estudado e artificial? E por que haverias de te afligir com a falta de beleza, visto que ela não é nenhuma vergonha? Ouve, pois, a sentença do Sábio: Não louves a um homem por sua beleza, nem detestes a um homem por sua aparência exterior (Eclo 11,2). Seja antes admirado Deus, o melhor Artífice, e não o homem, que não tem mérito algum em ser feito tal qual é. Quais são, dize-me, as vantagens da beleza? Nenhuma. Ela expõe a quem a possui a maiores provações, infortúnios, perigos e suspeitas. A que não a tem escapa à suspeita; a que a possui, salvo se praticar uma reserva grande e extraordinária, incorre em má fama, e, o que é pior de tudo, na suspeita do próprio marido, que menos prazer tira de contemplar a sua beleza do que sofrimento padece pelo ciúme. E a beleza dela se desvanece a seus olhos pela familiaridade, ao passo que ela sofre em seu caráter a imputação de fraqueza, de dissipação e de leviandade, e a sua própria alma se degrada e se enche de soberba. A estes males está exposta a beleza pessoal. Mas a que não tem este atrativo escapa incólume. Os cães não a assaltam; é como um cordeiro que repousa em pastagem segura, onde nenhum lobo intrui para molestá-la, porque o pastor está à mão para protegê-la.
A verdadeira superioridade não está em ser uma formosa e a outra tosca, mas nisto: que uma, ainda que não seja formosa, é impudica, e a outra não é malvada. Dizei-me, em que consiste a perfeição dos olhos? Estará em serem suaves, e móveis, e redondos, e escuros, ou em sua clareza e agudeza de visão? Será a perfeição de uma lâmpada estar elegantemente formada e finamente lavrada, ou brilhar com claridade e iluminar toda a casa? Não podemos dizer que não seja isto, pois aquilo é indiferente, e isto é o objeto verdadeiro. Assim, dizemos muitas vezes à serva encarregada dela: "Fizeste dela uma lâmpada ruim." Tão inteiramente consiste o uso da lâmpada em dar luz. Do mesmo modo, pouco importa qual seja a aparência do olho, contanto que cumpra seu ofício com plena eficácia. Chamamos ruim ao olho que é turvo ou desordenado, e que, ainda aberto, não vê. Pois é ruim aquilo que não cumpre seu próprio ofício — e esta é a falta dos olhos. E quanto ao nariz, dizei-me, quando é ele bom? Quando é reto e polido em ambos os lados, e finamente proporcionado? Ou quando é pronto para receber os odores e transmiti-los ao cérebro? Qualquer um pode responder a isto.
Vinde agora, ilustremos isto com um exemplo — falo das tenazes, os instrumentos assim chamados; dizemos que são bem-feitas aquelas que são capazes de tomar e reter as coisas, não as que são apenas formosa e elegantemente talhadas. Assim, são bons dentes os que são aptos para o serviço de dividir e mastigar nosso alimento, não os que estão belamente dispostos. E aplicando o mesmo raciocínio às demais partes do corpo, chamaremos belos aqueles membros que são sadios e cumprem retamente sua própria função. Assim julgamos bom qualquer instrumento, ou planta, ou animal, não por sua forma ou cor, mas porque responde ao seu propósito. E tem-se por bom servo aquele que é útil e pronto para nosso serviço, não aquele que é gracioso, porém dissoluto. Confio que agora compreendeis como está em vosso poder ser belos.
E, visto que os benefícios maiores e mais importantes são igualmente desfrutados por todos, não estamos em desvantagem alguma. Sejamos belos ou não, contemplamos igualmente este universo, o sol, a lua e as estrelas; respiramos o mesmo ar, participamos igualmente da água e dos frutos da terra. E, se nos for lícito dizer o que soará estranho, os toscos são mais sadios que os belos. Pois estes, para preservar sua beleza, não se entregam a nenhum labor, mas se abandonam à indolência e à vida regalada, pela qual suas energias corporais se debilitam; ao passo que os outros, não tendo tal cuidado, dedicam toda a sua atenção simples e inteiramente às ocupações ativas.
Glorifiquemos, pois, a Deus, e tomemo-Lo e trazamo-Lo em nosso corpo (1 Cor 6:20). Não busquemos afetar uma aparência formosa; esse cuidado é vão e infrutuoso. Não ensinemos nossos maridos a admirar a mera forma exterior; pois, se tal for o vosso adorno, o próprio hábito de contemplar o vosso rosto o tornará fácil de ser cativado por uma meretriz. Mas, se lhe ensinardes a amar os bons costumes e o pudor, ele não estará pronto a vaguear, pois não verá atrativos em uma meretriz, na qual essas qualidades não se encontram, mas antes o contrário. Tampouco o ensineis a deixar-se cativar pelo riso, nem por um trajar dissoluto, para que não prepareis contra vós mesma um veneno. Habituai-o a deleitar-se no pudor, e isso fareis, se vosso trajar for pudico. Mas, se tiverdes um ar ostentoso, um modo inconstante, como podereis dirigir-vos a ele em tom sério? E quem não vos terá em desprezo e escárnio?
Mas como é possível glorificar a Deus em nosso espírito? Praticando a virtude, adornando a alma. Pois tal ornamento não é proibido. Assim glorificamos a Deus, quando somos bons em todo respeito, e seremos glorificados por Ele em grau muito mais elevado naquele grande dia. Porque considero que os sofrimentos deste tempo presente não são dignos de comparação com a glória que há de manifestar-se em nós (Rm 8:18). Da qual, para que todos sejamos participantes, conceda-nos Deus, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo.
Os ofícios de mestre e de sacerdote são de grande dignidade, e para apresentar alguém digno deles requer-se a própria vocação de Deus. Assim foi antigamente, e assim é agora. Esta escolha deve fazer-se à parte dos sentimentos humanos, sem atender a nenhuma consideração temporal, nem se deixando levar pela amizade, nem pela inimizade... Naqueles dias, a vocação do sacerdote se dava "segundo a profecia". Mas que significa isto? Que nada de humano deve interferir na condução do Espírito Santo. Pois a profecia não é somente o anúncio das coisas futuras, mas também das presentes.
Quando, de novo, fala de um encargo, o que implica algo de pesado, acrescenta: "Este encargo te confio, meu filho Timóteo." Encarrega-o como a seu filho, não tanto com autoridade arbitrária ou despótica. Antes, como pai, diz: "Meu filho, Timóteo."
O ofício de Mestre e o de Sacerdote são de grande dignidade, e para apresentar alguém digno deles requer-se uma eleição divina. Assim foi antigamente, e assim deve ser agora, quando fazemos a escolha sem paixão humana, sem atender a nenhuma consideração temporal, nem nos deixando levar pela amizade, nem pela inimizade. Pois, ainda que não participemos de tão grande medida do Espírito quanto eles, basta, contudo, um bom propósito para atrair sobre nós a eleição de Deus. Com efeito, os Apóstolos, quando elegeram Matias, ainda não haviam recebido o Espírito Santo; mas, tendo confiado o assunto à oração, escolheram-no para o número dos Apóstolos. Pois não atentavam às amizades humanas. E assim também deveria ser hoje entre nós. Mas chegamos ao extremo da negligência; e até aquilo que é claramente evidente, deixamos passar. Ora, se negligenciamos o que é manifesto, como nos revelará Deus o que é invisível? Como está dito: Se não fostes fiéis no pouco, quem vos confiará o muito e o verdadeiro? (Lc 16,11). Mas então, quando nada se fazia por critério humano, também a instituição dos sacerdotes se dava por profecia. Que significa "por profecia"? Pelo Espírito Santo. Pois a profecia não é somente o anúncio das coisas futuras, mas também das presentes. Foi por profecia que Saul foi encontrado escondido entre a bagagem (1Sm 10,22). Pois Deus revela as coisas aos justos. Assim também foi dito por profecia: Separai-me Barnabé e Saulo (At 13,2). Desta maneira também Timóteo foi escolhido, a respeito de quem fala de profecias no plural; talvez tenha sido aquela ocasião em que o tomou e o circuncidou, e quando o ordenou, como ele mesmo diz na Epístola a ele dirigida: Não negligencies o dom que há em ti (1Tm 4,14). Portanto, para elevá-lo e prepará-lo a ser sóbrio e vigilante, recorda-lhe por quem foi escolhido e ordenado, como se dissesse: Deus te escolheu. Ele te deu a tua missão; não foste feito por voto humano. Não abuses, pois, nem tragas desonra à instituição de Deus. Quando, de novo, fala de um encargo, o que implica algo de pesado, acrescenta: Este encargo te confio, filho Timóteo. Encarrega-o como a seu filho, seu próprio filho, não tanto com autoridade arbitrária ou despótica, mas como um pai, diz: meu filho Timóteo. O confiar, contudo, implica que deve ser diligentemente guardado, e que não nos pertence. Pois não o obtivemos por nós mesmos, mas Deus no-lo conferiu; e não somente isto, mas também a fé e uma boa consciência. O que Ele, pois, nos deu, guardemo-lo. Pois se Ele não tivesse vindo, não se encontraria a fé, nem aquela vida pura que aprendemos pela educação. Como se dissesse: Não sou eu que te encarrego, mas Aquele que te escolheu, e é isto o que significam as profecias que precederam a teu respeito. Ouvi-as, obedecei-as.
E dize: que me encarregas? Que por elas milites a boa milícia. Escolheram-te; pois aquilo para que te escolheram, fá-lo tu: milita a boa milícia. Chamou-a boa milícia, porquanto há uma má milícia, da qual diz: Assim como apresentastes os vossos membros como instrumentos da impureza e da iniquidade (Rm 6,19). Aqueles homens servem sob um tirano, mas tu serves sob um Rei. E por que a chama milícia? Para mostrar quão poderoso combate deve ser sustentado por todos, mas especialmente por um Mestre; que precisamos de braços fortes, e de sobriedade, e de vigília, e de contínua vigilância: que devemos preparar-nos para o sangue e os combates, estar em ordem de batalha, e nada ter de relaxado. Que milites nelas, diz ele. Pois, assim como num exército nem todos servem na mesma função, mas cada um em seu próprio posto; assim também na Igreja um tem o ofício de Mestre, outro o de discípulo, outro o de homem simples. Mas tu estás neste. E, porque isto não é suficiente, acrescenta,
Em todas as circunstâncias, amados, necessitamos da fé — a fé, mãe das virtudes, remédio da salvação — sem a qual não podemos apreender nenhum ensinamento sobre as coisas sublimes. Mas aqueles que carecem de fé são semelhantes a homens que tentam atravessar o mar sem navio. Podem nadar por algum tempo, servindo-se das mãos e dos pés, mas, ao avançarem mais para o largo, logo são submergidos pelas ondas. Assim também aqueles que recorrem ao próprio raciocínio antes de aceitar qualquer conhecimento estão convidando o naufrágio, tal como Paulo fala daqueles "que fizeram naufrágio quanto à fé."
Pois quem há de ser Mestre deve primeiro ensinar a si mesmo. Como aquele que não foi primeiro bom soldado jamais será general, assim é com o Mestre; por isso diz ele em outro lugar: Para que, pregando a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado (1 Cor 9:27). Retendo a fé, diz ele, e a boa consciência, para que assim possais presidir a outros. Ouvindo isto, não desdenhemos as exortações de nossos superiores, ainda que sejamos Mestres. Pois se Timóteo, ao qual todos nós juntos não somos dignos de comparar-nos, recebe mandamentos e é instruído — e isto estando ele mesmo no ofício de Mestre —, muito mais devemos nós. Coisa que alguns tendo posto de lado, naufragaram quanto à fé. E isto segue naturalmente. Pois quando a vida é corrupta, engendra uma doutrina congenial a si, e por esta circunstância vemos muitos caírem num abismo de maldade, e desviarem-se para o paganismo. Pois, para que não sejam atormentados pelo temor do porvir, esforçam-se por persuadir suas almas de que é falso o que pregamos. E alguns se desviam da fé, os quais tudo buscam pelo raciocínio; pois o raciocínio produz naufrágio, ao passo que a fé é como um navio seguro.
Aqueles, pois, que se desviam da fé, devem sofrer naufrágio; e isto ele mostra por um exemplo.
Os carrascos, embora eles mesmos carregados de inúmeros crimes, são constituídos corretores de outros; assim sucede aqui com o espírito maligno... Ele [o transgressor] foi então imediatamente expulso da assembleia comum, separado do rebanho. Ficaram desertos e destituídos. Foram entregues ao lobo.
E a partir deles nos instruiria. Vede como, mesmo desde aqueles tempos, houve Mestres sedutores, indagadores curiosos e homens que se apartavam da fé, buscando tudo por seus próprios raciocínios. Assim como o náufrago fica nu e destituído de todas as coisas, assim também aquele que decai da fé fica sem recurso algum; não sabe onde firmar-se nem onde sustentar-se, nem possui a vantagem de uma vida boa para dela tirar algum proveito. Pois, quando a cabeça está perturbada, de que aproveita o resto do corpo? E se a fé sem uma vida boa é inútil, muito mais o é o inverso. Se Deus despreza o que é Seu por causa de nós, muito mais devemos nós desprezar o que é nosso por causa d'Ele. Pois assim é: onde alguém decai da fé, não tem firmeza, mas oscila para cá e para lá, até que, por fim, se perde no abismo.
A quem entreguei a Satanás, para que fossem instruídos a não blasfemar! Assim, é blasfêmia perscrutar as coisas divinas por nossos próprios raciocínios. Pois que têm os raciocínios humanos em comum com elas? Mas como instrui Satanás a não blasfemarem? Poderia ele instruir a outros, ele que ainda não se instruiu a si mesmo, mas permanece blasfemo? Não é que ele deva instruir, mas que eles sejam instruídos. Não é ele quem o faz, ainda que tal seja o resultado. Como em outro lugar diz, a respeito do fornicador: Entregar tal homem a Satanás para destruição da carne. Não para que salvasse o corpo, mas para que o espírito fosse salvo (1 Cor 5:5). Por isso se fala impessoalmente. Como, pois, isto se efetua? Assim como os carrascos, ainda que carregados eles mesmos de inumeráveis crimes, são feitos corretores de outros, assim se dá aqui com o espírito maligno. Mas por que não os castigaste tu mesmo, como fizeste com aquele Bar-Jesus, e como Pedro fez com Ananias, em vez de entregá-los a Satanás? Não foi para que fossem punidos, mas para que fossem instruídos. Pois que ele tinha esse poder, aparece em outras passagens: Que quereis? Irei a vós com vara? (1 Cor 4:21). E de novo: Para que, quando presente, não use de rigor, segundo o poder que o Senhor me deu para edificação, e não para destruição (2 Cor 13:10). Por que, então, invocou a Satanás para puni-los? Para que a desonra fosse maior, pois a severidade e a punição eram mais impressionantes. Ou antes, eles mesmos castigavam os que ainda não criam, mas os que se desviavam, esses entregavam a Satanás. Por que, então, Pedro puniu a Ananias? Porque, tentando ao Espírito Santo, ele ainda era incrédulo. Para que, portanto, os incrédulos aprendessem que não poderiam escapar, eles mesmos lhes infligiam o castigo; mas os que já haviam aprendido isso e depois se desviaram, esses entregavam a Satanás; mostrando que eram sustentados não por seu próprio poder, mas pelo cuidado que tinham para com eles; e todos quantos se ensoberbeciam eram entregues a ele. Pois assim como os reis matam com as próprias mãos os inimigos, mas entregam os súditos aos carrascos para punição, assim se dá também neste caso. E estes atos se faziam para mostrar a autoridade confiada aos Apóstolos. Nem era pequeno poder poder assim sujeitar o demônio às suas ordens. Pois isto mostra que ele os servia e obedecia mesmo contra a sua vontade, e não era pequena prova do poder da graça. E ouve como ele os entregou: Estando vós reunidos, e o meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, para entregar tal homem a Satanás (1 Cor 5:4). Foi ele, pois, imediatamente expulso da assembleia comum, foi separado do rebanho, ficou desamparado e destituído; foi entregue ao lobo. Pois assim como a nuvem designava o acampamento dos hebreus, assim o Espírito distinguia a Igreja. Se alguém, portanto, estava fora, era consumido, e era pelo juízo dos Apóstolos que era lançado fora do recinto. Assim também o Senhor entregou Judas a Satanás. Pois imediatamente após o bocado, Satanás entrou nele (Jo 13:27). Ou pode-se dizer isto: que aqueles a quem desejavam corrigir, não os puniam eles mesmos, mas reservavam seus castigos para os que fossem incorrigíveis. Ou, de outro modo, que eram mais temidos por entregá-los a outros. Também Jó foi entregue a Satanás, mas não por seus pecados, senão para mais plena prova de seu valor.
Muitos exemplos como este ainda ocorrem. Pois, uma vez que os sacerdotes não podem saber quem são pecadores e participantes indignos dos sagrados Mistérios, Deus frequentemente, deste modo, os entrega a Satanás. Porque, quando sobrevêm enfermidades, e ataques, e tristezas, e calamidades, e coisas semelhantes, é por esta causa que são infligidas. Isto é demonstrado por Paulo: "Por esta causa há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem" (1 Cor 11,30). Mas como assim?, dirá alguém, se nós nos aproximamos apenas uma vez por ano! Mas este é justamente o mal: que determineis a dignidade de vossa aproximação não pela pureza de vossas mentes, mas pelo intervalo de tempo. Julgais ser uma cautela adequada não comungar frequentemente, não considerando que sois marcados a fogo ao participar indignamente, ainda que uma só vez, ao passo que receber dignamente, ainda que com frequência, é salutar. Não é presunçoso receber com frequência, mas sim receber indignamente, ainda que apenas uma vez em toda a vida. Mas somos tão miseravelmente insensatos que, embora cometamos inúmeras ofensas no decurso de um ano, não estamos ansiosos por sermos absolvidos delas, e sim satisfeitos por não ousarmos, com frequência, insultar impudentemente o Corpo de Cristo — não nos lembrando de que aqueles que crucificaram Cristo, crucificaram-No apenas uma vez. Será, pois, a ofensa menor por ter sido cometida uma só vez? Judas traiu seu Mestre uma única vez. Que importa então? Isto o isentou do castigo? Por que, na verdade, há de o tempo ser considerado nesta questão? Que o nosso tempo de aproximação seja quando a nossa consciência estiver pura. O Mistério na Páscoa não tem eficácia maior do que o que agora se celebra. É um e o mesmo. Há a mesma graça do Espírito; é sempre uma Páscoa. Vós que sois iniciados sabeis disto. Na Preparação, no Sábado, no dia do Senhor, e no dia dos Mártires, é o mesmo Sacrifício que se realiza. Pois, tantas vezes, diz ele, quantas comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor (1 Cor 11,26). Nenhum tempo é limitado para a celebração deste Sacrifício; por que, então, é chamado de festa Pascal? Porque Cristo padeceu por nós naquele tempo. Que o tempo, portanto, não faça diferença alguma em vossa aproximação. Há em todo tempo o mesmo poder, a mesma dignidade, a mesma graça, um e o mesmo corpo; nem é uma celebração dele mais ou menos santa do que outra. E isto sabeis vós, que não vedes nessas ocasiões nada de novo, salvo estes véus mundanos e um cortejo mais esplêndido. A única coisa que estes dias têm a mais é que deles começou o dia de nossa salvação, quando Cristo foi sacrificado. Mas, no que respeita a estes mistérios, aqueles dias não têm outra preeminência.
Quando vos aproximais para tomar o alimento corporal, lavais as mãos e a boca; mas, quando vos achegais a este alimento espiritual, não purificais a vossa alma, e vos aproximais cheios de imundície. Mas direis: Não bastam os quarenta dias de jejum para purificar o enorme monte de nossos pecados? Mas de que serve isso, dizei-me? Se, desejando guardar algum precioso unguento, purificásseis um lugar para recebê-lo, e, pouco depois de o terdes ali depositado, lançásseis esterco sobre ele, não se dissiparia o fino odor? Assim se passa também conosco. Fazemo-nos, com todo o nosso poder, dignos de nos aproximar; depois, tornamos a contaminar-nos! De que serve, pois, isso? E isto o dizemos até mesmo daqueles que são capazes, nesses quarenta dias, de lavar-se e tornar-se limpos.
Não negligenciemos, pois, rogo-vos, a nossa salvação, para que o nosso labor não seja em vão. Pois aquele que se aparta dos seus pecados, e torna a cometer os mesmos, é semelhante ao cão que retorna ao seu vômito (Pv 26:11). Mas, se procedermos como convém, e tivermos cuidado com os nossos caminhos, seremos julgados dignos daquelas excelsas recompensas, as quais, para que todos as alcancemos, conceda Deus, pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, etc.
Exortemos, pois, os santos a que deem graças por nós. E exortemo-nos uns aos outros à gratidão. Aos ministros pertence sobretudo esta boa obra, pois é um privilégio sobremaneira grande. Aproximando-nos de Deus, damos graças por todo o mundo e pelos bens que em comum compartilhamos. As bênçãos de Deus são partilhadas em comum, e nesta preservação comum vós mesmos estais incluídos. Por conseguinte, deveis ações de graças comuns tanto por vossas próprias bênçãos peculiares quanto pelas que são comuns com os outros, pelas quais deveis, com razão, oferecer vossa própria forma peculiar de louvor... Demos, pois, graças também pela fé que os outros têm para com Deus. Este costume é antigo, plantado na Igreja desde o princípio. Assim também Paulo dá graças pelos romanos, pelos coríntios e por todo o mundo.
O sacerdote serve como que de pai comum de todo o mundo. Convém, portanto, que cuide de todos, assim como Deus, a quem serve, cuida de todos... Disto resultam duas vantagens. Primeira, transcende-se o ódio para com os que estão fora do círculo, pois ninguém pode sentir ódio por aqueles por quem ora. Os que estão à parte tornam-se melhores pelas orações que se oferecem por eles, perdendo sua disposição feroz para conosco. Pois nada há tão apto a atrair os homens ao ensino quanto amar e ser amado.
O Sacerdote é, por assim dizer, o pai comum de todo o mundo; convém, pois, que ele cuide de todos, assim como Deus, a quem ele serve. Por esta razão diz: Exorto, portanto, que antes de tudo se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens. Disto resultam duas vantagens. Primeiramente, extingue-se o ódio para com os que estão de fora; pois ninguém pode nutrir ódio contra aqueles por quem ora: e estes, por sua vez, tornam-se melhores pelas orações que se oferecem por eles, e perdem sua disposição feroz para conosco. Pois nada é tão apto a atrair os homens ao ensino quanto amar e ser amado. Considerai o que era, para aqueles que perseguiam, açoitavam, desterravam e trucidavam os cristãos, ouvir que aqueles a quem tratavam tão barbaramente ofereciam fervorosas orações a Deus por eles. Observai como ele deseja que o cristão seja superior a todo mau trato. Assim como um pai que fosse ferido no rosto por uma criancinha que carregava não perderia nada do seu afeto por ela, também nós não devemos diminuir nossa boa vontade para com os que estão de fora, ainda quando somos por eles feridos. Que significa antes de tudo? Refere-se ao Ofício diário; e os iniciados sabem como isto se faz cada dia, tanto à tarde quanto pela manhã, como oferecemos orações por todo o mundo, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade. Mas dirá talvez alguém que ele não se referia a todos os homens, mas a todos os fiéis. Como, pois, fala ele dos reis? Pois os reis, então, não eram adoradores de Deus, havendo uma longa sucessão de príncipes ímpios. E, para que não parecesse adulá-los, diz primeiro por todos os homens, depois pelos reis; pois se houvesse mencionado apenas os reis, isso poderia ter sido suspeito. E então, uma vez que a alma de alguns cristãos poderia mostrar-se lenta em ouvir isto, e rejeitar a exortação, se na celebração dos santos Mistérios fosse necessário oferecer orações por um rei pagão, ele lhes mostra a vantagem disso, para ao menos reconciliá-los com o conselho: a fim de que levemos vida tranquila e pacífica; como quem diz: A segurança deles é uma garantia para nós; assim como também, em sua Epístola aos Romanos, exorta-os a obedecer aos seus governantes, não pela ira, mas por causa da consciência (Rm 13,5). Pois Deus estabeleceu o governo para o bem público. Quando, pois, eles fazem guerra com este fim, e permanecem de guarda por nossa segurança, não seria irrazoável que não oferecêssemos orações por sua salvação nas guerras e nos perigos? Não é, portanto, adulação, mas está conforme às regras da justiça. Pois, se eles não fossem preservados e não prosperassem em suas guerras, nossos assuntos necessariamente se envolveriam em confusão e tumulto; e, se fossem eliminados, teríamos de servir por nós mesmos, ou seríamos espalhados de um lado a outro como fugitivos. Pois eles são como baluartes erguidos diante de nós, dentro dos quais os que estão encerrados vivem em paz e segurança.
Muitas súplicas, orações, intercessões e ações de graças, diz ele. Pois devemos dar graças a Deus até pelo bem que sucede a outros, como este fazer nascer o sol sobre maus e bons, e enviar a Sua chuva tanto sobre justos como sobre injustos. Observai como ele quis unir-nos e vincular-nos uns aos outros, não somente pela oração, mas pela ação de graças. Pois aquele que é exortado a agradecer a Deus pelo bem do próximo está também obrigado a amá-lo, e a ser benevolente para com ele. E se devemos dar graças pelo bem do próximo, muito mais o devemos pelo que nos acontece a nós mesmos, e pelo que nos é desconhecido, e mesmo pelas coisas contrárias à nossa vontade, e que nos parecem penosas, visto que Deus dispõe todas as coisas para o nosso bem.
Moral. Que toda a nossa oração, pois, venha acompanhada de ação de graças. E se nos é ordenado orar pelos nossos próximos, não somente pelos fiéis, mas também pelos incrédulos, considerai quão errado é orar contra vossos irmãos. Quê? Ordenou-Vos Ele orar por vossos inimigos, e orais vós contra vosso irmão? Mas vossa oração não é contra ele, e sim contra vós mesmos. Pois provocais a Deus ao proferir essas palavras ímpias: Mostra-lhe o mesmo! Faze-lhe o mesmo! Fere-o! Recompensa-o! Longe estejam tais palavras do discípulo de Cristo, que deve ser manso e brando. Da boca que foi digna de tais santos Mistérios, que nada de amargo proceda. Não profira a língua que tocou o Corpo do Senhor coisa alguma ofensiva; que seja conservada pura, que maldições não sejam por ela carregadas. Pois se os maldizentes não herdarão o reino de Deus (1 Cor 6:10), muito menos os que amaldiçoam. Pois quem amaldiçoa há de ser injurioso; e a injúria e a oração são contrárias entre si, a maldição e a oração estão bem distantes uma da outra, a acusação e a oração amplamente separadas. Propiciais a Deus com oração, e depois proferis imprecações? Se não perdoardes, não sereis perdoados (Mt 6:15). Mas, em vez de perdoar, suplicais a Deus que não perdoe; que excessiva maldade há nisto! Se o não-perdoador não é perdoado, aquele que roga ao seu Senhor que não perdoe, como será ele perdoado? O dano é para vós mesmos, não para ele. Pois ainda que vossas orações estivessem prestes a ser ouvidas em vosso favor, jamais seriam aceitas em tal caso, oferecidas como são por uma boca poluída. Pois certamente a boca que amaldiçoa está poluída com tudo o que é ofensivo e impuro.
Quando devíeis tremer por vossos próprios pecados, batalhar diligentemente pelo perdão deles, vindes antes mover a Deus contra vosso irmão — não temeis, nem pensais no que a vós mesmos concerne? Não vedes o que fazeis? Imitai ao menos a conduta das crianças na escola. Se elas veem sua própria turma prestando contas das lições, e todas apanhando por sua indolência, e cada uma sendo severamente arguida e castigada com golpes, ficam mortas de medo; e se algum de seus companheiros as fere, e severamente, não têm tempo de se irar, nem de se queixar ao mestre; tal é o temor que possui sua alma. Olham apenas para uma coisa, a saber, que possam entrar e sair sem açoites, e seus pensamentos estão fixos nesse momento. E quando saem, açoitadas ou não, os golpes que receberam de seus companheiros de brincadeira jamais lhes vêm à mente, pelo alívio. E vós, quando estais ansiosamente preocupados com vossos próprios pecados, como podeis deixar de estremecer ao mencionar as faltas alheias? Como podeis implorar o perdão de Deus? Pois vossa própria causa se agrava nos termos de vossas imprecações contra o outro, e proibis a Ele que faça concessão às vossas próprias faltas. Não poderia Ele dizer: Se quereis que Eu seja tão severo em exigir as ofensas cometidas contra vós, como podeis esperar que Eu perdoe as ofensas cometidas contra Mim?
Aprendamos, enfim, a ser cristãos! Se não sabemos orar, o que é coisa muito simples e fácil, que mais saberemos? Aprendamos a orar como cristãos. Aquelas são as orações dos gentios, as súplicas dos judeus. As do cristão são o contrário, pois consistem no perdão e no esquecimento das ofensas contra nós cometidas. Sendo injuriados, diz-se, bendizemos; sendo perseguidos, suportamos; sendo caluniados, suplicamos (1 Cor 4:12-13). Ouvi Estêvão dizendo: Senhor, não lhes imputes este pecado (At 7:60). Em vez de orar contra eles, orou por eles. Vós, em vez de orar por eles, proferis imprecações contra eles. Sois, pois, tão maus quanto ele foi excelente. Dizei-me: a quem admiramos — àqueles por quem ele orou, ou a ele, que orou por eles? A ele, certamente! E se nós o admiramos, muito mais Deus o admira.
Quereis que vosso inimigo seja ferido? Orai por ele; contudo não com essa intenção, não para feri-lo. Esse será, na verdade, o efeito, mas que não seja o vosso objetivo. Aquele bem-aventurado mártir sofreu tudo injustamente, e ainda assim orou por eles; nós sofremos muitas coisas justamente da parte de nossos inimigos. E se aquele que sofreu injustamente não ousou deixar de orar por seus inimigos, que castigo merecemos nós, que sofremos justamente e, contudo, não oramos por eles — antes, oramos contra eles? Pensais, na verdade, que estais desferindo um golpe contra o outro, mas, em verdade, estais cravando a espada contra vós mesmos. Não permitis que o Juiz seja clemente para com vossas próprias ofensas, por esse modo de urgi-Lo à ira contra os outros. Pois, com a medida com que medis, diz Ele, sereis medidos; e com o juízo com que julgais, sereis julgados (Mt 7:2). Sejamos, pois, dispostos a perdoar, para que Deus esteja assim disposto para conosco.
Estas coisas desejo que vós não apenas ouçais, mas observeis. Pois agora a memória retém somente as palavras, e talvez mal as retenha. E depois que nos separarmos, se alguém que não estivesse presente vos perguntasse qual fora nosso discurso, alguns não saberiam dizer; outros saberiam apenas o assunto de que havíamos falado, e responderiam que houvera uma Homilia sobre perdoar as ofensas e orar por nossos inimigos, mas omitiriam tudo o que fora dito, por não conseguirem lembrá-lo; outros ainda se lembram de um pouco, mas apenas isso. Se, portanto, nada ganhais com o que ouvis, rogo-vos que nem sequer assistais ao discurso. Pois de que serve? A condenação é maior, o castigo mais severo, se depois de tantas exortações permanecemos no mesmo curso. Por esta razão Deus nos deu uma forma definida de oração, para que nada pedíssemos de humano, nada de mundano. E vós, que sois fiéis, sabeis o que deveis pedir, e como toda a Oração é comum. Mas alguém diz: Ali não se manda orar pelos incrédulos. Isto não o dirieis, se compreendêsseis a força, a profundidade, o tesouro oculto daquela Oração. Apenas desdobrai-a, e achareis que também isto está nela compreendido. Pois está implícito quando se diz na oração: Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu. Ora, porque no céu não há incrédulo nem ofensor; se, portanto, fosse somente pelos fiéis, não haveria razão naquela expressão. Se os fiéis fizessem a vontade de Deus e os incrédulos não a fizessem, Sua vontade não seria feita na terra como no céu. Mas o que quer dizer é: Assim como não há nenhum perverso no céu, que também não haja nenhum na terra; mas atraí todos os homens ao temor de Vós, fazei de todos os homens anjos, mesmo daqueles que nos odeiam e são nossos inimigos. Não vedes como Deus é diariamente blasfemado e escarnecido por fiéis e incrédulos, tanto em palavra como em ação? E então? Extinguiu Ele por isso o sol? Ou deteve o curso da lua? Esmagou Ele os céus e desarraigou a terra? Secou Ele o mar? Fechou as fontes das águas? Ou confundiu o ar? Não; pelo contrário, faz nascer o Seu sol, faz descer a Sua chuva, dá os frutos da terra em suas estações, e assim fornece anualmente sustento aos blasfemadores, aos insensatos, aos poluídos, aos perseguidores; não por um dia ou dois, mas por toda a vida deles. Imitai-O, pois, emulai-O tanto quanto as forças humanas permitem. Não podeis fazer o sol nascer? Abstende-vos da maledicência. Não podeis enviar a chuva? Abstende-vos de insultar. Não podeis dar alimento? Abstende-vos da insolência. Tais dons de vossa parte são suficientes. A bondade de Deus para com os Seus inimigos manifesta-se por Suas obras. Fazei-o vós ao menos por palavras: orai por vossos inimigos, e assim sereis semelhantes ao vosso Pai que está nos céus. Quantas vezes já discorremos sobre este assunto! Nem cessaremos de discorrer; somente que algo resulte disso. Não é que estejamos sonolentos e cansados de falar; apenas não vos aborreçais vós, que ouvis. Ora, uma pessoa parece aborrecer-se quando não quer fazer o que se lhe diz. Pois aquele que pratica gosta muitas vezes de ouvir a mesma coisa, e não se aborrece com ela, pois é seu próprio louvor. Mas o aborrecimento surge simplesmente de não fazer o que se prescreve. Por isso o orador se torna importuno. Se um homem pratica a esmola, e ouve outro falar sobre a esmola, não se cansa, mas se compraz, pois ouve suas próprias boas ações recomendadas e proclamadas.
Portanto, quando nos aborrecemos ao ouvir um discurso sobre o perdão das injúrias, é porque não temos nenhum interesse na paciência, é porque ela não é praticada por nós; pois, se a possuíssemos de fato, não nos afligiríamos ao ouvi-la mencionada. Se, pois, não quereis que sejamos fastidiosos ou importunos, praticai o que pregamos, exibi em vossas ações o assunto de nossos discursos. Pois nunca cessaremos de discorrer sobre estas coisas até que a vossa conduta lhes seja conforme. E fazemos isto sobretudo por solicitude e afeição para convosco. Pois o trombeteiro deve soar sua trombeta, ainda que ninguém saia para a guerra; ele deve cumprir sua parte. Nós o fazemos, não por desejar trazer sobre vós condenação mais pesada, mas para desviá-la de nós mesmos. E, além disto, o amor por vós nos constrange, pois nos despedaçaria e atormentaria o coração se vos sucedesse aquilo que Deus afaste! Não é nenhum processo custoso o que vos recomendamos: não requer a dilapidação de bens, nem uma jornada longa e penosa. É apenas querer. É uma palavra, é um propósito da mente. Ponhamos apenas guarda em nossa língua, uma porta e um ferrolho sobre nossos lábios, para que nada profiramos que seja ofensivo a Deus. É para nossa própria vantagem, não para a daqueles por quem oramos, que devemos agir assim. Pois consideremos sempre que aquele que abençoa o seu inimigo, abençoa a si mesmo; aquele que amaldiçoa o seu inimigo, amaldiçoa a si mesmo; e aquele que ora por seu inimigo, não ora por ele, mas por si mesmo. Se assim agirmos, seremos capazes de reduzir à prática esta excelente virtude, e assim obter as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo.
A alma de alguns cristãos poderia ser tarda em ouvir isto e poderia resistir a esta exortação. Pois, na celebração dos sagrados mistérios, pode ser necessário oferecer orações por um rei pagão. Paulo mostra-lhes a vantagem de cumprir este dever, ao menos para reconciliá-los com o conselho, "para que possamos levar uma vida pacífica e tranquila." ... Pois Deus instituiu o governo para o bem público. Quando, pois, eles empregam a força para o bem comum e se põem de guarda por nossa segurança, não é razoável que ofereçamos orações por sua segurança nas guerras e nos perigos? Tais orações não são adulação excessiva, mas conformes às regras da justiça.
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Prezado, para pôr fim às guerras públicas, aos tumultos e às batalhas, ao Sacerdote se ordena que ofereça orações pelos reis e pelos governantes; muito mais, pois, devem os particulares fazê-lo. Porque há três espécies de guerra sobremaneira penosas. Uma é pública, quando os nossos soldados são atacados por exércitos estrangeiros; a segunda é quando, mesmo em tempo de paz, guerreamos uns contra os outros; a terceira é quando o indivíduo guerreia contra si mesmo, a qual é a pior de todas. Pois a guerra estrangeira não poderá prejudicar-nos gravemente. Que importa, pergunto, ainda que ela nos trucide e nos ceife? Não fere a alma. Tampouco a segunda terá poder para nos causar dano contra a nossa vontade; pois, ainda que outros guerreiem contra nós, podemos nós mesmos permanecer pacíficos. Assim diz o Profeta: Em troca do meu amor, eles se me tornam adversários, mas eu me dou à oração (Sl 109,4); e ainda: Eu estava em paz com os que odeiam a paz; e: Eu sou pela paz; mas, quando falo, eles são pela guerra (Sl 120,6-7, Septuaginta). Mas da terceira não podemos escapar sem perigo. Pois quando o corpo está em dissensão com a alma, e suscita desejos maus, e arma contra ela os prazeres sensuais, ou as más paixões da ira e da inveja, não podemos alcançar as bênçãos prometidas até que esta guerra chegue ao fim; quem não aplacar este tumulto há de cair traspassado por feridas que trarão aquela morte que é no inferno. Necessitamos, portanto, diariamente de cuidado e de grande solicitude, para que esta guerra não se suscite dentro de nós, ou, se suscitada, não perdure, mas seja domada e adormecida. Pois de que aproveita que o mundo goze de profunda paz, se tu estás em guerra contigo mesmo? Esta é, pois, a paz que devemos guardar. Se a possuirmos, nada de fora poderá nos causar dano. E para isto a paz pública não pouco contribui: donde se diz que possamos levar vida quieta e pacífica. Mas se alguém se perturba quando há quietude, é criatura mísera. Vedes que Ele fala desta paz que eu chamo de terceira espécie? Por isso, tendo dito que possamos levar vida quieta e pacífica, não se detém aí, mas acrescenta em toda piedade e honestidade. Ora, não podemos viver em piedade e honestidade, a menos que aquela paz esteja estabelecida. Pois quando raciocínios curiosos perturbam a nossa fé, que paz há? Ou quando espíritos de impureza, que paz há?
Pois, para que não suponhamos que ele fala daquele gênero de vida que todos os homens vivem, quando diz que levemos uma vida quieta e pacífica, acrescenta: em toda piedade e honestidade, uma vez que uma vida quieta e pacífica pode ser levada também pelos gentios, e mesmo homens dissolutos, e pessoas voluptuosas e devassas podem ser encontradas vivendo tal vida. Que não é isso o que se quer dizer, fica evidente pelo que ele acrescenta, em toda piedade e honestidade. Tal vida está exposta a laços e a conflitos, e a alma é diariamente ferida pelos tumultos de seus próprios pensamentos. Mas que gênero de vida ele realmente quer dizer, torna-se claro pelo que se segue, e claro também pelo fato de que ele não fala simplesmente de piedade, mas acrescenta, de toda piedade. Pois, ao dizer isso, ele parece insistir numa piedade não apenas de doutrina, mas de uma piedade sustentada também pela vida, pois em ambas certamente há de se exigir a piedade. Pois de que proveito é ser piedoso quanto à doutrina, mas ímpio quanto à vida? E que é bem possível ser ímpio na vida, ouve este mesmo bem-aventurado Apóstolo dizendo em outro lugar: Professam que conhecem a Deus, mas nas obras o negam (Tt 1,16). E ainda: Negou a fé, e é pior que um infiel (1 Tm 5,8). E: Se alguém que se chama irmão for fornicador, ou avarento, ou idólatra (1 Cor 5,11), tal homem não honra a Deus. E: Aquele que odeia a seu irmão não conhece a Deus (1 Jo 2,9). Tais são os diversos modos da impiedade. Por isso ele diz: Toda piedade e boa ordem. Pois não somente o fornicador carece de honestidade, mas também o avarento pode ser chamado desordenado e intemperante. Pois a avareza é uma concupiscência não menos que os apetites corporais, e aquele que não a castiga é chamado dissoluto. Pois os homens são chamados dissolutos por não refrearem seus desejos, de modo que o colérico, o invejoso, o avarento, o enganador, e todo aquele que vive no pecado, pode ser chamado dissoluto, desordenado e licencioso.
O que se diz ser aceitável? Orar por todos os homens. Isto Deus aceita, isto Ele quer.
Vede quão grande é a escuridão [ao discutir-se a natureza de Deus], e como em toda parte há necessidade de fé. Isto ao menos é certo e sólido. Mas passemos agora a matérias menos certas, por exemplo, à relação entre a vontade divina e o seu modo de operar. Será a vontade de Deus já imediatamente a sua operação? Será ela um tipo particular de causalidade? Se Deus é imutável, como entra a Sua vontade no movimento físico? ... Será o movimento na vontade de Deus redutível aos sete tipos conhecidos de causalidade? Será o movimento de Deus mais semelhante ao movimento da mente? Não exatamente. Pois em muitas coisas a mente se move até de modo absurdo. Quando Deus quer, já está Ele operando, ou não? Se querer é operar, e Deus quer que todos os homens sejam bons e sejam salvos, por que isto não se realiza imediatamente? Há aqui uma distinção mais sutil entre o querer [primordial] de Deus e a operação efetiva de Deus dentro da história.
Não temais orar pelos gentios. O próprio Deus o quer. Temei somente orar contra alguém. Pois isto Deus não o quer. E se orais pelos pagãos, deveis, por certo, orar também pelos hereges, pois devemos orar por toda a humanidade, e não persegui-la. E isto é bom também por outra razão: somos participantes da mesma natureza. Deus nos chama a ter boa vontade e afeto uns para com os outros.
Imitai a Deus! Se Ele quer que todos os homens se salvem, há razão para que se ore por todos; se Ele quis que todos se salvassem, quere-o também tu; e se o queres, ora por isso, pois os desejos conduzem às orações. Observai como, de toda parte, Ele insta com a alma para que ore pelos gentios, mostrando quão grande vantagem daí procede: que possamos levar uma vida quieta e pacífica; e, o que é muito mais do que isto, que é agradável a Deus, e assim os homens se tornam semelhantes a Ele, na medida em que querem o mesmo que Ele quer. Isto basta para envergonhar até um bruto. Não temais, pois, orar pelos gentios, pois o próprio Deus o quer; temei somente orar contra alguém, pois isto Ele não o quer. E se orais pelos gentios, deveis, por certo, orar também pelos hereges, pois devemos orar por todos os homens, e não persegui-los. E isto é bom também por outra razão, visto sermos participantes da mesma natureza, e Deus ordena e aceita a benevolência e o afeto uns para com os outros.
Mas se o próprio Senhor quer dar, dirás, que necessidade há da minha oração? Ela é de grande proveito tanto para eles quanto para ti mesmo. Atrai-os ao amor, e inclina-te à humanidade. Tem o poder de atrair outros à fé (pois muitos homens se afastaram de Deus por contendas uns com os outros); e a isto chama ele agora a salvação de Deus, que quer que todos os homens se salvem; sem isto, tudo o mais nada é de grande, senão uma salvação nominal, e apenas em palavras. E que cheguem ao conhecimento da verdade. A verdade: que verdade? A fé nEle. E, de fato, ele já dissera antes: Manda a alguns que não ensinem outra doutrina. Mas para que ninguém os considere como inimigos, e por isso levante contendas contra eles, diz que Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade; e, tendo dito isto, acrescenta,
Ele diz que "há um só Deus", isto é, não como alguns dizem, muitos, e que Ele enviou Seu Filho como mediador, dando assim prova de que deseja que todos sejam salvos. Mas não é o Filho Deus? Muito verdadeiramente Ele o é. Por que, então, diz "um só Deus"? Para distinguir o único Deus dos ídolos, não do Filho.
Havia antes dito, para vir ao conhecimento da verdade, dando a entender que o mundo não está na verdade. Agora diz que há um só Deus, isto é, não como alguns dizem, muitos, e que Ele enviou Seu Filho como Mediador, dando assim prova de que quer que todos os homens sejam salvos. Mas não é o Filho Deus? Muito verdadeiramente Ele o é; por que, então, diz Um só Deus? Em contraposição aos ídolos, não ao Filho. Pois discorre acerca da verdade e do erro. Ora, convém que um mediador tenha comunhão com ambas as partes entre as quais há de mediar. Pois esta é a propriedade do mediador: estar em estreita comunhão com cada um daqueles de quem é mediador. Pois já não seria mediador, se estivesse unido a um e separado do outro. Se, portanto, Ele não participa da natureza do Pai, não é Mediador, mas está separado. Pois assim como participa da natureza dos homens, porque veio aos homens, assim participa da natureza de Deus, porque veio de Deus. Porquanto havia de mediar entre duas naturezas, era necessário que se aproximasse das duas naturezas; pois, assim como o lugar situado entre outros dois se une a cada um dos lugares, assim também o que está entre as naturezas deve unir-se a cada uma das naturezas. Assim, pois, como Se fez Homem, assim também era Deus. Um homem não poderia ter-se feito mediador, porque também Lhe cumpriria interceder junto de Deus. Deus não poderia ter sido mediador, uma vez que não O poderiam receber aqueles junto de quem deveria mediar. E como noutro lugar diz: Há um só Deus Pai... e um só Senhor Jesus Cristo (1 Cor 8,6); assim também aqui: Um só Deus, e um só Mediador; não diz dois; pois não quereria que esse número fosse deturpado para o politeísmo, do qual estava a falar. Escreveu, pois, Um e Um. Vede quão exatas são as expressões da Escritura! Pois embora um e um sejam dois, não devemos dizer isto, ainda que a razão o sugira. E aqui não dizes que um e um são dois, e todavia dizes o que a razão não sugere. Se gerou, também padeceu. Pois há um só Deus, diz ele, e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus.
Foi, então, Cristo um resgate pelos gentios? Sem dúvida Cristo morreu até mesmo pelos gentios; e tu não suportas orar por eles. Por que, então, perguntas, não creram eles? Porque não quiseram; mas a parte que Lhe cabia foi cumprida. O Seu sofrimento foi um testemunho, diz ele; pois veio, quer isto dizer, para dar testemunho da verdade do Pai, e foi morto. Assim, não só o Pai deu testemunho d'Ele, mas Ele também deu testemunho do Pai. Pois Eu vim, diz Ele, em nome de Meu Pai (Jo 5,43). E ainda: Ninguém jamais viu a Deus (Jo 1,18). E ainda: Para que Te conheçam, o único Deus verdadeiro (Jo 17,3). E: Deus é Espírito (Jo 4,24). E deu testemunho até a morte. Mas isto, a seu tempo, significa: no tempo mais oportuno.
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Se o Filho nasceu rei perfeito e acabado, é também manifesto que Ele é juiz e árbitro. Pois é sobretudo próprio do rei fazer decisões e julgamentos, tanto para conceder honras quanto para punir. E outra fonte pode ajudar-te a ver que Ele tem o poder de conceder honras celestiais. Traremos, pois, à frente aquele homem que é melhor que todos os homens, e mostraremos que Cristo concedeu a este homem uma coroa... Quem é aquele que é melhor que todos os homens? Quem, senão aquele fabricante de tendas, aquele doutor do mundo inteiro, aquele que percorreu terra e mar como se equipado de asas, o vaso escolhido, o servo de Cristo Esposo, aquele que plantou a Igreja, o sábio construtor, o pregador, aquele que correu a carreira e combateu o bom combate, o soldado, o treinador de atletas, aquele que deixou memoriais da própria virtude em toda parte do mundo.
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Ora, uma vez que Cristo padeceu pelos gentios, e eu fui separado para ser doutor dos gentios, por que recusais orar por eles? Mostra plenamente sua própria credibilidade ao dizer que fora ordenado (At 13:2), isto é, separado para este fim, sendo os demais Apóstolos remissos em ensinar os gentios; acrescenta, em fé e verdade, para mostrar que naquela fé não havia engano. Aqui é de notar-se a extensão da graça. Pois os judeus não tinham orações pelos gentios; mas agora a graça se estende a eles: e quando diz que fora separado para ser Doutor dos gentios, dá a entender que a graça se derramava então sobre toda parte do mundo.
Deu-se a Si mesmo em resgate, diz ele; como, pois, foi Ele entregue pelo Pai? Porque isto proveio de Sua bondade. E que significa resgate? Deus estava para castigá-los, mas absteve-Se de o fazer. Eles estavam para perecer, mas em lugar deles Ele deu Seu próprio Filho, e a nós enviou como arautos para proclamar a Cruz. Estas coisas bastam para atrair a todos, e para demonstrar o amor de Cristo. Moral. Tão verdadeiros, tão inefavelmente grandes são os benefícios que Deus nos outorgou. Sacrificou-Se a Si mesmo por Seus inimigos, que O odiavam e O rejeitavam. O que ninguém faria por amigos, por irmãos, por filhos, isso fez o Senhor por Seus servos; um Senhor que não era Ele mesmo tal como Seus servos, mas Deus por homens; por homens que não O mereciam. Pois se fossem merecedores, se tivessem feito Sua vontade, seria menos admirável; mas que Ele tenha morrido por criaturas tão ingratas, tão obstinadas, isto é o que fere de espanto toda mente. Pois o que os homens não fariam por seus semelhantes, isso fez Deus por nós! Contudo, após tal demonstração de amor para conosco, retraímo-nos, e não somos diligentes em nosso amor a Cristo. Ele Se sacrificou por nós; por Ele nenhum sacrifício fazemos. Descuidamo-Nos dEle quando carece do alimento necessário; enfermo e nu, não O visitamos. Que não mereceríamos, que ira, que castigo, que inferno? Ainda que não houvesse outro incentivo, bastaria para persuadir a todos que Ele Se dignou fazer Suas as dores humanas, ao dizer: tenho fome, tenho sede.
Ó tirania da riqueza! Ou antes, iniquidade dos que lhe são escravos voluntários! Pois ela não tem por si mesma grande poder algum, mas o recebe de nossa fraqueza e servilidade: somos nós que somos vis e rastejantes, carnais e sem entendimento. Pois que poder tem o dinheiro? É mudo e insensível. Se o demônio, aquele espírito perverso, aquele astuto confundidor de todas as coisas, não tem poder algum, que poder teria o dinheiro? Quando olhares para a prata, imagina que é estanho! Não podes? Então tem-na pelo que na verdade é; pois é terra. Mas se não podes raciocinar assim, considera que também nós pereceremos, que muitos dos que a possuíram quase nenhuma vantagem colheram dela, que milhares dos que nela se gloriavam são agora pó e cinza. Que padecem castigo extremo, e são muito mais mendigos do que aqueles que se alimentavam em vasilhas de vidro e de barro; que os que outrora se reclinavam em leitos de marfim são agora mais pobres do que os que jazem sobre o esterco. Mas ela deleita os olhos! Quantas outras coisas os deleitam mais! As flores, o céu puro, o firmamento, o sol resplandecente são muito mais agradáveis à vista. Pois ela tem muito de ferrugem, donde alguns afirmaram que era negra, o que se manifesta pelas imagens que se enegrecem. Mas não há negrume algum no sol, no céu, nas estrelas. Muito maior deleite há nestes esplendores do que na cor dela. Não é, pois, seu brilho que a faz agradar, mas a cobiça e a iniquidade; estas, e não o dinheiro, dão o prazer. Lança-as fora de tua alma, e o que parecia tão precioso te parecerá mais vil que o barro. Os que estão em febre anseiam pela lama quando a veem, como se fosse água de fonte; mas os que gozam de boa saúde raramente desejam sequer a água. Lança fora este apetite mórbido, e verás as coisas como são. E para provar que não falo falsamente, sabe que posso apontar muitos que assim fizeram. Extingue esta chama, e verás que estas coisas valem menos que as flores.
É bom o ouro? Sim, é bom para a esmola, para o alívio dos pobres; é bom, não para uso infrutífero, para ser entesourado ou enterrado na terra, para ser trazido nas mãos, nos pés ou na cabeça. Foi descoberto para este fim: que com ele resgatássemos os cativos, não para que dele formássemos uma cadeia para a imagem de Deus. Usa teu ouro para isto, para libertar o que está preso, não para acorrentar a que é livre. Dize-me, por que estimas acima de todas as coisas o que é de tão pouco valor? É, porventura, menos cadeia por ser de ouro? Faz o material alguma diferença? Seja ouro ou ferro, ainda é cadeia; antes, o ouro é mais pesado. Que é, pois, o que a torna leve, senão a vanglória, e o prazer de ser visto trazendo uma cadeia, da qual antes deverias envergonhar-te? Para tornar isto evidente, prende-a, e coloca a que a traz num deserto, ou onde ninguém a veja, e logo sentirá a cadeia pesada, e a terá por fardo.
Amados, temamos, para que não sejamos condenados a ouvir aquelas terríveis palavras: *Amarrai-o de pés e mãos* (Mt 22,13). E por que, ó mulher, fazes agora isso a ti mesma? Nenhum prisioneiro tem ao mesmo tempo as mãos e os pés amarrados. Por que amarras também a cabeça? Pois não te contentas com as mãos e os pés, mas atas a cabeça e o pescoço com numerosas correntes. Deixo de lado o cuidado que disso resulta, o temor, o sobressalto, a contenda que tais coisas suscitam com teu marido sempre que ele as reclama, e a morte que é para as pessoas quando perdem alguma delas. Podes chamar isto de prazer? Para agradar aos olhos alheios, sujeitas-te a correntes, e a cuidados, e a perigos, e a inquietações, e a contendas cotidianas? Isto é digno de toda censura e condenação. Antes, rogo-vos, não façamos assim; rompamos todo laço de iniquidade (At 8,23); repartamos o nosso pão com o faminto, e façamos todas as demais coisas que possam assegurar-nos confiança diante de Deus, a fim de que alcancemos os bens prometidos por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, com o qual, etc.
O propósito de Paulo é distinguir a oração cristã da judaica. Observai, pois, o que ele diz: "levantando em todo lugar mãos santas" — o que não era permitido aos judeus, pois não lhes era lícito aproximar-se de Deus, sacrificar e realizar seus cultos em outro lugar. Antes, reunindo-se de todas as partes do mundo em um só lugar, eram obrigados a cumprir todo o seu culto no templo... Doravante, a consideração não é acerca do lugar, mas do modo da oração. "Orai em todo lugar", mas "em todo lugar levantai mãos santas". É isto o que se requer. E o que é "santo"? Puro. E o que é puro? Não lavado com água, mas livre de cobiça, de homicídio, de rapina, de violência, "sem ira e sem discussão".
Quando orardes, diz Cristo, não sereis como os hipócritas; porque eles amam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará abertamente (Mt 6.5-6). Que diz então Paulo? Quero, pois, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda. Isso não contradiz o primeiro preceito — longe disso — mas está em pleno acordo com ele. Mas como, e de que modo? Devemos primeiro considerar o que significa "entra no teu quarto", e por que Cristo ordena isso, se é para orarmos em todo lugar. Ou se não nos é permitido orar na igreja, nem em qualquer outra parte da casa, senão no quarto? Que significa, pois, aquele dito? Cristo nos recomenda evitar a ostentação, quando nos ordena que ofereçamos as nossas orações não apenas em particular, mas em secreto. Pois, quando diz: "Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita" (Mt 6.3), não são as mãos que Ele tem em vista, mas está a ordenar que se tenha o máximo cuidado contra a ostentação; e é isso mesmo que faz aqui; não restringiu a oração a um só lugar, mas exigiu uma única coisa: a ausência da vanglória. O propósito de Paulo é distinguir as orações cristãs das judaicas; observai, pois, o que ele diz: "Em todo lugar, levantando mãos santas" — coisa que não era permitida aos judeus, pois não lhes era lícito aproximar-se de Deus, oferecer sacrifícios e cumprir os seus ritos senão em um único lugar; antes, congregando-se de todas as partes do mundo, eram obrigados a realizar todo o seu culto no templo. Em oposição a isso, introduz o seu preceito e, libertando-os dessa necessidade, diz em efeito: Os nossos caminhos não são como os dos judeus; pois, assim como Cristo nos ordenou orar por todos os homens, porque morreu por todos os homens, e eu prego estas coisas para todos os homens, assim também é bom orar em todo lugar. Doravante, a consideração não é do lugar, mas do modo da oração; orai em todo lugar, mas em todo lugar levantai mãos santas. É isso o que se exige. E o que é santo? O que é puro. E o que é puro? Não o que foi lavado com água, mas o que está livre da cobiça, do homicídio, da rapina, da violência, sem ira nem contenda. Que significa isto? Quem se ira ao orar? Significa: sem guardar rancor. Que a mente daquele que ora seja pura, liberta de toda paixão. Que ninguém se aproxime de Deus em inimizade, ou com ânimo hostil, ou com dúvida. O que é "sem dúvida"? Ouçamos. Implica que não devemos ter nenhuma desconfiança de que seremos ouvidos. Pois está dito: "Tudo quanto pedirdes, crendo, recebereis" (Mt 21.22). E ainda: "E quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém" (Mc 11.25). Isto é orar sem ira nem contenda. Mas como posso crer que obterei o que peço? Pedindo nada que seja contrário ao que Ele está pronto a conceder, nada indigno do grande Rei, nada mundano, mas todas as bênçãos espirituais; se te aproximares dEle sem ira, tendo mãos puras, mãos santas: santas são as mãos empregadas na esmola. Aproxima-te dEle assim, e certamente obterás o que pedes. Pois, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem? (Mt 7.11). Por "dúvida" ele entende a desconfiança.
Ele diz igualmente: quero que as mulheres se aproximem de Deus sem ira nem contenda, levantando mãos santas; que não sigam seus próprios desejos, nem sejam cobiçosas ou rapaces. Pois que importa se a mulher não rouba ou furta por si mesma, mas o faz por meio do marido? Paulo, porém, exige algo mais das mulheres: que se ataviem com traje modesto, com pudor e sobriedade; não com cabelos entrançados, ou ouro, ou pérolas, ou vestes custosas; mas (o que convém a mulheres que professam a piedade) com boas obras. Mas que é este traje modesto? É aquele que as cobre completa e decentemente, não com adornos supérfluos, pois um convém, o outro não.
Moral. Quê? Aproximas-te de Deus para orar com cabelos entrançados e adornos de ouro? Vieste a uma dança? A um casamento? A um cortejo festivo? Ali tal entrançado, tais vestes custosas, teriam sido oportunas; aqui nenhuma delas é necessária. Vieste para orar, para suplicar o perdão de teus pecados, para pleitear por tuas ofensas, rogando ao Senhor, e esperando torná-lO propício a ti. Por que te adornas? Este não é o traje de um suplicante. Como podes gemer? Como podes chorar? Como orar com fervor, assim vestida? Ainda que chores, tuas lágrimas serão o escárnio dos que te contemplam. Aquela que chora não deve trazer ouro. Seria mera representação e hipocrisia. Pois não é representar derramar lágrimas de uma alma tão sobrecarregada de extravagância e ambição? Fora tal hipocrisia! Deus não se deixa escarnecer! Este é o traje dos atores e dançarinos que vivem sobre o palco. Nada disto convém a uma mulher modesta, que deve ser adornada com pudor e sobriedade.
Não imiteis, portanto, as cortesãs. Pois por tal traje elas atraem seus muitos amantes; e daí muitas incorreram em suspeita vergonhosa, e, em vez de auferir qualquer vantagem de seus adornos, prejudicaram a muitas ao levar tal reputação. Pois assim como a adúltera, ainda que possa ter reputação de modéstia, nenhum benefício obtém dessa reputação no Dia em que Aquele que julga os segredos dos homens tornará todas as coisas manifestas; assim também a mulher modesta, se por este traje conseguir passar por adúltera, perderá a vantagem de sua castidade. Pois muitas sofreram dano por esta opinião. Que posso fazer, dizes tu, se outrem suspeita de mim? Mas és tu quem dá a ocasião pelo teu traje, teus olhares, teus gestos. É por esta razão que Paulo discorre tanto sobre o vestuário e tanto sobre a modéstia. E se ele quisesse remover aquelas coisas que são apenas indícios de riqueza, como ouro, e pérolas, e vestes custosas; quanto mais aquelas coisas que implicam adorno estudado, como a pintura, o colorido dos olhos, o andar afetado, a voz artificiosa, o olhar lânguido e lascivo; o cuidado requintado em vestir o manto e o corpete, o cinto primorosamente lavrado, e os calçados justamente ajustados? Pois ele alude a todas estas coisas ao falar de traje modesto e pudor. Pois tais coisas são impudicas e indecentes.
Suportai-me, eu vo-lo suplico, pois não é meu propósito, com esta franca repreensão, feri-vos ou causar-vos dor, mas antes remover do meu rebanho tudo quanto lhe seja impróprio. Mas se estas proibições se dirigem àquelas que têm maridos, que são ricas e vivem em luxo, muito mais se dirigem às que professaram a virgindade. Mas que virgem, direis vós, usa ouro ou cabelos entrançados? Contudo, pode haver num vestido singelo um esmero tão estudado que aqueles nada sejam diante dele. Podeis cuidar da aparência numa veste comum mais do que as que trajam ouro. Pois quando uma túnica de cor muito escura é cingida estreitamente ao peito com o cinto (como se trajam as dançarinas no teatro), com tal esmero que não se alargue em demasia nem se estreite em excesso, mas fique entre um e outro extremo; e quando o seio é realçado com muitas pregas, não é isto mais sedutor que quaisquer vestes de seda? E quando o calçado, resplandecente em sua negrura, termina em ponta aguda e imita a elegância da pintura, de modo que mal se vê a largura da sola — ou quando, ainda que não pinteis de fato o rosto, gastais muito tempo e cuidado em lavá-lo, e estendeis sobre a fronte um véu mais branco que o próprio rosto — e sobre este pondes um capuz, cuja negrura, por contraste, realça a brancura — não há em tudo isto a vaidade do vestir? Que se poderá dizer do perpétuo revirar dos olhos? Da colocação do peitilho, com tal artifício que ora oculta, ora deixa à mostra o fecho? Pois também isto por vezes expõem, para mostrar o esmero do cinto, enrolando o capuz inteiramente em torno da cabeça. Depois, como as comediantes, calçam luvas tão justas que parecem nascer sobre as mãos: e poderíamos falar também do seu andar, e de outros artifícios mais sedutores que qualquer adorno de ouro. Temamos, amados, não venhamos também nós a ouvir o que disse o Profeta às mulheres hebreias tão zelosas do ornamento exterior: "Em lugar de cinto, sereis cingidas com uma corda; em lugar de cabelos bem compostos, a calvície" (Is 3.24, Septuaginta). Estas coisas, e muitas outras, inventadas somente para serem vistas e para atrair os que as contemplam, são mais sedutoras que os adornos de ouro. Não são estas faltas leves, mas desagradáveis a Deus, e bastantes para arruinar toda a abnegação da virgindade.
Tendes a Cristo por Esposo, ó virgem; por que buscais atrair amantes humanos? Ele vos julgará como adúltera. Por que não trazeis o ornamento que Lhe é agradável: a modéstia, a castidade, a compostura e o traje sóbrio? Isto é meretrício e vergonhoso. Já não podemos distinguir as meretrizes das virgens, a tal indecência chegaram estas. O traje de uma virgem não deve ser estudado, mas simples e sem artifício; mas agora têm elas muitos ardis para tornar conspícuo o seu vestido. Ó mulher, cessa dessa loucura. Transfere este cuidado para a tua alma, para o ornamento interior. Pois o adorno exterior que te reveste não permite que o interior se torne belo. Aquele que se preocupa com o que é exterior despreza o que é interior, assim como aquele que não se preocupa com o exterior consagra todo o seu cuidado ao interior. Não digas: Ai de mim! Trago uma veste puída, calçado humilde, um véu sem valor; que ornamento há nisto? Não te enganes. É impossível, como disse, estudar a aparência mais por meio destas coisas do que por vestes mais custosas; sobretudo quando são justas ao corpo, talhadas para uma exibição imodesta e de reluzente esmero. A mim te desculpas, mas que poderás dizer a Deus, que conhece o coração e o espírito com que fazes estas coisas? Não é por fornicação! Talvez não, mas por admiração; e não coras de vergonha por seres admirada por tais coisas? Mas dizes: É por acaso que assim me trajo, e sem nenhuma intenção deste gênero. Deus sabe o que me dizes: é a mim que hás de prestar contas? De modo nenhum; é Àquele que está presente em teus atos, e que um dia os há de inquirir, para quem todas as coisas são nuas e manifestas. É por esta razão que agora urgimos estas coisas, para que não sejais responsáveis perante aqueles severos juízos. Temamos, pois, que Ele vos repreenda com as palavras do Profeta às mulheres judias: Elas vêm para serem vistas por mim, meneando-se e andando com passos afetados, e fazendo tinir os seus pés. Isaías 3:16
Tomastes sobre ti um grande combate, no qual se requer luta, e não ornamento; onde te espera a batalha, e não a indolência e o ócio. Observai os combatentes e lutadores nos jogos. Acaso se preocupam eles com o seu andar ou com o seu vestuário? Não; antes, desprezando tudo isso, e envolvendo-se num manto embebido de óleo, atentam para uma só coisa: ferir, e não ser feridos. O demônio está de pé, rangendo os dentes, observando para te destruir por todos os modos, e tu permaneces despreocupada, ou preocupada somente com este ornamento satânico. Nada digo acerca da voz, ainda que também nisto se mostre muita afetação, nem acerca dos perfumes e outros luxos semelhantes. É por estas coisas que somos ridicularizados pelas mulheres do mundo. Perdeu-se o respeito pela virgindade. Ninguém honra a virgem como ela deveria ser honrada. Deram elas mesmas ocasião à própria desonra. Não deveriam elas ser respeitadas na Igreja de Deus, como mulheres vindas do céu? Mas agora são desprezadas, e merecidamente — não, contudo, aquelas dentre elas que são discretas. Mas quando uma que tem marido e filhos, e preside a uma casa, te vê a ti, que deverias estar crucificada para o mundo, mais dedicada ao mundo do que ela própria, não há de ela ridicularizar-te e desprezar-te? Vede que cuidado! Que esmero! No teu vestido humilde, excedes aquela que traz o mais custoso ornamento, e és mais estudiosa da aparência do que a que se adorna com ouro. O que te convém não buscas; o que te desconvém persegues, quando deverias estar ocupada em boas obras. Por isso as virgens são menos honradas que as mulheres do mundo. Pois não realizam obras dignas de sua profissão virginal. Isto não se diz a todas; ou antes, diz-se a todas: às que são culpadas, para que aprendam a modéstia; às que estão livres de culpa, para que ensinem a modéstia às outras. Mas cuidai que esta repreensão não se verifique de fato em vós. Pois não dissemos estas coisas para vos afligir, mas para vos corrigir, para que em vós nos glorienos. E façamos todos nós aquilo que é aceitável a Deus, e vivamos para Sua glória, a fim de alcançarmos os bens prometidos pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, etc.
Por que razão poderás alegar, que defesa apresentarás, quando o Senhor te imputar estas pérolas e trouxer ao teu meio os pobres que pereceram de fome? Por esta razão disse Paulo: "não com cabelos entrançados, ou ouro, ou pérolas, ou vestes custosas". Pois estas seriam um laço (...). Tira todo o ornamento e põe-no nas mãos de Cristo por meio dos pobres.
Igualmente com os homens, as mulheres são chamadas a aproximar-se de Deus sem ira nem contenda, levantando mãos santas, não seguindo os próprios desejos, nem sendo cobiçosas ou rapaces (...). Paulo, porém, requer algo mais das mulheres: que se adornem "com traje modesto, com pudor e sobriedade" (...) traje tal que as cubra por inteiro, e decentemente, não com ornamentos supérfluos, pois uma coisa é decorosa, a outra não.
Gemas e ouro e vestes custosas e flores bordadas com pródiga variedade de cores, e tudo o mais que por natureza é perecível, de modo algum adornam as almas. Mas o seguinte, sim: jejuns, santas vigílias, mansidão, sensatez, pobreza, coragem, humildade, paciência — numa palavra, o desprezo por tudo quanto é passageiro nesta vida.
Grande modéstia e grande decoro exige o bem-aventurado Paulo das mulheres, e isto não somente quanto ao seu traje e aparência: ele avança até a regular-lhes a fala. E que diz ele? Aprenda a mulher em silêncio; isto é, que ela não fale absolutamente na igreja; regra esta que ele também deu em sua Epístola aos Coríntios, onde diz: É vergonhoso para as mulheres falar na igreja (1 Cor 14,35); e a razão é que a lei as fez sujeitas aos homens. E ainda alhures: E se quiserem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos (1 Cor 14,35). Então, na verdade, as mulheres, por tal ensino, guardavam silêncio; mas agora costuma haver entre elas grande alarido, muita clamor e conversa, e em nenhum lugar tanto quanto neste. Pode-se vê-las todas aqui conversando mais do que no mercado, ou nos banhos. Pois, como se viessem aqui para recreação, todas se ocupam em discorrer sobre assuntos improveitosos. Assim tudo é confusão, e parecem não compreender que, a menos que se aquietem, nada de útil poderão aprender. Pois quando nosso discurso se esforça contra a algazarra, e ninguém atenta ao que se diz, que proveito lhes pode trazer? A tal ponto devem as mulheres calar-se, que não lhes é permitido falar, não apenas sobre as coisas do mundo, mas nem sequer sobre as coisas espirituais, na igreja. Isto é ordem, isto é modéstia, isto a ornará mais do que quaisquer vestes. Assim ataviada, poderá ela oferecer suas orações da maneira mais conveniente.
Pois entre nós, na verdade, a mulher é razoavelmente sujeita ao homem, uma vez que a igualdade de honra gera contenda. E não somente por esta causa, mas também em razão do engano que sucedeu no princípio. Vede que Eva não foi sujeitada em sua condição original, tal como foi feita. Nem foi chamada à submissão quando Deus primeiramente a trouxe ao homem. Nada ela ouviu então de Deus acerca da submissão. Nem Adão originalmente lhe disse tal palavra. Antes disse, sim, que ela era "osso de seus ossos e carne de sua carne", mas de domínio ou sujeição nada mencionou. Isto só sucedeu depois que ela fez mau uso de seu privilégio. Aquela que fora feita auxiliadora revelou-se sedutora. Então a relação original foi arruinada, e justamente lhe foi dito para o futuro: "o teu desejo será para o teu marido".
A lei divina, na verdade, excluiu as mulheres do ministério, mas elas se esforçam por nele se intrometer. E, visto que nada podem por si mesmas, tudo fazem por intermédio de outros. Deste modo se revestiram de tanto poder que podem instituir ou expulsar sacerdotes a seu arbítrio. As coisas, de fato, estão invertidas, e pode-se ver realizado o dito proverbial: "Os que são guiados guiam os guias". Seria de desejar que fossem homens a dar tal orientação, e não mulheres, que não receberam comissão para dar instrução na igreja. Por que digo "dar instrução"? O bem-aventurado Paulo nem sequer lhes permitiu falar com autoridade na igreja. Mas ouvi dizer que alcançaram tão grande privilégio de livre palavra, que chegam a repreender os prelados das igrejas e a censurá-los mais severamente do que os senhores fazem a seus próprios servos.
Segundo ele, "não permito que a mulher ensine." "Não permito", diz ele. Que lugar tem este preceito aqui? O mais adequado. Ele vinha falando do silêncio, da decência, do pudor; e assim, tendo dito que não queria que elas falassem na igreja, para cortar toda ocasião de conversa, diz: que não ensinem, mas ocupem o lugar de aprendizes. Pois assim demonstrarão submissão pelo seu silêncio. Porque o sexo é por natureza um tanto falador, e por isso ele as restringe por todos os lados. Pois Adão, diz ele, foi formado primeiro, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, tendo sido enganada, incorreu em transgressão.
Se se pergunta o que isto tem a ver com as mulheres do tempo presente, mostra que o sexo masculino gozava da honra mais elevada. O homem foi formado primeiro; e em outro lugar ele mostra a superioridade deles: "Nem foi o homem criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem" (1 Cor 11,9). Por que, então, diz ele isto? Ele quer que o homem tenha a preeminência em todo sentido: tanto pela razão já dada — quer dizer, que ele tenha precedência — quanto por causa do que sucedeu depois. Pois a mulher ensinou o homem uma vez, e o fez culpado de desobediência, e operou nossa ruína. Portanto, porque ela fez mau uso de seu poder sobre o homem, ou antes, de sua igualdade com ele, Deus a sujeitou a seu marido. "O teu desejo será para o teu marido" (Gn 3,16). Isto não lhe havia sido dito antes.
Ora, como não teria sido Adão enganado? Se não foi enganado, não teria então transgredido? Atende cuidadosamente. A mulher disse: A serpente me seduziu. Mas o homem não disse: A mulher me enganou, mas antes: Ela me deu da árvore, e eu comi. Ora, não é a mesma coisa ser enganado por uma criatura semelhante, da mesma espécie, ou por um animal inferior e subordinado. Isto sim é, propriamente, ser enganado. Comparado, pois, com a mulher, ele é dito não enganado. Pois ela foi seduzida por um inferior e súdito, ele por uma igual. Além disso, não se diz do homem que viu que a árvore era boa para se comer, mas da mulher, e que ela comeu, e deu a seu marido; de modo que ele transgrediu, não arrebatado pelo apetite, mas tão somente pela persuasão de sua esposa. A mulher ensinou uma vez, e arruinou tudo. Por isso, pois, diz ele: que ela não ensine. Mas que importa às demais mulheres o que ela sofreu? Certamente lhes importa; pois o sexo é fraco e inconstante, e ele fala do sexo coletivamente. Pois não diz Eva, mas a mulher, que é o nome comum de todo o sexo, não seu nome próprio. Foi, então, todo o sexo incluído na transgressão por causa da falta dela? Como disse de Adão: À semelhança da transgressão de Adão, que é figura Daquele que havia de vir (Rm 5,14), assim também aqui foi o sexo feminino que transgrediu, e não o masculino. Não serão, então, as mulheres salvas? Sim, por meio dos filhos. Pois não é de Eva que ele diz: Se permanecerem na fé, na caridade e na santidade com sobriedade. Que fé? Que caridade? Que santidade com sobriedade? É como se dissesse: Vós, mulheres, não vos abateis, porque vosso sexo incorreu em culpa. Deus vos concedeu outra oportunidade de salvação, pela criação dos filhos, de modo que sois salvas, não só por vós mesmas, mas também por outras. Vede quantas questões se envolvem nesta matéria. A mulher, diz ele, sendo enganada, incorreu na transgressão. Que mulher? Eva. Será ela então salva pela maternidade? Não diz isso, mas que a raça das mulheres será salva. Não estava, então, envolvida na transgressão? Sim, estava; ainda assim Eva transgrediu, mas todo o sexo será salvo, não obstante, pela maternidade. E por que não por sua própria virtude pessoal? Pois teria ela excluído as demais desta salvação? E que será das virgens, das estéreis, das viúvas que perderam seus maridos antes de terem filhos? Perecerão elas? Não há esperança para elas? Contudo, as virgens são tidas na mais alta estima. Que quer ele, então, dizer?
Alguns interpretam seu sentido assim: como o que sucedeu à primeira mulher ocasionou a sujeição de todo o sexo (pois, visto que Eva foi formada em segundo lugar e feita sujeita, diz ele, que o restante do sexo esteja em sujeição), assim também, porque ela transgrediu, o restante do sexo está igualmente na transgressão. Mas este não é um raciocínio justo; pois na criação tudo era dom de Deus, ao passo que, neste caso, trata-se de consequência do pecado da mulher. Eis, porém, a suma do que ele diz: como todos os homens morreram por um só, porque aquele um pecou, assim toda a estirpe feminina transgrediu, porque a mulher esteve na transgressão. Que ela, contudo, não se aflija: Deus lhe concedeu não pequena consolação, a saber, a maternidade. E se se disser que isto é da natureza, também aquilo é da natureza; pois não apenas o que é da natureza lhe foi concedido, mas também a criação dos filhos — se elas perseverarem na fé, na caridade e na santidade, com sobriedade; isto é, se, depois de dar à luz, as conservarem na caridade e na pureza. Por estes meios terão elas não pequena recompensa por sua causa, porquanto formaram lutadores para o serviço de Cristo. Por santidade ele designa a boa vida, a modéstia e a sobriedade.
A primeira de todas as qualidades que um presbítero ou bispo deve possuir é purificar inteiramente sua alma da ambição pelo ofício... O caminho reto, penso eu, é ter tão reverente estima pelo ofício que se evite sua responsabilidade desde o início... Mas, se alguém se apegar a um posto para o qual não é apto, priva-se de todo perdão e provoca ainda mais a ira de Deus, acrescentando uma segunda e mais grave falta... É, na verdade, uma terrível tentação cobiçar esta honra. E, ao dizê-lo, não contradigo São Paulo, mas concordo inteiramente com o que ele diz. Quais são suas palavras? "Se alguém busca o episcopado, deseja uma boa obra." O terrível é desejar a autoridade absoluta e o poder do bispo, mas não a obra em si mesma.
Ao passar agora a discorrer sobre o ofício episcopal, começa mostrando que espécie de homem deve ser um Bispo. E aqui não o faz como no curso de sua exortação a Timóteo, mas se dirige a todos, e instrui os demais por meio dele. E que diz ele? Se alguém deseja o ofício de Bispo, não o censuro, pois é obra de proteção. Se alguém tem este desejo, de modo que não cobiça o domínio e a autoridade, mas deseja proteger a Igreja, não o censuro. Pois deseja uma boa obra. Até Moisés desejou o ofício, ainda que não o poder, e seu desejo o expôs àquele escárnio: Quem te constituiu príncipe e juiz sobre nós? (At 7,27; Êx 2,14). Se alguém, pois, o deseja deste modo, que o deseje. Pois o Episcopado assim se chama por ter a vigilância sobre todos.
Isto se relaciona com o assunto presente, e não com o que se segue, respeitando o ofício episcopal. Pois, como se duvidava disso, ele afirma ser verdadeiro dito que os pais podem ser beneficiados pela virtude de seus filhos, e as mães também, quando os houverem criado bem. Mas, e se ela mesma for dada à maldade e ao vício? Será então beneficiada pela criação dos filhos? Não é provável que ela os crie à sua própria semelhança? Não é, pois, de qualquer mulher, mas da mulher virtuosa, que se diz que ela receberá também por isto grande recompensa.
Moral. Ouvi isto, ó pais e mães: que a vossa criação dos filhos não perderá sua recompensa. Isto também ele diz, ao prosseguir: Que tenha bom testemunho por suas boas obras, se criou filhos (1Tm 5,10). Entre outros elogios, ele conta este, pois não é louvor pequeno consagrar a Deus os filhos que por Deus lhes foram dados. Pois, se o alicerce, o fundamento que lançarem for bom, grande será a sua recompensa; tão grande quanto será o castigo, se o negligenciarem. Foi por causa de seus filhos que Eli pereceu. Pois devia tê-los admoestado, e de fato os admoestou, mas não como devia; antes, por não querer causar-lhes tristeza, destruiu tanto a si mesmo quanto a eles. Ouvi isto, ó pais: criai vossos filhos com grande cuidado, na disciplina e admoestação do Senhor (Ef 6,4). A juventude é selvagem e requer muitos governadores, mestres, diretores, acompanhantes e preceptores; e, depois de tudo isto, é uma felicidade se ela for contida. Pois, tal como um cavalo não domado, ou uma fera não amansada, assim é a juventude. Mas se, desde o princípio, desde a primeira idade, a fixarmos em boas regras, não será necessário depois grande esforço; pois os bons hábitos formados lhes serão como uma lei. Não permitamos que façam o que lhes é agradável, mas nocivo; nem os consintamos, como que ainda meras crianças. Especialmente, treinemo-los na castidade, pois aí está a verdadeira ruína da juventude. Para isto serão necessários muitos combates, muita atenção. Casemo-los cedo, para que suas noivas recebam seus corpos puros e imaculados, e assim seus amores serão mais ardentes. Aquele que é casto antes do casamento, muito mais o será depois dele; e aquele que praticou a fornicação antes, praticá-la-á depois do casamento. Todo pão, diz-se, é doce ao fornicador (Eclo 23,17). Costuma-se colocar coroas sobre as cabeças dos noivos, como símbolo de vitória, significando que se aproximam do leito nupcial invictos pelo prazer. Mas, se cativado pelo prazer ele se entregou às meretrizes, por que traz a coroa, uma vez que já foi subjugado?
Admoemo-los, pois, quanto a estas coisas. Empreguemos ora o conselho, ora a advertência, ora a ameaça. Nos filhos nos foi confiado um grande encargo. Dispensemos-lhes grande cuidado, e façamos tudo para que o Maligno não no-los arrebate. Mas ora o nosso costume é exatamente o inverso disto. Tomamos, na verdade, todo o cuidado para ter a nossa propriedade em boa ordem, e para confiá-la a um administrador fiel; procuramos-lhe um asneiro, e um condutor de mulas, e um feitor, e um hábil contador. Mas não procuramos aquilo que é muito mais importante, a saber, uma pessoa a quem possamos confiar o nosso filho como guardião dos seus costumes, ainda que esta seja posse muito mais valiosa que todas as outras. É por causa dele, na verdade, que tomamos tanto cuidado com a nossa herdade. Cuidamos das nossas posses por causa dos filhos, mas dos próprios filhos não cuidamos absolutamente nada. Que absurdo é este! Forma bem a alma do teu filho, e todo o resto lhe será acrescentado depois. Se ela não for boa, nenhuma vantagem tirará da sua riqueza; e se for formada para a bondade, nenhum dano sofrerá da pobreza. Queres deixá-lo rico? Ensina-o a ser bom: pois assim ele poderá adquirir riqueza, ou, se não, não passará pior do que os que a possuem. Mas, se ele for perverso, ainda que lhe deixes riqueza sem limites, não lhe deixas ninguém que cuide dela, e o tornas pior do que os que estão reduzidos à extrema pobreza. Porque a pobreza é melhor que as riquezas para aqueles filhos que não são bem-dispostos. Pois ela os retém em alguma medida de virtude ainda contra a sua própria vontade. Ao passo que o dinheiro não permite que os que quereriam ser sóbrios permaneçam assim; antes os desvia, os arruína, e os precipita em perigos infinitos.
Mães, sede especialmente cuidadosas em regular bem as vossas filhas; pois o governo delas é fácil. Sede vigilantes sobre elas, para que sejam guardiãs do lar. Sobretudo, instrui-as a serem piedosas, modestas, desprezadoras da riqueza, indiferentes ao ornamento. Deste modo, dai-as em casamento. Pois, se as formardes assim, salvareis não só a elas, mas também o marido que há de desposá-las; e não só o marido, mas os filhos; e não só os filhos, mas os netos. Porque, sendo boa a raiz, bons ramos brotarão, e ainda se tornarão melhores, e por todos estes recebereis recompensa. Façamos, pois, todas as coisas como quem beneficia não a uma só alma, mas a muitas por meio daquela uma. Pois elas devem sair da casa paterna para o casamento como combatentes saídos da escola de exercício, munidas de todo o conhecimento necessário, e ser como fermento capaz de transformar toda a massa segundo a sua própria virtude. E sejam os vossos filhos tão modestos, que se distingam pela firmeza e pela sobriedade, para que recebam grande louvor tanto de Deus quanto dos homens. Aprendam a governar os seus apetites, a evitar a extravagância, a ser bons administradores, afetuosos, e submissos à regra. Pois assim poderão assegurar uma boa recompensa aos seus pais; assim tudo se fará para a glória de Deus e para a nossa salvação, por Cristo Jesus nosso Senhor, com quem, etc.
Paulo não está estabelecendo uma regra rígida e inflexível segundo a qual o bispo deva ter esposa, mas sim que não deve ter mais de uma.
Um bispo, portanto, diz ele, deve ser irrepreensível, marido de uma só mulher. Isto ele não estabelece como regra, como se não devesse estar sem esposa, mas como proibição de ter mais de uma. Pois até aos judeus era permitido contrair segundas núpcias, e até ter duas esposas ao mesmo tempo. Porque o matrimônio é honroso (Hb 13,4). Alguns, todavia, dizem que isto é dito para que ele seja marido de uma só mulher. Irrepreensível. Toda virtude está implícita nesta palavra; de modo que, se alguém tem consciência de si mesmo de quaisquer pecados, não faz bem em desejar um cargo para o qual as suas próprias ações o desqualificaram. Pois tal homem deveria ser governado, e não governar a outros. Porquanto aquele que exerce o governo deve ser mais brilhante que qualquer luminar; sua vida deve ser imaculada, de sorte que todos levantem os olhos para ele, e façam de sua vida o modelo da própria. Mas, ao empregar esta exortação, ele não tinha em vista um objetivo comum. Pois ele mesmo estava prestes a constituir bispos (o que também exorta Tito a fazer, em sua epístola a ele), e, sendo provável que muitos desejassem esse ofício, ele por isso insiste nestas admoestações. Vigilante, diz ele, isto é, circunspecto, tendo mil olhos ao redor de si, perspicaz, não tendo os olhos da mente obscurecidos. Pois muitas coisas ocorrem que não permitem ao homem ver claramente, ver as coisas como são. Porque o cuidado, as tribulações e uma carga de negócios por todos os lados o pressionam. Deve, pois, ser vigilante, não somente sobre os seus próprios assuntos, mas sobre os dos outros. Deve estar bem desperto, deve ser fervoroso de espírito, e, por assim dizer, respirar fogo; deve labutar e dedicar-se ao seu dever de dia e de noite, mais ainda que um general sobre o seu exército; deve ser cuidadoso e solícito por todos. Sóbrio, de bom comportamento, dado à hospitalidade. Porque estas qualidades são possuídas pela maioria daqueles que estão sob o seu governo (pois, nestes aspectos, eles deveriam ser iguais aos que os governam), ele, para mostrar o que é peculiar aos bispos, acrescenta: apto para ensinar. Pois isto não se exige daquele que é governado, mas é o mais essencial para aquele a quem este governo é confiado.
Irrepreensível: toda virtude está implícita nesta palavra. Se alguém tem consciência de si mesmo de quaisquer pecados, não faz bem em desejar um cargo para o qual as suas próprias ações o desqualificaram... Pois por que ninguém disse dos apóstolos que eram fornicadores, imundos ou avarentos, mas sim que eram enganadores, o que se refere apenas à sua pregação? Não seria porque as suas vidas eram irrepreensíveis? Isto é claro.
"Não violento." Isto também não significa alguém que golpeia com as mãos. O que significa, então, "não violento"? Porque há alguns que, fora de tempo, ferem as consciências de seus irmãos, parece que isto é dito com referência a eles.
Não dado ao vinho: aqui ele não quer dizer tanto intemperante, quanto insolente e impudente. Não violento: isto também não significa alguém que golpeia com as mãos. O que significa, então, "não violento"? Porque há alguns que, fora de tempo, ferem as consciências de seus irmãos, parece que isto é dito com referência a eles. Não cobiçoso de torpe ganância, mas paciente: não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo os filhos em sujeição com toda a gravidade. Se, então, aquele que é casado cuida das coisas do mundo (1 Cor 7,33), e um bispo não deve cuidar das coisas do mundo, por que diz ele "marido de uma só mulher"? Alguns, na verdade, pensam que ele diz isto com referência àquele que permanece livre de esposa. Mas, se de outro modo, aquele que tem esposa pode ser como se não a tivesse (1 Cor 7,29). Pois aquela liberdade foi então propriamente concedida, como convinha à natureza das circunstâncias então existentes. E é bem possível, se o homem assim o quiser, regular a sua conduta desta maneira. Pois, assim como as riquezas tornam difícil entrar no Reino dos Céus, e todavia os ricos frequentemente têm entrado, assim é com o matrimônio. Mas por que diz ele, falando de um bispo, que este não deve ser dado ao vinho, deve ser hospitaleiro, quando deveria nomear coisas maiores? Por que não disse que ele deveria ser um anjo, não sujeito às paixões humanas? Onde estão aquelas grandes qualidades de que fala Cristo, as quais até os que estão sob o seu governo deveriam possuir? Estar crucificado para o mundo, estar sempre pronto a dar a própria vida, como disse Cristo. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas (Jo 10,11); e, novamente, aquele que não toma a sua cruz e me segue não é digno de Mim (Mt 10,38). Mas não dado ao vinho, diz ele; boa perspectiva, na verdade, se estas são as coisas de que um bispo deve ser admoestado! Por que não disse ele que este já deveria estar elevado acima do mundo? Mas exiges tu menos do bispo do que até mesmo daqueles que estão no mundo? Pois a estes diz ele: Mortificai os vossos membros que estão sobre a terra (Cl 3,5), e aquele que está morto está livre do pecado (Rm 6,7). Os que são de Cristo crucificaram a carne; e Cristo, novamente, diz: Qualquer que não renuncia a tudo quanto possui não é digno de Mim (Lc 15,33 [14,33]). Por que não são estas coisas exigidas por Paulo? Claramente porque poucos poderiam ser encontrados de tal caráter, e havia necessidade de muitos bispos, para que um presidisse em cada cidade.
O líder da igreja deve ser "aquele que governa bem sua própria casa." Mesmo os que estão fora da Igreja têm o ditado de que aquele que administra bem uma casa há de ser bom governante. Pois a Igreja é, por assim dizer, uma pequena casa. Numa casa há filhos, esposa e afazeres domésticos, e cabe a uma só pessoa prover ordem a todos eles. Assim também na Igreja há mulheres, crianças, empregados e subordinados. Assim como o homem tem na esposa uma sócia no poder, também o tem aquele que preside a Igreja.
Mas, porque as Igrejas haveriam de estar expostas a ataques, ele não exige aquela virtude superior e sumamente elevada, mas um grau moderado dela; pois ser sóbrio, de bom comportamento e temperante eram qualidades comuns a muitos. Tendo seus filhos em sujeição com toda gravidade. Isto é necessário, para que se exibisse um exemplo em sua própria casa. Pois quem creria que aquele que não tivesse seu próprio filho em sujeição mantivesse um estranho sob comando? Aquele que rege bem sua própria casa. Mesmo os que estão de fora dizem isto: que aquele que administra bem uma casa há de ser bom governante. Pois a Igreja é, por assim dizer, uma pequena casa, e assim como numa casa há filhos, esposa e domésticos, e o homem tem domínio sobre todos eles, assim também na Igreja há mulheres, crianças, servos. E se aquele que preside na Igreja tem sócios em seu poder, também o homem tem uma sócia, a saber, sua esposa. Deve a Igreja prover para suas viúvas e virgens? Assim há numa família servos e filhas a serem providos. E, de fato, é mais fácil reger a casa; por isso ele pergunta: se um homem não sabe reger sua própria casa, como cuidará da Igreja de Deus?
De fato, nada tanto aparta da misericórdia de Deus e entrega ao fogo do inferno quanto a tirania da soberba... Portanto, refreemos este inchaço da alma, e extirpemos este tumor, se quisermos ser puros e livrar-nos do castigo preparado para o diabo. Ouvi Paulo declarar que os soberbos hão de sofrer aquelas mesmíssimas penas: "Não um neoconverso, para que não se ensoberbeça e incorra na condenação lançada sobre o diabo."
A questão não é que o bispo não possa ser jovem, mas que não deve ser um recém-convertido... Pois, se apenas a juventude fosse impedimento, por que ele mesmo constituiu Timóteo, um jovem homem? ... Mas, como havia então muitos que se convertiam do paganismo para serem batizados, diz Paulo: "Não promovas imediatamente a uma posição de dignidade um neófito, isto é, um desses recém-convertidos." Pois, se antes mesmo de ter-se provado como discípulo é feito mestre, logo se ensoberbecerá até a insolência.
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Não neófito. Não diz "não jovem", mas "não recém-convertido". Pois ele havia dito: Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento (1 Cor 3,6). Querendo que apontassem alguém tal, empregou esta palavra. Pois, de outro modo, que o impediria de dizer "não jovem"? Se apenas a juventude fosse impedimento, por que ele mesmo constituiu Timóteo, um jovem homem? (E isto ele comprova dizendo-lhe: Ninguém despreze a tua mocidade — 1 Tm 4,12.) Porque sabia de sua grande virtude e de seu grande rigor de vida. Sabendo o que, escreve: Desde criança conheces as sagradas Escrituras (2 Tm 3,15). E que praticava intenso jejum prova-o o que diz: Usa um pouco de vinho por causa de tuas frequentes enfermidades — o que lhe escreveu entre outras coisas, pois, se não conhecesse tais boas obras suas, não as teria escrito, nem daria semelhante encargo a seu discípulo. Mas, como havia então muitos que se convertiam dos gentios e eram batizados, diz: Não promovas imediatamente a uma posição de dignidade um neófito, isto é, um desses recém-convertidos. Pois, se antes de bem ter sido discípulo, fosse logo feito mestre, ensoberbecer-se-ia até a insolência. Se antes de aprender a estar sob autoridade, fosse constituído um dos que governam, ensoberbecer-se-ia; por isso acrescenta: Para que, ensoberbecido, não caia na condenação do diabo, isto é, na mesma condenação em que incorreu Satanás por sua soberba.
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Pois, quando São Paulo disse: "Além disso, deve ter bom testemunho dos que estão de fora," não suprime o escrutínio cuidadoso e exato, nem estabelece este testemunho como sinal principal de segurança acerca de tais homens. Mas, tendo já enumerado muitos requisitos, acrescentou este depois, para mostrar que não devemos nos contentar com ele somente para este tipo de eleição, mas apenas levá-lo em conta juntamente com as demais considerações. Pois frequentemente sucede que a fama popular é falsa.
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Este é justamente dito, pois estava certo de que seria censurado por eles; e por essa mesma razão, talvez, ele disse marido de uma só mulher, embora em outro lugar diga: Quisera eu que todos os homens fossem como eu mesmo (1 Cor 7:7), isto é, praticando a continência. Para que, portanto, não os restringisse dentro de um limite demasiado estreito, exigindo um modo de vida excessivamente rigoroso, contenta-se em prescrever uma virtude moderada. Pois era necessário estabelecer alguém para presidir em cada cidade, como escreve a Tito: Que constituísses presbíteros em cada cidade, assim como eu te ordenara (Tt 1:5). Mas e se ele tivesse bom testemunho e boa reputação, e não fosse digno disso? Em primeiro lugar, isso não aconteceria facilmente. É muito para os homens bons obter bom testemunho até mesmo entre seus inimigos. Mas, de fato, ele não deixou isso subsistir por si só; bom testemunho, diz ele, isto é, além de outras qualidades. Mas então, e se falassem mal dele sem causa, por inveja, sobretudo sendo eles pagãos? Isso não era de se esperar. Pois até mesmo eles reverenciarão um homem de vida irrepreensível. Por que, então, diz ele, falando de si mesmo: Por má fama e boa fama (2 Cor 6:6)? Porque não era a sua vida que atacavam, mas a sua pregação. Por isso diz: por má fama. Eram caluniados como enganadores e impostores por causa da sua pregação, e isso porque não podiam atacar-lhes o caráter moral e a vida. Pois por que ninguém dizia dos Apóstolos que eram fornicadores, imundos ou avarentos, mas sim que eram enganadores, o que diz respeito somente à sua pregação? Não deve ser porque suas vidas eram irrepreensíveis? É manifesto.
Vivamos, pois, também nós assim, e nenhum inimigo, nenhum incrédulo, poderá falar mal de nós. Pois aquele cuja vida é virtuosa é reverenciado até mesmo por eles. Porque a verdade fecha a boca até dos inimigos.
Mas como cai ele em laço? Caindo com frequência nos mesmos pecados que os que estão de fora. Pois, se ele for de tal caráter, o maligno logo lhe arma outro laço, e logo efetuam a sua destruição. Mas se ele tiver bom testemunho de seus inimigos, muito mais o terá de seus amigos. Pois que não é provável que aquele cuja vida é irrepreensível seja mal falado, podemos inferir das palavras de Cristo: Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (v. 16). Mas e se alguém for falsamente acusado, e por circunstâncias particulares for caluniado? Bem, este é um caso possível; mas nem mesmo tal homem deveria ser promovido. Pois o resultado é muito de se temer. Por isso se diz que ele deve ter bom testemunho, pois as vossas boas obras devem resplandecer. Assim como, portanto, ninguém dirá que o sol é escuro, nem mesmo o cego (pois se envergonhará de opor-se à opinião de todos), assim também aquele que é de bondade notável, ninguém o culpará. E ainda que, por causa das suas doutrinas, os pagãos frequentemente o caluniem, contudo não atacarão a sua vida virtuosa, mas se unirão aos demais para admirá-la e reverenciá-la.
Moral. Vivamos, pois, de tal modo que o nome de Deus não seja blasfemado. Não olhemos, de um lado, para a reputação humana; nem, de outro, nos sujeitemos a um mau testemunho, mas em ambos observemos a moderação; como ele diz: Entre os quais resplandeceis como luminares no mundo (Fp 2,15). Pois foi por isso que Ele nos deixou aqui, para que sejamos como astros, para que sejamos constituídos Mestres dos outros, para que sejamos como fermento; para que convivamos como anjos entre os homens, como homens entre crianças, como espirituais entre os naturais, a fim de que eles lucrem conosco, para que sejamos como semente e produzamos muito fruto. Não haveria necessidade de palavras, se assim resplandecêssemos em nossas vidas; não haveria necessidade de Mestres, se ao menos exibíssemos obras. Não haveria Gentios, se fôssemos os Cristãos que devemos ser. Se guardássemos os mandamentos de Cristo, se sofrêssemos injúria, se permitíssemos que se tirasse vantagem de nós, se, sendo insultados, abençoássemos, se, sendo maltratados, fizéssemos o bem (1 Cor 4,12); se isto fosse a prática geral entre nós, ninguém seria tão bruto a ponto de não se converter à piedade. E, para mostrar isto: Paulo era apenas um homem, e, no entanto, quantos ele não arrastou consigo? Se fôssemos todos como ele, quantos mundos não teríamos atraído a nós? Eis que os Cristãos são mais numerosos que os Gentios. E nas demais artes, um único homem pode ensinar a cem meninos ao mesmo tempo; mas aqui, onde há muito mais mestres, e muito mais mestres que discípulos, ninguém é convertido. Pois aqueles que são ensinados olham para a virtude de seus mestres: e, quando nos veem manifestando os mesmos desejos, buscando os mesmos objetos — poder e honra —, como podem admirar o Cristianismo? Eles veem nossas vidas expostas à censura, nossas almas mundanas. Admiramos as riquezas tanto quanto eles, e ainda mais. Temos o mesmo horror à morte, o mesmo temor da pobreza, a mesma impaciência diante da doença, somos igualmente ávidos por glória e por domínio. Atormentamo-nos até a morte por amor ao dinheiro, e servimos ao tempo. Como, pois, poderiam eles crer? Pelos milagres? Mas estes já não se operam mais. Por nosso modo de vida? Este se corrompeu. Pela caridade? Não se vê vestígio algum dela em parte alguma. Por isso teremos de prestar contas não somente de nossos próprios pecados, mas também do dano que, por meio deles, causamos aos outros.
Voltemos, então, à sã mente; vigiemos, e manifestemos sobre a terra uma conversação celestial. Digamos: A nossa conversação está nos céus (Fp 3,20), e sustentemos, sobre a terra, o combate. Houve grandes homens, poder-se-á dizer, entre nós; mas como, diz o Grego, hei de crer nisso? Pois não vejo nada semelhante em vossa conduta. Se isto há de ser dito, também nós tivemos nossos filósofos, homens admiráveis por suas vidas. Mas mostrai-me outro Paulo, ou outro João: não podeis. Não riria ele, então, de nós por raciocinarmos deste modo? Não permaneceria ele sentado, na ignorância, vendo que a sabedoria que professamos está em palavras, não em obras? Pois agora, por um único ceitil, estais prontos a matar ou a morrer! Por um punhado de terra, moveis processo após processo! Pela morte de uma criança, tudo pondes de pernas para o ar: omito outras coisas que nos fariam chorar — vossos augúrios, vossos agouros, vossas observâncias supersticiosas, vosso lançar de horóscopos, vossos sinais, vossos amuletos, vossas adivinhações, vossos encantamentos, vossas artes mágicas. Estes são pecados clamorosos, capazes de provocar a ira de Deus; que, depois que Ele enviou o próprio Filho, ainda vos aventureis a tais coisas como estas.
John Chrysóstomo (trecho 3 de 3):
Que mais podemos fazer, pois, senão chorar? Pois mal uma pequena porção do mundo está a caminho da salvação, e aqueles que estão perecendo ouvem isto, e se alegram de que não estão destinados a sofrer sozinhos, mas em companhia de muitos. Mas que motivo é este para alegria? Essa mesma alegria os sujeitará ao castigo. Pois não penseis que lá é como aqui, que ter companheiros no sofrimento traz consolação. E donde se manifesta isto? Eu o tornarei claro. Suponde que um homem fosse condenado a ser queimado, e que visse seu próprio filho queimando junto com ele, e que o cheiro de sua carne chamuscada subisse às suas narinas; não seria isto, por si só, morte para ele? Sem dúvida. E eu vos direi como é. Se aqueles que não estão sofrendo, mas apenas vendo tais coisas, ficam entorpecidos e desfalecem de terror, muito mais serão assim afetados aqueles que estão eles próprios sofrendo. Não vos admireis disto. Ouvi um certo sábio dizendo: "Tu também te tornaste fraco como nós? Tornaste-te semelhante a nós?" (Is 14,10). Pois a natureza humana está disposta à compaixão, e os sofrimentos alheios nos movem à piedade. Receberá, pois, um pai, vendo seu filho na mesma condenação, ou um marido sua esposa, ou um homem seu semelhante, consolação, e não antes um agravamento de seus sofrimentos? Não somos nós, em tal caso, ainda mais dominados? Mas ali, direis vós, não há tais sentimentos. Sei que não há; mas há outros muito mais miseráveis. Pois haverá pranto inconsolável, todos testemunhando os tormentos uns dos outros. Acaso aqueles que estão ardendo derivam conforto em sua angústia da participação dos outros? Não é consolação alguma ver um filho, um pai, uma esposa, ou netos, sofrendo o mesmo castigo. Se alguém vê amigos em tal condição, é isto algum conforto? Nenhum! Nenhum! Antes acrescenta à intensidade dos próprios sofrimentos! Além disso, há males que, por causa de sua severidade, não podem ser mitigados por serem comuns. Se dois homens fossem lançados juntos ao fogo, consolar-se-iam um ao outro? Dizei-me: se jamais fomos acometidos por uma febre violenta, não descobrimos que toda consolação nos falhou? Pois há calamidades tão avassaladoras que não deixam lugar para conforto na alma. Quando uma esposa perdeu seu marido, é isto um alívio de sua dor, contar os muitos que sofreram perda semelhante? Não nos apoiemos, portanto, em tal esperança; antes, encontremos nossa única consolação em nos arrependermos de nossos pecados, em seguir o bom caminho que conduz ao Céu, para que possamos obter o reino dos Céus, pela graça e benignidade de Jesus Cristo, nosso Senhor, com quem, etc.
Não vazio, nem enganoso. Pois nada tanto degrada o homem quanto o engano, nada é tão pernicioso na Igreja quanto a insinceridade.
Semelhantemente os Diáconos. Isto é, devem possuir as mesmas qualidades que os Bispos. E quais são estas mesmas qualidades? Ser irrepreensíveis, sóbrios, hospitaleiros, pacientes, não briguentos, não cobiçosos. E que é isto o que ele quer dizer ao empregar semelhantemente, torna-se evidente pelo que acrescenta, graves, não de língua dupla; isto é, não ocos nem enganosos. Pois nada tanto degrada o homem quanto o engano, nada é tão pernicioso na Igreja quanto a insinceridade. Não dados a muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância; guardando o mistério da fé em consciência pura. Assim ele explica o que entende por irrepreensível. E aqui exige, ainda que noutras palavras, que não seja neófito, quando diz, Sejam estes também primeiro provados, onde a conjunção também é acrescentada, ligando isto ao que fora dito antes acerca dos Bispos, pois nada se interpõe entre um e outro. E a mesma razão vale para o não neófito naquele caso. Pois não seria absurdo que, quando a um escravo recém-comprado não se confia coisa alguma na casa até que, por longa provação, tenha dado provas de seu caráter, no entanto alguém entrasse na Igreja de Deus vindo do estado de paganismo e fosse imediatamente colocado em posição de preeminência?
Não seria absurdo que, quando a um novo servo não se confia coisa alguma na casa até que, por longa provação, tenha dado provas de seu caráter, no entanto alguém entrasse na igreja de Deus vindo do estado de paganismo e fosse imediatamente colocado em posição de preeminência? Homilias sobre Timóteo
Alguns pensaram que isto se diz das mulheres em geral, mas não é assim, pois por que razão introduziria ele algo acerca das mulheres a interferir com seu assunto? Ele fala daquelas que ocupam o cargo de Diaconisas.
Pensam alguns que isto se diz das mulheres em geral, mas não é assim, pois por que razão introduziria ele algo acerca das mulheres a interferir com o seu assunto? Fala ele daquelas que ocupam a função de diaconisas.
Observai como exige ele a mesma virtude dos diáconos que a dos bispos, pois, ainda que não fossem de igual grau, deviam ser igualmente irrepreensíveis, igualmente puros.
Isto se deve entender, pois, como referente às diaconisas. Pois aquela ordem é necessária, útil e honrosa na Igreja. Observai como exige ele a mesma virtude dos diáconos que a dos bispos, pois, ainda que não fossem de igual grau, deviam ser igualmente irrepreensíveis; igualmente puros.
Governando bem os seus filhos e as suas próprias casas.
"Os que bem exercem o ofício de diácono adquirem para si um bom grau", isto é, um adiantamento celeste, "e muita ousadia na fé em Cristo Jesus"; como se dissesse que aqueles que se mostraram vigilantes no grau inferior logo hão de ascender ao superior.
Pois os que bem exerceram o ofício de diácono adquirem para si um bom grau, e muita ousadia na fé que há em Cristo Jesus.
Em toda parte se lhes exige que governem bem os seus filhos, para que outros não se escandalizem com o seu mau proceder.
Os que bem exercem o ofício de diácono adquirem para si um bom grau, isto é, um adiantamento, e muita ousadia na fé em Cristo Jesus; como se dissesse que aqueles que se mostraram vigilantes no grau inferior logo hão de ascender ao superior.
Para que não lançasse a Timóteo em abatimento ao dar-lhe ordens sobre tais assuntos, diz ele: escrevo-te isto não como se não houvesse de vir, mas hei de vir, sim, ainda que possa demorar-me, para que não te aflijas. E isto lho escreve para evitar que se abata, mas aos outros para incitá-los a maior diligência. Pois a sua presença, ainda que apenas prometida, teria grande efeito. Nem pareça estranho que, embora prevendo tudo pelo Espírito, ignorasse ele isto, e apenas diga: espero vir, mas se me demorar, o que implica incerteza. Pois, como era conduzido pelo Espírito, e não agia por inclinação própria, era naturalmente incerto quanto a este ponto.
Para que saibas, diz ele, como te convém portar-te na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. Não como aquela casa judaica. Pois é esta que sustenta a fé e a pregação da Palavra. Porquanto a verdade é a coluna e o fundamento da Igreja.
Aqui fala ele da economia da salvação que nos foi dada. Não me fales dos sinos, nem do santo dos santos, nem do sumo sacerdote. A Igreja é a coluna do mundo. Considera este mistério, e poderás ficar tomado de espanto. Pois é, com efeito, um "grande mistério", e "mistério de piedade", e isto "sem controvérsia" ou questão, pois está para além de toda dúvida.
"Se conhecêsseis a minha essência e dignidade, conheceríeis também a do Pai. E doravante o conhecereis, e o tendes visto" (aquilo no futuro, isto no presente), isto é, "por meio de mim". Além disso, por "visão" entendia ele o conhecimento por via do entendimento. Pois podemos tanto ver quanto deixar de conhecer pessoas que de fato vemos, mas não podemos ao mesmo tempo conhecer e deixar de conhecer pessoas que conhecemos. Eis por que declarou: "E o tendes visto", tal como diz a Escritura: "como também foi visto pelos anjos". Ainda que a sua própria essência, por certo, não fosse vista, disse-se que Ele "foi visto", significando claramente "visto" no modo em que era possível aos anjos vê-lo.
Aqui ele fala da Dispensação em nosso favor. Não me fales dos sinos, nem do santo dos santos, nem do sumo sacerdote. A Igreja é a coluna do mundo. Considera este mistério, e poderás ficar tomado de espanto: pois é, na verdade, um grande mistério, e um mistério de piedade, e isso sem controvérsia nem questão, pois está além de toda dúvida. Visto que, em suas instruções aos sacerdotes, não exigira nada semelhante ao que se encontra em Levítico, ele remete todo o assunto a Outro, dizendo: Deus se manifestou na carne. O Criador foi visto encarnado. Foi justificado no Espírito. Como se diz, a Sabedoria é justificada por seus filhos, ou porque Ele não praticou engano algum, como diz o Profeta: Porque não cometeu violência, nem se achou engano em sua boca (Is 53,9; 1Pe 2,22). Visto pelos anjos. De modo que os anjos, juntamente conosco, viram o Filho de Deus, não O tendo visto antes. Grande, verdadeiramente grande, foi este mistério! Pregado entre os gentios, crido no mundo. Dele se ouviu falar, e nele se creu, por todas as partes do mundo, como o Profeta predisse, dizendo: A sua voz saiu por toda a terra (Sl 19,4). Não penseis que estas coisas são meras palavras, pois não o são, mas estão repletas de realidades ocultas. Recebido na glória. Ele ascendeu sobre as nuvens. Este Jesus, diz-se, que dentre vós foi assunto ao céu, virá do mesmo modo como O vistes ir para o céu (At 1,11).
É de se observar a discrição do bem-aventurado Paulo. Quando quer exortar os diáconos a evitar o excesso de vinho, não diz: Não sejais ébrios, mas: nem dados a muito vinho. Uma cautela adequada; pois, se aqueles que serviam no Templo não provavam vinho algum, muito mais não deveriam estes. Pois o vinho produz desordem da mente, e onde não causa embriaguez, destrói as energias e relaxa a firmeza da alma.
A dispensação em nosso favor ele chama de mistério, e bem pode ser assim chamada, visto que não é manifesta a todos — não, nem mesmo era manifesta aos Anjos, pois como poderia sê-lo, se foi dada a conhecer pela Igreja? (Ef 3:10) Por isso diz: sem controvérsia, grande é o mistério. Grande, de fato, foi ele. Pois Deus se fez Homem, e o Homem se fez Deus. Um Homem foi visto sem pecado! Um Homem foi recebido nas alturas, foi pregado no mundo! Juntamente conosco, os Anjos O viram. Este é, verdadeiramente, um mistério! Não exponhamos, pois, este mistério. Não o exibamos por toda parte, mas vivamos de modo digno do mistério. Aqueles a quem um mistério é confiado são pessoas grandes. Consideramos sinal de favor se um rei nos confia um segredo. Mas Deus nos confiou o Seu mistério, e ainda assim somos ingratos ao nosso Benfeitor, como se não tivéssemos recebido os maiores benefícios. Nossa insensibilidade a tamanha bondade deveria nos causar horror. E como pode ser mistério aquilo que todos conhecem? Em primeiro lugar, nem todos o conhecem; e, antes disso mesmo, também não o conheciam, mas agora foi manifestado.
Moral. Ao guardar, pois, este mistério, sejamos fiéis à confiança que nos foi depositada. Tão grande mistério Ele nos confiou, e nós nem sequer confiamos a Ele o nosso dinheiro, embora Ele nos tenha ordenado que depositemos nossa riqueza junto a Ele, onde ninguém pode roubá-la, nem a traça nem o ladrão a podem destruir. E Ele promete pagar-nos cem vezes mais, e ainda assim não Lhe obedecemos. Ora, aqui, se confiamos a alguém um depósito, nada recebemos de volta a mais, mas ficamos agradecidos se nos é restituído aquilo que depositamos. Se ali um ladrão o rouba, Ele diz, ponha isso em Minha conta; não vos digo que um ladrão o levou, ou que a traça o devorou. Ele retribui aqui cem vezes mais, e a vida eterna é sobreacrescentada no porvir, e ainda assim não ajuntamos ali o nosso tesouro! Mas, dizeis vós, Ele retribui lentamente. Ora, também isto é prova da grandeza de Seu dom, o fato de não retribuir aqui nesta vida mortal; ou antes, Ele retribui até mesmo aqui cem vezes mais. Pois não deixou Paulo aqui os seus instrumentos, Pedro a sua vara e o seu anzol, e Mateus o seu posto de cobrança? E não se abriu para eles o mundo inteiro, mais do que para os reis? Não lhes foram postas todas as coisas aos pés? Não foram constituídos governantes e senhores? Não confiaram os homens suas vidas em suas mãos? Não se apoiaram inteiramente em seu conselho, e se alistaram a seu serviço? E não vemos ainda hoje muitos sucessos semelhantes? Muitos homens de meios pobres e humildes, que apenas manejavam a enxada, e mal tinham o suficiente para o alimento necessário, possuindo tão somente o caráter de monges, foram celebrados acima de todos os homens, e honrados pelos reis.
São estas coisas de pouca monta? Considerai, pois, que estas são apenas acréscimos; a soma principal está guardada para a vida futura. Desprezai as riquezas, se quereis possuir riquezas. Se quereis ser verdadeiramente ricos, tornai-vos pobres. Tais são, com efeito, os paradoxos de Deus. Ele não quer que sejais ricos por vosso próprio cuidado, mas por Sua graça. Deixai estas coisas a Mim, diz Ele; ocupai-vos das coisas espirituais, para que conheçais o Meu poder. Fugi desse jugo de escravidão que as riquezas impõem. Enquanto a elas vos apegardes, sereis pobres. Quando as desprezardes, sereis duplamente ricos: porque tais coisas afluirão a vós de todos os lados, e porque nada vos faltará daquilo que falta à multidão. Pois não é possuir muito, mas necessitar de pouco, o que constitui a verdadeira riqueza. O rei, enquanto necessitar de algo, em nada difere do pobre. Pois isto é a pobreza: ter necessidade dos outros; e por este argumento o rei é pobre, na medida em que tem necessidade de seus súditos. Mas aquele que está crucificado para o mundo não é assim; nada lhe falta, pois suas próprias mãos bastam para o seu sustento, como disse Paulo: Estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo (At 20,34). Estas são as palavras daquele que diz: Como nada tendo, mas possuindo tudo (2 Cor 6,10). Este é aquele que os habitantes de Listra julgaram ser um deus. Se quereis obter as coisas do mundo, buscai o Céu; se quereis desfrutar das coisas daqui, desprezai-as. Pois Buscai primeiro o Reino de Deus, diz Ele, e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mt 6,33).
Por que admirais estas ninharias? Por que anelais coisas de nenhum valor real? Até quando sereis pobre? até quando mendigo? Erguei os olhos ao céu, pensai nas riquezas que ali há, e sorri diante do ouro; pensai em quão pouco ele serve; em como o seu gozo dura apenas para a vida presente, e em como, comparada à eternidade, a vida presente é como um grão de areia, ou como uma gota de água diante do oceano sem limites. Esta riqueza não é uma posse, não é propriedade, é um empréstimo para uso. Pois, quando morrerdes, de bom ou de mau grado, tudo o que tendes passa a outros, e estes de novo o cedem a outros, e estes ainda a outros. Pois todos nós somos peregrinos; e o inquilino da casa é, talvez, mais verdadeiramente o seu dono, pois o dono morre, e o inquilino vive, e ainda desfruta da casa. E se este a aluga, também se poderia dizer que aquele a aluga: pois foi ele quem a construiu, e nela pôs trabalho, e a preparou. A propriedade, de fato, não passa de uma palavra: somos todos, na realidade, donos apenas das posses de outros homens. Só são verdadeiramente nossas aquelas coisas que enviamos adiante de nós para o outro mundo. Os bens que aqui temos não são nossos; temos apenas um usufruto sobre eles; ou antes, eles nos faltam ainda em vida. Somente as virtudes da alma nos são propriamente próprias, como a esmola e a caridade. Os bens do mundo, mesmo pelos de fora, eram chamados coisas externas, porque estão fora de nós. Mas façamo-las internas. Pois não podemos levar conosco a nossa riqueza quando daqui partirmos, mas podemos levar as nossas obras de caridade. Antes, enviemo-las adiante de nós, para que nos preparem uma morada nas eternas mansões (Lc 16,9).
Os bens recebem o nome de bens pelo uso, não pelo domínio, e não são nossos, e as posses não são propriedade, mas empréstimo. Pois quantos senhores já teve cada propriedade, e quantos ainda terá! Há um provérbio sensato (e os provérbios populares, quando encerram alguma sabedoria, não devem ser desprezados): "Ó campo, de quantos homens já foste, e de quantos ainda serás?" Isto deveríamos dizer às nossas casas e a todos os nossos bens. Somente a virtude é capaz de partir conosco e de nos acompanhar ao mundo que está acima. Renunciemos, pois, e extingamos esse amor às riquezas, para que acendamos em nós o afeto pelas coisas celestiais. Estas duas afeições não podem possuir uma só alma. Pois está dito: "Ou odiará a uma e amará a outra, ou se apegará a uma e desprezará a outra" (Mt 6,24). Vês um homem com um longo séquito de servos, abrindo caminho pelas ruas, vestido de vestes de seda, montado em altura, e enrijecendo o pescoço? Não te deixes intimidar, mas sorri. Assim como rimos ao ver crianças brincando de reis, ri também de sua pompa, pois ela não é melhor que a delas — nem mesmo tão agradável, pois não possui a mesma inocência e simplicidade que há nas crianças. Nelas há riso e prazer; aqui há um homem tornado ridículo e desprezível.
Glorifica a Deus, que te manteve livre dessa ostentação teatral. Pois, se quiseres, por mais humilde que seja tua condição, poderás ser mais elevado do que aquele que se exalta em seu carro. E por quê? Porque, ainda que seu corpo esteja um pouco erguido da terra, sua alma permanece fixa nela, pois "minha força", diz ele, "adere à minha carne" (Sl 102,6), mas tu, em teu espírito, caminhas pelos céus. Que importa que ele tenha muitos servos a abrir-lhe caminho? É ele mais honrado por isso do que seu cavalo? E que absurdo é conduzir homens diante de si para abrir caminho à passagem de um animal! Pois que espécie de honra é montar um cavalo? Uma honra que seus próprios escravos compartilham. E, no entanto, há quem seja tão vaidoso a este respeito que o faz conduzir atrás de si mesmo quando não o quer. Que loucura maior pode haver? Desejar distinguir-se por seus cavalos, pela suntuosidade de suas vestes, por seu séquito! Que pode ser mais desprezível do que uma glória que consiste em cavalos e servos? És virtuoso? Não uses tais distinções. Tem os teus ornamentos em ti mesmo. Não sejas devedor de tua glória à presença dos outros. A tal honra podem chegar os mais perversos, corruptos e vis dos homens; todos, de fato, os que são ricos. Atores e dançarinos podem cavalgar com um servo correndo à frente, mas continuam sendo apenas atores e dançarinos. Seus cavalos e servos não lhes conquistam respeito algum. Pois, quando faltam a tais pessoas as graças da alma, o acréscimo destas coisas externas é supérfluo e vão. E assim como, quando um muro é fraco, ou um corpo está desordenado, tudo o que se lhe põe em cima permanece, ainda assim, débil e corrompido, assim também neste caso: a alma continua a mesma, e nenhum proveito recebe das coisas de fora, ainda que o homem traga mil ornamentos de ouro. Não nos ansiemos, pois, por tais coisas. Retiremo-nos das coisas temporais e busquemos distinções maiores, as espirituais, que nos farão verdadeiramente dignos de veneração, para que também nós alcancemos os bens do porvir, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, etc.
Assim como os que se apegam à fé estão fixados numa âncora segura, assim os que caem da fé em nenhuma parte podem repousar; mas, após muito vaguear de um lado para outro, são finalmente arrastados ao próprio abismo da perdição. E isto já havia mostrado antes, dizendo que alguns já haviam naufragado quanto à fé; e agora diz: Ora, o Espírito fala expressamente que, nos últimos tempos, alguns se apartarão da fé, dando ouvidos a espíritos sedutores. Isto se diz dos maniqueus, dos encratitas e dos marcionitas, e de toda a sua tribo, que haveriam de, no futuro, apartar-se da fé. Vedes que esta apostasia da fé é a causa de todos os males que se seguem?
Mas que significa expressamente? Manifestamente, claramente e sem dúvida alguma. Não vos maravilheis, diz ele, se alguns, tendo-se apartado da fé, ainda aderem ao judaísmo. Virá um tempo em que até mesmo os que participaram da fé cairão em erro pior, não somente quanto aos alimentos, mas quanto aos matrimônios e outras coisas semelhantes, introduzindo as noções mais perniciosas. Isto não se refere aos judeus (pois os últimos tempos e a apostasia da fé não se lhes aplicam), mas aos maniqueus e aos fundadores destas seitas. E com toda justiça os chama espíritos sedutores, visto que era por estes que eram movidos a dizer tais coisas. Falando mentiras em hipocrisia. Isto dá a entender que proferem estas falsidades não por ignorância e inadvertidamente, mas representando um papel, conhecendo a verdade, porém tendo a consciência cauterizada, isto é, sendo homens de vida perversa.
Mas por que fala ele apenas destes hereges? Cristo já havia dito antes: "É necessário que venham escândalos" (Mt 18,7), e predissera o mesmo em sua parábola do semeador e do brotar do joio. Mas aqui admirai comigo o dom profético de Paulo, que, antes dos tempos em que haveriam de aparecer, especifica o próprio tempo. Como se dissesse: Não vos admireis se, no início da fé, alguns se esforçam por introduzir estas doutrinas perniciosas; pois, depois que ela estiver estabelecida por longo tempo, muitos se apartarão da fé. Proibindo o matrimônio e mandando abster-se de alimentos. Por que, então, não mencionou nenhuma outra heresia? Embora não particularizadas, estão implícitas nas expressões espíritos sedutores e doutrinas de demônios. Mas não quis ele instilar estas coisas nas mentes dos homens antes do tempo; especifica, porém, aquilo que já havia começado, o caso dos alimentos. Que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade. Por que não disse também pelos infiéis? Como poderia ser pelos infiéis, se eles mesmos se excluem destes por suas próprias regras? Mas não é proibido o luxo? Certamente que é. Mas por quê? Se as coisas boas são criadas para serem recebidas... Porque Ele criou o pão, e, no entanto, o excesso é proibido; e também o vinho, e, no entanto, o excesso é proibido; e não nos é ordenado evitar as iguarias como se fossem impuras em si mesmas, mas sim porque corrompem a alma pelo excesso.
De que modo, pois, é virgem aquela que decaiu da fé, que a si mesma se entregou aos enganadores, que obedece aos demônios e honra a falsidade? De que modo é virgem aquela que tem a consciência cauterizada? Pois é necessário que a virgem seja pura não somente no corpo, mas também na alma, se há de receber o esposo santo…. A virgindade se define pela santidade do corpo e da alma. Mas, se a mulher é ímpia e impura em ambos os aspectos, como poderia ser virgem? … Ela, porém, mostra-me um rosto pálido, membros macilentos, veste modesta e olhar manso…. De que aproveita tudo isso, quando o olho da alma é insolente? Pois que poderia haver de mais audacioso do que esse olho, que incita os olhos verdadeiros dela a considerarem más as obras da criação de Deus? Da Virgindade.
"Falando mentiras em hipocrisia." Isto significa que eles não proferem estas falsidades por ignorância e inadvertidamente, mas como quem representa um papel, conhecendo a verdade, porém "tendo a consciência cauterizada", pois são homens que vivem vidas más.
"Pois bem," diz alguém, "que esperais que façamos? Que vivamos nos montes e nos tornemos monges?" Esta pergunta me entristece por esta razão: que alguns pensam que somente os monges se ocupam verdadeiramente do decoro e da castidade. E, no entanto, Cristo certamente fez suas leis para se aplicarem a todos... Com efeito, não "proíbo o matrimônio", nem pretendo obstar vosso acesso ao prazer, mas quero que o tenhais de modo casto, não vergonhoso nem digno de reprovação e sujeito a intermináveis escrúpulos. Não insisto que vivais nos montes e nos desertos, mas que sejais bons, moderados e castos, ainda que habitando no meio da cidade.
Se é criatura de Deus, é boa. Pois todas as coisas, está dito, eram muito boas (Gn 1,31). Falando assim das coisas comestíveis, ele impugna antecipadamente a heresia daqueles que introduzem uma matéria incriada e afirmam que estas coisas procedem dela. Mas, se é boa, por que é santificada pela palavra de Deus e pelas orações? Pois haveria de ser impura, se é para ser santificada? Não é assim; aqui ele fala àqueles que pensavam que algumas destas coisas eram comuns; por isso estabelece duas proposições: primeira, que nenhuma criatura de Deus é impura; segunda, que, ainda que se tivesse tornado impura, tens um remédio — sela-a, dá graças e glorifica a Deus, e toda a impureza se desfaz. Poderemos, pois, purificar assim o que foi oferecido a um ídolo? Sim, se não souberes que assim foi oferecido. Mas, se, sabendo-o, dele participares, ficarás impuro; não porque foi oferecido a um ídolo, mas porque, contra um mandamento expresso, comungas com os demônios. De modo que não é impuro por natureza, mas se torna tal por tua desobediência voluntária. Que dizer, então, não é impura a carne de porco? De modo algum, quando é recebida com ação de graças e com o selo; nem o é qualquer outra coisa. É a tua disposição ingrata para com Deus que é impura.
Falando assim das coisas comestíveis, ele impugna antecipadamente a heresia daqueles que introduzem uma matéria incriada e afirmam que estas coisas procedem dela.... Estabelece duas proposições. A primeira é que nenhuma criatura de Deus é impura. A segunda é que, ainda que se tivesse tornado impura, tens um remédio: sela-a, dá graças e glorifica a Deus, e toda a impureza se desfaz.... De modo que uma coisa não é impura por natureza, mas se torna tal por tua desobediência voluntária. Que dizer, então, não é impura a carne de porco? De modo algum, quando é recebida com ação de graças e com o selo. Nem o é qualquer outra coisa. É a tua disposição ingrata para com Deus que é impura.
Que coisas se entendem aqui? As mesmas que ele antes mencionara: que grande é o mistério; que abster-se dos alimentos é doutrina de demônios; que eles são purificados pela palavra de Deus e pela oração.
Por estas se entendem as tradições judaicas, e ele as chama "fábulas", seja por causa de sua falsidade, seja por sua inoportunidade. Pois o que é oportuno é útil, mas o que é inoportuno não é apenas inútil, mas também nocivo.
autoridade; mas tudo é condescendência: ele não diz ordenando ou preceituando, mas lembrando-lhes: isto é, sugerindo estas coisas como matéria de conselho, e assim entrando em discursos com eles acerca da fé, sendo nutridos, diz ele, querendo significar a constância na aplicação a estas coisas.
Pois assim como diariamente nos propomos este alimento corporal, assim ele quer dizer que continuamente devemos receber discursos acerca da fé, e sempre sermos nutridos com eles. Que é isto, ser nutrido? É ruminar sobre eles; atentar sempre às mesmas coisas, e praticar sempre as mesmas, pois não é alimento comum o que eles fornecem.
Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas. Por estas se entendem as tradições judaicas, e ele as chama fábulas, seja por causa de sua falsidade, seja por sua inoportunidade. Pois o que é oportuno é útil, mas o que é inoportuno não é apenas inútil, mas também nocivo. Suponha-se que um homem de idade adulta seja amamentado por uma ama; não seria ele ridículo, por ser isto inoportuno? Fábulas profanas e de velhas, ele as chama, em parte por sua obsolescência, e em parte porque são impedimentos à fé. Pois lançar sob temor almas que se elevaram acima destas coisas é um mandamento ímpio. Exercita-te para a piedade. Isto é, para uma fé pura e uma vida moral; pois isto é a piedade. Assim, pois, necessitamos de exercício.
Pois o exercício corporal para pouco é proveitoso. Isto foi por alguns referido ao jejum; mas longe tal noção! Pois aquele não é exercício corporal, mas espiritual. Se fosse corporal, nutriria o corpo, ao passo que o consome e o emagrece, de modo que não é corporal. Portanto, ele não fala da disciplina do corpo. O que necessitamos, pois, é do exercício da alma. Pois o exercício do corpo não tem proveito, mas pode beneficiar um pouco o corpo, ao passo que o exercício da piedade rende fruto e vantagem, tanto aqui como no porvir.
Fiel é esta palavra, isto é, é verdade que a piedade é proveitosa tanto aqui como no porvir. Observai como, em toda parte, ele introduz isto; não necessita de demonstração, mas simplesmente o declara, pois se dirigia a Timóteo.
Assim, pois, mesmo aqui, temos boas esperanças? Pois aquele que não tem consciência de mal algum em si mesmo, e que foi fecundo em bem, alegra-se mesmo aqui: assim como o ímpio, ao contrário, é punido tanto aqui como no porvir. Ele vive em perpétuo temor, não pode olhar a ninguém no rosto com confiança, está pálido, trêmulo e cheio de ansiedade. Não é assim com os fraudulentos e com os ladrões, que não têm satisfação nem mesmo no que possuem? Não é a vida dos homicidas e adúlteros muito miserável, os quais olham com suspeita até para o próprio sol? Há de isto chamar-se vida? Não; antes, uma morte horrenda!
Isto equivale a dizer: por que mortificamos a nós mesmos, senão porque esperamos bens futuros? Acaso suportamos tantos males, submetemo-nos a tantos opróbrios, sofremos tais insultos e calúnias, e tão numerosas calamidades, em vão? Pois, se não confiássemos no Deus vivo, por que motivo nos submeteríamos a estas coisas? Mas se Deus é aqui o Salvador dos incrédulos, muito mais o será, doravante, dos fiéis. De que salvação fala ele? Daquela que há de vir? Diz ele: o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem. Por ora, fala daquela que é presente. Mas como é Ele o Salvador dos fiéis? Se não o fosse, há muito já teriam sido destruídos, pois todos os homens lhes moveram guerra. Ele o chama aqui a suportar perigos, para que, tendo a Deus por Salvador, não desfaleça nem necessite de qualquer auxílio alheio, mas suporte tudo de bom grado e com fortaleza. Até mesmo aqueles que avidamente se apegam às vantagens mundanas, sustentados pela esperança do lucro, empreendem de bom ânimo laboriosos empreendimentos.
É, pois, o último tempo. Pois nos últimos tempos, diz ele, alguns se apartarão da fé. Proibindo casar. Acaso nós proibimos o casamento? Longe disso. Não proibimos aos que desejam casar-se, mas aos que não desejam casar-se exortamos à virgindade. Uma coisa é proibir, outra é deixar cada um à sua própria e livre escolha. Quem proíbe, fá-lo de uma vez por todas; mas quem recomenda a virgindade como estado mais elevado não proíbe o matrimônio, ainda que prefira a virgindade.
Proibindo casar, diz ele, e ordenando abster-se de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade. Bem se disse: que conhecem a verdade. As coisas antigas, pois, eram figura. Porque nada é impuro por natureza, mas o torna tal a consciência daquele que dele participa. E qual era o objetivo da proibição de tantos alimentos? Refrear o excesso de luxúria. Mas se se tivesse dito "não comais por causa da luxúria", não teria sido suportado. Foram, portanto, encerrados sob a necessidade da lei, a fim de que se abstivessem pelo princípio mais forte do temor. O peixe não foi proibido, ainda que fosse manifestamente mais impuro que o porco. Mas poderiam ter aprendido quão perniciosa era a luxúria daquele dito de Moisés: Jesurum engordou e recalcitrou (Dt 32:15). Outra causa dessas proibições pôde ter sido que, vendo-se privados de outros alimentos, fossem levados a abater ovelhas e bois; ele, portanto, os refreou quanto às demais coisas, por causa de Ápis e do bezerro, o que era abominação, ingratidão, poluição e profanação.
Faze-os lembrar-se destas coisas, medita nestas coisas, pois pela expressão "nutrido nas palavras da fé e da boa doutrina" se dá a entender que ele não deveria apenas recomendar estas coisas a outros, mas praticá-las ele mesmo. Pois diz: Nutrido nas palavras da fé e da boa doutrina que alcançaste. Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas. Por que não diz "abstém-te delas", mas "rejeita"? Com isso indica que devem ser inteiramente repudiadas. Seu intento é que ele não entre em disputa alguma com os que as ensinam, mas recomende ao seu próprio povo as coisas antes prescritas. Pois nada se ganha em contender com homens perversos, salvo onde pudesse causar dano, se se supusesse que, por fraqueza, ele evitava discutir com eles.
Mas exercita-te a ti mesmo para a piedade, isto é, para uma vida pura, e para a mais virtuosa conduta. Aquele que se exercita, mesmo quando não é tempo de combate, age sempre como se estivesse combatendo, pratica a abstinência, suporta todas as fadigas, está sempre vigilante, suporta grande labor. Exercita-te, diz ele, para a piedade; porquanto o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida que agora é, e da que há de vir. E por que, pergunta alguém, menciona ele este exercício corporal? Para mostrar, por comparação, a superioridade do outro, visto que aquele não traz nenhuma vantagem sólida, ainda que acompanhado de muitas fadigas, ao passo que este possui um bem duradouro e abundante. Assim como quando ordena às mulheres que se adornem, não com cabelos entrançados, ou ouro, ou trajes custosos, mas com aquilo que convém a mulheres que professam a piedade: com boas obras. 1 Tm 2:9-10
Moral. Fiel é esta palavra, e digna de toda aceitação. Pois por isso mesmo trabalhamos e sofremos opróbrio. Sofreu, pois, Paulo opróbrio, e tu és impaciente? Trabalhou Paulo, e queres tu viver luxuriosamente? Mas se ele tivesse vivido luxuriosamente, jamais teria alcançado tão grandes bênçãos. Pois se os bens do mundo, que são incertos e perecíveis, jamais são alcançados pelos homens sem trabalho e fadigas, muito menos o são os bens espirituais. Pois bem, diz alguém, mas alguns os herdam. Contudo, ainda quando herdados, não são guardados nem preservados sem trabalho, e cuidado, e trabalho, não menos do que os têm aqueles que os adquiriram. E nem preciso dizer que muitos que labutaram e suportaram dificuldades foram decepcionados bem à entrada do porto, e um vento contrário causou o naufrágio de suas esperanças, quando já estavam à beira da posse. Mas conosco não há nada semelhante a isto. Pois é Deus quem prometeu, e aquela esperança não confunde. Rm 5:5 Vós que sois versados nos negócios do mundo, não sabeis quantos homens, após infindáveis fadigas, não gozaram o fruto de seus labores, seja por terem sido antes ceifados pela morte, seja por serem alcançados pela desventura, seja por serem assaltados pela doença, seja por serem arruinados por falsos acusadores, ou por alguma outra causa, que, em meio à variedade dos casos humanos, os forçou a ir de mãos vazias?
Mas não vejo eu, dirá alguém, os homens afortunados que com pouco trabalho adquirem os bens da vida? Que bens? Dinheiro, casas, tantos e tantos acres de terra, séquitos de servos, montões de ouro e prata? Podes chamar a estes de bens, e não esconder a cabeça de vergonha? Um homem chamado à busca da sabedoria celeste, e boquiaberto diante das coisas mundanas, chamando-as de bens, sendo elas de nenhum valor! Se estas coisas são bens, então os que as possuem hão de ser chamados bons. Pois não é bom aquele que possui o que é bom? Mas quando os possuidores destas coisas são culpados de fraude e rapina, chamá-los-emos bons? Pois se a riqueza é um bem, mas é aumentada pela rapacidade, quanto mais aumentada for, tanto mais bom será considerado o seu possuidor. É bom, pois, o homem rapace? Mas se a riqueza é boa, e cresce pela rapacidade, quanto mais um homem se torna rapace, tanto melhor há de ser. Não é isto claramente uma contradição? Mas suponhamos que a riqueza não foi ganha injustamente. E como é isto possível? Tão destrutiva paixão é a avareza, que enriquecer sem injustiça é impossível. Isto o próprio Cristo declarou, dizendo: Fazei para vós amigos por meio das riquezas da injustiça (Lc 16:9). Mas e se ele sucedeu à herança de seu pai? Então recebeu o que fora ajuntado pela injustiça. Pois não foi de Adão que seu antepassado herdou as riquezas, mas, dentre os muitos que o precederam, algum, provavelmente, tomou injustamente e usufruiu os bens alheios. Que dizer então? Dirá alguém: possuiu Abraão riqueza injusta? E Jó, aquele homem irrepreensível, justo e fiel, que temia a Deus e se afastava do mal? A riqueza destes não consistia em ouro e prata, nem em casas, mas em gado. Além disto, foi ele enriquecido por Deus. E o autor daquele livro, ao relatar o que sucedeu a esse bem-aventurado homem, menciona a perda de seus camelos, éguas e jumentos, mas não fala de tesouros de ouro ou prata que lhe fossem tomados. As riquezas de Abraão eram também os seus domésticos. Que dizer, pois? Não os comprou ele? Não, pois a este mesmo respeito diz a Escritura que os trezentos e dezoito nasceram em sua casa (Gn 14:14). Tinha também ovelhas e bois. De onde, então, enviou ele ouro a Rebeca? (Gn 24:22; 12:16) Dos presentes que recebera do Egito, sem violência nem injustiça.
Dize-me, pois, de onde és rico? De quem o recebeste, e de quem o recebeu aquele que to transmitiu? De seu pai e de seu avô. Mas podes tu, remontando por muitas gerações, mostrar justa a aquisição? Não pode ser. A raiz e origem dela há de ter sido a injustiça. Por quê? Porque Deus, no princípio, não fez a um homem rico e a outro pobre. Nem depois tomou e mostrou a um tesouros de ouro, negando a outro o direito de os buscar; mas deixou a terra livre a todos igualmente. Por que, então, se ela é comum, tens tu tantos acres de terra, enquanto o teu vizinho não possui uma porção dela? Foi-me transmitida por meu pai. E a ele por quem? Por seus antepassados. Mas hás de retroceder e encontrar o proprietário original. Jacó teve riqueza, mas esta foi ganha como salário de seus trabalhos.
Ora, não insistirei muito neste argumento. Que teus bens sejam justamente adquiridos, e não fruto de rapina. Pois não és tu responsável pelos atos cobiçosos de teu pai. Tua fortuna pode provir de rapina; mas não foste tu o espoliador. Ou, admitindo-se que ele não a obteve por roubo, que seu ouro foi lançado por acaso da terra. Que se segue disso? É a riqueza, por isso, boa? De modo algum. Ao mesmo tempo, não é má, dirá alguém, se seu possuidor não for cobiçoso; não é má, se for distribuída aos pobres; do contrário, é má, é laço. Mas se ele não faz o mal, ainda que não faça o bem, não é má — assim argumenta. Verdade. Mas não é isto um mal — que só tu possuas o que é do Senhor, que só tu desfrutes do que é comum? Não é a terra do Senhor, e a sua plenitude? Se, pois, os nossos bens pertencem a um único Senhor comum, pertencem também aos nossos conservos. As posses de um só Senhor são todas comuns. Não vemos isto como norma estabelecida nas grandes casas? A todos é dada porção igual de provisões, pois esta procede dos tesouros do senhor. E a casa do amo se abre a todos. As posses do rei são todas comuns, como as cidades, as praças e os passeios públicos. Todos as partilhamos igualmente.
Considerai a sábia disposição de Deus. Para envergonhar o gênero humano, Ele fez comuns certas coisas — o sol, o ar, a terra e a água, o céu, o mar, a luz, os astros — cujos benefícios são dispensados igualmente a todos como a irmãos. Todos fomos formados com os mesmos olhos, o mesmo corpo, a mesma alma, a mesma estrutura em tudo, todas as coisas oriundas da terra, todos os homens de um só homem, e todos na mesma habitação. Mas isto não basta para nos envergonhar. Outras coisas, então, como já dissemos, Ele fez comuns, como os banhos, as cidades, as praças, os passeios. E observai que, quanto às coisas comuns, não há contenda, mas tudo é pacífico. Mas quando alguém tenta apossar-se de algo, torná-lo seu, então se introduz a contenda, como se a própria natureza se indignasse de que, quando Deus nos reúne de todas as formas, nós nos apressemos a dividir-nos e separar-nos, apropriando-nos das coisas e usando aquelas frias palavras — meu e teu. Então há contenda e inquietação. Mas onde isto não existe, não se gera nem luta nem contenda. Este estado, portanto, é antes a nossa herança, e mais conforme à natureza. Por que é que jamais há disputa acerca de uma praça pública? Não é porque ela é comum a todos? Mas acerca de uma casa, e acerca de propriedade, os homens sempre disputam. As coisas necessárias nos são postas em comum diante; mas nem mesmo nas coisas mínimas observamos a comunhão. Contudo, aquelas coisas maiores Ele as abriu livremente a todos, para que, com isso, fôssemos instruídos a ter estas coisas inferiores em comum. Ainda assim, com tudo isto, não somos instruídos.
Mas, como disse, como pode aquele que é rico ser homem bom? Quando distribui suas riquezas, é bom, de modo que é bom quando cessa de possuí-las, quando as dá a outros; mas enquanto as retém para si, não é bom. Como, pois, pode ser bom aquilo que, retido, torna os homens maus, e, do qual se apartando, os torna bons? Não, portanto, o ter riqueza, mas o não a ter, faz parecer que alguém é bom. A riqueza, portanto, não é um bem. Mas se, podendo recebê-la, não a recebes, então és bom novamente.
Vejamos: se, portanto, somos bons quando, possuindo-a, a repartimos com outros; ou quando nos é oferecida, a recusamos; e se não somos bons quando a recebemos ou a adquirimos, como poderia ela ser um bem em si mesma? Não a chameis, pois, de bem. Não a possuis porque a julgas um bem, porque estás ansioso por possuí-la. Purifica o teu entendimento, corrige o teu juízo, e então serás bom. Aprendei quais são os bens verdadeiros. Quais são eles? A virtude e a benevolência. Estes, e não aquele, são verdadeiramente bens. Segundo esta regra, quanto mais caridoso fores, tanto mais bom serás considerado. Mas se és rico, já não és bom por isso. Tornemo-nos, pois, bons desta maneira, para que sejamos verdadeiramente bons, e possamos alcançar os bens futuros em Jesus Cristo, com o qual, etc.
Em alguns casos é necessário ordenar, em outros, ensinar. Se ordenares onde se requer ensino, tornar-te-ás ridículo. Novamente, se ensinares onde deverias ordenar, expões-te à mesma reprovação... Não professar o judaísmo deve ser um simples preceito, mas o ensino é requerido quando queres levar persuasivamente as pessoas a se desfazerem de seus bens, a viver castamente, ou quando discorres sobre a fé... Mas onde está em jogo a salvação de outrem, ordena e interpõe-te com autoridade. Este não é caso para moderação, mas para autoridade, para que o bem comum não venha a sofrer.
Em alguns casos é necessário ordenar; em outros, ensinar. Se, portanto, ordenardes naquilo em que se requer ensino, tornar-vos-eis ridículo. Igualmente, se ensinardes onde deveríeis ordenar, ficais expostos à mesma censura. Por exemplo, não convém ensinar a um homem que não seja perverso, mas ordenar; proibi-lo com toda a autoridade. Não professar o judaísmo deve ser matéria de ordem; mas o ensino é requerido quando quiserdes levar os homens a desapegar-se de seus bens, a professar a virgindade, ou quando quiserdes discorrer sobre a fé. Por isso Paulo menciona ambos: Ordena e ensina. Quando um homem usa amuletos, ou faz algo semelhante, sabendo que é errado, requer apenas uma ordem; mas aquele que o faz por ignorância deve ser ensinado quanto ao seu erro. Ninguém despreze a tua mocidade.
Por que razão, então, escreve ele somente a Tito e a Timóteo? É porque já lhes havia confiado o cuidado das igrejas, e certos lugares determinados lhes tinham sido designados, ao passo que os demais ouviam, por assim dizer de fora, o que lhes dizia. Pois tão preeminente era Timóteo em virtude que a sua mocidade não constituía impedimento algum à sua promoção; por isso escreve: "Ninguém despreze a tua mocidade." ... Pois onde há virtude, todas as demais coisas são supérfluas, e não pode haver impedimento. Homilias sobre Timóteo, Argumento
Observai que convém ao presbítero ordenar e falar com autoridade, e não sempre ensinar. Mas porque, por um preconceito comum, a mocidade costuma ser desprezada, diz por isso: Ninguém despreze a tua mocidade. Pois o mestre não deve estar exposto ao desprezo. Mas, se não deve ser desprezado, que lugar resta então para a mansidão e a moderação? Na verdade, o desprezo que recai sobre ele mesmo, pessoalmente, deve suportá-lo; pois o ensino se recomenda pela longanimidade. Mas não assim quando se trata de outros; pois isso não é mansidão, mas frieza. Se alguém vinga insultos, palavras ásperas e injúrias feitas a si mesmo, com razão o censurais. Mas onde está em jogo a salvação de outros, ordenai e intervinde com autoridade. Não é caso para moderação, mas para autoridade, para que o bem comum não sofra. Ele prescreve uma ou outra atitude, conforme a ocasião exigir. Ninguém te despreze por causa da tua mocidade. Pois enquanto a tua vida servir de contrapeso, não serás desprezado por causa da mocidade, mas antes ainda mais admirado: por isso prossegue dizendo:
Mas sê exemplo dos fiéis na palavra, no trato, na caridade, na fé, na pureza. Em tudo mostrando-te exemplo de boas obras: isto é, sê tu mesmo o modelo de uma vida cristã, como um padrão posto diante dos outros, como uma lei viva, como regra e norma do bem viver, pois tal deve ser o mestre. Na palavra, para que fale com facilidade; no trato, na caridade, na fé, na verdadeira pureza, na temperança.
Não é possível, digo, não é possível jamais esgotar o sentido das Escrituras. É um poço que não tem fundo.
Em que superou São Paulo os demais apóstolos? ... Não é acaso pela excelência de suas epístolas? Por meio delas ajudou, e ajudará, e, enquanto durar o gênero humano, jamais deixará de ajudar os fiéis, não somente os de seu tempo, mas os que desde aquele dia até hoje, e os que crerão até a vinda de Cristo. Pois seus escritos fortificam as igrejas por todo o mundo como um muro de aço... Seus escritos não nos são úteis apenas para a refutação da falsa doutrina e o estabelecimento da verdadeira, mas nos ajudam também grandemente a viver uma vida boa... Estes fatos bastam para mostrar quanto empenho pôs nesta parte da sua obra. Mas ouvi ainda o que diz ao seu discípulo numa carta: "Aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino."
Até a Timóteo se ordena que se aplique à leitura. Instruamo-nos, pois, a não negligenciar o estudo dos sagrados escritos. Observai também que diz: Até que eu venha. Vede como o consola, pois, estando ele como que órfão, separado dele, era natural que necessitasse de tal consolo. Até que eu venha, diz, dá atenção à leitura das divinas escrituras, à exortação de uns aos outros, ao ensino de todos.
Não negligencies o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia. Aqui ele chama a doutrina de profecia.
Com a imposição das mãos do presbitério. Não fala ele aqui dos presbíteros, mas dos bispos. Pois não se pode supor que presbíteros tenham ordenado um bispo.
Aqui ele chama a doutrina de "profecia".
Se o quiserdes, tereis mais êxito uns com os outros do que nós podemos ter. Pois vós estais mais tempo uns com os outros, e conheceis melhor do que nós os assuntos uns dos outros. Além disso, não ignorais as faltas uns dos outros, e tendes maior liberdade de palavra, e amor e intimidade. Não são estas pequenas vantagens para o ensino, mas grandes e oportunas ocasiões para ele. Vós podereis, mais do que nós, tanto repreender quanto exortar. E não somente isto, mas, porque eu sou apenas um, ao passo que vós sois muitos; e vós, por mais numerosos que sejais, podereis ser mestres. Rogo-vos, pois, que não "negligencieis este dom".
Não fala ele aqui dos presbíteros, mas dos bispos. Pois não se pode supor que presbíteros tenham ordenado um bispo.
Observai quão frequentemente lhe dá conselho acerca das mesmas coisas, mostrando assim que um mestre deve, sobre todas as coisas, estar atento a estes pontos.
Atenta, diz ele, para ti mesmo e para a doutrina: permanece nelas. Isto é, atenta para ti mesmo, e ensina também a outros.
Pois, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo quanto aos que te ouvem.
Bem se diz: Salvarás a ti mesmo. Pois aquele que se nutre nas palavras da sã doutrina primeiro recebe ele mesmo o benefício dela. Ao admoestar outros, é ele mesmo tocado de compunção. Pois estas coisas não são ditas somente a Timóteo, mas a todos. E se tal conselho é dirigido àquele que ressuscitou os mortos, que se dirá a nós? Cristo mostra também o dever dos mestres, quando diz: O reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13). E o bem-aventurado Paulo dá o mesmo conselho, que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança (Rm 15). Isto ele praticou acima de todos os homens, tendo sido criado na lei de seus pais, aos pés de Gamaliel, donde depois naturalmente se aplicaria à leitura: pois quem exortava a outros, primeiro ele mesmo seguiria o conselho que dava. Daí encontrarmos nele contínuo apelo ao testemunho dos profetas, e a escrutar os seus escritos. Aplica-se, pois, Paulo à leitura, pois não é pequena a vantagem que se há de colher das Escrituras. Nós, porém, somos indolentes, e ouvimos com descuido e indiferença. Que castigo não merecemos!
Para que o teu proveito apareça, diz ele, a todos.
Assim quis que ele parecesse grande e admirável também neste ponto, mostrando que isto ainda lhe era necessário, pois desejava que o seu proveito aparecesse não somente na vida, mas na palavra da doutrina.
A admoestação é, por sua própria natureza, propensa a ofender, sobretudo quando dirigida a um ancião; e quando procede também de um jovem, intensifica-se ainda mais a impressão de atrevimento. Convém, pois, suavizá-la pelo modo e pela mansidão com que se profere. Pois é possível corrigir sem ofender, bastando que nisto se ponha empenho: requer grande discrição, mas pode ser feito.
Fala ele agora da ordem sacerdotal? Penso que não, mas de qualquer homem idoso. Que fazer, pois, se este necessitar de correção? Não o repreendas asperamente, mas dirige-te a ele como a um pai que erra.
A repreensão é, por sua própria natureza, propensa a ofender, sobretudo quando dirigida a um ancião; e quando procede também de um jovem, triplica-se a demonstração de atrevimento. Por isso, ele a suavizaria pelo modo e pela mansidão. Pois é possível repreender sem ofender, bastando que nisto se ponha empenho: requer grande discrição, mas pode ser feito.
Aos jovens, como a irmãos. Por que recomenda ele isto também aqui? Em vista do ânimo altivo natural aos jovens, pelo qual convém suavizar também para com eles a repreensão, com moderação.
Às jovens, como a irmãs; acrescenta, em toda pureza. Não me digas, quer ele dizer, que baste apenas evitar com elas o trato pecaminoso. Não deve haver sequer suspeita. Pois, sendo sempre suspeita a intimidade com mulheres jovens, e não podendo o bispo evitá-la sempre, mostra ele, ao acrescentar estas palavras, que em tal intimidade se requer toda pureza. Mas dá Paulo este conselho a Timóteo? Sim, diz ele, pois por meio dele falo ao mundo. Mas, se Timóteo foi assim aconselhado, considerem os outros que espécie de conduta lhes é exigida, para que não deem ocasião a suspeita, nem sombra de pretexto, aos que desejam caluniar.
Para ser virgem, não basta simplesmente abster-se do comércio carnal. Muitas outras coisas são necessárias: a irrepreensibilidade e a perseverança. Do mesmo modo, a perda do marido não constitui a verdadeira viúva, mas antes a paciência, unida à castidade e ao afastamento de todos os homens. Tais viúvas Ele justamente nos ordena honrar, e mais ainda, sustentar. Pois necessitam de sustento, estando desamparadas e não tendo marido que se levante em seu favor.
Por que nada diz ele acerca da virgindade, nem nos ordena honrar as virgens? Talvez ainda não houvesse quem professasse esse estado, ou porventura já houvessem dele decaído. Pois algumas, diz ele, já se desviaram após Satanás (1 Tm 5,15). Porquanto uma mulher pode ter perdido o marido e, contudo, não ser verdadeiramente viúva. Assim como, para ser virgem, não basta ser estranha ao matrimônio, mas muitas outras coisas são necessárias, como a irrepreensibilidade e a perseverança; assim também a perda do marido não constitui a viúva, mas a paciência, unida à castidade e à separação de todos os homens. Tais viúvas Ele justamente nos ordena honrar, ou antes, sustentar. Pois necessitam de sustento, estando desamparadas e não tendo marido que se levante em seu favor. Sua condição parece à multidão desprezível e de mau agouro. Por isso quer ele que recebam maior honra da parte do Sacerdote, e tanto mais quanto dela são dignas.
Observai a discrição de Paulo, quão frequentemente nos exorta a atender a considerações humanas. Pois não estabelece aqui nenhum motivo grande e sublime, mas um que é fácil de compreender: "retribuir aos pais". Por quê? Por os haverem criado e educado. É como se dissesse: recebestes deles grande cuidado. Eles já partiram. Não podeis compensá-los. Pois não fostes vós que os gerastes nem os alimentastes. Compensai-os em seus descendentes. Pagai a dívida por meio dos filhos.
Observai a discrição de Paulo; quão frequentemente exorta os homens a partir de considerações humanas. Pois não estabelece aqui nenhum motivo grande e sublime, mas um que é fácil de compreender: retribuir aos pais. Como? Por os haverem criado e educado. Como se dissesse: recebestes deles grande cuidado. Eles já partiram. Não podeis retribuir-lhes. Pois não foste tu que os geraste, nem os alimentaste. Retribuí-los em seus descendentes, pagai a dívida por meio dos filhos. Aprendam eles primeiro a mostrar piedade em casa. Aqui os exorta mais simplesmente a atos de bondade; depois, para excitá-los ainda mais, acrescenta:
Porque isto é bom e aceitável diante de Deus. E, havendo falado daquelas que são verdadeiramente viúvas, declara quem é, na verdade, viúva.
A quem se diz isto? Àquelas que não têm filhos, porque são mais altamente aprovadas e têm maior oportunidade de agradar a Deus, pois todas as suas cadeias lhes são soltas. Não há quem as prenda com firmeza, ninguém que as obrigue a arrastar consigo as suas cadeias. Estás separada do teu marido, mas estás unida a Deus. Não tens um consorte por companheiro, mas tens o teu Senhor.
Mas se alguma não tem filhos, quer ele dizer, está desolada. A essa consola de modo especial, dizendo que é verdadeiramente viúva quem perdeu não somente a consolação do marido, mas também a que provém dos filhos, e contudo tem a Deus em lugar de tudo.
Ela, que sendo viúva, não escolheu para si uma vida mundana, é verdadeiramente viúva; ela, que confia em Deus como convém, e persevera em oração noite e dia, é verdadeiramente viúva. Não que aquela que tem filhos não seja verdadeiramente viúva. Pois ele louva a que cria seus filhos como convém. Mas se alguma não tem filhos, ele quer dizer que ela está desolada, e a esta consola, dizendo que ela é a mais verdadeiramente viúva, pois perdeu não somente a consolação do marido, mas também a que provém dos filhos, e contudo tem Deus em lugar de tudo. Ela não é inferior por não ter filhos, mas Ele lhe supre a carência com Sua consolação, precisamente porque é sem filhos. O que ele diz equivale a isto: Não te aflijas, quando se disser que a viúva deve criar filhos, como se, por não teres filhos, o teu mérito fosse por isso inferior. Tu és verdadeiramente viúva, ao passo que a que vive em prazeres está morta enquanto vive.
Mas, visto que muitos que têm filhos escolhem o estado de viuvez, não para cortar as ocasiões de uma vida mundana, mas antes para aumentá-las, a fim de fazerem o que quiserem com maior licença, e se entregarem mais livremente às luxúrias mundanas, por isso ele diz: A que vive em prazeres está morta enquanto vive. Não deveria então uma viúva viver em prazeres? Certamente que não. Se, pois, quando a natureza e a idade são fracas, uma vida de prazer não é permitida, mas conduz à morte, à morte eterna, que dirão então os homens que vivem uma vida de prazer? Mas ele diz com razão: A que vive em prazeres está morta enquanto vive. Mas, para que vejais isto, examinemos agora qual é o estado dos mortos, e qual o dos vivos, e em qual deles colocaremos tal mulher. Os vivos realizam as obras da vida, daquela vida futura, que é verdadeiramente vida. E Cristo declarou quais são as obras daquela vida futura, com as quais devemos estar sempre ocupados: Vinde, herdai o reino que vos foi preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber (Mt 25,34-35). Os vivos diferem dos mortos não somente porque contemplam o sol e respiram o ar, mas porque praticam algum bem. Pois, se isto faltar, os vivos não são melhores que os mortos. Para que aprendais isto, ouvi como é possível que até os mortos vivam. Pois está dito: Deus não é Deus de mortos, mas de vivos (Mt 22,32). Mas isto, direis vós novamente, é um enigma. Solucionemos, pois, ambos. Um homem que vive em prazeres está morto enquanto vive. Pois vive somente para o seu ventre. Nos seus outros sentidos, não vive. Não vê o que deveria ver, não ouve o que deveria ouvir, não fala o que deveria falar. Nem realiza as ações dos vivos. Mas, assim como aquele que está estendido num leito, com os olhos fechados e as pálpebras cerradas, nada percebe do que se passa, assim é com este homem — ou antes, não assim, mas pior. Pois aquele é igualmente insensível às coisas boas e más, mas este é sensível apenas às coisas más, e tão insensível quanto aquele às coisas boas. Assim, ele está morto. Pois nada do que se refere à vida futura o move ou o afeta. Porque a intemperança, tomando-o em seu próprio seio, como numa caverna escura e lúgubre, cheia de toda imundície, faz com que habite inteiramente nas trevas, como os mortos. Pois, quando todo o seu tempo se passa entre banquetes e embriaguez, não está ele morto e sepultado nas trevas? Mesmo pela manhã, quando parece estar sóbrio, não está sóbrio de fato, visto que ainda não se livrou nem se purificou do excesso de ontem, e ainda anseia por sua repetição; e assim passa a sua noite e o seu meio-dia em festins, e toda a noite, e a maior parte da manhã em sono profundo.
Poderá então ele ser contado entre os vivos? Quem poderia descrever aquela tempestade que provém da luxúria, que assalta sua alma e seu corpo? Pois assim como um céu continuamente encoberto de nuvens não deixa que os raios do sol o penetrem, assim também os vapores da luxúria e do vinho, envolvendo o cérebro como se fosse uma rocha, e lançando sobre ele uma névoa espessa, não permitem que a razão exerça sua atividade, mas cobrem o homem embriagado de trevas profundas. Naquele que assim se encontra afetado, quão grande deve ser a tempestade interior, quão violento o tumulto! Como quando uma inundação de águas se ergueu e ultrapassou as entradas das oficinas, vemos todos os que ali habitam em confusão, servindo-se de tinas, cântaros e esponjas, e de muitos outros expedientes para esgotá-la, a fim de que não solape o edifício nem estrague tudo quanto nele se contém — assim também é quando a luxúria submerge a alma: seus raciocínios interiores ficam perturbados. O que já se acumulou não pode ser escoado, e, com a introdução de mais, levanta-se uma tempestade violenta. Não olhes, pois, para o semblante alegre e jovial, mas examina o interior, e verás que está repleto de profunda tristeza. Se fosse possível trazer a alma à vista e contemplá-la com os olhos corporais, a do homem entregue à luxúria pareceria abatida, pesarosa, mísera e consumida de magreza; pois quanto mais o corpo se torna luzidio e grosseiro, tanto mais magra e enfraquecida se torna a alma; e quanto mais um é regalado, tanto mais o outro é tolhido. Assim como, quando a pupila do olho tem as membranas externas demasiado espessas sobre si, não pode exercer a faculdade da visão nem enxergar para fora, porque a luz é excluída pela cobertura espessa, e frequentemente sobrevêm as trevas — assim, quando o corpo é constantemente saciado em demasia, a alma há de necessariamente revestir-se de grosseria. Mas os mortos, dirás, apodrecem e se corrompem, e deles destila uma umidade insalubre. Assim também naquela que vive nos prazeres podem ver-se fluxos, e fleuma, catarro, soluço, vômitos, arrotos, e coisas semelhantes que, por demasiado indecorosas, me abstenho de nomear. Pois tal é o domínio da luxúria, que faz suportar coisas que nem sequer julgamos conveniente mencionar.
Mas ainda perguntas: como se dissolve o corpo, sendo que ainda come e bebe? Por certo isto não é sinal de vida humana, pois também os animais irracionais comem e bebem. Onde jaz morta a alma, que aproveitam o comer e o beber? O corpo morto, ainda que se revista de vestimenta florida, não é por ela beneficiado; e quando um corpo florescente reveste uma alma morta, tampouco a alma é beneficiada. Pois quando todo o seu discurso versa sobre cozinheiros, provedores e confeiteiros, e nada profere de piedoso, não está ela morta? Consideremos, pois, o que é o homem. Dizem os gentios que é um animal racional, mortal, capaz de inteligência e de conhecimento. Mas não tomemos dos gentios a nossa definição — donde, então, a tomaremos? Das sagradas Escrituras. Onde, pois, deu a Escritura definição do homem? Ouve as suas palavras: "Havia um homem perfeito e reto, temente a Deus e que se desviava do mal" (Jó 1:2). Este sim era um homem! De novo, diz outro: "Grande é o homem, e precioso é o homem misericordioso" (Pr 20:6, LXX). Aqueles que não correspondem a esta descrição, ainda que participem da mente e sejam, tanto quanto seja, capazes de conhecimento, recusa-se a Escritura a reconhecê-los como homens, chamando-os antes cães, cavalos, serpentes, raposas, lobos, e, se há animais ainda mais desprezíveis, também estes nomes lhes dá. Se, pois, tal é o homem, quem vive em deleites não é homem; pois como poderia sê-lo aquele que jamais pensa no que lhe cumpriria pensar? Luxúria e sobriedade não podem subsistir juntas: mutuamente se destroem. Até os próprios gentios o dizem:
Ventre pesado não sustenta mente sutil.
A tais homens chama a Escritura homens sem alma. "Meu Espírito", diz, "não permanecerá para sempre nestes homens, porquanto são carne" (Gn 6:3, LXX). Tinham, todavia, alma; mas, porque nela estava morta, Ele os chama carne. Pois assim como, no caso dos virtuosos, ainda que tenham corpo, dizemos: este é todo alma, este é todo espírito — assim também se diz o contrário destes que são de outra sorte. Assim também Paulo disse daqueles que não cumpriam as obras da carne: "Vós não estais na carne" (Rm 8:9). Deste modo, os que vivem em deleites não estão na alma, nem no espírito.
Não é possível, de modo algum não é possível, que os que gozam nesta vida de existência fácil e de isenção de necessidade, que continuamente se comprazem em tudo, que vivem ao acaso e insensatamente, gozem de honra na outra vida. Pois, se a pobreza não os aflige, aflige-os todavia a concupiscência, e por causa dela padecem, o que não traz pequena dor. Se a enfermidade não os ameaça, ainda assim a ira neles se acende, e é necessário mais que um combate ordinário para vencer a cólera. Se as provações não vêm tentá-los, ainda assim os maus pensamentos os assaltam continuamente. Não é tarefa comum refrear o desejo insensato, deter a vanglória, coibir a presunção, abster-se do luxo, perseverar na austeridade. Quem não faz isto e outras coisas semelhantes não pode salvar-se. Como testemunho de que os que vivem no luxo não podem salvar-se, ouve o que diz Paulo acerca da viúva: "a que vive em deleites está morta, ainda que viva."
Viver no luxo não parece, em si mesmo, ser crime manifesto e reconhecido. Mas ele gera em nós grandes males — a embriaguez, a violência, a extorsão e o roubo. Pois o pródigo e o que vive suntuosamente, prestando ao ventre um serviço desmedido, é muitas vezes constrangido a furtar, a apossar-se do alheio, a usar de extorsão e de violência. Se, pois, evitares a vida luxuriosa, removes o fundamento da extorsão, do roubo, da embriaguez e de mil outros males, cortando a raiz da iniquidade pela sua extremidade. Por isso diz Paulo que "a que vive em deleites está morta, ainda que viva."
Moral. Aquela que vive em deleites está morta enquanto vive. Ouvi isto, vós, mulheres que gastais o vosso tempo em banquetes e intemperança, e que negligenciais os pobres, que definham e perecem de fome, enquanto vós mesmas vos destruís com contínuo luxo. Assim sois causa de duas mortes: a daqueles que morrem de necessidade, e a vossa própria, ambas por má medida. Mas se, da vossa fartura, temperásseis a necessidade deles, salvaríeis duas vidas. Por que empanturrais assim o vosso próprio corpo com excesso, e desperdiçais o daquele pobre com carência? Por que mimais este além da medida, e privais aquele também além da medida? Considerai o que provém do alimento, em que se converte. Não vos causa repugnância sequer o nomeá-lo? Por que, então, sois ávidas por tais acúmulos? O aumento do luxo não é senão a multiplicação do esterco! Pois a natureza tem seus limites, e o que os excede não é alimento, mas dano, e aumento de imundície. Nutri o corpo, mas não o destruais. O alimento chama-se nutrimento para mostrar que seu propósito não é ferir o corpo, mas nutri-lo. Por esta razão, talvez, o alimento se converte em excremento, para que não sejamos amantes do luxo. Pois se assim não fosse, se não fosse inútil e nocivo ao corpo, não cessaríamos de nos devorarmos uns aos outros. Se o ventre recebesse tudo quanto lhe aprouvesse, o digerisse e o transmitisse ao corpo, veríamos guerras e batalhas inumeráveis. Mesmo agora, quando parte do nosso alimento se converte em imundície, parte em sangue, parte em fleuma espúria e inútil, ainda assim somos tão viciados no luxo, que despendemos talvez patrimônios inteiros numa única refeição. Que não faríamos, se este não fosse o fim do luxo? Quanto mais luxuriosamente vivemos, mais nauseabundos são os odores de que nos enchemos. O corpo é como um odre inchado, que verte por toda parte. Os arrotos são tais que causam dor à cabeça de quem está próximo. Do calor da fermentação interior, exalam-se vapores como de uma fornalha; se os que estão próximos padecem, que suponheis não sofra continuamente o cérebro no interior, assaltado por estas exalações? Para nada dizer dos canais do sangue aquecido e obstruído, daqueles reservatórios que são o fígado e o baço, e dos condutos pelos quais se descarregam as fezes. Os esgotos de nossas ruas cuidamos de manter desobstruídos. Limpamos nossos coletores com varas e ganchos, para que não se entupam nem transbordem; mas os canais de nossos corpos não mantemos desimpedidos, antes os obstruímos e sufocamos, e quando a imundície sobe até o próprio trono do rei — refiro-me ao cérebro — não nos importamos, tratando-o não como a um rei digno, mas como a um bruto imundo. Deus, de propósito, afastou para longe esses membros imundos, para que não recebêssemos deles ofensa. Mas nós não permitimos que assim seja, e tudo estragamos com nosso excesso. E outros males poderiam ser mencionados. Obstruir os esgotos é gerar pestilência; mas se um mau odor vindo de fora já é pestilento, aquele que fica retido dentro do corpo, sem poder achar saída, que desordens não há de produzir, tanto ao corpo quanto à alma? Alguns, estranhamente, se queixaram, admirando-se de por que Deus ordenou que carregássemos conosco um fardo de imundície. Mas eles mesmos aumentam o fardo. Deus quis, assim, desprender-nos do luxo, e persuadir-nos a não nos apegarmos às coisas do mundo. Mas vós não vos deixais assim persuadir a cessar da gula; antes, ainda que o prazer não vá além da garganta, e dure apenas o tempo da refeição — não, nem mesmo tanto tempo assim —, persistis em vossa intemperança.
Não é verdade que, tão logo passa pelo paladar e pela garganta, cessa o prazer? Pois a sensação dele está no gosto, e, satisfeito este, sobrevém o enjoo, não digerindo o estômago o alimento, ou não sem grande dificuldade. Com razão, pois, se diz que a que vive em deleites está morta enquanto vive. Porque a alma entregue ao luxo é incapaz de ouvir ou de ver coisa alguma. Torna-se fraca, ignóbil, efeminada, mesquinha, covarde, cheia de impudência, de servilismo, de ignorância, de ira, de violência e de toda sorte de mal, e destituída das virtudes contrárias. Por isso ele diz,
Não o deixa à escolha deles. Ordenai-lhes, diz ele, que não sejam luxuriosas, supondo isto ser confessadamente um mal, como não sendo lícito nem admissível que as luxuriosas participem dos Sagrados Mistérios. Ordenai estas coisas, diz ele, para que sejam irrepreensíveis. Vedes, pois, que isto é contado entre os pecados. Pois, se fosse matéria de escolha, ainda que se deixasse de fazer, poderíamos ainda assim ser irrepreensíveis. Portanto, em obediência a Paulo, ordenemos que a viúva luxuriosa não tenha lugar no rol das viúvas. Pois, se o soldado que frequenta os banhos, o teatro, as cenas tumultuosas da vida, é julgado como quem deserta do seu dever, muito mais as viúvas. Não busquemos, pois, aqui o nosso repouso, para que o encontremos no porvir. Não vivamos aqui em deleites, para que no porvir gozemos do verdadeiro deleite, da verdadeira delícia, que não traz consigo mal algum, mas bem infinito. Do qual conceda Deus que todos sejamos participantes, em Jesus Cristo, com quem, etc.
Muitos julgam que a própria virtude lhes basta para a salvação, e que, se regulam devidamente a própria vida, nada mais lhes falta para se salvarem. Mas nisto erram gravemente, o que se prova pelo exemplo daquele que enterrou o único talento que recebera, pois o devolveu não diminuído, mas íntegro, tal como lhe fora entregue. Mostra-o também o bem-aventurado Paulo, que diz aqui: Se alguém não prover pelos seus. A provisão de que fala é universal, e diz respeito tanto à alma quanto ao corpo, pois de ambos se deve prover.
Se alguém não prover pelos seus, e principalmente pelos de sua própria casa, isto é, por aqueles que lhe são proximamente aparentados, é pior que um infiel. E assim diz Isaías, o príncipe dos Profetas: Não desprezarás os teus parentes, da tua própria semente (Is 58,7, Septuaginta). Pois, se um homem abandona aqueles que lhe são unidos pelos laços do parentesco e da afinidade, como poderá ser afetuoso para com os outros? Não terá isto aparência de vanglória, quando, beneficiando a outros, despreza os próprios parentes e não os sustenta? E que se dirá, se, instruindo a outros, negligencia os seus, ainda que tenha maiores recursos e obrigação mais estrita de beneficiá-los? Não se dirá: Eis quão afetuosos são estes "cristãos", que negligenciam os próprios parentes! É pior que um infiel. Por quê? Porque este, se não beneficia os estranhos, ao menos não negligencia os seus parentes próximos. O que se quer dizer é isto: a lei de Deus e da natureza é violada por aquele que não provê pela própria família. Ora, se aquele que não provê por eles negou a fé e é pior que um infiel, onde há de ser posto aquele que prejudicou os próprios parentes? Com quem será contado? Mas como negou ele a fé? Assim como se diz: Professam conhecer a Deus, mas nas obras o negam (Tt 1,16). Que ordenou Deus, em quem creem? Não te escondas da tua própria carne (Is 58,7). Como, pois, crê aquele que assim nega a Deus? Considerem isto os que, para poupar suas riquezas, negligenciam os próprios parentes. Foi desígnio de Deus, ao unir-nos pelos laços do parentesco, proporcionar-nos muitas ocasiões de fazer o bem uns aos outros. Quando, pois, negligenciais um dever que os próprios infiéis cumprem, não tereis negado a fé? Pois a fé não consiste apenas em professar a crença, mas em fazer obras dignas da fé. E é possível, em cada caso particular, crer e não crer. Pois, tendo falado do luxo e da sensualidade, diz que tal mulher não é punida somente por ser luxuriosa, mas porque seu luxo a obriga a negligenciar sua casa. E diz isto com razão; pois a que vive para o ventre, também por isto perece, como quem negou a fé. Mas como é ela pior que um infiel? Porque não é o mesmo negligenciar os nossos parentes e negligenciar um estranho. Como poderia sê-lo? Antes, a culpa é maior aqui: abandonar quem se conhece é pior que abandonar quem nos é desconhecido, um amigo é pior que quem não é amigo.
E que se dirá, se, instruindo a outros, alguém negligencia a própria família, ainda que tenha maiores recursos e obrigação mais estrita de beneficiar os que lhe são próximos? Não se dirá: "Ah, eis quão afetuosos são estes 'cristãos', que negligenciam os próprios parentes!" "É pior que um infiel." E então? Aquele que não beneficia os que estão longe, muito menos beneficia os que lhe estão próximos. O que se quer dizer é isto: a lei de Deus e da natureza é violada por aquele que não provê pela própria família.
Mas por que desaconselha ele as segundas núpcias? É a coisa condenada? De modo algum. Isso seria herético. Ele quer apenas que ela esteja doravante ocupada nas coisas espirituais, transferindo todo o seu cuidado para a virtude. Pois o matrimônio não é estado impuro, mas de muita ocupação. Fala ele de terem elas mais tempo livre, não de serem mais puras por permanecerem sem casar.
É possível ser viúva e não estar inscrita na ordem das viúvas, como quando uma mulher ainda não abraçou este modo de vida (...). Paulo permite que a mulher não comprometida torne a casar-se, se assim o desejar. Mas admoesta severamente aquela que professou a Deus viuvez perpétua e depois, contudo, veio a casar-se, porque tratou com leviandade o seu compromisso para com Deus.
Ele havia dito: Aprendam primeiro a exercer piedade em sua própria casa e a retribuir aos pais. Havia dito também: A que vive em prazeres está morta ainda quando vive. Havia dito: Se alguém não tem cuidado dos seus, é pior que um infiel. Tendo mencionado as qualidades cuja ausência tornaria uma mulher indigna de ser contada entre as viúvas, ele menciona agora o que ela deve ter além disso. Que dizer, então? Devemos recebê-la por causa de seus anos? Que mérito há nisso? Não é obra sua ter sessenta anos. Por isso ele não fala da idade meramente, como se, mesmo tendo alcançado esses anos, ela pudesse, sem boas obras, ser contada entre esse número — o que, diz ele, não é o caso. Mas por que, então, ele é tão preciso quanto à idade? Adiante ele atribui uma causa que não se origina dele mesmo, mas das próprias viúvas. Entretanto, ouçamos o que se segue. Tendo bom testemunho por boas obras, se criou filhos. Verdadeiramente, não é obra de pouca importância criar filhos; mas criá-los não é apenas cuidar deles; é preciso criá-los bem, como ele disse antes: Se permanecerem na fé, na caridade e na santidade (1 Tm 2,15). Observai como ele constantemente antepõe as bondades para com nossos próprios parentes às que se dirigem a estranhos. Primeiro ele diz: Se criou filhos; depois: Se hospedou estrangeiros, se lavou os pés dos santos, se socorreu os aflitos, se diligentemente seguiu toda boa obra. Mas, e se ela for pobre? Nem mesmo nesse caso está ela impedida de criar filhos, hospedar estrangeiros, socorrer os aflitos. Ela não é mais destituída do que a viúva que deu as duas moedas. Por mais pobre que seja, tem casa, não se hospeda ao relento. Se, diz ele, lavou os pés dos santos — isto não é obra dispendiosa. Se diligentemente seguiu toda boa obra — que preceito nos dá ele aqui? Ele as exorta a prestar serviço corporal, pois as mulheres são particularmente aptas para tal assistência, para preparar o leito do enfermo e dispô-lo ao repouso.
Estranho! Que rigor exige ele das viúvas — quase tanto quanto do próprio Bispo. Pois diz: Se diligentemente seguiu toda boa obra. É como se quisesse dizer que, se ela não pudesse realizá-la por si mesma, ao menos participasse e cooperasse nela. Ao cortar o luxo, quer que ela seja providente, boa administradora, e ao mesmo tempo perseverante continuamente na oração. Tal foi Ana. Tamanho rigor exige ele das viúvas — maior ainda que o das virgens, das quais, no entanto, exige muito rigor e virtude eminente. Pois quando fala do que é decoroso, e de que ela sirva ao Senhor sem distração (1 Cor 7,35), oferece, de certo modo, uma súmula de toda virtude. Vedes que não basta apenas não contrair segundas núpcias para fazer alguém viúva; muitas outras coisas são necessárias. Mas por que desencoraja ele as segundas núpcias? É a coisa condenada? De modo nenhum. Isso é heresia. Apenas quer que ela, doravante, se ocupe das coisas espirituais, transferindo todo o seu cuidado à virtude. Pois o matrimônio não é um estado impuro, mas de muita ocupação. Fala ele de terem elas tempo livre, não de serem mais puras por permanecerem sem se casar. Pois o matrimônio certamente implica muito envolvimento secular. Se te absténs do matrimônio para teres tempo livre ao serviço de Deus, e contudo não empregas esse tempo livre assim, de nada te aproveita (se não usas o teu ócio) prestar todos os serviços aos estrangeiros e aos santos. Se não fazes assim, abstés-te do matrimônio não para nenhum fim bom, mas como se condenasses esse estado. Assim a virgem que não está verdadeiramente crucificada para o mundo, ao recusar o matrimônio, parece condená-lo como maldito e impuro.
Observai que a hospitalidade aqui referida não é apenas uma recepção amistosa, mas uma dada com zelo e alacridade, com prontidão, e cumprida como se se estivesse recebendo o próprio Cristo. As viúvas devem prestar estes serviços elas mesmas, não confiá-los às suas servas. Pois Cristo disse: Se Eu, vosso Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros (Jo 13,14). E ainda que uma mulher seja muito rica e da mais alta condição, orgulhosa de seu nascimento e de sua nobre família, não há entre ela e os outros a mesma distância que há entre Deus e os discípulos. Se recebes o estrangeiro como a Cristo, não te envergonhes, antes te glories; mas se não o recebes como a Cristo, não o recebas de modo algum. Quem vos recebe, disse Ele, a Mim recebe (Mt 10,40). Se não o recebes assim, não tens recompensa. Abraão recebia homens que passavam como viajantes, segundo ele pensava, e não deixou a seus servos os preparativos da hospedagem, mas tomou sobre si a maior parte do serviço, e ordenou à sua mulher que amassasse a farinha, embora tivesse trezentos e dezoito servos nascidos em sua casa, dos quais deviam ser muitas as servas; mas quis que ele mesmo e sua mulher tivessem a recompensa, não apenas do custo, mas do serviço. Assim devemos sempre exercer a hospitalidade com nosso próprio esforço pessoal, para que sejamos santificados, e nossas mãos sejam abençoadas. E se dás ao pobre, não desdenhes dar tu mesmo, pois não é ao pobre que se dá, mas a Cristo; e quem é tão miserável que desdenhe estender a própria mão a Cristo?
Esta é hospitalidade, isto é verdadeiramente fazê-lo por causa de Deus. Mas se dás ordens com soberba, ainda que lhe designes o primeiro lugar, não é hospitalidade, não é feito por causa de Deus. O estrangeiro requer muito cuidado, muito encorajamento, e com tudo isso é difícil que ele não se sinta constrangido; pois tão delicada é sua posição, que, ao receber o favor, ele se envergonha. Essa vergonha devemos remover pelo mais atento serviço, e mostrar por palavras e ações que não pensamos estar conferindo um favor, mas recebendo um, que estamos menos a obrigar do que a ser obrigados. Tanto a boa vontade multiplica a bondade. Pois assim como aquele que se considera prejudicado, e julga estar fazendo um favor, destrói todo o seu mérito, assim aquele que se vê como recebendo uma bondade aumenta a recompensa. Porque Deus ama a quem dá com alegria (2 Cor 9:7). De modo que és antes devedor ao pobre por receber a tua bondade. Pois se não houvesse pobres, a maior parte de teus pecados não seria removida. Eles são os médicos de tuas feridas, suas mãos são medicinais para ti. O médico, estendendo sua mão para aplicar um remédio, não exerce a arte curativa mais do que o pobre, que estende sua mão para receber tua esmola, e assim se torna cura para teus males. Dás teu dinheiro, e com ele teus pecados se vão. Tais eram os sacerdotes de antanho, dos quais foi dito: Comem do pecado do Meu povo (Os 4:8). Assim recebes mais do que dás, és beneficiado mais do que beneficias. Emprestas a Deus, não aos homens. Aumentas tua riqueza, mais do que a diminuis. Mas se não a diminuis dando, então ela é de fato diminuída!
O título de verdadeira viúva não é título de calamidade, mas de honra, e mesmo da mais alta honra... "Ó céus," exclamou certo mestre sofista, "que mulheres há entre os cristãos!" Tão grande é a admiração e o louvor de que goza a viuvez, não somente entre nós, mas também entre os que estão fora da Igreja. E, ciente de tudo isso, disse o bem-aventurado Paulo: "Não seja inscrita viúva de menos de sessenta anos". E, mesmo depois desta grande exigência quanto à idade, não lhe permite ser contada nesta sagrada assembleia sem mencionar ainda outros requisitos. Deve ela ser "de boa reputação por suas boas obras: se criou filhos, se hospedou estrangeiros, se lavou os pés dos santos, se socorreu os aflitos, se praticou com diligência toda sorte de boas obras". Ó céus! Que exame e que rigor! Quanta virtude exige da viúva, e com que precisão a define! Não teria assim procedido se não tencionasse confiar-lhe um posto de honra e dignidade.
Observai que a hospitalidade de que aqui se fala não é mero acolhimento amistoso, mas aquela que se presta com zelo e prontidão, com boa vontade, e de tal maneira que se procede como quem recebe o próprio Cristo.
Se acolheu estrangeiros, se lavou os pés dos santos. Mas quem são estes? Os santos aflitos, não santos quaisquer. Pois pode haver santos que são muito assistidos por todos. Não visites a estes, que gozam de abundância, mas àqueles que estão em tribulação, que são desconhecidos, ou conhecidos de poucos. Aquele que o fez a um destes pequeninos, diz Ele, a Mim o fez (Mt 25:40).
Moral. Não deis vossas esmolas aos que presidem na Igreja para as distribuir. Dai-as vós mesmo, para que tenhais a recompensa não apenas de dar, mas de servir com bondade. Dai com vossas próprias mãos. Lançai vós mesmo a semente no sulco. Aqui não se requer manejar o arado, nem jungir o boi, nem aguardar a estação, nem revolver a terra, nem lutar contra a geada. Nenhum trabalho assim se requer aqui, onde semeais para o céu, onde não há geada nem inverno nem coisa semelhante. Semeais em almas, onde ninguém rouba o que foi semeado, mas é firmemente conservado com todo cuidado e diligência. Lançai vós mesmo a semente; por que privar-vos de vossa recompensa? Há grande recompensa até em dispensar o que pertence a outros. Há recompensa não somente por dar, mas por bem dispensar as coisas que se dão. Por que não haveríeis de ter esta recompensa? Pois que há recompensa nisto, ouvi como lemos que os Apóstolos designaram Estêvão para o ministério das viúvas (At 6:5-7).
Sê tu mesmo o dispensador de teus próprios dons. Tua própria benevolência e o temor de Deus te designam para este ministério. Assim se exclui a vanglória. Isto refrigera a alma, isto santifica as mãos, isto derruba a soberba. Isto te ensina a filosofia, isto inflama teu zelo, isto te faz receber bênçãos. Tua cabeça, ao partires, recebe todas as bênçãos das viúvas.
Sede mais fervorosos em vossas orações. Indagai diligentemente por homens santos, homens que verdadeiramente o sejam, os quais, no retiro do deserto, não podem mendigar, mas são inteiramente devotados a Deus. Empreendei longa jornada para visitá-los, e dai com vossa própria mão. Pois muito podeis lucrar em vossa própria pessoa, se derdes. Vedes suas tendas, sua morada? Vedes o deserto? Vedes a solidão? Muitas vezes, quando fostes conceder dinheiro, dais toda a vossa alma. Sois detidos, e vos tornais seu companheiro de cativeiro, e igualmente vos tornais alheios ao mundo.
É de grande proveito até mesmo contemplar os pobres. Melhor é, diz ele, ir à casa do pranto do que à casa do banquete (Eclesiastes 7:2). Por esta última, a alma se inflama. Pois, se podes imitar o luxo, então és incitado à intemperança; e se não podes, entristeces-te. Na casa do pranto não há nada disso. Se não podes ser luxuoso, não sofres por isso; e se podes, és contido. Os mosteiros são, de fato, casas de pranto. Ali há saco e cinza, há solidão, não há riso, não há a pressão dos negócios mundanos. Há jejum e repouso sobre o chão; não há o odor impuro das iguarias ricas, não há sangue derramado, não há tumulto, nem perturbação, nem aglomeração. Há um porto sereno. Eles são como luzes que brilham de um lugar elevado para os marinheiros distantes. Estão postados no porto, atraindo todos os homens à sua própria bonança, preservando do naufrágio aqueles que os contemplam, e não deixando andar nas trevas os que ali olham. Ide a eles, fazei amizade com eles, abraçai seus santos pés, mais honrosos de tocar que as cabeças de outros. Se alguns abraçam os pés das estátuas, porque estas trazem apenas a semelhança do rei, não abraçarás tu os pés daquele que tem Cristo dentro de si, e não serás salvo? Os pés dos Santos são santos, ainda que sejam homens pobres, mas nem mesmo a cabeça do profano é honrosa. Tal eficácia há nos pés dos Santos, que, quando sacodem o pó de seus pés, infligem castigo. Quando um santo está entre nós, não nos envergonhemos de nada que a ele pertença. E todos são santos, os que unem uma vida santa a uma fé reta; e, ainda que não operem milagres nem expulsem demônios, ainda assim são santos.
Ide, pois, aos seus tabernáculos. Ir ao mosteiro de um homem santo é passar, por assim dizer, da terra ao céu. Não vês ali o que se vê numa casa particular. Aquela companhia está livre de toda impureza. Há silêncio e quietude profunda. As palavras "meu" e "teu" não se usam entre eles. E se ali permaneceres um dia inteiro, ou mesmo dois, tanto maior será o prazer que hás de desfrutar. Ali, assim que amanhece, ou antes, antes mesmo de amanhecer, o galo canta, e não vês o que se pode ver numa casa, os servos roncando, as portas fechadas, todos dormindo como mortos, enquanto o arrieiro lá fora faz soar seus sinos. Nada disso há ali. Todos, sacudindo imediatamente o sono, levantam-se reverentemente quando o seu Superior os chama e, formando um santo coro, permanecem de pé e, erguendo as mãos todos ao mesmo tempo, cantam os sagrados hinos. Pois não são como nós, que precisamos de muitas horas para sacudir o sono de nossas cabeças pesadas. Nós, de fato, assim que despertamos, ficamos algum tempo sentados, estirando os membros, vamos aonde a natureza chama, depois passamos a lavar o rosto e as mãos; em seguida tomamos os calçados e as vestes, e gasta-se assim bom tempo.
Não é assim ali. Ninguém chama o seu servo, pois cada um serve a si mesmo; nem necessita de muitas vestes, nem de sacudir o sono. Pois, assim que abre os olhos, é como quem há muito estava desperto em recolhimento. Porque, quando o coração não está sufocado interiormente pelo excesso de alimento, logo se recompõe, e imediatamente se acha vigilante. As mãos são sempre puras, pois o seu sono é composto e ordenado. Não se encontra entre eles quem ressone ou respire com dificuldade, ou se revolva no sono, ou tenha o corpo exposto; mas jazem no sono tão decentemente quanto os que estão acordados, e tudo isto é efeito do estado ordenado de suas almas. Estes são verdadeiramente santos e anjos entre os homens. E não te maravilhes ao ouvir tais coisas. Pois o grande temor de Deus que os habita não lhes permite descer às profundezas do sono, nem afogar neles a mente, mas este pousa levemente sobre eles, apenas lhes concedendo repouso. E qual é o seu sono, tais são os seus sonhos, não repletos de fantasias desvairadas nem de visões monstruosas.
Mas, como disse, ao cantar do galo vem o seu Superior e, tocando de leve com o pé o que dorme, desperta a todos. Pois nenhum deles dorme desnudo. Então, assim que se levantam, ficam de pé e cantam os hinos proféticos com muita harmonia e melodias bem compostas. E nem a harpa, nem a flauta, nem outro instrumento musical algum profere melodias tão suaves quanto as que se ouvem do canto destes santos em suas profundas e quietas solidões. E os próprios cânticos são também apropriados, e cheios do amor de Deus. À noite, dizem, levantai as vossas mãos a Deus. Com a minha alma Vos desejei de noite; sim, com o meu espírito dentro de mim, de madrugada Vos buscarei (Is 26,9). E os Salmos de Davi, que fazem correr fontes de lágrimas. Pois, quando canta: Estou exausto de tanto gemer; toda a noite faço nadar o meu leito, com as minhas lágrimas rego o meu leito (Sl 6,7); e, novamente: Como pão comi cinzas (Sl 102,10); que é o homem, para que Vos lembreis dele? (Sl 8,5); o homem é semelhante à vaidade, os seus dias são como sombra que passa (Sl 144,4); não temas quando alguém se enriquece, quando se multiplica a glória da sua casa (Sl 49,17); e: que faz os homens terem um só ânimo numa casa (Sl 68,7); e: Sete vezes ao dia Vos louvo, por causa dos Vossos justos juízos (Sl 119,164); e: À meia-noite me levanto para Vos dar graças, por causa dos Vossos justos juízos (Sl 119,62); e: Deus redimirá a minha alma do poder da sepultura (Sl 49,16); e: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Vós estais comigo (Sl 23,4); e: Não temerei o terror noturno, nem a flecha que voa de dia, nem a peste que anda na escuridão, nem a destruição que assola ao meio-dia (Sl 91,5-6); e: Somos contados como ovelhas para o matadouro (Sl 44,23) — exprime ele o seu ardente amor a Deus. E, novamente, quando cantam com os Anjos (pois também os Anjos cantam então): Louvai ao Senhor desde os Céus (Sl 148,1). E nós, entrementes, ressonamos, ou coçamos a cabeça, ou jazemos de costas meditando enganos sem fim. Considerai o que era para eles passar a noite inteira ocupados nisto.
Homens do mundo dormem durante o dia; mas estes vigiam durante a noite. Verdadeiramente filhos da luz são eles! E enquanto aqueles, tendo dormido a maior parte do dia, saem oprimidos pela pesadez, estes permanecem ainda recolhidos, sem alimento até a tarde, e ocupados em hinos. Outros homens, quando a tarde os alcança, apressam-se aos banhos e a diversas recreações, mas estes, uma vez aliviados de seus labores, dirigem-se então à sua mesa, não convocando uma multidão de servos, nem lançando a casa em alvoroço e confusão, nem dispondo diante de si iguarias fortemente temperadas e manjares fumegantes de gordura, mas alguns apenas participando de pão e sal, aos quais outros acrescentam azeite, enquanto os mais débeis têm também ervas e legumes. Depois, sentados por um breve tempo — ou antes, concluindo tudo com hinos —, recolhem-se cada qual a um leito feito apenas para o repouso, e não para o luxo. Não há temor de magistrados, nem arrogância senhorial, nem terror de escravos, nem perturbação de mulheres ou crianças, nem multidões de arcas, nem supérfluo acúmulo de vestes, nem ouro ou prata, nem guardas e sentinelas, nem armazém. Nada disso há; mas tudo ali está pleno de oração, de hinos e de sabor espiritual. Nada carnal ali existe. Não temem os ataques de salteadores, pois nada possuem de que possam ser despojados — nenhuma riqueza, senão alma e corpo, dos quais, se forem espoliados, não é perda, mas ganho. Pois está escrito: Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é ganho (Fp 1,21). Libertaram-se de todas as amarras. Verdadeiramente, A voz de alegria está nas tendas dos justos (Sl 118,15).
Não há ali choro nem lamentação que se ouça. Seu teto está livre daquela melancolia e daqueles gritos. Sucedem-se ali mortes, é verdade, pois seus corpos não são imortais, mas eles não conhecem a morte como morte. Os que partem são acompanhados ao sepulcro com hinos. Isto chamam eles procissão, não sepultamento; e quando se anuncia que alguém morreu, grande é sua alegria, grande seu contentamento; ou antes, nenhum deles suporta dizer que alguém morreu, mas que foi aperfeiçoado. Então há ação de graças, e grande glória, e alegria, orando cada um para que tal seja o seu próprio fim, para que assim se encerre o seu próprio combate, e possa repousar de seus trabalhos e lutas, e ver a Cristo. E, se alguém adoece, em vez de lágrimas e lamentações recorrem eles às orações. Muitas vezes não o cuidado dos médicos, mas a fé somente alivia o enfermo. E, se um médico é necessário, também aí se encontra a maior firmeza e filosofia. Não há ali esposa que arranque os cabelos, nem filhos que chorem antes do tempo sua condição de órfãos, nem servos que suplicem ao moribundo a garantia de que serão confiados a boas mãos. Escapando de tudo isto, a alma não olha, em seu último suspiro, senão para uma única coisa: partir em graça diante de Deus. E, se sobrevém a doença, suas causas são antes matéria de glória que de reprovação, como sucede em outros casos. Pois ela não procede da gula nem da repleção da cabeça, mas de intensa vigília e jejum, ou de causas semelhantes; e por isso é facilmente removida, pois basta, para removê-la, abrandar o rigor de tais exercícios.
Dize-me então, dirás tu, se poderia alguém lavar os pés dos santos na Igreja? Se se encontram tais entre nós? Sim: sem dúvida existem tais. Não desprezemos, porém, quando se descreve a vida destes santos, aqueles que estão nas Igrejas. Muitos há frequentemente entre nós que são tais, ainda que em segredo. Nem os desprezemos porque vão de casa em casa, ou vão ao foro, ou se apresentam em público. O próprio Deus ordenou tais serviços, dizendo: Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva (Is 1,17). Muitos são os modos de ser virtuoso, assim como são muitas as variedades de joias, ainda que todas se chamem joias; uma é brilhante e redonda por todos os lados, outra tem uma beleza diversa. E como se dá isto? Como o coral tem, por uma espécie de arte, sua linha estendida, e seus ângulos aplainados, e outra cor mais deliciosa que a branca, e o prásio, mais verde que todo verde, outra tem a rica cor do sangue, outra um azul que supera o mar, outra é mais brilhante que a púrpura, e assim rivalizam em suas variedades com todas as cores das flores ou do sol. Contudo todas se chamam joias. Assim é com os santos. Uns exercitam a si mesmos, outros exercitam as Igrejas. Bem disse, pois, Paulo: se lavou os pés dos santos, se socorreu os afligidos. Pois fala assim para nos excitar a todos à imitação. Apressemo-nos, pois, a praticar tais ações, para que possamos depois gloriar-nos de termos lavado os pés dos santos. Pois, se devemos lavar-lhes os pés, muito mais devemos dar-lhes o nosso dinheiro com as próprias mãos, e ao mesmo tempo procurar ocultar-nos. Não saiba a tua mão esquerda, diz Ele, o que faz a tua direita (Mt 6,3).
Vede quantas testemunhas convocais! Que nem vosso servo o saiba, nem, se possível, vossa esposa. Muitos são os obstáculos do enganador. Frequentemente aquela que jamais antes se intrometera virá a impedir tais obras, seja por vanglória, seja por outro motivo qualquer. Até mesmo Abraão, que tinha esposa admirável, quando estava para oferecer seu filho, ocultou-lho, embora não soubesse o que haveria de acontecer, mas estivesse plenamente persuadido de que devia imolar seu filho. Que teria dito, então, um homem qualquer, um homem comum? Não seria: Quem é este que perpetra tais atos? Não o teria acusado de crueldade e brutalidade? A sua esposa nem sequer teve permissão de ver o filho, de receber suas últimas palavras, de testemunhar sua agonia. Mas ele o conduziu como a um cativo. Aquele justo, embora não fosse dado a nada semelhante, estava de tal modo inebriado pelo zelo, que só atentava para como cumprir o que lhe fora ordenado. Nenhum servo, nenhuma esposa esteve presente; mais ainda, ele próprio não sabia qual seria o desfecho. Mas, intento em oferecer uma vítima pura, não quis contaminá-la com lágrimas nem com qualquer oposição. Notai também com que mansidão Isaque pergunta: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?; e qual foi a resposta do pai? Meu filho, Deus proverá para si mesmo o cordeiro para o holocausto (Gênesis 22:7-8). Nisto proferiu uma profecia de que Deus proveria para si um holocausto em Seu Filho, e isto também se cumpriu naquele momento. Mas por que o ocultou daquele que havia de ser sacrificado? Porque temia que este se perturbasse, que se mostrasse indigno. Com tal cuidado e prudência agiu ele em todo este episódio! Bem disse, pois, a Escritura: Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita. Se temos alguém tão caro a nós quanto um dos nossos próprios membros, não sejamos ansiosos por mostrar-lhe as nossas obras de caridade, a menos que seja necessário. Pois muitos males daí podem advir. O homem é impelido à vanglória, e obstáculos com frequência se levantam. Por esta razão, ocultemo-lo, se possível, até de nós mesmos, para que alcancemos as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade de Jesus Cristo, nosso Senhor, com quem, etc.
Tendo Paulo discorrido largamente sobre as viúvas, e havendo estabelecido a idade em que deviam ser admitidas, dizendo: "Não seja inscrita viúva de menos de sessenta anos", e havendo descrito as qualificações da viúva: "se criou filhos, se hospedou estrangeiros, se lavou os pés dos santos", passa agora a dizer: "Mas rejeita as viúvas mais jovens." Quanto às virgens, porém, embora o caso de sua queda seja bem mais grave, nada disse ele semelhante a isto, e com razão. Pois estas se haviam consagrado por motivos mais elevados, e a sua obra procedia de uma disposição de espírito mais sublime. Por isso, o acolhimento aos estrangeiros e o lavar dos pés dos santos ele os representou pelo servir ao Senhor sem distração (1 Cor 7,34-35), e ao dizer que a não casada cuida das coisas que pertencem ao Senhor (1 Cor 7,34-35). E, se não lhes limitou idade determinada, é muito provável que seja porque tal ponto já estava resolvido pelo que ele disse a respeito das viúvas. Mas, na verdade, como disse, a escolha da virgindade procedia de um propósito mais elevado. Além disso, no caso das viúvas houvera quedas, e assim tinham dado ocasião à sua regra; nada de semelhante, porém, ocorrera entre as virgens. Pois que algumas já haviam caído é evidente, visto que ele diz: "Quando começarem a tornar-se lascivas contra Cristo, hão de querer casar-se"; e ainda: "Pois algumas já se desviaram, seguindo Satanás."
"Rejeita as viúvas mais jovens", pois, quando começarem a tornar-se lascivas contra Cristo, hão de querer casar-se; isto é, quando se tornarem desdenhosas e dadas ao luxo. Pois, como no caso de um homem justo poderíamos dizer: "Deixai-a partir, pois já se tornou de outro" — assim mostra ele que, embora tenham escolhido a viuvez, não foi essa a escolha do seu discernimento. A viúva, pois, pelo próprio estado de viuvez, está desposada com Cristo. Pois Ele disse: "Eu sou o defensor das viúvas e o pai dos órfãos" (Sl 68,5). Mostra, assim, que elas não escolhem a viuvez como deveriam, mas se tornam lascivas; contudo, Ele as suporta. Alhures, com efeito, diz: "Desposei-vos a um só esposo, para vos apresentar como virgem casta a Cristo" (2 Cor 11,2). Depois de haverem dado seu nome a Ele, dirão elas, hão de querer casar-se, incorrendo em condenação, porque rejeitaram a fé primeira. Por "fé" entende ele a fidelidade ao seu compromisso. Como se dissesse: Foram infiéis a Cristo, desonraram-No e transgrediram o Seu pacto. E, com isso tudo, aprendem a ser ociosas.
Por que, então, perguntas tu, proibiu Paulo que as jovens permanecessem viúvas, ainda que o quisessem?... Não vês que não são aquelas que desejam guardar sua viuvez, mas antes as que preferem casar-se depois de enviuvarem, a quem ele proíbe permanecer viúvas e ser inscritas naquela santa companhia? E procede ele com grande sabedoria. Pois, se pretendes contrair segundas núpcias, diz ele, não professes a viuvez. Porquanto romper uma promessa é muito pior do que jamais a haver feito.
O próprio Paulo condenou as mulheres que escolheram a viuvez, mas depois não desejam perseverar em sua decisão.
a ociosidade é mestra de todo pecado. E não estão elas expostas apenas a esta condenação, mas a outros pecados. Se, pois, é indecoroso que uma mulher casada ande de casa em casa, muito mais o é para uma virgem. E não somente ociosas, mas também fofoqueiras e intrometidas, falando o que não convém. Quero, pois, que as viúvas mais jovens se casem, gerem filhos, governem a casa.
Que sucede, pois, quando se lhes retira o cuidado do marido, e o cuidado de agradar a Deus não as constrange? Tornam-se naturalmente ociosas, fofoqueiras e intrometidas. Pois quem não atende aos próprios assuntos há de imiscuir-se nos alheios, assim como quem cuida do que é seu não terá em conta nem cuidado dos negócios de outrem. E nada há tão indecoroso para uma mulher quanto ocupar-se dos assuntos alheios, e não menos indecoroso é para um homem. Este é grande sinal de impudência e atrevimento.
Este caminho é, ao menos, preferível ao outro. Deveriam, na verdade, cuidar das coisas de Deus, deveriam guardar a sua fé. Mas, uma vez que não o fazem, é melhor evitar um caminho pior. Deus não é desonrado por elas casarem-se de novo, e elas não caem naquelas práticas que foram censuradas. De tal viuvez nenhum bem poderia advir, mas deste casamento pode advir bem. Assim, as mulheres poderão corrigir aquela indolência e vaidade de espírito.
É provável que muitas viúvas, naquele tempo, tivessem vivido de modo mais temerário e arrogante após a morte de seus maridos, como que libertas de alguma tirania constrangedora que os maridos exerciam sobre elas; e assim algumas granjeavam para si má reputação por causa de sua audácia. Afastando-as desta liberdade ruinosa, Paulo as reconduz ao seu antigo jugo. Diz ele que, se uma viúva pretende secretamente aviltar-se e desonrar-se, é muito melhor casar-se e "não dar aos nossos inimigos ocasião de falar mal de nós." Assim, porque não quis fornecer ocasiões de repreensão, nem que a viúva vivesse a vida dissoluta de uma meretriz, permitiu os segundos casamentos.
Mas por que, visto que algumas se desviaram, não diz ele que se deve ter grande cuidado com elas, para que não caiam no erro que mencionou? Por que lhes ordenou que se casassem? Porque o matrimônio não é proibido, e é para elas uma salvaguarda. Por isso acrescenta que não deem ocasião, nem pretexto, ao adversário para falar com desprezo. Pois algumas já se desviaram, seguindo Satanás. Tais viúvas, pois, ele as teria recusado, não querendo dizer que não devesse haver viúvas mais jovens, mas que não houvesse adúlteras, que nenhuma fosse ociosa, intrometida, dizendo coisas que não deveria, que nenhuma ocasião fosse dada ao adversário. Se nada disto tivesse ocorrido, ele não as teria proibido.
Observai como ele fala novamente daquelas que são verdadeiramente viúvas, as que ficaram destituídas e não têm recurso de nenhuma outra parte. Era melhor que assim fosse. Pois assim dois grandes objetivos eram alcançados: aquelas tinham a oportunidade de fazer o bem, enquanto estas eram honrosamente sustentadas, e a Igreja não era sobrecarregada. E disse ele bem: Se alguma crente. Pois não convém que mulheres crentes sejam sustentadas por incrédulos, para que não pareçam ter necessidade deles. E observai quão persuasivamente ele fala; não disse que as sustentassem com luxo, mas que as socorressem. Para que a Igreja, diz ele, possa socorrer as que são verdadeiramente viúvas. Ela tem, portanto, a recompensa também deste auxílio, pois quem ajuda a Igreja não ajuda apenas a ela, mas também àquelas viúvas que a Igreja é assim capacitada a sustentar mais generosamente. Quero, pois, que as viúvas mais jovens — façam o quê? Vivam no luxo e no prazer? De modo algum; mas que se casem, gerem filhos, governem a casa. Para que não se suponha que ele as encoraja a viver luxuriosamente, acrescenta: que não deem ocasião ao adversário de as difamar. Deveriam, na verdade, ter-se elevado acima das coisas deste mundo, mas, uma vez que não o fazem, que permaneçam ao menos íntegras nelas.
Pois este é o fim último do seu ensino: conduzir os seus discípulos, tanto pelo que fazem quanto pelo que dizem, ao caminho daquela vida bem-aventurada que Cristo ordenou. O exemplo, por si só, não é instrução suficiente. E esta afirmação não é minha, mas do Salvador. Pois Ele diz: "Quem fizer e ensinar, esse será chamado grande." Ora, se fazer fosse o mesmo que ensinar, a segunda palavra seria supérflua. Bastaria dizer: "Quem fizer." Mas, ao distinguir estas duas coisas, Ele mostra que uma coisa é o exemplo, outra a instrução. Cada uma requer a outra para a perfeita edificação.
A pregação, na verdade, implica árduo trabalho. Este fato Paulo tornou manifesto quando disse: "Os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dupla honra, especialmente os que trabalham na palavra e no ensino." Mas sois vós os responsáveis por tornar leve ou pesado este trabalho. Se desprezais as minhas palavras, ou, não as desprezando, não as incorporais em vossas obras, o meu trabalho será pesado, porque estarei laborando fruitlessly e em vão. Mas se prestais atenção e manifestais as minhas palavras em vossas obras, nem sequer sentirei o suor, pois o fruto produzido pelo meu trabalho não me permitirá sentir a fadiga da labuta.
A "honra" de que ele aqui fala é a atenção para com elas e o suprimento das suas necessidades... Mas o que é dupla sustentação? O dobro daquela das viúvas, ou dos diáconos, ou simplesmente sustentação liberal.
A honra de que aqui fala é a atenção para com elas e a provisão de suas necessidades, como se mostra pelo que acrescenta: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão (Dt 25:4); e: O trabalhador é digno de seu salário (Lc 10:7). Assim, quando diz Honra as viúvas, quer dizer: sustentai-as em tudo o que lhes é necessário. Por isso diz: Para que socorra as que são verdadeiramente viúvas; e novamente: Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas, isto é, as que estão em pobreza, pois quanto maior a sua pobreza, tanto mais verdadeiramente são viúvas. Ele alega a Lei, ele alega as palavras de Cristo, ambas concordando nisto. Pois a Lei diz: Não atarás a boca ao boi que trilha o grão. Vede como ele quer que o mestre labute! Pois não há, de fato não há, nenhum outro labor semelhante ao seu. Mas isto é da Lei. Como, porém, cita ele a Cristo? O trabalhador é digno de seu salário. Não olhemos, pois, somente para o salário, mas para os termos do mandamento. O trabalhador, diz ele, é digno de seu salário. De modo que, se alguém vive na ociosidade e no luxo, é indigno dele. A menos que seja como o boi que trilha o grão, e suporta o jugo, a despeito do calor e dos espinhos, e não cessa até haver recolhido o grão ao celeiro, não é digno. Portanto, aos mestres se deve conceder a provisão de suas necessidades sem má vontade, para que não desfaleçam nem se desanimem, nem, pela atenção às coisas inferiores, se privem das maiores; para que labutem pelas coisas espirituais, não dando atenção às coisas mundanas. Assim era com os levitas; não tinham cuidados mundanos, porque os leigos cuidavam de os prover, e suas rendas eram estabelecidas pela lei — dízimos, oferendas de ouro, primícias, votos e muitas outras coisas. E a lei, com razão, lhes atribuiu estas coisas, como a quem buscava as coisas presentes. Mas não direi mais senão que os que presidem devem ter alimento e vestimenta, para que não sejam distraídos pelo cuidado destas coisas. Mas o que é o duplo sustento? O dobro do das viúvas, ou dos diáconos, ou simplesmente, um sustento liberal. Não pensemos, pois, somente no duplo sustento a eles concedido, mas no que se acrescenta: Os que governam bem. E que é governar bem? Ouçamos a Cristo, que diz: O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas (Jo 10:11). Assim, governar bem é, por nossa solicitude para com elas, jamais poupar-nos a nós mesmos.
Sobretudo os que labutam na palavra e na doutrina. Onde estão, pois, os que dizem não haver necessidade da palavra e da doutrina? Ao passo que ele diz a Timóteo: Medita nestas coisas, entrega-te inteiramente a elas; e: Aplica-te à leitura, à exortação, à doutrina; pois, fazendo isso, salvarás tanto a ti mesmo quanto aos que te ouvem (1 Tm 4,15-16). São estes os homens a quem ele deseja que se honre mais que a todos, e acrescenta a razão: porque sustentam grande labor. Pois quando um não é vigilante nem diligente, mas apenas se assenta em seu lugar, tranquilo e despreocupado, enquanto outro se consome em ansiedade e esforço — sobretudo se é ignorante das letras profanas —, não deveria este último ser honrado acima de todos os outros, ele que, mais que os demais, se entrega a tais labores? Pois está ele exposto a inúmeras línguas. Um o censura, outro o louva, um terceiro o escarnece, outro lhe critica a memória e a composição; e é necessária grande firmeza de ânimo para suportar tudo isso. É ponto de grande importância, e que muito contribui para a edificação da Igreja, que os que a governam sejam aptos para ensinar. Faltando isso, muitas coisas na Igreja se arruínam. Por isso, além das qualidades da hospitalidade, da moderação e de uma vida irrepreensível, enumera também esta, dizendo: Apto para ensinar. Pois, de outro modo, por que seria ele chamado mestre? Dizem alguns que ele pode ensinar a filosofia pelo exemplo de sua vida, de modo que tudo o mais seria supérfluo, e não haveria necessidade de instrução verbal para o aproveitamento. Mas por que, então, diz Paulo: sobretudo os que labutam na palavra e na doutrina? Pois, quando se trata de doutrinas, que vida bastaria para tal propósito? E de que palavra está ele falando? Não de linguagem pomposa, nem de discurso ornado de externas decorações, mas daquela que possui o poderoso poder do Espírito, e abunda em sabedoria e entendimento. Não necessita de frases arranjadas, mas de pensamentos que lhe deem expressão; não de habilidade na composição, mas de vigor de espírito.
Poderemos, pois, aceitar uma acusação contra um homem mais jovem, ou mesmo contra qualquer pessoa, sem testemunhas? Não devemos, em todos os casos, chegar aos nossos juízos com a maior exatidão? Que quer ele dizer, então? Não faças isto, quer ele dizer, com ninguém, mas sobretudo no caso de um ancião. Pois ele fala de um ancião não quanto ao ofício, mas quanto à idade, visto que os jovens mais facilmente caem em pecado do que os mais velhos. E manifesto é, a partir daqui, que a Igreja, e mesmo todo o povo da Ásia, havia já sido confiado a Timóteo, razão pela qual ele discorre com ele acerca dos anciãos.
Poderemos, pois, aceitar uma acusação contra um homem mais jovem ou contra qualquer pessoa sem testemunhas? Não devemos, em todos os casos, chegar aos nossos juízos com a maior exatidão? Que quer ele dizer, então? Não faças isto, quer ele dizer, com ninguém, mas sobretudo no caso de um ancião. Pois ele fala de um ancião não quanto ao ofício, mas quanto à idade, visto que os jovens mais facilmente caem em pecado do que os mais velhos.
Não os corteis apressadamente, diz ele, mas inquiri cuidadosamente todas as circunstâncias. Depois de te informares plenamente, procede então contra o ofensor com rigor, para que os demais recebam advertência. Pois assim como é errado condenar apressada e temerariamente, também não punir ofensas manifestas é abrir caminho aos outros, e encorajá-los a ofender…. Amemos, portanto, a Deus com temor … como sempre disse, as ameaças do inferno mostram o cuidado de Deus por nós não menos do que as promessas do céu.
Não os corte, diz ele, precipitadamente, mas inquira com cuidado todas as circunstâncias, e, depois de plenamente informado, proceda então contra o culpado com rigor, para que os demais tomem exemplo. Pois, assim como é errado condenar de modo apressado e temerário, também não punir ofensas manifestas é abrir caminho a outros e encorajá-los a delinquir.
Repreende, diz ele, para mostrar que isto não se há de fazer levianamente, mas com severidade. Pois assim os demais serão dissuadidos. Como, então, diz Cristo: Vai e repreende-o entre ti e ele só, se teu irmão pecar contra ti (Mt 18,15)? Mas o próprio Cristo permite que ele seja censurado na Igreja. Que dizer, pois? Não seria maior escândalo que alguém fosse repreendido diante de todos? Como assim? Porque é escândalo muito maior que a ofensa seja conhecida, e não o castigo. Pois, assim como, quando os pecadores ficam impunes, muitos cometem crimes, assim, quando são punidos, muitos se tornam melhores. O próprio Deus agiu deste modo. Ele expôs Faraó e o castigou publicamente. E também Nabucodonosor, e vemos muitos outros, tanto cidades quanto indivíduos, visitados pelo castigo. Paulo, portanto, quer que todos tenham reverente temor do seu Bispo, e o põe acima de todos.
E porque muitos juízos se formam por suspeita, deve haver, diz ele, testemunhas, e homens que convençam o culpado segundo a antiga lei. Pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda a causa. Contra um presbítero não recebas acusação (Dt 19,15). Ele não diz: não o condeneis, mas: não recebais acusação — não o leveis sequer a juízo. Mas, e se as duas testemunhas forem falsas? Isto raramente sucede, e pode ser descoberto no exame do julgamento. Pois, uma vez que as ofensas se cometem em segredo, devemos contentar-nos com duas testemunhas, e esta é prova suficiente de investigação.
Mas, e se as ofensas forem notórias, e contudo não houver testemunhas, apenas forte suspeita? Já se disse acima que ele deve ter bom testemunho dos que estão de fora (1 Tm 3,7).
Amemos, pois, a Deus com temor. A lei, na verdade, não foi feita para o justo; mas, como a maior parte dos homens é virtuosa antes por constrangimento do que por escolha, o princípio do temor lhes é de grande proveito para desarraigar as concupiscências. Ouçamos, pois, as ameaças do fogo do inferno, para que sejamos beneficiados por este salutar temor dele. Porque, se Deus, tencionando lançar os pecadores nele, não os houvesse antes ameaçado com ele, muitos nele se teriam precipitado. Pois, se, agitando este terror as nossas almas, alguns pecam tão prontamente como se tal coisa não existisse, que enormidades não teríamos cometido, se ele não tivesse sido declarado e ameaçado? De sorte que, como sempre disse, as ameaças do inferno mostram o cuidado de Deus para conosco não menos do que as promessas do céu. Porque a ameaça coopera com a promessa, e impele os homens ao reino por meio do terror. Não pensemos que isto seja obra de crueldade, mas de piedade e misericórdia; da solicitude e do amor de Deus por nós. Se, nos dias de Jonas, a destruição de Nínive não tivesse sido ameaçada, aquela destruição não teria sido evitada. Nínive não teria subsistido, senão pela ameaça: Nínive será destruída (Jn 3,4). E se o inferno não tivesse sido ameaçado, todos nós teríamos caído no inferno. Se o fogo não tivesse sido denunciado, ninguém teria escapado do fogo. Deus declara que fará aquilo que não deseja fazer, para que possa fazer aquilo que deseja fazer. Ele não quer a morte do pecador, e por isso ameaça o pecador com a morte, para que não tenha de lhe infligir a morte. E não somente pronunciou a palavra, mas manifestou a própria realidade, para que dela escapássemos. E para que não se supusesse que fosse mera ameaça, manifestou a sua realidade por aquilo que já executou sobre a terra. Não vedes no dilúvio um símbolo do inferno, e naquela chuva de água que tudo destruía uma imagem do fogo que tudo devora? Pois, como foi nos dias de Noé, diz Ele, casavam-se e davam-se em casamento (Mt 24,38), assim é ainda agora. Foi então predito muito tempo antes de acontecer, e agora é predito com quatrocentos anos ou mais de antecedência; mas ninguém lhe dá atenção. É considerado uma mera fábula, um objeto de escárnio; ninguém o teme, ninguém chora nem bate no peito ao pensar nele. A torrente de fogo já ferve, a chama já está acesa, e nós rimos, entregamo-nos ao prazer, e pecamos sem temor. Ninguém sequer conserva na memória Aquele Dia. Ninguém considera que as coisas presentes estão passando, e que são apenas temporais, ainda que os acontecimentos clamem todos os dias, proferindo uma voz temível. As mortes prematuras, as mudanças que se operam em nossas vidas, as nossas próprias enfermidades e doenças não bastam para nos instruir. E não somente em nossos próprios corpos são visíveis estas mudanças, mas nos próprios elementos. Todos os dias, em nossas diferentes idades, experimentamos uma espécie de morte, e em cada caso a instabilidade é o traço característico das coisas que vemos. Nem o inverno, nem o verão, nem a primavera, nem o outono são permanentes; todos correm, voam e escoam. Para que falar das flores que murcham, das dignidades, dos reis que hoje são e amanhã deixam de ser, dos ricos, das casas magníficas, da noite e do dia, do sol e da lua? Pois a lua mingua, e o sol às vezes se eclipsa, e amiúde se escurece com as nuvens? Das coisas visíveis, em suma, há alguma que dure para sempre? Nenhuma! Nem tampouco há em nós coisa alguma que perdure, senão a alma, e essa nós desprezamos.
Das coisas sujeitas à mudança cuidamos com abundante solicitude, como se fossem permanentes; mas aquilo que há de durar para sempre negligenciamos, como se em breve houvesse de passar. Alguém é capacitado a realizar ações poderosas, mas estas durarão até amanhã, e então ele perece, como vemos nos exemplos daqueles que tiveram poder ainda maior, e que agora já não se veem mais. A vida é um sonho, e um espetáculo; e assim como no teatro, quando a cena muda, os diversos aparatos desaparecem, e assim como os sonhos se dissipam quando se levantam os raios do sol, assim também aqui, quando vem o fim, seja o universal, seja o de cada um, tudo se dissolve e se desvanece. A árvore que plantaste permanece, e a casa que edificaste, também ela continua de pé. Mas o plantador e o edificador se vão, e perecem. Contudo, estas coisas sucedem sem que as consideremos, e vivemos entregues ao luxo e ao prazer, e não cessamos de nos prover de tais coisas, como se fôssemos imortais.
John, o Crisóstomo
Ouvi o que diz Salomão, que conheceu o presente mundo por experiência própria. Edifiquei-me casas, plantei-me vinhas, fiz-me jardins e pomares e tanques de água. Ajuntei-me também prata e ouro. Provi-me de cantores e cantoras, e das delícias dos filhos dos homens, taças e vasos para escanciar vinho. Eclesiastes 2:4-5, 8 Não houve ninguém que vivesse em maior fausto, ou em glória mais elevada. Não houve ninguém tão sábio ou tão poderoso, ninguém que visse todas as coisas assim sucederem conforme o desejo de seu coração. Que sucedeu, pois? Não teve ele gozo algum de todas essas coisas. Que diz ele mesmo, afinal, a respeito disso? Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Eclesiastes 12:8 Vaidade não simplesmente, mas em grau superlativo. Creiamos nele, e apeguemo-nos àquilo em que não há vaidade, em que há verdade; e ao que está fundado sobre rocha sólida, onde não há velhice, nem declínio, mas onde todas as coisas florescem e vicejam, sem corrupção, sem envelhecer, sem aproximar-se da dissolução. Amemos, eu vo-lo suplico, a Deus com afeto genuíno, não por temor do inferno, mas por desejo do reino. Pois que há comparável a ver a Cristo? Certamente nada! Que se compara ao gozo daqueles bens? Certamente nada! E bem pode não haver nada; pois olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem subiu ao coração do homem as coisas que Deus preparou para os que O amam. 1 Cor 2:9 Ansiemos por alcançar essas coisas, e desprezemos todas estas. Não nos queixamos continuamente de que a vida humana é nada? Por que vos afligis por aquilo que é nada? Por que sustentais tamanhos labores, por aquilo que é nada? Vedes casas esplêndidas — acaso a visão delas vos ilude? Erguei os olhos ao céu. Elevai vosso olhar das colunas de pedra àquela bela obra, em comparação com a qual as outras são como obras de formigas e cupins. Aprendei a filosofia a partir desse espetáculo, ascendei às coisas celestiais, e olhai dali para nossos edifícios esplêndidos, e vede que são nada, meros brinquedos de crianças pequenas. Não vedes quanto mais fino, quanto mais leve, quanto mais puro, quanto mais translúcido é o ar quanto mais alto se ascende? Ali têm os que fazem esmolas suas mansões e seus tabernáculos. Estes que aqui estão dissolvem-se na ressurreição, ou antes, antes mesmo da ressurreição, são destruídos pelo golpe do tempo. Não raro, ainda em seu estado e período mais florescente, um terremoto os derruba, ou o fogo os arruína inteiramente. Pois não somente os corpos dos homens, mas também os seus próprios edifícios estão sujeitos a mortes prematuras. Não raro, coisas já corroídas pelo tempo permanecem firmes sob o abalo de um terremoto, enquanto edifícios reluzentes, firmemente fixados e recém-construídos, são feridos por um raio e perecem. E isto, creio eu, é a intervenção de Deus, para que não nos orgulhemos de nossos edifícios.
Desejarias ainda outro motivo de alegria? Vai aos edifícios públicos, dos quais partilhas igualmente com os demais. Pois as mais magníficas casas particulares são, afinal, menos esplêndidas que os edifícios públicos. Ali podes permanecer quanto tempo quiseres. Eles te pertencem tanto quanto aos outros, visto que são comuns a ti e a eles; são comuns, e não particulares. Mas estes, dizes, não te deleitam. Não te deleitam, em parte porque te são familiares, e em parte por tua cobiça. Assim, o prazer não está na beleza, mas na apropriação! Assim, o deleite está na avareza, e no desejo de fazer teus os bens de todo homem! Até quando estaremos pregados a estas coisas? Até quando estaremos atados à terra, e nos arrastaremos, como vermes, na lama? Deus nos deu um corpo de terra, para que o levássemos conosco até o céu, e não para que arrastássemos a alma para baixo, com ele, até a terra. Terreno é, mas, se quisermos, pode ser celeste. Vê quão grandemente Deus nos honrou, ao confiar-nos estrutura tão excelente. Eu fiz o céu e a terra, diz Ele, e a ti dou o poder de criação. Faz do teu barro céu. Pois isso está em teu poder. Eu sou Aquele que faz e transforma todas as coisas (Amós 5:8, Septuaginta), diz Deus de Si mesmo. E deu Ele aos homens um poder semelhante; como um pintor, sendo pai afetuoso, ensina sua própria arte a seu filho. Formei teu corpo belo, diz Ele, mas te dou o poder de formar algo melhor. Faz bela a tua alma. Eu disse: Produza a terra erva e toda árvore frutífera (Gn 1:11). Dize tu também: Que esta terra produza seu próprio fruto, e o que quiseres produzir será produzido. Eu faço o verão e a nuvem. Eu crio o relâmpago e o vento (Amós 4:13; Sl 74:17). Formei o dragão, isto é, o diabo, para com ele brincar (Sl 104:26). Nem te neguei igual poder. Tu, se quiseres, podes brincar com ele, e amarrá-lo como a um pardal. Eu faço nascer o sol sobre maus e bons: imita-Me tu, repartindo o que é teu com bons e maus. Quando escarnecido, suporto-o, e faço bem aos que Me escarnecem: imita-Me, quanto puderes. Faço o bem, sem esperar retribuição; imita-Me, e faze o bem, sem esperar recompensa. Acendi luminares nos céus. Acende tu outros mais brilhantes que estes, pois podes, iluminando os que estão em erro. Pois conhecer-Me é benefício maior que contemplar o sol. Não podes criar um homem, mas podes torná-lo justo e agradável a Deus. Eu formei sua substância; embeleza tu a sua vontade. Vê como te amo, e como te dei o poder nas coisas maiores.
Amados, vede quão honrados somos! Contudo, alguns há tão insensatos e tão ingratos que dizem: Por que fomos dotados de livre-arbítrio? Mas como, em todos os particulares que mencionamos, poderíamos ter imitado a Deus, se não houvesse livre-arbítrio? Eu governo os Anjos, diz Ele, e também tu, por meio d'Aquele que é as Primícias (1 Cor 15:23). Eu me assento em trono real, e tu estás assentado comigo n'Aquele que é as Primícias. Como está dito: Nos ressuscitou juntamente, e juntamente nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus (Ef 2:6). Por meio d'Aquele que é as Primícias, Querubins e Serafins te adoram, com toda a hoste celestial, principados e potestades, tronos e dominações. Não desonres o teu corpo, ao qual pertencem honras tão altas, que diante dele tremem as Potestades incorpóreas.
Deus da minha alma, mas que direi eu? Não é somente desta maneira que Vos tenho mostrado o Meu amor, mas também por aquilo que padeci. Por vós fui cuspido, fui açoitado. Esvaziei-Me da glória, deixei Meu Pai e vim a vós, que Me odiais, e de Mim vos apartáveis, e relutáveis em ouvir o Meu Nome. Eu vos persegui, corri atrás de vós, para que Eu pudesse alcançar-vos. Eu vos uni e ajuntei a Mim mesmo: comei-Me, bebei-Me, disse Eu. Acima Eu vos seguro, e abaixo Eu vos abraço. Não vos basta que Eu tenha as vossas primícias lá em cima? Não vos satisfaz isto o afeto? Desci abaixo: não somente Me misturo convosco, Me entrelaço em vós. Sou mastigado, partido em minúsculas partículas, para que a interposição, e a mescla, e a união sejam mais completas. As coisas unidas permanecem ainda dentro de seus próprios limites, mas Eu estou entretecido convosco. Não quero que haja mais divisão entre nós. Quero que ambos sejamos um só.
Sabendo, pois, estas coisas, e recordando-nos do Seu abundante cuidado para conosco, façamos todas as coisas que possam provar-nos não indignos de tão grande dom Seu; o qual Deus nos conceda que todos nós alcancemos, pela graça e benignidade de Cristo Jesus, nosso Senhor, com quem, etc.
Havendo falado dos Bispos e Diáconos, dos homens e mulheres, das viúvas e presbíteros, e de todos os demais, e havendo mostrado quão grande era a autoridade de um Bispo, agora, ao tratar do juízo, acrescentou: Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que guardes estas coisas sem prevenção, não fazendo nada por parcialidade. Assim, com temor, ele o conjura. Pois, ainda que Timóteo fosse seu filho amado, nem por isso Paulo se intimidava diante dele. Porquanto, como não se envergonhou de dizer de si mesmo: Para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado (1 Cor 9:27), muito menos temeria ou se envergonharia no caso de Timóteo. Chamou o Pai e o Filho por testemunhas. Mas por que os anjos eleitos? Por grande moderação, como Moisés disse: Tomo por testemunhas o céu e a terra (Dt 4:26); e ainda: Ouvi, ó montes, e vós, fundamentos duradouros da terra (Mq 6:2). Ele chama o Pai e o Filho por testemunhas do que disse, apelando a Eles contra aquele Dia futuro, para que, se algo se fizesse que não devesse ser feito, ele estivesse livre da culpa disso.
Que guardes estas coisas sem prevenção, não fazendo nada por parcialidade. Isto é, que trates com imparcialidade e igualdade entre aqueles que estão sob julgamento e hão de ser julgados por ti, para que ninguém preocupe antecipadamente a tua mente, nem te conquiste de antemão para o seu lado.
Mas quem são os anjos eleitos? É porque há alguns não eleitos. Assim como Jacó chama por testemunhas a Deus e o montão de pedras (Gn 31:45), assim nós frequentemente tomamos ao mesmo tempo pessoas superiores e inferiores por testemunhas; tão grande coisa é o testemunho. Como se tivesse dito: Chamo por testemunhas Deus, e o Seu Filho, e os Seus servos, de que te conjurei: assim, diante deles, te conjuro. Ele imprime em Timóteo o temor; depois do que acrescenta o que era mais vital, e o que mais pesa sobre a manutenção da Igreja, a questão das Ordenações. Não imponhas as mãos precipitadamente a ninguém, diz ele, nem sejas participante dos pecados alheios. Que é precipitadamente? Não após uma primeira, nem uma segunda, nem uma terceira prova, mas após frequente e rigoroso exame e circunspecção. Pois não é assunto de perigo ordinário. Porque serás responsável pelos pecados por ele cometidos, tanto os passados quanto os futuros, porque lhe delegaste este poder. Pois, se ignoras indevidamente o passado, respondes também pelo futuro, como causa dele, ao colocá-lo naquele posto, e do passado também, por não o teres deixado lamentar-se sobre ele e estar em compunção. Pois, assim como és participante das suas boas ações, assim também o és dos seus pecados.
Conserva-te puro. Isto ele diz com referência à castidade.
Que diz Paulo? Se aquele a quem ordenei pecou, compartilho eu a sua culpa e castigo? Sim, diz ele. Aquele que autoriza o mal é culpável. É exatamente como no caso de alguém que entrega nas mãos de um furioso e insano uma espada de ponta afiada, com a qual o louco comete um assassinato — aquele que deu a espada incorre na culpa. Assim, todo aquele que confere a autoridade que provém deste ofício a um homem que vive no mal atrai sobre a própria cabeça todo o fogo dos pecados e da audácia daquele homem. Homilias sobre Santo Inácio e São Babilas, Elogio a Inácio
Mas se ele, o bispo, cuida do seu corpo a fim de que possa ministrar-vos, se atende à sua saúde a fim de ser útil, deveria ele por isso ser acusado? Não sabeis que a enfermidade corporal, não menos que a enfermidade da alma, nos prejudica tanto a nós quanto à Igreja? ... Pois se pudéssemos praticar a virtude somente com a alma, não precisaríamos cuidar do corpo. E por que, então, nascemos? Mas se este contribui com grande parte, não é o cúmulo da insensatez negligenciá-lo? Homilias sobre Tito
Se aquele que havia praticado o jejum a tal ponto e usava apenas água, tanto tempo, que contraíra "enfermidades" e "frequentes enfermidades", é assim ordenado a ser casto e não recusa a admoestação, muito menos devemos nós ofender-nos quando recebemos uma admoestação de alguém.... Pois os milagres que Timóteo operou seriam suficientes para torná-lo arrogante. Por esta razão é deixado sujeito às regras da medicina, para que seja humilhado, e para que os outros não se ofendam, mas aprendam que aqueles que realizaram ações tão excelentes eram homens da mesma natureza que eles.... Paulo, contudo, não lhe permite entregar-se livremente ao vinho, mas apenas o quanto bastava para a saúde, e não para o deleite.
Não bebas mais água, mas usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades. Se aquele que havia praticado o jejum a tal ponto, e usava apenas água, tanto tempo, que contraíra enfermidades e frequentes enfermidades, é assim ordenado a ser casto, e não recusa a admoestação, muito menos devemos nós ofender-nos quando recebemos uma admoestação de alguém. Mas por que não restituiu Paulo a força ao seu estômago? Não porque não o pudesse — pois aquele cuja veste ressuscitara mortos era claramente capaz também disto — mas porque tinha um propósito de importância em reter tal auxílio. Qual era, então, o seu propósito? Que, mesmo agora, se virmos homens grandes e virtuosos aflitos por enfermidades, não nos ofendamos, pois esta era uma visitação proveitosa. Se, com efeito, ao próprio Paulo foi enviado um mensageiro de Satanás para que não se exaltasse desmedidamente (2 Cor 12,11), muito mais poderia ser assim com Timóteo. Pois os milagres que operou seriam suficientes para torná-lo arrogante. Por esta razão é deixado sujeito às regras da medicina, para que seja humilhado, e para que os outros não se ofendam, mas aprendam que aqueles que realizaram ações tão excelentes eram homens da mesma natureza que eles. Também noutros aspectos parece Timóteo ter estado sujeito à doença, o que se depreende daquela expressão, tuas frequentes enfermidades, tanto de outras partes quanto do estômago. Ele, contudo, não lhe permite entregar-se livremente ao vinho, mas apenas o quanto bastava para a saúde, e não para o deleite.
Ao falar da ordenação, dissera: Não sejas participante dos pecados alheios. Mas, poderia alguém dizer, e se eu os ignoro? Ora, os pecados de alguns são manifestos de antemão, precedendo-os ao juízo, e os de outros os seguem depois. Quer dizer que os pecados de alguns são manifestos, porque vão adiante, enquanto os de outros são desconhecidos, porque vêm depois.
Assim como os legisladores por vezes deixaram de aplicar castigos aos culpados, ainda que estabelecidos por lei, assim também nosso Senhor Jesus Cristo, castigando um ou dois pecadores, grava, como que numa estela de bronze, o seu castigo, e usa das suas experiências como advertência para todos. Diz que, ainda que os que ousam os mesmos pecados não sofram agora pena semelhante, sofrerão no futuro uma mais rigorosa.
Aqueles que têm senhores crentes não devem desrespeitá-los sob o pretexto de serem irmãos. Antes, devem servi-los tanto melhor quanto aqueles que se beneficiam do seu serviço são crentes e amados. Nas epístolas aos Efésios e aos Colossenses ordena o mesmo. É, pois, manifesto que a intenção de Paulo não é abolir a escravidão como instituição social. Antes, ataca a escravidão em sua pior forma, a escravidão ao mal, a qual não guarda nenhum respeito por liberdade externa alguma.
Que os tenham por dignos de toda honra, diz ele; pois não suponhas que, por seres crente, sejas por isso livre: antes, tua liberdade consiste em servir com maior fidelidade. Pois se o incrédulo vir os escravos conduzindo-se com insolência em razão de sua fé, blasfemará, como se a Doutrina produzisse insubordinação. Mas quando os vir obedientes, mais se inclinará a crer, e mais atento estará às nossas palavras. Ora, tanto Deus quanto o Evangelho que pregamos serão blasfemados, se eles forem desobedientes. Mas que se o seu próprio senhor for incrédulo? Ainda nesse caso devem submeter-se, por causa do Nome de Deus.
O mestre necessita não somente de autoridade, mas de mansidão; e não somente de mansidão, mas de autoridade. E todas estas coisas ensina o bem-aventurado Paulo, ora dizendo: "Manda e ensina estas coisas" (1 Tm 4,11); ora: "Ensina e exorta estas coisas". Pois se os médicos rogam aos enfermos, não em benefício da própria saúde, mas para que aliviem a sua enfermidade e restaurem as forças abatidas, muito mais devemos nós observar este método, de rogar àqueles a quem ensinamos. Pois o bem-aventurado Paulo não recusa ser servo deles: "Não nos pregamos a nós mesmos", diz ele, "mas a Cristo Jesus, o Senhor; e a nós mesmos como vossos servos por amor de Jesus" (2 Cor 4,5); e ainda: "Todas as coisas são vossas, seja Paulo, seja Apolo" (1 Cor 3,12). E neste serviço serve ele com prontidão, pois não é escravidão, mas coisa superior à própria liberdade. Pois Ele diz: "Todo aquele que comete pecado é servo do pecado" (Jo 8,34).
Como se dissesse: Se és considerado digno de tão grande benefício, a ponto de teres teus senhores por irmãos, por isso mesmo deves te submeter ainda mais.
Indo adiante ao juízo. Isto ele havia dito, dando a entender que, das ações más, algumas aqui se ocultam e outras não; mas ali nem as boas nem as más podem ocultar-se. E que é esse "ir adiante ao juízo"? Quando alguém comete ofensas que já o condenam, ou quando é incorrigível, e quando se pensa em corrigi-lo e não se consegue. Que importa, pois? Qual a utilidade de mencionar isto? Porque, se aqui alguns escapam à detecção, não escaparão dali em diante. Ali tudo se manifesta; e isto é a maior consolação para os que obram o bem.
Depois, tendo dito Nada façais por parcialidade, como que sob a necessidade de interpretá-lo, acrescenta: Quantos servos estais sob o jugo. Mas dirás: que tem o Bispo a ver com isto? Muito, por certo, pois é seu ofício exortar e ensinar também a estes. E aqui ele estabelece excelentes regras a respeito deles. Pois o vemos em toda parte ordenando antes aos servos que aos seus senhores, mostrando-lhes os caminhos da submissão, e tratando-os com grande consideração. Exorta-os, pois, a submeter-se com grande mansidão. Mas aos senhores recomenda que se abstenham do uso do terror. Abstendo-vos das ameaças (Ef 6:9), diz. E por que assim ordena? No caso dos incrédulos, naturalmente, porque seria irrazoável dirigir-se a quem não lhe daria ouvidos; mas quando se tratava de crentes, qual era sua razão? Porque os senhores contribuem com maiores benefícios para seus servos do que os servos para seus senhores. Pois aqueles fornecem o dinheiro para lhes prover alimento e vestimenta suficientes; e dispensam-lhes muito cuidado também noutros aspectos, de modo que os senhores lhes prestam o maior serviço, o que aqui se dá a entender quando diz que são fiéis e amados, partícipes do benefício. Eles sofrem muita fadiga e trabalho para vosso repouso; não deveriam, em troca, receber muita honra de seus servos?
Moral. Mas se ele exorta os servos a prestar obediência tão irrestrita, considerai qual deveria ser nossa disposição para com nosso Senhor, que nos trouxe à existência a partir do nada, e que nos alimenta e veste. Se de nenhuma outra forma, ao menos prestemos-Lhe serviço como nossos servos o prestam a nós. Não ordenam eles toda a sua vida para proporcionar descanso a seus senhores, e não é seu trabalho e sua vida cuidar dos negócios destes? Não estão eles ocupados o dia inteiro no trabalho de seus senhores, e apenas uma pequena parte da noite no seu próprio? Nós, ao contrário, estamos sempre ocupados com nossos próprios afazeres, e quase nada com os de nosso Senhor, e isto ainda que Ele não necessite de nossos serviços como os senhores necessitam dos de seus servos, mas esses próprios atos redundam em nosso próprio benefício. No caso deles, o senhor é beneficiado pelo ministério do servo; mas no nosso, o ministério do servo não aproveita ao Senhor, mas antes é benéfico ao próprio servo. Como diz o Salmista: Meus bens em nada Vos aproveitam (Sl 16:2). Pois dizei: que vantagem há para Deus em que eu seja justo, ou que dano em que eu seja injusto? Não é Sua natureza incorruptível, incapaz de dano, superior a todo sofrimento? Os servos, nada tendo de próprio, tudo é de seus senhores, por mais ricos que sejam. Mas nós temos muitas coisas próprias.
Amados, envergonhemo-nos, temamos. Sirvamos ao nosso Senhor ao menos como os nossos servos nos servem. Antes, nem sequer a menor parte do serviço lhe rendemos! A necessidade os faz filósofos. Eles possuem apenas comida e abrigo; nós, porém, possuindo muito e esperando ainda mais, insultamos o nosso Benfeitor com o nosso luxo. Se de nenhuma outra parte, ao menos deles aprendamos as regras da filosofia. Costuma a Escritura remeter os homens não sequer aos servos, mas às criaturas irracionais, como quando nos manda imitar a abelha e a formiga. Mas eu vos aconselho tão somente a imitar os servos: apenas o quanto eles fazem por temor de seus senhores, façamo-lo nós por temor de Deus; pois nem isto encontro que façais. Eles recebem muitos insultos por temor de nós, e os suportam em silêncio com a paciência dos filósofos. Justa ou injustamente são expostos à nossa violência, e não resistem, antes nos suplicam, ainda que muitas vezes nada de mal tenham feito. Contentam-se em não receber mais, e muitas vezes menos do que necessitam; com palha para o seu leito, e apenas pão para o seu alimento, não se queixam nem murmuram contra a dureza de sua vida, mas pelo temor de nós são contidos da impaciência. Quando lhes é confiado dinheiro, restituem-no todo. Pois não falo dos maus, mas dos moderadamente bons. Se os ameaçamos, imediatamente se atemorizam.
Não é isto filosofia? Pois não digais que estão sob necessidade, quando também vós estais sob necessidade no temor do inferno. E, no entanto, não aprendeis a sabedoria, nem prestais a Deus tanta honra quanta recebeis de vossos servos. De vossos servos, cada um tem o aposento que lhe é designado por vossas regras, e não invade o do seu companheiro, nem lhe faz injúria por desejo de possuir mais do que tem. Esta contenção o temor do senhor impõe entre os domésticos, e raramente vereis um servo roubar ou injuriar a um seu companheiro de servidão. Mas entre os homens livres é bem o contrário. Mordemo-nos e devoramo-nos uns aos outros. Não tememos o nosso Senhor: roubamos e saqueamos os nossos companheiros de servidão, ferimo-los na própria presença Dele. Isto o servo não fará; se golpeia, não é quando o seu senhor o vê; se ultraja, não é quando o seu senhor o ouve. Nós, porém, ousamos fazer tudo, ainda que Deus tudo veja e tudo ouça.
O temor de seu senhor está sempre diante dos olhos deles; o temor do nosso Senhor, nunca diante dos nossos. Daí a subversão de toda ordem, daí toda a confusão e ruína. E nós jamais levamos em conta as ofensas que cometemos, mas se os nossos servos erram em algo, chamamo-los a rigorosa prestação de contas por tudo, até pela mais leve falta. Não digo isto para tornar os servos negligentes, mas para repreender a nossa indolência, para despertar-nos da nossa preguiça, a fim de que sirvamos ao nosso Deus com tanto zelo quanto os servos servem ao seu senhor; ao nosso Criador, com tanta fidelidade quanto as nossas criaturas nos servem, delas que não receberam tal dom. Pois também elas são livres por natureza. Também a elas foi dito: Tenham domínio sobre os peixes (Gn 1,26). Pois esta escravidão não provém da natureza; é resultado de alguma causa ou circunstância particular. E, no entanto, elas nos prestam grande honra; e nós, com grande rigor, exigimos delas os serviços, ao passo que a Deus mal rendemos a menor parte, ainda que a vantagem disso reverta para nós mesmos. Pois quanto mais zelosamente sirvamos a Deus, tanto maiores ganhos teremos. Não nos privemos, pois, de tão importantes benefícios. Porque Deus é auto-suficiente e de nada necessita; a recompensa e a vantagem revertem inteiramente para nós. Sejamos, portanto, eu vos suplico, dispostos como quem serve não a Deus, mas a si mesmo, e com temor e tremor sirvamo-Lo, para que alcancemos as bênçãos prometidas, por Jesus Cristo nosso Senhor, com quem, etc.
A presunção, pois, não provém do conhecimento, mas de "nada saber". Pois aquele que conhece a doutrina da piedade é também o mais disposto à moderação. Quem conhece as sãs palavras não é insano. Pois o que a inflamação é para o corpo, isso é a soberba para a alma. E assim como não dizemos, no primeiro caso, que a parte inflamada está sã, tampouco dizemos da alma que a parte arrogante está sã. É possível, então, ser sabedor e, contudo, nada saber.
Se alguém ensina de outro modo, e não consente com as sãs palavras, a saber, as palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, nada sabendo. A presunção, pois, não provém do conhecimento, mas de nada saber. Pois aquele que conhece as doutrinas da piedade é também o mais disposto à moderação. Quem conhece as sãs palavras não é insano. Pois o que a inflamação é no corpo, isso é a soberba na alma. E assim como não dizemos, no primeiro caso, que a parte inflamada está sã, tampouco consideramos aqui sã a parte arrogante. É possível, então, ser sabedor e, contudo, nada saber. Pois aquele que não sabe o que deveria saber, nada sabe. E que a soberba provém de nada saber é manifesto a partir disto: Cristo Se esvaziou a Si mesmo de toda reputação (Fp 2,7); logo, aquele que sabe isto não será soberbo. O homem nada tem senão o que recebeu de Deus; logo, não será soberbo. Pois que tens tu que não tenhas recebido? (1 Cor 4,7) Ele lavou os pés de Seus discípulos: como pode aquele que sabe isto exaltar-se a si mesmo? Por isso Ele diz: Quando tiverdes feito tudo, dizei: somos servos inúteis (Lc 17,10). O publicano foi aceito somente por sua humildade; o fariseu pereceu por sua jactância. Aquele que está inchado de soberba nada disto conhece. E ainda, o próprio Cristo diz: Se falei mal, dá testemunho do mal; mas, se bem, por que me feres? (Jo 18,23)
Entretendo-se com questões. Questionar, pois, é entreter-se em vão. E contendas de palavras; isto é dito com justiça. Pois quando a alma está febril de raciocínios, e tempestuosa, então questiona; mas quando está em estado são, não questiona, mas recebe a fé. Ora, das questões e contendas de palavras nada se pode descobrir. Pois quando as coisas que somente a fé promete são recebidas por um espírito curioso, ele não as demonstra, nem nos permite compreendê-las. Se alguém fechasse os olhos, não conseguiria encontrar o que buscasse; ou se, ainda de olhos abertos, se enterrasse e excluísse o sol, seria incapaz de encontrar coisa alguma, buscando assim. Assim, sem a fé nada se pode discernir, mas contendas necessariamente hão de surgir. Donde vêm as calúnias, as más suposições; isto é, opiniões e doutrinas errôneas que surgem das questões. Pois quando começamos a questionar, então supomos acerca de Deus coisas que não devemos.
Disputas perversas, isto é, ociosidade ou conversação, ou pode ele estar significando o convívio mútuo, e que, assim como ovelhas infectadas comunicam a doença às sãs pelo contato, assim fazem esses homens maus.
Destituídos da verdade, pensando que o lucro é piedade. Observai que males são produzidos pelas contendas de palavras. O amor ao lucro, a ignorância e a soberba; pois a soberba é engendrada pela ignorância.
De tais aparta-te. Não diz ele: engaja-te e contende com eles, mas aparta-te, afasta-te deles; como em outro lugar diz: Ao homem herege, depois da primeira e segunda admoestação, rejeita-o. Tt 3:10. Mostra ele que estes não erram tanto por ignorância, quanto devem sua ignorância à sua indolência. Aos que são contenciosos por causa do dinheiro jamais os persuadirás. Só se deixam persuadir enquanto lhes dás, e ainda assim jamais saciarás seus desejos. Pois está dito: O olho do cobiçoso não se sacia com sua porção. Eclo 14:9. De tais, então, por serem incorrigíveis, é justo apartar-se. E se aquele que tinha grande obrigação de lutar pela verdade é aconselhado a não travar contenda com tais homens, muito mais devemos nós evitá-la, que estamos na condição de discípulos.
Tendo dito que eles julgam que a piedade é meio de lucro, acrescenta: Mas a piedade com contentamento é grande lucro — não quando possui riquezas, mas quando delas carece. Pois, para que ele não desfaleça por causa de sua pobreza, o apóstolo o encoraja e reanima o espírito. Eles julgam, diz ele, que a piedade é meio de lucro, e assim é; não, porém, ao modo deles, mas de modo muito mais elevado. Depois, tendo derrubado o lucro deles, exalta o outro. Pois que o lucro mundano é nada, é manifesto, porquanto fica para trás, e não nos acompanha, nem vai conosco em nossa partida. De onde se torna isto claro? De que nada tínhamos quando viemos a este mundo, por isso nada teremos quando dele partirmos. Pois nua veio a natureza ao mundo, e nua dele sairá. Portanto, nada de supérfluo necessitamos, se nada trouxemos conosco, e nada levaremos conosco.
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Pois ninguém é livre, senão aquele que vive para Cristo. Ele permanece superior a todas as tribulações. E se não escolhe ferir a si mesmo, ninguém mais poderá fazê-lo, pois ele é inexpugnável. Não é ferido pela perda das riquezas, pois aprendeu que "nada trouxemos a este mundo, nem tampouco coisa alguma podemos levar". Não é apanhado pelos anseios da ambição ou da glória, pois aprendeu que a nossa cidadania está nos céus. Ninguém o incomoda com injúrias nem o provoca com golpes. Há apenas uma calamidade para o cristão: a desobediência a Deus. Todas as demais coisas — como a perda de bens, o exílio, o perigo de vida — ele nem sequer as reputa por aflição alguma. E aquilo que todos temem, a partida deste mundo para o outro, isto lhe é mais doce que a própria vida.
E observai também as suas leis, quão moderadas e livres de toda vanglória. Assim diz ele: “Tendo alimento e cobertura, contentemo-nos.” Não como aquele de Sínope [Diógenes, o Cínico], que, vestido de trapos e vivendo num tonel para nenhum bem, a muitos espantou, mas a ninguém aproveitou. Paulo nada disso fez. Pois não tinha em vista a ostentação, mas se vestia com roupa comum, com toda decência, e habitava continuamente numa casa, e demonstrava toda exatidão na prática de todas as demais virtudes. Estas coisas o cínico desprezava, vivendo impuramente e desonrando-se publicamente, arrastado pela sua louca paixão pela glória.
Pois não é embelezando-se, ou vivendo em luxo, ou exigindo dinheiro do marido, ou sendo extravagante e pródiga que a boa esposa poderá conquistá-lo. Quando ela se afasta de todas as preocupações presentes e imprime em si mesma o modo de vida apostólico, quando exibe grande modéstia, decoro, desprezo pelo dinheiro e paciência, então poderá capturá-lo. Quando diz: “Se temos alimento e vestimenta, temos tudo o que necessitamos”, quando pratica esta filosofia em suas ações e, rindo-se da morte corporal, considera esta vida como nada, quando reputa, juntamente com o profeta, toda glória desta vida como a flor do campo, então o capturará.
Tais coisas, e em tal medida, devemos comer, quanto baste para nos nutrir, e tais coisas devemos vestir, quanto baste para nos cobrir e revestir a nossa nudez, e nada mais; e uma veste comum bastará para este fim. Em seguida, ele os exorta a partir da consideração das coisas daqui, dizendo,
Vedes a perícia dos médicos, os quais, além da saúde, vos proveem também as riquezas da sabedoria? Assentai-vos, pois, com eles, e aprendei deles a natureza de vossa enfermidade. Por exemplo: amais as riquezas e o ganho ávido, como o febricitante ama a água? Escutai suas admoestações. Pois é assim que o médico vos diz: se quiserdes apenas satisfazer vosso desejo, perecereis e sofrereis esta ou aquela consequência. Do mesmo modo escreveu Paulo: "Os que querem tornar-se ricos caem em tentação, e em laço do diabo, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na ruína e na perdição."
Mas os que querem tornar-se ricos; não os que são ricos, mas os que desejam sê-lo. Pois um homem pode ter dinheiro e fazer dele bom uso, não o supervalorizando, mas distribuindo-o aos pobres. A este, portanto, não repreende, mas ao avarento.
Os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na ruína e na perdição.
Disse com justiça: submergem os homens, pois não podem ser erguidos daquele abismo. Na ruína e na perdição.
O homem que nada possui, como se tudo tivesse, despreza tudo. É muito franco diante dos magistrados, dos governantes e do soberano. Pois, desprezando as posses e progredindo metodicamente, há de escarnecer com facilidade até da morte. Uma vez que está acima destas coisas, falará abertamente com todos e não tremerá de temor diante de ninguém. Mas o homem que se entregou ao dinheiro é escravo dele, e também de sua reputação, de sua honra, da vida presente, em suma, de todas as preocupações humanas. Por conseguinte, chamou-o Paulo raiz de todo mal.
Em muitos lugares Paulo assinala veladamente este ponto: que uma vida corrupta é a mãe das doutrinas perversas. "O amor ao dinheiro é raiz de toda sorte de males; pelo qual, buscando-o alguns, foram desviados da fé." De fato, muitos dos que têm consciência da própria maldade e preferem não pagar sua pena são, por este temor, prejudicados também em sua fé quanto à ressurreição. Isto pode acontecer mesmo quando eles, dia após dia, desejam virtuosamente contemplar a ressurreição.
Que males não causa! Que práticas fraudulentas, que roubos! Que misérias, inimizades, contendas, combates! Não estende ele a sua mão até mesmo aos mortos, até mesmo aos pais e aos irmãos? Não violam aqueles que são possuídos por esta paixão as leis da natureza e os mandamentos de Deus? Em suma, tudo? Não é isto que torna necessários os nossos tribunais de justiça? Tirai, pois, o amor ao dinheiro, e poreis fim à guerra, ao combate, à inimizade, à discórdia e à contenda.
Pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; pelo qual, cobiçando-o alguns, se desviaram da fé, e a si mesmos se traspassaram com muitas dores.
Duas coisas ele menciona, e aquela que a eles poderia parecer mais grave, coloca-a por último: as suas muitas dores. E para se saber quão verdadeiro é isto, o único caminho é conviver com os ricos, ver quão numerosas são as suas dores, quão amargas as suas queixas.
Mas tu, ó homem de Deus.
Este é um título de grande dignidade. Pois todos nós somos homens de Deus, mas os justos o são de modo peculiar, não somente pelo direito da criação, mas pelo da apropriação. Se, pois, és homem de Deus, não busques as coisas supérfluas, que não te conduzem a Deus, mas
Foge destas coisas, e segue a justiça. Ambas as expressões são enfáticas; ele não diz afasta-te de uma e aproxima-te da outra, mas foge destas coisas, persegue a justiça, de modo a não seres cobiçoso.
Piedade, isto é, sanidade nas doutrinas. Fé, que se opõe às questões vãs. Caridade, paciência, mansidão.
Combate o bom combate da fé, apodera-te da vida eterna. Eis aqui a tua recompensa, para a qual também foste chamado e confessaste a boa confissão, em esperança de vida eterna, diante de muitas testemunhas.
Isto é, não deixes envergonhada essa confiança. Por que te afadigas sem proveito? Mas qual é a tentação e o laço em que, segundo diz, caem os que querem enriquecer-se? Faz com que se desviem da fé, envolve-os em perigos, torna-os menos intrépidos. Desejos insensatos, diz ele. E não é, porventura, um desejo insensato quando os homens gostam de ter à sua volta tolos e anões, não por motivos de benevolência, mas para seu prazer; quando têm em seus salões tanques para peixes; quando criam feras; quando consagram seu tempo aos cães, enfeitam os cavalos e lhes têm tanto apego quanto aos próprios filhos? Todas essas coisas são insensatas e supérfluas, de modo algum necessárias, de modo algum úteis.
Concupiscências insensatas e nocivas! Que são as concupiscências nocivas? Quando os homens vivem ilicitamente, quando cobiçam o que é do seu próximo, quando se entregam ao máximo à luxúria, quando anseiam pela embriaguez, quando desejam o assassínio e a destruição de outros. A partir destes desejos, muitos aspiraram à tirania e pereceram. Certamente, labutar com tais intenções é insensato e nocivo ao mesmo tempo. E bem disse ele: Desviaram-se da fé. A cobiça, atraindo para si os olhos deles e roubando-lhes pouco a pouco o entendimento, não lhes permite ver o caminho. Pois assim como aquele que caminha por uma via reta, tendo o espírito absorto em outra coisa, prossegue de fato o seu caminho, mas, muitas vezes sem o saber, passa pela própria cidade a que se dirigia, movendo os pés ao acaso e sem proveito algum — tal é, semelhantemente, a cobiça. Traspassaram-se a si mesmos com muitas dores. Vedes o que ele quer dizer com essa palavra traspassaram? Eis o que pretende exprimir com essa alusão: os desejos são espinhos, e assim como aquele que toca em espinhos fere a mão e recebe ferimentos, também aquele que cai nessas concupiscências será por elas ferido e traspassará a própria alma com aflições. E quantos cuidados e perturbações acompanham os que assim se acham traspassados, não é possível exprimir. Por isso, diz ele: Foge destas coisas e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão. Pois a mansidão nasce do amor.
Combate o bom combate.
Aqui ele louva a sua ousadia e virilidade, porque diante de todos confessou com confiança, e lhe recorda a sua primeira instrução.
Apodera-te da vida eterna.
Não basta apenas a profissão, mas é necessária também a paciência para perseverar nessa profissão, e uma vigorosa contenda, e inumeráveis labores, para que não sejais derrubados. Pois muitos são os tropeços e os impedimentos, por isso o caminho é estreito e apertado (Mt 7:14). É necessário, portanto, recolher-se em si mesmo e cingir-se bem por todos os lados. Em torno aparecem prazeres que atraem os olhos da alma: os da beleza, os da riqueza, os da luxúria, os da indolência, os da glória, os da vingança, os do poder, os do domínio — e todos estes são formosos e amáveis em aparência, capazes de cativar os que são instáveis e não amam a verdade. Porque a verdade tem apenas um semblante severo e pouco convidativo. E por quê? Porque os prazeres que ela promete são todos futuros, ao passo que os outros oferecem honras e delícias presentes, e repouso — ainda que todos sejam falsos e falsificados. A estes, pois, aderem as mentes grosseiras, efeminadas, covardes, avessas aos labores da virtude. Como nos jogos dos gentios, aquele que não cobiça ardentemente a coroa pode, desde o início, entregar-se às pândegas e à embriaguez — e assim fazem, de fato, os combatentes covardes e efeminados —, ao passo que os que fixam os olhos incessantemente na coroa suportam golpes sem número. Pois são sustentados e impelidos à ação pela esperança da recompensa futura.
Moral. Fujamos, pois, desta raiz de todos os males, e escaparemos de todos eles. O amor ao dinheiro, diz ele, é a raiz; assim diz Paulo, ou antes, Cristo por meio de Paulo — e vejamos como isto se dá. A própria experiência do mundo o testemunha. Pois que mal não é causado pela riqueza — ou antes, não pela riqueza, mas pela vontade perversa daqueles que não sabem usá-la? Pois é possível usar a riqueza para o bem-fazer, e até mesmo por meio dela herdar o reino. Mas agora, o que nos foi dado para o alívio dos pobres, para reparar os pecados passados, para conquistar bom testemunho e para agradar a Deus, isto empregamos contra os pobres e desventurados — ou antes, contra as nossas próprias almas, e para grande desagrado de Deus. Pois quanto ao outro, o homem lhe rouba a riqueza e o reduz à pobreza, mas a si mesmo reduz à morte; e a ele faz definhar aqui na penúria, mas a si mesmo naquele castigo eterno. São, pensais vós, sofrimentos iguais?
Que males, pois, não causa ela! Que fraudes, que roubos! Que misérias, inimizades, contendas, batalhas! Não estende ela a sua mão até mesmo sobre os mortos, e mais ainda, sobre pais e irmãos? Não violam aqueles que são possuídos por esta paixão as leis da natureza e os mandamentos de Deus? Em suma, tudo? Não é ela que torna necessários os nossos tribunais de justiça? Removei, pois, o amor ao dinheiro, e poreis fim à guerra, à batalha, à inimizade, à disputa e à contenda. Tais homens deveriam, portanto, ser banidos do mundo, como lobos e pestes. Pois assim como ventos contrários e violentos, varrendo um mar tranquilo, o agitam desde os seus fundamentos, e misturam as areias do abismo com as ondas de cima, assim os amantes das riquezas confundem e desordenam tudo. O avarento jamais conhece um amigo — um amigo, disse eu? Ele não conhece sequer ao próprio Deus, enlouquecido como está pela paixão da avareza. Não vedes os Titãs marchando de espada em punho? Isto é uma representação da loucura. Mas os amantes do dinheiro não fingem — eles estão verdadeiramente loucos e fora de si; e se pudésseis desnudar-lhes as almas, encontrá-los-íeis armados desta maneira, não com uma ou duas espadas, mas com milhares, não reconhecendo ninguém, mas voltando o seu furor contra todos; investindo e rosnando contra todos, degolando não cães, mas as almas dos homens, e proferindo blasfêmias contra o próprio céu. Por estes homens todas as coisas são subvertidas, e arruinadas pela sua loucura em busca da riqueza.
Pois a quem, a quem deveria eu acusar, não sei! É uma praga que assim se apodera de todos, uns mais, outros menos, mas todos em alguma medida. Como um fogo que se apega a um bosque, devastando e destruindo tudo ao redor, esta paixão tem devastado o mundo. Reis, magistrados, particulares, pobres, mulheres, homens, crianças — todos são igualmente afetados por ela. Como se uma densa escuridão houvesse cobrido a terra, ninguém está em seu perfeito juízo. Contudo ouvimos, tanto em público quanto em privado, muitas declamações contra a cobiça, mas ninguém por elas se emenda.
Que se há de fazer, então? Como havemos de extinguir esta chama? Pois, ainda que se tenha elevado até o próprio céu, ela há de ser extinta. Basta que o queiramos, e seremos capazes de dominar o incêndio. Pois, assim como pela nossa vontade ela se ergueu, assim também pela nossa vontade poderá ser subjugada. Não foi a nossa própria escolha que a causou, e não bastará a mesma escolha para extingui-la? Basta apenas que o queiramos. Mas como há de engendrar-se essa disposição? Se considerarmos a vaidade e a inutilidade das riquezas, que não podem partir daqui conosco, que já mesmo aqui nos abandonam, e que, enquanto permanecem para trás, infligem-nos feridas que partem juntamente conosco. Se virmos que existem riquezas Ali, em comparação com as quais a riqueza deste mundo é mais desprezível que o esterco. Se considerarmos que ela é acompanhada de inúmeros perigos, de um prazer que é temporário, um prazer misturado com tristeza. Se contemplarmos retamente as verdadeiras riquezas da vida eterna, seremos capazes de desprezar a riqueza mundana. Se recordarmos que ela de nada aproveita, nem à glória, nem à saúde, nem a coisa alguma; antes, ao contrário, afoga os homens na destruição e na perdição. Se considerardes que aqui sois rico, e tendes muitos sob vós, mas que, ao partirdes daqui, ireis nu e solitário. Se frequentemente representarmos estas coisas a nós mesmos, e as ouvirmos de outros, haverá talvez um retorno à sã razão, e uma libertação deste terrível castigo.
Se uma pérola é bela, considerai, porém, que ela não é senão água do mar, e que outrora foi lançada no seio do abismo. É belo o ouro e a prata? Contudo, foram e são apenas pó e cinza. São belas as vestes de seda? Contudo, não são senão a fiação de vermes. Esta beleza está apenas na opinião, no preconceito humano, não na natureza das coisas. Pois aquilo que possui beleza por natureza não necessita de ninguém que a aponte. Se virdes uma moeda de bronze que é apenas dourada por fora, admirai-vos a princípio, imaginando que seja ouro; mas quando o embuste vos é revelado por alguém que o compreende, vosso assombro se desvanece juntamente com o engano. A beleza, portanto, não estava na natureza da coisa. Nem tampouco está na prata; podeis admirar o estanho como se fosse prata, tal como admirastes o bronze como se fosse ouro, e necessitais de alguém que vos informe o que deveis admirar. Assim, nossos olhos não são suficientes para discernir a diferença. Não é assim com as flores, que são muito mais belas. Se virdes uma rosa, não necessitais de ninguém que vo-lo informe; podeis por vós mesmos distinguir uma anêmona, e uma violeta, ou um lírio, e toda outra flor. Não é, portanto, senão preconceito. E para mostrar que esta paixão destrutiva não é senão um preconceito, dizei-me: se aprouvesse ao Imperador ordenar que a prata fosse de maior valor que o ouro, não transferiríeis vosso amor e admiração para aquela? Assim estamos por toda parte sob a influência da cobiça e da opinião. E que assim é, e que uma coisa é valorizada por sua raridade, e não por sua natureza, manifesta-se disto: os frutos que entre nós são tidos em pouca conta são em alta estima entre os capadócios, e entre os sérios ainda mais valiosos que os mais preciosos entre nós, país de onde estas vestes são trazidas; e muitos exemplos semelhantes poderiam ser dados a respeito da Arábia e da Índia, onde as especiarias são produzidas, e onde as pedras preciosas são encontradas. Tal preferência, portanto, não é senão preconceito e opinião humana. Não agimos por juízo, mas ao acaso, e conforme o acidente determina. Mas recobremo-nos desta embriaguez, fixemos nosso olhar naquilo que é verdadeiramente belo, belo em sua própria natureza, na piedade e na justiça; a fim de que alcancemos as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade de Jesus Cristo, nosso Senhor, com quem, etc.
De novo ele toma Deus por testemunha, como fizera pouco antes, ao mesmo tempo para aumentar o temor de seu discípulo, e para assegurar sua salvaguarda, e para mostrar que estes não eram mandamentos humanos, de sorte que, recebendo o mandamento como do próprio Senhor, e tendo sempre em mente a Testemunha diante de Quem o ouvira, pudesse tê-lo mais temerosamente impresso em sua mente.
Ordeno-te, diz ele, diante de Deus, que a todos vivifica.
Aqui há ao mesmo tempo consolação nos perigos que o aguardavam, e a lembrança da ressurreição nele despertada.
E diante de Jesus Cristo, que diante de Pôncio Pilatos testemunhou a boa confissão.
A exortação novamente deriva do exemplo de seu Mestre, e o que ele quer dizer é isto: como Ele fizera, assim deves tu fazer, pois para isto Ele testemunhou, para que pisássemos em Suas pegadas.
Uma boa confissão. O que ele faz em sua Epístola aos Hebreus — Olhando para Jesus, Autor e Consumador de nossa fé; Que, pelo gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e está assentado à direita do trono de Deus. Considerai, pois, Aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra Si mesmo, para que não desfaleçais, cansados em vossas almas — isto agora ele faz a seu discípulo Timóteo. Como se dissesse: Não temas a morte, pois és servo de Deus, que pode dar vida a todas as coisas.
Mas a que boa confissão ele alude? Àquela que Ele fez quando Pilatos perguntou: És tu Rei? Para isto, disse Ele, nasci. E ainda: Vim para que desse testemunho à Verdade. Eis que estes Me ouviram. Pode ele referir-se a isto, ou a quando, perguntado: És tu o Filho de Deus?, Ele respondeu: Vós dizeis que eu sou (o Filho de Deus). E muitos outros testemunhos e confissões Ele fez.
Não basta apenas a profissão, mas é necessária também a paciência para perseverar nessa profissão, e uma contenda vigorosa, e trabalhos inumeráveis, para que não sejas derrubado.... É necessário, portanto, estar recolhido em si mesmo e bem cingido por todos os lados. Ao redor aparecem prazeres que atraem os olhos da alma. Os da beleza, os da riqueza, os do luxo, os da indolência, os da glória, os da vingança, os do poder, os do domínio, e todos estes são belos e amáveis na aparência, e capazes de cativar aqueles que são inconstantes e que não amam a verdade.
Isto é, até o teu fim, até a tua partida daqui, ainda que ele não o expresse assim, mas, para que o exorte ainda mais, diz: até a Sua aparição. Mas o que é guardar o mandamento sem mácula? Não contrair nenhuma mancha, seja de doutrina, seja de vida.
Quando alguém vê senhores resplandecentes de posição, reis, chefes e todos os que se mostram proeminentes em riqueza, a eles fala em palavras temerosas. As suas dinastias são favorecidas pelo temor que lhes é devido. Contudo, "agora, ó reis, entendei; instruí-vos, todos vós que julgais a terra; servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nEle com tremor", porque "Ele é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores". Onde quer que o poderoso reine, Deus ameaça com o temor do Seu reino; onde quer que o desprezível seja humilhado, Deus oferece o remédio da Sua clemência. Pois este Deus é grande Rei para os que reinam e Senhor para os que exercem senhorio. E, de novo, este mesmíssimo abaixa a Sua posição e se revela, segundo a santa Escritura, Pai para os órfãos e Juiz para as viúvas, Rei para os reis, Chefe para os chefes, Senhor para os senhores.
Em Seus tempos, isto é, nos tempos devidos e convenientes, para que não se impaciente, porquanto ainda não veio. E de onde é manifesto que Ele o mostrará? Porque Ele é o Poderoso, o único Poderoso. Ele, pois, o mostrará, Ele que é bem-aventurado, ou antes, a própria bem-aventurança; e isto se diz para mostrar que, naquela aparição, nada há de penoso ou de inquietante.
Mas diz "único", seja em contraposição aos homens, seja porque Ele era não-originado, ou como às vezes falamos de um homem a quem desejamos exaltar.
Mas se Paulo disse noutro lugar: "Deus foi manifestado na carne", não te admires, porque a manifestação se deu na carne, não em sua substância. Além disso, Paulo também testificou aqui que o próprio Deus era invisível, não só aos homens, mas também às potestades celestiais. Tendo dito "foi manifestado na carne", acrescentou: "apareceu aos anjos". Assim, tornou-se visível também aos anjos, no momento em que revestiu a carne... Semelhantemente, quando disse: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus", falava da visão mental — que está em nosso poder — e também do pensamento acerca de Deus; assim, do mesmo modo, pode-se dizer dos anjos que, em razão de sua natureza pura e constante, pensam continuamente em nada mais senão em Deus... Portanto, assim como Ele foi visto por muitos, do modo em que lhes foi possível a visão d'Ele, mas ninguém jamais contemplou sua essência, assim também todos nós agora conhecemos a Deus, mas ninguém conhece sua substância, seja ela qual for, exceto apenas Aquele que dele foi gerado.
E atenta à precisão com que Paulo fala. Ele não disse "Que é luz inacessível", mas "Que habita em luz inacessível". Por quê? Para que aprendas que, se a morada é inacessível, muito mais o é o Deus que nela habita. Mas Paulo não disse isto para que suspeitasses haver uma casa ou lugar que circunda a Deus. Antes, quis que tivesses um conhecimento mais profundo e superior de que Deus está além de nossa compreensão... Inacessível se chama aquilo que, desde o princípio, não pode ser investigado nem se pode chegar perto dele. Chamamos o mar incompreensível porque, ainda quando os mergulhadores se lançam em suas águas e descem a grande profundidade, não conseguem encontrar o fundo. Chamamos inacessível aquilo que, desde o princípio, não pode ser perscrutado nem investigado.
Só Ele possui a imortalidade. Que, pois? Não possui o Filho a imortalidade? Não é Ele mesmo a própria imortalidade? Como não haveria de possuir a imortalidade Aquele que é da mesma substância do Pai?
Habitando na luz a que nenhum homem pode aproximar-se. É Ele, pois, Ele mesmo uma Luz, e há outra em que habita? Está Ele, então, circunscrito por lugar? Não penseis assim. Por esta expressão se representa a Incompreensibilidade da Natureza Divina. Assim fala ele de Deus, do melhor modo que pode. Observai como, quando a língua quer proferir algo grande, falta-lhe o poder.
A quem nenhum homem viu nem pode ver. Como, de fato, ninguém viu o Filho, nem pode vê-lo. Ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém. Assim, propriamente e com muito propósito, falou ele de Deus. Pois, havendo-o chamado por testemunha, fala muito acerca dessa Testemunha, para que seu discípulo tenha maior temor. Nestes termos lhe atribui glória, e isto é tudo o que podemos fazer ou dizer. Não devemos indagar com demasiada curiosidade quem Ele é. Se o poder sempiterno é Seu, não temais. Sim, ainda que agora não se manifeste, a Ele é a honra, a Ele é o poder para sempre.
O rico permanece em maior incerteza do que o pobre, experimentando, como experimenta, mudanças frequentes e diversas. Qual é o sentido desta frase: "Esperai em Deus, que ricamente nos concede todas as coisas para delas gozarmos"? Deus dá com liberalidade todas as coisas que são mais necessárias do que as riquezas: o ar, a água, o fogo, o sol — todas as coisas desta espécie. O rico não pode dizer que goza mais dos raios do sol do que o pobre. Não pode dizer que respira ar mais abundante. Estas coisas são oferecidas a todos igualmente. São as bênçãos maiores e mais necessárias, e as que sustentam a nossa vida, que Deus deu a todos em comum. As menores e menos valiosas — falo do dinheiro — não são assim comuns.
Pois nada há tão infiel quanto a riqueza; da qual tenho dito muitas vezes, e não cessarei de dizer, que é um servo fugitivo e ingrato, sem nenhuma fidelidade. Ainda que lhe lances mil correntes, ele se põe a caminho arrastando consigo as suas cadeias. Frequentemente, na verdade, aqueles que possuíam riqueza a encerraram com trancas e portas, colocando ao redor os seus servos como guardas. Mas ela persuadiu a esses próprios servos e fugiu juntamente com os seus guardas, arrastando os seus vigias como que acorrentados, tão pouca segurança havia nessa custódia.
Manda aos que são ricos neste mundo que não sejam soberbos.
Bem disse: ricos neste mundo. Pois há outros ricos no mundo futuro. E dá este conselho sabendo que nada produz tão comumente a soberba e a arrogância quanto a riqueza. Para atalhar isso, pois, acrescenta logo: Nem ponham a esperança na incerteza das riquezas; visto que esta era a fonte da soberba, porquanto aquele que espera em Deus não se ensoberbece. Por que pões tuas esperanças naquilo que é instantaneamente transferível? Pois tal é a riqueza! E por que esperas naquilo de que não podes ter confiança? Mas dizeis: como podem eles evitar a soberba? Considerando a instabilidade e a incerteza das riquezas, e que a esperança em Deus é infinitamente mais valiosa, sendo Deus o próprio Autor da riqueza.
Mas no Deus vivo, diz ele, que nos concede ricamente todas as coisas para delas gozarmos.
Este todas as coisas ricamente é dito com justeza, em referência às mudanças do ano, ao ar, à luz, à água e a outros dons. Pois quão ricamente e sem mesquinhez são todos estes concedidos! Se buscais riquezas, buscai as que são estáveis e duradouras, e que são fruto das boas obras. Ele mostra que este é o seu sentido pelo que se segue.
Que façam o bem, diz ele, que sejam ricos em boas obras, prontos para distribuir, dispostos a comunicar.
A primeira expressão refere-se à riqueza, a segunda à caridade. Pois ser disposto a comunicar implica que sejam sociáveis e benignos.
Entesourando para si mesmos um bom fundamento para o tempo vindouro.
Ali nada é incerto, pois, sendo firme o fundamento, não há instabilidade; tudo é firme, fixo, imóvel, estável e duradouro.
Para que se apeguem, diz ele, à vida eterna.
Pois a prática das boas obras pode assegurar o gozo da vida eterna.
Ó Timóteo, guarda o que te foi confiado. Que não sofra diminuição. Não é teu. Foi-te confiado o bem alheio; não o diminuas.
Evitando as profanas e vãs palavrerias, e as oposições da ciência falsamente assim chamada. Bem a chamou assim. Pois onde não há fé, não há ciência; quando algo brota de nossos próprios raciocínios, não é ciência. Ou talvez diga isto porque alguns então assumiam o nome de gnósticos, como que sabendo mais que os outros.
Vede como novamente ele ordena a Timóteo que sequer se encontre com eles. Evitando a oposição. Há, pois, oposições às quais não devemos dignar-nos a responder, porque desviam os homens da fé e não permitem que alguém seja firmemente estabelecido ou fixado nela. Não persigamos, então, esta ciência, mas apeguemo-nos à fé, essa rocha inabalável. Pois nem as inundações nem os ventos que a assaltam poderão prejudicar-nos, uma vez que estamos sobre a rocha imóvel. Assim, mesmo nesta vida, se escolhermos a Ele, que é verdadeiramente o fundamento, permanecemos firmes, e nenhum mal nos assalta. Pois o que pode ferir aquele que escolheu as riquezas, a honra, a glória, o prazer da vida futura? Todas elas são firmes, nelas não há variação; as coisas daqui, ao contrário, estão todas sujeitas a reviravolta e mudam para sempre. Pois o que quererias? Glória? Diz o Salmista: "Sua glória não descerá após ele" (Sl 49,17). E frequentemente ela não permanece com ele enquanto vive. Mas não é assim com a virtude; tudo o que a ela pertence é permanente. Aqui, aquele que obtém glória de seu cargo, quando outro o sucede nesse cargo, torna-se um homem privado e sem glória. O rico é reduzido à pobreza pelo ataque de ladrões, ou pelas ciladas de aduladores e velhacos. Não é assim com os cristãos. O homem temperante, se acautelar a si mesmo, não será despojado de sua virtude. Aquele que governa a si mesmo não pode tornar-se um homem comum e súdito.
E que este domínio é superior a qualquer outro, ficará evidente ao exame. Pois de que vale, dizei-me, reinar sobre nações de nossos semelhantes e ser escravo das próprias paixões? Ou em que ficamos piores por não termos ninguém sob nosso domínio, se somos superiores à tirania das paixões? Isso sim é Liberdade, isso é Domínio, isso é Realeza e Soberania. O contrário é escravidão, ainda que o homem esteja investido de inúmeros diademas. Pois quando uma multidão de senhores o governa por dentro — o amor ao dinheiro, o amor ao prazer, a ira e outras paixões —, de que lhe serve o diadema? A tirania dessas paixões é mais severa quando nem mesmo sua coroa tem o poder de livrá-lo de sua sujeição a elas. Como se alguém que fora rei fosse reduzido à escravidão por bárbaros e estes, querendo mostrar mais absolutamente seu poder, não o despojassem de seu manto púrpura e de seu diadema, mas o obrigassem a trabalhar vestido com eles e a desempenhar todos os ofícios servis, a tirar água e a cozinhar seu alimento, para que sua desonra e a honra deles fossem tanto mais manifestas: assim é que nossas paixões nos dominam mais barbaramente do que quaisquer bárbaros. Pois aquele que as despreza pode desprezar também os bárbaros; mas aquele que a elas se submete sofrerá mais gravemente do que sofreria dos bárbaros. O bárbaro, quando seu poder prevalece, pode afligir o corpo, mas estas paixões torturam a alma e a laceram por inteiro. Quando o bárbaro prevalece, entrega alguém à morte temporal, mas estas paixões, àquela que há de vir. De modo que só é homem livre aquele que tem em si mesmo a sua liberdade; e aquele que se submete a estas paixões insensatas é o escravo.
No mestre, ainda que desumano, impõe ordens tão severas e desumanas. Dizem-lhe, em efeito: Desonra a tua alma sem fim nem propósito — ofende a teu Deus — sê surdo às reivindicações da natureza; ainda que seja teu pai ou tua mãe, não te envergonhes de te opores a eles. Tais são as ordens da avareza. Sacrifica-me, diz ela, não bezerros, mas homens. O profeta, de fato, diz: Sacrificai homens, pois os bezerros faltaram (Os 13:2, Septuaginta). Mas a avareza diz: Sacrifica homens, ainda que haja bezerros. Sacrifica aqueles que jamais te ofenderam, sim, mata-os, ainda que tenham sido teus benfeitores. Ou ainda: Está em guerra, e anda como o inimigo comum de todos, da própria natureza, e de Deus. Amontoa ouro, não para que dele desfrutes, mas para que o guardes, e forjes para ti mesmo maior tormento. Pois não é possível que o amante do dinheiro consiga dele desfrutar, visto que teme que seu ouro diminua, que seus tesouros acabem. Vigia, diz ela, desconfia de todos, mesmo dos domésticos e dos amigos. Põe os olhos nos bens alheios. Ainda que vejas o pobre perecendo de fome, nada lhe dês; antes, despoja-o, se possível, até da própria pele. Quebra teus juramentos, mente, jura falso. Sê acusador, delator falso. Não recuses, se for necessário, lançar-te ao fogo, submeter-te a mil mortes, perecer de fome, lutar contra a doença. Não é a avareza que impõe estas leis? Sê ofensivo e impudente, sem vergonha e audaz, vilão e ímpio, ingrato, insensível, inamistoso, infiel, desprovido de afeto, um parricida, antes uma fera que um homem. Supera a serpente em amargura, o lobo em rapacidade. Excede em brutalidade até a própria fera, e mais — se for necessário chegar até a malignidade do demônio, não recuses. Sê estranho a teu benfeitor.
Não diz a avareza tudo isto, e não é ela ouvida? Deus, ao contrário, diz: Sê amigo de todos, sê manso, amado por todos, não dês ofensa sem causa a ninguém. Honra a teu pai e a tua mãe. Conquista uma reputação honrosa. Não sejas homem, mas anjo. Não profiras nada imodesto, nada falso, nem sequer o penses. Socorre o pobre. Não tragas sobre ti mesmo aflição, saqueando os outros. Não sejas audaz nem insolente. Isto diz Deus, mas ninguém o escuta. Não é, pois, justamente ameaçado o inferno, e o fogo, e o verme que não morre? Até quando havemos de nos lançar assim precipício abaixo? Até quando havemos de caminhar sobre espinhos, e traspassar-nos com pregos, e por isso sermos gratos? Submetemo-nos a tiranos cruéis, e recusamos o Mestre manso, que nada impõe de penoso, nem bárbaro, nem oneroso, nem inútil, mas tudo quanto é útil, e valioso, e proveitoso. Despertemos, pois, a nós mesmos, e recolhamo-nos, e reunamos as nossas forças. Amemos a Deus como devemos, para que alcancemos as bênçãos prometidas aos que O amam, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, etc.
Por que, então, ao escrever aos Efésios, tendo Timóteo consigo, não o associou a si mesmo (em sua saudação), sendo ele conhecido e admirado por eles, pois diz: Conheceis a prova que ele deu de si, que como filho serve ao pai, assim serviu comigo no Evangelho (Fp 2,22); e novamente: Não tenho ninguém de igual ânimo, que sinceramente se importe convosco (Fp 2,20); mas aqui ele o associa a si mesmo? Parece-me que estava prestes a enviá-lo imediatamente, e seria supérfluo escrever aquele que alcançaria a carta antes dela. Pois diz: A este, pois, espero enviar logo (Fp 2,23). Mas aqui não foi assim; antes, Timóteo acabara de retornar a ele, de modo que naturalmente se associou à carta. Pois diz: Ora, quando Timóteo veio de vós a nós (1 Ts 3,6). Mas por que coloca Silvano antes dele, embora testifique suas inúmeras boas qualidades e o prefira acima de todos? Talvez Timóteo tenha desejado e pedido que assim fizesse, por sua grande humildade; pois, ao ver seu mestre tão humilde de ânimo, a ponto de associar a si mesmo seu discípulo, muito mais teria desejado isto e ardentemente o buscado. Pois diz:
Paulo, e Silvano, e Timóteo, à Igreja dos Tessalonicenses. Aqui ele não se atribui título algum — nem Apóstolo, nem Servo; suponho que, por serem os homens recém-instruídos e ainda não terem tido nenhuma experiência dele, não aplica o título; e era ainda o início de sua pregação a eles.
À Igreja dos Tessalonicenses, diz ele. E com razão. Pois é provável que fossem poucos, e ainda não constituídos em corpo; por isso os consola com o nome de Igreja. Pois onde já se passara muito tempo, e a congregação da Igreja era grande, não aplica este termo. Mas porque o nome de Igreja é, na maior parte, um nome de multidão e de um sistema já compactado, por isso os chama por esse nome.
Em Deus Pai, diz ele, e o Senhor Jesus Cristo. À Igreja dos Tessalonicenses, diz ele, que está em Deus. Eis novamente a expressão em, aplicada tanto ao Pai quanto ao Filho. Pois havia muitas assembleias, tanto judaicas quanto gregas; mas ele diz, àquela que está em Deus. É grande dignidade, e à qual nada se iguala, estar em Deus. Conceda Deus, pois, que esta Igreja possa ser assim chamada! Mas temo que esteja longe desta denominação. Pois se alguém for servo do pecado, não se pode dizer que esteja em Deus. Se alguém não caminha segundo Deus, não se pode dizer que esteja em Deus.
Aqui Paulo não se atribui título algum. Não se refere a si mesmo nem como "apóstolo" nem como "servo". Paulo evita tais títulos, suponho, porque os Tessalonicenses eram recém-instruídos e ainda não conheciam bem a Paulo. Seu ministério de pregação a esta igreja estava apenas começando.
Graça vos seja e paz. Percebeis como o próprio início de sua Epístola se dá com elogios? Damos sempre graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações. Pois dar graças a Deus por eles é o ato de quem testifica seu grande progresso, quando não somente eles próprios são louvados, mas também Deus é agradecido por eles, como tendo Ele mesmo feito tudo. Ensina-os também a serem moderados, dizendo quase que tudo é obra do poder de Deus. Que dê graças por eles, portanto, deve-se à sua boa conduta; mas que os recorde em suas orações, procede de seu amor por eles. Então, como frequentemente faz, diz que não somente os recorda em suas orações, mas também fora delas. Recordando sem cessar, diz ele, vossa obra de fé, e trabalho de amor, e paciência de esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai. O que é recordar sem cessar? Ou recordar diante de Deus e do Pai, ou recordar vosso trabalho de amor que está diante de Deus e do Pai, ou simplesmente, Recordando-vos sem cessar. Então, novamente, para que não penseis que este recordar-vos sem cessar é dito simplesmente, acrescentou, diante de nosso Deus e Pai. E porque ninguém entre os homens louvava suas ações, ninguém lhes concedendo qualquer recompensa, diz isto, Vós trabalhais diante de Deus. Que é a obra da fé? Que nada desviou vossa firmeza. Pois esta é a obra da fé. Se credes, sofrei todas as coisas; se não sofreis, não credes. Pois não são tais as coisas prometidas, que aquele que crê escolheria sofrer até dez mil mortes? O reino dos céus está posto diante dele, e a imortalidade, e a vida eterna. Aquele, pois, que crê sofrerá todas as coisas. A fé, então, mostra-se por meio de suas obras. Justamente poder-se-ia dizer, não meramente crestes, mas por vossas obras o manifestastes, por vossa firmeza, por vosso zelo.
Pois dar graças a Deus por eles é o ato de quem testifica quanto progrediram na fé. Não somente os Tessalonicenses são louvados por Paulo, mas Paulo agradece a Deus por eles, como se o próprio Deus tivesse realizado tudo. Paulo ensina-os também a serem moderados em sua autoestima, dizendo quase que todo o seu crescimento provém do poder de Deus.
E o vosso labor de amor. Por quê? Que labor há em amar? Amar simplesmente não é labor algum. Mas amar genuinamente é grande labor. Pois dizei-me: quando mil coisas se agitam para nos arrancar do amor, e nós resistimos a todas elas, não é isso labor? Pois que não sofreram estes homens, para que não se apartassem do seu amor? Não foram aqueles que guerreavam contra a Pregação à casa de Paulo, e não o tendo encontrado, arrastaram Jasão perante os magistrados da cidade? (At 17,5-6). Dizei-me: é isto um labor leve, quando a semente ainda não havia lançado raízes, suportar tamanha tempestade, tantas provações? E exigiram dele fiança. E tendo dado fiança — diz — Jasão despediu Paulo. É isto pouco, dizei-me? Não se expôs Jasão ao perigo por causa dele? E a isto chama ele labor de amor, porque assim se achavam a ele vinculados.
E observai: primeiro menciona ele as boas ações deles, depois as suas próprias, para que não pareça vangloriar-se, nem tampouco que os ame por antecipação. E a paciência, diz ele. Pois aquela perseguição não se limitava a um só momento, mas era contínua, e guerreavam não apenas contra Paulo, o mestre, mas também contra os seus discípulos. Pois se assim se dispunham para com aqueles que operavam milagres, homens tão veneráveis, que pensais que sentiam para com aqueles que habitavam entre eles, seus concidadãos, que subitamente se haviam apartado deles? Por isso também dá ele testemunho disto a respeito deles, dizendo: Pois vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia.
E da esperança, diz ele, em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai. Pois todas estas coisas procedem da fé e da esperança, de modo que o que lhes aconteceu não mostrava apenas a sua fortaleza, mas que criam com plena certeza nas recompensas que lhes estavam reservadas. Pois por esta razão permitiu Deus que logo surgissem perseguições, para que ninguém pudesse dizer que a Pregação se estabelecera levianamente ou por lisonja, e para que se mostrasse o seu fervor, e que não foi persuasão humana, mas o poder de Deus, que persuadiu as almas dos crentes, de modo que estavam preparados até para dez mil mortes — o que não teria sido o caso, se a Pregação não se houvesse desde logo profundamente fixado e permanecido inabalável.
Sabendo o quê? Como nos mostramos entre vós? Aqui toca ele também nas suas próprias boas ações, mas de modo encoberto. Pois deseja primeiro alargar-se nos louvores deles, e o que diz é algo desta ordem: Eu sabia que éreis homens de grande e nobre condição, que éreis dos Eleitos. Por esta razão suportamos também todas as coisas por amor de vós. Pois isto, de que maneira nos mostramos entre vós, é expressão de quem mostra que, com muito zelo e muita veemência, estávamos prontos a dar as nossas vidas por vós; e por isto as graças são devidas não a nós, mas a vós, porque éreis eleitos. Por isso também diz ele noutro lugar: E estas coisas suporto por amor dos Eleitos (2 Tm 2,10). Pois que não suportaria alguém por amor dos amados de Deus? E tendo falado da sua própria parte, quase diz: Pois se éreis amados e eleitos, com razão sofremos nós todas as coisas. Pois não só o louvor deles os confirmava, mas também o lembrar-lhes que eles próprios haviam demonstrado uma fortaleza correspondente ao seu zelo, ele diz:
Estranho! Que elogio é este! Os discípulos tornaram-se subitamente mestres! Não apenas ouviram a palavra, mas depressa alcançaram a mesma altura de Paulo. Mas isto não é nada; pois vede como ele os exalta, dizendo: Tornastes-vos imitadores do Senhor. Como? Tendo recebido a palavra em muita aflição, com alegria do Espírito Santo. Não meramente com aflição, mas com muita aflição. E isto podemos aprender dos Atos dos Apóstolos, como estes levantaram uma perseguição contra eles (At 17,5-8). E perturbaram todos os magistrados da cidade, e instigaram a cidade contra eles. E não basta dizer que fostes de fato afligidos, e crestes, e vos entristecestes, mas até vos alegrastes. O que também fizeram os Apóstolos: Alegrando-se, diz, por terem sido considerados dignos de sofrer desonra pelo Nome (At 5,41). Pois é isto que é admirável. Ainda que aquilo tampouco seja pouca coisa, suportar aflições de algum modo. Mas isto agora era próprio de homens que superavam a natureza humana, e que possuíam, por assim dizer, um corpo incapaz de padecer.
Mas de que modo foram imitadores do Senhor? Porque Ele também suportou muitos sofrimentos, mas se alegrou. Pois a isto Ele veio de boa vontade. Por nossa causa Ele se esvaziou a Si mesmo. Estava para ser cuspido, açoitado e crucificado, e de tal modo Se alegrou em padecer estas coisas, que disse ao Pai: Glorifica-Me (Jo 17,1-5).
Com alegria do Espírito Santo, diz ele. Para que ninguém diga: como falas de aflição? Como de alegria? Como podem ambas coincidir numa só coisa? Acrescentou: com alegria do Espírito Santo. A aflição está nas coisas corporais, e a alegria nas coisas espirituais. Como assim? As coisas que lhes aconteceram eram penosas, mas não o eram as coisas que delas brotaram, pois o Espírito não o permite. De modo que é possível tanto que aquele que sofre não se alegre, quando alguém padece por seus pecados; quanto que, sendo açoitado, sinta prazer, quando alguém padece por causa de Cristo. Pois tal é a alegria do Espírito. Em troca das coisas que parecem penosas, ela produz deleite. Afligiram-vos, diz ele, e vos perseguiram, mas o Espírito não vos abandonou, mesmo nessas circunstâncias. Assim como os Três Meninos na fornalha foram refrigerados pelo orvalho, também vós fostes refrigerados nas aflições. Mas, assim como ali não era da natureza do fogo aspergir orvalho, mas do vento sibilante, também aqui não era da natureza da aflição produzir alegria, mas do padecimento por causa de Cristo, e do Espírito que os orvalhava e, na fornalha da tentação, os aliviava. Não meramente com alegria, diz ele, mas com muita alegria. Pois isto é próprio do Espírito Santo.
"Com alegria inspirada pelo Espírito Santo", diz Paulo. Para que ninguém possa dizer: "Como podes falar de aflição e de alegria numa só e mesma frase?", ele acrescenta: "inspirada pelo Espírito Santo". A aflição pertence ao corpo, e a alegria às coisas espirituais. Mas como assim? As coisas que lhes aconteceram eram penosas, mas não o eram as coisas que delas brotaram, pois o Espírito não o permite. Assim, é possível que aquele que sofre não se alegre quando padece por seus pecados, mas ainda assim experimente prazer quando é açoitado e padece por causa de Cristo. Pois tal é a alegria do Espírito. Em troca das coisas que parecem penosas, o Espírito traz deleite. Afligiram-vos, diz ele, e vos perseguiram, mas o Espírito não vos abandonou nem mesmo nessas circunstâncias.
Vedes que grande coisa é o zelo? Não pede mais tempo, nem demora, nem procrastina. Basta simplesmente oferecer-se a si mesmo, e tudo se cumpre... Por que digo isto? Porque, se estivermos vigilantes, não necessitaremos do auxílio de outros. Se dormimos, o auxílio de outros nada nos aproveita, mas até com sua ajuda perecemos... Dizeis que vossas orações pouco alcançam? Alcançam muito quando as unimos às nossas obras... Mas, se permaneceis ociosos, não recebereis benefício algum.
Depois, contudo, foi mais tarde que ele foi até eles. Mas vós, diz ele, tanto resplandecestes, que vos tornastes mestres daqueles que haviam recebido a palavra antes de vós. E isto é próprio do Apóstolo. Pois não disse que vos tornastes exemplos quanto ao crer, mas que vos tornastes exemplo para aqueles que já criam; como se deve crer em Deus, vós o ensinastes, vós que, desde o princípio mesmo, entrastes em vosso combate.
E na Acaia, diz ele; isto é, na Grécia.
Vedes quão grande coisa é o zelo? Que ele não requer tempo, nem demora, nem procrastinação, mas basta apenas arriscar-se a si mesmo, e tudo se cumpre. Assim, pois, ainda que tenham entrado mais tarde na Pregação, tornaram-se mestres daqueles que os precederam.
Moral. Ninguém, portanto, desespere, ainda que tenha perdido muito tempo e nada tenha feito. É possível a ele, mesmo em pouco tempo, fazer tanto quanto jamais fez em todo o seu tempo anterior. Pois, se aquele que antes não cria resplandeceu tanto no início, quanto mais aqueles que já criam! Que ninguém, por outro lado, se torne remisso por esta consideração, por perceber que é possível, em breve tempo, recuperar tudo. Pois o futuro é incerto, e o Dia do Senhor é como um ladrão, que nos assalta subitamente quando estamos dormindo. Mas, se não dormimos, não nos assaltará como ladrão, nem nos arrebatará desprevenidos. Pois, se vigiamos e somos sóbrios, não nos assaltará como ladrão, mas como mensageiro régio, convocando-nos aos bens que nos foram preparados. Mas, se dormimos, vem sobre nós como ladrão. Ninguém, portanto, durma, nem seja inativo na virtude, pois isso é dormir. Não sabeis como, quando dormimos, nossos bens não estão em segurança, quão fáceis são de serem tramados contra? Mas, quando estamos despertos, não há necessidade de tanta guarda. Quando dormimos, mesmo com muita guarda, frequentemente perecemos. Há portas, e trancas, e guardas, e guardas exteriores, e o ladrão já veio sobre nós.
Por que, pois, digo isto? Porque, se vigiamos, não necessitaremos do auxílio de outros; mas, se dormimos, o auxílio de outros de nada nos aproveitará, mas até com isso pereceremos. É coisa boa gozar da oração dos Santos, mas isso é quando também nós mesmos estamos alerta. E que necessidade, dirás, tenho eu da oração de outro, se eu mesmo estou alerta? E, na verdade, não te coloques em situação de necessitar dela; não desejo que o faças; mas dela necessitamos sempre, se pensarmos retamente. Paulo não disse: que necessidade tenho eu de oração? E, contudo, aqueles que oravam não eram dignos dele, ou antes, não eram iguais a ele; e tu dizes: que necessidade tenho eu de oração? Pedro não disse: Que necessidade tenho eu de oração, pois oração, diz, era feita com fervor pela Igreja a Deus por ele (At 12:5). E tu dizes: Que necessidade tenho eu de oração? Por isto mesmo necessitas dela, porque pensas que não tens necessidade. Sim, ainda que te tornes como Paulo, tens necessidade de oração. Não te exaltes, para que não sejas humilhado.
Mas, como disse, se também nós mesmos formos diligentes, as orações por nós aproveitam também. Ouve Paulo dizendo: Pois sei que isto redundará em minha salvação, por meio de vossa súplica, e do socorro do Espírito de Jesus Cristo (Fp 1:19). E ainda: Para que, pelo dom que nos foi concedido por meio de muitos, por muitos sejam dadas graças a nosso respeito (2 Cor 1:11). E dizes tu: que necessidade tenho eu de oração? Mas, se estivermos ociosos, ninguém poderá aproveitar-nos. De que aproveitou Jeremias aos judeus? Não se chegou ele três vezes a Deus, e na terceira ouviu: Não ores por este povo, nem levantes por eles clamor ou oração, porque não vos ouvirei (Jr 7:16)? De que aproveitou Samuel a Saul? Não pranteou por ele até o seu último dia, e não apenas orou por ele somente? De que aproveitou ele aos israelitas? Não disse ele: Longe de mim que eu peque contra o Senhor, cessando de orar por vós (1 Sm 12:23)? Não pereceram eles todos? Nada aproveitam, pois, as orações, dizes tu? Aproveitam, sim, e muito: mas quando também nós fazemos algo. Pois as orações, na verdade, cooperam e assistem, mas o homem coopera com aquele que opera, e assiste a quem também por si mesmo trabalha. Mas, se permaneceres ocioso, nenhum grande benefício receberás.
Pois, se as orações tivessem poder de nos conduzir ao reino enquanto nada fazemos, por que não se tornam todos os gregos cristãos? Não oramos nós por todo o mundo? Não fez Paulo também isto? Não suplicamos nós que todos se convertam? Por que não se tornam bons os ímpios sem contribuírem eles mesmos com nada? As orações, pois, muito aproveitam, quando também contribuímos com a nossa própria parte.
Queres aprender quanto aproveitaram as orações? Considera, peço-te, Cornélio, Tabita (At 10:3 e 9:36). Ouve também Jacó dizendo a Labão: Se o Deus de meu pai, o Temor de Isaque, não estivesse comigo, certamente me despedirias agora vazio (Gn 31:42). Ouve também Deus outra vez, dizendo: Defenderei esta cidade por amor de Mim mesmo, e por amor de Davi, Meu servo (2 Rs 19:34). Mas quando? No tempo de Ezequias, que era justo. Pois, se as orações aproveitassem mesmo aos extremamente ímpios, por que não disse Deus isto também quando veio Nabucodonosor, e por que entregou a cidade? Porque mais prevaleceu a maldade. Também Samuel, ele mesmo, orou pelos israelitas, e prevaleceu. Mas quando? Quando também eles agradavam a Deus, então puseram em fuga os seus inimigos. E que necessidade, dizes tu, há de oração de outrem, quando eu mesmo agrado a Deus? Nunca, ó homem, digas isto. Há necessidade, sim, e necessidade de muita oração. Pois ouve Deus dizendo a respeito dos amigos de Jó: E ele orará por vós, e o vosso pecado vos será perdoado (Jó 42:8). Porque haviam eles, na verdade, pecado, mas não um grande pecado. Mas este justo, que então salvou os seus amigos pela oração, no tempo dos judeus não pôde salvar os judeus que pereciam. E, para que aprendas isto, ouve Deus dizendo por meio do profeta: Ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela, não livrariam eles nem filhos nem filhas (Ez 14:14-16). Porque prevalecia a maldade. E ainda: Ainda que Moisés e Samuel estivessem diante de Mim (Jr 15:1).
Não há dúvida em Ele, a saber, que os Justos podem prevalecer a favor de outrem; mas quando o povo se torna incorrigível pela multidão de seus pecados, nem sequer a intercessão dos mais eminentes Justos basta.
Vede, pois, como isto se diz aos dois Profetas, porquanto ambos oraram por eles e não prevaleceram. Pois diz Ezequiel: Ah, Senhor, destruirás Tu o resto de Israel? (Ez 9:8). Então, mostrando que Ele faz isto com justiça, revela-lhe os pecados deles; e mostrando que não é por desprezá-lo que recusa aceitar sua súplica em favor deles, diz: Ainda que estas coisas bastem para persuadir-te de que não é por desprezar-te, mas por causa dos muitos pecados deles, que não aceito tua súplica. Todavia acrescenta: Ainda que Noé, Jó e Daniel estivessem (Ez 14). E com boa razão lhe diz Ele antes isto a ele, porque foi ele quem tantas coisas padeceu. Ordenaste-me, diz ele, que comesse sobre esterco, e eu comi sobre ele. Ordenaste-me, e rapei a cabeça. Ordenaste-me, e deitei-me sobre um lado. Ordenaste-me sair por um buraco na parede, levando um fardo, e saí. Tomaste minha mulher, e ordenaste-me que não a pranteasse, e não a prantei, mas suportei com fortaleza (Ez 24:18). Dez mil outras coisas fiz por causa deles: intercedo por eles, e Tu não anuis? Não por desprezar-te, diz Ele, faço isto, mas ainda que Noé, Jó e Daniel ali estivessem, e intercedessem por filhos e filhas, Eu não anuiria.
E de novo a Jeremias, que menos padeceu pelos mandamentos de Deus, mas mais pela maldade deles, que lhe diz Ele? Não vês o que estes fazem? (Jr 7:17). Sim, diz ele, assim fazem — mas fá-lo Tu por amor de mim. Por isso lhe diz: Ainda que Moisés e Samuel estivessem. O primeiro legislador deles, que muitas vezes os livrou dos perigos, que dissera: Se agora perdoares o pecado deles, perdoa; mas se não, risca-me também a mim (Êx 32:32, Septuaginta). Se, pois, ele estivesse agora vivo e falasse assim, não teria prevalecido — nem tampouco Samuel, que também ele os livrou, e que desde a mais tenra juventude foi admirado. Pois ao primeiro, com efeito, disse Eu que conversei com ele como amigo com amigo, e não por enigmas. E do segundo disse que, em sua primeira juventude, Eu me revelei a ele, e que por causa dele, sendo persuadido, abri a profecia que estava fechada. Pois a palavra do Senhor, diz-se, era rara naqueles dias; não havia visão manifesta (1 Sm 3:1). Se estes homens, portanto, estivessem diante de Mim, nada aproveitariam. E de Noé diz: Noé era homem justo e perfeito em suas gerações (Gn 6:9). E acerca de Jó: Era irrepreensível, justo, verdadeiro, temente a Deus (Jó 1:1, Septuaginta). E acerca de Daniel, a quem até mesmo tinham por um deus; e não livrarão, diz Ele, seus filhos e suas filhas. Sabendo, pois, estas coisas, não desprezemos as orações dos Santos, nem lancemos tudo sobre eles: para que não sejamos, de um lado, indolentes e vivamos descuidadamente; nem, de outro, nos privemos de uma grande vantagem. Mas roguemo-lhes que orem e levantem a mão por nós, e apeguemo-nos à virtude; para que possamos alcançar as bênçãos prometidas aos que O amam, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, etc.
Assim como um unguento de suave fragrância não retém seu perfume encerrado em si mesmo, mas o difunde ao longe, e, perfumando o ar com sua essência, o transmite também aos sentidos dos vizinhos; assim também os homens ilustres e admiráveis não encerram sua virtude dentro de si mesmos, mas, por seu bom testemunho, beneficiam a muitos e os tornam melhores. O que também então aconteceu. Por isso disse: De sorte que vos tornastes exemplo para todos os que creem na Macedônia e na Acaia. Pois de vós, diz ele, ressoou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia, mas também em todo lugar se divulgou vossa fé para com Deus. Encheis, portanto, todos os vossos vizinhos de instrução, e o mundo de admiração. Pois isto é o que significa a expressão em todo lugar. E não disse que vossa fé foi divulgada, mas que ressoou; assim como todo lugar próximo se enche do som de uma trombeta ressonante, assim também a fama de vossa fortaleza é retumbante, e, ressoando como aquela, é suficiente para encher o mundo, e recair com igual som sobre todos os que estão ao redor. Pois as grandes ações são mais estrondosamente celebradas ali onde ocorreram; ao longe, na verdade, são celebradas, mas não tanto.
Mas em vosso caso não foi assim; antes, o som do bom testemunho espalhou-se por toda parte da terra. E de onde sabemos, dirá alguém, que as palavras não eram hiperbólicas? Pois esta nação dos macedônios, antes da vinda de Cristo, era renomada, e celebrada em todo lugar mais que os romanos. E os romanos eram admirados por isto: por tê-los levado cativos. Pois as ações do rei macedônio excederam todo relato, o qual, partindo de uma pequena cidade, contudo subjugou o mundo. Por isso também o Profeta o viu como um leopardo alado, mostrando sua rapidez, sua veemência, sua natureza ígnea, voando de certo modo subitamente sobre todo o mundo com os troféus de sua vitória. E dizem que, ouvindo de certo filósofo que havia mundos infinitos, gemeu amargamente por não ter conquistado sequer um, quando eram inumeráveis. Tão altivo era ele, e de tão elevada alma, e celebrado em todo lugar. E com a fama do rei acompanhava também a glória da nação. Pois era chamado Alexandre, o Macedônio. De modo que o que ali sucedeu era também naturalmente muito comentado. Pois nada pode ocultar-se do que se refere aos ilustres. Os macedônios, pois, não eram inferiores aos romanos.
E isto também surgiu de sua veemência. Pois, como se falasse de algo vivo, introduz a palavra saiu a divulgar-se; tão veemente e enérgica era sua fé. De modo que não necessitamos dizer nada, diz ele, pois eles mesmos relatam a nosso respeito que entrada tivemos entre vós. Não esperam ouvir de nós, mas os que não estavam presentes, e não viram, antecipam-se aos que estavam presentes e viram vossas boas obras. Tão manifestas foram elas por toda parte pelo testemunho. Não necessitaremos, portanto, ao relatar vossas ações, trazê-los a igual zelo. Pois as coisas que deveriam ouvir de nós, essas eles mesmos comentam, antecipando-se a nós. E, contudo, no caso de tais coisas frequentemente há inveja, mas a grandeza excessiva do feito venceu até isto, e eles são os arautos de vossos combates. E, embora deixados para trás, nem assim se calam, mas se antecipam a nós. E, sendo tais, não lhes é possível descrer de nosso relato.
Que significa: Que entrada tivemos entre vós? Que ela foi plena de perigos e de inúmeras mortes, mas que nada disto vos perturbou. Mas, como se nada tivesse acontecido, assim vos apegastes a nós; como se não tivésseis padecido mal algum, mas antes gozado de bem infinito, assim nos recebestes depois disso. Pois esta foi a segunda entrada. Foram a Beréia, foram perseguidos, e, quando vieram depois disto, foram recebidos de tal modo, como se também por isto tivessem sido honrados, a ponto de até darem suas vidas por eles. A expressão que entrada tivemos é complexa, e contém um elogio tanto deles quanto de si mesmos. Mas ele mesmo converteu isto em proveito para eles. E como, diz ele, vos convertestes a Deus, dos ídolos, para servir ao Deus vivo e verdadeiro; isto é, que o fizestes prontamente, que o fizestes com muito fervor, que não foi necessário muito trabalho para vos persuadir. Para servir, diz ele, ao Deus vivo e verdadeiro.
Aqui também introduziu ele uma exortação, o que é próprio de quem deseja tornar seu discurso menos ofensivo. E esperardes, diz ele, dos céus a Seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira vindoura. E esperardes, diz ele, dos céus a Seu Filho; Aquele que foi crucificado, Aquele que foi sepultado; esperá-lO dos céus. E como dos céus? A quem ressuscitou dentre os mortos. Vedes tudo ao mesmo tempo: tanto a Ressurreição, quanto a Ascensão, quanto a segunda Vinda, o Juízo, a retribuição dos justos, o castigo dos ímpios. Jesus, diz ele, que nos livra da ira vindoura. Isto é ao mesmo tempo consolo, e exortação, e encorajamento. Pois se O ressuscitou dentre os mortos, e Ele está nos céus, e dali há de vir (e vós crestes n'Ele; pois se não tivésseis crido n'Ele, não teríeis sofrido tanto), isto por si só é consolo suficiente. Estes hão de sofrer castigo, o que ele diz em sua segunda epístola, e não tereis pequena consolação.
E esperardes, diz ele, dos céus a Seu Filho. As coisas terríveis estão à mão, mas os bens estão no futuro, quando Cristo vier dos céus. Vede quanta esperança se requer, em que Aquele que foi crucificado foi ressuscitado, que foi tomado aos céus, que virá para julgar os vivos e os mortos.
Grandes eram, na verdade, também as vossas ações, e contudo não recorremos ao discurso humano. Mas o que diz acima, também o repete aqui: que de ambos os lados se mostra qual era a natureza da Pregação, tanto pelos milagres quanto pela resolução dos pregadores, quanto pelo zelo e fervor dos que a receberam. Pois vós mesmos, diz ele, sabeis a nossa entrada entre vós, que não se achou vã, isto é, que não foi segundo o homem, nem de espécie alguma comum. Pois, recém-saídos de grandes perigos, e mortes, e açoites, caímos imediatamente em perigos. Mas, diz ele, tendo antes sofrido, e sido vergonhosamente maltratados; como sabeis, em Filipos, tomamos ousadia em nosso Deus. Vedes como de novo ele reporta tudo a Deus? Falar-vos, diz ele, o Evangelho de Deus em muito combate. Não é possível dizer que ali, sim, estivéssemos em perigo, mas aqui não; vós mesmos também sabeis quão grande foi o perigo, com quanto combate estivemos entre vós. O que também diz em sua Epístola aos Coríntios: E estive convosco em fraqueza, e em labor, e em temor, e em muito tremor. 1 Coríntios 2,3
Pois a obra de Paulo teve sua fonte no poder, poder poderoso, poder que superava a mera diligência humana. Pois Paulo trouxe três qualificações à pregação da palavra: um zelo fervoroso e aventuroso, uma alma pronta para suportar qualquer dificuldade possível, e a combinação de conhecimento e sabedoria. Ainda que Paulo amasse a tarefa difícil, sua vida irrepreensível pouco teria realizado se não tivesse também recebido o poder do Espírito. Examinai a questão pelas próprias palavras de Paulo: "Que o nosso ministério não seja censurado." E ainda: "Pois a nossa exortação não se funda em erro, nem em imundícia, nem em engano, nem se esconde sob manto de cobiça." Assim vistes sua irrepreensibilidade. E ainda: "Pois visamos ao que é honesto, não somente diante do Senhor, mas também diante dos homens." ... Sem isto, a obra de Paulo teria sido impossível. As pessoas não se converteram por causa dos milagres de Paulo; não, não foram os milagres que produziram a fé, nem Paulo fundou sua alta vocação sobre o milagroso, mas sobre outros fundamentos: um homem deve ser irrepreensível na conduta, prudente e discreto em seu trato com os outros, sem se importar com os perigos envolvidos, e apto para ensinar. Estas foram as qualificações que permitiram a Paulo alcançar sua meta.
Vedes que, como disse, a partir da perseverança deles ele faz prova de que a Pregação é divina? Pois, se não fosse assim, se fosse um engano, não teríamos suportado tantos perigos, que não nos permitiam sequer tomar fôlego. Vós estáveis em tribulação, nós estávamos em tribulação. Que era isto, então? A menos que algo das coisas futuras nos houvesse excitado, a menos que estivéssemos persuadidos de que há uma boa esperança, não nos teríamos enchido de tanta prontidão pelo sofrimento. Pois quem teria escolhido, por causa do que temos aqui, suportar tantos sofrimentos, e viver uma vida de ansiedade, e cheia de perigos? A quem persuadiriam? Pois não bastariam por si mesmas estas coisas para perturbar os discípulos, ao verem seus mestres em perigos? Mas este não foi o vosso caso.
Pois a nossa exortação, isto é, o nosso ensino, não é de erro. A questão, diz ele, não é engano nem fraude, para que a abandonássemos. Não é por coisas abomináveis, como as artimanhas de saltimbancos e feiticeiros. E de imundícia, diz ele, nem em engano, nem por sedição alguma, como o que fez Teudas. Mas assim como fomos aprovados por Deus para que nos fosse confiado o Evangelho, assim falamos, não como agradando aos homens, mas a Deus. Vedes que não é vanglória? Mas Deus, diz ele, que prova os nossos corações. Nada fazemos por causa de agradar aos homens, diz ele. Pois por conta de quem faríamos estas coisas? Então, tendo-os louvado, diz ele: Não como querendo agradar aos homens, nem buscando as honras que vêm dos homens, acrescenta: Mas como fomos aprovados por Deus para que nos fosse confiado o Evangelho. Se Ele não tivesse visto que estávamos livres de toda consideração mundana, não nos teria escolhido. Assim como, pois, Ele nos aprovou, tais permanecemos, como tendo sido aprovados por Deus. De onde nos aprovou Ele, e nos confiou o Evangelho? Aparecemos a Deus aprovados, e assim permanecemos. É prova de nossa virtude que nos seja confiado o Evangelho; se houvesse algo de mau em nós, Deus não nos teria aprovado. Mas a expressão que Ele nos aprovou não implica aqui exame. Mas o que fazemos após provar, ele o faz sem provar. Isto é, como nos achou provados, e nos confiou, assim falamos; como é razoável que falem aqueles que são aprovados e a quem se confia serem dignos do Evangelho, assim falamos, não como agradando aos homens, isto é, não por vossa causa fazemos tudo isto. Porque antes os havia louvado, para que não trouxesse seu discurso sob suspeita, diz ele,
Pois nunca, diz ele, fomos encontrados usando palavras de lisonja; isto é, não lisonjeamos — coisa própria dos enganadores, que desejam apossar-se e dominar. Ninguém pode dizer que lisonjeamos a fim de reinar, nem que a isso recorremos por causa da riqueza. Disto, que era manifesto, chama-os depois por testemunhas. Se lisonjeamos, diz ele, sabei-lo vós. Mas quanto ao que era incerto — a saber, se o fazíamos por via de cobiça —, chama a Deus por testemunha. "Nem buscando glória dos homens, nem de vós, nem de outros, quando podíamos ser pesados, como apóstolos de Cristo"; isto é, não buscando tampouco honras, nem nos gloriando, nem exigindo séquito de guardas. E, contudo, ainda que o tivéssemos feito, nada teríamos feito fora do que nos convinha. Pois, se os que são enviados por reis são, ainda assim, tidos em honra, muito mais o poderíamos ser nós. E não disse que fomos desonrados, nem que não desfrutamos de honras — o que seria censurá-los —, mas que não as buscamos. Nós, portanto, que, podendo buscá-las, não as buscamos, mesmo quando a pregação as exigiria, como faríamos algo por causa da glória? E, ainda que as tivéssemos buscado, tampouco nesse caso haveria culpa. Pois convém que os homens enviados por Deus, como embaixadores que agora vêm do céu, desfrutem de grande honra.
Mas, com excesso de longanimidade, nada disto fazemos, para que tapemos a boca dos adversários. E não se pode dizer que assim procedemos convosco, mas não com os outros. Pois assim também disse ele na sua Epístola aos Coríntios: "Pois suportais um homem, se vos leva à escravidão, se vos devora, se vos toma cativos, se se exalta, se vos fere no rosto." E ainda: "A presença corporal é fraca, e a palavra desprezível." E ainda: "Perdoai-me esta injustiça." Mostra ali também que era sobremaneira humilde, por ter sofrido tantas coisas. Mas aqui também fala acerca do dinheiro, quando podíamos ser pesados, como apóstolos de Cristo.
Sereno era o nosso trato, diz ele; nada exibimos que fosse ofensivo ou molesto, nada de desagradável, ou jactancioso. E a expressão no meio de vós é como se alguém dissesse: fomos como um de vós, não tomando para nós a parte mais alta. Como quando uma ama cuida dos seus próprios filhos. Assim deve ser o mestre. Acaso lisonjeia a ama para obter glória? Acaso pede dinheiro aos seus pequeninos? É ela ofensiva ou pesada para eles? Não são eles mais indulgentes com ela do que com as próprias mães? Aqui ele mostra o seu afeto. Assim também, sendo afetuosamente desejoso de vós, diz ele, tão ligados estamos a vós, diz ele, que não somente nada tomamos de vós, mas ainda que fosse necessário repartir convosco as nossas próprias almas, não o teríamos recusado. Dize-me, pois, é isto de humano parecer? E quem é tão insensato que diga isto? Aprouve-nos repartir convosco, diz ele, não somente o Evangelho de Deus, mas também as nossas próprias almas. De modo que isto é maior que aquilo. E qual é o ganho? Pois do Evangelho vem o ganho, mas dar as nossas almas é, quanto à dificuldade, coisa maior que aquela. Pois pregar apenas não é o mesmo que dar a alma. Aquilo, na verdade, é mais precioso, mas isto é matéria de maior dificuldade. Estávamos dispostos, diz ele, se fosse possível, a até despender as nossas almas por vós. E isto estaríamos dispostos a fazer; pois, se não estivéssemos dispostos, não teríamos suportado a necessidade. Uma vez que, pois, ele louvou, e louva, por esta razão diz ele que, não buscando dinheiro, nem vos lisonjeando, nem desejando glória, fazemos isto. Pois observai: eles haviam contendido muito, e assim deviam ser louvados e admirados até extraordinariamente, para que fossem mais firmes; o louvor era suspeito. Por isso diz ele todas estas coisas, a fim de repelir a suspeita. E menciona também os perigos. E de novo, para que não se pense que ele fala dos perigos por esta razão, como que laborando por eles, e reclamando ser por eles honrado, por isso, novamente, tendo de mencionar os perigos, acrescentou: Porque vos tornastes muito queridos para nós; de bom grado teríamos dado as nossas almas por vós, porque estávamos veementemente apegados a vós. O Evangelho, na verdade, proclamamos, porque Deus o ordenou; mas tanto vos amamos, que, se fosse possível, teríamos dado até as nossas almas.
Aquele que ama deve amar de tal modo que, se lhe fosse pedida até a sua alma, e isso fosse possível, não a recusaria. Não digo se lhe fosse pedida, mas de tal modo que até correria para lhe apresentar o dom. Pois nada, nada pode ser mais doce que tal amor; nada ali sucederá que seja penoso. Verdadeiramente o amigo fiel é o remédio da vida (Eclesiástico 6:16). Verdadeiramente o amigo fiel é forte defesa (Eclesiástico 6:14). Pois que não fará um amigo genuíno? Que prazer não proporcionará? Que benefício? Que segurança? Ainda que nomeasses tesouros infinitos, nenhum deles é comparável a um amigo genuíno. E primeiramente falemos do grande deleite da própria amizade. O amigo alegra-se ao ver o seu amigo, e dilata-se de gozo. Está ligado a ele por uma união de alma que proporciona indizível prazer. E, se somente o traz à memória, é no espírito arrebatado, e transportado.
Falo de amigos genuínos, homens de uma só alma, que até morreriam um pelo outro, que amam ardentemente. Não penseis, tendo em mente aqueles que mal amam, que são companheiros de mesa, meros amigos nominais, que meu discurso fica refutado. Se alguém tiver um amigo tal como descrevo, reconhecerá a verdade de minhas palavras. Este, ainda que veja seu amigo todos os dias, não se sacia. Por ele ora pedindo as mesmas coisas que pede para si mesmo. Conheço um que, invocando homens santos em favor de seu amigo, suplicou-lhes que orassem primeiro por ele, e depois por si mesmo. Tão cara coisa é um bom amigo, que até os tempos e os lugares se tornam amados por causa dele. Pois, assim como os corpos luminosos espalham seu resplendor pelos lugares vizinhos, também os amigos deixam uma graça própria nos lugares aonde vieram. E muitas vezes, na ausência dos amigos, estando nós parados naqueles lugares, temos chorado, e, recordando os dias que juntos passamos, temos suspirado. Não é possível representar pela palavra quão grande prazer proporciona o convívio com os amigos. Somente o sabem aqueles que têm experiência disso. De um amigo podemos tanto pedir um favor quanto recebê-lo sem suspeita. Quando eles nos impõem alguma coisa, então nos sentimos em dívida com eles; mas quando tardam em fazê-lo, então nos entristecemos. Nada temos que não seja deles. Muitas vezes, desprezando todas as coisas daqui, por causa deles não estamos dispostos a partir; e são mais desejados por nós do que a luz.
Pois, em verdade, um amigo é mais para se desejar do que a luz; falo de um amigo genuíno. E não vos admireis: pois melhor nos fora que o sol se extinguisse, do que sermos privados de amigos; melhor viver nas trevas, do que estar sem amigos. E vos direi por quê. Porque muitos que veem o sol estão nas trevas, mas jamais poderão estar, nem mesmo na tribulação, os que abundam em amigos. Falo dos amigos espirituais, que nada preferem à amizade. Tal foi Paulo, que de bom grado teria dado sua própria alma, ainda que não lhe fosse pedido, e mais, teria se lançado no inferno por eles. Com disposição tão ardente devemos amar.
Quero dar-vos um exemplo de amizade. Os amigos, isto é, os amigos segundo Cristo, superam pais e filhos. Pois não me faleis dos amigos do tempo presente, já que também este bem se foi com as demais coisas. Mas considerai, no tempo dos Apóstolos — não falo dos principais homens, mas dos próprios fiéis em geral — todos, diz ele, eram de um só coração e de uma só alma; e nenhum deles dizia que fosse sua propriedade qualquer coisa das que possuía... e a distribuição se fazia a cada um, conforme cada qual tinha necessidade (At 4,32-35). Não havia então tais palavras como "meu" e "teu". Isto é amizade: que um homem não considere seus bens como próprios, mas do próximo, que suas posses pertençam a outro; que seja tão cuidadoso da alma de seu amigo quanto da sua própria; e o amigo, igualmente.
E onde é possível, dirá alguém, que se encontre um homem assim? Porque não temos a vontade; pois é possível. Se não fosse possível, tampouco Cristo o teria ordenado, nem teria discorrido tanto acerca do amor. Grande coisa é a amizade, e quão grande, ninguém o pode aprender, nem discurso algum representá-lo, senão a própria experiência. Foi isto que deu origem às heresias. Isto é o que faz os gregos serem gregos. Quem ama não deseja mandar, nem dominar, mas antes se sente obrigado quando é dominado e mandado. Deseja antes conceder um favor do que recebê-lo, pois ama, e está de tal modo afetado, que não tem satisfeito o seu desejo. Não se alegra tanto quando lhe fazem o bem, quanto quando ele mesmo o faz. Pois deseja obrigar, antes que ser devedor a outrem; ou antes, deseja ao mesmo tempo ser devedor e ter o outro por seu devedor. E deseja tanto conceder favores, quanto não parecer concedê-los, mas ele mesmo parecer o devedor. Penso que talvez muitos de vós não entendais o que se disse. Deseja ser o primeiro a conceder benefícios, e não parecer ser o primeiro, mas antes estar retribuindo uma bondade. O que também Deus fez para com os homens. Propôs-Se dar o Seu próprio Filho por nós; mas para que não parecesse conceder um favor, e sim ser devedor para conosco, ordenou a Abraão que oferecesse o seu filho, a fim de que, fazendo uma grande bondade, parecesse não fazer nada de grande.
Pois quando, na verdade, não há amor, nós tanto lançamos em rosto aos homens as nossas bondades, quanto exageramos as pequenas; mas quando há amor, tanto as ocultamos, quanto desejamos fazer parecer pequenas as grandes, para que não pareça termos o nosso amigo por devedor, mas sermos nós mesmos devedores a ele, ainda que o tenhamos por nosso devedor. Sei que a maior parte não entende o que se diz, e a causa é que falo de uma coisa que agora habita no céu. Assim, pois, como se eu falasse de alguma planta que cresce na Índia, da qual ninguém jamais tivesse tido experiência, nenhum discurso bastaria para representá-la, ainda que eu proferisse dez mil palavras: assim também agora, quaisquer coisas que eu diga, digo-as em vão, pois ninguém será capaz de me entender. Esta é uma planta que está plantada no céu, tendo por ramos, não pesados cachos de pérolas, mas uma vida virtuosa, muito mais aceitável do que eles. Que prazer citarias, o torpe ou o honroso? Mas o da amizade a todos excede, ainda que falasses da doçura do mel. Pois este sacia, mas o amigo jamais o faz, enquanto for amigo; antes, o desejo dele antes aumenta, e tal prazer jamais admite saciedade. E o amigo é mais doce que a presente vida. Por isso, muitos, após a morte de seus amigos, não quiseram viver mais. Com um amigo, suportar-se-ia até o exílio; mas sem um amigo, não se escolheria habitar nem sequer a própria pátria. Com um amigo, até a pobreza é tolerável, mas sem ele, tanto a saúde quanto as riquezas são intoleráveis. Ele tem um outro eu: eu me vejo em aperto, porque não posso ilustrá-lo com um exemplo. Pois nesse caso eu faria parecer que o que foi dito é muito menos do que deveria ser.
E de fato assim é aqui. Mas da parte de Deus a recompensa da amizade é tão grande, que não pode ser expressa. Ele dá uma recompensa para que amemos uns aos outros, coisa pela qual já Lhe devemos recompensa. Orai, diz Ele, e recebei uma recompensa, por aquilo pelo qual nós é que devemos recompensa, porque pedimos coisas boas. Pois aquilo que pedis, diz Ele, recebei por recompensa. Jejuai, e recebei uma recompensa. Sede virtuosos, e recebei uma recompensa, ainda que sejais antes vós os devedores de uma recompensa. Mas assim como os pais, quando tornaram seus filhos virtuosos, então ainda lhes dão uma recompensa; pois são devedores, porque lhes proporcionaram um deleite; assim também age Deus. Recebei uma recompensa, diz Ele, se fordes virtuosos, porque deleitais a vosso Pai, e por isso vos devo uma recompensa. Mas se fordes maus, não é assim: porque provocais Aquele que vos gerou. Não provoquemos, pois, a Deus, mas deleitemo-Lo, para que alcancemos o Reino dos Céus, em Cristo Jesus nosso Senhor, a quem seja a glória e o poder, pelos séculos dos séculos. Amém.
"Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco, quer coma muito." Por que acrescenta ele: "quer coma pouco, quer coma muito"? Ambas essas condições costumam trazer insônia, a saber, a pobreza e a abundância... Mas o efeito do trabalho árduo é tal que nem a pobreza nem o excesso perturbam o sono desse servo. Ainda que durante todo o dia andem correndo por toda parte, servindo a seus senhores, sendo maltratados e pressionados, tendo pouco tempo para tomar fôlego, recebem recompensa suficiente por suas fadigas e labores no prazer de dormir. E assim aconteceu, pela bondade de Deus para com a humanidade, que esses prazeres não se compram com ouro e prata, mas com o trabalho, com a fadiga árdua, com a necessidade e toda espécie de disciplina. Não é assim com os ricos. Pelo contrário, deitados em seus leitos, frequentemente passam a noite inteira sem dormir. Ainda que engenhem muitos artifícios, não obtêm grande prazer... Por essa razão também, desde o princípio, Deus atou o homem ao trabalho, não com o propósito de punir ou castigar, mas para emenda e educação. Quando Adão vivia em ócio indolente, caiu do paraíso; mas quando o apóstolo trabalhou abundantemente e labutou arduamente, escrevendo: "Em trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia," então foi arrebatado ao paraíso e ascendeu ao terceiro céu! Homilias sobre as Estátuas
Pois recordais-vos, diz ele, irmãos, nosso trabalho e fadiga. Havia dito anteriormente: poderíamos ter sido pesados como Apóstolos de Cristo, como também diz na Epístola aos Coríntios: Não sabeis vós que os que administram as coisas sagradas comem do que é do templo? Assim também ordenou o Senhor que os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho (1 Cor 9:13-14). Mas eu, diz ele, não o quis, antes trabalhei; e não apenas trabalhou, mas com muita diligência. Observai, pois, o que diz: Pois vos lembrais, não disse ele os benefícios recebidos de mim, mas nosso trabalho e fadiga: pois trabalhando noite e dia, para que não fôssemos pesados a nenhum de vós, pregamos-vos o Evangelho de Deus. E aos Coríntios disse coisa diversa: Despojei outras Igrejas, tomando salário delas para vos servir (2 Cor 11:8). E, contudo, ali também trabalhou, mas disto não fez menção, antes urgiu o que era mais notável, como se dissesse: Fui sustentado por outros ao servir-vos. Mas aqui não é assim. Mas o quê? Trabalhando noite e dia. E ali, na verdade, diz: E quando estava presente convosco, e padecia necessidade, a ninguém fui pesado, e tomei salário para vos servir (2 Cor 11:8-9). E aqui mostra que os homens estavam em pobreza, mas ali não era assim.
Por esta razão, frequentemente os chama por testemunhas. Pois vós sois testemunhas, diz ele, e também Deus; Deus era digno de ser crido, mas este outro era o que mais plenamente os assegurava. Pois aquilo, na verdade, era incerto para os que o ignoravam; mas isto era, para todos, indubitável. Pois não perguntes se foi Paulo quem disse estas coisas. Muito além do que era necessário lhes dá segurança. Por isso diz: Vós sois testemunhas, e também Deus, de quão santa, e justa, e irrepreensivelmente nos portamos convosco, os que credes. Convinha louvá-los novamente. Por isso lhes propõe estas coisas, que eram suficientes para persuadi-los. Pois aquele que ali esteve em necessidade, e nada recebeu, muito mais agora nada receberia. Quão santa, diz ele, e justa, e irrepreensivelmente nos portamos convosco, os que credes.
Como sabeis que a cada um de vós exortávamos e consolávamos, como um pai a seus próprios filhos. Tendo acima falado de seu comportamento, fala agora de seu amor, que era mais do que o que pertencia ao seu domínio sobre eles. E o que se diz assinala sua isenção de soberba. Como um pai a seus próprios filhos, exortando-vos, e animando-vos, e testificando, a fim de que andásseis dignamente de Deus, que vos chama a seu próprio reino e glória. Quando diz, e testificando, então menciona os pais; ainda que testificássemos, não foi com violência, mas como pais. A cada um de vós. Coisa estranha! Em tão grande multidão não omitir a ninguém, nem pequeno nem grande, nem rico nem pobre. Exortando-vos, diz ele; a suportar. E consolando e testificando. Exortando, portanto, não buscavam glória; e testificando, portanto, não lisonjeavam. Que andásseis dignamente de Deus, que vos chama a seu próprio reino e glória. Observai novamente como, ao narrar, ao mesmo tempo ensina e consola. Pois se os chamou a seu reino, se os chamou à glória, deviam suportar todas as coisas. Rogamo-vos, não que nos concedais favor algum, mas que ganheis o reino dos céus.
Não se pode dizer, diz ele, que nós, na verdade, façamos todas as coisas irrepreensivelmente, mas que vós, por outro lado, fizestes coisas indignas de nosso modo de vida. Pois, ao nos ouvir, prestastes tal atenção como se não ouvísseis homens, mas como se o próprio Deus vos exortasse. Donde se manifesta isto? Porque, assim como mostra, por suas próprias tentações e pelo testemunho delas, e pelo modo como agiu, que não pregou com lisonja nem vanglória; assim, pelas provações deles, mostra também que retamente receberam a palavra. Pois donde, diz ele, senão porque ouvistes como se Deus falasse, suportastes tais perigos? E observai sua dignidade.
Seremos nós dignos, pois, sequer de mencionar o nome de Paulo? Ele possuía, além disso, o auxílio da graça, e contudo não presumiu que a graça eliminasse a necessidade de arriscar-se. Nós, ao contrário, destituídos da confiança que a graça confere, com que fundamento, dizei-me, esperamos preservar aqueles que nos foram confiados ou ganhar os que ainda não vieram ao rebanho? Nós, de fato, somos os que temos feito do próprio deleite objeto de estudo, os que perscrutamos o mundo inteiro em busca de comodidade e que somos incapazes — ou antes, indispostos — a suportar o menor indício de perigo. Distamos da sabedoria de Paulo tanto quanto a terra dista do céu. Assim também os que estão sob nós ficam tão aquém dos homens daqueles dias. A razão é que os discípulos daquele tempo eram melhores que os mestres do presente, isolados como estavam em meio à populaça, cercados de tiranos, rodeados de inimigos por todos os lados, e contudo não se deixavam abater nem desanimar em grau algum. Ouvi ao menos o que Paulo diz aos filipenses: "Porque a vós vos foi concedido, por amor de Cristo, não só crer nEle, mas também padecer por Ele." E de novo aos tessalonicenses: "Porque vós, irmãos, vos tornastes imitadores das igrejas de Deus que estão na Judeia."... E vede-os também, todos ocupados em fazer o bem. Assim, naqueles dias, a graça operava eficazmente, e eles também viviam em boas obras.
Há algo mais na afirmação "como também o fizeram na Judeia". Isso mostra que, em toda parte, eles se alegravam quando combatiam nobremente pela fé. Diz, pois, Paulo: "que vós também padecestes as mesmas coisas". E, ademais, que maravilha há em receberdes o mesmo ultraje, se ousaram fazer as mesmas coisas ao próprio Senhor? Vedes como Paulo introduz esta verdade como contendo grande consolação? E com que constância ele fixa nela a nossa atenção. A um exame atento, pode-se encontrá-la em quase todas as suas cartas: de quão variadas maneiras, em todas as ocasiões de tentação, Paulo traz Cristo à frente. Observai, pois, que também aqui, ao acusar os judeus, Paulo os faz lembrar do Senhor e dos sofrimentos do Senhor. Bem sabe ele que esta é matéria da maior consolação.
Porque vós, diz ele, vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia. Isto é grande consolação. Não é de admirar, diz ele, que vos fizessem estas coisas, uma vez que as fizeram também a seus próprios compatriotas. E isto não é pequena prova de que a Pregação é verdadeira, o fato de que até mesmo judeus foram capazes de suportar todas as coisas. Porque vós também, diz ele, padecestes as mesmas coisas de vossos próprios compatriotas, assim como eles padeceram dos judeus. Há algo mais em dizer, como também o fizeram na Judeia; isso mostra que em toda parte se alegravam, por terem combatido nobremente. Diz, pois, que vós também padecestes as mesmas coisas. E, ademais, que maravilha há, se também a vós, quando até ao próprio Senhor ousaram fazer tais coisas?
Vedes como ele introduz isto como contendo grande consolação? E constantemente a isso se refere; e a um exame atento, pode-se encontrá-lo em quase todas as suas Epístolas, de quão variadas maneiras, em todas as ocasiões de tentação, ele traz Cristo à frente. Observai, pois, que também aqui, ao acusar os judeus, ele os faz lembrar do Senhor e dos sofrimentos do Senhor; tão bem sabe ele que esta é matéria da maior consolação.
Que mataram tanto o Senhor, diz ele — mas, talvez, não O conhecessem — certamente O conheciam. Que dizer, pois? Não mataram e apedrejaram eles os próprios profetas, cujos livros até carregam consigo? E não fizeram isso por causa da verdade. Há aqui, portanto, não somente consolação sob as tentações, mas também se lhes recorda que não pensem que os judeus fizeram isso por causa da verdade, e se perturbem por essa razão. E nos expulsaram, diz ele. E nós também, diz ele, temos padecido inumeráveis males. E não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens; proibindo-nos de falar aos gentios, para que se salvem. Contrários a todos os homens, diz ele. Como assim? Porque, se devemos falar ao mundo, e eles no-lo proíbem, são inimigos comuns do mundo. Mataram a Cristo e aos profetas, insultam a Deus, são inimigos comuns do mundo, banem-nos, quando viemos para a salvação deles. Que maravilha há, se fizeram tais coisas também a vós, quando as fizeram até mesmo na Judeia? Proibindo-nos de falar aos gentios, para que se salvassem. É sinal de inveja, portanto, impedir a salvação de todos. Para encherem sempre a medida de seus pecados. Mas a ira chegou sobre eles ao extremo. Que significa ao extremo? Estas coisas já não são como as anteriores. Aqui não há retorno, nem limite. Mas a ira está próxima. De onde se manifesta isto? Daquilo que Cristo predisse. Pois não é apenas consolação ter companheiros em nossas aflições, mas ouvir também que nossos perseguidores hão de ser punidos. E, se a demora é motivo de aflição, que seja consolação saber que jamais tornarão a erguer a cabeça; ou antes, ele abreviou a demora, ao dizer A ira, mostrando que já há muito era devida, predeterminada e predita.
Não disse separados, mas algo muito mais forte. Havia falado acima da adulação, mostrando que não adulava, que não buscava a glória. Fala aqui do amor. Porque havia dito acima, como um pai a seus filhos, como uma ama; aqui usa outra expressão, tornados órfãos, que se diz dos filhos que perderam os pais. E, no entanto, foram eles que ficaram órfãos. Não — diz ele — mas nós. Pois, se alguém examinar a nossa saudade, verá que, tal como os filhinhos sem protetor, tendo sofrido um luto prematuro, anseiam por seus pais, não só pelos sentimentos da própria natureza, mas também por causa do seu estado de desamparo, assim verdadeiramente sentimos nós também. Por isto mostra também o seu próprio abatimento por causa da separação deles. E não podemos dizer, diz ele, que esperamos por longo período, mas por pouco tempo, e isso de presença, não de coração. Pois sempre vos temos em nossa mente. Vede quão grande é o seu amor! Embora os tivesse sempre no coração, buscava também a presença deles face a face. Não me faleis da vossa filosofia superlativa! Isto é verdadeiramente amor fervoroso: tanto ver, como ouvir e falar; e isto pode ser de muita vantagem. Esforçamo-nos ainda mais abundantemente. Que significa ainda mais abundantemente? Ou quer dizer, estamos veementemente apegados a vós, ou, como era provável, tendo sido privados por um tempo, esforçamo-nos por ver o vosso rosto. Observai o bem-aventurado Paulo. Quando por si mesmo não pode satisfazer a sua saudade, fá-lo por meio de outros, como quando envia Timóteo aos filipenses, e o mesmo de novo aos coríntios, mantendo com eles relação por meio de outros, quando não pode fazê-lo por si mesmo. Pois, amando-os, era como alguém enlouquecido, que não se pode conter, nem senhorear-se a si mesmo em sua afeição.
Também tu, quando estiveres prestes a cumprir algum dever para com Deus, espera perigos multiformes, castigos, mortes. Não te surpreendas nem te perturbes se tais coisas acontecerem. Pois está escrito: "Filho meu, se vieres para servir ao Senhor, prepara a tua alma para a tentação." Pois certamente ninguém que escolhe combater espera levar a coroa sem feridas! Tu, portanto, que decidiste travar pleno combate contra o diabo, não penses em prosseguir tal vida sem perigo, esperando antes o deleite! Deus não te prometeu sua recompensa e promessa para esta vida. Estas coisas esplêndidas te aguardam na vida futura! Alegra-te, pois, e regozija-te, se, tendo tu mesmo praticado alguma boa ação, recebes em troca o mal... visto que o teu sofrimento é fonte de recompensa mais elevada!... Vemos Paulo na prisão, sim, ainda que acorrentado, instruindo e iniciando. Faz ele o mesmo em tribunal, em naufrágio, em tempestade e em mil perigos. Imita também tu estes santos, e enquanto puderes, persevera nas boas obras. Ainda que vejas o diabo frustrar-te dez mil vezes, jamais retrocedas! Talvez tenhas perdido tua riqueza num naufrágio. Lembra-te de Paulo que, levando a palavra de Deus, mensagem bem mais preciosa que toda riqueza material, viajava para Roma e naufragou, e suportou incontáveis provações. E este princípio ele mesmo o significou quando disse: "Muitas vezes desejamos ir até vós, mas Satanás no-lo impediu." E Deus o permitiu, revelando assim mais abundantemente o seu poder.
Que dizes? Impede Satanás? Sim, verdadeiramente, pois isto não foi obra de Deus. Pois na Epístola aos Romanos ele diz isto, que Deus o impediu (Rm 15:22); e em outro lugar Lucas diz que o Espírito os impediu de ir para a Ásia (At 16:7). E na Epístola aos Coríntios ele diz que é obra do Espírito, mas aqui somente de Satanás. Mas de que impedimento de Satanás está ele falando? De algumas tentações inesperadas e violentas: pois, formando-se contra ele uma trama pelos judeus, foi detido três meses na Grécia. Mas outra coisa é permanecer por causa da economia, e voluntariamente. Pois ali ele diz: "Não tendo, pois, mais lugar nestas regiões" (Rm 15:23), e "Para vos poupar, não vim mais a Corinto" (2 Co 1:23). Mas aqui nada disso. Mas o quê? Que Satanás o impediu. "Até eu, Paulo", diz ele, "uma e outra vez." Observa quão ambicioso ele é, e que demonstração faz, em sua disposição de mostrar que os amava mais que a todos. "Eu, Paulo", diz ele, em vez de "Ainda que nenhum outro". Pois eles, na verdade, apenas quiseram, mas eu até tentei.
Aquele que não buscar no bem-estar do próximo o seu próprio benefício não alcançará a coroa por esta razão: o próprio Deus assim dispôs que os homens estivessem mutuamente vinculados entre si. Quando se desperta uma criança adormecida e se lhe pede que siga o seu irmão, deixada a si mesma, com frequência não quer. Se, porém, colocarmos na mão do irmão um objeto que a criança deseja, ela perseguirá o irmão para obter o que deseja. É o mesmo caso aqui. Deus colocou o nosso benefício na mão do próximo, para que nos busquemos mutuamente e não sejamos despedaçados. Se quiseres, aplica esta ilustração àquele que hoje te fala. Pois o meu benefício depende de ti, assim como o teu depende de mim. Assim, por um lado, é para o teu proveito que sejas instruído nas coisas que agradam a Deus, pois estas coisas me foram confiadas para que as recebesses de mim, e por isso sejas compelido a correr até mim. Por outro lado, é para o meu benefício que sejas tornado melhor: pois grande será a recompensa que hei de receber por isto. Isto, porém, reside novamente em ti; e por isso sou compelido a seguir-te, para que progridas e eu me beneficie do teu progresso. Assim também diz Paulo: "Pois qual é a minha esperança? Não sois vós?" E de novo: "Minha esperança e minha alegria, e a coroa da minha exultação."
Serão os macedônios, dize-me, a tua esperança, ó bem-aventurado Paulo? Não somente estes, diz ele. Por isso acrescentou: "Não sois vós também?" Pois qual, diz ele, é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de exultação? Observa, pois, as palavras, que são as de mulheres, inflamadas de ternura, falando com seus filhinhos. E "coroa de exultação", diz ele. Pois o nome de coroa não bastava para exprimir o esplendor, mas também o de exultação. De que ardor tão vivo é isto! Jamais poderiam nem mãe nem pai, ainda que se reunissem e misturassem o seu amor, mostrar seu próprio afeto como equivalente ao de Paulo. "Minha alegria e coroa", diz ele, isto é, alegro-me mais em vós do que numa coroa. Pois considera quão grande coisa é que uma Igreja inteira esteja presente, plantada e enraizada por Paulo. Quem não se alegraria em tal multidão de filhos, e na bondade destes filhos? De modo que também isto não é lisonja. Pois não disse "vós", mas "vós também", juntamente com os outros.
Portanto, quando já não pudemos suportá-lo, quisemos ser deixados sozinhos em Atenas. E Paulo enviou dois daqueles que o serviam, tanto para anunciar a sua vinda quanto para torná-los mais zelosos… Vedes como Deus permite as provações, e por meio delas suscita e desperta os discípulos, tornando-os mais vigorosos? Não nos deixemos, pois, abater sob as tribulações: pois Ele mesmo "dará também o meio de escapar, para que possamos suportá-las". Nada une tanto os amigos, nem os solda tão firmemente, como a aflição; nada assim aperta e ajunta as almas dos crentes; nada é tão oportuno para nós, mestres, a fim de que as coisas por nós ditas sejam ouvidas. Pois quando o ouvinte vive uma vida cômoda, indolente e negligente, aqueles que procuram ensiná-lo apenas o importunam. Mas quando ele está na aflição e na angústia, anseia por ouvir os seus mestres. Pois, estando angustiado em sua alma, busca de toda parte consolo em sua aflição. E a pregação traz não pequeno consolo.
E isto ele diz, não para exaltar Timóteo, mas para honrar a eles, ao lhes enviar o companheiro de trabalho e ministro do Evangelho. Como se dissesse: Tendo-o retirado de seus labores, enviamo-vos o ministro de Deus e nosso companheiro de trabalho no Evangelho de Cristo.
"Portanto peço que não vos desanimeis com as minhas tribulações por vós, as quais são a vossa glória." Como são as tribulações de Paulo "por eles"? Como são "sua glória"? É porque Deus os amou tanto que deu até o Filho por eles e afligiu os seus servos por eles. Paulo estava na prisão para que eles alcançassem tantas bênçãos. Isto provém certamente do amor excessivo de Deus para com eles. Ilustra o que Deus também diz a respeito dos profetas: "Eu os matei pela palavra da minha boca." Mas por que desfaleciam eles por causa da aflição alheia? Ele quer dizer que estavam perturbados e angustiados. Paulo diz as mesmas coisas ao escrever aos tessalonicenses: "que ninguém se abale por estas tribulações." Pois devemos antes alegrar-nos nas tribulações do que entristecer-nos nelas. Se encontrais consolo em serdes advertidos de antemão, dizemo-vos que aqui temos tribulação. E por que, perguntais? Porque o Senhor assim o ordenou.
Que diz, pois, Paulo aqui? As tribulações dos mestres perturbam os seus discípulos. Paulo havia caído em muitas tribulações. Ele mesmo diz também que "Satanás nos impediu". Paulo acrescenta logo "uma vez" e "e outra vez eu quis ir a vós" e não pude, palavras que provam a profundidade de sua luta. E era razoável que isto os perturbasse, pois não se perturbam tanto com as suas próprias provações quanto com as de seus mestres. Nem o soldado se perturba tanto com os seus próprios combates quanto ao ver ferido o seu general.
Que diz, pois, ele aqui? Porque as tentações dos mestres perturbam os seus discípulos, e ele então havia caído em muitas tentações, como ele mesmo também diz, que Satanás nos impediu, dizendo isto sempre; uma vez, diz ele, e outra vez eu quis ir a vós, e não pude, o que foi prova de grande violência. E era razoável que isto os perturbasse, pois não se perturbam tanto com as suas próprias tentações quanto com as de seus mestres; assim como também o soldado não se perturba tanto com os seus próprios combates quanto ao ver ferido o seu general. Para vos confirmar, diz ele; não que lhes faltasse em algo a fé, nem que necessitassem aprender coisa alguma.
Não deveis perturbar-vos, diz Paulo, pois nada de estranho, nada contrário à expectativa está acontecendo. Estas palavras eram suficientes para animá-los. Cristo falou aos seus discípulos do mesmo modo e pela mesma razão. Pois ouvi-o dizer: "Agora vo-lo disse antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais." Pois grandemente, sim, grandemente contribui para o consolo dos outros terem ouvido de seus mestres o que há de acontecer. É o mesmo com os enfermos. Se os seus médicos explicam o que está acontecendo e o que se deve esperar, a sua ansiedade diminui drasticamente. Mas se algo acontece inesperadamente, como que além da capacidade e do conhecimento do médico, o paciente se aflige e se perturba. É muito o mesmo aqui. Paulo sabia de antemão e lhes fez saber previamente que "estamos para ser afligidos", "como aconteceu, e vós o sabeis." Ele não apenas diz que isto aconteceu, mas que predisse muitas coisas, e elas se cumpriram como ele predissera. "Pois fomos designados para estas coisas." Por isso, não deveis perturbar-vos e inquietar-vos nem quanto ao passado, nem sequer quanto ao futuro. Se alguma coisa perturbadora acontecer, "fomos designados precisamente para isto."
Não deveis, diz ele, perturbar-vos, pois nada de estranho, nada contrário à expectativa está sucedendo; o que já era suficiente para reanimá-los. Pois vede que também por esta razão Cristo predisse a Seus discípulos? Ouvi-O dizer: Agora vo-lo disse antes que acontecesse, para que, quando acontecer, creiais (Jo 14:29). Pois grandemente, grandemente contribui para a consolação de outrem ter ouvido de seus mestres o que há de suceder. Porque, assim como o enfermo, se ouve de seu médico que isto ou aquilo está sucedendo, não se perturba muito; mas se algo sucede inesperadamente, como se também ele estivesse perplexo, e o mal estivesse além de sua arte, aflige-se e perturba-se; assim também é aqui. O que Paulo, conhecendo de antemão, lhes predisse: estamos para ser afligidos, como de fato sucedeu, e o sabeis. Ele não apenas diz que isto aconteceu, mas que predisse muitas coisas, e elas sucederam. Para isto fomos designados. De sorte que não apenas não deveis perturbar-vos e inquietar-vos quanto ao passado, mas nem sequer quanto ao futuro, se algo semelhante vier a suceder, pois para isto fomos designados.
Moral. Ouçamos, os que temos ouvidos para ouvir. Para isto está designado o cristão. Pois de todos os fiéis se diz isto: Para isto fomos designados. E nós, como se estivéssemos designados para o repouso, achamos estranho se sofremos alguma coisa; e, no entanto, que razão temos para achar estranho o que quer que seja? Pois nenhuma estação de aflição ou tentação nos sobreveio, senão a que é comum aos homens. Seria oportuno dizer-vos: Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado (Hb 12:4). Ou antes, não é isto o que nos é oportuno dizer-vos — mas o quê? Ainda não desprezastes as riquezas. Pois àqueles, na verdade, com razão se disseram estas palavras, quando já haviam perdido todos os seus bens; mas isto se diz aos que ainda conservam os seus. Quem foi despojado de suas riquezas por causa de Cristo? Quem foi espancado? Quem foi insultado? Ainda que só em palavras, quero dizer. De que tendes a gloriar-vos? Que confiança tendes para dizer algo? Tantas coisas Cristo padeceu por nós quando éramos inimigos. Que podemos nós mostrar que tenhamos padecido por Ele? Nada, na verdade, que tenhamos padecido, mas infinitos bens que Dele recebemos. Donde teremos confiança naquele Dia? Não sabeis que também o soldado, quando pode mostrar inúmeras feridas e cicatrizes, poderá então resplandecer na presença do rei? Mas se não tem boa ação alguma para mostrar, ainda que não haja feito mal algum, tomará lugar entre os últimos.
Mas, dizeis vós, não é tempo de guerra. Mas se o fosse, dizei-me, quem combateria? Quem atacaria? Quem romperia a falange? Talvez ninguém. Pois quando vejo que não desprezais as riquezas por amor de Cristo, como hei de crer que desprezareis os golpes? Dizei-me, suportais varonilmente os que vos injuriam, e os abençoais? Não o fazeis — antes desobedeceis. O que não traz perigo algum, não o fazeis; e suportareis os golpes, em que há tanta dor e sofrimento? Não sabeis que convém, na paz, manter os exercícios da guerra? Não vedes estes soldados que, embora nenhuma guerra os perturbe, mas seja paz profunda, polindo as suas armas, e saindo com os mestres que lhes ensinam as táticas, para as planícies largas e niveladas, ouso dizer, todos os dias, mantêm com o maior rigor os exercícios da guerra? Dentre os nossos soldados espirituais, quem fez isto? Ninguém. Por esta razão nos tornamos fracos e ignóbeis na guerra, e facilmente levados cativos por qualquer um.
Segue a tradução do trecho 3 de 7:
Mas que estultície é esta, não julgar o tempo presente como estação de guerra, quando Paulo clama: "E também todos os que quiserem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tm 3:12); e Cristo diz: "No mundo tereis aflições" (Jo 16:33). E de novo o bem-aventurado Paulo, em alta voz, exclama, dizendo: "Não é a nossa luta contra a carne e o sangue" (Ef 6:12), e ainda: "Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade" (Ef 6:14). Por que me arma, dize-me, se não há guerra? Por que me dá labuta sem propósito algum? Puseste couraças nos soldados, quando lhes é permitido repousar e recobrar as forças. Mas ele diria: Certamente, ainda que não houvesse guerra, seria justo atender aos cuidados da guerra. Pois aquele que em tempo de paz considera os negócios da batalha, será temível na estação da batalha; mas aquele que carece de experiência nas coisas da guerra, mais perturbado estará ainda na paz. Por que assim? Porque chorará pelas coisas que possui, e, não podendo lutar por elas, cairá em angústia. Pois as posses dos covardes, dos inexperientes e dos inglórios na guerra são propriedade de todos os que são bravos e belicosos. De sorte que, por esta razão primeira, eu vos armo. Mas também todo o tempo de nossa vida é a estação da guerra. Como, e em que respeito? O diabo está sempre à mão. Ouvi o que ela diz: "Como leão que ruge, anda em derredor, buscando a quem possa devorar" (1 Pd 5:8). Inúmeras afeições corporais nos assaltam, as quais é necessário enumerar, para que não nos enganemos vãmente. Pois dize-me, o que não guerreia contra nós? As riquezas, a beleza, o prazer, o poder, a autoridade, a inveja, a glória, a soberba? Pois não somente a glória própria guerreia contra nós, proibindo-nos de descer à humildade, mas também a glória alheia, conduzindo-nos à inveja e à malignidade. Mas que fazem os seus contrários, a pobreza, a desonra, o ser desprezado, rejeitado, o não ter poder algum? Estas coisas, na verdade, estão em nós. Mas dos homens procedem a malícia, as ciladas, os enganos, as calúnias, os assaltos inumeráveis. Do mesmo modo, da parte dos demônios, os principados, as potestades, os dominadores destas trevas, as hostes espirituais da maldade. Alguns de nós se alegram, outros se entristecem, e ambos são desvios do reto curso. Mas a saúde e a enfermidade (guerreiam contra nós). De que parte não estará o homem caindo em pecado? Quereis que vo-lo diga desde o princípio, começando mesmo imediatamente por Adão? Que fez cativo o primeiro criado? O prazer, e o comer, e o amor do domínio. Que fez cativo o filho que veio depois dele? A inveja e o ciúme. Que fez cativos os que viveram no tempo de Noé? Os prazeres carnais, e os males que deles procedem. Que fez cativo o seu filho? A insolência e a irreverência. Que fez cativos os sodomitas? A insolência, a lascívia, e a fartura de pão. Mas frequentemente também a pobreza tem este efeito. Por esta razão certo sábio disse: "Não me dês nem pobreza nem riquezas" (Pv 30:8). Contudo, não é nem a pobreza nem a riqueza, mas a vontade que não sabe usar de nenhuma delas. Reconhece, diz ele, que passas pelo meio de laços (Eclo 9:13).
Bem-admiravelmente disse o bem-aventurado Paulo: Para isto fomos designados. Não disse apenas que somos tentados, mas que para isto fomos designados, como se dissesse: Para isto nascemos. Este é o nosso ofício, esta é a nossa vida — e buscais o repouso? Não é o carrasco que se detém sobre nós, dilacerando-nos os flancos e constrangendo-nos a sacrificar; mas o desejo das riquezas, e de possuir cada vez mais, é que nos assalta sem cessar, arrancando-nos os olhos. Nenhum soldado acendeu para nós fogueira, nem nos colocou sobre grelha, mas, mais do que isso, as chamas da carne incendeiam a nossa alma. Nenhum rei se apresenta prometendo inúmeras dádivas, e nos envergonhando; mas presente está o furor pela glória, que nos aguilhoa pior do que ele. Guerra grande, verdadeiramente, e sobremaneira grande, se estivermos vigilantes.
E também a presente estação tem as suas coroas. Ouvi a Paulo dizendo: Daqui por diante está-me reservada a coroa da justiça, que o Juiz justo me dará... e não somente a mim, mas também a todos os que amaram a sua manifestação (2 Tm 4,8). Se perdeste um filho amado e único, a quem criavas em muita abastança, e em quem depositavas boas esperanças, sendo ele o único a suceder-te na herança — não te queixes, mas dá graças a Deus, e glorifica Aquele que o tomou, e nisto não serás inferior a Abraão. Pois assim como este o entregou a Deus, quando Ele o ordenou, assim também tu não te queixaste, quando Ele o tomou. Caíste em grave enfermidade, e muitos vêm constranger-te, uns com encantamentos, outros com amuletos, e outros ainda com outras coisas, para remediar o mal? E suportaste isso com firmeza e sem vacilar, pelo temor de Deus, e preferirias sofrer tudo antes que submeter-te a praticar qualquer dessas idolatrias? Isto te traz a coroa do martírio. Não duvides disso. E como e por que meios, eu to direi. Pois assim como aquele suporta firmemente as dores do tormento, para não adorar a imagem, assim também tu suportas os sofrimentos da tua enfermidade, para não careceres de nenhum daqueles remédios que o outro oferece, nem fazeres o que ele prescreve. Mas aquelas dores são mais violentas — sim, mas estas são de mais longa duração, de modo que ao final tanto monta; e não raro estas são também mais violentas. Pois dize-me: quando a febre arde e abrasa por dentro, e tu rejeitas o encantamento que outros te recomendam, não cingiste sobre ti a coroa do martírio?
Também, perdeu alguém dinheiro? Muitos aconselham-te a recorrer aos adivinhos; mas tu, pelo temor de Deus, porque isso é proibido, preferes antes não receber teu dinheiro do que desobedecer a Deus — tens recompensa igual à daquele que o deu aos pobres, se, tendo perdido, dás graças, e, podendo recorrer aos adivinhos, suportas não recebê-lo, antes que recebê-lo desse modo. Pois assim como aquele, pelo temor de Deus, deu tudo aos necessitados, assim também tu, pelo temor de Deus, quando te espoliaram, não o recuperaste.
Nós somos senhores de nos ferir ou não a nós mesmos. E, se quiserdes, façamos todo o assunto claro no próprio caso do furto. O ladrão arrombou a parede, precipitou-se na câmara, levou consigo vasos preciosos de ouro e pedras de valor — em suma, esvaziou todo o vosso tesouro — e não foi apanhado. O fato é doloroso, e parece ser um prejuízo; contudo, ainda não o é, pois está em vosso poder torná-lo prejuízo ou ganho. E como, dizeis, pode isto ser ganho? Procurarei mostrar-vos como, se quiserdes, será grande ganho; mas, se não quiserdes, o prejuízo será mais grave do que o que já sucedeu. Pois, como no caso dos artífices, quando têm diante de si a matéria, o hábil na sua arte a emprega para bom proveito, ao passo que o inábil a estraga e a converte em prejuízo para si, assim também nestas coisas. Como, pois, será ganho? Se derdes graças a Deus, se não vos lamentardes amargamente, se proferirdes as palavras de Jó: *O Senhor deu, e o Senhor tirou. Nu saí do ventre de minha mãe, nu também partirei* (Jó 1:21, Septuaginta).
Quê? dizeis vós, o Senhor tirou? O ladrão tirou, e como podeis dizer: o Senhor tirou? Não vos admireis, pois também Jó, das coisas que o diabo tirou, disse: *Estas o Senhor as tirou*. E não direis vós, do que o ladrão tirou: *O Senhor tirou*? Dizei-me, a quem admirais? A quem distribuiu todos os seus bens aos pobres, ou a Jó por estas palavras? Será ele, que então não deu, inferior àquele que deu esmola? Pois não digais: não sinto gratidão alguma; a coisa não se fez com meu consentimento, ou conhecimento, ou vontade; o salteador a levou; qual será minha recompensa? Tampouco estas coisas sucederam com o conhecimento ou a vontade de Jó. Pois como poderia ser? Contudo, ele lutou.
E está em vosso poder receber recompensa tão grande quanto se a tivésseis lançado fora de bom grado. E talvez admiremos mais este homem, que agradecido sofre os agravos, do que aquele que dá espontaneamente. E por quê? Porque este último, na verdade, é alimentado pelos louvores, e sustentado pela consciência, e tem boas esperanças; e, tendo antes suportado varonilmente a privação de seus bens, então os lançou fora; mas o primeiro, ainda a eles preso, foi à força despojado deles. E não é a mesma coisa, tendo sido primeiro induzido a separar-se das riquezas, dá-las desse modo, do que ainda desejando-as ser delas despojado. Se proferirdes estas palavras, recebereis muitas vezes mais, e ainda mais do que Jó. Pois ele recebeu aqui o dobro, mas a vós Cristo prometeu cem vezes tanto. Pelo temor de Deus, não blasfemastes? Não recorrestes a adivinhos? Sofrendo o agravo, fostes agradecido? Sois semelhante a quem despreza a riqueza, pois não poderíeis fazer isto, se antes não a tivésseis desprezado. E não é a mesma coisa, por longo tempo, praticar o desprezo das riquezas, e de uma só vez suportar um prejuízo que sucedeu. Assim o prejuízo se torna ganho, e não sereis lesados, mas antes beneficiados pelo diabo.
Antes desses homens, quando se levanta uma tempestade, não olham para os seus bens, mas antes lançam ao mar a sua fazenda? Ó homem, que dizes? Colaboras tu com a tempestade e com o naufrágio? Antes que a onda te tenha arrebatado a riqueza, fá-lo-ás tu mesmo com as tuas próprias mãos? Por que, antes do naufrágio, naufragas a ti mesmo? Ora, isto poderia dizê-lo um rústico, inexperiente das provações do mar. Mas o homem do mar, aquele que verdadeiramente conhece quais são as causas da bonança e quais as da tempestade, rir-se-á daquele que assim fala. Pois "eu o lanço ao mar", diz ele, "para que não haja submersão total". Assim também aquele que é experimentado nos acontecimentos e provações da vida, quando vê a tempestade iminente, e os espíritos maus querendo causar o naufrágio, lança ao mar até o resto da sua riqueza. Foste espoliado? Faze esmolas, e aliviarás o navio. Devastaram-te os ladrões? Dá o que resta a Cristo. Assim consolarás a tua pobreza da tua perda anterior. Aliviai o navio, não vos apegueis ao que resta, para que a embarcação não se encha de água. Eles, para preservar os seus corpos, lançam ao mar os seus bens, e não esperam que a onda que os acomete vire a embarcação. E não hás de tu deter o naufrágio, para salvar as almas?
Mas de que modo se torna também penosa a perda? Quando perdes a tua alma! Dize-me: o ladrão privou-te dos teus bens; privar-te-ás tu mesmo da salvação? Por que, então, entristecendo-te com os males que sofreste de outrem, te precipitas tu mesmo em males maiores? Ele, porventura, te envolveu na pobreza; mas tu, perversamente, prejudicas-te a ti mesmo em coisas fatais. Ele privou-te de coisas que estão fora de ti, e que mais tarde, ainda contra a tua vontade, se apartariam de ti. Mas tu privas a ti mesmo das riquezas eternas. O diabo entristeceu-te tirando-te a riqueza; entristece-o também tu, e não o alegres. Se recorres aos adivinhos, alegras-lo. Se rendes graças a Deus, desferes-lhe o golpe mortal.
E vede o que sucede. Não a encontrarás ainda assim, se fores aos adivinhos, pois não está em seu poder sabê-lo; e, ainda que por algum acaso ta tenham dito, tu, além de perderes a tua própria alma, serás escarnecido por teus irmãos, e de novo a perderás miseravelmente. Pois o demônio, sabendo que não podes suportar a tua perda, mas que por causa destas coisas negas até o teu Deus, de novo te dá riqueza, para ter ocasião de enganar-te outra vez, e de fazer-te cair. E, se os adivinhos to disserem, não te maravilhes. O demônio é incorpóreo; anda por toda parte. É ele que arma os próprios ladrões. Pois estas coisas não sucedem sem o demônio. Se, portanto, ele os arma, sabe também onde está depositado o tesouro. Não ignora os seus próprios ministros. E isto não é de admirar. Se ele te vê entristecer-te com a perda, acrescenta-te ainda outra. Se te vê rir-te dela, e desprezá-la, desistirá deste procedimento. Pois, assim como infligimos aos nossos inimigos aquelas coisas com que os entristecemos, mas, se vemos que não se entristecem, desde então desistimos, por não podermos afligi-los; assim também faz o diabo.
Fazei a experiência, eu vo-lo suplico — se não credes, fazei a experiência, e vereis a glória de Deus. Quando algo penoso vos suceder, dai esmola imediatamente; rendei graças por haver sucedido, e vereis quanta alegria vos sobrevirá. Pois o ganho espiritual, ainda que pequeno, é tão grande que lança à sombra toda perda corporal. Enquanto tiverdes o que dar a Cristo, sois ricos. Dizei-me: se, tendo sido roubados, o rei viesse a vós e vos estendesse a mão, suplicando receber de vós alguma coisa, não vos julgaríeis então mais ricos que todos, por o rei, mesmo depois de tamanha pobreza, não se envergonhar de vós? Não vos deixeis arrebatar por vossa riqueza; vencei somente a vós mesmos, e vencereis o assalto do demônio. Está em vosso poder adquirir grande ganho.
Desprezemos a riqueza, para que não desprezemos a alma. Mas como pode alguém desprezá-la? Não vedes, no caso dos corpos formosos e dos que os amam, como, enquanto os têm diante dos olhos, o fogo se acende e a chama se ergue viva; mas, tão logo alguém os afasta para longe, tudo se extingue, tudo adormece? Assim também no caso da riqueza: que ninguém proveja ouro, nem pedras preciosas, nem colares; vistos, eles enlaçam os olhos. Mas, se quereis ser ricos como os antigos, sede ricos não em ouro, mas nas coisas necessárias, para que possais distribuir aos outros do que tendes pronto. Não sejais afeiçoados ao ornamento. Semelhante riqueza é tanto fácil de ser tramada pelos ladrões quanto coisa que nos traz cuidados. Não vasos de ouro e de prata, mas que haja provisões de pão, de vinho e de azeite, não para que, vendidas de novo, procurem dinheiro, mas para que sejam supridas aos que delas necessitam. Se nos retirarmos dessas superfluidades, alcançaremos os bens celestiais; os quais Deus conceda que todos nós alcancemos, em Jesus Cristo nosso Senhor, com quem, etc.
Segue diante de nós hoje uma questão muito disputada, e que se colhe de muitas fontes. Mas qual é esta questão? Por esta causa, diz ele, não podendo eu mais suportar, enviei Timóteo, para saber da vossa fé. Que dizeis? Aquele que soube tantas coisas, que ouviu palavras inefáveis, que subiu até ao terceiro céu, não sabe ele, mesmo estando em Atenas? E, contudo, a distância não é grande, nem há muito que dele se apartara. Pois diz: Privados de vós por um breve tempo. Não sabe ele os negócios dos Tessalonicenses, mas é constrangido a enviar Timóteo para saber da sua fé, para que, diz ele, o tentador vos não tivesse tentado, e o nosso trabalho não se fizesse em vão.
Que se há de dizer, pois? Que os Santos não sabiam todas as coisas. E isto se poderia aprender por muitos exemplos, tanto dos antigos quanto dos que vieram depois, como Eliseu não soube acerca daquela mulher (2Rs 4,27); como Elias disse a Deus: Só eu fiquei, e buscam a minha vida. Pelo que ouviu de Deus: Deixei-me sete mil homens (1Rs 19,10 e 18). E Samuel, outra vez, quando foi enviado a ungir Davi, disse-lhe o Senhor: Não olhes para o seu parecer, nem para a altura da sua estatura, porque eu o rejeitei; porque o Senhor não vê como vê o homem; pois o homem olha para o que está diante dos olhos, mas o Senhor olha para o coração (1Sm 16,7).
E isto sucede por grande cuidado da parte de Deus. Como, e de que maneira? Tanto por causa dos próprios Santos, quanto dos que neles creem. Pois, assim como Ele permite que haja perseguições, assim também permite que eles ignorem muitas coisas, para que se conservem humildes. Por esta razão também disse Paulo: Foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, para que eu não me exaltasse demasiadamente (2Co 12,7). E ainda, para que outros também não tivessem grandes imaginações a respeito deles. Pois, se por causa dos seus milagres se pensasse que eram deuses, quanto mais se houvessem continuado a saber sempre todas as coisas. E isto de novo ele também diz: Para que ninguém pense de mim mais do que vê em mim, ou de mim ouve (2Co 12,6). E ouvi também Pedro, quando curou o coxo, dizendo: Por que fitais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar? (At 3,12). E se, mesmo quando diziam e faziam estas coisas, e a partir destes poucos e pequenos milagres, tais más imaginações assim se engendravam, muito mais se teriam engendrado a partir de grandes.
Mas por outra razão também estas coisas foram permitidas. Pois, para que ninguém pudesse dizer que era como sendo outros que homens que executavam aquelas excelentes ações, e assim todos se tornassem indolentes, mostra ele a sua fraqueza, para que da sua insensatez cortasse todo pretexto de desavergonhamento. Por esta razão ele ignora, por esta razão também, depois de ter proposto, frequentemente não vem, para que percebessem que havia muitas coisas que ele não sabia. Grande proveito, pois, veio disto. Pois se havia alguns que ainda diziam: Este homem é aquele poder de Deus que se chama Grande (At 8,10), e alguns, que é esta pessoa, ou aquela; se estas coisas não tivessem sido assim, que não teriam pensado?
Mas aqui, todavia, parece haver uma censura a eles. Bem ao contrário, isto até revela sua admirável conduta e demonstra o excesso de suas tentações. Como assim? Atendei. Pois se primeiramente dizes que fomos designados para isto, e que ninguém se abale, por que então enviaste Timóteo, temendo que algo sucedesse que não desejarias? Isto, com efeito, ele o faz por seu grande amor. Pois os que amam suspeitam até mesmo daquilo que é seguro, por causa de seu excessivo ardor. Mas isto é causado pela grandeza de suas tentações. Pois eu disse, é certo, que fomos designados para isto, mas o excesso das tentações me alarmou. Por isso ele não disse: "envio-o condenando-vos", mas "quando já não pude mais suportar", o que é antes uma expressão de amor.
Que significa: "Para que de algum modo o tentador não vos tivesse tentado"? Vedes que ser abalado nas aflições procede do diabo, e de sua sedução? Pois quando ele não pode abalar-nos a nós mesmos, toma outro caminho, e abala os mais fracos por meio de nós, o que revela uma infirmidade excessiva, e tal que não admite desculpa; como fez no caso de Jó, tendo instigado sua mulher: "Dize alguma palavra contra o Senhor", diz ela, "e morre" (Jó 2,9, Septuaginta). Vede como a tentou.
Mas por que não disse "abalados", mas "tentados"? Porque, diz ele, eu apenas suspeitava até este ponto, que houvésseis sido tentados. Pois ele não chama sua tentação de vacilação. Porquanto aquele que admite o ataque é que está abalado. Que maravilha! Quão grande é a afeição de Paulo! Ele não considerava as aflições, nem as ciladas contra si. Pois penso que ele então lá permaneceu, como diz Lucas, que se demorou na Grécia três meses, quando os judeus armaram cilada contra ele (At 20,3).
Sua preocupação, portanto, não era por seus próprios perigos, mas por seus discípulos. Vedes como ele superou todo pai natural? Pois nós, em nossas aflições e perigos, perdemos a lembrança de tudo o mais. Mas ele de tal modo temia e tremia por seus filhos, que lhes enviou Timóteo, o único que tinha para sua consolação, seu companheiro e cooperador, e isto mesmo no meio dos perigos.
"E nosso trabalho", diz ele, "fosse em vão." Por quê? Pois ainda que eles se tivessem desviado, não seria por culpa vossa, não por vossa negligência. Mas, não obstante, ainda que assim fosse o caso, penso, por meu grande amor aos irmãos, que meu trabalho teria sido tornado vão.
"Para que de algum modo o tentador não vos tivesse tentado." Mas ele tenta sem saber se há de derrubar. Pois se ele, mesmo não sabendo, ainda assim nos assalta, e nós, que sabemos que o venceremos completamente, não vigiamos? Mas que ele nos ataca, ainda que não saiba, mostrou-o no caso de Jó. Pois aquele demônio maligno disse a Deus: "Acaso não fizeste uma cerca em torno das coisas dele, das que estão dentro e das que estão fora? Tira-lhe os bens, e certamente ele Te bendirá face a face" (Jó 1,10-11, Septuaginta). Ele faz a prova; se vê algo fraco, ataca; se forte, desiste. "E nosso trabalho", diz ele, "fosse em vão." Ouçamos todos como Paulo trabalhou. Ele não diz "obra", mas "trabalho"; não diz "e vós vos perdêsseis", mas "nosso trabalho". De modo que, ainda que algo tivesse sucedido, teria sucedido com alguma razão. Mas que não sucedeu foi uma grande maravilha. Estas coisas, com efeito, esperávamos, diz ele, mas sucedeu o contrário. Pois não somente não recebemos de vós acréscimo algum à nossa aflição, mas até mesmo consolação.
Mas quando Timóteo veio agora mesmo até nós, e nos trouxe boas novas da vossa fé e amor. Trouxe-nos boas novas, diz ele. Vedes a alegria excessiva de Paulo? Ele não diz, trouxe-nos notícia, mas trouxe-nos boas novas. Tão grande bem julgou ele a vossa firmeza e amor. Pois era necessário que, permanecendo firme um, também o outro fosse constante. E ele se alegrou com o vosso amor, porque era um sinal da vossa fé. E que tendes, diz ele, boa lembrança de nós sempre, desejando ver-nos, assim como também nós a vós. Isto é, com louvores. Não quando estávamos presentes, nem quando operávamos milagres, mas mesmo agora, quando estamos longe, e somos açoitados, e sofremos incontáveis males, tendes de nós boa lembrança. Ouvi como são admirados os discípulos que têm boa lembrança de seus mestres, como são chamados bem-aventurados. Imitemos a estes. Pois beneficiamo-nos a nós mesmos, não àqueles que são amados por nós. Desejando ver-nos, diz ele, como também nós a vós. E isto também os alegrava; pois para aquele que ama, perceber que a pessoa amada sabe que é amada é grande conforto e consolação.
Por esta causa, irmãos, fomos consolados a vosso respeito, em toda a nossa angústia e aflição, mediante a vossa fé. Pois agora vivemos, se estais firmes no Senhor. O que se compara a Paulo, que julgava a salvação do próximo como sua própria, sendo assim afetado para com todos, como que verdadeiramente para com membros de seu corpo? Quem seria hoje capaz de irromper em tal discurso? Ou antes, quem jamais será capaz de conceber tal pensamento? Ele não exigiu que lhe fossem gratos pelas provações que padeceu por eles, mas foi grato a eles por não terem sido abalados por causa de suas próprias provações. Como se dissesse que a vós, antes que a nós, foi feita injúria por aquelas tribulações; vós fostes tentados antes que nós, vós que nada padecestes, antes que nós que padecemos. Porque, diz ele, Timóteo nos trouxe estas boas novas, nada sentimos de nossas tristezas, antes fomos consolados em toda a nossa aflição; e não somente nesta aflição. Pois nada mais pode tocar um bom mestre, contanto que os assuntos de seus discípulos prossigam segundo o seu ânimo. Por vós, diz ele, fomos consolados; vós nos confirmastes. E, contudo, o inverso é que era o caso. Pois que, ao padecerem, não cedessem, mas permanecessem firmes varonilmente, bastaria para confirmar os discípulos. Mas ele inverte inteiramente a questão, e transfere o elogio para eles. Vós nos ungistes, diz ele, vós nos fizestes respirar de novo; não permitistes que sentíssemos as nossas provações. E não disse: respiramos de novo, nem: somos consolados, mas o quê? Agora vivemos, mostrando que nada considera prova ou morte, senão a queda deles, ao passo que o progresso deles era a própria vida. De que outro modo poderia alguém exprimir tanto a tristeza pela fraqueza de seus discípulos quanto a alegria? Não disse: nos regozijamos, mas: vivemos, a vida que há de vir.
De modo que, sem isto, nem sequer julgamos que viver seja vida. Assim devem ser afetados os mestres, assim os discípulos; e nunca haverá nada que ande mal. Depois, suavizando ainda mais a expressão, vede o que diz.
A disposição de um mestre deve ser tal que considere seus discípulos como tudo. "Agora vivemos", diz Paulo, "se estais firmes no Senhor." E ainda: "Qual é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de glória? Não sois vós mesmos, diante de nosso Senhor Jesus Cristo?" Vede o zelo de Paulo nesta matéria, o seu cuidado pelo bem de seus discípulos, não menor que o cuidado por si mesmo. Pois convém que os mestres superem os pais segundo a carne, que sejam mais zelosos que eles. E é justo que os filhos lhes mostrem profunda afeição. Pois diz: "Obedecei aos que vos presidem, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como quem há de dar conta."
Imaginemos alguém que ocupe um lugar de honra na corte de um rei. Possui vasta riqueza, grande poder, uma pátria que a todas excede, ancestrais ilustres e a admiração de todos os povos. Examinai a questão. Não é este mais escravo que todos os demais? E comparemo-lo não apenas a um escravo, mas ao escravo de um escravo — pois muitos servos têm escravos... Mas o nosso caso é diverso. Se um se sai mal, há muitos que com ele se afligem. Caso obtenha distinção, muitos que com ele se comprazem. Não assim o apóstolo Paulo. "Pois, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; ou, se um membro é honrado, todos os membros com ele se regozijam." As palavras de admoestação de Paulo variam conforme a circunstância. "Qual é a minha esperança ou alegria? Não sois vós?" Noutro lugar: "Agora vivemos, se estais firmes no Senhor"; noutro: "Em meio a muita aflição e angústia de coração vos escrevi"; e: "Quem enfraquece, que eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me abrase?" Homilias sobre Mateus
Não somente, diz ele, sois vós causa de vida para nós, mas também de muita alegria, e de tanta, que não podemos dignamente render graças a Deus. O vosso bom procedimento, diz ele, consideramo-lo dom de Deus. Tais benevolências nos mostrastes, que a julgamos ser de Deus; sim, antes, e de fato o é. Pois tal disposição de ânimo não procede de alma humana nem de mero cuidado.
Noite e dia, diz ele, orando sobremaneira. Isto também é sinal de alegria. Pois, assim como qualquer lavrador, ouvindo a respeito da sua terra, por ele mesmo cultivada, que está carregada de espigas, anseia por ver com os próprios olhos tão aprazível espetáculo, assim Paulo ansiava por ver a Macedônia. Orando sobremaneira. Observai o excesso: para que vejamos o vosso rosto, e completemos o que falta à vossa fé.
Aqui há uma grande questão. Pois, se agora vós viveis, porque eles estão firmes, e Timóteo vos trouxe boas novas da fé e do amor deles, e estais cheios de tanta alegria que não podeis dignamente render graças a Deus, como dizeis aqui que há deficiências na fé deles? Foram, pois, aquelas palavras de lisonja? De modo nenhum, longe disso. Pois anteriormente testificara que eles suportaram muitos combates, e não foram menos afetados que as igrejas da Judeia. Que é isto, pois? Não haviam gozado do pleno benefício de seu ensino, nem aprendido tudo o que lhes convinha aprender. E isto ele mostra para o fim. Talvez houvesse entre eles questionamentos acerca da Ressurreição, e houvesse muitos que os perturbassem, não por tentações, nem por perigos, mas fazendo-se passar por mestres. Isto é o que ele diz faltar à fé deles, e por esta razão assim se explicou, e não disse que devíeis ser confirmados — onde, com efeito, temia acerca da própria fé, enviei, diz ele, Timóteo "para vos confirmar" — mas aqui, para completar o que falta, o que é antes matéria de ensino que de confirmação. Como também diz noutro lugar, para que sejais aperfeiçoados para toda boa obra. Ora, a coisa aperfeiçoada é aquela em que há alguma pequena deficiência: pois é a que se leva à perfeição.
Esta é prova de amor excessivo, que ele não somente ora por eles em particular, mas até insere sua oração em suas Epístolas. Isto arguye uma alma fervorosa, e verdadeiramente incapaz de se conter. Isto é prova das orações ali também feitas, e ao mesmo tempo também uma justificativa, mostrando que não foi de modo voluntário, nem por indolência, que não foram até eles. Como se dissesse: Que o próprio Deus abrevie as tentações que por todo lado nos distraem, para que venhamos diretamente a vós. E o Senhor vos faça crescer e abundar. Vedes a loucura incontível do amor que se manifesta em suas palavras? Vos faça crescer e abundar, em vez de vos faça crescer simplesmente. Como se alguém dissesse que, com uma espécie de superabundância, deseja ser amado por eles. Assim como nós também para convosco, diz ele. Nossa parte já está feita; oramos para que a vossa também se cumpra. Vedes como ele deseja que o amor se estenda, não somente uns para com os outros, mas para com todos? Pois esta é verdadeiramente a natureza do amor piedoso, que a todos abraça. Se, de fato, amais a um, mas não amais a outro, isto é amor humano. Mas não é assim o nosso. Assim como nós também para convosco.
Esta é prova de amor superabundante, que ele não somente ora por eles em particular, mas até insere sua oração em suas epístolas. As orações de Paulo demonstram uma alma fervorosa, incapaz de refrear seu amor. A menção de suas orações também prova que a ausência de Paulo e Silvano em visitá-los não foi voluntária nem resultado de indolência. É como se Paulo dissesse: Que o próprio Deus abrevie as provações que constantemente nos distraem, para que venhamos diretamente a vós. “E o Senhor vos faça crescer e abundar.” Vedes a loucura incontível do amor que se manifesta nestas palavras? Homilias sobre os Tessalonicenses
Ele mostra que o amor produz proveito para os próprios que amam, e não para os que são amados. Desejo, diz ele, que este amor cresça em abundância, para que não haja mácula alguma. Não diz "estabelecer-vos", mas "os vossos corações". Porque é do coração que procedem os maus pensamentos (Mt 15:19). Pois é possível, sem praticar coisa alguma, ser homem mau; como, por exemplo, ter inveja, incredulidade, engano, alegrar-se com os males, não ter amor, sustentar doutrinas pervertidas — todas estas coisas são do coração; e estar puro destas coisas é santidade. Pois, com efeito, a castidade é propriamente chamada, por excelência, santidade, visto que a fornicação e o adultério são também imundícia. Mas, universalmente, todo pecado é imundícia, e toda virtude é pureza. Pois, "Bem-aventurados", diz-se, "os puros de coração" (Mt 5:8). Por "puros" Ele entende os que são, em todo sentido, puros.
Pois também outras coisas sabem poluir a alma, e não menos. Que a maldade contamina a alma, ouve o profeta dizendo: "Ó Jerusalém, lava o teu coração da maldade" (Jr 4:14). E de novo: "Lavai-vos, purificai-vos, tirai as maldades das vossas almas" (Is 1:16, Septuaginta). Não disse "fornicações", de modo que não só a fornicação, mas também outras coisas contaminam a alma.
"Para estabelecer os vossos corações", diz ele, "irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os Seus santos". Portanto Cristo será então o Juiz, mas não somente diante d'Ele (unicamente), senão que também diante do Pai haveremos de comparecer para sermos julgados. Ou quer ele antes dizer isto, ser irrepreensível diante de Deus, como sempre diz, à vista de Deus, pois esta é a virtude sincera — não à vista dos homens?
É o amor, pois, que os torna irrepreensíveis. Pois ele de fato torna os homens verdadeiramente irrepreensíveis. E certa vez, discorrendo eu sobre isto com alguém, e dizendo que o amor torna os homens irrepreensíveis, e que o amor ao próximo não permite entrada alguma à transgressão, e prosseguindo em meu discurso, percorrendo e perseguindo todo o restante — um certo conhecido meu, interpondo-se, disse: Que dizer então da fornicação? Não é possível amar e, ao mesmo tempo, cometer fornicação? E é, de fato, do amor que isto brota. A cobiça, na verdade, e o adultério, e a inveja, e os desígnios hostis, e tudo quanto é deste gênero pode, pelo amor ao próximo, ser detido; mas como a fornicação? — disse ele. Eu, então, lhe disse que também isto o amor pode deter. Pois se um homem amasse uma mulher que se prostitui, ele se esforçaria tanto por afastá-la de outros homens quanto por não acrescentar ele próprio ao pecado dela. De modo que cometer fornicação com uma mulher é próprio daquele que sobremaneira odeia aquela com quem comete a fornicação, ao passo que quem verdadeiramente a amasse a afastaria dessa abominável prática. E não há, não há pecado algum que o poder do amor, como o fogo, não possa consumir. Pois é mais fácil a um vil feixe de lenha resistir a uma grande fogueira do que à natureza do pecado resistir ao poder do amor.
Este então plantemos em nossas próprias almas, para que possamos permanecer junto com todos os Santos. Pois todos eles agradaram a Deus pelo seu amor ao próximo. De onde foi que Abel foi morto, e não matou? De seu ardente amor a seu irmão, ele nem sequer podia admitir tal pensamento. De onde foi que Caim recebeu a destrutiva peste da inveja? Pois eu não mais o chamarei de irmão de Abel! Porque os fundamentos do amor não haviam sido firmemente estabelecidos nele. De onde obtiveram os filhos de Noé bom testemunho? Não foi porque amavam ardentemente a seu pai, e não suportavam ver a sua exposição? E de onde foi o outro amaldiçoado? Não foi por não o amar? E de onde obteve Abraão bom testemunho? Não foi do amor ao fazer o que fez em relação a seu sobrinho? O que fez quanto à sua súplica pelos sodomitas? Pois fortemente, fortemente, foram os Santos tocados pelo amor e pela compaixão.
Pois considerai, eu vos peço: Paulo, aquele que era ousado diante do fogo, duro como o diamante, firme e inabalável, compacto por todos os lados, cravado no temor de Deus, e inflexível — pois quem, disse ele, nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? (Rm 8,35) — aquele que era ousado diante de todas essas coisas, e da terra e do mar, aquele que ria com desdém das portas adamantinas da morte, a quem nada jamais resistiu — ele, quando viu as lágrimas de alguns a quem amava, ficou tão quebrantado e esmagado — o homem adamantino — que nem sequer ocultou seus sentimentos, mas disse imediatamente: Que fazeis vós, chorando e quebrantando meu coração? (At 21,13) Que dizeis, dizei-me? Teve uma lágrima o poder de esmagar aquela alma de diamante? Sim, diz ele, pois eu resisto a todas as coisas exceto ao amor. Este me vence, e me subjuga. Este é o pensamento de Deus. Um abismo de água não o esmagou, e algumas poucas lágrimas o esmagaram. Que fazeis vós, chorando e quebrantando meu coração? Pois grande é a força do amor. Não o vedes de novo chorando? Por que choras? Dizei-me. Pelo espaço de três anos, diz ele, não cessei de admoestar a cada um, noite e dia, com lágrimas (At 20,31). De seu grande amor temia que alguma praga fosse introduzida entre eles. E de novo: Porque em muita aflição e angústia de coração vos escrevi, com muitas lágrimas (2 Cor 2,4).
Joseph que fez, dize-me, aquele varão firme, que se opôs a tirania tão grande, que se mostrou tão nobre contra chama tão grande de amor, que tão bem combateu e venceu a loucura de sua senhora? Que não havia então para seduzi-lo? Uma beleza de pessoa, o orgulho da posição, a suntuosidade das vestes, a fragrância dos perfumes (pois todas estas coisas sabem abrandar a alma), palavras mais brandas que todo o resto! Pois sabeis que a que ama, e tão veementemente, nada há de tão humilde que não se disponha a dizer, tomando sobre si a atitude de suplicante. Tão quebrantada estava esta mulher, ainda que vestida de ouro e de dignidade régia, que se lançou talvez aos joelhos do menino cativo, e talvez até o suplicasse chorando e abraçando-lhe os joelhos, e a isto recorreu não uma vez, nem duas, mas muitas vezes. Então poderia ele ver-lhe o olhar a brilhar mui esplendidamente. Pois é provável que ela não singelamente, mas com excessivo esmero, ornasse a sua formosura, como que desejando com muitas redes capturar o cordeiro de Cristo. Acrescentai aqui, peço-vos, também muitos encantamentos mágicos. Contudo, ainda assim, este homem inflexível, este homem firme, de dureza rochosa, quando viu seus irmãos, que o haviam vendido, que o haviam lançado numa cova, que o haviam negociado, que até mesmo o quiseram matar, que foram a causa tanto do cárcere quanto da honra, quando deles ouviu como tinham afligido o pai (pois, dissemos, diz que um foi devorado por fera — Gn 37,20 e 64,28), quebrantou-se, abrandou-se, esmagou-se. E chorou, diz, e não podendo suportar os seus sentimentos, entrou e se recompôs (Gn 43,30), isto é, enxugou as lágrimas.
Que é isto? Choras, ó José? E, contudo, as presentes circunstâncias não são dignas de lágrimas, mas de ira, e cólera, e indignação, e grande vingança e retribuição. Tens em tuas mãos os teus inimigos, aqueles fratricidas; podes saciar a tua ira. E, contudo, nem isto seria injustiça. Pois não és tu quem começa os atos injustos, mas te defendes contra os que fizeram o mal. Mas não olhes para a tua dignidade. Isto não foi engenho deles, mas de Deus, que derramou sobre ti o Seu favor. Por que choras? Mas ele teria dito: longe de mim que eu, que em todas as coisas alcancei bom testemunho, por esta lembrança de agravos venha a destruir tudo isso. É verdadeiramente tempo de lágrimas. Não sou mais bruto que os animais. Estes derramam uma libação à natureza, seja qual for o mal que padeçam. Choro, diz ele, porque assim me trataram alguma vez.
Deixai-nos também imitar este varão. Choremos e lamentemos por aqueles que nos injuriaram. Não nos irritemos contra eles. Pois verdadeiramente são dignos de lágrimas, pela punição e condenação a que a si mesmos se sujeitam. Bem sei como agora chorais, como vos alegrais, admirando a Paulo e maravilhando-vos com José, proclamando-os bem-aventurados. Mas se alguém tem um inimigo, tome-o agora em sua lembrança, traga-o à memória, para que, enquanto seu coração ainda está aquecido pela recordação dos Santos, possa dissolver a obstinação da ira e abrandar o que é áspero e endurecido. Bem sei que, depois de vossa partida daqui, depois que eu tiver cessado de falar, se restar algum calor e fervor, não será tão grande quanto agora é, enquanto me escutais. Se, portanto, alguém, se alguém se tornou frio, que dissolva a geada. Pois a lembrança das injúrias é, na verdade, geada e gelo. Mas invoquemos o Sol da Justiça, roguemos-Lhe que envie sobre nós os Seus raios, e não haverá mais gelo espesso, mas água para beber.
Se o fogo do Sol da Justiça tocou nossas almas, nada deixará gelado, nada duro, nada ardente, nada infrutífero. Fará brotar todas as coisas maduras, todas as coisas doces, todas as coisas transbordantes de grande deleite. Se nos amarmos uns aos outros, também virá aquele raio. Permiti-me, eu vos suplico, dizer estas coisas com fervor. Fazei-me ouvir que, por estas palavras, produzimos algum efeito; que alguém foi e lançou ambos os braços em torno de seu inimigo, abraçou-o, enlaçou-se a ele, beijou-o calorosamente, chorou. E ainda que o outro seja uma fera selvagem, uma pedra, ou seja o que for, será amansado por tal afetuosa bondade. Pois por que razão é ele teu inimigo? Insultou-te? Contudo não te fez dano algum. Mas será que, por causa do dinheiro, permites que teu irmão esteja em inimizade contigo? Não façais assim, eu vos suplico. Desfaçamos tudo isso. É a nossa hora. Usemo-la para bom proveito. Cortemos as cordas de nossos pecados. Antes que partamos para o juízo, não nos julguemos uns aos outros. Não se ponha o sol (diz a Escritura) sobre a vossa ira (Ef 4,26). Que ninguém o adie. Estas delongas produzem demoras. Se hoje o adiaste, amanhã mais te envergonhas, e se acrescentas outro dia, maior é a vergonha, e se um terceiro dia, ainda pior. Não nos deixemos, pois, envergonhar, mas perdoemos, para que sejamos perdoados. E se formos perdoados, obteremos todas as bênçãos, por Jesus Cristo nosso Senhor, com quem, etc.
Tendo já tratado do que era urgente e do que tinha em mãos, e estando prestes a entrar naquilo que é perpétuo, e que eles deveriam ouvir continuamente, ele acrescenta esta expressão, finalmente, isto é, sempre e para sempre. Rogamos e exortamos a vós no Senhor. Estranho! Ele nem sequer se considera de crédito suficiente para exortar. E, contudo, quem era mais digno de crédito? Mas ele traz Cristo consigo. Vos exortamos, diz ele, por Deus. O que também disse aos coríntios: Deus vos suplica (exorta) por nós. 2 Coríntios 5:20. Que assim como recebestes de nós. Este recebestes não é apenas de palavras, mas também de ações, a saber, como deveis andar, e por isso ele entende toda a conduta da vida. E para agradar a Deus, que abundeis cada vez mais. Isto é, que, abundando mais, não vos detenhais no limite dos mandamentos, mas que os ultrapasseis. Pois é isto: que abundeis cada vez mais. No que precedeu, ele acolhe a maravilha da firmeza da fé deles, mas aqui regula a vida deles. Pois isto é aproveitamento, ir além dos mandamentos e dos estatutos. Pois já não mais pela constrangimento de um mestre, mas por sua própria escolha voluntária, tudo isto se realiza. Pois assim como a terra não deve produzir apenas o que se lançou sobre ela, também a alma não deve deter-se naquilo que lhe foi inculcado, mas ir além. Vedes como ele disse propriamente ir além? Pois a virtude se divide nestas duas coisas: afastar-se do mal e fazer o bem. Pois o afastamento do mal não basta para se chegar à virtude, mas é uma espécie de caminho, e um começo que a ela conduz; ainda assim, temos necessidade de grande prontidão. As coisas, pois, a evitar, ele lhes diz na ordem de mandamento. E justamente. Pois estas coisas, sendo feitas, de fato trazem punição, mas, não sendo feitas, contudo não trazem louvor algum. Os atos de virtude, porém, tais como distribuir nossos bens, e coisas semelhantes, não são da ordem de mandamento, diz ele. Mas o quê? Aquele que é capaz de receber, que receba. Mateus 19:12. É proveitoso, pois, que, assim como com muito temor e tremor lhes dera estes mandamentos, ele também por estas cartas lhes recorde aquele seu cuidado. Por isso não os repete, mas lhes recorda deles.
Há apenas uma calamidade para o cristão, e esta é a desobediência a Deus. Todas as demais coisas, tais como perda de bens, exílio, perigo de vida, Paulo nem sequer considera como aflição alguma. E aquilo que todos temem, a partida desta vida para o outro mundo, isto lhe é mais doce que a própria vida. Pois assim como quando alguém subiu ao topo de um penhasco e contempla o mar e os que nele navegam, vê alguns sendo arrastados pelas ondas, outros correndo sobre rochedos ocultos, alguns apressando-se numa direção, outros sendo impelidos noutra, como prisioneiros, pela força da tempestade. Muitos estão de fato na água, alguns deles usando apenas as mãos em lugar de barco e leme, e muitos deslizando sobre uma única tábua ou algum fragmento do navio, outros boiando mortos. Ele testemunha um espetáculo de múltiplos e variados desastres. Assim também aquele que se ocupa no serviço de Cristo retira-se da agitação e das tempestuosas vagas da vida e assenta-se sobre terreno seguro e elevado. Pois qual posição pode ser mais elevada ou mais segura do que aquela em que um homem tem apenas uma preocupação: “Como deve agradar a Deus”? Já vistes, Teodoro, os naufrágios dos que navegam sobre este mar? Cartas ao Caído Teodoro
Pois vós sabeis, diz ele, que preceito vos demos por nosso Senhor Jesus Cristo. Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação. E observai como em nenhum outro lugar ele toca tão veementemente em algo quanto neste ponto. Como também alhures escreve neste mesmo sentido: "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12,14). E por que vos admirais, se ele em toda parte escreve a seus discípulos sobre este assunto, quando até mesmo em sua Epístola a Timóteo disse: "Conserva-te puro" (1Tm 5,22)? Também em sua segunda Epístola aos Coríntios disse: "Em muita paciência, em jejuns, em pureza" (2Cor 6,5-6). E pode-se encontrar isto em muitos lugares, tanto nesta Epístola aos Romanos quanto em toda parte, e em todas as suas Epístolas. Pois, na verdade, este é um mal pernicioso a todos. E assim como um porco, carregado de lama, onde quer que entre enche todos os lugares com seu mau odor e sufoca os sentidos com imundície, assim também é a fornicação; é um mal que não se lava facilmente. Mas quando até mesmo alguns que têm esposas praticam isto, quão excessivo é o ultraje! Pois esta, diz ele, é a vontade de Deus, a vossa santificação, que vos abstenhais de toda fornicação. Pois há muitas formas de conduta desordenada. Os prazeres da lascívia são de muitas espécies e variados; não seria tolerável mencioná-los. Mas, tendo dito "de toda fornicação", ele deixa isto àqueles que os conhecem.
Devemos aprender diligentemente a evitar a imoralidade sexual. Mas nós "possuímos" o nosso vaso quando ele é puro; quando é impuro, é o pecado que o possui... Pois ele não faz as coisas que nós desejamos, mas o que o pecado ordena. "Não na paixão da concupiscência", diz Paulo. Aqui ele mostra também o modo da moderação. Pela moderação devemos canalizar as paixões da concupiscência. Pois o luxo, a riqueza, a ociosidade, a indolência, o repouso e todas as coisas semelhantes conduzem à irregularidade da concupiscência em nós.
Diz ele: Que cada um de vós saiba possuir o seu próprio vaso. É, pois, matéria que se há de aprender, e diligentemente, a não ser lascivo. Mas nós possuímos o nosso vaso quando ele é puro; quando é impuro, é o pecado que o possui. E com razão. Pois ele não faz as coisas que nós desejamos, mas o que o pecado ordena. Não na paixão da concupiscência, diz ele. Aqui mostra também o modo segundo o qual convém sermos temperantes: que cortemos as paixões da concupiscência. Pois o luxo, e a riqueza, e a ociosidade, e a indolência, e o repouso, e todas as coisas semelhantes, conduzem-nos à concupiscência desregrada. Como os gentios, diz ele, que não conhecem a Deus. Pois tais são os que não esperam sofrer castigo.
A cada homem Deus designou uma esposa. Ele estabeleceu limites à natureza e restringe o comércio carnal a uma só pessoa. Portanto, o comércio com outra é transgressão, e o tomar mais do que pertence a um só é roubo. Ou, antes, é mais cruel que qualquer roubo; pois nos afligimos menos quando somos roubados de nossas riquezas do que quando nosso matrimônio é invadido. Chamas-lo de irmão e, no entanto, o lesas, e isso em coisas ilícitas?... Paulo não quer dizer, ao usar a palavra irmão, que somos livres para nos deitarmos com a mulher de um incrédulo. Paulo mostra que Deus vingará e punirá tal ato, não para vingar o incrédulo, mas para vingar a Si mesmo. Por quê? Insultaste a Deus. Ele mesmo te chamou, e tu, por tua vez, o insultaste. Quer te deites com a imperatriz, quer com tua serva casada, não faz diferença. O crime é o mesmo. Por quê? Porque Ele não vinga as pessoas lesadas, mas a Si mesmo.
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Bem disse que ninguém transgrida. A cada homem Deus designou uma esposa, estabeleceu limites à natureza, de modo que o comércio carnal seja com uma só: portanto, o comércio com outra é transgressão, e o tomar mais do que pertence a um só é roubo; ou, antes, é mais cruel que qualquer roubo; pois não nos afligimos tanto quando nossas riquezas nos são arrebatadas quanto quando o matrimônio é invadido. Chamas-lo de irmão, e o lesas, e isso em coisas ilícitas? Aqui fala do adultério, mas acima também de toda fornicação. Pois, estando para dizer que ninguém transgrida nem lese a seu irmão, diz: não penseis que digo isto apenas quanto aos irmãos; não deveis ter as esposas de outros de modo algum, nem sequer as mulheres que não têm marido e são comuns. Deveis abster-vos de toda fornicação; porque, diz ele, o Senhor é vingador em todas estas coisas. Primeiro os exortou, depois os envergonhou, dizendo, como os gentios. Então, por meio de argumentos, mostrou a impropriedade de fraudar a um irmão. Depois acrescenta o ponto principal: Porque, diz ele, o Senhor é vingador em todas estas coisas, como também vos advertimos e testificamos anteriormente. Pois não fazemos estas coisas sem sermos punidos, nem gozamos de tanto prazer quanto o castigo que sofremos.
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Porque havia dito seu irmão, e havia também acrescentado que Deus é o vingador, mostrando que, ainda que um incrédulo tenha sofrido isto, aquele que o fez sofrerá castigo, diz: não é vingando a ele que Ele te pune, mas porque insultaste a Ele mesmo. Ele mesmo te chamou, tu insultaste Aquele que te chamou. Por esta razão, acrescentou:
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"E não entristeçais", acrescenta ele, "o Espírito Santo de Deus." Isto é coisa terrível e assombrosa, como também diz na epístola aos Tessalonicenses. Pois ali usa expressão desta natureza: "Quem rejeita, não rejeita ao homem, mas a Deus." O mesmo se dá aqui. Se proferes palavra injuriosa, se feres a teu irmão, não é a ele que feres; antes, estás "entristecendo o Espírito Santo".
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Então, ainda que venhas a maculares a própria Imperatriz — diz ele — ou até a tua própria serva, que tem marido, o crime é o mesmo. Por quê? Porque Ele não vinga as pessoas que são injuriadas, mas a Si mesmo. Pois igualmente estás maculado, igualmente insultaste a Deus; porquanto tanto uma quanto outra coisa é adultério, assim como tanto uma quanto outra é matrimônio. E ainda que não cometas adultério, mas fornicação, ainda que a meretriz não tenha marido, contudo Deus vinga, pois vinga a Si mesmo. Pois praticas este ato não tanto desprezando o homem, quanto a Deus. E manifesto é, por isto, que o fazes ocultando-o do homem, mas finges que Deus não te vê. Pois dize-me: se alguém que fosse julgado digno da púrpura e de honra infinita da parte do rei (o Imperador), e a quem fosse ordenado viver de modo condigno a essa honra, fosse macular-se com alguma mulher, a quem terá ele insultado? A ela, ou ao rei que lhe deu tudo? Ela, na verdade, também é insultada, mas não igualmente.
Por isso, rogo-vos, guardemo-nos deste pecado. Pois, assim como punimos as mulheres quando, casadas conosco, se entregam a outros, assim também nós somos punidos, ainda que não pelas leis romanas, contudo por Deus. Porque isto também é adultério. Pois não somente comete adultério, ao proceder assim, aquela que é casada com outro, mas também aquele que está unido a uma esposa. Atendei cuidadosamente ao que digo. Pois, ainda que o que se diz seja ofensivo a muitos, é necessário dizê-lo, para corrigir o assunto no futuro. Não somente é isto adultério, quando maculamos uma mulher que é casada com um homem; mas se nós mesmos, sendo casados com uma mulher, maculamos uma que é livre e desimpedida, o caso é adultério. Pois, que importa se aquela com quem se comete o adultério não está vinculada? Contudo, tu estás vinculado. Transgrediste a lei. Injuriaste a tua própria carne. Pois dize-me: por que punes tua esposa, se ela cometer fornicação com um homem desimpedido, que não tem esposa? Porque é adultério. Por quê? Ora, aquele que a maculou não tem esposa, mas ela está vinculada a um marido. Pois bem, também tu estás vinculado a uma esposa; de sorte que, de modo semelhante, também a tua ofensa é adultério. Pois está escrito: Todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por causa de fornicação, faz que ela cometa adultério; e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério (Mt 5,32). Se aquele que casa com a repudiada comete adultério, aquele que, tendo esposa própria, se macula também com aquela outra — é manifesto a todos. Mas talvez, a vós que sois homens, já baste o que foi dito sobre este assunto. Pois acerca dos que assim procedem, diz Cristo: O verme deles não morrerá, e o fogo não se apagará (Mc 9,44). Mas, por causa dos jovens, é necessário falar-vos — não tanto aos próprios jovens, quanto a vós. Pois estas coisas convêm não somente a eles, mas também a vós. E como? Vou agora dizer-vo-lo. Aquele que não aprendeu a cometer fornicação, tampouco saberá cometer adultério. Mas aquele que se revolve entre as meretrizes, rapidamente chegará também ao outro, e se maculará, senão com as casadas, ao menos com as desimpedidas.
Que conselho dou eu, pois, para que se extirpem as raízes? Quantos dentre vós tendes filhos jovens, e os educais para a vida secular, sujeitai-os prontamente ao jugo do matrimônio. Pois, visto que, enquanto ainda jovem, os desejos o perturbam, durante o tempo que precede o matrimônio, contende-os por admoestações, ameaças, temores, promessas e inúmeros outros meios. Mas, chegada a estação do matrimônio, que ninguém a adie. Eis que falo como um casamenteiro, para que deixeis vossos filhos casar-se. Mas não me envergonho de falar assim, pois nem mesmo Paulo se envergonhou de dizer: "Não vos priveis um ao outro" (1 Cor 7:5), o que parece mais vergonhoso do que o que eu disse; contudo, ele não se envergonhou. Pois ele não atentava às palavras, mas aos atos que por meio das palavras se corrigiam. Quando teu filho estiver crescido, antes que ele entre na milícia, ou em qualquer outro gênero de vida, cuida do seu matrimônio. E se ele vir que em breve lhe tomarás uma esposa, e que o tempo intermédio será curto, poderá suportar pacientemente a chama. Mas se perceber que és remisso e vagaroso, e que esperas até que ele adquira uma grande renda, para então lhe concertares um casamento, desesperando-se com a longura do tempo, facilmente cairá em fornicação. Mas, ai! A raiz dos males, também aqui, é o amor ao dinheiro. Pois, visto que ninguém se importa em que medida seu filho será sóbrio e modesto, mas todos enlouquecem pelo ouro, por esta razão ninguém faz disso objeto de cuidado. Por isso vos exorto a que primeiramente disponhais bem as suas almas. Se ele encontrar sua esposa casta, e conhecer somente aquele corpo, então tanto será veemente o seu desejo, quanto maior o seu temor de Deus, e o matrimônio será verdadeiramente honroso, recebendo corpos puros e incontaminados; e a prole será plenamente carregada de bênção, e a esposa e o esposo se acomodarão um ao outro, pois, sendo ambos inexperientes nos costumes alheios, submeter-se-ão mutuamente. Mas aquele que, desde mais jovem, começa a tornar-se dissoluto, e a ter experiência dos costumes das meretrizes, na primeira e na segunda noite louvará a própria esposa; mas depois disso, logo recairá naquela dissolução, buscando aquele riso desregrado e desordenado, as palavras cheias de baixo sentido, o comportamento dissoluto, e toda a demais indecência, que não é tolerável que mencionemos. Mas uma mulher de condição livre não suportaria fazer tais exibições, nem macular-se a si mesma. Pois foi desposada a seu marido para ser sua companheira de vida, e para a procriação de filhos, não para os fins da indecência e do riso; para que guardasse a casa, e o instruísse também a ele a ser grave, não para que lhe fornecesse o combustível da fornicação.
Mas os gestos de uma meretriz te parecem agradáveis. Eu o sei. Pois diz a Escritura: Os lábios da mulher estranha destilam mel (Provérbios 5:3). Por isso tomo eu todo este trabalho, para que não tenhas experiência daquele mel, pois logo se converte em fel. E isto também diz a Escritura: Que por um tempo é suave ao teu paladar, mas depois a acharás mais amarga que o fel, e mais aguda que espada de dois gumes (Provérbios 5:3-4, Septuaginta). Que dizes? Suporta-me, pois, falando algo impuro, se assim posso dizer — e exprimindo-me como um homem desavergonhado e impudente. Pois não me submeto a isto de bom grado, mas por causa daqueles que são desavergonhados em suas ações, sou compelido a proferir palavras desta sorte. E muitas assim vemos até mesmo nas Escrituras. Pois também Ezequiel, repreendendo Jerusalém, profere muitas coisas semelhantes, e não se envergonha. E com razão. Pois não as disse por inclinação própria, mas por solicitude. Ainda que as palavras pareçam indecentes, contudo o seu intento não é indecente, mas antes sumamente conveniente a quem deseja banir a imundície da alma. Pois se a alma desavergonhada não ouve as próprias palavras, não é tocada. Porque o médico que deseja extirpar uma chaga pútrida, primeiro introduz os dedos na ferida, e se não macula primeiro as suas mãos curadoras, não poderá curá-la. Assim é comigo. Se eu não maculo primeiro a minha boca, que cura as tuas paixões, não poderei curar-te. Mas, ao contrário, nem a minha boca se macula, nem as suas mãos. Por que então? Porque a imundície não é da natureza, nem do nosso próprio corpo, como tampouco naquele caso das mãos dele, mas do que é alheio. Ora, se onde o corpo é alheio, ele não recusa mergulhar as próprias mãos, dize-me, recusaremos nós, onde o corpo é nosso próprio? Pois tu és o nosso corpo, doente na verdade e impuro, mas nosso, contudo.
Que é, pois, isto que digo, e por que motivo fiz tão longa digressão? Uma veste, na verdade, que o teu servo usa, jamais escolherias vestir, tomado de nojo por causa de sua sujidade, e antes preferirias andar nu a fazer uso dela. Mas um corpo que é imundo e sórdido, e que é usado não somente pelo teu servo, mas por inúmeros outros, esse abusarás, e não te enojarás? Envergonhas-te de ouvir isto? Envergonha-te, porém, das ações, não das palavras. E passo por alto todo o resto, a rudeza, a corrupção de seus costumes, a servilidade e a baixeza do restante de sua vida. Dize-me, deverias tu e o teu servo ir à mesma mulher? E oxalá fosse somente o teu servo, e não, porventura, o carrasco! E, no entanto, não poderias suportar tomar o carrasco pela mão; mas a ela, que se fez um só corpo com ele, beijas e abraças, e não estremeces, nem temes! Não te envergonhas? Não te confundes? Não és traspassado de angústia?
Falei, com efeito, a vossos pais que deveriam conduzir-vos cedo às núpcias; mas nem por isso estais isentos de castigo. Pois, se não houvesse também outros jovens, em número maior que vós, vivendo em castidade, tanto outrora quanto agora, haveria talvez alguma desculpa para vós. Mas, se os há, como podeis dizer que não fostes capazes de reprimir a chama da concupiscência? Pois aqueles que puderam são vossos acusadores, visto que participam da mesma natureza. Ouvi Paulo dizendo: *Segui a paz... e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor* (Hb 12,14). Não basta esta ameaça para vos aterrar? Vedes outros perseverando de todo na castidade, e passando a vida na gravidade; e não podeis vós dominar-vos ao menos durante o tempo da juventude? Vedes outros vencerem dez mil vezes o prazer, e não podeis vós conter-vos uma só vez? Com vossa licença, vos direi a causa. Pois a juventude não é a causa, já que então todos os jovens seriam dissolutos; mas nós mesmos nos lançamos ao fogo. Pois, quando subis ao teatro e vos sentais a fartar os olhos com os membros nus das mulheres, deleitais-vos, na verdade, por aquele instante, mas depois nutristes daí uma febre poderosa. Quando vedes mulheres expostas, por assim dizer, na forma de seus corpos, e espetáculos e cantos que não contêm outra coisa senão amores desregrados — dizendo-se que tal mulher amou tal homem, e, não o alcançando, enforcou-se; e amores ilícitos que têm mães por objeto —, quando recebeis estas coisas também pelo ouvido, e por meio de mulheres, e por meio de figuras, e ainda por meio de velhos (pois muitos ali põem máscaras sobre o rosto e representam papéis de mulheres), dizei-me: como podereis depois permanecer castos, ocupando estas narrativas, estes espetáculos, estes cantos a vossa alma, e sucedendo-se daí em diante sonhos desta espécie? Pois é da natureza da alma, na maior parte das vezes, suscitar visões das coisas que deseja e apetece durante o dia. Portanto, quando ali ao mesmo tempo vedes ações vis, e ouvis palavras ainda mais vis, e recebeis, de fato, as feridas, mas não aplicais os remédios, como não há de naturalmente aumentar-se a chaga? Como não há de tornar-se mais intensa a doença, e em grau muito maior do que em nossos corpos? Pois, se quiséssemos, a nossa vontade admite correção mais facilmente que os nossos corpos. Pois ali, na verdade, requerem-se remédios, e médicos, e tempo; mas aqui basta ter apenas a vontade para tornar-se bom ou mau. De sorte que antes admitistes a desordem. Quando, pois, ajuntamos para nós mesmos as coisas que prejudicam, mas não damos atenção alguma às que aproveitam, como poderá jamais haver alguma saúde?
John Chrysostomo assinala, por isso mesmo, que os gentios não conheciam a Deus. Envergonhemo-nos, temamos, se os gentios, que não conhecem a Deus, são muitas vezes castos. Voltemo-nos com vergonha, quando somos piores do que eles. Fácil é alcançar a castidade, se o quisermos, se nos apartarmos das coisas que são nocivas, já que nem mesmo é fácil evitar a fornicação, se não o quisermos. Pois que há mais fácil do que caminhar pela praça? Mas, pelo excesso da preguiça, tornou-se difícil, não só no caso das mulheres, mas por vezes até no dos homens. Que há mais fácil do que dormir? Mas até isto fizemos difícil. Muitos, porém, dentre os ricos revolvem-se em vigília por toda uma noite, por não esperarem a necessidade do sono, e só então dormirem. E, em suma, nada é difícil, quando os homens o querem; assim como nada é fácil, quando não o querem; pois somos senhores de todas estas coisas. Por isso diz a Escritura: Se quiserdes e me ouvirdes (Is 1,19, Septuaginta). E de novo: Se não quiserdes, e não ouvirdes (Is 1,20). De modo que tudo depende de querer ou não querer. Por isso somos tanto castigados quanto louvados. Mas seja nosso, contando-nos entre os que são louvados, alcançar as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade, etc.
Por que, então, tendo discorrido com eles seriamente acerca da castidade, e estando prestes a discorrer sobre o dever do trabalho, e sobre o não entristecer-se pelos que partiram, introduz ele aquilo que era o principal de todos os bens, o amor, como se o estivesse passando por alto, dizendo: Não temos necessidade de vos escrever? Isto também procede de sua grande sabedoria, e pertence à instrução espiritual. Pois aqui ele mostra duas coisas. Primeiro, que a coisa é tão necessária, que não requer instrução. Pois as coisas muito importantes são manifestas a todos. E, em segundo lugar, dizendo isto, ele os torna mais envergonhados do que se os tivesse admoestado. Pois aquele que julga que eles se comportaram retamente, e por isso não os admoesta, ainda que não se tivessem comportado retamente, mais depressa os conduziria a isso. E observai que ele não fala do amor para com todos, mas daquele para com os irmãos. Não temos necessidade de vos escrever. Devera, pois, ter-se calado, e nada dizer, se não havia necessidade. Mas, agora, dizendo que não há necessidade, ele fez algo maior do que se o tivesse dito.
Pois vós mesmos sois ensinados por Deus. E vede com quão alto louvor ele fez de Deus o Mestre deles nesta matéria. Não precisais, diz ele, de aprender do homem. O que também diz o profeta: e todos serão ensinados por Deus (Is 54,13). Pois vós mesmos, diz ele, sois ensinados por Deus a amar-vos uns aos outros. Pois, com efeito, o fazeis para com todos os irmãos, e os que estão em toda a Macedônia; e para com todos os demais, quer ele dizer. Estas palavras são muito encorajadoras para levá-los a fazê-lo. E não digo apenas que sois ensinados por Deus, mas sei-o pelas coisas que fazeis. E, a este respeito, ele lhes deu muitos testemunhos.
Mas nós vos exortamos, irmãos, a que abundeis cada vez mais, e vos esforceis; isto é, cresçais e vos esforceis.
Ele mostra de quantos males a ociosidade é a causa, e de quantos benefícios o é a laboriosidade. E isto ele o manifesta a partir de coisas que sucedem entre nós, como frequentemente faz, e sabiamente. Pois por estas coisas a maioria é levada mais do que pelas coisas espirituais. Pois é sinal de amor para com o próximo não receber deles, mas repartir com eles. E observai. Estando prestes a exortar e admoestar, ele coloca no meio a boa conduta deles, tanto para que se recobrem mesmo da admoestação precedente, quanto da ameaça, quando disse: Aquele, pois, que rejeita, não rejeita ao homem, mas a Deus, e para que não se irritem com isto. E este é o efeito do trabalho: que alguém não receba dos outros, nem viva ociosamente, mas, trabalhando, reparta com os outros. Pois está dito: Mais bem-aventurado é dar do que receber (At 20,35). E trabalhar, diz ele, com as vossas mãos. Onde estão aqueles que procuram um trabalho que seja espiritual? Vedes como ele lhes tira toda escusa, dizendo, com as vossas mãos? Mas pratica alguém o jejum com as mãos? Ou as vigílias noturnas? Ou o deitar-se no chão? Isto ninguém pode dizer. Mas ele está falando de trabalho espiritual. Pois é verdadeiramente espiritual que alguém, trabalhando, reparta com os outros, e não há nada igual a isto. Para que andeis, diz ele, decorosamente. Vedes por onde ele os toca? Não disse ele: para que não sejais envergonhados por mendigar. Mas, de fato, insinuou o mesmo, ainda que o coloque de modo mais brando, de modo a ferir e a não fazê-lo severamente. Pois, se os que estão entre nós se ofendem com estas coisas, muito mais os que estão de fora, achando inúmeras acusações e pretextos, quando veem um homem que goza de boa saúde e é capaz de sustentar-se, mendigando e pedindo ajuda a outros. Por isso também nos chamam mercadores de Cristo. Por esta razão, quer ele dizer, o nome de Deus é blasfemado (Rm 2,24). Mas nada disto ele afirmou; antes, aquilo que era capaz de tocá-los mais de perto, a vergonha da coisa.
Aqui Paulo passa agora a iniciar seu discurso acerca da ressurreição. E por quê? ... [Porque] este assunto da ressurreição era suficiente para consolar os que se afligiam. Com efeito, o que Paulo agora ensina sobre a ressurreição torna a ressurreição eminentemente digna de fé.... Persistir em sofrer miséria pelos que partiram é agir como aqueles que não têm esperança. Ouvi isto, mulheres, quantas dentre vós vos comprazeis em prantear, quantas vos afligis impacientemente; ao fazê-lo, agis exatamente como os pagãos. Acaso não vos afligis como pagã quando vos espancais e dilacerais as faces? Por que lamentais, se credes que ele ressuscitará, que não pereceu, que a coisa não é senão um sono ou um dormir? Direis: por causa de sua companhia, de sua proteção, de seu cuidado com nossos negócios, e de todos os seus demais serviços. Quando, pois, perdeis um filho em idade prematura, que ainda não é capaz de coisa alguma, por que motivo o lamentais? Por que buscais fazê-lo voltar? Ele mostrava, direis, boas esperanças, e eu esperava que ele me sustentasse. Por isto sinto falta de meu marido, por isto de meu filho, por isto pranteio e lamento, não porque não creia na ressurreição, mas porque fiquei destituída de sustento, tendo perdido meu protetor, meu companheiro, que partilhava comigo de todas as coisas — meu consolador.... É por estas coisas que me aflijo, por estas coisas que pranteio.... Mas nada disto nos é penoso, se estivermos dispostos a cultivar a sabedoria.
Há muitas coisas que, unicamente por ignorância, nos causam tristeza, de modo que, se viermos a compreendê-las bem, bania-se a nossa dor. Isto, pois, também Paulo demonstrando, diz: Não quero que sejais ignorantes, para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança. É por isto que não quer que sejam ignorantes? Mas por que não fala do castigo que está reservado? Ignorantes, diz ele, da doutrina da Ressurreição. Mas por quê? Isto se manifesta pelo que se segue, e é admitido. Mas, entretanto, juntamente com isso, haverá também este ganho não desprezível. Pois, uma vez que eles não descriam da Ressurreição, mas ainda assim pranteavam, é por isto que ele fala. E discorre, na verdade, de um modo com os que descreem da Ressurreição, e de outro modo com estes. Pois é manifesto que sabiam aqueles que indagavam acerca dos tempos e das estações (1 Ts 5:1).
Estas duas coisas, a pobreza e o desalento, mais os afligiam, as quais também dizem respeito a todos os homens. Vede, pois, como ele as remedeia. Ora, a pobreza deles provinha do fato de lhes terem sido tomados os bens. Mas, se ele ordena que aqueles cujos bens lhes foram tomados por causa de Cristo se sustentem pelo trabalho, muito mais o deve exigir dos outros. Que lhes foram tomados, manifesto é pelo que ele diz: Vos tornastes participantes com as igrejas de Deus. Como participantes com elas? E recebestes com alegria o espólio dos vossos bens (Hb 10, 34).
Aqui ele passa agora a iniciar seu discurso acerca da Ressurreição. E por quê? Acaso não havia já discorrido com eles sobre esse ponto? Sim, mas aqui ele aponta para algum mistério ulterior. Que é, pois, isto? Que nós, os que estamos vivos, diz ele, os que ficarmos até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que adormeceram. O discurso acerca da Ressurreição, portanto, era suficiente para consolar aquele que se afligia. Mas o que agora se diz é suficiente também para tornar a Ressurreição eminentemente digna de crédito. Mas falemos primeiro do que precede: Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem, para que não vos entristeçais como os demais, que não têm esperança. Vede como também aqui ele os trata com brandura. Não diz ele: Sois assim tão desprovidos de entendimento? como disse aos coríntios: ó insensatos? Que, sabendo haver ressurreição, assim vos entristeceis, como os que não creem; mas fala com muita brandura, tendo respeito às demais virtudes deles. E não disse acerca dos mortos, mas dos que dormem, sugerindo-lhes já desde o início a consolação. Para que não vos entristeçais, diz ele, como os demais, que não têm esperança. Portanto, afligir-vos pelos que partiram é agir como aqueles que não têm esperança. E estes, com justiça. Pois a alma que nada sabe da Ressurreição, mas julga que esta morte é morte, naturalmente se aflige, e lamenta e chora intoleravelmente, como por aqueles que se perderam. Mas tu, que esperas a ressurreição, por que motivo te lamentas? Lamentar-se, pois, é próprio dos que não têm esperança.
Ouvi isto, ó mulheres, quantas vos comprazeis em lamentações, quantas nas ocasiões de luto suportais a dor com impaciência: que agis à maneira dos gentios. Mas, se chorar pelos que partiram é próprio dos gentios, dizei-me então de quem é próprio ferir a si mesma e dilacerar as faces? Por que motivo vos lamentais, se credes que ele há de ressuscitar, que não pereceu, que a coisa não é senão um adormecer e um sono? Direis: por causa de sua companhia, de sua proteção, de seu cuidado com os nossos negócios, e de todos os demais serviços que prestava. Quando, pois, perdeis um filho em idade prematura, que ainda não era capaz de coisa alguma, por que motivo vos lamentais? Por que buscais recordá-lo? Ele mostrava, direis, boas esperanças, e eu esperava que fosse meu amparo. Por isso sinto falta de meu marido, por isso de meu filho, por isso me lamento e choro — não por descrer da Ressurreição, mas por ter ficado destituída de amparo, e por ter perdido meu protetor, meu companheiro, que comigo partilhava todas as coisas, meu consolador. Por isso me aflijo. Sei que ele há de ressuscitar, mas não posso suportar a separação intermédia. Uma multidão de tribulações se precipita sobre mim. Fico exposta a todos quantos desejam prejudicar-me. Aqueles dentre meus servos que outrora me temiam, agora me desprezam e me calcam aos pés. Se alguém foi beneficiado, esqueceu-se do benefício que dele recebera; se alguém foi maltratado pelo que partiu, para saldar contra ele o rancor, solta sua ira sobre mim. Estas coisas não me permitem suportar minha viuvez. É por estas coisas que me aflijo, por estas coisas que me lamento.
Como consolar, pois, a estes? Que diremos? Como havemos de banir sua tristeza? Em primeiro lugar, hei de esforçar-me por convencê-los de que sua lamentação não procede das razões que alegam, mas de uma paixão desarrazoada. Pois, se choras por estas coisas, deverias sempre chorar o falecido. Mas se, passado um ano, dele te esqueces como se jamais houvesse existido, não choras o falecido nem sua proteção. Mas não podes suportar a separação, nem a ruptura de vosso convívio? E que poderão dizer aqueles que ainda contraem segundas núpcias? Sem dúvida! São os primeiros maridos que ansiavam ter de volta. Mas não dirijamos nosso discurso a estes, senão àqueles que conservam benevolente afeição para com o falecido. Por que lamentas teu filho? Por que teu marido? Aquele, dizes, porque dele não gozei; este, porque esperava havê-lo de gozar por mais tempo. E isto mesmo, que falta de fé não revela, supor que teu marido ou teu filho constitui tua segurança, e não Deus! Como não pensas que O provocas? Pois muitas vezes, por esta razão, Ele os leva, para que não estejas tão presa a eles, de modo que Ele retire tuas esperanças deles. Porque Deus é zeloso, e quer ser amado por nós acima de todas as coisas: e isto, porque nos ama sobremaneira. Pois sabeis que este é o costume dos que amam até à loucura. São excessivamente ciosos, e antes escolheriam lançar fora a própria vida do que serem superados em estima por algum de seus rivais amantes. Por esta razão também Deus o levou, por causa destas palavras. Pois, dize-me, por que razão não havia nos tempos antigos viuvezas, nem orfandades prematuras? Por que permitiu Ele que Abraão e Isaque vivessem longo tempo? Porque, mesmo enquanto vivia, este preferia Deus a ele. Disse-lhe, com efeito: mata-o; e ele o matou. Por que trouxe Sara a tão avançada idade? Porque, mesmo enquanto vivia, ele ouvia antes a Deus do que a ela. Por esta razão Deus lhe disse: Ouve a Sara, tua mulher. (Gn 21,12) Ninguém, pois, nem por amor ao marido ou à esposa, nem por causa da proteção de um filho, provocava a Deus à ira. Mas agora, porque estamos declinando para baixo, e sobremaneira decaímos, nós, homens, amamos nossas esposas mais que a Deus, e nós, mulheres, honramos nossos maridos mais que a Deus. É por esta razão que Ele nos atrai, mesmo contra nossa vontade, ao amor de Si mesmo. Não ames teu marido mais que a Deus, e jamais experimentarás a viuvez. Ou antes, ainda que isto viesse a suceder, não terás o sentimento dela. Por quê? Porque tens um Protetor imortal que te ama melhor. Se amas a Deus mais, não te lamentes: pois Aquele que é mais amado é imortal, e não permite que sintas a perda daquele que é menos amado. Isto hei de manifestar-vos por um exemplo. Dize-me, se tens um marido que em tudo te condescende, respeitado, e que te faz honrada em toda parte, e não desprezada, respeitado entre todos, inteligente e sábio, e que te ama, sendo tu por causa dele tida por venturosa, e em conjunto com ele desses também à luz um filho, e depois, antes que este houvesse chegado à idade da maturidade, este filho viesse a falecer; sentirias então a aflição? De modo algum. Pois aquele que é mais amado a faz desaparecer. E agora, se amas a Deus mais que a teu marido, certamente Ele não to há de tirar tão cedo. Mas ainda que to tirasse, não hás de sentir a aflição.
Por esta razão, o bem-aventurado Jó não sentiu sofrimento severo ao ouvir da morte de todos os seus filhos de uma só vez, porque amava a Deus mais do que a eles. E enquanto Aquele a quem amava vivia, aquelas coisas não podiam afligi-lo.
Que dizeis vós, ó mulher? Era vosso marido ou vosso filho vosso protetor? Mas não vos preserva o vosso Deus? Quem vos deu o próprio marido? Não foi Ele? E quem vos fez? Não foi Ele? Aquele que certamente vos trouxe do nada ao ser, e vos insuflou uma alma, e pôs em vós uma mente, e Se dignou favorecer-vos com o conhecimento de Si mesmo, e por vossa causa não poupou Seu Filho unigênito, não vos preserva Ele? E preserva-vos o vosso conservo? Que ira é devida a tais palavras! Que coisa desse gênero recebestes de vosso marido? Nada podeis dizer. Pois se ele vos fez algum bem, foi depois de haver recebido benevolência, tendo vós antes começado. Mas no caso de Deus, ninguém pode dizer semelhante coisa. Pois não é como havendo recebido algum favor de nós que Deus nos beneficia, mas, sendo incapaz de carência, é somente por Sua bondade que faz o bem à humanidade. Prometeu-vos um reino, deu-vos vida imortal, glória, fraternidade, adoção. Fez-vos co-herdeira com Seu Unigênito. E depois de tão grandes benefícios ainda vos lembrais de vosso marido? Que coisa desse gênero ele vos concedeu? Ele fez brilhar Seu sol, deu a chuva, sustenta-vos com o alimento anual. Ai de nós pela nossa grande ingratidão!
Por esta razão Ele toma vosso marido, para que não o busqueis. Mas ainda vos apegais a ele, ainda que partido, e abandonais a Deus, quando vosso dever era dar graças, lançando tudo sobre Ele? Pois que é o que recebestes de vosso marido? As dores do parto, e trabalhos, e insultos e reprovações frequentes, e repreensões, e explosões de ira. Não são estas as coisas que vêm dos maridos? Mas há, dizeis vós, outras coisas também que são boas. De que espécie são elas, então? Realçou ele vossa beleza com vestes custosas? Pôs ornamentos de ouro em vosso rosto? Fez-vos respeitada por todos? Mas, se quiserdes, vos ornareis com um ornamento muito melhor que o do falecido. Pois a gravidade torna seu possuidor muito mais admirável que os ornamentos de ouro. Este Rei também tem vestes, não desta espécie, mas muito melhores. Com estas, se quiserdes, revesti-vos. De que espécie são elas, então? Há um vestido que tem franjas de ouro; se quiserdes, ataviai a alma. Mas fez-vos ele não ser desprezada pelos homens? E que há de grande nisso? Vossa viuvez não vos permite ser desprezada pelos demônios. Então governáveis vossos servos, se ao menos de algum modo os governáveis. Mas agora, em lugar de vossos servos, tendes domínio sobre potestades incorpóreas, principados, autoridades, o príncipe deste mundo. E não mencionais as tribulações em que com ele partilháveis, ora o temor dos magistrados, ora a preferência dada aos vizinhos. De todas estas coisas estais agora livre, do pavor e do medo. Mas estais solícita quanto a quem sustentará os filhos que vos restam? O Pai dos órfãos. Pois dizei-me, quem os deu? Não ouvis a Cristo dizendo nos Evangelhos: Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que a veste? Mt 6,25
Vedes que a vossa lamentação não provém da perda da companhia dele, mas da falta de fé. Ora, os filhos de um pai morto não são todos igualmente ilustres. Por que razão? Eles têm a Deus por Pai, e não são ilustres? Quantos poderia eu mostrar-vos, criados por viúvas, que se tornaram célebres; e quantos, tendo tido pais, se perderam! Pois, se os criardes desde a primeira juventude como devem ser criados, gozarão de uma vantagem muito maior do que a proteção paterna. Que este é o ofício das viúvas — falo da criação dos filhos —, ouvi Paulo dizendo: *Se criou filhos* (1 Tm 5:10); e ainda: *Será salva pela maternidade* (não disse "pelo marido"), *se permanecerem na fé, no amor e na santificação, com sobriedade* (1 Tm 2:15). Incuti neles o temor de Deus desde a primeira juventude, e Ele os protegerá melhor do que qualquer pai; este será um muro que não se pode quebrar. Pois, quando há uma guarda assentada por dentro, não necessitamos de artifícios por fora; mas onde ela não está, todos os nossos artifícios exteriores são vãos.
Isto lhes será riqueza, e glória, e também ornamento. Isto os fará ilustres, não sobre a terra, mas até no céu. Pois não olheis para aqueles que se cingem de cinturões de ouro, nem para os que são levados a cavalo, nem para os que resplandecem nos palácios dos reis por causa de seus pais, nem para os que têm criados e preceptores a segui-los. Estas coisas, talvez, façam as viúvas chorarem sobre seus órfãos, pensando que este meu filho também, se ao menos seu pai vivesse, teria gozado de tanta felicidade; mas agora está em estado de abatimento e de desonra, e não merece nenhuma consideração. Não penseis nessas coisas, ó mulher, mas abri diante de vós, em pensamento, as portas do céu; considerai o palácio que ali está; contemplai o Rei que ali está assentado. Considerai se aqueles que estão sobre a terra podem ser mais ilustres do que o vosso filho ali — e então gemei. Mas, se alguns têm boa reputação na terra, isto não merece nenhuma consideração. É-lhe permitido, se quiserdes, ser soldado no céu, alistá-lo nas fileiras daquele exército. Pois os que ali estão alistados não são levados a cavalo, mas nas nuvens. Não caminham sobre a terra, mas são arrebatados ao céu. Não têm servos que os precedam, mas os próprios Anjos. Não se apresentam diante de um rei mortal, mas diante d'Aquele que é imortal, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Não têm um cinturão de couro em torno dos lombos, mas aquela glória que é inefável, e são mais esplêndidos do que os reis, ou os que mais ilustres tenham sido. Pois naquelas cortes régias não se requer riqueza, nem nobreza de nascimento, senão a virtude somente; e onde esta se acha presente, nada falta para se obter o primeiro lugar.
Nada nos é penoso, se estamos dispostos a cultivar a sabedoria. Erguei os olhos ao céu, e vede quão mais esplêndido ele é do que os tetos dos palácios. E se o pavimento dos palácios de cima é tanto mais grandioso do que o dos de baixo, que este pode ser considerado como lama em comparação com aquele; se alguém fosse julgado digno de ver aqueles palácios perfeitamente, que bem-aventurança não seria a sua!
Mas ela, diz, a que é verdadeiramente viúva e desolada, tem sua esperança posta em Deus (1 Tm 5:5). A quem se diz isto? Àquelas que não têm filhos, porque são mais aprovadas e têm maior ocasião de agradar a Deus, visto que todas as suas cadeias lhes são desatadas. Não há quem as retenha presas, não há quem as obrigue a arrastar consigo os seus grilhões. Estás separada de teu marido, mas estás unida a Deus. Não tens por companheiro um consservo, mas tens o teu Senhor. Quando oras, dize-me, não conversas tu com Deus? Quando lês, ouve-O conversando contigo. E que te diz Ele? Palavras muito mais benignas que as de teu marido. Pois ainda que teu marido te lisonjeasse, a honra não seria grande, porquanto é ele teu consservo. Mas quando o Senhor corteja a serva, então sim é grande o cortejo. Como, pois, nos corteja Ele? Ouve por que meios o faz. Vinde a Mim, diz Ele, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei (Mt 11:28). E de novo, pelo profeta, clama, dizendo: Acaso esquecerá a mulher o filho de seu ventre, de sorte que não se compadeça dele? Mas ainda que a mulher se esqueça, Eu, contudo, não Me esquecerei de ti, diz o Senhor (Is 49:15, Septuaginta). De quão grande amor são estas palavras? E ainda: Voltai-vos para Mim (Is 45:22); e ainda noutro lugar: Voltai-vos para Mim, e sereis salvos (Is 45:22). E se alguém quisesse também escolher palavras do Cântico dos Cânticos, tomando-as no sentido mais místico, ouvi-lo-á conversando e dizendo a toda alma que Lhe é própria: Minha formosa, minha pomba (Ct 2:10). Que há de mais doce que estas palavras? Vedes a conversação de Deus com os homens? Mas quê? Dizei-me, não vedes quantos filhos daquelas bem-aventuradas mulheres já se foram e jazem em seus túmulos; quantas sofreram ainda mais gravemente, e com seus maridos perderam também seus filhos? A estas coisas atentemos; destas coisas nos preocupemos, e nada nos será penoso, mas passaremos todo o nosso tempo em contínuo gozo espiritual; e havemos de fruir dos bens eternos, dos quais possamos todos ser participantes, pela graça e benignidade, etc.
E dizes tu: Como é possível que alguém humano não se lamente? ... Não digas, pois: "Ele pereceu e não mais existirá"; pois estas são palavras de incrédulos; mas dize antes: "Ele dorme e há de ressuscitar", ou: "Partiu em viagem e há de voltar com o Rei." Quem fala assim? Aquele que tem Cristo falando dentro de si. "Porque", diz Paulo, "se cremos que Jesus morreu e ressuscitou", e reviveu, "assim também Deus, com Ele, trará os que dormem em Jesus." Se, pois, buscas o teu filho, busca-o onde está o Rei, onde está o exército dos anjos; não na sepultura, não na terra; para que, estando ele tão altamente exaltado, não permaneças tu mesmo prostrado no chão.
Se, porém, estivermos vigilantes, estes males que entraram na vida em consequência dos pecados de nossos antepassados de modo algum poderão prejudicar-nos, não indo além do plano da terminologia, como de fato ocorre. Ainda que tenha sido o primeiro homem formado quem, pela Queda, trouxe sobre si a punição da morte e foi responsável por passar a vida em dor e angústia, e foi ele a causa da servidão, Cristo o Senhor, ao contrário, veio e permitiu que todos estes males ocorressem apenas no plano da terminologia, contanto que estejamos de sã mente. Vede: a morte agora não é morte, mas apenas carrega o nome de morte — ou antes, até mesmo o próprio nome foi abolido. Quero dizer, já não a chamamos morte, mas sono e sonho. Por isso o próprio Cristo disse: "Nosso amigo Lázaro dorme." E Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, disse: "Quanto aos que dormem, irmãos, não quero que sejais ignorantes."
Onde estão os que negam a Carne? Pois, se Ele não assumiu a Carne, tampouco morreu. Se não morreu, tampouco ressuscitou. Como então nos exorta, a partir destas coisas, à fé? Não seria ele, então, segundo estes, um trapaceiro e um enganador? Pois, se o morrer procede do pecado, e Cristo não pecou, como agora nos encoraja? E de quem, ora, ele fala, dizendo: Ó homens, por quem chorais? Por quem vos entristeceis? Por pecadores, ou simplesmente por aqueles que morrem? E por que diz: Como os demais, que não têm esperança? Por quem choram os demais? De modo que, para eles, todas estas coisas são vãs. O primogênito dentre os mortos (Cl 1,18), diz ele, as primícias. Logo, é necessário que haja também outros que restem. E vede como aqui ele nada introduz por meio de raciocínios, porque eram dóceis. Pois, escrevendo aos coríntios, partiu também, em muitas coisas, de raciocínios, e depois acrescentou: Insensato, o que semeias não é vivificado (1 Cor 15,36). Pois isto é mais autoritativo, mas é quando conversa com o crente. Mas para com aquele que está de fora, que autoridade teria isto? Ainda assim, diz ele, também aos que adormeceram em Jesus, Deus os trará consigo. Novamente, adormeceram: em nenhum lugar diz os mortos. Mas a respeito de Cristo, suas palavras são: Ele morreu, porque se seguia a menção da Ressurreição; mas aqui, os que adormeceram. Como através de Jesus? Ou porque adormeceram através de Jesus, ou porque através de Jesus Ele os trará. A expressão que adormeceram através de Jesus significa os fiéis. Aqui os hereges dizem que ele fala dos batizados. Que lugar haveria, então, para o ainda assim? Pois Jesus não adormeceu através do Batismo. Mas por que razão diz: os que adormeceram? De modo que discorre não sobre uma ressurreição geral, mas sobre uma parcial. Os que adormeceram através de Jesus, diz ele, e assim fala em muitos lugares.
Os Profetas, na verdade, desejando mostrar a credibilidade das coisas ditas por eles, antes de todas as outras coisas dizem isto: A visão que Isaías viu (Is 1,1); e novamente: A palavra do Senhor que veio a Jeremias (Jr 1,1, Septuaginta); e novamente: Assim diz o Senhor; com muitas expressões semelhantes. E muitos deles até viram Deus sentado, tanto quanto lhes era possível vê-Lo. Mas Paulo, não O tendo visto sentado, mas tendo Cristo falando em si mesmo, em vez de Assim diz o Senhor, disse: Buscais prova de que Cristo fala em mim? (2 Cor 13,3). E novamente: Paulo, apóstolo de Jesus Cristo. Pois o Apóstolo fala as coisas daquele que o enviou, mostrando que nada é de si mesmo. E novamente: Penso que também eu tenho o Espírito de Deus (1 Cor 7,40). Todas estas coisas, pois, ele as disse pelo Espírito, mas isto, que agora diz, ele o ouviu de modo expresso do próprio Deus. Assim como também aquilo que dissera, discorrendo aos anciãos de Éfeso, Mais bendito é dar do que receber, ele o ouviu entre coisas não registradas (At 20,35).
Vejamos, então, o que ele agora também diz. Pois isto vos dizemos pela palavra do Senhor: que nós, os que estamos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que adormeceram. Porque o próprio Senhor descerá do céu com brado de comando, com voz de Arcanjo e com a última trombeta. Pois então, diz ele, As potências dos céus serão abaladas (Mt 24,29). Mas por que com a trombeta? Pois vemos isto também no Monte Sinai, e anjos também ali. Mas o que significa a voz do Arcanjo? Como disse na parábola das Virgens: Levantai-vos! O Esposo vem (cf. Mt 25,6). Ou significa isto, ou que, como no caso de um rei, assim também será então: anjos ministrando na Ressurreição. Pois Ele diz: que os mortos ressuscitem, e a obra está feita, não tendo os anjos poder para fazer isto, mas a Sua palavra. Como se, ao ordenar um rei e dizê-lo, aqueles que estavam encerrados saíssem, e os servos os conduzissem para fora, contudo estes o fazem não por seu próprio poder, mas por aquela Voz. Isto também diz Cristo em outro lugar: Ele enviará os Seus anjos com grande trombeta, e eles reunirão os Seus eleitos dos quatro ventos, de uma extremidade do céu à outra (Mt 24,31). E em toda parte vedes os anjos correndo de um lado para outro. O Arcanjo, penso eu, é, portanto, aquele que está posto sobre os que são enviados, e que clama assim: Preparai-vos todos, pois o Juiz está próximo. E o que é na última trombeta? Aqui ele implica que há muitas trombetas, e que na última o Juiz desce. E os mortos, diz ele, em Cristo ressuscitarão primeiro. Então nós, os que estamos vivos, os que ficarmos, juntamente com eles seremos arrebatados nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares: e assim estaremos para sempre com o Senhor.
Falando a respeito dos fiéis, e daqueles que dormiram em Cristo (1 Cor 15:18); e novamente, os mortos ressuscitarão em Cristo. Uma vez que seu discurso não versa unicamente sobre a Ressurreição, mas tanto sobre a Ressurreição quanto sobre a honra na glória — todos, com efeito, participarão de uma ressurreição, diz ele, mas nem todos estarão na glória, senão apenas aqueles que estão em Cristo. Querendo, pois, consolá-los, ele os consola não apenas com isto, mas também com a abundante honra, e com sua rápida chegada, visto que eles já o sabiam. Pois, em prova de que deseja consolá-los com a honra, prossegue e diz: E estaremos para sempre com o Senhor; e seremos arrebatados nas nuvens.
Mas como dormem os fiéis em Jesus? Significa ter Cristo dentro de si mesmos. Já a expressão Ele os trará consigo mostra que são trazidos de muitos lugares. Isto era algo estranho que ele estava prestes a lhes dizer. Por essa razão acrescenta também o que o torna digno de crédito: Pela palavra do Senhor, diz ele, isto é, não falamos por nós mesmos, mas tendo aprendido de Cristo, Que nós, os que estamos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormiram. O que também diz em sua Epístola aos Coríntios: Num momento, num abrir e fechar de olhos (1 Cor 15:52). Aqui ele confere credibilidade à Ressurreição também pelo modo [em que se dará].
Pois, como a questão parece difícil, ele diz que, assim como é fácil aos vivos serem arrebatados, também o é aos que partiram. Mas ao dizer nós, não fala de si mesmo, pois não estava destinado a permanecer até a Ressurreição, mas fala dos fiéis. Por essa razão acrescentou: Nós, os que ficarmos até a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormiram. Como se dissesse: Não penseis que há qualquer dificuldade. É Deus quem o faz. Aqueles que então estiverem vivos não anteciparão aos que estão dissolvidos, que estão apodrecidos, que estão mortos há dez mil anos. Mas assim como é fácil trazer os que estão íntegros, também o é trazer os que estão dissolvidos.
Há, porém, alguns que não creem nisto, porque não conhecem a Deus. Pois, dizei-me, qual é mais fácil: trazer alguém à existência a partir do nada, ou ressuscitar de novo aquele que se dissolveu? Mas o que dizem eles? Certo homem naufragou e afogou-se no mar, e, tendo caído, muitos peixes o apanharam, e cada peixe devorou algum membro. Depois, destes mesmos peixes, um foi apanhado neste golfo, e outro naquele, e este foi comido por um homem, e aquele por outro, contendo em si os pedaços devorados da carne. E, novamente, aqueles que comeram os peixes que haviam devorado o homem morreram em lugares diferentes, e foram eles próprios talvez devorados por feras selvagens. E — havendo tamanha confusão e dispersão — como ressuscitará o homem? Quem recolherá o pó? Mas por que dizeis isto, ó homem, e teceis fiações de ninharias, e fazeis disso motivo de perplexidade? Pois dizei-me: se o homem não tivesse caído no mar, se o peixe não o tivesse comido, nem o peixe, por sua vez, tivesse sido devorado por inúmeros homens — mas ele tivesse sido preservado com cuidado num caixão, e nem os vermes nem qualquer outra coisa o houvessem perturbado — como ressuscitaria o que está dissolvido? Como se reconglutinariam de novo o pó e as cinzas? De onde viria ao corpo de novo o seu viço? Mas não é isto também uma dificuldade?
Se, portanto, forem gregos os que suscitam estas dúvidas, teremos inumeráveis coisas a dizer-lhes. Que dizer, pois? Há entre eles os que fazem passar almas para plantas, e arbustos, e cães. Dize-me, que é mais fácil: retomar o próprio corpo, ou o de outrem? Outros ainda dizem que são consumidos pelo fogo, e que há ressurreição de vestes e de calçados, e não são ridicularizados. Outros falam de átomos. Com estes, todavia, não temos argumento algum; mas aos fiéis (se é que devemos chamar fiéis aos que suscitam tais questões) diremos ainda o que disse o Apóstolo, que toda vida brota da corrupção, todas as plantas, todas as sementes. Não vês a figueira, que tronco possui, que ramos, quantas folhas, e galhos, hastes e raízes, ocupando tanto terreno e nele se aninhando? Ora, esta, tal e tão grande como é, brota do grão que foi lançado à terra e ele mesmo primeiro se corrompeu. E se não se apodrecer e dissolver, nada disto haverá. Dize-me, donde provém isto? E a videira também, que é tão bela de ver quanto de saborear, brota daquilo que é vil em aparência. E que é, dize-me, a água que desce do alto, senão uma só coisa? Como se transforma em tantas coisas? Pois isto é mais admirável que a Ressurreição. Porque ali, com efeito, é a mesma semente e a mesma planta o sujeito, e há grande afinidade. Mas aqui, dize-me como, tendo uma só qualidade e uma só natureza, ela se converte em tantas coisas? Na videira torna-se vinho, e não somente vinho, mas folhas e seiva. Pois não só o cacho de uvas, mas o resto da videira é por ela nutrido. De novo, na oliveira torna-se azeite, e as demais tantas coisas. E o que é admirável, aqui é úmida, ali seca, aqui doce ali azeda, aqui adstringente, alhures amarga. Dize-me como se converte em tantas coisas? Mostra-me a razão! Mas não podes.
E no teu próprio caso, dize-me, pois isto vem mais próximo, esta semente que é depositada, como é formada e moldada em tantas coisas? Como em olhos? Como em ouvidos? Como em mãos? Como em coração? Não há no corpo dez mil diferenças de figuras, de tamanhos, de qualidades, de posições, de potências, de proporções? Nervos e veias e carne e ossos e membranas, e artérias e articulações e cartilagens, e tantas outras coisas além destas, quantas os filhos dos médicos precisamente especificam, que compõem nossa natureza — e estas provêm daquela única semente! Não te parece isto, pois, muito mais difícil que aquelas coisas? Como se coagula o úmido e mole no seco e frio, isto é, no osso? Como no quente e úmido, que se unem no sangue? Como no frio e mole, no nervo? Como no frio e úmido, na artéria? Dize-me, donde provêm estas coisas? Não estás de todo perplexo acerca delas? Não vês todos os dias uma ressurreição e uma morte acontecendo nos períodos de nossa vida? Para onde foi nossa juventude? Donde vem nossa velhice? Como é que aquele que envelheceu não pode, na verdade, fazer-se a si mesmo jovem, mas gera outro, uma criancinha bem jovem, e o que não pode dar a si mesmo, isso concede a outrem?
Também isto podemos ver nas árvores e nos animais. E, contudo, aquilo que dá a outrem deveria primeiro dotar-se a si mesmo. Mas isto é o que o raciocínio humano exige. Quando, porém, Deus cria, cedam todas as coisas. Se estas coisas são tão difíceis, antes, tão excessivamente difíceis, lembro-me daqueles insensatos que se mostram curiosos acerca da incorpórea Geração do Filho. Coisas que se dão todos os dias, que estão ao alcance de nossas mãos, e que já foram indagadas dez mil vezes, ninguém ainda pôde descobrir; dizei-me, pois, como é que se mostram curiosos acerca daquela secreta e inefável Geração? Não se cansa a mente de tais homens ao pisar aquele vazio? Não foi ela arremessada em dez mil vertigens? Não fica ela estupefata? E, contudo, nem assim se instruem. Quando nada podem dizer acerca das uvas e dos figos, mostram-se curiosos acerca de Deus! Dizei-me, pois, como se resolve aquele caroço da uva em folhas e sarmentos? Como, antes disto, não estavam eles nele, nem nele se viam? Mas não é o caroço da uva, dizeis, senão que tudo provém da terra. Então como é que, sem isto, a terra nada produz de si mesma? Mas não sejamos vazios de entendimento. O que se dá não provém nem da terra, nem do caroço da uva, mas Daquele que é Senhor tanto da terra quanto de suas sementes. Por esta razão fez Ele com que a mesma coisa se desse tanto sem eles quanto com eles. Primeiramente, mostrando o Seu próprio poder, quando disse: Produza a terra erva verde (Gn 1,11). E, em segundo lugar, além de mostrar o Seu poder, instruindo-nos também a sermos laboriosos e diligentes.
Por que, pois, dissemos nós estas coisas? Não em vão, mas para que também creiamos na Ressurreição, e para que, quando de novo quisermos apreender algo por nossos raciocínios e não o encontrarmos, não nos irritemos nem nos ofendamos, mas, recuando discretamente e refreando o nosso raciocínio, busquemos refúgio no poder e na sabedoria de Deus. Sabendo, pois, estas coisas, ponhamos um freio em nossos raciocínios. Não transgridamos os nossos limites, nem as medidas que foram atribuídas ao nosso conhecimento. Pois, Se alguém, diz ele, pensa saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber (1 Cor 8,2).
Falo não a respeito de Deus, diz ele, mas a respeito de todas as coisas. Pois quê? Queres aprender acerca da terra? Que sabes tu? Dize-me. Qual é a sua medida? Qual é o seu tamanho? Qual é o seu modo de posição? Qual é a sua essência? Qual é o seu lugar? Onde ela se assenta, e sobre quê? Nenhuma destas coisas podes dizer? Mas que ela é fria, e seca, e escura, isto podes dizer — e nada mais além disso. De novo, a respeito do mar? Mas aí serás reduzido à mesma incerteza, não sabendo onde ele começa, e onde termina, e sobre que é sustentado, o que sustenta o seu fundo, e que espécie de lugar há para ele, e se depois dele há um continente, ou se ele termina em água e ar. E que sabes tu das coisas que nele estão? Mas que digo? Deixemos de lado os elementos. Queres que escolhamos a menor das plantas? A erva infrutífera, coisa que todos nós conhecemos, dize-me, como é ela produzida? Não é a sua matéria água, e terra, e esterco? Que é que a faz parecer tão bela, e ter tão admirável cor? De onde essa beleza assim se desvanece? Isto não é obra da água, nem da terra. Vês que em toda parte há necessidade de fé? Como produz a terra, como ela padece as dores do parto? Dize-me. Mas nenhuma destas coisas me podes dizer.
Instrui-te, ó homem, nas coisas que estão aqui embaixo, e não sejas curioso nem intrometido acerca do céu. E prouvera fosse do céu, e não do Senhor do céu! Não conheces a terra da qual foste tirado, na qual foste nutrido, que habitas, sobre a qual andas, sem a qual nem sequer podes respirar; e és curioso acerca de coisas tão remotas? Verdadeiramente o homem é vaidade (Sl 39,5 e 144,4). E se alguém te ordenasse descer ao abismo, e perscrutar as coisas que estão no fundo do mar, não tolerarias tal ordem. Mas, quando ninguém te obriga, estás disposto por ti mesmo a sondar o abismo insondável? Não faças isso, eu te suplico. Antes naveguemos para cima, não flutuando, pois em breve nos cansaremos e afundaremos; mas usando as divinas Escrituras como uma nau, desfraldemos as velas da fé. Se nelas navegarmos, então o Verbo de Deus estará conosco como nosso Piloto. Mas se flutuarmos sobre raciocínios humanos, não será assim. Pois a quem, dentre os que flutuam, está presente um piloto? De modo que o perigo é duplo, tanto por não haver nau, quanto por estar ausente o Piloto. Pois se mesmo o barco sem piloto é inseguro, quando ambos faltam, que esperança há de salvação? Não nos lancemos, pois, a um perigo manifesto, mas sigamos em nau segura, tendo-nos atado à âncora sagrada. Pois assim navegaremos para o porto tranquilo, com muita mercadoria, e ao mesmo tempo com grande segurança, e alcançaremos os bens reservados para os que O amam, em Cristo Jesus nosso Senhor, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Se Ele há de descer, por que motivo seremos nós arrebatados? Por causa da honra. Pois quando um rei entra numa cidade, os que estão em honra saem ao seu encontro; mas os condenados aguardam o juiz no interior. E, à chegada de um pai afetuoso, seus filhos, e aqueles que são dignos de ser seus filhos, são conduzidos num carro para que o vejam e o beijem; mas os administradores da casa que o ofenderam permanecem dentro. Nós somos conduzidos no carro de nosso Pai. Pois Ele o recebeu nas nuvens, e "seremos arrebatados nas nuvens". Vedes quão grande é a honra? E, à medida que Ele desce, saímos ao Seu encontro, e — o que é mais bem-aventurado que tudo — assim estaremos com Ele para sempre.
Se Ele há de descer, por que motivo seremos arrebatados? Por causa da honra. Pois quando um rei entra numa cidade, os que estão em honra saem ao seu encontro; mas os condenados aguardam o juiz lá dentro. E à vinda de um pai afetuoso, seus filhos, sim, e aqueles que são dignos de ser seus filhos, são levados numa carruagem, para que o vejam e o beijem; mas os servos que o ofenderam permanecem dentro. Nós somos levados sobre a carruagem de nosso Pai. Pois Ele o recebeu nas nuvens, e nós seremos arrebatados nas nuvens (At 1:9). Vede quão grande é a honra? E, à medida que Ele desce, nós saímos ao Seu encontro, e — o que é mais bem-aventurado do que tudo — assim estaremos sempre com Ele.
Quem falará das grandes proezas do Senhor, e fará ouvir todos os Seus louvores? (Sl 106:2, Septuaginta). Quantas bênçãos Ele concedeu à raça humana! Os que estão mortos são ressuscitados primeiro, e assim o encontro se dá em conjunto. Abel, que morreu antes de todos, então se encontrará com Ele juntamente com os que estiverem vivos. De modo que estes, nesse respeito, não terão nenhuma vantagem, mas aquele que se corrompeu, e esteve tantos anos na terra, encontrar-se-á com Ele juntamente com eles, e assim todos os demais. Pois, se eles nos aguardaram, para que fôssemos coroados, como diz em outro lugar numa Epístola, tendo Deus provido alguma coisa melhor a nosso respeito, para que, sem nós, não fossem eles aperfeiçoados (Hb 11:40), muito mais nós também os aguardaremos; ou antes, eles, na verdade, aguardaram, mas nós de modo algum. Pois a Ressurreição se dá num momento, num abrir e fechar de olhos.
Mas quanto ao que se diz, que são reunidos em conjunto: eles ressuscitam, na verdade, em toda parte, mas são reunidos pelos Anjos. Aquilo, pois, é obra do poder de Deus, que ordena à terra que restitua o seu depósito, e não há ninguém que ali ministre, como quando Ele então chamou a Lázaro: Lázaro, sai para fora (Jo 11:43); mas a reunião é obra dos ministros. Ora, se são os Anjos que os reúnem, e correm de um lado a outro, como são eles arrebatados aqui? São arrebatados depois da descida, depois de terem sido reunidos.
Pois isto também se faz sem que ninguém disso se dê conta. Pois quando virem a terra agitada, o pó a se misturar, os corpos a se erguerem talvez por toda parte, ninguém ali ministrando, mas bastando o brado, a terra inteira preenchida (pois considerai quão grande coisa é que todos os homens, desde Adão até a Sua vinda, hão de então estar em pé com esposas e filhos) — quando virem tamanho tumulto sobre a terra — então saberão. Assim, pois, como na Dispensação que se deu na Carne nada disto haviam previsto, assim também será então.
Feitas, pois, estas coisas, dar-se-á também a voz do Arcanjo, bradando e ordenando aos Anjos, e as trombetas, ou antes, o som da trombeta. Que tremor, então, que temor se apoderará dos que permanecerem sobre a terra! Pois uma mulher é arrebatada e outra é deixada, e um homem é tomado, e outro é deixado (Mt 24:40-41; Lc 17:34-35). Qual será o estado de suas almas, quando virem uns arrebatados, e a si mesmos deixados para trás? Não poderão estas coisas abalar suas almas mais terrivelmente do que qualquer inferno? Representemos, pois, em palavras, que isto se dá agora mesmo. Porquanto, se a morte súbita, ou os terremotos nas cidades, e ameaças assim nos aterram as almas; quando virmos a terra a fender-se, e apinhada de todos estes, quando ouvirmos as trombetas, e a voz do Arcanjo mais forte que qualquer trombeta, quando percebermos o céu a encolher-se como pergaminho, e o próprio Deus, Rei de todos, a aproximar-se — que será então de nossas almas? Estremeçamos, rogo-vos, e amedrontemo-nos como se estas coisas se dessem agora mesmo. Não nos consolemos com a demora. Pois, quando algo há de suceder infalivelmente, a demora em nada nos aproveita.
Quão grande será, então, o temor e o tremor! Já vistes alguma vez homens conduzidos à morte? Que pensais ser o estado de suas almas, enquanto vão a caminho do portão? Não é pior do que muitas mortes? Que não escolheriam eles fazer e sofrer, contanto que se livrassem daquela nuvem de trevas? Ouvi dizer a muitos, que foram reconduzidos pela misericórdia do rei (Imperador) depois de já terem sido levados, que nem sequer viam os homens como homens, tão perturbadas estavam suas almas, tão horrorizadas e fora de si. Se, pois, a morte do corpo assim nos aterra, quando a morte eterna se aproximar, quais serão os nossos sentimentos? E por que falo dos que são levados? Uma multidão então os rodeia, a maior parte nem sequer os conhecendo. Se alguém olhasse dentro de suas almas, ninguém é tão cruel, ninguém tão empedernido, ninguém tão firme, que não tenha a alma abatida, e relaxada de temor e desespero. E se, quando outros são arrebatados por esta morte, que em nada difere do sono, os que não estão implicados nela assim se afetam; quando nós mesmos caíssemos em males maiores, qual seria então o nosso estado? Não é, crede-me, não é possível representar por palavras tal sofrimento.
Mas não, dizeis vós, Deus é cheio de amor para com o homem, e nenhuma destas coisas há de suceder! Então está escrito em vão! Não, dizeis, mas apenas como ameaça, para que nos tornemos sábios! Se, pois, não formos sábios, mas persistirmos no mal, não nos infligirá Ele, dizei-me, o castigo? Não recompensará Ele, então, também aos bons com galardões? Sim, dizeis, pois isso Lhe é próprio, fazer o bem até além do merecimento. De sorte que aquelas coisas são, de fato, verdadeiras e hão de certamente suceder, ao passo que os castigos não se darão de modo algum, sendo apenas para efeito de ameaça e de terror! Por que meio hei de persuadir-vos, não sei. Se digo que o verme não morrerá, e o fogo não se apagará (Mc 9:44); se digo que irão para o fogo eterno (Mt 25:41-46); se vos ponho diante o rico já sofrendo o castigo, direis que tudo isso é mero recurso de ameaça. De onde, pois, hei de persuadir-vos? Pois este é um raciocínio satânico, que vos concede um favor que em nada aproveita, e vos torna indolentes.
John Crisóstomo, Homilia sobre Mateus 76 (ou trecho correspondente)
Como, pois, poderemos afugentá-la? Tudo o que dissermos a partir da Escritura, direis vós, é feito com o propósito de ameaçar. Mas, quanto às coisas futuras, isso até poderia ser dito; não, porém, no que concerne às coisas que já aconteceram e já tiveram fim. Ouvistes falar do dilúvio. E foram também aquelas coisas ditas a título de ameaça? Não se realizaram elas, de fato? Também aqueles homens diziam muitas coisas semelhantes, e por cem anos, enquanto a arca se construía, e a madeira se lavrava, e o justo clamava em alta voz, não houve quem cresse. Mas, porque não creram na ameaça pronunciada por palavras, sofreram o castigo em obra bem real. E esta será também a nossa sorte, se não houvermos crido. Por isso é que Ele compara a sua vinda com os dias de Noé, porque, assim como alguns descreram naquele dilúvio, também descrerão neste dilúvio do inferno. Foram estas coisas uma ameaça? Não foram, antes, um fato? Não infligirá Ele, pois, muito mais agora também o castigo, Ele que então o trouxe sobre eles tão subitamente? Pois as coisas que se cometem agora não são menores que as ofensas daquele tempo. Como assim? — Porque então, diz a Escritura, os filhos de Deus entraram às filhas dos homens (Gn 6:4), e aquelas misturas foram a grande ofensa. Mas agora não há forma alguma de maldade que não se haja tentado. Credes vós, pois, que o dilúvio se deu? Ou vos parece uma fábula? E, no entanto, até os montes onde a arca repousou dão testemunho; falo daqueles que estão na Armênia.
Mas, ainda mais abundantemente, voltarei o meu discurso para outra coisa mais evidente do que essa. Alguém dentre vós já viajou pela Palestina? Pois não mais mencionarei relato, mas fatos — e, contudo, aquele outro era mais claro do que os fatos. Porque tudo quanto a Escritura diz é mais digno de fé do que as coisas que vemos. Alguém dentre vós, pois, já viajou pela Palestina? Suponho que sim. Que digo então? Dai-me, pois, testemunho — vós que vistes os lugares — diante daqueles que lá não estiveram. Pois, acima de Ascalão e de Gaza, até ao extremo do rio Jordão, há uma terra vasta e fecunda — ou antes, havia, pois já não o é. Esta, pois, é aquela que era como um jardim. Porquanto está escrito: Ló contemplou toda a planície do Jordão, e era bem regada por toda parte, como o jardim do Senhor (Gn 13:10). Esta, portanto, que era tão florescente, e que rivalizava com todas as terras, que em fertilidade excedia o Paraíso de Deus, é agora mais desolada do que qualquer deserto. E ali se erguem árvores, sim, e dão fruto. Mas o fruto é um monumento da ira de Deus. Pois ali se erguem romãzeiras — falo tanto da árvore quanto do fruto — de aparência muito bela, e que ao homem ignorante oferecem grandes esperanças. Mas, se são tomadas na mão, uma vez abertas, não mostram fruto algum, mas muito pó e cinzas ali guardados. Tal é também toda a terra. Se encontrardes uma pedra, encontrá-la-eis cheia de cinzas. E por que falo de pedra, e de madeira, e de terra, quando o próprio ar e a própria água participam da calamidade? Pois assim como, quando um corpo é queimado e consumido, permanece a forma, e o contorno na aparência do fogo, e o volume e a proporção, mas a força já não existe mais, assim verdadeiramente ali podeis ver terra que, contudo, nada tem de terra, mas é toda cinza; árvores e frutos que nada têm de árvores e de frutos; ar e água que nada têm de água nem de ar, pois também estes se converteram em cinza. E, contudo, como poderia jamais o ar ter sido queimado, ou a água, permanecendo água? Pois madeira e pedras, na verdade, é possível queimar, mas ar e água é de todo impossível. Impossível para nós, mas possível para Aquele que fez estas coisas. Portanto o ar não é senão uma fornalha, a água é uma fornalha. Todas as coisas são infrutíferas, todas improdutivas, todas para vingança; imagens da ira que já se cumpriu, e provas da que há de vir.
Não são estas também palavras meramente ameaçadoras? São elas apenas o som de palavras? Pois a mim, na verdade, nem as coisas passadas eram incríveis, mas as coisas não vistas eram igualmente dignas de crédito quanto as coisas vistas. Mas ainda mesmo ao incrédulo estas bastam para produzir a fé. Se alguém não crê no inferno, considere Sodoma, reflita sobre Gomorra, a vingança que foi infligida, e que ainda permanece. Esta é a prova da eternidade do castigo. São estas coisas penosas? E não é penoso, quando dizes que não há inferno, mas que Deus apenas o ameaçou? Quando afrouxas as mãos do povo? És tu que, por não creres, me obrigas a dizer estas coisas; és tu que me arrastaste a estas palavras. Se cresses nas palavras de Cristo, eu não seria obrigado a trazer à luz os fatos para induzir a fé. Mas, uma vez que os evitaste, serás persuadido doravante, quer o queiras, quer não. Pois que tens tu a dizer acerca de Sodoma? Queres também saber a causa pela qual essas coisas então se deram? Foi um só pecado, grave e maldito por certo, mas um só. Os homens daquele tempo tinham paixão por rapazes, e por isso sofreram este castigo. Mas agora cometem-se dez mil pecados iguais, e ainda mais graves do que estes. Se Ele, que por um só pecado derramou tanta ira, e não atendeu nem à súplica de Abraão, nem tampouco a Ló, que habitava entre eles, o homem que, por honra a Seus servos, ofereceu as próprias filhas ao ultraje — poupará Ele, quando há tantos pecados? Estas coisas são, na verdade, ridículas, fúteis, ilusão e engano diabólico!
Queres que eu traga também outro exemplo? Certamente já ouviste falar de Faraó, rei dos egípcios; conheces, pois, também o castigo que ele sofreu, como, com toda a sua hoste, carros, cavalos e tudo, foi tragado no mar Eritreu. Queres ouvir também outros exemplos? Ele, talvez, era um homem ímpio — ou antes, não talvez, mas certamente era um homem ímpio. Queres ver também castigados aqueles que eram do número dos crentes, e que se apegavam a Deus, mas não eram de vida reta? Ouve Paulo dizendo: Nem cometamos fornicação, como alguns deles cometeram, e caíram num só dia vinte e três mil. Nem murmuremos, como alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Nem tentemos a Cristo, como alguns deles tentaram, e pereceram pelas serpentes (1 Cor 10,8-10). E se a fornicação, e se a murmuração tiveram tal poder, que não farão os nossos pecados?
Ora, se ainda não pagais a pena presente, não vos admireis. Pois eles não conheciam o inferno, e por isso foram visitados com castigos que lhes seguiam de perto os passos. Mas vós, quaisquer que sejam os pecados que cometais, ainda que escapeis à pena presente, pagareis por tudo Lá. Puniu Ele tão severamente aqueles que estavam quase no estado de crianças, e que não pecaram tão gravemente— e nos há de poupar a nós? Não seria razoável. Pois, se cometermos os mesmos pecados que eles, mereceremos castigo maior do que o deles. Por quê? Porque desfrutamos de mais graça. Mas quando nossas ofensas são numerosas, e mais hediondas que as deles, que vingança não sofreremos? Eles— e ninguém pense que digo isto admirando-os ou desculpando-os; longe disso: pois quando Deus pune, quem profere sentença contrária o faz por sugestão do diabo; digo isto, portanto, não os louvando nem os desculpando, mas mostrando a nossa própria maldade— eles, pois, embora murmurassem, contudo caminhavam por estrada de deserto: mas nós murmuramos ainda que tenhamos pátria, e estejamos em nossas próprias casas. Eles, embora cometessem fornicação, foi logo após saírem dos males do Egito, e mal haviam ouvido tal lei. Mas nós o fazemos, tendo já recebido de nossos antepassados a doutrina da salvação, de modo que somos merecedores de maior castigo.
Quereis ouvir também de outras coisas? Quais foram os seus sofrimentos na Palestina, fomes, pestilências, guerras, cativeiros sob os babilônios, e sob os assírios, e suas misérias sob os macedônios, e aquelas sob Adriano e Vespasiano? Tenho algo que desejo, amados, relatar-vos; não, não fujais! Ou antes vos direi outra coisa antes disso. Houve uma vez uma fome, diz a Escritura, e o rei caminhava sobre a muralha; então uma mulher veio a ele e proferiu estas palavras: Ó rei, esta mulher me disse: Assemos hoje o teu filho, e comamo-lo— amanhã o meu. E assamos e comemos, e agora ela não me dá o seu. Cf. 2 Reis 6:28. Que pode haver mais terrível que esta calamidade? Novamente, em outro lugar, diz o Profeta: As mãos das mulheres compassivas cozeram seus próprios filhos. Lamentações 4:10. Os judeus, então, sofreram tal castigo, e não haveremos nós de sofrer muito mais?
Quereis também ouvir outras calamidades que os atingiram? Lede a obra de Josefo, e conhecereis toda aquela tragédia, para que, porventura, possamos persuadir-vos, a partir destas coisas, de que há um inferno. Considerai, pois: se eles foram punidos, por que não somos nós punidos? Ou como seria razoável que não fôssemos agora punidos, nós que pecamos mais gravemente do que eles? Não é manifesto que isso se dá porque o castigo nos está reservado para depois? E, se vos aprouver, mostrar-vos-ei, na pessoa de cada um, como foram castigados. Caim matou o próprio irmão. Pecado horrendo, na verdade — quem o poderia negar? Mas ele sofreu castigo, e um castigo pesado, equivalente a dez mil mortes, pois preferiria ter morrido dez mil vezes. Ouvi-o dizer: Se me lançares fora da terra, e eu me esconder de tua face, será que todo aquele que me encontrar me matará (Gn 4:14, Septuaginta). Dizei-me, pois: não fazem ainda hoje muitos as mesmas coisas que ele fez? Pois quando não matais o vosso irmão segundo a carne, mas o vosso irmão espiritual, não fazeis a mesma coisa? Que importa que não seja pela espada? É por outro meio; quando, podendo aliviar-lhe a fome, o negligenciais. Que dizer então? Acaso ninguém hoje invejou o próprio irmão? Acaso ninguém o precipitou em perigos? Mas estes ainda não sofreram castigo, e contudo o sofrerão. Ora, se aquele que jamais ouvira as leis escritas, nem os profetas, nem vira grandes milagres, sofreu tão grande vingança, acaso aquele que fez as mesmas coisas por outro modo, e que não se tornou sábio por tantos exemplos, ficará impune? Onde está, pois, a justiça de Deus, e onde a Sua bondade?
De novo, certo homem, por haver colhido lenha no sábado, foi apedrejado, e, no entanto, este era um mandamento pequeno, e de menor peso que a circuncisão. Ora, aquele que colheu lenha no sábado foi apedrejado; mas aqueles que cometem amiúde dez mil coisas contrárias à Lei saíram impunes! Se, pois, não há inferno, onde está a Sua justiça, onde a Sua imparcialidade, que não faz acepção de pessoas? E, contudo, Ele lhes imputa muitas coisas semelhantes, por não terem observado o sábado.
De novo, um outro, Cármi, tendo furtado uma coisa consagrada ao anátema, foi apedrejado juntamente com toda a sua família. Que dizer então? Ninguém, desde então, cometeu sacrilégio? Saul, por sua vez, por ter poupado contra o mandamento de Deus, sofreu tamanho castigo. Ninguém, desde então, poupou? Oxalá assim fosse! Não nos temos nós, piores que as feras, devorado uns aos outros contra o mandamento de Deus, e, contudo, ninguém caiu em guerra? De novo, os filhos de Eli, por terem comido antes de se oferecer o incenso, sofreram, juntamente com seu pai, o mais severo castigo. Acaso nenhum pai, desde então, foi negligente para com os filhos? E não há filhos ímpios? Mas ninguém sofreu castigo. Onde, pois, o sofrerão, se não há inferno?
De novo, poder-se-iam enumerar inúmeros exemplos. Que direi? Ananias e Safira foram imediatamente castigados, porque haviam subtraído parte do que tinham oferecido. Ninguém, pois, desde então, se tornou culpado disto? Como é, então, que não sofreram o mesmo castigo?
Persuadimo-vos, pois, de que há um inferno, ou necessitais de mais exemplos? Procederemos, então, também às coisas não escritas, tais como as que agora sucedem na vida. Pois é necessário que recolhamos essa ideia de toda parte, para que não nos façamos mal a nós mesmos, comprazendo-nos em vão. Não vedes muitos visitados por calamidades, mutilados em seus corpos, padecendo infinitos trabalhos, enquanto outros gozam de boa reputação? Por que razão alguns sofrem castigo por assassínios, e outros não? Ouvi Paulo dizendo: "Os pecados de alguns homens são manifestos... e a outros seus pecados os seguem depois" (1 Tm 5,24). Quantos assassinos escaparam! Quantos violadores de sepulcros! Mas deixemos passar isso. Quantos não vedes visitados com os mais severos castigos? Uns foram entregues a uma longa enfermidade, outros a contínuos tormentos, e outros a inumeráveis outros males. Quando, pois, vires alguém culpado das mesmas coisas que estes, ou até muito piores — e contudo não padecer castigo algum —, não suspeitarás, ainda que contra a tua vontade, que há um inferno? Considera os que aqui, antes de ti, foram severamente castigados, pondera que Deus não faz acepção de pessoas, e que, tendo tu cometido inumeráveis iniquidades, não padeceste coisa semelhante, e terás a ideia do inferno. Pois Deus implantou em nós essa ideia de tal modo que ninguém jamais pode ignorá-la. Porque poetas e filósofos e fabulistas, e, em suma, todos os homens, filosofaram acerca da retribuição que ali há, e disseram que a maior parte é castigada no Hades. E, se essas coisas são fábulas, contudo o que nós recebemos não o é.
Não digo estas coisas por querer atemorizar-vos, nem por lançar um fardo sobre vossas almas, mas para as fazer sábias e para as tornar mais leves. Eu mesmo quisera também que não houvesse castigo — sim, eu mais do que todos os homens. E por que razão? Porque, enquanto cada um de vós teme por sua própria alma, a mim cabe responder também por este ofício no qual presido sobre vós. De sorte que, mais do que a ninguém, a mim é impossível escapar. Mas não pode ser que não haja castigo e inferno. Que posso fazer? Onde está, pois, dizem eles, a bondade de Deus para com os homens? Em muitos lugares. Mas sobre este assunto discorrerei antes noutra ocasião, para que não confundamos os discursos acerca do inferno. Entretanto, não deixeis escapar o que já ganhamos. Pois não é pequena vantagem estar persuadido acerca do inferno. Porque a recordação de tais discursos, como algum remédio amargo, poderá extirpar todo vício, se estiver constantemente assentada em vossa mente. Usemo-la, pois, para que, tendo um coração puro, sejamos assim julgados dignos de ver aquelas coisas que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração do homem. As quais possamos todos alcançar pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, etc.
Nada, ao que parece, é tão curioso, e tão propenso, por afeição, a perscrutar as coisas obscuras e ocultas, quanto a natureza dos homens. E isto costuma acontecer-lhe quando a mente está instável e em estado imperfeito. Pois as crianças mais simples nunca cessam de importunar suas amas, e preceptores, e pais, com suas frequentes perguntas, nas quais não há outra coisa senão: quando será isto? e quando será aquilo? E isto provém também de se viver na indulgência, e de nada se ter a fazer. Muitas coisas, portanto, nossa mente se apressa já a aprender e a compreender, mas sobretudo a respeito do período da consumação; e que maravilha há em sermos assim afetados, pois os próprios homens santos foram, mais que todos, afetados do mesmo modo? E antes da Paixão, os Apóstolos vêm e dizem a Cristo: Dize-nos, quando serão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda, e da consumação do século? (Mt 24,23) E depois da Paixão e da Ressurreição dentre os mortos, disseram-Lhe: Dize-nos, restauras Tu neste tempo o reino a Israel? (At 1,6) E não Lhe perguntaram nada com mais presteza do que isto.
Mas não foi assim depois, quando lhes fora concedido o Espírito Santo. Não somente eles mesmos não indagam, nem se queixam desta ignorância, como ainda reprimem os que padecem desta curiosidade intempestiva. Ouvi, por exemplo, o que diz agora o bem-aventurado Paulo: Mas quanto aos tempos e às estações, irmãos, não necessitais de que se vos escreva coisa alguma. Por que não disse ele que ninguém sabe? Por que não disse que isto não é revelado, dizendo antes: não necessitais de que se vos escreva? Porque, se assim dissesse, tê-los-ia mais entristecido, mas, falando deste modo, os consolou. Pois pela expressão não necessitais, como se fosse tanto supérfluo quanto inconveniente, ele os impede de indagar.
Pois dizei-me, que vantagem haveria? Suponhamos que o fim viesse depois de vinte, ou trinta, ou cem anos: que nos importa isto? Não é o fim da própria vida de cada um a consumação para cada indivíduo? Por que és curioso, e te afadigas com o fim geral? Mas o mesmo se passa conosco nisto como nas demais coisas. Pois, como nas outras coisas, deixando os nossos próprios cuidados privados, andamos ansiosos pelas coisas gerais, dizendo: fulano é fornicador, tal outro é adúltero, aquele roubou, este outro fez injúria; mas ninguém presta contas do que é seu, e cada um pensa em qualquer coisa antes que em seus próprios negócios privados; assim também aqui, cada um, omitindo pensar em seu próprio fim, anda ansioso por ouvir acerca da dissolução geral. Ora, que te importa isto? Pois se fizeres bom o teu próprio fim, nenhum dano sofrerás do outro, esteja ele longe ou esteja perto. Isto nada é para nós.
Por esta razão Cristo não o disse, porque não convinha. Como, dizes tu, não convinha? Aquele que também o ocultou sabe por que não convinha. Pois ouvi-O dizendo a seus Apóstolos: Não vos compete saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu em Seu próprio poder (At 1,7). Por que és curioso? Pedro, o chefe dos Apóstolos, e seus companheiros, ouviram isto dito, como que buscando coisas grandes demais para que as soubessem. É verdade, dizes tu; mas seria possível, deste modo, fechar a boca aos gregos. Como? Dizei-me. Porque eles dizem que este mundo é um deus; se soubéssemos o período de sua dissolução, ter-lhes-íamos fechado a boca. Ora, é isto o que lhes fechará a boca, saber quando será destruído, ou saber que será destruído? Dizei-lhes isto: que terá um fim. Se não crerem nisto, tampouco crerão naquilo outro.
Não ponhas tua confiança na tua juventude, nem penses que tens um termo muito fixo de vida, "pois o dia do Senhor vem como um ladrão de noite." Por esta razão Ele fez invisível o nosso fim, para que demonstrássemos claramente nossa diligência e previdência. Não vedes homens arrebatados prematuramente dia após dia? Por esta razão certo autor admoesta: "não te demores em converter-te ao Senhor, e não adies as coisas de dia em dia", para que, enquanto te demoras, não sejas destruído. Guarde o ancião esta admoestação; atente o jovem a este conselho. Com efeito, estás tu em segurança, e és rico, e abundas em riquezas, e nenhuma aflição te sobrevém? Ouve ainda assim o que diz Paulo: "quando disserem paz e segurança, então lhes sobrevém repentina destruição." As coisas mudam com frequência. Não somos senhores do nosso fim. Sejamos senhores da virtude. Nosso Mestre Cristo é misericordioso.
Ouvi Paulo dizer: *Vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá assim como o ladrão de noite*. Não somente o dia geral, mas também o de cada indivíduo. Pois um se assemelha ao outro, e com ele também se aparenta. Porque aquilo que o primeiro realiza coletivamente, o segundo o realiza parcialmente. Pois o período da consumação teve seu início a partir de Adão, e é então que se dá o fim da consumação; visto que, mesmo agora, não erraria quem a chamasse de consumação. Pois, quando dez mil morrem todos os dias, e todos aguardam Aquele Dia, e ninguém é ressuscitado antes dele, não é isso obra Daquele Dia? E se quiserdes saber por que motivo ele é ocultado, e por que assim vem como o ladrão de noite, dir-vos-ei como penso poder bem explicá-lo. Ninguém jamais teria cultivado a virtude durante toda a sua vida; mas, conhecendo o seu último dia, e, depois de ter cometido inúmeros pecados, teria então vindo ao Lavacro, e assim partido. Pois, se agora, quando o temor que nasce da incerteza abala as almas de todos, ainda assim todos, tendo passado toda a sua vida anterior na iniquidade, no último suspiro se entregam ao Batismo — se estivessem plenamente persuadidos a respeito desta questão, quem jamais teria cultivado a virtude? Se muitos partiram sem a Iluminação, e nem sequer este temor lhes ensinou, enquanto viviam, a cultivar as coisas que são agradáveis a Deus; se também este temor lhes fosse retirado, quem jamais seria sóbrio, ou quem seria manso? Não há um sequer! E ainda outra coisa. O temor da morte e o amor à vida refreiam a muitos. Mas se cada um soubesse que amanhã certamente morreria, não haveria nada que ele recusasse tentar antes daquele dia; antes, mataria a quem quisesse, e se ressarciria vingando-se de seus inimigos, e perpetraria dez mil crimes.
Pois um homem perverso, que desespera de sua vida presente, não guarda respeito sequer por aquele que está revestido de púrpura. Aquele, portanto, que estivesse persuadido de que haveria de morrer em todo caso, tanto se vingaria de seu inimigo quanto, tendo primeiro saciado sua própria alma, assim encontraria o seu fim. Permiti-me mencionar também uma terceira coisa. Aqueles que são apegados à vida, e veementemente ligados às coisas deste mundo, seriam arruinados pelo desespero e pela tristeza. Pois se algum dos jovens soubesse que, antes de alcançar a velhice, haveria de encontrar o seu fim, tal como as feras mais indolentes, quando capturadas, tornam-se ainda mais indolentes por esperarem o seu fim, assim também ele seria afetado. Além disso, nem mesmo os homens corajosos teriam recebido a sua recompensa. Pois se soubessem que, depois de três anos, haveriam de morrer certamente, e que antes desse tempo não seria possível, que recompensa teriam alcançado por sua ousadia diante dos perigos? Pois qualquer um poderia lhes dizer: por estardes confiantes nos três anos de vida, é por isso que vos lançais aos perigos, sabendo que não vos é possível perecer. Pois aquele que, de cada perigo, espera que possa advir-lhe a morte, e sabe que viverá, de fato, se não se expuser ao risco, mas que morrerá se empreender tais e tais ações — este dá a maior prova de seu zelo e de seu desprezo pela vida presente. E isto vos tornarei claro por um exemplo. Dizei-me: se o patriarca Abraão, sabendo de antemão que não teria de sacrificar seu filho, o houvesse levado àquele lugar, teria ele então alguma recompensa? E se Paulo, sabendo de antemão que não haveria de morrer, houvesse desprezado os perigos, em que seria ele admirável? Pois assim até o mais indolente se lançaria ao fogo, se pudesse encontrar alguém em quem confiar para assegurar-lhe a salvação. Mas não assim foram as Três Crianças. Pois ouvi-as dizendo: Ó rei, há um Deus nos céus, que nos livrará de tuas mãos e desta fornalha; e, se não, fique sabido a ti que não servimos a teus deuses, nem adoramos a imagem de ouro que ergueste. (Daniel 3:17)
Vedes quantas vantagens há, e no entanto há ainda mais do que estas que provêm de não conhecermos a hora de nosso fim. Por ora, basta aprender estas. Por esta razão Ele vem como ladrão de noite; para que não nos abandonemos à maldade, nem à indolência; para que Ele não nos tire a nossa recompensa. Pois vós mesmos sabeis perfeitamente, diz ele. Por que, então, sois curiosos, se estais persuadidos? Mas que o futuro é incerto, aprendei do que Cristo disse. Pois que foi por essa razão que o disse, ouvi o que ele afirma: Vigiai, portanto, pois não sabeis a que hora vem o ladrão. (Mateus 24:42)
E para que aprendas, por outra coisa, que o silêncio do Senhor sobre esta matéria não é sinal de ignorância de Sua parte, atenta em algo mais, além do que já mencionamos. "Mas, como nos dias de Noé, comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que veio o dilúvio e levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem." Disse Ele estas coisas para mostrar que viria repentina e inesperadamente, e precisamente quando a maior parte dos homens vivesse na luxúria. Isto disse também Paulo, quando escreveu: "Quando disserem paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição", e, para mostrar quão inesperada seria, disse: "como as dores de parto sobre a mulher grávida."
Aqui ele aludiu a algo que também disse em sua segunda Epístola. Pois, como eles estavam em aflição, enquanto os que os guerreavam viviam em repouso e em luxúria, ele então, ao mesmo tempo em que os consolava em seus sofrimentos presentes mediante esta menção da Ressurreição, os outros os insultavam com argumentos tirados de seus antepassados, dizendo: Quando sucederá isto? — o que também disseram os Profetas: Ai dos que dizem: Apresse-se Ele, apresse Deus a Sua obra, para que a vejamos; e venha o desígnio do Santo de Israel, para que o conheçamos! (Is 5,19) E outra vez: Ai dos que desejam o dia do Senhor (Am 5,18). Refere-se a este dia; pois não fala simplesmente de pessoas que o desejam, mas dos que o desejam porque nele não creem: e o dia do Senhor, diz ele, é trevas, e não luz — vede, pois, como Paulo os consola, como se dissesse: Não considerem eles o estarem em estado próspero como prova de que o Juízo não vem. Pois é assim mesmo que ele virá.
Mas talvez valha a pena perguntar: se vem o Anticristo, e vem Elias, como é que, quando disserem Paz e segurança, então lhes sobrevém uma repentina destruição? Pois estas coisas não permitem que o dia venha sobre eles inesperadamente, sendo sinais de sua vinda. Mas ele não se refere aqui ao tempo do Anticristo, e a todo aquele dia, porque aquilo será sinal da vinda de Cristo, mas Ele mesmo não terá sinal, e virá repentina e inesperadamente. Pois as dores do parto, dizes tu, não sobrevêm inesperadamente à mulher grávida: pois ela sabe que, depois de nove meses, o parto se dará. E, contudo, isto é muito incerto. Pois algumas dão à luz no sétimo mês, outras no nono. E, de todo modo, o dia e a hora são incertos. A respeito disto, portanto, fala Paulo assim. E a imagem é exata. Pois não há muitos sinais seguros do parto; muitas, com efeito, deram à luz nas estradas, ou quando fora de suas casas e no exterior, sem o preverem. E ele não apenas aludiu aqui à incerteza, mas também à amargura da dor. Pois, assim como ela, brincando, rindo, nada esperando, é subitamente tomada por dores inefáveis, trespassada pelas pontadas do parto — assim será com aquelas almas, quando o Dia sobrevier a elas.
E de nenhum modo escaparão. Como ele já dizia há pouco.
Fala ele aqui de uma vida tenebrosa e impura. Pois é justamente como os homens corruptos e perversos fazem todas as coisas como que de noite, escapando à percepção de todos e encerrando-se nas trevas. Pois dize-me: não espreita o adúltero pela noitinha, e o ladrão pela noite? Não exerce o violador de sepulcros todo o seu ofício durante a noite? Que, pois? Não os surpreenderá como ladrão? Não lhes sobrevirá também de modo incerto, sem que o saibam de antemão? Como, então, diz ele: "Não tendes necessidade de que se vos escreva coisa alguma"? Fala aqui não quanto à incerteza, mas quanto à calamidade, isto é, não lhes sobrevirá como mal. Pois virá, de fato, também a eles incertamente, mas não lhes causará perturbação alguma. "Para que aquele Dia", diz, "não vos surpreenda como ladrão." Pois, no caso dos que vigiam e estão na luz, ainda que haja qualquer irrupção de ladrão, nenhum dano lhes pode causar: assim também é com os que vivem bem. Mas aos que dormem, ele os despojará de tudo e partirá; isto é, aqueles que confiam nas coisas desta vida.
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E como é possível ser filhos do dia? Assim como se diz filhos da perdição e filhos do inferno. Por isso também Cristo disse aos fariseus: Ai de vós — porque rodeais o mar e a terra para fazer um só prosélito, e, feito ele tal, o fazeis filho do inferno. E de novo disse Paulo: Por essas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Isto é, os que fazem as obras do inferno e as obras da desobediência. Assim também filhos de Deus são os que fazem as coisas agradáveis a Deus; assim também filhos do dia e filhos da luz, os que fazem as obras da luz. "E não somos da noite nem das trevas."
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Para que saibas que as orações proferidas em tempo de aflição têm a melhor probabilidade de ser ouvidas, ouve o que diz o profeta: "Na minha aflição clamei ao Senhor, e Ele me ouviu." Excitemos, pois, a nossa consciência ao fervor, aflijamos a nossa alma com a memória dos nossos pecados, não para que seja esmagada pela ansiedade, mas para que a preparemos a ser ouvida, para que a façamos viver em sobriedade e vigilância e pronta para alcançar o próprio céu. Nada põe em fuga o descuido e a negligência como o fazem a dor e a aflição. Elas recolhem os nossos pensamentos de todos os lados e fazem com que a nossa mente se volte a ponderar sobre si mesma. O homem que ora desta maneira, em sua aflição, depois de muitas orações, pode trazer alegria à sua própria alma.
Aqui ele mostra que estar no dia depende de nós mesmos. Pois, quanto ao dia e à noite presentes, isso de fato não depende de nós. Mas a noite vem mesmo contra a nossa vontade, e o sono nos vence quando não o desejamos. Já com respeito àquela noite e àquele sono, não é assim, mas está em nosso poder ter sempre o dia, está em nosso poder vigiar sempre. Pois fechar os olhos da alma e trazer o sono da maldade não é da natureza, mas da nossa própria escolha. Mas vigiemos, diz ele, e sejamos sóbrios. Pois é possível dormir estando acordado, não fazendo nada de bom. Por isso acrescentou: e sejamos sóbrios. Pois mesmo de dia, se alguém vigia, mas não é sóbrio, cairá em inúmeros perigos, de modo que a sobriedade é a intensidade da vigilância. Os que dormem, diz ele, dormem de noite, e os que se embriagam embriagam-se de noite. A embriaguez de que aqui fala não é apenas a que vem do vinho, mas também a que provém de todos os vícios. Pois as riquezas e o desejo de riqueza são uma embriaguez da alma, e assim também a luxúria carnal; e todo pecado que se possa nomear é uma embriaguez da alma. Por que motivo, então, chamou o vício de sono? Porque, em primeiro lugar, o homem vicioso é inativo com respeito à virtude; e, além disso, porque ele vê tudo como uma visão, não contempla nada em sua verdadeira luz, mas está cheio de sonhos, e amiúde de ações irracionais; e, se vê algo bom, não tem firmeza, não tem estabilidade. Tal é a vida presente. Está cheia de sonhos e de fantasia. As riquezas são um sonho, e a glória, e tudo o que é dessa espécie. Aquele que dorme não vê as coisas que são e têm uma subsistência real, mas imagina como coisas que são aquelas que não são. Tal é o vício, e a vida que se passa no vício. Ela não vê as coisas que são, isto é, as coisas espirituais, celestes, permanentes, mas as coisas fugazes que voam e logo se afastam de nós.
Mas não basta vigiar e ser sóbrio; é preciso também estar armado. Pois, se um homem vigia e é sóbrio, mas não tem armas, os salteadores logo o despacham. Quando, pois, devemos vigiar, e ser sóbrios, e estar armados, e estamos desarmados e nus e adormecidos, quem o impedirá de cravar-lhe a espada até o punho? Por isso, mostrando também isto, que temos necessidade de armas, acrescentou:
Da fé e do amor, diz ele. Aqui ele lança um olhar sobre a vida e a doutrina. Mostrou o que é vigiar e ser sóbrio, ter a couraça da fé e do amor. Não uma fé comum, diz ele; mas, assim como nada pode logo atravessar uma couraça, sendo ela um muro seguro para o peito — assim também tu, diz ele, cerca a tua alma de fé e amor, e nenhum dos dardos inflamados do diabo jamais poderá nela fixar-se. Pois, onde a força da alma está de antemão ocupada pela armadura do amor, todos os artifícios dos que contra ela conspiram são vãos e ineficazes. Pois nem a maldade, nem o ódio, nem a inveja, nem a lisonja, nem a hipocrisia, nem qualquer outra coisa poderá penetrar tal alma. Não disse simplesmente amor, mas ordenou que o vestissem como uma forte couraça. E por capacete, a esperança da salvação. Pois, assim como o capacete guarda em nós a parte vital, cercando a cabeça e cobrindo-a por todos os lados, assim também esta esperança não permite que a razão vacile, mas a mantém erguida como a cabeça, não permitindo que nada de fora caia sobre ela. E, enquanto nada cai sobre ela, tampouco ela mesma resvala. Pois não é possível que aquele que está fortificado com armas como estas jamais caia. Pois agora permanecem a fé, a esperança, o amor (1 Cor 13,13). Tendo, então, dito: vesti-vos, e revesti-vos, ele mesmo provê a armadura, de onde a fé, a esperança e o amor podem ser produzidos e podem tornar-se fortes.
Assim, Deus não Se inclinou a isto para nos destruir, mas para nos salvar. E donde é manifesto que esta é a Sua vontade? Ele deu o Seu próprio Filho por nós. De tal modo deseja Ele que sejamos salvos, que deu o Seu Filho, e não apenas o deu, mas o entregou à morte. Destas considerações nasce a esperança. Pois não desesperes de ti mesmo, ó homem, ao ires a Deus, que não poupou nem sequer o Seu Filho por ti. Não desfaleças diante dos males presentes. Aquele que deu o Seu Unigênito, para que te salvasse e te libertasse do inferno, que reservará Ele doravante para a tua salvação? De modo que deves esperar todas as coisas boas. Pois nem deveríamos temer, se fôssemos ter com um juiz que estivesse para nos julgar, e que tivesse mostrado tanto amor por nós a ponto de ter sacrificado o seu filho. Esperemos, pois, coisas boas e grandes, pois recebemos o principal; creiamos, pois vimos um exemplo; amemos, pois é o cúmulo da loucura não amar aquele que foi tratado desta maneira.
Consideremos ainda: "quer vigiemos, quer durmamos"; mas por "dormir" ele entende aqui uma coisa, e ali outra. Pois aqui, "dormirmos" significa a morte do corpo; isto é: não temais os perigos; ainda que venhamos a morrer, viveremos. Não vos desespereis por estardes em perigo. Tendes uma segurança forte. Ele não teria dado o Seu Filho se não estivesse inflamado por veemente amor para conosco. De modo que, ainda que morrais, vivereis; pois Ele mesmo também morreu. Portanto, quer morramos, quer vivamos, viveremos com Ele. Isto é coisa indiferente: não me importa se vivo ou se morro; pois viveremos com Ele. Façamos, pois, tudo por essa vida: olhando para ela, façamos todas as nossas obras. O vício, ó amado, é trevas, é morte, é noite; nada vemos do que devemos ver, nada fazemos do que nos convém. Como os mortos são desagradáveis à vista e de mau odor, assim também as almas dos que são viciosos estão cheias de muita impureza. Seus olhos estão fechados, sua boca está calada, permanecem sem movimento no leito do vício; ou antes, mais desventurados do que os que naturalmente morreram. Pois estes verdadeiramente estão mortos para ambas as coisas, mas aqueles são de fato insensíveis à virtude, mas vivos para o vício. Se alguém ferisse um morto, este não o percebe, não se vinga, mas é como um pau seco. Assim também a alma daquele é verdadeiramente seca, tendo perdido sua vida; recebe diariamente inúmeras feridas, e não tem sensação de nenhuma delas, mas jaz insensível a tudo.
Não seria erro comparar tais homens aos loucos, aos ébrios, ou aos delirantes. Todas essas coisas pertencem ao vício, e ele é pior que todas elas. Ao louco muito se releva por parte dos que o veem, pois sua enfermidade não provém da escolha, mas somente da natureza; mas como será perdoado aquele que vive no vício? Donde, pois, vem o vício? Donde são maus a maioria dos homens? Dizei-me, donde têm as enfermidades sua natureza maligna? Donde vem o frenesi? Donde vem o letargo? Não é da negligência? Se as desordens físicas têm sua origem na escolha, muito mais aquelas que são voluntárias. Donde vem a embriaguez? Não é da intemperança da alma? Não é o frenesi do excesso de febre? E não é a febre dos elementos demasiado abundantes em nós? E não é essa superabundância de elementos de nossa negligência? Pois quando, seja por deficiência, seja por excesso, levamos algo do que há dentro de nós além dos limites da moderação, acendemos aquele fogo. Ademais, se, uma vez aceso o fogo, continuamos a negligenciá-lo, fazemos para nós mesmos uma conflagração que não somos capazes de extinguir. Assim é também com o vício. Quando não o refreamos em seu princípio, nem o cortamos, não podemos depois alcançar-lhe o fim, mas ele se torna maior que nosso poder. Por isso, eu vos suplico, façamos tudo para que jamais nos tornemos sonolentos. Não vedes que, quando as sentinelas cedem um pouco ao sono, não obtêm proveito algum de sua longa vigília, pois por aquele pouco arruinaram tudo, dando perfeita segurança àquele que está pronto para roubar? Pois, assim como não vemos os ladrões da mesma maneira que eles nos veem, assim também o demônio, mais que tudo, está sempre alerta, e à espreita, e rangendo os dentes. Não durmamos, pois. Não digamos: deste lado nada há, daquele lado nada há; frequentemente somos saqueados de uma direção de onde não esperávamos. Assim é com o vício; perecemos de uma direção de onde não esperávamos. Olhemos atentamente ao redor de todas as coisas, não sejamos ébrios, e não dormiremos. Não sejamos luxuriosos, e não dormitaremos. Não enlouqueçamos pelas coisas exteriores, e permaneceremos em sobriedade. Disciplinemo-nos por todos os lados. E assim como os homens que caminham sobre uma corda esticada não podem descuidar-se nem um pouco, pois aquele pouco causa grande dano — pois o homem, perdendo o equilíbrio, é imediatamente precipitado abaixo e perece —, assim também não nos é possível descuidar-nos. Caminhamos sobre um caminho estreito, interceptado por precipícios de ambos os lados, que não admite dois pés ao mesmo tempo. Não vedes quanta vigilância é necessária? Não vedes como os que viajam por tais caminhos guardam não somente os pés, mas também os olhos? Pois se alguém escolhesse fixar o olhar para um lado, ainda que seu pé estivesse firme, seu olho, tornando-se tonto pela profundidade, precipita todo o corpo abaixo. Mas é preciso atentar a si mesmo e aos seus passos; por isso diz: nem à direita, nem à esquerda (Pv 4,27). Grande é a profundidade do vício, altos os precipícios, muitas as trevas embaixo. Atentemos ao caminho estreito, caminhemos com temor e tremor. Ninguém, que viaja por tal caminho, se dissolve em riso nem se torna pesado de embriaguez, mas viaja por tal caminho com sobriedade e jejum. Ninguém, que viaja por tal caminho, carrega consigo superfluidades algumas; pois ele se contentaria mesmo levemente equipado, contanto que pudesse escapar. Ninguém enreda os próprios pés, mas os deixa desembaraçados, e livres para mover-se.
Fiéis, porém, acorrentando-nos a inúmeros cuidados e carregando conosco os inúmeros fardos desta vida, olhando ao redor, e vagueando dissolutamente, como esperamos percorrer aquele caminho estreito? Ele não disse apenas que estreito é o caminho (Mt 7:14), mas, com admiração, quão estreito é o caminho, isto é, sobremaneira estreito. E isto também fazemos nós nas coisas que são verdadeiramente objetos de admiração. E apertado, diz Ele, é o caminho que conduz à vida. E bem o disse. Pois quando estamos obrigados a prestar contas de nossos pensamentos, e palavras, e ações, e de todas as coisas, verdadeiramente é estreito. Mas nós mesmos o tornamos mais estreito ainda, alargando-nos e dilatando-nos, e arrastando os pés. Pois o caminho estreito é difícil para todos, mas especialmente para aquele que está sobrecarregado de gordura, ao passo que aquele que se torna magro não perceberá sua estreiteza. De modo que aquele que se exercitou em ser comprimido não se desanimará com sua pressão.
Não espere, pois, ninguém ver o céu com facilidade. Pois isto não pode ser. Não espere ninguém percorrer o caminho estreito com luxúria, pois é impossível. Não espere ninguém, viajando pelo caminho largo, a vida. Quando, portanto, virdes fulano ou sicrano regalando-se em banhos, em mesa suntuosa, ou em outras coisas, tendo tropas de servos; não vos considereis infelizes por não participardes dessas coisas, mas antes lamentai por ele, porquanto viaja pelo caminho da destruição. Pois qual é a vantagem deste caminho, quando termina em tribulação? E qual é o dano daquela estreiteza, quando conduz ao repouso? Dizei-me: se alguém, convidado a um palácio, caminhasse por vias estreitas, penosas e íngremes, e outro, conduzido à morte, fosse arrastado pelo meio da praça pública, qual chamaríamos feliz? Qual compadeceríamos? A ele, não é assim, que caminha pela via larga? Assim também agora, consideremos felizes não os que vivem em luxúria, mas os que não vivem em luxúria. Estes se apressam para o céu, aqueles para o inferno.
Antes de rir de tais coisas, muitos deles certamente rirão até das próprias palavras que aqui pronunciamos. Mas eu, mais do que a tudo, lamento e prantei-os por isto: não sabem sequer do que deveriam rir, nem por que deveriam sobretudo lamentar-se, antes confundem, perturbam e desordenam tudo. Por isto os prantei. Que dizes, ó homem? Quando houveres de ressuscitar, e prestar contas de teus atos, e sofrer a última sentença, não atentas para isto, mas cuidas de agradar o ventre e embriagar-te? E ris disto? Eu, porém, prantei-te, sabedor dos males que te aguardam, do castigo que está prestes a te alcançar. E isto sobretudo lamento: que rias! Prantea comigo, lamenta comigo os teus próprios males. Dize-me: se um de teus amigos perece, não te apartas dos que riem de seu fim, e os tens por inimigos, amando antes os que choram e se condoem contigo? Se, pois, o cadáver de tua mulher estivesse estendido, apartar-te-ias de quem risse; mas, dando-se a morte de tua alma, apartas-te de quem chora, e ris tu mesmo? Vedes como o demônio nos dispôs a ser inimigos e adversários de nós mesmos? Sejamos, pois, uma vez sóbrios, abramos os olhos, vigiemos, apoderemo-nos da vida eterna, sacudamos este longo sono. Há um Juízo, há um Castigo, há uma Ressurreição, há uma Inquirição do que fizemos! O Senhor vem sobre as nuvens; diante d'Ele, diz o profeta, se acenderá um fogo, e em torno d'Ele uma poderosa tempestade (Sl 50:3, Septuaginta). Um rio de fogo rola diante d'Ele, o verme que não morre, o fogo inextinguível, as trevas exteriores, o ranger de dentes. Ainda que vos irásseis contra mim dez mil vezes por mencionar estas coisas, não cessarei de as mencionar. Pois, se os profetas, mesmo apedrejados, não se calaram, muito mais devemos nós suportar inimizades, e não discorrer convosco visando agradar, para que, havendo-vos enganado, não sejamos nós mesmos cortados ao meio. Há castigo, imorredouro, inaplacável, e ninguém para interceder por nós. Quem terá piedade, diz ele, do encantador mordido pela serpente? (Eclo 12:13). Se nós mesmos não nos compadecemos de nós, dize-me, quem se compadecerá de nós? Se vês um homem trespassando-se com a espada, poderás poupar-lhe a vida? De modo nenhum. Muito mais, tendo em nosso poder fazer o bem, e não o fazendo, quem nos poupará? Ninguém! Compadeçamo-nos de nós mesmos. Quando oramos a Deus, dizendo: Senhor, tem misericórdia de mim, digamo-lo a nós mesmos, e tenhamos misericórdia de nós mesmos. Somos nós os árbitros de que Deus tenha misericórdia de nós. Esta graça Ele nos concedeu. Se fizermos coisas dignas de misericórdia, dignas de Sua benignidade para conosco, Deus terá misericórdia de nós. Mas, se não tivermos misericórdia de nós mesmos, quem nos poupará? Tem misericórdia de teu próximo, e encontrarás misericórdia do próprio Deus. Quantos, todos os dias, vêm a ti, dizendo: Tem piedade de mim, e tu não te voltas para eles; quantos nus, quantos aleijados, e não nos inclinamos a eles, mas despedimos as suas súplicas. Como, pois, reivindicas alcançar misericórdia, quando tu mesmo nada fazes digno de misericórdia? Façamo-nos compassivos, façamo-nos misericordiosos, para que assim sejamos agradáveis a Deus, e alcancemos os bens prometidos aos que O amam, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, etc.
Vês tu como Paulo, em toda parte, põe a saúde da comunidade nas mãos de cada indivíduo? "Exortando-vos uns aos outros diariamente", diz ele, "enquanto se chama hoje". Não lances, pois, todo o fardo sobre os teus mestres, e não lances tudo sobre aqueles que têm autoridade sobre ti. Sois capazes de vos edificar uns aos outros. Diz ele isto, escrevendo aos tessalonicenses: "Edificai-vos uns aos outros, assim como já o fazeis." E ainda: "Consolai-vos uns aos outros com estas palavras." Se o quiserdes, tereis mais êxito uns com os outros do que nós poderíamos ter. Pois estais uns com os outros há mais tempo. Sabeis mais acerca dos assuntos uns dos outros. Não ignorais as falhas uns dos outros. Tendes mais liberdade de palavra, e amor, e intimidade. Estas coisas são úteis para o ensino... Tendes mais capacidade do que nós para repreender e exortar. Além disso, porque eu sou apenas uma pessoa, mas vós sois muitos, sereis capazes de ser mestres uns dos outros.
Vede, desejo e rogo que todos vós vos atenhais firmemente à reta ordem como mestres, que não sejais simplesmente ouvintes do que é dito por nós, mas que também o transmitais a outros, lançando a vossa rede sobre os que ainda estão em erro, a fim de trazê-los ao caminho da verdade — como diz Paulo: "Edificai-vos uns aos outros", e "Com temor e tremor operai a vossa própria salvação". Deste modo teremos a satisfação de ver a igreja crescer em força, e vós gozareis de mais abundante favor do alto por causa do grande cuidado que mostrardes por vossos membros. Deus, como sabeis, não deseja que os cristãos se preocupem apenas consigo mesmos, mas que também edifiquem os outros, não simplesmente por meio do seu ensino, mas também por seu comportamento e pelo modo como vivem. Afinal, nada é tão atraente para o caminho da verdade quanto uma vida reta — em outras palavras, as pessoas prestam menos atenção ao que dizemos do que ao que fazemos.
É necessário que um chefe tenha muitas ocasiões de inimizades. Assim como os médicos são obrigados a causar muito incômodo aos enfermos, preparando-lhes tanto o regime quanto os remédios que não são, na verdade, agradáveis, mas que trazem benefício; e assim como os pais são muitas vezes molestos a seus filhos: assim também o são os mestres, e ainda muito mais. Pois o médico, ainda que seja odioso ao doente, tem contudo os parentes e amigos em bons termos consigo, e não raro o próprio enfermo. E também o pai, tanto pela força da natureza quanto pelas leis externas, exerce com grande facilidade seu domínio sobre o filho; e, se houver de castigá-lo e repreendê-lo contra sua vontade, não há quem o impeça, nem o filho será capaz de erguer contra ele o olhar. Mas, no caso do Sacerdote, há grande dificuldade. Pois, em primeiro lugar, ele deve reger pessoas dispostas a obedecer, e gratas a ele por seu governo; mas não é possível que isso aconteça depressa. Pois aquele que é convencido do erro e repreendido, seja quem for, decerto deixa de ser grato e se torna inimigo. Do mesmo modo se comportará aquele a quem se aconselha, e aquele que é admoestado, e aquele que é exortado. Se, portanto, eu disser: derrama tuas riquezas sobre os necessitados, digo coisa ofensiva e pesada. Se digo: reprime tua ira, apaga teu furor, contém tua concupiscência desordenada, corta uma pequena parte de tua luxúria, tudo isso é pesado e ofensivo. E, se eu punir algum negligente, ou o afastar da Igreja, ou o excluir das orações públicas, ele se aflige, não porque seja privado dessas coisas, mas por causa da desonra pública. Pois nisto está o agravamento do mal: que, sendo interditados das coisas espirituais, não nos afligimos por sermos privados desses grandes bens, mas por nossa desonra à vista dos outros. Não estremecemos, não tememos, a própria coisa.
Por esta razão Paulo, de uma ponta a outra, discorre amplamente acerca destas pessoas. E Cristo, na verdade, sujeitou-os com tão estrita necessidade, que diz: Os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés; tudo, pois, o que vos disserem que observeis, observai-o e fazei-o; mas não façais conforme as suas obras (Mt 23,2-3). E outra vez, quando curou o leproso, disse: Vai, mostra-te ao sacerdote, e oferece a dádiva que Moisés ordenou, em testemunho a eles (Mt 8,4). E, contudo, dizes tu: Fazeis dele duas vezes mais filho do inferno do que vós mesmos (Mt 23,15). Por isso eu disse, responde Ele, não façais o que eles fazem. Portanto, excluiu toda desculpa àquele que está sob autoridade. Também em sua Epístola a Timóteo disse este Apóstolo: Sejam os presbíteros que governam bem tidos por dignos de dobrada honra (1Tm 5,17). E também em sua Epístola aos Hebreus disse: Obedecei aos que têm autoridade sobre vós, e sujeitai-vos a eles (Hb 13,17). E aqui novamente: Rogamo-vos, porém, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e vos presidem no Senhor. Pois, tendo dito edificai-vos uns aos outros, para que não pensassem que os elevava à categoria de mestres, acrescentou: Vede, porém, que também vos concedi licença para vos edificardes mutuamente, pois não é possível que um mestre diga tudo. Os que trabalham entre vós, diz ele, e vos presidem no Senhor, e vos admoestam. E como, diz ele, não seria isto absurdo? Se alguém intercede por ti diante de um homem, fazes qualquer coisa, confessas-te muito devedor; mas este intercede por ti diante de Deus, e tu não reconheces o favor. E de que modo ele intercede por mim?, dizes tu. Porque ora por ti, porque te ministra o dom espiritual que é pelo Batismo, visita-te, aconselha-te e admoesta-te, vem à meia-noite se o chamares; ele não é senão o assunto constante da tua boca, e suporta as tuas palavras injuriosas. Que necessidade tinha ele disso? Fez bem ou mal? Tu, na verdade, tens esposa, vives luxuosamente, e escolhes uma vida de comércio. Mas disto o Sacerdote se absteve por causa de sua ocupação; sua vida não é outra senão a de ocupar-se com a Igreja. E tê-los, diz ele, em grandíssima estima e amor, por causa da sua obra; tende paz com eles. Vedes quão bem sabe ele que surgem sentimentos desagradáveis? Não diz apenas amai, mas grandissimamente, como os filhos amam a seus pais. Pois por meio deles fostes gerados por aquela geração eterna; por meio deles obtivestes o reino; por suas mãos todas as coisas se fazem, por eles vos são abertas as portas do céu. Ninguém suscite divisões, ninguém seja contencioso. Aquele que ama a Cristo, seja qual for o Sacerdote, o amará, porque por meio dele obteve os tremendos Mistérios. Dize-me: se, desejando ver um palácio resplandecente de muito ouro, e radiante com o brilho de pedras preciosas, encontrasses aquele que tivesse a chave, e ele, chamado, imediatamente a abrisse e te admitisse ao interior, não o preferirias a todos os homens? Não o amarias tanto quanto a teus próprios olhos? Não o beijarias? Este homem te abriu o céu, e tu não o beijas, nem lhe rendes homenagem. Se tens esposa, não amas sobretudo a quem ta obteve? Assim, se amas a Cristo, se amas o reino dos céus, reconhece por meio de quem o obtiveste. Por isso diz ele: por causa da sua obra, tende paz com eles.
Se devêssemos odiar os ímpios e os transgressores da lei, passaríamos também a odiar os pecadores. Assim, em sucessão regular, ver-nos-íamos apartados da maior parte de nossos irmãos, e, na verdade, de todos eles. Não há um só dentre eles que esteja sem pecado. Se fosse nosso dever odiar os inimigos de Deus, teríamos de odiar não apenas os ímpios, mas também os que recaem. Seríamos então piores que as feras, evitando a todos e inchados de soberba, como o fariseu. Paulo nos ordenou de modo diverso: "Admoestai os desordeiros, animai os pusilânimes, sustentai os fracos, sede longânimos para com todos."
Aqui ele se dirige aos que exercem autoridade. Admoestai, diz ele, os desordeiros, não com imperiosidade, diz ele, nem os repreendais por vontade própria, mas com admoestação. Animai os pusilânimes, sustentai os fracos, sede longânimos para com todos. Pois aquele que é repreendido com dureza, desesperando de si mesmo, torna-se mais audacioso no desprezo. Por isso é necessário, mediante a admoestação, tornar doce o remédio. Mas quem são os desordeiros? Todos os que fazem o que é contrário à vontade de Deus. Pois esta ordem da Igreja é mais harmoniosa que a ordem de um exército; de sorte que o injuriador é desordeiro, o ébrio é desordeiro, e o avarento, e todos quantos pecam; pois não caminham ordenadamente em sua fileira, mas fora da linha, razão pela qual também são derrubados. Há, porém, ainda outra espécie de males, não tal como esta, mas também ela um vício: a pusilanimidade. Pois esta é tão destrutiva quanto a preguiça. Quem não pode suportar uma injúria é pusilânime. Quem não pode suportar a provação é pusilânime. Este é aquele que foi semeado sobre a pedra. Há ainda outra sorte, a da fraqueza. Sustentai os fracos, diz ele; ora, a fraqueza ocorre em relação à fé. Mas observai como ele não permite que sejam desprezados. E também em outro lugar, em suas Epístolas, diz: Ao que é fraco na fé, acolhei-o. Rm 14,1. Pois também em nossos corpos não permitimos que o membro fraco pereça. Sede longânimos para com todos, diz ele. Mesmo para com os desordeiros? Sim, certamente. Pois não há remédio igual a este, sobretudo para o mestre, nenhum tão conveniente aos que estão sob autoridade. Pode envergonhar e desconcertar por completo até mesmo aquele que é mais feroz e mais desavergonhado que todos os homens.
Vede que ninguém retribua a outrem o mal com o mal. Se não devemos retribuir o mal com o mal, muito menos o mal com o bem; muito menos, quando mal algum nos foi feito anteriormente, retribuir o mal. Tal homem, dizes tu, é mau, e me agravou, e me fez muito dano. Queres vingar-te dele? Não retalies. Deixa-o impune. Pois bem, é este o termo? De modo algum;
Mas segui sempre o que é bom, uns para com os outros e para com todos. Esta é a filosofia mais alta: não somente não retribuir o mal com o mal, mas retribuir o bem pelo mal. Pois esta é verdadeiramente a vingança que traz dano a ele e proveito a ti, ou antes, grande proveito também a ele, se o quiser. E para que não penses que isto se diz a respeito dos fiéis somente, por isso disse: tanto uns para com os outros quanto para com todos.
Isto é dito a respeito das tentações que trazem consigo a aflição. Ouvi, quantos tendes caído na pobreza, ou em circunstâncias angustiosas. Pois destas nasce o gozo. Porquanto, quando possuímos alma tal que de ninguém nos vingamos, mas a todos fazemos bem, donde, dizei-me, poderá o aguilhão da tristeza penetrar em nós? Pois aquele que assim se regozija em padecer o mal, a ponto de retribuir até com benefícios a quem lhe fez o mal, donde poderá depois sofrer tristeza? E como, dizeis vós, é isto possível? É possível, se o quisermos. Depois ele mostra também o caminho.
Dessa forma, sofreste algum mal? Mas, se assim o quiseres, não é mal algum. Dá graças a Deus, e o mal se converterá em bem. Dize também tu como Jó disse: Bendito seja o nome do Senhor para sempre (Jó 1:21). Pois dize-me, que coisa assim tão grande sofreste? Acaso te sobreveio a doença? Contudo, não é nada estranho. Pois o nosso corpo é mortal, e sujeito ao sofrimento. Acaso te acometeu a falta de posses? Mas estas também são coisas que se adquirem, e novamente se perdem, e que permanecem aqui. Mas são acaso as ciladas e as falsas acusações dos inimigos? Mas não somos nós que somos lesados por elas, e sim aqueles que são os seus autores. Pois a alma, diz ele, que peca, essa morrerá (Ezequiel 18:4). E não pecou aquele que sofre o mal, mas aquele que o fez.
Não deves, portanto, vingar-te daquele que está morto, mas orar por ele, a fim de livrá-lo da morte. Não vês como a abelha morre no seu próprio ferrão? Por meio desse animal, Deus nos ensina a não afligir o nosso próximo. Pois nós mesmos recebemos a morte primeiro. Pois, ao ferirmos os outros, talvez os tenhamos magoado por um pouco de tempo, mas nós mesmos não viveremos mais tempo, assim como aquele animal também não viverá. E, no entanto, a Escritura a louva, dizendo que ela é operária, cujo trabalho reis e particulares utilizam para sua saúde (Eclesiástico 11:3). Mas isto não a preserva de morrer, antes é-lhe necessário perecer. E, se a sua outra excelência não a livra quando faz dano, muito menos nos livrará a nós.
Pois é próprio das feras mais ferozes, quando ninguém as ofendeu, dar início à ofensa — ou, antes, nem sequer das feras. Porque estas, se lhes permites pastar no ermo, e não as reduzes à necessidade oprimindo-as, jamais te farão mal, nem se aproximarão de ti, nem te morderão, mas seguirão o seu próprio caminho.
Mas tu, sendo homem racional, honrado com tanto domínio, honra e glória, nem sequer imitas as feras no teu proceder para com o teu semelhante, antes ofendes o teu irmão, e o devoras. E como poderás desculpar-te? Não ouves Paulo dizendo: Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sois antes defraudados? Mas vós mesmos fazeis a injustiça, e defraudais, e isso a vossos irmãos (1 Cor 6:7-8). Vês que sofrer a injustiça consiste em fazê-la, mas que padecer injustamente é receber um benefício? Pois dize-me: se alguém injuriasse os seus governantes, se ultrajasse os que estão no poder, a quem lesa? A si mesmo, ou a eles? Evidentemente, a si mesmo. Logo, aquele que ultraja um governante não o ultraja a ele, mas a si mesmo — e aquele que ultraja um cristão, não ultraja, por meio dele, a Cristo? De modo algum, dirás tu. Que dizes? Aquele que atira uma pedra contra as imagens do rei (Imperador), contra quem atira a pedra? Não é contra si mesmo? Logo, se aquele que atira uma pedra contra a imagem de um rei terreno atira a pedra contra si mesmo, não se ofende a si mesmo aquele que ultraja a imagem de Deus (pois o homem é a imagem de Deus)?
Até quando amaremos as riquezas? Pois não cessarei de clamar contra elas: são elas a causa de tudo. Até quando não nos saciaremos deste desejo insaciável? Que proveito há no ouro? Maravilho-me com a coisa! Há como que um encantamento nesse negócio, que o ouro e a prata sejam tão altamente estimados entre nós. Pois, na verdade, não temos nenhuma consideração pelas nossas próprias almas, mas aquelas imagens sem vida absorvem grande atenção. Donde vem que esta doença invadiu o mundo? Quem será capaz de efetuar a sua destruição? Que razão pode cortar esta besta maligna e destruí-la com destruição total? O desejo está profundamente semeado nas mentes dos homens, mesmo daqueles que parecem ser religiosos. Sejamos envergonhados pelos mandamentos do Evangelho. Palavras apenas jazem ali na Escritura, em parte alguma se mostram pelas obras.
E qual é o pretexto especioso dos muitos? Tenho filhos, diz um, e temo ser eu mesmo reduzido ao extremo da fome e da penúria, e vir a necessitar dos outros. Tenho vergonha de mendigar. Por essa razão, então, fazes com que outros mendiguem? Não posso, dizes, suportar a fome. Por essa razão expões outros à fome? Sabes quão terrível coisa é mendigar, quão terrível é perecer de fome? Poupa também os teus irmãos! Dize-me: tens vergonha de padecer fome, e não tens vergonha de roubar? Temes perecer de fome, e não temes destruir os outros? E, no entanto, padecer fome não é nem vergonha nem crime; mas lançar outros em tal estado traz não só vergonha, mas castigo extremo.
Tudo isto são pretextos, palavras, ninharias. Que não é por causa de teus filhos que ages assim, testificam-no aqueles que, na verdade, não têm filhos, nem os terão, mas que, todavia, se afadigam e se atormentam a si mesmos, e se ocupam em adquirir riquezas, tanto quanto se tivessem inúmeros filhos a quem deixá-las. Não é o cuidado com os filhos que torna o homem cobiçoso, mas uma doença da alma. Por esta razão, muitos, mesmo os que não têm filhos, andam loucos pelas riquezas, e outros, vivendo com grande número de filhos, chegam mesmo a desprezar o que possuem. Estes te acusarão naquele Dia. Pois, se as necessidades dos filhos obrigassem os homens a acumular riquezas, também eles necessariamente teriam o mesmo anseio, a mesma cobiça. E, se não a têm, não é do número de filhos que provém esta nossa loucura, mas do amor ao dinheiro. E quem são eles, dirás, os que, tendo filhos, contudo desprezam as riquezas? Muitos, e em muitos lugares. E, se mo permitires, falarei também de exemplos entre os antigos.
João de crisóstomo tinha doze filhos? Não levou ele a vida de um jornaleiro? Não foi ele lesado por seu parente? E não o decepcionou este muitas vezes? E acaso o número de seus filhos jamais o obrigou a recorrer a algum desígnio desonesto? Que dizer de Abraão? E Isaque, não teve ele também muitos outros filhos? Que se segue disso? Não possuiu ele tudo quanto tinha para o benefício de estranhos? Vedes como ele não somente não cometeu injustiça, mas até cedeu suas posses, não só fazendo o bem, mas escolhendo ser lesado por seu sobrinho? Pois suportar ser espoliado por causa de Deus é coisa muito maior do que fazer o bem. Por quê? Porque uma é fruto da alma e da livre escolha, de onde também se realiza facilmente; mas a outra é tratamento injurioso e violência. E mais facilmente um homem lançará fora dez mil talentos voluntariamente, e não julgará ter sofrido dano algum, do que suportará mansamente ser roubado de três moedas contra sua vontade. De sorte que isto, antes, é filosofia da alma. E isto vemos que sucedeu no caso de Abraão. Pois de Ló se diz que viu toda a planície; e ela era bem regada como o jardim de Deus, e ele a escolheu (Gn 13,10-11). E Abraão nada disse contra isso. Vedes como ele não somente não o lesou, mas até foi lesado por ele? Por que, ó homem, acusas teus próprios filhos? Deus não nos deu filhos para este fim, que arrebatássemos as posses alheias. Cuida, para que, dizendo isto, não provoques a Deus. Pois se dizes que teus filhos são as causas de tua avidez e de tua avareza, temo que sejas privado deles, como coisas que te lesam e te enredam. Deus te deu filhos para que amparem tua velhice, para que aprendam de ti a virtude.
Por isso Deus quis que o gênero humano assim se mantivesse unido, provendo a dois objetos dos mais importantes: por um lado, constituindo os pais mestres, e por outro, implantando grande amor. Pois se os homens viessem meramente à existência, ninguém teria relação alguma para com outro. Pois se agora, quando existem as relações de pais, filhos e netos, muitos não têm consideração por muitos, muito mais o seria então. Por isso Deus vos deu filhos. Não acuseis, portanto, os filhos.
Instede não. Vou traduzir o trecho conforme solicitado.
Mas se aqueles que têm filhos não têm desculpa alguma, que poderão dizer para si mesmos aqueles que, não tendo filhos, se consomem na aquisição de riquezas? Têm eles, porém, uma alegação para si mesmos, que é destituída de toda desculpa. E qual é ela? Que, em lugar de filhos, possamos ter, dizem eles, as nossas riquezas como memorial. Isto é, na verdade, ridículo. Em lugar de filhos, diz um tal, minha casa se torna o memorial imortal da minha glória. Não da tua glória, ó homem, será ela o memorial, mas da tua cobiça. Não vês tu quantos, agora, ao passarem diante de casas magníficas, dizem uns aos outros: Que fraudes, que roubos cometeu este tal, para edificar esta casa, e agora se tornou pó e cinza, e a sua casa passou à herança de outros! Não é, pois, da tua glória que deixas um memorial, mas da tua cobiça. E o teu corpo, na verdade, está oculto na terra, mas tu não permites que o memorial da tua cobiça permaneça oculto, como poderia sê-lo pela extensão do tempo, mas fazes com que seja revolvido e desenterrado por meio da tua casa. Pois enquanto esta permanecer, trazendo o teu nome e sendo chamada de tal homem, é necessário que também as bocas de todos se abram contra ti. Não vês tu que é melhor nada possuir do que sustentar tal acusação?
E, com efeito, quanto às coisas presentes, seja assim. Mas que faremos Lá? Dize-me: tendo aqui tantos bens à nossa disposição, se a ninguém repartimos de nossas posses, ou ao menos muito pouco, como poremos de lado os nossos ganhos desonestos? Pois aquele que deseja despojar-se do lucro cobiçoso não dá pouco de muito, mas muitas vezes mais do que roubou, e cessa de roubar. Ouve o que diz Zaqueu: "E se em alguma coisa defraudei alguém, restituo-o quadruplicado" (Lc 19,8). Mas tu, tendo tomado injustamente dez mil talentos, se dás algumas poucas dracmas, pensas ter restituído tudo, e te comportas como se tivesses dado mais. E ainda assim de má vontade. Por quê? Porque devias tanto restituir essas quantias, quanto acrescentar outras de teus próprios bens particulares. Pois assim como o ladrão não é desculpado quando devolve apenas o que roubou, mas frequentemente acrescenta até a própria vida, e frequentemente compõe restituindo muitas vezes mais do que tomou; assim também deveria fazer o cobiçoso. Pois também o cobiçoso é ladrão e assaltante, e muito pior que o outro, tanto quanto é também mais tirânico. Aquele, com efeito, ocultando-se e fazendo seu ataque de noite, corta muito da audácia da empresa, como que envergonhado, e temendo pecar. Mas este, não tendo nenhum senso de vergonha, com rosto descoberto no meio da praça, rouba os bens de todos, sendo ao mesmo tempo ladrão e tirano. Não arromba paredes, nem apaga a candeia, nem abre um cofre, nem rasga selos. Mas o quê? Faz coisas mais insolentes que essas: à vista dos que são lesados, carrega as coisas pela porta, com confiança abre tudo, obriga-os a expor eles mesmos todos os seus bens. Tal é o excesso de sua violência. Este homem é mais perverso que aqueles, na medida em que é mais despudorado e tirânico. Pois aquele que sofreu por fraude, na verdade se aflige, mas não tem pequeno consolo: o de que aquele que o lesou temia-o. Mas aquele que, juntamente com a injúria que sofre, é também desprezado, não poderá suportar a violência. Pois o escárnio é maior. Dize-me: se alguém cometesse adultério com uma mulher em segredo, e outro o cometesse à vista do marido, qual dos dois o afligiria mais, e seria mais apto a feri-lo? Pois este, juntamente com o mal que lhe fez, tratou-o também com desprezo. Mas aquele, se nada mais fez, mostrou ao menos que temia aquele a quem lesava. Assim também no caso do dinheiro. Aquele que o toma secretamente presta-lhe esta honra, a de que o faz em segredo; mas aquele que rouba pública e abertamente, junto com o prejuízo, acrescenta também a vergonha.
Aprendamos, portanto, tanto pobres quanto ricos, a nos abstermos de tomar o que pertence a outrem. Pois o presente discurso não se dirige apenas aos ricos, mas também aos pobres. Porque também estes roubam os que são mais pobres que eles. E os artesãos mais abastados e mais poderosos vendem mais caro do que os mais pobres e aflitos; comerciantes vendem mais caro que comerciantes, e assim todos quantos se ocupam da praça. De modo que desejo, de todos os lados, remover a injustiça. Pois a ofensa não consiste na medida das coisas roubadas e furtadas, mas na intenção daquele que furta. E que estes são maiores ladrões e fraudadores — os que não desprezam os pequenos ganhos — sei-o, e lembro-me de já vo-lo ter dito antes, se também vós vo-lo lembrais. Mas não sejamos demasiado rigorosos. Sejam eles igualmente maus quanto os ricos. Instruamos nossa mente a não cobiçar coisas maiores, a não almejar mais do que temos. E nas coisas celestiais, que nosso desejo de mais nunca se sacie, mas que cada um esteja sempre a cobiçar mais. Porém, na terra, que cada um se contente com o necessário e suficiente, e nada mais busque, para que assim possa alcançar os verdadeiros bens, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Mui apropriadamente todos nós, neste dia, cantamos juntos: "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, que só Ele faz coisas maravilhosas." Pois maravilhosas, e além de toda expectativa, são as coisas que sucederam. Uma cidade inteira, e população tão numerosa, quando prestes a ser submergida — a afundar sob as ondas, e a ser inteira e instantaneamente destruída — Ele a resgatou por completo do naufrágio num único momento de tempo! Demos graças, pois, não somente porque Deus acalmou a tempestade, mas porque permitiu que ela sucedesse. Não somente nos resgatou do naufrágio, mas permitiu que caíssemos em tal aflição e consentiu que tão extremo perigo pairasse sobre nós. Assim também Paulo nos ordena que "em tudo demos graças". Mas, quando diz "em tudo dai graças", não se refere apenas à nossa libertação dos males, mas também ao tempo em que padecemos esses males.
Por isso diz Paulo: Não extingais o Espírito, isto é, o dom da graça, pois é seu costume assim chamar o dom do Espírito. Ora, uma vida impura o extingue. Pois assim como aquele que asperge água e pó sobre a luz de nossa lâmpada a extingue — e, se não faz isso, mas apenas retira o azeite, o mesmo sucede —, assim também é com o dom da graça. Pois se lançastes sobre ele as coisas terrenas e os cuidados das coisas flutuantes, extinguistes o Espírito. E se não fizestes nenhuma dessas coisas, mas alguma tentação, vinda de outra parte, o assaltou violentamente como um vento, e se a luz não for forte, e não tiver muito azeite, ou não tiverdes fechado a abertura, ou não tiverdes cerrado a porta, tudo se perde. Mas qual é a abertura? Como na lâmpada, assim também em nós: são o olho e o ouvido. Não permitais que um sopro violento de maldade caia sobre eles, pois isso extinguiria a lâmpada; antes, fechai-os com o temor de Deus. A boca é a porta. Fechai-a e trancai-a, para que ela tanto ilumine quanto repila o ataque de fora. Por exemplo: alguém vos insultou e vituperou? Fechai a boca; pois, se a abrirdes, acrescentais força ao vento. Não vedes, nas casas, quando duas portas estão diretamente uma diante da outra, e há um vento forte, que, se fechardes uma, e não houver corrente oposta, o vento não tem poder, mas a maior parte de sua força se abate? Assim também agora há duas portas, a vossa boca e a daquele que vos insulta e afronta; se fechardes vossa boca e não permitirdes corrente do outro lado, extinguistes toda a rajada; mas, se a abrirdes, ela não será contida. Não a extingamos, pois.
E a chama está frequentemente sujeita a extinguir-se mesmo quando nenhuma tentação a assalta. Quando o azeite falta, quando não damos esmola, o Espírito se extingue. Pois ele veio a vós como uma esmola de Deus. Então Ele vê que este fruto não existe em vós, e não permanece com uma alma sem misericórdia. Ora, extinguindo-se o Espírito, sabeis o que se segue, tantos quantos dentre vós já caminharam por uma estrada em noite sem lua. E se é difícil caminhar de noite por uma estrada de uma terra a outra, como será seguro no caminho que conduz da terra ao céu? Não sabeis quantos demônios há no espaço intermediário, quantas feras, quantos espíritos de maldade? Se de fato tivermos aquela luz, eles nada poderão nos fazer; mas se a extinguirmos, logo nos tomam cativos, logo nos roubam tudo. Pois até os ladrões primeiro extinguem a lâmpada, e assim nos saqueiam. Porque eles, na verdade, veem nessa escuridão, pois fazem as obras das trevas; nós, porém, não estamos habituados àquela luz. Não a extingamos, pois. Toda má ação extingue aquela luz, seja a maledicência, seja a insolência, ou o que quer que possais mencionar. Pois assim como no caso do fogo, tudo o que é estranho à sua natureza o destrói, mas o que lhe é congênere o acende; tudo o que é seco, tudo o que é quente, tudo o que é ígneo, acende a chama do Espírito. Não a cubramos, pois, com nada frio ou úmido; pois estas coisas a destroem.
Como o fogo requer combustível, assim a graça requer nossa pronta resposta, para que esteja sempre fervorosa. "Trago-te à memória que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição de minhas mãos", isto é, a graça do Espírito, que recebeste, para presidir a igreja, para a operação de milagres e para todo serviço. Pois este dom está em nosso poder acender ou extinguir. Por isso diz Paulo em outro lugar: "Não extingais o Espírito."
Por isso diz Paulo: "Não extingais o Espírito", isto é, o dom da graça, pois é seu costume assim chamar o dom do Espírito. Ora, uma vida impura extingue o dom da graça. Pois assim como aquele que asperge água e pó sobre a luz de nossa lâmpada a extingue... Assim também é com o dom da graça.
Mas há também outra explicação. Havia, com efeito, entre eles muitos que profetizavam verdadeiramente, mas alguns profetizavam falsamente. Isto ele diz também na Epístola aos Coríntios, que por esta razão Ele deu os discernimentos de espíritos (1 Cor 12:10). Pois o diabo, com sua vil astúcia, quis por meio deste dom de graça subverter tudo quanto pertence à Igreja. Pois, uma vez que tanto o demônio quanto o Espírito profetizavam a respeito do futuro, dizendo o primeiro falsidade e o segundo verdade, e não era possível de qualquer parte receber prova de um ou de outro, mas cada qual falava sem ser chamado a prestar contas, como Jeremias e Ezequiel haviam feito, mas quando chegava o momento eram justificados, Ele deu também os discernimentos de espíritos. Uma vez que, portanto, também entre os tessalonicenses muitos profetizavam, ele, olhando para estes, diz: Nem por palavra, nem por epístola, como de nós, como se o dia do Senhor já estivesse presente (2 Ts 2:2); é isto que ele diz aqui. Isto é, não proibais também estes por causa daqueles, nem vos afasteis deles, porquanto há falsos profetas entre vós; não os apagueis, isto é, não desprezeis as profecias.
Vedes que é isto que ele quer dizer com Provai todas as coisas? Porque havia dito Não desprezeis as profecias, para que não pensassem que abria a tribuna a todos, ele diz Provai todas as coisas, isto é, aquelas que são verdadeiramente profecias; e retende o que é bom. Abstende-vos de toda forma de mal; não desta ou daquela, mas de toda; para que, mediante a prova, distingais tanto as coisas verdadeiras quanto as falsas, e vos abstenhais destas, e retenhais aquelas. Pois assim será veemente tanto o ódio a uma quanto surgirá o amor à outra, quando fizermos todas as coisas não descuidadamente, nem sem exame, mas com cuidadosa investigação.
Observai a afeição do Mestre. Após a admoestação, acrescenta uma oração; e não somente isso, mas ainda a insere em sua carta. Pois necessitamos tanto do conselho quanto da oração. Por esta razão, também nós primeiramente vos damos conselho, e depois oferecemos orações por vós. E isto os Iniciados sabem. Mas Paulo, na verdade, fazia isto com boa razão, tendo grande confiança para com Deus, ao passo que nós somos confundidos pela vergonha, e não temos liberdade de palavra. Mas porque fomos designados para isto, o fazemos, sendo indignos até de estar em Sua presença, e de ocupar o lugar dos mais humildes discípulos. Mas porque a graça opera até mesmo por meio dos indignos, não por causa de nós mesmos, mas por causa daqueles que hão de ser beneficiados, damos a nossa parte.
Que vos santifique inteiramente, diz ele, e que o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros, sem culpa, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Que chama ele aqui de espírito? O dom da graça. Pois se partirmos daqui tendo nossas lâmpadas acesas, entraremos na câmara nupcial. Mas se estiverem apagadas, não será assim. Por esta razão diz o vosso espírito. Pois se este permanece puro, o restante também permanece. E alma e corpo, diz ele. Pois nem um nem outro então admite qualquer mal.
Observai a sua humildade. Pois, tendo orado, diz ele: Não penseis que isto sucede por minhas orações, mas pelo propósito com que Ele vos chamou. Pois se Ele vos chamou para a salvação, e Ele é verdadeiro, certamente vos salvará, visto que assim o quer.
Estranho! Que humildade há aqui! Mas ele, na verdade, disse isto por causa da humildade; nós, porém, não por humildade, mas por causa de grande proveito, e desejando obter algum grande ganho de vós, dizemos: Orai também por nós. Pois, ainda que não recebais de nós benefício grande ou admirável, fazei-o, contudo, por causa da honra e do próprio título. Alguém teve filhos, e ainda que não tivesse sido por eles beneficiado, contudo, por ter sido seu pai, talvez lhes proponha isto, dizendo: Pois nem por um dia deixei de ser chamado pai por vós. Por esta razão também nós dizemos: Orai também por nós. Não digo isto apenas por dizer, mas realmente desejando as vossas orações. Pois se me tornei responsável por esta presidência sobre todos vós, e hei de prestar contas, muito mais devo ter o proveito das vossas orações. Por vossa causa são maiores as minhas responsabilidades; portanto, também de vós deve vir maior auxílio.
Oh! Que fervor! Oh! Que louca paixão há aqui! Porque, estando ausente, não podia saudá-los com o ósculo, saúda-os por meio de outros, como quando dizemos: Beijai-o por mim. Assim também vós mesmos conservai o fogo do amor. Pois este não admite distâncias, mas até através de longos caminhos intermediários se estende, e está presente em toda parte.
E este preceito procede antes do amor, e não tanto à maneira de doutrina; para que também com eles, quer dizer, eu esteja conversando.
E ele não apenas ordena, mas os conjura, e isto a partir de um espírito fervoroso, para que, ainda que o desprezem a ele, ao menos por causa do conjuro pratiquem o que lhes é ordenado. Pois os homens tinham grande temor daquele apelo, mas agora também isso é pisado aos pés. E frequentemente, quando um escravo é açoitado e conjura por Deus e por Seu Cristo, e diz: "Assim morras como cristão", ainda que ninguém lhe dê ouvidos, ninguém o considera; mas se o conjura por seu próprio filho, imediatamente, ainda que contra a vontade, e rangendo os dentes, ele deixa de lado sua ira. Novamente, um outro, sendo arrastado e conduzido pelo meio do mercado, na presença tanto de judeus quanto de gregos, conjura aquele que o leva com os mais temíveis conjuros, e ninguém o considera. Que não dirão os gregos, quando um dos fiéis conjura um homem fiel e cristão, e nenhum respeito lhe é dado, antes o desprezamos até nós mesmos?
Permitir-me-eis contar-vos uma certa história que eu mesmo ouvi? Pois não a digo de invenção minha, mas por tê-la ouvido de pessoa digna de crédito. Havia certa serva unida a um homem perverso, um vil escravo fugitivo; ela, quando seu marido, havendo cometido muitas faltas, estava prestes a ser vendido por sua senhora — pois as ofensas eram demasiado grandes para o perdão, e a mulher era viúva, e não podia castigar aquele que era a praga de sua casa, e por isso resolveu vendê-lo; então, considerando que era coisa ímpia separar o marido da esposa, a senhora, ainda que a moça lhe fosse útil, para evitar separá-la dele, decidiu vendê-la também com ele — vendo-se então a jovem nestas angústias, foi ter com uma pessoa venerável, íntima de sua senhora, e que também a mim o contou, e, abraçando-lhe os joelhos, e com mil lamentações, suplicou-lhe que intercedesse por ela junto à sua senhora; e havendo gasto muitas palavras, ao fim acrescentou isto também, como para persuadi-la sobretudo por esse meio, impondo-lhe um conjuro dos mais temíveis, e o conjuro era este: "Assim vejas tu a Cristo no Dia do Juízo, como não negligencies minha súplica." E, tendo assim falado, retirou-se. E aquela que fora suplicada, sobrevindo algum cuidado mundano, como sucede nas famílias, esqueceu-se do assunto. Então, subitamente, ao entardecer, veio-lhe à mente o temibilíssimo conjuro, e sentiu grande compunção, e foi e, com grande fervor, pediu, e obteve o que solicitava. E naquela mesma noite viu subitamente os céus abertos, e ao próprio Cristo. Mas viu-O na medida em que era possível a uma mulher vê-Lo. Porque de algum modo considerou o conjuro, porque teve temor, foi julgada digna desta visão.
E disse eu estas coisas para que não desprezemos os rogos conjurados, mormente quando alguém nos suplica por coisas boas, como as esmolas e as obras de misericórdia. Mas ora, os pobres que perderam os pés sentam-se e veem-vos passar apressadamente, e não podendo seguir-vos com os pés, esperam deter-vos, como que com uma espécie de anzol, pelo temor de um rogo conjurado; e, estendendo as mãos, conjuram-vos que lhes deis somente um ou dois vinténs. Mas vós passais apressadas, ainda que conjuradas pelo vosso Senhor. E se ele te conjurar pelos olhos de teu marido, que está fora, ou de teu filho, ou de tua filha, logo cedes, transporta-se o teu ânimo, te abrasas; mas se te conjurar pelo teu Senhor, passas apressadamente. E conheci muitas mulheres que, ouvindo na verdade o nome de Cristo, passavam apressadas; mas, sendo louvadas pela sua formosura por aqueles que a elas se chegavam, enterneciam-se e abrandavam-se, e estendiam a mão.
Sim, assim reduziram os mendigos sofredores e desventurados a isto, a servirem até de escárnio! Porque, quando não tocam as almas destes com palavras veementes e amargas, recorrem a este modo, pelo qual as deleitam sobremaneira. E a nossa grande malícia obriga aquele que está em calamidade, ou constrangido pela fome, a proferir encômios sobre a formosura dos que se compadecem dele. E oxalá fosse isto tudo. Mas há ainda outra forma pior que esta. Ela obriga os pobres a serem histriões, e bufões, e escarnecedores torpes. Pois, quando ele prende aos dedos taças e tigelas e vasilhas, e as toca como címbalos, e, tendo uma flauta, assobia nela aquelas melodias vis e amorosas, e as canta em altíssima voz; e então muitos se põem ao redor, e uns lhe dão um pedaço de pão, outros um vintém, e outros ainda outra coisa, e o detêm por longo tempo, e tanto homens quanto mulheres se deleitam — que coisa há mais lamentável do que esta? Não são estas coisas dignas de muito gemido? São, na verdade, ninharias, e por ninharias são tidas, mas engendram grandes pecados em nosso caráter. Pois, quando se profere alguma melodia obscena e doce, ela abranda o ânimo, e corrompe a própria alma mesma. E o pobre que, na verdade, invoca a Deus, e nos rende mil bênçãos, não é agraciado sequer com uma palavra de vossa parte; mas aquele que, em lugar destas coisas, introduz gracejos e zombarias, é admirado.
Muito bem, e o que agora me ocorreu dizer-vos, isso direi. E que é isto? Quando estiverdes envolvidos em pobreza e enfermidade, se de nenhuma outra parte, ao menos daqueles que mendigam, que vagueiam pelas ruas estreitas, aprendei a dar graças ao Senhor. Pois eles, gastando toda a sua vida a mendigar, não blasfemam, não se irritam, nem se impacientam, mas fazem de toda a narrativa de sua mendicância uma ação de graças, magnificando a Deus e chamando-O misericordioso. Aquele mesmo que está perecendo de fome chama-O misericordioso, mas tu, que vives na abundância, se não podes obter os bens de todos, chamas-O cruel. Quanto melhor é ele! Como nos condenará! Deus enviou os pobres pelo mundo como mestres comuns em nossas calamidades, e consolação sob elas. Sofreste algo contrário aos teus desejos? Contudo, nada semelhante ao que aquele pobre sofre. Perdeste um olho, mas ele ambos. Padeceste longamente sob uma enfermidade, mas ele tem uma que é incurável. Perdeste teus filhos, mas ele até a saúde de seu próprio corpo. Sofreste uma grande perda, mas ainda não foste reduzido a suplicar aos outros. Dá graças a Deus. Vês a eles na fornalha da pobreza, e mendigando, na verdade, de todos, mas recebendo de poucos. Quando estiveres cansado de orar e não receberes, considera quantas vezes ouviste um pobre a clamar-te, e não lhe deste ouvidos, e ele não se irou nem te insultou. E, contudo, tu, na verdade, ages assim por crueldade; mas Deus, por misericórdia, até recusa ouvir. Se, portanto, tu mesmo, por crueldade, não ouvindo o teu conservo, não esperas ser reprovado, achas tu falta no Senhor, que por misericórdia não ouve o Seu servo? Vedes quão grande é a desigualdade, quão grande a injustiça?
Deve-se considerar estas coisas continuamente, tanto aqueles que estão abaixo de nós, quanto aqueles que estão sob calamidades maiores, e assim poderemos ser gratos a Deus. A vida abunda em muitos exemplos deste tipo. E aquele que é sóbrio e disposto a atentar não obtém pequena instrução das casas de oração. Por esta razão os pobres se assentam diante do vestíbulo, tanto nas igrejas quanto nas capelas dos Mártires, para que recebamos grande benefício deste espetáculo. Pois considerai que, quando entramos nos palácios terrenos, nada disto podemos ver; mas homens dignificados e famosos, e ricos e inteligentes, apressam-se de um lado a outro por toda parte. Mas nos verdadeiros palácios — refiro-me à Igreja e aos oratórios dos Mártires — entram os endemoninhados, os aleijados, os pobres, os anciãos, os cegos, e aqueles cujos membros são distorcidos. E por quê? Para que sejais instruídos por este espetáculo; em primeiro lugar, para que, se entrastes trazendo convosco algum orgulho de fora, tendo contemplado estas coisas, e deposto vossa arrogância, e tornado-vos contritos de coração, assim possais entrar e ouvir as coisas que são ditas; pois não é possível que aquele que ora com espírito arrogante seja ouvido. Para que, quando virdes um homem idoso, não vos exalteis por causa de vossa juventude, pois estes anciãos foram outrora jovens. Para que, quando vos gabardes altamente de vossa milícia, ou de vosso poder régio, considereis que destes mesmos brotaram aqueles que se tornaram ilustres nas cortes dos reis. Para que, quando presumirdes de vossa saúde corporal, atentando para estes, moderastes vosso espírito soberbo. Pois o homem saudável que continuamente aqui entra não se ensoberbecerá por causa de sua saúde corporal; e o enfermo receberá não pequena consolação.
Mas não se assentam ali somente por esta razão, senão também para que te tornem compassivo, e sejas inclinado à piedade; para que admires a benignidade de Deus; pois, se Deus não Se envergonha deles, mas os colocou em Seus vestíbulos, muito menos te envergonhes tu; para que não te ensoberbeças por causa dos palácios sobre a terra. Não te envergonhes quando fores procurado por um pobre; e, se ele se aproximar, se se lançar aos teus joelhos, não o repilas. Pois estes são como admiráveis cães das Cortes Reais. E não os chamo cães para desonrá-los — longe disso — mas antes para grandemente louvá-los. Eles guardam a corte do Rei. Alimentai-os, pois, porquanto a honra se transmite ao Rei. Ali tudo é soberba — falo dos palácios terrenos —; aqui tudo é humildade. Aprendes, sobretudo pelos próprios vestíbulos, que os seres humanos nada são. Pelas próprias pessoas que ali se assentam, és ensinado que Deus não Se compraz nas riquezas. Pois o seu assentar-se e ajuntar-se ali é quase uma admoestação, que faz ressoar clara voz acerca da natureza de todos os homens, dizendo que as coisas humanas nada são, que são sombra e fumaça. Se as riquezas fossem um bem, Deus não teria assentado os pobres diante do Seu próprio vestíbulo. E, se admite também os ricos, não te maravilhes, pois não os admite para que permaneçam ricos, mas para que sejam libertos do seu estorvo. Ouve, pois, o que Cristo lhes diz: "Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Mt 6.24); e ainda: "É difícil que um rico entre no Reino dos céus"; e ainda: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino dos céus" (Mt 19.23-24). Por isso Ele recebe os ricos: para que ouçam estas palavras, para que suspirem pelas riquezas eternas, para que cobicem as coisas do céu. E por que te admiras de que Ele não desdenhe assentar tais pessoas em Seus vestíbulos? Pois Ele não desdenha chamá-las à Sua mesa espiritual, e fazê-las participantes daquele Banquete. Ora, o aleijado e o coxo, o ancião vestido de trapos e imundícies, e acometido de catarro, vem participar daquela Mesa juntamente com o jovem e o formoso, e mesmo com aquele que se veste de púrpura e cuja cabeça é cingida por um diadema — e é tido por digno do Banquete espiritual, e ambos gozam dos mesmos bens, e não há diferença alguma.
Vede que Cristo não se dignou de os chamar à Sua mesa juntamente com o rei (o Imperador) — pois ambos são chamados juntos — e vós, porventura, vos dignais de sequer serdes vistos a dar aos pobres, ou mesmo a conversar com eles? Ai de vossa altivez e soberba! Vede que não padeçamos o mesmo que outrora o rico. Este se dignou de sequer olhar para Lázaro, nem lhe permitiu partilhar de seu teto ou abrigo, mas ele estava fora, lançado junto ao seu portão, nem sequer lhe foi concedida uma palavra da parte dele. Mas vede como, caído em apuros e necessitado de seu socorro, não logrou obtê-lo. Pois se nos envergonhamos daqueles de quem Cristo não Se envergonha, envergonhamo-nos de Cristo, envergonhando-nos de Seus amigos. Que a vossa mesa se encha dos aleijados e dos coxos. Por meio destes vem Cristo, não pelos ricos. Talvez rides ao ouvir isto; portanto, para que não penseis ser esta palavra minha, ouvi o próprio Cristo falando, para que não rieis, mas estremeçais: Quando deres um jantar ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os vizinhos ricos; para que não suceda que também eles te convidem, e te seja feita recompensa. Mas, quando fizeres um banquete, chama os pobres, os aleijados, os mancos, os cegos; e serás bem-aventurado, porque não têm com que te recompensar; pois serás recompensado na Ressurreição dos justos (Lc 14:12-14). E maior é a vossa glória mesmo aqui, se amardes isso. Pois daquela primeira classe de convidados nascem a inveja, e a malícia, e as calúnias, e as injúrias, e grande temor de que suceda algo inconveniente. E vós estais como um servo diante de seu senhor, se os que são convidados vos são superiores, temendo a sua crítica e os seus lábios. Mas no caso destes outros não há nada disso, antes tudo o que lhes trazeis recebem com prazer; e ampla é a aclamação, mais brilhante a glória, mais elevada a admiração. Todos os que ouvem não aplaudem tanto os primeiros quanto estes últimos. Mas se não credes, vós que sois ricos, fazei a experiência, vós que convidais generais e governadores. Convidai os pobres, e enchei deles a vossa mesa, e vede se não sereis aplaudidos por todos, se não sereis amados por todos, se todos não vos terão por pai. Pois daqueles banquetes não há proveito algum, mas para estes está reservado o céu, e os bens do céu — dos quais possamos todos ser participantes, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Por que se dirige Paulo aos cristãos de toda a província, e não somente aos da cidade? A razão, penso eu, é que todos eles estavam envolvidos num único e comum problema e, portanto, todos necessitavam do mesmo remédio.
Mais uma vez, Paulo chama os coríntios de igreja, a fim de uni-los entre si, e de "santos", dando a entender que, se alguém for impuro, não está incluído nesta saudação.
Em sua primeira epístola, Paulo disse que enviaria Timóteo com a carta, mas agora o associa a si mesmo. Por que isso? Evidentemente Timóteo já havia cumprido sua missão e retornado para junto de Paulo. Tendo estado por algum tempo na Ásia, haviam passado à Macedônia, de onde escreveu esta carta. Ao associar Timóteo a si mesmo, Paulo aumentou o respeito devido a ele e demonstrou sua própria grande humildade, visto que Timóteo era bem menos conhecido do que Paulo. Mas o amor tudo reúne.
Convém indagar, primeiramente, por que ele acrescenta uma segunda epístola à primeira, e qual pode ser a razão de assim começar pelas misericórdias e pela consolação de Deus.
Por que, então, acrescenta ele uma segunda Epístola? Enquanto que na primeira dissera: Irei ter convosco, e conhecerei, não a palavra dos que estão inchados, mas o poder (1 Cor 4,19); e novamente, perto do fim, prometera o mesmo em termos mais brandos, assim: Irei ter convosco quando houver passado pela Macedônia; pois passarei pela Macedônia; e talvez fique, ou até mesmo inverne convosco (1 Cor 16,5-6); todavia agora, depois de longo intervalo, não veio; mas ainda demorava e adiava, mesmo tendo passado o tempo aprazado; o Espírito o detendo em outros assuntos de necessidade muito maior do que estes. Por esta razão teve necessidade de escrever uma segunda Epístola, da qual não teria necessitado se apenas houvesse tardado um pouco além do seu tempo.
Estavam os coríntios sobremaneira perturbados por não haver o apóstolo vindo a eles, a despeito de sua promessa, e por haver ele despendido todo o seu tempo na Macedônia, dando a entender que os preferia aos coríntios. Prepara-se, pois, Paulo para dissipar tal sentimento contra si, declarando a causa de sua ausência, ainda que sem a expor diretamente.
Não quis Paulo abater o ânimo dos discípulos com um relato exagerado de seus sofrimentos; em lugar disso, declara quão grande foi a consolação que recebeu, trazendo-lhes à memória a Cristo.
Mas não somente por esta razão, mas também porque foram emendados pela epístola anterior; pois àquele que havia cometido fornicação, a quem antes aplaudiam e por causa de quem se ensoberbeciam, eles o tinham excluído e separado inteiramente. E isto ele demonstra onde diz: *Mas se alguém causou tristeza, não a mim a causou, mas em parte (para que não vos sobrecarregue) a todos vós. Basta a esse tal esta punição que lhe foi infligida pela maioria* (2 Cor 2:5-6). E, prosseguindo, alude novamente à mesma questão quando diz: *Porque eis que essa mesma tristeza segundo Deus produziu em vós que solicitude, que defesa de vós mesmos, que indignação, que temor, que saudade, que zelo, que castigo! Em tudo demonstrastes ser puros neste assunto* (2 Cor 7:11). Além disso, a coleta que ele havia ordenado, eles a reuniram com muita prontidão. Por isso também diz: *Pois conheço a vossa prontidão, da qual me glorio a vosso respeito diante dos da Macedônia, de que a Acaia está preparada desde o ano passado* (2 Cor 9:2). E a Tito também, a quem enviou, receberam com toda benevolência, como demonstra quando diz novamente: *O seu íntimo afeto é ainda mais abundante para convosco, ao recordar-se da obediência de todos vós, de como o recebestes com temor e tremor* (2 Cor 7:15). Por todas estas razões escreve ele a segunda Epístola. Pois era justo que, assim como quando estavam em falta ele os repreendeu, assim também, após a sua emenda, ele os aprovasse e louvasse. Por esta razão a Epístola não é, em toda a sua extensão, muito severa, mas somente em algumas partes para o final. Pois havia até mesmo entre eles judeus que muito se estimavam a si mesmos, e acusavam Paulo de ser um jactancioso e indigno de consideração; donde também aquela sua expressão: *As suas cartas são pesadas e fortes, mas a sua presença corporal é fraca, e o seu discurso, de nenhum valor* (2 Cor 10:10); querendo com isto dizer que, quando presente, ele aparece de nenhum valor (pois este é o significado de "a sua presença corporal é fraca"), mas quando ausente se gloria grandemente naquilo que escreve (pois tal é a significação de "as suas cartas são pesadas"). Além disso, para realçar o seu próprio crédito, estas pessoas fingiam nada receber, ao que ele também alude quando diz: *que naquilo em que se gloriam, sejam achados também como nós* (2 Cor 11:12). E, além disso, possuindo também a habilidade do discurso, eles se ensoberbeciam imediatamente e em grande maneira. Por isso também ele se chama a si mesmo rude na palavra (2 Cor 11:6), mostrando que disto não se envergonha, nem considera o contrário como grande aquisição. Vendo, pois, que era provável que por estas pessoas alguns fossem seduzidos, depois de louvar o que era reto na sua conduta, e de abater a sua insensata soberba nas coisas do judaísmo, no que fora de tempo se mostravam contenciosos em observá-las, ele administra uma repreensão branda também sobre este assunto.
2. Assim, portanto, para falar resumida e brevemente, parece-me ser este o argumento desta Epístola. Resta considerar o introito, e dizer por que, após a saudação costumeira, ele começa, como o faz, com as misericórdias de Deus. Mas primeiro, é necessário falar do início mesmo, e indagar por que aqui ele associa Timóteo a si. Pois, diz ele, Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo. Na primeira Epístola havia prometido que o enviaria; e lhes ordenara, dizendo: Ora, se Timóteo for, vede que esteja sem temor entre vós (1 Cor 16:10). Como se dá, então, que ele o associe aqui a si mesmo, logo no início? Depois de haver estado entre eles, conforme aquela promessa de seu mestre — enviei-vos Timóteo, que vos lembrará os meus caminhos em Cristo (1 Cor 4:17) —, e de haver posto tudo em ordem, retornara a Paulo; que, ao enviá-lo, dissera: Encaminhai-o em paz, para que venha a mim, pois o espero com os irmãos (1 Cor 16:11).
Uma vez, pois, que Timóteo fora restituído a seu mestre, e depois de haver com ele posto em ordem as coisas na Ásia — pois, diz ele, ficarei em Éfeso até Pentecostes (1 Cor 16:8) —, atravessara de novo para a Macedônia; não sem razão Paulo o associa doravante como permanecendo consigo. Pois então escrevera da Ásia, mas agora da Macedônia. Além disso, associando-o assim, ele ao mesmo tempo lhe granjeia maior respeito e manifesta sua própria excelentíssima humildade: pois Timóteo lhe era muito inferior, mas o amor tudo congrega. Donde também em toda parte o iguala a si mesmo; ora dizendo, como filho a pai, ele serviu comigo (Fp 2:22); ora, pois ele realiza a obra do Senhor, como também eu (1 Cor 16:10); e aqui chega mesmo a chamá-lo irmão; tornando-o, por todos esses modos, objeto de respeito para os coríntios entre os quais estivera, como disse, e dado prova de seu valor.
Para a Igreja de Deus que está em Corinto. Novamente ele os chama de Igreja, para reuni-los e vinculá-los todos em um só corpo. Pois não poderia ser uma só Igreja, se aqueles que estavam em seu interior se achassem apartados e dissociados uns dos outros. Com todos os santos que estão em toda a Acaia. Ao saudar assim a todos por meio da Epístola dirigida aos coríntios, ele quis, ao mesmo tempo, honrar estes e reunir toda a nação. Mas ele os chama de santos, dando a entender, com isso, que, se alguém for pessoa impura, não tem parte nesta saudação. Mas por que, escrevendo à cidade-mãe, ele se dirige a todos por meio dela, visto que não procede assim em toda parte? Por exemplo, em sua Epístola aos tessalonicenses, ele não se dirigiu também aos macedônios; e, de igual modo, na Epístola aos efésios, ele não inclui toda a Ásia; tampouco a Epístola aos romanos foi escrita também aos que habitam a Itália. Nesta Epístola, porém, ele o faz; e assim também na Epístola aos gálatas. Pois ali também ele não escreve a uma cidade, ou a duas, ou a três, mas a todos quantos estão dispersos por toda parte, dizendo: Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por meio de homem, mas por meio de Jesus Cristo e de Deus Pai, que O ressuscitou dentre os mortos), e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da Galácia: Graça a vós e paz (Gl 1,1-3). Aos hebreus, também, ele escreve uma só Epístola a todos em conjunto, sem os distinguir segundo as suas várias cidades. Qual poderia ser, então, a razão disso? Porque, ao que penso, neste caso todos estavam envolvidos numa mesma e comum enfermidade, razão pela qual ele também a todos se dirige em comum, como carecendo de um só e comum remédio. Pois os gálatas estavam todos eles infectados. E assim também os hebreus, e assim penso que estes (os acaios) também o estavam.
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação. 2 Coríntios 1:3 Perguntais como isto vem tão a propósito? Respondo: em grande medida; pois observai que eles estavam sobremaneira vexados e perturbados por não ter o Apóstolo vindo até eles, e isto depois de o ter prometido, tendo antes gasto todo aquele tempo na Macedônia, como que preferindo outros a eles próprios. Dispondo-se, pois, a atalhar este sentimento contra si, declara ele a causa de sua ausência; não, porém, expondo-a diretamente, como quem dissesse: Bem sei que prometi vir, mas, tendo sido impedido por aflições, perdoai-me, nem me julgueis culpado de qualquer espécie de desprezo ou negligência para convosco; antes, de outra maneira, reveste o assunto desde logo de maior dignidade e credibilidade, e lhe confere grandeza pela própria natureza da consolação, de sorte que dali em diante nem sequer perguntassem a razão de sua demora. Como se alguém, tendo prometido vir ter com pessoa por quem ansiava, chegando por fim depois de inumeráveis perigos, dissesse: Glória a Vós, ó Deus, por me haverdes concedido ver o tão desejado semblante daquele que amo! Bendito sejais, ó Deus, de quantos perigos me livrastes! Pois tal doxologia é já resposta àquele que se dispunha a censurá-lo, e não lhe permite sequer queixar-se da demora; porque a quem está dando graças a Deus por haver sido livrado de tão grandes calamidades, não se pode, sem vergonha, arrastar ao tribunal e mandar que se justifique de sua tardança. Donde Paulo assim começa: Bendito seja o Deus das misericórdias, dando a entender pelas próprias palavras que ele havia sido lançado em grandes perigos e deles livrado. Pois assim como também Davi não se dirige a Deus em toda parte de um só modo ou com os mesmos títulos — mas quando trata de batalha e vitória, diz ele: Eu Vos amarei, ó Senhor, fortaleza minha; o Senhor é o meu escudo; quando, ao contrário, trata da libertação da aflição e das trevas que o envolviam: O Senhor é a minha luz e a minha salvação Salmo 27:1 — e, conforme a ocasião imediata sugere, ora O nomeia por sua benignidade, ora por sua justiça, ora por seu justo juízo — do mesmo modo também Paulo aqui, no início, O descreve por sua benignidade, chamando-O Deus das misericórdias, isto é, Aquele que me mostrou tão grandes misericórdias a ponto de me tirar das próprias portas da morte.
E assim, ter misericórdia é o atributo peculiar e excelente de Deus, e o mais inerente à Sua natureza; donde O chama Deus das misericórdias.
Observai, peço-vos, também aqui a humildade de espírito de Paulo. Pois, embora estivesse em perigo por causa do Evangelho que pregava, não diz ele que foi salvo pelo seu mérito, mas pelas misericórdias de Deus. Isto, porém, ele declara mais claramente depois; e agora prossegue dizendo: Que nos consola em toda tribulação (2 Cor 1:4). Não diz Ele: Que não nos permite cair em tribulação, mas: Que nos consola na tribulação. Pois isto ao mesmo tempo declara o poder de Deus e aumenta a paciência dos aflitos. Pois, diz ele, a tribulação produz paciência (Rm 5:3). E assim também o profeta: Puseste-me em lugar espaçoso quando eu estava angustiado (Sl 4:1). Não diz: Não permitiste que eu caísse em aflição, nem tampouco: Removeste depressa a minha aflição, mas: enquanto ela persiste, puseste-me em lugar espaçoso (Dn 3:21, etc.); isto é, concedeste-me muita liberdade e alívio. O que verdadeiramente aconteceu também no caso dos três meninos, pois Ele não impediu que fossem lançados na chama, nem, uma vez lançados, a extinguiu, mas, enquanto a fornalha ardia, deu-lhes liberdade. E tal é sempre o modo de agir de Deus; como Paulo também dá a entender quando diz: Que nos consola em toda tribulação.
Mas ele ensina algo mais nestas palavras. Perguntais o quê? A saber, que Deus faz isto não uma vez, nem duas, mas sem interrupção. Pois não consola ora uma vez, ora outra não, mas sempre e constantemente. Por isso diz ele: Que nos consola, e não: Que nos consolou; e: em toda tribulação, e não: nesta ou naquela, mas: em toda.
Para que possamos consolar os que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus. Não vedes como ele se antecipa à sua defesa, sugerindo ao ouvinte a lembrança de alguma grande aflição? E também nisto se manifesta novamente a sua modéstia, pois não diz que por méritos próprios lhes foi mostrada esta misericórdia, mas por causa dos que necessitam de sua assistência; pois, diz ele, para este fim Ele nos consolou, para que consolássemos uns aos outros. E com isto manifesta também a excelência dos Apóstolos, mostrando que, tendo sido consolado e respirado por um pouco, ele não se deita molemente como nós, mas segue seu caminho para ungir, fortalecer, despertar outros. Alguns, contudo, entendem que este é o sentido do Apóstolo: A nossa consolação é também a dos outros; minha opinião, porém, é que nesta introdução ele também está censurando os falsos apóstolos, aqueles vãos jactanciosos que se assentavam em casa e viviam em luxo; mas isto encobertamente e, por assim dizer, incidentalmente, sendo o objetivo principal desculpar-se pela sua demora. Pois, [diria ele,] se para este fim fomos consolados, para que consolássemos também a outros, não nos culpeis por não termos vindo; pois nisto se consumiu todo o nosso tempo, em prover contra as conspirações, a violência, os terrores que nos assaltavam.
Sofrimentos de Cristo abundam sobre nós, assim também a nossa consolação abunda por meio de Cristo. Não para deprimir os discípulos com um relato agravado de seus sofrimentos; ele declara, ao contrário, que grande e superabundante era também a consolação, e eleva-lhes o coração não somente por isto, mas também fazendo-os lembrar de Cristo e chamando os sofrimentos de Seus, e, antes mesmo da consolação, extrai um consolo dos próprios sofrimentos em si mesmos. Pois que alegria posso eu ter tão grande quanto ser partícipe com Cristo e, por Sua causa, sofrer estas coisas? Que consolação pode igualar-se a esta? Mas não somente desta fonte ele levanta o ânimo dos aflitos, mas também de outra. Perguntais qual outra? Naquilo que diz: abundam; pois não diz, Assim como os sofrimentos de Cristo estão em nós, mas assim como abundam, declarando com isto que eles não suportam somente os Seus sofrimentos, mas ainda mais do que estes. Pois, diz ele, não foi tudo quanto Ele sofreu que nós sofremos; mas ainda mais — pois considerai: Cristo foi expulso, perseguido, açoitado, morreu; mas nós, diz ele, mais do que tudo isto, o que já de si seria consolação bastante. Ora, que ninguém condene esta fala de audácia; pois em outro lugar ele diz: Agora me alegro em meus sofrimentos, e cumpro, de minha parte, o que falta das aflições de Cristo em minha carne (Cl 1,24). Contudo, nem aqui nem lá se trata de audácia ou de qualquer presunção. Pois, assim como eles realizaram milagres maiores do que Ele, segundo aquela palavra Sua, quem crê em Mim fará obras maiores do que estas (Jo 14,12), mas tudo é d'Aquele que opera neles; assim também sofreram eles mais do que Ele, mas tudo, de novo, é d'Aquele que os consola e os capacita a suportar os males que lhes sobrevêm.
A este respeito, Paulo, consciente de quão grande coisa havia dito, refreia-a de modo notável ao acrescentar novamente: Assim também a nossa consolação abunda por meio de Cristo; atribuindo, assim, tudo a Ele de uma vez, e proclamando nisto também Sua benignidade; pois não diz, Assim como a nossa aflição, tal a nossa consolação; mas muito mais; pois não diz que a nossa consolação é igual aos nossos sofrimentos, mas que a nossa consolação abunda, de modo que a estação dos combates era também a estação de coroas renovadas. Pois, dizei-me, o que se iguala a ser açoitado por causa de Cristo e ter comunhão com Deus; e ser mais do que páreo para todas as coisas, e obter a melhor parte sobre os que nos expulsam, e ser invencível a todo o mundo, e esperar, a partir disto, tais bens que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem entraram no coração do homem (1 Cor 2,9)? E o que se iguala a sofrer aflição por causa da piedade, e receber de Deus consolações infinitas, e ser resgatado de pecados tão grandes, e ser tido por digno do Espírito, e de ser santificado e justificado, e não olhar a homem alguma com temor e tremor, e, no próprio perigo, sobressair a todos?
5. Não desfaleçamos, pois, quando tentados. Porque nenhum entregue à indulgência tem comunhão com Cristo, nem o dorminhoco, nem o indolente, nem qualquer dos que vivem nesta relaxada e dissoluta molície. Mas quem está na aflição e na tentação, esse é que está próximo dEle, esse é que caminha pela via estreita. Pois Ele mesmo a trilhou; donde também diz: o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. Não te entristeças, pois, quando estiveres em aflição; considerando com Quem tens comunhão, e como pelas provações és purificado, e quão grande é o teu ganho. Pois nada há de miserável senão o ofender a Deus; mas, afora isto, nem as aflições, nem as conspirações, nem qualquer outra coisa tem poder para entristecer a alma bem-disposta: mas, assim como uma pequena centelha, se a lanças num abismo imenso, logo a apagas, assim também uma tristeza total e excessiva, se recai sobre uma boa consciência, facilmente se extingue e desaparece.
Tal era, pois, a fonte da contínua alegria de Paulo: porque em tudo quanto era de Deus estava cheio de esperança; e nem sequer levava em conta males tão grandes, mas, embora se entristecesse como homem, não sucumbia. Assim também aquele Patriarca esteve cercado de alegria em meio a tão penoso sofrimento; pois considera: deixou sua pátria, suportou jornadas longas e árduas; quando chegou a terra estranha, não tinha sequer onde pôr o pé (At 7:5). Depois, ainda, uma fome o esperava, que dele fez de novo um errante; após a fome, veio de novo o rapto de sua mulher, depois o temor da morte, e a falta de filhos, e a batalha, e o perigo, e as conspirações, e por fim aquela provação coroadora, a imolação de seu unigênito e verdadeiro filho, sacrifício penoso e irreparável. Pois não penseis, rogo-vos, que, por ter obedecido prontamente, não sentiu ele tudo quanto padeceu. Pois, embora sua justiça fosse, como de fato era, inestimável, era, contudo, homem, e sentiu como a natureza o ditava. Mas nenhuma destas coisas o abateu; antes, permaneceu como nobre atleta, e por cada uma foi proclamado e coroado vencedor. Assim também o bem-aventurado Paulo, ainda que visse as provações caírem sobre si a cada dia como densa nevada, alegrava-se e exultava como se estivesse em meio às delícias do Paraíso. Assim como aquele que se alegra com esta alegria não pode ser presa do desespero, assim também aquele que não a faz sua é facilmente vencido por tudo, e é como quem tem armadura frágil, e é ferido até por golpe comum: mas não assim aquele que está bem revestido por todos os lados, e couraçado contra todo dardo que sobre ele venha. E verdadeiramente mais robusta do que qualquer couraça é a alegria em Deus; e quem a possui, jamais coisa alguma pode fazer curvar-lhe a cabeça ou entristecer-lhe o semblante, mas tudo suporta nobremente. Pois que há de suportar-se mais penoso que o fogo? Que mais doloroso que a tortura contínua? Verdadeiramente é isto mais avassalador em dor que a perda de riquezas incontáveis, de filhos, de coisa alguma; pois, diz ele, pele por pele, sim, tudo quanto o homem possui dará por sua vida (Jó 2:4). Assim, nada pode ser mais duro de suportar que a dor corporal; contudo, por causa desta alegria em Deus, o que até de ouvir é intolerável torna-se tolerável e desejável: e se retirares da cruz ou da grelha o mártir ainda arquejante, encontrarás nele tal tesouro de alegria que não admite ser expresso em palavras.
Ora, dirá alguém: Que hei de fazer, pois já não é tempo de martírio? Que dizes? Não é agora tempo de martírio? Nunca deixa de o ser; antes está sempre diante de nossos olhos, se os quisermos manter abertos. Pois não é somente o pender de uma cruz que faz o Mártir, pois se assim fosse, excluído estaria Jó desta coroa; porquanto ele nem esteve perante tribunal, nem ouviu voz de Juiz, nem contemplou algoz; não, nem sequer, pendendo em madeiro no alto, teve os flancos dilacerados; contudo padeceu pior do que muitos mártires; mais agudamente do que qualquer golpe o feriu a narrativa daqueles mensageiros sucessivos, e o aguilhoou por todos os lados: e mais penetrantes as dentadas dos vermes que o devoravam em cada parte do corpo do que mil algozes.
Contra qual mártir, pois, não poderia ele ser dignamente posto ao lado? Certamente contra dez mil. Pois em todo gênero de sofrimento lutou e foi coroado; nos bens, nos filhos, na própria pessoa, na esposa, nos amigos, nos inimigos, nos servos (pois estes até cuspiram em seu rosto), na fome, nas visões, nas dores e na imundície; foi por isso que disse que ele poderia ser dignamente posto, não contra um, nem dois, nem três, mas contra dez mil mártires. Pois além do que mencionei, também o tempo acrescenta grandemente à sua coroa; porquanto foi antes da Lei, antes da Graça, que assim padeceu, e isso, por muitos meses, e cada mal em sua forma mais grave; e todos estes males o assaltaram ao mesmo tempo. E, no entanto, cada mal em si mesmo já era intolerável, até mesmo aquele que parece mais suportável, a perda dos bens. Pois muitos suportaram pacientemente os açoites, mas não puderam suportar a perda dos bens; antes, para não perder nenhuma parte deles, contentavam-se em ser até açoitados por sua causa e em sofrer inúmeros males; e este golpe, a perda dos bens, pareceu-lhes mais pesado que todos os outros. Eis, pois, aqui outro modo de martírio para aquele que suporta nobremente esta perda. E pergunta alguém: Como suportá-la nobremente? Quando tiveres aprendido que por uma só palavra de ação de graças ganharás mais do que tudo o que perdeste. Pois se, ao receber a notícia da perda, não nos perturbamos, mas dizemos: Bendito seja Deus, encontramos riquezas muito mais abundantes. Pois em verdade, tão grande fruto não colherás dispendendo toda a tua riqueza com os necessitados, andando de um lado para outro em busca dos pobres e distribuindo os teus bens aos famintos, quanto ganharás com esta mesma palavra. E assim, não é tanto por abrir de par em par a sua casa aos necessitados que admiro a Jó, quanto me impressiono e o exalto por ter recebido com ação de graças a espoliação dos seus bens. O mesmo se pode ver a respeito da perda dos filhos. Pois também nisto receberás recompensa não menor que a daquele que ofereceu o seu filho e o apresentou em sacrifício, se, ao veres os teus morrerem, deres graças ao Deus do amor. Pois em que seria tal homem inferior a Abraão? Este não viu o seu filho estendido cadáver, mas apenas se dispôs a fazê-lo. Se, pois, ele ganha na comparação pelo seu propósito de matar e por ter estendido a mão para tomar a faca, perde, contudo, no fato de que aqui a criança jaz morta. E, além disso, ele teve algum consolo na perspectiva de uma boa obra realizada, e no pensamento de que aquele feito tão excelente era obra da sua própria fortaleza, e o fato de ter ouvido uma voz vinda do alto o tornou mais pronto. Mas aqui não há nada disso. De modo que necessitaria ter alma de diamante quem pudesse suportar com serenidade ver um filho, o único que tinha, criado na afluência, na aurora de belas promessas, jazendo no féretro, cadáver estendido. E se tal homem, aquietando os ímpetos da natureza, fosse fortalecido a ponto de dizer as palavras de Jó sem uma lágrima: O Senhor deu, o Senhor tirou (Jó 1:21); somente por causa destas palavras, ele há de ficar ao lado do próprio Abraão e, com Jó, ser proclamado vencedor. E se, contendo os lamentos das mulheres e rompendo os grupos de pranteadores, despertar a todos para cantar glória a Deus, receberá acima e abaixo recompensas sem número; os homens o admirando, os anjos o aplaudindo, Deus o coroando.
7. E dizeis vós: como é possível que um homem não se lamente? Respondo: se refletirdes em como nem o Patriarca nem Jó, ambos homens, cederam a coisa semelhante — e isto ainda antes da Lei, e da Graça, e da excelente sabedoria das leis [que temos] —; se considerardes que o falecido passou para uma pátria melhor, e saltou para uma herança mais feliz, e que não perdestes vosso filho, mas antes o depositastes doravante em lugar inviolável. Não digais, pois, eu vos peço, "já não sou chamado pai", pois por que já não sereis assim chamado, se vosso filho subsiste? Pois por certo não vos apartastes de vossa criança, nem perdestes vosso filho; antes, o ganhastes, e o tendes em maior segurança. Por isso, não sereis chamado pai apenas aqui, mas também no céu; de modo que não perdestes o título de pai, mas o ganhastes em sentido mais nobre; pois doravante sereis chamado pai não de uma criança mortal, mas de uma imortal; de um nobre soldado, em serviço contínuo dentro [do palácio]. Não penseis, pois, que, por não estar presente, esteja perdido; pois, se estivesse ausente em terra estrangeira, o título de vosso parentesco não se teria ido de vós com seu corpo. Não fixeis, pois, o olhar sobre o semblante do que ali jaz, pois assim apenas reacendeis vossa dor; mas apartai vosso pensamento daquele que ali jaz, elevando-o ao céu. Não é vosso filho aquele que ali jaz, mas aquele que voou e saltou para a altura sem limites. Quando, pois, virdes os olhos fechados, os lábios cerrados, o corpo imóvel, oh, não sejam estes vossos pensamentos: "Estes lábios já não falam, estes olhos já não veem, estes pés já não caminham, mas todos vão a caminho da corrupção!" Oh, não digais assim; mas dizei o contrário disto: "Estes lábios falarão coisas melhores, e os olhos verão coisas maiores, e os pés subirão sobre as nuvens; e este corpo que agora apodrece revestirá a imortalidade, e eu receberei de volta meu filho mais glorioso." Mas se o que vedes vos aflige, dizei a vós mesmos entretanto: "Isto é [apenas] vestimenta, e ele a despiu para recebê-la de volta mais preciosa; isto é uma casa, e é derrubada para ser restaurada em maior esplendor." Pois, assim como nós, ao propormos derrubar casas, não permitimos que os moradores nelas permaneçam, para que escapem da poeira e do estrondo, mas, fazendo-os retirar-se por pouco tempo, quando tivermos edificado com segurança a habitação, os recebemos livremente de volta — assim também faz Deus; o Qual, derrubando este Seu tabernáculo em decadência, o recebeu entretanto em Sua morada paterna e junto de Si mesmo, para que, depois de derrubado e reedificado, então o devolva a ele mais glorioso.
Não digais, pois, "pereceu e já não mais será", pois estas são palavras de incrédulos; mas dizei: "Ele dorme e ressuscitará; partiu em viagem e voltará com o Rei." Quem diz isto? Aquele que tem Cristo falando nele. Pois, diz ele, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou e reviveu, assim também aos que dormem em Jesus, Deus os trará com Ele (1 Ts 4,14). Se, pois, buscais vosso filho, buscai-o ali onde está o Rei, onde está o exército dos Anjos; não no sepulcro, não na terra, para que, enquanto ele está tão altamente exaltado, não permaneçais vós mesmo prostrado no chão.
Se tivermos esta verdadeira sabedoria, facilmente repeliremos toda angústia desta espécie; e o Deus de misericórdias e Pai de toda consolação console todos os nossos corações, tanto os que se acham oprimidos por tal aflição quanto os que estão abatidos por qualquer outra tristeza; e nos conceda livramento de todo desespero e aumento de alegria espiritual; e alcançarmos os bens vindouros; aos quais possamos todos chegar, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Que humildade se pode comparar a esta, em que Paulo eleva a um nível de igualdade consigo mesmo aqueles que tão manifestamente estavam bem aquém dele? A nossa salvação demonstra-se mais claramente quando suportamos todas as coisas com nobreza. Pois a obra da salvação não consiste somente em crer, mas em suportar o mal quando este nos é feito.
Ou, se somos consolados, é para vossa consolação e salvação. Sabendo que, como sois participantes dos sofrimentos, assim também o sois da consolação.
Que por causa deles os Apóstolos eram afligidos, mostrou-o ao dizer: se somos afligidos, é para vossa consolação e salvação; e quis mostrar também que por causa deles eram eles consolados. Isto mesmo já dissera pouco antes, ainda que de modo algo genérico, nestes termos: Bendito seja Deus, que nos consola em todas as nossas aflições, para que possamos consolar os que se acham em qualquer aflição. Repete-o aqui novamente, com outras palavras, mais claramente e mais adaptadas às necessidades deles. Pois se somos consolados, diz ele, é para vossa consolação. O que quer dizer é isto: nossa consolação se converte em vosso alívio, ainda que não vos consolemos por palavra. Se apenas um pouco somos aliviados, isto já vos serve de encorajamento; e se somos nós mesmos consolados, isto se torna vossa consolação. Pois assim como considerais nossos sofrimentos como próprios, assim também fazei da nossa consolação a vossa. Pois de modo algum pode ser que, participando conosco da pior sorte, não participeis também da melhor. Se, pois, participais de tudo, tanto da tribulação como da consolação, de nenhum modo nos culpareis por esta demora e lentidão em vir, porquanto tanto por vossa causa estamos em tribulação quanto por vossa causa somos consolados. Pois, para que ninguém julgue duro este dito — que por vossa causa assim padecemos —, acrescenta: por vossa causa também somos consolados, e não somente nós estamos em perigo; pois também vós, diz ele, sois participantes dos mesmos sofrimentos. Assim, pois, admitindo-os como partícipes dos perigos e atribuindo-lhes a causa de sua própria consolação, suaviza o que diz. Se, pois, somos cercados de astúcia, tende bom ânimo; suportamos isto para que vossa fé cresça em firmeza. E se somos consolados, gloriai-vos também nisto, pois também disto gozamos por vossa causa, para que assim recebais algum encorajamento, participando de nossa alegria. E que a consolação de que aqui fala é aquela de que gozavam não somente por serem eles mesmos (os Apóstolos) consolados, mas também por saberem que estes (os Apóstolos) estavam em repouso, ouvi-o declarar no que se segue: Sabendo que, como sois participantes dos sofrimentos, assim também o sois da consolação. Pois, assim como quando padecemos perseguição vós vos angustiais como se vós mesmos padecêsseis, assim também estamos certos de que, quando somos consolados, julgais também vosso o gozo. Que espírito mais humilde do que este? Aquele que tão grandemente os supera nos perigos chama-os de partícipes, a eles que em nada os padeceram; ao passo que da consolação atribui-lhes toda a causa, e não a seus próprios trabalhos.
3. Em seguida, havendo falado antes somente de modo geral das tribulações, faz agora menção também do lugar onde as suportou.
Se somos afligidos, é para vossa consolação e salvação, a qual se opera no paciente suportar dos mesmos sofrimentos que também nós padecemos; e nossa esperança a vosso respeito é firme.
Havendo falado de um fundamento de consolação — e este o principal —, a saber, o ter comunhão [pelos sofrimentos] com Cristo, estabelece como segundo este que agora menciona, a saber, que a salvação dos próprios discípulos foi por meio disso obtida. Não desfaleçais, pois, diz ele, nem vos turbeis nem temais porque somos afligidos; pois isto mesmo deveria antes ser razão para vosso bom ânimo: pois se não tivéssemos sido afligidos, isto teria sido a ruína de todos vós. Como e em quê? Pois se, por falta de ânimo e por temor do perigo, não vos houvéssemos pregado a palavra pela qual aprendestes o verdadeiro conhecimento, vossa situação seria desesperada. Vedes de novo a veemência e a séria contenção de Paulo? As próprias coisas que os afligiam, ele as emprega para consolá-los. Pois, diz ele, quanto maior a intensidade de nossas perseguições, tanto maior deve ser o crescimento de vossa boa esperança; porque tanto mais abundante, em igual proporção, é vossa salvação e consolação. Pois que coisa tem igual força de consolação a esta, de haverdes obtido tão grandes bens por meio da pregação? Depois, para que não pareça estar trazendo o elogio somente para si mesmo, vede como os faz também partícipes destes louvores. Pois às palavras: se somos afligidos, é para vossa consolação e salvação, acrescenta: a qual se opera no paciente suportar dos mesmos sofrimentos que também nós padecemos (2 Coríntios 1,7). Depois, na verdade, declara isto mais claramente, dizendo assim: como sois participantes dos sofrimentos, assim também o sois da consolação; mas já aqui, entretanto, a isso alude nas palavras os mesmos sofrimentos, fazendo assim com que o que diz os inclua. Pois o que diz é isto: vossa salvação não é obra somente nossa, mas também vossa própria; pois tanto nós, pregando-vos a palavra, suportamos aflição, como vós, recebendo-a, suportais essa mesma coisa; nós, para vos transmitir o que recebemos; vós, para receber o que se vos transmite e não o deixardes escapar. Ora, que humildade se pode comparar a esta, vendo que a estes que tão longe ficavam dele ele eleva à mesma dignidade de perseverança? Pois diz: a qual se operou no suportar os mesmos sofrimentos; pois não é somente pela fé que vem vossa salvação, mas também pelo padecer e suportar as mesmas coisas conosco. Pois assim como um pugilista é objeto de admiração quando apenas se mostra e está em boa forma e possui em si mesmo sua destreza, mas quando está em ação, suportando golpes e golpeando seu adversário, então mais que tudo resplandece, porque então sua boa preparação mais se põe em ato e a prova de sua destreza evidentemente se manifesta; assim verdadeiramente vossa salvação também então mais especialmente se põe em ato — isto é, se manifesta, se aumenta, se realça — quando tem perseverança, quando padece e suporta tudo nobremente. Assim, pois, a obra da salvação não consiste em fazer o mal, mas em padecer o mal. Além disso, não diz que opera, mas que é operada, para mostrar que, juntamente com a boa disposição de sua vontade, também a graça que neles operava muito contribuiu.
Vede quanto haviam progredido desde que Paulo lhes escrevera a primeira epístola. Agora sua esperança quanto a eles permanecia inabalável diante do comportamento deles. Diz-lhes Paulo também que, se ele foi consolado, também eles hão de ser consolados. Se os coríntios reputavam como próprios os sofrimentos de Paulo, também a consolação dele lhes seria comum. Dizendo isto, esperava Paulo poder animá-los e fazer com que aceitassem mais facilmente sua ausência.
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E a nossa esperança acerca de vós é firme. Isto é: ainda que sofrêsseis males inumeráveis, estamos confiantes de que não haveis de vos voltar atrás, nem por causa das vossas próprias provações, nem por causa das nossas perseguições. Pois tão longe estamos de suspeitar que vos perturbeis por causa dos nossos sofrimentos, que até mesmo quando vós próprios estais em perigo, então é que estamos confiantes a vosso respeito.
2. Vede quão grande fora o progresso deles desde a epístola anterior? Pois aqui deu ele testemunho de coisas muito maiores a respeito deles do que a respeito dos macedônios, aos quais, ao longo daquela epístola, exalta e louva. Pois por causa destes [os macedônios] temia, e diz: Enviamos-vos Timóteo... para vos confirmar e vos consolar acerca da vossa fé, para que ninguém se comovesse por estas aflições, pois vós mesmos sabeis que para isto fomos destinados (1 Ts 3,2-3). E ainda: Por esta causa, não podendo eu suportar mais, enviei para conhecer a vossa fé, para que de algum modo o tentador vos não tivesse tentado, e o nosso trabalho se tornasse em vão (2 Cor 1,5). Mas destes [os coríntios] nada diz de semelhante; antes, pelo contrário: A nossa esperança acerca de vós é firme.
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Era grande consolação saber o que os outros faziam e o que lhes acontecia. Se as notícias fossem más, os homens seriam encorajados a ser diligentes e assim menos propensos a cair. Se as notícias fossem boas, todos juntos se alegrariam. Aqui, como podemos ver, as coisas haviam sido, na verdade, muito más.
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Estas coisas dizemos, diz ele, para que não ignoreis o que nos sucedeu; pois desejamos, e mesmo nos esforçamos com afinco, que conheçais os nossos negócios: o que é altíssima prova de amor. Disto já na epístola anterior dera ele notícia, quando disse: Porque uma porta grande e eficaz se me abriu em Éfeso, e há muitos adversários (1 Cor 16,8-9). Trazendo-lhes, pois, isto à memória, e relatando quanto sofrera, diz: Não quereria que ignorásseis a nossa aflição que nos sobreveio na Ásia. E na epístola aos Efésios disse ele o mesmo. Pois, tendo-lhes enviado Tíquico, dá esta como razão da viagem: donde diz: Mas para que também vós saibais os meus negócios, e como me vou, Tíquico, o amado irmão e fiel ministro no Senhor, vos fará saber todas as coisas; ao qual vos enviei para este mesmo fim, para que conheçais o nosso estado, e ele console os vossos corações (Ef 6,21-22). E em outras epístolas faz ele exatamente o mesmo. Nem é isto supérfluo, mas antes sumamente necessário: tanto por causa do seu extremado afeto para com os discípulos, quanto por causa das contínuas provações destes; nas quais o conhecimento mútuo das respectivas sortes era grandíssima consolação; de modo que, se estas fossem calamitosas, pudessem estar preparados tanto para ser diligentes quanto para estar mais seguros contra a queda; ou, se fossem boas, pudessem alegrar-se com eles. Fala ele aqui, contudo, tanto de ser libertado das provações quanto de ser assaltado por elas, dizendo: Fomos sobremaneira agravados, além das nossas forças. Como um navio que se afunda sob algum poderoso fardo. Poderia parecer que dissera aqui uma só coisa, sobremaneira e além das nossas forças: não é, porém, uma, mas duas; pois, para que ninguém objetasse: Que importa? Ainda que o perigo fosse extremo, não era ele, contudo, grande para vós — acrescentou que tanto fora grande quanto excedera as nossas forças; sim, tanto as excedeu, Que até da vida desesperamos.
Isto é, já não tínhamos qualquer esperança de viver. O que Davi chama as portas do inferno, as angústias e a sombra da morte, isto ele exprime dizendo: Suportamos perigo prenhe de morte certa.
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Paulo esperava a morte, mas as coisas não haviam chegado a esse ponto. No curso natural dos acontecimentos, deveria ele ter morrido, mas Deus não permitiu que isso acontecesse, a fim de que Paulo aprendesse a não confiar em si mesmo, mas em Deus.
Que é isto, a sentença da morte? O voto, o juízo, a expectativa. Pois assim falavam as nossas circunstâncias; a nossa sorte nos deu esta resposta: certamente morreremos.
Na verdade, isto não chegou à prova, mas apenas até às nossas antecipações, e ali se deteve: pois a natureza das nossas circunstâncias assim o declarava, mas o poder de Deus não permitiu que a declaração se efetivasse, permitindo antes que sucedesse somente em nosso pensamento e em nossa expectativa; por isso ele diz: Tivemos em nós mesmos a sentença de morte, não de fato. E por que permitiu Ele perigo tão grande, a ponto de nos tirar a esperança e nos levar ao desespero? Para que não confiássemos em nós mesmos, diz ele, mas em Deus. Estas palavras Paulo as disse, não porque este fosse o seu próprio temperamento — longe tal pensamento —, mas para, com o que diz de si mesmo, harmonizar o restante, e por seu grande cuidado em falar com modéstia. Donde também mais adiante diz: Foi-me dado um espinho na carne (referindo-se às suas provações), para que eu não me exaltasse sobremaneira (2Co 12,7). E, contudo, Deus não diz que as permitiu por isto, mas por outra razão. Qual outra? Que a Sua força se manifestasse ainda mais; pois, diz ele, a minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2Co 12,9). Mas, como disse, ele em nenhuma parte esquece o seu peculiar caráter, colocando-se entre os que muito falham e têm necessidade de muita disciplina e correção. Pois, se uma ou duas provações bastam para tornar sóbrios até os homens comuns, como poderia aquele que, entre todos os homens, mais cultivara a humildade de espírito por toda a vida e sofrera como nenhum outro, após tantos anos e uma prática de sabedoria digna dos céus, ter necessidade desta admoestação? Donde é evidente que também aqui, por modéstia, e para aplacar os que tinham alta opinião de si e se vangloriavam, assim fala: Para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus.
4. E observai como também aqui os trata com ternura. Pois, diz ele, estas provações nos foram permitidas por causa de vós; de tão grande preço sois vós aos olhos de Deus; pois, quer sejamos afligidos, diz ele, é para vossa consolação e salvação; mas foram desmedidas por nossa causa, para que não nos ensoberbecêssemos. Pois fomos sobremaneira oprimidos, além das nossas forças, para que não confiássemos em nós mesmos, mas em Deus que ressuscita os mortos. Novamente ele os faz lembrar da doutrina da Ressurreição, sobre a qual tanto disse na Epístola anterior, e a confirma pela presente circunstância.
Ainda que a ressurreição seja algo do futuro, Paulo mostra que ela sucede a cada dia. Quando alguém é libertado das portas da morte, isto é, na verdade, uma espécie de ressurreição. O mesmo se pode dizer daqueles que foram libertados de grave enfermidade ou de provações insuportáveis.
Quem nos livrou de tão grandes mortes.
Não disse: de tão grandes perigos, mostrando de imediato a insuportável severidade das provações, e confirmando a doutrina que mencionei. Pois, sendo a Ressurreição algo futuro, ele mostra que ela sucede todos os dias: porquanto, quando Deus reergue um homem que estava desesperado e havia sido conduzido até os próprios portões do Hades, Ele não mostra outra coisa senão uma ressurreição, arrebatando das próprias fauces da morte aquele que nelas havia caído: donde, no caso dos que foram desesperados e depois restituídos, seja de grave enfermidade, seja de insuportáveis provações, é modo de falar corrente dizer: Vimos uma ressurreição de mortos no caso dele.
E pusemos nossa esperança em que Ele ainda também há de nos livrar; ajudando-nos vós também mediante a súplica a nosso favor, para que, pela graça a nós concedida por meio de muitos , por muitas pessoas sejam dadas graças a nosso favor.
Visto que as palavras — que não confiássemos em nós mesmos — poderiam parecer uma acusação comum e uma censura que apontava para alguns dentre eles, ele novamente suaviza o que disse, chamando as orações deles uma grande proteção, e ao mesmo tempo mostrando que esta nossa vida há de ser, do princípio ao fim, um teatro de combate. Pois, nestas palavras, e pusemos nossa esperança em que Ele ainda também há de nos livrar, ele predisse uma futura tempestade de muitas provações; mas em parte alguma algo de ser abandonado, senão de novo socorro e amparo. Depois, para que, ao ouvirem que haveriam de estar continuamente em perigos, não se abatessem, ele mostrou de antemão a utilidade dos perigos; a saber, que não confiássemos em nós mesmos; isto é, para que nos mantenha em contínua humildade, e para que a salvação deles se opere; e ainda muitas outras utilidades além destas: a de sermos partícipes com Cristo (pois, diz ele, os sofrimentos de Cristo abundam em nós); a de sofrer pelos fiéis (pois, diz ele, se somos afligidos, é para vosso consolo e salvação); o esplendor superior com que esta última — a saber, a salvação deles — há de resplandecer, a qual, diz ele, se opera na paciente perseverança nesses mesmos sofrimentos; o serem eles endurecidos ao combate; e além de tudo isso, a de ver a ressurreição vividamente retratada diante de seus olhos: pois Ele nos livrou de tão grandes morte; sendo de ânimo fervoroso e olhando sempre para Ele, pois, diz ele, pusemos nossa esperança em que Ele nos livrará; o prendê-los às orações, pois diz: ajudando-nos vós também mediante a súplica a nosso favor. Assim, tendo mostrado o proveito da aflição, e então tendo-os tornado enérgicos, ele unge uma vez mais os ânimos deles para o combate, e os anima à virtude testemunhando grandes coisas acerca das orações deles, porquanto a estas Deus havia concedido a Paulo o que pede, como diz: Vós também ajudando-nos mediante a oração a nosso favor. Mas que é isto: para que, pela graça a nós concedida por meio de muitos , por muitos sejam dadas graças a nosso favor? Ele nos livrou daquelas mortes, diz ele, ajudando-nos vós também pela oração; isto é, orando todos vós por nós. Pois a graça a nós concedida, isto é, o sermos salvos, Ele se aprouve em concedê-la a todos vós, a fim de que muitas pessoas Lhe dessem graças, porque também muitos receberam o benefício.
5. E dizia isto, ao mesmo tempo para incitá-los à oração pelos outros e para acostumá-los a dar sempre graças a Deus por tudo quanto sucede aos demais, mostrando que Ele também deseja isto sobremaneira. Pois os que se esmeram em fazer ambas estas coisas pelos outros, muito mais o farão por si mesmos, dando exemplo de ambas. E, além disto, ensina-lhes a humildade e conduz a um amor mais fervoroso. Pois, se aquele que estava tão acima deles reconhece ter sido salvo pelas orações destes, e que a si mesmo fora concedido como dádiva de Deus em resposta às orações deles, considerai qual devia ser a modéstia e a disposição destes. E observai, rogo-vos, isto também: que, ainda que Deus faça alguma coisa por misericórdia, contudo a oração muito contribui para isso. Pois, no princípio, atribuiu a sua salvação às misericórdias d'Ele; porquanto diz: O Deus das misericórdias, Ele mesmo nos livrou; mas aqui, também às orações. Pois também daquele que devia dez mil talentos Ele se apiedou depois que este se lançou a seus pés (Mt 18,24-27), ainda que esteja escrito que, movido de compaixão, o soltou. E, de novo, para com a mulher cananeia, foi depois daquela longa perseverança e importunidade sua (Mt 15,22) que finalmente Ele concedeu a cura de sua filha, ainda que por sua misericórdia a curasse. Por aqui, pois, aprendemos que, ainda que hajamos de receber misericórdia, primeiro devemos fazer-nos dignos da misericórdia; pois, ainda que haja misericórdia, contudo ela busca os que são dignos. Não virá sobre todos indistintamente, nem mesmo sobre os que não têm sentimento algum; pois Ele diz: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e me compadecerei de quem me aprouver compadecer-me (Rm 9,15). Observai ao menos o que diz aqui: Vós também cooperando pela oração. Não atribuiu a eles a totalidade da boa obra, para que não se ensoberbecessem, nem tampouco os privou de toda participação nela, a fim de animá-los e incitar-lhes o zelo, e uni-los uns aos outros. Donde também disse: Ele também vos concedeu a minha salvação. Pois muitas vezes Deus também se deixa comover por uma multidão que ora com um só ânimo e uma só boca. Donde também disse ao profeta: E não pouparei eu esta cidade, em que habitam mais de cento e vinte mil pessoas? (Jn 4,11). Depois, para que não penseis que Ele respeita somente a multidão, diz: Ainda que o número de Israel seja como a areia do mar, um resto será salvo (Is 10,22). Como, pois, salvou Ele os ninivitas? Porque, no caso destes, não havia somente multidão, mas multidão e virtude também. Pois cada um se converteu do seu mau caminho (Jn 3,10; 4,11). E, além disto, quando os salvou, disse que não discerniam entre a sua mão direita e a sua mão esquerda: donde é manifesto que, também antes, pecavam mais por simplicidade que por malícia; manifesto é também pelo terem-se convertido, como se converteram, ao ouvirem poucas palavras. Mas, se o serem cento e vinte mil bastasse por si só para salvá-los, que impedia que já antes disto fossem salvos? E por que não diz Ele ao profeta: E não pouparei eu esta cidade que assim se converte? Mas alega os cento e vinte mil. Traz isto também como razão adicional. Pois que se haviam convertido, era sabido do profeta, mas ele não sabia nem o número nem a simplicidade deles. Assim, por todo modo possível, deseja abrandá-los. Pois até a grandeza do número tem poder, quando há virtude junto com ela.
Verdadeiramente, também a Escritura demonstra isto claramente noutro lugar, onde diz: *Mas era feita pela Igreja oração insistente a Deus por ele* (At 12,5): e tão grande poder teve isto que, mesmo estando as portas fechadas, e cadeias sobre ele, e guardas dormindo de um lado e de outro, conduziu o Apóstolo para fora e o livrou de todos eles. Mas, assim como onde há virtude a grandeza do número tem poderoso valor, assim também onde há maldade, de nada aproveita. Pois os israelitas, dos quais Ele diz que o número deles era como a areia do mar, pereceram todos, e também aqueles dos dias de Noé eram muitos, sim, inumeráveis; e, contudo, isto de nada lhes aproveitou. Porque a grandeza do número não tem poder por si mesma, mas somente como algo acessório. 6. Sejamos, pois, diligentes em nos congregarmos em súplica; e oremos uns pelos outros, como faziam pelos Apóstolos. Pois assim cumprimos um mandamento, e somos ungidos para o amor (e quando digo amor, falo de todo bem); e também aprendemos a dar graças com maior fervor: pois os que dão graças pelas coisas dos outros, muito mais o farão pelas suas próprias. Isto também costumava fazer Davi, dizendo: *Engrandecei ao Senhor comigo, e exaltemos juntos o seu nome* (Sl 34,3); isto também o Apóstolo em toda parte requer. Nisto trabalhemos também nós; e mostremos a todos a beneficência de Deus, para que ganhemos companheiros no ato do louvor: pois, se quando recebemos algum bem dos homens, ao proclamá-lo os tornamos mais prontos a servir-nos, muito mais, divulgando os benefícios de Deus, o atrairemos a maior benevolência. E se, quando recebemos benefícios dos homens, incitamos também outros a se unirem a nós em ação de graças, muito mais devemos trazer muitos a Deus, que deem graças por nós. Pois, se Paulo, que tinha tão grande confiança [para com Deus], faz isto, muito mais nos é necessário fazê-lo a nós. Exortemos, pois, os santos a dar graças por nós; e façamos nós mesmos o mesmo uns pelos outros. Aos sacerdotes, especialmente, pertence esta boa obra, já que é um privilégio excepcional. Pois, aproximando-nos, damos primeiro graças por todo o mundo e pelos bens comuns [a todos]. Pois, ainda que as bênçãos de Deus sejam comuns, todavia a preservação comum inclui a tua própria; de modo que deves tanto ações de graças comuns pela tua bênção particular, quanto, pelas bênçãos comuns, deves com razão render o teu louvor particular: pois Ele acendeu o sol não para ti somente, mas também para todos em comum; mas, não obstante, tu, por tua parte, o possuis por inteiro. Pois foi feito tão grande para o bem comum; e, contudo, tu individualmente o vês tão grande quanto todos os homens o viram; de modo que deves uma ação de graças tão grande quanto a de todos juntos; e deves dar graças pelo que todos possuem em comum, e igualmente pela virtude dos outros; pois, por causa dos outros também, recebemos muitas bênçãos: pois, se se tivessem encontrado em Sodoma somente dez justos, não teriam sofrido o que sofreram. Assim, pois, demos graças também pela confiança dos outros [para com Deus]. Pois este costume é antigo, plantado na Igreja desde o princípio. Assim também Paulo dá graças pelos romanos (Rm 1,8), pelos coríntios (1 Cor 1,4), por todo o mundo (1 Tm 2,1). E não me digas: *A boa obra não é minha*; pois, ainda que não seja tua, mesmo assim deves dar graças por teu membro ser tal.
E, além disso, com a vossa aclamação a fazeis vossa, e participais da coroa, e recebereis também vós mesmos o galardão. Por esta razão é que as leis da Igreja ordenam que a oração se faça também assim, e não somente pelos fiéis, mas também pelos catecúmenos. Pois a lei incita os fiéis a suplicarem pelos não iniciados. Porquanto, quando o diácono diz: Oremos fervorosamente pelos catecúmenos, ele não faz outra coisa senão excitar toda a multidão dos fiéis a orar por eles; ainda que os catecúmenos sejam ainda estranhos. Pois ainda não são do Corpo de Cristo, ainda não participaram dos Mistérios, mas ainda estão separados do rebanho espiritual. Mas se devemos interceder por estes, muito mais pelos nossos próprios membros. E por isso mesmo ele diz: oremos fervorosamente, para que não os rejeiteis como estranhos, para que não os desprezeis como forasteiros. Pois ainda não têm a oração instituída, que Cristo introduziu; ainda não têm confiança, mas necessitam do auxílio de outros, dos que já foram iniciados. Pois estão fora dos átrios do rei, longe do recinto sagrado. Por isso são até mesmo expulsos enquanto se oferecem aquelas orações tremendas. Por isso também ele vos exorta a orar por eles, para que se tornem vossos membros, para que não sejam mais forasteiros e estranhos. Pois as palavras "oremos" não são dirigidas somente aos sacerdotes, mas também aos que compõem o povo: pois quando ele diz, Fiquemos em ordem: oremos, exorta a todos à oração.
7. Em seguida, iniciando a oração, diz ele: Que o Deus todo-misericordioso e clemente ouça as suas orações. Pois, para que não digas: Que havemos de orar? São estranhos, ainda não unidos [ao corpo]. Por que meio poderei eu obrigar o olhar de Deus? De onde poderei eu prevalecer junto a Ele para que lhes conceda misericórdia e perdão? Para que não fiques perplexo com questões como estas, vê como ele desfaz a tua perplexidade, dizendo: que o Deus todo-misericordioso e clemente. Ouviste? Deus todo-misericordioso. Não te perturbes mais. Pois o Todo-misericordioso tem compaixão de todos, tanto dos pecadores quanto dos amigos. Não digas, pois: Como me aproximarei dEle em favor deles? Ele mesmo ouvirá as suas orações. E a oração dos catecúmenos, que outra coisa pode ser senão que não permaneçam catecúmenos? Em seguida, sugere ele também o modo da oração. E qual é este? Que Ele abra os ouvidos do coração deles; pois ainda estão fechados e obstruídos. Ouvidos, diz ele, não estes exteriores, mas os do entendimento, de modo a ouvir as coisas que olho não viu, nem ouvido ouviu, nem subiram ao coração do homem, 1Co 2:9; Is 54:4. Pois eles não ouviram os mistérios inefáveis; antes, estão em algum lugar à distância e longe deles; e ainda que os ouvissem, não saberiam o que se diz; pois aqueles mistérios necessitam de muito entendimento, e não somente de audição: e os ouvidos interiores ainda não os possuem: por isso ele também lhes invoca em seguida um dom de profeta, pois assim falou o Profeta: Deus me dá a língua da instrução, para que eu saiba falar a palavra a seu tempo; pois Ele abriu a minha boca; Ele me deu pela manhã cedo; Ele me concedeu um ouvido que escuta. Is 1:4, Septuaginta. Pois, assim como os Profetas ouviam de modo diverso da multidão, assim também os fiéis ouvem de modo diverso dos catecúmenos. Por isso o catecúmeno é também ensinado a não aprender a ouvir estas coisas da parte dos homens (pois Ele diz: A ninguém chameis mestre sobre a terra), mas do alto, do céu, pois todos serão ensinados por Deus. Is 54:13
Por isso diz: E instila neles a palavra da verdade, para que seja interiormente aprendida; pois ainda não conhecem a palavra da verdade como deveriam conhecê-la. Que Ele semeasse neles o Seu temor. Mas isto não basta; pois alguma caiu à beira do caminho, e alguma sobre a pedra. Nós, porém, não pedimos assim; mas, assim como na terra fértil o arado abre os sulcos, assim rogamos que aconteça também aqui, que, lavrado profundamente o solo alqueivado de suas mentes, recebam o que sobre elas é derramado e retenham com exatidão tudo quanto ouviram. Donde também acrescenta: E confirma a fé dEle em suas mentes; isto é, que ela não fique à superfície, mas lance profundamente a sua raiz para baixo. Que Ele lhes desvelasse o Evangelho da Justiça. Mostra que o véu é duplo: em parte, porque os olhos do entendimento deles estavam fechados; em parte, porque o Evangelho lhes estava oculto. Donde disse um pouco acima que Ele abriria os ouvidos do coração deles, e aqui, que lhes desvelaria o Evangelho da Justiça; isto é, tanto que os tornaria sábios e aptos para receber a semente, quanto que os ensinaria e neles derramaria a semente; pois, ainda que fossem aptos, se Deus não revela, isto de nada aproveita; e se Deus desvela, mas eles não recebem, resulta igual inutilidade. Por isso pedimos ambas as coisas: que Ele tanto abra os seus corações quanto desvele o Evangelho. Pois nem, se ornamentos régios jazem sob um véu, aproveitará em nada que os olhos estejam olhando; nem tampouco que estejam descobertos, se os olhos não estiverem despertos. Mas ambas as coisas serão concedidas, se primeiro eles mesmos as desejarem. Mas o que é, afinal, o Evangelho da Justiça? Aquele que torna justo. Por estas palavras os conduz ao desejo do Batismo, mostrando que o Evangelho opera não somente a remissão dos pecados, mas também a justiça.
8. Que Ele lhes concedesse mente piedosa, reto juízo e vida de conduta virtuosa. Atendam a isto aqueles dentre os fiéis que estão apegados às coisas [desta] vida. Pois, se somos ordenados a pedir estas coisas pelos não iniciados, pensai em que coisas devemos ocupar-nos nós que pedimos estas coisas por outros. Porque a conduta de vida deve acompanhar o Evangelho. Donde, por certo, também a ordem da oração passa dos dogmas [do Evangelho] ao comportamento: pois às palavras que Ele lhes desvelasse o Evangelho da Justiça, acrescentou que lhes desse mente piedosa. E que é isto — piedosa? Que Deus habite nela. Pois Ele diz: Habitarei neles e andarei entre eles (Lv 26,12); porquanto, quando a mente se torna justa, quando despe os seus pecados, torna-se morada de Deus (Rm 6,16). Mas, quando Deus nela habita, nada do homem restará. E assim se torna a mente piedosa, proferindo cada palavra a partir dEle, como verdadeira casa de Deus que nela habita. Certamente, pois, não tem mente piedosa o de linguagem torpe, nem aquele que se compraz em zombarias e risadas.
Juízo são. E que pode ser o ter juízo são? Gozar da saúde que pertence à alma: pois aquele que é dominado por concupiscências perversas e deslumbrado pelas coisas presentes, jamais pode ser são, isto é, sadio. Mas assim como o enfermo deseja até mesmo coisas que lhe são impróprias, assim também este. E um modo de vida virtuoso, pois os dogmas requerem um modo de vida [correspondente]. Atendei a isto, vós que vindes ao batismo no termo da vida, pois nós, de fato, oramos para que depois do batismo tenhais também esta conduta; vós, porém, buscais e vos esforçais ao máximo por partir sem ela. Pois, ainda que sejas justificado, isto é somente pela fé. Mas nós oramos para que tenhais também a confiança que provém das boas obras.
Pensar continuamente nas coisas que são d'Ele, atentar às coisas que são d'Ele, praticar as coisas que são d'Ele: pois não pedimos ter juízo são e conduta virtuosa por um dia somente, ou por dois ou três, mas por todo o curso e período de nossa vida; e, como fundamento de todos os bens, atentar às coisas que são d'Ele. Pois muitos buscam as coisas que são suas próprias, não as coisas que são de Jesus Cristo (Fp 2,21). Como, pois, poderia isto ser? (Pois, além da oração, é necessário que contribuamos também com nosso próprio esforço.) Se estivermos ocupados em sua lei dia e noite. Donde ele prossegue pedindo também isto, estar ocupado em sua lei; e como disse acima "continuamente", assim aqui "dia e noite". Por isso eu me envergonho até mesmo por aqueles que mal uma vez ao ano se veem na igreja. Pois que desculpa podem ter aqueles que são convocados não simplesmente a comungar dia e noite com a lei, mas a estar ocupados nela, isto é, a estar sempre em conversação com ela, e todavia mal o fazem pela mínima fração de sua vida?
Lembrar-se de seus mandamentos, guardar seus juízos. Vedes que excelente cadeia há aqui? E como cada elo se prende ao seguinte, entrelaçado com mais força e beleza do que qualquer cadeia de ouro? Pois tendo pedido uma mente piedosa, ele diz por que meio esta pode ser produzida. Por qual meio? Praticando-a continuamente. E como poderia isto ser efetuado? Atentando constantemente para a Lei. E como os homens poderiam ser persuadidos a isto? Se guardassem seus Mandamentos: ou antes, do atentar para a lei provém também o guardar seus Mandamentos; assim como igualmente do atentar às coisas que são d'Ele e do ter uma mente piedosa provém o praticar as coisas que são d'Ele. Pois cada uma das coisas mencionadas conjuntamente produz e é produzida pela seguinte, tanto a ela se prendendo quanto por ela sendo presa.
9. Roguemos por eles ainda mais fervorosamente. Pois, como a alma costuma tornar-se sonolenta pela extensão do discurso, ele novamente a desperta, propondo pedir de novo certas coisas grandes e sublimes. Por isso diz: Roguemos por eles ainda mais fervorosamente. E que é isto? Que Ele os livre de todo mal e coisa desordenada. Aqui pedimos por eles que não entrem em tentação, mas sejam livrados de toda cilada, livramento tanto corporal quanto espiritual. Por isso também prossegue dizendo, de todo pecado diabólico e de todo assédio do adversário, referindo-se a tentações e pecados. Pois o pecado facilmente cerca, tomando posição por todos os lados, diante e atrás, e assim derrubando. Pois, depois de nos dizer o que deve ser feito por nós, a saber, ocupar-nos em Sua lei, lembrar-nos de Seus Mandamentos, guardar Seus juízos, assegura-nos em seguida que nem mesmo isto é suficiente, a menos que Ele próprio esteja ao nosso lado e nos socorra. Pois, Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam (Sl 127,1); e especialmente no caso daqueles que ainda estão expostos ao diabo e sob seu domínio. E vós, os iniciados, bem sabeis disto. Recordai-vos, por exemplo, daquelas palavras com que renunciastes ao seu domínio usurpado, e dobrastes o joelho e desertastes para o Rei, e proferistes aquelas palavras terríveis pelas quais somos ensinados a não lhe obedecer em coisa alguma. Mas ele o chama adversário e acusador, porque tanto acusa a Deus perante o homem quanto a nós perante Deus, e a nós, de novo, uns perante os outros. Pois numa ocasião acusou Jó perante Deus, dizendo, Acaso serve Jó ao Senhor debalde? (Jó 1,9); noutra, a Deus perante Jó, Fogo caiu do céu. E de novo, a Deus perante Adão (Gn 3,5), quando disse que os olhos deles se abririam. E a muitos homens ainda hoje, dizendo que Deus não cuida da ordem visível das coisas, mas delegou vossos assuntos aos demônios. E a muitos dos judeus acusou Cristo, chamando-O enganador e feiticeiro. Mas talvez alguém deseje ouvir de que modo ele age. Quando não encontra uma mente piedosa, não encontra um entendimento sadio, então, como numa alma deixada vazia, ali conduz seu festim; quando alguém não se lembra dos mandamentos de Deus nem guarda Seus juízos, então o toma cativo e se retira. Se Adão, por exemplo, se tivesse lembrado do mandamento que dizia, De toda árvore podes comer (Gn 2,16); se tivesse guardado o juízo que dizia, No dia em que dela comeres, certamente morrerás; não lhe teria sucedido o que sucedeu.
Que Ele os julgasse dignos, no tempo devido, da regeneração do lavacro, da remissão dos pecados. Pois pedimos algumas coisas para agora, outras para o porvir; e expomos a doutrina do lavacro, e, ao pedi-la, instruímo-los a conhecer seu poder. Pois o que se diz doravante os familiariza a já saber que o que ali se faz é uma regeneração, e que somos nascidos de novo das águas, assim como do ventre; para que não digam, como Nicodemos, Como pode alguém nascer, sendo velho? Pode, porventura, entrar segunda vez no ventre de sua mãe, e nascer? Depois, porque falara da remissão dos pecados, confirma isto com as palavras que se seguem, da veste da incorruptibilidade; pois aquele que reveste a filiação torna-se claramente incorruptível. Mas o que é este tempo devido? Quando alguém está bem disposto, quando alguém a isto chega com fervor e fé; pois este é o tempo devido do crente.
10. Que abençoasse a sua entrada e a sua saída, todo o curso da sua vida. Aqui são orientados a pedir também algum bem corporal, como sendo ainda de algum modo fracos. As suas casas e as suas famílias, isto é, se têm servos ou parentes ou quaisquer outros que lhes pertençam. Pois estas eram as recompensas da antiga Aliança; e nada então se temia tanto quanto a viuvez, a falta de filhos, os lutos prematuros, ser visitado pela fome, ver os seus negócios não prosperarem. E por isso é que ele lhes permite demorar-se com carinho em petições antes materiais, fazendo-os subir pouco a pouco a coisas mais elevadas. Pois assim faz também Cristo; assim faz também Paulo, fazendo menção das antigas bênçãos: Cristo, quando diz, Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra; Paulo, quando diz, Honra a teu pai e a tua mãe... e viverás longamente sobre a terra. Que Ele fizesse crescer os seus filhos e os abençoasse, e os trouxesse à idade adulta, e lhes ensinasse a sabedoria. Aqui também há uma coisa ao mesmo tempo corporal e espiritual, como convém a pessoas ainda demasiado infantis na disposição. Depois o que se segue é inteiramente espiritual, que Ele dirigisse tudo o que lhes está diante para o bem; pois não diz simplesmente, tudo o que lhes está diante, mas, tudo o que lhes está diante para o bem. Pois muitas vezes uma viagem está diante de um homem, mas não é boa; ou alguma outra coisa semelhante, que não é proveitosa. Por isto são ensinados a dar graças a Deus em tudo, como acontecendo para o bem. Depois de tudo isto, ele lhes ordena que se ponham de pé durante o que se segue. Pois tendo-os antes lançado por terra, quando pediram o que pediram e se encheram de confiança, agora a palavra que lhes foi dada os levanta, e lhes ordena que durante o que se segue se empenhem também eles próprios em súplica a Deus. Pois uma parte dizemos nós mesmos, e outra parte permitimos que eles digam, abrindo-lhes agora a porta da oração, (exatamente como primeiro ensinamos as crianças a dizer, e depois lhes ordenamos que o digam por si mesmas,) dizendo, Orai vós, Catecúmenos, pelo anjo da paz; pois há um anjo que castiga, como quando Ele diz, Uma companhia de anjos maus, Salmo 78:49 há aquele que destrói. Por isso lhes ordenamos que peçam o anjo da paz, ensinando-os a buscar aquilo que é o vínculo de todos os bens, a paz; para que sejam livres de todas as lutas, todas as guerras, todas as sedições. Que tudo o que está diante de vós seja pacífico; pois ainda que uma coisa seja pesada, se um homem tiver paz, ela é leve. Por isso Cristo também disse, A minha paz vos dou João 14:27 pois o diabo não tem arma tão forte quanto a luta, e a inimizade, e a guerra. Orai para que este dia e todos os dias da vossa vida sejam plenos de paz. Vedes como ele insiste de novo em que toda a vida seja passada na virtude? Que os vossos fins sejam cristãos; o vosso bem supremo, o honroso e o proveitoso; pois o que não é honroso também não é proveitoso. Pois a nossa ideia da natureza do proveitoso é diferente da dos muitos. Encomendai-vos ao Deus vivo e ao seu Cristo; pois ainda não confiamos neles para orar pelos outros, mas basta que possam orar por si mesmos.
Vedes a plenitude desta oração, tanto quanto à doutrina como quanto ao modo de vida? Pois quando mencionamos o Evangelho e a veste da incorruptibilidade e o Lavacro da Regeneração, mencionamos todas as doutrinas; quando, por sua vez, falamos de uma mente piedosa, de um entendimento sadio e do restante que dissemos, sugerimos o modo de vida. Depois ordenamos que inclinem as cabeças, tendo por prova de que suas orações foram ouvidas o fato de Deus os bendizer. Pois certamente não é um homem que bendiz; mas por meio de sua mão e de sua língua trazemos ao próprio Rei as cabeças dos que estão presentes. E todos juntos aclamam o Amém.
Ora, por que disse tudo isto? Para vos ensinar que devemos buscar as coisas dos outros, a fim de que os fiéis não pensem que estas coisas ditas não lhes concernem. Pois não é certamente às paredes que o Diácono diz: Oremos pelos catecúmenos. Mas há alguns tão desprovidos de entendimento, tão néscios, tão depravados, que permanecem conversando não apenas durante o tempo dos catecúmenos, mas também durante o tempo dos fiéis. Daí que tudo se perverte; daí que tudo se perde inteiramente: pois exatamente no momento em que mais deveríamos propiciar a Deus, retiramo-nos havendo-O provocado. Assim também, na oração dos fiéis, somos ordenados a nos aproximar do Deus que ama os homens, pelos Bispos, pelos Presbíteros, pelos Reis, pelos que estão em autoridade, pela terra e pelo mar, pelas estações, por todo o mundo. Quando, pois, nós, que deveríamos ter tal ousadia a ponto de orar pelos outros, apenas mal despertamos ainda que orando por nós mesmos, como poderemos desculpar-nos? Como encontraremos perdão? Por isso vos rogo que, tomando tudo isto a peito, conheçais o tempo da oração, e sejais elevados e desprendidos da terra, e toqueis a própria abóbada do céu; para que tenhamos poder de tornar Deus propício e de alcançar os bens prometidos, aos quais possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo; com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a gloria, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo disse isto tanto para movê-los a orar pelos outros quanto para habituá-los a dar graças a Deus por tudo quanto sucedesse aos outros. Os que assim procedem em favor de outrem estarão muito mais dispostos a fazê-lo também por si mesmos. Paulo lhes ensina, ademais, a humildade e o amor profundo e fervoroso. Pois, se ele, que tão acima deles se elevava, confessava ter sido salvo pelas orações deles, considerai quão modestos e humildes deveriam eles, por conseguinte, ser.
A consolação anterior provinha de Deus, mas agora é fruto do próprio comportamento deles. Os que vivem retamente hão de ver o poder de Deus operando em suas vidas e serão consolados.
Comunica-nos aqui outro fundamento de consolação, e não pequeno, antes muito grande, e bem apropriado para reerguer uma alma que se afunda sob os perigos. Pois havendo dito, Deus nos consolou, e Deus nos livrou, e tendo atribuído tudo às Suas misericórdias e às orações deles, para que não tornasse assim o ouvinte indolente, confiando apenas na misericórdia de Deus e nas orações alheias, mostra que eles próprios haviam contribuído não pouco de si mesmos. E de fato já o havia mostrado antes, quando disse, Porque, como as aflições de Cristo abundam em nós, assim também a nossa consolação abunda por meio de Cristo (2 Cor 1:5). Mas aqui fala de uma outra boa obra, própria e peculiar a eles. Que é, pois, esta? Que, diz ele, em uma consciência pura e sem dolo nos portamos em toda parte no mundo: e isto não pouco contribui para o nosso ânimo e consolação; antes, não somente para consolação, mas até mesmo para algo bem maior que a consolação, a saber, para a nossa glória. E isto disse, ensinando-os também a não se afundarem em suas aflições, mas, se acaso tiverem uma consciência pura, até a se orgulharem delas; e ao mesmo tempo, de modo brando porém velado, ferindo os falsos apóstolos. E assim como na primeira Epístola diz, Cristo me enviou para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo não se torne sem efeito (1 Cor 1:17); e, para que a vossa fé não se assente na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus (1 Cor 2:5); assim também aqui, Não com sabedoria, mas na graça de Cristo.
E aludiu também a outra coisa, empregando as palavras não com sabedoria, isto é, 'não com engano', ferindo aqui também a disciplina pagã. Pois a nossa glória, diz ele, é esta, o testemunho de nossa consciência; isto é, não tendo nossa consciência de que nos condenar, como se por más ações fôssemos perseguidos. Pois ainda que padeçamos inúmeros horrores, ainda que de toda parte sejamos alvejados e estejamos em perigo, basta para a nossa consolação, antes não somente para a consolação, mas até mesmo para a nossa coroa, que a nossa consciência seja pura e nos testemunhe que não por nenhuma má ação, mas por aquilo que é agradável a Deus, assim padecemos; por causa da virtude, por causa da sabedoria celeste, pela salvação de muitos. Ora, aquela consolação anterior era de Deus: mas esta foi contribuída por eles mesmos e pela pureza de sua vida. Por isso também a chama de glória deles, porque era a realização de sua própria virtude. Que é, pois, esta glória, e o que nos testemunha a nossa consciência? Que em sinceridade, isto é, não tendo nenhuma coisa enganosa, nenhuma hipocrisia, nenhuma dissimulação, nenhuma lisonja, nenhuma emboscada ou dolo, nem qualquer outra coisa semelhante, mas em toda franqueza, em simplicidade, em verdade, em espírito puro e sem malícia, em mente sem dolo, não tendo nada oculto, nenhuma chaga a supurar. Não com sabedoria carnal; isto é, não com artifício malévolo, nem com maldade, nem com engenhosidade de palavras, nem com teias de sofismas, pois isto quer dizer por 'sabedoria carnal': e aquilo em que muito se orgulhavam, ele repudia e afasta de si: mostrando abundantemente que isto não é fundamento digno de glória: e que não somente não a busca, mas até mesmo a rejeita e dela se envergonha.
Mas na graça de Deus nos portamos no mundo.
Em graça de Deus. Manifestando a sabedoria que dEle procede, o poder que dEle nos foi outorgado, pelos sinais operados, pelo triunfo sobre sábios, retóricos, filósofos, reis, povos, sendo nós iletrados e não trazendo conosco nada daquela sabedoria que é de fora. Não pequeno consolo e glória era este, porém, ter consciência de que não fora poder de homens o que haviam empregado, mas que pela graça divina haviam alcançado todo o êxito.
[No mundo.] Não somente em Corinto, portanto, mas também em toda parte do mundo.
E mais abundantemente para convosco. O que é mais abundantemente para convosco? Em graça de Deus nos comportamos. Pois manifestamos entre vós sinais e prodígios, e maior rigor, e vida irrepreensível; pois chama também a estas coisas graça de Deus, atribuindo a ela até mesmo as suas próprias boas obras. Pois em Corinto ultrapassou ele mesmo o alvo, tornando o Evangelho gratuito, porque poupou a fraqueza deles.
Paulo não se vangloria. Tudo quanto faz é escrever fatos que os próprios coríntios reconheceriam como verdadeiros.
Pois, tendo dito grandes coisas de si mesmo e parecendo dar testemunho de si próprio, coisa odiosa, novamente os invoca como testemunhas do que diz. Pois, diz ele, ninguém pense que o que digo é vão floreio de escrita; porquanto vos declaramos o que vós mesmos sabeis; e que não mentimos, vós, mais do que quaisquer outros, podeis testemunhá-lo. Pois, quando ledes, reconheceis que aquilo que sabeis que praticamos em nossas ações, isto mesmo dizemos também em nossos escritos, e o vosso testemunho não contradiz as nossas epístolas; antes, o conhecimento que já antes tínheis de nós está em harmonia com a vossa leitura.
Paulo corta pela raiz a inveja que seu discurso poderia suscitar, fazendo dos coríntios companheiros e partícipes na glória de suas boas obras.
Como também em parte nos reconhecestes.
Pois o vosso conhecimento de nós, diz ele, não provém de ouvir dizer, mas da experiência mesma dos fatos. As palavras em parte ele acrescentou por humildade. Pois este é o seu costume: quando a necessidade o constrange a dizer algo de elevado (pois nunca o faz de outro modo), deseja logo reprimir de novo a elação que provém do que disse.
E espero que o reconhecereis até o fim.
2. Vedes de novo como, a partir do passado, ele extrai penhores para o futuro; e não somente do passado, mas também do poder de Deus? Pois não afirmou de modo absoluto, mas lançou tudo sobre Deus e sua esperança Nele.
Que somos a vossa glória, assim como vós também sois a nossa, no dia de nosso Senhor Jesus Cristo.
Aqui ele corta pela raiz a inveja que seu discurso poderia suscitar, fazendo deles companheiros e partícipes na glória de suas boas obras. 'Pois estas não permanecem apenas conosco, mas passam também a vós, e de novo de vós a nós.' Pois, tendo-se exaltado a si mesmo, e produzido prova do passado e dado garantia para o futuro, para que seus ouvintes não o reputassem por falar com soberba, ou, como disse, se precipitassem em inveja, ele torna comum o regozijo e declara que esta coroa de louvores é deles. Pois se, diz ele, mostramo-nos tais quais somos, o nosso louvor é a vossa glória: assim como, quando também vós sois aprovados, nós nos regozijamos e saltamos de alegria e somos coroados. Aqui também de novo ele manifesta sua grande humildade pelo que diz. Pois assim nivela suas palavras, não como um mestre que discorre a discípulos, mas como um discípulo a condiscípulos de sua própria condição. E observai como ele os eleva ao alto e os enche de filosofia, remetendo-os àquele Dia. Pois, diz ele, não me faleis das coisas presentes, isto é, das censuras, dos vitupérios, dos escárnios da multidão, pois as coisas daqui não são de grande monta, nem as boas nem as penosas; nem os escárnios nem os louvores que provêm dos homens: mas lembrai-vos, peço-vos, daquele dia de temor e tremor, no qual todas as coisas se revelam. Pois então tanto nós nos gloriaremos em vós, quanto vós em nós; quando se vir que tendes tais mestres, que não ensinam doutrina de homens nem vivem na maldade nem dão [aos homens] nenhum pretexto; e que temos tais discípulos, nem afetados à maneira dos homens nem abalados, mas acolhendo todas as coisas com prontidão de ânimo, e não seduzidos por sofismas de qualquer lado que venham. Pois isto já agora é manifesto para os que têm entendimento, mas então o será para todos. De modo que, ainda que agora sejamos afligidos, temos esta consolação, e não pequena, que a consciência já agora nos concede, e a própria manifestação então. Pois agora, na verdade, nossa consciência sabe que fazemos todas as coisas pela graça de Deus, como também vós sabeis e sabereis: mas então, todos os homens igualmente conhecerão tanto os nossos feitos quanto os vossos: e nos contemplarão glorificados uns pelos outros. Pois, para que não pareça que ele sozinho tira lustre deste regozijo, dá também a eles motivo de jactância, e os afasta de suas presentes aflições. E como fez a respeito da consolação, quando disse: Somos consolados por amor de vós (2 Cor 1:6), assim faz também aqui, dizendo: 'gloriamo-nos por vossa causa, como também vós pela nossa', tornando-os em toda parte partícipes de tudo, de sua consolação, de seus sofrimentos, de sua preservação. Pois esta sua preservação ele a atribui às orações deles. Pois Deus nos libertou, diz ele, ajudando vós também com a oração. Do mesmo modo torna também comuns os regozijos. Pois, assim como naquele lugar diz: Sabendo que, como sois partícipes dos sofrimentos, assim também o sois da consolação: assim também aqui, somos a vossa glória, como também vós sois a nossa.
O prazer seria duplo, porquanto proviria tanto de seus escritos quanto de sua presença.
E nesta confiança tencionei vir primeiro a vós.
Que confiança? 'Em apoiar-me sobremaneira em vós, gloriando-me de vós, sendo vossa glória, amando-vos sobremaneira, não tendo consciência de nada de mal em mim mesmo, confiante de que tudo é espiritual entre nós, e tendo-vos como testemunhas disto.'
Tencionei vir a vós, e por vós passar à Macedônia.
E, no entanto, ele prometera o contrário em sua Epístola anterior, dizendo assim: Ora, virei a vós quando tiver passado pela Macedônia; pois passarei pela Macedônia (1 Cor 16:5). Como é, pois, que aqui diz o contrário? Não diz o contrário: longe esteja tal pensamento. Pois é, na verdade, contrário ao que escreveu, mas não contrário ao que desejava.
Por isso também aqui não disse: 'Escrevi que passaria por vós à Macedônia'; mas: 'tencionei'. 'Pois, ainda que não tenha escrito desse modo,' diz ele, 'não obstante desejava grandemente, e 'tencionava', já antes, ter vindo a vós: tão longe estava eu de querer atrasar-me à minha promessa, que de bom grado teria vindo antes dela.' Para que tivésseis um segundo benefício. Que é um segundo benefício? 'Que tivésseis um duplo benefício, tanto o de meus escritos quanto o de minha presença.' Por benefício ele aqui entende prazer.
Segundo, para de vós passar à Macedônia, e da Macedônia voltar novamente a vós, e por vós ser encaminhado em minha viagem à Judeia. Estando eu, pois, assim disposto, mostrei acaso leviandade?
3. Aqui, no que se segue, ele afasta diretamente a acusação nascida de sua demora e ausência. Pois o que ele diz é desta natureza: Eu estava disposto a vir a vós. "Por que então não vim? Foi por leviandade e inconstância?" — pois isto é: mostrei acaso leviandade? De modo algum. Mas por quê? Porque o que proponho, não o proponho segundo a carne. Que é "não segundo a carne"? Não proponho "carnalmente".
2 Coríntios 1:17. Que em mim houvesse o sim, sim, e o não, não.
Ainda assim, isto permanece obscuro. Que quer ele então dizer? O homem carnal, isto é, aquele que está pregado às coisas presentes e nelas se ocupa continuamente, e que está fora da esfera da influência do Espírito, tem poder para ir a toda parte, e para vaguear por onde quiser. Mas aquele que é servo do Espírito, e é guiado, e conduzido por Ele, não pode em toda parte ser senhor do seu próprio propósito, tendo-o feito depender da autoridade que dali procede; antes lhe sucede como a um servo fiel, cujos movimentos são sempre regidos pelas ordens de seu senhor, e que não tem poder sobre si mesmo nem pode repousar nem sequer um pouco, o qual tivesse feito alguma promessa a seus companheiros de servidão, e depois, porque seu senhor quisesse de outro modo, faltasse ao cumprimento de sua promessa. Isto, pois, é o que ele quer dizer com "não delibero segundo a carne". Não estou além do governo do Espírito, nem tenho liberdade para ir aonde quiser. Pois estou sujeito a um senhorio e a mandamentos, os do Paráclito, e por Seus decretos sou guiado, e conduzido. Por esta razão não pude vir, pois não era vontade do Espírito. Como sucedeu também frequentemente nos Atos; pois quando havia deliberado ir a um lugar, o Espírito lhe ordenava que fosse a outro. De modo que não foi por leviandade, isto é, por inconstância minha, que não vim, mas que, estando sujeito ao Espírito, a Ele obedeci. Notastes de novo sua habitual lógica? Aquilo mesmo pelo qual pensavam provar que ele deliberava segundo a carne, a saber, o não cumprimento de sua promessa, ele usa como a prova especial de que deliberava segundo o Espírito, e de que o contrário teria sido deliberar segundo a carne. Que, pois? Dirá alguém: não foi com o Espírito que ele prometeu o que prometeu? De modo algum. Pois já disse que Paulo não conhecia de antemão tudo quanto havia de suceder ou que era conveniente. E é por esta razão que ele diz na Epístola anterior: "para que me encaminheis em minha viagem para onde quer que eu vá" (1 Cor 16:6); nutrindo precisamente este receio de que, depois de haver dito "para a Judeia", pudesse ser obrigado a ir a outro lugar; mas agora, quando sua intenção havia sido frustrada, diz aqui: "e por vós ser encaminhado em minha viagem para a Judeia". Quanto era do amor, ele o declara, a saber, a vinda até eles; mas o que não tinha referência a eles, a saber, sua partida deles para a Judeia, não o acrescenta definitivamente. Quando, porém, foi provado errado, diz depois aqui ousadamente: "para a Judeia". E isto também sucedeu para o bem, para que nenhum dentre eles concebesse dos Apóstolos (At 14:13) mais altamente do que mereciam. Pois se, diante destas coisas, quiseram sacrificar touros a eles, a que impiedade não teriam sido levados, se não tivessem dado muitos indícios da fraqueza humana? E por que admirar-se de que ele não soubesse todas as coisas que haviam de suceder, vendo que muitas vezes ele nem sequer nas orações sabe o que é conveniente?
2 Coríntios 12:8-9. Pois, diz ele, não sabemos o que devemos pedir como convém. E, para que não pareça estar falando com modéstia excessiva, ele não apenas afirma isto, mas dá exemplo de uma ocasião em que não soube, em suas orações, o que lhe era proveitoso. Em que ocasião foi isto? Quando suplicou ser livrado de suas tribulações, dizendo: Foi-me dado um espinho na carne, mensageiro de Satanás para me esbofetear. Acerca disto três vezes roguei ao Senhor. E Ele me disse: A Minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Vedes como ele não soube pedir o que lhe era proveitoso, e assim, embora pedisse muitas vezes, não obteve?
O homem carnal, que está preso ao mundo presente e completamente absorvido por ele, encontra-se fora da esfera da influência do Espírito e tem o poder de ir a toda parte, fazendo o que bem lhe apraz. Mas o servo do Espírito é conduzido pelo Espírito. Não lhe é dado fazer simplesmente o que quer. Depende da autoridade do Espírito. Paulo não pôde vir a Corinto porque não era vontade do Espírito que ele ali fosse.
Era necessário que Paulo explicasse por que não pudera cumprir sua promessa, para que os coríntios não desconfiassem de sua pregação. De fato, o que Paulo pregava era digno de fé. Sua promessa de vir a eles fora dele mesmo, mas a mensagem que proclamava era de Deus, e Deus não pode mentir.
Ele refuta habilmente uma objeção que se levantava. Pois poder-se-ia dizer: Se, depois de haveres prometido, adiaste a vinda, e o sim não é sim, nem o não é não, entre vós, mas o que dizes agora depois desdizes, como fizeste no caso desta viagem: ai de nós, se assim fosse também na Pregação! Ora, para que não tivessem tais pensamentos e com eles se perturbassem, diz ele: Mas, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não. Isto, diz ele, não se deu na Pregação, mas somente em nossas viagens e deslocamentos; ao passo que tudo quanto dissemos em nossa pregação permanece firme e inabalável (pois chama aqui à sua pregação de palavra). Em seguida traz prova disto que não se pode contestar, remetendo tudo a Deus. O que ele diz é isto: 'a promessa de minha vinda era minha própria, e eu a dei de mim mesmo: mas a pregação não é minha, nem de homem, mas de Deus, e o que é de Deus é impossível que minta.' Por isso também disse: Deus é fiel, isto é, verdadeiro. 'Não desconfieis, pois, do que provém Dele, pois nada há nisso de humano.'
4. E, tendo dito palavra, acrescenta o que se segue para explicar de que espécie de palavra fala. De que espécie é, pois?
Nunca desdisse o que antes disse. Meu discurso não foi ora isto, ora aquilo. Isso não seria fé, mas mente errante.
Por isso ele traz à memória também a companhia dos mestres, dando assim credibilidade ao testemunho por meio daqueles que ensinaram, e não apenas dos que ouviram. E, no entanto, eram discípulos; contudo, em sua modéstia, ele os conta na ordem dos mestres. Mas que quer dizer não foi sim e não? Nunca, diz ele, desdisse o que antes disse na Pregação. Meu discurso para convosco não foi ora isto, ora aquilo. Pois isto não é de fé, mas de mente errante.
Mas nele houve o sim. Isto é, tal como eu disse, a palavra permanece inabalável e firme.
A pregação de Paulo prometia muitas coisas. Ele falava de serem ressuscitados para a vida novamente e de serem tomados até o céu. Falava da incorruptibilidade e daquelas grandes recompensas que os aguardavam. Estas promessas permanecem imutáveis, ao contrário da própria promessa de Paulo de vir até eles. Elas são sempre verdadeiras.
Que quer dizer isto, quantas quer que sejam as promessas de Deus? A Pregação prometia muitas coisas; e estas muitas coisas eles ofereceram e pregaram. Pois discorriam sobre serem ressuscitados, e sobre serem tomados, e sobre a incorruptibilidade, e sobre aquelas grandes recompensas e bens inefáveis. Quanto a estas promessas, pois, ele diz que permanecem imóveis, e nelas não há sim e não, isto é, as coisas ditas não eram ora verdadeiras, ora falsas, como se deu com minha vinda até vós, mas sempre verdadeiras. E primeiro, na verdade, ele contende pelos artigos da fé e pela palavra a respeito de Cristo, dizendo: minha palavra e minha pregação não foram sim e não; em seguida, pelas promessas, pois quantas quer que sejam as promessas de Deus, nele está o sim. Mas se as coisas que Ele prometeu são certas e Ele certamente as dará, muito mais é Ele mesmo, e a palavra a respeito d'Ele, certa, e não se pode dizer que Ele ora é, ora não é, mas que Ele sempre é, e é o mesmo. Mas o que significa: Nele está o sim, e o Amém? Ele significa aquilo que certamente há de ser. Pois nele, não no homem, as promessas têm seu ser e cumprimento. Não temais, portanto; pois não é o homem, de sorte que deveis desconfiar; mas é Deus quem tanto disse quanto cumpre. Para glória de Deus por meio de nós. Que significa: para glória por meio de nós? Ele as cumpre por nós, isto é, e por Seus benefícios para conosco, para Sua glória; pois isto é para a glória de Deus. Mas se são para a glória de Deus, certamente hão de suceder. Pois de Sua própria glória Ele não fará pouco caso, ainda que fizesse pouco caso de nossa salvação. Mas, na verdade, Ele não faz pouco caso nem sequer de nossa salvação, tanto porque ama sobremaneira a humanidade, quanto porque nossa salvação está atada à Sua glória, por decorrerem destas coisas. De sorte que, se as promessas são para Sua glória, certamente se seguirá também a nossa salvação; a isto mesmo, na Epístola aos Efésios, ele volta continuamente, dizendo: para a preservação de Sua glória; e em toda parte estabelece isto, e mostra a necessidade deste resultado. E, a este respeito, ele diz aqui que Suas promessas não mentem: pois elas não somente nos salvam, mas também O glorificam. Não vos detenhais, pois, em que foram prometidas por nós; e assim duvideis. Pois não são cumpridas por nós, mas por Ele. Sim, e as promessas foram por Ele; pois não vos falamos nossas próprias palavras, mas as d'Ele.
Depois destas palavras, depois da renúncia ao demônio e da aliança com Cristo, porquanto desde então vos tornastes propriedade Sua e nada tendes em comum com aquele maligno, ele logo vos manda ser marcados e coloca sobre vossa fronte o sinal da cruz. Aquela fera selvagem é desavergonhada, e, ao ouvir estas palavras, torna-se mais feroz — como era de se esperar — e deseja assaltar-vos à vista. Por isso Deus unge vosso semblante e nele estampa o sinal da cruz. Deste modo, Deus refreia todo o furor do Maligno, pois o demônio não ousará contemplar tal visão. Assim como se tivesse contemplado os raios do sol e houvesse saltado para longe, assim seus olhos serão cegados à vista de vosso rosto, e ele se retirará. Pois, pelo crisma, a cruz é estampada em vós... E, para que saibais novamente que não é um homem, mas o próprio Deus quem vos unge pela mão do sacerdote, escutai São Paulo quando diz: "É Deus quem nos confirma, tanto a nós quanto a vós, em Cristo, e que nos ungiu."
Se a raiz e a fonte estão devidamente estabelecidas, como não haveremos de gozar dos frutos que delas hão de brotar? Uma coisa conduz inevitavelmente à outra.
Agora Aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus; o Qual também nos selou, e nos deu o penhor do Espírito em nossos corações.
De novo, a partir do passado Ele estabelece o futuro. Pois, se é Ele quem nos confirma em Cristo (isto é, quem não sofre que sejamos abalados da fé que está em Cristo); e Ele quem nos ungiu e deu o Espírito em nossos corações, como não nos há de dar as coisas futuras?
Pois, se Ele deu os princípios e os fundamentos, e a raiz e a fonte (a saber, o verdadeiro conhecimento d'Ele, a participação do Espírito), como não há de dar as coisas que destes procedem? Porque, se por causa destas aquelas são dadas, muito mais suprirá Ele estas outras. E se a tais que eram inimigos Ele deu estas coisas, muito mais, feitos agora amigos, lhes dará de bom grado aquelas. Por isso não disse simplesmente "o Espírito", mas o chamou de penhor, para que disto tivésseis também boa esperança quanto ao todo. Pois, se não tivesse o propósito de dar o todo, jamais teria escolhido dar o penhor e desperdiçá-lo sem objeto nem resultado. E observai a candura de Paulo. Pois, para que necessito eu dizer — diz ele — que a verdade das promessas não repousa em nós? O fato de vós estardes firmes e inabaláveis não está em nós, mas isto também é de Deus; pois, diz ele, Aquele que nos confirma é Deus. Não somos nós que vos fortalecemos: pois também nós necessitamos d'Aquele que confirma. Que ninguém, pois, imagine que a Pregação é arriscada por estar em nós. Ele tomou sobre Si o todo, Ele cuidou do todo.
E que é isto, ungido e selado? Deu o Espírito, por meio do Qual fez ambas estas coisas, constituindo ao mesmo tempo profetas, sacerdotes e reis, pois nos tempos antigos estas três ordens eram ungidas. Mas nós agora não temos uma só destas dignidades, senão todas as três eminentemente. Pois havemos tanto de gozar de um reino, quanto somos feitos sacerdotes ao oferecermos nossos corpos em sacrifício (pois, diz ele, apresentai vossos membros como sacrifício vivo a Deus); e, além disso, também somos constituídos profetas: pois as coisas que olho não viu, nem ouvido ouviu (1 Cor 2:9), estas nos foram reveladas.
5. E de outro modo também nos tornamos reis: se tivermos o propósito de obter domínio sobre nossos pensamentos indisciplinados, pois que tal homem é rei, e mais do que aquele que traz o diadema, é o que agora vos hei de mostrar claramente. Este tem muitos exércitos, mas nós, por nossa vez, temos pensamentos que os excedem em número; porque é impossível numerar a infinita multidão dos pensamentos que há dentro de nós. Nem é somente a multidão que se há de considerar, mas também que, nesta multidão de pensamentos, há muitos generais, e coronéis, e capitães, e arqueiros, e fundeiros. Que outra coisa faz um rei? A sua vestimenta? Mas também este está revestido de manto melhor e mais glorioso, que nem a traça corrói nem a idade deteriora. Coroa também possui, de lavor primoroso: a da glória, a das ternas misericórdias de Deus. Pois diz o Salmista: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, que te coroa de piedade e de ternas misericórdias (Sl 103:2-4). E também a da glória: Pois o coroaste de glória e honra (Sl 8:6). E com favor nos coroaste como com um escudo (Sl 5:12, Septuaginta). E ainda a da graça: Pois receberás uma coroa de graça sobre a tua cabeça (Pr 1:9, Septuaginta). Vedes este diadema de muitas grinaldas, e que ultrapassa o outro em graça? Mas instituamos de novo, e desde o princípio, uma inquirição mais rigorosa acerca da condição destes reis. Aquele rei tem domínio sobre os seus guardas, e dá ordens a todos, e todos lhe obedecem e o servem; mas aqui vos mostro autoridade maior. Pois o número aqui é tão grande, ou ainda maior: resta inquirir acerca da sua obediência. E não me tragais à baila os que mal governaram, pois eu também poderia trazer os que foram expulsos do seu reino e assassinados pelos próprios guardas do corpo. Deixemos, pois, de lado tais exemplos, e busquemos, de um lado e de outro, os que bem ordenaram o seu reino. E propõe tu mesmo quem quiseres. Eu te oponho o patriarca, contra todos. Pois quando lhe foi ordenado sacrificar o seu filho, considerai quantos pensamentos então se ergueram contra ele. Não obstante, ele submeteu todos, e todos tremiam diante dele mais do que diante de um rei os seus guardas; e com um só olhar a todos aquietou, e nenhum deles ousou sequer murmurar; mas todos se curvaram, e como diante de um rei cederam lugar, um e todos, ainda que sobremaneira exasperados e sumamente implacáveis. Pois nem mesmo as pontas das lanças erguidas por muitos soldados são tão temíveis quanto eram então aqueles temíveis pensamentos, armados não de lanças, mas do que é mais difícil de enfrentar do que muitas lanças: a simpatia da natureza! Por isso tinham eles poder de traspassar-lhe a alma mais do que ponta de lança aguçada. Pois nunca lança alguma pôde ser tão aguda quanto os aguilhões daqueles pensamentos, os quais, afiados e erguidos desde dentro, desde os seus afetos, traspassavam de parte a parte a mente daquele justo. Pois aqui se requer tempo, e propósito, e golpe, e dor, e então segue-se a morte; mas ali não se requeria nada disso, tão mais rápidas e agudas eram as feridas. Mas ainda que tantos pensamentos estivessem então em armas contra ele, havia uma calma profunda, e todos estavam em bela formação; ornando-o antes que atemorizando-o. Vede-o ao menos estendendo a faca, e apresentai quantos quiserdes, reis, imperadores, Césares, e contudo nada direis semelhante a isto, nem tereis semblante igual a apontar, tão nobre, tão digno dos céus. Pois aquele justo ergueu naquele momento um troféu sobre a mais arbitrária das tiranias.
Pois nada há tão tirânico quanto a natureza; e encontrai dez mil tiranicidas — jamais nos mostrareis um semelhante a este. Pois foi ali o triunfo, naquele momento, de um anjo, não de um homem. Considerai, com efeito: a natureza foi lançada por terra com todas as suas armas, com toda a sua hoste; e ele permanecia de mão estendida, empunhando não uma coroa, mas uma faca mais gloriosa que qualquer coroa, e a multidão dos anjos aplaudia, e Deus, desde os céus, o proclamava vencedor.
Pois, vendo que sua cidadania estava nos céus, dali também recebeu ele aquela proclamação (Fl 3,20). Que coisa poderia ser mais gloriosa que esta? Ou antes, que troféu jamais se igualaria a ela? Pois se, por ocasião da vitória de um atleta, não um arauto lá embaixo, mas o próprio rei lá do alto se levantasse e ele mesmo proclamasse o vencedor olímpico, não lhe pareceria isto mais glorioso que a coroa, e não voltaria sobre ele o olhar de todo o teatro? Quando, pois, não um rei mortal, mas o próprio Deus, não neste teatro, mas no teatro do universo, na assembleia dos anjos e dos arcanjos, proclama o seu nome com voz erguida, clamando desde os céus, dizei-me: que lugar havemos de atribuir a este santo homem?
6. Mas, se quiserdes, ouçamos também a própria voz. Qual foi, pois, a voz? "Abraão, Abraão, não estendas a tua mão sobre Isaque, e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, e não poupaste o teu filho, o teu bem-amado, por amor de Mim" (Gn 22,11-12). Que é isto? Aquele que conhece todas as coisas antes que existam — acaso as soube apenas agora? E, contudo, mesmo aos homens era manifesto o temor de Deus no Patriarca: tantas provas havia ele dado de que seu coração era reto para com Deus — como quando Ele lhe disse: "Sai da tua terra e da tua parentela" (Gn 12,1); quando, por amor Dele e pela honra que lhe era devida, cedeu ao filho de sua irmã a primazia; quando o livrou de tão grandes perigos; quando lhe ordenou que descesse ao Egito, e, tomando-lhe a esposa, ele não murmurou; e outros exemplos ainda além destes — e, como disse, por tais coisas até mesmo o homem teria aprendido o temor de Deus no Patriarca, muito mais que Deus, que não espera pelos atos para conhecer o seu termo. E como também o justificou, se não o conhecia? Pois está escrito: "Creu Abraão, e isto lhe foi imputado como justiça" (Gn 15,6; Rm 4,3).
Ora, então, que significa este "Agora sei"? A versão siríaca traz: "Agora fizeste conhecido"; isto é, aos homens. Pois Eu já sabia desde antes, mesmo antes de todos aqueles mandamentos. E por que, então, agora, mesmo diante dos homens? Pois não bastariam aqueles atos para provar que sua disposição era reta para com Deus? Bastariam, com efeito; mas esta ação é tão superior a todas elas que estas nada parecem diante dela. Foi, pois, para exaltar esta boa obra e mostrar sua superioridade sobre todas as demais que Ele assim falou. Porquanto, das coisas que excedem e ultrapassam tudo quanto as precedeu, a maioria dos homens costuma falar deste modo: por exemplo, se alguém recebe de outrem um presente maior que qualquer dos anteriores, dirá muitas vezes: "Agora sei que fulano me ama" — não significando com isto que o ignorava no tempo passado, mas antes pretendendo declarar que o que agora se lhe dá é maior que tudo. Assim também Deus, falando à maneira dos homens, diz "Agora sei", pretendendo apenas assinalar a extrema grandeza do feito; não que só então Ele viesse a conhecer o seu temor, ou a grandeza dele. Pois quando diz: "Vinde, desçamos e vejamos" (Gn 11,7; 18,21), não o diz como quem precisasse descer (pois Ele tanto preenche todas as coisas quanto conhece todas as coisas com certeza), mas para nos ensinar a não proferir sentença levianamente. E quando diz: "O Senhor olhou desde os céus" (Sl 14,2), descreve o seu conhecimento perfeito por uma metáfora tomada dos homens. Assim também aqui Ele diz "Agora sei", para declarar que isto é maior que tudo quanto o precedera. Disto mesmo Ele nos fornece prova, acrescentando: "Porque não poupaste o teu filho, o teu bem-amado, por causa de Mim." Não diz apenas "teu filho", mas ainda mais: "teu bem-amado". Pois não era somente a natureza, mas também a ternura paterna, que — tendo-a ele tanto por disposição natural quanto pela grande bondade do próprio filho — ousou, no entanto, nele desprezar. E se, quanto a filhos desprezíveis, os pais não se mostram facilmente indiferentes, mas por eles se lamentam até mesmo; quando se trata de seu filho, seu unigênito e bem-amado, o próprio Isaac, e o próprio pai está no ponto de imolá-lo — quem poderá descrever o excesso de tal filosofia? Este feito ofusca milhares de diademas e coroas inumeráveis. Pois àquele que traz aquela coroa tanto a morte muitas vezes assalta e aflige, como também, antes da morte, as investidas de circunstâncias sem número; mas este diadema ninguém terá força para arrancar daquele que o traz — não, nem mesmo após a morte; nem alguém de sua própria casa, nem estranho algum. E permiti-me apontar-vos a pedra mais preciosa deste diadema. Pois, como pedra preciosíssima, esta vem ao fim e o encerra. Que é, pois, isto? As palavras "por causa de Mim"; pois não está aqui a maravilha em que não poupou, mas em que foi por causa d'Ele.
Ó bendita mão direita, de que faca foi ela julgada digna! Ó admirável faca, de que mão direita foi ela julgada digna! Ó admirável faca, para que propósito foi preparada! A que ofício serviu! A que figura ministrou! Como se tingiu de sangue? Como não se tingiu de sangue? Pois não sei o que dizer, tão tremendo foi aquele mistério. Ela não tocou o pescoço do menino, nem atravessou a garganta daquele santo; nem se tingiu de escarlate com o sangue do justo; antes, ao mesmo tempo tocou, e atravessou, e se tingiu, e se banhou nele, e contudo não se banhou. Talvez vos pareça que estou fora de mim, proferindo tais contradições. Pois, em verdade, estou fora de mim, com o pensamento do admirável feito daquele justo; mas não profiro contradições. Pois, de fato, a mão do justo a impeliu contra a garganta do jovem, mas a Mão de Deus não permitiu que, assim impelida, se manchasse com o sangue do jovem. Pois não foi Abraão sozinho que a reteve, mas também Deus: e ele, por seu propósito, desferiu o golpe; Deus, por Sua voz, o refreou. Pois a mesma voz tanto armou quanto desarmou aquela mão direita, a qual, ordenada sob Deus, como sob um chefe, executava tudo ao Seu aceno, e tudo era ministrado à Sua voz. Pois observai: Ele disse "Mata", e imediatamente ela se armou; Ele disse "Não mates", e imediatamente ela se desarmou; pois tudo [de antemão] estava plenamente preparado.
E então Deus mostrou o soldado e o general a todo o mundo; este vencedor coroado ao teatro dos anjos; este sacerdote, este rei, coroado com aquela faca mais do que com um diadema, este portador de troféu, este campeão, este conquistador sem combate. Pois assim como um general que tivesse um soldado valorosíssimo usaria de seu domínio das armas, de seu porte, de seus movimentos ordenados para consternar o adversário; assim também Deus, apenas pelo propósito, pela atitude, pelo porte daquele justo, consternou e pôs em fuga o inimigo comum de todos nós, o Diabo. Pois julgo que também ele então se encolheu, aterrado. Mas se alguém disser: "E por que Ele não permitiu que aquela mão direita se banhasse, e então imediatamente o ressuscitasse depois de sacrificado?" Porque Deus não podia aceitar tais ofertas sangrentas; tal mesa seria a dos demônios vingadores. Mas aqui duas coisas se manifestaram, tanto a benignidade do Senhor quanto a fidelidade do servo. E antes, na verdade, ele saíra de sua terra; mas então ele abandonou até mesmo a natureza. Por isso também recebeu o seu principal com usura; e muito razoavelmente. Pois escolheu perder o nome de pai, para mostrar-se um servo fiel. Por isso não se tornou apenas pai, mas também sacerdote; e porque por amor de Deus entregou o seu próprio, por isso também Deus lhe deu, além destes, os Seus próprios. Quando, pois, os inimigos maquinam malefícios, Ele permite que se chegue até à prova, e então opera milagres; como no caso da fornalha e dos leões (Dan 3 e Dan 6); mas quando Ele mesmo ordena, alcançada a prontidão, Ele detém Sua ordem. Que, pergunto então, faltava ainda a este nobre feito? Pois teria Abraão conhecido de antemão o que aconteceria? Teria ele negociado a misericórdia de Deus? Pois ainda que fosse profeta, contudo o profeta não conhece todas as coisas. Assim, o sacrifício real, depois, seria supérfluo e indigno de Deus. E se convinha que ele aprendesse que Deus era capaz de ressuscitar dentre os mortos, pelo ventre ele já aprendera isto muito mais maravilhosamente, ou antes, ele o aprendeu ainda antes daquela prova, pois tinha fé.
7. Não admireis, pois, somente a este varão justo, mas imitai-o também, e quando o virdes, em meio a tão grande tumulto e ondas revoltas, navegar como que em bonança, tomai vós também em vossas mãos, do mesmo modo, o timão da obediência e da fortaleza. Pois olhai, rogo-vos, não somente para isto, que ele erigiu o altar e dispôs a lenha; mas lembrai-vos também da voz do menino, e considerai que hostes, semelhantes a tempestades de neve, o assaltaram para o consternar, quando ouviu o rapaz dizer: Meu pai, onde está o cordeiro? Refleti quantos pensamentos então se agitaram, armados não de ferro, mas de dardos de fogo, penetrando-o e trespassando-o por todos os lados. Se ainda hoje muitos, e estes não sendo pais, se quebrantam, e chorariam, se não soubessem o desfecho; e muitos, bem o vejo, choram, ainda que o saibam — que se há de pensar que sentiria aquele que o gerou, que o criou, que o teve na velhice, que o teve único, e tal como era, e agora o vê, o ouve, e está prestes a imolá-lo? Que inteligência havia nas palavras! Que mansidão na pergunta! Quem, pois, aqui operava? O Diabo, para pôr a natureza em chamas? Longe disso! Mas Deus, para provar ainda mais a alma de ouro daquele justo. Pois quando fala a mulher de Jó, ali opera o Diabo. Pois tal é o teor daquele conselho. Mas este nada profere de blasfemo, mas o que é, ao mesmo tempo, deveras piedoso e ponderado; e grande era a graça que se derramava sobre as palavras, muito o mel que delas fluía, manando de uma alma serena e branda. Até um coração de pedra bastariam estas palavras para abrandar. Mas não o desviaram, não, nem sequer abalaram aquele diamante. Nem disse ele: "Por que o chamas de pai, a quem em breve não mais será teu pai, sim, que já perdeu esse título de honra?" E por que pergunta o menino? Não por mera impertinência, não por curiosidade, mas ansioso pelo que se propunha. Pois refletiu que, se seu pai não tencionasse fazê-lo partícipe do que se fazia, não teria deixado os servos abaixo, e o tomado somente a ele consigo. Por esta razão, decerto, também é que, estando a sós, então lhe pergunta, quando ninguém ouvia o que se dizia. Tão grande era o juízo do menino. Não estais todos enternecidos para com ele, tanto homens quanto mulheres? Não abraça e beija cada um de vós, em pensamento, o menino, e não se maravilha com seu discernimento; e não venera a piedade que, quando foi atado e posto sobre a lenha, não o fez consternar-se nem debater-se nem acusar de louco a seu pai; antes, foi também atado, e erguido, e posto sobre ela, e suportou tudo em silêncio, como um cordeiro, sim, antes como o Senhor comum de todos. Pois dEle imitou tanto a mansidão quanto guardou o tipo. Porque Ele foi levado como um cordeiro ao matadouro, e como ovelha muda diante de quem a tosquia (Is 53:7). E, contudo, Isaque falou; pois também seu Senhor falou. Como, pois, mudo? Isto significa que nada falou de voluntarioso ou de áspero, mas tudo era doce e brando, e as palavras, mais que o silêncio, manifestaram sua mansidão. Pois também Cristo disse: Se falei mal, dá testemunho do mal; mas se bem, por que me feres? (Jo 18:23); e manifestou sua mansidão mais do que se tivesse guardado silêncio. E assim como este fala com seu pai desde o altar, também Ele fala desde a Cruz, dizendo: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Que disse, pois, o Patriarca? Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho (Gn 22:8).
Um usa os nomes da natureza; aquele, pai; este, filho; e de ambos os lados árdua se levantou a guerra, e poderosa a tempestade, e contudo em nenhuma parte houve naufrágio: porque a religião triunfou sobre tudo. Depois que ouviu falar de Deus, não proferiu palavra alguma, nem foi importunamente curioso. Tal era o discernimento da criança ainda na própria flor da mocidade. Vedes o rei, sobre quantos exércitos, em quantas batalhas que o cercavam, ele saiu vitorioso? Pois não foram tão temíveis à cidade de Jerusalém os bárbaros, quando a assaltaram tantas vezes, quanto foram a este homem os pensamentos que por todos os lados o sitiavam: e contudo venceu a todos. Quereis ver também o sacerdote? A prova está à mão. Pois, tendo-o visto com o fogo e o cutelo, de pé sobre um altar, que mais duvidais quanto ao seu sacerdócio? Mas se quereis ver também o sacrifício, eis aqui um duplo. Pois ofereceu um filho, ofereceu também um carneiro, e mais, e sobre tudo, a sua própria vontade. E com o sangue do cordeiro consagrou a sua destra, com o sacrifício do filho, a sua alma. Assim foi ordenado sacerdote, pelo sangue do seu unigênito, pelo sacrifício de um cordeiro; pois também os sacerdotes eram consagrados pelo sangue das vítimas que se ofereciam a Deus. Quereis ver também o profeta? Está escrito: Abraão, vosso pai, exultou por ver o Meu dia; e o viu, e se alegrou. Lv 8; Jo 8,56
Assim também vós fostes feito rei, sacerdote e profeta no Lavacro; rei, tendo lançado por terra todas as obras da maldade e morto os vossos pecados; sacerdote, na medida em que vos ofereceis a Deus, tendo sacrificado o vosso corpo e sendo vós mesmo também imolado, pois, se morremos com Ele, diz ele, também com Ele viveremos. 2Tm 2,11 profeta, conhecendo o que há de vir, e sendo inspirado por Deus, e selado. Pois, assim como sobre os soldados se põe um selo, assim também o Espírito é posto sobre os fiéis. E, se desertais, por ele sois manifesto a todos. Pois os judeus tinham a circuncisão por selo, mas nós, o penhor do Espírito. Sabendo, pois, tudo isto, e considerando a nossa elevada condição, exibamos uma vida digna da graça, para que também alcancemos o Reino que há de vir; o qual possamos todos alcançar pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo absteve-se de ir a Corinto, ao menos em parte, porque, se lá tivesse ido, ter-lhe-ia sido necessário assumir o papel de disciplinador, o que nem ele nem eles desejavam.
Que dizes, ó bem-aventurado Paulo? Para vos poupar, não vieste a Corinto? Certamente nos apresentas algo como uma contradição. Pois um pouco acima dissestes que não vieste, porque não procedeis segundo a carne, nem sois senhor de vós mesmo, mas sois conduzido por toda parte pela autoridade do Espírito, e expusestes as vossas aflições. Mas aqui dizeis que foi por ato próprio que não viestes, e não pela autoridade do Espírito; pois diz: Para vos poupar, abstive-me de ir a Corinto. Que se há de dizer, então? Ou que isto também foi obra do Espírito, e que ele mesmo desejava vir, mas o Espírito lhe sugeriu que não o fizesse, alegando o motivo de os poupar; ou então, que fala de uma outra vinda, e quer significar que, antes de escrever a primeira Epístola, tencionava vir, e por amor se conteve, para não os encontrar ainda não corrigidos. Talvez também, depois da segunda Epístola, ainda que o Espírito já não lhe proibisse ir, ele involuntariamente se absteve por esta razão. E esta suposição é tanto mais provável quanto, na primeira ocasião, o Espírito o proibiu; mas depois, por convicção própria de que isto era mais aconselhável, absteve-se.
E observai, peço-vos, como ele se lembra de novo do seu costume — o qual jamais deixarei de observar —, de fazer com que o que parece contra si mesmo redunde a seu favor. Pois, como lhes era natural respeitar isto e dizer: "Foi porque nos odiaste que não quiseste vir a nós", mostra ele, ao contrário, que a causa por que não veio foi que os amava.
Que significa a expressão para vos poupar? Ouvi, diz ele, que alguns entre vós cometeram fornicação; não quis, pois, vir e entristecer-vos, pois, se tivesse vindo, ter-me-ia sido necessário inquirir sobre o caso, processar e punir, e exigir justiça de muitos. Julguei então melhor estar ausente e dar oportunidade ao arrependimento, do que estar convosco e processar, e ficar ainda mais irritado. Pois, para o fim desta Epístola, ele o declarou claramente, dizendo: Temo que, quando vier, meu Deus me humilhe diante de vós, e que eu chore por muitos dos que pecaram anteriormente e não se arrependeram da lascívia e da impureza que cometeram (2 Cor 12:20-21). Isto, pois, também aqui ele insinua, e diz isto de fato como em sua própria defesa; contudo, repreende-os severíssimamente e os põe em temor; pois deu a entender que estavam sujeitos a punição, e ainda terão algo a sofrer, a menos que se corrijam depressa. E diz a mesma coisa novamente ao fim da Epístola, assim: Se eu vier outra vez, não pouparei (2 Cor 13:2). Só que ali o diz mais claramente; mas aqui, como era o proêmio, não o diz de modo tão explícito, mas em tom contido; nem se contenta sequer com isto, mas o abranda, aplicando um corretivo. Pois, vendo que a expressão era a de quem afirma grande autoridade (pois poupa-se a quem também se tem poder de punir), a fim de aliviá-la e lançar sombra sobre o que parece áspero.
Paulo não quis ir a Corinto a fim de lançar os coríntios no desespero. Antes, absteve-se, para que eles se corrigissem por si mesmos, temendo o que de outro modo poderia acontecer se ele viesse.
Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé.
Isto é: não disse, pois, para vos poupar não vim, como quem tem senhorio sobre vós. De novo, não disse vós, mas vossa fé, o que era ao mesmo tempo mais brando e mais verdadeiro. Pois, quem tem poder para compelir aquele que não tem ânimo de crer?
Mas somos cooperadores da vossa alegria.
Pois, diz ele, como a vossa alegria é nossa, não vim, para que não vos lançasse em tristeza e aumentasse o meu próprio abatimento; mas absteve-me, para que vós, corrigidos pela ameaça, fôsseis alegrados. Pois tudo fazemos em vista da vossa alegria, e nisto pomos diligência, porque somos nós mesmos participantes dela. Pois pela fé estais firmes.
Eis que ele fala de novo de modo contido. Pois temia repreendê-los outra vez, visto que os havia tratado severamente na Epístola anterior, e eles haviam feito alguma correção. E se, agora que estavam corrigidos, recebessem de novo a mesma repreensão, isto poderia fazê-los recuar. Donde esta Epístola é muito mais branda que a anterior.
Paulo tivera, evidentemente, uma experiência penosa em Corinto e desejava evitar outra, pois uma segunda ocasião seria ainda pior.
Pois se eu vos entristeço, quem é, pois, o que me alegra, senão aquele que por mim é entristecido?
Qual é esta consequência? Deveras justíssima. Pois observai: não quis, diz ele, vir a vós, para que não aumentasse a vossa tristeza, repreendendo-vos, mostrando ira e desagrado. Vendo, então, que até isto era uma acusação forte e implícita, a saber, que eles viviam de tal modo que entristeciam a Paulo, ele aplica um corretivo nestas palavras: Pois se eu vos entristeço, quem é, pois, o que me alegra, senão aquele que por mim é entristecido?
O que ele diz é algo desta natureza: 'Ainda que eu estivesse em tristeza, sendo compelido a repreender-vos e a ver-vos entristecidos, ainda assim isto mesmo me teria alegrado. Pois é esta a prova do maior amor: que me tenhais em tanta estima que vos doa o eu estar desagradado convosco.'
Vede também a sua prudência. O fazerem eles o que fazem todos os discípulos, a saber, o sentirem-se feridos e comovidos quando repreendidos, ele o apresenta como um exemplo do modo pelo qual lhe agradam; pois, diz ele, 'Ninguém me alegra tanto quanto aquele que atende às minhas palavras e se entristece ao ver-me irado.'
Ora, o que naturalmente se seguiria seria dizer: 'Pois se eu vos entristeço, quem é, pois, o que pode alegrar-vos?' Mas ele não diz isto; antes, volta o seu discurso, tratando-os com ternura, e diz: 'Ainda que eu vos entristeça, nisto mesmo me concedeis um favor grandíssimo, em que vos doeis daquilo que digo.'
O que Paulo diz é que, ainda que viesse a entristecer os coríntios, alegrar-se-ia, uma vez que a tristeza deles seria prova de quanto o tinham em estima.
Paulo já havia dito que se alegrava com a tristeza deles. Isto poderia parecer arrogância e dureza; assim, para suavizar o impacto, acrescenta isto: sabia que, se estivesse contente, eles estariam contentes, e que, se estivesse triste, eles também estariam tristes... É com peso de sentido que não venho a vós, porque não sinto ódio nem aversão, mas antes amor sobreabundante.
Quê? Que por esta causa não vim, para vos poupar. Quando escreveu ele isto? Na primeira Epístola, quando disse: Não quero ver-vos agora de passagem? (1 Cor 16,7). Penso que não; mas nesta Epístola, quando disse: Para que, quando eu vier outra vez, não me humilhe Deus diante de vós (2 Cor 12,21). Escrevi, pois, para o fim disto mesmo, diz ele, para que, quando eu vier, não me humilhe o meu Deus, e eu tenha de chorar por muitos dos que dantes pecaram.
Mas por que escrevestes? Para que, quando eu viesse, não tivesse tristeza da parte daqueles de quem devia alegrar-me, tendo confiança em vós todos, de que a minha alegria é a alegria de vós todos? Pois, tendo dito que se alegrava com a tristeza deles — o que era demasiado arrogante e duro —, novamente lhe deu outro rumo e o suavizou com o que acrescentou. Pois, diz ele, por isso vos escrevi antes, para que, com angústia, não vos encontrasse por reformar; e disse isto para que não tivesse tristeza, tendo em vista não o meu proveito, mas o vosso. Pois sei que, se me virdes alegre, vos alegrais, e se me virdes triste, vos entristeceis. Observai, pois, novamente a conexão do que disse, porque assim as suas palavras se tornarão mais fáceis de entender. Não vim, diz ele, para que não vos causasse tristeza ao encontrar-vos por reformar. E isto fiz não buscando o meu proveito, mas o vosso. Pois quanto a mim, quando vos entristeceis, recebo não pequeno prazer, vendo que tanto vos importais comigo a ponto de vos entristecerdes e afligirdes por eu estar desagradado convosco. Pois quem é, pois, o que me alegra, senão aquele que por mim é entristecido? Contudo, ainda que assim seja comigo mesmo, porque busco o vosso proveito, escrevi-vos esta mesma coisa para que eu não fosse entristecido, buscando também aqui, novamente, não o meu proveito, mas o vosso; pois sei que, se me vísseis triste, também vós vos entristeceríeis, assim como vos alegrais quando me vedes alegre. Observai agora a sua prudência. Disse ele: Não vim, para que não vos causasse tristeza; ainda que, diz ele, isto me alegre. Depois, para que não parecesse comprazer-se na dor deles, diz: Nisto me alegro, na medida em que vos faço sentir, pois, sob outro aspecto, entristeço-me por ser compelido a entristecer aqueles que tanto me amam, não só por esta repreensão, mas também por eu mesmo estar em tristeza, causando-vos por este meio nova tristeza.
Mas observai como ele o diz de modo a mesclar o louvor, dizendo: daqueles de quem eu devia alegrar-me — pois estas são palavras de quem testemunha parentesco e muita terna afeição, como se falasse de filhos sobre os quais concedera muitos benefícios e por quem se afadigara. Se, pois, por isto escrevo e não venho, é com peso de sentido que não venho, e não porque sinto ódio ou aversão, mas antes amor sobreabundante.
3. Em seguida, tendo dito que aquele que o entristece o alegra, para que não dissessem 'isto é, pois, o que buscais, que possais alegrar-vos e mostrar a todos a extensão do vosso poder' —
Paulo mostra aqui que não estava menos afetado do que aqueles que haviam pecado, mas mais. Mal podia suportar a dor que o proceder iníquo dos coríntios lhe causava.
Que espírito mais ternamente afetuoso que o deste homem? Pois mostra-se ter sido não menos aflito do que aqueles que haviam pecado, mas antes muito mais. Pois não diz apenas por causa da aflição, mas por muita aflição, nem com lágrimas, mas com muitas lágrimas e angústia de coração; isto é, eu estava sufocado, estava asfixiado de abatimento; e quando já não podia suportar a nuvem do abatimento, escrevi-vos: não para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor, diz ele, que tenho mais abundantemente por vós. E, contudo, o que naturalmente se seguiria seria dizer: não para que vos entristecêsseis, mas para que fôsseis corrigidos (pois foi de fato com este propósito que escreveu). Isto, porém, não diz; antes (para mais adoçar as suas palavras e para os ganhar a uma maior afeição), põe isto em seu lugar, mostrando que tudo faz por amor. E não diz simplesmente o amor, mas que tenho mais abundantemente por vós. Pois com isto também deseja conquistá-los, mostrando que os ama mais do que a todos e sente por eles como por discípulos escolhidos. Donde diz: Ainda que eu não seja apóstolo para outros, ao menos o sou para vós (1 Cor 9,2); e: Ainda que tenhais muitos aios, não tendes, contudo, muitos pais (1 Cor 4,15); e ainda: Pela graça de Deus nos houvemos no mundo, e mais abundantemente para convosco (2 Cor 1,12); e mais adiante: Ainda que quanto mais abundantemente vos amo, menos sou amado; e aqui: Que tenho mais abundantemente por vós (2 Cor 12,15). De sorte que, se as minhas palavras estavam cheias de ira, era, contudo, de muito amor e tristeza que procedia a ira; e, ao escrever a Epístola, eu sofria, eu me afligia, não só porque tínheis pecado, mas também porque era compelido a entristecer-vos. E isto mesmo procedia do amor. Assim como um pai cujo filho legítimo é acometido de gangrena, sendo compelido a usar do bisturi e do cautério, sofre por ambas as razões: porque está enfermo e porque é compelido a usar contra ele o bisturi. De modo que aquilo que considerais sinal de vos odiar era, na verdade, sinal de excessivo amor. E se o vos ter entristecido procedia do amor, muito mais a minha alegria naquela tristeza.
4. Tendo feito esta defesa de si mesmo (pois amiúde se defende, sem se envergonhar; porque, se o próprio Deus o faz, dizendo: Povo Meu, que te fiz? [Miquéias 6,3], muito mais o poderia Paulo) — tendo, digo, feito esta defesa de si mesmo, e estando agora prestes a passar à súplica em favor daquele que cometera fornicação, para que não se perturbassem como se recebessem ordens contraditórias, nem se pusessem a cavilar por ser ele quem, então, se irara e agora ordenava que o perdoassem, vede como a isto proveu de antemão, tanto pelo que já disse quanto pelo que está para dizer.
A ira e a indignação de Paulo contra o homem que cometera fornicação era partilhada por todos os coríntios. Assim, ele suaviza a ira deles para consigo, declarando que também eles padeceram na sua indignação.
Havendo-os primeiro louvado por sentirem alegria e tristeza pelas mesmas coisas que ele mesmo sentia, ele então penetra no tema desta pessoa, tendo dito primeiro: minha alegria é a alegria de todos vós. Ora, se minha alegria é a alegria de todos vós, necessário é que vós também agora sintais prazer comigo, assim como então vos entristecestes comigo: pois tanto no fato de terdes sido entristecidos, me fizestes alegre; como agora, no fato de vos alegrardes (se, como suponho, sentireis prazer), fareis o mesmo. Não disse ele: minha tristeza é a tristeza de todos vós; mas, tendo estabelecido isto no restante do que disse, apresentou agora somente aquilo que mais desejava, a saber, a alegria: dizendo, minha alegria é a alegria de todos vós. Então, ele faz menção também do assunto anterior, dizendo:
Mas, se alguém causou tristeza, não a mim a causou, mas em parte (para que eu não sobrecarregue demasiadamente) a todos vós.
Sei, diz ele, que compartilhastes de minha ira e indignação contra aquele que havia cometido fornicação, e que o que se passara entristeceu em parte a todos vós. E por isso disse eu em parte, não como se fôsseis menos feridos que eu, mas para que eu não sobrecarregasse aquele que havia cometido fornicação. Não foi então a mim somente que ele entristeceu, mas a vós também igualmente, ainda que, para poupá-lo, eu tenha dito, em parte. Vedes como ele de imediato moderou a ira deles, declarando que também eles compartilhavam de sua indignação.
Todavia, atenta a isto: se te tornares negligente e indiferente, o pecado te há de tomar mais cedo ou mais tarde. Mostra, pois, solicitude, se não pelo teu irmão, ao menos por ti mesmo. Repele a enfermidade, subjuga a corrupção e interrompe o alastrar-se da chaga cancerosa. Destas coisas falou Paulo, e de muito mais que estas. Pois, tendo ordenado aos cristãos de Corinto que entregassem a Satanás o fornicador que havia entre eles, disse depois que "o pecador se transformou" e se tornou melhor. "Pois basta a esse tal esta punição pela maioria. Reafirmai, portanto, para com ele o vosso amor." Ainda que Paulo o tivesse feito inimigo comum, adversário de todos, expulso do rebanho e cortado do corpo, notai quanta solicitude mostrou a fim de reatá-lo indissoluvelmente e reuni-lo à igreja. Pois não disse simplesmente "amai-o", mas "reafirmai para com ele o vosso amor". Isto é, revelai vossa amizade como certa, inabalável, fervorosa, ardente e inflamada; apresentai vosso amor com a mesma força do ódio anterior. "Que aconteceu? Dizei-me, não o entregastes a Satanás?" "Sim", diz ele, "mas não para que permanecesse nas mãos de Satanás, e sim para que rapidamente fosse libertado de seu domínio tirânico." Atentai, porém, cuidadosamente, para aquilo mesmo que eu dizia sobre quanto Paulo temia o desalento como grande arma do demônio. Disse ele: "Reafirmai para com ele o vosso amor", e acrescentou logo a razão: "para que este tal não seja tragado por excessiva tristeza".
Notai que Paulo em nenhum lugar menciona o crime, porque já era chegado o tempo de perdoar.
E ele não diz àquele que cometeu fornicação, mas aqui de novo a este tal, como também na Epístola anterior. Não, porém, pela mesma razão; ali por vergonha, aqui por misericórdia. Por isso, em nenhum lugar subsequente sequer menciona o crime; pois já era tempo de desculpar.
Paulo pede aos coríntios não apenas que suspendam a censura, mas também que restituam o homem à sua condição anterior, pois punir alguém sem curá-lo não significa nada. Notai também como Paulo mantém o próprio homem humilde, para que não se torne pior em razão de ter sido perdoado. Pois, ainda que houvesse confessado e se arrependido, Paulo deixa claro que ele obteve o perdão não tanto por seu arrependimento quanto pela graça gratuita de Deus.
Ordena-lhes não somente que retirem a censura; mas, além disso, o restitui ao seu estado anterior; pois, se alguém solta aquele que foi açoitado e não o cura, nada fez. E vede como também a este mantém abatido, para que não se torne pior pelo perdão. Pois, embora houvesse ele tanto confessado quanto se arrependido, torna manifesto que obtém a remissão não tanto por sua penitência quanto por esta graça gratuita. Por isso diz, perdoá-lo e confortá-lo, e o que se segue novamente torna patente a mesma coisa. "Pois", diz ele, "não é porque seja digno, não porque tenha mostrado penitência suficiente; mas porque é fraco, é por isto que o peço." Donde também acrescentou, para que de algum modo este tal não seja tragado por excessiva tristeza. E isto é tanto para testificar seu profundo arrependimento quanto para não permitir que caia em desespero.
Mas que significa isto, tragado? Ou fazendo como fez Judas, ou até mesmo, vivendo, tornando-se pior. Pois, diz ele, se ele se precipitasse a não mais suportar a angústia desta prolongada censura, talvez, também desesperando, viesse ou a enforcar-se, ou a cair depois em crimes maiores. Convém, pois, tomar precauções de antemão, para que a chaga não se torne demasiado difícil de tratar; e para que aquilo que bem fizemos não venhamos a perder por falta de moderação.
Ora, isto disse ele (como já observei) tanto para mantê-lo humilde, quanto para ensinar-lhe a não se tornar demasiado negligente após esta restituição. Pois não como quem lavou tudo inteiramente, mas como quem teme que ele viesse a operar algum mal mais profundo, eu o recebi, diz ele. De onde aprendemos que devemos determinar a penitência, não somente pela natureza dos pecados, mas pela disposição e pelo hábito daqueles que pecam. Como fez o Apóstolo naquele caso. Pois temia a fraqueza dele, e por isso disse, para que não seja tragado, como que por uma fera, por uma tempestade, por uma onda.
Paulo já não ordena, mas suplica; não como mestre, mas como igual. Coloca os coríntios no lugar de juízes e assume para si o papel de advogado, pedindo-lhes que reafirmem seu amor por ele.
Portanto vos suplico.
Já não ordena, mas suplica; não como mestre, mas como igual; e havendo-os assentado no assento do juízo, colocou-se a si mesmo na condição de advogado; pois, tendo alcançado o seu propósito, de alegria adota sem contenção o tom da súplica. E que é, pois, o que suplicais? Dizei-me.
Que confirmeis para com ele o vosso amor.
Isto é, "tornai-o firme", não simplesmente tende trato com ele, nem de qualquer maneira. Nisto, uma vez mais, ele dá testemunho de sua virtude como muito grande; pois aqueles que lhe eram tão afeiçoados e o aplaudiam a ponto de se ensoberbecerem, tornaram-se tão estranhos que Paulo toma tal cuidado para que confirmem para com ele o seu amor. Nisto está a excelência dos discípulos, nisto a excelência dos mestres: que eles assim obedeçam ao freio, e ele assim governe os seus movimentos. Se assim fosse ainda agora, os que pecam não teriam transgredido tão insensatamente. Pois não se deve nem amar sem cautela, nem tornar-se estranho sem razão alguma.
Paulo precisa ver que os coríntios são tão obedientes em restaurar o pecador quanto o foram em puni-lo. Pois a punição poderia ter procedido em parte de inveja e malícia; mas, se agora procedem a restaurá-lo em amor, isso mostrará que a sua obediência é pura. Esta é a prova dos verdadeiros discípulos: se obedecem não somente quando lhes é ordenado fazer algo, mas também por si mesmos.
5. Pois para isto também vos escrevi, para que eu conhecesse a prova de vós, se sois obedientes em todas as coisas; não somente em cortar, mas também em reunir. Vedes como aqui de novo ele traz o perigo até às suas portas? Pois assim como, quando ele pecou, alarmou os seus ânimos, a menos que o cortassem, dizendo: Um pouco de fermento leveda toda a massa (1 Cor 5,6), e várias outras coisas; assim também aqui de novo os confronta com o temor da desobediência, como que dizendo: "Assim como então tínheis de tomar conselho não somente por ele, mas também por vós mesmos, assim agora deveis fazê-lo não menos por vós mesmos do que por ele; para que não pareçais ser daqueles que amam a contenda e não têm sentimentos humanos, e não sejais em tudo obedientes." E por isso diz: Pois para isto também vos escrevi, para que eu conhecesse a prova de vós, se sois obedientes em todas as coisas.
Pois o caso anterior poderia parecer proceder até mesmo de inveja e malícia, mas este mostra muito especialmente que a obediência é pura, e se sois aptos para a benignidade. Pois esta é a prova dos discípulos de reto ânimo: se obedecem não somente quando lhes é ordenado certas coisas, mas também quando o contrário. Por isso disse: em todas as coisas, mostrando que, se desobedecerem, não desonram tanto a ele quanto a si mesmos, granjeando a fama de amantes da contenda; e faz isto para que também assim os impela à obediência. Donde também diz: Pois para isto vos escrevi; e contudo não escreveu para isto, mas assim fala a fim de conquistá-los. Pois o objetivo principal era a salvação daquela pessoa. Mas onde não faz dano, também lhes agrada. E, dizendo em todas as coisas, de novo os louva, trazendo à memória e pondo à vista a sua obediência anterior.
Paulo deixa que os coríntios tomem a dianteira e lhes diz que ele os seguirá. Este é o melhor modo de abrandar um ânimo exasperado e contencioso. Depois, para que não os torne negligentes e recusem o perdão, de novo os constrange, dizendo que ele mesmo já perdoou o homem.
Vedes como de novo ele atribui a si mesmo a segunda parte, mostrando-os a eles como os que começam, e a si mesmo como o que segue? Este é o modo de abrandar um ânimo exasperado, de compor um espírito contencioso. Depois, para que não os tornasse negligentes, como se fossem árbitros, e recusassem o perdão, de novo os constrange a isto, dizendo que ele mesmo também o havia perdoado.
Pois o que eu também perdoei, se algo perdoei, foi por causa de vós que o perdoei. Pois, diz ele, isto mesmo fiz por causa de vós. E assim como, quando lhes ordenou que o cortassem, não deixou com eles o poder de perdoar, dizendo: Já julguei entregar tal homem a Satanás (1 Cor 5,3-5), e de novo os fez partícipes da sua decisão, dizendo: congregados vós para entregá-lo (ib. 4-5) — assegurando com isso duas coisas de máxima importância, a saber, que a sentença fosse proferida, mas não sem o consentimento deles, para que nisto não parecesse ofendê-los; e nem ele mesmo sozinho a pronuncia, para que não o considerassem arbitrário e a eles desconsiderados, nem tampouco deixa tudo a eles, para que, de posse do poder, não tratassem traiçoeiramente com o ofensor, perdoando-o fora de tempo — assim também aqui, dizendo: "Já perdoei eu, que na Epístola anterior já havia julgado." Depois, para que não se sentissem ofendidos, como se desconsiderados, acrescenta: por causa de vós. Que então? Perdoou ele por causa dos homens? Não; pois por isso acrescentou: na pessoa de Cristo.
Que é na pessoa de Cristo? Ou quer dizer segundo [a vontade de] Deus, ou para a glória de Cristo.
Satanás pode destruir até mesmo sob a aparência de piedade. Pois pode destruir não somente conduzindo à fornicação, mas até pelo oposto, pela tristeza desmedida que pode seguir-se ao arrependimento dela. Tomar-nos pelo pecado é sua obra própria, mas enredar-nos em nosso arrependimento é uma desonra ainda mais sutil, porque essa é a nossa arma, não a dele.
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Vês como ao mesmo tempo lhes confia o poder e novamente o retira, a fim de, por aquilo, abrandá-los, e por isto, erradicar-lhes a vontade própria? Mas não é só isto que ele provê por meio disto; mostra também que, se fossem desobedientes, o dano alcançaria a todos, tal como fizera também no início. Pois então também disse: *Um pouco de fermento leveda toda a massa* (1 Cor 5:6). E aqui novamente: *Para que Satanás não leve vantagem sobre nós*. E por todo o trecho, faz deste perdão um ato conjunto, seu e deles. Considerai-o desde o princípio. Mas, diz ele, se algum causou tristeza, não a mim causou tristeza, mas em parte — para que eu não seja demasiado severo — a todos vós. Depois, novamente: *Basta a esse tal esta punição que lhe foi infligida pelos muitos*. Esta é a sua própria decisão e parecer. Não se deteve, porém, nesta decisão, mas de novo os torna partícipes, dizendo: *De modo que, pelo contrário, deveis antes perdoá-lo e confortá-lo. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor*. Tendo assim de novo feito o ato pertencer a todos eles, passa à sua própria autoridade, dizendo: *Pois para isto vos escrevi, para que eu conhecesse a prova de vós, se sois obedientes em tudo*. Depois, novamente, faz o favor pertencer a eles, dizendo: *A quem perdoardes alguma coisa*. Depois, torna-o seu próprio, dizendo: *Também eu perdoo*: pois, se algo perdoei, foi por causa de vós. Depois, ambos deles e seu, pois diz ele: *Se alguma coisa perdoei, por causa de vós o perdoei na pessoa de Cristo* — ou seja, para a glória de Cristo, ou como se Cristo também ordenasse isto, o que era o mais eficaz para persuadi-los. Pois depois disto teriam temido não conceder aquilo que tendia à Sua glória e que Ele queria. Depois novamente assinala o dano comum, caso fossem desobedientes, quando diz: *Para que Satanás não leve vantagem sobre nós*; e bem o nomeia, "levar vantagem". Pois ele não toma mais o que é seu, mas arrebata violentamente o que é nosso, pois este se reformou. E não me digais que somente este se torna presa da fera, mas considerai também isto: que o número do rebanho diminui, e agora sobretudo quando poderia recuperar o que havia perdido. Pois não ignoramos as suas maquinações, que ele destrói até mesmo sob a aparência de piedade. Pois não somente ao conduzir à fornicação pode destruir, mas até pelo contrário, pela tristeza desmedida que se segue ao arrependimento por ela. Quando, pois, além do que é seu, toma também o que é nosso — quando, ao instigar ao pecado, destrói; e quando instigamos ao arrependimento, ele arrebata violentamente — como não é isto "levar vantagem"? Pois ele não se contenta em derrubar pelo pecado, mas até pelo arrependimento faz isto, a menos que estejamos vigilantes. Pelo que, com razão, também o chamou de "levar vantagem", quando até vence com as nossas próprias armas. Pois tomar pelo pecado é obra que lhe é própria; pelo arrependimento, porém, já não o é, pois esta arma é nossa, não sua. Quando, pois, mesmo por este meio ele é capaz de tomar, pensai quão vergonhosa a derrota, como há de rir-se de nós e desprezar-nos como fracos e miseráveis, se há de subjugar-nos com as nossas próprias armas. Pois seria motivo de escárnio extremo e da última desonra que ele nos infligisse feridas por meio dos nossos próprios remédios. Por isso disse: *pois não ignoramos as suas maquinações*, expondo a sua versatilidade, a sua astúcia, as suas más maquinações, a sua malícia, a sua capacidade de prejudicar sob a aparência de piedade.
Estas coisas, pois, tendo em mente, nunca desprezemos a ninguém; nem tampouco, ainda que caiamos em pecado, desesperemos; mas, por outro lado, tampouco sejamos depois demasiado tranquilos de ânimo, senão que, quando transgredirmos, aflijamos as nossas mentes e não apenas desabafemos em palavras. Pois conheço muitos que dizem, na verdade, chorar os seus pecados, mas não fazem coisa alguma de valor. Jejuam e vestem trajes ásperos; mas são mais ávidos por dinheiro do que os mercadores, mais presa da ira do que as feras, e tomam mais prazer na maledicência do que outros na louvação. Estas coisas não são arrependimento; estas coisas são tão-só a aparência e a sombra do arrependimento, não o arrependimento mesmo. Pelo que também no caso destas pessoas convém dizer: Tomai cuidado para que Satanás não leve vantagem sobre nós, pois não ignoramos as suas maquinações; a uns destrói pelos pecados, a outros pelo arrependimento; mas a estes ainda por outro caminho, permitindo-lhes que não colham fruto algum do arrependimento. Pois, não achando como pudesse destruí-los por ataque direto, veio por outra via, agravando-lhes os trabalhos, ao passo que lhes rouba os frutos, e persuadindo-os, como se tivessem cumprido com êxito tudo quanto lhes cumpria fazer, a serem, por isso, negligentes quanto ao que resta.
Digna de louvor é, na verdade, também aquilo que agora fazeis, o vosso jejuar, o deitar-vos por terra e as cinzas; mas, se a isso não se acrescentar o restante, de nada vos aproveitam essas coisas. Deus mostrou como Ele remite os pecados. Por que, então, abandonando aquele caminho, talhais para vós outro? Em tempos antigos pecaram os ninivitas, e fizeram eles as coisas que vós também fazeis agora. Vejamos, porém, o que foi que a eles aproveitou. Pois, como no caso dos enfermos, os médicos aplicam muitos remédios; contudo, o homem de entendimento não considera que o enfermo experimentou isto e aquilo, mas o que lhe foi de proveito; tal deve ser também a nossa investigação aqui. Que foi, pois, que aproveitou àqueles bárbaros? Aplicaram o jejum às feridas, sim, aplicaram jejum extremo, e também o deitar-se por terra, o vestir-se de saco, e cinzas, e lamentações; aplicaram também uma mudança de vida. Vejamos, então, qual dessas coisas os curou. E donde, dirá alguém, o saberemos? Se recorrermos ao Médico, se a Ele o perguntarmos: pois Ele não no-lo ocultará, antes até com prontidão no-lo revelará. Antes, para que ninguém o ignore, nem tenha necessidade de perguntar, Ele mesmo pôs por escrito o remédio que os restaurou. Que é, pois, isto? Deus, diz Ele, viu que se converteram cada um do seu mau caminho, e Ele se arrependeu do mal que dissera lhes faria (Jn 3,10). Não disse: "Viu o jejum, o saco e as cinzas". E não digo isto para destruir o jejum (longe esteja!), mas para vos exortar a que, com o jejum, façais aquilo que é melhor que o jejum: o abster-vos de todo mal. Também Davi pecou (2 Sm 12,17 etc.). Vejamos, então, como também ele se arrependeu. Três dias sentou-se sobre as cinzas. Mas isto não o fez por causa do pecado, e sim por causa do menino, estando ainda estupefacto com aquela aflição. Mas o pecado, por outros meios, o apagou: pela humildade, pela contrição de coração, pela compunção da alma, por não mais cair em coisa semelhante, por dele sempre se lembrar, por suportar com gratidão tudo quanto lhe sucedia, por poupar aos que o afligiam, por abster-se de retribuir aos que contra ele conspiravam; sim, até prevenindo aqueles que desejavam fazê-lo. Por exemplo, quando Simei o cobria de impropérios sem número (2 Sm 16,5-9), e o capitão que com ele estava se indignava sobremaneira, disse ele: "Deixai-o amaldiçoar-me, pois o Senhor lho ordenou"; pois tinha ele um coração contrito e humilhado, e foi isto especialmente o que apagou os seus pecados. Pois isto é confissão, isto é arrependimento. Mas se, enquanto jejuamos, somos soberbos, não só nada lucramos, como até fomos prejudicados.
7. Humilha, pois, o teu coração, também tu, para que atraias Deus a ti. Porque perto está o Senhor dos que têm o coração contrito (Sl 33:19). Não vês, nas casas suntuosas, aqueles que estão em desgraça — como não respondem sequer quando os servos inferiores os insultam, mas suportam por causa da desonra em que o seu erro os envolveu? Faze tu, pois, o mesmo: e se alguém te injuriar, não te enfureças, mas geme — não pela injúria, mas por aquele pecado que te lançou na desgraça. Geme quando pecares, não porque hás de ser punido (pois isso nada é), mas porque ofendeste teu Senhor, tão manso, tão bondoso, que tanto te ama e tanto anseia pela tua salvação que até Seu Filho deu por ti. Por isto geme, e faze isto continuamente: pois isto é a confissão. Não sejas hoje alegre, amanhã de semblante triste, e depois alegre outra vez; mas permanece sempre em pranto e em contrição de ti mesmo. Pois, bem-aventurados, diz Ele, os que choram (Mt 5:4) — isto é, os que fazem isto perpetuamente. Persevera, pois, em fazer isto perpetuamente, e em vigiar sobre ti mesmo, e em afligir o teu coração, como quem tivesse perdido um filho amado prantearia. Rasgai, diz ele, os vossos corações, e não as vossas vestes (Jl 2:13). O que está rasgado não se ergue ao alto; o que foi quebrado não pode levantar-se de novo. Por isso um diz "rasgai", e outro: um coração quebrantado e contrito, Deus não desprezará (Sl 51:17). Sim, ainda que sejas sábio, ou rico, ou governante, rasga o teu coração. Não permitas que ele tenha pensamentos altivos, nem que se infle. Pois o que está rasgado não se infla, e ainda que haja algo que o faça inchar, por estar rasgado não pode reter a inflação. Assim também sê tu humilde de coração. Considera que o publicano foi justificado por uma só palavra, ainda que aquilo não fosse humilhação, mas verdadeira confissão. Ora, se isto tem poder tão grande, quanto mais a humilhação. Perdoa as ofensas àqueles que transgrediram contra ti, pois isto também remite pecados. E a respeito do primeiro Ele diz: Vi que andava contristado, e sarei os seus caminhos (Is 57:17-18, Septuaginta); e no caso de Acabe, isto aplacou a ira de Deus (1Rs 21:29); a respeito do segundo: Perdoai, e ser-vos-á perdoado. Há também ainda outro caminho que nos traz este remédio: condenar aquilo que fizemos de mal; pois, Declara primeiro as tuas transgressões, para que sejas justificado (Is 43:26, Septuaginta). E, para quem está em aflições, dar graças desata os seus pecados; e a esmola, que é maior que todas.
Contai, pois, os remédios que curam as tuas chagas, e aplica-os todos sem cessar: a humildade, a confissão, o esquecimento das injúrias, a ação de graças nas aflições, o exercício da misericórdia tanto em esmolas quanto em obras, a perseverança na oração. Assim aplacou a viúva o juiz cruel e inflexível. E se ela aplacou o injusto, muito mais tu aplacarás o benigno. Há ainda, juntamente com estes, um outro caminho: a defesa dos oprimidos; pois, diz Ele, julgai a causa do órfão e defendei a viúva; e vinde, e arrazoemos juntos: ainda que os vossos pecados sejam como escarlata, eu os farei brancos como a neve (Is 1:17-18). Que desculpa, pois, poderemos merecer, se, havendo tantos caminhos que nos conduzem ao Céu, e tantos remédios para curar as nossas chagas, ainda depois do Lavacro permanecemos onde estávamos? Não nos limitemos, pois, somente a permanecer assim; mas que os que ainda não caíram perseverem na sua própria formosura; sim, antes a cultivem cada vez mais (pois estas boas obras, onde não encontram pecados, tornam a beleza maior); e nós, que em muitas coisas erramos, usemos os meios mencionados para a correção dos nossos pecados, a fim de que possamos comparecer diante do tribunal de Cristo com muita confiança; à qual possamos todos chegar pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
"Ora, quando cheguei a Trôade para o evangelho de Cristo, e quando se me abriu uma porta no Senhor, não tive alívio para o meu espírito, porque não encontrei Tito, meu irmão."
Estas palavras parecem, por um lado, indignas de Paulo, se por causa da ausência de um irmão ele desprezasse tão grande oportunidade de salvar; e, por outro, parecem estar desligadas do contexto. Que faremos, pois? Quereis que provemos primeiro que se ligam ao contexto, ou que ele nada disse de indigno de si mesmo? A meu ver, o segundo, pois assim o primeiro ponto também se tornará mais fácil e mais claro.
Como, pois, ligam-se estas palavras às anteriores? Recordemo-nos do que eram aquelas, e assim perceberemos isto. Quais eram, pois, as anteriores? O que disse no princípio. "Não quero, diz ele, que ignoreis, irmãos, a nossa aflição que nos sobreveio na Ásia, pois fomos sobremaneira oprimidos, além das nossas forças." Ora, tendo mostrado o modo de sua libertação, e inserido a matéria intermediária, é levado por necessidade a ensinar-lhes de novo que, ainda de outra maneira, fora ele afligido. Como, e de que maneira? Em não encontrar Tito. Temível é, na verdade, e bastante para prostrar a alma, mesmo suportar tentações; mas quando não há quem console e que possa ajudar a levar o fardo, a tempestade se torna maior. Ora, Tito é aquele de quem, mais adiante, fala como tendo vindo a ele da parte deles, e a respeito de quem discorre em muitos e grandes louvores, e de quem disse tê-lo enviado. Com o propósito, pois, de mostrar que também neste ponto fora ele afligido por causa deles, disse ele estas coisas.
Que as palavras em questão se ligam, pois, ao que precedia, é manifesto por tudo isto. E tentarei provar também que não são indignas de Paulo. Pois ele não diz que a ausência de Tito impediu a salvação daqueles que estavam para se converter, nem tampouco que por isso negligenciou os que criam, mas sim que não teve alívio, isto é, "fui afligido, fui angustiado pela ausência de meu irmão"; mostrando quão grande coisa é a ausência de um irmão; e por isso partiu dali. Mas que significa "quando cheguei a Trôade, para o evangelho"? Ele não diz simplesmente "cheguei", mas "para pregar". Mas, ainda assim, embora eu tivesse vindo para isso e encontrado muitíssimo que fazer (pois se me abriu uma porta no Senhor), não tive, diz ele, alívio — não que por isso impedisse a obra. Como diz ele, então:
2 Coríntios 2:13 — "Despedindo-me deles, parti dali"?
Isto é, "não me detive por mais tempo, estando angustiado e aflito." E talvez a obra tenha sido até impedida por sua ausência. E isto não foi para eles pequena consolação. Pois se, quando ali se abrira uma porta, e para este propósito ele viera, ainda assim, por não ter encontrado o irmão, apressou-se em partir; muito mais, diz ele, deveis desculpar a compulsão daqueles assuntos que nos conduzem e nos levam a toda parte, e não nos permitem, segundo desejamos, nem viajar, nem demorar-nos mais entre aqueles com quem quereríamos ficar. Donde também prossegue, neste passo, novamente a referir suas jornadas a Deus, como acima fizera ao Espírito.
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Paulo não disse que a ausência de Tito impediu a salvação daqueles que estavam prestes a converter-se, nem que por essa razão os negligenciou, mas sim que continuava aflito por causa de Tito, mostrando com isto quão grave é a ausência de um irmão.
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Paulo estava em constante aflição por onde quer que fosse, mas isto não o arrastava ao desespero. Pelo contrário, ele se alegrava e dava graças, porque, ainda que a perseguição pudesse parecer uma desonra, era, na verdade, uma honra grandíssima.
Ao chegar a estas coisas, envia ações de graças a Deus. Ora, o que ele diz é isto: 'Em toda parte há tribulação, em toda parte estreiteza. Vim à Ásia, fui sobrecarregado além das forças. Vim a Trôade, não achei o irmão. Não vim a vós; isto também gerou em mim não pequena, antes gravíssima aflição, tanto porque muitos entre vós haviam pecado, quanto porque por esta causa não vos vejo. Pois, para vos poupar, diz ele, ainda não vim a Corinto. Para que então não pareça queixar-se ao dizer isto, acrescenta: 'Não somente não nos entristecemos nestas aflições, mas antes nos regozijamos; e, o que é ainda maior, não somente por causa das recompensas vindouras, mas também das presentes. Pois já aqui somos por estas coisas feitos gloriosos e conspícuos. Tão longe estamos, pois, de lamentar, que até chamamos a isto um triunfo; e nos gloriamos no que sucede.' Por esta razão disse também: Graças, pois, sejam dadas a Deus, que sempre nos faz triunfar, isto é, 'que nos torna renomados diante de todos. Pois o que parece ser motivo de vergonha, sermos perseguidos de toda parte, isto nos parece ser motivo de honra gravíssima.' Por isso não disse: Que nos faz vistos por todos, mas: Que nos faz triunfar: mostrando que estas perseguições erigem uma série de troféus contra o demônio em toda parte do mundo. Depois, tendo mencionado, junto com o autor, também o assunto do triunfo, com isto ele também eleva o ouvinte. 'Pois não somente somos feitos triunfar por Deus, mas também em Cristo;' isto é, por causa de Cristo e do Evangelho. 'Pois, convindo que se triunfe, toda a necessidade está em que também nós, que carregamos o troféu, sejamos vistos por todos, porquanto O carregamos. Por esta razão nos tornamos observados e conspícuos.'
2. 2 Coríntios 2:14. E que manifesta por nós o odor do Seu conhecimento em todo lugar.
Disse acima: Que sempre nos faz triunfar. Aqui diz em todo lugar, mostrando que todo lugar e todo tempo está pleno dos trabalhos dos Apóstolos. E usa ainda outra metáfora, a do suave odor. Pois 'como os que carregam unguento, assim somos', diz ele, 'manifestos a todos'; chamando o conhecimento de unguento preciosíssimo. Além disso, não disse: 'o conhecimento;' mas o odor do conhecimento; pois tal é a natureza do conhecimento presente, não muito claro nem descoberto. Donde também disse na Epístola anterior: Pois agora vemos em espelho, obscuramente (1 Cor 13:12). E aqui chama isto de tal odor. Ora, aquele que percebe o odor sabe que há unguento posto em algum lugar; mas de que natureza seja, ainda não sabe, a menos que já antes o tenha visto. 'Assim também nós. Que Deus é, sabemos, mas o que Ele é em substância ainda não sabemos. Somos, pois, como que um incensário régio, exalando por onde quer que vamos o unguento celestial e o suave odor espiritual.' Ora, disse isto, ao mesmo tempo para expor o poder da Pregação, pois pelos próprios desígnios formados contra eles, resplandecem mais do que aqueles que os perseguem e que fazem todo o mundo conhecer tanto os seus troféus quanto o seu suave odor: e para exortá-los, quanto às suas aflições e provações, a suportar tudo nobremente, vendo que já mesmo antes da Recompensa colhem esta glória inefável.
Quer alguém se salve, quer se perca, o evangelho continua a ter sua própria virtude. A luz, ainda quando cega alguém, é ainda luz. O mel, embora seja amargo para os que estão enfermos, é ainda doce. Assim também o evangelho tem suave odor para todos, ainda que se percam os que nele não creem.
Quer, diz ele, alguém se salve, quer se perca, o Evangelho continua a ter sua própria virtude: e como a luz, ainda que cegue os débeis, é contudo luz, embora causando cegueira; e como o mel, ainda que seja amargo para os que estão enfermos, é por natureza doce; assim também é o Evangelho de suave odor, ainda que alguns se percam por não crerem nele. Pois não é Ele, mas a própria perversidade deles, que opera a perdição. E por isto sobretudo se manifesta o seu suave odor, por aquilo mesmo pelo qual perecem os corruptos e viciosos; de modo que não somente pela salvação dos bons, mas também pela perdição dos ímpios se declara a sua excelência. Visto que também o sol, por esta razão sobretudo, por ser sobremaneira brilhante, fere os olhos dos débeis: e o Salvador é posto para queda e levantamento de muitos (Lc 2:34), mas ainda assim continua a ser Salvador, ainda que dez mil caiam; e a Sua vinda trouxe castigo mais grave sobre os que não creem, mas ainda assim continua a ser plena de cura. Donde também diz: Somos para Deus suave odor; isto é, 'ainda que alguns se percam, continuamos a ser aquilo que somos.' Além disso, não disse simplesmente suave odor, mas para Deus. E quando somos suave odor para Deus, e Ele decreta estas coisas, quem há de contradizer doravante?
A expressão também, suave odor de Cristo, parece-me admitir dupla interpretação: pois quer dizer ou que, ao morrerem, ofereceram-se a si mesmos como sacrifício: ou que eram um suave odor da morte de Cristo, como se alguém dissesse, este incenso é um suave odor desta vítima. A expressão, pois, suave odor, ou significa isto, ou, como disse primeiro, que são diariamente sacrificados por causa de Cristo. 3. Vedes a que altura elevou as provações, chamando-as triunfo, e suave odor, e sacrifício oferecido a Deus. Depois, tendo dito, somos suave odor, ainda nos que perecem, para que não penseis que também estes são aceitáveis
Se alguém se perde, a si mesmo somente deve culpar. Diz-se que o unguento suave sufoca os porcos. A luz é cegante para os débeis. É da natureza das coisas boas não somente corrigir o que lhes é próximo, mas também destruir o que lhes é contrário, e desta maneira se manifesta o seu poder.
Para um, odor de morte para morte; para outro, odor de vida para vida.
Pois deste suave odor uns recebem de tal modo que se salvam, outros de tal modo que perecem. De sorte que, se algum se perde, a culpa vem de si mesmo: pois tanto se diz que o unguento sufoca os porcos, quanto que a luz (como já observei) cega os débeis. E tal é a natureza das coisas boas: não somente corrigem o que lhes é afim, mas também destroem o contrário: e desta maneira se manifesta sobremodo o seu poder. Pois assim também o fogo, não somente quando ilumina e quando purifica o ouro, mas ainda quando consome os espinhos, manifesta grandemente o seu próprio poder, e assim se mostra ser fogo: e Cristo também nisto descobre a Sua própria majestade, quando há de consumir o Anticristo com o sopro da Sua boca, e reduzi-lo a nada com a manifestação da Sua vinda (2 Ts 2:8).
E quem é suficiente para estas coisas?
Vendo que proferira coisas grandiosas, que 'somos sacrifício de Cristo e suave odor, e em toda parte somos feitos triunfar,' usa de novo a moderação, referindo tudo a Deus. Donde também diz: e quem é suficiente para estas coisas? 'Pois tudo,' diz ele, 'é de Cristo, nada é nosso.' Vedes quão oposta a sua linguagem à dos falsos Apóstolos? Pois estes, na verdade, se gloriam, como que contribuindo algo de si mesmos para a mensagem: ele, ao contrário, diz que por isso se gloria, porque afirma que nada é seu. Pois a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que não em sabedoria carnal, mas na graça de Deus, nos portamos no mundo. E aquilo que eles consideravam glória adquirir, quero dizer a sabedoria de fora, ele faz questão de suprimir. Donde também aqui diz: E quem é suficiente para estas coisas? Mas se ninguém é suficiente, aquilo que se faz é da graça.
Paulo não imitará os falsos apóstolos, que reclamam recompensas para si mesmos. Pois há corrupção quando alguém vende por dinheiro aquilo que deveria dar gratuitamente. Paulo fala em Cristo, não por sua própria sabedoria, mas pelo poder que dele procede.
Mesmo que empreguemos palavras de grande sonoridade, todavia nada declaramos ser nosso próprio feito, mas tudo de Cristo. Pois não haveremos de imitar os falsos apóstolos, homens que dizem ser a maior parte de si mesmos. Pois isto é corromper, quando alguém adultera o vinho; quando alguém vende por dinheiro o que deveria dar gratuitamente. Pois parece-me que ele aqui os incrimina tanto quanto ao dinheiro, quanto de novo alude à mesma coisa que eu disse, a saber, que misturam as coisas suas às de Deus; o que é a acusação que Isaías traz quando disse: Os teus taberneiros misturam vinho com água (Is 1,22, Septuaginta); pois ainda que isto tenha sido dito do vinho, não erraria quem o expusesse também acerca da doutrina. Mas nós, diz ele, não procedemos assim; antes, tal como nos foi confiado, tal o oferecemos a vós, derramando a palavra sem mescla. Donde acrescentou: Mas como de sinceridade, mas como de Deus, na presença de Deus falamos em Cristo.
Não vos enganamos, diz ele, nem assim pregamos, como quem vos confere um dom, ou como quem introduz e mistura algo de si mesmo, mas como de Deus; isto é, não dizemos conferir coisa alguma nossa, mas que Deus deu tudo. Pois de Deus significa isto: não se gloriar em coisa alguma como se a tivéssemos de nós mesmos, mas reportar tudo a Ele. Falamos em Cristo.
Não por nossa própria sabedoria, mas instruídos pelo poder que dEle procede. Aqueles que se gloriam não falam desta maneira, mas como quem introduz algo de si próprios. Donde também noutro lugar os põe em ridículo, dizendo: Pois que tens tu que não tenhas recebido? E se o recebeste, por que te glorias como se não o houvesses recebido? (1 Cor 4,7). Esta é a mais alta virtude: reportar tudo a Deus, nada considerar como próprio, nada fazer por consideração à opinião dos homens, mas ao que Deus quer. Pois é Ele quem há de exigir a conta. Ora, porém, esta ordem está invertida: e dAquele que há de sentar-se no tribunal e exigir a conta, não temos temor excessivo, e todavia tremem daqueles que estão de pé e são julgados conosco.
4. De onde, pois, provém esta enfermidade? De onde irrompeu ela em nossas almas? De não meditarmos continuamente nas coisas daquele mundo, mas de estarmos cravados nas coisas presentes. Daí que facilmente caímos em más ações, e mesmo quando fazemos alguma coisa boa, fazemo-la por ostentação, de modo que também daí nos advém prejuízo. Por exemplo, alguém olhou muitas vezes para uma pessoa com olhos desenfreados, sem ser visto por ela nem por aqueles que com ela caminhavam, mas não escapou ao Olho que jamais dorme. Pois, mesmo antes da consumação do pecado, Ele já via a alma desenfreada, e aquela loucura interior, e os pensamentos que rodopiavam em tempestade e maré; pois não necessita Ele de testemunhas nem de provas, Aquele que tudo conhece. Não olheis, pois, para os vossos conservos: pois ainda que o homem louve, de nada aproveita se Deus não aceita; e ainda que o homem condene, em nada prejudica se Deus não condena. Ah! não provoqueis assim o vosso Juiz; fazendo tanto caso dos vossos conservos, e contudo, quando Ele mesmo se ira, não temendo nem tremendo diante d'Ele. Desprezemos, pois, o louvor que vem dos homens. Até quando seremos de ânimo baixo e rasteiro? Até quando, elevando-nos Deus ao céu, nos esforçaremos por sermos arrastados pelo chão? Os irmãos de José, se tivessem diante dos olhos o temor de Deus, como convém aos homens ter, não teriam tomado o seu irmão em lugar solitário e o matado (Gn 37). Caim, por sua vez, se temesse aquela sentença como devia temer, não teria dito: "Vamos, saiamos ao campo" (Gn 4,8, Septuaginta). Pois, para que fim, ó miserável e desventurado, o separas daquele que o gerou, e o conduzes a um lugar solitário? Acaso não vê Deus o ato ousado mesmo no campo? Não foste instruído, pelo que sucedeu a teu pai, de que Ele tudo conhece, e está presente em todas as coisas que se fazem? E por que, quando ele negou, não lhe disse Deus isto: "Ocultas-te de Mim, que estou presente em toda parte, e conheço as coisas secretas?" Porque ainda não sabia ele compreender retamente estas elevadas verdades. Mas que diz Ele? A voz do sangue de teu irmão clama a Mim. Não como se o sangue tivesse voz; mas como dizemos, quando as coisas são patentes e claras, que o próprio fato fala por si.
Bem por isso convém ter diante dos olhos a sentença de Deus, e todos os terrores se extinguem. Assim também nas orações podemos manter-nos vigilantes, se tivermos em mente com quem estamos a conversar, se refletirmos que estamos oferecendo sacrifício e temos em nossas mãos uma faca, e fogo, e lenha; se em pensamento escancararmos as portas do céu, se nos transportarmos para lá e, tomando a espada do Espírito, a cravarmos na garganta da vítima: fazei da vigilância o sacrifício e das lágrimas a libação a Ele. Pois tal é o sangue desta vítima. Tal é o degolamento que tinge de púrpura aquele altar. Não permitais, pois, que qualquer pensamento mundano ocupe então vossa alma. Lembrai-vos de que também Abraão, ao oferecer o sacrifício, não permitiu que estivessem presentes nem esposa, nem servo, nem qualquer outro. Não permitais, portanto, que nenhuma das paixões servis e vis esteja presente convosco, mas subi sozinhos ao monte aonde ele subiu, aonde a nenhuma segunda pessoa é permitido subir. E, se algum destes pensamentos tentar subir convosco, ordenai-lhes com autoridade, e dizei: Ficai aqui sentado, e eu e o rapaz iremos adorar e voltaremos a vós (Gn 22,5, Septuaginta) — e, deixando abaixo o jumento e os servos, e tudo o que é destituído de razão e sentido, subi, levando convosco o que é razoável, como ele levou Isaque. E edificai vosso altar como ele o fez, como quem não tem nada de humano, mas ultrapassou a natureza. Pois também ele, se não tivesse ultrapassado a natureza, não teria imolado seu filho. E que nada vos perturbe então, mas sede elevados acima dos próprios céus. Gemei amargamente, sacrificai a confissão, pois, diz ele, Declarai primeiro vossas transgressões, para que sejais justificados (Is 43,26, Septuaginta), sacrificai a contrição do coração. Estas vítimas não se tornam cinzas, nem se dissolvem em fumaça, nem se derretem em ar; tampouco necessitam de lenha e fogo, mas somente de um coração profundamente traspassado. Esta é a lenha, este é o fogo para queimá-las, mas não para as consumir. Pois aquele que ora com fervor é queimado, mas não consumido; antes, como o ouro que é provado pelo fogo, torna-se mais brilhante.
5. E juntamente observai com diligência mais uma coisa: ao orar, não dizer nada daquilo que provoca vosso Senhor; nem vos aproximeis para orar contra inimigos. Pois, se ter inimigos já é motivo de opróbrio, considerai quão grande é o mal de orar contra eles. Pois é necessário que te defendas e mostres por que tens inimigos: mas tu antes os acusas. E que perdão obterás, quando ao mesmo tempo insultas, e nisto mesmo quando tu mesmo necessitas de tanta misericórdia? Pois te aproximaste para suplicar pelos teus próprios pecados: não faças, então, menção dos pecados alheios, para que não relembres a memória dos teus. Pois, se dizes: "Fere meu inimigo", fechaste tua própria boca, cortaste toda ousadia de tua língua; primeiro, na verdade, porque já iraste o Juiz logo ao começar; depois, porque pedes coisas em desacordo com a própria natureza da tua oração. Pois, se te aproximas em busca do perdão dos pecados, como discorres sobre castigo? O contrário, certamente, era necessário fazer, e orar por eles, a fim de que com ousadia possamos suplicar isto também para nós mesmos. Mas agora antecipaste a sentença do Juiz pela tua própria, exigindo que Ele castigue os que pecam: pois isto priva de todo perdão. Mas, se oras por eles, ainda que nada digas em favor de teus próprios pecados, alcançaste tudo. Considerai quantos sacrifícios há na Lei: um sacrifício de louvor, um sacrifício de reconhecimento, um sacrifício de paz, um sacrifício de purificações, e inúmeros outros, e nenhum deles contra inimigos, mas todos em favor ou dos próprios pecados ou dos próprios êxitos. Pois te aproximas de outro Deus? A Ele te aproximas que disse: Orai por vossos inimigos (Lc 6,27-35; Rm 12,14). Como, então, clamas contra eles? Como suplicas a Deus que quebrante a sua própria lei? Este não é o modo de um suplicante. Ninguém suplica a destruição de outrem, mas a própria salvação. Por que, então, vestes a aparência de suplicante, mas tens as palavras de acusador? Contudo, quando oramos por nós mesmos, coçamo-nos e bocejamos, e caímos em dez mil pensamentos; mas, quando oramos contra nossos inimigos, o fazemos com vigília. Pois, uma vez que o diabo sabe que estamos cravando a espada contra nós mesmos, não nos distrai nem nos chama para outra coisa então, para que assim nos cause maior dano. Mas, diz alguém: "Fui injuriado e estou aflito." Por que, então, não oras contra o diabo, que nos prejudica mais que todos? Isto também te foi ordenado dizer: Livrai-nos do maligno. Ele é teu inimigo irreconciliável; mas o homem, faça ele o que fizer, é amigo e irmão. Contra ele, pois, iremos todos nós; contra ele supliquemos a Deus, dizendo: Esmagai a Satanás debaixo de nossos pés (Rm 16,20); pois é ele quem também gera os inimigos que temos. Mas, se oras contra os inimigos, oras como ele quer que ores, como se fosse contra teus inimigos, quando na verdade é contra ti mesmo. Por que, então, deixando ir aquele que é verdadeiramente teu inimigo, dilaceras teus próprios membros, mais cruel nisto que as feras? "Mas", diz alguém, "ele me insultou e me roubou dinheiro"; e quem tem necessidade de lamentar-se, aquele que sofreu a injúria, ou aquele que a cometeu? Evidentemente, aquele que a cometeu, visto que, ao ganhar dinheiro, lançou-se para fora do favor de Deus, e perdeu mais do que ganhou: de modo que é ele o verdadeiro injuriado. Certamente, pois, não é necessário orar contra ele, mas por ele, para que Deus tenha misericórdia dele. Vede quantas coisas sofreram os três jovens, embora não tivessem feito mal algum.
Perderam a pátria, a liberdade, foram levados cativos e feitos escravos; e, transportados para uma terra estrangeira e bárbara, estavam até mesmo à beira de serem mortos por causa do sonho, sem causa nem motivo (Dn 2:13). Que fizeram, pois? Quando entraram com Daniel, o que rogaram? Que disseram? "Derruba Nabucodonosor, abate o seu diadema, arranca-o do trono"? Nada disso; mas suplicaram misericórdias a Deus (Dn 2:18, LXX). E, quando estavam na fornalha, do mesmo modo. Mas vós não sois assim: quando padeceis muito menos do que eles, e amiúde justamente, não cessais de proferir dez mil imprecações. E diz um: "Fere o meu inimigo como submergiste o carro de Faraó"; outro: "Consome-lhe a carne"; outro ainda: "Faze recair isso sobre os filhos dele." Não reconheceis estas palavras? Donde vem, pois, este vosso riso? Vedes quão risível é isto, quando dito sem a paixão? E assim todo pecado então revela quão vil é, quando o despis do estado de alma de quem o comete. Se lembrares a alguém que se irou as palavras que disse em sua paixão, ele há de afundar-se de vergonha e desprezar-se a si mesmo, e desejará ter sofrido mil castigos antes que aquelas palavras fossem suas. E se, terminado o abraço, trouxeres ao impuro a mulher com quem pecou, também ele se voltará dela como de algo repugnante. Assim fazei vós: porque não estais sob o domínio da paixão, rides agora. Pois dignas de riso são elas, e as palavras de velhas tagarelas embriagadas, e brotam de uma mesquinhez de alma própria de mulheres. E, no entanto, José, ainda que tivesse sido vendido e feito escravo, e habitado um cárcere, não proferiu nem mesmo então uma palavra amarga contra os autores de suas dores. Mas que diz ele? "Com efeito, fui furtado da terra dos hebreus" (Gn 40:15); e não acrescenta por quem. Pois sente mais vergonha pela maldade de seus irmãos do que os próprios que a cometeram. Tal deveria ser também a nossa disposição: entristecer-nos por aqueles que nos ofendem mais do que eles mesmos se entristecem. Pois o dano recai sobre eles. Assim como os que dão coices contra os aguilhões, e contudo se orgulham disso, são dignos de piedade e de lamento por causa dessa loucura; assim também os que ofendem aqueles que nenhum mal lhes fizeram, na medida em que ferem as suas próprias almas, são dignos de muitos gemidos e lamentações, não de maldições. Pois nada há mais poluído que uma alma que amaldiçoa, nem mais impuro que uma língua que oferece tais sacrifícios. Tu és homem; não vomites o veneno das serpentes. Tu és homem; não te tornes fera selvagem. Pois para isto foi feita a tua boca, não para que mordesses, mas para que sarasses as feridas dos outros. "Lembra-te do mandamento que te dei", diz Deus, "de perdoar e conceder remissão. Mas tu me suplicas também que eu seja cúmplice da subversão dos meus próprios mandamentos, e devoras o teu irmão, e avermelhas a tua língua, como os loucos fazem com os próprios dentes sobre os próprios membros." Como pensas que o demônio se compraz e ri, ao ouvir semelhante oração? E como Deus se irrita, e se aparta de ti e te abomina, quando lhe suplicas coisas como estas? Que há de mais perigoso do que isto? Pois se ninguém que tenha inimigos deve aproximar-se dos mistérios: quanto mais não deve ser excluído até mesmo dos átrios exteriores aquele que não somente os tem, mas também ora contra eles?
Considerando, pois, estas coisas, e atentando para o Sujeito do Sacrifício, que Ele foi sacrificado por inimigos, não tenhamos nós inimigo algum; e, se o tivermos, roguemos por ele, a fim de que também nós, tendo alcançado o perdão dos pecados que cometemos, possamos comparecer com ousadia diante do tribunal de Cristo; ao qual seja a glória para sempre. Amém.
Ele antecipa e formula contra si mesmo uma objeção que outros lhe teriam levantado — "Tu te vanaglorias" — e isto ainda que houvesse antes empregado corretivo tão forte nas expressões: Quem é suficiente para estas coisas?, e falamos com sinceridade... (2 Cor 2,16-17). Contudo, ele não se contenta com isso. Pois tal é o seu caráter. De parecer dizer algo grande a respeito de si mesmo ele está bem longe, e evita-o até com grande superfluidade e excesso. E notai, peço-vos, também neste exemplo, a abundância de sua sabedoria. Pois uma coisa de aspecto lamentável — refiro-me às tribulações — ele de tal modo exaltou e mostrou brilhante e luminosa, que do que dissera surgiu contra ele a presente objeção. E assim procede também para o fim. Pois, depois de haver enumerado inúmeros perigos, injúrias, angústias, necessidades, e quantas coisas semelhantes há, acrescentou: Não nos recomendamos de novo a vós, mas vos damos ocasião de vos gloriardes de nós (2 Cor 5,12). E isto ele exprime de novo com veemência naquele lugar, e com mais encorajamento. Pois aqui as palavras são de amor: Necessitamos, como alguns, de epístolas de recomendação?; mas ali o que diz está cheio de uma espécie até de orgulho — necessária e propriamente, digo eu, de orgulho e de indignação. Pois não nos recomendamos de novo, diz ele, mas vos damos ocasião de vos gloriardes de nós; e: Cuidais, de novo, que nos desculpamos diante de vós? Pois diante de Deus falamos em Cristo. Porque temo que, quando eu vier, não vos encontre tais como quisera, e eu mesmo seja achado por vós tal qual não quiséreis (ib. 12,19-20). Pois, para prevenir toda aparência de desejo de lisonjear, como quem cobiçasse honra da parte deles, fala assim: Temo que, quando eu vier, não vos encontre tais como quisera, e eu mesmo seja achado por vós tal qual não quiséreis. Isto, porém, vem depois de muitas acusações; mas no início ele não fala assim, senão mais brandamente. E que diz ele? Falou de suas provações e de seus perigos, e de que em toda parte é conduzido como em procissão por Deus em Cristo, e de que todo o mundo conhece estes triunfos. Tendo, pois, dito grandes coisas de si mesmo, ele levanta contra si esta objeção: Começamos de novo a nos recomendar a nós mesmos? Ora, o que ele diz é isto: Talvez alguém objete: "Que é isto, ó Paulo? Dizes estas coisas de ti mesmo, e te exaltas?" Para afastar, pois, esta suspeita, diz: Não desejamos isto, isto é, gabar-nos e exaltar-nos a nós mesmos; sim, tão longe estamos de necessitar epístolas de recomendação para vós, que vós nos sois em lugar de epístola.
"Se necessitássemos de ser recomendados a outros," diz ele, "teríamos apresentado a vós diante deles, em vez de uma carta."
Que significa isto, vós sois? "Necessitássemos nós de ser recomendados a outros, teríamos apresentado a vós diante deles em vez de uma epístola." E isto ele já disse na Epístola anterior: Pois o selo de meu apostolado sois vós (1 Cor 9,2). Mas aqui não o diz deste modo, senão por ironia, de sorte a tornar mais cortante sua pergunta: Necessitamos de epístolas de recomendação? E, aludindo aos falsos apóstolos, acrescentou: como alguns [epístolas de recomendação] para vós, ou cartas de recomendação de vós para outros. Depois, porque o que dissera era severo, suaviza-o acrescentando: Vós sois nossa epístola, escrita em nossos corações, conhecida de todos.
Aqui Paulo testemunha não somente o amor deles, mas também as suas boas obras, visto que, pelo seu comportamento, podem demonstrar a todos o alto valor de seu mestre. Aquilo que as cartas fariam para angariar respeito ao apóstolo, os coríntios o realizam por sua vida e comportamento. As virtudes dos discípulos recomendam o mestre mais do que qualquer carta. Eles são uma epístola de Cristo, tendo a lei de Deus escrita em seus corações. Deus escreveu essa lei, mas Paulo e seus companheiros os prepararam para receber a escritura. Pois assim como Moisés lavrou as pedras e as tábuas, assim Paulo formou as suas almas.
Sendo manifesto que sois uma epístola de Cristo.
Aqui ele testemunha não somente o amor deles, mas também as suas boas obras: visto que são capazes de mostrar a todos os homens, por sua própria virtude, o alto valor de seu mestre, pois este é o sentido de: Vós sois a nossa epístola.
O que as cartas fariam para nos recomendar e angariar respeito, isso vós o fazeis, tanto vistas quanto ouvidas; pois a virtude dos discípulos costuma adornar e recomendar o mestre mais do que qualquer carta.
Escrita em nossos corações.
Isto é, o que todos sabem; assim vos trazemos conosco por toda parte e vos temos em mente. Como se dissesse: Vós sois a nossa recomendação diante de outros, pois nós continuamente vos temos no coração e proclamamos a todos as vossas boas obras. Porque então, mesmo perante outros, vós mesmos sois a nossa recomendação, não necessitamos de epístolas vossas; mas, além disso, porque vos amamos sobremaneira, não necessitamos de recomendação para convosco. Pois é para com os estranhos que se tem necessidade de cartas, mas vós estais em nossa mente. Contudo ele não disse meramente, vós estais [nele], mas escritos [nele], isto é, não podeis dele escapar. Pois assim como das cartas, pela leitura, assim de nosso coração, pela percepção, todos conhecem o amor que vos temos. Se, pois, o objetivo de uma carta é certificar que tal pessoa é meu amigo e que tenha livre trato [convosco], o vosso amor basta para assegurar tudo isso. Pois, se formos até vós, não necessitamos de outros que nos recomendem, visto que o vosso amor antecipa isso; e se formos até outros, novamente não necessitamos de cartas, pois o mesmo amor de novo nos basta em lugar delas, porquanto trazemos a epístola em nossos corações.
2. Então, exaltando-os ainda mais, ele até os chama de epístola de Cristo, dizendo,
2 Coríntios 3:3. Sendo manifesto que sois uma epístola de Cristo.
E, tendo dito isto, ele depois toma daí fundamento e ocasião para uma discussão sobre a Lei. E há outro propósito em ele aqui os denominar Sua epístola. Pois acima, ao recomendá-lo, ele os chamou de epístola; mas aqui, epístola de Cristo, como tendo a Lei de Deus escrita neles. Pois as coisas que Deus quis declarar a todos e a vós, estas estão escritas em vossos corações. Mas fomos nós que vos preparamos para receber a escritura. Pois assim como Moisés lavrou as pedras e as tábuas, assim nós, as vossas almas. Donde ele diz,
Por nós ministrada.
Contudo, nisto eles eram iguais; pois aquelas foram escritas por Deus, e estas pelo Espírito. Onde, então, está a diferença?
Escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas que são corações de carne.
Tão vasta quanto a diferença entre o Espírito e a tinta, e entre uma tábua de pedra e uma de carne, tão vasta é aquela entre estas e aquelas; e, por consequência, entre aqueles mesmos que ministraram e aquele que ministrou a eles. Contudo, porque era grande coisa a que havia proferido, logo ele se reprime,
E novamente reporta tudo a Deus: pois é Cristo, diz ele, quem é o Autor destas coisas para nós.
Não que sejamos capazes por nós mesmos de considerar como de nós mesmos coisa alguma.
Eis aqui, novamente, mais um corretivo. Pois ele possui esta virtude — refiro-me à humildade — em singular perfeição. Por isso, sempre que diz algo grande a respeito de si mesmo, empenha toda a diligência para abrandar extremamente e por todos os meios o que disse. E assim procede também neste passo, dizendo: Não que sejamos capazes por nós mesmos de considerar como de nós mesmos coisa alguma; isto é: não disse eu que temos confiança como se parte fosse nossa e parte de Deus; mas refiro e atribuo tudo a Ele.
Mas a nossa suficiência vem de Deus, o qual também nos fez capazes de ser ministros de uma nova aliança.
Que significa: nos fez capazes? Tornou-nos aptos e idôneos. E não é coisa pequena ser o portador ao mundo de tais tábuas e letras, muito maiores que as anteriores. Donde também acrescentou:
Não da letra, mas do espírito. Eis aqui, novamente, outra diferença. Que dizer, pois? Acaso não era espiritual aquela Lei? Como, então, diz ele: Sabemos que a Lei é espiritual (Rm 7,14)? Espiritual, na verdade, mas não concedia espírito. Pois Moisés não trazia espírito, mas letras; a nós, porém, foi confiado dar espírito. Donde também, em ulterior completação deste [contraste], diz:
Porque a letra mata, mas o espírito vivifica.
Contudo, ele não diz estas coisas de modo absoluto, mas em alusão àqueles que se orgulhavam das coisas do judaísmo. E por letra entende aqui a Lei, que pune os que a transgridem; mas por espírito, a graça que, mediante o Batismo, dá vida aos que pelos pecados foram feitos mortos. Pois, tendo mencionado a diferença que provém da natureza das tábuas, não se detém nela, mas, passando rapidamente por cima, dedica maior labor a este outro ponto, que muito mais lhe permitia cativar o ouvinte por considerações do que era vantajoso e fácil; pois, diz ele, isto não é laborioso, e o dom que oferece é maior. Porquanto, se ao discorrer sobre Cristo ele põe especialmente em relevo as coisas que pertencem à Sua benignidade, mais do que ao nosso mérito, e que estão mutuamente ligadas, muito maior necessidade há de que assim proceda ao tratar da aliança. Que significa, pois, a letra mata? Ele havia dito tábuas de pedra e corações de carne: até aqui não parecia mencionar grande diferença. Acrescentou que a antiga aliança fora escrita com letras ou tinta, mas esta com o Espírito. Nem isto ainda os despertava por completo; diz por fim o que de fato bastaria para lhes dar asas: uma mata, a outra vivifica. E que significa isto? Na Lei, aquele que tem pecado é punido; aqui, aquele que tem pecados vem, é batizado e é feito justo, e, sendo feito justo, vive, livre da morte do pecado. A Lei, se apanha um homicida, dá-lhe a morte; o Evangelho, se apanha um homicida, ilumina-o e dá-lhe vida. E por que aponto um homicida? A Lei apanhou um que ajuntava lenha no dia de sábado, e o apedrejou (Nm 15,32-36). Este é o sentido de a letra mata. O Evangelho toma milhares de homicidas e ladrões e, batizando-os, livra-os de seus vícios antigos. Este é o sentido de o Espírito vivifica. A primeira torna morto o seu cativo, de vivo que era; o segundo torna vivo o homem que convenceu, de morto que era. Pois: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados (Mt 11,28); e não disse: "Eu vos castigarei", mas: "Eu vos aliviarei". Porque no Batismo os pecados são sepultados, as coisas antigas são apagadas, o homem é vivificado, toda a graça escrita em seu coração como que numa tábua. Considerai, pois, quão alta é a dignidade do Espírito, visto que Suas tábuas são melhores que aquelas primeiras; visto que se manifesta ali algo ainda maior que a própria ressurreição. Pois, com efeito, aquele estado de morte do qual Ele livra é mais irremediável que o primeiro: tanto mais quanto a alma é de maior valor que o corpo; e esta vida é conferida por Aquele que o Espírito dá. Mas, se Ele é capaz de conceder isto, muito mais então aquilo que é menor. Pois isto os profetas operaram, mas aquilo não puderam: porque ninguém pode remitir pecados senão só Deus; nem os profetas concederam aquela vida sem o Espírito. Mas não é esta a única maravilha, que Ele dê vida, mas que capacitou também outros a fazê-lo. Pois Ele diz: Recebei o Espírito Santo (Jo 20,22). Por quê? Porque sem o Espírito isto não seria possível? Sim; mas Deus, mostrando que Ele é de suprema autoridade, e daquela Essência Régia, e possui o mesmo poder que Ele mesmo, diz também isto. Donde também acrescenta: A quem quer que perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e a quem os retiverdes, lhes são retidos (Jo 20,23).
3. Já que, pois, ela nos deu a vida, permaneçamos vivos e não retornemos novamente à antiga morte: porque Cristo já não morre mais; pois a morte que Ele morreu, morreu-a ao pecado uma vez por todas (Rm 6:9-10); e Ele não quer que sejamos sempre salvos apenas pela graça: pois assim estaríamos vazios de tudo. Por isso Ele quer que contribuamos também com algo de nós mesmos. Contribuamos, então, e preservemos à alma a sua vida. E o que é vida numa alma, aprendei do corpo. Pois também do corpo dizemos que vive quando se move com um tipo saudável de movimento; mas quando jaz prostrado e impotente, ou seus movimentos são desordenados, ainda que retenha a aparência de vida ou movimento, tal vida é mais penosa que qualquer morte: e se não profere nada são, senão palavras de louco, e vê um objeto em lugar de outro, tal homem é ainda mais digno de piedade que os mortos. Assim também a alma, quando não tem sanidade, ainda que retenha uma aparência de vida, está morta: quando não vê o ouro como ouro, mas como algo grande e precioso; quando não pensa no futuro, mas rasteja pelo chão; quando faz uma coisa em lugar de outra. Pois de onde é evidente que temos uma alma? Não é de suas operações? Quando, pois, ela não realiza as coisas que lhe são próprias, não está ela morta? Quando, por exemplo, não tem cuidado algum com a virtude, mas é rapace e transgride a lei; de onde poderei dizer que tens uma alma? Porque andas? Mas isto pertence também às criaturas irracionais. Porque comes e bebes? Mas isto também pertence às feras. Pois bem, porque te ergues sobre dois pés? Isto antes me convence de que és uma fera em forma humana. Pois quando te assemelhas a ela em todos os demais aspectos, mas não no seu modo de se erguer, tu mais me perturbas e me aterras; e mais considero monstro aquilo que vejo. Pois se eu visse uma fera falando com voz humana, não diria por isso que era um homem, mas antes, por isso mesmo, uma fera mais monstruosa que uma fera. De onde, então, poderei aprender que tens alma de homem, quando escoiceias como o asno, quando guardas malícia como o camelo, quando mordes como o urso, quando devoras como o lobo, quando furtas como a raposa, quando és astuto como a serpente, quando és desavergonhado como o cão? De onde poderei aprender que tens alma de homem? Quereis que vos mostre uma alma morta e uma viva? Voltemos o discurso àqueles homens antigos; e, se quiserdes, ponhamos diante de nós o rico [na história] de Lázaro, e saberemos o que é a morte numa alma; pois ele tinha uma alma morta, e isto é claro pelo que fez. Pois, das obras da alma, não fez uma sequer, mas apenas comeu, bebeu e viveu em prazeres. Tais são ainda hoje os desapiedados e cruéis, pois também estes têm uma alma morta como a dele. Pois todo o calor que flui do amor ao próximo se esgotou nele, e está mais morto que um corpo sem vida. Mas o pobre não era assim; antes, colocado no próprio cume da sabedoria celeste, resplandecia; e ainda que lutasse contra fome contínua, e não fosse sequer suprido do alimento necessário, nem por isso proferiu qualquer blasfêmia contra Deus, mas suportou tudo nobremente. Ora, esta não é obra trivial da alma, mas prova altíssima de que ela está bem tensa e sã. E quando não há estas qualidades, é evidente que pereceram porque a alma está morta.
Ou, dizei-me, não havemos de declarar morta aquela alma sobre a qual o Diabo se lança, ferindo-a, mordendo-a, calcando-a aos pés, e ela não tem sentido algum de nenhuma destas coisas, mas jaz entorpecida e não se aflige quando é despojada de suas riquezas; antes, ele salta sobre ela, e ela permanece imóvel, como um corpo do qual a alma se ausentou, que nem sequer o sente? Pois, quando o temor de Deus não está presente com rigor, tal necessariamente há de ser a alma, e então o morto é mais miserável ainda. Porque a alma não se dissolve em corrupção, e cinzas, e pó, mas em coisas de odor mais fétido que estas: em embriaguez, e ira, e cobiça, em amores impróprios e desejos intempestivos. Mas, se quereis saber com mais exatidão quão fétido é este odor, dai-me uma alma pura, e então vereis claramente quão fétido é o odor desta imunda e impura. Pois, no presente, não podereis percebê-lo. Porquanto, enquanto estamos habitualmente em contato com um odor fétido, dele não temos sentido. Mas, quando somos alimentados com palavras espirituais, então havemos de reconhecer aquele mal. E, contudo, a muitos isto parece de nenhuma importância. E nada digo ainda do inferno; mas examinemos, se quiserdes, o que já está presente, e quão digno de escárnio é, não aquele que pratica, mas aquele que profere torpeza; como primeiramente ele mesmo se carrega de opróbrio; tal como aquele que expele da boca alguma imundície, assim ele se contamina a si mesmo. Pois, se a corrente é tão impura, considerai qual há de ser a fonte desta imundície! Porque da abundância do coração fala a boca (Mt 12:34). Contudo, não é só por isto que me aflijo, mas porque a alguns isto nem sequer parece contar-se entre as coisas impróprias. Donde os males todos se agravam, quando pecamos, e nem cuidamos que fazemos mal algum.
4. Quereis, pois, aprender quão grande mal é a torpe linguagem? Vede como os ouvintes coram de vossa indecência. Pois que há mais vil que um falador de torpezas? Que mais infame? Porque tais homens a si mesmos se lançam nas fileiras dos bufões e das mulheres prostituídas; antes, estas têm mais pudor que vós. Como podeis ensinar a uma esposa a ser modesta, quando por tal linguagem a treinais para proceder até à lascívia? Melhor fora expelir da boca podridão que uma palavra torpe. Ora, se vossa boca tivesse mau odor, nem sequer participaríeis dos alimentos comuns; tendo, pois, na alma tão fétido fedor, dizei-me, ousais participar dos mistérios? Se alguém tomasse um vaso sujo e o pusesse sobre a mesa, tê-lo-íeis espancado com bastões e expulsado; e, contudo, Deus, à Sua própria mesa (pois nossa boca é Sua mesa quando cheia de ação de graças), quando derramais palavras mais repugnantes que qualquer vaso imundo, dizei-me, cuidais que não O provocais? E como é isto possível? Pois nada exaspera tanto ao santo e puro quanto tais palavras; nada torna os homens tão impudentes e desavergonhados como dizer e ouvir semelhantes coisas; nada afrouxa assim os nervos do pudor como a chama que estas acendem. Deus pôs perfumes em vossa boca, mas vós armazenais palavras de odor mais fétido que um cadáver, e destruís a própria alma, e a fazeis incapaz de movimento. Pois, quando insultais, esta não é a voz da alma, mas da ira; quando falais torpezas, é lascívia, e não ela que fala; quando detratais, é inveja; quando maquinais, é cobiça. Estas não são obras da alma, mas das paixões e das enfermidades que a ela pertencem.
Assim, pois, como a corrupção provém não simplesmente do corpo, mas da morte e da paixão que assim se acham no corpo, do mesmo modo, em verdade, estas coisas provêm das paixões que crescem sobre a alma. Pois se quiserdes ouvir uma voz proveniente de uma alma viva, ouvi Paulo dizendo: *Tendo alimento e cobertura, com isso nos contentaremos* (1 Tm 6,8); e: *A piedade é grande ganho* (1 Tm 6,6); e: *O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo* (Gl 6,14). Ouvi Pedro dizendo: *Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso vos dou* (At 3,6). Ouvi Jó dando graças e dizendo: *O Senhor deu, e o Senhor tirou* (Jó 1,21). Estas são palavras de uma alma viva, de uma alma que exerce as funções que lhe são próprias. Assim também disse Jacó: *Se o Senhor me der pão para comer e vestes para vestir* (Gn 28,20). Assim também José: *Como faria eu esta maldade e pecaria contra Deus?* (Gn 39,9). Mas não assim falou aquela mulher bárbara; antes, como uma ébria e insana, assim falou, dizendo: *Deita-te comigo* (Gn 39,7). Sabendo, pois, estas coisas, cobicemos ardentemente a alma viva, fujamos da alma morta, para que também alcancemos a vida futura; da qual sejamos todos nós feitos partícipes, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem e com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
A lei era espiritual, mas não conferia o Espírito. Moisés possuía letras, mas não o Espírito, ao passo que a nós foi confiada a doação do Espírito.
Mas se o ministério da morte, gravado com letras sobre pedras, veio com glória, de modo que os filhos de Israel não podiam fitar o rosto de Moisés por causa da glória de seu rosto — glória essa que se desvanecia —, quanto mais não será com glória o ministério do Espírito?
Disse que as tábuas de Moisés eram de pedra, como também foram escritas com letras; e que estas eram de carne — refiro-me aos corações dos Apóstolos —, e haviam sido escritas pelo Espírito; e que a letra, na verdade, mata, mas o Espírito vivifica. Faltava ainda a esta comparação o acréscimo de uma particularidade a mais, e não trivial: a da glória de Moisés — coisa que, no caso da Nova Aliança, ninguém viu com os olhos do corpo. E por esta mesma razão parecia coisa grande que a glória fosse percebida pelos sentidos (pois era vista pelos olhos corporais, ainda que não se pudesse dela aproximar); ao passo que a glória da Nova Aliança é percebida pelo entendimento. Pois, para os mais fracos, a apreensão de tal superioridade não é evidente; mas a outra mais os arrebatava e para si os voltava. Tendo, pois, incorrido nesta comparação e proposto-se a mostrar a superioridade [em questão], o que era sobremaneira difícil por causa da rudeza dos ouvintes, vede o que ele faz e com que método nisto procede, colocando primeiro diante deles a diferença por meio de argumentos, construindo estes a partir do que já dissera antes.
Pois se aquele ministério era de morte, e este de vida, sem dúvida, diz ele, a glória deste é também maior que a daquele. Pois, não podendo exibi-la aos olhos corporais, por esta inferência lógica estabeleceu sua superioridade
A lei servia à morte, mas não era sua causa. O que causava a morte era o pecado; a lei, porém, introduziu o castigo e revelou o pecado tal qual era — não o causou. A lei não ministrava à existência do pecado ou da morte, mas ao sofrimento da retribuição por parte do pecador, de sorte que, deste modo, era ela ainda mais destruidora do pecado.
Ora, por ministério da morte entende ele a Lei. E notai também quanta cautela emprega nesta comparação, para não dar ocasião aos hereges; pois não disse "que causa a morte", mas "o ministério da morte"; pois ela ministra à morte, mas não foi sua geradora, pois o que causou a morte foi o pecado; mas a Lei introduziu o castigo e mostrou o pecado, não o causou. Pois revelou o mal mais distintamente e o puniu — não impeliu ao mal; e não ministrou à existência do pecado ou da morte, mas ao sofrimento da retribuição por parte do pecador. De modo que, deste modo, era ela ainda destruidora do pecado. Pois aquilo que o mostra tão temível, é evidente, faz também com que seja evitado. Assim como aquele que toma a espada em suas mãos e decepa o condenado ministra ao juiz que profere a sentença, e não é ele a causa de sua destruição, embora o decepe — nem tampouco é ele quem profere a sentença e condena, mas a maldade daquele que é punido —, assim também aqui verdadeiramente não é ela que destrói, mas o pecado. Este tanto destruía quanto condenava; aquela, porém, ao punir, minava sua força, retendo-o pelo temor do castigo. Mas não se contentou apenas com esta consideração para estabelecer a superioridade [em questão]; antes, acrescenta ainda outra, dizendo: escrito e gravado em pedras. Vede como ele novamente corta pela raiz a arrogância judaica. Pois a Lei não era senão letras: não se encontrava nela um certo socorro a saltar das letras e a inspirar os combatentes, como sucede no Batismo, mas colunas e escritos que traziam a morte aos que transgredissem as letras. Vedes como, ao corrigir a contenciosidade judaica, ele mesmo, por suas próprias expressões, diminui-lhe a autoridade, falando de pedra e letras e ministério da morte, e acrescentando que fora gravado? Pois com isto declara ele nada menos que isto: que a Lei estava fixada num só lugar, não estando presente por toda parte, como o Espírito, inspirando grande poder em todos; ou que as letras exalam grande ameaça, e ameaça essa que não pode ser apagada, mas permanece para sempre, por estar gravada em pedra. Depois, mesmo parecendo louvar as coisas antigas, mistura novamente a acusação contra os judeus. Pois, tendo dito escrito e gravado em pedras veio com glória, acrescentou de modo que os filhos de Israel não podiam fitar o rosto de Moisés — o que era sinal de sua grande fraqueza e espírito rasteiro. E, de novo, não diz "pela glória das tábuas", mas "pela glória de seu rosto", glória essa que se desvanecia; pois mostra que era aquele que as portava quem se fazia glorioso, e não elas. Pois não disse "porque não podiam fitar as tábuas", mas "o rosto de Moisés"; e novamente, não "pela glória das tábuas", mas "pela glória de seu rosto". Depois de tê-la exaltado, vede como novamente a rebaixa, dizendo que se desvanecia. Não que isto seja em acusação, mas em diminuição; pois não disse "que era corrupta, que era má", mas "que cessa e tem fim".
Quanto mais não será com glória o ministério do Espírito? Pois, doravante, com confiança exalta as coisas do Novo [Testamento] como indiscutíveis. E observai o que faz. Opôs "pedra" a "coração", e "letra" a "espírito". Depois, tendo mostrado os resultados de cada um, não estabelece os resultados de ambos igualmente; mas, tendo estabelecido a obra deste último — a saber, a morte e a condenação —, não estabelece a do Espírito — a saber, a vida e a justiça —, mas o próprio Espírito, o que acrescentou grandeza ao argumento. Pois a Nova Aliança não apenas deu vida, mas forneceu também "o Espírito" — o que dá a vida, coisa muito maior que a própria vida. Por isso disse "o ministério do Espírito". Depois volta novamente à mesma coisa, dizendo:
Paulo mostra os resultados de ambas as dispensações; mas, ao passo que na primeira ele se concentra nesses resultados — a morte e a separação de Deus —, no segundo caso concentra-se no próprio Espírito.
Ele também interpreta mais claramente o sentido das palavras: A letra mata, declarando ser isto o que dissemos acima, a saber, que a Lei mostrava o pecado, não o causava.
Muito mais, pois, excede em glória o ministério da justiça. Porquanto aquelas Tábuas, na verdade, mostravam os pecadores e os castigavam, mas este não somente não castigou os pecadores, como ainda os fez justos: pois isto conferiu o Batismo.
Paulo não despreza o Antigo Testamento, antes o louva sobremaneira, uma vez que as comparações costumam fazer-se entre coisas que são, no fundamento, do mesmo gênero.
Ora, no que precede, ele mostrou que também isto é com glória; e não simplesmente é com glória, mas ainda excede nela: pois não disse, Como não será antes com glória o ministério do Espírito? mas, excede em glória; extraindo a prova dos argumentos antes expostos. Aqui ele mostra também a superioridade, quão grande ela é, dizendo: 'se comparo isto com aquilo, a glória da Antiga Aliança não é glória alguma'; não afirmando absolutamente que não havia glória, mas em vista da comparação. Por isso também acrescentou, neste respeito, isto é, no respeito da comparação. Não que isto desonre a Antiga Aliança, antes, ao contrário, a louva sobremaneira: pois as comparações costumam fazer-se entre coisas que são do mesmo gênero. Em seguida, ele lança mão de ainda outro argumento para provar a superioridade também por um novo fundamento. Qual é, pois, este argumento? O que se baseia na duração,
Pois, tendo o ouvinte escutado tantas e tão grandes coisas acerca da Nova Aliança, desejaria ver esta glória manifestada aos olhos; observai, então, para onde ele o arremessa, a saber, para o século vindouro. Por isso também apresentou a esperança, dizendo, Tendo, pois, tal esperança. Tal? De que natureza? Que fomos julgados dignos de coisas maiores que Moisés; não nós, os Apóstolos somente, mas também todos os fiéis. Usamos de grande ousadia de linguagem. Para com quem? Dizei-me. Para com Deus, ou para com os discípulos? Para convosco, que estais recebendo instrução, diz ele; isto é, falamos em toda parte com liberdade, nada ocultando, nada retendo, de nada desconfiando, mas falando abertamente; e não temos receado ferir a vossa visão, como fez Moisés com a dos judeus. Que ele aludia a isto, ouvi o que se segue; ou antes, é necessário primeiro relatar a história, pois ele mesmo não cessa de a ela se referir. Qual é, pois, a história? Quando, tendo recebido as Tábuas pela segunda vez, Moisés desceu, certa glória, irradiando de seu semblante, resplandeceu de tal modo que os judeus não podiam aproximar-se dele nem falar-lhe, até que ele pôs um véu sobre o rosto. E assim está escrito em Êxodo: Quando Moisés desceu do Monte, as duas Tábuas estavam em suas mãos. E Moisés não sabia que a pele de seu rosto se tornara gloriosa à vista. E temiam aproximar-se dele. E Moisés os chamou, e falou com eles. E, quando Moisés acabou de falar com eles, pôs um véu sobre o rosto. Mas, quando entrava diante do Senhor para falar com Ele, tirava o véu até que saísse.
Recordando-lhes, pois, esta história,
Ora, o que ele diz é desta natureza: não há necessidade de nos cobrirmos como fez Moisés, pois vós sois capazes de contemplar esta glória com que estamos cingidos, ainda que ela seja muito maior e mais resplandecente do que a outra. Vedes o progresso? Pois aquele que, na primeira Epístola, disse: "Alimentei-vos com leite, e não com alimento sólido", diz aqui: "Usamos de grande ousadia de linguagem." E ele apresenta Moisés diante deles, conduzindo o discurso por meio de comparação, e assim levando o seu ouvinte às alturas.
E, por ora, ele os coloca acima dos judeus, dizendo que "não temos necessidade de véu, como o tinha aquele diante dos que governava"; mas no que se segue, ele os eleva até a própria dignidade do Legislador, ou até uma dignidade ainda muito maior.
Paulo está dizendo que não há necessidade de nos cobrirmos como fez Moisés, pois somos capazes de contemplar a glória com que estamos cingidos, ainda que ela seja muito mais resplandecente do que a outra.
O que aconteceu uma vez no caso de Moisés acontece continuamente no caso da lei. O que se diz não é uma acusação contra a lei, nem lança sombra sobre Moisés, que se velou a si mesmo, mas apenas sobre os estreitos legalistas judeus. Pois a lei tem a sua própria glória, mas eles foram incapazes de vê-la. Por que haveríamos de nos surpreender de que os judeus não creiam em Cristo, se tampouco creram na lei? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Vede o que ele estabelece por meio disto. Pois o que sucedeu então uma só vez no caso de Moisés, isso mesmo sucede continuamente no caso da Lei. O que se diz, portanto, não é acusação alguma contra a Lei, assim como não o foi contra Moisés o ter ele então velado o rosto, mas somente contra os insensatos judeus. Pois a lei tem sua própria glória, mas eles não puderam vê-la. "Por que, pois, estais perplexos", diz ele, "se eles não puderam ver esta glória da Graça, visto que nem sequer viram aquela menor, a de Moisés, nem foram capazes de fitar seu rosto? E por que vos perturbais de que os judeus não creiam em Cristo, vendo que nem sequer creem na Lei? Pois foi por isso que também ignoraram a Graça, porque não conheceram sequer a Antiga Aliança nem a glória que nela havia. Pois a glória da Lei é converter [os homens] a Cristo."
3. Não vedes como, a partir também desta consideração, ele rebaixa a soberba dos judeus? Naquilo em que julgavam levar vantagem, a saber, que o rosto de Moisés resplandecia, prova ele a sua grosseria e natureza rasteira. Não se ensoberbeçam, pois, com isso, pois de que lhes valia aquilo aos judeus que dele não gozavam? Por isso também insiste nesse ponto, dizendo ora que o mesmo véu permanece na leitura da antiga aliança, não lhes sendo revelado que ela é abolida em Cristo; ora que até o dia de hoje, quando se lê Moisés, o mesmo véu jaz sobre o coração deles; mostrando que o véu jaz tanto sobre a leitura quanto sobre o coração deles; e acima, De modo que os filhos de Israel não podiam fixar os olhos no rosto de Moisés por causa da glória do seu semblante, glória essa que se desvanecia. Que coisa poderia assinalar menos valor neles do que isso? Visto que, mesmo de uma glória que havia de ser abolida, ou antes, que em comparação não era glória alguma, não conseguiam ser espectadores, mas ela lhes era encoberta, de sorte que não podiam fixar os olhos no fim daquilo que se desvanecia; isto é, da lei, porque ela tem um fim; mas os seus entendimentos foram endurecidos. "E que tem isso a ver com o véu, então?", diz alguém. Porque ele prefigurava o que haveria de suceder. Pois não somente então não perceberam; mas nem sequer agora veem a Lei. E a culpa está neles mesmos, pois a dureza é a de um juízo impermeável e perverso. De modo que somos nós que conhecemos também a lei; mas para eles não somente a Graça, mas também esta é encoberta por uma sombra; Pois até o dia de hoje o mesmo véu permanece sobre a leitura da antiga aliança, diz ele, não lhes sendo revelado que ela é abolida em Cristo. Ora, o que ele diz é isto. Isto mesmo não podem ver, que ela é levada a um fim, porque não creem em Cristo. Pois se ela é levada a um fim por Cristo, como de fato é levada a um fim, e isto a Lei o disse por antecipação, como poderão aqueles que não recebem a Cristo, que aboliu a Lei, ver que a Lei está abolida? E, sendo incapazes de ver isto, é bem claro que nem sequer da própria Lei, que afirmava estas coisas, conhecem o poder nem a plena glória. "E onde", diz alguém, "disse ela isto, que seria abolida em Cristo?" Não o disse apenas de palavra, mas também o mostrou pelo que se fez. E primeiramente, encerrando os seus sacrifícios e todo o seu ritual num só lugar, o Templo, e depois destruindo este mesmo lugar. Pois se não tivesse a intenção de levar estas coisas a um fim, e toda a Lei a respeito delas, teria feito uma de duas coisas: ou não destruir o Templo, ou, tendo-o destruído, não proibir que se sacrificasse em outro lugar. Mas, como está, fez de todo o mundo, e até de Jerusalém mesma, terreno vedado para tais ritos religiosos; tendo permitido e destinado a eles somente o Templo. Depois, tendo destruído a este mesmo templo, mostrou de todo, mesmo pelo que se fez, que as coisas da Lei são levadas a um fim por Cristo; pois também o Templo Cristo destruiu. Mas, se quiserdes ver também em palavras como a Lei é abolida em Cristo, ouvi o próprio Legislador falando assim: Profeta vos levantará o Senhor dentre vossos irmãos, semelhante a mim; a Ele ouvireis em tudo quanto vos ordenar. E acontecerá que toda alma que não ouvir aquele Profeta será totalmente destruída.
At 3:22-23, vedes como a Lei mostrou que fora abolida em Cristo? Pois este Profeta — a saber, Cristo segundo a carne — a Quem Moisés ordenou que ouvissem, fez cessar tanto o sábado quanto a circuncisão e todas as demais observâncias. E também Davi, mostrando exatamente a mesma coisa, disse acerca de Cristo: *Tu és Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque* (Sl 110,4) — não segundo a ordem de Arão. Por isso também Paulo, dando clara interpretação disto, diz: *Mudando-se o sacerdócio, faz-se por necessidade também mudança da Lei* (Hb 7,12). E em outro lugar também diz novamente: *Sacrifício e oferenda não quiseste; em holocaustos e sacrifícios pelo pecado não Te comprazeste; então disse eu: Eis que venho* (Hb 10,5-7). E outros testemunhos, bem mais numerosos que estes, poderiam ser trazidos do Antigo Testamento, mostrando como a Lei é abolida por Cristo. De modo que, quando tiveres abandonado a Lei, então verás claramente a Lei; mas enquanto a ela te apegares e não creres em Cristo, não conheces sequer a própria Lei. Por isso também acrescentou, para estabelecer isto mesmo mais claramente;
Pois, tendo dito que na leitura do Antigo Testamento o véu permanece, para que ninguém pensasse que isto que se diz provém da obscuridade da Lei, ele mostrou, tanto por outras coisas já antes ditas — pois, ao dizer que os seus entendimentos se endureceram, mostra que a culpa era deles próprios — como também aqui de novo qual era o seu pensamento. Pois não disse: "O véu permanece sobre o escrito", mas sobre a leitura (ora, a leitura é o ato dos que leem); e novamente: Quando se lê Moisés. Mostrou isto, porém, com maior clareza na expressão que se segue, dizendo sem rebuço: O véu jaz sobre o coração deles. Pois também sobre o rosto de Moisés ele jazia, não por causa de Moisés, mas por causa da grosseria e da mente carnal destes.
4. Tendo, pois, convenientemente acusado a eles, aponta também o modo da sua correção. E qual é este modo?
O véu não está ali por causa de Moisés, mas por causa da grosseria e da mente carnal deles.
O propósito do véu não era ocultar Moisés, mas impedir que os judeus o vissem, pois eram incapazes de fazê-lo. Mas quando nos voltamos para o Senhor, o véu naturalmente é retirado. Quando Moisés falava com os judeus, tinha o rosto coberto; mas quando falava com Deus, o véu era removido. Do mesmo modo, quando nos voltamos para o Senhor, veremos a glória da lei e o rosto do Legislador descoberto. E não somente isto: então estaremos no mesmo quadro de referência que Moisés.
Não estava sobre o rosto de Moisés que havia aquele véu, mas sobre a vista dos judeus. Não vês? Pois isso foi feito, não para que a glória de Moisés fosse ocultada, mas para que os judeus não a vissem. Porquanto não eram capazes. De sorte que neles residia a deficiência, pois não era a ele que causava ignorância de coisa alguma, mas a eles. E não disse, de fato, "quando deixardes ir a Lei", mas o insinuou, pois "quando te voltares para o Senhor, o véu é tirado". Até o último ponto ateve-se à história. Pois quando Moisés falava com os judeus, mantinha o rosto coberto; mas quando se voltava para Deus, este era descoberto. Ora, isto era figura do que havia de acontecer: que, quando nos tivermos voltado para o Senhor, então veremos a glória da Lei, e o rosto do Legislador desvelado; antes, não somente isto, mas nós mesmos estaremos então na mesmíssima posição de Moisés. Vês como convida o judeu à fé, mostrando que, ao chegar à Graça, ele é capaz não somente de ver Moisés, mas também de estar postado na mesmíssima posição do Legislador? "Pois não somente", diz ele, "contemplarás a glória que então não vias, mas tu mesmo serás incluído nessa mesma glória; antes, numa glória maior, tão grande que aquela outra não parecerá glória alguma quando comparada a esta." Como e de que maneira? "Porque, quando te tiveres voltado para o Senhor e fores incluído na graça, gozarás daquela glória, à qual a glória de Moisés, se comparada, é tão inferior que não é glória nenhuma. Mas, ainda que pequena e sobremaneira inferior àquela outra, enquanto fores judeu, nem mesmo esta te será concedida; mas, tendo-te tornado crente, ser-te-á então concedido contemplar até mesmo aquilo que é muito maior do que ela." E quando se dirigia aos crentes, disse que o que fora feito glorioso não tinha glória; mas aqui não fala assim; mas como? "Quando alguém se voltar para o Senhor, o véu é tirado" — conduzindo-o pouco a pouco, e primeiro colocando-o na posição de Moisés, e depois fazendo-o participar de coisas maiores. Pois, quando tiveres visto Moisés em glória, então depois te voltarás também para Deus e gozarás desta glória maior.
5. Vede, pois, desde o princípio, quantas coisas ele estabeleceu, para constituir a diferença e mostrar a superioridade — não a inimizade ou contradição — da Nova Aliança em relação à antiga. Aquela, diz ele, é letra, e pedra, e ministério de morte, e é abolida: e, no entanto, nem mesmo esta glória foi concedida aos judeus. (Ou: a glória disto.) Esta tábua é de carne, e espírito, e justiça, e permanece; e a todos nós é ela concedida, não a um só, como a Moisés, a menor, então. Pois, diz ele, todos nós, com a face descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, não a de Moisés (2 Cor 3:18). Mas, visto que alguns sustentam que a expressão "quando alguém se converter ao Senhor" se refere ao Filho, em contradição com o que é plenamente reconhecido, examinemos o ponto com maior exatidão, tendo primeiro exposto o fundamento sobre o qual pensam poder estabelecer isto. Que é isto, pois? Assim como se diz, argumenta alguém, "Deus é Espírito" (Jo 4:24), assim também aqui: "O Senhor é Espírito". Mas ele não disse: "O Senhor é Espírito", e sim: "O Espírito é o Senhor". E há grande diferença entre esta construção e aquela. Pois, quando ele deseja falar como vós dizeis, não junta o artigo ao predicado. E, além disso, percorramos todo o seu discurso desde o início: de quem tem ele falado? Por exemplo, quando disse: "A letra mata, mas o Espírito vivifica" (2 Cor 3:6); e de novo: "Escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo" (2 Cor 3:3) — falava ele de Deus, ou do Espírito? É bem claro que era do Espírito; pois era para Ele que os chamava, afastando-os da letra. Para que ninguém, ouvindo falar do Espírito, e depois refletindo que Moisés se converteu ao Senhor, mas ele próprio ao Espírito, viesse a julgar-se em pior condição, a fim de corrigir tal suspeita,
Ora, o Espírito é o Senhor. Este também é Senhor, diz ele. E para que saibas que fala do Paráclito, acrescentou:
E onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.
Pois certamente não hás de afirmar que ele diz: "E onde está o Senhor do Senhor." Liberdade, disse ele, em referência à antiga servidão. Depois, para que não penses que fala de um tempo futuro, diz:
Queres saber de outro modo pelo qual foste julgado digno de maiores maravilhas? Em seus dias, os judeus não puderam ver transfigurado o rosto de Moisés, ainda que este fosse seu companheiro de servidão e parente segundo a carne. Tu, porém, viste o rosto de Cristo em sua glória. Clamou São Paulo, dizendo: «Mas todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor». Naquele tempo, os judeus tinham Cristo a segui-los; mas muito mais Ele nos segue agora. Então Cristo os acompanhava por meio de Moisés; a nós Ele acompanha não somente por meio do [novo] Moisés, mas também por meio de nossa própria e pronta obediência. Para os judeus, depois do Egito veio o deserto; para ti, depois de teu êxodo virá o Céu. Eles tinham Moisés como chefe e excelente general; nós temos outro Moisés, o próprio Deus, para nos guiar e comandar.
Isto não se refere às coisas que são levadas a seu termo, mas às que permanecem. O Espírito é Deus, e somos elevados ao nível dos apóstolos, pois todos nós O contemplaremos juntamente, com rosto descoberto. Tão logo somos batizados, a alma resplandece mais intensamente que o sol, porque é purificada pelo Espírito, e não somente contemplamos a glória de Deus, mas dela recebemos uma espécie de esplendor.
Não aquilo que é abolido, mas aquilo que permanece.
Somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.
Vedes como ele novamente coloca o Espírito na categoria de Deus (vide infra), e eleva os discípulos à categoria dos Apóstolos? Pois antes ele disse: Vós sois a Epístola de Cristo; e aqui, Mas todos nós, com face descoberta. E, no entanto, eles vieram, como Moisés, trazendo uma lei. Mas, assim como nós, diz ele, não necessitávamos de véu, tampouco vós que a recebestes. E, ainda assim, esta glória é muito maior, pois esta não provém de nosso rosto, mas do Espírito; contudo, sois capazes, tanto quanto nós, de contemplá-la fixamente. Pois eles, na verdade, não podiam sequer por um mediador, mas vós, mesmo sem mediador, podeis contemplar algo maior. Eles não podiam olhar para aquela de Moisés; vós, mesmo para aquela do Espírito. Ora, se o Espírito fosse de algum modo inferior, ele não teria estabelecido estas coisas como maiores que aquelas. Mas o que significa: nós, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem? Isto, na verdade, foi mostrado mais claramente quando os dons dos milagres estavam em operação; contudo, não é sequer agora difícil vê-lo, para quem tem olhos crentes. Pois, tão logo somos batizados, a alma resplandece mais que o próprio sol, sendo purificada pelo Espírito; e não apenas contemplamos a glória de Deus, mas dela também recebemos uma espécie de esplendor. Assim como, se prata pura for voltada para os raios do sol, ela mesma também lançará raios, não apenas por sua propriedade natural, mas também pelo fulgor solar; assim também a alma, sendo purificada e tornada mais brilhante que a prata, recebe um raio da glória do Espírito e o devolve. Por isso também ele diz: Refletindo como um espelho, somos transformados na mesma imagem, de glória — a do Espírito — em glória — a nossa própria, aquela que é gerada em nós; e tal, como se poderia esperar, do Senhor o Espírito. Vede como aqui também ele chama ao Espírito, Senhor. E também em outros lugares pode-se ver este senhorio Seu. Pois, diz ele, Enquanto ministravam e jejuavam ao Senhor, o Espírito disse: Separai-me a Paulo e a Barnabé (At 13:2). Por isso disse ele: enquanto ministravam ao Senhor, Separai-me, a fim de mostrar a igualdade [do Espírito] em honra. E de novo Cristo diz: O servo não sabe o que faz o seu senhor; mas assim como o homem conhece as suas próprias coisas, assim o Espírito conhece as coisas de Deus; não por lhe serem ensinadas, pois assim a similitude não se sustentaria. Também o operar segundo Sua vontade mostra Sua autoridade e senhorio. Isto nos transforma. Isto não permite conformar-nos a este mundo; pois tal é a criação da qual Este é o Autor. Pois, assim como ele diz, Criados em Cristo Jesus (Ef 2:10), assim diz ele, Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova um espírito reto no meu íntimo (Sl 51:10, Septuaginta).
6. Quereis que eu vo-lo demonstre também com os Apóstolos, de modo mais evidente aos sentidos? Considerai Paulo, cujas vestes operavam prodígios; Pedro, cuja simples sombra era poderosa (At 19,12; At 5,15). Pois se não trouxessem consigo a imagem de um Rei, e se o seu resplendor não fosse inacessível, não teriam as suas vestes e as suas sombras operado tão poderosamente. Porque até as vestes de um rei são terríveis aos salteadores. Quereis ver isto a resplandecer mesmo através do corpo? Fitando os olhos, diz a Escritura, no rosto de Estêvão, viram-no como o rosto de um anjo (At 6,15). Mas isto nada era comparado à glória que fulgurava interiormente. Pois o que Moisés trazia sobre o semblante, isso traziam eles consigo na alma — antes, muito mais ainda. Porque aquele resplendor de Moisés era mais evidente aos sentidos, mas este era incorpóreo. E assim como corpos flamejantes, ao derramarem-se dos astros luminosos sobre os que lhes ficam próximos, lhes comunicam também algo do seu próprio esplendor, assim verdadeiramente sucede também com os fiéis. Por isso, sem dúvida, aqueles em quem isto se dá são libertos da terra, e têm os seus pensamentos postos nas coisas do céu. Ai de mim! Pois bem é que aqui devamos até gemer amargamente, porquanto nós, que gozamos de nascimento tão nobre, nem sequer sabemos o que se diz, porque depressa perdemos a realidade, e ficamos deslumbrados pelos objetos dos sentidos. Pois esta glória, inefável e tremenda, permanece em nós um dia ou dois, e depois a extinguimos, trazendo sobre ela o inverno dos cuidados mundanos, e repelindo os seus raios com a espessura dessas nuvens. Porque as coisas do mundo são um inverno, e mais tenebroso que o inverno. Pois dali não se engendra geada nem chuva, nem produz lodo e profundos pântanos; mas, coisas mais graves que todas estas, forma o inferno e as misérias do inferno. E assim como no rigor da geada todos os membros se enrijecem e ficam como mortos, assim verdadeiramente a alma, tiritando também no inverno dos pecados, não desempenha nenhuma das suas funções próprias, enrijecida, por assim dizer, por uma geada, quanto à consciência. Pois o que o frio é para o corpo, isso é a má consciência para a alma, donde procede também a covardia. Porque nada há mais covarde que o homem preso às coisas do mundo; pois um tal homem vive a vida de Caim, tremendo todos os dias. E para que mencionar mortes, e perdas, e ofensas, e lisonjas, e servidões? Pois mesmo sem estas coisas, ele está em temor de dez mil vicissitudes. E os seus cofres, na verdade, estão cheios de ouro, mas a sua alma não está livre do temor da pobreza. E com toda a razão. Pois está ele ancorado, por assim dizer, em coisas apodrecidas e velozmente mutáveis, e ainda que em seu próprio caso não haja experimentado a reviravolta, contudo desfaz-se ao vê-la suceder nos outros; e grande é a sua covardia, grande a sua efeminação. Pois não só é tal homem pusilânime diante do perigo, mas também diante de todas as demais coisas. E se o desejo de riqueza o assalta, não o repele, como homem livre, o assalto; mas, como escravo comprado, faz tudo o que ele ordena, servindo ao amor do dinheiro como a uma senhora severa. Se, por outro lado, viu alguma donzela formosa, logo se abate, feito cativo, e segue como cão enraivecido, ainda que lhe cumprisse fazer o contrário. Pois, quando tiveres visto uma mulher formosa, não considereis como gozar da vossa concupiscência, mas como libertar-vos dela. "E como é isto possível," diz alguém, "pois o amar não está em meu poder?" Em poder de quem, pois? Dizei-me. É da malícia do Diabo.
Estás bem convencido de que aquilo que conspira contra ti é um demônio; luta, pois, e combate uma enfermidade. Mas não posso, diz ele. Vem, então, ensinemos-te primeiro isto: que o que sucede provém de tua própria negligência, e que tu, no princípio, deste entrada ao Diabo, e agora, se tiveres vontade, com muita facilidade poderás afugentá-lo. Os que cometem adultério, é por concupiscência que o cometem, ou simplesmente por desejo de perigos? Evidentemente por concupiscência. Obtêm, pois, por isso perdão? Certamente que não. Por que não? Porque o pecado é próprio deles. "Mas", diz alguém, "por que, pergunto, encadeias silogismos? Pois a minha consciência me é testemunha de que desejo repelir a paixão; e não posso, mas ela se apega, oprime-me duramente e me aflige gravemente." Ó homem, tu desejas repeli-la, mas não fazes o que os que a repelem devem fazer; sucede-te, porém, como a um homem em febre que, bebendo águas frias a fartar-se, dissesse: "Quantas coisas invento com o desejo de extinguir esta febre, e não posso; antes, elas atiçam ainda mais a minha chama." Vejamos, então, se acaso tu também não fazes as coisas que inflamam, ao passo que julgas estar inventando as que extinguem. "Não faço", diz ele. Dize-me, pois: que já tentaste fazer para extinguir a paixão? E qual é, enfim, o que aumentará a paixão? Pois ainda que nem todos nós estejamos sujeitos a estas acusações particulares (pois mais se encontram os que são cativados pelo amor ao dinheiro do que pela beleza), contudo o remédio a propor será comum a todos, tanto a estes quanto àqueles. Pois tanto aquela é paixão irracional, quanto esta é mais aguda e mais feroz do que aquela. Quando, pois, houvermos triunfado sobre a maior, é bem manifesto que subjugaremos facilmente também a menor. "E como é", diz alguém, "que, sendo esta mais aguda, nem todos são feitos cativos deste vício, mas em maior número são loucos pelo dinheiro?" Porque, em primeiro lugar, este último desejo parece isento de perigo; em segundo lugar, ainda que o da beleza seja mais feroz, contudo extingue-se mais depressa; pois, se houvesse de perdurar como o do dinheiro, destruiria inteiramente o seu cativo.
7. Vinde pois, discorramos convosco sobre isto, o amor da beleza, e vejamos por onde se aumenta o malefício; pois assim saberemos se a culpa é nossa, ou não é nossa. E se é nossa, façamos tudo para superá-la; ao passo que, se não o é, por que nos afligimos em vão? E por que não perdoamos, antes acusamos, aos que são feitos cativos por ela? Donde, pois, se engendra este amor? "Da formosura do rosto", diz alguém, "quando aquela que fere é bela e de faces formosas." Isto se diz ociosa e vãmente. Pois se fosse a beleza que atraísse os amantes, então a donzela que assim é teria todos os homens por seus amantes; mas se não os tem a todos, isto não provém da natureza nem da beleza, mas de olhos impudicos. Pois foi quando, olhando com demasiada curiosidade, admiraste e te enamoraste, que recebeste o dardo. "E quem", diz alguém, "vendo uma mulher formosa, pode abster-se de louvar aquela que vê? Se, pois, admirar tais coisas não provém de deliberada escolha, segue-se que o amor não depende de nós mesmos." Detém-te, ó homem! Por que amontoas todas as coisas, correndo em círculos por toda parte, e não escolhes ver a raiz do mal? Pois vejo numerosos que admiram e louvam, e contudo não se enamoram. "E como é possível admirar e não se enamorar?" Não clames — pois a isto mesmo vou chegar — mas espera, e ouvirás a Moisés admirando o filho de Jacó, e dizendo: E José era formoso de aspecto e de muito boa aparência (Gn 39,6, Septuaginta). Estava, pois, enamorado quem isto diz? De modo algum. "Pois", diz ele, "nem sequer viu aquele a quem louvava." Somos afetados, contudo, de modo algo semelhante também para com as belezas que nos são descritas, não somente as que são vistas. Mas, para que não caviles conosco neste ponto: Davi, não era ele sobremodo formoso, e ruivo com beleza de olhos? (1Sm 16,12 e 17,42, Septuaginta) E, de fato, esta beleza dos olhos é mesmo, especialmente, um componente da formosura de mais despótico poder do que qualquer outro. Esteve, pois, alguém enamorado dele? De modo algum. Logo, também admirar não vem necessariamente acompanhado de enamorar-se. Pois muitos também tiveram mães que floresciam sobremodo em beleza de pessoa. Que, pois? Estavam seus filhos enamorados delas? Longe tal pensamento! Mas admiram o que veem, e contudo não caem em vergonhoso amor. "Não, pois também esta boa provisão é da natureza." Como da natureza? Dize-me. "Porque são mães", diz ele. Não ouves, então, que os persas, e isto sem nenhuma compulsão, têm relações com suas próprias mães, e não um ou dois indivíduos, mas toda uma nação? Mas, independentemente disto, também por aqui se evidencia que esta enfermidade não provém do viço da pessoa nem da beleza somente, mas de uma alma desatenta e errante. Muitos, ao menos, é certo, tendo muitas vezes passado por milhares de mulheres bem-favorecidas, entregaram-se a outras que eram menos formosas. Donde é evidente que o amor não depende da beleza: pois, do contrário, certamente aquelas teriam capturado os que nele caíram antes destas. Qual é, pois, a sua causa? "Pois", diz ele, "se não é a beleza que causa o amor, donde tem ele o seu começo e a sua raiz? De um demônio malvado?" Tem-no, na verdade, também dali, mas não é isto o que investigamos, mas se não somos nós mesmos também a causa. Pois a trama não é somente deles, mas, juntamente com eles, primeiramente também nossa.
Pois de nenhuma outra fonte se engendra tão facilmente esta perversa enfermidade quanto do hábito, das palavras lisonjeiras, do ócio, da indolência e da falta de ocupação. Grande, com efeito muito grande é a tirania do hábito, a ponto de se converter numa necessidade da natureza. Ora, se é próprio do hábito gerá-la, evidente é que é também próprio dele extingui-la. Certo é, ao menos, que muitos deste modo cessaram de estar enamorados, por não mais verem aqueles de quem estavam enamorados. Isto, por um breve tempo, parece coisa amarga e sobremodo desagradável; mas, com o tempo, torna-se agradável, e, ainda que o quisessem, não poderiam depois retomar a paixão.
8. Como, pois, sem hábito algum, é alguém tomado cativo à primeira vista? Também aqui se trata de indolência do corpo, ou de intemperança, e de não atender aos próprios deveres, nem estar ocupado em negócios necessários. Pois tal homem, vagueando como espécie de vadio, é atravessado por qualquer maldade; e, como criança solta, qualquer que o queira faz de tal alma sua escrava. Porque, sendo próprio dela estar em atividade, quando lhe interrompes as operações no bem, não podendo ela permanecer desocupada, é compelida a engendrar o que é de outra sorte. Pois assim como a terra, quando não é semeada nem plantada, faz brotar tão somente ervas daninhas, também a alma, quando nada tem de necessário a fazer, desejosa por todos os modos de estar em atividade, entrega-se a obras perversas. E assim como o olho jamais cessa de ver, e por isso verá coisas más quando não lhe são propostas coisas boas, assim também o pensamento, quando se aparta das coisas necessárias, ocupa-se depois com as que são inúteis. Que também o primeiro assalto o trabalho e o pensamento são capazes de repelir, é evidente por muitas coisas. Quando, pois, tiveres olhado para uma mulher formosa e por ela te sentires movido, não olhes mais, e estarás livre. "E como poderei não mais olhar", dirá alguém, "sendo arrastado por tal desejo?" Entrega-te a outras coisas que possam distrair a alma: aos livros, aos cuidados necessários, à proteção de outros, ao socorro dos injustiçados, às orações, à sabedoria que contempla as coisas futuras; com coisas como estas ata a tua alma. Por estes meios, não somente curarás uma ferida recente, como também desgastarás facilmente uma inveterada e confirmada. Pois se, segundo o provérbio, um insulto basta para levar o amante a abandonar o seu amor, quanto mais não hão de estes encantamentos espirituais prevalecer sobre o mal, se ao menos tivermos ânimo de manter-nos afastados. Mas, se estamos sempre a conversar e a conviver com aqueles que nos disparam tais setas, e a falar com eles e a ouvir o que dizem, alimentamos a enfermidade. Como, pois, esperas que o fogo se apague, se dia após dia atiças a chama?
E que este discurso que fizemos acerca do hábito seja nossa palavra para os jovens; pois àqueles que já são homens e instruídos na sabedoria celeste, mais forte que tudo é o temor de Deus, a lembrança do inferno, o desejo do reino dos céus; pois estas coisas são capazes de extinguir o fogo. E juntamente com estas, tomai também este pensamento, que o que vedes não é senão humor, e sangue, e sucos de alimento decomposto. "Contudo, coisa alegre é o viço das feições", diz alguém. Mas nada é mais alegre que as flores da terra, e estas também apodrecem e murcham. Não atenteis, pois, tampouco a este viço, mas passai adiante, mais para dentro, em vosso pensamento, e, despojando em vosso pensamento essa formosa pele, examinai com curiosidade o que jaz por baixo dela. Pois até os corpos dos hidrópicos resplandecem, e a superfície nada tem de repugnante; mas, ainda assim, chocados com o pensamento do humor ali armazenado, não podemos amar tais pessoas. "Mas lânguido é o olhar e cintilante, e formosamente arqueada a sobrancelha, e escuros os cílios, e macio o globo do olho, e sereno o semblante." Mas vede como isto mesmo, de novo, não é senão nervos, e veias, e membranas, e artérias. Pensai também, peço-vos, neste belo olho, quando doente e velho, consumindo-se de desespero, inchando de ira, quão odioso é à vista, quão depressa perece, quão mais cedo ainda que os retratados se apaga. Destas coisas fazei passar vossa mente à verdadeira beleza. "Mas", diz ele, "eu não vejo a beleza da alma." Mas, se quiserdes, a vereis: e assim como o belo ausente pode ser admirado pela mente, ainda que invisível aos olhos, assim é possível ver sem olhos a beleza da alma. Não desenhastes já, muitas vezes, uma formosa figura, e vos sentistes movidos ao desenho? Imaginai, pois, também agora a beleza da alma, e deleitai-vos naquela formosura. "Mas", diz ele, "eu não vejo as coisas incorpóreas." E, contudo, vemo-las, antes que as corpóreas, com a mente. Por isso é, por exemplo, que, embora não os vejamos, admiramos também os anjos e os arcanjos, e os hábitos de caráter, e a virtude da alma. E se virdes um homem ponderado e moderado, mais o admirareis que aquele belo semblante. E se virdes alguém insultado, mas suportando-o; injustiçado, mas cedendo, admirai e amai a tais, ainda que sejam feridos pela idade. Pois tal coisa é a beleza da alma; mesmo na velhice tem muitos enamorados dela, e nunca se desvanece, mas floresce para sempre. Para que, pois, também nós alcancemos esta beleza, busquemos aqueles que a possuem, e enamoremo-nos deles. Pois assim poderemos nós também, tendo alcançado esta beleza, obter os bens eternos, dos quais possamos todos participar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória e poder, para todo o sempre. Amém.
Esta perseverança há de ser atribuída à benignidade de Deus, pois não somente não sucumbimos sob o peso de todas as nossas tribulações, mas ainda nos alegramos e falamos com ousadia.
Portanto, tendo este ministério, como alcançamos misericórdia, não desfalecemos, mas rejeitamos as coisas ocultas da vergonha.
Tendo ele proferido grandes coisas e colocado a si mesmo e a todos os fiéis diante de Moisés, consciente da altura e grandeza do que dissera, observa como ele novamente modera o seu tom. Pois era necessário, por causa dos falsos Apóstolos, exaltar também os seus ouvintes, e novamente aplacar aquele inchaço; e todavia não o abolir, pois isso seria coisa de trivial. Por isso ele conduz a questão de outra maneira, mostrando que não era por mérito próprio deles, mas tudo pela benignidade de Deus. Por isso diz também: Portanto, tendo este ministério. Pois nada mais contribuímos, senão que nos tornamos ministros, e nos fizemos servos das coisas dadas por Deus. Por isso não disse "dádiva", nem "provisão", mas "ministério". Nem se contentou sequer com isto, mas acrescentou: como alcançamos misericórdia. Pois isto mesmo, diz ele, o ministrar estas coisas, é da misericórdia e da benignidade. Ora, é próprio da misericórdia livrar dos males, não conceder além disso tantos bens: mas a misericórdia de Deus inclui também isto.
Não desfalecemos. E isto, na verdade, deve ser atribuído à Sua benignidade. Pois a cláusula, como alcançamos misericórdia, toma-a como dita com referência tanto ao ministério quanto às palavras não desfalecemos. E observa com que empenho ele se esforça por rebaixar as coisas que são suas. "Pois", diz ele, "que aquele que foi tido por digno de coisas tão grandes e tantas, e isto somente por misericórdia e benignidade, mostre tais trabalhos, e suporte perigos, e sofra tentações, não é grande coisa. Portanto não só não sucumbimos, como até nos alegramos e falamos com ousadia." Por exemplo, tendo dito não desfalecemos, acrescentou:
2 Coríntios 4:2. Mas rejeitamos as coisas ocultas da vergonha, não andando em astúcia, nem adulterando a palavra de Deus.
E que são as coisas ocultas da vergonha? Não professamos nem prometemos, diz ele, grandes coisas, e em nossas ações mostramos outras, como eles fazem; por isso disse também: Vós olhais as coisas segundo a aparência exterior; mas tais somos nós quais aparecemos, não tendo duplicidade alguma, nem dizendo e fazendo coisas que devêssemos ocultar e velar com vergonha e rubor. E para interpretar isto, acrescentou: não andando em astúcia. Pois o que eles consideravam ser louvor, isso ele prova ser vergonhoso e digno de escárnio. Mas que é, em astúcia? Tinham a reputação de nada tomar, mas tomavam e ocultavam; tinham a aparência de santos e Apóstolos aprovados, mas estavam cheios de inúmeras coisas más. Mas, diz ele, nós rejeitamos estas coisas (pois estas são também as que ele chama de coisas ocultas da vergonha); sendo tais quais aparecemos, e nada mantendo velado. E isto não só nesta vida, mas também na própria Pregação. Pois isto é, nem adulterando a palavra de Deus.
Mas pela manifestação da verdade.
Não pelo semblante e pela ostentação exterior, mas pela própria prova de nossas ações.
Recomendando-nos à consciência de todo homem.
Pois não só aos crentes, mas também aos incrédulos, somos manifestos; expondo-nos abertamente a todos para que examinem as nossas ações, como quiserem escolher; e por isto nos recomendamos, não representando um papel e trazendo uma máscara especiosa. Dizemos, pois, que nada tomamos, e vos chamamos por testemunhas; dizemos que não temos consciência de nenhuma maldade, e disto novamente extraímos o testemunho de vós, não como aqueles (a saber, os falsos Apóstolos) que, velando as suas coisas, enganam a muitos. Mas nós tanto expomos a nossa vida diante de todos os homens, como também desnudamos a Pregação, de modo que todos a compreendam.
2. Depois, porque os incrédulos não conheciam o seu poder, acrescentou que isto não é culpa nossa, mas da própria insensibilidade deles.
Alguns "andavam em astúcia". Tinham a reputação de nada tomar, mas de fato tomavam e ocultavam. Tinham a aparência de santos e apóstolos, mas estavam cheios de inúmeras maldades secretas. Paulo nada toma e chama os coríntios por testemunhas suas. Do mesmo modo, nada faz de mau e pede-lhes que testemunhem a verdade do que está dizendo.
Se o nosso evangelho está encoberto, encoberto está para os que se perdem, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos.
Como já disse antes: "Para uns, cheiro de morte para morte; para outros, cheiro de vida para vida" (2Co 2,16), assim diz também aqui. Mas o que é o deus deste século? Os que estão infectados pelas noções de Marcião afirmam que isto se diz do Criador, o qual seria somente justo e não bom; pois dizem existir um certo Deus justo e não bom. Já os maniqueus dizem que aqui se designa o diabo, querendo, a partir desta passagem, introduzir um outro criador do mundo além do Deus Verdadeiro — coisa muito insensata. Pois a Escritura costuma empregar frequentemente o termo "Deus" não em razão da dignidade daquele que é assim designado, mas da fraqueza dos que lhe estão sujeitos; como quando chama Mamom de senhor, e ao ventre de deus. Mas nem por isso o ventre é Deus, nem Mamom Senhor, senão apenas daqueles que se prostram diante deles. Nós, porém, afirmamos que esta passagem não se diz nem do diabo, nem de outro criador, mas do Deus do Universo, e que se deve ler assim: Deus cegou os entendimentos dos incrédulos deste século. Pois o século vindouro não tem incrédulos; somente o presente os tem. Mas se alguém a lesse ainda de outro modo, como, por exemplo, "o deus deste século", nem assim isso dá margem a tal interpretação, pois não O mostra como sendo Deus somente deste século. Pois Ele é chamado o Deus do céu (Sl 136,26), etc., e no entanto não é Deus somente do céu; e nós dizemos "o Deus do dia presente", mas não dizemos isto limitando o Seu poder somente a ele. E, além disso, é chamado o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó (Êx 3,6), etc., e no entanto não é Deus somente deles. E pode-se encontrar muitos outros testemunhos semelhantes nas Escrituras. Como, pois, Ele os cegou? Não operando para tal fim — longe esteja tal pensamento! — mas sofrendo e permitindo que isso acontecesse. Pois é costume da Escritura falar assim, como quando diz que Deus os entregou a um sentimento reprovado. Pois, tendo eles próprios primeiro descrido e se tornado indignos de ver os mistérios, foi então que Ele próprio também o permitiu. Mas o que Lhe convinha fazer? Atraí-los à força e revelar-Se aos que não queriam ver? Mas assim eles O teriam desprezado ainda mais, e tampouco O teriam visto. Por isso acrescentou também:
Para que a luz do evangelho da glória de Cristo não resplandecesse sobre eles.
Não que estes pudessem descrer de Deus, mas para que a incredulidade não visse quais são as coisas interiores, como também Ele nos ordenou, mandando não lançar as pérolas diante dos porcos (Mt 7:6). Pois, se Ele as tivesse revelado até mesmo aos que descriam, o mal destes antes se teria agravado. Porque, se alguém força um homem que padece de oftalmia a olhar para os raios do sol, antes lhe aumenta a enfermidade. Por isso os médicos até os encerram nas trevas, para não agravar o seu mal. Assim, pois, também aqui devemos considerar que estes se tornaram incrédulos por si mesmos, mas, tendo-se tornado tais, já não viam as coisas secretas do Evangelho, excluindo Deus, doravante, os seus raios deles. Como também disse aos discípulos: Por isso lhes falo por parábolas (Mt 13:13), porque, ouvindo, não ouvem. Mas o que digo se torna também mais claro por um exemplo: suponhamos um grego, que reputa a nossa religião por fábulas. Este, pois, em que mais se aproveitaria? Entrando e vendo os mistérios, ou permanecendo de fora? Por isso diz que a luz não raiasse sobre eles, ainda se detendo na história de Moisés. Pois o que sucedeu aos judeus naquele caso, isto mesmo sucede a todos os incrédulos no caso do Evangelho. E que é o que se lhes encobre, e não se lhes ilumina? Ouve-o dizer: que a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a Imagem de Deus, não raiasse sobre eles. A saber, que a Cruz é a salvação do mundo e a sua glória; que este mesmo Crucificado está para vir com muito esplendor; todas as demais coisas, as presentes, as vindouras, as vistas, as não vistas, o indizível esplendor das coisas esperadas. Por isso disse também raiasse, para que não esperásseis tudo aqui, pois o que aqui se dá é somente, por assim dizer, um pequeno raiar do Espírito. Por isso, também acima, indicando isto, falou de aroma (2Co 2:16); e de novo, penhor (2Co 1:22), mostrando que a maior parte fica reservada para lá. Mas, não obstante, todas estas coisas lhes foram ocultadas; ocultadas, porém, porque primeiro descreram. Depois, para mostrar que não somente ignoram a Glória de Cristo, mas também a do Pai, visto que não conhecem a d'Ele, acrescentou: que é a Imagem de Deus. Pois não vos deteis somente em Cristo. Porque, assim como por Ele vedes o Pai, assim, se ignorais a Sua Glória, tampouco conhecereis a do Pai.
O «deus deste mundo» não se refere nem ao diabo nem a outro criador, como dizem os maniqueus, mas ao Deus do universo, que cegou as mentes dos incrédulos deste mundo. No mundo vindouro não há incrédulos, somente neste.
Eu sou um servo. Não sou senão um ministro daqueles que recebem o evangelho, tratando tudo em nome de Outro e fazendo, para a glória dEle, o que faço. Ao guerrear contra mim, derrubais o que é de Deus.
E qual é a natureza da conexão aí? Que tem isto em comum com o que foi dito? Ou ele os alude como quem se exalta a si mesmo, persuadindo os discípulos a denominarem-se segundo eles, como disse na Epístola anterior: «Eu sou de Paulo, e eu de Apolo»; ou então algo de caráter ainda mais grave. Que é, pois, isto? Vendo que travavam contra eles uma guerra feroz e tramavam contra eles por todos os lados, «Acaso», diz ele, «é contra nós que combateis e guerreais? [Não, mas] contra Aquele que é anunciado por nós, pois não nos pregamos a nós mesmos. Eu sou um servo, não sou senão um ministro até mesmo daqueles que recebem o Evangelho, tratando tudo em nome de Outro e fazendo, para a glória dEle, tudo quanto faço. De modo que, ao guerrear contra mim, derrubais o que é dEle. Pois estou tão longe de converter em proveito pessoal qualquer parte do Evangelho, que não recusarei ser até mesmo vosso servo por amor de Cristo, visto que Lhe aprouve assim honrar-vos, pois tanto vos amou e por vós fez todas as coisas». Por isso diz também: e a nós mesmos como vossos servos por amor de Cristo. Vedes uma alma pura de glória? «Pois, na verdade», diz ele, «não somente nada tomamos para nós daquilo que pertence ao nosso Senhor, mas até a vós nos submetemos por amor dEle».
Vedes como Paulo mostra a glória de Moisés a resplandecer com esplendor acrescido para aqueles que a querem ver? Ela resplandece em nossos corações, diz ele, assim como resplandeceu sobre a face de Moisés. Primeiro os faz lembrar do que foi feito no princípio da criação, e depois mostra que esta criação renovada é maior.
glória superior, refiro-me à de Moisés, ele a mostra a resplandecer com esplendor acrescido? «Assim como sobre a face de Moisés, também resplandeceu em vossos corações», diz ele. E, primeiro, faz-lhes lembrar o que foi feito no princípio da Criação, luz sensível e trevas sensíveis, mostrando que esta criação é maior. E onde ordenou Ele que a luz resplandecesse das trevas? No princípio e como prelúdio da Criação; pois, diz ele, as trevas estavam sobre a face do abismo. E disse Deus: Haja luz; e houve luz. Contudo, então disse: Haja, e houve; mas agora nada disse, e sim Ele mesmo se fez Luz para nós. Pois não disse: «também agora ordenou», mas: Ele mesmo resplandeceu. Portanto, não vemos os objetos sensíveis pelo resplendor desta Luz, mas a Deus mesmo por meio de Cristo. Vedes a invariabilidade na Trindade? Pois do Espírito, diz ele: Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito (2 Cor 3,18). E do Filho: Para que a luz do evangelho glorioso de Cristo, que é a imagem de Deus, não resplandecesse sobre eles (2 Cor 4,4). E do Pai: Aquele que disse que a luz resplandecesse das trevas resplandeceu em vossos corações, para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Pois, assim como, tendo dito «do evangelho da glória de Cristo», acrescentou «que é a imagem de Deus», mostrando que também estavam privados da glória dEle; assim, depois de dizer «o conhecimento de Deus», acrescentou «na face de Cristo», para mostrar que por meio dEle conhecemos o Pai, assim como também por meio do Espírito somos conduzidos a Ele.
Tanto a grandeza das coisas dadas quanto a fraqueza dos que as recebem mostram o poder de Deus, o qual não somente deu grandes coisas, mas as deu também aos que são pequenos. Ele usou o termo terreno em alusão à fragilidade de nossa natureza mortal e para declarar a fraqueza de nossa carne. Pois ela não é melhor que o barro, que logo se danifica e se destrói pela morte, pela doença e até pelas variações de temperatura. O poder de Deus é mais conspícuo quando realiza grandes obras servindo-se de coisas vis e humildes.
Pois havendo falado muitas e grandes coisas acerca da glória inefável, para que ninguém dissesse: "E como, gozando de tão grande glória, permanecemos nós em um corpo mortal?", diz ele que isto mesmo é, na verdade, a mais admirável das maravilhas e um exemplo grandíssimo do poder de Deus: que um vaso de barro tenha sido capacitado a suportar tamanho esplendor e a guardar tão excelso tesouro. E por isso, admirando isto, disse: Para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós mesmos; aludindo, uma vez mais, àqueles que se gloriavam em si mesmos. Pois tanto a grandeza das coisas dadas quanto a fraqueza dos que as recebem manifestam o Seu poder; porquanto Ele não somente deu grandes coisas, mas as deu a pequenos. Pois usou o termo "de barro" em alusão à fragilidade de nossa natureza mortal, e para declarar a fraqueza de nossa carne. Pois não há nada de constituição pior que a cerâmica; assim também ela logo se danifica, e pela morte, pela doença, pelas variações de temperatura e por dez mil outras coisas facilmente se dissolve. E disse estas coisas tanto para abater a soberba deles quanto para mostrar a todos que nada do que possuímos é humano. Pois então é que o poder de Deus mais se manifesta, quando por meio de coisas vis opera grandes feitos. Por isso também em outro lugar disse Ele: Porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Cor 12:9). E, de fato, no Antigo [Testamento], hostes inteiras de bárbaros foram postas em fuga por mosquitos e moscas, pelo que também chama a lagarta de Sua força poderosa (Jl 2:25); e no princípio, apenas confundindo as línguas, Ele pôs fim àquela grande torre em Babilônia. E também em suas guerras, ora Ele derrotou hostes inumeráveis com trezentos homens; ora derrubou cidades com trombetas; e depois, por meio de um mancebo pequeno e pobre, Davi, pôs em fuga todo o exército dos bárbaros. Assim, também aqui, enviando somente doze, venceu Ele o mundo; doze, e estes, perseguidos e hostilizados em guerra.
Que a Potência de Deus, pois, nos deixe estupefatos; admiremo-la, adoremo-la. Perguntemos aos judeus, perguntemos aos gregos, quem persuadiu o mundo inteiro a desertar dos costumes de seus pais, e a passar a outro modo de vida? Foi o pescador, ou o fazedor de tendas? O publicano, ou os indoutos e ignorantes? E como podem estas coisas conformar-se com a razão, senão fosse Potência Divina o que tudo opera por meio deles? E que diziam eles, na verdade, para persuadi-los? "Sede batizados em Nome d'Aquele que foi Crucificado." De que espécie de homem? De um que não haviam visto nem contemplado. Mas, não obstante, dizendo e pregando estas coisas, persuadiram-nos de que aqueles que lhes davam oráculos, e que haviam recebido por tradição de seus antepassados, não eram deuses; ao passo que este Cristo, Aquele que foi pregado ao madeiro, atraiu todos a Si mesmo. E, no entanto, que Ele fora de fato crucificado e sepultado, manifesto era isso a todos de certo modo; mas que Ele ressuscitara, poucos foram os que viram. Mas, ainda assim, também disto persuadiram os que não haviam contemplado; e não apenas de que ressuscitara, mas também de que ascendera aos Céus, e vem para julgar vivos e mortos. Donde, pois, dizei-me, a força persuasiva destas palavras? De nenhuma outra coisa senão da Potência de Deus. Pois, em primeiro lugar, a própria inovação já era ofensiva a todos; mas quando alguém inova em tais coisas, o assunto se torna mais grave ainda: quando alguém arranca os fundamentos do costume antigo, quando alguém arrebata as leis de seu assento. E, além de tudo isto, nem os arautos pareciam dignos de crédito, sendo eles tanto de uma nação odiada entre todos os homens, quanto tímidos e ignorantes. Donde, pois, venceram eles o mundo? Donde expulsaram a vós, e a vossos antepassados, que eram tidos por filósofos, juntamente com os próprios deuses deles? Não é inteiramente evidente que foi por terem Deus consigo? Pois estes êxitos não são de potência humana, mas de alguma potência divina e inefável. "Não," diz alguém, "mas de bruxaria." Então, por certo, deveria ter aumentado o poder dos demônios, e ter-se estendido o culto dos ídolos. Como, pois, foram estes derrubados e desapareceram, e as nossas coisas ao contrário disso? De modo que, também disto, é manifesto que o que se fez foi decreto de Deus; e não apenas pela Pregação, mas também pelo próprio título de vida. Pois quando foi que a virgindade se plantou tão largamente em toda parte no mundo? Quando o desprezo das riquezas, e da vida, e de todas as demais coisas? Pois os que fossem ímpios e feiticeiros nada teriam efetuado semelhante a isto, mas antes o contrário em todos os aspectos; ao passo que estes introduziram entre nós a vida dos anjos; e não apenas a introduziram, mas a estabeleceram em nossa própria terra, na dos bárbaros, nas próprias extremidades da terra. Donde é manifesto que foi a potência de Cristo que em toda parte tudo operou, a qual em toda parte resplandece, e mais veloz que qualquer relâmpago ilumina os corações dos homens. Considerando, pois, todas estas coisas, e aceitando o que se fez como prova clara da promessa das coisas por vir, adorai conosco a força invencível d'Aquele que foi Crucificado, para que possais tanto escapar dos castigos intoleráveis, quanto alcançar o reino eterno; do qual possamos todos nós participar pela graça e pelo amor aos homens de Nosso Senhor Jesus Cristo; a Quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
As aflições vêm não somente dos inimigos, mas até mesmo de nossas próprias casas e amigos. Estas coisas são permitidas por Deus, não para nossa derrota, mas para nossa disciplina.
Somos atribulados por todos os lados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; perseguidos, mas não desamparados.
Ele ainda se demora em provar que toda a obra deve ser atribuída ao poder de Deus, reprimindo a soberba dos que se gloriam em si mesmos. "Pois não é somente isto", diz ele, "que é maravilhoso, que guardemos este tesouro em vasos de barro, mas que, mesmo suportando dez mil tribulações, e golpeados por todos os lados, ainda o preservemos e não o percamos. Ainda que houvesse um vaso de diamante, este não seria forte o bastante para carregar tão vasto tesouro, nem bastaria contra tantas maquinações; mas, como é, tanto o suporta quanto não sofre dano, pela graça de Deus." Pois, somos atribulados por todos os lados, diz ele, mas não angustiados. O que significa, por todos os lados?
"Da parte de nossos inimigos, da parte de nossos amigos, da parte das necessidades, da parte de outras carências, por aqueles que são hostis, por aqueles de nossa própria casa." Mas não angustiados. E vede como ele fala em contrariedades, para que também por aí mostre a força de Deus. Pois, somos atribulados por todos os lados, mas não angustiados, diz ele; perplexos, mas não até o desespero; isto é, "não caímos de todo. Pois somos, na verdade, muitas vezes errôneos em nossos cálculos, e erramos o alvo, mas não a ponto de decairmos do que nos é proposto: pois estas coisas são permitidas por Deus para nossa disciplina, não para nossa derrota."
2 Coríntios 4:9. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos. Pois estas provações de fato sobrevêm, mas não as suas consequências. E isto, na verdade, pelo poder e pela Graça de Deus. Em outros lugares, na verdade, ele diz que estas coisas foram permitidas tanto para o seu próprio rebaixamento, quanto para a segurança de outros: pois, para que eu não me exaltasse demasiadamente, foi-me dado um espinho, diz ele (2 Coríntios 12:7); e novamente: Para que ninguém julgasse de mim além do que vê em mim, ou ouve de mim; e em outro lugar ainda, que não confiássemos em nós mesmos (2 Coríntios 1:9); aqui, porém, para que o poder de Deus se manifestasse. Vedes quão grande o proveito de suas provações? Pois isto tanto mostrou o poder de Deus, quanto mais revelou a Sua graça. Pois, diz Ele, A minha graça te basta (2 Coríntios 12:9). Isto também os ungiu para a humildade de mente, e os preparou para reprimir o restante, e os tornou mais robustos. Pois a tribulação, diz ele, produz a prova, e a prova, a esperança (Romanos 5:4). Pois aqueles que haviam caído em dez mil perigos, e pela esperança que tinham em Deus haviam sido restaurados, foram ensinados a se apegar a ela cada vez mais em todas as coisas.
Que é a morte de Jesus que eles traziam consigo? São as mortes cotidianas que morriam, pelas quais também a ressurreição se mostrava. Esta é outra razão das provações, a de que a vida de Cristo se manifestasse nos corpos humanos. O que parece fraqueza e desamparo, na verdade proclama a sua ressurreição.
E que é o morrer do Senhor Jesus, que eles traziam consigo? Suas mortes cotidianas, pelas quais também a ressurreição se mostrava. "Pois, se alguém não crê", diz ele, "que Jesus morreu e ressuscitou, vendo-nos a nós morrer e ressuscitar todos os dias, creia doravante na ressurreição." Vedes como ele descobriu ainda outra razão para as provações? Qual é, pois, esta razão? Que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. Diz ele: "arrebatando-nos dos perigos, de modo que isto que parece sinal de fraqueza e desamparo, isto, digo eu, proclama a Sua ressurreição. Pois o Seu poder não se mostraria tanto se não padecêssemos incômodo algum, quanto se mostra agora ao padecermos de fato, sem contudo sermos vencidos."
Pois em toda parte, quando ele disse algo obscuro, ele mesmo o interpreta de novo. Assim procedeu também aqui, dando clara interpretação daquilo que citei. "Por isso somos entregues", diz ele, "em outras palavras, trazemos conosco o Seu morrer, para que o poder da Sua vida se manifeste, Ele que não permite que a carne mortal, ainda que padecendo tão grandes sofrimentos, seja vencida pela tempestade de neve destas calamidades." E pode-se entender também de outro modo. Como? Como diz ele em outro lugar: Se morrermos com Ele, também com Ele viveremos (2Tm 2,11). "Pois, assim como agora suportamos o Seu morrer, e escolhemos, enquanto vivos, morrer por Sua causa: assim também Ele escolherá, quando estivermos mortos, então nos gerar para a vida. Pois, se nós da vida viemos à morte, Ele também, da morte, nos conduzirá pela mão à vida."
Não falando mais da morte em sentido estrito, mas das provações e do repouso. "Pois nós, na verdade", diz ele, "estamos em perigos e provações, mas vós no repouso, colhendo a vida que é fruto destes perigos. E nós, na verdade, suportamos o perigoso, mas vós desfrutais dos bens; pois não passais por provações tão grandes."
Trouxe-nos à memória um Salmo que abunda em sabedoria celeste, e que é especialmente próprio para encorajar nos perigos. Pois foi isto que aquele homem justo proferiu quando se achava em grandes perigos, dos quais não havia outra possibilidade de recuperação senão pelo auxílio de Deus. Ora, uma vez que as circunstâncias semelhantes são as mais eficazes para consolar, diz ele: tendo o mesmo Espírito; isto é, 'pelo mesmo socorro pelo qual ele foi salvo, também nós somos salvos; pelo Espírito por meio do qual ele falou, também nós falamos.' Donde mostra que entre o Novo e o Antigo Testamento existe grande harmonia, e que o mesmo Espírito operou em ambos; e que não somente nós estamos em perigos, mas também todos os antigos assim estiveram; e que devemos encontrar o remédio pela fé e pela esperança, e não buscar de imediato ser libertados daquilo que nos é imposto. Pois, tendo demonstrado por argumentos a ressurreição e a vida, e que o perigo não era sinal de impotência ou desamparo, ele traz então também a fé, e a ela confia o todo. Mas ainda assim disto também fornece uma prova, a saber, a ressurreição de Cristo, dizendo: também nós cremos, e por isso também falamos. Que é que cremos? Dize-me.
Paulo nos traz à memória um salmo que abunda em sabedoria celeste e que é especialmente próprio para nos encorajar nos perigos. O salmista proferiu estas palavras quando se achava em grande perigo, do qual não havia possibilidade de escapar senão pelo poder de Deus. Em circunstâncias semelhantes, diz Paulo, também nós, que temos o mesmo Espírito, seremos consolados da mesma maneira. Assim mostra ele que existe grande harmonia entre o Antigo e o Novo Testamento; é o mesmo Espírito que opera em ambos. Os homens de outrora estavam em perigo, tal como nós estamos. Como eles, devemos encontrar a solução pela fé e pela esperança.
De novo, enche-os de elevados pensamentos, para que não se considerem devedores aos homens, quero dizer, aos falsos apóstolos. Pois tudo procede de Deus, que quer conceder a muitos, para que a graça se manifeste ainda maior. Por causa de vós, portanto, se deu a ressurreição e todas as demais coisas. Pois Ele não fez estas coisas por causa de um só, mas de todos.
Mais uma vez, Paulo enche os coríntios de elevados pensamentos, para que não se sintam devedores aos falsos apóstolos.
Deus não ressuscitou a Cristo dos mortos em benefício de uma só pessoa, mas para proveito de todos nós.
Como se corrompe ele? Sendo açoitado, sendo perseguido, padecendo dez mil extremidades. Contudo, o homem interior se renova de dia em dia. Como se renova ele? Pela fé, pela esperança, por uma vontade voltada para diante, e, por fim, enfrentando com coragem essas extremidades. Pois, na mesma proporção em que o corpo padece dez mil coisas, na mesma proporção a alma alcança esperanças mais nobres e se torna mais radiante, como o ouro que no fogo se purifica cada vez mais. E vede como ele reduz a nada as tristezas desta vida presente.
O corpo se corrompe por ser açoitado e perseguido, mas o homem interior se renova pela fé, pela esperança e por uma vontade voltada para diante, que enfrenta com coragem essas extremidades. Pois a esperança da alma está em proporção direta com o sofrimento do corpo.
Tal é, afinal, o costume dos bons: quando padecem algo por sua causa, longe de atentarem para a aparência do que sucede, compreendem a razão que está por trás e assim suportam tudo com equanimidade. Do mesmo modo Paulo, mestre dos gentios, identificou o cárcere, o julgamento, o perigo diário, todas aquelas numerosas e insuportáveis provações, como fardos leves — não porque de fato o fossem por natureza, mas porque a razão subjacente ao seu acontecer produzia nele tal disposição, que não recuaria diante daquelas ameaças que se aproximavam. Ouvi, pois, o que ele diz: "Porque o leve peso da nossa passageira tribulação produz em nós um peso eterno de glória além de toda comparação"; a expectativa da glória a que estamos destinados, ele quer dizer, e daquele gozo incessante, faz-nos suportar sem dificuldade estas provações, umas após as outras, e considerá-las de nenhuma consequência. Vedes como o amor de Deus reduz a intensidade das tribulações e nos impede de ter delas qualquer sentimento à medida que sobrevêm? Por esta razão, sem dúvida, também este bem-aventurado varão suportou tudo com equanimidade, sustentado pela fé e pela esperança em Deus.
Tendo encerrado a questão mediante uma referência à esperança (e, como disse em sua Epístola aos Romanos, Somos salvos pela esperança, mas a esperança que se vê não é esperança; Rm 8,24, estabelecendo aqui também o mesmo ponto), ele põe lado a lado as coisas presentes com as coisas vindouras, o momentâneo com o eterno, o leve com o pesado, a aflição com a glória. E nem mesmo com isto se contenta, mas acrescenta outra expressão, duplicando-a e dizendo, mais e mais excessivamente. Em seguida mostra também o modo pelo qual aflições tão grandes são leves. Como, pois, leves? Enquanto não atentamos para as coisas que se veem, mas para as coisas que não se veem. Assim será tanto este presente leve quanto aquele futuro grande, se nos retirarmos das coisas que se veem. Pois as coisas que se veem são temporais (2 Cor 4,18). Portanto as aflições o são também. Mas as coisas que não se veem são eternas. Portanto as coroas o são também. E não disse que as aflições são assim, mas as coisas que se veem; todas elas, seja castigo seja repouso, de modo que não sejamos nem ensoberbecidos por uma nem sobrepujados pela outra. E por isso, ao falar das coisas vindouras, não disse que o reino é eterno; mas que as coisas que não se veem são eternas, sejam elas um reino, sejam de novo um castigo; de modo a, por uma, alarmar, e, pela outra, encorajar.
3. Visto, pois, que as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas, olhemos para estas. Pois que desculpa poderíamos ter, se escolhêssemos o temporal em vez do eterno? Porque, ainda que o presente seja prazeroso, contudo não é permanente; ao passo que o infortúnio que ele acarreta é permanente e irremissível. Que desculpa terão, pois, os que foram julgados dignos do Espírito e gozaram de tão grande dom, se se tornarem de ânimo rasteiro e caírem por terra? Pois ouço muitos dizerem palavras dignas de todo desprezo: "Dá-me o hoje e toma o amanhã." "Porque," diz um, "se de fato existem ali tais coisas quais afirmas, então é um por um; mas se nada disso existe, então é dois por nada." Que poderia haver de mais transgressor que estas palavras? Ou que tagarelice mais vã? Discorremos sobre o Céu e aqueles bens inefáveis, e tu nos trazes à baila os termos da pista de corrida, sem te envergonhares nem esconderes o rosto, ao proferires coisas próprias de dementes? Não coras tu, que estás tão pregado às coisas presentes? Não cessarás de andar fora de ti e alienado, e sendo jovem, caduco? Se de fato os gregos assim falassem, não seria de admirar; mas que os fiéis vertam tal delírio, que perdão isso comporta? Pois tens em total suspeita aquelas esperanças imortais? Julgas estas coisas totalmente duvidosas? E em que são elas dignas de perdão? "E quem," diz um, "veio e trouxe notícia do que há ali?" De homens, na verdade, nenhum; mas Deus, mais digno de fé que todos, declarou estas coisas. Mas tu não vês o que há ali. Tampouco vês a Deus. Negarás, então, que Deus existe, porque não O vês? "Sim," ele responde, "creio firmemente que Deus existe." Se, pois, um infiel te perguntasse: "E quem veio do Céu e trouxe notícia disto?", que responderias? De onde sabes que Deus existe? "Das coisas que se veem," responde ele, "da bela ordem existente por toda a criação, por ser isso manifesto a todos." Recebe, portanto, do mesmo modo, a doutrina do juízo. "Como?", pergunta ele. Eu te perguntarei, e responde-me tu. É este Deus justo, e retribuirá Ele a cada um segundo o seu merecimento? Ou, pelo contrário, quer Ele que os ímpios vivam felizes e em delícias, e os bons no contrário disto? "De modo nenhum," responde ele, "pois nem mesmo o homem sentiria assim." Onde, pois, hão de gozar as coisas boas os que aqui viveram virtuosamente? E onde os ímpios os contrários, a não ser que haja de vir uma vida e uma retribuição futuras? Vês que, ao presente, é um por um, e não dois por um? Mas eu te mostrarei, à medida que prosseguir, que não é sequer um contra um, mas será para os justos dois por nada; e para os pecadores e para estes que vivem aqui dissolutamente, bem ao contrário. Pois os que viveram aqui dissolutamente não receberam sequer um por um; mas os que passam a vida em virtude, dois por nada. Pois quem está em repouso, os que abusaram desta vida presente, ou os que seguiram a sabedoria celeste? Talvez digas que os primeiros, mas eu o provarei acerca dos últimos, convocando por minhas testemunhas os próprios homens que gozaram destas coisas presentes; e eles não serão tão desavergonhados que neguem o que vou dizer.
Pois muitas vezes lançaram maldições contra os que arranjam casamentos e contra o dia em que se enfeitou o seu tálamo nupcial, e proclamaram bem-aventurados os que não se casaram. Muitos também dentre os jovens, ainda quando poderiam ter-se casado, recusaram-no por nenhuma outra razão senão o incômodo da coisa. E isto digo, não para acusar o matrimônio, pois ele é honroso (Hb 13:4), mas antes aqueles que dele usaram mal. Ora, se os que viveram vida conjugal frequentemente reputaram a sua vida como não valendo a pena ser vivida, que diremos daqueles que foram arrastados às profundas covas das meretrizes, e são tratados mais servil e miseravelmente do que qualquer cativo? Que diremos daqueles que apodreceram na luxúria e envolveram os seus corpos com mil enfermidades? "Mas é um prazer ser tido em honra." Antes, nada há mais amargo do que esta escravidão. Pois aquele que busca a vanglória é mais servil do que qualquer escravo, e deseja agradar a todos; mas aquele que a pisa aos pés é superior a todos, pois não se importa com a glória que vem dos outros. "Mas a posse das riquezas é desejável." Contudo, já mostramos muitas vezes que os que estão livres delas e nada possuem gozam de maiores riquezas e repouso. "Mas embriagar-se é agradável." Mas quem dirá isto? Se, pois, é mais agradável carecer de riquezas do que possuí-las, e não se casar do que casar-se, e não buscar a vanglória do que buscá-la, e não viver luxuriosamente do que assim viver, ainda mesmo neste mundo levam vantagem os que não estão presos a estas coisas presentes. E ainda não digo como aquele, ainda que seja atormentado com dez mil tormentos, tem aquela boa esperança para sustentá-lo; ao passo que este, ainda que esteja no gozo de mil deleites, tem o temor do futuro a perturbar e confundir o seu prazer. Pois também isto não é castigo leve, nem, por conseguinte, é leve o contrário, a saber, o do gozo e do repouso. E, além destas coisas, há uma terceira espécie. E qual é ela? É que as coisas do deleite mundano, mesmo enquanto presentes, não parecem sê-lo tais, sendo refutadas tanto pela natureza quanto pelo tempo; mas as outras não somente são, mas também permanecem imóveis. Vedes que poderemos contar, não apenas dois, mas até três, e cinco, e dez, e vinte, e dez mil, contra nada? Mas, para que aprendais esta mesma verdade também por um exemplo — o rico e Lázaro: um gozou das coisas presentes, o outro das que hão de vir (Lc 16:19 e segs.). Parece-vos, pois, ser uma coisa igual, ser castigado por todo o tempo e ter fome por um breve período? Estar enfermo em teu corpo corruptível, e abrasar-te miseravelmente num corpo que não morre? Ser coroado e viver em deleites imortais depois daquela breve enfermidade, e ser atormentado sem fim depois daquele curto gozo dos seus bens? E quem dirá isto? Pois que quereis que comparemos? A quantidade? A qualidade? A dignidade? A sentença de Deus acerca de cada um? Até quando proferireis as palavras dos escaravelhos que para sempre se revolvem no esterco! Pois não são estas palavras de homens racionais, lançar fora, por nada, uma alma tão preciosa, quando é necessário tão pouco trabalho para receber o céu. Quereis que vos ensine também de outro modo que ali há um terrível tribunal? Abri as portas da vossa consciência, e contemplai o juiz que se assenta em vosso coração.
Agora, se tu te condenas a ti mesmo, ainda que sejas amante de ti mesmo, e não podes deixar de proferir um veredicto justo, não fará Deus, muito mais, ampla provisão para aquilo que é justo, pronunciando sobre todos esse mesmo juízo imparcial? Ou permitirá Ele que tudo prossiga de modo frouxo e ao acaso? E quem dirá isto? Ninguém; mas tanto gregos quanto bárbaros, tanto poetas quanto filósofos, sim, toda a raça dos homens, nisto concordam conosco, ainda que difiram nos particulares, e afirmam que há tribunais de alguma sorte no Hades; tão manifesta e incontroversa é esta coisa.
4. "E por que", diz alguém, "não pune Ele aqui?" Para que manifeste aquela Sua longanimidade, e nos ofereça a salvação que vem pelo arrependimento, e não faça varrer de todo a nossa raça, nem arrebate, antes dessa salvação, aqueles que, por uma mudança excelente, são capazes de ser salvos. Pois se Ele punisse instantaneamente à prática dos pecados, e destruísse, como se teria salvo Paulo, como Pedro, os principais mestres do mundo? Como teria Davi colhido a salvação que veio pelo seu arrependimento? Como os gálatas? Como tantos outros? Por esta razão, pois, Ele não exige aqui a pena de todos (mas somente de alguns dentre todos), nem tampouco ali de todos, mas de um aqui, e de outro ali; para que, ao mesmo tempo, desperte, por meio daqueles que pune, os que são sobremaneira insensíveis, e faça, por meio daqueles que não pune, que os demais aguardem as coisas futuras. Ou não vês tu muitos punidos aqui, como, por exemplo, aqueles que foram soterrados sob as ruínas daquela torre (Lc 13,4-7); como aqueles cujo sangue Pilatos misturou com os seus próprios sacrifícios; como aqueles que, entre os coríntios, pereceram de morte prematura, porque participavam indignamente dos mistérios (1 Cor 11,30); como Faraó; como aqueles dentre os judeus que foram mortos pelos bárbaros; como tantos outros, tanto então, quanto agora, e continuamente? E, no entanto, outros também, tendo pecado em muitas coisas, partiram sem sofrer aqui a pena; como o rico na história de Lázaro; como tantos outros (Lc 16). Ora, estas coisas Ele as faz, tanto para despertar aqueles que de todo descrêem das coisas vindouras, quanto para tornar mais diligentes aqueles que creem, mas são negligentes. Pois Deus é Juiz justo, e forte, e longânimo, e não descarrega Sua ira todos os dias (Sl 7,11, Septuaginta). Mas, se abusarmos de Sua longanimidade, virá o tempo em que Ele não mais será longânimo, nem por um pouco, mas infligirá imediatamente a pena.
Não repugnemos, pois, por causa de um único momento (porquanto tal é a vida presente) vivermos em delícias, atrair sobre nós castigo através de idades sem fim: antes trabalhemos por um momento, para que sejamos coroados para sempre. Não vedes que também nas coisas do mundo a maioria dos homens age deste modo, e escolhe um breve labor a fim de obter um longo repouso, ainda que muitas vezes lhes suceda o contrário? Pois nesta vida há, de fato, igual porção de trabalhos e recompensa; sim, frequentemente, ao invés, o trabalho é sem fim e o fruto pequeno, ou nem sequer pequeno; mas no caso do Reino, ao contrário, o labor é pequeno e o prazer grande e sem limites. Considerai, pois: o lavrador fatiga-se todo o ano inteiro, e, no próprio termo de sua esperança, muitas vezes vê-se privado do fruto de tantos trabalhos. O piloto de navio, por sua vez, e o soldado, até extrema velhice, ocupam-se com guerras e fadigas; e muitas vezes partiu cada um deles, um com a perda de suas ricas mercadorias, o outro, juntamente com a vitória, da própria vida. Que desculpa teremos, pois, dizei-me, se nas coisas do mundo preferimos o que é laborioso a fim de repousarmos um pouco, ou nem sequer um pouco (pois incerta é a esperança disto); mas nas coisas espirituais fazemos o contrário disto e atraímos sobre nós castigo inefável por causa de uma pequena indolência? Pelo que vos suplico a todos que, ainda que tarde, contudo enfim vos recupereis desta loucura. Pois ninguém nos livrará naquele dia; nem irmão, nem pai, nem filho, nem amigo, nem vizinho, nem qualquer outro: mas se nossas obras nos traírem, tudo estará perdido e havemos necessariamente de perecer. Quantas lamentações fez aquele rico, e suplicou ao Patriarca e rogou que Lázaro lhe fosse enviado! Mas ouvi o que Abraão lhe disse: Há um abismo entre nós e vós, de modo que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os de lá passar para cá (Lc 16:26). Quantas petições fizeram aquelas virgens às suas companheiras por um pouco de azeite! Mas ouvi também o que estas dizem: Não seja caso que não haja bastante para nós e para vós (Mt 25:9); e nenhuma pôde introduzi-las na câmara nupcial.
Pensando, pois, nestas coisas, sejamos também cuidadosos com aquilo que é a nossa vida. Pois mencionai quaisquer fadigas que quiserdes, e aduzi também qualquer castigo que seja; todos estes, combinados, não serão nada em comparação com os bens que hão de vir. Alegai, pois, se quiserdes, o fogo, o ferro e as feras, e se houver algo mais penoso que isto; mas ainda assim, estas coisas não são sequer uma sombra em comparação com aqueles tormentos. Pois estas coisas, quando aplicadas em excesso, tornam-se então particularmente leves, apressando a libertação; porquanto o corpo não é capaz de suportar ao mesmo tempo a intensidade e a longa duração do sofrimento; mas ali ambas se conjugam, tanto a prolongação quanto o excesso, igualmente nos bens como nos males. Enquanto, pois, temos tempo, apresentemo-nos diante de Sua face com confissão (Sl 95:2, Septuaginta), a fim de que, naquele dia, O contemplemos brando e sereno, e para que escapemos inteiramente daquelas Potestades portadoras de ameaças. Não vedes como os soldados deste mundo, que executam as ordens dos que estão no poder, arrastam os homens de um lado para outro; como os acorrentam, como os açoitam, como lhes perfuram os flancos, como lhes aplicam tochas em seus tormentos, como os esquartejam? Contudo, todas estas coisas não passam de brincadeiras e zombaria diante daqueles castigos. Pois estes castigos são temporais; mas ali nem o verme morre, nem o fogo se apaga: porque incorruptível é, então, o corpo de todos, o qual há de ser ressuscitado. Mas conceda Deus que jamais aprendamos estas coisas pela experiência; antes, que estas coisas temíveis nunca se aproximem mais de nós do que em sua simples menção; e que não sejamos entregues àqueles algozes, mas antes nos tornemos, já desde agora, sábios. Quantas coisas então diremos em acusação de nós mesmos! Quantas lamentações proferiremos! Quantos gemidos! Mas isso, desde então, de nada aproveitará. Pois nem os marinheiros, depois que o navio se despedaçou e afundou, podem depois ser de alguma utilidade; nem os médicos, depois que o enfermo faleceu; antes, dirão muitas vezes, na verdade, que se deveria ter feito isto ou aquilo; mas tudo é infrutífero e vão. Pois enquanto, na verdade, subsistem esperanças de emenda, convém tanto dizer quanto fazer todas as coisas; mas quando já não temos nada em nosso poder, estando tudo de todo arruinado, é sem proveito algum tudo o que se diz e se faz. Pois até mesmo então os judeus dirão: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 23:39); mas nenhum proveito poderão colher deste clamor para escaparem de seu castigo; porque, quando o deviam ter dito, não o disseram. Para que, pois, isto não nos suceda a respeito de nossa vida, corrijamo-nos agora e desde já, a fim de que possamos comparecer diante do tribunal de Cristo com toda a ousadia; ao que todos nós possamos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
Nossas presentes aflições serão leves e nosso futuro será glorioso, se nos apartarmos das coisas visíveis e nos concentrarmos, antes, nas espirituais. Que desculpa temos nós, se escolhemos o temporal em vez do eterno? Ainda que o presente seja deleitável, ele não permanece, ao passo que a tristeza que engendra permanece e não pode ser mitigada. Que desculpa terão aqueles que, tendo sido julgados dignos de receber o Espírito e havendo gozado de tão grande dom, se prostram e caem diante das coisas desta terra? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Longe de nos surpreendermos ou nos perturbarmos, suportemos os acontecimentos com inteira fortaleza e paciência, atentando não para a aflição, mas para o proveito que dela nos advém. Este negócio, com efeito, é espiritual. Os que se ocupam de ajuntar dinheiro e se empenham num negócio desta vida não conseguiriam aumentar suas riquezas senão expondo-se a grande perigo em terra e mar (pois hão de suportar o assalto de salteadores e as ciladas de piratas), e contudo estão prontos a aceitar tudo com grande fervor, não tendo nenhum senso de aflição por causa da expectativa do lucro. Do mesmo modo, pois, devemos manter nossa mente voltada para a riqueza e os tesouros espirituais que disso nos advêm. Devemos regozijar-nos e alegrar-nos, considerando não o que se pode ver, mas o que não se pode ver, segundo a exortação de Paulo: "não atentando nas coisas que se veem."
Considerai, caríssimos, que as tribulações desta vida, ainda que aflitivas, são todavia de curta duração, ao passo que os bens que nos hão de vir na vida futura são eternos e sempiternos. "O que vemos é passageiro", diz a Escritura, "mas o que não se vê é sempiterno." Suportemos, pois, sem murmúrio o que é passageiro, e não desistamos do combate da virtude, para que possamos gozar dos bens que são eternos e permanecem para sempre.
Pois sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se dissolver, temos de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.
Mais uma vez ele desperta o zelo deles, porque muitas provações se aproximavam. Pois era provável que eles, em consequência da sua ausência, estivessem mais debilitados quanto a esta necessidade. Que diz ele, pois? Não se deve estranhar que soframos aflição; nem sermos confundidos, pois até colhemos disso muitos ganhos. E alguns destes ele já mencionou; por exemplo, que trazemos em nós o morrer de Jesus, e apresentamos a maior prova do Seu poder: pois diz, para que a excelência do poder seja de Deus; e exibimos clara prova da Ressurreição, pois, diz ele, para que a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. Mas, uma vez que juntamente com estas coisas disse que também o nosso homem interior é assim aperfeiçoado; pois, embora o nosso homem exterior se corrompa, diz ele, contudo o interior se renova de dia em dia; mostrando novamente que este ser açoitado e perseguido é proporcionalmente útil, acrescenta que, quando isto se fizer por inteiro, então brotarão inumeráveis bens para os que perseveraram nestas coisas. Pois para que, ao ouvires que o teu homem exterior perece, não te entristeças, diz ele que, quando isto se consumar plenamente, então sobretudo te alegrarás e chegarás a uma herança melhor. De modo que não somente não se deve entristecer alguém por ele perecer agora em parte, mas até buscar com afinco a consumação dessa destruição, pois isto mais te conduz à imortalidade. Por isso também acrescentou: Pois sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se dissolver, temos de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna nos céus. Pois, uma vez que urge novamente a doutrina da Ressurreição, quanto à qual eles estavam particularmente enfermos, ele convoca em auxílio também o juízo dos seus ouvintes, e assim a estabelece; não, porém, do mesmo modo que antes, mas, por assim dizer, chegando a ela a partir de outro assunto (pois já haviam sido corrigidos): e diz: Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se dissolver, temos de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna nos céus. Alguns, na verdade, dizem que a "casa terrestre" é este mundo; eu, porém, sustentaria antes que ele alude ao corpo. Mas observa, peço-te, como pelos termos que usa mostra a superioridade das coisas futuras sobre as presentes. Pois, tendo dito terrestre, opôs-lhe a celestial; tendo dito casa de tabernáculo, declarando assim que é facilmente desmontável e temporária, opôs-lhe a eterna, pois o nome tabernáculo denota muitas vezes o que é temporário. Por isso Ele diz: Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Mas se Ele em algum lugar chama também tabernáculos às moradas de repouso dos santos, não os chama simplesmente tabernáculos, mas acrescenta um epíteto; pois não disse que vos recebam em seus tabernáculos, mas nos tabernáculos eternos. Além disso, em dizer não feita por mãos, aludiu ao que é feito por mãos. Que, pois? É o corpo feito por mãos? De modo nenhum; mas ou alude aqui às casas que são feitas por mãos, ou, se não isto, então chamou ao corpo, que não é feito por mãos, "casa de tabernáculo". Pois não usou o termo em antítese e contraposição a este, mas para elevar aqueles elogios e ampliar aquelas louvações.
Mais uma vez, Paulo alude à ressurreição, que muitos dos coríntios não compreendiam nem aceitavam. A tenda terrestre é o nosso corpo. É certo que ela não foi feita por mãos, mas Paulo apenas a compara com as casas em que habitamos. Ele não pretendia estabelecer um contraste exato entre o terrestre e o celestial, mas antes exaltar este último por todos os modos possíveis.
Que habitação? Dize-me. O corpo incorruptível. E por que gememos agora? Porque aquela é muito melhor. E dos céus a chama por causa da sua incorruptibilidade. Pois não é, decerto, que um corpo há de descer a nós do alto; mas com esta expressão ele significa a graça que dali é enviada. De tal modo, pois, longe estamos de dever entristecer-nos com estas provações que são em parte, que antes devemos buscar até a sua plenitude, como se dissesse: Gemes por seres perseguido, por este teu homem estar a decair? Geme, antes, porque isto não se faz em excesso e porque ele não perece inteiramente. Vedes como voltou ao contrário o que fora dito, provando que eles deviam gemer porque aquelas coisas não se faziam plenamente, sendo que, por se fazerem em parte, gemiam. Por isso, dali em diante, não a chama tabernáculo, mas casa, e com grande razão. Pois um tabernáculo, na verdade, facilmente se desmonta; mas uma casa permanece continuamente.
A habitação celestial é o corpo incorruptível que haveremos de revestir na ressurreição. Gememos agora porque o que há de vir é muito melhor do que aquilo que agora temos.
Quando deixarmos de lado o nosso corpo presente, receberemos no céu esse mesmo corpo em forma incorruptível. É possível, todavia, estar revestido deste corpo e ainda assim ser encontrado nu, isto é, sem glória e sem segurança. A ressurreição é comum a todos, mas a glória não o é. Uns ressuscitarão para a honra, outros para a desonra; uns para o reino, outros para o castigo.
Isto é, ainda que tenhamos deposto o corpo, não seremos ali apresentados sem corpo, mas antes com esse mesmo corpo tornado incorruptível. Alguns, porém, leem — e esta leitura merece muito ser adotada — "se, ao sermos revestidos, não formos achados nus". Pois, para que ninguém se tornasse presunçoso por causa da Ressurreição, ele diz: "se, ao sermos revestidos", isto é, tendo alcançado a incorruptibilidade e um corpo incorruptível, "não formos achados nus" de glória e de segurança. Como também disse na Epístola anterior: "Todos ressuscitaremos, mas cada um em sua ordem." E: "Há corpos celestes e corpos terrestres" (1 Cor 15,22-23; ib. 40). Pois a ressurreição, de fato, é comum a todos, mas a glória não é comum; antes, uns ressuscitarão para honra e outros para desonra, uns para o reino e outros para o castigo. Isto certamente ele significou também aqui, quando disse: "se, ao sermos revestidos, não formos achados nus".
3. Pois nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos, não porque desejemos ser despidos, mas revestidos. Aqui, uma vez mais, ele tapou de todo e manifestamente a boca dos hereges, mostrando que não fala absolutamente de um corpo diverso quanto à identidade, mas de corrupção e incorrupção: "Pois não gememos", diz ele, "para sermos livres do corpo: pois deste não desejamos ser despidos; mas apressamo-nos por sermos libertos da corrupção que nele há." Por isso diz: "Não desejamos ser despidos do corpo, mas que ele seja revestido de incorruptibilidade." Depois também o interpreta assim: "Para que o que é mortal seja absorvido pela vida." Pois, como o despojar-se do corpo parecia a muitos coisa penosa, e ele estava contradizendo o juízo de todos ao dizer que gememos sem desejar ser separados dele — ("pois se", diz alguém, "a alma, ao ser dele separada, assim sofre e lamenta, como dizes que gememos por não sermos dele separados?") — para que isto, então, não lhe fosse objetado, diz: "Nem afirmo que gememos para nos despirmos dele (pois ninguém dele se despe sem dor, visto que Cristo diz até de Pedro: 'Te levarão e te conduzirão para onde não queres', Jo 21,18); mas para que o tenhamos revestido de incorruptibilidade." Pois é a este respeito que somos sobrecarregados pelo corpo — não por ser corpo, mas porque estamos cercados por um corpo corruptível e sujeito ao sofrimento, sendo isto o que também nos causa dor. Mas a vida, quando chega, destrói e consome a corrupção — a corrupção, digo, não o corpo. "E como isto se dá?", pergunta alguém. Não indagues; Deus o faz; não sejas demasiado curioso.
Não queremos ser libertos do corpo, mas somente da corrupção que nele há. O nosso corpo nos é um peso, não por ser corpo, mas porque é corruptível e sujeito ao sofrimento. Mas, quando vier a vida nova, ela removerá esta corrupção — a corrupção, digo, não o corpo mesmo.
Com isto mostra que estas coisas foram prefiguradas desde o princípio. Pois não agora foi isto decretado, mas quando, no início, Ele nos formou da terra e criou Adão; pois não para isto o criou, para que morresse, mas para que o fizesse até mesmo imortal. Então, mostrando a credibilidade disto e fornecendo a prova dele, acrescentou:
Que também nos deu o penhor do Espírito. Pois já então nos formou para isto; e agora operou para isto mediante o batismo, e nos forneceu não pequena segurança disso, o Espírito Santo. E continuamente O chama penhor, querendo provar que Deus é devedor do todo, e com isto também tornar mais crível o que diz aos mais rudes.
Aqui Paulo mostra que estas coisas foram preparadas desde o princípio. Não é agora que foram decretadas, mas desde o momento da criação, quando formou Adão. Não criou Deus o primeiro homem para que morresse, mas para fazê-lo imortal. Para provar isto, acrescenta Paulo que nos foi dado o Espírito como penhor. Deus é apresentado como tendo assumido para conosco o compromisso de cumprir suas promessas. Isto faz Paulo a fim de tornar o que diz mais crível aos menos atentos.
A palavra de bom ânimo é usada com referência às perseguições, às ciladas e às contínuas mortes: como se dissesse: 'Alguém te vexa, persegue e mata? Não te abatas, pois tudo isto se faz para teu bem. Não temas, mas tem bom ânimo. Pois aquilo por que gemes e te afliges, o estares em servidão à corrupção, ele desde já remove do caminho, e te livra mais depressa desta servidão.' Por isso diz também: Estando, pois, sempre de bom ânimo, não apenas nos tempos de repouso, mas também nos de tribulação; e sabendo,
Aquilo que é maior que tudo, colocou-o por último, pois estar com Cristo é melhor do que receber um corpo incorruptível. Mas o que ele quer dizer é isto: «Ele não extingue nossa vida, que guerreia contra nós e nos mata; não temais; tende bom ânimo ainda que sejais despedaçados. Pois não somente vos liberta da corrupção e de um fardo, mas também vos envia prontamente ao Senhor». Por isso não disse, «enquanto estamos» no corpo: como quem está em terra alheia e estranha. Sabendo, pois, que, enquanto estamos em casa no corpo, estamos ausentes do Senhor: temos bom ânimo, digo, e desejamos antes estar ausentes do corpo, e presentes ao Senhor. Vede como, calando o que era penoso, os nomes da morte e do fim, empregou em seu lugar termos que suscitam grande anelo, chamando-os de presença junto a Deus; e, passando por cima das coisas que se têm por doces, as coisas da vida, expressou-as por nomes penosos, chamando a vida daqui de ausência do Senhor? Isto ele fez, tanto para que ninguém se apegasse com afeto às coisas presentes, mas antes se cansasse delas; quanto para que ninguém, ao morrer, se perturbasse, mas antes se alegrasse por partir para bens maiores. Depois, para que ninguém, ao ouvir que estamos ausentes do Senhor, dissesse: «Por que falas assim? Estamos, pois, alheados dEle enquanto aqui estamos?», corrigiu de antemão tal pensamento, dizendo: Pois andamos por fé, não por vista. Ainda aqui, na verdade, o conhecemos, mas não tão claramente. Como diz também em outro lugar, 1 Cor 13,12, em espelho, e obscuramente.
Temos bom ânimo, digo, e desejamos. Maravilhoso! A que ponto conduziu o discurso? A um extremo desejo da morte, tendo mostrado que o penoso é aprazível, e o aprazível penoso. Pois pelo termo desejamos, quer dizer: «anelamos». De que anelamos? De estar ausentes do corpo, e presentes ao Senhor. E assim procede continuamente (como já mostrei antes), voltando a objeção de seus adversários para o exato contrário.
Paulo colocou por último a maior de todas as coisas, pois estar com Cristo é maior do que ter um corpo incorruptível. Evitando a menção direta de coisas penosas, como a morte e o fim, Paulo tratou-as de tal modo que fizesse seus ouvintes anelá-las, chamando-as de «presença junto a Deus». Do mesmo modo, passou por cima das coisas doces desta vida e as expressou em termos penosos, chamando-as de «ausência do Senhor». Fez isto a fim de que não nos apegássemos com afeto ao que agora temos, mas estivéssemos prontos a partir para algo muito melhor.
«Pois o que buscamos é isto», diz ele, «quer estejamos lá, quer aqui, viver segundo a Sua vontade; pois esta é a coisa principal. De modo que, por isto, tendes já o reino em posse, sem necessidade de prova». Pois, para que não se perturbassem novamente, depois de terem chegado a tão grande desejo de estar lá, por a demora ser tão longa, nisto já lhes dá o principal daqueles bens. E o que é isto? Ser bem agradável a Ele. Pois, assim como partir não é absolutamente bom, mas fazê-lo no favor [de Deus], o que é o que torna a partida também um bem; assim também permanecer aqui não é absolutamente penoso, mas permanecer ofendendo-O. Não penseis, pois, que partir do corpo seja suficiente; pois a virtude é sempre necessária. Pois, assim como, ao falar da Ressurreição, não lhes permitiu ter bom ânimo somente por ela, dizendo: Se, na verdade, estando vestidos, não formos achados nus; assim também, tendo mostrado uma partida, para que não penseis que isto seja suficiente para vos salvar, acrescentou que é necessário que sejamos bem agradáveis a Ele.
5. Vendo, pois, que os persuadiu com muitos bens, doravante os alarma também com aqueles de aspecto mais sombrio. Pois nosso interesse consiste tanto no alcance dos bens quanto na fuga dos males, ou seja, do inferno e do reino. Mas, como este, o evitar do castigo, é o motivo mais forte; pois onde a pena alcança apenas o não receber os bens, a maioria suportará isto contentemente; mas se se estende também ao padecer o mal, já não o farão (pois deveriam, na verdade, considerar o primeiro intolerável, mas, pela fraqueza e natureza rasteira da maioria, o segundo lhes parece mais difícil de suportar): visto então (digo eu) que a doação dos bens não desperta tanto o ouvinte comum quanto a ameaça dos castigos, é obrigado a concluir com isto,
Partir não é bom em si mesmo, mas somente se for na graça de Deus. Do mesmo modo, permanecer aqui não é o pior dos males, a menos que O estejamos ofendendo.
Havendo alarmado e abalado os seus ouvintes com a menção do tribunal, Paulo suaviza o que diz mencionando a possibilidade de receber boas recompensas, e não somente más.
Pois é necessário que todos nós sejamos manifestados diante do tribunal.
Tendo, pois, alarmado e abalado o ouvinte com a menção daquele tribunal, ele não estabeleceu, nem mesmo aqui, as coisas dolorosas sem as boas, mas misturou algo de prazer, dizendo:
Para que cada um receba as coisas feitas no corpo, segundo o que fez, seja bem, seja mal.
Dizendo estas palavras, ele ao mesmo tempo reanima os que têm procedido virtuosamente e são perseguidos com aquelas esperanças, e torna mais diligentes, por meio desse temor, os que se têm mostrado remissos. E assim confirmou suas palavras a respeito da ressurreição do corpo. "Pois certamente," diz ele, "aquilo que ministrou a um e a outro não ficará excluído das recompensas: mas, juntamente com a alma, será em um caso punido, em outro coroado." Mas alguns dos hereges dizem que é outro corpo o que ressuscita. Como assim? Dize-me. Pecou um, e é outro punido? Procedeu um virtuosamente, e é outro coroado? E que responderás a Paulo, que diz: Não que queiramos ser despidos, mas sobrevestidos? E como é que o mortal é absorvido pela vida? Pois ele não disse que o corpo mortal ou corruptível seria absorvido pelo corpo incorruptível; mas que a corrupção seria absorvida pela vida. Pois isto acontece quando o mesmo corpo ressuscita; mas se, abandonando aquele corpo, Ele preparasse outro, já não seria a corrupção absorvida, mas continuaria dominante. Portanto não é assim; mas é necessário que este corruptível, isto é, o corpo, se revista de incorruptibilidade. Pois o corpo está em estado intermediário, sendo agora nesta condição e havendo de estar depois naquela; e por esta razão primeiro nesta, porque é impossível que a incorruptibilidade se dissolva. Pois nem a corrupção herda a incorruptibilidade, diz ele (pois, como seria então incorruptibilidade?), mas, ao contrário, a corrupção é absorvida pela vida: pois esta, na verdade, sobrevive àquela, mas não aquela a esta. Pois assim como a cera se derrete pelo fogo, mas ela mesma não derrete o fogo: assim também a corrupção se derrete e se desvanece sob a incorruptibilidade, mas jamais é capaz de, ela mesma, prevalecer sobre a incorruptibilidade.
6. Ouçamos, pois, a voz de Paulo, dizendo que devemos comparecer diante do tribunal de Cristo; e figuremos para nós mesmos aquele tribunal de justiça, e imaginemo-lo presente já agora, e a prestação de contas exigida. Pois falarei disso mais amplamente. Pois Paulo, vendo que discorria sobre a aflição, e não tinha em mente afligi-los de novo, não se deteve no assunto; mas, tendo em breves palavras expressado sua austeridade — Cada um receberá segundo o que fez — rapidamente prosseguiu. Imaginemos, pois, que isso esteja presente já agora, e ajustemos cada um de nós as contas com a própria consciência, e reputemos o Juiz já presente, e tudo já revelado e trazido à luz. Pois não devemos apenas comparecer, mas também ser manifestados. Não corais? Não estais atônitos? Mas se agora, quando a realidade ainda não está presente, mas é concedida apenas em suposição e figurada no pensamento; se agora — digo eu — perecemos feridos pela consciência; que faremos quando ela chegar, quando o mundo inteiro estiver presente, quando anjos e arcanjos, quando fileiras sobre fileiras, e todos apressando-se ao mesmo tempo, e alguns arrebatados nas nuvens, e uma multidão cheia de tremor; quando houver as trombetas, uma sobre outra, quando aquelas vozes incessantes?
Suponhamos que não houvesse inferno algum; ainda assim, ser rejeitado no meio de tamanho esplendor e afastado com desonra — quão grande seria já esse castigo! Pois se agora mesmo, quando o Imperador entra em préstito, e todo o seu cortejo com ele, nós, contemplando cada qual a própria pobreza, não colhemos do espetáculo tanto prazer quanto padecemos de abatimento por não termos parte no que se passa em torno do Soberano, nem estarmos perto dele — que será então? Ou julgais leve castigo não ser contado naquela companhia, não ser considerado digno daquela glória inefável, e ser lançado para longe, para um lugar qualquer, distante daquele ajuntamento e daqueles bens inenarráveis? Mas quando há também trevas, e ranger de dentes, e cadeias indissolúveis, e verme que não morre, e fogo inextinguível, e aflição, e angústia, e línguas que ardem como a do rico; e nós pranteamos, e ninguém ouve; e gememos e rangemos os dentes de angústia, e ninguém atende; e olhamos em redor, e em parte alguma há quem nos console — onde havemos de situar os que se encontram em tal condição? Que há de mais miserável do que essas almas? Que de mais digno de compaixão? Pois se, ao entrarmos numa prisão e vermos seus reclusos — uns esquálidos, outros acorrentados e famintos, outros ainda encerrados nas trevas — somos movidos à compaixão, estremecemos, e usamos de toda a diligência para jamais sermos lançados naquele lugar; que será de nós, quando formos conduzidos e arrastados aos próprios cárceres de tormento do inferno? Pois não são de ferro aquelas cadeias, mas de fogo que jamais se apaga; nem são nossos semelhantes os que estão postos sobre nós — a quem muitas vezes é possível mesmo abrandar —, mas anjos a quem nem sequer se pode olhar no rosto, sobremaneira irados por causa das injúrias que fizemos ao seu Senhor. Nem é dado ali, como aqui, ver alguns trazerem dinheiro, outros alimento, outros palavras de consolo, e assim encontrar consolo; mas tudo ali é irremissível: e ainda que fosse Noé, ou Jó, ou Daniel, e visse os seus próprios parentes sendo castigados, não ousaria socorrê-los. Pois até a compaixão natural, então, chega a ser abolida. Porquanto sucede haver pais justos de filhos ímpios, e filhos [justos] de pais [ímpios]; a fim de que o seu prazer seja íntegro, e os que gozam dos bens não sejam perturbados pela tristeza mediante a força constrangedora da compaixão, mesmo essa compaixão, afirmo eu, é extinta, e eles próprios se indignam, juntamente com o Senhor, contra as suas próprias entranhas. Pois se os homens comuns, quando veem seus próprios filhos viciosos, os repudiam e os excluem daquele parentesco, muito mais o farão então os justos. Portanto, ninguém espere bens, se não tiver praticado bem algum, ainda que tenha dez mil antepassados justos. Pois cada um receberá segundo o que fez por meio do corpo. Aqui me parece que ele alude também aos que se dão à fornicação, e que lhes ergue como um muro o temor daquele mundo — não, porém, a eles somente, mas também a todos quantos, de qualquer maneira, transgridem.
7. Ouçamos, pois, nós também. E se tendes o fogo da concupiscência, opondes-lhe aquele outro fogo, e este logo se apagará e se desfará. E se vos propondes proferir alguma palavra de som áspero, pensai no ranger de dentes, e o temor vos servirá de freio. E se vos propondes saquear, ouvi o Juiz ordenando e dizendo: Amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores (Mt 22,13), e expulsareis também esta cobiça. E se sois dado à embriaguez, e vos fartais continuamente, ouvi o rico dizendo: "Enviai Lázaro, para que com a ponta do dedo refresque esta língua abrasada" (Lc 16,24) — e não o obtendo — e vos manterdes afastados desse mal. Mas se amais os deleites, pensai na aflição e na estreiteza que ali há, e não pensareis mais nisto. Se, por outro lado, sois duros e cruéis, lembrai-vos daquelas virgens que, apagando-se-lhes as lâmpadas, ficaram privadas do tálamo nupcial, e depressa vos tornareis compassivos. Ou sois indolentes e negligentes? Considerai aquele que escondeu o talento, e vos tornareis mais veementes que o fogo. Ou vos devora o desejo dos bens do vosso próximo? Pensai no verme que não morre, e facilmente afastareis de vós esta enfermidade, e em todas as demais coisas procedereis virtuosamente. Pois Ele nada ordenou de penoso ou opressivo. De onde, pois, nos parecem penosos os Seus preceitos? De nossa própria negligência. Pois, se trabalhamos diligentemente, até o que parece intolerável se tornará leve e fácil; assim, se somos negligentes, até as coisas toleráveis nos parecerão difíceis.
Considerando, pois, todas estas coisas, pensemos não nos que vivem em deleites, mas qual é o seu fim; aqui, na verdade, imundície e obesidade; ali, o verme e o fogo: não nos rapaces, mas qual é o seu fim; aqui, cuidados, temores e ansiedades; ali, cadeias indissolúveis: não nos amantes da glória, mas no que tais coisas produzem; aqui, escravidão e dissimulações; e ali, tanto perda intolerável quanto incêndios perpétuos. Pois, se assim conversarmos conosco mesmos, e se com estas e semelhantes coisas encantarmos continuamente as nossas más concupiscências, depressa expulsaremos o amor das coisas presentes e acenderemos o amor das coisas futuras. Acendamo-lo, pois, e façamo-lo arder em chamas. Pois, se a simples concepção delas, ainda que tênue, proporciona tão grande prazer, pensai quão grande será a alegria que a própria experiência manifesta há de trazer-nos. Bem-aventurados, e três vezes bem-aventurados — sim, três vezes bem-aventurados muitas vezes — são os que gozam daqueles bens; assim como, por conseguinte, são dignos de compaixão e três vezes desventurados os que padecem o contrário destes. Para que, pois, não sejamos destes, mas daqueles, escolhamos a virtude. Pois assim alcançaremos também os bens futuros; os quais a todos nós seja dado alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo; por Quem, e com Quem, seja ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Conhecendo, pois, o temor do Senhor, persuadimos os homens; mas somos manifestos a Deus; e espero que sejamos manifestos também nas vossas consciências.
Conhecendo, pois, estas coisas, diz ele, aquele terrível tribunal, fazemos tudo de modo a não vos dar ocasião nem escândalo, nem qualquer falsa suspeita de má prática contra nós. Vede a rigidez de vida e o zelo de uma alma vigilante? "Pois não somente estamos sujeitos à acusação", diz ele, "se cometemos algum ato mau; mas, ainda que não o cometamos, somos suspeitados, e, tendo em nosso poder repelir a suspeita, a enfrentamos, somos punidos."
É por conhecer o juízo que há de vir que Paulo faz tudo quanto pode para evitar dar escândalo em seu ministério aos Coríntios.
Vede como ele continuamente afasta a suspeita de parecer louvar-se a si mesmo. Pois nada é tão ofensivo aos ouvintes quanto o dizer alguém grandes e admiráveis coisas a respeito de si próprio. Visto, pois, que foi compelido, naquilo que dizia, a recair sobre este assunto, ele emprega um corretivo, dizendo: "fazemos isto por vossa causa, não pela nossa, para que tenhais algo de que vos gloriar, e não para que nós o tenhamos." E nem mesmo isto absolutamente, mas por causa dos falsos Apóstolos. Por isso também acrescentou: Para que tenhais resposta aos que se gloriam na aparência, e não no coração. Vedes como ele os separou daqueles, e os atraiu para si mesmo, tendo mostrado que os próprios coríntios anseiam por obter alguma ocasião pela qual possam ter em seu poder falar em favor deles e defendê-los perante os seus acusadores? Pois, diz ele, "dizemos estas coisas não para que nos gloriemos, mas para que tenhais de que falar livremente em nosso favor" — o que é linguagem de quem testemunha o grande amor deles: "e não para que vos glorieis simplesmente, mas para que não sejais desviados." Mas isto ele não diz explicitamente, e antes conduz suas palavras de outro modo e em forma mais branda, e sem os ferir com um golpe, dizendo:
Para que tenhais algo de que vos gloriar diante dos que se gloriam na aparência. Mas nem mesmo isto ele lhes ordena que façam absolutamente, quando não há causa alguma, mas quando eles se exaltam a si mesmos; pois em todas as coisas ele busca a ocasião conveniente. Não faz, pois, isto para mostrar-se a si mesmo ilustre, mas para deter aqueles homens que usavam a coisa impropriamente e em prejuízo destes. Mas o que é na aparência? No que se vê, no que é para exibição. Pois tais eram eles, fazendo tudo por amor à honra, ao passo que eram vazios interiormente e traziam, com efeito, uma aparência de piedade e de aspecto venerável, mas de boas obras estavam destituídos.
Preocupa-se Paulo em evitar dar a impressão de que se louva a si mesmo. Nada seria mais ofensivo aos seus ouvintes do que isto. Visto que foi forçado a defender-se, insiste ele em que o faz por causa deles, e não para glória própria. O seu principal propósito era deter aqueles que abusavam de sua posição, causando com isso dano à igreja.
E se, diz ele, proferimos alguma grande coisa (pois é isto o que ele aqui chama de estar fora de si, como também em outros lugares o chama de loucura — 2Coríntios 11:1,17,21), por causa de Deus fazemos isto, para que não venhais, julgando-nos desprezíveis, a desprezar-nos e a perecer; ou se, ao contrário, dizemos alguma coisa modesta e humilde, é por vossa causa, para que aprendais a ser humildes de mente. Ou então, ainda, quer ele dizer isto: se alguém pensa que somos loucos, buscamos a nossa recompensa em Deus, por cuja causa somos tidos nesta suspeita; mas se alguém nos julga sóbrios, que colha ele o proveito da nossa sobriedade. E ainda de outro modo. Diz alguém que somos loucos? Por causa de Deus é que somos deste modo loucos.
O que Paulo quer dizer é que, ainda que alguns o julguem louco, tudo quanto ele faz é para a glória de Deus.
"Pois não somente o temor das coisas futuras", diz ele, "mas também aquelas que já sucederam não nos permitem ser indolentes nem adormecer; antes nos incitam e nos impelem a estes nossos trabalhos em vosso favor." E quais são estas coisas que já sucederam?
Que se um morreu por todos, logo todos morreram. "Certamente, pois, foi porque todos estavam perdidos", diz ele. Pois, se todos não estivessem mortos, Ele não teria morrido por todos. Porquanto aqui existem as ocasiões da salvação; mas ali já não se encontram mais. Por isso, diz ele, o amor de Deus nos constrange, e não nos permite estar em repouso. Pois é de extrema miséria, e pior que o próprio inferno, que, tendo Ele proposto um ato tão poderoso, se encontre alguém que, depois de tão grande prova de Sua providente solicitude, não colha benefício algum. Pois grande foi o excesso daquele amor, tanto em morrer por um mundo de tal extensão, como em morrer por ele quando estava em tal estado.
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Tudo isto, com efeito, tinha em mente o bem-aventurado Paulo, aquele fervoroso amante de Cristo que, qual ave alada, percorreu o mundo inteiro… Vede sua retidão, vede o grau extraordinário de sua virtude, vede seu fervoroso amor. "O amor de Cristo", diz ele, "nos constrange", isto é, nos urge, nos impele, nos coage. Depois, querendo explicar o que havia dito, afirma: "convencidos disto, que se um morreu por todos, logo todos morreram; e ele morreu por todos, para que os que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou." Vedes quão apropriado lhe foi dizer: "O amor de Cristo nos constrange"? Está ele dizendo, com efeito, que, se morreu por causa de todos nós, morreu com o propósito de que nós, os viventes, já não vivamos para nós mesmos, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou. Portanto, atentemos à exortação apostólica, não vivendo para nós mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por nós.
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Se, portanto, não devemos viver para nós mesmos, "não vos perturbeis", diz ele, "nem vos confundais quando os perigos e as mortes vos assaltarem." E acrescenta ainda um argumento indubitável, pelo qual mostra que a coisa é uma dívida. Pois se por Ele vivemos nós que estávamos mortos, para com Ele devemos viver, por meio de quem vivemos. E o que se diz parece ser uma só coisa, mas se alguém a examinar com exatidão, são duas: uma, que vivemos por Ele; outra, que Ele morreu por nós — qualquer destas, ainda que só por si, bastaria para nos tornar devedores; mas quando ambas se unem, considerai quão grande é a dívida. Antes, há aqui três coisas. Pois também as primícias por vossa causa Ele ressuscitou e conduziu ao céu; por isso também acrescentou: que por nós morreu e ressuscitou.
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O que Paulo diz aqui parece ser uma só coisa, mas, se se observar com atenção, ver-se-á que são duas. Primeiro, vivemos por causa de Cristo. Segundo, Cristo morreu por nós. Cada uma destas, por si só, bastaria para nos tornar devedores a Ele; mas, tomadas em conjunto, nossa dívida é imensa. Na verdade, poderíamos ainda dizer que aqui há três coisas, porquanto foi por nossa causa que Ele ressuscitou e levou consigo ao céu as primícias da ressurreição.
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Por isso, doravante a ninguém conhecemos segundo a carne.
Pois, se todos morreram e todos ressuscitaram; e morreram de tal modo que a tirania do pecado os condenava, mas ressuscitaram pelo lavacro da regeneração e pela renovação do Espírito Santo (Tt 3,5), com razão diz: a nenhum dos fiéis conhecemos segundo a carne. Pois, que importa se ainda estão na carne? Todavia essa vida carnal está destruída, e nós renascemos pelo Espírito, e aprendemos outro porte, outra norma, outra vida e outra condição, a saber, aquela que é dos céus. E, de novo, mostra que Cristo mesmo é o Autor disso. Por isso também acrescentou:
Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora, todavia, já não o conhecemos assim.
Que, pois? Dize-me: acaso ele depôs a carne, e não está agora com aquele corpo? Longe tal pensamento, pois ainda agora está revestido de carne; pois este Jesus, que dentre vós foi assunto ao Céu, assim virá. Como assim? Em carne, com o seu corpo. Como, pois, diz: Ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora, todavia, não mais? (At 1,11) Pois em nós, de fato, segundo a carne é estar em pecados, e não segundo a carne é não estar em pecados; mas em Cristo, segundo a carne é estar sujeito às afecções da natureza, tais como sede, fome, cansaço, sono. Pois ele não cometeu pecado, nem se achou engano em sua boca (1Pd 2,22). Por isso também disse: Quem dentre vós me convence de pecado? (Jo 8,46), e ainda: Vem o príncipe deste mundo, e nada tem em mim (Jo 14,30). E não segundo a carne é estar doravante livre até mesmo dessas coisas, não o estar sem carne. Pois com esta também virá a julgar o mundo, sendo ele impassível e puro. Ao que também nós havemos de progredir, quando o nosso corpo for configurado ao seu corpo glorioso (Fp 3,21).
Ainda que os fiéis estejam ainda em seus corpos terrenos, não nos relacionamos com eles dessa maneira, porque a vida segundo a carne foi transcendida. Renascemos pelo Espírito e aprendemos outra sorte de comportamento, que é o dos céus. É Cristo quem operou esta mudança. Houve tempo em que o conhecemos em sua vida terrena, mas agora o conhecemos na perfeição de sua ressurreição.
Vedes, pois, por que razão a fé em Cristo e o retorno à virtude são chamados nova criação? Exorto-vos, portanto, tanto a vós que já fostes anteriormente iniciados quanto a vós que agora mesmo desfrutastes da generosidade do Senhor, que todos escutemos a exortação do apóstolo, o qual nos diz: "As coisas antigas passaram; eis que se fizeram novas todas as coisas." Esqueçamos todo o passado e, como cidadãos de um mundo novo, reformemos nossa vida, e consideremos em cada palavra e em cada obra nossa a dignidade daquele que habita em nós.
Ouvistes hoje que o bem-aventurado Paulo... nos disse em sua carta aos Coríntios: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura." Para que não interpretássemos o texto como referindo-se a uma criação visível, afirmou: "Se alguém está em Cristo," ensinando-nos que, se alguém passou para o lado daqueles que creem em Cristo, este é exemplo de nova criatura. Dizei-me: se víssemos novos céus e outras porções de sua criação, haveria nisso proveito que se igualasse ao benefício que auferimos ao ver um homem convertido do mal à virtude e passando do lado do erro para o da verdade? Isto é o que o bem-aventurado Paulo chamou de nova criatura, e por isso, logo em seguida, acrescentou: "As coisas antigas passaram; eis que se fizeram novas todas as coisas!" Com isto mostrou brevemente que aqueles que, pela fé em Cristo, haviam despojado, como manto velho, o fardo de seus pecados, aqueles que haviam sido libertos de seu erro e iluminados pela luz da justificação, haviam revestido este manto novo e resplandecente, esta veste régia. Por isso disse: "Se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas passaram; eis que se fizeram novas todas as coisas."
Devemos viver para Cristo não somente porque a Ele pertencemos, não somente porque Ele morreu por nós, nem somente porque ressuscitou em nosso favor. Devemos viver para Ele porque fomos transformados em algo diverso. Temos agora uma vida nova. As coisas antigas que passaram referem-se a nossos pecados e à nossa impiedade, bem como a todas as observâncias do judaísmo.
Pois, tendo já exortado à virtude a partir de Seu amor, ele agora os conduz a isto a partir daquilo que de fato foi feito por eles; por isso acrescentou: Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Se alguém, diz ele, creu Nele, chegou a outra criação, porquanto foi regenerado pelo Espírito. De modo que, também por esta razão, diz ele, devemos viver para Ele, não somente porque não somos de nós mesmos, nem somente porque Ele morreu por nós, nem somente porque ressuscitou nossas Primícias, mas porque também chegamos a outra vida. Vede quantos justos fundamentos ele aduz para uma vida de virtude. Por isso mesmo chama a reforma por um nome mais veemente, a fim de mostrar que a transição e a mudança são grandes. Depois, prosseguindo no que havia dito, e mostrando como é uma nova criação, acrescenta: As coisas antigas passaram; eis que todas as coisas se fizeram novas.
Que coisas antigas? Refere-se ou aos pecados e às impiedades, ou então a todas as observâncias judaicas. Ou antes, refere-se tanto a umas quanto a outras. Eis que todas as coisas se fizeram novas.
Mas todas as coisas provêm de Deus.
Nada de nós mesmos. Pois a remissão dos pecados, a adoção e a glória inefável nos são dadas por Ele. Pois já não os exorta somente a partir das coisas futuras, mas também a partir das presentes. Considerai, com efeito: disse que seremos ressuscitados, e passaremos à incorruptibilidade, e teremos uma morada eterna; mas, visto que as coisas presentes têm mais força persuasiva que as futuras para com aqueles que não creem nestas como deveriam crer, mostra quão grandes coisas já receberam, e sendo eles mesmos o quê. Sendo, pois, o quê, as receberam? Todos mortos (pois diz: todos morreram; e: Ele morreu por todos; de tal modo os amou a todos igualmente); todos inveterados e envelhecidos em seus vícios. Mas eis que receberam tanto uma alma nova (pois foi purificada) quanto um corpo novo, e um culto novo, e promessas novas, e aliança, e vida, e mesa, e vestimenta, e absolutamente todas as coisas novas. Pois, em vez da Jerusalém de baixo, recebemos aquela cidade-mãe que está no alto (Gl 4,26); e, em vez de um templo material, vimos um templo espiritual; em vez de tábuas de pedra, tábuas de carne; em vez da circuncisão, o batismo; em vez do maná, o corpo do Senhor; em vez da água da rocha, o sangue de Seu lado; em vez da vara de Moisés ou de Arão, a Cruz; em vez da terra prometida, o reino dos céus; em vez de mil sacerdotes, Um Só Sumo Sacerdote; em vez de um cordeiro irracional, um Cordeiro Espiritual. Tendo em mente estas e semelhantes coisas, disse: todas as coisas se fizeram novas. Mas todas estas coisas provêm de Deus, por Cristo, e de Seu dom gratuito. Por isso também acrescentou:
Que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação.
Pois dEle provêm todos os bens. Porquanto Aquele que nos fez amigos é também Ele mesmo a causa das demais coisas que Deus deu a Seus amigos. Pois não nos concedeu estas coisas deixando-nos permanecer inimigos, mas tendo-nos feito amigos para consigo. Mas, quando digo que Cristo é a causa de nossa reconciliação, digo também que o Pai o é; quando digo que o Pai deu, digo também que o Filho deu. Pois todas as coisas foram feitas por Ele (Jo 1,3), e Ele é também o Autor desta. Pois não corremos nós até Ele, mas Ele mesmo nos chamou. Como nos chamou? Pelo sacrifício de Cristo.
E nos deu o ministério da reconciliação.
Aqui, uma vez mais, expõe a dignidade dos Apóstolos, mostrando quão grande coisa lhes foi confiada às mãos, e a grandeza soberana do amor de Deus. Pois, mesmo quando não quiseram ouvir o Embaixador que viera, Ele não se exasperou nem os abandonou a si mesmos, mas continua a exortá-los, tanto em Sua própria pessoa quanto por meio de outros. Quem poderá admirar-se condignamente desta solicitude? O Filho, que veio para reconciliar, Seu Verdadeiro e Unigênito, foi morto, e nem ainda assim o Pai se afastou de Seus assassinos; nem disse: Enviei Meu Filho como Embaixador, mas eles não somente não quiseram ouvi-Lo, como até O mataram e crucificaram, convém doravante abandoná-los a si mesmos; mas, muito ao contrário, quando o Filho partiu, confiou-nos o encargo; pois diz: deu-nos o ministério da reconciliação.
Quando digo que Cristo é a causa de nossa reconciliação, digo também que o Pai o é. Quando digo que o Pai deu, entendo que também o Filho deu.
5. Isto é, que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, não lhes imputando as suas transgressões.
Vedes um amor que ultrapassa toda expressão, toda concepção? Quem foi o ofendido? Ele mesmo. Quem primeiro buscou a reconciliação? Ele mesmo. "E contudo", dirá alguém, "enviou o Filho, Ele mesmo não veio." O Filho, de fato, foi quem enviou; contudo não foi Ele só quem suplicou, mas também com Ele e por Ele o Pai; por isso disse que Deus estava reconciliando o mundo consigo mesmo em Cristo, isto é, por Cristo. Pois, havendo dito: Que nos deu o ministério da reconciliação, usa aqui de uma correção, dizendo: Não penseis que agimos por autoridade própria neste negócio: somos ministros; e Aquele que realiza tudo é Deus, que reconciliou o mundo pelo Unigênito. E como o reconciliou consigo mesmo? Pois nisto está a maravilha, não em que se tornasse apenas amigo, mas amigo por este modo. Este modo? Qual modo? Perdoando-lhes os pecados; pois de nenhum outro modo era possível. Por isso acrescentou também: Não lhes imputando as suas transgressões. Pois se Lhe aprouvesse pedir conta das coisas em que transgredimos, todos pereceríamos; porque todos morreram. Mas, não obstante serem tão grandes os nossos pecados, não só não exigiu satisfação, como ainda se reconciliou; não só perdoou, como nem sequer imputou. Assim devemos nós também perdoar aos nossos inimigos, para que também nós alcancemos igual perdão.
E nos confiou a palavra da reconciliação.
Pois não viemos agora exercer nenhum ofício odioso, mas tornar todos os homens amigos de Deus. Pois Ele diz: "Já que não se persuadiram por Mim, continuai vós a rogar até que os tenhais persuadido."
Podeis ver quão grande é o amor de Deus por nós? Quem foi a parte ofendida? Ele o foi. Quem deu os primeiros passos rumo à reconciliação? Ele os deu. Dirão alguns que enviou o Filho em seu lugar, mas isto é um equívoco. Cristo não veio apartado do Pai que O enviou. Ambos estiveram juntamente envolvidos na obra da reconciliação.
Vedes como engrandeceu a coisa, introduzindo assim a Cristo sob a forma de um suplicante; ou antes, não somente a Cristo, mas até mesmo o Pai? Pois o que ele diz é isto: "O Pai enviou o Filho para suplicar, e para ser seu Embaixador junto à humanidade. Depois, quando Ele foi morto e partiu, sucedemos nós à embaixada; e em lugar dEle e do Pai vos suplicamos. Tanto preza Ele a humanidade que entregou até mesmo o Filho, e isso sabendo que seria morto, e nos fez Apóstolos por vossa causa; de modo que disse com razão: Todas as coisas são por vossa causa. Somos, pois, embaixadores em nome de Cristo, isto é, em lugar de Cristo; pois sucedemos às suas funções." Mas, se isto vos parece grande coisa, ouvi também o que se segue, em que mostra que fazem isto não somente em lugar dEle, mas também em lugar do Pai. Por isso acrescentou também: Como se Deus rogasse por nós. "Pois não é só pelo próprio Filho que Ele suplica, mas também por nós, que sucedemos ao ofício do Filho. Não penseis, pois", diz ele, "que sois vós rogados por nós; o próprio Cristo, o próprio Pai de Cristo, vos suplica por nosso intermédio. Que poderá igualar-se a este excesso [de bondade]? Foi ultrajado Aquele que conferira inúmeros benefícios; e, tendo sido ultrajado, não só não exigiu justiça, como ainda deu seu Filho para que fôssemos reconciliados. Os que O receberam não se reconciliaram, mas antes O mataram. De novo, enviou outros embaixadores a suplicar, e, embora estes sejam enviados, é Ele mesmo quem roga. E que roga Ele? Reconciliai-vos com Deus. E não disse: 'Reconciliai Deus convosco'; pois não é Ele que guarda inimizade, mas vós; porque Deus jamais guarda inimizade. Urgindo ainda a sua causa, como um embaixador em sua missão,
Os apóstolos são embaixadores por Cristo, porque sucederam ao seu ministério. E não somente ao seu, pois representam também o Pai.
Deus permitiu que seu Filho sofresse como se fosse um pecador condenado, para que fôssemos libertados da pena de nossos pecados. Esta é a justiça de Deus: que não somos justificados pelas obras (pois então elas teriam de ser perfeitas, o que é impossível), mas pela graça, caso em que todo o nosso pecado é removido.
Nada digo do que precedeu, que ultrajastes a Ele, a Ele que nenhum mal vos fizera, a Ele que vos fizera bem, que Ele não exigiu justiça, que Ele é o primeiro a suplicar, embora tenha sido o primeiro a ser ultrajado; nenhuma destas coisas se ponha agora em conta. Não deveríeis, por justiça, reconciliar-vos ao menos por esta única coisa que Ele agora vos fez? E que fez Ele? A Ele que não conheceu pecado, fê-lo pecado, por vós. Pois, ainda que nada mais tivesse realizado senão isto somente, considerai quão grande coisa seria dar o seu Filho por aqueles que O haviam ultrajado. Mas agora Ele não só realizou grandes façanhas, como além disso permitiu que Aquele que nenhum mal fizera fosse castigado por aqueles que o mal haviam feito. Mas ele não disse isto; antes mencionou algo muito maior que isto. Que é, pois, isto? A Ele que não conheceu pecado, diz ele, a Ele que era a própria justiça, fê-lo pecado, isto é, permitiu que, como pecador, fosse condenado, e que, como maldito, morresse. Pois maldito é todo aquele que é pendurado no madeiro (Gl 3.13). Pois morrer assim era muito mais grave que morrer; e isto também ele dá a entender alhures, quando diz: Fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8). Pois esta morte trazia consigo não só castigo, mas também ignomínia. Considerai, pois, quão grandes coisas Ele vos concedeu. Pois grande coisa seria já que um pecador morresse por outrem, seja ele quem for; mas quando Aquele que isto sofre é, ao mesmo tempo, justo e morre pelos pecadores; e não somente morre, mas morre como maldito; e não somente morre como maldito, mas por isso mesmo nos outorga gratuitamente aqueles grandes bens que jamais esperávamos (pois diz ele, para que nos tornássemos a justiça de Deus nEle); que palavras, que pensamento serão suficientes para conceber estas coisas? "Ao justo", diz ele, "fê-lo pecador, para que os pecadores fizesse justos." Ou antes, nem sequer disse isto, mas algo muito maior; pois a palavra que empregou não designa o hábito, mas a própria qualidade. Pois não disse que o fez pecador, mas pecado; nem disse apenas "Aquele que não pecara", mas "que nem sequer conhecera o pecado"; para que nós também nos tornássemos, não disse "justos", mas justiça, e justiça de Deus. Pois esta é a justiça de Deus quando somos justificados não pelas obras (caso em que seria necessário que nem sequer uma mácula se encontrasse), mas pela graça, caso em que todo pecado é abolido. E isto, ao mesmo tempo que não permite que nos ensoberbeçamos (visto que tudo é dádiva gratuita de Deus), ensina-nos também a grandeza daquilo que nos foi dado. Pois aquela que existia antes era justiça da Lei e das obras, mas esta é a justiça de Deus.
Reflitamos, pois, sobre estas coisas, e temamos estas palavras mais que o inferno; reverenciemos o que elas significam mais que o reino, e não julguemos penoso ser castigados, mas pecar. Pois, ainda que Ele não nos castigasse, deveríamos nós mesmos tomar vingança contra nós, que fomos tão ingratos para com o nosso Benfeitor. Ora, aquele que tem um objeto de afeição, muitas vezes chega a matar-se, quando malogrado em seu amor; e mesmo tendo sido bem-sucedido, se cometeu alguma falta contra ela, não julga digno sequer continuar a viver; e nós, quando ultrajamos Aquele que é tão amoroso e manso, não haveremos de lançar-nos ao fogo do inferno? Direi algo estranho, e admirável, e para muitos talvez incrível? Para aquele que tem entendimento e ama o Senhor como convém amá-Lo, haverá maior consolo em ser castigado depois de ter provocado Àquele tão amoroso, do que em não ser castigado. E isto se pode ver pela prática comum. Pois aquele que ofendeu o seu amigo mais querido sente então o maior alívio, quando toma vingança contra si mesmo e sofre o mal. E assim disse Davi: Eu, o pastor, pequei, e eu, o pastor, procedi mal; e estes, o rebanho, que fizeram eles? Esteja a Tua mão sobre mim, e sobre a casa de meu pai (2 Sm 24,17, Septuaginta). E quando perdeu Absalão, exerceu contra si mesmo a mais extrema vingança, ainda que não fosse ele o ofensor, mas o ofendido; mas, contudo, porque amava excessivamente o falecido, atormentou-se de angústia, consolando-se desta maneira. Tomemos, pois, também nós, quando pecamos contra Aquele contra Quem não devêramos pecar, vingança contra nós mesmos. Não vedes aqueles que perderam filhos legítimos, como se golpeiam e arrancam os cabelos, porque castigar-se a si mesmos por causa daqueles a quem amaram traz consigo consolo? Mas se, quando não causamos dano algum aos que nos são mais caros, sofrer por causa do que lhes sucedeu traz consolação; quando nós mesmos somos as pessoas que provocaram e ofenderam, não será antes um alívio para nós sofrer a pena, e não nos castigará antes o ficarmos impunes? Cada um, de certo modo, verá isto. Se alguém ama a Cristo como convém amá-Lo, sabe o que digo; como, mesmo quando Ele perdoa, não suportará ficar impune; pois padeceis o mais severo castigo em tê-Lo provocado. E sei, na verdade, que estou dizendo o que não será crido por muitos; mas, contudo, é assim como disse. Se, pois, amamos a Cristo como convém amá-Lo, castigaremos a nós mesmos quando pecarmos. Pois para os que amam a quem quer que seja, não é desagradável sofrer algo por tê-los provocado; mas, sobretudo, é desagradável tê-los provocado. E se este último, irado, não castiga, atormentou ainda mais o que o ama; mas se exige satisfação, antes o consolou. Não temamos, pois, o inferno, mas ofender a Deus; pois isto é mais grave do que aquilo, quando Ele Se aparta em ira: isto é pior que tudo, isto mais pesado que tudo. E, para que aprendais o que é tal coisa, considerai isto que digo.
Segundo alguém que fosse ele mesmo rei, e vendo um salteador e malfeitor sob castigo, entregasse à morte seu filho bem-amado, unigênito e verdadeiro, para ser trespassado; e transferisse dele para o filho tanto a morte quanto a própria culpa (não sendo o filho tal em caráter), a fim de salvar o condenado e livrá-lo de sua má fama; e depois, tendo-o promovido a grande dignidade, fosse ainda, após assim o salvar e elevá-lo àquela glória inefável, ultrajado pela própria pessoa que recebera tal benefício: não escolheria esse homem, se tivesse algum juízo, dez mil mortes antes que parecer culpado de tamanha ingratidão? Consideremos, pois, isto também agora entre nós mesmos, e gememos amargamente pelas provocações que oferecemos ao nosso Benfeitor; e não presumamos, por isso, que, mesmo ultrajado, Ele o suporte com longanimidade; antes, precisamente por isto, encham-se de contrição. Pois também entre os homens, quando alguém que foi ferido na face direita oferece também a esquerda, mais vinga a si mesmo do que se desferisse dez mil golpes; e quando alguém que foi injuriado não somente não retribui a injúria, mas ainda abençoa, feriu mais gravemente o adversário do que se sobre ele derramasse dez mil impropérios. Ora, se entre os homens nos envergonhamos quando, ao lançarmos insultos, encontramos longanimidade em resposta, muito mais, no que se refere a Deus, devem temer aqueles que persistem continuamente em pecar e, todavia, não sofrem nenhuma calamidade. Pois é para mal de suas próprias cabeças que se acumula o inefável castigo que lhes está reservado. Tendo, pois, isto em mente, temamos sobretudo o pecado; pois este é o castigo, este é o inferno, estes são dez mil males. E não somente o temamos, mas também dele fujamos, e nos esforcemos por agradar continuamente a Deus; pois isto é o reino, isto é a vida, estes são dez mil bens. Assim obteremos também já aqui, desde agora, o reino e os bens que hão de vir; aos quais possamos todos alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo; com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder, honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo diz aos seus ouvintes que não devem relaxar apenas porque Deus os buscou e os enviou como embaixadores. Pelo contrário, é precisamente por essa razão que devemos apressar-nos a agradar-Lhe e a colher as nossas bênçãos espirituais.
Since He said God beseeches, e nós somos embaixadores e suplicantes junto a vós, que vos reconcilieis com Deus, para que não se tornassem indolentes, ele novamente os alarma e os desperta, dizendo: Suplicamos que não recebais a graça de Deus em vão. "Não fiquemos, portanto", diz ele, "à vontade, porque Ele suplica e enviou alguns como embaixadores; antes, por essa mesma razão, apressemo-nos a agradar a Deus e a recolher mercadoria espiritual" — como também disse acima, O amor de Deus nos constrange (2 Cor 5:14), isto é, nos pressiona, nos impele, nos urge — "para que não venhais, depois de tanto cuidado afetuoso, por sereis indolentes e não exibirdes nenhuma nobreza, a perder tão grandes bênçãos. Não penseis, portanto, que, porque Ele enviou alguns para exortar-vos, isso será assim para sempre. Assim será até a Sua segunda vinda; até então Ele suplica, enquanto estamos aqui; mas depois disso vem o juízo e o castigo." Por isso, diz ele, somos constrangidos.
Pois não apenas a partir da grandeza das bênçãos e da Sua benignidade, mas também a partir da brevidade do tempo, ele os urge continuamente. Por isso diz também noutro lugar: Pois agora a nossa salvação está mais perto (Rom 13:11). E novamente: O Senhor está próximo (Fp 4:5). Mas aqui ele faz algo ainda mais. Pois não a partir do fato de que o restante do tempo é curto e pouco, mas também a partir de ser esta a única estação disponível para a salvação, ele os incitava.
Pois, Eis, diz ele, agora é o tempo aceitável; eis, agora é o dia da salvação. Não deixemos, portanto, escapar a oportunidade favorável, mas exibamos um zelo digno da graça. Por isso é que também nós avançamos com pressa, conhecendo tanto a brevidade quanto a conveniência do tempo. Por isso também disse: E cooperando, também suplicamos. Cooperando convosco; "pois cooperamos convosco, antes que com Deus, de Quem somos embaixadores. Pois Ele não necessita de nada, mas toda a salvação recai sobre vós." Mas se é até mesmo com Deus que ele fala de cooperar, ele não repudia sequer esta [interpretação]; pois diz noutro lugar, somos cooperadores de Deus (1 Cor 3:9): desta maneira, diz ele, para salvar os homens. Novamente, Também suplicamos. Pois Ele, na verdade, quando suplica, não suplica meramente, mas expõe estas Suas justas reivindicações; a saber, que deu o Seu Filho, o Justo que nem sequer conheceu o pecado, e O fez pecado por nós pecadores, para que nos tornássemos justiça: tendo estas reivindicações, e sendo Deus, Ele exibiu tal bondade. Mas o que suplicamos é que recebais o benefício e não rejeiteis o dom. Sede persuadidos, portanto, por nós, e não recebais a graça em vão. Pois, para que não pensassem que isto por si só já é a reconciliação, crendo Naquele que chama, ele acrescenta estas palavras, requerendo aquele empenho que diz respeito à vida. Pois, para quem foi libertado dos pecados e feito amigo revolver-se nas coisas anteriores, é retornar novamente à inimizade, e receber a graça em vão, no que respeita à vida. Pois da graça não colhemos benefício algum para a salvação, se vivemos impuramente; antes, somos até prejudicados, tendo este maior agravante mesmo de nossos pecados, em que, depois de tal conhecimento e tal dom, retrocedemos aos nossos antigos vícios. Isto, porém, ele ainda não menciona: para que não torne áspera a sua obra, mas diz apenas que não colhemos benefício. Depois ele também recorda uma profecia, urgindo e compelindo-os a agitar-se a fim de se apoderarem da sua própria salvação.
At an acceptable time I ouvi a ti, E num dia de salvação te socorri:
eis que agora é o tempo aceitável, eis que agora é o dia da salvação.
O tempo aceitável. Que é isto? É o do Dom, o da Graça, quando se determina que não se exija conta de nossos pecados, nem se cobre pena; mas que, além de sermos libertados, gozemos ainda de miríades de bens, a justiça, a santificação, e tudo o mais. Pois quanto trabalho não nos teria convindo suportar para obter este tempo! Mas eis que, sem trabalharmos coisa alguma, ele veio, trazendo a remissão de tudo quanto havia antes. Por isso também O chama de aceitável, porque acolheu os que haviam transgredido em miríades de coisas, e não apenas os acolheu, mas os promoveu à mais alta honra; assim como, quando um monarca chega, não é tempo de julgamento, mas de graça e perdão. Por isso também O chama de aceitável. Enquanto, pois, ainda estamos na arena, enquanto trabalhamos na vinha, enquanto nos resta a undécima hora, aproximemo-nos e manifestemos a vida; pois isto também é fácil. Pois aquele que se esforça pela vitória em tal tempo, quando tão grande dom foi derramado, quando tão grande graça, cedo obterá os prêmios. Pois também no caso dos monarcas aqui de baixo, no tempo de suas festas, e quando aparecem com o traje de cônsules, aquele que traz uma pequena oferta recebe grandes dádivas; mas nos dias em que se assentam para julgar, muito rigor, muito escrutínio se requer. Esforcemo-nos, pois, também nós pela vitória no tempo deste dom. É um dia de graça, de graça divina; por isso, com facilidade também nós obteremos a coroa. Pois se, quando estávamos carregados de tão grandes males, Ele nos acolheu e nos libertou, quando já libertados de tudo e contribuindo com nossa parte, não nos acolherá Ele antes ainda mais?
2. Depois, como é seu costume constante, a saber, colocar-se diante deles e ordenar-lhes que dali tomem seu exemplo, assim ele faz também neste lugar.
Não deixemos escapar a oportunidade, mas antes manifestemos um zelo digno da Sua graça. Avançamos porque sabemos que o tempo é breve e propício. O tempo aceitável é o tempo do dom, o tempo da graça, quando está decretado que não somente não nos será exigida conta dos nossos pecados, mas também que gozaremos de bênçãos abundantes, justiça, santificação e tudo o mais.
Não dando ocasião de tropeço, para que o nosso ministério não seja censurado, persuadindo-os não apenas a considerar o tempo, mas também aqueles que com êxito trabalharam juntamente com eles. E vede com que ausência de soberba. Pois não disse: "Vede como somos tais e tais", mas, por ora, é somente para afastar a acusação que relata a sua própria conduta. E menciona dois pontos capitais de uma vida irrepreensível: em nada. E não disse "acusação", mas, o que era bem menos, ocasião de tropeço; isto é, não dando a ninguém motivo contra nós para censura, para condenação, para que o nosso ministério não seja censurado; isto é, para que ninguém se apodere dele. E de novo, não disse "para que não seja acusado", mas para que não tenha a mínima falha, nem alguém tenha em seu poder reprová-lo em coisa alguma.
Uma coisa é estar livre de acusação, mas coisa bem maior é aparecer como servos de Deus. Ser absolvido de toda acusação não é, de modo algum, tão grandioso quanto ser coberto de louvor.
Isto é muito mais excelente. Pois não é a mesma coisa estar isento de acusação e exibir tal caráter que em tudo se manifeste como ministros de Deus. Nem tampouco é a mesma coisa livrar-se da acusação e ser coberto de louvores. E não disse "manifestando-se", mas "recomendando-nos", isto é, "provando-nos". Depois menciona também de onde se tornaram tais. De onde, pois, procedia isto? Em muita paciência, diz ele, lançando o fundamento daqueles bens. Por isso não disse simplesmente paciência, mas muita, e mostra também quão grande ela era. Pois suportar uma ou duas coisas não é grande feito. Mas acrescenta até nevascas de provações nas palavras: em aflições, em necessidades. Isto é uma intensificação da aflição, quando os males são inevitáveis e pesa sobre alguém, por assim dizer, uma necessidade de infortúnio dificilmente contornável. Em angústias. Ou ele se refere àquelas de fome e de outras necessidades, ou então simplesmente às de suas provações.
Qualquer uma destas coisas, tomada por si, é intolerável; mas, tomadas em conjunto, considerai que espécie de alma é necessária para suportá-las. Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Em açoites, em prisões, em tumultos.
Contudo, cada uma destas coisas em si mesma era intolerável: ser açoitado somente, ser preso somente, e ser incapaz, por causa da perseguição, de permanecer fixo em lugar algum (pois é isto que se entende por "tumultos"); mas quando todas juntas, e todas ao mesmo tempo, o assaltam, considerai que espécie de alma elas requerem. Em seguida, junto às coisas de fora, menciona aquelas impostas por si mesmo.
Em trabalhos, em vigílias, em jejuns; em pureza.
Mas por pureza aqui entende ele, ou novamente a castidade, ou a pureza geral, ou a incorruptibilidade, ou ainda o pregar o Evangelho gratuitamente.
Em conhecimento. Que é "em conhecimento"? Na sabedoria tal como é dada por Deus; aquela que é verdadeiramente conhecimento, não como a daqueles que parecem ser sábios e se vangloriam de sua familiaridade com a disciplina pagã, mas nesta são deficientes.
Em longanimidade, em bondade. Pois isto também é grande sinal de uma alma nobre: ainda que exasperada e aguilhoada por todos os lados, suportar tudo com longanimidade. Depois, para mostrar de onde se tornou tal, acrescentou:
No Espírito Santo. "Pois nEle", diz ele, "fazemos todas estas boas obras." Mas observai quando é que ele menciona o auxílio do Espírito Santo: depois de haver exposto o que provinha de si mesmo. Além disso, parece-me que ele diz aqui outra coisa. Que coisa é esta? A saber: "temos sido cumulados de abundância do Espírito e, com isto, damos também prova de nosso apostolado, por termos sido considerados dignos dos dons espirituais." Pois, se isto também é graça, ainda assim foi ele mesmo a causa que, por suas boas obras e seus labores, atraiu aquela graça. E se alguém afirmasse que, além do que foi dito, ele mostra que também no uso dos dons do Espírito não deu ofensa alguma, não erraria o sentido. Pois aqueles que entre eles receberam o dom das línguas e se ensoberbeceram foram censurados. Pois é possível a alguém, mesmo recebendo um dom do Espírito, não usá-lo retamente. "Mas não assim nós", diz ele, "antes também no Espírito, isto é, também nos dons, temos sido irrepreensíveis."
Em amor não fingido. Esta foi a causa de todos aqueles bens; isto o fez o que era; isto fez também que o Espírito permanecesse com ele, por cujo auxílio também todas as coisas foram por ele retamente feitas.
Por "pureza" entende Paulo ou a castidade, ou a pureza geral, ou a ausência de corrupção, ou ainda o seu pregar livremente o evangelho. Por "conhecimento" entende a sabedoria dada por Deus, que é o único verdadeiro conhecimento. Ao mencionar inesperadamente o Espírito Santo nesta enumeração, Paulo quer dizer mais do que apenas que faz tudo pelo poder do Espírito. Ele afirma aqui que o próprio Espírito lhe foi dado e que é por causa desta presença que nele habita que recebeu os dons espirituais. O "amor genuíno" foi a força motriz de todos estes bens. Foi isto que fez de Paulo o que ele era. Foi também o amor que fez o Espírito permanecer com ele, com cujo auxílio fez tudo do modo reto.
As coisas à esquerda referem-se àquelas que parecem penosas, porque são estas que trazem a recompensa.
Na palavra da verdade.
Coisa que diz em muitos lugares, que "não continuamos a manejar a palavra de Deus com engano, nem a adulterar."
No poder de Deus. Aquilo que sempre faz, não atribuindo nada a si mesmo, mas tudo a Deus, e imputando a Ele tudo quanto fez retamente, isto fez também aqui. Pois, tendo proferido grandes coisas, e afirmado que manifestara em tudo uma vida irrepreensível e uma sabedoria excelsa, atribui isto ao Espírito e a Deus. Porque não eram coisas triviais as que dissera. Pois se é coisa difícil mesmo para quem vive em quietude agir retamente e ser irrepreensível, considera aquele que era assediado por tão grandes tentações, e que, contudo, resplandeceu através de todas elas, de que espírito era ele dotado! E, no entanto, não suportou apenas estas coisas, mas ainda muito mais do que estas, como menciona a seguir. E o que é, de fato, admirável não é que fosse irrepreensível ainda que navegando em ondas tão poderosas, nem que suportasse tudo nobremente, mas que suportasse tudo até com prazer. O que tudo nos torna claro pelas palavras seguintes, dizendo:
Pelas armas da justiça à direita e à esquerda.
3. Vedes o domínio de sua alma e o vigor de seu espírito bem temperado? Pois mostra que as aflições são armas não apenas que não derrubam, mas que ainda fortificam e tornam mais forte. E chama de "esquerda" àquelas coisas que parecem penosas; pois tais são as que trazem consigo a recompensa. Por que, pois, as chama assim? Ou em conformidade com a concepção da generalidade, ou porque Deus nos ordenou orar para que não entremos em tentação.
Que dizes tu? Que desfrutas de honra, e reputas isto coisa grande? "Sim", diz ele. Por quê, na verdade? Pois suportar a desonra é, de fato, coisa grande, mas participar da honra não requer alma vigorosa. Antes, requer alma vigorosa e sobremaneira grande, para que aquele que dela desfruta não seja lançado ao chão e quebre o pescoço. Por isso se gloria tanto nesta quanto naquela, pois em ambas resplandeceu igualmente. Mas como é isto arma de justiça? Porque o serem os mestres tidos em honra induz muitos à piedade. E, além disso, isto é prova de boas obras, e isto glorifica a Deus. E isto é, ademais, um exemplo da sábia disposição de Deus, o fato de que por coisas opostas Ele introduz a pregação. Pois considerai. Foi Paulo aprisionado? Também isto foi em benefício do Evangelho. Pois, diz ele, as coisas que me aconteceram redundaram em progresso do Evangelho, de modo que a maioria dos irmãos, tornados confiantes por causa de minhas prisões, são mais abundantemente ousados para falar a palavra sem temor (Fp 1,12-14). Desfrutou, por outro lado, de honra? Também isto, por sua vez, os tornou mais audazes. Por má fama e boa fama. Pois não somente suportou nobremente aquelas coisas que sucedem ao corpo — as "aflições", e tudo quanto enumerou —, mas também as que tocam a alma; pois nem estas costumam perturbar levemente. Jeremias, pelo menos, tendo suportado muitas tentações, cedeu diante destas, e, quando foi vituperado, disse: Não profetizarei, nem tampouco nomearei o nome do Senhor (Jr 20,9). Também Davi, em muitos lugares, se queixa do opróbrio. Também Isaías, depois de muitas coisas, exorta acerca disto, dizendo: Não temais o opróbrio dos homens, nem sejais vencidos pelos seus escárnios (Is 51,7, Septuaginta). E também, de novo, Cristo aos Seus discípulos: Quando disserem todo tipo de mal contra vós, falsamente, alegrai-vos e exultai sobremaneira (Mt 5,11-12), diz Ele, porque grande é a vossa recompensa nos céus. Em outro lugar diz também: E saltai de alegria (Lc 6,23). Mas Ele não teria feito a recompensa tão grande, se o combate não fosse grande. Pois nos tormentos também o corpo participa da angústia com a alma; pois a dor é tanto do corpo quanto da alma; mas aqui é somente da alma. Muitos, ao menos, caíram só por estas coisas, e perderam suas próprias almas. E também a Jó os opróbrios de seus amigos pareceram mais penosos que as chagas e os vermes. Pois não há, não há coisa mais intolerável para os que estão em aflição do que uma palavra capaz de ferir a alma. Por isso, junto aos perigos e aos trabalhos, menciona também estas coisas, dizendo: Por glória e por desonra. Ao menos, muitos dentre os judeus também, por causa da glória derivada da multidão, não quiseram crer. Pois temiam, não que fossem punidos, mas que fossem lançados fora da sinagoga. Por isso diz: Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros? (Jo 5,44). E podemos ver muitos que desprezaram, de fato, todos os perigos, mas foram vencidos pela glória.
4. Como enganadores, e contudo verdadeiros.
Isto é, por má fama e boa fama.
Pode parecer que é mais fácil suportar a honra que a desonra, mas também a honra tem seus perigos, porque aquele que dela desfruta pode ser lançado ao chão e quebrar o pescoço. Paulo, por isso, gloria-se em ambas as circunstâncias, porque em ambas resplandeceu com brilho.
Como desconhecidos, e contudo bem conhecidos. Isto é, por glória e por desonra. Pois por alguns eram bem conhecidos e muito procurados, ao passo que outros não pretendiam sequer conhecê-los.
Como morrendo, e eis que vivemos.
Como sob sentença de morte e condenados; o que era também, em si mesmo, motivo de desonra. Mas disse isto para mostrar tanto o poder inefável de Deus quanto a paciência deles próprios. Pois, no que dizia respeito aos que conspiravam contra nós, morríamos; e é isto o que todos supõem; mas pelo auxílio de Deus escapamos aos perigos. Depois, para manifestar também por que razão Deus permite estas coisas, acrescentou: Como castigados, e não mortos.
Mostrando que o proveito que lhes advinha de suas tentações, ainda antes das recompensas, era grande, e que seus inimigos, contra a própria vontade, lhes prestavam serviço.
Os que estão fora da Igreja podem julgar que estamos tristes, mas, na verdade, estamos sempre a exultar. Podemos parecer pobres, mas, na verdade, possuímos enormes riquezas, tanto espirituais quanto corporais. Como de costume, a vida cristã é o exato oposto do que parece à superfície.
Como tristes, mas sempre alegres.
Pois, aos que estão de fora, na verdade, somos tidos por suspeitos de desespero; mas não damos atenção a eles; antes, temos o nosso prazer em plenitude. E não disse apenas "alegres", mas acrescentou também a sua perpetuidade, pois diz "sempre alegres". Que coisa, então, poderia igualar-se a esta vida? Nela, ainda que assaltem perigos tão grandes, a alegria se torna maior.
Como pobres, mas enriquecendo a muitos.
Alguns, na verdade, afirmam que aqui se fala das riquezas espirituais; mas eu diria que se fala também das carnais; pois eram ricos também nestas, tendo, segundo um novo modo, as casas de todos abertas para si. E isto também ele significou pelo que se segue, dizendo,
Como nada tendo, e possuindo tudo.
E como pode isto ser? Antes, como poderia ser o contrário? Pois aquele que possui muitas coisas nada tem; e aquele que nada tem possui os bens de todos. E não somente aqui, mas também nos outros pontos, contrários eram produzidos por seus contrários. Mas se te maravilhas de como é possível a quem nada tem possuir tudo, tragamos ao meio este mesmo homem, que comandava o mundo e era senhor não somente da substância deles, mas até dos seus próprios olhos. Se possível fora, diz ele, teríeis arrancado os vossos olhos, e mos teríeis dado (Gl 4,15).
Ora, ele diz estas coisas para nos instruir a não nos perturbarmos com as opiniões da multidão, ainda que nos chamem enganadores, ainda que não nos conheçam, ainda que nos tenham por condenados e destinados à morte, por estarmos em tristeza, por estarmos em pobreza, por nada possuirmos, por estarmos (nós, que vivemos em alegria) abatidos: porquanto nem o sol é claro para o cego, nem o prazer do são é inteligível ao louco. Pois só os fiéis são juízes retos destas coisas, e não se comprazem nem se afligem com as mesmas coisas que os demais homens. Porque, se alguém que nada soubesse dos jogos visse um pugilista coberto de feridas e trazendo uma coroa, julgaria que ele padecia por causa das feridas, não compreendendo o prazer que a coroa lhe proporcionaria. E estes, pois, porque sabem o que sofremos, mas não sabem por que o sofremos, naturalmente suspeitam que não há nada além disso; pois veem, na verdade, a luta e os perigos, mas não os prêmios, nem as coroas, nem o objeto do combate. Que eram, pois, todas as coisas que Paulo possuía, quando disse: Como nada tendo, e no entanto possuindo tudo? Coisas temporais, coisas espirituais. Pois aquele a quem as cidades receberam como a um anjo, por quem teriam arrancado os próprios olhos para lhos dar (Gl 4,14-15), aquele por quem entregaram os próprios pescoços (Rm 16,4), como não tinha ele tudo quanto era deles? Mas, se quiserdes ver também o espiritual, achá-lo-eis nestas mesmas coisas sobretudo rico. Pois aquele que era tão caro ao Rei de todas as coisas, a ponto de participar mesmo de coisas inefáveis com o Senhor dos anjos (2Co 12,4), como não seria ele mais opulento que todos os homens, e não teria todas as coisas? Não de outro modo lhe estariam os demônios tão sujeitos, nem o sofrimento e a enfermidade assim fugiriam diante dele.
5. E, portanto, quando algo padecermos por causa de Cristo, não somente o suportemos nobremente, mas também nos alegremos. Se jejuamos, saltemos de júbilo como quem desfruta de deleites; se somos insultados, dancemos como se fôssemos louvados; se despendemos, sintamo-nos como quem ganha; se damos aos pobres, contemo-nos como quem recebe: pois quem não dá assim não dará prontamente. Quando, pois, tiverdes ânimo de espalhar generosamente, não olheis para isto somente na esmola, mas também em toda espécie de virtude; não computeis apenas a severidade dos labores, mas também a doçura dos prêmios; e, antes de tudo, considerai o sujeito deste combate, o nosso Senhor Jesus; e entrareis prontamente na luta, e vivereis todo o tempo em deleite. Pois nada costuma causar tanto prazer quanto uma boa consciência.
Portanto Paulo, na verdade, embora ferido todos os dias, alegrava-se e exultava; mas os homens deste tempo, ainda que não suportem nem mesmo uma sombra do que ele suportou, se afligem e fazem lamentações por nenhuma outra causa senão porque não têm um espírito repleto de filosofia celeste. Pois dize-me, por que a lamentação? Porque és pobre e careces do necessário? Certamente por isto deverias antes fazer lamentação, não porque choras, não porque és pobre, mas porque és de espírito mesquinho; não porque não tens dinheiro, mas porque prezas o dinheiro tão altamente. Paulo morria todos os dias, e contudo não chorava, mas antes se alegrava; combatia com fome contínua, e contudo não se afligia, mas antes se gloriava nisso. E tu, porque não tens armazenadas todas as provisões do ano, te afliges e te maltratas? "Sim", ele responde, "pois ele tinha de cuidar somente das suas próprias necessidades, ao passo que eu tenho, além disso, de cuidar de servos, e filhos, e esposa." Antes, ele somente não tinha de cuidar das suas próprias necessidades, mas das de todo o mundo. E tu, na verdade, cuidas de uma só casa, mas ele daqueles tão numerosos pobres em Jerusalém, dos que estavam na Macedônia, dos que em toda parte se achavam em pobreza, tanto dos que davam a eles quanto dos que recebiam. Pois o seu cuidado com o mundo era de natureza dupla, tanto para que não fossem destituídos do necessário, quanto para que fossem ricos nas coisas espirituais. E teus filhos famintos não te angustiam tanto quanto todas as preocupações dos fiéis o angustiavam a ele. Por que digo dos fiéis? Pois nem sequer estava livre do cuidado pelos infiéis, mas era de tal modo consumido por isso que desejava até tornar-se anátema por causa deles; mas tu, ainda que a fome grassasse dez mil vezes, jamais escolherias morrer por quem quer que fosse. E tu, na verdade, cuidas de uma só mulher, mas ele das Igrejas por todo o mundo. Pois diz: "A minha ansiedade por todas as Igrejas" (2 Cor 11:28). Até quando, pois, ó homem, brincas, comparando-te com Paulo, e não cessarás desta tua tão grande mesquinhez de espírito? Pois convém chorar não quando estamos na pobreza, mas quando pecamos; pois isto é digno de lamentações, assim como todas as outras coisas o são até de escárnio. "Mas", diz ele, "não é isto tudo o que me aflige; mas também que tal homem esteja no poder, enquanto eu sou desonrado e desprezado." E que é isto? Pois também o bem-aventurado Paulo parecia a muitos ser desonrado e desprezado. "Mas", diz ele, "era Paulo." Claramente, pois, não é a natureza das coisas, mas a fraqueza do teu espírito que causa o teu desânimo. Não lamentes, portanto, a tua pobreza, mas a ti mesmo que és de tal disposição; ou antes, não lamentes a ti mesmo, mas emenda-te; e não busques o dinheiro, mas persegue aquilo que torna os homens de semblante mais alegre do que milhares de dinheiro, a filosofia e a virtude. Pois onde de fato estas se encontram, ali não há dano algum na pobreza; e onde estas não se encontram, ali não há bem algum no dinheiro. Pois dize-me, que bem há quando os homens são de fato ricos, mas têm almas mendigas? Tu não lamentas a ti mesmo tanto quanto lamentas aquele homem rico, porque ele não possui a riqueza de todos. E se ele não chora como choras tu, ainda assim expõe a sua consciência, e verás os seus gemidos e as suas lamentações.
Quereis que vos mostre as vossas próprias riquezas, para que deixeis de considerar felizes aqueles que são ricos em dinheiro? Vedes este céu aqui, o sol, este astro brilhante e que resplandece ao longe, e que alegra os nossos olhos — não foi também este posto em comum para todos? E não gozam dele igualmente tanto o pobre quanto o rico? E a grinalda das estrelas e o disco da lua, não foram deixados igualmente a todos? Antes, se devo dizer algo que causa espanto, nós, os pobres, gozamos disso mais do que eles. Pois eles, na maior parte, mergulhados na embriaguez e passando o tempo em festins e sono profundo, nem sequer percebem estas coisas, estando sempre encobertos e criados na sombra; mas os pobres, mais do que quaisquer outros, gozam do deleite destes elementos. E, além disso, se atentardes para o ar que se difunde por toda parte, vereis que o pobre goza dele com maior frescor e abundância. Pois os viandantes e os lavradores gozam destes deleites mais do que os habitantes da cidade; e, novamente, dentre esses mesmos habitantes da cidade, os artesãos mais do que aqueles que se embriagam o dia inteiro. E quanto à terra, não foi também esta deixada em comum a todos? "Não", diz ele. Como assim dizeis? Dizei-me. "Porque o rico, mesmo na cidade, tendo adquirido para si vários pletros, ergue longas cercas em torno deles; e no campo separa para si muitas porções." E então? Quando as separa, goza ele sozinho delas? De modo algum, por mais que se esforce com o máximo empenho. Pois é obrigado a distribuir o fruto entre todos, e para vós ele cultiva o trigo, o vinho e o azeite, e por toda parte vos serve. E aquelas longas cercas e edifícios, depois de sua incontável despesa, de seus trabalhos e fadigas, ele os prepara para o vosso uso, recebendo de vós apenas uma pequena moeda de prata por tão grande serviço. E nos banhos e em toda parte, pode-se ver acontecer a mesma coisa: o rico, de tudo isso, goza com perfeita facilidade. E o seu gozo da terra não é maior que o vosso; pois certamente ele não enche dez estômagos, e tu enches apenas um. "Mas ele participa de manjares mais custosos?" Na verdade, isto não é grande superioridade; contudo, mesmo aqui, havemos de achar que levais vantagem. Pois este custo é por isso tido por vós como coisa invejável, porque com ele o prazer é maior. Ora, este é maior no caso do pobre; e não somente o prazer, mas também a saúde; e nisto apenas está a vantagem do rico, que ele torna a sua constituição mais débil e acumula fontes mais abundantes de enfermidade. Pois o regime do pobre é todo ordenado segundo a natureza, ao passo que o dele, por seu excesso, resulta em corrupção e doença.
6. Mas, se quereis, consideremos também esta mesma coisa por meio de um exemplo. Pois se fosse preciso acender uma fornalha, e um homem lançasse nela vestes de seda e linhos finos, muitos e inumeráveis, e assim a acendesse; e outro, lenhas de carvalho e de pinho, que vantagem teria este sobre aquele? Nenhuma, antes desvantagem. Mas quê? (Pois nada impede que voltemos a mesma ilustração de outro modo.) Se um lançasse lenhas, e outro acendesse o fogo sob corpos, junto a qual fornalha gostaríeis de estar — a das lenhas, ou a dos corpos? Evidentemente, a das lenhas. Pois esta arde naturalmente e é espetáculo agradável aos que a contemplam; ao passo que aquela, com o vapor, os sucos, a fumaça e o fedor dos ossos, afastaria a todos. Estremecestes ao ouvi-lo, e vos repugnou aquela fornalha? Semelhantes a ela são os ventres dos ricos. Pois neles se encontraria mais podridão do que naquela fornalha, e vapores fétidos, e humores imundos, porque neles, por toda parte e em cada porção, abunda a indigestão em consequência da fartura. Pois, não bastando o calor natural para a digestão de tudo, mas sendo sufocado sob o excesso, jazem fumegando por cima, e é grande o mal-estar que se produz. A que, pois, se poderiam comparar esses seus estômagos? Não vos ofendais, contudo, com o que digo; mas, se não digo a verdade, refutai-me. A que, pois, se poderiam comparar? Pois nem mesmo o que já foi dito basta para mostrar sua mísera condição. Encontrei ainda outra semelhança. Qual é, pois? Como nos esgotos, onde há acúmulo de refugo, de esterco, feno, palha, pedras, argila, ocorrem frequentes obstruções, e então a corrente de imundície transborda por cima: assim também acontece com os estômagos dessas pessoas. Pois, estando estes obstruídos por baixo, a maior parte dessas correntes perversas jorra para cima. Mas não assim com os pobres; antes, como aquelas fontes que fazem brotar correntes puras, e regam jardins e lugares de deleite, assim também são seus estômagos, puros de tais superfluidades. Mas não são assim os estômagos dos ricos, ou antes, dos que vivem no luxo; mas estão repletos de humores, fleuma, bile, sangue corrompido, catarros pútridos, e outras matérias semelhantes. Por isso, ninguém, se vive sempre no luxo, pode suportá-lo sequer por pouco tempo; mas sua vida se passará em enfermidades contínuas. Por isso, de bom grado lhes perguntaria: para que fim são dados os alimentos? Para que sejamos destruídos, ou para que sejamos nutridos? Para que adoeçamos, ou para que sejamos fortes? Para que sejamos sadios, ou para que sejamos enfermos? Evidentemente, para a nutrição — e eles os convertem em doença e enfermidade para o corpo? Mas não assim o pobre; ao contrário, por sua dieta simples adquire para si saúde, vigor e força. Não choreis, pois, por causa da pobreza, mãe da saúde, mas antes exultai nela; e, se quereis ser ricos, desprezai as riquezas. Pois isto — não o ter dinheiro, mas o não querer tê-lo — é a verdadeira opulência. Se pudermos alcançar isto, seremos aqui mais opulentos que todos os que são ricos, e ali alcançaremos os bens que hão de vir; aos quais possamos todos nós chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Diz Paulo com isto que fala aos coríntios com liberdade, como falaria a pessoas que ama. Nada retém, nada suprime. Nada há mais largo que o coração de Paulo, que amava todos os fiéis com toda a paixão que se poderia ter para com o objeto do próprio afeto.
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Tendo detalhado suas próprias provações e aflições, pois na paciência, diz ele, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, (v. 4, 5.) nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias; e tendo mostrado que essa coisa era um grande bem, pois como entristecidos, diz ele, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e contudo possuindo tudo; (2 Cor 6:10); e tendo chamado tais coisas de armadura, pois como castigados, diz ele, e não mortos; e tendo com isso representado o abundante cuidado e poder de Deus, pois diz ele, que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós; (2 Cor 4:7) e tendo relatado seus trabalhos, pois diz ele, trazemos sempre em nosso corpo a Sua morte; e que isto é uma clara demonstração da Ressurreição, pois diz ele, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal; (2 Cor 4:10) e de que coisas foi feito partícipe, e com que fora confiado, pois somos embaixadores em nome de Cristo, (2 Cor 5:20) diz ele, como se Deus exortasse por nosso intermédio; e de que coisas é ministro, a saber, não da letra, mas do Espírito; (2 Cor 3:6) e que era digno de reverência não somente por isso, mas também por suas provações, pois, Graças a Deus, diz ele, que sempre nos faz triunfar: propõe-se agora também a repreendê-los por não estarem suficientemente bem dispostos para com ele. Mas embora o proponha, não vem imediatamente a isso, mas conduz sua discussão a respeito destas coisas. Pois se mesmo por suas próprias boas obras aquele que repreende é digno de reverência, ainda assim, quando também manifesta o amor que nutre por aqueles que são censurados, torna seu discurso menos ofensivo. Por isso o Apóstolo, tendo se afastado do tema de suas próprias provações, trabalhos e combates, passa a falar de seu amor, e desse modo os toca no âmago. Quais são, então, os indícios de seu amor? Nossa boca está aberta para vós, ó coríntios. E que tipo de sinal de amor é este? Ou que sentido têm sequer estas palavras? "Não podemos suportar", diz ele, "guardar silêncio para convosco, mas desejamos e ansiamos sempre falar-vos e conversar convosco"; o que é próprio daqueles que amam. Pois o que é o aperto de mãos para o corpo, isso é o intercâmbio da palavra para a alma. E juntamente com isso ele insinua também outra coisa. De que espécie é esta? Que "não discorremos por nada". Pois já que depois se propõe a repreender, pede perdão, usando o repreendê-los com franqueza como uma prova de que os ama sobremaneira. Além disso, o acréscimo do nome deles é sinal de grande amor, calor e afeição; pois costumamos repetir continuamente os simples nomes daqueles a quem amamos.
Nosso coração está alargado. Pois assim como o que aquece costuma dilatar, também dilatar é obra do amor. Porque a virtude é quente e fervorosa. Foi isto que abriu a boca de Paulo e alargou o seu coração. Pois "não amo apenas com a boca", diz ele, "mas tenho também um coração em uníssono. Por isso falo com franqueza, com toda a minha boca, com toda a minha mente." Pois nada era mais largo do que o coração de Paulo, que amava a todos os fiéis com toda a veemência com que alguém poderia amar o objeto de sua afeição; sendo este seu amor não dividido — e por isso enfraquecido — mas permanecendo em plena inteireza para com cada um. E que maravilha que isto se desse assim no caso dos fiéis, se até no dos infiéis o coração de Paulo abraçava o mundo inteiro? Por isso não disse "eu vos amo", mas com maior ênfase: Nossa boca está aberta, nosso coração está alargado, temo-vos a todos dentro dele, e não apenas isto, mas com muita largueza de espaço. Pois aquele que é amado caminha com grande desembaraço dentro do coração de quem ama. Por isso diz ele: Não estais estreitados em nós, mas estais estreitados em vossos próprios afetos. E vede esta repreensão administrada com longanimidade, como é costume dos que amam excessivamente. Não disse "vós não nos amais", mas "não na mesma medida", pois não quer tocá-los de modo demasiado sensível. E, na verdade, em toda parte se pode ver como ele se inflama em relação aos fiéis, bastando escolher palavras de cada Epístola. Pois aos Romanos diz: Desejo ardentemente ver-vos; e muitas vezes propus vir a vós; e Se por algum meio, agora finalmente, eu possa ser bem-sucedido em vir até vós (Rm 1,11-13). E aos Gálatas diz: Meus filhinhos, de quem de novo estou em trabalho de parto (Gl 4,19). Aos Efésios, novamente: Por esta causa dobro os meus joelhos por vós (Ef 3,14). E aos Filipenses: Pois qual é a minha esperança, ou alegria, ou coroa de exultação? Não sois vós mesmos? — e disse que os trazia consigo em seu coração, e em suas prisões (Fp 1,7). E aos Colossenses: Mas quisera que soubésseis quão grande combate travo por vós, e pelos que não viram o meu rosto na carne, para que os vossos corações sejam consolados (Cl 2,1-2). E aos Tessalonicenses: Como quando uma ama de leite acalenta os seus filhos, assim também nós, sendo afetuosamente desejosos de vós, tivemo-nos por bem contentes em vos participar não somente o Evangelho, mas também as nossas próprias almas (1Ts 2,7-8). E a Timóteo: Lembrando-me das tuas lágrimas, para que eu me encha de alegria (2Tm 1,4). E a Tito: A meu amado filho (Tt 1,4); e a Filêmon, de modo semelhante (Fm 1). E aos Hebreus também escreve muitas outras coisas semelhantes, e não cessa de suplicar-lhes, dizendo: Ainda um pouquinho, e aquele que há de vir virá, e não tardará (Hb 10,37) — tal qual uma mãe para com seus filhos mimados. E a eles próprios diz: Não estais estreitados em nós. Mas não diz apenas que ele os ama, mas também que é amado por eles, a fim de que também por isto os conquiste mais facilmente. E, com efeito, testemunhando isto a respeito deles, diz: Tito veio e nos contou a vossa saudade, o vosso pranto, o vosso zelo (2Co 7,7). E aos Gálatas: Se possível fora, arrancaríeis os vossos olhos e mos daríeis (Gl 4,15). E aos Tessalonicenses: Qual foi a nossa entrada entre vós (1Ts 1,9). E a Timóteo também: Lembrando-me das tuas lágrimas, para que eu me encha de alegria.
2 Tm 1:4 Também ao longo de suas Epístolas pode-se encontrá-lo dando este testemunho aos discípulos: tanto que amava quanto que era amado, não, contudo, igualmente. E aqui diz: Ainda que eu vos ame mais abundantemente, seja eu menos amado. 2 Cor 12:15 Isto, todavia, está próximo do fim; mas no presente, mais veementemente: Não estais estreitados em nós, mas estais estreitados em vossos próprios afetos. "Vós recebeis um", diz ele, "mas eu, uma cidade inteira, e tão grande população." E não disse: "vós não nos recebeis", mas: "estais estreitados"; significando, na verdade, a mesma coisa, mas com longanimidade e sem lhes tocar tão fundo.
O coração de quem ama está totalmente aberto. Anda com grande liberdade. É quando falta o amor que aparecem as restrições. Paulo não quis acusá-los abertamente de falta de amor. Apenas aponta o resultado do comportamento e os exorta a perceberem por si mesmos a causa.
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A retribuição não é igual, porque responder ao amor não é tão grande quanto oferecê-lo em primeiro lugar. Ainda que a quantidade seja a mesma, vem, contudo, em segundo lugar.
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E, no entanto, não é retribuição igual ser amado primeiro e amar depois. Pois, ainda que alguém contribuísse com quantidade igual, é inferior por vir em segundo lugar. "Mas, com tudo isso, não hei de fazer contas rigorosas", diz ele, "e, se vós, tendo recebido de mim as primeiras investidas, apenas mostrardes a mesma quantidade, fico bem contente e satisfeito." Depois, para mostrar que fazer isto era ainda uma dívida, e que o que dizia estava isento de lisonja, diz: Falo como a meus filhos. Que significa "como a meus filhos"? "Não peço grande coisa se, sendo vosso pai, desejo ser amado por vós." E vede a sabedoria e a moderação de ânimo. Não menciona aqui os perigos que por eles sofreu, nem os trabalhos, nem as mortes, embora tivesse muitos para relatar: (tão livre de soberba é ele!) mas menciona o seu amor; e por isto reclama ser amado; "porque", diz ele, "eu era vosso pai, porque ardo em excesso por vós", pois é muitas vezes especialmente ofensivo para a pessoa amada quando alguém lhe expõe os benefícios que lhe fez; pois parece repreendê-la. Por isso não faz Paulo assim; mas diz antes: "como filhos, amai a vosso pai", o que antes procede do instinto, e é dívida de todo pai. Depois, para que não pareça dizer estas coisas por si mesmo, mostra que é ainda para proveito deles que lhes solicita este amor.
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Paulo aqui soa como o pai que interpela o filho que despreza os progenitores e prefere companhias perversas: “Que fazes? Não percebes que és muito mais nobre e melhor que eles?” Ele desprenderá o filho de tais companhias mais facilmente apelando ao seu amor-próprio do que rebaixando-o. Do mesmo modo, Paulo apela aos coríntios, não mencionando a si mesmo nem a Deus, mas apelando diretamente ao senso que eles têm de quem são em si mesmos.
Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos.
Não disse ele: "Não vos mistureis com os incrédulos", mas antes, tratando-os com severidade, como transgressores do que é reto, diz: "Não vos deixeis desviar" — pois que sociedade têm a justiça e a iniquidade? Aqui, no que se segue, estabelece ele uma comparação, não entre o seu próprio amor e o daqueles que os corrompiam, mas entre a nobreza deles e a desonra dos outros. Pois assim o seu discurso se tornava mais digno e mais condizente consigo mesmo, e mais facilmente os conquistaria. É como se alguém dissesse a um filho que desprezasse os pais e se entregasse a pessoas viciosas: "Que fazes, filho? Desprezas teu pai e preferes homens impuros, cheios de dez mil vícios? Não sabes quanto és melhor e mais respeitável que eles?" Pois assim o desprende ele mais prontamente da companhia deles do que se manifestasse admiração por seu pai. Porque, se dissesse de fato: "Não sabes quanto teu pai é melhor que eles?", não produziria tanto efeito; mas, deixando de lado a menção ao pai e trazendo o próprio filho à sua presença, dizendo: "Não sabes quem és tu e quem são eles? Não te lembras de teu nobre nascimento e de teu sangue ilustre, e da infâmia deles? Que comunhão tens tu com eles, com esses ladrões, esses adúlteros, esses impostores?" — elevando-o com estes elogios a si mesmo, prepará-lo-á rapidamente para romper com eles. Pois ao primeiro discurso ele não acolherá com excessiva boa vontade, porque a exaltação do pai é uma acusação contra si mesmo, quando se mostra que ele não apenas entristece um pai, mas um pai tal como este; mas, no segundo caso, não terá tal sentimento. Pois ninguém deixaria de querer ser louvado, e por isso, junto com estes elogios a quem o ouve, a repreensão se torna fácil de digerir. Pois o ouvinte se abranda, enche-se de altos pensamentos e desdenha a companhia daquelas pessoas.
Mas não é só isto o que se deve admirar nele — o ter assim conduzido a sua comparação —, mas o ter concebido ainda outra coisa maior e mais espantosa: em primeiro lugar, conduzindo o seu discurso sob a forma de interrogação, própria das coisas claras e admitidas, e depois ampliando-o pela rápida sucessão e multidão de seus termos. Pois não emprega ele um, dois ou três apenas, mas vários. Acrescente-se a isto que, em vez das pessoas, emprega os nomes das coisas, e delineia aqui a alta virtude, ali o vício extremo, mostrando que a diferença entre elas é grande e infinita, a ponto de nem sequer necessitar de demonstração. Pois que sociedade, diz ele, têm a justiça e a iniquidade?
E que comunhão tem a luz com as trevas? (v. 15, 16.) E que concórdia tem Cristo com Belial? Ou que parte tem o crente com o incrédulo? Ou que acordo tem o templo de Deus com os ídolos?
Vedes como emprega os nomes nus, e com que suficiência para o seu propósito de dissuasão? Pois não disse "negligência da justiça", mas o que era mais forte, "iniquidade"; nem disse "os que são da luz" e "os que são das trevas", mas usa os próprios opostos que não podem admitir seus contrários, "luz e trevas". Nem disse "os que são de Cristo" com "os que são do diabo", mas, o que era muito mais distante, "Cristo e Belial", assim chamando aquele apóstata na língua hebraica. Ou que porção tem o fiel com o infiel? Aqui, enfim, para que não pareça estar simplesmente percorrendo uma censura do vício e um encômio da virtude, ele menciona também as pessoas, sem contudo particularizá-las. E não disse "comunhão", mas falou dos galardões, usando o termo "porção". Que acordo tem o templo de Deus com os ídolos?
Pois vós sois templo do Deus vivo. Ora, o que ele diz é isto: nem o vosso Rei tem algo em comum com aquele, pois que concórdia tem Cristo com Belial? nem as coisas [têm algo em comum], pois que comunhão tem a luz com as trevas? Portanto, tampouco vós deveis tê-la. E primeiro menciona o rei deles, e depois a eles mesmos; separando-os assim mais eficazmente. Então, tendo dito "templo de Deus com os ídolos", e tendo declarado "pois vós sois templo do Deus vivo", vê-se necessitado a acrescentar também o testemunho disto, para mostrar que a coisa não é lisonja. Pois aquele que louva, se não exibe também a prova, ainda que pareça, lisonjeia. Qual é, pois, o seu testemunho? Pois,
Habitarei neles, diz Ele, e andarei neles. "Habitarei" neles, como em templos, e "andarei" neles, significando o mais abundante apego a eles.
E eles serão meu povo, e eu serei seu Deus. "Quê?", diz ele, "carregas Deus dentro de ti, e corres para aqueles? Deus que nada tem em comum com eles? E em que isto pode merecer perdão? Lembra-te de Quem anda, de Quem habita em ti."
Por isso saí do meio deles, e separai-vos, diz o Senhor, e não toqueis coisa imunda; e Eu vos receberei.
E não disse: 'Não façais coisas imundas'; mas, exigindo maior rigor, diz: 'nem sequer toqueis', nem vos aproximeis delas. Mas que é a imundícia da carne? O adultério, a fornicação, a lascívia de toda espécie. E a da alma? Os pensamentos impuros, como o olhar com olhos impudicos, a malícia, os enganos, e quantas coisas semelhantes houver. Ele quer, pois, que sejam limpos em ambas. Vedes quão grande é o prêmio? Ser livre do que é mau, ser feito um com Deus. Ouvi também o que se segue.
As coisas imundas referem-se ao adultério e à fornicação na carne, e aos maus pensamentos na alma. De ambos devemos ser libertados.
E Eu vos serei por Pai, e vós me sereis por filhos e filhas, diz o Senhor. Vedes como, desde o princípio, o Profeta preanuncia a nossa presente e sublime origem, a Regeneração pela graça?
Não tocar em coisas imundas não basta para nos tornar puros. Algo mais é necessário para que nos façamos santos: fervor na fé, vigilância e piedade.
Tendo, pois, estas promessas, amados.
Que promessas são estas? Que sejamos templos de Deus, filhos e filhas, que O tenhamos habitando e andando em nós, que sejamos Seu povo, que O tenhamos por nosso Deus e Pai.
Purifiquemo-nos de toda contaminação da carne e do espírito.
Não toquemos coisas impuras, pois esta é a purificação da carne; nem coisas que contaminam a alma, pois esta é a purificação do espírito. Contudo, ele não se contenta somente com isto, mas acrescenta ainda:
Aperfeiçoando a santidade no temor de Deus. Pois não tocar a coisa impura não torna puro; é necessário algo mais além disso para nos tornarmos santos: zelo, vigilância, piedade. E bem disse: No temor de Deus. Pois é possível aperfeiçoar a castidade não no temor de Deus, mas por vanglória. E, juntamente com isto, ele implica ainda outra coisa ao dizer no temor de Deus: a saber, o modo pelo qual a santidade pode ser aperfeiçoada. Pois ainda que a concupiscência seja algo imperioso, se ocupares seu território com o temor de Deus, terás detido seu frenesi.
4. Ora, por santidade aqui ele não entende apenas a castidade, mas a liberdade de toda espécie de pecado, pois santo é aquele que é puro. Ora, alguém se tornará puro não se estiver livre somente da fornicação, mas também da cobiça, e da inveja, e do orgulho, e da vanglória — sim, especialmente da vanglória, da qual em toda coisa convém, na verdade, guardar-se, mas muito mais na esmola; visto que não será esmola, se tiver esta enfermidade, mas ostentação e crueldade. Pois quando não a fazes por misericórdia, mas por aparência, tal ato não é apenas nenhuma esmola, mas até mesmo uma afronta; pois puseste teu irmão em vergonha pública. Não é, pois, o dar dinheiro, mas o dá-lo por misericórdia, que é esmola. Pois também nos teatros as pessoas dão, tanto a rapazes prostituídos como a outros que estão em cena; mas tal ato não é esmola. E dão também os que abusam das pessoas de mulheres prostituídas; mas isto não é benevolência, mas trato insolente. Semelhante a este é também o vanglorioso. Pois assim como aquele que abusa da pessoa da meretriz lhe paga um preço por esse abuso, assim também tu exiges um preço daquele que de ti recebe: a tua afronta a ele, investindo-o, bem como a ti mesmo, de má notoriedade. E além disto, o prejuízo é indizível. Pois assim como uma fera e um cão raivoso, saltando sobre nós, fariam presa, assim faz esta doença perversa e esta desumanidade presa de nossos bens. Pois desumanidade e crueldade é tal proceder; antes, ainda mais grave do que isto. Pois o cruel, na verdade, não daria àquele que pedisse; mas tu fazes mais do que isto: impedes os que desejam dar. Pois, ao ostentares o teu dar, rebaixaste a reputação do que recebe, e retiveste aquele que estava por dar, se for de ânimo negligente. Pois este não mais dará àquele, sob o fundamento de já ter recebido, e assim não estar em necessidade; sim, muitas vezes até o acusará, se, depois de ter recebido, tornar a aproximar-se para mendigar, e o julgará impudente. Que espécie de esmola é, pois, esta, quando envergonhas tanto a ti mesmo quanto ao que recebe; e também de duas maneiras Àquele que a ordenou: tanto porque, tendo-O a Ele por espectador de tua esmola, buscas ainda os olhos de teus conservos além dEle, quanto porque transgrides a lei por Ele estabelecida, que proíbe estas coisas.
Deveria ter desejado levar isto também àqueles outros temas, tanto o jejum quanto a oração, e mostrar em quantos aspectos a vanglória é prejudicial também aí; mas lembro-me de que, no discurso anterior a este, deixei incompleto um certo ponto necessário. Qual era o ponto? Eu dizia que os pobres levam vantagem sobre os ricos nas coisas desta vida, quando discorria acerca da saúde e do prazer; e isto foi mostrado de modo indistinto. Vinde, pois, hoje mostremos isto: que não somente nas coisas desta vida, mas também naquelas que são mais elevadas, a vantagem está com eles. Pois o que conduz a um reino, as riquezas ou a pobreza? Ouçamos o próprio Senhor dos céus dizendo daqueles que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus (Mt 19,24); mas dos pobres o contrário: Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá aos pobres; e vem, segue-Me; e terás tesouro no céu (Mt 19,21). Mas, se quiserdes, vejamos o que se diz de ambos os lados. Estreito e apertado é o caminho, diz Ele, que conduz à vida (Mt 7,14). Quem então trilha o caminho estreito, aquele que está no luxo, ou aquele que está na pobreza; aquele que é independente, ou aquele que carrega dez mil fardos; o relaxado e dissoluto, ou o ponderado e ansioso? Mas que necessidade há destes argumentos, quando é melhor recorrer às próprias pessoas. Lázaro era pobre, sim, muito pobre; e aquele que passava por ele, jazendo à sua porta, era rico. Qual então entrou no reino, e estava em delícias no seio de Abraão? E qual deles foi abrasado, sem sequer uma gota à sua disposição? Mas, diz alguém, 'tanto muitos pobres se perderão, quanto [muitos] ricos gozarão daqueles bens inefáveis.' Antes, pode-se ver o contrário: poucos ricos salvos, mas dos pobres, muito mais. Pois, considerai, fazendo medida exata dos impedimentos das riquezas e dos defeitos da pobreza (ou antes, não são nem das riquezas nem da pobreza, mas de cada um daqueles que têm riquezas ou pobreza; contudo,) vejamos ao menos qual é a arma mais disponível. Que defeito, então, parece possuir a pobreza? A mentira. E que defeito, a riqueza? O orgulho, mãe dos males; o qual também fez do diabo um diabo, que antes não o era. Novamente, o amor ao dinheiro é raiz de todos os males (1Tm 6,10). Quem então está próximo desta raiz, o rico ou o pobre? Não é bem claramente o rico? Pois quanto mais coisas alguém acumula ao seu redor, tanto mais deseja. A vanglória, por sua vez, danifica dez mil boas obras, e junto a esta também novamente o rico tem sua morada. Mas, diz alguém, 'não mencionas os [males] do pobre, sua aflição, suas estreitezas.' Não, mas isto é tanto comum ao rico, quanto é mais seu do que do pobre; de modo que aqueles que de fato parecem ser males da pobreza são comuns a ambos: ao passo que os das riquezas são só das riquezas. 'Mas que dizer,' diz alguém, 'quando por falta do necessário o pobre comete muitas coisas horríveis?' Mas nenhum pobre, não, nem um sequer, comete tantas coisas horríveis por necessidade quantas os ricos pelo desejo de se cercarem de mais, e de não perderem as provisões que têm. Pois o pobre não deseja tão avidamente o necessário quanto o rico deseja o supérfluo; nem tampouco tem ele tanta força para pôr a maldade em prática quanto o outro tem poder. Se, pois, o rico é tanto mais disposto quanto mais capaz, é bastante claro que ele antes cometerá tais coisas, e em maior número.
Nem receia tanto o pobre a fome, quanto treme e se angustia o rico pela perda do que possui, e por ainda não ter conseguido reunir as posses de todos os homens. Visto, pois, que ele está próximo tanto da vanglória quanto da arrogância, e do amor ao dinheiro, raiz de todos os males, que esperança de salvação lhe restará, a não ser que manifeste muita sabedoria? E como caminhará pela via estreita? Não sigamos, portanto, as opiniões da multidão, mas examinemos os fatos. Pois como não é absurdo que, em relação ao dinheiro, não confiemos em outros, mas recorramos a números e cálculos; e, no entanto, ao calcularmos sobre os fatos, sejamos levianamente arrastados pelas opiniões alheias — e isso quando possuímos uma balança exata, e esquadro e régua para todas as coisas, a saber, a declaração das leis divinas? Por isso, exorto e suplico a todos vós: desprezai o que este e aquele pensam acerca destas coisas, e indagai das Escrituras todas estas coisas; e, tendo aprendido quais são as verdadeiras riquezas, persigamo-las, para que alcancemos também os bens eternos; os quais possamos todos alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo exprime-se deste modo negativo a fim de aguçar mais seu argumento. Não menciona todo o bem que fez, mas tão somente desafia os coríntios a apontarem algum modo pelo qual os tenha injuriado, o que, evidentemente, não podiam fazer.
De novo levanta o discurso acerca do amor, mitigando a aspereza de sua repreensão. Pois, havendo-os convencido e reprovado como sendo, na verdade, amados, mas não amando em igual medida, antes apartando-se de seu amor e misturando-se com outros companheiros pestilentos; de novo abranda a veemência de sua repreensão, dizendo: Fazei-nos lugar, isto é, amai-nos; e roga por receber um favor que não envolve encargo algum, e que aproveita mais aos que o concedem do que aos que o recebem. E não disse "amai", mas, com apelo mais forte à compaixão deles, fazei-nos lugar. "Quem nos expulsou?", diz ele; "quem nos lançou fora de vossos corações? Como viemos a estar angustiados em vós?" Pois, havendo dito acima, Estais angustiados em vossos afetos, aqui, declarando-o mais claramente, disse: fazei-nos lugar; deste modo, ganhando-os de novo para si. Pois nada produz tanto o amor quanto o amado saber que aquele que o ama deseja sobremaneira o seu amor.
A ninguém injuriamos. Vede como, de novo, não menciona os benefícios [por ele feitos], mas ordena seu discurso de outro modo, para ser ao mesmo tempo menos ofensivo e mais penetrante. E, a um só tempo, alude também aos falsos apóstolos, dizendo: A ninguém injuriamos, a ninguém corrompemos, a ninguém defraudamos.
Que significa corrompemos? Isto é, a ninguém enganamos; como diz também noutro lugar: Para que não suceda que, assim como a serpente enganou Eva, também as vossas mentes se corrompam. 2 Coríntios 11:3
A ninguém defraudamos; a ninguém saqueamos, contra ninguém tramamos. E, por ora, abstém-se de dizer: "de tal e tal modo vos beneficiamos"; mas, ordenando sua linguagem de maneira a mais envergonhá-los, diz: A ninguém injuriamos; como quem diz: "Ainda que em nada vos houvéssemos beneficiado, nem assim deveríeis apartar-vos de nós; pois nada tendes a nos imputar, seja pequeno, seja grande." Depois, pois sentia o peso de sua repreensão, de novo a tempera. E nem se calou de todo, pois assim não os teria despertado; nem tampouco deixou sem moderação a aspereza de sua linguagem, pois assim os teria ferido demasiado. E que diz ele?
Paulo menciona tanto o morrer quanto o viver, a fim de preservar o justo equilíbrio. Pois há muitos que se compadecem dos infortúnios alheios, mas, quando as coisas prosperam para o próximo, tornam-se invejosos e não se alegram com eles. Não assim os fiéis, que não são feridos pela inveja.
Como se evidencia isto? Pois já disse antes, acrescenta ele, que vós estais em nossos corações para morrer e viver convosco. Este é o maior afeto, quando, ainda que tratado com desprezo, ele escolhe tanto morrer quanto viver com eles. "Pois não estais apenas em nossos corações", diz ele, "mas de tal maneira como eu disse. Porquanto é possível tanto amar quanto fugir dos perigos, mas nós não fazemos assim." E eis aqui também sabedoria inefável. Pois não falou daquilo que já havia sido feito por eles, para que não parecesse estar novamente a repreendê-los, mas promete para o futuro. "Pois se acaso", diz ele, "sobrevier o perigo, por vossa causa estou pronto a sofrer todas as coisas; e nem a morte nem a vida me parecem coisa alguma em si mesmas, mas em qualquer estado em que vós estiverdes, isso me é mais desejável, tanto a morte mais do que a vida, quanto a vida mais do que a morte." Todavia, morrer é manifestamente prova de amor; mas viver, quem há que não o escolhesse, mesmo dentre os que não são amigos? Por que, pois, menciona o Apóstolo isto como algo grande? Porque é, na verdade, sobremaneira grande. Pois muitos, de fato, se compadecem de seus amigos quando estão em infortúnio, mas quando estão em honra, não se regozijam com eles, antes os invejam. "Mas não assim nós; antes, quer estejais em calamidade, não tememos partilhar de vossa má sorte; quer estejais em prosperidade, não somos feridos pela inveja."
2. Depois de haver repetido continuamente estas coisas, dizendo, Não estais estreitados em nós; e, Estais estreitados nos vossos próprios afetos; e, dai-nos lugar; e, Alargai-vos também vós; e, A ninguém agravamos; e todas estas coisas pareciam ser uma condenação deles: observai como ele também, de outro modo, alivia esta severidade, dizendo, Grande é a minha ousadia de linguagem para convosco. 'Portanto me aventuro a tais coisas', diz ele, 'não para vos condenar pelo que digo, mas por causa da minha grande ousadia de linguagem', o que, significando ainda mais, ele disse, Grande é a minha glória a vosso respeito. 'Pois não penseis', diz ele, 'que, porque assim falo, falo como se vos houvesse condenado inteiramente; (pois muito me orgulho de vós, e em vós me glorio;) mas tanto por terno cuidado quanto por desejo de que façais maior progresso na virtude.' E assim disse ele também aos Hebreus, depois de muita repreensão: Mas de vós esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falemos: e desejamos que cada um de vós mostre a mesma diligência até o pleno cumprimento da esperança, até o fim (Hb 6:9-11). Assim também aqui, de fato, Grande é a minha glória a vosso respeito. 'A outros nos gloriamos por causa de vós', diz ele. Vedes que genuína consolação ele deu? 'E', diz ele, 'não simplesmente me glorio, mas também, grandemente.' Por isso acrescentou estas palavras: Estou cheio de consolação. Que consolação? 'Aquela que vem de vós; porque vós, tendo-vos corrigido, me consolastes pela vossa conduta.' Esta é a prova de quem ama, tanto queixar-se de não ser amado quanto temer causar dor ao queixar-se imoderadamente. Por isso diz ele, Estou cheio de consolação, transbordo de alegria. 'Mas estas expressões', diz alguém, 'parecem contradizer as anteriores.' Não o fazem, porém, antes estão em grande harmonia com elas. Pois estas procuram, para aquelas, uma recepção favorável; e o louvor que transmitem torna mais genuíno o benefício daquelas repreensões, retirando suavemente o que nelas havia de penoso. Por isso usa ele estas expressões, mas com grande genuinidade e fervor. Pois não disse ele, 'Estou cheio de alegria'; mas, Abundo; ou antes, nem sequer abundo, mas sobreabundo; mostrando também assim novamente o seu anelo, de que, ainda que seja tão amado a ponto de se regozijar e exultar, não se julga ainda amado como deveria ser amado, nem ter recebido pleno pagamento; tão insaciável era ele por causa do seu excessivo amor por eles. Pois a alegria que traz o ser amado, em qualquer medida, por aqueles a quem se ama apaixonadamente, é grande em razão de os amarmos excessivamente. De modo que isto era, novamente, prova do seu afeto. E quanto à consolação, de fato, diz ele, Estou cheio; 'Recebi o que me era devido'; mas quanto à alegria, Sobreabundo; isto é, 'Eu desanimava a vosso respeito; mas vós vos desculpastes suficientemente e destes consolação: pois não somente removestes o motivo da minha tristeza, mas ainda aumentastes a alegria.' Depois, mostrando a sua grandeza, não apenas a declara dizendo, Sobreabundo de alegria, mas também acrescentando, em toda a nossa tribulação. 'Pois tão grande era o deleite que nos vinha por vossa causa, que nem sequer foi obscurecido por tão grande tribulação, mas, pelo excesso da sua própria grandeza, venceu as tristezas que nos possuíam, e não nos deixou sentir-lhes o senso.'
Poderiam alguns pensar que estas expressões de louvor contradizem as admoestações que as precederam. Mas não é assim, pois elas fazem com que as repreensões sejam mais bem acolhidas, situando-as no contexto mais amplo do grande amor de Paulo pelos coríntios.
Paulo teve de contender tanto com a oposição dos incrédulos de fora quanto com a fraqueza dos crentes vacilantes de dentro.
Pois, tendo dito nossa tribulação, ele tanto explica de que espécie ela era quanto a engrandece com suas palavras, a fim de mostrar que a consolação e as alegrias recebidas deles foram grandes, visto que repeliram tão grande tristeza. Mas fomos afligidos por todos os lados.
Como, por todos os lados? Pois por fora havia lutas, da parte dos incrédulos; por dentro havia temores, por causa dos fracos entre os fiéis, para que não se desviassem. Pois não somente entre os coríntios sucediam estas coisas, mas também em outros lugares.
Paulo sempre faz grande caso da vinda de Tito, porque deseja que os coríntios o tenham em honra e reverência. Nada há mais próprio para cimentar uma amizade do que ajudar alguém a saber quão prestativo foi.
Nada obstante, Aquele que consola os humildes nos consolou pela vinda de Tito.
Pois, tendo ele testemunhado grandes coisas a respeito deles no que disse, para que não parecesse estar lisonjeando-os, cita como testemunha a Tito, o irmão, que viera da parte deles a Paulo, depois da primeira Epístola, para lhe anunciar os pormenores de sua emenda. Considerai, porém, eu vo-lo peço, como em todo lugar ele faz grande caso da vinda de Tito. Pois diz também antes: *Além disso, quando cheguei a Trôade para pregar o Evangelho, não tive alívio para o meu espírito, porque não achei Tito, meu irmão* (2 Cor 2,12-13); e neste lugar, de novo, *fomos consolados*, diz ele, *pela vinda de Tito*. Pois deseja também estabelecer o homem na confiança deles e torná-lo sobremaneira caro a eles. E observai como ele provê a ambas as coisas. Pois, dizendo de um lado *não tive alívio para o meu espírito*, mostra a grandeza da virtude dele; e dizendo de outro que, em nossa tribulação, a vinda dele bastou para consolação — e não somente pela sua vinda, mas também pela consolação com que ele foi consolado em vós —, torna o homem caro aos coríntios. Pois nada assim produz e cimenta amizades como dizer algo sólido e favorável acerca de alguém. E que assim testemunhou Tito, quando diz que 'pela sua vinda nos deu asas com prazer; tais coisas relatou acerca de vós. Por isso a sua vinda nos alegrou. Pois nos deleitamos não somente por sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado em vós. E como foi consolado? Pela vossa virtude, pelas vossas boas obras.' Por isso também acrescenta:
*Contando-nos a vossa saudade, o vosso pranto, o vosso zelo por mim.* 'Estas coisas o alegraram', diz ele, 'estas coisas o consolaram.' Vedes como mostra que ele também é ardoroso amante deles, visto que considera o bom relato deles como consolação para si mesmo; e, tendo chegado, gloriou-se, como que por causa de seus próprios bens, diante de Paulo.
E observai com que calor de expressão relata estas coisas: *a vossa saudade, o vosso pranto, o vosso zelo*. Pois era provável que pranteassem e se afligissem por que o bem-aventurado Paulo estava tão desagradado, por que se mantivera afastado deles por tanto tempo. E por isso não disse simplesmente lágrimas, mas pranto; nem desejo, mas saudade; nem ira, mas zelo; e de novo zelo para com ele, o qual manifestaram tanto acerca daquele que havia cometido fornicação quanto acerca dos que o acusavam. 'Pois', diz ele, 'vos inflamastes e vos abrasastes ao receberdes as minhas cartas.' Por estas razões ele abunda em alegria, por estas razões se enche de consolação, porque os fez sentir. Parece-me, contudo, que estas coisas são ditas não somente para suavizar o que precedeu, mas também para encorajamento daqueles que haviam agido virtuosamente nestas coisas. Pois, embora suponha eu que alguns fossem sujeitos àquelas acusações anteriores e indignos destes louvores, contudo ele não os distingue, mas torna comuns tanto os louvores quanto as acusações, deixando à consciência dos ouvintes escolher aquilo que lhes pertence. Pois assim tanto um seria isento de ofensa, quanto o outro os conduziria a muito fervor de ânimo.
4. Tais devem ser agora também os sentimentos daqueles que são repreendidos; assim devem lamentar-se e pranguear; assim anelar por seus mestres; assim, mais que a pais, buscá-los. Pois por aqueles, na verdade, nos vem a vida, mas por estes, a boa vida. Assim devem suportar as repreensões de seus pais, assim condoer-se com seus superiores por causa daqueles que pecam. Pois não repousa tudo sobre eles, mas também sobre vós. Porque, se aquele que pecou percebe que foi repreendido, na verdade, pelo pai, mas lisonjeado pelos irmãos, ele se torna mais tranquilo de ânimo. Mas, quando o pai repreende, irrita-te também tu, seja como quem se importa com teu irmão, seja como quem se associa à indignação de teu pai; somente que o zelo que mostrares seja grande; e lamenta, não que ele foi repreendido, mas que pecou. Pois, se eu edifico e tu destróis, que proveito tivemos senão o trabalho? (Eclo 34,23). Antes, vossa perda não para aí, mas trazeis também castigo sobre vós mesmos. Pois aquele que impede que a ferida seja curada é punido não menos do que aquele que a infligiu, mas ainda mais. Porque não é igual ofensa ferir e impedir que o ferido seja curado; pois isto, na verdade, necessariamente gera a morte, mas aquilo não necessariamente. Ora, disse-vos isto para que vos associeis à indignação de vossos superiores sempre que se indignarem justamente; para que, quando virdes alguém repreendido, todos vós o evitai mais do que o faz o mestre. Que aquele que ofendeu vos tema mais do que a seus superiores. Pois, se ele teme apenas a seu mestre, facilmente pecará; mas, se tiver de temer tantos olhos, tantas línguas, estará em maior segurança. Porque, assim como, se não agirmos deste modo, sofreremos o mais extremo castigo, assim também, se cumprirmos estas coisas, participaremos do ganho que provém de sua emenda. Ajamos, pois, deste modo; e, se alguém disser: "sê humano para com teu irmão, este é o dever de um cristão", que se lhe ensine que é humano aquele que se irrita [com ele], não aquele que o tranquiliza prematuramente e não lhe permite sequer chegar ao sentimento de sua transgressão. Pois qual, dize-me, tem compaixão do homem em febre e delirando, aquele que o deita em seu leito, e o prende, e o priva de comidas e bebidas que não lhe convêm; ou aquele que lhe permite fartar-se de bebida forte, e lhe ordena que tenha liberdade, e que aja em tudo como quem está são? Não é este, na verdade, o que agrava a moléstia, o homem que parece agir humanamente, ao passo que o outro a remedeia? Tal, em verdade, deveria ser também nosso juízo neste caso. Pois é próprio da humanidade não condescender com os enfermos em tudo, nem lisonjear seus desejos inoportunos. Ninguém amou tanto aquele que cometeu fornicação entre os coríntios quanto Paulo, que ordena entregá-lo a Satanás; ninguém o odiou tanto quanto os que o aplaudem e o cortejam; e o desfecho o mostrou. Pois estes, na verdade, tanto o inflaram quanto lhe aumentaram a inflamação; mas [o Apóstolo] tanto a abaixou quanto não o deixou até trazê-lo à perfeita saúde. E estes, na verdade, acrescentaram ao mal já existente, ele extirpou até aquilo que existia desde o princípio. Aprendamos, pois, também estas leis da humanidade. Porque, se vires um cavalo precipitando-se por um abismo, aplicas-lhe o freio e o refreias com violência e o açoitas amiúde; ainda que isto seja castigo, o próprio castigo é mãe da segurança. Age, pois, assim também no caso dos que pecam.
Ata a quem transgrediu, até que tenha aplacado a Deus; não o deixes solto, para que não seja mais apertadamente atado pela ira de Deus. Se eu ato, Deus não encadeia; se eu não ato, cadeias indissolúveis o aguardam. Pois se a nós mesmos nos julgássemos, não seríamos julgados. 1 Cor 11:31 Não penseis, pois, que agir assim procede de crueldade e desumanidade; antes, procede da mais alta mansidão, da mais hábil arte de curar e de muito terno cuidado. Mas, diz alguém, eles já foram punidos por longo tempo. Quanto tempo? Dize-me. Um ano, e dois, e três anos? Todavia, não é isto que exijo, a duração do tempo, mas a emenda da alma. Mostrai-me isto, pois: se foram compungidos no coração, se se emendaram, e tudo está feito; visto que, se isto não houver, nenhuma vantagem há no tempo decorrido. Pois nem sequer indagamos se a chaga foi muitas vezes enfaixada, mas se o enfaixamento foi de algum proveito. Se, portanto, foi proveitoso, ainda que em pouco tempo, não se conserve por mais tempo o penso; mas, se não fez proveito algum, ainda que ao fim de dez anos, conserve-se ele ainda: e que isto determine o termo da soltura, o bem daquele que está atado. Se assim formos cuidadosos, tanto de nós mesmos quanto dos outros, e não atentarmos para a honra e a desonra que vêm dos homens; mas, tendo em mente o castigo e o opróbrio que ali há, e sobretudo a provocação de Deus, apliquemos com energia os medicamentos do arrependimento: prontamente chegaremos à saúde perfeita, e alcançaremos os bens que hão de vir; os quais a todos nós seja dado alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder, honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo foi consolado pelas boas novas de Corinto, o que mostra quanto amava aquele povo.
Paulo se comporta para com os coríntios como um pai para com filhinhos pequenos, consolando-os depois de terem passado por uma experiência dolorosa.
De sorte que, ainda que vos tenha entristecido com a minha carta, não me arrependo, ainda que me tenha arrependido.
Prossegue ele a desculpar-se de sua Epístola, quando, — corrigido já o pecado —, tratá-los com brandura já não trazia perigo algum; e mostra a vantagem da coisa. Pois já o fizera antes, quando disse: "Porque em muita aflição e angústia de coração vos escrevi, não para que fôsseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que tenho por vós" (2 Cor 2:4). E fá-lo também agora, estabelecendo este mesmo ponto com mais palavras. E não disse: "Arrependi-me, na verdade, antes, mas agora não me arrependo"; mas como diz? "Não me arrependo agora, ainda que me tenha arrependido." "Ainda que aquilo que escrevi", diz ele, "fosse tal que ultrapassasse a medida devida de repreensão, e me fizesse arrepender-me; ainda assim, a grande vantagem que daí resultou não me permite arrepender-me." E isto disse, não como se os houvesse repreendido além da medida devida, mas para engrandecer os louvores que lhes tece. "Pois foi tão grande", diz ele, "a emenda que manifestastes, que ainda que porventura vos tenha ferido demasiado severamente, a ponto de a mim mesmo me condenar, louvo-me agora pelo resultado." Assim como com os filhinhos pequenos, quando estes se submetem a um remédio doloroso — seja incisão, cautério ou poção amarga —, depois disso não tememos consolá-los; assim faz também Paulo.
Pois vejo que aquela epístola vos entristeceu, ainda que apenas por um tempo. Ora, não me regozijo porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para o arrependimento.
Tendo dito "não me arrependo", declara também a razão, alegando o bem que resultou de sua carta; e habilmente se desculpa dizendo "ainda que apenas por um tempo". Pois, na verdade, o que foi doloroso foi breve, mas o que foi proveitoso foi perpétuo. E o que naturalmente se seguiria dizer seria: "ainda que vos tenha causado pesar por um tempo, contudo vos alegrou e beneficiou para sempre." Mas não diz isto; antes, antes de mencionar o ganho, volta de novo aos louvores que lhes tece e à prova de sua própria solicitude para com eles, dizendo: "Ora, regozijo-me, não porque fostes entristecidos" ("pois que ganho me adveio de terdes sido entristecidos?"), "mas porque fostes entristecidos para o arrependimento, de modo que a tristeza trouxe algum ganho." Pois também o pai, quando vê o filho sob o bisturi, não se regozija por ele estar sofrendo, mas por estar sendo curado; assim faz também este. Mas observai como ele transfere para eles próprios tudo quanto de bom se logrou no caso; e atribui à conta da Epístola tudo quanto foi doloroso, dizendo: "Ela vos entristeceu por um tempo"; ao passo que o benefício que daí resultou, atribui-o como obra do bem que eles mesmos operaram. Pois não disse: "A Epístola vos corrigiu", ainda que assim fosse o caso; mas: "vos entristecestes para o arrependimento."
Pois fostes entristecidos segundo Deus, de modo que em nada sofrêsseis dano por nossa causa.
Vedes uma sabedoria inefável? "Pois, se não houvéssemos feito isto", diz ele, "vos teríamos causado dano." E afirma que, na verdade, o que se logrou de bom é deles, mas o dano seria seu próprio, caso houvesse guardado silêncio. Pois se hão de ser corrigidos por uma repreensão severa, então, se não repreendêssemos severamente, vos teríamos causado dano; e a injúria não recairia apenas sobre vós, mas também sobre nós. Pois assim como aquele que não dá ao mercador o necessário para a sua viagem é quem causa o dano, assim também nós, se não vos houvéssemos oferecido essa ocasião de arrependimento, teríamos operado em vós um dano. Vedes que o não repreender os que pecam é dano tanto para o mestre quanto para o discípulo?
Como o pai que assiste à operação de seu filho, Paulo se regozija não pela dor que lhe é infligida, mas pela cura que é o resultado último. Não tinha ele desejo algum de causar dano por si mesmo.
Contudo, admiro-me de como Deus, que desde o princípio deu à humanidade a dor, que provinha do pecado, revoga a sua decisão com uma só resolução e expulsa a sentença com o próprio decreto. E ouvi de que modo. O pecado produziu a dor, e por meio da dor o pecado é aniquilado. Atendei com cuidado. Deus ameaça a mulher. Faz recair sobre ela o castigo de sua desobediência, e lhe diz: "Com dor darás à luz filhos." E assim mostrou a dor como a colheita do pecado. Mas, ó quão munificente Ele é! Aquilo que deu como castigo, converteu em salvação. O pecado gerou a dor; a dor destrói o pecado. Assim como o verme que nasce da árvore consome a própria árvore que o gerou, do mesmo modo a dor, que nasce do pecado, mata o pecado quando é nutrida pelo arrependimento. Por isso diz Paulo: "A tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, do qual não há que se arrepender." A dor é boa para os que se arrependem sinceramente; a tristeza, na medida do pecado, convém aos que pecaram... Lamentai o pecado para que não tenhais de lamentar o castigo. Suplicai ao juiz antes de comparecerdes ao tribunal. Ou não sabeis que todos os que pretendem litigar procuram agradar ao juiz, não no momento em que a causa é julgada, mas antes de entrarem no tribunal, seja por amigos, seja por intercessores, seja por qualquer outro meio pelo qual o abrandam? O mesmo se dá com Deus: não podeis persuadir o Juiz no tempo do tribunal. Podeis, porém, suplicar ao Juiz antes do tempo do juízo.
Paulo sentira pesar antes de ver o fruto do arrependimento, mas depois se alegrou. Tal é a natureza da tristeza segundo Deus. A tristeza do mundo, ao contrário desta, é o pesar pela perda de dinheiro, de reputação e de amigos. Essa espécie de tristeza conduz apenas a maior dano, porque o pesar é muitas vezes prelúdio da sede de vingança. Somente a tristeza pelo pecado é verdadeiramente proveitosa.
"Portanto", diz ele, "ainda que me tenha pesado antes de ver o fruto e o proveito, quão grandes eram, agora não me pesa." Pois tal é a tristeza segundo Deus. E então filosofa a respeito dela, mostrando que a tristeza não é em todos os casos coisa penosa, mas quando é segundo o mundo. E o que é segundo o mundo? Se te entristeces por dinheiro, por reputação, por alguém que partiu, tudo isso é segundo o mundo. Por isso também operam morte. Pois aquele que se entristece por causa da reputação sente inveja e é muitas vezes levado à perdição: tal foi a tristeza com que se entristeceu Caim, tal a de Esaú. Por esta tristeza segundo o mundo, pois, entende ele aquela que redunda em dano dos que se entristecem. Porquanto só a respeito dos pecados é a tristeza coisa proveitosa; como se manifesta deste modo. Aquele que se entristece pela perda de riquezas não repara o dano; aquele que se entristece por um defunto não ressuscita o morto; aquele que se entristece por uma enfermidade, não só não sara, mas ainda agrava o mal: aquele que se entristece por pecados, só ele obtém alguma vantagem de sua tristeza, pois faz que os pecados minguem e desapareçam. Porquanto, sendo o remédio preparado para isto, só neste caso é eficaz e mostra o seu proveito; e nos demais casos é até prejudicial. "E contudo Caim", dirá alguém, "entristeceu-se porque não foi aceito por Deus." Não foi por isso, mas porque viu seu irmão glorificado em honra; pois se por isso se afligisse, cumprir-lhe-ia emular e alegrar-se com ele; mas, entristecendo-se como se entristeceu, mostrou que sua tristeza era segundo o mundo. Não assim, porém, Davi, nem Pedro, nem nenhum dos justos. Por isso foram aceitos, entristecendo-se ora por seus próprios pecados, ora pelos alheios. E, contudo, que há de mais penoso que a tristeza? Ainda assim, quando é segundo Deus, é melhor que a alegria do mundo. Pois esta, na verdade, não termina em coisa alguma; mas aquela opera arrependimento para a salvação, salvação da qual não há que se arrepender. Pois o que nela é admirável é isto: que quem assim se entristeceu jamais se arrependerá de tê-lo feito, ao passo que isto é característica própria da tristeza segundo o mundo. Pois que se lamenta mais do que um filho legítimo? E que dor é mais pesada que uma morte desta sorte? E, contudo, aqueles pais que, no auge de sua dor, a ninguém suportam e se ferem a si mesmos com furor, passado algum tempo se arrependem de haver-se entristecido desmedidamente; como quem por isso a si mesmos em nada beneficiou, mas antes acrescentou a própria aflição. Mas não é assim a tristeza segundo Deus; antes possui duas vantagens: a de não ser condenada naquilo por que o homem se entristece, e a de que esta tristeza termina em salvação; de ambas as quais aquela é privada. Pois entristecem-se ambos para seu dano, e depois de haver-se entristecido veementemente condenam-se a si mesmos, dando com isso o maior indício de o haverem feito para seu próprio dano. Mas a tristeza segundo Deus é o contrário: por isso também disse ele: opera arrependimento para a salvação, arrependimento do qual não há que se arrepender. Pois ninguém se condenará a si mesmo se se houver entristecido pelo pecado, se houver pranteado e a si mesmo se houver afligido. O que também, havendo dito o bem-aventurado Paulo, não necessita trazer de outras fontes a prova do que disse, nem trazer à baila os que nas antigas histórias se entristeceram, mas traz à baila os próprios coríntios; e extrai sua prova daquilo que eles próprios fizeram; a fim de que, juntamente com os louvores, tanto os instruísse quanto, com maior razão, os conquistasse para si.
Pois vede, diz ele, esta mesma coisa, que fostes entristecidos segundo Deus, que grande diligência operou em vós. "Pois não só", diz ele, "vossa tristeza não vos lançou naquela condenação de vós mesmos, como se houvésseis agido levianamente ao assim proceder; mas antes vos tornou ainda mais diligentes." Em seguida, fala dos indícios certos daquela diligência:
Sim, que purificação de vós mesmos, para comigo! Sim, que indignação contra aquele que havia pecado! Sim, que temor! Pois tão grande diligência e tão veloz emenda foram próprias de homens que temiam sobremaneira. E, para que não parecesse estar se exaltando a si mesmo, vede quão prontamente ele o suaviza, dizendo:
Sim, que saudade, essa para comigo! Sim, que zelo, esse a favor de Deus! Sim, que vingança! Pois também vós vingastes as leis de Deus que haviam sido ultrajadas.
Em tudo vos mostrastes puros neste assunto. Não somente por não terdes perpetrado o mal, pois isto já era evidente antes, mas também por não terdes consentido nele. Pois, havendo dito na epístola anterior: e vós estais inchados de orgulho, diz ele também aqui: "vós vos purificastes também desta suspeita; não somente por não louvardes, mas também por repreenderdes e vos indignardes."
3. Portanto, ainda que vos escrevesse, não foi por causa daquele que fez a injúria, nem por causa daquele que a sofreu. Pois, para que não dissessem: Por que, então, nos repreendes, se éramos inocentes nesta questão? — precavendo-se contra isto ainda mais de antemão, e dispondo-se a enfrentá-lo, disse o que disse, a saber: não me arrependo, ainda que me tenha arrependido. "Pois estou tão longe", diz ele, "de agora me arrepender do que então escrevi, que então me arrependi mais do que agora, quando vos mostrastes aprovados." Vede novamente sua veemência e ardorosa contenda, como converteu o que fora dito no seu exato contrário. Pois aquilo que eles pensavam que o faria retratar-se envergonhado, como quem os havia repreendido precipitadamente, em razão de sua emenda; disso ele se serve como prova de que era justo nele falar com liberdade. Pois tampouco depois se recusa a favorecê-los sem temor, quando percebe que pode fazê-lo. Pois aquele que disse mais acima coisas tais como: Aquele que se une à meretriz é um só corpo, e: Entregai tal homem a Satanás para destruição da carne, e: Todo pecado que o homem comete está fora do corpo, e outras coisas semelhantes; como diz aqui: Não por causa daquele que fez a injúria, nem por causa daquele que a sofreu? Não se contradizendo, mas antes sendo sobremaneira consequente consigo mesmo. Como consequente consigo mesmo? Porque era para ele coisa da maior importância mostrar a afeição que lhes tinha. Não descura, pois, do cuidado por aquele outro, mas mostra ao mesmo tempo, como disse, o amor que lhes tinha, e que um temor maior o agitava, a saber, por toda a Igreja. Pois temera que o mal se propagasse ainda mais e, avançando em seu curso, se apoderasse de toda a Igreja. Por isso também disse: Um pouco de fermento leveda toda a massa. Isto, porém, disse-o então; mas agora que eles haviam procedido bem, já não o expressa assim, mas de outro modo: e, na verdade, implica a mesma coisa, mas maneja suas expressões de modo mais agradável, dizendo:
Para que o nosso cuidado por vós vos fosse manifesto.
Isto é, "para que soubésseis quanto vos amo." Ora, isto é a mesma coisa que o anterior, mas, expresso de modo diverso, pareceu transmitir outro sentido. Pois, para vos convencerdes de que é o mesmo, desdobrai seu pensamento e perceberás não haver diferença alguma. "Pois porque vos amo sobremaneira", diz ele, "temi que sofrêsseis algum dano daquela parte, e vós mesmos herdásseis aquela tristeza." Assim, pois, como quando diz: Acaso Deus tem cuidado dos bois?, não quer dizer que não tenha cuidado (pois não é possível que coisa alguma exista se abandonada pela Providência de Deus): mas que não legislou primariamente por causa dos bois, assim também aqui quer dizer: "Escrevi, na verdade, em primeiro lugar por vossa causa, mas em segundo lugar também pela dele. E eu tinha, na verdade, esse amor em mim mesmo", diz ele, "mesmo independentemente de minha epístola: mas desejava mostrá-lo tanto a vós quanto, numa palavra, a todos, por meio daquele escrito."
E em vossa consolação, alegramo-nos ainda mais abundantemente pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi reconfortado por todos vós.
Vede novamente como exalta os seus louvores e mostra o seu amor. Pois, havendo dito: "Alegrei-me de que minha epístola operasse tanto e de que vós ganhásseis tanto", pois me alegro, diz ele, não porque fostes entristecidos, mas porque fostes entristecidos para o arrependimento; e havendo mostrado seu próprio amor, pois diz: Ainda que vos tenha escrito, não foi por causa daquele que fez a injúria, nem por causa daquele que a sofreu, mas para que o nosso cuidado por vós vos fosse manifesto: menciona de novo outro sinal de sua boa vontade, o qual lhes traz grande louvor e mostra a genuinidade do seu afeto. Pois, em vossa consolação, diz ele, alegramo-nos ainda mais abundantemente pela alegria de Tito. E, contudo, isto não é sinal de quem os ama sobremaneira; alegrando-se antes por causa de Tito do que por causa deles. "Sim", responde ele, "é, pois não me alegrei tanto por causa dele quanto por causa de vós." Por isso também acrescenta a razão, dizendo: porque o seu íntimo foi reconfortado por todos vós. Não disse "ele", mas o seu íntimo; isto é, "o seu amor por vós." E como foram reconfortados? Por todos. Pois também isto é grandíssimo louvor.
Portanto fomos consolados.
Visto que manifestamos o nosso cuidado para convosco e em tudo fomos bem-sucedidos. Como também disse noutro lugar: Porque agora vivemos, se vós permaneceis firmes no Senhor (1 Ts 3:8); e ainda: Pois qual é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de glória? Não sois vós porventura? (1 Ts 2:19). Pois isto é vida, isto é conforto, esta é a consolação para um mestre dotado de entendimento: o progresso de seus discípulos.
4. Pois nada revela tanto aquele que exerce a autoridade quanto o afeto paterno para com os governados. Porque gerar sozinho não constitui um pai; mas, depois de gerar, também amar. Ora, se em se tratando da natureza há tão grande necessidade de amor, muito mais em se tratando da graça. Foi assim que todos os antigos se distinguiram. Quantos, com efeito, obtiveram bom testemunho entre os hebreus, por isto se manifestaram. Assim se mostrou grande Samuel, dizendo: *Longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós* (1 Sm 12,23); assim Davi, assim Abraão, assim Elias, e assim cada um dos justos, tanto os do Novo Testamento quanto os do Antigo. Pois assim Moisés, por amor daqueles que governava, deixou tão grandes riquezas e tesouros incontáveis, escolhendo antes padecer aflição com o povo de Deus (Hb 11,25), e antes mesmo de sua investidura já era, por suas ações, guia do povo. Por isso mesmo, foi bem tolamente que aquele hebreu lhe disse: *Quem te constituiu príncipe e juiz sobre nós?* (Êx 2,14). Que dizes? Vês as ações e duvidas do título? É como se alguém, vendo um médico usar o bisturi excelentemente bem, e socorrendo no corpo o membro que estava enfermo, dissesse: "Quem te fez médico e te ordenou usar o bisturi?" "A arte, meu caro senhor, e a tua própria enfermidade." Assim também o conhecimento fazia dele (isto é, de Moisés) aquilo que ele reivindicava ser. Pois governar é uma arte, não meramente uma dignidade, e uma arte acima de todas as artes. Porque, se o governo das coisas exteriores é uma arte e ciência superior a todas as outras, muito mais o é este. Pois este governo é tanto melhor que aquele, quanto aquele é melhor que os demais; ou antes, muitíssimo mais. E, se quiserdes, examinemos este argumento com maior precisão. Há uma arte da agricultura, da tecelagem, da construção; as quais são muito necessárias e concorrem grandemente para preservar nossa vida. Pois outras, certamente, são apenas auxiliares destas: a do latoeiro, a do carpinteiro, a do pastor. Mas, além disso, das próprias artes a mais necessária de todas é a agricultura, a qual foi mesmo a que Deus primeiro introduziu quando formara o homem. Pois sem calçados e vestes é possível viver; mas sem agricultura é impossível. E tais, dizem, são os Hamáxobios, os nômades entre os citas, e os ginosofistas indianos. Pois estes não se preocupavam com as artes de construir casas, de tecer e de fazer calçados, mas necessitam apenas da agricultura. Envergonhai-vos, vós que tendes necessidade daquelas artes que são supérfluas — cozinheiros, confeiteiros, bordadores, e outros dez mil semelhantes —, para poderdes viver; envergonhai-vos, vós que introduzis vãos refinamentos na vida; envergonhai-vos, vós que sois incrédulos, diante daqueles bárbaros que não têm necessidade de arte. Pois Deus fez a natureza extremamente independente, necessitando apenas de poucas coisas. Não obstante, não vos obrigo nem estabeleço como lei que vivais assim; mas como pediu Jacó. E que pediu ele? *Se o Senhor me der pão para comer e vestes para me vestir* (Gn 28,20). Assim também Paulo ordenou, dizendo: *E tendo alimento e com que nos cobrirmos, sejamos com isso contentes* (1 Tm 6,8). Primeiro, pois, vem a agricultura; segundo, a tecelagem; e terceiro, depois dela, a construção; e a sapataria por último de todas; pois entre nós, ao menos, há muitos tanto servos quanto trabalhadores que vivem sem calçados. Estas, portanto, são as artes úteis e necessárias. Vinde, pois, comparemo-las com a de governar.
Porquanto adiantei estas ocupações, as mais importantes de todas, a fim de que, uma vez demonstrado que este bem lhes é superior, a sua vitória sobre as demais fique fora de questão. De que modo, pois, mostraremos que ele é mais necessário do que todas? Porque sem ele nenhuma vantagem há nessas outras. E, se vos parecer bom, deixemos de lado a menção das demais e tragamos à cena aquela que se ergue mais alta e é mais importante do que qualquer outra: a agricultura. Onde estaria, pois, a vantagem das muitas mãos de vossos trabalhadores, se estivessem em guerra uns com os outros e saqueassem os bens uns dos outros? Pois, tal como as coisas são, o temor do governante os contém e protege o que por eles é produzido; mas, se retirardes isto, em vão será o seu trabalho. Se, porém, alguém examinar com exatidão, encontrará ainda outro governo, que é o genitor e o vínculo deste. Que seria, pois, este? Aquele segundo o qual convém que cada homem controle e governe a si mesmo, castigando as suas paixões indignas, e ao mesmo tempo nutrindo e promovendo o crescimento de todos os germes da virtude com todo cuidado.
Pois há [estas] espécies de governo: uma, aquela pela qual os homens governam povos e cidades, regulando esta a vida política; a qual Paulo, designando-a, disse: Toda alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade senão de Deus (Rm 13,1-4). Depois, para mostrar a vantagem deste governo, prosseguiu dizendo que o governante é ministro de Deus para o bem; e ainda, que é ministro de Deus e vingador para executar a ira sobre aquele que faz o mal.
Um segundo há, pelo qual todo aquele que possui entendimento governa a si mesmo; e isto também o Apóstolo ainda designou, dizendo: Queres tu não temer a potestade? Faze o que é bom (Rm 13,3), falando daquele que a si mesmo governa.
Aqui, todavia, há uma outra regra ainda, mais elevada que a regra política. E qual é ela? A regra que vige na Igreja. E disto mesmo Paulo faz menção, dizendo: "Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como quem há de dar conta delas" (Hb 13,17). Pois esta regra é tanto melhor que a política quanto o céu é melhor que a terra; ou antes, muito mais ainda. Porque, em primeiro lugar, ela cuida principalmente não de como punir os pecados cometidos, mas de como jamais venham a ser cometidos; em segundo lugar, quando já cometidos, não de como remover o membro defunto, mas de como apagá-los inteiramente. E das coisas desta vida, na verdade, não faz grande caso, mas todas as suas transações versam sobre as coisas do céu. Pois "a nossa cidadania está nos céus" (Fp 3,20). E a nossa vida está aqui. Pois a nossa vida, diz ele, "está escondida com Cristo em Deus" (Cl 3,3). E os nossos prêmios estão lá, e a nossa carreira é pelas coroas que ali se encontram. Pois esta vida não se dissolve após o fim, mas então resplandece ainda mais. E por isso, em verdade, os que exercem esta regra têm confiada em suas mãos uma honra maior, não somente que os vice-reis, mas ainda que os próprios que trazem diademas, visto que eles moldam os homens para coisas maiores, e em vista de coisas maiores. Mas nem aquele que persegue a regra política, nem aquele que persegue a espiritual, poderá administrá-la bem, se antes não houver governado a si mesmo como convém, e não houver observado com todo o rigor as respectivas leis de sua condição. Pois assim como a regra sobre a multidão é, de certo modo, dupla, assim também o é aquela que cada um exerce sobre si mesmo. E, também neste ponto, a regra espiritual transcende a política, como o que dissemos já provou. Mas pode-se observar que também algumas das artes imitam a regra; e em particular, a da agricultura. Pois assim como o lavrador é, de certo modo, um governante sobre as plantas, podando e retendo algumas, fazendo outras crescer e cultivando-as: assim também os melhores governantes punem e cortam os que são maus e prejudicam a muitos, ao passo que fazem progredir os bons e ordeiros. Por esta causa também a Escritura assemelha os governantes a vinhateiros. Pois que importa que as plantas não profiram clamor, como nas cidades os injustiçados o fazem? Ainda assim, elas mostram a injúria por seu aspecto, murchando, comprimidas pela falta de espaço por causa das ervas daninhas e sem valor. E assim como a maldade é punida pelas leis, assim verdadeiramente também aqui, por esta arte, tanto a má qualidade do solo como a degenerescência e a selvageria das plantas são corrigidas. Pois todas as variedades das disposições humanas aqui também encontraremos: aspereza, fraqueza, timidez, temeridade, firmeza; e algumas delas, por causa da riqueza, exuberando fora de tempo, e em detrimento dos vizinhos, e outras empobrecidas e injuriadas; como, por exemplo, quando as sebes se erguem em exuberância à custa das plantas vizinhas; quando outras árvores estéreis e silvestres, alçando-se a grande altura, impedem o crescimento das que estão abaixo delas. E assim como os governantes e reis têm aqueles que perturbam sua regra com violência e guerra, assim também o lavrador tem ataques de feras selvagens, irregularidade do clima, granizo, mofo, grande chuva, seca, e todas as coisas semelhantes. Mas estas coisas acontecem para que constantemente olheis para a esperança do auxílio de Deus.
Para os outros ofícios, com efeito, seguem seu curso mediante a diligência dos homens somente; mas este prevalece à medida que Deus determina a balança, e quase que inteiramente depende Dele; e necessita de chuvas do alto, e da mescla dos climas, e, sobretudo, de Sua Providência. Pois nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento (1 Cor 3,7).
Aqui também há morte e vida, e dores de parto e geração, tal como entre os homens. Pois aqui sucedem casos tanto de ser ceifado quanto de frutificar, e de morrer, e de nascer de novo (o mesmo que estava morto), em que a terra nos discorre, tanto de modos diversos quanto claramente, acerca de uma ressurreição. Pois quando a raiz frutifica, quando a semente brota, não é isso uma ressurreição? E poder-se-ia perceber uma larga medida da providência e sabedoria de Deus envolvida nesta ordem, se alguém a percorresse ponto por ponto. Mas o que eu quis dizer é que esta [ordem] concerne à terra e às plantas; a nossa, porém, ao cuidado das almas. E tão grande quanto é a diferença entre plantas e alma, tão grande é a superioridade desta sobre aquela. E os governantes da vida presente, por sua vez, são tão inferiores àquela [ordem], quanto é melhor ter domínio sobre os que consentem do que sobre os que não consentem. Pois também esta é uma ordem natural; pois, verdadeiramente, naquele caso tudo se faz por temor e por constrangimento; mas aqui, o que se faz retamente é por escolha e propósito. E não é somente neste ponto que esta excede aquela, mas em que não é apenas uma ordem, mas, por assim dizer, uma paternidade; pois tem a mansidão de um pai; e, ainda que ordenando coisas maiores, [contudo] persuade. Pois o governante temporal, com efeito, diz: "Se cometeres adultério, perdeste a vida"; mas este, se apenas olhares com olhos impuros, ameaça os castigos supremos. Pois temível é este tribunal, e para a correção da alma, não somente do corpo. Tão grande, pois, quanto a diferença entre alma e corpo, é a que separa novamente esta ordem daquela. E aquele, na verdade, senta-se como juiz das coisas manifestas; ou antes, nem mesmo de todas estas, mas apenas das que podem ser plenamente comprovadas; e muitas vezes, ademais, ainda nestas procede de modo enganoso; mas este tribunal instrui os que a ele se apresentam de que Aquele que julga em nossa causa trará todas as coisas nuas e patentes (Hb 4,13) diante do teatro comum do mundo, e que ocultar-se será impossível. De sorte que o Cristianismo mantém unida esta nossa vida muito mais do que as leis temporais. Pois se tremer por pecados secretos torna o homem mais seguro do que temer apenas os manifestos; e se chamá-lo a prestar contas ainda daquelas ofensas menores excita antes à virtude do que punir somente as mais graves; então facilmente se vê que esta ordem, mais do que todas as outras, solda entre si a nossa vida.
6. Mas, se quereis, consideremos também o modo de eleger os que governam; pois também aqui haveis de contemplar quão grande é a diferença. Pois não é possível obter esta autoridade dando dinheiro, mas tendo manifestado um caráter de virtude eminente; e não como que para a glória diante dos homens e para a própria comodidade, mas como que para fadigas e labores e para o bem-estar de muitos — assim, digo, é instituído aquele que foi designado a este governo. Por isso mesmo é abundante o auxílio de que ele goza da parte do Espírito. E, naquele caso, na verdade, o governo não pode ir além de simplesmente declarar o que se deve fazer; mas neste, acrescenta-se ainda o socorro derivado das orações e do Espírito. Além disso, naquele caso, na verdade, não se diz uma palavra sobre filosofia, nem alguém se assenta para ensinar o que é a alma, e o que é o mundo, e o que havemos de ser depois, e para onde havemos de partir daqui, e como havemos de alcançar a virtude. Ora, de contratos e fianças e dinheiro há muita fala, mas dessas coisas nem um pensamento; ao passo que na Igreja pode-se ver que estes são os assuntos de todo discurso. Por isso mesmo, com justiça pode-se chamá-la por todos estes nomes: tribunal de justiça, e hospital, e escola de filosofia, e berçário da alma, e escola de treinamento para aquela corrida que conduz ao céu. Além disso, que este governo é também o mais brando de todos, ainda que exigindo maior rigor, é claro por isto. Pois o governante temporal, se surpreende um adúltero, imediatamente o pune. E, contudo, qual é a vantagem disto? Pois isto não é destruir a paixão, mas despedir a alma com sua ferida ainda sobre si. Mas este governante, quando descobre, não considera como há de vingar-se, mas como há de extirpar a paixão. Pois tu, na verdade, fazes o mesmo que se, havendo uma enfermidade na cabeça, não detivesses a enfermidade, mas cortasses a cabeça. Eu, porém, não faço assim: mas corto a enfermidade. E excluo-o, de fato, dos mistérios e dos recintos sagrados; mas, uma vez restaurado, torno a recebê-lo, já liberto daquela depravação e emendado por seu arrependimento. "E como é possível", diz alguém, "extirpar o adultério?" É possível, sim, muito possível, se o homem se submete a estas leis. Pois a Igreja é um banho espiritual, que limpa não a sujeira do corpo, mas as manchas da alma, por seus muitos métodos de arrependimento. Pois tu, na verdade, tanto se deixas o homem impune o fizeste pior, quanto se o punes o despedes incurado; eu, porém, nem o deixo impune, nem o puno como tu, mas tanto exijo uma satisfação que me convém, quanto endireito o que foi feito torto. Quereis aprender de ainda outro modo como tu, na verdade, embora desembainhando espadas e ostentando chamas àqueles que ofendem, não operas nenhuma cura considerável; ao passo que eu, sem estas coisas, os conduzi à saúde perfeita? Mas não tenho necessidade de argumentos ou palavras, senão que trago a terra e o mar, e a própria natureza humana [por testemunhas]. E indagai, antes que este tribunal abrisse suas sessões, qual era a condição das coisas humanas; como nem sequer os nomes das boas obras que agora se praticam jamais foram ouvidos. Pois quem desafiava a morte? Quem desprezava o dinheiro? Quem era indiferente à glória? Quem, fugindo das agitações da vida, dava as boas-vindas aos montes e à solidão, mãe da sabedoria celeste? Onde estava sequer o nome da virgindade? Pois todas estas coisas, e mais que estas, foram a boa obra deste tribunal de justiça, os feitos deste governo.
Sabendo, pois, estas coisas, e compreendendo bem que delas procede todo benefício de nossa vida, e a reforma do mundo, vinde com frequência à audição das palavras divinas, e às nossas assembleias aqui, e às orações. Pois se assim vos ordenardes, podereis, tendo exibido um comportamento digno do céu, alcançar os bens prometidos; os quais possamos todos alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
É louvor elevado quando um mestre se gloria de que seus discípulos não o envergonharam. Paulo acrescenta ainda que, depois de haver-se gloriado dos coríntios diante de Tito, eles não o haviam decepcionado.
Pois se em algo me gloriei a ele acerca de vós.
É elevadíssimo louvor este, que o mestre se gloriasse, pois diz: não fui envergonhado. Alegrei-me, portanto, porque vos mostrastes emendados e comprovastes as minhas palavras com as vossas obras. De sorte que a honra que a mim advinha era dupla: primeiro, por terdes progredido; depois, por não me ter sido dado ficar aquém da verdade.
2 Coríntios 7:14. Mas, assim como em tudo vos falamos com verdade, assim também a nossa glória diante de Tito se provou verdadeira.
Aqui ele alude a algo mais. Assim como vos falamos todas as coisas com verdade (pois é provável que tivesse também falado muito em louvor deste varão), assim também o que dissemos de vós a Tito se comprovou verdadeiro.
Isto mostra que Tito era grato para com os seus benfeitores, e confere também aos coríntios honra ainda maior, porquanto foram capazes de imprimir nele impressão tão profunda.
O que se segue é em louvor de Tito, como quem se consumia sobremaneira de amor e lhes era afeiçoado. E não disse "o seu amor". Depois, para que não pareça estar a lisonjear, ele em toda parte menciona as causas de tal afeição, a fim de que, como disse, escape à acusação de lisonja e ao mesmo tempo os anime ainda mais, fazendo redundar o louvor sobre eles, e mostrando que foram eles mesmos que infundiram nele o princípio e o fundamento de tão grande amor. Pois, tendo dito que o seu íntimo afeto é mais abundante para convosco, acrescentou:
Lembrando-se da obediência de todos vós. Ora, isto mostra tanto que Tito era grato para com os seus benfeitores, visto que voltara trazendo a todos eles no coração e continuamente se lembrava deles, levando-os nos lábios e no pensamento, quanto constitui maior distinção para os coríntios, visto que assim vencido é que o despediram. Depois menciona também a obediência deles, engrandecendo o seu zelo; por isso acrescenta estas palavras:
Como com temor e tremor o recebestes. Não apenas com amor, mas também com excessiva honra. Vedes como ele testemunha neles uma dupla virtude, a de o terem amado como pai e a de o terem temido como a um chefe, sem que o temor obscurecesse o amor, nem o amor afrouxasse o temor? Isto mesmo já exprimira acima: que vos entristecêsseis segundo Deus, quanto cuidado sério isso operou em vós; sim, quanto temor, sim, quanta saudade.
Alegro-me, portanto, de que em tudo tenho bom ânimo a respeito de vós. Vedes como ele se alegra mais por causa deles? "Porque", diz ele, "em nada envergonhastes o vosso mestre, nem vos mostrastes indignos do meu testemunho." De sorte que não se alegrava tanto por Tito, por este haver gozado de tão grande honra, quanto por eles mesmos, por terem manifestado tão bom sentimento. Pois, para que não se imagine que se alegra antes por causa de Tito, observai como também aqui ele indica a razão. Assim como, pois, disse acima: se em algo me gloriei a ele acerca de vós, não fui envergonhado, assim também aqui: em tudo tenho bom ânimo a respeito de vós. "Se a necessidade exigisse que eu vos repreendesse, não temeria que vos alienásseis; ou, de novo, que me gloriasse, não temeria ser convencido de falsidade; ou que vos louvasse como obedientes ao freio, ou como amantes, ou como cheios de zelo, tenho confiança em vós. Ordenei-vos que cortásseis, e cortastes; ordenei-vos que recebêsseis, e recebestes; disse diante de Tito que éreis gente magnânima e admirável, e que sabíeis reverenciar os mestres: provastes estas coisas verdadeiras pela vossa conduta." E ele aprendeu estas coisas não tanto de mim quanto de vós mesmos. De qualquer modo, quando voltou, tornara-se apaixonado amante vosso, tendo o vosso proceder ultrapassado o que dele se lhe dissera.
Tendo animado os coríntios com estes louvores, Paulo volta agora de novo à exortação. Deseja animá-los a dar esmolas, mas em vez de o dizer diretamente, prepara o terreno falando primeiro das coisas mais altas.
Como em muita prova de aflição a abundância do seu gozo.
Vedes a sua sabedoria? Pois não diz primeiro o que deseja, mas antes outra coisa, para que não pareça fazê-lo de propósito deliberado, mas chegar lá por diverso encadeamento. Em muita prova de aflição. Isto foi o que disse na Epístola aos próprios macedônios: tornastes-vos imitadores do Senhor, tendo recebido a palavra em muita aflição, com gozo do Espírito Santo; e ainda: de vós ressoou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia, mas também em todo lugar se divulgou a vossa fé para com Deus (1 Ts 1:6-8). Mas que quer dizer: em muita prova de aflição a abundância do seu gozo? Ambas as coisas, diz ele, lhes sucederam em excesso: tanto a aflição quanto o gozo. Por isso era grande também a estranheza de que tão grande excesso de prazer lhes brotasse da aflição. Pois, na verdade, a aflição não somente não foi mãe de tristeza, mas até se lhes tornou ocasião de alegria; e isto ainda que fosse grande. Ora, isto disse ele para prepará-los a serem nobres e firmes nas suas provações. Pois não foram apenas afligidos, mas de tal modo que se tornaram também aprovados pela sua paciência; ou antes, não diz ele "pela sua paciência", mas o que era mais que paciência, gozo. E nem disse "gozo" simplesmente, mas abundância de gozo, pois nele brotou grande e inefável.
3. E a sua profunda pobreza abundou nas riquezas da sua liberalidade.
De novo, ambas as coisas com excesso. Pois, assim como a sua grande aflição gerou grande gozo, sim, abundância de gozo, assim a sua grande pobreza gerou grande riqueza de esmolas. Isto mostrou ele, dizendo: abundou nas riquezas da sua liberalidade. Pois a munificência não se determina pela medida do que se dá, mas pelo ânimo dos que o oferecem.
Por isso em nenhuma parte diz "a riqueza dos dons", mas as riquezas da sua liberalidade. Ora, o que ele diz é isto: "a sua pobreza não somente não foi impedimento para serem generosos, mas até lhes foi ocasião de abundarem, assim como a aflição o foi de sentirem gozo. Pois quanto mais pobres eram, tanto mais munificentes se mostravam e mais prontamente contribuíam." Por isso os admira sobremaneira, por terem, em meio a tão grande pobreza, manifestado tão grande munificência. Pois a sua profunda, isto é, a sua grande e inefável pobreza, mostrou a sua liberalidade. Mas não disse "mostrou", e sim "abundou"; e não disse "liberalidade", mas riquezas de liberalidade, isto é, um contrapeso à grandeza da sua pobreza, ou antes, muito a superando, foi a generosidade que manifestaram. Depois ele explica isto ainda mais claramente.
Tendo-os animado com estes encômios, ele de novo tenta a exortação. Pois por esta razão misturou estes louvores com a sua repreensão, para que, ao passar da repreensão à exortação, não tornasse malacolhido o que tinha a dizer; mas, tendo abrandado os seus ouvidos, pudesse por este meio abrir caminho à sua exortação. Pois se propõe a discorrer sobre a esmola; por isso também diz de antemão: alegro-me de que em tudo tenho bom ânimo a respeito de vós; pelas suas boas obras passadas, tornando-os mais prontos também para este dever. E não disse logo: "portanto, dai esmolas", mas observai a sua sabedoria, como de longe e do alto vai buscar a preparação para o seu discurso. Pois diz: dou-vos a conhecer a graça de Deus que foi dada nas Igrejas da Macedônia. Pois, para que não se ensoberbecessem, chama graça ao que fizeram; e, ao relatar o que outros fizeram, opera neles maior zelo por meio dos seus encômios a outros. E menciona juntos dois louvores dos macedônios, ou antes três, a saber: que suportam nobremente as provações; e que sabem compadecer-se; e que, sendo pobres, manifestaram profusão em dar esmolas, pois também os seus bens haviam sido espoliados. E quando lhes escreveu a Epístola, foi significando isto que disse: pois vos tornastes imitadores das Igrejas de Deus que estão na Judeia, porquanto também padecestes as mesmas coisas da parte dos vossos próprios compatriotas, assim como eles da parte dos judeus (1 Ts 2:14). Ouvi o que depois disse, escrevendo aos Hebreus: pois com gozo aceitastes o espólio dos vossos bens (Hb 10:34). Mas Ele chama graça ao que fizeram, não apenas para os manter humildes, mas também para os provocar à emulação e para evitar que o que dizia se tornasse invejoso. Por isso acrescentou também o nome de irmãos, de modo a solapar todo sentimento de inveja; pois está para louvá-los em termos elevadíssimos. Ouvi, ao menos, os seus louvores. Pois, tendo dito dou-vos a conhecer a graça de Deus, não disse "que foi dada nesta ou naquela cidade", mas louva toda a nação, dizendo: nas Igrejas da Macedônia. Depois detalha também esta mesma graça.
A aflição dos macedônios não conduziu apenas à tristeza, mas também a grande regozijo e generosidade. Disse Paulo isto para preparar os coríntios a serem nobres e firmes nos seus sofrimentos. Pois não deviam ser apenas afligidos; deviam usar as suas aflições como meio de crescer em gozo.
A grandeza dos macedônios se manifesta neste ponto: que deram voluntariamente, a despeito de sua pobreza.
Pois, segundo o seu poder, eu dou testemunho. Fidedigno é o testemunho. E além do seu poder. Isto é, transbordou até as riquezas da sua liberalidade. Ou antes, ele torna isto manifesto, não só por esta expressão, mas também por tudo o que se segue; pois diz: por sua própria vontade. Eis aqui ainda outro excesso.
Não só deram os macedônios voluntariamente, como ainda insistiram para que Paulo aceitasse o que tinham a oferecer. Suas ações provam quão ardentemente desejavam os dons espirituais.
Com muita súplica. Eis aqui uma terceira e uma quarta vez. Rogando-nos. Eis ainda uma quinta. E estando em aflição e em pobreza. Aqui estão uma sexta e uma sétima. E deram com excesso. Ora, como isto é o que ele mais deseja providenciar no caso dos coríntios, a saber, o dar deliberadamente, insiste especialmente sobre isto, dizendo: com muita súplica, e rogando-nos. 'Não fomos nós que lhes suplicamos, mas eles a nós.' Rogando-nos o quê? Que a graça e a comunhão no ministério aos santos. Vede como ele de novo exalta o feito, chamando-o por nomes veneráveis. Pois, como eram ambiciosos dos dons espirituais, chama-o pelo nome de graça, para que o buscassem com ardor; e novamente pelo de comunhão, para que aprendessem que recebem, e não somente dão. 'Isto, pois, nos suplicaram', diz ele, 'que tomássemos sobre nós tal ministério.'
O segredo do zelo dos macedônios foi que, primeiramente, deram-se a si mesmos ao Senhor. Tudo o mais decorreu disto. Por conseguinte, quando exerciam a misericórdia, não se enchiam de soberba, mas antes manifestavam grande humildade e celestial sabedoria.
E isto, não como esperávamos. Isto ele diz tanto a respeito da quantia quanto de suas aflições. 'Pois jamais poderíamos ter esperado', diz ele, 'que, estando em tamanha aflição e pobreza, ainda assim nos instassem e tão grandemente nos suplicassem.' Mostrou também o seu zelo pela vida em outros aspectos, dizendo:
Mas primeiro deram-se a si mesmos ao Senhor, e a nós pela vontade de Deus.
'Pois em tudo a sua obediência excedeu a nossa expectativa; nem porque exerciam a misericórdia negligenciaram as demais virtudes', mas primeiro deram-se a si mesmos ao Senhor. Que significa: deram-se a si mesmos ao Senhor? 'Ofereceram-se [a si mesmos]; mostraram-se aprovados na fé; exibiram muita fortaleza nas suas provações, ordem, bondade, amor, em tudo tanto prontidão quanto zelo.' Que significa: e a nós? 'Eram dóceis às rédeas, amavam-nos, obedeciam-nos; tanto cumprindo as leis de Deus quanto ligados a nós pelo amor.' E observai como aqui também ele de novo mostra o seu fervor, dizendo: deram-se a si mesmos ao Senhor. Não obedeciam em algumas coisas a Deus, e em outras ao mundo; mas em tudo a Ele; e deram-se inteiramente a Deus. Pois nem porque exerciam a misericórdia se encheram de vã soberba, mas, exibindo muita humildade, muita obediência, muita reverência, muita celestial sabedoria, assim operaram também as suas esmolas. Mas que significa: pela vontade de Deus? Visto que dissera: deram-se a si mesmos a nós, contudo não foi a nós à maneira dos homens, mas fizeram isto também segundo o pensamento de Deus.
Paulo enviava Tito a Corinto para exortá-los a imitarem os macedônios. A presença do estimado discípulo de Paulo teria sido, sem dúvida, grande incentivo para que dessem.
Muitos e estreitamente ligados ao que precedeu. "Pois porque os vimos", diz ele, "veementes e fervorosos em todas as coisas, nas tentações, nas esmolas, no seu amor para conosco, na pureza de sua vida no mais: a fim de que também vós vos tornásseis iguais a eles, enviamos Tito." Todavia isto ele não disse, ainda que o tenha insinuado. Eis a superabundância do amor. "Pois embora rogados e desejados por eles", diz ele, "estávamos ansiosos quanto ao vosso estado, para que de algum modo não ficásseis atrás deles. Pelo que também enviamos Tito, para que também por isto sendo estimulados e admoestados, pudésseis emular os macedônios." Pois Tito acontecia estar ali quando esta Epístola se escrevia. Contudo mostra que ele havia feito um começo nesta matéria antes da exortação de Paulo; que como já tinha começado antes, ele diz. Pelo que também lhe concede grande louvor; como, por exemplo, no princípio [da Epístola]: Porque não achei a Tito, meu irmão, não tive alívio para o meu espírito (2 Cor 2,13); e aqui todas aquelas coisas que ele disse, e isto mesmo também. Pois isto também não é pequeno louvor, o ter começado até antes: pois isto evidencia um espírito ardente e fervoroso. Pelo que também o enviou, infundindo entre eles também nisto um gravíssimo incentivo para o dar, a presença de Tito. Por esta razão também o exalta com louvores, desejando torná-lo mais sobremaneira caro aos coríntios. Pois isto também tem grande peso para persuadir, quando aquele que aconselha está em termos íntimos. E bem faz ele, uma e duas e três vezes, tendo feito menção da esmola, chamá-la "graça", ora dizendo: Além disto, irmãos, fazemo-vos saber a graça de Deus dada às igrejas da Macedônia; e ora: eles de seu próprio grado, rogando-nos com muita instância acerca desta graça e comunhão; e ainda: que como havia começado, assim também acabasse em vós também esta graça.
5. Pois este é um grande bem e um dom de Deus; e, retamente praticado, assimila-nos, quanto possível, a Deus; porquanto tal homem é, no mais alto sentido, um homem. Certo autor, ao menos, traçando o modelo do homem, mencionou isto, pois diz: Grande coisa é o homem, e coisa preciosa é o homem misericordioso (Pr 20:6, Septuaginta). Maior é este dom do que ressuscitar os mortos. Pois muito maior é alimentar a Cristo quando faminto do que ressuscitar os mortos em nome de Jesus: porquanto naquele caso fazes bem a Cristo, neste, é Ele quem faz bem a ti. E o galardão, sem dúvida, vem de fazer o bem, não de recebê-lo. Pois aqui, refiro-me ao caso dos milagres, tu és devedor de Deus; naquele da esmola, tens Deus por devedor teu. Ora, é esmola quando é feita com boa vontade, quando com liberalidade, quando julgas não dar, mas receber, quando feita como se fosses tu o beneficiado, como se estivesses lucrando e não perdendo; pois de outro modo isto não seria graça. Porque aquele que exerce misericórdia para com outrem deve sentir-se alegre, não pesaroso. Pois como não é absurdo que, ao removeres o abatimento de outro, fiques tu mesmo abatido? Assim já não permites que isto seja esmola. Porque, se te abates por teres livrado outro do abatimento, ofereces um exemplo de crueldade e desumanidade extrema; pois melhor seria não o teres livrado, do que assim o livrar. E por que te abates tu também, ó homem? Por medo de que teu ouro diminua? Se tais são teus pensamentos, não dês coisa alguma: se não estás bem certo de que ele se multiplica para ti no céu, não o distribuas. Mas tu buscas a recompensa aqui. Por quê? Que tua esmola seja esmola, e não comércio. Ora, muitos, de fato, receberam recompensa até mesmo aqui; mas não a receberam de modo a levar vantagem sobre os que não a receberam aqui; antes, alguns deles a receberam por serem mais fracos do que deveriam, porque não foram tão fortemente atraídos pelas coisas que estão lá. E assim como os gulosos, e mal-educados, e escravos do ventre, sendo convidados a um banquete régio, e incapazes de esperar até o momento próprio, tal como crianças pequenas estragam seu próprio prazer, tomando alimento antecipadamente e empanturrando-se de pratos inferiores: assim também, em verdade, estes que buscam e recebem [a recompensa] aqui diminuem seu galardão lá. Além disso, quando emprestas, desejas receber o principal após um intervalo mais longo, e talvez até não recebê-lo de modo algum, a fim de que, pela demora, torne maior o juro; mas, neste caso, tu o exiges de volta imediatamente; e isto quando estás para não estar aqui, mas lá para sempre; quando estás para não estar aqui para ser julgado, mas para prestar contas? E se, de fato, alguém te construísse mansões onde não haverias de permanecer, julgarias isto uma perda; mas agora, desejas tu ser rico aqui, donde possivelmente hás de partir antes mesmo do anoitecer? Não sabes que vivemos em terra estranha, como estrangeiros e peregrinos? Não sabes que é sina dos peregrinos serem expulsos quando não pensam, quando não esperam? O que também é a nossa sina. Por esta razão, pois, quaisquer coisas que tenhamos preparado, deixamo-las aqui. Porque o Senhor não nos permite recebê-las e partir, se edificamos casas, se compramos campos, se escravos, se bens, se qualquer outra coisa tal. Mas não somente não nos permite tomá-las e partir daqui, como nem sequer te credita o preço delas.
Para vós, com efeito, Ele já havia predito que não edificásseis, nem despendêsseis o que é de outrem, mas o que é vosso próprio. Por que, pois, deixando o que vos é próprio, laborais e vos custeais no que é alheio, de modo a perder tanto o labor quanto a paga, e a sofrer o mais extremo castigo? Não façais assim, eu vos suplico; mas, visto que somos por natureza peregrinos, sejamo-lo também por escolha, para que não sejamos ali peregrinos e desonrados e lançados fora. Porque, se nos empenharmos em ser cidadãos aqui, não o seremos nem aqui nem lá; mas, se permanecermos peregrinos, e vivermos como convém que vivam os peregrinos, gozaremos da liberdade de cidadãos tanto aqui quanto lá. Pois o justo, ainda que nada possua, tanto habitará aqui em meio às posses de todos os homens como se fossem suas próprias, quanto, tendo partido para o céu, verá aquelas suas eternas moradas. E não sofrerá aqui nenhum desconforto (pois jamais poderão fazer de estrangeiro aquele que tem toda a terra por sua cidade); e, restituído à sua própria pátria, receberá as verdadeiras riquezas. A fim de que ganhemos tanto as coisas desta vida quanto as daquela, usemos retamente as coisas que temos. Pois assim seremos cidadãos dos céus, e gozaremos de muita ousadia; à qual possamos todos nós chegar, pela graça e pelo amor aos homens de Nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória e poder para sempre. Amém.
Portanto, que abundeis em tudo; na fé e na palavra, e no conhecimento, e em toda diligência.
Vede novamente a sua exortação acompanhada de louvores, louvores ainda maiores. E não disse: 'que deis', mas que abundeis; a saber, na fé dos dons, e na palavra, isto é, a palavra da sabedoria, e no conhecimento, a saber, das doutrinas, e em toda diligência, para o alcance de toda outra virtude.
E no vosso amor, a saber, aquele de que antes falei, do qual também fiz prova.
Que abundeis também nesta graça. Vede que por esta razão ele começou por aqueles louvores, para que, avançando, os atraísse à mesma diligência também nestas coisas.
Não falo como quem ordena.
Vede como constantemente ele os trata com brandura, como evita toda ofensa, e não é violento nem impositivo; ou antes, o que ele diz possui ambas as qualidades, a saber, a ausência de ofensa própria daquilo que não é imposto. Pois, depois de os haver repetidamente exortado e de haver grandemente louvado os macedônios, para que isto não parecesse constituir uma necessidade, ele diz:
Não falo como quem ordena, mas provando, pela solicitude de outros, também a sinceridade do vosso amor.
'Não como quem duvida dela' (pois não é isto o que aqui pretende insinuar), 'mas para pô-la à prova, manifestá-la e conformá-la a maior firmeza. Pois digo estas coisas para vos suscitar à mesma prontidão. E menciono o zelo deles para avivar, alegrar e estimular vossa inclinação.' Depois, disto ele passou a outro ponto, e maior. Pois não deixa escapar nenhum modo de persuasão, mas move o céu e a terra ao tratar de seu argumento. Pois os exortou tanto pelos louvores de outros homens, dizendo: Conheceis a graça de Deus que foi dada nas igrejas da Macedônia; quanto pelos seus próprios, dizendo que abundeis em tudo, em palavra e em conhecimento. Pois isto tem mais poder de aguilhoar o homem — que ele seja inferior a si mesmo — do que sê-lo a outros. Depois ele procede à cabeça e coroa de sua persuasão.
Notai como Paulo os trata com brandura e evita toda ofensa. Não é violento nem impositivo em seu tom, ainda que seja bem claro o que ele espera.
'Pois tende em mente,' diz ele, 'ponderai e considerai a graça de Deus, e não a passeis levianamente, mas procurai compreender sua grandeza, tanto em extensão quanto em natureza, e não invejareis nada do que é vosso. Ele Se esvaziou de sua glória para que vós, não por suas riquezas, mas por sua pobreza, vos tornásseis ricos. Se não credes que a pobreza produz riquezas, tende em mente vosso Senhor, e não mais duvidareis. Pois, se Ele não se houvesse feito pobre, vós não vos haveríeis tornado ricos. Pois esta é a maravilha: que a pobreza enriqueceu as riquezas.' E por riquezas entende aqui o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justificação, a santificação, os incontáveis bens que Ele nos concedeu e propõe conceder. E todas estas coisas nos advieram por sua pobreza. Que pobreza? Por ter Ele tomado carne, feito-se homem, e sofrido o que sofreu. E, contudo, Ele não devia isto, mas tu o deves a Ele.
Se não credes que a pobreza produz grande riqueza, considerai o caso de Jesus, e sereis persuadidos do contrário. Pois, se Ele não se houvesse feito pobre, vós não vos haveríeis tornado ricos. Por riquezas, Paulo entende o conhecimento da piedade, a purificação dos pecados, a justificação, a santificação, os incontáveis bens que Deus nos concedeu e que Se propõe conceder.
E nisto vos dou o meu conselho, para vosso proveito.
Vede como ele novamente se acautela em não dar ofensa alguma, e abranda o que diz mediante estas duas coisas: dizendo, dou conselho, e, para vosso proveito. "Pois nem vos constranjo e forço", diz ele, "nem o exijo de súditos relutantes; nem digo estas coisas tendo em vista tanto o proveito dos que recebem quanto o vosso." Depois, também o exemplo que se segue é tirado deles mesmos, e não de outrem.
Os quais primeiro começastes, há um ano, não somente a fazer, mas também a querer.
Vede como ele mostra que eles próprios eram voluntariosos, e haviam chegado a esta resolução sem persuasão alheia. Pois, havendo dado este testemunho aos tessalonicenses, de que espontaneamente, com muita súplica, haviam prosseguido nesta esmola, deseja mostrar também destes que esta boa obra é sua própria. Por isso disse, não somente a fazer, mas também a querer, e não começastes, mas começastes antes, há um ano. A estas coisas, pois, vos exorto, para as quais de antemão vos aplicastes com toda prontidão.
E agora também completastes o fazê-lo.
Não disse, o fizestes, mas, lhe destes complemento,
Para que, assim como houve a prontidão de querer, [haja] também o complemento segundo vossa capacidade.
Para que esta boa obra não se detenha na prontidão, mas receba também a recompensa que se segue às obras.
Vede sabedoria inefável. Nisto — havendo apontado os que faziam além de suas posses, refiro-me aos tessalonicenses, e havendo-os louvado por isto e dito, dou-lhes testemunho de que até além de suas posses —, exorta os coríntios a fazer somente segundo suas posses, deixando que o exemplo faça sua própria obra; pois sabia que não tanto a exortação, quanto a emulação, incita à imitação do semelhante; por isso diz, Pois se há prontidão, é aceita segundo o que alguém tem, não segundo o que não tem.
"Não temais", quer dizer, "porque disse estas coisas, pois o que eu disse foi um encômio à munificência deles, mas Deus requer as coisas segundo as posses de cada um", segundo o que tem, não segundo o que não tem. Pois a palavra é aceita, aqui implica "é requerida". E ele abranda grandemente a exortação, confiando com segurança neste exemplo, e conquistando-os mais certamente ao deixá-los em liberdade.
Vede quão inacreditavelmente sábio é Paulo. Depois de apontar a necessidade e mostrar-lhes um exemplo, Paulo deixa os coríntios fazerem quanto puderem, permitindo que o exemplo dos macedônios faça sua própria obra de persuasão. Sabia que a imitação era um incentivo mais poderoso que a exortação.
E contudo Cristo louvou a conduta contrária no caso da viúva, que ela lançou todo o seu sustento e deu de sua penúria (Mc 12,43). Mas porque discorria aos coríntios, entre os quais escolheu padecer fome — pois melhor me fora antes morrer, do que alguém tornar vã a minha glória (1 Cor 9,15) —, usa por isso uma exortação temperada, louvando de fato os que haviam feito além de suas posses, mas não compelindo estes a fazê-lo; não porque não o desejasse, mas porque eram algo fracos. Pois por que louva aqueles, senão porque em muita prova de aflição a abundância de sua alegria e sua profunda pobreza abundaram para as riquezas de sua liberalidade, e porque deram além de suas posses? Não é bem evidente que é como induzindo também estes a esta mesma conduta? De modo que, ainda que pareça permitir um padrão inferior, assim o faz para que por ele possa elevá-los a este outro. Considerai, por exemplo, como já no que se segue ele encobertamente prepara o caminho para isto.
Pois não somente pelas palavras que antes usou, mas também por estas, deseja tornar leve o mandamento. E não somente por esta consideração, mas também pela da recompensa, de novo o torna mais fácil; e profere coisas mais altas do que merecem, dizendo, Para que haja igualdade neste tempo, e a abundância deles seja suprimento de vossa falta. Ora, que é o que ele diz? "Vós floresceis em dinheiro; eles em vida e em ousadia para com Deus." "Dai-lhes, pois, do dinheiro em que abundais, mas que eles não têm; para que recebais daquela ousadia em que eles são ricos e vós sois carentes." Vede como encobertamente preparou o caminho para que dessem além de suas posses e de sua própria carência. "Pois", diz ele, "se desejais receber da abundância deles, dai da vossa abundância; mas se quiserdes ganhar para vós o todo, daríeis de vossa carência e além de vossas posses." Não diz isto, porém, mas o deixa ao raciocínio de seus ouvintes; e ele mesmo, entrementes, realiza o seu propósito e a exortação que era conveniente, acrescentando, conforme o que parecia, as palavras, para que haja igualdade neste tempo. Como igualdade? Vós e eles mutuamente dando vossa superabundância, e preenchendo vossas faltas. E que sorte de igualdade é esta, dar coisas espirituais por coisas carnais? Grande é a vantagem daquele lado; como, pois, chama a isto igualdade? Ou em respeito a cada um abundar e carecer, diz que se dá esta [igualdade]; ou então em respeito somente à vida presente. E por isso, depois de dizer igualdade, acrescentou, neste tempo. Ora, isto disse, tanto para subjugar a soberba dos ricos, quanto para mostrar que, depois de nossa partida daqui, os espirituais possuem a maior vantagem. Pois aqui, na verdade, todos gozamos de muita igualdade de honra; mas então haverá larga distinção e mui grande superioridade, quando os justos resplandecerem mais que o sol. Depois, tendo mostrado que eles haviam de não somente dar, mas também receber, e mais, em retorno, procura por uma consideração ulterior torná-los prontos, mostrando que, se não dessem de seus bens a outros, nada ganhariam ao ajuntar tudo dentro de si. E aduz uma história antiga,
Paulo assinala que a partilha é mútua. Com efeito, os coríntios haveriam de colher recompensas espirituais em abundância. Como podem estas ser comparadas com o que é meramente carnal? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Isto aconteceu no caso do maná, quando os que colhiam mais e os que colhiam menos se viram com igual quantidade. Deus assim procedeu para punir a avareza, e Paulo o recorda tanto para os alarmar com o que então sucedeu quanto para os persuadir a jamais desejarem mais do que já possuem, nem se afligirem por possuírem menos.
Ora bem, isto se deu no caso do maná. Pois tanto os que colhiam mais quanto os que colhiam menos verificavam ter a mesma quantidade, castigando Deus, deste modo, a insaciabilidade. E isto disse ele ao mesmo tempo tanto para alarmá-los pelo que então sucedeu, quanto para persuadi-los a jamais desejarem ter mais, nem se afligirem por terem menos. E isto pode-se ver acontecer agora nas coisas desta vida, e não somente no maná. Pois se todos nós enchemos apenas um ventre, e vivemos igual duração de tempo, e vestimos um só corpo, nem o rico há de ganhar algo com sua abundância, nem o pobre há de perder algo com sua pobreza.
3. Por que, pois, tremeis diante da pobreza? E por que correis atrás da riqueza? "Temo", diz alguém, "ser obrigado a ir às portas de outros homens e a mendigar de meu vizinho." E ouço constantemente também muitos orando neste sentido, e dizendo: "Não me permitais jamais precisar de homens." E rio sobremaneira ao ouvir tais orações, pois este temor é mesmo pueril. Porquanto todos os dias e em quase tudo, por assim dizer, precisamos uns dos outros. De sorte que estas são palavras de um espírito insensato e inchado, que não discerne claramente a natureza das coisas. Não vedes que todos nós precisamos uns dos outros? O soldado, do artesão; o artesão, do mercador; o mercador, do lavrador; o escravo, do homem livre; o senhor, do escravo; o pobre, do rico; o rico, do pobre; aquele que não trabalha, daquele que dá esmola; aquele que a concede, daquele que a recebe. Pois aquele que recebe a esmola supre uma necessidade gravíssima, necessidade maior que qualquer outra. Porque, se não houvesse pobres, a maior parte de nossa salvação seria destruída, visto que não teríamos onde depositar nossa riqueza. De modo que até o pobre, que parece ser mais inútil que qualquer outro, é o mais útil de todos. Mas, se é vergonhoso precisar de outrem, resta morrer; pois não é possível a um homem viver que teme isto. "Mas", diz alguém, "não posso suportar zombarias arqueadas [em escárnio]." Por que, ao acusar outro de arrogância, vos desonrais a vós mesmo com esta mesma acusação? Pois não poder suportar a inchação de uma alma soberba é, ela mesma, arrogância. E por que temeis estas coisas, e tremeis diante destas coisas, e por causa destas coisas que não merecem nenhuma consideração, receais também a pobreza? Pois, se fordes rico, precisareis de mais, sim, de mais e de coisas mais vis. Porquanto, na exata proporção de vossa riqueza, vos sujeitais a esta maldição. Tão ignorantes estais do que pedis quando rogais riqueza a fim de não precisardes de ninguém, como se alguém, tendo chegado a um mar onde há necessidade tanto de marinheiros quanto de nau e de infindáveis provisões de aparelhamento, rogasse não precisar de coisa alguma. Porque, se desejais ser sobremaneira independente de todos, orai pela pobreza; e, então, se dependerdes de alguém, dependereis somente quanto ao pão e ao vestuário; mas naquele outro caso precisareis de outros tanto para terras, quanto para casas, e para impostos, e para salários, e para posição, e para segurança, e para honra, e para magistrados, e para os súditos destes, tanto os da cidade quanto os do campo, e para mercadores, e para vendedores. Não vedes que estas palavras são palavras de extrema leviandade? Pois, numa palavra, se precisar um do outro vos parece coisa terrível, sabei que é de todo impossível escapar-lhe; mas, se quereis evitar o tumulto (pois podeis refugiar-vos no porto sem ondas da pobreza), cortai o grande tumulto de vossos negócios, e não julgueis vergonhoso precisar de outrem; pois isto é obra da inefável sabedoria de Deus. Porque, se precisamos uns dos outros, ainda assim é mesmo a compulsão desta necessidade que nos atrai para o amor; se fôssemos independentes, não teríamos nos tornado feras indomadas? Por força e por compulsão nos sujeitou Deus uns aos outros, e todos os dias nos encontramos em colisão uns com os outros. E, se Ele removesse este freio, quem haveria que de bom grado ansiasse pelo amor de seu próximo?
Deixemos, portanto, de considerar isto vergonhoso, e não oremos contra isso dizendo: "Concede-nos não necessitar de ninguém"; mas oremos e digamos: "Não permitas que, quando estivermos em necessidade, recusemos aqueles que são capazes de nos ajudar." Não é necessitar dos outros, mas apoderar-se do que é alheio, o que é penoso. Ora, jamais oramos a esse respeito, nem dissemos: "Concede-me não cobiçar os bens alheios"; mas necessitar, isto sim julgamos digno de deprecação. Todavia Paulo muitas vezes esteve em necessidade, e não se envergonhou; antes até se gloriava disso, e louvava os que o haviam socorrido, dizendo: *Pois enviastes uma e outra vez para minha necessidade* (Fp 4,16); e novamente: *Espoliei outras igrejas, recebendo salário delas para vos servir* (2 Cor 11,8). Não é, pois, sinal de ânimo generoso, mas de fraqueza e de espírito baixo e insensato, envergonhar-se disto. Porque é até decreto de Deus que necessitemos uns dos outros. Não leves, portanto, tua filosofia além da medida. "Mas", diz alguém, "não posso suportar um homem que é rogado muitas vezes e não atende." E como há de Deus suportar-te a ti, que és rogado por Ele e contudo não obedeces; e rogado, ainda, em coisas que te aproveitam? Pois *somos embaixadores da parte de Cristo* (2 Cor 5,20), diz ele, como se Deus estivesse rogando por meio de nós: *reconciliai-vos com Deus*. "E, no entanto, sou seu servo", diz alguém. E que importa isso? Pois quando tu, o servo, estás embriagado, enquanto Ele, o Senhor, tem fome e não possui sequer o alimento necessário, de que te aproveitará esse nome de servo? Antes, isto mesmo ainda mais te há de pesar, quando tu habitas numa casa de três andares, enquanto Ele não possui sequer um abrigo decente; quando tu repousas sobre macios leitos, enquanto Ele não tem sequer um travesseiro. "Mas", diz alguém, "eu já dei." Mas não deverias ter cessado de fazê-lo. Pois só então terás desculpa, quando não tiveres o que dar, quando nada possuíres; mas enquanto tiveres — ainda que tenhas dado a dez mil — e houver outros a padecer fome, não há desculpa para ti. Mas quando tu tanto entesouras o grão e elevas o preço, quanto inventas outros artifícios inusitados de comércio, que esperança de salvação te restará doravante? Foi-te ordenado dar de bom grado aos famintos, mas tu nem sequer a preço justo dás. Ele se esvaziou de tão grande glória por tua causa, mas tu nem sequer o julgas digno de um pedaço de pão; antes teu cão é alimentado até fartar-se, enquanto Cristo definha de fome; e teu servo arrebenta de saciedade, enquanto teu Senhor e dele carece do necessário alimento. E como são estas obras de amigos? *Reconciliai-vos com Deus* (2 Cor 5,20), pois estas são obras de inimigos e daqueles que estão em hostilidade.
4. Pensemos, pois, com pejo, nos grandes benefícios que já recebemos, e nos grandes benefícios que ainda havemos de receber. E se um pobre vier a nós e mendigar, recebamo-lo com muita boa vontade, consolando-o, erguendo-o com [nossas] palavras, para que também nós venhamos a encontrar o mesmo, tanto da parte de Deus quanto dos homens. Porque tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles (Mt 7,12). Nada de pesado, nada de ofensivo contém esta lei. "O que quiserdes receber, isso fazei", diz ela. A retribuição é igual. E não disse: "o que não quiserdes receber, isso não façais", mas algo mais. Pois aquilo, com efeito, é uma abstenção de coisas más, mas isto é um fazer de coisas boas, no qual aquilo está incluído. Também não disse: "que também vós desejeis isso", mas "fazei-o" a eles. E qual é a vantagem? Esta é a Lei e os Profetas. Queres que te seja mostrada misericórdia? Então mostra misericórdia. Queres obter perdão? Então concede-o. Não queres ser mal falado? Então não fales mal. Anseias por receber louvor? Então concede-o. Não queres ser lesado? Então não saqueies. Vedes como Ele mostra que a virtude é natural, e que não necessitamos de leis externas nem de mestres? Pois nas coisas que desejamos receber, ou não receber, de nosso próximo, legislamos para nós mesmos. De sorte que, se não quiseres receber algo, e ainda assim o fazes, ou se o quiseres receber, e não o fazes, tornaste-te autocondenado, e doravante estás sem qualquer desculpa, sob o pretexto da ignorância e do não saber o que se deve fazer. Portanto, rogo-vos que, tendo estabelecido esta lei em nós mesmos para nós mesmos, e lendo isto que está escrito tão clara e sucintamente, tornemo-nos tais para com o nosso próximo, quais quiséssemos que eles fossem para conosco; a fim de que gozemos tanto da imunidade presente, quanto obtenhamos os bens futuros, mediante a graça e o amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
De novo louva a Tito. Pois, havendo discorrido sobre a esmola, discorre depois também sobre aqueles que haveriam de receber deles o dinheiro e levá-lo consigo. Isto era de grande auxílio para esta coleta e para o crescimento da prontidão dos contribuintes. Porque aquele que confia naquele que administra, e não suspeita dos que hão de receber, dá com mais plena liberalidade. E para que assim fosse também então, ouve como louva os que para este fim tinham vindo, sendo o primeiro deles Tito. Por isso diz também: Graças, porém, sejam dadas a Deus, que pôs (literalmente, "deu") o mesmo cuidado zeloso no coração de Tito. Que significa "o mesmo"? O mesmo que também teve para com os tessalonicenses, ou o mesmo que eu. E observa aqui a sabedoria. Mostrando que isto era obra de Deus, dá também graças Àquele que o concedeu, para com isto também os incitar. "Pois, se foi Deus quem o moveu e o enviou a vós, é por meio dEle que Ele vos pede. Não penseis, pois, que o que sucedeu é obra dos homens." E de onde se manifesta que foi Deus quem o incitou?
De novo Paulo louva a Tito. Depois de tratar da esmola, Paulo passa a falar daqueles a quem se confia a coleta e a administração dos donativos. Isto é importante, porque, se confiamos neles, seremos mais inclinados a dar com maior largueza.
Observa como também o representa cumprindo a sua própria parte, sem necessitar de exortação alheia. E, tendo mencionado a graça de Deus, não deixa que tudo se atribua a Deus somente; e isto também para que, deste modo, ganhe deles maior amor, havendo dito que ele foi movido também por si mesmo. Pois, sendo sumamente zeloso, partiu por sua própria iniciativa: "lançou-se à obra, arrojou-se ao tesouro, considerou o vosso serviço como sua própria vantagem; e, porque vos amava sobremaneira, não necessitou da exortação que eu lhe fiz; mas, ainda que também por mim fosse exortado, não foi por isso que se moveu, senão por si mesmo e pela graça de Deus."
E quem é este irmão? Alguns dizem que é Lucas, por causa da história que escreveu; outros, porém, dizem que é Barnabé, pois chama também de Evangelho à pregação não escrita. E por que razão não menciona o nome deles, quando tanto dá a conhecer Tito pelo nome (cf. 2Co 8,23) e o louva por sua cooperação no Evangelho — visto que era ele tão útil que, por sua ausência, nem mesmo Paulo pôde fazer coisa grande e nobre, pois "porque não achei a Tito, meu irmão, não tive alívio para o meu espírito" (2Co 2,13) —, e também por seu amor para com eles — pois, diz ele, "o seu afeto íntimo é mais abundante para convosco" (2Co 7,15) —, e por seu zelo neste assunto — pois, diz, "de sua própria vontade partiu"? Mas a estes nem os louva igualmente, nem os menciona pelo nome. Que se há de dizer então? Talvez não os conhecessem; por isso não se detém em seus louvores, porquanto ainda não tinham eles tido experiência destes, mas diz apenas o quanto bastava para a sua recomendação a estes (isto é, aos coríntios) e para que escapassem a toda suspeita maligna. Vejamos, contudo, por que título ele mesmo enaltece este homem. Por qual título, pois, o enaltece? Primeiramente, louvando-o por sua pregação; que não só pregou, mas pregou como convinha, e com o zelo devido. Pois não disse: "prega e proclama o Evangelho", mas: "cujo louvor está no Evangelho". E, para que não pareça adulá-lo, não traz um, dois ou três homens, mas Igrejas inteiras para testemunhar dele, dizendo: "por todas as igrejas". Depois o torna também respeitável pelo juízo daqueles que o haviam escolhido. E isto tampouco é coisa de pouca monta. Por isso, depois de dizer: "cujo louvor no Evangelho se espalha por todas as igrejas",
Quem é este famoso irmão? Alguns dizem ser Lucas, por causa da história que escreveu; outros, porém, dizem que foi Barnabé, porquanto Paulo chama também de evangelho à pregação não escrita. Por que não o menciona pelo nome? Talvez fosse porque os coríntios não o conheciam pessoalmente, e Paulo se contentava em dizer apenas o bastante para afastar qualquer possível suspeita a seu respeito em Corinto. Observa-se que o homem foi louvado por sua pregação.
Este versículo parece apontar para Barnabé, que foi comissionado juntamente com Paulo.
E não somente isto.
Que quer dizer, e não somente isto? "Não é somente por esta causa", diz ele, "que lhe é devido respeito, a saber, que é aprovado como pregador e louvado por todos."
Mas foi também designado pelas igrejas para viajar conosco.
Donde me parece que Barnabé é a pessoa indicada. E ele significa que a dignidade deste é grande, pois mostra também para que ofício foi designado. Pois diz:
Para viajar conosco no tocante a esta graça que é por nós ministrada. Vedes quão grandes são estes louvores a seu respeito? Ele resplandeceu como pregador do Evangelho e teve todas as igrejas dando testemunho disto. Foi escolhido por nós; e para o mesmo ofício que Paulo, e em toda parte foi seu companheiro, tanto em suas provações quanto em seus perigos, pois isto está implícito na palavra viajar. Mas que quer dizer, com esta graça que é por nós ministrada? De modo a proclamar a palavra, quer ele dizer, e a pregar o Evangelho; ou também a ministrar no tocante ao dinheiro; antes, parece-me que ele se refere a ambas as coisas. Então acrescenta:
Para a glória do mesmo Senhor, e para mostrar vossa prontidão. O que ele quer dizer é isto: "Julgamos bom", diz ele, "que ele fosse escolhido conosco e designado para esta obra, de modo a tornar-se dispenseiro e ministro do dinheiro sagrado." Nem foi isto coisa pequena. Pois, Escolhei, diz, dentre vós sete homens de boa reputação (At 6,3); e ele foi escolhido pelas igrejas, e houve votação de todo o povo. Que quer dizer, para a glória do mesmo Senhor, e vossa prontidão? "Que tanto Deus seja glorificado, quanto vós vos torneis mais prontos, sendo de caráter comprovado aqueles que hão de receber este dinheiro, e não podendo ninguém engendrar contra eles qualquer falsa suspeita. Por isso buscamos tais pessoas, e não confiamos tudo a uma só pessoa, para que também esta escapasse a tal suspeita; mas enviamos tanto Tito quanto outro com ele." Depois, para interpretar esta mesma expressão, para a glória do Senhor e vossa boa vontade:
Que pode ser isto que se diz? Coisa digna da virtude de Paulo, e que mostra a grandeza de seu terno cuidado e de sua condescendência. "Pois", diz ele, "para que ninguém suspeitasse de nós, nem tivesse a mínima cavilação contra nós, como se defraudássemos algo do dinheiro posto em nossas mãos, por isso enviamos tais pessoas, e não uma somente, mas até duas ou três." Vedes como ele os livra de toda suspeita? Não por causa do Evangelho, nem por terem sido meramente escolhidos; mas também, por serem pessoas de caráter comprovado, (e por esta mesma razão) tendo sido escolhidas, para que não fossem suspeitadas. E não disse "para que vós não os culpásseis", mas "para que nenhuma outra pessoa o fizesse". E, contudo, foi por causa deles que ele fez isto; e o deu a entender ao dizer, para a glória do mesmo Senhor, e vossa prontidão: todavia, não quer feri-los; e assim se exprime de outro modo,
Evitando isto. E nem com isto se satisfaz, mas pelo que acrescenta, de novo suaviza, dizendo,
No tocante a esta liberalidade que é por nós ministrada, misturando sua severidade com louvor. Pois, para que não se sentissem feridos, e dissessem, "Está ele então obrigado a nos espreitar furtivamente, e somos nós tão miseráveis a ponto de já termos sido suspeitados destas coisas?" Provendo também um remédio para isto, diz: "o dinheiro por vós enviado é de grande soma, e esta abundância, isto é, a grande soma do dinheiro, basta para dar ocasião de suspeita aos mal-intencionados, não tivéssemos nós oferecido tal segurança."
Quem se pode comparar a Paulo? Pois não disse: "Perdição e ai daquele que quiser suspeitar de algo semelhante: contanto que minha consciência não me condene, não perco um pensamento com os que suspeitam." Antes, quanto mais fracos eram estes, tanto mais ele condescendia. Pois convém não irar-se contra o enfermo, mas ajudá-lo. E, contudo, de que pecado estamos nós tão distantes quanto ele estava de tal suspeita? Pois nem mesmo um demônio poderia ter suspeitado daquele bem-aventurado santo tal infidelidade. Mas, ainda assim, por mais distante que estivesse daquela má suspeita, ele faz tudo e recorre a todo expediente, de modo a não deixar sombra alguma nem mesmo àqueles que pudessem desejar, de algum modo, suspeitar algo de errado; e evita não somente as acusações, mas também a censura e a mínima repreensão, ainda a mera suspeita.
Quem há que se possa comparar a Paulo? Pois fazia o que julgava reto sem ignorar aqueles que pudessem duvidar de suas intenções. Antes, cuidava de não parecer fazer o mal nem mesmo aos olhos dos fracos.
Eis que de novo acrescenta ainda outro, e também este com um encômio; tanto o seu próprio juízo, quanto muitas outras testemunhas [a seu favor].
A quem, diz ele, muitas vezes provamos diligente em muitas coisas, mas agora muito mais diligente. E, tendo-o louvado por suas próprias boas obras, exalta-o também por seu amor para com eles; e o que disse de Tito, que, sendo muito diligente, partiu por sua própria vontade, isto diz também deste, ao dizer, mas agora muito mais diligente; depositando de antemão para eles as sementes [da prova do] amor para com os coríntios.
E então, depois de ter mostrado a virtude destes, exorta-os também em favor deles,
Se alguém indagar a respeito de Tito; ele é meu companheiro e cooperador para convosco.
Que significa: "Se algo a respeito de Tito?" "Se", diz ele, "for necessário dizer alguma coisa, isto tenho a dizer": que ele é meu companheiro e cooperador para convosco. Pois ou quer dizer isto; ou: "se haveis de fazer algo por Tito, não o fareis por uma pessoa qualquer, pois ele é meu companheiro." E, parecendo louvá-lo, ele os engrandece a eles, mostrando-os tão bem dispostos para consigo mesmo que já seria motivo suficiente de honra entre eles que alguém parecesse ser seu companheiro. Mas, contudo, não se contentou com isto, senão que acrescentou ainda outra coisa, dizendo: cooperador para convosco. Não simplesmente cooperador, "mas nas coisas que vos concernem, no vosso progresso, no vosso crescimento, na nossa amizade, no nosso zelo por vós"; o que, por último, mais serviria para lho tornar caro diante deles.
Ou nossos irmãos: "ou se quereis", diz ele, "ouvir algo a respeito dos outros: também eles têm grandes títulos para vos serem recomendados. Pois também eles", diz, "são nossos irmãos, e
mensageiros das igrejas", isto é, enviados pelas igrejas. Depois, o que é mais que tudo,
a glória de Cristo; pois a Ele se refere tudo quanto se lhes fizer. "Se, pois, quereis recebê-los como irmãos, ou como apóstolos das igrejas, ou como agindo para a glória de Cristo, tendes muitos motivos de benevolência para com eles. Pois a respeito de Tito, tenho a dizer que ele é ao mesmo tempo meu companheiro e vosso amante; a respeito destes, que são irmãos, que são mensageiros das igrejas, que são a glória de Cristo." Vedes que também daqui é claro que estes eram de tal condição que lhes eram desconhecidos? Pois, do contrário, tê-los-ia recomendado com aquelas mesmas coisas com que recomendara também a Tito, a saber, seu amor para convosco. Mas, porquanto ainda não lhes eram conhecidos: "Recebei-os", diz ele, "como irmãos, como mensageiros das igrejas, como agindo para a glória de Cristo."
É evidente por isto que Tito tinha uma missão particular relativa à igreja de Corinto, ao passo que os outros lhes eram desconhecidos ali.
'Mostrai agora', diz ele, 'como nos amais; e como não nos gloriamos em vós leviana nem vãmente: e isto mostrareis, se mostrardes amor para com eles.' Depois torna também as suas palavras mais solenes, dizendo, perante a face das igrejas. Quer ele dizer, para a glória, para a honra, das igrejas. 'Pois se os honrardes, tereis honrado as igrejas que os enviaram. Porquanto a honra não passa somente a eles, mas também aos que os enviaram, aos que os ordenaram, e, mais do que estes, à glória de Deus.' Pois quando honramos os que a Ele ministram, a benévola acolhida passa até Ele, até o corpo comum das igrejas. Ora, isto também não é coisa pequena, pois grande é o poder daquela assembleia.
3. Certo é ao menos que a oração das igrejas soltou Pedro de suas cadeias, abriu a boca de Paulo; a voz delas não em pequena medida apetrecha aqueles que ascendem ao governo espiritual. Por isso mesmo é que aquele que está para ordenar convoca também nesse momento as orações delas, e que elas acrescentem seus votos e assentimento por meio de aclamações que os iniciados conhecem: pois não é lícito desvelar todas as coisas diante dos não iniciados. Mas há ocasiões em que não há diferença alguma entre o sacerdote e aqueles que lhe estão sujeitos; por exemplo, quando havemos de participar dos mistérios tremendos; pois todos igualmente somos considerados dignos das mesmas coisas: não como no Antigo Testamento, quando o sacerdote comia algumas coisas e os seus súditos outras, e não era lícito ao povo participar daquilo de que o sacerdote participava. Mas não é assim agora; antes, diante de todos, um só corpo é posto e um só cálice. E nas orações também se pode observar que o povo contribui muito. Pois em favor dos possessos, em favor dos que estão sob penitência, as orações são feitas em comum tanto pelo sacerdote quanto por eles; e todos dizem uma só oração, a oração repleta de misericórdia. Novamente, quando excluímos do recinto sagrado aqueles que não podem participar da santa mesa, convém que outra oração seja oferecida, e todos igualmente nos prostramos por terra, e todos igualmente nos levantamos. Ainda, nos próprios mistérios tremendos, o sacerdote ora pelo povo, e o povo também ora pelo sacerdote; pois as palavras "e com o teu espírito" não são senão isto. A oferta de ação de graças, por sua vez, é comum: pois ele não dá graças sozinho, mas também todo o povo. Pois, tendo primeiro tomado as suas vozes, em seguida, quando elas assentem que é justo e reto assim proceder, então ele começa a ação de graças. E por que te admiras de que o povo profira algo em qualquer lugar juntamente com o sacerdote, quando na verdade é até mesmo com os próprios Querubins, e com as potestades do alto, que enviam em comum aqueles sagrados hinos? Ora, disse tudo isto a fim de que cada um dos leigos também esteja atento, para que compreendamos que somos todos um só corpo, tendo entre nós tal diferença como membros com membros; e que não lancemos todo o peso sobre os sacerdotes, mas nós mesmos também cuidemos de toda a Igreja como de um corpo que nos é comum. Pois este proceder proverá para nossa maior segurança, e para o vosso maior crescimento em virtude. Aqui, ao menos, no caso dos Apóstolos, quão frequentemente admitiam os leigos a partilhar de suas decisões. Pois quando ordenaram os sete (At 6,2-3), primeiro comunicaram-se com o povo; e quando Pedro ordenou Matias, foi com todos os que então estavam presentes, tanto homens quanto mulheres (At 1,15 e seguintes). Pois aqui não há soberba de governantes nem servilismo nos governados; mas um governo espiritual, o qual nisto mais se assenhoreia: em tomar sobre si a maior parte do trabalho e do cuidado que é em vosso favor, não em buscar honras maiores. Pois assim deve a Igreja habitar como uma só casa; como um só corpo assim devem todos estar dispostos; assim como, portanto, há tanto um só Batismo, quanto uma só mesa, e uma só fonte, e uma só criação, e um só Pai. Por que, pois, estamos divididos, quando coisas tão grandes nos unem; por que somos despedaçados? Pois somos compelidos de novo a lamentar as mesmas coisas que amiúde tenho pranteado. O estado em que nos encontramos clama por lamentação; tão amplamente estamos apartados uns dos outros, quando deveríamos figurar a conjunção de um só corpo.
São Lourdes que assim aquele que é maior possa lucrar até mesmo com aquele que é menor. Porquanto, se Moisés aprendeu de seu sogro algo proveitoso que ele mesmo não havia percebido (Êx 18,14 etc.), muito mais na Igreja pode isto acontecer. E como se deu, pois, que aquilo que um incrédulo percebeu, não o tenha percebido aquele que era espiritual? Foi para que todos os daquele tempo compreendessem que ele era um homem; e ainda que divida o mar, ainda que fenda a rocha, necessita do influxo de Deus, e que tais atos não eram da natureza do homem, mas do poder de Deus. Que se levante, pois, outro e fale; e assim também agora, se um tal não diz coisas proveitosas, que se levante outro e fale; ainda que seja inferior, se disser algo a propósito, confirmai sua opinião; e mesmo que seja o mais humilde de todos, não lhe mostreis desrespeito. Pois nenhum destes está a tão grande distância de seu próximo quanto o sogro de Moisés estava dele, e contudo este não desdenhou ouvi-lo, antes acolheu sua opinião, deixou-se persuadir e a registrou; e não se envergonhou de transmitir estas circunstâncias à história, derrubando assim a soberba de muitos. Por isso também deixou ao mundo esta narrativa gravada como que numa coluna, pois sabia que seria útil a muitos.
Não desprezemos, pois, aqueles que nos dão conselho proveitoso, ainda que sejam da sorte mais humilde, nem insistamos em que prevaleçam os conselhos que nós mesmos introduzimos; mas o que quer que pareça ser melhor, que isso seja aprovado por todos. Pois muitos de vista mais obtusa perceberam as coisas mais depressa do que os de vista aguda, por meio da diligência e da atenção. E não digais: por que me chamas ao conselho, se não dás ouvidos ao que digo? Estas acusações não são próprias de um conselheiro, mas de um déspota. Pois o conselheiro tem apenas o poder de dizer sua própria opinião; mas se algo diferente parecer mais proveitoso, e ainda assim ele quiser levar a efeito sua própria opinião, já não é conselheiro, mas déspota, como disse. Não procedamos, pois, desta maneira; mas, livrando nossas almas de toda arrogância e soberba, consideremos não como possam prevalecer apenas os nossos conselhos, mas como possa prevalecer a opinião que for melhor, ainda que não tenha sido proposta por nós. Pois não pequeno será o nosso lucro, mesmo que não tenhamos nós mesmos descoberto o que convém, se aceitarmos o que foi apontado por outros; e abundante será a recompensa que receberemos de Deus, e assim também melhor alcançaremos a glória. Pois, assim como é sábio aquele que diz o que é proveitoso, assim nós, que o aceitamos, colheremos também o louvor da prudência e da retidão de coração. Assim, tanto as casas quanto os estados, assim também, se a Igreja for ordenada, ela receberá maior crescimento; e assim também nós mesmos, tendo desta maneira melhor ordenado nossa vida presente, receberemos os bens vindouros: aos quais possamos todos alcançar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, a Quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
Diz Paulo isto a fim de conquistar os coríntios para o seu partido. Alguns havia de tal reputação que julgavam não necessitar de conselho. Envergonhar-se-iam de parecer inferiores a outros. Não quereriam ficar aquém da opinião que os outros tinham a seu respeito.
Ainda que tanto houvesse dito acerca disto, diz aqui: Supérfluo me é escrever-vos. E sua sabedoria se mostra não somente nisto, que, tendo dito tanto acerca do assunto, diga: supérfluo me é escrever-vos, mas também em que ainda uma vez mais fala dele. Pois o que disse pouco antes, disse-o acerca dos que recebiam o dinheiro, para lhes assegurar o gozo de grande honra; mas o que dissera antes disso — sua narrativa sobre os macedônios, que sua profunda pobreza abundou nas riquezas da sua liberalidade, e tudo o mais — dizia respeito à benignidade e à esmola. Mas, contudo, ainda que tanto houvesse dito antes e estivesse para falar de novo, diz: supérfluo me é escrever-vos. E isto faz sobretudo para os conquistar para si. Pois um homem que tem tão alta reputação que nem sequer necessita de conselho, envergonha-se de parecer inferior a essa opinião a seu respeito, e de ficar aquém dela. E faz isto muitas vezes também na acusação, usando a figura retórica da omissão, pois esta é muitíssimo eficaz. Porque o juiz, vendo a magnanimidade do acusador, não concebe sequer suspeitas. Pois raciocina: "aquele que, podendo dizer muito, contudo não o diz, como inventaria o que não é verdadeiro?" E dá ocasião para se suspeitar ainda mais do que diz, e reveste-se da presunção de boa disposição. Isto faz também em seu conselho e em seus louvores. Pois, tendo dito: supérfluo me é escrever-vos, observai como os aconselha.
Porque conheço a vossa prontidão, da qual me glorio a vosso respeito diante dos macedônios. Ora, era grande coisa que ele mesmo o soubesse, mas muito maior que também o publicasse a outros, pois a força disto é maior, porquanto não gostariam de ficar assim tão amplamente desonrados. Vedes a sabedoria de seu propósito? Exortou-os pelo exemplo alheio, os macedônios, pois diz: "faço-vos saber a graça de Deus que foi dada nas igrejas da Macedônia." Exortou-os pelo exemplo próprio deles, pois diz, os que primeiro começaram desde o ano passado não só a fazer, mas também a querer. Exortou-os pelo exemplo do Senhor, pois, diz ele, sabeis a graça de nosso Senhor, que, sendo rico, por amor de nós se fez pobre (2Co 8,9). De novo se retira sobre aquele forte ponto principal, a conduta dos outros. Pois a humanidade é emuladora. E, na verdade, o exemplo do Senhor deveria ter tido o maior poder para os atrair; e, em seguida a ele, a consideração da recompensa; mas, porque eram algo fracos, é isto que mais os atrai. Pois nada faz tanto quanto a emulação. Mas observai como ele a introduz de modo algo inovador. Pois não disse: "Imitai-os"; mas o quê?
E o vosso zelo tem estimulado a muitos. Que dizeis? Pouco antes disseste que o fizeram por sua própria vontade, rogando-nos com muita instância; como, pois, agora, o vosso zelo? "Sim", diz ele, "não os aconselhamos, não os exortamos, mas apenas vos louvamos, apenas nos gloriamos de vós, e isto bastou para os incitar." Vedes como os desperta uns pelos outros, estes por aqueles, e aqueles por estes, e, junto com a emulação, entremesclou também um altíssimo encômio. Depois, para que não se ensoberbeçam, prossegue em tom moderado, dizendo: o vosso zelo tem estimulado a muitos. Ora, considerai que coisa é que aqueles que foram a ocasião para outros desta munificência fiquem eles próprios atrasados nesta contribuição. Por isso não disse: "Imitai-os", pois isto não teria acendido tão grande emulação; mas como? "Eles vos imitaram; vede, pois, que vós, mestres, não pareçais inferiores a vossos discípulos."
E vede como, ao mesmo tempo em que os desperta e inflama ainda mais, finge estar ao lado deles, como que abraçando o seu partido em alguma rivalidade e contenda. Pois, como disse acima, de sua própria vontade, com muita instância vieram a nós, de tal modo que exortamos a Tito que, como antes havia começado, assim completasse também esta graça;
Por esta causa enviei os irmãos, para que a nossa glória a vosso respeito não se torne vã.
Vedes que ele está em ansiedade e temor de que pareça ter dito o que disse apenas por causa da exortação? "Mas, porque assim é", diz ele, enviei os irmãos; "tão zeloso sou por vós", que a nossa glória não se torne vã. E parece pôr-se sempre do partido dos coríntios, ainda que cuidando de todos igualmente. O que diz é isto: "Muito me orgulho de vós, glorio-me diante de todos, gabei-me até perante eles, de sorte que, se fordes achados em falta, sou partícipe da vergonha." E isto, na verdade, diz com limitação, pois acrescentou:
nesta parte, não em tudo;
para que, como eu disse, estejais preparados. "Pois não disse: 'estão propondo-se', mas: 'tudo está pronto'; e nada falta agora da parte deles. Isto, pois", diz ele, "desejo que se mostre por vossas obras." Depois ainda aumenta a ansiedade,
Para que, se acaso vierem comigo alguns da Macedônia, nós — para não dizer vós — não sejamos envergonhados nesta confiança. A vergonha é maior quando são muitos os espectadores que ele dispôs contra eles, sendo estes mesmos os que haviam ouvido a sua jactância. E não disse: "porque trago comigo macedônios", "porque virão comigo macedônios"; para que não parecesse fazê-lo de propósito; mas como disse? Para que, se acaso vierem comigo alguns da Macedônia. "Pois isto pode acontecer", diz ele, "é coisa possível." Assim tornou também isento de suspeita o que disse; mas se se houvesse expressado daquele outro modo, tê-los-ia tornado ainda mais contenciosos. Vede como os conduz, não somente por motivos espirituais, mas também pelos humanos. "Pois", diz ele, "ainda que de mim não façais grande caso, e conteis com segurança que vos hei de desculpar, contudo pensai nos macedônios", para que, se acaso vierem e vos encontrarem; e não disse "de má vontade", mas despreparados, sem terem tudo concluído. Ora, se isto é desonra, não contribuir prontamente; considerai quão grande seria não contribuir de modo algum, ou contribuir menos do que convinha. Depois estabelece o que daí se seguiria, em termos ao mesmo tempo brandos e penetrantes, dizendo assim: nós — para não dizer vós — sejamos envergonhados. E de novo o tempera, dizendo, nesta confiança, não para os tornar mais negligentes, mas para mostrar que aqueles que em todos os demais pontos eram aprovados deveriam, também neste, ter grande intrepidez.
De novo retomou o assunto de modo diverso; e, para que não parecesse dizer estas coisas sem propósito, afirma que a única razão desta viagem foi que não fossem envergonhados. Vedes como suas palavras, supérfluo me é escrever, foram o começo do aconselhar? Vedes, ao menos, quantas coisas discorre acerca deste ministério. E, juntamente com isto, pode-se ainda notar que, para não parecer contradizer-se, tendo dito supérfluo, e contudo discorrendo largamente sobre isso, passou a discorrer sobre a presteza, a largueza e a prontidão em contribuir, assegurando por este meio também aquele ponto. Pois estas três coisas requer. E, na verdade, moveu estes três pontos principais já desde o início, pois quando diz, em muita prova de aflição, a abundância de seu gozo, e sua profunda pobreza abundaram nas riquezas de sua liberalidade, nada mais diz senão que contribuíram muito, e de bom grado, e prontamente; e que não somente o dar muito não lhes causava pena, mas nem sequer estarem em provações, o que é mais grave que o dar. E as palavras, a si mesmos se deram a nós, também estas mostram tanto a sua prontidão como a grandeza de sua fé. E aqui de novo trata destes mesmos pontos. Pois, sendo estas coisas opostas entre si, a munificência e a prontidão, e sendo que, muitas vezes, quem deu muito fica triste, ao passo que outro, para não ficar triste, dá menos — observai como cuida de cada uma delas, com a sabedoria que lhe é própria. Pois não disse: "melhor é dar pouco e de livre escolha, que muito por necessidade"; porque queria que contribuíssem tanto muito como de livre escolha; mas como diz? que preparassem de antemão esta vossa liberalidade, para que ela estivesse pronta como coisa de liberalidade, e não de extorsão. Começa primeiro pelo que é mais agradável e mais leve, a saber, o "não por necessidade", pois é liberalidade, diz ele. Observai como, na forma de sua exortação, representa ao mesmo tempo o fruto já brotando, e os que dão já cheios de bênção. E pelo termo empregado os conquistou, pois ninguém dá uma bênção com pesar. Contudo, nem com isto se contentou; mas acrescentou, não como de extorsão. "Não penseis", diz ele, "que a recebemos como extorsores, mas que possamos ser causa de bênção para vós." Pois a extorsão pertence aos que dão de má vontade, de sorte que quem dá esmola de má vontade dá por extorsão. Depois, disto passou de novo àquilo, a dar com munificência.
Não tenhamos, portanto, diante dos olhos simplesmente o beneficiário, ao mostrar generosidade na esmola, mas consideremos antes Aquele que toma como próprias as bondades demonstradas ao pobre e que promete recompensa pelos favores feitos; e assim dirijamos a Ele nossa atenção, mostrando todo o zelo em fazer ofertas com pleno entusiasmo, e semeemos generosamente em tempo oportuno, para que também generosamente colhamos. Diz a Escritura, com efeito, que "aquele que semeia com parcimônia, com parcimônia também colherá". Semeemos, pois, estas boas sementes com largueza, para que no tempo devido colhamos com largueza. Ora, este é agora o tempo da semeadura, o qual vos rogo não negligencieis, para que no dia da ceifa possamos recolher os frutos do que aqui foi semeado e sejamos recreados com a benignidade do Senhor.
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Aquele que semeia com parcimônia, com parcimônia também ceifará; e aquele que semeia com largueza, com largueza também ceifará. E não disse "avaramente", mas empregou expressão mais branda, valendo-se do termo "parcimonioso". E chamou a coisa de semeadura, para que logo olhásseis para a recompensa, e, tendo em mente a colheita, sentísseis que recebeis mais do que dais. Por isso não disse "aquele que dá", mas "aquele que semeia"; e não disse "vós, se derdes", mas fez geral o que disse. Tampouco disse "amplamente", mas "com largueza", o que é muito maior do que aquilo. E de novo se volta àquele primeiro ponto do gozo.
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O propósito de Paulo não era apenas que se contribuísse com dinheiro para os pobres, mas que se contribuísse com grande prontidão. Do mesmo modo, Deus instituiu a esmola não somente para o sustento dos necessitados, mas também para o proveito dos que a proveem, e muito mais para estes do que para aqueles. Pois, se atendesse apenas ao interesse dos pobres, teria ordenado tão-somente que se desse o dinheiro, e não teria pedido a prontidão dos que o oferecem. Mas agora vedes o Apóstolo, de todo modo, ordenando pela vontade, primeira e sobretudo, que os doadores se alegrem: que os que suprem o façam com ânimo jubiloso. E ora diz: "Cada um faça como propôs em seu coração, não com tristeza nem por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria" — não simplesmente o que dá, mas aquele que o faz com prazer. Homilia: Sermão sobre a Esmola.
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Faça cada um segundo propôs em seu coração. Pois o homem, quando deixado a si mesmo, faz uma coisa mais prontamente do que quando constrangido. Por isso também se detém nisto: pois, tendo dito "segundo está disposto", acrescentou:
Não com pesar, nem por necessidade. E nem sequer com isto se contentou, mas acrescenta também um testemunho da Escritura, dizendo:
Porque Deus ama ao que dá com alegria. Vede quão frequentemente ele estabelece isto? Não falo por mandamento; e: Nisto dou o meu parecer; e: como de generosidade, e não como de extorsão; e de novo: não com pesar, nem por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria. Nesta passagem, sou de opinião que se intenta um dador generoso; o Apóstolo, contudo, o tomou como o dar com prontidão. Pois, visto que o exemplo dos macedônios e todas aquelas outras coisas já bastavam para produzir a magnificência, não se demora ele em muitas palavras acerca disso, mas sobre o dar sem relutância. Pois, se é obra de virtude, e todavia tudo o que se faz por necessidade é despojado de sua recompensa, com razão também se aplica ele a este ponto. E não apenas aconselha, mas também acrescenta uma oração, como é seu costume fazer.
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Penso que a Escritura entende por isto um doador generoso, mas Paulo o tomou no sentido de prontidão para dar.
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E que Deus, que é poderoso, cumpra toda graça para convosco.
Por esta oração ele afasta um pensamento que espreitava contra esta liberalidade e que ainda hoje é impedimento para muitos. Pois muitos temem dar esmolas, dizendo: "Não vá eu, porventura, empobrecer", "não vá eu, porventura, precisar do socorro alheio". Para dissipar, pois, este temor, acrescenta ele esta oração, dizendo: Que Ele faça abundar toda graça para convosco. Não apenas cumprir, mas fazer abundar. E que é fazer abundar a graça? "Encher-vos", quer ele dizer, "de tão grandes bens, que possais abundar nesta liberalidade."
Para que, tendo sempre, em tudo, toda suficiência, abundeis para toda boa obra.
Observai, ainda nesta sua oração, sua grande filosofia. Não ora ele por riquezas nem por abundância, mas por toda suficiência. Nem é isto tudo o que nele há de admirável; mas que, assim como não orou por supérfluo, também não os pressiona nem os constrange a dar do que lhes falta, condescendendo com sua fraqueza; antes pede suficiência, e mostra ao mesmo tempo que não devem abusar dos dons recebidos de Deus. Para que abundeis, diz ele, para toda boa obra. "É por isto", diz ele, "que peço isto, para que também vós concedais a outros." Contudo, não disse "concedei", mas "abundai". Pois nas coisas carnais pede-lhes suficiência, mas nas espirituais, abundância mesma; não somente na esmola, mas também em todas as demais coisas, para toda boa obra. Traz-lhes então o profeta como conselheiro, tendo buscado um testemunho que os convide à generosidade,
Notai como Paulo não ora por riquezas nem por abundância, mas somente pelo suficiente para viver. Nem é isto o único ponto em que deve ser admirado. Pede ele o mesmo aos coríntios... Quer que tenham o suficiente dos bens deste mundo, mas ainda mais uma abundância transbordante das bênçãos espirituais.
As coisas mesmas não permanecem, mas seus efeitos permanecem. Por isso não devemos ser mesquinhos e calculistas com o que temos, mas dar com mão generosa. Vede quanto se dá a histriões e dançarinos — por que não dar sequer a metade disso a Cristo? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Amado é o sentido de "prodigalizou"; pois estas palavras, "espalhou por toda parte", não significam outra coisa senão dar copiosamente. Pois, ainda que as coisas mesmas não permaneçam, permanecem, contudo, os seus frutos. Eis, com efeito, o que é digno de admiração: que, sendo guardadas, se perdem; mas, sendo espalhadas por toda parte, permanecem, sim, permanecem para sempre. Ora, por justiça, aqui, entende ele o amor para com os homens. Pois este é o que torna justo, consumindo os pecados como fogo, quando é copiosamente derramado.
3. Não façamos, pois, cálculos meticulosos, mas semeemos com mão pródiga. Não vês quanto os outros dão a atores e meretrizes? Dá ao menos a Cristo a metade do que eles dão aos dançarinos. Quanto eles dão por ostentação aos que estão sobre o palco, tanto ao menos dá tu aos famintos. Pois eles, na verdade, revestem de ouro incontável até os corpos das mulheres dissolutas; mas tu nem sequer com uma veste puída revestes a carne de Cristo, e isso vendo-a nua. Que perdão merece isto, ou antes, que grande castigo não merece, quando ele concede tanto àquela que o arruína e o envergonha, mas tu não concedes a menor coisa Àquele que te salva e te faz mais resplandecente? Enquanto gastas com o teu ventre, com a embriaguez e a dissipação, jamais te lembras da pobreza; mas quando é preciso socorrer a pobreza, tornaste-te mais pobre que ninguém. E ao alimentares parasitas e aduladores, mostras-te tão jubiloso como se tivesses fontes de onde gastar; mas se acaso vês um pobre, então o temor da pobreza te assalta. Por isso, certamente, naquele dia seremos condenados, tanto por nós mesmos quanto pelos outros, tanto pelos que fizeram o bem quanto pelos que fizeram o mal. Pois Ele te dirá: 'Por que não foste assim magnânimo nas coisas em que te convinha sê-lo? Eis que este homem, dando a uma meretriz, não pensou em nada disso; tu, porém, dando ao teu Senhor, que te ordenou não seres ansioso (Mt 6,25), estás cheio de medo e tremor.' E que perdão, então, merecerás? Pois se um homem que recebeu não há de desprezar, mas retribuirá o favor, muito mais o fará Cristo. Pois Aquele que dá mesmo sem receber, como não dará depois de ter recebido? 'Que, pois', diz alguém, 'quando alguns que gastaram muito vêm a precisar do socorro alheio?' Falas daqueles que gastaram tudo o que tinham; quando tu mesmo não dás sequer um ceitil. Promete despojar-te de tudo, e então indaga a respeito de tais homens; mas enquanto és mesquinho e concedes pouco dos teus bens, por que me lanças desculpas e pretextos? Pois não te conduzo ao cume elevado da pobreza total, mas por ora exijo que cortes as superfluidades e desejes apenas o suficiente. Ora, o limite do suficiente é o uso daquelas coisas sem as quais é impossível viver. Ninguém te impede disto, nem te proíbe o alimento diário. Digo alimento, não banquete; vestimenta, não ornamento. Antes, se alguém indagasse com precisão, isto é, no melhor sentido, o verdadeiro banquete. Pois considera: quem diríamos que mais verdadeiramente banqueteava, aquele cuja dieta eram ervas, e que gozava de saúde sã e não padecia inquietação alguma; ou aquele que tinha a mesa de um Sibarita, e estava repleto de dez mil enfermidades? Bem claramente, o primeiro. Busquemos, pois, nada mais que isto, se quisermos viver ao mesmo tempo com fartura e com saúde; e estabeleçamos estes limites para o suficiente. E aquele que puder contentar-se com legumes e manter-se em boa saúde, não busque mais nada; mas aquele que é mais fraco e necessita de dieta com hortaliças, não seja impedido disto. Mas se algum for ainda mais fraco que este e necessitar do sustento da carne com moderação, também disto não o impediremos. Pois não aconselhamos estas coisas para matar e prejudicar os homens, mas para cortar o que é supérfluo; e supérfluo é o que excede aquilo de que necessitamos.
A adição, quando somos capazes de viver, ainda que sem a coisa em questão, sadia e decorosamente, é sem dúvida uma superfluidade.
4. Assim pensemos também a respeito do vestuário, e da mesa, e da casa em que habitamos, e de todas as nossas outras necessidades; e em cada coisa indaguemos o que é necessário. Pois o que é supérfluo é também inútil. Quando houveres praticado viver do que é suficiente, então, se tiveres em mente emular aquela viúva, hei de conduzir-te a coisas maiores que estas. Pois ainda não alcançaste a filosofia daquela mulher, enquanto te afliges com o que é suficiente. Pois ela se elevou mais alto ainda do que isto; porquanto aquilo que haveria de ser o seu sustento, lançou-o todo. Hás de ainda angustiar-te com as coisas necessárias, e não coras de seres vencido por uma mulher, e não somente de não a emulares, mas de ficares até muito atrás dela? Pois ela não disse as coisas que dizemos: "Mas que será, se, havendo gasto tudo, eu for constrangida a mendigar de outrem?" — antes, em sua munificência, despojou-se de tudo quanto tinha. Que diremos da viúva do Antigo Testamento, no tempo do profeta Elias? Pois o risco que ela corria não era de pobreza, mas de morte e extinção mesmo, e não somente a sua, mas também a de seus filhos. Pois não tinha ela expectativa alguma de receber de outros, mas de morrer em breve. "Mas", dirá alguém, "ela viu o profeta, e isto a fez munificente." Mas não vedes vós santos sem número? E por que falo de santos? Vedes o Senhor dos profetas a pedir esmola, e nem ainda assim vos tornais humanos; mas, tendo cofres que transbordam uns nos outros, nem sequer repartis do vosso supérfluo. Que dizeis? Era ele profeta o que a ela veio, e foi isto que a persuadiu a tão grande magnanimidade? Isto mesmo merece grande admiração: que ela se persuadisse de que ele era pessoa grande e admirável. Pois como não disse ela — como seria de esperar que uma mulher bárbara e estrangeira raciocinasse — "Se ele fosse profeta, não teria mendigado de mim. Se fosse amigo de Deus, Deus não o teria abandonado. Seja que, por causa dos pecados, os judeus sofram este castigo: mas donde, e por que, sofre este homem?" Mas ela não acolheu nenhum destes pensamentos; antes abriu-lhe a sua casa, e antes da casa, o seu coração; e pôs diante dele tudo quanto tinha; e, pondo a natureza de lado e desprezando seus filhos, preferiu o estrangeiro a tudo. Considerai, pois, quão grande castigo nos está reservado, se ficarmos atrás e formos mais fracos que uma mulher, uma viúva, pobre, estrangeira, bárbara, mãe de filhos, ignorante destas coisas que nós conhecemos! Pois, por termos força de corpo, não somos por isso homens varonis. Porquanto só aquele possui esta virtude — ainda que esteja deitado em seu leito — cuja força procede de dentro; pois sem isto, ainda que um homem arrancasse um monte com a força do seu corpo, eu não o chamaria mais forte que uma donzela ou uma mísera velha. Pois um luta contra males incorpóreos, mas o outro nem sequer ousa olhá-los de frente. E, para que aprendas que esta é a medida da virilidade, colhe-a deste mesmo exemplo. Pois que poderia ser mais varonil do que aquela mulher que, tanto contra a tirania da natureza, quanto contra a força da fome, quanto contra a ameaça da morte, permaneceu nobremente firme, e provou ser mais forte que tudo? Ouvi ao menos como Cristo a proclama. Pois, diz Ele, muitas viúvas havia nos dias de Elias, e a nenhuma delas foi enviado o profeta, senão a ela (Lc 4,25-26). Direi algo grande e surpreendente?
Esta mulher deu mais à hospitalidade do que o nosso pai Abraão. Pois ela não correu ao rebanho, como ele, mas com aquele punhado, superou todos quantos se notabilizaram pela hospitalidade. Porquanto a excelência daquele consistiu em dispor-se a cumprir tal ofício; a desta, porém, em que, por amor do estrangeiro, não poupou sequer os próprios filhos, e isto ainda que não aguardasse as coisas que haviam de vir. Nós, contudo, ainda que exista um céu, ainda que se anuncie um inferno, ainda que — o que é mais que tudo — Deus tenha operado tão grandes coisas por nós e Se alegre e regozije com tais coisas, recaímos indolentes. Não seja assim, eu vos suplico; antes espalhemos, demos aos pobres como devemos dar. Pois o que é muito e o que é pouco, Deus o define não pela medida do que se dá, mas pela extensão da substância de quem dá. Muitas vezes, decerto, vós que lançastes cem estáteres de ouro oferecestes menos do que aquele que ofereceu apenas um óbolo, porquanto lançastes do vosso supérfluo. Fazei, contudo, ao menos isto, e chegareis rapidamente a uma munificência ainda maior. Espalhai a riqueza, para que colheis a justiça. Pois, junto com a riqueza, esta se recusa a vir até nós; contudo, por meio dela, ainda que não com ela, ela se nos torna presente. Não é possível, com efeito, que a cobiça da riqueza e a justiça habitem juntas; têm elas suas tendas separadas. Não vos esforceis, pois, obstinadamente, por reunir coisas incompatíveis, mas banni a usurpadora avareza, se quereis obter o reino. Pois esta é a rainha legítima, e faz livres os escravos, ao contrário do que faz aquela outra. Portanto, com todo empenho, fujamos de uma e acolhamos a outra, para que alcancemos tanto a liberdade nesta vida quanto o reino dos céus, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Se Deus recompensa com abundância os que lavram a terra, quanto mais recompensará os que lavram o solo do céu, cuidando da alma? Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Aqui se pode admirar particularmente a sabedoria de Paulo, pois, tendo exortado a partir de considerações espirituais e temporais, também no tocante à recompensa faz o mesmo, mencionando retribuições de ambas as espécies. Isto, por exemplo — Espalhou, deu aos pobres, sua justiça permanece para sempre — pertence a uma recompensa espiritual; aquilo, por sua vez — multiplicai a vossa semente para semear — a uma recompensa temporal. Contudo, não se detém aqui, mas de novo retorna ao que é espiritual, colocando ambas continuamente lado a lado; pois aumentar os frutos da vossa justiça é espiritual. Assim procede, e com isso dá variedade ao seu discurso, arrancando pela raiz aqueles seus raciocínios covardes e pusilânimes, e usando muitos argumentos para dissipar-lhes o temor da pobreza, como também o exemplo que agora traz. Pois, se ainda aos que semeiam a terra Deus dá, se aos que alimentam o corpo Ele concede abundância, muito mais dará Ele aos que lavram o solo do céu, aos que cuidam da alma; pois quer Ele que estes gozem ainda mais de Seu cuidado providencial. Não o afirma, contudo, à maneira de inferência, nem do modo como eu o fiz, mas em forma de oração; assim, ao mesmo tempo tornando manifesta a referência, e antes os levando à esperança, não somente a partir do que [comumente] sucede, mas também a partir de sua própria oração: pois "Que Ele forneça", diz ele, "e multiplique a vossa semente para semear, e aumente os frutos da vossa justiça." Aqui também de novo insinua, de modo não suspeito, a largueza [em dar], pois as palavras multiplicar e aumentar indicam isto; e ao mesmo tempo permite-lhes buscar nada mais que o necessário, dizendo pão para o alimento. Pois isto também é particularmente digno de admiração nele (e é um ponto que já antes bem estabelecera), a saber, que nas coisas necessárias permite-lhes buscar nada mais do que a necessidade requer; mas nas coisas espirituais aconselha-os a obter para si uma grande superabundância. Por isso disse também acima que, tendo suficiência, abundeis para toda boa obra: e aqui, Aquele que fornece pão para o alimento, multiplique a vossa semente para semear; isto é, a semente espiritual. Pois não pede ele a esmola simplesmente, mas com largueza. Por isso também a chama continuamente de semente. Pois, assim como o grão lançado à terra mostra colheitas luxuriantes, também são muitos os punhados de justiça que a esmola produz, e inefáveis os frutos que mostra. Tendo então orado por grande afluência para eles, mostra de novo em que a devem despender,
Deus permitiu-nos dispor das grandes coisas e reservou para Si mesmo as menores. O sustento corporal pertence exclusivamente a Ele, porque só Ele pode governar as chuvas e as estações. Mas o sustento espiritual Ele o confiou a nós, uma vez que, por nossa própria vontade, podemos decidir se o nosso fruto será abundante ou não.
Não para que a consumais em coisas indevidas, mas naquelas que trazem a Deus muita ação de graças. Pois Deus nos fez dispor das grandes coisas e, reservando para Si o que é menor, concedeu-nos o que é maior. Porquanto o sustento corpóreo está unicamente à Sua disposição, mas o sustento espiritual Ele o permitiu a nós; pois está em nosso próprio poder que a colheita que temos a mostrar seja luxuriante. Pois aqui não há necessidade de chuvas nem de variedade de estações, mas somente da vontade, e elas se elevam até o próprio céu. E a largueza em dar é o que ele aqui chama de liberalidade — a qual opera por nosso intermédio ação de graças a Deus. Pois aquilo que se faz não é mera esmola, mas também fundamento de muita ação de graças; ou antes, não somente de ação de graças, mas também de muitas outras coisas além dela. E estas, ao prosseguir, ele as menciona, para que, mostrando-a como causa de muitas boas obras, os torne por isso mesmo mais prontos.
2. Quais, pois, são estas muitas boas obras?
O que ele diz é isto: 'em primeiro lugar, não somente supris as necessidades dos santos, mas até abundais'; isto é, 'fornecei-lhes ainda mais do que necessitam: em seguida, por meio deles enviais ação de graças a Deus, pois eles O glorificam pela obediência da vossa confissão.' Pois, para que não os representasse como dando graças somente por este motivo (refiro-me a terem recebido algo), vede quão nobre de ânimo os faz, exatamente como ele mesmo diz aos filipenses: Não que eu deseje o dom (Fp 4,17). 'A eles também dou testemunho da mesma coisa. Pois eles se alegram, na verdade, porque supris as suas necessidades e aliviais a sua pobreza; mas muito mais porque estais assim sujeitos ao Evangelho, do qual isto é uma prova: a vossa contribuição tão larga.' Pois isto o Evangelho ordena.
E pela liberalidade da vossa contribuição para com eles e para com todos. 'E por esta razão', diz ele, 'eles glorificam a Deus porque sois tão liberais, não somente para com eles, mas também para com todos.' E isto novamente redunda em louvor a eles, o terem dado graças até mesmo pelo que é concedido a outros. 'Pois', diz ele, 'eles honram não somente os seus próprios interesses, mas também os de outros, e isto ainda que estejam na mais extrema pobreza — o que é prova de sua grande virtude. Pois nada é tão cheio de inveja quanto toda a raça dos que estão na pobreza. Mas eles são puros desta paixão, tão longe de se afligirem por causa do que doais a outros, que antes se regozijam com isso não menos do que com as coisas que eles mesmos recebem.'
Enquanto eles mesmos também com súplica. 'Pois quanto a estas coisas', diz ele, 'eles dão graças a Deus, mas quanto ao vosso amor e à vossa vinda entre eles, suplicam-Lhe que sejam considerados dignos de vos ver. Pois anseiam por isto, não por causa do dinheiro, mas para que sejam testemunhas da graça que vos foi concedida.' Vedes a sabedoria de Paulo, como, depois de os haver exaltado, atribuiu tudo a Deus, chamando a coisa de graça? Pois, tendo dito grandes coisas a respeito deles — ao chamá-los ministros e exaltá-los a um grau elevado (visto que eles prestavam o serviço, enquanto ele mesmo apenas o administrava), e ao denominá-los "provados" — ele mostra que Deus foi o Autor de todas estas coisas. E ele mesmo, novamente, juntamente com eles, envia ação de graças,
Paulo os louva porque deram graças até pelas coisas que foram dadas a outros, apesar da sua própria pobreza. Ninguém é mais invejoso do que o pobre, mas estes estavam livres desta paixão, a tal ponto que eram capazes de se regozijar nas bênçãos concedidas a outros.
A palavra dom refere-se a todas as bênçãos que provêm da esmola, tanto para os que recebem quanto para os que dão. Ou então se refere ao dom inefável que Cristo concedeu liberalmente ao mundo inteiro por meio de sua encarnação. A segunda interpretação parece ser o sentido mais provável.
Segundo ele, presente designa também esses tantos bens que a esmola opera, tanto para os que recebem quanto para os que dão; ou então, aqueles bens inefáveis que Ele, por Sua vinda, concedeu com grande munificência ao mundo inteiro — o que se pode supor ser a interpretação mais provável. Pois, a fim de ao mesmo tempo moderá-los e torná-los mais liberais, ele lhes traz à memória os benefícios que haviam recebido de Deus. Isto contribui grandemente para incitar a toda virtude; e por isso concluiu seu discurso com tal lembrança. Ora, se Seu Dom é inefável, o que poderá igualar o desvario daqueles que suscitam curiosas questões acerca de Sua Essência? Mas não somente Seu Dom é inefável, senão também aquela paz que excede todo entendimento (Fl 4:7), pela qual Ele reconciliou as coisas que estão em cima com as que estão embaixo.
3. Vendo, pois, que gozamos de graça tão grande, esforcemo-nos por exibir uma virtude de vida digna dela, e por dar grande valor à esmola. E isto faremos, se evitarmos o excesso, e a embriaguez, e a gula. Pois Deus deu o alimento e a bebida não para o excesso, mas para o sustento. Porquanto não é o vinho que produz a embriaguez, pois se assim fosse, todo corpo necessariamente estaria embriagado. "Mas," diz alguém, "seria melhor se, mesmo bebendo-o largamente, isso não causasse dano." Estas são palavras de bêbados. Pois se beber largamente causa dano, e ainda assim nem por isso desistes de teu excesso nele; se isto é tão vergonhoso e nocivo, e ainda assim nem por isso cessas de teu depravado desejo; se fosse possível tanto beber largamente quanto não sofrer nenhum dano, onde te terias detido em teu excesso? Não terias desejado que até os rios se tornassem vinho? Não terias destruído e arruinado tudo? Se há uma medida no alimento, ultrapassada a qual somos prejudicados, e ainda assim não podes suportar o freio, mas, rompendo-o, te apoderas do que pertence a todo o mundo, para servir à tirania perversa desta gula — que não terias feito, se esta medida natural fosse abolida? Não terias gasto todo o teu tempo nisso? Seria, pois, bom fortalecer uma concupiscência tão irracional, e não prevenir o dano que provém do excesso? E a quantos outros males não daria isto origem?
Mas ó insensatos! Que, chafurdando como que em lodo, na embriaguez e em toda a outra devassidão, quando um pouco se recobram e voltam a si, sentam-se e nada mais fazem senão proferir tais palavras: "Por que isto termina assim?" — quando deveriam antes condenar as suas próprias transgressões. Pois, em lugar do que agora dizes — "Por que estabeleceu Ele limites? Por que não correm todas as coisas sem qualquer ordem?" — dize antes: "Por que não cessamos de embriagar-nos? Por que jamais nos saciamos? Por que somos mais insensatos que as criaturas privadas de razão?" Estas são as coisas que deveriam perguntar uns aos outros, e dar ouvidos à voz do Apóstolo, e aprender quantos bens ele testemunha proceder, para os coríntios, da esmola, e apoderar-se deste tesouro. Pois desprezar o dinheiro faz os homens aprovados, como ele disse; e provê para que Deus seja glorificado; e aquece o amor; e opera nos homens a elevação da alma; e os constitui sacerdotes — sim, de um sacerdócio que traz grande recompensa. Pois o homem misericordioso não se reveste de túnica que desce até os pés, nem traz consigo sinos, nem porta coroa; mas está envolto no manto da benignidade, mais santo que a veste sagrada; e é ungido com óleo — não o composto de elementos materiais, mas o que o Espírito produz —, e leva coroa de misericórdias, pois está dito: Que te coroa de piedade e misericórdias (Sl 103,4); e, em vez de trazer sobre si a lâmina que ostenta o Nome de Deus, é ele mesmo semelhante a Deus. Pois como? Vós, diz Ele, sereis semelhantes a vosso Pai que está nos céus (Mt 5,45).
Vereis também o Seu altar? Não foi Bezaleel quem o edificou, nem qualquer outro, senão o próprio Deus; não de pedras, mas de uma matéria mais luminosa que o céu, de almas racionais. Mas o sacerdote entra no santo dos santos. Em lugares ainda mais tremendos podeis vós entrar quando ofereceis este sacrifício, onde ninguém está presente senão vosso Pai, que vê em segredo (Mt 6:4), onde nenhum outro contempla. "E como", dirá alguém, "é possível que ninguém contemple, se o altar se ergue à vista de todos?" Porque é isto mesmo o que é admirável: naqueles tempos, portas duplas e véus faziam a reclusão; mas agora, ainda que realizeis vosso sacrifício à vista pública, podeis fazê-lo como no santo dos santos, e de modo ainda muito mais tremendo. Pois quando não o fazeis por ostentação diante dos homens, ainda que o mundo inteiro tenha visto, ninguém viu, porque assim o fizestes. Pois Ele não disse simplesmente "não o façais diante dos homens", mas acrescentou: "para serdes vistos por eles" (Mt 6:1). Este altar é composto dos próprios membros de Cristo, e o corpo do Senhor é feito vosso altar. A isto, pois, reverenciai; sobre a carne do Senhor sacrificais a vítima. Este altar é ainda mais tremendo do que aquele mesmo de que agora usamos, não somente do que aquele usado antigamente. Não, não clameis. Pois este altar é admirável por causa do sacrifício que sobre ele se põe; mas aquele, o do homem misericordioso, não somente por esta razão, mas também porque ele mesmo é composto do próprio sacrifício que torna o outro admirável. Ademais, este é por natureza apenas uma pedra; mas se torna santo por receber o Corpo de Cristo; mas aquele é santo porque ele mesmo é o Corpo de Cristo. De modo que este, junto ao qual tu, o leigo, te achas, é mais tremendo do que aquele. Parece-vos, pois, Arão algo em comparação com este, ou sua coroa, ou seus sinos, ou o santo dos santos? Pois que necessidade há doravante de referirmos nossa comparação ao altar de Arão, quando até mesmo comparado com este, foi ele mostrado tão glorioso? Mas vós honrais, na verdade, este altar, porque recebe o corpo de Cristo; mas aquele que é ele mesmo o corpo de Cristo tratais com desprezo, e, perecendo, o negligenciais. Este altar podeis vós ver em toda parte, jazendo tanto nas vielas como nas praças, e podeis sacrificar sobre ele a toda hora; pois também sobre este se realiza sacrifício. E assim como o sacerdote está de pé invocando o Espírito, assim também vós invocai o Espírito, não por palavra, mas por obras. Pois nada assim sustenta e acende o fogo do Espírito, como este óleo largamente derramado. Mas se quisésseis ver também o que sucede às coisas sobre ele postas, vinde cá, e eu vo-lo mostrarei. Que é, pois, a fumaça, que é o suave odor deste altar? Louvor e ação de graças. E até onde ascende? Até o céu somente? De modo algum, mas ultrapassa o próprio céu, e o céu dos céus, e chega até ao trono do Rei. Pois "as vossas orações", diz ele, "e as vossas esmolas subiram diante de Deus" (At 10:4). E o suave odor que o sentido percebe não penetra longe no ar, mas este abriu a própria abóbada do céu. E tu, na verdade, calas, mas tua obra fala; e um sacrifício de louvor se faz, sem novilha imolada nem pele queimada, mas uma alma espiritual apresentando sua própria oferta. Pois tal sacrifício é mais aceitável do que qualquer benevolência. Quando, pois, vireis um crente pobre, pensai que contemplais um altar; quando vireis a tal um mendigo, não somente não o insulteis, mas até o reverenciai, e se vireis outro a insultá-lo, impedi-o, repeli-o.
Por isso, também vós mesmos podereis ter Deus propício a vós, e alcançar os bens prometidos, aos quais a todos nós seja dado chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem e com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Aqui Paulo fala ironicamente, valendo-se com proveito das palavras dos seus críticos.
Tendo ele completado, do modo que convinha, seu discurso sobre a esmola, e tendo mostrado que ama a eles mais do que é amado, e tendo recontado as circunstâncias de sua paciência e provações, entra agora oportunamente em pontos que envolvem mais de repreensão, fazendo alusão aos falsos apóstolos, e concluindo seu discurso com matéria mais desagradável, e com louvores de si mesmo. Pois isto também faz seu ofício ao longo de toda a Epístola. O que também percebendo, corrige-se ele mesmo amiúde, dizendo em tantas palavras: Começamos outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? (2 Cor 3:1); e mais adiante: Não nos recomendamos outra vez a vós, mas damos-vos ocasião de vos gloriardes (2 Cor 5:12); e depois: Tornei-me insensato em me gloriar; vós me constrangestes a isso (2 Cor 12:11). E muitos corretivos tais ele emprega. E não erraria quem chamasse a esta Epístola um elogio de Paulo; tão largamente faz ele menção tanto de sua graça quanto de sua paciência. Pois havendo entre eles alguns que pensavam grandes coisas de si mesmos, e se punham acima do Apóstolo, e o acusavam de jactancioso, e de não ser nada, e de não ensinar doutrina sã (o que era, em si mesmo, a mais certa evidência de sua própria corrupção), vede como ele começa sua repreensão deles: Ora eu mesmo, Paulo. Vedes que severidade, que dignidade há aqui? Pois o que ele quer dizer é isto: 'Rogo-vos que não me constranjais, nem me deixeis usar de meu poder contra os que nos têm em pouco, e pensam de nós como carnais.' Isto é mais severo do que aquelas ameaças para com eles proferidas na Epístola anterior: Irei a vós com vara, ou em amor e espírito de mansidão? (1 Cor 4:21); e depois novamente: Ora, alguns andam inchados, como se eu não houvesse de ir a vós; mas irei, e conhecerei, não a palavra dos que andam inchados, mas o poder (ib. 18-19). Pois neste lugar mostra ele ambas as coisas, tanto seu poder quanto sua filosofia e longanimidade; visto que assim lhes roga, e com tal empenho, para que não seja constrangido a vir a uma exibição do poder vingador que lhe pertence, e a feri-los e castigá-los, e exigir a pena extrema. Pois isto ele deu a entender ao dizer: Mas rogo-vos que, estando presente, não tenha eu de mostrar ousadia com aquela confiança com que julgo dever ser audaz contra alguns que nos julgam como se andássemos segundo a carne. Por ora, porém, falemos do início. Ora eu mesmo, Paulo. Grande ênfase, grande peso há aqui. Assim diz ele noutro lugar: Eis que eu, Paulo, vos digo (Gl 5:2); e novamente: Como Paulo, o ancião (Fm 9); e ainda noutro lugar: Que tem sido protetora de muitos, e de mim também (Rm 16:2). Assim também aqui: Ora eu mesmo, Paulo. Isto já é grande coisa, que ele mesmo rogue; mas maior ainda é aquilo que acrescentou, dizendo: pela mansidão e brandura de Cristo. Pois, com o desejo de grandemente os envergonhar, ele antepõe aquela mansidão e brandura, tornando desse modo sua súplica mais veemente; como se dissesse: 'Reverenciai a brandura de Cristo, pela qual vos rogo.' E isto disse ele, mostrando ao mesmo tempo que, ainda que lhe impusessem tão forte necessidade, ele mesmo está mais inclinado a isto: é por ser manso, não por falta de poder, que não procede contra eles; pois também Cristo procedeu de igual modo.
Aquele que, presente, sou humilde entre vós, mas ausente, tenho ousadia para convosco. Que quer isto dizer? Certamente fala com ironia, servindo-se das próprias palavras deles. Pois assim diziam eles: "quando presente, na verdade, é de nenhuma estima, pobre e desprezível; mas ausente, ensoberbece-se, gaba-se e se levanta contra nós, e ameaça." Isto ao menos ele também dá a entender depois, dizendo: pois as suas cartas, dizem eles, são graves e fortes, mas a presença corporal é fraca e a palavra desprezível (2 Cor 10:10). Ou fala, pois, com ironia, manifestando grande severidade, e dizendo: "eu, o baixo, eu, o vil, quando presente (como dizem), e quando ausente, o soberbo"; ou então quer dizer que, ainda que profira grandes coisas, não é por soberba, mas pela confiança que tem neles.
Mas rogo-vos que, quando presente, não seja obrigado a mostrar ousadia com aquela confiança com que julgo poder ser audaz contra alguns que nos reputam como se andássemos segundo a carne. Vedes quão grande é a sua indignação, e quão completa a refutação destas suas palavras? Pois diz: "rogo-vos que não me constranjais a mostrar que, mesmo presente, sou forte e tenho poder." Pois, uma vez que diziam eles que, "ausente, é bem audaz contra nós e se exalta", ele se serve das próprias palavras deles: "rogo, pois, que não me constranjam a usar do meu poder." Pois este é o sentido de a confiança. E não disse "com que estou preparado", mas "com que julgo". "Pois ainda não resolvi isto; eles, porém, dão-me razão bastante, mas nem por isso o quero." E, contudo, ele fazia isto não para se vindicar a si mesmo, mas ao Evangelho. Ora, se onde era necessário vindicar a Mensagem, ele não se mostra áspero, mas se retrai e demora, e roga que não haja tal necessidade, muito mais nunca teria feito coisa semelhante em vindicação própria. "Concedei-me, pois", diz ele, "este favor: que não me constranjais a mostrar que, mesmo presente, sou capaz de ser audaz contra quem quer que seja necessário; isto é, de os castigar e punir." Vedes quão livre estava de ambição, como nada fazia por ostentação, pois até onde era matéria de necessidade não hesita em chamar ao ato ousadia. Pois rogo-vos, diz ele, que eu, quando presente, não mostre a coragem com a confiança com que penso ser audaz contra alguns. Pois isto é sobretudo próprio de um mestre: não ser apressado em tomar vingança, mas operar a reforma, e ser sempre relutante e tardio em seus castigos. Como, pois, descreve ele aqueles a quem ameaça? Aqueles que nos reputam como se andássemos segundo a carne: pois o acusavam de hipócrita, de perverso, de jactancioso.
Tendo concluído o seu discurso sobre a esmola, Paulo volta-se agora para assuntos menos agradáveis, concluindo a sua epístola com denúncias contra os falsos apóstolos. Ele oferece explicações acerca de si mesmo e do seu ministério. De fato, não seria errado dizer que a epístola inteira é uma apologia de Paulo, porquanto ele faz tão grande menção da graça e da paciência que lhe foram concedidas.
Aqui ele passa a alarmá-los também pela figura de que se serve, «pois», diz ele, «estamos de fato cercados pela carne; reconheço-o, mas não vivemos segundo a carne»; ou antes, nem sequer isto disse ele, mas por ora o reserva, pois pertence ao elogio de sua vida: primeiro, porém, discorre acerca da Pregação, e mostra que ela não é do homem, nem carece de auxílio vindo de baixo. Por isso não disse: «não vivemos segundo a carne», mas: não guerreamos segundo a carne, isto é, «empreendemos uma guerra e um combate; mas não guerreamos com armas carnais, nem com o socorro de quaisquer recursos humanos».
Pois nossas armas não são carnais.
Pois que espécie de armas são carnais? Riqueza, glória, poder, eloquência, engenho, sutilezas, lisonjas, hipocrisias, e tudo o mais que seja semelhante a estas coisas. Mas as nossas não são desta espécie: mas de que espécie são elas?
Poderosas diante de Deus.
E não disse: «não somos carnais», mas: nossas armas. Pois, como disse, por ora discorre ele acerca da Pregação, e refere todo o poder a Deus. E não diz «espirituais», embora esta fosse a oposição própria a «carnais», mas «poderosas», implicando nisto também aquilo, e mostrando que as armas deles são fracas e impotentes. E notai nele a ausência de soberba; pois não disse: «somos poderosos», mas: nossas armas são poderosas diante de Deus. «Não fomos nós que as tornamos assim, mas o próprio Deus». Pois, como eram açoitados, perseguidos e sofriam males incuráveis sem número, coisas que eram provas de fraqueza: para mostrar a força de Deus diz ele: mas elas são poderosas diante de Deus. Pois isto sobretudo mostra a Sua força, que por meio destas coisas Ele alcança a vitória. De sorte que, ainda que estejamos cercados por elas, é Ele quem guerreia e opera por meio delas. Em seguida percorre longo elogio a respeito delas, dizendo:
Para destruição de fortalezas. E para que, ao ouvirdes «fortalezas», não penseis em algo material,
Por «armas carnais» ele designa riqueza, glória, poder, loquacidade, engenho, meias-verdades, lisonjas, hipocrisias e assim por diante. O apóstolo não se serve de tais armas, mas apenas daquelas que são espirituais.
Primeiro dando ênfase pela figura, e depois, por esta expressão adicional, declarando o caráter espiritual da guerra. Pois estas fortalezas sitiam as almas, não os corpos. Donde são mais fortes que as outras, e por isso também as armas que requerem são mais poderosas. Mas por «fortalezas» ele designa o orgulho dos gregos, e a força de seus sofismas e de seus silogismos. Mas, ainda assim, «estas armas», diz ele, «confundiram tudo quanto se levantava contra elas; pois derrubaram os raciocínios,
E toda altura que se exalta contra o conhecimento de Deus». Ele persistiu na metáfora para tornar maior a ênfase. «Pois ainda que houvesse fortalezas», diz ele, «ainda que fortificações, ainda que qualquer outra coisa que fosse, cedem e dão lugar diante destas armas».
E levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. E, no entanto, o nome «cativeiro» tem em si um som desagradável; pois é a destruição da liberdade. Por que, pois, serviu-se ele dele? Com um sentido próprio, quanto a outro ponto. Pois a palavra «cativeiro» encerra duas ideias: a perda da liberdade, e o ser tão violentamente subjugado que não se possa mais levantar. É, pois, quanto a este segundo sentido que ele a tomou. Assim como, quando dirá eu espoliei outras igrejas (2 Cor 11,8), não pretende ele o tomar sub-repticiamente, mas o despojar e tomar tudo o que é seu, assim também aqui, ao dizer levando cativo. Pois a luta não se mantinha em igualdade, mas ele vencia com grande facilidade. Por isso não disse apenas: «vencemos e levamos a melhor»; mas: «até levamos cativo»; assim como acima não disse: «avançamos máquinas contra as fortalezas»; mas: «nós as derrubamos», pois grande é a superioridade de nossas armas. «Pois não guerreamos com palavras», diz ele, mas com obras contra palavras, não com sabedoria carnal, mas com espírito de mansidão e de poder. Como, pois, seria verossímil que eu andasse à caça de honra, e me gloriasse em palavras, e ameaçasse por cartas» (como o acusavam, dizendo que suas cartas eram pesadas), «quando nosso poder não residia nestas coisas?» Mas, tendo dito levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, porque o nome «cativeiro» era desagradável, pôs logo depois fim à metáfora, dizendo: à obediência de Cristo: da escravidão à liberdade, da morte à vida, da destruição à salvação. Pois não viemos apenas para abater, mas para trazer à verdade os que se nos opõem.
Os argumentos aqui referidos são os da filosofia grega, da qual eles tanto se orgulhavam. A palavra «cativo» soa mal, pois poderia entender-se como supressão da liberdade, mas aqui Paulo lhe dá seu sentido próprio e particular. Poderia também indicar algo que foi tão violentamente subjugado que jamais tornará a levantar-se. É neste sentido que Paulo a emprega aqui. Ademais, o cativeiro em questão é de obediência a Cristo, o que significa a passagem da escravidão à liberdade, da morte à vida e da destruição à salvação.
Diz Paulo que castigará a seu tempo os que o merecem, mas antes quer certificar-se de que os coríntios tenham sido devidamente aconselhados. Vê que o seu povo se acha misturado com estranhos. Quer, pois, que estes primeiro se apartem daqueles, antes de admoestar a estes últimos. Eis aqui outro sinal ainda de sua grande habilidade pastoral.
Aqui alarmou também estes, e não somente àqueles; pois diz: "Estávamos à espera de vós, para que, quando por nossas exortações e ameaças vos houvéssemos reformado, e purgado e separado da comunhão daqueles, então, quando restassem somente os que estão incuravelmente enfermos, pudéssemos visitá-los com o castigo, depois de vermos que realmente vos separastes deles. Pois ainda agora, na verdade, obedeceis, mas não perfeitamente." "E, contudo, se o houvésseis feito agora," diz alguém, "teríeis operado maior proveito." "De modo nenhum; pois, se o houvesse feito agora, eu vos teria envolvido também no castigo. Convinha, sim, castigar a eles, mas poupar-vos a vós. Todavia, se eu poupasse, pareceria fazê-lo por favoritismo; ora, isto não desejo, mas antes emendar-vos primeiro, e depois proceder contra eles." Que coisa pode haver mais terna que o coração do Apóstolo? Que, por ver os seus misturados com estranhos, deseja, na verdade, desferir o golpe, mas se abstém, e reprime sua indignação até que estes se hajam retirado, para que fira somente àqueles; ou antes, nem sequer a estes. Pois por isso ameaça isto, e diz que deseja separar para o castigo somente a eles, a fim de que também estes, emendados pelo temor, se mudem, e ele não solte sua ira contra ninguém. Pois, tal como um excelentíssimo médico, e pai comum, e patrono, e guardião, assim fazia ele todas as coisas, assim cuidava de todos, removendo impedimentos, refreando o pestilento, correndo por toda parte. Pois não foi combatendo que assim realizou a obra, mas avançando como para uma vitória pronta e fácil, plantou seus troféus, minando, derrubando, subvertendo as fortalezas do diabo e as máquinas dos demônios; e transportou todo o despojo deles para o acampamento de Cristo. Nem sequer tomava um pouco de fôlego, saltando destes para aqueles, e destes novamente para outros, como algum general muitíssimo capaz, erguendo troféus todos os dias, ou antes, todas as horas. Pois, tendo entrado na batalha com nada mais que uma pequena túnica, a língua de Paulo tomou as cidades de seus inimigos com seus homens, e arcos, e lanças, e dardos, e tudo o mais.
Pois falava somente; e, caindo sobre seus inimigos mais furiosamente que qualquer fogo, suas palavras expulsavam os demônios e traziam a ele os homens que deles estavam possuídos. Pois, quando expulsou aquele demônio, o maligno, cinquenta mil feiticeiros, reunindo-se, queimaram seus livros de magia e se revoltaram para a verdade. Vede Atos 19:19. E, tal como numa guerra, quando uma torre caiu ou um tirano foi abatido, todos os seus partidários lançam fora as armas e correm para o general oposto; assim verdadeiramente sucedeu também então. Pois, expulso o demônio, todos eles, tendo sido sitiados, e lançado fora, ou antes, destruído seus livros, correram para os pés de Paulo. Mas ele, opondo-se ao mundo como que contra um único exército, em parte alguma deteve sua marcha, mas fazia todas as coisas como se fosse algum homem dotado de asas: e ora restaurava um coxo, ora ressuscitava um morto, ora cegava um terceiro (refiro-me ao feiticeiro), nem sequer, quando encerrado numa prisão, se entregava ao repouso, mas ainda ali trouxe a si o carcereiro, efetuando o bom cativeiro de que tratamos.
4. Imitemo-lo também, na medida de nossas forças. E por que digo "na medida de nossas forças"? Pois aquele que quiser pode aproximar-se ainda dele, e contemplar seu valor, e imitar seu heroísmo. Pois ainda agora ele realiza esta obra, derrubando raciocínios e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus. E ainda que muitos hereges tenham tentado despedaçá-lo, contudo, mesmo desmembrado, ele exibe poderosa força. Pois tanto Marcião quanto Manes o utilizam, sim, mas depois de o retalharem; e ainda assim são refutados pelos próprios membros. Pois basta encontrar-se entre eles somente uma mão deste campeão para pô-los inteiramente em fuga; e um pé apenas, deixado entre eles, os persegue e os prostra, para que aprendas a superabundância de seu poder, e que, ainda que despojado de seus membros, ele é capaz de destruir todos os seus adversários. "Mas isto", diz alguém, "é sinal de perversão: que os que lutam entre si utilizem-no todos." Sinal de perversão certamente, mas não em Paulo — longe disso —, e sim naqueles que dele se utilizam. Pois ele não era multicor, mas uniforme e claro; foram eles que perverteram suas palavras segundo suas próprias concepções. "E por que", diz alguém, "foram elas assim ditas, de modo a dar ocasião aos que as desejavam?" Ele não deu ocasião; foi o frenesi deles que usou suas palavras de modo indevido; pois também este mundo inteiro é maravilhoso e grande, e prova segura da sabedoria de Deus, e os céus proclamam a glória de Deus, e um dia ao outro dia anuncia palavra, e uma noite à outra noite declara conhecimento (Sl 19,1-2); e, no entanto, muitos tropeçaram nele, e em direções contrárias uns aos outros. E alguns o admiraram acima de seu valor, a ponto de julgá-lo Deus; enquanto outros foram tão insensíveis à sua beleza que afirmaram ser ele indigno da mão criadora de Deus, e atribuíram a maior parte dele a uma certa matéria má. E, contudo, Deus provera a ambos os pontos, fazendo-o belo e grande, para que não fosse tido por alheio à Sua sabedoria; porém deficiente e não autossuficiente, para que não fosse suspeitado de ser Deus. Mas, apesar disso, aqueles que foram cegados por seus próprios raciocínios caíram em noções contraditórias, refutando-se uns aos outros, tornando-se cada qual acusador do outro, e vindicando a sabedoria de Deus até mesmo pelos próprios raciocínios que os levaram ao erro. E por que falo do sol e do céu? Os judeus viram tantas maravilhas acontecerem diante de seus olhos, e contudo logo adoraram um bezerro. Viram também Cristo expulsando demônios, e contudo o chamaram de possuído por um demônio. Mas isto não era imputação contra aquele que os expulsava, e sim acusação do entendimento daqueles que estavam tão cegos. Não condeneis, pois, Paulo por causa do juízo daqueles que dele se serviram mal; antes, compreendei bem os tesouros que há nele, e desenvolvei suas riquezas, e assim fareis nobre resistência contra todos, protegidos por sua armadura. Assim podereis fechar a boca tanto dos gregos quanto dos judeus. "E como", diz alguém, "se eles não creem nele?" Pelas coisas operadas por meio dele, pela reforma efetuada no mundo. Pois não foi por poder humano que tão grandes coisas puderam ser feitas, mas o Poder do Crucificado, soprando sobre ele, fê-lo tal qual foi, e mostrou-o mais poderoso que oradores, filósofos, tiranos, reis e todos os homens. Não foi ele somente capaz de armar-se a si mesmo e derrubar seus adversários, mas também de fazer outros tais como ele mesmo.
Portanto, a fim de que nos tornemos úteis tanto a nós mesmos quanto aos outros, tenhamo-lo continuamente em nossas mãos, usando os seus escritos como um prado e jardim de deleite. Pois assim poderemos tanto livrar-nos do vício quanto escolher a virtude, e alcançar os bens prometidos, aos quais possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Não repreende Paulo somente os enganadores, mas também os enganados, pois também estes hão de prestar contas de seus atos. Além disso, repreende a cada um do modo mais conveniente ao seu caso. Aqueles que imaginam pertencer a Cristo devem considerar a quem pertence Paulo. Se a resposta for também Cristo, hão de ouvir o que ele tem a dizer-lhes.
O que sobretudo se há de admirar em Paulo, entre outras coisas, é isto: que, tendo caído na necessidade urgente de exaltar-se a si mesmo, consegue realizar este intento sem, todavia, parecer ofensivo à multidão por causa deste seu falar de si; coisa que se pode ver particularmente em sua Epístola aos Gálatas. Pois tendo ali incorrido em tal argumento, ele provê a ambos os pontos — matéria da máxima dificuldade e que exige muita prudência —, sendo ao mesmo tempo modesto e dizendo algo de grande a respeito de si mesmo. E observai como também aqui ele faz disto grande conta: Vós olhais as coisas segundo a aparência. Eis aqui também a prudência. Pois, tendo repreendido aqueles que os enganavam, não confinou a estes as suas palavras, mas delas salta também para estes; e assim procede constantemente. Porque, na verdade, não açoita apenas os que enganam, mas também os enganados. Pois, se os tivesse deixado sem chamá-los a prestar contas, não se teriam eles tão facilmente corrigido pelo que se disse aos outros; antes se teriam ensoberbecido ainda mais, por não se sentirem sujeitos a acusação. Por isso os açoita também a eles. E não é só isto o que se há de admirar nele, mas ainda isto: que repreende a ambas as partes de modo conveniente a cada uma. Ouvi ao menos o que diz a estes: Vós olhais as coisas segundo a aparência. A acusação não é leve; antes é sinal de homens sumamente fáceis de enganar. Ora, o que ele diz é isto: 'julgais pelo que aparece, pelas coisas carnais, pelas coisas corporais.' Que se entende por 'o que aparece'? Se alguém é rico, se alguém se ensoberbece, se alguém se rodeia de muitos aduladores, se alguém diz grandes coisas de si mesmo, se alguém é vanglorioso, se alguém finge virtude sem a ter — pois este é o sentido de: vós olhais as coisas segundo a aparência.
Se alguém confia em si mesmo que é de Cristo, considere isto de novo consigo mesmo: que, assim como ele é de Cristo, também nós o somos. Pois não quer ser veemente desde o princípio, mas cresce e conduz ao ápice pouco a pouco. Observai, porém, aqui quanto de aspereza e de sentido velado há. Mostra-o pelo uso das palavras consigo mesmo. Pois diz: 'não espere aprender isto de nós, isto é, por nossa repreensão a ele', mas considere isto consigo mesmo: que, assim como ele é de Cristo, também nós o somos; não que ele fosse de Cristo do mesmo modo que o outro, mas que, assim como ele é de Cristo, também eu sou de Cristo. Até aqui vigora a igualdade entre ambos: pois certamente não se dá o caso de que ele seja de Cristo, e eu de algum outro. Tendo, pois, estabelecido esta igualdade entre ambos, passa a acrescentar em que ele o excedia,
Atribui Paulo o seu dom a Deus e assinala que foi dado para o bem comum. A sua obra de responder aos raciocínios, de detectar o que é insólito e de lançar o fundamento devido, tudo se ordena para a edificação da comunidade. Mas, se alguém lhe for hostil e quiser com ele combater, tem ele também o poder de responder aos raciocínios, e dele se servirá quando e como for conveniente.
Pois, estando prestes a dizer algo de grande, observai como o abranda. Porque nada ofende tanto à maioria dos ouvintes quanto o louvar-se alguém a si mesmo. Por isso, para cortar a raiz desta ofensa, diz: Pois, ainda que eu me glorie um tanto mais abundantemente. E não disse: 'se alguém confia que é de Cristo, pense que está muito aquém de nós, pois possuo dEle grande autoridade, de sorte que posso castigar e matar a quem eu quiser'; mas o quê? Pois, ainda que eu me glorie um tanto mais abundantemente. E, no entanto, possuía mais do que se pode dizer, mas ainda assim abaixa isto na sua maneira de falar. E não disse 'eu me glorio', mas se eu me gloriasse, se eu quisesse fazê-lo: mostrando ao mesmo tempo modéstia e declarando sua superioridade. Se, pois, diz, eu me gloriaria acerca da autoridade que o Senhor me deu. De novo atribui tudo a Ele, e faz comum o dom. Para edificação, e não para destruição. Vede como de novo aplaca a inveja que os seus louvores poderiam suscitar, atraindo a si o ouvinte ao mencionar o uso para o qual o recebeu? Por que, pois, diz: destruindo os raciocínios? Porque isto mesmo é uma forma especial de edificação: a remoção dos obstáculos, a detecção do que é insólito, e o lançar do verdadeiro no edifício. Para este fim, portanto, o recebemos, para que edifiquemos. Mas, se alguém combater e lutar conosco, sendo incurável, usaremos também aquele outro poder, destruindo-o e derrubando-o. Por isso também diz: não serei envergonhado, isto é, não serei provado mentiroso nem jactancioso.
O que ele diz é isto: 'poderia, na verdade, gloriar-me, mas, para que não voltem a dizer o mesmo, a saber, que me glorio nas cartas e sou desprezível quando presente, nada direi de grande.' E, no entanto, depois disse algo de grande, mas não acerca deste poder pelo qual era formidável, e sim acerca das revelações, e mais amplamente ainda acerca das provações. 'Portanto, para que não pareça que vos aterrorizo, considere tal homem isto: que, tais quais somos por cartas quando ausentes, tais somos também de fato quando presentes.' Pois, visto que diziam: 'escreve grandes coisas de si, mas, quando presente, é digno de nenhuma consideração', por isso diz estas coisas, e ainda estas de modo moderado. Pois não disse: 'assim como escrevemos grandes coisas, assim também, quando presentes, fazemos grandes coisas', mas em frase mais comedida. Pois, quando se dirigia aos outros, expunha-o com veemência, dizendo: peço-vos que, quando presente, não me veja obrigado a mostrar aquela ousadia com que penso ser audaz contra alguns; mas quando se dirige a estes, é mais comedido. E por isso diz: 'tais quais somos quando presentes, tais também quando ausentes', isto é, humildes, modestos, em nada jactanciosos. E isto é claro pelo que se segue,
Aqui ele mostra, ao mesmo tempo, que aqueles falsos apóstolos são jactanciosos e dizem grandes coisas de si mesmos, e os ridiculariza por se autocomendarem: "Mas nós não fazemos tal coisa; antes, ainda que façamos algo grande, remetemos tudo a Deus e nos comparamos uns aos outros." Por isso acrescentou:
Mas eles, medindo-se a si mesmos por si mesmos e comparando-se entre si mesmos, estão sem entendimento. Ora, o que ele diz é isto: "não nos comparamos com eles, mas uns com os outros." Pois mais adiante diz: em nada fui inferior aos mais eminentes apóstolos (2 Cor 12:11); e na epístola anterior: trabalhei muito mais do que todos eles (1 Cor 15:10); e ainda: verdadeiramente os sinais de apóstolo foram operados entre vós com toda a paciência (2 Cor 12:12). "De modo que nos comparamos conosco mesmos, não com os que nada têm; pois tal arrogância provém da insensatez." Ou, pois, diz isto referindo-se a si mesmo, ou referindo-se a eles, isto é: "não ousamos comparar-nos com os que contendem uns com os outros e se gloriam de grandes coisas e não entendem" — isto é, não percebem quão ridículos são ao se mostrarem assim arrogantes, exaltando-se uns entre os outros.
Mas não nos gloriaremos além de nossa medida, como fazem eles.
Pois é provável que, em sua jactância, dissessem: "convertemos o mundo, alcançamos os confins da terra", e proferissem muitas outras palavras igualmente pomposas. "Mas não assim nós", diz ele,
Antes, segundo a medida da esfera que Deus nos repartiu como medida, para chegarmos até vós mesmos. De sorte que sua humildade se manifesta em ambos os aspectos: tanto em não se gloriar de mais do que fizera, quanto em remeter isto mesmo a Deus. Pois, segundo a medida da esfera, diz ele, que Deus nos repartiu, medida para chegarmos até vós. Tal como quem reparte uma vinha entre lavradores, assim Ele nos mediu a nós. Até onde, pois, fomos julgados dignos de alcançar, até aí nos gloriamos.
Não simplesmente "viemos", mas "anunciamos, pregamos, persuadimos, obtivemos êxito." Pois é provável que eles, tendo apenas chegado até os discípulos dos apóstolos, atribuíssem tudo a si mesmos pela sua mera presença entre eles. "Mas não assim nós; nem pode alguém dizer que não fomos capazes de chegar até vós, e que estendemos nossa jactância até vós somente em palavras; pois também vos pregamos a palavra."
Paulo acusa os falsos apóstolos não apenas de se gloriarem excessivamente, mas também de se atribuírem o mérito dos trabalhos alheios.
Ele lhes formula uma grave acusação nestes fundamentos: tanto por se gloriarem de coisas que excediam sua medida, quanto por se gloriarem dos trabalhos de outros homens; e que, sendo toda a fadiga própria dos apóstolos, eles se ornavam com os labores alheios. "Mas nós", diz ele, "mostramos estas coisas em nossos feitos. Não imitaremos, pois, a esses homens, mas diremos tais coisas onde nossos feitos nos servem de testemunho. E por que", diz ele, "falo de vós?" pois tenho esperança de que, à medida que cresça vossa fé — pois não afirma de modo absoluto, guardando seu próprio caráter, mas "espero", diz ele, "que, se progredirdes, nossa esfera se estenda ainda mais longe, para pregar o Evangelho nas regiões além de vós. Pois avançaremos ainda mais", diz ele, "de modo a pregar e labutar, e não de modo a nos gloriarmos em palavras do que outros homens labutaram." E bem a chamou de esfera e medida, como quem entrara na posse do mundo, uma rica herança; mostrando que o todo era inteiramente de Deus. "Tendo, pois, tais obras", diz ele, "e esperando maiores ainda, não nos gloriamos como aqueles que nada têm, nem atribuímos a nós mesmos parte alguma, mas o todo a Deus."
Paulo não reivindicou isto para si mesmo, mas o deixou ao Senhor. Paulo é modesto, mas não a ponto de negligenciar dizer a verdade acerca de si mesmo. É possível causar dano por uma modéstia inoportuna, ou fazer o bem dizendo algo louvável de si mesmo no momento oportuno. Havia um perigo real de que os discípulos se persuadissem a ter baixa opinião de Paulo, precisamente por causa de sua modéstia. Paulo não buscava o louvor humano, mas, quando foi acusado de jactancioso, defendeu-se.
Ele não disse que somos, mas quem o Senhor recomenda. Vedes com quanta modéstia fala? Mas se, ao prosseguir, ele suscita palavras mais elevadas, não vos admireis, pois isto também procede da prudência de Paulo. Porquanto, se em toda parte houvesse falado com humildade, não teria golpeado a estes homens tão eficazmente, nem teria arrancado os discípulos de seu erro. Pois é possível tanto causar dano por uma modéstia inoportuna, quanto fazer bem dizendo algo admirável a respeito de si mesmo em ocasião conveniente. Assim, pois, ele também procedeu. Pois não era pequeno o perigo de que os discípulos fossem persuadidos a formar algum conceito baixo de Paulo. Não que Paulo buscasse a glória que vem dos homens. Pois se a buscasse, não teria guardado silêncio por tanto tempo acerca daquelas coisas grandes e admiráveis de catorze anos atrás (2 Cor 12:20); nem teria, quando a necessidade lhe foi imposta, se retraído e hesitado tanto em falar delas; é bem evidente que nem mesmo então teria falado, se não tivesse sido compelido. Certamente, pois, não foi por desejo da glória que vem dos homens que ele disse estas coisas, mas por terno cuidado para com os discípulos. Pois, visto que lhe lançavam em rosto o ser um jactancioso, e ostentoso em palavras mas incapaz de mostrar coisa alguma em obras, ele é compelido, subsequentemente, a chegar àquelas revelações. Ainda que tivesse em seu poder convencê-los por suas obras, no momento em que dizia estas coisas, ele contudo persiste, não obstante, em usar ameaças em palavras. Pois ele estava mais que ninguém livre da vanglória; e toda a sua vida o prova, tanto antes quanto depois disto. Por exemplo, foi por isto que ele mudou de repente; e, tendo mudado, confundiu os judeus e lançou fora toda aquela honra que deles tinha, embora ele mesmo fosse o chefe e campeão deles. Mas ele não considerou nenhuma daquelas coisas quando encontrou a verdade; antes tomou para si os insultos e a contumélia; pois olhava para a salvação de muitos, tendo isto por tudo. Pois aquele que nada estima o inferno nem o céu nem dez mil mundos em vista de seu anelo por Cristo, como poderia ele caçar a glória que vem de muitos? De modo algum; antes é sobremaneira humilde quando pode sê-lo, e marca a ferro sua vida anterior com infâmia quando a si mesmo se chama blasfemo, e perseguidor, e injuriador (1 Tm 1:13). E também seu discípulo Lucas diz muitas coisas a respeito dele, tendo evidentemente as aprendido dele mesmo, expondo plenamente sua vida anterior não menos que aquela após sua conversão.
4. Ora, digo estas coisas, não para que apenas ouçamos, mas para que também aprendamos. Pois se ele se recordava daquelas transgressões anteriores ao Lavacro, ainda que todas tivessem sido apagadas, que perdão poderemos ter nós, que somos esquecidos das que cometemos depois do Lavacro? Que dizes tu, ó homem? Ofendeste a Deus, e te esqueces? Esta é uma segunda ofensa, uma segunda inimizade. De que pecados, pois, pedes perdão? Daqueles que nem sequer conheces tu mesmo? Certamente — pois não é assim? — estás profundamente ansioso e cuidadoso em como hás de prestar contas deles, tu que não te importas sequer de lembrá-los, mas zombas do que não é matéria de zombaria. Mas há de vir um tempo em que nossa zombaria já não poderá prosseguir. Pois havemos de morrer (pois a grande insensibilidade da maioria me obriga a falar mesmo de coisas evidentes), e havemos de ressuscitar, e ser julgados, e ser punidos; ou antes, isto não é necessário, se assim escolhermos. Pois aquelas outras coisas não estão em nosso próprio poder, nem nosso fim, nem nossa ressurreição, nem nosso julgamento, mas no de nosso Senhor; mas sofrermos punição ou não está em nosso próprio poder, pois isto é daquelas coisas que podem ou não acontecer. Mas se assim escolhermos, faremos disso algo do número das coisas impossíveis; assim como Paulo, assim como Pedro, assim como todos os santos fizeram; pois é mesmo impossível que eles sejam punidos. Se, portanto, tivermos ânimo, é da mesma maneira impossível também que venhamos a sofrer algo. Pois ainda que tenhamos ofendido em dez mil coisas, é possível recobrar-nos enquanto ainda estamos aqui. Recobremo-nos, pois; e considere o homem velho que dentro em pouco há de partir, visto que já se comprazeu bastante em seus prazeres ao longo da vida (ainda que que espécie de prazer seja este, o de viver na maldade? Mas por ora assim falo segundo o seu próprio modo de pensar); considere ele, além disso, que lhe é possível, em pouco tempo, lavar tudo. O jovem, por sua vez, considere também a incerteza da morte, e que muitas vezes, enquanto muitos mais velhos permaneceram aqui, os jovens foram levados antes deles. Pois, por esta razão, para que não façamos comércio de nossa morte, é que ela foi deixada na incerteza. Por isso também um certo sábio aconselha, dizendo: Não tardes em converter-te ao Senhor, e não adies de dia em dia; pois não sabes o que trará o amanhã. Como, pois, pela demora há perigo e temor, mas pela não-demora há salvação manifesta e segura. Apega-te, pois, firmemente à virtude. Pois assim, ainda que partas jovem, terás partido em segurança; e se chegares à velhice, hás de chegar [à morte] com grande provisão feita, e terás uma dupla festa por toda a tua vida; tanto por te absteres do vício, quanto por te apegares à virtude. Não digas: 'há de vir um tempo em que será bom converter-me', pois esta linguagem provoca a Deus sobremaneira. E por que assim? Porque Ele te prometeu inúmeras eras, mas tu nem sequer estás disposto a labutar durante esta vida presente, esta vida breve que dura apenas uma estação; antes és tão indolente e efeminado que buscas uma ainda mais curta que esta. Não são os mesmos os festins de cada dia? Não são as mesmas as mesas, as mesmas meretrizes, os mesmos teatros, as mesmas riquezas? Até quando amarás essas coisas como se fossem algo? Até quando permanecerá insaciável o teu apetite pelo mal? Considera que, tantas vezes quantas fornicaste, outras tantas te condenaste a ti mesmo.
Testemunhas, então, tal é a natureza do pecado: uma vez cometido, já também o Juiz proferiu a sua sentença. Foste dado à embriaguez, à gula, ou ao roubo? Detém-te agora, volta atrás, reconhece diante de Deus, como misericórdia, que Ele não te arrebatou no meio dos teus pecados; não busques ainda outro tempo determinado para praticares o mal. Muitos foram arrebatados no meio da sua cobiça, e partiram para manifesto castigo. Teme que também tu venhas a sofrer isto, e sem desculpa. "Mas Deus concedeu a muitos um tempo determinado para a confissão, na extrema velhice." Que, pois? Dar-to-á também a ti? "Talvez o dê", diz alguém. Por que dizes "talvez", e "algumas vezes", e "muitas vezes"? Considera que estás deliberando acerca da tua alma, e põe também o caso contrário, e calcula, e diz: "Mas e se não o der?" "Mas e se o der?", diz ele. Deus, de fato, o deu; mas ainda assim esta suposição é mais segura e mais proveitosa que aquela. Pois, se começares agora, terás ganhado tudo, quer te seja concedido um tempo determinado, quer não; mas, se estiveres sempre adiando, por esta mesma causa talvez não te seja dado nenhum. Quando sais para a batalha, não dizes: "não há necessidade de fazer o meu testamento, talvez eu volte são e salvo"; nem, ao deliberares acerca do matrimônio, dizes: "suponhamos que eu tome uma esposa pobre, muitos, mesmo assim, enriqueceram contra toda expectativa"; nem, ao construíres uma casa, "suponhamos que eu lance um alicerce apodrecido, muitas casas mantiveram-se de pé ainda assim"; e, no entanto, ao deliberares acerca da alma, apoias-te em coisas ainda mais apodrecidas, urgindo o teu "talvez", e "muitas vezes", e "algumas vezes", e confiando-te a estas incertezas. "Não", diz alguém, "não a uma incerteza, mas à misericórdia de Deus, pois Deus é misericordioso." Sei-o também eu; mas ainda assim este Deus misericordioso arrebatou aqueles de quem falei. E que sucederá se, depois que te for dado tempo, permaneceres ainda o mesmo que eras? Pois este tipo de homem será indolente até na velhice. "Não", dirá ele, "não será assim." Porque este modo de raciocinar, mesmo depois dos oitenta anos, deseja os noventa, e depois dos noventa, os cem, e depois dos cem, estará ainda mais indisposto a agir. E assim toda a vida se terá consumido em vão, e o que foi dito dos judeus sucederá também a ti: Os seus dias se consumiram na vaidade (Sl 78,33). E oxalá fosse somente em vaidade, e não também para o mal. Pois, quando partirmos daqui, levando o pesado fardo dos nossos pecados, isto será também para o mal. Porque levaremos conosco lenha para o fogo e um farto banquete para o verme. Por isso, rogo e conjuro-vos que, enfim, façais alto de modo nobre, e que vos aparteis da maldade, para que também alcancemos os bens prometidos: aos quais possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Prestes a entrar nos seus próprios louvores, ele emprega muita correção prévia. E faz isso não uma nem duas vezes, ainda que a necessidade do assunto, e o que já havia dito com frequência, lhe fossem escusa suficiente. Pois aquele que se lembra dos pecados que Deus não lembrou, e que por isso diz ter sido indigno até do próprio nome de Apóstolo, mesmo pelos mais insensatos é visto claramente que não diz o que agora vai dizer por causa da glória. Pois, se alguém deve dizer algo surpreendente, isto mesmo seria especialmente prejudicial à sua glória — o falar algo de si mesmo — e à maioria isso é ofensivo. Mas, não obstante, ele não temeu timidamente nenhuma destas coisas, e sim olhou para uma só coisa: a salvação dos seus ouvintes. Contudo, para que não causasse dano aos incautos com isto — quero dizer, com o dizer grandes coisas de si mesmo — emprega, por abundante cautela, estas muitas correções preparatórias, e diz: Quem dera pudésseis suportar-me, enquanto faço-me um pouco de louco; sim, antes, vós de fato me suportais. Vês tu a sabedoria? Pois quando diz "quem dera", é como quem põe a coisa à disposição deles; mas quando também afirma que eles o fazem, é como quem confia grandemente no afeto deles, e como quem declara que tanto ama quanto é amado. Sim, antes, não de mero amor apenas, mas de uma espécie de paixão ardente e insensata, diz que devem suportá-lo mesmo quando ele se faz de louco. E por isso acrescentou: Pois tenho ciúmes de vós com um zelo de Deus. Não disse "porque vos amo", mas usa um termo muito mais veemente que este. Pois são ciosas aquelas almas que ardem intensamente por aqueles a quem amam, e o ciúme não pode de outro modo ser gerado senão a partir de uma afeição veemente. Depois, para que não pensassem que era por causa de poder, ou honra, ou riqueza, ou qualquer outra coisa semelhante, que ele desejava o afeto deles, acrescentou: com um zelo de Deus. Pois também de Deus se diz que é zeloso, não que se deva supor paixão (pois a Divindade é impassível), mas para que todos saibam que Ele faz todas as coisas por nenhum outro respeito senão pelo bem daqueles de quem tem zelo — não para que Ele mesmo ganhe algo, mas para que os salve. Entre os homens, de fato, o ciúme não nasce desta causa, mas por amor ao próprio repouso; não porque os amados sofram ultraje, mas para que aqueles que os amam não sejam feridos, e não sejam superados nas boas graças, e não fiquem em posição inferior nos afetos dos amados. Mas aqui não é assim. "Pois não me importo", diz ele, "com isto, que eu fique em posição inferior em vossa estima; mas sim que eu vos veja corrompidos. Pois tal é o zelo de Deus; e tal é também o meu, ao mesmo tempo intenso e puro." Há, depois, também esta razão necessária;
Espostei-vos a um só marido, para vos apresentar como virgem pura. "Sou, portanto, zeloso, não por mim, mas por aquele a quem vos desposei." Pois o tempo presente é o tempo do esposório, mas o tempo das núpcias é outro; quando cantarão: "eis que o Esposo se levantou". Ó coisas inauditas! No mundo, as mulheres são virgens antes do casamento, mas depois do casamento já não o são. Mas aqui não é assim: ainda que não sejam virgens antes deste casamento, depois do casamento tornam-se virgens. Assim, toda a Igreja é virgem. Pois, dirigindo-se a todos, tanto maridos quanto esposas, ele fala desta maneira. Mas vejamos com que ele veio e nos desposou, com que espécie de dotes nupciais. Não ouro, não prata, mas o reino dos céus. Por isso também disse: Somos embaixadores em nome de Cristo, e suplica-lhes, estando prestes a receber a Esposa. O que se deu no caso de Abraão foi um tipo disto. Gênesis 24:4, etc. Pois enviou o seu fiel servo para pedir em casamento uma donzela gentia; e neste caso Deus enviou os seus próprios servos para pedir em casamento a Igreja para o Seu Filho, e profetas desde a antiguidade dizendo: Ouve, filha, e considera, e esquece o teu povo e a casa de teu pai, e o Rei desejará a tua formosura. Salmo 45:10-11. Vedes também o profeta desposando? Vedes o Apóstolo, igualmente, exprimindo ele mesmo esta mesma coisa com muita ousadia, e dizendo: Eu vos desposei a um só marido, para vos apresentar como virgem pura a Cristo? Vedes de novo a sabedoria? Pois, tendo dito: "Deveis suportar-me", não disse: "porque sou vosso mestre e não falo por interesse próprio"; mas usa esta expressão que os revestia de dignidade especial, colocando-se a si mesmo no lugar daquele que promove um matrimônio, e a eles na condição da noiva;
Paulo emprega aqui uma palavra bem mais forte que mero amor. As almas zelosas ardem intensamente por aqueles a quem amam, e o zelo pressupõe forte afeição. Depois, para que não pensassem que Paulo buscava poder, riqueza ou honra, acrescenta que seu zelo é "divino". Pois de Deus se diz que é zeloso, não à maneira humana, mas para que todos saibam que Ele reclama direitos soberanos sobre aqueles a quem ama e faz o que faz exclusivamente em benefício deles. O zelo humano é, no fundo, egoísta, mas o zelo divino é ao mesmo tempo intenso e puro. Observa a diferença entre as esposas do mundo e a Igreja. No mundo, a mulher é virgem antes do matrimônio, quando perde sua virgindade. Mas na Igreja, aquelas que nada tinham de virgens antes de se voltarem para Cristo adquirem nEle a virgindade. Por conseguinte, toda a Igreja é virgem.
"Pois ainda que a destruição seja vossa [somente], a dor, contudo, é também minha." E considerai sua sabedoria. Pois ele não afirma que eles já estivessem corrompidos; e assim o demonstrou quando disse: Quando vossa obediência for cumprida (2 Cor 10:6), e chorarei a muitos que já pecaram (2 Cor 12:21); mas ainda assim não os deixa tornar-se desavergonhados. E por isso diz: para que não aconteça. Pois isto nem condena nem silencia; porquanto nenhum dos dois caminhos seria seguro, seja falar abertamente, seja calar-se perpetuamente. Emprega, portanto, esta forma intermediária, dizendo: para que não aconteça. Pois esta não é a linguagem de quem inteiramente desconfia, nem de quem inteiramente confia neles, mas de quem se detém entre estes dois extremos. Deste modo, pois, ele suavizou; mas, pela menção daquela história, lançou-os num terror indizível, e cortou-lhes toda desculpa. Pois ainda que a serpente fosse maligna, e ela insensata, nada disso livrou a mulher do castigo. "Vede, pois," diz ele, "que não vos suceda o mesmo, e não haja nada que vos escude. Pois também aquele, prometendo coisas maiores, assim enganou." Donde é evidente que também estes, jactando-se e inchando-se de orgulho, enganavam. E isto se pode conjecturar não somente deste passo, mas também do que ele diz em seguida,
Paulo não afirma que isto haverá de suceder, mas teme que possa suceder. Ele se detém a meio caminho entre a confiança e a dúvida, esperando que façam o que é reto, sem contudo ter disso inteira certeza.
O que provavelmente sucedeu foi que falsos mestres surgiram de outra parte e acrescentaram ao que os apóstolos já haviam ensinado. Sua pretensão teria sido a de que os apóstolos não haviam dito tudo quanto havia para dizer, o que Paulo se esforça arduamente por negar.
Não é dizer, "Para que, de alguma sorte, como Eva foi enganada", mas mostra que estes homens são antes mulheres, os que assim se deixam abusar, pois é próprio da mulher ser enganada. E não disse, "assim também vós fôsseis enganados", mas, conservando a metáfora, diz: "assim vossas mentes se corrompessem da simplicidade que é para com Cristo." "Da simplicidade", digo eu, não da malícia; nem por malícia, nem por vossa incredulidade, mas por simplicidade. Mas, contudo, nem mesmo em tais circunstâncias os enganados têm direito ao perdão, como Eva demonstrou. Ora, se isto não dá direito ao perdão, muito menos o dará quando alguém é assim enganado por vanglória. 2. Pois se aquele que vem prega outro Jesus que não pregamos: mostrando com isto que os seus enganadores não eram coríntios, mas pessoas de outra parte, já anteriormente corrompidas; por isso diz ele, aquele que vem.
Se recebeis um Espírito diferente, um Evangelho diferente, que não recebestes, fazeis bem em suportá-lo. Que dizes? Tu que dizias aos gálatas: Se alguém vos anuncia outro Evangelho além do que recebestes, seja anátema; e agora dizes: fazeis bem em suportá-lo? E, contudo, por essa razão convinha não suportá-los, mas afastar-se deles; mas se dizem as mesmas coisas, convém suportá-los. Como, pois, dizes: 'porque dizem as mesmas coisas, não convém suportá-los'? Pois ele diz: 'se dissessem coisas diferentes, convinha suportá-los.' Prestemos, pois, bem atenção, porquanto o perigo é grande, e o precipício profundo, se os homens passam por isto sem cuidado; e o que aqui se diz dá entrada a todas as heresias. Qual é, pois, o sentido destas palavras? Aquelas pessoas se vangloriavam como se os Apóstolos ensinassem de modo incompleto, e eles estivessem introduzindo algo mais do que aqueles. Pois é provável que, com muita tagarelice vã, eles trouxessem lixo insensato para encobrir estas doutrinas. E por isso ele fez menção da serpente e de Eva, que assim foi enganada pela expectativa de adquirir mais. E aludindo a isto também na Epístola anterior, disse: Já estais fartos, já estais ricos, já sem nós reinastes; e ainda: nós somos loucos por causa de Cristo, mas vós sois prudentes em Cristo (1 Cor 4:8). Visto, pois, ser provável que, usando da sabedoria que é de fora, eles falassem muito vãmente, o que ele diz é isto: que 'se estas pessoas dissessem alguma coisa mais, e pregassem um Cristo diferente que devesse ter sido pregado, mas nós o omitimos, fazeis bem em suportá-los.' Por isso ele acrescentou, o qual não pregamos. 'Mas se os pontos capitais da fé são os mesmos, que tendes vós de mais deles? Pois quaisquer coisas que digam, nada dirão além do que nós dissemos.' E observai com que precisão ele expõe o caso. Pois não disse: 'se aquele que vem diz alguma coisa mais'; porquanto eles diziam de fato algo mais, discursando com mais autoridade e com muita beleza de linguagem; por isso não disse isto, mas o quê? [Se] aquele que vem prega um outro Jesus, coisa que não tinha necessidade daquele aparato de palavras; ou recebeis um Espírito diferente, (pois tampouco havia necessidade de palavras neste caso;) isto é, 'vos torna mais ricos em graça'; ou um Evangelho diferente, que não recebestes, (nem isto, de novo, precisava de palavras,) fazeis bem em suportá-lo. Mas considerai, peço-vos, como ele em toda parte usa tal definição que mostra que nada de muito grande, nem sequer algo mais, fora introduzido por eles. Pois quando disse, Se aquele que vem prega um outro Jesus, acrescentou, o qual não pregamos; e recebeis um Espírito diferente, ajuntou, o qual não recebestes; ou um Evangelho diferente, acrescentou, que não recebestes, mostrando por tudo isto que convém atendê-los, não simplesmente se dizem algo mais, mas se disseram alguma coisa mais que devia ter sido dita e por nós foi omitida. Mas se não devia ter sido dita, e por isso não foi dita por nós; ou se dizem apenas as mesmas coisas que nós, por que vos maravilhais tanto diante deles? 'E, contudo, se dizem as mesmas coisas,' diz alguém, 'por que os impedes?' Porque, usando de hipocrisia, introduzem doutrinas estranhas.
Isto, contudo, não o diz por ora, mas afirma-o depois, quando declara: *Fazem-se passar por apóstolos de Cristo* (2 Cor 11:13); por ora, afasta os discípulos da autoridade destes mediante considerações menos ofensivas, e isto não por inveja para com aqueles, mas para preservar a estes. De outro modo, por que não impede a Apolo — que era, no entanto, homem erudito e poderoso nas Escrituras (At 18:24; 1 Cor 16:12) —, mas antes o exorta e promete que o enviará? Porque este, juntamente com sua erudição, conservava também a integridade das doutrinas; ao passo que com aqueles sucedia o contrário. E por isso guerreia contra eles e censura os discípulos por contemplá-los com boquiaberta admiração, dizendo: "se algo que devesse ter sido dito nós omitimos e eles supriram, não vos impedimos de dar-lhes ouvidos; mas, se tudo foi por nós plenamente cumprido e nada ficou por fazer, donde vem que eles vos cativaram?"
"Pois reputo que em nada fui inferior aos maiores Apóstolos" — não mais se comparando com eles [em geral], mas com Pedro e os demais. "De sorte que, se estes sabem mais do que eu, [sabem] mais também do que aqueles." E observai como também aqui ele demonstra modéstia. Pois não disse: "os Apóstolos nada disseram além do que eu"; mas o quê? Reputo, assim julgo, que em nada fui inferior aos maiores Apóstolos. Pois, visto que isto também parecia denotar nele certa inferioridade — que aqueles que o precederam eram de maior renome, e por eles se nutria maior respeito, e estas pessoas pretendiam insinuar-se [entre os fiéis] —, por isso ele faz esta comparação de si mesmo com eles com a dignidade que lhe convém. Por isso também os menciona com elogios, não falando simplesmente dos Apóstolos, mas dos maiores dentre eles, referindo-se a Pedro, Tiago e João.
Paulo não apela ao que ensinou, mas a quem ele é. Sua condição é ao menos igual — na verdade, é muito superior — à daqueles que haviam desviado os coríntios.
Com efeito, visto que aqueles que corrompiam os coríntios levavam a vantagem nisto, a saber, em não serem rudes, também ele menciona este ponto, mostrando que disso não se envergonhava, antes até se gloriava. E não disse: "Ainda que eu seja rude na palavra, também eles o são", pois isto pareceria acusar tanto a eles quanto a si mesmo, e exaltar aqueles; mas ele derruba a própria coisa, a saber, a sabedoria exterior. E, de fato, na Epístola anterior ele disputa com veemência sobre este mesmo assunto, dizendo que ela não só em nada contribui para a Pregação, como ainda lança sombra sobre a glória da Cruz; pois diz: "Não vim a vós com sublimidade de palavras ou de sabedoria, para que a cruz de Cristo não se tornasse vazia" (1 Cor 2:1; 1 Cor 1:17); e muitas outras coisas do mesmo gênero; porquanto em ciência eles eram rudes, o que é também a forma extrema da rudeza. Quando, pois, era necessário instituir comparação naquelas coisas que eram grandes, ele se compara com os Apóstolos: mas quando se tratava de mostrar aquilo que parecia ser deficiência, já não faz assim, mas se agarra à própria coisa e mostra que era antes superioridade. E quando, de fato, nenhuma necessidade o constrangia, diz que é o menor dos Apóstolos, e nem sequer digno do título; mas aqui, de novo, quando a ocasião o exigiu, diz que em nada é inferior aos mais eminentes Apóstolos. Pois sabia que isto seria de máximo proveito para os discípulos. Por isso também acrescenta:
Antes, em tudo o manifestamos entre todos, para convosco. Pois aqui, de novo, acusa os falsos Apóstolos de andarem em astúcia (2 Cor 4:2). E também antes disse isto de si mesmo, que não vivia segundo a aparência exterior, nem pregava manejando a palavra com engano (2 Cor 4:2) e corrompendo-a. Mas aqueles eram uma coisa e pareciam outra. Não assim ele. Por isso também em toda parte assume um tom elevado, como quem nada faz tendo em vista a opinião dos homens, nem oculta coisa alguma de si mesmo. Como também disse antes: "pela manifestação da verdade, recomendando-nos à consciência de todo homem" (2 Cor 4:2), assim também agora de novo diz: "em tudo vo-lo manifestamos." Mas que quer isto dizer? "Somos rudes", disse ele, "e não o ocultamos: recebemos de algumas pessoas e não o mantemos em segredo. Recebemos, pois, de vós, e não fingimos que não recebemos, como fazem aqueles quando recebem, mas tornamos manifesto diante de vós tudo quanto fazemos"; o que era próprio de quem tinha neles extrema confiança, e lhes dizia tudo com verdade. Por isso também os chama testemunhas, dizendo agora, "entre todos, para convosco", e também antes: "Pois nenhuma outra coisa vos escrevemos, senão o que ledes, ou mesmo reconheceis" (2 Cor 1:13).
4. Depois de ter assim defendido a sua própria conduta, passa em seguida a dizer com severidade,
Os falsos apóstolos possuíam, evidentemente, o dom da eloquência, do qual Paulo carecia. Mas isto nada significa quanto à substância da pregação, e pode até lançar sombra sobre a glória da cruz, a qual é tudo, menos superficialmente atraente.
O que ele diz é isto: "Vivi na estreiteza"; pois esta é a força de "abater-me a mim mesmo". "Podeis, pois, lançar-me isto em rosto? E vos ergueis, portanto, contra mim, porque me abati a mim mesmo, mendigando, suportando estreitezas, padecendo, sofrendo fome, para que vós fôsseis exaltados?" E de que modo foram eles exaltados pelo fato de ele estar em estreitezas? Eram mais edificados e não se escandalizavam; o que bem poderia ser uma gravíssima acusação contra eles e uma repreensão à sua fraqueza, a saber, que não era possível conduzi-los de outro modo senão abatendo-se ele primeiro a si mesmo. "Lançais-me, pois, em rosto que me abati a mim mesmo? Mas, por isso mesmo, fostes exaltados." Pois, tendo dito também acima que o acusavam por ser humilde quando presente e ousado quando ausente, ao defender-se aqui os fere de novo, dizendo: "também isto foi por vossa causa."
Espoliei outras igrejas. Aqui, finalmente, fala com reprovação, mas as palavras anteriores impedem que estas pareçam ofensivas; pois disse: "Suportai-me nesta pequena loucura"; e, antes de todas as suas outras façanhas, faz deste o seu primeiro motivo de glória. Pois é a isto que os homens mundanos especialmente atentam, e nisto também os seus adversários muito se orgulhavam. Por isso não entra primeiro no assunto dos seus perigos, nem tampouco dos seus milagres, mas neste do desprezo pelo dinheiro, porque nisto eles se orgulhavam; e ao mesmo tempo insinua também que eram ricos. Mas o que nele é digno de admiração é isto: podendo dizer que era sustentado até pelas próprias mãos, não o disse; mas diz aquilo que especialmente os envergonhava e, no entanto, não era encômio de si mesmo, a saber: "Tomei de outros." E não disse "tomei", mas "espoliei", isto é, "despojei-os, e os fiz pobres." E o que certamente é maior, que não foi para supérfluos, mas para as suas necessidades, pois quando diz "salário", entende sustento necessário. E o que é ainda mais grave, "para vos servir". Pregamo-vos o evangelho; e, quando eu deveria ser sustentado por vós, gozei disto das mãos de outros. A acusação é dupla, ou antes tríplice: que, vivendo entre eles e servindo-os, e buscando o sustento necessário, tinha outros que lhe supriam as necessidades. Grande o excesso, de um lado da negligência, do outro do zelo! Pois estes lhe enviavam socorro mesmo estando a grande distância, e aqueles nem sequer o sustentavam quando ele estava entre eles.
5. Depois, por havê-los açoitado com veemência, de novo suaviza a vibração da sua repreensão,
Paulo está claramente a exagerar para produzir efeito, mas devemos lembrar que, no início do capítulo, ele advertira os coríntios a suportá-lo nesta pequena loucura enquanto expunha o seu argumento.
Pois não disse: "vós não me destes", mas "eu não tomei", porquanto ainda os poupa. Mas, não obstante, mesmo na moderação da sua linguagem, os fere de novo dissimuladamente, pois a palavra "presente" é sumamente enfática, e assim também "estava necessitado". Pois, para que não dissessem: "que importa então, se tivésseis o suficiente?", acrescentou: "e estava necessitado."
Não vos fui pesado. Aqui, de novo, os fere brandamente, como a quem faz tais contribuições de má vontade, sentindo-as como um peso. Vem depois também a razão, cheia de acusação e carregada de zelo ciumento. Por isso a introduziu, não como ponto principal, mas informando-os de onde e por quem era sustentado, de modo a estimulá-los de novo, sem que o suspeitassem, quanto ao ponto da esmola;
Pois a medida da minha necessidade, diz ele, supriram-na os irmãos que vieram da Macedônia. Vedes como de novo os provoca, apresentando aqueles que o haviam servido? Pois, tendo primeiro inspirado neles o desejo de saber quem seriam estes, quando disse "espoliei outras igrejas", menciona-os então também pelo nome; o que os incitaria também à esmola. Pois assim persuade aqueles que haviam sido vencidos por eles no ponto de sustentar o Apóstolo, a não serem também vencidos no socorro que davam aos pobres. E diz isto também na Epístola aos próprios macedônios: "Pois nas minhas necessidades me socorrestes uma e outra vez, ainda no princípio do Evangelho" (Fl 4:16); o que era também grandíssimo louvor para eles, o de terem, desde o próprio princípio, resplandecido. Mas observai como em toda parte ele menciona a sua necessidade, e em nenhuma um supérfluo. Ora, pois, ao dizer "presente" e "necessitado", mostrou que devia ter sido sustentado pelos coríntios; e pelas palavras "supriram a medida da minha necessidade", mostra que nem sequer pediu. E atribui uma razão que não era a verdadeira. Qual é, pois, esta? Que recebera de outros; pois, diz ele, "a medida da minha necessidade supriram-na os que vieram." "Por esta razão", diz ele, "não vos fui pesado; não porque não tivesse confiança em vós." E, no entanto, é por esta última razão que assim procede, e o mostra no que se segue; mas não o diz claramente, antes o lança na sombra, deixando-o à consciência dos seus ouvintes. E dá prova disto de modo dissimulado no que se segue, dizendo:
E em tudo me guardei de vos ser pesado, e assim me guardarei. Pois não penseis, diz ele, que digo estas coisas para receber. Ora, as palavras "assim me guardarei" são mais severas, se é que ainda não tem confiança neles; mas de vez desistira de todo da ideia de receber deles coisa alguma. Mostra, além disso, que eles mesmos consideravam isto um peso; por isso disse: "guardei-me de vos ser pesado, e assim me guardarei." Diz isto também na Epístola anterior: "Não escrevo isto para que assim se faça comigo; pois melhor me fora morrer, do que ver alguém tornar vã a minha glória" (1 Cor 9:15). E aqui de novo: "guardei-me de vos ser pesado, e assim me guardarei."
6. Depois, para que não pareça dizer estas coisas a fim de melhor os atrair a isto,
Como a verdade de Cristo está em mim. "Não penseis que por isso falei, para que eu receba, para que assim melhor vos atraia: pois", diz ele, "como a verdade está em mim,
ninguém me impedirá desta glória nas regiões da Acaia." Pois, para que ninguém pense de novo que ele se aflige com isto, ou que diz estas coisas com ira, chama até a esta mesma coisa de glória. E também na Epístola anterior a revestiu de termos semelhantes. Pois, para que também ali não os ferisse, diz: "Qual é, pois, o meu galardão? Que, pregando o evangelho, torne sem custo o evangelho de Cristo" (1 Cor 9:18). E, assim como ali lhe chama galardão, assim aqui lhe chama glória, para que não se envergonhassem excessivamente com o que dissera, como se ele estivesse a pedir e eles não lhe dessem. "Pois, que importa", diz ele, "ainda que quisésseis dar? Mesmo assim não o aceito." E a expressão "ninguém me impedirá" é metáfora tomada dos rios, ou do rumor, como se corresse por toda parte, de que ele nada recebia. "Não impedis, com o vosso dar, esta minha franqueza de palavra." Mas não disse "vós não impedis", o que seria demasiado cortante, mas "ninguém me impedirá nas regiões da Acaia." Isto era de novo como desferir-lhes um golpe fatal, e sumamente próprio para os abater e afligir, visto que eram os únicos a quem ele recusara [receber]. "Pois, se disto se gloriava, convinha fazê-lo em toda parte; mas se só entre nós assim procede, talvez isto se deva à nossa fraqueza." Para que, pois, não raciocinassem assim e se abatessem, vede como ele corrige isto.
Rapidamente, e por um método fácil. Mas nem ainda assim os livrou totalmente daquelas acusações. Pois não disse: "vós não sois fracos", nem tampouco: "vós sois fortes"; mas: "amo-vos", o que muito gravemente agravava a acusação contra eles. Pois o não receber deles, visto que eles o sentiam como gravíssimo peso, era prova de especial amor para com eles. Assim, procedeu de dois modos contrários por amor; tanto recebeu quanto não recebeu: mas esta contrariedade se devia à disposição dos que davam. E não disse: "por isso não tomo de vós, porque muito vos amo", pois isto conteria uma acusação da sua fraqueza e os lançaria em aflição; mas voltou o que dizia para outra razão. Qual é, pois, esta?
Ao apresentar o amor como motivo do seu proceder, Paulo torna a sua admoestação ainda mais grave.
Este era o ponto em que os falsos apóstolos evidentemente sentiam que podiam atacar Paulo, e por isso ele teve de refutá-los com tamanha extensão.
Portanto, uma vez que isso buscavam eles com tanto empenho — achar algum pretexto contra ele — era necessário remover também este ponto. Pois este é o único ponto em que se comprazem. Assim, para que não tivessem vantagem alguma, era necessário retificar isto; pois nas demais coisas eram inferiores. Porquanto, como já disse, nada edifica tanto os homens do mundo quanto o não receber nada da parte deles. Por isso o diabo, em sua astúcia, lançou principalmente esta isca, quando desejava prejudicá-los nos demais aspectos. Mas afigura-se-me que também isto se dava por hipocrisia. E por isso não disse: "em que fizeram bem", mas o quê? "em que se gloriam"; o que era também como que zombar de sua gloriação; pois se gloriavam também naquilo que não eram. Ora, o homem de espírito nobre não deve gloriar-se apenas do que não possui, mas nem mesmo do que possui; como este bem-aventurado costumava fazer, como fez o patriarca Abraão, dizendo: "Eu sou pó e cinza" (Gn 18,27). Pois, não tendo pecados de que falar, mas resplandecendo com boas obras, tendo corrido em toda direção e não encontrando pretexto muito grande contra si mesmo, recorre à sua natureza; e, uma vez que o nome de terra é de algum modo um nome de dignidade, acrescentou-lhe o de cinza. Por isso também outro diz: "Por que se ensoberbece a terra e a cinza?" (Sir 10,9).
7. Pois não me fales da lavor do rosto, nem do pescoço altivo, nem do manto, e do cavalo, e dos séquitos; mas considera onde vão todas essas coisas dar, e compara-as com isso. E se me falas do que aparece aos olhos, eu também te falarei de coisas em pinturas, muito mais brilhantes do que estas. Mas assim como não admiramos aquelas por sua aparência, vendo qual é sua natureza — que tudo é barro —, assim também não admiremos estes, pois também estes não são senão barro. Antes, mesmo antes que se dissolvam e se tornem pó, mostra-me este pescoço altivo presa da febre e arquejando a vida; e então discorrerei contigo e perguntarei: Que foi feito de todo aquele ornamento profuso? Para onde se esvaiu aquela multidão de aduladores, aquele séquito de escravos, aquela abundância de riquezas e posses? Que vento veio e tudo levou? Ora, mesmo estendido sobre o leito fúnebre, ele traz consigo os sinais daquela riqueza e daquela soberba: uma vestimenta esplêndida lançada sobre ele, pobres e ricos o acompanhando, as multidões reunidas proferindo palavras de bom agouro. Certamente isto também não passa de puro escárnio; contudo, mesmo isto logo se prova nada, como uma flor que perece. Pois, quando tivermos atravessado o limiar dos portões da cidade e, depois de entregar o corpo aos vermes, voltarmos, hei de perguntar-te de novo: Para onde foi aquela vasta multidão? Que foi feito da clamor e do alvoroço? Onde estão as tochas? Onde os coros de mulheres? Não são, pois, estas coisas um sonho? E que foi feito também dos gritos? Onde estão aqueles muitos lábios que clamavam e o exortavam a "ter bom ânimo, pois nenhum homem é imortal"? Estas coisas não deveriam agora ser ditas a quem não ouve; mas quando ele fazia presa dos outros, quando defraudava, então, com ligeira mudança, dever-se-ia ter-lhe dito: "Não tenhas bom ânimo, nenhum homem é imortal; refreia a tua loucura, extingue a tua cobiça"; mas "tem bom ânimo" é para a parte lesada. Pois entoar tais coisas sobre este homem agora é como se homens exultassem sobre ele e falassem com ironia; porquanto ele não deve, por isso, ter agora bom ânimo, mas antes temer e tremer.
Que se algum conselho de nada lhe aproveita agora, uma vez que já correu o seu curso, ao menos que o ouçam aqueles dentre os ricos que padecem do mesmo mal e o acompanham até o sepulcro. Pois embora, antes disso, pela embriaguez das riquezas, nada de semelhante lhes venha à mente, ao menos naquela hora, quando a visão do que jaz estendido confirma o que se diz, que se tornem sóbrios, que se instruam: refletindo que dentro em pouco virão aqueles que os hão de levar para aquela conta temível, e para sofrer a pena de seus atos de rapina e de extorsão. "E que tem isto a ver com o pobre?", dirá alguém. Ora, para muitos também isto é uma satisfação: ver punido aquele que os injuriou. "Mas para nós não é satisfação, senão o escaparmos nós mesmos de sofrer." Muito vos louvo e aprovo por não vos regozijardes com as calamidades alheias, mas buscardes apenas a vossa própria segurança. Vinde, pois, que também isto vos hei de assegurar. Porque, se padecemos o mal às mãos dos homens, não pequena parte de nossa dívida cortamos ao suportarmos nobremente o que nos é feito. Nenhuma injúria recebemos, portanto; pois Deus computa o mau trato em conta de nossa dívida, não segundo o princípio da justiça, mas o de Sua benignidade; e porque não socorreu aquele que padeceu o mal. "De onde isto se manifesta?", dirá alguém. Os judeus outrora padeceram o mal às mãos dos babilônios, e Deus não o impediu: antes foram levados cativos, crianças e mulheres; contudo, depois, este cativeiro se lhes tornou consolação a respeito de seus pecados. Por isso diz a Isaías: Consolai, consolai o meu povo, vós sacerdotes: falai ao coração de Jerusalém, pois recebeu da mão do Senhor em dobro por seus pecados (Is 40,1-2). E de novo: Concedei-nos paz, pois Vós nos retribuístes tudo (Is 26,12, Septuaginta). E diz Davi: Vede meus inimigos, pois se multiplicaram; e perdoai todos os meus pecados (Sl 25,19). E quando suportou Simei a amaldiçoá-lo, disse: Deixai-o, para que o Senhor veja a minha humilhação, e me retribua com bem por este dia (2Sm 16,11-12). Pois quando Ele não nos socorre quando padecemos injustiça, é então, mais que tudo, que somos beneficiados; porque Ele o lança em conta de nossos pecados, se o suportarmos com ação de graças.
8. De modo que, quando vires um rico despojando um pobre, deixa aquele que sofre a injustiça, e chora antes pelo espoliador. Pois um se despe da imundície, o outro se lambuza com mais imundície. Tal foi a sorte do servo de Eliseu na história de Naamã (2Rs 5,20 e ss.). Pois, ainda que não tenha tomado por violência, cometeu, contudo, uma injustiça; porque obter dinheiro por engano é uma injustiça. E que sucedeu então? Com a injustiça, recebeu também a lepra; e aquele que fora prejudicado foi beneficiado, mas aquele que cometeu a injustiça recebeu o maior de todos os danos. O mesmo acontece agora também no caso da alma. E isto tem tamanha força que, muitas vezes, por si só já propiciou a Deus; sim, ainda que aquele que padece o mal seja indigno de socorro, contudo, quando assim padece em excesso, só por isto atrai Deus ao perdão de si mesmo e ao castigo daquele que cometeu a injustiça. Pelo que também Deus disse antigamente aos gentios: Eu de fato os entreguei a poucos males, mas eles se lançaram juntos a males maiores (Zc 1,15). Segundo a Septuaginta: padecerão males irremediáveis. Pois não há nada, nada mesmo, que tanto exaspere a Deus quanto a rapina, a violência e a extorsão. E por que, com efeito? Porque é muito fácil abster-se deste pecado. Pois aqui não é nenhum desejo natural que perturba a mente, mas ele provém de negligência voluntária. Como, pois, chama-lhe o Apóstolo raiz de males (1Tm 6,10)? Digo eu também o mesmo, mas esta raiz procede de nós, e não da natureza das coisas. E, se quiserdes, façamos uma comparação e vejamos qual é mais imperioso, se o desejo de dinheiro ou o de beleza; pois aquele que se achar ter derrubado grandes homens é o mais difícil de dominar. Vejamos, então, de que grande homem se apossou jamais o desejo de dinheiro. De nenhum; somente de pessoas sobremodo lamentáveis e abjetas — Geazi, Acabe, Judas, os sacerdotes dos judeus; mas o desejo de beleza venceu até mesmo o grande profeta Davi. E isto digo não como quem estende o perdão àqueles que são vencidos por tal concupiscência, mas antes como quem os prepara para estarem vigilantes. Pois, quando tiver mostrado a força da paixão, então, muito mais ainda, mostro-os privados de toda pretensão ao perdão. Porque, se de fato não conhecesses a fera, terias isto a que te acolher; mas agora, tendo-a conhecido, e ainda assim caindo nela, não terás desculpa alguma. Depois dele, apoderou-se ainda mais completamente de seu filho. E, contudo, jamais houve homem mais sábio do que ele, e a toda outra virtude alcançou; ainda assim, porém, foi tão violentamente tomado por esta paixão, que até nas próprias entranhas recebeu o golpe. E o pai, na verdade, levantou-se de novo e renovou a luta, e foi de novo coroado; mas o filho não mostrou nada semelhante.
Por isso disse também Paulo: É melhor casar do que abrasar-se (1 Cor 7:9); e Cristo: Quem pode receber isto, receba-o (Mt 19:12). Mas acerca do dinheiro Ele não falou assim, senão: Todo aquele que deixar os seus bens receberá cem vezes mais (Mt 19:29). "Como, pois," dirá alguém, "disse Ele dos ricos que dificilmente entrarão no reino?" De novo, indicando a fraqueza de caráter deles; não a força imperiosa do dinheiro, mas a completa escravidão em que se encontravam. E isto se torna evidente também pelo conselho que Paulo deu. Pois daquela concupiscência ele afasta os homens inteiramente, dizendo: Mas os que querem enriquecer caem em tentação (1 Tm 6:9); mas no caso do outro não assim, senão que, tendo-os separado apenas por um tempo, e isto de comum acordo, aconselha que se ajuntem novamente (1 Cor 7:5). Pois temia as ondas da concupiscência, para que não ocasionassem grave naufrágio. Esta paixão é ainda mais veemente que a ira. Pois não é possível sentir ira quando nada a comprova, mas o homem não pode deixar de desejar ainda que não se veja o rosto que a isso move. Por isso, esta paixão, na verdade, Ele não a extinguiu de todo, mas acrescentou as palavras sem causa (Mt 5:22). Nem tampouco aboliu todo desejo, mas somente aquele que é ilícito, pois diz: Todavia, por causa da fornicação , tenha cada um sua própria mulher (1 Cor 7:2). Mas ajuntar tesouro Ele não permitiu, nem com causa nem sem causa. Pois aquelas paixões foram implantadas em nossa natureza para um fim necessário: o desejo, para a procriação dos filhos, e a ira, para o socorro dos injuriados; mas o desejo de dinheiro não assim. Por isso, tampouco esta paixão nos é natural. Assim, pois, se dela fordes feitos cativos, sofrereis tanto mais o vilíssimo castigo. Por isso, certamente, é que Paulo, permitindo até mesmo segundas núpcias, exige no caso do dinheiro grande rigor, dizendo: Por que não sofrerdes antes a injustiça? Por que não sofrerdes antes a fraude? (1 Cor 6:7). E, tratando da virgindade, diz: Não tenho mandamento (1 Cor 7:25), e digo isto para vosso proveito, não para vos enlaçar (1 Cor 7:35); mas quando seu discurso é sobre o dinheiro, diz: Tendo sustento e com que nos cobrir, contentemo-nos com isso (1 Tm 6:8). "Como é, pois," dirá alguém, "que por isto, mais que pelo outro, muitos são vencidos?" Porque não se guardam tanto contra isto quanto contra a lascívia e a fornicação; pois, se o tivessem julgado igualmente perigoso, talvez não tivessem sido feitos seus cativos. Assim também aquelas infelizes virgens foram lançadas fora da câmara nupcial, porque, tendo abatido o grande adversário, foram feridas por um mais fraco, e que não era nada. (Mt 25:1 e segs.). Além disto, pode-se dizer ainda que, se alguém, subjugando a concupiscência, é vencido pelo dinheiro, muitas vezes não subjugou, na verdade, a concupiscência, mas recebeu da natureza o dom de não sofrer grande inquietação daquela sorte; pois nem todos são igualmente inclinados a ela. Sabendo, pois, estas coisas, e revolvendo frequentemente em nós mesmos o exemplo das virgens, fujamos desta má fera. Pois, se a virgindade de nada lhes aproveitou, mas, depois de incontáveis fadigas e labores, pereceram pelo amor ao dinheiro, quem nos livrará se caírmos nesta paixão? Pelo que vos suplico que façais tudo quanto puderdes, tanto para que não sejais feitos cativos por ela, como para que, se cativos, nela não permaneçais, mas rompais esses duros grilhões.
Ao Pai seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos, para que assim consigamos firmar pé no céu e alcançar os inúmeros bens; aos quais a todos nós cheguemos, pela graça e pelo amor à humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Que dizeis? Os que pregam a Cristo, os que não tomam dinheiro, os que não introduzem outro evangelho, falsos apóstolos? "Sim", diz ele, e por esta mesma razão sobretudo, porque fingem todas estas coisas com o propósito de enganar. Obreiros fraudulentos, pois de fato trabalham, mas arrancam o que foi plantado. Pois, cientes de que de outro modo não seriam bem recebidos, tomam a máscara da verdade e assim encenam o drama do erro. "E, contudo", diz alguém, "não tomam dinheiro." Para que tomem coisas maiores; para que destruam a alma. Antes, isto mesmo era falsidade; e tomavam dinheiro, mas o faziam secretamente: e ele mostra isto no que se segue. E, de fato, já o insinuara onde disse que, naquilo em que se gloriam, sejam achados até mesmo como nós (2 Cor 11,12); no que se segue, todavia, insinuou-o mais claramente, dizendo: Se alguém vos devora, se alguém vos leva cativos, se alguém se exalta, vós o suportais (2 Cor 11,20). Mas no presente ele os acusa por outro motivo, dizendo: transfigurando-se. Tinham apenas uma aparência; a pele da ovelha não era senão vestimenta exterior.
Os falsos apóstolos pareciam bons na superfície, mas por baixo roubavam a alma. De fato, tomavam dinheiro também, ainda que se cuidassem de ocultar isso o quanto podiam.
De sorte que, se algo se deve admirar, é isto que se deve admirar, e não a sua transformação. Pois, quando seu mestre ousa fazer qualquer coisa, não é de admirar que os discípulos também o sigam. Mas o que é um anjo de luz? Aquele que tem livre liberdade de falar, que está próximo de Deus. Pois há também anjos das trevas: os que são do diabo, aqueles sombrios e cruéis. E o diabo enganou a muitos assim, revestindo-se — não se tornando — em anjo de luz. Assim também estes trazem consigo a forma de apóstolo, não o poder mesmo, pois isto não podem. Mas nada é tão próprio do diabo quanto fazer as coisas por ostentação. Mas o que é um ministério de justiça? Aquele que somos nós, que vos pregamos um evangelho que possui justiça. Pois ou ele quer dizer isto, ou então que eles se revestem do caráter de homens justos. Como, pois, os conheceremos? Por suas obras, como disse Cristo. Por isso é constrangido a colocar lado a lado as suas próprias boas obras e a maldade deles, para que o espúrio se torne evidente pela comparação. E, prestes a entrar de novo em seus próprios louvores, primeiro os acusa, a fim de mostrar que tal argumento lhe foi imposto pela necessidade, para que ninguém o acusasse de falar de si mesmo,
Um anjo de luz é aquele que tem liberdade de falar porque está próximo de Deus. Isto é o que o diabo finge ser.
De novo o digo. Pois já havia empregado, antes, muita correção preparatória: "Mas, ainda assim, não me contento com o que disse, e o digo outra vez",
Que ninguém me tenha por insensato. Pois foi isto que eles fizeram — gloriaram-se sem razão. — Mas observai, peço-vos, quantas vezes, ao prestes entrar em seus próprios louvores, ele se contém. "Pois, na verdade, é obra de insensatez", diz ele, "gloriar-se; mas eu o faço, não como quem representa o insensato, mas porque a isso sou constrangido. Mas, se não me credes, ainda que vejais que há necessidade, me condenareis; nem ainda assim recusarei a tarefa." Vedes como mostrou haver grande necessidade de falar? Pois aquele que não se esquivou nem sequer a esta suspeita, considerai quão violento impulso de falar deve ter sofrido, como se angustiou e foi constrangido a falar. Mas, ainda assim, ele emprega isto com moderação. Pois não disse: "para que eu me glorie". E, prestes a fazê-lo um pouco, usa de novo ainda outra expressão de ressalva,
Vede como a jactância não é segundo o Senhor? Pois Ele diz: "Quando houverdes feito tudo, dizei: Somos servos inúteis" (Lc 17,10). Todavia, em si mesma, na verdade, ela não é segundo o Senhor, mas pela intenção assim se torna. E por isso disse: "O que falo", não acusando o propósito, mas as palavras. Pois seu intento é tão admirável que dignifica também as palavras. Assim como o homicida, ainda que sua ação seja das mais estritamente proibidas, muitas vezes tem sido aprovado por causa da intenção; e assim como a circuncisão, ainda que não seja "segundo o Senhor", tornou-se tal pela intenção, assim também a jactância. E por que, então, não emprega ele tamanho rigor de expressão? Porque se apressa para outro ponto, e gratifica livremente, até à superfluidade, aqueles que desejam encontrar pretexto contra ele, de modo a dizer apenas as coisas que são proveitosas; pois, ditas, eram suficientes para extinguir toda aquela suspeita. Mas "como que em insensatez". Antes ele disse: "Oxalá pudésseis suportar-me um pouco na insensatez" (2Co 11,4); mas agora, "como que em insensatez"; pois quanto mais avança, mais clarifica sua linguagem. Depois, para que não penseis que ele faz o insensato em tudo, acrescentou: "nesta confiança de jactância". Nisto ele quer dizer: assim como em outro lugar disse "para que não sejamos envergonhados", e acrescentou "nesta confiança de jactância" (2Co 9,4). E de novo, em outro lugar, tendo dito: "Ou o que proponho, proponho-o segundo a carne, de modo que em mim haja sim, sim, e não, não?" (2Co 1,17). E tendo mostrado que ele não pode em todos os casos sequer cumprir o que promete, porque não propõe segundo a carne, para que ninguém estendesse esta suspeita também à doutrina, acrescenta: "Mas, como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não foi sim e não" (2Co 1,18).
2. E observai como, depois de ter dito tantas coisas antes, ele novamente estabelece ainda outros fundamentos de desculpa,
Que é "segundo a carne"? Das coisas externas, da alta linhagem, da riqueza, da sabedoria, de ser circuncidado, da ascendência hebraica, da fama popular. E eis a sabedoria. Ele estabelece aquelas coisas que mostra serem nada, e depois, também a insensatez. Pois se gloriar-se naquilo que é verdadeiramente bom já é insensatez, muito mais o é gloriar-se naquilo que é nada. E isto é o que ele chama "não segundo o Senhor". Pois nenhuma vantagem há em ser hebreu, ou qualquer coisa semelhante. "Não penseis, portanto, que estabeleço isto como virtude; não; mas porque aqueles homens se vangloriam, também eu sou obrigado a instituir minha comparação sobre estes pontos." O que ele faz também em outro lugar, dizendo: "Se alguém pensa que pode confiar na carne, eu mais" (Fl 3,4); e ali, é por causa daqueles que confiavam nisto. Assim como se alguém que viesse de uma raça ilustre, mas houvesse escolhido uma vida filosófica, visse outros orgulhando-se grandemente de sua nobre linhagem; e, desejoso de abater sua vaidade, se visse obrigado a falar de sua própria distinção; não para adornar-se, mas para humilhá-los; assim, verdadeiramente, faz também Paulo. Depois, deixando aqueles, derrama toda sua censura sobre os coríntios,
Quais são estas coisas mundanas de que Paulo se gloriará? Sua linhagem, sua riqueza, sua sabedoria, sua circuncisão, sua ascendência hebraica e sua reputação popular. É certo que ele sabia que nenhuma destas coisas importava em nada, razão pela qual chamou insensato este modo de falar.
Pois vós suportais de bom grado os insensatos. "De modo que sois culpados por isto, e mais do que eles. Pois se não os houvésseis suportado, e, no que dependia deles, não houvésseis recebido dano, eu não teria dito uma palavra; mas o faço por terno cuidado por vossa salvação, e por condescendência." E eis como ele acompanha até mesmo sua censura com louvor. Pois, tendo dito "vós suportais de bom grado os insensatos", acrescentou:
Sendo vós mesmos sábios. Pois era sinal de insensatez gloriar-se, e ainda sobre tais assuntos. E, contudo, convinha repreendê-los e dizer: "Não suporteis os insensatos"; ele faz isto, porém, com maior vantagem. Pois naquele caso pareceria repreendê-los porque ele mesmo carecesse destas vantagens; mas agora, tendo-se mostrado superior a eles até mesmo nestes pontos, e considerando-os como nada, os corrige com maior eficácia. No momento, contudo, antes de entrar em seus próprios louvores e na comparação, ele também repreende os coríntios por sua grande servilidade, porque eram extravagantemente submissos a eles. E observai como ele os ridiculariza.
Gloriar-se em tais coisas era sinal de insensatez, e Paulo, por conseguinte, os ridiculariza.
Como, então, dissestes que naquilo em que eles se gloriam, também sejam achados como nós? (2Co 11,12). Vede como ele mostra que eles, de fato, tomavam deles, e não simplesmente tomavam, mas até em excesso: pois o termo "devorar" isto claramente mostra,
Se alguém vos leva à escravidão. "Distes tanto o vosso dinheiro", diz ele, "quanto as vossas pessoas, e a vossa liberdade. Pois isto é mais do que tomar de vós; ser senhores não só do vosso dinheiro, mas de vós mesmos também." E ele deixa isto claro já antes, onde diz: "Se outros participam deste direito sobre vós, não muito mais nós?" (1Co 9,12). Depois acrescenta o que é mais severo, dizendo:
Se alguém se exalta. "Pois nem vossa escravidão é de espécie moderada, nem vossos senhores são brandos, mas onerosos e odiosos."
Se alguém vos fere no rosto. Vede novamente um alcance ainda maior da tirania? Ele disse isto, não significando que eram feridos no rosto, mas que cuspiam neles e os desonravam;
Contudo, em qualquer coisa em que alguém seja ousado (falo em insensatez), também eu sou ousado.
Vede-o novamente retraindo-se e usando depreciação e correções antecipadas, ainda que já tenha dito muitas coisas semelhantes: "Oxalá pudésseis suportar-me um pouco na insensatez" (2Co 11,1); e novamente: "Ninguém me julgue insensato; mas, se assim pensais, recebei-me ainda como insensato" (2Co 11,16). "O que falo, não o falo segundo o Senhor, mas como que em insensatez" (2Co 11,17). "Visto que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei" (2Co 11,18); e aqui novamente: "Em qualquer coisa em que alguém seja ousado (falo em insensatez), também eu sou ousado." Ousadia e insensatez ele chama a dizer algo grande de si mesmo, e isto ainda que houvesse necessidade, ensinando-nos a evitar, até ao excesso, qualquer coisa desse tipo. Pois se, depois de termos feito tudo, devemos chamar-nos servos inúteis, de que perdão pode ser digno aquele que, quando nenhuma razão o pressiona, se exalta e se gloria? Por isso também o fariseu encontrou o destino que teve, e mesmo em porto sofreu naufrágio, por ter esbarrado nesta rocha. Por isso também Paulo, ainda que veja necessidade bastante ampla para isto, contudo se retrai, e continua observando que tal maneira de falar é marca de insensatez. E então, por fim, ele se aventura, apresentando o pretexto da necessidade,
Paulo quer dizer com isto que ele pode fazer todas as coisas aqui mencionadas, mas não o faz. Entrementes, os falsos apóstolos exaltam os coríntios publicamente, e depois os roubam em segredo. Mas o povo parece não perceber, tendo sido enganado por eles.
Falo por modo de censura, pois vós não sofreis em nada menos do que homens feridos no rosto. Que há, pois, mais forte que isto? Que opressão mais amarga que esta? Havendo eles tomado de vós tanto o vosso dinheiro quanto a vossa liberdade e a vossa honra, ainda assim não se mostram brandos para convosco, nem vos permitem permanecer na condição de servos, mas vos tratam de modo mais injurioso do que a qualquer escravo comprado.
Como se tivéssemos sido fracos. A expressão é obscura. Pois, sendo o assunto desagradável, ele se exprimiu de tal modo que, pela obscuridade, furtasse o que havia de ofensivo. Pois o que ele deseja dizer é isto: "Acaso não poderíamos nós também fazer estas coisas? Sim, mas não as fazemos. Por que razão, então, suportais estes homens, como se nós não pudéssemos fazer o mesmo? Certamente seria algo a imputar-vos o suportardes até mesmo homens que fazem loucuras; mas que façais isto, ainda quando eles tanto vos desprezam, vos espoliam, se exaltam, vos ferem, isto não admite escusa nem razão alguma. Pois esta é uma nova espécie de engano. Porque os que enganam tanto dão quanto lisonjeiam; mas estes ao mesmo tempo enganam, e tomam, e vos injuriam. Donde não podeis ter sombra de desculpa, visto que cuspis sobre aqueles que se humilham por vossa causa a fim de que vós sejais exaltados, mas admirais os que se exaltam a si mesmos a fim de que vós sejais humilhados. Pois acaso não poderíamos nós também fazer estas coisas? Sim, mas não o queremos, atentando para o vosso proveito. Pois eles, na verdade, sacrificando os vossos interesses, buscam os seus próprios; mas nós, sacrificando os nossos próprios interesses, buscamos os vossos." Vedes como, em cada ponto, ao mesmo tempo em que lhes fala com franqueza, ele também os atemoriza pelo que diz. "Pois", diz ele, "se é por isto que os honrais, porque vos ferem e vos injuriam, também nós podemos fazer isto: escravizar-vos, ferir-vos, exaltar-nos contra vós."
3. Vedes como ele lança sobre eles toda a culpa, tanto do insensato orgulho quanto do que parece ser loucura da sua parte? "Pois não para mostrar-me mais conspícuo, mas para libertar-vos desta amarga escravidão, é que sou compelido a gloriar-me um pouco." Mas convém examinar não simplesmente as coisas que se dizem, mas, além disso, também o motivo. Pois também Samuel compôs um alto panegírico de si mesmo, quando ungiu Saul, dizendo: "De quem tomei o jumento, ou o bezerro, ou as sandálias? Ou a quem de vós oprimi?" (1 Sm 12,3, Septuaginta). E, contudo, ninguém o censura. E a razão é porque ele não o disse a título de exaltar-se; mas, como estava para constituir um rei, quer, sob a forma de uma defesa [de si mesmo], instruí-lo a ser manso e brando. E observa a sabedoria do profeta, ou antes, a benignidade de Deus. Pois, porque quis desviá-los de seu [desígnio], reunindo uma série de coisas penosas, afirmou-as a respeito do futuro rei deles, como, por exemplo, que ele faria as mulheres deles moerem no moinho (1 Sm 8,11-18), os homens serem pastores e condutores de mulas; pois percorreu com minúcia todo o serviço pertinente à realeza. Mas, quando viu que eles não seriam detidos por nenhuma dessas coisas, mas estavam incuravelmente enfermos, então tanto os poupa quanto compõe seu rei para a mansidão (1 Sm 12,5). Por isso também o toma por testemunha. Pois, de fato, ninguém então movia contra ele processo ou acusação que ele precisasse defender-se, mas disse aquelas coisas a fim de torná-lo melhor. E, por isso, acrescentou também, para abater o orgulho deles: "Se ouvirdes, vós e vosso rei" (1 Sm 12,14), tais e tais bens serão vossos; mas, se não ouvirdes, então o inverso de tudo. Também Amós disse: "Eu não era profeta, nem filho de profeta, mas apenas um pastor de gado, um colhedor de figos bravos. E Deus me tomou" (Am 7,14-15). Mas não disse isto para exaltar-se, mas para calar a boca dos que suspeitavam dele como não sendo profeta, e para mostrar que não é impostor, nem diz de sua própria mente as coisas que diz. Outro ainda, por sua vez, para mostrar exatamente a mesma coisa, disse: "Mas eu, na verdade, estou cheio de poder pelo Espírito e força do Senhor" (Mq 3,8). Também Davi, quando relatou o caso do leão e do urso (1 Sm 17,34, etc.), falou não para glorificar-se, mas para levar a efeito um fim grande e admirável. Pois, como não se cria possível que ele pudesse vencer o bárbaro desarmado, ele que nem sequer era capaz de portar armas, foi compelido a dar provas de seu próprio valor. E, quando cortou a orla do manto de Saul, não disse o que disse por ostentação, mas para repelir uma má suspeita que haviam espalhado contra ele, dizendo que desejava matá-lo (1 Sm 24,4, etc.). Convém, pois, em toda parte, buscar a razão. Pois aquele que atenta para o proveito de seus ouvintes, ainda que se louve a si mesmo, não só não merece ser censurado, mas até ser coroado; e, se se cala, então merece ser censurado. Pois, se Davi tivesse então se calado a respeito de Golias, não lhe teriam permitido sair à batalha, nem levantar aquele ilustre troféu. Por isso, então, fala compelido; e isso não a seus irmãos, embora fosse desconfiado também por eles, assim como pelo rei; mas a inveja lhes tapava os ouvidos. Por isso, deixando-os de lado, conta sua história àquele que ainda não tinha inveja dele.
4. Pois a inveja é uma coisa terrível, terrível, e persuade os homens a desprezarem a sua própria salvação. Foi assim que Caim se destruiu a si mesmo, e assim também, antes do seu tempo, o diabo, que foi o destruidor de seu pai. Assim Saul convocou um demônio maligno contra a sua própria alma; e, tendo-o convocado, invejou também o seu médico. Pois tal é a natureza da inveja: ele sabia que fora salvo, e contudo preferiria ter perecido a ver honrado aquele que o salvara. Que pode haver mais penoso do que esta paixão? Não erraria quem a chamasse rebento do diabo. E nela se contém o fruto da vanglória, ou antes, também a sua raiz; pois estes dois males costumam mutuamente gerar-se um ao outro. E assim, em verdade, foi que Saul o invejou, quando disseram: Davi feriu por miríades (1 Sm 18,7); do que pode haver algo mais insensato? Pois por que invejas? Dize-me! "Porque tal homem o louvou"? Ora, deverias antes alegrar-te; além disso, nem sequer sabes se o louvor é verdadeiro. E entristeces-te, então, porque, sem ser admirável, foi louvado como tal? E, contudo, deverias sentir compaixão. Pois, se ele é bom, não deves invejá-lo quando louvado, mas antes louvá-lo tu mesmo, juntamente com os que bem falam dele; mas, se não o é, por que te afliges? Por que voltas a espada contra ti mesmo? "Porque é admirado pelos homens." Mas os homens hoje são e amanhã não são. "Mas porque ele goza de glória"? De que espécie, dize-me? Daquela de que o profeta diz que é a flor da erva (Is 40,6, Septuaginta). Tens, pois, inveja porque não carregas fardo algum, nem levas contigo tais cargas de erva? Mas, se ele te parece invejável por isso, por que não o são também os lenhadores, que carregam fardos todos os dias e os trazem à cidade? Pois aquele fardo em nada é melhor do que este, mas até pior. Porque o deles, na verdade, apenas fere o corpo, mas este muitas vezes prejudicou até a alma e ocasionou maior inquietação do que prazer. E, ainda que alguém tenha alcançado renome pela eloquência, o temor que suporta é maior do que a boa fama que carrega; e, o que é mais, esta é breve, aquele é perpétuo. "Mas ele goza do favor dos que estão no poder"? Também nisso há perigo e inveja. Pois, assim como tu sentes a seu respeito, assim sentem também muitos outros. "Mas é louvado continuamente"? Isto produz uma amarga escravidão. Pois não ousará fazer sem temor nada do que, segundo o seu próprio juízo, deveria fazer, para não ofender os que o exaltam, porquanto essa distinção lhe é um jugo duro. De modo que, quanto mais conhecido é, tantos mais senhores tem, e a sua escravidão se torna maior, à medida que se encontram por toda parte senhores seus. O servo, de fato, quando se vê livre dos olhos do seu senhor, tanto respira como vive em toda liberdade; mas este homem encontra senhores a cada passo, pois é escravo de todos os que aparecem no foro. E, ainda que algum assunto necessário o pressione, não ousa pôr os pés no foro, a não ser acompanhado dos seus servos, do seu cavalo, e de toda a sua demais pompa em ordem, para que os seus senhores não o condenem. E, se vê algum amigo verdadeiro, não tem a ousadia de falar-lhe em pé de igualdade, pois teme os seus senhores, para que não o depponham da sua glória. De modo que, quanto mais distinto é, tanto mais escravizado se encontra.
E, se ele padece algo desagradável, tanto mais enfadonho lhe é o insulto, quanto mais testemunhas o presenciam, e quanto mais parece atentar contra a sua dignidade. Não é apenas um insulto, mas também uma calamidade, pois tem também muitos que se regozijam com isso; e do mesmo modo, se ele vem a gozar de algum bem, tem tanto mais os que o invejam, o difamam e se mantêm vigilantes para destruí-lo. É isto, pois, um bem? Dizei-me. É isto glória? De modo algum; antes, ignomínia, e escravidão, e cadeias, e tudo quanto de mais pesado se possa dizer. Mas, se a glória que vem dos homens é, no vosso conceito, tão grandemente cobiçável, e se vos perturba sobremaneira que fulano ou beltrano seja aplaudido pela multidão, quando o contemplardes no gozo desse aplauso, transportai o pensamento para o mundo vindouro e para a glória que ali existe. E assim como, ao fugir apressadamente do ataque de uma fera, entrais numa cabana e fechais bem as portas, assim também agora fugi para a vida futura e para aquela glória inefável. Pois assim tanto pisareis esta sob os vossos pés, quanto facilmente vos apoderareis daquela, e gozareis da verdadeira liberdade e dos bens eternos; aos quais possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
São eles hebreus? Também eu o sou. São eles israelitas? Também eu o sou.
Pois nem todos os hebreus eram israelitas, visto que tanto os amonitas quanto os moabitas eram hebreus. Por isso acrescentou algo para esclarecer a nobreza de sua descendência, e diz:
São eles semente de Abraão? Também eu o sou. São eles ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu o sou mais.
Não se contenta com sua deprecação anterior, mas usa-a novamente também aqui. Falo como fora de mim, eu o sou mais. Sou superior e melhor do que eles. E, na verdade, possuía provas claras de sua superioridade, mas ainda assim chama a coisa de loucura. E, no entanto, se eles fossem falsos apóstolos, não lhe era necessário introduzir sua própria superioridade por via de comparação, mas sim destruir sua pretensão de serem ministros de todo. Bem, ele a destruiu, dizendo: Falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo (2 Cor 11,13); mas agora não procede dessa maneira, pois seu discurso estava prestes a proceder a um exame rigoroso; e ninguém, quando um exame está em causa, simplesmente afirma; mas, tendo primeiro exposto o caso por via de comparação, mostra que é negado pelos fatos, uma negação muitíssimo forte. Além disso, é a opinião deles que ele expõe, não sua própria afirmação, quando diz: São eles ministros de Cristo? E, tendo dito eu o sou mais, prossegue em sua comparação, e mostra que não por meras afirmações, mas fornecendo a prova que os fatos suprem, ele mantém o cunho do apostolado. E, deixando de lado todos os seus milagres, começa por suas provações; dizendo assim:
Em trabalhos mais abundantemente, em açoites acima da medida. Isto último é maior do que o primeiro: ser tanto ferido quanto açoitado.
Em prisões mais abundantemente. Aqui também, de novo, há um acréscimo. Em mortes muitas vezes (1 Cor 15,31). Pois, morro, diz ele, diariamente. Mas aqui, até mesmo na realidade; "pois fui muitas vezes entregue a perigos mortais".
Nem todos os hebreus eram israelitas, pois os amonitas e os moabitas eram hebreus também.
A nenhum outro foi concedido tal amor do Senhor quanto a este bem-aventurado espírito. Quero dizer, como que libertado do corpo e elevado ao alto, por assim dizer, e não se considerando a pisar a terra, ele profere de si mesmo todas estas palavras. Vede, o desejo de Deus e o amor ardente elevaram seu pensamento das coisas materiais às espirituais, do presente ao futuro, do visível ao invisível. É disto, afinal, que se assemelha a fé, e o amor de Deus. Como prova de sua sã disposição, vede este homem, com seu grande amor pelo Senhor e seu ardente desejo por Ele, caçado, perseguido, castigado, sofrendo inúmeros ultrajes, e exclamando: "Em trabalhos mais frequentemente, em açoites sem conta, à porta da morte muitas vezes; das mãos dos judeus recebi cinco vezes quarenta açoites menos um; três vezes fui espancado com varas; uma vez fui apedrejado; um dia e uma noite passei à deriva no mar, sempre viajando, em perigo de rios, em perigo de falsos irmãos, em trabalho e labuta" — e, sofrendo tais coisas, regozijava-se e estava alegre. Vede, ele estava bem convicto de que os trabalhos da vida presente lhe provavam ocasião de grande recompensa, e os perigos eram fonte de uma coroa. Afinal, se por amor de Raquel Jacó considerou como poucos dias o período de sete anos, muito mais este bem-aventurado varão contava tudo isso por nada, inflamado que estava pelo amor de Deus e preparado para suportar tudo pelo Cristo que amava. Também nós, portanto, rogo-vos, cuidemos de amar a Cristo. Pois Cristo não espera de vós outra coisa, diz a Escritura, senão amá-Lo de todo o coração e cumprir os Seus mandamentos.
Por que, menos um? Havia uma lei antiga segundo a qual aquele que houvesse recebido mais de quarenta seria tido entre eles como desonrado. Para que, pois, a veemência e o ímpeto do executor, ao infligir mais do que o número, não causasse a desonra de um homem, decretaram que fossem infligidos menos um, para que, ainda que o executor excedesse, não ultrapassasse os quarenta, mas, permanecendo dentro do número prescrito, não trouxesse degradação sobre aquele que era açoitado.
Havia uma lei antiga segundo a qual qualquer um que recebesse mais de quarenta açoites seria permanentemente desonrado entre os judeus. Assim, a fim de evitar que isto sucedesse por causa do ímpeto do executor, a lei decretou que os quarenta açoites fossem infligidos menos um, de modo que, ainda que o executor excedesse, não ultrapassasse os quarenta.
E que tem isto a ver com o Evangelho? Porque ele empreendeu longas viagens; e essas por mar.
Uma noite e um dia estive no abismo. Dizem alguns que isto significa estar no alto-mar, outros, nadar sobre ele, o que é também a interpretação mais verdadeira. Não há, ao menos, nada de admirável quanto à primeira, nem ele a teria colocado como maior do que seus naufrágios.
Em perigos de rios.
Pois foi ele obrigado também a atravessar rios. Em perigos de salteadores, em perigos na cidade, em perigos no deserto. "Em toda parte se me apresentavam combates, em lugares, em regiões, em cidades, em desertos."
Em perigos entre os gentios, em perigos entre falsos irmãos.
Eis outra espécie de milícia. Pois não somente o feriam aqueles que lhe eram inimigos declarados, mas também os que representavam a hipocrisia; e tinha ele necessidade de muita firmeza, de muita prudência.
2. Em trabalho e fadiga.
Aos trabalhos sucedem-se os perigos, aos perigos os trabalhos, uns sobre outros e sem intermissão, sem lhe permitirem sequer respirar por um instante.
Em viagens frequentes, em fome, sede e nudez, além das coisas que são de fora.
O que se omite é mais do que o que se enumera. Antes, não se pode sequer contar o número mesmo daquelas coisas que se enumeram; pois não as registrou especificamente, mas mencionou aquelas cujo número era pequeno e facilmente compreensível, dizendo, três vezes e três vezes, 2 Coríntios 11:25, e uma vez; mas das outras não menciona o número, porque as havia suportado muitas vezes. E não recorda os resultados delas, como que dizendo que convertera tantos e tantos, mas somente o que padeceu em favor da Pregação; ao mesmo tempo por modéstia, e para mostrar que, ainda que nada se houvesse ganhado além do trabalho, mesmo assim seu direito à recompensa estava cumprido.
Aquilo que pesa sobre mim diariamente. Os tumultos, as perturbações, os assaltos das multidões, os ataques das cidades. Pois os judeus moveram guerra contra este homem mais do que contra nenhum outro, porque ele mais do que nenhum outro os confundia, e sua súbita mudança de partido era a maior refutação de sua loucura. E soprava contra ele uma poderosa guerra, dos seus próprios, dos estranhos, dos falsos irmãos; e por toda parte havia ondas e precipícios, no mundo habitado, no inabitado, por terra, por mar, por fora, por dentro. E nem sequer tinha ele provisão plena do alimento necessário, nem mesmo de vestimenta leve, mas o campeão do mundo lutava na nudez e combatia na fome; tão longe estava de enriquecer-se. Contudo, não murmurava, mas era grato por estas coisas ao Juiz do combate.
Ansiedade por todas as Igrejas. Isto era o principal de tudo, que também sua alma se via distraída, e seus pensamentos divididos. Pois ainda que nada de fora o houvesse assaltado, bastaria a guerra interior, aquelas ondas sobre ondas, aquele granizo de cuidados, aquela guerra de pensamentos. Pois se aquele que tem a seu cargo uma única casa, e tem servos, superintendentes e mordomos, muitas vezes não pode respirar por causa dos cuidados, ainda que ninguém o moleste: aquele que tem o cuidado não de uma única casa, mas de cidades, povos, nações e do mundo inteiro; e a respeito de tão grandes negócios, e com tantos que o tratavam com malícia, e sozinho, e padecendo tantas coisas, e tão ternamente preocupado quanto nem mesmo um pai o é por seus filhos — considerai o que ele suportou. Pois, para que não digais: E se ele estava ansioso, mas a ansiedade era leve, acrescentou ainda a intensidade do cuidado,
Quem enfraquece, e eu não enfraqueço? Não disse: "e eu não participo de seu abatimento?", mas: "assim sou eu perturbado e abalado, como se eu mesmo estivesse padecendo sob aquela mesma afecção, aquela mesma enfermidade."
Quem é levado a tropeçar, e eu não me abraso? Vede, novamente, como ele nos apresenta o excesso de sua dor, chamando-a de abrasamento. "Estou em chamas", "estou em labareda", diz ele, o que é sem dúvida mais forte que qualquer coisa que já dissera. Pois aquelas outras coisas, embora violentas, contudo tanto passavam depressa quanto traziam consigo aquele prazer que não se desvanece; mas isto era o que o afligia e o angustiava, e lhe traspassava a mente de parte a parte: o padecer tais coisas por cada um dos fracos, quem quer que fosse. Pois não se afligia apenas pelos maiores, desprezando os menores, mas contava até os mais humildes entre seus familiares. Por isso também disse: quem enfraquece? — quem quer que seja; e como se ele mesmo fosse a Igreja por todo o mundo, assim se angustiava por cada membro.
Que admirável afeto num pastor! As quedas dos outros, está ele dizendo, acentuam minha dor; os obstáculos dos outros inflamam o fogo de meu padecimento. Que todos os que foram encarregados da liderança de ovelhas racionais imitem isto e não se mostrem inferiores ao pastor que, por longos anos, cuida de ovelhas irracionais. Naquele caso, nenhum dano advém ainda que ocorra alguma negligência; mas em nosso caso, se apenas uma ovelha racional se perde ou cai em poder de predadores, a perda é extrema, o dano é terrível, a punição é indizível. Afinal, se o nosso Senhor não se absteve de derramar o próprio sangue por ela, que desculpa mereceria aquele que se permite negligenciar a que foi tão estimada pelo Senhor, não empregando todo o seu esforço em cuidar da ovelha? Homilias sobre o Gênesis
Vedes como em nenhuma parte ele se gloria de milagres, mas de suas perseguições e de suas provações? Pois é isto que se entende por fraquezas. E mostra que sua milícia era de caráter multiforme. Pois tanto os judeus guerreavam contra ele, quanto os gentios se lhe opunham, e os falsos irmãos combatiam com ele, e os irmãos lhe causavam tristeza por sua fraqueza e por se escandalizarem: de todos os lados encontrava turbação e perturbação, de amigos e de estranhos. Esta é a marca própria de um Apóstolo; por estas coisas se tece o Evangelho.
A guerra travada [contra ele] foi de tal grandeza que a razão para ele aqui confirmar e assegurar fortemente [sua verdade], quando não o fez a respeito de nenhuma das coisas anteriores, pode ser esta: talvez isto fosse de data mais antiga e não tão conhecido; ao passo que, quanto àqueles outros fatos, o seu cuidado com as igrejas e todo o resto, eles mesmos tinham conhecimento próprio. Vede, pois, quão grande era a guerra [contra ele], visto que por causa dele a cidade era guardada. E quando digo isto acerca da guerra, digo-o acerca do zelo de Paulo; pois, se este não tivesse ardido intensamente, não teria inflamado o governador a tamanha loucura. Estas coisas são próprias de uma alma apostólica: sofrer coisas tão grandes e, contudo, em nada vacilar, mas suportar nobremente tudo quanto sobrevenha; e, todavia, não sair ao encontro dos perigos, nem precipitar-se sobre eles. Vede, por exemplo, aqui, como ele se contentou em evadir-se do cerco, sendo descido através de uma janela num cesto. Pois, ainda que desejasse partir daqui, ainda assim também se afeiçoava apaixonadamente à salvação dos homens. E por isso muitas vezes recorreu mesmo a artifícios como estes, preservando-se para a Pregação; e não recusou usar até mesmo de expedientes humanos, quando a ocasião o exigia — tão sóbrio e vigilante era ele. Pois, nos casos em que os males eram inevitáveis, só necessitava da graça; mas quando a provação tinha caráter medido, ele próprio maquinava muitas coisas, atribuindo aqui também tudo a Deus. E assim como uma centelha de fogo inextinguível, se caísse no mar, seria submergida à medida que muitas ondas passassem sobre ela, mas de novo se ergueria refulgente à superfície; assim também, certamente, o bem-aventurado Paulo ora seria submerso pelos perigos, ora novamente, tendo mergulhado através deles, ressurgiria mais radiante, vencendo pelo padecer o mal.
3. Pois esta é a esplêndida vitória, este é o troféu da Igreja: assim é o Diabo derrubado quando padecemos injúria. Pois, quando padecemos, é ele que é levado cativo; e ele mesmo sofre o dano que desejaria infligir-nos. E isto sucedeu também no caso de Paulo; e quanto mais o assediava com perigos, tanto mais era derrotado. Nem levantou contra ele um só gênero de provações, mas várias e diversas. Pois umas envolviam trabalho, outras tristeza, outras temor, outras dor, outras cuidado, outras vergonha, outras todas estas ao mesmo tempo; e, contudo, ele foi vitorioso em todas. E como se um único soldado, tendo o mundo inteiro a combatê-lo, atravessasse por meio das fileiras de seus inimigos e não sofresse dano algum: assim também Paulo, mostrando-se sozinho, entre bárbaros, entre gregos, em toda terra, em todo mar, permaneceu invicto. E, como uma centelha que, caindo sobre canas e feno, transmuta em sua própria natureza as coisas assim acesas, assim também este homem, arremetendo contra todos, fazia as coisas passarem para a verdade; como uma torrente invernal que tudo arrasta e derruba todo obstáculo. E como certo campeão que luta, corre e também pugila; ou soldado que se empenha ora em assaltos, ora em combate a pé, ora em navio; assim ele experimentava por sua vez toda forma de combate, e exalava fogo, e a todos era inacessível; com um só corpo tomando posse do mundo, com uma só língua pondo todos em fuga. Não com tanta força aquelas muitas trombetas caíram sobre as pedras de Jericó e as derrubaram, quanto o som da voz deste homem tanto arrasou por terra as fortalezas do diabo, quanto trouxe a si mesmo os que lhe eram contrários. E, tendo reunido uma multidão de cativos, tendo-os armado, deles fez novamente seu próprio exército, e por meio deles venceu. Admirável foi Davi, que abateu Golias com uma só pedra; mas, se examinares os feitos de Paulo, aquilo é façanha de criança, e tão grande quanto é a diferença entre um pastor e um general, tão grande a diferença verás aqui. Pois este homem não derrubou nenhum Golias com o lançamento de uma pedra, mas somente falando dispersou toda a hoste do Diabo; como um leão que ruge e lança fogo pela língua, assim foi encontrado por todos irresistível; e saltava continuamente por toda parte, ora aqui, ora ali: corria a estes, vinha àqueles, voltava-se para estes, saltava para outros, mais veloz em seu ataque do que o vento; governando o mundo inteiro, como se fosse uma só casa ou um só navio; socorrendo os que naufragavam, firmando os tontos, animando os marinheiros, sentando-se ao leme, atento à proa, retesando as vergas, manejando um remo, puxando o mastro, observando o céu; sendo ele mesmo todas as coisas, tanto marinheiro quanto piloto, e ajudante do piloto, e vela, e navio; e padecendo todas as coisas para aliviar os males alheios. Pois considerai.
Ele sofreu naufrágio para deter o naufrágio do mundo; um dia e uma noite passou no abismo, para dali tirar o mundo do abismo do erro; esteve em fadiga para reconfortar os fatigados; suportou açoites para curar os que haviam sido feridos pelo demônio; passou seu tempo em prisões para conduzir à luz os que estavam sentados no cárcere e nas trevas; esteve em mortes muitas vezes para livrar os homens de mortes penosas; cinco vezes recebeu quarenta açoites menos um, para libertar do flagelo do demônio os que os infligiam; foi açoitado com varas para trazê-los sob a vara e o cajado de Cristo (Sl 23,4); foi apedrejado, para livrá-los das pedras insensatas; esteve no deserto, para tirá-los do deserto; em viagens, para deter suas peregrinações e abrir o caminho que conduz ao céu; esteve em perigos nas cidades, para mostrar-lhes a cidade que está acima; em fome e sede, para livrá-los de fome mais penosa; em nudez, para revestir sua indecência com a veste de Cristo; cercado pela multidão, para arrancá-los do cerco dos demônios; ardeu, para apagar os dardos ardentes do demônio; por uma janela foi descido da muralha, para fazer subir de baixo os que jaziam prostrados por terra. Falaremos ainda de algo, nós que nem sequer sabemos o que Paulo padeceu? Faremos ainda menção de bens, ou até de esposa, ou de cidade, ou de liberdade, quando o vimos dez mil vezes desprezar até mesmo a própria vida? O mártir morre uma só vez; mas aquele bem-aventurado santo, num só corpo e numa só alma, suportou tantos perigos quantos bastariam para perturbar até uma alma de aço; e o que todos os santos juntos sofreram em tantos corpos, ele mesmo o suportou sozinho, num só corpo: entrou no mundo como que numa arena, despojou-se de tudo, e assim manteve nobre posição. Pois conhecia os demônios que com ele lutavam. Por isso também resplandeceu logo desde o princípio, desde a própria linha de partida, e até o fim permaneceu o mesmo; antes, ainda intensificou o ardor de sua corrida à medida que se aproximava do prêmio. E o que verdadeiramente é admirável é que, sofrendo e realizando tão grandes coisas, soube manter uma modéstia extrema. Pois quando se viu na necessidade de relatar suas próprias boas obras, percorreu-as todas rapidamente; embora pudesse ter enchido livros sem número, se quisesse desenvolver em detalhe cada coisa que mencionou; se tivesse especificado as Igrejas de que cuidava, se suas prisões e seus feitos nelas, se as demais coisas uma a uma, os cercos, os assaltos. Mas não quis. Sabendo, pois, estas coisas, aprendamos também nós a ser modestos, e a jamais nos gloriarmos nas riquezas ou em outras coisas mundanas, mas nos vitupérios que sofremos por causa de Cristo, e nestes, somente quando a necessidade o exigir; pois, se nada nos impelir a isso, nem sequer os mencionemos (para que não nos ensoberbeçamos), mas tão-somente os nossos pecados. Pois assim seremos facilmente livres deles, e teremos a Deus propício a nós, e alcançaremos a vida futura; à qual possamos todos chegar pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai, com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo não se absteve de recorrer a este expediente quando necessário, porquanto desejava manter-se livre para a pregação do evangelho. Nas ocasiões em que os males eram inevitáveis, a graça sozinha bastava; mas onde havia escolhas a fazer, ele não hesitava em aproveitar a ocasião.
Que é isto? Aquele que disse coisas tão grandes diz: [Não convém] certamente gloriar-me? Como se nada tivesse dito? Não; não como se nada tivesse dito, mas porque está prestes a passar a outra espécie de jactância, a qual, na verdade, não é destinada a tão grande recompensa, mas que, aos muitos — embora não aos que examinam com cuidado — parece revesti-lo de cores mais brilhantes; por isso diz: Não me convém, certamente, gloriar-me. Pois, na verdade, os grandes fundamentos de sua glória eram os que já enumerara, os de suas provações; tem ele, porém, também outras coisas a narrar, tais como as que dizem respeito às revelações, aos mistérios indizíveis. E por que, diz ele, Não me convém? Quer dizer: "para que não me eleve à soberba". Que dizeis? Pois, se não falas delas, acaso não as conheces? Mas o nosso próprio conhecimento delas não nos eleva tanto quanto o publicá-las a outros. Pois não é da natureza das boas obras elevar o homem, mas o serem testemunhadas e conhecidas pelos muitos. Por esta razão, portanto, diz: Não me convém; e "para que eu não implante ideia demasiado grande de mim naqueles que ouvem". Pois aqueles homens, na verdade, os falsos apóstolos, chegavam a dizer de si mesmos o que não era verdade; mas este oculta até mesmo o que é verdadeiro, e isto ainda que sobre ele pese tão grande necessidade, e diz: Não me convém; ensinando a todos, até em demasia, a evitar coisa semelhante. Pois isto não traz consigo vantagem alguma, mas antes dano, salvo se houver alguma razão necessária e proveitosa que a isso nos induza. Tendo, pois, falado de seus perigos, provações, ciladas, abatimentos, naufrágios, passa a outra espécie de jactância,
Não são tanto os próprios feitos a causa do orgulho, quanto o contá-los a outros. As boas obras não ensoberbecem a ninguém, a menos que sejam testemunhadas e comentadas por outros.
Paulo especifica que isso se dera catorze anos antes, a fim de mostrar que não teria falado normalmente a esse respeito, se não tivesse sido provocado a isso. E ainda assim, notai que há algumas coisas das quais ele permanece ignorante. Sabe que estivera no paraíso, mas se estivera no corpo ou não, não o pode dizer. Por que lhe sucedeu isto? Penso que foi, provavelmente, para que não se sentisse inferior aos demais apóstolos, os quais todos haviam estado com Cristo enquanto Este esteve na terra.
Grande, na verdade, foi esta revelação. Mas não foi esta a única: houve muitas outras além dela, mas ele menciona uma dentre muitas. Que houve muitas, ouvi o que ele diz: Para que eu não me exaltasse sobremaneira pela grandeza excessiva das revelações. 'E contudo', poderia alguém dizer, 'se quisesse ocultá-las, não deveria ter dado indício algum nem dito coisa alguma a tal respeito; mas se quisesse falar delas, que falasse claramente.' Por que, pois, é que ele nem falou claramente nem se calou? Para mostrar também nisto que recorre à coisa contra a sua vontade. E por isso também declarou o tempo: catorze anos. Pois não o menciona sem propósito, mas para mostrar que aquele que se abstivera por tanto tempo não teria agora falado, se a necessidade de fazê-lo não fosse grande. Mas ainda teria guardado silêncio, se não visse os irmãos perecendo. Ora, se Paulo, desde o princípio, era tal que fosse considerado digno de tal revelação, quando ainda não realizara tantas boas obras; considerai a que ele deve ter chegado em catorze anos. E observai como, mesmo nesta mesma matéria, mostra modéstia, ao dizer algumas coisas, mas confessando que de outras é ignorante. Pois que fora arrebatado, na verdade, o declarou, mas se no corpo ou fora do corpo, diz que não sabe. E contudo teria sido bastante suficiente, se tivesse contado o seu arrebatamento e se tivesse calado quanto ao mais; mas, como está, em sua modéstia, acrescenta também isto. Que, pois? Foi a mente que foi arrebatada, e a alma, permanecendo o corpo morto? Ou foi o corpo arrebatado? É impossível dizê-lo. Pois se Paulo, que foi arrebatado e a quem sobrevieram coisas inefáveis, tantas e tão grandes, estava em ignorância, muito mais nós. Pois, na verdade, que estivera no Paraíso, ele o sabia, e que estivera no terceiro céu não o ignorava, mas o modo não sabia claramente. E vede, por ainda outra consideração, quão livre ele está de soberba. Pois, em sua narrativa acerca da cidade dos damascenos (2 Cor 11.32), confirma o que diz, mas aqui não; pois não era seu propósito estabelecer fortemente este fato, mas somente mencioná-lo e indicá-lo. Por isso também prossegue dizendo: De um tal me gloriarei; não significando que aquele que fora arrebatado era outra pessoa, mas ele formula sua linguagem do melhor modo que pôde, de modo a, ao mesmo tempo, mencionar o fato e evitar falar de si mesmo abertamente. Pois que sequência haveria em trazer à baila outra pessoa, ao discorrer sobre si mesmo? Por que, pois, assim o expressou? Não era o mesmo dizer 'Fui arrebatado' e 'Conheci um que foi arrebatado'; e 'Gloriar-me-ei de mim mesmo' e 'Gloriar-me-ei de tal homem'. Ora, se alguém disser: 'E como é possível ser arrebatado sem o corpo?', eu lhe perguntarei: 'Como é possível ser arrebatado com o corpo?' Pois isto é ainda mais inexplicável que aquilo, se o examinardes por raciocínios e não derdes lugar à fé.
2. Mas por que foi ele também arrebatado? Segundo penso, para que não parecesse inferior aos demais Apóstolos. Pois, uma vez que estes haviam convivido com Cristo, e Paulo não; Ele arrebatou também a este à glória. Ao Paraíso. Pois grande era o nome deste lugar, e era celebrado em toda parte. Por isso também Cristo disse: Hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23.43).
Em favor de tal homem me gloriarei? Por quê? Pois se outro fora arrebatado, por que te glorias? Donde é evidente que dizia estas coisas de si mesmo. E se acrescentou: mas de mim mesmo não me gloriarei, nada mais diz senão isto: 'quando não há necessidade, nada direi de tal sorte, infrutuosa e ao acaso'; ou então lança de novo obscuridade sobre o que dissera, o melhor que pôde. Pois que todo o discurso era acerca de si mesmo, o que se segue também claramente o mostra;
É evidente que Paulo falava de si mesmo, mas diz isto para mostrar que isso não lhe importa em absoluto. Preferiria não falar disso de modo algum.
Como, pois, disseste antes: Quem dera me suportásseis um pouco na minha loucura (2 Cor 11:1); e: O que falo, não falo segundo o Senhor, mas como que loucamente (2 Cor 11:17); mas aqui: Ainda que eu quisesse gloriar-me, não seria louco? Não quanto ao gloriar-se, mas quanto ao mentir; pois, se o gloriar-se é loucura, quanto mais o mentir?
É, pois, a respeito disto que ele diz: Não serei louco. Por isso também acrescentou:
Porque direi a verdade; mas abstenho-me, para que ninguém pense de mim além do que em mim vê, ou de mim ouve. Aqui tens a razão reconhecida; pois até os tinham por deuses, por causa da grandeza dos seus milagres. Assim como, pois, no caso dos elementos, Deus fez ambas as coisas, criando-os ao mesmo tempo fracos e gloriosos — uma, para proclamar o Seu próprio poder; outra, para impedir o erro dos homens — assim também aqui eram eles, verdadeiramente, ao mesmo tempo admiráveis e fracos, para que pelos próprios fatos fossem os incrédulos instruídos. Pois, se, continuando a ser somente admiráveis e não dando prova alguma de fraqueza, tivessem tentado por palavras afastar a muitos de concebê-los além da verdade, não somente nada teriam conseguido, como até teriam produzido o contrário. Pois aquelas dissuasões em palavras teriam antes parecido nascer de humildade de espírito, e os teriam feito ser ainda mais admirados. Por isso, foi por ato e por obras que se revelou a sua fraqueza. E pode-se ver isto exemplificado nos homens que viveram sob a antiga dispensação. Pois Elias era admirável, mas em certa ocasião foi convencido de pusilanimidade; e Moisés era grande, mas também fugiu sob a influência da mesma paixão. Ora, tais coisas lhes sucederam porque Deus Se manteve à distância e permitiu que a sua natureza humana se manifestasse. Pois, se, porque os fez sair, disseram: "Onde está Moisés?", que não teriam dito, se também os tivesse feito entrar? Por isso também [Paulo] mesmo diz: Abstenho-me, para que ninguém pense de mim. Não disse "diga de mim", mas "para que ninguém sequer pense de mim além do meu merecimento." De onde também é evidente, por isto, que todo o discurso se refere a si mesmo. Por isso, mesmo quando começou, disse: Não me convém, sem dúvida, gloriar-me, o que não teria dito, se estivesse para dizer as coisas que disse de outro homem. Pois por que não convém gloriar-se a respeito de outro? Mas foi ele mesmo quem foi considerado digno destas coisas;
Há alguns que disseram que Paulo se refere a uma dor de cabeça causada pelo diabo, mas que isso não aconteça! O corpo de Paulo jamais poderia ter sido entregue ao diabo, sobretudo se lembrarmos que o próprio diabo se submeteu a Paulo quando lhe foi ordenado. Em hebraico, qualquer adversário pode ser chamado Satanás. O que Paulo quer dizer é que Deus não permitiria que a pregação do evangelho avançasse, a fim de que seus pensamentos soberbos fossem contidos. Em vez disso, Paulo foi atacado por adversários como Alexandre, o latoeiro, o partido de Himeneu e Fileto e todos os opositores da Palavra. Estes eram os mensageiros de Satanás.
Que dizeis? Aquele que não considerava o reino como coisa alguma — não, nem mesmo o inferno, em face de seu anseio por Cristo — julgaria a honra que lhe vinha da multidão como algo, a ponto de se ensoberbecer e necessitar continuamente deste freio? Pois não disse: “para que eu esbofeteasse”, mas “para que ele me esbofeteasse”. E, contudo, quem diria isto? Qual é, então, o sentido do que se diz? Quando tivermos explicado o que significa, afinal, o espinho, e quem é este mensageiro de Satanás, então declararemos também isto. Há, pois, alguns que disseram que ele se refere a uma espécie de dor de cabeça que lhe foi infligida pelo diabo; mas que isso não aconteça! Pois o corpo de Paulo jamais poderia ter sido entregue às mãos do diabo, visto que o próprio diabo se submeteu a este mesmo Paulo à sua simples ordem; e ele lhe impôs leis e limites quando entregou o fornicador à destruição da carne, e o diabo não ousou transgredi-los. Qual é, então, o sentido do que se diz? Um adversário é chamado, em hebraico, Satanás; e no terceiro Livro dos Reis a Escritura assim denominou os que eram adversários, e, falando de Salomão, diz: “Em seus dias não houve Satanás”, isto é, nenhum adversário, inimigo ou opositor. Diz ele, pois, o seguinte: Deus não permitiria que a Pregação progredisse, para conter nossos pensamentos soberbos; mas permitiu que os adversários nos atacassem. Pois isto, na verdade, bastava para derrubar seus pensamentos soberbos; não assim as dores de cabeça. E assim, por mensageiro de Satanás, ele se refere a Alexandre, o latoeiro, ao partido de Himeneu e Fileto, a todos os adversários da palavra; aqueles que com ele contenderam e combateram, aqueles que o lançaram na prisão, que o açoitaram, que o levaram à morte; pois faziam a obra de Satanás. Assim como chama filhos do diabo aos judeus que imitavam as suas obras, também chama mensageiro de Satanás a todo aquele que se opõe. Diz, portanto: Foi-me dado um espinho para me esbofetear; não como se Deus pusesse armas nas mãos de tais homens — que isso não aconteça! —, não que Ele castigue ou puna, mas por certo tempo permite e consente.
Assim, quer nossas petições sejam atendidas, quer não, perseveremos em pedir e rendamos graças não somente quando obtemos o que pedimos, mas também quando não o obtemos. Não obter, com efeito, quando é isso o que Deus quer, não é pior do que obter; nós não sabemos o que nos é proveitoso nesta matéria, do modo como Ele o sabe. Segue-se, pois, que, tanto obtendo quanto não obtendo, devemos dar graças. Por que te admiras de que não saibamos o que nos é proveitoso? Paulo, homem de tal qualidade e estatura, julgado digno de bênçãos inefáveis, não sabia o que era proveitoso em suas petições: vendo-se cercado de tribulação e de diversas aflições, orou para ser livre delas, não uma nem duas vezes, mas muitas vezes. "Três vezes pedi ao Senhor", diz ele... "Três" significa que pediu frequentemente, sem êxito. Vejamos, pois, como isso o afetou: acaso o tomou mal? Acaso se tornou pusilânime? Acaso se desanimou? De modo algum. Pelo contrário, o que sucedeu? Disse Deus: "A Minha graça te basta; o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." Não somente não o livrou dos males que o afligiam, mas ainda lhe permitiu perseverar neles. É verdade; mas como se manifesta que ele não o tomou mal? Ouve as próprias palavras de Paulo, ao saber o que o Senhor havia decidido: "De boa mente me gloriarei em minhas fraquezas." Não somente, diz ele, já não busco ser livre delas, mas até me glorio nelas com maior satisfação. Vês seu espírito agradecido? Vês seu amor a Deus?... Assim devemos ceder ao Criador de nossa natureza, e com alegria e grande deleite aceitar aquilo que Ele decidiu, tendo em vista não a aparência dos acontecimentos, mas os desígnios do Senhor. Afinal, Aquele que sabe melhor do que nós o que nos é proveitoso, sabe também quais os passos que devem ser dados para a nossa salvação.
Três vezes significa repetidamente. Paulo não podia suportar as ciladas que se tramavam às suas costas, e buscou ser libertado delas.
Isto é, muitas vezes. Isto é também sinal de grande humildade de espírito, o não ocultar ele que não podia suportar aquelas insidiosas ciladas, que desfalecia sob elas e se via reduzido a orar por libertação.
Isto é: "Basta-te que ressuscites os mortos, que cures os cegos, que purifiques os leprosos, que operes esses outros milagres; não busques também isenção do perigo e do temor, nem pregar sem contrariedades. Mas te doeste e te abateste, receando que pareça dever-se à Minha fraqueza o haver muitos que conspiram contra ti, e te espancam, e te afligem, e te açoitam? Ora, isto mesmo é que manifesta o Meu poder. Pois o Meu poder, diz Ele, se aperfeiçoa na fraqueza, quando, sendo perseguidos, venceis os vossos perseguidores; quando, sendo afligidos, levais a melhor sobre os que vos afligem; quando, postos em cadeias, convertes os que vos põem em cadeias. Não busques, pois, mais do que é necessário." Vedes como ele mesmo assinala uma razão, e Deus outra? Pois ele mesmo diz: para que eu não me exaltasse sobremaneira, foi-me dado um espinho; mas ele diz que Deus disse que o permitiu para mostrar o Seu poder. "Buscas, pois, uma coisa que não só não é necessária, mas que também obscurece a glória do Meu poder." Pois pelas palavras basta-te Ele quer significar isto: que nada mais precisava ser acrescentado, mas que o todo estava completo. De sorte que, também por isto, é claro que ele não tem em vista dores de cabeça; pois, na verdade, não pregavam quando estavam enfermos, porquanto não podiam pregar estando doentes; mas, afligidos e perseguidos, venciam a todos. "Tendo ouvido isto, então," diz ele,
Muito de boa mente, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas. Pois, para que não desfalecessem, quando aqueles falsos Apóstolos se gloriavam de sua sorte contrária e estes padeciam perseguição, ele mostra que resplandece tanto mais por isto, e que assim o poder de Deus antes resplandece, e que o que sucede é justa matéria de glória. Por isso diz: Muito de boa mente, pois, me gloriarei. "Não foi, pois, como quem se lamenta que falei das coisas que enumerei, ou daquilo que agora mesmo disse, foi-me dado um espinho; mas como quem se orgulha delas e a si mesmo atrai maior poder." Por isso acrescenta também:
Para que o poder de Cristo repouse sobre mim. Aqui ele insinua também outra coisa, a saber: que, na proporção em que as provações cresciam em intensidade, na mesma proporção a graça se aumentava e continuava.
Deus disse a Paulo que lhe bastava poder ressuscitar os mortos, curar os cegos, purificar os leprosos e operar outros milagres. Não lhe era necessária também a isenção do perigo e do temor, nem plena liberdade para pregar sem qualquer forma de estorvo. Com efeito, quando sobrevêm estas tribulações, manifesta-se o poder libertador de Deus, e o evangelho triunfa a despeito da perseguição. Quanto mais cresciam as provações, tanto mais crescia também a graça.
Paulo desejava ser livrado destas coisas, mas, quando Deus lhe disse o contrário, ele o aceitou e até se alegrou com isso. Há consolação na aflição, e graça na consolação.
Vedes como ele agora o revelou da maneira mais clara? Pois, ao mencionar a espécie da enfermidade, não falou de febres, nem de qualquer recorrência desse tipo, nem de qualquer outra aflição corporal, mas de injúrias, perseguições, angústias. Vedes uma alma de propósito único? Ele almeja ser livrado desses perigos; mas, ao ouvir a resposta de Deus de que isso não convém, não somente não se entristeceu por ver frustrada a sua súplica, como até se alegrou. Por isso disse: Tenho prazer, "regozijo-me, anseio por ser injuriado, perseguido, angustiado por causa de Cristo." E disse estas coisas tanto para conter estes quanto para reerguer o ânimo daqueles, a fim de que não se envergonhassem dos sofrimentos de Paulo. Pois esse fundamento bastava para fazê-los resplandecer mais que todos os homens. Depois menciona também outra razão.
Porque quando estou fraco, então é que sou forte. "Por que vos admirais de que o poder de Deus se torne então conspícuo? Eu também então sou forte;" pois foi então, mais que nunca, que a graça veio sobre ele. Pois assim como os Seus sofrimentos abundam, assim também abunda a nossa consolação (2 Cor 1:5).
4. Onde há aflição, há também consolação; onde há consolação, há também graça. Por exemplo, quando ele foi lançado na prisão, foi então que operou aquelas coisas maravilhosas; quando naufragou e foi arrojado àquele país bárbaro, foi então, mais que nunca, que se glorificou. Quando entrou algemado na sala do juízo, foi então que venceu até mesmo o juiz. E assim foi também no Antigo Testamento; pelas suas provações floresceram os justos. Assim foi com os três meninos, assim com Daniel, com Moisés e com José; disso todos resplandeceram e foram considerados dignos de grandes coroas. Pois é então que a alma também se purifica, quando é afligida por causa de Deus: goza então de maior socorro, por necessitar de mais ajuda e por ser digna de mais graça. E, na verdade, antes mesmo da recompensa que lhe é proposta por Deus, ela colhe rica messe de bens ao tornar-se filosófica. Pois a aflição arranca o orgulho e poda toda indolência, e exercita para a paciência: revela a mesquinhez das coisas humanas e conduz a uma grande filosofia. Pois todas as paixões cedem diante dela — a inveja, a emulação, a luxúria, o domínio, o desejo de riquezas, de beleza, a jactância, o orgulho, a ira; e todo o restante enxame dessas moléstias. E se desejais ver isto em obra efetiva, poderei mostrar-vos tanto um único indivíduo quanto um povo inteiro, tanto sob a aflição quanto no descanso; e assim ensinar-vos quão grande é a vantagem que provém de uma, e quão grande a indolência que provém do outro.
O povo dos hebreus, quando era afligido e perseguido, gemia e suplicava a Deus, atraindo sobre si grandes influxos do alto; mas, quando engordou, deu coices. Os ninivitas, por sua vez, quando gozavam de segurança, tanto exasperaram a Deus que Ele ameaçou arrancar a cidade inteira de seus alicerces; mas, depois de humilhados por aquela pregação, exibiram toda virtude. Mas, se quiseres ver também um único indivíduo, considera Salomão. Pois ele, quando deliberava com ansiedade e aflição acerca do governo daquele povo, foi agraciado com aquela visão; mas, quando estava no gozo do luxo, deslizou até o próprio abismo da iniquidade. E que fez seu pai? Quando foi admirável e digno de crédito além do comum? Não foi quando estava nas provações? E Absalão, não era ele sensato enquanto ainda exilado, mas, depois de seu retorno, tornou-se tirânico e parricida? E que fez Jó? Ele, na verdade, resplandeceu mesmo na prosperidade, mas mostrou-se ainda mais brilhante depois da aflição. E por que falar das coisas antigas e vetustas? Pois, se alguém examinar o nosso próprio estado no presente, verá quão grande é a vantagem da aflição. Pois agora que gozamos de paz, tornamo-nos indolentes e relaxados, e enchemos a Igreja de inúmeros males; mas, quando éramos perseguidos, éramos mais sensatos, e mais bondosos, e mais diligentes, e mais assíduos a estas assembleias e à audição da palavra. Pois o que o fogo é para o ouro, isso é a aflição para as almas: limpa a imundície, torna os homens puros, faz com que sejam brilhantes e resplandecentes. Uma via conduz ao reino, a outra ao inferno. E por isso um caminho é largo, o outro estreito. Por isso mesmo Ele disse: No mundo tereis aflição (Jo 16,33), como que nos deixando algum grande bem. Se, pois, és discípulo, percorre tu o caminho reto e estreito, e não te enojes nem te desanimes. Pois, ainda que não sejas afligido por essa via, hás de forçosamente ser afligido por outros motivos, sem nenhuma vantagem para ti. Pois também o invejoso, e o amante do dinheiro, e aquele que arde por uma meretriz, e o vanglorioso, e cada um dos demais que seguem tudo quanto é mau, suporta muitos desalentos e aflições, e não é menos aflito do que aqueles que pranteiam. E, se não chora nem lamenta, é por vergonha e por insensibilidade; pois, se olhasses para dentro de sua alma, a verias repleta de inúmeras ondas. Visto, pois, que, quer sigamos este gênero de vida, quer aquele, havemos de ser aflitos, por que não escolhemos antes este caminho, que, juntamente com a aflição, traz coroas inumeráveis? Pois assim conduziu Deus todos os santos através da aflição e da angústia, ao mesmo tempo prestando-lhes serviço e resguardando o resto dos homens de conceber deles uma opinião maior do que merecem. Pois foi assim que as idolatrias primeiro ganharam terreno: homens tidos em admiração além do que mereciam. Assim o senado romano decretou que Alexandre fosse o décimo terceiro deus, pois possuía o privilégio de eleger e inscrever deuses. Por exemplo, quando tudo o que dizia respeito a Cristo já se havia divulgado, o governante da nação enviou a perguntar se se agradariam de elegê-lO também deus. Eles, porém, recusaram seu consentimento, irados e indignados por que, antes de seu voto e decreto, o Poder do Crucificado, resplandecendo por toda parte, já havia conquistado o mundo inteiro para o seu próprio culto.
Mas assim foi ordenado, ainda contra a vontade deles, que a Divindade de Cristo não fosse proclamada por decreto humano, nem que Ele fosse contado como um dentre os muitos que por eles eram eleitos. Pois eles contavam até mesmo pugilistas como deuses, e o favorito de Adriano, segundo cujo nome se chama a cidade de Antinoo. Pois, como a morte testemunha contra a natureza moral deles, o demônio inventou outro caminho, o da imortalidade da alma; e, misturando a isso uma lisonja excessiva, seduziu muitos à impiedade. E observai que artifício ímpio. Quando nós apresentamos essa doutrina para um bom propósito, ele derruba nossas palavras; mas quando ele mesmo deseja forjar um argumento para o mal, é muito zeloso em estabelecê-lo. E se alguém perguntar: "Como é Alexandre um deus? Não está ele morto? E miseravelmente também?" — "Sim, mas a alma é imortal", ele responde. Ora, argumentais e filosofais sobre a imortalidade, para desviar os homens do Deus que está sobre todas as coisas; mas quando nós declaramos que este é o maior dom de Deus, persuadis vossos incautos de que os homens são baixos e rasteiros, e em nada melhor situação do que os brutos. E se dizemos: "o Crucificado vive", segue-se imediatamente o riso; ainda que o mundo inteiro o proclame, tanto antigamente como agora; antigamente por milagres, agora por convertidos; pois na verdade esses êxitos não são os de um homem morto. Mas se alguém disser "Alexandre vive", credes, ainda que não tenhais milagre algum a alegar.
5. "Sim", responde alguém; "eu o tenho; pois quando ele vivia, realizou muitas e grandes façanhas; pois subjugou tanto nações como cidades, e em muitas guerras e batalhas venceu, e ergueu troféus."
Se, pois, eu vier a mostrar algo que ele, em vida, jamais imaginou — nem ele, nem qualquer outro homem que jamais existiu —, que outra prova da ressurreição exigireis? Pois que alguém, em vida, vença batalhas e alcance vitórias, sendo rei e dispondo de exércitos, nada tem de maravilhoso, nem tampouco de surpreendente ou inaudito; mas que, depois de uma Cruz e de um Sepulcro, alguém realize tão grandes feitos por toda terra e mar, isto sim é o que está repleto de tamanho assombro, e proclama Seu divino e inefável Poder. E Alexandre, na verdade, depois de sua morte, jamais restaurou de novo o seu reino, que fora despedaçado e de todo desfeito: pois como seria de esperar que, morto, o fizesse? Mas Cristo, sobretudo, estabeleceu o Seu depois de morto. E por que falo eu de Cristo? Pois que Ele concedeu também a Seus discípulos que, depois de suas mortes, resplandecessem? Dizei-me, pois: onde está o sepulcro de Alexandre? Mostrai-mo, e dizei-me o dia em que morreu. Mas dos servos de Cristo, os próprios sepulcros são gloriosos, pois tomaram posse da mais fiel das cidades; e seus dias são bem conhecidos, fazendo-se festas para o mundo inteiro. E o sepulcro daquele, nem os seus próprios conhecem, mas o deste, até os próprios bárbaros conhecem. E os sepulcros dos servos do Crucificado são mais esplêndidos que os palácios dos reis; não pela grandeza e beleza dos edifícios (ainda que também nisto os superem), mas, o que é muito mais, pelo zelo daqueles que os frequentam. Pois aquele mesmo que veste a púrpura vai abraçar aqueles sepulcros, e, deixando de lado sua soberba, permanece de pé, suplicando aos santos que sejam seus advogados junto a Deus; e aquele que traz o diadema implora ao fazedor de tendas e ao pescador, ainda que mortos, que sejam seus patronos. Ousareis, pois, dizei-me, chamar de mortos a estes, cujos servos, mesmo depois de falecidos, são os patronos dos reis do mundo? E isto pode-se ver acontecer não somente em Roma, mas também em Constantinopla. Pois também ali Constantino, o Grande, julgou que estaria honrando com grande honra a seu filho, se o sepultasse no pórtico do pescador; e o que os porteiros são para os reis em seus palácios, isso são os reis junto ao sepulcro do pescador. E estes, na verdade, como senhores do lugar, ocupam o interior, enquanto aqueles, como se fossem meros hóspedes e vizinhos, se alegravam por lhes ser destinada a porta do pórtico; mostrando, pelo que se faz neste mundo, mesmo aos incrédulos, que na Ressurreição o pescador ainda mais os há de superar. Pois se aqui já é assim no sepultamento de cada um, muito mais o será na ressurreição. E a sua condição se inverte; os reis assumem a de servos e ministros, e os súditos a dignidade dos reis, ou antes, uma ainda mais radiosa. E que isto não é nenhuma espécie de lisonja, a própria verdade o demonstra; pois por causa destes, aqueles se tornaram mais ilustres. Pois muito maior reverência se presta a estes sepulcros do que aos outros, os régios; pois ali, na verdade, há profunda solidão, ao passo que aqui há imensa afluência. Mas se quiserdes comparar estes sepulcros com os palácios reais, também aqui a palma permanece com eles. Pois ali, na verdade, há muitos que afastam, mas aqui, muitos que convidam e atraem a si ricos, pobres, homens, mulheres, escravos, livres; ali, há muito temor; aqui, prazer inefável.
Chrysostom on the martyrs' relics — translating straightforwardly.
'Mas', dirá alguém, 'agradável espetáculo é contemplar um rei coberto de ouro e coroado, tendo a seu lado generais, comandantes, capitães de cavalaria e de infantaria, lugares-tenentes.' Pois bem, isto que temos aqui é tão mais grandioso e tão mais tremendo, que aquilo, comparado a isto, há de ser julgado cenário de teatro e brincadeira de criança. Pois, no mesmo instante em que atravessais o umbral, logo este lugar eleva os vossos pensamentos ao céu, ao Rei que está no alto, ao exército dos Anjos, ao trono sublime, à glória inacessível. E ali, na verdade, Ele pôs no poder do governante, entre os seus súditos, o soltar a um e o atar a outro; mas os ossos dos santos não possuem tal autoridade, mesquinha e lastimável, senão outra, muito maior. Pois eles convocam os demônios e os submetem ao tormento, e soltam daqueles laços, os mais amargos de todos, os que estão atados. Que há de mais temível que este tribunal? Ainda que ninguém seja visto, ainda que ninguém fustigue os flancos do demônio, contudo há gritos, dilacerações, açoites, tormentos, línguas que ardem, porque o demônio não pode suportar tão admirável poder. E os que outrora trajavam corpos são vitoriosos sobre potestades incorpóreas; o pó, os ossos e as cinzas [deles] atormentam aquelas naturezas invisíveis. E por isso, na verdade, ninguém jamais viajaria a terras estrangeiras para ver os palácios dos reis, ao passo que muitos reis, ao contrário, muitas vezes viajaram para ver este espetáculo. Pois os Martírios dos santos exibem os contornos e símbolos do juízo que há de vir; nisto, que os demônios são açoitados, os homens castigados e libertados. Vedes o poder dos santos, ainda mortos? Vedes a fraqueza dos pecadores, ainda vivos? Fugi, pois, da maldade, para que tenhais poder sobre tais coisas; e buscai a virtude com todas as vossas forças. Pois, se assim é o caso aqui, considerai o que será no mundo vindouro. E, possuídos sempre por este amor, agarrai-vos à vida eterna; à qual possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja glória, poder, honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Tendo completado inteiramente o que tinha a dizer sobre os seus próprios louvores, ele não se deteve nisso; mas escusa-se novamente e pede perdão pelo que disse, declarando que assim procedeu por necessidade e não por escolha. Ainda assim, contudo, embora houvesse necessidade, chama-se a si mesmo insensato. E quando começou, de fato, disse: Recebei-me como insensato, e como em insensatez; mas agora, omitindo o "como", chama-se insensato. Pois depois de haver estabelecido o ponto que desejava, dizendo o que disse, ataca depois, com ousadia e sem poupar-se, toda falha desse gênero, ensinando a todos que ninguém deve jamais louvar-se a si mesmo onde não há necessidade, visto que, mesmo onde havia razão para tanto, Paulo se chamou insensato [por fazê-lo]. Depois volve a culpa de assim falar não sobre os falsos apóstolos, mas inteiramente sobre os discípulos. Pois vós, diz ele, me constrangestes. "Porque se eles se gloriavam, mas não vos desencaminhavam nem vos causavam a ruína ao fazê-lo, eu não teria sido assim levado a descer a esta discussão; mas porque corrompiam toda a Igreja, em vista de vosso proveito fui constrangido a fazer-me insensato." E não disse: "Pois temia que, se obtivessem a mais alta estima entre vós, semeassem as suas doutrinas"; contudo isto mesmo estabeleceu acima, quando disse: Temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, sejam de algum modo corrompidos os vossos entendimentos (2 Cor 11:3). Aqui, porém, não se exprime assim, mas de modo mais imperioso e com mais autoridade, tendo ganhado ousadia pelo que dissera: Pois eu devia ter sido louvado por vós. Depois assinala também a razão; e novamente menciona não somente as suas revelações nem os seus milagres, mas também as suas tentações.
Pois em nada fui inferior aos mais eminentes apóstolos. Vede como aqui, de novo, fala com maior autoridade. Pois, antes, dissera: Considero que em nada sou inferior; mas aqui, depois daquelas provas, agora fala com ousadia, afirmando o fato, como disse, de modo absoluto. Não que, mesmo assim, se afaste do meio-termo, nem do seu caráter próprio. Pois, como se houvesse proferido algo grande e superior aos seus merecimentos, ao contar-se entre os apóstolos, torna a falar novamente com modéstia,
Notai que Paulo diz que todas estas coisas foram feitas em grande paciência, pois suportar tudo nobremente é o sinal de um apóstolo.
"Não olheis para isto", diz ele, "se sou humilde e pequeno, mas se não gozastes daquelas coisas que, da parte de um apóstolo, era mister gozásseis." Contudo, não disse "humilde", mas algo ainda mais baixo, nada. Pois de que serve ser grande e não ser útil a ninguém? Assim como não há proveito em um médico hábil se não cura nenhum dos que estão enfermos. "Não examineis, pois", diz ele, "isto, que eu sou nada, mas considerai aquilo, que naquilo em que devíeis ter sido beneficiados, em nada faltei, mas dei prova do meu apostolado. Não devia, pois, haver necessidade de eu dizer coisa alguma." Ora, falou assim não porque quisesse ser louvado (pois como o quereria, ele que reputava o próprio céu como coisa pequena em comparação com o seu anelo por Cristo?), mas por desejar a salvação deles. Depois, para que não dissessem: "E que nos importa, ainda que não sejais em nada inferior aos mais eminentes apóstolos?", acrescentou, portanto,
Os sinais de um apóstolo foram operados entre vós em toda paciência, e por sinais e prodígios. Coisa admirável! Que mar de boas obras atravessou ele em poucas palavras! E observai o que ele antepõe: a paciência. Pois esta é a nota do apóstolo, suportar tudo nobremente. Isto, pois, exprimiu brevemente numa só palavra; mas sobre os milagres, que não eram obra sua própria, emprega mais palavras. Pois considerai quantas prisões, quantos açoites, quantos perigos, quantas conjurações, quantas tempestades de granizo de tentações, quantas guerras civis, quantas guerras estrangeiras, quantas dores, quantos ataques ele insinuou aqui naquela palavra, paciência! E, novamente, por sinais, quantos mortos ressuscitados, quantos cegos curados, quantos leprosos purificados, quantos demônios expulsos! Ouvindo estas coisas, aprendamos, se acaso nos sobrevier necessidade de tais recitações, a abreviar as nossas boas obras, como ele mesmo fez.
2. Depois, para que ninguém dissesse: "Bem! Ainda que sejais grande, e tenhais feito muitas coisas, contudo não fizestes coisas tão grandes quanto os apóstolos fizeram nas outras Igrejas",
Paulo diz que os coríntios insultam os apóstolos ao considerá-lo inferior a estes falsos mestres. A sua ironia apenas torna a sua repreensão mais severa.
"Fostes partícipes", diz ele, "de graça não menor que os outros." Mas talvez alguém diga: "Qual pode ser a razão de ele volver o discurso sobre os apóstolos, abandonando o combate contra os falsos apóstolos?" Porque deseja erguer-lhes ainda mais o ânimo, e mostrar que não é apenas superior a estes, mas nem sequer inferior aos grandes apóstolos. Por isso, decerto, quando fala destes, diz: Sou mais; mas quando se compara com os apóstolos, considera grande coisa não lhes ser inferior, ainda que tenha trabalhado mais do que eles. E daí mostra que insultam os apóstolos, ao considerarem inferior a estes homens aquele que lhes é igual.
Salvo se em que eu mesmo não vos fui pesado? De novo pronunciou a sua repreensão com grande severidade. E o que se segue é de sentido ainda mais odioso.
Perdoai-me esta injustiça. Contudo, esta severidade encerra tanto palavras de amor quanto um louvor de si mesmos; se, isto é, consideram uma injustiça feita a eles o fato de o apóstolo não consentir em receber deles coisa alguma, nem confiar neles o bastante para ser por eles sustentado. "Se", diz ele, "me culpais por isto" — não disse: "Culpais-me injustamente", mas com grande doçura: "Peço-vos perdão, perdoai-me esta falta." E observai a sua prudência. Pois, porque o tocar continuamente neste ponto tendia a trazer-lhes desonra, ele o suaviza continuamente; dizendo acima, por exemplo: Como a verdade de Cristo está em mim, esta glória não me será tolhida (2 Cor 11:10); depois, de novo: Porque não vos amo? Deus o sabe... Mas, para que eu corte a ocasião aos que buscam ocasião, a fim de que, naquilo em que se gloriam, sejam achados como nós somos (2 Cor 11:11-12). E na primeira Epístola: Qual é, pois, o meu galardão? Que, pregando o evangelho, proponha gratuitamente o evangelho de Cristo (1 Cor 9:18). E aqui: Perdoai-me esta injustiça. Pois em toda parte evita mostrar que é por causa da fraqueza deles que não recebe [deles]; e aqui, para não os magoar. E por isso aqui se exprime assim: "Se pensais que isto é uma ofensa, peço perdão." Ora, falou assim para, ao mesmo tempo, ferir e curar. Pois não digais isto, peço-vos: "Se pretendia ferir, por que se escusa? Mas se se escusa, por que fere?" Pois isto é próprio da sabedoria, ao mesmo tempo lancetar e ligar a chaga. Depois, para que não parecesse, como também dissera antes, estar continuamente insistindo nisto a fim de receber deles, remedeia isto [essa suspeita], mesmo na sua primeira Epístola, dizendo: Mas eu não escrevi isto para que assim se faça no meu caso; pois melhor me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória (1 Cor 9:15); mas aqui, com mais doçura e mansidão. Como, e de que maneira?
Paulo acrescenta isto a fim de dissipar qualquer suspeita remanescente acerca dos seus motivos e intenções. Não lhes será pesado quando vier. Pelo contrário, dar-lhes-á muito mais do que deles receberá.
O que ele diz é isto: "Não é porque não recebo de vós que não venho a vós; antes, já vim duas vezes; e estou pronto a vir esta terceira vez, e não vos serei pesado." E a razão é nobre. Pois não disse: "porque sois humildes", "porque isto vos magoa", "porque sois fracos"; mas o quê? Pois não busco o que é vosso, mas a vós. "Busco coisas maiores; almas em vez de bens; em vez de ouro, salvação." Depois, porque ainda pairava sobre o assunto alguma suspeita, como se estivesse desgostoso com eles, aduz também um argumento. Pois, sendo provável que dissessem: "Não podeis ter-nos, a nós e ao que é nosso?", acrescenta, com muita graça, esta escusa por eles, dizendo: Porque não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos; empregando, em lugar de mestres e discípulos, o termo pais e filhos, e mostrando que faz como dever de ofício o que não era de obrigação. Pois Cristo não o ordenou assim, mas ele diz isto para poupá-los; e por isso acrescenta também algo mais. Pois não disse apenas que os filhos não devem entesourar, mas também que os pais devem. Portanto, visto que convém dar,
Paulo tinha o direito de receber, mas não quis fazê-lo. Também nós devemos imitar o seu proceder! Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
Pois a lei da natureza, com efeito, ordenou aos pais que entesourassem para os filhos; mas eu não faço somente isto, senão que a mim mesmo também dou além disso. E esta prodigalidade sua — o não somente não receber, mas também dar além disso — não é de modo comum, mas acompanhada de grande liberalidade, e proveniente da sua própria penúria; pois as palavras "eu me gastarei" são de quem quer significar isto: "Pois, se for necessário gastar até a minha própria carne, não a pouparei pela vossa salvação." E o que se segue contém a um só tempo acusação e amor, ainda que quanto mais abundantemente vos amo, tanto menos seja amado. "E faço isto," diz ele, "por causa daqueles que são amados por mim, ainda que não me amem igualmente." Observai, pois, agora, quantos são os graus nesta matéria. Ele tinha direito de receber, mas não recebeu; eis aqui a primeira boa obra; e isto, ainda estando em penúria — a segunda; e ainda que lhes pregasse — a terceira; ele dá além disso — a quarta; e não apenas dá, mas também prodigamente — a quinta; não somente dinheiro, mas a si mesmo — a sexta; por aqueles que não o amavam muito — a sétima; e por aqueles a quem ele muito amava — a oitava.
3. Emulemos, pois, também nós a este varão! Pois é acusação grave não amar sequer; mas torna-se ainda mais grave quando, sendo alguém amado, não ama. Porque, se aquele que ama a quem o ama em nada é melhor que os publicanos (Mt 5, 46), aquele que nem sequer isto faz iguala-se aos irracionais; ou antes, é ainda inferior a eles. Que dizes, ó homem? Não amas a quem te ama? Para que, então, vives? Em que serás de proveito daqui em diante? Em que espécie de assuntos? Em público? Em particular? De modo nenhum; pois nada há mais inútil que o homem que não sabe amar. Esta lei até os salteadores muitas vezes respeitaram, e os homicidas, e os assaltantes de casas; e, tendo apenas partilhado o sal com alguém, converteram-se em seus amigos, deixando que a mesa mudasse a sua disposição — e tu, que partilhas não apenas o sal, mas as palavras e as obras, e as entradas e saídas com ele, não amas? Ora, os que vivem impuramente esbanjam até patrimônios inteiros com as suas meretrizes; e tu, que tens um amor digno, és tão frio, e fraco, e efeminado, que não estás disposto a amar, mesmo quando isso nada te custa? "E quem", pergunta alguém, "seria tão vil, tão fera selvagem, que se afastasse e odiasse a quem o ama?" Fazes bem, na verdade, em não o crer, por causa da monstruosidade da coisa; mas, se eu mostrar que há muitos assim, como suportaremos então a vergonha? Pois, quando falas mal daquele a quem amas, quando ouves outro falar mal dele e não o defendes, quando invejas que ele seja bem reputado, que espécie de afeto é este? E, contudo, não é prova suficiente de amor não invejar, nem tampouco não estar em inimizade ou guerra com ele, mas somente sustentá-lo e promovê-lo, a quem te ama: mas quando alguém faz e diz tudo para derrubar até o próprio próximo, que pode haver de mais miserável que semelhante disposição? Ontem e anteontem era seu amigo, e com ele conversavas e comias; depois, porque de repente viste o teu próprio membro em alta estima, lançando fora a máscara da amizade, revestiste-te da inimizade, ou antes, da loucura. Pois loucura manifesta é isto: irritar-se com a bondade dos próximos; que este é o ato dos cães loucos e raivosos. Pois, como eles, também estes se lançam contra o rosto de todos, exasperados pela inveja. Melhor seria ter uma serpente enroscada nas próprias entranhas do que a inveja rastejando em nós. Pois aquela, muitas vezes é possível vomitá-la por meio de remédios, ou aplacá-la com alimento: mas a inveja não se enrosca nas entranhas, senão que se hospeda no seio da alma, e é paixão difícil de apagar. E, de fato, se tal serpente estivesse dentro de alguém, não tocaria os corpos dos homens enquanto tivesse provisão de alimento; mas a inveja, ainda que lhe estendas um banquete sem fim, devora a própria alma, roendo-a por todos os lados, dilacerando-a, arrastando-a, e não é possível encontrar nenhum paliativo com que fazê-la desistir de sua loucura, salvo um só: a adversidade dos prósperos; assim é que se aplaca — ou antes, nem mesmo assim. Pois, ainda que este homem venha a sofrer adversidade, vê ainda algum outro próspero, e é possuído pelas mesmas dores, e por toda parte há feridas, por toda parte golpes. Pois não é possível viver no mundo e não ver pessoas bem reputadas. E tal é o excesso desta enfermidade, que, ainda que se encerre a sua vítima em casa, esta inveja até os homens antigos que já morreram.
Ora, se os homens do mundo assim se sintam, é coisa deveras penosa, mas não tão terrível; que, porém, os que estão livres das agitações da vida atarefada sejam possuídos por esta enfermidade — isto é o mais grave de tudo. E eu bem quisera calar-me: e se o silêncio removesse também a vergonha destes feitos, seria ganho nada dizer; se, porém, ainda que eu me cale, os próprios feitos hão de clamar mais alto que minha língua, nenhum dano advirá de minhas palavras, visto que eles próprios expõem estes males diante de nós, mas antes possivelmente algum ganho e proveito. Pois esta enfermidade infectou até a Igreja, tornou tudo de pernas para o ar, e rompeu a conexão do corpo, e nos colocamos uns contra os outros, e a inveja nos fornece as armas. Grande é, portanto, a dissensão. Pois se, quando todos edificam, já é grande coisa que nossos discípulos permaneçam firmes, quando todos ao mesmo tempo destroem, qual será o fim?
4. Que fazes tu, ó homem? Pensas destruir a plantação de teu próximo; mas antes da dele destróis a tua própria. Não vês os jardineiros, os lavradores, como todos concorrem para um mesmo fim? Um cavou a terra, outro plantou, um terceiro cobriu com cuidado as raízes, outro rega o que foi plantado, outro cerca e fortifica com sebe, outro afasta o gado; e todos visam a um só fim, a preservação da planta. Aqui, porém, não é assim: eu, na verdade, planto, e outro sacode e perturba a planta. Ao menos permite que ela se fixe bem, para que tenha força bastante a resistir ao ataque. Tu não destróis minha obra, mas abandonas a tua própria. Eu plantei, tu deverias ter regado. Se, então, a sacodes, arrancaste-a pelas raízes, e não tens onde mostrar teu regar. Mas vês o plantador em grande estima. Não temas: nem eu sou coisa alguma, nem tu. Pois nem o que planta é algo, nem o que rega, mas Deus (1 Cor 3:7); a Ele pertence a obra. Assim, é contra Ele que lutas e guerreias, ao arrancares o que foi plantado.
Ponhamo-nos, pois, enfim de novo em nosso são juízo; vigiemos. Pois não temo tanto o combate de fora quanto a luta interior; porque também a raiz, quando bem fixada na terra, nenhum dano sofrerá dos ventos; mas, se ela mesma for abalada, roída por dentro por um verme, a árvore cairá, ainda que ninguém a moleste. Até quando roeremos nós, como vermes, a raiz da Igreja? Pois da terra nascem também tais devaneios — ou antes, não da terra, mas do esterco, tendo a corrupção por mãe; e não cessam da detestável lisonja que vem das mulheres. Sejamos enfim homens generosos, sejamos campeões da filosofia, repelgamos a carreira violenta destes males. Porque vejo prostrada agora a massa da Igreja, como se fosse um cadáver. E como num corpo recém-morto se podem ver olhos, mãos, pés, pescoço e cabeça, e contudo nenhum membro cumprindo o seu próprio ofício; assim, em verdade, também aqui, todos os que aqui estão são dos fiéis, mas a sua fé não está ativa; porque apagamos o seu calor e fizemos do corpo de Cristo um cadáver. Ora, se isto soa terrível quando dito, muito mais terrível é quando aparece em ações. Porque temos, de fato, o nome de irmãos, mas praticamos obras de inimigos; e, embora todos sejamos chamados membros, estamos divididos uns contra os outros como feras. Disse isto não por desejo de ostentar a nossa condição, mas para vos envergonhar e fazer-vos desistir. Tal e tal homem entra numa casa; presta-se-lhe honra; devêreis dar graças a Deus, porque o vosso membro é honrado e Deus é glorificado; mas fazeis o contrário: falais mal dele ao homem que o honrou, de modo que fazeis tropeçar a ambos, e, além disso, desonrais a vós mesmos. E por que causa, ó infeliz e miserável? Ouviste teu irmão ser louvado, seja entre homens, seja entre mulheres? Acrescenta aos seus louvores, pois assim louvarás também a ti mesmo. Mas, se derrubas o louvor, primeiro falaste mal de ti mesmo, adquirindo assim má reputação, e a ele exaltaste ainda mais. Quando ouvires alguém ser louvado, faze-te partícipe do que se diz; se não na vida e na virtude, ao menos no regozijo pelas suas excelências. Louvou tal pessoa? Admira tu também: assim te louvará ele também como bom e cândido. Não temas, como se estivesses arruinando o teu próprio interesse com os louvores que fazes a outrem: pois este é antes o resultado de acusá-lo. Porque a humanidade tem espírito contencioso; e, quando vê que falas mal de alguém, acumula sobre ele os seus louvores, querendo com isso mortificar-te; e reprova os que acusam, tanto em seu próprio pensamento quanto perante os outros. Vedes de que vergonha somos causa a nós mesmos? Como destruímos e despedaçamos o rebanho? Sejamos enfim membros (uns dos outros), tornemo-nos um só corpo. E que aquele que é louvado repudie os louvores, e transfira o encômio ao seu irmão; e que aquele que ouve outro ser louvado sinta prazer em si mesmo. Se assim nos congregarmos, atrairemos também a nós a Cabeça; mas, se vivermos separados uns dos outros, também afastaremos de nós o auxílio que dali provém; e, uma vez posto de lado este, o corpo receberá grande dano, não estando ligado desde o alto. Para que isto, pois, não aconteça, desterrando a má vontade e a inveja, e desprezando o que a maioria possa pensar de nós, abracemos o amor e a concórdia.
Assim, alcançaremos tanto os bens presentes quanto os que hão de vir; aos quais possamos todos chegar, pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, com Quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo disse estas palavras de modo muito obscuro, mas não sem sentido ou propósito. Pois, vendo que falava de dinheiro e de sua defesa a esse respeito, é razoável que o que diz esteja envolto em obscuridade. Qual é, pois, o sentido do que ele diz? Ele havia dito: "Não recebi, antes estou pronto até a dar além disso e a despender"; e sobre este assunto discorre longamente tanto na Epístola anterior quanto nesta. Agora ele diz outra coisa, introduzindo o assunto sob a forma de uma objeção e antecipando-se a ela. O que ele diz é algo como isto: "Eu, de fato, não tirei proveito de vós; mas talvez alguém tenha a dizer que, na verdade, eu mesmo não recebi, mas, sendo astuto, procurei que os que foram enviados por mim vos pedissem algo como para si mesmos, e por meio deles eu mesmo recebi, mantendo-me, porém, livre da aparência de receber, ao receber por intermédio de outros. Mas ninguém pode dizer sequer isto; e vós sois testemunhas." Por isso também ele prossegue por meio de pergunta, dizendo: Exortei a Tito, e com ele enviei o irmão. Porventura Tito tirou proveito de vós? "Não andou ele no mesmo espírito que eu?" Isto é, tampouco ele recebeu. Vede quão intensa é aqui a severidade, pois não somente ele mesmo se mantém livre desse receber, como também modera os que são enviados por ele, para que não dê sequer um leve pretexto aos que desejavam atacá-lo. Pois isto é muito maior do que aquilo que fez o Patriarca. Porque este, na verdade, tendo voltado de sua vitória, e querendo o rei dar-lhe os despojos, recusou aceitar coisa alguma senão o que os homens haviam comido; mas este outro nem sequer para si mesmo gozou do sustento necessário, nem permitiu que seus companheiros dele participassem: fechando assim abundantemente a boca dos desavergonhados. Por isso não faz afirmação alguma, nem diz que eles tampouco receberam; mas, o que é muito mais do que isto, chama os próprios coríntios por testemunhas de que nada haviam recebido, para que não pareça testemunhar em pessoa própria, mas pelo veredito deles; procedimento que costumamos adotar em assuntos plenamente reconhecidos e acerca dos quais estamos confiantes. "Dizei-me", diz ele, "algum daqueles que foram enviados por nós tirou proveito injusto de vós?" Não disse: "Recebeu alguém algo de vós?", mas chama as coisas de "proveito injusto"; atacando-os e envergonhando-os sobremaneira, e mostrando que receber de quem dá contra a vontade é "proveito injusto". E não disse "acaso Tito", mas, acaso alguém? "Pois nem isto podeis dizer", afirma ele, "que certo homem não recebeu, mas outro sim. Nenhum dos que vieram o fez." Exortei a Tito. Isto também é dito com severidade. Pois não disse "enviei a Tito", mas "exortei-o"; mostrando que, ainda que tivesse recebido, o teria feito com justiça; mas, ainda assim, permaneceu puro. Por isso lhes pergunta de novo, dizendo: Porventura Tito tirou vantagem de vós? Não andamos no mesmo espírito? Que significa "no mesmo espírito"? Atribui tudo à graça e mostra que todo este louvor é o bom resultado não de nossos trabalhos, mas do dom do Espírito e da Graça. Pois foi um sinal muito grande de graça que, ainda estando em necessidade e fome, nada quisessem receber para a edificação dos discípulos. "Não andamos nas mesmas pisadas?" Isto é, em nada se afastaram desta severidade, mas conservaram inteira a mesma regra.
Paulo teme constantemente causar má impressão, razão pela qual é sempre cuidadoso ao falar assim.
Vede como ele está continuamente em temor, para não incorrer na suspeita de lisonja? Vede a prudência de um Apóstolo, como constantemente menciona isto? Pois disse antes: "Não nos recomendamos de novo a vós, mas vos damos ocasião de vos gloriardes"; e no início da Epístola: "Necessitamos, porventura, de cartas de recomendação?"
Mas todas as coisas são para vossa edificação. De novo ele os consola. E não diz aqui claramente: "por isso não recebemos, por causa de vossa fraqueza"; mas: "para que vos edifiquemos"; falando, na verdade, mais claramente do que antes, e revelando aquilo com que se afligia; e, no entanto, sem severidade. Pois não disse: "por causa de vossa fraqueza", mas: "para que sejais edificados".
Paulo não disse que temia encontrá-los em pecado, mas antes que não fossem tudo o que ele desejaria. Além disso, ele equilibra isto dizendo que também as expectativas que eles tinham a respeito dele poderiam ser frustradas.
Ele está prestes a dizer algo grande e ofensivo. E por isso também insere esta desculpa, tanto dizendo "todas as coisas são para vossa edificação" quanto acrescentando "temo", suavizando a aspereza do que estava a ponto de dizer. Pois isto não procedia aqui da arrogância nem da autoridade de mestre, mas do terno cuidado de um pai, quando este está mais temeroso e trêmulo do que os próprios pecadores diante daquilo que é capaz de os reformar. E nem mesmo assim os difama ou faz afirmação absoluta; mas fala com dúvida: "para que, quando eu vier, não vos ache tais como eu quereria". Não disse "não virtuosos", mas "não tais como eu quereria", empregando por toda parte os termos do afeto. E as palavras "eu ache" são de quem exprimiria o que está fora da expectativa natural, como também "eu seja achado por vós". Pois a coisa não procede de deliberada escolha, mas de uma necessidade que se origina em vós. Por isso diz: "eu seja achado tal como não quereis". Não disse aqui "tal como eu não quereria", mas, com maior severidade, "tal como vós não quereis". Pois nesse caso tornar-se-ia a própria vontade dele, não, na verdade, o que primeiro teria querido, mas a sua vontade, contudo. Pois poderia, de fato, ter dito novamente "tal como eu não quereria", e assim ter mostrado o seu amor; mas não quer afrouxar o seu ouvinte. Antes, suas palavras teriam sido nesse caso ainda mais ásperas; mas agora ele lhes desferiu ao mesmo tempo um golpe mais agudo e mostrou-se mais brando. Pois esta é a característica de sua sabedoria: cortar mais fundo, para ferir mais suavemente. Depois, por ter falado obscuramente, desvela o seu sentido, dizendo:
Para que não haja contendas, invejas, iras, detrações, sussurros, inchações. E o que bem poderia colocar em primeiro lugar, ele coloca por último: pois estavam eles muito orgulhosos contra ele. Portanto, para que não pareça buscar principalmente o que é seu, menciona primeiro o que era comum. Pois todas estas coisas eram geradas pela inveja, as suas calúnias, acusações, dissensões. Pois, tal como alguma raiz má, a inveja produzia ira, acusação, soberba, e todos aqueles outros males, e por eles era ainda mais aumentada.
Paulo viria como seu acusador e juiz, e, no entanto, considera isto uma humilhação da parte de Deus, e não uma causa de exaltação. Não tinha ele nenhum desejo de assumir tão desagradável papel.
Vem também a palavra como que a feri-los. Pois quer dizer: "O que aconteceu antes já basta"; como também disse no princípio [da Epístola], para vos poupar, não vim ainda a Corinto. Cap. 1:18, 23. Vedes como manifesta ao mesmo tempo indignação e terna afeição? Mas que significa "me humilhará"? E, contudo, isto é antes glorioso — acusar, tomar vingança, chamar a prestar contas, sentar-se no lugar de juiz; todavia ele o chama humilhação. Tão longe estava de se envergonhar daquela [causa de] humilhação — a saber, que sua presença corporal era fraca e seu discurso de nenhuma conta — que desejava permanecer para sempre nesse estado, e recusava o contrário. E isto diz ele mais claramente ao prosseguir; e considera isto especialmente humilhante: ver-se envolvido em tal necessidade como a presente, de punir e tomar vingança. E por que não disse: "para que, quando vier, não seja eu humilhado", mas antes: "para que, quando vier, meu Deus não me humilhe"? "Porque, não fosse por causa d'Ele, eu não teria dado atenção alguma, nem estaria ansioso. Pois não é como quem possui autoridade, e para meu próprio prazer, que exijo satisfação, mas por causa do Seu mandamento." Ora, acima, na verdade, exprimiu-se assim: serei achado; aqui, porém, abranda e adota linguagem mais suave e branda, dizendo,
Chorarei por muitos dos que pecaram. Não simplesmente, que pecaram, mas,
Que não se arrependeram. E não disse "todos", mas muitos; nem tampouco esclareceu quem eram estes, tornando assim fácil para eles o retorno ao arrependimento; e, para deixar claro que o arrependimento é capaz de corrigir as transgressões, lamenta aqueles que não se arrependem, aqueles que estão incuravelmente enfermos, aqueles que permanecem em suas chagas. Observai, pois, a virtude apostólica: consciente de nenhum mal em si mesmo, lamenta os males alheios e se humilha pelas transgressões de outros homens. Pois esta é a marca própria do mestre: assim compadecer-se das calamidades de seus discípulos, e chorar sobre as chagas daqueles que lhe estão sujeitos. Depois menciona também o pecado específico.
Da lascívia e da impureza que cometeram. Ora, nestas palavras alude, na verdade, à fornicação; mas, se alguém examinar cuidadosamente o assunto, todo tipo de pecado pode ser chamado por este nome. Pois, embora o fornicador e o adúltero sejam preeminentemente chamados de impuros, ainda assim os demais pecados também produzem impureza na alma. E por isso é que Cristo também chama os judeus de impuros, não os acusando somente de fornicação, mas também de outras espécies de maldade. Por isso também diz que limpavam o exterior, e que não são as coisas que entram que contaminam o homem, mas as que dele saem; Mt 15:11; e diz-se em outro lugar: Todo aquele que é soberbo de coração é impuro diante do Senhor. Pv 16:5, Septuaginta.
3. Pois nada há mais puro que a virtude, nada mais imundo que o vício; pois uma é mais luminosa que o sol, o outro mais fétido que o lodo. E disto eles mesmos darão testemunho, os que se revolvem nesse lodo e vivem nessas trevas; ao menos quando alguém os dispõe um pouco a ver claramente. Pois enquanto estão sozinhos, e embriagados pela paixão, como que vivendo nas trevas, jazem de modo indecoroso para sua grande infâmia, cientes, ainda então, de onde estão, embora não plenamente; mas depois que viram algum dos que vivem em virtude a repreendê-los, ou mesmo apenas a mostrar-se, então compreendem mais claramente sua própria miséria; e como se um raio de sol se houvesse lançado sobre eles, encobrem sua própria indecência e enrubescem diante daqueles que conhecem seus feitos, ainda que um seja escravo e outro livre, ainda que um seja rei e outro súdito. Assim, quando Acabe viu Elias, envergonhou-se, ainda quando este nada dissera; permanecendo convicto pela mera visão dele; e, calando-se seu acusador, pronunciou ele mesmo uma sentença condenatória de si mesmo, proferindo a linguagem dos que são apanhados, e dizendo: Achaste-me, ó inimigo meu! (1Rs 21:20). Assim o próprio Elias conversou então com aquele tirano com grande ousadia. Assim Herodes, não podendo suportar a vergonha daquelas repreensões (vergonha que a voz da língua do profeta, com poderosa e transparente clareza, mais evidentemente expunha), lançou João no cárcere: como alguém que, estando nu, tentava apagar a luz, para de novo estar em trevas; ou antes, ele mesmo não ousou apagá-la, mas, por assim dizer, colocou-a em casa debaixo do alqueire; e foi aquela mulher desventurada e mísera que forçou que isso se fizesse. Mas nem assim puderam encobrir a repreensão; antes, ainda mais a acenderam. Pois tanto os que perguntavam: Por que jaz João no cárcere? souberam a razão, como também todos os que desde então habitaram a terra ou o mar — os que então viviam, ou agora vivem, e os que hão de vir depois — tanto conheceram quanto conhecerão claramente estas ímpias tragédias, tanto a de sua luxúria quanto a de sua culpa de sangue, e nenhum tempo poderá apagar a lembrança delas.
Tão grande coisa é a virtude: tão imortal é sua memória, tão completamente, ainda que apenas por palavras, ela derruba seus adversários. Pois por que ele o lançou no cárcere? Por que não o desprezou? Iria ele arrastá-lo perante o tribunal? Reclamou vingança contra ele por seu adultério? Não foi o que ele então disse simplesmente uma repreensão? Por que então ele teme e treme? Não eram apenas palavras e discurso? Mas estas o feriram mais do que atos o fariam. Não o levou perante nenhum tribunal, mas o arrastou perante aquele outro tribunal da consciência; e estabelece como juízes sobre ele todos os que livremente proferiam seus veredictos no pensamento. Por isso o tirano tremeu, incapaz de suportar o fulgor da virtude. Vedes quão grande coisa é a filosofia? Ela fez de um prisioneiro alguém mais fulgurante que um rei, e este último se atemoriza e treme diante dele. Ele, na verdade, apenas o lançou em grilhões; mas aquela mulher imunda precipitou-se também para a morte dele, ainda que a repreensão fosse dirigida antes contra ele do que contra ela mesma. Pois não foi ao encontro dela para dizer: Por que coabitas com o rei? Não que ela fosse inocente (como poderia sê-lo?), mas ele quis, por aquele outro meio, corrigir tudo. Por isso censurou o rei, e ainda assim não o fez com violência de maneiras. Pois não disse: Ó imundo e todo imundo, e ilegal, e profano, tu calcaste aos pés a lei de Deus, desprezaste os mandamentos, fizeste do teu poderio a lei. Nada disso; mas mesmo em suas repreensões grande era a mansidão do homem, grande sua brandura. Pois: Não te é lícito, diz ele, ter a mulher de teu irmão Filipe. As palavras são as de quem antes ensina do que repreende, instrui antes do que castiga, compõe para a ordem antes do que expõe, corrige antes do que pisoteia. Mas, como eu disse, a luz é odiosa ao ladrão, e a simples visão do homem justo é odiosa aos pecadores; pois ele nos é penoso até mesmo de contemplar. Sb 2,15 Pois não podem suportar seu resplendor, assim como olhos enfermos não podem suportar o sol. Mas, para muitos dos ímpios, ele é penoso não apenas de contemplar, mas até mesmo de ouvir falar. E por isso aquela mulher imunda e toda imunda, a alcoviteira de sua filha, ou antes sua homicida, ainda que jamais o houvesse visto nem ouvido sua voz, precipitou-se para a morte dele; e prepara também aquela que criara na lascívia para proceder igualmente ao homicídio, tão desmedidamente o temia.
4. E que diz ela? Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista. Mt 14,8. Para onde te precipitas, ó desventurada e miserável? Que é isto? Está o acusador diante de ti? Está ele à vista, a atormentar-te? Outros diziam: Ele nos é penoso até de contemplar; mas a ela, como disse, era penoso até de ouvir falar. Por isso diz: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João. E, no entanto, é por tua causa que ele habita um cárcere, e está carregado de cadeias, e tu és livre para te desvaneceres em teu amor e dizer: 'Tão completamente subjuguei o rei, que, mesmo publicamente repreendido, não cedeu, nem desistiu de sua paixão, nem rompeu sua ligação adulterina comigo, mas até lançou em grilhões aquele que o repreendeu.' Por que estás louca e enfurecida, quando, mesmo depois daquela repreensão de seu pecado, ainda conservas teu amante? Por que buscas uma mesa de Fúrias, e preparas um banquete de demônios vingadores? Vedes como nada vale, quão covarde, quão indigno de um homem é o vício; como, quando mais parece triunfar, então mais se enfraquece? Pois esta mulher não se perturbou tanto antes de lançar João no cárcere quanto se aflige agora que ele está preso, e insiste, dizendo: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João. E por que assim? 'Temo', diz ela, 'que se abafe seu assassínio, que alguém o resgate de seu perigo.' E por que não exiges o corpo inteiro, mas a cabeça? 'A língua', diz ela, 'que me feriu, essa anseio ver silenciada.' Mas sucederá o contrário, como de fato sucedeu, ó desventurada e miserável! Ela clamará mais alto depois, quando for cortada. Pois então, na verdade, clamava somente na Judeia, mas agora alcançará os confins do mundo; e onde quer que entres numa igreja, seja entre os mouros, seja entre os persas, seja mesmo até as próprias ilhas britânicas, ouves João clamando: Não te é lícito ter a mulher de teu irmão Filipe. Mas ela, incapaz de raciocinar de nenhum modo assim, insta e pressiona, e impele o tirano insensato ao assassínio, temendo que ele mude de propósito. Mas também disto aprende, uma vez mais, o poder da virtude. Nem mesmo quando ele estava encerrado, e acorrentado, e silencioso, suporta ela o justo. Vedes quão fraca coisa é o vício? Quão imundo? Pois, no lugar de iguarias, traz uma cabeça humana sobre um prato. Que há de mais poluído, que há de mais maldito, que há de mais impudico do que aquela donzela? Que voz proferiu ela naquele teatro do diabo, naquele banquete de demônios! Vedes esta língua e aquela; uma trazendo remédios salutares, a outra untada de veneno, e feita fornecedora de um banquete diabólico. Mas por que não ordenou ela que ele fosse assassinado ali dentro, no festim, quando seu prazer seria maior? Temeu que, se ele viesse até ali e fosse visto, mudasse a todos com seu olhar, com sua ousadia. Por isso, decerto, é que exige sua cabeça, querendo erguer um brilhante troféu da fornicação; e a entrega a sua mãe. Vedes o salário da dança, vedes os despojos daquele plano diabólico? Não digo a cabeça de João, mas o próprio amante dela. Pois, se alguém examinar com cuidado, contra o rei foi erguido aquele troféu, e a vencedora foi vencida, e o decapitado foi coroado, e proclamado vencedor, mesmo depois de sua morte abalando mais veementemente os corações dos culpados.
E que o que disse não é jactância vã, perguntai-o ao próprio Herodes; o qual, ao ouvir dos milagres de Cristo, disse: Este é João; ele ressuscitou dos mortos: e por isso operam nele estes poderes (Mt 14:2). Tão viva era a sua *sinderese*, tão persistente a agonia que retinha, que ninguém tinha poder para abater o terror de sua consciência, mas aquele Juiz incorruptível continuava a segurá-lo pela garganta, e dia após dia a exigir-lhe satisfação pelo assassínio. Sabendo, pois, estas coisas, não temamos sofrer o mal, mas antes fazê-lo; pois isto, na verdade, é vitória, aquilo, derrota.
Por isso disse também Paulo: Por que não sofreis antes a injustiça? Por que não sois antes defraudados? Antes, vós mesmos fazeis injustiça, e defraudais, e isto a vossos irmãos (1 Cor 6:7-8). Pois é do sofrer o mal que provêm aquelas coroas, aqueles prêmios, aquela proclamação [de vitória]. E isto pode ver-se em todos os santos. Visto, pois, que todos eles foram assim coroados, assim proclamados, percorramos nós também este caminho, e oremos, na verdade, para que não entremos em tentação; mas se ela vier, resistamos com muita varonilidade e mostremos a devida prontidão de ânimo, para que alcancemos os bens vindouros, pela graça e pelo amor aos homens de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o Qual, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Paulo esmera-se em escrever antes de sua vinda, porque espera que a igreja se corrija antes que ele lá chegue, de modo que aquilo que ameaça fazer se revele desnecessário.
A sabedoria de Paulo e sua tão terna afeição podem observar-se em muitas outras circunstâncias, mas sobretudo nesta: ser ele tão abundante e veemente em suas admoestações, mas tão tardio e procrastinador em seus castigos. Pois não os castigou logo ao pecarem, mas os advertiu uma vez e outra; e nem assim, não lhe dando eles atenção, exige punição, mas adverte de novo, dizendo: Esta é a terceira vez que vou ter convosco; e "antes de vir, escrevo outra vez". Depois, para que sua procrastinação não gere indiferença, vede como corrige também esse efeito, ameaçando continuamente e mantendo o golpe suspenso sobre eles, dizendo: Se vier outra vez, não pouparei; e para que, ao vir outra vez, eu não chore a muitos. Estas coisas, pois, ele faz e diz, imitando também nisto o Senhor de todos: porque também Deus ameaça continuamente e adverte muitas vezes, mas não castiga e pune com frequência. E assim faz verdadeiramente Paulo também, e por isso disse antes: Para vos poupar, não vim ainda a Corinto. Que significa "para vos poupar"? Para que, achando-vos tendes pecado e permanecendo sem emenda, eu não visite com castigo e punição. E aqui: Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra. Ele une o não escrito ao escrito, como fez também em outro lugar, dizendo: Aquele que se ajunta a uma meretriz é um só corpo; pois os dois, diz Ele, serão uma só carne (1 Cor 6:16). Ora, isto foi dito do matrimônio legítimo; mas ele desviou sua aplicação convenientemente para esta coisa, a fim de os aterrorizar mais. E assim faz também aqui, pondo suas vindas e suas advertências no lugar de testemunhas. E o que diz é isto: "Falei uma vez e outra quando estava convosco; falo também agora por carta. E se de fato me atendeis, o que desejei está cumprido; mas se não me dais atenção, é necessário doravante cessar de falar e infligir a punição."
Paulo está dizendo que já se comprometeu tantas vezes e que tantos ouviram suas ameaças, que se ele vier e nada tiver mudado, terá de as cumprir. Ainda assim, ele o verá mais como uma humilhação e uma derrota do que como outra coisa qualquer.
"Pois se pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra, e eu já vim duas vezes e falei, e falo agora também por esta Epístola; segue-se que devo, depois disto, manter minha palavra. Pois não penseis, rogo-vos, que minha escrita seja de menor conta que minha vinda; porque, assim como falei quando presente, assim escrevo agora também quando ausente." Vedes sua solicitude fraterna? Vedes a previdência própria de um mestre? Nem se calou nem puniu, mas tanto prediz frequentemente, quanto continua sempre ameaçando, e adia a punição, e se permanecerem sem emenda, então ameaça levá-la a efeito. "Mas o que lhes disse antes, presente, e agora, ausente, escreve?" Que se vier outra vez, não pouparei. Tendo mostrado antes que não pode fazer isto a menos que seja compelido, e tendo chamado a coisa de pranto e humilhação (pois diz: para que meu Deus me não humilhe diante de vós, e eu não chore por aqueles que pecaram anteriormente e não se arrependeram — 2 Cor 12:21); e tendo-se desculpado com eles, a saber, que já lhes dissera antes, uma, duas e três vezes, e que faz e planeja tudo quanto pode para reter a punição, e pelo temor de suas palavras torná-los melhores, usou então esta expressão desagradável e aterradora: Se vier outra vez, não pouparei. Não disse: "Vingar-me-ei, e punirei, e exigirei satisfação"; mas exprime de novo o próprio castigo em linguagem paterna, mostrando sua terna afeição, e que seu coração se aflige juntamente com eles; porque sempre adiava para os poupar. Depois, para que não pensem tampouco agora que haverá novamente um adiamento, e mera ameaça em palavras, por isso disse também antes: Pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra; e [agora]: Se vier outra vez, não pouparei. Ora, o que ele quer dizer é isto: "Não mais adiarei, se (o que Deus não permita) vos achar sem emenda; mas certamente visitarei, e cumprirei o que disse."
2. Depois, com muita ira e veemente indignação contra aqueles que dele zombam como fraco, e ridicularizam sua presença, e dizem que sua presença é fraca, e seu discurso de nenhuma conta (2 Cor 10:10), dirigindo seus esforços contra estes homens,
Paulo não punirá os coríntios apenas para provar que tem o poder de o fazer. Sua paciência para com eles não provém de fraqueza, mas de amor e longanimidade.
Vendo que buscais uma prova de que Cristo fala em mim.
Pois disse isto, ferindo a estes de um golpe, e ao mesmo tempo açoitando também àqueles. Ora, o que ele quer dizer é isto: 'Uma vez que desejais provar se Cristo habita em mim, e me chamais a prestar contas, e nisto me escarneceis como vil e desprezível, como se estivesse eu destituído daquele Poder; haveis de saber que não estamos destituídos, se nos derdes ocasião — o que Deus não permita.' Que, pois? Dizei-me. Puni-los-ia, então, porque buscam uma prova? 'Não', diz ele; pois, se buscasse isto, tê-los-ia punido logo ao pecarem, e não teria adiado. Mas que não busca isto, mostrou-o mais claramente ao prosseguir, dizendo: Ora, oro a Deus que não façais nenhum mal, não para que nós pareçamos aprovados, mas para que vós façais o que é bom, embora nós sejamos como réprobos (2 Cor 13:7).
Não emprega, pois, aquelas palavras dando uma razão, mas antes com indignação, antes atacando os que o desprezam. 'Pois', diz ele, 'não tenho, na verdade, desejo algum de vos dar tal prova, mas se vós mesmos derdes causa e quiserdes desafiar-me, o sabereis pelos próprios fatos.' E observai quão grave torna o que diz. Pois não disse: 'Uma vez que buscais uma prova de mim', mas de Cristo que fala em mim, mostrando que era contra Ele que pecavam. E não disse simplesmente 'habitando em mim', mas falando em mim, mostrando que suas palavras são espirituais. Mas, se Ele não manifesta o Seu poder nem pune (pois, doravante, o Apóstolo transferiu o que disse de si mesmo para Cristo, tornando assim mais temível a sua ameaça), não é por fraqueza; pois Ele o pode fazer: mas por longanimidade. Que ninguém, pois, julgue fraqueza a Sua paciência. Pois por que vos admirais de que Ele não proceda agora contra os pecadores, nem, em Sua paciência e longanimidade, exija satisfação, vendo que Ele suportou até ser crucificado, e, ainda que sofrendo tais coisas, não puniu? Por isso também acrescentou:
O qual para convosco não é fraco, mas é poderoso em vós. Pois, ainda que foi crucificado por fraqueza, contudo vive pelo Poder de Deus.
Estas palavras encerram muita obscuridade e causam perturbação aos mais fracos. Por isso, é necessário desvendá-las mais claramente e explicar a significação da expressão em que reside a obscuridade, para que ninguém se escandalize, nem mesmo os mais simples. Que é, pois, em suma, o que aqui se diz, e o que designa o termo fraqueza, e em que acepção é empregado — é necessário aprendê-lo. Pois o termo é, na verdade, um só, mas possui muitas acepções. Com efeito, a enfermidade corporal é chamada "fraqueza"; donde também se diz no Evangelho: Eis que aquele a quem amas está enfermo, a respeito de Lázaro; e Ele mesmo disse: Esta enfermidade não é para a morte; e Paulo, falando de Epafrodito: Pois de fato esteve enfermo, quase à morte, mas Deus se compadeceu dele; e de Timóteo: Usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades. Pois todas estas expressões denotam enfermidade corporal. De novo, o não estar firmemente estabelecido na fé chama-se "fraqueza"; o não ser perfeito e completo. E denotando isto, disse Paulo: Ao que é fraco na fé, recebei-o, mas não para disputas de opiniões; e ainda: Um crê que pode comer de tudo; outro, que é fraco, come legumes — designando aquele que é fraco na fé. Eis, pois, duas acepções do termo "fraqueza"; há ainda uma terceira coisa que se chama "fraqueza". Que é, pois, esta? Perseguições, ciladas, insultos, provações, ataques. E denotando isto, disse Paulo: Por esta causa, três vezes roguei ao Senhor. E Ele me disse: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Que é "na fraqueza"? Nas perseguições, nos perigos, nas provações, nas ciladas, nas mortes. E denotando isto, disse: Pelo que me comprazo na fraqueza. Depois, mostrando que espécie de fraqueza tem em mente, não falou de febre, nem de dúvida acerca da fé; mas de quê? Nas injúrias, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, para que o poder de Cristo repouse sobre mim. Pois quando estou fraco, então sou forte. Isto é, quer dizer: "quando sou perseguido, quando sou açoitado de um lado para outro, quando se trama contra mim, então sou forte; então, antes, prevaleço sobre os que tramam contra mim e os venço, porque a graça repousa sobre mim mais amplamente." É, pois, neste terceiro sentido que Paulo emprega "fraqueza"; e é isto o que por ela entende, visando de novo, como também disse antes, àquele ponto: o parecer-lhes ele desprezível e digno de desdém. Pois, de fato, não tinha ele desejo algum de se gloriar, nem de parecer ser o que realmente era, nem tampouco de exibir o poder que possuía de castigar e vingar-se; donde também era tido por desprezível. Ora, quando eles, assim o considerando, iam prosseguindo em grande indiferença e insensibilidade, e não se arrependiam de seus pecados, ele agarra uma oportunidade favorável, discorre com muito vigor também sobre estes pontos, e mostra que não foi por fraqueza que nada fez, mas por longanimidade.
Depois, como disse, transferindo o argumento de si mesmo para Cristo, ele aumenta o temor deles, ele reforça a sua ameaça. E o que ele diz é isto: "pois ainda que eu venha a fazer algo e castigar e tomar vingança dos culpados, sou eu quem castiga e vinga? É Ele que habita em mim, o próprio Cristo. Mas se não credes nisto, e desejais receber prova por meio de obras Daquele que habita em mim, sabê-lo-eis em breve; pois Ele não é fraco para convosco, antes é poderoso." E por que acrescentou "para convosco", sendo Ele poderoso em toda parte? Pois, se Ele quisesse punir os incrédulos, é capaz; ou os demônios, ou seja o que for. Qual é, então, o sentido do acréscimo? A expressão ou visa envergonhá-los sobremaneira pela lembrança das provas que já receberam; ou então declara isto, que entrementes Ele mostra o Seu poder em vós, que precisais ser corrigidos. Como disse também noutro lugar: Pois que me importa julgar também os que estão de fora? (1 Cor 5:12) "Os que estão de fora", diz ele, "Ele então há de chamar a contas no dia do juízo, mas a vós, já agora, para arrancar-vos daquele castigo." Mas, não obstante, mesmo neste exemplo de sua solicitude, ainda que nascida de terna afeição, observai como ele a combina com o temor e muita indignação, dizendo: Que para convosco não é fraco, antes é poderoso em vós.
Esta é uma passagem difícil que causa dificuldades a muitos. Que se entende aqui por "fraqueza"? Na Escritura, fraqueza pode referir-se a enfermidade corporal, e pode também significar não estar firmemente radicado na fé. Há, porém, uma terceira possibilidade, e é esta que aqui encontramos. Fraqueza pode significar perseguições, provações, tramas e coisas semelhantes. Cristo não era fraco no corpo nem no espírito, mas foi perseguido e entregue à morte. Não foi por nenhuma fraqueza inerente que Ele foi à cruz; ao contrário, escolheu morrer daquele modo para nos dar vida no poder de Deus.
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Que, embora tenha sido crucificado por fraqueza. "Ainda que Ele escolhesse", diz o Apóstolo, "suportar coisa que parece trazer consigo a noção de fraqueza, isto de modo algum atenta contra o Seu Poder. Este permanece invencível, e aquilo que parece ser de fraqueza em nada O prejudicou; antes, esta mesma coisa mostra sobretudo o Seu Poder, porquanto suportou até tal coisa, e contudo o Seu Poder não foi mutilado." Não te perturbe, pois, a expressão fraqueza; pois também alhures diz ele: A loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens (1 Cor 1,25); ainda que em Deus não haja nada de louco nem de fraco, mas assim chamou à Cruz, expondo o conceito dos incrédulos a seu respeito. Ouve-o, pelo menos, interpretando-se a si mesmo. Pois a pregação da cruz é loucura para os que perecem; mas para os que se salvam, isto é, para nós, é o poder de Deus (1 Cor 1,18). E de novo: Mas nós pregamos a Cristo crucificado, para os judeus, em verdade, escândalo, e para os gregos, loucura; mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Cor 1,23-24). E ainda: Mas o homem natural não recebe as coisas do Espírito, porque para ele são loucura (1 Cor 2,14). Observa como em todo lugar ele expressa o conceito dos incrédulos, que olham para a Cruz como loucura e fraqueza. E assim, na verdade, também aqui ele não quer dizer fraqueza real, mas o que se supunha tal entre os incrédulos. Não diz ele, pois, isto, que por ser fraco foi crucificado. Longe tal pensamento! Pois que estava em Seu poder não ter sido crucificado, Ele o mostrou por toda parte; quando ora lançava homens por terra prostrados, ora fazia retroceder os raios do sol, e secava uma figueira, e cegava os olhos dos que vinham contra Ele, e operava outras dez mil coisas. Que é, pois, isto que ele diz, por fraqueza? Que ainda que tenha sido crucificado depois de suportar perigo e traição (pois já mostramos que perigo e traição se chamam fraqueza), contudo em nada foi Ele prejudicado por isso. E disse isto para trazer o exemplo ao seu próprio caso. Pois, como os coríntios os viam perseguidos, açoitados, desprezados, e não vingando nem visitando isso, para lhes ensinar que não sofrem eles assim nem por falta de poder, nem por serem incapazes de visitá-lo, ele conduz o argumento até o Senhor, porque "Ele também", diz, "foi crucificado, foi atado, sofreu dez mil coisas, e não as visitou, mas continuou a suportar coisas que pareciam arguir fraqueza, e deste modo exibindo Seu Poder, em que, ainda que não pune nem retribui, não é Ele prejudicado em coisa alguma. Por exemplo, a Cruz não cortou ao meio a Sua vida, nem tampouco impediu Sua ressurreição, mas Ele tanto ressuscitou como vive." E quando ouvires falar da Cruz e da vida, espera encontrar a doutrina acerca da Encarnação, pois tudo o que aqui se diz tem referência a isso. E se diz por meio do Poder de Deus, não é como se Ele mesmo estivesse desprovido de força para vivificar Sua carne; mas lhe era indiferente mencionar ou o Pai ou o Filho. Pois quando disse o Poder de Deus, disse por Seu próprio Poder. Pois que Ele mesmo a ressuscitou e a sustenta, ouve-O dizer: Destruí este templo, e em três dias o levantarei.
João 2:19 Mas, se o que é Seu, isto ele diz ser do Pai, não te perturbes; pois, diz Ele, todas as coisas de Meu Pai são Minhas. João 16:15 E, novamente, Todas as coisas que são Minhas são Vossas, e as que são Vossas são Minhas. João 17:10 'Assim como Aquele que foi crucificado nenhum dano padeceu', diz ele, 'tampouco nós o padecemos quando perseguidos e combatidos'; por isso também acrescenta,
Pois também nós, se somos fracos n'Ele, contudo com Ele viveremos pelo Poder de Deus. Que significa somos fracos n'Ele? Somos perseguidos, somos impelidos de um lugar a outro, padecemos o extremo. Mas o que é 'n'Ele'? 'Por causa da pregação', diz ele, 'e de nossa fé n'Ele. Mas se por Sua causa suportamos o que é triste e penoso, manifesto está que também haveremos de ter o que é agradável': e assim acrescentou, mas seremos salvos com Ele pelo Poder de Deus.
Olhai para dentro de vós mesmos e achareis que tendes Cristo em vós. Mas se Cristo está em vós, quanto mais está Ele em vosso mestre! Homilias sobre as Epístolas de Paulo aos Coríntios
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Pois, tendo mostrado com o que disse que, mesmo não castigando, não é porque não tenha Cristo em si mesmo, mas porque dá a entender a longanimidade dAquele que, crucificado, todavia não Se vingou; ele novamente, de outra maneira, produz o mesmo efeito, e ainda mais irrefutavelmente, estabelecendo seu argumento pelos discípulos. "Pois por que falo de mim mesmo", diz ele, "o mestre, que tenho tamanho cuidado sobre mim e a quem foi confiado o mundo inteiro, e que fiz tão grandes milagres? Pois se examinardes a vós mesmos, que estais na condição de discípulos, vereis que Cristo está também em vós. Mas se em vós, muito mais em vosso mestre. Pois se tendes fé, Cristo está também em vós." Pois aqueles que então criam operavam milagres. Por isso também acrescentou: Examinai-vos a vós mesmos, provai-vos a vós mesmos, se estais na fé. Não sabeis quanto a vós mesmos, a menos que Cristo esteja em vós, que sois réprobos? "Mas se em vós, muito mais em vosso mestre?" Parece-me que aqui ele fala da fé que se relaciona com milagres. "Pois se tendes fé", diz ele, Cristo está em vós, a menos que vos tenhais tornado réprobos. Vedes como de novo os aterroriza, e mostra até com superabundância que Cristo está com ele. Pois parece-me que aqui ele a eles alude, mesmo quanto às suas vidas. Pois, uma vez que a fé não basta [por si só] para atrair a energia do Espírito, e ele havia dito que "se estais na fé tendes Cristo em vós", e sucedia que muitos que tinham fé estavam destituídos daquela energia; para resolver a dificuldade, diz: a menos que sejais réprobos, a menos que [isto é] sejais corruptos na vida. Mas espero que saibais que nós não somos réprobos. O que naturalmente se seguiria seria ter dito: mas se vos tornastes réprobos, nós contudo não o somos. Ele, porém, não o diz assim, por temor de os ferir, mas o insinua de modo obscuro, sem afirmar assim, "sois réprobos", nem procedendo por pergunta e dizendo, "Mas se sois réprobos", mas deixando de lado até este modo de perguntar, indica-o obscuramente ao acrescentar: Mas espero que saibais que nós não somos réprobos. Também aqui, de novo, grande é a ameaça, grande o alarme. "Pois, uma vez que desejais", diz ele, "receber deste modo, pelo vosso próprio castigo, a prova, não teremos dificuldade alguma em dar-vos essa demonstração." Mas ele não se exprime assim, de fato, e sim com mais peso e ameaça. Mas espero que saibais que nós não somos réprobos. "Pois deveríeis, na verdade", diz ele, "ter sabido mesmo sem isto o que somos, e que temos Cristo falando e operando em nós; mas, uma vez que desejais receber a prova disso também pelos feitos, sabereis que não somos réprobos." Depois, tendo mantido a ameaça suspensa sobre suas cabeças, e trazido o castigo já até suas portas, e feito-os tremer, e feito-os esperar a vingança; vede como de novo adoça suas palavras e acalma o temor deles, e mostra seu temperamento sem ambição, sua terna solicitude para com seus discípulos, a nobreza de seu propósito, sua elevação e isenção de vanglória.
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5. O que se poderia igualar a esta alma? Ele foi desprezado, foi cuspido, foi ridicularizado, foi escarnecido, tido como vil, como desprezível, como fanfarrão, como jactancioso em suas palavras, mas incapaz de fazer, em seus atos, sequer a menor demonstração; e ainda que visse tão grande necessidade de demonstrar o seu próprio poder, ele não somente adia, não somente se retrai, mas até ora para que não caia em tal posição. Pois diz: Rogo que não façais mal algum, não para que pareçamos aprovados, mas para que façais o que é honesto, ainda que sejamos como réprobos. Que é isto que diz? "Suplico a Deus. Peço-Lhe", diz ele, "que eu não encontre ninguém não corrigido, que não encontre ninguém" que não se tenha arrependido? Antes, mais ainda, não somente isto, mas que ninguém tenha pecado de todo. "Pois", diz ele, "que não tenhais feito mal algum, mas se porventura tiverdes pecado, que então tenhais mudado de conduta, e vos tenhais antecipado a mim na correção, detendo toda a ira. Pois não é isto o que almejo, que sejamos aprovados deste modo, mas antes o contrário, que não pareçamos aprovados. Pois se persistirdes", diz ele, "pecando e não vos arrependendo, será necessário que castiguemos, que punamos, que mutilemos vossos corpos (como sucedeu no caso de Safira e do Mago); e teremos dado prova de nosso poder. Mas não é por isto que oramos, senão pelo contrário, que não sejamos mostrados como aprovados deste modo, que não exibamos deste modo a prova do poder que há em nós, castigando-vos e punindo-vos como pecadores e incuravelmente enfermos, mas o quê? Que façais o que é honesto, por isto oramos, que vivais sempre na virtude, sempre na emenda; e que nós sejamos como réprobos, não exibindo o nosso poder de punir." E não disse "réprobos" porque ele seria réprobo, ainda que não punisse — antes, por esta mesma razão, ele seria aprovado; "mas ainda que alguns nos suspeitem", diz ele, "por não exibirmos o nosso poder, como desprezíveis e rejeitados, nada nos importa isto. Melhor que assim sejamos tidos por eles, do que exibir o poder que Deus nos deu naqueles açoites e naquela impenitência de coração."
Pois nada podemos contra a verdade, mas apenas em favor da verdade. Para que não parecesse [tão somente] estar a comprazer-lhes (o que faria alguém desprovido de vanglória), mas sim a fazer o que a própria natureza da coisa exigia, acrescentou isto: pois nada podemos contra a verdade. "Se vos encontrarmos", diz ele, "em boa reputação, tendo afastado vossos pecados pelo arrependimento e tendo ousadia diante de Deus, não poderemos depois, ainda que o quiséssemos, castigar-vos; e ainda que o tentássemos, Deus não cooperaria conosco. Pois para isto nos deu Ele o nosso poder: para que o juízo que proferíssemos fosse verdadeiro e justo, não contrário à verdade." Vedes como, por todos os meios ao seu alcance, ele torna o que diz isento de ofensa, e abranda a aspereza de sua ameaça? Ademais, assim como se empenhou ardorosamente nisto, deseja também mostrar que o seu ânimo estava inteiramente unido ao deles; pelo que acrescentou também: Pois nos alegramos quando somos fracos e vós sois fortes, e isto também rogamos: a vossa perfeição. "Pois é certíssimo", diz ele, "que nada podemos contra a verdade, isto é, castigar-vos se sois bem-aprazíveis [a Deus]; além disso, porque não podemos, também não o desejamos, e antes desejamos o contrário. Antes, alegramo-nos particularmente com isto mesmo, quando não nos dais ocasião de manifestar aquele nosso poder de castigar. Pois ainda que o fazer de tais coisas mostre os homens gloriosos, aprovados e fortes, ainda assim desejamos o contrário: que sejais aprovados e irrepreensíveis, e que nós jamais, em tempo algum, colhamos a glória que daí provém." Por isso diz: Pois nos alegramos quando somos fracos. Que quer dizer somos fracos? "Quando formos tidos por fracos." Não quando somos fracos, mas quando somos tidos por fracos; pois eram assim tidos pelos seus inimigos, porque não exibiam o seu poder de castigar. "Mas ainda assim nos alegramos, quando o vosso proceder é de tal sorte que não nos dá pretexto para castigar-vos. E é para nós motivo de contentamento sermos deste modo tidos por fracos, contanto que sejais irrepreensíveis"; pelo que acrescenta: e vós sois fortes, isto é, "sois aprovados, sois virtuosos. E não somente o desejamos, mas também por isto rogamos: que sejais irrepreensíveis, perfeitos, e não nos deis ocasião alguma."
6. Este é o afeto paterno: preferir a salvação dos discípulos à sua própria boa fama. Esta é a marca de uma alma isenta de vanglória; é isto o que melhor liberta dos laços do corpo e faz o homem elevar-se da terra ao céu — o estar puro da vanglória; assim como, ao contrário, ela conduz a numerosos pecados. Pois é impossível que quem não está puro da vanglória seja elevado, grande e nobre; antes há de rastejar pelo chão, e causar grande dano, sendo escravo de uma senhora imunda, mais cruel que qualquer bárbaro. Pois que há de mais feroz do que ela, que, quanto mais cortejada, tanto mais selvagem se torna? Nem mesmo as feras são assim, pois se amansam com muito trato. Mas a vanglória é justamente o contrário: desprezada, torna-se mansa; honrada, torna-se selvagem e se arma contra quem a honra. Os judeus a honraram e foram punidos com excessiva severidade; os discípulos a desprezaram e foram coroados. E por que falo em punições e coroas? Pois, para este mesmo fim de parecer glorioso, nada contribui mais do que cuspir sobre a vanglória. E vereis, ainda neste mundo, que os que a honram são prejudicados, ao passo que os que a desprezam são beneficiados. Pois os discípulos, que a desprezaram (não há obstáculo em usarmos de novo o mesmo exemplo) e preferiram as coisas de Deus, ofuscam o sol, tendo alcançado para si memória imortal mesmo depois da morte; ao passo que os judeus, que se curvaram diante dela, tornaram-se sem cidade, sem coração, degradados, fugitivos, exilados, vis, desprezíveis. Faze, pois, o seguinte: se desejas receber glória, repele a glória; mas, se persegues a glória, perderás a glória. E, se quiserdes, experimentemos também esta doutrina nas coisas do mundo. Pois de quem fazemos escárnio em nossas zombarias? Não é daqueles cuja mente está posta nisso? Certamente, então, estes homens são os mais inteiramente destituídos dela, tendo inúmeros acusadores e sendo desprezados por todos. E a quem admiramos, dizei-me? Não é àqueles que a desprezam? Certamente, então, são estes os glorificados. Pois, assim como rico não é aquele que carece de muitas coisas, mas aquele que de nada carece, assim glorioso não é aquele que ama a glória, mas aquele que a despreza; pois esta glória não passa de sombra da glória. Ninguém, tendo visto um pão pintado, por mais que esteja apertado pela fome, atacará a pintura. Não persigas, então, estas sombras, pois isto é sombra da glória, não a glória. E, para que saibas que este é o seu modo de ser, e que ela é sombra, considera que assim há de ser necessariamente, visto que a coisa tem má fama entre os homens, visto que todos a consideram algo a evitar, até mesmo os que a desejam; e visto que aquele que a possui, e aquele que a cobiça, se envergonham de ser chamados segundo ela. "De onde vem, pois, este desejo", pergunta alguém, "e como se engendra esta paixão?" Da pequenez de alma (pois não se deve apenas acusá-la, mas também corrigi-la), de um entendimento imperfeito, de um juízo pueril. Cessemos, pois, de ser crianças, e façamo-nos homens; e persigamos em toda parte a realidade, não as sombras, tanto na riqueza, quanto no prazer, quanto no luxo, quanto na glória, quanto no poder; e esta doença cessará, e muitas outras também. Pois perseguir sombras é próprio de um louco. Por isso disse também Paulo: Vigiai justamente e não pequeis (1 Cor 15,34). Pois há ainda outra loucura, mais grave do que a causada pelos demônios, do que a do frenesi.
Pois aquela admite perdão, mas esta é destituída de toda desculpa, visto que a própria alma está corrompida e perdeu o reto juízo; e o frenesi, na verdade, é uma afecção do corpo, mas esta loucura tem sua sede na mente, que é artífice. Assim como, pois, entre as febres são mais graves, e mesmo incuráveis, aquelas que se apoderam dos corpos robustos e se ocultam nos recessos dos nervos e se escondem nas veias, assim verdadeiramente também esta loucura, visto que se oculta nos recessos da própria mente, pervertendo-a e destruindo-a. Pois como não é loucura clara e evidente, sim, moléstia mais grave que toda loucura, desprezar as coisas que permanecem para sempre e apegar-se com grande avidez às que perecem? Pois dize-me: se alguém perseguisse o vento, ou tentasse retê-lo, não diríamos que estava louco? E que mais? Se alguém abraçasse uma sombra e negligenciasse a realidade; se odiasse sua própria esposa e abraçasse a sombra dela; ou aborrecesse seu filho e, ao invés, amasse a sombra dele — buscarias tu algum outro sinal mais claro em prova de loucura? Tais são também os que seguem avidamente as coisas presentes. Pois todas elas são sombra, sim, quer menciones a glória, quer o poder, quer a boa reputação, quer as riquezas, quer o luxo, quer qualquer outra coisa desta vida. E por isso, na verdade, disse o profeta: "Na verdade, todo homem anda como sombra, e em vão se inquieta" (Sl 39,6); e ainda: "Os nossos dias declinam como a sombra" (Sl 102,11). E em outro lugar, chama as coisas humanas de fumaça e de flor da erva. Mas não são apenas seus bens que são sombra, mas também seus males, quer menciones a morte, quer a pobreza, quer a doença, quer qualquer outra coisa. Quais são, pois, aquelas coisas que permanecem, tanto no bem quanto no mal? O Reino eterno e o inferno sempiterno. Pois nem o verme morrerá, nem o fogo se apagará (Mc 9,44); e estes ressuscitarão para a vida eterna, e aqueles para o castigo eterno (Mt 25,46). Para que, pois, escapemos de um e desfrutemos do outro, abandonando a sombra, apeguemo-nos com toda diligência às coisas reais, pois assim obteremos o Reino dos céus — o qual possamos todos nós obter pela graça e pelo amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual seja glória e poder para todo o sempre. Amém.
Quem há que se possa igualar a Paulo? Foi desprezado, cuspido, ridicularizado, escarnecido como mesquinho e desprezível, acusado de ser um fanfarrão. Mas, ainda que veja a necessidade de fazer alarde de seu poder, ele o adia e roga que não seja necessário. Não quer que suas alegações sejam provadas. Antes, preferiria que a situação se esclarecesse de antemão, de modo que tal prova se tornasse desnecessária.
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Paulo preferiria que sua autoridade se mostrasse em suas palavras, e não tivesse de ser demonstrada em feitos. Mas deixou aos coríntios que tirassem a conclusão de que, se não corrigissem as coisas, ele teria de vir e fazê-lo por eles.
Sentia ele haver falado com mais veemência do que era seu costume, especialmente para com o fim da Epístola. Pois dissera antes: Ora eu mesmo, Paulo, vos rogo pela mansidão e brandura de Cristo — eu que na presença sou humilde entre vós, mas ausente sou ousado para convosco; sim, rogo-vos que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar da ousadia com aquela confiança com que julgo poder ser ousado contra alguns que nos julgam como se andássemos segundo a carne (Cap. 10:1-2); e, estando prontos para vingar toda desobediência, quando se cumprir a vossa obediência (2 Cor 10:6); e, temo que, quando eu for, não vos ache tais como quero, e que eu seja achado por vós tal como não quereis (2 Cor 12:20); e ainda, que, quando eu voltar, o meu Deus me humilhe diante de vós, e que eu chore por muitos dos que pecaram antes e não se arrependeram da lascívia e imundícia que cometeram (2 Cor 12:21); e depois: Já vo-lo disse antes, e agora, ausente, o predigo, como se estivesse presente pela segunda vez, que se eu for outra vez, não pouparei; visto que buscais prova de que Cristo fala em mim (Cap. 13:2-3). Tendo, pois, dito estas coisas, e ainda outras mais, aterrorizando-os, envergonhando-os, repreendendo-os, açoitando-os, diz ele, como desculpa de tudo: Por esta causa escrevo estas coisas estando ausente, para que, estando presente, não use de rigor. Pois desejo que o rigor esteja nas minhas cartas, e não nos meus atos. Quero que as minhas ameaças sejam veementes, para que permaneçam ameaças e jamais se convertam em ação. De novo, ainda nesta sua apologia, torna mais terrível o que diz, mostrando que não é ele mesmo quem há de punir, mas Deus; pois acrescentou: segundo a autoridade que o Senhor me deu; e ainda, para mostrar que não deseja usar do seu poder para castigá-los, acrescentou: não para destruição, mas para edificação. E isto, com efeito, sugeriu agora, como disse, mas deixou a eles a conclusão de que, se persistissem sem se emendar, também isto seria ainda edificação — punir os que assim pensam. Pois assim é, e ele o sabia, e o demonstrou por seus atos.
Como pode Paulo esperar que se alegrem depois de lhes ter dito coisas desta natureza? É precisamente por esta razão que o diz. Pois, se seguirem o que ele ordena, nada haverá que impeça sua alegria. Nada há mais consolador que uma consciência pura.
Quanto ao mais, irmãos, alegrai-vos, aperfeiçoai-vos, consolai-vos, sede de um mesmo parecer, vivei em paz, e o Deus de amor e de paz será convosco.
Que significa "quanto ao mais, irmãos, alegrai-vos"? Vós os afligistes, os aterrorizastes, os lançastes em agonia, os fizestes tremer e temer, e como lhes ordenais que se alegrem? "Ora, é justamente por isto que lhes ordeno que se alegrem. Pois", diz ele, "se aquilo que vos cabe seguir-se ao que me coube, nada haverá que impeça essa alegria. Pois a minha parte toda está feita; sofri com longanimidade, retardei-me, abstive-me de cortar, roguei, aconselhei, alarmei, ameacei, de modo a reunir-vos por todos os meios ao fruto do arrependimento. E agora convém que se cumpra a vossa parte, e assim a vossa alegria será imarcescível."
Aperfeiçoai-vos. Que é "aperfeiçoai-vos"? "Sede completos, preenchei o que falta."
Consolai-vos. Pois, como as suas provações eram numerosas e os seus perigos grandes, diz ele: "consolai-vos, tanto uns pelos outros quanto por nós, e pela vossa mudança para melhor. Pois, se tiverdes a alegria da consciência e vos tornardes completos, nada faltará à vossa alegria e consolo. Pois nada produz tanto o consolo quanto uma consciência pura, ainda que inumeráveis provações a cerquem."
Sede de um mesmo parecer, vivei em paz. Pedido que fizera também na Epístola anterior, logo no início. Pois é possível ser de um mesmo parecer e, contudo, não viver em paz — quando, por exemplo, as pessoas concordam na doutrina, mas em seu trato mútuo estão em discórdia. Paulo, porém, requer ambas as coisas.
E o Deus de amor e de paz será convosco. Pois, na verdade, ele não apenas recomenda e aconselha, mas também roga. Pois ou roga por isto, ou prediz o que há de acontecer; ou antes, ambas as coisas. "Pois se fizerdes estas coisas", diz ele, "se, por exemplo, fordes de um mesmo parecer e viverdes em paz, também Deus será convosco, pois Ele é o Deus do amor e da paz, e nestas coisas Ele Se compraz, Ele Se alegra. Daí vos advirá também a paz do amor Dele; daí será removido todo mal. Isto salvou o mundo, isto pôs fim à longa guerra, isto uniu entre si o céu e a terra, isto fez dos homens anjos. Isto, pois, imitemos também nós, pois o amor é a mãe de inúmeros bens. Por ele fomos salvos, por ele nos vêm todos aqueles bens inefáveis.
Que é um ósculo santo? É aquele que não é hipócrita, como o ósculo de Judas. O ósculo é dado a fim de estimular o amor e infundir em nós a reta disposição uns para com os outros. Quando voltamos após uma ausência, beijamo-nos uns aos outros, pois as nossas almas se apressam a unir-se. Mas ainda algo mais se poderia dizer acerca disto. Nós somos o templo de Cristo, e, quando nos beijamos uns aos outros, beijamos o pórtico e a entrada do templo.
Que é santo? Não oco, não traiçoeiro, como o ósculo que Judas deu a Cristo. Pois para isto é dado o ósculo: para que seja combustível do amor, para que acenda a disposição, para que nos amemos uns aos outros como irmãos aos irmãos, como filhos aos pais, como pais aos filhos; antes, muito mais ainda. Pois aquelas coisas são uma disposição implantada pela natureza, mas estas pela graça espiritual. Assim ficam ligadas as nossas almas umas às outras. E por isso, quando voltamos após uma ausência, beijamo-nos uns aos outros, apressando-se as nossas almas ao mútuo trato. Pois este é o membro que mais que todos nos declara os movimentos da alma. Mas acerca deste ósculo santo ainda algo mais se pode dizer. Com que fim? Nós somos o templo de Cristo; beijamos, pois, o pórtico e a entrada do templo quando nos beijamos uns aos outros. Não vedes quantos beijam mesmo o pórtico deste templo, uns inclinando-se, outros abraçando-o com a mão, e levando a mão à boca? E por estas portas e entradas Cristo tanto entrou em nós quanto entra, sempre que comungamos. Vós que participais dos mistérios entendeis o que digo. Pois não é de modo comum que os nossos lábios são honrados, quando recebem o Corpo do Senhor. É por esta razão, sobretudo, que aqui nos beijamos. Ouçam os que dizem coisas torpes, os que proferem injúrias, e estremeçam ao pensar que boca é essa que desonram; ouçam os que beijam obscenamente. Ouvi que coisas Deus proclamou por vossa boca, e guardai-a incontaminada. Ele discorreu sobre a vida futura, sobre a ressurreição, sobre a imortalidade, sobre que a morte não é morte, sobre aqueles outros inumeráveis mistérios. Pois aquele que está para ser iniciado vem à boca do sacerdote como que a um oráculo, para ouvir coisas cheias de temor reverente. Pois perdeu a sua vida já desde os seus antepassados, e vem buscá-la de novo, e perguntar como poderá porventura encontrá-la e recuperá-la. Então Deus lhe anuncia como pode ser encontrada, e aquela boca se torna mais augusta que o próprio propiciatório. Pois aquele propiciatório jamais emitiu uma voz como esta, mas falou muito de coisas menores, de guerras e de tal paz como a que há aqui embaixo; mas esta fala de tudo quanto pertence ao céu e à vida futura, e de coisas novas e que ultrapassam o entendimento.
Por isto também lhes dá boas esperanças. Ele acrescentou isto em lugar do ósculo, unindo-os pela saudação, pois também as palavras procedem da mesma boca de que procede o ósculo. Vedes como ele reúne a todos, tanto os que estão amplamente separados no corpo quanto os que estão próximos, estes pelo ósculo e aqueles pela mensagem escrita?
Desde o início, Paulo eleva o espírito de Timóteo: Não me fales dos perigos desta vida. Eles nos preparam para a vida eterna, onde não há perigos, tristeza ou pranto. Deus não nos fez apóstolos para que enfrentássemos perigos, mas para que estivéssemos preparados para sofrer e morrer. Mas Paulo não lhe narrou as suas próprias tribulações, pois isso apenas aumentaria a sua dor. Antes, Paulo começa imediatamente oferecendo consolo, dizendo: "Segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus." Ora, se é "promessa", não a busques aqui. Pois "a esperança que se vê não é esperança".
Qual é a razão de escrever esta segunda Epístola a Timóteo? Ele havia dito: espero ir ter contigo em breve (1 Tm 3,14), e, como isso não se cumprira, em vez de ir até ele, consola-o por carta, quando talvez ele se afligisse pela sua ausência, e estivesse oprimido pelos cuidados do governo que agora tomara a seu cargo. Pois até os grandes homens, quando colocados ao leme e encarregados da direção da Igreja, sentem a estranheza de sua posição, e são como que submergidos pelas ondas dos negócios. Isso se dava particularmente quando o Evangelho começava a ser pregado, quando o terreno estava por toda parte por lavrar, e tudo era oposição e hostilidade. Havia, além disso, heresias que começavam a partir dos mestres judaizantes, como ele mostrara na Epístola anterior. Nem apenas o consola por cartas, mas o convida a vir até ele: Apressa-te, diz, a vir a mim em breve, e, quando vieres, traze os livros, mas sobretudo os pergaminhos (2 Tm 4,9-13). E parece ter escrito esta Epístola quando já se aproximava o seu fim. Pois diz: já estou a ponto de ser oferecido em sacrifício; e ainda: na minha primeira defesa ninguém esteve ao meu lado (2 Tm 4,6-16). Para corrigir tudo isso, oferece-lhe consolo a partir de suas próprias provações, e diz também:
Paulo, apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus.
Assim, desde o próprio início, ele eleva o seu espírito. Não me fales, diz ele, dos perigos daqui. Estes nos alcançam a vida eterna, onde não há perigo, onde a tristeza e o pranto se afastam voando. Pois Ele não nos fez Apóstolos apenas para que enfrentássemos perigos, mas para que também sofrêssemos e morrêssemos. E, como não seria consolo narrar-lhe as próprias tribulações, mas antes um acréscimo à sua dor, começa imediatamente oferecendo consolo, dizendo: Segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus. Mas, se é promessa, não a busques aqui. Pois a esperança que se vê não é esperança (Rm 8,24).
Os que nascem de nós segundo a carne não são amados unicamente por causa de sua virtude, mas pela força do afeto natural. Mas os que nascem de nós segundo a fé são amados por nada além de sua virtude [em Cristo], pois que outra razão poderia haver? Homilias sobre Timóteo
A Timóteo, meu diletíssimo filho. Não simplesmente seu filho, mas diletíssimo; pois é possível que haja filhos que não sejam amados. Não és assim, quer ele dizer; não te chamo apenas filho, mas filho diletíssimo. Assim como chama os gálatas de seus filhinhos, mas ao mesmo tempo deles se queixa: Meus filhinhos, diz ele, dos quais de novo sinto as dores de parto (Gl 4,19). E dá testemunho particular de sua virtude ao chamá-lo de amado. Pois onde o amor não nasce da natureza, há de nascer do mérito do objeto amado. Os que nascem de nós são amados não apenas por causa de sua virtude, mas pela força da natureza; mas quando os que são da fé são amados, é por nada além de seu mérito, pois que outra razão poderia haver? E isto sobretudo no caso de Paulo, que jamais agiu por parcialidade. E ainda mais, mostra, ao chamá-lo de seu filho amado, que não foi por estar ofendido com ele, ou por desprezá-lo, ou por condená-lo, que não veio até ele.
Graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus nosso Senhor. Estas coisas pelas quais antes orava, ele novamente as invoca sobre ele. E observa como, desde o próprio início, se desculpa por não ter ido até ele, nem o ter visto. Pois suas palavras, até que eu venha, e, esperando ir ter contigo em breve, haviam levado Timóteo a esperar sua chegada em breve. Por isso se desculpa, mas não menciona de imediato a causa de sua não vinda, para não o entristecer grandemente. Pois estava detido na prisão pelo imperador. Mas quando, ao final da Epístola, o convida a vir até ele, então lho comunica. Não o lança de imediato na tristeza, mas o anima com a esperança de que há de vê-lo. Desejando grandemente ver-te, e Apressa-te a vir a mim em breve (2 Tm 1,4 e 4,9). Imediatamente, pois, o eleva, e passa a louvá-lo.
Como, então, dirás tu, foram os imundos julgados dignos do evangelho? Porque o desejaram e por ele suspiraram. Dentre estes, alguns, ainda que em erro, foram atraídos a ele, porque não se haviam tornado imundos por amores desordenados. Há, depois, outros que não foram rejeitados, porque buscaram a Deus por sua própria vontade. Deste modo, muitos, mesmo a partir de seus antepassados, receberam a verdadeira religião.
Paulo fala de sua vida irrepreensível, pois em toda parte chama sua vida de consciência. Ainda quando era perseguidor, entendia-se a si mesmo como quem sustentava uma boa consciência naquilo que buscava. Por isso diz: "Alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância, na incredulidade", como se dissesse: "Não suspeiteis que isso se fez por malícia." Aqui recomenda a sua própria disposição, para que não pareça insincero em seu amor. O que ele diz, em efeito, é isto: "Não sou falso. Não penso uma coisa e professo outra."
"Dou graças a Deus", diz ele, "de que me lembro de vós", tanto vos amo. Este é sinal de excessivo amor, quando alguém se gloria em seu afeto por amar tão intensamente. Dou graças a Deus, diz ele, a Quem sirvo: e como? Com pura consciência, pois não havia violado sua consciência. E aqui fala de sua vida irrepreensível, pois em toda parte chama sua vida de consciência. Ou porque nunca abandonou nenhum bem que se propusera, por nenhuma causa humana, nem mesmo quando era perseguidor. Por isso diz: alcancei misericórdia, porque o fiz por ignorância, na incredulidade (1Tm 1,13); como se dissesse: Não suspeiteis que isso se fez por malícia. Ele recomenda com propriedade sua própria disposição, para que seu amor pareça sincero. Pois o que diz é, de fato: Não sou falso, não penso uma coisa e professo outra. Assim também no livro dos Atos lemos que foi obrigado a louvar-se a si mesmo. Pois quando o caluniavam como sedicioso e inovador, disse em sua defesa: Ananias me disse: O Deus de nossos pais te escolheu para que conheças a Sua vontade, e vejas Aquele Justo, e ouças a voz de Sua boca. Pois lhe serás testemunha, para com todos os homens, do que viste e ouviste (At 22,14-15). Do mesmo modo aqui, para que não parecesse, como quem houvesse esquecido, alguém vazio de amizade e de consciência, louva-se a si mesmo com justiça, dizendo que sem cessar tenho lembrança de vós, e não simplesmente isso, mas em minhas orações. Isto é, é o ofício de minhas orações, aquilo que constantemente continuo a realizar. Isto o demonstra ao dizer: Por isso supliquei a Deus dia e noite, desejando ver-vos. Notai seu fervoroso desejo, a intensidade de seu amor. E de novo, sua humildade, como se desculpa com seus discípulos, e então mostra que não era por motivos leves ou vãos; e isto já nos havia mostrado antes, mas de novo dá prova disso. Lembrando-me de tuas lágrimas. Era natural que Timóteo, ao separar-se dele, chorasse e se lamentasse, mais do que uma criança arrancada do leite e do seio de sua mãe. Para que eu me encha de alegria; desejando ardentemente ver-vos. Não me teria privado de bom grado de tão grande prazer, ainda que fosse de natureza insensível e brutal, pois aquelas lágrimas, vindo-me à memória, bastariam para abrandar-me. Mas não é esse o meu caráter. Sou daqueles que servem a Deus puramente; de sorte que muitos motivos poderosos me impeliam a ir a vós. Assim, pois, chorou. E menciona outra causa, e esta de caráter consolatório.
Pois os louvores de nossos antepassados, quando deles participamos, redundam também em nosso proveito. De outro modo, de nada valem, antes nos condenam.
Pois Timóteo, diz a Escritura, "era filho de uma certa mulher judia, e crente". Como judia? Como crente? Porque não era dentre os gentios, "mas por causa de seu pai, que era grego, e dos judeus que havia naquelas regiões, tomou-o e o circuncidou". Assim, ao ocorrerem essas misturas de judeus e gentios, a lei começou pouco a pouco a dissolver-se.
Grande era a graça de Timóteo. Quando Barnabé se apartou, Paulo encontrou outro que lhe era equivalente. Dele diz: "Lembrando-me de tuas lágrimas e de tua fé não fingida, que primeiro habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice." Seu pai permaneceu gentio.
Quando trago à memória a fé não fingida que há em ti. Esta é outra recomendação: que Timóteo não provinha de gentios, nem de incrédulos, mas de uma família que serviu a Cristo desde o princípio (At 16,1-3).
A qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice. Pois Timóteo, diz, era filho de uma certa mulher judia, e crente. Como judia? Como crente? Porque não era dentre os gentios, mas por causa de seu pai, que era grego, e dos judeus que havia naquelas regiões, tomou-o e o circuncidou. Assim, ao ocorrerem essas misturas de judeus e gentios, a Lei começou pouco a pouco a dissolver-se. E notai de quantos modos mostra que não o desprezava. Sirvo a Deus, diz, tenho verdadeira consciência de minha parte, e vós tendes vossas lágrimas, e não somente vossas lágrimas, mas também vossa fé, porque sois obreiro da Verdade, porque não há engano em vós. Assim, pois, como te mostras digno de amor, sendo tão afetuoso, tão genuíno discípulo de Cristo; e como não sou eu daqueles destituídos de afeto, mas dos que perseguem com ardor a Verdade; que me impedia de ir a ti?
E estou persuadido de que também em ti. Desde o princípio, quer dizer, tiveste esta excelência. Recebeste de teus antepassados a fé não fingida. Pois os louvores de nossos antepassados, quando deles participamos, redundam também em nosso proveito. De outro modo, de nada valem, antes nos condenam; por isso disse: estou persuadido de que também em ti. Não é uma conjectura, quer dizer, é minha persuasão; estou plenamente certo disso. Se, pois, não foi por nenhum motivo humano que a abraçaste, nada poderá abalar tua fé.
Vede quão grandemente abatido e desalentado ele o considera. Quase diz: Não penses que te desprezo, mas fica certo de que não te condeno, nem me esqueci de ti. Considera, ao menos, tua mãe e tua avó. É porque sei que tens fé não fingida que te trago à memória. Pois é preciso muito zelo para reavivar o dom de Deus. Assim como o fogo requer combustível, também a graça requer nossa presteza, para que seja sempre fervorosa. Trago-te à memória que reavives o dom de Deus, que está em ti pela imposição de minhas mãos, isto é, a graça do Espírito, que recebeste para presidir a Igreja, para a operação de milagres e para todo ministério. Pois está em nosso poder acender ou extinguir esta graça; por isso diz ele em outro lugar: Não extingais o Espírito (1 Ts 5,19). Pois pela indolência e pelo descuido ela se extingue, e pela vigilância e diligência se mantém viva. Pois ela está em ti, na verdade, mas torna-a tu mesmo mais veemente, isto é, enche-a de confiança, de alegria e de deleite. Permanece varonilmente firme.
Pois é preciso muito zelo para reavivar o dom de Deus. Assim como o fogo requer combustível, também a graça requer nossa presteza, para que seja sempre fervorosa… Pois está em nosso poder acender ou extinguir esta graça… Pois pela indolência e pelo descuido ela se extingue, e pela vigilância e diligência se mantém viva. Pois ela está em ti, na verdade, mas deves torná-la mais veemente, isto é, enchê-la de confiança, de alegria e de deleite. Permanece varonilmente firme.
Pois o Espírito que nos faz clamar "Aba, Pai" nos inspira o amor, tanto para com Ele quanto para com o próximo, para que nos amemos uns aos outros. Pois o amor nasce do poder, e não do temor.
Isto é, não recebemos o Espírito para que nos esquivássemos do esforço, mas para que falássemos com ousadia. Pois a muitos Ele dá um espírito de temor, como lemos nas guerras dos Reis: Caiu sobre eles um espírito de temor (Êx 15.16). Isto é, infundiu-lhes o terror. Mas a vós, ao contrário, Ele deu um espírito de poder e de amor para convosco. Isto, pois, é da graça, e contudo não somente da graça, mas quando primeiro tivermos cumprido a nossa própria parte. Pois o Espírito que nos faz clamar Abba, Pai, inspira-nos amor tanto para com Ele quanto para com o próximo, a fim de que nos amemos uns aos outros. Pois o amor nasce do poder, e do não temer. Pois nada é tão capaz de dissolver o amor quanto o temor e a suspeita de traição.
Pois Deus não nos deu o espírito de temor, mas de poder, e de amor, e de moderação: chama ele de moderação a um estado saudável da alma, ou pode significar sobriedade de mente, ou ainda um tornar sóbria a mente, para que sejamos sóbrios de mente, e para que, se algum mal nos sobrevier, ele nos torne sóbrios e nos corte as superfluidades.
Moral. Não nos aflijamos, pois, com os males que nos sucedem. Isto é sobriedade de mente. No tempo da tentação, diz ele, não te apresses (Eclo 2.2). Muitos têm suas várias aflições em casa, e participamos das tristezas uns dos outros, ainda que não das suas causas. Pois um é infeliz por causa de sua esposa, outro por causa de seu filho, ou de seu servo doméstico, outro de seu amigo, outro de seu inimigo, outro de seu vizinho, outro por alguma perda. E variadas são as causas da tristeza, de modo que não podemos encontrar ninguém livre de aflição e de infelicidade de um tipo ou de outro, mas uns têm tristezas maiores e outros menores. Não sejamos, pois, impacientes, nem nos consideremos os únicos infelizes.
Não há, nesta vida mortal, tal coisa como estar isento de tristeza. Se não hoje, amanhã; se não amanhã, ainda assim algum dia posterior a tribulação virá. Pois, assim como não se pode navegar, digo, por um mar longo, sem sentir inquietação, também não é possível atravessar esta vida sem experimentar a tristeza — ainda que fales de um homem rico; pois justamente por ser rico, tem ele muitas ocasiões de desejos desordenados. Ainda que fales do próprio rei, pois também ele é governado por muitos, e não pode fazer tudo quanto quisera. Muitos favores concede contra a sua vontade, e mais do que todos os homens é obrigado a fazer o que não quereria. Como assim? Porque tem à sua volta muitos que desejam receber os seus dons. E considera quão grande é o seu desgosto, quando deseja realizar algo, mas não o pode, seja por temor, seja por suspeita, ou impedido por inimigos ou por amigos. Muitas vezes, quando consegue alcançar algum fim, perde todo o prazer nisso, por muitos se tornarem seus inimigos. Além disso, pensas tu que estão livres de aflição os que vivem uma vida de comodidade? Impossível. Assim como o homem não pode escapar da morte, tampouco pode escapar da tristeza. Quantas tribulações devem eles suportar, que não podemos exprimir em palavras, e que somente eles podem conhecer pela experiência! Quantos já oraram mil vezes para morrer, em meio às suas riquezas e delícias! Pois a vida regalada de modo algum livra os homens do alcance da tristeza; antes é ela mesma causa de tristezas, de enfermidades e de inquietação, muitas vezes quando não há motivo real para tal. Pois, quando tal é o hábito da alma, esta se inclina a entristecer-se ainda sem causa. Dizem os médicos que de um estado débil do estômago nascem tristezas sem ocasião alguma; e não sucede o mesmo a nós próprios, sentirmo-nos inquietos sem conhecer causa nenhuma para isso? Em suma, não podemos encontrar ninguém que esteja isento de tristeza. E, se ele tem menos motivo para aflição do que nós, ainda assim julga o contrário, pois sente as suas próprias tristezas mais do que as dos outros homens. Como os que padecem dor em alguma parte do corpo, que julgam que os seus sofrimentos excedem os do próximo. Aquele que tem uma enfermidade nos olhos julga que não há nada tão penoso; e aquele que tem um distúrbio no estômago considera esta a mais dolorosa das doenças; e cada um julga a mais pesada das aflições aquela de que ele mesmo padece. Assim é com a tristeza: cada um julga a sua própria e presente dor a mais severa. Pois disto julga ele por sua própria experiência. Aquele que não tem filhos considera que nada é tão triste quanto não ter filhos; aquele que é pobre e tem muitos filhos queixa-se dos males extremos de uma família numerosa. Aquele que tem apenas um filho considera isto a maior das misérias, porque esse único, sendo demasiado estimado e nunca corrigido, torna-se voluntarioso e traz tristeza ao pai. Aquele que tem uma esposa formosa julga que nada é tão mau quanto ter uma esposa formosa, porque isso é ocasião de ciúme e de intrigas. Aquele que a tem sem formosura julga que nada é pior do que ter uma esposa sem beleza, porque isso é constantemente desagradável. O homem particular julga que nada é mais humilde, mais inútil, do que o seu modo de vida. O soldado declara que nada é mais penoso, mais perigoso, do que a guerra; que seria melhor viver de pão e água do que suportar tais fadigas. Aquele que está no poder julga que não pode haver fardo maior do que atender às necessidades de outrem. Aquele que está sujeito a esse poder julga que nada é mais servil do que viver ao capricho de outrem.
Ao homem casado nada parece pior do que a esposa e os cuidados do matrimônio. O não casado declara que nada há tão miserável quanto ser não casado e carecer do repouso de um lar. O mercador julga feliz o lavrador em sua segurança. O lavrador julga feliz o mercador em sua riqueza. Em suma, toda a humanidade é de algum modo difícil de contentar, insatisfeita e impaciente. Condenando toda a raça, diz: *O homem é semelhante à vaidade* (Sl 144,4), dando a entender que toda a espécie é uma criatura miserável e infeliz. Quantos anseiam pela velhice! Quantos julgam a juventude tempo feliz! Assim, cada idade diferente tem sua própria infelicidade. Quando nos vemos censurados por causa de nossa juventude, dizemos: por que não somos velhos? E quando nossas cabeças encanecem, perguntamos: para onde fugiu nossa juventude? Inumeráveis, em suma, são as ocasiões de tristeza. Um único caminho há pelo qual se pode escapar a essa desigualdade: o caminho da virtude. Contudo, também este tem suas tristezas — apenas que não são tristezas infrutuosas, mas produtoras de ganho e proveito. Pois, se alguém pecou, lava seu pecado pela compunção que provém de sua tristeza. Ou, se se entristeceu compadecendo-se de um irmão caído, isso não fica sem recompensa. Pois a compaixão para com os que estão em miséria nos dá grande confiança diante de Deus.
Ouvi, portanto, que filosofia se ensina pelo exemplo de Jó nas Sagradas Escrituras! Ouvi também o que diz Paulo: *Chorai com os que choram*; e ainda: *Acomodai-vos aos humildes* (Rm 12,15-16). Pois, pela comunicação da tristeza, alivia-se o seu peso extremo. Porque, assim como no caso de uma carga pesada, aquele que sustenta parte do peso alivia o que a carregava sozinho, assim também é em todas as demais coisas.
Ora, quando morre algum de nossos parentes, muitos são os que se assentam junto de nós para nos consolar. Não obstante, com frequência levantamos até mesmo um jumento que caiu; mas, quando as almas de nossos irmãos estão caindo, nós as negligenciamos e passamos adiante, como se elas fossem de menor valia que um jumento. E se vemos alguém entrar indecorosamente numa taverna — mais ainda, se o vemos embriagado, ou culpado de qualquer outra ação indecorosa — não o refreamos; antes, associamo-nos a ele nisso mesmo. Donde disse Paulo: Não somente as fazem, mas também consentem com os que as fazem (Rm 1,32). A maior parte forma até associações para os propósitos da embriaguez. Mas forma tu, ó homem, associações para refrear a loucura da ebriedade. Tais obras de amizade são proveitosas para os que estão em cadeias ou em aflição. Algo semelhante ordenou Paulo aos coríntios, a isso aludindo quando diz: Para que não se façam coletas quando eu chegar (1 Cor 16,2). Mas agora tudo se faz tendo em vista o luxo, a orgia e o prazer. Temos assento comum, mesa comum, temos vinho em comum e despesas comuns, mas não temos comunidade de esmolas. Tais eram as obras de amizade no tempo dos Apóstolos; eles traziam todos os seus bens ao acervo comum. Ora, não vos exijo que deis tudo, mas alguma parte. Que cada um ponha de lado, em casa, no primeiro dia da semana, conforme Deus o tiver prosperado, e o deposite como tributo dos sete dias. Deste modo, dai esmolas, seja mais, seja menos. Pois não comparecereis vazios diante do Senhor (Êx 23,15). Isto foi dito aos judeus; quanto mais, então, a nós. Por esta causa os pobres se põem diante das portas, para que ninguém entre vazio, mas cada um faça esmola ao entrar. Entras para implorar misericórdia. Mostra primeiro misericórdia. Aquele que chega depois deve mais. Pois, quando nós fomos os primeiros, aquele que é segundo paga mais. Faze de Deus teu devedor, e então oferece tuas orações. Empresta a Ele, e então pede a retribuição, e a receberás com usura. Deus assim o quer, e não se retrata. Se pedes com esmola, Ele se considera obrigado. Se pedes com esmola, emprestas e recebes juro. Sim, eu vo-lo suplico! Não é pelo estender das mãos que sereis ouvidos! Estende as mãos, não ao céu, mas ao pobre. Se estendes tua mão à mão do pobre, alcançaste o próprio cume do céu. Pois Aquele que ali está assentado recebe tua esmola. Mas, se as ergues sem dádiva, nada ganhas. Se o rei, revestido de púrpura, viesse a ti e te pedisse uma esmola, não lhe darias prontamente tudo quanto tens? Mas agora, quando és suplicado por meio do pobre, não por um rei terreno, mas celestial, ficas indiferente e adias tua dádiva? Que castigo, pois, não mereces? Pois o ser ouvido não depende do erguer das mãos, nem da multidão das palavras, mas das obras. Ouve, pois, o profeta: Quando estenderdes as mãos, esconderei de vós os meus olhos; e, ainda que multipliqueis as orações, não vos ouvirei (Is 1,15). Pois deve calar-se aquele que necessita de misericórdia, e nem sequer erguer os olhos ao céu; aquele que tem confiança pode falar muito. Mas o que diz a Escritura? Fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva, aprendei a fazer o bem (Is 1,17). Deste modo seremos ouvidos, ainda que não ergamos as mãos, nem profiramos palavra, nem façamos pedido algum. Nestas coisas, pois, sejamos zelosos, para que alcancemos as bênçãos prometidas, pela graça e benignidade, etc.
Não há nada pior do que o homem medir e julgar as coisas divinas por raciocínios humanos. Pois assim ele cairá daquela rocha a uma distância imensa, e será privado da luz. Porque, se aquele que deseja apreender com olhos humanos os raios do sol não apenas não os apreenderá, mas, além desse fracasso, sofrerá grande dano; assim, mas em grau ainda maior, há de padecer isto, abusando do dom de Deus, aquele que pretender, por raciocínios humanos, fitar fixamente aquela Luz. Observai, pois, como Marcião, e Manes, e Valentino, e outros que introduziram suas heresias e doutrinas perniciosas na Igreja de Deus, medindo as coisas divinas por raciocínios humanos, se envergonharam da economia Divina. Contudo, não era esta matéria de vergonha, mas antes de glória; falo da Cruz de Cristo. Pois não há sinal tão grande do amor de Deus para com a humanidade — nem o céu, nem o mar, nem a terra, nem a criação de todas as coisas a partir do nada, nem tudo o mais — quanto a Cruz. Daí a jactância de Paulo: Longe de mim gloriar-me, senão na Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14). Mas os homens carnais, e os que não atribuem a Deus mais do que aos seres humanos, tropeçam e se envergonham. Por isso Paulo, desde o início, exorta seu discípulo, e por meio dele a todos os demais, nestas palavras: Não te envergonhes, pois, do testemunho de nosso Senhor — isto é, não te envergonhes de pregares Aquele que foi crucificado, mas antes glória-te nisso. Pois, em si mesmos, a morte, o cárcere e as cadeias são matéria de vergonha e opróbrio. Mas quando se acrescenta diante de nós a causa, e se contempla retamente o mistério, aparecerão cheios de dignidade e matéria de jactância. Pois foi aquela morte que salvou o mundo, quando este perecia. Aquela morte uniu a terra ao céu; aquela morte destruiu o poder do demônio, e fez dos homens anjos e filhos de Deus; aquela morte elevou nossa natureza ao trono régio. Aquelas cadeias foram a conversão de muitos. Não te envergonhes, portanto, diz ele, do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro; mas sê participante das aflições do Evangelho — isto é, ainda que devas sofrer as mesmas coisas, não te envergonhes. Pois que isto está implícito, aparece pelo que disse acima: Deus nos deu o espírito de fortaleza, e de amor, e de moderação; e pelo que se segue: sê participante dos sofrimentos do Evangelho — não apenas não te envergonhes deles, mas não te envergonhes nem mesmo de experimentá-los.
E não diz: não temas, mas, para melhor animá-lo: não te envergonhes, como se não houvesse perigo ulterior, caso pudesse ele vencer a vergonha. Pois a vergonha só oprime quando por ela se é vencido. Não te envergonhes, portanto, se eu, que ressuscitei mortos, que operei milagres, que percorri o mundo, sou agora prisioneiro. Pois estou preso, não como malfeitor, mas por causa Daquele que foi crucificado. Se meu Senhor não se envergonhou da Cruz, tampouco eu me envergonho das cadeias. E com grande propriedade, ao exortá-lo a não se envergonhar, ele lhe recorda a Cruz. Se não te envergonhas da Cruz — quer ele dizer — tampouco te envergonhes das cadeias; se nosso Senhor e Mestre suportou a Cruz, muito mais devemos nós suportar as cadeias. Pois quem se envergonha do que Ele padeceu, envergonha-se Daquele que foi crucificado. Ora, não é por minha própria causa que trago estas cadeias; não cedas, portanto, aos sentimentos humanos, mas toma tua parte nestes sofrimentos. Sê participante das aflições do Evangelho. Diz isto não como se o Evangelho pudesse sofrer dano, mas para incitar seu discípulo a sofrer por ele.
Observai... como Marcião, e Manes, e Valentino, e outros que introduziram suas heresias e doutrinas perniciosas na Igreja de Deus, medindo as coisas divinas por raciocínios humanos, se envergonharam da economia divina. Contudo, não era esta matéria de vergonha, mas antes de glória; falo da cruz de Cristo... Pois, em si mesmos, a morte, o cárcere e as cadeias são matéria de vergonha e opróbrio. Mas quando se acrescenta diante de nós a causa, e se contempla retamente o mistério, aparecerão cheios de dignidade e matéria de jactância. Pois foi aquela morte na cruz que salvou o mundo, quando este perecia. Aquela morte uniu a terra ao céu; aquela morte destruiu o poder do demônio e fez dos homens anjos e filhos de Deus; aquela morte elevou nossa natureza ao trono régio. Aquelas cadeias possibilitaram a conversão de muitos.
Se, pois, Ele é poderoso ao nos chamar, e bom, porquanto o fez por graça e não por dívida, não devemos temer. Pois Aquele que, quando devíamos perecer, nos salvou, sendo ainda inimigos, por graça, não cooperará Ele muito mais conosco, quando nos vir a trabalhar? "Não segundo nossas próprias obras", diz ele, "mas segundo seu próprio propósito e graça" — isto é, ninguém o compelindo, ninguém o aconselhando, mas por seu próprio propósito, pelo ímpeto de sua própria bondade, Ele nos salvou. Este é o sentido de "segundo seu próprio propósito".
Mais ainda porque era coisa difícil de dizer, Sê participante das aflições, ele novamente o consola. Considera que suportas estas coisas, não por tua própria força, mas pelo poder de Deus. Pois a ti cabe escolher e ser zeloso, mas a Deus cabe aliviar os sofrimentos e ordenar-lhes que cessem. Mostra-lhe, em seguida, as provas de Seu poder. Considera como foste salvo, como foste chamado. Como diz ele em outro lugar, Segundo o Seu poder que opera em nós (Ef 3.20). Tanto maior exercício de poder foi persuadir o mundo a crer, do que fazer os Céus. Mas como foi chamado com uma santa vocação? Isto significa que Ele fez santos os que eram pecadores e inimigos. E isto não de nós mesmos, foi dom de Deus. Se, pois, Ele é poderoso em nos chamar, e bom, porquanto o fez por graça e não por dívida, não devemos temer. Pois Aquele que, quando devíamos perecer, nos salvou, sendo ainda inimigos, por graça, não cooperará Ele muito mais conosco, quando nos vir trabalhando? Não segundo as nossas obras, diz ele, mas segundo o Seu próprio propósito e graça, isto é, ninguém O obrigando, ninguém O aconselhando, mas por Seu próprio propósito, pelo impulso de Sua própria bondade, Ele nos salvou; pois este é o sentido de segundo o Seu próprio propósito. O qual nos foi dado antes que o mundo começasse. Isto é, foi determinado sem princípio que estas coisas se fizessem em Cristo Jesus. Não é consideração leve esta, que desde o princípio Ele o quis. Não foi pensamento posterior. Como, pois, não é o Filho eterno? Pois também Ele o quis desde o princípio.
Vês o poder, vês o dom outorgado não pelas obras, mas por meio do Evangelho. Estes são objetos de esperança: pois ambos se operaram em Seu Corpo. E como se operarão nos nossos? Pelo Evangelho.
Por que repete ele tão constantemente isto, e se chama mestre dos gentios? Porque deseja persuadi-los de que também eles devem aproximar-se dos gentios. Não vos perturbeis, pois, com os meus sofrimentos. Os nervos da morte estão desatados. Não é como malfeitor que sofro, mas porque sou mestre dos gentios. Ao mesmo tempo, torna seu discurso digno de crédito.
Que é "o que me foi confiado"? A fé, a pregação do evangelho. Deus, que nos confiou isto, o preservará incólume. Sofro tudo, para que não seja despojado deste tesouro. Não me envergonho destas coisas, contanto que a fé se conserve incólume. Ou, por "o que me foi confiado", pode ele estar referindo-se ao povo fiel que Deus lhe confiou.
Não estou envergonhado, diz ele. Pois serão as cadeias, serão os sofrimentos motivo para vergonha? Não vos envergonheis, portanto! Vede como ele ilustra o seu ensino por suas obras. Estas coisas, diz ele, eu sofro: sou lançado no cárcere, sou desterrado; porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito até àquele Dia. Que é o que se depositou? A fé, a pregação do Evangelho. Aquele que lhe confiou isto, diz ele, o preservará incólume. Sofro tudo, para que não seja espoliado deste tesouro, e não me envergonho destas coisas, contanto que ele se conserve ileso. Ou então chama de "depósito" aos fiéis que Deus lhe confiou, ou que ele confiou a Deus. Pois diz: Agora vos entrego ao Senhor (At 20,32). Isto é, estas coisas não me serão infrutuosas. E em Timóteo se vê o fruto do depósito assim confiado. Vede como ele se mostra insensível aos sofrimentos, pela esperança que deposita em seus discípulos.
Moral. Tal deve ser o Mestre: que assim considere os seus discípulos, que os tenha por tudo. Agora vivemos, diz ele, se vós permaneceis firmes no Senhor. E de novo: Qual é, com efeito, a nossa esperança, ou alegria, ou coroa de glória? Não sois vós mesmos, diante de nosso Senhor Jesus Cristo? (1 Ts 3:8; 2:19) Vede nisto a sua solicitude, o seu zelo pelo bem dos discípulos, não menor que pelo seu próprio. Pois convém que os mestres superem os pais segundo a carne, que sejam mais zelosos do que eles. E convém que os filhos lhes sejam afeiçoados com benevolência. Pois diz ele: Obedecei a vossos guias, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como quem há de dar conta delas (Hb 13:17). Dizei-me: está ele sujeito a tão perigosa responsabilidade, e não quereis vós obedecer-lhe, sendo isso mesmo para proveito vosso? Pois ainda que o seu próprio estado seja bom, contudo, enquanto vós estiverdes em má condição, permanece a sua solicitude, e ele há de prestar dupla conta. E considerai o que é ser responsável e solícito por cada um dos que estão sob o seu governo. Que honra reputaríeis vós equivalente, que serviço, em retribuição de tais perigos? Não podeis oferecer equivalente algum. Pois vós ainda não entregastes a vossa alma por ele, mas ele entrega a sua vida por vós; e, se não a entrega aqui, quando a ocasião o exige, perdê-la-á Ali. Mas vós nem sequer de palavra quereis submeter-vos. Esta é a causa primordial de todos estes males: que se despreza a autoridade dos que governam, que não há reverência, nem temor. Diz ele: Obedecei a vossos guias, e sujeitai-vos a eles. Mas agora tudo está invertido e confundido. E isto não o digo por causa dos que governam (pois que proveito terão eles da honra que deles recebemos, senão na medida em que somos tornados obedientes?), mas digo-o para vosso proveito. Pois, quanto ao futuro, não serão eles beneficiados pela honra que lhes prestais, antes receberão maior condenação; nem serão, quanto ao futuro, prejudicados pelo mau trato, antes terão maior escusa. Mas tudo isto desejo eu que se faça por vossa própria causa. Pois, quando os que governam são honrados pelo seu povo, também isto lhes é imputado; como se disse a respeito de Eli: Não o escolhi eu da casa de seu pai? (1 Sm 2:27) Mas quando são insultados, como no caso de Samuel, disse Deus: Não te rejeitaram a ti, mas a Mim rejeitaram (1 Sm 8:7). Portanto, o insulto é para eles ganho, e a honra, fardo. O que digo, pois, é por vossa causa, não pela deles. Quem honra o Sacerdote, honrará também a Deus; e quem aprendeu a desprezar o Sacerdote, com o tempo há de insultar a Deus. Quem vos recebe, diz Ele, a Mim recebe (Mt 10:40). Honra os meus sacerdotes, diz Ele (Eclo 7:31). Os judeus aprenderam a desprezar a Deus, porque desprezaram a Moisés, e o quiseram apedrejar. Pois quando alguém está piedosamente disposto para com o Sacerdote, muito mais o está para com Deus. E ainda que o Sacerdote seja mau, vendo Deus que vós o respeitais, embora indigno de honra, por reverência a Ele, Ele mesmo vos recompensará. Pois se aquele que recebe um profeta em nome de profeta receberá recompensa de profeta (Mt 10:41), certamente será recompensado aquele que honra, se submete e cede ao Sacerdote. Pois se, no caso da hospitalidade, quando não conheceis o hóspede, recebeis tão alta recompensa, muito mais sereis recompensados se obedecerdes àquele a quem Ele vos manda obedecer.
Os escribas e fariseus, diz Ele, assentam-se na cátedra de Moisés; observai, pois, e fazei tudo quanto vos disserem que observeis; mas não façais conforme as suas obras (Mt 23:2-3). Não sabeis vós o que é o Sacerdote? É um Anjo do Senhor. Acaso são palavras suas próprias as que profere? Se o desprezas, não é a ele que desprezas, mas a Deus que o ordenou. Mas como se manifesta, perguntas, que ele foi ordenado por Deus? Ora, se supões o contrário, vã se torna a tua esperança. Pois se Deus nada opera por seu intermédio, tu não tens Pia batismal alguma, nem és participante dos Mistérios, nem do benefício das Bênçãos; não és, portanto, cristão. Que então, dizes, ordena Deus a todos, ainda aos indignos? Deus, na verdade, não ordena a todos, mas opera através de todos, ainda que eles próprios sejam indignos, para que o povo seja salvo. Pois se Ele falou, por amor do povo, por meio de uma jumenta, e por meio de Balaão, homem perversíssimo, muito mais falará pela boca do Sacerdote. Que, na verdade, não fará ou não dirá Deus por nossa salvação? Por quem não age Ele? Pois se Ele operou por meio de Judas e daqueles outros que profetizaram, aos quais dirá: Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, obreiros da iniquidade (Mt 7:22-23); e se outros expulsaram demônios (Sl 6:8), não operará Ele muito mais por meio dos Sacerdotes? Pois se nos puséssemos a investigar a vida de nossos superiores, tornar-nos-íamos então ordenadores de nossos próprios mestres, e tudo seria confusão; os pés estariam por cima, a cabeça embaixo. Ouve a Paulo dizendo: Mas a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por juízo humano (1 Cor 4:3). E ainda: Por que julgas o teu irmão? (Rm 14:10). Pois se não nos é lícito julgar o nosso irmão, muito menos o nosso mestre. Se Deus ordena isto, na verdade, fazes bem, e pecas se não o fizeres; mas se é o contrário, não ouses fazê-lo, nem tentes transpor os limites que estão traçados. Depois que Arão fez o bezerro de ouro, Coré, Datã e Abirão levantaram uma insurreição contra ele. E não pereceram eles? Atenda cada um ao seu próprio ofício. Pois se ele ensina doutrina pervertida, ainda que seja um anjo, não lhe obedeças; mas se ensina a verdade, não atentes à sua vida, mas às suas palavras. Tens a Paulo para te instruir no que é reto, tanto por palavras quanto por obras. Mas dizes: Ele não dá aos pobres, não governa bem. Donde sabes isto? Não censures antes de estares informado. Teme a grande prestação de contas. Muitos juízos se formam sobre mera opinião. Imita o teu Senhor, que disse: Descerei agora, e verei se em tudo têm agido conforme o clamor que chegou a Mim; e se não, o saberei (Gn 18:21). Mas se indagaste, e te informaste, e viste; aguarda ainda o Juiz, e não usurpes o ofício de Cristo. A Ele pertence, e não a ti, fazer esta investigação. Tu és um servo inferior, não um senhor. Tu és uma ovelha; não sejas curioso a respeito do pastor, para que não tenhas de dar conta das acusações que contra ele levantaste. Mas dizes: Como me ensina ele aquilo que ele próprio não pratica? Não é ele quem te fala. Se é a ele que obedeces, não tens recompensa. É Cristo quem assim te admoesta. E que digo eu? Nem mesmo a Paulo deverias obedecer, se ele falasse de si mesmo, ou de algo humano, mas ao Apóstolo, que tem Cristo falando nele. Não julguemos nós a conduta uns dos outros, mas cada um a sua própria. Examina a tua própria vida.
Mas dizes: Ele deveria ser melhor do que eu. Por quê? Porque é Sacerdote. E não é ele superior a ti em seus labores, em seus perigos, em seus ansiosos combates e tribulações? Mas, se ele não é melhor, deves tu, por isso, destruir-te a ti mesmo? Estas são palavras de arrogância. Pois como não seria ele melhor do que tu? Ele rouba, dizes, e comete sacrilégio! Como sabes isto? Por que te lanças a um precipício? Se ouvisses dizer que fulano possui uma veste de púrpura, ainda que soubesses ser verdade, e pudesses convencê-lo disso, recusas fazê-lo, e finges ignorância, não querendo correr um perigo desnecessário. Mas, neste caso, estás tão longe de ser reticente que, mesmo sem causa, te expões ao perigo. E não penses que não és responsável por estas palavras. Ouve o que diz Cristo: De toda palavra ociosa que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo (Mt 12,36). E julgas-te melhor do que outro, e não gemes, nem feres o peito, nem inclinas a cabeça, nem imitas o Publicano?
E, então, tu te destróis, ainda que sejas melhor. Cala-te, para que não deixes de ser melhor. Se falares disso, já desfizeste o mérito; se o pensares, não digo o mesmo; se não o pensares, terás acrescentado muito. Pois, se um pecador notório, ao confessar-se, voltou para casa justificado, aquele que peca em menor grau, e disso tem consciência, como não há de ser recompensado? Examina a tua própria vida. Tu não roubas; mas és rapace, e soberbo, e culpado de muitas outras coisas semelhantes. Não digo isto para defender o furto; Deus me livre! Lamenta profundamente, se há alguém verdadeiramente culpado disso, mas não o creio. Quão grande mal é o sacrilégio, impossível é dizê-lo. Mas poupo-te. Pois não quereria que a nossa virtude se tornasse vã por acusarmos os outros. Que houve pior do que o Publicano? Pois é verdade que ele era publicano, e culpado de muitas ofensas, contudo, porque o Fariseu apenas disse: Não sou como este publicano, destruiu todo o seu mérito. Não sou, dizes tu, como este Sacerdote sacrílego. E não tornas, assim, tudo em vão?
Sou constrangido a dizer isto, e a insistir sobre isso em meu discurso, não tanto porque me preocupo com eles, mas porque temo por vós, para que não torneis vã a vossa virtude com esta jactância de vós mesmos, e esta condenação dos outros. Pois ouvi a exortação de Paulo: Prove cada um a sua própria obra, e então terá motivo de glória em si mesmo somente, e não em outro (Gl 6,4).
Se tivésseis uma ferida e fôsseis a um médico, dizei-me, impediríeis a mão dele de curar e cobrir a vossa ferida, e vos poríeis a indagar curiosamente se o médico tinha ou não uma ferida? E se a tivesse, importar-vos-íeis com isso? Ou, porque a tinha, deixaríeis de curar a vossa e diríeis: "O médico deveria estar em perfeita saúde, e, visto que não está, deixarei minha ferida por curar"? Pois será alguma escusa para aquele que está sob obediência que o seu Sacerdote seja mau? De modo algum. Ele sofrerá o castigo destinado, e vós também recebereis o que vos é devido. Pois o Mestre agora apenas ocupa um lugar. Porquanto está escrito: Todos serão ensinados por Deus (Jo 6,45; Is 54,13). E não dirão: Conhecei ao Senhor. Porque todos hão de conhecer-Me, desde o menor até o maior (Jr 31,34). Por que, então, direis vós, ele preside? Por que é posto sobre nós? Rogo-vos, não faleis mal de nossos mestres, nem os chameis a tão rigorosa conta, para que não atraiamos sobre nós mesmos algum mal. Examinemo-nos a nós mesmos, e não falaremos mal dos outros. Reverenciemos aquele dia em que ele nos iluminou. Aquele que tem pai, quaisquer que sejam as suas faltas, oculta-as todas. Pois está dito: Não te glories na desonra de teu pai, porque a desonra de teu pai não é glória para ti. E se o seu entendimento falhar, tende paciência com ele (Sir 3,10-12). E se isto se diz de nossos pais segundo a carne, muito mais se deve dizer de nossos pais espirituais. Reverenciai-o, porquanto todos os dias vos ministra, faz ler-vos as Escrituras, põe em ordem a casa para vós, vela por vós, ora por vós, permanece implorando a Deus em vosso favor, oferece súplicas por vós, e todo o seu culto é por vós. Reverenciai tudo isto, pensai nisto, e aproximai-vos dele com piedoso respeito. Não digais: ele é mau. E que importa isso? Porventura aquele que não é mau confere de si mesmo estes grandes benefícios? De modo algum. Tudo opera segundo a vossa fé. Nem mesmo o justo pode beneficiar-vos, se sois infiéis, nem o injusto vos pode prejudicar, se sois fiéis. Deus, quando quis salvar o Seu povo, operou pela arca por meio de bois (1 Sm 6,12). É a boa vida ou a virtude do Sacerdote que vos confere tanto bem? Os dons que Deus concede não são de tal natureza que sejam efeitos da virtude do Sacerdote. Tudo é da graça. A parte dele é apenas abrir a boca, enquanto Deus opera tudo: o Sacerdote apenas realiza um símbolo. Considerai quão grande era a distância entre João e Jesus. Ouvi João dizendo: Eu necessito ser batizado por Ti (Mt 3,14), e: De cujo calçado não sou digno de desatar a correia (Jo 1,27). Contudo, não obstante esta diferença, o Espírito desceu. O qual João não possuía. Pois de Sua plenitude, está dito, todos nós recebemos (Jo 1,16). Ainda assim, Ele não desceu senão depois que Jesus foi batizado. Mas tampouco foi João quem O fez descer. Por que, então, se faz isto? Para que aprendais que o Sacerdote realiza um símbolo. Nenhum homem difere tanto de outro homem quanto João diferia de Jesus, e, contudo, com ele o Espírito desceu, para que aprendamos que é Deus quem opera tudo, que tudo é obra de Deus. Estou prestes a dizer o que pode parecer estranho, mas não vos espanteis nem vos perturbeis com isso. A Oferenda é a mesma, quer a ofereça um homem comum, quer Paulo, quer Pedro. É a mesma que Cristo deu aos Seus discípulos, e que os Sacerdotes agora ministram. Esta não é, de modo algum, inferior àquela, porque não são os homens que santificam esta também, mas o Mesmo que santificou aquela santifica também esta.
Assim como as palavras que Deus proferiu são as mesmas que agora o sacerdote pronuncia, também a Oferenda é a mesma, e o mesmo o Batismo que Ele instituiu. Assim, tudo procede da fé. O Espírito desceu imediatamente sobre Cornélio, porque este já havia cumprido a sua parte, contribuindo com sua fé. E este é o Seu Corpo, tal como aquele. E quem julga o um inferior ao outro, não sabe que Cristo, ainda agora, está presente, ainda agora opera. Sabendo, pois, estas coisas, que não dissemos sem razão, mas para conformar as vossas mentes no que é reto, e para vos tornar mais seguros para o futuro, guardai cuidadosamente na memória o que foi dito. Pois, se formos sempre ouvintes e nunca praticantes, nenhum proveito colheremos do que foi ensinado. Atentemos, pois, diligentemente às coisas ditas. Imprimamo-las em nossas mentes. Tenhamo-las sempre gravadas em nossas consciências, e atribuamos continuamente a glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo.
Não somente por cartas instruiu Paulo o seu discípulo no cumprimento do dever, mas também, antes disso, por palavras, como ele próprio demonstra, tanto em muitas outras passagens — como quando diz: quer por palavra, quer por nossa epístola (2 Ts 2,15) — quanto especialmente aqui. Não suponhamos, pois, que algo referente à doutrina lhe tenha sido transmitido de modo imperfeito. Pois muitas coisas ele lhe entregou sem as escrever. Destas, portanto, ele o faz lembrar, quando diz: Guarda a forma das sãs palavras que de mim ouviste. À maneira dos artistas, imprimi em ti a imagem da virtude, fixando em tua alma uma espécie de regra, e modelo, e esboço de tudo quanto é agradável a Deus. Guarda, pois, estas coisas, e, quer estejas meditando alguma questão de fé, ou de caridade, ou de sã mente, forma a partir daí as tuas noções acerca delas. Não será necessário recorrer a outros em busca de exemplos, quando tudo já foi depositado dentro de ti mesmo.
À maneira dos artistas, diz Paulo, imprimi em ti a imagem da virtude, fixando em tua alma uma espécie de regra, e modelo, e esboço de tudo quanto é agradável a Deus. Guarda estas coisas, quer estejas meditando alguma questão de fé, ou de caridade, ou de sã mente. Forma, doravante, as tuas noções segundo este modelo.
Aquele bem que te foi confiado, guarda-o — como? — pelo Espírito Santo que habita em nós. Pois não está no poder de uma alma humana, instruída em coisas tão grandes, bastar-se a si mesma para guardá-las. E por quê? Porque há muitos ladrões, e densas trevas, e o diabo ainda de tocaia para armar ciladas contra nós; e não sabemos qual é a hora, qual a ocasião em que ele nos há de investir. Como, pois — quer ele dizer —, seremos capazes de guardá-las? Pelo Espírito Santo; isto é, se tivermos o Espírito conosco, se não expulsarmos a graça, Ele há de assistir-nos. Pois, se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela (Sl 127,1). Este é o nosso muro, este o nosso castelo, este o nosso refúgio. Se, portanto, Ele habita em nós, e é Ele mesmo o nosso guarda, que necessidade há do preceito? A de que O guardemos firmemente, O conservemos, e não O expulsemos por nossas más obras.
Parece que havia então em Roma muitas pessoas provenientes das regiões da Ásia. "Mas ninguém me assistiu", diz ele. Ninguém me reconheceu. Todos se alienaram. Notai o que a sua alma ama. Ele apenas menciona a conduta deles. Não os amaldiçoa, mas louva àquele que lhe mostrou bondade e invoca sobre ele mil bênçãos, sem qualquer maldição sobre os outros.
Em seguida, descreve ele as suas provações e tentações, não para deprimir o seu discípulo, mas para elevá-lo, a fim de que, se algum dia caísse nas mesmas, não as estranhasse, ao recordar, olhando para trás, o que sucedeu ao seu Mestre. Que diz ele, pois? Visto ser provável que Timóteo viesse a ser preso, e abandonado, e não recebesse nem atenção amiga, nem influência, nem auxílio algum, mas fosse desamparado até mesmo pelos seus amigos e pelos próprios fiéis, ouvi o que ele diz: Sabes isto, que todos os que estão na Ásia se apartaram de mim. Parece que havia então em Roma muitas pessoas provenientes das regiões da Ásia. Mas ninguém me assistiu, diz ele, ninguém me reconheceu, todos se alienaram. E observai a filosofia da sua alma. Ele apenas menciona a conduta deles; não os amaldiçoa, mas louva àquele que lhe mostrou bondade, e invoca sobre ele mil bênçãos, sem qualquer maldição sobre os outros. Dentre os quais são Figelo e Hermógenes. O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me confortou, e não se envergonhou das minhas cadeias; antes, estando em Roma, com toda diligência me buscou e me achou. Observai como em toda parte ele fala da vergonha, e não do perigo, para que Timóteo não se alarmasse. E, no entanto, era coisa cheia de perigo. Pois ofendeu a Nero ao fazer amizade com um dos seus prisioneiros. Mas, estando em Roma, diz ele, não só não evitou o convívio comigo, como me buscou com grande diligência, e me achou.
Tais devem ser os fiéis — como Onesíforo. Nem o medo, nem as ameaças, nem a desonra devem detê-los de socorrer uns aos outros, permanecendo ao seu lado e amparando-os como na guerra. Pois não beneficiam tanto aos que estão em perigo quanto a si mesmos, pelo serviço que lhes prestam, fazendo-se partícipes das coroas a eles devidas…. Pois assim como no serviço dos reis, não somente os que combatem a batalha, mas também os que guardam a bagagem, participam da honra. Mais ainda, frequentemente têm igual quinhão dos despojos, ainda que não tenham embebido as mãos em sangue, nem se tenham posto em formação, nem sequer visto as fileiras do inimigo. Assim é nestes combates. Pois aquele que alivia o combatente, quando este se acha esgotado pela fome, que permanece ao seu lado, animando-o com palavras e prestando-lhe todo serviço, não é inferior ao combatente.
Tais devem ser os fiéis. Nem o temor, nem as ameaças, nem a desonra devem dissuadi-los de se auxiliarem mutuamente, permanecendo ao lado uns dos outros e socorrendo-se como em uma guerra. Pois não é tanto aos que estão em perigo que eles beneficiam, quanto a si mesmos, pelo serviço que lhes prestam, tornando-se participantes das coroas a eles devidas. Por exemplo: acaso algum daqueles que são devotados a Deus é visitado pela aflição e pela angústia, sustentando o combate com grande fortaleza, enquanto tu ainda não foste conduzido a este combate? Está em teu poder, se o quiseres, sem entrares na disputa, seres partícipe das coroas reservadas para ele, permanecendo ao seu lado, preparando-lhe o ânimo, e animando-o e incitando-o. Por isso Paulo diz em outro lugar: Fizestes bem em comunicar com a minha aflição. Pois até em Tessalônica me enviastes, uma vez e ainda outra, para a minha necessidade (Fp 4,14-16). E como poderiam aqueles que estavam longe partilhar da aflição daquele que não estava com eles? Como? Ele diz: enviastes uma vez e ainda outra para as minhas necessidades. E novamente diz, falando de Epafrodito: Porque esteve perto da morte, não considerando a própria vida, a fim de suprir o que faltava ao vosso serviço para comigo (Fp 2,30). Pois assim como no serviço dos reis, não somente os que combatem a batalha, mas também os que guardam a bagagem, participam da honra — e não apenas isso, mas frequentemente têm até uma porção igual dos despojos, ainda que não tenham tingido as mãos de sangue, nem se tenham posto em formação, nem sequer visto as fileiras do inimigo — assim é nestes combates. Pois aquele que socorre o combatente, quando este está exausto pela fome, que permanece ao seu lado, encorajando-o com palavras e prestando-lhe todo serviço, este não é inferior ao combatente.
Não suponhas, com efeito, que Paulo era o combatente, aquele invencível e irresistível; mas antes algum dentre a multidão, que, se não tivesse recebido muita consolação e encorajamento, talvez não tivesse permanecido firme, não teria combatido. Assim, aqueles que estão fora do combate podem porventura ser a causa da vitória para aquele que nele está engajado, e podem ser participantes das coroas reservadas ao vencedor. E que maravilha há, se aquele que comunica com os vivos é considerado digno das mesmas recompensas que os que combatem, uma vez que é possível comunicar, mesmo depois da morte, com os que partiram, com os que dormem, que já estão coroados, que de nada carecem? Pois ouve Paulo dizendo: Participando das memórias dos Santos. E como se pode fazer isto? Quando admiras um homem, quando praticas alguns daqueles atos pelos quais ele foi coroado, tornas-te evidentemente participante de seus trabalhos e de suas coroas.
O Senhor lhe conceda achar misericórdia do Senhor naquele dia. Ele teve compaixão de mim, diz o Apóstolo, terá, portanto, semelhante retribuição naquele Dia terrível, quando teremos necessidade de muita misericórdia. O Senhor lhe conceda achar misericórdia do Senhor. Há, pois, dois Senhores? De modo algum. Mas para nós há um só Senhor, Jesus Cristo, e um só Deus (1 Cor 8:6). Eis aqui que os infectados pela heresia de Marcião assaltam esta expressão; mas aprendam eles que este modo de falar não é incomum na Escritura; como quando se diz: Disse o Senhor ao meu Senhor (Sl 110:1); e ainda: Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Senhor (Sl 16:2); e: O Senhor fez chover fogo do Senhor (Gn 19:24). Isto indica que as Pessoas são da mesma substância, não que haja distinção de natureza. Pois não devemos entender que existem duas substâncias diferentes entre si, mas duas Pessoas, sendo cada uma da mesma substância.
Observai também que ele diz: O Senhor lhe conceda misericórdia. Pois assim como ele mesmo havia obtido misericórdia de Onesíforo, também desejava que este a obtivesse de Deus. Moral. E se Onesíforo, que se expôs ao perigo, é salvo pela misericórdia, muito mais também nós somos salvos pela mesma. Pois terrível é, em verdade terrível, aquela prestação de contas, e tal que necessita de grande amor para com os homens, a fim de que não ouçamos aquela sentença pavorosa: Apartai-vos de mim... nunca vos conheci, vós que praticais a iniquidade (Mt 7:23); ou aquela palavra temível: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos (Mt 25:41); a fim de que não ouçamos: Entre nós e vós há um grande abismo posto (Lc 16:26); a fim de que não ouçamos aquela voz cheia de horror: Tomai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; a fim de que não ouçamos aquelas palavras cheias de terror: Servo mau e negligente (Mt 22:13 e 25:26). Pois verdadeiramente pavoroso e terrível é aquele tribunal. E, contudo, Deus é benigno e misericordioso. Ele é chamado Deus de misericórdias e Deus de toda consolação (2 Cor 1:3); bom como nenhum outro é bom, e benévolo, e manso, e cheio de compaixão, Ele que não quer a morte do pecador, mas que este se converta e viva (Ez 18:24; 33:11). De onde vem, pois, de onde vem aquele Dia tão cheio de agonia e angústia? Um rio de fogo rola diante de Sua face. Os livros de nossas obras são abertos. O próprio dia arde como uma fornalha, os anjos voam ao redor, e muitas fornalhas são preparadas. Como, pois, é Ele bom e misericordioso, e cheio de benevolência para com o homem? Precisamente nisto Ele é misericordioso, e nestas coisas manifesta a grandeza de Sua benevolência. Pois Ele nos apresenta estes terrores, para que, constrangidos por eles, sejamos despertados para o desejo do reino.
Ora, observai como, além de louvar a Onesíforo, ele especifica sua bondade: muitas vezes me reconfortou; qual atleta cansado, vencido pelo calor, este o reconfortou e fortaleceu em suas tribulações. E quantos serviços me prestou em Éfeso, bem o sabeis. Não somente em Éfeso, mas também aqui me reconfortou. Pois tal deve ser a conduta daquele que está vigilante e desperto para as boas obras: não trabalhar uma vez, ou duas, ou três, mas por toda a vida. Pois assim como o nosso corpo não é alimentado uma única vez, provido para sempre de sustento por toda a vida, mas necessita também de alimento diário, assim também nisto a piedade requer ser sustentada cada dia pelas boas obras. Pois nós mesmos temos necessidade de grande misericórdia. É por causa de nossos pecados que Deus, o Amigo dos homens, faz todas estas coisas — não que Ele mesmo delas necessite, mas faz tudo por nós. Por isso é que Ele as revelou todas e no-las deu a conhecer, e não somente no-las anunciou, mas também nos deu certeza delas pelo que fez. Ainda que fosse digno de crédito por Sua só palavra, para que ninguém pense que se diz por hipérbole, ou apenas à guisa de ameaça, temos ainda mais certeza por Suas obras. Como assim? Pelos castigos que Ele infligiu tanto pública quanto privadamente. E para que o aprendais pelos próprios exemplos: em certo tempo puniu a Faraó, em outro tempo trouxe sobre a terra um dilúvio de água, aquela destruição total, e ainda em outro tempo um dilúvio de fogo; e ainda agora vemos, em muitos casos, os ímpios sofrerem vingança e castigos, os quais são figuras do Inferno.
Pois, para que não adormeçamos e nos tornemos indolentes, e esqueçamos Sua palavra, Ele desperta as nossas mentes por meio de feitos, mostrando-nos, já aqui, tribunais, assentos de juízo e julgamentos. Haverá, pois, entre os homens tamanha consideração pela justiça, e Deus, de quem procede a própria ordenação destas coisas, não fará nenhum caso dela? É isto crível? Numa casa, numa praça, há um tribunal. O senhor senta-se diariamente em juízo sobre os seus servos, chama-os a prestar contas de suas faltas, castiga a uns e perdoa a outros. No campo, o lavrador e sua mulher estão diariamente em litígio. Num navio, o capitão é juiz, e num acampamento o general sobre os seus soldados, e em toda parte se podem ver processos judiciais. Nos ofícios, o mestre julga o aprendiz. Em suma, todos, pública e privadamente, são juízes uns dos outros. Em nada se descuida a consideração da justiça, e todos, em todo lugar, prestam contas de seus atos. E será que a busca pela justiça se espalha assim pelas cidades, pelas casas e entre os indivíduos, e não há nenhuma consideração pelo que é justiça lá, onde a destra de Deus está cheia de justiça (Sl 48,10), e Sua justiça é como os montes de Deus (Sl 36,6)?
Como é, pois, que Deus, o Juiz justo, forte e paciente (Sl 7,11, Septuaginta), suporta assim os homens, e não lhes exige castigo? Eis aqui a causa: Ele é longânimo, e por isso quer conduzir-te ao arrependimento. Mas, se permaneces no pecado, tu, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras para ti mesmo ira (Rm 2,5). Se, pois, Ele é justo, retribui segundo o merecimento, e não desconsidera os que padecem injustiça, mas os vinga; pois isto é próprio de quem é justo. Se é poderoso, requer conta após a morte, e na Ressurreição; pois isto pertence àquele que é poderoso. E, se por ser longânimo suporta os homens, não nos perturbemos, nem indaguemos por que não executa aqui a vingança. Pois, se assim fosse feito, já antes disto teria sido varrida toda a raça humana, se cada dia Ele nos pedisse conta de nossas transgressões, pois não há, na verdade não há, um único dia puro de pecado, mas em algo maior ou menor ofendemos; de modo que nenhum de nós teria chegado aos vinte anos de idade, se não fosse por Sua grande longanimidade e Sua bondade, que nos concede maior espaço para o arrependimento, a fim de que deponhamos as nossas passadas transgressões.
Cada um, pois, com a consciência reta, entrando em exame do que fez, e trazendo diante de si toda a sua vida, considere se não é merecedor de castigos e penas sem número. E quando se indignar por ver que alguém, culpado de muitas más ações, escapa impune, considere as suas próprias faltas, e cessará a indignação. Pois aqueles crimes parecem grandes porque se dão em matérias grandes e notórias; mas se ele indagar acerca dos seus, talvez os ache mais numerosos. Porque roubar e defraudar é a mesma coisa, seja feito por ouro ou por prata, visto que ambos procedem da mesma disposição de ânimo. Aquele que quiser furtar pouco não recusaria furtar muito, se lhe caísse ao alcance; e se não lhe cai, não é por escolha própria, mas por circunstância acidental. Um pobre que rouba a outro mais pobre não hesitaria em roubar ao rico, se pudesse. A sua contenção provém da fraqueza, e não da vontade. Tal homem, dizes, é um governante, e toma os bens daqueles que estão sob o seu governo. E dize-me: não roubas tu também? Não me digas que ele rouba talentos, e tu apenas alguns asses. Ao dar esmolas, uns lançam ouro, enquanto a viúva lançou duas moedinhas, e no entanto ela não contribuiu menos do que eles. Por quê? Porque se considera a intenção, e não a quantidade do dom. Ora, no caso das esmolas, farias assim julgar a Deus, e quererias, por causa da tua pobreza, receber não menor recompensa por dares duas moedinhas do que aquele que deposita muitos talentos de ouro? E não se aplica a mesma regra aos procedimentos injustos? Como se há de conciliar isto? Assim como aquela que contribuiu com duas moedinhas foi tida por igual aos maiores doadores, por causa da sua boa intenção, assim tu, que furtas duas moedinhas, és tão culpado quanto esses ladrões mais poderosos. Antes, se me é lícito dizer algo estranho, és pior ladrão do que eles. Porque um homem seria igualmente adúltero, quer cometesse o pecado com a mulher de um rei, quer com a de um pobre, quer com a de um escravo, visto que a ofensa não se julga pela condição das pessoas, mas pela maldade da vontade de quem a comete; assim é também neste caso. Antes, chamaria eu mais culpado ao que cometeu o pecado com uma pessoa inferior, do que ao que se envolveu com a própria rainha. Porque, neste caso, poder-se-iam alegar a riqueza, e a beleza, e outros atrativos, nenhum dos quais existe no outro. Por isso, o outro é o pior adúltero. Do mesmo modo, parece-me mais inveterado bêbado aquele que comete esse excesso com vinho ruim; assim é pior defraudador aquele que não despreza os pequenos furtos; pois quem comete grandes roubos talvez não se rebaixasse a pequenos furtos, ao passo que quem furta coisas pequenas jamais se absteria das maiores; por isso é o maior ladrão dos dois. Pois como desprezaria o ouro quem não despreza a prata? De modo que, quando acusamos os nossos governantes, recontemos as nossas próprias faltas, e nos acharemos mais inclinados à injustiça e ao roubo do que eles, a menos que julguemos o direito e o injusto antes pelo ato do que pela intenção do ânimo, como devêramos julgar. Se alguém for convencido de ter furtado os bens de um pobre, e outro os de um rico, não serão ambos igualmente punidos? Não é o homem igualmente homicida, quer mate a um pobre e disforme, quer a um rico e formoso?
Quando, pois, dizemos que fulano usurpou a terra alheia, reflitamos sobre as nossas próprias faltas, e então não condenaremos os outros homens, mas admiraremos a longanimidade de Deus. Não nos indignaremos porque o juízo não recai sobre eles, mas nos tornaremos mais lentos para cometer nós mesmos a iniquidade. Pois, quando percebermos que estamos sujeitos ao mesmo castigo, já não sentiremos tal descontentamento, e desistiremos das ofensas, e alcançaremos os bens vindouros, pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual, com o Pai, etc.
O jovem marinheiro, no mar, inspira-se de grande confiança se o mestre da nave foi preservado em um naufrágio. Pois não há de considerar que é pela inexperiência do mestre que se acha exposto à tempestade, mas pela natureza mesma das coisas, e isto não pouco efeito produz em seu ânimo. Também na guerra, o capitão que vê seu general ferido e depois restabelecido, muito se anima. E assim produz alguma consolação aos fiéis o ter o apóstolo sido exposto a grandes sofrimentos e não ter sido enfraquecido pelo extremo deles…. Pois se eu, Paulo, suporto estas coisas, muito mais deveis vós suportá-las. Se o mestre suporta muito, muito mais o discípulo. E esta exortação introduz ele com muito afeto, chamando-o "filho", e não somente isso, mas "meu filho". Se és filho, dá a entender, imita a teu pai.
O jovem marinheiro no mar enche-se de grande confiança quando o Mestre da nave se salvou de um naufrágio. Pois não considerará que é por inexperiência que se expõe à tempestade, mas pela natureza das coisas; e isto não pouco efeito produz em seu ânimo. Também na guerra, o soldado que vê seu General ferido e depois restabelecido muito se anima. Assim também produz alguma consolação aos fiéis que o Apóstolo tenha sido exposto a grandes sofrimentos, e não se tenha enfraquecido no extremo deles. E se assim não fosse, não teria ele relatado seus sofrimentos. Pois, ao ouvir Timóteo que aquele que possuía tão grandes poderes, que havia vencido o mundo inteiro, está preso e aflito, e contudo não se mostra impaciente nem descontente com o abandono de seus amigos, ele, se algum dia se visse exposto aos mesmos sofrimentos, não consideraria que isso procedesse de fraqueza humana, nem da circunstância de ser discípulo e inferior a Paulo, visto que também seu mestre padeceu o mesmo, mas que tudo isso sucede pelo curso natural das coisas. Pois o próprio Paulo fez isto, e relatou o que lhe havia sucedido, para que fortalecesse a Timóteo e renovasse seu ânimo. E mostra que foi por esta razão que mencionou suas provações e aflições, ao ter acrescentado: Tu, pois, meu filho, fortalece-te na graça que há em Cristo Jesus. Que dizes? Sacudiste-nos com terrores, disseste-nos que estás em cadeias, em aflições, que todos te abandonaram, e, como se não tivesses dito que padeceste coisa alguma, nem foste abandonado por ninguém, acrescentas: Tu, pois, meu filho, fortalece-te? — E com razão. Pois estas coisas eram para fortalecimento teu mais que dele. Se eu, Paulo, suporto estas coisas, muito mais deves tu suportá-las. Se o mestre, muito mais o discípulo. E introduz esta exortação com muita afeição, chamando-o filho, e não só isso, mas meu filho. Se és filho, quer dizer, imita a teu pai. Se és filho, fortalece-te em consideração das coisas que disse, ou antes, fortalece-te, não apenas pelo que te disse, mas em Deus. Fortalece-te, diz, na graça que há em Cristo Jesus; isto é, mediante a graça de Cristo. Isto é, permanece firme. Conheces a batalha. Pois em outro lugar diz: Não lutamos contra a carne e o sangue (Ef 6,12). E isto diz não para os deprimir, mas para os animar. Sede, pois, sóbrios, quer dizer, e vigiai, tende a graça do Senhor cooperando convosco e auxiliando-vos em vosso combate, contribuí com vossa parte com muita presteza e firmeza. E as coisas que ouviste de mim entre muitas testemunhas, essas mesmas confia a homens fiéis; a homens fiéis, não a questionadores nem a raciocinadores, mas a fiéis. Fiéis como? Tais que não traiam o Evangelho que devem pregar. As coisas que ouviste, não as que investigaste. Pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus (Rm 10,17). Mas por que entre muitas testemunhas? Como se dissesse: Não ouviste em segredo, nem à parte, mas na presença de muitos, com toda franqueza de palavra. Nem diz: Conta, mas confia, como um tesouro confiado se deposita em segurança. Novamente alarma o discípulo, tanto pelas coisas de cima como pelas de baixo. Mas não diz apenas confia a homens fiéis; pois de que aproveita que alguém seja fiel, se não é capaz de transmitir sua doutrina a outros? Quando, na verdade, não trai a fé, mas tampouco torna a outros fiéis? O mestre, portanto, deve ter duas qualidades: ser fiel e apto para ensinar; por isso diz: que sejam idôneos para ensinar também a outros.
Como se dissesse: Não ouviste em segredo, nem à parte, mas na presença de muitos, com toda franqueza de palavra.
"Tu, pois, deves suportar os tempos árduos como bom soldado de Jesus Cristo." ... Observai os reis da terra, quão grande honra se estima servir sob eles. Se, portanto, o soldado do rei deve suportar as durezas, não suportar as durezas não é próprio de soldado algum.
Endura, pois, os trabalhos como bom soldado de Jesus Cristo. Oh, quão grande dignidade é esta, ser soldado de Jesus Cristo! Observai os reis da terra, e quão grande honra se estima militar sob eles. Se, portanto, o soldado do rei deve suportar as fadigas, não suportar as fadigas não é próprio de soldado algum. De sorte que vos convém não vos queixardes, se suportais as fadigas, pois isso é próprio do soldado; mas antes vos queixardes, se não as suportais.
Tu és um soldado espiritual. Este gênero de soldado não dorme em leito de marfim, mas no chão. Não é ungido com óleos perfumados. Estas coisas são próprias daqueles homens corruptos que se demoram com cortesãs, daqueles que representam no teatro, daqueles que vivem descuidadamente. Tu não deves exalar perfumes, mas virtude.
Estas coisas são ditas, na verdade, a Timóteo, mas através dele são dirigidas a todo mestre e discípulo. Que ninguém, pois, daqueles que ocupam o ofício de Bispo, desdenhe ouvir estas coisas, mas que se envergonhe de não as praticar. Se alguém combate nos jogos, diz ele, não é coroado, a não ser que combata legitimamente. Que se entende por legitimamente? Não basta que entre nas lides, que seja ungido, e mesmo que se engaje no combate, se não observar todas as leis do exercício, quanto ao regime alimentar, à temperança e sobriedade, e todas as regras da escola de luta; a menos que, em suma, ele passe por tudo o que convém a um lutador, não é coroado. E observai a sabedoria de Paulo. Ele menciona lutadores e soldados, um para prepará-lo para a matança e o sangue, outro com referência à perseverança, para que suportasse tudo com fortaleza, e estivesse sempre em exercício.
Dizeis que suas vestes são pobres; mas a virgindade não reside nas vestes nem na compleição, senão no corpo e na alma. Não é estranho que tenhamos padrões diversos? Não julgaremos o filósofo por seus cabelos, ou por seu bastão, ou por sua túnica, mas por seu modo de vida, seu caráter e sua alma. Também o soldado não aprovaremos por seu manto ou seu cinturão, mas por sua força e virilidade. E, contudo, à virgem, que representa um estado tão admirável e superior a todos os outros, simplesmente e sem mais julgamos que pratica a virtude por causa do desalinho de seus cabelos, de seu semblante abatido e de seu manto cinzento. Não desnudamos sua alma para escrutar de perto seu estado interior. Mas aquele que estabeleceu as regras deste certame não permite isso. Ele ordena que os que nele entraram não sejam julgados por suas vestes, mas pelas convicções de suas almas. "Os atletas", diz Paulo, "abstêm-se de toda sorte de coisas", tudo o que pudesse perturbar a saúde da alma. "Se alguém toma parte num certame atlético, não pode receber a coroa do vencedor, a menos que tenha guardado as regras." Quais são, pois, as leis deste certame? Ouvi de novo suas palavras, ou antes, as do próprio Cristo, que instituiu o certame: "A virgem se preocupa com as coisas do Senhor, buscando a santidade no corpo e no espírito."
Em uma palavra, é absolutamente necessário a quem espera agradar a Deus e ser aceitável e puro não seguir uma vida relaxada, escorregadia e dissoluta, mas uma vida laboriosa, gemendo sob muito trabalho e suor. Pois ninguém é coroado, diz Paulo, "a menos que combata segundo as regras".
Que significa "legitimamente"? Não basta que ele entre na arena, que seja ungido, e mesmo que combata, a menos que cumpra todas as leis do exercício. Isso inclui as que concernem à dieta, à temperança e à sobriedade, e todas as regras da escola de luta. A menos que, em suma, ele passe por tudo o que convém a um lutador, não é coroado.
Havia ele primeiro falado a partir de seu próprio exemplo como mestre. Fala agora a partir daquilo que é mais comum, como os lutadores e os soldados, e no caso destes lhe propõe as recompensas. Primeiro, para que agrade àquele que o escolheu para ser soldado; segundo, para que seja coroado; agora propõe um terceiro exemplo, que mais particularmente lhe convém. Pois a figura do soldado e do lutador corresponde aos que estão sob comando, mas a do lavrador, ao Mestre. (Esforça-te) não apenas como soldado ou lutador, mas também como lavrador. O lavrador cuida não apenas de si mesmo, mas dos frutos da terra. Isto é, não pequena é a recompensa de seus labores que o lavrador desfruta.
Aqui ele mostra tanto que a Deus nada falta, quanto que há uma recompensa para o Magistério, o que demonstra por meio de um exemplo comum. Assim como o lavrador, diz ele, não labuta sem proveito, mas desfruta antes dos demais dos frutos de seus próprios trabalhos, assim convém que o mestre proceda: ou é isto o que ele quer dizer, ou fala da honra devida aos mestres, mas isto é menos consistente. Pois por que não diz simplesmente o lavrador, mas aquele que labuta? Não apenas aquele que trabalha, mas aquele que se desgasta com a labuta? E aqui, quanto à demora da recompensa, para que ninguém se impaciente, diz ele: já colhes o fruto, ou há uma recompensa no próprio labor. Quando, pois, propôs os exemplos dos soldados, dos lutadores e dos lavradores, e tudo figuradamente, diz ele: Ninguém é coroado senão combata legitimamente. E, tendo observado que o lavrador que labuta deve ser o primeiro a participar dos frutos, acrescenta,
É por esta razão que ele falou estas coisas em provérbio e parábola. E, novamente, para mostrar sua afeição, não cessa de orar por ele, como quem teme por seu próprio filho, e diz,
Por que razão é isto mencionado? É dirigido principalmente contra os hereges, e ao mesmo tempo para encorajar Timóteo, mostrando a vantagem dos sofrimentos, visto que Cristo, nosso Mestre, Ele mesmo venceu a morte padecendo. Lembra-te disto, diz ele, e terás consolação suficiente. Lembra-te de que Jesus Cristo, da semente de Davi, ressuscitou dos mortos. Pois quanto a este ponto muitos já haviam começado a subverter a economia divina, envergonhados da imensidão do amor de Deus para com a humanidade. Pois de tal natureza são os benefícios que Deus nos conferiu, que os homens se envergonhavam de atribuí-los a Deus, e não podiam crer que Ele se houvesse condescendido tanto. Segundo o meu Evangelho. Assim fala ele por toda parte em suas Epístolas, dizendo segundo o meu evangelho, seja porque estavam obrigados a crer nele, seja porque havia alguns que pregavam outro evangelho (Gl 1).
Por que é isto mencionado? É dirigido principalmente contra os hereges, e ao mesmo tempo para encorajar Timóteo, sublinhando as bênçãos divinas que acompanham os sofrimentos, visto que Cristo, nosso Mestre, Ele mesmo venceu a morte padecendo... Pois quanto a este ponto muitos já haviam começado a subverter a providência de Deus, envergonhados da imensidão do amor de Deus pela humanidade. Pois de tal natureza são os benefícios que Deus nos conferiu, que nos envergonhávamos de atribuí-los a Deus e não podíamos crer que Ele se houvesse condescendido tanto.
Nisto sofro tribulação, diz ele, como malfeitor, até às prisões. Novamente ele introduz consolação e encorajamento de si mesmo, e prepara a mente de seu ouvinte com estas duas coisas: primeiro, que soubesse dele que suporta as durezas; e, segundo, que não o fazia sem propósito útil, pois neste caso ganhará, naquele até sofrerá dano. Pois que vantagem há em mostrar que um Mestre se expôs à dureza, mas não para nenhum proveito? Mas se é para algum benefício, se para o proveito dos que são ensinados, então é digno de admiração. Mas a palavra de Deus não está presa. Isto é, se fôssemos soldados deste mundo, e travássemos uma guerra terrena, as correntes que prendem nossas mãos prevaleceriam. Mas agora Deus nos fez tais que nada pode subjugar-nos. Pois nossas mãos estão presas, mas não nossa língua, visto que nada pode prender a língua senão somente a covardia e a incredulidade; e onde estas não estão, ainda que nos acorrenteis, a pregação do Evangelho não está presa. Se, com efeito, acorrentardes um lavrador, impedis a sua semeadura, pois ele semeia com a mão; mas se acorrentardes um Mestre, não impedis a palavra, pois ela é semeada com a língua, não com a mão. Nossa palavra, portanto, não está sujeita a prisões. Pois ainda que estejamos presos, ela é livre, e corre o seu curso. Como? Porque, ainda que presos, eis que pregamos. Isto é para o encorajamento dos que são livres. Pois se nós, que estamos presos, pregamos, muito mais vos convém a vós, que sois livres, fazê-lo. Ouvistes que padeço estas coisas, como malfeitor. Não vos abatais. Pois é grande maravilha que, estando preso, eu faça a obra dos que são livres; que, estando preso, eu vença a todos; que, estando preso, eu prevaleça sobre os que me prenderam. Pois é a palavra de Deus, não a nossa. Correntes humanas não podem prender a palavra de Deus. Estas coisas sofro por causa dos eleitos.
Pois assim como não é possível prender um raio de sol ou encerrá-lo dentro de casa, tampouco pode ser presa a pregação da palavra. E o que é ainda mais notável: quando o mestre estava preso, a palavra voava para longe. Ele habitava a prisão, e, no entanto, o seu ensinamento alçava voo por toda parte, através do mundo inteiro! Homilias Sobre as Estátuas
Qualquer nuvem que passe sobre os nossos céus pode, de tempos em tempos, entristecer-nos. Mas o coração de Paulo não conhecia tais tempestades a assolá-lo. Ou, dito melhor, muitas tempestades sobre ele se abateram, e frequentemente, mas o seu dia não se escureceu. Antes, no meio das tentações e dos perigos, a luz resplandecia. Assim, estando acorrentado, ele continuava a proclamar: "A palavra de Deus não está presa." Assim, continuamente, por meio daquela língua, o Verbo enviava os seus raios.
Mas agora Deus nos fez de tal maneira que nada nos pode subjugar. Pois as nossas mãos estão presas, mas não a nossa língua, uma vez que nada pode prender a língua senão a covardia e a incredulidade. Onde estas não se encontram, ainda que nos lancem grilhões, a pregação do evangelho não fica presa.
A partir da sua própria história, ele traz uma vez mais consolação e encorajamento. Prepara o ânimo do seu ouvinte em duas etapas: primeiro, que este esteja pronto para suportar tempos difíceis; segundo, que o faça com finalidade proveitosa, ganhando ainda que padeça dano.
Eis aqui outro incentivo. Suporto estas coisas, diz ele, não por mim mesmo, mas pela salvação dos outros. Estava em meu poder ter vivido livre de perigo, não ter padecido nenhuma destas coisas, se tivesse consultado o meu próprio interesse. Por que razão, então, padeço estas coisas? Pelo bem dos outros, para que os outros alcancem a vida eterna.
Eis outro incentivo. Não suporto estas coisas, diz ele, por mim mesmo, mas pela salvação de outros. Estava em meu poder ter vivido livre de perigo, não ter padecido nenhuma destas coisas, se eu tivesse consultado meu próprio interesse. Por que razão, pois, padeço estas coisas? Pelo bem de outros, para que outros obtenham a vida eterna. Que, pois, prometes a ti mesmo? Não disse simplesmente por causa destas pessoas particulares, mas por causa dos eleitos. Se Deus os escolheu, convém-nos padecer tudo por causa deles. Para que eles também obtenham a salvação. Ao dizer, eles também, quer dizer, assim como nós. Pois Deus nos escolheu também a nós; e assim como Deus padeceu por nossa causa, assim devemos nós padecer pela causa deles. Trata-se, assim, de uma questão de retribuição, não de favor. Da parte de Deus foi graça, pois Ele, não tendo recebido benefício prévio algum, fez-nos o bem; mas de nossa parte é retribuição, pois havendo nós recebido previamente benefícios de Deus, padecemos por estes, por quem padecemos, a fim de que obtenham a salvação. Que dizes? Que salvação? Serás tu, que não foste o autor da salvação para ti mesmo, mas antes te destruías, o autor da salvação para outros? Certamente não, e por isso acrescenta, a salvação que está em Cristo Jesus; aquela que é verdadeiramente salvação, com glória eterna. As coisas presentes são aflitivas, mas estão apenas na terra. As coisas presentes são ignominiosas, mas são temporárias. Estão cheias de amargura e dor; mas duram apenas hoje e amanhã.
Não é assim a natureza dos bens, eles são eternos, estão no céu. Aquela é a verdadeira glória, esta é desonra.
Moral. Considerai, pois, vos rogo, amados, que não é glória a que está sobre a terra; a verdadeira glória está nos céus. Mas se alguém deseja ser glorificado, seja desonrado. Se deseja obter descanso, sofra aflição. Se alguém deseja ser para sempre ilustre, deseja gozar de deleite, despreze as coisas temporais. E que a desonra é glória, e a glória é desonra, ponhamo-lo agora diante de nós, tanto quanto nos seja possível, para que vejamos o que é a verdadeira glória. Não é possível ser glorificado sobre a terra; se queres ser glorificado, há de ser por meio da desonra. E provemo-lo nos exemplos de duas pessoas, Nero e Paulo. Um tinha a glória deste mundo, o outro a desonra. De que modo? O primeiro era um tirano, obtivera grande êxito, erguera muitos troféus, possuía riqueza que a todo momento afluía, numerosos exércitos por toda parte; tinha sob o seu domínio a maior parte do mundo e a cidade imperial, todo o senado prostrado diante dele, e o seu palácio também avançava com esplêndida pompa. Quando devia armar-se, saía trajado de ouro e pedras preciosas. Quando devia sentar-se em paz, sentava-se vestido de vestes purpúreas. Estava rodeado de numerosos guardas e servidores. Era chamado Senhor da terra e do mar, Imperador, Augusto, César, Rei, e outros tais nomes altissonantes que implicavam lisonja e adulação; e nada faltava que pudesse contribuir para a glória. Até homens sábios, potentados e soberanos tremiam diante dele. Pois, além de tudo isso, dizia-se que era homem cruel e violento. Chegou mesmo a querer ser tido por deus, e desprezava tanto todos os ídolos quanto o próprio Deus que está sobre todas as coisas. Era adorado como deus. Que maior glória que esta? Ou antes, que maior desonra? Pois — não sei como — minha língua é arrebatada pela força da verdade, e profere sentença antes do juízo. Entretanto, examinemos a questão segundo a opinião da multidão, e dos incrédulos, e a estima da lisonja.
Que há de maior, na comum estimação da glória, do que ser reputado deus? É, na verdade, grande vergonha que algum ser humano seja tão louco; mas, por ora, consideremos a questão segundo a opinião da multidão. Nada, pois, lhe faltava do que contribui para a glória humana, senão que era adorado por todos como deus. Ora, em contraposição a ele, consideremos Paulo. Era ele cilício, e a diferença entre Roma e a Cilícia todos a conhecem. Era fabricante de tendas, homem pobre, destituído da sabedoria dos de fora, conhecendo apenas a língua hebraica, língua desprezada por todos, especialmente pelos italianos. Pois não desprezam eles tanto a língua bárbara, a grega, ou qualquer outra, quanto a síria, e esta tem afinidade com a hebraica. E não vos admireis disto, pois se desprezavam a grega, que é tão admirável e bela, muito mais desprezariam a hebraica. Era homem que muitas vezes vivia em fome, muitas vezes se deitava sem alimento, homem que andava nu, e não tinha vestes que vestir; em frio e nudez, como ele mesmo diz de si (1 Cor 11:27). Nem foi só isto; mas foi lançado no cárcere por ordem do próprio Nero, e encerrado com salteadores, com impostores, com violadores de sepulcros, com homicidas, e foi, como ele mesmo diz, açoitado como malfeitor. Quem, pois, é o mais ilustre? O nome de um, a maior parte jamais o ouviu. O outro é diariamente celebrado por gregos, e bárbaros, e citas, e por aqueles que habitam as extremidades da terra.
Ainda não consideremos, porém, o que se dá agora, mas sim quem era, naquele mesmo tempo, o mais ilustre, o mais glorioso: aquele que estava acorrentado e era arrastado, preso, do cárcere, ou aquele que se revestia de púrpura e saía marchando de um palácio? O prisioneiro, certamente. Pois o outro, que tinha exércitos a seu comando e se assentava trajado de púrpura, não podia fazer o que queria. Mas o prisioneiro, que parecia um malfeitor, e vestia trajes humildes, podia fazer tudo com mais autoridade. Como assim? Aquele dizia: Não dissemineis a palavra de Deus. Este dizia: Não posso deixar de o fazer; "a palavra de Deus não está algemada". Assim o cilício, o prisioneiro, o pobre fazedor de tendas, que vivia em fome, desprezava o romano, por rico que fosse, e imperador, e senhor de tudo, que enriquecia a tantos milhares; e, com todos os seus exércitos, de nada lhe valeu. Quem, pois, era ilustre? Quem venerável? Aquele que, acorrentado, era vencedor, ou aquele que, revestido de púrpura, era vencido? Aquele que, estando abaixo, ferisse, ou aquele que, assentado no alto, era ferido? Aquele que ordenava e era desprezado, ou aquele que recebia ordens e não fazia caso delas? Aquele que, estando sozinho, saía vitorioso, ou aquele que, com numerosos exércitos, era derrotado? O rei, pois, saiu de tal maneira que seu prisioneiro triunfou sobre ele. Dizei-me, então, de que lado quereríeis estar? Pois não olheis para o que veio depois, mas para o que era então o seu estado. Preferiríeis estar do lado de Nero, ou de Paulo? Não falo segundo a estimativa da fé, pois essa é manifesta; mas segundo a estimativa da glória, da reverência e da preeminência. Todo homem de reto entendimento diria: do lado de Paulo. Pois, se vencer é mais ilustre que ser vencido, ele é mais glorioso. E não é ainda muito que vencesse, mas que, estando em tão humilde condição, vencesse a quem estava em condição tão elevada. Pois eu o digo, e não cessarei de o repetir: ainda que atado com uma cadeia, feriu, contudo, aquele que estava investido de diadema.
Tal é o poder de Cristo. A cadeia superou a coroa régia, e aquele traje se mostrou mais brilhante do que este. Revestido de trapos imundos, como habitante de um cárcere, ele voltava todos os olhos para as cadeias que pendiam sobre si, mais do que para o manto de púrpura. Estava em pé sobre a terra, atado e curvado, e todos deixavam o tirano montado em seu carro dourado para o contemplar. E com razão. Pois era costume ver-se um rei com cavalos brancos, mas era visão estranha e insólita ver um prisioneiro conversar com um rei com tanta confiança quanto um rei conversaria com um escravo mísero e desventurado. A multidão em redor era toda de escravos do rei, e, no entanto, não admiravam a seu senhor, mas àquele que era superior a seu senhor. E aquele diante de quem todos temiam e tremiam era pisado por um único homem, sozinho. Vede, pois, quão grande era o esplendor destas mesmas cadeias!
E que necessidade há de mencionar o que se seguiu depois destas coisas? O sepulcro de um não se vê em parte alguma; o do outro, porém, jaz na própria cidade régia, em esplendor maior que o de qualquer rei, ali mesmo onde venceu, onde ergueu o seu troféu. Se se faz menção de um, é com opróbrio, mesmo entre os seus, pois se diz que foi dissoluto. Mas a memória do outro é acompanhada em toda parte de bom testemunho, não somente entre nós, mas também entre os seus inimigos. Porque, quando a verdade resplandece, envergonha até os inimigos, e, se não o admiram pela fé, admiram-no ao menos pela ousadia e pela varonil liberdade. Um é proclamado por todas as bocas como coroado; o outro é carregado de opróbrios e acusações. Qual é, pois, o verdadeiro esplendor?
E, no entanto, não faço senão louvar o leão por suas garras, quando deveria falar das suas verdadeiras honras. E quais são estas? As que estão nos céus. Como virá ele com vestimenta resplandecente, ao lado do Rei do Céu! Como estará então Nero, triste e abatido! E se o que digo vos parece incrível e ridículo, ridículos sois vós por escarnecer daquilo que não é motivo de riso. Pois, se não credes no futuro, convencei-vos pelo passado. Ainda não chegou o tempo de ser coroado, e, no entanto, quão grande honra já alcançou o combatente! Que honra, pois, não obterá ele quando vier o Distribuidor dos prêmios! Ele estava entre estrangeiros, peregrino e forasteiro (Hb 11,13), e assim já é admirado: que bem não desfrutará quando estiver entre os seus? Agora a nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3,3); e, no entanto, aquele que está morto opera mais e é mais honrado que os vivos. Quando vier a nossa vida, de que não participará ele? Que não alcançará?
João morre, Deus o fez desfrutar dessas honras, não porque delas necessitasse. Pois se, quando ainda no corpo, ele desprezava a glória popular, muito mais a desprezará agora que está liberto do corpo. Nem só por isso Ele o fez desfrutar de honra, mas para que os que não creem no futuro se convençam a partir do presente. Digo que, quando houver a Ressurreição, Paulo virá com o Rei do Céu e desfrutará de bênçãos infinitas. Mas o incrédulo não se convencerá. Que ele creia, pois, a partir do presente. O fabricante de tendas é mais ilustre, mais honrado que o rei. Nenhum imperador de Roma jamais desfrutou de tão grande honra. O imperador é lançado fora e jaz, ninguém sabe onde. O fabricante de tendas ocupa o meio da cidade, como se fosse rei, e vivo. A partir destas coisas, crede também quanto ao futuro. Se ele desfruta de tão grande honra aqui, onde foi perseguido e desterrado, que não será ele quando vier no porvir? Se, sendo fabricante de tendas, foi tão ilustre, que será ele quando vier rivalizando com os raios do sol? Se, em tanta humildade, venceu tal magnificência, a quem, em sua vinda, não será ele superior? Podemos evitar esta conclusão? Quem não se comove com o fato de que um fabricante de tendas se tornou mais honrado que o mais honrado dos reis? Se aqui as coisas acontecem assim, para além do curso da natureza, muito mais o será no porvir. Se não credes no futuro, ó homem, crede no presente. Se não credes nas coisas invisíveis, crede nas coisas que são vistas: ou antes, crede nas coisas que são vistas, pois assim crereis nas coisas que são invisíveis. Mas, se não o quiserdes, bem poderemos dizer com o Apóstolo: Estamos limpos do vosso sangue (At 20,26); pois vos testemunhamos todas as coisas, e nada deixamos de dizer do que devêssemos dizer. Culpai-vos, pois, a vós mesmos, e a vós mesmos imputareis a pena do Inferno. Mas sejamos nós, meus amados filhos, imitadores de Paulo, não somente em sua fé, mas em sua vida, para que alcancemos a glória celestial e pisemos aos pés a glória que é daqui. Que nenhuma das coisas presentes nos atraia. Desprezemos as coisas visíveis, para que obtenhamos as celestiais, ou antes, para que por meio destas obtenhamos aquelas; mas que seja nosso propósito preeminente obter aquelas, das quais Deus conceda que sejamos todos considerados dignos, pela graça e benignidade, etc.
Assim também tu és feito rei, sacerdote e profeta no lavacro do batismo. És rei por teres arremessado por terra todas as obras da maldade e teres matado os teus pecados. És sacerdote naquilo que ofereces a ti mesmo a Deus, tendo sacrificado o teu corpo e sendo tu mesmo também imolado, "pois se morremos com ele", diz ele, "também com ele viveremos". És profeta, conhecendo o que há de ser, sendo inspirado por Deus e selado.
Mas como estamos "mortos com ele"? Esta morte refere-se tanto àquela do Lavacro quanto àquela dos sofrimentos.
Muitos dos homens mais fracos abandonam o esforço da fé e não suportam o diferimento da sua esperança. Buscam as coisas presentes e a partir destas formam o seu juízo acerca do futuro. Quando, portanto, a sua sorte aqui era a morte, os tormentos e as cadeias, e contudo ele diz que hão de chegar à vida eterna, não teriam crido, mas teriam dito: Que dizes tu? Quando vivo, morro; e quando morro, vivo? Nada prometes na terra, e dás no céu? As coisas pequenas não concedes; e ofereces as grandes? Para que ninguém, pois, argumente assim, ele torna indubitável a prova destas coisas, estabelecendo-a de antemão e dando sinais certos. Pois lembra-te, diz ele, que Jesus Cristo foi ressuscitado dos mortos, isto é, ressurgiu depois da morte. E agora, mostrando a mesma coisa, diz: Fiel é a palavra, que aquele que alcançou a vida celestial, alcançará também a vida eterna. De onde é fiel? Porque, diz ele, Se morrermos com Ele, também com Ele viveremos. Pois dize-me, havemos nós de participar com Ele nas coisas trabalhosas e penosas, e não havemos de participar nas coisas benéficas? Mas nem sequer um homem agiria assim, nem, se alguém tivesse escolhido sofrer aflição e morte com outro, lhe recusaria a participação no seu descanso, se a ele tivesse chegado. Mas como estamos mortos com Ele? Esta morte ele entende tanto a do Lavacro quanto a dos sofrimentos. Pois diz: Trazendo sempre no corpo o morrer do Senhor Jesus (2 Cor 4,10); e: Fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte (Rm 6,4); e: O nosso velho homem foi crucificado com Ele; e: Fomos plantados juntamente com Ele na semelhança da sua morte (Rm 6,5-6). Mas ele fala aqui também da morte pelas provações; e sobretudo isto, pois ele mesmo sofria provações quando o escreveu. E é isto que ele diz: Se sofremos a morte por causa d'Ele, não haveremos de viver por causa d'Ele? Isto não se deve pôr em dúvida. "Se sofremos, também com Ele reinaremos", não absolutamente reinaremos, mas se sofrermos, mostrando que não basta morrer uma só vez (o próprio bem-aventurado morria diariamente), mas havia necessidade de muita paciente perseverança; e especialmente Timóteo tinha necessidade dela. Pois não me fales, diz ele, dos teus primeiros sofrimentos, mas de que continues a sofrer.
Assim, rogo-vos, realizemos todas as nossas ações de tal modo que não deixemos de obter uma glória como esta. Obtê-la não é de modo algum difícil, se a desejarmos, nem árduo, se a ela nos aplicarmos. Pois, "Se perseverarmos, também reinaremos." Que significa "Se perseverarmos"? Se suportarmos pacientemente as tribulações e perseguições; se caminharmos pela senda estreita. A senda estreita é por natureza pouco atraente, mas se torna fácil quando escolhemos segui-la, por causa da nossa esperança no futuro.
Depois, do outro lado, ele o exorta, não a partir do bem, mas a partir do mal. Pois se os homens ímpios houvessem de participar das mesmas coisas, isto não seria nenhuma consolação. E se, tendo perseverado, houvessem de reinar com Ele, mas, não tendo perseverado, não houvessem de fato de reinar com Ele, mas não houvessem de sofrer mal pior algum — ainda que isto fosse terrível — contudo não bastaria para afetar a maioria dos homens com temor. Por isso ele fala de algo ainda mais pavoroso. Se O negarmos, também Ele nos negará. De modo que há uma retribuição não só das coisas boas, mas também das contrárias. E considerai o que é provável que sofra aquele que é negado naquele reino. "Qualquer que me negar, também eu o negarei" (Mt 10,33). E a retribuição não é igual, ainda que pareça assim expressa. Pois nós, que O negamos, somos homens; mas Aquele que nos nega é Deus; e quão grande é a distância entre Deus e o homem, não é necessário dizer.
Portanto, "Ele nada pode fazer de si mesmo" não significa outra coisa senão que nada pode fazer em oposição a seu Pai, nada diferente, nada alheio. Este é um atributo que pertence especialmente a quem está dando prova de sua igualdade com o Pai e também de perfeita concordância. Mas por que ele não diz "Ele nada faz em oposição", em vez de "Ele não pode"? Foi para que mostrasse, mais uma vez, a partir disto, que sua igualdade é inabalável e completa. Esta afirmação não implica nenhuma fraqueza nele, mas atesta seu grande poder. Além disso, Paulo diz em outro lugar acerca do Pai: "Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta"; e ainda: "Se o negamos, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a Si mesmo". Ora, esta palavra "não pode" não indica, certamente, fraqueza, mas força; e, na verdade, força inefável.
Além disso, nós é que a nós mesmos prejudicamos; a Ele não podemos prejudicar. E para mostrar isto, ele acrescentou: Se não cremos, Ele permanece fiel: Ele não pode negar-se a Si mesmo; isto é, se não cremos que ressuscitou, Ele não é prejudicado por isso. Ele é fiel e inabalável, quer o digamos, quer não. Se, pois, Ele não é de modo algum prejudicado por nossa negação, é por nenhum outro motivo senão para nosso próprio benefício que Ele deseja a nossa confissão. Pois Ele permanece o mesmo, quer o neguemos, quer não. Ele não pode negar-se a Si mesmo, isto é, o seu próprio Ser. Podemos dizer que Ele não existe; ainda que tal não corresponda ao fato. Não está em sua natureza, não lhe é possível não ser, isto é, cair no não-ser. Sua subsistência sempre permanece, sempre é. Não sejamos, pois, de tal modo afetados, como se pudéssemos agradar-lhe ou prejudicá-lo. Mas para que ninguém pense que Timóteo necessitava deste conselho, ele acrescentou,
Destas coisas os admoesta, protestando-lhes diante do Senhor que não contendam por palavras para nenhum proveito, mas para subversão dos ouvintes. É coisa que impõe reverência tomar a Deus por testemunha do que dizemos, pois, se ninguém ousaria desprezar o testemunho de um homem quando a ele se apela, muito menos quando o apelo é feito a Deus. Se alguém, por exemplo, ao celebrar um contrato ou ao fazer seu testamento, quisesse chamar testemunhas dignas de crédito, transferiria alguém as coisas a quem não estivesse incluído? De modo algum. E ainda que o quisesse, temendo a credibilidade das testemunhas, evitá-lo-ia. Que significa protestar-lhes diante do Senhor? Toma Deus por testemunha tanto do que foi dito quanto do que foi feito.
Que não contendam por palavras para nenhum proveito; e não somente isso, mas para subversão dos ouvintes. Não só não há proveito algum nisso, como há muito dano. Destas coisas, pois, os admoesta, e, se te desprezarem, Deus os julgará. Mas por que os admoesta a não contender por palavras? Sabe que é coisa aprazível, e que a alma humana está sempre inclinada a contender e a disputar por palavras. Para se precaver disto, não só ordenou que não contendessem por palavras, como, para tornar seu discurso mais assustador, acrescenta: para subversão dos ouvintes.
Isto ele disse muito bem. Pois muitos distorcem o texto da Escritura e o pervertem de todas as maneiras, e a ele são feitos muitos acréscimos. Não disse "dirigindo", mas "dividindo retamente", isto é, cortando o que é espúrio, atacando-o com muita veemência e extirpando-o. Com a espada do Espírito, cortai de vossa pregação, como de uma correia, tudo o que é supérfluo e estranho a ela.
Estuda para apresentar-te aprovado diante de Deus, obreiro que não tem de que se envergonhar, dividindo retamente a palavra da verdade. Em toda parte, este não se envergonhar! E por que é ele sempre tão cuidadoso em guardá-lo do vexame? Porque era natural que muitos se envergonhassem tanto do próprio Paulo, por ser fabricante de tendas, quanto da pregação, visto que seus mestres pereciam. Pois Cristo havia sido crucificado, ele mesmo estava prestes a ser decapitado, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, e estas coisas padeceram eles às mãos de homens audaciosos e desprezíveis. Porque tais homens estavam no poder, diz ele: Não te envergonhes; isto é, não temas fazer coisa alguma que tenda à piedade, ainda que seja necessário submeter-se à escravidão ou a qualquer outro sofrimento. Pois como se torna alguém aprovado? Sendo obreiro que não tem de que se envergonhar. Como o obreiro não se envergonha de obra alguma, assim tampouco deve envergonhar-se aquele que labuta no Evangelho. Deve submeter-se a tudo.
Dividindo retamente a palavra da verdade. Isto ele disse muito bem. Pois muitos a distorcem, e a pervertem de todas as maneiras, e a ela são feitos muitos acréscimos. Não disse dirigindo-a, mas dividindo retamente, isto é, cortai o que é espúrio, atacai-o com muita veemência, e extirpai-o. Com a espada do Espírito, cortai de vossa pregação, como de uma correia, tudo o que é supérfluo e estranho a ela.
Pois não se deterão aí. Porquanto, quando algo de novo se introduz, este não cessa de produzir inovações, e o erro daquele que uma vez deixou o porto seguro é infinito e jamais se detém.
É um mal que não se pode conter, incurável por qualquer remédio, que destrói toda a estrutura. Mostra que a novidade da doutrina é uma enfermidade, e pior que uma enfermidade. E aqui dá a entender que eles são incorrigíveis, e que erraram não por fraqueza, mas por vontade própria.
Se a ressurreição já passou, não somente sofremos prejuízo por sermos privados daquela grande glória, mas também porque se suprime o juízo, e com ele a retribuição. Pois, se a ressurreição já passou, também a retribuição já passou. Os bons, portanto, colheram perseguições e aflições, e os ímpios não foram punidos; antes, vivem em grande prazer. Melhor seria dizer que não há ressurreição do que dizer que ela já passou.
Os que erraram acerca da verdade, dizendo que a ressurreição já se deu, e que subvertem a fé de alguns. Disse bem: "Crescerão em maior impiedade." Pois parece, na verdade, tratar-se de um mal isolado, mas vede que males dele brotam. Porque, se a Ressurreição já passou, não apenas sofremos perda por sermos privados daquela grande glória, mas porque o juízo é suprimido, e também a retribuição. Pois, se a Ressurreição já passou, também a retribuição já passou. Os bons, portanto, colheram perseguições e aflições, e os ímpios não foram punidos — antes, vivem em grande prazer. Melhor fora dizer que não há ressurreição, do que dizer que ela já se deu.
E subvertem, diz ele, a fé de alguns. De alguns, não de todos. Pois, se não há ressurreição, a fé é subvertida. Vã é a nossa pregação, nem Cristo ressuscitou; e, se Ele não ressuscitou, tampouco nasceu, nem subiu ao céu. Observai como este erro, embora pareça opor-se à doutrina da Ressurreição, arrasta consigo muitos outros males. Que faremos, pois, dirá alguém? Nada devemos fazer por aqueles que são subvertidos?
Estas são as marcas distintivas do fundamento. Um fundamento é firme. As letras são inscritas sobre a pedra para que as letras possam ser vistas. Mas estas letras se mostram pelas obras: "Tendo," diz ele, "este selo nele fixado: aquele que nomeia o nome do Senhor aparte-se da iniquidade." Assim, se alguém é injusto, não é do fundamento. Pertence, pois, ao selo não cometer o mal.
Todos foram sinalizados, ele mostra, mesmo antes de sua subversão, não eram firmes. Do contrário, não teriam sido derrubados ao primeiro ataque, como Adão era firme antes do preceito. Pois os que são firmes não somente não são prejudicados pelos enganadores, mas até são admirados.
E ele o chama de seguro, e de fundamento; assim devemos aderir à fé, tendo este selo: O Senhor conhece os que são Seus. Que é isto? Ele o tomou do Deuteronômio; isto é, as almas firmes permanecem fixas e imóveis. Mas de onde se manifestam? De terem estes caracteres inscritos em suas ações, de serem conhecidas por Deus, e de não perecerem com o mundo, e de se apartarem da iniquidade.
Todo aquele, diz ele, que invoca o nome do Senhor, aparte-se da iniquidade.
Estas são as marcas distintivas do fundamento. Assim como um fundamento se mostra firme, e como letras são inscritas em uma pedra para que as letras sejam significativas. Mas estas letras se mostram pelas obras: Tendo, diz ele, este selo nele fixado: Todo aquele que invoca o nome do Senhor aparte-se da iniquidade. Assim, se alguém é injusto, não é do fundamento. De modo que também isto pertence ao selo: não praticar a iniquidade.
Moral. Não deponhamos, pois, de nós o selo e o sinal régio, para que não sejamos daqueles que não estão selados, para que não sejamos inconsistentes, para que sejamos firmemente fundados, para que sejamos do fundamento, e não levados de um lado para outro. Isto marca os que são de Deus: que se apartam da iniquidade. Pois como pode alguém ser de Deus, que é justo, se pratica a iniquidade, se por suas obras se opõe a Ele, se O insulta por seus malfeitos? Novamente falamos contra a injustiça, e novamente temos muitos que nos são hostis. Pois esta paixão, como um tirano, tomou posse das almas de todos, e, o que é pior, não por necessidade nem violência, mas por persuasão e suave insinuação, e eles são gratos por sua escravidão. E esta é, na verdade, a desventura; pois se fossem retidos por coação e não por amor, logo se apartariam. E de onde vem que uma coisa amaríssima pareça doce? De onde vem que a justiça, que é coisa mui doce, se torna amarga? É a falta de nossos sentidos. Assim, alguns têm julgado amargo o mel, e tomado com prazer outras coisas que eram nocivas. E a causa não está na natureza das coisas, mas na perversidade dos que padecem. A faculdade judicativa da alma está desordenada. Assim como uma balança, se seu fiel é instável, oscila, e não mostra com exatidão o peso das coisas nela colocadas; assim a alma, se não tem o fiel de seus próprios pensamentos fixo, e firmemente cravado na lei de Deus, sendo levada em círculos e arrastada para baixo, não poderá julgar retamente as ações.
Pois se alguém examinar com atenção, perceberá a grande amargura da injustiça, não para os que a padecem, mas para os que a praticam, e mais para estes do que para aqueles. E não falemos das coisas futuras, mas, por ora, das coisas presentes. Não tem ela combates, julgamentos, condenação, malquerença, ultrajes? Que há de mais amargo que isto? Não tem ela inimizades, guerras e acusações? Que há de mais amargo que isto? Não tem ela a consciência que continuamente nos açoita e nos corrói? Se fosse possível, quisera eu retirar do corpo a alma do homem injusto, e vê-la-íeis pálida e trêmula, envergonhada, ocultando a cabeça, ansiosamente temerosa e autocondenada. Pois ainda que nos afundemos nos próprios abismos da maldade, a faculdade judicativa da mente não se destrói, mas permanece incorruptível. E ninguém persegue a injustiça pensando-a ser boa, mas inventa desculpas e recorre a todo artifício de palavras para desviar de si a acusação. Mas não consegue livrar-se dela quanto à consciência. Aqui, na verdade, a especiosidade das palavras, a corrupção dos governantes e as multidões de aduladores podem muitas vezes lançar a justiça na sombra; mas, no íntimo, a consciência não tem nada disso — ali não há aduladores, nem riquezas para corromper o juiz. Pois a faculdade de julgar foi naturalmente implantada em nós por Deus, e o que provém de Deus não pode ser assim corrompido. Mas sonos inquietos, fantasias que se avolumam, e as frequentes lembranças da culpa destroem o nosso repouso. Privou alguém, por exemplo, injustamente a outrem de sua casa? Não somente se torna infeliz aquele que foi roubado, mas também o homem que o roubou. Se está persuadido de um juízo futuro (se é que alguém está assim persuadido), geme sobremaneira e vive em miséria. Mas, se não crê no porvir, ainda assim se envergonha; ou antes, não há homem algum, seja grego, judeu ou herege, que não tema um juízo vindouro.
E ainda que não filosofe a respeito do porvir, contudo teme e treme diante do que lhe possa suceder aqui, para que não venha a sofrer alguma retribuição em seus bens, em seus filhos, em sua família ou em sua vida. Pois Deus inflige muitas visitações desta sorte. Pois, como a doutrina da Ressurreição não basta para trazer todos os homens à razão, Ele concede, já mesmo aqui, muitas provas do Seu justo juízo, e as expõe ao mundo. Um que adquiriu injustamente fica sem filhos; outro cai na guerra; outro é mutilado no corpo; outro perde o seu filho. Considera ele estas coisas, nelas se detém a sua imaginação, e vive em contínuo temor.
Não sabeis o que padecem os injustos? Não há amargura nestas coisas? E ainda que nada disto houvesse, não o condenam todos, e o odeiam e abominam, e o julgam menos racional que um animal irracional, mesmo aqueles que são eles próprios injustos? Pois, se a si mesmos se condenam, muito mais condenam a outro, chamando-o rapace, fraudulento, homem pestilento. Que prazer, pois, pode ele desfrutar? Não tem senão o cuidado mais pesado e a ansiedade de preservar seus ganhos, e o estar mais inquieto e perturbado. Pois quanto mais riqueza alguém acumula em torno de si, tanto mais penosa vigilância para si mesmo armazena. E que dizer das maldições daqueles a quem injustiçou, das suas queixas contra ele? E que, se a enfermidade vier a acometê-lo? Pois é impossível que aquele que caiu em enfermidade, por mais ateisticamente inclinado que seja, não se inquiete com estas coisas, não se torne pensativo, quando já nada pode fazer. Pois enquanto aqui estamos, a alma, deleitando-se, não tolera pensamentos penosos; mas quando está prestes a alçar voo do corpo, então maior temor a constrange, como quem entra nos próprios átrios do juízo. Até os salteadores, enquanto estão no cárcere, vivem sem temor; mas quando são conduzidos ao próprio véu do tribunal, sucumbem de terror. Pois, quando o temor da morte urge, como um fogo que tudo o mais consome, ele obriga a alma a filosofar e a cuidar do porvir. O desejo de riquezas, o amor do lucro e dos prazeres corporais já não a possuem. Passando estas coisas como nuvens, deixam livre a faculdade de julgar, e a dor, ao penetrar, abranda o coração endurecido. Pois nada é tão oposto à filosofia quanto uma vida de prazer; nem, por outro lado, há nada tão favorável à filosofia quanto a aflição. Considerai o que será então o homem cobiçoso. Pois uma hora de aflição, diz-se, faz o homem esquecer muito prazer (Eclo 2:27). Qual será então o seu estado, quando considerar aqueles a quem roubou, injuriou e defraudou, quando vir outros colhendo os frutos de sua rapina, e a si mesmo indo pagar a pena? Pois não pode, em verdade não pode ser, que, caído em enfermidade, não reflita sobre estas coisas. Pois frequentemente a alma, por si mesma, se distrai em agonia e terror. Que amargura é esta, dizei-me! E em toda enfermidade estas coisas hão de suportar-se. E que não sofrerá ele, quando vir outros castigados ou entregues à morte?
Estas coisas o esperam aqui. E quanto ao que lhe há de sobrevir na vida futura, não é possível dizer que castigo, que vingança, que tormentos, que suplícios lhe estão reservados Ali. Estas coisas anunciamos. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça (Lc 8.8). Discorremos sem cessar sobre estas coisas, não de bom grado, mas por necessidade. Pois quiséramos que não houvesse obrigação alguma de mencionar tais assuntos. Mas, uma vez que é necessário, quereríamos ao menos, por um pouco de medicina, livrar-vos de vossa enfermidade e restituir-vos à saúde. Ora, enquanto permaneceis nesta doença, seria sinal de espírito vil e fraco, para não dizer de crueldade e desumanidade, desistir do tratamento curativo. Pois, se quando os médicos desesperam de nossos corpos, nós lhes suplicamos que não nos negligenciem, que não cessem, até nosso último suspiro, de aplicar tudo quanto está em seu poder, não deveremos nós, com muito mais razão, exortar-nos a nós mesmos? Pois talvez, quando já tivermos chegado aos próprios portões do Inferno, ao vestíbulo mesmo da maldade, ainda seja possível recuperar-nos, renovar nossas forças, apossar-nos da vida eterna! Quantos, tendo ouvido dez vezes e permanecido insensíveis, converteram-se depois a uma só pregação! Ou antes, nem sequer a uma só pregação; pois, ainda que parecessem insensíveis aos dez discursos, ganharam algo, e depois mostraram de uma só vez fruto abundante. Pois assim como uma árvore pode receber dez golpes sem cair, e depois ser derrubada de uma só vez por um único golpe — contudo isso não se deve àquele golpe apenas, mas aos dez que tornaram este último eficaz. E isto é conhecido daquele que vê a raiz, ainda que o ignore aquele que contempla apenas o tronco por cima. Assim se dá também neste caso. E, com frequência, quando os médicos aplicaram muitos remédios, não se percebe benefício algum; mas depois alguém sobrevém e realiza a cura completa. Contudo, não é obra sua somente, mas destes que já haviam debilitado o mal. De sorte que, se agora não produzimos os frutos de haver ouvido a palavra, havemo-los de produzir mais tarde. Pois de que os produziremos estou plenamente persuadido. Não é possível, de fato não é possível, que um desejo tão ardente, um amor tão grande de ouvir, fique sem efeito. Deus não o permita! Antes, tornando-nos todos dignos das admoestações de Cristo, possamos alcançar as bênçãos eternas, etc.
Assim como numa grande casa é natural que haja grande diferença de vasos, assim também aqui, no mundo inteiro. Fala ele aqui não somente da Igreja, mas do mundo em geral. Pois não penseis, rogo-vos, que se refira à Igreja; porque ali não haveria vasos de madeira ou de barro, mas todos de ouro ou de prata, a qual é o corpo de Cristo, aquela "virgem pura, sem mácula, ou ruga, ou coisa semelhante".
Muitos ainda hoje se perturbam ao tentar explicar o fato de que os ímpios sejam sofridos a permanecer, e não sejam ainda destruídos. Sem dúvida, diversas razões podem ser atribuídas a isto, como a de que possam converter-se, ou de que, por seu castigo, sejam feitos exemplo para a multidão. Mas Paulo menciona aqui um caso semelhante. Pois diz:
Numa grande casa não há somente vasos de ouro e de prata, mas também de madeira e de barro. Mostrando com isto que, assim como numa grande casa é natural que haja grande diferença de vasos, assim também aqui, no mundo inteiro, pois não fala somente da Igreja, mas do mundo em geral. Porque não penseis, rogo-vos, que se refira à Igreja; pois ali não haveria vasos de madeira ou de barro, mas todos de ouro ou de prata, onde está o corpo de Cristo, onde está aquela virgem pura, sem mácula, ou ruga, ou coisa semelhante (Ef 5,27). E isto é o que ele quer dizer: Não vos perturbe o haver homens corruptos e ímpios. Pois numa grande casa há tais vasos. Mas que importa? Não recebem a mesma honra. Mas uns são para honra e outros para desonra. Dir-se-á, todavia, que numa casa eles podem ter alguma utilidade, mas de modo algum no mundo. Ainda que Deus não os empregue para tão honroso serviço, serve-se deles para outros fins. Por exemplo, o vanglorioso constrói muito, assim como o avarento, o mercador, o negociante, o magistrado; há certas obras no mundo apropriadas a estes. Mas o vaso de ouro não é de tal natureza. Ele é empregado junto à mesa real. Não diz, contudo, que a maldade seja coisa necessária (pois como poderia sê-lo?), mas que também os ímpios têm sua obra. Pois se todos fossem de ouro ou de prata, não haveria necessidade dos de espécie mais vil. Por exemplo, se todos fossem robustos, não haveria necessidade de casas; se todos fossem livres de luxúria, não haveria necessidade de iguarias. Se todos cuidassem somente do necessário, não haveria necessidade de edifícios esplêndidos.
Se, portanto, alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado. Vedes que não é da natureza, nem da necessidade da matéria, ser vaso de ouro ou de barro, mas de nossa própria escolha? Pois de outro modo o de barro não poderia tornar-se de ouro, nem o de ouro poderia descer à vileza do outro. Mas neste caso há grande mudança e alteração de estado. Paulo era vaso de barro, e tornou-se vaso de ouro. Judas era vaso de ouro, e tornou-se vaso de barro. Os vasos de barro, portanto, são tais por causa da impureza. O fornicador e o avarento tornam-se vasos de barro. Mas como, então, diz ele em outro lugar: "Temos este tesouro em vasos de barro", de modo que não despreza, mas honra o vaso de barro, falando dele como recipiente do tesouro? Ali mostra a própria natureza, e não a forma da matéria. Pois quer dizer que nosso corpo é vaso de barro. Pois assim como a cerâmica não é senão barro cozido, também nosso corpo não é senão barro consolidado pelo calor da alma; que seja de barro, é evidente. Pois assim como tal vaso é frequentemente, ao cair, quebrado e feito em pedaços, também nosso corpo cai e se dissolve pela morte. Pois em que diferem nossos ossos de um caco, sendo duros e secos como são? Ou nossa carne do barro, sendo, como ele, composta de água? Mas, como disse, como é que ali ele não fala dele com desprezo? Porque ali discorre sobre sua natureza, aqui sobre nossa escolha. Se alguém, diz ele, se purificar destas coisas — não apenas limpar, mas expurgar, isto é, purificar-se perfeitamente —, será vaso para honra, santificado e útil para o uso do Senhor. Os outros, portanto, são inúteis para qualquer bom propósito, ainda que se faça deles algum uso. E preparado para toda boa obra. Ainda que não a realize, está apto para ela, e tem capacidade para tanto. Devemos, pois, estar preparados para tudo, até mesmo para a morte, para o martírio, para uma vida de virgindade, ou para todas estas coisas.
Foge também das paixões juvenis. Não somente a paixão da fornicação, mas todo desejo desordenado é paixão juvenil. Aprendam os idosos que não devem praticar as obras dos jovens. Se alguém se entrega à insolência, ou é amante do poder, das riquezas, dos prazeres corporais, isto é paixão juvenil, e insensata. Estas coisas hão de proceder de um coração ainda não firmado, de uma mente não profundamente arraigada, mas em estado vacilante. Que aconselha ele, então, para que ninguém seja cativado por estas coisas? Foge das imaginações juvenis, mas
Segue a justiça, a fé, a caridade, a paz, com aqueles que invocam o Senhor de coração puro. Chama de justiça a virtude em geral: piedade de vida, fé, mansidão, caridade.
Que se entende por aqueles que invocam o Senhor de coração puro? É como se dissesse: Não vos alegreis com aqueles que apenas invocam o Senhor; mas com aqueles que O invocam sincera e genuinamente, que nada têm de engano em si, que se aproximam Dele em paz, que não são contenciosos. Com estes associai-vos. Mas para com os outros não sede fáceis; sede, contudo, na medida em que estiver ao vosso alcance, pacíficos.
Vede como em toda parte ele o afasta das questões; não porque não fosse capaz de refutá-las, pois bem o era. Pois, se não o fosse capaz, teria dito: Sê diligente, para que possas refutá-las; como quando diz: Aplica-te à leitura, pois, fazendo isso, salvarás tanto a ti mesmo quanto aos que te ouvem (1Tm 4,13-16). Mas ele sabia que era inútil entrar de todo nessas disputas, que delas não haveria fim, senão contendas, inimizades, insultos e injúrias. Evita, pois, estas questões; de modo que há outras questões, umas relativas às Escrituras, outras a outras coisas.
E o servo do Senhor não deve contender. Nem mesmo nas questões deve ele contender, pois o servo do Senhor deve manter-se longe da contenda, uma vez que Deus é o Deus da paz, e que teria o servo do Deus da paz a ver com a contenda?
Mas seja manso para com todos. Como, então, diz ele: Repreende com toda autoridade (Tt 2,15); e novamente: Ninguém despreze a tua mocidade (1Tm 4,12); e ainda: Repreende-os severamente? (Tt 1,13) Porque isto é compatível com a mansidão. Pois uma repreensão forte, se dada com mansidão, é mui capaz de ferir profundamente; porquanto é possível, sim, é possível tocar mais eficazmente pela mansidão do que se intimida pela audácia.
Apto para ensinar; isto é, aqueles que estão dispostos a ser ensinados. Pois ao homem que é herege, diz ele, depois da primeira e da segunda admoestação, rejeita-o (Tt 3,10). Paciente. Bem acrescentou isto, pois é uma qualidade que o mestre, acima de tudo, deve possuir. Sem ela, todas as coisas são vãs. E, se os pescadores não desesperam, ainda que amiúde lancem suas redes por um dia inteiro sem nada apanhar, muito mais não devemos nós desesperar. Pois vede qual é o resultado. Do ensino constante, sucede amiúde que o arado da palavra, descendo à profundeza da alma, arranca a má paixão que a perturbava. Pois aquele que ouve amiúde, ao fim será tocado. Não pode um homem continuar a ouvir sem que algum efeito se produza. Às vezes, pois, quando ele estava a ponto de ser persuadido, perde-se por nos tornarmos nós fatigados. Pois sucede o mesmo que se um lavrador inábil, no primeiro ano, cavasse em torno da vinha que plantara, e, buscando colher algum fruto no segundo ano, e de novo no terceiro, nada colhendo, após três anos desesperasse, e no quarto ano, quando estava prestes a receber a recompensa de seus labores, abandonasse a sua vinha. E, tendo dito Paciente, não se contenta, mas prossegue dizendo,
O pastor de ovelhas tem o rebanho que o segue por onde quer que o conduza; e, se algumas se desviam do caminho direto e deixam o bom pasto para pastar em lugares estéreis e escarpados, basta-lhe chamar mais alto, reconduzi-las e restituir ao rebanho as que se apartaram. Mas, se um homem se extravia do caminho reto, necessita o pastor de muita concentração, perseverança e paciência. Não pode arrastá-lo à força nem constrangê-lo pelo temor, mas deve, pela persuasão, reconduzi-lo ao verdadeiro princípio de que se afastou. Necessita, pois, de um espírito heroico, para não se desalentar nem negligenciar a salvação dos que erram, mas para continuar pensando e dizendo: "Que Deus lhes conceda, porventura, o conhecimento da verdade, e sejam libertados do laço do diabo."
Portanto, não nos deixemos provocar por esses homens, não usemos a ira como pretexto, mas falemos com eles com brandura e benignidade. Nada é mais forte e eficaz do que o trato brando e benigno. Por isso Paulo nos ordenou que guardássemos tal conduta com toda a diligência do coração, quando disse: "O servo do Senhor não deve ser contencioso, mas benigno para com todos." Não disse "somente para com os irmãos", mas "para com todos." E, novamente, quando disse: "Seja a vossa mansidão conhecida", não disse "dos irmãos", mas "de todos os homens." De que te aproveita, quer ele dizer, amares apenas os que te amam?
Pois aquele que ensina deve, sobretudo, cuidar de fazê-lo com mansidão. Porquanto a alma que deseja aprender não pode colher proveitosa instrução da aspereza e da contenção. Quando, assim lançada em perplexidade, procurar aplicar-se, nada aprenderá. Aquele que quer adquirir algum conhecimento proveitoso deve, antes de tudo, estar bem disposto para com o seu mestre; e, se isto não for antes alcançado, nada do que é necessário e útil se poderá realizar. E ninguém pode estar bem disposto para com quem é violento e arrogante. Como, pois, diz ele: Ao homem herege, depois da primeira e segunda admoestação, rejeita-o? Fala ali de alguém incorrigível, de alguém que sabe estar enfermo além de toda possibilidade de cura.
Perdoem-me, mas voltemos ao que ele diz. Talvez haja emenda. Talvez! Pois é incerto. De modo que devemos apartar-nos somente daqueles de quem podemos mostrar claramente, e a respeito dos quais estamos plenamente persuadidos, que, aconteça o que acontecer, não se emendarão. Com mansidão, diz ele. Nesta disposição, vede, devemos dirigir-nos aos que estão dispostos a aprender, e nunca cessar de conversar com eles até que tenhamos chegado à demonstração.
Que são presos por ele à sua vontade. Bem se diz "que são presos", pois entretanto flutuam no erro. Observai aqui como ele ensina a ser humilde de ânimo. Não disse "se porventura fordes capazes", mas "se porventura Deus lhes conceder emenda"; se, pois, algo se faz, tudo é do Senhor. Tu plantas, tu regas, mas é Ele quem semeia e faz frutificar. Não nos sintamos, pois, de tal maneira afetados, como se nós mesmos operássemos a persuasão, ainda que venhamos a persuadir alguém. Presos por ele, diz, à Sua vontade. Isto ninguém dirá que se refere à doutrina, mas à vida. Pois a Sua vontade é que vivamos retamente. Mas alguns estão no laço do diabo por causa de sua vida; não devemos, pois, cansar-nos nem mesmo a respeito destes.
Se porventura, diz ele, se emendarem os que são presos, à Sua vontade. Ora, "se porventura" implica muita longanimidade. Pois não fazer a vontade de Deus é um laço do diabo.
Pois assim como um pardal, ainda que não esteja de todo enredado, mas apenas preso pelo pé, permanece ainda sob o poder daquele que armou o laço; assim também nós, ainda que não estejamos de todo subvertidos, tanto na fé como na vida, mas somente na vida, estamos sob o poder do diabo. Pois "nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus"; e ainda: "Não vos conheço; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade" (Mt 7,21-23). Vede que não há proveito de nossa fé, quando o Senhor não nos conhece; e às virgens diz o mesmo, "Não vos conheço" (Mt 25,12). Que proveito, pois, há na virgindade, ou em muitos trabalhos, quando o Senhor não nos conhece? E em muitos lugares encontramos homens não culpados por sua fé, mas punidos somente por sua má vida; assim como noutros lugares, não repreendidos por má vida, mas perecendo pela perversidade de sua doutrina. Pois estas coisas se mantêm unidas. Vede que, quando não fazemos a vontade de Deus, estamos sob o laço do diabo. E muitas vezes não somente por uma vida má, mas por uma só falta, entramos no Inferno, onde não há boas qualidades que a contrabalancem, visto que as virgens não foram acusadas de fornicação ou adultério, nem de inveja ou malquerença, nem de embriaguez, nem de fé inconsistente, mas de falta de azeite, isto é, faltaram na esmola, pois este é o azeite significado. E aqueles que foram declarados malditos nas palavras "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno", não foram acusados de nenhum crime semelhante, mas porque não haviam alimentado a Cristo.
Moral. Vedes que a falta de esmola basta para lançar um homem no fogo do inferno? Pois de que lhe servirá aquele que não dá esmola? Jejuas todos os dias? Assim também faziam aquelas virgens, mas isso de nada lhes aproveitou. Oras? E daí? A oração sem a esmola é infrutuosa; sem ela, todas as coisas são imundas e inúteis. A melhor parte da virtude fica destruída. Aquele que não ama a seu irmão, está dito, não conhece a Deus (1 Jo 4,8). E como o amas, se nem sequer lhe repartes dessas coisas pobres e desprezíveis? Dize-me, pois: guardas a castidade? Por que motivo? Por temor do castigo? De modo algum. É por dote natural que a guardas, pois se fosses casto por temor do castigo, e fizesses violência à natureza submetendo-te a regra tão severa, com muito mais razão deverias dar esmolas. Porque governar o desejo das riquezas e o das volúpias corporais não é a mesma coisa. Este último é muito mais difícil de reprimir. E por quê? Porque o prazer é natural, e o desejo dele é inato e de crescimento natural no corpo. Não é assim com as riquezas. Nisto podemos assemelhar-nos a Deus: em mostrar misericórdia e piedade. Quando, pois, não temos essa qualidade, estamos destituídos de todo bem. Ele não disse: sereis semelhantes a vosso Pai, se jejuardes; nem, se fordes virgens; nem disse: sereis semelhantes a vosso Pai, se orardes — pois nenhuma dessas coisas se pode aplicar a Deus, nem são atos Seus. Mas o quê? Sede misericordiosos, como vosso Pai que está nos céus é misericordioso (Lc 6,36). Esta é a obra de Deus. Se, pois, não tens isto, que tens? Ele diz: Misericórdia quero, e não sacrifício (Os 6,6). Deus fez o céu, e a terra, e o mar. Grandes obras estas, e dignas de Sua sabedoria! Mas por nenhuma delas atraiu Ele tão poderosamente a natureza humana a Si mesmo, como pela misericórdia e pelo amor aos homens. Pois aquilo, na verdade, é obra do poder, da sabedoria e da bondade. Mas é muito mais admirável que Ele Se tenha feito servo. Não é por isto que O admiramos ainda mais? Não é por isto que ainda mais nos maravilhamos com Ele? Nada atrai tanto a Deus para nós quanto a misericórdia. E os profetas, do princípio ao fim, discorrem sobre este assunto. Mas não falo da misericórdia acompanhada de cobiça. Essa não é misericórdia. Pois não é da raiz do espinho, mas da oliveira, que se produz o azeite; assim também não é da raiz da cobiça, da iniquidade ou da rapina, que se produz a misericórdia. Não lances calúnia sobre a esmola. Não faças com que ela seja mal falada por todos. Se cometes roubo para depois dares esmola, nada há mais perverso que a tua esmola. Pois quando ela procede da rapina, não é esmola, é desumanidade, é crueldade, é injúria a Deus. Se Caim tanto ofendeu, oferecendo dons inferiores que eram seus próprios, não ofenderá muito mais aquele que oferece os bens de outrem? A oferenda não é senão um sacrifício, uma purificação, não uma contaminação. E tu, que não ousas orar com as mãos sujas, ofereces a sujeira e a imundície do roubo, e pensas que nada fazes de errado? Não suportas que tuas mãos estejam cheias de sujeira e imundície, mas, tendo-as primeiro purificado, ofereces. Ora, aquela imundície não te é imputada como culpa, ao passo que esta outra merece repreensão e censura. Não seja, pois, nossa preocupação como oferecer orações e oferendas com mãos limpas, mas como as coisas oferecidas possam ser puras. Se alguém, depois de lavar um vaso e deixá-lo limpo, o enchesse de dons imundos, não seria isso um ridículo escárnio?
Deixem-se as mãos limpas; e limpas serão, se as lavarmos não somente com água, mas antes com a justiça. Esta é a purificadora das mãos. Mas, se estiverem cheias de iniquidade, ainda que sejam lavadas mil vezes, de nada aproveita. Lavai-vos, purificai-vos (Is 1:16), diz Ele; mas acrescenta Ele, porventura: ide aos banhos, aos lagos, aos rios? Não; mas o quê? Tirai a maldade de vossos atos de diante de vossas almas. Isto é ser puro. Isto é ser purificado da mácula. Esta é a verdadeira pureza. A outra pouco aproveita; mas esta nos concede confiança diante de Deus. A primeira podem obtê-la os adúlteros, os ladrões, os homicidas, os homens vis, e dissolutos, e efeminados, e sobretudo estes últimos. Pois são sempre cuidadosos da limpeza de seus corpos, e perfumados com essências, purificando o seu sepulcro. Porque o corpo deles não é senão um sepulcro, uma vez que a alma dentro dele está morta. Esta limpeza, portanto, podem tê-la eles, mas não aquela que é interior.
Lavar o corpo não é grande coisa. Aquela é uma purificação judaica, insensata e inútil, onde falta a pureza interior. Suponhamos que alguém sofra de uma chaga pútrida, ou de uma úlcera consumidora; ainda que lave o corpo quanto quiser, de nada lhe vale. E se a putrefação do corpo não recebe benefício algum da limpeza e do disfarce da aparência exterior, quando a alma está infectada de podridão, que se ganha com a pureza do corpo? Nada! Nossas orações devem ser puras, e puras não podem ser, se são enviadas de uma alma corrupta, e nada corrompe tanto a alma quanto a avareza e a rapina. Mas há alguns que, depois de cometerem inúmeros pecados durante o dia, lavam-se à noite e entram nas igrejas, erguendo as mãos com muita confiança, como se pela lavagem do banho tivessem despojado toda a sua culpa. E se assim fosse, seria de grande proveito usar o banho diariamente! Eu mesmo não deixaria de frequentar os banhos, se isto nos tornasse puros, e nos purificasse de nossos pecados! Mas estas coisas são fúteis e ridículas, brinquedos de crianças. Não é a sujeira do corpo, mas a impureza da alma, que causa aversão a Deus. Pois Ele diz: Bem-aventurados os puros — diz Ele, de corpo? Não — de coração: porque estes verão a Deus (Mt 5:8). E que diz o Profeta: Criai em mim um coração puro, ó Deus (Sl 51:10). E ainda: Lava o teu coração da malícia (Jr 4:14).
É de grande proveito habituar-se à prática de boas ações. Vede quão triviais e infrutíferas são estas abluções. Mas, quando a alma é possuída de antemão por um hábito, não se aparta dele, nem ousa aproximar-se da oração sem que primeiro tenha cumprido tais cerimônias. Por exemplo, habituamo-nos a lavar-nos e a orar, e sem lavar-nos não julgamos lícito orar. E não oramos de bom grado com as mãos por lavar, como se ofendêssemos a Deus e violássemos a consciência. Ora, se este costume trivial tem sobre nós tamanho poder, e é observado cotidianamente, quanto mais, se nos tivéssemos habituado à esmola, e a tivéssemos determinado observar tão constantemente que jamais entrássemos numa casa de oração de mãos vazias, o ponto estaria ganho! Porque grande é o poder do hábito, tanto no bem quanto no mal, e, quando este nos conduz, pouco trabalho haverá. Muitos têm por hábito benzer-se continuamente, e não necessitam de quem os lembre disso; mas, muitas vezes, quando a mente vagueia atrás de outras coisas, a mão é involuntariamente atraída pelo costume, como por algum mestre vivo, a fazer o sinal. Alguns habituaram-se a jamais jurar, e por isso, nem de bom grado nem contra a vontade, jamais o fazem. Habituemo-nos, pois, a esta prática da esmola.
Quão grande trabalho valeria a pena, para nós, descobrir tal remédio! Pois dizei-me: se não houvesse o alívio da esmola, enquanto ainda nos tornamos, por nossos incontáveis pecados, réus da vingança divina, não lamentaríamos tristemente? Não diríamos: Oxalá fosse possível, com nossas riquezas, lavar os nossos pecados, e de tudo nos despojaríamos! Oxalá pudéssemos, com nossos bens, afastar a ira de Deus; então não pouparíamos a nossa substância! Pois, se assim fazemos na enfermidade, e à hora da morte dizemos: Se fosse possível resgatar a morte, tal homem daria todos os seus bens — muito mais nesta matéria. Vede, pois, quão grande é o amor de Deus para com os homens. Ele nos concedeu o poder de resgatar não a morte temporal, mas a eterna. Não compreis, diz Ele, esta breve vida, mas aquela que é eterna. É esta que vos vendo, não a outra; não vos engano. Ainda que ganhásseis a vida presente, nada teríeis ganho. Eu conheço o valor daquilo que vos ofereço. Não assim procedem os mercadores e negociantes dos bens deste mundo. Estes, quando podem impor a quem querem, dão pouco para receber muito. Não é assim com Deus. Ele dá o maior, de longe, pelo menor.
Dizei-me: se fôsseis a um mercador, e ele vos pusesse diante duas pedras, uma de pouco valor, e outra muito preciosa, capaz de render grande soma de riqueza; se ele vos permitisse, pelo preço da mais barata, levar a mais custosa, queixar-vos-íeis dele? Não! Antes admiraríeis a sua liberalidade. Assim também agora, duas vidas nos são propostas, uma temporal, outra eterna. Estas Deus nos oferece à venda, mas Ele preferiria vender-nos esta última antes que a primeira. Por que nos queixamos, como criancinhas néscias, de recebermos a mais preciosa? Será, pois, possível comprar a vida com dinheiro? Sim, quando aquilo que oferecemos é nosso próprio, e não propriedade alheia; quando não praticamos fraude. Mas, dizeis vós, doravante os bens são meus. Não são vossos depois da rapina. Ainda são do vosso próximo, ainda que fôsseis mil vezes seu senhor. Pois, se recebêsseis um depósito, não seria vosso, nem sequer pelo breve tempo em que o depositante estivesse em viagem, ainda que estivesse guardado convosco. Se, portanto, não é nosso aquilo que recebemos com o consentimento e o agradecimento daqueles que o depositaram, mesmo que por breve período o retenhamos, muito menos é nosso aquilo que arrebatamos contra a vontade de seu dono. Ele é o senhor disso, por quanto tempo quer que o retenhais. Mas a Virtude é verdadeiramente nossa própria; quanto ao dinheiro, mesmo o que é nosso não é estritamente nosso, muito menos o alheio. Hoje é nosso, amanhã pertence a outro. O que é da virtude é posse verdadeiramente nossa. Esta não sofre perda, como as demais coisas, mas é inteiramente possuída por todos quantos a têm. Adquiramos, pois, esta, e desprezemos as riquezas, para que possamos alcançar aqueles bens verdadeiros, dos quais Deus nos conceda ser julgados dignos de participar, pela graça e benignidade, etc.
Ele havia dito, na Epístola anterior, que o Espírito fala expressamente, que nos últimos tempos alguns se apartarão da fé (1 Tm 4,1-2); e também, alhures nesta Epístola, predisse que algo semelhante haveria de acontecer depois; e aqui novamente faz o mesmo: Sabe isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos. E isto ele o afirma não somente a partir do futuro, mas também do passado: Assim como Janes e Jambres resistiram a Moisés. E ainda por meio de raciocínio: Em uma grande casa não há somente vasos de ouro e de prata. Mas por que faz ele isto? Para que Timóteo não se perturbe, nem nenhum de nós, quando houver homens maus. Se tais homens existiram no tempo de Moisés, e hão de existir depois, não é de admirar que existam também em nossos tempos.
Nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos, diz ele, isto é, tempos sobremodo maus. Como serão perigosos os tempos? Ele não diz isto acusando os dias, nem os tempos, mas os homens daqueles tempos. Pois assim é costume entre nós falar de tempos bons ou maus, a partir dos acontecimentos que neles sucedem, causados pelos homens. Em seguida, estabelece a raiz e a fonte de onde brotam estes e todos os demais males, a saber, a soberba. Aquele que é tomado por esta paixão descuida até mesmo de seus próprios interesses. Pois, quando um homem menospreza os interesses do próximo e deles descuida, como haveria de zelar pelos seus próprios? Assim como aquele que atende aos negócios do próximo há de nestes ordenar também os seus com proveito, assim também aquele que despreza os interesses do próximo negligenciará os seus. Pois, se somos membros uns dos outros, o bem-estar de nosso próximo não é apenas dele, mas de todo o corpo, e o dano ao próximo não se restringe a ele, mas atormenta com dores todo o restante também. Se somos um edifício, qualquer parte que se enfraqueça afeta o todo, ao passo que a que é sólida dá força e sustentação às demais. Assim também na Igreja: se desprezaste teu próximo, feriste a ti mesmo. Como? Porque um dos teus próprios membros sofreu não pequeno dano. E se aquele que não reparte de seus bens vai para o Inferno, muito mais será condenado aquele que vê o próximo padecer males mais graves e não lhe estende a mão, pois neste caso a perda é mais grave.
Ele havia dito, na epístola anterior, que "o Espírito fala expressamente, que nos últimos tempos alguns se apartarão da fé". E também, alhures nesta epístola, predisse que algo semelhante haveria de acontecer depois; e aqui novamente faz o mesmo: "Sabe isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos." E isto ele o afirma não somente a partir do futuro, mas também do passado: "Assim como Janes e Jambres resistiram a Moisés." E ainda por meio de raciocínio: "Em uma grande casa não há somente vasos de ouro e de prata." Mas por que faz ele isto? Para que Timóteo não se perturbe, nem nenhum de nós, quando houver homens maus. Se tais homens existiram no tempo de Moisés, e hão de existir em tempos posteriores, não é de admirar que existam também em nossos tempos.
Porque os homens serão amantes de si mesmos. Aquele que ama a si mesmo pode dizer-se que não ama a si mesmo, mas aquele que ama a seu irmão, ama a si mesmo no sentido mais verdadeiro. Do amor-próprio nasce a cobiça. Pois o mísero e sórdido temperamento do amor-próprio contrai aquele amor que deveria estender-se amplamente e difundir-se para todos os lados. Cobiçosos. Da cobiça nasce a jactância, da jactância o orgulho, do orgulho a blasfêmia, da blasfêmia a rebeldia e a desobediência. Pois aquele que se exalta contra os homens, facilmente o fará também contra Deus. Assim se produzem os pecados. Frequentemente ascendem de baixo. Aquele que é piedoso para com os homens, é ainda mais piedoso para com Deus. Aquele que é manso para com os seus conservos, é mais manso ainda para com o seu Senhor. Aquele que despreza os seus conservos, terminará desprezando o próprio Deus. Moral. Não desprezemos, pois, uns aos outros, porquanto essa é uma má disciplina que nos ensina a desprezar a Deus. E, de fato, desprezar uns aos outros é, em efeito, desprezar a Deus, que nos ordenou mostrar toda consideração uns para com os outros. E isto pode manifestar-se de outro modo por um exemplo. Caim desprezou a seu irmão, e assim, imediatamente depois, desprezou a Deus. Como O desprezou? Notai a sua insolente resposta a Deus: Acaso sou eu o guarda do meu irmão? (Gênesis 4:9). Também Esaú desprezou a seu irmão, e ele também desprezou a Deus. Por isso disse Deus: Amei a Jacó, mas odiei a Esaú (Romanos 9:13; Malaquias 1:2-3). Por isso diz Paulo: Para que não haja algum fornicário, ou profano, como Esaú (Hebreus 12:16). Os irmãos de José o desprezaram, e eles também desprezaram a Deus. Os israelitas desprezaram a Moisés, e eles também desprezaram a Deus. Assim também os filhos de Eli desprezaram o povo, e eles também desprezaram a Deus. Quereis vê-lo também pelo contrário? Abraão, que foi terno para com o filho de seu irmão, foi obediente a Deus, como se manifesta em sua conduta a respeito de seu filho Isaque, e em todas as suas demais virtudes. Também Abel foi manso para com seu irmão, e ele também foi piedoso para com Deus. Não desprezemos, pois, uns aos outros, para que não aprendamos também a desprezar a Deus. Honremo-nos uns aos outros, para que aprendamos também a honrar a Deus. Aquele que é insolente para com os homens, sê-lo-á também para com Deus. Mas quando a cobiça, o amor-próprio e a insolência se encontram juntos, que falta para completar a ruína? Tudo se corrompe, e irrompe um imundo dilúvio de pecados. Ingratos, diz ele. Pois como pode o cobiçoso ser grato? A quem sentirá gratidão? A ninguém. Considera todos os homens seus inimigos, e deseja os bens de todos. Ainda que gastásseis toda a vossa substância com ele, não sentirá gratidão alguma. Irrita-se por não terdes mais, para que pudésseis dar-lhe mais. E se o fizésseis senhor do mundo inteiro, continuaria ingrato, e pensaria que nada recebera. Este desejo é insaciável. É a sede da enfermidade; e tal é a natureza das sedes da enfermidade.
Aquele que padece de febre jamais pode saciar-se, mas, num desejo incessante de beber, nunca se farta, sofrendo antes uma sede contínua; assim também aquele que enlouquece pela riqueza jamais conhece o cumprimento de seu desejo; seja qual for o que se lhe outorgue, permanece insatisfeito, e por isso jamais será grato. Pois não sentirá gratidão para com quem não lhe dá tanto quanto deseja, e isto ninguém jamais poderá fazer. E, como não há limite para os seus desejos, não sentirá gratidão alguma. Assim, ninguém é tão ingrato quanto o avarento, tão insensível quanto o amante do dinheiro. Ele é inimigo de todo o mundo. Indigna-se de que existam homens. Quereria que tudo fosse um vasto deserto, a fim de possuir os bens de todos. E quantas fantasias desvairadas ele forja! Oxalá houvesse um terremoto na cidade, diz ele, para que, engolidos todos os demais, eu ficasse sozinho, tendo, se possível, as posses de todos! Oxalá viesse uma peste e destruísse tudo, salvo o ouro! Oxalá houvesse um afundamento, ou uma erupção do mar! Tais são as suas fantasias. Nada de bom ele roga, senão terremotos e raios, guerras e pragas, e coisas semelhantes. Pois bem, dize-me agora, ó homem miserável, mais servil que qualquer escravo: se todas as coisas fossem ouro, não perecerias tu mesmo por causa do teu ouro, e não morrerias de fome? Se o mundo fosse tragado por um terremoto, tu também perecerias por causa do teu desejo funesto. Pois, se não houvesse outros homens senão tu, as coisas necessárias à vida te faltariam. Suponhamos que os demais habitantes da terra fossem destruídos de uma só vez, e que o ouro e a prata deles viessem por si mesmos até ti (pois tais homens forjam para si absurdos e impossibilidades). Mas, se o ouro e a prata deles, as suas vestes de seda e os panos de ouro viessem parar em tuas mãos, de que te aproveitaria isso? A morte apenas te alcançaria com mais certeza, quando não houvesse quem preparasse o pão ou lavrasse a terra para ti; feras vaguariam ao redor, e o diabo agitaria a tua alma com temor. Muitos demônios já agora a possuem, mas então te levariam ao desespero, e te precipitariam de uma vez na destruição. Mas dirás: eu quereria que houvesse lavoura da terra e homens que preparassem o alimento. Então eles consumiriam alguma coisa. Mas eu não quereria que consumissem coisa alguma. Tão insaciável é este desejo! Pois que pode haver mais ridículo que isto? Vedes a impossibilidade da coisa? Ele quer ter muitos que o sirvam, e todavia lhes inveja a porção de alimento, porque lhe diminui a substância! Que fazer, pois? Quererias então homens de pedra? Tudo isto é escárnio; e ondas, e tempestade, e enormes vagalhões, e violenta agitação, e temporal, submergem a alma. Ela está sempre faminta, sempre sedenta. Não a compadeceremos e não a lastimaremos? Entre as doenças corporais, esta é tida pela mais dolorosa, e é chamada pelos médicos de bulimia, quando um homem, ainda que farto, permanece sempre faminto. E não é a mesma enfermidade, na alma, ainda mais lamentável? Pois a avareza é a fome mórbida da alma, que está sempre se enchendo, jamais se saciando, mas sempre ansiando. Se fosse necessário beber eléboro, ou sujeitar-se a algo mil vezes pior, não valeria a pena empreendê-lo de bom grado, a fim de nos livrarmos desta paixão? Não há abundância de riquezas capaz de encher o ventre da cobiça.
Ora, não nos há de envergonhar que os homens se deixem assim arrebatar pelo amor ao dinheiro, enquanto nós não mostramos proporção alguma de tal empenho no amor a Deus, nem O honramos como se honra o metal precioso? Pois pelo dinheiro os homens suportam vigílias, e viagens, e perigos contínuos, e ódio, e inimizade, e, em suma, tudo. Nós, porém, não ousamos proferir sequer uma palavra por Deus, nem incorrer numa inimizade, mas, se somos chamados a socorrer algum dos que são perseguidos, abandonamos o injuriado, retirando-nos do ódio dos poderosos e do perigo que ele envolve. E, ainda que Deus nos tenha dado poder para que o socorrêssemos, deixamo-lo perecer, por não querermos incorrer no ódio e no desagrado dos homens. E muitos pretendem justificar isto, dizendo: Sejamos amados sem motivo, mas não sejamos odiados sem motivo. Mas será isto ser odiado sem motivo? Ou que há melhor do que tal ódio? Pois ser odiado por causa de Deus é melhor do que ser amado por causa d'Ele: porque, quando somos amados por amor de Deus, somos devedores da honra que recebemos; mas, quando somos odiados por amor d'Ele, Ele se torna nosso devedor, para nos recompensar. Os amantes das riquezas não conhecem limite para seu amor, por maior que seja; nós, porém, se fizemos ainda que pouquíssimo, julgamos ter cumprido tudo. Não amamos a Deus tanto, não, nem de longe tanto quanto eles amam o ouro. A desmedida paixão deles pelo ouro é uma grave acusação contra eles. É nossa condenação não estarmos assim fora de nós por Deus; não dispensarmos ao Senhor de todas as coisas tanto amor quanto eles dispensam à mera terra, pois o ouro extraído da mina não é melhor que ela.
Vejamos, pois, a loucura deles, e envergonhemo-nos de nós mesmos. Pois de que nos aproveita não estarmos inflamados pelo amor ao ouro, se não somos fervorosos em nossas orações a Deus? Pois, no caso deles, os homens desprezam esposa, filhos, bens e a própria segurança, e isso quando nem sequer têm certeza de que aumentarão sua riqueza. Pois frequentemente, no meio mesmo de suas esperanças, perdem de uma só vez a vida e o trabalho. Nós, porém, ainda que saibamos que, se O amarmos como devemos amá-Lo, alcançaremos o que desejamos, contudo não O amamos, mas somos de todo frios em nosso amor tanto ao próximo quanto a Deus; frios em nosso amor a Deus, porque frios em nosso amor ao próximo. Pois não é, na verdade não é possível que um homem estranho ao sentimento do amor tenha generosidade ou espírito varonil, visto que o fundamento de tudo quanto é bom não é outro senão o amor. Nisto, diz-se, se fundam toda a Lei e os Profetas (Mt 22:40). Pois assim como o fogo lançado a uma floresta costuma limpar tudo, assim também o fogo do amor, onde quer que seja recebido, consome e abre caminho através de tudo o que é prejudicial à seara divina, e torna o solo puro e apto para receber a semente. Onde há amor, todos os males são removidos. Ali não há amor ao dinheiro, raiz de todo mal, não há amor-próprio; não há jactância — pois por que alguém se vangloriaria diante de seu amigo? Nada torna o homem tão humilde quanto o amor. Cumprimos os ofícios de servos para com nossos amigos, e não nos envergonhamos; antes, somos até gratos pela oportunidade de servi-los. Não poupamos nossos bens, e muitas vezes nem sequer nossas próprias pessoas; pois também os perigos são às vezes enfrentados por aquele a quem se ama. Não há inveja, não há calúnia onde há amor genuíno. Não somente não caluniamos nossos amigos, mas ainda tapamos a boca dos caluniadores. Tudo é mansidão e brandura. Não aparece vestígio algum de contenda e disputa. Tudo respira paz. Pois o amor, diz-se, é o cumprimento da lei (Rm 13:10). Nele não há nada de ofensivo. Como assim? Porque onde o amor existe, são abolidos todos os pecados da cobiça, da rapina, da inveja, da calúnia, da arrogância, do perjúrio e da falsidade. Pois os homens perjuram-se a fim de roubar, mas ninguém roubaria aquele a quem ama, antes lhe daria os seus próprios bens. Pois nos sentimos mais obrigados do que se dele recebêssemos. Vós o sabeis, todos vós que tendes amigos — amigos, digo, na realidade, e não somente de nome, mas quem quer que ame como os homens devem amar, quem quer que esteja verdadeiramente unido a outro. E que aqueles que o ignoram aprendam com os que o sabem.
Passarei agora a citar-vos, das Escrituras, um admirável exemplo de amizade. Jônatas, filho de Saul, amava a Davi, e sua alma estava de tal modo ligada à dele, que Davi, pranteando-o, diz: Tua afeição por mim era admirável, ultrapassando o amor das mulheres. Foste ferido de morte (2Sm 1.25-26). Que dizer, pois? Teria ele inveja de Davi? De modo algum, ainda que tivesse grande motivo para tê-la. Como assim? Porque, pelos acontecimentos, percebia que o reino haveria de passar de si mesmo para ele, e contudo nada disso sentia. Não dizia: "Eis aquele que me priva do reino paterno", mas antes favorecia que ele obtivesse a soberania; e não poupou ao próprio pai por causa do amigo. Não pense, porém, ninguém que ele fosse um parricida, pois não fez mal a seu pai, mas antes reprimiu suas tentativas injustas. Antes o poupou do que o feriu. Não lhe permitiu prosseguir num homicídio injusto. Muitas vezes esteve disposto até a morrer por seu amigo, e, longe de acusá-lo, conteve até a acusação de seu próprio pai. Em vez de inveja, associou-se à obtenção do reino para ele. Por que falo de riquezas? Sacrificou até a própria vida por ele. Por amor ao amigo, nem sequer temia a seu pai, visto que o pai nutria desígnios injustos, ao passo que sua consciência estava livre de toda mácula semelhante. Assim se conjugaram a justiça e a amizade.
Tal era, pois, Jônatas. Consideremos agora a Davi. Não teve ele ocasião de retribuir o benefício, pois seu benfeitor lhe foi arrebatado antes do reinado de Davi, e morto antes que aquele a quem servira chegasse ao trono. Que dizer, então? Vejamos, na medida em que lhe foi permitido e esteve em seu poder, como esse homem justo manifestou sua amizade. Muito agradável, diz ele, foste para mim, Jônatas; foste ferido de morte (2Sm 1.25, Septuaginta). É isto tudo? Este, na verdade, não foi tributo pequeno; mas ele também livrou muitas vezes do perigo o filho e o neto de Jônatas, em memória da bondade do pai, e continuou a sustentar e proteger seus descendentes, como o teria feito com os de seu próprio filho. Tal amizade eu desejaria que todos cultivassem, tanto para com os vivos quanto para com os mortos.
Ouçam isto as mulheres (pois é sobretudo por causa delas que me refiro aos defuntos) que passam a segundas núpcias e maculam o leito do esposo falecido, ainda que o tenham amado. Não que eu proíba as segundas núpcias, nem as declare prova de lascívia, pois Paulo não mo permite, tapando-me a boca ao dizer às mulheres: Se se casar, não pecou (1 Cor 7:28-40). Atentemos, porém, ao que se segue: Mas será mais bem-aventurada se permanecer assim. Este estado é muito melhor que o outro. Por quê? Por muitas razões. Pois se é melhor não casar de modo algum do que casar, muito mais o é neste caso. Mas dirás que algumas não puderam suportar a viuvez e caíram em muitas desgraças. Sim; porque não sabem o que é a viuvez. Pois viuvez não é abster-se de segundas núpcias, assim como virgindade não é simplesmente não se casar. Pois assim como o que é decoroso, e o servir ao Senhor sem distração, é a marca de um estado, assim é a marca do outro estar desolada, perseverar em súplicas e orações, renunciar ao luxo e ao prazer. Pois a que vive em deleites está morta ainda que viva (1 Tm 5:6). Se, permanecendo viúva, quiseres ter a mesma pompa, a mesma ostentação, os mesmos ornatos que tinhas quando teu marido era vivo, melhor te fora casar. Pois não é a união o que é censurável, mas a multidão de cuidados que a acompanham. Mas aquilo que não é errado, não o fazes; e aquilo que não é indiferente, que está sujeito a censura, nisso te envolves. Por isso algumas se desviaram após Satanás, porque não souberam viver como convém às viúvas.
Se queres saber o que é uma viúva, e qual a dignidade da viúva, ouve o que Paulo diz a respeito: Se tiver criado filhos, se tiver hospedado peregrinos, se tiver lavado os pés dos santos, se tiver socorrido os aflitos, se tiver seguido diligentemente toda boa obra (1 Tm 5:10). Mas quando, depois da morte de teu marido, permaneces adornada da mesma pompa de riquezas, não é de admirar que não possas suportar a viuvez. Transfere, pois, essas riquezas para o céu, e acharás leve o fardo da viuvez. Mas dirás: e se eu tiver filhos que hão de suceder na herança do pai? Ensina-os também a desprezar as riquezas. Transfere teus próprios bens, reservando-lhes apenas o suficiente. Ensina-os igualmente a serem superiores às riquezas. Mas, e se além da prata e do ouro estou cercada de uma multidão de servos, oprimida por inúmeros negócios, como poderei bastar ao cuidado de todas essas coisas, privada do amparo de meu marido? Isto não passa de escusa, de pretexto, como se manifesta por muitas razões. Pois se não cobiças riquezas, nem procuras aumentar o que já possuis, teu fardo será leve. Adquirir riquezas é trabalho muito maior do que cuidar delas. Se, portanto, cortares esta única coisa, o acumular, e supristeres os necessitados com o que possuis, Deus estenderá sobre ti a Sua mão protetora. E se dizes isto por verdadeiro desejo de preservar a herança de teus filhos órfãos, e não estás, sob este pretexto, possuída de avareza, Aquele que sonda os corações sabe como assegurar-lhes as riquezas, Ele mesmo que te ordenou criar os filhos.
Não é possível, de fato não é possível, que uma casa fundada sobre a esmola venha a sofrer qualquer calamidade. Se por algum tempo lhe for adverso, no fim prosperará. Isto será mais que lança e escudo para toda a família. Ouvi o que diz o diabo acerca de Jó: "Não fizeste, porventura, um cercado em redor dele, e em redor de sua casa, e de tudo quanto possui, por todos os lados?" (Jó 1:10). Por quê? Ouvi o próprio Jó dizendo: "Eu era olhos para o cego, e pés era eu para o coxo. Era pai para os órfãos" (Jó 29:15). Assim como aquele que não se aparta das calamidades alheias não padecerá nem mesmo em seus próprios infortúnios, porque aprendeu a compadecer-se, assim também aquele que não quiser suportar as dores da compaixão aprenderá toda sorte de tristeza em sua própria pessoa. E, como no caso de uma enfermidade corporal, se, estando o pé mortificado, a mão não se compadece limpando a ferida, lavando a secreção e aplicando um emplastro, ela mesma sofrerá igual enfermidade; assim aquela que não quiser ministrar a outrem enquanto ela mesma não está aflita, haverá de suportar sofrimentos próprios. Porque o mal, propagando-se da outra parte, alcançará também esta, e já não se tratará de ministrar ao outro, mas da própria cura e alívio. Assim é também aqui. Aquele que não quiser aliviar os outros, ele mesmo será um sofredor. "Cercaste-o", diz Satanás, "por dentro e por fora, e eu não ouso atacá-lo!" Mas ele padeceu aflições, dizeis vós. Verdade. Mas aquelas aflições foram ocasião de grande bem. Sua substância foi duplicada, sua recompensa aumentada, sua justiça ampliada, sua coroa foi esplêndida, seu prêmio glorioso. Tanto suas bênçãos espirituais quanto as temporais foram aumentadas. Perdeu os filhos, mas recebeu, não estes restituídos, mas outros em seu lugar, e a estes também os teve guardados para a Ressurreição. Se lhe tivessem sido restituídos, o número teria diminuído, mas agora, tendo Ele lhe dado outros em seu lugar, apresentá-los-á também na Ressurreição. Todas estas coisas lhe sucederam por causa de sua generosidade na esmola. Façamos, pois, o mesmo, para que possamos obter as mesmas recompensas pela graça e benignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Se alguém agora se escandaliza com a existência dos hereges, lembre-se de que assim foi desde o princípio, pondo o diabo sempre o erro ao lado da verdade. Deus, desde o princípio, prometeu o bem; o diabo também veio com uma promessa. Deus plantou o Paraíso; o diabo enganou, dizendo: Sereis como deuses (Gênesis 3:5). Pois, como nada podia mostrar em obras, multiplicava as promessas em palavras. Tal é o caráter dos enganadores. Depois disto vieram Caim e Abel, depois os filhos de Sete e as filhas dos homens; depois Cam e Jafé, Abraão e Faraó, Jacó e Esaú; e assim é até o fim: Moisés e os magos, os Profetas e os falsos profetas, os Apóstolos e os falsos apóstolos, Cristo e o Anticristo. Assim foi então, tanto antes como naquele tempo. Então houve Teudas, depois Simão, depois foram os Apóstolos, depois também este partido de Hermógenes e Fileto. Em suma, não houve tempo algum em que a falsidade não se erguesse em oposição à verdade. Não nos aflijamos, pois. Que assim havia de ser, foi predito desde o princípio. Por isso diz: Sabei que nos últimos dias sobrevirão tempos perigosos. Pois os homens serão amantes de si mesmos, avarentos, jactanciosos, soberbos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem afeto natural. Ora, o ingrato é ímpio, e isto é natural, pois que será ele para com os outros, aquele que não é grato para com seu benfeitor? O ingrato é violador de pactos, é sem afeto natural.
Caluniadores, isto é, difamadores. Pois aqueles que têm consciência de não possuir bem algum em si mesmos, ao mesmo tempo que cometem muitos pecados e ofensas, encontram consolo em difamar o caráter alheio.
Incontinentes, tanto quanto à língua como ao apetite, e a tudo o mais.
Cruéis; daí sua desumanidade e crueldade, quando alguém é avarento, egoísta, ingrato, licencioso.
Desprezadores dos bons, traidores, precipitados. Traidores, os que traem a amizade; precipitados, os que não têm firmeza alguma; soberbos, cheios de arrogância. Amantes dos prazeres mais do que amantes de Deus.
Na Epístola aos Romanos, ele diz algo semelhante a isto: Tendo a forma do conhecimento e da verdade na lei (Rm 2:20), onde fala disso em tom de louvor; mas aqui fala deste pecado como um mal que ultrapassa todos os outros defeitos. E por que isso? Porque ele não usa as palavras na mesma significação. Pois uma imagem é tomada muitas vezes para significar uma semelhança; mas por vezes, uma coisa sem vida e sem valor. Assim, ele mesmo diz, em sua Epístola aos Coríntios: O homem não deve cobrir a cabeça, porquanto é a imagem e glória de Deus (1 Cor 11:7). Mas o Profeta diz: O homem anda em imagem (Sl 39:9, Septuaginta). E a Escritura, por vezes, toma o leão para representar a realeza, como em: Deitou-se como leão, e como filho de leoa; quem o despertará? (Gn 49:9, Septuaginta). E por vezes, para significar a rapina, como em: leão que despedaça e ruge (Sl 22:13). E nós mesmos fazemos o mesmo. Pois, como as coisas são compostas e variadas em si mesmas, são aptamente aduzidas para diversas imagens e exemplos. Como quando queremos exprimir nossa admiração por uma bela mulher, dizemos que ela é como um quadro; e quando admiramos uma pintura, dizemos que ela fala, que ela respira. Mas não pretendemos exprimir a mesma coisa, senão que, num caso, assinalamos a semelhança, no outro, a beleza. Assim também aqui, quanto à forma: numa passagem, significa um modelo, ou representação, uma doutrina, ou padrão de piedade; noutra, algo sem vida, uma mera aparência, ostentação e hipocrisia. A fé, portanto, sem obras, é aptamente chamada de mera forma sem o poder. Pois, assim como um corpo formoso e vigoroso, quando não tem força, é semelhante a uma figura pintada, assim é a fé reta apartada das obras. Suponhamos, pois, que alguém seja avarento, traidor, temerário, e ainda assim creia corretamente; de que lhe aproveita, se lhe faltam todas as qualidades próprias de um cristão, se não realiza as obras que caracterizam a piedade, mas supera os gregos em impiedade, quando se torna um dano para aqueles com quem convive, faz com que Deus seja blasfemado, e a doutrina seja caluniada por suas más ações?
Afasta-te de tais pessoas, diz ele. Mas como há de ser isto, se os homens hão de ser assim nos últimos tempos? Provavelmente já havia então tais pessoas, em certa medida ao menos, ainda que não no mesmo excesso. Mas, na verdade, por meio dele, ele adverte a todos que se afastem de tais caracteres.
A fé sem obras é aptamente chamada de mera forma sem poder. Pois, assim como um corpo formoso e corado, quando não tem força, é semelhante a uma figura pintada, assim é a fé reta apartada das obras. Suponhamos, pois, que alguém seja «avarento, traidor, temerário» e, contudo, creia corretamente. De que lhe aproveita, se lhe faltam todas as qualidades próprias de um cristão, se não realiza as obras que caracterizam a piedade, mas supera os gregos em impiedade? Que bem há quando se torna um dano para aqueles com quem convive, ou quando faz com que Deus seja blasfemado, e a doutrina seja caluniada por suas más ações?
Vedes como empregam o artifício daquele antigo enganador, as armas de que o diabo se serviu contra Adão? Introduzindo-se nas casas, diz ele. Observai como, por esta expressão, ele mostra o descaramento deles, seus modos desonrosos, sua falsidade. Levando cativas mulherzinhas néscias, de sorte que aquele que facilmente se deixa enganar é uma mulherzinha néscia, e em nada semelhante a um homem: pois ser enganado é próprio das mulherzinhas néscias. Carregadas de pecados. Vede donde procede a persuasão deles: dos pecados, da consciência que têm de nada possuírem de bom! E com grande propriedade disse ele carregadas. Pois esta expressão assinala a multidão de seus pecados, e seu estado de desordem e confusão; levadas por diversas concupiscências. Não acusa a natureza, pois não são as mulheres simplesmente, mas tais mulheres quais estas, que ele reprova. E por que diversas concupiscências? Por isso se dão a entender suas várias faltas, seu luxo, sua conduta desordenada, sua lascívia. Concupiscências diversas, diz ele, isto é, de glória, de riqueza, de prazer, de vontade própria, de honra: e talvez outros vis desejos estejam ali implicados.
Sempre aprendendo, e jamais podendo chegar ao conhecimento da verdade. Não diz isto para desculpá-las, mas para ameaçá-las severamente; pois o entendimento delas se fizera calejado, porquanto se haviam sobrecarregado de concupiscências e pecados.
Quem são estes? Os magos do tempo de Moisés. Mas como é que seus nomes não se encontram introduzidos em nenhum outro lugar? Ou foram transmitidos pela tradição, ou é provável que Paulo os conhecesse por inspiração.
Quem são estes? Os magos do tempo de Moisés. Mas como é que seus nomes não se encontram introduzidos em nenhum outro lugar? Ou foram transmitidos pela tradição, ou é provável que Paulo os conhecesse por inspiração.
Pois, se os erros florescem a princípio, não perseveram até o fim, porquanto assim sucede com as coisas que não são belas por natureza, mas belas em aparência. Florescem por um tempo e depois são descobertas e reduzidas a nada. Mas isto não acontece com a nossa doutrina. Disto vós sois testemunha. Pois em nossos dogmas não há engano algum. Quem, com efeito, escolheria morrer por um engano? Homilias sobre Timóteo
Não irão mais adiante; como, pois, diz ele noutro lugar: "Irão crescendo para maior impiedade" (2 Tm 2,16)? Ali quer dizer que, começando a inovar e a enganar, não cessarão em seu erro, mas hão de sempre inventar novos enganos e doutrinas corruptas, pois o erro jamais é estacionário. Mas aqui diz que não poderão enganar, nem arrastar consigo os homens, pois, por mais que a princípio pareçam impor-se, logo e facilmente serão descobertos. Que fala neste sentido, mostra-o o que se segue: "Pois a sua loucura será manifesta a todos." De onde? De todo modo — como também foi a daqueles. Pois, se os erros florescem a princípio, não perseveram até o fim, porquanto assim sucede com as coisas que não são belas por natureza, mas belas em aparência; florescem por um tempo, e depois são descobertas, e reduzidas a nada. Mas não assim os nossos dogmas, e disto vós sois testemunha, pois em nossos dogmas não há engano, pois quem escolheria morrer por um engano?
Não disse eu estas coisas, afirma ele, sem praticá-las. Não fui filósofo apenas em palavras.
Mas tu conheceste plenamente a minha doutrina. Por isso, sê forte; pois não estiveste apenas presente, mas seguiste de perto. Aqui parece dar a entender que o período fora longo, ao dizer: "Seguiste de perto a minha doutrina"; isto se refere ao seu discurso. "Modo de vida"; isto, à sua conduta. "Propósito"; isto, ao seu zelo e à firmeza de sua alma. Não disse eu estas coisas, afirma ele, sem praticá-las; nem fui filósofo apenas em palavras. "Fé, longanimidade." Quer dizer: como nenhuma destas coisas me perturbou. "Caridade", que aqueles homens não tinham; "paciência", nem tampouco esta. Para com os hereges, quer dizer, mostro muita longanimidade; paciência, a que se teve sob a perseguição.
Há duas coisas que inquietam um mestre: o número dos hereges, e a falta de fortaleza dos homens para suportar os sofrimentos. E, no entanto, ele disse muito acerca destas coisas: que tais sempre existiram e sempre existirão, e que nenhuma época estará livre deles, e que não poderão prejudicar-nos, e que no mundo há vasos de ouro e de prata. Vede como ele passa a discorrer sobre as suas aflições, "que me sobrevieram em Antioquia, em Icônio, em Listra."
Por que escolheu ele estes exemplos dentre tantos? Porque o restante era conhecido de Timóteo, e estes talvez fossem acontecimentos novos, e ele não menciona os anteriores, pois não os está enumerando particularmente, pois não é movido por ambição ou vanglória, mas os relembra para consolação de seu discípulo, não por ostentação. E aqui fala de Antioquia da Pisídia, e de Listra, de onde era o próprio Timóteo. "Quantas perseguições suportei." Havia dupla razão de consolação: que ele mostrou generoso zelo, e que não foi abandonado. Não se pode dizer que Deus o desamparou, mas antes tornou mais radiante a sua coroa.
Aqui aparecem duas consolações, diz Paulo: mostrei suficiente firmeza, e, ao fazê-lo, não fui abandonado. Não se pode dizer que Deus me desamparou. Antes, Ele tornou mais radiante a minha coroa.
Se o caminho é estreito e árduo, como pode ser que "o meu jugo é suave e o meu fardo é leve"? Ele diz árduo por causa da natureza das provações, mas suave por causa da prontidão dos que caminham. É possível que até aquilo que por natureza é insuportável se torne leve quando o acolhemos com ardor. Lembrai-vos de que os apóstolos, tendo sido açoitados, retornaram alegres por terem sido considerados dignos de serem desonrados pelo nome do Senhor.
Aqui ele chama de "perseguições" às aflições e tristezas. Quem quer que trilhe o curso da virtude não deve esperar escapar da dor, da tribulação e das tentações.
Mas por que, diz ele, deveria falar apenas de mim mesmo? Todo aquele que quiser viver piedosamente será perseguido. Aqui ele chama de perseguições às aflições e tristezas, pois não é possível que um homem que trilha o curso da virtude não esteja exposto à dor, à tribulação e às tentações. Pois como poderá escapar disso aquele que caminha pela via estreita e apertada, e que ouviu que no mundo tereis tribulação (Jo 16:33)? Se Jó, em seu tempo, disse: A vida do homem sobre a terra é um estado de provação (Jó 7:1, Septuaginta), quanto mais o foi naqueles dias?
Que nada disso vos perturbe, diz ele, se eles estão na prosperidade e tu nas tribulações. Assim é a natureza da coisa. Pelo meu próprio exemplo podeis aprender que é impossível ao homem, em sua guerra contra os ímpios, não estar exposto à tribulação. Não se pode estar em combate e viver na delícia; não se pode estar lutando e banqueteando. Que nenhum dos que estão a combater, pois, busque o repouso ou a vida prazerosa. Ora, o presente estado é combate, guerra, tribulação, angústias e provações, e é a própria cena dos conflitos. Não é agora a estação do descanso; este é o tempo do labor e da fadiga. Ninguém que acabou de despir-se e ungir-se pensa no repouso. Se pensas no repouso, por que te despiste, ou te preparaste para lutar? Mas não sustento eu o combate?, dizes tu. Como, se não vences os teus desejos, nem resistes à má inclinação da natureza?
Não te deixes perturbar, diz ele, se alguns prosperam, enquanto tu estás no meio do sofrimento. Assim é a natureza da coisa. Pelo meu próprio exemplo podeis aprender que é impossível ao homem, em sua guerra contra os ímpios, não estar exposto à tribulação. Não se pode estar em combate e viver na delícia. Não se pode estar lutando e banqueteando.
Que é isto? Assim como o profeta Davi exortava, dizendo: Não te enfades por causa dos que praticam a iniquidade (Sl 37,1), assim também Paulo exorta: Permanece nas coisas que aprendeste, e não simplesmente aprendeste, mas de que foste assegurado, isto é, que creste. E o que creste? Que esta é a Vida. E se vires coisas que sucedem contrárias à tua crença, não te perturbes. O mesmo sucedeu a Abraão, e, contudo, ele não se abalou com isso. Ouvira: Em Isaque será chamada a tua descendência (Gn 21,12); e foi-lhe ordenado sacrificar Isaque, e, contudo, não se perturbou nem se atemorizou. Que ninguém se escandalize por causa dos ímpios. Isto a Escritura ensinou desde o princípio.
Que dizer, pois, se os bons prosperam e os ímpios são punidos? Uma coisa é provável que aconteça, a outra nem tanto. Pois os ímpios possivelmente serão punidos, mas os bons não podem estar sempre a exultar. Ninguém se igualava a Paulo, e, contudo, ele passou toda a sua vida em aflições, em lágrimas e gemidos, noite e dia. Por espaço de três anos, diz ele, não cessei de admoestar a cada um, noite e dia, com lágrimas (At 20,31). E ainda: Aquilo que sobre mim vem cada dia (1 Cor 11,28). Ele não se alegrava hoje e se entristecia amanhã, mas não cessava de entristecer-se cada dia. Como, pois, diz ele que os homens maus irão de mal a pior? Não disse que encontrariam repouso, mas que iriam de mal a pior. O seu progresso é para pior. Não disse que estariam em prosperidade. Mas, se são punidos, são punidos para que não suponhas que os seus pecados ficam sem vingança. Pois, visto que não somos dissuadidos da maldade pelo temor do inferno, é por singular ternura que Ele nos desperta da nossa insensibilidade, e nos aviva. Se nenhum ímpio jamais fosse punido, ninguém creria que Deus preside aos assuntos humanos. Se todos fossem punidos, ninguém esperaria uma futura ressurreição, visto que todos já teriam recebido aqui o que lhes era devido. Por isso Ele tanto pune como se abstém de punir. Por isso os justos padecem tribulação aqui, porque são peregrinos e forasteiros, e estão em terra estranha. Os justos, portanto, suportam estas coisas para efeito de prova. Pois ouve o que Deus disse a Jó: Pensas tu que de outro modo te admoestei, senão para que aparecesses justo? (Jó 40,3, Septuaginta). Mas os pecadores, quando suportam alguma aflição, sofrem apenas o castigo dos seus pecados. Em todas as circunstâncias, pois, sejam aflitivas ou não, demos graças a Deus. Pois ambas são proveitosas. Ele nada faz por ódio ou inimizade contra nós, mas tudo por cuidado e consideração por nós.
Sabendo que desde a infância conheces as sagradas letras. Às santas Escrituras ele chama sagradas letras. Nestas foste nutrido, para que por meio delas a tua fé fosse firme e inabalável. Pois a raiz foi lançada em profundidade, e nutrida pela longitude do tempo, e nada a subverterá.
Falando das Sagradas Escrituras, ele acrescentou: As quais podem fazer-te sábio, isto é, elas não permitirão que tenhas qualquer sentimento insensato, como o têm a maioria dos homens. Pois aquele que conhece as Escrituras como convém não se escandaliza com nada do que sucede; ele suporta todas as coisas varonilmente, reportando-as em parte à fé e à natureza incompreensível da divina dispensação, e em parte conhecendo as razões delas, e encontrando exemplos nas Escrituras. Pois é grande sinal de sabedoria não ser curioso acerca de tudo, nem desejar conhecer todas as coisas. E, se me permitis, explicar-me-ei por meio de um exemplo. Suponhamos um rio, ou antes, rios (não peço licença, falo apenas do que os rios realmente são): nem todos têm a mesma profundidade. Alguns têm leito raso, outros um leito profundo o bastante para afogar quem não o conhece. Em uma parte há redemoinhos, e em outra não. É bom, portanto, abster-se de experimentar todas as partes, e não é pequena prova de sabedoria não desejar sondar todas as profundezas; ao passo que aquele que ousasse aventurar-se por toda parte do rio seria, na verdade, o mais ignorante quanto à natureza peculiar dos rios, e frequentemente correria perigo de perecer, por aventurar-se nas partes mais profundas com a mesma ousadia com que atravessou os baixios. Assim se dá nas coisas de Deus. Aquele que quer conhecer todas as coisas, e se atreve a intrometer-se em tudo, esse é o mais ignorante quanto ao que Deus é. E, quanto aos rios, na verdade, a maior parte é segura, e as profundezas e os redemoinhos são poucos; mas, no que respeita às coisas de Deus, a maior parte está oculta, e não é possível rastrear as Suas obras. Por que, então, estás empenhado em afogar-te nessas profundezas?
Sabei, contudo, que Deus dispõe todas as coisas, que provê para todos, que somos agentes livres, que algumas coisas Ele opera, e algumas Ele permite; que nada de mau Ele quer que se faça; que nem todas as coisas são feitas por Sua vontade, mas algumas também pela nossa; todas as coisas más somente pela nossa, todas as coisas boas por nossa vontade em conjunto com a Sua influência; e que nada está fora de Seu conhecimento. Portanto Ele opera todas as coisas. Sabendo tu, pois, isto, podes discernir quais coisas são boas, quais são más, e quais são indiferentes. Assim, a virtude é boa, o vício é mau; mas as riquezas e a pobreza, a vida e a morte, são coisas indiferentes. Se sabes isto, saberás por meio disso que os justos são afligidos para que sejam coroados, e os ímpios, para que recebam a punição de seus pecados. Mas nem todos os pecadores são punidos aqui, para que a generalidade não descreia da Ressurreição; nem todos os justos são afligidos, para que os homens não pensem que o vício, e não a virtude, é aprovado. Estas são as regras e os limites. Traze o que quiseres a este critério, e não ficarás perplexo com a dúvida. Pois assim como há, entre os calculistas, o número de seis mil, ao qual todas as coisas podem ser reduzidas, e tudo pode ser dividido e multiplicado na escala de seis mil, e isto é conhecido por todos os versados em aritmética; assim aquele que conhece aquelas regras, que brevemente recapitularei, jamais se escandalizará. E quais são elas? Que a virtude é um bem, o vício um mal; que as enfermidades, a pobreza, o mau trato, as falsas acusações, e coisas semelhantes, são indiferentes; que os justos são afligidos aqui, ou se alguma vez estão na prosperidade, é para que a virtude não pareça odiosa; que os ímpios gozam agora do prazer para que depois sejam punidos, ou se são por vezes visitados, é para que o vício não pareça ser aprovado, nem suas ações fiquem impunes; que nem todos são punidos, para que não haja descrença quanto ao tempo da ressurreição; que mesmo dos bons, alguns que praticaram más ações delas se desobrigam aqui; e dos ímpios, alguns têm boas ações, e por elas são recompensados aqui, para que sua maldade seja punida no futuro (Mt 6:5); que as obras de Deus são, em sua maior parte, incompreensíveis, e que a diferença entre nós e Ele é maior do que se pode exprimir. Se raciocinarmos com base nestes fundamentos, nada será capaz de nos perturbar ou confundir. Se ouvirmos continuamente as Escrituras, encontraremos muitos exemplos semelhantes.
As quais, diz ele, são capazes de te fazer sábio para a salvação.
Para o Senhor sugerem-nos as Escrituras o que se deve fazer, e o que não se deve fazer. Ouve, pois, este bem-aventurado dizer em outro lugar: *Confias que és tu mesmo guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instrutor dos insensatos, mestre dos pequeninos* (Rm 2:19-20). Vedes que a Lei é luz dos que estão em trevas; e se aquilo que mostra a letra, a letra que mata, é luz, que será, pois, o Espírito que vivifica? Se a Antiga Aliança é luz, que é a Nova, que contém revelações tantas e tão grandes? Onde a diferença é tão grande quanto seria se alguém abrisse os céus aos que só conhecem a terra, e lhes tornasse ali todas as coisas visíveis. Ali aprendemos acerca do inferno, do céu e do juízo. Não creiamos em coisas irracionais. Não passam de impostura. Que dizes, quando o que predizem se cumpre? É porque tu crês, se acaso se cumpre. O impostor te tomou cativo. Tua vida está em seu poder, ele te governa como quer. Se um capitão de salteadores tivesse sob seu poder e disposição o filho de um rei, que a ele se tivesse refugiado, preferindo o deserto e sua companhia sem lei, poderia ele pronunciar se este viveria ou morreria? Certamente que sim, não porque conheça o futuro, mas porque é ele o disposor de sua vida ou morte, tendo o jovem se posto em seu poder. Pois segundo seu próprio prazer, pode ou matá-lo, ou poupar-lhe a vida, visto que a ele se sujeitou, e igualmente está em seu arbítrio dizer se hás de ser rico ou pobre. A maior parte do mundo entregou-se a si mesma nas mãos do diabo.
E, além disso, muito contribui para favorecer os pretextos destes enganadores o fato de o homem haver-se acostumado a crer neles. Pois ninguém repara em seus fracassos, mas suas conjecturas afortunadas são observadas. Mas se estes homens têm algum poder de prognosticar, tragam-nos a mim, um crente. Não digo isto engrandecendo-me a mim mesmo (pois não é grande honra ser superior a estas coisas), e de fato estou sobrecarregado de pecados; mas, no tocante a estas matérias, não serei humilde de espírito; pela graça de Deus desprezo-as todas. Tragam-me este pretenso mago; que ele, se tem algum poder de prognosticar, me diga o que me acontecerá amanhã. Mas não mo dirá. Pois estou sob o poder do Rei, e ele não tem nenhuma reivindicação sobre minha lealdade ou submissão. Estou longe de seus covis e cavernas. Milito sob o rei. Mas alguém cometeu um furto, dizes tu, e este homem o descobriu. Isto certamente não é sempre verdade, mas na maior parte absurdos e falsidades. Pois eles nada sabem. Se de fato soubessem algo, deveriam antes falar de seus próprios negócios, de como as numerosas ofertas a seus ídolos foram roubadas, de como tanto de seu ouro se derreteu. Por que não informaram a seus sacerdotes? Ainda que por amor ao dinheiro, não puderam dar informação quando seus templos de ídolos foram incendiados, e muitos com eles pereceram. Por que não provêm à própria segurança? Mas é inteiramente questão de acaso, se acaso predisseram algo. Entre nós há profetas, e estes não falham. Não falam a verdade numa ocasião e a falsidade noutra, mas sempre declaram a verdade; pois este é o privilégio da presciência.
Cessai, pois, desta loucura, eu vo-lo suplico, se ao menos credes em Cristo; e, se não credes, por que vos expondes? Por que enganais? Até quando mancarejais de ambos os quadris? (1 Rs 18.21, Septuaginta) Por que ides a eles? Por que os consultais? No mesmo instante em que a eles vos dirigis, no mesmo instante em que os consultais, vos fazeis escravos deles. Pois consultais como quem crê. Não, dizeis vós, não consulto como quem crê, mas como quem os põe à prova. Mas pôr à prova se dizem a verdade é próprio, não daquele que crê que são falsos, mas daquele que ainda duvida. Por que, então, indagais o que há de acontecer? Pois, ainda que respondessem: "Isto acontecerá, mas fazei assim e assado, e o evitareis" — nem ainda assim devíeis de modo algum ser idólatras; contudo, vossa loucura não seria tão grande. Mas, se predizem eventos futuros, aquele que os ouve nada mais ganha do que uma tristeza inútil. O evento não se dá, mas ele sofre a inquietação e os tormentos por si mesmo.
Se isso nos fosse proveitoso, Deus não nos teria invejado este conhecimento do futuro. Aquele que nos revelou as coisas do céu não nos teria negado, por inveja, tal saber. Pois, Todas as coisas, diz Ele, que ouvi do Pai, vo-las dei a conhecer; e: Já vos não chamo servos, mas amigos. Vós sois meus amigos (Jo 15.15). Por que, então, não nos deu a conhecer estas coisas? Porque não quis que com elas nos preocupássemos. E, como prova de que não nos inveja este conhecimento, tais coisas foram reveladas aos antigos, porque eram como crianças, até mesmo acerca de uma jumenta, e coisas semelhantes. Mas a nós, porque não quis que nos preocupássemos com tais coisas, não Se dignou revelá-las. Mas o que aprendemos nós? Coisas que eles jamais conheceram, pois bem pequenas eram, na verdade, todas aquelas coisas antigas. Mas o que nos é ensinado é isto: que ressuscitaremos, que seremos imortais e incorruptíveis, que nossa vida não terá fim, que todas as coisas passarão, que seremos arrebatados nas nuvens, que os ímpios sofrerão castigo, e inúmeras outras coisas, e em todas estas não há falsidade alguma. Não é melhor conhecer estas coisas do que ouvir que a jumenta perdida foi encontrada? Eis que recuperastes vossa jumenta! Eis que a encontrastes! Qual é o vosso ganho? Não a perdereis logo de novo, de algum outro modo? Pois, se ela não vos deixar, ao menos na vossa morte a perdereis. Mas as coisas que mencionei, se as retivermos firmemente, hão de permanecer conosco para sempre. A estas, pois, busquemos. A estes bens estáveis e duradouros apeguemo-nos. Não demos ouvidos a adivinhos, agoureiros e prestidigitadores, mas a Deus, que conhece todas as coisas com certeza, cujo conhecimento é universal. Assim conheceremos tudo quanto nos convém conhecer, e alcançaremos todos os bens, pela graça e benignidade, etc.
Pois aquele que conhece as Escrituras como deve não se escandaliza com nada do que acontece. Suporta todas as coisas pacientemente, referindo-as em parte à fé e à natureza incompreensível da dispensação divina, e em parte conhecendo as razões delas e encontrando exemplos nas Escrituras…. Sabe, porém, isto: que Deus dispensa todas as coisas, que Ele provê a todos, que somos agentes livres, que algumas coisas Ele opera e outras Ele permite. Deus, com efeito, não quer que se faça nenhum mal, pois nem todas as coisas são feitas por Sua vontade, mas algumas também pela nossa. Todos os males são feitos apenas pela nossa vontade; todos os bens, pela nossa vontade em conjunto com a Sua influência. Assim, nada está fora do Seu conhecimento. Portanto, Ele opera todas as coisas. Tu, então, sabendo isto, podes discernir quais coisas são boas, quais são más e quais são indiferentes.
Pela Escritura podemos refutar o que é falso, ser corrigidos, ser conduzidos a um reto entendimento, e ser confortados e consolados.
Tendo oferecido muita exortação e consolação a partir de outras fontes, ele acrescenta o que é mais perfeito, derivado das Escrituras; e é razoavelmente extenso ao oferecer consolação, porque tem uma coisa grande e triste a dizer. Pois, se Eliseu, que esteve com seu mestre até o último suspiro, ao vê-lo partir como que em morte, rasgou as suas vestes de dor, que pensais deva sofrer este discípulo, tão amante e tão amado, ao ouvir que seu mestre estava para morrer, e que não poderia desfrutar de sua companhia quando este estivesse próximo da morte — o que, acima de todas as coisas, é apto a afligir? Pois somos menos gratos pelo tempo passado, quando fomos privados do convívio mais recente daqueles que partiram. Por esta razão, tendo antes oferecido muita consolação, ele então discorre acerca de sua própria morte; e isto de modo algum ordinário, mas em palavras adaptadas a confortá-lo e a enchê-lo de alegria; de sorte que ela seja tida antes por sacrifício que por morte; uma migração, como de fato era, e uma passagem a um estado melhor. Pois já estou sendo oferecido em sacrifício (2Tm 4,6), diz ele. Por esta razão escreve: Toda a Escritura é divinamente inspirada, e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a instrução na justiça. Toda que Escritura? Toda aquela sagrada escritura, quer ele dizer, de que eu falava. Isto se diz daquilo de que discorria; a respeito do qual disse: Desde criança conheces as sagradas Escrituras. Toda ela, pois, é divinamente inspirada; portanto, quer ele dizer, não duvideis; e é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a instrução na justiça: para que o homem de Deus seja perfeito, plenamente instruído para toda boa obra.
Para o ensino. Pois dali saberemos se devemos aprender ou ignorar algo. E dali podemos refutar o que é falso, dali podemos ser corrigidos e conduzidos a uma reta mente, podemos ser confortados e consolados, e, se algo nos falta, podemos tê-lo acrescentado.
Para que o homem de Deus seja perfeito. Pois é para isto que se dá a exortação da Escritura: para que o homem de Deus seja por ela tornado perfeito; sem ela, portanto, não pode ser perfeito. Tendes as Escrituras, diz ele, em meu lugar. Se quiserdes aprender algo, podeis aprendê-lo delas. E se assim escreveu a Timóteo, que estava cheio do Espírito, quanto mais a nós!
Plenamente instruído para toda boa obra; não meramente tomando parte nelas, quer ele dizer, mas plenamente instruído.
Por isto se dá a exortação da Escritura: para que o homem de Deus seja por ela tornado completo. Sem ela não pode crescer até a maturidade. Tendes as Escrituras, diz ele, em meu lugar. Se quiserdes aprender algo, podeis aprendê-lo delas.
Ele designa ou os ímpios e os justos, ou os que já partiram e os que ainda vivem; pois muitos serão deixados vivos. Na epístola anterior, ele suscitou seus temores, dizendo: Eu te ordeno diante de Deus, que vivifica todas as coisas (1 Tm 6:13); mas aqui lhe propõe algo mais terrível: Aquele que há de julgar os vivos e os mortos, isto é, Aquele que os chamará a prestar contas em Seu aparecimento e em Seu reino. Quando há de julgar? Em Seu aparecimento com glória, e em Seu reino. Ou diz isto para mostrar que Ele não virá do modo como já veio, ou então: eu tomo por testemunha a Sua vinda e o Seu reino. Ele O toma por testemunha, mostrando que lhe havia lembrado daquele aparecimento. Depois, ensinando-lhe como deve pregar a palavra, acrescenta:
Tenham, pois, a comida, o banho, os banquetes e as demais necessidades da vida um tempo determinado. Mas que a instrução acerca do amor à verdade que vem do alto não tenha hora fixa — que todo o tempo lhe pertença. "A tempo e fora de tempo, reprende, exorta, repreende", diz a Escritura. E o profeta: "Na sua lei meditará dia e noite." E também Moisés pediu aos judeus que fizessem isto continuamente.
Seja sempre esse o teu tempo, não somente na paz e na segurança, e quando estiveres assentado na igreja.
Quer estejas em perigo, quer no cárcere, quer em cadeias, quer indo para a morte, nesse mesmo instante não hesites em admoestar. Não retenhas a tua admoestação. Pois é então que ela é mais oportuna, quando a tua repreensão terá maior êxito, quando a circunstância está à mão. "Exorta", diz ele. À maneira dos médicos, tendo mostrado a ferida, faz a incisão, aplica o remédio. Se omitires uma destas coisas, a outra se torna inútil. Se repreenderes sem convencer, parecerás precipitado, e ninguém o tolerará. Depois que o fato é provado, o homem se submeterá à repreensão; mas antes disso, será obstinado. E se convenceres e repreenderes, mas com veemência, e não aplicares a exortação, todo o teu trabalho se perderá. Pois a convicção é, por si mesma, intolerável, se a ela não se mesclar a consolação.
Que significa a tempo e fora de tempo? Isto é, não tenhas tempo algum limitado: seja sempre esse o teu tempo, não somente na paz e na segurança, e quando estiveres assentado na Igreja. Quer estejas em perigo, quer no cárcere, quer em cadeias, quer indo para a morte, nesse mesmo instante repreende. Não retenhas a repreensão, pois é então que a repreensão é mais oportuna, quando a tua repreensão terá maior êxito, quando a realidade está provada. Exorta, diz ele. À maneira dos médicos, tendo mostrado a ferida, faz a incisão, aplica o emplastro. Pois se omitires uma destas coisas, a outra se torna inútil. Se repreenderes sem convencer, parecerás precipitado, e ninguém o tolerará; mas, depois que o fato é provado, ele se submeterá à repreensão: antes disso, será obstinado. E se convenceres e repreenderes, mas com veemência, e não aplicares a exortação, todo o teu trabalho se perderá. Pois a convicção é, por si mesma, intolerável, se a ela não se mesclar a consolação. Assim como a incisão, ainda que salutar em si mesma, se não houver bastantes lenitivos para abrandar a dor, o paciente não pode suportar o corte e o talho, assim é também nesta matéria.
Com toda longanimidade e doutrina. Pois é necessário que aquele que repreende seja longânimo, para que não creia precipitadamente, e a repreensão necessita de consolação, para que seja recebida como convém. E por que à longanimidade acrescenta ele a doutrina? Não como em ira, não como em ódio, não como para insultá-lo, não como quem apanhou um inimigo. Longe de ti tais coisas. Mas como, então? Como quem ama, como quem compadece dele, como quem se aflige mais do que ele mesmo com a sua dor, como quem se derrete com os seus sofrimentos? Com toda longanimidade e doutrina. Não se subentende um ensino ordinário.
Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina. Antes que se tornem obstinados, previne-os a todos. Por isso diz: a tempo, fora de tempo; faze tudo, para que tenhas discípulos de boa vontade.
Mas segundo as suas próprias concupiscências, diz ele, amontoarão para si mestres. Nada poderia ser mais expressivo que estas palavras. Pois, ao dizer amontoarão para si, mostra a multidão indiscriminada dos mestres, tal como pelo fato de serem eleitos por seus próprios discípulos. Amontoarão para si mestres, diz, tendo comichão nos ouvidos. Buscando aqueles que falem de modo a agradar e deleitar os que os ouvem.
Isto ele predisse, não para lançá-lo ao desespero, mas para prepará-lo a suportá-lo com firmeza, quando isso vier a suceder. Como também Cristo fez ao dizer: Vos entregarão, e vos açoitarão, e vos levarão perante as sinagogas, por causa do Meu nome (Mt 10,17). E este bem-aventurado varão diz em outro lugar: Porque eu sei isto, que depois da minha partida entrarão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho (At 20,29). Mas isto disse ele para que vigiassem, e usassem devidamente da presente oportunidade.
Foi por isso, portanto, que predisse estas coisas; assim como também Cristo, ao aproximar-se o fim, predisse que haveria falsos cristos e falsos profetas; assim também ele, quando estava para partir, falou destas coisas. Mas vigia tu em todas as coisas, suporta a aflição; isto é, trabalha, previne o ânimo deles antes que esta pestilência os assalte; assegura a salvação das ovelhas antes que os lobos entrem, suporta em toda parte as dificuldades.
Faze a obra de evangelista, dá pleno testemunho do teu ministério. Assim, era obra de evangelista suportar as dificuldades, tanto em si mesmo quanto da parte dos de fora; dar pleno testemunho é cumprir o teu ministério. E eis outra necessidade de sua perseverança na aflição,
Não disse do meu sacrifício, mas, o que é muito mais, do meu ser derramado. Pois nem toda a vítima do sacrifício era oferecida a Deus, mas toda a libação o era.
Deseja ele consolar o abatimento de seu discípulo, e por isso ordena-lhe que tenha bom ânimo, pois estava a caminho de sua coroa, tendo concluído toda a sua obra e alcançado um fim glorioso... Como um pai cujo filho, sentado ao seu lado, chorasse a sua condição de órfão, poderia consolá-lo, dizendo: Não chores, meu filho; vivemos uma boa vida, chegamos à velhice, e agora te deixamos... Estas coisas, pois, ele escreveu para consolar Timóteo. Com efeito, toda a epístola está repleta de consolação e é como que um testamento.
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Muitas vezes, ao tomar em minhas mãos o Apóstolo e considerar esta passagem, tenho ficado perplexo para compreender por que razão Paulo aqui fala tão elevadamente: *Combati o bom combate*. Mas agora, pela graça de Deus, parece-me tê-lo descoberto. Com que propósito, pois, fala ele assim? Deseja consolar o abatimento de seu discípulo, e por isso ordena-lhe que se anime, visto que ele ia rumo à sua coroa, tendo concluído toda a sua obra e alcançado um fim glorioso. Deves alegrar-te, diz ele, não entristecer-te. E por quê? Porque *combati o bom combate*. Como um pai cujo filho, sentado junto a ele, pranteava seu estado de órfão, poderia consolá-lo, dizendo: Não chores, meu filho; vivemos uma vida boa, chegamos à velhice, e agora te deixamos. Nossa vida foi irrepreensível, partimos com glória, e tu podes ser tido em admiração por nossos feitos. Muito nos deve o nosso rei. Como se dissesse: Erguemos troféus, vencemos inimigos — e isto não por jactância. Longe disso; mas para reerguer seu filho abatido, e para animá-lo com seus louvores a suportar com firmeza o que sucedera, a alimentar boas esperanças, e a não considerar penoso demais o que há de suportar. Pois triste, verdadeiramente triste é a separação; e ouve o próprio Paulo, dizendo: *Nós, privados de vós por um pouco de tempo, de presença, não de coração* (1 Ts 2,17). Se ele, pois, sentiu tanto ao separar-se de seus discípulos, que pensas terem sido os sentimentos de Timóteo? Se, ao apartar-se dele ainda vivo, chorou, de modo que Paulo diz: *Lembrando-me das tuas lágrimas, para me encher de alegria* (2 Tm 1,4), quanto mais à sua morte? Estas coisas, pois, ele escreveu para consolá-lo. De fato, toda a epístola está repleta de consolação, e é uma espécie de Testamento. *Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé*. Um bom combate, diz ele; combate, pois, também tu nele. Mas será bom combate aquele em que há prisão, cadeias e morte? Sim, diz ele, pois é combatido na causa de Cristo, e nele se alcançam grandes coroas. O bom combate! Não há contenda mais digna que esta. Esta coroa não tem fim. Não é de folhas de oliveira. Não tem árbitro humano. Não tem homens por espectadores. O teatro está repleto de Anjos. Ali os homens labutam muitos dias, e sofrem privações, e por uma hora recebem a coroa, e imediatamente todo o prazer se desvanece. Mas aqui é bem diferente: permanece para sempre em fulgor, glória e honra. Doravante devemos alegrar-nos. Pois entro em meu descanso, deixo a corrida. Já ouvistes que é melhor partir e estar com Cristo.
Terminei a corrida. Pois convém a nós tanto combater quanto correr; combater, suportando firmemente as aflições, e correr, não em vão, mas para algum fim bom. É verdadeiramente um bom combate, não apenas deleitando, mas beneficiando o espectador: e a corrida não termina em nada. Não é uma mera exibição de força e de rivalidade. Ela eleva a todos até o céu. Esta corrida é mais brilhante que a do sol, sim, esta que Paulo correu sobre a terra, mais do que aquela que ele corre no céu. E como havia ele terminado sua corrida? Ele atravessou o mundo inteiro, começando pela Galileia e Arábia, e avançando até as extremidades da terra, de modo que, como ele diz, Desde Jerusalém, e em derredor, até ao Ilírico, cumpri a pregação do evangelho de Cristo (Rm 15,19). Ele passou sobre a terra como uma ave, ou antes, mais velozmente que uma ave: pois uma ave apenas voa sobre ela, mas ele, tendo a asa do Espírito, abriu seu caminho através de inúmeros obstáculos, perigos, mortes e calamidades, de modo que era ainda mais veloz que uma ave. Fosse ele uma mera ave, poderia ter pousado e sido capturado, mas, sendo sustentado pelo Espírito, ele se elevou acima de todas as ciladas, como uma ave com asa de fogo.
Guardei a fé, diz ele. Havia muitas coisas que poderiam tê-la roubado dele, não apenas as amizades humanas, mas ameaças, e morte, e inúmeros outros perigos: mas ele permaneceu firme contra todos. Como? Sendo sóbrio e vigilante. Isto poderia ter bastado para a consolação de seus discípulos, mas ele acrescenta ainda as recompensas. E quais são estas?
Os próprios combates dos mártires ultrapassam a nossa natureza mortal. Os prêmios que alcançaram excedem as nossas forças e o nosso entendimento. Riram-se da vida vivida na terra. Pisaram aos pés o suplício do cavalete. Desprezaram a morte e alçaram voo para o céu. Escaparam das tempestades das coisas temporais e singraram para um porto tranquilo. Não trouxeram consigo ouro, nem prata, nem vestes preciosas. Não levaram tesouro que pudesse ser saqueado, mas as riquezas da paciência, da fortaleza e do amor. Agora pertencem ao coro de Paulo, ainda que aguardem suas coroas, porque já escaparam à incerteza do futuro.
Não deveis entristecer-vos porque hei de partir, para ser investido daquela coroa que por Cristo será posta sobre a minha cabeça. Mas, se eu permanecesse aqui, verdadeiramente antes vos deveríeis entristecer e temer que eu viesse a falhar e perecer.
Doravante está reservada para mim a coroa da justiça.
Aqui também ele chama a virtude em geral de justiça. Não vos aflijais porque hei de partir, para ser revestido daquela coroa que por Cristo será posta sobre a minha cabeça. Mas se eu permanecesse aqui, verdadeiramente vós deveríeis antes afligir-vos, e temer que eu viesse a falhar e perecer.
A qual o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas também a todos os que amam a Sua aparição (ἐπιφάνεια).
Aqui também ele eleva o seu pensamento. Se a todos, muito mais a Timóteo. Mas ele não disse "e a ti", e sim "a todos"; querendo dizer: se a todos, muito mais a ele.
Moral. Mas como, poderá perguntar-se, deve alguém amar a aparição (τὴν ἐπιφάνειαν) de Cristo? Alegrando-se com a Sua vinda; e quem se alegra com a Sua vinda praticará obras dignas dessa alegria; lançará fora os seus bens, se for necessário, e até a própria vida, para que possa alcançar os bens futuros, para que seja julgado digno de contemplar aquela segunda vinda em estado conveniente, em confiança, em fulgor e em glória. Isto é amar a Sua aparição. Aquele que ama a Sua aparição fará tudo para assegurar, antes da Sua vinda geral, uma vinda particular a si mesmo. E como, direis, é isto possível? Ouvi de Cristo, que diz: Se alguém me ama, guardará as minhas palavras, e meu Pai e Eu viremos a ele, e faremos morada com ele (Jo 14,23). E considerai quão grande privilégio é que Aquele que há de aparecer a todos em geral prometa vir a nós em particular: pois Ele diz: Viremos e faremos morada com ele. Se alguém ama a Sua aparição, fará tudo para convidá-Lo a si mesmo, e para retê-Lo, a fim de que a luz brilhe sobre ele. Que não haja nada indigno da Sua vinda, e Ele em breve estabelecerá conosco a Sua morada.
E é chamada a Sua Epifania, porque Ele há de aparecer nas alturas, e resplandecerá do alto. Busquemos, pois, as coisas que são do alto, e em breve atrairemos sobre nós aqueles raios. Nenhum daqueles que se arrastam por baixo, e se sepultam nesta terra inferior, poderá contemplar a luz daquele Sol. Nenhum daqueles que se contaminam com as coisas do mundo poderá ver aquele Sol de justiça. Ele não brilha sobre nenhum dos que se ocupam de tais coisas. Recobrai-vos um pouco, recobrai-vos daquela profundeza, das ondas de uma vida mundana, se quereis ver o Sol e gozar da Sua aparição. Então O vereis com grande confiança. Sede, desde já, filósofos. Que um espírito de perversidade não vos possua, para que Ele não vos fira severamente, e vos abata. Que o vosso coração não se endureça, nem se escureça, para que não naufragueis ali. Que não haja engano de si mesmo. Pois são os escolhos submersos que causam os naufrágios mais funestos. Não nutrais feras selvagens — quero dizer, as paixões más, piores que feras selvagens. Não confieis nas coisas sempre fluentes, para que possais permanecer firmes. Ninguém pode manter-se de pé sobre a água, mas sobre a rocha todos encontram apoio seguro. As coisas do mundo são como água, como uma torrente que passa. As águas, diz ele, entraram até à minha alma (Sl 69,1). As coisas espirituais são como uma rocha. Pois diz: Puseste os meus pés sobre a rocha (Sl 40,2). As coisas do mundo são como lama e barro; livremo-nos delas. Pois assim poderemos alcançar a aparição de Cristo. O que quer que nos suceda, suportemo-lo. É consolação suficiente, em todas as circunstâncias, que padeçamos por Cristo. Repitamos este divino encantamento, e ele afugentará a dor de toda ferida.
E como podemos sofrer por Cristo, perguntas? Se alguém te acusar falsamente em qualquer caso, não por causa de Cristo, ainda assim, se tu suportares com paciência, se deres graças, se orares por ele, tudo isso fazes por Cristo. Mas se o amaldiçoares, se proferires descontentamento, se tentares vingar-te, ainda que não sejas capaz, não é por amor de Cristo; sofres o dano, e és privado de tua recompensa por causa de tua intenção. Pois de nós depende, ou lucrarmos, ou sermos prejudicados pelas aflições. Não depende da natureza da aflição, mas da disposição de nossas próprias mentes. Assim, por exemplo, grandes foram os sofrimentos de Jó, contudo ele sofreu com ação de graças; e foi justificado, não porque sofreu, mas porque, ao sofrer, suportou com gratidão. Outro, sob os mesmos sofrimentos, ainda que não os mesmos — pois ninguém jamais sofreu como Jó —, mas sob sofrimentos mais leves, exclama, é impaciente, amaldiçoa o mundo inteiro e queixa-se contra Deus. Este é condenado e sentenciado, não porque sofreu, mas porque blasfemou; e blasfemou, não por qualquer necessidade decorrente de suas aflições, pois se a necessidade decorrente dos acontecimentos fosse a causa, também Jó teria blasfemado; mas, visto que aquele que sofreu mais gravemente nada disso fez, não proveio isso de tal causa, mas da fraqueza de propósito do homem. Necessitamos, pois, de fortaleza de alma, e nada então parecerá penoso; mas, se nossa alma é fraca, encontramos motivo de queixa em tudo.
Segundo nossas disposições, todas as coisas se tornam toleráveis ou intoleráveis. Fortaleçamos nossa resolução, e suportaremos tudo com facilidade. A árvore cujas raízes estão fixadas profundamente na terra não é abalada pela mais extrema violência da tempestade, mas, se estiver plantada levemente na superfície do solo, um leve sopro de vento a arrancará pelas raízes. Assim é conosco: se nossa carne estiver cravada pelo temor de Deus, nada poderá abalar-nos; mas, se apenas tivermos boa intenção, um pequeno choque nos subverterá e destruirá. Por isso, exorto-vos a que suportemos tudo com muita alegria, imitando o Profeta, que diz: Minha alma se apega a Ti; observai que ele não diz "aproxima-se", mas "apega-se a Ti"; e novamente: Minha alma tem sede de Ti (Sl 62,3). Não disse apenas "anseia", para que por tais palavras exprimisse a veemência de seu desejo; e novamente: Crava minha carne em teu temor (Sl 118,120, Septuaginta). Pois Ele deseja que assim nos apeguemos e sejamos unidos a Ele, de modo que jamais dEle nos separemos. Se assim nos apegarmos a Deus, se assim cravarmos nossos pensamentos nEle, se tivermos sede do amor dEle, tudo o que desejamos será nosso, e alcançaremos os bens vindouros, em Jesus Cristo nosso Senhor, a quem, com o Pai e o Espírito Santo, seja a glória, o poder e a honra, agora e para sempre. Amém.
Vale a pena suscitar a questão de por que Paulo chama Timóteo a vir a ele, sendo que é Paulo quem tem a responsabilidade de cuidar da Igreja, e até de todo um povo. Não o faz Paulo por arrogância. Paulo estava, de fato, pronto a ir a Timóteo, como ele mesmo diz: "Se eu me demorar, para que saibas como convém andar na casa de Deus." Mas uma necessidade o constrangia. Já não era senhor dos seus próprios movimentos. Estava preso, encarcerado por Nero, e quase à beira da morte. Para que não morresse antes de ver o seu discípulo, manda, pois, chamá-lo, desejando vê-lo antes de morrer, e talvez confiar-lhe pesadas responsabilidades.
É digno de indagação por que ele chama Timóteo a si, visto que lhe fora confiada uma Igreja, e uma nação inteira. Não foi por arrogância. Pois Paulo estava pronto a ir a ele; encontramo-lo, com efeito, dizendo: Mas, se eu me demorar, para que saibas como convém andar na casa de Deus (1Tm 3:15). Mas era retido por uma forte necessidade. Já não era senhor dos seus próprios movimentos. Estava preso, e fora encarcerado por Nero, e quase à beira da morte. Para que isto não sucedesse antes de ver o seu discípulo, manda, pois, chamá-lo, desejando vê-lo antes de morrer, e talvez confiar-lhe muitas instruções. Por isso diz: Apressa-te a vir a mim antes do inverno.
Pois Demas me abandonou, tendo amado o presente século. Não diz: Para que eu vos veja antes de partir desta vida — o que o teria entristecido —, mas diz que está só, e não tem quem o ajude ou sustente.
Pois Demas me abandonou, tendo amado o presente século, e partiu para Tessalônica; isto é, tendo amado o seu próprio conforto e a segurança longe do perigo, preferiu antes viver luxuriosamente em casa, a padecer comigo as dificuldades e partilhar o perigo presente. A ele somente censurou, não por causa de censurá-lo, mas para nos confirmar, a fim de que não nos tornemos efeminados ao recusar as fadigas e os perigos, pois isto é ter amado o presente século. Ao mesmo tempo, deseja atrair a si o seu discípulo.
Crescente, para a Galácia; Tito, para a Dalmácia.
A estes não censura. Pois Tito foi um dos homens mais admiráveis, de sorte que a ele confiou os negócios da ilha — não uma pequena ilha, refiro-me, mas aquela grande, a de Creta.
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Demas, tendo amado o seu próprio conforto e a segurança longe do perigo, preferiu antes viver luxuriosamente em casa, a padecer com Paulo as dificuldades e partilhar os seus perigos presentes. Paulo, na verdade, o censurou, mas somente para nos confirmar, a fim de que não venhamos a sucumbir a uma fraqueza autoindulgente ao recusar as fadigas e os perigos, pois isto equivaleria a "ter amado o presente século".
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Não foi para o seu próprio alívio, mas para o ministério do evangelho, que Paulo quis Marcos consigo. Pois, ainda que estivesse encarcerado, nunca cessou de pregar. Pela mesma razão mandou chamar Timóteo, não para o seu próprio conforto, mas para a obra do evangelho, a fim de que a sua morte não perturbasse os fiéis.
Somente Lucas está comigo. Pois este a ele se apegou inseparavelmente. Foi ele quem escreveu o Evangelho e os Atos Gerais; homem dedicado aos labores, ao estudo e dotado de fortaleza; dele escreve Paulo, cujo louvor está no Evangelho por todas as Igrejas (2 Cor 8:18).
Toma a Marcos e traze-o contigo, pois me é proveitoso para o ministério.
Não era pelo seu próprio alívio, mas pelo ministério do Evangelho, que o desejava. Pois, ainda que encarcerado, não cessava de pregar. Foi por essa mesma razão que mandou chamar Timóteo, não por si mesmo, mas por causa do Evangelho, para que sua morte não ocasionasse perturbação aos fiéis, estando presentes muitos de seus próprios discípulos, tanto para impedir tumultos quanto para consolar aqueles que dificilmente teriam força para suportar sua morte. Pois é provável que os fiéis de Roma fossem homens de consideração.
Que necessidade tinha ele de livros, estando prestes a partir e ir para junto de Deus? Deles necessitava muito, para que os depositasse nas mãos dos fiéis, os quais os conservariam em lugar de seu próprio ensino.
Este φαιλόνην pode significar uma veste ou, como dizem alguns, uma bolsa, na qual se continham os livros.
A palavra aqui traduzida por capa pode significar uma veste ou, como dizem alguns, uma bolsa, na qual se continham os livros. Mas que necessidade tinha ele de livros, estando prestes a partir e ir para junto de Deus? Deles necessitava muito, para que os depositasse nas mãos dos fiéis, os quais os conservariam em lugar de seu próprio ensino. Todos os fiéis, pois, sofreriam grande golpe, mas particularmente aqueles que estivessem presentes à sua morte e então gozassem de sua companhia. Já a capa ele reclama para que não fosse obrigado a recebê-la de outrem. Pois vemos que ele fazia grande questão de evitar isso; e alhures, dirigindo-se aos de Éfeso, diz: Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo (At 20:34-35); e ainda: Mais bem-aventurado é dar do que receber.
Aqui de novo ele faz menção de seu julgamento, não querendo apenas censurar e acusar o homem, mas preparar o seu discípulo para os combates, a fim de que os suportasse com firmeza. Ainda que sejam pessoas vis e desprezíveis, e sem honra, as que causam essas provações, todas elas, diz ele, devem ser suportadas com fortaleza.
Aqui ele novamente faz menção do seu julgamento, não desejando meramente censurar e acusar o homem, mas preparar o seu discípulo para os combates, para que os suportasse com firmeza. Ainda que sejam pessoas vis e desprezíveis, e sem honra, as que causam essas provações, todas elas, diz ele, devem ser suportadas com fortaleza. Pois aquele que sofre injúria de algum grande personagem recebe não pequena distinção da superioridade daquele que a comete. Mas aquele que é ofendido por pessoa vil e abjeta padece maior aflição. Ele me fez muito mal, diz, isto é, perseguiu-me de várias maneiras. Mas essas coisas não ficarão impunes! Pois o Senhor lhe retribuirá segundo as suas obras. Como disse acima: Quantas perseguições suportei, mas de todas elas o Senhor me livrou (2Tm 3.11). Assim também aqui ele consola os seus discípulos com dupla consideração: que ele próprio havia sofrido injúria, e que o outro seria retribuído pelas suas más obras. Não que os santos se regozijem no castigo dos seus perseguidores, mas porque a causa do Evangelho o requeria, e o mais fraco haveria de tirar disso consolação.
Isto é, ele nos é hostil, e opõe-se a nós. Não disse: Vinga-te, castiga-o, expulsa-o, ainda que pela graça que lhe fora dada pudesse tê-lo feito, mas nada disso faz; nem tampouco arma Timóteo contra ele, mas somente lhe ordena que o evite, deixando a vingança a Deus, e para consolação dos mais fracos disse que Ele o retribuirá, o que é antes profecia que imprecação. E que ele diz estas coisas para preparar o ânimo do seu discípulo, manifesto se torna também pelo que se segue. Mas vede como ele menciona outras das suas provações.
Se em tempo de guerra alguém abandona um companheiro que se acha exposto ao perigo, e recua diante do confronto com o inimigo, seria com justiça condenado pelos demais por essa grave traição. Ainda mais verdadeiro é isso quanto àqueles que labutam pelo Evangelho. Mas ele então passa a dar encorajamento ao seu discípulo no que se segue.
Vedes como ele poupa os seus amigos, não obstante fosse coisa grave o que haviam feito? Pois não é o mesmo ser desprezado por estranhos e sê-lo pelos nossos próprios amigos. Vedes o seu intenso abatimento? Não se pode dizer que fui assaltado pelos de fora, mas tive consolo na atenção e no apoio dos meus amigos; pois também estes me traíram. Todos os homens, diz ele, me abandonaram. E isto não foi leve ofensa. Pois se aquele que em guerra abandona o companheiro exposto ao perigo, e recua diante das mãos dos seus inimigos, é justamente ferido pelos seus amigos, como quem de todo traiu a causa comum, muito mais no caso do Evangelho. Mas de que primeira defesa fala ele? Ele estivera diante de Nero, e escapara. Mas depois, por haver convertido o seu copeiro, foi decapitado. E aqui de novo há encorajamento para o seu discípulo no que se segue.
Caíra ele nas próprias fauces do leão. Pois chama a Nero leão por causa da sua ferocidade e do caráter violento e temerário do seu governo.
Não obstante isso, o Senhor esteve comigo e me confortou. Ainda que abandonado pelos homens, Deus não permite que ele padeça dano algum. Ele me confortou, diz, isto é, deu-me ousadia para falar. Não permitiu que eu soçobrasse.
Para que por mim fosse cumprida a pregação. Isto é, fosse plenamente cumprida. Observai sua grande humildade. Ele não diz que foi confortado como quem fosse digno de tal dom, mas para que a pregação, de que fora encarregado, se cumprisse inteiramente. Como se alguém vestisse um manto de púrpura e um diadema, e a essa circunstância devesse sua salvação.
E que todos os gentios ouvissem. Que significa isto? Que o esplendor do Evangelho, e o cuidado de Sua Providência para comigo, fossem conhecidos de todos.
E fui livrado da boca do leão.
E o Senhor me livrará de toda obra maligna. Vede quão perto ele estivera da morte. Caíra nas próprias fauces do leão. Pois chama a Nero de leão pela sua ferocidade, e pelo caráter violento e temerário de seu governo. O Senhor me livrou, diz ele, e me livrará. Mas, se diz "me livrará", por que diz também "estou pronto para ser oferecido"? Atendei à expressão: "me livrou", diz, da boca do leão; e novamente, "me livrará", não da boca do leão, mas de toda obra maligna. Pois então Ele o livrou do perigo; mas agora, tendo bastado o que se fizera pelo Evangelho, ainda o livrará de todo pecado, isto é, não permitirá que ele parta sob condenação. Pois que ele fosse capaz de resistir até ao sangue, combatendo contra o pecado (Hb 12,4), e não cedesse, isto é livramento de outro leão, a saber, o demônio, de sorte que esta preservação é maior que a primeira, quando parecia estar sendo entregue.
E me preservará para o Seu reino celestial; ao Qual seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Esta, pois, é a salvação, quando ali resplandecermos. Mas que significa "me preservará para o Seu reino"? Livrar-me-á de toda culpa, e ali me preservará. Pois isto é ser preservado para o Seu reino: morrer aqui por causa dele. Porque aquele que odeia sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna (Jo 12,25).
Ao Qual seja a glória. Eis aqui uma doxologia ao Filho.
Pois este estava então em Roma, do qual disse: "Conceda-lhe o Senhor que ache misericórdia diante do Senhor naquele dia" (2 Tm 1,18). Ao nomeá-lo assim, torna também os de sua casa mais zelosos em tais boas obras.
Saudai a Priscila e a Áquila. São estes de quem faz menção contínua, com quem também se hospedara, e que haviam recebido a Apolo consigo. Nomeia primeiro a mulher, suponho eu, por ser mais zelosa e mais fiel, pois fora ela quem então recebera a Apolo; ou talvez o faça indiferentemente. E não lhes foi pequena consolação serem assim saudados. Isso trazia consigo demonstração de estima e amor, e participação em muita graça. Pois a simples saudação daquele homem santo e bem-aventurado bastava para encher de graça quem a recebesse.
Os apóstolos não podiam fazer tudo. Não dispensavam dons miraculosos em todas as ocasiões, para que não se lhes atribuísse mais do que era devido... Pois muitas coisas foram permitidas por Deus para que se manifestasse a fraqueza da natureza humana.
Este Trófimo e Tíquico, sabemos pelo livro dos Atos, navegaram com ele desde a Judeia, e em toda parte foram seus companheiros, talvez por serem mais zelosos que os demais.
Deixei Trófimo doente em Mileto. Por que, então, não o curou, em vez de deixá-lo? Os Apóstolos não podiam fazer tudo, ou não dispensavam dons miraculosos em todas as ocasiões, para que não se lhes atribuísse mais do que era devido. O mesmo se observa naqueles bem-aventurados e justos varões que os precederam, como no caso de Moisés, cuja voz era fraca. Por que não se removeu esse defeito? Aliás, foi ele frequentemente afligido por tristeza e abatimento, e não lhe foi permitido entrar na Terra da Promessa.
Pois muitas coisas foram permitidas por Deus, para que se manifestasse a fraqueza da natureza humana. E se, com estes defeitos, os insensíveis judeus podiam perguntar: "Onde está Moisés, que nos tirou da terra do Egito?" (Êx 32,1), como não se teriam afetado a seu respeito se ele os tivesse também introduzido na Terra da Promessa? Se não lhe tivesse sido permitido ser vencido pelo temor de Faraó, não o teriam tido por um deus? Vemos que assim se afetou o povo de Listra a respeito de Paulo e Barnabé, tendo-os por deuses, quando estes rasgaram as vestes e correram para o meio da multidão, clamando e dizendo: "Senhores, por que fazeis isto? Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós" (At 14,14-15). Pedro, também, tendo curado o coxo de nascença, quando todos se maravilhavam do milagre, respondeu e disse: "Varões israelitas, por que vos maravilhais disto, ou por que fitais os olhos em nós, como se por nosso próprio poder ou santidade tivéssemos feito andar este homem?" (At 3,12). Ouvi também o bem-aventurado Paulo, dizendo: "Foi-me dado um espinho na carne, para que eu não me exaltasse sobremaneira" (2 Cor 12,7). Mas isto, direis, foi expressão de humildade. Longe disso. O espinho não lhe foi enviado para que fosse humilde, nem diz ele isto apenas por humildade. Há outras causas ainda a atribuir-lhe. Observai, pois, como Deus, dando a razão, diz: "A minha graça te basta"; não para que não te exaltes sobremaneira, mas o quê? "Porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." Dois fins, portanto, alcançavam-se ao mesmo tempo: o que se operava tornava-se claramente manifesto, e tudo se atribuía a Deus. Por esta causa disse ele alhures: "Temos este tesouro em vasos de barro" (2 Cor 4,7); isto é, em corpos fracos e sujeitos ao sofrimento. Por quê? "Para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós." Se nossos corpos não estivessem sujeitos à enfermidade, tudo se lhes atribuiria. E alhures o vemos afligir-se com a enfermidade de Epafrodito, a respeito de quem escreve: "Esteve doente, quase à morte; mas Deus se compadeceu dele" (Fl 2,27). E há muitos outros exemplos de sua ignorância dos acontecimentos, o que era proveitoso tanto para ele quanto para seus discípulos.
Deixei Trófimo doente em Mileto. Mileto ficava perto de Éfeso. Sucedeu isto, então, quando navegou para a Judeia, ou em outra ocasião? Pois, depois de estar em Roma, voltou à Espanha, mas se dali tornou a vir a estas regiões, não sabemos. Vemo-lo, porém, abandonado por todos. Pois "Demas", diz ele, "me abandonou. Crescente foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia. Erasto ficou em Corinto. Trófimo deixei doente em Mileto."
Este Lino, dizem alguns, foi o segundo bispo da Igreja de Roma depois de Pedro. E Cláudia. Vede quão zelosas pela fé eram as mulheres, quão ardentes! Tais foram Priscila e esta Cláudia, já como que crucificadas, já preparadas para a batalha! Mas por que, havendo tantos fiéis, menciona apenas estas mulheres? Manifestamente porque estas, em propósito, já se haviam retirado dos negócios mundanos, e eram ilustres acima das demais. Pois a mulher, enquanto tal, não encontra impedimento algum. É obra da graça divina que este sexo seja impedido apenas nos negócios desta vida, ou antes, nem mesmo nestes. Pois a mulher assume não pequena parte de toda a administração, sendo guardiã da casa. E sem ela nem mesmo os negócios políticos poderiam ser devidamente conduzidos. Pois se seus cuidados domésticos estivessem em estado de confusão e desordem, os que se ocupam dos negócios públicos ficariam retidos em casa, e os assuntos políticos seriam mal administrados. De modo que, nem naquelas coisas, como tampouco nas espirituais, ela é inferior. Pois é capaz, se assim o quiser, de suportar mil mortes. E, com efeito, muitas mulheres sofreram o martírio. É capaz de praticar a castidade ainda mais que os homens, não a perturbando chama tão forte; e de mostrar modéstia, gravidade e santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12,14); e o desprezo das riquezas, se o quiser, e, em suma, todas as demais virtudes.
Procura vir antes do inverno. Vede como o insta, e contudo nada lhe diz que o entristeça. Não diz "antes que eu morra", para não afligi-lo; mas "antes do inverno", para que não sejas detido.
Êubulo, diz ele, te saúda, e Pudente, e Lino, e Cláudia, e todos os irmãos. Não menciona os demais pelo nome. Vedes que estes eram os mais zelosos?
Vede quão zelosas pela fé eram as mulheres, quão ardorosas! Tais foram Priscila e esta Cláudia, já crucificadas, já preparadas para o combate! Mas por que, havendo tantos fiéis, menciona ele somente estas mulheres? Evidentemente porque estas, de propósito, já se haviam retirado dos negócios mundanos e eram ilustres acima das demais…. Tais santas mulheres não são propensas a desanimar-se diante dos impedimentos nos negócios desta vida. Esta é uma obra da graça divina concedida a este sexo. Não é pequena a parte que a mulher assume em toda a administração, sendo ela a guardiã da casa. E sem ela nem mesmo os negócios políticos poderiam ser devidamente conduzidos. Pois se os seus cuidados domésticos estivessem em estado de confusão ou desordem, os que se ocupam dos negócios públicos seriam retidos em casa, e os assuntos políticos seriam mal administrados. De sorte que nem nestas coisas, como tampouco nas espirituais, é ela inferior. Pois é capaz, se a isso se dispuser, de suportar mil mortes. Por isso muitas mulheres padeceram o martírio.
O Senhor Jesus Cristo seja com o teu espírito.
Não pode haver oração melhor do que esta. Não te aflijas com a minha partida. O Senhor estará contigo. E ele diz, não "contigo", mas "com o teu espírito". Há, pois, um duplo auxílio: a graça do Espírito, e Deus a auxiliá-la. E de outro modo Deus não estará conosco, se não tivermos a graça espiritual. Pois, se formos desamparados pela graça, como estará Ele conosco?
A graça seja convosco. Amém.
Assim ora também por si mesmo, para que sejam sempre agradáveis a Ele, para que tenham a graça juntamente com o dom espiritual, pois onde este está, nada será penoso. Pois, assim como aquele que contempla o rei, e está em seu favor, não sente nenhuma inquietação; assim, ainda que nossos amigos nos abandonem, ainda que sejamos assaltados pela calamidade, não sentiremos aflição, se essa graça estiver conosco e nos fortalecer.
Moral. Mas como atrairemos sobre nós a graça? Fazendo o que é agradável a Deus, e obedecendo-Lhe em todas as coisas. Não vemos, nas grandes casas, aqueles domésticos em favor, que não atentam para o seu próprio interesse, mas promovem, com todo o zelo e prontidão, o de seus senhores, e que, não por compulsão do senhor, mas por sua própria afeição e boa disposição, ordenam todas as coisas bem? Quando estão sempre diante de seus olhos, quando se ocupam da casa, quando não se ocupam de nenhum negócio particular, nem cuidam do que é seu, mas antes consideram os negócios de seus senhores como próprios. Pois aquele que torna o que é seu próprio pertencente ao seu senhor, na verdade não cede o que é seu ao senhor, mas torna próprio o interesse deste; ordena até como a si mesmo em seus assuntos, e governa igualmente com ele. É muitas vezes tão temido pelos domésticos quanto o senhor, e tudo o que ele diz, o senhor também diz, e é, doravante, temido por todos os inimigos.
E se aquele que, nos negócios mundanos, antepõe os interesses de seu senhor aos próprios, não negligencia, na verdade, o seu próprio interesse, mas antes o promove ainda mais; muito mais é assim nas coisas espirituais. Despreza os teus próprios negócios, e receberás os de Deus. Isto Ele mesmo quer. Despreza cada um deles, e apodera-te do reino dos céus. Habita ali, não aqui. Sê temível ali, não aqui. Se és temível ali, não serás temível aos homens, mas aos demônios, e até ao próprio diabo. Mas se a tua confiança está posta nas riquezas mundanas, serás desprezível para eles, e muitas vezes também para os homens. Sejam quais forem as tuas riquezas, serás rico em coisas servis. Mas se as desprezares, serás radiante na casa do Rei.
Tais eram os Apóstolos, desprezando uma casa servil e as riquezas mundanas! E vede como eles ordenavam nas coisas de seu Senhor. Que seja este, diziam, livrado da enfermidade; aquele, da possessão dos demônios: ligai a este, soltai àquele. Isto era feito por eles na terra, mas se cumpria como no Céu. Pois tudo o que ligardes na terra, disse Ele, será ligado no Céu (Mt 18,18). E maior poder do que o seu próprio Ele lhes deu. E que não minto, manifesta-se por Suas próprias palavras: Aquele que crê em Mim, obras maiores fará do que estas que Eu faço (Jo 14,12). Por que assim? Porque esta honra reflete-se sobre o Senhor. Como em nossos próprios assuntos, se o servo tem grande poder, o senhor é ainda mais admirado, pois se o servo é tão poderoso, muito mais o é aquele que o comanda. Mas se algum homem, negligenciando o serviço de seu senhor, pensa apenas em sua esposa, seu filho ou seu servo, e busca enriquecer-se, e ajuntar tesouro ali, roubando e despojando seu senhor de seus bens, logo é arruinado, e sua riqueza perece com ele.
Por isso, tendo estes exemplos, eu vos suplico, não olhemos para as nossas posses, para que possamos olhar para nós mesmos: antes, desprezemo-las, para que as obtenhamos. Se as desprezarmos, Ele cuidará delas; se cuidarmos delas, Deus as desprezará. Trabalhemos nas coisas de Deus, não nas nossas próprias, ou antes, verdadeiramente nas nossas próprias, pois as coisas d'Ele são as nossas. Não falo do céu, nem da terra, nem das coisas deste mundo: estas são indignas d'Ele. E pertencem igualmente aos fiéis e aos incrédulos. O que, então, chamo de d'Ele? Sua glória e Seu reino. Estas são d'Ele, e nossas por causa d'Ele. Como? Se morrermos com Ele, diz Ele, também com Ele viveremos. Se padecermos, também com Ele reinaremos (2 Tm 2,11). Tornamo-nos co-herdeiros, e somos chamados Seus irmãos. Por que nos afundamos abaixo, quando Ele nos atrai para cima, para Si mesmo? Até quando seremos pobres e mendigos? O Céu está posto diante de nós; e nos demoramos na terra? Seu reino se abre para nós, e escolhemos tal pobreza como a que há aqui? A vida imortal nos é oferecida, e nos gastamos por terras, por madeira e pedras? Sede verdadeiramente ricos. Eu gostaria que fôsseis assim. Sede cobiçosos e rapaces, não vos culpo por isso. Aqui é falta não ser cobiçoso, aqui é censurável não ser ávido. Que é isto, então? O reino dos Céus padece violência, e os violentos o arrebatam (Mt 11,12). Sede vós violentos ali! Sede ávidos! Ele não diminui por ser arrebatado. Pois nem a virtude se divide, nem a piedade se diminui, nem o reino dos Céus. A virtude aumenta quando dela vos apoderais, ao passo que os bens temporais diminuem quando deles se apoderam. E isto se manifesta assim: sejam dez mil homens numa cidade; se todos se apoderarem da virtude, ela se multiplica, pois tornam-se justos em dez mil coisas. Se ninguém dela se apoderar, ela se diminui, pois em parte alguma se há de encontrar.
Vedes, pois, que os bens são multiplicados quando são possuídos por muitos, ao passo que os bens terrenos antes se diminuem quando são açambarcados. Não nos assentemos, portanto, contentes com a pobreza, mas escolhamos as riquezas. Rico é Deus, pois, quando são muitos os que gozam do Seu reino. Pois Ele é rico, está dito, para com todos os que O invocam (Rm 10,12). Aumentai, pois, a Sua substância; e a aumentareis tomando posse dela, sendo cobiçosos dela, arrebatando-a violentamente. E, na verdade, há necessidade de violência. Por que razão? Porque há tantos impedimentos, como esposas e filhos, cuidados e negócios mundanos; além destes, os demônios, e aquele que é o príncipe deles, o diabo. Há necessidade, pois, de violência, há necessidade de fortaleza. Aquele que arrebata pela violência está exposto a fadigas. Como? Suporta todas as coisas, luta contra as necessidades. Como? Quase tenta o impossível. Se tais são aqueles que arrebatam pela violência, e nós hesitamos em tentar sequer o que é possível, como venceremos alguma vez? Ou quando gozaremos das coisas pelas quais lutamos? Os violentos, está dito, arrebatam o reino dos céus (Mt 11,12). Violência e rapina são necessárias. Pois não nos é simplesmente posto diante e pronto às nossas mãos. Aquele que arrebata pela violência está sempre sóbrio e vigilante, está ansioso e cuidadoso, para que faça sua presa em tempo oportuno. Não vedes que, na guerra, aquele que está para fazer uma presa vigia e permanece armado a noite inteira? Se, pois, aqueles que visam arrebatar os bens mundanos vigiam e estão armados a noite toda, deveríamos nós, que desejamos arrebatar as coisas espirituais, dormir e ressonar de dia, e permanecer sempre nus e desarmados? Pois aquele que se ocupa do pecado está desarmado; assim como aquele que pratica a justiça está armado. Não nos fortificamos com a esmola. Não preparamos para nós lâmpadas acesas, não nos cercamos com a armadura espiritual. Não aprendemos o caminho que conduz até lá. Não somos sóbrios e vigilantes, e por isso não podemos arrebatar despojo algum.
Se um homem deseja fazer uma tentativa contra um reino, não põe ele diante de si a morte sob mil formas? Não está ele armado em todos os pontos, não pratica ele a arte da guerra, não faz ele tudo com este propósito, e assim se lança ao ataque? Mas nós não agimos assim. Queremos tomar o despojo enquanto dormimos, e por isso saímos de mãos vazias. Não vedes os saqueadores, como fogem, como se movem rapidamente? Como abrem caminho através de tudo? E há necessidade de presteza aqui. O diabo vos persegue. Ele ordena aos que estão adiante que vos detenham. Mas, se fordes fortes, se fordes vigilantes, rejeitareis um, e afastareis outro, e escapareis de todos, como um pássaro. Sim, se vos apartardes daqui, se escapardes do mercado e do tumulto — refiro-me a esta vida —, e alcançardes aquelas regiões mais elevadas, além destas, no mundo que há de vir. Pois lá, como numa solidão, não há tumulto, ninguém que perturbe, ou que detenha o vosso curso.
Terás agarrado? Ainda assim, um pouco de esforço é necessário depois da presa, para que aquilo que agarraste não te seja arrebatado. Se continuarmos a correr, se não olharmos para nenhuma das coisas que se põem diante de nossos olhos, se nada considerarmos senão como escapar daqueles que nos quereriam impedir, poderemos reter com toda segurança o que agarramos. Agarraste a castidade? Não te demores; foge para além do alcance do demônio. Se ele vir que não pode alcançar-te, cessará de perseguir-te; assim como nós, quando já não podemos ver aqueles que nos roubaram, desesperamos da perseguição, e não os perseguimos, nem chamamos outros para deter o ladrão, mas os deixamos escapar. Corre, pois, vigorosamente desde o princípio, e, quando estiveres para além do alcance do demônio, ele não tornará depois a atacar-te, mas estarás em segurança, gozando com firmeza daqueles bens inefáveis, os quais Deus conceda que todos nós alcancemos por Jesus Cristo, nosso Senhor. A quem, com o Pai e o Espírito Santo, seja glória, poder, honra e adoração, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
A maior parte dos homens faz e maquina todas as coisas com vistas a insinuar-se na graça dos que governam, e dos que lhes são superiores; e reputam grande coisa, e se têm por venturosos, se conseguem alcançar tal objeto. Ora, se alcançar o favor dos homens é vantagem tão grande, quão grande não há de ser alcançar o favor de Deus? Por isso é que ele sempre principia assim a sua Epístola, e sobre eles invoca isto, sabendo que, uma vez concedido isto, nada mais haverá depois de penoso, mas quaisquer tribulações que sobrevierem, todas se desfarão. E, para que aprendas isto, José era escravo, jovem, sem experiência, sem formação, e de repente lhe foi confiada a direção de uma casa, e havia de prestar contas a um senhor egípcio. E bem sabes quão propenso à ira e implacável é aquele povo, e, quando se lhe acrescenta autoridade e poder, tanto maior se faz o seu furor, inflamado que é pelo poder. E isto também se manifesta pelo que fez depois. Pois, quando a senhora o acusou, ele o suportou. E, no entanto, não era próprio de quem retivera a veste, mas daquele que fora despojado dela, ter sofrido violência. Deveria ter dito: Se ele ouvisse que ergueste a voz, como dizes, teria fugido; e, se fosse culpado, não teria aguardado a vinda de seu senhor. Mas, apesar disto, nada disto tomou em consideração, antes, cedendo sem razão inteiramente à ira, lançou-o no cárcere. Tão inconsiderado era este homem. E, no entanto, ainda por outras coisas poderia ter conjecturado a boa disposição e a inteligência daquele homem. Mas, apesar disto, por ser sobremaneira desarrazoado, jamais considerou coisa alguma semelhante. Ele, pois, que tinha de tratar com senhor tão duro, e a quem se confiara a administração de toda a sua casa, sendo estrangeiro, solitário e inexperiente, quando Deus derramou sobre ele graça abundante, passou por tudo como se as suas tentações nem sequer tivessem existido — tanto a falsa acusação de sua senhora, quanto o perigo de morte, quanto o cárcere — e por fim chegou ao trono real.
Tendo dito, em sua Epístola anterior, que orávamos noite e dia para vos ver, e que não podíamos suportar mais, mas fomos deixados sozinhos em Atenas, e que enviei Timóteo, conforme 1 Ts 3:1-10, por todas estas expressões ele mostra o desejo que tinha de ir até eles. Quando, portanto, talvez não tivesse tido tempo de ir e de aperfeiçoar o que faltava à fé deles, por esta razão acrescenta uma segunda Epístola, suprindo por seus escritos o que faltava de sua presença. Pois que ele não partiu, podemos conjecturar disto: porque diz nesta Epístola, Rogamo-vos pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, conforme 2 Ts 2:1. Pois em sua primeira Epístola disse, Quanto aos tempos e às estações não necessitais de que se vos escreva coisa alguma, conforme 1 Ts 5:1. De modo que, se ele tivesse ido, não haveria necessidade de escrever. Mas, visto que a questão fora adiada, por esta razão acrescenta esta Epístola, assim como em sua Epístola a Timóteo diz, Estes subvertem a fé de alguns, dizendo que a Ressurreição já passou, conforme 2 Tm 2:18; para que os fiéis, doravante nada esperando de grande ou esplêndido, desfalecessem sob seus sofrimentos.
Pois, como aquela esperança os sustentava e não lhes permitia ceder aos males presentes, o demônio, desejando cortá-la, como sendo uma espécie de âncora, quando não pôde persuadi-los de que as coisas vindouras eram falsas, foi por outro caminho, e, tendo subornado certos homens pestilentos, empenhou-se em enganar os que criam, persuadindo-os de que aquelas coisas grandes e esplêndidas já haviam recebido seu cumprimento. Assim, estes homens diziam então que a Ressurreição já havia passado. Mas agora diziam que o Juízo e a vinda de Cristo estavam próximos, para que envolvessem até mesmo a Cristo numa falsidade, e, tendo-lhes mostrado que doravante não há retribuição, nem tribunal, nem punição e vingança para os que lhes haviam feito mal, tornassem estes mais audazes, e aqueles mais desalentados. E, o que era pior que tudo, alguns tentavam apenas relatar palavras como se ditas por Paulo, mas outros chegavam a forjar Epístolas como escritas por ele. Por esta razão, cortando-lhes todo acesso, ele diz, Não vos deixeis abalar facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, seja por espírito, seja por palavra, seja por epístola como de nós, conforme 2 Ts 2:2. Nem por espírito, diz ele, aludindo aos falsos profetas. De onde, então, os conheceremos?, pergunta ele. Por esta mesma razão, acrescentou, A saudação de próprio punho, minha, de Paulo, que é o sinal em toda Epístola: assim escrevo. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós, conforme 2 Ts 3:17-18. Ele não quer dizer aqui que este seja o sinal — pois é provável que outros também o imitassem — mas que eu escrevo a saudação de próprio punho, como é também o costume hoje entre nós. Pois pela subscrição os escritos daqueles que enviam cartas se dão a conhecer. Mas ele os consola, como estando excessivamente aflitos por suas tribulações; louvando-os por seu estado presente, e encorajando-os pela perspectiva do porvir, e pelo castigo, e pela recompensa dos bens preparados para eles; e discorre mais claramente sobre este tópico, não revelando de fato o próprio tempo, mas mostrando o sinal do tempo, a saber, o Anticristo. Pois uma alma fraca então se assegura mais plenamente, não quando apenas ouve, mas quando aprende algo mais particular.
Também Cristo dedicou grande cuidado a este ponto, e, assentado no Monte, discorreu com grande minúcia aos seus discípulos acerca da Consumação. E por quê? Para que não houvesse lugar para aqueles que introduzem Anticristos e falsos Cristos. E Ele mesmo dá também muitos sinais, um deles, aliás o mais importante, dizendo: quando o Evangelho for pregado a todas as nações (Mt 24,14), e outro ainda, para que não fossem enganados a respeito de Sua vinda. Como o relâmpago, diz Ele, assim virá (Mt 24,27); não oculto em algum recanto, mas resplandecendo por toda parte. Não requer que alguém o aponte, tão esplêndido será, assim como o relâmpago não precisa que ninguém o assinale. E falou também em certo lugar acerca do Anticristo, quando disse: Eu vim em nome de Meu Pai, e vós não Me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis (Jo 5,43). E disse que aquelas indizíveis calamidades, sucedendo-se umas às outras, eram sinal disso, e que Elias havia de vir.
Os tessalonicenses, com efeito, estavam então perplexos, mas sua perplexidade nos tem sido proveitosa. Pois não apenas a eles, mas também a nós, estas coisas são úteis, para que sejamos livrados de fábulas pueris e de tolices de velhas. E não tendes vós ouvido muitas vezes, quando éreis crianças, pessoas falando bastante até mesmo sobre o nome do Anticristo, e sobre o dobrar de seu joelho? Pois o demônio semeia estas coisas em nossas mentes, ainda tenras, para que a doutrina cresça conosco, e para que ele possa nos enganar. Paulo, portanto, ao falar do Anticristo, não teria omitido estas coisas se fossem proveitosas. Não indaguemos, pois, sobre estas coisas. Porquanto ele não virá dobrando assim os joelhos, mas exaltando-se contra tudo o que se chama Deus, ou que é adorado; de modo que se assenta no templo de Deus, apresentando-se a si mesmo como Deus (2 Ts 2,4). Pois, assim como o demônio caiu pela soberba, também aquele que é operado por ele é ungido para a soberba.
Por isso, eu vos rogo, sejamos todos diligentes em nos afastar bem longe desta paixão, para que não caiamos na mesma condenação daquele, para que não nos sujeitemos ao mesmo suplício, para que não participemos do mesmo castigo. Não neófito, diz ele, para que, ensoberbecido, não caia na condenação do diabo (1 Tm 3,6). Aquele, pois, que se ensoberbece, sofre o mesmo suplício que o diabo. Porque o princípio da soberba é não conhecer o Senhor (Eclo 10,12-13). A soberba é o princípio do pecado, o primeiro ímpeto e movimento para o mal. Talvez seja, na verdade, tanto a raiz quanto o fundamento. Pois o princípio significa ou o primeiro ímpeto para o mal, ou o alicerce. Como se alguém dissesse: o princípio da castidade é abster-se da vista de um objeto impróprio — isto é o primeiro ímpeto. Mas se disséssemos: o princípio da castidade é o jejum — isto é o fundamento e o alicerce. Assim também a soberba é o princípio do pecado. Pois todo pecado começa a partir dela, e por ela é mantido. Que este vício, quaisquer que sejam os bens que façamos, não os deixa permanecer, mas os faz cair, sendo como que uma raiz que não os deixa manter-se inabalados, torna-se manifesto a partir disto: vede que coisas fez o fariseu, e contudo de nada lhe aproveitaram. Pois ele não extirpou a raiz, mas ela corrompeu todos os seus feitos, porque a raiz permaneceu. Da soberba brota o desprezo pelos pobres, o desejo de riquezas, o amor ao poder, o anseio por muita glória. Tal homem está pronto a vingar uma injúria. Pois quem é soberbo não pode suportar ser insultado nem sequer pelos seus superiores, muito menos pelos seus inferiores. Mas quem não pode suportar ser insultado tampouco pode suportar sofrer qualquer mal. Vede como a soberba é o princípio do pecado.
Mas de que modo o não conhecer o Senhor é o princípio da soberba? Com razão. Pois aquele que conhece a Deus como deve conhecê-Lo, aquele que sabe o quanto o Filho de Deus a Si mesmo Se humilhou, não se ensoberbece. Mas aquele que não sabe destas coisas, esse se ensoberbece. Pois a soberba o unge para a arrogância. Dizei-me, pois: donde vem que aqueles que fazem guerra contra a Igreja afirmam conhecer a Deus? Não é da arrogância? Vede em que precipício os lança o não conhecer o Senhor! Pois se Deus ama o espírito contrito (Sl 51,17), etc., Ele, por outro lado, resiste aos soberbos e dá graça aos humildes (1 Pd 5,5). Não há, portanto, mal semelhante à soberba. Ela torna o homem um demônio, insolente, blasfemo, perjuro, e o faz desejoso de mortes e assassínios. O soberbo vive sempre em tribulações, está sempre irado, sempre infeliz. Não há nada que possa saciar a sua paixão. Ainda que visse o próprio rei inclinar-se diante dele e prostrar-se, não ficaria satisfeito, mas antes se inflamaria ainda mais. Pois, assim como os amantes do dinheiro, quanto mais recebem, tanto mais desejam, assim também os soberbos, quanto mais honra desfrutam, tanto mais a cobiçam. Pois a sua paixão se multiplica; porque é uma paixão, e a paixão não conhece limite, mas apenas cessa quando já matou o seu possuidor. Não vedes que os ébrios estão sempre sedentos? Pois é uma paixão, não o desejo da natureza, mas alguma enfermidade pervertida. Não vedes como aqueles que são acometidos daquilo a que chamam bulimia estão sempre famintos? Pois é uma paixão, como dizem os discípulos dos médicos, que já excede os limites da natureza. Os intrometidos e os demasiado curiosos, por mais que aprendam, não se detêm. Pois é uma paixão, e não tem limite (Eclo 23,17). Do mesmo modo, os que se comprazem na fornicação tampouco conseguem desistir. Ao fornicador, diz-se, todo pão é doce. Não cessará, até que seja devorado. Pois é uma paixão.
Estas, na verdade, são paixões, mas não incuráveis; antes admitem cura, e muito mais facilmente que as enfermidades corporais. Pois, se quisermos, podemos extingui-las. Como, pois, pode o homem extinguir a soberba? Conhecendo a Deus. Pois, se ela provém de não conhecer a Deus, conhecendo-O nós, toda soberba é banida. Pensai no Inferno. Pensai naqueles que são muito melhores que vós. Pensai nos vossos pecados. Pensai em quantas coisas mereceis castigo da parte de Deus. Se pensardes nisto, logo abatereis o vosso espírito soberbo, logo o dobrareis. Mas não podeis fazer estas coisas? Sois demasiado fracos? Considerai as coisas presentes, a própria natureza humana, o nada que é o homem! Quando virdes um corpo morto ser levado através da praça, crianças órfãs seguindo-o, uma viúva a bater no peito, servos a se lamentarem, amigos abatidos, refleti sobre o nada das coisas presentes, e que elas em nada diferem de uma sombra, ou de um sonho.
Não vos parece isto? Considerai os que são muito ricos, que perecem de qualquer modo na guerra; olhai ao redor para as casas que pertenceram aos grandes e ilustres, e que agora estão niveladas ao chão. Considerai quão poderosos eram, e agora nem mesmo uma lembrança deles resta. Pois, se quiserdes, todos os dias podereis encontrar exemplos disso — as sucessões de governantes — os confiscos dos bens dos ricos. Muitos tiranos se assentaram sobre o chão — e aquele em quem jamais se pensou usou um diadema. Eclesiástico 11:15. Não acontecem estas coisas todos os dias? Não se assemelham os nossos negócios a uma espécie de roda? Lede, se quiserdes, tanto os nossos (livros) quanto os de fora: pois também eles abundam em tais exemplos. Se desprezais os nossos, e isto por soberba; se admirais as obras dos filósofos, ide também até eles. Eles vos instruirão, relatando antigas calamidades, assim como os poetas, os oradores, os sofistas e todos os historiadores. De todos os lados, se quiserdes, podereis encontrar exemplos.
Mas, se não quiserdes nada disto, refleti sobre a nossa própria natureza, de que ela é composta, e onde termina. Considerai, quando dormis, quanto valeis. Não poderá até mesmo um pequeno animal destruir-vos? Pois frequentemente um pequeno animal, caindo do telhado, privou muitas pessoas da vista, ou foi causa de algum outro perigo. Mas quê? Não sois menos do que todos os animais? Mas que dizeis? Que excedeis em razão? Ora, vede: não tendes razão, pois a soberba é sinal da falta de razão. E por que, dizei-me, sois soberbo, afinal? É pela boa constituição do vosso corpo? Mas o prêmio da vitória aqui pertence às criaturas irracionais; isto também o possuem os ladrões, os assassinos e os violadores de sepulcros. Mas tendes orgulho do vosso entendimento? Não é prova de entendimento ser soberbo. Por isto, pois, antes de mais nada, vos privais de vir a ser inteligente. Abatamos os nossos altivos pensamentos. Sejamos moderados, humildes e mansos. Pois a tais o próprio Cristo declarou bem-aventurados acima de todos, dizendo: Bem-aventurados os pobres de espírito. Mt 5:3. E outra vez, Ele clamou, dizendo: Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração. Mt 11:29. Por esta razão Ele lavou os pés dos Seus discípulos, oferecendo-nos um exemplo de humildade. De todas estas coisas tiremos proveito, para que possamos alcançar as bênçãos prometidas àqueles que O amam, pela graça e benignidade, etc.
Este bem-aventurado homem, pois, viu quão grande é a graça de Deus, e por isso a invoca sobre eles. E outra coisa também ele consegue, querendo torná-los bem dispostos para o restante da Epístola: que, ainda que os tenha de repreender e censurar, não se apartem dele. Por esta razão os faz lembrar antes de tudo da graça de Deus, abrandando-lhes o coração, para que, ainda que haja aflição, lembrados da graça pela qual foram salvos do mal maior, não desesperem do menor, mas dele antes tirem consolação. Como também noutra Epístola disse: Porque, se, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida (Rm 5,10).
E como, dizeis vós, pode a fé crescer? Cresce quando sofremos algo terrível por causa da fé. É grande coisa que a fé esteja solidamente estabelecida e não seja arrebatada por algum sofisma. Mas quando os ventos nos assaltam, quando as chuvas se desencadeiam sobre nós, quando uma violenta tempestade se levanta por todos os lados e as ondas se sucedem umas às outras, o fato de não sermos abalados é prova de que a fé cresce, cresce abundantemente e se torna mais sublime.
Somos obrigados a dar sempre graças a Deus por vós, irmãos, como é justo. Novamente um sinal de grande humildade. Pois ele os conduziu a refletir e considerar que, se por nossas boas ações não são os outros que primeiro nos admiram, mas Deus, muito mais devemos nós também fazê-lo. E também de outros modos ele lhes eleva o ânimo, porque sofrem coisas que não são dignas de lágrimas e lamentações, mas de ação de graças a Deus. Mas se Paulo é grato pelo bem alheio, que sofrerão aqueles que não só não são gratos, mas ainda se consomem de despeito por isso?
Porque a vossa fé cresce sobremaneira, e a caridade de cada um de vós todos para com os outros abunda. E como, dizeis vós, pode a fé crescer? Isto se dá quando sofremos algo terrível por causa dela. É grande coisa que ela esteja estabelecida e não seja arrebatada por raciocínios. Mas quando os ventos nos assaltam, quando as chuvas se desencadeiam sobre nós, quando uma violenta tempestade se levanta por todos os lados, e as ondas se sucedem umas às outras — então o fato de não sermos abalados é prova de nada menos que isto: que ela cresce, e cresce sobremaneira, e se torna mais elevada. Pois, assim como no caso de uma inundação todas as partes rochosas e mais baixas logo se ocultam, mas as que estão acima, a água não as alcança, assim também a fé que se tornou elevada não é arrastada para baixo. Por isso ele não diz que a vossa fé cresce, mas que cresce sobremaneira, e que a caridade de cada um de vós todos para com os outros abunda. Vede como isto contribui para o alívio da aflição: estarem estreitamente unidos entre si e apegados uns aos outros? Disto também nasceu muita consolação. O amor e a fé, portanto, que são fracos, as aflições os abalam; mas os que são fortes, elas os tornam ainda mais fortes. Pois uma alma que está na tristeza, quando é fraca, nada pode acrescentar a si mesma; mas quando é forte, é então que mais o faz. E observai o amor deles. Não amavam a um e deixavam de amar a outro, mas era igual da parte de todos. Isto ele deu a entender ao dizer: de cada um de vós todos para com os outros. Pois estava igualmente equilibrado, como o de um só corpo. Visto que ainda hoje encontramos o amor existindo entre muitos, mas esse amor se tornando causa de divisão. Pois, quando nos ligamos em grupos de dois ou três, e estes dois, ou três, ou quatro, estão estreitamente unidos entre si, mas se afastam dos demais, porque podem recorrer a estes e em tudo confiar neles — isto é a divisão do amor, não o amor. Pois dizei-me: se o olho concedesse à mão a providência que tem para com todo o corpo, e, afastando-se dos demais membros, atendesse somente a ela, não prejudicaria isso o corpo todo? Certamente. Assim também, se restringimos a um ou dois o amor que deveria estender-se a toda a Igreja de Deus, prejudicamos tanto a nós mesmos quanto a eles, e ao todo. Pois estas coisas não são do amor, mas da divisão: cismas e rasgos que dilaceram. Pois, mesmo que eu separe e retire um membro do homem todo, a parte separada é, na verdade, unida em si mesma, contínua, toda compacta, mas, ainda assim, é uma separação, visto que não está unida ao resto do corpo.
Pois que vantagem há em que ames a certa pessoa sobremaneira? Isto é amor humano. Mas, se não é amor humano, e sim amas por causa de Deus, então ama a todos. Pois assim Deus ordenou que amássemos até os nossos inimigos. E se Ele ordenou que amássemos os nossos inimigos, quanto mais aqueles que jamais nos ofenderam? Mas, dizeis vós, eu amo, ainda que não desse modo. Antes, não amas de modo algum. Pois, quando acusas, quando invejas, quando armas ciladas, como amas? Mas, dizeis vós, nada disso faço eu. Mas, quando um homem é maldito, e não fechas a boca de quem fala, não desacreditas as suas palavras, não o repreendes, de que amor é isto sinal? E o amor, diz ele, de cada um de vós todos para com os outros abunda.
De fato, na primeira Epístola ele diz que todas as igrejas da Macedônia e da Acaia ressoavam, tendo ouvido falar da fé deles. De modo que não precisamos, diz ele, dizer coisa alguma. Pois eles mesmos relatam a nosso respeito qual foi a nossa entrada entre vós (1 Ts 1,8). Mas aqui ele diz: de sorte que nos gloriamos. Que quer isto dizer, então? Ali ele diz que eles não precisam de instrução da parte dele; mas aqui ele não disse que os ensinamos, e sim que nos gloriamos e nos orgulhamos de vós. Se, portanto, nós tanto damos graças a Deus por vós quanto nos gloriamos entre os homens, muito mais deveis vós fazê-lo por vossas próprias boas obras. Pois, se vossas boas ações são dignas de que outros se gloriem delas, como poderiam ser dignas de lamento da vossa parte? É impossível dizê-lo. De modo que nós mesmos, diz ele, nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus, por causa da vossa paciência e fé.
Aqui ele mostra que já havia decorrido muito tempo. Pois a paciência se mostra com muito tempo, não em dois ou três dias. E ele não diz simplesmente paciência. É próprio, na verdade, da paciência ainda não gozar dos bens prometidos. Mas aqui ele fala de uma paciência maior. E de que espécie é ela? A que se mostra nas perseguições. Pois vossa paciência, diz ele, e fé em todas as vossas perseguições e nas aflições que suportais. Pois eles viviam entre inimigos que continuamente se empenhavam por todos os lados em prejudicá-los, e eles manifestavam uma paciência firme e inabalável. Envergonhem-se todos aqueles que, por causa do favor dos homens, passam para outras doutrinas. Pois, quando ainda era o início da pregação, homens pobres, que viviam do seu trabalho diário, assumiram sobre si as inimizades dos governantes e dos primeiros homens do Estado, quando em parte alguma havia rei ou governador que fosse crente; e suportaram uma guerra irreconciliável, e nem ainda assim se perturbaram.
Vede como ele reúne consolo para eles. Havia dito: Damos graças a Deus; havia dito: Gloriamo-nos entre os homens: estas coisas são, de fato, honrosas. Mas aquilo que mais busca quem está em sofrimento é a libertação dos males e a vingança sobre os que os maltratam. Pois, quando a alma está fraca, é isso o que mais busca, já que a alma filosófica nem sequer busca tais coisas. Por que, então, diz ele: sinal do justo Juízo de Deus? Aqui ele lançou um olhar sobre a retribuição de ambas as partes, tanto dos que praticam o mal quanto dos que o padecem, como se dissesse que a justiça de Deus há de manifestar-se quando Ele, de fato, vos coroar, mas os punir a eles. Ao mesmo tempo, também os consola, mostrando que, por seus próprios trabalhos e labores, são coroados, e segundo a proporção da justiça. Mas coloca em primeiro lugar a parte deles. Pois, ainda que alguém deseje veementemente a vingança, primeiro anseia pela recompensa. Por isso, diz:
Para que sejais considerados dignos do Reino de Deus, pelo qual também sofreis.
Isto, pois, não sucede pela circunstância de serem mais poderosos os que os injuriam do que eles, mas porque assim é necessário que entrem no Reino. Pois por meio de muitas tribulações, diz ele, é necessário que entremos no Reino de Deus (At 14:22).
A expressão Se, com efeito aqui é posta por porque, o que também nós usamos ao falar de coisas de todo evidentes e que não se podem negar; em vez de dizer: Porque é sumamente justo. Se, com efeito, diz ele, é coisa justa diante de Deus punir a estes, certamente Ele os punirá. Como se dissesse: Se Deus cuida dos assuntos humanos, se Deus tem cuidado. E não o afirma segundo sua própria opinião, mas entre coisas reconhecidamente verdadeiras; como se alguém dissesse: Se Deus odeia os ímpios, para forçá-los a admitir que Ele de fato os odeia. Pois tais sentenças são, acima de tudo, indiscutíveis, na medida em que eles próprios também sabem que isso é justo. Pois, se isto é justo entre os homens, muito mais o é diante de Deus.
Retribuir, diz ele, com aflição aos que vos afligem, e a vós, que sois afligidos, descanso. Que, pois? Será a retribuição igual? De modo algum; mas vede, pelo que se segue, como ele mostra que aquela é mais severa, e este descanso muito maior. Vede também outro consolo, no fato de terem eles companheiros nas aflições, assim como companheiros também na retribuição. Ele os une, em suas coroas, àqueles que realizaram obras infinitamente mais numerosas e maiores. Depois acrescenta também o período, e, pela descrição, eleva seus pensamentos para o alto, quase já abrindo o céu com sua palavra e colocando-o diante de seus olhos; e coloca ao redor d'Ele a hoste angélica, ampliando a imagem tanto pelo lugar quanto pelos que O acompanham, para que sejam um pouco reconfortados. E a vós, que sois afligidos, descanso conosco, diz ele, na revelação do Senhor Jesus desde o céu com os Anjos do Seu poder.
Se os que não obedeceram ao Evangelho sofrem vingança, que não sofrerão os que, além da desobediência, ainda vos afligem? E vede sua sabedoria; ele não diz aqui "os que vos afligem", mas "os que não obedecem". De sorte que, ainda que não por vossa causa, é necessário, por causa Dele mesmo, que sejam punidos. Isto, pois, foi dito para plena certeza, que é de todo necessário que sejam punidos; mas o que foi dito antes, foi dito para que eles também fossem honrados, porque sofrem estas coisas por vossa causa. Uma coisa faz-lhes crer acerca do castigo; a outra, alegrar-se, porque, por causa do que lhes foi feito, sofrem estas coisas.
Tudo isto foi dito a eles, mas aplica-se também a nós. Quando, pois, estivermos em aflição, consideremos estas coisas. Não nos alegremos com o castigo dos outros como se fôssemos vingados, mas antes por nós mesmos escaparmos de tal castigo e vingança. Pois que proveito nos vem de que outros sejam castigados? Não tenhamos, eu vos suplico, almas assim. Sejamos atraídos à virtude pela perspectiva do Reino. Pois aquele que é sumamente virtuoso não é induzido nem pelo temor nem pela perspectiva do Reino, mas somente por causa de Cristo, como foi o caso de Paulo. Consideremos, porém, ainda assim as bem-aventuranças do Reino, as misérias do inferno, e assim nos regulemos e nos ensinemos a nós mesmos; assim nos conduzamos às coisas que hão de ser praticadas. Quando virdes algo bom e grande na vida presente, pensai no Reino, e o considerareis como nada. Quando virdes algo terrível, pensai no inferno, e o desdenhareis. Quando estiverdes possuídos pelo desejo carnal, pensai no fogo, pensai também no próprio prazer do pecado, que ele nada vale, que nem sequer há prazer nele. Pois se o temor das leis que aqui se promulgam tem tanto poder que nos retira das más ações, quanto mais deveria a lembrança das coisas futuras, a vingança que é imortal, o castigo que é eterno? Se o temor de um rei terreno nos retira de tantos males, quanto mais o temor do Rei Eterno?
Donde, pois, poderemos ter constantemente este temor? Se continuamente escutarmos as Escrituras. Pois se a simples visão de um corpo morto assim abate o espírito, quanto mais deve fazê-lo o inferno e o fogo inextinguível, quanto mais o verme que nunca morre. Se sempre pensarmos no inferno, não cairemos nele tão cedo. Por esta razão Deus ameaçou com o castigo; se não houvesse grande proveito em pensar nele, Deus não o teria ameaçado. Mas porque a lembrança dele é capaz de operar grande bem, por esta razão pôs Ele em nossas almas o terror dele, como um remédio salutar. Não desprezemos, pois, o grande proveito que dele advém, mas voltemo-nos continuamente a ele, em nossos jantares, em nossas ceias. Pois a conversação sobre coisas prazerosas não aproveita em nada à alma, antes a torna mais lânguida, ao passo que a conversação sobre coisas penosas e melancólicas corta tudo o que nela há de relaxado e dissoluto, e a converte, e a fortalece quando enervada. Aquele que fala de teatros e de atores não beneficia a alma, mas antes a inflama mais, e a torna mais descuidada. Aquele que se ocupa e se atarefa com os assuntos alheios, muitas vezes até a envolve em perigos por esta curiosidade. Mas aquele que conversa sobre o inferno não incorre em perigo algum, e a torna mais sóbria.
Do Vós temeis, porém, a aspereza de tais palavras? Acaso, se te calas, extinguiste o inferno? Ou, se dele falas, o acendeste? Quer dele fales, quer não, o fogo ferve. Que dele se fale continuamente, para que jamais nele caias. Não é possível que uma alma solícita quanto ao inferno peque facilmente. Pois ouve o excelentíssimo conselho: *Lembra-te*, diz, *do teu fim*, e não pecarás para sempre (Eclo 28:6). Uma alma que teme prestar contas não pode senão ser tarda para a transgressão. Pois o temor, sendo vigoroso na alma, não permite que nela subsista coisa alguma mundana. Se, pois, o discurso levantado a respeito do inferno de tal modo a humilha e abate, não a purifica ainda mais, do que qualquer fogo, a reflexão que constantemente habita na alma?
Não nos lembremos tanto do reino quanto do inferno. Pois o temor tem mais poder do que a promessa. E sei que muitos desprezariam dez mil bênçãos, se estivessem livres do castigo, visto que me basta, ainda agora, escapar da vingança e não ser punido. Nenhum daqueles que têm o inferno diante dos olhos cairá no inferno. Nenhum daqueles que desprezam o inferno escapará do inferno. Pois, assim como entre nós aqueles que temem os tribunais não são por eles apreendidos, ao passo que os que os desprezam são principalmente os que sob eles caem, assim também é neste caso. Se os ninivitas não tivessem temido a destruição, teriam sido subvertidos; mas, porque temeram, não foram subvertidos. Se no tempo de Noé tivessem temido o dilúvio, não teriam sido afogados. E se os sodomitas tivessem temido, não teriam sido consumidos pelo fogo. É grande mal desprezar uma ameaça. Quem despreza a ameaça, em breve experimentará sua realidade na execução dela. Nada é tão proveitoso quanto conversar acerca do inferno. Isso torna nossas almas mais puras do que qualquer prata. Pois ouve o profeta dizendo: *Os teus juízos estão sempre diante de mim* (Sl 17:22, Septuaginta). Pois, ainda que isso cause dor a quem ouve, muito o beneficia.
Assim são, com efeito, todas as coisas que aproveitam. Pois também os remédios, e o alimento, a princípio molestam o enfermo, e depois lhe fazem bem. E se não podemos suportar a severidade das palavras, é manifesto que não seremos capazes de suportar a aflição no fato mesmo. Se ninguém suporta um discurso acerca do inferno, é evidente que, se viesse a perseguição, ninguém jamais permaneceria firme contra o fogo, contra a espada. Exercitemos os nossos ouvidos para que não sejam demasiado moles e tenros: pois disto chegaremos a suportar até as próprias coisas. Se estivermos habituados a ouvir falar de coisas terríveis, estaremos também habituados a suportar coisas terríveis. Mas se estivermos de tal modo relaxados que nem sequer suportemos as palavras, quando havemos de resistir às coisas? Vedes como o bem-aventurado Paulo despreza aqui todas as coisas, e os perigos uns após outros, como se nem sequer fossem tentações? Por quê? Porque ele tinha por hábito desprezar o inferno, por causa daquilo que era da vontade de Deus. Ele considerava mesmo a experiência do inferno como nada, por causa do amor de Cristo; ao passo que nós nem sequer suportamos um discurso acerca dele para o nosso próprio proveito. Agora, portanto, tendo ouvido um pouco, ide; mas rogo-vos que, se há em vós algum amor, torneis constantemente aos discursos acerca destas coisas. Eles não vos podem fazer mal algum, ainda que não vos aproveitem; mas certamente também vos hão de aproveitar. Pois é segundo os nossos discursos que a alma se qualifica. Porque as más companhias, diz ele, corrompem os bons costumes. Logo também as boas companhias a aperfeiçoam; logo também os discursos temíveis a tornam sóbria. Pois a alma é como que uma cera. Porque, se aplicardes discursos frios, a endureceis e a fazeis calosa; mas, se ígneos, a derreteis; e, tendo-a derretido, a formais segundo quiserdes, e nela gravais a imagem régia. Tapemos, pois, os nossos ouvidos aos discursos vãos. Não é pequeno mal; pois dele nascem todos os males.
Se a nossa mente estivesse exercitada em aplicar-se aos discursos divinos, não se aplicaria a outros; e não se aplicando a outros, tampouco se lançaria a ações más. Pois as palavras são o caminho para as obras. Primeiro pensamos, depois falamos, depois agimos. Muitos homens, ainda que antes fossem sóbrios, passaram amiúde de palavras vergonhosas a ações vergonhosas. Pois a nossa alma não é boa nem má por natureza, mas se torna uma e outra coisa pela escolha. Assim, pois, como a vela conduz o navio para onde quer que sopre o vento, ou antes, como o leme move o navio, se o vento for favorável, assim também o pensamento navegará sem perigo, se palavras boas o impelirem de um quadrante favorável. Mas, se o contrário, muitas vezes elas chegarão até a submergir a razão. Pois o que os ventos são para os navios, isso são os discursos para as almas. Para onde quiseres, podes movê-la e voltá-la. Por esta razão, um exortando diz: Seja todo o teu discurso na lei do Altíssimo (Eclo 20,20). Por isso vos exorto: quando recebemos as crianças da ama, não as acostumemos a histórias de velhas, mas que aprendam desde a primeira juventude que há um Juízo, que há um castigo; que isto se lhes incuta no espírito. Este temor, uma vez enraizado nelas, produz grandes efeitos bons. Pois uma alma que aprendeu desde a sua primeira juventude a ser subjugada por esta expectativa, não tão cedo sacudirá de si este temor. Mas, como um cavalo obediente ao freio, tendo assentado sobre si o pensamento do inferno, caminhando ordenadamente, tanto falará quanto proferirá coisas proveitosas; e nem a juventude, nem as riquezas, nem a orfandade, nem qualquer outra coisa poderá prejudicá-la, tendo a sua razão tão firme e capaz de resistir a tudo.
Por estes discursos regulemos tanto a nós mesmos quanto as nossas esposas, os nossos servos, os nossos filhos, os nossos amigos e, se possível, os nossos inimigos. Pois com estes discursos podemos cortar a maior parte dos nossos pecados, e é melhor deter-se nas coisas penosas do que nas coisas agradáveis, e isto se manifesta a partir do seguinte. Pois dize-me: se entrasses numa casa onde se celebra um casamento, por algum tempo te deleitas com o espetáculo, mas depois, tendo-te retirado, definhas de tristeza por não possuíres tanto quanto ali viste. Mas, se entras na casa dos que pranteiam, ainda que sejam muito ricos, ao sair te sentirás antes reconfortado. Pois ali não concebeste inveja, mas conforto e consolação na tua pobreza. Viste pelos fatos que as riquezas não são um bem, nem a pobreza um mal, mas são coisas indiferentes. Assim também agora, se falas sobre o luxo, mais atormentas a tua alma, que talvez não possa ser luxuosa. Mas, se falas contra o luxo e introduzes o discurso acerca do inferno, isto te alegrará e engendrará muito prazer. Pois quando consideras que o luxo em nada poderá defender-nos contra aquele fogo, não mais o buscarás; mas, se refletires que ele costuma antes acendê-lo ainda mais, não somente não o buscarás, mas dele te afastarás e o rejeitarás.
Não fujamos dos discursos acerca do inferno, para que fujamos do inferno. Não desterremos a lembrança do castigo, para que escapemos do castigo. Se o rico houvesse refletido sobre aquele fogo, não teria pecado; mas porque jamais se lembrou dele, por isso nele caiu. Dize-me, ó homem: estando prestes a comparecer diante do Tribunal de Cristo, falas de todas as coisas menos daquela? E quando tens uma causa perante um juiz, referente muitas vezes apenas a palavras, nem de dia nem de noite, em tempo ou ocasião alguma, falas de outra coisa senão sempre daquele negócio; e quando estás para prestar contas de toda a tua vida e submeter-te a um juízo, não podes sequer suportar que outros te lembrem daquele Juízo? Por esta razão, pois, tudo se arruína e se desfaz: porque quando estamos para comparecer diante de um tribunal humano acerca de questões desta vida, movemos tudo, solicitamos todos os homens, andamos constantemente ansiosos por isso, fazemos tudo por causa disso; mas quando estamos, dentro em pouco tempo, para comparecer diante do Tribunal de Cristo, nada fazemos nem por nós mesmos, nem por meio de outros; não suplicamos ao Juiz. E, no entanto, Ele nos concede uma longa temporada de paciência, e não nos arrebata no meio dos nossos pecados, mas permite que os adiemos, e aquela Bondade e Benignidade nada deixa por fazer de tudo quanto Lhe é próprio. Mas tudo é em vão; por isso mesmo o castigo será mais pesado. Mas Deus não permita que assim seja! Pelo que vos rogo que, ainda que só agora, tornemo-nos vigilantes. Tenhamos o inferno diante dos olhos. Consideremos aquela inexorável Prestação de Contas, para que, pensando nessas coisas, possamos tanto evitar o vício quanto escolher a virtude, e sejamos capazes de alcançar as bênçãos prometidas aos que O amam, pela graça e benignidade, etc.
Mas onde, pergunto, estará situado o inferno? Em algum lugar, penso eu, bem distante deste mundo. Pois, assim como os cárceres e as minas ficam a grande distância das residências reais, também o inferno estará situado longe deste mundo. Não nos interessa descobrir sua localização, mas escapar dele. E, pelo fato de Deus não punir a todos aqui, não duvideis das coisas vindouras. Porque Deus é misericordioso e paciente. Por isso Ele adverte, e não nos lança imediatamente no inferno. Pois "não desejo", diz Ele, "a morte do pecador". Estas palavras, contudo, não teriam sentido algum se os pecadores jamais morressem. E sei, de fato, que nada vos é menos agradável do que estas palavras. Mas, para mim, nada é mais agradável.... Discutamos, pois, continuamente estas coisas. Porque lembrar-se do inferno impede que nele caiamos. Não ouvis São Paulo dizer: "os quais sofrerão punição eterna, desde a face do Senhor"? Homilias sobre Romanos
Há muitos homens que formam boas esperanças, não por se absterem de seus pecados, mas por pensarem que o inferno não é tão terrível quanto se diz, mas mais brando do que se ameaça, e temporário, não eterno; e sobre isto filosofam muito. Mas eu poderia mostrar, por muitas razões, e concluir a partir das próprias expressões acerca do inferno, que ele não é apenas não mais brando, mas muito mais terrível do que se ameaça. Não pretendo, porém, discorrer agora sobre estas coisas. Pois basta o temor advindo das simples palavras, ainda que não desenvolvamos plenamente o seu sentido. Mas que ele não é temporário, ouvi agora Paulo dizer, a respeito daqueles que não conhecem a Deus e que não creem no Evangelho, que sofrerão punição, e mesmo destruição eterna. Como, pois, poderia ser temporário aquilo que é eterno? Desde a face do Senhor, diz ele. Que significa isto? Ele deseja aqui dizer com que facilidade isso se dará. Pois, como estavam então muito inchados de soberba, não há necessidade, diz ele, de muito esforço; basta que Deus venha e seja visto, e todos se veem envolvidos em punição e vingança. Sua vinda será, para alguns, Luz; para outros, porém, vingança.
Deus é glorificado? Sim, diz ele, em todos os Santos. Como? Pois quando aqueles que tanto se ensoberbecem veem os que por eles foram açoitados, os que foram desprezados, os que foram escarnecidos, agora próximos d'Ele, isto é glória Sua, ou antes, é glória deles, tanto deles quanto d'Ele; d'Ele, de fato, porque não os abandonou; deles, porque foram considerados dignos de tão grande honra. Pois, assim como é Sua riqueza haver homens fiéis, também é Sua glória haver aqueles que hão de gozar de Suas bênçãos. É a glória d'Aquele que é bom ter a quem possa dispensar Sua beneficência. E ser admirado, diz ele, em todos os que creram, isto é, por meio dos que creram. Vede aqui, novamente, que "em" é usado por "através de". Pois é através deles que Ele se mostra admirável, quando conduz a tamanho esplendor aqueles que eram dignos de piedade e miseráveis, e que haviam sofrido males inumeráveis, e haviam crido. Manifesta-se, então, o Seu poder; porque, embora pareçam aqui abandonados, contudo ali gozam de grande glória; então, especialmente, se manifesta toda a glória e o poder de Deus. Como?
Porque o nosso testemunho vos foi crido naquele dia.
Isto é, quando são levados à vista pública aqueles que sofreram males inumeráveis, que se dignaram fazê-los apostatar da fé, e contudo não cederam, antes creram, Deus é glorificado. Então se mostra também a glória destes homens. Não tenhais por bem-aventurado ninguém, diz, antes da sua morte (Eclo 11,28). Por isso diz: naquele dia se mostrarão os que creram. Para o que também oramos, diz ele, sempre por vós, que o nosso Deus vos julgue dignos da vossa vocação, e cumpra todo o desejo da bondade e toda a obra da fé, com poder.
Que Ele vos julgue, diz, dignos da vocação; pois eles não haviam sido chamados. Por isso acrescentou: e cumpra todo o desejo da bondade. Pois também aquele que estava vestido com vestes sórdidas foi chamado, mas não perseverou na sua vocação, e por isso foi tanto mais rejeitado. Da vocação, a saber, aquela para a câmara nupcial. Pois também as cinco virgens foram chamadas. Levantai-vos, diz, o esposo vem (Mt 25,6). E elas se prepararam, mas não entraram. Mas ele fala daquela outra vocação. Mostrando, pois, de que vocação fala, acrescentou: E cumpra todo o desejo da bondade e toda a obra da fé, com poder. Esta é a vocação, diz, que buscamos. Vede quão brandamente os corrige. Pois, para que não se tornassem vãos pelo excesso do louvor, como se tivessem realizado grandes feitos, e para que não se tornassem indolentes, mostra-lhes que algo ainda lhes falta, enquanto estiverem nesta vida. O que também disse na sua Epístola aos Hebreus: Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado (Hb 12,4). Para todo o beneplácito, diz, isto é, o Seu contentamento, persuasão, plena certeza. Isto é, que se cumpra a persuasão de Deus, que nada vos falte, que sejais tais como Ele quer. E toda a obra da fé, diz, com poder. Que é isto? A paciente perseverança nas perseguições, para que não desfaleçamos, diz ele.
Ali falou da glória, e aqui também fala dela. Disse que eles são glorificados, a ponto de poderem até gloriar-se. Disse, o que era muito mais, que eles também glorificam a Deus. Disse que receberão aquela glória. Mas também aqui quer dizer: sendo o Senhor glorificado, também os servos são glorificados. Pois os que glorificam o seu Senhor são eles próprios muito mais glorificados, tanto por isso mesmo quanto à parte disso. Pois a tribulação por causa de Cristo é glória, e a essa coisa ele chama por toda parte de glória. E quanto mais sofremos algo de desonroso, tanto mais ilustres nos tornamos. Depois, mostrando de novo que isto mesmo procede de Deus, diz: segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo; isto é, esta graça Ele mesmo no-la deu, para que seja glorificado em nós, e para que nos glorifique n'Ele. Como é Ele glorificado em nós? Porque nada preferimos a Ele. Como somos nós glorificados n'Ele? Porque d'Ele recebemos poder, de sorte que não cedemos em nada aos males que sobre nós vêm. Pois quando sobrevém a tentação, ao mesmo tempo Deus é glorificado, e nós também. Pois eles O glorificam, porque Ele assim nos fortaleceu; a nós admiram, porque nos fizemos dignos. E todas estas coisas se fazem pela graça de Deus.
Quando será a ressurreição, ele não disse: "Virá em sua devida ordem"; disse antes: "E a nossa reunião para sair ao seu encontro." Este ponto é de grande importância. Observai como a exortação de Paulo vem acompanhada de louvor e encorajamento, pois ele deixa claro que Jesus e todos os santos certamente aparecerão naquele momento conosco.
Quando será a Ressurreição, ele não disse, mas que não será agora, isso ele disse. E a nossa reunião com Ele. Isto também não é pouca coisa. Vede como a exortação vem novamente acompanhada de louvor e encorajamento, no fato de que Ele e todos os Santos certamente aparecerão conosco. Aqui ele discorre acerca da ressurreição e da nossa reunião. Pois estas coisas acontecerão ao mesmo tempo. Ele eleva os ânimos deles. Que não vos deixeis abalar tão depressa, diz ele, nem vos perturbeis, seja por espírito, seja por palavra, seja por epístola como se fosse nossa, como se o dia do Senhor já estivesse presente.
tendo forjado uma Epístola, como se fosse de Paulo, e mostrando-a, disseram que o Dia do Senhor está próximo, para que, com isso, pudessem levar muitos ao erro. Portanto, para que não fossem enganados, Paulo lhes dá segurança pelas coisas que escreve, e diz: não vos perturbeis, nem por espírito, nem por palavra: e este é o sentido do que ele diz: Ainda que alguém, tendo o espírito de profecia, disser isto, não o creiais. Pois quando eu estava convosco, eu vos disse estas coisas, de modo que não deveis mudar a persuasão daquilo que vos foi ensinado. Ou então, por espírito: assim ele chama o falso profeta, referindo-se ao que falavam por um espírito impuro. Pois estes homens, querendo ser tanto mais cridos, não somente se esforçavam por enganar com palavras persuasivas (o que ele demonstra, dizendo, ou por palavra), mas também exibiam uma carta forjada, como se fosse de Paulo, declarando a mesma coisa. Por isso, apontando também isto, ele acrescentou, ou por epístola como se fosse nossa. Tendo, portanto, assegurado-os por todos os lados, ele então expõe a sua própria doutrina, e diz:
Aqui Paulo discorre acerca do Anticristo e revela grandes mistérios. Que é a «apostasia»? Ele o chama Apostasia, pois em breve há de destruir a muitos e fazê-los apostatar... E o chama «o homem do pecado». Pois cometerá inúmeros males e fará que outros os cometam. Mas Paulo o chama «filho da perdição», porque ele também há de ser destruído. Mas quem é ele? Será Satanás? De modo algum. Antes, é um homem no qual Satanás opera plenamente. Pois ele é um homem... Pois não introduzirá a idolatria, mas será uma espécie de opositor de Deus. Abolirá todos os deuses e ordenará que os homens o adorem em vez de Deus. Assentar-se-á no templo de Deus, não somente naquele de Jerusalém, mas também em toda igreja.
Aqui ele discorre acerca do Anticristo, e revela grandes mistérios. Que é a apostasia? Ele o chama Apostasia, como aquele que há de destruir a muitos e fazê-los apostatar. De sorte que, se fosse possível, diz ele, os próprios eleitos seriam escandalizados (Mt 24.24). E o chama o homem do pecado. Pois fará inúmeras maldades, e fará que outros as cometam. Mas o chama filho da perdição, porque ele também há de ser destruído. Mas quem é ele? Será, pois, Satanás? De modo algum; mas algum homem, que admite que ele opere plenamente nele. Pois é um homem. E se exalta contra tudo o que se chama Deus ou é adorado. Pois não introduzirá a idolatria, mas será uma espécie de opositor de Deus; abolirá todos os deuses, e ordenará que os homens o adorem em vez de Deus, e se assentará no templo de Deus, não somente naquele de Jerusalém, mas também em toda Igreja. Apresentando-se a si mesmo, diz ele; não diz dizendo-o, mas esforçando-se por demonstrá-lo. Pois realizará grandes obras, e mostrará sinais maravilhosos.
Vede que é necessário dizer continuamente as mesmas coisas, e sobre elas insistir com as mesmas palavras? Pois eis que ouviram-no dizer estas coisas quando presente, e todavia necessitaram novamente de ser lembrados delas. Pois assim como, tendo ouvido acerca das aflições, — Porque em verdade, diz ele, quando estávamos convosco, de antemão vos preditávamos que havíamos de padecer aflição (1 Ts 3:4) —, contudo o esqueceram, e ele novamente os confirma por cartas; assim também, tendo ouvido acerca da Vinda de Cristo, novamente necessitaram de cartas para os compor. Ele, pois, os relembra, mostrando que nada de estranho diz, mas o que sempre dissera.
Pois assim como, no caso dos lavradores, as sementes são de fato lançadas à terra de uma só vez, contudo não permanecem constantemente, mas requerem ainda muito cuidado, e se não revolvem a terra e cobrem as sementes semeadas, semeiam para as aves que colhem o grão; assim também nós, se não cobrirmos por constante lembrança o que foi semeado, teremos lançado tudo isso ao vento. Pois tanto o demônio o carrega, quanto a nossa indolência o destrói, e o sol o resseca, e a chuva o lava, e os espinhos o sufocam: de modo que não basta, tendo semeado uma vez, partir, mas há necessidade de muita assiduidade, afugentando as aves, arrancando pela raiz os espinhos, cobrindo com muita terra o solo pedregoso, contendo, e cercando, e removendo tudo o que é nocivo. Mas no caso da terra, tudo depende do lavrador, pois ela é um sujeito sem vida, e disposta apenas a ser passiva. No solo espiritual, porém, é bem diferente. Nem tudo é parte dos mestres, mas ao menos metade, senão mais, é dos discípulos. A nós, pois, pertence lançar a semente, mas a vós fazer as coisas ditas para vossa lembrança, mostrar por vossas obras os frutos, arrancar pela raiz os espinhos.
Pois a riqueza é, na verdade, um espinho, que não dá fruto algum, e é tanto desagradável à vista quanto imprestável para o uso, ferindo aqueles que com ela se ocupam, não apenas não dando fruto ela mesma, mas até impedindo o que estava brotando. Tal é a riqueza. Não somente não dá fruto eterno, como ainda impede aqueles que desejam alcançá-lo. Os espinhos são alimento de camelos irracionais; são devorados e consumidos pelo fogo, não servindo para nada. Tal é também a riqueza, imprestável para nada, senão para acender a fornalha, para atear aquele Dia que arde como um forno, para nutrir paixões vazias de razão, a vingança e a ira. Pois tal é também o camelo que se alimenta de espinhos. Pois dizem os que conhecem tais coisas que não há animal tão implacável, tão rancoroso e vingativo quanto o camelo. Tal é a riqueza. Ela nutre as paixões irracionais da alma, mas fere e traspassa as racionais, como sucede com os espinhos. Esta planta é dura e áspera, e cresce por si mesma.
Vejamos como ele cresce, para que o possamos extirpar. Cresce em lugares escarpados, pedregosos e secos, onde não há umidade. Quando, pois, alguém é rude e escarpado, isto é, sem misericórdia, o espinho cresce nele. Mas quando os filhos dos lavradores desejam extirpá-los, não o fazem com ferro. Como, então? Tendo-lhe ateado fogo, extraem assim toda a má qualidade da terra. Pois, uma vez que não basta cortar a parte superior enquanto a raiz permanece embaixo, nem mesmo extirpar a raiz (pois ela permanece na terra com sua má qualidade e, como quando alguma pestilência acometeu o corpo, ainda restam vestígios dela), o fogo, vindo de cima, atrai para si toda aquela umidade dos espinhos, como se fosse veneno, e a extrai, pelo calor, das entranhas da terra. Pois, assim como a ventosa, colocada sobre a parte afetada, atrai para si todo o mal, assim também o fogo extrai toda a qualidade vil que havia nos espinhos, e purifica a terra.
Por que razão, então, digo estas coisas? Porque vos convém purgar toda afeição pelas riquezas. Também entre nós há um fogo que extrai esta má qualidade da alma; refiro-me ao do Espírito. Se permitirmos que este atue sobre elas, poderemos não somente secar os espinhos, mas também o humor que deles procede, pois, se estiverem profundamente fixados, tudo se torna vão. Pois reparai: entrou aqui um homem rico, ou também uma mulher rica? Ela não se importa com o modo como há de ouvir os oráculos de Deus, mas com o modo como há de ostentar-se, como há de sentar-se com pompa, com quanta glória, como há de superar todas as outras mulheres na suntuosidade de suas vestes, e tornar-se mais digna tanto pelo traje quanto pelo semblante e pelo porte. E todo o seu cuidado e preocupação é: Viu-me tal mulher? Admirou-me? Está minha beleza convenientemente realçada? De modo que suas vestes não apodreçam nem se rasguem — nisto consiste todo o seu cuidado. Do mesmo modo também entra o homem rico, com o propósito de exibir-se diante do pobre, e de impressioná-lo com as vestes que traz, e com o número de seus escravos, os quais também se põem ao redor, afastando a multidão. Mas ele, por sua grande soberba, não se digna sequer a fazer isto, mas considera obra tão indigna de um homem de nobreza que, ainda que excessivamente ensoberbecido, não pode suportar fazê-la, e a confia a seus escravos. Pois, para fazer isto, requerem-se verdadeiramente maneiras servis e impudentes. Então, quando está sentado, imediatamente se lhe intrometem os cuidados de sua casa, distraindo-o de todos os lados. A soberba que possui sua alma transborda. Julga que faz um favor tanto a nós quanto ao povo, e talvez até mesmo a Deus, porque entrou na casa de Deus. Mas este que está assim inflamado, como jamais será curado?
Diga-me, pois: se alguém entrasse na oficina de um médico, e não pedisse ao médico um favor, mas antes julgasse que era ele quem fazia o favor ao médico, e, deixando de solicitar um remédio para o seu ferimento, se ocupasse antes de suas vestes — sairia ele dali tendo recebido algum benefício? Creio que não. Mas, com vossa licença, direi a causa de todas estas coisas. Julgam eles, ao entrarem aqui, que entram à nossa presença; julgam que aquilo que ouvem, o ouvem de nós. Não tomam a peito, não consideram, que estão entrando à presença de Deus, que é Ele quem lhes fala. Pois quando o Leitor, de pé, diz: Assim diz o Senhor, e o Diácono se levanta e impõe silêncio a todos, não faz isto para honrar o Leitor, mas Àquele que fala a todos por meio dele. Se soubessem que é Deus quem, por meio de Seu profeta, diz estas coisas, lançariam fora toda a sua soberba. Pois se, quando os governantes lhes falam, não permitem que suas mentes divaguem, muito menos o deveriam fazer quando é Deus quem fala. Somos ministros, amados. Não falamos coisas nossas, mas as coisas de Deus; cartas vindas do céu são lidas todos os dias.
Diga-me, pois, eu vos peço: se agora, estando todos nós presentes, entrasse alguém trazendo cinto de ouro, e, erguendo-se com ares de importância, dissesse que fora enviado pelo rei que há na terra, e que trazia cartas para toda a cidade acerca de assuntos de grande momento — não vos voltaríeis todos para ele? Não guardaríeis, sem ordem alguma de diácono, um profundo silêncio? Certamente creio que sim. Pois tenho ouvido muitas vezes, aqui, a leitura de cartas de reis. Ora, se alguém vem da parte de um rei, todos prestais atenção; e vem um Profeta da parte de Deus, e fala do céu, e ninguém presta atenção? Ou não credes que estas coisas são mensagens de Deus? Estas são cartas enviadas por Deus; entremos, pois, com a devida reverência nas Igrejas, e ouçamos com temor as coisas aqui ditas.
Diante do que dizeis, para que entrais, se não escutais alguém a discursar? Eis a ruína e a destruição de tudo. Pois que necessidade há de que alguém discorra? Esta necessidade nasce da nossa indolência. Por que, então, alguma necessidade de homilia? Todas as coisas são claras e manifestas nas divinas Escrituras; as coisas necessárias são todas evidentes. Mas, porque sois ouvintes por causa do prazer, por isso mesmo buscais estas coisas. Pois dizei-me, com que pompa de palavras falou Paulo? E, no entanto, converteu o mundo. Ou com que pompa o iletrado Pedro? Mas não conheço, dizeis, as coisas que estão contidas nas Escrituras. Por quê? Acaso são ditas em hebraico? Estão em latim, ou em línguas estrangeiras? Não estão elas em grego? Mas são expressas obscuramente, dizeis: que é que há de obscuro? Dizei-me. Não há narrativas históricas? Pois (é claro) conheceis as partes claras, visto que indagais sobre as obscuras. Há inúmeras narrativas nas Escrituras. Dizei-me uma delas. Mas não podeis. Estas coisas são pretextos, e meras palavras. Todos os dias, dizeis, ouve-se as mesmas coisas. Dizei-me, então, não ouvis as mesmas coisas nos teatros? Não vedes as mesmas coisas no hipódromo? Não são todas as coisas as mesmas? Não é sempre o mesmo sol que nasce? Não é o mesmo alimento que usamos? Gostaria de vos perguntar, já que dizeis que todos os dias ouvis as mesmas coisas; dizei-me, de que Profeta foi a passagem que se leu? De que Apóstolo, ou que Epístola? Mas não podeis dizer-me — pareceis ouvir coisas estranhas. Quando, pois, quereis ser indolentes, dizeis que são as mesmas coisas. Mas, quando sois interrogados, estais na condição de quem jamais as ouviu. Se são as mesmas, deveríeis conhecê-las. Mas as ignorais.
Este estado de coisas é digno de lamentação — de lamentação e de queixa: pois o moedeiro cunha em vão. Por isto deveríeis atender ainda mais, precisamente porque são as mesmas coisas, porque não vos damos trabalho algum, nem falamos coisas estranhas ou variáveis. Que, pois, visto que dizeis que aquelas são as mesmas coisas, mas os nossos discursos não são as mesmas coisas, antes falamos sempre coisas que vos são novas, dais atenção a estas? De modo algum. Mas, se dizemos: Por que não reteis nem sequer estas? Ouvimo-las, dizeis, apenas uma vez, e como poderíamos retê-las? Se dizemos: Por que não atentais àquelas outras coisas? As mesmas coisas, dizeis, são sempre ditas — e de todo modo estas são palavras de indolência e de pretexto. Mas elas não servirão sempre, antes virá o tempo em que lamentaremos em vão e sem proveito. O que Deus não permita, antes conceda que, tendo-nos arrependido aqui, e atendendo com entendimento e piedoso temor às coisas ditas, sejamos ambos impelidos ao devido cumprimento das boas obras, e emendemos as nossas próprias vidas com toda diligência, para que possamos obter as bênçãos prometidas àqueles que O amam, pela graça e benignidade, etc.
Pode-se perguntar, naturalmente, o que é aquilo que detém o homem da iniquidade, e, além disso, por que razão Paulo se exprime de modo tão obscuro. Que é, pois, o que detém, isto é, o que impede que se revele, o Anticristo? Alguns dizem que é a graça do Espírito, mas outros dizem que é o Império Romano. Concordo com esta última posição. Por quê? Porque, se Paulo pretendesse dizer o Espírito, não teria falado obscuramente, mas claramente, isto é, que ainda agora a graça do Espírito, a saber, os dons, detêm o Anticristo. Se assim não fosse, ele já deveria ter vindo, caso sua vinda estivesse para ocorrer com a cessação dos dons do Espírito; pois estes há muito cessaram. Mas, como Paulo disse isto a respeito do Império Romano, apenas tocou no assunto, falando compreensivelmente de modo velado e obscuro. Pois não havia necessidade de criar inimizades desnecessárias e perigos inúteis.… "Porque o mistério da iniquidade já opera." Fala aqui de Nero, como se este fosse a figura do Anticristo.
segundo a operação de Satanás.
Pode-se perguntar, naturalmente, o que é aquilo que detém, e, depois, gostaríamos de saber por que Paulo se exprime de modo tão obscuro. Que é, pois, o que detém, isto é, o que o impede de ser revelado? Alguns dizem que é a graça do Espírito, mas outros o Império Romano, posição à qual mais me inclino. Por quê? Porque, se ele pretendesse dizer o Espírito, não teria falado obscuramente, mas claramente, isto é, que ainda agora a graça do Espírito, a saber, os dons, o detêm. E, do contrário, ele já deveria ter vindo agora, caso estivesse para vir quando cessassem os dons; pois estes há muito cessaram. Mas, como ele disse isto a respeito do Império Romano, naturalmente apenas o mencionou de relance, falando de modo velado e obscuro. Pois não quis atrair sobre si inimizades supérfluas e perigos inúteis. Porque, se tivesse dito que dentro de pouco tempo o Império Romano seria dissolvido, teriam de imediato oprimido a ele, como a um homem funesto, e a todos os fiéis, como se vivessem e guerreassem para esse fim. E não disse que isso seria breve, embora esteja sempre a dizê-lo — mas o quê? Que ele será revelado em seu próprio tempo, diz.
Pois o mistério da iniquidade já opera. Fala ele aqui de Nero, como se este fosse a figura do Anticristo. Pois também ele quis ser tido por deus. E disse bem: o mistério; isto é, ele não opera abertamente, como o outro, nem sem vergonha. Pois se já se encontrara, antes daquele tempo, diz ele, um homem que não ficava muito atrás do Anticristo em malícia, que maravilha há se agora houver um? Mas não quis também apontá-lo claramente; e isso não por covardia, mas para nos ensinar a não atrairmos sobre nós inimizades desnecessárias, quando nada o exige. Assim, pois, também aqui ele fala. Somente há um que agora detém, até que seja tirado do meio; isto é, quando o império romano for tirado do meio, então ele virá. E naturalmente. Pois, enquanto durar o temor deste império, ninguém se exaltará voluntariamente; mas, quando este se dissolver, ele investirá contra a anarquia e se esforçará por usurpar o governo tanto dos homens quanto de Deus. Pois, assim como os reinos anteriores a este foram destruídos — por exemplo, o dos medos pelos babilônios, o dos babilônios pelos persas, o dos persas pelos macedônios, o dos macedônios pelos romanos —, assim também este o será pelo Anticristo, e ele por Cristo, e já não mais haverá quem o detenha. E estas coisas Daniel no-las transmitiu com grande clareza.
"Para um, cheiro de morte para morte; para outro, cheiro de vida para vida." Deste doce odor uns recebem de modo a serem salvos, outros de modo a perecerem. Se alguém se perde, é culpa sua... A luz (como já observei) cega o fraco. Tal é a natureza das coisas boas: elas não somente corrigem o que lhes é semelhante, mas também destroem o que lhes é oposto. Deste modo, o seu poder se manifesta com maior clareza. O fogo demonstra o seu poder singular quando ilumina e quando purifica o ouro; o mesmo se dá quando consome os espinhos. Em todos estes casos, demonstra a si mesmo ser fogo. Também Cristo, do mesmo modo, manifestará a sua própria majestade quando "consumir" o Anticristo "com o sopro da sua boca e o aniquilar com a manifestação da sua vinda."
Pois assim como o fogo, apenas por sua aproximação, ainda antes de chegar, entorpece e consome os pequenos animais que estão longe, assim também Cristo, apenas por seu mandado e sua Vinda — basta-Lhe estar presente, e todas estas coisas são destruídas. Ele porá fim ao engano tão-somente por aparecer. Quem é, pois, este cuja vinda se dá segundo a operação de Satanás, com toda ostentação de poder, mas nada de verdadeiro, senão para o engano? E prodígio mentiroso, diz ele, isto é, falso, ou que conduz à falsidade.
Por que, então, dizeis vós, permitiu Deus que isto acontecesse? E que dispensação é esta? E qual é a vantagem de sua vinda, se ela se dá para a ruína de nossa raça? Não temais, amados, mas ouvi-O dizendo: Naqueles que perecem, ele tem força, os quais, ainda que Ele não tivesse vindo, não teriam crido. Qual é, pois, a vantagem? Que estes mesmos que perecem serão reduzidos ao silêncio. Como? Porque tanto se Ele tivesse vindo quanto se não tivesse vindo, eles não teriam crido em Cristo; Ele vem, portanto, para os convencer. Para que não tenham ocasião de dizer que, visto que Cristo disse que Ele era Deus — ainda que Ele em parte alguma tenha dito isto abertamente —, mas visto que os que vieram depois O proclamaram, não cremos. Porque ouvimos que há um só Deus de quem todas as coisas procedem, por isso não cremos. Este pretexto, pois, o Anticristo lho arrebatará. Pois quando ele vier, e vier não ordenando coisa alguma boa, mas todas as coisas ilícitas, e ainda assim for crido apenas por falsos sinais, ele lhes fechará a boca. Pois se não credes em Cristo, muito mais não deveríeis crer no Anticristo. Porque Aquele disse que fora enviado pelo Pai, mas este dirá o contrário. Por esta razão disse Cristo: Eu vim em nome de meu Pai, e não Me recebeis: se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis (Jo 5,43). Mas nós vimos sinais, dizeis vós. Mas também muitos e grandes sinais foram operados no caso de Cristo; muito mais, portanto, deveríeis ter crido n'Ele. E, contudo, muitas coisas foram preditas acerca deste, que ele é o iníquo, que ele é o filho da perdição, que sua vinda é segundo a operação de Satanás. Mas o contrário acerca d'Aquele, que Ele é o Salvador, que Ele traz consigo bênçãos incontáveis.
Para que fossem julgados. Não diz: para que fossem punidos; pois já antes disto estavam para ser punidos; mas para que fossem condenados, isto é, no tremendo Tribunal do Juízo, a fim de que ficassem sem desculpa. Os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na iniquidade. Chama a Cristo o Amor da Verdade. Pois, diz ele, porque não receberam o amor da verdade. Pois Ele era ambas as coisas, e veio por causa de ambas: tanto amando os homens, quanto em favor das coisas que são verdadeiras. Mas tiveram prazer, diz ele, na iniquidade. Pois ele veio para a destruição dos homens e para os prejudicar. Pois que não fará ele então? Mudará e confundirá todas as coisas, tanto pelos seus mandamentos quanto pelo temor de si. Será terrível de todo modo: pelo seu poder, pela sua crueldade, pelos seus mandamentos ilícitos.
Mas não temais. Naqueles que perecem é que ele terá sua força. Pois também Elias virá então para dar confiança aos fiéis, e isto Cristo o diz: Elias vem, e restaurará todas as coisas (Mt 17,11). Por isso se diz: no espírito e poder de Elias (Lc 1,17). Pois ele não operou sinais nem prodígios, como Elias fez. Pois de João se diz que não fez milagre algum, mas todas as coisas que João disse deste Homem eram verdadeiras. Como, pois, foi ele no espírito e poder de Elias? Isto é, tomará sobre si o mesmo ministério. Assim como um foi o precursor de Sua primeira Vinda, assim será o outro da sua segunda e gloriosa Vinda, e para isto está reservado. Não temamos, pois. Ele acalmou as mentes dos ouvintes. Faz com que não mais considerem as coisas presentes como terríveis, mas dignas de ação de graças.
Como para a salvação? Santificando-vos por meio do Espírito. Pois estas são as coisas que constituem as causas eficientes de nossa salvação. Em nenhum lugar se trata de obras, em nenhum lugar de ações justas, mas por meio da crença da verdade. Aqui, novamente, "em" é usado no lugar de "por meio de". E por meio da santificação do Espírito, diz ele,
Isto também não é pouca coisa, se Cristo considera a nossa salvação como Sua glória. Pois é a glória do Amigo dos homens que sejam muitos os que se salvam. Grande é, pois, o nosso Senhor, se o Espírito Santo deseja assim a nossa salvação. Por que não mencionou primeiro a fé? Porque mesmo depois da santificação ainda temos necessidade de muita fé, para que não sejamos abalados. Vedes como Ele mostra que nada é dos próprios homens, mas tudo é de Deus?
Manifesto está, pois, que não entregaram todas as coisas por Epístola, mas também muitas coisas sem as escrever, e de igual modo tanto uma como outra são dignas de crédito. Reputemos, portanto, também a tradição da Igreja digna de crédito. É tradição, não busques mais. Aqui mostra que houve muitos que foram abalados.
Paulo não instruiu Timóteo em seu dever somente por cartas, mas também pela palavra falada. Isto o demonstra, tanto em muitas outras passagens, como onde diz: "seja por palavra, seja por nossa epístola", quanto especialmente aqui. Não suponhamos, pois, que Paulo tenha falado de modo imperfeito algo pertencente à doutrina. Pois entregou a Timóteo muitas coisas sem as escrever. Destas o lembra quando diz: "Retém a forma das sãs palavras que de mim ouviste." À maneira dos artistas, imprimi em ti a imagem da virtude, fixando em tua alma uma espécie de regra, modelo e esboço de todas as coisas agradáveis a Deus. Apega-te, pois, a estas coisas, e quer estejas meditando sobre alguma matéria de fé ou de amor, ou de mente sã, forma as tuas ideias a partir do que te ensinei. Não será necessário consultar outros em busca de exemplos, quando tudo já foi depositado dentro de ti mesmo.
Novamente uma oração após uma admoestação. Pois isto é verdadeiramente aproveitar. O qual nos amou, diz ele, e nos deu eterno conforto e boa esperança pela graça. Onde estão agora aqueles que diminuem o Filho, porque é nomeado na graça do Lavacro depois do Pai? Pois eis que aqui é o contrário. O qual nos amou, diz ele, e nos deu eterno conforto. De que espécie é, pois, este? A própria esperança das coisas futuras. Vede como, pelo método da oração, ele desperta a mente deles, dando-lhes o indizível cuidado de Deus como penhores e sinais. Console vosso coração, diz ele, em toda boa obra e palavra, isto é, por meio de toda boa obra e palavra. Pois este é o conforto dos cristãos, fazer algo bom e agradável a Deus. Vede como abate o espírito deles. O qual nos deu conforto, diz ele, e boa esperança pela graça. Ao mesmo tempo os faz também cheios de boas esperanças com respeito às coisas futuras. Pois se Ele deu tantas coisas pela graça, muito mais dará as futuras. Eu, na verdade, diz ele, falei, mas o todo é de Deus. Estabeleça-vos; confirme-vos, para que não sejais abalados, nem desviados. Pois isto é obra tanto Sua quanto nossa, de modo que se dá tanto na via das doutrinas quanto na das ações. Pois isto é o conforto: ser estabelecido. Pois quando alguém não é desviado, suporta todas as coisas, quaisquer que lhe sobrevenham, com muita longanimidade; ao passo que, se sua mente for abalada, já não realizará nenhuma ação boa ou nobre, mas, como aquele cujas mãos estão paralisadas, assim também sua alma se abala, quando não está plenamente persuadida de que avança para algum bom fim.
Ele, na verdade, já orara por eles, para que fossem confirmados; e agora lhes pede, rogando-lhes que orem por ele, não para que não incorra em perigo, pois para isso fora designado, mas para que a palavra do Senhor corra e seja glorificada, assim como também é entre vós. E o pedido vem acompanhado de louvor: assim como também é entre vós.
Este é o modo do que se mostra também a respeito dos perigos que sobretudo lhe pedia. De homens irracionais e maus, diz ele, pois nem todos têm fé. Assim ele fala daqueles que contradizem a Pregação, que se opõem e contendem contra as doutrinas. Pois isto ele deu a entender ao dizer: Pois nem todos têm fé. E aqui me parece que ele não aponta para perigos, mas para os homens que contradiziam e impediam a sua palavra, como fez Alexandre, o latoeiro. Pois diz: fez grande oposição às nossas palavras (2 Tm 4:15). Isto é, há alguns aos quais isto é dado. Como se falasse de uma herança paterna, que não é para todos servir no Palácio. E ao mesmo tempo também os exorta, como já tendo tal fundamento de confiança que podem tanto livrar de perigos o seu Mestre, quanto facilitar a sua pregação.
Portanto também nós dizemos as mesmas coisas. Que ninguém nos condene de arrogância, nem por excessiva humildade nos prive de tão grande auxílio. Pois nós não falamos pelo mesmo motivo pelo qual Paulo falava; ele, com efeito, disse estas coisas por desejo de consolar os seus discípulos, mas nós para colher algum fruto grande e bom. E estamos muito confiantes de que, se todos vós quiserdes, com uma só mente, estender as mãos a Deus em favor da nossa pequenez, tereis êxito em todas as coisas. Assim façamos guerra aos nossos inimigos com orações e súplicas. Pois, se assim os antigos faziam guerra a homens armados, muito mais devemos nós assim fazer guerra a homens sem armas. Assim Ezequias triunfou sobre o rei assírio, assim Moisés sobre Amaleque, assim Samuel sobre os homens de Ascalon, assim Israel sobre os trinta e dois reis. Se, onde havia necessidade de armas, e de ordem de batalha, e de luta, eles, deixando as armas, recorreram à oração, aqui, onde a coisa há de ser realizada somente por orações, não nos convém muito mais orar?
Mas ali, dirás, os governantes suplicavam pelo povo, e tu pedes que o povo suplique pelo governante. Também eu o sei. Pois os súditos daquele tempo eram pessoas miseráveis e vis; por isso foram salvos unicamente pelos méritos e pela virtude do seu comandante; mas agora, quando a graça de Deus prevaleceu, e havemos de encontrar entre os que são governados muitos, ou antes a maior parte, que excedem em grande medida o seu governante, não nos priveis deste socorro; erguei as nossas mãos para que não desfaleçam; abri-nos a boca, para que não se feche. Suplicai a Deus — por esta causa suplicai-Lhe. É em nosso favor, sim, que isto se faz, mas é inteiramente por vossa causa. Pois nós fomos constituídos para vosso proveito, e pelos vossos interesses nos preocupamos. Suplicai cada um de vós, tanto privadamente quanto publicamente. Notai Paulo dizendo: Para que, pelo dom que nos foi concedido por meio de muitos, sejam dadas graças por muitas pessoas em nosso favor (2 Co 1:11); isto é, para que Ele conceda graça a muitos. Se, no caso dos homens, o povo, apresentando-se, pede perdão para condenados e conduzidos à execução, e o rei, por consideração à multidão, revoga a sentença, muito mais Deus será influenciado por consideração a vós — não pela vossa multidão, mas pela vossa virtude.
Violento é o inimigo que temos. Pois cada um de vós, na verdade, ansiosamente pensa em seus próprios interesses, mas a nós cabem os cuidados de todos em conjunto. Ocupamos a parte da batalha que é mais duramente pressionada. O diabo está mais violentamente armado contra nós. Pois também nas guerras, aquele que está no lado oposto se esforça, antes de todos os outros, por derrubar o general. Por esta razão, todos os seus companheiros de combate acorrem para lá. Por esta razão há tanto tumulto, esforçando-se cada um por resgatá-lo; cercam-no com seus escudos, desejando preservar-lhe a pessoa. Ouvi o que todo o povo diz a Davi. (Não digo isto comparando-me a Davi — não estou assim tão louco —, mas porque desejo mostrar o afeto do povo por seu governante.) "Não saireis mais conosco à batalha", dizem eles, "para que não apagueis a lâmpada de Israel" (2 Sm 21,17). Vede quão ansiosos estavam por poupar o ancião. Tenho grande necessidade de vossas orações. Que ninguém, como já disse, por excessiva humildade, me prive desta aliança e socorro. Se a nossa parte for bem aprovada, também a vossa será mais honrosa. Se o nosso ensino fluir abundantemente, as riquezas redundarão para vós. Ouvi o profeta que diz: "Acaso os pastores apascentam a si mesmos?" (Ez 34,2, Septuaginta)
Observais como Paulo constantemente buscava estas orações? Ouvis como assim Pedro foi libertado da prisão, quando fervorosa oração era feita por ele (At 12,5)? Creio verdadeiramente que a vossa oração terá grande efeito, oferecida com tamanha unanimidade. Não pensais que é matéria demasiado grande para a minha pequenez aproximar-me de Deus e suplicar-Lhe por povo tão numeroso? Pois, se não tenho confiança para orar por mim mesmo, muito menos por outros. Pois pertence aos homens de alta estima suplicar a Deus que seja misericordioso com outros; é próprio daqueles que O tornaram favorável a si mesmos. Mas aquele que é ele próprio ofensor, como suplicará por outro? Mas, contudo, porque vos abraço com coração de pai, porque o amor tudo ousa, não só na Igreja, mas também na casa, faço minha oração acima de todas as outras coisas pela vossa saúde, tanto da alma quanto do corpo. Pois não há outro povo antes do seu próprio. Pois se Jó, levantando-se imediatamente, fez tantas oferendas por seus filhos segundo a carne, quanto mais devemos nós fazer isto por nossos filhos espirituais?
Por que digo estas coisas? Porque, se nós, que estamos tão longe da grandeza da obra, oferecemos súplicas e orações por vós, muito mais justo é que vós o façais. Pois que um só suplique por muitos é sobremaneira ousado e requer muita confiança; mas que muitos, reunidos, ofereçam súplica por um só, nada tem de penoso. Pois cada um faz isto não confiando em sua própria virtude, mas na multidão e em sua unanimidade, à qual Deus em toda parte muito atende. Pois Ele diz: "Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, ali estou Eu no meio deles" (Mt 18,20). Se onde dois ou três estão reunidos Ele está no meio, muito mais está Ele entre vós. Pois aquilo que um homem, orando sozinho, não é capaz de receber, isso receberá orando com uma multidão. Por quê? Porque, ainda que a sua própria virtude não o tenha, o consenso comum tem muito poder.
Onde dois ou três, diz, estão reunidos. Por que disseste: Dois? Pois, se houver um só em Teu Nome, acaso não estás Tu ali? Porque quero que todos estejam juntos, e não separados. Cerremos, pois, fileiras uns com os outros; ademos uns aos outros no amor, que ninguém nos separe. Se alguém acusa, ou se ofende, que não o retenha em sua mente, seja contra o próximo, seja contra nós. Este favor vos peço: vinde a nós, trazei a acusação, e recebei a nossa defesa. Repreende-o, diz, para que porventura não o tenha dito; repreende-o, para que porventura não o tenha feito (Eclo 19:14-15); e, se o fez, que não acrescente a isso. Pois ou nos defendemos, ou, sendo condenados, pedimos perdão, e daí em diante nos esforçamos por não recair nas mesmas faltas. Isto convém tanto a vós quanto a nós. Pois vós, tendo talvez nos acusado sem razão, quando conheceis a verdade do caso, sereis corrigidos; e nós, que ofendemos sem o saber, somos corrigidos. Para vós, porém, não é conveniente que assim não seja, pois está estabelecido castigo para os que proferem qualquer palavra ociosa. Mas nós repelimos as acusações, sejam falsas, sejam verdadeiras: as falsas, mostrando que são falsas; as verdadeiras, não mais tornando a fazer as mesmas coisas. Pois é forçoso que aquele que tem o cuidado de tantas coisas ignore algo, e por ignorância cometa erros. Se, com efeito, cada um de vós, tendo uma casa, e presidindo à mulher, aos filhos e aos servos — uns em maior, outros em menor número —, entre almas tão facilmente contáveis, ainda assim é levado a cometer muitos erros involuntariamente, seja por ignorância, seja ao querer corrigir algo; quanto mais há de sê-lo conosco, que presidimos a tão grande número de pessoas!
E que Deus ainda vos multiplique e vos abençoe, o pequeno com o grande! Pois, ainda que o cuidado se torne maior com o aumento do número, não cessamos de orar para que este nosso cuidado seja aumentado, e para que a este número se acrescente outro, e seja muitas vezes maior e sem limite. Pois os pais, ainda que amiúde afligidos pelo número de seus filhos, contudo não desejam perder nenhum deles. Todas as coisas são iguais entre nós e vós, até mesmo o próprio ápice de nossos bens. Não participo eu da santa Mesa com maior abundância, e vós com menor, mas ambos participamos igualmente da mesma coisa. E, se a recebo primeiro, não é grande privilégio, pois também entre os filhos o mais velho é o primeiro a estender a mão para o banquete, mas nenhuma vantagem se ganha com isso. Entre nós, porém, todas as coisas são iguais. A vida salvadora que sustenta as nossas almas é dada com igual honra a ambos. Não participo eu de um Cordeiro, e vós de outro, mas participamos do mesmo. Ambos temos o mesmo Batismo. Fomos julgados dignos do mesmo Espírito. Ambos nos apressamos para o mesmo reino. Somos igualmente irmãos de Cristo; temos todas as coisas em comum.
Onde está, pois, a minha vantagem? Em cuidados, em labores, em ansiedades, em pesares por vós. Mas nada há mais doce que este pesar, pois também a mãe que se aflige por seu filho se compraz em sua aflição, pensa cuidadosamente naqueles a quem deu à luz, e se deleita em seus cuidados. E, no entanto, o cuidado em si mesmo é amargo; mas, quando é pelos filhos, tem em si, ao menos, muito prazer. A muitos de vós eu gerei, mas depois disto vêm as minhas dores de parto. Pois, no caso das mães segundo a carne, primeiro vêm as dores, e depois o parto. Mas aqui as dores perduram até o último suspiro, para que não haja, em parte alguma, algum aborto mesmo depois do parto. E eu, na verdade, tenho ainda outro anelo; pois, ainda que porventura outro vos tenha gerado, eu, contudo, sou afligido de cuidados. Porque não vos geramos de nós mesmos, mas tudo é da graça de Deus. Mas, se ambos geramos pelo Espírito, não errará quem chamar de filhos seus os que por mim foram gerados, e de meus, os que por ele foram gerados. Considerai, pois, todas estas coisas, e estendei a vossa mão, para que sejais a nossa glória, e nós a vossa, no dia de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual Deus conceda que todos nós vejamos com confiança, por Jesus Cristo nosso Senhor, com o qual, etc.
Nem devemos, tendo confiado tudo às orações dos Santos, permanecer nós mesmos ociosos, e correr para a maldade, e não empreender nada; nem tampouco, quando operamos o bem, desprezar aquele socorro. Pois grandes são, na verdade, as coisas que a oração por nós pode realizar, mas isso quando nós mesmos também operamos. Por esta razão Paulo também, orando por eles, e novamente dando-lhes garantia a partir da promessa, diz: Mas fiel é o Senhor, que vos há de confirmar e guardar do maligno. Pois se Ele vos escolheu para a salvação, não vos engana, nem permite que pereçais totalmente. Mas, para que por estes meios não os conduzisse à indolência, e para que, pensando que tudo fosse de Deus, eles mesmos não adormecessem, vede como ele também exige deles a cooperação, dizendo: E confiamos no Senhor a vosso respeito, que fazeis e fareis o que vos mandamos. O Senhor, com efeito, diz ele, é fiel, e, tendo prometido salvar, certamente salvará; mas como prometeu. E como prometeu? Se quisermos, e o ouvirmos; não simplesmente ouvindo, nem como troncos e pedras, permanecendo inativos.
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E ele bem introduziu as palavras: Confiamos no Senhor, isto é, confiamos em Sua benignidade. Novamente ele os rebaixa, fazendo tudo depender daquilo. Pois, se ele tivesse dito: Confiamos em vós, o elogio seria, na verdade, grande, mas não lhes ensinaria a fazer todas as coisas dependerem de Deus. E se ele tivesse dito: Confiamos no Senhor, que Ele vos há de preservar, e não tivesse acrescentado a vosso respeito, e que fazeis e fareis o que vos mandamos, teria feito deles mais indolentes, lançando tudo sobre o poder de Deus. Pois convém a nós, na verdade, lançar tudo sobre Ele, trabalhando também nós mesmos, empenhados nos labores e nos combates. E ele mostra que, ainda que somente a nossa virtude bastasse para salvar, ela deveria, contudo, ser perseverante, e permanecer conosco até chegarmos ao nosso último suspiro.
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De novo os louva, e ora, mostrando o cuidado que tem por eles. Pois, estando prestes a entrar em repreensão, primeiro abranda os ânimos deles, dizendo que está confiante de que hão de ouvir, e pedindo-lhes orações, e de novo invocando sobre eles infinitas bênçãos.
Mas o Senhor, diz ele, dirija os vossos corações no amor de Deus. Pois há muitas coisas que nos desviam do amor, e muitos são os caminhos que dali nos arrastam. Em primeiro lugar, o caminho de Mamom, lançando, por assim dizer, mãos desavergonhadas sobre a nossa alma, e retendo-a tenazmente em seu punho, dali nos puxa e arrasta até mesmo contra a nossa vontade. Depois, a vanglória e, amiúde, as aflições e as tentações nos desviam. Por esta razão necessitamos, como de certo vento, do auxílio de Deus, para que a nossa vela seja impelida, como por algum vento forte, ao amor de Deus. Pois não me digas: eu O amo, até mais que a mim mesmo. Isto são palavras. Mostra-mo por tuas obras, se O amas mais que a ti mesmo. Ama-O mais que ao dinheiro, e então crerei que O amas até mais que a ti mesmo. Mas tu, que não desprezas as riquezas por amor de Deus, como desprezarás a ti mesmo? Mas por que digo riquezas? Tu, que não desprezas a cobiça, o que devias fazer ainda que sem os mandamentos de Deus, como desprezarás a ti mesmo?
E na paciência de Cristo, diz ele. Que é «na paciência»? Que suportemos assim como Ele suportou, ou que façamos aquelas coisas, ou que também com paciência O esperemos, isto é, que estejamos preparados. Pois, visto que Ele prometeu muitas coisas, e Ele mesmo há de vir para julgar os vivos e os mortos, esperemo-lO, e sejamos pacientes. Mas, sempre que fala de paciência, subentende, é claro, a aflição. Pois isto é amar a Deus: suportar, e não se perturbar.
Isto é, não somos nós que dizemos estas coisas, mas Cristo, pois esse é o sentido de em nome de nosso Senhor Jesus Cristo; equivalente a por meio de Cristo. Mostrando a formidabilidade da mensagem, ele diz, por meio de Cristo. Cristo, portanto, nos ordenou que em nenhum caso fôssemos ociosos. Que vos aparteis, diz ele, de todo irmão. Não me fales do rico, não me fales do pobre, não me fales do santo. Isto é desordem. Que anda, diz ele, isto é, vive. E não segundo a tradição que receberam de mim. Tradição, diz ele, que se dá por meio das obras. E a esta ele sempre chama, propriamente, tradição.
Um mestre demonstra grande confiança se usa suas próprias boas ações para repreender seus discípulos. E assim escreve Paulo: "Pois vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos." E ele deve ser mestre mais de vida que de palavra. Ninguém pense que Paulo diz isto por coração jactancioso. A necessidade da situação em Tessalônica o levou a falar assim, tendo em vista a vantagem de toda a comunidade.
Vede como, na epístola anterior, ele discorre de modo algo mais brando acerca destas coisas; como quando diz: Rogamo-vos, irmãos — que abundeis cada vez mais — e que vos esforceis (1 Ts 4:1-11) — e em nenhuma parte diz: ordenamos, nem em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, o que era temível e implicava perigo; mas que abundeis, diz ele, e vos esforceis, palavras próprias de quem exorta à virtude; para que andeis honestamente (decorosamente), diz ele (1 Ts 4:12). Mas aqui não há nada disso; antes, se alguém não quiser trabalhar, diz ele, que também não coma. Pois, se Paulo, não estando sob necessidade, tendo direito de estar ocioso, e tendo empreendido obra tão grande, ainda assim trabalhava — e não apenas trabalhava, mas noite e dia, de modo que podia até socorrer a outros — muito mais devem os demais fazê-lo.
Não digo estas coisas agora ao acaso, mas antes porque muitos frequentemente são demasiado intrusivos na investigação dos necessitados. Examinam-lhes a linhagem, a vida, os hábitos, a vocação e o vigor do corpo. Fazem queixas e exigem imenso escrutínio público acerca de sua saúde. Por esta mesma razão, muitos dos pobres simulam enfermidades físicas, a fim de que, dramatizando suas desventuras, possam desviar nossa crueldade e desumanidade. E ainda que, sendo verão, seja terrível fazer estas queixas, não é tão temível assim. Todavia, durante a geada e o frio, alguém tornar-se tão selvagem e desumano juiz e não conceder nenhum perdão ao desempregado — não envolve isto extrema crueldade? "Que ordenou Paulo por lei", dizem eles, "quando disse aos tessalonicenses: 'Se alguém não quiser trabalhar, tampouco coma'?" Para que também vós ouçais estas coisas, deveis discutir as palavras de Paulo não somente com o pobre, mas também convosco mesmos. Pois as leis de Paulo não são estabelecidas somente para os pobres, mas para todos. Permiti-me dizer algo pesado e penoso. Sei que vos indignareis. Contudo, hei de dizê-lo; pois não o digo para ferir-vos, mas para corrigir-vos. Criticamos neles a preguiça, coisa que é, em grande parte, digna de perdão. Todavia, nós mesmos fazemos muitas vezes coisas ainda mais graves que qualquer preguiça… Portanto, quando dizeis: "Que diremos então a Paulo?", conversai também convosco mesmos, e dizei estas coisas não somente aos pobres. Lede não apenas a ameaça de castigo, mas também a admoestação de Paulo ao perdão, pois aquele que disse: "Se alguém não quiser trabalhar, tampouco coma", acrescentou: "E vós, irmãos, não desfaleçais em fazer o bem".
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Por isso também a Escritura enviou o preguiçoso à formiga, dizendo: "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, imita os seus caminhos, e sê mais sábio que ela". Não quereis, quer ele dizer, aprender das Escrituras que é bom trabalhar, e que aquele que não quiser trabalhar tampouco deve comer? Aprendei-o dos animais irracionais! Fazemos o mesmo em nossas famílias, exortando os que erraram — ainda que sejam mais velhos e tidos por superiores — a observar as crianças prudentes. Dizemos: "Vede quão diligente e vigilante é esta criança, ainda que seja mais jovem que tu". Do mesmo modo, aprendei da formiga a melhor exortação ao trabalho árduo. Maravilhai-vos com o vosso Senhor, não somente porque fez o céu e o sol, mas porque também fez a formiga. Pois, embora a formiga seja pequena, ela demonstra a grandeza da sabedoria de Deus. Considerai, pois, quão prudente é a formiga. Considerai como Deus implantou em corpo tão pequeno tão incessante desejo de trabalho! Mas, enquanto aprendeis da formiga a lição do trabalho árduo, aprendei da abelha a lição do asseio, da diligência e da concórdia social! Pois a abelha labora mais para nós do que para si mesma, trabalhando todos os dias. Isto é, na verdade, algo especialmente próprio do cristão: não buscar o próprio bem-estar, mas o bem-estar dos outros. Assim como, então, a abelha percorre os prados para preparar um banquete para outrem, assim também tu, ó homem, faze o mesmo. E se acumulaste riqueza, gasta-a com os outros. Se tens a capacidade de ensinar, não enterres o talento, mas traze-o publicamente à luz em favor daqueles que dele necessitam! Ou se tens qualquer outra vantagem, torna-te útil àqueles que colhem os frutos dos teus labores.
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Isto, de fato, é o que diz aqui; mas ali, na primeira Epístola, diz que andeis honestamente para com os que estão de fora. Por que razão? Talvez ainda não houvesse tal coisa. Pois, admoestando também em outra ocasião, diz: Mais bem-aventurado é dar do que receber (At 20:35). Mas a expressão andar honestamente não tem referência à desordem; por isso acrescentou: para que não tenhais necessidade de coisa alguma (1 Ts 4:12). E aqui estabelece outra necessidade, a de fazer assim o que era honroso e bom para com todos. (Pois, como prossegue, diz: não vos canseis de fazer o bem.) Pois certamente aquele que é ocioso, podendo trabalhar, há de ser necessariamente um intrometido. Mas as esmolas são dadas somente àqueles que não podem sustentar-se pelo trabalho de suas próprias mãos, ou que ensinam e estão inteiramente ocupados no ofício de ensinar. Pois não atarás a boca ao boi, diz ele, quando debulha o grão (Dt 25:4). E digno é o trabalhador do seu salário (1 Tm 5:18; Lc 10:7). De modo que este tampouco é ocioso, mas recebe a recompensa do trabalho, e de um grande trabalho. Mas orar e jejuar, estando ocioso, não é o trabalho das mãos. Pois o trabalho de que aqui fala é o trabalho das mãos. E para que não suspeiteis de tal coisa
Que em nada trabalham, mas são intrometidos. Ora, a esses tais ordenamos e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo. Porque os havia tocado severamente, querendo tornar seu discurso mais brando, acrescenta, por meio do Senhor, novamente o que é revestido de autoridade e temível.
Que com tranquilidade, diz ele, trabalhem e comam o próprio pão. Pois por que não disse: Mas, se não são desordeiros, sejam sustentados por vós; antes requer ambas as coisas, que sejam tranquilos e que trabalhem? Que comam o próprio pão, diz ele, não o de outrem.
Vede como imediatamente o coração paterno se rendeu. Não pôde levar adiante sua repreensão, mas de novo se compadeceu deles. E vede com que discrição! Não disse: Mas perdoai-os até que se emendem; mas o quê? Vós, porém, não vos canseis de fazer o bem. Retirai-vos, diz ele, deles, e repreendei-os; não permitais, contudo, que pereçam de fome. Que fazer então, diz ele, se, tendo fartura de nós, permanecer ocioso? Nesse caso, diz ele, falei de um remédio brando, que vos retireis dele, isto é, que não partilheis com ele de livre conversação; mostrai que estais indignados. Isto não é coisa pequena. Pois tal é a repreensão que se dá a um irmão, se de fato quisermos emendá-lo. Não ignoramos os métodos da repreensão. Pois dizei-me, se tivésseis um irmão segundo a carne, deixaríeis então de socorrê-lo definhando de fome? Em verdade, penso que não; antes, talvez até o corrigísseis.
Não disse: Aquele que desobedece, a mim desobedece, mas notai esse homem. Este não é castigo pequeno. Não tenhais companhia com ele. Depois, novamente diz: para que se envergonhe. E não permite que prossigam além disso. Pois, tendo dito que, se alguém não trabalha, tampouco coma, temendo que pereçam de fome, acrescentou: Mas, fazendo o bem, não vos canseis. Assim, tendo dito: Retirai-vos, e não tenhais companhia com ele, temendo então que isto mesmo o pudesse separar da fraternidade — pois aquele que se entrega ao desespero rapidamente se perderá, se não lhe for admitida a liberdade da conversação
Que quer, pois, dizer Paulo quando afirma: "Se alguém não obedecer ao que dizemos nesta carta, notai esse homem e não tenhais relação com ele"? Em primeiro lugar, diz isto a respeito de irmãos, mas com uma limitação significativa, que é enunciada com brandura. Não separeis o que aqui se diz do que se segue, onde, tendo dito "não tenhais relação com ele", acrescentou: "não o considereis como inimigo, mas admoestai-o como irmão." Vedes como nos exorta a odiar o feito, mas amar a pessoa? Pois é, na verdade, obra do diabo despedaçar-nos uns dos outros, e ele sempre pôs grande empenho em destruir a caridade, para que se perdesse o meio da correção, o pecador permanecesse em seu erro e se lhe fechasse o caminho da salvação. Pois, quando o médico odeia o enfermo e foge dele, e o enfermo se aparta do médico, quando se há de restabelecer o que padece de má disposição, visto que nem um chamará o auxílio do outro, nem este irá a ele?
Com isto mostra que lhe impôs pesado castigo, privando-o da liberdade de convívio.
Pois, se já é motivo de vergonha ser recebido por muitos outros quando estes, ao mesmo tempo que oferecem, ainda repreendem e se retraem, quão grande é o opróbrio, bastante para ferir a alma! Pois, se apenas dando com certa tardança e murmurando já inflamam os que recebem — não vos falo de mendigos desavergonhados, mas dos fiéis —, se estes repreendessem ao mesmo tempo que dão, que não fariam? A que castigo não equivaleria isso? Nós, porém, não procedemos assim; mas, como se tivéssemos sido gravemente ofendidos, assim insultamos e afastamos de nós os que nos pedem. Tu não dás; mas por que também o afliges? Admoestai-os, diz ele, como irmãos; não os insulteis como inimigos. Quem admoesta o irmão não o faz publicamente; não expõe abertamente o insulto, mas o faz em particular e com muita delicadeza, condoendo-se como quem está ferido, chorando e lamentando-se. Demos, pois, com a disposição de um irmão; admoestemos com a benevolência de um irmão, não como quem se aflige por dar, mas como quem se aflige por ele haver transgredido o mandamento. Pois, qual é a vantagem? Se, mesmo depois de dar, insultas, destróis o prazer de dar. Mas, quando não dás e ainda assim insultas, que injúria não fazes a esse homem desventurado e infeliz? Veio a ti para receber de ti compaixão, mas parte tendo recebido um golpe mortal, e chora ainda mais. Pois, quando por causa de sua pobreza é constrangido a mendigar, e é insultado por mendigar, pensai quão grande será o castigo dos que o insultam. "Quem desonra o pobre", diz a Escritura, "provoca a ira do seu Criador" (Pv 14,31, Septuaginta). Pois dizei-me: acaso permitiu Ele que este fosse pobre por vossa causa, para que pudésseis curar-vos a vós mesmos — e insultais aquele que por vossa causa é pobre? Que obstinação é esta! Que ato de ingratidão! "Admoestai-o como irmão", diz ele; e, depois de mandar dar, ordena que o admoesteis. Mas, se nem sequer dando o insultamos, que desculpa teremos?
Vede como, ao mencionar as coisas que hão de ser feitas, ele lhes imprime seu selo por meio da oração, acrescentando oração e súplica, como certos sinais impressos sobre coisas que se guardam. Vos dê a paz, diz ele, em todo tempo, de todo modo. Pois, como era provável que dessas coisas surgissem contendas, exasperando-se uns e não se prestando os outros a tais pessoas tão prontamente quanto antes, com boa razão ofereceu ele agora esta oração por eles, dizendo: Vos dê a paz em todo tempo. Pois é isto o que se busca, que a tenham sempre. De todo modo, diz ele. Que significa "de todo modo"? Que não tenham ocasião de contenda de parte alguma. Pois em toda parte a paz é um bem, mesmo para com os que estão de fora. Pois ouvi-o dizer alhures: Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens (Rm 12,18). Pois nada é tão propício à reta realização das coisas que desejamos quanto sermos pacíficos e não perturbados, e estarmos livres de todo ódio, e não termos inimigo.
Este ele diz que escreve em cada Epístola, para que ninguém possa falsificá-las, servindo sua subscrição de grande sinal. E chama a oração de saudação, mostrando que tudo quanto então faziam era espiritual; mesmo quando era próprio oferecer saudação, a coisa vinha acompanhada de proveito; e era oração, não mera insígnia de amizade. Com isto começou, e com isto terminou, guardando com muros fortes o que dissera alhures, e lançando fundamentos seguros, trouxe-a também a um seguro fim. Graça seja convosco e paz, diz ele; e novamente, A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. Isto também o Senhor prometeu, dizendo a Seus discípulos, Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século (Mt 28,20). Mas isto se dá quando o quisermos. Pois Ele não estará de todo conosco, se nos colocarmos à distância. Eu estarei convosco, diz Ele, todos os dias. Não afugentemos, pois, a graça. Ele nos ordena que nos apartemos de todo irmão que anda desordenadamente. Grande mal era então este, ser separado de todo o corpo dos irmãos. Por isto, na verdade, a todos ele castiga, como noutro lugar, na Epístola aos Coríntios, disse, Com tal não comais (1 Cor 5,11). Mas agora a maioria não julga isto grande mal. Mas todas as coisas estão confundidas e corrompidas. Com adúlteros, com fornicadores, com avarentos, misturamo-nos livremente, e como coisa natural. Se devíamos apartar-nos daquele que apenas era sustentado na ociosidade, quanto mais dos outros. E para que saibais quão temível coisa era ser separado da companhia dos irmãos, e que proveito produz aos que recebem a repreensão com reto ânimo, ouvi como aquele homem, que se inchara de pecado, que chegara ao extremo da maldade, que cometera tal fornicação que nem entre os gentios se nomeia, que era insensível à sua chaga — pois este é o cúmulo da perversão — este, todavia, ainda que tal, foi de tal modo abatido e humilhado que Paulo disse, Basta a tal homem esta pena que lhe foi infligida pelos muitos. Pelo que confirmai para com ele o vosso amor (2 Cor 2,6-8). Pois como membro separado do resto do corpo, assim era ele então.
Mas a causa, e aquilo por que isto era então tão terrível, era que até o estar com eles era tido por eles como grande bênção. Pois como homens que habitam uma só casa, e estão sob um só pai, e participam de uma só mesa, assim então habitavam eles em toda Igreja. Quão grande mal era, pois, cair de tão grande amor! Mas agora nem sequer se julga ser grande mal, porque tampouco se considera coisa alguma grande estarmos unidos uns aos outros. O que então estava na ordem do castigo, isto, por causa da grande frieza do amor, ocorre agora mesmo à parte de castigo, e apartamo-nos uns dos outros sem causa, e por frieza. Pois é causa de todos os males não haver amor. Isto dissolveu todos os laços, e desfigurou tudo quanto era venerável e esplêndido na Igreja, no qual devíamos gloriar-nos.
Grande é a confiança do Mestre, quando por suas próprias boas ações lhe é lícito repreender os seus discípulos. Por isso também disse Paulo: Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos (2 Ts 3:7). E convém que o Mestre o seja mais de vida do que de palavra. E que ninguém pense que isto se diz por espírito de jactância. Pois foi como que reduzido à necessidade que ele o disse, e tendo em vista a utilidade comum. Pois não nos portamos desordenadamente entre vós, diz ele. Não vedes por aqui a sua humildade, em que chama àquilo de nada e comportamento desordenado? Não nos portamos desordenadamente entre vós, diz ele, nem comemos de graça o pão de ninguém. Aqui mostra que talvez também eles fossem pobres; e não me digais que eram pobres. Pois ele discorre acerca dos pobres, e daqueles que não obtinham o sustento necessário senão do trabalho de suas próprias mãos. Pois não disse que o pudessem ter de seus pais, mas que, trabalhando, comessem o seu próprio pão. Pois se eu, diz ele, arauto da palavra da doutrina, temia ser-vos pesado, muito mais aquele que não vos presta serviço algum. Pois isto é verdadeiramente um peso. E é peso também quando alguém não dá com muita presteza; mas não é isto o que ele insinua, e sim como se não pudessem fazê-lo facilmente. Pois por que não trabalhais? Pois Deus vos deu as mãos para este fim, não para que recebêsseis de outros, mas para que repartísseis com outros.
Ora o Senhor, diz ele, seja convosco. Também esta oração podemos oferecer por nós mesmos, se fizermos as coisas do Senhor. Pois ouve a Cristo dizendo a Seus discípulos: Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que Eu vos ordenei; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação do século (Mt 28:19-20). Se fizerdes estas coisas, certamente. Pois que a promessa não é feita somente a eles, mas também aos que andam em seus passos, é manifesto por Ele dizer até a consumação do século.
Que diz Ele, então, àqueles que não são mestres? Cada um de vós, se quiser, é mestre, ainda que não de outro, ao menos de si mesmo. Ensinai a vós mesmos primeiro. Se ensinardes a guardar todas as coisas que Ele ordenou, ainda que seja por este meio, tereis muitos que vos emularão. Pois, assim como uma lâmpada, quando está acesa, é capaz de acender dez mil outras, mas, estando apagada, não dará luz nem sequer a si mesma, nem poderá acender outras lâmpadas; assim também, no caso de uma vida pura, se a luz que há em nós estiver brilhando, faremos discípulos e mestres sem número, sendo postos diante deles como um modelo a ser copiado. Pois nem as palavras que procedem de mim poderão beneficiar os ouvintes tanto quanto a vossa vida. Pois seja, dizei-me, um homem caro a Deus, e resplandecente em virtude, e tendo esposa (pois é possível a um homem, tendo esposa e filhos e servos e amigos, agradar a Deus); não será ele capaz de beneficiar a todos muito mais do que eu? Pois a mim ouvirão uma ou duas vezes ao mês, ou nem sequer uma vez, e ainda que tenham guardado o que ouviram até o limiar da Igreja, logo o deixam escapar de si; mas, vendo constantemente a vida daquele homem, recebem grande proveito. Pois quando, sendo insultado, ele não insulta de volta, não incute e grava quase sobre a alma daquele que o insulta a reverência de sua mansidão? E ainda que este não confesse imediatamente o benefício, por vergonha da ira, ou por estar confundido, contudo imediatamente se torna sensível a ele. E é impossível que um homem insolente, ainda que seja uma verdadeira besta, conviva com um que é paciente no mal sem sair grandemente beneficiado. Pois, ainda que não façamos o que é bom, todos, contudo, o louvamos e o admiramos. De novo, a esposa, se vir seu marido manso, estando sempre com ele recebe grande proveito, e também o filho. É, portanto, poder de cada um ser mestre. Pois diz ele: Edificai-vos uns aos outros, como também já fazeis (1Ts 5:11). Pois dizei-me, sobreveio algum prejuízo à família? A esposa se perturba, por ser mais fraca, e mais desmedida, e afeiçoada a ornamentos; o homem, se for filósofo, e zombador do prejuízo, tanto a consola quanto a persuade a suportá-lo com fortaleza. Dizei-me, então, não a beneficiará ele muito mais do que as nossas palavras? Pois é fácil falar, mas agir, quando somos reduzidos à necessidade, é em todo aspecto difícil. Por esta razão, a natureza humana costuma antes ser regulada por atos. E tal é a superioridade da virtude, que até mesmo um servo, muitas vezes, beneficia toda uma família juntamente com o senhor.
Não é sem propósito, nem sem razão, que Paulo ordena constantemente que pratiquem a virtude e sejam obedientes ao seu senhor, não tanto em vista do serviço a seus senhores, quanto para que a palavra de Deus e a doutrina não sejam blasfemadas. Mas quando não é blasfemada, em breve também será admirada. E conheço muitas famílias que muito se beneficiaram com a virtude de seus escravos. Ora, se um servo colocado sob autoridade pode aperfeiçoar seu senhor, muito mais pode o senhor aperfeiçoar seus servos. Reparti então comigo, eu vos suplico, este ministério. Eu me dirijo a todos em geral; fazei vós, cada um em particular, e que cada qual se encarregue da salvação de seus próximos. Pois que convém a cada um presidir aos de sua casa nestas matérias, ouvi para onde Paulo remete as mulheres em busca de instrução: E se quiserem aprender alguma coisa, interroguem seus próprios maridos em casa (1 Cor 14:35); e ele não as conduz ao Mestre. Pois assim como nas escolas de ensino há mestres até mesmo entre os discípulos, assim também na Igreja. Porque ele deseja que o Mestre não seja importunado por todos. Por que razão? Porque então haverá grandes vantagens, não somente a de que o trabalho será leve para o Mestre, mas também a de que cada um dos discípulos, tendo-se esforçado, logo se torna capaz de tornar-se mestre, fazendo disto sua ocupação.
Vede, pois, quão grande serviço presta a esposa. Ela guarda a casa e cuida de todas as coisas na casa; preside às suas servas; veste-as com suas próprias mãos; faz com que sejas chamado pai de filhos; livra-te dos bordéis; auxilia-te a viver castamente; põe termo ao forte desejo da natureza. Beneficia-a tu também. Como? Nas coisas espirituais, estende tua mão. Todas as coisas úteis que ouviste, essas, como as andorinhas, levando-as em tua boca, carrega-as e coloca-as na boca da mãe e dos filhotes. Pois como não seria absurdo, nas demais coisas julgares-te digno da preeminência e ocupares o lugar de cabeça, mas no ensino abandonares teu posto? O que governa não deve exceder ao que é governado tanto em honras, quanto em virtudes. Pois isto é o dever de quem governa, ao passo que aquilo é a parte do governado; mas isto é a realização do próprio governante. Se gozas de muita honra, isto de nada te vale, pois a recebeste de outros. Se resplandeces em muita virtude, isto é todo teu.
Tu és a cabeça da mulher; que a cabeça, pois, regule o resto do corpo. Não vês que ela não está tanto acima do resto do corpo pela posição, quanto pela previdência, dirigindo, como um timoneiro, o todo dele? Pois na cabeça estão os olhos, tanto do corpo quanto da alma. Daí flui para eles tanto a faculdade de ver quanto o poder de dirigir. E o resto do corpo é destinado ao serviço, mas esta é posta para comandar. Todos os sentidos têm daí sua origem e sua fonte. De lá são enviados os órgãos da fala, o poder de ver, e de cheirar, e todo o tato. Pois de lá é derivada a raiz dos nervos e dos ossos. Não vês que ela é superior mais na previdência do que na honra? Assim governemos as mulheres; ultrapassemo-las, não buscando delas maior honra, mas fazendo com que sejam mais beneficiadas por nós.
Terceira parte da tradução:
Já mostrei que elas nos concedem não pequeno benefício; mas, se estivermos dispostos a retribuir-lhes nas coisas espirituais, nós as superamos. Pois não é possível, nas coisas corpóreas, oferecer um equivalente. Pois quê? Contribuis com muitas riquezas? Mas é ela quem as preserva, e este seu cuidado é um equivalente; e assim há necessidade dela, porque muitos, que possuíam grandes bens, os perderam todos por não terem quem cuidasse deles. Quanto aos filhos, porém, ambos comunicais, e o benefício de cada um é igual. Ela, na verdade, nestas coisas tem o serviço antes mais laborioso, sempre trazendo a prole, e sendo afligida pelas dores do parto; de modo que somente nas coisas espirituais poderás superá-la.
Não olhemos, pois, para como haveremos de ter riquezas, mas para como apresentaremos a Deus, com confiança, as almas que nos foram confiadas. Pois, governando-as, também a nós mesmos beneficiaremos sobremaneira. Porque aquele que ensina a outrem, ainda que nada mais faça, ao falar é tocado de compunção, quando se vê responsável por aquelas coisas pelas quais reprova os demais. Uma vez que, portanto, beneficiamos tanto a nós mesmos quanto a eles, e por meio deles a casa, e isto é sobremodo agradável a Deus, não nos cansemos de cuidar tanto das nossas próprias almas quanto das daqueles que nos servem, para que por todas recebamos recompensa, e com muitas riquezas cheguemos à santa Cidade, nossa mãe, a Jerusalém que é do alto, da qual Deus conceda que jamais caiamos, mas que, tendo resplandecido no mais excelente curso de vida, sejamos julgados dignos de ver, com muita confiança, o nosso Senhor Jesus Cristo; com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, sejam glória, poder e honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
primeiro discurso: mas agora, muito mais recebereis o que diz respeito aos Apóstolos.
A muitos é este Livro tão pouco conhecido, tanto ele quanto o seu autor, que nem sequer sabem que existe tal livro. Por esta razão, principalmente, tomei esta narrativa por assunto, para que a ele traga os que o desconhecem, e não deixe permanecer oculto aos olhos tão grande tesouro como este. Pois, na verdade, pode ele proveitar-nos não menos que os próprios Evangelhos; tão repleto está de sabedoria cristã e de são doutrina, especialmente no que se diz a respeito do Espírito Santo. Não passemos, pois, apressadamente por ele, mas examinemo-lo de perto. Assim, as predições que nos Evangelhos Cristo profere, aqui podemos ver que de fato se cumprem; e notar, nos próprios fatos, a luminosa evidência da Verdade que neles resplandece, e a poderosa mudança que se opera nos discípulos, agora que o Espírito veio sobre eles. Por exemplo, ouviram dizer a Cristo: "Quem crê em Mim, as obras que Eu faço, também ele as fará, e maiores obras que estas fará" (Jo 14,12); e ainda, quando predisse aos discípulos que seriam levados perante governadores e reis, e que em suas sinagogas os açoitariam, e que sofreriam coisas penosas, e venceriam tudo (Mt 10,18); e que o Evangelho seria pregado em todo o mundo (Mt 24,14): ora, tudo isto, como se cumpriu exatamente como fora dito, pode-se ver neste Livro, e ainda mais, que Ele lhes disse enquanto ainda estava com eles. Aqui verás ainda os próprios Apóstolos apressando o seu caminho como que em asas sobre a terra e o mar; e esses mesmos homens, outrora tão tímidos e vazios de entendimento, subitamente feitos bem diversos do que eram; homens que desprezam as riquezas, e se elevam acima da glória, da paixão e da concupiscência, e, em suma, de todas as afeições semelhantes: além disso, que unanimidade há agora entre eles; em nenhuma parte inveja alguma como havia antes, nem qualquer daquele antigo anseio pela preeminência, mas toda virtude neles levada ao seu último acabamento, e resplandecendo através de tudo, com fulgor incomparável, aquela caridade acerca da qual o Senhor tantos preceitos dera, dizendo: "Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35). E depois, além disso, encontram-se aqui doutrinas que não poderíamos conhecer tão certamente como agora conhecemos, se este Livro não existisse, mas o próprio remate de nossa salvação estaria oculto, tanto para a prática da vida quanto para a doutrina.
A maior parte, porém, desta obra ocupa-se dos atos de Paulo, que "trabalhou mais abundantemente que todos eles" (1 Cor 15,10). E a razão é que o autor deste Livro, isto é, o bem-aventurado Lucas, era seu companheiro: homem cujas excelentes qualidades, suficientemente visíveis em muitos outros casos, se mostram especialmente em sua firme adesão ao seu Mestre, a quem constantemente seguiu. Assim, num tempo em que todos o haviam abandonado, um partindo para a Galácia, outro para a Dalmácia, ouve o que ele diz deste discípulo: "Só Lucas está comigo" (2 Tm 4,10). E, dando aos coríntios uma recomendação a seu respeito, diz: "Cujo louvor no Evangelho corre por todas as Igrejas" (2 Cor 8,18). Novamente, quando diz: "Foi visto por Cefas, depois pelos doze", e "segundo o Evangelho que recebestes" (1 Cor 15,5.1), refere-se ao Evangelho deste mesmo Lucas. De modo que não pode haver engano em atribuir-lhe esta obra: e, quando digo a ele, entendo a Cristo. E por que, então, não relatou ele tudo, visto que esteve com Paulo até o fim? Podemos responder que o que aqui está escrito era suficiente para os que quisessem atentar, e que os escritores sagrados sempre se dedicavam ao assunto de imediata importância, qualquer que fosse ele no momento: não era objetivo deles serem escritores de livros; de fato, há muitas coisas que transmitiram por tradição não escrita.
Ora, sendo tudo quanto se contém neste Livro digno de admiração, digna de nota é especialmente a maneira que têm os Apóstolos de descer às necessidades de seus ouvintes: condescendência sugerida pelo Espírito, que assim o ordenou, de modo que o assunto em que principalmente se detêm é o que pertence a Cristo enquanto homem. Pois assim é que, embora discorram tanto acerca de Cristo, pouco falaram de Sua Divindade; foi sobretudo da Humanidade que discorreram, e da Paixão, e da Ressurreição, e da Ascensão. Pois o que se exigia em primeiro lugar era isto: que se cresse que Ele ressuscitara e ascendera aos céus. Assim, pois, como o ponto em que o próprio Cristo mais insistiu foi em fazer saber que viera do Pai, assim também é objetivo principal deste escritor declarar que Cristo ressuscitou dos mortos, e foi recebido nos Céus, e que foi a Deus, e veio de Deus. Pois, se o fato de Ele vir de Deus não fosse primeiro crido, muito mais, acrescentando-se a isto a Ressurreição e a Ascensão, teriam os judeus achado incrível a doutrina inteira. Por isso, suave e gradualmente os conduz a verdades mais altas. Aliás, em Atenas, Paulo até O chama simplesmente de homem, sem dizer mais (At 17,31). Pois, se, quando o próprio Cristo falava de Sua igualdade com o Pai, muitas vezes tentaram apedrejá-lO, e por essa razão O chamaram de blasfemo, pouco se poderia esperar que recebessem esta doutrina da parte de pescadores, e isso ainda com a Cruz vindo antes.
Mas para que falar dos judeus, se até mesmo os discípulos, muitas vezes, ao ouvirem as doutrinas mais sublimes, se perturbavam e se escandalizavam? Por isso também lhes disse Ele: "Ainda tenho muitas coisas a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora" (Jo 16,12). Se estes não puderam suportá-las, eles que por tanto tempo tinham estado com Ele, e tinham sido admitidos a tantos segredos, e tinham visto tantas maravilhas, como se poderia esperar que homens recém-arrancados dos altares, dos ídolos, dos sacrifícios, dos gatos e dos crocodilos (pois tais coisas adoravam os gentios), e do restante de seus maus costumes, recebessem de uma só vez as matérias mais sublimes da d[truncado]
até o dia em que foi levado para cima: Não diz "ascendeu"; fala ainda como que a respeito de um homem. Parece, pois, que Ele também ensinou os discípulos depois de Sua ressurreição.
instruindo os Apóstolos, que escolhera pelo Espírito Santo: Palavras espirituais eram as que lhes falava, nada de humano; ou este é o sentido, ou então que foi pelo Espírito que lhes deu os mandamentos.
e falando do reino de Deus: Pois, visto que os discípulos haviam sido tanto angustiados quanto perturbados pelas coisas já sucedidas, e estavam prestes a sair ao encontro de grandes dificuldades, Ele os reanimou com Seus discursos acerca do futuro.
não se apartassem de Jerusalém: Por quê? Assim como, quando os soldados hão de investir contra uma multidão, ninguém cogita deixá-los sair antes que se tenham armado, ou como os cavalos não se permite partirem das barreiras antes de terem o seu auriga, assim Cristo não quis que eles se apresentassem no campo antes da descida do Espírito, para que não estivessem em condições de ser facilmente vencidos e feitos cativos pela multidão. Nem foi esta a única razão, mas também havia em Jerusalém muitos que haviam de crer.
Na verdade, parece-me que eles não tinham noção clara alguma da natureza daquele reino; pois o Espírito ainda não os havia instruído.
Quando os discípulos pretendem perguntar algo, aproximam-se dEle juntos, para que, pela força do número, O constranjam a condescender. Bem sabiam que, naquilo que Ele antes lhes dissera — "Daquele dia ninguém sabe" (Mt 24:36) —, Ele apenas se recusara a lho revelar; por isso tornaram a aproximar-se e propuseram a questão. Não a teriam proposto se estivessem verdadeiramente satisfeitos com aquela resposta. Pois, tendo ouvido que estavam prestes a receber o Espírito Santo, eles, sendo já dignos de instrução, desejavam aprender. Estavam também bem dispostos para a liberdade, pois não tinham ânimo de se expor ao perigo; o que desejavam era respirar de novo livremente, porque não foram coisas leves as que lhes sucederam, mas o extremo perigo pairara sobre eles. E, sem nada lhe dizerem acerca do Espírito Santo, propuseram-lhe esta pergunta: "Senhor, restaurarás Tu neste tempo o reino a Israel?" Não perguntaram quando, mas se "neste tempo". Tão ávidos estavam por aquele dia. Na verdade, parece-me que eles não tinham noção clara alguma da natureza daquele reino, pois o Espírito ainda não os havia instruído. E não dizem: Quando serão estas coisas? mas aproximam-se dEle com maior honra, dizendo: "Restaurarás Tu neste tempo o reino", como se este já houvesse caído. Pois ali ainda estavam afeiçoados às coisas sensíveis, visto que ainda não se haviam tornado melhores que os que os precederam; aqui, porém, já têm concepções elevadas acerca de Cristo. Uma vez, pois, que se lhes elevam os pensamentos, também Ele lhes fala em tom mais alto. Pois já não lhes diz: "Daquele dia nem o Filho do homem sabe" (Mc 13:32); mas diz: Não vos compete saber os tempos ou as estações que o Pai reservou em Seu próprio poder (At 1:7). Perguntais coisas maiores que a vossa capacidade, quereria Ele dizer. E, no entanto, mesmo agora aprenderam coisas muito maiores que esta. E, para que vejais que isto é rigorosamente assim, atendei a quantas coisas hei de enumerar. Que houve, pergunto-vos, maior do que terem aprendido o que aprenderam? Assim, aprenderam que há um Filho de Deus, e que Deus tem um Filho igual a Si mesmo em dignidade (Jo 5:17-20); aprenderam que haverá ressurreição (Mt 17:9); que, ao ascender, Ele Se assentou à direita de Deus (Lc 22:69); e, o que é ainda mais estupendo, que a Carne está assentada nos céus, e adorada pelos Anjos, e que Ele há de vir novamente (Mc 16:19); aprenderam o que há de suceder no juízo (Mt 16:27); aprenderam que então se assentarão e julgarão as doze tribos de Israel (Lc 21:27); aprenderam que os judeus seriam lançados fora, e que em seu lugar entrariam os gentios (Mt 19:28). Pois dizei-me: qual é maior — aprender que alguém há de reinar, ou aprender o tempo em que isto se dará? (Lc 21:24). Paulo aprendeu "coisas que não é lícito ao homem referir" (2 Cor 12:4); coisas que existiam antes de o mundo ser feito, todas ele as aprendeu. Qual é mais difícil, o princípio ou o fim? Evidentemente, aprender o princípio. Isto Moisés o aprendeu, e o tempo em que se deu, e há quanto tempo; e enumera os anos. E o sábio Salomão diz: "Farei menção das coisas desde o princípio do mundo." E que o tempo está próximo, eles o sabem, como diz Paulo: "O Senhor está próximo; não estejais inquietos por coisa alguma" (Fp 4:5). Estas coisas eles não sabiam, e, contudo, Ele menciona muitos sinais (Mt 24). Mas, assim como Ele acabara de dizer "daqui a não muitos dias", querendo que estivessem vigilantes, e não declarou abertamente o momento preciso, assim também é aqui. Todavia, não é acerca da Consumação geral que agora Lhe perguntam, mas: "Restaurarás Tu neste tempo", dizem eles, "o reino a Israel?" E nem sequer isto lhes revelou Ele. Também antes haviam perguntado isto; e, assim como naquela ocasião Ele respondeu afastando-os de pensar que a sua libertação estava próxima e, ao contrário, os lançou em meio a perigos, assim também nesta ocasião, mas mais brandamente. Pois, para que não imaginem que lhes é feita injustiça, e que estas são meras evasivas, ouvi o que Ele diz: imediatamente lhes concede aquilo em que se regozijavam, pois acrescenta: "Mas recebereis poder, ao vir sobre vós o Espírito Santo; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra" (At 1:8). Então, para que não mais indaguem, logo em seguida Ele foi elevado. Assim, do mesmo modo que na ocasião anterior lhes obscurecera o entendimento pelo temor, dizendo "não sei", também aqui o faz sendo assunto ao alto. Pois grande era a sua avidez a esse respeito, e não teriam desistido; e, contudo, era muito necessário que não aprendessem isto. Pois dizei-me: em que mais descrêem os gentios — em que haverá uma consumação do mundo, ou em que Deus Se fez homem, e saiu da Virgem? Mas tenho vergonha de deter-me neste ponto, como se se tratasse de matéria difícil. Depois, novamente, para que os discípulos não digam: Por que deixas a questão em suspenso?, Ele acrescenta: "Que o Pai reservou em Seu próprio poder." E, no entanto, declarou ser um só o poder do Pai e o Seu, como no dito: "Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e os vivifica, assim também o Filho vivifica a quem quer" (Jo 5:21). Se, onde é preciso operar, Tu ages com o mesmo poder do Pai, onde convém saber, não sabes Tu com o mesmo poder? Ora, certamente ressuscitar os mortos é muito maior que saber o dia. Se o maior está em Teu poder, muito mais o outro. Mas, assim como, ao vermos uma criança chorar, e pertinazmente querer obter de nós algo que não lhe convém, escondemos a coisa e lhe mostramos as mãos vazias, dizendo: "Vê, não a temos" — assim fez Cristo aqui com os Apóstolos. Mas, tal como a criança, mesmo quando lha mostramos, persiste em seu choro, ciente de que foi enganada, e então a deixamos
Também isto foi sinal certo de que Ele subiu ao Céu. Não fogo, como no caso de Elias, nem carro de fogo, mas uma nuvem O recebeu; a qual era símbolo do Céu, como diz o Profeta: Que faz das nuvens o Seu carro (Sl 104,3).
Eram anjos, sob a forma de homens; haviam-se configurado inteiramente como tais, para que os que os contemplavam não fossem sobrepujados.
Ora, à medida que contemplam, elevam-se as suas concepções: Ele lhes deu não pequeno indício da natureza de Sua segunda vinda.
Parece-me que também num dia de sábado se deram estas coisas; pois ele não teria assim especificado a distância, dizendo: do monte chamado das Oliveiras, que dista de Jerusalém uma jornada de sábado, a não ser que caminhassem então, em dia de sábado, uma certa distância determinada.
"Então voltaram", diz o texto: a saber, quando ouviram. Pois não teriam podido suportá-lo, se o anjo não os houvesse (huperetheto) remetido a outra Vinda. Parece-me que também num dia de sábado se deram estas coisas; pois ele não teria assim especificado a distância, dizendo: "do monte chamado das Oliveiras, que dista de Jerusalém uma jornada de sábado", a não ser que caminhassem então, em dia de sábado, uma certa distância determinada. "E, entrando", diz, "subiram ao cenáculo, onde permaneciam": assim, pois, ficaram em Jerusalém depois da Ressurreição: "tanto Pedro, como Tiago e João": já não se menciona apenas este último junto de seu irmão, mas junto de Pedro os dois: "e André, e Filipe, e Tomé, Bartolomeu, e Mateus, e Tiago, filho de Alfeu, e Simão Zelote, e Judas, irmão de Tiago." (v. 13.) Fez bem em mencionar os discípulos: pois, visto que um traíra a Cristo, e outro fora incrédulo, mostra com isso que, excetuado o primeiro, todos os demais se conservaram. "Todos estes perseveravam unânimes em oração, juntamente com as mulheres." (v. 14.) Pois esta é uma arma poderosa nas tentações; e para isso haviam sido exercitados. Bem (kalhos). Além disso, a tentação presente os conduzia a isso: pois temiam sobremaneira os judeus. "Com as mulheres", diz-se: pois já dissera que elas O haviam seguido: "e com Maria, mãe de Jesus." (Lc 23:55.) Como, pois, "a recebeu em sua casa" (Jo 19:26), naquele tempo? Mas então o Senhor as reunira novamente, e assim ela voltou. "E com Seus irmãos." (Jo 17:5.) Também estes, antes, haviam sido incrédulos. "E naqueles dias", diz, "levantou-se Pedro no meio dos discípulos, e disse." (v. 15.) Tanto por ser ardoroso, como por lhe haver Cristo confiado o rebanho, e por ter precedência em honra, é ele quem sempre inicia o discurso. (O número dos nomes reunidos era de cerca de cento e vinte.) "Varões irmãos", diz ele, "era necessário que se cumprisse esta Escritura, que o Espírito Santo predisse," (v. 16.) Por que não pediu a Cristo que lhe désse alguém no lugar de Judas? É melhor como está. Pois, em primeiro lugar, estavam ocupados com outras coisas; em segundo lugar, quanto à presença de Cristo com eles, a maior prova que se poderia dar era esta: assim como Ele escolhera quando estava entre eles, assim o fazia agora, estando ausente. Ora, isso não era pequena consolação para eles. Mas observai como Pedro tudo faz com o consenso comum; nada com autoridade imperiosa. E não fala assim sem propósito. Observai, porém, como os consola acerca do que se passara. Com efeito, o que sucedera lhes causara não pequena consternação. Pois, se ainda hoje há muitos que discutem essa circunstância, que se há de supor que então diriam? "Varões irmãos", diz Pedro. Pois, se o Senhor os chamou irmãos, muito mais podia ele fazê-lo: estando todos presentes. Vede a dignidade da Igreja, a condição angélica! Ali não há distinção, "nem homem nem mulher." Quisera eu que as Igrejas fossem hoje assim! Ninguém ali tinha a mente cheia de algum cuidado mundano, ninguém se preocupava ansiosamente com assuntos domésticos. Tal é o benefício das tentações, tal a vantagem das aflições! "Era necessário que se cumprisse esta Escritura", diz ele, "que o Espírito Santo predisse." Sempre os consola pelas profecias. Assim faz Cristo em todas as ocasiões. Do mesmo modo, mostra aqui que nada de estranho sucedera, senão o que já fora predito. "Era necessário que se cumprisse esta Escritura", diz ele, "que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi." Não diz "Davi", mas "o Espírito por meio dele". Vede que doutrina tem o escritor logo no início do livro. Vedes que não foi sem motivo que eu disse, no começo desta obra, que este livro é a Politeia do Espírito Santo? "Que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi." Observai como ele o apropria a si mesmo (oikeihoutai); e que lhes é vantajoso que isso tenha sido dito por Davi, e não por outro profeta. "Acerca de Judas", diz ele, "que foi guia." Notai aqui, mais uma vez, o temperamento filosófico do homem: como não o menciona com desprezo, nem diz "aquele miserável", "aquele celerado": mas simplesmente expõe o fato; e nem sequer diz "que O traiu", mas faz o que pode para transferir a culpa a outros: nem tampouco censura severamente estes: "que foi guia", diz ele, "para os que prenderam a Jesus." Além disso, antes de declarar onde Davi havia falado, relata o que sucedera com Judas, a fim de que, a partir das coisas presentes, obtenha confirmação das coisas futuras, e mostre que este homem já havia recebido o que lhe era devido. "Pois foi contado", diz ele, "entre nós, e teve parte neste ministério. Ora, este homem adquiriu um campo com a paga da iniquidade." (v. 17, 18.) Dá ao seu discurso um tom moral, e menciona veladamente a causa da maldade, porque isso trazia consigo a repreensão. E não diz "os judeus", mas "este homem adquiriu-o". Pois, como as mentes dos fracos não atentam para as coisas futuras como para as presentes, ele discorre sobre o castigo imediatamente infligido. "E, precipitando-se, arrebentou pelo meio." Faz bem em deter-se, não sobre o pecado, mas sobre o castigo. "E", diz ele, "todas as suas entranhas se derramaram." Isso lhes trouxe consolação. "E foi conhecido de todos os habitantes de Jerusalém; de sorte que aquele campo se chama, na língua deles, Aceldama, isto é, Campo de Sangue." (v. 19.) Ora, os judeus lhe deram esse nome, não por este motivo, mas por causa de Judas; aqui, porém, Pedro faz com que se refira a isso, e, ao trazer os adversários como testemunhas, tanto pelo fato de que eles o nomearam, quanto ao dizer "na língua deles", é isto que ele quer dizer. Depois, após o sucedido, traz oportunamente o [truncado]
Assim, pois, ficaram em Jerusalém depois da Ressurreição: tanto Pedro, como Tiago e João: já não se menciona apenas este último junto de seu irmão, mas junto de Pedro os dois: e André, e Filipe, e Tomé, Bartolomeu, e Mateus, e Tiago (filho) de Alfeu, e Simão Zelote, e Judas, (irmão) de Tiago. At 1:13. Fez bem em mencionar os discípulos: pois, visto que um traíra a Cristo, e outro fora incrédulo, mostra com isso que, excetuado o primeiro, todos os demais se conservaram.
Pois esta é uma arma poderosa nas tentações; e para isto haviam sido treinados. Além disso, a tentação presente os conduzia a isto: pois temiam sobremaneira os judeus.
Pedro, tendo sido confiado por Cristo com o rebanho, e como quem tem precedência em honra, é sempre ele quem inicia o discurso.
era necessário que se cumprisse a Escritura: Sempre ele os consola por meio das profecias. Assim faz Cristo em todas as ocasiões. Da mesmíssima maneira, mostra aqui que nada de estranho havia acontecido, mas o que já fora predito.
a qual o Espírito Santo predisse pela boca de Davi: Não diz "Davi", mas "o Espírito, por meio dele". Vede que espécie de doutrina tem o escritor logo no início do livro. Vedes que não foi em vão que eu disse, no princípio desta obra, que este livro é a Política do Espírito Santo?
Ora, os judeus deram-lhe este nome, não por esta razão, mas por causa de Judas; aqui, contudo, Pedro faz com que tenha esta referência e, ao trazer os adversários como testemunhas, tanto pelo fato de o terem nomeado quanto por dizê-lo em sua própria língua, é isto que ele quer significar. Deus os compeliu a chamar o campo, em hebraico, Aceldama.
isto se diz do campo e da habitação: E tome outro o seu bispado; isto é, o seu ofício, o seu sacerdócio. De modo que isto, diz ele, não é conselho meu, mas Daquele que predisse estas coisas. Pois, para que não pareça estar empreendendo algo grande, e tal como Cristo havia feito, ele aduz o Profeta como testemunha.
Portanto, dos homens que nos acompanharam: prossegue Pedro. Observai quão desejoso está de que sejam testemunhas oculares. É verdade, de fato, que o Espírito viria em breve; e, no entanto, grande cuidado se mostra a respeito desta circunstância. Destes homens, diz ele, que conosco andaram todo o tempo em que o Senhor Jesus entrava e saía entre nós. Mostra que eles haviam convivido com Cristo, não simplesmente estado presentes como discípulos. De fato, desde o princípio houve muitos que então O seguiram.
Não disse: testemunha das demais ações, mas testemunha somente da ressurreição. Pois, na verdade, tinha melhor direito de ser crida aquela testemunha que podia declarar que Aquele que comeu e bebeu, e foi crucificado, esse mesmo ressuscitou. Por isso era necessário que ele fosse testemunha, não somente do tempo que precedeu este acontecimento, nem somente do que se lhe seguiu, e dos milagres; o que se requeria era a ressurreição. Pois as demais coisas eram manifestas e reconhecidas, mas a ressurreição deu-se em segredo, e foi manifesta somente a estes.
Não os designou ele mesmo; mas foi ele que introduziu a proposição para esse fim, mostrando ao mesmo tempo que nem isto era seu, mas provinha de antiga profecia; de sorte que agiu como expositor, não como preceptor. José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo. Talvez ambos os nomes se dêem porque havia outros do mesmo nome, pois também entre os Apóstolos havia diversos nomes iguais; como Tiago, e Tiago filho de Alfeu; Simão Pedro, e Simão Zelote; Judas irmão de Tiago, e Judas Iscariotes. A alcunha, porém, pode ter surgido de uma mudança de vida, e muito provavelmente também do caráter moral.
Não disseram: escolhe, mas: mostra qual destes dois escolheste; sabendo que todas as coisas haviam sido predeterminadas por Deus.
Pois ainda não se julgavam dignos de serem informados por algum sinal. E, além disso, se num caso em que nem oração se fez, nem homens de valor foram os agentes, o lançar sortes tanto aproveitou, porque se fez de reta intenção — refiro-me ao caso de Jonas (Jonas 1:7) —, muito mais aproveitaria aqui.
Percebes o tipo? Que é este Pentecostes? O tempo em que se havia de lançar a foice à seara, e se fazia a colheita. Vê agora a realidade, quando veio o tempo de lançar a foice da palavra: pois aqui, como foice afiadíssima, desceu o Espírito. Ouve as palavras de Cristo: "Levantai os olhos", disse Ele, "e vede os campos, que já estão brancos para a ceifa" (Jo 4,35). E de novo: "A seara, em verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Mt 9,38). Mas, como primícias desta seara, Ele mesmo se tomou, e a levou ao alto. Ele mesmo primeiro lançou a foice. Por isso também chama a Palavra de Semente. "Quando", diz, "chegou plenamente o dia de Pentecostes" (Lc 8,5.11): isto é, quando, no Pentecostes, estando ele para acontecer, em suma. Pois era necessário que também os presentes acontecimentos se dessem durante a festa, para que aqueles que haviam testemunhado a crucificação de Cristo pudessem também contemplar estes. "E de repente veio do céu um som" (v. 2). Por que não sucedeu isto sem sinais sensíveis? Por esta razão: se, mesmo sendo tal o fato, os homens disseram: "Estão cheios de mosto", que não teriam dito, se assim não fosse? E não é apenas "veio um som", mas "do céu". E também a subitaneidade os assombrou, e trouxe a todos juntos ao lugar. "Como de um vento impetuoso que soprava": isto denota a veemência extrema do Espírito. "E encheu toda a casa": de tal modo que os presentes tanto creram, quanto (Edd. toutous) deste modo se mostraram dignos. Nem é isto tudo; mas o que é ainda mais tremendo: "E apareceram-lhes", diz, "línguas repartidas, como que de fogo" (v. 3). Observa como é sempre "como que"; e com razão: para que não tenhas noções grosseiramente sensíveis do Espírito. Também "como de um sopro": logo não era vento. "Como que de fogo". Pois quando o Espírito havia de ser dado a conhecer a João, veio Ele sobre a cabeça de Cristo sob a forma de pomba; mas agora, quando toda uma multidão havia de ser convertida, é "como que de fogo. E pousou sobre cada um deles". Isto significa que permaneceu e repousou sobre eles. Pois o pousar significa estabilidade e permanência. Foi sobre os doze que veio? Não; mas sobre os cento e vinte. Pois Pedro não teria citado em vão o testemunho do profeta, dizendo: "E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor Deus, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne; e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, e vossos jovens terão visões, e vossos anciãos terão sonhos" (Jl 2,28). "E todos foram cheios do Espírito Santo" (v. 4). Pois, para que o efeito não fosse apenas atemorizar, por isso é tanto "do Espírito Santo" quanto "de fogo". "E começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem" (Mt 3,11). Não recebem outro sinal, senão este primeiro; pois lhes era novo, e não havia necessidade de outro sinal. "E pousou sobre cada um deles", diz o escritor. Observa agora como já não há mais motivo para aquele se afligir, que não foi eleito como Matias. "E todos foram cheios", diz; não apenas receberam a graça do Espírito, mas "foram cheios. E começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem". Não se teria dito "todos", estando ali presentes também os Apóstolos, se os demais não fossem igualmente partícipes. Pois, se não fosse assim, tendo acima feito menção dos Apóstolos distinta e nominalmente, não os teria agora reunido a todos com os demais numa só menção. Pois, se ali, onde apenas se havia de mencionar que estavam presentes, faz menção dos Apóstolos à parte, muito mais o teria feito no caso aqui suposto. Observa como, quando alguém persevera na oração, quando alguém está na caridade, é então que o Espírito se aproxima. Trouxe-lhes também à memória outra visão: pois como fogo apareceu Ele também na sarça. "Conforme o Espírito lhes concedia que falassem" — apophthengesthai (Êx 3,2). Pois as coisas por eles ditas eram apophthegmata, sentenças profundas. "E", diz, "havia em Jerusalém judeus habitando, homens devotos" (v. 5). O fato de ali habitarem era sinal de piedade: que, sendo de tantas nações, houvessem deixado pátria, e lar, e parentes, e ali permanecessem. Pois, diz: "Havia em Jerusalém judeus habitando, homens devotos, de toda nação debaixo do céu. Ora, divulgando-se isto, ajuntou-se a multidão, e ficou confundida" (v. 6). Como o fato se dera numa casa, é claro que vieram de fora a se ajuntar. A multidão ficou confundida: estava toda em comoção. Maravilhavam-se; "porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E estavam atônitos", diz, "e maravilhavam-se, dizendo uns aos outros: Não são, porventura, galileus todos estes que falam?" (v. 7-13). Voltaram imediatamente os olhos para os Apóstolos. "E como" (segue-se) "os ouvimos, cada um, na própria língua em que nascemos? Partos, e medos, e elamitas, e os que habitam a Mesopotâmia, e a Judeia, e a Capadócia, o Ponto, e a Ásia, a Frígia e a Panfília, o Egito, e as partes da Líbia próximas a Cirene": repara como percorrem do oriente ao ocidente: "e forasteiros de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes, ouvimo-los falar em nossas línguas as grandezas de Deus. E todos estavam atônitos, e perplexos, dizendo uns aos outros: Que quer isto dizer? Outros, escarnecendo, diziam: Estão cheios de mosto". Ó excessiva loucura! Ó excessiva malignidade! Ora, nem sequer era a estação própria para isso; pois era Pentecostes. Pois isto era o que tornava a coisa pior: que, quando aqueles confessavam — homens que eram judeus, que eram romanos, que eram prosélitos, e talvez até mesmo os que o haviam crucificado —, ainda assim estes, depois de tão grandes sinais, dizem: "Estão cheios de mosto!" Mas revejamos o que se disse desde o princípio. (Recapitulação.) "E quando chegou o dia de Pentecostes", etc. "Encheu", diz, "a c[truncado]
Como de um vento impetuoso que soprava: isto denota a veemência extrema do Espírito, não, porém, por causa dos apóstolos, mas por causa dos judeus que então se achavam presentes. Observa como é sempre «como de»; e com razão: para que não tenhas noções grosseiramente sensíveis do Espírito; portanto, não era vento.
O fato de habitarem ali era sinal de piedade: que, sendo de tantas nações, tivessem deixado a pátria, o lar e os parentes, para ali permanecerem. Pois, diz o texto, havia em Jerusalém judeus habitando, homens devotos, de toda nação debaixo do céu. Ora, divulgando-se isto, ajuntou-se a multidão, e ficou confundida.
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Isto robusteceu os Apóstolos: pois o que era falar na língua dos partos, eles o ignoravam, mas agora o aprenderam pelo que aqueles diziam.
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Aqui se faz menção de nações que lhes eram hostis: cretenses, árabes, egípcios, persas; e que haveriam de vencê-los a todos, isto aqui se manifestou. Quanto, porém, ao estarem naquelas terras, muitos deles ali se achavam em cativeiro; ou então, as doutrinas da Lei se haviam disseminado entre os gentios daquelas regiões. Assim, pois, o testemunho provém de toda parte: de cidadãos, de estrangeiros, de prosélitos.
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E bem podiam estar assim; pois supunham que o caso agora se resolveria contra eles, por causa do ultraje cometido contra Cristo. A consciência também agitava suas almas, estando ainda o próprio sangue sobre as suas mãos, e tudo os alarmava.
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Ó excessiva loucura! Ó excessiva malignidade! Pois nem sequer era essa a estação própria para tal coisa; era Pentecostes. E isto era o que tornava o caso pior: que, enquanto aqueles confessavam — homens que eram judeus, que eram romanos, que eram prosélitos, sim, talvez os mesmos que O haviam crucificado — estes outros, depois de tão grandes sinais, dizem: Estes homens estão cheios de mosto!
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aos quais o escritor acima descreveu como estrangeiros. Aqui dirige o seu discurso àqueles outros, os escarnecedores, e, ao parecer que argumenta com estes, corrige aqueles. Pois foi de fato divinamente ordenado que "alguns escarnecessem", para que ele tivesse um ponto de partida para a sua defesa, e por meio dessa defesa, pudesse ensinar. Parece que eles reputavam por alto encômio o habitar também em Jerusalém. "Seja isto", diz ele, "notório a vós, e ouvi as minhas palavras." Desde o primeiro momento os fez mais dispostos a atendê-lo. "Pois não é como vós supondes", diz ele, "que estes estejam ébrios." Observais a mansidão de sua defesa? (v. 15.) Ainda que tivesse a maior parte do povo ao seu lado, argumenta com aqueles outros brandamente; primeiro remove a má suspeita, e depois estabelece a sua apologia. Por isto, pois, não diz "como vós escarneceis", nem "como vós zombais", mas "como vós supondes"; querendo fazer parecer que não haviam dito isto a sério, e por ora imputando-lhes antes ignorância que malícia. "Pois estes não estão ébrios, como vós supondes, sendo esta apenas a terceira hora do dia." E por que isto? Não é possível estar-se ébrio à terceira hora? Mas ele não insistiu nisto ao pé da letra; pois nada de tal havia neles; os outros o disseram somente por escárnio. Daqui aprendemos que, sobre pontos não essenciais, não se devem gastar muitas palavras. E, além disto, o que se segue basta para confirmá-lo neste ponto: de modo que agora o discurso é para todos em comum. "Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor Deus." (v. 16, 17. Jl 2,28.) Em nenhuma parte ainda o nome de Cristo, nem as Suas promessas, mas a promessa é a do Pai. Observai a sabedoria; observai a condescendente longanimidade (sunkatabasin). Não passou logo a falar das coisas relativas a Cristo — que Ele prometera isto depois de Sua crucifixão; em verdade, isto teria sido transtornar tudo. E contudo, direis, aqui havia o suficiente para provar a Sua divindade. Verdade é, se se cresse (e o próprio ponto era que se devesse crer); mas se não se cresse, isto teria feito com que fossem apedrejados. "E derramarei do Meu Espírito sobre toda carne." Oferece até a eles excelentes esperanças, se as quisessem ter. E até aqui não deixa que se considere isto como vantagem exclusiva de si mesmo e de sua companhia; o que os teria feito ser olhados com mau olho; cortando assim todo sentimento de inveja. "E os vossos filhos profetizarão." E contudo, diz ele, não é vossa esta façanha, esta distinção; o dom passou para os vossos filhos. A si mesmo e à sua companhia chama de filhos deles, e a estes chama de pais, seus e deles. "E os vossos jovens verão visões, e os vossos anciãos sonharão sonhos; e sobre os Meus servos e sobre as Minhas servas derramarei naqueles dias do Meu Espírito; e eles profetizarão." Até aqui mostra que ele e os seus acharam favor, por terem recebido (kataxiothentas); não assim aqueles a quem se dirige, porquanto O haviam crucificado. Assim também Cristo, querendo mitigar a ira deles, disse: "Por quem lançam fora os demônios os vossos filhos?" (Mt 12,27.) Não disse: Meus discípulos; pois na verdade pareceria uma expressão lisonjeira. Assim também Pedro não disse: Não estão ébrios, mas falam pelo Espírito; senão que se acolhe ao profeta, e sob o abrigo dele, assim fala. Quanto à acusação, dela se livrou pela sua própria afirmação; mas quanto à graça, traz o profeta por testemunha. "Derramarei do Meu Espírito sobre toda carne." A uns a graça foi comunicada por sonhos, a outros foi abertamente derramada. Pois com efeito por sonhos os profetas viam, e recebiam revelações. Depois prossegue com a profecia, a qual tem também nela algo de terrível. "E mostrarei prodígios no céu em cima, e sinais." (v. 19.) Nestas palavras fala tanto do juízo vindouro quanto da tomada de Jerusalém. "Sangue e fogo, e vapor de fumaça." Observai como descreve a captura. "O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue." (v. 20.) Isto resulta da (diatheseos) afecção interior dos que padecem. Diz-se, de fato, que muitos fenômenos tais realmente ocorreram no céu, como atesta Josefo. Ao mesmo tempo o Apóstolo lhes infunde temor, lembrando-lhes as trevas que recentemente haviam ocorrido, e levando-os a esperar as coisas por vir. "Antes que venha aquele grande e assinalado dia do Senhor." Pois não vos confieis, quer dizer, porque ao presente pecais impunemente. Pois estas coisas são o prelúdio de certo dia grande e terrível. Vede como fez as suas almas tremerem e derreterem-se dentro de si, e converteu o seu riso em súplica de absolvição? Pois se estas coisas são o prelúdio daquele dia, segue-se que o extremo do perigo está iminente. Mas o que se segue? De novo lhes permite tomar fôlego, acrescentando: "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo." (Rm 10,13.) Isto é dito acerca de Cristo, como afirma Paulo, mas Pedro ainda não se aventura a revelá-lo. Pois bem, examinemos de novo o que foi dito. Bem se administra que, contra homens que riam e escarneciam, ele se levanta e começa dizendo: "Seja isto notório a todos vós, e ouvi as minhas palavras." Mas começa dizendo: "Varões da Judeia." Pela expressão 'Ioudaîoi', entendo que se refere aos que viviam na Judeia. — E, se vos apraz, comparemos aquelas expressões no Evangelho, para que aprendais que súbita mudança se operou em Pedro. "Uma serva", está escrito, "saiu a ele, dizendo: Tu também estavas com Jesus de Nazaré." E ele diz: "Não conheço o homem." E, sendo interrogado de novo, "começou a amaldiçoar e a jurar." (Mt 26,69-72.) Mas vede aqui a sua ousadia, e a sua grande liberdade de palavra. — Não louvou aqueles que haviam dito: "Ouvimo-los falar em nossas línguas as grandezas de Deus"; mas por sua severidade para com
Que significa "com os onze"? Exprimiam-se por uma única voz comum, e ele era a boca de todos. Os onze estavam presentes como testemunhas daquilo que ele dizia. Homens da Judeia — pela expressão (em grego) ᾿Ιουδαῖοι, entendo que ele se refere àqueles que habitavam na Judeia. os que residem em Jerusalém — parece que reputavam grande honra habitar também em Jerusalém.
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E por que isto? Acaso não é possível, à hora terceira, estar embriagado? Mas ele não se ateve a isto ao pé da letra; donde aprendemos que, nos pontos não essenciais, não se deve despender muitas palavras. E, além disso, a parte seguinte basta para sustentá-lo neste ponto. E observai a mansidão de sua defesa? Ainda que tivesse consigo a maior parte do povo, ele argumenta com brandura para com os outros; primeiro remove a má suposição, e depois estabelece sua apologia. Por esta razão, portanto, ele não diz "como zombais" ou "como escarneceis", mas "como supondes", querendo dar a entender que eles não haviam dito isso a sério, e por ora imputando-lhes antes ignorância que malícia. Quanto à acusação de embriaguez, ele se livrou dela por sua própria afirmação; mas quanto à graça, ele traz o profeta como testemunha, como veremos a seguir.
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Ele não disse que era o Espírito Santo, mas simplesmente introduziu a profecia para que ela travasse sua própria batalha, o que era ainda mais eficaz do que os próprios fatos. Pois quando Cristo realizava milagres, muitas vezes O contradiziam. Mas quando Cristo trazia à tona os profetas, calavam-se.
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e da tomada de Jerusalém. Diz-se, com efeito, que muitos fenômenos dessa natureza realmente ocorreram no céu, como atesta Josefo.
: não é por lisonja que ele emprega este termo; mas, tendo-os pressionado com rigor, afrouxa um pouco, e lhes traz à memória o seu grande antepassado. Aqui, novamente, ele começa por uma introdução, para que não se exasperem, agora que está prestes a fazer menção expressa de Jesus: pois, no que precedeu, não havia razão para que se exasperassem, enquanto o Profeta era o assunto do discurso; mas o nome de Jesus teria causado ofensa logo de início. — E ele não diz: «Fazei o que vos ordeno», mas: Ouvi; como quem em nada é exigente. E observai como se abstém de falar das coisas elevadas, e começa pelo que é mui humilde: «Jesus», diz ele: e logo em seguida menciona o lugar a que Ele pertencia, um lugar tido em pouca estima: «Jesus de Nazaré»: e nada diz de grande a Seu respeito, nem sequer o que se diria de um profeta, até este ponto: «Jesus», diz ele, «de Nazaré, homem provado (por ser enviado) de Deus entre vós». Observai: que grande coisa era esta, dizer que Ele fora enviado por Deus? Pois este era o ponto que, em todas as ocasiões, tanto Ele mesmo quanto João e os Apóstolos se esmeravam em mostrar. Ouvi, pois, João dizendo: «Aquele mesmo me disse: Sobre quem vires descer o Espírito, e sobre ele permanecer, esse é Ele» (Jo 1,33). Mas o próprio Cristo faz isto ao extremo: De Mim mesmo não vim, Ele Me enviou (Jo 7,28). E por toda a Escritura este parece ser o ponto mais esmeradamente insistido. Por isso também este santo chefe da bendita companhia, o amante de Cristo, o bom pastor, o homem a quem foram confiadas as chaves do céu, o homem que recebeu a Sabedoria espiritual, tendo primeiro subjugado os judeus pelo temor, e mostrado quão grandes coisas foram concedidas aos discípulos, e que direito têm eles de ser cridos, só então passa a falar a respeito d'Ele. Considerai somente que ousadia foi esta, dizê-lo no meio dos assassinos — que Ele ressuscitou! E, contudo, ele não diz logo, de uma vez, que Ele ressuscitou; mas o quê? — «Ele veio», diz, «de Deus: isto se manifesta pelos sinais que» — ainda não diz que o próprio Jesus operou; mas o quê? — «que Deus operou por meio d'Ele no meio de vós». Ele os toma a eles mesmos por testemunhas. «Homem provado (por ser enviado) de Deus entre vós, por milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele no meio de vós, como também vós mesmos sabeis». Então, tendo chegado à menção daquele seu sacrílego atentado, observai como ele se esforça por livrá-los do crime: «Este», diz ele, «sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus» (v. 23), «vós o tomastes, e por mãos iníquas o crucificastes e matastes»: pois, embora fosse predeterminado, ainda assim eles foram assassinos. quase empregando as mesmíssimas palavras de José; assim como este disse a seus irmãos: «Não vos irriteis uns com os outros pelo caminho: Deus me enviou para cá» (Gn 45,5.24). É obra de Deus. «E quanto a nós, então?» (poder-se-ia dizer) «até bem fizemos da nossa parte». Para que não digam isto, é por isso que ele acrescenta: «Por mãos iníquas o crucificastes e matastes». Aqui, pois, ele alude a Judas; ao mesmo tempo em que lhes mostra que não foi por força alguma sua, nem o teria sido, se Ele mesmo não o houvesse permitido: foi Deus quem O entregou. Ele transferiu o mal inteiro sobre a cabeça de Judas, já então apartado deles; pois foi este quem O entregou a eles mediante o ósculo. Ou, «por mãos iníquas», refere-se aos soldados: pois não diz simplesmente «matastes», mas, por homens iníquos fizestes isto. E observai como, em toda parte, eles fazem questão de que a Paixão seja primeiro confessada. A Quem Deus Ressuscitou (v. 24), diz ele. Esta era a grande coisa; e observai como ele a coloca no meio do seu discurso: pois as coisas anteriores já haviam sido confessadas — tanto os milagres e os sinais quanto a morte. «A quem Deus», diz ele, «ressuscitou, tendo dissolvido as dores da morte, porquanto não era possível que Ele fosse retido sob o seu poder». É algo grande e sublime que ele aqui insinuou. Pois a expressão «não era possível» é, por si mesma, a de quem atribui uma razão. Ela mostra que a própria morte, ao retê-lO, sofria dores como que de parto, e estava em grande aperto; ao passo que, por «dores», ou «dores de parto», da morte, o Antigo Testamento entende perigo e desastre: e que Ele assim ressuscitou para jamais mais morrer. Pois a afirmação, «visto que não era possível que Ele fosse retido por ela», significa isto: que a Sua ressurreição não era comum às demais. Então, todavia, antes que os seus pensamentos pudessem sequer penetrar no seu sentido, ele lhes traz David, autoridade que afasta todo o raciocínio humano. «Pois David diz (referindo-se) a Ele» (v. 25). E observai como, mais uma vez, o testemunho é humilde. Pois por isso ele começa a citação mais acima, com os assuntos de menor importância: por isso a morte não estava entre as coisas penosas, diz ele: «Eu via sempre o Senhor diante da minha face, que Ele está à minha direita para que eu não seja abalado» (v. 25-27); e, «que não deixarás a minha alma no inferno». Então, tendo terminado a citação do Profeta, acrescenta: «Varões irmãos» (v. 29). Sempre que está prestes a dizer algo grande, ele usa esta forma de introdução, para despertá-los e conciliá-los. «Seja-me permitido», diz ele, «falar-vos livremente acerca do patriarca David». Notável humildade, num caso em que nada de ofensivo dizia, nem havia razão alguma para que os ouvintes se indignassem. Pois ele não disse: Isto não se diz a respeito de David, mas a respeito do Cristo. Mas, sob outro aspecto: por sua expressão reverente para com o bem-aventurado David, ele os impressionava; falando de um fato reconhecido como se fosse coisa ousada dizê-lo, e por isso pedindo-lhes que o perdoassem por dizê-lo. E, com isto, a sua expressão não é simplesmente «a respeito de David», mas «a respeito do patriarca David, que está tanto morto quanto sepultado»: e não diz também «e não ressuscitou», mas de outro modo (embo [truncado]
Varões de Israel: não é por lisonja que ele emprega este termo; mas, tendo-os pressionado com rigor, afrouxa um pouco, e lhes traz à memória o seu grande antepassado Israel.
homem confirmado por Deus: Observai: que grande coisa era esta, dizer que Ele fora enviado por Deus? Pois este era o ponto que, em todas as ocasiões, tanto Ele mesmo quanto João e os Apóstolos se esmeravam em mostrar. Ouvi, pois, João dizendo: Aquele mesmo me disse: Sobre quem vires descer o Espírito, e sobre ele permanecer, esse é Ele. Jo 1,33. Mas o próprio Cristo faz isto ao extremo: De Mim mesmo não vim, Ele Me enviou. Jo 7,28. E por toda a Escritura este parece ser o ponto mais esmeradamente insistido.
como também vós mesmos sabeis: Ele os toma a eles mesmos por testemunhas.
Ele mostra que não foi porque tinham o poder de fazê-lo, e que havia sabedoria e disposição divina no acontecimento, visto que era da parte de Deus. Ainda que fosse predeterminado, contudo eles foram homicidas.
Nobres irmãos, permiti-me falar-vos com franqueza acerca do Patriarca Davi: Notável humildade, num caso em que nenhuma ofensa causava, nem havia razão alguma para que os ouvintes se irritassem. Pois não disse: Isto não se diz a respeito de Davi, mas a respeito do Cristo. Mas de outro modo: pela sua expressão reverente para com o bem-aventurado Davi, ele os impressionava; falando de um fato reconhecido como se fora coisa ousada dizê-lo, e por isso pedindo que lhe perdoassem o dizê-lo. E, com isto, a sua expressão não é simplesmente acerca de Davi, mas acerca do patriarca Davi,
pois este faleceu e foi sepultado: não diz também "e não ressuscitou", mas de outro modo (ainda que isto também não fosse grande coisa dizer)
prossegue com o seu elogio a Davi,
era ele profeta, pois sabia que Deus lhe havia jurado com juramento: Mas isto diz ele, para que, ao menos por honra ao renome de Davi e à descendência dele, aceitassem o que se dizia acerca da ressurreição de Cristo, vendo que seria injúria à profecia, e diminuição de sua honra, se isto não fosse verdade. E sabendo, diz ele, que Deus lhe havia jurado com juramento — não diz simplesmente "prometido"
Isto, de novo, é admirável: mostra que a sua ressurreição não foi como a dos demais homens. Pois, ainda que a morte se apoderasse dele, não realizou então a sua própria obra.
Havendo mencionado os seus sinais e as coisas que lhe fizeram os judeus, e havendo falado de sua ressurreição, introduz com ousadia o que tem a dizer acerca destas matérias, aduzindo de novo os próprios ouvintes como testemunhas, por ambos os sentidos:
A promessa, diz ele; porque [prometida] antes de Sua Paixão. Observai como agora ele faz tudo Seu [Ele derramou isto], insinuando veladamente um grande ponto. Pois, se foi Ele quem derramou isto, é d'Ele que o Profeta falou acima. Ou [pode ser], a promessa que Ele nos prometeu. Assim Ele soube de antemão o que haveria de ser, e no-la deu maior depois da ressurreição. E, derramou-a, diz ele; não exigindo dignidade: e não simplesmente deu, mas com abundância.
Disse o Senhor ao meu Senhor: Ora, se Ele é Senhor de Davi, muito mais não deverão desdenhá-Lo.
que Deus fez este mesmo Jesus: fez; isto é, constituiu: de modo que não há aqui nenhuma (οὐσίωσις) comunicação de substância, mas a expressão se refere àquilo que já foi mencionado.
este mesmo Jesus, a quem vós crucificastes: Faz bem em terminar com isto, perturbando assim os seus ânimos. Pois, depois de haver mostrado quão grande coisa é essa, expôs em seguida o seu ousado feito, de modo a fazê-lo parecer ainda maior, e a possuí-los de terror. Porque os homens não são tão atraídos pelos benefícios quanto são corrigidos pelo temor.
Vede quão grande coisa é a mansidão? Mais que toda veemência, ela compunge os nossos corações, inflige ferida mais aguda. Pois, assim como no caso dos corpos que se tornaram calejados, aquele que os fere não afeta tão poderosamente o sentido, mas se primeiro os amolenta e os torna tenros, então os traspassa eficazmente; assim também neste caso é necessário primeiro amolentar. Ora, o que amolenta não é a ira, não é a acusação veemente, não é o insulto pessoal; é a mansidão. Aquelas antes agravam a callosidade, só esta a remove. Se, pois, desejas repreender algum delinquente, aproxima-te dele com toda a brandura possível. Vede aqui: ele lhes lembra brandamente os ultrajes que cometeram, sem acrescentar comentário algum; declara o dom de Deus, passa a falar da graça que testemunhou o acontecido, e assim prolonga ainda mais o seu discurso. Por isso ficaram admirados diante da mansidão de Pedro, pois ele, falando a homens que haviam crucificado o seu Mestre e respiravam assassínio contra ele e seus companheiros, discorria com eles com o caráter de um pai e mestre afetuoso. Não somente foram persuadidos; condenaram-se a si mesmos, vieram a ter consciência do seu proceder passado. Pois ele não deu espaço para que a sua ira se acendesse e obscurecesse o seu juízo, mas por meio da humildade dissipou, por assim dizer, a névoa e a escuridão da sua indignação, e então lhes apontou o ousado ultraje que haviam cometido. Pois assim é: quando dizemos de nós mesmos que fomos injuriados, a parte contrária se esforça por provar que não cometeu a injúria; mas quando dizemos que não fomos injuriados, mas antes cometemos o mal, os outros tomam o partido contrário. Se, portanto, desejas colocar o teu inimigo em falta, guarda-te de acusá-lo; antes, intercede por ele, e ele certamente se achará culpado. Há no homem um espírito natural de oposição. Tal foi o proceder de Pedro. Ele não os acusou asperamente; antes, quase se esforçou por interceder por eles, na medida do possível. E foi precisamente por isso que penetrou em suas almas. Perguntarás: onde está a prova de que foram compungidos? Em suas próprias palavras; pois que dizem eles? "Varões irmãos, que faremos?" Aos que haviam chamado de enganadores, chamam de "irmãos": não que com isso se colocassem em igualdade com eles, mas antes para atrair o seu afeto e benevolência fraternos; e além disso, porque os Apóstolos haviam se dignado chamá-los por este título. E dizem: "Que faremos?" Não disseram logo: Pois bem, nos arrependemos; mas se entregaram aos discípulos. Assim como alguém prestes a naufragar, ao ver o piloto, ou o enfermo, ao ver o médico, poria tudo em suas mãos e faria tudo quanto ele ordenasse; assim também estes confessaram que se achavam em extremo perigo, destituídos de toda esperança de salvação. Não disseram: Como seremos salvos? mas: "Que faremos?" Aqui novamente Pedro, embora a pergunta seja feita a todos, é quem responde. "Arrependei-vos", diz ele, "e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus Cristo" (v. 38). Ainda não diz: Crede, mas: "Seja cada um de vós batizado". Pois isto o receberam no batismo. Em seguida fala do proveito: "Para remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo". Se haveis de receber um dom, se o batismo confere a remissão, por que tardar? A seguir dá ao seu discurso um tom persuasivo, acrescentando: "Porque a promessa vos pertence a vós" (v. 39): pois acima havia falado de uma promessa. "E a vossos filhos", diz ele: o dom é maior, quando estes hão de ser herdeiros das bênçãos. "E a todos", prossegue, "os que estão longe": se aos que estão longe, muito mais a vós que estais perto: "a quantos o Senhor nosso Deus chamar". Observai o momento que escolhe para dizer: "Aos que estão longe". É quando os encontra já conciliados e autoacusadores. Pois quando a alma pronuncia sentença contra si mesma, já não pode sentir inveja. "E com muitas outras palavras testificava e exortava, dizendo" (v. 40). Observai como, ao longo de tudo, o escritor busca a brevidade, e quão livre está de ambição e ostentação. "Testificava e exortava, dizendo". Esta é a perfeição do ensino, que compreende algo de temor e algo de amor. "Salvai-vos desta geração perversa". Nada diz do futuro, tudo é acerca do presente, pelo qual de fato os homens são principalmente movidos; mostra que o Evangelho também liberta dos males presentes. "Os que, pois, receberam de bom grado a sua palavra foram batizados; e naquele mesmo dia agregaram-se quase três mil almas" (v. 41). Não pensais que isto alegrou os Apóstolos mais que o milagre? "E perseveravam com firmeza e unanimidade na doutrina e na comunhão dos Apóstolos" (v. 42). Eis aqui duas virtudes, a perseverança e a concórdia. "Na doutrina dos Apóstolos", diz ele: pois estes novamente os ensinavam; "e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações". Tudo em comum, tudo com perseverança. "E veio temor sobre toda alma" (v. 43): daqueles que criam. Pois não desprezavam os Apóstolos como a homens comuns, nem fixavam o seu olhar apenas naquilo que era visível. Em verdade, os seus pensamentos se inflamavam. E, como Pedro havia antes falado muito, e declarado as promessas e as coisas futuras, bem podiam estar fora de si de temor. Os prodígios também testemunhavam as palavras: "Muitos prodígios e sinais eram feitos pelos Apóstolos". Como sucedera com Cristo; primeiro houve sinais, depois o ensino, depois os prodígios; assim foi também agora. "E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum" (v. 44). Considerai que progresso houve aqui logo de início! Pois a comunhão não estava somente nas orações, nem somente na doutrina, mas também na (politeia) vida social. "E vendiam suas propriedades e bens, e os repartiam com todos, conforme a necessidade de cada um". Vede quanto temor wr [truncado]
Em seguida, ele dá um tom persuasivo ao seu discurso, acrescentando: Porque a promessa é para vós; pois falara acima de uma promessa. E para vossos filhos, diz ele: o dom é maior, quando estes hão de ser herdeiros das bênçãos. E para todos, prossegue, e para todos os que estão longe: se para os que estão longe, muito mais para vós que estais perto: para quantos o Senhor nosso Deus chamar. Observai o momento que ele escolhe para dizer: Para os que estão longe. É quando os encontra conciliados e acusando-se a si mesmos. Pois quando a alma pronuncia sentença contra si mesma, já não pode sentir inveja.
Observai como, ao longo de todo o texto, o autor busca a brevidade, e quão isento está de ambição e ostentação. Testificava e exortava, dizendo. Esta é a perfeição do ensino, que compreende algo de temor e algo de amor. Salvai-vos desta geração perversa. Nada diz ele acerca do futuro; tudo se refere ao presente, pelo qual, de fato, os homens são principalmente movidos; mostra ele que o Evangelho liberta também dos males presentes.
"E perseveravam", está escrito, "firmemente na doutrina" (ou "ensino") "dos Apóstolos"; pois não foi por um dia, nem por dois ou três dias, que estiveram sob o ensino, como pessoas que haviam passado a um diferente modo de vida. ["E perseveravam com um só ânimo na doutrina dos Apóstolos", etc.] A expressão não é ὁμοῦ, "juntos", mas ὁμοθυμαδόν, "com um só ânimo" ("e diariamente", diz ele depois, "perseveravam com um só ânimo no templo"), isto é, com uma só alma. E aqui, novamente, em sua concisão, ele não relata o ensino que foi dado; pois, como a crianças pequenas, os Apóstolos os nutriam com alimento espiritual.
Pois não desprezavam os Apóstolos como a homens comuns, nem fixavam o olhar somente naquilo que era visível. Em verdade, seus pensamentos se inflamavam. E, tendo Pedro antes falado longamente, e declarado as promessas e as coisas futuras, bem podiam estar fora de si de temor. Os prodígios também davam testemunho às palavras: "Muitos prodígios e sinais eram feitos pelos Apóstolos." Como se dera com Cristo — primeiro os sinais, depois o ensino, depois os prodígios — assim era agora.
Considerai que progresso houve aqui desde logo! Pois a comunhão não se dava apenas nas orações, nem somente na doutrina, mas também na (πολιτεία) convivência social.
E perseveravam, diariamente, unânimes no templo: gozavam do proveito do ensino. Considerai como estes judeus nada mais faziam, grande ou pequeno, senão frequentar assiduamente o templo. Pois, tendo-se tornado mais fervorosos, cresceu-lhes também a devoção para com o lugar. Os Apóstolos, por ora, não os arrancavam deste propósito, temendo prejudicá-los, e diariamente subiam ali como a um lugar sagrado, como frequentemente vemos Pedro e João fazerem: pois por enquanto não perturbavam nenhuma das observâncias judaicas.
com exultação e simplicidade de coração: Pois nenhuma alegria pode existir onde não há simplicidade.
Como tinham eles graça diante de todo o povo? Por causa das suas esmolas. Pois não atendais ao fato de que os príncipes dos sacerdotes, por inveja e malquerença, se levantaram contra eles, mas antes considerai que tinham graça diante do povo. — E o Senhor acrescentava cada dia à Igreja (ἐπὶ τὸ αὐτό) [juntos] os que se haviam de salvar. — E todos os que criam estavam juntos. Mais uma vez, a unanimidade, a caridade, que é a causa de todos os bens!
Por toda parte encontramos estes dois Apóstolos em grande harmonia mútua. "A este fez Simão Pedro sinais." (Jo 13:24.) Estes dois também "correram juntos ao sepulcro." (Jo 20:3 e segs.) E a respeito de João, disse Pedro a Cristo: "E que fará este?" (Jo 21:21.) Quanto aos demais milagres, o escritor deste livro os omite; mas menciona o milagre pelo qual todos foram postos em comoção. Observai novamente que não vêm a eles de propósito; tão isentos estavam de ambição, tão de perto imitavam o seu Mestre. Por que, pois, subiam eles ao templo? Viviam ainda como judeus? Não, mas por conveniência (chresimos). Realiza-se de novo um sinal miraculoso, que tanto confirma os convertidos quanto atrai os demais; e tal como foram sinal por havê-lo operado. A enfermidade estava na própria natureza do homem, e desafiava a arte da medicina. Havia quarenta anos que era coxo (cap. 4, 20), como diz depois o escritor, e ninguém, durante todo esse tempo, o havia curado. E as enfermidades mais obstinadas são as que nascem com os homens. Era uma grande calamidade, a ponto de lhe ser impossível prover a si mesmo o sustento necessário. O homem era conspícuo tanto pelo lugar quanto pela sua enfermidade. Ouvi como se relata o caso. "E um certo homem, coxo desde o ventre de sua mãe, era trazido, o qual punham diariamente à porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam no templo." (v. 2.) Buscava receber esmola, e não sabia quem eram aqueles homens. "O qual, vendo a Pedro e João, que iam entrar no templo, pediu-lhes uma esmola. E Pedro, fitando nele os olhos, com João, disse: Olha para nós." (v. 3, 4.) Contudo, nem ainda assim se elevaram os pensamentos do homem, mas persistiu ele em sua importunação. Pois tal é a pobreza; diante de uma recusa, ainda obriga as pessoas a persistir. Que isto nos envergonhe a nós, que desfalecemos em nossas orações. Mas observai, peço-vos, a mansidão de Pedro: pois disse ele: "Olha para nós." Tão verdadeiramente o seu próprio porte, por si mesmo, denotava o seu caráter. "E ele os atendia, esperando receber deles alguma coisa. Então disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou." (v. 5, 6.) Não disse: dou-te algo muito melhor que prata ou ouro; mas o quê? "Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou." (v. 7.) Tal era também o modo de proceder de Cristo. Muitas vezes curava pela palavra, muitas vezes por um ato, muitas vezes também estendia a mão, quando os homens eram algo fracos na fé, para que a cura não parecesse espontânea. "E, tomando-o pela mão direita, o levantou." Este ato manifestou a Ressurreição, pois era imagem da Ressurreição. "E imediatamente os seus pés e artelhos receberam força. E, saltando, pôs-se em pé, e andou." (v. 8.) Talvez fosse por modo de experimentar a si mesmo que ele assim se pôs a nova prova, para ver se, porventura, o que se fizera não seria em vão. Os seus pés estavam fracos; não era que os houvesse perdido. Alguns dizem que ele nem sequer sabia andar. "E entrou com eles no templo." Na verdade, era coisa maravilhosa. Os Apóstolos não o instam; mas ele, por sua própria vontade, os segue, indicando pelo próprio ato de segui-los quem eram os seus benfeitores. "E saltando e louvando a Deus;" não a eles admirando, mas a Deus que por eles operava. O homem era grato. "Pedro e João subiam juntos ao templo," etc.] Observai como perseveravam em oração. "À hora nona:" ali oravam juntos. O homem estava sendo carregado precisamente naquele instante. (os que o levavam o carregavam:) justamente quando o povo entrava no templo. E, para que não suponhais que o carregavam com outro propósito, mas que era a fim de que recebesse esmola, ouvi o que diz o escritor: "para que pedisse esmola aos que entravam no templo." (Recapitulação dos v. 1-8.) E esta é a razão por que ele também menciona os lugares, para dar testemunho do que relata. "E como foi", podeis perguntar, "que não o apresentaram a Cristo?" Talvez fossem certos homens incrédulos, que frequentavam o templo, como de fato também não o apresentaram aos Apóstolos, quando os viram entrar, depois de terem operado tão grandes milagres. "Pedia", está escrito, "para receber uma esmola." (v. 3.) O seu porte os assinalava como certos homens devotos e justos. (v. 4, 5.) E observai como João em toda parte se cala, enquanto Pedro também por ele se desculpa; "Prata e ouro", diz ele, "não tenho." (v. 6.) Não diz: não tenho aqui, como costumamos falar, mas absolutamente: não tenho. "Que fazer então?", poderia ele dizer, "não fazes caso de mim, teu suplicante?" Não é assim, mas daquilo que tenho, recebe tu. Reparai como Pedro é despretensioso, como não faz nenhuma ostentação sequer diante do objeto da sua beneficência? (v. 7.) E a boca e a mão fizeram tudo. Tais eram os judeus; coxos, e sendo o certo pedir saúde, pedem estes mesmos dinheiro, rastejando pelo chão: pois era por isto que assediavam o templo — para obter dinheiro. Que faz, pois, Pedro? Não o desprezou; não procurou algum sujeito rico; não disse: se o milagre não se faz a algum grande (eis ekheinon), nada de grande se faz; não buscou dele nenhuma honra, nem tampouco o curou na presença do povo; pois o homem estava à entrada, não onde estava a multidão, isto é, dentro. Mas Pedro não buscava tal objeto; nem, ao entrar, proclamou o feito: não, foi pelo seu próprio porte que atraiu o coxo a pedir. E a maravilha está em que ele creu tão prontamente. Pois os que são libertados de enfermidades de longa data, mal creem em seus próprios olhos. Uma vez curado, permanece ele com os Apóstolos, dando graças a Deus. "E entrou", diz o texto, "com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus." (v. 8.) Observai quão inquieto está ele, no ardor do seu deleite, ao mesmo tempo fechando as bocas d [truncado]
Por que, pois, subiam eles ao templo? Viviam ainda como judeus? Não, mas pela conveniência do propósito em causa. Realiza-se de novo um sinal miraculoso, que tanto confirma os convertidos quanto atrai os demais; e tal como foram sinal por havê-lo operado.
Contudo, nem ainda assim se elevaram os pensamentos do homem, mas persistiu ele em sua importunação. Pois tal é a pobreza; diante de uma recusa, ainda obriga as pessoas a persistir. Que isto nos envergonhe a nós, que desfalecemos em nossas orações.
Que faz, pois, Pedro? Não o desprezou; não buscou algum sujeito rico; não disse: Se o milagre não se opera em algum grande homem (εἰς ἐκεῖνον), nada de grande se realiza; não buscou dele honra alguma, nem tampouco o curou na presença do povo, pois o homem estava à entrada, não onde se achava a multidão, isto é, no interior. Mas Pedro não buscava tal objeto; nem, ao entrar, proclamou o sucedido: não, foi antes por seu porte que atraiu o coxo a pedir-lhe. E a maravilha está em que este creu tão prontamente.
Tal era também o modo de proceder de Cristo. Muitas vezes curava pela palavra, muitas vezes por um ato, muitas vezes também estendia a mão, onde os homens eram algo fracos na fé, para que a cura não parecesse espontânea.
E a maravilha está em que este creu tão prontamente. Pois os que são libertos de enfermidades de longa duração, dificilmente creem em sua própria vista.
Observai quão inquieto ele está, no ardor de seu júbilo, calando ao mesmo tempo a boca dos judeus. Também o saltar servia para afastar a suspeita de hipocrisia; pois, afinal, isto estava além de toda possibilidade de fingimento. Porque, se antes ele era de todo incapaz de andar, mesmo quando a fome o apertava duramente (e, com efeito, não teria escolhido repartir com os que o carregavam o produto de sua mendicância, se pudesse ele próprio prover-se), tanto mais se dá isto no caso presente. E como poderia ele fingir em favor daqueles que nenhuma esmola lhe haviam dado? Mas o homem era grato, mesmo depois de sua cura. E assim, por ambos os lados, manifesta-se a sua fé, tanto por seu agradecimento quanto pelo acontecimento recente.
E saltando e louvando a Deus: não os admirando a eles, mas a Deus, que por eles operou. O homem era grato.
Bem se diz reconheceram, visto que ele era agora alguém desconhecido em razão do que sucedera; pois usamos este termo a respeito dos objetos que encontramos dificuldade em reconhecer.
Por seus bons sentimentos e amor para com os Apóstolos, o coxo não queria apartar-se deles; talvez lhes agradecesse abertamente, e os louvasse.
Há maior liberdade de palavra nesta arenga do que na anterior. Não que ele temesse na ocasião anterior, mas as pessoas a quem então se dirigia, sendo zombadores e escarnecedores, não o teriam suportado. Por isso, no início daquele discurso, ele também solicita a atenção deles por meio de seu preâmbulo: "Seja isto notório a vós, e escutai as minhas palavras" (At 2,14). Mas aqui não há necessidade deste artifício (kataskeuês). Pois seus ouvintes não estavam em estado de indiferença. O milagre a todos despertara; estavam eles, aliás, cheios de temor e assombro. Por isso também não havia necessidade de começar por aquele ponto, mas antes por um tema diverso; pelo qual, com efeito, ele poderosamente os conciliou, a saber, rejeitando a glória que deles lhe poderia advir. Pois nada é tão vantajoso, nem tão capaz de apaziguar os ouvintes, quanto nada dizer de si mesmo que seja honroso, mas, ao contrário, afastar toda suspeita de o desejar. E, na verdade, muito mais aumentaram eles a sua glória desprezando a glória, e mostrando que o que acabara de suceder não era obra humana, mas obra divina; e que lhes cabia antes unir-se aos espectadores na admiração, do que dela receber destes. Vede quão livre ele está de toda ambição, e como repele a honra que lhe prestam? Do mesmo modo procederam também os antigos padres; assim, por exemplo, disse Daniel: "Não por sabedoria alguma que em mim haja" (Dn 2,30). E também José: "Porventura não pertencem a Deus as interpretações?" (Gn 11,8). E Davi: "Quando vinham o leão e o urso, em nome do Senhor os despedacei com as minhas mãos" (1Sm 17,34). Assim também aqui os Apóstolos: "Por que olhais tão fixamente para nós, como se por nosso próprio poder ou santidade tivéssemos feito andar este homem?" (v. 13). Nem sequer isto; pois não foi por mérito nosso que fizemos descer a influência divina. "O Deus de Abraão, e de Isaque, e de Jacó, o Deus de nossos pais." Vede com que assiduidade ele se apoia (eisôthei) nos antigos pais, para que não parecesse estar introduzindo doutrina nova. No discurso anterior apelara ao patriarca Davi; aqui apela a Abraão e aos demais. "Glorificou a seu Servo Jesus." De novo uma expressão humilde, como no discurso inicial. Mas, a partir deste ponto, ele passa a alargar-se sobre o ultraje, e realça a hediondez do feito, não mais, como antes, encobrindo-o com um véu. Faz isto porque deseja agir sobre eles mais poderosamente. Pois quanto mais os provasse responsáveis, tanto melhor se cumpriria o seu propósito. "Glorificou", diz ele, "a seu Servo Jesus, a quem vós entregastes, e negastes diante de Pilatos, quando este estava decidido a soltá-lo." A acusação é dupla: Pilatos desejava soltá-lo; vós não o quisestes, quando ele o queria. "Mas vós negastes o Santo e o Justo, e pedistes que se vos concedesse um homicida; e matastes o Príncipe (ou Autor) da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que somos testemunhas" (v. 14-15). Preferistes um ladrão a Ele. Mostra ele a grande agravante do feito. Tendo-os agora sob sua mão, fere-os com força. "O Príncipe da vida", diz ele. Nestas palavras estabelece a doutrina da Ressurreição. "A quem Deus ressuscitou dentre os mortos" (At 2,26). "Donde se manifesta isto?" Já não recorre aos profetas, mas a si mesmo, visto que agora tem direito a ser crido. Antes, ao afirmar que Ele ressuscitara, aduzira o testemunho de Davi; agora, tendo-o dito, alega o Colégio dos Apóstolos. "Do que somos testemunhas", diz ele. "E o seu nome, pela fé em seu nome, deu forças a este homem que vedes e conheceis; sim, a fé que por Ele vem lhe deu esta perfeita saúde na presença de todos vós." Querendo declarar o fato (zêtôn to pragma eipein), traz ele logo à frente o sinal: "Na presença", diz, "de todos vós." Tendo-os apertado com dureza, e mostrado que Aquele a quem crucificaram ressuscitara, de novo afrouxa, dando-lhes a possibilidade do arrependimento; "E agora, irmãos, sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos chefes" (v. 17). Esta é uma razão de desculpa. A segunda é de espécie diversa. Como José fala a seus irmãos: "Deus me enviou adiante de vós" (Gn 45,5); o que no discurso anterior dissera brevemente, nas palavras "a este, entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós o prendestes" — isto aqui ele desenvolve amplamente: "Mas o que Deus antes anunciara pela boca de todos os seus profetas, que o seu Cristo havia de padecer, assim o cumpriu" (v. 18). Mostrando ao mesmo tempo que, se isto se provasse, não fora obra deles, mas sucedera segundo o conselho de Deus. Alude ele àquelas palavras com que O haviam ultrajado na cruz, a saber: "Livre-o agora, se dele se compraz; pois disse: Sou Filho de Deus. Se confia em Deus, desça agora da cruz" (Mt 27,42-43). Ó homens insensatos, seriam estas palavras vãs? Era necessário que assim se cumprisse, e os profetas o testemunham. Portanto, se Ele não desceu, não foi por fraqueza sua que não desceu, mas por verdadeiro poder. E Pedro apresenta isto como espécie de desculpa para os judeus, na esperança de que também eles se rendam ao que diz. "Assim o cumpriu", diz ele. Vede agora como ele reporta tudo àquela fonte? "Arrependei-vos, pois", diz ele, "e convertei-vos." Não acrescenta "de vossos pecados"; mas "para que sejam apagados os vossos pecados" significa o mesmo. E então acrescenta o proveito: "Para que venham os tempos de refrigério da presença do Senhor" (v. 19). Isto indica que se achavam eles em triste estado, abatidos por muitas guerras. Pois é ao caso de quem arde em febre, e anseia por alívio, que a expressão se aplica. E vede agora como ele avança. Em seu primeiro sermão, apenas de leve aludira à ressurreição, e ao assento de Cristo nos céus; mas aqui fala também de sua vinda visível. "E enviará Jesus Cristo, que vos foi destinado", a quem [truncado]
De novo é ele quem age e se dirige ao povo. E, no caso anterior, foi a circunstância das línguas que os despertou para a escuta; agora, foi este milagre; então, tomou ocasião de falar a partir das acusações deles; agora, a partir da suposição deles. Consideremos, pois, em que este discurso difere do anterior, e em que com ele concorda. O anterior fora proferido numa casa, antes que ninguém se tivesse convertido, e antes que eles próprios tivessem operado coisa alguma; este, quando todos estão admirados, e o homem curado está presente; quando ninguém duvida, ao contrário do outro caso, em que alguns diziam: Estes homens estão cheios de mosto.
No primeiro caso, o das línguas, ele estava rodeado por todos os Apóstolos enquanto falava; mas neste, tem apenas João consigo; pois a esta altura já se tornara ousado, e mais enérgico. Tal é a natureza da virtude: uma vez iniciada, avança, e jamais se detém.
O Autor da Vida: Segue-se que a Vida que Ele possuía não provinha de outrem. O príncipe (ou autor) do mal seria aquele que primeiro produziu o mal; o príncipe ou autor do homicídio, aquele que primeiro deu origem ao homicídio; assim também o Príncipe (ou Autor) da Vida há de ser Aquele que tem a Vida de Si mesmo.
A quem Deus ressuscitou dos mortos: Com estas palavras, estabelece a doutrina da Ressurreição.
de que somos testemunhas: Antes, quando afirmava que Ele ressuscitara, aduzia o testemunho de Davi; agora, tendo-o afirmado, invoca o Colégio dos Apóstolos. Do que somos testemunhas, diz ele.
E, no entanto, que fora «em Seu nome», eles não sabiam; mas sabiam que o homem fora coxo, e que ali estava, são. Os próprios que haviam operado o feito confessaram que não fora por seu próprio poder, mas pelo de Cristo. E, se esta asserção fosse infundada, se eles mesmos não estivessem verdadeiramente persuadidos de que Cristo ressuscitara, não teriam buscado estabelecer a honra de um homem morto em lugar da sua própria, sobretudo estando os olhos da multidão voltados sobre eles.
Não se segue, porque o acontecimento se deu por ignorância, que ele tenha ocorrido à revelia da ordenação de Deus. Vede quão grande é a Sabedoria de Deus, quando Se serve da maldade de outros para levar a cabo aquilo que deve ser cumprido.
"Deus cumpriu,": Para que não imaginem que coisa alguma falte; pois tudo quanto Cristo devia padecer foi cumprido.
"foi por ignorância, ou pela dispensação de Deus."
"para que sejam apagados os vossos pecados.": Não me refiro aos crimes cometidos na Crucificação; talvez estes tenham sido por ignorância; mas para que os vossos outros pecados sejam apagados:
"E então, quando houver chegado o tempo da consolação.": Aqui ele fala da Ressurreição, obscuramente. Pois estes são, com efeito, os tempos de consolação que também Paulo aguardava, quando disse: "Nós, que estamos neste tabernáculo, gememos, estando sobrecarregados." (2 Cor 5,4.)
Sois filhos dos profetas e do testamento que Deus estabeleceu para nossos pais: "filhos da aliança"; isto é, herdeiros. Pois, para que não pensassem que haviam recebido esta oferta pelo favor de Pedro, ele mostra que, desde a antiguidade, isto lhes era devido, a fim de que antes cressem que tal era também a vontade de Deus.
Antes ainda que tivessem tempo de tomar fôlego depois das primeiras provações, logo entram em outras. E observai como os acontecimentos estão dispostos. Primeiro, foram todos escarnecidos juntamente; não foi pequena provação: em segundo lugar, entram em perigos. E estas duas coisas não sucedem em imediata sucessão; mas somente depois que os Apóstolos, primeiro, conquistaram admiração por seus dois discursos, e, após isso, realizaram um milagre notável, é então que, feitos ousados pela disposição de Deus, entram em liça. Mas quero que considereis como essas mesmas pessoas, que, no caso de Cristo, tiveram necessidade de buscar alguém que Lho entregasse, agora, com as próprias mãos, prendem os Apóstolos, tendo-se tornado mais audazes e mais impudentes desde a Crucificação. Com efeito, o pecado, enquanto ainda luta para nascer, é acompanhado de algum sentimento de vergonha; mas, uma vez plenamente nascido, torna mais desavergonhados os que o praticam. "E o capitão do templo", diz o texto. O objetivo, uma vez mais, era atribuir criminalidade pública ao que se fazia, e não persegui-lo como ato de particulares: tal era, de fato, constantemente o seu modo de proceder. "Doendo-se de que ensinassem o povo" (v. 2). Não meramente porque ensinavam, mas porque declaravam não somente que o próprio Cristo ressuscitara dentre os mortos, mas ainda que nós, por meio d'Ele, também ressuscitamos. "Porque ensinavam o povo, e anunciavam em Jesus a ressurreição dos mortos." Tão poderosa foi a Sua Ressurreição, que Ele é, também para outros, causa de ressurreição. "E lançaram mão sobre eles, e os puseram em prisão até o dia seguinte, pois já era tarde" (v. 3). Que impudência! Não temiam a multidão, pois também para isso estava com eles o capitão do templo: tinham ainda as mãos fumegantes do sangue da vítima anterior. "Pois já era tarde", diz o texto. Foi com o desejo de abater-lhes o ânimo que aqueles homens fizeram isto e os guardaram; mas a demora somente serviu para tornar os Apóstolos mais intrépidos. E considerai quem são estes que são presos. São os príncipes dos Apóstolos, que se tornam agora modelo para os demais, para que já não ansiassem pelo apoio mútuo, nem desejassem estar juntos. "Muitos, porém, dos que ouviram a palavra, creram; e o número dos homens era cerca de cinco mil" (v. 4). Como foi isto? Acaso os viram em honra? Não os viram, antes, postos em cadeias? Como, pois, creram? Vedes a eficácia manifesta? E, no entanto, até mesmo aqueles que já haviam crido bem poderiam ter-se enfraquecido. Mas não, já não é assim: pois o sermão de Pedro havia lançado profundamente a semente neles, e se apoderara de seus entendimentos. Por isso é que se indignavam, por não os temerem, por não fazerem caso das tribulações presentes. Pois, diziam eles, se Aquele que foi crucificado realiza tão grandes coisas, e faz andar o coxo, tampouco tememos a estes homens. Também isto é da ordenação de Deus. Pois os que agora criam eram mais numerosos que os primeiros. Por isso foi que, na sua presença, algemaram os Apóstolos, para torná-los também mais temerosos. Mas sucedeu o contrário. E examinam-nos não diante do povo, mas em particular, para que os ouvintes não se aproveitassem de sua ousadia. "E aconteceu, no dia seguinte, que se reuniram em Jerusalém os seus chefes, e os anciãos, e os escribas, e Anás, o sumo sacerdote, e Caifás, e João, e Alexandre, e todos quantos eram da linhagem do sumo sacerdote" (v. 5-6). Pois, então, juntamente com os demais males (daqueles tempos), já não se observava a Lei. E mais uma vez revestem o assunto com a forma de um tribunal, para constituí-los culpados por sua sentença iníqua. "E, pondo-os no meio, perguntaram: Com que poder, ou em que nome fizestes isto?" (v. 7). E, no entanto, bem o sabiam; pois foi por se "doerem de que anunciassem em Jesus a ressurreição" que os prenderam. Com que propósito, pois, os interrogam? Esperavam que a presença de tantos os fizesse retratar-se, e pensavam, por este meio, restabelecer tudo de novo. Observai, pois, o que dizem: "E em que nome fizestes isto? Então Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes" (v. 8). E agora, rogo-vos, recordai-vos do dito de Cristo: "Quando vos entregarem às sinagogas, não vos preocupeis de como ou que haveis de falar; pois é o Espírito de vosso Pai que fala em vós" (Lc 12.11,14). De sorte que era um Poder poderosíssimo aquele de que gozavam. Que diz, pois, Pedro? "Vós, chefes do povo, e anciãos de Israel." Notai a sabedoria cristã do homem, quão cheia de confiança é: não profere sequer uma palavra de insulto, mas diz com respeito: "Vós, chefes do povo, e anciãos de Israel, se hoje somos interrogados acerca do benefício feito a um homem enfermo." Trata-os com verdadeiro vigor; pelo início de seu discurso, os expõe e lhes recorda os acontecimentos anteriores: que é por uma obra de beneficência que os chamam a prestar contas. Como se dissesse: "Em toda justiça, deveríamos ter sido coroados por este feito, e proclamados benfeitores; mas visto que 'somos postos em juízo por um benefício feito a um homem enfermo', não rico, não poderoso, não nobre — e, no entanto, quem sentiria inveja em caso semelhante?" É um modo sumamente enérgico (apangelia, ou, segundo outra leitura, epangelia) de expor o caso; e mostra que eles a si mesmos se traspassam: — "Por que meio este homem foi curado: seja notório a todos vós, e a todo o povo de Israel, que pelo Nome de Jesus Cristo, o Nazareno" — isto era o que mais os atormentaria. Pois isto era o que Cristo dissera aos discípulos: "O que ouvis ao ouvido, pregai-o sobre os telhados." — "Que em nome de Jesus Cristo," diz ele, "o Nazareno, a quem vós crucificastes, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, é por Ele que este homem está aqui diante de vós, são" (v. 10) (Mt 10.27). Não penseis, diz ele, que ocultamos a pátria, ou a natureza da morte. [truncado]
Não foi para glória própria que contaram o relato — como poderia ser esse o seu motivo? — mas o que expuseram foram as provas nele manifestas da graça de Cristo. Tudo quanto os adversários haviam dito, isso relataram; a parte que lhes tocava, é provável, omitiram: isso tornou os ouvintes ainda mais corajosos. Que fazem, pois? Refugiam-se novamente no verdadeiro Socorro, na Aliança invencível, e outra vez, "de comum acordo. E quando ouviram isto", diz o texto, "de comum acordo levantaram a voz a Deus, e disseram" (v. 24), e com grande fervor, pois não é oração feita ao acaso. Observai com que primor as suas orações são compostas: assim, quando suplicaram que se lhes mostrasse quem era digno do Apostolado, disseram: "Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra" (At 1,24), pois ali se tratava de matéria própria da Presciência; mas aqui, onde era necessário que se calassem as bocas dos adversários, falam do senhorio; por isso começam assim: Senhor, "(Despota) Deus que fizeste o céu e a terra, e o mar, e tudo quanto neles há; que, pelo Espírito Santo, por boca de teu servo Davi, nosso pai, disseste: Por que se enfureceram as nações e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram contra o Senhor e contra o seu Cristo" (At 4,24-26). É como que suplicar a Deus, por assim dizer, com base em suas próprias promessas, que assim aduzem esta profecia; e ao mesmo tempo consolam-se com o pensamento de que vãs são todas as maquinações de seus inimigos. É isto, pois, o que dizem: Levai a efeito essas palavras, e mostrai que "imaginam coisas vãs. — Porque, em verdade", prosseguem, "ajuntaram-se nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus (Phaida), a quem ungiste, tanto Herodes quanto Pôncio Pilatos, com os gentios e o povo de Israel, para fazerem tudo quanto a tua mão e o teu conselho antes haviam determinado que se fizesse. E agora, Senhor, atenta para as suas ameaças" (At 4,27-29). Observai a grandeza de ânimo (philosophian) deles. Não são estas palavras de imprecação. Ao dizerem "as suas ameaças", não se referem a isto ou àquilo especificamente ameaçado, mas apenas, em geral, ao fato de ameaçarem, talvez por ser algo temível. Na verdade, o escritor é conciso em sua narrativa. E observai: não dizem "esmaga-os, derriba-os"; mas o quê? "E concede aos teus servos que, com toda a intrepidez, falem a tua palavra." Aprendamos também nós a orar assim. E, no entanto, quão cheio de ira estaria alguém, ao cair em meio a homens decididos a matá-lo, e que fazem ameaças nesse sentido? Quão cheio de animosidade? Mas não assim estes santos. "Estendendo a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome do teu santo Servo Jesus" (v. 30). Se em tal Nome se operam os feitos poderosos, grande há de ser a intrepidez. "E, tendo orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos" (v. 31). Esta foi a prova de que foram ouvidos, e de sua visitação. "E todos foram cheios do Espírito Santo." Que significa "foram cheios"? Significa que se inflamaram; e o Dom ardeu dentro deles. "E falavam a palavra de Deus com intrepidez. E a multidão dos que criam era de um só coração e uma só alma" (v. 32). Vedes como, juntamente com a graça de Deus, eles também contribuíram com a sua parte? Pois em toda parte convém observar bem que, juntamente com a graça de Deus, eles igualmente fazem a sua parte. Assim como Pedro disse acima: "Não tenho prata nem ouro"; e, de novo, que "estavam todos juntos" (At 3,6). Mas neste lugar, tendo mencionado que foram ouvidos, o escritor sagrado passa também a falar deles, que virtude demonstraram. Além disso, está prestes a entrar na narrativa de Safira e Ananias, e, com o propósito de mostrar a conduta detestável desse casal, discorre primeiro sobre o comportamento nobre dos demais. Dizei-me, pois: foi o amor que gerou a sua pobreza, ou a pobreza que gerou o amor? A meu ver, o amor gerou a pobreza, e depois a pobreza estreitou os laços do amor. Observai, com efeito, o que ele diz: "Eram todos de um só coração e uma só alma." Eis que é o coração e a alma que constituem o "em conjunto". "E nenhum deles dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. E com grande poder os Apóstolos rendiam (apedidoun) o seu testemunho da ressurreição" (v. 33). A expressão os representa como pessoas a quem se confiou um depósito: fala disso como de uma dívida ou obrigação; isto é, o seu testemunho eles, com intrepidez, rendiam, ou pagavam, a todos. "E grande graça havia sobre todos eles. Nem havia entre eles quem passasse necessidade" (v. 34). O sentimento deles era tal como se estivessem sob o teto paterno, partilhando todos, por algum tempo, igualmente. Não se há de dizer que, embora de fato sustentassem os demais, o fizessem com o sentimento de que os meios com que os sustentavam ainda lhes pertenciam. Não; a circunstância admirável é esta: que primeiro alienaram os seus bens, e só então sustentaram os demais, de propósito, para que o sustento não procedesse dos seus meios particulares, mas do patrimônio comum. "Pois todos quantos possuíam terras ou casas as vendiam, e traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos Apóstolos; e a cada um se distribuía conforme a sua necessidade" (v. 35). Grande marca de honra é esta, que "os depositavam aos pés dos Apóstolos. E José, a quem os Apóstolos apelidaram Barnabé (que, traduzido, é O filho da consolação)" (v. 36). Não penso que este seja o mesmo companheiro de Matias; pois aquele também se chamava Justo e "Barnabé". Suponho que também este recebeu o nome por causa de sua virtude, por ser apto e idôneo para este ofício. "Levita, natural do Chipre." Observai como, em todas as ocasiões, o escritor assinala a superação da Lei [truncado]
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O escritor está agora prestes a relatar o caso de Ananias e Safira, e, a fim de mostrar que o pecado daquele homem foi da pior espécie, menciona primeiro aquele que praticou a obra virtuosa; para que, havendo tão grande multidão fazendo todos o mesmo, tão grande graça, tão grandes milagres, ele, não ensinado por nada disso, mas cegado pela cobiça, trouxesse a destruição sobre a própria cabeça. "Tendo um campo" — significando que isto era tudo quanto possuía —, "vendeu-o, e trouxe o dinheiro, e o depositou aos pés dos Apóstolos. Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade, e reteve parte do preço, sendo também sua mulher cúmplice disso, e trouxe uma certa parte, e a depositou aos pés dos Apóstolos" (cap. 5, 1-2). A circunstância agravante era que o pecado fora concertado, e ninguém mais viu o que se fazia. Como veio à mente deste infeliz miserável cometer este crime? "Mas disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para mentires ao Espírito Santo e reteres parte do preço do campo?" (v. 3). Observai, mesmo nisto, um grande milagre realizado, muito maior que o anterior. "Ficando ele por vender", diz, "não era teu? e, vendido, não estava ainda em teu poder?" (v. 4). Isto é: "Havia alguma obrigação e força? Constrangemo-vos contra vossa vontade?" "Por que formaste este propósito em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. E, ouvindo Ananias estas palavras, caiu e expirou" (v. 5). Este milagre é maior que o do coxo, quanto à morte infligida e ao conhecimento do que havia no pensamento do coração, mesmo daquilo que se fizera em segredo. "E veio grande temor sobre todos os que ouviram estas coisas. E, levantando-se os jovens, envolveram-no, e o levaram fora, e o sepultaram. E passado um espaço de quase três horas, entrou sua mulher, não sabendo o que havia sucedido. E Pedro lhe respondeu: Dize-me se por tanto vendestes o campo?" (v. 6-8). À mulher ele quis salvar, pois o homem fora o autor do pecado; por isso lhe dá tempo para se justificar, e ocasião para o arrependimento, dizendo: "Dize-me se por tanto vendestes o campo? E ela disse: Sim, por tanto. Então Pedro lhe disse: Como é que vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis que à porta estão os pés dos que sepultaram teu marido, e te levarão a ti também. E ela caiu logo a seus pés, e expirou; e, entrando os jovens, encontraram-na morta, e, levando-a fora, sepultaram-na junto de seu marido. E veio grande temor sobre toda a Igreja, e sobre todos os que ouviram estas coisas" (v. 9-11). Depois que este temor caiu sobre eles, operou ele mais milagres, tanto Pedro quanto os demais; "E pelas mãos dos Apóstolos eram feitos muitos sinais e prodígios entre o povo; e estavam todos unânimes no pórtico de Salomão. E dos demais ninguém ousava ajuntar-se a eles" — isto é, aos Apóstolos — "mas o povo os engrandecia" — isto é, o povo judeu. Se "ninguém ousava ajuntar-se a eles", os Apóstolos, contudo "eram", ainda assim, "cada vez mais acrescentados ao Senhor, crentes em multidão, tanto de homens como de mulheres, de sorte que traziam para as ruas os seus enfermos, e os punham em leitos e camas, para que, ao menos, a sombra de Pedro, ao passar, cobrisse alguns deles" (v. 12-15). Pois Pedro era o admirável, e aquele a quem mais davam ouvidos, tanto por causa de seu discurso público, o primeiro, o segundo e o terceiro, quanto por causa do milagre; pois foi ele que operou o milagre, o primeiro, o segundo, o terceiro: pois o presente milagre era duplo — primeiro, a convicção dos pensamentos do coração, e depois a imposição da morte por sua palavra de comando. "Para que ao menos a sombra de Pedro, ao passar", etc. Isto não havia ocorrido na história de Cristo; mas vede aqui o que Ele lhes dissera cumprir-se de fato: que "aquele que crê em Mim, as obras que Eu faço, também ele as fará; e maiores obras que estas fará" (Jo 14, 12). "Vinha também uma multidão das cidades circunvizinhas a Jerusalém, trazendo enfermos, e atormentados de espíritos imundos; e todos eram curados" (v. 16). E agora eu gostaria que observásseis o modo como toda a vida deles se entrelaça. Primeiro houve desalento por causa de Cristo tirado deles, e depois veio a alegria por causa do Espírito descendo sobre eles; de novo, abatimento por causa dos escarnecedores, e então alegria no resultado de sua própria apologia. E aqui novamente encontramos tanto abatimento quanto contentamento. No fato de se terem tornado conspícuos, e de Deus lhes fazer revelações, havia contentamento; no fato de terem cortado de si mesmos alguns de sua própria companhia, havia tristeza. Mais uma vez: de novo há contentamento por seu êxito, e de novo tristeza por causa do sumo sacerdote. E assim se verá ser o caso ao longo de tudo. E o mesmo se há de constatar valer também no caso dos antigos santos. — Mas revejamos o que foi dito. "Vendiam-nos", está escrito, "e traziam os preços, e os depositavam aos pés dos Apóstolos" (Recapitulação, 4, 34-37). Vede, meus amados irmãos, como, em vez de deixarem que os Apóstolos vendessem, eles mesmos vendiam, e lhes apresentavam os preços. "Mas um certo homem chamado Ananias", etc. (v. 1). Esta história toca também os bispos, e muito veementemente. E a mulher de Ananias era cúmplice do feito: por isso ele a interroga. Mas talvez alguém diga que ele tratou com ela com muita dureza. Que quereis dizer? Que dureza? Se por apanhar lenha um homem há de ser apedrejado, muito mais o deve ser por sacrilégio; pois este dinheiro se tornara sagrado. Aquele que escolheu vender seus bens e distribuí-los, e depois os retira, é culpado de sacrilégio. Mas, se é sacrílego quem toma de volta o que era seu próprio, muito mais aquele que toma do que não é seu. E não penseis que, porque a consequência não é agora a mesma, a
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Vede, meus amados irmãos, como, em vez de deixarem que os Apóstolos vendessem, eles mesmos vendiam, e lhes apresentavam os preços.
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A circunstância agravante era que o pecado fora concertado, e ninguém mais viu o que se fazia. Como veio à mente deste infeliz miserável cometer este crime? Mas disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para mentires ao Espírito Santo e reteres parte do preço do campo?
O escritor está agora prestes a relatar o caso de Ananias e Safira, e, a fim de mostrar que o pecado desse homem foi da pior espécie, menciona primeiro aquele que praticara a ação virtuosa (Barnabé, em 4,36-37); para que, havendo tão grande multidão fazendo todos o mesmo, tão grande graça, tão grandes milagres, ele, não instruído por nada disso, mas cegado pela cobiça, trouxesse a destruição sobre a própria cabeça.
Agravava a circunstância o fato de que o pecado fora combinado entre ambos, e nenhum outro viu o que se fazia.
Esta história também toca os Bispos, e muito fortemente. E a mulher de Ananias era cúmplice do que se fizera; por isso ele a interroga. Mas talvez alguém diga que ele agiu com grande dureza para com ela. Que quer dizer? Que dureza? Se por apanhar lenha um homem devia ser apedrejado, muito mais o deveria ser por sacrilégio; pois este dinheiro se tornara sagrado. Aquele que escolheu vender seus bens e distribuí-los, e depois os retira, é culpado de sacrilégio. Mas se é sacrílego aquele que retoma do que é seu, muito mais o será aquele que toma do que não é seu. E não penseis que, por não ser agora a mesma a consequência, o crime ficará impune. Vedes que esta é a acusação feita a Ananias, que, tendo tornado sagrado o dinheiro, depois o subtraiu ocultamente? Não poderias tu, disse Pedro, depois de vendido o teu campo, dispor do produto como coisa tua? Foste proibido? Por que, então, depois de o teres prometido? Vede como, logo no início, o diabo desferiu seu ataque; no meio mesmo de tantos sinais e prodígios, como este homem se endureceu! Algo semelhante já havia acontecido outrora no Antigo Testamento. O filho de Carmi cobiçou o anátema; observai também ali que vingança se segue ao pecado. O sacrilégio, amados, é crime gravíssimo, injurioso e cheio de desprezo. Não te obrigamos a vender, diz o Apóstolo, nem a dar o teu dinheiro depois de vendido; de tua própria e livre escolha o fizeste; por que, então, furtaste do tesouro sagrado? Ora, se foi Satanás quem fez a coisa, por que é o homem tido por culpado dela? Porque admitiu a influência do diabo e por ela se deixou encher. Dirás: deviam tê-lo corrigido. Mas ele não teria aceitado correção; pois quem viu o que ele viu, e não se emendou, certamente não se emendaria com nenhuma outra coisa que se pudesse fazer; o caso não era para ser simplesmente deixado passar: como uma gangrena, era preciso extirpá-lo, para que não infeccionasse o resto do corpo. Assim sendo, tanto o próprio homem é beneficiado, por não lhe ser permitido avançar mais na maldade, quanto os demais, por se tornarem mais diligentes; do contrário, o efeito teria sido oposto. Em seguida, Pedro prova-lhe a culpa e mostra que o feito não lhe fora oculto, e então pronuncia a sentença. Mas por que, com que propósito fizeste isto? Quiseste guardá-lo? Devias tê-lo guardado desde o início, e nunca ter professado dá-lo. O sacrilégio, amados, é grave. Outro, talvez, cobiçasse o que não era seu; mas a ti cabia o arbítrio de guardar o que era teu. Por que, então, primeiro o tornaste sagrado, para depois tomá-lo? Foi por excessivo desprezo que fizeste isto. O feito não admite perdão; não há defesa possível para ele.— Que isto, pois, não seja escândalo para ninguém, se também no presente há pessoas sacrílegas. Se as havia então, muito mais agora, quando os males são tantos. Mas repreendamo-las diante de todos, para que também os outros temam (1 Tm 5,20). Judas foi sacrílego, mas isto não foi escândalo para os discípulos. Vedes quantos males nascem do amor ao dinheiro?
Observai também nisto um grande milagre realizado, muito maior que o anterior. Enquanto permanecia, diz ele, não era teu? E depois de vendido, não estava em teu próprio poder?
Isto é: Havia alguma obrigação e força? Acaso te constrangemos contra tua vontade?
Este milagre é maior que o do coxo, tanto pela morte infligida quanto pelo conhecimento do que estava no pensamento do coração, e mesmo do que se fizera em segredo.
Aquele homem foi castigado, e outros com isso se beneficiaram. Não sem causa. E, contudo, sinais já haviam sido operados antes: é verdade, mas não havia tal senso de temor. Tão verdadeiro é aquele dito: O Senhor é conhecido pela execução de juízos (Sl 9,16). A mesma coisa ocorrera no caso da Arca: Uzá foi castigado, e o temor sobreveio aos demais (2 Sm 6,7). Mas naquele caso o rei, por temor, afastou de si a Arca; aqui, porém, os discípulos tornaram-se mais zelosamente vigilantes.
Mas observai como Pedro, em vez de a mandar chamar, aguardou até que ela entrasse; e como nenhum dos demais ousou levar-lhe a nova. Tal era a majestade do mestre, tal a reverência dos discípulos, tal a obediência! Um intervalo de três horas — e, contudo, a mulher nada ouvira, e nenhum dos presentes o relatara, ainda que houvesse tempo bastante para que se divulgasse; mas temiam. Esta circunstância o Evangelista narra com admiração mesmo, quando diz: Não sabendo o que fora feito, entrou.
E, contudo, ela poderia ter percebido, ainda que só por isto, que Pedro conhecia o segredo. Pois por que, não havendo interrogado nenhum outro, te interroga a ti? Não era claro que perguntava porque já sabia? Mas tão grande era sua dureza, que não lhe permitiu tentar evadir a culpa; e com grande confiança respondeu, pois cuidava falar apenas a um homem. O agravamento do pecado estava em que o cometeram como que com uma só alma, tal como sobre um pacto entre eles firmado.
Primeiro a faz conhecer o pecado, e depois lhe mostra que padecerá justamente o mesmo castigo que seu marido, visto que cometeu a mesma iniquidade: E te levarão a ti também. E ela caiu imediatamente a seus pés, pois estava perto dele, e entregou o espírito.
Já não numa casa, mas tendo ocupado o próprio Templo, ali passavam o tempo! Já não se guardavam de tocar o que é imundo; antes, sem escrúpulo manejavam os mortos. E observai como, sendo severos para com os seus, contra os estranhos não exercem seu poder.
Assim, inteiramente por ato próprio, haviam eles atraído sobre si a vingança! Quem, depois disso, não seria tomado de temor? Quem não temeria o Apóstolo? Quem não se maravilharia? Quem não se atemorizaria?
Depois que este temor sobreveio sobre eles, operou ele mais milagres; tanto Pedro quanto os demais.
E, havendo mencionado que estavam no pórtico de Salomão, para que não vos admireis de como a multidão o permitisse, diz-nos que nem sequer ousavam aproximar-se deles: pois nenhum homem, diz ele, ousava ajuntar-se a eles.
Grande fé, superior à que se manifestara no caso de Cristo. Como se explica isto? Porque Cristo declarara: E obras maiores que estas fará, porque Eu vou para junto do Pai (Jo 14:12). E estas coisas o povo as fazia, enquanto os Apóstolos ali permaneciam, sem se deslocarem de lugar em lugar: também de outros lugares todos traziam [seus enfermos] em leitos e liteiras: e de toda parte lhes advinha novo tributo de admiração; dos que criam, dos que eram curados, daquele que fora castigado; da ousadia de sua palavra para com os adversários, da conduta virtuosa dos crentes: pois certamente o efeito produzido não se devia apenas aos milagres. Pois, embora os próprios Apóstolos, com modéstia, atribuíssem tudo a esta causa, declarando que faziam estas coisas em nome de Cristo, ao mesmo tempo a vida e a nobre conduta destes homens ajudava a produzir tal efeito. E mais crentes se agregavam ao Senhor, multidões tanto de homens como de mulheres. Observai como agora ele já não diz o número dos que criam; de tal modo a fé ia avançando até uma imensa multidão, e tão amplamente se proclamava a Ressurreição. Assim, pois, o povo os engrandecia: mas eles já não eram levianamente desprezados como outrora: pois em breve instante, numa única volta da balança, tais foram os efeitos produzidos pelo pescador e pelo publicano! A terra se tornara um céu, pelo modo de vida, pela ousadia da palavra, pelos prodígios, por tudo o mais; como Anjos eram contemplados com admiração: de todo indiferentes ao escárnio, às ameaças, aos perigos: eram compassivos e beneficentes; a alguns socorriam com dinheiro, a outros com palavras, e a outros ainda com a cura de seus corpos e de suas almas; nenhum gênero de cura (πᾶν εἶδος ἰατρείας) deixavam de realizar.
Pedro quase se defende a si mesmo, no momento de infligir o castigo, e ao mesmo tempo dá uma lição aos demais. Pois, porque o ato pareceria demasiado severo, por isso ele age assim tão amplamente neste caso. Também em relação à mulher, o processo do julgamento foi terrível. Mas vede quantos males brotam do sacrilégio: a cobiça, o desprezo de Deus, a impiedade; e também nestas coisas ele se defendeu a si mesmo diante da assembleia, pois não procedeu imediatamente ao castigo, mas primeiro expôs o pecado. Ninguém gemeu, ninguém se lamentou, todos ficaram aterrorizados. Pois, à medida que sua fé crescia, também os sinais se multiplicavam, e grande era o temor entre a própria comunidade: porquanto as coisas que vêm de fora não guerreiam (πολεμεῖ) tanto contra nossa paz quanto os atos dos que são nossos. Se estivermos firmemente unidos, nenhuma guerra será árdua: mas o mal estaria em estarmos divididos e fragmentados. Ora, andavam eles pela praça pública: com ousadia enfrentavam até mesmo o mercado, e em meio aos inimigos prevaleciam, e cumpria-se aquela palavra: Sê Tu Soberano no meio dos Teus inimigos (Sl 110:2). Este foi maior milagre ainda: que eles, presos, lançados no cárcere, praticassem tais feitos!
Se aqueles que mentiram sofreram tais coisas, o que não sofrerão os perjuros? Porque ela simplesmente afirmou: Sim, por tanto — vede o que ela sofreu. Considerai, pois: os que juram e se perjuram, de que não seriam dignos? Vem a propósito, hoje mesmo, também do Antigo Testamento, para mostrar-vos a gravidade do perjúrio. Havia, diz, uma foice voadora, de dez côvados de largura (Zc 5:2). O voar significa a rápida vinda da vingança que persegue os juramentos; o ter muitos côvados de comprimento e largura significa a força e a magnitude dos males; o vir voando do céu mostra que a vingança procede do tribunal do alto: a forma de foice denota a inevitabilidade da condenação: pois assim como a foice, ao chegar e prender o pescoço, não é retirada sozinha, mas com a cabeça já ceifada, do mesmo modo a vingança que sobrevém aos que juram é severa, e não cessará até haver completado sua obra. Mas se juramos e escapamos, não confiemos; isto é apenas para nossa desgraça. Pois que pensais? Quantos, desde Ananias e Safira, ousaram o mesmo que eles? Como se explica então, direis vós, que não tenham encontrado o mesmo destino? Não porque lhes fosse permitido, mas porque estão reservados para maior castigo. Pois os que pecam frequentemente e não são castigados têm maior razão de temer e de tremer do que se fossem castigados. Pois para eles a vingança se acresce pela presente impunidade e pela longanimidade de Deus. Não olhemos, pois, para isto, que não somos castigados; mas consideremos antes se não pecamos: se, pecando, não somos castigados, temos maior razão para tremer. Dizei-me: se tendes um escravo, e apenas o ameaçais, sem o açoitar; quando estará ele mais temeroso, mais inclinado a fugir? Não é justamente quando apenas o ameaçais? E por isso aconselhamo-nos uns aos outros a não estarmos continuamente proferindo ameaças, preferindo antes agitar o ânimo pelo terror, dilacerando-o pior que com açoites. Pois num caso o castigo é momentâneo, mas no outro é perpétuo. Se, pois, ninguém sente o golpe da foice, não olheis para isto, mas antes considere cada um se comete tais pecados. Muitas coisas semelhantes se fazem agora como se faziam antes do Dilúvio, e contudo nenhum dilúvio foi enviado: porque há um inferno ameaçado, e uma vingança. Muitos pecam como pecava o povo de Sodoma, e contudo nenhuma chuva de fogo foi derramada; porque um rio de fogo está preparado. Muitos chegam aos extremos de Faraó; e contudo não têm o destino de Faraó, não foram afogados num Mar Vermelho: pois o mar que os aguarda é o mar do abismo sem fundo, onde o castigo não vem acompanhado de insensibilidade, onde não há sufocação que ponha fim a tudo, mas em tormento sempre prolongado, em fogo, em estrangulamento, ali se consomem. Muitos ofere... [truncado]
Pois Pedro era o admirável, e a ele mais atendiam, tanto por causa de seu discurso público — o primeiro, o segundo e o terceiro — quanto por causa do milagre; pois foi ele quem operou o milagre, o primeiro, o segundo, o terceiro: pois o presente milagre foi duplo: primeiro, o convencer os pensamentos do coração, e depois o infligir a morte por sua palavra de mando. Que ao menos a sombra de Pedro, passando, etc. Isto não ocorrera na história de Cristo; mas vede aqui aquilo que Ele lhes anunciara realmente se cumprindo: que aqueles que creem em Mim, as obras que Eu faço, também eles as farão; e obras maiores que estas farão (Jo 14:12).
E agora eu quisera que observásseis o modo como toda a sua vida se entretece. Primeiro houve o desalento por Cristo lhes ter sido tirado, e depois veio a alegria por causa do Espírito descendo sobre eles; de novo, a aflição por causa dos escarnecedores, e depois a alegria pelo resultado de sua própria apologia. E aqui novamente encontramos tanto aflição quanto júbilo. No fato de se terem tornado conspícuos, e de Deus lhes fazer revelações, houve júbilo: no fato de terem cortado alguns de sua própria comunidade, houve tristeza. Mais uma vez: de novo há júbilo por seu êxito, e de novo tristeza por causa do Sumo Sacerdote. E assim se verá que é o caso ao longo de tudo. E o mesmo se encontrará valendo igualmente para os santos antigos. — Mas tornemos a examinar o que foi dito.
"Tendo-se levantado", isto é, sendo despertados, sendo excitados pelas coisas que sucediam, o sumo sacerdote e os que estavam com ele (que é a seita dos saduceus) encheram-se de indignação, e lançaram mão sobre os Apóstolos: agora os atacam com mais vigor: "e os puseram no cárcere público"; mas não os levaram imediatamente a julgamento, porque esperavam vê-los novamente abrandados. "Mas o Anjo do Senhor abriu as portas do cárcere, e os conduziu para fora, e disse: Ide, ponde-vos em pé e falai ao povo, no templo, todas as palavras desta vida." "E, ouvindo isto, entraram de madrugada no templo, e ensinavam." (v. 19-21). Isto se fez tanto para encorajamento dos discípulos quanto para benefício e instrução dos demais. E observai como o proceder, no presente caso, é exatamente o mesmo que naquilo que o próprio Cristo fizera. A saber: em Seus milagres, ainda que Ele não deixe que os homens os vejam no ato de se realizarem, Ele fornece os meios pelos quais possam ser cientificados das coisas realizadas: assim, em Sua Ressurreição, Ele não os deixou ver como ressuscitou: na água feita vinho, os convivas não veem o feito realizar-se, pois já haviam bebido bastante, e o discernimento Ele o deixa a outros. Assim também no presente caso, não os veem no ato de serem conduzidos para fora, mas veem as provas pelas quais poderiam colher o que se havia feito. E foi de noite que o Anjo os fez sair. Por que isto? Porque deste modo eram mais cridos do que o seriam do outro modo: assim, as pessoas nem sequer teriam ocasião de pôr a questão: de outro modo não teriam crido. Assim sucedeu antigamente, no caso de Nabucodonosor: ele os viu louvando a Deus na fornalha, e então de fato ficou pasmado (Dn 3:24). Ao passo que estes sacerdotes deveriam, como primeira pergunta, ter perguntado: Como saístes? Em vez disto, como se nada tivesse sucedido, perguntam: "Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis?" (v. 28). E observai: por relato de outros são eles cientificados de todas as circunstâncias: veem o cárcere permanecer fechado com toda segurança, e os guardas de pé diante das portas. Uma segurança dupla esta; como sucedera no sepulcro, onde havia tanto o selo quanto os homens de vigia. Vede como combatiam contra Deus! Dizei: foi isto obra de homem, o que lhes sucedeu? Quem os conduziu para fora, estando as portas fechadas? Como saíram, estando os guardas de pé diante da porta? Verdadeiramente hão de estar loucos ou embriagados para falar assim. Eis homens a quem nem cárcere, nem grilhões, nem portas fechadas haviam sido capazes de reter; e contudo esperam dominá-los: tal é sua pueril insensatez! Seus próprios oficiais vêm confessar o que sucedeu, como que de propósito para lhes tirar toda aparência de razão. Notai como há milagre sobre milagre, diferindo em espécie, uns operados por eles, outros sobre eles, e estes mais ilustres que aqueles. "E, ouvindo isto, entraram de madrugada no templo, e ensinavam. E veio o sumo sacerdote, e os que estavam com ele, e convocaram o conselho, e todo o senado dos filhos de Israel, e enviaram ao cárcere para que os trouxessem. Mas, tendo lá chegado os oficiais, não os acharam no cárcere; e, voltando, o anunciaram, dizendo: Achamos realmente o cárcere fechado com toda segurança, e os guardas de pé fora diante das portas; mas, abrindo-o, a ninguém achamos dentro. Ora, quando o sumo sacerdote e o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram estas coisas, ficaram perplexos a respeito delas, sem saber a que isto viria a dar" (v. 21-25). Bem se ordena que a notícia não lhes fosse trazida de imediato, mas primeiro ficam de todo perplexos quanto ao que pensar, para que, tendo bem considerado e visto que há ali um Poder Divino, então venham a conhecer todo o estado da questão. "Então veio alguém, e lhes anunciou, dizendo: Eis que os homens que pusestes no cárcere estão no templo, e ensinam o povo. Então foi o capitão com os outros oficiais, e os trouxe sem violência: pois temiam a multidão, para que não fossem apedrejados" (v. 25, 26). Ó insensatez destes homens! "Temiam", diz ele, "a multidão". Ora, de que modo a multidão auxiliara os Apóstolos? Quando deveriam antes temer a Deus, que continuamente os livrava como criaturas aladas de suas mãos, em vez disso "temiam a multidão"! "E o sumo sacerdote", sem-vergonha, temerário, insensato, "perguntou-lhes, dizendo: Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis neste nome? E eis que enchestes Jerusalém de vossa doutrina, e quereis trazer sobre nós o sangue deste homem" (v. 27, 28). Que dizem então os Apóstolos? De novo com mansidão lhes respondem; e contudo poderiam ter dito: "Quem sois vós, para contramandardes a Deus?" Mas que dizem? De novo, à maneira de exortação e conselho, e com muita mansidão, respondem. "Então Pedro e os outros Apóstolos responderam, e disseram: Antes importa obedecer a Deus que aos homens" (v. 29). Grande magnanimidade! Ele lhes mostra também que estão combatendo contra Deus. Pois, diz ele, Aquele que vós matastes, a Este Deus ressuscitou. "O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes, suspendendo-o no madeiro. A este exaltou Deus com Sua destra, para ser Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e remissão de pecados" (v. 30, 31). E de novo remetem tudo ao Pai, para que Ele não pareça alheio ao Pai. "E exaltou-O", diz ele, "com sua destra". Não afirma apenas a Ressurreição, mas também a Exaltação. "Para dar a Israel arrependimento". Observai aqui, como antes, o proveito (para eles): observai a perfeição da doutrina transmitida sob a forma de apologia. "E nós somos testemunhas destas coisas" (v. 32). Grande ousadia de palavra! E o fundamento de sua credibilidade: "E também o é o Espírito Santo, que Deus deu aos que Lhe obedecem". Observai como eles... [truncado]
Tendo-se levantado, isto é, sendo despertados, sendo excitados pelas coisas que sucediam, o sumo sacerdote e os que estavam com ele (que é a seita dos saduceus) encheram-se de indignação, e lançaram mão sobre os Apóstolos: agora os atacam com mais vigor: e os puseram no cárcere público; mas não os levaram imediatamente a julgamento, porque esperavam vê-los novamente abrandados.
Não os conduziu para fora a fim de que se beneficiassem por si mesmos com isso, mas: Ponde-vos em pé, diz, e falai no templo ao povo. Mas se os guardas os houvessem posto fora, como aqueles supunham, teriam fugido, isto é, supondo que se tivessem deixado induzir a sair: e se aqueles os houvessem feito sair, não teriam permanecido de pé no templo, mas teriam se escondido. Ninguém é tão desprovido de senso que não perceba isto de imediato.
Isto se fez tanto para encorajamento dos discípulos quanto para benefício e instrução dos demais. E observai como o proceder, no presente caso, é exatamente o mesmo que naquilo que o próprio Cristo fizera. A saber: em Seus milagres, ainda que Ele não deixe que os homens os vejam no ato de se realizarem, Ele fornece os meios pelos quais possam ser cientificados das coisas realizadas: assim, em Sua Ressurreição, Ele não os deixou ver como ressuscitou: na água feita vinho, os convivas não veem o feito realizar-se, pois já haviam bebido bastante, e o discernimento Ele o deixa a outros. Assim também no presente caso, não os veem no ato de serem conduzidos para fora, mas veem as provas pelas quais poderiam colher o que se havia feito. E foi de noite que o Anjo os fez sair. Por que isto? Porque deste modo eram mais cridos do que o seriam do outro modo: assim, as pessoas nem sequer teriam ocasião de pôr a questão: de outro modo não teriam crido. Assim sucedeu antigamente, no caso de Nabucodonosor: ele os viu louvando a Deus na fornalha, e então de fato ficou pasmado (Dn 3:24). Ao passo que estes sacerdotes deveriam, como primeira pergunta, ter perguntado: Como saístes? Em vez disto, como se nada tivesse sucedido, perguntam: Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis?
Bem se ordena que a notícia não lhes fosse trazida de imediato, mas primeiro ficam de todo perplexos quanto ao que pensar, para que, tendo bem considerado e visto que há ali um Poder Divino, então venham a conhecer todo o estado da questão.
Ó a insensatez destes homens! Temiam, diz ele, a multidão. Ora, em que a multidão poderia socorrer os Apóstolos? Quando deviam antes temer a Deus, que continuamente os livrava, como a aves, das mãos daqueles, temiam, em vez disso, a multidão! E o sumo sacerdote, desavergonhado, temerário, insensato, interrogou-os, dizendo: Não vos ordenamos expressamente que não ensinásseis nesse nome? E eis que enchestes Jerusalém com a vossa doutrina, e quereis lançar sobre nós o sangue deste homem (v. 27, 28). Que fazem, então, os Apóstolos? De novo lhes falam com mansidão; e, contudo, poderiam ter dito: Quem sois vós, para contramandar a Deus? Mas que dizem? De novo, à maneira de exortação e conselho, e com muita mansidão, respondem.
Então se levantou o sumo sacerdote, etc. Como homens de alta reputação, estes (os Apóstolos) estavam prestes a ocupar lugar próximo aos Profetas. Os saduceus eram os mais irritados quanto à questão da Ressurreição. Mas talvez alguém diga: Ora, que homem, dotado de tais dons quanto os Apóstolos, não teria sido grande? Considerai, porém, vos peço, como, antes de serem dotados da graça, perseveravam unânimes em oração (At 1, 14), dependendo do socorro do alto. E tu, meu amado, esperas o reino dos céus, e todavia nada suportas? E recebeste o Espírito, e todavia não padeces tais coisas, nem enfrentas perigos? Mas eles, antes de terem respiro dos perigos anteriores, eram de novo conduzidos a outros. E isto também, que não há arrogância, nem vaidade, quão grande bem é! Falar com mansidão, que ganho é este! Pois nem tudo o que fizeram foi obra imediata da graça, mas há também muitos sinais de seu próprio zelo. Que os dons da graça resplandeçam neles, isto proveio de sua própria diligência. Vede, por exemplo, desde o começo, quão cuidadoso é Pedro; quão sóbrio e vigilante: como os que criam lançavam fora as suas riquezas, não tinham propriedade privada, perseveravam em oração, mostravam que eram de um só ânimo, passavam o tempo em jejuns. Que graça, pergunto (somente), operou tudo isto? Por isso é que Ele lhes traz a evidência através dos próprios oficiais deles. Assim como no caso de Cristo, foram os oficiais deles que disseram: Nunca homem algum falou como este homem fala (Jo 7, 46). Estas provas são mais aptas a serem cridas do que a Ressurreição. — Observai também a moderação mostrada pelos próprios (governantes), e como cedem. O sumo sacerdote os interrogou, dizendo, etc. (At 5, 27): aqui ele raciocina com eles, é certo, em tom moderado; pois estava amedrontado: na verdade, impedi-los era o que desejava, mais do que matá-los, já que isto não pode fazer: e com o propósito de os incitar a todos, e mostrar-lhes o extremo perigo em que se encontram, E quereis, diz ele (aos Apóstolos), lançar sobre nós o sangue deste homem. Ainda o tendes por mero homem? Quer fazer parecer que a ordem era necessária para a própria segurança deles.
Ora bem, se se tivessem comprometido a obedecer-vos, fazeis bem em pedir-lhes contas: mas se, já no próprio momento, vos disseram que não obedeceriam, que contas tendes a exigir-lhes, que defesa lhes resta a fazer? E eis que enchestes Jerusalém com a vossa doutrina, e quereis lançar sobre nós o sangue deste homem. Notai a inconsistência das acusações e a excessiva insensatez. Querem agora fazer parecer que as disposições dos judeus são sanguinárias, como se fizessem estas coisas não pela verdade, mas por desejo de vingança. E por esta razão também os Apóstolos não lhes respondem com arrogância (θρασέως): pois eram mestres. E, contudo, onde está o homem que, tendo toda uma cidade a apoiá-lo, e dotado de tão grande graça, não teria falado e proferido algo grandioso? Mas não assim procederam estes: pois não se iraram; antes, compadeceram-se destes homens, e choraram por eles, e observaram de que modo poderiam livrá-los de seu erro e de sua ira. E já não lhes dizem: Julgai vós (At 4, 19): mas simplesmente afirmam, dizendo: A quem Deus ressuscitou, a Este pregamos: é pela vontade de Deus que estas coisas se fazem. Não disseram: Não vo-lo dissemos já então, que não podemos deixar de falar as coisas que vimos e ouvimos? (At 4, 20): pois não são contenciosos por glória; antes, repetem de novo a mesma história — a Cruz, a Ressurreição. E não dizem por que Ele foi crucificado — que foi por nossa causa: mas o insinuam, é certo, ainda não abertamente, querendo aterrá-los por algum tempo. E, contudo, que espécie de retórica há aqui? Nenhuma, por certo, mas em toda parte é ainda a Paixão, e a Ressurreição, e a Ascensão, e o fim para o qual: O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, etc. (v. 30, 31). E, contudo, que afirmações improváveis são estas! Muito improváveis, sem dúvida; mas, com tudo isso, nem os governantes nem o povo tiveram palavra alguma contra elas: mas àqueles se lhes fechou a boca, e estes receberam o ensinamento.
E observai: por relato de outros são informados de todas as circunstâncias: veem o cárcere permanecer fechado com segurança, e os guardas de pé diante das portas. Dupla segurança esta; como se deu no sepulcro, onde havia tanto o selo quanto os homens de guarda. Vede como combatiam contra Deus! Dizei, foi isto obra de homem, o que lhes sucedeu? Quem os conduziu para fora, estando as portas fechadas? Como saíram, estando os guardas de pé diante da porta? Verdadeiramente devem estar loucos ou embriagados para falarem assim. Eis aqui homens a quem nem cárcere, nem cadeias, nem portas fechadas haviam podido reter; e, contudo, esperam dominá-los: tal é sua pueril insensatez! Seus oficiais vêm e confessam o que sucedeu, como que de propósito para privá-los de toda aparência de razão. Notai como há milagre sobre milagre, diferindo em espécie, uns operados por eles, outros neles, e estes mais ilustres que os outros.
Alta magnanimidade! Mostra-lhes também que combatem contra Deus. Pois, diz ele, a quem vós matastes, a Este ressuscitou Deus. O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a quem vós matastes e pendurastes num madeiro. A Este exaltou Deus com Sua destra, para ser Príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel, e remissão dos pecados (v. 30, 31). E de novo remetem tudo ao Pai, para que Este não pareça alheio ao Pai. E exaltou, diz ele, com Sua destra. Afirma não somente a Ressurreição, mas também a Exaltação. Para dar arrependimento a Israel. Observai aqui, como antes, o proveito (para eles): observai a perfeição da doutrina transmitida sob a forma de apologia.
Aqui se abstém de mencionar os gentios, para não lhes dar ocasião contra si.
De que coisas? De haver Ele prometido remissão e arrependimento: pois a Ressurreição, na verdade, já era reconhecida, agora. Mas que Ele dá remissão, tanto nós somos testemunhas, quanto o é o Espírito Santo, o Qual não teria descido, se os pecados não tivessem sido primeiro remitidos: de modo que esta é prova indiscutível.
Grande ousadia de linguagem! E o fundamento de sua credibilidade: "E também o Espírito Santo, o qual Deus deu aos que Lhe obedecem." Observai que eles não alegam apenas o testemunho do Espírito? E não disseram: "o qual Ele nos deu", mas "aos que Lhe obedecem": manifestando ao mesmo tempo seu temperamento despretensioso, e insinuando a grandeza do dom, e mostrando aos ouvintes que também lhes era possível receber o Espírito. Vede como este povo fora instruído tanto por obras quanto por palavras, e contudo não deu ouvidos, para que sua condenação fosse justa. Pois para isto Deus permitiu que os Apóstolos fossem levados a julgamento, para que tanto seus adversários fossem instruídos quanto todos aprendessem, e para que os Apóstolos fossem fortalecidos para a ousadia da palavra.
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Vede novamente estes em perplexidade, aqueles em aflição: mas os outros em quietude, alegria e deleite. Não se diz apenas que "se afligiram", mas que "se cortaram (até o coração)". Verdadeiramente isto confirma aquele provérbio: quem faz o mal, mal recebe; como se pode ver neste caso. Aqui estavam estes homens em prisões, colocados diante do tribunal de justiça, e os homens que se assentavam para julgá-los estavam em angústia e perplexidade sem remédio. Pois assim como aquele que golpeia o diamante recebe em si mesmo o choque do golpe, assim sucedeu a estes homens. Mas eles viam que não somente sua ousadia de palavra não fora contida, mas que antes sua pregação se multiplicava ainda mais, e que discorriam sem qualquer temor, e não lhes davam ocasião alguma contra si.
Imitemos estes, meus amados: sejamos destemidos em todos os nossos perigos. Nada há de temível para quem teme a Deus; mas tudo o que é temível é para os outros. Pois quando um homem está livre de suas paixões, e considera todas as coisas presentes como sombra, dizei-me, de quem há de sofrer algo temível? A quem há de temer? A quem precisará suplicar? Fujamos para esta Rocha que não pode ser abalada. Se alguém nos construísse uma cidade, e erguesse ao redor dela uma muralha, e nos transportasse a uma terra desabitada, onde não houvesse quem nos perturbasse, e ali nos suprisse com abundância de tudo, e não permitisse que tivéssemos coisa alguma que nos perturbasse com quem quer que fosse, ainda assim não nos colocaria em tão perfeita segurança quanto Cristo o fez agora. Seja uma cidade feita de bronze, se quiserdes, cercada por todos os lados por uma muralha alta e inexpugnável, que não haja inimigo nas proximidades; que tenha terra fértil e abundante, que se acrescente abundância de outras coisas, que os cidadãos sejam também mansos e brandos, e não haja ali malfeitor algum, nem ladrão, nem gatuno, nem delator, nem tribunal de justiça, mas apenas acordos (συναλλάγματα); e habitemos nesta cidade: nem ainda assim seria possível viver em segurança. Por quê? Porque não poderia deixar de haver desavenças com servos, com esposas, com filhos, que seriam fundamento de muito desconforto. Mas aqui não havia nada semelhante; pois aqui não havia absolutamente nada que os afligisse ou causasse qualquer desconforto. Antes, o que é mais admirável de se dizer, as próprias coisas que se pensa causarem desconforto tornaram-se matéria de toda alegria e regozijo. Pois dizei-me, o que havia ali para se aborrecerem? O que havia para tomarem como ofensa? Citaremos um caso particular para comparação com eles? Pois bem, que haja alguém de dignidade consular, que possua muita riqueza, que habite na cidade imperial, que não tenha negócio incômodo algum com ninguém, mas viva apenas em deleite, e não tenha outra ocupação senão esta, assentado no próprio cume da riqueza, da honra e do poder: e ponhamos diante dele um Pedro, em prisões se quiserdes, em males sem número: e havemos de achar que este é o homem que vive mais deleitosamente. Pois quando há tal excesso de alegria, a ponto de se deleitarem estando em prisões, considerai quão grande deve ser essa alegria! Pois assim como os que ocupam altos cargos, quaisquer que sejam os males que lhes sucedam, deles não se apercebem, mas permanecem no gozo: assim também estes tanto mais se regozijavam por causa destes mesmos males. Pois é impossível, impossível exprimir em palavras quão grande prazer cabe em sorte aos que sofrem por causa de Cristo: pois eles se regozijam mais em seus sofrimentos do que em seus bens. Quem ama a Cristo sabe o que digo.— Mas quanto à segurança? E quem, pergunto, por mais rico que fosse, poderia ter escapado a tantos perigos, percorrendo tantas nações diferentes, com o único propósito de operar uma reforma em seu modo de vida? Pois foi como se, por mandado real, levassem tudo diante de si, e ainda mais facilmente, pois jamais mandado algum poderia ter sido tão eficaz quanto foram suas palavras. Pois o édito real compele por necessidade, mas estes atraíam os homens voluntária e espontaneamente, sim, e com corações sobremaneira agradecidos. Que édito real, pergunto, jamais teria persuadido os homens a se despojarem de todos os seus bens e de suas próprias vidas; a desprezarem o lar, a pátria, os parentes, sim, até a própria conservação de si mesmos? Contudo, as vozes de pescadores e fabricantes de tendas bastaram para isto. De modo que eram ao mesmo tempo felizes, e mais poderosos e fortes que todos os demais. Sim, direis, aqueles é claro que o eram, pois operavam milagres. Mas pergunto: que milagres operaram os que creram, os três mil, e os cinco mil? E contudo lemos que estes passavam seu tempo na alegria. E bem podiam: pois aquilo que é o fundamento de todos os desconfortos, a posse das riquezas, fora eliminado. Pois isto, isto, digo eu, foi sempre a causa tanto das guerras quanto das lutas, e da tristeza, e do desconforto, e de todos os males: a coisa que torna a vida cheia de labores e transtornos, é isto. E na verdade se há de achar que muito mais ricos do que pobres têm razão para estarem tristes. Se alguém pensa que isto não é verdade, sua noção não deriva da natureza das coisas, mas de sua própria fantasia. E se os ricos gozam de alguma espécie de prazer, isto não é de admirar: pois até mesmo os que estão cobertos inteiramente de sarna têm bastante prazer. Pois que os ricos sejam em tudo semelhantes a estes, e que sua mente seja afetada da mesma maneira, é evidente por esta circunstância. Seus cuidados os afligem, e eles escolhem estar absorvidos por eles por causa do prazer momentâneo: enquanto os que estão livres destas afeições estão em saúde e sem desconforto. Qual é mais agradável, pergunto, qual dos dois mais seguro? Ter que cuidar apenas de um único pão e de uma veste, ou de uma imensa família, tanto de escravos quanto de livres, sem ter cuidado (apenas) de si mesmo? Pois assim como este tem seus temores por si mesmo, assim os tendes vós por aqueles que dependem de vossa própria pessoa. Por que, pergunto-vos, a pobreza parece coisa a ser evitada? Exatamente da mesma maneira que outros bens são, no juízo de muitos, coisas a serem lamentadas.
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Ouvis falar do perdão dos pecados, ó homem miserável, e que Deus não exige castigo, e quereis matá-los? Que maldade foi esta! E contudo, ou deveriam tê-los convencido de mentira, ou, se não podiam fazê-lo, deveriam ter crido: mas se não escolheram crer, ao menos não deveriam matá-los. Pois o que havia que merecesse a morte? Tal era sua embriaguez, que nem sequer viam o que se havia realizado. Observai como em toda parte os Apóstolos, quando fazem menção do crime, acrescentam a menção do perdão; mostrando que, sendo o que fora feito digno de morte, aquilo que lhes fora dado se lhes oferecia como a benfeitores! De que outro modo poderia alguém tê-los persuadido?
"Então se levantou o sumo sacerdote", etc. Como homens de grande reputação, estes (os Apóstolos) estavam prestes a tomar seu lugar junto aos Profetas. Os saduceus eram os que mais se afligiam com o assunto da Ressurreição. Mas talvez alguém diga: Ora, que homem, dotado de tais dons como os dos Apóstolos, não teria sido grande? Mas considerai, vos peço, como, antes de serem dotados da graça, "perseveravam unânimes em oração" (At 1,14), e dependiam do auxílio do alto. E vós, meus amados, esperais o reino dos céus, e contudo nada suportais? E recebestes o Espírito, e contudo não sofreis tais coisas, nem enfrentais perigos? Mas eles, antes que tivessem descanso dos perigos anteriores, foram de novo conduzidos a outros. E também isto, que não há arrogância, nem soberba, quão grande bem é! Falar com mansidão, que ganho é! Pois nem tudo o que fizeram foi obra imediata da graça, mas há também muitos sinais de seu próprio zelo. Que os dons da graça resplandeçam neles, isto proveio de sua própria diligência. Vede, por exemplo, desde o próprio começo, quão cuidadoso é Pedro; quão sóbrio e vigilante: como os que creram lançavam fora suas riquezas, não tinham propriedade particular, perseveravam em oração, mostravam que eram de um só ânimo, passavam o tempo em jejuns. Que graça, pergunto (somente), fez tudo isto? Por isso é que Ele lhes traz a evidência através de seus próprios oficiais. Assim como no caso de Cristo, foram seus oficiais que disseram: "Nunca homem algum falou assim como este homem fala" (Jo 7,46). Estas (provas) são mais aptas a serem cridas do que a Ressurreição.— Observai também a moderação mostrada pelos próprios (governantes), e como cedem.
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Os outros (em ocasião anterior), ao ouvirem estas coisas, ficaram compungidos; estes, porém, se cortavam (como que com uma serra) (διεπρίοντο) e desejavam matá-los (At 2,37).
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Este Gamaliel foi mestre de Paulo. E bem se pode admirar como, sendo tão reto em seu juízo, e ademais versado na lei, não tenha ainda crido. Mas não é possível que tenha permanecido na incredulidade até o fim. Com efeito, isto se manifesta claramente pelas palavras que aqui profere. "Mandou", diz o texto, "que retirassem os homens por um pouco de espaço." Observai quão judiciosamente ele compõe seu discurso, e como logo, desde o início, os põe em temor. E para que não seja suspeito de tomar o partido deles, dirige-lhes a palavra como se ele e eles fossem da mesma opinião, e não usa de muita veemência, mas, como quem fala a homens embriagados pela paixão, assim se exprime: "Varões israelitas, atendei bem, quanto a estes homens, ao que estais para fazer" (v. 35). Não vos precipiteis, quer ele dizer, apressadamente e sem reflexão. "Porque antes destes dias levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; ao qual se ajuntou número de homens, cerca de quatrocentos: o qual foi morto; e todos os que lhe obedeciam foram dispersos e reduzidos a nada" (v. 36). Por meio de exemplos ensina-lhes a prudência; e, a título de encorajamento, menciona por último aquele que seduziu o maior número. Ora, antes de citar os exemplos, diz: "Atendei bem a vós mesmos"; mas depois de os haver citado, então declara sua opinião, e diz: "Apartai-vos destes homens." Pois, diz ele, "levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muito povo após si: também este pereceu; e todos os que lhe obedeciam foram dispersos. E agora vos digo: Apartai-vos destes homens, e deixai-os: porque, se este conselho ou esta obra é dos homens, se desfará; mas, se é de Deus, não a podereis desfazer" (v. 37-39). Que há, pois, quer ele dizer, que vos impeça de serdes derrubados? Pois, diz ele (atendei), "não aconteça que sejais achados até mesmo lutando contra Deus." Ele procurava dissuadi-los tanto pela consideração de que a coisa é impossível, quanto porque não lhes convém. E não diz por quem estas pessoas foram destruídas, mas que ali "foram dispersos", e sua facção se desfez em nada. Pois se, diz ele, é dos homens, que necessidade há de agitação de vossa parte? mas se é de Deus, por mais que vos agiteis não podereis vencê-la. O argumento é irrefutável. "E foram persuadidos por ele" (v. 40). Como foram persuadidos? De modo a não os matar, mas apenas açoitá-los. Pois, diz o texto, "e, chamando os apóstolos, e havendo-os açoitado, mandaram que não falassem no nome de Jesus, e os deixaram ir." Vede depois de quão grandes obras são açoitados! E de novo seu ensino se estendeu mais: pois ensinavam em casa e no templo, "E eles retiraram-se da presença do conselho, regozijando-se de terem sido considerados dignos de padecer afronta pelo Seu nome. E todos os dias, no templo e por todas as casas, não cessavam de ensinar e pregar a Jesus Cristo" (v. 41-42). "E naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano" (cap. 6,1). Não absolutamente naqueles dias imediatos; pois é costume da Escritura falar das coisas que estão prestes a suceder como se dessem em sucessão imediata. Mas por "gregos" suponho que ele designe os que falavam grego: pois não usavam a língua grega. Eis outra provação! observai como, de dentro e de fora, há combates desde o próprio princípio! "Então", diz o texto, "os doze convocaram a multidão dos discípulos, e disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus, e sirvamos às mesas" (v. 2). Bem dito: pois o necessário deve ceder precedência ao mais necessário. Mas vede como imediatamente tomam cuidado destas (matérias inferiores), e contudo não negligenciam a pregação. "Porque as suas viúvas eram desprezadas": pois aqueles (os hebreus) eram tratados como pessoas de maior consideração (aidesimoteroi). "Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este negócio. E nós entregar-nos-emos continuamente à oração e ao ministério da palavra. E este parecer agradou a toda a multidão: e elegeram a Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo" (v. 3-5), assim como os outros também eram cheios de fé; para que não sucedesse o mesmo que no caso de Judas, como no caso de Ananias e Safira — "e a Filipe, e a Prócoro, e a Nicanor, e a Timon, e a Parmenas, e a Nicolau, prosélito de Antioquia: os quais apresentaram diante dos apóstolos: e, orando eles, lhes impuseram as mãos. E a palavra de Deus crescia; e em Jerusalém se multiplicava muito o número dos discípulos; e grande companhia dos sacerdotes obedecia à fé" (v. 5-7). Mas revejamos o que foi dito. "Varões israelitas, atendei bem a vós mesmos" (Recapitulação, v. 35). Vede aqui, vos peço, quão mansamente raciocina Gamaliel, e como diz apenas poucas palavras, e não relata histórias antigas, embora pudesse tê-lo feito, mas exemplos mais recentes, que são mais poderosos para produzir crença. Com esta intenção ele mesmo lança uma insinuação, dizendo: "Porque antes destes dias" (v. 36): significando, não muitos dias antes. Ora, se ele tivesse dito de imediato: "Deixai ir estes homens", ele mesmo teria caído em suspeita, e seu discurso não teria sido tão eficaz: mas depois dos exemplos, adquiriu sua própria força. E ele não menciona um exemplo apenas, mas também um segundo: "pois", diz a Escritura, "na boca de duas testemunhas" (Mt 18,16): e contudo tinha em seu poder mencionar até três. "Apartai-vos destes homens" (v. 38). Vede quão manso é seu modo, e seu discurso não longo, mas conciso, e sua menção mesmo daqueles (impostores) quão isenta de paixão: "E todos, quantos lhe obedeciam, foram dispersos." E com tudo isto ele não blasfema contra Cristo. Ouviram-no,
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Este Gamaliel foi mestre de Paulo. E bem se pode admirar como, sendo tão reto em seu juízo, e ademais versado na lei, não tenha ainda crido. Mas não é possível que tenha permanecido na incredulidade até o fim. Com efeito, isto se manifesta claramente pelas palavras que aqui profere. "Mandou", diz o texto, "que retirassem os homens por um pouco de espaço [e lhes disse]." Observai quão judiciosamente ele compõe seu discurso, e como logo, desde o início, os põe em temor.
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Vede aqui, vos peço, quão mansamente raciocina Gamaliel, e como diz apenas poucas palavras, e não relata histórias antigas, embora pudesse tê-lo feito, mas exemplos mais recentes, que são mais poderosos para produzir crença. Com esta intenção ele mesmo lança uma insinuação, dizendo: "Porque antes destes dias"
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Mas revejamos o que foi dito. "Varões israelitas, atendei bem a vós mesmos" (At 5,35). Vede aqui, vos peço, quão mansamente raciocina Gamaliel, e como diz apenas poucas palavras, e não relata histórias antigas, embora pudesse tê-lo feito, mas exemplos mais recentes, que são mais poderosos para produzir crença. Com esta intenção ele mesmo lança uma insinuação, dizendo: "Porque antes destes dias" (At 5,36): significando, não muitos dias antes. Ora, se ele tivesse dito de imediato: "Deixai ir estes homens", ele mesmo teria caído em suspeita, e seu discurso não teria sido tão eficaz: mas depois dos exemplos, adquiriu sua própria força. E ele não menciona um exemplo apenas, mas também um segundo: "pois", diz a Escritura, "na boca de duas testemunhas" (Mt 18,16): e contudo tinha em seu poder mencionar até três.
E para que não fosse suspeitado de tomar o partido deles, dirige-se-lhes como se ele e eles fossem da mesma opinião, e não usa de muita veemência, mas, como quem fala a homens embriagados pela paixão, assim se exprime: Varões de Israel, tomai cuidado convosco mesmos quanto ao que pretendeis fazer a respeito destes homens (At 5,35). Não vades, quer ele dizer, obrar precipitada e apressadamente.
Isto é, não muitos dias antes. Ora, se ele tivesse dito de imediato: Deixai ir estes homens, tanto cairia ele mesmo em suspeita, quanto o seu discurso não teria sido tão eficaz; mas, depois dos exemplos, adquiriu força própria. E ele não menciona um só caso, mas também um segundo: pois, diz a Escritura, na boca de duas testemunhas (Mt 18,16); e, no entanto, estava em seu poder mencionar até três. Afastai-vos destes homens.
Por meio de exemplos ensina-lhes a prudência; e, a título de encorajamento, menciona por último o homem que seduziu o maior número. Ora, antes de apresentar os exemplos, diz: Tomai cuidado convosco mesmos; mas, depois de os haver citado, então declara sua opinião, e diz: Afastai-vos destes homens. Pois, diz ele, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou consigo muito povo: também ele pereceu; e todos, quantos lhe obedeceram, foram dispersos. E agora vos digo: Afastai-vos destes homens, e deixai-os em paz: porque, se este desígnio ou esta obra é dos homens, se desfará por si mesma. Mas, se é de Deus, não podereis destruí-los (At 5,37-39). Que há, pois, quereria ele dizer, que vos impeça de serdes derrotados? Pois, diz ele (tomai cuidado), para que não vos encontreis, porventura, a combater contra o próprio Deus. Ele quer dissuadi-los tanto pela consideração de que a coisa é impossível, quanto porque não lhes é vantajosa. E não diz por quem estas gentes foram destruídas, mas sim que ali foram dispersas, e sua confederação se desfez em nada. Pois, se, diz ele, é dos homens, que necessidade há de qualquer agitação da vossa parte? Mas, se é de Deus, por toda a vossa agitação não sereis capazes de a vencer. O argumento é irrespondível.
Vede quão brando é o seu modo, e o seu discurso não longo, mas conciso, e sua menção mesmo daqueles (impostores) quão livre de paixão: E todos, quantos lhe obedeceram, foram dispersos. E, com tudo isto, ele não blasfema contra Cristo. Ouviram-no, todos estes incrédulos, ouviram-no, estes judeus. [Pois, se este desígnio ou esta obra é dos homens, se desfará por si mesma.] Pois bem, já que não se desfez, não é dos homens. [Mas, se é de Deus, não podereis destruí-la.]
Vede quão brando é o seu modo, e o seu discurso não longo, mas conciso, e sua menção mesmo daqueles (impostores) quão livre de paixão: E todos, quantos lhe obedeceram, foram dispersos. E, com tudo isto, ele não blasfema contra Cristo. Ouviram-no, todos estes incrédulos, ouviram-no, estes judeus. [Pois, se este desígnio ou esta obra é dos homens, se desfará por si mesma.] Pois bem, já que não se desfez, não é dos homens. [Mas, se é de Deus, não podereis destruí-la.] (At 5,39) Uma vez mais os contém pela impossibilidade e pela inconveniência da coisa, dizendo: Para que não vos encontreis, porventura, a combater contra o próprio Deus. E não diz: Se Cristo é Deus; mas a obra (mesma) o declara.
Uma vez mais os contém pela impossibilidade e pela inconveniência da coisa, dizendo: Para que não vos encontreis, porventura, a combater contra o próprio Deus. E não diz: Se Cristo é Deus; mas a obra (mesma) o declara. Ele não se pronuncia, nem que é dos homens, nem que é de Deus; mas deixa a prova para o futuro. Foram persuadidos [por ele].
Por que, pois, poder-se-ia perguntar, os açoitais? Tal era a incontrovertível justeza do seu discurso, que não podiam encará-la de frente; contudo, saciaram sua própria animosidade; e mais uma vez esperavam aterrorizá-los deste modo. Pelo fato também de dizer estas coisas não na presença dos Apóstolos, ganhou mais audiência do que de outro modo teria ganhado; e depois a suavidade do seu discurso e a justeza do que foi dito ajudaram a persuadi-los. Com efeito, este homem quase pregou o Evangelho. Fostes persuadidos, poder-se-ia dizer, de que não tínheis força para o destruir. Por que, então, não crestes? Tal é o testemunho prestado mesmo pelos inimigos. Ali são quatrocentos, ali, quatro mil: e aqui os primeiros promotores eram doze. Que o número que a si mesmo se acrescentou não vos amedronte (cap. 2,41; 4,4). Poderia também ter mencionado outro exemplo, o do egípcio, mas o que disse é plenamente suficiente. E encerra seu discurso com um tópico alarmante: Para que não, porventura, etc. E não se pronuncia sobre isso, para que não parecesse estar advogando a causa deles; mas raciocina por via de silogismo a partir do desfecho do assunto. E não se atreve a pronunciar que não é dos homens, nem tampouco que é de Deus; pois, se tivesse dito que era de Deus, ter-lhe-iam contradito: mas, se tivesse dito que era dos homens, teriam novamente tomado medidas prontas. Portanto, ordena-lhes que aguardem o fim, dizendo: Afastai-vos. Mas eles, uma vez mais, ameaçam, sabendo, na verdade, que nada aproveitam, mas agindo segundo o seu costume. Tal é a natureza da maldade: ela tenta até mesmo o impossível. — E depois deste levantou-se Judas, etc. Estas coisas Josefo relata em pormenor. (Ant. XX, 8; ib. V, 2; XVIII, 1. B. J. II, 8, 1.) Mas quão grande coisa foi que ousasse afirmar que era de Deus, quando, na sequência, isso recebeu sua prova pelos próprios acontecimentos! Grande ousadia de discurso, grande liberdade de toda acepção de pessoas! E não diz: Mas, se não a destruirdes, é de Deus; mas: Se é de Deus, não será destruída. E a ele concordaram. Reverenciaram o elevado caráter do homem. E partiram da presença do conselho, regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer vergonha pelo nome de Cristo.
Ele não se pronuncia sobre isso, nem que seja dos homens, nem que seja de Deus; mas deixa a prova para o futuro. Eles foram persuadidos [por ele]. Atos 5:40. Por que, poder-se-ia perguntar, então os açoitais? Tal era a incontestável justeza de seu discurso, que não podiam encará-lo de frente; não obstante, saciaram sua própria animosidade; e esperavam, mais uma vez, aterrorizá-los desse modo. Pelo fato também de dizer estas coisas não na presença dos Apóstolos, obteve maior audiência do que de outro modo obteria; e então a suavidade de seu discurso e a justeza do que foi dito ajudaram a persuadi-los. Com efeito, este homem quase pregou o Evangelho. Persuadistes-vos, poder-se-ia dizer, de que não tínheis força para derrubá-la. Por que, então, não crestes? Tal é o testemunho prestado até mesmo pelos inimigos. Ali são quatrocentos, ali, quatro mil; e aqui os primeiros promotores eram doze. Que o número dos que se agregaram não vos atemorize (cap. 2:41; 4:4). Poderia também ter mencionado outro exemplo, o do egípcio, mas o que disse é plenamente suficiente. E encerra seu discurso com um tópico alarmante: Para que porventura, etc. E não se pronuncia sobre isso, para que não pareça estar advogando a causa deles; mas raciocina por via de silogismo a partir do desfecho da questão. E não se aventura a declarar que não é dos homens, nem tampouco que é de Deus; pois, se tivesse dito que era de Deus, teriam-no contraditado; mas, se tivesse dito que era dos homens, teriam de novo tomado medidas prontas. Portanto, ordena-lhes que aguardem o fim, dizendo: Abstende-vos. Mas eles, uma vez mais, ameaçam, sabendo, na verdade, que de nada valem, mas agindo segundo o seu costume. Tal é a natureza da maldade: ela tenta até mesmo o impossível. — E depois deste levantou-se Judas, etc. Estas coisas Josefo relata em pormenor (Ant. xx. 8; ib. v. 2; xviii. 1. B. J. ii. 8. 1). Mas quão grande coisa foi que se aventurasse a afirmar que era de Deus, quando, na sequência, isso recebeu sua prova a partir dos próprios acontecimentos! Grande ousadia de discurso, grande isenção de toda a acepção de pessoas! E não diz: Mas se não a derrubardes, é de Deus; mas: Se for de Deus, não será derrubada. E a ele concordaram (Atos 5:40). Reverenciaram o elevado caráter do homem. E saíram da presença do conselho, alegrando-se por terem sido considerados dignos de padecer vergonha pelo nome de Cristo (Atos 5:41). Que milagres tão admiráveis quanto este? Em nenhuma parte se registra algo semelhante a respeito dos antigos santos: pois Jeremias, na verdade, foi açoitado por causa da palavra de Deus, e ameaçaram Elias, e os demais; mas neste caso, ainda por este mesmo fato, e não somente pelos seus milagres, estes manifestaram o poder de Deus. Não diz que não sofreram dor, mas que, embora sofrendo, se alegravam. Como isso se manifesta? Por sua ousadia posterior: tão perseverantes se mostraram ainda, mesmo depois dos açoites, em pregar a palavra.
Como foram eles persuadidos? De modo a não os matar, mas apenas açoitá-los. Pois, diz, e havendo chamado os Apóstolos e açoitado-os, ordenaram-lhes que não falassem no nome de Jesus, e os deixaram ir. Vede depois de quão grandes obras são açoitados! E, de novo, seu ensino tornou-se mais extenso: pois ensinavam em casa e no templo.
Que milagres tão admiráveis quanto este? Em nenhuma parte se registra algo semelhante a respeito dos antigos santos: pois Jeremias, na verdade, foi açoitado por causa da palavra de Deus, e ameaçaram Elias, e os demais; mas neste caso, ainda por este mesmo fato, e não somente pelos seus milagres, estes manifestaram o poder de Deus. Não diz que não sofreram dor, mas que, embora sofrendo, se alegravam. Como isso se manifesta? Por sua ousadia posterior: tão perseverantes se mostraram ainda, mesmo depois dos açoites, em pregar a palavra. Mas no templo, diz, e em toda casa, não cessavam de ensinar e anunciar a Jesus Cristo.
E naqueles dias — quando estas coisas se faziam, quando havia açoites, quando havia ameaças, quando os discípulos se multiplicavam — também, diz, surgiu um murmúrio.
E naqueles dias — quando estas coisas se faziam, quando havia açoites, quando havia ameaças, quando os discípulos se multiplicavam.
Não absolutamente naqueles dias imediatos; pois é costume da Escritura falar das coisas prestes a suceder como se dessem em imediata sucessão. Mas por helenistas suponho que ele entenda aqueles que falavam grego [em oposição aos hebreus]: pois estes não se serviam da língua grega. Eis outra provação! Observai como, desde o início mesmo, há guerras tanto de dentro quanto de fora!
E isto provém da multidão: pois é impossível haver ordem rigorosa numa multidão. Levantou-se um murmúrio, etc., até — E uma grande companhia dos sacerdotes obedecia à fé. — Levantou-se um murmúrio contra os hebreus — pois aquela categoria de pessoas parecia ser mais honrada — porque as suas viúvas eram negligenciadas no ministério cotidiano.
Não absolutamente naqueles dias imediatos; pois é costume da Escritura falar das coisas que estão prestes a suceder como se acontecessem em sucessão imediata. Mas por helenistas suponho que ele entenda aqueles que falavam grego [contra os hebreus]: pois estes não usavam a língua grega. Eis outra provação! Observai como, desde o princípio mesmo, há combates tanto de dentro como de fora! Então, diz o texto, os doze convocaram a multidão dos discípulos e disseram: Não é razoável que abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas.
Havia, pois, um ministério cotidiano para as viúvas. E observai como ele o chama ministério (διακονία), e não esmola diretamente: exaltando com isto, ao mesmo tempo, tanto os que o praticavam quanto aqueles a quem era feito. Eram negligenciadas. Isto não provinha de malícia, mas talvez do descuido da multidão. E por isso ele o expôs abertamente, pois não era mal pequeno. Observai como, já desde o princípio, os males não provinham apenas de fora, mas também de dentro. Pois não deveis atentar somente para o fato de que a situação foi corrigida, mas observar que era um grande mal que ela existisse.
Observais como as questões exteriores sucedem às interiores? Eles não agem segundo seu próprio arbítrio, mas expõem suas razões à congregação. Assim deveria ser feito também agora. Não é razoável, diz ele, que abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Primeiro ele lhes propõe a desrazão da coisa; que não é possível que ambas as coisas se façam com a mesma atenção: assim como, quando estavam prestes a ordenar Matias, primeiro mostraram a necessidade da coisa, que faltava um, e era preciso que fossem doze. Assim também aqui mostraram a necessidade; e não o fizeram antes, mas esperaram até que o murmúrio se levantasse; nem, por outro lado, permitiram que isto se espalhasse longe. E eis que deixam a decisão a eles: aqueles que agradavam a todos, aqueles que de todos eram honestamente reputados, esses apresentam: não já doze, mas sete, cheios do Espírito e de sabedoria: de bom testemunho quanto à sua conduta.
Bem dito: pois o necessário deve ceder precedência ao mais necessário. Mas vede como eles, ao mesmo tempo, tanto cuidam destas (questões inferiores) quanto não negligenciam a pregação. Porque as suas viúvas eram esquecidas: pois aqueles (os hebreus) eram tratados como pessoas de maior consideração (αἰδεσιμώτεροι). Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de bom testemunho, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, os quais constituiremos sobre este ofício. Nós, porém, nos entregaremos continuamente à oração e ao ministério da palavra. E a palavra agradou a toda a multidão: e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo
Observais como as questões exteriores sucedem às interiores? Eles não agem segundo seu próprio arbítrio, mas expõem suas razões à congregação. Assim deveria ser feito também agora. Não é razoável, diz ele, que abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Primeiro ele lhes propõe a desrazão da coisa; que não é possível que ambas as coisas se façam com a mesma atenção: assim como, quando estavam prestes a ordenar Matias, primeiro mostraram a necessidade da coisa, que faltava um, e era preciso que fossem doze. Assim também aqui mostraram a necessidade; e não o fizeram antes, mas esperaram até que o murmúrio se levantasse; nem, por outro lado, permitiram que isto se espalhasse longe. E eis que deixam a decisão a eles: aqueles que agradavam a todos, aqueles que de todos eram honestamente reputados, esses apresentam: não já doze, mas sete, cheios do Espírito e de sabedoria: de bom testemunho quanto à sua conduta. At 6,3
Bem dito: pois o necessário deve ceder precedência ao mais necessário. Mas vede como eles, ao mesmo tempo, tanto cuidam destas (questões inferiores) quanto não negligenciam a pregação. Porque as suas viúvas eram esquecidas: pois aqueles (os hebreus) eram tratados como pessoas de maior consideração (αἰδεσιμώτεροι).
Não diz simplesmente homens espirituais, mas cheios do Espírito e de sabedoria, pois era necessária grandíssima superioridade de espírito (φιλοσοφίας) para suportar as queixas das viúvas. Pois de que aproveita que o dispenseiro das esmolas não furte, se, todavia, tudo dissipa, ou é áspero e facilmente irritável? E escolheram a Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo.
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Ora, quando Matias havia de ser apresentado, disse-se: Importa, pois, que dentre estes homens que conviveram conosco todo aquele tempo (At 1,21); mas não assim aqui, pois o caso não era semelhante. E não lançam agora sortes; eles mesmos, na verdade, poderiam ter feito a eleição, movidos pelo Espírito; mas, não obstante, desejam o testemunho do povo. Determinar o número, e ordená-los, e tudo o que dissesse respeito a este ofício, competia-lhes a eles; mas a escolha dos homens remetem-na ao povo, para que não parecessem agir por favoritismo, assim como Deus também deixa a Moisés escolher, dentre os que ele conhecia, os anciãos (Nm 11,16). E de sabedoria. Pois, na verdade, é necessária muita sabedoria em tais ministérios. Não penseis que, por não lhe estar confiada a palavra, tal homem não tenha necessidade de sabedoria: dela necessita, e muito. Mas nós, diz ele, nos dedicaremos continuamente à oração e ao ministério da palavra.
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Não diz simplesmente homens espirituais, mas cheios do Espírito e de sabedoria, pois era necessária grandíssima superioridade de espírito (φιλοσοφίας) para suportar as queixas das viúvas. Pois de que aproveita que o dispenseiro das esmolas não furte, se, todavia, tudo dissipa, ou é áspero e facilmente irritável?
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Ora, quando Matias havia de ser apresentado, disse-se: Importa, pois, que dentre estes homens que conviveram conosco todo aquele tempo (At 1,21); mas não assim aqui, pois o caso não era semelhante. E não lançam agora sortes; eles mesmos, na verdade, poderiam ter feito a eleição, movidos pelo Espírito; mas, não obstante, desejam o testemunho do povo. Determinar o número, e ordená-los, e tudo o que dissesse respeito a este ofício, competia-lhes a eles; mas a escolha dos homens remetem-na ao povo, para que não parecessem agir por favoritismo, assim como Deus também deixa a Moisés escolher, dentre os que ele conhecia, os anciãos (Nm 11,16). E de sabedoria. Pois, na verdade, é necessária muita sabedoria em tais ministérios. Não penseis que, por não lhe estar confiada a palavra, tal homem não tenha necessidade de sabedoria: dela necessita, e muito.
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De novo intercedem por si mesmos, começando e concluindo com isto. Nos dedicaremos continuamente, diz ele. Pois assim convinha, não apenas praticar os atos em si, ou de qualquer modo fortuito, mas praticá-los continuamente. E o dito, diz-nos, agradou a toda a multidão (v. 5, 6). Também isto era digno de sua sabedoria. Todos aprovaram o que se disse, tão sensato era. E escolheram, diz o texto (de novo é o povo (αὐτοί) que escolhe), a Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e a Filipe, e a Prócoro, e a Nicanor, e a Timon, e a Parmenas, e a Nicolau, prosélito de Antioquia; os quais apresentaram diante dos apóstolos; e, tendo orado, impuseram-lhes as mãos. Separaram-nos da multidão, e é o povo (αὐτοί) que os traz, não os apóstolos que os conduzem. Observai como ele evita tudo o que é supérfluo: não conta de que modo isto se fez, mas que foram ordenados (ἐχειροτονήθησαν) com oração; pois este é o sentido de χειροτονία (isto é, a extensão da mão), ou ordenação: a mão do homem é imposta sobre a pessoa, mas toda a obra é de Deus, e é a Sua mão que toca a cabeça do que é ordenado, se devidamente ordenado for.
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De novo intercedem por si mesmos, começando e concluindo com isto. Nos dedicaremos continuamente, diz ele. Pois assim convinha, não apenas praticar os atos em si, ou de qualquer modo fortuito, mas praticá-los continuamente. E o dito, diz-nos, agradou a toda a multidão (v. 5, 6). Também isto era digno de sua sabedoria. Todos aprovaram o que se disse, tão sensato era. E escolheram, diz o texto (de novo é o povo (αὐτοί) que escolhe), a Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e a Filipe, e a Prócoro, e a Nicanor, e a Timon, e a Parmenas, e a Nicolau, prosélito de Antioquia; os quais apresentaram diante dos apóstolos; e, tendo orado, impuseram-lhes as mãos. Separaram-nos da multidão, e é o povo (αὐτοί) que os traz, não os apóstolos que os conduzem. Observai como ele evita tudo o que é supérfluo: não conta de que modo isto se fez, mas que foram ordenados (ἐχειροτονήθησαν) com oração; pois este é o sentido de χειροτονία (isto é, a extensão da mão), ou ordenação: a mão do homem é imposta sobre a pessoa, mas toda a obra é de Deus, e é a Sua mão que toca a cabeça do que é ordenado, se devidamente ordenado for. E a palavra de Deus, diz o texto, crescia; e multiplicava-se o número dos discípulos.
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E também nisto foi Filipe admirável: pois é dele que o escritor diz: E entramos na casa de Filipe, o Evangelista, que era um dos sete; e ficamos com ele (Atos 21:8). Notais como as coisas se ordenam de modo bem diverso do costume dos homens? E o número dos discípulos se multiplicava em Jerusalém.
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assim também os outros estavam cheios de fé; para que não sucedesse o mesmo que no caso de Judas, como no caso de Ananias e Safira — e Filipe, e Prócoro, e Nicanor, e Timon, e Parmenas, e Nicolau, prosélito de Antioquia: os quais apresentaram diante dos Apóstolos; e, havendo orado, lhes impuseram as mãos. E a palavra de Deus crescia; e o número dos discípulos se multiplicava grandemente em Jerusalém; e grande multidão dos sacerdotes obedecia à fé.
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assim também os outros estavam cheios de fé; para que não sucedesse o mesmo que no caso de Judas, como no caso de Ananias e Safira.
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Não é sem motivo que ele diz isto: mostra quão grande é a virtude da esmola e da boa ordem. E, como está para dilatar-se (αὔξειν), no que se segue, sobre o caso de Estêvão, antepõe primeiro as causas que a isso conduziram. E muitos, diz ele, dos sacerdotes obedeciam à fé. Pois, percebendo eles ser esse o pensamento de seu chefe e mestre, puseram a coisa à prova dos fatos. — É também motivo de admiração como a multidão não se dividiu na escolha dos homens, e como os Apóstolos não foram por ela rejeitados. Mas que espécie de posto ocupavam estes, e que espécie de ofício receberam, é isto o que nos cumpre aprender. Seria o de Diáconos? E, no entanto, não é assim nas Igrejas. Mas pertencerá aos Presbíteros essa administração? E, no entanto, ao presente não havia Bispo, mas somente os Apóstolos. Donde penso resultar clara e manifestamente que nem Diáconos nem Presbíteros é a sua designação: mas foi para este propósito particular que foram ordenados. E este ofício não lhes foi simplesmente entregue sem mais cerimônia, mas os Apóstolos oraram sobre eles, para que lhes fosse dado poder. Mas observai, peço-vos, que, se foi necessário sete homens para isto, proporcionalmente grandes deviam ser as somas de dinheiro que afluíam, e proporcionalmente grande também o número das viúvas. Assim, pois, as orações não foram feitas de modo displicente, mas com muita atenção deliberada: e este ofício, tanto quanto a pregação, foi assim levado a bom termo; pois o que faziam, efetuavam-no sobretudo por meio destas (suas orações). Assim podiam eles dedicar-se às coisas espirituais; assim ficavam também livres para empreender longas viagens; assim lhes foi confiada a palavra. Mas o escritor não diz isto, nem os louva, senão que não era razoável que deixassem a obra que lhes fora dada. Assim tinham sido ensinados pelo exemplo de Moisés a não empreender por si mesmos a administração de tudo (Números 11:14). Somente, diz-se, que nos lembrássemos dos pobres (Gálatas 2:10). E como os apresentaram? Jejuaram. Escolhei vós sete homens, etc.
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Havia, pois, uma ministração diária para as viúvas. E observai como ele a chama de ministração (διακονία), e não diretamente esmola: exaltando com isto ao mesmo tempo os que a faziam e aqueles a quem era feita. Eram negligenciadas. Isto não provinha de malícia, mas talvez do descuido da multidão. E por isso ele o expôs abertamente, pois não era este mal pequeno. Observai como, já desde o princípio, os males provinham não só de fora, mas também de dentro. Pois não deveis atentar somente para o fato de que isto foi corrigido, mas observar que era um grande mal que existisse. Então os doze, etc.
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Mas tornemos a examinar o que já foi dito. Varões de Israel, atendei a vós mesmos.
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Em Jerusalém a multidão crescia. Coisa admirável: onde Cristo fora morto, ali crescia a pregação! E não somente não sucedeu que alguns se escandalizassem então à maneira de Ananias, mas o temor se fez ainda maior: enquanto estes eram açoitados, aqueles ameaçavam, aqueles tentavam o Espírito, aqueles murmuravam. Mas quero que noteis em que circunstâncias a multidão crescia: depois destas provações, foi então que a multidão cresceu, e não antes. Notai também quão grande é a misericórdia de Deus. Daqueles mesmos príncipes dos sacerdotes, dos mesmos homens que se indignaram e se afligiram amargamente, e assim clamaram e disseram: Salvou a outros, a si mesmo não pode salvar (Mt 27:42); destes mesmos, diz, muitos obedeciam à fé.
A Ele, pois, imitemo-lo também nós. Ele os recebeu, e não os lançou fora. Assim retribuamos nós aos nossos inimigos, que nos causaram até males sem número. Todo bem que tivermos, repartamo-lo com eles: não os passemos por alto em nossos atos de beneficência. Pois, se devemos, sofrendo o mal, saciar-lhes a ira, muito mais devemos fazê-lo fazendo-lhes o bem: pois isto é coisa menor que aquilo. Porque não é o mesmo fazer bem a um inimigo e estar disposto a sofrer maiores males do que ele deseja infligir: de um passaremos ao outro. Esta é a dignidade dos discípulos de Cristo. Aqueles O crucificaram, quando Ele viera com o exato propósito de lhes fazer bem; a seus discípulos açoitaram; e, depois de tudo isto, Ele os admite à mesma honra que Seus discípulos, fazendo-os igualmente partícipes de Seus dons. Rogo-vos, sejamos imitadores de Cristo: nisto é possível imitá-lO: isto faz o homem semelhante a Deus: isto é mais que humano. Apeguemo-nos à Misericórdia: ela é a mestra e a doutora daquela Sabedoria mais alta. Quem aprendeu a mostrar misericórdia aos aflitos, aprenderá também a não se ressentir das injúrias; quem aprendeu isto, será capaz de fazer bem até aos seus inimigos. Aprendamos a compadecer-nos dos males que nossos próximos sofrem, e aprenderemos a suportar os males que eles nos infligem. Perguntemos ao próprio que nos maltrata, se ele mesmo não se condena? Não gostaria ele de mostrar um espírito mais nobre (φιλοσοφεἵν)? Não há de reconhecer que seu comportamento não é senão paixão, que é mesquinho, digno de dó? Não preferiria ele estar entre os que são injuriados e se calam, e não entre os que fazem a injúria, e estão fora de si de paixão? Poderia ele afastar-se sem admirar o que sofre com paciência? Não penseis que isto torna os homens desprezíveis. Nada torna os homens tão desprezíveis quanto o comportamento insolente e injurioso: nada os torna tão respeitáveis quanto suportar a insolência e a injúria. Pois um é rufião, o outro é filósofo; um é menos que homem, o outro é igual aos anjos. Pois, ainda que seja inferior ao que o agride, tem, contudo, o poder, se o quisesse, de vingar-se. E, além disso, um é compadecido por todos, o outro odiado. Que se segue, pois? O primeiro será muito melhor dos dois: pois todos tratarão um como louco, o outro como homem sensato. Não se pode falar mal dele: sim, temes, diz alguém, que talvez ele não seja tal (como o representas). O melhor é que não fales mal nem sequer em pensamento; depois, que não o digas a outrem. Não ores, pois, a Deus contra este homem: se o ouvires ser mal falado, toma o seu partido: dize: foi a paixão que proferiu tais palavras, não o homem; dize: foi a ira, não o meu amigo: sua loucura, não seu coração. Assim consideremos cada ofensa. Não espereis que o fogo se acenda, mas contende-o antes que a isto chegue: não exasperes a fera selvagem, antes não permitas que ela se exaspere: pois já não a poderás conter, uma vez acesa a chama. Pois que te chamou o homem? Tolo e insensato. E quem, então, é digno desse nome? O chamado, ou quem chama? Pois um, por mais sábio que seja, adquire a fama de tolo: mas o outro, ainda que seja insensato, ganha crédito de sábio e de temperamento filosófico. Dizei, quem é o insensato? Aquele que alega contra outrem o que não é verdade, ou aquele que, mesmo sob tal tratamento, permanece impassível? Pois, se é sinal de verdadeira filosofia permanecer impassível ainda quando provocado; cair em paixão quando ninguém provoca à ira — que loucura é essa! Não digo ainda quão severo castigo está reservado àqueles que proferem tais impropérios e injúrias contra o próximo. Mas como? Chamou-te ele de sujeito baixo e de baixo nascimento, criatura sórdida e de origem sórdida? De novo voltou o insulto contra si mesmo. Pois o outro parecerá digno e respeitável, mas ele mesmo, na verdade, uma criatura sórdida: pois lançar tais coisas em rosto, isto é, a humildade do nascimento, como afronta, é coisa deveras mesquinha: ao passo que o outro será tido por caráter grande e admirável, porque nada considera tal ultraje, e não se afeta mais por ele do que se lhe dissessem ter consigo qualquer outra circunstância ordinária e de todo indiferente. Mas chama-te ele de adúltero, e coisas semelhantes? Disto até podes rir: pois, quando a consciência não é ferida, não pode haver ocasião para a ira. * * Pois, quando alguém considera que más e vergonhosas revelações ele faz, ainda assim não há necessidade de afligir-se. Ele apenas expôs agora o que todos, mais tarde, haveriam de saber: entretanto, quanto a si mesmo, mostrou a todos que não é digno de confiança, pois não sabe encobrir as faltas do próximo: desonrou-se a si mesmo mais do que ao outro; fechou contra si mesmo todo porto; tornou terrível para si mesmo o tribunal perante o qual há de ser julgado no futuro. Pois não será a pessoa (cujos segredos foram traídos) o objeto da aversão de todos, mas aquele que, onde não devia ter levantado o véu, arrancou as vestes. Mas não digas nada dos segredos que conheces, guarda silêncio se queres levar boa fama. Pois não somente hás de subvert [truncado]
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Não é sem motivo que ele diz isto: mostra quão grande é a virtude da esmola e da boa ordem. E, como está para dilatar-se (αὔξειν), no que se segue, sobre o caso de Estêvão, antepõe primeiro as causas que a isso conduziram. E muitos, diz ele, dos sacerdotes obedeciam à fé. Pois, percebendo eles ser esse o pensamento de seu chefe e mestre, puseram a coisa à prova dos fatos. — É também motivo de admiração como a multidão não se dividiu na escolha dos homens, e como os Apóstolos não foram por ela rejeitados. Mas que espécie de posto ocupavam estes, e que espécie de ofício receberam, é isto o que nos cumpre aprender. Seria o de Diáconos? E, no entanto, não é assim nas Igrejas. Mas pertencerá aos Presbíteros essa administração? E, no entanto, ao presente não havia Bispo, mas somente os Apóstolos. Donde penso resultar clara e manifestamente que nem Diáconos nem Presbíteros é a sua designação: mas foi para este propósito particular que foram ordenados. E este ofício não lhes foi simplesmente entregue sem mais cerimônia, mas os Apóstolos oraram sobre eles, para que lhes fosse dado poder. Mas observai, peço-vos, que, se foi necessário sete homens para isto, proporcionalmente grandes deviam ser as somas de dinheiro que afluíam, e proporcionalmente grande também o número das viúvas. Assim, pois, as orações não foram feitas de modo displicente, mas com muita atenção deliberada: e este ofício, tanto quanto a pregação, foi assim levado a bom termo; pois o que faziam, efetuavam-no sobretudo por meio destas (suas orações). Assim podiam eles dedicar-se às coisas espirituais; assim ficavam também livres para empreender longas viagens; assim lhes foi confiada a palavra. Mas o escritor não diz isto, nem os louva, senão que não era razoável que deixassem a obra que lhes fora dada. Assim tinham sido ensinados pelo exemplo de Moisés a não empreender por si mesmos a administração de tudo (Números 11:14). Somente, diz-se, que nos lembrássemos dos pobres (Gálatas 2:10). E como os apresentaram? Jejuaram.
E também nisto Filipe era admirável: pois é dele que o escritor diz: E entramos na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete; e ficamos com ele — At 21,8. Notai como as coisas são ordenadas de modo bem diverso do costume dos homens?
Pois é possível ter-se uma graça que não consiste em obras de cura: a um, com efeito, é dada a graça do Espírito (1 Cor 12,8-9) de tal ou qual maneira (τοιὣσδε). Mas aqui, parece-me, diz-se que ele era também gracioso ao olhar: Viram o seu rosto como se fosse o rosto de um anjo.
Vede como, mesmo entre os sete, um se destacava, e obteve o primeiro prêmio. Pois, embora a ordenação lhes fosse comum, a ele e a eles, contudo atraiu sobre si maior graça. E observai como ele não operou sinais e prodígios antes deste tempo, mas somente quando se tornou publicamente conhecido; para mostrar que a graça só não basta, mas é necessária também a ordenação; de modo que houve um acréscimo ulterior do Espírito. Pois, se eles estavam cheios do Espírito, era daquele que provém da Pia do Batismo. Então se levantaram alguns dos da sinagoga.
Vede como, mesmo entre os sete, um se destacava, e obteve o primeiro prêmio. Pois, embora a ordenação lhes fosse comum, a ele e a eles, contudo atraiu sobre si maior graça. E observai como ele não operou sinais e prodígios antes deste tempo, mas somente quando se tornou publicamente conhecido; para mostrar que a graça só não basta, mas é necessária também a ordenação; de modo que houve um acréscimo ulterior do Espírito. Pois, se eles estavam cheios do Espírito, era daquele que provém da Pia do Batismo.
Vede como, mesmo entre os sete, um se destacava, e obteve o primeiro prêmio. Pois, embora a ordenação lhes fosse comum, a ele e a eles, contudo atraiu sobre si maior graça. E observai como ele não operou sinais e prodígios antes deste tempo, mas somente quando se tornou publicamente conhecido; para mostrar que a graça só não basta, mas é necessária também a ordenação; de modo que houve um acréscimo ulterior do Espírito. Pois, se eles estavam cheios do Espírito, era daquele que provém da Pia do Batismo. «Então se levantaram alguns dos da sinagoga» (v. 9). De novo emprega ele o termo «levantar-se» (anastasin, Hom. xiii, p. 81), para designar a exasperação e a ira deles. Aqui temos uma grande multidão. E observai a diferença na forma da acusação: pois, uma vez que Gamaliel os havia impedido de encontrar motivo de censura sob o pretexto anterior, trazem agora outra acusação. «E levantaram-se, diz, alguns dos da sinagoga dos chamados (thon legomenon; Edd. thes legomenes) Libertinos, e dos cirineus e alexandrinos, e dos da Cilícia e da Ásia, discutindo com Estêvão. E não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que ele falava. Então subornaram homens, que disseram: Ouvimo-lo falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus» (v. 9-12). Para que possam firmar a acusação, a expressão é: «fala contra Deus e contra Moisés». E foi também com este propósito que disputavam, para o forçarem a dizer algo. Mas ele agora discorria mais abertamente, e talvez falasse da cessação da Lei divina; ou, se não o disse, ao menos o deu a entender: pois, se tivesse falado claramente, não haveria necessidade de homens subornados, nem tampouco de falsas testemunhas. As sinagogas eram diversas: «dos cirineus», isto é, os das regiões além de Alexandria. Ali também parecem ter tido sinagogas segundo as suas diversas nações; pois muitos ali permaneciam, para não serem obrigados a viajar continuamente. Os Libertinos talvez fossem libertos dos romanos. Como havia ali muitos estrangeiros habitando, assim tinham as suas sinagogas, onde a Lei era lida. «Discutindo com Estêvão.» Observai-o: não assumindo por si mesmo o ensinar, mas a isso forçado. Os milagres trouxeram-lhe de novo malquerença; mas quando venceu na argumentação, foi falso testemunho! Pois não queriam matar — intolerável para eles. «Não podiam resistir, etc.: então subornaram homens.» Em toda parte, não sumariamente, mas por meio de uma sentença, para que também lhes ferissem a reputação: e, deixando aqueles (os Apóstolos), atacam estes (os discípulos), pensando deste modo aterrorizar também àqueles. Não dizem «ele fala», mas «ele não cessa de falar». «E excitaram o povo, e os anciãos, e os escribas; e, vindo sobre ele, prenderam-no, e o levaram ao concílio, e apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este lugar santo e contra a lei» (v. 12-13). «Não cessa», dizem eles, como se ele fizesse disso o seu ofício. «Pois ouvimo-lo dizer que este Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar, e mudará os costumes que Moisés nos transmitiu» (v. 14). «Jesus», dizem eles, «o Nazareno» — como termo de opróbrio — «destruirá este lugar, e mudará os costumes». Isto é também o que disseram acerca de Cristo: «Tu que destróis este templo» (Mt 27,40). Pois grande era a veneração que tinham pelo Templo (visto que, com efeito, haviam escolhido deixar a própria pátria (metoikein) para dele estarem próximos) e pelo nome de Moisés. A acusação é dupla. Se Ele «há de mudar os costumes», introduzirá também outros em seu lugar: observai como a acusação é amarga, e carregada de perigos. «E todos os que estavam assentados no concílio, fixando os olhos nele, viram o seu rosto como se fosse o rosto de um anjo» (v. 15). Tão possível é, até mesmo a alguém de grau inferior, resplandecer. Pois que, pergunto, tinha este homem a menos que os Apóstolos? Não lhe faltavam milagres, e grande era a ousadia que manifestava. — «Viram o seu rosto», diz, «como se fosse o rosto de um anjo» (Êx 34,30). Pois esta era a sua graça, esta era a glória de Moisés. Deus o fez assim gracioso (epicharin) de semblante, agora que estava para dizer algo, para que, desde logo, pelo próprio olhar, os infundisse de temor. Pois há, sim, há rostos repletos de graça espiritual, amáveis aos que amam, terríveis aos que odeiam e são inimigos. Menciona também a razão pela qual suportaram o seu discurso. — «Então», prossegue, «disse o sumo sacerdote: Assim são estas coisas?» (cap. 7,1). Observai que a pergunta é feita com brandura, para que ele possa efetuar algum grande mal. Por esta razão, também Estêvão começa o seu discurso em tom de mansidão, e diz: «Varões irmãos e pais, ouvi: O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã» (v. 2). Logo de início derruba a presunção deles, e faz aparecer, por aquilo que diz, que o templo nada é, que tampouco os costumes são nada, sem que eles suspeitem do seu intento; e também que não hão de vencer a pregação; e que, de coisas impotentes (amechanon), Deus sempre arquiteta para si instrumentos poderosos (eumechana). Notai, pois, como estes fios compõem a trama de todo o discurso: e além disso, que, tendo sempre desfrutado de bondade excessiva, ainda assim retribuíram ao seu Benfeitor com a conduta oposta, e que agora tentam coisas impossíveis. «O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de vir a Harã.» Nem o templo existia, nem o sacrifício existia, e contudo a Abraão foi concedida uma visão de Deus, e contudo tinha ele persas por antepassados, e estava em terra estranha. E faz bem, ao começar o seu discurso, em chamá-Lo «o Deus da glória»: visto que Ele tornou gloriosos os que careciam de honra. «Porque» (diz ele) «foi Ele quem os fez gloriosos, também a nós fará». Observai como ele os afasta das coi [texto truncado]
De onde, pergunto-vos, floresceu aquela graça sobre o semblante de Estêvão? (Recapitulação.) O escritor já antes lhe atribuíra este testemunho, que era cheio de fé (At 6,8). Pois é possível ter-se uma graça que não consiste em obras de cura: a um, com efeito, é dada a graça do Espírito (1 Cor 12,8-9) de tal ou qual maneira (τοιὣσδε). Mas aqui, parece-me, diz-se que ele era também gracioso ao olhar: Viram o seu rosto como se fosse o rosto de um anjo.
De novo emprega ele o termo «levantar-se» (ἀνάστασιν, Hom. xiii, p. 81), para designar a exasperação e a ira deles. Aqui temos uma grande multidão. E observai a diferença na forma da acusação: pois, uma vez que Gamaliel os havia impedido de encontrar motivo de censura sob o pretexto anterior, trazem agora outra acusação. E levantaram-se, diz, alguns dos da sinagoga dos chamados (τὥν λεγομένων. Edd. τἥς λεγομένης) Libertinos, e dos cirineus e alexandrinos, e dos da Cilícia e da Ásia, discutindo com Estêvão. E não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que ele falava. Então subornaram homens, que disseram: Ouvimo-lo falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus.
De novo emprega ele o termo «levantar-se» (ἀνάστασιν, Hom. xiii, p. 81), para designar a exasperação e a ira deles. Aqui temos uma grande multidão. E observai a diferença na forma da acusação: pois, uma vez que Gamaliel os havia impedido de encontrar motivo de censura sob o pretexto anterior, trazem agora outra acusação.
Ainda que fossem sobremaneira desavergonhados, tão poderosamente isso os derrubou, por mais que fizessem com suas absurdas invenções (como o dito de que Ele tinha demônio — Ele que expulsava demônios!). Pois a batalha não era de homens, mas de Deus contra os homens. E muitos se haviam coligado; não somente os de Jerusalém, mas também outros.
Ó desavergonhados! Cometeis obras blasfemas e nada estimais isso. Por isso é acrescentado Moisés — porque as coisas de Deus não lhes eram de grande importância: e é sempre e constantemente Moisés que mencionam: Este Moisés, que nos tirou. At 7:40. E incitaram o povo.
No caso dos Apóstolos, indignavam-se de que pregassem a Ressurreição, e de que muito povo a eles afluísse; mas neste caso, de que curavam as enfermidades das pessoas. At 4:2. As coisas pelas quais deveriam dar graças, fizeram delas motivo de acusação: ó loucura! Os homens que por obras os venceram, esperavam vencer por palavras! É exatamente o que fizeram no caso de Cristo, e sempre os forçaram às palavras. Pois tinham vergonha de prendê-los sem mais delongas, não tendo nada de que os acusar. E observai: não são as próprias pessoas que os levam a juízo que testemunham contra eles, pois seriam refutadas; mas simplesmente alugam outros, para que não parecesse ser um ato de mera violência. Tudo isso é da mesma têmpera do que procederam no caso de Cristo. E observai o poder da pregação: ainda que não somente açoitados, mas apedrejados, ela contudo prevalece; não somente arrastados ao tribunal como simples particulares, mas atacados de todos os lados; e, sendo suas próprias testemunhas os inimigos, não só estes foram vencidos, mas nem sequer puderam resistir
Para que estabelecessem a acusação, é dito: ele fala contra Deus e contra Moisés. E com este propósito também disputavam, para que o forçassem a dizer algo. Mas ele agora discorria mais abertamente, e talvez falasse da cessação da Lei Divina; ou não o disse, mas o deu a entender: pois, se tivesse falado claramente, não haveria necessidade de homens subornados, nem tampouco de falsas testemunhas. As sinagogas eram diversas: [a saber, a dos Libertinos]: a dos Cireneus, isto é, os das regiões além de Alexandria [a dos Alexandrinos, etc.]. Também ali parece que tinham sinagogas segundo suas diferentes nações; pois muitos ali permaneciam, para não serem obrigados a viajar continuamente. Os Libertinos talvez fossem libertos dos Romanos. Como havia ali muitos estrangeiros habitando, assim tinham suas sinagogas, onde a Lei havia de ser lida. Disputando com Estêvão. Observai-o: não tomando sobre si o ensinar, mas a isso forçado. Os milagres novamente o trouxeram à malquerença; mas quando venceu no argumento, foi o falso testemunho! Pois não queriam matá-lo... intolerável lhes era. Não podiam resistir, etc.: então subornaram homens. Em toda parte, imediatamente, mas por meio de uma sentença, para que também lhe ferissem a reputação: e deixando aqueles (os Apóstolos), atacam estes (os discípulos), pensando desta maneira aterrorizar também aqueles. Não dizem: ele fala, mas: ele não cessa de falar. E incitaram o povo, e os anciãos, e os escribas, e vieram sobre ele, e o prenderam, e o levaram ao concílio, e apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de falar palavras blasfemas contra este lugar santo e a lei (vv. 12-13). Não cessa, dizem eles, como se disso fizesse seu ofício. Pois ouvimos-lhe dizer que este Jesus de Nazaré há de destruir este lugar, e há de mudar os costumes que Moisés nos entregou.
No caso dos Apóstolos, indignavam-se de que pregassem a Ressurreição, e de que muito povo a eles afluísse; mas neste caso, de que curavam as enfermidades das pessoas. At 4:2. As coisas pelas quais deveriam dar graças, fizeram delas motivo de acusação: ó loucura! Os homens que por obras os venceram, esperavam vencer por palavras! É exatamente o que fizeram no caso de Cristo, e sempre os forçaram às palavras. Pois tinham vergonha de prendê-los sem mais delongas, não tendo nada de que os acusar. E observai: não são as próprias pessoas que os levam a juízo que testemunham contra eles, pois seriam refutadas; mas simplesmente alugam outros, para que não parecesse ser um ato de mera violência. Tudo isso é da mesma têmpera do que procederam no caso de Cristo. E observai o poder da pregação: ainda que não somente açoitados, mas apedrejados, ela contudo prevalece; não somente arrastados ao tribunal como simples particulares, mas atacados de todos os lados; e, sendo suas próprias testemunhas os inimigos, não só estes foram vencidos, mas nem sequer puderam resistir (At 6:10), ainda que fossem sobremaneira desavergonhados: tão poderosamente isso os derrubou, por mais que fizessem com suas absurdas invenções (como o dito de que Ele tinha demônio — Ele que expulsava demônios!). Pois a batalha não era de homens, mas de Deus contra os homens. E muitos se haviam coligado; não somente os de Jerusalém, mas também outros. At 6:9. Pois ouvimo-lo, dizem eles, falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus. At 6:11. Ó desavergonhados! Cometeis obras blasfemas e nada estimais isso. Por isso é acrescentado Moisés — porque as coisas de Deus não lhes eram de grande importância: e é sempre e constantemente Moisés que mencionam: Este Moisés, que nos tirou. At 7:40. E incitaram o povo. At 6:12. Inconstância da multidão! E, contudo, como poderia um homem que fosse blasfemo ter tido tal êxito? Como poderia um blasfemo operar tais milagres entre o povo? Mas a multidão indisciplinada fortalecia aqueles que levavam a pior (no argumento) — isto era o que mais os indignava.
Para que estabelecessem a acusação, é dito: ele fala contra Deus e contra Moisés. E com este propósito também disputavam, para que o forçassem a dizer algo. Mas ele agora discorria mais abertamente, e talvez falasse da cessação da Lei Divina; ou não o disse, mas o deu a entender: pois, se tivesse falado claramente, não haveria necessidade de homens subornados, nem tampouco de falsas testemunhas. As sinagogas eram diversas: [a saber, a dos Libertinos]: a dos Cireneus, isto é, os das regiões além de Alexandria [a dos Alexandrinos, etc.]. Também ali parece que tinham sinagogas segundo suas diferentes nações; pois muitos ali permaneciam, para não serem obrigados a viajar continuamente. Os Libertinos talvez fossem libertos dos Romanos. Como havia ali muitos estrangeiros habitando, assim tinham suas sinagogas, onde a Lei havia de ser lida. Disputando com Estêvão. Observai-o: não tomando sobre si o ensinar, mas a isso forçado. Os milagres novamente o trouxeram à malquerença; mas quando venceu no argumento, foi o falso testemunho! Pois não queriam matá-lo... intolerável lhes era. Não podiam resistir, etc.: então subornaram homens. Em toda parte, imediatamente, mas por meio de uma sentença, para que também lhe ferissem a reputação: e deixando aqueles (os Apóstolos), atacam estes (os discípulos), pensando desta maneira aterrorizar também aqueles. Não dizem: ele fala, mas: ele não cessa de falar. E incitaram o povo, e os anciãos, e os escribas, e vieram sobre ele, e o prenderam, e o levaram ao concílio, e apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de falar palavras blasfemas contra este lugar santo e a lei (vv. 12-13). Não cessa, dizem eles, como se disso fizesse seu ofício.
Inconstância da multidão! E, contudo, como poderia um homem que fosse blasfemo ter tido tal êxito? Como poderia um blasfemo operar tais milagres entre o povo? Mas a multidão indisciplinada fortalecia aqueles que levavam a pior (no argumento) — isto era o que mais os indignava. Ouvimo-lo, dizem eles, falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus.
Ouvimo-lo, dizem eles, falar palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus (At 6:13); e outra vez: Este homem não cessa de falar palavras blasfemas contra este lugar santo e a lei, e com um acréscimo, os costumes que Moisés nos entregou (At 6:14); Moisés, e não Deus. Sob a suposição de um desígnio de subverter o seu modo de vida (πολιτείας), acusaram-no também de impiedade. Mas, para mostrar que não estava na natureza de tal homem dizer tais coisas, e asperamente [Então todos, diz, quantos estavam no concílio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como se fora o rosto de um anjo] (At 6:15): tão manso era ele até no semblante. Pois, nos casos em que as pessoas não eram falsamente acusadas, a Escritura nada menciona deste gênero; mas, como neste caso tudo era falsa acusação, com razão Deus a corrige pelo próprio aspecto do homem. Pois os Apóstolos, na verdade, não foram falsamente acusados, mas apenas proibidos; este, porém, é falsamente acusado: e por isso, antes de tudo, o seu semblante intercede por ele. Isto confundiu até o sumo sacerdote. E disse, etc. (At 7:1). Mostra aqui que a promessa foi feita antes do Lugar, antes da Circuncisão, antes do Sacrifício, antes do Templo, e que não foi por mérito deles que receberam a Circuncisão ou a Lei, mas que a terra foi a recompensa somente da obediência. Além disso, que nem mesmo com a instituição da circuncisão a promessa recebe seu cumprimento. Também, que estas coisas eram figuras, como o foi também o deixar sua terra por mandado de Deus — não contra a lei (pois pátria e lar é onde Deus houver de conduzir): Então saiu ele, diz, da terra dos Caldeus (At 7:4) — e que, se alguém observar de perto o assunto, os judeus são de origem persa: e que, sem milagres, deve-se fazer o que Deus ordena, quaisquer que sejam as dificuldades resultantes; visto que o Patriarca deixou tanto o sepulcro de seu pai quanto tudo o que possuía, em obediência ao mandado de Deus. Mas se ao pai de Abraão não foi permitido tomar parte com ele no privilégio de migrar para a Palestina, por ser indigno: muito mais serão os filhos (por fim excluídos), por mais que tenham percorrido um bom trecho do caminho.
e outra vez: Este homem não cessa de proferir palavras blasfemas contra este lugar santo e a lei, e com um acréscimo, os costumes que Moisés nos entregou (At 6,14); Moisés, não Deus. Sob a suposição de um desígnio de subverter o seu modo de vida (πολιτείας), acusaram-no também de impiedade. Mas, para mostrar que não era próprio de tal homem falar tais coisas, e asperamente [Então todos, diz, os que estavam no conselho, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como se fora o rosto de um anjo]
Jesus, dizem eles, o Nazareno, como termo de opróbrio, destruirá este lugar e mudará os costumes. Isto é também o que disseram acerca de Cristo: Tu que destróis este templo (Mt 27,40). Pois grande era a sua veneração pelo Templo (como de fato haviam escolhido deixar a sua própria pátria (μετοικεἴν) para estarem perto dele) e pelo nome de Moisés. A acusação é dupla. Se Ele mudar os costumes, também introduzirá outros em seu lugar: observai quão amarga é a acusação, e carregada de perigos. E todos os que estavam assentados no conselho, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como se fora o rosto de um anjo.
Jesus, dizem eles, o Nazareno, como termo de opróbrio, destruirá este lugar e mudará os costumes. Isto é também o que disseram acerca de Cristo: Tu que destróis este templo (Mt 27,40). Pois grande era a sua veneração pelo Templo (como de fato haviam escolhido deixar a sua própria pátria (μετοικεἴν) para estarem perto dele) e pelo nome de Moisés. A acusação é dupla. Se Ele mudar os costumes, também introduzirá outros em seu lugar: observai quão amarga é a acusação, e carregada de perigos.
tão manso era ele até mesmo no semblante. Pois, nos casos em que as pessoas não foram falsamente acusadas, a Escritura não menciona nada semelhante; mas, como neste caso tudo era falsa acusação, com razão Deus o retifica pelo próprio aspecto do homem. Pois os Apóstolos, na verdade, não foram falsamente acusados, mas proibidos; este, porém, é falsamente acusado; e por isso, antes de tudo o mais, o seu semblante intercede por ele. Isto envergonhou até o sumo sacerdote. E disse ele, etc.
Cheio de fé e de poder (At 6,15), o que é também o testemunho dado a Barnabé: era ele varão bom, cheio de fé e do Espírito Santo (At 11,24). Donde aprendemos que os sinceros e inocentes são, acima de todos os demais, os homens a serem salvos, e que estes mesmos são também os mais cheios de graça. Então subornaram homens, que disseram: Ouvimo-lo falar palavras blasfemas.
Tão possível é, pois, até a alguém de grau inferior resplandecer. Pois que, pergunto eu, tinha este homem menos do que os Apóstolos? Não lhe faltaram milagres, e grande foi a ousadia que exibiu. — Viram o seu rosto, diz, como se fora o rosto de um anjo (Êx 34,30). Pois esta era a sua graça, esta era a glória de Moisés. Deus o fez assim gracioso (ἐπίχαριν) de semblante, agora que estava para dizer algo, de modo a, desde logo, pelo próprio aspecto, infundir-lhes reverência. Pois há, sim, há rostos repletos de graça espiritual, amáveis para os que amam, terríveis para os que odeiam e para os inimigos. Menciona também a razão pela qual suportaram a sua oração
Cheio de fé e de poder (At 6,15), o que é também o testemunho dado a Barnabé: era ele varão bom, cheio de fé e do Espírito Santo (At 11,24). Donde aprendemos que os sinceros e inocentes são, acima de todos os demais, os homens a serem salvos, e que estes mesmos são também os mais cheios de graça.
Tão possível é, pois, até a alguém de grau inferior resplandecer. Pois que, pergunto eu, tinha este homem menos do que os Apóstolos? Não lhe faltaram milagres, e grande foi a ousadia que exibiu. — Viram o seu rosto, diz, como se fora o rosto de um anjo (Êx 34,30). Pois esta era a sua graça, esta era a glória de Moisés. Deus o fez assim gracioso (ἐπίχαριν) de semblante, agora que estava para dizer algo, de modo a, desde logo, pelo próprio aspecto, infundir-lhes reverência. Pois há, sim, há rostos repletos de graça espiritual, amáveis para os que amam, terríveis para os que odeiam e para os inimigos. Menciona também a razão pela qual suportaram a sua oração.
Observai: a pergunta é feita com brandura, para que ele possa efetuar algum grande malefício. Por esta razão também Estêvão começa o seu discurso em tom de mansidão.
Mostra aqui que a promessa foi feita antes do Lugar, antes da Circuncisão, antes do Sacrifício, antes do Templo, e que não foi por mérito deles que receberam a Circuncisão ou a Lei, mas que a terra foi a recompensa da obediência somente. Além disso, que nem mesmo com a instituição da circuncisão a promessa recebe seu cumprimento. Também que estas coisas eram figuras, e assim também o abandono de sua pátria por mandado de Deus — não contra a lei (pois lar e pátria é onde Deus conduzir): Então saiu ele, diz, da terra dos caldeus.
Observai: a pergunta é feita com brandura, para que ele possa efetuar algum grande malefício. Por esta razão também Estêvão começa o seu discurso em tom de mansidão, e diz: Varões, irmãos e pais, ouvi; O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã.
Imediatamente, logo no início, ele derruba a presunção deles, e faz aparecer, por aquilo que diz, que o templo não é nada, que os costumes tampouco são nada, sem que eles suspeitem de sua intenção: também que não hão de vencer a pregação; e que a partir de coisas impotentes (ἀ μηχάνων) Deus sempre concebe para Si instrumentos poderosos (εὐμήχανα). Notai, pois, como estes fios tecem a trama de todo o discurso: e, ademais, que tendo sempre gozado de excessiva bondade, retribuíram todavia ao seu Benfeitor com conduta oposta, e que agora tentam coisas impossíveis. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando estava na Mesopotâmia, antes que viesse a Harã. Nem o templo existia, nem o sacrifício existia, e contudo uma visão de Deus foi concedida a Abraão, e contudo tinha ele persas por antepassados, e estava em terra estranha. E faz bem, no início do seu discurso, em chamá-Lo o Deus da glória: visto que Ele fez gloriosos aqueles que são sem honra. Porque (diz ele) foi Ele quem os fez gloriosos, Ele também nos fará. Observai como ele os afasta das coisas do corpo, do lugar, em primeiro lugar, visto que o lugar estava em questão. O Deus da glória, diz ele: implicando, uma vez mais, que Ele não necessita da glória que vem de nós, que vem por meio do Templo: pois Ele mesmo é a Fonte dela. Não penseis, ele diria, glorificá-Lo desta maneira. E de tua parentela. Como, então, diz a Escritura, que o pai de Abraão estava disposto a sair? Daqui aprendemos que foi em consequência da visão de Abraão que seu pai foi movido a associar-se à migração. Gênesis 11:31
Imediatamente, logo no início, ele derruba a presunção deles, e faz aparecer, por aquilo que diz, que o templo não é nada, que os costumes tampouco são nada, sem que eles suspeitem de sua intenção: também que não hão de vencer a pregação; e que a partir de coisas impotentes (ἀ μηχάνων) Deus sempre concebe para Si instrumentos poderosos (εὐμήχανα). Notai, pois, como estes fios tecem a trama de todo o discurso: e, ademais, que tendo sempre gozado de excessiva bondade, retribuíram todavia ao seu Benfeitor com conduta oposta, e que agora tentam coisas impossíveis. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, quando estava na Mesopotâmia, antes que viesse a Harã. Nem o templo existia, nem o sacrifício existia, e contudo uma visão de Deus foi concedida a Abraão, e contudo tinha ele persas por antepassados, e estava em terra estranha. E faz bem, no início do seu discurso, em chamá-Lo o Deus da glória: visto que Ele fez gloriosos aqueles que são sem honra. Porque (diz ele) foi Ele quem os fez gloriosos, Ele também nos fará. Observai como ele os afasta das coisas do corpo, do lugar, em primeiro lugar, visto que o lugar estava em questão. O Deus da glória, diz ele: implicando, uma vez mais, que Ele não necessita da glória que vem de nós, que vem por meio do Templo: pois Ele mesmo é a Fonte dela. Não penseis, ele diria, glorificá-Lo desta maneira. E de tua parentela. Como, então, diz a Escritura, que o pai de Abraão estava disposto a sair? Daqui aprendemos que foi em consequência da visão de Abraão que seu pai foi movido a associar-se à migração. Gênesis 11:31 E disse-lhe: Sai de tua terra, e de tua parentela, e vem para a terra que eu te mostrarei.
Mostra-se quão longe estão estes homens de ser filhos de Abraão, quão obediente ele foi. E da tua parentela. Reflexões incômodas (φορτικὰ), ambas: que ele suportou os trabalhos, enquanto vós colheis os frutos, e que todos os vossos antepassados estavam em má condição. Então saiu ele da terra dos caldeus, e habitou em Harã; e dali, morto seu pai, Deus o transferiu para esta terra, na qual agora habitais. E não lhe deu nela herança alguma, nem sequer para pôr o pé (v. 4-5). Vede como ele eleva os pensamentos deles para longe (da posse) da terra. Pois se Ele disse que a daria, claramente [tudo procedeu dEle], e nada deles mesmos. Pois ele partiu, tendo deixado tanto a parentela quanto a pátria. Por que, então, não lha deu? Em verdade, era figura de outra terra. E prometeu dá-la a ele. Percebeis que ele não apenas retoma o fio do discurso? Não lhe deu, diz ele; e prometeu; e à sua descendência depois dele, quando ainda não tinha filho algum. Novamente, o que Deus pode fazer: que a partir das impossibilidades, Ele tudo realiza. Pois eis um homem na Pérsia, tão distante, e a este homem Deus diz que fará senhor da Palestina. Mas voltemos ao que antes foi dito.
Mostra-se quão longe estão estes homens de ser filhos de Abraão, quão obediente ele foi. E da tua parentela. Reflexões incômodas (φορτικὰ), ambas: que ele suportou os trabalhos, enquanto vós colheis os frutos, e que todos os vossos antepassados estavam em má condição. Então saiu ele da terra dos caldeus, e habitou em Harã; e dali, morto seu pai, Deus o transferiu para esta terra, na qual agora habitais. E não lhe deu nela herança alguma, nem sequer para pôr o pé (v. 4-5). Vede como ele eleva os pensamentos deles para longe (da posse) da terra. Pois se Ele disse que a daria, claramente [tudo procedeu dEle], e nada deles mesmos. Pois ele partiu, tendo deixado tanto a parentela quanto a pátria. Por que, então, não lha deu? Em verdade, era figura de outra terra. E prometeu dá-la a ele. Percebeis que ele não apenas retoma o fio do discurso? Não lhe deu, diz ele; e prometeu; e à sua descendência depois dele, quando ainda não tinha filho algum. Novamente, o que Deus pode fazer: que a partir das impossibilidades, Ele tudo realiza. Pois eis um homem na Pérsia, tão distante, e a este homem Deus diz que fará senhor da Palestina. Mas voltemos ao que antes foi dito.
Donde, pergunto-vos, floresceu aquela graça sobre o rosto de Estêvão?
e que, se se examinar de perto a questão, os judeus são de origem persa; e que, sem milagres, é preciso fazer o que Deus ordena, sejam quais forem as dificuldades daí resultantes; pois o Patriarca deixou tanto o sepulcro de seu pai quanto tudo o que possuía, em obediência ao mandamento de Deus. Mas se ao pai de Abraão não foi permitido participar com ele do privilégio de migrar para a Palestina, por ser indigno, muito mais os filhos serão (por fim excluídos), ainda que tenham percorrido boa parte do caminho. E prometeu, diz o texto, dá-la a ele, e à sua descendência depois dele.
Aqui se mostra a grandeza tanto da bondade de Deus quanto da fé de Abraão. Pois a expressão quando ainda não tinha filho algum demonstra sua obediência e sua fé. Prometeu dá-la a ele e à sua descendência. E, no entanto, os acontecimentos mostravam o contrário: a saber, depois que ele veio, não teve sequer onde pôr o pé, não tinha filho algum; coisas estas mesmas que eram contrárias à sua fé.
Tendo visto estas coisas, recebamos nós também, do mesmo modo, tudo o que Deus prometer, por mais contrários que sejam os acontecimentos. E, contudo, no nosso caso, eles não são contrários, mas antes muito convenientes. Pois onde estão as promessas, ali, quando sobrevêm os contrários, estes são verdadeiramente contrários; mas no nosso caso dá-se exatamente o inverso: pois Ele nos disse que teríamos tribulação aqui, mas o nosso repouso ali. Por que confundimos os tempos? Por que invertemos as coisas? Dize-me: estás aflito, vives na pobreza e no abatimento? Não te perturbes; pois valeria a pena perturbar-se se estivesses destinado a ser afligido naquele mundo; quanto a esta aflição presente, ela é causa de repouso. Esta enfermidade, diz Ele, não é para a morte (Jo 11,4). Aquela aflição é castigo; esta, disciplina e correção. É um combate, esta vida presente; sendo assim, combater é agora o nosso ofício: é guerra e batalha. Na guerra, ninguém busca ter repouso; na guerra, ninguém busca ter vida regalada, ninguém se preocupa com riquezas, ninguém então cuida de esposa: a uma só coisa atenta, como há de vencer os inimigos. Seja esta também a nossa preocupação: se vencermos e voltarmos com a vitória, Deus nos dará todas as coisas. Seja este o nosso único empenho, como vencer o demônio; ainda que, afinal, não seja o nosso próprio empenho que o realiza, mas a graça de Deus é que faz toda a obra. Seja o nosso único empenho como atrair a Sua graça, como trazer a nós aquele auxílio. Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8,31). Façamos de uma só coisa o nosso empenho: que Ele não nos seja inimigo, que não Se afaste de nós.
Não é mal ser afligido; o mal é pecar. Esta é a aflição penosa, ainda que passemos os nossos dias no luxo — para não falar da vida futura, já é assim mesmo nesta vida presente. Pensai como a nossa consciência é aguilhoada pelo remorso, e se isto não é pior do que qualquer espécie de tormento! Gostaria de interrogar minuciosamente os que vivem em más ações (ἐν κακοῖς), se jamais chegam a refletir sobre os seus próprios pecados, se não tremem, se não estão em temor e angústia, se não julgam bem-aventurados os que vivem na abstinência, os dos montes, os da regra austera (τοὺς ἐν πολλῇ φιλοσοφίᾳ). Os apóstolos se alegravam quando açoitados. Paulo dá esta exortação, dizendo: Alegrai-vos no Senhor (Fp 4,4). E como pode haver alegria onde há grilhões, onde há tormentos, onde há tribunais? Ali, mais do que em toda parte, está a alegria. Mas dize: como pode haver alegria onde não há estas coisas? Pois aquele que não tem consciência de mal algum terá uma espécie de exultante deleite, de tal modo que, na mesma medida em que falares de tribulação, nessa mesma falarás do seu deleite. O soldado que recebeu inúmeras feridas e voltou para casa, não voltará ele com exultante alegria, tendo as suas feridas como título para falar com ousadia, e como testemunho da sua glória e renome? E tu, se puderes exclamar como Paulo: Trago nas minhas carnes as marcas de Jesus (Gl 6,17), poderás tornar-te grande, glorioso e renomado. Mas não há perseguição. Faze então oposição à glória; e se alguém disser algo contra ti, não temas ser malfalado por causa de Cristo; faze oposição à tirania do orgulho, ao combate da ira, ao tormento da concupiscência. Também estas são marcas, também estes são tormentos. Pois, pergunto, o que há de pior nos tormentos? Não é que a alma se dói e se abrasa? Pois, no outro caso, também o corpo tem a sua parte; mas neste, tudo pertence à alma. Só sobre a alma recai toda a dor, quando alguém se ira, quando alguém inveja, e o que quer que se faça — ou antes, se padeça — desta espécie. Pois, de fato, não é ação, mas paixão; não um fazer, mas um padecer — irar-se, sentir inveja: por isso mesmo se chamam paixões (ou padecimentos) (πάθη, perturbationes) da alma, sim, feridas e contusões. Pois é, de fato, um padecimento, e pior que padecimento. Considerai, vós que vos irais, que fazeis tais coisas em paixão, em estado de padecimento. Por isso, quem não se ira não padece. Notais que não é o insultado que padece, mas o que insulta, como disse acima? Que ele padece, é evidente, em primeiro lugar, pelo próprio fato de que tal coisa é chamada por este nome de paixão; e é evidente também pelos efeitos no corpo: pois estas são as afecções (πάθη, ou padecimentos, como as chamamos) engendradas pela ira, a saber, turvação da vista, insânia, e inúmeras outras. Mas ele insultou o meu filho, dizes tu; mas [chamou-o de] rústico. Não julgues fraqueza o não fazeres tu mesmo o mesmo. Pois, pergunto-te, foi bem feito? Não dirás que sim; deixa então por fazer aquilo que, sendo feito, não seria bem feito. Sei que paixões se engendram em tais casos. Mas, dizes tu, e se ele me desprezar, e se o disser de novo? Mostra-lhe que está errado; repreende-o, roga-lhe: pela mansidão se abate a ira; vai e expostula com ele. Pois, embora nos casos de ofensa feita a nós mesmos seja justo nem sequer fazer isto, é, contudo, de todo necessário fazê-lo em favor dos outros. Não consideres como insulto a ti mesmo o que foi insulto ao teu filho: podes ficar contrariado por causa dele, mas não como se fosses tu o insultado; pois não se segue que, por ter sido maltratado o teu filho, sejas tu desonrado, mas desonrado é aquele que praticou o mal. Apaga (a tua ira), essa espada afiada: que repouse na bainha. Se a tivermos desembainhada, seremos capazes de usá-la mesmo quando não for o momento próprio, sendo por ela arrastados; mas se [truncado]
Aqui se mostra a grandeza tanto da bondade de Deus quanto da fé de Abraão. Pois a expressão quando ainda não tinha filho algum demonstra sua obediência e sua fé. Prometeu dá-la a ele e à sua descendência. E, no entanto, os acontecimentos mostravam o contrário: a saber, depois que ele veio, não teve sequer onde pôr o pé, não tinha filho algum; coisas estas mesmas que eram contrárias à sua fé.
Tendo visto estas coisas, recebamos nós também, do mesmo modo, tudo o que Deus prometer, por mais contrários que sejam os acontecimentos. E, contudo, no nosso caso, eles não são contrários, mas antes muito convenientes. Pois onde estão as promessas, ali, quando sobrevêm os contrários, estes são verdadeiramente contrários; mas no nosso caso dá-se exatamente o inverso: pois Ele nos disse que teríamos tribulação aqui, mas o nosso repouso ali. Por que confundimos os tempos? Por que invertemos as coisas? Dize-me: estás aflito, vives na pobreza e no abatimento? Não te perturbes; pois valeria a pena perturbar-se se estivesses destinado a ser afligido naquele mundo; quanto a esta aflição presente, ela é causa de repouso. Esta enfermidade, diz Ele, não é para a morte (Jo 11,4). Aquela aflição é castigo; esta, disciplina e correção. É um combate, esta vida presente; sendo assim, combater é agora o nosso ofício: é guerra e batalha. Na guerra, ninguém busca ter repouso; na guerra, ninguém busca ter vida regalada, ninguém se preocupa com riquezas, ninguém então cuida de esposa: a uma só coisa atenta, como há de vencer os inimigos. Seja esta também a nossa preocupação: se vencermos e voltarmos com a vitória, Deus nos dará todas as coisas. Seja este o nosso único empenho, como vencer o demônio; ainda que, afinal, não seja o nosso próprio empenho que o realiza, mas a graça de Deus é que faz toda a obra. Seja o nosso único empenho como atrair a Sua graça, como trazer a nós aquele auxílio. Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8,31). Façamos de uma só coisa o nosso empenho: que Ele não nos seja inimigo, que não Se afaste de nós.
Não é mal ser afligido; o mal é pecar. Esta é a aflição penosa, ainda que passemos os nossos dias no luxo — para não falar da vida futura, já é assim mesmo nesta vida presente. Pensai como a nossa consciência é aguilhoada pelo remorso, e se isto não é pior do que qualquer espécie de tormento! Gostaria de interrogar minuciosamente os que vivem em más ações (ἐν κακοῖς), se jamais chegam a refletir sobre os seus próprios pecados, se não tremem, se não estão em temor e angústia, se não julgam bem-aventurados os que vivem na abstinência, os dos montes, os da regra austera (τοὺς ἐν πολλῇ φιλοσοφίᾳ). Os apóstolos se alegravam quando açoitados. Paulo dá esta exortação, dizendo: Alegrai-vos no Senhor (Fp 4,4). E como pode haver alegria onde há grilhões, onde há tormentos, onde há tribunais? Ali, mais do que em toda parte, está a alegria. Mas dize: como pode haver alegria onde não há estas coisas? Pois aquele que não tem consciência de mal algum terá uma espécie de exultante deleite, de tal modo que, na mesma medida em que falares de tribulação, nessa mesma falarás do seu deleite. O soldado que recebeu inúmeras feridas e voltou para casa, não voltará ele com exultante alegria, tendo as suas feridas como título para falar com ousadia, e como testemunho da sua glória e renome? E tu, se puderes exclamar como Paulo: Trago nas minhas carnes as marcas de Jesus (Gl 6,17), poderás tornar-te grande, glorioso e renomado. Mas não há perseguição. Faze então oposição à glória; e se alguém disser algo contra ti, não temas ser malfalado por causa de Cristo; faze oposição à tirania do orgulho, ao combate da ira, ao tormento da concupiscência. Também estas são marcas, também estes são tormentos. Pois, pergunto, o que há de pior nos tormentos? Não é que a alma se dói e se abrasa? Pois, no outro caso, também o corpo tem a sua parte; mas neste, tudo pertence à alma. Só sobre a alma recai toda a dor, quando alguém se ira, quando alguém inveja, e o que quer que se faça — ou antes, se padeça — desta espécie. Pois, de fato, não é ação, mas paixão; não um fazer, mas um padecer — irar-se, sentir inveja: por isso mesmo se chamam paixões (ou padecimentos) (πάθη, perturbationes) da alma, sim, feridas e contusões. Pois é, de fato, um padecimento, e pior que padecimento. Considerai, vós que vos irais, que fazeis tais coisas em paixão, em estado de padecimento. Por isso, quem não se ira não padece. Notais que não é o insultado que padece, mas o que insulta, como disse acima? Que ele padece, é evidente, em primeiro lugar, pelo próprio fato de que tal coisa é chamada por este nome de paixão; e é evidente também pelos efeitos no corpo: pois estas são as afecções (πάθη, ou padecimentos, como as chamamos) engendradas pela ira, a saber, turvação da vista, insânia, e inúmeras outras. Mas ele insultou o meu filho, dizes tu; mas [chamou-o de] rústico. Não julgues fraqueza o não fazeres tu mesmo o mesmo. Pois, pergunto-te, foi bem feito? Não dirás que sim; deixa então por fazer aquilo que, sendo feito, não seria bem feito. Sei que paixões se engendram em tais casos. Mas, dizes tu, e se ele me desprezar, e se o disser de novo? Mostra-lhe que está errado; repreende-o, roga-lhe: pela mansidão se abate a ira; vai e expostula com ele. Pois, embora nos casos de ofensa feita a nós mesmos seja justo nem sequer fazer isto, é, contudo, de todo necessário fazê-lo em favor dos outros. Não consideres como insulto a ti mesmo o que foi insulto ao teu filho: podes ficar contrariado por causa dele, mas não como se fosses tu o insultado; pois não se segue que, por ter sido maltratado o teu filho, sejas tu desonrado, mas desonrado é aquele que praticou o mal. Apaga (a tua ira), essa espada afiada: que repouse na bainha. Se a tivermos desembainhada, seremos capazes de usá-la mesmo quando não for o momento próprio, sendo por ela arrastados; mas se ela [truncado]
Vede quantos anos há desde que a Promessa foi dada, e o modo da Promessa, e em parte alguma sacrifício, em parte alguma circuncisão! Mostra aqui como o próprio Deus permitiu que fossem afligidos, não porque tivesse algo a lhes imputar. E os reduzirão à escravidão, etc. Mas, ainda assim, não fizeram estas coisas impunemente. E a nação a quem servirem, Eu a julgarei, disse Deus. Pois, para mostrar que não é por isto que se há de julgar quem é piedoso (por causa daquele dito: Confiou em Deus, livre-o Ele agora — Mt 27,43) — Ele mesmo, o que prometeu, o que deu a terra, primeiro permite os males. Assim também agora, ainda que tenha prometido um Reino, contudo nos permite ser exercitados nas tentações. Se aqui a liberdade não havia de vir senão depois de quatrocentos anos, que maravilha, quanto ao Reino? Contudo Ele a cumpriu, e o decurso do tempo não bastou para falsear a Sua palavra. Além disso, não foi escravidão comum a que padeceram. E o assunto não se limita apenas ao castigo daqueles (seus opressores); mas eles mesmos, diz Ele, hão de gozar de uma poderosa salvação. Aqui recorda-lhes também o benefício de que gozaram. E deu-lhe a aliança da circuncisão; e assim gerou a Isaac. Aqui desce a matérias inferiores.
Convém dizer também aqui isto: que Deus é rico em vias e meios para nos elevar daqui. Pois isto, sobretudo, mostrou as riquezas dos recursos de Deus: que, nas próprias adversidades (ἀποστροφῇ), a nação crescia, embora escravizada, embora maltratada, e embora buscassem exterminá-la. E esta é a grandeza da Promessa. Pois, se tivesse crescido na sua própria terra, não seria tão admirável. E, além disso, não foi por pouco tempo que estiveram na terra estrangeira, mas por quatrocentos anos. Daqui aprendemos uma grande lição de constância filosófica (φιλοσοφίαν): não os trataram como senhores tratam escravos, mas como inimigos e tiranos — e ele predisse que seriam postos em grande liberdade: pois este é o sentido daquela expressão: Servir-Me-ão; e voltarão a subir para cá (ἐνταῦθα ἐπανελεύσονται); e impunemente.
Vede quantos anos há desde que a Promessa foi dada, e o modo da Promessa, e em parte alguma sacrifício, em parte alguma circuncisão! Mostra aqui como o próprio Deus permitiu que fossem afligidos, não porque tivesse algo a lhes imputar. "E os reduzirão à escravidão," etc. Mas, ainda assim, não fizeram estas coisas impunemente. "E a nação a quem servirem, Eu a julgarei, disse Deus." Pois, para mostrar que não é por isto que se há de julgar quem é piedoso (por causa daquele dito: "Confiou em Deus, livre-o Ele agora") (Mt 27,43) — Ele mesmo, o que prometeu, o que deu a terra, primeiro permite os males. Assim também agora, ainda que tenha prometido um Reino, contudo nos permite ser exercitados nas tentações. Se aqui a liberdade não havia de vir senão depois de quatrocentos anos, que maravilha, quanto ao Reino? Contudo Ele a cumpriu, e o decurso do tempo não bastou para falsear a Sua palavra. Além disso, não foi escravidão comum a que padeceram. E o assunto não se limita apenas ao castigo daqueles (seus opressores); mas eles mesmos, diz Ele, hão de gozar de uma poderosa salvação. Aqui recorda-lhes também o benefício de que gozaram. "E deu-lhe a aliança da circuncisão; e assim gerou a Isaac." Aqui desce a matérias inferiores. "E o circuncidou ao oitavo dia; e Isaac gerou a Jacó, e Jacó aos doze patriarcas." (v. 8) — Aqui parece agora aludir à figura (tipo). "E os patriarcas, movidos de inveja, venderam José para o Egito." (v. 9). Aqui, novamente, a figura de Cristo. Embora nada tivessem a lhe censurar, e embora ele viesse de propósito para lhes trazer o sustento, assim o maltrataram. Ainda aqui, de novo, a promessa, ainda que muito tempo depois, recebe o seu cumprimento. "E Deus era com ele" — isto também é para eles — "e o livrou de todas as suas aflições." (v. 10). Mostra que, sem o saberem, ajudaram a cumprir a profecia, e que eles mesmos foram a causa, e que os males recaíram sobre eles próprios. "E deu-lhe graça e sabedoria diante de Faraó, rei do Egito." Deu-lhe graça, aos olhos de um bárbaro, a ele, o escravo, o cativo: os seus irmãos o venderam, este (bárbaro) o honrou. "Sobreveio então fome sobre toda a terra do Egito e de Canaã, e grande aflição; e nossos pais não achavam sustento. Mas ouvindo Jacó que havia trigo no Egito, enviou primeiramente os nossos pais. E na segunda vez José foi reconhecido por seus irmãos." (v. 11-13). Desceram para comprar, e de tudo dependiam dele. Que fez ele, então? Não se limitou a este ponto a sua benevolência; deu-os também a conhecer a Faraó, e os fez descer para a terra. "E a linhagem de José foi dada a conhecer a Faraó. Então José mandou chamar a seu pai Jacó, e a toda a sua parentela, setenta e cinco almas. E Jacó desceu ao Egito, e morreu, ele e nossos pais, e foram trasladados a Siquém, e postos no sepulcro que Abraão comprara por certa soma de dinheiro aos filhos de Emor, pai de Siquém. Mas, aproximando-se o tempo da promessa que Deus jurara a Abraão, o povo cresceu e se multiplicou no Egito, até que se levantou outro rei, que não conhecia a José." (v. 13-18). Então, de novo, nova desesperança (anelpistia): primeiro, a fome, mas dela saíram; segundo, o cair nas mãos do inimigo; terceiro, o ser destruídos pelo rei. Então (para mostrar) a plenitude dos recursos de Deus (eumechanon): "Nesse tempo," diz, "nasceu Moisés, e era sobremaneira formoso." (v. 20). Se a primeira circunstância era admirável — que José fosse vendido por seus irmãos —, eis aqui outra circunstância ainda mais admirável: que o rei "nutriu" a própria pessoa que havia de derrubar o seu domínio, sendo ele mesmo quem havia de perecer. Observais, ao longo de tudo isto, uma como que figuração da ressurreição dos mortos? Mas não é o mesmo que o próprio Deus faça uma coisa, e que uma coisa aconteça em conexão com o propósito do homem (proairesis). Pois estas coisas, de fato, estavam em conexão com o propósito humano; mas a Ressurreição, por si mesma, independentemente. — "E era poderoso," diz, "em palavra e em obra" (v. 22): ele que havia de morrer. Depois, de novo, mostra quão ingratos foram para com o seu benfeitor. Pois, assim como no caso anterior foram salvos pelo José que haviam ofendido, também aqui novamente foram salvos por outra pessoa ofendida, quero dizer, Moisés. "E quando ele completou quarenta anos," etc. Pois, que importa que não o tenham matado de fato? Na intenção, mataram-no, como os outros no caso anterior. Ali, venderam para uma terra estranha um dos seus; aqui, expulsam de uma terra estranha para outra terra estranha: no primeiro caso, um que estava em ato de lhes trazer o alimento; neste, um que estava em ato de lhes dar bom conselho; alguém a quem, depois de Deus, aquele homem devia a própria vida! Notai como isto mostra (a verdade d)aquele dito de Gamaliel: "Se é de Deus, não podereis destruí-lo." (cap. 5,39). Vede os que foram objeto de conjuras tornando-se, por fim, autores da salvação daqueles que contra eles conjuravam: o povo, conjurando contra si mesmo, e sendo ele mesmo objeto de conjuras de outros; e, com tudo isto, salvo! Uma fome, e não os consumiu; e não foi só isto: foram salvos por meio da própria pessoa que esperavam ver destruída (por seu intento). Um edito real, e não os consumiu; antes, foi então que mais cresceu o seu número, quando morreu aquele "que conhecia" a José. Quiseram matar o seu próprio Salvador, mas, apesar de tudo, não tiveram poder para fazê-lo. Observais que, pelos meios com que o demônio tentou anular a promessa de Deus, por esses mesmos meios ela foi promovida? "E falou Deus desta maneira," etc. (Recapitulação, v. 6-7). Convém dizer também aqui isto: que Deus é rico em vias e meios para nos elevar daqui. Pois isto, sobretudo, mostrou as riquezas dos recursos de Deus, que n [truncado]
Convém dizer também isto aqui: que Deus é rico em vias e meios para nos fazer subir daqui. Pois isto, sobretudo, mostrou as riquezas dos recursos de Deus: que em seus próprios reveses (ἀποστροφῇ) a nação crescia, ao mesmo tempo em que era escravizada, maltratada e visada para extermínio. E esta é a grandeza da Promessa. Pois, se ela tivesse crescido em sua própria terra, não teria sido tão admirável. E, além disso, não foi por pouco tempo que estiveram em terra estranha, mas por quatrocentos anos. Daí aprendemos uma (grande lição) de perseverança filosófica (φιλοσοφίαν): não os trataram como senhores tratam escravos, mas como inimigos e tiranos — e ele predisse que seriam postos em grande liberdade, pois este é o sentido daquela expressão: Servir-me-ão; e voltarão a subir aqui (ἐνταὕθα ἐπανελεύσονται); e impunemente. — E observai como, ao parecer conceder algo à circuncisão, ele de fato nada lhe concede.
E falou Deus deste modo: Que a sua descendência peregrinaria em terra estranha; e que a reduziriam à escravidão, e a maltratariam por quatrocentos anos. E a nação a que servirem como escravos, Eu a julgarei, disse Deus; e depois disso sairão, e Me servirão neste lugar.
Vede quantos anos medeiam desde que a Promessa foi dada, e o modo da Promessa, e em parte alguma sacrifício, em parte alguma circuncisão! Mostra aqui como o próprio Deus permitiu que fossem afligidos, não porque tivesse algo a lançar-lhes em rosto. E os reduzirão à escravidão, etc. Mas, apesar disso, não fizeram estas coisas impunemente. E a nação a que servirem como escravos, Eu a julgarei, disse Deus. Pois, para mostrar que não é por isto que se há de julgar quem são os piedosos (visto dizerem eles: Confiou em Deus, livre-O agora — Mt 27:43) — Ele mesmo, que prometeu, Ele que deu a terra, primeiro permite os males. Assim também agora, ainda que tenha prometido um Reino, contudo permite que sejamos exercitados nas tentações. Se aqui a liberdade não havia de vir senão depois de quatrocentos anos, que maravilha há, quanto ao Reino? Contudo, Ele a realizou, e o decurso do tempo não bastou para desmentir a Sua palavra. Além disso, não foi escravidão vulgar a que padeceram. E o assunto não se limita somente à punição daqueles (seus opressores); mas eles mesmos também, diz ele, haverão de gozar de uma poderosa salvação. Aqui ele também lhes recorda o benefício de que gozaram. E deu-lhe a aliança da circuncisão: e assim gerou a Isaque. Aqui ele desce a questões menores. E o circuncidou ao oitavo dia: e Isaque gerou a Jacó, e Jacó aos doze patriarcas.
E observai como, ao parecer conceder algo à circuncisão, ele de fato nada lhe concede (At 7:8); visto que a Promessa foi anterior a ela, e ela a seguiu depois.
Aqui ele parece agora aludir à figura. E os patriarcas, movidos de inveja, venderam José para o Egito.
Visto que a Promessa foi anterior a ela, e ela a seguiu depois. — E os patriarcas, diz ele, movidos de inveja...
E os patriarcas, diz ele, movidos de inveja (At 7:9). Onde isso não prejudica, ele lhes condescende (χαρίζεται): pois muito se orgulhavam também destas coisas. — E mostra que os santos não estavam isentos de tribulação, mas que nas próprias tribulações obtinham socorro. E que estes mesmos, os que desejavam abreviar tais aflições, ajudaram a que se cumprissem os desígnios: assim como estes tornaram José mais glorioso; assim como o rei fez a Moisés, ao ordenar que se matassem as crianças — pois, se não o tivesse ordenado, isto não teria sucedido; assim também aquele (hebreu) impele Moisés ao exílio, para que ali tivesse a Visão, feito já digno dela. Assim também a quem foi vendido como escravo, Ele o faz reinar como rei precisamente ali onde se cria que era escravo. Assim também Cristo, em Sua morte, dá prova do Seu poder: assim também Ele reina ali como rei, onde O venderam.
E o circuncidou ao oitavo dia: e Isaque gerou a Jacó, e Jacó aos doze patriarcas (At 7:8). — Aqui ele parece agora aludir à figura. E os patriarcas, movidos de inveja, venderam José para o Egito (At 7:9). Aqui, de novo, a figura de Cristo. Embora não tivessem nenhuma culpa a lançar-lhe, e embora ele viesse de propósito para lhes trazer o seu sustento, ainda assim o maltrataram. Contudo, também aqui a promessa, ainda que tarde muito primeiro, recebe o seu cumprimento.
Onde não faz mal, ele os condescende (χαρίζεται): pois muito se orgulhavam também disso. — E mostra que os santos não estavam isentos de tribulação, mas que em suas próprias tribulações obtiveram socorro. E que essas mesmas pessoas ajudaram a produzir tais resultados, as quais desejavam pôr fim a essas mesmas (aflições): assim como estas tornaram José mais glorioso; assim como o rei fez com Moisés, ao ordenar que se matassem as crianças — pois se não tivesse ordenado, isto não teria acontecido; assim como também aquele (hebreu) impele Moisés ao exílio, para que ali tenha a Visão, tornando-se digno dela. Assim também a quem foi vendido como escravo, faz Ele reinar como rei ali mesmo onde se cria que era escravo. Assim também Cristo, em Sua morte, dá prova de Seu poder: assim também Ele ali reina como rei, onde O venderam. E deu-lhe favor e sabedoria, etc.
Eis aqui, novamente, a figura de Cristo. Ainda que nada tivessem contra ele, e ainda que ele viesse de propósito para lhes trazer o sustento, ainda assim o trataram mal. Contudo, também aqui a promessa, embora demore muito, recebe seu cumprimento. E Deus era com ele — isto também é para eles — e livrou-o de todas as suas aflições.
Mostra que, sem o saber, ajudaram a cumprir a profecia, e que eles mesmos foram a causa, e que os males recaíram sobre eles próprios. E deu-lhe favor e sabedoria diante de Faraó, rei do Egito. Deu-lhe favor aos olhos de um bárbaro, a ele, o escravo, o cativo: seus irmãos o venderam, este (bárbaro) o honrou.
Isto não foi apenas a título de honra, mas para que ele tivesse confiança em seu próprio poder.
Isto não foi apenas a título de honra, mas para que ele tivesse confiança em seu próprio poder. E constituiu-o governador sobre o Egito e toda a sua casa. Ora, sobreveio uma escassez, etc. Por causa da fome — tais preparativos ele faz — com setenta e cinco almas, diz ele, Jacó desceu ao Egito, e morreu, ele e nossos pais, e foram trasladados a Siquém, e postos no sepulcro que Abraão comprara por certa soma de dinheiro dos filhos de Emor, pai de Siquém.
Mostra que, sem o saber, ajudaram a cumprir a profecia, e que eles mesmos foram a causa, e que os males recaíram sobre eles próprios. E deu-lhe favor e sabedoria diante de Faraó, rei do Egito. Deu-lhe favor aos olhos de um bárbaro, a ele, o escravo, o cativo: seus irmãos o venderam, este (bárbaro) o honrou. Ora, sobreveio fome sobre toda a terra do Egito e de Canaã, e grande aflição: e nossos pais não achavam sustento. Mas, ouvindo Jacó que havia grão no Egito, enviou primeiro nossos pais. E, na segunda vez, José se deu a conhecer a seus irmãos.
Mostra que não eram senhores nem sequer da extensão de um sepulcro. Mas, quando se aproximava o tempo da promessa que Deus jurara a Abraão, o povo cresceu e se multiplicou no Egito, até que se levantou outro rei, que não conhecia José (v. 17, 18). Observai que não é durante os quatrocentos anos que Ele os multiplica, mas (somente) quando o fim estava para se aproximar. E, no entanto, já haviam passado quatrocentos anos, e mais ainda, no Egito. Mas nisto está a maravilha.
Desceram para comprar, e tinham de depender dele para tudo. Que fez ele, então? [Deu-se a conhecer a seus irmãos:] não apenas até este ponto levou sua benevolência; também os deu a conhecer a Faraó, e os fez descer para a terra.
Desceram para comprar, e de tudo tinham de depender dele. Que fez ele, então? Deu-se a conhecer aos seus irmãos: e não somente até este ponto levou a sua benevolência; fez-se conhecer também de Faraó, e trouxe-os para a terra. E a linhagem de José foi dada a conhecer a Faraó. Então enviou José, e chamou a si Jacó, seu pai, e toda a sua parentela, setenta e cinco almas. Assim desceu Jacó ao Egito, e morreu, ele e os nossos pais, e foram trasladados para Siquém, e postos no sepulcro que Abraão comprara por certa soma de dinheiro aos filhos de Emor, pai de Siquém. Mas, aproximando-se o tempo da promessa que Deus jurara a Abraão, cresceu o povo e se multiplicou no Egito, até que se levantou outro rei, que não conhecia José.
Mostra isto que nem sequer eram senhores de um lugar de sepultura. Mas, aproximando-se o tempo da promessa que Deus jurara a Abraão, cresceu o povo e se multiplicou no Egito, até que se levantou outro rei, que não conhecia José (v. 17, 18). Observai que não é durante os quatrocentos anos que Ele os multiplica, mas somente quando o fim estava prestes a chegar. E, contudo, já quatrocentos anos haviam passado, e ainda mais, no Egito. Mas nisto está a maravilha. Este mesmo usou de astúcia para com a nossa linhagem, e maltratou os nossos pais, ao ponto de os obrigar a expor as suas crianças, para que não vivessem.
Depois, de novo, nova desesperança (ἀνελπιστία): primeiro, a fome, mas dela saíram vitoriosos; segundo, o caírem nas mãos do inimigo; terceiro, o serem destruídos pelo rei.
Depois, de novo, nova desesperança (ἀνελπιστία): primeiro, a fome, mas dela saíram vitoriosos; segundo, o caírem nas mãos do inimigo; terceiro, o serem destruídos pelo rei. Depois (para mostrar) a plenitude dos recursos e dos meios de Deus (εὐμήχανον), Naquele tempo, diz, nasceu Moisés, e era sobremaneira formoso.
Usou de astúcia: dá a entender que não queriam exterminá-los abertamente: que expusessem as suas crianças, diz.
Usou de astúcia: dá a entender que não queriam exterminá-los abertamente: que expusessem as suas crianças, diz. Naquele tempo nasceu Moisés e era sobremaneira formoso.
Nisto está a maravilha: que aquele que há de ser o seu campeão nasce, nem depois, nem antes destes acontecimentos, mas no próprio meio da tempestade (θυμῷ). E foi criado três meses na casa de seu pai. Mas, quando se perdeu já toda esperança de socorro humano, e o lançaram fora, então resplandeceu manifesto o benefício de Deus.
Depois (para mostrar) a plenitude dos recursos e dos meios de Deus (εὐμήχανον), Naquele tempo, diz, nasceu Moisés, e era sobremaneira formoso (At 7,20). Se a circunstância anterior era admirável, a de José vendido por seus próprios irmãos, eis aqui outra circunstância ainda mais admirável: que o rei nutriu a própria pessoa que havia de derrubar o seu domínio, sendo ele mesmo quem havia de perecer. Não observais, ao longo de tudo isto, como que uma figura da ressurreição dos mortos? Mas não é a mesma coisa que Deus mesmo faça algo, e que algo suceda em conexão com o propósito do homem (προαίρεσις). Pois estas coisas, na verdade, estavam em conexão com o propósito do homem [mas a Ressurreição, por si mesma, independentemente].
Eis a maravilha: aquele que havia de ser o seu campeão nasce, não depois nem antes destes acontecimentos, mas bem no meio da tempestade (θυμῷ). E foi criado na casa de seu pai por três meses. Mas quando se perdeu toda a esperança no auxílio humano, e o lançaram fora, então resplandeceu manifesto o benefício de Deus. E, tendo sido lançado fora, a filha de Faraó o tomou e o criou como filho seu.
Se a circunstância anterior já era admirável — que José fosse vendido por seus próprios irmãos —, eis aqui outra circunstância ainda mais admirável: que o próprio rei criasse aquele mesmo que haveria de derrubar o seu domínio, sendo ele mesmo quem estava destinado a perecer. Não observais, ao longo de tudo isto, como que uma figura da ressurreição dos mortos? Mas não é a mesma coisa que o próprio Deus faça algo, e que algo se cumpra em conexão com o propósito (προαίρεσις) do homem. Pois estas coisas, de fato, estavam em conexão com o propósito humano [mas a Ressurreição, por si mesma, independentemente]. E era ele poderoso, diz, em palavra e em obra.
Nem uma palavra sobre o Templo, nem uma palavra sobre o Sacrifício, enquanto se davam todas estas providências. E foi criado em casa bárbara.
Nem uma palavra sobre o Templo, nem uma palavra sobre o Sacrifício, enquanto se davam todas estas providências. E foi criado em casa bárbara. E Moisés foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios, e era poderoso em palavras e em obras.
E era ele poderoso, diz, em palavra e em obra (At 7,22): aquele que estava destinado a morrer. Depois, mostra ainda mais a ingratidão deles para com o seu benfeitor. Pois, assim como no caso anterior foram salvos por José, o ofendido, assim também aqui foram salvos por outro ofendido, a saber, Moisés. E quando ele tinha completado quarenta anos, etc. Pois, ainda que na verdade não o tivessem matado, na intenção o mataram, como também fizeram os outros no caso anterior. Ali, venderam um dos seus para uma terra estranha; aqui, expulsam de uma terra estranha para outra terra estranha: ali, um que estava lhes trazendo alimento; aqui, um que estava lhes dando bom conselho — aquele a quem, sob Deus, o homem devia a própria vida! Vede como isto demonstra (a verdade d)aquela sentença de Gamaliel: "Se isto é da parte de Deus, não podereis derrubá-lo" (At 5,39). Vede os que foram objeto de conspiração tornarem-se, afinal, autores da salvação para os que conspiravam contra eles: o povo conspirando contra si mesmo, e ele mesmo sendo objeto da conspiração de outros; e, apesar de tudo isto, salvo! Uma fome, e não os consumiu; e não foi só isto: mas foram salvos por meio da própria pessoa que esperavam ver destruída (por meio deles). Um édito real, e não os consumiu; antes, foi então que mais se multiplicou o seu número, quando morreu aquele que os conhecia. Quiseram matar o seu próprio Salvador, mas, apesar de tudo, não tiveram poder para fazê-lo. Não observais que, pelos meios com que o diabo tentou anular a promessa de Deus, por esses mesmos meios ela foi promovida?
Foi instruído, tanto em disciplina quanto em letras. E quando tinha completado quarenta anos.
Aquele que estava destinado a morrer. Depois, mostra ainda mais a ingratidão deles para com o seu benfeitor. Pois, assim como no caso anterior foram salvos por José, o ofendido, assim também aqui foram salvos por outro ofendido, a saber, Moisés. E quando ele tinha completado quarenta anos, etc. Pois, ainda que na verdade não o tivessem matado, na intenção o mataram, como também fizeram os outros no caso anterior. Ali, venderam um dos seus para uma terra estranha; aqui, expulsam de uma terra estranha para outra terra estranha: ali, um que estava lhes trazendo alimento; aqui, um que estava lhes dando bom conselho — aquele a quem, sob Deus, o homem devia a própria vida! Vede como isto demonstra (a verdade d)aquela sentença de Gamaliel: "Se isto é da parte de Deus, não podereis derrubá-lo" (At 5,39). Vede os que foram objeto de conspiração tornarem-se, afinal, autores da salvação para os que conspiravam contra eles: o povo conspirando contra si mesmo, e ele mesmo sendo objeto da conspiração de outros; e, apesar de tudo isto, salvo! Uma fome, e não os consumiu; e não foi só isto: mas foram salvos por meio da própria pessoa que esperavam ver destruída (por meio deles). Um édito real, e não os consumiu; antes, foi então que mais se multiplicou o seu número, quando morreu aquele que os conhecia. Quiseram matar o seu próprio Salvador, mas, apesar de tudo, não tiveram poder para fazê-lo. Não observais que, pelos meios com que o diabo tentou anular a promessa de Deus, por esses mesmos meios ela foi promovida? E falou Deus desta maneira, etc.
Quarenta anos ali esteve, e não foi descoberto por causa de sua circuncisão. Observai como, estando em segurança, tanto ele quanto José desprezam os interesses próprios, a fim de salvarem a outros: E, completados quarenta anos, subiu-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de Israel. E, vendo um deles padecer injúria, defendeu-o e vingou o oprimido, ferindo o egípcio: pois supunha que seus irmãos compreenderiam que Deus, por sua mão, haveria de livrá-los; mas eles não compreenderam. Atos 7:23-25 — Vede como, até este ponto, ele ainda não lhes é ofensivo; como o escutavam enquanto dizia tudo isto.
Quarenta anos ali esteve, e não foi descoberto por causa de sua circuncisão. Observai como, estando em segurança, tanto ele quanto José desprezam os interesses próprios, a fim de salvarem a outros: E, completados quarenta anos, subiu-lhe ao coração visitar seus irmãos, os filhos de Israel. E, vendo um deles padecer injúria, defendeu-o e vingou o oprimido, ferindo o egípcio: pois supunha que seus irmãos compreenderiam que Deus, por sua mão, haveria de livrá-los; mas eles não compreenderam.
Pois supunha, etc. E, no entanto, foi por obras que se manifestou seu ardor de campeão; que necessidade havia aqui de inteligência? Mas, ainda assim, não compreenderam. E, no dia seguinte, mostrou-se a eles enquanto contendiam, e quis reconciliá-los, dizendo: Homens, sois irmãos; por que vos fazeis injúria um ao outro? Atos 7:26-28 Reparai com que mansidão se dirige a eles? Aquele que mostrara sua ira no caso do outro, mostra sua brandura no caso próprio. Mas aquele que fazia injúria ao seu próximo repeliu-o, dizendo: Quem te constituiu chefe e juiz sobre nós? Queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio? Reparai: são as mesmíssimas palavras que disseram a Cristo: Quem Te constituiu chefe e juiz sobre nós? Tão habitual era, entre os judeus, fazer injúria (a seus benfeitores) no próprio ato de receberem benefícios! E reparai, uma vez mais, na abominável baixeza: (μιαρίαν al. μοχθηρίαν, Sav. marg.)
Vede como, até este ponto, ele ainda não lhes é ofensivo; como o escutavam enquanto dizia tudo isto. E seu rosto, lemos, era como o rosto de um anjo Atos 6:15. — Pois supunha, etc. E, no entanto, foi por obras que se manifestou seu ardor de campeão; que necessidade havia aqui de inteligência? Mas, ainda assim, não compreenderam. E, no dia seguinte, mostrou-se a eles enquanto contendiam, e quis reconciliá-los, dizendo: Homens, sois irmãos; por que vos fazeis injúria um ao outro?
Reparai com que mansidão se dirige a eles? Aquele que mostrara sua ira no caso do outro, mostra sua brandura no caso próprio. Mas aquele que fazia injúria ao seu próximo repeliu-o, dizendo: Quem te constituiu chefe e juiz sobre nós? Queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio? Reparai: são as mesmíssimas palavras que disseram a Cristo: Quem Te constituiu chefe e juiz sobre nós? Tão habitual era, entre os judeus, fazer injúria (a seus benfeitores) no próprio ato de receberem benefícios! E reparai, uma vez mais, na abominável baixeza: (μιαρίαν al. μοχθηρίαν, Sav. marg.) Como ontem mataste o egípcio! Então fugiu Moisés a esta palavra, e foi peregrino na terra de Midiã, onde gerou dois filhos.
Mas nem a fuga extinguiu o desígnio da Providência, assim como tampouco a morte (isto é, a morte de Cristo).
Mas nem a fuga extinguiu o desígnio da Providência, assim como tampouco a morte (isto é, a morte de Cristo). E, completados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do monte Sinai um anjo do Senhor numa chama de fogo, numa sarça.
Reparai que ele não é impedido pelo decurso do tempo? Pois quando estava exilado, quando peregrino, quando já havia passado longo tempo em terra estranha, a ponto de ter dois filhos, quando já não esperava voltar, então lhe aparece o Anjo. Ao Filho de Deus chama Anjo, assim como também O chama homem. Aparece no deserto, não num templo. Vede quantos milagres estão sucedendo, e nenhuma palavra de Templo, nenhuma palavra de Sacrifício. E aqui, também, não simplesmente no deserto, mas na sarça.
Notai que isso não é impedido pelo decurso do tempo? Pois quando ele estava exilado, quando era estrangeiro, quando já havia passado muito tempo em terra alheia, a ponto de ter dois filhos, quando já não esperava voltar, então lhe aparece o Anjo. Ao Filho de Deus ele chama Anjo, assim como também O chama homem. Aparece no deserto, não no templo. Vede quantos milagres se dão, e nenhuma palavra sobre Templo, nenhuma palavra sobre Sacrifício. E também aqui não simplesmente no deserto, mas na sarça. Quando Moisés a viu, admirou-se da visão; e, ao aproximar-se para contemplá-la, veio a ele a voz do Senhor.
Eis que ele foi julgado digno também da Voz. Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó (v. 32, 33). Eis como Ele mostra que não é outro senão o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó — Ele, o Anjo do Grande Conselho (Is 9,6, LXX: Maravilhoso Conselheiro). Aqui mostra quão grande benignidade Deus nisso manifesta. Então Moisés estremeceu, e não ousou olhar. Então lhe disse o Senhor: Tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa. Nenhuma palavra sobre Templo, e o lugar é santo pela aparição e operação de Cristo. Isso é muito mais admirável do que o lugar que está no Santo dos Santos: pois ali não se diz em parte alguma que Deus tenha aparecido deste modo, nem que Moisés tenha assim estremecido. E, além disso, a grandeza de Seu terno cuidado.
Eis que ele foi julgado digno também da Voz. Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó (v. 32, 33). Eis como Ele mostra que não é outro senão o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó — Ele, o Anjo do Grande Conselho (Is 9,6, LXX: Maravilhoso Conselheiro). Aqui mostra quão grande benignidade Deus nisso manifesta. Então Moisés estremeceu, e não ousou olhar. Então lhe disse o Senhor: Tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa. Nenhuma palavra sobre Templo, e o lugar é santo pela aparição e operação de Cristo. Isso é muito mais admirável do que o lugar que está no Santo dos Santos: pois ali não se diz em parte alguma que Deus tenha aparecido deste modo, nem que Moisés tenha assim estremecido. E, além disso, a grandeza de Seu terno cuidado. Vi, vi a aflição do Meu povo que está no Egito, e ouvi o seu gemido, e desci para livrá-los. E agora vem, Eu te enviarei ao Egito.
Vede como ele mostra que, tanto pelos benefícios quanto pelos castigos e pelos milagres, Deus os atraía a Si: mas eles permaneciam os mesmos. Que Deus está presente em toda parte, isso eles aprenderam. Ouvindo estas coisas, refugiemo-nos n'Ele em nossas aflições. E o seu gemido, diz Ele, ouvi: não simplesmente por causa das suas calamidades. Mas se alguém perguntasse: Por que, então, permitiu Ele que fossem ali maltratados? Em primeiro lugar, porque para todo homem justo os seus sofrimentos são as causas das suas recompensas. E, em segundo lugar, quanto à razão por que os afligiu: foi para mostrar o Seu poder, que Ele pode fazer tudo, e não somente isso, mas também para os exercitar. Observai, com efeito: quando estavam no deserto, engordaram, tornaram-se corpulentos, dilataram-se, e recalcitraram (Dt 32,15): e sempre, em toda parte, o repouso foi um mal. Por isso, desde o princípio, disse Ele a Adão: Com o suor do teu rosto comerás o teu pão (Gn 3,19). Foi também para que, tendo saído de muito sofrimento para o repouso, dessem graças a Deus. Pois a aflição é um grande bem. Ouvi o Profeta dizendo: Bom me foi que me humilhaste (Sl 119,71). Ora, se para homens grandes e admiráveis a aflição é um grande bem, muito mais o é para nós. E, se quiserdes, examinemos a natureza da aflição em si mesma. Suponhamos alguém que se regozija sobremaneira, e é jovial, e se entrega à folia: que coisa mais indecorosa, que coisa mais insensata do que isto? Suponhamos alguém que está triste e abatido: que coisa mais verdadeiramente filosófica do que isto? Pois, lemos, melhor é ir à casa do luto do que à casa do riso (Ecl 7,2). Mas, provavelmente, não vos agrada esta sentença, e quereis evadir-vos dela. Vejamos, porém, que espécie de homem era Adão no Paraíso, e o que veio a ser depois: que espécie de homem era Caim antes, e o que veio a ser depois. A alma não permanece firme em seu lugar próprio, mas, como que por uma corrente impetuosa, é levantada e sustentada pelo prazer, não tendo firmeza alguma; fácil em fazer profissões, pronta em prometer; os pensamentos todos em inquieta agitação: riso intempestivo, hilaridade sem causa, tagarelice ociosa e sem sentido. E por que falar de outros? Tomemos algum dos santos, e vejamos o que era quando no prazer, e o que era, de novo, quando na aflição. Olharemos para o próprio Davi? Quando estava no prazer e no regozijo, por seus muitos troféus, por sua vitória, por suas coroas, por sua vida luxuosa, por sua confiança, vede que coisas dizia e fazia: Mas eu disse na minha prosperidade, diz ele, jamais serei abalado (Sl 30,6). Mas, quando chegou a estar na aflição, ouvi o que diz: E se Ele me disser: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça Ele o que for do Seu agrado (2 Sm 15,26). Que pode haver de mais verdadeiramente filosófico do que estas palavras? O que quer que seja agradável a Deus, diz ele, assim seja. E de novo disse a Saul: Se o Senhor te incita contra mim, seja aceito o teu sacrifício (1 Sm 26,19). E então também, estando na aflição, poupou até os seus inimigos: mas depois, nem sequer os amigos, nem os que não lhe haviam feito injúria alguma. De igual modo, Jacó, quando estava na aflição, disse: Se o Senhor me der pão para comer e vestes para vestir (Gn 28,20). Assim como também o filho de Noé nada fizera de semelhante antes; mas quando já não temia por sua segurança, ouvis quão dissoluto se tornou (Gn 9,22). Ezequias também, quando estava na aflição, vede que coisas fez para obter a sua libertação: vestiu-se de saco, e coisas semelhantes; mas quando estava no prazer, caiu pela soberba do seu coração (2 Rs 19,20). Pois, diz a Escritura: Quando tiveres comido, e bebido, e estiveres saciado, guarda-te a ti mesmo (Dt 6,11-12). Pois perigoso, como à beira de um precipício, é o posto da opulência. Guarda-te, diz ele, a ti mesmo. Quando os israelitas eram afligidos, tanto mais se multiplicavam: mas quando Ele os deixou a si mesmos, então todos foram à ruína. E por que falar de exemplos antigos? Em nossos próprios tempos, vejamos, se quiserdes, não é assim que sucede, que quando a maioria está em boa situação, se ensoberbecem, tornam-se hostis a todos, coléricos, enquanto o poder está com eles: mas, se lhes é tirado, tornam-se mansos, humildes, e, como seres humanos, são levados à consciência de sua própria condição natural? Por isso diz a Escritura: A soberba os tomou até o fim; a sua iniquidade sairá como que da gordura (Sl 73,6, LXX).
Ora, disse eu estas coisas para que não façamos do prazer, de todo modo, o nosso objetivo. Como, pois, diz Paulo: Alegrai-vos sempre? Não diz simplesmente: Alegrai-vos, mas acrescenta: no Senhor (Fl 4,4). Esta é a maior alegria, tal como se alegravam os Apóstolos; a alegria cuja fonte, e raiz, e ocasião são os cárceres, e os açoites, e as perseguições, e a má fama, e todas as coisas penosas; donde também ela chega a um desfecho feliz. Mas a do mundo, ao contrário, começa em doçuras e termina em amarguras. Não proíbo, porém, que nos alegremos no Senhor; antes, a isto exorto vivamente. Os Apóstolos foram açoitados, e se alegraram: foram presos, e deram graças: foram apedrejados, e pregaram. Esta é a alegria que também eu quereria: ela não tem sua origem em nada corpóreo, mas nas coisas espirituais. Não é possível que aquele que se alegra à maneira do mundo se alegre também de maneira piedosa: pois todo aquele que se alegra à maneira do mundo tem sua alegria nas riquezas, no luxo, na honra, no poder, na arrogância: mas aquele que se alegra segundo o pensar de Deus tem sua alegria na desonra por causa de Deus, na pobreza, na necessidade, no jejum, na humildade de mente. Vedes quão opostos são os fundamentos da alegria? Não ter alegria aqui é também não ter tristeza; e não ter tristeza aqui é também não ter prazer. E, na verdade, estas são as coisas que produzem a verdadeira alegria, visto que as outras têm [truncado]
Vede como ele mostra que, tanto pelos benefícios quanto pelos castigos e pelos milagres, Deus os atraía a Si: mas eles permaneciam os mesmos. Que Deus está presente em toda parte, isso eles aprenderam.
Ouvindo estas coisas, refugiemo-nos n'Ele em nossas aflições. E o seu gemido, diz Ele, ouvi: não simplesmente por causa das suas calamidades. Mas se alguém perguntasse: Por que, então, permitiu Ele que fossem ali maltratados? Em primeiro lugar, porque para todo homem justo os seus sofrimentos são as causas das suas recompensas. E, em segundo lugar, quanto à razão por que os afligiu: foi para mostrar o Seu poder, que Ele pode fazer tudo, e não somente isso, mas também para os exercitar. Observai, com efeito: quando estavam no deserto, engordaram, tornaram-se corpulentos, dilataram-se, e recalcitraram (Dt 32,15): e sempre, em toda parte, o repouso foi um mal. Por isso, desde o princípio, disse Ele a Adão: Com o suor do teu rosto comerás o teu pão (Gn 3,19). Foi também para que, tendo saído de muito sofrimento para o repouso, dessem graças a Deus. Pois a aflição é um grande bem. Ouvi o Profeta dizendo: Bom me foi que me humilhaste (Sl 119,71). Ora, se para homens grandes e admiráveis a aflição é um grande bem, muito mais o é para nós. E, se quiserdes, examinemos a natureza da aflição em si mesma. Suponhamos alguém que se regozija sobremaneira, e é jovial, e se entrega à folia: que coisa mais indecorosa, que coisa mais insensata do que isto? Suponhamos alguém que está triste e abatido: que coisa mais verdadeiramente filosófica do que isto? Pois, lemos, melhor é ir à casa do luto do que à casa do riso (Ecl 7,2). Mas, provavelmente, não vos agrada esta sentença, e quereis evadir-vos dela. Vejamos, porém, que espécie de homem era Adão no Paraíso, e o que veio a ser depois: que espécie de homem era Caim antes, e o que veio a ser depois. A alma não permanece firme em seu lugar próprio, mas, como que por uma corrente impetuosa, é levantada e sustentada pelo prazer, não tendo firmeza alguma; fácil em fazer profissões, pronta em prometer; os pensamentos todos em inquieta agitação: riso intempestivo, hilaridade sem causa, tagarelice ociosa e sem sentido. E por que falar de outros? Tomemos algum dos santos, e vejamos o que era quando no prazer, e o que era, de novo, quando na aflição. Olharemos para o próprio Davi? Quando estava no prazer e no regozijo, por seus muitos troféus, por sua vitória, por suas coroas, por sua vida luxuosa, por sua confiança, vede que coisas dizia e fazia: Mas eu disse na minha prosperidade, diz ele, jamais serei abalado (Sl 30,6). Mas, quando chegou a estar na aflição, ouvi o que diz: E se Ele me disser: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça Ele o que for do Seu agrado (2 Sm 15,26). Que pode haver de mais verdadeiramente filosófico do que estas palavras? O que quer que seja agradável a Deus, diz ele, assim seja. E de novo disse a Saul: Se o Senhor te incita contra mim, seja aceito o teu sacrifício (1 Sm 26,19). E então também, estando na aflição, poupou até os seus inimigos: mas depois, nem sequer os amigos, nem os que não lhe haviam feito injúria alguma. De igual modo, Jacó, quando estava na aflição, disse: Se o Senhor me der pão para comer e vestes para vestir (Gn 28,20). Assim como também o filho de Noé nada fizera de semelhante antes; mas quando já não temia por sua segurança, ouvis quão dissoluto se tornou (Gn 9,22). Ezequias também, quando estava na aflição, vede que coisas fez para obter a sua libertação: vestiu-se de saco, e coisas semelhantes; mas quando estava no prazer, caiu pela soberba do seu coração (2 Rs 19,20). Pois, diz a Escritura: Quando tiveres comido, e bebido, e estiveres saciado, guarda-te a ti mesmo (Dt 6,11-12). Pois perigoso, como à beira de um precipício, é o posto da opulência. Guarda-te, diz ele, a ti mesmo. Quando os israelitas eram afligidos, tanto mais se multiplicavam: mas quando Ele os deixou a si mesmos, então todos foram à ruína. E por que falar de exemplos antigos? Em nossos próprios tempos, vejamos, se quiserdes, não é assim que sucede, que quando a maioria está em boa situação, se ensoberbecem, tornam-se hostis a todos, coléricos, enquanto o poder está com eles: mas, se lhes é tirado, tornam-se mansos, humildes, e, como seres humanos, são levados à consciência de sua própria condição natural? Por isso diz a Escritura: A soberba os tomou até o fim; a sua iniquidade sairá como que da gordura (Sl 73,6, LXX).
Ora, disse eu estas coisas para que não façamos do prazer, de todo modo, o nosso objetivo. Como, pois, diz Paulo: Alegrai-vos sempre? Não diz simplesmente: Alegrai-vos, mas acrescenta: no Senhor (Fl 4,4). Esta é a maior alegria, tal como se alegravam os Apóstolos; a alegria cuja fonte, e raiz, e ocasião são os cárceres, e os açoites, e as perseguições, e a má fama, e todas as coisas penosas; donde também ela chega a um desfecho feliz. Mas a do mundo, ao contrário, começa em doçuras e termina em amarguras. Não proíbo, porém, que nos alegremos no Senhor; antes, a isto exorto vivamente. Os Apóstolos foram açoitados, e se alegraram: foram presos, e deram graças: foram apedrejados, e pregaram. Esta é a alegria que também eu quereria: ela não tem sua origem em nada corpóreo, mas nas coisas espirituais. Não é possível que aquele que se alegra à maneira do mundo se alegre também de maneira piedosa: pois todo aquele que se alegra à maneira do mundo tem sua alegria nas riquezas, no luxo, na honra, no poder, na arrogância: mas aquele que se alegra segundo o pensar de Deus tem sua alegria na desonra por causa de Deus, na pobreza, na necessidade, no jejum, na humildade de mente. Vedes quão opostos são os fundamentos da alegria? Não ter alegria aqui é também não ter tristeza; e não ter tristeza aqui é também não ter prazer. E, na verdade, estas são as coisas que produzem a verdadeira alegria, visto que as outras têm [truncado]
Não vos admireis, diz ele, se aqueles a quem Cristo confere os Seus benefícios recusam o Seu reino, pois no caso de Moisés sucedeu exatamente o mesmo. Ele os tirou de lá; e não os livrou apenas de modo geral, mas também enquanto estavam no deserto. Prodígios e sinais, etc. Notai que eles mesmos (os ouvintes de Estêvão) estão implicados também naqueles antigos milagres?
Isto é muito próprio à matéria em questão. Este Moisés, diz ele. Este, o homem que estivera em perigo de perder a vida; o homem que fora por eles desprezado; este, o homem que haviam rejeitado: a este mesmo, tendo Deus suscitado, enviou-o a eles. Ao qual recusaram, dizendo: Quem te constituiu governante? assim como eles mesmos (os ouvintes) disseram: Não temos rei, senão César (Jo 19,15). Aqui mostra também que aquilo que então se fez, foi feito por Cristo. A este mesmo enviou Deus pela mão do Anjo que lhe disse: Eu sou o Deus de Abraão. Este mesmo Moisés, diz ele — e observai como aponta para a sua glória — este mesmo Moisés, diz ele, os tirou, depois de haver mostrado prodígios e sinais na terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto por quarenta anos. Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: Um profeta vos suscitará o Senhor vosso Deus, dentre vossos irmãos, semelhante a mim (v. 36-37): desprezado como eu. A ele também Herodes quis matar, e no Egito Ele achou preservação, tal como sucedera com aquele; pois já quando era menino, foi visado para a destruição.
Isto é muito próprio à matéria em questão. "Este Moisés", diz ele. "Este", o homem que estivera em perigo de perder a vida; o homem que fora por eles desprezado; "este", o homem que haviam rejeitado: "este" mesmo, tendo Deus suscitado, enviou-o a eles. "Ao qual recusaram, dizendo: Quem te constituiu governante?" assim como eles mesmos (os ouvintes) disseram: "Não temos rei, senão César" (Jo 19,15). Aqui mostra também que aquilo que então se fez, foi feito por Cristo. "A este mesmo enviou Deus pela mão do Anjo", que lhe disse: "Eu sou o Deus de Abraão." "Este" mesmo Moisés, diz ele — e observai como aponta para a sua glória — "este" mesmo Moisés, diz ele, "os tirou, depois de haver mostrado prodígios e sinais na terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto por quarenta anos. Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: Um profeta vos suscitará o Senhor vosso Deus, dentre vossos irmãos, semelhante a mim" (v. 36-37): desprezado como eu. A ele também Herodes quis matar, e no Egito Ele achou preservação, tal como sucedera com aquele; pois já quando era menino, foi visado para a destruição. "Este é aquele que esteve na Igreja no deserto com o Anjo que lhe falou no monte Sinai, e com os nossos pais: o qual recebeu oráculos vivos para no-los transmitir" (v. 38). Novamente, nenhuma menção ao templo, nenhuma ao sacrifício. "Com o Anjo", diz, "recebeu os oráculos vivos para transmiti-los aos pais." Mostra que ele não somente operou milagres, mas também deu uma lei, como fez Cristo. Assim como Cristo primeiro opera milagres, e depois legisla: assim também fez Moisés. Mas eles não o ouviram, perseverando na sua desobediência, mesmo depois dos milagres: "ao qual", diz ele, "nossos pais não quiseram obedecer" (v. 39), depois dos prodígios feitos naqueles quarenta anos. E não somente isso, mas antes o contrário: "mas o rejeitaram, e em seus corações se voltaram para o Egito, dizendo a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque, quanto a esse Moisés que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. E fizeram um bezerro naqueles dias, e ofereceram sacrifício ao ídolo, e se alegraram nas obras das suas próprias mãos. Então Deus se afastou, e os entregou para adorarem o exército do céu; como está escrito no livro dos Profetas: Ó casa de Israel, oferecestes-me vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto? Antes, tomastes o tabernáculo de Moloque, e a estrela do vosso deus Renfã, figuras que fizestes para as adorar: e Eu vos levarei para além da Babilônia" (v. 40-43). A expressão "os entregou" significa que Ele permitiu. "Nossos pais tinham no deserto o tabernáculo do testemunho, como ordenara Aquele que falou a Moisés, para que o fizesse segundo o modelo que vira" (v. 44). Mesmo quando havia um Tabernáculo, contudo não havia sacrifícios. "Oferecestes-me vítimas e sacrifícios?" (Am 5,25). Havia "o tabernáculo do testemunho", e contudo de nada lhes aproveitou, mas foram consumidos. Mas nem antes, nem depois, os milagres lhes aproveitaram coisa alguma. "O qual também nossos pais, que vieram depois, trouxeram consigo." Vês como o lugar santo está ali onde quer que Deus esteja? Por isso também diz "no deserto", para comparar lugar com lugar. Depois, o benefício que lhes foi concedido: E nossos pais, que vieram depois, trouxeram-no com Josué, quando entraram na posse das nações, as quais Deus expulsou de diante de nossos pais, até os dias de Davi; o qual achou graça diante de Deus, e pediu para achar um tabernáculo para o Deus de Jacó (v. 45-46). Davi "pediu para achar graça": e não edificou, ele, o admirável, o grande; mas o rejeitado, Salomão. "Mas Salomão", diz, "edificou-Lhe uma casa. Contudo, o Altíssimo não habita em (lugares) feitos por mãos" (v. 47-50). Isto, na verdade, já se havia mostrado pelo que fora dito antes; mas se mostra também pela voz de um profeta: "Que casa Me edificareis? diz o Senhor Deus. Como diz o profeta: O céu é o Meu trono, e a terra o escabelo dos Meus pés: que casa Me edificareis? diz o Senhor: ou qual é o lugar do Meu repouso? Não fez a Minha mão todas estas coisas?" (Is 66,1-2).
Não vos admireis, diz ele, se aqueles a quem Cristo confere os Seus benefícios recusam o Seu reino, pois no caso de Moisés sucedeu exatamente o mesmo. (Recapitulação.) "Ele os tirou"; e não os livrou apenas de modo geral, mas também enquanto estavam no deserto. "Prodígios e sinais", etc. (v. 35-50). Notai que eles mesmos (os ouvintes de Estêvão) estão implicados também naqueles antigos milagres? "Este é aquele Moisés" (v. 37): ele, que conversou com Deus; ele, que fora salvo de situações tão estranhas e admiráveis; ele, que operou obras tão grandes, e teve tão grande poder. Mostra que a profecia deve, de todo modo, cumprir-se, e que Moisés não é contrário a Ele. "Este é aquele que esteve na Igreja no deserto, e que disse aos filhos de Israel" (v. 38). Notai que dali vem a raiz, e que "a salvação vem dos judeus" (Jo 4,22)? "Com o Anjo", diz, "que lhe falava" (Rm 11,16). Eis que, de novo, afirma que foi Ele (Cristo) que deu a Lei, visto que Moisés estava com "Ele" na Igreja no deserto. E aqui lhes traz à memória uma grande maravilha, das coisas feitas no Monte: "o qual recebeu oráculos vivos para no-los transmitir." Em todas as ocasiões Moisés é admirável, e assim também quando foi preciso legislar. Que significa a expressão "oráculos vivos" (logia)? Aqueles cujo fim se manifestou por palavras (dia logon): em outras palavras, ele se refere às profecias. Segue-se então a acusação, em primeiro lugar, contra os patriarcas, os "sinais e prodígios", depois de terem recebido os "oráculos vivos": "ao qual", diz ele, "nossos pais não quiseram obedecer" (v. 39). Mas a respeito daqueles, diz Ezequiel que não são "vivos"; como quando diz: "E Eu vos dei estatutos que não são bons" (Ez 20,25). É com referência a t [truncado]
Este Moisés, a quem recusaram, dizendo: Quem te constituiu príncipe e juiz sobre nós? A este enviou Deus como príncipe e libertador, pela mão do Anjo que lhe apareceu na sarça.
Isto é muitíssimo próprio à matéria em questão. Este Moisés, diz ele. Este, o homem que estivera em perigo de perder a vida; o homem que fora por eles desprezado; este o homem a quem haviam recusado: a este mesmo, tendo Deus ressuscitado, enviou-o a eles. A quem recusaram, dizendo: Quem te constituiu príncipe? assim como eles próprios (os ouvintes) disseram: Não temos rei, senão César (Jo 19,15). Mostra aqui também que aquilo que então se fez, foi feito por Cristo. A este enviou Deus pela mão do Anjo que lhe disse: Eu sou o Deus de Abraão. Este mesmo Moisés, diz ele — e observai como aponta para a sua glória — este mesmo Moisés, diz ele, os tirou, depois de haver mostrado prodígios e sinais na terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto por quarenta anos. Este é aquele Moisés que disse aos filhos de Israel: Deus vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim (vv. 36-37): desprezado como eu. A ele também Herodes quis matar, e no Egito Ele achou preservação, assim como sucedera com o primeiro, ainda quando era criancinha, foi visado para a destruição. Este é aquele que esteve na Igreja no deserto com o Anjo que lhe falou no monte Sinai, e com nossos pais: o qual recebeu os vivos oráculos para no-los transmitir.
Aquele que conversou com Deus; aquele que fora salvo de situações tão estranhas e maravilhosas; aquele que operou tão grandes obras, e teve tão grande poder. [O qual disse aos filhos de Israel: Um profeta, etc.] Mostra que a profecia há de necessariamente cumprir-se, e que Moisés não se opõe a Ele.
Aquele que conversou com Deus; aquele que fora salvo de situações tão estranhas e maravilhosas; aquele que operou tão grandes obras, e teve tão grande poder. [O qual disse aos filhos de Israel: Um profeta, etc.] Mostra que a profecia há de necessariamente cumprir-se, e que Moisés não se opõe a Ele. Este é aquele que esteve na Igreja no deserto, e que disse aos filhos de Israel.
Notai que dali vem a raiz, e que a salvação é dos judeus (Jo 4,22). Com o Anjo, diz, que lhe falou (Rm 11,16). Eis que de novo afirma que foi Ele (Cristo) quem deu a Lei, visto que Moisés estava com Ele na Igreja no deserto. E aqui lhes recorda uma grande maravilha, das coisas feitas no Monte: O qual recebeu os vivos oráculos para no-los transmitir. Em todas as ocasiões Moisés é admirável, e assim também quando era necessário legislar. Que significa a expressão vivos oráculos (λόγια)? Aqueles cujo fim se mostrava por palavras (διὰ λόγων): em outros termos, refere-se às profecias. Segue-se então a acusação, em primeiro lugar contra os patriarcas [depois], os sinais e prodígios, depois do recebimento dos vivos oráculos: Ao qual, diz, não quiseram obedecer nossos pais (At 7,39). Mas a respeito daqueles, diz Ezequiel que não são vivos; como quando diz: E eu vos dei estatutos que não são bons (Ez 20,25). É com referência a estes que diz: Vivos. Mas o rejeitaram, e em seus corações se voltaram para o Egito — o lugar onde gemiam, onde clamavam, donde invocavam a Deus.
De novo nenhuma menção de templo, nenhuma de sacrifício. Com o Anjo, diz, recebeu os vivos oráculos para dá-los aos pais. Mostra que ele não somente operou milagres, mas também deu uma lei, como fez Cristo. Assim como Cristo primeiro opera milagres, e depois legisla: assim também fez Moisés. Mas eles não o ouviram, perseverando em sua desobediência, mesmo depois dos milagres: Ao qual, diz, não quiseram obedecer nossos pais (At 7,39), depois dos prodígios feitos naqueles quarenta anos. E não somente isto, mas antes o contrário: mas o rejeitaram, e em seus corações voltaram-se de novo para o Egito. Dizendo a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. E fizeram naqueles dias um bezerro, e ofereceram sacrifício ao ídolo, e se alegravam nas obras de suas próprias mãos. Então Deus se voltou, e os entregou para que adorassem o exército do céu; como está escrito no livro dos Profetas: Ó casa de Israel, oferecestes-me reses e sacrifícios por quarenta anos no deserto? Antes tomastes o tabernáculo de Moloque, e a estrela de vosso deus Renfã, figuras que fizestes para adorá-las: e eu vos transportarei para além da Babilônia (vv. 40, 43). A expressão entregou significa: Ele permitiu.
Notai que dali vem a raiz, e que a salvação é dos judeus (Jo 4,22). Com o Anjo, diz, que lhe falou (Rm 11,16). Eis que de novo afirma que foi Ele (Cristo) quem deu a Lei, visto que Moisés estava com Ele na Igreja no deserto. E aqui lhes recorda uma grande maravilha, das coisas feitas no Monte: O qual recebeu os vivos oráculos para no-los transmitir. Em todas as ocasiões Moisés é admirável, e assim também quando era necessário legislar. Que significa a expressão vivos oráculos (λόγια)? Aqueles cujo fim se mostrava por palavras (διὰ λόγων): em outros termos, refere-se às profecias. Segue-se então a acusação, em primeiro lugar contra os patriarcas [depois], os sinais e prodígios, depois do recebimento dos vivos oráculos: Ao qual, diz, não quiseram obedecer nossos pais.
De novo nenhuma menção de templo, nenhuma de sacrifício. Com o Anjo, diz, recebeu os vivos oráculos para dá-los aos pais. Mostra que ele não somente operou milagres, mas também deu uma lei, como fez Cristo. Assim como Cristo primeiro opera milagres, e depois legisla: assim também fez Moisés. Mas eles não o ouviram, perseverando em sua desobediência, mesmo depois dos milagres: Ao qual, diz, não quiseram obedecer nossos pais:
Mas a respeito daqueles, diz Ezequiel que não são vivos; como quando diz: E eu lhes dei estatutos que não são bons (Ez 20,25). É com referência a estes que ele diz: Vivos. Mas o repeliu para longe de si, e em seus corações se voltaram para o Egito — o lugar onde gemiam, onde clamavam, donde invocavam a Deus. E disseram a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós.
depois das maravilhas realizadas naqueles quarenta anos. E não somente isso, mas justamente o contrário: repeliram-no para longe de si, e em seus corações se voltaram novamente para o Egito. Dizendo a Arão: Faze-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu. E fizeram um bezerro naqueles dias, e ofereceram sacrifício ao ídolo, e se alegraram nas obras de suas próprias mãos. Então Deus se voltou, e os entregou a adorar a milícia do céu; como está escrito no livro dos Profetas: Ó casa de Israel, acaso me oferecestes reses imoladas e sacrifícios pelo espaço de quarenta anos no deserto? Antes, levastes o tabernáculo de Moloque e a estrela de vosso deus Renfã, figuras que fizestes para adorá-las: e eu vos transportarei para além de Babilônia.
Ó loucura! Faze, dizem eles; para que vão adiante de nós. Para onde? Para o Egito. Vede quão difícil lhes era desprender-se dos costumes do Egito! Que dizeis? Como, não esperar por aquele que vos tirou de lá, mas fugir do benefício e renegar o Benfeitor? E notai quão insultantes são: Pois, quanto a este Moisés, dizem — que nos tirou da terra do Egito — em nenhuma parte o nome de Deus: em vez disso, atribuíram tudo a Moisés. Onde deveriam dar graças (a Deus), trazem Moisés à frente: onde se tratava de fazer o que a Lei ordenava, já não fazem caso de Moisés. Não sabemos o que lhe aconteceu. E, no entanto, ele lhes dissera que subia para receber a Lei: e não tiveram paciência para esperar quarenta dias. Faze-nos deuses — não disseram, um deus. — E, todavia, bem se pode admirar isto, que nem sequer sabem.
Ó loucura! Faze, dizem eles; para que vão adiante de nós. Para onde? Para o Egito. Vede quão difícil lhes era desprender-se dos costumes do Egito! Que dizeis? Como, não esperar por aquele que vos tirou de lá, mas fugir do benefício e renegar o Benfeitor? E notai quão insultantes são: Pois, quanto a este Moisés, dizem — que nos tirou da terra do Egito — em nenhuma parte o nome de Deus: em vez disso, atribuíram tudo a Moisés. Onde deveriam dar graças (a Deus), trazem Moisés à frente: onde se tratava de fazer o que a Lei ordenava, já não fazem caso de Moisés. Não sabemos o que lhe aconteceu. E, no entanto, ele lhes dissera que subia para receber a Lei: e não tiveram paciência para esperar quarenta dias. Faze-nos deuses — não disseram, um deus. — E, todavia, bem se pode admirar isto, que nem sequer sabem. — E fizeram um bezerro naqueles dias, e ofereceram sacrifícios ao ídolo, e se alegraram nas obras de suas próprias mãos
Pelo que deveriam ter escondido o rosto. Que espanto que não conheçais a Cristo, vós que não conhecestes a Moisés, e a Deus que se manifestou por tais maravilhas? Mas não somente não O conheceram: também O insultaram de outro modo, pela fabricação de ídolos.
pelo que deveriam ter escondido o rosto. Que espanto que não conheçais a Cristo, vós que não conhecestes a Moisés, e a Deus que se manifestou por tais maravilhas? Mas não somente não O conheceram: também O insultaram de outro modo, pela fabricação de ídolos. Então Deus se voltou, e os entregou a adorar a milícia do céu
Daí têm origem estes mesmos costumes, daí os sacrifícios: foram eles próprios os primeiros que ofereceram sacrifícios aos seus ídolos! Por isso é assinalado: Fizeram um bezerro em Horebe, e ofereceram sacrifícios ao ídolo; visto que, antes disto, o nome de sacrifício em nenhuma parte é mencionado, mas somente vivos preceitos e vivos oráculos. E se alegraram — eis a razão das festas (Ex 32,5-6). Como está escrito no Livro dos Profetas — e observai que ele não cita o texto sem propósito, mas mostra por ele que não há necessidade de sacrifícios; dizendo: Acaso me oferecestes reses imoladas e sacrifício? — Ele põe ênfase nesta palavra (a mim?). Não podeis dizer que foi de sacrificar a mim que passastes a sacrificar a eles — pelo espaço de quarenta anos: e isto ainda no deserto, onde Ele mais assinaladamente se mostrara seu Protetor. Antes, levastes o tabernáculo de Moloque e a estrela de vosso deus Renfã: imagens que fizestes para adorá-las. A causa dos sacrifícios!
Daí, pois, tiveram origem estes mesmos costumes, daí os sacrifícios: eles mesmos foram os primeiros a sacrificar a seus ídolos! Por isso é que está registrado: Fizeram um bezerro em Horebe, e ofereceram sacrifícios ao ídolo; visto que, antes disso, em nenhuma parte se menciona o nome de sacrifício, mas somente vivos preceitos e vivos oráculos. E se alegraram — eis a razão das festas (Êx 32,5-6). Como está escrito no Livro dos Profetas — e observai que ele não cita o texto sem propósito, mas mostra por ele que não havia necessidade de sacrifícios; dizendo: Acaso Me oferecestes vítimas e sacrifícios? — Ele põe ênfase nesta palavra (a Mim?). Não podeis dizer que foi por sacrificardes a Mim que passastes a sacrificar a eles — por espaço de quarenta anos; e isto ainda no deserto, onde Ele se havia mostrado, de modo tão insigne, seu Protetor. Sim, levastes convosco o tabernáculo de Moloque e a estrela do vosso deus Renfã, imagens que fizestes para adorá-las. Eis a causa dos sacrifícios! E Eu vos transportarei para além de Babilônia.
Até o próprio cativeiro é uma acusação de sua maldade! Mas um Tabernáculo, dizeis vós, havia — o Tabernáculo "do Testemunho".
A expressão os entregou significa: Ele permitiu. Nossos pais tinham no deserto o tabernáculo do testemunho, como Ele havia ordenado, falando a Moisés, que o fizesse segundo o modelo que vira.
(Sim,) eis por que assim foi: para que tivessem a Deus por Testemunha — isto era tudo. Segundo o modelo, diz, que te foi mostrado no monte: de sorte que no monte estava o Original. E este Tabernáculo, ademais, no deserto, era transportado, e não fixado em lugar algum. E o chama Tabernáculo do testemunho, isto é, testemunho dos milagres, dos estatutos. Eis por que nem ele nem aqueles (os pais) tinham Templo. Como Ele havia ordenado, o que falou a Moisés, que o fizesse segundo o modelo que vira. E, mais uma vez, não foi outro senão Ele (Cristo) que deu o próprio modelo.
Mesmo quando havia um Tabernáculo, contudo não havia sacrifícios. Acaso Me oferecestes vítimas e sacrifícios? (Am 5,25). Havia o tabernáculo do testemunho, e, no entanto, de nada lhes aproveitou, mas foram consumidos. Mas nem antes, nem depois, os milagres lhes aproveitaram coisa alguma. O qual também nossos pais, que vieram depois, introduziram. Vedes como o lugar santo está onde quer que Deus esteja? Pois para isto também diz: no deserto, a fim de comparar lugar com lugar. Depois, o benefício (que lhes foi concedido): E nossos pais, que vieram depois, o introduziram com Jesus na posse dos gentios, os quais Deus expulsou de diante de nossos pais, até os dias de Davi, que achou graça diante de Deus e pediu para achar um tabernáculo para o Deus de Jacó (v. 45-46). Davi desejou achar graça; mas não edificou ele, o admirável, o grande; e sim o rejeitado, Salomão.
Mesmo quando havia um Tabernáculo, contudo não havia sacrifícios. Acaso Me oferecestes vítimas e sacrifícios? (Am 5,25). Havia o tabernáculo do testemunho, e, no entanto, de nada lhes aproveitou, mas foram consumidos. Mas nem antes, nem depois, os milagres lhes aproveitaram coisa alguma. O qual também nossos pais, que vieram depois, introduziram. Vedes como o lugar santo está onde quer que Deus esteja? Pois para isto também diz: no deserto, a fim de comparar lugar com lugar. Depois, o benefício (que lhes foi concedido): E nossos pais, que vieram depois, o introduziram com Jesus na posse dos gentios, os quais Deus expulsou de diante de nossos pais, até os dias de Davi, que achou graça diante de Deus e pediu para achar um tabernáculo para o Deus de Jacó.
E não havia templo! E, no entanto, também os gentios haviam sido expulsos; por isso é que ele menciona isto: Os quais Deus expulsou, diz, de diante de nossos pais. Os quais Ele expulsou, diz: e, mesmo assim, nenhum Templo! E tantas maravilhas, e nenhuma menção de Templo! De sorte que, ainda que primeiro haja um Tabernáculo, em nenhuma parte, contudo, há um Templo. Até os dias de Davi, diz: até Davi, e nenhum Templo!
E não havia templo! E, no entanto, também os gentios haviam sido expulsos; por isso é que ele menciona isto: Os quais Deus expulsou, diz, de diante de nossos pais. Os quais Ele expulsou, diz: e, mesmo assim, nenhum Templo! E tantas maravilhas, e nenhuma menção de Templo! De sorte que, ainda que primeiro haja um Tabernáculo, em nenhuma parte, contudo, há um Templo. Até os dias de Davi, diz: até Davi, e nenhum Templo! E ele buscou achar graça diante de Deus.
(Sim,) eis por que assim foi: para que tivessem a Deus por Testemunha; isto era tudo. Segundo o modelo, diz, que te foi mostrado no monte: de sorte que no monte estava o Original. E este Tabernáculo, ademais, no deserto, era transportado, e não estava fixado em lugar algum. E chama-o Tabernáculo do testemunho, isto é, (por testemunho) dos milagres, dos estatutos. Esta é a razão por que nem ele nem aqueles (os patriarcas) tiveram Templo. Como Aquele que falara a Moisés lhe ordenara, que o fizesse segundo o modelo que vira. E, novamente, não foi outro senão Ele (Cristo) que deu o próprio modelo. Até os dias de Davi.
e não o edificou: — tão longe estava o Templo de ser coisa grande! Mas Salomão lhe edificou uma casa.
Davi desejou achar graça; e não o edificou, ele, o admirável, o grande; mas o réprobo, Salomão. Mas Salomão, diz, edificou-Lhe uma casa. Contudo, o Altíssimo não habita em (lugares) feitos por mãos.
Julgavam eles que Salomão era grande; mas que não foi melhor que seu pai, nem sequer igual a ele, é manifesto. Contudo, o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos; como diz o profeta: O céu é o Meu trono, e a terra o escabelo de Meus pés. (v. 48, 49.) Nem sequer estes, com efeito, são dignos de Deus, porquanto são feitos, visto que são criaturas, obras de Sua mão. Vede como pouco a pouco os conduz, (mostrando) que nem sequer destes se deve fazer menção. E de novo a profecia diz abertamente: Que casa Me edificareis? etc. At 7,50
Julgavam eles que Salomão era grande; mas que não foi melhor que seu pai, nem sequer igual a ele, é manifesto. Contudo, o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos; como diz o profeta: O céu é o Meu trono, e a terra o escabelo de Meus pés.
Isto, na verdade, já se mostrara pelo que antes se dissera; mas mostra-se também pela voz de um profeta: Que casa Me edificareis?, diz o Senhor Deus. Como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés: que casa me edificareis?, diz o Senhor; ou qual é o lugar do meu repouso? Não fez a minha mão todas estas coisas? Is 66,1-2
Nem sequer estes, com efeito, são dignos de Deus, porquanto são feitos, visto que são criaturas, obras de Sua mão. Vede como pouco a pouco os conduz, (mostrando) que nem sequer destes se deve fazer menção. E de novo a profecia diz abertamente: Que casa Me edificareis? etc.
Qual é a razão por que, neste ponto, fala ele em tom de invectiva (καταφορικῶς)? Grande era a sua ousadia de palavra, estando ele a ponto de morrer; pois, com efeito, penso que sabia que assim era. Vós, de dura cerviz, diz ele, e incircuncisos de coração e de ouvidos. Isto também é tirado dos profetas: nada é de si mesmo. Vós sempre resistis ao Espírito Santo: como fizeram vossos pais, assim fazeis vós.
Isso já foi demonstrado, na verdade, pelo que fora dito antes; mas é demonstrado também pela voz de um profeta: Que casa Me edificareis? diz o Senhor Deus. Como diz o profeta: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés: que casa Me edificareis? diz o Senhor: ou qual é o lugar do meu repouso? Não fez a minha mão todas estas coisas? Isaías 66:1-2. Não vos maravilheis, diz ele, se aqueles a quem Cristo concede os Seus benefícios recusam o Seu reino, visto que, no caso de Moisés, deu-se exatamente o mesmo.
Qual é a razão de, neste ponto, ele falar em tom de invectiva (καταφορικῶς)? Grande era a sua ousadia de palavra, estando ele prestes a morrer: pois, de fato, creio que sabia que assim era. Vós, de dura cerviz, diz ele, e incircuncisos de coração e ouvidos. Isto também é dos profetas: nada é dele mesmo. Vós sempre resistis ao Espírito Santo: como fizeram vossos pais, assim fazeis vós. Atos 7:51. Quando não era Sua vontade que houvesse sacrifícios, vós sacrificais: quando é Sua vontade, então de novo não sacrificais: quando Ele não vos quis dar mandamentos, vós os atraístes a vós; quando os obtivestes, os negligenciastes. De novo, quando o Templo estava de pé, adorastes ídolos: quando é Sua vontade ser adorado sem Templo, fazeis o contrário. Observai que ele não diz: Vós resistis a Deus, mas ao Espírito: tão longe estava ele de conhecer qualquer diferença entre Eles. E, o que é maior: Como fizeram vossos pais, diz ele, assim fazeis vós. Assim também Cristo os repreendeu, porquanto sempre se gloriavam muito de seus pais.
Quando não era Sua vontade que houvesse sacrifícios, vós sacrificais: quando é Sua vontade, então de novo não sacrificais: quando Ele não vos quis dar mandamentos, vós os atraístes a vós; quando os obtivestes, os negligenciastes. De novo, quando o Templo estava de pé, adorastes ídolos: quando é Sua vontade ser adorado sem Templo, fazeis o contrário. Observai que ele não diz: Vós resistis a Deus, mas ao Espírito: tão longe estava ele de conhecer qualquer diferença entre Eles. E, o que é maior: Como fizeram vossos pais, diz ele, assim fazeis vós. Assim também Cristo os repreendeu, porquanto sempre se gloriavam muito de seus pais. A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? E eles mataram os que antes anunciaram a vinda do Justo: ele ainda diz o Justo, querendo refreá-los: de quem vós agora vos fizestes traidores e assassinos — duas acusações lhes assaca ele — vós que recebestes a Lei por disposição de anjos, e não a guardastes.
Como, Por disposição de anjos? Dizem alguns: (a Lei) disposta por anjos; ou posta em sua mão pelo Anjo que lhe apareceu na sarça; pois seria Ele homem? Não é de admirar que Aquele que operou aquelas obras, tenha também operado estas. Vós matastes os que O anunciavam; muito mais a Ele mesmo. Mostra-os desobedientes tanto a Deus quanto aos anjos, aos profetas, ao Espírito e a todos: como também a Escritura diz noutro lugar: Senhor, mataram os Teus profetas, e derrubaram os Teus altares. 1 Reis 19:10. Eles, pois, defendem a Lei, e dizem: Ele blasfema contra Moisés: mostra ele, portanto, que são eles que blasfemam, e que (a sua blasfêmia não é apenas contra Moisés, mas) contra Deus; mostra que, desde o princípio, eles fazem isto: que eles mesmos destruíram os seus costumes, que já não há necessidade destes: que, acusando-o, e dizendo que ele se opunha a Moisés, eles mesmos se opunham ao Espírito: e não apenas se opunham, mas com o homicídio a isso acrescentado: e que traziam a sua inimizade desde o próprio princípio. Vedes como ele os mostra a agir em oposição tanto a Moisés quanto a todos os demais, e a não guardar a Lei? E, contudo, Moisés dissera: Um profeta vos suscitará o Senhor; e os demais também anunciaram que Este (Cristo) haveria de vir: e o profeta, de novo, disse: Que casa Me edificareis? e ainda: Ofertastes-Me reses e sacrifícios durante esses quarenta anos? Deuteronômio 18:18.
Tal é a ousadia de palavra de um homem que carrega a cruz. Imitemos, pois, também isto: ainda que não seja tempo de guerra, é sempre tempo de ousadia de palavra. Pois, falei, diz alguém, dos Teus testemunhos diante de reis, e não me envergonhei. Salmo 119:46. Se acontecer estarmos entre gentios, tapemos-lhes assim a boca — sem ira, sem aspereza. (Cf. Hom. em 1 Cor. iv. §6; xxxiii. §4, 5; Col. xi. §2.) Pois, se o fazemos com ira, já não parece ser a ousadia (de quem confia na sua causa), mas paixão: mas, se com mansidão, esta é verdadeiramente ousadia. Pois numa mesma coisa não podem coexistir êxito e fracasso. A ousadia é um êxito: a ira é um fracasso. Portanto, se hemos de ter ousadia, devemos estar limpos de ira, para que ninguém impute as nossas palavras a ela. Por mais justas que sejam as tuas palavras, quando falas com ira, arruínas tudo: por mais ousadamente que fales, por mais equitativamente que repreendas, ou o que quer que seja. Vede este homem, quão isento de paixão discorre com eles! Pois não os injuriou: apenas lhes lembrou as palavras dos profetas. E, para vos mostrar que não era ira, no próprio instante em que padecia o mal às mãos deles, orou, dizendo: Não lhes imputes este pecado. Tão longe estava ele de proferir estas palavras com ira; não, falou com dor e pesar por causa deles. É por isso, com efeito, que se fala do seu semblante, que viram o seu rosto como se fora o rosto de um anjo, precisamente para que cressem. Estejamos, pois, limpos de ira. O Espírito Santo não habita onde há ira: maldito é o iracundo. Não é possível que algo salutar se aproxime onde a ira se manifesta. Pois, assim como numa tempestade no mar é grande o tumulto, alto o clamor, e não haveria tempo para lições de sabedoria (φιλοσοφεῖν): assim também na ira. Se a alma há de estar em condições de dizer, ou de ser instruída em algo da filosofia, deve primeiro estar no porto. Não vedes como, quando queremos conversar sobre assuntos de grave importância, buscamos lugares livres de ruído, onde tudo é quietude, tudo calma, para que não sejamos perturbados e desconcertados? Mas, se o ruído de fora perturba, muito mais a perturbação de dentro. Quer ore, de nada lhe vale orar com ira e contendas: 1 Timóteo 2:8; quer fale, apenas se fará ridículo; quer se cale, assim também será; quer coma, é ferido ainda assim; quer beba, ou não beba; quer se sente, ou se levante, ou ande; quer durma: pois até em sonhos tais fantasias os assombram. Pois o que há em tais homens que não seja desagradável? Olhos disformes, boca contorcida, membros agitados e inchados, língua imunda e que a ninguém poupa, mente transtornada, gestos inconvenientes: muito para causar repulsa. Observai os olhos dos endemoninhados, e os dos ébrios e dos loucos; em que diferem uns dos outros? Não é tudo loucura? Pois que importa que seja apenas por um momento? Também o louco está possesso por um momento: mas o que há de pior que isto? E não se envergonham com aquela desculpa: Não sabia, diz um, o que dizia. E como se deu que não o soubesses, tu, homem racional, tu que tens o dom da razão, precisamente para que não faças o papel das criaturas irracionais, como um cavalo selvagem, arrebatado pela ira e pela paixão? Em verdade, a própria desculpa é criminosa. Pois devias saber o que dizias. Foi a paixão, dizes tu, que proferiu as palavras, não eu. Como poderia ser isso? Pois a paixão não tem poder algum, senão o que dela recebe de ti. Bem poderias dizer: Foi a minha mão que infligiu as feridas, não eu. Que ocasião, pensais, mais necessita de ira? Não diríeis: a guerra e a batalha? Mas, ainda então, se algo se faz com ira, tudo se estraga e se desfaz. Pois, de todos os homens, os que combatem é que menos devem estar irados: de todos os homens, menos devem estar irados os que querem ferir (τοὺς ὑβρίζοντας). E como é possível combater então? perguntareis. Com razão, com moderação (ἐπιείκεια)... lei, e ordem, e tempos? Pois a ira nada mais é que um impulso irracional: e uma criatura irracional não pode de modo algum realizar algo racional. Por exemplo, este homem aqui proferiu tais palavras, e o fez sem paixão. E Elias disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? 1 Reis 18:21, e não o disse com paixão. E Fineias matou, e o fez sem paixão. Pois a paixão não permite ao homem ver, mas, tal como numa batalha noturna, conduz-lhe, com os olhos vendados e os ouvidos... [truncado]
Como, Por disposição de anjos? Dizem alguns: (a Lei) disposta por anjos; ou posta em sua mão pelo Anjo que lhe apareceu na sarça; pois seria Ele homem? Não é de admirar que Aquele que operou aquelas obras, tenha também operado estas. Vós matastes os que O anunciavam; muito mais a Ele mesmo. Mostra-os desobedientes tanto a Deus quanto aos anjos, aos profetas, ao Espírito e a todos: como também a Escritura diz noutro lugar: Senhor, mataram os Teus profetas, e derrubaram os Teus altares. 1 Reis 19:10. Eles, pois, defendem a Lei, e dizem: Ele blasfema contra Moisés: mostra ele, portanto, que são eles que blasfemam, e que (a sua blasfêmia não é apenas contra Moisés, mas) contra Deus; mostra que, desde o princípio, eles fazem isto: que eles mesmos destruíram os seus costumes, que já não há necessidade destes: que, acusando-o, e dizendo que ele se opunha a Moisés, eles mesmos se opunham ao Espírito: e não apenas se opunham, mas com o homicídio a isso acrescentado: e que traziam a sua inimizade desde o próprio princípio. Vedes como ele os mostra a agir em oposição tanto a Moisés quanto a todos os demais, e a não guardar a Lei? E, contudo, Moisés dissera: Um profeta vos suscitará o Senhor; e os demais também anunciaram que Este (Cristo) haveria de vir: e o profeta, de novo, disse: Que casa Me edificareis? e ainda: Ofertastes-Me reses e sacrifícios durante esses quarenta anos? Deuteronômio 18:18. Tal é a ousadia de palavra de um homem que carrega a cruz. Imitemos, pois, também isto: ainda que não seja tempo de guerra, é sempre tempo de ousadia de palavra. Pois, falei, diz alguém, dos Teus testemunhos diante de reis, e não me envergonhei. Salmo 119:46. Se acontecer estarmos entre gentios, tapemos-lhes assim a boca — sem ira, sem aspereza. (Cf. Hom. em 1 Cor. iv. §6; xxxiii. §4, 5; Col. xi. §2.) Pois, se o fazemos com ira, já não parece ser a ousadia (de quem confia na sua causa), mas paixão: mas, se com mansidão, esta é verdadeiramente ousadia. Pois numa mesma coisa não podem coexistir êxito e fracasso. A ousadia é um êxito: a ira é um fracasso. Portanto, se hemos de ter ousadia, devemos estar limpos de ira, para que ninguém impute as nossas palavras a ela. Por mais justas que sejam as tuas palavras, quando falas com ira, arruínas tudo: por mais ousadamente que fales, por mais equitativamente que repreendas, ou o que quer que seja. Vede este homem, quão isento de paixão discorre com eles! Pois não os injuriou: apenas lhes lembrou as palavras dos profetas. E, para vos mostrar que não era ira, no próprio instante em que padecia o mal às mãos deles, orou, dizendo: Não lhes imputes este pecado. Tão longe estava ele de proferir estas palavras com ira; não, falou com dor e pesar por causa deles. É por isso, com efeito, que se fala do seu semblante, que viram o seu rosto como se fora o rosto de um anjo, precisamente para que cressem. Estejamos, pois, limpos de ira. O Espírito Santo não habita onde há ira: maldito é o iracundo. Não é possível que algo salutar se aproxime onde a ira se manifesta. Pois, assim como numa tempestade no mar é grande o tumulto, alto o clamor, e não haveria tempo para lições de sabedoria (φιλοσοφεῖν): assim também na ira. Se a alma há de estar em condições de dizer, ou de ser instruída em algo da filosofia, deve primeiro estar no porto. Não vedes como, quando queremos conversar sobre assuntos de grave importância, buscamos lugares livres de ruído, onde tudo é quietude, tudo calma, para que não sejamos perturbados e desconcertados? Mas, se o ruído de fora perturba, muito mais a perturbação de dentro. Quer ore, de nada lhe vale orar com ira e contendas: 1 Timóteo 2:8; quer fale, apenas se fará ridículo; quer se cale, assim também será; quer coma, é ferido ainda assim; quer beba, ou não beba; quer se sente, ou se levante, ou ande; quer durma: pois até em sonhos tais fantasias os assombram. Pois o que há em tais homens que não seja desagradável? Olhos disformes, boca contorcida, membros agitados e inchados, língua imunda e que a ninguém poupa, mente transtornada, gestos inconvenientes: muito para causar repulsa. Observai os olhos dos endemoninhados, e os dos ébrios e dos loucos; em que diferem uns dos outros? Não é tudo loucura? Pois que importa que seja apenas por um momento? Também o louco está possesso por um momento: mas o que há de pior que isto? E não se envergonham com aquela desculpa: Não sabia, diz um, o que dizia. E como se deu que não o soubesses, tu, homem racional, tu que tens o dom da razão, precisamente para que não faças o papel das criaturas irracionais, como um cavalo selvagem, arrebatado pela ira e pela paixão? Em verdade, a própria desculpa é criminosa. Pois devias saber o que dizias. Foi a paixão, dizes tu, que proferiu as palavras, não eu. Como poderia ser isso? Pois a paixão não tem poder algum, senão o que dela recebe de ti. Bem poderias dizer: Foi a minha mão que infligiu as feridas, não eu. Que ocasião, pensais, mais necessita de ira? Não diríeis: a guerra e a batalha? Mas, ainda então, se algo se faz com ira, tudo se estraga e se desfaz. Pois, de todos os homens, os que combatem é que menos devem estar irados: de todos os homens, menos devem estar irados os que querem ferir (τοὺς ὑβρίζοντας). E como é possível combater então? perguntareis. Com razão, com moderação (ἐπιείκεια)... lei, e ordem, e tempos? Pois a ira nada mais é que um impulso irracional: e uma criatura irracional não pode de modo algum realizar algo racional. Por exemplo, este homem aqui proferiu tais palavras, e o fez sem paixão. E Elias disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? 1 Reis 18:21, e não o disse com paixão. E Fineias matou, e o fez sem paixão. Pois a paixão não permite ao homem ver, mas, tal como numa batalha noturna, conduz-lhe, com os olhos vendados e os ouvidos... [truncado]
Vede, uma vez mais, os malfeitores em apuros. Assim como os judeus se perturbam, dizendo: Que faremos a estes homens? assim também estes ficam compungidos em seu coração. (At 4:16.) E, contudo, era ele quem tinha bom direito de se indignar, pois, não havendo cometido injustiça alguma, era tratado como criminoso, e maldosamente caluniado. Mas os caluniadores levaram, no fim, a pior parte. Tão verdadeira é aquela sentença, que sempre repito: Fazer mal é sofrer mal. E, contudo, ele (em suas acusações contra eles) não recorreu a nenhuma calúnia, mas provou (o que dizia). Tão certo é que, quando somos vergonhosamente oprimidos numa questão em que temos a consciência limpa, em nada seremos prejudicados por isso. — Se desejavam, direis, matá-lo, como não aproveitaram a ocasião do que ele disse, para o matarem? Bem quisessem eles ter um pretexto de aparência justa para o seu ultraje. — Mas então, não era o insultá-los um pretexto justo? Não foi obra dele, se eles se sentiram insultados: foi a acusação do Profeta contra eles. E, além disso, não queriam que parecesse que o matavam por causa do que ele dissera contra eles — tal como procederam no caso de Cristo; não, mas por impiedade: ora, esta palavra sua era a expressão da piedade. Por isso, tentando, além de matá-lo, ferir também a sua reputação, ficaram compungidos em seu coração. Pois temiam que ele, pelo contrário, se tornasse objeto de ainda maior reverência. Portanto, exatamente o que fizeram no caso de Cristo, o mesmo fazem também aqui. Pois, como Ele disse: Vereis o Filho do Homem assentado à direita de Deus (Mt 26:64), e eles, chamando-o de blasfêmia, arremeteram contra Ele; assim também foi aqui. Ali, rasgaram as suas vestes; aqui, taparam os ouvidos. Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, que está em pé à direita de Deus. Então clamaram com grande voz, e taparam os ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele, e, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. (v. 55-58.) E, contudo, se ele mentia, deveriam tê-lo julgado fora de si, e deixá-lo ir. — Mas ele quis atraí-los, e disse: Eis, etc., pois, havendo falado da morte de Cristo, e nada dito de Sua ressurreição, quis acrescentar também esta doutrina. Assentado à direita de Deus. E desta maneira Ele lhe apareceu: para que, ao menos assim, os judeus O pudessem receber: pois, como a ideia de Seu assentar-se (à direita de Deus) lhes era ofensiva, por ora ele apresenta apenas o que se refere à Sua Ressurreição. Esta é também a razão por que o seu rosto se glorificou. Pois Deus, sendo misericordioso, quis fazer das suas maquinações o meio de os reconduzir a Si mesmo. E vede quantos sinais se operam! E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. Aqui, de novo, fora da cidade, e, mesmo na morte, confissão e pregação. (Hb 13:21.) E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um jovem, chamado Saulo. E apedrejaram a Estêvão, que invocava a Deus, e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. (v. 59.) Isto se destina a mostrar-lhes que ele não perece, e a ensiná-los. E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. (v. 60.) Para se justificar, e mostrar que nem as suas palavras anteriores foram ditadas pela paixão, diz: Senhor, não lhes imputes este pecado: querendo também, deste modo, ganhá-los. Pois mostrar que perdoava a ira e o furor deles em o matarem, e que a sua própria alma estava livre de toda paixão, era o modo de fazer que a sua palavra fosse bem recebida. E Saulo consentia na sua morte. Daí se levanta uma perseguição, e ela se torna grande. E naquele tempo houve grande perseguição contra a Igreja que estava em Jerusalém. E foram todos dispersos pelas regiões da Judeia e da Samaria, exceto os Apóstolos. (At 8:1.) Notai como, uma vez mais, Deus permite que surjam tentações; notai, e observai bem, como os acontecimentos são ordenados pela Divina Providência. Eram admirados por causa dos sinais: sendo açoitados, em nada eram prejudicados por isso: (alguns) foram ordenados para o ministério das viúvas: a palavra crescia: uma vez mais, Deus permite que surja um grande impedimento. E uma perseguição não vulgar; pois temiam os seus inimigos, agora feitos mais audazes: e ao mesmo tempo se mostra que eram apenas homens, estes que temiam, que fugiam. Pois, para que não digais depois disto que somente pela graça efetuavam (o que faziam), foram também perseguidos, e eles próprios se fizeram mais tímidos, enquanto os seus adversários se faziam mais audazes. E foram todos dispersos, diz, exceto os Apóstolos. Mas isto foi divinamente ordenado, para que já não permanecessem todos assentados ali em Jerusalém. E homens devotos, diz, levaram Estêvão a sepultar, e fizeram sobre ele grande pranto. (v. 2.) Se eram devotos, por que fizeram sobre ele grande pranto? Ainda não eram perfeitos. O homem era gracioso e amável: isto também mostra que eram homens — não apenas o seu temor, mas a sua dor e o seu pranto. Quem não teria chorado ao ver aquela pessoa mansa, cordeira, apedrejada e jazendo morta? Digno elogio a proferir sobre o seu túmulo registrou o Evangelista, nesta única sentença: Não lhes imputes este pecado. — E fizeram, diz ele, grande pranto sobre ele. — Mas revejamos o que já se disse. Ele menciona a causa da sua aparência (angélica) (Recapitulação, vii. 54; viii. 2.): Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus, que estava à direita de Deus. E, quando disse: Vejo os céus abertos, taparam os ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele. (v. 56, 57.) E, contudo, em que são estas coisas dignas de acusação? [truncado]
Vede, uma vez mais, os malfeitores em apuros. Assim como os judeus se perturbam, dizendo: Que faremos a estes homens? assim também estes ficam compungidos em seu coração. At 4:16. E, contudo, era ele quem tinha bom direito de se indignar, pois, não havendo cometido injustiça alguma, era tratado como criminoso, e maldosamente caluniado. Mas os caluniadores levaram, no fim, a pior parte. Tão verdadeira é aquela sentença, que sempre repito: Fazer mal é sofrer mal. E, contudo, ele (em suas acusações contra eles) não recorreu a nenhuma calúnia, mas provou (o que dizia). Tão certo é que, quando somos vergonhosamente oprimidos numa questão em que temos a consciência limpa, em nada seremos prejudicados por isso. — Se desejavam, direis, matá-lo, como não aproveitaram a ocasião do que ele disse, para o matarem? Bem quisessem eles ter um pretexto de aparência justa para o seu ultraje. — Mas então, não era o insultá-los um pretexto justo? Não foi obra dele, se eles se sentiram insultados: foi a acusação do Profeta contra eles. E, além disso, não queriam que parecesse que o matavam por causa do que ele dissera contra eles — tal como procederam no caso de Cristo; não, mas por impiedade: ora, esta palavra sua era a expressão da piedade. Por isso, tentando, além de matá-lo, ferir também a sua reputação, ficaram compungidos em seu coração. Pois temiam que ele, pelo contrário, se tornasse objeto de ainda maior reverência. Portanto, exatamente o que fizeram no caso de Cristo, o mesmo fazem também aqui. Pois, como Ele disse: Vereis o Filho do Homem assentado à direita de Deus, Mt 26:64, e eles, chamando-o de blasfêmia, arremeteram contra Ele; assim também foi aqui.
Ouvindo estas coisas, retalhavam-se em seus corações e rangiam os dentes contra ele.
Eis, uma vez mais, os malfeitores em apuros. Assim como os judeus se perplexiam, dizendo: Que faremos a estes homens? (At 4:16), assim também estes se retalhavam em seus corações. E, contudo, era ele quem tinha justo direito de indignar-se, pois, não havendo cometido nenhum mal, foi tratado como criminoso e caluniado com malícia. Mas os caluniadores levaram, ao fim, a pior parte. Tão verdadeira é aquela sentença que sempre repito: quem faz o mal, mal lhe sucede. E, contudo, ele (em suas acusações contra eles) não recorreu a calúnia alguma, mas provou o que dizia. Tão certo é que, quando somos vergonhosamente oprimidos em coisa na qual temos a consciência limpa, disso não nos advém dano algum. — Se desejavam matá-lo, dirás tu, como não tomaram ocasião, a partir do que ele disse, para matá-lo? É que queriam ter um pretexto de boa aparência para seu ultraje. Pois bem, não era a injúria contra eles pretexto suficiente? Não foi obra dele o serem injuriados: foi a acusação do profeta contra eles. E, além disso, não queriam que parecesse que o matavam por causa do que ele dissera contra eles — como fizeram no caso de Cristo —, mas por impiedade; ora, esta palavra sua era expressão de piedade. Por isso, como tentavam, além de matá-lo, ferir também sua reputação, retalhavam-se em seus corações. Pois temiam que ele, ao contrário, se tornasse objeto de reverência ainda maior. Assim, o mesmo que fizeram no caso de Cristo, fazem também aqui. Pois, como Ele disse: Vereis o Filho do Homem assentado à destra de Deus (Mt 26:64), e eles, chamando isto blasfêmia, arremeteram contra Ele; assim também foi aqui. Ali, rasgaram as vestes; aqui, taparam os ouvidos. Mas ele, cheio do Espírito Santo, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e a Jesus em pé à destra de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à destra de Deus. Então eles bradaram em alta voz, taparam os ouvidos e arremeteram unânimes contra ele, e, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram.
E, contudo, se ele mentisse, deveriam tê-lo julgado fora de si, e deixá-lo ir. — Mas ele quis convertê-los, e disse: Eis, etc., pois, havendo falado da morte de Cristo, e nada dito de Sua ressurreição, quis acrescentar também esta doutrina. Em pé à destra de Deus. E desta maneira Ele lhe apareceu: para que, sendo assim, os judeus pudessem recebê-Lo; pois, como a ideia de Seu assentar-se (à destra de Deus) lhes era ofensiva, por ora ele apresenta somente o que se refere à Sua Ressurreição. Esta é também a razão pela qual seu rosto foi glorificado. Pois Deus, sendo misericordioso, desejou fazer de suas maquinações o meio de os reconduzir a Si mesmo. E vede quantos sinais se operam! E lançaram-no fora da cidade, e o apedrejaram. Aqui, novamente, fora da cidade, e ainda na morte, Confissão e Pregação (Hb 13:21).
E, contudo, se ele mentisse, deveriam tê-lo julgado fora de si, e deixá-lo ir. — Mas ele quis convertê-los, e disse: Eis, etc., pois, havendo falado da morte de Cristo, e nada dito de Sua ressurreição, quis acrescentar também esta doutrina. Em pé à destra de Deus. E desta maneira Ele lhe apareceu: para que, sendo assim, os judeus pudessem recebê-Lo; pois, como a ideia de Seu assentar-se (à destra de Deus) lhes era ofensiva, por ora ele apresenta somente o que se refere à Sua Ressurreição. Esta é também a razão pela qual seu rosto foi glorificado. Pois Deus, sendo misericordioso, desejou fazer de suas maquinações o meio de os reconduzir a Si mesmo. E vede quantos sinais se operam! E lançaram-no fora da cidade, e o apedrejaram. Aqui, novamente, fora da cidade, e ainda na morte, Confissão e Pregação (Hb 13:21). E as testemunhas depuseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo. E apedrejaram Estêvão, que invocava a Deus, dizendo: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.
Observai com que particularidade ele relata o que concerne a Paulo, para vos mostrar que o Poder que nele operava era de Deus. Mas, depois de todas estas coisas, não só ele não creu, como ainda o atacou com mil mãos: por isso é que se diz: E Saulo consentia na morte dele. — E este bem-aventurado varão não ora simplesmente, mas o faz com fervor: tendo-se posto de joelhos. Notai sua morte divina! Somente por tanto tempo o Senhor permitiu que a alma permanecesse nele.
Isto se destina a mostrar-lhes que ele não perece, e a instruí-los. E ele se pôs de joelhos, e clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado.
E agora, sem escrúpulo algum, tinham trato com a Samaria, ao passo que lhes fora dito: Não vades pelo caminho dos gentios, e não entreis em cidade alguma dos samaritanos (Mt 10:5). Exceto os Apóstolos, diz o texto: estes, também deste modo, querendo ganhar os judeus — mas sem deixar a cidade — e serem ocasião de infundir ousadia nos demais.
Quanto a Saulo, assolava a Igreja, entrando em cada casa e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão.
E Saulo consentia na morte dele. Daí se levanta uma perseguição, e torna-se grande. E naquele tempo houve grande perseguição contra a Igreja que estava em Jerusalém. E todos foram dispersos pelas regiões da Judeia e da Samaria, exceto os Apóstolos.
Observai como de novo Deus permite que surjam tentações; observai, e bem considerai, como os acontecimentos são ordenados pela Divina Providência. Eram admirados por causa dos sinais: açoitados, em nada se prejudicavam; foram ordenados (alguns) para o serviço das viúvas; a palavra crescia; de novo Deus permite que surja um grande obstáculo. E uma perseguição não pequena [e todos foram dispersos, etc.]; pois temiam os seus inimigos, agora tornados mais audazes; e ao mesmo tempo se mostra que eram homens, estes que se atemorizavam, que fugiam. Pois, para que não digais depois disto que somente pela graça faziam o que faziam, foram também perseguidos, e eles próprios se tornaram mais tímidos, enquanto os seus adversários se faziam mais audazes. E foram todos dispersos, diz o texto, exceto os Apóstolos. Mas isto foi divinamente ordenado, para que já não permanecessem todos assentados ali em Jerusalém. E homens devotos, diz o texto, levaram Estêvão a sepultar, e fizeram grande lamentação sobre ele.
E agora, sem escrúpulo algum, tinham trato com a Samaria, ao passo que lhes fora dito: Não vades pelo caminho dos gentios, e não entreis em cidade alguma dos samaritanos (Mt 10:5). Exceto os Apóstolos, diz o texto: estes, também deste modo, querendo ganhar os judeus — mas sem deixar a cidade — e serem ocasião de infundir ousadia nos demais.
Observai como de novo Deus permite que surjam tentações; observai, e bem considerai, como os acontecimentos são ordenados pela Divina Providência. Eram admirados por causa dos sinais: açoitados, em nada se prejudicavam; foram ordenados (alguns) para o serviço das viúvas; a palavra crescia; de novo Deus permite que surja um grande obstáculo. E uma perseguição não pequena [e todos foram dispersos, etc.]; pois temiam os seus inimigos, agora tornados mais audazes; e ao mesmo tempo se mostra que eram homens, estes que se atemorizavam, que fugiam. Pois, para que não digais depois disto que somente pela graça faziam o que faziam, foram também perseguidos, e eles próprios se tornaram mais tímidos, enquanto os seus adversários se faziam mais audazes. E foram todos dispersos, diz o texto, exceto os Apóstolos. Mas isto foi divinamente ordenado, para que já não permanecessem todos assentados ali em Jerusalém.
Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e a Jesus, que estava à destra de Deus. E, dizendo ele: Eis que vejo os céus abertos, taparam os ouvidos e se lançaram unanimemente sobre ele (v. 56-57). E, todavia, em que são estas coisas dignas de acusação? Contra ele, o homem que operou tais milagres, o homem que prevaleceu sobre todos no discurso, o homem que pode manter tal discurso! Como se houvessem alcançado justamente o que queriam, dão logo plena largueza ao seu furor. E as testemunhas, diz o texto, depuseram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo (At 7:58). Observai como particularmente relata o que concerne a Paulo, para vos mostrar que o Poder que nele operava era de Deus. Mas, depois de todas estas coisas, não só não creu, como ainda o atacou com mil mãos; por isso é que diz: E Saulo consentia na morte dele. — E este bem-aventurado não ora simplesmente, mas o faz com fervor: pondo-se de joelhos. Considerai a sua morte divina! Somente enquanto o Senhor permitiu, permaneceu a alma nele. E, dito isto, adormeceu (At 7:60). — E todos foram dispersos pela região da Judeia e da Samaria.
Se eram devotos, por que fizeram grande lamentação sobre ele? Ainda não eram perfeitos. O homem era gracioso e amável: isto também mostra que eram homens — não somente o seu temor, mas a sua dor e lamentação. Quem não teria chorado ao ver aquela pessoa mansa, semelhante a um cordeiro, apedrejada e jazendo morta? Digno elogio a ser pronunciado sobre o seu túmulo registrou o Evangelista, nesta única sentença: Não lhes imputes este pecado. — E fizeram, diz o texto, grande lamentação sobre ele. — Mas tornemos a considerar o que foi dito.
Menciona a causa da sua aparência (angélica)
Se eram devotos, por que fizeram grande lamentação sobre ele? Ainda não eram perfeitos. O homem era gracioso e amável: isto também mostra que eram homens — não somente o seu temor, mas a sua dor e lamentação. Quem não teria chorado ao ver aquela pessoa mansa, semelhante a um cordeiro, apedrejada e jazendo morta? Digno elogio a ser pronunciado sobre o seu túmulo registrou o Evangelista, nesta única sentença: Não lhes imputes este pecado. — E fizeram, diz o texto, grande lamentação sobre ele. — Mas tornemos a considerar o que foi dito.
Menciona a causa da sua aparência (angélica). Recapitulação, 7:54; 8:2; Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e a Jesus, que estava à destra de Deus. E, dizendo ele: Eis que vejo os céus abertos, taparam os ouvidos e se lançaram unanimemente sobre ele (v. 56-57). E, todavia, em que são estas coisas dignas de acusação? Contra ele, o homem que operou tais milagres, o homem que prevaleceu sobre todos no discurso, o homem que pode manter tal discurso! Como se houvessem alcançado justamente o que queriam, dão logo plena largueza ao seu furor.
Grande era o seu furor: que estivesse só, que até entrasse nas casas — pois, na verdade, estava pronto a dar a sua vida pela Lei. Arrastando, diz o texto, homens e mulheres: observai tanto a ousadia, quanto a violência, quanto o furor. A todos quantos caíam em suas mãos, submetia a toda sorte de maus-tratos; pois, em consequência do recente homicídio, se fizera mais audaz. Portanto, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra. Então Filipe desceu à cidade de Samaria e lhes pregou a Cristo. E as multidões unanimemente atendiam ao que Filipe dizia, ouvindo e vendo os milagres que fazia. Pois de muitos possessos saíam espíritos imundos, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade. Havia, porém, um certo homem chamado Simão, que antes exercera naquela mesma cidade a magia, e enfeitiçava o povo da Samaria.
Grande era o seu furor: que estivesse só, que até mesmo entrasse nas casas; pois, na verdade, estava pronto a dar a vida pela Lei. Arrastando, diz, homens e mulheres: notai tanto a ousadia quanto a violência e o furor. A todos quantos lhe caíam nas mãos infligia toda sorte de maus-tratos; pois, em consequência do recente assassínio, tornara-se mais audaz.
Assim como, no caso de Moisés, por contraste (com os magos), os milagres eram milagres manifestos, assim também aqui. Havia magia, e por isso estes sinais eram manifestos.
Assim como, no caso de Moisés, por contraste (com os magos), os milagres eram milagres manifestos, assim também aqui. Havia magia, e por isso estes sinais eram manifestos. (b) Pois de muitos que os possuíam saíam espíritos imundos.
pois este era um milagre manifesto: — não como faziam os magos; pois o outro (Simão), ao que parece, prendia (os homens com feitiços) — e muitos, diz, que eram paralíticos e coxos foram curados. Não havia aqui engano algum; pois bastava que andassem e trabalhassem. E todos lhe davam atenção, dizendo: Este (homem) é o Poder de Deus.
Pois este era um milagre manifesto: — não como faziam os magos; pois o outro (Simão), ao que parece, prendia (os homens com feitiços) — e muitos, diz, que eram paralíticos e coxos foram curados. Não havia aqui engano algum; pois bastava que andassem e trabalhassem.
Observai outra provação, este caso de Simão. Dando a entender, diz o texto, que ele mesmo era alguém grande. A quem todos davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: Este homem é o grande poder de Deus. E a ele davam atenção, porque de há muito tempo os havia enfeitiçado com suas artes mágicas. Mas quando creram em Filipe, que pregava as coisas concernentes ao reino de Deus e o nome de Jesus Cristo, foram batizados, tanto homens como mulheres. Então o próprio Simão também creu; e, tendo sido batizado, permaneceu com Filipe, e se admirava, contemplando os milagres e sinais que se operavam. Ora, ouvindo os Apóstolos que estavam em Jerusalém que a Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João, os quais, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo.
E cumpriu-se o que fora dito por Cristo: Virão falsos cristos e falsos profetas em Meu nome (Mt 24,24). E a ele davam atenção, porque de há muito tempo os havia enfeitiçado com suas artes mágicas.
E, no entanto, grandes sinais haviam sido feitos: como, pois, não haviam recebido o Espírito? Haviam recebido o Espírito, a saber, o da remissão dos pecados; mas o Espírito dos milagres não haviam recebido. Pois ainda sobre nenhum deles Ele havia descido; somente haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo (v. 16-17). Pois, para mostrar que assim era, e que era o Espírito dos milagres que não haviam recebido, observai como, tendo visto o resultado, Simão veio e pediu isto. E quando Simão viu que, mediante a imposição das mãos dos Apóstolos, era dado o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim este poder, para que sobre quem quer que eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo (v. 18-19).
A perseguição, direis vós, ganhou força. É verdade; mas naquele mesmo tempo trouxe libertação aos que antes estavam possuídos (por um poder hostil). Pois plantou os milagres como uma fortaleza no coração do território inimigo. Nem mesmo a morte de Estêvão apaziguou o furor deles; antes o aumentou: dispersou amplamente os mestres, de modo que se multiplicou ainda mais o discipulado. E havia alegria. E, no entanto, houvera grande pranto; é verdade; mas notai de novo o bem: de longa data era a enfermidade, mas este homem lhes trouxe a libertação. E como veio ele a batizar também a Simão? Assim como Cristo escolheu Judas. E, vendo os sinais que ele operava, porquanto os demais não recebiam o poder de operar sinais, não ousou pedi-lo. Como se explica, pois, que não o fulminassem, como fizeram a Ananias e Safira? Porque também nos tempos antigos, aquele que ajuntava lenha (no dia de sábado) foi morto como advertência aos demais (Nm 15,32), e em nenhuma outra ocasião sofreu alguém idêntica sorte.
E cumpriu-se o que fora dito por Cristo: Virão falsos cristos e falsos profetas em Meu nome (Mt 24,24).
E, contudo, não devera haver ali senão um único endemoninhado, visto que de há muito tempo ele os vinha enfeitiçando com suas artes mágicas; mas, se houvesse muitos endemoninhados, muitos paralíticos, estes fingimentos não seriam verdade. Mas Filipe aqui também os conquistou por sua palavra, discorrendo acerca do reino de Cristo.
E Simão, diz o texto, tendo sido batizado, permaneceu com Filipe (At 8,13): não por causa da fé, mas a fim de tornar-se tal como ele.
Não por causa da fé, mas a fim de tornar-se tal como ele. (b) Mas por que não o corrigiram eles instantaneamente? Contentaram-se com que ele próprio se condenasse. Pois isto também pertencia à sua obra de ensino (τἥς διδασκαλίας). Mas, não tendo poder para resistir, ele representa o hipócrita, tal como fizeram os magos, que disseram: Este é o dedo de Deus. E, com efeito, para que não fosse de novo expulso, permaneceu por isso com Filipe, e dele não se apartou. E os Apóstolos que estavam em Jerusalém, etc. (v. 13-14). Vede quantas coisas são realizadas pela Providência de Deus por meio da morte de Estêvão! (a) Mas eles, diz o texto, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo; pois ainda sobre nenhum deles Ele havia descido. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo.
Mas por que não o corrigiram instantaneamente? Contentaram-se com que ele mesmo se condenasse. Pois isto também pertencia à sua obra de ensino (τῆς διδασκαλίας). Mas, não tendo poder para resistir, ele representa o hipócrita, tal como fizeram os magos, que disseram: Este é o dedo de Deus. E, de fato, para que não fosse novamente expulso, permaneceu com Filipe, e dele não se apartou. E os Apóstolos que estavam em Jerusalém, etc. (v. 13, 14). Vede quantas coisas são realizadas pela Providência de Deus por meio da morte de Estêvão!
E, no entanto, grandes sinais haviam sido feitos: como, pois, não haviam recebido o Espírito? Haviam recebido o Espírito, a saber, o da remissão dos pecados; mas o Espírito dos milagres não haviam recebido. Pois ainda não descera sobre nenhum deles: apenas haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo (v. 16, 17). Pois, para mostrar que assim era, e que era o Espírito dos milagres que não haviam recebido, observai como, tendo visto o resultado, Simão veio e pediu isto. E vendo Simão que, pela imposição das mãos dos Apóstolos, era dado o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim este poder, para que, sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo (v. 18, 19).
A perseguição, dizeis vós, ganhou força. Verdade é; mas naquele mesmo tempo trouxe libertação aos homens antes possuídos (por uma potência hostil). Pois plantou os milagres como uma fortaleza no coração da terra inimiga. — Nem mesmo a morte de Estêvão apagou o furor dos perseguidores; antes o aumentou: dispersou amplamente os mestres, de sorte que maior se tornou o discipulado. — E houve alegria. E, no entanto, havia havido grande pranto: verdade é; mas notai de novo o bem — De longa data era o mal, mas este homem lhes trouxe a libertação. — E como veio ele a batizar também a Simão? Assim como Cristo escolheu a Judas. — E vendo os sinais que ele fazia, porquanto os outros não recebiam o poder de operar sinais, não ousou pedi-lo. — Como se deu, pois, que não o feriram de morte, como a Ananias e a Safira? Porque também nos tempos antigos, aquele que colhia lenha (no dia de sábado) foi morto como advertência para os demais (Números 15:32), e em nenhum outro caso sofreu alguém a mesma sorte. Assim também nesta ocasião, disse-lhe Pedro: Pereça contigo o teu dinheiro, porque cuidaste que o dom de Deus se compra com dinheiro.
Mas eles, diz, tendo descido, oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo, pois ainda não descera sobre nenhum deles. Então lhes impunham as mãos, e recebiam o Espírito Santo (At 8, 15-17). Vedes que isto não se havia de fazer de maneira ordinária alguma, mas era necessário grande poder para dar o Espírito Santo? Pois não é a mesma coisa obter a remissão dos pecados e receber tal poder.
Por graus é que estes recebem o dom. Era um sinal duplo: tanto o dar-se a estes quanto o não dar-se a este homem. Ao passo que este homem devia, pelo contrário, pedir que recebesse o Espírito Santo, ele, porque não se importava com isto, pede o poder de dá-lo a outros. E, no entanto, aqueles não receberam este poder de dar; mas este homem quis ser mais ilustre que Filipe, sendo ele mesmo dentre os discípulos!
Vedes que isto não se havia de fazer de maneira ordinária alguma, mas era necessário grande poder para dar o Espírito Santo? Pois não é a mesma coisa obter a remissão dos pecados e receber tal poder. (b) Por graus é que estes recebem o dom. Era um sinal duplo: tanto o dar-se a estes quanto o não dar-se a este homem. Ao passo que este homem devia, pelo contrário, pedir que recebesse o Espírito Santo, ele, porque não se importava com isto, pede o poder de dá-lo a outros. E, no entanto, aqueles não receberam este poder de dar; mas este homem quis ser mais ilustre que Filipe, sendo ele mesmo dentre os discípulos! (a) Ofereceu-lhes dinheiro (v. 18, 19). Quê? Havia ele visto os outros fazerem isto? Havia visto Filipe? Imaginava que não sabiam com que ânimo viera a eles? (b) O teu dinheiro contigo para a perdição
Ofereceu-lhes dinheiro (v. 18, 19). Quê? Havia ele visto os outros fazerem isto? Havia visto Filipe? Imaginava que não sabiam com que ânimo viera a eles?
porquanto não o usaste como convinha usá-lo. Não são estas palavras de imprecação, mas de castigo. Contigo, diz ele, seja isto — sendo tu tal. Como se dissesse: Pereça juntamente com o teu propósito. Tens tu tão vis conceitos do dom de Deus, que o imaginaste ser inteiramente coisa dos homens? Não é assim. (a) Por isso também Pedro bem chama à coisa um dom: Pensaste que o dom de Deus se pudesse comprar com dinheiro. Observas como em todas as ocasiões eles se mostram limpos de dinheiro? Porque o teu coração não é reto diante de Deus.
Por que não receberam estes o Espírito Santo quando batizados? Ou porque Filipe reservava esta honra para os Apóstolos; ou porque ele não tinha este dom (de o comunicar); ou porque ele era um dos Sete: o que antes se há de dizer. Donde julgo que este Filipe era um dos Apóstolos. Mas observa: aqueles não saíram; foi providencialmente ordenado que estes saíssem e àqueles faltasse, por causa do Espírito Santo: pois haviam recebido poder para operar milagres, mas não também para comunicar o Espírito a outros; esta era a prerrogativa dos Apóstolos. E observa que enviaram os principais: não quaisquer outros, mas Pedro [e João]. E quando Simão, diz o texto, viu que pela imposição das mãos dos Apóstolos era dado o Espírito Santo. Não teria dito "e tendo visto", se não houvesse alguma manifestação sensível. Então lhes impuseram as mãos, etc., assim como também fez Paulo, quando eles falaram em línguas (At 19,6). Observa a execranda conduta de Simão. Ofereceu dinheiro — com que fim? E, contudo, não viu Pedro fazer isto por dinheiro. Nem foi por ignorância que assim procedeu; foi porque queria tentá-los, porque desejava obter matéria de acusação contra eles. E por isso também diz Pedro: Não tens parte nem sorte neste ministério, pois o teu coração não é reto diante de Deus, porque pensaste, etc.
Por que não receberam estes o Espírito Santo quando batizados? Ou porque Filipe reservava esta honra para os Apóstolos; ou porque ele não tinha este dom (de o comunicar); ou porque ele era um dos Sete: o que antes se há de dizer. Donde julgo que este Filipe era um dos Apóstolos. Mas observa: aqueles não saíram; foi providencialmente ordenado que estes saíssem e àqueles faltasse, por causa do Espírito Santo: pois haviam recebido poder para operar milagres, mas não também para comunicar o Espírito a outros; esta era a prerrogativa dos Apóstolos. E observa que enviaram os principais: não quaisquer outros, mas Pedro [e João]. E quando Simão, diz o texto, viu que pela imposição das mãos dos Apóstolos era dado o Espírito Santo. Não teria dito "e tendo visto", se não houvesse alguma manifestação sensível. Então lhes impuseram as mãos, etc., assim como também fez Paulo, quando eles falaram em línguas (At 19,6). Observa a execranda conduta de Simão. Ofereceu dinheiro — com que fim? E, contudo, não viu Pedro fazer isto por dinheiro. Nem foi por ignorância que assim procedeu; foi porque queria tentá-los, porque desejava obter matéria de acusação contra eles. E por isso também diz Pedro: Não tens parte nem sorte neste ministério, pois o teu coração não é reto diante de Deus, porque pensaste, etc. (At 8,21). Mais uma vez traz à luz o que estava nos pensamentos, porque Simão pensava escapar à descoberta.
O teu dinheiro contigo, para perdição (At 8,20): porquanto não o usaste como convinha usá-lo. Não são estas palavras de imprecação, mas de castigo. Contigo, diz ele, seja isto — sendo tu tal. Como se dissesse: Pereça juntamente com o teu propósito. Tens tu tão vis conceitos do dom de Deus, que o imaginaste ser inteiramente coisa dos homens? Não é assim.
Vês como ele faz tudo por malícia? Ser simples, porém, era o que se requeria. (b) Pois se tivesse sido feito com simplicidade, ele até teria acolhido de bom grado a sua disposição. Vês que ter vis conceitos de grandes coisas é pecar duplamente? Por isso, duas coisas lhe ordena: Arrepende-te e ora, se porventura te for perdoado o pensamento do teu coração.
Mais uma vez traz à luz o que estava nos pensamentos, porque Simão pensava escapar à descoberta. Arrepende-te, pois, desta tua maldade, e ora a Deus, se porventura te for perdoado o pensamento do teu coração. Pois vejo que estás no laço da iniquidade. Então respondeu Simão e disse: Rogai vós ao Senhor por mim, para que nada do que dissestes venha sobre mim.
Por isso também Pedro chama bem ao caso de dom: Pensaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Vedes como em todas as ocasiões eles se mostram limpos de dinheiro? Pois o teu coração não é reto diante de Deus. Atos 8:21. Vedes como ele tudo faz por malícia? Ser simples, contudo, era o que se requeria.
Vedes que era um pensamento perverso o que ele havia concebido? Por isso diz: Se porventura te seja perdoado; porque sabia que ele era incorrigível. (a) Pois vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniquidade.
Ainda isto ele fez apenas formalmente, como palavras de circunstância, quando deveria ter chorado e se lamentado como penitente. Se porventura te seja perdoado. Não como se não devesse ser perdoado, tivesse ele chorado, mas este é também o modo do Profeta: denunciar em absoluto (ἀπαγορεύειν), e não dizer: "Todavia, se fizeres isto, teu pecado te será perdoado", mas sim que, de qualquer modo, o castigo se cumprirá.
Pois se isto tivesse sido feito com simplicidade, ele teria até acolhido de bom grado a sua intenção. Vedes que ter conceitos vis das coisas grandes é pecar duplamente? Por conseguinte, duas coisas lhe ordena: Arrepende-te e ora, se porventura te seja perdoado o pensamento de teu coração. Atos 8:22. Vedes que era um pensamento perverso o que ele havia concebido? Por isso diz: Se porventura te seja perdoado; porque sabia que ele era incorrigível.
Palavras de excessiva ira! Mas de outro modo não o castigou: para que a fé não fosse depois por compulsão; para que o assunto não parecesse ser conduzido sem piedade; para que pudesse introduzir o tema do arrependimento; ou também, porque basta para a correção tê-lo convencido, ter-lhe dito o que havia em seu coração, tê-lo levado a confessar-se vencido (ὅ τι ἐ& 128 — confissão de que obrou mal. Observai-o, que celerado ele é; quando foi convencido, então creu: quando de novo foi convencido, então se fez humilde. Vendo os seus milagres, [ficou maravilhado, e passou para o seu lado.] Pensava poder escapar à descoberta: pensava que aquilo fosse uma arte; mas quando não teve poder para vencer (ἑλεἵν) os Apóstolos, * * *. (b) De novo, teme a multidão, e receia negá-lo; e contudo poderia ter dito: Eu não sabia: fi-lo com simplicidade: mas foi ferido de consternação, primeiro, pela circunstância anterior, por ter sido vencido (ὅ τι ἐ& 128 — ...longe, para Roma, pensando que o Apóstolo não chegaria ali tão cedo.
E eles, havendo testificado e pregado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém.
De novo, teme a multidão, e receia negá-lo; e contudo poderia ter dito: Eu não sabia: fi-lo com simplicidade: mas foi ferido de consternação, primeiro, pela circunstância anterior, por ter sido vencido (ὅ τι ἐ& 128 — ...longe, para Roma, pensando que o Apóstolo não chegaria ali tão cedo.
Pois vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniquidade. Atos 8:23. Palavras de excessiva ira! Mas de outro modo não o castigou: para que a fé não fosse depois por compulsão; para que o assunto não parecesse ser conduzido sem piedade; para que pudesse introduzir o tema do arrependimento; ou também, porque basta para a correção tê-lo convencido, ter-lhe dito o que havia em seu coração, tê-lo levado a confessar-se vencido (ὅ τι ἐ& 128 — confissão de que obrou mal. Observai-o, que celerado ele é; quando foi convencido, então creu: quando de novo foi convencido, então se fez humilde. Vendo os seus milagres, [ficou maravilhado, e passou para o seu lado.] Pensava poder escapar à descoberta: pensava que aquilo fosse uma arte; mas quando não teve poder para vencer (ἑλεἵν) os Apóstolos, * * *.
Mesmo isto ele o fez apenas formalmente, como palavras de mero costume, quando deveria ter chorado e se lamentado como penitente. Se porventura te seja perdoado. Não que não lhe seria perdoado, se tivesse chorado, mas este é também o modo do Profeta, denunciar absolutamente (ἀπαγορεύειν), e não dizer: Todavia, se fizeres isto, teu pecado te será perdoado, mas que em todo caso o castigo se cumprirá.
(a) Portanto, os que foram dispersos iam por toda parte, pregando a palavra. Mas eu gostaria que admirásseis como, mesmo em tempo de calamidade, não descuidaram da pregação. Ouvindo e vendo os milagres que ele fazia.
Testemunhou, provavelmente por causa dele (Simão), para que não fossem enganados; para que dali em diante estivessem seguros. Tendo pregado, diz, a palavra do Senhor, voltaram a Jerusalém. Por que voltam ali de novo, onde estava a tirania dos maus, onde estavam os mais decididos a matá-los? Assim como fazem os generais nas guerras, ocupam aquela parte do teatro de guerra que está mais aflita. E anunciavam o Evangelho em muitas aldeias dos samaritanos. Observai-os novamente, como não vieram a Samaria de propósito deliberado (προηγουμένως), mas impelidos pela pressão da perseguição, assim como sucedeu no caso de Cristo; e como, quando os Apóstolos ali vão, é a homens já crentes, não mais samaritanos. Mas quando os Apóstolos, diz, que estavam em Jerusalém, ouviram isto, enviaram-lhes Pedro e João. Enviaram-nos, de novo, para livrá-los da magia. E, além disso, o Senhor lhes dera um modelo no tempo em que os samaritanos creram. E em muitas aldeias, diz, dos samaritanos, anunciavam o Evangelho (Jo 4:39). Observai como até mesmo suas jornadas eram ativamente empregadas, como nada fazem sem propósito.
Tais viagens deveríamos nós também empreender. E por que falo de viagens? Muitos possuem aldeias e terras, e não se preocupam nem fazem caso algum disto. Para que se construam banhos, se aumentem suas rendas, se ergam pátios e edifícios, para isto tomam bastante cuidado; mas para a lavoura das almas, não. Quando vedes espinhos — respondei-me — vós os cortais, os queimais, os destruís totalmente, para livrar vossa terra do dano que deles provém. E vedes os próprios lavradores tomados de espinhos, e não os cortais, e não temeis ao Dono que vos há de pedir contas? Pois não deveria cada crente em particular edificar uma Igreja, obter um Mestre, cooperar, convencê-lo (πεῖσαι)? Pelos meios que estão em teu poder, converte-o; pela bondade, pelos bons ofícios, pela mansidão, pela lisonja (κολακεία)... Igrejas: antes qualquer outra coisa que não isto! Pelo que suplico e imploro, como um favor rogo, sim, como lei estabeleço, que não se veja propriedade alguma destituída de uma Igreja. Não me digais: Há uma perto; há uma nas propriedades vizinhas; a despesa é grande, a renda não é grande. Se tens algo para gastar com os pobres, gasta-o ali: melhor ali que aqui. Mantém um Mestre, mantém um Diácono, e um corpo sacerdotal completo. Como se faz com uma noiva, seja a esposa que tomas, seja a filha que dás em casamento, assim procede com a Igreja: dá-lhe um dote. Assim tua propriedade se encherá de bênção. Pois que bem faltará ali? É coisa pequena, dizei-me, que vosso lagar seja abençoado; coisa pequena, dizei-me, que de vossos frutos Deus seja o primeiro a provar, e que as primícias estejam ali com Ele? E depois, até para a paz do povo que labora, isto é proveitoso. Então, como alguém a quem devem respeitar, estará o presbítero entre eles, e isto contribuirá para a segurança da propriedade. Ali haverá orações constantes por vosso intermédio, hinos e Comunhões por vosso intermédio; a Oblação em cada Dia do Senhor. Considerai somente que louvor será que, enquanto outros construíram túmulos esplêndidos, se diga depois: Tal homem edificou isto, vós erguestes Igrejas! Considerai que, até a vinda de Cristo, tereis vossa recompensa, vós que erguestes os altares de Deus.
Supondes que, se um Imperador vos tivesse ordenado que construísseis uma casa para nela se alojar, não teríeis feito tudo para agradá-lo? E eis que agora é o palácio de Cristo, a Igreja, a Igreja que edificais. Não olheis para o custo, mas calculai o proveito. Vosso povo ali cultiva vosso campo: cultivai vós as suas almas; eles vos trazem os vossos frutos, erguei-os vós ao céu. Aquele que dá o início é a causa de tudo o mais; e vós sereis a causa de que o povo seja trazido ao ensino cristão (κατηχουμένων), tanto ali como nas propriedades vizinhas. Vossos banhos apenas tornam os camponeses menos robustos, vossas tabernas lhes dão gosto pelo luxo, e ainda assim as ofereceis por causa do prestígio. Vossos mercados e feiras (πανηγύρεις), por sua vez, promovem a cobiça. Mas pensai agora que coisa seria ver um presbítero, viva imagem de Abraão, de cabeça grisalha, cingido, cavando e trabalhando com as próprias mãos? Que coisa mais aprazível que tal campo! Sua virtude floresce. Ali não há intemperança, antes é afugentada; não há embriaguez nem lascívia, antes são expulsas; não há vaidade, antes é extinta. Todas as boas disposições brilham mais claramente pela simplicidade dos costumes. Quão agradável é sair e entrar na Casa de Deus, e saber que foi ele mesmo quem a edificou; lançar-se de costas em sua liteira, e, depois do benefício corporal de seu agradável passeio ao ar livre, estar presente tanto aos hinos da tarde como aos da manhã, ter o sacerdote como hóspede à sua mesa, e, ao conviver com ele, desfrutar de sua bênção, e ver também outros ali chegando! Isto é uma muralha para o seu campo, isto é sua segurança. Este é o campo do qual se diz: O cheiro de um campo cheio, que o Senhor abençoou (Gn 27:27). Se, mesmo sem isto, o campo já é agradável, por ser tão tranquilo, tão livre da distração dos negócios, que não será quando a isto se acrescentar aquilo? O campo com uma Igreja é como o Paraíso de Deus. Ali não há clamor, não há tumulto, não há inimigos em discórdia, não há heresias: ali vereis todos amigos, professando em comum a mesma doutrina. A própria quietude vos elevará a pensamentos mais altos, e, recebendo-vos assim preparados pela filosofia, o presbítero vos dará um excelente remédio. Pois aqui, seja o que for que digamos, o ruído do mercado tudo dissipa; mas ali, o que ouvirdes, o guardareis fixo em vossa mente. Sereis um homem bem diferente no campo, por meio dele: e, além disso, para o povo ali ele será o diretor, ele os vigiará tanto por sua presença como por sua
Testemunhou, provavelmente por causa dele (Simão), para que não fossem enganados; para que dali em diante estivessem seguros. Tendo pregado, diz, a palavra do Senhor, voltaram a Jerusalém. Por que voltam ali de novo, onde estava a tirania dos maus, onde estavam os mais decididos a matá-los? Assim como fazem os generais nas guerras, ocupam aquela parte do teatro de guerra que está mais aflita. E anunciavam o Evangelho em muitas aldeias dos samaritanos. Observai-os novamente, como não vieram a Samaria de propósito deliberado (προηγουμένως), mas impelidos pela pressão da perseguição, assim como sucedeu no caso de Cristo; e como, quando os Apóstolos ali vão, é a homens já crentes, não mais samaritanos. Mas quando os Apóstolos, diz, que estavam em Jerusalém, ouviram isto, enviaram-lhes Pedro e João. Enviaram-nos, de novo, para livrá-los da magia. E, além disso, o Senhor lhes dera um modelo no tempo em que os samaritanos creram. E em muitas aldeias, diz, dos samaritanos, anunciavam o Evangelho (Jo 4:39). Observai como até mesmo suas jornadas eram ativamente empregadas, como nada fazem sem propósito.
Tais viagens deveríamos nós também empreender. E por que falo de viagens? Muitos possuem aldeias e terras, e não se preocupam nem fazem caso algum disto. Para que se construam banhos, se aumentem suas rendas, se ergam pátios e edifícios, para isto tomam bastante cuidado; mas para a lavoura das almas, não. Quando vedes espinhos — respondei-me — vós os cortais, os queimais, os destruís totalmente, para livrar vossa terra do dano que deles provém. E vedes os próprios lavradores tomados de espinhos, e não os cortais, e não temeis ao Dono que vos há de pedir contas? Pois não deveria cada crente em particular edificar uma Igreja, obter um Mestre, cooperar, convencê-lo (πεῖσαι)? Pelos meios que estão em teu poder, converte-o; pela bondade, pelos bons ofícios, pela mansidão, pela lisonja (κολακεία)... Igrejas: antes qualquer outra coisa que não isto! Pelo que suplico e imploro, como um favor rogo, sim, como lei estabeleço, que não se veja propriedade alguma destituída de uma Igreja. Não me digais: Há uma perto; há uma nas propriedades vizinhas; a despesa é grande, a renda não é grande. Se tens algo para gastar com os pobres, gasta-o ali: melhor ali que aqui. Mantém um Mestre, mantém um Diácono, e um corpo sacerdotal completo. Como se faz com uma noiva, seja a esposa que tomas, seja a filha que dás em casamento, assim procede com a Igreja: dá-lhe um dote. Assim tua propriedade se encherá de bênção. Pois que bem faltará ali? É coisa pequena, dizei-me, que vosso lagar seja abençoado; coisa pequena, dizei-me, que de vossos frutos Deus seja o primeiro a provar, e que as primícias estejam ali com Ele? E depois, até para a paz do povo que labora, isto é proveitoso. Então, como alguém a quem devem respeitar, estará o presbítero entre eles, e isto contribuirá para a segurança da propriedade. Ali haverá orações constantes por vosso intermédio, hinos e Comunhões por vosso intermédio; a Oblação em cada Dia do Senhor. Considerai somente que louvor será que, enquanto outros construíram túmulos esplêndidos, se diga depois: Tal homem edificou isto, vós erguestes Igrejas! Considerai que, até a vinda de Cristo, tereis vossa recompensa, vós que erguestes os altares de Deus.
Supondes que, se um Imperador vos tivesse ordenado que construísseis uma casa para nela se alojar, não teríeis feito tudo para agradá-lo? E eis que agora é o palácio de Cristo, a Igreja, a Igreja que edificais. Não olheis para o custo, mas calculai o proveito. Vosso povo ali cultiva vosso campo: cultivai vós as suas almas; eles vos trazem os vossos frutos, erguei-os vós ao céu. Aquele que dá o início é a causa de tudo o mais; e vós sereis a causa de que o povo seja trazido ao ensino cristão (κατηχουμένων), tanto ali como nas propriedades vizinhas. Vossos banhos apenas tornam os camponeses menos robustos, vossas tabernas lhes dão gosto pelo luxo, e ainda assim as ofereceis por causa do prestígio. Vossos mercados e feiras (πανηγύρεις), por sua vez, promovem a cobiça. Mas pensai agora que coisa seria ver um presbítero, viva imagem de Abraão, de cabeça grisalha, cingido, cavando e trabalhando com as próprias mãos? Que coisa mais aprazível que tal campo! Sua virtude floresce. Ali não há intemperança, antes é afugentada; não há embriaguez nem lascívia, antes são expulsas; não há vaidade, antes é extinta. Todas as boas disposições brilham mais claramente pela simplicidade dos costumes. Quão agradável é sair e entrar na Casa de Deus, e saber que foi ele mesmo quem a edificou; lançar-se de costas em sua liteira, e, depois do benefício corporal de seu agradável passeio ao ar livre, estar presente tanto aos hinos da tarde como aos da manhã, ter o sacerdote como hóspede à sua mesa, e, ao conviver com ele, desfrutar de sua bênção, e ver também outros ali chegando! Isto é uma muralha para o seu campo, isto é sua segurança. Este é o campo do qual se diz: O cheiro de um campo cheio, que o Senhor abençoou (Gn 27:27). Se, mesmo sem isto, o campo já é agradável, por ser tão tranquilo, tão livre da distração dos negócios, que não será quando a isto se acrescentar aquilo? O campo com uma Igreja é como o Paraíso de Deus. Ali não há clamor, não há tumulto, não há inimigos em discórdia, não há heresias: ali vereis todos amigos, professando em comum a mesma doutrina. A própria quietude vos elevará a pensamentos mais altos, e, recebendo-vos assim preparados pela filosofia, o presbítero vos dará um excelente remédio. Pois aqui, seja o que for que digamos, o ruído do mercado tudo dissipa; mas ali, o que ouvirdes, o guardareis fixo em vossa mente. Sereis um homem bem diferente no campo, por meio dele: e, além disso, para o povo ali ele será o diretor, ele os vigiará tanto por sua presença como por sua
(b) Vede os Anjos assistindo à pregação, e não pregando eles mesmos, mas chamando estes (para a obra). Mas a natureza admirável do sucedido mostra-se também nisto: que o que outrora era raro e dificilmente se fazia, aqui se realiza com facilidade, e vede com que frequência! (c) Um eunuco, diz, homem de grande autoridade, sob Candace, rainha dos etíopes
Parece-me que este (Filipe) era um dos sete; pois de Jerusalém ele não teria ido para o sul, mas para o norte; mas de Samaria era "para o sul. Este é deserto": de modo que não há temor de ataque por parte dos judeus. E ele não perguntou: Por quê? mas "levantou-se e foi. E eis", diz, "um homem etíope, eunuco de grande autoridade sob Candace, rainha dos etíopes, que tinha a seu cargo todo o tesouro dela, e viera a Jerusalém para adorar, regressava e, sentado em seu carro, lia o profeta Isaías" (v. 27-28). Grandes elogios merece este homem, que, residindo na Etiópia e assoberbado de tantos negócios, e não havendo festa alguma, e vivendo naquela cidade supersticiosa, veio "a Jerusalém para adorar". Grande é também o seu zelo pelo estudo, que até "sentado em seu carro lia". "E", diz, "o Espírito disse a Filipe: Chega-te e ajunta-te a esse carro. E correndo Filipe, ouviu-o lendo o profeta Isaías, e disse: Entendes o que lês? E ele disse: Como poderia, se alguém não me guiar?" (v. 29-31). Observai novamente sua piedade; que, embora não entendesse, lia, e depois de ler, examinava. "E rogou a Filipe que subisse e se assentasse com ele. O lugar da Escritura que lia era este: Como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como um cordeiro é mudo diante do que o tosquia, assim não abriu Ele a Sua boca; em Sua humilhação, o Seu juízo foi tirado; e quem contará a Sua geração? porque a Sua vida é tirada da terra. E o eunuco, respondendo a Filipe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? de si mesmo, ou de algum outro homem? Então Filipe abriu a sua boca, e, começando pela mesma Escritura, anunciou-lhe a Jesus" (v. 32-35). Observai como isto é ordenado pela Providência. Primeiro lê e não entende; depois lê precisamente o texto em que estava a Paixão, a Ressurreição e o Dom. "E, indo eles caminho fora, chegaram a um lugar onde havia água; e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?" (v. 36). Notai o ardente desejo, notai o conhecimento exato. "E mandou parar o carro; e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco; e batizou-o. E, quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco; e seguiu o seu caminho, cheio de alegria" (v. 38-39). Mas por que o Espírito do Senhor o arrebatou? Por isto se mostrou mais admirável o sucedido. Pois até então o eunuco não o conhecia. Por conseguinte, isto se fez para que Filipe fosse depois para ele motivo de admiração. "Pois", diz, "seguiu o seu caminho, cheio de alegria. Filipe, porém, se achou em Azoto; e, indo passando, evangelizava todas as cidades, até que chegou a Cesareia" (v. 40). Este (Filipe, portanto) era um dos sete; pois de fato ali depois se acha em Cesareia. Foi, pois, bom e conveniente que o Espírito arrebatasse Filipe; do contrário, o eunuco teria desejado ir com ele, e Filipe o teria entristecido ao recusar atender ao seu pedido, não sendo ainda chegado o tempo. Mas ao mesmo tempo havia aqui uma garantia animadora para eles, de que também prevaleceriam sobre os gentios: pois de fato o caráter elevado e digno de confiança (τὸ ἀξιόπιστον) dos primeiros crentes bastava para movê-los. Se, porém, o eunuco ali tivesse ficado, que culpa se poderia encontrar? pois é por isto que diz: "seguiu o seu caminho, cheio de alegria": de modo que, se o tivesse conhecido, não teria ficado (tão) contente. "E o Anjo do Senhor", etc. (Recapitulação, v. 26). (b) Vede os Anjos assistindo à pregação, e não pregando eles mesmos, mas chamando estes (para a obra). Mas a natureza admirável do sucedido mostra-se também nisto: que o que outrora era raro e dificilmente se fazia, aqui se realiza com facilidade, e vede com que frequência! (c) "Um eunuco", diz, "homem de grande autoridade, sob Candace, rainha dos etíopes" (v. 27). Pois ali antigamente reinavam as mulheres, e esta era a lei entre eles. Filipe ainda não sabia por causa de quem viera ao deserto: (d) mas que impediria que aprendesse todos estes pormenores com exatidão, estando no carro? "Lia o profeta Isaías" (v. 28). Pois o caminho era deserto, e não havia nisto ostentação alguma. Observai também em que hora: no calor mais violento (do dia). (e) "E o Espírito lhe disse" (v. 29). Já não é o Anjo, mas o Espírito quem o impele. Por que isto? Então, a visão se dera, de modo mais grosseiro, por meio do Anjo, pois isto é para os que são mais carnais, mas o Espírito é para os mais espirituais. E como lhe falou Ele? Certamente, sugeriu-lho. Por que não aparece o Anjo ao outro, e o traz a Filipe? Porque é provável que não se teria persuadido, mas antes se teria aterrorizado. Observai a sabedoria de Filipe: não o acusou, não disse: "Conheço estas coisas exatamente"; não lhe fez a corte, dizendo: "Bem-aventurado és tu, que lês". Mas notai o seu discurso, quão distante está tanto da aspereza como da adulação; discurso antes de homem bondoso e amigável. "Entendes o que lês?" (v. 30). Pois era necessário que ele mesmo perguntasse, que ele mesmo tivesse um desejo ardente. Claramente dá a entender que sabe que o outro nada sabia: e diz: "Entendes o que lês?", ao mesmo tempo lhe mostra que grande era o tesouro que ali estava contido. Bem se conta também que o eunuco não atentou para a aparência exterior (σχῆμα) (do homem), não disse: "Quem és tu?", não o repreendeu, não se ensoberbeceu, não disse que já sabia. Pelo contrário, confessa sua ignorância: por isso também aprende. Mostra sua ferida ao médico: percebe num relance que ele conhece a matéria, e está disposto a ensinar. Vede quão livre está da altivez; a aparência exterior não anunciava nada de esplêndido. Assim
(b) Vede os Anjos assistindo à pregação, e não pregando eles mesmos, mas chamando estes (para a obra). Mas a natureza admirável do sucedido mostra-se também nisto: que o que outrora era raro e dificilmente se fazia, aqui se realiza com facilidade, e vede com que frequência! (c) Um eunuco, diz, homem de grande autoridade, sob Candace, rainha dos etíopes.
Pois ali antigamente reinavam as mulheres, e esta era a lei entre eles. Filipe ainda não sabia por causa de quem viera ao deserto: (d) mas que impediria que aprendesse todos estes pormenores com exatidão, estando no carro? Lia o profeta Isaías.
E o Anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te e vai em direção ao sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, o qual é deserto. E ele se levantou e foi.
Parece-me que este (Filipe) era um dos sete; pois de Jerusalém ele não teria ido para o sul, mas para o norte; ora, de Samaria era em direção ao sul. O mesmo é deserto: de modo que não há temor de ataque por parte dos judeus. E ele não perguntou: Por quê? Mas levantou-se e foi. E eis que, diz, um homem da Etiópia, eunuco de grande autoridade sob Candace, rainha dos etíopes, o qual estava encarregado de todo o seu tesouro, e viera a Jerusalém para adorar, regressava e, sentado em seu carro, lia o profeta Isaías (v. 27, 28). Grandes louvores para este homem, que, residindo na Etiópia e cercado de tantos negócios, e não havendo festa alguma em curso, e vivendo naquela cidade supersticiosa, veio a Jerusalém para adorar. Grande é também a sua diligência, pois mesmo sentado em seu carro lia. E, diz, o Espírito disse a Filipe: Aproxima-te e ajunta-te a este carro. E Filipe correu até ele, e ouviu-o lendo o profeta Isaías, e disse: Entendes o que lês? E ele disse: Como poderia, se ninguém me guiar?
Parece-me que este (Filipe) era um dos sete; pois de Jerusalém ele não teria ido para o sul, mas para o norte; ora, de Samaria era em direção ao sul. O mesmo é deserto: de modo que não há temor de ataque por parte dos judeus. E ele não perguntou: Por quê? Mas levantou-se e foi. E eis que, diz, um homem da Etiópia, eunuco de grande autoridade sob Candace, rainha dos etíopes, o qual estava encarregado de todo o seu tesouro, e viera a Jerusalém para adorar, regressava e, sentado em seu carro, lia o profeta Isaías (v. 27, 28). Grandes louvores para este homem, que, residindo na Etiópia e cercado de tantos negócios, e não havendo festa alguma em curso, e vivendo naquela cidade supersticiosa, veio a Jerusalém para adorar. Grande é também a sua diligência, pois mesmo sentado em seu carro lia. E, diz, o Espírito disse a Filipe: Aproxima-te e ajunta-te a este carro. E Filipe correu até ele, e ouviu-o lendo o profeta Isaías, e disse: Entendes o que lês? E ele disse: Como poderia, se ninguém me guiar?
Pois o caminho era deserto, e não havia ostentação alguma no caso. Observa também em que hora: no mais violento calor (do dia). E o Espírito lhe disse.
Não mais o Anjo, mas o Espírito o impele agora. Por que assim? Ora, a visão se dera, em forma mais grosseira, por meio do Anjo, pois isto é para os que são mais corporais, ao passo que o Espírito é para os mais espirituais. E como lhe falou Ele? Certamente, sugeriu-lho. Por que o Anjo não aparece ao outro, e o traz a Filipe? Porque é provável que este não se teria persuadido, mas antes se teria aterrorizado. Observa a sabedoria de Filipe: não o acusou, não disse: Conheço estas coisas exatamente; não lhe fez a corte, nem disse: Bem-aventurado és tu que lês. Mas atenta para o seu discurso, quão longe está tanto da aspereza quanto da adulação; discurso antes de homem benévolo e amigo. Entendes o que lês?
Pois era necessário que ele mesmo perguntasse, ele mesmo tivesse ardente desejo. Claramente lhe dá a entender que sabe que o outro nada sabia: e diz: Entendes o que lês? E ao mesmo tempo lhe mostra que grande era o tesouro que ali estava contido. Bem observa também que o eunuco não atentou para a aparência exterior (σχἥμα) (do homem), não disse: Quem és tu? não o repreendeu, não se ensoberbeceu, não disse que já sabia. Ao contrário, confessa a sua ignorância: por isso também aprende. Mostra ao médico o seu ferimento: percebe num relance que aquele conhece a matéria, e está disposto a ensinar. Vê quão livre está da altivez; a aparência exterior nada anunciava de esplêndido. Tão desejoso estava de aprender, e deu ouvidos às suas palavras; e nele se cumpriu aquele dito: Quem busca, encontra (Mt 7,8). E, diz, rogou a Filipe que subisse e se assentasse com ele.
Observa novamente a sua piedade: que, embora não entendesse, lia, e depois de ler, examinava. E pediu a Filipe que subisse e se assentasse com ele. O lugar da Escritura que ele lia era este: Como ovelha foi levado ao matadouro; e como cordeiro mudo diante do que o tosquia, assim não abriu Ele a sua boca: em sua humilhação foi tirado o seu juízo: e quem declarará a sua geração? Pois a sua vida é tirada da terra. E o eunuco respondeu a Filipe, e disse: Rogo-te, de quem diz isto o profeta? De si mesmo, ou de algum outro homem? Então Filipe abriu a sua boca, e começando pela mesma Escritura, pregou-lhe a Jesus.
Notas o fervor, o ardente desejo? Mas, se alguém disser que ele deveria ter esperado que Filipe (falasse), (a resposta é): ele não sabe do que se trata; de modo algum poderia dizer o que o outro estava para lhe dizer, mas supunha apenas que estava para receber alguma (lição de) profecia. E, além disso, era mais respeitoso que não o fizesse subir à força ao seu carro, mas lho rogasse. E Filipe, lemos, correu até ele, e ouviu-o lendo; o próprio fato de correr mostrava que queria dizer (algo). E o lugar, diz, da Escritura que ele lia era este: Como ovelha foi levado ao matadouro.
E esta circunstância é também sinal de sua mente elevada (φιλοσοφίας), o fato de que tinha em mãos este profeta, que é mais sublime que todos os outros. Filipe não lhe relata as coisas de qualquer maneira, mas serenamente: antes, nada diz até ser interrogado. Tanto na ocasião anterior ele lhe suplicou, como agora o faz, dizendo: Rogo-te que me digas, de quem fala o profeta isto? Que ele soubesse que os Profetas falam de diversas maneiras acerca de diversas pessoas, ou que falam de si mesmos sob outra pessoa — a pergunta denota uma mente muito ponderada. Sejamos envergonhados, tanto pobres quanto ricos, por este eunuco. Então, diz o texto, chegaram a uma certa água, e ele disse: Eis aqui água.
Observai como isto foi ordenado pela Providência. Primeiro ele lê e não entende; depois lê justamente o texto em que estava a Paixão, a Ressurreição e o Dom. E, indo eles pelo caminho, chegaram a uma certa água; e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?
Novamente, por si mesmo ele solicita, dizendo: Que impede que eu seja batizado? E vede outra vez sua modéstia: não diz Batiza-me, nem tampouco se cala; mas profere algo intermediário entre o forte desejo e o temor reverente, dizendo: Que impede? Observais como ele possui os dogmas (da fé) perfeitos? Pois de fato o Profeta continha tudo: Encarnação, Paixão, Ressurreição, Ascensão, Juízo vindouro. E se ele demonstra tamanha veemência de desejo, não vos maravilheis. Envergonhai-vos, todos quantos ainda não fostes batizados. E, diz o texto, ele mandou parar o carro.
Notai o ardente desejo, notai o conhecimento exato. E mandou parar o carro; e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco; e ele o batizou. E, quando subiram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe, de modo que o eunuco não mais o viu; e ele seguiu seu caminho regozijando-se. (v. 38, 39.) Mas por que o Espírito do Senhor o arrebatou? (Com isto) o sucedido se mostrava mais admirável ainda. Pois até então o eunuco não o conhecia. Por isso isto se fez, para que Filipe fosse depois motivo de admiração para ele. Pois, diz o texto, ele seguiu seu caminho regozijando-se. Mas Filipe foi achado em Azoto; e, passando por ali, pregava em todas as cidades, até chegar a Cesareia.
Falou, e deu a ordem no mesmo instante, antes de ouvir (a resposta de Filipe). E, quando subiram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe;
a fim de que o sucedido se mostrasse ser de Deus; que ele não o considerasse mera obra de homem. E ele seguiu, diz o texto, seu caminho regozijando-se. (P. 121, nota 2.) Isto sugere que ele teria se entristecido se o soubesse: pois, tal a grandeza de sua alegria, tendo-lhe sido também concedido o Espírito, ele nem sequer atentava às coisas presentes. Mas Filipe foi achado em Azoto.
Este (Filipe, portanto) era um dos sete; pois ali de fato ele é depois encontrado em Cesareia. Foi, pois, bom e conveniente que o Espírito arrebatasse Filipe; do contrário, o eunuco desejaria ir com ele, e Filipe o teria entristecido ao recusar-se a atender-lhe o pedido, não sendo ainda chegado o tempo. (a) Mas ao mesmo tempo havia aqui uma segurança encorajadora para eles, de que também prevaleceriam sobre os gentios: pois de fato o caráter elevado (τὸ ἀξιόπιστον) dos (primeiros) crentes era suficiente para movê-los. Se, porém, o eunuco ali tivesse permanecido, que falta se poderia encontrar? [Mas ele não o conhecia]: pois é por isto que diz que ele seguiu seu caminho regozijando-se: de modo que, se o tivesse conhecido, não se teria (tão) alegrado.
E o Anjo do Senhor, etc.
Este (Filipe, portanto) era um dos sete; pois, de fato, é ali que ele depois é encontrado, em Cesareia. Foi bom e conveniente, portanto, que o Espírito arrebatasse Filipe; do contrário, o eunuco desejaria ir com ele, e Filipe o teria entristecido ao recusar atender ao seu pedido, não sendo ainda chegado o tempo. Mas, ao mesmo tempo, havia aqui uma animadora garantia para eles de que também prevaleceriam sobre os gentios: pois, de fato, o caráter digno de crédito (τὸ ἀξιόπιστον) dos (primeiros) crentes já bastava para movê-los. Se, porém, o eunuco tivesse ali permanecido, que falta se lhe poderia imputar? [Mas ele não o conhecia]: pois é por isto que se diz que ele prosseguiu o seu caminho regozijando-se; de modo que, se o conhecesse, não estaria (tão) contente.
Grande foi também o ganho para Filipe: aquilo que ouvira acerca dos profetas, acerca de Habacuque, acerca de Ezequiel, e dos demais, ele o via realizado em sua própria pessoa. Cf. Dn 14,36; Ez 3,12. Daí se manifesta que ele percorreu longa distância, visto que foi encontrado em Azoto. (O Espírito) o colocou ali, onde doravante deveria pregar: E, indo passando, pregava em todas as cidades, até que chegou a Cesareia.
Menciona ele oportunamente o zelo de Paulo, e mostra que é bem no meio deste zelo que ele é arrebatado. Ainda respirando ameaças e mortes, e não ainda saciado com o assassínio de Estêvão, não estava ele ainda farto da perseguição à Igreja, nem da dispersão. Eis que se cumpria o que fora dito por Cristo, que aqueles que vos matam pensarão prestar culto a Deus (Jo 16,2). Ele então o fazia deste modo, não como os judeus; longe disso! Pois que o fazia por zelo, manifesta-se por ele ir até cidades estrangeiras: ao passo que aqueles nem sequer se importavam com os que estavam em Jerusalém; buscavam uma só coisa, gozar de honra. Mas por que foi ele a Damasco? Era uma grande cidade, cidade régia: temia que ela lhe fosse tomada de antemão. E observai o seu forte desejo e ardor, e quão estritamente, segundo a Lei, ele procedia: não vai ao governador, mas ao sacerdote. Que, se encontrasse alguns deste caminho — pois assim eram chamados os crentes, provavelmente por seguirem o caminho reto que conduz ao céu. E por que não recebeu ele autoridade para castigá-los ali mesmo, mas os traz a Jerusalém? Fazia ali estas coisas com maior autoridade. E notai a que perigo ele mesmo se lança. Não temia sofrer algum mal, mas levava consigo também outros, para que, se encontrasse, diz, alguns deste caminho, fossem homens ou mulheres — ó crueldade! — pudesse trazê-los presos. Por esta sua jornada, quis mostrar a todos (como ele agiria): tão longe estavam eles de ser diligentes nesta causa. Observai-o também lançando (pessoas) no cárcere antes disto. Os outros, pois, não prevaleceram; mas este homem prevaleceu, por causa de seu ânimo ardente. E, indo ele de caminho, aproximou-se de Damasco: e subitamente uma luz do céu resplandeceu ao redor dele; e caiu por terra, e ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues?
Por que não em Jerusalém? Por que não em Damasco? Para que não houvesse ocasião de diversas pessoas relatarem o sucedido de diversos modos, mas que ele só fosse o narrador digno de crédito (ἀξιόπιστος), ele que fora enviado para este fim. De fato, ele o diz [tanto em sua oração sobre as escadas], quanto ao defender-se perante Agripa. Caiu por terra (cf. At 22,6; 26,12): pois o excesso de luz costuma abalar, porquanto os olhos têm sua medida; diz-se também que o excesso de som deixa as pessoas surdas e atônitas (como que apopléticas). Mas a ele apenas cegou, e extinguiu sua paixão pelo temor, de modo que ouvisse o que se lhe dizia. Saulo, Saulo, diz Ele, por que me persegues? E nada mais lhe diz: não diz "Crê", nem coisa alguma semelhante; mas expostula com ele, como que dizendo: Que mal, grande ou pequeno, sofreste de Mim, para que faças estas coisas? E ele disse: Quem és Tu, Senhor?
Assim, em primeiro lugar, confessando-se servo Seu. E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; não penses que a tua guerra é contra homens. E os que estavam com ele ouviam a voz de Paulo, mas não viam pessoa alguma a quem ele respondesse — pois (o Senhor) permitiu que fossem ouvintes apenas do que era menos importante. Se tivessem ouvido a outra Voz, não teriam crido; mas, percebendo Paulo responder (a alguém), maravilharam-se. Mas levanta-te, e entra na cidade, e ali te será dito o que te convém fazer.
Observai como Ele não acrescenta logo tudo, mas primeiro abranda o seu ânimo. Do mesmo modo chamou também os discípulos uma segunda vez. Ali te será dito, etc.: dá-lhe boas esperanças, e (dá a entender) que ele também recobrará a vista. E os homens que viajavam com ele detiveram-se emudecidos, ouvindo uma voz, mas não vendo ninguém. E Saulo levantou-se da terra; e, abertos os seus olhos, não via a ninguém: mas, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco.
Os despojos do diabo (τὰ σκεύη αὐτοῦ), os seus bens (Mt 13,29), como que tomados de alguma cidade, ou antes, de alguma metrópole conquistada. E o admirável é que os próprios inimigos e adversários o trouxeram, à vista de todos! E por três dias não comeu nem bebeu, estando cego.
Mas, como disse, envergonhemo-nos por ora, ao lembrarmo-nos do eunuco, tanto quanto ao seu batismo quanto à sua leitura. Reparai como ele ocupava uma posição de grande autoridade, como possuía riquezas, e como, mesmo em viagem, não se concedia descanso algum? Que seria ele em casa, nas horas de ócio, este homem que nem sequer em viagem descansava? Que seria ele durante a noite? Vós que ocupais posições de dignidade, ouvi: imitai a sua isenção de soberba (de Lazaro, Conc. iii. §3, t. i. p. 748. c), a sua piedade. Embora estivesse para voltar à sua terra, não disse consigo mesmo: Estou voltando à minha pátria, ali recebei o batismo — palavras frias que a maioria dos homens costuma usar! Não teve necessidade de sinais, não teve necessidade de milagres: creu somente a partir do Profeta. Mas por que se ordenou que ele visse a Filipe não antes de ir a Jerusalém, mas depois de lá ter estado? Não convinha que visse os Apóstolos sob perseguição. Como ainda era fraco, o Profeta não lhe foi fácil; mas, ainda assim, o Profeta o catequizou. Pois, mesmo agora, se algum de vós se dedicasse ao estudo dos Profetas, não teria necessidade de milagres. E, se quiserdes, tomemos em mãos a própria profecia. Como ovelha foi levado ao matadouro; e como cordeiro mudo diante do que o tosquia, assim não abriu a sua boca: em sua humilhação, foi-lhe tirado o julgamento; e quem contará a sua geração? Pois a sua vida é tirada da terra (v. 22-23). É provável que ele tivesse ouvido que Ele fora crucificado, e agora aprende que a sua vida foi tirada da terra, e o restante, que Ele não cometeu pecado, nem houve engano em sua boca; que Ele prevaleceu para salvar também a outros; e quem Ele é, cuja geração é inefável. É provável que tivesse visto ali mesmo as rochas fendidas, e ouvido como o véu se rasgou, e como houve trevas, e assim por diante; e todas estas coisas Filipe mencionou, tomando o seu texto tão somente do Profeta. Grande coisa é esta, a leitura das Escrituras! Cumpriu-se o que fora dito por Moisés: Sentado, deitado, levantando-te e caminhando, lembra-te do Senhor teu Deus (Dt 6,7). Pois os caminhos, sobretudo quando solitários, dão-nos ocasião para a reflexão, não havendo ninguém que nos perturbe. Tanto este homem está no caminho quanto Paulo está no caminho: mas a este último ninguém o atrai, senão Cristo somente. Esta era obra demasiado grande para os Apóstolos; e mais ainda, porquanto, estando os Apóstolos em Jerusalém, e não havendo pessoa de autoridade em Damasco, ele contudo voltou dali convertido; e todavia os de Damasco sabiam que ele não viera convertido de Jerusalém, pois trazia cartas para acorrentar os fiéis. Como médico consumado, quando a febre estava no auge, Cristo lhe trouxe socorro: pois era necessário que fosse dominado no meio do seu furor. Pois então, mais do que nunca, seria abatido, e a si mesmo se condenaria como réu de temível audácia. Por estas coisas Paulo se lastima de si mesmo, dizendo: Mas por isso alcancei misericórdia, para que em mim, primeiro, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade (1Tm 1,13-16). Verdadeiramente há razão para admirar este eunuco. Não viu a Cristo, não viu milagre algum: viu Jerusalém ainda de pé, íntegra (συνεστὥτα): creu em Filipe. Como veio ele a proceder assim? A sua alma era zelosa (μεμεριμνημένη). Todavia o ladrão (na cruz) vira milagres; os magos tinham visto uma estrela; mas este homem, nada disso. Tão grande coisa é a leitura diligente das Escrituras! E quanto a Paulo? Não estudara ele a lei? Mas ele, ao que me parece, foi especialmente reservado para o propósito que já mencionei por antecipação, porque Cristo quis atrair a Si os judeus por induções vindas de toda parte. Pois, se estivessem em seu perfeito juízo, nada lhes seria tão proveitoso quanto isto; pois isto, mais do que os milagres e tudo o mais, era próprio para atraí-los: assim como, por outro lado, nada é tão apto a servir de tropeço aos homens de entendimento mais obtuso. Vede, pois, como, depois do Apóstolo, temos também a Deus a operar milagres. Acusaram os Apóstolos depois destes seus milagres; lançaram-nos na prisão: vede então a Deus a operar os milagres. Por exemplo, o tirá-los da prisão foi milagre seu: o trazer Filipe foi milagre seu: o converter Paulo foi seu. — Observai de que modo é honrado Paulo, de que modo o eunuco. Ali, Cristo aparece, provavelmente por causa da sua dureza, e porque Ananias de outro modo não se teria persuadido. Familiarizados com estas maravilhas, mostremo-nos dignos delas. Mas muitos, em nossos dias, mesmo quando vêm à igreja, não sabem o que se lê; ao passo que o eunuco, mesmo em público (ἐπ᾿ ἀγορᾶς) e viajando em sua carruagem, se dedicava à leitura das Escrituras. Não é assim convosco: ninguém toma a Bíblia nas mãos; antes, qualquer coisa em vez da Bíblia. Dizei-me, para que servem as Escrituras? Quanto está em vós, tudo se desfaz. Para que serve a Igreja? Amarrai as Bíblias: talvez o juízo não fosse tal, nem tal o castigo; se alguém as enterrasse no esterco, para não as ouvir, não as insultaria tanto quanto vós agora o fazeis. Pois dizei, qual é o insulto ali? Que o homem as enterrou. E qual é aqui? Que não as ouvimos. Dizei, quando é alguém mais insultado — quando se cala, e não se lhe responde, ou quando fala (e não é ouvido)? De modo que o insulto é maior no caso presente, quando Ele fala e vós não quereis ouvir: maior é o desprezo. Não nos faleis (Is 30,10), lemos que outrora disseram aos Profetas; mas vós fazeis pior, dizendo: Falai; não faremos. Pois ali os afastavam para que nem sequer falassem, como que sentindo que da própria voz recebiam alguma espécie de temor e obrigação; ao passo que vós, no excesso do vosso desprezo, nem isto fazeis. Crede-me, se nos tapásseis a boca pondo as mãos sobre ela, o insulto não seria tão grande quanto agora é. Pois dizei, qual mostra maior desprezo, aquele que ouve [truncado]
Que se poderia igualar a isto? Para compensar o desalento causado pelo caso de Estêvão, eis aqui um consolo, na introdução de Paulo: embora aquela tristeza já tivesse a sua consolação no fato de Estêvão ter feito tão bom fim, recebeu ainda esta consolação adicional: além disso, a introdução das aldeias dos samaritanos trouxe grandíssimo conforto. — Mas por que sucedeu isto não logo no início, mas depois destes acontecimentos? Para que se mostrasse que Cristo verdadeiramente ressuscitara. Este furioso agressor de Cristo, o homem que se recusava a crer em sua morte e ressurreição, o perseguidor de seus discípulos, como se teria tornado crente, se o poder de sua ressurreição não fosse na verdade grande? Concedamos que os outros Apóstolos favorecessem (as suas pretensões): que direis deste homem? Por que, então, não logo após a ressurreição? Para que a sua hostilidade se mostrasse mais claramente como guerra aberta. O homem tão desvairado a ponto de derramar sangue e lançar homens nas prisões, converte-se de uma só vez! Não lhe bastava jamais ter estado na companhia de Cristo: era preciso que ele guerreasse contra os crentes com veemente hostilidade: a nenhum deixou a possibilidade de superá-lo em furor: nenhum de todos poderia ser tão violento. Mas, quando foi cegado, viu então as provas de sua soberania e benignidade: então responde: Senhor, que queres que eu faça? Para que ninguém dissesse que ele fingia, ele que até ansiava por sangue, e ia aos sacerdotes, e se lançava a tais perigos, perseguindo e levando ao castigo até os que estavam em terras estrangeiras — nestas circunstâncias reconhece agora a sua soberania. E por que foi ele iluminado por aquela luz não dentro da cidade, mas antes dela? A multidão não teria acreditado, visto que mesmo ali (em Jerusalém), quando o povo ouviu a voz que vinha do alto, disseram que trovejara (Jo 12,29); mas este homem era autoridade suficiente para relatar o que lhe dizia respeito. E foi trazido preso, ainda que sem grilhões sobre si: e o conduziram aquele que esperava conduzir os outros. E não comeu, nem bebeu: condenava-se pelo passado, confessava, orava, suplicava a Deus. Mas, se alguém disser que isto foi efeito de compulsão: (respondemos) O mesmo sucedeu a Elimas: como se explica, então, que este não se convertesse? O que poderia ser mais compulsório do que o terremoto na Ressurreição, o relato dos soldados, os demais milagres, o vê-lo a Ele mesmo ressuscitado? Mas estas coisas não compelem (a crença), são próprias para ensiná-la (οὐκ ἀναγκαστικὰ ἀλλὰ διδακτικά). Por que não creram os judeus quando lhes foram relatadas estas coisas? Que ele dizia a verdade era manifesto: pois não se teria convertido, se isto não tivesse acontecido; de modo que todos estavam obrigados a crer. Não era inferior aos que pregavam a Ressurreição, e era mais digno de fé, por ter sido convertido tão subitamente. Não teve trato com nenhum dos crentes; foi em Damasco que se converteu, ou antes, foi antes de chegar a Damasco que isto lhe sucedeu. Pergunto ao judeu: dizei, por que foi Paulo convertido? Ele viu tantos sinais, e não se converteu: o seu mestre (Gamaliel) se converteu, e ele permaneceu sem se converter. Quem o convenceu — e não apenas o convenceu, mas de uma só vez lhe inspirou tão ardente zelo? Por que foi que quis até descer ao próprio inferno por amor de Cristo? A verdade dos fatos é manifesta.
Qual poderá ser a razão de Ele não ter atraído nenhuma pessoa de alta autoridade e importância, nem feito com que tal pessoa se apresentasse para instruir Paulo? Foi porque não convinha que ele fosse induzido por homens, mas somente por Cristo mesmo: pois, de fato, este homem nada lhe ensinou, mas apenas o batizou; pois, tão logo batizado (φωτισθείς), ele haveria de atrair sobre si a graça do Espírito, pelo seu zelo e extremada diligência. E que Ananias não era pessoa muito distinta, é evidente. Pois, diz o texto, o Senhor lhe falou em visão, e Ananias respondeu, dizendo: Senhor, ouvi de muitos acerca deste homem, quanto mal ele fez aos teus santos em Jerusalém (v. 13). Pois, se ele Lhe replicou objetando, muito mais o teria feito, se Ele tivesse enviado um Anjo. E é por isto que, no caso anterior, também a Filipe não se diz de imediato do que se trata; mas ele vê o Anjo, e depois o Espírito lhe ordena que se aproxime da carruagem. Mas observai aqui como o Senhor o alivia do seu temor: Ele é cego, diz Ele, e ora; e tu tens medo? Do mesmo modo também Moisés temeu: de sorte que as palavras indicavam que ele estava com medo, e recuava diante da tarefa, não que não cresse. Disse ele: Ouvi de muitos acerca deste homem. Que dizes tu? Deus fala, e tu hesitas? Ainda não conheciam bem o poder de Cristo. E aqui ele tem autoridade dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome (v. 14). Como se sabia isto? É provável que eles, estando atemorizados, fizessem indagações minuciosas. Não diz ele isto por pensar que Cristo não conhece o fato, mas: sendo assim, diz ele, como podem ser estas coisas? Como de fato dizem aqueles (no Evangelho): Quem pode se salvar? (Mc 10,26). Isto se faz para que Paulo creia naquele que a ele há de vir: ele viu em visão: já lhe mostrara de antemão; ele ora, diz o Senhor: não temas. E observai, Ele não lhe fala do êxito alcançado: ensinando-nos a não falar de nossas próprias realizações. E, embora o visse atemorizado, ainda assim não lho disse. Não serás desacreditado: ele viu, diz Ele, em visão um homem (chamado) Ananias: e por isto foi em visão, a saber, porque ele estava cego. E nem sequer a extrema maravilha da coisa se apoderou do ânimo do discípulo, tão grande era o seu temor. Mas observai: estando Paulo cego, foi deste modo que Ele lhe restituiu a vista. Mas o Senhor lhe disse: Vai, pois ele Me é vaso escolhido, para levar o Meu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel: pois Eu lhe mostrarei quantas coisas deve padecer pelo Meu nome (v. 15-16). Não somente, diz Ele, será ele crente, mas até mesmo doutor, e grande ousadia há de mostrar: diante de gentios e reis — tal será a difusão da doutrina! — a fim de que, assim como o espantou por aquilo primeiro, também por isto o espante ainda mais. E foi Ananias, e entrou na casa, e impôs sobre ele as mãos, e disse: Irmão Saulo — logo o trata com este nome de amigo — Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas — e contudo Cristo não lhe dissera isto, mas ele o aprendeu do Espírito — enviou-me a ti, para que recobres a vista, e sejas cheio do Espírito Santo (v. 17). Ao dizer isto, impôs sobre ele as mãos. E imediatamente lhe caíram dos olhos como que umas escamas (v. 18). Dizem alguns que isto era sinal da sua cegueira. Por que não o cegou totalmente nos olhos? Isto era mais admirável, que, com os olhos abertos, não visse (v. 8): o que era exatamente o seu caso com respeito à Lei, até que o Nome de Jesus lhe fosse posto. E recobrou logo a vista, e se levantou, e foi batizado. E, tendo tomado alimento, recobrou as forças (v. 19). Estava, pois, desfalecido, tanto da viagem quanto do medo; tanto da fome quanto do abatimento de ânimo. Querendo, pois, aprofundar o seu abatimento, Ele o fez cego até a vinda de Ananias: e, para que não imaginasse que a cegueira era mera fantasia, esta é a razão das escamas. Não necessitava de outro ensino: aquilo que lhe sucedera lhe servia de ensino. E esteve com os discípulos que havia em Damasco por alguns dias. E logo nas sinagogas pregava a Jesus, que Ele é o Filho de Deus (v. 20). Vede, logo se fez doutor nas sinagogas. Não se envergonhou da mudança, não temeu, ao mesmo tempo em que destruía as próprias coisas em que outrora se gloriara. Já desde a sua primeira aparição nesta cena era ele um homem mortífero, pronto para obras de sangue: vês que sinal manifesto havia aqui? E com esta mesma coisa, a todos causou temor: pois, diziam eles, também para isto mesmo veio ele aqui. Mas todos os que o ouviam se maravilhavam, e diziam: Não é este aquele que destruía em Jerusalém os que invocavam este nome, e veio aqui com este mesmo propósito, de os levar presos aos principais sacerdotes? Mas Saulo se fortalecia cada vez mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que este é o próprio Cristo (v. 21-22). Como versado na Lei, fechava-lhes a boca, e não lhes permitia falar. Pensavam eles ter-se livrado das disputas nesta matéria, ao se livrarem de Estêvão, e encontraram outro, mais veemente que Estêvão. (Recapitulação.) Mas olhemos o que se refere a Ananias. Não lhe disse o Senhor: Conversa com ele, e catequiza-o. Pois, se, quando disse: Ele ora, e viu um homem que lhe impunha as mãos (v. 11-12), não o persuadiu, muito menos o teria persuadido, se lhe tivesse dito isto. Para que não descreia de ti, ele viu em visão. Observai como, no caso anterior, tampouco a Filipe se diz tudo de imediato. Não temas, diz Ele: pois este homem Me é vaso escolhido (v. 15). Mais do que suficientemente o livrou do seu temor, se é o caso que este homem há de ser tão zeloso em nossa causa, a ponto até de [truncado]
Não o persuadiu, muito menos teria dito isto. Para que ele não descreia de ti, viu em visão. Observai como, no caso anterior, tampouco a Filipe se diz tudo de imediato. Não temas, diz Ele: pois este homem Me é vaso escolhido.
Qual poderá ser a razão de Ele não ter atraído nenhuma pessoa de alta autoridade e importância, nem feito com que tal pessoa se apresentasse para instruir Paulo? Foi porque não convinha que ele fosse induzido por homens, mas somente por Cristo mesmo: pois, de fato, este homem nada lhe ensinou, mas apenas o batizou; pois, tão logo batizado (φωτισθείς), ele haveria de atrair sobre si a graça do Espírito, pelo seu zelo e extremada diligência. E que Ananias não era pessoa muito distinta, é evidente. Pois, diz o texto, o Senhor lhe falou em visão, e Ananias respondeu, dizendo: Senhor, ouvi de muitos acerca deste homem, quanto mal ele fez aos teus santos em Jerusalém.
são ditas estas palavras): pois não somente ele não te fará mal algum, mas há de padecer muitas coisas. E o que é verdadeiramente admirável é que ele primeiro há de saber quão grandes coisas há de padecer, e só então há de entrar em campo contra os perigos. — Irmão Saulo, o Senhor Jesus — não diz Ele: que te cegou, mas: que te apareceu no caminho — enviou-me a ti, para que recobres a vista
Pois se ele Lhe fizesse objeção, muito mais o teria feito, tivesse Ele enviado um Anjo. E por isso, no caso anterior, nem a Filipe se diz o que se passa; mas ele vê o Anjo, e então o Espírito lhe ordena que se aproxime do carro. Observai, porém, aqui como o Senhor o alivia do seu temor: Ele é cego, diz Ele, e ora, e vós temeis? Do mesmo modo também Moisés teme: de sorte que as palavras indicavam que ele estava atemorizado e se esquivava da tarefa, não que não cresse. Disse: ouvi de muitos acerca deste homem. Que dizeis? Deus fala, e vós hesitais? Ainda não conheciam bem o poder de Cristo. E eis que ele tem autoridade dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o Vosso nome.
Como se sabia isso? É verossímil que eles, estando atemorizados, faziam minuciosas indagações. Não diz ele isto por pensar que Cristo desconhece o fato, mas, sendo esse o caso, como, diz ele, podem ser assim estas coisas? Como de fato dizem aqueles (no Evangelho): Quem pode, pois, ser salvo? — Mc 10,26. Isto se faz para que Paulo creia naquele que a ele há de vir: ele o viu em visão; foi-lhe mostrado de antemão; ele ora, diz o Senhor: não temas. E observai que Ele não lhe fala do êxito alcançado: ensinando-nos a não falar de nossos próprios feitos. E, embora o visse atemorizado, com tudo isso não o disse. Não sereis descrido: ele viu, diz Ele, em visão um homem (chamado) Ananias: pois foi por isto que se deu em visão, a saber, porque ele estava cego. E nem sequer a extraordinária maravilha da coisa tomou conta da mente do discípulo, de tal modo estava ele atemorizado. Mas observai: estando Paulo cego, foi deste modo que Ele lhe restituiu a vista. Mas o Senhor lhe disse: Vai, pois este é para Mim um vaso escolhido, para levar o Meu nome diante dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel: pois Eu lhe mostrarei quantas coisas lhe é necessário padecer pelo Meu nome.
Ele o libertou de seu temor mais que suficientemente, se é o caso que este homem há de ser tão zeloso em nossa causa, a ponto de padecer muitas coisas. E justamente é chamado vaso (ou instrumento) — pois a razão mostra que o mal não é uma qualidade física: vaso de eleição (ou instrumento escolhido), diz Ele; pois escolhemos aquilo que é aprovado. E não imagine ninguém que (Ananias) fala com incredulidade do que lhe foi dito, como que supondo que Cristo estivesse enganado: longe disso! Mas, atemorizado e trêmulo, ele nem sequer atentou bem ao que se lhe dizia, ao ouvir o nome de Paulo. Além disso, o Senhor não lhe diz que O cegou: à menção do seu nome, o temor já se apoderara de sua alma: vede, diz ele, a quem estais Vós entregando-me: 'e é para este mesmo fim que ele veio, para prender a todos os que invocam o Vosso Nome.' Temo que ele me leve a Jerusalém: por que me lançais na boca do leão? Ele está aterrorizado, mesmo enquanto profere estas palavras; para que de toda parte aprendamos o caráter enérgico (ἀρετήν) do varão. Pois que estas coisas fossem ditas pelos judeus, nada teria de admirável: mas que estes (os crentes) estejam tão aterrorizados, é a mais poderosa prova do poder de Deus. Mostra-se tanto o temor quanto, depois do temor, uma obediência maior. Pois havia, de fato, necessidade de fortaleza. Visto que Ele diz vaso de eleição, para que não imagineis que Deus há de fazer tudo, Ele acrescenta: para levar o Meu Nome diante dos gentios e dos reis, e dos filhos de Israel. Ananias ouviu o que mais desejava — que também contra os judeus ele tomará posição: isto, sobretudo, lhe deu coragem. Pois Eu, diz Ele, lhe mostrarei quantas coisas lhe é necessário padecer pelo Meu Nome. Ao mesmo tempo, isto também é dito de modo a envergonhar Ananias: Se aquele, que estava tão enfurecido, há de padecer todas as coisas, e tu nem sequer estás disposto a batizá-lo! Está bem, diz ele: que permaneça cego (por isso é que ele diz estas palavras): ele está cego: por que me ordenais, afinal, que lhe abra os olhos, para que ele volte a prender (homens)? Não temas o futuro: pois essa abertura de seus olhos ele a usará não contra ti, mas por ti (com referência àquele dito, Para que recobre a vista).
Não somente, diz Ele, há de ser ele crente, mas até mestre, e grande ousadia há de mostrar: 'diante de gentios e reis' — tal será a difusão da doutrina! — para que, assim como o espantou pela primeira coisa, assim possa (surpreendê-lo ainda mais) pela segunda. E foi Ananias, e entrou na casa, e impôs-lhe as mãos, e disse: Irmão Saulo — logo o trata com amizade por esse nome — Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas — e contudo Cristo não lhe dissera isto, mas ele o soube pelo Espírito — enviou-me a ti, para que recobres a vista, e sejas cheio do Espírito Santo.
observai também este homem, como não profere nada de jactância, mas assim como Pedro disse no caso do coxo: Por que olhais para nós, como se por nosso próprio poder ou santidade o tivéssemos feito andar (At 3,12), assim também aqui ele diz: Jesus, que te apareceu. (b) Ou, (ele o diz) para que o outro creia: e não diz: Aquele que foi crucificado, o Filho de Deus, Aquele que faz maravilhas: mas o quê? Aquele que te apareceu: (falando) a partir do que o outro já conhecia: assim como também Cristo não acrescentou mais, nem disse: Eu sou Jesus, o Crucificado, o Ressuscitado: mas o quê? A quem tu persegues. Ananias não disse: O perseguido, para que não parecesse como que exaltar-se sobre ele; mas de modo visível apareceu, e foi visto pelas coisas realizadas. E imediatamente acrescentou, querendo lançar um véu sobre a acusação: Para que recobres a vista. Não vim para repreender o passado, mas para conferir o dom: para que recobres a vista, e sejas cheio do Espírito Santo. (a) Com as mãos impostas, disse ele estas palavras. E imediatamente caíram de seus olhos, etc.
Ao dizer isto, impôs-lhe as mãos. E imediatamente caíram de seus olhos como que escamas.
o que foi justamente o seu caso a respeito da Lei, até que o Nome de Jesus fosse posto sobre ele. E recobrou a vista imediatamente, e se levantou, e foi batizado. E, tendo tomado alimento, recuperou as forças.
Dizem alguns que isto foi sinal de sua cegueira. Por que não o cegou (inteiramente) nos olhos? Isto era mais admirável: que, com os olhos abertos, ele não visse.
uma dupla cegueira é removida. — E por que diz: Tendo tomado alimento, foi fortalecido?
Porque os que se acham em tal estado ficam debilitados: ele não tinha ânimo para tomar alimento antes, até que obtivesse os grandes dons. (c) Parece-me que tanto Paulo quanto Cornélio, no exato instante em que as palavras foram pronunciadas, receberam o Espírito. E, contudo, (neste caso) quem os deu não era pessoa de grande autoridade. Tão verdadeiro é que nada havia do homem nas coisas realizadas, nem coisa alguma foi feita pelo homem, mas Deus estava presente, o Autor destas coisas. E ao mesmo tempo (o Senhor) o ensina a pensar modestamente de si mesmo, pois não o leva aos Apóstolos, que eram tão admirados, e mostra que aqui nada há do homem. Não foi, porém, cheio do Espírito que opera sinais: para que também deste modo se manifestasse a sua fé; pois nenhum milagre operou. E logo, diz, nas sinagogas pregava a Jesus —
Estava, pois, desfalecido, tanto pela viagem quanto pelo temor; tanto pela fome quanto pelo abatimento de ânimo. Querendo, portanto, aprofundar-lhe o abatimento, Ele o fez cego até a vinda de Ananias: e, para que não imaginasse que a cegueira fosse (apenas) coisa da fantasia, esta é a razão das escamas. Não necessitava de outro ensino: aquilo que lhe sucedera fora feito ensinamento (para ele). E esteve com os discípulos que estavam em Damasco por alguns dias. E logo nas sinagogas pregava a Jesus, que Este é o Filho de Deus.
não que Ele ressuscitou — não isto: não, nem que vive: mas o quê? Imediatamente expôs com rigor a doutrina — que este é o Filho de Deus. E todos os que o ouviam se maravilhavam, etc.
Vede: logo se fez mestre nas sinagogas. Não se envergonhou da mudança, não temeu enquanto as próprias coisas em que outrora se gloriava, essas mesmas destruía. Já desde sua primeira aparição em cena aqui houvera um homem sanguinário, pronto para obras de sangue: vedes que sinal manifesto (era este)? E com isto mesmo, a todos infundiu temor: pois, diziam eles, também aqui veio para isto mesmo. Mas todos os que o ouviam se maravilhavam, e diziam: Não é este aquele que destruía em Jerusalém os que invocavam este nome, e para cá veio com esse propósito, para os levar presos aos príncipes dos sacerdotes? Mas Saulo se fortalecia cada vez mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que este é verdadeiramente o Cristo.
E logo nas sinagogas pregava a Jesus — pois era exato na fé — que este é o Filho de Deus. Mas todos os que o ouviam ficavam atônitos, etc., pois de fato era incrível. Mas Saulo se fortalecia mais, etc. Depois de muitos dias, pois, sucede isto: a saber, os judeus tomaram conselho para matá-lo. E a cilada deles foi conhecida de Saulo.
Foram reduzidos a total incredulidade. E, no entanto, não deveriam apenas admirar-se, mas adorar e reverenciar. Não é este aquele, etc. Não fora ele meramente um perseguidor, mas destruíra os que invocavam este Nome — não disseram "Jesus", pois pelo ódio não podiam suportar sequer ouvir o Seu nome — e, o que é ainda mais admirável, viera para cá com este propósito, etc. Não podemos dizer que ele antes se associara aos Apóstolos. Vede por quantas (testemunhas) se confessa que ele estava no número dos inimigos! Mas Paulo não somente não se confundiu com isto, nem escondeu o rosto de vergonha, mas antes se fortalecia mais em vigor, e confundia os judeus.
At 9,22, isto é, os reduziu ao silêncio, não lhes deixou nada a dizer em sua própria defesa, provando que este é o próprio Cristo. Ensinando, diz: pois este homem era um mestre.
E, cumpridos muitos dias, os judeus tomaram conselho para matá-lo.
Como versado na Lei, fechava-lhes a boca e não lhes permitia falar. Pensavam eles estar livres da disputa em tais matérias, ao se livrarem de Estêvão, e encontraram outro, mais veemente que Estêvão.
diz: isto é, ensinando com mansidão. E observai que não lhe disseram: Tu és aquele que destruía; por que mudaste? Pois se envergonhavam; mas o diziam entre si. Pois ele lhes teria dito: Isto mesmo deveria instruir-vos, como de fato ele assim alega em seu discurso perante Agripa. Imitemos isto, ó homem: levemos nossas almas nas mãos, prontos para enfrentar todos os perigos.— (Quanto a ter fugido de Damasco) isto não foi covardia: ele se preservava para a pregação. Se fosse covarde, não teria ido a Jerusalém, não teria começado a ensinar imediatamente; teria abrandado algo de sua veemência, pois fora instruído pelo destino de Estêvão. Não era covarde, mas era também prudente (οἰκονομικός), administrando-se bem a si mesmo. Por isso não considerava grande coisa morrer pelo Evangelho, a menos que o fizesse com grande proveito: não querendo sequer ver a Cristo, a quem mais que tudo ansiava ver, enquanto a obra de sua administração entre os homens ainda não estivesse completa (Fl 1,23-24). Tal deve ser a alma do cristão. Desde sua primeira aparição, desde o próprio início, o caráter de Paulo já se declarava: e mesmo antes disto, mesmo nas coisas que fazia sem conhecimento (Rm 10,2), não foi por raciocínio humano que se moveu a agir como agiu. Pois se, tanto tempo depois, ele se contentava em não partir, muito mais no início de sua viagem mercantil, quando apenas deixara o porto! Muitas coisas Cristo deixa que sejam feitas pela sabedoria humana (ordinária), para que aprendamos que (os seus discípulos) eram homens, que nem tudo em toda parte deveria ser feito pela graça; pois de outro modo seriam meros troncos imóveis: mas em muitas coisas eles próprios administravam as questões.— Isto não é menos que martírio: não recuar diante de nenhum sofrimento pela salvação de muitos. Nada compraz tanto a Deus. De novo repetirei o que muitas vezes disse: e o repito, porque grandemente o desejo: assim como Cristo também fez o mesmo, ao discorrer sobre o perdão: Quando orardes, perdoai, se tiverdes algo contra alguém (Mc 11,25); e novamente disse a Pedro: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete (Mt 18,22). E Ele mesmo, de fato, perdoa as transgressões cometidas contra Si. Assim fazemos nós também, porque sabemos que este é o próprio fim do cristianismo, discorrendo continuamente sobre isso. Nada há mais frio que um cristão que não se importa com a salvação dos outros. Não podes aqui alegar pobreza, pois aquela que lançou as duas moedinhas será tua acusadora (Lc 21,1). E Pedro disse: Não tenho prata nem ouro (At 3,6). E Paulo era tão pobre que muitas vezes padecia fome e carecia do necessário alimento. Não podes alegar baixeza de nascimento, pois também eles eram homens ignóbeis e de pais ignóbeis. Não podes alegar falta de instrução, pois também eles eram homens iletrados (At 4,13). Ainda que sejas escravo, pois, e escravo fugitivo, podes cumprir tua parte: tal era Onésimo; vede, porém, a que Paulo o chama, e a que grande honra o eleva: para que me servisse, diz ele, em meus vínculos (Fm 13). Não podes alegar enfermidade, pois tal era Timóteo, tendo frequentes enfermidades; pois, diz o apóstolo, usa um pouco de vinho por causa do teu estômago e de tuas frequentes enfermidades (1 Tm 5,23). Todos podem ser proveitosos ao próximo, se quiserem cumprir a sua parte. Não vedes as árvores infrutíferas, quão fortes são, quão belas, quão grandes também, e lisas, e de grande altura? Mas se tivéssemos um jardim, preferiríamos muito mais ter romãzeiras, ou oliveiras frutíferas; pois as outras servem para deleite dos olhos, não para proveito, que nelas é bem pequeno. Tais são aqueles homens que somente consideram o próprio interesse: aliás, nem mesmo tais, pois estas pessoas só servem para serem queimadas; ao passo que aquelas árvores são úteis tanto para a construção quanto para a segurança dos que nela habitam. Tais eram também aquelas virgens, castas na verdade, e decentes, e modestas, mas proveitosas a ninguém (Mt 25,1); por isso são queimadas. Tais são os que não alimentaram a Cristo. Pois observai que nenhum destes é acusado de pecados particulares seus, de fornicação, por exemplo, ou de perjúrio; em suma, de nenhum pecado, senão o de não ter sido útil a outrem. Tal era aquele que enterrou o seu talento, mostrando, na verdade, uma vida irrepreensível, mas não sendo útil a outrem (Mt 25,25). Como pode tal homem ser cristão? Dizei-me: se o fermento, misturado à farinha, não mudasse o todo à sua própria natureza, poderia tal coisa ser fermento? Do mesmo modo, se um perfume não espalhasse doce odor sobre os que dele se aproximam, poderíamos chamá-lo perfume? Não digas: É-me impossível induzir outros (a se tornarem cristãos) — pois, se és cristão, é impossível que não seja assim. Pois, assim como as propriedades naturais das coisas não podem ser contraditadas, assim também aqui: a coisa é parte da própria natureza do cristão. Não injuries a Deus. Dizer que o sol não pode brilhar seria injuriá-lo; dizer que um cristão não pode fazer o bem é injuriar a Deus e chamá-lo de mentiroso. Pois é mais fácil que o sol não dê calor, nem brilhe, do que o cristão não irradiar luz; é mais fácil que a luz se torne trevas do que isto assim seja. Não me digas que é impossível: o contrário é que é impossível. Não injuries a Deus. Se uma vez colocarmos em ordem os nossos próprios assuntos, o resto seguir-se-á certamente como consequência natural e necessária. Não é possível que a luz do cristão se esconda; não é possível que uma lâmpada tão conspícua quanto essa se oculte. Não sejamos negligentes. Pois, assim como o proveito da virtude alcança tanto a nós mesmos quanto aos que por ela são beneficiados, assim também do vício há um duplo prejuízo, que alcança tanto a nós mesmos quanto aos que por ele são lesados. Haja (se quiserdes) algum homem particular que tenha sofrido inúmeros males da parte de alguém, e que ninguém tome o seu partido; e, no entanto, que esse homem continue a retribuir com bons ofícios: que ensinamento há tão poderoso quanto este? Que palavras, ou [truncado]
Pois isto lhes era mais intolerável que os milagres que haviam acontecido — mais que os cinco mil, os três mil, mais que tudo, em suma. E observai-o, como é libertado, não pela graça (miraculosa), mas pela sabedoria humana — não como o foram os apóstolos — ἐκεῖνοι (At 5,19) — para que aprendais o caráter enérgico (ἀρετήν) do homem, como ele resplandece mesmo sem milagres. Então os discípulos o tomaram de noite, para que o caso não fosse suspeitado, e o desceram pelo muro num cesto.
Os judeus recorrem de novo àquele válido argumento (ἰσχυρὸν συλλογισμόν) seu, não buscando agora falsos acusadores e falsas testemunhas; já não podem esperar por estes: mas que fazem eles? Tomam o assunto em suas próprias mãos. Pois, vendo o caso crescer, nem sequer usam a forma de um julgamento. Mas a cilada deles foi conhecida de Saulo. E vigiavam as portas dia e noite para matá-lo.
Que significa isto? É provável que, por algum tempo, ele não quisesse partir dali, embora muitos, talvez, o rogassem; mas quando o soube, então permitiu a seus discípulos: pois logo teve discípulos.
Que fez ele, pois? Tendo escapado de tal perigo, foge? De modo algum; antes, vai para onde os havia inflamado a maior furor.
A respeito deste sucesso, ele diz: O etnarca do rei Aretas guardava a cidade dos damascenos com uma guarnição, querendo prender-me (2 Cor 11,32). Observai, porém, aqui o Escritor, que não narra o fato ambiciosamente, nem de modo a mostrar quão importante personagem era Paulo, dizendo: Porque agitaram o rei, e coisas semelhantes; mas somente: Então os discípulos, tomando-o de noite, desceram-no pelo muro, dentro de um cesto; porquanto o enviaram sozinho, sem ninguém consigo. E bem fizeram nisto: a consequência foi que ele se manifestou aos Apóstolos em Jerusalém. Ora, eles o enviaram fora como obrigado a prover por sua segurança mediante a fuga; mas ele fez justamente o contrário — lançou-se no meio daqueles que estavam enfurecidos contra ele. Isto é estar em chamas, isto é ser verdadeiramente fervoroso! Desde aquele dia conhecia ele todos os mandamentos que os Apóstolos haviam ouvido: Se alguém não tomar a sua cruz e não me seguir (Mt 10,38). O próprio fato de ter tardado mais que os outros a vir tornou-o mais zeloso; pois a quem muito é perdoado, esse muito ama (Lc 7,47), de modo que, quanto mais tarde veio, tanto mais amou: *** e, tendo cometido dez mil ofensas, julgava que nunca poderia fazer o bastante para lançar à sombra os feitos passados. Provando
Bem se pode aqui estar em grande perplexidade para entender como é que, enquanto na Epístola aos Gálatas diz Paulo: "Não subi a Jerusalém", mas "à Arábia" e "a Damasco", e "Depois de três anos subi a Jerusalém" e "para ver a Pedro" (Gl 1,17) (historêsai, Cat.), aqui o escritor diz o contrário. (Ali, diz Paulo:) "E nenhum dos Apóstolos vi"; mas aqui se diz que (Barnabé) o levou aos Apóstolos. — Ora, ou (Paulo) quer dizer: "Não subi com a intenção de me referir a eles ou de me vincular a eles (anathésthai)" — pois que diz ele? "Não me referi a mim mesmo, nem fui a Jerusalém aos que eram Apóstolos antes de mim"; ou então, que a cilada armada contra ele em Damasco foi depois de seu regresso da Arábia; ou ainda, que a visita a Jerusalém foi depois de ter vindo da Arábia. Certamente por sua própria vontade não foi ele aos Apóstolos, mas "procurava ajuntar-se aos discípulos" — como sendo mestre, e não discípulo — "Não fui", diz ele, "com este propósito, de ir aos que eram Apóstolos antes de mim: certamente, nada aprendi deles". Ou, então, não fala ele desta visita, mas a omite, de modo que a ordem é: "Fui à Arábia, depois vim a Damasco, depois a Jerusalém, depois à Síria"; ou ainda, que subiu a Jerusalém, depois foi enviado a Damasco, depois à Arábia, depois novamente a Damasco, depois a Cesareia. Também a visita "depois de catorze anos", provavelmente, foi quando levou os irmãos juntamente com Barnabé (Gl 2,1); ou então se refere a outra ocasião (At 11,30). Pois o Historiador, por concisão, muitas vezes omite sucessos e condensa os tempos. Observai quão isento de ambição é o escritor, e como nem sequer relata (relatada no cap. 22,17-21) aquela visão, mas a passa por alto. "Procurava", diz, "ajuntar-se aos discípulos. E eles o temiam". Nisto se mostra, mais uma vez, o ardor do caráter de Paulo: não somente pela boca de Ananias e daqueles que ali se admiravam dele, mas também dos que estavam em Jerusalém: "não criam que ele fosse discípulo"; pois isto, na verdade, excedia toda expectativa humana. Já não era ele uma fera, mas um homem manso e brando! E observai como não vai ele aos Apóstolos, tal a sua reserva, mas aos discípulos, como quem era discípulo. Não foi julgado digno de crédito. "Mas Barnabé" — "Filho da Consolação" é o seu apelido, donde também se torna de fácil acesso para com este homem; pois "era homem bom" (cap. 11,24), sobremaneira, e isto se prova tanto pelo presente caso quanto no assunto de João (Marcos) — "tomando-o, o levou aos Apóstolos, e lhes contou como ele tinha visto o Senhor no caminho" (15,39). É provável que também em Damasco tivesse ouvido tudo a seu respeito; donde não temia ele, ao passo que os outros temiam, pois era Paulo homem cujo olhar inspirava temor. "Como", diz, "ele tinha visto o Senhor no caminho, e que Ele lhe tinha falado, e como em Damasco tinha falado ousadamente em nome do Senhor. E estava com eles, entrando e saindo em Jerusalém, e falando ousadamente em nome de Jesus" (v. 28): estas coisas eram demonstrativas do anterior, e por seus atos confirmava aquilo que dele se dizia. "E falava, e disputava com os helenistas" (v. 29). Assim, pois, os discípulos o temiam, e os Apóstolos não confiavam nele; por isto, então, ele os livra de seu temor. "Com os helenistas": quer dizer, com os que usavam a língua grega; e isto ele fez com muita sabedoria, pois aqueles outros, os hebreus profundos, nem sequer queriam vê-lo. "Mas eles", diz, "procuravam matá-lo": sinal, este, de sua energia, e de triunfante vitória, e do desgosto extremo que sentiam pelo sucedido. Então, temendo que o desfecho fosse o mesmo que no caso de Estêvão, enviaram-no a Cesareia. Pois diz: "Sabendo disto os irmãos, o levaram a Cesareia, e o enviaram a Tarso" (v. 30), ao mesmo tempo para pregar, e provavelmente para estar mais seguro, por estar em sua própria terra. Observai, porém, eu vo-lo peço, quão longe está de ser verdade que tudo se faz pela graça (miraculosa); como, pelo contrário, Deus em muitas coisas os deixa governar-se a si mesmos por sua própria sabedoria e à maneira humana, para cortar a desculpa dos ociosos; pois se assim foi no caso de Paulo, muito mais no deles. "Então", diz, "a Igreja, por toda a Judeia, Galileia e Samaria, tinha paz, sendo edificada e andando no temor do Senhor, e crescia com a consolação do Espírito Santo" (v. 31). Está ele prestes a narrar que Pedro desce (de Jerusalém); portanto, para que não atribuais isto ao medo, diz primeiro isto. Pois, enquanto havia perseguição, ele estava em Jerusalém; mas, quando os negócios da Igreja estão em toda parte em segurança, é então que ele deixa Jerusalém. Vede quão fervoroso e enérgico ele é! Pois não pensava que, por haver paz, não houvesse necessidade de sua presença. Paulo partiu, e houve paz: não há guerra nem perturbação. A eles respeitavam mais, por terem muitas vezes assistido junto deles, e por serem tidos em admiração pela multidão; mas a ele desprezavam, e eram mais ferozes contra ele. Vede quão grande guerra, e logo, que paz! Vede o que aquela guerra produziu: dispersou os pacificadores. Em Samaria, Simão foi envergonhado; na Judeia, sucedeu o caso de Safira. Não que, por haver paz, as coisas se relaxassem, mas tal era a paz que ainda necessitava de exortação. "E aconteceu que, percorrendo Pedro todas as regiões, desceu também aos santos que habitavam em Lida" (v. 32). Como o comandante de um exército, ia ele inspecionando as fileiras, vendo que parte estava compacta, que parte em boa ordem, que parte necessitava de sua presença. Vede como, em todas as ocasiões, é ele o primeiro a agir. Quando se devia escolher um Apóstolo, foi ele o primeiro; quando se devia dizer aos judeus que estes "não estavam embriagados", quando se devia curar o coxo, [truncado]
Não se apresentou a eles sem pejo, mas com maneira submissa. Discípulos eram todos chamados naquele tempo, por causa de sua grande virtude, pois neles se via claramente a semelhança dos discípulos. Mas todos o temiam. Vede como temiam os perigos, como o alarme estava ainda em seu auge neles. Mas Barnabé, etc.
parece-me que Barnabé era desde antes seu amigo — e parente, etc.: observai como o próprio Paulo nada diz de tudo isto; nem o teria ele exposto aos outros, se não fosse obrigado a fazê-lo. E estava com eles, entrando e saindo em Jerusalém, e falando ousadamente em nome do Senhor Jesus (v. 28-29). Isto lhes deu a todos confiança. Mas eles procuravam matá-lo; o que, sabendo os irmãos, etc.
Bem se pode aqui estar em grande perplexidade para entender como é que, enquanto na Epístola aos Gálatas diz Paulo: Não subi a Jerusalém, mas à Arábia e a Damasco, e Depois de três anos subi a Jerusalém, e para ver a Pedro (ἱστορἥσαι, Cat.), aqui o escritor diz o contrário. (Ali, diz Paulo:) E nenhum dos Apóstolos vi; mas aqui se diz que (Barnabé) o levou aos Apóstolos. — Ora, ou (Paulo) quer dizer: Não subi com a intenção de me referir a eles ou de me vincular a eles (ἀναθέσθαι) — pois que diz ele? Não me referi a mim mesmo, nem fui a Jerusalém aos que eram Apóstolos antes de mim: ou então, que a cilada armada contra ele em Damasco foi depois de seu regresso da Arábia; ou ainda, que a visita a Jerusalém foi depois de ter vindo da Arábia. Certamente por sua própria vontade não foi ele aos Apóstolos, mas procurava ajuntar-se aos discípulos — como sendo mestre, e não discípulo — Não fui, diz ele, com este propósito, de ir aos que eram Apóstolos antes de mim: certamente, nada aprendi deles. Ou, então, não fala ele desta visita, mas a omite, de modo que a ordem é: Fui à Arábia, depois vim a Damasco, depois a Jerusalém, depois à Síria: ou ainda, que subiu a Jerusalém, depois foi enviado a Damasco, depois à Arábia, depois novamente a Damasco, depois a Cesareia. Também a visita depois de catorze anos, provavelmente, foi quando levou as [esmolas aos] irmãos juntamente com Barnabé: ou então se refere a outra ocasião (At 11,30). Pois o Historiador, por concisão, muitas vezes omite sucessos e condensa os tempos. Observai quão isento de ambição é o escritor, e como nem sequer relata — relatada em At 22,17-21 — aquela visão, mas a passa por alto. Procurava, diz, ajuntar-se aos discípulos. E eles o temiam. Nisto se mostra, mais uma vez, o ardor do caráter de Paulo: não somente pela boca de Ananias e daqueles que ali se admiravam dele, mas também dos que estavam em Jerusalém: não criam que ele fosse discípulo: pois isto, na verdade, excedia toda expectativa humana. Já não era ele uma fera, mas um homem manso e brando! E observai como não vai ele aos Apóstolos, tal a sua reserva, mas aos discípulos, como quem era discípulo. Não foi julgado digno de crédito. Mas Barnabé — Filho da Consolação é o seu apelido, donde também se torna de fácil acesso para com este homem; pois era homem bom (At 11,24), sobremaneira, e isto se prova tanto pelo presente caso quanto no assunto de João (Marcos) — tomando-o, o levou aos Apóstolos, e lhes contou como ele tinha visto o Senhor no caminho (At 15,39). É provável que também em Damasco tivesse ouvido tudo a seu respeito; donde não temia ele, ao passo que os outros temiam, pois era Paulo homem cujo olhar inspirava temor. Como, diz, ele tinha visto o Senhor no caminho, e que Ele lhe tinha falado, e como em Damasco tinha falado ousadamente em nome do Senhor. E estava com eles, entrando e saindo em Jerusalém, e falando ousadamente em nome de Jesus
Observais como, tanto ali (em Damasco) quanto aqui, são os demais que cuidam dele, e lhe proveem os meios de partida, e que em nenhum lugar até aqui o encontramos recebendo auxílio (sobrenatural direto) de Deus? Assim se demonstra a energia de seu caráter. A Cesareia, e o enviaram a Tarso: de modo que, suponho eu, não continuou ele a viagem por terra, mas navegou o resto do caminho. E isto (a partida) é ordenado pela Providência, para que também ali pregasse; e assim, igualmente, foram ordenadas pela Providência de Deus as ciladas contra ele, e sua vinda a Jerusalém, para que a história a seu respeito já não pudesse ser posta em dúvida. Pois ali falava ele ousadamente, diz, em nome do Senhor Jesus; e falava e disputava contra os helenistas; e, novamente, estava com eles, entrando e saindo. — Assim a Igreja, por toda a Judeia, Galileia e Samaria, tinha paz — isto é, crescia — e paz consigo mesma, aquela paz que é verdadeiramente paz; pois a guerra de fora nenhum dano lhes teria feito — sendo edificados, e andando no temor do Senhor, e crescendo na consolação do Espírito Santo. E o Espírito os consolava tanto pelos milagres quanto pelas obras, e, independentemente destes, na pessoa de cada indivíduo. E aconteceu, etc. E disse-lhe Pedro: Enéias, etc.
estas coisas eram demonstrativas do anterior, e por seus atos confirmava aquilo que dele se dizia. E falava, e disputava com os helenistas.
Assim, pois, os discípulos temiam-no, e os Apóstolos não confiavam nele; por isso, então, ele os alivia desse temor. Com os helenistas: refere-se aos que usavam a língua grega; e isto ele fez muito sabiamente, pois aqueles outros, os hebreus profundos, nem sequer queriam vê-lo. Mas eles, diz, procuravam matá-lo: sinal, este, de sua energia e triunfante vitória, e do excessivo desagrado deles pelo que havia sucedido. Então, temendo que o desfecho fosse o mesmo que no caso de Estêvão, enviaram-no a Cesareia. Pois diz: Quando os irmãos souberam disto, levaram-no a Cesareia e o enviaram a Tarso.
ao mesmo tempo para pregar, e provavelmente para estar mais em segurança, por se achar em sua própria terra. Mas observai, peço-vos, quão longe está de ser verdade que tudo se faz pela graça (miraculosa); como, pelo contrário, Deus em muitas coisas os deixa governar-se por sua própria sabedoria e de modo humano; para cortar assim a desculpa dos ociosos: pois, se assim foi no caso de Paulo, muito mais o foi no deles. Então, diz, a Igreja em toda a Judeia, Galileia e Samaria tinha paz, sendo edificada e andando no temor do Senhor, e abundava na consolação do Espírito Santo.
Está para relatar que Pedro desce (de Jerusalém); portanto, para que não atribuais isto ao medo, ele diz primeiro isto. Pois, enquanto havia perseguição, ele estava em Jerusalém; mas quando os negócios da Igreja estão em segurança por toda parte, é então que ele deixa Jerusalém. Vede quão fervoroso e enérgico ele é! Pois não pensou que, por haver paz, não houvesse necessidade de sua presença. Paulo partiu, e houve paz: não há guerra nem perturbação. A eles, respeitavam-nos mais, por terem muitas vezes permanecido ao lado deles e por serem tidos em admiração pela multidão; mas a este, desprezavam-no e eram mais ferozes contra ele. Vede quão grande guerra, e logo, paz! Vede o que operou aquela guerra. Dispersou os pacificadores. Em Samaria, Simão foi envergonhado; na Judeia, sucedeu o caso de Safira. Não que, por haver paz, as coisas se relaxassem, mas tal era a paz que também necessitava de exortação. E aconteceu que, percorrendo Pedro todas as regiões, desceu também aos santos que habitavam em Lida.
Como o comandante de um exército, ele ia inspecionando as fileiras, vendo que parte estava compacta, que parte em boa ordem, que parte necessitava de sua presença. Vede como em todas as ocasiões ele é o primeiro a agir. Quando se havia de escolher um Apóstolo, ele era o primeiro; quando se havia de dizer aos judeus que estes não estavam embriagados, quando se havia de curar o coxo, quando se haviam de fazer discursos, ele está à frente dos demais; quando se havia de falar aos governantes, era ele o homem; quando o caso de Ananias, era ele (At 1:15; 2:15; 3:4-12; 4:8; 5:3-15); quando as curas se operavam pela sombra, ainda era ele. E vede: onde havia perigo, era ele o homem, e onde se necessitava de boa administração; mas onde tudo é calmo, aí todos agem em comum, e ele não reclama maior honra que os demais. Quando era necessário operar milagres, ele se adianta, e aqui também é ele o homem para labutar e trabalhar. E ali encontrou certo homem chamado Enéias, que havia oito anos jazia de cama, e era paralítico. E Pedro lhe disse: Enéias, Jesus Cristo te sara; levanta-te e arruma tua cama. E ele imediatamente se levantou.
Mas, antes do discurso, antes das exortações, diz ele mesmo ao coxo: Jesus Cristo te sara. Nesta palavra ele de algum modo creu, e foi sarado. Observai quão despretensioso ele é: pois não disse "Em o Nome", mas antes, como sinal, narra o próprio milagre e fala como seu Evangelista. E, tendo-o visto, diz, todos os que habitavam em Lida e Sarona se converteram ao Senhor. — Havia, pois, em Jope, etc.
E por que não esperou pela fé do homem, nem lhe perguntou se queria ser curado? Em primeiro lugar, o milagre serviu de exortação para muitos: ouvi, pois, quão grande foi o proveito. E todos os que habitavam em Lida e Sarona o viram e se converteram ao Senhor.
Pois o homem era notável. Levanta-te e arruma tua cama: faz bem em dar uma prova do milagre, pois não somente livravam os homens de suas enfermidades, mas, ao dar a saúde, davam também a força. Além disso, naquele tempo ainda não haviam dado provas de seu poder, de modo que não se podia razoavelmente exigir do homem que mostrasse sua fé, como tampouco no caso do coxo a exigiram (At 3:6). Como, pois, Cristo, no início de seus milagres, não exigiu fé, tampouco estes a exigiram. Pois em Jerusalém, na verdade, como era razoável, primeiro se mostrou a fé dos interessados; traziam seus enfermos às ruas, para que, ao passar Pedro, ao menos sua sombra caísse sobre alguns deles (At 5:15); pois ali se haviam operado muitos milagres; mas aqui é este o primeiro que ocorre. Pois, dos milagres, uns se operavam com o propósito de atrair outros à fé; outros, para consolo dos que já criam. Havia, pois, em Jope certa discípula chamada Tabita, que traduzido se diz Dorcas: esta mulher era cheia de boas obras e esmolas que fazia. E aconteceu naqueles dias que adoeceu e morreu; e, tendo-a lavado, puseram-na num cenáculo. E, como Lida era perto de Jope, e os discípulos tinham ouvido que Pedro estava ali, enviaram-lhe dois homens, rogando-lhe que não demorasse em vir até eles.
Observai em toda parte os sinais que se realizam. Mas creiamos neles como se agora os estivéssemos contemplando. Não se diz simplesmente que Tabita morreu, mas que morreu, tendo estado em estado de enfermidade. E, contudo, não chamaram Pedro até que ela morresse; então enviaram e lhe disseram que não demorasse em vir até eles. Observai: enviam e o chamam por meio de outros. E ele vem: não julgou desrespeito ser convocado por dois homens; pois, diz, enviaram-lhe dois homens. — A aflição, meus amados, é coisa grande, e solda estreitamente nossas almas. Nenhuma palavra de lamento ali, nem de pranto. Vede quão completamente as coisas são purificadas! Tendo-a lavado, diz, puseram-na num cenáculo: isto é, fizeram tudo o que era devido ao corpo morto. Então Pedro, havendo chegado, ajoelhou-se e orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te.
Por que esperaram até que ela estivesse morta? Por que não se solicitou (ἐσκύλη) a Pedro antes disso? Tão ponderados (φιλοσοφοῦντες) eram eles, que não julgaram conveniente importunar (σκύλλειν) os discípulos com tais assuntos, nem afastá-los da pregação: e é por isso, de fato, que se menciona que o lugar era próximo, visto que pediam isso como algo à parte do seu propósito, e não agora no curso ordinário. Para não tardar em vir a eles: pois ela era discípula. E Pedro se levantou e foi com eles. E, quando chegou, levaram-no ao cenáculo.
Não suplicam, mas deixam a ele dar-lhe a vida (σωτηρίαν). Vede que animador incentivo à esmola há aqui! E todas as viúvas, diz, estavam ao redor dele, chorando e mostrando as túnicas e vestes que Dorcas fizera enquanto estava com elas. Pedro entrou no aposento, como quem o tomava com serenidade, mas vede que acréscimo daí adveio! Não é sem propósito que o Escritor nos informou o nome da mulher, mas para mostrar que o nome que ela trazia (φερώνυμος ἦν) correspondia ao seu caráter; tão ativa e vigilante era ela quanto uma gazela. Pois em muitos casos há uma Providência na atribuição dos nomes, como já vos temos dito muitas vezes. Estava cheia, diz, de boas obras: não somente de esmolas, mas de boas obras, primeiramente, e depois desta boa obra em particular. A qual, diz, Dorcas fazia enquanto estava com elas. Grande humildade! Não como fazemos nós; mas todas estavam juntas em comum, e em companhia delas ela fazia estas coisas e trabalhava. Mas Pedro fez todos saírem, e, pondo-se de joelhos, orou; e, voltando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te. E ela abriu os olhos: e, vendo Pedro, sentou-se.
Não realizavam todos os seus milagres com a mesma facilidade. Mas isto lhes era proveitoso: pois verdadeiramente Deus tinha cuidado não somente da salvação dos outros, mas também da deles próprios. Aquele que curava tantos com a sua simples sombra, como é que agora tem de fazer tanto primeiro? Há também casos em que a fé dos que pediam cooperava. Este é o primeiro morto que ele ressuscita. Observai como ele, por assim dizer, a desperta do sono: primeiro ela abriu os olhos; depois, ao ver Pedro, sentou-se; depois, da mão dele recebeu força. E foi conhecido por toda Jope, e muitos creram no Senhor.
Por que faz sair a todos? Para que não se confundisse nem se perturbasse com o choro delas. E, tendo-se ajoelhado, orou. Observai a intensidade da sua oração. E deu-lhe a mão.
Assim fez Cristo à filha de Jairo: E (diz o Evangelista) tomando-a pela mão. Notai separadamente, primeiro a vida, depois a força trazida a ela, uma pela palavra, a outra pela mão dele — E deu-lhe a mão, e a levantou, e, tendo chamado os santos e as viúvas, apresentou-a viva: a uns para consolo, porque recebiam de volta a sua irmã, e porque viram o milagre, e para amparo (προστασίαν) benigno a outros. E foi conhecido por toda Jope; e muitos creram no Senhor. E aconteceu que ele permaneceu muitos dias em Jope, com um certo Simão curtidor.
Notai o proveito, notai o fruto, que não foi para ostentação. Com efeito, é por isso que faz sair a todos, imitando também nisto o seu Mestre.
Pois onde há lágrimas — ou antes, onde há milagres, ali não deveria haver lágrimas; não onde tal mistério se celebra. Ouvi, eu vos suplico: ainda que algo semelhante não suceda agora, também no caso dos nossos mortos igualmente se celebra um grande mistério. Dizei-me: se, estando nós aqui reunidos, o Imperador mandasse chamar e convidasse algum de nós ao palácio, seria correto, pergunto, chorar e lamentar-se? Estão presentes Anjos, comissionados do céu e vindos de lá, enviados pelo próprio Rei para chamar o seu conservo, e dizeis: choras? Não sabes que mistério é este que se realiza, quão temível, quão tremendo, e digno na verdade de hinos e louvores? Queres aprender, para que saibas, que não é esta ocasião para lágrimas? Pois é um mistério gravíssimo da Sabedoria de Deus. Como quem deixa a sua morada, a alma sai, apressando o seu caminho para o seu próprio Senhor, e tu te lamentas? Ora, deverias fazer isso ao nascer de uma criança: pois isto de fato é também um nascimento, e melhor que aquele. Pois aqui ela sai para uma luz bem diversa, é solta como de um cárcere, sai como de um combate. Sim, dizes, é muito bom dizer isto no caso daqueles de cuja salvação estamos seguros. Então, que tens tu, ó homem, que mesmo no caso destes não o tomas deste modo? Dize-me, que tens tu a condenar numa criancinha? Por que a choras? E no recém-batizado? Pois também ele é levado à mesma condição: por que o choras? Pois, assim como o sol nasce claro e brilhante, assim a alma, deixando o corpo com consciência pura, resplandece com alegria. Não é tal o espetáculo do Imperador quando entra em pompa a tomar posse da cidade (ἐπιβαίνοντα πόλεως), não é tal o silêncio de reverência, como quando a alma, tendo deixado o corpo, parte em companhia dos Anjos. Pensai o que deve então ser a alma! Em que espanto, que assombro, que deleite! Por que te lamentas? Responde-me. — Mas dizes que fazes isto apenas no caso dos pecadores? Prouvera a Deus que assim fosse, e eu não proibiria os teus lamentos, prouvera que este fosse o objeto! Este pranto seria apostólico, seria segundo o modelo do Senhor; pois também Jesus chorou sobre Jerusalém. Quisera eu que os teus lamentos se distinguissem por esta regra. Mas quando falas as palavras de quem quisera fazer voltar (o morto), e falas da tua longa intimidade e dos seus benefícios, é só por isto que choras (não porque ele era pecador), tu apenas finges dizê-lo. Chora, pranteia o pecador, e eu também darei livre curso às lágrimas; eu, mais que tu, quanto maior o castigo a que ele está sujeito enquanto tal: eu também lamentarei, com tal objeto. Mas não deves ser só tu a lamentá-lo por ser tal; toda a cidade deve fazer o mesmo, e todos os que te encontrarem pelo caminho, como se lamenta os que são levados ao suplício. Pois esta é, na verdade, uma morte, uma morte funesta, a morte dos pecadores. Mas (convosco) tudo se inverte por completo. Tal lamento denota uma alma elevada, e transmite muita instrução; o outro denota pequenez de alma. Se todos lamentássemos com este tipo de lamento, corrigiríamos as próprias pessoas ainda em vida. Pois, assim como, se estivesse em teu poder aplicar remédios que impedissem aquela morte corporal, tu os usarias, do mesmo modo agora, se esta morte fosse a morte que choras, tu impedirias que ela sucedesse, tanto em ti mesmo quanto nele. Ao passo que agora o nosso proceder é um perfeito enigma; que, tendo em nosso poder impedir a sua vinda, a deixamos suceder, e a choramos depois que sucedeu. Dignos são na verdade de lamentações (se considerarmos) quando estiverem diante do tribunal de Cristo, que palavras então ouvirão, que padecerão! Para nada viveram estes homens: não, não para nada, mas para o mal! Deles também se pode bem dizer que melhor lhes fora não ter nascido (Mc 14,21). Pois que proveito há, pergunto, em ter gasto tanto tempo em dano da própria pessoa? Se apenas tivesse sido gasto em vão, não seria isso, pergunto-vos, castigo bastante? Se um assalariado de vinte anos viesse a descobrir que todo o seu trabalho fora em vão, não choraria e se lamentaria, e não se teria a si mesmo por o mais miserável dos homens? Pois bem, eis aqui um homem que perdeu todo o labor de uma vida inteira: nem um só dia viveu para si mesmo, mas para o luxo, para a devassidão, para a cobiça, para o pecado, para o diabo. Então, dizei-me, não haveremos de pranteá-lo? Não tentaremos arrancá-lo dos seus perigos? Pois é, sim, é possível, se quisermos, mitigar o seu castigo, se fizermos por ele orações contínuas, se por ele dermos esmolas. Por mais indigno que ele seja, Deus cederá à nossa importunação. Pois, se Paulo teve misericórdia de um (que não tinha direito à sua misericórdia), e por causa de outros poupou a um (a quem não teria poupado), muito mais é justo que nós façamos isto. Por meio dos bens dele, por meio dos teus próprios, por qualquer meio que quiseres, socorre-o: derrama óleo, ou antes, água. Não tem ele obras de caridade suas para exibir? Que tenha ao menos as dos seus parentes. Não tem nenhuma feita por si mesmo? Que tenha ao menos as que se fazem por ele, para que a sua esposa possa com confiança rogar por ele naquele dia, tendo pago o resgate em seu lugar. Quanto mais pecados ele tiver de que responder, tanto maior necessidade tem de esmolas, não somente por esta razão, mas porque a esmola não tem agora a mesma virtude, mas muito menor: pois não é o mesmo tê-la feito ele mesmo, e tê-la outro feito por ele; portanto, sendo menor a virtude, façamo-la, pela quantidade, a maior possível. Não nos ocupemos com monumentos, não com memoriais. Este é o maior memorial: fazei viúvas ficarem ao redor dele. Dizei-lhes o seu nome: ordenai-lhes que todas façam por ele as suas orações, as suas súplicas: isto vencerá a Deus: ainda que não tenha sido feito pelo próprio homem, contudo por causa dele outr[o fará] [truncado]
Notai a conduta despretensiosa, notai a moderação de Pedro, como não fixa a sua morada com esta senhora, ou com alguma outra pessoa de distinção, mas com um curtidor: por todos os seus atos conduzindo os homens à humildade, não permitindo que o humilde se envergonhe, nem que o grande se ensoberbeça! Muitos dias; pois necessitavam da sua instrução, os que haviam crido por causa dos milagres. — Consideremos, pois, novamente o que se disse.
Este homem não era judeu, nem daqueles que estavam sob a Lei, mas já se antecipara ao nosso modo de vida. Observai, até aqui, duas pessoas, ambas de alta condição, recebendo a fé: o eunuco em Gaza e este homem; e o cuidado dispensado em favor destes. Mas não imagineis que isso se deu por causa de sua alta condição: Deus nos livre! Foi por causa de sua piedade. Pois o fato de a Escritura mencionar suas posições dignas é para mostrar a grandeza de sua piedade; visto que é mais admirável quando alguém, estando em posição de riqueza e poder, é tal como estes eram. O que constitui o louvor do primeiro é o haver empreendido tão longa viagem, e isto quando nenhuma estação festiva o exigia, e o ler no caminho, e enquanto ia sentado em seu carro, e o suplicar a Filipe, e inúmeros outros pontos; e o grande louvor do segundo é que ele faz esmolas e orações, e é homem justo, ocupando tal posto de comando. A razão pela qual o escritor descreve o homem tão minuciosamente é para que ninguém diga que a história da Escritura relata falsidades: Cornélio, diz ele, centurião da coorte chamada Itálica.
Uma coorte, σπεῖρα, é o que hoje chamamos numerus. Homem devoto, diz ele, e que temia a Deus com toda a sua casa.
Este homem não era judeu, nem daqueles que estavam sob a Lei, mas já se antecipara ao nosso modo de vida. Observai, até aqui, duas pessoas, ambas de alta condição, recebendo a fé: o eunuco em Gaza e este homem; e o cuidado dispensado em favor destes. Mas não imagineis que isso se deu por causa de sua alta condição: Deus nos livre! Foi por causa de sua piedade. Pois o fato de a Escritura mencionar suas posições dignas é para mostrar a grandeza de sua piedade; visto que é mais admirável quando alguém, estando em posição de riqueza e poder, é tal como estes eram. O que constitui o louvor do primeiro é o haver empreendido tão longa viagem, e isto quando nenhuma estação festiva o exigia, e o ler no caminho, e enquanto ia sentado em seu carro, e o suplicar a Filipe, e inúmeros outros pontos; e o grande louvor do segundo é que ele faz esmolas e orações, e é homem justo, ocupando tal posto de comando. A razão pela qual o escritor descreve o homem tão minuciosamente é para que ninguém diga que a história da Escritura relata falsidades: "Cornélio," diz ele, "centurião da coorte chamada Itálica." (v. 1). Uma "coorte", speira, é o que hoje chamamos "numerus". "Homem devoto," diz ele, "e que temia a Deus com toda a sua casa" (v. 2): para que não imagineis que é por causa de sua alta posição que estas coisas se fazem. — Quando Paulo havia de ser trazido à fé, não é um anjo, mas o próprio Senhor; e Ele não o envia a algum grande, mas a uma pessoa bem comum; mas aqui, ao contrário, Ele traz o príncipe dos Apóstolos (a estes gentios), e não os envia a ele: nisto condescendendo com a fraqueza deles, e sabendo como tais pessoas precisam ser tratadas. Como de fato, em muitas ocasiões, encontramos o próprio Cristo apressando-se (a tais pessoas), por serem mais enfermas. Ou, pode ser, porque Cornélio não podia ele mesmo deixar sua casa. Mas aqui, de novo, há um grande elogio da esmola, tal como ali fora dado por meio de Tabita. "Homem devoto," diz, "e que temia a Deus com toda a sua casa." Ouçamos isto, todos nós que negligenciamos os de nossa própria casa, ao passo que este homem cuidava também de seus soldados. "E que dava esmolas," diz, "a todo o povo." Tanto sua doutrina quanto sua vida eram retas. "Viu claramente, em visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que vinha a ele e lhe dizia: Cornélio." (v. 3). Por que vê ele o anjo? Isto também se deu para plena certeza de Pedro, ou antes, não dele, mas dos outros, os mais fracos. "À hora nona," quando estava livre de seus cuidados e em quietude, quando se ocupava em orações e compunção. "E, olhando para ele, teve medo." (v. 4). Observai como aquilo que o anjo diz não o diz imediatamente, mas primeiro desperta e eleva o seu espírito. À vista dele, houve temor, mas um temor moderado, apenas o quanto bastava para fixar sua atenção. Depois, também as palavras o aliviaram do temor. O temor o despertou; o louvor mitigou o que havia de penoso no temor. "Tuas orações," diz ele, "e tuas esmolas subiram como memorial diante de Deus. E agora envia homens a Jope, e manda chamar um certo Simão, cujo sobrenome é Pedro." (v. 5). Para que não fossem ter com outra pessoa, ele designa o homem não só pelo sobrenome, mas também pelo lugar. "E este," diz ele, "está hospedado com um certo Simão, curtidor, que tem sua casa junto ao mar." (v. 6). Notai como os Apóstolos, por amor à solidão e ao sossego, preferiam os bairros retirados das cidades. "Com um certo Simão, curtidor": e se, porventura, houvesse outro? Eis que há outro sinal, o de habitar junto ao mar. Os três sinais juntos não poderiam de modo algum coincidir noutro lugar. Não lhe diz para qual propósito, a fim de não diminuir o intenso desejo, mas o deixa em ardente e ansiosa expectativa daquilo que há de ouvir. "E, tendo-se retirado o anjo que falava com Cornélio, este chamou dois de seus servos domésticos, e um soldado devoto, dentre os que o assistiam continuamente; e, tendo-lhes declarado todas estas coisas, enviou-os a Jope." (v. 7-8). Vedes que não é sem propósito que o escritor diz isto? Mostra que também aqueles "que o assistiam continuamente" eram tais como ele. "E, tendo-lhes declarado todo o assunto:" observai o caráter despretensioso do homem: pois não diz, Chamai-me Pedro; mas, a fim também de induzi-lo a vir, declarou-lhes todo o assunto — assim o dispôs a Providência —, pois não quis valer-se da autoridade de sua posição para trazer Pedro a si; por isso "declarou o assunto"; tal era a moderação do homem: e, no entanto, não se deveria fazer grande ideia de alguém hospedado com um curtidor. "E, no dia seguinte, indo eles caminhando e aproximando-se da cidade" (v. 9) — observai como o Espírito encadeia os tempos: nem antes nem depois disto, Ele faz que isto aconteça — "Pedro, cerca da hora sexta, subiu ao terraço para orar": isto é, em particular e em sossego, como num quarto alto. "E teve grande fome, e quis comer; mas, enquanto lhe preparavam, sobreveio-lhe um êxtase." (v. 10). Que significa esta expressão, ékstasis, "êxtase"? Antes, foi-lhe apresentada uma espécie de visão espiritual (theoria): a alma, por assim dizer, foi posta fora do corpo (exéste). "E viu o céu aberto, e um certo vaso descendo a ele, atado pelas quatro pontas, como um grande lençol, e sendo baixado à terra: no qual havia toda sorte de quadrúpedes da terra, e feras, e répteis, e aves do céu. E veio a ele uma voz: Levanta-te, Pedro; mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor; porque nunca comi coisa alguma comum ou imunda. E a voz lhe falou segunda vez: O que Deus purificou, não o chames tu comum. Isto se fez três vezes; e o vaso foi novamente recolhido ao céu." (v. 11-16). Que é isto? É um símbolo do mundo inteiro. O homem era unci[truncado]
Observai com quem se faz o começo dos gentios — com um homem devoto, e provado digno por suas obras. Pois, se, sendo este o caso, ainda assim se escandalizam, se este não fosse o caso, que não se teria seguido! Mas notai a grandeza da certeza dada. (c) Para este fim tudo se faz (do modo como se faz), e o caso toma seu começo a partir da Judeia. (d) Viu ele em visão, claramente, etc.
para que não imagineis que é por causa de sua alta posição que estas coisas se fazem. — Quando Paulo havia de ser trazido à fé, não é um anjo, mas o próprio Senhor; e Ele não o envia a algum grande, mas a uma pessoa bem comum: mas aqui, ao contrário, Ele traz o príncipe dos Apóstolos (a estes gentios), e não os envia a ele: nisto condescendendo com a fraqueza deles, e sabendo como tais pessoas precisam ser tratadas. Como de fato, em muitas ocasiões, encontramos o próprio Cristo apressando-se (a tais pessoas), por serem mais enfermas. Ou, pode ser, porque Cornélio não podia ele mesmo deixar sua casa. Mas aqui, de novo, há um grande elogio da esmola, tal como ali fora dado por meio de Tabita. Homem devoto, diz, e que temia a Deus com toda a sua casa. Ouçamos isto, todos nós que negligenciamos os de nossa própria casa, ao passo que este homem cuidava também de seus soldados. E que dava esmolas, diz, a todo o povo. Tanto sua doutrina quanto sua vida eram retas. Viu claramente, em visão, cerca da hora nona do dia, um anjo de Deus que vinha a ele e lhe dizia: Cornélio.
Não foi em sono que o Anjo lhe apareceu, mas estando ele desperto, de dia, cerca da hora nona. Viu um Anjo de Deus que vinha a ele e lhe dizia: Cornélio. E, olhando para ele, teve medo. Tão absorto estava ele em si mesmo. Dando a entender que foi em consequência de o Anjo o ter chamado por uma voz que ele o viu; pois, se não o tivesse chamado, não o teria visto: tão tomado estava pelo ato em que se ocupava. Mas o Anjo lhe diz: Tuas orações e tuas esmolas subiram como memorial diante de Deus, e agora envia homens a Jope, e manda chamar um certo Simão, que é chamado Pedro.
Por que ele vê o anjo? Isto também se deu para a plena certeza de Pedro, ou antes, não dele, mas dos outros, os mais fracos. À hora nona, quando estava livre de seus cuidados e em quietude, quando se ocupava em orações e compunção. E, ao olhar para ele, temeu.
Observai como o que o anjo diz, não o diz imediatamente, mas primeiro desperta e eleva o seu espírito. À vista dele, houve temor, mas um temor moderado, apenas o suficiente para fixar-lhe a atenção. Depois, também as palavras o aliviaram do temor. O temor o despertou; o louvor mitigou o que havia de desagradável no temor. As tuas orações, diz ele, e as tuas esmolas subiram como memorial diante de Deus. E agora envia homens a Jope, e chama a certo Simão, cujo sobrenome é Pedro.
Até aqui, ele significou que o mandá-lo chamar seria para boas consequências, mas de que modo boas, não o deu a entender. Assim também Pedro não relata todo o assunto, mas em toda parte as narrativas são apenas parciais, a fim de fazer os ouvintes aplicarem o espírito ao que se diz. Envia e chama a Simão: do mesmo modo, o Anjo apenas chama a Filipe. E, indo eles em seu caminho, e aproximando-se da cidade
Para que não viessem a outra pessoa, ele designa o homem não somente pelo sobrenome, mas pelo lugar. E este mesmo, diz ele, está hospedado com um certo Simão, curtidor, que tem sua casa junto ao mar.
Observais como os Apóstolos, por amor à solidão e ao sossego, procuravam os bairros retirados das cidades? Com um certo Simão, curtidor: como seria, pois, se acaso houvesse outro? Eis que há outro sinal, sua morada junto ao mar. Não seria possível que todos os três sinais coincidissem (em outro lugar). Ele não lhe diz para que fim, a fim de não lhe tirar o desejo intenso, mas o deixa numa ávida e ansiosa expectativa do que há de ouvir. E, tendo partido o Anjo que falara a Cornélio, este chamou a dois dos seus servos domésticos, e a um soldado devoto, dentre os que o assistiam continuamente; e, havendo-lhes declarado todas estas coisas, enviou-os a Jope (v. 7, 8). Vede que não é sem propósito que o escritor diz isto: (mostra) que também os que o assistiam continuamente eram tais como ele. E havendo-lhes declarado todo o assunto: observai o caráter modesto do homem: pois não diz, Chamai-me a Pedro; mas, a fim também de induzi-lo a vir, declarou-lhes todo o assunto — assim foi ordenado pela Providência —, pois ele não quis usar a autoridade de seu posto para trazer Pedro a si; por isso declarou o assunto: tal era a moderação do homem; e, contudo, não se devia formar grande ideia de quem se hospedava com um curtidor. E, no dia seguinte, indo eles caminhando, e aproximando-se da cidade
a fim de que Pedro não permanecesse em perplexidade por muito tempo. Pedro subiu ao terraço, etc. Observai que nem mesmo a fome o forçou a recorrer ao lençol. Levanta-te, Pedro, diz a Voz, mata e come.
observai como o Espírito conecta os tempos: nem antes, nem depois disto, Ele faz suceder isto — Pedro, cerca da hora sexta, subiu ao terraço para orar: isto é, em particular e quietamente, como num cenáculo. E teve grande fome, e quis comer; mas, enquanto lhe preparavam, caiu sobre ele um êxtase.
Que significa esta expressão, ἔκστασις, êxtase? Antes, foi-lhe apresentada uma certa visão espiritual (θεωρία): a alma, por assim dizer, foi feita sair do corpo (ἐξέστη). E viu o céu aberto, e um vaso descendo até ele, atado pelas quatro pontas, como um grande lençol, e baixado à terra; no qual havia toda sorte de quadrúpedes da terra, e feras, e répteis, e aves do céu. E veio a ele uma voz: Levanta-te, Pedro; mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor; porque nunca comi coisa alguma comum ou imunda. E a voz lhe falou segunda vez: O que Deus purificou, não chames tu comum. Isto se fez três vezes; e o vaso foi novamente recolhido ao céu.
Provavelmente estava ele de joelhos quando viu a visão. — Parece-me que isto também denota o Evangelho (ou a Pregação). Que a coisa que se passava era de Deus (tornam-no evidentes as circunstâncias, a saber): tanto o vê-la descer do alto, como o estar ele em êxtase; e o vir a voz de lá, e o confessar-se três vezes que as criaturas ali eram imundas, e o vir isso de lá, e ser dali retirado de volta — tudo isto é um poderoso sinal da pureza (a elas conferida). — Mas por que se faz isto? Por causa daqueles a quem depois há de relatá-lo. Pois a ele mesmo fora dito: Não vades pelo caminho dos gentios (Mt 10,5). * * Pois se Paulo teve necessidade tanto de (dar) a circuncisão, como de (oferecer) sacrifício, muito mais (era necessária alguma segurança) então, no princípio da Pregação, enquanto ainda eram mais fracos (At 16,3; 21,16). — Observa também como ele não os recebeu imediatamente. Pois, diz o texto, chamaram, e perguntaram se Simão, que tinha por sobrenome Pedro, estava ali hospedado.
Que é isto? É um símbolo do mundo inteiro. O homem era incircunciso: e — pois nada tinha em comum com os judeus — todos o acusariam como transgressor: entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles (At 11,3); isto lhes era coisa de todo ofensiva: observa, pois, quão providencialmente se dispõe tudo. Ele mesmo também diz: Nunca comi; não que ele próprio temesse — longe de nós tal pensamento — mas assim o dispõe o Espírito, para que ele tenha o que responder aos que o acusarem, isto é, que ele objetou; pois lhes era de todo necessário observar a Lei. Estava ele prestes a ser enviado aos gentios: para que, pois, também estes não o acusem, vede quantas coisas são dispostas (pela Providência de Deus). Pois, para que não pareça mera fantasia, isto se fez três vezes. Eu disse, afirma ele, De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum ou imunda. — E a voz lhe veio: O que Deus purificou, não chames tu comum (cap. 11,8, cf. 10,14). Parece, na verdade, que isto lhe foi dito a ele, mas tudo se destina aos judeus. Pois se o mestre é repreendido, muito mais estes. A terra, pois, é o que o lençol de linho denota; e as feras nele, são estas as dos gentios; e o mandamento, Mata e come, denota que ele deve ir também a eles; e o fazer-se isto três vezes denota o batismo. O que Deus purificou, diz, não chames tu comum. Grande ousadia! Por que objetou ele? Para que ninguém diga que Deus o punha à prova, como no caso de Abraão; por isto diz ele: De modo nenhum, Senhor, etc. — não por contradizer — assim como também a Filipe disse Ele: Quantos pães tendes? não para aprender, mas tentando-o, ou provando-o. E, contudo, era o mesmo (Senhor) que acima (na Lei) havia discorrido acerca das coisas puras e impuras. Mas naquele lençol havia também todos os quadrúpedes da terra: os puros com os impuros. E, com tudo isto, ele não sabia o que aquilo significava. Ora, estando Pedro perplexo em si mesmo sobre o que seria aquela visão que tinha visto, eis que os homens enviados por Cornélio, tendo perguntado pela casa de Simão, pararam diante do portão, e chamaram, e perguntaram se Simão, que tinha por sobrenome Pedro, estava ali hospedado. Mas enquanto Pedro, diz o texto, estava perplexo em si mesmo
Como era casa de aparência humilde, perguntaram lá embaixo, indagaram dos vizinhos. E enquanto Pedro pensava, o Espírito lhe disse: Levanta-te, desce, e vai, nada duvidando, porque eu os enviei (v. 19-20). E não diz: Foi para isto que a visão te apareceu; mas: Eu os enviei. Então Pedro desceu
os homens vêm no momento exato para resolver-lhe a dúvida: assim como (o Senhor) permitiu primeiro que José se perturbasse no espírito, e só então envia o Anjo; pois a alma com facilidade aceita a solução, quando primeiro esteve em perplexidade. A perplexidade de Pedro não dura muito (quando de fato ocorreu), nem ocorreu antes deste momento, mas justamente quando aqueles perguntavam se ele ali se hospedava. Estando Pedro pensando na visão, disse-lhe o Espírito: Eis que três homens te buscam. Levanta-te, pois, desce, e vai com eles, nada duvidando, porque eu os enviei (v. 19-20). E isto, de novo, é uma defesa de Pedro em resposta aos discípulos: que ele duvidou, sim, mas foi instruído a nada duvidar. Pois Eu, diz Ele, os enviei. Grande é a autoridade do Espírito! O que Deus faz, isto se diz que o Espírito faz. Não assim o Anjo, mas, tendo primeiro dito: As tuas orações e as tuas esmolas subiram como memorial diante de Deus — para mostrar que é enviado de lá — acrescenta então: E agora envia homens, etc.; o Espírito, porém, não assim, mas: Porque eu os enviei. Então Pedro desceu aos homens que lhe haviam sido enviados por Cornélio, e disse: Eis que eu sou aquele que buscais; qual é a causa por que viestes? E eles disseram: Cornélio, o centurião, homem justo e temente a Deus, e que tem bom testemunho entre toda a nação dos judeus, foi avisado por Deus, por um santo anjo, que te mandasse chamar à sua casa, e ouvisse de ti palavras.
assim é que se deve obedecer ao Espírito, sem exigir razões. Pois basta, para toda segurança, que se nos diga por Ele: Faze isto, crê isto: nada mais (é necessário). — Então Pedro desceu, e disse: Eis que eu sou aquele que buscais; qual é a causa por que viestes? Viu um soldado, viu um homem: não era que tivesse medo; pelo contrário, tendo primeiro confessado que era ele a pessoa que buscavam, pergunta então a causa (de sua vinda); para que não se suponha que o motivo de perguntar a causa fosse o de querer esconder-se: pergunta-o antes para que, se for coisa de urgência imediata, possa também sair com eles, mas, se não, possa recebê-los como hóspedes. E eles disseram, etc., em sua casa.
Isto ele lhes havia ordenado. Não penseis que ele fez isto por desprezo: não foi por desprezo que os enviou, mas porque assim lhe fora ordenado. E Cornélio os esperava, e havia reunido os seus parentes e amigos íntimos.
Falam eles em seu louvor, de modo a persuadi-lo de que um Anjo lhe apareceu de fato. Então os fez entrar, para que não sofressem dano algum, e os hospedou: dali em diante, sem escrúpulo algum, toma as suas refeições com eles. E no dia seguinte Pedro partiu com eles, e alguns irmãos de Cesareia o acompanharam. E no dia seguinte, entraram em Cesareia.
"Ele" os fez entrar, e os hospedou. Bem, que primeiro trate os homens com afabilidade, depois da fadiga da viagem, e os faça sentir-se em casa com ele; "e no dia seguinte", parte com eles. E alguns o acompanham: isto também por disposição da Providência, para que fossem depois testemunhas quando Pedro precisasse justificar-se. "E Cornélio os esperava, e havia reunido os seus parentes e amigos íntimos." Isto é próprio de um amigo, isto é próprio de um homem devoto: que, tratando-se de tais bênçãos, ele cuide para que os seus amigos íntimos sejam feitos partícipes de tudo. Naturalmente (os seus amigos "íntimos"), aqueles em quem sempre depositara plena confiança; temendo, estando em jogo interesse tão grande, confiar o assunto a outros. Ao meu ver, foi pelo próprio Cornélio que tanto os amigos quanto os parentes haviam sido conduzidos a melhores disposições. "E, entrando Pedro, Cornélio saiu-lhe ao encontro e, prostrando-se a seus pés, o adorou." (v. 25). Isto, tanto para ensinar aos outros quanto por modo de ação de graças a Deus, e para mostrar a sua própria humildade: deixando assim claro que, embora lhe tivesse sido ordenado, ele próprio possuía grande piedade. Que fez então Pedro? "Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te; eu mesmo também sou homem." (v. 26). Reparai como, antes de tudo o mais, os Apóstolos lhes ensinam esta lição: não pensar coisas grandes a respeito deles? "E, falando com ele, entrou, e achou muitos que se haviam reunido. E disse-lhes: Vós sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se ou aproximar-se de alguém de outra nação; mas Deus me mostrou que a nenhum homem chamasse comum ou imundo." (v. 27, 28). Observai que ele fala logo da misericórdia de Deus, e lhes mostra que é grande graça a que Deus lhes concedeu. Observai também como, ao dizer coisas grandes, fala ao mesmo tempo com modéstia. Pois não diz: Nós, homens que não nos dignamos a conviver com tais pessoas, viemos até vós; mas que diz ele? "Vós sabeis" — Deus ordenou isto — "que é contra a lei ajuntar-se, ou aproximar-se, de alguém de outra nação." Depois prossegue dizendo: "E a mim Deus mostrou" — isto diz, para que ninguém lhe atribua o mérito devido —, "que a nenhum homem" — para que não pareça obsequiosidade sua — "nenhum ser humano", diz ele — "chamasse comum ou imundo." (v. 29). "Por isso também" — para que não pensem que o caso fosse, da sua parte, uma transgressão da lei, nem que (Cornélio) suponha que, por estar em posição de comando, ele por isso condescendeu, mas para que atribuam tudo a Deus — "por isso também vim sem contradizer, assim que fui chamado": (ainda que) não apenas conviver, mas até mesmo aproximar-se (dele) não era permitido. "Pergunto, pois, por que motivo me mandastes chamar." Já Pedro ouvira todo o caso também pelos soldados, mas quer que primeiro confessem, e torná-los dóceis à Fé. Que faz então Cornélio? Não diz: Ora, não to disseram os soldados? mas observai de novo com que humildade fala. Pois diz: "Há quatro dias eu estava em jejum até esta hora; e à hora nona orava em minha casa, e eis que um homem se pôs diante de mim, com vestes resplandecentes, e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas subiram por memorial diante de Deus. E à hora nona", diz ele, "eu orava." (v. 30, 31). Parece-me que este homem também havia fixado para si tempos determinados de uma vida sob regra mais estrita, e em certos dias. Por isso é que diz: "Desde o quarto dia." Vede quão grande coisa é a oração! Quando ele progrediu na piedade, então o Anjo lhe aparece. "Desde o quarto dia": isto é, da semana; não "há quatro dias." Pois "no dia seguinte Pedro partiu com eles, e no outro dia seguinte entraram em Cesareia": este é um dia; e o dia em que vieram os enviados (a Jope) é outro dia; e no terceiro (o Anjo) apareceu: de modo que há dois dias depois daquele em que (Cornélio) estivera orando. "E eis que um homem se pôs diante de mim, com vestes resplandecentes": não diz "um anjo", tão despretensioso é ele: "e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas são tidas em memória diante de Deus. Envia, pois, a Jope, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro: ele está hospedado na casa de um certo Simão, curtidor, junto ao mar: o qual, quando vier, te falará. Enviei, pois, logo até ti; e bem fizeste em vir. Agora, pois, estamos todos aqui presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto te foi ordenado por Deus." (v. 31-33). (b) Vede que fé, que piedade! Sabia que não era palavra de homem o que Pedro falava, quando dizia: "Deus me mostrou." Diz então o homem: "Estamos presentes para ouvir tudo quanto te foi ordenado pelo Senhor." (a) Foi por isso que Pedro perguntou: "Por que motivo me mandastes chamar?" de propósito, para que ele dissesse justamente estas palavras. (d) "Então Pedro abriu a boca e disse: Em verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que, em toda nação, aquele que O teme e pratica a justiça Lhe é aceitável." (v. 34, 35). Isto é, seja ele incircunciso ou circuncidado. (c) Isto também Paulo declara, dizendo: "Porque para com Deus não há acepção de pessoas." (Rm 2,11). (e) Que se dirá então? (poder-se-ia perguntar) será aceitável a Ele aquele homem lá na Pérsia? Se for digno, nisto é aceitável: em que lhe seja concedido ser conduzido à fé (tò kataxiothênai tês písteos). Ao eunuco da Etiópia Ele não desprezou. "Que se dirá, pois, dos homens religiosos que foram desprezados?" Não é o caso que algum (tal) jamais tenha sido desprezado. Mas o que ele diz é isto: que Deus a ninguém rejeita. "Em toda nação, aquele que teme a Deus e pratica a justiça": (por justiça) entende toda virtude. Notai como ele reprime nele toda soberba de espírito. Para que (os judeus) não pareçam estar na condição de repudiados, (acrescenta): "A palavra que Ele enviou [truncado]
At 10,2, pois ele era como o pai comum daqueles que estavam com ele, e de todos os demais (sob o seu comando). Mas observai o que ele mesmo, o soldado, diz. Pois, temendo * *, acrescenta também isto: bem reputado por toda a nação. Pois que importa se era incircunciso? Ora, mas estes lhe dão bom testemunho. Nada como a esmola: grande é a virtude desta prática, quando a esmola é derramada de reservas puras; pois é como uma fonte que despeja lama, quando provém de bens injustos, mas quando provém de ganhos justos, é como uma corrente límpida e pura num paraíso, doce à vista, doce ao tato, leve e fresca, quando dada no calor do meio-dia. Tal é a esmola. Junto a esta fonte, não choupos nem pinheiros, nem ciprestes, mas outras plantas diversas destas, e muito melhores, de porte formoso: amizade com Deus, louvor entre os homens, glória para com Deus, benevolência de todos; apagamento dos pecados, grande ousadia, desprezo das riquezas. Esta é a fonte pela qual se nutre a planta do amor: pois nada costuma nutrir tanto o amor quanto ser misericordioso: faz com que os seus ramos se ergam para o alto. Esta fonte é melhor que aquela do Paraíso (Gn 2,10); uma fonte que não se divide em quatro braços, mas que alcança o próprio Céu: esta dá origem àquele rio que salta para a vida eterna (Jo 4,14): sobre ela caia a Morte, e, como uma centelha, é extinta pela fonte: tais, onde quer que caiam, são as poderosas bênçãos que ela causa. Esta apaga, como a uma centelha, o rio de fogo: esta estrangula aquele verme como nenhuma outra coisa pode fazer (Mc 9,44). Quem a possui não rangerá os dentes. Que se derrame a sua água sobre as cadeias, e elas se dissolvem: que apenas toque nos tições, e tudo se apaga. — Uma fonte não verte suas correntes por algum tempo para logo secar — do contrário já não seria fonte —, mas jorra sempre: assim também a nossa fonte verta mais copiosamente as correntes da misericórdia (na esmola). Isto alegra a quem recebe: isto é esmola, verter não apenas uma corrente copiosa, mas perene. Se quiseres que Deus chova sobre ti a Sua misericórdia como de fontes, tem tu também uma fonte. E, no entanto, não há comparação (entre a fonte de Deus e a tua): pois, ainda que abras as bocas desta fonte, tais são as bocas da Fonte de Deus que superam todo abismo. Deus apenas busca obter de nossa parte uma ocasião, e derrama dos Seus tesouros as Suas bênçãos. Quando gasta, quando prodigaliza, então é rico, então é opulento. Larga é a boca daquela fonte: pura e límpida a sua água. Se não obstruíres a fonte daqui, tampouco obstruirás aquela fonte. — Que nenhuma árvore infrutífera fique junto a ela, para que não desperdice o seu orvalho. Tens riqueza? Não plantes aí choupos: pois tal é o luxo: consome muito e nada mostra de si mesmo, mas estraga o fruto. Não plantes um pinheiro — tal é a vaidade no vestir, bela apenas à vista, e para nada útil — nem tampouco um abeto, nem nenhuma outra dessas árvores que, na verdade, consomem, mas de modo algum são úteis. Enche-a de rebentos novos: planta tudo o que é frutífero, nas mãos dos pobres, tudo quanto quiseres. Nada mais rico que este solo. Ainda que pequeno o alcance da mão, a árvore que ela planta ergue-se até o céu e permanece firme. Isto é plantar. Pois o que se planta na terra perecerá, ainda que não agora, ao menos daqui a cem anos. Plantas muitas árvores, de cujo fruto não hás de gozar, mas, antes que possas gozá-lo, a morte te sobrevém. Esta árvore te dará o seu fruto então, quando estiveres morto. — Se plantares, não plantes nas fauces da gula, para que o fruto não acabe na latrina: mas planta no ventre aflito, para que o fruto se erga até o céu. Refrigera a alma angustiada do pobre, para que não apertes a tua própria alma desafogada. — Não vês que as plantas regadas em excesso pela raiz apodrecem, mas crescem quando regadas com moderação? Assim também, não encharques o teu próprio ventre, para que a raiz da árvore não apodreça: rega o que tem sede, para que dê fruto. Se regares com moderação, o sol não as ressecará, mas se em excesso, então as resseca: tal é a natureza do sol. Em tudo, o excesso é mau; por isso cortemo-lo, para que também nós alcancemos o que pedimos. — As fontes, diz-se, nascem nos lugares mais elevados. Sejamos elevados em alma, e a nossa esmola fluirá em corrente rápida: a alma elevada não pode deixar de ser misericordiosa, e a misericordiosa não pode deixar de ser elevada. Pois quem despreza as riquezas está acima da raiz dos males. — As fontes encontram-se mais frequentemente em lugares solitários: retiremos a nossa alma da multidão, e a esmola brotará conosco. As fontes, quanto mais são limpas, mais copiosamente fluem: assim conosco, quanto mais despendemos, mais cresce todo bem. — Quem tem uma fonte nada tem a temer: também nós, pois, não temamos. Pois, de fato, esta fonte nos serve para beber, para irrigar, para edificar, para tudo. Nada melhor que esta bebida: não é possível que ela embriague. Melhor é possuir tal fonte do que ter fontes que correm em ouro. Melhor que todo solo aurífero é a alma que traz este ouro. Pois ela nos conduz, não a estes palácios terrenos, mas àqueles do alto. O ouro se torna ornamento para a Igreja de Deus. Deste ouro se forja a espada do Espírito (Ef 6,17), a espada com que o dragão é decapitado. Desta fonte vêm as pedras preciosas que estão sobre a cabeça do Rei. Não desprezemos, pois, tão grande riqueza, mas contribuamos com as nossas esmolas com largueza, para que sejamos achados dignos da misericórdia de Deus, pela graça e terna compaixão de Seu Filho unigênito, com Quem, ao Pai e ao Espírito Santo juntamente, seja glória, domínio, honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Fê-los entrar, e os hospedou. Bem, que primeiro trate os homens com afabilidade, depois da fadiga da viagem, e os faça sentir-se em casa com ele; e no dia seguinte, parte com eles. E alguns o acompanham: isto também por disposição da Providência, para que fossem depois testemunhas quando Pedro precisasse justificar-se. E Cornélio os esperava, e havia reunido os seus parentes e amigos íntimos. Isto é próprio de um amigo, isto é próprio de um homem devoto: que, tratando-se de tais bênçãos, ele cuide para que os seus amigos íntimos sejam feitos partícipes de tudo. Naturalmente (os seus amigos íntimos), aqueles em quem sempre depositara plena confiança; temendo, estando em jogo interesse tão grande, confiar o assunto a outros. Ao meu ver, foi pelo próprio Cornélio que tanto os amigos quanto os parentes haviam sido conduzidos a melhores disposições. E, entrando Pedro, Cornélio saiu-lhe ao encontro e, prostrando-se a seus pés, o adorou.
Era justo que os seus parentes e amigos se reunissem junto a ele. Mas, estando ali presentes, teriam ouvido dele o que sucedera.
Vede quão grande é a virtude da esmola, tanto no discurso anterior quanto aqui! Ali, ela livrou da morte temporal; aqui, da morte eterna; e abriu as portas do céu. Tais são os cuidados tomados para trazer Cornélio à fé, que tanto um anjo é enviado, quanto o Espírito age, e o chefe dos Apóstolos é chamado a ele, e tal visão é mostrada, e, em suma, nada se deixa por fazer. Quantos centuriões não houve além deste, e tribunos, e reis, e nenhum deles obteve o que este homem obteve! Ouvi, todos vós que estais em comandos militares, todos vós que estais junto a reis. Homem justo, diz, temente a Deus; devoto (v. 2 e 22); e, o que é mais que tudo, com toda a sua casa. Não como nós (que): para que os nossos servos nos temam, fazemos tudo, mas não para que sejam devotos. E também sobre os domésticos, assim * *. Não assim este homem; mas era um que temia a Deus com toda a sua casa.
O homem era pessoa de nota, e era numa cidade de nota que então se encontrava.
(a) Mas recapitulemos o que já foi dito. Havia um certo homem em Cesareia, etc.
Isto, tanto para ensinar aos outros quanto por modo de ação de graças a Deus, e para mostrar a sua própria humildade: deixando assim claro que, embora lhe tivesse sido ordenado, ele próprio possuía grande piedade. Que fez então Pedro? Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te; eu mesmo também sou homem.
Enviou, diz o texto, a Jope para trazer Pedro. Estava à sua espera, etc.; vede quão plenamente cria que Pedro certamente viria: (b) e caiu-lhe aos pés, e o adorou. (v. 24, 25.) (a) Observai como por todos os lados se mostra quão digno ele é! Ali o Eunuco desejou que Filipe subisse e se assentasse no carro (At 8,31), embora não soubesse quem ele era, sem outra recomendação (ἐπαγγελίας) senão a que lhe dera o Profeta. Mas aqui Cornélio caiu-lhe aos pés. (c) Levanta-te, eu mesmo também sou homem.
Observais como, antes de tudo o mais, os Apóstolos lhes ensinam esta lição, a de não pensar grandes coisas a respeito de si mesmos? E, conversando com ele, entrou, e achou muitos que se haviam reunido. E disse-lhes: Vós sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se, ou vir a alguém de outra nação; mas Deus me mostrou que a nenhum homem chamasse comum ou imundo. (v. 27, 28.) Observai que ele logo fala da misericórdia de Deus, e lhes mostra que é grande graça a que Deus lhes concedeu. Observai também como, ao mesmo tempo que profere grandes coisas, fala com modéstia. Pois não diz: Nós, sendo homens que não nos dignamos a ajuntar-nos com nenhum (semelhante), viemos a vós; mas que diz ele? Vós sabeis — Deus o ordenou — que é contra a lei ajuntar-se, ou vir a, alguém de outra nação. Depois prossegue dizendo: E a mim Deus mostrou — isto diz, para que ninguém atribua a graça a ele mesmo — que a nenhum homem — para que não pareça obsequiosidade sua, nenhum ser humano, diz ele — chamasse comum ou imundo.
Observai como o seu discurso, em todas as ocasiões, está livre de adulação, e quão cheio de humildade. E, conversando com ele, entrou.
Conversando sobre quê? Suponho que dizendo estas palavras: Eu mesmo também sou homem. (e) Observais o temperamento despretensioso de Pedro? Ele mesmo também mostra que a sua vinda é obra de Deus: Vós sabeis que não é lícito a um homem judeu, etc.
Ele sabia isto desde o início, e antecipadamente planeja o seu discurso (tendo isto em vista). Gentios? Que Gentios, doravante? Já não eram Gentios, tendo vindo a Verdade. Nada há de admirável, diz ele, se antes do ato do batismo receberam o Espírito: também em nosso próprio caso isto mesmo aconteceu. Pedro mostra que nem sequer como os demais foram eles batizados, mas de modo muito melhor. Esta é a razão pela qual a coisa se dá deste modo, para que nada tenham a dizer, mas até mesmo assim os considerem iguais a si mesmos.
E por que não falou do lençol de linho? Observai a isenção de toda vanglória em Pedro: mas que foi enviado por Deus, isto sim ele menciona; do modo como foi enviado, não fala por ora; quando surgiu a necessidade, visto que dissera: Vós sabeis que não é lícito a um homem judeu ajuntar-se, ou aproximar-se, de alguém de outra nação, ele simplesmente acrescenta: mas a mim Deus me mostrou, etc. Não há aqui nada de vanglória. Vós todos, diz ele, sabeis. Ele faz do conhecimento deles seu fiador. Mas Cornélio diz: Estamos presentes diante de Deus para ouvir tudo quanto vos foi ordenado pelo Senhor.
Por isso também — para que não pensassem ser aquilo, da parte dele, uma transgressão da lei, nem (Cornélio) supusesse que, por estar ele em posição de comando, por isso condescendera, mas para que atribuíssem tudo a Deus — por isso também vim sem contradizer logo que fui chamado: (ainda que) não apenas ajuntar-se, mas até mesmo aproximar-se (dele) não era permitido. Pergunto, pois, com que intenção me mandastes chamar. Já Pedro ouvira todo o assunto também pelos soldados, mas quer que eles primeiro confessem, e torná-los dóceis à Fé. Que faz então Cornélio? Não diz: Ora, não vos disseram os soldados? Mas observai de novo quão humildemente fala. Pois diz: Desde o quarto dia eu estava em jejum até esta hora; e à hora nona eu orava em minha casa, e eis que um homem se pôs diante de mim com vestes resplandecentes, e disse: Cornélio, tua oração foi ouvida, e tuas esmolas subiram como memorial diante de Deus. E à hora nona, diz ele, eu orava. (v. 30, 31.) Parece-me que este homem também fixara para si mesmo tempos determinados de uma vida de disciplina mais rigorosa, e em certos dias. Por isto é que diz: Desde o quarto dia. Vede quão grande coisa é a oração! Quando avançou na piedade, então lhe aparece o Anjo. Desde o quarto dia: isto é, da semana; não há quatro dias. Pois, no dia seguinte Pedro partiu com eles, e no dia seguinte a esse entraram em Cesareia: eis um dia; e o dia em que os enviados chegaram (a Jope), outro dia; e no terceiro (o Anjo) apareceu: de modo que há dois dias depois daquele em que (Cornélio) estivera orando. E eis que um homem se pôs diante de mim com vestes resplandecentes: não diz um anjo, tão despretensioso é ele; e disse: Cornélio, tua oração foi ouvida, e tuas esmolas são tidas em memória diante de Deus. Envia, pois, a Jope, e chama a Simão, que tem por sobrenome Pedro: este se hospeda na casa de um certo Simão, curtidor, junto ao mar; o qual, quando vier, te falará. Imediatamente, pois, mandei chamar-te; e bem fizeste em vir. Agora, pois, estamos todos nós aqui presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto te foi ordenado por Deus.
não diante do homem, mas diante de Deus. Este é o modo pelo qual se deve atender aos servos de Deus. Vedes o seu ânimo desperto? Vedes quão digno era ele de todas estas coisas? E Pedro, diz o texto, abriu a boca e disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas.
(b) Vede que fé, que piedade! Ele sabia que não era palavra de homem o que Pedro dizia, quando disse: Deus me mostrou. Então diz o homem: Estamos presentes para ouvir tudo quanto te foi ordenado pelo Senhor. (a) Por isso é que Pedro perguntou: Com que intenção me mandastes chamar? de propósito, para que ele assim dissesse estas mesmas palavras. (d) Então Pedro abriu a boca e disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas: mas em toda nação aquele que O teme e pratica a justiça Lhe é aceitável. (v. 34, 35.) Isto é, seja incircunciso ou circunciso. (c) Isto também declara Paulo, dizendo: Pois não há acepção de pessoas diante de Deus (Rm 2,11). (e) Que dizer então? (poder-se-ia perguntar) acaso é aceitável a Ele aquele homem lá na Pérsia? Se for digno, nisto é aceitável, que lhe seja concedido ser conduzido à fé (τῷ καταξιωθῆναι τῆς πίστεως). Ao eunuco vindo da Etiópia Ele não desprezou. Que se dirá, então, dos homens religiosos que foram desprezados? Não é o caso que algum (tal) jamais tenha sido desprezado. Mas o que ele diz é a este respeito: que Deus não rejeita homem algum. Em toda nação, aquele que teme a Deus e pratica a justiça: (por justiça) entende toda virtude. Notai como ele reprime toda elevação de ânimo nele. Para que (os judeus) não pareçam estar na condição dos rejeitados, (acrescenta): A palavra que Ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo: Ele é Senhor de todos.
Isto disse também a título de se justificar perante os judeus então presentes. Pois, estando prestes a confiar a Palavra a estes (gentios), primeiro apresenta isto por modo de apologia. Que, pois? Fazia Ele, outrora, acepção de pessoas? Longe disto! Pois também outrora era exatamente o mesmo: Todo aquele, diz ele, que O teme e pratica a justiça, seria aceitável a Ele. Como quando Paulo diz: Pois quando os gentios, que não têm a Lei, fazem por natureza as coisas da Lei (Rm 2,14). Que teme a Deus e pratica a justiça: pressupõe tanto a doutrina quanto o modo de vida: é aceito por Ele; pois, se Ele não desprezou os Magos, nem o Etíope, nem o ladrão, nem a meretriz, muito mais àqueles que praticam a justiça, e o desejam, de modo algum deixará Ele de os desprezar — antes, não os desprezará. Que dizeis, pois, a isto: que há pessoas de boa disposição (ἐπιεικεῖς), homens de índole branda, e contudo não hão de crer? (Acima, p. 149, nota 2.) Eis que vós mesmos nomeastes a causa: eles não querem. Mas, além da pessoa de boa disposição, aquele de quem ele aqui fala não é este tipo de homem, mas o homem que pratica a justiça: isto é, o homem que em todos os pontos é virtuoso e irrepreensível, quando tem o temor de Deus como deve tê-lo. Mas se alguém é tal, só Deus o sabe. Vede quão aceitável era este homem: vede como, assim que ouviu, foi persuadido. Sim, e também agora, direis, qualquer um seria persuadido, seja quem for. Mas os sinais que agora há são muito maiores que aqueles, e mais admiráveis. — Então Pedro começa seu ensino, e reserva para os judeus o privilégio de seu nascimento. A palavra, diz ele, que Ele enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz.
não trazendo julgamento. Ele é enviado também aos judeus: e, no entanto, ainda assim não os poupou. Anunciando a paz por meio de Jesus Cristo. Ele é Senhor de todos. Primeiro discorre sobre o Seu senhorio, e em termos sobremaneira elevados, visto que tinha de tratar com uma alma mais que ordinariamente elevada, e que tudo recebia com ardor. Depois prova como Ele era Senhor de todos, a partir das coisas que realizou por toda a Judeia. Pois vós conheceis, diz ele, o que sucedeu por toda a Judeia; e, o que é a parte admirável disso, começando pela Galileia, depois do batismo que João pregou.
Isto ele diz também em atenção aos presentes (os judeus), para persuadi-los também a eles: por isso força Cornélio a falar. Ele, diz, é Senhor de todos. Mas observai, já no início, "A palavra", diz ele, "que Ele enviou aos filhos de Israel" — dá-lhes a preeminência. Depois aduz como testemunhas os próprios (gentios): "vós sabeis", diz, "o que sucedeu por toda a Judeia, começando pela Galileia" — e confirma-o também a partir disto: "depois do batismo que João pregou".
Primeiro fala de Seu sucesso, e depois novamente diz acerca d'Ele: Jesus de Nazaré. Que pedra de tropeço, este lugar de nascimento! Como Deus O ungiu com o Espírito Santo e com poder.
Sim, Jesus de Nazaré: como Deus O ungiu com o Espírito Santo e com poder.
Depois, novamente, a prova — como aparece ela? — a partir do bem que Ele fez. "Que andou fazendo o bem, e curando a todos os oprimidos pelo diabo": e a grandeza do poder manifesta-se quando Ele vence o diabo; e a causa, "Porque Deus era com Ele". Por isso também os judeus falaram assim: "Sabemos que és mestre vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes milagres se Deus não for com ele" (Jo 3,2). Depois, tendo mostrado que Ele foi enviado por Deus, fala em seguida disto, que Ele foi morto: para que não imagineis nada de absurdo. Vedes quão longe estão de esconder a Cruz da vista, antes, junto com as demais circunstâncias, expõem também o modo? "A quem também", diz, "mataram, pendurando-O num madeiro". "E o entregou", acrescenta, "para ser manifesto não a todo o povo, mas às testemunhas antes ordenadas por Deus, a nós mesmos": e, contudo, foi Ele mesmo quem os elegeu; mas também isto ele refere a Deus. "Às antes ordenadas", diz, "a nós mesmos, que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos".
Não quer dizer: "Vós conheceis a Jesus", pois não O conheciam, mas fala das coisas feitas por Ele: "Que andou fazendo o bem, e curando a todos os oprimidos pelo diabo": por isto mostra que muitos casos de sentidos perdidos ou membros paralisados são obra do diabo, um estrago causado ao corpo por ele: como também disse Cristo. "Porque Deus era com Ele". Novamente, termos humildes. "E nós somos testemunhas de todas as coisas que Ele fez, tanto na terra dos judeus como em Jerusalém".
"Tanto nós", diz, "como vós". Depois a Paixão, e a razão pela qual não creem: "A quem também mataram, e penduraram num madeiro. A este Deus ressuscitou ao terceiro dia, e O manifestou abertamente; não a todo o povo, mas às testemunhas antes escolhidas por Deus, a nós mesmos, que comemos e bebemos com Ele depois que ressuscitou dos mortos" (v. 40-41). Esta é a prova da Ressurreição. "E nos ordenou pregar ao povo, e testificar que é Ele quem foi ordenado por Deus para ser Juiz de vivos e mortos".
Vede donde ele extrai a certeza da ressurreição. Qual é a razão de, tendo ressuscitado, Ele não ter feito sinal algum, mas apenas comido e bebido? Porque a própria Ressurreição era um grande sinal, e nada era tão sinal dela quanto o comer e o beber. Para testificar, diz ele — de modo calculado para alarmá-los — que não tenham em seu poder recorrer à desculpa da ignorância: e não diz que Ele é o Filho de Deus, mas, o que mais os alarmaria, que é Ele quem foi ordenado por Deus para ser Juiz de vivos e mortos.
Isto é grande. Em seguida, adianta o testemunho dos Profetas: A Ele todos os profetas dão testemunho de que, por meio do Seu nome, todo aquele que nEle crer receberá a remissão dos pecados.
Depois que os agitou pelo terror, então introduz o perdão, não proferido por si mesmo, mas pelos Profetas. E o que é terrível procede dele; o que é brando, dos Profetas.
Vós todos que recebestes este perdão, vós todos a quem foi concedido alcançar a fé, aprendei, eu vos suplico, a grandeza do Dom, e esforçai-vos por não seres insolentes para com o vosso Benfeitor. Pois obtivemos o perdão, não para que nos tornássemos piores, mas para nos fazer muito melhores e mais excelentes. Que ninguém diga que Deus é a causa de nossos malfeitos, pelo fato de não ter punido nem se vingado. Se (como se diz) um magistrado, tendo prendido um assassino, o solta, dizei-me: não é ele julgado causa dos assassinatos depois cometidos? Vede, pois, como expomos Deus às línguas dos ímpios. Pois que não dizem, que deixam por dizer? Ele mesmo, dizem, o permitiu; pois deveria tê-los punido como mereciam, não honrá-los, nem coroá-los, nem admiti-los aos primeiros privilégios, mas puni-los e vingar-se deles; mas aquele que, em vez disso, os honra, fez com que se tornassem tais quais são. Não, eu vos suplico e imploro, não permitais que ninguém profira tal discurso por nossa causa. Melhor seria sermos sepultados dez mil vezes, do que Deus, por nossa causa, ser assim falado! Lemos que os judeus disseram ao próprio Cristo: Tu que destróis o templo e em três dias o reedificas, desce da cruz (Mt 27,40); e ainda: Se és o Filho de Deus. Mas os opróbrios daqui são mais graves que aqueles, a saber, que por nossa causa Ele seja chamado mestre da iniquidade! Façamos com que se diga exatamente o contrário, tendo o nosso proceder digno daquele que nos chama, e aproximando-nos dignamente do batismo da adoção. Pois grande é, na verdade, o poder do batismo (φωτίσματος): torna homens bem diversos do que eram os que participam do dom; não permite que os homens sejam apenas homens. Faze o gentio (τὸν... escravo, como um malfeitor, como se não fosse teu dever viver para Deus? Por que estás afetado para com Ele, como se tivesses nEle um Senhor implacável e cruel? Que pode haver de mais desumano (ψυχρότερον), que de mais miserável, do que aqueles que fazem disso o momento de receber o batismo? Deus fez de ti um amigo, e te concedeu todos os seus bens, para que desempenhes o papel de amigo. Suponde que houvésseis feito a algum homem a maior das injúrias, que o houvésseis insultado e lhe houvésseis trazido opróbrios sem fim; suponde que houvésseis caído nas mãos do ofendido, e que ele, em troca de tudo isso, vos honrasse, vos fizesse participante de tudo quanto possuía, e, na assembleia de seus amigos, diante dos quais fora insultado, vos coroasse e declarasse que vos teria como seu próprio filho gerado, e que logo em seguida morresse: dizei, não o teríeis chorado? Não teríeis julgado a sua morte uma calamidade? Não teríeis dito: Oxalá ele estivesse vivo, para que eu tivesse em meu poder retribuir-lhe como convém, para que eu pudesse recompensá-lo, para que eu me mostrasse não vil para com o meu benfeitor? Assim, pois, quando se trata apenas de um homem, é assim que agiríeis; e quando se trata de Deus, estais ansiosos por partir, para não retribuirdes ao vosso benfeitor por tão grandes dons? Antes, escolhei o tempo de vir a Ele de tal modo que tenhais em vosso poder retribuir-Lhe como por como. É verdade, dizeis, mas não posso guardá-lo. Acaso Deus ordenou coisas impossíveis? Daí vem que tudo está inteiramente invertido, daí que, no mundo inteiro, tudo esteja corrompido — porque ninguém se propõe como alvo viver segundo Deus. Assim, os que ainda são catecúmenos, porque fazem disto o seu objetivo — como hão de adiar o batismo até o último momento —, não se preocupam em levar uma vida reta; e os que já foram batizados (φωτισθέντες), quer porque o receberam ainda crianças, quer porque, tendo-o recebido na enfermidade e depois se restabelecido (ἀνενεγκόντες), não tiveram sincero desejo de continuar vivendo para a glória de Deus, assim sucede que tampouco estes fazem disso questão séria; e mesmo os que o receberam em plena saúde têm bem pouco a mostrar de qualquer boa impressão e, ainda que fervorosos por algum tempo, logo deixam apagar-se o fogo. Por que fugis? Por que tremeis? De que tendes medo? Não quereis dizer, porventura, que não vos é permitido seguir vossos negócios? Não vos separo de vossa esposa! Não; é da fornicação que vos aparto. Não vos impeço do gozo de vossas riquezas? Não; mas sim da cobiça e da rapina. Não vos obrigo a esvaziar todos os vossos cofres? Não; mas sim a dar alguma pequena parte, segundo vossos recursos, aos que carecem — o vosso supérfluo para a necessidade deles —, e nem mesmo isso sem recompensa. Acaso vos instamos a jejuar? Apenas vos proibimos de vos embrutecerdes com a embriaguez e a gula. As coisas que desejamos suprimir são precisamente aquelas que vos trazem vergonha; coisas que, mesmo aqui, aquém do fogo do inferno, vós mesmos confessais serem coisas a evitar e a odiar. Acaso vos proibimos de estar alegres e de vos regozijardes? Não; apenas não vos regozijeis com uma alegria vergonhosa e indecorosa. Que temeis, por que tendes medo, por que tremeis? Onde há matrimônio, onde há gozo das riquezas, onde há alimento com moderação, que matéria de pecado há nestas coisas? E, contudo, os que estão de fora impõem o oposto disto, e são obedecidos. Pois não exigem segundo vossos recursos, mas dizem: Deveis dar tanto; e se alegais pobreza, não farão caso disso. Não assim Cristo: Dá, diz Ele, do que tens, e eu te inscrevo nas primeiras fileiras. Aqueles, por sua vez, dizem: Se queres distinguir-te, abandona pai, mãe, parentes, amigos, e permanece em assídua vigília junto ao Palácio, labutando, afadigando-te, escravizando-te, distraído, padecendo misérias sem conta. Não assim Cristo; antes, permanece, diz Ele, em casa com tua esposa, com teus filhos, e quanto à tua ocupação diária
Isto é prova daquilo que estava para suceder: eis por que aqui cita os Profetas.
Mas retomemos o que se refere a Cornélio.
Observai a providencial disposição de Deus. Não permite Ele que o discurso se acabe, nem que o batismo se realize por ordem de Pedro; mas, depois que tornou manifesto quão admirável é a disposição de ânimo deles, e já se dera início à obra do ensino, e eles haviam crido que o batismo é, sem dúvida, a remissão dos pecados, então logo desce sobre eles o Espírito. Ora, isto se dá porque Deus assim o dispôs, a fim de fornecer a Pedro um poderoso fundamento de justificação. E não é simplesmente que o Espírito desceu sobre eles, mas que "falavam em línguas": foi isto o que espantou os que se haviam reunido. Eles de todo repudiavam o assunto; por isso tudo procede de Deus; e quanto a Pedro, quase se poderia dizer que ele está presente apenas para ser instruído, juntamente com eles, na lição de que deviam tomar os gentios a seu cargo, e de que eles mesmos eram as pessoas por quem isto devia ser feito. Pois, se, mesmo depois de todos estes grandes acontecimentos, ainda assim tanto em Cesareia como em Jerusalém se levanta questão sobre isto, como teria sido se estes sinais não tivessem acompanhado passo a passo o progresso do caso? Por isso é que isto é levado a uma espécie de excesso. Pedro toma partido da vantagem, e vede o argumento que dela extrai. "Pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que receberam o Espírito Santo assim como nós?" (v. 47). Notai a que conclusão ele o conduz; como se afadigou para trazer isto à luz. Tal era, por inteiro, a sua disposição de ânimo! "Pode alguém", pergunta ele, "recusar a água?" É a linguagem, quase se poderia dizer, de quem avança triunfante (ἐπεμβαίνοντος) contra os que quisessem proibir, contra os que dissessem que isto não devia ser. Tudo, diz ele, está completo, a parte mais essencial do assunto, o batismo com que fomos batizados. "E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo" (v. 48). Depois de ter-se justificado, e não antes, é que ordena que sejam batizados: ensinando-os pelos próprios fatos. Tal era a repugnância que os judeus tinham a isto! Por isso é que primeiro se justifica, embora os próprios fatos clamem em alta voz, e só depois dá a ordem. "Então lhe rogaram" — e bem podiam fazê-lo — "que ficasse com eles alguns dias"; e daí em diante permanece com bom ânimo. "E os apóstolos e os irmãos que estavam na Judeia ouviram que os gentios também haviam recebido a palavra de Deus. E, subindo Pedro a Jerusalém, os que eram da circuncisão contendiam com ele, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles" (At 11,1-3). Depois de coisas tão grandes, "os da circuncisão contendiam": não os apóstolos; longe esteja tal coisa! Quer dizer que se ofenderam, e não pouco. E vede o que alegam. Não dizem: Por que pregaste? mas: Por que comeste com eles? Mas Pedro, sem deter-se a notar esta objeção fria — pois na verdade é fria —, funda-se (ἵσταται) naquele grande argumento: se lhes fora dado o próprio Espírito, como poderia alguém recusar-lhes o batismo? Mas como se deu que, no caso dos samaritanos, isto não aconteceu, mas, ao contrário, nem antes nem depois do batismo deles houve qualquer controvérsia, e ali não se ofenderam; antes, tão logo souberam disso, enviaram os apóstolos precisamente para este fim? (At 8,14). É verdade; mas tampouco no caso presente é disto que se queixam; pois sabiam que era obra da Graça Divina: o que dizem é: Por que comeste com eles? Além disso, a diferença não é tão grande no caso dos samaritanos como no dos gentios. Além disso, assim se dispõe (como parte do desígnio divino) que ele seja acusado desta maneira: de propósito, para que aprendam; pois Pedro, sem que se lhe desse alguma causa, não teria relatado a visão. Mas observai como está livre de toda exaltação e vanglória. Pois diz: "Mas Pedro começou a explicar-lhes por ordem o que se passara, dizendo: Estava eu na cidade de Jope, orando": não diz por quê, nem em que ocasião; "e em êxtase vi uma visão: um vaso qualquer que descia, como um grande lençol, baixado do céu pelas quatro pontas; e chegou até mim (v. 4-5); nele, fixando os olhos, considerei e vi os quadrúpedes da terra, e as feras, e os répteis, e as aves do céu." "E ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro; mata e come" (v. 6-7). Como quem diz: Isto por si só bastaria para persuadir-me — o ter eu visto o lençol de linho —; mas, além disso, acrescentou-se uma Voz. "Mas eu disse: De modo nenhum, Senhor; porque nunca coisa alguma comum ou imunda entrou em minha boca" (v. 8). Notai? "Fiz a minha parte", diz ele: "disse que jamais comi coisa comum ou imunda" — com referência ao que eles disseram: "Entraste, e comeste com eles." Mas isto não o diz a Cornélio; pois não havia necessidade de mencioná-lo a ele. "Mas a voz me respondeu de novo, do céu: O que Deus purificou, não o chames tu comum. E isto se fez três vezes; e tudo tornou a ser recolhido ao céu" (v. 9-10). Os pontos essenciais eram aqueles (que se seguiram em Cesareia); mas por estes ele lhes prepara o caminho. Observai como se justifica (por meio de razões), e se abstém de usar de sua autoridade de mestre. Pois quanto mais brandamente se exprime, tanto mais dóceis os torna. "Nunca", diz ele, "entrou em minha boca coisa alguma comum ou imunda. E eis" — isto também fazia parte de sua defesa — "que três homens se apresentaram à casa em que eu estava, enviados a mim de Cesareia." "E o Espírito me ordenou que fosse com eles, nada duvidando" (v. 11-12). Notai que é ao Espírito que pertence o estabelecer das leis! "E também estes me acompanharam" — nada pode ser mais humilde do que isto, ao alegar os irmãos como testemunhas! — "estes seis homens, e entramos na casa daquele homem; e ele nos mostrou como vira em sua casa um anjo, que se apresentara e lhe dissera: Envia homens a Jope, e manda chamar Simão, cujo sobrenome
Não diz que Pedro ficou espantado, mas sim: os da circuncisão; pois ele já sabia o que se preparava. E, no entanto, deveriam ter-se maravilhado com isto: como eles mesmos haviam crido. Quando ouviram que haviam crido, não se espantaram; mas espantaram-se quando Deus lhes deu o Espírito. Então respondeu Pedro e disse, etc.
Enquanto Pedro ainda proferia estas palavras, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, quantos vieram com Pedro, ficaram admirados de que também sobre os gentios se derramasse o dom do Espírito Santo; pois os ouviam falar em línguas e engrandecer a Deus.
Observai a providencial disposição de Deus. Não permite Ele que o discurso se acabe, nem que o batismo se realize por ordem de Pedro; mas, depois que tornou manifesto quão admirável é a disposição de ânimo deles, e já se dera início à obra do ensino, e eles haviam crido que o batismo é, sem dúvida, a remissão dos pecados, então imediatamente desce sobre eles o Espírito. Ora, isto se dá porque Deus assim o dispôs, a fim de fornecer a Pedro um poderoso fundamento de justificação. E não é simplesmente que o Espírito desceu sobre eles, mas que falavam em línguas: foi isto o que espantou os que se haviam reunido. Eles de todo repudiavam o assunto; por isso tudo procede de Deus; e quanto a Pedro, quase se poderia dizer que ele está presente apenas para ser instruído, juntamente com eles, na lição de que deviam tomar os gentios a seu cargo, e de que eles mesmos eram as pessoas por quem isto devia ser feito. Pois, se, mesmo depois de todos estes grandes acontecimentos, ainda assim tanto em Cesareia como em Jerusalém se levanta questão sobre isto, como teria sido se estes sinais não tivessem acompanhado passo a passo o progresso do caso? Por isso é que isto é levado a uma espécie de excesso. Pedro toma partido da vantagem, e vede o argumento que dela extrai. Pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que receberam o Espírito Santo assim como nós?
Observai a que conclusão ele o conduz; como vinha trabalhando em dores de parto para trazer isto à luz. Tão inteiramente estava ele desta mente! Pode alguém, pergunta ele, recusar a água? É a linguagem, quase poderíamos dizer, de quem pisa triunfante (ἐπεμβαίνοντος) sobre aqueles que quisessem proibir, que dissessem que isto não deveria ser. Tudo está consumado, diz ele, a parte mais essencial do negócio, o batismo com que fomos batizados. E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo.
E por isso é que ele diz: Deus me mostrou que a nenhum homem devo chamar comum ou imundo.
Depois de haver-se justificado, então, e não antes, ordena ele que sejam batizados: ensinando-os pelos próprios fatos. Tal era a aversão que os judeus tinham a isto! Por isso é que primeiro se justifica, ainda que os próprios fatos clamem em voz alta, e só então dá a ordem. Rogaram-lhe, então — e bem podiam fazê-lo — que permanecesse com eles alguns dias; e daí em diante, com bom ânimo, ele permanece.
Notai como não estavam benevolamente dispostos para com ele? Dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos e comeste com eles.
Notai que zelo tinham pela Lei? Não os intimidou a autoridade de Pedro, nem os sinais que haviam sucedido, nem o êxito alcançado — coisa tão grande, os gentios terem recebido a palavra —; mas contendiam a respeito daquelas coisas mínimas. Pois, ainda que nenhum daqueles sinais tivesse ocorrido, não bastaria o próprio êxito? Mas não é assim que Pedro constrói sua defesa: pois era sábio, ou antes, não era sua sabedoria, mas o Espírito que falava as palavras. E pela matéria de sua defesa, mostra que em nenhum ponto foi ele o autor, mas em todo ponto Deus, e sobre Ele lança tudo. O êxtase, diz ele — foi Ele quem me fez cair nele, pois eu estava em Jope, etc.; o vaso — foi Ele quem o mostrou; eu objetei; de novo, Ele falou, e mesmo assim eu não ouvi; o Espírito me ordenou que fosse, e mesmo assim, ainda que fosse, eu não corri; eu disse que Deus me havia enviado, e depois disso, mesmo assim, eu não batizei, mas de novo foi Deus quem fez tudo. Deus os batizou, não eu. E não diz: Não seria então correto acrescentar a água? Mas, dando a entender que nada faltava: Quem era eu, para que eu resistisse a Deus? Que defesa é esta! Pois não diz: Sabendo, pois, destas coisas, calai-vos; mas o quê? Ele resiste ao ataque deles, e ao acusatório deles responde — Quem era eu, para poder impedir a Deus? Não me era possível impedir — alegação verdadeiramente vigorosa, e capaz de bem os envergonhar. Donde, tomados enfim de temor, calaram-se e glorificaram a Deus.
Do mesmo modo devemos nós também glorificar a Deus pelos bens que sucedem ao próximo, somente não à maneira como os demais recém-batizados são ultrajados, quando veem outros receberem o batismo e partirem imediatamente desta vida. É justo glorificar a Deus, ainda que todos se salvem; e quanto a vós, se o quiserdes, recebestes um dom maior que eles: não me refiro ao batismo, pois nele o dom é o mesmo para ele e para vós, mas quanto ao fato de terdes recebido um tempo determinado para alcançar distinção. Aquele outro vestiu a túnica, e não lhe foi permitido exibir-se com ela na procissão; a vós, porém, Deus deu plena oportunidade de usar vossas armas para o fim reto, e assim dar prova delas. Aquele parte, tendo apenas a recompensa de sua fé; vós permaneceis na carreira, podendo tanto obter abundante recompensa por vossas obras, como mostrar-vos tão mais glorioso do que ele, quanto o sol o é em relação à menor estrela, quanto o general — ou antes, o próprio Imperador — em relação ao mais ínfimo soldado. Culpai-vos então, ou antes, não vos culpeis, mas corrigi-vos: pois não basta culpar-se; está em vosso poder combater de novo. Fostes derrubado? Sofrestes grave ferimento? Levantai-vos, recuperai-vos: ainda estais na carreira, o teatro (θέατρον) ainda não se dissolveu. Não vedes quantos, derrubados na luta, retomaram depois o combate? Somente não caiais de bom grado. Considerais feliz aquele que parte desta vida? Considerai antes a vós mesmo feliz. Foi ele libertado de seus pecados? Mas vós, se o quiserdes, não só lavareis vossos pecados, como tereis ainda feitos de boas obras, o que no caso dele não é possível. Está em nosso poder recuperar-nos. Grandes são as virtudes medicinais (φάρμακα) da penitência: que ninguém desespere de si mesmo. Verdadeiramente merece ser tido por desesperado aquele que desespera de si mesmo; esse homem já não tem salvação, nem esperança alguma. Não é o ter caído num abismo de males, mas o permanecer ali deitado depois de caído, que é coisa terrível; não é o ter chegado a tal condição, mas o menosprezá-la, que é ímpio. Aquilo mesmo que deveria tornar-vos diligente, dizei, é isto que vos torna temerário? Tendo recebido tantas feridas, recuastes? Para a alma não pode haver ferida incurável; para o corpo há muitas tais, mas nenhuma para a alma; e, contudo, quanto àquelas não cessamos de nos esforçar por curá-las, ao passo que quanto a estas somos negligentes. Não vedes o ladrão na cruz, em quão pouco tempo alcançou a salvação? Não vedes os Mártires, em quão pouco tempo consumaram toda a obra? Mas o martírio não se encontra hoje em dia. É verdade; mas há combates a travar, como amiúde vos disse, se tivéssemos a disposição para tanto. Pois todos os que querem, diz o Apóstolo, viver piedosamente em Cristo Jesus padecerão perseguição (2Tm 3,12). Os que vivem piedosamente estão sempre sob perseguição, se não da parte dos homens, ao menos da parte dos espíritos malignos, o que é perseguição mais grave. E é, antes de tudo, em consequência da comodidade e do conforto que os que não são vigilantes padecem isto. Ou pensais ser pequena perseguição viver na comodidade? Esta é mais grave que todas, esta é pior que a perseguição. Pois, como um fluxo corrente, a comodidade torna a alma lânguida (χαυνοἵ); e assim como o verão e o inverno, tais são a perseguição e a comodidade. Mas, para vos mostrar que esta é a pior perseguição, ouvi: ela induz sono na alma, excessivo bocejo e sonolência, desperta as paixões por todos os lados, arma o orgulho, arma o prazer, arma a ira, a inveja, a vanglória, o ciúme. Mas, em tempo de perseguição, nenhuma destas pode causar perturbação; o temor, porém, entrando e vibrando vigorosamente o açoite, como se faz a um cão que ladra, não permite que nenhuma destas paixões sequer ouse dar voz. Quem poderá, em tempo de perseguição, entregar-se à vanglória? Quem viver no prazer? Ninguém; mas há muito tremor e temor, produzindo grande calma, reduzindo o porto à quietude, enchendo a alma de reverência. Ouvi de nossos pais (pois, quanto ao nosso próprio tempo, Deus queira que não suceda, já que nos é ordenado não pedir a tentação) que, na perseguição de outrora, podiam ver-se homens que eram verdadeiramente cristãos. Nenhum deles se importava com o dinheiro, nenhum com a esposa, nenhum com os filhos, nem com o lar, nem com a pátria: a única grande preocupação de todos era salvar suas vi [truncado]
At 11,1-3. Depois de coisas tão grandes, os da circuncisão contendiam: não os Apóstolos; longe disso! Quer dizer, tomaram não pequena ofensa. E vede o que alegam. Não dizem: Por que pregaste? Mas: Por que comeste com eles? Mas Pedro, sem deter-se a notar esta fria objeção — pois verdadeiramente fria é —, funda-se (ἵσταται) naquele grande argumento: se o próprio Espírito lhes fora dado, como se poderia recusar dar-lhes o batismo? Mas como se deu que, no caso dos samaritanos, isto não sucedeu, mas, pelo contrário, nem antes de seu batismo nem depois houve controvérsia alguma, e ali não o levaram a mal, antes, assim que o souberam, enviaram os Apóstolos precisamente para isso (At 8,14)? É verdade; mas tampouco no presente caso é isto o que reclamam; pois sabiam que era da Graça Divina: o que dizem é: Por que comeste com eles? Além disso, a diferença não é tão grande para os samaritanos quanto para os gentios. Ademais, assim se dispõe — como parte do plano Divino — que ele seja acusado deste modo: de propósito, para que aprendam; pois Pedro, sem que se lhe desse alguma causa, não teria relatado a visão. Mas observai sua isenção de toda soberba e vanglória. Pois diz: Mas Pedro relatou o caso desde o princípio, e o expôs ordenadamente, dizendo: Eu estava na cidade de Jope, orando — não diz por quê, nem em que ocasião — e em êxtase vi uma visão: um certo vaso descia, como um grande lençol, baixado do céu pelas quatro pontas; e chegou até mim.
sobre o qual, tendo fixado os olhos, o considerei, e vi quadrúpedes da terra, e feras, e répteis, e aves do céu. E ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro; mata e come.
Como quem diz: Isto só por si bastara para persuadir-me — o ter eu visto o lençol; mas, além disso, acresceu-se a Voz. Mas eu disse: De modo nenhum, Senhor, pois nunca em minha boca entrou coisa alguma comum ou imunda.
Observais? Cumpri a minha parte, diz ele: disse que nunca comi coisa alguma comum ou imunda — em resposta ao que disseram: Entraste e comeste com eles. Mas isto não o diz a Cornélio, pois não havia necessidade de lho mencionar. Mas a voz respondeu-me outra vez do céu: Não chames tu comum ao que Deus purificou. E isto se fez três vezes; e tudo foi outra vez recolhido ao céu.
Os pontos essenciais eram aqueles (que se seguiram em Cesareia); mas por estes lhes prepara o caminho. Observai como se justifica (por razões) e se abstém de usar da sua autoridade de mestre. Pois quanto mais brandamente se exprime, tanto mais dóceis os torna. Nunca, diz ele, em minha boca entrou coisa alguma comum ou imunda. — E eis — também isto fazia parte da sua defesa — que três homens se apresentaram à casa em que eu estava, enviados a mim de Cesareia. E o Espírito ordenou-me que fosse com eles, nada duvidando.
Observais que ao Espírito pertence o estabelecer das leis! E foram também comigo estes — nada pode ser mais humilde do que isto, quando alega os irmãos por testemunhas! — estes seis varões, e entramos na casa daquele homem; e ele nos mostrou como vira um anjo em sua casa, o qual se pôs diante dele e lhe disse: Envia varões a Jope e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras pelas quais serás salvo, tu e toda a tua casa.
E não menciona as palavras que o Anjo disse a Cornélio: As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus, para não os enfadar; mas que diz ele? O qual te dirá palavras pelas quais serás salvo, tu e toda a tua casa: com boa razão se acrescenta isto. Tampouco diz nada da equidade (ἐπιεικές) daquele homem. O Espírito, poderia dizer, tendo-me enviado, Deus tendo ordenado, de uma parte tendo-me convocado por meio do Anjo, de outra impelindo-me, e resolvendo a minha dúvida acerca das coisas, que me restava fazer? Nada disto, porém, diz ele; antes funda a sua força no que por último sucedeu, o que já por si mesmo era argumento incontrovertível. E, começando eu a falar, etc.
Por que, pois, não sucedeu isto sozinho? É por superabundância (ἐκ περιουσίας) que Deus opera isto, para que se mostrasse que nem sequer o começo proveio do Apóstolo. Pois, se ele tivesse partido por moção própria, sem que nada disto houvesse sucedido, eles se teriam ofendido sobremaneira; de sorte que, desde o princípio, dispõe os seus ânimos a seu favor, dizendo-lhes: Os quais receberam o Espírito Santo assim como nós. E, não contente com isto, lembra-lhes também as palavras do Senhor: Lembrei-me então da palavra do Senhor, como disse: Certamente João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.
Quer dizer que nada de novo sucedeu, mas exatamente o que o Senhor predisse. Mas não havia necessidade de batizar? (Cf. p. 158.) Ora, o batismo já estava consumado. E não diz: Ordenei que fossem batizados; mas que diz ele? Se Deus, pois, lhes deu o mesmo dom que também a nós, quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu, porventura, que pudesse resistir a Deus?
Mostra que ele mesmo nada fizera: pois a própria coisa que nós obtivemos, diz ele, essa mesma receberam aqueles homens. Para lhes fechar mais eficazmente a boca, diz, pois: O mesmo dom. Percebeis como não lhes permite ter menos: quando creram, diz ele, o mesmo dom lhes deu Deus, como a nós que cremos no Senhor, e Ele mesmo os purifica. E não diz: A vós, mas a nós. Por que vos sentis agravados, quando os chamamos partícipes (conosco)? Ouvindo eles estas coisas, calaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo também aos gentios deu Deus arrependimento para a vida.
Notais como tudo isto proveio do discurso de Pedro, pelo seu modo admiravelmente hábil de relatar os fatos? Glorificaram a Deus por lhes haver Ele concedido também a eles (καὶ αὐτοῖς) o arrependimento: humilharam-se com estas palavras. Daí em diante se abriu a porta da fé aos gentios. Mas, se vos aprouver, tornemos a examinar o que já foi dito.
E rogaram-lhe, diz o texto, que ficasse ainda alguns dias (At 10,48). E os apóstolos e os irmãos etc. E os da circuncisão contendiam com ele.
e não como nós, que passamos o tempo em lamentações e lágrimas em nossas calamidades; mas eles passavam o tempo com maior intrepidez, por se terem afastado daqueles que os perturbavam, e por estarem entre homens que não temiam os judeus: o que também os ajudava. E vieram a Chipre, onde tinham o mar de permeio, e maior isenção de ansiedade: assim não faziam caso do temor dos homens, mas ainda davam precedência à observância da Lei: falavam somente aos judeus. Havia, porém, em Antioquia certos homens de Chipre e de Cirene: estes, mais do que todos os outros, menos se importavam com os judeus: os quais falavam aos gregos, pregando o Senhor Jesus.
Notais como, mesmo na tribulação, em vez de caírem em lamentações e lágrimas, como nós fazemos, eles se entregam a uma obra grande e boa? Viajaram até a Fenícia, e Chipre, e Antioquia, e ali, com maior segurança, pregaram a palavra. E alguns deles, que eram homens de Chipre e de Cirene, etc.
A perseguição revelou-se não pequeno benefício, pois aos que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem (Rm 8,28). Se tivessem feito seu propósito expresso estabelecer da melhor forma a Igreja, não teriam feito outra coisa senão isto — dispersaram os mestres. Notai em que regiões se estendeu a pregação. Viajaram, diz o texto, até a Fenícia, e Chipre, e Antioquia; a ninguém, porém, pregavam a palavra senão somente aos judeus. Notais com que sábios desígnios da Providência se operou tanto no caso de Cornélio? Isto serve tanto para justificar a Cristo quanto para acusar os judeus. Quando Estêvão foi morto, quando Paulo esteve duas vezes em perigo, quando os apóstolos foram açoitados, então os gentios receberam a palavra, então os samaritanos. O que também Paulo declara: A vós era necessário que se anunciasse primeiro a palavra de Deus; mas, já que a rejeitais e vos julgais indignos, eis que nos voltamos para os gentios (At 13,46). Assim, pois, andavam pregando também aos gentios. Mas alguns deles eram homens de Chipre e de Cirene, os quais, tendo chegado a Antioquia, falavam aos gregos, pregando o Senhor Jesus:
A perseguição revelou-se não pequeno benefício, pois "aos que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem" (Rm 8,28). Se tivessem feito seu propósito expresso estabelecer da melhor forma a Igreja, não teriam feito outra coisa senão isto — dispersaram os mestres. Notai em que regiões se estendeu a pregação. "Viajaram," diz o texto, "até a Fenícia, e Chipre, e Antioquia; a ninguém, porém, pregavam a palavra senão somente aos judeus." Notais com que sábios desígnios da Providência se operou tanto no caso de Cornélio? Isto serve tanto para justificar a Cristo quanto para acusar os judeus. Quando Estêvão foi morto, quando Paulo esteve duas vezes em perigo, quando os apóstolos foram açoitados, então os gentios receberam a palavra, então os samaritanos. O que também Paulo declara: "A vós era necessário que se anunciasse primeiro a palavra de Deus; mas, já que a rejeitais e vos julgais indignos, eis que nos voltamos para os gentios" (cap. 13,46). Assim, pois, andavam pregando também aos gentios. "Mas alguns deles eram homens de Chipre e de Cirene, os quais, tendo chegado a Antioquia, falavam aos gregos, pregando o Senhor Jesus:" (v. 20) — pois é verossímil tanto que já pudessem falar grego, quanto que havia tais homens em Antioquia. "E a mão do Senhor," diz o texto, "estava com eles," isto é, operavam milagres; "e grande número creu e se converteu ao Senhor" (v. 21). Notais por que também agora se fez necessário o auxílio dos milagres, a fim de que cressem? "Chegou então a notícia destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém: e enviaram Barnabé, para que fosse até Antioquia" (v. 22). Qual poderia ser a razão de que, tendo tal cidade recebido a palavra, não viessem eles mesmos? Por causa dos judeus. Mas enviam Barnabé. Não é, porém, pequena parte da providencial disposição que também Paulo venha a estar ali. É tanto natural quanto sabiamente ordenado que se mostrem avessos a ele, para que assim aquela Voz do Evangelho, aquela Trombeta do céu, não fique encerrada em Jerusalém. Notais como, em todas as ocasiões, Cristo converte as más disposições deles em proveito necessário e para o benefício da Igreja? Do ódio que tinham a este homem, Ele Se serviu para a edificação da Igreja. Mas observai este santo varão — Barnabé, digo — como não atendeu aos seus próprios interesses, mas apressou-se a ir a Tarso. "O qual, tendo chegado e visto a graça de Deus, alegrou-se, e exortou a todos a que, com propósito de coração, permanecessem unidos ao Senhor. Porque era homem bom, e cheio do Espírito Santo e de fé: e muito povo se ajuntou ao Senhor" (vv. 23-24). Era homem muito bondoso, e de coração simples, e condescendente (sungnomonikos). "Partiu então Barnabé para Tarso, a fim de buscar Saulo" (v. 25). Foi buscar o atleta lutador, o general apto a conduzir exércitos, o campeão do combate singular, o leão — faltam-me palavras, diga eu o que disser — o cão de caça, matador de leões, touro de força, lâmpada de brilho, boca que basta para um mundo. "E, achando-o, trouxe-o a Antioquia" (v. 26). Em verdade, esta é a razão pela qual foi ali que se determinou que se chamassem cristãos, porque Paulo ali passou tão longo tempo! "E aconteceu que, durante um ano inteiro, se reuniram com a Igreja, e ensinaram a muito povo. E em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos." Não pequeno louvor para aquela cidade! Isto basta para torná-la igual a todas, o ter, por tão longo tempo, gozado do benefício daquela boca, ela primeiro, e antes de todas as outras: por isso também foi ali, em primeiro lugar, que os homens foram julgados dignos daquele nome. Observais o benefício que resultou para aquela cidade de Paulo, a que altura aquele nome, como um estandarte (semheion), a exaltou? Onde três mil, onde cinco mil creram, onde tão grande multidão, nada de semelhante sucedeu, mas foram chamados "os do Caminho": aqui foram chamados cristãos. "E naqueles dias vieram profetas de Jerusalém a Antioquia" (v. 27). Era necessário que ali também se plantasse o fruto das esmolas. E vede como, por necessidade (anankaios), sucede que nenhum dos homens de renome se torna seu mestre. Tiveram por mestres homens de Chipre e de Cirene, e Paulo — ainda que este de fato superasse os próprios apóstolos —, visto que Paulo também teve por mestres Ananias e Barnabé. Mas aqui isto se deu por necessidade. "E levantou-se um deles, chamado Ágabo, e significou pelo Espírito que haveria grande fome por todo o mundo, o que de fato veio a suceder nos dias de Cláudio César" (v. 28). "Pelo Espírito," diz o texto: pois, para que não imaginassem que a fome sobreveio por esta razão — a saber, porque o cristianismo havia entrado, porque os demônios se haviam retirado —, o Espírito Santo a prediz: isto, porém, nada tinha de admirável, pois de fato Cristo já o predissera. Não foi esta a razão, do contrário isto deveria ter sucedido desde o princípio: mas foi por causa dos males feitos aos apóstolos — e Deus os havia suportado longamente; mas, quando os oprimiram, sobreveio uma grande fome, prenunciando aos judeus os males vindouros. "Se foi por causa deles, de qualquer modo deveria ter cessado ali, quando já existia. Que mal haviam feito os gentios, para que tivessem sua parte nos males? Deveriam antes ter sido tidos por aprovados (eudokimhesai), porque cumpriam sua parte, matando, punindo, vingando-se, perseguindo por toda parte. E notai também em que tempo vem a fome: precisamente quando os gentios, dali em diante, foram acrescentados à Igreja. Mas se, como dizeis, foi por causa dos males feitos pelos judeus, estes deveriam ter sido isentos." Como assim? Cristo, antecipando esta objeção, disse: "Tereis tribulação" (Jo 16,33). É como se disséssemos: também eles não deveriam ter sido açoitados. "Então os discípulos, cada um segundo sua possibilidade, determinaram enviar so
E não disseram: (Que), nós, cirenenses e ciprianos, atacar esta esplêndida e grande cidade! mas, confiando na graça de Deus, aplicaram-se à obra de ensinar, nem estes (gentios) mesmos julgaram vergonhoso aprender algo deles. Notai como, por meios pequenos, tudo se realiza: notai como se difunde a pregação: notai os que estavam em Jerusalém, tendo igual cuidado de todos, tendo o mundo inteiro por uma só casa. Ouviram que a Samaria recebera a palavra, e a Samaria enviam os apóstolos (At 8,14): ouviram o que sucedera em Antioquia, e a Antioquia enviam Barnabé: enviam também novamente, e (estes) profetas. Pois a distância era grande, e não convinha que os apóstolos, por ora, se separassem dali, para que não se pensasse que eram fugitivos, e que haviam fugido dos seus. Mas então, quase exatamente, é o tempo de sua partida de Jerusalém, quando o estado (dos judeus) se mostrou irremediável, quando a guerra estava próxima, e eles haviam de perecer: quando a sentença se tornou definitiva. Pois, até que Paulo fosse a Roma, os apóstolos estavam ali (em Jerusalém). Mas partem, não por temerem a guerra — como poderia ser assim? — visto que aqueles a quem iam eram os que haveriam de trazer a guerra: e além disso a guerra somente irrompe depois de mortos os apóstolos. Pois deles (dos apóstolos) diz: A ira chegou sobre eles até o fim (1Ts 2,16). Quanto mais insignificantes as pessoas, tanto mais ilustre a graça, operando grandes resultados por pequenos meios. — E exortou-os a permanecerem unidos ao Senhor, porque era homem bom (vv. 23-24). Por homem bom, entendo eu, quer dizer alguém benigno, (χρηστὸν) sincero, extremamente desejoso da salvação de seus próximos — porque era homem bom, e cheio do Espírito Santo e de fé. Permanecer unidos ao Senhor com propósito de coração (isto se diz): com encômio e louvor. E muito povo se ajuntou ao Senhor: pois, como terra fértil, aquela cidade recebeu a palavra, e produziu muito fruto. Então partiu Barnabé para Tarso, etc.
Provavelmente foi por não saberem hebraico que os chamaram gregos. E quando Barnabé, diz o texto, veio e viu a graça de Deus — não a diligência dos homens — exortou-os a permanecerem unidos ao Senhor.
pois é provável tanto que já pudessem falar grego, quanto que houvesse tais homens em Antioquia. E a mão do Senhor, diz, estava com eles, isto é, operavam milagres; e grande número creu, e se converteu ao Senhor.
Notai por que também agora havia necessidade de milagres, a saber, para que cressem? Então a notícia destas coisas chegou aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém: e enviaram Barnabé, para que fosse até Antioquia.
Qual poderia ser a razão de que, tendo tal cidade recebido a palavra, eles mesmos não vieram? Por causa dos judeus. Mas enviam Barnabé. Contudo, não é pequena parte do desígnio providencial mesmo assim que Paulo venha a estar ali. É ao mesmo tempo natural, e sabiamente ordenado, que eles lhe sejam avessos, e que, assim, aquela Voz do Evangelho, aquela Trombeta do céu, não fique encerrada em Jerusalém. Notai como, em todas as ocasiões, Cristo converte as más disposições deles em proveito necessário e para a edificação da Igreja? Do ódio que tinham a este homem, Ele se serviu para a edificação da Igreja. Mas observai este homem santo — refiro-me a Barnabé — como não atentava para os seus próprios interesses, mas apressou-se a Tarso. O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, alegrou-se, e exortava a todos que, com propósito de coração, permanecessem unidos ao Senhor. Pois era homem bom, e cheio do Espírito Santo, e de fé: e muita gente foi acrescentada ao Senhor.
e por isso converteu mais gente. E muita gente foi acrescentada ao Senhor. Por que não escrevem a Paulo, mas enviam Barnabé? Ainda não conheciam a virtude do homem: mas é providencialmente ordenado que Barnabé viesse. Como havia multidão, e ninguém a impedir, bem podia a fé crescer, e sobretudo porque não tinham provações a suportar. Paulo também prega, e já não é forçado a fugir. E é bem ordenado que não sejam eles, mas os profetas, a falar da fome. Os homens de Antioquia também não levaram a mal que não enviassem os Apóstolos, mas se contentassem com seus mestres: tão fervorosos estavam todos pela palavra. Não esperaram que a fome chegasse, mas antes disso enviaram: conforme cada um tinha capacidade. E observai que, entre os Apóstolos, a outros se confia este encargo, mas aqui a Paulo e Barnabé. Pois esta não era pequena disposição (οἰκονομία) da Providência. Além disso, era o início, e não convinha que se ofendessem.
Conforme cada um tinha capacidade, enviaram. Mas agora ninguém faz isso, ainda que haja fome mais grave que aquela. Pois os casos não são semelhantes, para que todos suportem em comum a calamidade, e, enquanto todos os demais abundam, os mais pobres padeçam fome. E a expressão mostra que também os doadores eram pobres, pois, diz, conforme cada um deles tinha os meios. Uma fome dupla, assim como dupla é a abundância: uma fome severa, uma fome não de ouvir a palavra do Senhor, mas de ser nutrido pela esmola. Então, tanto os pobres da Judeia gozaram do benefício, como também os de Antioquia que davam o seu dinheiro; sim, estes mais que aqueles: mas agora, tanto nós quanto os pobres padecemos fome: eles por falta do sustento necessário, e nós na vida luxuosa, carecendo da misericórdia de Deus. Mas este é um alimento do qual nada pode ser mais necessário. Este não é um alimento do qual se tenha de suportar os males da repleção: não um alimento cuja maior parte termina na latrina. (ἀφεδρὥνα.) Nada mais formoso, nada mais saudável, que uma alma nutrida por este alimento: ela está posta acima de toda doença, toda pestilência, toda indigestão e distúrbio: ninguém poderá vencê-la (ἑλεἵν), mas assim como, se o corpo de alguém fosse feito de diamante, nenhum ferro, nem qualquer outra coisa, teria poder para feri-lo, assim também, quando a alma está firmemente compactada pela esmola, absolutamente nada poderá vencê-la. Pois dizei, o que a corromperá? Acaso a pobreza? Não pode ser, pois está depositada nos tesouros régios. Mas o ladrão e o assaltante de casas? Não, pois estas são muralhas que ninguém poderá romper. Mas a traça? Não, este tesouro está posto muito acima do alcance também deste dano. Mas a inveja e o mau-olhado? Não, tampouco por estes pode ser vencido. Mas as falsas acusações e as tramas do mal? Não, nem isto acontecerá, pois seguro como em um asilo está este tesouro. Mas seria vergonhoso se eu desse a entender que as vantagens próprias da esmola fossem apenas estas (a ausência destes males), e não (a presença de) seus opostos. Pois, na verdade, não é apenas que está segura da malevolência; recebe também abundante bênção daqueles a quem beneficia. Pois assim como os cruéis e sem misericórdia têm por inimigos não somente aqueles a quem injuriaram, mas também aqueles que não foram feridos, os quais partilham da dor e se unem à acusação: assim também os que fizeram grande bem têm não somente os que foram beneficiados, mas também aqueles que não foram afetados, para lhes cantar louvores. Além disso, está segura dos ataques dos malintencionados, e dos ladrões, e dos assaltantes de casas — mas será este todo o bem, ou será antes este — que, além de não sofrer diminuição, também cresce e se multiplica? Que houve mais vergonhoso que Nabucodonosor, que mais abominável, que mais iníquo? O homem era ímpio; depois de sinais e prodígios sem número, recusou-se a voltar a si (ἀνενεγκεἵν), mas lançou os servos de Deus numa fornalha: e, contudo, depois destes feitos, adorou. Que disse então o Profeta? Portanto, diz ele, ó rei, seja aceitável diante de ti o meu conselho, resgata (λύτρωσαι) os teus pecados por esmolas, e as tuas iniquidades por misericórdias para com os pobres: talvez haja perdão para as tuas transgressões. Daniel 3:27 Ao dizer isto, não o disse duvidando, antes, com inteira confiança, mas querendo infundir-lhe maior temor, e tornar mais forte a necessidade de fazer estas coisas. Pois, se o tivesse dito como coisa indubitável, o rei teria ficado mais negligente: assim como conosco, mais urgimos alguém (a quem desejamos persuadir) quando nos dizem: Exorta a tal pessoa, e não acrescentam, ela certamente ouvirá, mas apenas, talvez ela ouça: pois, deixando-o em dúvida, o temor se torna maior, e mais o impele. Esta é a razão por que o Profeta não lhe tornou a coisa certa. Que dizeis? Para tão grandes impiedades haverá perdão? Sim. Não há pecado que a esmola não possa purificar, nenhum que a esmola não possa apagar: todo pecado está abaixo desta: é um remédio adaptado para toda ferida. Que há pior que um publicano? A própria matéria (ὑπόθεσις) (de sua ocupação) é inteiramente de injustiça: e, contudo, Zaqueu lavou todos estes (pecados). Notai como o próprio Cristo mostra isto, pelo cuidado que teve de ter uma bolsa, e de portar as contribuições nela postas. E Paulo também diz: Somente que nos lembrássemos dos pobres Gálatas 2:10: e em toda parte a Escritura discorre longamente sobre esta matéria. O resgate, diz, da alma de um homem é a sua própria riqueza Provérbios 13:8: e com razão: pois, diz (Cristo), se queres ser perfeito, vende o que tens, e dá aos pobres, e vem, segue-Me. Mateus 19:21 Isto bem pode ser parte da perfeição. Mas a esmola pode ser feita não somente com dinheiro, mas com atos. Por exemplo: pode-se assistir (προστἥναι) bondosamente a alguém (para socorrê-lo e defendê-lo), pode-se estender-lhe uma mão auxiliadora: o serviço prestado (προστασία) por atos muitas vezes fez mais bem ainda que o dinheiro. Ponhamos em prática todas as diferentes espécies de [truncado]
Era homem muito bondoso, e de coração simples, e compreensivo (συγγνωμονικός). Então partiu Barnabé para Tarso, para buscar Saulo.
Veio ao lutador atlético, ao general (apto a conduzir exércitos), ao campeão do combate singular, ao leão — faltam-me palavras, diga eu o que disser — ao cão de caça, matador de leões, touro de força, lâmpada de fulgor, boca que basta a um mundo. E, tendo-o encontrado, trouxe-o a Antioquia.
Mas por que o tirou de Tarso e o trouxe para cá? Não sem boa razão; pois aqui havia tanto boas esperanças, quanto uma cidade maior, e um grande corpo de povo. Vede como a graça opera tudo, não Paulo: por meios pequenos o negócio ia tendo seu começo. Quando se tornou difícil, os Apóstolos o assumem. Por que não tinham visto Barnabé antes disso? Porque estavam ocupados (ἠσχόληντο) com Jerusalém. Também justificavam-se novamente diante dos judeus, de que os gentios recebiam (προσελάμβανε) a palavra, mesmo sem gozar de tão grande atenção. Está para haver uma controvérsia: por isso o caso de Cornélio a antecipou. Então, na verdade, dizem: Que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão. Gálatas 2:9 Observai que, doravante, a própria pressão da fome introduz a comunhão da parte dos gentios, a saber, mediante as esmolas. Pois recebem as ofertas por eles enviadas.
Ora, os que foram dispersos, etc.
Em verdade, esta é a razão pela qual ali foram os discípulos designados para serem chamados cristãos: porque Paulo ali passou tão longo tempo! E sucedeu que, por um ano inteiro, se reuniram com a Igreja e ensinaram a muito povo. E os discípulos foram primeiramente chamados cristãos em Antioquia. Não pequeno louvor para aquela cidade! Basta isto para igualá-la a todas as demais: que por tão longo tempo gozou do benefício daquela boca, ela primeiro, e antes de todas as outras; por isso também foi ali, em primeiro lugar, que os homens foram julgados dignos daquele nome. Observais o benefício que resultou (para aquela cidade) de Paulo, a que altura aquele nome, como um estandarte (σημεῖον), a exaltou? Onde três mil, onde cinco mil creram, onde tamanha multidão se achava, nada semelhante sucedeu; antes, eram chamados os do Caminho. Aqui, porém, foram chamados cristãos. E naqueles dias desceram profetas de Jerusalém a Antioquia.
Era necessário que também ali se plantasse o fruto da esmola. E vede como necessariamente (ἀναγκαίως) sucede que nenhum dos homens de renome se torna seu mestre. Tiveram por mestres homens de Chipre e de Cirene, e Paulo — o qual, todavia, superava os próprios Apóstolos — visto que também Paulo teve por mestres a Ananias e Barnabé. Mas aqui, necessariamente, (assim foi). E levantou-se um dentre eles, chamado Ágabo, e significou pelo Espírito que haveria grande fome por todo o mundo, o que também aconteceu nos dias de Cláudio César.
Pelo Espírito, diz: para que não imaginassem que esta era a razão por que veio a fome — a saber, porque o cristianismo havia entrado, porque os demônios se haviam retirado —, o Espírito Santo o predisse: isto, contudo, nada tinha de admirável, pois de fato Cristo o predissera. Não foi esta a razão, senão teria de ter sido assim desde o princípio; mas foi por causa dos males feitos aos Apóstolos — e Deus os suportara longamente; mas, quando os oprimiram, sobreveio grande fome, prenunciando aos judeus as vindouras desgraças. Se fosse por causa deles, de algum modo deveria ter cessado ali, quando ela de fato existiu. Que mal haviam feito os gentios, para que tivessem sua parte nos males? Deveriam antes ter sido assinalados como aprovados (εὐδοκιμῆσαι), porquanto faziam a sua parte, matando, punindo, vingando-se, perseguindo por toda parte. E notai também em que tempo vem a fome: precisamente quando os gentios eram então acrescentados à Igreja. Mas se, como dizeis, foi por causa dos males (feitos pelos judeus), estes deveriam ter sido isentos. Como assim? Cristo, prevenindo esta objeção, disse: "No mundo tereis aflição" (Jo 16,33). É como se disséssemos: tampouco deveriam ter sido açoitados. Então os discípulos, cada um segundo a sua possibilidade, determinaram enviar socorro aos irmãos que habitavam na Judeia.
Notai como a fome se torna para eles meio de salvação, ocasião de esmola, arauto de muitas bênçãos. E (assim poderia ter sido) para vós, poder-se-ia dizer, se assim o quisésseis, mas não o quisestes. Mas é predita, para que se preparassem de antemão para a esmola. Aos irmãos que habitavam na Judeia; pois estavam padecendo grandes privações, mas antes disto não sofriam de fome. O que também fizeram, e a enviaram aos presbíteros pelas mãos de Barnabé e Saulo.
Notais como, mal creram, já produzem fruto, não só para os seus, mas para os que estavam longe? E é enviado Barnabé, e Saulo, para o mesmo ministério. A este propósito (Ἐνταῦθα) diz ele (aos Gálatas): "E Tiago, Cefas e João, deram a mim e a Barnabé as destras de comunhão, recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres" (Gl 2,9). Tiago vivia ainda.
Ora, os que foram dispersos por causa da perseguição, etc.
Como fera selvagem, atacou a todos indistintamente e sem consideração. É isto o que disse Cristo: "Do meu cálice, na verdade, bebereis, e do batismo com que sou batizado, sereis batizados" (Mc 10,39b). E matou a Tiago, irmão de João.
"Naquele tempo", entendendo-se, sem dúvida, o tempo imediatamente subsequente: pois este é o costume da Escritura. E bem diz que Herodes, "o rei", (fez isto): não era este o dos tempos de Cristo. Eis aqui uma espécie diversa de provação — e notai o que disse no início, como as coisas se entrelaçam, como o repouso e a tribulação se alternam em toda a trama da história — não já os judeus, nem o Sinédrio, mas o rei. Quanto maior o poder, tanto mais severo o combate, tanto mais se fazia para alcançar o favor dos judeus. "E", diz, "matou à espada a Tiago, irmão de João": (tomando-o) ao acaso e sem escolha. Mas, se alguém suscitar a questão de por que Deus permitiu isto, diremos que foi por causa dos próprios judeus: convencendo-os, primeiramente, de que ainda quando mortos (os Apóstolos) prevalecem, como sucedeu no caso de Estêvão; em segundo lugar, dando-lhes ocasião de, uma vez saciada a sua fúria, recobrarem-se de sua loucura; em terceiro lugar, mostrando-lhes que foi por Sua permissão que isto se fez. "E vendo", diz, "que isto agradava aos judeus, prosseguiu, prendendo também a Pedro. Ó maldade excessiva! Em favor de quem era, que assim os gratificava cometendo homicídios sem plano nem razão? "E eram os dias dos pães ázimos." De novo, a vã escrupulosidade dos judeus: matar, na verdade, não o proibiam, mas em tal tempo faziam tais coisas! "Ao qual, tendo prendido, pôs em guarda, entregando-o a quatro grupos de quatro soldados" (v. 4). Isto se fez tanto por fúria quanto por temor. "Matou", diz, "à espada a Tiago, irmão de João." Notais a coragem deles? Pois, para que ninguém diga que sem perigo, ou sem temor do perigo, enfrentam a morte, como certos de que Deus os livraria, permite Ele que alguns sejam mortos, e até homens principais, Estêvão e Tiago, convencendo assim os próprios que os matavam de que nem mesmo estas coisas os fazem apostatar nem os detêm. "Pedro, pois, era guardado na prisão; mas a Igreja fazia sem cessar oração a Deus por ele" (v. 5). Pois a contenda era então de vida e de morte: tanto a morte de um os atemorizava, quanto o lançamento do outro na prisão. "E, quando Herodes o quis apresentar ao povo, naquela mesma noite dormia Pedro entre dois soldados, ligado com duas cadeias; e os guardas diante da porta guardavam a prisão. E eis que sobreveio o anjo do Senhor, e uma luz resplandeceu no cárcere; e, tocando a Pedro no lado, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E as cadeias lhe caíram das mãos" (v. 6-7). Naquela noite o livrou. "E uma luz resplandeceu no cárcere", para que não julgasse ser fantasia: e ninguém viu a luz, senão ele somente. Pois se, ainda que isto se fizesse, o tivesse por fantasia, por causa de sua inesperança; se isto não houvesse sucedido, muito mais o teria julgado assim: tão preparado estava ele para a morte. Pois o haver esperado ali por muitos dias, sem ser livrado, causou isto. Por que, pois, direis, não permitiu que caísse nas mãos de Herodes, e então o livrasse? Porque isto teria causado espanto nas gentes, ao passo que aquilo era crível: e nem sequer seriam tidos por homens. Mas no caso de Estêvão, que não fez Ele? Não lhes mostrou o rosto dele como se fora o rosto de um anjo? Mas que, em suma, deixou Ele de fazer também aqui? "E disse-lhe o anjo: Cinge-te, e ata as tuas sandálias" (v. 8). Aqui novamente se mostra que isto não se fez por artifício: pois quem está apressado e deseja fugir (do cárcere) não se detém tanto a tomar as sandálias e a cingir-se. "E ele o fez assim. E disse-lhe: Cobre-te com o teu manto, e segue-me. E, saindo, o seguia; e não sabia que era verdade o que se fazia pelo anjo, mas pensava que via uma visão. E, quando passaram a primeira e a segunda guarda, chegaram à porta de ferro que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma" (v. 9-10). Eis um segundo milagre. "E, saindo, passaram por uma rua; e logo o anjo se apartou dele. E, tornando Pedro em si, disse: Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de toda a expectação do povo dos judeus" (v. 10-11). Quando o anjo se apartou, então Pedro compreendeu: "Agora percebo", diz ele, não antes. Mas por que é assim, e por que Pedro não se apercebe das coisas que sucediam, ainda que já houvesse experimentado semelhante libertação quando todos foram soltos (cap. 5,18)? (O Senhor) quis que o prazer lhe viesse todo de uma vez, e que primeiro estivesse livre, para depois se aperceber do que sucedera. A circunstância, também, de terem caído as cadeias de suas mãos é forte argumento de que não fugira. "E, considerando isto, foi à casa de Maria, mãe de João, cujo sobrenome era Marcos, onde muitos estavam reunidos, orando" (v. 12). Observai como Pedro não se retira imediatamente, mas primeiro leva a boa nova aos seus amigos. "E, batendo Pedro à porta do pátio, saiu uma moça, chamada Rode, a escutar. E, conhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu a porta" — notai até as servas, quão cheias de piedade são —, "mas, correndo para dentro, anunciou que Pedro estava diante da porta" (v. 13-15). Mas eles, ainda que assim fosse, meneavam a cabeça (incrédulos): "E disseram-lhe: Estás fora de ti. Ela, porém, afirmava que assim era. E eles diziam: É o seu anjo. Mas Pedro perseverava em bater; e, quando abriram e o viram, se maravilharam. Mas ele, fazendo-lhes sinal com a mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirara da prisão. E disse: Anunciai isto a Tiago e aos irmãos. E, saindo, foi para outro lugar" (v. 16-17). Mas revisemos a ordem do relato. (Recapitulação.) "Naquele tempo,"
Naquele tempo, entenda-se, evidentemente, o tempo imediatamente subsequente: pois este é o costume da Escritura. E diz bem que Herodes, o rei (fez isto): não era este o do tempo de Cristo. Eis aqui uma espécie diversa de provação — e notai o que eu disse no princípio, como as coisas se entrelaçam, como o descanso e a tribulação se alternam em toda a trama da história —, não mais os judeus, nem o Sinédrio, mas o rei. Maior o poder, mais severa a guerra, tanto mais se fazia para obter o favor dos judeus. E, diz, matou Tiago, irmão de João, à espada: (tomando-o) ao acaso e sem escolha. Mas, se alguém levantar a questão de por que Deus permitiu isto, diremos que foi por causa dos próprios (judeus): convencendo-os, primeiramente, de que ainda mortos (os Apóstolos) prevalecem, assim como sucedeu no caso de Estêvão; em segundo lugar, dando-lhes oportunidade, depois de saciarem sua fúria, de recobrarem-se de sua loucura; em terceiro lugar, mostrando-lhes que foi por Sua permissão que isto se fez. E vendo, diz, que isto agradava aos judeus, prosseguiu ainda a prender também a Pedro. Ó maldade excessiva! A favor de quem era isto, que ele os agradasse fazendo assim assassinatos sem plano nem razão? E eram os dias dos pães ázimos. Novamente, a ociosa escrupulosidade dos judeus: matar, na verdade, não proibiam, mas em tal tempo faziam tais coisas! Ao qual, tendo prendido, pôs em guarda, entregando-o a quatro quaternos de soldados.
Pois havia também outro Tiago, irmão do Senhor: por isso, para distingui-lo, diz, o irmão de João. Notais como a soma dos negócios repousava nestes três, especialmente em Pedro e Tiago? (a) E como foi que não matou a Pedro imediatamente? Menciona a razão: eram os dias dos pães ázimos; e quis antes fazer alarde (ἐκπομπεῦσαι) com a sua morte. E vendo que isto agradava aos judeus.
Estes, por sua parte, agora, em consequência do conselho de Gamaliel, abstinham-se do derramamento de sangue: e, além disso, nem sequer inventavam acusações; mas por meio de outros conseguiam os mesmos resultados. (c) Este (conselho de Gamaliel) foi, acima de tudo, a sua condenação: pois a pregação se mostrava não ser já obra de homens. Prosseguiu ainda a matar também a Pedro (At 5:8). Em verdade se cumpriu aquilo: Somos considerados como ovelhas para o matadouro (Sl 44:13). Vendo, diz, que era coisa agradável aos judeus (Rm 8:36). Coisa agradável — o derramamento de sangue, e derramamento de sangue injusto, maldade, impiedade! Serviu às suas concupiscências insensatas (ἀτόποις): pois, ao passo que devera fazer o contrário, refrear-lhes a fúria, tornou-os mais ávidos, como se fosse um carrasco, e não um médico de suas mentes enfermas. (E isto) ainda que tivesse inumeráveis advertências no caso de seu avô e de seu pai Herodes, como aquele, em consequência de fazer matar as crianças, sofreu as maiores calamidades, e este, ao matar João, levantou contra si mesmo uma grave guerra. Mas, como eles pensavam... Temia ele que Pedro, em consequência da morte de Tiago, se retirasse; e, querendo tê-lo em segura guarda, pô-lo na prisão, e entregou-o a quatro quaternos de soldados.
Quanto mais estrita a custódia, tanto mais admirável o espetáculo. Pedro, pois, era guardado na prisão.
Pois a contenda era agora de vida e morte: tanto a morte de um os fazia temerosos, como o lançamento do outro na prisão. E, quando Herodes o iria trazer para fora, na mesma noite estava Pedro dormindo entre dois soldados, atado com duas cadeias; e os guardas diante da porta guardavam a prisão. E eis que o anjo do Senhor veio sobre ele, e uma luz resplandeceu na prisão: e feriu a Pedro no lado, e o levantou, dizendo: Levanta-te depressa. E as cadeias caíram de suas mãos.
Isto se fez tanto por fúria quanto por temor. Matou, diz, a Tiago, irmão de João, à espada. Notais a coragem deles? Pois, para que ninguém diga que sem perigo ou temor de perigo afrontam a morte, como certos da libertação de Deus, por isso permite que alguns sejam mortos, e homens principais também, Estêvão e Tiago, convencendo assim os próprios que os matavam de que nem estas coisas os fazem desertar, nem os impedem. Pedro, pois, era guardado na prisão: mas oração sem cessar era feita pela Igreja a Deus por ele.
Eles, estando em liberdade, estavam em oração: ele, atado, estava a dormir. E não sabia que era verdade.
Mas isto foi tudo para melhor de Pedro, o qual por isso se fez mais provado, e evidenciou sua própria varonil coragem. E diz, havia oração fervorosa a se fazer. Era a oração da afeição (filial): era por um pai que pediam, um pai brando. Havia, diz, oração fervorosa. Ouvi como se afeiçoavam a seus mestres. Nenhuma facção, nenhuma perturbação: mas se entregavam à oração, a essa aliança que é na verdade invencível, a esta se acolhiam como refúgio. Não diziam: Que? Eu, pobre criatura insignificante que sou, orar por ele! Pois, como agiam por amor, não davam a estas coisas nenhum pensamento. E observai, foi durante a festa que (seus inimigos) lhes trouxeram estas provações, para que seu valor fosse tanto mais aprovado. E quando Herodes, etc.
Vede Pedro dormindo, e não em aflição nem em temor! Naquela mesma noite, após a qual havia de ser conduzido para fora, dormia, tendo lançado tudo sobre Deus. cf. 1 Pd 5:7 Entre dois soldados, atado com duas cadeias. Notai quão rigorosa era a guarda! E diz: Levanta-te.
Naquela noite Ele o libertou. E uma luz resplandeceu na prisão, para que não a julgasse mera fantasia: e ninguém viu a luz senão ele somente. Pois se, ainda assim, ele a julgou fantasia por causa de sua imprevisibilidade; se isto não tivesse acontecido, muito mais teria assim pensado: tão preparado estava para a morte. Pois o haver esperado ali muitos dias sem ser salvo causou isto. Por que, pois, direis, não permitiu Ele que caísse nas mãos de Herodes, para depois libertá-lo? Porque isso teria trazido espanto às pessoas, ao passo que isto era digno de crédito: e nem sequer teriam sido tidos por seres humanos. Mas no caso de Estêvão, que não fez Ele? Não lhes mostrou o rosto dele como se fosse o rosto de um anjo? Mas que, em suma, deixou Ele de fazer também aqui? E o anjo lhe disse: Cinge-te e calça as tuas sandálias.
Os guardas dormiam com ele, e por isso nada perceberam do que se passava. E uma luz resplandeceu. Para que era a luz? Para que Pedro pudesse ver tanto quanto ouvir, e não imaginasse que tudo fosse fantasia. E a ordem, Levanta-te depressa, para que não se demorasse. Ele o feriu também; tão profundamente dormia. (a) Levanta-te, diz, depressa: isto não é para apressá-lo tumultuosamente (θορυβοὕντος), mas para persuadi-lo a não tardar. (c) E imediatamente as cadeias caíram-lhe das mãos. (b) Como? Respondei-me: onde estão os hereges? — que respondam eles. E o anjo lhe disse, etc.
por isso também o convencendo de que não era fantasia: para este fim manda-o cingir-se e calçar as sandálias, para que sacuda o sono e saiba que é real. (a) (e) E ele não sabia que era verdadeiro o que se fazia pelo anjo, mas pensava ver uma visão
Aqui de novo se mostra que não foi feito por artifício: pois quem está apressado e deseja fugir (da prisão) não é tão minucioso a ponto de calçar as sandálias e cingir-se. E ele assim fez. E disse-lhe: Põe o teu manto e segue-me. E saiu, e seguia-o; e não sabia que era verdadeiro o que se fazia pelo anjo; mas pensava ver uma visão. Havendo passado a primeira e a segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dá para a cidade; o qual se lhes abriu por si mesmo.
Se ele pensasse que era verdadeiro o que se passava, teria ficado atônito, não se teria lembrado (de todas as circunstâncias): mas, agora, parecendo estar em sonho, permanecia livre de perturbação. Quando, diz, houveram passado a primeira e a segunda guarda — vede também quão forte era a guarnição — chegaram ao portão de ferro.
(e) bem podia, por causa da excessiva grandeza (ὑπερβολήν) das coisas que se passavam. Notais o que é ser um milagre excessivo (ὑπερβολὴ σημείου)? Como ele espanta (ἐκπλήττει) o espectador? Como não permite que a coisa seja crida? Pois se Pedro pensava ver uma visão, ainda que se houvesse cingido e calçado as sandálias, que seria de outro? E, diz, havendo passado a primeira e a segunda guarda, chegaram ao portão de ferro, o qual se lhes abriu por si mesmo
e, contudo, as coisas que se haviam passado dentro (da prisão) eram mais maravilhosas: mas isto era agora mais ao modo humano. E, tendo saído, foram por uma rua, e imediatamente (em tudo 'até') o anjo se apartou dele.
Eis um segundo milagre. E saíram, e passaram por uma rua; e imediatamente o anjo se apartou dele. E, tendo Pedro voltado a si, disse: Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o Seu Anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de toda a expectação do povo dos judeus.
Por que não é isto realizado por eles mesmos? (Respondo:) Também nisto o Senhor os honra, em que por meio do ministério de Seus Anjos os resgata. Mas então, por que não foi assim no caso de Paulo? Ali, com boa razão, porque o carcereiro havia de converter-se, ao passo que aqui era apenas necessário que o Apóstolo fosse libertado (At 16,25). E Deus dispõe todas as coisas de diversas maneiras. E ali também é belo que Paulo cante hinos, ao passo que aqui Pedro dormia. E, havendo considerado, veio à casa de Maria, etc.
Quando não havia mais obstáculo, então o Anjo se apartou. Pois Pedro não teria avançado (προἥλθεν), havendo tantos impedimentos. E, voltando a si: pois, em toda verdade, foi de fato um assombro (ἔκπληξις). Agora, diz ele, sei — agora, não então, quando estava no cárcere — que o Senhor enviou o Seu Anjo, e me livrou da mão de Herodes e de toda a expectação do povo dos judeus. E havendo considerado
Quando o anjo se apartou, então Pedro compreendeu: Agora percebo, diz ele, não então. Mas por que é assim, e por que não se apercebia Pedro do que sucedia, ainda que já houvesse experimentado semelhante libertação quando todos foram soltos (At 5,18)? (O Senhor) quis que o prazer lhe viesse todo de uma vez, e que primeiro estivesse em liberdade, para só depois se aperceber do que havia acontecido. A circunstância de terem caído as cadeias de suas mãos é também um forte argumento de que ele não fugira. E, havendo considerado a coisa, veio à casa de Maria, mãe de João, cujo sobrenome era Marcos; onde muitos estavam reunidos orando.
diz: a saber, onde estava, ou que não devia partir sem mais aquilo, mas retribuir a seu Benfeitor: veio à casa de Maria, mãe de João. Quem é este João? Provavelmente aquele que sempre estava com eles: por isso é que acrescenta o seu distintivo (τὸ παράσημον), cujo sobrenome era Marcos. Mas observai, orando de noite, quanto lucraram com isso: quão boa coisa é a aflição; como os manteve vigilantes! Vedes quão grande foi o proveito resultante da morte de Estêvão? Vedes quão grande o benefício advindo desta prisão? Pois não é vingando-se dos que os injustiçaram que Deus mostra a grandeza do Evangelho; mas nos próprios malfeitores, sem que dano algum sobrevenha àqueles, Ele mostra quão poderosa coisa são em si as aflições, para que de modo algum busquemos livrar-nos delas, nem a vingança de nossas injúrias. E notai como as próprias criadas estavam já em igualdade com eles. De alegria, diz, não abriu.
Não escondamos, pois, as maravilhas de Deus, mas, para nosso proveito, procuremos publicá-las para a edificação dos demais. Pois assim como ele merece ser admirado por ter escolhido ser posto em cadeias, mais digno de admiração é ainda por não se ter retirado antes de ter relatado tudo aos seus amigos. E disse: Dizei a Tiago e aos irmãos.
Observai como Pedro não se retira imediatamente, mas primeiro leva as boas novas aos seus amigos. E, batendo Pedro à porta do portão, veio uma jovem escutar, chamada Rode. E, conhecendo a voz de Pedro, de alegria não abriu o portão — notai até as criadas, quão cheias de piedade são —, mas correu para dentro, e anunciou que Pedro estava diante do portão.
Também isto é bem feito, para que igualmente não fiquem estarrecidos ao vê-lo de repente, e para que sejam incrédulos, e seus ânimos sejam exercitados. Mas correu para dentro, etc., tal como costumamos fazer, estava ansiosa por ser ela mesma a portadora das boas novas, pois boa nova era de fato. E disseram-lhe: Estás fora de ti; mas ela afirmava constantemente que assim era. Então disseram: É o seu Anjo.
Esta é uma verdade, que cada homem tem um Anjo. E que quereria o Anjo? Foi pela hora avançada da noite que assim o presumiram. Mas quando ele continuou a bater, e quando abriram, e o viram, ficaram atônitos. Ele, porém, acenando-lhes com a mão
Mas eles, ainda que assim fosse, meneavam a cabeça (incrédulos): e disseram-lhe: Estás louca. Mas ela afirmava constantemente que era assim mesmo. E disseram: É o seu anjo. Pedro, porém, continuava a bater: e, quando abriram a porta e o viram, ficaram atônitos. Ele, porém, acenando-lhes com a mão para que se calassem, declarou-lhes como o Senhor o tirara da prisão. E disse: Ide, anunciai estas coisas a Tiago e aos irmãos. E partiu, e foi para outro lugar (v. 16, 17). Mas revisemos a ordem da narrativa.
Para que se alegrem: para que não se aflijam. Por meio destes aprendem aqueles, não aqueles por meio dele: tal era o cuidado que tinha pela parte mais humilde! —
Na verdade, nada há melhor do que a aflição que não excede a medida (συμμέτρου). Que pensais vós que teria sido o seu estado de espírito — quão cheio de deleite! Onde estão agora aquelas mulheres que dormem a noite inteira? Onde estão aqueles homens que sequer se voltam no leito? Vedes a alma vigilante? Com mulheres, e crianças, e servas, cantavam hinos a Deus, feitos mais puros que o céu pela aflição. Mas agora, se vemos um pequeno perigo, recuamos. Nada jamais houve mais esplêndido do que aquela Igreja. Imitemos estes, emulemos estes. Não foi para isto que a noite foi feita, para que a dormíssemos toda e ficássemos ociosos. A isto dão testemunho os artesãos, os carregadores e os mercadores — e a isto também a Igreja de Deus, que se levanta no meio da noite. Levanta-te tu também, e contempla o coro dos astros, o silêncio profundo, o profundo repouso: contempla com reverência a economia (οἰκονομίαν) da casa do teu Senhor. Então tua alma está mais pura: está mais leve, e mais sutil, e paira desprendida: a própria escuridão, o silêncio profundo, bastam para conduzir-te à compunção. E se também olhares para os céus semeados de estrelas, como que com dez mil olhos, se te lembrares de que todas aquelas multidões que de dia gritam, riem, saltam, pulam, injustiçam, arrebatam, ameaçam, infligem males sem número, jazem todas como que mortas, condenarás toda a arbitrariedade do homem. O sono invadiu e derrotou (ἡ λεγξεν) a natureza: é a imagem da morte, a imagem do fim de todas as coisas. Se te debruçares à janela sobre a rua, não ouvirás sequer um som: se olhares para dentro da casa, verás tudo jazendo como que num sepulcro. Tudo isto basta para despertar a alma e levá-la a refletir sobre o fim de todas as coisas.
Aqui, na verdade, meu discurso é tanto para homens quanto para mulheres. Dobrai os joelhos, exalai gemidos, suplicai ao vosso Senhor que se compadeça: Ele é mais movido pelas orações na noite, quando fazeis do tempo de repouso um tempo de pranto. Lembrai-vos das palavras que proferiu aquele rei: Estou cansado do meu gemer; toda noite lavarei o meu leito, regarei o meu leito com as minhas lágrimas (Sl 6,6). Por mais delicado que sejas, não és mais delicado do que ele: por mais rico que sejas, não és mais rico do que Davi. E de novo o mesmo Salmista diz: À meia-noite me levantei para Vos dar graças pelos juízos da Vossa justiça (Sl 119,62). Nenhuma vanglória então se intromete em ti: como poderia, quando todos dormem e ninguém te observa? Então nem a preguiça nem a sonolência te invadem: como poderiam, quando tua alma é despertada por coisas tão grandes? Após tais vigílias vêm doces sonos e maravilhosas revelações. Faze isto, também tu, o homem, não somente a mulher. Que a casa seja uma Igreja, composta de homens e mulheres. Pois não penses que, por seres o único homem, ou por ser ela a única mulher ali, isto seja algum impedimento. Pois onde dois, diz Ele, estiverem congregados em Meu Nome, ali estou Eu no meio deles (Mt 18,20). Onde Cristo está no meio, ali há uma grande multidão. Onde Cristo está, ali necessariamente estão Anjos, necessariamente também Arcanjos e as demais Potestades. Então não estás só, visto que tens Aquele que é Senhor de todos. Ouve de novo também o profeta dizendo: Melhor é um que faz a vontade do Senhor do que dez mil transgressores (cf. Eclo 16,3). Nada mais fraco do que uma multidão de ímpios, nada mais forte do que um homem só que vive segundo a lei de Deus. Se tens filhos, desperta-os também, e que a tua casa toda se torne uma Igreja durante a noite: mas se forem tenros, e não puderem suportar a vigília, que fiquem para a primeira ou segunda oração, e então envia-os para o repouso: apenas desperta-te a ti mesmo, estabelece-te no hábito. Nada é melhor do que aquele celeiro que recebe orações como estas. Ouve o Profeta dizendo: Se me lembrei de Vós no meu leito, pensei em Vós na aurora da manhã (Sl 63,7). Mas dirás: Trabalhei muito durante o dia, e não posso. Mero pretexto e subterfúgio é este. Pois por mais que tenhas trabalhado, não labutarás como o ferreiro, que deixa cair um martelo tão pesado de grande altura sobre as (fagulhas que voam do) metal, e recebe a fumaça com todo o corpo: e, contudo, gasta neste trabalho a maior parte da noite. Sabes também como as mulheres, se há necessidade de irmos ao campo, ou de irmos a uma vigília, velam a noite inteira. Tem tu também uma forja espiritual, para nela forjar não potes ou caldeirões, mas a tua própria alma, que é muito melhor do que o que possa forjar tanto o latoeiro quanto o ourives. A tua alma, envelhecida nos pecados, lança-a tu na fornalha de fundição da confissão: deixa cair o martelo do alto: isto é, a condenação das tuas palavras (τὥν ῥημάτων τὴν κατάγνωσιν): acende o fogo do Espírito. Tens um ofício muito mais poderoso (que o deles). Não estás forjando vasos de ouro, mas a alma, que é mais preciosa do que todo o ouro, assim como o ferreiro martela o seu vaso. Pois não é vaso material aquele em que trabalhas, mas estás libertando a tua alma de todas as imaginações pertencentes a esta vida. Que uma lâmpada esteja ao teu lado, não aquela que acendemos, mas aquela que o profeta tinha, quando disse: A tua lei é uma lâmpada para os meus pés (Sl 119,105). Traze a tua alma ao rubro, pela oração: quando a vires suficientemente quente, retira-a, e molda-a na forma que quiseres. Crede-me, nenhum fogo é tão eficaz para queimar a ferrugem quanto a oração noturna para remover a ferrugem dos nossos pecados. Que os vigias noturnos, se ninguém mais, nos envergonhem. Eles, por lei dos homens, fazem suas rondas no frio, gritando alto, e caminhando por becos (στενωπὥν) e vielas, muitas vezes encharcados de chuva e (todos) enregelados de frio, por vós e pela vossa segurança, e a proteção dos vossos pro [truncado]
os fez calar-se, para ouvir tudo o que lhe havia acontecido. Ele era agora objeto de mais afetuoso desejo por parte dos discípulos, não somente em consequência de estar salvo, mas pela sua súbita entrada entre eles e imediata partida. Ora, tanto os seus amigos aprendem tudo claramente; como também os estranhos aprendem, se assim o quisessem, mas não quiseram. A mesma coisa aconteceu no caso de Cristo. Dizei estas coisas, diz ele, a Tiago e aos irmãos. Quão livre de toda vanglória! Nem disse: Fazei conhecidas estas coisas às pessoas em toda parte, mas: aos irmãos. E retirou-se para outro lugar: pois não tentava a Deus, nem se lançava à tentação: visto que, quando lhes foi ordenado fazer isto, então o fizeram. Ide, foi dito, falai no templo ao povo (At 5,20). Mas isto o Anjo não disse (aqui); pelo contrário, retirando-o silenciosamente e trazendo-o para fora de noite, deu-lhe plena permissão para se retirar — e isto também é feito, para que aprendamos que muitas coisas são providencialmente realizadas à maneira dos homens — de modo que ele não caísse novamente em perigo. — Pois, para que não dissessem, Era o seu Anjo, depois que ele se foi, dizem isto primeiro, e então veem-no a ele mesmo derrubando a sua noção do assunto. Se fosse o Anjo, teria batido à porta, não se teria retirado para outro lugar. E o que se seguiu no dia, os tranquiliza.
Pois se o Anjo tivesse também tirado os soldados, juntamente com Pedro, ter-se-ia pensado tratar-se de uma fuga. Então, por que, perguntareis, não foi de outro modo conduzido? Ora, onde está o mal? Se virmos que aqueles que sofreram injustamente não recebem dano algum, não levantaremos estas questões. Pois por que não dizeis o mesmo de Tiago? Por que não o resgatou (Deus)? Não houve pequeno alvoroço entre os soldados. Tão claramente é que nada haviam percebido (do que sucedera). Eis que assumo a sua defesa. As cadeias ali estavam, e os guardas dentro, e a prisão fechada, em nenhuma parte muro rompido, tudo dizia a mesma coisa: o homem fora levado: por que os condenais? Se quisessem soltá-lo, tê-lo-iam feito antes, ou teriam saído com ele. Mas ele lhes deu dinheiro? (At 3,6). E como poderia ele, que não tinha sequer para dar a um pobre, ter meios para dar a estes? E além disso nem as cadeias haviam sido quebradas, nem foram soltas. Deveria ele ter visto que a coisa era de Deus, e não obra de homem. E desceu da Judeia a Cesareia, e ali permaneceu. E Herodes estava sumamente irritado com os de Tiro e Sidom, etc.
Algumas pessoas, é provável, estão perplexas para explicar como Deus podia contemplar tranquilamente a morte de (Seus) campeões, e agora de novo dos soldados por causa de Pedro: e, contudo, era possível a Ele, depois de (libertar) Pedro, resgatar também a estes. Mas ainda não era o tempo do juízo, para retribuir a cada um segundo os seus merecimentos. E além disso, não foi Pedro quem os entregou nas mãos dele. Pois o que mais o incomodou foi o ser escarnecido; assim como no caso de seu avô, quando foi enganado pelos magos, foi isso o que o fez sentir-se cortado no coração — o ser (iludido e) ridicularizado. E tendo-os interrogado, diz, ordenou que fossem levados à execução (Mt 2,16). E, contudo, ouvira deles — pois os havia interrogado — tanto que as cadeias haviam sido deixadas, como que ele tomara as suas sandálias, e que até aquela noite estivera com eles. Tendo-os interrogado: mas o que ocultavam eles? Por que então não fugiram também eles mesmos? Ordenou que fossem levados à execução: e, contudo, deveria ter-se maravilhado, deveria ter ficado atônito com isto. A consequência é que, pela morte destes homens (a coisa) se torna manifesta a todos: tanto a sua maldade é exposta à vista, quanto (se torna claro que) a maravilha é de Deus. E desceu da Judeia a Cesareia, e ali permaneceu: e Herodes estava sumamente irritado com os de Tiro e Sidom: mas eles vieram de comum acordo a ele, e, tendo feito de Blasto, camareiro do rei, seu amigo, pediram paz; porque a sua terra era sustentada pela terra do rei. E, num dia determinado, Herodes, revestido de traje real, sentou-se sobre o trono, e fez-lhes uma oração. E o povo aclamou, dizendo: É a voz de um deus, e não de um homem. E imediatamente o anjo do Senhor o feriu, porque não deu glória a Deus: e foi comido de vermes, e expirou (v. 20-23). * * Mas vede como (o escritor) aqui não oculta estas coisas. Por que menciona ele esta história? Dizei, que tem isto a ver com o Evangelho, que Herodes se irrite com os tírios e sidônios? Não é coisa pequena, mesmo isto, quão imediatamente a justiça o apanhou; ainda que não por causa de Pedro, mas por causa do seu arrogante discurso. E, contudo, poder-se-ia dizer, se aqueles aclamaram, que tem isto a ver com ele? Porque aceitou a aclamação, porque se julgou digno da adoração. Por meio dele recebem lição, sobretudo, os que tão insensatamente o lisonjeavam. Observai de novo, embora ambas as partes mereçam castigo, este homem é castigado. Pois não é este o tempo do juízo, mas Ele castiga aquele que mais tinha a responder, deixando os outros aproveitarem a sorte deste homem. E a palavra de Deus, diz, crescia, isto é, em consequência disto, e se multiplicava (v. 24). Notais a providencial administração de Deus? Mas Barnabé e Saulo voltaram de Jerusalém, tendo cumprido o seu ministério, e levaram consigo João, cujo sobrenome era Marcos (v. 25). Ora, havia na Igreja que estava em Antioquia certos profetas e doutores; a saber, Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio de Cirene, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo (13,1). Ele ainda menciona Barnabé em primeiro lugar: pois Paulo ainda não era famoso, ainda não realizara sinal algum. Enquanto ministravam ao Senhor, e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra para que os tenho chamado. E, tendo jejuado e orado, e imposto as mãos sobre eles, os enviaram (v. 2, 3). Que significa Ministrando? Pregando. Separai-me, diz, a Barnabé e a Saulo. Que significa Separai-me? Para a obra, para o Apostolado. Vede de novo por que pessoas é ele ordenado (mais humildes; ou, segundo outra leitura, mais veneráveis). Por Lúcio, o cireneu, e Manaém, ou antes, pelo Espírito. Quanto menores as pessoas, tanto mais palpável a graça. Ele é ordenado doravante ao Apostolado, para pregar com autoridade. Como, pois, diz ele mesmo: Não da parte dos homens, nem por meio de homem? (Gl 1,1). Porque não foi homem que o chamou ou o trouxe: por isso diz, Não da parte dos homens. Nem por meio de homem, isto é, que não foi enviado por este (homem), mas pelo Espírito. Por isso também (o escritor) assim prossegue: Eles, pois, enviados pelo Espírito Santo, partiram para Selêucia; e dali navegaram para Chipre (v. 4). Mas revejamos de novo o que foi dito. (Recapitulação.) E, sendo já dia, etc. (v. 18). Pois se o Anjo tivesse também tirado os soldados, juntamente com Pedro, ter-se-ia pensado tratar-se de uma fuga. Então, por que, perguntareis, não foi de outro modo conduzido? Ora, onde está o mal? Se virmos que aqueles que sofreram injustamente não recebem dano algum, não levantaremos estas questões. Pois por que não dizeis o mesmo de Tiago? Por que não o resgatou (Deus)? Não houve pequeno alvoroço entre os soldados. Tão claramente é que nada haviam percebido (do que sucedera). Eis que assumo a sua defesa. As cadeias ali estavam, e os guardas dentro, e a prisão fechada, em nenhuma parte muro rompido, tudo dizia a mesma coisa: o homem fora levado: por que os condenais? Se quisessem soltá-lo, tê-lo-iam feito antes, ou teriam saído com ele. Mas ele lhes deu dinheiro? (At 3,6). E como poderia ele, que não tinha sequer para dar a um pobre, ter meios para dar a estes? E além disso nem as cadeias haviam sido quebradas, nem foram soltas. Deveria ele ter visto que a coisa era de Deus, e não obra de homem. E desceu da Judeia a Cesareia, e ali permaneceu. E Herodes estava sumamente irritado com os de Tiro e Sidom, etc. (v. 19). Vai ele agora mencionar (uma matéria de) história: esta é a razão pela qual acrescenta os nomes, para que se mostre como se atém à verdade em todas as coisas. E, diz, tendo feito de Blasto, camareiro do rei, seu amigo, eles
Ora, sendo já dia, não houve pequeno alvoroço entre os soldados, sobre o que fora feito de Pedro. E, tendo Herodes procurado por ele, e não o encontrando, interrogou os guardas, e ordenou que fossem levados à morte. E desceu da Judeia a Cesareia, e ali permaneceu.
Algumas pessoas, é provável, estão perplexas para explicar como Deus podia contemplar tranquilamente a morte de (Seus) campeões, e agora de novo dos soldados por causa de Pedro: e, contudo, era possível a Ele, depois de (libertar) Pedro, resgatar também a estes. Mas ainda não era o tempo do juízo, para retribuir a cada um segundo os seus merecimentos. E além disso, não foi Pedro quem os entregou nas mãos dele. Pois o que mais o incomodou foi o ser escarnecido; assim como no caso de seu avô, quando foi enganado pelos magos, foi isso o que o fez sentir-se cortado no coração — o ser (iludido e) ridicularizado. E tendo-os interrogado, diz, ordenou que fossem levados à execução (Mt 2,16). E, contudo, ouvira deles — pois os havia interrogado — tanto que as cadeias haviam sido deixadas, como que ele tomara as suas sandálias, e que até aquela noite estivera com eles. Tendo-os interrogado: mas o que ocultavam eles? Por que então não fugiram também eles mesmos? Ordenou que fossem levados à execução: e, contudo, deveria ter-se maravilhado, deveria ter ficado atônito com isto. A consequência é que, pela morte destes homens (a coisa) se torna manifesta a todos: tanto a sua maldade é exposta à vista, quanto (se torna claro que) a maravilha é de Deus. E desceu da Judeia a Cesareia, e ali permaneceu: e Herodes estava sumamente irritado com os de Tiro e Sidom: mas eles vieram de comum acordo a ele, e, tendo feito de Blasto, camareiro do rei, seu amigo, pediram paz; porque a sua terra era sustentada pela terra do rei. E, num dia determinado, Herodes, revestido de traje real, sentou-se sobre o trono, e fez-lhes uma oração. E o povo aclamou, dizendo: É a voz de um deus, e não de um homem. E imediatamente o anjo do Senhor o feriu, porque não deu glória a Deus: e foi comido de vermes, e expirou.
Vai ele agora mencionar (uma matéria de) história: esta é a razão pela qual acrescenta os nomes, para que se mostre como se atém à verdade em todas as coisas. E, diz, tendo feito de Blasto, camareiro do rei, seu amigo, pediram paz; porque a sua terra era sustentada pela terra do rei.
Pois provavelmente havia fome. E em dia determinado, etc. (Josefo, Ant. XIX). Também Josefo diz isto, que ele caiu numa doença lenta. Ora, a generalidade não estava ciente disto, mas o Apóstolo o consigna: contudo, ao mesmo tempo, essa ignorância lhes era vantajosa, na medida em que imputavam o que sucedeu (a Agripa) ao fato de ele ter dado morte a Tiago e aos soldados. Observai: quando matou o Apóstolo, nada disto lhe sucedeu; mas quando (matou) estes, de fato não sabia o que dizer a respeito; estando, pois, perplexo e envergonhado, desceu da Judeia para Cesareia. Suponho que foi também para levar aqueles (homens de Tiro e Sidom) a se desculparem que ele se retirou (de Jerusalém): pois contra estes estava irado, ao passo que fazia tal corte a estes outros. Vede quão vanglorioso é o homem: pretendendo conferir-lhes o benefício, faz um discurso solene. Mas Josefo diz que ele também trajava uma veste esplêndida, feita de prata. Observai tanto que aduladores eram aqueles, quanto que alto ânimo mostraram os Apóstolos: o homem a quem toda a nação assim cortejava, esse mesmo eles tinham em desprezo.
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ainda que ele mesmo nada tivesse dito, sofreu tais coisas: muito mais deveria Cristo, não fosse Ele mesmo Deus, (ter sofrido) por dizer sempre, como dizia, "Estas palavras que vos digo não são minhas" (Jo 14,10; 18,36), e "Os anjos me servem", e coisas semelhantes. Mas aquele homem terminou sua vida por uma morte vergonhosa e miserável, e dali em diante dele não mais se ouviu falar. E observai-o também, facilmente persuadido até mesmo por Blasto, como criatura mesquinha, logo se irando e logo se aplacando, e em todas as ocasiões escravo da populaça, sem nada de livre e independente em si. Mas notai também a autoridade do Espírito Santo: enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: "Separai-me Barnabé e Saulo" (At 13,2). Que ser ousaria, se não fosse da mesma autoridade, dizer isto? "Separai", etc. Mas isto se faz para que não permaneçam juntos entre si. O Espírito viu que tinham maior poder e podiam bastar para muitos. E como Ele lhes falou? Provavelmente por meio de profetas: por isso o autor antepõe que também havia profetas. E estavam jejuando e ministrando: para que aprendais que havia necessidade de grande sobriedade. Em Antioquia ele é ordenado, onde prega. Por que não disse "Separai para o Senhor", mas "Para mim"? Mostra que Ele é de uma só autoridade e poder. "E havendo jejuado", etc. Vede quão grande coisa é o jejum? Assim, sendo eles enviados pelo Espírito Santo: mostra que o Espírito fez tudo.
Grande, sim, grande bem é o jejum: não é circunscrito por limite algum. Quando era preciso ordenar, então jejuam: e a eles, jejuando, falou o Espírito. Isto somente ordeno: não digo jejuar, mas abster-se do luxo. Busquemos alimentos que nutram, não coisas que nos arruínem; busquemos alimentos para sustento, não ocasiões de doenças, de doenças tanto da alma quanto do corpo: busquemos comida que traga conforto, não luxo que está cheio de desconforto: uma coisa é luxo, outra é dano; uma é prazer, outra é dor; uma é conforme à natureza, outra é contrária à natureza. Pois dizei: se alguém vos desse a beber suco de cicuta, não seria isso contrário à natureza? Se alguém vos desse lenhos e pedras, não os rejeitaríeis? Certamente, pois são contrários à natureza. Pois bem, assim também é o luxo. Pois assim como numa cidade, sob invasão de inimigos, quando há sítio e tumulto, grande é o alvoroço, assim é na alma sob a invasão do vinho e do luxo. Quem tem ai? Quem tem tumultos? Quem tem desconfortos e altercações? Não são aqueles que se demoram longamente junto ao vinho? De quem são os olhos avermelhados? (Pr 23,29-30). Mas, contudo, digamos o que dissermos, não conseguiremos afastar aqueles que se entregam ao luxo, a menos que façamos entrar em conflito com ele uma afeição diversa. E primeiramente, dirijamo-nos às mulheres. Nada mais feio que uma mulher entregue ao luxo, nada mais feio que uma mulher entregue à bebida. O viço de sua compleição se desvanece: a expressão calma e branda dos olhos se torna turva, como quando uma nuvem intercepta os raios do sol. É hábito vulgar, servil, inteiramente baixo. Quão repugnante é a mulher de cujo hálito exalais lufadas azedas de vinho fétido: mulher que arrota, exalando o fumo de carnes em decomposição; ela mesma pesada, incapaz de se manter ereta; o rosto tinto de um vermelho antinatural; bocejando incessantemente, e tudo nadando em névoa diante de seus olhos! Mas não assim aquela que se abstém do viver luxuoso: não, esta abstinência a faz parecer mulher mais bela e mais bem-educada. Pois até ao corpo a compostura da alma confere beleza própria. Não imagineis que a impressão da beleza resulte apenas dos traços corporais. Dai-me uma jovem formosa, mas turbulenta, loquaz, injuriosa, dada à bebida, extravagante — e dizei-me se ela não parece pior que qualquer mulher feia? Mas se fosse pudica, se se calasse, se aprendesse a corar, se a falar com mesura, se a achar tempo para jejuns; sua beleza seria duas vezes maior, seu frescor seria realçado, seu semblante mais atraente, carregado de modéstia e de bom trato. Ora, pois, falemos dos homens? Que pode haver mais feio que um homem embriagado? É objeto de riso para seus servos, de riso para seus inimigos, de compaixão para seus amigos; merecedor de condenação sem fim: fera antes que ser humano; pois devorar muito alimento é próprio de pantera, e leão, e urso. Não é de admirar (que assim façam), pois aquelas criaturas não têm alma racional. E, contudo, mesmo elas, se se fartarem de alimento mais do que precisam, e além da medida que a natureza lhes assinalou, têm todo o corpo arruinado por isso: quanto mais nós? Por isso Deus contraiu nosso estômago a um pequeno espaço; por isso Ele demarcou pequena medida de sustento, para que nos ensine a atender à alma.
Consideremos a nossa própria constituição, e veremos que há em nós apenas uma pequena parte que tem esta operação — pois nossa boca e língua são feitas para cantar hinos, nossa garganta para a voz — por isso a própria necessidade da natureza nos amarrou, para que não caíssemos, ainda que involuntariamente, em grande transtorno (desta maneira). Pois, se de fato o viver luxuoso não tivesse suas dores, nem enfermidades e fraquezas, poderia ser tolerado: mas, como estão as coisas, Ele vos limitou por restrições da natureza, para que, ainda que quiseres exceder, não possais fazê-lo. Não é o prazer o vosso objetivo, amado? Este haveis de encontrar na moderação. Não é a saúde? Esta também assim alcançareis. Não é a tranquilidade de espírito? Esta também. Não é a liberdade? Não é o vigor e a boa disposição do corpo, não é a sobriedade e a agilidade da mente? (Todas estas coisas haveis de encontrar); tão inteiramente ali estão todos os bens, enquanto no outro estão os contrários destes: desconforto, distúrbio, doença, embaraço — dissipação dos bens. Então, como se dá, perguntareis, que todos nós corramos avidamente atrás disto? Vem isto de... [truncado]
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Mas vede como (o autor) aqui não oculta estas coisas. Por que menciona ele esta história? Dizei, que tem isto a ver com o Evangelho, que Herodes se irrite com os tírios e sidônios? Não é coisa pequena, mesmo esta: quão imediatamente a justiça o apanhou; ainda que não por causa de Pedro, mas por causa de seu falar arrogante. E, contudo, poder-se-ia dizer, se aqueles clamavam, que tem isso a ver com ele? Porque ele aceitou a aclamação, porque se julgou digno da adoração. Por meio dele, mais recebem lição aqueles que tão insensatamente o lisonjeavam. Observai novamente: embora ambas as partes merecessem castigo, este homem é o que é castigado. Pois não é este o tempo do juízo, mas Ele castiga aquele que tinha mais a responder, deixando que os outros se aproveitassem do destino deste homem. "E a palavra de Deus", diz, "crescia", isto é, em consequência disto, "e se multiplicava".
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Mas observai novamente um grande alívio concedido a eles, e os benefícios sem número decorrentes da vingança infligida sobre ele. Mas se este homem, porque lhe foi dito "É voz de deus, e não de homem"...
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Notais a gestão providencial de Deus? Mas Barnabé e Saulo voltaram de Jerusalém, havendo cumprido seu ministério, e levaram consigo João, cujo sobrenome era Marcos.
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Ora, havia na Igreja que estava em Antioquia certos profetas e doutores: Barnabé, e Simeão chamado Níger, e Lúcio de Cirene, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo.
Menciona ainda a Barnabé em primeiro lugar: pois Paulo ainda não era célebre, ainda não operara sinal algum. Enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separai-Me a Barnabé e a Saulo para a obra para a qual os tenho chamado. E, havendo jejuado e orado, e lhes tendo imposto as mãos, os despediram.
Que significa "Ministrando"? Pregando. Separai para Mim, diz, a Barnabé e a Saulo. Que significa "Separai para Mim"? Para a obra, para o Apostolado. Vede novamente por quais pessoas ele é ordenado — por Lúcio, o cireneu, e Manaém, ou antes, pelo Espírito. Quanto menores as pessoas, tanto mais palpável a graça. É ele, doravante, ordenado ao Apostolado, para pregar com autoridade. Como, pois, diz ele mesmo: "Não da parte dos homens, nem por homem algum" (Gl 1,1)? Porque não foi homem que o chamou ou o trouxe: eis por que diz "Não da parte dos homens". "Nem por homem algum", isto é, que não foi enviado por este (homem), mas pelo Espírito. Por isso também (o escritor) assim prossegue: "Eles, pois, enviados pelo Espírito Santo, partiram para Selêucia; e dali navegaram para Chipre."
Assim que foram ordenados, saíram e apressaram-se para Chipre, lugar em que não se tramava contra eles ill-desígnio algum, e onde, além disso, a Palavra já havia sido semeada. Em Antioquia havia (mestres) suficientes, e a Fenícia também estava próxima da Palestina; mas Chipre não. Contudo, não deveis questionar o porquê e o como, quando é o Espírito que dirige seus movimentos: pois não foram apenas ordenados pelo Espírito, mas também enviados por Ele igualmente. "E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus." Notai como fazem questão de pregar-lhes a palavra primeiro, para não os tornar mais contenciosos? As pessoas mencionadas antes "não falavam senão só aos judeus" (At 11,19), e assim também aqui se dirigiram às sinagogas. "E, tendo atravessado a ilha até Pafos, encontraram um certo mago, falso profeta, judeu, cujo nome era Bar-Jesus; o qual estava com o procônsul do país, Sérgio Paulo, homem prudente, que chamou a Barnabé e a Saulo, e procurou ouvir a palavra de Deus. Mas resistia-lhes Elimas, o mago (pois assim se traduz o seu nome), procurando desviar da fé o procônsul." (v. 6-8) Novamente um mago judeu, como o era Simão. E observai este homem: enquanto pregavam aos outros, não o levava muito a mal, mas somente quando se aproximavam do procônsul. E então, quanto ao procônsul, a maravilha está em que, embora predisposto pela magia daquele homem, estava, não obstante, disposto a ouvir os Apóstolos. Assim foi também com os samaritanos: e da comparação (sunkriseos) aparece a vitória, sendo a magia derrotada. Em toda parte, a vanglória e o amor ao poder são fonte (fecunda) de males! "Mas Saulo, também chamado Paulo" (v. 9) — aqui muda-se o nome ao mesmo tempo em que é ordenado, como sucedeu no caso de Pedro — "cheio do Espírito Santo, fitou os olhos nele, e disse: Ó tu, cheio de todo o engano e de toda a malícia, filho do diabo" (v. 10): e observai, isto não é injúria, mas acusação: pois assim devem ser repreendidos os homens atrevidos e impudentes — "inimigo de toda a justiça"; aqui expõe o que estava nos pensamentos daquele homem, que, sob pretexto de salvar, arruinava o procônsul: "não cessarás", diz ele, "de perverter os caminhos retos do Senhor?" (Diz isto) com confiança (axiopistos): não é contra nós que guerreias, nem és tu que lutas (contra nós), mas "os caminhos do Senhor" pervertes, e com louvor (destes, acrescenta) "os caminhos retos". "Agora, pois, eis que a mão do Senhor é contra ti, e ficarás cego" (v. 11). Foi este o sinal pelo qual ele mesmo se converteu, e por este quereria converter também este homem. Também aquela expressão "por algum tempo" o coloca não como ato de castigo, mas como destinado à sua conversão: se fosse para castigo, tê-lo-ia feito cego para sempre; mas agora não é assim, senão "por algum tempo" (e isto) para que ganhasse o procônsul. Pois, como este estava predisposto pela magia, era bom ensinar-lhe uma lição por meio deste castigo (e também ao mago), do mesmo modo que os magos (do Egito) foram ensinados pelas úlceras (Êx 9,11). "E imediatamente caiu sobre ele névoa e escuridão; e, andando ao redor, buscava quem o guiasse pela mão. Então o procônsul, vendo o que se havia feito, creu, maravilhado com a doutrina do Senhor" (v. 12). Mas observai como não se demoram ali, agora que o procônsul era crente (como poderiam ter sido tentados a fazer), nem se enervam por serem cortejados e honrados, mas prosseguem imediatamente sua obra, e partem para a região da costa oposta. "Ora, tendo Paulo e os seus companheiros navegado de Pafos, chegaram a Perge, na Panfília; e João, apartando-se deles, voltou para Jerusalém. Mas eles, partindo de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia, e, entrando na sinagoga no dia de sábado, sentaram-se" (v. 13-14). E aqui novamente entraram nas sinagogas, no caráter de judeus, para que não fossem tratados como inimigos e expulsos; e deste modo levaram todo o assunto a bom termo. "E, depois da leitura da Lei e dos Profetas, os principais da sinagoga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, falai" (v. 15). A partir deste ponto, aprendemos a história dos feitos de Paulo, assim como no que foi dito acima aprendemos não pouco acerca de Pedro. Mas revisemos o que foi dito. (Recapitulação.) "E, chegados a Salamina" — a metrópole de Chipre — "anunciavam a palavra de Deus" (v. 5). Haviam passado um ano em Antioquia: convinha que também para ali (Chipre) fossem, e não permanecessem estacionários onde estavam (os convertidos de Chipre): necessitavam de mestres maiores. Vede também como não se demoram tempo algum em Selêucia, sabendo que (o povo de lá) poderia ter colhido muito proveito da cidade vizinha (Antioquia); mas apressam-se para os deveres mais urgentes. Chegados à metrópole da ilha, empenharam-se em corrigir (diorthosai) o procônsul. Mas que não é lisonja o que (o escritor) diz — "estava com o procônsul, homem prudente" (v. 7) — podeis aprendê-lo dos fatos; pois não necessitou de muitos discursos, e ele mesmo desejou ouvi-los. E menciona também os nomes. [...] Observai como nada disse ao mago, até que este lhe deu ocasião: mas eles apenas "pregavam a palavra do Senhor". Visto que (embora Elimas) via os demais atendendo a eles, olhava apenas para este único objetivo: que o procônsul não fosse ganho. Por que não realizou (Paulo) algum outro milagre? Porque não havia nenhum igual a este, o de tomar cativo o inimigo. E observai: primeiro o acusa, depois o castiga. Mostra quão justamente merecia aquele homem sofrer, ao dizer "Ó tu, cheio de todo o engano" (v. 10) — "cheio de todo", diz ele: nada faltando à medida plena — e bem diz "de todo o engano", pois o homem representava o par [truncado]
Haviam passado um ano em Antioquia: convinha que também para ali (Chipre) fossem, e não permanecessem estacionários onde estavam (os convertidos de Chipre): necessitavam de mestres maiores. Vede também como não se demoram tempo algum em Selêucia, sabendo que (o povo de lá) poderia ter colhido muito proveito da cidade vizinha (Antioquia); mas apressam-se para os deveres mais urgentes. Chegados à metrópole da ilha, empenharam-se em corrigir (διορθωσαι) o procônsul. Mas que não é lisonja o que (o escritor) diz: que ele estava com o procônsul, homem prudente
Eles, pois, enviados pelo Espírito Santo, partiram para Selêucia; e dali navegaram para Chipre. E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João por ministro.
Assim que foram ordenados, saíram e apressaram-se para Chipre, lugar em que não se tramava contra eles ill-desígnio algum, e onde, além disso, a Palavra já havia sido semeada. Em Antioquia havia (mestres) suficientes, e a Fenícia também estava próxima da Palestina; mas Chipre não. Contudo, não deveis questionar o porquê e o como, quando é o Espírito que dirige seus movimentos: pois não foram apenas ordenados pelo Espírito, mas também enviados por Ele igualmente. E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Notai como fazem questão de pregar-lhes a palavra primeiro, para não os tornar mais contenciosos? As pessoas mencionadas antes não falavam senão só aos judeus (At 11,19), e assim também aqui se dirigiram às sinagogas. E, tendo atravessado a ilha até Pafos, encontraram um certo mago, falso profeta, judeu, cujo nome era Bar-Jesus; o qual estava com o procônsul do país, Sérgio Paulo, homem prudente, que chamou a Barnabé e a Saulo, e procurou ouvir a palavra de Deus. Mas resistia-lhes Elimas, o mago (pois assim se traduz o seu nome), procurando desviar da fé o procônsul.
podeis aprendê-lo dos fatos; pois não necessitou de muitos discursos, e ele mesmo desejou ouvi-los. E menciona também os nomes. [...] Observai como nada disse ao mago, até que este lhe deu ocasião: mas eles apenas pregavam a palavra do Senhor. Visto que (embora Elimas) via os demais atendendo a eles, olhava apenas para este único objetivo: que o procônsul não fosse ganho. Por que não realizou (Paulo) algum outro milagre? Porque não havia nenhum igual a este, o de tomar cativo o inimigo. E observai: primeiro o acusa, depois o castiga. Mostra quão justamente merecia aquele homem sofrer, ao dizer "Ó tu, cheio de todo o engano"
Novamente um mago judeu, como o era Simão. E observai este homem: enquanto pregavam aos outros, não o levava muito a mal, mas somente quando se aproximavam do procônsul. E então, quanto ao procônsul, a maravilha está em que, embora predisposto pela magia daquele homem, estava, não obstante, disposto a ouvir os Apóstolos. Assim foi também com os samaritanos: e da comparação (συγκρίσεως) aparece a vitória, sendo a magia derrotada. Em toda parte, a vanglória e o amor ao poder são fonte (fecunda) de males! Mas Saulo, também chamado Paulo, —
aqui seu nome é mudado ao mesmo tempo em que é ordenado, como sucedeu no caso de Pedro — cheio do Espírito Santo, olhou para ele e disse: Ó tu, cheio de toda astúcia e de toda malícia, filho do diabo:
e observai, isto não é insulto, mas acusação: pois assim devem ser repreendidos os homens atrevidos e impudentes — inimigo de toda justiça; aqui ele desnuda o que havia nos pensamentos daquele homem, o qual, sob o pretexto de salvar, arruinava o procônsul: não cessarás, diz ele, de perverter os caminhos do Senhor? (Diz isto) com confiança (αξιοπίστως): não é contra nós que guerreias, nem és tu que combates (contra nós), mas os caminhos do Senhor é que pervertes, e (acrescenta ele, em louvor destes) os retos caminhos. E eis agora que a mão do Senhor está sobre ti, e ficarás cego.
(cheio de toda,) diz ele: nada faltando à plena medida; e bem diz, de toda astúcia, pois aquele homem representava o papel de hipócrita. — Filho do diabo, porque fazia a obra deste; inimigo de toda justiça, visto que isto (que eles pregavam) era a justiça em sua totalidade (embora ao mesmo tempo): suponho que nestas palavras ele repreende o seu modo de vida. Suas palavras não foram ditadas pela ira, e para mostrá-lo o escritor antepõe: cheio do Espírito Santo, isto é, de Sua operação. E eis agora que a mão do Senhor está sobre ti.
diz ele, para conduzi-lo ao arrependimento. Mas, ó amor de domínio! Ó cobiça de vanglória! Como ela subverte e arruína tudo; faz com que os homens se levantem contra a própria salvação e contra a salvação uns dos outros; torna-os verdadeiramente cegos e envoltos em trevas, a tal ponto que têm até de buscar quem os conduza pela mão! Oxalá fizessem ao menos isto, oxalá buscassem ainda que fosse alguém que os guiasse pela mão! Mas não, já não suportam nem isso, tomam todo o assunto em suas próprias mãos. (Este vício) não deixa ninguém ver: como névoa e trevas espessas, estende-se sobre eles, não permitindo que através dele coisa alguma se veja. Que desculpas teremos nós a oferecer, nós que por um afeto mau vencemos outro afeto mau, mas não pelo temor de Deus! Por exemplo, muitos que são ao mesmo tempo lascivos e avarentos puseram, por sua sordidez, freio à sua luxúria, enquanto outros, ao contrário, por causa do prazer, desprezaram as riquezas. Ainda mais: aqueles que são tanto uma coisa quanto outra venceram ambas pela cobiça da vanglória, dissipando seu dinheiro sem medida e praticando a temperança sem nenhum proveito (real); outros, por sua vez, extremamente vanglosiosos, desprezaram aquele mau afeto, submetendo-se a muitas vis ignomínias por causa de seus amores ou de seu dinheiro; outros ainda, para saciar sua ira, escolheram sofrer perdas sem fim e de nada se importaram, contanto que pudessem fazer a própria vontade. E, no entanto, o que a paixão pode fazer em nós, o temor de Deus é impotente para operar! Por que falo de paixão? O que a vergonha diante dos homens pode fazer em nós, o temor de Deus não tem força para operar! Muitas são as coisas, boas e más, que fazemos por um sentimento de vergonha diante dos homens; mas a Deus não tememos. Quantos, por respeito à opinião dos homens, se envergonharam a ponto de lançar fora seu dinheiro! Quantos, equivocadamente, fizeram questão de honra entregar-se (unicamente) ao serviço de seus amigos, em seu próprio dano! Quantos, por respeito às suas amizades, se envergonharam até incontáveis atos iníquos! Pois bem, se tanto a paixão quanto o respeito à opinião dos homens são capazes de levar-nos a fazer coisas más e boas, é vão dizer: não podemos; podemos, se tivermos a disposição; e devemos ter essa disposição. Por que não podes tu vencer o amor da glória, quando outros o vencem, tendo a mesma alma que tu, e o mesmo corpo, revestindo a mesma forma e vivendo a mesma vida? Pensa em Deus, pensa na glória que vem do alto: pesa contra ela as coisas presentes, e logo recuarás diante desta glória mundana. Se, ao menos, cobiças glória, cobiça aquela que é verdadeiramente glória. Que espécie de glória é esta, que gera infâmia? Que espécie de glória é esta, que obriga alguém a desejar a honra dos que lhe são inferiores, e que dela necessita? A honra verdadeira é conquistar a estima dos que são maiores que nós mesmos. Se, ao menos, estás enamorado da glória, sê antes enamorado daquela que vem de Deus. Se, enamorado daquela glória, desprezas a glória deste mundo, verás quão ignóbil ela é; mas enquanto não vires aquela glória, tampouco poderás ver esta, quão torpe é, quão ridícula. Pois, assim como os que estão sob o feitiço de alguma mulher perversa e hedionda, enquanto dela estão enamorados, não podem ver sua deformidade, porque a paixão espalha trevas sobre seu juízo: assim também é aqui; enquanto estivermos possuídos por esta paixão, não poderemos perceber o que ela realmente é. Como, pois, poderíamos livrar-nos dela? Pensa naqueles que (por causa da glória) gastaram somas incontáveis, e agora em nada se beneficiaram disso; pensa nos mortos, que glória obtiveram, e (agora) esta glória em parte alguma permanece, mas tudo pereceu e se reduziu a nada; considera como é apenas um nome, e nada tem de real em si. Pois dize-me: que é a glória? Dá-me alguma definição. Ser admirado por todos, dirás. Com justiça, ou também sem justiça? Pois, se não é com justiça, isto não é admiração, mas acusação (κατηγορία), e lisonja, e calúnia (διαβολή). Mas se dizes: com justiça, ora, isso é impossível: pois na multidão não há juízos retos; aqueles que servem às suas concupiscências, esses são as pessoas que admiram. E se queres (ver a prova disto), observa os que dão seus bens às meretrizes, aos aurigas, aos dançarinos. Mas dirás: não nos referimos a estes, mas àqueles que são justos e retos, e capazes de praticar grandes e nobres boas ações. Oxalá o quisessem, e logo fariam o bem; mas, tal como estão as coisas, nada fazem disso. Quem, pergunto-te, louva agora o homem justo e reto? Antes, é justamente o contrário. Poderia haver algo mais absurdo do que um homem justo, ao praticar tal boa ação, buscar a glória da multidão — como se um artista de consumada perícia, empregado no retrato de um imperador, desejasse ter os louvores dos ignorantes! Além disso, o homem que busca honra dos homens logo cedo desistirá dos atos que a virtude ordena. Se há de ficar boquiaberto por seus louvores, fará precisamente o que eles querem, não o que ele mesmo quer. Que te aconselharia eu, pois? Deves olhar somente para Deus, para o louvor que vem d'Ele, praticar todas as coisas que Lhe são agradáveis, e ir atrás dos bens (que estão com Ele), sem ficar boquiaberto por coisa alguma que seja do homem: pois isto corrompe tanto o jejum quanto a oração e a esmola, e torna vãs todas as nossas boas obras. Para que isto não seja o nosso caso, fujamos desta paixão. A uma só coisa olhemos: ao louvor que vem de Deus, a sermos aceitos por Ele, à aprovação de nosso comum Senhor; para que, tendo atravessado virtuosamente a presente vida, alcancemos as bênçãos prometidas juntamente com os que O amam, pela graça e misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Não foi vingança, pois, mas cura: pois é como se dissesse: Não sou eu que o faço, mas a mão de Deus. Observai quão despretensioso! Nenhuma luz, como no caso de Paulo, resplandeceu ao seu redor (Atos 9,3). Ficarás cego, diz ele, não vendo o sol por algum tempo, para que lhe dê ocasião de arrependimento: pois em parte alguma os encontramos desejando tornar-se conspícuos pelo exercício mais severo (de sua autoridade), ainda que fosse contra inimigos que isto se dirigisse: para com os de seu próprio corpo (usavam severidade), e com boa razão, mas ao tratar com os de fora, não assim; para que (a obediência da fé) não parecesse ser fruto de compulsão e temor. É prova de sua cegueira o buscar quem o conduzisse pela mão (cf. Atos 5,1ss). E o procônsul vê a cegueira infligida, e, quando viu o que fora feito, creu: e não somente creu isto, mas, estando assombrado com a doutrina do Senhor
Foi este o sinal pelo qual ele próprio se converteu, e por meio dele desejava converter este homem. Também aquela expressão, por algum tempo, apresenta-o não como ato de castigo, mas como destinado à sua conversão: se fosse para castigo, tê-lo-ia deixado cego permanentemente; mas não é assim, senão por algum tempo (e isto) para que ganhasse o procônsul. Pois, como este estava predisposto pela feitiçaria, era bom dar-lhe uma lição por meio deste castigo (e também ao feiticeiro), do mesmo modo que os magos (no Egito) foram instruídos pelas úlceras (Êx 9,11). E imediatamente caiu sobre ele névoa e escuridão: e andava em torno buscando quem o conduzisse pela mão. Então o procônsul, quando viu o que fora feito, creu, estando assombrado com a doutrina do Senhor.
viu que estas coisas não eram meras palavras, nem artifício. Observai como amava receber instrução de seus mestres, ainda que estivesse investido de tão alta autoridade. E (Paulo) não disse ao feiticeiro: Não cessarás de perverter o procônsul? Qual poderia ser a razão de João se apartar deles? Pois João, diz o texto, apartando-se deles, voltou a Jerusalém
Mas observai como não se demoram ali, como (poderiam ter sido tentados a fazer) agora que o procônsul era um crente, nem se enervam por serem cortejados e honrados, mas prosseguem imediatamente sua obra, e partem para a região da costa oposta. Ora, quando Paulo e sua companhia partiram de Pafos, vieram a Perga, na Panfília; e João, apartando-se deles, voltou a Jerusalém. Mas quando partiram de Perga, vieram a Antioquia da Pisídia, e entraram na sinagoga no dia de sábado, e se assentaram.
(Ele o faz) porque empreendem uma jornada ainda mais longa: e, no entanto, era ele o assistente daqueles, e quanto ao perigo, eram eles (e não ele) que o incorriam. — Novamente, quando chegaram a Perga, passaram apressadamente pelas outras cidades, pois se apressavam para a metrópole, Antioquia. E observai quão conciso é o historiador. Assentaram-se na sinagoga, diz ele, e, no dia de sábado
E aqui novamente entraram nas sinagogas, no caráter de judeus, para que não fossem tratados como inimigos, e expulsos: e desta maneira conduziram todo o assunto com êxito. E depois da leitura da Lei e dos Profetas, os principais da sinagoga lhes mandaram dizer: Varões irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, falai.
para que preparassem de antemão o caminho para o Verbo. E não falam primeiro, mas quando convidados: pois, como estrangeiros, foram eles chamados a fazê-lo. Se não tivessem esperado, não teria havido discurso. Aqui, pela primeira vez, temos Paulo pregando. E observai sua prudência: onde a palavra já fora semeada, ele passa adiante; mas onde não havia (quem pregasse), ele detém-se: como ele mesmo escreve: Assim me esforcei por pregar o Evangelho, não onde Cristo havia sido nomeado (Rm 15,20). Grande coragem, também esta. Verdadeiramente, desde o próprio início, homem admirável! Crucificado, pronto para todos os combates (παρατεταγμένος), sabia ele quão grande graça havia obtido, e trouxe a ela zelo equivalente. Não se irou contra João: pois isto não era para ele; mas manteve-se na obra, não se acovardou, não se assombrou, quando cercado no meio de uma multidão. Observai quão sabiamente foi ordenado que Paulo não pregasse em Jerusalém: o mero ouvir que ele se tornara crente, isto por si só já lhes bastava; para que ele pregasse, jamais o teriam suportado, tal era o ódio que lhe tinham: por isso parte para longe, onde não era conhecido. Mas é bem feito que entrassem na sinagoga no dia de sábado, quando todos estavam reunidos. E depois da leitura da Lei e dos Profetas, os principais da sinagoga lhes mandaram dizer: Varões irmãos, se tendes alguma palavra ou exortação para o povo, falai.
Vede como fazem isto sem relutância, mas não mais depois disto. Se realmente o desejásseis, maior era a necessidade de exortar.
Primeiro convenceu o feiticeiro (e mostrou) o que ele era; e que assim era, o sinal o mostrou: ficarás cego, não vendo o sol — este era sinal da cegueira de sua alma: por um tempo
A partir deste ponto, aprendemos a história dos feitos de Paulo, assim como no que foi dito acima aprendemos não pouco acerca de Pedro. Mas revisemos o que foi dito.
Eis Barnabé cedendo lugar a Paulo — como poderia ser de outro modo? — àquele que ele trouxera de Tarso; assim como encontramos João, em todas as ocasiões, cedendo a Pedro: e, no entanto, Barnabé era mais respeitado que Paulo; é verdade, mas ambos tinham em vista apenas a vantagem comum. "Então Paulo se levantou", diz o texto — este era um costume dos judeus — "e fez sinal com a mão". E vede como ele prepara de antemão o caminho para seu discurso: tendo primeiro louvado a eles, e mostrado sua grande estima por eles nas palavras "vós que temeis a Deus", assim inicia seu discurso. E não diz "Vós, prosélitos", pois este era um termo desvantajoso. "O Deus deste povo escolheu nossos pais: e o povo" — vede, ele chama a Deus mesmo de Deus deles de modo peculiar, sendo Ele o Deus comum de todos os homens; e mostra quão grandes foram, desde o início, os Seus benefícios, assim como faz Estêvão. Fazem isto para lhes ensinar que agora também Deus agiu segundo o mesmo costume, ao enviar o Seu próprio Filho (Lc 20,13): assim como Ele mesmo (faz) na parábola da vinha. "E o povo", diz ele, "Ele exaltou quando peregrinava na terra do Egito" — e, no entanto, o contrário era o caso; é verdade, mas eles se multiplicaram; além disso, os milagres foram operados por causa deles: "e com braço poderoso os tirou dali". Destas coisas (as maravilhas) que se fizeram no Egito, os profetas fazem menção continuamente. E observai como ele passa por cima dos tempos de suas calamidades, e em nenhum lugar traz à tona suas faltas, mas somente a bondade de Deus, deixando aquelas para que eles mesmos as considerassem. "E por espaço de quarenta anos suportou seus costumes no deserto" (v. 18). Depois, o assentamento. "E havendo destruído sete nações na terra de Canaã, repartiu-lhes a terra por sorte" (v. 19). E o tempo foi longo: quatrocentos e cinquenta anos. "E depois disto lhes deu juízes, por espaço de quatrocentos e cinquenta anos, até o profeta Samuel" (v. 20). Aqui mostra que Deus variou Suas dispensações para com eles (em diversas ocasiões). "E depois desejaram um rei": e (ainda assim) nenhuma palavra sobre sua ingratidão, mas em toda parte fala da bondade de Deus. "E Deus lhes deu Saul, filho de Cis, homem da tribo de Benjamim, por espaço de quarenta anos" (v. 21). "E havendo-o removido, levantou-lhes a Davi por rei; do qual também deu testemunho, dizendo: Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o Meu coração, que fará toda a Minha vontade. Da descendência deste, conforme a promessa, levantou Deus a Israel um Salvador, Jesus" (v. 22-23). Não foi coisa pequena que Cristo fosse de Davi. Depois João dá testemunho disto: "Havendo João primeiro pregado, antes da Sua vinda, o batismo de arrependimento a todo o povo de Israel. E, cumprindo João o seu caminho, disse: Quem pensais que eu sou? Não sou eu. Mas eis que após mim vem aquele a quem não sou digno de desatar as sandálias dos pés" (v. 24-25). E João, também, não apenas dá testemunho (do fato), mas (o faz de tal modo que), quando os homens lhe traziam a glória, ele a recusa: pois uma coisa é (não almejar) uma honra que ninguém pensa em oferecer; outra, rejeitá-la quando todos estão prontos a concedê-la, e não apenas rejeitá-la, mas fazê-lo com tal humildade. "Varões irmãos, filhos da linhagem de Abraão, e os que dentre vós temem a Deus, a vós é enviada a palavra desta salvação. Porque os que habitam em Jerusalém, e seus príncipes, não O conhecendo, nem tampouco as vozes dos profetas que se leem todos os sábados, cumpriram-nas, condenando-O. E, não achando nele nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que Ele fosse morto" (v. 26-28). Em todas as ocasiões os vemos fazendo grande ponto de mostrar isto, que a bênção lhes pertence de modo peculiar, para que não fujam (de Cristo), julgando nada terem a ver com Ele, por O terem crucificado. "Porque não O conheceram", diz ele: de modo que o pecado foi de ignorância. Vede como suavemente ele faz uma apologia até mesmo em favor daqueles (que O crucificaram). E não apenas isto: mas acrescenta também que assim era necessário que fosse. E como assim? "Condenando-O, cumpriram as vozes dos profetas." Depois, novamente, a partir das Escrituras. "E havendo cumprido tudo o que dele estava escrito, tirando-O do madeiro, puseram-No num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. E foi visto por muitos dias por aqueles que com Ele haviam subido da Galileia a Jerusalém, os quais são Suas testemunhas para com o povo" (v. 29-31) — que Ele ressuscitou. "E vos anunciamos as boas novas de que a promessa feita aos pais, Deus a cumpriu para conosco, seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: Tu és Meu Filho, hoje Te gerei. E quanto a havê-lo ressuscitado dentre os mortos, para nunca mais tornar à corrupção, assim disse: Dar-vos-ei as fiéis misericórdias de Davi. Pelo que também diz noutro salmo: Não permitirás que o Teu Santo veja a corrupção. Porque Davi, havendo no seu tempo servido à vontade de Deus, dormiu, e foi posto junto a seus pais, e viu a corrupção: mas Aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção. Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este homem se vos anuncia a remissão dos pecados; e de tudo o que pela lei de Moisés não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê" (v. 32-39). Observai como Paulo aqui é mais veemente em seu discurso: em nenhum lugar encontramos Pedro dizendo isto. Depois acrescenta também as palavras aterradoras: "Vede pois que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e admirai-vos, e desaparecei: porque Eu opero uma obra em vossos dias, obra que de nenhum modo crereis, se alguém vo-la contar" (v. 40-41). (a) Observai como ele entretece (o fio de) seu discurso
Então Paulo se levantou, e, fazendo sinal com a mão, disse: Varões israelitas, e os que temeis a Deus, ouvi. O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais, e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito, e com braço poderoso os tirou dali.
Eis Barnabé cedendo lugar a Paulo — como poderia ser de outro modo? — àquele que ele trouxera de Tarso; assim como encontramos João, em todas as ocasiões, cedendo a Pedro: e, no entanto, Barnabé era mais respeitado que Paulo; é verdade, mas ambos tinham em vista apenas a vantagem comum. Então Paulo se levantou, diz o texto — este era um costume dos judeus — e fez sinal com a mão. E vede como ele prepara de antemão o caminho para seu discurso: tendo primeiro louvado a eles, e mostrado sua grande estima por eles nas palavras "vós que temeis a Deus", assim inicia seu discurso. E não diz "Vós, prosélitos", pois este era um termo desvantajoso. O Deus deste povo escolheu nossos pais: e o povo — vede, ele chama a Deus mesmo de Deus deles de modo peculiar, sendo Ele o Deus comum de todos os homens; e mostra quão grandes foram, desde o início, os Seus benefícios, assim como faz Estêvão. Fazem isto para lhes ensinar que agora também Deus agiu segundo o mesmo costume, ao enviar o Seu próprio Filho (Lc 20,13): assim como Ele mesmo (faz) na parábola da vinha. E o povo, diz ele, Ele exaltou quando peregrinava na terra do Egito — e, no entanto, o contrário era o caso; é verdade, mas eles se multiplicaram; além disso, os milagres foram operados por causa deles: e com braço poderoso os tirou dali. Destas coisas (as maravilhas) que se fizeram no Egito, os profetas fazem menção continuamente. E observai como ele passa por cima dos tempos de suas calamidades, e em nenhum lugar traz à tona suas faltas, mas somente a bondade de Deus, deixando aquelas para que eles mesmos as considerassem. E por espaço de quarenta anos suportou seus costumes no deserto.
Depois, o assentamento na terra. E, destruindo sete nações na terra de Canaã, repartiu-lhes por sorte a terra deles.
E foi longo o tempo: quatrocentos e cinquenta anos. E, depois disso, por quase quatrocentos e cinquenta anos, lhes deu juízes, até ao profeta Samuel.
Aqui mostra que Deus variou, em diversos tempos, Suas dispensações para com eles. E depois pediram um rei: e, ainda assim, nenhuma palavra acerca da sua ingratidão, mas em tudo fala da bondade de Deus. E Deus lhes deu Saul, filho de Cis, varão da tribo de Benjamim, por espaço de quarenta anos.
A promessa, pois, diz ele, os pais a receberam; vós, porém, a realidade. (j) E observai que em nenhuma parte menciona obras retas da parte deles, mas somente benefícios da parte de Deus: escolheu; exaltou; suportou-lhes os costumes: nada disso é para eles motivo de louvor: pediram, Ele deu. Mas a Davi louva, e somente a ele, porque dele havia de vir o Cristo. Achei a Davi, filho de Jessé, varão conforme o Meu coração, que fará toda a Minha vontade.
E, tirado este, levantou-lhes a Davi para rei, ao qual também deu testemunho, e disse: Achei a Davi, filho de Jessé, varão conforme o Meu coração, que fará toda a Minha vontade. Da descendência deste, conforme a promessa, levantou Deus a Israel um Salvador, Jesus.
(i) Observai também que é com louvor que ele diz, a respeito de Davi, depois que este houve servido à vontade de Deus: assim como Pedro — vendo que era então o início do Evangelho — fazendo menção dele, disse: Seja-me permitido falar-vos livremente do patriarca Davi (At 2:29). Também não diz Morreu, mas foi ajuntado a seus pais. (k) Da descendência deste, etc. Havendo primeiro, diz ele, João, antes da Sua entrada — por entrada entende ele a Encarnação — pregado a todo o povo de Israel o batismo de arrependimento.
Não foi coisa pequena que o Cristo procedesse de Davi. Disto dá testemunho João: Havendo primeiro João, antes da Sua vinda, pregado a todo o povo de Israel o batismo de arrependimento. E, quando João cumpria a sua carreira, disse: Quem cuidais vós que eu sou? Eu não sou esse. Mas eis que após mim vem aquele a quem não sou digno de desatar as alparcas dos pés.
(c) O nome de Davi lhes era caro; pois bem, não seria então desejável, diz ele, que um filho seu fosse o seu rei? — (b) em seguida aduz a João: depois, novamente, os profetas, onde diz: Condenando-o, cumpriram; e ainda, Tudo quanto estava escrito: depois os Apóstolos como testemunhas da Ressurreição: depois Davi dando testemunho. Pois nem as provas do Antigo Testamento pareciam tão cogentes tomadas isoladamente como o são deste modo, nem tampouco os testemunhos posteriores separados dos anteriores: por isso as faz confirmarem-se mutuamente. Varões irmãos, etc.
Assim também João, ao escrever seu Evangelho, recorre continuamente a ele: pois o nome deste era tido em grande estima em todas as partes do mundo. E observai que ele não diz "Da semente deste homem", etc., por si mesmo, mas traz o testemunho de João.
Varões irmãos, filhos da linhagem de Abraão — a estes também ele chama segundo o seu pai — a vós foi enviada a palavra desta salvação.
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E João também não apenas dá testemunho do fato, mas de tal maneira que, quando os homens lhe traziam a glória, ele a recusa: pois uma coisa é não cobiçar uma honra que ninguém pensa em oferecer; outra, muito diversa, é rejeitá-la quando todos estão prontos a concedê-la, e não apenas rejeitá-la, mas fazê-lo com tamanha humildade. Varões irmãos, filhos da linhagem de Abraão, e todo aquele dentre vós que teme a Deus, a vós é enviada a palavra desta salvação. Pois os que habitam em Jerusalém, e os seus príncipes, porquanto não O conheceram, nem tampouco as vozes dos profetas que se leem todo sábado, cumpriram-nas condenando-O. E, ainda que não tenham achado n'Ele causa alguma de morte, pediram a Pilatos que fosse morto.
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Aqui a expressão "a vós" não significa "a vós, judeus", mas confere-lhes o direito de se apartarem daqueles que ousaram cometer aquele homicídio. E o que ele acrescenta mostra isto claramente. Pois, diz ele, os que habitam em Jerusalém, porquanto não O conheceram.
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Pois, uma vez que estavam possuídos pelo temor, por O terem morto, e a consciência os fazia estranhos (aos Apóstolos), este não discorre com eles como com deicidas, nem como se lhes pusesse nas mãos um bem que não lhes pertencia, mas antes um que lhes era peculiarmente próprio. (d) Pois os que habitam em Jerusalém, e os seus príncipes: como quem diz, não vós, mas eles: e novamente, desculpando ainda a estes, Porquanto não O conheceram, e as vozes dos Profetas que se leem todo sábado, condenando-O, as cumpriram. Grande acusação é esta contra eles, que, ouvindo continuamente, não atentavam. Mas não é de admirar: pois o que se disse acima acerca do Egito e do deserto já bastava para mostrar a sua ingratidão. E observai como também este Apóstolo, como movido pelo próprio Espírito, prega continuamente a Paixão, a Sepultura. (g) Havendo-O tirado do madeiro. Observai quão grande ponto fazem disto. Ele fala do modo de Sua morte. Além disso, trazem Pilatos (conspicuamente) à frente, para que (o fato d)a Paixão se prove pela menção do tribunal (pelo qual foi condenado), mas ao mesmo tempo, para maior acusação daqueles (Seus crucificadores), visto que O entregaram a um estranho. E ele não diz "Fizeram queixa (contra Ele)", mas "Pediram", ainda que não tivessem achado n'Ele causa alguma de morte, que fosse morto. (e) O qual apareceu, diz ele, por muitos dias aos que com Ele subiram da Galileia a Jerusalém. Em lugar de dizer, ele diz: os quais são Suas testemunhas para com o povo, a saber, os homens que subiram com Ele da Galileia a Jerusalém. Em seguida, produz Davi e Isaías, dando testemunho. As misericórdias fiéis, as misericórdias permanentes, as que jamais perecem. (h) Paulo os amava extremamente. E observai que ele não se estende sobre a ingratidão dos pais, mas lhes põe diante o que devem temer. Pois Estêvão, com boa razão, faz isto, visto que estava prestes a ser morto, não os ensinando, e mostrando-lhes que a Lei está mesmo agora prestes a ser abolida; mas não assim Paulo: ele apenas os admoesta e lhes infunde temor. (f) E não se demora longamente nestas coisas, tomando por certo que a palavra é, sem dúvida, crida; nem se alarga sobre a grandeza do seu castigo, nem ataca aquilo que afetuosamente amam, mostrando que a Lei está prestes a ser lançada fora: mas insiste naquilo que lhes é para o bem, dizendo-lhes que grandes serão as bênçãos, sendo eles obedientes, e grandes os males, sendo desobedientes.
Mas revejamos o que já se disse. Varões israelitas, etc.
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E como, direis vós, poderiam ignorá-lO, tendo João para lho anunciar? Que maravilha, visto que assim procediam, ainda com os profetas continuamente clamando a eles? Segue-se então outra acusação: E não tendo achado n'Ele causa alguma de morte — na qual a ignorância nada teve que ver. Pois suponhamos que não O tivessem por Cristo: por que também O mataram? E pediram a Pilatos, diz ele, que fosse morto.
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Em todas as ocasiões os encontramos empenhando-se grandemente em mostrar isto: que a bênção lhes pertence peculiarmente, para que não fujam (de Cristo), julgando nada terem que ver com Ele, por O haverem crucificado. Porquanto não O conheceram, diz ele: de sorte que o pecado foi de ignorância. Vede como suavemente ele faz uma apologia até mesmo em favor daqueles (crucificadores). E não somente isto: mas acrescenta também que assim era necessário que sucedesse. E como assim? Condenando-O, cumpriram as vozes dos profetas. Depois, novamente, a partir das Escrituras. E quando cumpriram tudo o que d'Ele estava escrito, tiraram-nO do madeiro e O puseram num sepulcro. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos. E foi visto por muitos dias pelos que com Ele subiram da Galileia a Jerusalém, os quais são Suas testemunhas para com o povo —
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Observai quão grande ponto ele faz em mostrar que a coisa toda foi uma Dispensação (Divina). Vede: dizendo o quê persuadiram os homens? (Dizendo-lhes) que Ele foi crucificado? Ora, que poderia ser menos persuasivo do que isto? Que Ele foi sepultado — por aqueles a quem se prometera que Ele seria salvação? Que Aquele que foi sepultado perdoa pecados, e ainda mais do que a Lei (tem poder de fazer)? E (observai) que ele não diz "Da qual não quisésseis", mas "da qual não podíeis ser justificados pela Lei de Moisés".
Observai como Paulo aqui é mais veemente em seu discurso: em parte alguma encontramos Pedro dizendo isto. Depois acrescenta ainda as palavras terríveis: Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, e admirai-vos, e perecei; porque realizo uma obra em vossos dias, obra que de modo algum crereis, ainda que alguém vo-la anuncie.
que ressuscitou. E vos anunciamos as boas novas de que a promessa feita aos pais, Deus a cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus; como também está escrito no salmo segundo: Tu és Meu Filho, hoje Te gerei. E quanto ao tê-Lo ressuscitado dos mortos, para nunca mais retornar à corrupção, disse assim: Dar-vos-ei as misericórdias seguras de Davi. Por isso diz também noutro salmo: Não permitirás que o Teu Santo veja a corrupção. Pois Davi, depois de haver servido à sua própria geração pela vontade de Deus, adormeceu, e foi posto junto a seus pais, e viu a corrupção; mas Aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção. Sabei, pois, varões irmãos, que por este homem vos é anunciada a remissão dos pecados; e de tudo aquilo de que não pudestes ser justificados pela lei de Moisés, por Ele é justificado todo aquele que crê.
Sim, sobre isto segue-se o resto naturalmente. Por que não alegou algum texto pelo qual se persuadissem de que a remissão dos pecados vem por Ele? Porque o ponto capital para eles era mostrar, em primeiro lugar, que Ele ressuscitara: reconhecido isto, o outro ponto era indiscutível. Por este homem, mais ainda, por Ele, há remissão dos pecados.
E, além disso, quis levá-los a um desejo ardente desta grande realidade. Ora, pois, a Sua morte não foi abandono, mas cumprimento da profecia. Quanto ao resto, recorda-lhes fatos históricos, nos quais, por ignorância, padeceram males sem número. E isto ele sugere na conclusão, dizendo: Vede, ó desprezadores, e contemplai. E observai como, sendo isto duro, ele o abrevia. Não venha sobre vós, diz ele, o que foi dito para os outros: que realizo uma obra que de modo algum crereis, ainda que alguém vo-la anuncie.
Todo aquele, diz ele, seja quem for. Pois aquelas (ordenanças) de nada valem, a menos que delas advenha algum benefício. Por isto traz à tona depois a remissão dos pecados, e mostra ser ela ainda maior quando, sendo a coisa (de outro modo) impossível, contudo se realiza. Quem são as Suas testemunhas, diz ele, perante o povo — o povo que O matou. O que jamais o teriam sido, se não fossem fortalecidos por um Poder divino: pois nunca teriam dado tal testemunho a homens sedentos de sangue, às próprias pessoas que O mataram. Mas Ele ressuscitou Jesus: Hoje, diz Ele, Te gerei.
Não vos maravilheis de que pareça incrível: esta mesma coisa foi predita desde o princípio — (que não seria crida). Vede, ó desprezadores, quanto àqueles que não creem na Ressurreição.
Isto também poderia com razão dizer-se de nós: Vede, ó desprezadores. Pois a Igreja, na verdade, está em situação muito má, ainda que penseis que os seus assuntos vão em paz. Pois o mal está em que, sofrendo nós tantos males, nem sequer sabemos que os temos. Que dizeis? Possuímos as nossas igrejas, os nossos bens eclesiásticos, e tudo o mais; celebram-se os ofícios, a congregação vem à igreja todos os dias. Verdade, mas não se deve julgar o estado de uma Igreja por estas coisas. Por quê, então? Se há piedade, se voltamos para casa a cada dia com proveito, se colhemos algum fruto, seja muito ou pouco, se não o fazemos apenas por rotina e para o cumprimento formal de um dever (ἀφοσιούμενοι). Quem se tornou homem melhor por frequentar (diariamente) o culto por um mês inteiro? Este é o ponto: do contrário, a própria coisa que parece indicar condição florescente (da Igreja) indica, de fato, condição enferma, quando tudo isto se faz e nada resulta. Quisera Deus que isto fosse tudo, que nada resultasse: mas na verdade, como estão as coisas, resulta até pior. Que fruto obtendes dos vossos ofícios? Por certo, se estivésseis obtendo algum proveito com eles, deveríeis há muito estar levando a vida da verdadeira sabedoria (τῆς φιλοσοφίας), tendo tantos profetas, duas vezes por semana, a discorrer para vós, tantos apóstolos e evangelistas, todos a expor as doutrinas da salvação, e a colocar diante de vós com muita exatidão aquilo que pode formar retamente o caráter. O soldado, indo ao seu exercício, torna-se mais perfeito em suas táticas; o lutador, frequentando o local de ginástica, torna-se mais hábil na luta; o médico, assistindo o seu mestre, torna-se mais preciso, e sabe mais, e aprende mais: e tu — que ganhaste? Não falo aos que são membros da Igreja há apenas um ano, mas aos que, desde a mais tenra idade, têm frequentado os ofícios. Pensais que ser religioso é ser constante em ir à igreja (παραβάλλειν τῇ συνάξει)? Isto não é nada, a menos que colhamos algum fruto para nós mesmos: se (do reunir-nos na Igreja) não colhemos (συνάγωμεν) algo para nós, melhor seria permanecer em casa. Pois os nossos antepassados construíram as igrejas para nós, não apenas para nos reunir vindos de nossas casas particulares e mostrar-nos uns aos outros: pois isto também poderia ter sido feito numa praça de mercado, e em banhos, e numa procissão pública; mas para reunir aprendizes e mestres, e tornar um melhor por meio do outro. Entre nós, tudo se tornou mera rotina costumeira, e cumprimento formal de um dever: uma coisa a que estamos habituados; isto é tudo. Chega a Páscoa, e então grande é a agitação, grande o alvoroço, e a aglomeração — de não sei se devo chamá-los seres humanos, pois o seu comportamento não é comumente humano. Passa a Páscoa, o tumulto se abate, mas então a quietude que se segue é de novo infrutífera de bem. Vigílias, e santo canto de hinos — e o que se ganha com isto? Antes, tudo é pior ainda. Muitos o fazem apenas por vaidade. Pensai quão doente deve ficar o meu coração, ao ver tudo isto como (tanta água) derramada num tonel furado! Mas certamente me direis: Conhecemos as Escrituras. E que importa isso? Se exemplificardes as Escrituras com as vossas obras, aí está o ganho, aí o proveito. A Igreja é uma tina de tintureiro: se, vez após vez, perpetuamente saís daqui sem receber tintura alguma, de que serve vir aqui continuamente? Antes, o mal é ainda maior. Quem (de vós) acrescentou algo aos costumes usuais recebidos de seus pais? Por exemplo: tal pessoa tem o costume de guardar a memória de sua mãe, ou de sua esposa, ou de seu filho: isto ele faz quer lhe seja dito quer não lhe seja dito por nós, levado a isso pela força do hábito e da consciência. Isto vos desagrada, perguntais? Deus me livre: pelo contrário, alegro-me com isso de todo o coração; só quisera que ele tivesse ganho também algum fruto do nosso discurso, e que o efeito que o hábito produz fosse também o efeito quanto a nós (vossos mestres) — a superindução de outro hábito. Do contrário, por que me canso em vão, e falo inutilmente, se haveis de permanecer no mesmo estado, se os ofícios da Igreja não operam bem algum em vós? Não, direis vós, nós oramos. E que importa isso? Nem todo aquele que Me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus; mas aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus (Mt 7,21). Muitas vezes resolvi calar-me, não vendo proveito algum resultar para vós das minhas palavras; ou talvez resulte algum, mas eu, por insaciabilidade e forte desejo, sou afetado do mesmo modo que aqueles que enlouquecem por riquezas. Pois assim como estes, por mais que obtenham, pensam nada ter; assim eu, porque ardentemente desejo a vossa salvação, até que vos veja haver feito bom progresso, penso que nada se fez, por causa do meu excessivo e ardente desejo de que chegueis ao próprio cume. Quisera eu que assim fosse, e que a culpa estivesse no meu excesso de zelo, não na vossa indolência: mas temo conjeturar com demasiada exatidão. Pois deveis estar persuadidos de que, se algum benefício tivesse surgido em todo este longo tempo, já deveríamos ter cessado de falar. Nesse caso, não haveria necessidade de palavras para vós, pois tanto no já dito haveria dito o bastante para vós, como vós mesmos seríeis capazes de corrigir a outros. Mas o fato de ainda haver necessidade do nosso discurso a vós apenas mostra que as coisas entre vós não estão em estado de alta perfeição. Que devemos então fazer suceder? Pois não se deve apenas encontrar defeito. Suplico-vos e rogo-vos que não julgueis bastante ter invadido a Igreja, mas que também dela vos retireis, tendo tomado algo, algum remédio, para a cura das vossas próprias enfermidades: e, se não de nós, ao menos
(a) Observai como ele entrelaça (o fio de) o seu discurso (alternadamente) a partir das coisas presentes, a partir dos profetas. Assim, da (sua) semente segundo a promessa —
Não somente as multidões eram atraídas a eles, mas como? Suplicavam que as mesmas palavras lhes fossem ditas de novo, e por suas ações mostravam a sua seriedade. Ora, dispersando-se a congregação, etc.
E, saindo eles (segundo o texto recebido, "da sinagoga dos judeus"), rogavam (os gentios) que estas palavras lhes fossem ditas no sábado seguinte.
Notais a sabedoria de Paulo? Não somente obteve admiração naquele momento, mas neles infundiu um ardente desejo de ouvi-lo pela segunda vez, ao passo que, no que disse, deixou cair, por assim dizer, algumas sementes (εἰπών τινα σπέρματα), e absteve-se de resolver as questões suscitadas ou de levar o assunto até sua conclusão, sendo seu propósito interessá-los e conquistar para si a sua boa vontade, e não tornar (as pessoas) desatentas e indiferentes lançando tudo de uma só vez nas mentes daqueles que primeiro o ouviam. Disse-lhes o fato, que por este Homem vos é anunciada a remissão dos pecados, mas o como não declarou. E, dissolvida a assembleia, muitos dos judeus e dos prosélitos devotos seguiram a Paulo e a Barnabé — a partir deste ponto ele antepõe Paulo — os quais, falando-lhes, os persuadiam a permanecer na graça de Deus.
Notais a sabedoria de Paulo? Não somente obteve admiração naquele momento, mas neles infundiu um ardente desejo de ouvi-lo pela segunda vez, ao passo que, no que disse, deixou cair, por assim dizer, algumas sementes (eipon tina spermata), e absteve-se de resolver as questões suscitadas ou de levar o assunto até sua conclusão, sendo seu propósito interessá-los e conquistar para si a sua boa vontade, e não tornar (as pessoas) desatentas e indiferentes lançando tudo de uma só vez nas mentes daqueles que primeiro o ouviam. Disse-lhes o fato, que "por este Homem vos é anunciada a remissão dos pecados", mas o como não declarou. "E, dissolvida a assembleia, muitos dos judeus e dos prosélitos devotos seguiram a Paulo e a Barnabé" — a partir deste ponto ele antepõe Paulo — "os quais, falando-lhes, os persuadiam a permanecer na graça de Deus" (v. 43). Notais o fervor, quão grande é? "Seguiram-nos", diz. Por que não os batizaram imediatamente? Não era o momento oportuno: era necessário persuadi-los a fim de que perseverassem firmemente nisso. "E no sábado seguinte ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus" (v. 44). "Mas os judeus, vendo as multidões, encheram-se de inveja e contradiziam as coisas ditas por Paulo, contradizendo e blasfemando" (v. 45). Vede a malícia ferida ao ferir a outros: isto tornou os Apóstolos mais conspícuos — a contradição que aqueles ofereciam. No primeiro momento, pois, eles próprios, espontaneamente, lhes rogaram que falassem (e agora se lhes opunham): "contradizendo", diz, "e blasfemando". Ó temeridade! "Então Paulo e Barnabé, tomando ousadia, disseram: Era necessário que a palavra de Deus vos fosse primeiro anunciada; mas, visto que a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios" (v. 46). Notais como, pelo seu comportamento contencioso, eles mais estenderam a pregação, e como (os Apóstolos aqui) mais se entregaram aos gentios, tendo (por isto mesmo) alegado sua justificação e se isentado de toda culpa perante os seus (em Jerusalém)? Vede como, por sua "inveja", eles produzem grandes coisas, outras (do que esperavam): fizeram com que os Apóstolos falassem com ousadia e viessem aos gentios! Por isto diz: "E, falando com ousadia, Paulo e Barnabé disseram". Estavam eles destinados a sair para os gentios; mas observai a ousadia vindo com medida: pois, se Pedro alegou sua justificação, muito mais estes necessitavam de uma defesa, não os havendo ninguém ali chamado (cap. 11,4). Mas, ao dizer "a vós primeiro", mostrou que também a estes cabia (pregar), e, ao dizer "necessário", mostrou que era necessário que também a eles fosse pregado. "Mas, visto que a rejeitais" — não diz "ai de vós" e "sereis castigados", mas "nos voltamos para os gentios". Com grande mansidão está impregnada a ousadia! Tampouco diz "sois indignos", mas "vos julgastes indignos. Eis que nos voltamos para os gentios. Porque assim nos ordenou o Senhor, dizendo: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra" (v. 47). Pois, para que os gentios não se magoassem ao ouvir isto, como se o caso fosse tal que, houvessem os judeus agido com seriedade, eles próprios não teriam obtido as bênçãos, por isso ele traz a profecia, dizendo "luz dos gentios" e "para salvação até os confins da terra". "E os gentios, ouvindo isto" (v. 48) — o que, sendo mais consolador para eles, visto que o caso era este, que, ao passo que aqueles tinham o direito de ouvir primeiro, eles próprios gozam da bênção, era ao mesmo tempo mais pungente para aqueles — "e os gentios", diz, "ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam destinados para a vida eterna", isto é, separados para Deus. Observai como ele mostra a rapidez do benefício: "E a palavra do Senhor era levada por toda a região" (v. 49), diephereto, em vez de diekomizeto, "era conduzida ou transportada através (dela)". "Mas os judeus incitaram as mulheres devotas e honoráveis, e os principais da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os expulsaram dos seus territórios" (v. 50). "As mulheres devotas", em vez de as mulheres prosélitas. Não pararam na "inveja", mas acrescentaram também obras. Vedes o que conseguiram opondo-se à pregação? A que desonra levaram estas ("mulheres honoráveis")? "Mas eles, sacudindo contra eles o pó dos seus pés, foram para Icônio" (v. 51). Aqui usaram agora aquele terrível sinal que Cristo ordenou: "Se alguém não vos receber, sacudi o pó dos vossos pés" (Mt 10,14; Mc 6,11); mas estes não o fizeram sem motivo leve, senão porque foram por eles expulsos. Isto não foi dano algum para os discípulos; ao contrário, eles mais perseveraram na palavra: "E os discípulos se enchiam de alegria e do Espírito Santo" (v. 52), pois o sofrimento do mestre não refreia a sua ousadia, mas torna o discípulo mais corajoso. "E aconteceu em Icônio que entraram juntos na sinagoga dos judeus" (cap. 14,1). Novamente entraram nas sinagogas. Vede quão longe estavam de se tornarem mais tímidos! Tendo dito "nos voltamos para os gentios", contudo (entrando nas sinagogas) sobreabundantemente fortalecem a sua própria justificação (perante os seus irmãos judeus). "De modo que", diz, "creu uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos". Pois é provável que discorressem também aos gregos. "Mas os judeus incrédulos incitaram os gentios e lhes malignaram os ânimos contra os irmãos" (v. 2). Juntamente (consigo) passaram agora a incitar também os gentios, não sendo eles próprios suficientes. Por que, então, não saíram dali os Apóstolos? Ora, não foram expulsos, apenas atacados. "Detiveram-se, pois, largo tempo, falando ousadamente em [truncado]"
Vede os Apóstolos, em todas as ocasiões, exortando, não meramente aceitando os homens, nem os cortejando, mas, falando-lhes, diz, persuadiam-nos a permanecer na graça de Deus. Mas quando os judeus, etc.
Notais o fervor, quão grande é? Seguiram-nos, diz. Por que não os batizaram imediatamente? Não era o momento oportuno: era necessário persuadi-los a fim de que perseverassem firmemente nisso. E no sábado seguinte ajuntou-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus.
Mas os judeus, vendo as multidões, encheram-se de inveja e contradiziam as coisas ditas por Paulo, contradizendo e blasfemando.
Vede a malícia ferida ao ferir a outros: isto tornou os Apóstolos mais conspícuos — a contradição que aqueles ofereciam. No primeiro momento, pois, eles próprios, espontaneamente, lhes rogaram que falassem (e agora se lhes opunham): contradizendo, diz, e blasfemando. Ó temeridade! Então Paulo e Barnabé, tomando ousadia, disseram: Era necessário que a palavra de Deus vos fosse primeiro anunciada; mas, visto que a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios.
Por que não contradisseram antes disto? Observai como, em todas as ocasiões, eram movidos pela paixão. E não somente contradisseram, mas também blasfemaram. Pois, na verdade, a malícia não se detém ante nada. Mas vede que ousadia de discurso! Era necessário, diz ele, que a palavra vos fosse primeiro anunciada, mas, visto que a rejeitais —
Não é posto como afronta (embora) seja de fato o que fizeram no caso dos profetas: Não nos faleis, diziam eles, com palavras — Is 30.10: mas visto que vós o rejeitais — a ele, diz, não a nós: pois a afronta de vossa parte não é a nós. Para que ninguém tome isso como expressão de sua piedade (que ele diz) Vós não vos julgais dignos, por isso ele primeiro diz, Vós o rejeitais, e depois, Nos voltamos para os gentios. A expressão está cheia de mansidão. Ele não diz, Nós vos abandonamos, mas de modo que seja possível — ele diria — que também possamos voltar aqui de novo: e isto também não é consequência da afronta de vossa parte, pois assim (o Senhor) nos ordenou.
Observais como, por seu comportamento contencioso, eles mais estenderam a pregação, e (como os Apóstolos aqui) mais se entregaram aos gentios, tendo (por isso mesmo) alegado sua justificação, e se eximido de toda culpa perante o seu próprio povo (em Jerusalém)? (c) Vede como, por sua inveja, eles produzem grandes coisas, diversas (do que esperavam): fizeram com que os Apóstolos falassem com ousadia, e viessem aos gentios! Por isso é que ele diz, E falando com ousadia, Paulo e Barnabé disseram. Eles haviam de sair aos gentios: mas observai a ousadia vindo com medida: pois se Pedro alegou em sua justificação, muito mais estes necessitavam de uma defesa, não os tendo ninguém chamado ali. At 11.4. Mas ao dizer A vós primeiro, mostrou que também a eles era seu dever (pregar), e ao dizer Necessário, mostrou que era necessário que se pregasse também a eles. Mas visto que vós vos desviais dela — ele não diz, Ai de vós, e Sois punidos, mas Nos voltamos para os gentios. Com grande mansidão está a ousadia carregada! (a) Também não diz, Sois indignos, mas Julgastes-vos indignos. Eis que nos voltamos para os gentios. Pois assim nos ordenou o Senhor, dizendo, Eu vos pus para serdes luz dos gentios, para que fôsseis para salvação até os confins da terra.
Por que então não fizestes isto? Era, na verdade, necessário que os gentios ouvissem, e isto não antes de vós: é obra vossa própria, esse antes de vós. Pois assim nos ordenou o Senhor: Eu vos pus para luz dos gentios, para que fôsseis para salvação, isto é, para o conhecimento que conduz à salvação, e não somente dos gentios, mas de todos os homens, até os confins da terra — Tantos quantos estavam ordenados para a vida eterna
Para que os gentios não se ofendessem ao ouvir isto, como se o caso fosse tal que, se os judeus tivessem sido sérios, eles mesmos não teriam obtido as bênçãos, por isso ele traz a profecia, dizendo, Luz dos gentios, e, para salvação até os confins da terra. E ouvindo (isto) os gentios
isto, ao mesmo tempo que era mais alegre para eles, vendo que o caso era este, que ao passo que aqueles tinham o direito de ouvir primeiro, eles próprios desfrutam da bênção, era ao mesmo tempo mais pungente para aqueles — e os gentios, diz, ouvindo (isto) se alegraram, e glorificaram a palavra do Senhor: e creram, tantos quantos estavam ordenados para a vida eterna: isto é, separados para Deus. Observai como ele mostra a rapidez do benefício: E a palavra do Senhor era levada por toda a região,
isto é também uma prova de que o terem eles recebido estes gentios era conforme à mente de Deus. Mas ordenados, não quanto à necessidade: aos que Ele de antemão conheceu, diz o Apóstolo, também os predestinou. Rm 8.29. E a palavra do Senhor, etc.
Não somente na cidade (já) se disseminavam (as suas doutrinas), mas também em toda a região. Pois, tendo os gentios ouvido isto, também eles, pouco depois, se converteram. Mas os judeus incitaram as mulheres devotas, e suscitaram perseguição — observai que até daquilo que é feito pelas mulheres, eles são os autores — e os lançaram, diz, para fora dos seus limites.
διεφέρετο, em vez de διεκομίζετο, era levada ou transportada através (dela). Mas os judeus incitaram as mulheres devotas e honoráveis, e os principais homens da cidade, e suscitaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os expulsaram de seus limites.
não somente da cidade. Depois, o que é ainda mais terrível, sacudiram contra eles o pó dos seus pés, e vieram a Icônio. Mas os discípulos, diz, eram cheios de alegria e do Espírito Santo.
As mulheres devotas, em vez de mulheres prosélitas. Não se detiveram na inveja, mas acrescentaram também as obras. Vedes o que lograram ao se oporem à pregação? A que desonra reduziram estas (mulheres honoráveis)? Mas sacudiram contra eles o pó dos seus pés, e vieram a Icônio.
Aqui, pois, usaram aquele sinal terrível que Cristo ordenara: Se alguém não vos receber, sacudi o pó dos vossos pés (Mt 10,14; Mc 6,11); mas eles não o fizeram sem motivo leve, senão porque foram expulsos por eles. Isto não foi dano algum para os discípulos; antes, pelo contrário, tanto mais perseveraram na palavra: E os discípulos eram cheios de alegria e do Espírito Santo.
pois o sofrimento do mestre não refreia a sua ousadia, antes torna o discípulo mais corajoso.
Notais a natureza do Evangelho, a grande virtude que possui? Fizeram, diz, as suas mentes malevolamente dispostas contra os irmãos:
De novo entraram nas sinagogas. Vede quão longe estavam de se tornarem mais tímidos! Tendo dito: Voltamo-nos para os gentios, contudo (ao entrarem nas sinagogas) fortalecem sobreabundantemente a sua própria justificação (perante os seus irmãos judeus). De sorte que, diz, creu uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos. Pois é provável que discorressem também aos gregos. Mas os judeus incrédulos incitaram os gentios, e tornaram as suas mentes malevolamente dispostas contra os irmãos.
Isto é, caluniaram os Apóstolos, levantaram contra eles inúmeras acusações: (estes, sendo simples, eles os tornaram maldispostos, dispondo-os a agir malignamente. E vede como em toda ocasião ele reporta tudo a Deus. Longo tempo, diz ele, permaneceram falando ousadamente no Senhor, o qual dava testemunho à palavra de Sua graça.
Juntamente (consigo mesmos) passaram então a incitar também os gentios, como não lhes bastando a si próprios. Por que, pois, não saíram dali os Apóstolos? Ora, não foram expulsos, apenas atacados. Longo tempo, portanto, permaneceram falando ousadamente no Senhor, o qual dava testemunho à palavra de Sua graça, e concedia que sinais e prodígios se fizessem por suas mãos.
Não penseis que esta (expressão, Dava testemunho,) contenha algo derrogatório (à Divina Majestade do Senhor): Que testemunhou, diz-se, diante de Pôncio Pilatos (1 Tm 6:13). Depois a ousadia — e concedia que sinais e prodígios se fizessem por suas mãos. Aqui ele o diz a respeito da própria nação deles. E a multidão da cidade, etc.
Isto causou a sua ousadia; ou antes, da ousadia deles a própria boa vontade cordial foi a causa — por isso é que por longo tempo não operam sinais — ao passo que a conversão dos ouvintes era (o efeito) dos sinais, ainda que a ousadia deles também contribuísse em alguma medida. Mas a multidão da cidade se dividiu: e uma parte estava com os judeus, e outra com os Apóstolos.
Não é pequena coisa esta divisão. E foi isto o que o Senhor disse: Não vim trazer paz, mas espada (Mt 10:34). E havendo um assalto tanto dos gentios como também dos judeus com seus chefes, para os ultrajarem e apedrejarem, eles disso se aperceberam, e fugiram para Listra e Derbe, cidades da Licaônia, e para a região circunvizinha: e ali pregavam o Evangelho.
Por conseguinte, não a esperaram, mas, vendo a intenção de atacá-los, fugiram, sem em nenhuma ocasião acenderem a ira deles, para as cidades da Licaônia, Listra e Derbe, e a região adjacente.
Foram-se para o campo, não somente para as cidades. — Observai tanto a simplicidade dos gentios quanto a malignidade dos judeus. Por suas ações mostraram que eram dignos de ouvir: assim os honraram somente pelos milagres. Uns os honravam como a deuses, outros os perseguiam como a pestilentes: e (aqueles) não somente não se ofenderam com a pregação, mas que dizem eles? Os deuses, em semelhança de homens, desceram até nós; mas os judeus se ofenderam. E chamaram a Barnabé de Júpiter; e a Paulo, de Mercúrio.
Novamente, como se de propósito desejassem estender a pregação depois que ela se multiplicara, mais uma vez os enviaram. Vede como em toda ocasião as perseguições operam grande bem, derrotando os perseguidores e tornando ilustres os perseguidos. Pois, tendo chegado a Listra, ele opera um grande milagre, levantando o coxo. E estava assentado ali certo homem em Listra, impotente dos pés, coxo desde o ventre de sua mãe, que jamais havia andado: este ouviu Paulo falar: o qual, fitando-o e percebendo que tinha fé para ser curado, disse em alta voz — por que em alta voz? Para que a multidão cresse — Levanta-te sobre teus pés.
Mas observai: deu ouvidos, diz o texto, às coisas ditas por Paulo. Notais a elevação da mente deste homem (φιλοσοφίαν)? Ele em nada foi prejudicado (παρεβλάβη) pela sua coxeadura quanto ao fervor de ouvir. Fixando nele os olhos, e percebendo, diz, que tinha fé para ser curado. Já estava previamente disposto no propósito da mente. E, no entanto, no caso dos outros, era o inverso: pois primeiro recebiam a cura em seus corpos, e só depois eram tomados pela mão para a cura de suas almas; mas este não foi assim. Parece-me que Paulo viu dentro da sua alma. E saltou, diz, e andou.
Foi prova da sua cura perfeita o saltar. E quando o povo viu o que Paulo fizera, levantaram a voz, dizendo na língua da Licaônia: Os deuses desceram a nós em semelhança de homens. E chamavam a Barnabé, Júpiter; e a Paulo, Mercúrio, porque era ele quem dirigia a palavra. Então o sacerdote de Júpiter, cujo templo estava diante da cidade, trouxe touros e grinaldas até às portas, e queria, com o povo, oferecer sacrifício.
Suponho que Barnabé fosse também homem de aparência digna. Eis aqui uma nova espécie de provação, provinda de zelo desmedido, e não pequena: mas por isso mesmo se manifesta a virtude dos Apóstolos, e como em todas as ocasiões atribuem tudo a Deus.
Imitemo-los: nada consideremos como sendo nosso, vendo que até a própria fé não é nossa, mas antes de Deus (mais do que nossa). Pois pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto, diz ele, não vem de vós mesmos; é dom de Deus (Ef 2,8). Não pensemos, pois, grandes coisas de nós mesmos, nem nos ensoberbeçamos, sendo nós, como somos, homens, pó e cinza, fumo e sombra. Pois dizei-me: por que pensais grandes coisas de vós? Destes esmolas, e prodigalizastes a vossa substância? E que é isso? Pensai: e se Deus tivesse escolhido não vos fazer rico? Pensai nos que se empobreceram — ou antes, pensai em quantos deram (não apenas a sua substância, mas) também os seus próprios corpos, e depois de inumeráveis sacrifícios, ainda assim sentiram que eram criaturas miseráveis! Deste por ti mesmo; Cristo deu (não por Si, mas) por ti: tu apenas pagaste uma dívida; Cristo nada te devia. — Vede a incerteza do futuro, e não vos ensoberbeçais, antes temei (Rm 11,20); não diminuais a vossa virtude com jactância. Queres fazer algo verdadeiramente grande? Nunca deixes entrar em tua mente a suposição de que os teus feitos são grandes. Mas és virgem? Também as daquela parábola eram virgens, e nenhum proveito tiraram da sua virgindade, por causa da sua crueldade e desumanidade (Mt 25,12). Nada como a humildade: esta é mãe, e raiz, e ama, e fundamento, e vínculo de todos os bens; sem ela somos abomináveis, execráveis e imundos. Pois dizei-me — suponhamos que haja alguém que ressuscite mortos, e cure coxos, e purifique leprosos, mas com orgulhosa autocomplacência: do que isto nada pode haver mais execrável, nada mais ímpio, nada mais detestável. Nada consideres como sendo de ti mesmo. Tens eloquência e graça de ensino? Não por isso te consideres possuidor de mais do que os outros homens. Por esta razão especialmente deves humilhar-te, porque foste agraciado com dons mais abundantes. Pois aquele a quem mais foi perdoado, mais amará (Lc 7,47): se assim é, também tu deves humilhar-te, porque Deus, passando por cima de outros, reparou em ti. Teme por isso: pois muitas vezes isto se torna causa da tua perdição, se não estiveres vigilante. Por que pensas grandes coisas de ti mesmo? Porque ensinas com palavras? Mas isto é fácil, filosofar em palavras: ensina-me com a tua vida; esse é o melhor ensino. Dizes que convém ser moderado, e discorres longamente sobre isso, e representas o orador, derramando a tua eloquência sem freio? Mas melhor que tu, dir-se-á, é aquele que me ensina isto pelos seus atos — pois não costumam fixar-se tanto na mente as lições que consistem em palavras, quanto as que ensinam pelos fatos: de sorte que, se não tens a obra, não só não o beneficiaste com as tuas palavras, como antes o prejudicaste ainda mais — melhor fora que te calasses. Por quê? Porque o que me propões é impossível: pois considero que, se tu, que tens tanto a dizer sobre isso, não o consegues, muito mais desculpável sou eu. Por isso diz o Profeta: Mas ao pecador disse Deus: Por que anuncias os Meus preceitos? (Sl 49,16). Pois este é o pior dos males, quando alguém que ensina bem com palavras, impugna o ensino com os seus atos. Esta tem sido a causa de muitos males nas Igrejas. Portanto, perdoai-me, peço-vos, que o meu discurso se demore tanto nesta paixão (πάθει) perniciosa. Muitos se esforçam sobremaneira por poder erguer-se diante do público, e discursar longamente: e se recebem aplauso da multidão, é para eles como se ganhassem o próprio reino (dos céus); mas se o silêncio se segue ao término do seu discurso, é pior do que o próprio inferno, o abatimento que lhes cai sobre o espírito por causa desse silêncio! Isto tem transtornado as Igrejas, porque tanto vós não desejais ouvir um discurso ordenado a levar-vos à compunção, quanto antes um que vos deleite pelo som e composição das palavras, como se estivésseis a ouvir cantores e citaristas (κιθαρῳδὥν καὶ κιθαριστὣν): e nós também desempenhamos papel absurdo e digno de pena, ao deixarmo-nos guiar pelas vossas cobiças, quando deveríamos antes desarraigá-las. E é exatamente como se o pai de uma criança pobre e de sangue frio (já, mais delicada do que deveria ser), ainda que ela seja tão fraca, lhe desse bolo e bebida gelada e tudo quanto apenas agradasse à criança, sem levar em conta o que lhe pudesse fazer bem; e depois, sendo repreendido pelos médicos, se desculpasse dizendo: Que posso fazer? Não suporto ver a criança chorar. Ó pobre e miserável criatura, traidor que és! Pois não posso chamar tal homem de pai: quanto melhor te fora, afligindo-o por breve tempo, restituí-lo à saúde para sempre, do que fazer deste prazer efêmero o fundamento de uma tristeza duradoura? Exatamente assim é o nosso caso, quando nos ocupamos ociosamente com belas expressões, e com a composição e harmonia das nossas sentenças, a fim de agradar, não de aproveitar: (quando) fazemos por objetivo ser admirados, não instruir; deleitar, não compungir o coração; ser aplaudidos e partir com louvor, não corrigir os costumes dos homens! Crede-me, não digo senão o que sinto — quando, ao discursar, ouço-me aplaudido, no momento mesmo sinto-o como homem (pois por que não haveria de confessar a verdade?): deleito-me, e cedo ao sentimento prazeroso: mas quando chego a casa, e considero que aqueles que aplaudiram não receberam proveito algum do meu discurso, mas que todo o proveito que deveriam ter recebido, perderam-no enquanto aplaudiam e louvavam, sofro, e gemo, e choro, e sinto como se tivesse falado tudo em vão. Digo a mim mesmo: que proveito me vem dos meus trabalhos, se os ouvintes não escolhem beneficiar-se do que ouvem de nós? Antes, muitas vezes pensei em estabelecer uma regra que impedisse todo aplau
Mas este propósito ainda não se manifestara, pois falavam na sua própria língua, dizendo: Os deuses desceram a nós em semelhança de homens; por isso o Apóstolo nada lhes disse ainda. Mas quando viram as grinaldas, então saíram, e rasgaram as suas vestes. O que, ouvindo os Apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes, e correram para o meio do povo, clamando e dizendo: Senhores, por que fazeis isto? Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós.
Primeiro, pela visão os contiveram, rasgando as suas vestes. Assim fez Josué, filho de Num, por ocasião da derrota do povo. Não penseis, pois, que esta ação fosse indigna deles: pois tal era o ardor, que doutro modo não o teriam refreado, doutro modo não teriam apagado o incêndio (πύραν). Portanto, quando for necessário fazer algo que convém ser feito, não recusemos fazê-lo. Pois se, mesmo depois de tudo isto, mal os persuadiram, se não tivessem agido assim, qual teria sido a consequência? Pois se não tivessem feito assim, seriam julgados como fazendo alarde de humildade (ταπεινοθρονεἵν), e ainda mais desejosos da honra. E observai a linguagem deles, como na repreensão é moderada, cheia ao mesmo tempo de espanto e de censura. Isto acima de tudo foi o que os deteve, o dizer: Pregando-vos que vos convertêsseis destas vaidades a Deus.
Notai o veemência com que tudo isto é feito pelos Apóstolos: "rasgaram as suas vestes, correram para dentro, clamaram", tudo isto por forte afeto da alma, revoltada pelas coisas que se faziam. Pois era uma dor, na verdade uma dor inconsolável, que fossem tidos por deuses, e introduzissem a idolatria, precisamente aquilo que vieram destruir! Também isto foi artifício do demônio — mas não prevaleceu. Mas que dizem eles? "Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós." Logo de início derrubaram o mal. Não disseram simplesmente "Homens", mas "Como vós". Depois, para que não parecessem honrar os deuses, ouvi o que acrescentam: "Pregando-vos que vos convertêsseis destas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, o mar, e todas as coisas que neles há." Observai como em nenhum lugar mencionam as coisas invisíveis. (b) Pois haviam aprendido que se deve procurar não tanto dizer algo digno de Deus, quanto dizer o que é proveitoso aos ouvintes. (a) Que, pois? Se Ele é o Criador de todas as coisas, por que também não cuida delas pela Sua Providência? — "O qual nos tempos passados permitiu que todas as nações andassem nos seus próprios caminhos" (v. 16) — mas por que o permitiu, isto ele não diz, pois de momento se atém ao assunto de importância imediata, sem em nenhum lugar introduzir o nome de Cristo. Observai que ele não deseja aumentar a acusação contra eles, mas antes que eles mesmos remetam tudo a Deus. "Contudo, não se deixou a Si mesmo sem testemunho, fazendo o bem, dando-vos chuva do céu e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de sustento e alegria." (v. 17.) (c) Vede como veladamente ele formula a acusação, "fazendo o bem", etc. E, no entanto, se Deus fez isto, não poderia tê-los "deixado entregues a si mesmos"; antes, deveriam ser punidos, pois, desfrutando de tão grandes benefícios, não O reconheceram, nem sequer como seu sustentador. "Do céu", diz ele, "dando-vos chuva." Assim também disse Davi: "Do fruto do seu trigo, do seu vinho e do seu azeite foram fartos" (Sl 4,7), e em muitos lugares, falando da Criação, apresenta estes benefícios: e Jeremias menciona primeiro a Criação, depois a Providência (manifesta) pelas chuvas, de modo que o Apóstolo aqui discorre como ensinado por essas Escrituras. "Enchendo", diz ele, "de sustento e alegria" (Jr 5,24). Com grande liberalidade (philotimias) é dado o sustento, não apenas para uma suficiência frugal, nem restrito pela necessidade. "E dizendo estas coisas, apenas conseguiram deter as multidões" (v. 18) — de fato, por isto mesmo alcançaram maior admiração — "de lhes sacrificarem." Observais que este era, para eles, o ponto de pôr fim àquela loucura? "Mas sobrevieram", diz o texto, "alguns judeus de Antioquia e de Icônio" (v. 19). — Na verdade filhos do demônio, pois não somente nas suas próprias cidades, mas também para além delas, faziam estas coisas, e tanto se empenhavam em pôr fim à pregação, quanto os Apóstolos estavam empenhados em estabelecê-la! — "e tendo persuadido a multidão e apedrejado Paulo, arrastaram-no para fora da cidade." (e) Assim, pois, os gentios os tinham por deuses, mas estes o "arrastaram" para "fora da cidade, supondo que estivesse morto. Tendo persuadido a multidão" — pois não é provável que todos os reverenciassem assim. Na mesma cidade em que receberam esta reverência, nela mesma foram tão terrivelmente maltratados. E isto também aproveitou aos que os viam. "Para que ninguém", diz ele, "pense de mim além do que em mim vê, ou daquilo que de mim ouve." (v. 20.) — "Mas, rodeando-o os discípulos, ele se levantou e entrou na cidade." (d) Aqui se cumpre aquele dito: "A Minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." (2 Cor 12,9.) Maior é isto do que a cura do coxo! (f) "Entrou na cidade." Notais o zelo, notais quão fervoroso ele é, quão inflamado! Entrou novamente na própria cidade: prova de que, se em alguma ocasião se retirava, era porque já havia semeado a palavra, e porque não convinha inflamar-lhes a ira. (h) Depois percorreram todas as cidades em que haviam corrido perigo. "E no dia seguinte", diz o texto, "partiu com Barnabé para Derbe. E tendo pregado o Evangelho àquela cidade, e ensinado a muitos, voltaram outra vez a Listra, e a Icônio, e a Antioquia, confirmando as almas dos discípulos, e exortando-os a perseverar na fé, e que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus." (v. 21-22.) Isto disseram, isto mostraram. Mas propositadamente assim se faz, não somente pelos Apóstolos, mas também pelos discípulos, para que aprendam desde o próprio início tanto o poder da pregação, quanto que também eles hão de sofrer tais coisas, a fim de que se mantenham nobremente firmes, não boquiabertos ociosamente diante dos milagres, mas antes muito mais preparados para as provações. Por isso também o próprio Apóstolo disse: "Tendo o mesmo combate que vistes em mim e agora ouvis." (Fl 1,30.) Perseguições sucediam-se a perseguições: guerras, lutas, apedrejamentos. (g) Estas coisas, não menos que os milagres, tanto os tornaram mais ilustres, quanto lhes prepararam maior regozijo. Em nenhum lugar diz a Escritura que voltaram regozijando-se por terem feito milagres, mas antes (diz que se regozijaram) por "terem sido considerados dignos de padecer afronta por aquele Nome." (At 5,41.) E isto lhes foi ensinado por Cristo, dizendo: "Não vos regozijeis porque os demônios vos obedecem." (Lc 10,20.) Pois a alegria verdadeira e sem mescla é esta: padecer algo por causa de Cristo. (i) "E que por muitas tribulações": que espécie de encorajamento (protrope) é este? Como os persuadiam, falando-lhes logo de início em tribulações? Depois, também outra consolação. "E tendo-lhes designado presbíteros em cada Igreja, e orando com jejum, encomendaram-nos ao Senhor, em quem haviam crido." (v. 23.) Notais o ardor de Paulo? — Depois outra consolação: "Encomendaram-nos", diz o texto, "ao Senhor. E depois que
Somos homens, de fato — dizem eles —, mas maiores que estes [ídolos], pois estes são coisas mortas. Observai como eles não somente destroem o falso, mas também ensinam o verdadeiro, nada dizendo acerca das coisas invisíveis — Aquele que fez, dizem eles, o céu e a terra, e o mar, e todas as coisas que neles há. Que, nos tempos passados, etc.
Ouvindo isto os Apóstolos, Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes e saltaram para o meio do povo, clamando e dizendo: Senhores, por que fazeis estas coisas? Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós, e vos anunciamos que vos aparteis destas vaidades e vos convertais ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, e o mar, e todas as coisas que neles há.
Observai a veemência com que tudo isto é feito pelos Apóstolos: rasgaram as vestes, saltaram para o meio, clamaram — tudo isso por um forte afeto da alma, revoltada com as coisas que se faziam. Pois era uma dor, na verdade uma dor inconsolável, que eles devessem ser tidos por deuses e introduzissem a idolatria, justamente aquilo que vieram destruir! Também isto foi uma artimanha do demônio — mas ele não prevaleceu. Mas que dizem eles? Também nós somos homens sujeitos às mesmas paixões que vós. Logo de início, derrubaram o mal. Não disseram simplesmente Homens, mas Como vós. Depois, para que não parecessem honrar os deuses, ouvi o que acrescentam: Anunciando-vos que vos aparteis destas vaidades para o Deus vivo, que fez o céu, o mar, e todas as coisas que neles há. Observai como em nenhuma parte mencionam as coisas invisíveis. (b) Pois haviam aprendido que não se deve buscar tanto dizer algo digno de Deus, quanto dizer o que é proveitoso para os ouvintes. (a) Que, pois? Se Ele é o Criador de todas as coisas, por que não cuida também destas por Sua Providência? — Ele, que nos tempos passados permitiu que todas as nações andassem nos seus próprios caminhos
Vede como em todas as ocasiões eles se mostram limpos da cobiça de glória, não somente não a desejando, mas até repudiando-a quando lhes é oferecida: assim como também Pedro disse: Por que olhais para nós, como se por nosso próprio poder ou santidade o tivéssemos feito andar? (At 3:12) Assim também estes dizem o mesmo. E também José disse acerca dos sonhos: Não pertencem a Deus as interpretações? (Gn 40:8) E Daniel, de modo semelhante: E a mim também não por sabedoria que em mim haja isto foi revelado (Dn 2:30). E Paulo em toda parte diz isto, como quando afirma: E para estas coisas, quem é suficiente? Não que sejamos capazes por nós mesmos de pensar algo como de nós mesmos, mas a nossa suficiência vem de Deus (2 Cor 2:16; 3:5). Mas voltemos a examinar o que foi dito.
mas por que razão Ele os permitiu, isto ele não diz, pois por ora se atém à matéria de importância imediata, não introduzindo em parte alguma o nome de Cristo. Observai que ele não deseja avolumar a acusação contra eles, mas antes que eles mesmos refiram tudo a Deus. Contudo, Ele não Se deixou a Si mesmo sem testemunho, porquanto fez o bem, dando-vos chuva do céu, e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de alimento e de alegria.
Ele chama por testemunhas até mesmo os anos (em seus cursos). E vieram ali certos judeus, etc.
(c) Vede como veladamente ele insere a acusação no fato de que Ele fez o bem, etc. E, contudo, se Deus fez isto, Ele não poderia tê-los deixado em paz; antes, deveriam ser punidos, porque, gozando de tão grandes benefícios, não O haviam reconhecido, nem sequer como seu sustentador. Do céu, diz ele, dando-vos chuva. Assim também disse Davi: Do fruto do seu trigo, do seu vinho e do seu azeite foram eles fartos (Sl 4:7), e em muitos lugares, falando da Criação, ele traz à luz estes benefícios; e Jeremias menciona primeiro a Criação, depois a Providência mostrada pelas chuvas, de modo que o Apóstolo aqui discorre como instruído por aquelas Escrituras. Enchendo, diz ele, de alimento e de alegria (Jr 5:24). Com grande liberalidade (φιλοτιμίας) é dado o alimento, não apenas para uma frugal suficiência, nem tacanhamente medido pela necessidade. E, dizendo estas coisas, mal conseguiram deter as multidões
com efeito, por isso mesmo alcançaram maior admiração — por lhes oferecerem sacrifícios. Observais que este era precisamente o intento deles, pôr fim àquela loucura? Mas vieram, diz, certos judeus de Antioquia e de Icônio
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diz. Também a estes muitas vezes arrastam: mas não te irrites; antes, prega tu a palavra com mansidão. Alguém te insultou? Cala-te, e abençoa-o se puderes, e assim também terás pregado a palavra, terás dado uma lição de mansidão, uma lição de brandura. Sei que muitos não sofrem tanto sob os golpes quanto sob a ferida que as palavras infligem: pois, na verdade, uma ferida o corpo recebe, a outra a alma. Mas não soframos, ou antes, sentindo a dor, suportemo-la. Não vedes os pugilistas como, tendo as cabeças gravemente feridas, cravam os dentes nos próprios lábios e assim suportam com ânimo firme as suas dores? Não há necessidade de ranger os dentes, não há necessidade de morder os lábios. Lembra-te do teu Senhor, e por essa lembrança já terás aplicado o remédio. Lembra-te de Paulo: considera que tu, o ferido, venceste, e ele, o feridor, foi derrotado; e com isto terás curado tudo. É a inclinação da balança por um instante, e terás alcançado tudo: não te precipites, nem sequer te movas, e terás extinguido todo o incêndio. Grande eloquência persuasiva há em sofrer algo por Cristo: não pregas apenas a palavra da fé, mas pregas a palavra da paciência (φιλοσοφίας). Mas, dirás tu, quanto mais ele vê a minha mansidão, mais me acomete. É por isto, pois, que te afliges, porque ele aumenta ainda mais a tua recompensa? Mas este é o caminho, dizes, para torná-lo insuportável. Isto não passa de pretexto da tua própria pequenez de ânimo: pelo contrário, o outro caminho é que o torna insuportável, a saber, vingares-te. Se Deus soubesse que, ao abster-se da vingança, o injusto se tornaria insuportável, Ele mesmo não teria agido assim: antes, teria dito, Vinga-te; mas Ele sabia que este, e não aquele, era o caminho mais apto para fazer o bem. Não estabeleças tu uma lei contrária a Deus: faze o que Ele te ordena. Não és mais benigno do que Aquele que nos fez. Ele disse: Suporta ser injustiçado; tu dizes: Retribuo o mal com o mal, para que ele não se torne insuportável. Tens, pois, mais cuidado por ele do que Deus tem? Tal discurso é mera paixão e mau humor, arrogância e o estabelecer leis contra as leis de Deus. Pois, ainda que o homem fosse prejudicado (por nossa tolerância), não seria nosso dever obedecer? Quando Deus ordena algo, não façamos lei contrária. Uma resposta submissa, lemos, desvia a ira (Provérbios 16:1): não uma resposta de oposição. Se isto te aproveita, aproveita também a ele: mas se prejudica a ti, que deves corrigi-lo, quanto mais o prejudicará a ele? Médico, cura-te a ti mesmo. Alguém falou mal de ti? Louva-o tu. Ele te injuriou? Elogia-o tu. Ele conspirou contra ti? Faze-lhe um benefício. Retribui-lhe com as coisas contrárias, se ao menos te importas com a sua salvação e não queres vingar o teu próprio sofrimento. E ainda assim, dirás, embora muitas vezes tenha encontrado em mim longanimidade, tornou-se pior. Isto não é assunto teu, mas dele. Queres aprender que injúrias Deus sofreu? Derrubaram os Seus altares e mataram os Seus profetas (1 Reis 19:10), e, contudo, Ele suportou tudo. Não poderia Ele ter lançado um raio do alto? Não; quando enviou os Seus profetas, e eles os mataram, então enviou o Seu Filho (Mateus 21:37); quando cometeram maiores ímpios, então lhes enviou maiores benefícios. E tu também, se vires alguém exasperado, cede então ainda mais: pois esta loucura tem maior necessidade de consolo (παραμυθίας). Quanto mais grave o seu ultraje contra ti, tanto mais mansidão ele precisa de ti: e assim como uma rajada, quando sopra com força, exige que se lhe ceda, também aquele que está em paixão. Quando a fera é mais selvagem, então todos fugimos: assim também devemos fugir daquele que está irado. Não penses que isto é uma honra para ele: pois, acaso é honra o que mostramos à fera e aos loucos, quando nos desviamos do seu caminho? De modo algum é desonra e escárnio: ou antes, não desonra e escárnio, mas compaixão e humanidade. Não vedes como os marinheiros, quando o vento sopra violentamente, recolhem as velas, para que a nau não naufrague? Como, quando os cavalos fogem com o condutor, ele apenas os conduz para a planície (aberta), e não puxa contra eles, para não esgotar voluntariamente as suas próprias forças? Faze tu também assim. A ira é fogo, é chama rápida que necessita de combustível: não dês alimento ao fogo, e logo terás extinguido o mal. A cólera não tem poder por si mesma; é necessário que outro a alimente. Para ti não há desculpa. Ele está possuído de loucura e não sabe o que faz; mas quando tu, vendo o que ele é, caís nos mesmos males, e não voltas a ti ao ver isto, que desculpa pode haver para ti? Se, ao chegar a um banquete, vires logo no início da festa alguém embriagado e a comportar-se de modo indecoroso, não seria muito mais indesculpável aquele que, depois de vê-lo, também se embriaga? Assim é aqui. Julgamos, acaso, alguma desculpa dizer: Não fui eu quem começou primeiro? Isto mesmo se volta contra nós, que nem sequer a visão do outro naquele estado nos trouxe ao juízo. É como se alguém dissesse: Não fui eu quem primeiro o matou. Pois isto mesmo te torna merecedor de castigo, que, mesmo com a advertência de tal espetáculo, não te contiveste. Se visses o embriagado no ato de vomitar, com ânsias, arrebentando, os olhos esbugalhados, enchendo a mesa com a sua imundície, todos apressando-se a sair do seu caminho, e então caísses tu mesmo no mesmo estado, não serias mais odioso ainda? Semelhante a ele é aquele que está em paixão: mais que aquele que vomita, tem as veias dilatadas, os olhos inflamados, as entranhas atormentadas; vomita palavras muito mais imundas do que aquele alimento; tudo o que profere é cru, nada devidamente digerido, pois a sua paixão não o permite. Mas, assim como naquele caso o excesso de humores (χυμῶν), causando tumulto no estômago, muitas vezes rejeita todo o seu conteúdo; assim também aqui, o excesso de calor, causando tumulto na alma, não permite que ele oculte o que seria justo calar, mas as coisas [truncado]
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Ó loucura judaica! Entre um povo que tanto honrara os Apóstolos, tiveram a ousadia de vir apedrejar Paulo. E arrastaram-no para fora da cidade, temendo aqueles (outros) — supondo que estivesse morto. (k) Contudo, etc., e entrou na cidade.
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Verdadeiramente filhos do diabo, pois não somente nas suas próprias cidades, mas também para além delas, faziam estas coisas, e tanto se empenhavam em pôr fim à pregação, quanto os Apóstolos se esforçavam em estabelecê-la! — e, tendo persuadido a multidão e apedrejado Paulo, arrastaram-no para fora da cidade. (e) Assim, pois, os gentios os tinham por deuses, mas estes o arrastaram para fora da cidade, supondo que estivesse morto. Tendo persuadido a multidão — pois não é provável que todos assim os reverenciassem. Na mesma cidade em que receberam esta reverência, nesta mesma foram tão terrivelmente maltratados. E isto também aproveitou aos que os viam. Para que ninguém, diz ele, pense de mim além do que me vê ser, ou do que ouve de mim.
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Pois, para que os ânimos dos discípulos não se abatessem por verem que aqueles que eram tidos por deuses sofriam tal tratamento, entraram até eles e discursaram. Então, no dia seguinte, etc. E observai: primeiro ele parte para Derbe, e depois volta a Listra, a Icônio e a Antioquia,
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Contudo, estando os discípulos ao seu redor, ele se levantou e entrou na cidade. (d) Aqui se cumpre aquela palavra: A minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Coríntios 12:9). Isto é maior do que a cura do coxo! (f) Entrou na cidade. Notais o zelo, notais quão fervoroso ele é, como está inflamado! Entrou novamente na própria cidade: prova de que, se em alguma ocasião se retirava, era porque já havia semeado a palavra, e porque não convinha inflamar-lhes a ira. (h) Depois percorreram todas as cidades em que haviam corrido perigo. E no dia seguinte, diz, partiu com Barnabé para Derbe. E, tendo pregado o Evangelho àquela cidade e ensinado a muitos, voltaram a Listra, a Icônio e a Antioquia, confirmando as almas dos discípulos, e exortando-os a permanecerem na fé, e que é necessário, através de muita tribulação, entrarmos no Reino de Deus.
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cedendo-lhes enquanto as paixões estão excitadas, mas, uma vez cessadas, atacando-os de novo. Notais que não foi pela graça (sobrenatural) que administraram tudo quanto fizeram, mas pela sua própria diligência? Confirmando, diz, as almas dos discípulos: ἐπιστηρίζοντες, estabelecendo ainda mais; de modo que já estavam estabelecidos, mas eles acrescentaram mais a isso. E que é necessário, etc.
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Isto disseram, isto mostraram. Mas é feito propositadamente, não somente pelos Apóstolos, mas também pelos discípulos, para que aprendam, desde o próprio início, tanto o poder da pregação quanto que eles mesmos hão de sofrer tais coisas, a fim de que se mantenham firmes com nobreza, não boquiabertos ociosamente diante dos milagres, mas muito mais prontos para as provações. Por isso também o próprio Apóstolo disse: Tendo o mesmo combate que vistes em mim e agora ouvis (Filipenses 1:30). Perseguições sucediam-se a perseguições: guerras, lutas, apedrejamentos. (g) Estas coisas, não menos que os milagres, tanto os tornaram mais ilustres quanto lhes prepararam maior alegria. A Escritura em nenhum lugar diz que voltaram alegres por terem feito milagres, mas (diz que se alegraram) por terem sido considerados dignos de padecer afronta por aquele Nome (Atos 5:41). E isto lhes foi ensinado por Cristo, quando disse: Não vos alegreis porque os demônios se vos sujeitam (Lucas 10:20). Pois a alegria verdadeira e sem mescla é esta: sofrer algo por amor de Cristo. (i) E que através de muita tribulação: que espécie de encorajamento (προτροπή) é este? Como os persuadiram, anunciando-lhes desde o início tribulações? Depois, também outra consolação. E, havendo-lhes constituído presbíteros em cada Igreja, e orado com jejum, encomendaram-nos ao Senhor, em quem haviam crido.
predisseram-lhes isto, para que não se escandalizassem. E havendo-lhes designado, etc. Novamente as ordenações acompanhadas de jejuns; e novamente o jejum, essa purificação de nossas almas. E tendo orado, diz, com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor.
ensinaram-lhes a jejuar também em suas provações. Por que não constituíram presbíteros em Chipre nem em Samaria? Porque esta última estava próxima de Jerusalém, e a primeira de Antioquia, e ali a palavra era forte; ao passo que, naquelas regiões, tinham necessidade de muita consolação, especialmente os gentios, que precisavam de muita instrução. E havendo chegado, etc.
Notais o ardor de Paulo? — Depois, outra consolação: encomendaram-nos, diz, ao Senhor. E tendo atravessado a Pisídia, chegaram à Panfília. E havendo pregado a palavra em Perge, desceram a Atália.
e dali navegaram para Antioquia, de onde haviam sido encomendados à graça de Deus para a obra que cumpriram.
Por que voltam a Antioquia? Para relatar o que se passara ali. E, além disso, há um grande propósito da Providência nisso envolvido: pois era necessário que dali em diante pregassem com ousadia aos gentios. Vêm, pois, relatando estas coisas, para que possam sabê-las; e é providencialmente ordenado que, justamente então, vieram aqueles que proibiam conviver com os gentios, a fim de que, vindo de Jerusalém, obtivessem grande encorajamento, e assim seguissem seu caminho com ousadia. E, além disso, mostra que em seu temperamento não havia nada de arbítrio próprio: pois vêm, mostrando ao mesmo tempo sua ousadia, em que sem a autoridade daqueles (de Jerusalém) haviam pregado aos gentios, e sua obediência, em que a eles submetem o assunto; pois não se ensoberbeceram (ἀπενοήθησαν), como que tendo alcançado tão grandes êxitos. Donde, diz, haviam sido encomendados à graça de Deus para a obra que haviam cumprido. E, no entanto, o Espírito havia dito: Separai-Me a Barnabé e Saulo para a obra para a qual os tenho chamado (At 13). E havendo chegado, e reunido a Igreja, relataram tudo quanto Deus fizera com eles, e como abrira a porta da fé aos gentios. E ali permaneceram longo tempo com os discípulos.
Vieram, ensinando-lhes que com boa razão haviam sido ordenados pelo Espírito. Não disseram o que eles mesmos, mas o que Deus fizera com eles. Parece-me que se referem às suas provações. Não foi em vão que aqui vieram, nem para repousar, mas guiados providencialmente pelo Espírito, a fim de que a pregação aos gentios se estabelecesse firmemente. E notai o ardor de Paulo. Ele não pergunta se é lícito falar aos gentios, mas fala imediatamente; por isso é que diz: não consultei carne e sangue (Gl 1,16).
Pois é, na verdade, coisa grande, grande e generosa alma como esta! Quantos, desde então, creram, e nenhum deles brilhou como ele! O que nos falta é a seriedade, o ardor extremo, uma alma pronta a enfrentar a morte. De outro modo, não é possível alcançar o Reino, não estando crucificado. Não nos enganemos. Pois, se na guerra é impossível sair-se são vivendo delicadamente, e negociando, e mercadejando, e ociosando, muito mais nesta guerra. Ou pensais que não é uma guerra pior que todas as outras? Pois não lutamos, diz ele, contra a carne e o sangue (Ef 6,12). Pois mesmo ao tomarmos nossas refeições, e ao caminharmos, e ao banharmo-nos, o inimigo está presente conosco, e não conhece tempo de trégua, senão apenas o do sono; e ainda assim, muitas vezes, mesmo então prossegue a guerra, injetando-nos pensamentos impuros, e tornando-nos lascivos por meio de sonhos. Não vigiamos, não nos despertamos, não olhamos para a multidão das forças opostas a nós, não refletimos que isto mesmo constitui a maior desgraça — que, embora cercados de tão grandes guerras, vivamos delicadamente como em tempo de paz. Crede-me: pior do que Paulo sofreu pode ser preciso sofrer agora. Aqueles inimigos o feriram com pedras: há um ferir com palavras, ainda pior que pedras. Que devemos, pois, fazer? O mesmo que ele fez: não odiou aqueles que lhe atiraram pedras, mas, depois de arrastado para fora, entrou novamente naquela cidade, para ser benfeitor daqueles que lhe haviam feito tais males. Se também tu suportares aquele que asperamente te insulta, e te fez males, então também tu foste apedrejado. Não digas: não lhe fiz injúria alguma. Pois que injúria fizera Paulo, para que fosse apedrejado? Anunciava um Reino, afastava os homens do erro, e os trazia a Deus: benefícios estes, dignos de coroas, dignos de serem proclamados por voz de arauto, dignos de mil bens — não de pedras. E, no entanto, longe de ressentir-se, fez exatamente o contrário. Pois esta é a vitória esplêndida. E arrastaram-no,
Tais eram os cuidados que tomavam em seu amor ao poder: e não foi com o conhecimento dos Apóstolos que eles, Paulo e Barnabé, foram censurados. Mas, ainda assim, não apresentaram nenhuma destas acusações; mas, quando comprovaram o assunto, então (os Apóstolos) escrevem em termos mais fortes.
Pois a mansidão é, em toda parte, um grande bem: mansidão, digo, não estúpida indiferença; mansidão, não adulação: pois entre estas há vasta diferença. Nada perturbava Paulo, nada desconcertava Pedro. Quando tendes provas convincentes, por que perder a paciência, tornando-as vãs? É impossível a quem está fora de si persuadir jamais. Ontem também discorremos sobre a ira; mas não há razão para que não o façamos também hoje; talvez uma segunda exortação, vindo logo após a primeira, produza algum efeito. Pois, na verdade, um remédio, ainda que tenha virtude para curar uma ferida, se não for constantemente renovado, tudo estraga. E não penseis que nosso discorrer continuamente sobre as mesmas coisas seja uma condenação de vós: pois se vos condenássemos, não discorreríamos; mas agora, esperando que ganheis muito, dizemos estas coisas. Quisera, na verdade, que falássemos constantemente das mesmas coisas: quisera que não houvesse outro assunto para nossos discursos senão como poderíamos vencer nossas paixões. Pois não é isto contrário a toda razão, que, enquanto os imperadores, vivendo em luxo e em tão grande honra, não têm outro assunto de discurso, seja à mesa, seja em qualquer outro momento, senão apenas como vencer seus inimigos — e por isso é que convocam suas assembleias cada dia, e nomeiam generais e soldados, e exigem impostos e tributos; e que, de todos os assuntos de estado, as causas motrizes são estas duas, a de vencer aqueles que lhes fazem guerra, e a de estabelecer seus súditos na paz —, nós não temos disposição alguma para tais temas, nem sequer sonhamos em conversar sobre eles: mas como podemos comprar terras, ou adquirir escravos, e aumentar nossos bens, estes são assuntos sobre os quais podemos falar todos os dias, e jamais nos cansarmos deles; ao passo que, sobre as coisas que estão em nós mesmos e que são realmente nossas, nem desejamos falar por nós mesmos, nem sequer sonhamos em tolerar conselho, nem em suportar ouvir outros falarem sobre elas? Mas respondei-me: de que falais? De jantar? Ora, isto é assunto para cozinheiros. De dinheiro? Não, isto é tema para mascates e mercadores. De edifícios? Isto pertence a carpinteiros e construtores. De terras? Esse falar é para lavradores. Mas, para nós, não há outro negócio próprio senão este: como fazer riqueza para a alma. Que o discurso, então, não vos seja enfadonho. Por que é que ninguém censura o médico por discorrer sempre sobre a arte de curar, nem as pessoas de outros ofícios por falarem sobre suas artes peculiares? Se, de fato, o domínio sobre nossas paixões estivesse realmente alcançado, de modo que não houvesse necessidade de nos advertir, poderíamos razoavelmente ser acusados de ambição e ostentação: ou antes, nem mesmo então. Pois, ainda que se tivesse alcançado, mesmo assim, haveria necessidade de discorrer, para que não recaísse alguém e permanecesse incorrigível: como, de fato, os médicos discorrem não apenas com os enfermos, mas também com os sãos, e têm livros sobre este assunto, de um lado sobre como livrar-se da doença, de outro sobre como preservar a saúde. De modo que, ainda que estejamos bem, ainda assim não devemos desistir, mas devemos fazer tudo em ordem a preservar nossa saúde. E quando estamos enfermos, há dupla necessidade de conselho: primeiro, para que sejamos livres da doença; segundo, para que, tendo sido livres, não recaiamos nela novamente. Pois bem, discorremos agora pelo método de tratar os enfermos, não pelas regras de tratamento dos sãos.
Como, pois, poderá alguém arrancar pela raiz esta paixão maligna? Como subjugar esta violenta febre? Vejamos donde teve seu nascimento, e removamos a causa. Donde costuma ela surgir? Da arrogância e de muita soberba. Removamos, pois, esta causa, e a doença é removida juntamente com ela. Mas que é a arrogância? Donde surge ela? Pois talvez sejamos levados a recuar a uma origem ainda mais alta. Mas qualquer que seja o curso que a razão da coisa apontar, tomemo-lo, para que cheguemos ao fundo do mal, e o arranquemos pelas raízes. Donde vem, pois, a arrogância? De não olharmos para nossos próprios assuntos, mas, em vez disso, ocuparmo-nos com a natureza da terra, embora não sejamos lavradores, e a natureza do ouro, embora não sejamos mercadores, e com o vestuário, e tudo o mais; enquanto a nós mesmos e à nossa própria natureza jamais olhamos. E quem, direis, ignora sua própria natureza? Muitos; talvez todos, salvo poucos: e, se quiserdes, vos mostrarei a prova disto. Pois, dizei-me, que é o homem? Se alguém fosse perguntado, será capaz de responder de imediato às questões: em que difere dos brutos, em que é aparentado aos habitantes celestiais, o que pode ser feito do homem? Pois, como no caso de qualquer outra matéria, também neste caso: o homem é a matéria-prima, mas desta pode-se fazer tanto um anjo quanto um animal. Não vos parece isto uma afirmação estranha? E, no entanto, já a ouvistes muitas vezes nas Escrituras. Pois de certos seres humanos foi dito: ele é o anjo do Senhor (Ml 2,7); e de seus lábios, diz, buscarão juízo (Ml 3,1); e ainda: envio Meu anjo diante de Vossa face; mas de alguns: Serpentes, geração de víboras (Mt 12,34). Assim, pois, tudo depende do uso. Por que digo, um anjo? O homem pode tornar-se Deus, e filho de Deus. Pois lemos: Eu disse, sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo (Sl 82,6). E o que é maior, o poder de tornar-se tanto Deus quanto anjo e filho de Deus está posto em suas próprias mãos. Sim, é assim, o homem pode ser o fazedor de um anjo. Talvez este dito vos tenha surpreendido? Ouvi, porém, Cristo dizendo: Na Ressurreição nem se casam nem se dão em casamento, mas são como os anjos (Mt 22,30). E ainda: Quem é capaz de receber, que re— [truncado]
Notai como, a cada passo do reto progresso a respeito dos gentios, o início é trazido como matéria de necessidade. Antes disto, (Pedro), sendo repreendido, justificou-se, e disse tudo quanto disse em tom de apologia, o que foi o que tornou suas palavras aceitáveis; depois, tendo os judeus se desviado, sobre isto (Paulo) veio aos gentios. Aqui, novamente, vendo entrar outra extravagância, sobre isto (o apóstolo) promulga a lei. Pois, como é provável que eles, sendo ensinados por Deus, discorressem a todos indiferentemente, isto moveu a ciúme os que eram dentre os judeus (que haviam crido). E não apenas falavam da circuncisão, mas diziam: nem sequer podeis ser salvos. Ao passo que o inverso é que era o caso: que, recebendo a circuncisão, não poderiam ser salvos. Notais quão de perto se sucedem as provações, de dentro, de fora? Está também bem ordenado que isto aconteça quando Paulo está presente, para que possa responder-lhes. Havendo, pois, Paulo e Barnabé não pequena dissensão e disputa com eles, determinaram que Paulo e Barnabé, e alguns outros dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, acerca desta questão.
Mas observemos mais de perto o que foi dito. E certos homens, etc. Em Jerusalém, pois, não havia crentes dentre os gentios; mas em Antioquia, sem dúvida, havia. Desceram, portanto, alguns que ainda padeciam desta enfermidade do amor de domínio, e que desejavam ter os gentios a eles apegados. E, todavia, Paulo, embora também versado na Lei, não era assim afetado. Havendo, pois, Paulo e Barnabé não pequena contenda com eles, etc.
Observai como, em cada passo do reto progresso a respeito dos gentios, o começo é trazido como matéria de necessidade. Antes disto, tendo sido repreendido, Pedro se justificou, e disse tudo o que disse em tom de apologia, o que foi o que tornou suas palavras aceitáveis; depois, tendo os judeus se desviado, veio então (Paulo) aos gentios. Aqui, de novo, vendo entrar outra extravagância, promulga então (o apóstolo) a lei. Pois, como era provável que eles, sendo ensinados por Deus, discorressem a todos indiferentemente, isto moveu à inveja os dos judeus que haviam crido. E não falavam apenas de circuncisão, mas diziam: Nem sequer podeis ser salvos. Quando o contrário mesmo disto é que era o caso: que, recebendo a circuncisão, não poderiam ser salvos. Observai quão de perto se sucedem as provações, de dentro, de fora? Bem ordenado é também que isto aconteça quando Paulo está presente, para que lhes possa responder. "Havendo, pois, Paulo e Barnabé não pequena dissensão e contenda com eles, determinaram que Paulo e Barnabé, e alguns outros dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, sobre esta questão." (v. 2.) E Paulo não diz: Quê? Não tenho eu direito de ser crido depois de tantos sinais? — mas cedeu por causa deles. "E, sendo acompanhados pela Igreja, atravessaram a Fenícia e Samaria, anunciando a conversão dos gentios: e causaram grande alegria a todos os irmãos." (v. 3.) E observai que a consequência é que todos os samaritanos também aprendem o que sobreveio aos gentios: e se alegraram. "E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela Igreja, e pelos apóstolos e presbíteros, e anunciaram todas as coisas que Deus fizera com eles." (v. 4.) Vede que providência há aqui! "Mas levantaram-se alguns da seita dos fariseus que haviam crido, dizendo que era necessário circuncidá-los, e mandar-lhes guardar a lei de Moisés. E os apóstolos e os presbíteros se reuniram para considerar este assunto. E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e lhes disse: Varões irmãos, sabeis que já há dias Deus fez escolha entre nós, para que os gentios ouvissem pela minha boca a palavra do Evangelho, e cressem." (v. 5-7.) Observai Pedro, desde o início, mantendo-se afastado (kechorismenon) do assunto, e mesmo até agora judaizando. E, contudo (diz ele), "sabeis" (At 10,45; 11,2). Talvez estivessem presentes aqueles que outrora o censuraram no caso de Cornélio, e que com ele entraram (naquela ocasião): por isso os traz à frente como testemunhas. "Já há dias", diz ele, "fez escolha entre vós." Que significa "entre vós"? Ou seja, na Palestina, ou estando vós presentes. "Pela minha boca." Observai como mostra que era Deus quem falava por seu intermédio, e não elocução humana. "E Deus, que conhece os corações, deu testemunho a eles": remete-os ao testemunho espiritual: "dando-lhes o Espírito Santo, como também a nós" (v. 8). Em toda parte ele coloca os gentios em plena igualdade. "E não fez diferença alguma entre nós e eles, purificando os seus corações pela fé" (v. 9). Somente pela fé, diz ele, obtiveram eles os mesmos dons. Isto se destina também como lição àqueles (objetores); isto é capaz de ensinar até a eles que somente a fé é necessária, não as obras nem a circuncisão. Pois, na verdade, não dizem tudo isto apenas a título de apologia pelos gentios, mas para ensinar também (os crentes judeus) a abandonar a Lei. Contudo, por ora isto não se diz. "Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo um jugo sobre a cerviz dos discípulos?" (v. 10). Que significa "tentais a Deus"? Como se Ele não tivesse poder de salvar pela fé. Por conseguinte, procede de uma falta de fé este trazer a Lei. Depois mostra que eles mesmos em nada foram beneficiados por ela, e volta todo (o peso do seu discurso) contra a Lei, não contra eles, e (assim) corta pela raiz a acusação contra eles: "o qual nem nossos pais nem nós pudemos suportar. Mas cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, do mesmo modo que eles" (v. 11). Quão cheias de força estas palavras! O mesmo que Paulo diz amplamente na Epístola aos Romanos, o mesmo diz Pedro aqui. "Pois, se Abraão", diz (Paulo), "foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus" (Rm 4,2). Percebeis que tudo isto é mais uma lição para eles do que uma apologia pelos gentios? Contudo, se ele tivesse dito isto sem uma justificação para falar, seria suspeito: oferecida a ocasião, dela se vale, e fala sem temor. Vede em todas as ocasiões como os desígnios dos inimigos são feitos operar a favor deles. Se aqueles não tivessem suscitado a questão, estas coisas não teriam sido ditas, nem o que se segue. (Recapitulação.) (b) Mas observemos mais de perto o que foi dito. "E certos homens", etc. Em Jerusalém, pois, não havia crentes dentre os gentios; mas em Antioquia, sem dúvida, havia. Desceram, portanto, alguns que ainda padeciam desta enfermidade do amor de domínio, e que desejavam ter os gentios a eles apegados. E, todavia, Paulo, embora também versado na Lei, não era assim afetado. "Havendo, pois, Paulo e Barnabé não pequena contenda com eles", etc. (v. 2). Mas, quando dali regressou, também a doutrina se tornou mais exata. Pois, se aqueles em Jerusalém não ordenam tal coisa, muito mais estes (não têm direito de fazê-lo). "E, sendo acompanhados", etc., "causaram não pequena alegria aos irmãos" (v. 3). Observai como todos os que não estão enamorados de domínio se alegraram com a conversão deles? Não foi sentimento ambicioso o que suscitou seus relatos, nem foi por ostentação, mas em justificação da pregação aos gentios. (v. 4.) Assim, nada dizem do que se passara no caso dos judeus. "Mas levantaram-se alguns da seita dos fariseus que haviam crido", etc. (v. 5). (a) Mas, ainda que quisessem necessariamente trazer os gentios para o seu lado, eles... [truncado]
E Paulo não diz: Quê? Não tenho eu direito de ser crido depois de tantos sinais? Mas cedeu por causa deles. E, sendo acompanhados pela Igreja, atravessaram a Fenícia e Samaria, anunciando a conversão dos gentios: e causaram grande alegria a todos os irmãos.
Mas, quando dali regressou, também a doutrina se tornou mais exata. Pois, se aqueles em Jerusalém não ordenam tal coisa, muito mais estes (não têm direito de fazê-lo). E, sendo acompanhados, etc., causaram não pequena alegria aos irmãos.
E observai que a consequência é que todos os samaritanos também aprendem o que sobreveio aos gentios: e se alegraram. E, quando chegaram a Jerusalém, foram recebidos pela Igreja, e pelos apóstolos e presbíteros, e anunciaram todas as coisas que Deus fizera com eles.
Observai como todos os que não estão enamorados de domínio se alegraram com a conversão deles? Não foi sentimento ambicioso o que suscitou seus relatos, nem foi por ostentação, mas em justificação da pregação aos gentios.
Mas daí de novo estes homens se valem da ocasião (para lograr os seus próprios intentos), mas levantaram-se, etc.
Assim, nada dizem do que sucedera na questão dos judeus. Mas levantaram-se alguns da seita dos fariseus que haviam crido, etc.
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Vede que providência há aqui! Mas levantaram-se alguns da seita dos fariseus que haviam crido, dizendo que era necessário circuncidá-los, e ordenar-lhes que guardassem a lei de Moisés. E reuniram-se os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto. E havendo grande disputa, levantou-se Pedro e disse-lhes: Varões irmãos, vós sabeis como já há tempo Deus fez escolha entre nós, para que os gentios, por minha boca, ouvissem a palavra do Evangelho e cressem.
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(a) Mas ainda que quisessem, por necessidade, trazer os gentios para o seu partido, aprendem que tampouco os Apóstolos o deveriam ignorar. E os Apóstolos e os anciãos, etc.
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Entre nós, diz ele, Deus escolheu: e desde os dias antigos: há muito, diz ele, não agora. E isto também não é ponto de pouca monta — num tempo em que os judeus criam, e não se haviam desviado (do Evangelho). Entre nós; argumento tirado do lugar: desde os dias antigos, tirado do tempo. E esta expressão, Escolheu: assim como em seu próprio caso não diz, quis, mas, Escolheu que os gentios, por minha boca, ouvissem a palavra do Evangelho e cressem. Donde se prova isto? Do Espírito. Em seguida mostra que o testemunho a eles dado não é de graça somente, mas de sua virtude. E Deus, que conhece os corações, deu-lhes testemunho.
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Observai Pedro, desde o princípio, mantendo-se afastado (κεχωρισμένον) do assunto, e até este momento judaizando. E, contudo (diz ele), vós sabeis. cf. At 10.45; 11.2 Talvez estivessem presentes aqueles que outrora o haviam censurado no caso de Cornélio, e com ele entraram (naquela ocasião): por esta razão os traz como testemunhas. Desde os dias antigos, diz ele, fez escolha entre vós. Que significa, Entre vós? Ou na Palestina, ou estando vós presentes. Por minha boca. Observai como mostra que era Deus quem falava por ele, e não elocução humana. E Deus, que conhece os corações, deu-lhes testemunho: remete-os ao testemunho espiritual: dando-lhes o Espírito Santo, assim como a nós.
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não lhes tendo concedido nada menos (do que a nós), pois, diz ele, Não fazei diferença entre nós e eles.
Em toda parte ele coloca os gentios em plena igualdade. E não fez distinção alguma entre nós e eles, tendo purificado os seus corações pela fé.
Somente pela fé, diz ele, obtiveram eles os mesmos dons. Isto se destina também a ensinar aos que objetam; é capaz de ensinar até a estes que somente a fé é necessária, não as obras nem a circuncisão. Pois, na verdade, não dizem tudo isto apenas a título de defesa dos gentios, mas para ensinar também aos crentes judeus a abandonar a Lei. Contudo, ao presente isto não se diz. Por que, pois, tentais a Deus, para pôr um jugo sobre o pescoço dos discípulos?
Por que, pois, é aos corações que se deve olhar em toda parte. E muito apropriadamente se diz: Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho — como no caso anterior: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos os homens (At 1,24). Pois, para mostrar que este é o sentido, observai o que ele acrescenta: Não fez distinção alguma entre nós e eles. Depois de mencionar o testemunho que lhes foi prestado, profere então aquela grande sentença, a mesma que Paulo pronuncia: Nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão (1 Cor 7,19); para fazer dos dois um só em Si mesmo (Ef 2,5). De tudo isto jazem as sementes no discurso de Pedro. E não diz «entre eles», os da circuncisão, mas Entre nós, isto é, os Apóstolos, e eles. Depois, para que a expressão nenhuma distinção não pareça uma afronta, acrescenta: Depois da fé, diz ele — tendo purificado os seus corações pela fé.
Ele os purificou totalmente primeiro. Depois mostra, não que a Lei era má, mas que eles próprios eram fracos — Mas cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, assim como também eles.
Que significa: Tentais a Deus? Como se Ele não tivesse poder para salvar pela fé. Por conseguinte, procede de uma falta de fé este trazer à tona a Lei. Depois mostra que eles próprios em nada foram beneficiados por ela, e volta todo o peso do seu discurso contra a Lei, não contra eles, e assim abrevia a acusação contra eles: a qual nem nossos pais nem nós pudemos suportar. Mas cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, assim como também eles.
Notai como ele termina com uma consideração temível. Não discorre a eles a partir dos Profetas, mas a partir de coisas presentes, das quais eles próprios eram testemunhas. É claro que (os Profetas) também acrescentam logo em seguida o seu próprio testemunho (infra v. 15), e tornam a razão mais forte pelo que agora se cumpriu. E observai, primeiro ele permite que a questão seja suscitada na Igreja, e só então fala. E não fez distinção alguma entre — não disse «eles, os da circuncisão», mas nós e eles, isto é, os gentios: pois este avanço gradual, pouco a pouco, é mais forte. Por que, pois, tentais a Deus? — que Se tornou Deus dos gentios: pois isto era tentar: *** se Ele é capaz de salvar mesmo depois da Lei. Vede o que ele faz. Mostra que eles estão em perigo. Pois, se o que a Lei não pôde fazer, a fé teve poder para fazer, cremos que pela graça do Senhor Jesus seremos salvos, assim como também eles: mas, decaindo a fé, eis que eles próprios estão em perdição. E não disse: Por que descreis? — o que seria mais duro —, mas: Tentais a Deus, e isto quando o fato está demonstrado.
Grande é este descaramento dos fariseus, que mesmo depois da fé erguem a Lei, e não querem obedecer aos Apóstolos. Mas vede estes, quão mansamente falam, e não em tom de autoridade: tais palavras são amáveis, e mais aptas a fixar-se na mente. Observai, em nenhuma parte há exibição de palavras, mas demonstração por fatos, pelo Espírito. E, no entanto, ainda que tenham tais provas, falam ainda assim brandamente. E observai que não vêm acusando os de Antioquia, mas declarando todas as coisas que Deus havia feito com eles:
Quão cheias de poder são estas palavras! O mesmo que Paulo diz largamente na Epístola aos Romanos, o mesmo diz Pedro aqui. Pois, se Abraão, diz (Paulo), foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus (Rm 4,2). Percebeis que tudo isto é mais uma lição para eles do que uma defesa dos gentios? Contudo, se ele tivesse dito isto sem um pretexto para falar, teria sido suspeito: oferecendo-se uma ocasião, dela se apodera, e fala sem temor. Vede em toda ocasião como os desígnios dos seus adversários são feitos para trabalhar a seu favor. Se aqueles não tivessem suscitado a questão, estas coisas não teriam sido ditas, nem o que se segue.
Não havia arrogância na Igreja. Depois de Pedro fala Paulo, e ninguém o faz calar: Tiago espera pacientemente, não se antecipa (à próxima palavra). Grande é a ordem (do procedimento). Nenhuma palavra fala João aqui, nenhuma palavra os demais Apóstolos, mas guardaram silêncio, pois Tiago estava investido do principado, e não o julgam penoso. Tão limpa estava a alma deles do amor à glória. E depois que guardaram silêncio, respondeu Tiago, etc.
(b) Pedro, na verdade, falou com mais veemência, mas Tiago aqui, mais brandamente: pois assim convém a quem está investido de alta autoridade, deixar a outros o que é desagradável dizer, enquanto ele próprio se apresenta na parte mais branda. (a) Mas que significa: Como Deus primeiro (πρῶτον) visitou?
Este (Tiago) era bispo, como dizem, e por isso fala por último, e nisto se cumpre aquele dito: "Pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra" (Dt 17:6; Mt 18:16). Mas observai também a discrição por ele demonstrada, ao fundamentar seu argumento nos profetas, tanto novos quanto antigos. Pois ele não tinha atos próprios a relatar, como tinham Pedro e Paulo. E, de fato, sabiamente se ordena que essa parte (a ativa) seja atribuída àqueles que não estavam destinados a permanecer fixos em Jerusalém, ao passo que este (Tiago), que desempenha o papel de mestre, não é de modo algum responsável pelo que fora feito, embora não esteja dividido deles quanto à opinião.
(b) "Varões irmãos," diz ele, "ouvi-me." Grande é a moderação do homem. Sua também é a oração mais completa, pois é ela que dá à questão em discussão a sua conclusão. (a) "Simeão," diz ele, "relatou": (a saber,) em Lucas, quando profetizou: "A qual preparaste diante da face de todos os povos, luz para iluminar os gentios, e glória do teu povo Israel." (c) "Como Deus primeiro visitou os gentios, para tomar dentre eles um povo para o seu Nome" (Lc 2:25). Depois, visto que essa testemunha, embora manifesta desde certo tempo, não tinha autoridade por não ser antiga, ele traz também a profecia antiga, dizendo: "E com isto concordam as palavras dos Profetas, como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído; e reedificarei as suas ruínas, e o restaurarei" (v. 16). Quê? Acaso Jerusalém foi levantada? Não foi antes derrubada? Que espécie de restauração chama ele aquela que se deu depois do retorno da Babilônia? "Para que o restante dos homens," diz ele, "busque ao Senhor, sim, todos os gentios sobre os quais é invocado o meu Nome" (v. 17). Depois, o que torna sua palavra autorizada: "Diz o Senhor, que faz todas estas coisas"; e, para que se veja que isto não é coisa nova, mas tudo foi planejado desde o princípio: "Conhecidas são de Deus, desde a eternidade, todas as suas obras" (v. 18). E então, novamente, a sua autoridade (kai to axioma palin) (como Bispo): "Por isso, o meu parecer é que não perturbemos os que dentre os gentios se convertem a Deus; mas que lhes escrevamos que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue. Porque Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade os que o pregam, sendo lido nas sinagogas todos os sábados" (v. 19-21). Visto, pois, que eles tinham ouvido falar da Lei, com boa razão ele lhes impõe estas coisas a partir da Lei, para que não pareça torná-la sem autoridade. E, no entanto, observai como ele não deixa que lhes seja dito que estas coisas vêm da Lei, mas de si mesmo, dizendo: não é que eu tenha ouvido estas coisas da Lei, mas como? "Julgamos." Depois, o decreto é feito em comum. "Então pareceu bem aos Apóstolos e aos anciãos, com toda a Igreja, escolher homens dentre eles" — observais que eles não apenas decretam estas coisas, e nada mais? — "e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé: a saber, Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens principais entre os irmãos; e escreveram por meio deles cartas nestes termos" (v. 22). E observai: para melhor autenticar o decreto, enviam homens seus próprios, para que não haja lugar a suspeitar de Paulo e de seus companheiros. "Os Apóstolos, e os anciãos, e os irmãos, aos irmãos dentre os gentios que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia, saudação" (v. 23). E notai com que moderação, isenta de todo vitupério áspero contra aqueles (irmãos), redigem a epístola. "Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, transtornando as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a Lei, aos quais não demos tal mandamento" (v. 24). Suficiente era esta acusação contra a temeridade daqueles homens, e digna da moderação dos Apóstolos, que nada disseram além disto. Depois, para mostrar que não agem despoticamente, que todos estão de acordo nisto, que com deliberação escrevem isto — "pareceu-nos bem, reunidos de comum acordo, enviar homens escolhidos por nós" (v. 25) — depois, para que não pareça um desprezo a Paulo e Barnabé o fato de serem enviados aqueles homens, observai o elogio que lhes é feito — "juntamente com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, pois, Judas e Silas, que também de viva voz vos anunciarão as mesmas coisas. Porque pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" — não é obra do homem, diz — "não vos impor maior encargo" — de novo chama a Lei de encargo: depois, desculpando-se ainda por estas prescrições — "senão estas coisas necessárias" (v. 26-28): "que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, do que é sufocado e da fornicação; guardando-vos destas coisas, fareis bem" (v. 29). Pois estas coisas o Novo Testamento não as prescreveu: em nenhum lugar encontramos que Cristo tenha discorrido sobre estas matérias; mas estas coisas eles as tomam da Lei. "Do que é sufocado," diz, "e do sangue." Aqui se proíbe o homicídio (cf. Gn 9:5). "Assim, despedidos, desceram a Antioquia; e, reunindo a multidão, entregaram a epístola; a qual, tendo sido lida, alegraram-se pela consolação" (v. 30-31). Depois, também aqueles (irmãos) os exortaram; e, havendo-os confirmado — pois para com Paulo estavam dispostos a contender —, partiram deles em paz. "E Judas e Silas, sendo eles mesmos também profetas, exortaram os irmãos com muitas palavras, e os confirmaram. E, depois de terem ali permanecido algum tempo, foram deixados partir em paz da parte dos irmãos para os Apóstolos" (v. 32-33). Já não mais facções e contendas, mas dali por diante ensinava Paulo.
(Recapitulação.) "Então toda a multidão se calou," etc. (v. 12). Não havia arrogância na Igreja. Depois de P [truncado]
(Significa) desde o princípio (ἐξ ἀρχῆς). (c) Além disso, ele diz bem: Simeão expôs (ἐξηγήσατο) (ou, interpretou), dando a entender que também ele falava o pensamento dos demais. E com isto concordam, etc. Observai como ele mostra que esta é uma doutrina antiga. Tomar dentre os gentios, diz ele, um povo para o seu Nome.
Não simplesmente, Escolheu, mas, para o seu Nome, isto é, para a sua glória. O seu Nome não é envergonhado pela preferência (προλήψει) dada primeiramente aos gentios, antes é ainda maior glória. — Aqui se insinua até mesmo algo grande: que estes são escolhidos antes de todos. Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído.
E, depois que se calaram, respondeu Tiago, dizendo: Varões irmãos, ouvi-me: Simeão relatou como Deus primeiro visitou os gentios, para tomar dentre eles um povo para o seu nome. E com isto concordam as palavras dos profetas.
Este (Tiago) era bispo, como dizem, e por isso fala por último, e nisto se cumpre aquele dito: Pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra (Dt 17:6; Mt 18:16). Mas observai também a discrição por ele demonstrada, ao fundamentar seu argumento nos profetas, tanto novos quanto antigos. Pois ele não tinha atos próprios a relatar, como tinham Pedro e Paulo. E, de fato, sabiamente se ordena que essa parte (a ativa) seja atribuída àqueles que não estavam destinados a permanecer fixos em Jerusalém, ao passo que este (Tiago), que desempenha o papel de mestre, não é de modo algum responsável pelo que fora feito, embora não esteja dividido deles quanto à opinião. (b) Varões irmãos, diz ele, ouvi-me. Grande é a moderação do homem. Sua também é a oração mais completa, pois é ela que dá à questão em discussão a sua conclusão. (a) Simeão, diz ele, relatou: (a saber,) em Lucas, quando profetizou: A qual preparaste diante da face de todos os povos, luz para iluminar os gentios, e glória do teu povo Israel. (c) Como Deus primeiro visitou os gentios, para tomar dentre eles um povo para o seu Nome (Lc 2:25). Depois, visto que essa testemunha, embora manifesta desde certo tempo, não tinha autoridade por não ser antiga, ele traz também a profecia antiga, dizendo: E com isto concordam as palavras dos Profetas, como está escrito: Depois disto voltarei, e reedificarei o tabernáculo de Davi, que está caído; e reedificarei as suas ruínas, e o restaurarei.
Mas se alguém examinar a questão com atenção, o reino de Davi de fato subsiste agora, reinando por toda parte a sua Descendência. Pois que proveito há nos edifícios e na cidade, se ali ninguém obedece? E que dano provém da destruição da cidade, quando todos estão dispostos a entregar a própria alma? Eis que veio Aquele que é mais ilustre que Davi: em todas as partes do mundo é ele agora cantado. Isto se cumpriu: se assim é, também isto há de se cumprir: E reedificarei as suas ruínas, e as restaurarei: para quê? Para que o restante dos homens busque o Senhor, e todos os gentios, sobre os quais é invocado o Meu Nome.
Quê? Acaso foi Jerusalém reerguida? Não foi antes derrubada? Que espécie de reerguimento chama ele àquilo que se deu após o retorno da Babilônia? Para que o restante dos homens, diz ele, busque o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais é invocado o Meu Nome.
Depois, o que torna a sua palavra autorizada — Diz o Senhor, que faz todas estas coisas: e, para que isto não pareça coisa nova, mas que tudo foi planejado desde o princípio, Conhecidas são de Deus, desde a eternidade, todas as Suas obras.
Se, pois, foi para este fim que a cidade se reergueu, a saber, por causa d'Aquele que dela havia de vir, isto mostra que a causa da edificação da cidade é o chamamento dos gentios. Quem é o restante? Aqueles que então ficam. E todos os gentios, sobre os quais é invocado o Meu Nome: mas observai como ele guarda a devida ordem, trazendo-os em segundo lugar. Diz o Senhor, que faz estas coisas. Não apenas diz, mas faz. Por que, pois, era obra de Deus. — Mas a questão é outra, a saber, o que Pedro falou mais claramente, se deviam ser circuncidados. Por que, então, discorres sobre estas coisas? Pois o que os opositores afirmavam não era que não deviam ser recebidos ao crerem, mas que isso devia ser com a Lei. E quanto a isto Pedro bem argumentou: mas então, como esta mesma questão, mais que qualquer outra, perturbava os ouvintes, por isso ele novamente a põe em ordem (θεραπεύει). E observai que aquilo que era necessário estabelecer como regra, a saber, que não é necessário guardar a Lei, isto Pedro introduziu: mas a parte mais branda, a verdade que fora recebida desde antigo, isto diz Tiago, e se detém naquilo sobre o qual nada está escrito, a fim de que, tendo aplacado os ânimos deles por meio daquilo que já era reconhecido, pudesse oportunamente introduzir isto também. Por isso, diz ele, a minha sentença é que não se perturbe aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus
E então, novamente, a sua autoridade (καὶ τὸ ἀξίωμα πάλιν) (como Bispo): Por isso, a minha sentença é que não perturbemos aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus: mas que lhes escrevamos que se abstenham da contaminação dos ídolos, da fornicação, dos sufocados e do sangue. Pois Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade os que o pregam, sendo lido nas sinagogas todo sábado.
isto é, não subverter: pois, se Deus os chamou, e estas observâncias os subvertem, lutamos contra Deus. E de novo, aqueles que, dentre os gentios, diz ele, se convertem. E diz bem, com autoridade, a minha sentença é. Mas que lhes escrevamos que se abstenham das contaminações dos ídolos e da fornicação — (b) e, no entanto, insistiam com frequência nestes pontos ao discorrer com eles — mas, para que parecesse também honrar a Lei, menciona estas coisas, falando, contudo, não como da parte de Moisés, mas dos Apóstolos; e, para multiplicar os mandamentos, dividiu um em dois, dizendo: e dos sufocados, e do sangue.
Pois estas, ainda que relativas ao corpo, era necessário observá-las, porque tais coisas causavam grandes males. Pois Moisés tem, desde tempos antigos, em cada cidade, etc.
Isto, sobretudo, os tranquilizou. (ἀνέπαυσεν) Por esta causa afirmo que é bom (escrever-lhes assim). Por que, então, não escrevemos as mesmas injunções também aos judeus? Moisés discorre entre eles. Vede que condescendência (para com a sua fraqueza)! Onde isso não causava dano nenhum, ele o estabeleceu como mestre, e concedeu-lhes uma satisfação que em nada prejudicava, permitindo que os judeus o ouvissem a respeito destas coisas, ao mesmo tempo em que afastava dele os gentios. Vede que sabedoria! Parece honrá-lo e estabelecê-lo como autoridade para o seu próprio povo, e por isto mesmo afasta dele os gentios. Sendo lido nas sinagogas todo sábado. Por que, então, não aprendem (o que se deve aprender) a partir dele, por exemplo * *? Por causa da perversidade destes homens. Ele mostra que mesmo estes (os judeus) não precisam observar mais (do que estas coisas necessárias). E se não lhes escrevemos, não é porque estejam obrigados a observar coisa alguma a mais, mas apenas porque têm quem lhas diga. E não diz "para não os ofender", nem "para não os fazer retroceder", que é o que Paulo disse aos gálatas, mas "para não os perturbar": mostra que o êxito (κατόρθωμα), se levado adiante, nada mais é do que uma mera perturbação. Assim ele pôs fim a toda a questão; e, ao mesmo tempo em que parece preservar a Lei ao adotar destas regras, dissolve-a ao tomar apenas estas. Houve também um desígnio da Providência na disputa, para que, depois da disputa, a doutrina se tornasse mais firme. Pareceu bem, então, aos Apóstolos enviar homens escolhidos dentre sua própria companhia, etc., não pessoas quaisquer, mas os homens principais; tendo escrito (cartas) por meio deles desta maneira. Aos que estão em Antioquia, diz, e na Síria e na Cilícia.
Visto, pois, que tinham ouvido falar da Lei, com boa razão ele lhes prescreve estas coisas a partir da Lei, para que não pareça reduzi-la a nada. E (contudo) observai como ele não permite que estas coisas lhes sejam ditas a partir da Lei, mas de si mesmo, dizendo: não é que eu tenha ouvido estas coisas da Lei, mas como? Pareceu-nos bem. Então o decreto é feito em comum. Pareceu bem, pois, aos Apóstolos e aos anciãos, juntamente com toda a Igreja, escolher homens de sua própria companhia — observais como eles não apenas decretam estas matérias e nada mais? — e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé: a saber, Judas, cognominado Barsabás, e Silas, homens principais entre os irmãos: e escreveram cartas por meio deles desta maneira.
E observai: para melhor autenticar o decreto, enviam homens de sua própria companhia, para que não haja lugar a suspeitar de Paulo e dos seus. Os Apóstolos, e os anciãos, e os irmãos enviam saudações aos irmãos dentre os gentios que estão em Antioquia, na Síria e na Cilícia.
onde a doença teve o seu nascimento. Observai como eles nada dizem de mais duro (φορτικώτερον) contra aqueles homens, mas atentam a uma só coisa, a saber, desfazer o mal que fora feito. Pois isto faria até os agitadores da facção ali confessarem (que estavam errados). Não dizem "os sedutores", "os pestilentos", ou coisas semelhantes: ainda que, quando é necessário, Paulo faça isso, como quando diz "ó cheio de toda astúcia" (At 13,10); mas aqui, sendo o ponto já alcançado, não havia necessidade. E observai: não põem que "certos dentre nós vos ordenaram guardar a Lei", mas "vos perturbaram com palavras, subvertendo as vossas almas" — nada poderia ser dito com mais propriedade (κυριώτερον) do que esta palavra: nenhum (dos outros oradores) falou assim das coisas feitas por aqueles homens. As almas, diz ele, já solidamente estabelecidas, estes homens são ἀνασκευάζοντες, como quem fala de um edifício, desmontando-o de novo: deslocando-as (μετατιθέντες) do fundamento. A quem, diz ele, não demos tal mandamento. Pareceu-nos bem, portanto, reunidos de comum acordo, enviar-vos homens escolhidos, juntamente com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
E notai com que abstinência de toda áspera vituperação daqueles (irmãos) redigem a sua epístola. Porquanto ouvimos que alguns que saíram de nós vos perturbaram com palavras, subvertendo as vossas almas, dizendo: é necessário que sejais circuncidados e guardeis a Lei; aos quais não demos tal mandamento.
Suficiente era esta acusação contra a temeridade daqueles homens, e digna da moderação dos Apóstolos, que nada dissessem além disto. Depois, para mostrar que não agem despoticamente, que todos estão de acordo nisto, escrevem com deliberação: pareceu-nos bem, reunidos de comum acordo, enviar homens nossos, que escolhemos.
depois, para que não pareça desprezo de Paulo e Barnabé o serem enviados aqueles homens, observai o elogio que lhes é feito: juntamente com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e Silas, que também vos anunciarão de viva voz as mesmas coisas. Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós — não é obra de homem, diz — não vos impor maior encargo — de novo chama a Lei de encargo — além destas coisas necessárias.
Se são amados, não os desprezarão; se arriscaram a própria vida, têm eles mesmos direito a ser cridos. Dizemos, diz o texto, enviamos Judas e Silas, os quais vos dirão também as mesmas coisas de viva voz.
Pois era necessário que não houvesse ali apenas a Epístola por si mesma, para que não dissessem que Paulo e Barnabé haviam suprimido (o verdadeiro teor), afirmando uma coisa em lugar de outra. O elogio tecido a Paulo lhes fechou a boca. Eis, pois, a razão pela qual nem Paulo vem sozinho, nem Barnabé (com ele), mas também outros da parte da Igreja; para que não seja suspeitado, visto ser ele quem defendia aquela doutrina: nem tampouco apenas os de Jerusalém. Isso mostra que têm direito a ser cridos. Pois pareceu bem, dizem eles, ao Espírito Santo e a nós.
não se fazendo iguais (a Ele) — não estão eles tão loucos assim. Mas por que assim o expõe? Por que acrescentaram: E a nós, sendo que bastaria dizer: Ao Espírito Santo? Uma coisa, Ao Espírito Santo, para que não julgassem ser coisa de homem; outra, E a nós, para que se ensinasse que eles próprios também admitem (os gentios), ainda que estando eles mesmos na circuncisão. Têm de falar a homens que ainda são fracos e temerosos deles: eis a razão pela qual isso também é acrescentado. E mostra que não é por condescendência que falam, nem porque os poupassem, nem por considerá-los fracos, mas ao contrário; pois grande era também a reverência dos mestres. Não vos impor maior fardo — sempre o chamam de fardo — e novamente, salvo estas coisas necessárias: pois aquilo era um fardo supérfluo. Vede aqui uma epístola breve, sem nada mais nela (do que o necessário), nem artifícios de persuasão (κατασκευὰς) nem raciocínios, mas simplesmente um mandamento: pois era o Espírito quem legislava. Assim, tendo sido despedidos, vieram a Antioquia, e, reunindo a multidão, entregaram-lhes a epístola.
Que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e das coisas sufocadas, e da fornicação; das quais, se vos guardardes, fareis bem.
Pois estas coisas o Novo Testamento não ordenou: em parte alguma encontramos que Cristo tenha discorrido sobre estas matérias; mas estas coisas eles as tomam da Lei. Das coisas sufocadas, diz, e do sangue. Aqui proíbe o homicídio. cf. Gênesis 9:5. Assim, tendo sido despedidos, vieram a Antioquia: e, reunindo a multidão, entregaram a epístola: a qual, tendo lido, alegraram-se pela consolação.
Então também aqueles irmãos os exortaram: e havendo-os confirmado — pois estavam contenciosamente dispostos para com Paulo — partiram deles em paz. E Judas e Silas, sendo eles mesmos também profetas, exortaram os irmãos com muitas palavras e os confirmaram. E depois de terem ali permanecido algum tempo, foram deixados partir em paz pelos irmãos rumo aos Apóstolos.
Pois isto também era necessário, que (Paulo e Barnabé) ficassem livres de toda suspeita. Sendo eles mesmos também profetas, diz, exortaram os irmãos com muitas palavras. Mostra aqui o direito que Paulo e Barnabé têm de ser cridos. Pois também Paulo poderia ter feito isto, mas convinha que fosse feito por estes. E depois de terem ali permanecido algum tempo, foram deixados partir em paz.
Não mais facção. Nesta ocasião, suponho, foi que receberam a destra, como ele mesmo diz: Deram a mim e a Barnabé as destras da comunhão (Gl 2,9). Ali diz: Nada me acrescentaram (Gl 2,6). Pois confirmaram o seu parecer: louvaram-no e admiraram-no. — Mostra que até por raciocínios humanos é possível ver isto, para não dizer apenas pelo Espírito Santo, que pecaram um pecado não fácil de corrigir. Pois tais coisas não necessitam do Espírito. — Mostra que o restante não é necessário, mas supérfluo, visto que estas coisas são necessárias. Das quais, se vos guardardes, diz, fareis bem. Mostra que nada lhes falta, mas isto é suficiente. Pois poderia ter sido feito também sem cartas, mas para que haja uma lei por escrito (enviam esta Epístola): novamente, para que obedeçam à lei, os Apóstolos também disseram a estes homens as mesmas coisas, e fizeram isto, e os confirmaram, e havendo permanecido algum tempo foram deixados partir em paz.
Não nos escandalizemos, pois, por causa dos hereges. Pois vede, já aqui, no próprio início da pregação, quantos escândalos houve: não falo dos que surgiram dos que estavam de fora, pois estes nada eram; mas dos escândalos que estavam dentro. Por exemplo, primeiro Ananias, depois a murmuração, depois Simão o feiticeiro; em seguida os que acusaram Pedro por causa de Cornélio, depois a fome, por último isto mesmo, o principal dos males. Pois de fato é impossível que, quando sucede algum bem, não subsista também com ele algum mal. Não nos perturbemos, pois, se alguns se escandalizam, mas agradeçamos a Deus até por isto, porque nos torna mais aprovados. Pois não somente as tribulações, mas também as tentações nos tornam mais ilustres. Não é grande amante da verdade aquele que a ela se apega apenas quando não há quem o desvie dela: apegar-se à verdade quando muitos o arrastam para longe dela, isto faz o homem aprovado. Que, pois? É por isto que vêm os escândalos? Não falo como se Deus fosse o autor deles: longe disso! Mas quero dizer que até da malícia deles Ele opera o bem para nós: nunca foi Sua vontade que surgissem; Concede-lhes, diz Ele, que sejam um (Jo 17,21): mas visto que os escândalos de fato vêm, não são dano para estes, mas até proveito: assim como os perseguidores, contra a vontade, beneficiam os mártires ao arrastá-los ao martírio, e contudo não são movidos a isto por Deus; assim também é aqui. Não olhemos apenas para isto, que os homens se escandalizam: isto mesmo é já uma prova da excelência da doutrina — que muitos a estimulem e a falsifiquem: pois não seria assim, se não fosse boa. E isto mostrarei agora, e tornarei manifesto a vós por todos os lados. Dos perfumes, são as especiarias fragrantes que as pessoas adulteram e falsificam; como, por exemplo, a folha de âmomo. Pois, porque estas são raras e de uso necessário, por isso é que surgem também imitações espúrias. Ninguém se importaria em falsificar qualquer artigo comum. A vida pura recebe muitos falsos pretendentes: ninguém se importaria em falsificar o homem de vida viciosa; não, mas sim o homem de vida monástica. — Que diremos, pois, aos gentios? Vem um gentio e diz: desejo tornar-me cristão, mas não sei a quem me unir: há muita luta e facção entre vós, muita confusão: qual doutrina hei de escolher? Como lhe responderemos? Cada um de vós (diz ele) afirma: "eu digo a verdade". (b) Sem dúvida: isto está a nosso favor. Pois se vos disséssemos para vos deixardes persuadir por argumentos, poderíeis bem estar perplexos: mas se vos ordenamos crer nas Escrituras, e estas são simples e verdadeiras, a decisão vos é fácil. Se alguém concorda com as Escrituras, este é o cristão; se alguém luta contra elas, está longe desta regra. (a) Mas em qual hei de crer, não conhecendo eu absolutamente nada das Escrituras? Os outros também alegam o mesmo a seu favor. Que, pois, (c) se o outro vier e disser que a Escritura contém isto, e tu que contém algo diferente, e interpretais as Escrituras diversamente, arrastando o seu sentido cada um a seu modo? E tu, pergunto, não tens entendimento, nenhum juízo? E como poderia eu, diz ele, decidir, eu que nem sequer sei julgar as vossas doutrinas? Desejo tornar-me discípulo, e vós me fazeis logo mestre. Se ele disser isto, que, dizeis, havemos de lhe responder? Como o persuadiremos? Perguntemos se tudo isto não é mero pretexto e subterfúgio. Perguntemos se ele já decidiu (κατέγνωκε) contra os gentios, que estão errados. O fato ele certamente afirmará, pois, evidentemente, se não tivesse assim decidido, não teria vindo indagar sobre os nossos assuntos: perguntemos os fundamentos sobre os quais decidiu, pois certamente não resolveu a questão de improviso. Claramente dirá: Porque (os deuses deles) são criaturas, e não o Deus increado. Bem. Se, pois, ele encontrar isto nas outras seitas (αἱρέσεις), mas entre nós o contrário, que argumento mais necessitamos? Todos nós confessamos que Cristo é Deus. Mas vejamos quem luta contra esta verdade, e quem não. Ora, nós, afirmando que Ele é Deus, dizemos dEle coisas dignas de Deus: que tem poder, que não é escravo, que é livre, que age por Si mesmo; ao passo que o outro afirma o contrário. Pergunto de novo: se quiseres aprender a ser médico...? E contudo entre eles há muitas doutrinas diversas. Pois se aceitas sem mais aquilo que te é dito, isto não é agir como homem: mas se tens juízo e discernimento, saberás certamente o que é bom. Nós afirmamos que o Filho é Deus, e verificamos (ἐπαληθεύομεν) o que afirmamos: mas eles afirmam, sim, porém de fato não confessam. — Mas, para mencionar algo ainda mais claro: aqueles têm certas pessoas de quem tomam o nome, mostrando abertamente o nome do próprio heresiarca, e cada heresia do mesmo modo: entre nós, ninguém nos deu nome algum, senão a própria fé. Todavia, isto (que dizeis) é mera pre... [truncado]
Paulo também e Barnabé permaneceram em Antioquia, ensinando e pregando a palavra do Senhor, juntamente com muitos outros também.
Observai novamente a humildade deles, como deixam também outros tomar parte na pregação. E, alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos e visitemos nossos irmãos em cada cidade em que anunciamos a palavra do Senhor, e vejamos como estão. E Barnabé determinou levar consigo João, cognominado Marcos. Mas Paulo não julgou bom levá-lo consigo, pois este se apartara deles desde a Panfília, e não fora com eles à obra. E foi tão áspera a contenção (ou exasperação) entre eles, que se apartaram um do outro.
Não simplesmente permaneceram em Antioquia, mas ensinavam. Que ensinavam, e que pregavam (evangelizavam)? Ensinavam os que já eram crentes, e evangelizavam os que ainda não o eram. E alguns dias depois, etc.
Observai novamente a humildade deles, como deixam também outros tomar parte na pregação. "E, alguns dias depois, disse Paulo a Barnabé: Voltemos e visitemos nossos irmãos em cada cidade em que anunciamos a palavra do Senhor, e vejamos como estão. E Barnabé determinou levar consigo João, cognominado Marcos. Mas Paulo não julgou bom (ἠξίου, cf. nota 3, p. 213) levá-lo consigo, pois este se apartara deles desde a Panfília, e não fora com eles à obra. E foi tão áspera a contenção (ou exasperação) entre eles, que se apartaram um do outro" (v. 36-39). E já Lucas nos havia descrito o caráter dos Apóstolos, que um era mais terno e indulgente, mas este mais rigoroso e austero. Pois os dons são diversos — (os dons, digo), pois que isto seja um dom é manifesto — mas um convém a um, outro a outro conjunto de caracteres, e se trocam de lugar, resulta dano em vez de proveito. (b) Também nos Profetas encontramos isto: mentes diversas, caracteres diversos: por exemplo, Elias austero, Moisés manso. Assim também aqui Paulo é mais veemente. E observai, apesar de tudo, quão brando ele é. "Não julgou bom", diz, "levar consigo aquele que se apartara deles desde a Panfília." (a) E parece de fato haver exasperação (paroxusmos), mas na verdade todo o assunto é um plano da Divina Providência, para que cada um recebesse seu lugar próprio: e convinha que não estivessem em pé de igualdade, mas que um conduzisse, e o outro fosse conduzido. "E assim Barnabé tomou Marcos, e navegou para Chipre; e Paulo escolheu Silas, e partiu, recomendado pelos irmãos à graça de Deus. E percorreu a Síria e a Cilícia, confirmando as Igrejas" (v. 39-41). E isto também é obra da Providência. Pois os cípricos não haviam mostrado nada de semelhante ao que os de Antioquia e os demais mostraram: e estes necessitavam do caráter mais brando, mas aqueles necessitavam de um caráter como o de Paulo. "Qual, então", dizeis, "procedeu bem? o que tomou, ou o que deixou?" *** (c) Pois assim como um general não escolheria ter sempre uma pessoa de baixo valor como seu carregador de bagagem, tampouco o Apóstolo o escolheria. Isto corrigiu o outro, e instruiu (Marcos) a si mesmo. "Fez, então, Barnabé mal?", dizeis. "E como não é isto absurdo (atopon), que por assunto tão pequeno surgisse tão grande mal?" Em primeiro lugar, então, nenhum mal de fato resultou, se, bastando cada um para nações inteiras, foram divididos um do outro, senão um grande bem. E além disso, não teriam facilmente escolhido deixar um ao outro. Mas admirai, peço-vos, o escritor, como não oculta isto tampouco. "Mas, ao menos", dizeis, "se era necessário separarem-se, que fosse sem exasperação." Não, mas se nada mais, observai isto, que também nisto se mostra o que era humano (na pregação do Evangelho). Pois se convinha que semelhante coisa se mostrasse até no que Cristo fez, muito mais aqui. E além disso, não se pode dizer que a contenção seja má, quando cada um disputa por tais objetos (como aqui) e com justa razão. Concedo-vos que, se a exasperação estivesse em buscar o próprio interesse, e contender pela própria honra, isto bem poderia ser (reprovado): mas se, desejando ambos, um e outro, instruir e ensinar, um tomou este caminho e o outro aquele, que há aí para censurar? Pois em muitas coisas agiram segundo seu juízo humano; pois não eram troncos ou pedras. E observai como Paulo acusa (Marcos), e dá a razão. Pois, por sua extrema humildade, reverenciava a Barnabé, como tendo sido seu companheiro em tão grandes obras, e estando com ele: mas contudo não o reverenciava a ponto de negligenciar (o que era necessário). Ora, qual deles aconselhou melhor, não nos cabe pronunciar: mas até aqui (podemos afirmar), que foi grande disposição da Providência, se a estes fosse concedida uma segunda visitação, mas àqueles não fosse concedida sequer uma vez. (a) "Ensinando e pregando a palavra do Senhor" (v. 35). Não simplesmente permaneceram em Antioquia, mas ensinavam. Que "ensinavam", e que "pregavam" (evangelizavam)? Ensinavam os que já eram crentes, e evangelizavam os que ainda não o eram. "E alguns dias depois", etc. (v. 36). Pois, porque havia escândalos sem número, sua presença era necessária. (d) "Como estão", diz ele. E isto ele não sabia: naturalmente. Vede-o sempre alerta, solícito, não suportando ficar ocioso, ainda que passasse por perigos sem fim. Reparai, não foi por covardia que veio a Antioquia. Age exatamente como um médico age no caso dos enfermos. E a necessidade de os visitar mostrou-a ao dizer: "Na qual anunciamos a palavra. E Barnabé determinou", etc. (v. 37-40). (Assim) Barnabé "partiu, e não foi com (ele)". (b) O ponto a considerar não é que diferiam em suas opiniões, mas que se acomodaram um ao outro, vendo que assim era maior bem que se separassem: e o assunto tomou pretexto disto. Que, pois? retiraram-se em inimizade? Longe disso! De fato, vedes depois disto Barnabé recebendo muitos elogios de Paulo nas Epístolas. Houve "contenção áspera", diz, não inimizade nem rixa. A contenção bastou para os separar. "E Barnabé tomou Marcos", etc. E com razão: pois o que cada um supunha ser proveitoso, não o abandonou depois, por causa da comunhão com o outro. Antes, parece-me que a separação se deu deliberadamente (κατὰ σύνεσιν), e que disseram um ao outro: "Como eu não desejo, e tu desejas, portanto, para que não lutemos, repartamos os lugares." De modo que, de fato, fizeram isto, cedendo inteiramente um ao outro: pois Barnabé desejava que prevalecesse o plano de Paulo, por isso se retirou; por outro lado, Paulo desejava que prevalecesse o plano do outro, por isso se retirou. Prouvera a Deus que também nós fizéssemos tais separações, a fim de sairmos para a pregação. Homem admirável este, e extremamente grande! A Marcos esta contenda foi extremamente proveitosa. Pois o temor inspirado por... [truncado]
E depois de alguns dias, disse Paulo, etc. (At 15,36). Impôs a Barnabé uma necessidade de saírem, dizendo: Visitemos as cidades em que anunciamos a palavra. Mas Paulo suplicou, etc. (At 15,38). E contudo não havia necessidade de que ele suplicasse, ele que em breve teria de fazer uma acusação. Isto acontece até no caso em que Deus e os homens são as partes: o homem suplica, Deus se ira. Por exemplo, quando diz: Se seu pai lhe tivesse cuspido no rosto (Nm 12,14): e novamente: Deixa-me, e em Minha ira exterminarei este povo (Ex 32,32). E Samuel, quando pranteia por Saul (1Sm 15,35). Pois por ambos se realiza um grande bem. Assim também aqui: um se ira, o outro não. O mesmo acontece também em assuntos que nos dizem respeito. E a contenção áspera com boa razão, para que Marcos recebesse uma lição, e o assunto não parecesse mera encenação. Pois não se há de pensar que aquele que ordena: Não se ponha o sol sobre a vossa ira (Ef 4,26), estivesse irado por causa de coisa tão pequena como esta: nem que aquele que em todas as ocasiões cedia não tivesse cedido aqui, ele que tanto amou a Paulo que antes disto o buscou em Tarso, e o levou aos Apóstolos, e assumiu com ele em comum a esmola, e em comum o assunto relativo ao decreto. Mas conduzem-se de modo a instruir e aperfeiçoar, pela sua separação, aqueles que necessitavam do ensino que deveria vir deles. E repreende de fato a outros, mas ordena fazer o bem a todos os homens. Como de fato faz em outro lugar, dizendo: Mas vós, não vos canseis de fazer o bem (2Ts 3,13). Isto também fazemos nós em nossa prática comum. Aqui me parece que também outros estavam igualmente descontentes com Paulo. E, tomando-os também à parte, faz tudo, e exorta, e admoesta. Muito pode a concórdia, muito pode a caridade. Ainda que peças por assunto grande, ainda que sejas indigno, serás ouvido por causa do propósito do teu coração: não temas.
Foi, diz, pelas cidades. E eis que havia ali um discípulo, por nome Timóteo, que tinha bom testemunho dos irmãos que estavam em Listra e Icônio (v. 41; 16,1). Grande era a graça de Timóteo. Quando Barnabé se apartou (ἀπέστη), ele encontra outro, equivalente a ele. Dele diz: Lembrando-me das tuas lágrimas e da tua fé não fingida, que primeiro habitou em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice (2Tm 1,5). Seu pai permaneceu gentio, e por isso é que (Timóteo) não fora circuncidado. (a) Observai a Lei já quebrada. Ou, se não assim, suponho que nascera depois da pregação do Evangelho; mas isto talvez não seja assim. (c) Estava para fazê-lo bispo, e não convinha que fosse incircunciso. (e) E isto não era coisa pequena, visto que escandalizava depois de tanto tempo: (b) pois desde criança, diz, conheceste as Sagradas Escrituras (2Tm 3,15). (d) E, à medida que iam pelas cidades, entregavam-lhes os decretos para que os guardassem.
Pois, porque havia escândalos sem número, sua presença era necessária. (d) Como estão, diz ele. E isto ele não sabia: naturalmente. Vede-o sempre alerta, solícito, não suportando ficar ocioso, ainda que passasse por perigos sem fim. Reparai, não foi por covardia que veio a Antioquia. Age exatamente como um médico age no caso dos enfermos. E a necessidade de os visitar mostrou-a ao dizer: Na qual anunciamos a palavra. E Barnabé determinou, etc.
E já Lucas nos descreveu o caráter dos Apóstolos, como um era mais brando e indulgente, mas este outro mais rigoroso e austero. Pois os dons são diversos — os dons, digo, pois que este seja um dom é manifesto — mas um convém a um conjunto de caracteres, outro a outro; e se trocam de lugar, resulta dano em vez de proveito. (b) Também nos Profetas encontramos isto: mentes diversas, caracteres diversos: por exemplo, Elias austero, Moisés manso. Assim também aqui Paulo é mais veemente. E observai, com tudo isso, quão manso ele é. Não achou bom, diz, levar consigo aquele que se apartara deles desde a Panfília. (a) E parece de fato haver exasperação (παροξυσμός), mas na verdade todo o assunto é um plano da Divina Providência, para que cada um recebesse seu lugar próprio: e convinha que não estivessem em igualdade, mas que um conduzisse e o outro fosse conduzido. E assim Barnabé tomou consigo Marcos, e navegou para Chipre; e Paulo escolheu Silas, e partiu, sendo recomendado pelos irmãos à graça de Deus. E percorreu a Síria e a Cilícia, confirmando as Igrejas.
(Assim) Barnabé partiu, e não foi (com ele). (b) O ponto a considerar não é que divergissem em suas opiniões, mas que se acomodaram um ao outro, vendo que assim seria maior bem que se separassem: e o assunto tomou disto um pretexto. Que, pois? Retiraram-se em inimizade? Longe disso! De fato, vedes depois disto Barnabé recebendo muitos elogios de Paulo nas Epístolas. Houve aguda contenda, diz, não inimizade nem rixa. A contenda bastou para separá-los. E Barnabé tomou consigo Marcos, etc. E com razão: pois o que cada um supunha ser proveitoso, não o abandonou depois, por causa da comunhão com o outro. Antes, parece-me que a separação se deu deliberadamente (κατὰ σύνεσιν), e que disseram um ao outro: Como eu não quero, e tu queres, para que não briguemos, repartamos os lugares. De sorte que, na verdade, fizeram isto cedendo inteiramente um ao outro: pois Barnabé quis que o plano de Paulo prevalecesse, por isso se retirou; e Paulo, por sua vez, quis que o plano do outro prevalecesse, por isso se retirou. Prouvera a Deus fizéssemos nós também tais separações, para irmos pregar. Homem admirável este, e excessivamente grande! A Marcos esta contenda foi excessivamente proveitosa. Pois o temor inspirado por Paulo o converteu, enquanto a bondade de Barnabé fez com que não fosse abandonado: de modo que contendem, sim, mas o ganho vem a redundar num só e mesmo fim. Pois, vendo Paulo escolher deixá-lo, ficaria excessivamente atemorizado, e se condenaria a si mesmo, e vendo Barnabé tomar-lhe assim o partido, o amaria excessivamente: e assim o discípulo foi corrigido pela contenda dos mestres: tão longe estava de ser ofendido por ela. Pois se de fato fizessem isto tendo em vista a própria honra, bem poderia ele ofender-se: mas se por sua salvação, e contendem por um só e mesmo objeto, para mostrar que aquele que o honrou *** bem decidira, que há nisso de impróprio (ἄτοπον)?
(e) Mas Paulo, diz, partiu, tendo escolhido Silas, e sendo encomendado à graça de Deus. Que é isto? Oraram, diz: suplicaram a Deus. Vede em toda ocasião quão grandes coisas pode a oração dos irmãos. E agora viajava por terra, querendo até mesmo com sua viagem beneficiar os que o viam (τοὺς ὁρῶντας). Pois quando de fato estavam apressados, navegavam; mas agora não assim. (c) E percorreu a Síria e a Cilícia, confirmando as Igrejas. Depois veio a Derbe e a Listra.
E isto também é obra da Providência. Pois os cipriotas não haviam exibido nada semelhante ao que os de Antioquia e os demais; e aqueles necessitavam do caráter mais brando, mas estes necessitavam de um caráter como o de Paulo. Qual, pois, direis, procedeu bem? Aquele que o tomou, ou aquele que o deixou? *** (c) Pois assim como um general não escolheria ter sempre uma pessoa de baixa condição como seu carregador de bagagens, tampouco o Apóstolo o escolheria. Isto corrigiu ao outro, e instruiu (a Marcos) a si mesmo. Fez então Barnabé mal? direis. E como não é impróprio (ἄτοπον) que, por matéria tão pequena, surgisse tão grande mal? Em primeiro lugar, pois, nenhum mal veio disso, se, bastando cada um para nações inteiras, foram divididos um do outro, senão um grande bem. E além disso, não escolheriam facilmente deixar-se um ao outro. Mas admirai, peço-vos, o escritor, como não oculta isto tampouco. Mas, ao menos, direis, se necessário fosse que se separassem, que fosse sem exasperação. Ora, mas se nada mais, observai isto: que também nisto se mostra o que era humano (na pregação do Evangelho). Pois se convinha que se mostrasse o semelhante (mesmo) no que Cristo fez, muito mais aqui. E além disso, não se pode dizer que a contenda seja má, quando cada um disputa por tais objetos (como aqui) e com justa razão. Concedo-vos que, se a exasperação estivesse em buscar o próprio interesse, e em contender pela própria honra, isto bem poderia ser (reprovado): mas se, querendo ambos, um e outro, instruir e ensinar, um tomou este caminho e o outro aquele, que há para censurar? Pois em muitas coisas agiram segundo seu juízo humano; pois não eram troncos nem pedras. E observai como Paulo acusa (a Marcos), e dá a razão. Pois por sua excessiva humildade reverenciava a Barnabé, como tendo sido companheiro seu em obras tão grandes, e estando com ele: mas ainda assim não o reverenciava a ponto de negligenciar (o que era necessário). Ora, qual deles aconselhou melhor, não nos cabe pronunciar: mas até aqui (podemos afirmar), que foi grande disposição da Providência, se a estes se havia de conceder uma segunda visitação, mas àqueles não se havia de visitar nem sequer uma vez.
(a) Ensinando e pregando a palavra do Senhor.
Notai a sabedoria de Paulo: não vai a outras cidades antes de ter visitado aquelas que haviam recebido a Palavra. Pois é loucura correr ao acaso. Façamos nós também isto: ensinemos primeiro aos primeiros, para que estes não se tornem obstáculo aos que hão de vir depois.
Grande era a graça de Timóteo. Quando Barnabé se apartou (ἀπέστη), ele encontra outro, equivalente a ele. Dele diz: Lembrando-me das tuas lágrimas e da tua fé não fingida, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice (2 Tm 1,5). Seu pai permanecia gentio, e por isso é que (Timóteo) não fora circuncidado. (a) Observai a Lei já quebrantada. Ou, se não assim, suponho que nascera depois da pregação do Evangelho; mas isto talvez não seja assim. (c) Estava para fazer dele um bispo, e não convinha que fosse incircunciso. (e) E isto não era pequena questão, visto que escandalizava mesmo depois de tanto tempo: (b) pois desde menino, diz, conheceste as Sagradas Escrituras (2 Tm 3,15). (d) E, à medida que percorriam as cidades, entregavam-lhes os decretos para que os guardassem.
É de fato admirável a sabedoria de Paulo! Aquele que travara tantas batalhas acerca da circuncisão, aquele que a tudo moveu para este fim, e não desistiu até haver levado a sua causa, agora que o decreto está assegurado, circuncida o discípulo. Não somente não o proíbe aos outros, como ele mesmo faz esta coisa. (b) A ele, diz, quis que saísse consigo. E o admirável é isto: que até o tomou consigo. Por causa dos judeus, diz, que havia naquelas regiões: pois não suportariam ouvir a palavra de um incircunciso. (a) Nada poderia ser mais sábio. De modo que em tudo atendia ao que era proveitoso: nada fazia por preferência própria (προλήψει). (c) E que (então)? Notai o resultado: circuncidou, para que pudesse abolir a circuncisão: pois pregava os decretos dos Apóstolos. E, à medida que percorriam as cidades, entregavam-lhes os decretos para que os guardassem, os quais haviam sido ordenados pelos Apóstolos e presbíteros que estavam em Jerusalém. E assim se estabeleciam as Igrejas na fé, e cresciam em número a cada dia.
Pois até então não havia necessidade de que os gentios guardassem tais observâncias. O início da abrogação foi o não guardarem os gentios estas coisas, e não serem por isso de modo algum inferiores, nem terem qualquer deficiência quanto à fé: e logo, de sua própria vontade, abandonaram a Lei. Visto, pois, que estava para pregar, a fim de não ferir os judeus com duplo golpe, circuncidou a Timóteo. E, no entanto, este era apenas meio judeu por nascimento, sendo seu pai grego: mas, ainda assim, porque aquilo era um ponto de grande importância já conquistado na causa dos gentios, não se importou com isso; pois era necessário que a palavra fosse disseminada: por isso também com as próprias mãos o circuncidou. E assim as igrejas eram estabelecidas na fé. Observai também aqui como, de um procedimento aparentemente contrário ao seu próprio propósito, resulta um grande bem? E cresciam em número a cada dia.
Observai aqui a luta, e, pela luta, a edificação? Não guerreados por outros, mas eles mesmos fazendo coisas contrárias, e assim edificando a Igreja! Introduziram um decreto de não circuncidar, e ele circuncida! E assim, diz, as Igrejas eram estabelecidas na fé, e na multidão: cresciam, diz, em número a cada dia. Em seguida, não continua a demorar-se com estes, como quem viera visitá-los: mas como? Segue adiante. Ora, havendo atravessado a Frígia e a região da Galácia, e sendo impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia,
Observai que a circuncisão não somente não causou dano algum, mas foi até de máxima utilidade? E uma visão apareceu a Paulo durante a noite.
Tendo deixado a Frígia e a Galácia, apressaram-se para o interior. Pois, diz, depois de terem chegado à Mísia, tentaram ir à Bitínia: mas o Espírito não lho permitiu.
Por que razão foram impedidos, não o diz; mas que foram impedidos, isso ele diz, ensinando-nos a obedecer e não indagar, e mostrando que faziam muitas coisas como homens. E o Espírito, diz, não lho permitiu: mas, tendo passado pela Mísia, desceram a Trôade.
E uma visão apareceu a Paulo durante a noite: Estava ali um homem da Macedônia, que lhe rogava, dizendo: Passa à Macedônia e ajuda-nos.
Não agora por anjos, como a Filipe, como a Cornélio, mas como? Por uma visão agora se lhe mostra: de modo mais humano, não agora como antes (isto é, vv. 6-7) de modo mais divino. Pois onde a obediência é mais fácil, faz-se de modo mais humano; mas onde era necessária maior força, aí de modo mais divino. Pois, visto que ele era apenas instado a pregar, para este fim mostra-se-lhe em sonho: mas abster-se de pregar, ele não poderia facilmente suportar: para este fim o Espírito Santo lho revela. Assim também foi então com Pedro: Levanta-te, desce (At 10:20). Pois certamente o Espírito Santo não operava por meio extraordinário aquilo que de outro modo era fácil: mas, aqui, até um sonho lhe bastou. E também a José, como quem se movia facilmente à obediência, a aparição é em sonho, mas aos demais em visão de vigília (Mt 1:20; 2:13-19). Assim a Cornélio, e ao próprio Paulo. E eis um homem da Macedônia, etc., e não simplesmente ordenando, mas suplicando, e da parte mesma das pessoas necessitadas de cura espiritual (At 10:3; 9:3). Certamente concluindo, diz, que o Senhor nos havia chamado.
Por que uma visão, e não o Espírito Santo? Porque este vedara a outra via. Também deste modo Ele quis atraí-los a Si: pois também aos santos apareceu em sonho, e no início o próprio (Paulo) viu uma visão, um homem que entrava e lhe impunha as mãos (At 9,12). Desta mesma maneira também Cristo lhe aparece, dizendo: Convém que estejas diante de César. Por esta razão, pois, também O atrai para ali, a fim de que a pregação se dilate. Eis por que lhe foi vedado demorar-se longamente nas outras cidades, urgindo-o Cristo. Pois estas haveriam de gozar por longo tempo do benefício de João, e talvez não necessitassem tão extremamente dele (Paulo); mas ali era mister que fosse. E agora atravessa e parte. E depois que viu a visão, logo procuramos partir para a Macedônia, certos de que o Senhor nos chamara para lhes anunciarmos o Evangelho.
Isto é, inferindo-o tanto da circunstância de que Paulo a viu, e nenhum outro, quanto de terem sido proibidos pelo Espírito, quanto de se acharem nas fronteiras; de tudo isto o colegiram. Partindo, pois, de Trôade, viemos em direitura, etc.
Em seguida, o escritor menciona também os lugares, como quem relata uma história, mostrando onde fez parada — a saber, nas cidades maiores — mas passou ao largo das demais. Partindo, pois, de Trôade, viemos em direitura a Samotrácia, e no dia seguinte a Neápolis; e dali a Filipos, que é a cidade principal daquela parte da Macedônia, e colônia.
Isto é, a própria viagem o manifestou: pois não houve demora alguma. Tornou-se ela como que a própria raiz da Macedônia. Nem sempre foi por meio de contenda acirrada que o Espírito Santo operou: mas este progresso tão rápido (da Palavra) foi sinal de que a coisa era mais que humana. E, contudo, não se diz que Barnabé se exasperou, mas que entre eles se levantou aguda contenda (At 15,39). Se um não se exasperou, tampouco o outro.
Sabendo isto, não nos limitemos a escolher (ἐκλέγωμεν) estas coisas, mas aprendamos e sejamos por elas instruídos: pois não foram escritas sem propósito. É grande mal ignorar as Escrituras: das coisas de que deveríamos colher proveito, colhemos dano. Assim também os remédios de virtude curativa, muitas vezes, pela ignorância de quem os usa, arruínam e destroem; e as armas destinadas a proteger tornam-se elas mesmas causa de morte, se não se sabe como empunhá-las. Mas a razão é que buscamos tudo, antes que aquilo que nos é proveitoso. E, tratando-se de uma casa, buscamos o que lhe é proveitoso, e não suportaríamos vê-la a decair pela idade, ou a ameaçar ruína, ou danificada pelas tempestades: mas de nossa alma não fazemos caso algum; antes, ainda que víssemos apodrecerem-lhe os alicerces, ou a estrutura e o telhado, não lhe daríamos nenhuma atenção. Do mesmo modo, se possuímos animais irracionais, buscamos o que lhes é proveitoso: chamamos tanto tratadores quanto veterinários de cavalos, e tudo o mais; cuidamos de seus estábulos, e ordenamos aos que os têm a seu cargo que não os conduzam ao acaso nem com descuido, nem os tirem de noite em horas impróprias, nem lhes vendam o alimento que lhes é destinado; e muitas são as leis por nós estabelecidas para o bem dos animais irracionais: mas para o bem de nossa alma nenhum caso se faz. Mas por que falo de animais irracionais que nos são úteis? Há muitos que criam avezinhas (ou pardais) que para nada servem senão para simplesmente divertir, e há também muitas leis a respeito delas, e nada se negligencia ou se deixa sem ordem; e cuidamos de tudo, antes de cuidarmos de nós mesmos. Assim nos tornamos mais desprezíveis que tudo o mais. E se alguém, por injúria, nos chama cão, ficamos indignados; mas, quando somos opróbrio a nós mesmos, não em palavra, mas em ato, e não dispensamos à nossa alma sequer o cuidado que dispensamos aos cães, não o consideramos grande mal. Vedes como tudo está cheio de trevas? Quantos há que cuidam de seus cães para que não se fartem além do alimento devido, a fim de que se mantenham ágeis e aptos para a caça, aguilhoados pela fome e pela penúria: mas quanto a si mesmos não têm cuidado algum de evitar a luxúria; e a estes animais irracionais ensinam, na verdade, a exercitar a filosofia, enquanto eles próprios se deixam afundar na selvageria dos brutos. A coisa é um enigma. E onde estão os vossos brutos filósofos? Existem, sim; ou dizei: não considerais filosofia quando um cão, roído pela fome, depois de haver caçado e capturado a presa, se abstém do alimento; e, embora veja diante de si a refeição pronta, e a fome o impila, contudo espera pelo seu dono? Envergonhai-vos: ensinai o vosso ventre a ser igualmente filósofo. Não tendes desculpa. Se fostes capazes de implantar tal domínio filosófico de si mesmo numa natureza irracional, que não fala nem ouve a razão, não sereis muito mais capazes de o implantar em vós mesmos? Pois que isto seja efeito do cuidado do homem, e não da natureza, é evidente: do contrário, todos os cães haveriam de ter este hábito. Tornai-vos, pois, como os cães. Sois vós que me obrigais a ir buscar ali os meus exemplos: pois, na verdade, deveriam ser tirados das coisas celestiais; mas, como, se falo destas, dizeis: São demasiado grandes — por isso nada digo das coisas celestiais; e, se de novo falo de Paulo, dizeis: Ele era Apóstolo — por isso tampouco menciono Paulo; e se ainda falo de um homem qualquer, dizeis: Aquele podia fazê-lo — por isso nem sequer menciono um homem, mas um animal irracional; e um animal, ademais, que não possui este hábito por natureza, para que não digais que o efetuou por natureza, e não (como de fato é) por escolha: e, o que é admirável, escolha não adquirida por si mesmo, mas fruto do vosso cuidado. O animal não se detém a pensar na fadiga, no desgaste que sofreu na perseguição da presa, nem naquilo, a saber, que foi por trabalho próprio que fez a captura: mas, lançando fora todas estas considerações, observa o mandamento do seu dono, e se mostra superior aos apetites da gula. É verdade; porque espera ser louvado, espera obter maior porção de alimento. Dizei então a vós mesmos que o cão, pela esperança de um prazer futuro, despreza o que é presente; ao passo que vós não escolheis, pela esperança dos bens futuros, desprezar os presentes; mas ele sabe que, se provar daquele alimento fora de hora e contra a vontade do seu dono, será privado dele, e nem sequer receberá o que lhe estava destinado, mas receberá açoites em lugar de alimento: ao passo que vós nem isto conseguis perceber, e o que ele aprendeu à força do costume, vós não logrando adquirir sequer pela razão. Imitemos os cães. Diz-se que o mesmo fazem os falcões e as águias: o que os cães fazem em relação às lebres e aos cervos, o mesmo fazem estes em relação às aves; e também estes agem segundo uma filosofia aprendida dos homens. Estes fatos bastam para nos condenar, bastam para nos convencer de culpa. Para mencionar ainda outra coisa: os que são hábeis em domar cavalos tomam-nos selvagens, ferozes, coiceadores, mordedores, e em pouco tempo de tal modo os disciplinam que, mesmo ausente o domador, é um deleite montá-los, tão perfeitamente ordenado é o seu andar: mas os movimentos da alma podem estar todos desordenados, e ninguém deles cuida: ela salta, e escoiceia, e o seu cavaleiro é arrastado pelo chão como uma criança, e faz a mais vergonhosa figura, e, contudo, ninguém lhe põe freios, nem peias, nem bridão, nem sobre ela monta o cavaleiro hábil — refiro-me a Cristo. E por isso é que tudo anda de pernas para o ar... [truncado]
É grande distinção para uma cidade ser colônia. E nesta cidade estivemos alguns dias. Mas retomemos o que já foi dito.
O lugar era conveniente para ouvir a palavra, longe de perturbações e perigos. (b) No sábado. Como não havia trabalho algum, estavam mais atentos ao que se dizia. (a) E certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura
Vede novamente Paulo a judaizar. «Onde se costumava», diz, tanto pelo tempo quanto pelo lugar, «fazer oração — fora da cidade, à margem de um rio»: pois não se há de supor que orassem somente onde havia sinagoga; oravam também fora da sinagoga, mas então, para este fim, separavam, por assim dizer, um certo lugar, porque, sendo judeus, eram mais corpóreos — e «no dia de sábado», quando era provável que se ajuntasse a multidão. «E nos assentamos, e falamos às mulheres que ali se reuniam.» Notai de novo a ausência de toda soberba. «E certa mulher»: uma mulher, e de condição humilde, a julgar também pelo seu ofício: mas notai nela uma mulher de espírito elevado (philosophon). Em primeiro lugar, o próprio fato de Deus tê-la chamado dá testemunho dela: «E, quando foi batizada» — diz — «ela e a sua casa» — notai como persuadiu a todos os seus — «rogou-nos, dizendo: Se haveis julgado que sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa, e ficai nela. E nos constrangeu» (v. 15): considerai então a sua sabedoria, como importuna (dusophei) os Apóstolos, quão cheias de humildade são as suas palavras, quão cheias de sabedoria. «Se me haveis julgado fiel», diz ela. Nada poderia ser mais persuasivo. Quem não se teria abrandado a estas palavras? Não pediu (ou reivindicou), não suplicou simplesmente: mas deixou a eles a decisão, e, contudo, extremamente os constrangeu: «E nos constrangeu», diz, com aquelas palavras. E ainda de outro modo: pois vede como logo dá fruto, e o considera grande ganho. «Se me haveis julgado» — isto é, que me julgastes é manifesto, pelo fato de me terdes confiado tais (santos) mistérios (isto é, os sacramentos): e ela não ousara convidá-los antes disto. Mas por que houve alguma relutância da parte de Paulo e dos que com ele estavam, de modo que precisassem ser constrangidos? Foi ou para chamá-la a maior fervor de desejo, ou porque Cristo dissera: «Perguntai quem é digno, e ali ficai» (Lc 10,8). (Não é que fossem relutantes), mas o fizeram com um propósito. «E aconteceu», diz, «que, indo nós à oração, saiu-nos ao encontro uma certa jovem possessa de espírito de adivinhação, a qual dava a seus senhores grande lucro por adivinhar: esta seguia a Paulo e a nós, e clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que nos anunciam o caminho da salvação» (v. 16-17). Qual seria a razão de o demônio proferir estas palavras, e de Paulo lho proibir? Um agiu por malícia, e o outro por sabedoria: o demônio, na verdade, queria tornar-se digno de crédito. Pois, se Paulo tivesse admitido o seu testemunho, ele teria enganado a muitos dos crentes, por ser recebido por ele: por isso suporta dizer o que lhe era contrário, a fim de estabelecer o que lhe era favorável: e assim o próprio demônio usa de acomodação (sunkatabasei) para a destruição. A princípio, pois, Paulo não o admitia, mas o desprezava, não querendo lançar-se de imediato aos milagres; mas, quando ele persistia nisto, e apontava para a sua obra (kai to ergon edeiknu) — «que nos anunciam o caminho da salvação» —, então lhe ordenou que saísse. Pois diz: «Mas Paulo, afligido, voltou-se e disse ao espírito: Eu te ordeno, em nome de Jesus Cristo, que saias dela. E saiu na mesma hora. (a) E, vendo os seus senhores que se lhes fora a esperança do seu lucro, prenderam a Paulo e Silas» (v. 18-19). (d) Assim, pois, Paulo fez tudo, tanto os milagres quanto o ensino, mas dos perigos também Silas é participante. E por que diz: «Mas Paulo, afligido»? Significa que penetrou a malícia do demônio, como diz: «Pois não ignoramos os seus desígnios» (2Cor 2,11). (b) «E vendo os seus senhores que se lhes fora a esperança do lucro.» Em toda parte o dinheiro é causa de males. Ó crueldade pagã! Queriam que a jovem permanecesse endemoninhada, para que pudessem lucrar com ela. «Prenderam a Paulo e Silas», diz, «e os arrastaram à praça, perante os chefes, e os apresentaram aos magistrados, dizendo: Estes homens, sendo judeus, perturbam sobremaneira a nossa cidade!» (v. 20): fazendo o quê? Então por que não os arrastastes antes disto? «Sendo judeus»: o nome estava em má reputação. «E pregam costumes que não nos é lícito receber nem observar, sendo romanos» (v. 21). Fizeram disto uma acusação de traição (eis kathosiosin egagon). (e) Por que não disseram: Porque expulsaram o demônio, são culpados de impiedade contra Deus? Pois isto lhes fora uma derrota: mas, em vez disso, recorrem a uma acusação de traição (epi kathosiosin): como os judeus quando disseram: «Não temos rei senão César: quem a si mesmo se faz rei fala contra César» (Jo 19,14.12). (c) «E a multidão se levantou à uma contra eles: e os magistrados, rasgando-lhes as vestes, ordenaram que fossem açoitados» (v. 22). Ó conduta irracional! Não examinaram, não lhes permitiram falar. E, contudo, tendo-se realizado tal milagre, deveríeis tê-los venerado, deveríeis tê-los tido como salvadores e benfeitores. Pois, se era dinheiro o que desejáveis, tendo encontrado tamanha riqueza, por que a ela não recorrestes? Isto vos tornaria mais ilustres — ter poder para expulsar os demônios, do que obedecer-lhes. Eis que, mesmo diante dos milagres, o amor ao dinheiro foi mais forte. (f) «E, havendo-lhes dado muitos açoites, os lançaram na prisão» — grande era a sua ira — «mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança» (v. 23): «o qual, tendo recebido tal ordem, os lançou na prisão interior, e lhes segurou os pés no tronco» (v. 24). Observai que também ele os lançou de novo na prisão «interior»: e isto também se fez providencialmente, porque um grande milagre estava para acontecer. (Recapitulação.) «Fora da cidade» (v. 13). O lugar era conveniente para ouvir a palavra, longe de perturbações e perigos. (b) «No sábado». Como não havia trabalho algum, estavam mais atentos ao que se dizia. (a) «E certa mulher, [truncado]
Observai como o escritor da história não se envergonha das ocupações (dos convertidos): e, além disso, tampouco era grande esta cidade dos filipenses. Tendo aprendido isto, não nos envergonhemos nós também de homem algum. Pedro permanece com um curtidor (At 9,43): (Paulo), com uma mulher vendedora de púrpura, e estrangeira. Onde está a soberba? Cujo coração o Senhor abriu. Necessitamos, pois, de Deus para que Ele abra o coração; mas Deus abre os corações que estão dispostos, pois há corações endurecidos que se veem. De modo que ela atendia às coisas que eram ditas por Paulo. A abertura, portanto, foi obra de Deus; o atender foi dela: de sorte que foi obra tanto de Deus quanto do homem. E foi batizada.
E no sábado saímos da cidade para a beira de um rio, onde se costumava fazer oração; e, sentando-nos, falamos às mulheres que ali se reuniam. E certa mulher chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, que temia a Deus, nos ouviu: cujo coração o Senhor abriu, para que atendesse às coisas que eram ditas por Paulo.
Vede aqui, de novo, Paulo judaizando. Onde se pensava, diz, tanto pelo tempo quanto pelo lugar, que haveria oração — fora da cidade, à beira de um rio: pois não se deve supor que orassem somente onde houvesse sinagoga; oravam também fora da sinagoga, mas então, para este fim, separavam, por assim dizer, um certo lugar, porquanto, como judeus, eram mais corpóreos — e no dia de sábado, quando era provável que se reunisse uma multidão. E, sentando-nos, falamos às mulheres que ali se reuniam. Notai, uma vez mais, a ausência de toda soberba. E certa mulher: mulher, e de condição humilde, também por seu ofício; mas notai nela uma alma de espírito elevado (φιλόσοφον). Em primeiro lugar, o próprio fato de Deus a chamar já dá testemunho dela: E, tendo sido batizada, diz, ela e sua casa — notai como ele persuadiu a todos — ela nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que sou fiel ao Senhor, entrai em minha casa e ficai. E ela nos constrangeu.
e recebe os Apóstolos com tal veemência de súplica, maior ainda que a usada por Abraão. E não invoca outro sinal senão aquele pelo qual foi salva (Gn 18,3): não diz: Se me julgastes grande, mulher devota; mas o quê? Fiel ao Senhor: se fiel ao Senhor, muito mais a vós. Se me julgastes: se disso não duvidais. E não diz: Ficai comigo, mas: Entrai em minha casa e ficai — com grande veemência o diz. Verdadeiramente, mulher fiel! — Certa jovem que tinha um espírito de Pítão.
Considerai, pois, sua sabedoria, como importuna (δυσωπεῖ) os Apóstolos; quão cheias de humildade são suas palavras, quão cheias de sabedoria. Se me julgastes fiel, diz ela. Nada poderia ser mais persuasivo. Quem não se teria abrandado com estas palavras? Não pediu nem suplicou simplesmente; antes deixou a eles a decisão, e, no entanto, sobremaneira os constrangeu: E ela nos constrangeu, diz, com aquelas palavras. E, de novo, de outro modo: vede como logo dá fruto, e considera grande ganho. Se me julgastes, isto é, que me julgastes é manifesto, pelo fato de me terdes entregado tais (santos) mistérios: e não ousara convidá-los antes disso. Mas por que houve alguma relutância da parte de Paulo e dos que com ele estavam, de sorte que precisassem ser constrangidos? Foi ou para chamá-la a maior fervor de desejo, ou porque Cristo dissera: Perguntai quem é digno, e ali ficai (Lc 10,8). Não é que fossem relutantes, mas o fizeram com um propósito. — E aconteceu, diz, que, indo nós à oração, veio ao nosso encontro certa jovem que tinha espírito de adivinhação, a qual dava a seus senhores grande lucro com suas adivinhações: esta seguia a Paulo e a nós, e clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da salvação.
Dizei, que demônio é este? O deus, como o chamam, Pítão: por causa do lugar assim se chama. Notais que também Apolo é um demônio? E (o demônio) queria levá-los à tentação: (por isso), para provocá-los, este seguia a Paulo e a nós, e clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da salvação.
Ó maldito, ó execrável! Se sabes, pois, que é o caminho da salvação Dele que eles mostram, por que não sais livremente? Mas o que Simão desejou, quando disse: Dai-me também a mim este poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos receba o Espírito Santo (At 8, 19), o mesmo fazia este demônio: pois, vendo que eles se tornavam célebres, também aqui ele faz o hipócrita: por este meio pensava lhe ser permitido permanecer no corpo, se pregasse as mesmas coisas. Mas se Cristo não recebe testemunho de homem (Jo 5, 34), referindo-Se a João, muito menos de um demônio. Não é digno o louvor na boca do pecador (Eclo 15, 9), muito menos da parte de um demônio. Pois o que eles pregam não é dos homens, mas do Espírito Santo. Porque não agiam em espírito de jactância. E Paulo, entristecido, etc. Com sua clamor e gritaria pensavam alarmar os magistrados: dizendo, Estes homens perturbam sobremaneira a nossa cidade.
Qual poderia ser a razão de o demônio ter proferido estas palavras, e de Paulo tê-lo proibido? Um agia com malícia, o outro com sabedoria: o demônio desejava, com efeito, tornar-se digno de crédito. Pois se Paulo tivesse admitido o seu testemunho, teria enganado a muitos dentre os crentes, por ser ele recebido por Paulo: por isso suporta dizer o que o prejudicava, a fim de estabelecer o que lhe era favorável: e assim o próprio demônio usa de acomodação (συγκαταβάσει) para a destruição. No princípio, pois, Paulo não o admitiu, mas o desdenhou, não querendo lançar-se de uma só vez sobre os milagres; mas quando ele persistiu em fazer isso, e apontava para a obra (καὶ τὸ ἔργον ἐδείκνυ) daqueles que nos pregam o caminho da salvação, então ele lhe ordenou que saísse. Pois diz: Paulo, entristecido, voltou-se e disse ao espírito: Eu te ordeno, em nome de Jesus Cristo, que saias dela. E saiu na mesma hora. (a) E vendo os seus senhores que se lhes fora a esperança do seu ganho, prenderam a Paulo e Silas.
(d) Assim, pois, Paulo fez tudo, tanto os milagres quanto o ensino, mas dos perigos também Silas é partícipe. E por que diz: Mas Paulo, entristecido? Significa que ele percebeu a malícia do demônio, como diz: Pois não ignoramos as suas maquinações (2 Cor 2, 11). (b) E vendo os seus senhores que se lhes fora a esperança do seu ganho. Em toda parte o dinheiro é causa dos males. Ó crueldade pagã! Desejavam que a jovem permanecesse endemoninhada, para que pudessem lucrar com ela. Prenderam, diz, a Paulo e Silas, e os arrastaram à praça, perante os magistrados, e os conduziram aos governadores, dizendo: Estes homens, sendo judeus, perturbam sobremaneira a nossa cidade!
Que dizes? Credes no demônio? Por que não aqui também? Ele diz: São servos do Deus Altíssimo; vós dizeis: Perturbam sobremaneira a nossa cidade: ele diz: Mostram-nos o caminho da salvação; vós dizeis: Ensinam costumes que não nos é lícito receber.
Por que não disseram: Porque expulsaram o demônio, são culpados de impiedade contra Deus? Pois isto seria uma derrota para eles: mas, em vez disso, recorrem a uma acusação de lesa-majestade (ἐπὶ καθοσίωσιν): como os judeus quando disseram: Não temos rei senão César; todo aquele que se faz rei fala contra César (Jo 19, 14). (c) E ajuntou-se a multidão contra eles: e os magistrados lhes rasgaram as vestes, e ordenaram que fossem açoitados.
Fazendo o quê? Então por que não os arrastastes até aqui antes disso? Sendo judeus: o nome estava em má reputação. E ensinam costumes que não nos é lícito receber, nem observar, sendo romanos (At 16, 21). Fizeram disso uma acusação de lesa-majestade (εἰς καθοσίωσιν ἤγαγον).
Observai como eles não atentam sequer ao demônio, mas olham somente para uma coisa, a sua cupidez. Mas observai a estes (Paulo e Silas), como não respondem, nem se defendem; (b) Pois quando, diz ele, sou fraco, então sou forte. A minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (2 Cor 12, 9): de modo que, por causa também da sua mansidão, deveriam ser admirados. (a) E os magistrados, etc., ordenando ao carcereiro que os guardasse com segurança
para que sejam ocasião de um milagre maior. (c) Quanto mais rigorosa a custódia, tanto maior o milagre. Foi provavelmente pelo desejo de abreviar a perturbação que os magistrados fizeram estas coisas; porque viam a multidão insistente, e desejavam aplacar-lhe a paixão no mesmo instante, por isso infligiram os açoites: ao mesmo tempo era seu desejo ouvir o caso, e por isso os lançaram no cárcere e ordenaram que os guardassem com segurança. E, diz, prendeu-lhes os pés no tronco
Ó conduta irracional! Não os examinaram, não lhes permitiram falar. E, no entanto, tendo-se realizado tamanho milagre, deveríeis tê-los adorado, deveríeis tê-los tido por salvadores e benfeitores. Pois, se era dinheiro o que desejáveis, por que, tendo encontrado tamanha riqueza, não correstes a ela? Isto vos torna mais notáveis: o ter poder para expulsar demônios, do que o obedecer-lhes. Eis aqui milagres, e, contudo, o amor ao dinheiro foi mais poderoso. (f) E, tendo-lhes vibrado muitos açoites, lançaram-nos no cárcere — grande era a sua ira — ordenando ao carcereiro que os guardasse com segurança.
o qual, tendo recebido tal ordem, lançou-os no cárcere interior e lhes prendeu os pés no tronco.
(το ξύλον), como diríamos, o nervum (νέρβον).
Que lágrimas não reclamam estas coisas! Considerai o que padecem eles, enquanto nós vivemos em delícias, nós nos teatros, nós perecendo e afogando-nos na dissolução, buscando sempre vã diversão, não suportando sofrer dor alguma por Cristo, nem sequer até às palavras, nem sequer até à conversa. Estas coisas, rogo-vos, tragamo-las sempre à memória: o que padeceram, o que suportaram, quão intrépidos se mostraram, quão isentos de ofensa. Faziam a obra de Deus, e padeciam estas coisas! Não disseram: Por que pregamos isto, e Deus não toma o nosso partido? Mas até isto lhes foi proveitoso, ainda à parte da verdade, na própria coisa em si; tornou-os mais vigorosos, mais fortes, mais intrépidos. A tribulação produz a perseverança (Rm 5,4). Não busquemos, pois, a vida frouxa e dissoluta. Pois, assim como naquele caso o bem é duplo — que os que padecem se tornam fortes, e que os galardões são grandes —, assim também neste caso o mal é duplo: que tais homens se tornam mais enervados, e que isso não conduz a bem algum, mas somente ao mal. Pois nada pode ser mais desprezível do que um homem que passa todo o seu tempo na ociosidade e nas delícias. Pois o homem não provado, como se costuma dizer, é também não aprovado — não aprovado não somente nos combates, mas também em tudo o mais. A ociosidade é coisa inútil, e nas próprias delícias nada é tão inadequado ao fim proposto quanto levar uma vida deleitosa; pois esta enfastia pela saciedade, de modo que nem o prazer dos manjares é tão grande, nem o prazer do repouso, mas tudo se torna insípido e se dissipa.
Não busquemos, pois, isto. Pois, se considerarmos qual vida é mais agradável, a daquele que labuta e se afadiga, ou a daquele que vive em delícias, acharemos que é a primeira. Pois, em primeiro lugar, os sentidos corporais não são nem claros nem sãos, mas embotados (χαὕναι) e lânguidos; e, quando estes não estão bem dispostos, é manifesto que nem sequer da saúde há fruição alguma. Qual é o cavalo útil, o mimado ou o exercitado? Qual é a nau proveitosa, a que navega ou a que jaz ociosa? Qual é a melhor água, a corrente ou a estagnada? Qual é o melhor ferro, o muito usado ou o que não realiza trabalho algum? Não é verdade que um reluz como a prata, enquanto o outro se cobre todo de ferrugem, torna-se inútil e até perde parte de sua própria substância? O mesmo sucede também à alma em consequência da ociosidade: uma espécie de ferrugem se espalha sobre ela, e corrói tanto o seu brilho quanto tudo o mais. Como, pois, se há de remover esta ferrugem? Com a pedra de amolar das tribulações: assim se tornará a alma útil e apta para todas as coisas. De outro modo, pergunto, como poderá ela cortar as paixões, tendo o seu fio voltado (ἀνακλώσης) e curvado como o chumbo? Como ferirá o demônio? E, além disso, a quem não será tal homem senão espetáculo repugnante — homem que cultiva a obesidade, arrastando-se como uma foca? Não digo isto daqueles que são naturalmente deste hábito, mas daqueles que, por viverem em delícias, reduziram os seus corpos a tal condição, sendo eles naturalmente de compleição magra. O sol se levantou, disparou os seus raios luminosos por toda parte, e despertou cada homem para o seu trabalho: o lavrador sai com a sua enxada, o ferreiro com o seu martelo, e cada artífice com os seus respectivos instrumentos, e encontrarás cada qual manejando a ferramenta que lhe é própria; também a mulher toma ou a sua roca ou os seus teares: enquanto ele, como o suíno, logo ao primeiro alvorecer sai para saciar o ventre, procurando como há de prover manjares suntuosos. E, contudo, só é próprio dos animais brutos alimentar-se de manhã à noite; e isto porque a única utilidade destes é serem abatidos. Ora, até mesmo dos animais, aqueles que carregam fardos e se prestam ao trabalho saem para o seu labor enquanto ainda é noite. Mas este homem, levantando-se do leito quando o sol do meio-dia já encheu a praça e as pessoas já estão fatigadas dos seus vários trabalhos, então é que se ergue, estirando-se como se de fato fosse um porco em engorda, tendo desperdiçado nas trevas a mais bela parte do dia. Depois fica sentado longo tempo sobre o leito, muitas vezes incapaz até de erguer-se por causa da orgia da noite anterior, e, tendo desperdiçado ainda mais tempo nesta indolência, passa a adornar-se e sai a público, espetáculo de indecência, sem nada de humano em si, mas com toda a aparência de um bruto sob forma humana: os olhos remelentos pelo efeito do vinho, * * * enquanto a mísera alma, tal como o coxo, é incapaz de erguer-se, carregando consigo a sua mole de carne, como um elefante. Depois vem e senta-se em vários lugares, e diz e faz coisas tais que lhe fora melhor continuar dormindo do que estar desperto. Se acontece anunciarem-se más notícias, mostra-se mais fraco do que qualquer donzela; se boas, mais tolo do que qualquer criança; em seu rosto há um bocejo perpétuo. É alvo de todos os que desejam fazer mal, senão de todos os homens, ao menos de todas as paixões más; e a ira facilmente excita tal homem, e a luxúria, e a inveja, e todas as demais paixões. Todos o lisonjeiam, todos lhe rendem cortesia, tornando a sua alma ainda mais fraca do que já é: e a cada dia ele prossegue, acrescentando à sua enfermidade. Se por acaso cai em alguma dificuldade de negócios, torna-se pó e cinza, e as suas vestes de seda de nada lhe aproveitam. Não dissemos tudo isto sem propósito, mas para vos ensinar que nenhum de vós deve viver na ociosidade e ao acaso. Pois a ociosidade e as delícias não são propícias ao trabalho, à boa reputação, ao prazer. Pois quem não há de condenar tal homem? A família, os amigos, os parentes dirão: Este é, na verdade, um verdadeiro estorvo da terra. Tal homem veio ao mundo sem propósito algum: ou antes, não sem propósito, mas para mau propósito contra a sua própria pessoa, para a sua própria ruína e para o dano de outros. Mas que esta vida seja mais agradável — atentemos a isto, pois esta é a questão. Pois bem, que pode haver menos agradável do que a condição de um homem que nada tem que fazer; que mais infeliz e mísero... [truncado]
Observai que também desta vez os lançou no cárcere interior: e isto também se deu providencialmente, porque um grande milagre estava para acontecer.
foi por ter recebido tal ordem, não de si mesmo. O homem estava todo em tumulto de perturbação. Que devo fazer para me salvar?, pergunta ele. Por que não antes disto? Paulo gritou, até que ele o viu, e antecipa-se a ele, dizendo: Estamos todos aqui. E, tendo pedido luzes, diz o texto, saltou para dentro e caiu aos pés do prisioneiro; ele, o carcereiro, dizendo: Senhores, que devo fazer para me salvar?
Comparemos, amados, com aquela noite estas nossas noites, com as suas orgias, as suas embriaguezes, os seus excessos dissolutos, com o seu sono que bem poderia ser morte, as suas vigílias que são piores que o sono. Pois, enquanto uns dormem sem senso nem sentimento, outros permanecem despertos para fim lastimável e mísero, tramando enganos, pensando ansiosamente em dinheiro, estudando como se hão de vingar dos que lhes fazem mal, meditando inimizade, recontando as palavras injuriosas ditas durante o dia: assim atiçam as brasas fumegantes da ira, fazendo coisas intoleráveis. Notai como Pedro dormia (At 12,6). Ali, foi sabiamente disposto que ele estivesse dormindo, pois o Anjo veio a ele, e convinha que ninguém visse o que sucedia; e, por outro lado, foi bem disposto aqui que Paulo estivesse desperto, a fim de que se impedisse o carcereiro de matar a si mesmo. E, de repente, houve um grande terremoto.
Que se poderia igualar a estas almas? Estes homens tinham sido açoitados, haviam recebido muitos golpes, haviam sido maltratados, estavam em perigo de vida, foram lançados no cárcere interior e presos no tronco: e, com tudo isto, não se permitiram dormir, mas vigiaram a noite inteira. Notais que bênção é a tribulação? Nós, porém, em nossos leitos macios, sem ninguém a temer, passamos a noite inteira dormindo. Mas talvez tenham eles vigiado justamente por causa desta sua condição. Nem a tirania do sono os pôde vencer, nem o agudo da dor os pôde curvar, nem o temor do mal os lançou em desamparada tristeza: antes, foram estas mesmas coisas que os fizeram vigilantes, e ainda se encheram de extraordinário júbilo. "Pela meia-noite", diz o texto, "e os presos os escutavam": tão estranho e surpreendente era aquilo! "E de repente houve um grande terremoto, de modo que os fundamentos do cárcere se abalaram, e logo se abriram todas as portas, e as cadeias de todos se soltaram. E o carcereiro, despertando do sono e vendo abertas as portas do cárcere, tirou a espada e ia matar-se, supondo que os presos houvessem fugido" (v. 27). Houve um terremoto, para que o carcereiro fosse despertado do sono, e as portas se abriram de par em par, para que ele se admirasse do que havia sucedido: mas estas coisas os presos não as viram, pois de outro modo todos teriam fugido: mas o carcereiro estava prestes a matar-se, pensando que os presos haviam escapado. "Mas Paulo clamou em alta voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, pois todos estamos aqui" (v. 28). (b) "Então ele pediu luzes, saltou para dentro e, tremendo, prostrou-se diante de Paulo e Silas; e, tirando-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para me salvar?" (v. 29, 30). Notais como o assombro o dominou? (a) Admirava-se mais da bondade de Paulo; maravilhava-se da sua varonil intrepidez, de que não houvesse fugido quando tinha o poder de fazê-lo, e de que o houvesse impedido de matar-se. (c) "E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa. E lhe falaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa" (v. 31, 35), e assim logo lhe deram prova da sua benevolência. "E ele, tomando-os naquela mesma hora da noite, lavou-lhes as feridas; e foi batizado, ele e todos os seus, imediatamente" (v. 33). Lavou-os, e ele mesmo foi batizado, ele e a sua casa. "E, havendo-os levado para a sua casa, pôs-lhes a mesa e alegrou-se, crendo em Deus com toda a sua casa. E, sendo já dia, os magistrados enviaram os oficiais, dizendo: Soltai aqueles homens" (v. 34, 35). É provável que os magistrados houvessem sabido do sucedido, e não ousassem, por si mesmos, soltá-los. "E o carcereiro anunciou estas palavras a Paulo, dizendo: Os magistrados mandaram que fôsseis soltos; agora, pois, saí, e ide em paz. Mas Paulo lhes disse: Açoitaram-nos publicamente, sem sermos condenados, sendo nós romanos, e nos lançaram no cárcere; e agora nos lançam fora ocultamente? Não, de modo nenhum; mas venham eles mesmos e nos tirem daqui. E os oficiais anunciaram estas palavras aos magistrados; e temeram, ouvindo que eram romanos. E vieram, e rogaram-lhes, e, tirando-os, pediram-lhes que se retirassem da cidade. E, saindo do cárcere, entraram em casa de Lídia; e, vendo os irmãos, os consolaram, e partiram" (v. 36-40). Mesmo diante da declaração dos magistrados, Paulo não sai; mas, tanto por causa de Lídia quanto dos demais, os põe em temor: para que não se suponha que saíram a seu próprio pedido, e para que confirmasse os demais numa disposição de ânimo. A acusação era dupla: que, "sendo romanos" e "sem condenação", os haviam lançado publicamente no cárcere. Vedes que em muitas coisas eles se conduziram segundo o modo dos homens. (Recapitulação) "E pela meia-noite", etc. (v. 25). Comparemos, amados, com aquela noite estas nossas noites, com as suas orgias, as suas embriaguezes, os seus excessos dissolutos, com o seu sono que bem poderia ser morte, as suas vigílias que são piores que o sono. Pois, enquanto uns dormem sem senso nem sentimento, outros permanecem despertos para fim lastimável e mísero, tramando enganos, pensando ansiosamente em dinheiro, estudando como se hão de vingar dos que lhes fazem mal, meditando inimizade, recontando as palavras injuriosas ditas durante o dia: assim atiçam as brasas fumegantes da ira, fazendo coisas intoleráveis. Notai como Pedro dormia (cap. 12,6). Ali, foi sabiamente disposto que ele estivesse dormindo, pois o Anjo veio a ele, e convinha que ninguém visse o que sucedia; e, por outro lado, foi bem disposto aqui que Paulo estivesse desperto, a fim de que se impedisse o carcereiro de matar a si mesmo. "E de repente houve um grande terremoto" (v. 26). E por que não se deu outro milagre? Porque este era, de todos, o suficiente para a sua conversão, visto que ele mesmo estava pessoalmente em perigo: pois não são tanto os milagres que nos dominam, quanto as coisas que redundam em nossa própria libertação. Para que o terremoto não parecesse haver vindo por si mesmo, houve esta circunstância concorrente, que lhe dava testemunho: "as portas se abriram, e todas as cadeias se soltaram." E isto se manifesta durante a noite; pois os Apóstolos não operavam para ostentação, mas para a salvação dos homens. "E o carcereiro", etc. (v. 27). O carcereiro não era homem malintencionado; se "os lançou no cárcere interior" (v. 24), foi por ter recebido "tal ordem", não de si mesmo. O homem estava todo em tumulto de perturbação. "Que devo fazer para me salvar?", pergunta ele. Por que não antes disto? Paulo gritou, até que ele o viu, e antecipa-se a ele, dizendo: "Estamos todos aqui. E, tendo pedido luzes", diz o texto, "saltou para dentro e caiu aos pés" do prisioneiro; ele, o carcereiro, dizendo, [truncado]
E por que nenhum outro milagre se deu? Porque este era, dentre todos, o suficiente para a sua conversão, visto que ele próprio estava em perigo: pois não são tanto os milagres que nos subjugam, quanto as coisas que redundam em nossa própria libertação. Para que o terremoto não parecesse ter vindo por si mesmo, houve esta circunstância concorrente, que dele dava testemunho: as portas se abriram, e todas as suas cadeias se soltaram. E isso se dá durante a noite; pois os Apóstolos não operavam para ostentação, mas para a salvação dos homens. E o carcereiro, etc.
E à meia-noite Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus; e os presos os ouviam. E de repente houve um grande terremoto, de tal modo que os alicerces da prisão se abalaram; e logo se abriram todas as portas, e as cadeias de todos se soltaram.
Que poderia igualar-se a estas almas? Estes homens haviam sido açoitados, haviam recebido muitos golpes, foram maltratados, estavam em perigo de vida, foram lançados no cárcere interior e presos no tronco: e, apesar de tudo isso, não se permitiram dormir, mas velaram a noite inteira. Notais que bênção é a tribulação? Nós, porém, em nossos leitos macios, sem nada a temer, passamos a noite inteira dormindo. Mas talvez tenham velado precisamente por causa da condição em que se achavam. Nem a tirania do sono os pôde subjugar, nem a dor os pôde curvar, nem o temor do mal os lançou em desamparado abatimento: antes, foram estas mesmas coisas que os fizeram vigilantes; e ainda se encheram de extraordinário deleite. À meia-noite, diz, e os presos os escutavam: tão estranho e surpreendente era aquilo! E de repente houve um grande terremoto, de tal modo que os alicerces da prisão se abalaram; e logo se abriram todas as portas, e as cadeias de todos se soltaram. E o carcereiro, despertando do sono e vendo abertas as portas da prisão, puxou da espada e quis matar-se, supondo que os presos haviam fugido.
Houve um terremoto, para que o carcereiro fosse despertado do sono, e as portas se escancararam, para que ele se admirasse do que sucedera: mas estas coisas os presos não viram; do contrário, todos teriam fugido: mas o carcereiro estava prestes a matar-se, cuidando que os presos houvessem escapado. Paulo, porém, clamou em alta voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, pois todos estamos aqui.
Não era o carcereiro homem de má índole, para que os lançasse no cárcere interior,
Então pediu luzes, e saltou dentro, e veio trêmulo, e prostrou-se diante de Paulo e Silas; e, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para ser salvo?
Notais como o assombro o subjugou? Mais se admirou da benignidade de Paulo; maravilhou-se de sua varonil intrepidez, pois não fugira quando o tinha em seu poder, e o impedira de se matar. E disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e tua casa. E lhe anunciaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa.
Ora, que lhe haviam dito? Observai que ele, ao ver-se salvo, não julga que tudo está bem; é dominado pelo assombro ante o poder miraculoso.
Notais o que sucedeu no caso anterior, e o que aqui? Ali, uma jovem foi libertada de um espírito, e a eles lançaram na prisão, porque a haviam livrado do espírito. Aqui, apenas mostraram as portas abertas de par em par, e isso abriu as portas de seu coração, soltou duas sortes de cadeias; aquele prisioneiro acendeu a luz (verdadeira); pois a luz em seu coração resplandecia. E ele saltou dentro, e prostrou-se diante deles; e não pergunta: Como é isto? Que é isto? Mas de imediato diz: Que devo fazer para ser salvo? Que responde então Paulo? Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e tua casa.
Pois isto, sobretudo, conquista os homens: que também a sua casa seja salva. E anunciaram-lhe a palavra, e a todos os que estavam em sua casa. E ele os tomou, naquela mesma hora da noite, e lavou-lhes as feridas, etc.
Lavou-os e foi lavado: a estes lavou das feridas, a si mesmo foi lavado dos pecados; alimentou e foi alimentado. E alegrou-se, diz — ainda que não houvesse senão palavras somente e boas esperanças —, tendo crido em Deus com toda a sua casa.
Lavou-os, e foi ele mesmo batizado, ele e a sua casa. E, tendo-os levado para a sua casa, pôs-lhes a mesa, e alegrou-se, crendo em Deus com toda a sua casa. E, sendo já dia, os magistrados enviaram os quadrilheiros, dizendo: Soltai aqueles homens.
este foi o sinal de que cria — que fosse libertado de tudo. Que há de pior que um carcereiro, que coisa mais impiedosa, mais selvagem? Recebeu-os com grande honra. Não foi porque estava seguro que se alegrou, mas por ter crido em Deus. (a) Crê no Senhor, disse o Apóstolo; por isso é que o escritor aqui diz: Tendo crido. — (d) Agora, pois, diz, parti, e ide em paz.
É provável que os magistrados tivessem sabido do que acontecera, e não ousassem por si mesmos soltá-los. E o carcereiro anunciou estas palavras a Paulo, dizendo: Os magistrados mandaram que fôsseis soltos; agora, pois, saí, e ide em paz. Mas Paulo lhes disse: Açoitaram-nos publicamente, sem sermos condenados, sendo nós romanos, e nos lançaram na prisão; e agora nos expulsam às ocultas? De modo nenhum; venham eles mesmos e nos tirem daqui. E os quadrilheiros anunciaram estas palavras aos magistrados; e estes temeram, ao ouvir que eram romanos. E vieram, e rogaram-lhes; e, tirando-os fora, pediam-lhes que se retirassem da cidade. E, saindo da prisão, entraram em casa de Lídia; e, tendo visto os irmãos, os consolaram, e partiram.
e assim deu logo prova da bondade deles para com ele. E tomou-os naquela mesma hora da noite, e lavou-lhes as feridas; e foi batizado, ele e todos os seus, imediatamente.
para que não parecesse receber a sua liberdade como quem foi condenado, e como quem cometeu algum mal: por isso é que diz: Tendo-nos açoitado publicamente sem sermos condenados, etc. — para que não fosse isto matéria de favor da parte deles. (e) E, além disso, querem que o próprio carcereiro esteja fora de perigo, para que não seja depois chamado a prestar contas disto. E não dizem: Tendo-nos açoitado a nós, que operamos milagres; pois nem sequer a isto atendiam eles (os magistrados); mas ao que era mais eficaz para abalar-lhes o ânimo: sem sermos condenados, e sendo romanos. (c) Observai quão diversamente dispõe a graça as coisas: como saiu Pedro, como saiu Paulo, sendo ambos Apóstolos. Temeram,
diz — porque os homens eram romanos, não porque injustamente os haviam lançado na prisão. E rogavam-lhes que se retirassem da cidade.
[traduzido] pediram-lhes como um favor. E foram à casa de Lídia, e, tendo-a confortado, partiram. Pois não era justo deixar sua hospedeira em aflição e ansiedade. Mas saíram, não em obediência ao pedido daqueles magistrados, mas apressando-se para a pregação: a cidade já suficientemente beneficiada pelo milagre; pois convinha que ali não mais permanecessem. Porquanto, na ausência daqueles que o operaram, o milagre parecia ainda maior, clamando ele mesmo mais alto: a fé do carcereiro era, em si, uma voz. Que se pode comparar a isto? Ele é lançado em cadeias, e solta, sendo atado: solta um duplo vínculo — a quem o prendeu, solta-o sendo ele mesmo preso. Estas são, na verdade, obras da graça (sobrenatural).
(f) Tenhamos constantemente em mente este carcereiro, não o milagre: como, prisioneiro que era (o Apóstolo), persuadiu seu próprio carcereiro. Que dizem os gentios? E de que coisas, dizem eles, havia de persuadir-se um homem tal como este — criatura vil, miserável, sem entendimento algum, cheia de tudo o que é mau e de nada mais, e facilmente arrastada a qualquer coisa? Pois estas, dizem eles, são as coisas: um curtidor, uma vendedora de púrpura, um eunuco, escravos e mulheres creram. Isto é o que dizem. Que poderão então dizer, quando lhes apresentarmos homens de posição e dignidade — o centurião, o procônsul, aqueles de então até o presente, os próprios magistrados, os imperadores? Mas, por minha parte, falo de outra coisa, maior que esta: olhemos para estas mesmíssimas pessoas de nenhuma consideração. E onde está a maravilha? perguntas tu. Ora, digo eu, isto mesmo é a maravilha. Pois, se alguém se persuade de coisas comuns, não há maravilha nisso; mas se ressurreição, reino dos céus, vida de domínio filosófico de si mesmo são os assuntos, e, discorrendo destas coisas a pessoas de baixa condição, alguém as persuade, será mais admirável do que se persuadisse homens sábios. Pois, quando nenhum perigo acompanha as coisas de que se persuadem as pessoas, então (o objetor) poderia com alguma plausibilidade alegar falta de entendimento da parte delas; mas quando (o pregador) diz — ao escravo, como quereis — Se és persuadido por mim, é a teu próprio risco, terás todos os homens por inimigos, deves morrer, deves sofrer males sem número, e, apesar de tudo isto, convence a alma daquele homem, já não se pode mais falar aqui de falta de entendimento. Pois, se de fato as doutrinas continham o que era agradável, poder-se-ia razoavelmente dizer isto; mas se o que os filósofos jamais quiseram aprender, isto o escravo aprende, então a maravilha é maior. E, se quiserdes, tragamos à mente o próprio curtidor, e vejamos quais foram os assuntos sobre os quais Pedro com ele conversou; ou, se preferirdes, este mesmo carcereiro. Que disse, pois, Paulo a ele? Que Cristo ressuscitou, dizeis vós; que há ressurreição dos mortos, e um reino: e não teve dificuldade alguma em persuadi-lo, homem facilmente conduzido a qualquer coisa. Como assim? Nada disse ele acerca do modo de vida — que era preciso ser temperante, que era preciso ser superior ao dinheiro, que era preciso não ser sem misericórdia, que era preciso repartir de seus bens com os outros? Pois não se pode dizer que o ser persuadido também destas coisas proviesse de falta de capacidade mental; não, para chegar a tudo isto era necessária uma grande alma. Pois seja que, quanto às doutrinas, foram tornados mais aptos a recebê-las por sua falta de inteligência; mas aceitar uma regra de vida assim virtuosa, assim abnegada, como poderia isso dever-se a algum defeito de entendimento? De modo que, quanto menos entendimento possa ter a pessoa, se ainda assim é persuadida de coisas às quais nem mesmo os filósofos puderam persuadir seus companheiros filósofos, tanto maior é a maravilha — quando mulheres e escravos são persuadidos destas verdades, e o comprovam por suas obras, as mesmas verdades que os Platões e todos os demais jamais puderam persuadir a homem algum. E por que digo, a homem algum? Digo antes, nem sequer a si mesmos: pelo contrário, que o dinheiro não deve ser desprezado, Platão o persuadiu (a seus discípulos) ao adquirir, como adquiriu, tal abundância de propriedades, e anéis de ouro, e taças; e que a honra tributada pela multidão não deve ser desprezada, isto o próprio Sócrates o demonstra, por mais que filosofe sem cessar sobre este ponto: pois em tudo o que fazia, tinha os olhos postos na fama. E se estivésseis familiarizados com seus discursos, eu poderia estender-me longamente sobre este assunto, e mostrar quanta insinceridade (εἰρωνείαν) havia neles — se ao menos podemos crer no que dele diz seu discípulo — e como todos os seus escritos têm seu fundamento na vanglória. Mas, deixando-os, dirijamos o discurso a nós mesmos. Pois, além do que já foi dito, há isto também a acrescentar: que os homens foram persuadidos destas coisas a seu próprio risco. Não sejas, pois, tu desavergonhado, mas pensemos naquela noite, no tronco, e nos hinos de louvor. Façamos isto também, e abriremos para nós mesmos — não uma prisão, mas — o céu. Se orarmos, seremos capazes até de abrir o céu. Elias tanto fechou como abriu o céu pela oração (Tg 5,17). Há uma prisão no céu também. Tudo o que, diz Ele, ligardes na terra, será ligado no céu (Mt 16,19). Oremos de noite, e soltaremos estes vínculos. Pois que as orações soltam pecados, convença-nos aquela viúva, convença-nos aquele amigo que, naquela hora importuna da noite, persiste e bate (Lc 11,5): convença-nos Cornélio, pois, diz o texto, as tuas orações e as tuas esmolas subiram diante de Deus (At 10,4). Convença-nos Paulo, que diz: Ora, a que é verdadeiramente viúva e desamparada espera em Deus, e persevera em súplicas noite e dia (1Tm 5,5). Se assim fala de uma viúva, mulher fraca, muito mais falaria dos homens. Já antes vos discorri sobre isto, e agora o repito: despertemo-nos durante a noite: ainda que não faças muitas orações, faze uma com vigilância, e basta, não peço mais: e se não à meia-noite, ao menos ao primeiro alvorecer. Mostra que a noite é
[traduzido] Mesmo com a declaração dos magistrados, Paulo não sai, mas, tanto por causa de Lídia quanto dos demais, incute-lhes temor: para que não se suponha que saíram a seu próprio pedido, e para que coloquem os demais numa postura de ousadia. A acusação era dupla: que, sendo romanos, e sem condenação, os haviam lançado abertamente na prisão. Vede como em muitas coisas ordenavam suas ações como homens.
[traduzido] De novo, apressam-se, passando pelas cidades pequenas, e avançam para as maiores, visto que destas a palavra havia de fluir como de uma fonte para as cidades vizinhas. "E Paulo, como era seu costume, entrou na sinagoga dos judeus." Ainda que houvesse dito "Voltamo-nos para os gentios" (At 13,46), não os abandonou: tal era o afeto anelante que por eles nutria. Pois ouve-o dizer: "Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus por Israel é que sejam salvos" (Rm 10,1); e: "Eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos" (Rm 9,3). Mas isto fazia por causa da promessa de Deus e da glória: e isto, para que não fosse ocasião de escândalo aos gentios. "Abrindo," diz, "as Escrituras, discorreu com eles por três sábados, propondo-lhes que era necessário que o Cristo padecesse." Observa como, antes de todas as outras coisas, prega a Paixão: tão pouco se envergonhavam dela, sabendo ser ela a causa da salvação. "E alguns deles creram, e associaram-se a Paulo e a Silas; e dos gregos devotos, grande multidão, e das mulheres principais, não poucas." (v. 4) O escritor menciona apenas a suma e substância do discurso: não é dado à redundância, e não relata os sermões em toda ocasião. "Mas os judeus que não creram" (os melhores textos omitem "que não creram"), movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos, da plebe, e ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e, assaltando a casa de Jasão, procuravam tirá-los para o meio do povo. E, não os achando, arrastaram Jasão e alguns irmãos aos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm transtornado o mundo vieram também para aqui; e Jasão os recebeu: e todos estes agem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, um tal Jesus." (v. 5-7) Oh! que acusação! De novo levantam contra eles a acusação de traição, "dizendo que há outro rei, Jesus." E perturbaram o povo e os magistrados da cidade, ao ouvirem estas coisas. E, tomando fiança de Jasão e dos demais, soltaram-nos." (v. 8-9) Homem digno de admiração, que se pôs a si mesmo em perigo, e a eles enviou para longe dele. "E os irmãos, logo de noite, enviaram a Paulo e a Silas para Beroia: os quais, chegando ali, entraram na sinagoga dos judeus. Estes eram mais nobres," diz, "que os de Tessalônica: mais nobres," isto é, mais equânimes (ἐπιεικέστεροι) (em seu comportamento): "porquanto receberam a palavra com toda a prontidão," e isto não sem exame, mas com um rigor em que não havia paixão, "examinando as Escrituras se estas coisas eram assim." (v. 10-11) "Muitos, pois, dentre eles creram; também das mulheres honradas, gregas, e dos homens, não poucos. Mas, sabendo os judeus de Tessalônica que também em Beroia era anunciada por Paulo a palavra de Deus, foram também ali, e agitaram o povo. E, então, logo os irmãos enviaram a Paulo, como que para o mar: mas Silas e Timóteo ficaram ali ainda." (v. 12-14) Vede como ora cede, ora avança, e em muitas coisas ordena suas ações segundo considerações humanas. "E os que conduziam a Paulo levaram-no até Atenas: e, recebendo mandado para Silas e Timóteo, que viessem a ele com toda a pressa, partiram." (v. 15) Mas olhemos de novo o que foi dito. (Recapitulação) "Por três sábados," diz, sendo o tempo em que tinham repouso do trabalho, "discorreu com eles, abrindo as Escrituras" (v. 2): pois assim costumava fazer também Cristo: como em muitas ocasiões o encontramos argumentando a partir das Escrituras, e nem sempre (persuadindo os homens) por milagres. Porque a isto, na verdade, se mostravam hostis, chamando-os enganadores e prestidigitadores; mas aquele que persuade os homens por razões tiradas das Escrituras não está sujeito a esta imputação. E em muitas ocasiões encontramos (Paulo) convencer os homens simplesmente pela força do ensino: e em Antioquia "ajuntou-se toda a cidade" (At 13,44): tão grande coisa é também esta, pois isto mesmo já não é pequeno milagre, antes é milagre muito grande. E, para que não pensassem que faziam tudo isto por sua própria força, mas antes que Deus o permitia, duas coisas resultaram, a saber: "Alguns deles foram persuadidos," etc. (c) "E dos gregos devotos, grande multidão, e das mulheres principais, não poucas": mas aqueles outros fizeram o contrário: "os judeus, movidos de inveja," etc. (v. 4-5) (b) e, do fato de que o próprio chamado era coisa da predestinação de Deus, (a) nem se ensoberbeceram de si mesmos como se o triunfo fosse seu próprio, nem se aterrorizaram como responsáveis (por tudo). Mas como se explica que disse: "Que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão" (Gl 2,9), e contudo discorreu aos judeus? (a) Isto fez como algo além do que lhe era devido. (b) Pois fazia também outras coisas mais do que estava obrigado a fazer. Por exemplo, Cristo ordenou que vivessem do Evangelho (1Cor 9,14; 1,17), mas nosso Apóstolo não o fez: Cristo não o enviou a batizar, contudo ele batizava. Vede como era igual para com todos. Pedro, para a circuncisão; ele, para os gentios, para a maior parte. (a) Pois, se lhe era necessário discorrer aos judeus, como diz de novo: "Porque Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, o mesmo operou poderosamente também em mim para com os gentios" (Gl 2,8)? Do mesmo modo que também aqueles Apóstolos tratavam com os gentios, ainda que houvessem sido separados para a circuncisão, assim também fazia nosso Apóstolo. A maior parte de sua obra era, na verdade, com os gentios: contudo não negligenciava também os judeus, para que não parecessem estar dele apartados. E como se explica, perguntareis, que entrasse em primeiro lugar nas sinagogas, como se este fosse seu objetivo principal? É verdade; mas persuadia os gentios por meio dos judeus, e a partir das coisas que dis
[traduzido] pois assim costumava fazer também Cristo: como em muitas ocasiões o encontramos argumentando a partir das Escrituras, e nem sempre (persuadindo os homens) por milagres. Porque a isto, na verdade, se mostravam hostis, chamando-os enganadores e prestidigitadores; mas aquele que persuade os homens por razões tiradas das Escrituras não está sujeito a esta imputação. E em muitas ocasiões encontramos (Paulo) convencer os homens simplesmente pela força do ensino: e em Antioquia ajuntou-se toda a cidade (At 13,44): tão grande coisa é também esta, pois isto mesmo já não é pequeno milagre, antes é milagre muito grande. E, para que não pensassem que faziam tudo isto por sua própria força, mas antes que Deus o permitia, duas coisas resultaram, a saber: Alguns deles foram persuadidos, etc. (c) E dos gregos devotos, grande multidão, e das mulheres principais, não poucas: mas aqueles outros fizeram o contrário: os judeus, movidos de inveja, etc.
[traduzido] De novo, apressam-se, passando pelas cidades pequenas, e avançam para as maiores, visto que destas a palavra havia de fluir como de uma fonte para as cidades vizinhas. E Paulo, como era seu costume, entrou na sinagoga dos judeus. Ainda que houvesse dito, Voltamo-nos para os gentios (At 13,46), não os abandonou: tal era o afeto anelante que por eles nutria. Pois ouve-o dizer: Irmãos, o desejo do meu coração e a minha oração a Deus por Israel é que sejam salvos (Rm 10,1): e, Eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos (Rm 9,3). Mas isto fazia por causa da promessa de Deus e da glória: e isto, para que não fosse ocasião de escândalo aos gentios. Abrindo, diz, as Escrituras, discorreu com eles por três sábados, propondo-lhes que era necessário que o Cristo padecesse. Observa como, antes de todas as outras coisas, prega a Paixão: tão pouco se envergonhavam dela, sabendo ser ela a causa da salvação. E alguns deles creram, e associaram-se a Paulo e a Silas; e dos gregos devotos, grande multidão, e das mulheres principais, não poucas.
[traduzido] Se havia necessidade de que Ele padecesse, havia certamente necessidade de que ressuscitasse: pois aquilo era, sem dúvida, mais admirável do que isto. Pois, se O entregou à morte, Aquele que nenhum mal havia feito, muito mais O ressuscitaria. Mas os judeus que não creram tomaram consigo alguns da plebe, e alvoroçaram toda a cidade.
[traduzido] O escritor menciona apenas a suma e substância do discurso: não é dado à redundância, e não relata os sermões em toda ocasião. Mas os judeus que não creram (os melhores textos omitem "que não creram"), movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos, da plebe, e ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e, assaltando a casa de Jasão, procuravam tirá-los para o meio do povo. E, não os achando, arrastaram Jasão e alguns irmãos aos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm transtornado o mundo vieram também para aqui; e Jasão os recebeu: e todos estes agem contra os decretos de César, dizendo que há outro rei, um tal Jesus.
[traduzido] (b) e, do fato de que o próprio chamado era coisa da predestinação de Deus, (a) nem se ensoberbeceram de si mesmos como se o triunfo fosse seu próprio, nem se aterrorizaram como responsáveis (por tudo). Mas como se explica que disse: Que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão (Gl 2,9), e contudo discorreu aos judeus? (α) Isto fez como algo além do que lhe era devido. (β) Pois fazia também outras coisas mais do que estava obrigado a fazer. Por exemplo, Cristo ordenou que vivessem do Evangelho (1Cor 9,14; 1,17), mas nosso Apóstolo não o fez: Cristo não o enviou a batizar, contudo ele batizava. Vede como era igual para com todos. Pedro, para a circuncisão; ele, para os gentios, para a maior parte. (α) Pois, se lhe era necessário discorrer aos judeus, como diz de novo: Porque Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, o mesmo operou poderosamente também em mim para com os gentios (Gl 2,8)? Do mesmo modo que também aqueles Apóstolos tratavam com os gentios, ainda que houvessem sido separados para a circuncisão, assim também fazia nosso Apóstolo. A maior parte de sua obra era, na verdade, com os gentios: contudo não negligenciava também os judeus, para que não parecessem estar dele apartados. E como se explica, perguntareis, que entrasse em primeiro lugar nas sinagogas, como se este fosse seu objetivo principal? É verdade; mas persuadia os gentios por meio dos judeus, e a partir das coisas de que discorria aos judeus. E sabia que isto era o mais conveniente aos gentios, e o mais propício à fé. Por isso diz: Porquanto eu sou apóstolo dos gentios (Rm 11,13). E também todas as suas epístolas combatem os judeus. — Que era necessário, diz, que o Cristo padecesse.
de modo que os gentios eram em maior número. Não se julgavam os judeus suficientes, por si mesmos, para suscitar o tumulto: pois, não tendo pretexto razoável, sempre efetuam tais desígnios por meio de alvoroço e valendo-se de homens vis. E não os achando, diz, arrastaram Jasão e alguns irmãos.
Ó que tirania! Arrastaram-nos para fora de suas casas sem causa alguma. Estes todos, dizem eles, procedem contrariamente aos decretos de César.
pois, uma vez que nada diziam contrário ao que fora decretado, nem faziam qualquer sedição na cidade, trazem-lhes acusação diversa: afirmando que há outro rei, um certo Jesus. E perturbaram o povo, etc.
Oh, que acusação! De novo levantam contra eles a acusação de traição, dizendo que há outro rei, um tal Jesus. E perturbaram o povo e os magistrados da cidade, ao ouvirem tais coisas. E, tomando fiança de Jasão e dos demais, os soltaram (v. 8, 9). Homem digno de admiração, que a si mesmo se pôs em perigo, para dali os livrar. E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Beroeia: os quais, chegando ali, entraram na sinagoga dos judeus. Estes eram mais nobres, diz, que os de Tessalônica: mais nobres, isto é, mais equânimes (ἐπιεικέστεροι) (em seu proceder): porquanto recebiam a palavra com toda prontidão, e isto não de modo irrefletido, mas com um rigor em que não havia paixão, examinando as Escrituras se estas coisas eram assim.
E que temeis vós, vendo que Ele está morto? (β) E tendo tomado fiança, etc.
Vede como, dando fiança, Jasão enviou Paulo para longe: de sorte que expôs por ele a própria vida. (α) E os irmãos, etc.
Vede como as perseguições, em todo caso, dilatam a pregação. Ora estes, diz, eram mais nobres que os de Tessalônica.
Isto é, não eram homens que praticavam coisas vis, mas alguns se convenceram, e os outros (que não se convenceram) nada fizeram desse gênero. (β) Diariamente, diz, examinando as Escrituras se estas coisas eram assim: não por mero ímpeto súbito ou explosão de zelo. Mais nobres, diz: isto é, quanto à virtude. (α) Portanto muitos deles, etc.
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Muitos, pois, dentre eles creram, e também mulheres gregas honestas, e não poucos homens. Mas, logo que os judeus de Tessalônica souberam que a palavra de Deus também era anunciada por Paulo em Bereia, foram também lá, e agitaram as multidões. E imediatamente os irmãos enviaram Paulo, para que fosse como que até o mar; mas Silas e Timóteo ficaram ali.
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Porque ali havia pessoas dissolutas. E, contudo, aquela cidade era maior. Mas não é de admirar que, na cidade maior, o povo fosse pior: antes, é natural que para a cidade maior afluam os homens piores, onde são muitas as ocasiões de perturbação. E, como no corpo, onde a doença é mais violenta por ter mais matéria e fomento, assim é também aqui. (α) Mas vede, rogo-vos, como a sua fuga foi providencialmente ordenada, e não por covardia: do contrário, teriam cessado de pregar, e não os teriam irritado ainda mais. Mas desta fuga resultaram duas coisas: tanto se apaziguou a fúria daqueles judeus, quanto se difundiu a pregação. Mas em termos condizentes com a desordem destes, diz ele: Agitando a multidão. (β) Exatamente o que se fez em Icônio — para que tivessem a condenação acrescida de destruir também a outros além de si mesmos (At 14,2.19). Isto é o que Paulo diz deles: Impedindo-nos de falar aos gentios, para encherem sempre a medida dos seus pecados; porque a ira já os alcançou até o extremo (1Ts 2,16). Por que não ficou? Pois, se em Listra (At 14,19.21), ali onde foi apedrejado, ele contudo permaneceu longo tempo, muito mais aqui deveria fazê-lo. Por quê, então? Porque o Senhor não quis que eles estivessem sempre operando sinais; pois isto mesmo é um sinal, não menor que a operação de sinais — que, sendo perseguidos, vencessem sem sinais. De sorte que, assim como agora Ele prevalece sem sinais, também em muitas ocasiões foi Sua vontade prevalecer então. Por conseguinte, tampouco os Apóstolos corriam atrás de sinais: como de fato ele próprio diz, Pregamos a Cristo crucificado (1Cor 1,23) — aos que ambicionam sinais, aos que ambicionam sabedoria, damos aquilo que nem mesmo depois de sinais poderia persuadir, e contudo persuadimos! De sorte que isto mesmo era um grande sinal. Vede, pois, como, à medida que a pregação se estende, eles não se apressam a correr atrás de sinais. Pois convinha que, dali em diante, os próprios crentes fossem grandes sinais para os demais. Todavia, recuando e avançando, faziam estas coisas. (α) E imediatamente, diz, os irmãos enviaram Paulo.
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Pois, ainda que fosse Paulo, contudo necessitava deles. E com razão são impelidos por Deus a ir para a Macedônia, pois ali se estendia também a Grécia, luminosa diante deles. Vede que zelo mostravam os demais discípulos para com os seus chefes: não como agora se dá conosco, que estamos separados e divididos em grandes e pequenos: uns de nós exaltados, enquanto outros invejam; e a razão por que estes invejam é que aqueles se ensoberbecem, porque não suportamos ser igualados a eles. A razão por que há harmonia no corpo é que nele não há soberba: e não há soberba porque os membros são, por necessidade, feitos de modo a carecerem uns dos outros, e a cabeça tem necessidade dos pés. E Deus fez que assim fosse também conosco, e, apesar disso, não o suportamos: ainda que, mesmo sem isto, devesse haver amor entre nós. Não ouvis como os de fora nos acusam quando dizem: A necessidade faz as amizades? Os leigos têm necessidade de nós; e nós, por nossa vez, existimos para eles. Pois nem mestre nem governante existiria, se não houvesse quem fosse ensinado, nem ele poderia desempenhar o seu papel, porquanto não seria possível. Como a terra tem necessidade do lavrador, e o lavrador da terra, assim é também aqui. Que recompensa há para o mestre, quando não tem ninguém a apresentar que ele tenha ensinado? E que proveito para os ensinados, que não tiveram o benefício do melhor ensino? De sorte que necessitamos igualmente uns dos outros, tanto os governados dos que governam, quanto os que lideram dos que obedecem: pois os que governam existem por causa de muitos. Visto que ninguém é capaz de fazer coisa alguma por si só, seja necessário ordenar (χειροτονῆσαι), seja examinar os conselhos e opiniões dos homens, mas eles se tornam mais honrosos pela assembleia e pelo número. Por exemplo, os pobres necessitam de doadores, e os doadores, por sua vez, necessitam de quem receba. Considerando-nos uns aos outros, diz ele, para nos estimularmos ao amor e às boas obras (Hb 10,24). Por esta razão, a assembleia de toda a Igreja tem mais poder: e o que cada um não pode fazer por si só, isoladamente, pode fazê-lo quando unido aos demais. Por isso são muito necessárias as orações que aqui se oferecem pelo mundo, pela Igreja, de uma extremidade da terra à outra, pela paz, por aqueles que estão em adversidades. E Paulo mostra isto quando diz: Para que, pelo dom que nos foi concedido por meio de muitas pessoas, sejam dadas graças por muitos em nosso favor (2Cor 1,11); isto é, para que Ele conferisse o favor a muitos. E frequentemente ele pede as suas orações. Vede também o que Deus diz a respeito dos ninivitas: E não pouparei Eu aquela cidade, onde habitam mais de cento e vinte mil pessoas? (Jn 4,11). Pois, se onde dois ou três, diz Ele, estão reunidos em Meu nome (Mt 18,20), muito prevalecem, quanto mais sendo muitos? E, contudo, podes prevalecer, ainda que sejas apenas um; mas não igualmente. Pois por que és apenas um? Por que não fazes muitos? Por que não te tornas artífice do amor? Por que não crias (κατασκευάζεις) a amizade? Falta-te a principal excelência da virtude. Pois, assim como o serem os homens maus de comum acordo mais provoca a Deus, assim também o serem bons por unanimidade mais O deleita. Não seguirás a multidão, diz Ele, para fazer o mal (Êx 23,2). Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis (Rm 3,12), e se tornaram como que homens que cantam em coro na sua maldade. Faze para ti amigos, com preferência aos domésticos, e a tudo o mais. Se o pacificador é filho de Deus, quanto mais aquele que também faz amigos? (Mt 5,9). Se aquele que apenas reconcilia é chamado filho de Deus, de que não será digno aquele que faz amigos dos que foram reconciliados? Ocupemo-nos, pois, deste ofício: façamos amigos os que são inimigos entre si, e aos que não são, na verdade, inimigos, mas tampouco são amigos, aproximemo-los; e, antes de tudo, a nós mesmos. Pois, assim como aquele que está em discórdia em sua própria casa, e tem desavenças com a esposa, não tem autoridade para reconciliar outros, mas lhe será dito: Médico, cura-te a ti mesmo (Lc 4,23), assim também se dirá ao homem neste caso. Qual é, pois, a inimizade que há em nós? A da alma contra o corpo, a do vício contra a virtude. A esta inimizade ponhamos fim, esta guerra removamos, e então, estando em paz, também nos dirigiremos aos outros com muita ousadia de palavra, não nos acusando a consciência. A ira combate contra a mansidão, o amor ao dinheiro contra o desprezo dele, a inveja contra a bondade de coração. Ponhamos fim a esta guerra, derrubemos estes inimigos, ergamos estes trofeus, estabeleçamos a paz em nossa própria cidade. Temos dentro de nós uma cidade e um regime civil, e cidadãos e muitos estrangeiros: mas desterremos os estrangeiros, para que o nosso próprio povo não seja arruinado. Não entre doutrina alguma estranha nem espúria, nem desejo carnal algum. Não vemos que, se algum inimigo é surpreendido numa cidade, é julgado como espião? Pois bem, não só desterremos os estrangeiros, mas expulsemos também os inimigos. Se virmos algum, entreguemo-lo ao governante — isto é, à consciência (τῷ νῷ) — aquela imaginação que é, na verdade, uma estrangeira, uma bárbara, ainda que ataviada com o traje de cidadã. Pois há dentro de nós muitas imaginações deste gênero, que são, por natureza, na verdade inimigas, mas se revestem de peles de ovelha. Assim como os persas, quando depõem a tiara, e os calções, e o calçado bárbaro, e vestem a outra indumentária que nos é usual, e se tosquiam rente, e falam em nossa própria língua, ocultam a guerra sob o seu trajo exterior: mas, aplicai uma vez os tormentos (βασάνους, isto é, as provas), e trareis à luz o que está oculto; assim também aqui, examinai (ou submetei à prova) repetidas vezes tal imaginação, e logo vereis que o seu espírito é o de um estranho. Mas, para vos mostrar também, a título de exemplo, a espécie de espiões que o diabo envia a nós para espiar o que há em nós, vinde, despojemos um deles, e examinemo-lo rigorosamente ante o tribunal: e, se vos aprouver, tragamos à luz alguns o [truncado]
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Aqui, pois, enviam Paulo sozinho: pois era por ele que temiam, para que não sofresse algum dano, sendo ele, de fato, a cabeça e a frente de todos. (β) Enviaram-no, diz, como que para o mar: para que não lhes fosse fácil capturá-lo. Pois, por ora, eles próprios pouco teriam podido fazer sozinhos; e com ele realizaram e alcançaram muitas coisas. Por ora, diz, quiseram salvá-lo. (α) Longe está, pois, de ser o caso que a Graça (sobrenatural) operasse igualmente em todas as ocasiões: pelo contrário, deixava-os tomar as suas providências segundo o juízo humano, apenas os estimulando e despertando-os do sono, e fazendo-os diligenciar. Assim, observai, conduziu-os salvos somente até Filipos, mas não mais além disso. E, recebendo, diz, ordem para que Silas e Timóteo viessem ter com ele o mais depressa possível, partiram.
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Vede como ora ele cede, ora avança, e em muitas coisas toma as suas providências segundo considerações humanas. E os que conduziam Paulo levaram-no até Atenas; e, recebendo ordem para que Silas e Timóteo viessem ter com ele o mais depressa, partiram (At 17,15). Mas observemos de novo o que foi dito.
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É providencialmente ordenado que, contra a sua vontade, ele ali permaneça, à espera daqueles outros. (a) O seu espírito, diz, se παρωξύνετο dentro dele. Isto não significa aí ira ou exasperação: assim como, noutro lugar, diz: Houve παροξυσμὸς entre eles (At 15,30). (c) Que é, pois, παρωξύνετο? Era despertado: pois o dom está bem longe da ira e da exasperação. Não podia suportá-lo, mas consumia-se. Discutia, portanto, na sinagoga, etc.
Observai como ele encontra provações maiores entre os judeus do que entre os gentios. Assim, em Atenas nada padece desta sorte; a coisa vai até ao escárnio, e aí tem fim: e, contudo, fez alguns convertidos; ao passo que entre os judeus sofreu muitos perigos, tão maior era a hostilidade destes contra ele. — "O seu espírito", diz, "se comovia nele, vendo a cidade tão entregue à idolatria." Em nenhum outro lugar se viam tantos objetos de culto. Mas de novo "disputava na sinagoga com os judeus, e na praça todos os dias com os que ali se encontravam. E também alguns filósofos dos epicureus e dos estoicos" o abordaram (v. 18). É de admirar que os filósofos não o escarnecessem, falando ele do modo como falava. "E alguns diziam: Que quer dizer este paroleiro?" — com insolência, de imediato: isto está longe da filosofia. "Outros diziam: Parece ser pregador de deuses estranhos", a partir da pregação, porque ele não tinha arrogância nenhuma. Não entendiam, nem compreendiam os assuntos de que ele falava — como poderiam? — afirmando eles, uns, que Deus é um corpo; outros, que o prazer é a (verdadeira) felicidade. "De deuses estranhos", porque lhes pregava Jesus e a Ressurreição: pois, com efeito, supunham que "Anástase" (a Ressurreição) fosse alguma divindade, acostumados que estavam a venerar também divindades femininas. "E, tomando-o, o levaram ao Areópago" (v. 19) — não para o punir, mas para aprender — "ao Areópago", onde se realizavam os julgamentos por homicídio. Observai, pois, que na esperança de aprender (lhe perguntam), dizendo: "Poderemos saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois trazes aos nossos ouvidos coisas estranhas" (v. 20): em toda parte a acusação é a novidade: "queremos, pois, saber o que vem a ser isto." Era uma cidade de faladores, aquela sua cidade. "Pois todos os atenienses, e os estrangeiros ali residentes, em nenhuma outra coisa se ocupavam senão em dizer ou em ouvir alguma novidade. Então Paulo, posto em pé no meio do Areópago, disse: Atenienses, em tudo vos vejo como" (v. 21-22) — ele o diz por modo de louvor: (a palavra) não parece ter sentido ofensivo algum — deisidaimonesterous, isto é, eulabesterous, "mais religiosamente dispostos. Porque, passando eu e contemplando os objetos do vosso culto, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais sem o conhecer, esse vos anuncio eu." (v. 23.) — "no qual estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO." Os atenienses, com efeito, como em muitas ocasiões haviam recebido deuses também de terras estrangeiras — por exemplo, o templo de Minerva, o de Pã, e outros de diversas nações — temendo que houvesse ainda algum outro deus a eles desconhecido, mas venerado alhures, para maior segurança, ergueram um altar também a esse deus; e, como o deus era desconhecido, inscreveram-no: "AO DEUS DESCONHECIDO." Este Deus, pois, diz-lhes ele, é Cristo; ou antes, é o Deus de todos. "Esse vos anuncio eu." Observai como mostra que eles já o haviam recebido, e "nada de estranho", diz ele, "nada de novo vos apresento." Ao longo de todo o discurso, era isto que eles vinham dizendo: "Que nova doutrina é essa de que falas? Pois trazes aos nossos ouvidos coisas estranhas." Logo, pois, ele remove essa suposição deles; e então diz: "O Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele há, sendo Ele Senhor do céu e da terra" — pois, para que não imaginem que Ele seja um entre muitos, logo os corrige neste ponto, acrescentando: "não habita em templos feitos por mãos" (v. 24), "nem é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa" — reparai como, pouco a pouco, ele vai introduzindo a filosofia; como ridiculariza o erro pagão! "Pois é Ele quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; e de um só sangue fez todas as nações dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra." Isto é próprio de Deus. Vede, pois, se estas coisas não se podem também predicar do Filho. "Sendo Senhor", diz ele, "do céu e da terra" — o que eles reputavam ser próprio de Deus. Tanto a criação declara ser obra sua, como também o gênero humano. "Tendo determinado", diz ele, "os tempos a eles designados, e os limites da sua habitação" (v. 25-26), "para que buscassem o Senhor, se, porventura, tateando, pudessem achá-lo, ainda que Ele não esteja longe de cada um de nós: pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos próprios poetas disseram: Pois somos também sua geração." (v. 27-28.) Isto foi dito pelo poeta Arato. Observai como ele extrai seus argumentos de coisas feitas por eles mesmos, e de ditos que lhes são próprios. "Sendo, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra, esculpida pela arte." (v. 29.) E, contudo, por esta mesma razão o devêramos pensar. De modo nenhum: pois certamente não somos semelhantes a tais coisas, nem tampouco estas nossas almas. "E à imaginação do homem." Como assim? * * Mas poderia alguém dizer: "Nós não pensamos isso." Mas era à multidão que ele se dirigia, não agora à Filosofia. Como, pois, pensavam eles tão indignamente a respeito d'Ele? De novo, atribuindo-o à ignorância deles, diz: "Ora, Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância." Tendo agitado o ânimo deles pelo temor, acrescenta então isto; e, contudo, diz: "agora, porém, manda a todos os homens, em toda parte, que se arrependam." (v. 30.) "Porquanto determinou um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio daquele homem que constituiu, dando certeza a todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos." (v. 31.) Mas tornemos a considerar o que foi dito. (Recapitulação.) (b) "E enquanto Paulo os esperava", etc. (v. 16.) É por disposição providencial que, contra a sua vontade, ele permanece ali, esperando por aqueles outros. (a) "O seu espírito", diz, "dentro dele" paroxyneto. Isto não significa aí ira nem exasperação, tal como em outro lugar diz: "Houve entre eles paroxysmos." (At 15,30.)
Observai-o de novo a discorrer com os judeus. Por "pessoas devotas" entende os prosélitos. Pois os judeus estavam dispersos por toda parte já antes (texto moderno: desde) da vinda de Cristo, estando a Lei, doravante, por assim dizer, em processo de dissolução, mas ensinando, ao mesmo tempo, a religião aos homens. Aqueles, porém, nada lograram, senão apenas obter testemunhas das suas próprias calamidades. (e) "E certos filósofos", etc.
Observai como ele encontra provações maiores entre os judeus do que entre os gentios. Assim, em Atenas nada padece desta sorte; a coisa vai até ao escárnio, e aí tem fim: e, contudo, fez alguns convertidos; ao passo que entre os judeus sofreu muitos perigos, tão maior era a hostilidade destes contra ele. — O seu espírito, diz, se comovia nele, vendo a cidade tão entregue à idolatria. Em nenhum outro lugar se viam tantos objetos de culto. Mas de novo disputava na sinagoga com os judeus, e na praça todos os dias com os que ali se encontravam. E também alguns filósofos dos estoicos e dos epicureus o abordaram.
Sim, mas eram estas coisas que eles absolutamente não sabiam como entender. Contudo, converteu tanto a Dionísio, o Areopagita, como também a alguns outros. Pois os que se cuidavam de viver retamente, prontamente receberam a palavra; os demais, porém, não assim. Pareceu a Paulo suficiente ter lançado as sementes das doutrinas. (a) A Corinto, pois, como disse, foi ele conduzido pelo Espírito, cidade em que havia de permanecer.
Como vieram eles a dispor-se a discutir com ele? Fizeram-no quando viram outros disputando, e o homem cobrando reputação (no confronto). E observai logo com que insolência arrogante alguns diziam: Que quereria dizer este paroleiro? Pois o homem natural não recebe as coisas do Espírito (1 Cor 2,14). Outros: Parece ser pregador de divindades estranhas: δαιμονίων, pois assim chamavam eles a seus deuses. E, tomando-o, o levaram, etc.
É de admirar que os filósofos não o escarnecessem, falando ele do modo como falava. E alguns diziam: Que quer dizer este paroleiro? — com insolência, de imediato: isto está longe da filosofia. Outros diziam: Parece ser pregador de deuses estranhos, a partir da pregação, porque ele não tinha arrogância nenhuma. Não entendiam, nem compreendiam os assuntos de que ele falava — como poderiam? — afirmando eles, uns, que Deus é um corpo; outros, que o prazer é a (verdadeira) felicidade. De deuses estranhos, porque lhes pregava Jesus e a Ressurreição: pois, com efeito, supunham que Anástase (a Ressurreição) fosse alguma divindade, acostumados que estavam a venerar também divindades femininas. E, tomando-o, o levaram ao Areópago
(a) Os atenienses já não gozavam de suas próprias leis, mas haviam-se tornado súditos dos romanos. (g) Por que, então, o arrastaram ao Areópago? Com o intento de o intimidar — lugar onde se realizavam os julgamentos por derramamento de sangue. Poderemos saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois trazes aos nossos ouvidos certas coisas estranhas; queremos, pois, saber o que vem a ser isto. Pois todos os atenienses, e os estrangeiros ali residentes, em nenhuma outra coisa se ocupavam senão em dizer ou em ouvir alguma novidade.
não para o punir, mas para aprender — ao Areópago, onde se realizavam os julgamentos por homicídio. Observai, pois, que na esperança de aprender (lhe perguntam), dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa de que falas? Pois trazes aos nossos ouvidos certas coisas estranhas
Em toda parte a acusação é de novidade: gostaríamos, pois, de saber o que estas coisas podem significar. Era uma cidade de tagarelas, aquela cidade deles. Pois todos os atenienses e os estrangeiros que ali se encontravam não gastavam o tempo senão em dizer ou em ouvir alguma novidade. Então Paulo, posto no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, considero-vos em tudo
Aqui se nota que, embora sempre ocupados apenas nesse dizer e ouvir, ainda assim julgavam estranhas aquelas coisas — coisas que jamais haviam ouvido. Então Paulo, posto no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, considero-vos em tudo mais religiosamente dispostos
(f) pois as cidades estavam cheias de deuses (δαιμόνων, ou, segundo outros, εἰδώλων): (h) por isso diz δεισιδαιμονεστέρους. Pois passando eu e contemplando os objetos do vosso culto — não diz simplesmente τοὺς δαίμονας (os demônios, ou divindades), mas prepara o caminho para o seu discurso: achei um altar, etc.
Ele o coloca a título de elogio: (a palavra) não parece significar algo ofensivo — δεισιδαιμονεστέρους, isto é, εὐλαβεστέρους, mais religiosamente dispostos. Pois passando eu e contemplando as vossas devoções, achei um altar com esta inscrição: A um Deus Desconhecido. O que, pois, ignorantemente adorais, isto vos anuncio.
Por isso diz: considero-vos como mais religiosamente dispostos, a saber, por causa do altar. Deus, diz ele, que fez o mundo.
No qual estava inscrito: A um Deus Desconhecido. Os atenienses, com efeito, como em muitas ocasiões haviam recebido deuses também de terras estrangeiras — por exemplo, o templo de Minerva, de Pã, e outros de diferentes países — temendo que houvesse algum outro deus ainda não conhecido por eles, mas adorado alhures, para maior segurança, ergueram, na verdade, um altar também a esse deus: e, como o deus não era conhecido, foi inscrito: A um Deus Desconhecido. Este Deus, pois, ele lhes diz, é Cristo; ou antes, o Deus de todos. A Este vos anuncio. Observai como ele mostra que já O haviam recebido, e não é nada estranho, diz ele, nada de novo o que vos introduzo. Durante todo esse tempo, era isto que diziam: Que nova doutrina é esta de que falais? Pois trazeis certas matérias estranhas aos nossos ouvidos. Imediatamente, pois, ele remove esta suposição deles: e então diz: Deus que fez o mundo e todas as coisas nele contidas, sendo Ele Senhor do céu e da terra — pois, para que não imaginem que Ele seja um entre muitos, ele logo os corrige quanto a este ponto, acrescentando: não habita em templos feitos por mãos
Proferiu uma só palavra, pela qual subverteu todas as (doutrinas) dos filósofos. Pois os epicureus afirmavam que tudo se formara ao acaso e por concurso de átomos; os estoicos sustinham que era corpo e fogo (ἐκπύρωσιν). O mundo e tudo quanto nele há. Reparai na concisão, e, na concisão, na clareza! Reparai no que lhes era estranho: que Deus fizera o mundo! Coisas que hoje qualquer homem, mesmo o mais simples, conhece, essas os atenienses e os sábios de Atenas não conheciam. Sendo Ele Senhor do céu e da terra: pois, se os fez, claro está que é Senhor deles. Observai o que ele afirma ser a marca da Divindade — a criação. Atributo que também o Filho possui.
Pois os Profetas em toda parte afirmam isto: que criar é prerrogativa de Deus. Não como afirmam aqueles que outro seja o Artífice, mas não o Senhor, supondo que a matéria seja increada. Aqui, pois, ele afirma e estabelece encobertamente a sua própria doutrina, ao mesmo tempo em que derruba a deles. Não habita em templos feitos por mãos. Pois Ele, na verdade, habita em templos, mas não em tais templos, senão na alma do homem. Ele derruba o culto corpóreo. Que, pois? Acaso não habitava Ele no templo de Jerusalém? De modo algum: mas ali operava. Nem é servido por mãos de homens.
nem é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo — reparai como, pouco a pouco, ele introduz a filosofia? Como ridiculariza o erro dos gentios? visto que é Ele quem dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas; e de um só sangue fez todas as nações dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra. Isto é peculiar a Deus. Vede, pois, se estas coisas não podem ser também predicadas do Filho. Sendo Senhor, diz ele, do céu e da terra — coisa que eles atribuíam a Deus. Tanto a criação declara ser obra Sua, quanto também a humanidade. Tendo determinado, diz ele, os tempos que lhes foram assinalados, e os limites de sua habitação,
Estas coisas são melhores que as anteriores: e que refutação, tanto dos átomos quanto da matéria, é o fato de que a criação não é obra parcial, nem tampouco a alma do homem! Ora, isto que aqueles afirmam não é o próprio ser Criador. — Mas pela mente e pelo entendimento Ele é adorado. — É Ele quem dá, etc. Não os deuses parciais (μερικοὶ δαίμονες). E todas as coisas. É Ele, diz. — Como também o homem veio a existir. — Primeiro mostrou que Ele não habita, etc., e depois declarou que não é servido como se tivesse necessidade de algo. Se é Deus, fez todas as coisas: mas, se não as fez, não é Deus. Pereçam os deuses que não fizeram o céu e a terra. Ele introduz doutrinas bem mais elevadas, ainda que não mencione ainda as grandes doutrinas; mas discorria com eles como com crianças. E estas eram muito superiores àquelas. Criação, Senhorio, não ter necessidade de nada, autoria de todo bem — estas ele já declarou. Mas como é Ele adorado? Dizei. Ainda não é o tempo próprio. Que se iguala a esta sublimidade? Maravilhoso é também isto: de um só, ter feito tantos; mas também, tendo-os feito, Ele mesmo os sustém (συγκρατεῖ) no ser, dando vida e fôlego e todas as coisas. (b) E determinou os tempos assinalados, e os limites de sua habitação, para que buscassem a Deus, se, porventura, tateando, pudessem alcançá-lO e encontrá-lO.
Como, pois, era Ele servido por mãos de homens entre os judeus? Não por mãos, mas pelo entendimento. Como se tivesse necessidade de algo: pois nem mesmo aqueles (atos de culto) Ele buscava desse modo, como quem tivesse necessidade. Comerei Eu, diz Ele, carne de touros, ou beberei sangue de bodes? (Sl 50,13). Nem isto basta — o não ter necessidade de nada — que ele já afirmou: pois, ainda que isto seja divino, cumpre acrescentar outro atributo. Visto que é Ele quem dá a todos vida, e fôlego, e todas as coisas. Duas provas da Divindade: não ter Ele mesmo necessidade de nada, e prover todas as coisas a todos os homens. Trazei aqui Platão (e) tudo quanto filosofou acerca de Deus, tudo quanto Epicuro disse: e tudo é fútil diante disto! Dá, diz ele, vida e fôlego. Eis que O faz Criador também da alma, não seu gerador. Vede novamente como derruba a doutrina acerca da matéria. E fez, diz ele, de um só sangue toda nação dos homens, para habitar sobre toda a face da terra.
para que buscassem o Senhor, se, porventura, tateando, pudessem alcançá-lO e encontrá-lO, ainda que Ele não esteja longe de cada um de nós: pois nEle vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos próprios poetas disseram: Pois somos também sua geração.
(a) Significa isto: ou que Ele não os obrigou a percorrer e buscar a Deus senão segundo os limites de sua habitação; (c) ou isto: que Ele determinou que o buscassem, mas não determinou que isto se fizesse continuamente, senão em certos tempos assinalados (para que o fizessem): mostrando agora que, não O tendo buscado, O haviam achado; pois, visto que, tendo buscado, não O haviam encontrado, mostra que Deus era agora tão manifesto como se estivesse palpavelmente (ψηλαφώμενος) no meio deles. (e) Ainda que não esteja longe, diz ele, de cada um de nós, antes está perto de todos. Vede novamente o poder (ou, o que é ser Deus) de Deus. Que diz ele? Não somente deu vida e fôlego e todas as coisas, mas, como suma e substância de tudo, nos conduziu ao conhecimento de Si mesmo, dando-nos estas coisas pelas quais somos capazes de O achar e de O apreender. Nós, porém, não quisemos achá-lO, embora estivesse tão perto. Ainda que não esteja longe de cada um de nós. Olhai agora, Ele está perto de todos, de cada um, em todo o mundo! Que pode haver de maior que isto? Vede como ele faz completa varredura dos deuses parciais (τοὺς μερικούς)! Que digo eu, longe? Está Ele tão perto que, sem Ele, não vivemos: pois nEle vivemos, e nos movemos, e existimos.
NEle; para o dizer por meio de uma similitude corpórea, assim como é impossível ignorar o ar que se difunde por todos os lados ao nosso redor, e não está longe de nenhum de nós, antes está em nós. (d) Pois não era que houvesse céu em um lugar, e em outro não, nem tampouco (houvesse céu) em um tempo, e em outro não. De modo que, tanto em todo tempo quanto em todo lugar, era possível achá-lO. Assim Ele ordenou as coisas, que nem pelo lugar nem pelo tempo fossem os homens impedidos. Pois isto mesmo, ainda que nada mais, já era por si um auxílio para eles — que o céu está em todo lugar, que subsiste em todo tempo. (f) Vede como declara a Sua Providência, e o Seu poder sustentador (συγκράτησιν); a existência de todas as coisas a partir dEle, (a partir dEle) a operação delas (τὸ ἐνεργεῖν), (a partir dEle a preservação) para que não pereçam. E não diz: Por meio dEle, mas, o que é mais próximo ainda: nEle. — Aquele poeta não disse nada igual a isto: Pois somos sua geração. Ele, contudo, disse-o de Júpiter, mas Paulo o toma do Criador, não querendo dizer o mesmo ser que aquele — Deus nos livre! — mas o que propriamente se predica de Deus: assim como falou do altar com referência a Ele, não ao ser a quem eles adoravam. Como quem dissesse: Pois certas coisas se dizem e se fazem com referência a este (verdadeiro Deus), mas vós não sabeis que se referem a Ele. Pois dizei: de quem se diria propriamente: Ao Deus Desconhecido? Do Criador, ou do demônio? Manifestamente do Criador: porque a este não conheciam, mas ao outro conheciam. Novamente, que todas as coisas estão cheias (da presença) — de Deus? Ou de Júpiter — miserável homem, detestável impostor! Mas Paulo não o disse no mesmo sentido que aquele — Deus nos livre! — mas com sentido bem diverso. Pois diz que somos geração de Deus, isto é, próprios de Deus, como que Seus mais próximos parentes.
Pois, para que não, ao dizer ele, sendo geração de Deus
Isto foi dito pelo poeta Arato. Observai como ele extrai seus argumentos das próprias obras deles e dos próprios ditos deles. Sendo nós, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra lavrada pela arte.
Para que não dissessem novamente: Trazeis aos nossos ouvidos certas coisas estranhas, ele produz o poeta. Não diz: Não deveis pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro ou à prata, ó malditos e execráveis; mas de modo mais humilde diz: Não devemos. Pois quê? — diz ele. Deus está acima disto? Tampouco diz isto; mas, por ora, isto: Não devemos pensar que a Divindade seja semelhante a tais coisas, pois nada há tão oposto ao homem. Mas nós não afirmamos que a Divindade seja semelhante a isto, pois quem diria tal coisa? Observai como ele introduziu a natureza incorpórea de Deus quando disse: Nele, etc., pois a mente, quando supõe um corpo, ao mesmo tempo implica a noção de distância. Falando à multidão, ele diz: Não devemos pensar que a Divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra, obra talhada pela arte, pois, se nós mesmos não somos semelhantes a estas coisas quanto à alma, muito menos Deus o é. Até aqui, ele os afasta desta noção. Mas tampouco a Divindade, diria ele, está sujeita a qualquer outra concepção humana. Pois, se aquilo que a arte ou o pensamento descobriu — e por isso ele o diz assim, da arte ou da imaginação do homem — se, pois, aquilo que a arte ou o pensamento humano descobriu é Deus, então também na pedra estaria a essência de Deus. Como se explica, então, que, vivendo nEle, não O encontremos? A acusação é dupla: tanto o não O terem encontrado, quanto o terem encontrado tais coisas como estas. O entendimento humano, em si mesmo, não é de modo algum digno de confiança. Mas, tendo agitado a alma deles ao mostrar-lhes que estavam sem desculpa, vede o que ele diz: Deus dissimulou os tempos da ignorância, mas agora manda a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam.
E, no entanto, por esta razão devemos. De modo algum: pois certamente não somos semelhantes a tais coisas, nem tampouco estas nossas almas o são. E imaginação do homem. Como assim? * * Mas poderia alguém dizer: Não pensamos isto. Mas era à multidão que ele se dirigia, não agora à Filosofia. Como, então, pensaram eles tão indignamente a respeito dEle? Novamente, atribuindo-o à ignorância deles, diz: Ora, Deus dissimulou os tempos da ignorância. Tendo agitado as mentes deles pelo temor, acrescenta então isto: e, contudo, diz ele, mas agora manda a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam.
Porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do varão que designou, do que deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.
Que, pois? Nenhum destes homens há de ser punido? Nenhum dos que estão dispostos a arrepender-se. Ele o diz destes homens, não dos falecidos, mas daqueles a quem manda que se arrependam. Não vos pede contas, quer ele dizer. Não diz: Não reparou (παρεἵδεν); não diz: Permitiu; mas: Éreis ignorantes. Dissimulou, isto é, não exige punição como de homens que merecem castigo. Éreis ignorantes. E não diz: Fizestes o mal deliberadamente; mas isto ele já mostrara pelo que dissera acima. — A todos os homens, em todo lugar, que se arrependam: novamente alude ao mundo inteiro. Observai como os afasta das divindades particulares! Porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio daquele Varão que designou, do que deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.
Observai como ele declara novamente a Paixão. Observai novamente o terror: pois que o juízo é verdadeiro manifesta-se pela ressurreição dEle, visto que esta é alegada em prova daquele. Que tudo quanto ele vinha dizendo é verdadeiro, manifesta-se pelo fato de que Ele ressuscitou. Pois Ele deu esta certeza a todos os homens por Sua ressurreição dentre os mortos: também isto, a saber, o juízo, é doravante certo.
Estas palavras foram, na verdade, ditas aos atenienses; mas seria oportuno que se dissesse também a nós que todos os homens, em todo lugar, devem arrepender-se, porquanto Ele estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo. Vede como Ele o introduz também como Juiz: a Ele, ao mesmo tempo próvido para com o mundo, misericordioso, clemente, poderoso e sábio, e, numa palavra, possuidor de todos os atributos de um Criador. Tendo dado certeza a todos os homens, isto é, Ele deu prova disso na ressurreição de Jesus dentre os mortos. Arrependamo-nos, pois, porquanto certamente havemos de ser julgados. Se Cristo não ressuscitou, não seremos julgados; mas, se ressuscitou, sem dúvida seremos julgados. Pois para isto, diz a Escritura, é que Ele também morreu, para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos (Rm 14,9). Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito (2 Cor 5,10). Não imagineis que estas sejam meras palavras. Eis que Ele introduziu também o tema da ressurreição de todos os homens, pois de nenhum outro modo pode o mundo ser julgado. E aquilo — ressuscitando-o dentre os mortos — refere-se ao corpo, pois este é que estava morto, este é que havia caído. Entre os gregos, tanto as suas noções acerca da Criação quanto as do Juízo são fantasias de crianças, delírios de homens ébrios. Mas nós, que conhecemos estas coisas com exatidão, façamos algo que seja proveitoso: tornemo-nos amigos de Deus. Até quando estaremos em inimizade com Ele? Até quando nutriremos aversão para com Ele? Deus me livre! — direis: Por que dizeis tais coisas? Eu preferiria não dizer o que digo, se não fizésseis o que fazeis; mas, sendo as coisas como são, que proveito há agora em calar as palavras, quando a evidência manifesta das obras assim clama? Como, pois, como haveremos de amá-lo? Já vos disse milhares de modos, milhares de vezes; mas o direi também agora. Um modo me parece ter descoberto, modo muito grande e admirável. A saber: depois de reconhecermos para com Ele as nossas obrigações gerais — o que ninguém será capaz de exprimir, refiro-me ao que foi feito por cada um de nós em sua própria pessoa —, recordemo-nos também destas, porquanto são de grande força: reconte cada um de nós consigo mesmo, e faça diligente busca, e tenha, como que num livro, escritos os benefícios de Deus; por exemplo, se alguma vez, tendo caído em perigos, escapou das mãos dos seus inimigos; se alguma vez, tendo saído em viagem a hora imprópria, escapou do perigo; se alguma vez, tendo tido encontro com homens perversos, levou a melhor sobre eles; ou se alguma vez, tendo caído em enfermidade, recobrou a saúde quando todos já o haviam desenganado: pois isto muito vale para nos unir a Deus. Pois, se aquele Mardoqueu, quando os serviços por ele prestados foram trazidos à memória do rei, viu-os tão proveitosos que, em retorno, se elevou àquele cume de esplendor (Ester 6,2-11), muito mais nós, se nos recordarmos e diligentemente indagarmos destes dois pontos — que pecados cometemos contra Deus, e que bem Ele nos tem feito —, assim seremos agradecidos, e Lhe daremos de bom grado tudo quanto é nosso. Mas ninguém dá atenção a nenhuma destas coisas; antes, assim como a respeito dos nossos pecados dizemos que somos pecadores, sem contudo indagá-los especificamente, assim também a respeito dos benefícios de Deus dizemos que Deus nos tem feito bem, sem indagar especificamente onde, em que número e em que ocasião. Mas, doravante, sejamos muito exatos nesta contagem. Pois, se alguém pode recordar até mesmo aquelas coisas que sucederam há muito tempo, que as reconte todas com exatidão, como quem há de encontrar um grande tesouro. Isto também nos é proveitoso para nos guardar do desespero. Pois, quando virmos que Ele muitas vezes nos protegeu, não desesperaremos, nem suporemos que fomos rejeitados; antes, tomá-lo-emos como forte penhor do Seu cuidado para conosco, ao recordarmos como, ainda que tenhamos pecado, não somos castigados, mas antes gozamos de Sua proteção. Permiti-me agora contar-vos um caso que ouvi de certa pessoa, no qual havia um menino; e sucedeu certa vez que ele estava no campo com sua mãe, não tendo ainda quinze anos. Justamente então sobreveio um ar corrupto, em consequência do qual uma febre acometeu a ambos, pois era, de fato, a estação do outono. Sucedeu que a mãe conseguiu entrar na cidade antes que a pudessem impedir; mas o menino, quando os médicos do lugar lhe ordenaram, ardendo nele a febre, que gargarejasse a garganta, resistiu, tendo, segundo lhe parecia, seu próprio e sábio parecer sobre o caso, e pensando que melhor apagaria o fogo se nada absolutamente tomasse; por isso, em seu intempestivo espírito de oposição, como é próprio de menino, nada quis tomar. Mas, quando entrou na cidade, sua língua ficou paralisada, e por longo tempo ficou mudo, de sorte que nada podia pronunciar articuladamente; contudo, sabia ler, e por longo tempo frequentou mestres, mas isto foi tudo, e nada havia que assinalasse progresso. Assim, todas as suas esperanças nesta vida foram cortadas, e sua mãe ficou cheia de tristeza; e, ainda que os médicos sugerissem muitos planos, e muitos outros também o fizessem, ninguém conseguia fazer-lhe bem algum, até que o Deus misericordioso soltou a corda da sua língua (cf. Mc 7,35), e então ele se recuperou, e foi restituído à sua antiga prontidão e clareza de fala. Contava também sua mãe que, quando era ainda menino muito pequeno, tivera uma afecção no nariz, a que chamam pólipo; e que também então os médicos o haviam desenganado, e seu pai o amaldiçoara (pois o pai vivia ainda então), e até sua mãe orara para que morresse; e tudo estava cheio de aflição. Ma [truncado]
Que doutrinas tão grandes e sublimes, nem sequer atenderam, mas escarneceram da Ressurreição! Pois o homem natural, diz a Escritura, não recebe as coisas do Espírito (1 Cor 2,14). E assim, diz, Paulo se retirou.
Qual pode ser a razão pela qual, tendo persuadido (alguns a ponto de dizerem) que o ouviriam de novo, e não havendo perigo algum, Paulo se apressa tanto a deixar Atenas? Provavelmente sabia que não lhes faria grande bem; além disso, foi conduzido pelo Espírito a Corinto. (b) Pois os atenienses, embora ávidos de ouvir coisas estranhas, contudo não lhe davam atenção; pois não era esse o seu estudo, mas apenas ter sempre algo a dizer; o que foi a causa que os fez afastar-se dele. Mas, se este era o seu costume, como é que o acusam, dizendo que "parece ser um proclamador de deuses estranhos"? (At 17,18). Sim, mas eram assuntos dos quais não sabiam absolutamente o que pensar. Contudo, ele converteu tanto Dionísio, o Areopagita, quanto alguns outros. Pois os que zelavam por uma (reta) conduta de vida rapidamente receberam a palavra; mas os outros, não assim. Pareceu a Paulo suficiente ter lançado as sementes das doutrinas. (a) A Corinto, então, como disse, foi ele conduzido pelo Espírito, cidade na qual havia de permanecer. (c) "E, tendo encontrado um certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália" — pois a maior parte de sua vida ali se passara — "e Priscila, sua mulher, porquanto Cláudio ordenara que todos os judeus se retirassem de Roma" (v. 2). Pois, embora tenha sido no reinado de Nero que a guerra contra os judeus se consumou, já desde o tempo de Cláudio em diante ela se atiçava, à distância, é certo, de sorte que, ainda que fosse apenas isso, pudessem eles voltar a si; e de Roma foram então expulsos como pestes públicas. Eis por que é assim disposto pela Providência que Paulo fosse ali conduzido como prisioneiro, para que não fosse, como judeu, expulso, mas, agindo sob custódia militar, ali pudesse até ser guardado. (Tendo-os encontrado,) "veio a eles e, porque era do mesmo ofício, ficou com eles e trabalhava; pois de profissão eram fabricantes de tendas" (v. 3). Vede que justificativa ele encontrou para habitar na mesma casa que eles! Pois, porque aqui, mais do que em qualquer outro lugar, era necessário que ele não recebesse, como ele mesmo diz, "para que, naquilo em que se gloriam, sejam achados iguais a nós" (2 Cor 11,12), é providencialmente disposto que ali ele permaneça. "E ele discutia na sinagoga todo sábado, e persuadia judeus e gregos. E, quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo se via constrangido pela palavra, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo" (v. 4-5). "E quando os judeus se opunham e blasfemavam", isto é, tentavam oprimi-lo (epereazon), investiam contra ele — que faz então Paulo? Aparta-se deles, e de modo muito solene: e embora não diga agora "Era necessário que a palavra vos fosse anunciada", contudo lho dá a entender veladamente: — "e quando se opuseram e blasfemaram, sacudiu ele as vestes e lhes disse: O vosso sangue seja sobre vossas próprias cabeças; eu estou limpo: doravante irei aos gentios" (v. 6). "E, retirando-se dali, entrou na casa de um certo homem chamado Justo, temente a Deus, cuja casa era contígua à sinagoga." Vede como, tendo dito de novo "doravante" — apesar de tudo, não os negligencia; de modo que foi para os despertar que disse isto, e logo em seguida veio à casa de Justo, contígua à sinagoga, de sorte que até por isso pudessem ter ciúme, pela própria proximidade. "E Crispo, o chefe da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua casa." Isto também, dentre tudo, era suficiente para atraí-los. "E muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados. Então falou o Senhor a Paulo, de noite, em visão: Não temas, mas fala, e não te cales; pois Eu estou contigo, e ninguém te acometerá para te fazer mal, porque Eu tenho muito povo nesta cidade" (v. 8-10). Vede por quantas razões o persuade, e como põe por último a razão que, de todas, mais o persuadiria: "Eu tenho muito povo nesta cidade." Como foi então, perguntareis, que investiram contra ele? E, contudo, diz-nos o autor, nada conseguiram, mas o levaram ao procônsul. "E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus. E, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus de comum acordo contra Paulo, e o levaram ao tribunal" (v. 11-12). Reparai por que aqueles homens sempre procuravam dar caráter público aos delitos (de que os acusavam). Vede pois aqui: (b) "dizendo: Este persuade os homens a adorar a Deus contra a lei. E, quando Paulo ia abrir a boca, disse Gálio: Se se tratasse de algum agravo ou crime malicioso, ó judeus, razão haveria para que eu vos tolerasse. Mas, se a questão é de palavras e de nomes, e da vossa lei, cuidai vós mesmos disso; pois eu não quero ser juiz de tais coisas. E os expulsou do tribunal" (v. 13-16). Este Gálio parece-me ter sido homem sensato. (a) Vede assim, quando estes disseram: "Contra a lei persuade os homens a adorar a Deus," ele "não se importou com nenhuma destas coisas"; e reparai como lhes responde: "Se se tratasse", de algum assunto que afetasse a cidade, "de algum agravo ou crime malicioso", etc. (c) "Então todos os judeus, tomando Sóstenes, o chefe da sinagoga, o feriram diante do tribunal; e Gálio não se importava com nada disso" (v. 17): mas o ferirem a ele não tomou como insulto contra si mesmo. Tão petulantes eram os judeus. Mas retomemos o que já se disse. (Recapitulação.) "E quando ouviram" (At 17,32) quão grandes e sublimes doutrinas, nem sequer atentaram, mas zombaram da Ressurreição! "Pois o homem natural", diz, "não recebe as coisas do Espírito" (1 Cor 2,14). "E assim", diz, "Paulo saiu do meio deles" (v. 33). Como? Tendo persuadido a alguns; escarnecido por outros. "Mas alguns homens", diz, "se ajuntaram a ele e creram, entre os quais também Dionísio, o Areopagita, e alguns outros" (v. 34). "E depois destas coisas", etc. "E tendo
Como? Tendo persuadido a alguns; escarnecido por outros. Mas alguns homens, diz, se ajuntaram a ele e creram, entre os quais também Dionísio, o Areopagita, e alguns outros.
E depois destas coisas, etc. E tendo encontrado um certo judeu por nome Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália, porquanto Cláudio ordenara que todos os judeus se retirassem de Roma, veio a eles e, porque era do mesmo ofício, ficou com eles e trabalhava; pois de profissão eram fabricantes de tendas.
Qual pode ser a razão pela qual, tendo persuadido (alguns a ponto de dizerem) que o ouviriam de novo, e não havendo perigo algum, Paulo se apressa tanto a deixar Atenas? Provavelmente sabia que não lhes faria grande bem; além disso, foi conduzido pelo Espírito a Corinto. (b) Pois os atenienses, embora ávidos de ouvir coisas estranhas, contudo não lhe davam atenção; pois não era esse o seu estudo, mas apenas ter sempre algo a dizer; o que foi a causa que os fez afastar-se dele. Mas, se este era o seu costume, como é que o acusam, dizendo que parece ser um proclamador de deuses estranhos?
Qual pode ser a razão pela qual, tendo persuadido (alguns a ponto de dizerem) que o ouviriam de novo, e não havendo perigo algum, Paulo se apressa tanto a deixar Atenas? Provavelmente sabia que não lhes faria grande bem; além disso, foi conduzido pelo Espírito a Corinto. (b) Pois os atenienses, embora ávidos de ouvir coisas estranhas, contudo não lhe davam atenção; pois não era esse o seu estudo, mas apenas ter sempre algo a dizer; o que foi a causa que os fez afastar-se dele. Mas, se este era o seu costume, como é que o acusam, dizendo que parece ser um proclamador de deuses estranhos? At 17,18. Sim, mas eram assuntos dos quais não sabiam absolutamente o que pensar. Contudo, ele converteu tanto Dionísio, o Areopagita, quanto alguns outros. Pois os que zelavam por uma (reta) conduta de vida rapidamente receberam a palavra; mas os outros, não assim. Pareceu a Paulo suficiente ter lançado as sementes das doutrinas. (a) A Corinto, então, como disse, foi ele conduzido pelo Espírito, cidade na qual havia de permanecer. (c) E, tendo encontrado um certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recém-chegado da Itália — pois a maior parte de sua vida ali se passara — e Priscila, sua mulher, porquanto Cláudio ordenara que todos os judeus se retirassem de Roma.
Pois, embora tenha sido no reinado de Nero que a guerra contra os judeus se consumou, já desde o tempo de Cláudio em diante ela se atiçava, à distância, é certo, de sorte que, ainda que fosse apenas isso, pudessem eles voltar a si; e de Roma foram então expulsos como pestes públicas. Eis por que é assim disposto pela Providência que Paulo fosse ali conduzido como prisioneiro, para que não fosse, como judeu, expulso, mas, agindo sob custódia militar, ali pudesse até ser guardado. (Tendo-os encontrado,) veio a eles e, porque era do mesmo ofício, ficou com eles e trabalhava; pois de profissão eram fabricantes de tendas.
Sendo do Ponto, este Áquila * * *. Reparai como, não em Jerusalém, nem perto dela (da crise), se apressava a vir, mas a maior distância. E com ele fica, e não se envergonha de ficar; antes, por esta mesma razão fica, como tendo achado pousada conveniente, pois para ele era muito mais conveniente do que qualquer palácio real. E não sorrias tu, amado, ao ouvir (falar do seu ofício). Pois (era bom para ele), assim como para o atleta a palestra é mais útil do que tapetes delicados, assim para o guerreiro a espada de ferro (é útil), não a de ouro. E trabalhava, ainda que pregasse. Envergonhemo-nos nós, que, não tendo pregação alguma que nos ocupe, vivemos na ociosidade. E disputava na sinagoga todo sábado, e persuadia tanto judeus quanto gregos.
Vede que justificativa ele encontrou para habitar na mesma casa com eles! Pois, precisamente porque em nenhum outro lugar era mais necessário que ele não recebesse — como ele mesmo diz: "Naquilo em que se gloriam, sejam achados também como nós" (2 Cor 11:12) — providencialmente se ordena que ali permaneça. "E ele disputava na sinagoga todos os sábados, e persuadia a judeus e a gregos. E quando Silas e Timóteo desceram da Macedônia, Paulo se via constrangido pela palavra, testificando aos judeus que Jesus era o Cristo."
mas quando estes se opuseram e blasfemaram, ele se retirou, esperando com isto atraí-los ainda mais. Pois por que, tendo deixado aquela casa, veio ele morar junto à sinagoga? Não foi por isto mesmo? Pois não era que ali visse ele algum perigo. Mas é por isto que Paulo, tendo-lhes testificado — não mais ensina agora, mas testifica — tendo sacudido as suas vestes, para aterrá-los não somente pela palavra, mas também pelo gesto, lhes disse: "O vosso sangue seja sobre a vossa própria cabeça."
fala ele com tanto mais veemência quanto já havia persuadido a muitos. "Eu", diz ele, "estou limpo." Também nós, pois, somos responsáveis pelo sangue daqueles que nos são confiados, se os negligenciamos. "Desde agora irei aos gentios." De modo que também quando diz: "Daqui em diante ninguém me moleste" (Gl 6:17), di-lo para aterrar. Pois não era tanto o castigo que os aterrava, quanto isto que os feria. E, tendo-se retirado dali, veio à casa de um homem chamado Justo, que temia a Deus, cuja casa era contígua à sinagoga.
"E, saindo dali, entrou na casa de um homem chamado Justo, que temia a Deus, e cuja casa estava junto à sinagoga." Vede como, tendo dito de novo "daqui em diante", nem por isso os negligencia; de sorte que foi para os despertar que disse isto, e logo em seguida veio para junto de Justo, cuja casa era contígua à sinagoga, de modo que também por isto pudessem ter zelo, pela própria proximidade. "E Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua casa." Isto também, dentre todas as coisas, era bastante para trazê-los. "E muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados. E o Senhor disse a Paulo em visão de noite: Não temas, mas fala, e não te cales; porque eu sou contigo, e ninguém te acometerá para te fazer mal, porque tenho muito povo nesta cidade."
e ali permaneceu, querendo com isto persuadi-los de que estava resolvido (πρὸς τὰ ἔθνη ἠπείγετο) a ir aos gentios. Observai, pois, logo em seguida, o principal da sinagoga convertido, e muitos outros, quando ele fez isto. "Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor com toda a sua casa; e muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados."
"Com toda a sua casa": observai que os convertidos daquele tempo faziam isto com toda a sua família. Este Crispo é aquele de quem ele fala quando escreve: "Não batizei a nenhum de vós, senão a Crispo e a Gaio" (1 Cor 1:14). Este mesmo, tomo eu, é o chamado Sóstenes — evidentemente um crente, a ponto de ser espancado, e estar sempre presente com Paulo. "E o Senhor disse de noite", etc. Ora, também o número da muita gente o persuadia, mas mais o moveu o fato de Cristo reivindicá-los como Seus. Contudo, diz também: "Não temas"; pois o perigo se tornara agora maior, tanto porque mais criam, quanto por causa do principal da sinagoga. Isto era bastante para o atemorizar. Não que fosse repreendido por temer; mas para que nada padecesse: "Eu sou contigo, e ninguém te acometerá para te fazer mal."
Pois Ele não lhes permitia sempre padecer o mal, para que não se enfraquecessem demais. Pois nada tanto afligia a Paulo quanto a incredulidade dos homens e o se oporem (à Verdade): isto era pior que os perigos. Por isto é que (Cristo) agora lhe aparece. "E ficou ali um ano e seis meses", etc.
Vede por quantas razões Ele o persuade, e como põe por último a razão que de todas mais prevaleceu com ele: "Tenho muito povo nesta cidade." Então, perguntareis, como foi que se levantaram contra ele? E, contudo, o escritor nos diz que nada prevaleceram, mas o levaram ao procônsul. "E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus. E, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal."
Depois do ano e seis meses, levantaram-se contra ele. E sendo Gálio procônsul da Acaia, etc.
Reparai por que aqueles homens sempre se esforçavam por dar caráter público aos delitos de que os acusavam. Vede, pois, aqui: (b) Dizendo: Este persuade os homens a adorar a Deus contra a lei. E, estando Paulo prestes a abrir a boca, disse Gálio: Se, de fato, se tratasse de algum crime ou de malícia perversa, ó judeus, razão haveria para que eu vos tolerasse; mas, se a questão é de palavras e de nomes, e da vossa lei, vede vós mesmos, pois não hei de ser juiz dessas coisas. E expulsou-os do tribunal.
porque já não tinham o uso de suas próprias leis. (c) E observai quão prudente ele é: pois não diz logo: Não me importa; mas: Se fosse, diz ele, questão de crime ou de malícia perversa, ó judeus, razão haveria para que eu vos tolerasse; mas, se a questão é de doutrina e de palavras e da vossa lei, vede vós mesmos, pois não quero ser juiz de tais coisas.
(g) Ensinou-lhes que não são tais as questões que reclamam sentença judicial, mas que eles fazem tudo sem ordem. E não diz: Não é meu dever, mas: Não quero, para que não voltassem a importuná-lo. Assim disse Pilatos no caso de Cristo: Tomai-O vós, e julgai-O segundo a vossa lei (Jo 18,31). Mas eles eram tais como homens ébrios e loucos. (d) E expulsou-os do tribunal
fechou-lhes eficazmente o tribunal. Então, todos os judeus, tendo-se apoderado de Sóstenes, chefe da sinagoga, açoitaram-no diante do tribunal. E Gálio de nada disso se importava.
Este Gálio parece-me ter sido homem sensato. (a) Reparai, pois: quando estes disseram: Contra a lei, persuade os homens a adorar a Deus, ele de nada disso se importava; e observai como lhes responde: Se, de fato, se tratasse de alguma questão que afetasse a cidade, algum crime ou malícia perversa, etc. (c) Então todos os judeus tomaram Sóstenes, chefe da sinagoga, e açoitaram-no diante do tribunal; e Gálio de nada disso se importava
(a) Isto, mais que qualquer outra coisa, os incitou a esta violência — a persuasão de que o governador nem sequer se dignaria a atentar para o caso. (e) Foi uma vitória esplêndida. Ó que vergonha os cobriu! (b) Pois uma coisa é sair vitorioso de uma controvérsia, e outra é que estes viessem a saber que ele em nada se importava com o assunto. (f) E Gálio de nada disso se importava: e, contudo, tudo aquilo se destinava a insultá-lo! Mas, na verdade, fizeram isso como se tivessem recebido autoridade. Por que ele (Sóstenes), embora também tivesse autoridade, não os açoitou? Mas eles foram instruídos de outro modo, para que o juiz aprendesse qual das partes era mais razoável. Não foi pequeno o proveito para os presentes — tanto a razoabilidade destes quanto a audácia daqueles. (h) Ele foi açoitado, e nada disse.
A este homem imitemos também nós: aos que nos ferem, retribuamos golpe por golpe, com mansidão, com silêncio, com longanimidade. Mais graves são estas feridas, maior este golpe, e mais pesado. Pois, para mostrar que não é grave receber um golpe no corpo, mas recebê-lo na mente, muitas vezes ferimos as pessoas, mas, sendo isso por via de amizade, elas até se comprazem; mas, se feres de modo insolente qualquer pessoa indiferente, tu a magoaste sobremaneira, porque lhe tocaste o coração. Firamos, pois, o coração deles. Mas que a mansidão inflige golpe maior que a ferocidade, vinde, provemo-lo, tanto quanto possível, por palavras. Pois a prova certa, na verdade, é pelos atos e pela experiência; mas, se quiserdes, façamos também a investigação por palavras, ainda que já muitas vezes a tenhamos feito. Ora, nas injúrias, nada nos causa tanta dor quanto o juízo proferido pelos espectadores; pois não é o mesmo ser insultado em público e em particular, mas essas mesmas injúrias suportamos até com facilidade, quando as sofremos em lugar solitário, sem ninguém que as testemunhe ou delas saiba. Tão verdadeiro é isto que não é a injúria, em si mesma, que nos mortifica, mas o havermos de sofrê-la à vista de todos os homens; pois, se alguém nos honrasse à vista de todos os homens, e nos insultasse em particular, ainda assim nos sentiríamos até gratos a ele. A dor, portanto, não está na natureza da injúria, mas no juízo dos que a contemplam; para que não pareçamos desprezíveis. Que sucede, pois, se este juízo nos for favorável? Não fica mais desonrado aquele mesmo que tenta desonrar-nos, quando os homens formam seu juízo a nosso favor? Dizei-me: a quem desprezam os circunstantes? Ao que insulta, ou ao que, sendo insultado, guarda silêncio? A paixão, na verdade, sugere que desprezam o que é insultado; mas examinemo-lo agora, enquanto estamos livres dessa perturbação, para que não sejamos arrebatados quando chegar a ocasião. Dizei-me: a quem todos nós condenamos? Evidentemente, ao que insulta; e, se for inferior, diremos que está até louco; se igual, que é tolo; se superior, ainda assim não o aprovaremos. Pois qual destes homens, pergunto, é digno de aprovação: o que se exalta, o que é arremessado pela tempestade da paixão, o que se enfurece como fera, o que assim se rebaixa contra a nossa natureza comum, ou aquele que vive em estado de calma, em porto de repouso, e em virtuosa equanimidade? Não é este semelhante a um anjo, e aquele nem sequer semelhante a um homem? Pois este não pode nem suportar os seus próprios males, ao passo que aquele suporta até os alheios: aqui, o homem não pode nem suportar-se a si mesmo; ali, suporta também a outro: este corre perigo de naufrágio, aquele navega em segurança, levado o seu navio por ventos favoráveis; pois não permitiu que a rajada da paixão apanhasse as suas velas e virasse a barca do seu entendimento; mas o sopro de um ar brando e suave, soprando sobre ela, o sopro da longanimidade, a conduz com muita tranquilidade ao porto da sábia equanimidade. E, assim como, quando um navio está em perigo de afundar, os marinheiros não sabem o que lançam fora, se é bem próprio ou alheio o que suas mãos alcançam, mas atiram ao mar todo o conteúdo sem discriminação, tanto o precioso quanto o que não o é; mas, cessada a tempestade, então, contando tudo o que lançaram fora, derramam lágrimas, e não sentem a bonança por causa da perda do que lançaram ao mar; assim também aqui, quando a paixão sopra forte e se levanta a tempestade, os homens, ao lançar fora suas palavras, não sabem usar de ordem nem de conveniência; mas, cessada a paixão, então, relembrando que espécie de palavras proferiram, consideram a perda e não sentem a quietude, ao recordarem as palavras com que se desonraram a si mesmos, e sofreram gravíssimo prejuízo, não quanto a dinheiro, mas quanto à reputação de moderação e mansidão. A ira é trevas. Disse o insensato em seu coração: Não há Deus (Sl 13:1). Talvez também do homem irado seja adequado dizer o mesmo, que o homem irado disse: Não há Deus. Pois, diz a Escritura: Pela multidão da sua ira, não busca a Deus (Sl 10:4). Pois, por mais que entre algum pensamento piedoso, a paixão o empurra e expulsa tudo para fora, lançando tudo ao través. (b) Quando te dizem que aquele a quem injuriaste não proferiu sequer uma palavra amarga, não sentes por isso mais dor do que a que infligiste? (a) Se, em teu próprio ânimo, não sentes mais dor do que aquele a quem injuriaste, injuria ainda; mas, ainda que não haja quem te peça contas, o juízo de tua consciência, tomando-te à parte, te dará mil açoites, ao lembrares como derramaste um dilúvio de impropérios sobre alguém tão manso, tão humilde e tão longânimo. Sempre dizemos estas coisas, mas não as vemos manifestadas em obras. Tu, sendo homem, insultas o teu semelhante? Tu, sendo servo, insultas o teu conservo? Mas por que me admiro disto, quando muitos até a Deus insultam? Que isto te sirva de consolação quando sofreres injúria. És insultado? Também Deus é insultado. És injuriado? Também Deus foi injuria [truncado]
mas o açoitarem-no a ele não tomou como insulto a si mesmo. Tão petulantes eram os judeus. Mas retomemos de novo o que foi dito.
E depois disso Paulo demorou-se ali ainda muitos dias, e então despediu-se dos irmãos, e navegou dali para a Síria, e com ele Priscila e Áquila; tendo rapado a cabeça em Cencreia, pois tinha voto.
Vede como a Lei se ia dissolvendo; vede como estavam presos pela consciência. Este era, com efeito, um costume judaico, rapar a cabeça em conformidade com um voto. Mas então deveria haver também um sacrifício (At 21,26), o que aqui não sucedeu. — "Tendo ainda se demorado": depois do açoite de Sóstenes. Pois era necessário que se demorasse ainda, e os consolasse acerca destas coisas. Navegou para a Síria. Por que deseja de novo ir à Síria? Foi ali que os discípulos foram mandados chamar-se cristãos (At 11,26); ali fora ele recomendado à graça de Deus (At 14,26); ali havia realizado tais coisas concernentes à doutrina. E com ele Priscila — eis também uma mulher — e Áquila. Mas estes deixou-os em Éfeso. Com boa razão, a saber, para que ensinassem. Pois, tendo estado com ele tanto tempo, aprendiam muitas coisas; e contudo não os apartava por ora do seu costume como judeus. E chegou a Éfeso, e ali os deixou; mas ele mesmo entrou na sinagoga, e discorreu com os judeus. Quando lhe pediram que se demorasse mais tempo com eles, não consentiu; mas despediu-se deles, dizendo: Convém-me de todo modo guardar esta festa que se aproxima em Jerusalém. Por isso foi impedido de vir à Ásia, sendo impelido pelo que era de urgência premente. Observai-o, pois, aqui, rogado (por eles) que ficasse; mas, porque não podia condescender, apressando-se a partir, despediu-se deles. Contudo, não os deixou sem mais, mas com promessa (de voltar): Mas voltarei outra vez a vós, se Deus quiser. E navegou de Éfeso.
Vede como a Lei se ia dissolvendo; vede como estavam presos pela consciência. Este era, com efeito, um costume judaico, rapar a cabeça em conformidade com um voto. Mas então deveria haver também um sacrifício (cap. 21,26), o que aqui não sucedeu. — "Tendo ainda se demorado": depois do açoite de Sóstenes. Pois era necessário que se demorasse ainda, e os consolasse acerca destas coisas. "Navegou para a Síria." Por que deseja de novo ir à Síria? Foi ali que "os discípulos foram mandados chamar-se cristãos" (cap. 11,26); ali fora ele "recomendado à graça de Deus" (14,26); ali havia realizado tais coisas concernentes à doutrina. "E com ele Priscila" — eis também uma mulher — "e Áquila". Mas estes deixou-os em Éfeso. Com boa razão, a saber, para que ensinassem. Pois, tendo estado com ele tanto tempo, aprendiam muitas coisas; e contudo não os apartava por ora do seu costume como judeus. "E chegou a Éfeso, e ali os deixou; mas ele mesmo entrou na sinagoga, e discorreu com os judeus. Quando lhe pediram que se demorasse mais tempo com eles, não consentiu; mas despediu-se deles, dizendo: Convém-me de todo modo guardar esta festa que se aproxima em Jerusalém." Por isso foi impedido de vir à Ásia, sendo impelido pelo que era de urgência premente. Observai-o, pois, aqui, rogado (por eles) que ficasse; mas, porque não podia condescender, apressando-se a partir, "despediu-se deles". Contudo, não os deixou sem mais, mas com promessa (de voltar): "Mas voltarei outra vez a vós, se Deus quiser. E navegou de Éfeso." (v. 19-21.) "E havendo desembarcado em Cesareia, e subido, e saudado a Igreja, desceu a Antioquia. E depois de haver passado ali algum tempo, partiu, e percorreu ordenadamente toda a região da Galácia e da Frígia, fortalecendo a todos os discípulos." (v. 22-23.) Veio novamente àqueles lugares que antes visitara. "E certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras, chegou a Éfeso." (v. 24.) Eis que agora até homens doutos se apressam, e os discípulos já se espalham pelo estrangeiro. Notai a difusão da pregação? "Este homem estava instruído no caminho do Senhor; e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. E começou a falar ousadamente na sinagoga; e, ouvindo-o Áquila e Priscila, o tomaram consigo, e lhe expuseram mais perfeitamente o caminho de Deus." (v. 25-26.) Se este homem conhecia somente o batismo de João, como é que era "fervoroso de espírito", pois o Espírito não era dado por essa via? E se aqueles que vieram depois dele necessitavam do batismo de Cristo, muito mais necessitaria ele. Que se há de dizer, então? Pois não é sem propósito que o escritor encadeou os dois episódios. Parece-me que este era um dos cento e vinte que foram batizados com os Apóstolos; ou, se não, então o mesmo que sucedeu no caso de Cornélio sucedeu também no caso deste homem. Mas nem por isso recebe ele o batismo. Aquela expressão, pois, "lhe expuseram mais perfeitamente", parece-me significar que convinha também que fosse batizado. Porque os outros doze nada sabiam com exatidão, nem sequer o que tocava a Jesus. E é verossímil que de fato recebesse o batismo. Mas, se estes (discípulos) de João, depois daquele batismo, receberam de novo o batismo, seria isto necessário também aos discípulos? E para que a necessidade da água? Estes são muito diferentes daquele, homens que nem sequer sabiam se havia Espírito Santo. "Era, pois, fervoroso" de espírito, "conhecendo somente o batismo de João"; mas estes "lhe expuseram mais perfeitamente. E dispondo-se ele a passar à Acaia, os irmãos escreveram, exortando os discípulos a que o recebessem; o qual, tendo chegado, ajudou muito aos que haviam crido pela graça." (v. 27.) Quis, pois, também partir para a Acaia, e estes também o animaram (a fazê-lo), tendo-lhe ainda dado cartas. "O qual, tendo chegado, ajudou muito aos que haviam crido pela graça; porque com grande poder refutava publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo." (v. 28.) "E sucedeu que, estando Apolo em Corinto, Paulo, tendo passado pelas regiões superiores" — referindo-se ao que lemos acerca de Cesareia e dos demais lugares — "chegou a Éfeso, e, havendo encontrado certos discípulos" (cap. 19,1), "disse-lhes: Recebestes vós o Espírito Santo desde que crestes? E eles lhe disseram: Nem sequer ouvimos se há Espírito Santo. E ele lhes disse: Em que fostes, então, batizados? E eles disseram: No batismo de João. Disse então Paulo: João, na verdade, batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cressem naquele que havia de vir depois dele, isto é, em Cristo Jesus." (v. 2-4.) Que nem sequer criam em Cristo, é claro pelo que ele diz: "que cressem naquele que havia de vir depois dele". E não disse: O batismo de João é nada, mas: É incompleto. Nem acrescenta isto (em tantas palavras), mas os ensinou, e muitos receberam o Espírito Santo. "Ouvindo isto, foram batizados em nome do Senhor Jesus. E havendo Paulo imposto as mãos sobre eles, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam em línguas, e profetizavam. E eram ao todo uns doze homens" (v. 5-7): de modo que era verossímil que já tivessem o Espírito, mas isso não aparecia. "E eram ao todo uns doze homens." (Recapitulação.) "E chegaram a Éfeso, e ali os deixou" (v. 19): pois não quis levá-los consigo, mas deixou-os em Éfeso. Mas eles depois habitaram em Corinto, e ele lhes dá alto testemunho, e, escrevendo aos Romanos, os saúda (Rm 16,3). Donde me parece que depois voltaram a Roma, no tempo de Nero, como quem tinha apego àquelas regiões de onde haviam sido expuls[truncado]
pois não quis levá-los consigo, mas deixou-os em Éfeso. Mas eles depois habitaram em Corinto, e ele lhes dá alto testemunho, e, escrevendo aos Romanos, os saúda. Rm 16,3. Donde me parece que depois voltaram a Roma, no tempo de Nero, como quem tinha apego àquelas regiões de onde haviam sido expulsos no tempo de Cláudio. Mas ele mesmo entrou na sinagoga. Parece-me que os fiéis ainda ali se reuniam, pois não os apartaram logo. E, quando lhe rogaram que ficasse, não consentiu.
E havendo desembarcado em Cesareia, e subido, e saudado a Igreja, desceu a Antioquia. E depois de haver passado ali algum tempo, partiu, e percorreu ordenadamente toda a região da Galácia e da Frígia, fortalecendo a todos os discípulos.
pois se apressava para Cesareia. E havendo chegado a Cesareia, etc., passando pela região da Galácia e da Frígia, confirmando a todos os discípulos.
Veio novamente àqueles lugares que antes visitara. E certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras, chegou a Éfeso.
Por estas regiões também apenas de novo passa, o bastante para estabelecê-los com a sua presença. E certo judeu, por nome Apolo, etc.
Eis que agora até homens doutos se apressam, e os discípulos já se espalham pelo estrangeiro. Notai a difusão da pregação? Este homem estava instruído no caminho do Senhor; e, sendo fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. E começou a falar ousadamente na sinagoga; e, ouvindo-o Áquila e Priscila, o tomaram consigo, e lhe expuseram mais perfeitamente o caminho de Deus.
Pois era ele homem desperto, que viajava por terras estrangeiras com este mesmo propósito. Escrevendo a seu respeito, disse o Apóstolo: Ora, quanto a Apolo, nosso irmão (1 Cor 16:12). (β) Ao qual, tendo Áquila e Priscila ouvido, etc.
Se este homem conhecia somente o batismo de João, como se explica que fosse fervoroso no Espírito, pois o Espírito não era dado por aquele meio? E se aqueles que vieram depois dele necessitavam do batismo de Cristo, muito mais necessitaria ele. Que se há de dizer, então? Pois não é sem propósito que o escritor encadeou os dois episódios. Parece-me que este era um dos cento e vinte que foram batizados juntamente com os Apóstolos; ou, se não assim, então o mesmo que sucedeu no caso de Cornélio sucedeu também no caso deste homem. Mas nem sequer recebe ele o batismo. Aquela expressão, pois, expuseram-na eles mais perfeitamente, parece-me querer dizer isto: que também lhe convinha ser batizado. Porque os outros doze nada sabiam com exatidão, nem sequer o que dizia respeito a Jesus. E é verossímil que ele de fato tenha recebido o batismo. Mas se estes (discípulos) de João, depois daquele batismo, receberam de novo o batismo, seria isto necessário também aos discípulos? E para que a necessidade da água? Estes são muito diferentes daquele, homens que nem sequer sabiam se havia Espírito Santo. Era ele, pois, fervoroso no Espírito, conhecendo somente o batismo de João; mas estes lhe expuseram mais perfeitamente. E estando ele disposto a passar à Acaia, os irmãos escreveram, exortando os discípulos a recebê-lo; o qual, tendo chegado, ajudou muito os que haviam crido pela graça.
Não foi sem propósito que os deixou em Éfeso, mas por causa de Apolo assim o dispôs o Espírito, para que ele viesse com maior força ao ataque (ἐπιβῆναι) contra Corinto. Qual poderá ser a razão de a ele nada fazerem, mas a Paulo assaltarem? Sabiam eles que este era o líder, e grande era o nome do homem. E estando ele disposto a passar à Acaia
Quis ele, pois, também partir para a Acaia, e estes também o encorajaram (a fazê-lo), tendo-lhe dado também cartas. O qual, tendo chegado, ajudou muito os que haviam crido pela graça; pois refutava com grande vigor os judeus, e isto publicamente, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo.
Isto é, na fé; tudo o fazia pela fé; os irmãos escreveram, etc. Em parte alguma inveja, em parte alguma olhar maligno. Áquila ensina, ou antes, este homem se deixa ensinar. Estava ele disposto a partir, e eles enviam cartas. (a) Pois refutava com grande vigor os judeus, e isto publicamente, etc.
Ora, por isto, que publicamente os refutava, mostrava-se sua ousadia; pela clareza de sua argumentação, declarava-se seu poder; por convencê-los a partir das Escrituras, manifestava-se sua perícia (de erudição). Pois nem a ousadia por si só em nada aproveita, onde não há poder, nem o poder, onde não há ousadia. Refutava-os com grande vigor, diz o texto. (β) E aconteceu, etc.
Ele sabia que eles não o tinham, mas deseja que eles próprios o digam, para que, aprendendo o que lhes falta, perguntem. João, na verdade, batizou, etc.
Do próprio batismo ele (João) profetiza: e os conduz a ver que este é o sentido do batismo de João. (a) Que deveriam crer Naquele que havia de vir: em que espécie (de Pessoa)? Eu, na verdade, vos batizo com água, mas Aquele que vem depois de mim vos batizará com o Espírito Santo (Mt 3,11). E quando Paulo, diz o texto, lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam em línguas, e profetizavam.
(β) O dom é duplo: línguas e profecias. Manifesta-se aqui uma doutrina importante, a de que o batismo de João é incompleto. E não diz ele: batismo de remissão, mas de arrependimento. Que significa isto, então? Estes não tinham o Espírito: não eram tão fervorosos, nem sequer instruídos. E por que não recebeu (Apolo) o batismo? Parece-me que o caso é este: grande era a ousadia do homem. Ensinava diligentemente as coisas referentes a Jesus, mas necessitava de ensino mais diligente. Assim, ainda que não soubesse tudo, pelo seu zelo atraiu o Espírito Santo, do mesmo modo que Cornélio e os seus.
Talvez seja o desejo de muitos: Ah, se tivéssemos agora o batismo de João! Mas, se o tivéssemos, muitos ainda assim seriam negligentes quanto à vida de virtude, e poder-se-ia pensar que cada um buscava a virtude por causa disto, e não por causa do reino dos céus. Haveria muitos falsos profetas: pois então os que são aprovados não seriam muito manifestos (1 Cor 11,19). Assim como bem-aventurados são os que não viram e, no entanto, creram (Jo 20,29), assim também o são os que creem sem sinais. A menos que vejais sinais, diz (Cristo), não crereis (Jo 4,48). Pois nada perdemos (pela falta de milagres), se apenas atentarmos a nós mesmos. Temos a soma e a substância dos bens: pelo batismo recebemos remissão dos pecados, santificação, participação do Espírito, adoção, vida eterna. Que mais quereis? Sinais? Mas estes têm fim (ἀλλὰ καταργεῖται). Tendes fé, esperança, caridade — as coisas que permanecem: buscai estas, que são maiores que os sinais. Nada se iguala à caridade. Pois maior que todas, diz ele, é a caridade (cf. 1 Cor 13,5). Mas agora o amor está em perigo, pois só o nome dele ficou, ao passo que a realidade em parte alguma se vê, e estamos divididos uns dos outros. Que fazer, então, para nos reunirmos? Pois censurar é fácil, mas como formar amizade — eis o que se deve estudar; como reunir os membros dispersos. Pois, ainda que tenhamos uma só Igreja, ou uma só doutrina, isto não é o essencial: não, o mal está em que, nestas coisas, não temos comunhão — vivendo em paz, como diz o Apóstolo, com todos os homens (Rm 12,18); ao contrário, estamos em discórdia uns com os outros. Pois, ainda que não tenhamos contendas todos os dias, não atentes a isto, mas àquilo: que não temos caridade genuína e inabalável. Há necessidade de ligaduras e de óleo. Lembremo-nos de que a caridade é o distintivo dos discípulos de Cristo: que sem ela, tudo o mais de nada vale: que é tarefa fácil, se o quisermos. Sim, dirás tu, sabemos tudo isso, mas como (proceder) para que se realize? Que fazer, para que se efetue? De que modo nos amaremos uns aos outros? Primeiro, afastemos as coisas que subvertem a caridade, e então a estabeleceremos. Que ninguém guarde ressentimento, ninguém tenha inveja, ninguém se alegre com as desgraças (alheias): estas são as coisas que impedem o amor; pois bem, as que o produzem são de outra espécie. Não basta afastar o que o impede; é preciso também que sobrevenha o que o estabelece. Ora, o Eclesiástico nos diz as coisas que subvertem (a amizade), e não passa a falar das que produzem a união. A repreensão, diz ele, e a revelação de um segredo, e a ferida traiçoeira (cf. Eclo 22,27). Mas, ao falar dos homens daquele tempo, bem se podiam nomear estas coisas, visto que eram carnais: no nosso caso, porém, Deus não permita que sequer se nomeiem. Não é destas coisas que tiramos os nossos motivos para vós, mas das outras. Para nós, nada há de bom sem a amizade. Que haja bens sem número, mas qual é o proveito — seja riqueza, seja luxo — sem a amizade? Nenhuma posse se iguala a esta, mesmo nas coisas desta vida, assim como nada há pior do que sermos odiados pelos homens. A caridade cobre uma multidão de pecados (1 Pe 4,8); mas a inimizade, mesmo onde não há pecados, suspeita que os haja. Não basta não ser inimigo; é preciso também amar. Considerai que Cristo o ordenou, e isto basta. Até a aflição cria amizades, e aproxima (os homens). Que fazer, então, dirás tu, agora, quando não há aflição? Dize, como havemos de proceder para nos tornarmos amigos? Não tendes outros amigos, pergunto eu? De que modo sois amigos deles, como permaneceis assim? Para começar, que ninguém tenha inimigo algum: isto, em si mesmo, não é pouca coisa: que ninguém tenha inveja; não é possível acusar o homem que não inveja. (b) Como, pois, seremos afetuosamente unidos? O que produz o amor às pessoas? A beleza da pessoa. Façamos, então, também as nossas almas belas, e seremos amáveis uns aos outros: pois é necessário, sem dúvida, não apenas amar, mas também ser amado. Alcancemos primeiro este ponto, o de sermos amados, e o resto será fácil. Como proceder para sermos amados? Tornemo-nos belos, e façamos isto, para que sempre tenhamos quem nos ame. Que ninguém tenha por estudo adquirir dinheiro, adquirir escravos, adquirir casas, tanto quanto ser amado, quanto ter bom nome. Melhor é o nome do que muita riqueza. Pois um permanece, o outro perece: e um é possível adquirir, o outro não. Pois quem adquiriu má reputação, dificilmente dela se despojará: mas por meio do (bom) nome, o pobre pode rapidamente tornar-se rico. Haja um homem que possua dez mil talentos, e outro que tenha cem amigos; este último é mais rico em recursos do que o primeiro. Não façamos isto apenas, mas trabalhemo-lo como uma espécie de ofício. E como poderemos? dirás tu. Boca doce multiplica os amigos, e língua graciosa. Adquiramos uma boca bem-falante, e costumes puros. Não é possível que um homem seja assim, e não seja conhecido.
(a) Temos um só mundo que todos habitamos, e com os mesmos frutos todos nos alimentamos. Mas estas são coisas pequenas: pelos mesmos Sacramentos participamos do mesmo alimento espiritual. Estas são, por certo, razões para amar! (c) Notai quantas (induzem [truncado]
De modo que era provável que tivessem o Espírito, mas isto não se manifestava. E eram ao todo cerca de doze homens.
(a) Vede-o em todo lugar forçando a entrada na sinagoga, e desta maneira dali se retirando. Pois em todo lugar desejava que a ocasião lhe fosse dada por eles. (c) Desejava separar dali os discípulos, e ter o início da cessação de reunir-se com eles dado pelos próprios (judeus). E não foi em vão que fez isto (b) que eu disse. Ele estava, doravante, "provocando-os a ciúme". Pois tanto os gentios o receberam prontamente, quanto os judeus, ao verem os gentios recebê-lo, se arrependeram. (a) Por isso ele continuamente suscitava agitação entre eles, "durante três meses discutindo e persuadindo acerca do reino de Deus": pois não deveis supor que, por ouvirdes falar de seu "falar ousadamente", houvesse alguma aspereza: era de coisas boas que ele discorria, de um reino: quem não o teria ouvido? "Mas quando alguns se endureceram, falando mal do Caminho." Bem podiam chamá-lo "o Caminho"; este era, de fato, o caminho que conduzia ao reino dos céus. "Apartou-se deles, e separou os discípulos, discutindo diariamente na escola de um certo Tirano. E isto se fez pelo espaço de dois anos, de modo que todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos." (v. 10.) (a) Notais quanto se realizou por sua perseverança? "Ouviram tanto judeus como gregos: (c) todos os que habitavam na Ásia": foi também por isto que o Senhor não lhe permitiu ir à Ásia (At 16,6) (em ocasião anterior); esperando, ao que me parece, por esta mesma conjuntura. (Hom. 40, p. 245.) (b) "E Deus operava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo: de modo que, do seu corpo, levavam-se aos enfermos lenços ou aventais, e as doenças se apartavam deles, e os espíritos maus saíam deles." (v. 11-12.) Não somente o que os vestia era tocado (e assim sarava), mas também, recebendo-os, os punham sobre os enfermos (e assim os curavam). (g) "Aquele que crê em mim", diz Cristo, "fará obras maiores que estas que eu faço" (Jo 14,12). Isto, e o milagre das sombras, é o que Ele quis dizer (com aquelas palavras). (d) "Então alguns dos judeus exorcistas, vagabundos, tentaram invocar sobre os que tinham espíritos maus o nome do Senhor Jesus, dizendo: Nós vos conjuramos por Jesus, a quem Paulo prega." (v. 13.) De tal modo faziam tudo como uma espécie de comércio! Observai: exorcistas judeus vagabundos, ou itinerantes. E, quanto a crer, não tinham disposição alguma; mas por aquele Nome desejavam expulsar os demônios. "Por Jesus, a quem Paulo prega." Vede apenas que nome Paulo havia alcançado! "E havia sete filhos de um certo Ceva, judeu, principal dos sacerdotes, que faziam isto. E o espírito mau, respondendo, disse: A Jesus conheço, e a Paulo conheço; mas vós, quem sois? E o homem em quem estava o espírito mau saltou sobre eles, e, dominando-os, prevaleceu contra eles, de modo que fugiram daquela casa nus e feridos." (v. 14-16.) Fizeram-no em segredo: então sua impotência é publicamente exposta. (f) Assim, o Nome nada faz, a menos que seja pronunciado com fé. (h) Vede como voltaram as próprias armas contra si mesmos! (j) Tão longe estavam de considerar Jesus algo grande: não, tinham de acrescentar Paulo, por considerá-lo algo grande. Aqui pode-se admirar como foi que o demônio não cooperou com a impostura dos exorcistas, mas, ao contrário, os expôs, e revelou publicamente a sua farsa. Parece-me que ele fez isto em excessiva ira: tal como poderia ser, se uma pessoa, estando em extremo perigo, fosse exposta por alguma criatura desprezível, e quisesse descarregar toda a sua fúria sobre ela. "A Jesus conheço, e a Paulo conheço." Pois, para que não parecesse haver algum desprezo lançado sobre o Nome de Jesus, (o demônio) primeiro o confessa, e só então lhe é dada permissão. Pois, para mostrar que não havia fraqueza alguma no Nome, mas que tudo se devia à impostura daqueles homens, por que não sucedeu o mesmo no caso de Paulo? "Fugiram daquela casa nus e feridos": ele lhes feriu gravemente as cabeças, e talvez lhes rasgasse as vestes. (e) "E isto se tornou conhecido de todos, tanto judeus como gregos, que habitavam em Éfeso, e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. E muitos dos que haviam crido vinham, confessando e declarando as suas práticas." (v. 17-18.) Pois, como tinham chegado a possuir tal poder que, por meio dos demônios, faziam tais coisas, bem poderia ser esta a consequência. "E muitos dos que praticavam artes curiosas ajuntaram os seus livros, e os queimaram na presença de todos" — tendo visto que já não havia mais uso para eles, agora que os próprios demônios faziam estas coisas — "e calcularam o preço deles, e acharam que montava a cinquenta mil peças de prata. Assim crescia poderosamente a palavra do Senhor, e prevalecia." (v. 19-20.) (i) "E" (assim) "discutia" na escola de um certo Tirano por dois anos: onde havia crentes, e crentes sobremaneira (avançados na fé). Além disso, (Paulo) lhes escreve como a homens grandes. (Recapitulação.) (b) "E, tendo entrado na sinagoga," etc. (v. 8.) Mas por que ἐπαρρησιάζετο? Significa que ele estava pronto a enfrentar perigos, e discutia mais abertamente, sem velar as doutrinas. (a) "Mas quando alguns se endureceram, e falaram mal do Caminho, apartando-se deles, separou os discípulos." (v. 9.) Pôs fim, isto significa, à maledicência deles: não desejava acender a inveja deles, nem levá-los a maior contenda. (c) Aprendamos, pois, também nós, a não nos colocarmos no caminho dos que maldizem, mas a apartar-nos deles: ele não maldizia, quando ele próprio era maldito. "Discutia diariamente," e com isto ganhou a muitos, pois, sendo maltratado e maldito, não se apartou (inteiramente) deles, nem se manteve afastado. (e) Os maldizentes são derrotados. Caluniavam a própria doutrina; (portanto), para não suscitar ira nos discípulos, nem * * a eles, ele se retirou, mostrando que em toda parte igualmente repelem de si a salvação. Aqui, agora, ele nem sequer se justifica, vendo que os gentios em toda parte haviam crido [truncado]
Mas por que ἐπαρρησιάζετο? Significa que ele estava pronto a enfrentar perigos, e discutia mais abertamente, sem velar as doutrinas. (a) Mas, quando alguns se endureceram, e falaram mal do Caminho, apartando-se deles, ele separou os discípulos.
Pôs fim, isto significa, à maledicência deles: não desejava acender a inveja deles, nem levá-los a maior contenda. (c) Aprendamos, pois, também nós, a não nos colocarmos no caminho dos que maldizem, mas a apartar-nos deles: ele não maldizia, quando ele próprio era maldito. Discutia diariamente, e com isto ganhou a muitos, pois, sendo maltratado e maldito, não se apartou (inteiramente) deles, nem se manteve afastado. (e) Os maldizentes são derrotados. Caluniavam a própria doutrina; (portanto), para não suscitar ira nos discípulos, nem * * a eles, ele se retirou, mostrando que em toda parte igualmente repelem de si a salvação. Aqui, agora, ele nem sequer se justifica, vendo que os gentios em toda parte haviam crido. Na escola de um certo Tirano: não foi que buscasse o lugar, mas, sem mais delongas, onde houvesse uma escola (ali discorria). (d) E vede, mal termina a provação vinda dos de fora, e começa esta, vinda dos demônios. Notai a insensata dureza judaica. Tendo visto as suas vestes operarem milagres, não lhes deram atenção. Que poderia haver maior do que isto? Mas, ao contrário, resultou em efeito exatamente oposto. Se algum dos pagãos não crê, tendo visto o próprio pó operar estes efeitos, que creia. (f) Maravilhoso, quão grande é o poder dos que creram! Tanto Simão, por causa do lucro, buscou a graça do Espírito, quanto estes, com este mesmo propósito, fizeram isto. Que dureza (de coração)! Por que Paulo não os repreende? Teria parecido inveja, por isso assim se ordenou. O mesmo sucedeu no caso de Cristo (Mc 9,36): mas então a pessoa não é impedida, pois era o início da nova ordem de coisas: já que também Judas não é impedido, ao passo que Ananias e Safira foram mortos subitamente: e muitos judeus, mesmo opondo-se (a Cristo), nada sofreram, enquanto Elimas foi cegado. Pois não vim, diz Cristo, para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo (Jo 3,17). E sete filhos, etc.
(a) Vede-o em todo lugar forçando a sua entrada na sinagoga, e desse modo dali se retirando. Pois em todo lugar desejava que a ocasião lhe fosse dada por eles. (c) Desejava dali separar os discípulos, e ter o começo da cessação de se reunir com eles dado pelos próprios (judeus). E não foi em vão que ele fez isto (b) que eu disse. Ele os provocava doravante ao ciúme. Pois tanto os gentios o recebiam prontamente, quanto os judeus, ao verem os gentios recebê-lo, se arrependiam. (a) Por isso ele continuamente causava alvoroço entre eles, discutindo e persuadindo por três meses acerca do Reino de Deus: pois não deveis supor, por ouvirdes falar de sua fala ousada, que houvesse nisso alguma aspereza; era de coisas boas que ele discorria, de um reino: quem não o teria ouvido? Mas quando alguns se endureceram, falando mal do Caminho. Bem podiam chamá-lo Caminho; este era, com efeito, o Caminho que conduzia ao Reino dos Céus. Ele se apartou deles, e separou os discípulos, disputando diariamente na escola de um certo Tirano. E isto se fez pelo espaço de dois anos, de modo que todos os que habitavam a Ásia ouviram a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos.
(a) Notai quanto foi realizado por sua perseverança? Tanto judeus como gregos ouviram: (c) todos os que habitavam a Ásia: foi também por isto que o Senhor não lhe permitiu ir à Ásia (At 16,6) numa ocasião anterior; aguardando, ao que me parece, esta mesma conjuntura. (b) E Deus operava milagres extraordinários pelas mãos de Paulo: de modo que de seu corpo se levavam aos enfermos lenços ou aventais, e as doenças se apartavam deles, e os espíritos malignos saíam deles. (v. 11-12). Não somente o que os vestia era tocado (e assim sarava), mas também, recebendo-os, os punham sobre os enfermos (e assim os curavam). (g) Aquele que crê em Mim, diz Cristo, faz obras maiores do que as que Eu faço (Jo 14,12). Foi a isto, e ao milagre das sombras, que Ele se referia (naquelas palavras). (d) Então alguns dos judeus exorcistas ambulantes tomaram sobre si invocar sobre os que tinham espíritos malignos o nome do Senhor Jesus, dizendo: Nós vos conjuramos por Jesus, a quem Paulo prega.
Não foi por sua religião, porque julgavam esta estar em perigo; não, foi por seu lucrativo ofício, que nada mais teria em que trabalhar. Observai a malícia do homem. Ele mesmo era rico, e para ele, na verdade, não era tão grande perda; mas para eles a perda era grande, pois eram pobres e subsistiam de seu ganho diário. Não obstante, esses homens nada dizem, senão apenas ele. E observai: tendo reunido a estes e os artífices de ofício semelhante, que tinham com ele causa comum, disse: Senhores, sabeis que deste ofício vem a nossa riqueza.
Tão inteiramente faziam tudo à maneira de comércio! Observai: exorcistas judeus ambulantes, ou itinerantes. E crer, na verdade, não tinham nenhuma intenção; mas por aquele Nome desejavam expulsar os demônios. Por Jesus, a quem Paulo prega. Vede apenas que nome Paulo havia alcançado! E havia sete filhos de um certo Ceva, judeu, príncipe dos sacerdotes, que faziam isto. E o espírito maligno, respondendo, disse: A Jesus conheço, e a Paulo conheço; mas vós, quem sois? E o homem em quem estava o espírito maligno saltou sobre eles, e, vencendo-os, prevaleceu contra eles, de modo que fugiram daquela casa nus e feridos.
Vede a vilania desses homens! Continuavam a ser judeus, ao mesmo tempo em que desejavam lucrar com aquele Nome. Tudo o que faziam era por glória e proveito. (g) Vede, em todo caso, como os homens se convertem não tanto em consequência das coisas boas quanto das coisas temíveis. No caso de Safira, o temor caiu sobre a Igreja, e os homens não ousavam associar-se a eles: aqui recebiam lenços e aventais, e eram curados: e depois disto, então vinham confessando os seus pecados. (Por isto) mostra-se que o poder dos demônios é grande, quando é contra os incrédulos. Pois por que ele não disse: Quem é Jesus? Temia que também ele viesse a sofrer castigo; mas, para que lhe fosse permitido vingar-se dos que dele zombavam, fez isto; A Jesus, diz ele, conheço, etc. Temia a Paulo. Pois por que não disseram aqueles infelizes: Nós cremos? Quanto mais esplêndida aparência teriam eles feito se tivessem dito isto, isto é, se O tivessem reivindicado como seu Mestre? Mas, em vez disso, proferiram até mesmo aquelas palavras insensatas: Por Jesus, a quem Paulo prega. Notai a moderação (do escritor), como ele escreve a história e não profere insultos. Isto torna os Apóstolos admiráveis. E o espírito maligno, etc.
pois o que sucedera em Filipos (At 16,16) tinha dado uma lição também a estes. Ele menciona o nome e o número, dando assim, aos que então viviam, uma prova crível do que escreveu. E por que eram itinerantes? Por causa do comércio: certamente não para anunciar a palavra; como poderia isto ser seu objetivo? E como corriam eles logo, pregando pelas coisas que sofriam? De tal modo, diz, que todos os que habitavam a Ásia ouviram a palavra do Senhor. Não deveria isto ter convertido a todos? E não vos maravilheis, pois nada convence a malícia. Mas vinde agora, examinemos o caso dos exorcistas, com que má disposição (agiram). Por que não se fez o mesmo no caso de Cristo é indagação para outra ocasião, e não para a presente, salvo que isto também foi disposto bem e utilmente. Parece-me que fizeram isto também por zombaria, e que em consequência deste (castigo) ninguém mais ousou sequer ao acaso pronunciar aquele Nome. Por que isto os levou à confissão? Porque este foi um argumento poderosíssimo da onisciência de Deus; (portanto), antes de serem expostos pelos demônios, acusavam-se a si mesmos, temendo padecer as mesmas coisas. Pois quando os demônios, seus ajudantes, se tornam seus acusadores, que esperança resta então, senão a confissão pelas obras?
Mas vede, eu vos peço, depois de terem sido operados tais sinais, que males se seguem em curto espaço de tempo. Tal é a natureza humana: logo esquece. Ou não vos lembrais do que sucedeu entre nós mesmos? Não abalou Deus, no ano passado, toda a nossa cidade? Não correram todos ao batismo? Não deixaram os fornicadores e os efeminados e os corruptos suas moradas e os lugares onde passavam o tempo, e mudaram, tornando-se religiosos? Mas passados três dias, retornaram novamente à sua própria maldade. E de onde vem isto? Da excessiva preguiça. E que maravilha há, se, tendo as coisas passado, (assim seja), vendo que, durando as imagens perpetuamente, tal é o resultado? O destino de Sodoma — dizei, não perdura ainda (em seus efeitos)? Pois bem, tornaram-se os que habitavam ao lado dela algo melhores? E que dizeis do filho de Noé? Não era ele tal (como é representado), não viu ele com seus próprios olhos tão vasta desolação, e ainda assim foi ímpio? Não nos maravilhemos, pois, de como, tendo sido feitas tais coisas, estes judeus (em Éfeso) não creem, quando vemos que a própria fé frequentemente se converte para eles em seu contrário, em malignidade; como, por exemplo, quando dizem que Ele tem demônio — Ele, o Filho de Deus! Não vedes ainda hoje estas coisas, e como os homens, muitos deles, são semelhantes a serpentes, tanto infiéis quanto ingratos, homens que, como a víbora, tendo desfrutado de benefícios e sido aquecidos por alguns, então picam seus benfeitores? Dissemos isto para que ninguém se maravilhe de como, tendo sido operados tais sinais, nem todos se converteram. Pois eis que, em nossos próprios tempos, sucederam aquelas coisas relativas ao mártir Babilas, aquelas relativas a Jerusalém, aquelas relativas à destruição dos templos, e nem todos se converteram. Que necessidade há de falar de coisas antigas? Já vos disse o que sucedeu no ano passado; e ninguém deu atenção a isto, mas de novo, pouco a pouco, decaíram e retrocederam. O céu permanece perpetuamente clamando que tem um Senhor, e que é obra de um Artífice, tudo isto que vemos — refiro-me ao mundo — e ainda assim alguns dizem que não é assim. O que sucedeu com aquele Teodoro no ano passado — a quem não sobressaltou? E, contudo, nada resultou disso, mas, tendo por uma temporada se tornado religiosos, retornaram ao ponto de onde haviam partido em sua tentativa de ser religiosos. Assim foi com os judeus. Isto é o que o profeta disse deles: Quando Ele os matava, então O buscavam, e se voltavam de manhã cedo para Deus (Sl 78,34). E que necessidade há de falar daquelas coisas que são comuns a todos? Quantos caíram em enfermidades, quantos prometeram, se levantados, operar tão grande mudança, e contudo tornaram-se de novo os mesmos de sempre! Isto, se nada mais, mostra que temos livre-arbítrio natural — nossa mudança repentina. Se o mal fosse natural, isto não seria assim: das coisas que são naturais e necessárias, não podemos nos afastar. E, contudo, direis, delas nos afastamos. Pois não vemos alguns que têm a faculdade natural de ver, mas são cegados pelo temor? (Verdade —) porque isto também é natural: * * se não sobrevier também uma diferente (necessidade de) natureza: (assim) é natural a nós que, aterrorizados, não vejamos; é natural a nós que, quando sobrevém um temor maior, o outro ceda. Que diríeis, então, se a retidão de mente for de fato segundo a natureza, mas o temor, tendo-a dominado, a expulsou? Que diríeis, então, se eu mostrar que alguns, mesmo então, não são levados a uma mente reta, mas até mesmo nesses temores permanecem irrefletidos? É isto natural? Falarei de coisas antigas? Pois bem, então, de recentes? Quantos, no meio daqueles temores, continuaram rindo, escarnecendo, e nada semelhante experimentaram? Não se converteu Faraó imediatamente, e (tão rapidamente) correu de volta à sua antiga maldade? Mas aqui, como se (os demônios) a Ele não conhecessem, acrescentaram (os exorcistas): A quem Paulo prega, quando deveriam ter dito: o Salvador do mundo. Aquele que ressuscitou. Por isto mostram que O conhecem, mas não quiseram confessar Sua glória. Por isso o demônio os expõe, saltando sobre eles e dizendo: A Jesus conheço, e a Paulo conheço, mas vós, quem sois? De modo que não sois crentes, mas abusais daquele Nome quando dizeis isto. Portanto o Templo está deserto, o instrumento fácil de vencer. De modo que não sois pregadores; meus, diz ele, sois vós. Grande foi a ira do demônio. Os Apóstolos tinham poder para fazer isto contra eles, mas ainda não o fizeram. Pois os que tinham poder sobre os demônios que lhes faziam estas coisas, muito mais tinham poder sobre os próprios homens. Notai como se mostra a moderação deles, em que aqueles a quem repeliram fazem estas coisas, enquanto os demônios a quem cortejaram fazem o contrário. A Jesus, diz ele, conheço.
Fizeram-no em segredo: então sua impotência é publicamente exposta. (f) Então o Nome nada faz, a menos que seja pronunciado com fé. (h) Vede como usaram suas próprias armas contra si mesmos! (j) Tão longe estavam de pensar que Jesus fosse algo grande: não, precisavam ainda acrescentar Paulo, como que o considerando algo grande. Aqui pode-se maravilhar de como foi que o demônio não cooperou com a impostura dos exorcistas, mas, pelo contrário, os expôs e revelou sua encenação. Parece-me que ele (fez isto) em excessiva ira: assim como poderia ser, se uma pessoa, estando em extremo perigo, fosse exposta por alguma criatura desprezível, e desejasse desafogar toda a sua fúria sobre ela. A Jesus conheço, e a Paulo conheço. Pois, para que não parecesse haver algum desprezo lançado sobre o Nome de Jesus, (o demônio) primeiro O confessa, e então lhe é dada permissão. Pois, para mostrar que não era nenhuma fraqueza do Nome, mas tudo devido à impostura daqueles homens, por que não sucedeu o mesmo no caso de Paulo? Fugiram daquela casa nus e feridos: ele lhes maltratou gravemente as cabeças, talvez lhes rasgasse as vestes. (e) E isto se tornou conhecido de todos, tanto judeus como gregos, que habitavam em Éfeso, e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido. E muitos dos que haviam crido vinham confessando e declarando as suas práticas.
Pois, tendo eles chegado a possuir tal poder que, por meio dos demônios, faziam tais coisas, bem podia ser esta a consequência. E muitos dos que praticavam artes curiosas ajuntaram os seus livros, e os queimaram na presença de todos — tendo visto que já não havia mais uso deles, agora que os próprios demônios faziam estas coisas — e calcularam o preço deles, e acharam a soma de cinquenta mil peças de prata. Assim crescia poderosamente a palavra de Deus, e prevalecia.
E (assim) disputou na escola de um certo Tirano por dois anos: onde havia crentes, e crentes sobremaneira (avançados na fé). Além disso, (Paulo) lhes escreve como a grandes homens.
Já não fala aqui à maneira dos homens, nem: Propôs-se atravessar aquelas regiões sem tardar mais. Por que razão despede a Timóteo e a Erasto? Disto suponho que fala: Por isso, não podendo suportar mais, tivemos por bem ficar sozinhos em Atenas. Despediu, diz, dois dos que o serviam (1Ts 3,1), tanto para anunciar a sua vinda quanto para os tornar mais ardentes. Ele mesmo, porém, demorou-se algum tempo na Ásia.
Envia Timóteo e Erasto à Macedônia, mas ele mesmo permanece em Éfeso. Tendo feito estada bastante longa naquela cidade, deseja de novo transferir-se a outro lugar. Mas como se explica que, tendo desde o início escolhido partir para a Síria, torne a voltar-se para a Macedônia? "Propôs-se", diz, "no Espírito", mostrando que tudo (o que fez) não se fez por poder próprio. Agora profetiza, dizendo: "Importa-me ver também Roma": talvez para os consolar com a consideração de que não permaneceria à distância, mas se aproximaria de novo deles, e para despertar os ânimos dos discípulos por meio da profecia. Foi neste ponto, suponho, que escreveu de Éfeso a sua Epístola aos Coríntios, dizendo: "Não quero, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia" (2Cor 1,8). Pois, havendo prometido ir a Corinto, escusa-se por haver-se demorado, e menciona a provação relativa ao caso de Demétrio. "Não houve pequena perturbação acerca do Caminho." Vedes a fama (adquirida)? Contradisseram-no, diz: (depois) vieram milagres, em dobro: (depois) de novo, perigo: assim se alternam os fios ao longo de toda a trama (da história). "Pois um certo homem chamado Demétrio, ourives de prata, que fazia santuários de prata a Diana, proporcionava não pequeno lucro aos artífices" (v. 24). "Que fazia", diz, "santuários de prata a Diana." E como é possível que se fizessem santuários de prata? Talvez como pequenas arcas (kibória). Grande era a honra prestada a esta (Diana) em Éfeso; de tal modo que, quando (Hom. em Ef., Prol.) seu templo foi incendiado, isto os afligiu tanto que proibiram sequer que se mencionasse o nome do incendiário. Vede como, onde quer que haja idolatria, encontramos em todo caso o dinheiro no fundo dela. Tanto no caso anterior foi por dinheiro, quanto no caso deste homem, por dinheiro (cap. 19,13). Não era pela religião, porque não julgavam esta em perigo; não, era pelo seu lucrativo ofício, que ficaria sem matéria de trabalho. Observai a malícia do homem. Ele mesmo era rico, e para ele, na verdade, não era prejuízo tão grande; mas para eles o prejuízo era grande, pois eram pobres e subsistiam do ganho diário. Contudo, estes nada dizem, senão ele somente. E observai: "Tendo-os reunido, e aos operários de ofício semelhante", que tinham com ele causa comum, "disse: Senhores, sabeis que deste ofício nos vem a nossa riqueza" (v. 25); então lhes trouxe o perigo para perto, de que estamos em risco de cair, deste nosso ofício, na indigência. "Além disso, vedes e ouvis que não somente em Éfeso, mas quase em toda a Ásia, este Paulo persuadiu e desviou muita gente, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos: de modo que não somente este nosso ofício corre perigo de ser desprezado, mas também que o templo da grande deusa Diana seja tido em nada, e a sua majestade seja destruída, a ela que toda a Ásia e o mundo adora." (v. 26-28). E, todavia, as próprias coisas que ele disse bastariam para conduzi-los à verdadeira religião: mas, sendo criaturas pobres e insensatas, é este o papel que representam. Pois, se este (Paulo, sendo apenas) homem tem força bastante para desviar a todos, e o culto dos deuses está em perigo, dever-se-ia refletir quão grande há de ser o Deus deste homem, e que muito mais vos dará aquelas coisas de que tendes medo. Já (desde o início) se apoderou de seus ânimos, dizendo: "Este Paulo desviou muita gente, dizendo que não são deuses os que se fazem por mãos de homens." Vede do que se indignam tanto os pagãos: porque disse que "os que são feitos por homens não são deuses". Ao longo de todo o discurso, dirige-o ao seu ofício. Depois traz o que mais os afligia. Mas, quanto aos outros deuses, diria, não temos preocupação; porém "também o templo da grande deusa Diana corre perigo de ser destruído". Depois, para não parecer que dizia isto por causa do lucro, vede o que acrescenta: "A quem todo o mundo adora." Observai como mostrou ser maior o poder de Paulo, provando que todos (os seus deuses) eram criaturas mísera e miseráveis, pois um simples homem, que era perseguido, um simples fabricante de tendas, tinha tanto poder. Observai os testemunhos prestados aos Apóstolos por seus próprios inimigos, de que derrubavam o seu culto. Ali (em Listra) trouxeram "grinaldas e bois" (cap. 14,13). Aqui diz: "Este nosso ofício corre perigo de ser desprezado. — Encheis (tudo) por toda parte com a vossa doutrina" (cap. 19,28). Assim também diziam os judeus a respeito de Cristo: "Vede como o mundo vai após Ele" (Jo 12,19); e: "Virão os romanos e tomarão o nosso lugar e a nossa nação" (Jo 11,48). E, ainda noutra ocasião: "Estes que têm transtornado o mundo, chegaram também aqui" (At 17,6). — "E, ouvindo estas palavras, encheram-se de ira." Sobre que se despertou essa ira? Ao ouvir sobre Diana, e sobre a sua fonte de lucro. "E clamavam, dizendo: Grande é a Diana dos efésios. E encheu-se a cidade toda de confusão, e correram todos à uma para o teatro" (v. 29). Assim é o costume dos ânimos vulgares: qualquer ocasião trivial os arrebata e inflama as paixões. Por isso convém fazer (as coisas) com exame (rigoroso). Mas vede quão desprezíveis eram, por se exporem tanto a toda sorte de (excitações)! "Tendo agarrado a Gaio e a Aristarco, macedônios, companheiros de viagem de Paulo, arrastaram-nos": (aqui) de novo temerariamente, tal como fizeram os judeus no caso de Jasão; e por toda parte os acometiam. "E, querendo Paulo apresentar-se ao povo, os discípulos não o permitiram" (v. 30), tão longe estavam de toda ostentação e amor de glória. "E também alguns dos asiarcas, que eram seus amigos, enviaram a ele, rogando-lhe que não se aventurasse a ir ao teatro" (v. 31), a um povo desordenado
Sobretudo passa o seu tempo na Ásia; e com razão: ali, com efeito, estava a tirania dos filósofos. (Depois) veio também e discorreu com eles de novo. E o mesmo tempo etc.
pois, na verdade, a superstição era excessiva. (a) Vedes e ouvis, tão palpável era o resultado que se dava — que não somente em Éfeso, mas quase em toda a Ásia, este Paulo, persuadindo, desviou, não por violência: este é o modo de persuadir uma cidade. Depois, o que os tocava de perto: que não são deuses os que se fazem com as mãos.
Envia Timóteo e Erasto à Macedônia, mas ele mesmo permanece em Éfeso. Tendo feito estada bastante longa naquela cidade, deseja de novo transferir-se a outro lugar. Mas como se explica que, tendo desde o início escolhido partir para a Síria, torne a voltar-se para a Macedônia? Propôs-se, diz, no Espírito, mostrando que tudo (o que fez) não se fez por poder próprio. Agora profetiza, dizendo: Importa-me ver também Roma: talvez para os consolar com a consideração de que não permaneceria à distância, mas se aproximaria de novo deles, e para despertar os ânimos dos discípulos por meio da profecia. Foi neste ponto, suponho, que escreveu de Éfeso a sua Epístola aos Coríntios, dizendo: Não quero, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia (2Cor 1,8). Pois, havendo prometido ir a Corinto, escusa-se por haver-se demorado, e menciona a provação relativa ao caso de Demétrio. Não houve pequena perturbação acerca do Caminho. Vedes a fama (adquirida)? Contradisseram-no, diz: (depois) vieram milagres, em dobro: (depois) de novo, perigo: assim se alternam os fios ao longo de toda a trama (da história). Pois um certo homem chamado Demétrio, ourives de prata, que fazia santuários de prata a Diana, proporcionava não pequeno lucro aos artífices.
Que fazia, diz, santuários de prata a Diana. E como é possível que se fizessem santuários de prata? Talvez como pequenas arcas (κιβώρια). Grande era a honra prestada a esta (Diana) em Éfeso; de tal modo que, quando (Hom. em Ef., Prol.) seu templo foi incendiado, isto os afligiu tanto que proibiram sequer que se mencionasse o nome do incendiário. Vede como, onde quer que haja idolatria, encontramos em todo caso o dinheiro no fundo dela. Tanto no caso anterior foi por dinheiro, quanto no caso deste homem, por dinheiro.
Em seguida, ele lhes trouxe o perigo bem próximo, a saber, que corremos o risco de, por causa deste nosso ofício, cairmos na indigência. Além disso, vedes e ouvis que não somente em Éfeso, mas por quase toda a Ásia, este Paulo persuadiu e desviou grande multidão, dizendo que não são deuses os que são feitos por mãos humanas: de modo que não apenas este nosso ofício corre o risco de ser reduzido a nada, mas também que o templo da grande deusa Diana venha a ser desprezado, e a sua magnificência seja destruída, ela a quem toda a Ásia e o mundo adora. E, ao ouvirem estas palavras, ficaram cheios de ira, e clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios.
Ele subverte, diz ele, o nosso ofício: (e) Deste trabalho provém a nossa riqueza. Persuadiu. Como persuadiu ele — homem de tão pouca consideração? Como pôde prevalecer sobre força de hábito tão grande? Fazendo o quê — dizendo o quê? Não é obra de um Paulo, não é obra de um homem. Basta mesmo isto, que ele disse: Não são deuses. Ora, se a impiedade (das religiões pagãs) era tão fácil de detectar, já há muito deveria ter sido condenada; se era forte, não deveria ter sido derrubada tão rapidamente. (b) Pois, para que não considerassem consigo mesmos (quão estranho) que um ser humano tivesse tamanho poder, e que, se um ser humano tem poder para realizar tais coisas, por isso mesmo se devesse dar crédito a esse homem, ele acrescenta: (f) não somente este nosso ofício corre risco de ser reduzido a nada, mas também, como que alegando consideração ainda maior, o templo da grande deusa Diana, etc., (c) a quem toda a Ásia e o mundo adora.
(g) E, ao ouvirem, ficaram cheios de ira, e gritaram: Grande é a Diana dos efésios!
E, contudo, as próprias palavras que ele proferiu bastariam para conduzi-los à verdadeira religião; mas, sendo criaturas pobres e sem entendimento, é este o papel que desempenham. Pois, se este homem (Paulo) é forte o bastante para desviar a todos, e o culto dos deuses está em perigo, deveriam ponderar quão grande há de ser o Deus deste homem, e que Ele muito mais lhes dará aquelas coisas que temem perder. Já desde o início ele se apoderou dos seus ânimos, dizendo: Este Paulo desviou grande multidão, dizendo que não são deuses os que são feitos por mãos de homens. Vede o que é que tanto indigna os pagãos: que ele disse que os que são feitos por mãos de homens não são deuses. Ao longo de todo o discurso, ele dirige suas palavras contra o ofício deles. Depois, traz à tona aquilo que mais os afligia. Quanto aos outros deuses, diria ele, não nos concerne; mas também o templo da grande deusa Diana corre o risco de ser destruído. Então, para que não parecesse dizer isto por amor ao lucro, vede o que acrescenta: a quem todo o mundo adora. Observai como ele mostrou ser maior o poder de Paulo, provando serem todos os seus deuses criaturas mesquinhas e miseráveis, visto que um simples homem, perseguido de um lugar a outro, um mero fabricante de tendas, tinha tamanho poder. Observai os testemunhos que os próprios inimigos prestaram aos Apóstolos, de que estes derrubavam o culto deles. Ali (em Listra) trouxeram-lhes grinaldas e bois (At 14,13). Aqui ele diz: Este nosso ofício corre risco de ser reduzido a nada. — Enchestes de vossa doutrina todos os lugares (At 5,28). Assim também os judeus disseram a respeito de Cristo: Vedes como todo o mundo vai após Ele (Jo 12,19); e: Os romanos virão e nos tomarão a cidade (Jo 11,48). E ainda, em outra ocasião: Estes que têm transtornado o mundo chegaram também até aqui (At 17,6). — E, ao ouvirem estas palavras, ficaram cheios de ira. Por que se acendeu essa ira? Ao ouvirem falar de Diana e de sua fonte de lucro. E clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios. E toda a cidade ficou cheia de confusão, e todos correram de comum acordo ao teatro.
Pois cada cidade tinha seus próprios deuses. (d) Pensavam fazer da sua voz uma barreira contra o Espírito Divino. Verdadeiramente crianças, estes gregos! (h) E o seu sentimento era como se, por meio de sua voz, pudessem restabelecer o culto dela, e desfazer o que já havia acontecido! E toda a cidade, etc.
Tal é o modo de proceder das mentes vulgares: qualquer ocasião trivial as arrebata e inflama suas paixões. Por isso convém fazer as coisas com exame rigoroso. Mas vede quão desprezíveis eram, por estarem tão expostos a toda sorte de excitações! Tendo apanhado Gaio e Aristarco, homens da Macedônia, companheiros de viagem de Paulo, arrastaram-nos: aqui, de novo, sem qualquer prudência, do mesmo modo que os judeus fizeram no caso de Jasão; e em todo lugar os assediavam. E quando Paulo quis entrar junto ao povo, os discípulos não o permitiram,
tão distantes estavam de toda ostentação e amor à glória. E alguns dos asiarcas, que eram seus amigos, enviaram-lhe recado, rogando-lhe que não se arriscasse a ir ao teatro.
Paulo, então, queria entrar para lhes dirigir um discurso, pois tomava suas perseguições como ocasiões para ensinar; mas os discípulos não o permitiram. Notai quão grande previdência encontramos sempre neles a seu respeito. Desde o princípio, tiraram-no dali para que não recebesse, em sua própria pessoa, um golpe mortal; e, contudo, já o tinham ouvido dizer: É-me necessário ver também Roma. Mas foi providencial que ele o predisse assim de antemão, para que não se perturbassem quando o acontecimento se desse. Eles, porém, não queriam que ele sofresse mal nenhum. E alguns dos asiarcas rogaram-lhe que não entrasse no teatro. Conhecendo o seu ardor, rogaram-lhe: tanto o amavam todos os fiéis. — E arrastaram Alexandre, etc.
E a uma turba desordenada e tumultuada. E Paulo obedece, pois não era vanglorioso, nem ambicioso. Uns, pois, clamavam uma coisa, e outros outra; porque a assembleia estava confusa. Tal é a natureza da multidão: segue temerariamente, como o fogo quando cai sobre o combustível; e a maior parte não sabia por que motivo se haviam ajuntado.
E tiraram Alexandre dentre a multidão, sendo os judeus que o impeliam. Foram os judeus que o impeliram para diante; mas, como a providência ordenou, este homem não falou. E Alexandre, acenando com a mão, quisera fazer sua defesa perante o povo.
Este Alexandre, por que quis ele advogar? Acaso era acusado? Não; mas era para achar ocasião de subverter todo o assunto e inflamar a ira do povo. Mas quando souberam que ele era judeu, todos a uma só voz, por espaço quase de duas horas, clamaram: Grande é a Diana dos Efésios.
Mas quando souberam que ele era judeu, todos a uma só voz, por espaço quase de duas horas, clamaram: Grande é a Diana dos Efésios.
Notais vós o furor desmedido? Pois bem, e com repreensão diz o escrivão da cidade: Que homem há que não saiba que a cidade dos Efésios—
Entendimento verdadeiramente pueril! Como se temessem que seu culto se extinguisse, clamavam sem cessar. Ora, dois anos havia que Paulo ali permanecera, e vede quantos gentios ainda restavam! E, tendo o escrivão da cidade apaziguado o povo, disse: Varões efésios, que homem há que não saiba que a cidade dos Efésios é guardiã do templo da grande deusa Diana, e da imagem que caiu de Júpiter?
Como se a coisa não fosse manifesta. Com este dito, primeiramente, extinguiu a ira deles. E do Diopetes. Havia outro objeto sagrado (ἱερὸν) que assim se chamava. Ou ele se refere ao pedaço de terra queimada, ou à imagem dela. Isto é mentira. Vendo, pois, que estas coisas não podem ser contraditadas, deveis estar quietos e nada fazer precipitadamente. Pois trouxestes aqui estes homens, os quais não são nem roubadores de templos, nem tampouco blasfemadores de vossa deusa.
(chegando ao ponto) acerca do qual se atemorizavam. É isto, diz ele, que vós não a adorais? E não diz: Que não conhece a Diana, mas: nossa cidade, que sempre a adorou. Vendo, pois, que estas coisas não podem ser contraditadas.
Por que, pois, fazeis disso uma questão, como se estas coisas não fossem evidentes? (b) Em seguida, repreende-os com brandura, mostrando que se haviam ajuntado sem razão. E que nada façais precipitadamente, diz ele. Mostrando que haviam agido precipitadamente. (a) Pois trouxestes aqui, etc.
Queriam fazer da religião o pretexto para o que dizia respeito ao seu próprio lucro: (c) e não era justo que, por acusações particulares, se convocasse uma assembleia pública. Pois ele os deixou sem saída, e não lhes restou palavra alguma para se defenderem. Não havendo causa, diz ele, para este ajuntamento, do qual não poderemos prestar contas.
Tudo isto, porém, diz ele ao povo; mas, para que também aqueles artífices se tornassem mais razoáveis, diz: Portanto, se Demétrio e os artífices que estão com ele têm alguma questão contra alguém, os tribunais estão abertos, e há procônsules: acusem-se uns aos outros. Mas se indagardes alguma outra coisa, isso se decidirá em legítima assembleia. Pois corremos perigo de sermos acusados de sedição por causa do tumulto de hoje, não havendo causa alguma pela qual possamos prestar contas deste ajuntamento.
Legítima assembleia, diz ele, pois havia três assembleias legais em cada mês; mas esta era contrária à lei. Em seguida, também os atemoriza, dizendo: Corremos perigo de sermos acusados de sedição. Mas voltemos a examinar o que foi dito.
Vede quão prudente, quão habilmente agem os incrédulos. Assim ele extinguiu a sua ira. Pois, assim como facilmente se acende, também facilmente se extingue. E havendo dito isto, diz o texto, despediu a assembleia.
Por isto novamente os reanimou (ἀνεκτήσατο), dando-lhes muita consolação. E havendo exortado os macedônios com longo discurso, veio para a Grécia.
Havia necessidade de muita consolação depois daquele tumulto. Por isso, tendo feito isto, vai para a Macedônia, e depois para a Grécia. Pois, diz o texto, "havendo percorrido aquelas regiões, e exortando-os com muitas palavras, veio para a Grécia, e ali permaneceu três meses. E, armando-lhe os judeus ciladas quando estava para navegar para a Síria, resolveu voltar pela Macedônia" (vv. 2-3). Novamente é perseguido pelos judeus, e vai para a Macedônia. "E acompanharam-no até a Ásia Sópater de Beroia; e dos tessalonicenses, Aristarco e Segundo; e Gaio de Derbe, e Timóteo; e da Ásia, Tíquico e Trófimo. Estes, indo adiante, esperavam-nos em Trôade" (vv. 4-5). Mas como chama a Timóteo homem "de Tessalônica"? Não é este o seu sentido, mas: "Dos tessalonicenses, Aristarco e Segundo e Gaio; de Derbe, Timóteo", etc.; estes, diz ele, foram adiante dele até Trôade, preparando-lhe o caminho. "E nós navegamos de Filipos depois dos dias dos pães ázimos, e em cinco dias chegamos a eles em Trôade, onde ficamos sete dias" (v. 6). Pois parece-me que ele fazia questão de guardar as festas nas grandes cidades. "De Filipos", onde ocorrera o episódio do cárcere. Esta foi a sua terceira vinda à Macedônia, e é um alto testemunho que presta aos filipenses, razão pela qual ali faz alguma demora. "E no primeiro dia da semana, tendo-se reunido os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, lhes pregava, e prolongou o seu discurso até a meia-noite" (v. 7). Era então o tempo (entre a Páscoa e) o Pentecostes. Vede como tudo se subordinava à pregação. Era também, diz o texto, o dia do Senhor. Nem sequer durante a noite se calava; antes, discorria ainda mais então, por causa do silêncio. Observai como fez um discurso longo, e além mesmo da hora da ceia. Mas o Diabo perturbou a festa — sem, contudo, prevalecer — mergulhando o ouvinte no sono e fazendo-o cair. "E", diz o texto, "havia muitas luzes no cenáculo onde estavam reunidos. E um certo jovem, por nome Êutico, estava sentado numa janela, tomado de profundo sono; e como Paulo pregasse por longo tempo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Mas Paulo, descendo, lançou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, pois a sua alma está nele. E, tornando a subir, e tendo partido o pão, e comido, e falado ainda por muito tempo, até o amanhecer, partiu assim. E levaram vivo o jovem, e não foram pouco consolados" (vv. 8-12). Mas observai, peço-vos, o teatro, quão numeroso era: e o milagre, qual foi. "Estava sentado numa janela", em plena noite. Tal era o seu ardor em ouvi-lo! Envergonhemo-nos! "Sim, mas era Paulo", dizeis vós, "quem então discorria." Sim, e Paulo discorre também agora — ou antes, nem então nem agora é Paulo, mas Cristo — e, no entanto, ninguém se importa de ouvir. Não há agora janela alguma, nem a importunidade da fome ou do sono, e, no entanto, não nos importamos de ouvir: não há aqui aglomeração em espaço estreito, nem qualquer outro incômodo semelhante. E a circunstância admirável é que, sendo ele um jovem, não foi negligente nem indiferente; e, ainda que oprimido pelo sono, não se retirou, nem temeu o perigo de cair. Não foi por negligência que adormeceu, mas por necessidade da natureza. Mas observai, rogo-vos, quão fervoroso era o seu zelo, que se reuniam até num terceiro andar: pois ainda não tinham uma igreja. "Não vos perturbeis", diz ele. Não disse: "Ele voltará à vida, pois eu o ressuscitarei"; mas notai o modo despretensioso com que os consola: "pois a sua alma", diz ele, "está nele. E, tornando a subir, e tendo partido o pão, e comido." Isto interrompeu o discurso; não fez, contudo, dano algum. "Havendo comido", diz o texto, "e discorrido por longo tempo, até o amanhecer, partiu assim." Notais a frugalidade da ceia? Observais como passaram a noite inteira? Tais eram as suas refeições, que os ouvintes saíam sóbrios e aptos para ouvir. Mas nós, em que diferimos dos cães? Notais que diferença há entre nós e aqueles homens? "E levaram vivo o jovem, e", diz o texto, "não foram pouco consolados", tanto por o terem recebido de volta vivo, quanto por se ter operado um milagre. "E nós, indo adiante, embarcamos, e navegamos para Tasos, ali tencionando receber a Paulo a bordo; pois assim ele o determinara, querendo ele mesmo ir a pé" (v. 13). Frequentemente encontramos Paulo separando-se dos discípulos. Pois eis que, novamente, ele mesmo vai a pé: dando-lhes a eles o caminho mais fácil, e escolhendo para si o mais penoso. Ia a pé, tanto para dispor de muitos assuntos, quanto para exercitá-los a suportar a separação dele. "E, havendo ele se reunido a nós em Tasos, e tomando-o a bordo, viemos a Mitilene; e, navegando dali no dia seguinte, chegamos defronte de Quios" — então passam a ilha — "e no dia seguinte tocamos em Samos, e, havendo parado em Trogílio, no dia seguinte viemos a Mileto. Pois Paulo determinara navegar além de Éfeso, para não se demorar na Ásia; porque se apressava, se lhe fosse possível, para estar em Jerusalém no dia de Pentecostes" (vv. 14-16). Por que esta pressa? Não por causa da festa, mas da multidão. Ao mesmo tempo, com isto conciliava os judeus, como quem honrava as festas, desejando ganhar até os seus adversários; e, ao mesmo tempo, também transmitia a palavra. Vede, pois, quanto proveito resultou de estarem todos presentes. Mas, para que os interesses do povo de Éfeso não fossem, por isso, negligenciados, providenciou a isto de outro modo. Mas voltemos a examinar o que foi dito. (Recapitulação.) "E, havendo-os abraçado", diz o texto, "partiu para ir à Macedônia" (v. 1). Por isto novamente os reanimou (anektesato), dando-lhes muit [truncado]
Observai como em toda parte o encontramos realizando tudo por meio da pregação, e não de milagres. E nós navegamos, etc. O escritor constantemente no-lo mostra apressando-se para chegar à Síria; e a razão disto era a Igreja e Jerusalém; mas, ainda assim, refreava o seu desejo, para pôr também em ordem as coisas naquelas regiões. E, contudo, Trôade não é lugar grande: por que, então, ali passam sete dias? Talvez fosse grande quanto ao número dos crentes. E, depois de ali ter passado sete dias, no dia seguinte passou a noite ensinando: tão difícil lhe era arrancar-se deles, e a eles dele. E, tendo-nos reunido, diz o texto, para partir o pão.
Novamente é perseguido pelos judeus, e parte para a Macedônia. E acompanharam-no até a Ásia Sópater de Bereia; e dos tessalonicenses, Aristarco e Segundo; e Gaio de Derbe, e Timóteo; e da Ásia, Tíquico e Trófimo. Estes, indo adiante, esperaram por nós em Troas.
Mas como chama ele a Timóteo homem de Tessalônica? Não é esta a sua intenção, mas: Dos tessalonicenses, Aristarco e Segundo e Gaio; de Derbe, Timóteo, etc. — estes, diz ele, foram adiante dele para Troas, preparando-lhe o caminho. E nós navegamos de Filipos depois dos dias dos pães ázimos, e viemos a eles a Troas em cinco dias; onde permanecemos sete dias.
Parece-me, pois, que ele fazia questão de guardar as festas nas grandes cidades. De Filipos, onde se dera o episódio da prisão. Esta foi a sua terceira vinda à Macedônia, e é um alto testemunho o que presta aos filipenses, razão pela qual demora ali algum tempo. E no dia da semana em que os discípulos se reuniram para partir o pão, Paulo lhes pregou, pronto para partir no dia seguinte; e prolongou o seu discurso até a meia-noite.
Era então o tempo (entre a Páscoa e) o Pentecostes. Vede como tudo estava subordinado à pregação. Era também, diz o texto, o dia do Senhor. Nem mesmo durante a noite se calava; antes, discursava tanto mais então, por causa do silêncio. Notai como fez um longo discurso, e isso além da própria hora da ceia. Mas o Diabo perturbou a festa — não que tenha prevalecido, todavia — mergulhando o ouvinte no sono e fazendo-o cair. E havia, diz o texto, muitas lâmpadas no cenáculo onde estavam reunidos. E estava sentado numa janela certo jovem chamado Êutico, tendo caído em profundo sono: e como Paulo pregasse por longo tempo, foi vencido pelo sono e caiu do terceiro andar, e foi levantado morto. E Paulo desceu, e lançou-se sobre ele, e abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, pois a sua vida está nele. Tendo, pois, subido de novo, e partido o pão, e comido, e conversado por longo tempo, até o romper do dia, assim partiu. E trouxeram o jovem vivo, e não foram pouco consolados.
No próprio momento (de partir o pão), tendo o discurso começado, prolongou-se: como que mostrando que estavam com fome, e não era isso fora de tempo; pois o objeto principal (que os reunira) não era o ensino, mas tinham-se reunido para partir o pão; tendo, porém, surgido o discurso, ele prolongou o ensino. Vede como todos participaram também da mesa de Paulo. Parece-me que ele discorria mesmo estando sentado à mesa, ensinando-nos a considerar todas as demais coisas como subordinadas a esta. Representai a vós mesmos, eu vos suplico, aquela casa com suas luzes, com sua multidão, com Paulo no meio, discorrendo, estando mesmo as janelas ocupadas por muitos: que coisa era ver, e ouvir aquela trombeta, e contemplar aquele semblante gracioso! Mas por que discorria ele durante a noite? Porque estava para partir, diz o texto, e não haveria de vê-los mais: embora isto, na verdade, não lhes dissesse, sendo eles demasiado fracos (para suportá-lo), mas o disse aos outros. Ao mesmo tempo, também o milagre que se deu haveria de fazê-los recordar para sempre aquela noite; de modo que a queda redundou em proveito do mestre. Grande era o deleite dos ouvintes, e mesmo quando interrompido, tanto mais se acrescia. Aquele jovem havia de repreender a todos os que são negligentes (para com a palavra), ele cuja morte não foi causada por outra coisa senão por isto: que desejava ouvir Paulo. E fomos adiante para o navio, etc.
Mas observai, eu vos peço, o teatro, quão apinhado estava; e o milagre, qual era. Estava ele sentado numa janela, em plena noite. Tal era o ardor deles em ouvi-lo! Envergonhemo-nos a nós mesmos! Mas, dizeis vós, era um Paulo que então discorria. Sim, e Paulo discorre agora, ou melhor, não Paulo, nem então nem agora, mas Cristo, e contudo a nenhum importa ouvir. Não há aqui janela alguma, nenhuma importunidade da fome ou do sono, e contudo não nos importa ouvir: não há aqui aglomeração em espaço estreito, nem qualquer outro conforto semelhante. E a circunstância admirável é que, sendo ele um jovem, não foi negligente nem indiferente; e ainda que (se sentisse) vencido pelo sono, não se retirou, nem tampouco temeu o perigo de cair. Não foi por negligência que adormeceu, mas por necessidade da natureza. Mas observai, eu vos suplico, quão fervoroso era o seu zelo, que se reuniam até num terceiro andar: pois ainda não tinham uma Igreja. Não vos perturbeis, diz ele. Não disse: Ele voltará à vida, pois eu o ressuscitarei; mas notai o modo despretensioso com que os consola: pois a sua vida, diz ele, está nele. Tendo subido de novo, e partido o pão, e comido. Isto interrompeu o discurso; não lhe causou, porém, nenhum dano. Tendo comido, diz o texto, e discorrido por longo tempo, até o romper do dia, assim partiu. Notai a frugalidade da ceia. Observai como passaram a noite toda. Tais eram as suas refeições, que os ouvintes se retiravam sóbrios, e aptos para ouvir. Mas nós, em que diferimos dos cães? Notais que diferença há entre nós e aqueles homens? E trouxeram o jovem vivo, e, diz o texto, não foram pouco consolados, tanto por havê-lo recebido de volta vivo, como por se ter operado um milagre. E nós fomos adiante para o navio, e navegamos para Tasos, ali tencionando receber a Paulo: pois assim ele o determinara, querendo ele mesmo ir a pé.
Por que razão diz o escritor onde chegaram, e para onde foram? Para mostrar, em primeiro lugar, que ele fazia a viagem com mais vagar — e isto por motivos humanos — e navegando além de alguns lugares: também, pela mesma razão, relata onde fez uma parada, e que regiões deixou atrás navegando; a saber, para não haver de gastar tempo na Ásia.
Frequentemente encontramos Paulo a separar-se dos discípulos. Pois eis que novamente ele mesmo vai a pé: dando-lhes o caminho mais fácil, e escolhendo para si o mais penoso. Foi a pé, tanto para poder resolver muitos assuntos, quanto por modo de exercitá-los a suportar a separação dele. E quando se juntou a nós em Trôade, tendo-o recebido a bordo, viemos a Mitilene; e tendo navegado dali no dia seguinte, chegamos defronte de Quios — depois passam pela ilha — e no dia seguinte aportamos em Samos, e tendo parado em Trogílio, no dia seguinte viemos a Mileto. Pois Paulo havia determinado navegar passando ao largo de Éfeso, porque não queria demorar-se na Ásia: pois apressava-se, se lhe fosse possível, a estar em Jerusalém no dia de Pentecostes.
Pois se ali tivesse ido, não teria podido passar ao largo; não lhe agradava afligir aqueles que lhe pediriam que ficasse. Pois apressava-se, diz o texto, se lhe fosse possível, a guardar o dia de Pentecostes em Jerusalém: e isto não seria possível se permanecesse. Observai como ele também é movido como os demais homens. Pois é por isto mesmo que tudo isto se dá, para que não imaginemos que ele estava acima da natureza humana: por isso o vedes desejando algo, e apressando-se, e em muitos casos não obtendo o que deseja; pois aqueles homens grandes e santos participavam da mesma natureza que nós; foi na vontade e no propósito que diferiram, e foi assim que também atraíram sobre si a grande graça que possuíram. Vede, por exemplo, quantas coisas eles dispõem por uma economia própria. Que não demos escândalo (2 Cor 6,3) aos que desejam tomar escândalo, e que o nosso ministério não seja censurado. Eis, de um lado uma vida irrepreensível, e de outro a condescendência. Isto é o que se chama, em verdade, economia, no seu cume e altura suprema. Pois aquele que ia além dos preceitos de Cristo era, por outro lado, mais humilde que todos. Fiz-me tudo para todos, diz ele, para que de algum modo salvasse a todos (1 Cor 9,22). Lançou-se também sobre os perigos, como diz noutro lugar: Em muita paciência, em aflições, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões (2 Cor 6,4-5). E grande era o seu amor por Cristo. Pois se não houvesse isto, tudo o mais seria supérfluo, tanto a economia da condescendência acomodatícia quanto a vida irrepreensível e a exposição aos perigos. Quem é fraco, diz ele, que eu não seja fraco? Quem se escandaliza, que eu não me abrase? (2 Cor 11,29). Imitemos estas palavras, e lancemo-nos aos perigos por causa de nossos irmãos. Seja fogo, seja espada, lança-te sobre ela, amado, para que resgates aquele que é teu membro: lança-te, não temas. Tu és discípulo de Cristo, que deu a Sua vida por Seus irmãos: condiscípulo de Paulo, que escolheu sofrer inumeráveis males por seus inimigos, por homens que guerreavam contra ele; enche-te de zelo, imita Moisés. Ele viu alguém sofrendo injustiça, e o vingou; desprezou o luxo régio, e por causa dos aflitos tornou-se fugitivo, andarilho, solitário e desamparado; passou seus dias em terra estrangeira; e, no entanto, não se culpou a si mesmo, nem disse: Que é isto? Desprezei a realeza, com toda a sua honra e glória: escolhi vingar os que eram injustiçados, e Deus esqueceu-se de mim: e não somente não me restituiu à minha antiga honra, mas ainda quarenta anos passo em terra estrangeira. Verdadeiramente, esplendidamente recebi meu salário, não é assim? Mas nada disto ele disse ou pensou. Assim também fazei vós: ainda que sofrais algum mal por fazer o bem, ainda que tenhais de esperar longo tempo, não vos escandalizeis, não vos perturbeis: Deus certamente vos dará a vossa recompensa. Quanto mais se atrasa a recompensa, tanto mais se acresce o seu juro. Tenhamos uma alma capaz de compadecer-se, tenhamos um coração que saiba sentir com os outros em suas dores: nenhuma disposição cruel, nenhuma desumanidade.
Ainda que não possas conceder alívio algum, chora tu, geme, entristece-te com o que aconteceu: nem isto é sem proveito. Se nos convém sentir por aqueles que são justamente punidos por Deus, muito mais por aqueles que sofrem injustamente às mãos dos homens. Os de Enã, diz o texto, não saíram a lamentar pela casa que lhe era próxima (Miq 1,11): receberão dor, em retorno pelo que edificaram para escárnio. E novamente, Ezequiel faz disto uma acusação contra eles, que não se entristeceram pelos aflitos (Ez 16,2). Que dizes, ó profeta? Deus pune, e hei de entristecer-me por aqueles que Ele pune? Sim, em verdade: pois o próprio Deus que pune deseja isto: pois nem Ele mesmo deseja punir, antes Ele mesmo se entristece ao punir. Não te alegres, pois, com isto. Dirás: Se são justamente punidos, não devemos entristecer-nos. Ora, a coisa pela qual devemos entristecer-nos é esta — que foram achados dignos de punição. Dize: quando vês teu filho sofrer a cauterização ou a faca, não te entristeces? E não dizes a ti mesmo: Que é isto? É para a saúde este corte, para apressar sua recuperação; é para sua libertação, este queimar? mas, apesar de tudo, quando o ouves clamar, e não podendo suportar a dor, entristeces-te, e a esperança de restauração da saúde não basta para dissipar o choque à natureza. Assim também no caso destes, ainda que seja para a sua saúde que são punidos, mostremos, contudo, um sentimento fraternal, uma disposição paternal. São cortes e cauterizações, os castigos enviados por Deus: mas é por isto que devemos chorar, que estavam enfermos, que necessitavam de tal modo de cura. Se é por coroas que alguns sofrem estas coisas, então não te entristeças; por exemplo, como sofreu Paulo, como sofreu Pedro: mas quando é por punição que alguém sofre a justiça, então chora, então geme. Tal foi a parte que os profetas representaram; assim disse um deles: Ah, Senhor! destróis o resto de Israel? (Ez 9,8). Vemos homicidas, homens ímpios, sofrendo punição, e ficamos angustiados, e nos entristecemos por eles. Não sejamos filosóficos além da medida: mostremo-nos compassivos, para que sejamos compadecidos; nada há igual a este belo traço: nada tanto assinala em nós o selo da natureza humana quanto mostrar piedade, quanto ser bondoso para com nossos semelhantes. De fato, por isto as leis confiam aos carrascos públicos toda a tarefa da punição: tendo compelido o juiz a punir apenas até pronunciar a sentença, chamam depois àqueles que executam o ato mesmo. Tão verdadeiro é isto, que, ainda que seja feito com justiça, não é próprio de uma alma generosa (φιλοσόφου) infligir a punição, mas requer outra espécie de pessoa para isto: pois nem mesmo Deus pune com Sua própria mão, mas por mim
Por que esta pressa? Não por causa da festa, mas da multidão. Ao mesmo tempo, com isto conciliava os judeus, como aquele que honrava as festas, desejando ganhar até os seus adversários: ao mesmo tempo, também, entrega a palavra. Vede, pois, quanto proveito adveio de todos estarem presentes. Mas, para que os interesses do povo de Éfeso não fossem por isso negligenciados, providenciou para isto de outro modo. Mas revisemos novamente o que foi dito.
Vede-o, apressando-se a navegar sem os visitar, e todavia não os esquecendo, antes cuidando de tudo. Tendo mandado chamar os presbíteros, por meio deles se dirige a eles (os efésios): mas é digno de admiração como, achando-se sob a necessidade de dizer certas grandes coisas sobre si mesmo, ele se esforça por reduzi-las ao mínimo possível (πειρᾶται μετριάζειν). "Sabeis vós." Pois assim como Samuel, ao estar prestes a entregar o governo a Saul, diz na presença deles: "Tomei eu algo das vossas mãos? Vós sois testemunhas, e Deus também" (1 Sm 12,3.5); (assim faz Paulo aqui). Também Davi, quando não lhe davam crédito, diz: "Eu estava com o rebanho, guardando as ovelhas de meu pai: e quando veio o urso, eu o espantei com minhas mãos" (1 Sm 17,34-35): e o próprio Paulo diz aos coríntios: "Tornei-me insensato; vós me obrigastes" (2 Cor 12,11). Ora, o próprio Deus também faz o mesmo, não falando de Si mesmo em toda e qualquer ocasião, mas somente quando não Lhe dão crédito, então Ele traz à memória Seus benefícios. Vede, pois, o que Paulo faz aqui: primeiro aduz o próprio testemunho deles: para que não imagineis que suas palavras são mera jactância, chama os próprios ouvintes como testemunhas das coisas que diz, visto que não era provável que mentisse na presença deles. Esta é a excelência de um mestre, ter por testemunhas de seus méritos aqueles que são seus discípulos. E o que é admirável: Não por um dia nem por dois, diz ele, continuei fazendo isto. Deseja animá-los para o futuro, para que suportem corajosamente todas as coisas, tanto a separação dele quanto as provações que estão para vir — assim como foi no caso de Moisés e Josué. E vede como começa: "Como estive convosco todo o tempo, servindo ao Senhor com toda humildade de mente." Observai o que mais convém aos que governam: "odiando a soberba" (Êx 18,21, LXX), diz (Moisés): qualificação que é especialmente própria dos que governam, porque a estes há quase uma necessidade de se tornarem arrogantes. Esta (humildade) é o fundamento de todo bem, como de fato diz Cristo: "Bem-aventurados os pobres de espírito" (Mt 5,3). E (aqui) não simplesmente "com humildade de mente", mas "com toda humildade". Pois há muitos tipos de humildade, em palavra e em ação, para com os que governam e para com os governados. Quereis que vos mencione alguns tipos de humildade? Há alguns que são humildes para com os humildes, e altivos para com os altivos: este não é o caráter da humildade. Alguns, pois, são assim. Depois, para que não pareça arrogante, lança de antemão um fundamento, removendo tal suspeita: "Pois", diz ele, "se agi 'com toda humildade de mente', não é por arrogância que digo o que digo." Depois, quanto à sua mansidão, sempre com muita condescendência tornando-os seus companheiros. "Convosco", diz ele, "estive, servindo ao Senhor"; torna as boas obras comuns entre eles e ele mesmo: nada disso lhe é peculiar. "Como?" (direis) "ora, contra Deus poderia ele porventura portar-se arrogantemente?" E, no entanto, há muitos que se portam arrogantemente contra Deus: mas este homem nem sequer contra os seus próprios discípulos. Este é o mérito de um mestre: formar, por suas próprias realizações de virtude, o caráter de seus discípulos. Depois, quanto à sua fortaleza, sobre a qual também é muito conciso. "Com muitas lágrimas", diz ele, "e tentações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus." Vedes como se entristece com os feitos deles? Mas também aqui parece mostrar quão compassivo era: pois sofria por aqueles que iam à perdição, pelos próprios autores; pelo que lhe fora feito a ele mesmo, antes se alegrava; pois pertencia àquele grupo que "se alegrava por ter sido considerado digno de sofrer afronta por aquele Nome" (At 5,41): e novamente diz: "Agora me alegro em meus sofrimentos por vós" (Cl 1,24): e ainda: "Pois a nossa leve tribulação, que é apenas por um momento, produz para nós um peso eterno de glória, acima de toda medida" (2 Cor 4,17). Estas coisas, contudo, ele diz por modo de reduzir ao mínimo os seus méritos (μετριάζων). Mas ali mostra sua fortaleza, não tanto de ousadia quanto de perseverança: "Eu", diz ele, "fui maltratado, mas foi convosco: e o que é de fato a parte penosa do assunto, às mãos dos judeus." Observai, ele coloca aqui tanto o amor quanto a fortaleza. Notai, aqui, vos peço, um caráter de ensino: "Nada retive", diz ele, plenitude sem mesquinhez, prontidão sem hesitação — "do que era proveitoso para vós": porque havia coisas que não precisavam aprender. Pois, assim como ocultar algumas coisas seria como mesquinhez, dizer todas seria loucura. Por isto acrescenta: "que era proveitoso para vós. Mas vo-lo mostrei, e vos ensinei": não somente disse, mas também ensinou: não fazendo isto tampouco como mera formalidade. Pois que é isto que quer dizer, observai o que diz: "publicamente, e de casa em casa": representando assim o extraordinário labor, o grande zelo e perseverança. "Tanto judeus quanto gregos." Não (dirigindo-me) a vós somente. "Testificando": aqui, a ousadia de palavra: e que, ainda que não façamos bem algum, contudo devemos falar: pois este é o sentido de "testificar", quando falamos aos que não prestam atenção: e assim a palavra διαμαρτύρασθαι é usada na maior parte das vezes. "Tomo por testemunhas o céu e a terra" (Dt 4,26), διαμαρτύρομαι, diz Moisés: e agora o próprio Paulo, διαμαρτυρόμενος, "tanto a judeus quanto a gregos, o arrependimento para com Deus". Que testificas tu? Que fossem cuidadosos quanto ao seu modo de vida: que se arrependessem, e se aproximassem de Deus. "Tanto a judeus quanto a gregos" — pois nem os judeus O conheciam — tanto por causa das obras deles, diz ele, "arrependimento para com Deus", quanto porque não conheciam o Filho, acrescenta, "e fé no Senhor Jesus". Para que fim, pois, dizes tu estas coisas? para que fim os fazes lembrar-se delas? Que resultou disto? tens algo a acusá-los? Tendo primeiro alarmado o sentimento deles, então acrescenta: "E agora, eis que vou preso em
E de Mileto enviou a Éfeso, e chamou os presbíteros da Igreja. E quando vieram a ele, disse-lhes: Vós sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, de que maneira estive convosco em todo tempo, servindo ao Senhor com toda humildade de mente, e com muitas lágrimas, e tentações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus: e como nada retive do que era proveitoso, mas vo-lo mostrei, e vos ensinei publicamente, e de casa em casa, testificando tanto aos judeus quanto aos gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo.
Vede-o, apressando-se a navegar sem os visitar, e todavia não os esquecendo, antes cuidando de tudo. Tendo mandado chamar os presbíteros, por meio deles se dirige a eles (os efésios): mas é digno de admiração como, achando-se sob a necessidade de dizer certas grandes coisas sobre si mesmo, ele se esforça por reduzi-las ao mínimo possível (πειρᾶται μετριάζειν). Vós sabeis. Pois assim como Samuel, ao estar prestes a entregar o governo a Saul, diz na presença deles: Tomei eu algo das vossas mãos? Vós sois testemunhas, e Deus também (1 Sm 12,3-5); (assim faz Paulo aqui). Também Davi, quando não lhe davam crédito, diz: Eu estava com o rebanho, guardando as ovelhas de meu pai: e quando veio o urso, eu o espantei com minhas mãos (1 Sm 17,34-35): e o próprio Paulo diz aos coríntios: Tornei-me insensato; vós me obrigastes (2 Cor 12,11). Ora, o próprio Deus também faz o mesmo, não falando de Si mesmo em toda e qualquer ocasião, mas somente quando não Lhe dão crédito, então Ele traz à memória Seus benefícios. Vede, pois, o que Paulo faz aqui: primeiro aduz o próprio testemunho deles: para que não imagineis que suas palavras são mera jactância, chama os próprios ouvintes como testemunhas das coisas que diz, visto que não era provável que mentisse na presença deles. Esta é a excelência de um mestre, ter por testemunhas de seus méritos aqueles que são seus discípulos. E o que é admirável: Não por um dia nem por dois, diz ele, continuei fazendo isto. Deseja animá-los para o futuro, para que suportem corajosamente todas as coisas, tanto a separação dele quanto as provações que estão para vir — assim como foi no caso de Moisés e Josué. E vede como começa: Como estive convosco todo o tempo, servindo ao Senhor com toda humildade de mente. Observai o que mais convém aos que governam: odiando a soberba (Êx 18,21, Septuaginta), diz (Moisés): qualificação que é especialmente própria dos que governam, porque a estes há quase uma necessidade de se tornarem arrogantes. Esta (humildade) é o fundamento de todo bem, como de fato diz Cristo: Bem-aventurados os pobres de espírito (Mt 5,3). E (aqui) não simplesmente com humildade de mente, mas com toda humildade. Pois há muitos tipos de humildade, em palavra e em ação, para com os que governam e para com os governados. Quereis que vos mencione alguns tipos de humildade? Há alguns que são humildes para com os humildes, e altivos para com os altivos: este não é o caráter da humildade. Alguns, pois, são assim. Depois, para que não pareça arrogante, lança de antemão um fundamento, removendo tal suspeita: Pois, diz ele, se agi 'com toda humildade de mente', não é por arrogância que digo o que digo. Depois, quanto à sua mansidão, sempre com muita condescendência tornando-os seus companheiros. Convosco, diz ele, estive, servindo ao Senhor; torna as boas obras comuns entre eles e ele mesmo: nada disso lhe é peculiar. Como? (direis) ora, contra Deus poderia ele porventura portar-se arrogantemente? E, no entanto, há muitos que se portam arrogantemente contra Deus: mas este homem nem sequer contra os seus próprios discípulos. Este é o mérito de um mestre: formar, por suas próprias realizações de virtude, o caráter de seus discípulos. Depois, quanto à sua fortaleza, sobre a qual também é muito conciso. Com muitas lágrimas, diz ele, e tentações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus. Vedes como se entristece com os feitos deles? Mas também aqui parece mostrar quão compassivo era: pois sofria por aqueles que iam à perdição, pelos próprios autores; pelo que lhe fora feito a ele mesmo, antes se alegrava; pois pertencia àquele grupo que se alegrava por ter sido considerado digno de sofrer afronta por aquele Nome (At 5,41): e novamente diz: Agora me alegro em meus sofrimentos por vós (Cl 1,24): e ainda: Pois a nossa leve tribulação, que é apenas por um momento, produz para nós um peso eterno de glória, acima de toda medida (2 Cor 4,17). Estas coisas, contudo, ele diz por modo de reduzir ao mínimo os seus méritos (μετριάζων). Mas ali mostra sua fortaleza, não tanto de ousadia quanto de perseverança: Eu, diz ele, fui maltratado, mas foi convosco: e o que é de fato a parte penosa do assunto, às mãos dos judeus. Observai, ele coloca aqui tanto o amor quanto a fortaleza. Notai, aqui, vos peço, um caráter de ensino: Nada retive, diz ele, plenitude sem mesquinhez, prontidão sem hesitação — do que era proveitoso para vós: porque havia coisas que não precisavam aprender. Pois, assim como ocultar algumas coisas seria como mesquinhez, dizer todas seria loucura. Por isto acrescenta: que era proveitoso para vós. Mas vo-lo mostrei, e vos ensinei: não somente disse, mas também ensinou: não fazendo isto tampouco como mera formalidade. Pois que é isto que quer dizer, observai o que diz: publicamente, e de casa em casa: representando assim o extraordinário labor, o grande zelo e perseverança. Tanto judeus quanto gregos. Não (dirigindo-me) a vós somente. Testificando: aqui, a ousadia de palavra: e que, ainda que não façamos bem algum, contudo devemos falar: pois este é o sentido de testificar, quando falamos aos que não prestam atenção: e assim a palavra διαμαρτύρασθαι é usada na maior parte das vezes. Tomo por testemunhas o céu e a terra (Dt 4,26), διαμαρτύρομαι, diz Moisés: e agora o próprio Paulo, Διαμαρτυρόμενος, tanto a judeus quanto a gregos, o arrependimento para com Deus. Que testificas
Então é por isto que partes? De modo algum; antes, pelo contrário (sei que), laços e aflições me aguardam. Que (há) provações, eu sei, mas de que espécie não sei: qual seria a mais penosa. Mas nenhuma destas coisas me comove
Por que diz ele isto? A fim de prepará-los para estarem sempre prontos a enfrentar os perigos, sejam vistos, sejam ocultos, e em tudo obedecerem ao Espírito. Mostra que é por grandes desígnios que é levado para longe deles. Salvo que o Espírito Santo, diz ele, em cada cidade me testifica dizendo — para mostrar que ele parte de boa vontade; para que não imagineis que seja algum laço ou necessidade, quando diz preso no Espírito — que em cada cidade laços e aflições me aguardam. Depois acrescenta ainda isto: Não tenho a minha vida por preciosa, até que tenha cumprido a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus. Até que tenha terminado a minha carreira, diz ele, com alegria. Notai como estas eram claramente palavras não de alguém que se lamenta, mas de alguém que se abstinha de fazer o máximo (μετριάζοντος) das suas aflições, de alguém que queria instruir aqueles a quem se dirigia, e compadecer-se com eles nas coisas que lhes sucediam. Não diz: Em verdade me entristeço, mas é preciso suportá-lo: mas, diz ele, de nenhuma destas coisas faço caso, nem tenho, isto é, considero preciosa a minha vida para mim mesmo. Por que, novamente, isto? Não para exaltar-se a si mesmo, mas para ensinar-lhes, assim como pelas palavras anteriores a humildade, também por estas a fortaleza e a ousadia: Não a tenho por preciosa, isto é, não a amo mais do que isto: tenho por mais precioso terminar a minha carreira, testificar. E não diz: pregar, ensinar — mas o que diz? testificar (διαμαρτύρασθαι) — o evangelho da graça de Deus. Está para dizer algo mais penoso (φορτικώτερον), a saber: Estou puro do sangue de todos os homens (porque de minha parte) nada falta: está prestes a lançar sobre eles todo o peso e fardo: por isto primeiro suaviza os sentimentos deles dizendo: E agora eis que sei que não vereis mais o meu rosto. A consolação é dupla: tanto que não vereis mais o meu rosto, pois de coração estou convosco: quanto que não eram eles somente (que não o veriam mais): pois, não vereis mais o meu rosto, vós todos, entre os quais andei pregando o Reino. De modo que bem pode (dizer): Por isso vos tomo por testemunhas — visto que não estarei mais convosco — que estou puro do sangue de todos os homens.
Pois não penseis que digo estas coisas lamentando-as: porque não tenho minha própria vida por preciosa. É para levantar-lhes o ânimo que ele diz tudo isto, e para persuadi-los não somente a não fugir, mas também a suportar nobremente. Por isso é que ele o chama de carreira e de ministério: por um lado, mostrando-o glorioso por ser uma corrida; por outro, mostrando o que lhe era devido, por ser um ministério. Sou ministro: nada mais. Havendo-os consolado, para que não se afligissem por ele ter sido tão maltratado, e havendo-lhes dito que suportara aquelas coisas com alegria, e havendo mostrado os frutos delas, então (e não antes) introduz aquilo que lhes causaria dor, para não sobrecarregar-lhes o ânimo. E agora eis que, etc. Por isso vos tomo por testemunhas de que estou puro do sangue de todos, porque não me retraí de anunciar-vos todo o conselho de Deus.
Isto era próprio e conveniente que Paulo o dissesse, mas nós não ousamos dizê-lo, cientes que somos de inúmeras faltas. Por isso, a ele, o sempre vigilante, sempre pronto, o homem que tudo suportava pela salvação de seus discípulos, era próprio e conveniente dizer isto: mas nós devemos dizer aquilo de Moisés: "O Senhor irou-se contra mim por vossa causa" (Dt 3,26), porque também vós nos levais a muitos pecados. Pois quando nos desanimamos ao ver que não progredis, não é derrubada a maior parte de nossa força? Pois o que, pergunto-vos, foi feito? Eis que, pela graça de Deus, também nós já passamos o espaço de três anos, não é verdade que noite e dia vos exortando, mas fazendo-o, muitas vezes a cada três dias, ou a cada sete. Que mais veio disso? Acusamos, repreendemos, choramos, estamos em angústia, ainda que não abertamente, contudo no coração. Mas essas lágrimas (interiores) são muito mais amargas que estas (exteriores): pois estas, na verdade, trazem uma espécie de alívio aos sentimentos do que se entristece, ao passo que aquelas o agravam e o prendem com firmeza. Pois quando há alguma causa de tristeza, e não se pode dar vazão à dor, para não parecer que se busca vanglória, pensai o que ele sofre! Não fosse o povo me acusar de excessivo amor à ostentação, ver-me-íeis cada dia derramando fontes de lágrimas: mas disso são testemunhas o meu quarto e as minhas horas de solidão. Pois crede-me, tenho (por vezes) desesperado de minha própria salvação, mas, de tanto lamentar-me por vossa causa, não tenho sequer tempo livre para chorar meus próprios males: tão inteiramente sois vós tudo para mim. E, quer eu vos perceba progredindo — então, de puro deleite, não sinto meus próprios males —, quer vos veja sem progredir — tal é minha dor, que de novo afasto do pensamento meus próprios cuidados: alegro-me por causa de vossos bens, ainda que eu mesmo tenha males sem número, e entristeço-me por causa de vossas dores, ainda que meus próprios êxitos sejam sem número. Pois que esperança há para o mestre, quando seu rebanho está destruído? Que espécie de vida, que espécie de expectativa há para ele? Com que confiança se apresentará diante de Deus? Que dirá? Pois ainda que nada lhe seja imputado, que não tenha castigo a sofrer, mas esteja puro do sangue de todos: mesmo assim sofrerá uma dor incurável: pois também os pais, ainda que não sejam obrigados a prestar contas dos pecados de seus filhos, contudo têm dor e vexame. E isto de nada lhes aproveita, nem os protege (προίσταται). Pois são eles que velam por nossas almas, como quem há de prestar contas (Hb 13,17). Isto parece coisa temível: a mim, isto não me dá nenhum consolo depois de vossa perdição. Pois, quer eu preste contas, quer não, não me traz proveito algum. Quisera antes que vós fôsseis salvos, e eu prestasse contas por vossa causa: vós salvos, e eu acusado de não ter cumprido minha parte! Pois minha ansiedade não é que sejais salvos por meu intermédio como meio, mas somente que sejais salvos, não importa por qual pessoa como instrumento. Não conheceis as dores do parto espiritual, quão avassaladoras são; como aquele que está em trabalho de parto por este nascimento preferiria ser cortado em dez mil pedaços, a ver perecer e perder-se um daqueles a quem deu à luz. Por que meio vos persuadiremos? Por nenhum outro argumento, na verdade, senão pelo que foi feito: em tudo o que vos diz respeito nos justificaremos. Também nós poderemos dizer que em nada nos retraímos de anunciar-vos toda a verdade: e, contudo, nos entristecemos: e que nos entristecemos, é manifesto pelos inúmeros planos que traçamos e artifícios que engenhamos. E, no entanto, poderíamos dizer a nós mesmos: Que me importa? Cumpri minha parte, estou puro do sangue (deles): mas isto não basta para consolo. Se pudéssemos rasgar nosso coração e mostrar-vo-lo, veríeis com que largueza ele vos contém dentro de si, tanto mulheres quanto crianças e homens; pois tal é o poder do amor, que faz a alma mais espaçosa que o céu. "Recebei-nos", diz (Paulo): "a ninguém lesamos; não estais estreitados em nós" (2 Cor 7,2; 6,12). Tinha toda Corinto em seu coração, e diz: "Não estais estreitados: dilatai-vos também vós" (2 Cor 6,13); mas eu mesmo não poderia dizer isto, pois bem sei que vós tanto me amais quanto me recebeis. Mas que proveito há, seja de meu amor, seja do vosso, quando as coisas pertencentes a Deus não prosperam em nós? É motivo de maior tristeza, ocasião de pior dano (λύμης, ou λύπης). Nada tenho a imputar-vos: pois vos dou testemunho de que, se fosse possível, teríeis arrancado os próprios olhos e mos teríeis dado (Gl 4,15). Anelamos não somente dar-vos o Evangelho, mas também as nossas próprias almas (1 Ts 2,8). Somos amados e amamos (a vós): mas não é esta a questão. Antes, amemos a Cristo, pois o primeiro mandamento é: "Amarás o Senhor teu Deus"; e o segundo é semelhante a ele: "E ao teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22,37-39). Temos o segundo, precisamos do primeiro: precisamos do primeiro, sobremaneira, tanto eu quanto vós. Nós o temos, mas não como devêramos. Amemo-Lo: sabeis quão grande recompensa está reservada aos que amam a Cristo: amemo-Lo com fervor de alma, para que, gozando de Sua benevolência, possamos escapar das ondas tempestuosas desta vida presente, e sejamos achados dignos de alcançar os bens prometidos aos que O amam, pela graça e misericórdia de Seu Filho unigênito, com quem, ao Pai, juntamente com o Espírito Santo, seja a glória, o poder, a honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Observais como ele os aterroriza, e, estando suas almas perturbadas e aflitas, com que rigor os esfrega (ἐπιτρίβει)? Mas era necessário. "Pois não me retraí", diz ele, "de anunciar-vos todo o conselho de Deus."
Ora, isto somente é ser mestre: anunciar, pregar, instruir, de nada se retrair, exortar noite e dia: mas se, fazendo alguém tudo isto, nada resulta, sabeis o que resta. Tendes então outra justificação: "Estou puro do sangue de todos." Não penseis que estas palavras são ditas somente para nós: pois, na verdade, este discurso se dirige também a vós, para que atenteis para as coisas ditas, para que não vos aparteis da audição. Que posso fazer? Eis que cada dia me despedaço a clamar: Afastai-vos dos teatros — e muitos riem de nós; Deixai o jurar, a cobiça — inúmeras são as nossas exortações, e não há quem nos ouça. Mas não discorro também durante a noite? De boa vontade faria isto também de noite, e às vossas mesas, se fosse possível que alguém se dividisse em dez mil pedaços, de modo a estar presente convosco e discorrer. Mas se, uma vez por semana, vos chamamos, e vos retraís, e alguns de vós nem sequer aqui vêm, e os que vêm partem sem terem recebido proveito algum — que faremos? Sei que muitos até zombam de nós, por discorrermos sempre sobre as mesmas coisas: tão enfadonhos nos tornamos para vós por pura saciedade. Mas disto não temos nós a culpa, e sim os ouvintes que a si mesmos devem agradecer. Pois aquele que de fato está progredindo bem alegra-se de ouvir sempre as mesmas coisas; parece-lhe que ouve os seus próprios louvores: mas aquele que não deseja progredir parece até incomodar-se, e, ainda que ouça a mesma coisa apenas duas vezes, parece-lhe que a ouve com frequência.
"Estou puro", diz ele, "do sangue de todos."
Ora, portanto, aquele que não fala tem sangue de que responder: isto é, homicídio! Nada poderia ser mais aterrorizador que isto. Mostra que também eles, se não o fizerem, terão sangue de que responder. Assim, ainda que pareça justificar-se a si mesmo, na verdade os está aterrorizando. "Atendei, pois, a vós mesmos, e a todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos (ou supervisores), para apascentar a Igreja de Deus, a qual Ele resgatou com o Seu próprio sangue."
Observais? Ele lhes impõe duas coisas. Nem o êxito em conduzir corretamente os outros é, por si só, algum ganho — pois temo, diz ele, que, tendo pregado a outros, eu mesmo venha a ser reprovado (1 Cor 9,27); nem tampouco basta ser diligente somente por si mesmo. Pois tal homem é egoísta, e busca apenas o seu próprio bem, e é semelhante àquele que enterrou o seu talento. "Atendei a vós mesmos": isto ele diz, não porque a nossa própria salvação seja mais preciosa que a do rebanho, mas porque, quando atendemos a nós mesmos, então também o rebanho é beneficiado. "No qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentar a Igreja de Deus." Vede, é do Espírito que provém a vossa ordenação. Esta é uma obrigação: depois diz: "para apascentar a Igreja do Senhor." Eis outra obrigação: a Igreja é do Senhor. E uma terceira: "a qual Ele resgatou com o Seu próprio sangue." Mostra quão preciosa é a questão; que o perigo diz respeito a coisas não pequenas, visto que nem sequer o Seu próprio sangue poupou. Ele, na verdade, para reconciliar os que eram inimigos, derramou até o Seu sangue: mas tu, ainda quando já se tornaram teus amigos, não és capaz de retê-los. "Pois sei isto, que depois de minha partida entrarão entre vós lobos cruéis, que não pouparão o rebanho."
Portanto, para não os subjugar e fazê-los perder toda a serenidade, observai a consolação (que ele dá). "E agora", diz ele, "como sempre, encomendo-vos, irmãos, a Deus e à palavra da Sua graça": isto é, à Sua graça: é a graça que salva. Constantemente ele lhes traz à memória a graça, para torná-los mais zelosos, como devedores que são, e para persuadi-los a ter confiança. "Que é poderosa para vos edificar." Não diz "edificar", mas "sobre-edificar", mostrando que já haviam sido edificados. Depois lhes traz à memória a esperança futura: "para vos dar herança", diz ele, "entre todos os que são santificados." Depois, exortação de novo: "De ninguém cobicei prata, ou ouro, ou vestes."
Que dirá então alguém? Pensas tu ser tão grande? Se partires, havemos nós de morrer? Não digo isto, replica ele, que a minha ausência seja causa disto; mas o quê? Que hão de levantar-se contra vós alguns de outra espécie; não diz "por causa da minha partida", mas "depois da minha partida", isto é, depois de ele seguir seu caminho. — E, no entanto, isto já sucedeu: muito mais há de suceder daqui em diante. Eis, pois, a causa: arrastar discípulos após si.
De novo os reconduz (ἐπιστρέφει) por outro caminho, a partir das coisas que haviam de suceder depois: como quando diz: Não lutamos contra a carne e o sangue. Depois da minha partida, diz ele, lobos cruéis entrarão no meio de vós (Ef 6:12); duplo é o mal, tanto o de que ele mesmo não estaria presente, quanto o de que outros os assaltariam. Por que então partir, se sabes isto de antemão? O Espírito me arrasta, diz ele. Lobos, e cruéis, que não poupam o rebanho; e o que é pior, até dentre vós mesmos: eis o que há de grave, quando a guerra é, além disso, uma guerra intestina. Gravíssima é a questão, pois é a Igreja do Senhor; grande o perigo, pois com sangue Ele a resgatou; poderosa a guerra, e dupla. Também dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas, para arrastar discípulos após si.
Como, pois? Que consolação haverá? Portanto vigiai, e lembrai-vos de que, pelo espaço de três anos, não cessei de admoestar a cada um, noite e dia, com lágrimas.
Que haja heresias, esta é a causa, e nenhuma outra senão esta. Vem, então, também a consolação. Mas, se Ele a adquiriu com o Seu próprio sangue, certamente há de pôr-se à frente em sua defesa. Noite e dia, diz ele, não cesso de admoestar com lágrimas.
Aqui novamente os põe em temor: Mostrei-vos todas as coisas, diz ele; não podeis refugiar-vos no pretexto da ignorância; mostrei-vos, por obras, que assim trabalhando deveis trabalhar. E não diz que receber seja mau, mas que não receber é melhor. Pois, lembrai-vos, diz ele, das palavras do Senhor, que Ele disse: Mais bem-aventurado é dar do que receber.
Isto bem se poderia dizer também em nosso caso: e, ainda que o discurso pareça referir-se particularmente aos mestres, é comum também aos discípulos. Pois de que serve que eu fale, exorte e chore noite e dia, se o discípulo não obedece? Por isso é que diz: Eu vos tomo por testemunhas; posto que também ele mesmo diz: Estou limpo do sangue de todos os homens, pois não me esquivei de vos anunciar.
Vede quantas expressões vigorosas há aqui: com lágrimas, e noite e dia, e a cada um. Pois não era que, se visse muitos, então se dispunha à obra, mas ainda que fosse por uma só alma, era capaz de fazer tudo por aquela única alma. Assim foi, de fato, que os compactou (συνεκρότησεν) tão firmemente como o fez. Bastante fiz da minha parte: três anos permaneci; tiveram fundamento bastante, diz ele; bastante cobertura. Com lágrimas, diz ele. Vedes que as lágrimas eram por este motivo? O homem mau não se aflige: aflige-te tu; talvez ele também se aflija. Assim como, quando o enfermo vê seu médico tomando alimento, ele também se anima a fazer o mesmo: assim também aqui, quando vê a ti chorando, ele se abranda: será um homem bom e grande.
O que faz quando escreve em uma Epístola, isto faz também quando fala em assembleia: da exortação, termina em oração; pois, tendo-os muito alarmado ao dizer: Lobos cruéis entrarão no meio de vós.
Aquilo que faz ao escrever numa Epístola, isso mesmo faz também ao falar em concílio: da exortação, termina em oração; pois havendo-os ele muito alarmado ao dizer: "Lobos cruéis entrarão entre vós" (v. 29), portanto, para que não os subjugasse e lhes fizesse perder todo o domínio de si, observai a consolação (que lhes dá). "E agora," diz ele, como sempre, "encomendo-vos, irmãos, a Deus e à palavra da Sua graça:" isto é, à Sua graça: é a graça que salva. Constantemente lhes traz à memória a graça, para os tornar mais diligentes como devedores, e para os persuadir a ter confiança. "A qual é poderosa para vos edificar." Não diz "edificar", mas "sobreedificar", mostrando que já haviam sido edificados. Depois lhes traz à memória a esperança futura: "para vos dar herança," diz ele, "entre todos os que são santificados." Depois, exortação de novo: "De ninguém cobicei prata, ou ouro, ou vestes." (v. 33.) Tira-lhes a raiz dos males, o amor ao dinheiro. "Prata, ou ouro," diz ele. Não diz "não tomei", mas nem sequer "cobicei". Não é grande coisa esta, mas o que se segue é grande. "Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo. Em tudo vos mostrei que, trabalhando assim, deveis suportar os fracos." (v. 34, 35.) Observai-o ocupado em trabalho, e não simplesmente isso, mas labutando. "Estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo:" de modo a envergonhá-los. E vede quão dignamente para com eles. Pois não diz: "Deveis mostrar-vos superiores ao dinheiro," mas o quê? "suportar os fracos" — não a todos indiscriminadamente — "e ouvir a palavra do Senhor, que Ele mesmo disse: Mais bem-aventurado é dar do que receber." Pois para que ninguém pensasse que isto fora dito com referência a si mesmos, e que ele se dera por exemplo, como noutro lugar diz, "dando-vos exemplo" (Fl 3,17), acrescentou a declaração de Cristo, que disse: "Mais bem-aventurado é dar do que receber." Orou sobre eles enquanto os exortava: mostra-o tanto pela ação — "E havendo dito isto, pôs-se de joelhos e orou com todos eles" (v. 36) — não simplesmente orou, mas com muito sentimento (κατανύξεως): grande foi a consolação — quanto por dizer: "Encomendo-vos ao Senhor. E todos choravam muito, e lançando-se ao pescoço de Paulo, beijavam-no, entristecendo-se sobretudo pela palavra que dissera, que não veriam mais o seu rosto." (v. 37, 38.) Havia dito que "lobos cruéis entrariam"; havia dito: "Estou puro do sangue de todos"; e, contudo, o que mais os entristeceu foi isto: "que não o veriam mais": pois era isto, de fato, que tornava a guerra penosa. "E eles o acompanharam," diz, "até o navio. E aconteceu que, depois de nos termos arrancado deles" — tanto o amavam, tal era o afeto que tinham por ele — "e navegado, viemos com rumo direto a Cós, e no dia seguinte a Rodes, e dali a Pátara: e achando um navio que passava a Fenícia, embarcamos nele e partimos. E avistando Chipre, deixando-a à esquerda, navegamos para a Síria e aportamos em Tiro" (At 21,1-3): chegou à Lícia, e havendo deixado Chipre, desceu navegando até Tiro — "pois ali o navio havia de descarregar a sua carga. E achando discípulos, ficamos ali sete dias: os quais diziam a Paulo, pelo Espírito, que não subisse a Jerusalém." (v. 4.) Eles também profetizam as aflições. Assim se ordenou que também por eles fossem ditas, para que ninguém imaginasse que Paulo dizia aquelas coisas sem motivo, e somente por jactância. E ali de novo se separam uns dos outros com oração. "E cumpridos aqueles dias, saímos e nos pusemos a caminho; e todos eles nos acompanhavam, com as mulheres e os filhos, até fora da cidade: e, postos de joelhos na praia, oramos. E havendo-nos despedido uns dos outros, embarcamos; e eles voltaram para casa. E acabada a nossa navegação de Tiro, chegamos a Ptolemaida, e saudando os irmãos, ficamos com eles um dia. E no dia seguinte, nós que éramos da companhia de Paulo, partimos e viemos a Cesareia: e entramos na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete; e ficamos com ele." (v. 5-8.) Havendo chegado a Cesareia, diz, ficamos com Filipe, que era um dos sete. "E este tinha quatro filhas virgens, que profetizavam." (v. 9.) Mas não são estas as que predizem a Paulo, ainda que fossem profetisas; é Ágabo. "E demorando-nos ali muitos dias, desceu da Judeia um certo profeta, chamado Ágabo. E vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo, e, atando os seus próprios pés e mãos, disse: Isto diz o Espírito Santo: Assim atarão os judeus em Jerusalém o homem de quem é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios." (v. 10, 11.) Aquele que outrora anunciara a fome, o mesmo diz: este "homem, de quem é esta cinta, assim o atarão." (cap. 11,28.) O mesmo que os profetas costumavam fazer, representando os acontecimentos à vista, quando falavam do cativeiro — como fez Ezequiel — o mesmo fez este (Ágabo). "E," o que é a parte penosa do negócio, "o entregarão nas mãos dos gentios. E ouvindo nós estas coisas, tanto nós como os daquele lugar, rogávamos que não subisse a Jerusalém." (v. 12.) Muitos ainda lhe rogavam que não partisse, e contudo ele não anuiu. "Então Paulo respondeu: Que fazeis, chorando e quebrantando-me o coração?" (v. 13.) Reparais? Para que, havendo ouvido aquele dito, "vou ligado no Espírito" (cap. 20,22), não imaginásseis tratar-se de necessidade, ou que nele caíra por ignorância, por isso estas coisas são preditas. Mas eles choravam, e ele os consolava, entristecendo-se com as suas lágrimas. Pois "que fazeis," diz ele, "chorando e quebrantando-me o coração?" Nada poderia ser mais afetuoso: b [truncado]
Tira-lhes a raiz dos males, o amor ao dinheiro. Prata, ou ouro, diz ele. Não diz que não tomou, mas nem sequer que cobiçou. Não é grande coisa esta, mas o que se segue é grande. Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo. Em tudo vos mostrei que, trabalhando assim, deveis suportar os fracos.
1 Coríntios 9; 2 Coríntios 11. Assim, pois, não foi somente em Corinto que fizeram isto — aqueles que corromperam os discípulos —, mas também na Ásia. Contudo, em nenhum lugar lança ele isto em rosto aos efésios, ao escrever-lhes. E por quê? Porque não incorreu em nenhum assunto que o obrigasse a falar disso. Mas aos coríntios diz: "A minha jactância não foi tolhida nas regiões da Acaia" (2 Cor 11,10). E não diz: "Vós não me destes"; mas: "Prata, ou ouro, ou vestes, não cobicei," para que não parecesse ser culpa deles, o não haverem dado. E não diz: "De ninguém cobicei o necessário à vida," para que também isso, de novo, não parecesse acusá-los: mas encobertamente o insinua, visto que provia o sustento tanto para outros como para si mesmo. Vede como trabalhou com afinco, discorrendo noite e dia (com outros), advertindo com lágrimas a cada um deles.
E onde disse Ele isto? Talvez os Apóstolos o tenham transmitido por tradição não escrita; ou então é claro a partir de (ditos registrados, dos quais) se poderia inferi-lo. Pois, com efeito, aqui ele mostrou tanto ousadia diante dos perigos, como compaixão para com aqueles a quem governava, ensinando com (destemida) ousadia, humildade, pobreza (voluntária): mas o que temos aqui é ainda mais do que essa pobreza. Pois se Ele diz ali (no Evangelho): "Se queres ser perfeito, vende o que tens e dá aos pobres" (Mt 19,21), quando, além de nada receber para si, provê o sustento também para outros, o que poderia igualar-se a isto? Um grau é lançar fora as próprias posses; um segundo, bastar-se a si mesmo para o suprimento das próprias necessidades; um terceiro, prover também para outros; um quarto, para aquele que (faz tudo isto) prega e tem direito a receber. De modo que aqui está um homem muito melhor do que aqueles que apenas renunciam às posses. Assim é justo suportar os fracos: esta é (na verdade) a compaixão para com os fracos; pois dar do trabalho de outros é fácil. E lançaram-se ao seu pescoço, diz, e choraram.
Observai-o ocupado em trabalho, e não simplesmente isso, mas labutando. Estas mãos serviram às minhas necessidades e às daqueles que estavam comigo: de modo a envergonhá-los. E vede quão dignamente para com eles. Pois não diz: "Deveis mostrar-vos superiores ao dinheiro," mas o quê? "suportar os fracos" — não a todos indiscriminadamente — "e ouvir a palavra do Senhor, que Ele mesmo disse: Mais bem-aventurado é dar do que receber." Pois para que ninguém pensasse que isto fora dito com referência a si mesmos, e que ele se dera por exemplo, como noutro lugar diz, "dando-vos exemplo" (Fl 3,17), acrescentou a declaração de Cristo, que disse: "Mais bem-aventurado é dar do que receber." Orou sobre eles enquanto os exortava: mostra-o tanto pela ação — "E havendo dito isto, pôs-se de joelhos e orou com todos eles,"
não simplesmente orou, mas com muito sentimento (κατανύξεως): grande foi a consolação — quanto por dizer: "Encomendo-vos ao Senhor." E todos choravam muito, e lançando-se ao pescoço de Paulo, beijavam-no, entristecendo-se sobretudo pela palavra que dissera, que não veriam mais o seu rosto.
Mostra o afeto deles também ao dizer "sobre o seu pescoço," como tomando um último e ainda outro derradeiro abraço, tal era o amor que conceberam do seu discurso, tal o encanto de amor que os prendia. Pois se gememos ao simplesmente separar-nos uns dos outros, ainda quando sabemos que nos haveremos de reencontrar, que arrancamento de si mesmos deve ter sido este para eles! Parece-me que também Paulo chorou. "Havendo-nos arrancado," diz ele: mostra a violência disso ao dizer "havendo-nos arrancado deles." E com razão: de outro modo jamais teriam conseguido fazer-se ao mar. Que significa "viemos com rumo direto a Cós"? Equivale a dizer que não deram volta nem se demoraram em outros lugares.
Possivelmente aquele navio (em que haviam vindo) fazia ali demora: por isso mudaram para outro, e não havendo encontrado um que fosse para Cesareia, mas (achando este) para a Fenícia, embarcaram nele (e prosseguiram a viagem), havendo deixado também Chipre e a Síria: mas a expressão "deixando-a à esquerda" não é dita simplesmente (nesse sentido), mas que se apressaram a não chegar sequer à Síria. "Aportamos em Tiro."
Então demoram-se com os irmãos por sete dias. Ora, como se aproximavam de Jerusalém, já não se apressam mais. (b) Aquele que disse a Paulo, pelo Espírito, que não subisse a Jerusalém.
Observai como, quando o Espírito não proíbe, ele condescende. Disseram-lhe: Não te aventures ao teatro, e ele não se aventurou (At 19,31); muitas vezes o arrebataram (dos perigos), e ele condescendeu: outra vez escapou por uma janela; e agora, ainda que inúmeras pessoas, por assim dizer, o suplicam, tanto os de Tiro quanto os de Cesareia, chorando também e predizendo inúmeros perigos, ele recusa condescender. E, contudo, não é apenas que prediziam os perigos, mas que o disseram pelo Espírito. Se, pois, o Espírito o ordenava, por que ele contradisse? "Pelo Espírito", isto é, sabendo eles pelo Espírito (o que haveria de suceder, disseram-lhe): pois certamente não significa que a exortação que fizeram fosse pelo Espírito. Porquanto não lhe predisseram simplesmente os perigos (por meio do Espírito), mas acrescentaram (de si mesmos) que não lhe convinha subir — poupando-o. Mas, depois de cumpridos aqueles dias, isto é, terminados os dias determinados, separamo-nos e seguimos nosso caminho: acompanhando-nos todos, com mulheres e filhos.
Também eles profetizam as aflições. Assim foi ordenado que fossem ditas também por eles, para que ninguém imaginasse que Paulo dizia aquelas coisas sem motivo, e apenas por jactância. E ali novamente se separam uns dos outros com oração. E, cumpridos aqueles dias, partimos e seguimos nosso caminho; e todos nos acompanharam, com mulheres e filhos, até fora da cidade: e, postos de joelhos na praia, oramos. E, despedindo-nos uns dos outros, embarcamos; e eles voltaram para casa. E, terminada a nossa navegação de Tiro, chegamos a Ptolemaida, e, saudando os irmãos, ficamos com eles um dia. E no dia seguinte, nós, que éramos da companhia de Paulo, partimos e chegamos a Cesareia: e, entrando na casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele.
Vede quão grande foi a súplica. E de novo se separam com oração. Também em Ptolemaida demoram-se um dia, mas em Cesareia muitos.
(a) Ora, estando próximos de Jerusalém, já não se apressam mais. Pois observai, peço-vos, todos os dias. Depois do dia dos pães ázimos, chegaram a Trôade em cinco dias (At 20,6); ali então passaram sete; ao todo, doze: depois a Assôs, a Mitilene, a Trogílio e defronte de Quios, e a Samos e Mileto (At 20,13-17); dezoito ao todo. Depois a Cós, a Rodes, a Pátara, vinte e um: depois, digamos, cinco a Tiro; vinte e seis: ali sete; trinta e três; Ptolemaida, trinta e quatro; depois a Cesareia, muitos dias.
Tendo chegado a Cesareia, diz, ficamos com Filipe, que era um dos sete. E o mesmo homem tinha quatro filhas virgens, que profetizavam.
Mas não são estas que predizem a Paulo, embora fossem profetisas; é Ágabo. E, demorando-nos ali muitos dias, desceu da Judeia um certo profeta, chamado Ágabo. E, vindo ter conosco, tomou a cinta de Paulo, e, atando os próprios pés e mãos, disse: Assim diz o Espírito Santo: Assim os judeus em Jerusalém atarão o homem a quem pertence esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.
e depois, então, o profeta os põe dali em diante. (c) Quando Paulo ouve que há de sofrer inúmeros perigos, então se apressa, não se lançando sobre os perigos, mas reputando-o como mandado do Espírito. (e) E Ágabo não diz: Atarão a Paulo, para que não pareça falar por combinação (com Paulo), mas o homem a quem pertence esta cinta.
Assim, pois, ele também tinha um cinto. Mas quando não puderam persuadi-lo — e foi por isso que choraram — então se calaram. Notai a resignação? Notai o afeto? Calaram-se, diz o texto, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor.
Aquele que outrora havia anunciado a fome, esse mesmo diz: Este homem, dono deste cinto, assim o atarão eles (At 11,28). O mesmo que os profetas costumavam fazer, representando os acontecimentos à vista, quando falavam do cativeiro — como fez Ezequiel —, o mesmo fez este (Ágabo). E, o que é a parte mais penosa do assunto, entregá-lo-ão nas mãos dos gentios. E, ao ouvirmos estas coisas, tanto nós como os daquele lugar rogamos-lhe que não subisse a Jerusalém.
Notai? Para que, tendo ouvido aquela sentença — Vou ligado pelo Espírito (At 20,22) —, não imaginásseis que se tratasse de uma necessidade, ou que ele nisso caíra por ignorância, por isso estas coisas são preditas. Mas eles choravam, e ele os consolava, entristecendo-se com as lágrimas deles. Pois, que fazeis vós, diz ele, chorando e quebrantando o meu coração? Nada poderia ser mais afetuoso: porque os via chorar, entristecia-se, ele que nenhuma dor sentia por suas próprias provações. Pois estou pronto não só a ser ligado, mas também a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. E, como ele não se deixasse persuadir, cessamos, dizendo: Faça-se a vontade do Senhor (v. 13, 14). Fazeis-me injúria ao agir assim: pois, acaso me entristeço eu? Cessaram, então, quando ele disse: quebrantando o meu coração. Choro, diz ele, por vós, não por causa dos meus próprios sofrimentos: quanto a esses homens, estou disposto até a morrer por eles. Mas revisemos o que foi dito.
(g) O Senhor, dizem eles, Ele mesmo fará o que Lhe é agradável. Pois perceberam que era a vontade de Deus. Do contrário, Paulo não estaria tão decidido a ir — ele que em todas as outras ocasiões se livra dos perigos. (d) E depois destes dias, diz o texto, tendo tomado a nossa bagagem — isto é, tendo recebido as provisões necessárias para a viagem —, subimos a Jerusalém.
E foram também conosco alguns dos discípulos de Cesareia, levando-nos a um homem com quem havíamos de hospedar-nos, um certo Mnasom, discípulo antigo, de Chipre.
(f) Levando-nos, diz o texto, a alguém com quem havíamos de hospedar-nos — não à igreja: pois na ocasião anterior (At 15,4), quando subiram por causa dos decretos, hospedaram-se com a Igreja, mas agora com um certo discípulo antigo. A expressão mostra que a pregação já se prolongava havia muito tempo: donde me parece que este escritor, em Atos, resume os acontecimentos de muitos anos, relatando apenas os assuntos de maior importância. (h) Tão pouco quiseram sobrecarregar a Igreja, havendo outrem que os hospedasse; e tão pouco se apegavam à própria dignidade. Os irmãos, diz o texto, receberam-nos com alegria. Os assuntos entre os judeus estavam agora cheios de paz: não havia entre eles muita hostilidade. Levando-nos, diz o texto, a alguém com quem havíamos de hospedar-nos. Paulo era o hóspede que ele acolhia. Talvez algum de vós diga: Ah, se me fosse dado hospedar Paulo como hóspede, prontamente e com grande zelo o faria. Eis que está em vosso poder hospedar o Senhor de Paulo, e não o quereis: pois aquele que recebe um destes pequeninos, diz Ele, recebe a Mim (Mt 18,5; Lc 9,48). Quanto mais pequeno for o irmão, tanto mais Cristo vem a vós por meio dele. Pois aquele que recebe o grande, muitas vezes o faz também por vanglória; mas aquele que recebe o pequeno, fá-lo puramente por amor de Cristo. Está em vosso poder hospedar até mesmo o Pai de Cristo como vosso hóspede, e não o quereis: pois, Eu era estrangeiro, diz Ele, e me recolhestes (Mt 25,35); e ainda: A um destes irmãos mais pequeninos que creem em Mim, a Mim o fizestes (Mt 25,40). Ainda que não seja Paulo, se for um crente e um irmão, ainda que o menor, Cristo vem a vós por meio dele. Abre a tua casa, acolhe-O. Aquele que recebe um profeta, diz Ele, receberá recompensa de profeta (Mt 10,41). Por isso também aquele que recebe a Cristo receberá a recompensa daquele que tem a Cristo por hóspede. Não sejas incrédulo às Suas palavras, mas sê crente. Ele mesmo disse: Por meio deles venho a vós; e, para que não sejas incrédulo, Ele estabelece tanto castigos para os que não recebem quanto honras para os que recebem; pois não teria feito isso, a menos que tanto a pessoa honrada quanto a pessoa ultrajada fossem Ele mesmo. Vós Me recebestes, diz Ele, em vossa pousada, Eu vos receberei no Reino de Meu Pai; vós tirastes a Minha fome, Eu tiro os vossos pecados; vós Me vistes preso, Eu vos vejo soltos; vós Me vistes estrangeiro, Eu vos faço cidadãos do céu; vós Me destes pão, Eu vos dou um Reino inteiro, para que o herdeis e possuais. Ele não diz, Recebei, mas, Herdai, palavra que se diz daqueles que têm posse por direito de propriedade; como quando dizemos: Isto herdei eu. Tu o fizeste a Mim em segredo, Eu o proclamarei abertamente: e das vossas obras, na verdade, digo que foram de dádiva gratuita, mas as Minhas são de dívida. Pois, uma vez que tu, diz Ele, começaste, Eu sigo e venho depois: não Me envergonho de confessar os benefícios que Me foram conferidos, nem daquilo de que Me libertastes, a fome, a nudez e a peregrinação. Tu Me viste preso, não hás de ver o fogo do inferno; tu Me viste enfermo, não hás de ver os tormentos nem os castigos. Ó mãos, verdadeiramente bem-aventuradas, que servem em tais ofícios como estes, que são consideradas dignas de servir a Cristo! Pés que vão às prisões por amor de Cristo, com facilidade desafiam o fogo: nenhuma prova de grilhões têm elas, as mãos que O viram preso! Vós O revestistes com uma veste, e vós vos revestis com a veste da salvação: estivestes com Ele na prisão, e com Ele vos encontrais no Reino, não envergonhados, sabendo que O visitastes. O Patriarca não sabia que hospedava Anjos, e todavia os hospedou (Gn 18,3). Envergonhemo-nos, eu vos suplico: ele estava sentado ao meio-dia, estando em terra estrangeira, onde não tinha herança, nem sequer para pôr o pé (At 7,5): era estrangeiro, e o estrangeiro hospedava estrangeiros: pois era cidadão do céu. Por isso, nem mesmo enquanto estava na terra lhe era Ele estranho. Somos nós antes estrangeiros do que aquele estrangeiro, se não recebemos os estrangeiros. Ele não tinha casa, e a sua tenda era o seu lugar de acolhimento. E notai a sua liberalidade — matou um bezerro, e amassou flor de farinha: notai a sua prontidão de ânimo — por si mesmo e por sua mulher: notai a maneira despretensiosa — ele os adora e lhes suplica. Pois todas estas qualidades devem estar naquele homem que hospeda estrangeiros — prontidão, alegria, liberalidade. Pois a alma do estrangeiro se acanha e se envergonha; e a menos que o anfitrião mostre excessiva alegria, ele se sente como se desprezado, e se retira, e torna-se pior do que não o ter recebido, o ser recebido deste modo. Por isso ele os adora, por isso os acolhe com palavras, por isso com um assento. Pois quem hesitaria, sabendo que esta obra era feita a Ele? Mas nós não estamos em terra estrangeira. Se quisermos, poderemos imitá-lo. Quantos dos irmãos são estrangeiros? Há um aposento comum, a Igreja, a que chamamos Xenon. Sede diligentes (περιεργάζεσθε), sentai-vos diante das portas, recebei vós mesmos os que vêm; ainda que não queirais recebê-los em vossas casas, ao menos de algum outro modo recebei-os, suprindo-lhes o necessário. Mas, dirás, não tem a Igreja recursos? Tem: mas que tens tu com isso? Que sejam alimentados dos fundos comuns da Igreja, pode isso beneficiar-te a ti? Se outro homem ora, segue-se disso que não estás obrigado a orar? Por que não dizes: Acaso não oram os sacerdotes? Então por que hei de orar eu? Mas eu, dirás, dou àquele que ali não pode ser recebido. Dá, ainda que seja a esse: pois o que nos importa é isto, que dês de qualquer maneira. Ouve o que diz Paulo: Para que socorra as que são verdadeiramente viúvas, e a Igreja não seja sobrecarregada (1 Tm 5,16). Seja como for, contanto que o faças. Mas eu ponho, não que a Igreja não seja sobrecarregada, mas que tu não sejas sobrecarregado; pois deste modo tu
Este era o Bispo de Jerusalém; e a ele (Paulo) é enviado numa ocasião anterior. Este (Tiago) era irmão do Senhor; homem grande e admirável. (A ele, diz o texto,) "Paulo entrou conosco." Observai a modéstia de comportamento (do Bispo): "e os presbíteros" (estavam presentes). De novo Paulo lhes relata as coisas concernentes aos gentios, não se entregando à vanglória — longe disso —, mas querendo manifestar a misericórdia de Deus e enchê-los de grande alegria. (At 15) Vede, pois: "ouvindo isto," diz o texto, "glorificaram a Deus" — não louvaram nem admiraram a Paulo: pois de tal maneira ele havia narrado, referindo tudo a Ele — "e disseram-lhe: Vês, irmão, quantos milhares de judeus há que creram." Observai com que deferência modesta eles também falam: "disseram-lhe:" não como (Tiago) discorre com autoridade de Bispo, mas tomam Paulo como partícipe do seu parecer; "Vês, irmão:" como que logo, desde o início, desculpando-se a si mesmos e dizendo: "Não quisemos isto. Vês a necessidade da coisa? quantos milhares," dizem eles, "de judeus há que" se reuniram." E não dizem: "quantos milhares fizemos catecúmenos," mas: "há. E estes," dizem eles, "são todos zelosos da lei." (v. 20) Duas razões — o número deles e o seu modo de pensar. Pois nem, se fossem poucos, seria justo desprezá-los; nem, se fossem muitos e não se apegassem todos à lei, haveria necessidade de fazer deles tanta conta. Depois se dá também uma terceira causa: "E todos," diz o texto, "foram informados a teu respeito" — não dizem "ouviram," mas κατηχήθησαν, isto é, assim creram e foram instruídos, "que ensinas apostasia de Moisés a todos os judeus que estão entre os gentios, dizendo-lhes que não circuncidem os filhos, nem andem segundo os costumes." (v. 21) "Que se há de fazer, pois? É necessário que a multidão se reúna, pois ouvirão que chegaste. Faze, pois, isto que te dizemos" (v. 22-23): dizem estas coisas como quem aconselha, não como quem ordena. "Temos quatro homens que têm voto sobre si; toma-os, purifica-te com eles e faze por eles as despesas." Faze tua defesa em ato, não em palavra — "para que rapem a cabeça," diz o texto, "e todos saibam que nada há daquilo de que foram informados a teu respeito; mas que tu mesmo também andas ordenadamente e guardas a lei" (v. 23-24): não dizem "ensinas," mas, por superabundância, "que tu mesmo também guardas a lei." Pois, com efeito, não era este o ponto de maior interesse, se ele não ensinava aos outros, mas se ele mesmo observava a lei. "Que fará, então" (poderia ele dizer), "se os gentios o souberem? Eu os prejudicarei." Como assim? dizem eles, vendo que até nós, os mestres dos judeus, lhes enviamos (carta). "Quanto aos gentios que creem, já escrevemos e decidimos que nada disso observem, senão que se guardem das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, do sufocado e da fornicação." (v. 25) Aqui, com uma espécie de admoestação (ἐντρεπτικῶς): Assim como "nós," dizem eles, lhes ordenamos, ainda que sejamos pregadores aos judeus, assim faze também tu, ainda que pregador aos gentios, cooperar conosco. Observai a Paulo: ele não diz, "Bem, mas eu posso apresentar Timóteo, a quem circuncidei; bem, mas eu posso satisfazê-los com o que tenho a dizer (de mim mesmo):" mas ele se conformou e fez tudo, pois de fato assim convinha (fazer). Pois uma coisa era tomar medidas (eficazes) para se justificar, e outra coisa seria ter feito estas coisas sem o conhecimento de nenhuma (das partes). Foi um passo aberto a nenhuma suspeita, o fato de ele mesmo arcar com as despesas. "Então Paulo tomou os homens, e no dia seguinte, purificando-se com eles, entrou no templo, anunciando o cumprimento dos dias da purificação, até que se oferecesse a oferta por cada um deles." (v. 26) "Anunciando," διαγγέλλων, isto é, καταγγέλλων, notificando publicamente: de sorte que foi ele mesmo quem se tornou conspícuo. "E, estando os sete dias quase a completar-se, os judeus da Ásia" — pois (sua chegada) coincide mais com os tempos deles — "vendo-o no templo, incitaram todo o povo e lançaram mão dele, clamando: Varões israelitas, ajudai-nos: Este é o homem que por toda parte ensina a todos contra o povo, a lei e este lugar; e além disso introduziu também gregos no templo, e profanou este lugar santo." (v. 27-28) Observai o seu costumeiro proceder, quão turbulento o encontramos por toda parte, como homens que, com razão ou sem ela, levantam clamor no meio (da multidão). "Pois já antes tinham visto com ele na cidade a Trófimo, o efésio, e supunham que Paulo o introduzira no templo. E toda a cidade se alvoroçou, e o povo concorreu; e tomaram a Paulo e o arrastaram para fora do templo; e logo as portas se fecharam." (v. 29-30) "Varões israelitas," diz o texto, "ajudai-nos: este é o homem que (ensina) contra o povo, a lei e este lugar" — as coisas que mais os perturbam, o Templo e a Lei. E Paulo não acusa os Apóstolos de serem a causa destas coisas para ele. "E o arrastaram," diz o texto, "para fora do Templo: e as portas se fecharam." Pois queriam matá-lo; e por isso o arrastavam para fora, para fazê-lo com maior segurança. "E, procurando eles matá-lo, chegou aviso ao tribuno da coorte de que toda Jerusalém estava em alvoroço. O qual imediatamente tomou soldados e centuriões, e correu para eles; e quando viram o tribuno e os soldados, cessaram de espancar a Paulo. Então o tribuno se aproximou, e o tomou, e mandou que fosse atado com duas cadeias; e perguntou quem era e o que tinha feito. E na multidão uns clamavam de um modo, outros de outro." (v. 31-34) Mas o tribuno, tendo descido, o livrou, e "mandou que fosse atado com duas cadeias:" (com isto) aplacando a ira do povo. "E quando h... [truncado]
E no dia seguinte Paulo entrou conosco à casa de Tiago; e todos os presbíteros estavam presentes. E, tendo-os saudado, relatou particularmente o que Deus havia operado entre os gentios por seu ministério.
Este era o Bispo de Jerusalém; e a ele (Paulo) é enviado numa ocasião anterior. Este (Tiago) era irmão do Senhor; homem grande e admirável. (A ele, diz o texto,) Paulo entrou conosco. Observai a modéstia de comportamento (do Bispo): e os presbíteros (estavam presentes). De novo Paulo lhes relata as coisas concernentes aos gentios, não se entregando à vanglória — longe disso —, mas querendo manifestar a misericórdia de Deus e enchê-los de grande alegria. At 15. Vede, pois: ouvindo isto, diz o texto, glorificaram a Deus — não louvaram nem admiraram a Paulo: pois de tal maneira ele havia narrado, referindo tudo a Ele — e disseram-lhe: Vês, irmão, quantos milhares de judeus há que creram. Observai com que deferência modesta eles também falam: disseram-lhe: não como (Tiago) discorre com autoridade de Bispo, mas tomam Paulo como partícipe do seu parecer; Vês, irmão: como que logo, desde o início, desculpando-se a si mesmos e dizendo: Não quisemos isto. Vês a necessidade da coisa? 'quantos milhares,' dizem eles, 'de judeus há que' se reuniram. E não dizem, quantos milhares fizemos catecúmenos, mas, há. E estes, dizem eles, são todos zelosos da lei.
Duas razões — o número deles e o seu modo de pensar. Pois nem, se fossem poucos, seria justo desprezá-los; nem, se fossem muitos e não se apegassem todos à lei, haveria necessidade de fazer deles tanta conta. Depois se dá também uma terceira causa: E todos, diz o texto, foram informados a teu respeito — não dizem terem ouvido, mas κατηχήθησαν, isto é, assim creram e foram instruídos, que ensinas apostasia de Moisés a todos os judeus que estão entre os gentios, dizendo-lhes que não circuncidem os filhos, nem andem segundo os costumes.
Dizem estas coisas como quem aconselha, não como quem ordena. Temos quatro homens que têm voto sobre si; toma-os, purifica-te com eles e faze por eles as despesas. Faze tua defesa em ato, não em palavra — para que rapem a cabeça, diz o texto, e todos saibam que nada há daquilo de que foram informados a teu respeito; mas que tu mesmo também andas ordenadamente e guardas a lei
Mostra que não era necessário fazer isto por princípio (προηγουμένως) — donde também obtêm a sua anuência — mas que era economia e condescendência. Quanto aos gentios, etc.
Não dizem ensinas, mas, por superabundância, que tu mesmo também guardas a lei. Pois, com efeito, não era este o ponto de maior interesse, se ele não ensinava aos outros, mas se ele mesmo observava a lei. Que fará, então (poderia ele dizer), se os gentios o souberem? Eu os prejudicarei. Como assim? Dizem eles, vendo que até nós, os mestres dos judeus, lhes enviamos (carta). Quanto aos gentios que creem, já escrevemos e decidimos que nada disso observem, senão que se guardem das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, do sufocado e da fornicação.
Por que, pois, isto não era impedimento à pregação, visto que eles mesmos assim o haviam legislado para eles? Por que, pois, ao repreender a Pedro, ele não o acusa absolutamente (ἁπλῶς) de proceder mal: pois exatamente o que ele mesmo faz nesta ocasião, o mesmo faz Pedro naquela ocasião, (apenas) guardando silêncio e estabelecendo a sua doutrina. Gl 2,11. E não diz: Por quê? Não é justo ensinar isto aos que estão entre os gentios. Não bastava não ter pregado ali, mas era necessário fazer também algo mais, para que aqueles se persuadissem de que guardas a lei. O caso é de condescendência; não te alarmes. Não lhe aconselham (este proceder) senão depois de terem primeiro falado da economia e do proveito. E, além disso, o fazer isto em Jerusalém é coisa que se pode suportar. 'Faze, pois, esta coisa' aqui, para que esteja em teu poder fazer a outra alhures. (b) No dia seguinte, diz o texto, tomou-os consigo
Aqui, com uma espécie de admoestação (ἐντρεπτικὥς): Assim como nós, dizem eles, lhes demos ordens, ainda que sejamos pregadores para os judeus, assim faze tu também, ainda que sejas pregador para os gentios, coopera conosco. Observa Paulo: ele não diz: Bem, mas posso apresentar Timóteo, a quem circuncidei; bem, mas posso satisfazê-los com o que tenho a dizer (de mim mesmo); antes, ele condescendeu e fez tudo, pois de fato assim convinha fazer. Porquanto uma coisa era tomar medidas (eficazes) para se justificar, e outra era ter feito estas coisas sem o conhecimento de nenhuma das partes. Foi um passo aberto a nenhuma suspeita o fato de ele mesmo arcar com as despesas. Então Paulo tomou consigo os homens e, no dia seguinte, purificando-se com eles, entrou no templo, anunciando o cumprimento dos dias da purificação, até que se oferecesse a oferta por cada um deles.
Não o adiou; pois, quando há economia no caso, este é o seu modo de proceder. Judeus da Ásia, tendo-o visto, pois era natural que passassem ali alguns dias, no templo.
"Anunciando", διαγγέλλων, isto é, καταγγέλλων, notificando publicamente: de modo que foi ele mesmo quem se tornou conspícuo. E, estando prestes a completar-se os sete dias, os judeus da Ásia — pois a chegada dele coincidia sobremaneira com a época deles — vendo-o no templo, incitaram todo o povo e lançaram mão sobre ele, clamando: Varões israelitas, acudi-nos: este é o homem que por toda parte ensina a todos contra o povo, e a lei, e este lugar; e, além disso, introduziu também gregos no templo, e profanou este lugar santo.
Observa a economia (da Providência) que nisto se manifestou. Depois que os judeus (crentes) haviam sido persuadidos a respeito dele, é então que aqueles (judeus da Ásia) se lançam contra ele, para que estes (crentes) também não se lancem contra ele. Acudi, dizem eles, varões israelitas! Como se fosse algum monstro difícil de capturar e árduo de vencer que lhes caíra nas mãos. A todos os homens, dizem, em toda parte, ele não cessa de ensinar; não somente aqui. E então a acusação se torna mais grave pelas circunstâncias presentes. E ainda mais, dizem eles, profanou o templo, tendo introduzido nele homens que são gregos.
E, no entanto, no tempo de Cristo subiram gregos para adorar (Jo 12,20): verdade; mas aqui se fala de gregos que não tinham propósito algum de adorar. E prenderam Paulo, etc.
Observa a conduta habitual deles, quão turbulenta a encontramos em toda parte, como homens que, com ou sem razão, promovem clamor no meio do povo. Pois haviam visto antes, com ele, na cidade, a Trófimo, efésio, o qual supunham que Paulo introduzira no templo. E toda a cidade se alvoroçou, e o povo concorreu; e, agarrando Paulo, arrastaram-no para fora do templo, e logo as portas se fecharam. (v. 29-30.) Varões israelitas, diz, acudi: este é o homem que (ensina) contra o povo, e a lei, e este lugar — as coisas que mais os perturbam, o Templo e a Lei. E Paulo não acusa os apóstolos de lhe serem causa destas coisas. E arrastaram-no, diz, para fora do Templo; e as portas se fecharam. Pois queriam matá-lo; e por isso o arrastavam para fora, a fim de fazê-lo com maior segurança. E, procurando eles matá-lo, chegou ao tribuno da coorte a notícia de que toda a Jerusalém estava em alvoroço. O qual, imediatamente, tomando soldados e centuriões, correu para eles; e, vendo o tribuno e os soldados, cessaram de espancar Paulo. Então o tribuno se aproximou, e o tomou, e mandou que fosse atado com duas cadeias; e perguntou quem era ele e o que havia feito. E, na multidão, uns gritavam uma coisa, outros, outra.
Mas o tribuno, tendo descido, libertou-o, e mandou que fosse atado com duas cadeias, aplacando com isto a ira do povo. E, não podendo saber ao certo, por causa do tumulto, mandou que o levassem para a fortaleza. E, ao chegar às escadas, sucedeu que ele foi carregado pelos soldados por causa da violência do povo. Pois a multidão do povo o seguia, clamando: Fora com ele!
Já não queriam mais leis nem tribunais de justiça; até mesmo o espancaram. Mas ele absteve-se então de fazer sua defesa; fê-la depois — e com razão, pois nem sequer o teriam ouvido então. Pergunto: por que clamavam eles: Fora com ele?
Temiam que ele lhes escapasse. Observai com que submissão fala Paulo ao tribuno: É-me lícito falar-te? Não és, pois, aquele egípcio?
Que significa: Tira-o do meio? Isto é, o que entre nós se diz segundo o costume romano: Leva-o aos estandartes! E, quando Paulo estava para ser conduzido à fortaleza, disse ao tribuno: É-me lícito falar-te?
No próprio ato de ser levado pelas escadas, pede para dizer algo ao tribuno; e observai com que serenidade o faz. É-me lícito falar-te?, diz ele. A quem disse aquele: Sabes falar grego? Não és, pois, aquele egípcio que, antes destes dias, promoveu um tumulto e conduziu ao deserto quatro mil homens assassinos?
Ora, este egípcio era um embusteiro e impostor, e o demônio esperava, por meio dele, lançar uma sombra sobre o Evangelho, e envolver tanto a Cristo quanto a Seus Apóstolos nas acusações pertinentes àqueles impostores; mas nada conseguiu — antes, a verdade se tornou ainda mais resplandecente, em nada vencida pelas maquinações do demônio, mas antes brilhando ainda mais. Pois, se não tivesse havido impostores, e estes (Cristo e Seus Apóstolos) tivessem então prevalecido, talvez alguém pudesse valer-se disso; mas, quando aqueles impostores de fato apareceram, nisto está a maravilha. Para que, diz o Apóstolo, os aprovados se tornem manifestos (1 Cor 11,19). E diz Gamaliel: Antes destes dias levantou-se Teudas. Não nos aflijamos, pois, de que existam heresias, visto que falsos cristos quiseram atacar até mesmo a Cristo, tanto antes quanto depois, com o intento de obscurecê-Lo; mas em toda ocasião encontramos a verdade a resplandecer transparente. Assim foi com os profetas: houve falsos profetas, e por contraste com estes aqueles mais brilharam; tal como a doença realça a saúde, e as trevas a luz, e a tempestade a bonança. Não resta lugar aos gregos para dizerem que (nossos mestres) eram impostores e charlatões, pois os que de fato o eram foram desmascarados. O mesmo se deu com Moisés: Deus permitiu os magos justamente para que Moisés não fosse suspeitado de mago; Ele os deixou ensinar a todos até onde pode chegar a magia em produzir uma exibição fantástica: além deste ponto não enganaram, antes eles mesmos confessaram sua derrota. Os impostores não nos causam dano algum; antes nos fazem bem, se aplicarmos a mente à questão. Que diremos então, perguntareis, se somos associados a eles na estima comum? A estima não está entre nós, mas entre os que não têm juízo. Não nos importemos demasiadamente com a estima da multidão, nem lhe demos mais atenção do que é necessário. Para Deus vivemos, não para os homens; no céu está a nossa conversação, não na terra; ali residem os galardões e os prêmios de nossos labores, dali esperamos nossos louvores, dali nossas coroas. Até este ponto devemos nos preocupar com os homens: que não lhes demos e ofereçamos pretexto contra nós. Mas se, ainda que não ofereçamos nenhum, eles escolhem acusar-nos irrefletidamente e sem discernimento, riamos, não choremos. Provede o que é honesto diante do Senhor e diante dos homens (2 Cor 8,21); se, ainda que proveias o que é honesto, aquele homem escarnece, não te aflijas mais por isso. Tendes vossos exemplos nas Escrituras. Pois, diz ele, persuado eu agora a homens, ou a Deus? (Gl 1,10) e ainda: Persuadimos os homens, mas a Deus somos manifestos (2 Cor 5,11). E Cristo assim falou daqueles que se escandalizam: Deixai-os, são cegos guias de cegos (Mt 15,14); e ainda: Ai de vós, quando todos os homens falarem bem de vós (Lc 6,26); e ainda: Que vossas obras resplandeçam, para que os homens as vejam e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus (Mt 5,16). E: Quem escandalizar a um destes pequeninos, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse afundado nas profundezas do mar (Mt 18,6).
Estas sentenças não são contrárias — antes, concordam sobremaneira. Pois quando o escândalo procede de nós, então ai de nós; mas quando não procede de nós, não é assim. E ainda: Ai daquele por quem o nome de Deus é blasfemado (Rm 2,24). Como, pois, se eu faço o que é reto em alguma coisa, mas outro blasfema? Isto nada é para mim, mas somente para ele, pois por meio dele (Deus) foi blasfemado. E como é possível fazer o que é reto em algo, e ainda assim dar pretexto aos demais? De onde quereis que eu traga exemplos — dos tempos presentes, ou dos antigos? Para não sermos facilmente atemorizados (ψοφοδεεῖς), falemos ao ponto mesmo que ora se discute. Paulo judaizou em Jerusalém, mas em Antioquia não; ele judaizou, e eles se escandalizaram, mas estes não tinham direito de se escandalizar. Diz-se que ele saudou tanto o copeiro de Nero quanto sua concubina: que pensais, deviam eles ter dito contra ele por causa disso? Mas não tinham direito de fazê-lo. Pois, se ele os atraísse a si para a vida dissoluta ou para quaisquer atos ímpios, bem se poderia escandalizar alguém; mas se para a vida reta, que há aí de escandaloso? Permiti-me mencionar algo que sucedeu a um conhecido meu. Certa vez caiu a ira de Deus sobre uma cidade, e ele, sendo ainda muito jovem, estava na ordem de diácono. O bispo, na ocasião, estava ausente, e nenhum dos presbíteros cuidou do assunto; mas indiscriminadamente fizeram batizar numa só noite um número imenso de pessoas todas de uma vez, e todas receberam indiscriminadamente o batismo, ignorando todas elas absolutamente tudo. A estes ele tomou à parte, cem ou duzentos de cada vez, e discorreu com eles, não sobre outro assunto, mas somente sobre os sacramentos, de sorte que nem mesmo os não batizados tinham permissão de estar presentes. Muitos pensaram que ele fazia isto por cobiçar o governo. Mas ele não se importava com isso; tampouco, contudo, continuou a fazê-lo por muito tempo, mas logo desistiu. Que dizer, então? Foi ele a causa do escândalo? Penso que não. Pois, se de fato o tivesse feito sem motivo, com razão lho poderiam atribuir; e assim também, se tivesse continuado a fazê-lo. Pois, quando algo do que é agradável a Deus é impedido pelo escândalo alheio, é justo não fazer caso; mas então é o momento de atentar para isso, quando não somos forçados, por causa dele, a ofender a Deus. Pois, dizei-me, se, enquanto discorremos e envergonhamos os ébrios (σκωπτόντων), alguém se escandaliza — devo eu cessar de falar? Ouvi Cristo dizer: Quereis vós também retirar-vos? (Jo 6,67). Assim, pois, o que é reto é nem fazer caso algum, nem fazer caso demasiado, da fraqueza da multidão. Não vemos os médicos agirem deste modo: como, quando é possível, condescendem com os caprichos de seus pacientes, mas quando a satisfação faz dano, então não poupam? É sempre bom conhecer o justo meio-termo. Muitos difamaram, porque certa bela virgem permaneceu, e a caluniaram por [truncado]
Pois este egípcio era um homem revolucionário e sedicioso. Quanto a isto, pois, Paulo se defende, e * *
Observai como, ao discorrer diante dos que estão de fora, ele não recusa valer-se dos auxílios que as leis oferecem. Aqui ele impõe respeito ao tribuno pelo nome de sua cidade. E ainda, em outro lugar, disse: Abertamente, sem condenação, sendo nós romanos, lançaram-nos na prisão (At 19,37). Pois, visto que o tribuno disse: Não és tu aquele egípcio?, ele imediatamente o afastou dessa suposição; depois, para que não se pensasse que negava sua nação, diz logo: Sou judeu — referindo-se à sua religião. (b) E então? Não negou ser cristão; longe disso, pois era tanto judeu quanto cristão, observando o que devia observar, já que ele, mais que todos os homens, obedecia à lei; (a) como de fato ele mesmo se chama em outro lugar: Sob a lei para com Cristo (1 Cor 9,21). Que é isto, pergunto? (c) O homem que crê em Cristo. E, discorrendo com Pedro, diz: Nós, judeus por natureza. — Mas eu vos rogo que me permitais falar ao povo (Gl 2,15). E isto é prova de que não mente, visto que a todos toma por testemunhas. Observai novamente com que brandura fala. Isto, por sua vez, é um argumento muito forte de que não lhe cabe crime algum: sua prontidão em fazer sua defesa, e seu desejo de vir discorrer com o povo dos judeus. Vede um homem bem preparado (τεταγμένον ἄνδρα)! Notai a ordenação providencial da coisa: se o tribuno não tivesse vindo, se não o tivesse preso, ele não teria desejado falar em sua defesa, nem teria obtido o silêncio que obteve. Estando de pé na escadaria. Havia ainda a facilidade adicional oferecida pelo lugar, de ter um posto elevado de onde arengar-lhes — e isso acorrentado! Que espetáculo poderia igualar-se a este: ver Paulo, atado com duas cadeias, arengando ao povo! Vê-lo como não estava em nada perturbado, em nada confuso; como, vendo diante de si tamanha multidão toda hostil a ele, com o comandante ali ao lado, primeiro os fez desistir de sua ira, e depois com que prudência o faz. Exatamente o que faz em sua Epístola aos Hebreus, o mesmo faz aqui: primeiro os atrai pelo som de sua língua materna comum, depois pela própria brandura. Falou-lhes, diz o texto, na língua hebraica, dizendo: Varões irmãos e pais, ouvi a defesa que agora vos faço (At 22,1). Notai seu discurso, ao mesmo tempo tão isento de toda lisonja, e tão expressivo de mansidão. Pois não diz Senhores, nem Amos, mas Irmãos, exatamente a palavra que mais lhes agradava: Não sou estranho a vós, diz ele, nem contra vós. Varões, diz ele, irmãos e pais: este, termo de honra; aquele, de parentesco. Ouvi, diz ele, minha — não diz doutrina, nem arenga, mas a defesa que agora vos faço. Coloca-se na postura de suplicante. E, ouvindo que lhes falava na língua hebraica, guardaram tanto mais silêncio (v. 2). Observais como o uso da mesma língua os apaziguou? De fato, tinham uma espécie de reverência por aquela língua. Observai também como ele prepara o caminho para seu discurso, começando assim: Eu sou, na verdade, um homem judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, instruído conforme a exatidão da lei paterna, zeloso para com Deus, como o sois todos vós hoje (v. 3). Sou um homem, diz ele, que sou judeu — coisa que mais lhes agradava ouvir; nascido em Tarso, cidade da Cilícia. Para que não pensassem novamente ser ele de outra nação, acrescenta sua religião: mas criado nesta cidade (p. 282, nota 4). Mostra quão grande era seu zelo pelo culto, pois, tendo deixado sua cidade natal, que era tão grande e também tão distante, escolheu ser criado aqui por causa da lei. Vede como, desde o princípio, ele se apegou à lei. Mas isto ele diz não somente para se defender diante deles, mas para mostrar que não foi por intento humano que foi levado à pregação do Evangelho, mas por poder divino: doutra sorte, tendo sido assim educado, não teria mudado repentinamente. Pois, se de fato fosse um dos homens da ordem comum, seria razoável suspeitar disto; mas, se era um dos que mais estavam ligados à lei, não era provável que mudasse levianamente, e sem forte necessidade. Mas talvez alguém diga: Ter sido criado aqui nada prova; pois que, se vieste aqui com o propósito de negociar, ou por outra causa? Por isso diz: aos pés de Gamaliel — e não simplesmente por Gamaliel, mas a seus pés, mostrando sua perseverança, sua assiduidade, seu zelo em ouvir, e sua grande reverência pelo homem. Instruído conforme a exatidão da lei paterna. Não simplesmente a lei, mas a lei paterna, mostrando que ele era assim desde o princípio, e não apenas alguém que conhecia a Lei. Tudo isto parece, na verdade, ter sido dito em favor deles, mas de fato se voltava contra eles, visto que ele, conhecendo a lei, a abandonou. Sim, mas e se conheceste de fato a lei com exatidão, mas não a defendes, nem tampouco a amas? Sendo zeloso, acrescenta — não simplesmente conhecedor dela. Então, como era um elevado encômio que fizera de si mesmo, torna-o também deles, acrescentando: Como o sois todos vós hoje. Pois mostra que eles não agem por nenhum objetivo humano, mas por zelo por Deus, agradando-os, prevenindo seus ânimos e conquistando-os de um modo que não fazia dano algum. Depois traz também as provas, dizendo: e persegui este Caminho até à morte, atando e entregando às prisões tanto homens como mulheres, do que também me é testemunha o sumo sacerdote, e todo o colégio dos anciãos (v. 4-5): Como isto se evidencia. Como testemunhas, traz o próprio sumo sacerdote e os anciãos. Diz, na verdade, sendo zeloso, como vós (Hom. 19, p. 123); mas mostra, por suas ações, que os ultrapassou. Pois eu não esperei por uma ocasião de per [truncado]
Mas Paulo disse: Eu sou um homem judeu, natural de Tarso da Cilícia, cidadão de uma cidade não obscura; e rogo-te que me permitas falar ao povo. E, tendo-lhe ele dado licença, Paulo, de pé na escadaria, fez sinal com a mão ao povo. E, feito grande silêncio, falou-lhes na língua hebraica, dizendo.
Observai como, ao discorrer diante dos que estão de fora, ele não recusa valer-se dos auxílios que as leis oferecem. Aqui ele impõe respeito ao tribuno pelo nome de sua cidade. E ainda, em outro lugar, disse: Abertamente, sem condenação, sendo nós romanos, lançaram-nos na prisão (At 19,37). Pois, visto que o tribuno disse: Não és tu aquele egípcio?, ele imediatamente o afastou dessa suposição; depois, para que não se pensasse que negava sua nação, diz logo: Sou judeu — referindo-se à sua religião. (b) E então? Não negou ser cristão; longe disso, pois era tanto judeu quanto cristão, observando o que devia observar, já que ele, mais que todos os homens, obedecia à lei; (a) como de fato ele mesmo se chama em outro lugar: Sob a lei para com Cristo (1 Cor 9,21). Que é isto, pergunto? (c) O homem que crê em Cristo. E, discorrendo com Pedro, diz: Nós, judeus por natureza. — Mas eu vos rogo que me permitais falar ao povo (Gl 2,15). E isto é prova de que não mente, visto que a todos toma por testemunhas. Observai novamente com que brandura fala. Isto, por sua vez, é um argumento muito forte de que não lhe cabe crime algum: sua prontidão em fazer sua defesa, e seu desejo de vir discorrer com o povo dos judeus. Vede um homem bem preparado (τεταγμένον ἄνδρα)! Notai a ordenação providencial da coisa: se o tribuno não tivesse vindo, se não o tivesse preso, ele não teria desejado falar em sua defesa, nem teria obtido o silêncio que obteve. Estando de pé na escadaria. Havia ainda a facilidade adicional oferecida pelo lugar, de ter um posto elevado de onde arengar-lhes — e isso acorrentado! Que espetáculo poderia igualar-se a este: ver Paulo, atado com duas cadeias, arengando ao povo! Vê-lo como não estava em nada perturbado, em nada confuso; como, vendo diante de si tamanha multidão toda hostil a ele, com o comandante ali ao lado, primeiro os fez desistir de sua ira, e depois com que prudência o faz.
Notai seu discurso, ao mesmo tempo tão isento de toda lisonja, e tão expressivo de mansidão. Pois não diz Senhores, nem Amos, mas Irmãos, exatamente a palavra que mais lhes agradava: Não sou estranho a vós, diz ele, nem contra vós. Varões, diz ele, irmãos e pais: este, termo de honra; aquele, de parentesco. Ouvi, diz ele, minha — não diz doutrina, nem arenga, mas a defesa que agora vos faço. Coloca-se na postura de suplicante. E, ouvindo que lhes falava na língua hebraica, guardaram tanto mais silêncio.
Observai como o uso da mesma língua os subjugou? De fato, tinham uma espécie de reverência por aquele idioma. Observai também como ele prepara o caminho para o seu discurso, começando assim: Eu sou, na verdade, um homem judeu, nascido em Tarso, cidade da Cilícia, mas criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, e instruído segundo o modo perfeito da lei dos pais, e zeloso para com Deus, como todos vós sois hoje.
Eu sou um homem, diz ele, que sou judeu: coisa que eles mais gostavam de ouvir; nascido em Tarso, cidade da Cilícia. Para que não voltassem a pensar que ele era de outra nação, acrescenta a sua religião: mas criado nesta cidade. Mostra quão grande era o seu zelo pelo culto, visto que, tendo deixado a sua cidade natal, que era tão grande e também tão remota, escolheu ser criado aqui por causa da Lei. Vede como, desde o princípio, ele se apegou à lei. Mas isto ele diz não apenas para se defender diante deles, mas para mostrar que não foi por intento humano que foi conduzido à pregação do Evangelho, mas por um poder divino: do contrário, tendo sido assim educado, não teria mudado subitamente. Pois se, na verdade, fosse ele um dos homens da ordem comum, seria razoável suspeitar disto: mas, se era dentre os que mais estavam vinculados à lei, não era verossímil que mudasse levianamente, e sem forte necessidade. Mas talvez alguém diga: Ter sido criado aqui nada prova: pois que dizer se vieste aqui com o propósito de negociar, ou por alguma outra causa? Por isso diz: aos pés de Gamaliel: e não simplesmente, por Gamaliel, mas aos seus pés, mostrando a sua perseverança, a sua assiduidade, o seu zelo em ouvir, e a sua grande reverência por aquele homem. Instruído segundo o modo perfeito da lei dos pais. Não simplesmente a lei, mas a lei dos pais; mostrando que ele era assim desde o princípio, e não apenas alguém que conhecia a Lei. Tudo isto parece, na verdade, dito em favor deles, mas de fato militava contra eles, visto que ele, conhecendo a lei, a abandonou. Sim: mas que dizer se conhecíeis, na verdade, a lei com exatidão, mas não a defendíeis, nem tampouco a amáveis? Sendo zelador, acrescenta: não simplesmente (alguém que a conhecia). Depois, visto que era um grande elogio o que fizera de si mesmo, torna-o também deles, acrescentando: Como todos vós sois hoje. Pois mostra que eles não agem por nenhum objetivo humano, mas por zelo para com Deus; agradando-os, e preocupando-se com as suas mentes, e conquistando-os de um modo que não fazia mal algum. Depois traz também as provas, dizendo: e persegui este Caminho até à morte, atando e entregando às prisões tanto homens como mulheres. Do que também me é testemunha o sumo sacerdote, e todo o colégio dos anciãos (v. 4-5): Como isto se manifesta. Como testemunhas, ele traz o próprio sumo sacerdote e os anciãos. Diz, na verdade, sendo zelador, como vós (Hom. XIX): mas mostra pelos seus atos que os superava. Pois eu não esperava a oportunidade de os prender: tanto incitava os sacerdotes, como empreendia jornadas: não limitava os meus ataques, como vós, aos homens, estendia-os também às mulheres: tanto atando como lançando às prisões homens e mulheres. Este testemunho é incontestável; a incredulidade dos judeus fica sem desculpa. Vede quantas testemunhas ele traz: os anciãos, o sumo sacerdote, e os habitantes da cidade. Observai a sua defesa, como não é de temor covarde (por si mesmo) que ele fala, não, mas pelo ensino e pela doutrina. Pois, se os ouvintes não fossem pedras, teriam sentido a força do que ele dizia. Pois até este ponto ele os tinha por testemunhas: o restante, porém, ficou sem testemunhas: Dos quais também recebi cartas para os irmãos, e ia a Damasco para trazer atados a Jerusalém aqueles que ali estivessem, a fim de serem castigados. E aconteceu que, indo eu de caminho, e chegando perto de Damasco, pelo meio-dia, de repente resplandeceu do céu uma grande luz ao redor de mim. E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? E eu respondi: Quem és Tu, Senhor? E ele me disse: Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues.
Ora, pois, estas mesmíssimas coisas deveriam ter sido tidas por dignas de crédito, a partir das que as precederam: de outro modo, ele não teria sofrido tal revolução. Como, dirás tu, se ele apenas compõe uma bela história? Responde-me: Por que arrojou subitamente todo aquele zelo? Por buscar honra? E, no entanto, obteve justamente o contrário. Mas, talvez, uma vida fácil? Não, nem isso tampouco. Mas então outra coisa? Ora, não está ao alcance do pensamento inventar nenhum outro objetivo. Deixando, pois, a eles próprios a tarefa de tirar a conclusão, narra os fatos. Ao aproximar-me, diz ele, de Damasco, perto do meio-dia. Vede quão grande foi o excesso da luz. Como, dirás tu, se ele apenas compõe uma bela história? Os que estavam com ele são testemunhas, os que o conduziram pela mão, os que viram a luz. E os que estavam comigo viram, de fato, a luz, e tiveram temor; mas não ouviram a voz daquele que falava comigo.
Mas, em outro lugar, diz: Ouvindo a voz, mas não vendo ninguém. Não há discrepância: não, havia duas vozes, a de Paulo e a voz do Senhor: naquele lugar, o escritor tem em mente a voz de Paulo; como, de fato, (Paulo) aqui acrescenta: A voz daquele que falava comigo. Não vendo ninguém: não diz que não viram a luz, mas ninguém, isto é, ninguém que falasse. E era razoável que assim fosse, visto que a ele somente convinha ser concedida aquela voz. Pois, se de fato eles também a tivessem ouvido, o milagre não teria sido tão grande. Como as pessoas de mentes mais grosseiras se persuadem mais pela visão, aqueles viram a luz, e tiveram temor. De fato, nem a luz operou tanto efeito sobre eles quanto sobre ele: pois até lhe cegou os olhos: por aquilo que lhe sucedeu, (Deus) deu também a eles a oportunidade de recobrar a vista, se assim o quisessem. Parece-me, ao menos, que a incredulidade deles foi providencialmente ordenada, para que fossem testemunhas irrecusáveis. E ele me disse, diz o texto, Eu sou Jesus de Nazaré, a quem tu persegues. Bem é que se acrescente também o nome da cidade (Nazaré), para que o reconhecessem (à Pessoa): além disso, também os Apóstolos assim falavam. E Ele mesmo testemunhou que o perseguiam. E os que estavam comigo viram, de fato, a luz, e tiveram temor, mas não ouviram a voz daquele que falava comigo. E eu disse: Que farei, Senhor? E o Senhor me disse: Levanta-te, e vai a Damasco; e ali te será dito tudo o que te está ordenado que faças. E, não podendo eu ver, por causa da glória daquela luz, sendo levado pela mão dos que estavam comigo, entrei em Damasco. E um certo Ananias, homem devoto segundo a lei, tendo bom testemunho de todos os judeus que ali habitavam, veio a mim, e, pondo-se junto, disse-me: Irmão Saulo, recupera a vista. E, na mesma hora, olhei para ele. Entra na cidade, diz o texto, e ali te será dito tudo o que te está ordenado que faças.
Eis outra testemunha! E vede como ele também o torna irrecusável. E um certo Ananias, diz ele, homem devoto segundo a lei — tão longe está de ser algo estranho! — tendo bom testemunho de todos os judeus que ali habitavam. E eu, na mesma hora, recebi a vista. Segue-se, então, o testemunho prestado pelos próprios fatos. Observai como isto se entrelaça, de pessoas e de fatos; e as pessoas, tanto dos seus como dos estrangeiros: os sacerdotes, os anciãos, e os seus companheiros de viagem: os fatos, o que ele fez e o que lhe foi feito: e fatos testemunham a fatos, não somente as pessoas. Depois, Ananias, um estrangeiro; depois, o próprio fato, a recuperação da vista; depois, uma grande profecia. E disse: O Deus de nossos pais te escolheu para que conhecesses a Sua vontade, e visses Aquele Justo.
Bem se disse: Dos pais, para mostrar que eles não eram judeus, mas estranhos à lei, e que não era por zelo (pela lei) que agiam. Para que conhecesses a Sua vontade. Ora, pois, qual é a Sua vontade? Vede como, sob a forma de narrativa, se ensina. E vejas Aquele Justo, e ouças a voz da Sua boca. Pois lhe serás testemunha, diante de todos os homens, do que viste e ouviste. E vejas, diz ele, Aquele Justo.
Por ora, ele não diz mais do que isto: se Ele é Justo, eles são culpados. E ouve a voz da Sua boca. Vede quão alto ele eleva o fato! Pois tu serás Sua testemunha — por isto, porque não trairás a visão e a audição (isto é, não provarás falso a)— tanto do que viste, como do que ouviste: por meio de ambos os sentidos ele reclama sua fé, plenamente— a todos os homens. E agora por que tardas? Levanta-te, e sê batizado, e lava os teus pecados, invocando o Seu nome.
Aqui é grande coisa o que ele proferiu. Pois não disse: Sê batizado em Seu nome; mas: invocando o nome de Cristo. Isto mostra que Ele é Deus: pois não é lícito invocar a nenhum outro, senão a Deus. Depois ele mostra também que ele mesmo não fora constrangido: pois, Eu disse, diz ele, Que devo fazer? Nada fica sem testemunho: não; ele traz a testemunha de toda uma cidade, visto que haviam visto que ele era conduzido pela mão. Mas vede a profecia cumprida. A todos os homens, é dito. Pois ele se tornou testemunha para Ele, e testemunha como convém; pelo que padeceu, pelo que fez, e pelo que disse. Tais testemunhas devemos nós também ser, e não trair as coisas que nos foram confiadas: falo não apenas de doutrinas, mas também do modo de vida. Pois observai: porque ele vira, porque ele ouvira, dá testemunho a todos os homens, e nada o impedia. Nós também damos testemunho de que há uma Ressurreição e inumeráveis bens: somos obrigados a dar testemunho disto a todos os homens. Sim, e nós damos testemunho, dirás, e cremos. Como, quando ages ao contrário? Dize agora: se alguém se chamasse cristão, e depois, havendo apostatado, se pusesse com os judeus, bastaria este testemunho? De modo algum: pois os homens desejariam o testemunho que é dado pelas ações. Assim mesmo, se dizemos que há uma Ressurreição e inumeráveis bens, e depois desprezamos essas coisas e preferimos as coisas de aqui, quem nos crerá? Não o que dizemos, mas o que fazemos, é o que todos os homens observam. Tu serás testemunha, diz, a todos os homens: não somente aos amigos, mas também aos incrédulos: pois para isto servem as testemunhas; não para persuadir aos que sabem, mas aos que não sabem. Sejamos testemunhas fidedignas. Mas como seremos fidedignos? Pela vida que levamos. Os judeus o assaltaram: nossas paixões nos assaltam, ordenando-nos que abjuremos nosso testemunho. Mas não lhes obedeçamos: somos testemunhas de Deus. (Cristo) é julgado que Ele não é Deus: Ele nos enviou para dar testemunho d'Ele. Demos testemunho e persuadamos aos que têm de decidir o ponto: se não damos testemunho, temos de responder também pelo erro deles. Mas se em um tribunal, onde questões mundanas se põem em jogo, ninguém receberia uma testemunha repleta de inumeráveis vícios, muito menos aqui, onde tais (e tão grandes) são as questões a considerar. Dizemos que ouvimos a Cristo, e que cremos nas coisas que Ele prometeu: Mostrai-o, dizem eles, pelas vossas obras: pois vossa vida testemunha o contrário— que não credes. Dizei, olharemos para os que amealham dinheiro, os rapaces, os avarentos? As pessoas que pranteiam e se lamentam, que edificam e se ocupam de toda sorte de coisas, como se nunca houvessem de morrer? Não credes que morrereis, coisa tão clara e evidente: e como haveremos de vos crer quando dais testemunho? Pois há, há muitos homens cujo estado de espírito é exatamente como se não houvessem de morrer. Pois quando, em avançada velhice, se põem a edificar e plantar, quando levarão em conta a morte? Não será pequeno castigo para nós termos sido chamados a dar testemunho, mas não termos sido capazes de testemunhar das coisas que vimos. Vimos Anjos com nossos olhos, sim, mais claramente do que aqueles que os viram visivelmente. Seremos testemunhas de Cristo: pois não somente aqueles são mártires (ou testemunhas, como assim os chamamos), mas nós também. É por isto que são chamados mártires, porque, quando instados a abjurar (a fé), suportam todas as coisas, para que possam falar a verdade: e nós, quando somos instados por nossas paixões a abjurar, não sejamos vencidos. O ouro diz: Dize que Cristo não é Cristo. Então não o escutes como a Deus, mas despreza as suas ordens. As más concupiscências professam conhecer a Deus, mas nas obras O negam (Tt 1,16). Pois isto não é testemunhar, mas o contrário. E, de fato, que outros O neguem, nada há de admirável: mas que nós, que fomos chamados a dar testemunho, O neguemos, é coisa grave e detestável: isto, de todas as coisas, é o que mais dano causa à nossa causa. Isto vos será por testemunho (Lc 21,13), diz Ele: mas isto (é) quando nós mesmos permanecemos firmes nisso. Se todos déssemos testemunho de Cristo, prontamente persuadiríamos o maior número dos gentios. É grande coisa, meus amados, a vida (que se leva). Que um homem seja feroz como uma fera, que abertamente vos condene por causa da vossa doutrina, ainda assim secretamente aprova, ainda louvará, ainda admirará. Pois dizei, de onde pode proceder uma vida excelente? De nenhuma outra fonte, senão de um Poder Divino operando em nós. E se houver também gentios de tal caráter? Se em algum lugar algum deles for assim, é em parte pela natureza, em parte pela vanglória. Quereis aprender que brilho há numa boa vida, que força de persuasão ela possui? Muitos dos hereges assim prevaleceram, e, sendo suas doutrinas corruptas, ainda assim a maior parte dos homens, por reverência à sua (virtuosa) vida, não passou a examinar sua doutrina: e muitos, mesmo condenando-os por causa da doutrina, os reverenciam por causa da vida: não retamente, é verdade, mas ainda assim é assim que sentem para com eles. Isto trouxe calúnias sobre os tremendos artigos do nosso credo, isto trastornou tudo, o fato de que ninguém dá conta da boa vivência: isto é um dano para a fé. Dizemos que Cristo é Deus; inumeráveis outros argumentos trazemos, e este entre os demais, que Ele persuadiu todos os homens a viver retamente: mas isto é o caso de poucos. A maldade da vida é um dano à doutrina da Ressurreição, à da imortalidade da alma, à do Juízo: muitas outras (falsas doutrinas) também arrasta consigo, o fado, a necessidade, a negação de uma Providência. Pois a alma, imersa em inumeráveis vícios, a título de consolações para si mesma, tenta conceber estas coisas, para que... [truncado]
Vede como ele se lança (ao perigo): Vim, diz ele, depois daquela visão, "a Jerusalém. Estava em êxtase", etc. De novo, isto é sem testemunho: mas observai, o testemunho decorre do resultado. Ele disse: "Não receberão o teu testemunho": não o receberam. E, contudo, por cálculos da razão, a suposição deveria ter sido esta, que certamente o receberiam. Pois eu era o homem que fazia guerra aos cristãos: de modo que deveriam tê-lo recebido. Aqui ele estabelece duas coisas: tanto que eles são sem escusa, visto que o perseguiram contra toda verossimilhança ou cálculo de razão; como que Cristo era Deus, profetizando coisas contrárias à expectativa, e não olhando para as coisas passadas, mas pré-conhecendo as coisas futuras. Como, então, Ele diz: "Ele levará o Meu nome diante dos gentios, e reis, e filhos de Israel"? (At 9,15). Não, certamente, persuadirá. Além disso, em outras ocasiões encontramos os judeus persuadidos, mas aqui não o foram. Onde, mais que em qualquer outro lugar, deveriam ter sido persuadidos, conhecendo o seu antigo zelo (na causa deles), aqui não foram persuadidos. "E quando o sangue da tua testemunha Estêvão", etc. Vede onde, de novo, seu discurso termina, a saber, no ponto capital vigoroso (εἰς τὸ ἱσχυρὸν κεφάλαιον): que foi ele quem perseguiu, e não apenas perseguiu, mas matou; e, tivesse ele dez mil mãos (μυρίαις χερσὶν ἀναιρῶν), tê-las-ia usado todas para matar Estêvão. Recordou-lhes o espírito assassino odiosamente indulgido (por ele e por eles). Então, é claro, sobretudo por isto não o suportariam, pois isto os convencia; e verdadeiramente a profecia estava tendo seu cumprimento: grande o zelo, veemente a acusação, e os próprios judeus testemunhas da verdade de Cristo! "E ele me disse: Parte, pois te enviarei bem longe, aos gentios. E eles o escutaram até esta palavra, e então levantaram suas vozes, dizendo: Tire da terra um tal sujeito; pois não convém que ele viva." (v. 21-22). Os judeus não suportaram escutar todo o seu discurso, mas, excessivamente inflamados por sua ira, gritaram, diz, "Tire-o; pois não convém que ele viva. E enquanto gritavam, e lançavam fora suas roupas, e atiravam pó ao ar, o tribuno ordenou que fosse levado ao castelo, e mandou que fosse examinado por açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele." (v. 23-24). Ao passo que tanto o tribuno deveria ter examinado se estas coisas eram assim — sim, e os próprios judeus também — ou, se não fossem assim, ter mandado açoitá-lo, ele "mandou examiná-lo por açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele." E, contudo, deveria ter aprendido daqueles clamadores, e perguntado se se aferravam a algo do que fora dito: em vez disso, sem mais indaga, cede a seu arbítrio e agrado, e age com vistas a agradá-los: pois não atendia a isto, como faria uma coisa justa, mas somente como poderia deter a ira deles, injusta como era. "E ao amarrá-lo com correias, Paulo disse ao centurião que estava perto: É lícito a vós açoitar um homem que é romano e não condenado?" (v. 25). Paulo não mentiu, Deus o livre: pois era romano: se não houvesse outra coisa, teria temido (fingir isto), para não ser descoberto, e sofrer castigo pior. (Vide Suetônio, Vit. Claud. 25). E observai que ele não o diz peremptoriamente (ἁπλῶς), mas: "É lícito a vós?" As acusações apresentadas são duas: tanto ser sem exame, como ser ele romano. Consideravam isto um grande privilégio, naquele tempo: pois dizem que (foi somente) desde o tempo de Adriano que todos foram chamados romanos, mas antigamente não era assim. Teria sido desprezível se tivesse sido açoitado: mas, como está, ele os põe em maior temor (do que eles a ele). Se o tivessem açoitado, também teriam despachado todo o assunto, ou até o teriam matado; mas, como está, o resultado não é assim. Vede como Deus permite que muitos (bons resultados) se produzam de modo bem humano, tanto no caso dos Apóstolos como no dos demais (homens). Notai como suspeitavam que a coisa fosse um pretexto, e que, ao se chamar romano, Paulo mentia: talvez presumindo isto por sua pobreza. "Quando o centurião ouviu isto, foi e disse ao tribuno: Cuida do que fazes, pois este homem é romano. Então veio o tribuno, e lhe disse: Dize-me, és tu romano? Ele disse: Sim. E o tribuno respondeu: Com grande soma obtive eu esta cidadania. E Paulo disse: Mas eu nasci livre. Então logo se apartaram dele os que o deviam examinar; e o tribuno também temeu, depois que soube que ele era romano, e porque o havia amarrado." (v. 26-29). — "Mas eu", diz ele, "nasci livre." Assim, pois, também seu pai era romano. Que resulta então disto? Amarrou-o, e o levou aos judeus. "No dia seguinte, porque queria saber com certeza de que era acusado pelos judeus, soltou-o das prisões, e ordenou que os sumos sacerdotes e todo o seu conselho comparecessem, e trouxe Paulo, e o pôs diante deles." (v. 30). Não discursa agora à multidão, nem ao povo. "E Paulo, olhando fixamente para o conselho, disse: Homens e irmãos, tenho vivido em toda boa consciência diante de Deus até este dia." (23,1). O que ele quer dizer é isto: não tenho consciência de haver-vos ofendido em nada, ou de haver feito algo digno destas prisões. Que disse, então, o sumo sacerdote? Bem justamente, e como governante, e mansamente: "E o sumo sacerdote Ananias ordenou aos que estavam junto a ele que o ferissem na boca. Então disse Paulo: Deus te ferirá, parede branqueada; pois te sentas para me julgar segundo a lei, e ordenas que eu seja ferido contra a lei? E os que estavam presentes disseram: Injurias tu ao sumo sacerdote de Deus? Então disse Paulo: Não sabia, irmãos, que ele era o... [truncado]
Não para contradizer a Cristo, mas porque queria aprender isto, que era tão contrário a toda expectativa razoável. Cristo, porém, não lhe ensinou (isto), mas apenas lhe ordenou que partisse, e ele obedece: tão obediente é ele. E levantaram suas vozes, diz, e disseram: Tire-o; não convém que este sujeito viva.
Vede como ele se lança (ao perigo): Vim, diz ele, depois daquela visão, a Jerusalém. Estava em êxtase, etc. De novo, isto é sem testemunho: mas observai, o testemunho decorre do resultado. Ele disse: Não receberão o teu testemunho: não o receberam. E, contudo, por cálculos da razão, a suposição deveria ter sido esta, que certamente o receberiam. Pois eu era o homem que fazia guerra aos cristãos: de modo que deveriam tê-lo recebido. Aqui ele estabelece duas coisas: tanto que eles são sem escusa, visto que o perseguiram contra toda verossimilhança ou cálculo de razão; como que Cristo era Deus, profetizando coisas contrárias à expectativa, e não olhando para as coisas passadas, mas pré-conhecendo as coisas futuras. Como, então, Ele diz: Ele levará o Meu nome diante dos gentios, e reis, e filhos de Israel (At 9,15)? Não, certamente, persuadirá. Além disso, em outras ocasiões encontramos os judeus persuadidos, mas aqui não o foram. Onde, mais que em qualquer outro lugar, deveriam ter sido persuadidos, conhecendo o seu antigo zelo (na causa deles), aqui não foram persuadidos. E quando o sangue da tua testemunha Estêvão, etc. Vede onde, de novo, seu discurso termina, a saber, no ponto capital vigoroso (εἰς τὸ ἱσχυρὸν κεφάλαιον): que foi ele quem perseguiu, e não apenas perseguiu, mas matou; e, tivesse ele dez mil mãos (μυρίαις χερσὶν ἀναιρῶν), tê-las-ia usado todas para matar Estêvão. Recordou-lhes o espírito assassino odiosamente indulgido (por ele e por eles). Então, é claro, sobretudo por isto não o suportariam, pois isto os convencia; e verdadeiramente a profecia estava tendo seu cumprimento: grande o zelo, veemente a acusação, e os próprios judeus testemunhas da verdade de Cristo! E ele me disse: Parte, pois te enviarei bem longe, aos gentios. E eles o escutaram até esta palavra, e então levantaram suas vozes, dizendo: Tire da terra um tal sujeito; pois não convém que ele viva.
Os judeus não suportaram escutar todo o seu discurso, mas, excessivamente inflamados por sua ira, gritaram, diz, Tire-o; pois não convém que ele viva. E enquanto gritavam, e lançavam fora suas roupas, e atiravam pó ao ar, o tribuno ordenou que fosse levado ao castelo, e mandou que fosse examinado por açoites, para saber por que causa assim clamavam contra ele.
Não; vós é que não sois dignos de viver; não ele, que em tudo obedece a Deus. Ó celerados e assassinos! E sacudindo suas roupas, diz, atiravam pó ao ar
para tornar a insurreição mais feroz, porque queriam intimidar o governador. E observai; eles não dizem qual era a acusação, pois de fato nada tinham a alegar, mas apenas pensam em causar terror com seu clamor. O tribuno ordenou, etc., e, contudo, deveria ter aprendido dos acusadores por que causa assim clamavam contra ele. E ao amarrá-lo, etc. E o chefe capitão temeu, depois que soube que ele era romano. Por que, então, não havia falsidade alguma. No dia seguinte, porque queria saber com certeza por que era acusado pelos judeus, etc., o levou diante do conselho.
Ao passo que o tribuno deveria ter examinado se estas coisas eram assim — sim, e também os próprios judeus — ou, se não fossem assim, ordenar que ele fosse açoitado, mandou examiná-lo mediante açoites, para que soubesse por que causa tanto clamavam contra ele. E, no entanto, deveria ter-se informado junto àqueles que clamavam, e perguntado se se apoiavam em algo do que fora dito: em vez disso, sem mais delongas, dá vazão à sua vontade e prazer arbitrários, e age com vistas a agradá-los; pois não atentava para como faria algo justo, mas somente para como poderia deter a fúria deles, ainda que injusta. E, quando o atavam com correias, disse Paulo ao centurião que estava presente: É-vos lícito açoitar um homem romano e não condenado?
Paulo não mentiu, longe disso: pois era romano; se não houvesse outro motivo, teria temido (fingir isto), receando ser descoberto e sofrer castigo ainda mais grave. (Cf. Suetônio, Vida de Cláudio, §25.) E observai que não o afirma peremptoriamente (ἁπλῶς), mas: É-vos lícito? As acusações trazidas são duas: tanto ser sem exame, quanto ser ele romano. Consideravam isto, naquele tempo, grande privilégio: pois dizem que somente a partir de Adriano todos passaram a ser chamados romanos, mas antigamente não era assim. Teria sido desprezível se tivesse sido açoitado; mas, como está, ele os põe em maior temor (do que eles a ele). Se o tivessem açoitado, também teriam encerrado todo o assunto, ou até mesmo o teriam matado; mas, como está, o resultado não é este. Vede como Deus permite que muitos (bons) resultados se produzam de modo bem humano, tanto no caso dos Apóstolos quanto no dos demais (homens). Notai como suspeitavam que a coisa fosse um pretexto, e que, ao chamar-se romano, Paulo mentia — talvez presumindo isto por causa de sua pobreza. Ouvindo isto o centurião, foi e o anunciou ao tribuno, dizendo: Vê o que fazes, porque este homem é romano. Então o tribuno veio e lhe disse: Dize-me, és tu romano? Ele disse: Sim. E o tribuno respondeu: Eu por grande soma alcancei esta cidadania. E Paulo disse: Mas eu nasci livre. Então logo se apartaram dele os que o haviam de examinar; e também o tribuno temeu, depois que soube que era romano, e porque o tinha atado.
Mas eu, diz ele, nasci livre. Logo, também seu pai era romano. Que resulta então disto? Ele o desatou, e o desceu aos judeus. No dia seguinte, porquanto quisera saber com certeza do que era acusado pelos judeus, soltou-o das prisões e ordenou que comparecessem os principais sacerdotes e todo o seu conselho, e, trazendo Paulo, o pôs diante deles.
Isto deveria ele ter feito desde o princípio. Trouxe-o, desatado. Isto sobretudo os judeus não saberiam como interpretar. E Paulo, diz, fitando-os atentamente. Isto mostra a sua ousadia, e como isso os intimidava (τὸ ἐντρεπτικόν).
O que ele quer dizer é isto: não tenho consciência de vos haver injuriado em nada, nem de ter feito coisa alguma digna destas prisões. Que disse então o sumo sacerdote? Muito justamente, e como magistrado, e com mansidão: E o sumo sacerdote Ananias ordenou aos que estavam junto dele que o ferissem na boca. Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; pois tu estás aí sentado para me julgares segundo a lei, e, contra a lei, ordenas que eu seja ferido? E os que estavam presentes disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus? Disse então Paulo: Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não falarás mal do príncipe do teu povo.
Assim, o próprio Ananias fica atônito, e não ousa dizer palavra: somente os que o rodeavam não podiam suportar a ousadia de Paulo. Viam um homem pronto para morrer... pois, se assim fosse, bastaria a Paulo calar-se, e o tribuno o teria tomado e se retirado; tê-lo-ia sacrificado a eles. Ele mostra tanto que sofre de boa vontade o que sofre, quanto assim se desculpa diante deles — não porque desejasse desculpar-se perante eles, pois a esses ele até condena fortemente —, mas por causa do povo. Violando a lei, mandas que eu seja golpeado? Bem pode dizê-lo, pois matar um homem que não lhes fizera injúria alguma, e este inocente, era violar a lei. Pois tampouco foi injúria o que ele disse, a menos que se chamem injuriosas as palavras de Cristo, quando diz: Ai de vós, escribas e fariseus, porque sois semelhantes a sepulcros caiados (Mt 23,27). É verdade, direis: mas, se o tivesse dito antes de ser golpeado, teria significado não ira, mas ousadia. Já mencionei, porém, a razão disto. E (deste modo) encontramos com frequência o próprio Cristo falando de modo aparentemente injurioso aos judeus, quando por eles injuriado; como quando diz: Não penseis que Eu vos hei de acusar (Jo 5,45). Mas isto não é injúria, longe disso. Vede com que mansidão se dirige a estes homens: Não sabia, diz, que era o sumo sacerdote de Deus.
e, para mostrar que não dissimulava (εἰρωνεύεται), acrescenta: Não falarás mal do príncipe do teu povo. Confessa-o, pois, ainda ser príncipe. Aprendamos também a mansidão, para que em ambas sejamos perfeitos, tanto numa quanto noutra. Pois é preciso examiná-las de perto, para aprender o que é uma e o que é outra: de perto, porque estas virtudes têm, contíguos a si, os vícios que lhes correspondem: a mera veemência passando-se por ousadia, a mera covardia por mansidão; sendo necessário perscrutá-las, para que ninguém que possua o vício pareça possuir a virtude — o que seria como se alguém supusesse estar coabitando com a senhora, sem saber que era a serva. Que é, pois, mansidão, e que é mera covardia? Quando outros são injustiçados e não tomamos o seu partido, mas nos calamos, isto é covardia; quando nós mesmos somos maltratados e o suportamos, isto é mansidão. Que é ousadia? De novo o mesmo, quando é por outros que combatemos. Que é veemência? Quando é por causa própria que estamos dispostos a lutar. De modo que a magnanimidade e a ousadia andam juntas, assim como (a mera) veemência e (a mera) covardia. Pois quem não se ressente por si mesmo, dificilmente deixará de se ressentir por outros; e quem não defende a própria causa, dificilmente deixará de defender a de outrem. Porque, quando a nossa disposição habitual está pura da paixão, então admite também a virtude. Assim como um corpo livre de febre admite força, também a alma, a não ser corrompida pelas paixões, admite força. Grande força denota esta mansidão; exige alma generosa e valorosa, e de excelsa altura, esta mansidão. Ou pensais ser coisa pequena sofrer o mal e não se exasperar? Na verdade, não erraria quem, falando da disposição de defender o próximo, a chamasse espírito de varonil coragem. Pois quem teve força para vencer paixão tão forte (como a do egoísmo), terá força para ousar o combate por outrem. Por exemplo, são duas paixões, a covardia e a ira: se venceste a ira, é bem claro que vences também a covardia; mas a ira se domina sendo manso; logo, (fazei) o mesmo com a covardia, e sereis varonil. De novo, se não venceste a ira, tornaste-te veemente e belicoso; mas, não a tendo vencido, tampouco podes vencer o medo; por conseguinte, serás também covarde: e o caso é o mesmo que com o corpo; se é fraco, é rapidamente vencido tanto pelo frio quanto pelo calor, pois tal é o mau temperamento, ao passo que o bom temperamento é capaz de resistir a todas (as mudanças). De novo, a grandeza de alma é virtude, e junto a ela está a prodigalidade; a economia é virtude, o ser bom administrador; junto a ela está a parcimônia e a mesquinhez. Vinde, cotejemos e comparemos de novo as virtudes (com os seus vícios). Pois bem, o pródigo não há de chamar-se magnânimo. Como poderia? O homem vencido por inúmeras paixões, como poderia ser grande de alma? Pois isto não é desprezar o dinheiro; é apenas ser mandado por outras paixões: pois assim como um homem, se estivesse à mercê e ao mando de salteadores para lhes obedecer às ordens, não poderia ser livre (assim é também aqui). O seu grande gasto não vem do desprezo pelo dinheiro, mas simplesmente de não saber dispor dele devidamente: do contrário, fosse possível tanto guardá-lo quanto despendê-lo em seu próprio prazer, seria isto o que preferiria. Mas quem gasta o seu dinheiro em objetos convenientes, este é o homem de alma elevada; pois verdadeiramente é alma elevada aquela que não está escravizada à paixão, que tem o dinheiro por coisa nenhuma. De novo, a economia é coisa boa: pois assim será o melhor administrador aquele que gasta de modo conveniente, e não ao acaso, sem administração. Mas a parcimônia não é a mesma coisa que esta. Pois a primeira, com efeito, nem mesmo quando uma necessidade urgente o exige, toca no principal do seu dinheiro; mas a segunda será irmã da primeira. Pois bem, poremos juntos o homem de grande alma e o prudente administrador, assim como o pródigo e o mesquinho: pois ambos estes são assim afetados por pequenez de alma, como aqueles outros o são (pelo contrário). Não chamemos, pois, elevado de alma a quem simplesmente gasta, mas a quem gasta retamente; nem chamemos ao administrador econômico mesquinho e parcimonioso, mas a quem é intempestivamente poupador do seu dinheiro. Que quantidade de riqueza gastou aquele rico que se vestia de púrpura e linho fino? (Lc 16,19) Mas não era elevado de alma; pois a sua alma estava possuída por disposição sem misericórdia e por inúmeras concupiscências: como, pois, poderia ser grande? Abraão tinha alma grande, gastando, como gastava, na recepção dos seus hóspedes, matando o bezerro, e, onde havia necessidade, não apenas não poupando os seus bens, mas nem mesmo a própria vida. Se, pois, vemos alguém com a sua mesa suntuosa, com as suas meretrizes e os seus parasitas, não o chamemos homem de grande mente, mas homem de mente extremamente pequena. Pois vede a quantas paixões está escravizado e sujeito — gula, prazer desmedido, lisonja: mas a quem está possuído por tantas, e não consegue escapar sequer de uma delas, como poderia alguém chamá-lo magnânimo? Antes, sobretudo o chamemos de pequena mente quando mais gasta: pois quanto mais gasta, tanto mais revela a tirania daquelas paixões; pois se elas não o tivessem dominado excessivamente, não teria gasto com excesso. De novo, se vemos alguém que nada dá a gente como esta, mas alimenta os pobres e socorre os necessitados, mantendo ele mesmo mesa modesta — a este chamemos homem sumamente elevado de alma: pois é verdadeiramente sinal de grande alma desprezar o próprio conforto, mas cuidar do alheio. Pois dizei-me, se vísseis alguém que despreza todos os tiranos, e tem por nada as suas ordens, mas arranca da sua tirania os que são oprimidos, a
Porque não sabia que ele era sumo sacerdote. Dizem alguns: Por que, então, se defende como se fosse matéria de acusação, e acrescenta: Não falarás mal do príncipe do teu povo? Pois, se ele não fosse o príncipe, seria correto insultar (a ele ou a outro) sem melhor razão que essa? Ele mesmo diz: Sendo injuriados, bendizemos; sendo perseguidos, o suportamos (1 Cor 4,12); mas aqui faz o contrário, e não apenas injuria, mas amaldiçoa. São palavras de ousadia, antes que de ira; não quis parecer desprezível aos olhos do tribuno. Pois, suponde que o próprio tribuno se abstivesse de açoitá-lo, apenas por estar prestes a ser entregue aos judeus; ser espancado pelos servos destes o teria antes envalentonado: eis por que Paulo não ataca o servo, mas quem deu a ordem. Mas aquilo de Parede caiada, e sentas para me julgar segundo a lei? equivale a: Sendo (tu mesmo) culpado; como se dissesse: E (tu mesmo) digno de inúmeros açoites. Vede, pois, quão grandemente ficaram impressionados com a sua ousadia; pois, quando se tratava de derrubar toda a questão, antes o louvam (infra, v. 9). Porque está escrito, etc. Quer mostrar que fala assim não por medo, nem porque (Ananias) não merecesse ser assim chamado, mas por obediência à lei também neste ponto. E, de fato, estou plenamente persuadido de que ele não sabia que era o sumo sacerdote, visto que havia regressado agora após longo intervalo, e não tinha o hábito de trato constante com os judeus; vendo-o, além disso, no meio de muitos outros: pois o sumo sacerdote já não era fácil de reconhecer à primeira vista, havendo muitos deles e diversos. Assim, parece-me, também nisto falou tendo em vista a sua defesa contra eles: de modo a mostrar que obedece à lei; por isso se escusa (assim).
Desta acusação e calúnia se justifica. Pois os saduceus, de fato, etc. Os saduceus não têm conhecimento de nada incorpóreo, talvez nem mesmo de Deus; tão grosseiros (παχεἵς) são eles: donde tampouco querem crer que haja Ressurreição. E os escribas, etc. Vede; também o tribuno ouve que os fariseus o absolveram das acusações, e deram sentença (a seu favor), e com maior confiança o leva à força. Além disso, tudo o que (Paulo) falara estava cheio de sensatez (φιλοσοφίας). E na noite seguinte o Senhor se pôs junto a ele, etc. Vede que forte consolação! Primeiro o louva: Como testemunhaste de Mim em Jerusalém; depois não o deixa temer o desfecho incerto da sua viagem a Roma: pois também ali, diz Ele, não estarás só (μόνος), mas terás também toda esta ousadia de discurso. Por meio disto se tornou manifesto, não (apenas) que seria salvo, mas que (o seria) para grandes coroas na grande cidade. Mas por que não lhe apareceu antes de cair no perigo? Porque é sempre nas aflições que Deus nos consola; pois aparece mais desejado, ao mesmo tempo em que, nos próprios perigos, nos exercita e nos forma. Além disso, ele então estava tranquilo, livre de prisões; mas agora grandes perigos o aguardavam. Nós nos ligamos, dizem eles, sob maldição, a não comer nem beber.
De novo discorre simplesmente como homem, e nem em todas as ocasiões desfruta igualmente do auxílio sobrenatural. "Eu sou fariseu, filho de fariseu": tanto nisto quanto no que se segue, quis dividir a multidão, que tinha contra ele uma má unanimidade. E tampouco diz aqui falsidade: pois era fariseu por descendência dos seus antepassados. "Pela esperança e ressurreição dos mortos sou posto em juízo." Pois, como não quisessem dizer por que razão o acusavam, é ele obrigado, portanto, a declará-la ele mesmo. "Mas os fariseus", diz, "confessam ambas as coisas." E, no entanto, são três coisas: como, pois, diz ambas? "Espírito e anjo" é posto como uma só. Quando ele está do lado deles, então advogam por ele. "E levantou-se grande clamor: e os escribas do partido dos fariseus levantaram-se e contendiam, dizendo: Nenhum mal achamos neste homem; e" (que) "se algum espírito lhe falou, ou algum anjo?" (v. 9). Por que não advogaram por ele antes disto? Observais como, quando cedem as paixões, se descobre a verdade? Onde está o crime, dizem, se um anjo lhe falou, ou um espírito? Paulo não lhes dá pretexto algum contra si. "E, havendo grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por eles, ordenou aos soldados que descessem, e o tirassem à força do meio deles, e o levassem para a fortaleza" (v. 10). O tribuno teme que ele seja despedaçado, agora que disse ser romano: e o assunto não era sem perigo. Observais que Paulo tinha o direito de professar-se romano? Do contrário, tampouco (o tribuno) temeria agora. Resta, pois, que os soldados o arrebatem à força. Mas, quando os miseráveis viram que tudo era em vão, tomam todo o assunto em suas próprias mãos, como de bom grado o teriam feito antes, mas foram impedidos: e a maldade deles em nada se detém, ainda que tenha recebido tantos freios: e, no entanto, quantas coisas foram providencialmente ordenadas, a fim de que se aquietassem do seu furor, e aprendessem aquilo por meio de que poderiam porventura recobrar-se! Mas, nem por isso, deixam de investir contra ele. Bastava para prova da sua inocência mesmo isto, que o homem fosse salvo estando prestes a ser despedaçado, e que, com tão grandes perigos ao seu redor, escapasse a todos eles. "E na noite seguinte o Senhor pôs-se junto a ele, e disse: Tem bom ânimo, Paulo; pois, como testificaste de Mim em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma. E, sendo já dia, ajuntaram-se alguns dos judeus, e se ligaram sob maldição, dizendo que não comeriam nem beberiam até que houvessem matado Paulo. E eram mais de quarenta os que haviam feito esta conjuração" (v. 11-13). "Ligaram-se sob maldição", diz. Vede quão veementes e vingativos são na sua malícia! Que significa "ligados sob maldição"? Por que, então, esses homens são acusados para sempre, visto que não mataram Paulo. E quarenta juntos. Pois tal é a natureza daquela nação: quando é preciso concertar-se para um bom fim, nem sequer dois concordam entre si; mas, quando é para um fim mau, todo o povo o faz. E admitem também os chefes como cúmplices. "E foram aos principais sacerdotes e aos anciãos, e disseram: Ligamo-nos sob grande maldição, a nada comer até que tenhamos matado Paulo. Agora, pois, vós, com o conselho, notificai ao tribuno que o traga amanhã perante vós, como se quisésseis inquirir mais exatamente algo a seu respeito: e nós, antes que ele chegue perto, estaremos prontos para matá-lo. E, ouvindo o filho da irmã de Paulo a cilada, foi, e entrou na fortaleza, e o anunciou a Paulo. E Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este moço ao tribuno, porque tem algo a dizer-lhe. Tomando-o, pois, ele o levou ao tribuno, e disse: Chamou-me Paulo, o preso, e rogou-me que trouxesse a ti este moço, que tem algo a dizer-te. E, tomando-o o tribuno pela mão, e retirando-se à parte, perguntou-lhe em particular: Que é o que tens a dizer-me? E ele disse: Os judeus concordaram em rogar-te que amanhã leves Paulo ao conselho, como se houvessem de inquirir mais exatamente algo a seu respeito. Tu, porém, não te deixes persuadir por eles, porque mais de quarenta homens dentre eles o armam ciladas, os quais se ligaram com juramento a não comer nem beber até que o tenham matado: e agora estão prontos, esperando a tua promessa. Despediu, pois, o tribuno ao moço, ordenando-lhe: A ninguém digas que me revelaste estas coisas" (v. 14-22). De novo é salvo pela previdência humana. E observai: Paulo a ninguém deixa saber disto, nem sequer ao centurião, para que o assunto não se tornasse conhecido. E o centurião, tendo vindo, informou o tribuno. E bem faz também o tribuno, ao ordenar-lhe que o guarde em segredo, para que não se tornasse conhecido: além disso, dá as suas ordens somente aos centuriões, no momento em que a coisa devia ser feita: e assim Paulo é enviado a Cesareia, para que também ali discorresse em teatro maior e diante de auditório mais esplêndido: de modo que os judeus não pudessem dizer: "Se tivéssemos visto Paulo, teríamos crido — se o tivéssemos ouvido ensinar." Corta-se-lhes, pois, também esta desculpa. "E o Senhor", diz, "pôs-se junto a ele, e disse: Tem bom ânimo; pois, como testificaste de Mim em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma." (Contudo,) mesmo depois de lhe ter aparecido, torna a permitir que seja salvo por meios humanos. E bem se pode admirar Paulo: não ficou perturbado, nem disse: "Ora, que é isto? Fui, pois, enganado por Cristo?" mas creu; contudo, por ter crido, não por isso dormiu: não; aquilo que estava em seu próprio poder por meio da sabedoria humana, não o abandonou. "Ligaram-se por
De novo discorre simplesmente como homem, e nem em todas as ocasiões desfruta igualmente do auxílio sobrenatural. Eu sou fariseu, filho de fariseu: tanto nisto quanto no que se segue, quis dividir a multidão, que tinha contra ele uma má unanimidade. E tampouco diz aqui falsidade: pois era fariseu por descendência dos seus antepassados. Pela esperança e ressurreição dos mortos sou posto em juízo. Pois, como não quisessem dizer por que razão o acusavam, é ele obrigado, portanto, a declará-la ele mesmo. Mas os fariseus, diz, confessam ambas as coisas. E, no entanto, são três coisas: como, pois, diz ambas? Espírito e anjo é posto como uma só. Quando ele está do lado deles, então advogam por ele. E levantou-se grande clamor: e os escribas do partido dos fariseus levantaram-se e contendiam, dizendo: Nenhum mal achamos neste homem; e que, se algum espírito lhe falou, ou algum anjo?
Por que não intercederam por ele antes disso? Observais como, quando as paixões cedem, a verdade se descobre? Qual é o crime, dizem eles, se um anjo lhe falou, ou um espírito? Paulo não lhes dá pretexto algum contra si. E, levantando-se grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por eles, ordenou aos soldados que descessem e o arrebatassem do meio deles à força, e o levassem para a fortaleza.
O tribuno teme que ele seja despedaçado, agora que disse ser romano: e o caso não era isento de perigo. Observais como Paulo tinha direito de professar-se romano? Do contrário, também o tribuno não temeria agora. Resta, pois, que os soldados o arrebatem à força. Mas quando os ínfimos viram que tudo era em vão, tomam o assunto inteiramente em suas próprias mãos, como já de bom grado o teriam feito antes, se não tivessem sido impedidos: e a maldade deles em nada se detém, ainda que tenha recebido tantos freios: e, contudo, quantas coisas foram ordenadas providencialmente, justamente para que se acalmassem de seu furor e aprendessem aquilo por meio do qual, porventura, pudessem recobrar-se! Mas nem por isso deixam de investir contra ele. Bastava, para prova de sua inocência, isto mesmo: que o homem fosse salvo no ponto de ser despedaçado, e que, com tantos e tão grandes perigos ao redor, escapasse de todos eles. E, na noite seguinte, o Senhor pôs-se junto a ele e disse: Tem bom ânimo, Paulo; pois, assim como testificaste de Mim em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma. E, ao amanhecer, alguns dos judeus se ajuntaram e juraram sob maldição, dizendo que não comeriam nem beberiam até matarem Paulo. E eram mais de quarenta os que haviam feito esta conjuração.
Juraram sob maldição, diz o texto. Vede quão veementes e vingativos são em sua malícia! Que significa juraram sob maldição? Por isso mesmo esses homens ficam para sempre acusados, visto que não mataram Paulo. E quarenta juntos. Pois tal é a natureza daquela nação: quando se trata de concertar-se para um bom propósito, nem dois sequer concordam entre si; mas quando é para um propósito mau, o povo inteiro o faz. E admitem também os chefes como cúmplices. E foram aos principais sacerdotes e aos anciãos, e disseram: Juramo-nos sob grande maldição de nada comer até que matemos Paulo. Agora, pois, vós com o conselho notificai ao tribuno que o traga amanhã à vossa presença, como se quisésseis inquirir mais exatamente algo a respeito dele; e nós, antes que ele se aproxime, estaremos prontos para matá-lo. E, ouvindo o filho da irmã de Paulo a respeito da cilada, foi, entrou na fortaleza e o anunciou a Paulo. Então Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este moço ao tribuno, porque tem algo a dizer-lhe. Tomando-o, pois, o levou ao tribuno e disse: Paulo, o preso, chamou-me e rogou-me que trouxesse a ti este moço, que tem algo a dizer-te. E o tribuno, tomando-o pela mão, e retirando-se à parte com ele, perguntou-lhe em particular: Que é o que tens a dizer-me? E ele disse: Os judeus combinaram rogar-te que amanhã leves Paulo ao conselho, como se quisessem inquirir mais exatamente algo a respeito dele. Tu, porém, não lhes dês ouvidos, pois mais de quarenta homens dentre eles lhe armam cilada, os quais se juraram sob voto de nada comer nem beber até que o matem; e agora estão prontos, aguardando a tua promessa. Então o tribuno despediu o moço, ordenando-lhe: Não digas a ninguém que me revelaste estas coisas.
Que zelo é este todo? Que o traga, diz o texto, à tua presença, como se quisésseis inquirir mais exatamente a respeito de seu caso.
Não vos fez ele já duas vezes um discurso? Não disse ele que é fariseu? Que (quereríeis vós) além disto? Tão temerários eram, e de nada tinham medo, nem dos tribunais, nem das leis: tal era a audácia deles, que de nada recuava. Declaram ao mesmo tempo o seu propósito e anunciam o modo de o executar. O filho da irmã de Paulo ouviu falar disto.
Foi por providência de Deus que eles não perceberam que seriam ouvidos. Que fez, pois, Paulo? Não se alarmou, mas percebeu que isto era obra de Deus: e, lançando tudo sobre Ele, assim se desincumbe do cuidado ulterior (com o assunto), tendo chamado a si um dos centuriões, etc.
Ele contou a cilada, foi acreditado; é salvo. Se foi absolvido da acusação, por que enviou o tribuno os acusadores? Para que a investigação fosse mais rigorosa: para que o homem fosse mais inteiramente inocentado. Tais são os desígnios de Deus: pelas mesmíssimas coisas por que somos feridos, por essas mesmas somos beneficiados. Assim foi com José: sua senhora buscou arruiná-lo; e, na verdade, parecia tramar sua ruína, mas por sua trama o colocou em estado de segurança: pois a casa onde aquela fera (de mulher) era guardada era um covil, em comparação com o qual o cárcere era ameno. Gn 39,1-20. Pois, enquanto ali esteve, ainda que fosse respeitado e cortejado, vivia em constante temor de que sua senhora o assaltasse, e pior que qualquer cárcere era o temor que sobre ele pesava; mas depois da acusação esteve em segurança e paz, livre daquela fera, de sua lascívia e de suas maquinações para sua destruição: pois melhor lhe era conviver com criaturas humanas em estado miserável do que com uma senhora enlouquecida. Ali se consolava, porque por causa da castidade nele havia caído; aqui vivera em pavor, temendo receber um golpe mortal na alma: pois nada no mundo é mais penoso do que uma mulher apaixonada pode ser para um jovem que não lhe corresponde às investidas; nada mais detestável (do que uma mulher em tal condição), nada mais cruel: todos os grilhões do mundo são leves em comparação com este. De modo que o fato não foi que ele entrasse no cárcere, mas que saísse do cárcere. Ela fez de seu senhor um inimigo, mas fez de Deus um amigo: aproximou-o mais estreitamente d'Aquele que é, na verdade, o verdadeiro Senhor; expulsou-o de sua mordomia na família, mas fez dele um amigo íntimo daquele Senhor. Novamente, seus irmãos o venderam Gn 37,18; mas com isso o livraram de ter inimigos morando na mesma casa que ele, da inveja e de muita malquerença, e de maquinações diárias para sua ruína: colocaram-no bem longe daqueles que o odiavam. Pois que pode haver pior do que isto: ser obrigado a habitar na mesma casa com irmãos que o invejam; ser objeto de suspeita, ser alvo de desígnios malignos? De modo que, enquanto eles e ela buscavam, cada qual à sua maneira, realizar seus próprios fins, bem diversas eram as poderosas consequências que a Providência de Deus operava para aquele justo. Quando estava em honra, então estava em perigo; quando estava em desonra, então estava em segurança. Os eunucos não se lembraram dele, e muito bem foi que não se lembrassem, para que a ocasião de sua libertação fosse mais gloriosa: para que tudo fosse atribuído, não ao favor humano, mas à Providência de Deus Gn 40,23: para que, no momento oportuno, Faraó, reduzido à necessidade, o fizesse sair; para que o rei, não como quem confere, mas como quem recebe um benefício, o libertasse do cárcere. Gn 41,40. Convinha que não fosse dádiva servil, mas que o rei fosse reduzido à necessidade de fazê-lo: convinha que se manifestasse que sabedoria havia nele. Por isso o eunuco o esquece, para que o Egito não o esquecesse, para que o rei não o ignorasse. Se tivesse sido libertado naquele tempo, é provável que desejasse partir para sua própria terra: por isso é retido por inúmeras coações, primeiro pela sujeição a um senhor, depois pelo cárcere, terceiro por estar à frente do reino, a fim de que tudo isto fosse realizado pela Providência de Deus. Como a um corcel fogoso que anseia por saltar ao encontro de seus companheiros, assim Deus o reteve ali, por causas cheias de glória. Pois que ele ansiava por ver seu pai e livrá-lo de sua aflição é evidente por havê-lo chamado para junto de si. Gn 45,9.
Olharemos para outros exemplos de desígnios malignos, e como eles se voltam para o nosso bem, não somente por receberem sua recompensa, mas também por operarem, naquele mesmo momento, precisamente aquilo que nos é proveitoso? Este tio (de José, Esaú) tinha maus desígnios contra seu pai (Jacó), e o expulsou de sua terra natal: que se seguiu? Gn 27,41. Também ele, com isso, o pôs a salvo do perigo; pois também ele, por isso, veio a estar em segurança. Fê-lo homem mais sábio e melhor (φιλοσοφώτερον); foi o meio de ele ter aquele sonho. Gn 28,12. Mas, direis, foi escravo em terra estrangeira? Sim, mas chega até os seus próprios parentes, recebe uma esposa e se mostra digno perante seu sogro. Gn 29,23. Mas também este o enganou? Sim, mas isto também se voltou para seu bem, para que fosse pai de muitos filhos. Mas ele tinha em mente tramar o mal contra ele? É verdade, mas até isto foi para seu bem, para que assim retornasse à sua própria terra; pois, se estivesse em boas circunstâncias, não teria tanta saudade do lar. Mas o defraudou de seu salário? Sim, mas por esse mesmo meio ele obteve mais. Gn 31,7. Assim, em cada ponto da história destes homens, quanto mais as pessoas tramavam seu dano, tanto mais prosperavam seus negócios. Se Jacó não tivesse recebido a filha mais velha, não teria sido tão cedo pai de tantos filhos; teria arrastado por longo tempo sua esterilidade, teria lamentado como sua esposa lamentava. Pois esta, na verdade, tinha razão para lamentar, por não ter-se tornado mãe (Gn 30,1-2); mas ele tinha o seu consolo: donde também lhe dá uma recusa. Ainda, se Labão não o tivesse defraudado de seu salário, não teria tido saudade de ver sua própria terra; as qualidades mais elevadas (φιλοσοφία) do caráter deste homem não teriam vindo à luz, suas esposas não se teriam apegado a ele mais estreitamente. Pois vede o que dizem: Com devorar nos devorou a nós e ao nosso dinheiro. Gn 31,15. De modo que isto se tornou o meio de firmar o amor delas por ele. Depois disto, ele tinha nelas não apenas esposas, mas servas devotadas; era amado por elas: coisa à qual nenhuma posse se pode igualar: pois nada, absolutamente nada, é mais precioso do que ser assim amado por uma esposa e amá-la. E uma esposa, diz a Escritura, que concorda com seu marido. Eclo 25,1. Um homem e uma esposa que concordam [truncado]
De novo é salvo pela previdência humana. E observai: Paulo não deixa que ninguém saiba disto, nem mesmo o centurião, para que o assunto não se tornasse conhecido. E o centurião, tendo vindo, informou ao tribuno. E bem fez também o tribuno, ao ordenar-lhe que o guardasse em segredo, para que não se tornasse conhecido: além disso, dá suas ordens apenas aos centuriões, no momento em que a coisa devia ser feita: e assim Paulo é enviado a Cesareia, para que também ali discorresse em teatro maior e diante de auditório mais esplêndido: para que assim os judeus não pudessem dizer: Se tivéssemos visto Paulo, teríamos crido — se o tivéssemos ouvido ensinar. Por isso também esta desculpa lhes é cortada. E o Senhor, diz o texto, pôs-se junto a ele e disse: Tem bom ânimo: pois, assim como testificaste de Mim em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma. Contudo, mesmo depois de lhe ter aparecido, permite de novo que ele seja salvo por meios humanos. E bem se pode admirar Paulo; não se perturbou, nem disse: Ora, que é isto? Fui, pois, enganado por Cristo? Mas creu: contudo, porque creu, não por isso dormiu: não; aquilo que estava em seu próprio poder por meio da sabedoria humana, não o abandonou. Juraram-se sob maldição: era uma espécie de necessidade que aqueles homens impunham a si mesmos pela maldição. Que não comeriam nem beberiam. Eis o jejum, mãe do homicídio! Assim como Herodes impôs a si mesmo aquela necessidade por seu juramento, assim também estes. Pois tais são os modos do diabo: sob o pretexto, ao que parece, de piedade, arma ele as suas ciladas. E foram aos principais sacerdotes, etc. E, no entanto, deviam ter ido ao tribuno, deviam ter apresentado a acusação e reunido um tribunal de justiça: pois estas não são obras de sacerdotes, mas de capitães de bandoleiros; estas não são obras de governantes, mas de facínoras. Procuram também corromper o governante: mas foi providencialmente ordenado que também ele viesse a conhecer a trama deles. Pois não somente por nada terem a dizer, mas também por sua tentativa secreta, condenam-se a si mesmos como nulidade. É provável também que, depois de Paulo ter partido, os principais sacerdotes tenham ido ao tribuno fazer o seu pedido, e ficassem envergonhados. Pois certamente ele não gostaria nem de negar nem de conceder o pedido deles. Como veio ele a crer no relato do moço? Creu-o em consequência do que já havia sucedido; porque era provável que fizessem também isto. E observai a maldade deles: quase impuseram uma necessidade também aos principais sacerdotes: pois, se eles mesmos empreenderam coisa tão grande, e se comprometeram em todo o risco, muito mais deviam aqueles fazer outro tanto. Observais como Paulo é tido por inocente por parte dos de fora, assim como também Cristo o foi por Pilatos? Vede a malícia deles reduzida a nada: entregaram-no para matá-lo e condená-lo; mas o resultado é justamente o contrário: ele é ao mesmo tempo salvo e tido por inocente. Pois, se não fosse assim, teria sido despedaçado: se não fosse assim, teria perecido, teria sido condenado. E não somente o tribuno o livra do assalto feito contra ele, mas também de muita outra violência: vede como se torna seu ministro, a ponto de ele ser levado a salvo, sem risco, com tão grande força. E chamou a si dois centuriões, dizendo: Aprontai duzentos soldados para irem a Cesareia, e setenta cavaleiros, e duzentos lanceiros, à terceira hora da noite; e provede-lhes cavalgaduras, para que façam montar Paulo, e o levem a salvo a Félix, o governador. E escreveu uma carta nestes termos: Cláudio Lísias ao excelentíssimo governador Félix, saudações. Este homem foi preso pelos judeus, e estava para ser morto por eles: então vim eu com uma tropa e o livrei, tendo sabido que era romano. E, querendo saber a causa por que o acusavam, levei-o ao conselho deles: e achei que era acusado de questões da lei deles, mas que nada tinha contra si que merecesse morte ou prisão. E, sendo-me revelado que os judeus armavam cilada contra este homem, enviei-o logo a ti, ordenando também aos seus acusadores que dissessem diante de ti o que tinham contra ele. Passa bem.
Vede como a carta fala em sua defesa — pois diz: Nada achei nele digno de morte. Mas isto se torna antes acusação contra eles do que contra ele. Estava ele prestes a ser morto por eles: tão decididos estavam à sua morte. Primeiro vim com a tropa e o livrei; depois também o conduzi até eles, e nem assim encontraram algo de que o acusar; e quando deveriam estar tomados de temor e vergonha pelo ato anterior, tentam de novo matá-lo, de sorte que sua causa se tornou ainda mais manifesta. E seus acusadores, diz ele, enviei a ti, para que, no tribunal onde estas coisas se examinam com mais rigor, se prove sua inocência.
Como a certos reis que sua guarda escolta, assim conduziram estes a Paulo; e em tal número, e de noite, por temor da ira do povo. Dirás então que, uma vez tirado da cidade, cessaram de sua violência? De modo nenhum. Mas o tribuno não o teria enviado com tamanho cuidado por sua segurança, senão porque, não tendo ele mesmo encontrado nele nada de mau, conhecia a disposição assassina de seus adversários. E, tendo o governador lido a carta, perguntou de que província era; e, sabendo que era da Cilícia, disse-lhe: Ouvir-te-ei quando também chegarem teus acusadores (At 23,34-35). Já Lísias havia falado em sua exculpação; mas os judeus buscam prevenir o ouvinte. E ordenou que fosse guardado no pretório de Herodes (At 23,35): de novo Paulo é posto em prisões. E, cinco dias depois, desceu o sumo sacerdote Ananias com os anciãos. Vede como, apesar de tudo isso, não desistem; impedidos que eram por obstáculos sem conta, ainda assim vêm, só para serem também aqui envergonhados. E com um certo orador, Tértulo. E que necessidade havia de um orador? Os quais compareceram diante do governador para acusar a Paulo (At 24,1). Vede como também este, já desde o princípio, com seus elogios busca prevenir o juiz. E, sendo chamado, começou Tértulo a acusá-lo, dizendo: Visto que por ti gozamos de grande paz, e que por tua providência se fazem a esta nação obras muito dignas, em tudo e por toda parte o reconhecemos, ó nobilíssimo Félix, com toda gratidão (At 24,2-3). Depois, como tendo muito que dizer, passa adiante do resto: Mas, para não te ser mais importuno, rogo-te que, com tua clemência, nos ouças por poucas palavras. Porque encontramos este homem pestilento, e promotor de sedições entre todos os judeus pelo mundo todo. Como a um revolucionário e sedicioso, deseja entregá-lo. E, no entanto, poder-se-ia responder, sois vós que fizestes isso. E vede como ele instiga o juiz ao desejo de punir, tendo aqui ocasião de coagir o homem que transtornou o mundo! Como se tivessem realizado uma obra meritória, disso se gabam: tendo encontrado este homem, dizem, promotor de sedição entre todos os judeus pelo mundo todo — se tal fosse, tê-lo-iam proclamado benfeitor e salvador da nação! E cabeça da seita dos nazarenos (At 24,4-5). Julgaram que isto serviria de opróbrio — dos nazarenos — e por isso também buscam denegri-lo, pois Nazaré era lugar desprezível. E, encontramo-lo, dizem: vede com que malícia o caluniam — encontramo-lo, como se ele sempre lhes escapasse, e a custo tivessem conseguido apanhá-lo, quando ele estivera sete dias no templo! O qual também tentou profanar o templo; e o prendemos (At 24,6). Vede como ultrajam até a Lei; como se fosse tão próprio da Lei espancar, matar, armar ciladas! E depois a acusação contra Lísias: não tendo ele direito, dizem, de intervir, no excesso de sua confiança arrancou-o de nossas mãos — examinando-o tu mesmo, poderás tomar conhecimento de tudo isto de que o acusamos. E os judeus também assentiram, dizendo que estas coisas eram assim (At 24,7-9). Que diz então Paulo? Então Paulo, tendo o governador lhe aceno que falasse, respondeu: Sabendo eu que há muitos anos és juiz desta nação, com tanto mais ânimo respondo por mim mesmo (At 24,10). Isto não é linguagem de adulação, este seu testemunho da justiça do juiz — não; a adulação estava antes naquele discurso do orador: Por ti gozamos de grande paz. Se assim é, por que sois vós sediciosos? O que Paulo buscava era a justiça. Sabendo que és juiz justo, diz ele, com ânimo respondo por mim. Depois também reforça isto pela duração do tempo: que era juiz havia muitos anos. Porque podes entender que não faz senão doze dias que subi a Jerusalém para adorar (At 24,11). E que quer dizer isto? Quer dizer: que eu não poderia ter suscitado imediatamente um tumulto. Porque o acusador nada tinha a mostrar como feito em Jerusalém, observai o que disse: entre todos os judeus pelo mundo todo. Por isso Paulo aqui o atrai com força — para adorar, diz ele, subi — tão longe estou de suscitar sedição — e insiste neste ponto da justiça como sendo o mais forte. E não me encontraram no templo discutindo com ninguém, nem amotinando o povo, nem nas sinagogas, nem na cidade (At 24,12); o que de fato era a verdade. E os acusadores, na verdade, usam o termo cabeça, como se se tratasse de luta e insurreição; mas vede com que mansidão Paulo aqui responde. Mas isto te confesso, que, segundo o caminho a que chamam heresia, assim sirvo ao Deus de meus pais, crendo tudo quanto está escrito na Lei e nos Profetas; e tenho esperança em Deus, a qual eles mesmos também admitem, de que há de haver ressurreição dos mortos, tanto de justos como de injustos (At 24,14-15). Os acusadores o separavam como estranho, mas ele se identifica com a Lei, como um deles mesmos. E nisto, diz ele, me exercito, para ter sempre consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens. Ora, depois de muitos anos, vim trazer esmolas à minha nação, e ofertas; nas quais me encontraram já purificado no templo, não com multidão, nem com tumulto (At 24,16-18). Por que então subiste? Que te trouxe até aqui? Para adorar, diz ele; para fazer esmolas. Isto não era ato de facioso. Depois também rejeita a pessoa deles: mas, diz ele, foram certos judeus da Ásia, os quais deveriam estar aqui presentes diante de ti, e apresentar acusação, se tinham algo contra mim. Ou então que estes mesmos aqui digam, se acharam algum mal em mim, enquanto eu esta
Observai em toda ocasião como os governadores procuram afastar de si o incômodo dos judeus, e são muitas vezes compelidos a agir contra a justiça, e buscam pretextos para adiar: pois certamente não foi por ignorância que ele adiou a causa, mas por bem conhecê-la. E também sua esposa ouve, juntamente com o governador.
Vede quanta investigação minuciosa fazem os muitos, no longo curso do tempo, para que não se diga que o julgamento foi apressado. Pois, tendo o orador feito menção de Lísias, que o arrebatara com violência, Félix, diz o texto, os adiou. Tendo conhecimento daquele caminho: isto é, adiou-os de propósito — não porque quisesse aprender, mas por desejar livrar-se dos judeus. Por causa deles, não queria soltá-lo; puni-lo não era possível, isso teria sido (por demais) descarado. E que lhe fosse dada certa liberdade, e que a nenhum dos seus se proibisse assisti-lo. Assim também ele o absolveu inteiramente das acusações. Contudo, para agradar-lhes, o deteve; e, além disso, esperando receber dinheiro, mandou chamar Paulo. E, alguns dias depois, vindo Félix com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar a Paulo, e o ouviu acerca da fé em Cristo. E, discorrendo ele sobre a justiça, a temperança (isto é, o domínio de si ou a castidade) e o juízo vindouro, Félix, aterrorizado, respondeu: Por agora vai-te; quando eu tiver ocasião oportuna, te chamarei. Esperava também que Paulo lhe desse dinheiro para soltá-lo; por isso o mandava chamar mais amiúde, e com ele conversava. Mas, passados dois anos, sucedeu a Félix Pórcio Festo; e Félix, querendo agradar aos judeus, deixou Paulo preso (At 24,24-27). Vede quão conformes à verdade são as coisas escritas. Mas o mandava chamar frequentemente, não porque o admirasse, nem porque aprovasse o que dizia, nem porque quisesse crer — mas por quê? Esperando, diz o texto, que Paulo lhe desse dinheiro. Observai como aqui não se oculta a disposição do juiz. Por isso o mandava chamar, etc. E, no entanto, se o tivesse condenado, não teria feito isso, nem quereria ouvir um homem condenado e de má fama. E observai Paulo: como, ainda que discorrendo diante de um governante, nada diz do gênero que costuma divertir e entreter, mas — discorria, diz o texto — sobre a justiça, e sobre o juízo vindouro, e sobre a ressurreição. E tal era a força de suas palavras, que até o governador aterrorizaram. A este sucede outro no cargo, e ele deixa Paulo prisioneiro; e, no entanto, não deveria ter feito isso — deveria ter posto fim ao caso; mas o deixa, por modo de agradar-lhes. Eles, porém, foram tão insistentes, que de novo suplicaram ao juiz. Contra nenhum dos apóstolos, todavia, se haviam mostrado assim pertinazes; ali, quando atacavam, logo desistiam. Assim, providencialmente, é ele removido de Jerusalém, tendo de lidar com tais feras. E eles, não obstante, pedem que fosse de novo levado ali para ser julgado. Ora, tendo Festo entrado na província, três dias depois subiu de Cesareia a Jerusalém. Então o sumo sacerdote e os principais dos judeus lhe apresentaram queixa contra Paulo, e lhe rogavam, pedindo o favor contra ele, que o mandasse trazer a Jerusalém, armando ciladas para matá-lo no caminho (At 25,1-3). Aqui interveio a providência de Deus, não permitindo ao governador fazer isso: pois era natural que ele, recém-chegado ao governo, quisesse agradá-los; mas Deus não o permitiu. Mas Festo respondeu que Paulo fosse guardado em Cesareia, e que ele mesmo partiria em breve para lá. Que desçam, pois, disse ele, os que dentre vós são capazes, e acusem este homem, se há nele alguma maldade. E, tendo-se demorado entre eles mais de dez dias, desceu a Cesareia; e, no dia seguinte, assentando-se no tribunal, mandou trazer Paulo (At 25,4-6). Mas, assim que desceram, logo fizeram suas acusações sem pejo e com maior veemência; e, não tendo podido convencê-lo em matéria de Lei, de novo, segundo seu costume, suscitaram a questão de César, exatamente como haviam feito no caso de Cristo. Que a isto recorreram manifesta-se pelo fato de que Paulo se defende quanto a ofensas contra César. E, chegando ele, os judeus que haviam descido de Jerusalém o rodearam, trazendo contra Paulo muitas e graves acusações, que não podiam provar; alegando ele, em sua defesa: Nem contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem tampouco contra César, cometi ofensa alguma. Mas Festo, querendo agradar aos judeus, respondeu a Paulo, e disse: Queres subir a Jerusalém, e ali ser julgado destas coisas perante mim? (At 25,7-9). Por isso também este agrada aos judeus, a todo o povo e à cidade. Sendo assim, Paulo também o aterroriza, usando de arma humana para sua defesa. Disse então Paulo: Ante o tribunal de César estou, onde convém que eu seja julgado; aos judeus nenhum agravo fiz, como tu muito bem sabes. Pois, se sou ofensor, ou cometi algo digno de morte, não me recuso a morrer; mas, se nada há daquilo de que estes me acusam, ninguém pode entregar-me a eles. Apelo para César (At 25,10-11). Poderia alguém dizer: Como é que, tendo-lhe sido dito, Também em Roma me hás de dar testemunho (At 23,11), ele, como se descresse, fez isto? De modo nenhum: antes o fez porque cria com tanta firmeza. Pois teria sido tentar a Deus ousar por causa daquela declaração, e lançar-se em perigos sem conta, e dizer: Vejamos se Deus é capaz de livrar-me ainda assim. Mas não é assim que faz Paulo; não — ele faz a sua parte, tudo quanto está em seu poder, confiando o resto todo a Deus. Serenamente também repreende o governador: pois, diz ele, se sou ofensor, fazes bem; mas, se não, por que me entregas? Ninguém, diz ele, pode sacrificar-me. Meteu-lhe medo, de modo que, ainda que o quisesse, não poderia sacrificá-lo a eles; ao mesmo tempo, como desculpa perante eles, tinha a alegar a apelação de Paulo. Então Festo, tendo deliberado com o conselho, respondeu: Apelaste para César? Para César irás
Vede quanta investigação minuciosa fazem os muitos, no longo curso do tempo, para que não se diga que o julgamento foi apressado. Pois, tendo o orador feito menção de Lísias, que o arrebatara com violência, Félix, diz o texto, os adiou. Tendo conhecimento daquele caminho: isto é, adiou-os de propósito — não porque quisesse aprender, mas por desejar livrar-se dos judeus. Por causa deles, não queria soltá-lo; puni-lo não era possível, isso teria sido (por demais) descarado. E que lhe fosse concedida liberdade, e que a nenhum dos seus se proibisse assisti-lo. Assim também ele o absolveu inteiramente das acusações. Contudo, para agradar-lhes, o deteve; e, além disso, esperando receber dinheiro, mandou chamar Paulo. E, alguns dias depois, vindo Félix com sua mulher Drusila, que era judia, mandou chamar a Paulo, e o ouviu acerca da fé em Cristo. E, discorrendo ele sobre a justiça, a temperança (isto é, o domínio de si ou a castidade) e o juízo vindouro, Félix, tremendo, respondeu: Por agora vai-te; quando eu tiver ocasião oportuna, te chamarei. Esperava também que Paulo lhe desse dinheiro para soltá-lo; por isso o mandava chamar mais amiúde, e com ele conversava. Mas, passados dois anos, sucedeu a Félix Pórcio Festo; e Félix, querendo agradar aos judeus, deixou Paulo preso.
Isto me parece mostrar grande honra. Pois não teria ele trazido sua esposa para estar presente consigo na audiência, se não tivesse dele grande conceito. Parece-me também que ela mesma desejava isto. E observai como Paulo discorre imediatamente não só sobre a fé, nem só sobre a remissão dos pecados, mas também sobre pontos práticos de conduta. Vai-te, diz ele, por agora; quando eu tiver ocasião oportuna, te chamarei.
Observai a dureza de seu coração: ouvindo tais coisas, esperava ainda receber dele dinheiro!
E não somente isso, mas até depois de conversar com ele — pois já era para o fim de seu governo — deixou-o preso, querendo agradar aos judeus.
de modo que não somente cobiçava o dinheiro, mas também a glória. Como, ó miserável, podes esperar dinheiro de um homem que prega o contrário? Mas que não o obteve, manifesto está por havê-lo deixado preso; tê-lo-ia soltado, se o houvesse recebido. Da temperança, diz, discorria Paulo; mas o outro andava a sofregar por receber dinheiro daquele que discorria sobre tais coisas! E pedir, na verdade, não ousava: pois tal é a malícia; mas o esperava. E, cumpridos dois anos, etc.
Vede quão próximas da verdade são as coisas escritas. Mas ele o mandava chamar frequentemente, não porque o admirasse, nem porque louvasse as coisas ditas, nem porque desejasse crer; mas por quê? Esperando, diz, que lhe fosse dado dinheiro. Observai como aqui não se oculta o pensamento do juiz. Por isso o mandava chamar, etc. E, contudo, se o houvesse condenado, não teria feito isto, nem desejaria ouvir um homem condenado e de mau caráter. E observai Paulo: como, ainda que arrazoando com um governante, nada diz do gênero que costuma divertir e entreter, mas discorria, diz, acerca da justiça, e do juízo vindouro, e da ressurreição. E tal era a força de suas palavras, que até aterrorizaram o governador. A este sucede outro no cargo, e ele deixa Paulo prisioneiro; e, contudo, não deveria ter feito isso: deveria ter posto fim ao caso; mas o deixa, por complacer-lhes. Eles, porém, eram tão insistentes, que de novo suplicaram ao juiz. Contudo, contra nenhum dos Apóstolos se haviam mostrado assim tão pertinazes; ali, quando atacavam, logo desistiam. Assim, providencialmente, é ele removido de Jerusalém, tendo de tratar com tais feras. E eles, não obstante, pedem que fosse de novo trazido para ali ser julgado. Ora, tendo Festo chegado à província, três dias depois subiu de Cesareia a Jerusalém. Então o sumo sacerdote e os principais dos judeus o informaram contra Paulo, e lhe suplicaram, e pediram como favor contra ele que o mandasse chamar a Jerusalém, armando cilada no caminho para o matar.
Aqui, então, interveio a providência de Deus, não permitindo que o governador fizesse isto: pois era natural que ele, tendo acabado de assumir o governo, desejasse complacer-lhes; mas Deus não o permitiu. Mas Festo respondeu que Paulo fosse guardado em Cesareia, e que ele mesmo partiria em breve para lá. Que desçam, pois, disse ele, aqueles dentre vós que são capazes, e acusem este homem, se houver nele alguma malícia. E, tendo entre eles permanecido mais de dez dias, desceu a Cesareia; e, no dia seguinte, sentando-se no tribunal, ordenou que Paulo fosse trazido.
mostra isto. Deseja ele escapar? Que desçam, pois, diz ele, aqueles dentre vós que são capazes, e o acusem.
De novo os acusadores, de novo em Cesareia, de novo Paulo é trazido. E, tendo chegado, imediatamente se assentou no tribunal
com toda a sua pressa: assim o impeliam, assim o apressavam. Enquanto ainda não se havia familiarizado com os judeus, nem experimentado a honra que lhe prestavam, respondeu corretamente; mas agora, tendo estado dez dias em Jerusalém, também ele deseja comprazê-los (sacrificando-lhes Paulo): então, também para receber Paulo, Queres, diz ele, ser ali julgado destas coisas perante mim?
Mas, depois que desceram, imediatamente fizeram suas acusações sem pejo e com maior veemência; e, não tendo podido convencê-lo com base na Lei, de novo, segundo seu costume, suscitaram a questão acerca de César, sendo isto exatamente o que fizeram no caso de Cristo. Pois que a isto recorreram é manifesto pelo fato de que Paulo se defende quanto a ofensas contra César. E, tendo ele chegado, os judeus que haviam descido de Jerusalém o rodearam, e apresentaram contra Paulo muitas e graves acusações, que não podiam provar. Defendendo-se ele, dizia: Nem contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem tampouco contra César, em nada ofendi. Mas Festo, querendo comprazer aos judeus, respondeu a Paulo e disse: Queres subir a Jerusalém, e ali ser julgado destas coisas perante mim?
Não estou a entregá-lo a eles — mas assim se deu o fato — e ele deixa o ponto à própria escolha deste, para que, por essa marca de respeito, pudesse persuadi-lo a ceder: pois a sentença era dele, e teria sido demasiado descarado, não tendo sido Paulo condenado em nada ali, reconduzi-lo para lá. Mas Paulo disse: Ao tribunal de César estou eu, etc.
Por isso também ele agrada aos judeus, a todo o povo e à cidade. Sendo esse o caso, Paulo o aterroriza a ele também, usando uma arma humana para sua defesa. Então disse Paulo: Estou perante o tribunal de César, onde devo ser julgado; aos judeus não fiz nenhum mal, como tu mesmo muito bem sabes. Pois se sou ofensor, ou tenho cometido algo digno de morte, não recuso morrer: mas se nada há daquilo de que estes me acusam, ninguém pode entregar-me a eles. Apelo para César.
Ele não disse "não quero", para não tornar o juiz mais veemente, mas eis aqui, de novo, a sua grande ousadia: eles mesmos me expulsaram de uma vez por todas, e com isto pensam condenar-me, ao mostrarem que ofendi contra César: perante o seu tribunal escolho ser julgado, perante o tribunal do próprio ofendido. Aos judeus não fiz nenhum mal, como tu mesmo também muito bem sabes. Aqui, então, ele o repreendeu, por também querer sacrificá-lo aos judeus: depois, por outro lado, ele relaxa (a aspereza de) seu discurso: se, pois, sou ofensor, ou tenho cometido algo digno de morte, não recuso morrer. Profiro sentença contra mim mesmo. Pois, junto com a ousadia de discurso, deve haver também justiça de causa, de modo a envergonhar (o ouvinte). Mas se não há nada nas coisas de que estes me acusam, ninguém — por mais que o deseje — ninguém pode sacrificar-me para agradá-los. Ele não disse: não sou digno de morte, nem: sou digno de absolvição, mas: estou pronto para ser julgado perante César. Ao mesmo tempo, lembrando-se do sonho, ele se sentia mais confiante para apelar. E ele não disse: Tu não (podes), mas: nem qualquer outro homem pode sacrificar-me, para que não fosse afronta a ele. Então Festo, tendo conferenciado com o conselho — observai como ele busca agradá-los? Pois isto é favor — tendo conferenciado, diz, com o conselho, ele disse: Apelaste para César? Para César irás.
Poderia alguém dizer: como é que, tendo-lhe sido dito, "também deves dar testemunho de Mim em Roma" (At 23:11), ele, como se descrente, fez isto? Longe disso: antes, ele o fez porque cria tão fortemente. Pois teria sido tentar a Deus ser ousado por causa daquela declaração, e lançar-se em inúmeros perigos, e dizer: vejamos se Deus é capaz de me libertar mesmo assim. Mas não é assim que age Paulo; não, ele faz a sua parte, tudo quanto está nele, confiando o todo a Deus. Serenamente também repreende o governador: pois, se, diz ele, sou ofensor, fazes bem: mas se não, por que me entregas? Ninguém, diz ele, pode sacrificar-me. Ele o fez temer, de modo que, ainda que quisesse, não poderia sacrificá-lo a eles; enquanto também, como desculpa perante eles, tinha o apelo de Paulo a alegar. Então Festo, tendo conferenciado com o conselho, respondeu: Apelaste para César? Para César irás. E, passados alguns dias, o rei Agripa e Berenice vieram a Cesareia saudar Festo.
Vede como o seu julgamento de novo se prolonga, e como o complô contra ele se torna ocasião para a pregação: de modo que, com facilidade e sob custódia segura, ele fosse levado a Roma, sem ninguém para tramar o mal contra ele: pois não era a mesma coisa vir ele simplesmente até lá, e vir por tal causa. Pois, de fato, foi isto que fez os judeus se reunirem ali (At 28:17). Depois, de novo, passa-se algum tempo enquanto ele se demora em Jerusalém, para que aprendais que, ainda que algum tempo tenha passado, o desígnio maligno contra ele em nada prevalece, não o permitindo Deus. Mas este rei Agripa, que também era um Herodes, era um Agripa diferente, posterior àquele do tempo de Tiago, de modo que este é o quarto (Herodes). Vede como os seus inimigos cooperam com ele contra a própria vontade. Para tornar grande a audiência, Agripa cai em desejo de ouvir: e ele não ouve simplesmente, mas com muito aparato. E vede que apologia (απολογιαν)! Assim escreve Festo, e a crueldade dos judeus é abertamente exposta: pois quando é o governador quem diz estas coisas, ele é testemunha acima de toda suspeita: de modo que os judeus são condenados também por ele. Pois, quando todos tinham pronunciado sentença contra eles, então, e não antes, Deus traz sobre eles o castigo. Mas observai: Lísias sentenciou contra eles, Félix contra eles, Festo contra eles — embora quisesse agradá-los — Agripa contra eles. Que mais? Os fariseus — mesmo eles sentenciaram contra si próprios. Nenhum mal, diz Festo, de tais coisas quanto eu supunha: nenhuma acusação trouxeram contra ele.
Observai: ele comunica o assunto a Agripa, para que houvesse, mais uma vez, outros ouvintes, tanto o rei quanto o exército e Berenice. Segue-se então um discurso em sua exculpação. E, tendo eles estado ali por muitos dias, Festo declarou ao rei a causa de Paulo, dizendo: Há certo homem deixado em prisão por Félix; a respeito de quem, estando eu em Jerusalém, os principais sacerdotes e os anciãos dos judeus me informaram, desejando obter sentença contra ele. A quem respondi que não é costume dos romanos entregar homem algum à morte, antes que o acusado tenha os acusadores face a face, e tenha permissão de responder por si mesmo quanto ao crime que lhe é imputado. Portanto, tendo eles vindo aqui, sem qualquer demora, no dia seguinte sentei-me no tribunal e ordenei que o homem fosse trazido. Contra quem, levantando-se os acusadores, não trouxeram acusação de tais coisas quanto eu supunha: mas tinham contra ele certas questões da própria superstição deles, e a respeito de um certo Jesus, que estava morto, o qual Paulo afirmava estar vivo. E, porquanto estava em dúvida quanto a tais questões, perguntei-lhe se queria ir a Jerusalém e ali ser julgado destas coisas. Mas, tendo Paulo apelado para ser reservado ao julgamento de Augusto, ordenei que fosse guardado até que eu pudesse enviá-lo a César. Então Agripa disse a Festo: Eu também gostaria de ouvir o homem pessoalmente. Amanhã, disse ele, o ouvirás.
E, no entanto, trouxeram-na sim: é verdade, mas não a provaram: pois o seu desígnio maligno e o audacioso complô contra ele deram motivo para presumir isto, mas o exame nada revelou de tal natureza. E a respeito de um certo Jesus, diz ele, que estava morto.
Ele diz, bastante naturalmente, "de um certo" (Jesus), como quem é homem investido de cargo, e não se importa com estas coisas. E, quanto a mim, não sabendo o que fazer com a investigação a respeito destas coisas.
sem dúvida, isso ultrapassava a audiência de um juiz, o exame destas questões. Se estás em dificuldade, por que o arrastas a Jerusalém? Mas o outro não se dignou a isso: não, Para César (diz ele); pois de fato era acerca de César que o acusavam. Ouvis a apelação? Ouvis a intriga dos judeus? Ouvis seu espírito faccioso? Todas estas coisas o moveram ao desejo (de ouvi-lo): e ele lhes concede essa satisfação, e Paulo se torna mais célebre. Pois tais, como disse, são os desígnios maus (dos inimigos). Se estas coisas não tivessem sido assim, nenhum destes governantes se teria dignado a ouvi-lo, nenhum o teria ouvido com tal quietude e silêncio. E ele parece, na verdade, estar ensinando, parece estar fazendo uma defesa; mas antes faz uma arenga pública com muita ordem. Não pensemos, pois, que os desígnios maus contra nós sejam coisa grave. Enquanto não fizermos desígnios maus contra nós mesmos, ninguém poderá ter desígnios maus contra nós: ou antes, os homens podem até fazê-lo, mas não nos causam dano algum; antes, até nos beneficiam no mais alto grau: pois está em nós mesmos sofrermos o mal, ou não o sofrermos. Eis que testifico, e proclamo em alta voz, mais penetrante ainda que o som de uma trombeta — e se me fosse possível subir ao alto e clamar em voz alta, não hesitaria em fazê-lo — que a nenhum cristão nenhum dos homens que habitam a terra terá poder de causar dano. E por que digo homens? Nem mesmo o próprio Espírito Maligno, o tirano, o Diabo, pode fazer isso, a menos que o próprio homem se prejudique a si mesmo; seja o que for que alguém faça, em vão o faz. Pois, assim como nenhum homem poderia ferir um anjo, se este estivesse na terra, tampouco pode um homem ferir a outro homem. Mas tampouco, por sua vez, poderá ele mesmo ferir a outro, contanto que seja bom. Que coisa, pois, se pode igualar a isto, quando não é possível nem ser ferido, nem ferir a outro? Pois esta coisa não é menor que a primeira: o não querer ferir a outro. Ora, tal homem é uma espécie de anjo, sim, semelhante a Deus. Pois assim é Deus; somente que Ele o é por natureza, mas este homem, por escolha moral: nem um nem outro pode ser ferido, nem ferir a outro. Mas quanto a esta coisa, esta impossibilidade, não penseis que provém de alguma falta de poder — pois o contrário disto é que seria falta de poder — não; falo do moralmente incompatível (τὸ ἀνενδεκτόν). Pois a Natureza (Divina) não é Ela mesma suscetível de dano, nem capaz de causar dano a outrem: visto que isto mesmo, em si, já seria um dano. Pois de nenhum outro modo nos ferimos a nós mesmos senão ferindo a outro, e nossos maiores pecados se tornam tais por causarmos dano a nós mesmos. De sorte que também por esta razão o cristão não pode ser ferido, a saber, porque tampouco pode ferir. Mas como, ao ferir a outros, ferimos a nós mesmos, vinde, tomemos este dito para exame em detalhe. Que um homem prejudique outro, insulte, engane; a quem, pois, feriu? Não a si mesmo em primeiro lugar? Isto é claro para todos. Pois para um, o dano está no dinheiro; para si mesmo, está na alma — para a destruição e para o castigo. De novo, que outro seja invejoso: não é a si mesmo que prejudicou? Pois tal é a natureza da injustiça: a seu próprio autor, em primeiro lugar, causa dano incalculável. Sim, mas também a outro? É verdade, mas nada digno de consideração: ou antes, nem sequer um pouco — antes, até o beneficia. Pois suponhamos — visto que toda a questão reside principalmente nestes exemplos — suponhamos algum homem pobre, tendo pouco patrimônio e (mal) provido do alimento necessário, e outro rico e abastado, e tendo muito poder, e que este tome os bens do pobre, e o despoje, e o entregue à inanição, enquanto ele mesmo se regala com o que injustamente tomou do outro: não somente não feriu em nada aquele homem — antes até o beneficiou —, enquanto a si mesmo não somente não beneficiou, mas ainda feriu. Pois como poderia ser de outro modo? Em primeiro lugar, atormentado por uma consciência má, condenando-se a si mesmo dia após dia e sendo condenado por todos os homens; e depois, em segundo lugar, no juízo vindouro. Mas o outro, como é beneficiado? Porque sofrer o mal e suportá-lo nobremente é grande ganho: pois este sofrimento do mal é uma abolição dos pecados, é um treino para a filosofia, é uma disciplina de virtude. Vejamos qual dos dois está em pior situação, este ou aquele. Pois um, se for homem de ânimo bem ordenado, o suportará nobremente; o outro estará todo dia em constante temor e receio: qual, pois, é o ferido, este ou aquele? Falas em vão, dirás: pois quando um homem não tem o que comer, e é forçado a lamentar-se e a sentir-se muito infeliz, ou vem e mendiga, e nada recebe, não é isso a ruína tanto da alma quanto do corpo? Não, és tu que falas em vão: pois eu mostro fatos como prova. Pois dize-me, nenhum dos ricos se sente infeliz? Que se segue disso? É a pobreza a causa de sua infelicidade? Mas ele não padece fome. E que importa isso? Tanto maior é o castigo, quando, tendo riquezas, ele faz isso. Pois nem a riqueza torna o homem forte de ânimo, nem a pobreza o torna fraco: do contrário, nenhum dos que vivem na riqueza levaria uma vida infeliz, nem nenhum dos pobres amaldiçoaria seu destino. Mas que a tua fala é, de fato, vã, eu to demonstrarei a partir disto. Estava Paulo na pobreza ou na riqueza? Padeceu fome, ou não padeceu? Podes ouvi-lo a ele mesmo dizendo: Em fome e sede (2 Cor 11,27). Padeceram fome os profetas, ou não padeceram? Também eles tiveram vida dura. De novo me trazes Paulo, de novo os profetas, uns dez ou vinte homens. Mas de onde hei de trazer exemplos? Mostra-me, dentre a multidão, alguns que suportam os males nobremente. Mas o raro é sempre assim: todavia, se quiseres, examinemos a questão em si mesma. Vejamos de qual dos dois é o cuidado maior e mais agudo, qual o mais fácil de suportar. Um está solícito por seu alimento necessário; o outro, por inúmeras coisas, livre daquele cuidado. O rico não teme por causa da fome, mas teme a
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E observai uma acusação contra os judeus, não da parte de Paulo, mas também da parte do governador. Desejando, diz ele, obter sentença contra ele. Ao que eu disse, para vergonha deles, que não é costume dos romanos sacrificar um homem antes de lhe dar oportunidade de defender-se por si mesmo. Mas eu lhe dei (tal oportunidade), e não encontrei nele culpa alguma. Porque duvidei, diz ele, acerca de tais questões: ele lança também um véu sobre sua própria falta. Então o outro deseja vê-lo. Mas olhemos de novo para o que foi dito.
de sorte que era natural que ele lhes mostrasse um agrado, tendo sido por tanto tempo governador ali. Ora, tendo Festo chegado à província, etc. (cap. 25,1-2). Logo no início, os sacerdotes vieram a ele, os quais não teriam hesitado em ir até mesmo a Cesareia, não fosse ele visto subindo imediatamente, já que, logo à sua chegada, vêm a ele. E ele passa dez dias, suponho, para estar acessível aos que quisessem corrompê-lo com subornos. Mas Paulo estava na prisão. Rogaram-lhe, diz o texto, que o mandasse chamar: por que o desejariam como favor, se ele era digno de morte? Mas assim sua intriga se tornou manifesta até para ele mesmo, de sorte que, discorrendo sobre isso (a Agripa), diz: desejando obter sentença contra ele. Queriam induzi-lo a proferir a sentença já imediatamente, temerosos da língua de Paulo. De que temeis? Por que tal pressa? De fato, aquela expressão, que ele fosse mantido
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Os judeus desistiram desde que Paulo exerceu seu direito de apelação. Então também para ele o teatro se torna esplêndido: com grande pompa estavam presentes. E disse Festo, etc. Toda a multidão dos judeus — não apenas alguns deles, e outros não —, tanto em Jerusalém como também aqui, disseram que ele não devia viver por mais tempo.
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Vede que auditório se reúne para Paulo. Tendo reunido toda a sua guarda, o governador chegou, e o rei, e os tribunos, com os principais, diz o texto, da cidade. Então, sendo Paulo trazido à presença, vede como é proclamado vencedor. O próprio Festo o absolve das acusações, pois que diz Festo? E disse Festo: Rei Agripa, e todos os homens que estais aqui presentes conosco, vedes este homem, a respeito de quem toda a multidão dos judeus tratou comigo, tanto em Jerusalém como também aqui, clamando que ele não devia viver por mais tempo. Mas, achando eu que nada fizera digno de morte, e havendo ele mesmo apelado a Augusto, resolvi enviá-lo. A respeito do qual não tenho coisa certa que escreva a meu senhor. Por isso o trouxe perante vós, e especialmente perante ti, ó rei Agripa, para que, feito o exame, eu tenha o que escrever. Pois parece-me sem razão enviar um preso, sem ao mesmo tempo indicar as acusações levantadas contra ele.
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Vede que auditório se reúne para Paulo. Tendo reunido toda a sua guarda, chega o governador, e o rei, e os tribunos, "com os principais", diz o texto, "da cidade". Então, sendo Paulo trazido à presença, vede como é proclamado vencedor. O próprio Festo o absolve das acusações, pois que diz Festo? "E disse Festo: Rei Agripa, e todos os homens que estais aqui presentes conosco, vedes este homem, a respeito de quem toda a multidão dos judeus tratou comigo, tanto em Jerusalém como também aqui, clamando que ele não devia viver por mais tempo. Mas, achando eu que nada fizera digno de morte, e havendo ele mesmo apelado a Augusto, resolvi enviá-lo. A respeito do qual não tenho coisa certa que escreva a meu senhor. Por isso o trouxe perante vós, e especialmente perante ti, ó rei Agripa, para que, feito o exame, eu tenha o que escrever. Pois parece-me sem razão enviar um preso, sem ao mesmo tempo indicar as acusações levantadas contra ele" (v. 24-27). Reparai como ele os acusa, ao mesmo tempo que o absolve. Oh, que abundância de justificações! Depois de todos estes exames repetidos, o governador não encontra como condená-lo. Diziam que ele era digno de morte. Por isso disse também: "Achando eu", diz ele, "que nada fizera digno de morte — a respeito do qual não tenho coisa certa que escreva a meu senhor." Também isto é prova da imaculada conduta de Paulo, que o juiz nada encontrasse a dizer a seu respeito. "Por isso o trouxe", diz ele, "perante vós. Pois parece-me sem razão enviar um preso, sem ao mesmo tempo indicar a acusação levantada contra ele." Tais foram os grandes apuros em que os judeus lançaram a si mesmos e a seus governantes! Que sucede então? "Disse Agripa a Paulo: É-te permitido falar por ti mesmo" (cap. 26,1). Por seu grande desejo de ouvi-lo, o rei lhe permite falar. Mas Paulo fala logo com ousadia, não adulando, mas dizendo, por esta razão, que é feliz, a saber, porque Agripa sabia de tudo. "Então Paulo, estendendo a mão, respondeu em sua defesa: Considero-me feliz, rei Agripa, porque hoje hei de responder por mim mesmo diante de ti, acerca de tudo o de que sou acusado pelos judeus; principalmente porque sei que és versado em todas as questões que há entre os judeus; por isso te peço que me ouças com paciência" (v. 2-3). E, no entanto, se ele tivesse consciência de culpa, deveria temer ser julgado na presença de quem conhecia todos os fatos: mas isto é sinal de consciência limpa, não recuar diante de um juiz que tem conhecimento exato das circunstâncias, mas antes alegrar-se, e chamar-se a si mesmo feliz. "Peço-te", diz ele, "que me ouças com paciência." Como está para alongar seu discurso, e dizer algo acerca de si mesmo, por isso antepõe uma súplica, e (então) diz: "Minha vida desde a juventude, a qual, desde o princípio, se passou entre minha própria nação em Jerusalém, todos os judeus a conhecem; os quais, se quisessem testemunhar, sabem, desde o começo, que, segundo a seita mais rigorosa de nossa religião, vivi como fariseu" (v. 4-5). Como, pois, eu teria me tornado um sedicioso, eu que, quando jovem, era assim testemunhado por todos? E também por causa de sua seita: "segundo a seita mais rigorosa", diz ele, "de nossa religião vivi." "E então, se a seita é, de fato, digna de admiração, mas tu és mau?" Também quanto a isto chamo a todos por testemunhas — quanto à minha vida e conduta. "E agora estou e sou julgado pela esperança da promessa feita por Deus a nossos pais; à qual promessa nossas doze tribos, servindo instantemente a Deus noite e dia, esperam chegar. Por causa desta esperança, rei Agripa, sou acusado pelos judeus. Por que se julga incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?" (v. 6-8). Dois argumentos ele estabelece para a Ressurreição: um, o argumento a partir dos profetas — e não apresenta nenhum profeta em particular, mas a própria doutrina tal como sustentada pelos judeus; o outro, e mais forte, o argumento a partir dos fatos — especialmente a partir disto, que o próprio Cristo se entretinha em conversa com ele. E lança o fundamento disto por meio de outros argumentos, relatando com exatidão sua antiga loucura. Então também, com grande elogio aos judeus, diz: "noite e dia", diz ele, "servindo a Deus, esperam alcançar." De sorte que, ainda que eu não tivesse tido vida imaculada, não é por esta doutrina que eu deveria ser trazido a julgamento — "por causa desta esperança, rei Agripa, sou acusado pelos judeus." E então outro argumento: "Por que se julga incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?" Pois, se tal opinião não existisse, se eles não tivessem sido educados nestes dogmas, mas estes fossem agora introduzidos pela primeira vez, talvez alguém não aceitasse a afirmação. Depois conta como perseguiu: isto também ajuda a prova; e apresenta os principais sacerdotes como testemunhas, e as "cidades estrangeiras", e que ouviu a Ele dizer-lhe: "Duro te é recalcitrar contra os aguilhões", e mostra a misericórdia de Deus, que, ainda sendo Ele perseguido, apareceu (aos homens), e concedeu aquele benefício não somente a mim, mas também me enviou como mestre a outros; e mostra também a profecia, agora cumprida, que então ouviu: "Livrando-te do povo e dos gentios, aos quais te envio." Mostrando tudo isto, diz: "Na verdade eu pensava comigo mesmo que devia fazer muitas coisas contrárias ao nome de Jesus de Nazaré. O que também fiz em Jerusalém: e a muitos dos santos encerrei em prisão, tendo recebido autoridade dos principais sacerdotes; e, quando eram mortos, dava meu voto contra eles. E muitas vezes os castigava em cada sinagoga, e os compelia a blasfemar; e, enfurecido sobremaneira contra eles, perseguia-os até às cidades estrangeiras. Indo eu, pois, a Damasco, com autoridade e comissão dos principais sacerdotes, ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz d
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E tendo eu achado, etc. Mostra que ele fez bem em apelar a César. Pois, ainda que não tivessem grande matéria a alegar contra ele, todavia, estando aqueles (em Jerusalém) enfurecidos contra ele, com boa razão pode ele ir a César. Para que, feito o exame por vós, diz ele, eu tenha algo que escrever. Observai como o assunto é repetidamente posto à prova. Os judeus, pois, podem agradecer a si mesmos por esta vindicação (de Paulo), a qual chegaria também aos ouvidos dos que estavam em Roma. Vede como eles se tornam arautos involuntários tanto de sua própria maldade quanto da virtude de Paulo, até mesmo perante o próprio imperador: de sorte que Paulo foi levado (a Roma) com mais renome do que se lá tivesse ido sem ataduras: pois não como impostor e enganador, depois que tantos juízes o haviam absolvido, era ele agora ali levado. Livre, portanto, de todas as acusações, entre aqueles com quem fora criado e nascera, e não somente isso, mas assim livre de toda suspeita, ele se apresenta em Roma.
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Reparai como ele os acusa, ao mesmo tempo que o absolve. Oh, que abundância de justificações! Depois de todos estes exames repetidos, o governador não encontra como condená-lo. Diziam que ele era digno de morte. Por isso disse também: Achando eu, diz ele, que nada fizera digno de morte — a respeito do qual não tenho coisa certa que escreva a meu senhor. Também isto é prova da imaculada conduta de Paulo, que o juiz nada encontrasse a dizer a seu respeito.
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Por seu grande desejo de ouvi-lo, o rei lhe permite falar. Mas Paulo fala imediatamente com ousadia, não adulando, mas dizendo, por esta razão, que é feliz, a saber, porque Agripa sabia de tudo. Então Paulo, estendendo a mão, respondeu em sua defesa: Considero-me feliz, rei Agripa, porque hoje hei de responder por mim mesmo diante de ti, acerca de tudo o de que sou acusado pelos judeus; principalmente porque sei que és versado em todas as questões que há entre os judeus; por isso te peço que me ouças com paciência.
E não disse ele: Por que isto? Uma vez por todas apelei a César: já fui julgado muitas vezes: quando terá fim isto? Mas que fez ele? De novo se apresta a prestar contas, e isso diante daquele que era o mais bem informado sobre o assunto; e com muita ousadia, vendo que estes não eram seus juízes para condená-lo: mas ainda que não fossem seus juízes, posto que aquela sentença estava em vigor — A César irás —, ele presta contas e dá respostas plenas, tocando todas as coisas, e não apenas uma ou outra aqui e ali. Acusam-me de sedição, acusam-me de heresia, acusam-me de haver profanado o templo: acerca de todas estas coisas respondo por mim mesmo: que estas não são coisas conformes aos meus costumes, os próprios acusadores são testemunhas: meu modo de vida desde a juventude, etc.
E, no entanto, se tivesse consciência de culpa, deveria temer ser julgado na presença de quem conhecia todos os fatos: mas isto é sinal de consciência limpa, não recuar diante de um juiz que tem conhecimento acurado das circunstâncias, mas antes alegrar-se, e a si mesmo chamar-se feliz. Peço-te, diz ele, que me ouças com paciência. Visto que está para alongar seu discurso, e dizer algo acerca de si mesmo, por isso antepõe uma súplica, e (então) diz: Minha vida desde a juventude, a qual desde o princípio se passou entre a minha nação em Jerusalém, todos os judeus a conhecem: os quais, se quisessem testemunhar, sabem, desde o início, que segundo a mais rigorosa seita da nossa religião vivi fariseu.
o que é o mesmo que diz em ocasião anterior: Sendo zeloso (Atos 22:3). E quando todo o povo estava presente, então desafia o testemunho deles: não perante o tribunal, mas perante Lísias, e de novo aqui, quando mais estavam presentes: ao passo que naquela audiência não era necessária muita justificação de si mesmo, pois a carta de Lísias o isentava de culpa. Todos os judeus, diz ele, sabem, os quais me conheceram desde o princípio. E não diz que tipo de vida foi a sua, mas deixa isto à própria consciência deles, e põe todo o peso sobre a sua seita, como quem não teria escolhido aquela seita, se fosse homem de má disposição e mau caráter (πονηρὸς καὶ μοχθηρός). Mas por esta esperança (assim os manuscritos e as edições trazem αἱρέσεως), diz ele, estou em pé e sou julgado.
Como, pois, teria eu me tornado um homem sedicioso, eu que, quando jovem, era (assim) testemunhado por todos? Depois, também, pela sua seita: segundo a mais rigorosa seita, diz ele, da nossa religião vivi. Que importa, pois, se, ainda que a seita seja digna de admiração, tu és mau? Também acerca disto chamo a todos por testemunhas — acerca da minha vida e do meu procedimento. E agora estou em pé e sou julgado pela esperança da promessa feita por Deus a nossos pais: à qual promessa nossas doze tribos, servindo a Deus incessantemente noite e dia, esperam chegar. Por causa desta esperança, ó rei Agripa, sou acusado pelos judeus. Por que se julgaria coisa incrível entre vós, que Deus ressuscite os mortos?
Esta esperança é honrada também entre eles mesmos, pois por causa dela oram, por causa dela adoram, para que a ela cheguem: isto mesmo eu manifesto. Por que, então, é agir como loucos, fazer todas as coisas a fim de alcançar isto, e todavia perseguir aquele que nisto mesmo crê. Eu, na verdade, pensei comigo mesmo, isto é, determinei, fazer muitas coisas contrárias ao nome de Jesus Nazareno.
Dois argumentos ele estabelece para a Ressurreição: um, o argumento tirado dos profetas: e não traz à luz nenhum profeta em particular, mas a própria doutrina tal como sustentada pelos judeus: o outro, e mais forte, o argumento tirado dos fatos — (especialmente deste,) que o próprio Cristo com ele se entreteve em discurso. E lança o fundamento disto por meio de (outros) argumentos, relatando com exatidão sua antiga loucura. Depois, também, com grande louvor dos judeus, diz ele: Noite e dia, diz, servindo (a Deus), esperam alcançar. De modo que, ainda que eu não tivesse sido de vida imaculada, não é por esta (doutrina) que eu deveria ser levado a juízo: — por cuja esperança, ó rei Agripa, sou acusado pelos judeus. E então outro argumento: Por que se julgaria coisa incrível entre vós, que Deus ressuscite os mortos? Pois, se tal opinião não existisse, se eles não tivessem sido educados nestes dogmas, mas fossem estes agora pela primeira vez introduzidos, talvez alguém não recebesse a palavra. Depois conta como perseguia: isto também ajuda a prova: e traz à testemunha os principais sacerdotes, e as cidades estrangeiras, e que O ouviu dizer-lhe: Duro te é recalcitrar contra os aguilhões, e mostra a misericórdia de Deus, que, mesmo sendo Ele perseguido, apareceu (aos homens), e fez este benefício não só a mim, mas também me enviou como mestre a outros: e mostra também a profecia, agora cumprida, que então ouviu: Livrando-te do povo e dos gentios, aos quais agora te envio. Mostrando tudo isto, diz: Eu, na verdade, pensei comigo mesmo que devia fazer muitas coisas contrárias ao nome de Jesus Nazareno. O que também fiz em Jerusalém: e a muitos dos santos encerrei em prisão, tendo recebido autoridade dos principais sacerdotes; e, sendo eles mortos, dei meu voto contra eles. E castiguei-os muitas vezes em cada sinagoga, e os obriguei a blasfemar; e, enfurecido sobremaneira contra eles, persegui-os até mesmo até cidades estrangeiras. No que, indo eu a Damasco com autoridade e comissão dos principais sacerdotes, ao meio-dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, mais resplandecente que o sol, brilhando ao redor de mim e dos que comigo viajavam. E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava, e dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Duro te é recalcitrar contra os aguilhões. E eu disse: Quem és Tu, Senhor? E ele disse: Eu sou Jesus, a quem tu persegues, mas levanta-te, e põe-te em pé: pois para isto te apareci, para te fazer ministro e testemunha tanto destas coisas que viste, como daquelas em que Eu te aparecerei: livrando-te do povo e dos gentios, aos quais agora te envio, para lhes abrir os olhos, e converter das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus, para que recebam a remissão dos pecados.
Eu não era um dos discípulos de Cristo: entre os que contra Ele combatiam, estava eu. Donde também é testemunha digna de crédito, porque ele, homem que fazia inúmeras coisas, guerreava contra os crentes, persuadindo-os a blasfemar, incitando contra eles a todos, cidades, magistrados, e fazendo tudo isto por si mesmo e de livre vontade, foi assim subitamente transformado. Depois, de novo, as testemunhas, os que estavam com ele: em seguida mostra quão justa causa teve para se persuadir, tanto pela luz, como pelos profetas, como pelos resultados, como pelas coisas que agora se cumpriram. Vede, pois, como tanto pelos profetas como por estes particulares confirma-lhes a prova. Pois, para que não parecesse estar introduzindo alguma novidade, ainda que tivesse grandes coisas a dizer, refugia-se de novo nos profetas, e propõe isto como questão para discussão. Ora, isto tinha reivindicação mais forte à crença, por ter de fato acontecido: mas, visto que só ele viu (a Cristo), busca de novo prova disto nos profetas. E vede como não discorre da mesma maneira no tribunal e na assembleia (do seu próprio povo); ali, com efeito, diz: vós O matastes: mas aqui nada disso, para não acender mais a sua ira: mas mostra a mesma coisa, dizendo: Se o Cristo devia padecer. Assim os livra das acusações: pois os profetas, diz ele, dizem isto. Recebei, portanto, vós também o resto. Havendo mencionado a visão, passa então sem temor a falar também do bem por ela operado. Para os converter das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus. Pois para isto te apareci
não para castigar, mas para te fazer Apóstolo. Mostra os males que possuem os incrédulos, Satanás, trevas; os bens que pertencem aos crentes, a luz, Deus, a herança dos santos. Pelo que, ó rei Agripa, etc.
Observai com que mansidão ele discorre — Deus, diz ele, disse-me isto, para que recebessem remissão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé que há em Mim. Por estas coisas, diz ele, fui persuadido; por esta visão Ele me atraiu a Si, e assim me persuadiu, que não fiz demora alguma. Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial: antes anunciei primeiramente aos que estavam em Damasco, e em Jerusalém, e por toda a terra da Judeia, e depois aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento.
Não somente os exorta ao arrependimento, mas também a que mostrem uma vida digna de admiração. E vede como em toda parte os gentios são admitidos em comunhão com o povo (Israel): pois os que ali estavam presentes eram dentre os gentios. Testificando, diz ele, tanto a pequenos como a grandes,
Eu, pois, que instruía também a outros acerca do mais excelente modo de viver, como me teria eu mesmo tornado autor de sedição e contenda? Por estas causas os judeus me prenderam no templo e procuraram matar-me. Tendo, pois, alcançado socorro da parte de Deus, permaneço até o dia de hoje, testificando tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada além daquilo que os profetas e Moisés disseram que haveria de acontecer.
Isto é, tanto a ilustres como a não ilustres. Isto também se refere aos soldados. Observai: tendo deixado o posto de réu, assumiu o de mestre — e por isso mesmo é que Festo lhe diz: Estás fora de ti — mas então, para que não pareça ser ele mesmo o mestre, traz à frente os profetas e Moisés: Se o Cristo havia de padecer, se Ele, como o primeiro a ressuscitar dos mortos, havia de anunciar luz tanto ao povo como aos gentios.
Vede quão isento de lisonja é o seu discurso, e como atribui tudo a Deus. Depois a sua ousadia — pois nem agora desisto — e os fundamentos seguros — pois é dos profetas que ele tira a questão: Se o Cristo havia de padecer; depois a Ressurreição e a promessa: Se Ele, como o primeiro a ressuscitar dos mortos, havia de anunciar luz ao povo e aos gentios.
Festo viu a ousadia, e que diz ele? Pois Paulo dirigia-se todo o tempo ao rei — ele ficou como que aborrecido, e lhe diz: Estás fora de ti, Paulo: pois, enquanto ele assim discorria, Festo disse em alta voz: Paulo, estás fora de ti; as muitas letras te fazem delirar.
E disse Festo em alta voz — pois foi com tanta ira e desagrado que falou — : Paulo, estás fora de ti. Que respondeu, pois, Paulo? Não estou louco, etc. Pois isto, diz ele, não se fez em algum canto.
absolvem-no, como indigno não só da morte, mas também das cadeias, e de fato o teriam solto inteiramente, se ele não tivesse apelado para César. Mas isto se deu providencialmente, para que ele também partisse acorrentado. Até às cadeias, diz ele, como malfeitor (1Tm 2,9). Pois, se o seu Senhor foi contado entre os transgressores (Mc 15,28), muito mais ele; mas, assim como o Senhor não partilhou com eles do seu caráter, tampouco Paulo o fez. Pois nisto se vê a coisa admirável: estar misturado com tais homens e, contudo, não receber deles nenhum dano.
Que diz, pois, Paulo? Com mansidão: Não estou louco, diz ele, excelentíssimo Festo; mas produzo palavras de verdade e de sobriedade.
Depois lhe dá também a entender por que, afastando-se dele, dirigiu o seu discurso ao rei: Porque o rei sabe destas coisas, diante de quem também falo livremente; pois estou persuadido de que nenhuma destas coisas lhe é oculta: porque isto não se fez em algum canto.
Mostra que (o rei) conhece tudo perfeitamente; ao mesmo tempo, quase dizendo aos judeus: E vós, na verdade, deveríeis ter conhecido estas coisas — pois este é o sentido do que acrescenta: Porque isto não se fez em algum canto. E Agripa disse a Paulo: Ἐν ὀλίγῳ persuades-me a ser cristão. Que é ἐν ὀλίγῳ? Por pouco, παρὰ μικρόν. E Paulo disse: Eu quisera rogar a Deus, καὶ ἐν ὀλίγῳ καὶ ἐν πολλῷ, (isto é) eu quisera rogar a Deus, por minha parte, não em pouco (mas em muito): ele não roga simplesmente, roga (não brevemente, mas) com largueza — que não só tu, mas também todos os que hoje me ouvem, fossem tais qual eu sou. Depois acrescenta: exceto estas cadeias; e, no entanto, isto era motivo de glória; é verdade, mas atendendo à opinião que deles se tinha, por isso diz ele: exceto estas cadeias.
Aqui fala da Cruz, da Ressurreição: que a doutrina havia chegado a toda parte do mundo. Rei Agripa, diz ele, crês tu — não diz: na Ressurreição, mas — nos profetas?
Depois se lhe antecipa, e diz: Sei que crês? Ἐν ὀλίγῳ (isto é, por pouco), quase me persuades a ser cristão.
Paulo não entendeu o que significava a expressão ἐν ὀλίγῳ: julgou que significasse ἐξ ὀλίγου (isto é, com pouco custo ou esforço), pelo que também responde conforme isso: tão indouto estava ele. E não disse: Não desejo (isso), mas: Rogo a Deus que não somente tu, mas também todos quantos ouvem. Observai quão livre de lisonja é o seu discurso. — Rogo a Deus que, neste dia, todos se tornem tais qual eu sou, exceto estas cadeias.
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Ele, o homem que se gloria em suas cadeias, que as ostenta como uma corrente de ouro, intercede por elas em favor destes homens: pois ainda eram demasiado fracos em seus ânimos, e foi antes por condescendência que assim falou. Pois que poderia haver de melhor que aquelas cadeias que ele sempre prefere (a todas as coisas) em suas Epístolas, dizendo: Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo (Ef 3:1); e outra vez: Por esta causa estou preso com esta cadeia (At 28:20), mas a palavra de Deus não está presa; e: Até às cadeias, como malfeitor (2 Tm 2:9). O castigo era duplo. Pois se de fato ele estivesse assim preso tendo em vista o seu próprio bem, a coisa traria consigo alguma consolação; mas agora (está preso) tanto como malfeitor, quanto tendo em vista consequências bem funestas; contudo, com nenhuma destas coisas se importava.
Tal é a alma alada de amor celestial. Pois se aqueles que acalentam o (torpe amor terreno que os homens chamam) amor nada reputam glorioso ou precioso senão aquelas coisas somente que tendem a satisfazer sua concupiscência, e as reputam gloriosas e honrosas, sendo-lhes a amada tudo; muito mais aqueles que foram tomados cativos por este amor celestial nada reputam o custo (τὰ ἐπιτίμια). Mas se não compreendemos o que digo, não é de admirar, visto sermos inábeis nesta Sabedoria Divina. Pois se alguém é tomado pelo fogo do amor de Cristo, torna-se tal qual se tornaria um homem que habitasse sozinho sobre a terra, tão inteiramente descuidado está ele quanto à glória ou ao opróbrio: mas, exatamente como se habitasse sozinho, de nada se importaria, tampouco se importa neste caso. Quanto às provações, tanto as despreza, tanto os açoites quanto os cárceres, como se o corpo no qual sofre estas coisas fosse de outro e não seu próprio, ou como se tivesse obtido um corpo feito de adamante: quanto, porém, às doçuras desta vida, tanto delas escarnece, tão insensível lhes é, quanto somos insensíveis aos corpos mortos, sendo nós mesmos mortos. Está ele tão longe de ser tomado cativo por qualquer paixão, quanto o ouro refinado no fogo e purificado está livre de liga. Pois assim como as moscas não se lançariam ao meio de uma chama, mas dela fogem, assim as paixões nem sequer ousam aproximar-se deste homem. Quisera eu poder trazer exemplos de tudo isto dentre nós mesmos: mas, uma vez que destes carecemos, havemos de recorrer a este mesmo Paulo. Observai-o, pois, quanto sentia ele acerca do mundo inteiro. O mundo está crucificado para mim, diz ele, e eu para o mundo (Gl 6:14): estou morto para o mundo, e o mundo está morto para mim. E outra vez: Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (ibid.). E, para vos mostrar que estava ele como que em solidão, e assim considerava as coisas presentes, ouvi-o dizer: Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem (2 Cor 4:18). Que dizeis? Respondei-me. E, contudo, o que dizeis é o contrário; vedes as coisas invisíveis, e as visíveis não vedes. Tais olhos quais obtivestes, tais são os olhos que são dados por Cristo: pois assim como estes olhos corporais veem, de fato, as coisas que se veem, mas as coisas invisíveis não veem: assim aqueles (olhos celestiais) fazem o contrário: ninguém que contempla as coisas invisíveis contempla as visíveis: ninguém que contempla as coisas visíveis contempla as invisíveis. Ou não é este também o caso conosco? Pois quando, tendo voltado a mente para dentro, pensamos em alguma das coisas invisíveis, nossos olhares se elevam acima das coisas da terra. Desprezemos a glória: queiramos antes ser escarnecidos que louvados. Pois aquele que é escarnecido em nada é prejudicado; mas aquele que é louvado é grandemente prejudicado. Não façamos grande caso daquelas coisas que atemorizam os homens, mas, como fazemos no caso das crianças, façamos aqui o mesmo: a saber, se vemos alguém atemorizar crianças, não temos aquele homem em admiração: pois, de fato, quem quer que atemorize, só atemoriza crianças; pois, fosse um homem, não o poderia atemorizar. Assim como aqueles que atemorizam (crianças em brincadeira) o fazem ou erguendo as pálpebras, ou de outro modo distorcendo o rosto, mas com o olhar natural e brando não o poderiam fazer: assim também estes outros o fazem, distorcendo a visão da mente (τὸ διορατικὸν τῆς διανοίας). De sorte que de um homem brando e formoso de alma ninguém teria medo; antes, todos nós o respeitamos, honramos e veneramos. Não vedes como o homem que causa terror é também objeto de ódio e de aversão para todos nós? Pois, daquelas coisas que só podem atemorizar, de que não nos afastamos? Não é assim com as feras, com os sons, com os aspectos, com os lugares, com o ar, como as trevas? Não reputemos, pois, grande coisa, se os homens nos temem. Pois, em primeiro lugar, homem algum de fato se atemoriza de nós: e, em segundo lugar, não seria grande coisa (ainda que se atemorizassem). A virtude é um grande bem: e vede quão grande. Por mais miseráveis que reputemos as coisas por meio das quais ela se constitui, contudo admiramos a própria virtude, e reputamos bem-aventurados aqueles que a possuem. Pois quem não reputaria bem-aventurado o que sofre com paciência, ainda que a pobreza e coisas semelhantes pareçam miseráveis? Quando, pois, ela resplandece através daquelas coisas que parecem miseráveis, vede quão sobremodo grande é isto! Fazes tu grande caso, ó homem, por estares no poder? E que espécie de poder? Dize, foi ele conferido por nomeação? (Se assim é,) dos homens recebeste o poder: nomeia-te a ti mesmo a ele por dentro. Pois o governante não é aquele que assim é chamado, mas aquele que realmente o é. Pois assim como um rei não poderia fazer um médico ou um orador, tampouco pode fazer um governante: uma vez que não são as cartas (imperiais) nem o nome que fazem um governante. Pois, se quiseres, que alguém edifique uma botica, tenha também discípulos, tenha também instrumentos e drogas, e visite os enfermos: bastam estas coisas para fazer um médico? De modo nenhum: mas há necessidade da arte, e sem ela, não somente estas coisas de nada aproveitam, mas até prejudicam: pois seria melhor que aquele que não é médi [truncado]
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Vede como também aqui de novo pronunciam sentença a seu favor, e depois de terem dito: "Estás fora de ti" (v. 24), absolvem-no, como imerecedor não só da morte, mas também de cadeias, e de fato o teriam solto inteiramente, se ele não tivesse apelado para César. Mas isto se deu providencialmente, para que ele também partisse com cadeias. "Até às cadeias", diz ele, "como malfeitor" (1 Tm 2:9). Pois se o seu Senhor "foi contado entre os transgressores" (Mc 15:28), muito mais ele; mas, assim como o Senhor não compartilhou com eles do seu caráter, tampouco Paulo. Pois nisto se vê a coisa admirável, o estar misturado com tais homens, e contudo não receber deles dano algum. "E, sendo determinado que navegássemos para a Itália, entregaram Paulo e alguns outros presos a um centurião por nome Júlio, da coorte augusta. E, embarcando em um navio de Adramítio, partimos, tencionando navegar junto à costa da Ásia, estando conosco Aristarco, macedônio de Tessalônica. E no dia seguinte chegamos a Sidom" (cap. 27, 1-3). Vede até que ponto também Aristarco acompanha Paulo. Para bom e útil propósito está Aristarco presente, pois levaria à Macedônia o relato de tudo. "E Júlio, tratando Paulo com humanidade, permitiu-lhe ir aos amigos, para que dele cuidassem". Júlio deu a Paulo liberdade, diz, agindo "com humanidade, para que ele se reanimasse"; como era natural que ele estivesse muito abatido pelas cadeias e pelo temor, e por ser arrastado de um lado para outro. Vede como o escritor não oculta tampouco isto, que Paulo desejava "reanimar-se. E, partindo dali, navegamos abrigados de Chipre, porquanto os ventos eram contrários" (v. 4). De novo provações, de novo ventos contrários. Vede como assim se entretece por toda parte a vida dos santos: escapados do tribunal, deparam-se com naufrágio e tempestade. "E, tendo atravessado o mar da Cilícia e da Panfília, chegamos a Mirra, cidade da Lícia. E ali o centurião achou um navio de Alexandria que navegava para a Itália, e nos fez embarcar nele" (v. 5-6). "Um navio de Alexandria", diz. É provável que tanto aqueles (do navio anterior) levassem à Ásia o relato do que sucedera a Paulo, quanto estes fariam o mesmo na Lícia. Vede como Deus não inova nem muda a ordem da natureza, mas permite que naveguem contra ventos desfavoráveis. Mas ainda assim se opera o milagre. Para que navegassem em segurança, Ele não os deixou sair ao mar (aberto), mas sempre navegaram junto à terra. "E, navegando vagarosamente por muitos dias, e mal havendo chegado defronte de Cnido, não nos permitindo o vento ir mais adiante, navegamos abrigados de Creta, defronte de Salmona; e, passando-a com dificuldade, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laseia. E, passando-se muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, porque também o jejum já havia passado, Paulo os admoestava" (v. 7-9). Por "o jejum" aqui, suponho que se refira ao dos judeus. Pois partiram dali muito tempo depois de Pentecostes, de sorte que foi já quase em pleno inverno que chegaram às costas de Creta. E também isto não foi pequeno milagre, que eles também fossem salvos por causa dele. "E Paulo os admoestava, dizendo-lhes: Senhores, vejo que esta viagem se fará com dano e muito prejuízo, não somente da carga e do navio, mas também de nossas vidas. Mas o centurião cria mais no piloto e no dono do navio do que no que Paulo dizia. E, não sendo o porto muito próprio para invernar, os mais deles foram de parecer que dali se partisse também, para ver se de qualquer modo pudessem chegar a Fênix, e ali invernar, porto de Creta que olha para o sudoeste e para o noroeste. E, soprando brandamente o vento sul, e supondo eles que já tinham alcançado o que desejavam, levantaram ferro, e foram costeando Creta bem de perto. Mas não muito depois se levantou contra ela um vento tempestuoso, chamado Euroclidão. E, sendo a nau arrebatada por ele, e não podendo resistir ao vento, larguei-a, e assim fomos levados" (v. 10-15). Aconselhava-os, pois, Paulo a permanecer, e predizia o que disso resultaria; mas eles, estando com pressa, e sendo impedidos pelo lugar, quiseram invernar em Fênix. Notai, pois, a ordenação providencial dos acontecimentos: primeiro, de fato, "soprando brandamente o vento sul, supondo que tinham alcançado o que desejavam", soltaram a embarcação e partiram; depois, quando o vento se lançou sobre eles, cederam-lhe, sendo por ele arrastados, e a custo se salvaram. "E, correndo abrigados de uma pequena ilha chamada Clauda, apenas pudemos ganhar o batel; e, levantando-o, usavam de todos os meios, cingindo o navio; e, temendo que fossem lançados nos baixios de Sirte, arriaram as velas, e assim se deixavam levar. E, sendo nós fortemente combatidos da tempestade, no dia seguinte alijaram a carga; e ao terceiro dia com as próprias mãos lançamos fora os aparelhos do navio. E, não aparecendo por muitos dias nem sol nem estrelas, e não sendo pequena a tempestade que nos apertava, perdeu-se logo toda a esperança de nos salvarmos. Mas, depois de uma longa abstinência, Paulo se pôs no meio deles, e disse: Senhores, devíeis ter-me ouvido, não largando de Creta, e evitando este dano e prejuízo" (v. 16-21). Então, depois de tão grande tempestade, ele não fala como quem os insulta, mas como quem deseja que, ao menos daí em diante, seja crido. Pelo que também alega o que havia sucedido como testemunho da verdade do que estava para dizer. "E agora vos exorto a que tenhais bom ânimo, pois não haverá perda de vida alguma entre vós, mas somente do navio. Porque esta noite me apareceu um anjo do Deus de quem eu sou e a quem sirvo, dizendo: Não temas, Paulo; importa que compareças perante César, e eis que Deus te deu todos os que navegam contigo. Portanto, senhores, tende bom ânimo, porque creio em Deus que há de ser assim como me foi dito. Contudo, é necessário que vamos dar em alguma ilha" (v. 22-2 [truncado]
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Vede como também aqui de novo pronunciam sentença a seu favor, e depois de terem dito: Estás fora de ti,
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Vede até que ponto também Aristarco acompanha Paulo. Para bom e útil propósito está Aristarco presente, pois levaria à Macedônia o relato de tudo. E Júlio, tratando Paulo com humanidade, permitiu-lhe ir aos amigos, para que dele cuidassem. Júlio deu a Paulo liberdade, diz, agindo com humanidade, para que ele se reanimasse; como era natural que ele estivesse muito abatido pelas cadeias e pelo temor, e por ser arrastado de um lado para outro. Vede como o escritor não oculta tampouco isto, que Paulo desejava reanimar-se. E, partindo dali, navegamos abrigados de Chipre, porquanto os ventos eram contrários.
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De novo provações, de novo ventos contrários. Vede como assim se entretece por toda parte a vida dos santos: escapados do tribunal, deparam-se com naufrágio e tempestade. E, tendo atravessado o mar da Cilícia e da Panfília, chegamos a Mirra, cidade da Lícia. E ali o centurião achou um navio de Alexandria que navegava para a Itália, e nos fez embarcar nele.
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"Um navio de Alexandria", diz. É provável que tanto aqueles (do navio anterior) levassem à Ásia o relato do que sucedera a Paulo, quanto estes fariam o mesmo na Lícia. Vede como Deus não inova nem muda a ordem da natureza, mas permite que naveguem contra ventos desfavoráveis. Mas ainda assim se opera o milagre. Para que navegassem em segurança, Ele não os deixou sair ao mar (aberto), mas sempre navegaram junto à terra. E, navegando vagarosamente por muitos dias, e mal havendo chegado defronte de Cnido, não nos permitindo o vento ir mais adiante, navegamos abrigados de Creta, defronte de Salmona; e, passando-a com dificuldade, chegamos a um lugar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laseia. E, passando-se muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, porque também o jejum já havia passado, Paulo os admoestava.
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Por "o jejum" aqui, suponho que se refira ao dos judeus. Pois partiram dali muito tempo depois de Pentecostes, de sorte que foi já quase em pleno inverno que chegaram às costas de Creta. E também isto não foi pequeno milagre, que eles também fossem salvos por causa dele. Paulo os admoestava, dizendo-lhes: Senhores, vejo que esta viagem se fará com dano e muito prejuízo, não somente da carga e do navio, mas também de nossas vidas. Mas o centurião cria mais no piloto e no dono do navio do que no que Paulo dizia. E, não sendo o porto muito próprio para invernar, os mais deles foram de parecer que dali se partisse também, para ver se de qualquer modo pudessem chegar a Fênix, e ali invernar, porto de Creta que olha para o sudoeste e para o noroeste. E, soprando brandamente o vento sul, e supondo eles que já tinham alcançado o que desejavam, levantaram ferro, e foram costeando Creta bem de perto. Mas não muito depois se levantou contra ela um vento tempestuoso, chamado Euroclidão. E, sendo a nau arrebatada por ele, e não podendo resistir ao vento, larguei-a, e assim fomos levados.
E observai quão modesta é a expressão. Para que não parecesse profetizar, mas antes falar como que por conjectura, "eu percebo", diz ele. Pois não o teriam recebido, se ele dissesse isto desde o princípio. De fato, ele profetiza nesta ocasião anterior, como também depois o faz, e diz (ali): "O Deus a quem sirvo", conduzindo-os gradualmente. Como se explica, então, que não houve perda de nenhuma vida? Assim teria sido, não fosse por Deus tê-los conduzido a salvo através disso. Pois, no que dependia da natureza da coisa, teriam perecido, mas Deus o impediu. Então, para mostrar que não foi por conjectura que ele assim falou, o piloto do navio disse o contrário.
e este era homem experiente na matéria: tão longe estava de ser o caso que o conselho de Paulo fosse dado por conjectura. Além disso, o próprio lugar sugeria isto mesmo (que o piloto dizia), por não ser cômodo; e era evidente que foi por conjectura que a maior parte aconselhou.
como o fizeram, antes que Paulo. Depois, violenta a tempestade que se seguiu, profundas as trevas: e para que não se esquecessem, também o navio se despedaça, e o trigo é lançado fora com tudo o mais, para que não tivessem depois disso o poder de ser desavergonhados. Pois é por isto que o navio se despedaça, e suas almas se tornam firmemente cingidas. Ademais, tanto a tempestade quanto as trevas contribuíram não pouco para que ele obtivesse a audiência que obteve. Por conseguinte, observai como o centurião faz o que ele ordena, a ponto de deixar ir o batel e destruí-lo. E se os marinheiros ainda não obedeceram à sua ordem, depois, contudo, o fazem: pois, na verdade, esta é uma sorte de gente temerária.
portanto os aconselhou a permanecer, e predisse o que disso resultaria: mas eles, estando apressados, e impedidos pelo lugar, quiseram invernar em Fenice. Observai, pois, a ordenação providencial dos acontecimentos: primeiro, de fato, quando o vento sul soprou brandamente, supondo terem alcançado seu propósito, soltaram o navio e partiram; depois, quando o vento se abateu sobre eles, cederam a ele, sendo arrastados, e com dificuldade se salvaram. E correndo abrigo sob certa ilha chamada Clauda, tivemos muito trabalho para recolher o batel: o qual, tendo-o recolhido, usavam de reforços, cingindo o navio por baixo; e, temendo cair nos bancos de areia, arriaram as velas, e assim eram levados. E sendo nós excessivamente açoitados pela tempestade, no dia seguinte aliviaram o navio; e ao terceiro dia lançamos com nossas próprias mãos os aparelhos do navio. E não aparecendo nem sol nem estrelas por muitos dias, e não pequena tempestade pesando sobre nós, toda esperança de que fôssemos salvos foi então tirada. Mas, após longa abstinência, Paulo se pôs em pé no meio deles, e disse: Senhores, devíeis ter-me ouvido, e não vos ter feito ao mar partindo de Creta, e assim ganhar este dano e prejuízo.
Não é provável que alguém seja bem recebido quando repreende no meio da calamidade; mas quando anuncia o que ainda há de vir da calamidade, e então prediz o bem, então é acolhido. Por isso os ataca primeiro naquele momento, quando toda a esperança de que se salvassem foi tirada: para que ninguém dissesse: Nada resultou disso. E o próprio temor deles também dá testemunho. Além disso, o lugar era penoso, pois estavam no Adriático, e depois havia a longa abstinência. Estavam em meio à morte. Era já o décimo quarto dia em que estavam sem alimento, nada havendo tomado. Por isso, disse ele, rogo-vos que tomeis algum alimento: pois isto é para vossa saúde.
Então, depois de tão grande tempestade, ele não fala de modo insultuoso sobre eles, mas antes desejando que ao menos fosse crido dali por diante. Por isso também alega o que havia acontecido como testemunho da verdade daquilo que estava para dizer. E agora vos exorto a que tenhais bom ânimo: pois não haverá perda de vida alguma entre vós, mas somente do navio. Pois esta noite esteve junto a mim o anjo do Deus a quem pertenço e a quem sirvo, dizendo: Não temas, Paulo; convém que sejas apresentado a César: e eis que Deus te concedeu todos os que navegam contigo. Por isso, senhores, tende bom ânimo, pois creio em Deus que assim será como me foi dito. Contudo, é necessário que sejamos lançados em certa ilha.
E ele predisse duas coisas: tanto que deviam ser lançados numa ilha, quanto que, ainda que o navio se perdesse, os que nele estavam se salvariam — coisa que ele não disse por conjectura, mas por profecia — e que ele deveria ser apresentado a César. Mas isto que ele diz, "Deus te concedeu todos", não é dito com jactância, mas com o desejo de ganhar aqueles que navegavam no navio: pois (assim falou), não para que se sentissem obrigados a ele, mas para que cressem no que ele dizia. "Deus te concedeu"; como quem dissesse: Eles são, na verdade, dignos de morte, pois não te quiseram ouvir; contudo, isto se faz por favor a ti. Mas, chegada a décima quarta noite, sendo nós levados de um lado para outro no Adriático, por volta da meia-noite os marinheiros suspeitaram que se aproximavam de alguma terra; e, lançando a sonda, encontraram vinte braças; e, tendo avançado um pouco mais, sondaram de novo, e encontraram quinze braças. Então, temendo que fossem cair sobre rochedos, lançaram quatro âncoras da popa, e desejaram que viesse o dia. E, procurando os marinheiros fugir do navio, tendo arriado o batel ao mar, sob pretexto de que iam lançar âncoras da proa, disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não permanecerem no navio, não podeis salvar-vos. Então os soldados cortaram as cordas do batel, e o deixaram cair.
Os marinheiros, todavia, estavam a ponto de fugir, não dando fé ao que se dizia: mas o centurião crê em Paulo, pois este diz: Se estes fugirem, não podeis salvar-vos: assim falando, não por isto propriamente, mas para os conter, e para que a profecia não caísse por terra. Vede como, tal como numa igreja, são instruídos pela serenidade do comportamento de Paulo, como ele os salvou do meio mesmo dos perigos. E é por ordenação providencial que Paulo não é crido, para que, depois de prova dos fatos, fosse crido: o que de fato assim sucedeu. E de novo os exorta a tomarem algum alimento, e eles fazem como ele ordena, e ele mesmo toma primeiro, para persuadi-los não só por palavra, mas também por ato, de que a tempestade não lhes fez dano, mas antes foi um benefício para suas almas. E, vindo o dia, Paulo rogava a todos que tomassem alimento, dizendo: Hoje é o décimo quarto dia que permaneceis e continuais em jejum, nada havendo tomado.
E como, dizeis vós, foram eles sem alimento, nada havendo tomado? Como o suportaram? O temor os possuía, e não os deixava cair em desejo de comida, estando eles, como estavam, no ponto extremo do perigo; mas não tinham cuidado algum com o alimento. Por isso vos rogo que tomeis algum alimento: pois isto é para vossa saúde: porquanto não cairá um só cabelo da cabeça de nenhum de vós. E havendo assim falado, tomou pão e deu graças a Deus na presença de todos: e havendo-o partido, começou a comer. Então todos se animaram, e também eles tomaram algum alimento,
para que comêsseis, a fim de que não perecêsseis de fome. Observai que o haver ele dado graças depois de tudo quanto sucedera os fortaleceu. Pois isto mostrava uma mente segura de que haveriam de salvar-se. Então todos se animaram; e também eles tomaram algum alimento.
E não somente isto, mas doravante lançaram de tal modo todo o seu cuidado sobre Paulo, que até mesmo lançaram fora o trigo
vendo que já não havia dúvida de que suas vidas seriam salvas. E éramos todos na nave duzentas e setenta e seis almas. E havendo comido o bastante, aliviaram a nave, lançando o trigo ao mar. E quando se fez dia, não reconheciam a terra: mas descobriram certa enseada que tinha praia, na qual se propuseram, se possível fosse, encalhar a nave. E havendo levantado as âncoras, entregaram-se ao mar, soltando ao mesmo tempo as amarras dos lemes, e alçando ao vento a vela mestra, dirigiram-se para a praia.
donde tinham eles víveres? Vede como fazem sua parte como homens, e como Paulo não os impede. E quando se fez dia, etc., soltaram as amarras dos lemes.
E o navio se despedaça de dia, para que não fossem de todo dissolvidos pelo terror: para que vejais a profecia trazida à realidade dos fatos. E o conselho dos soldados, etc.
Dirigiram-se para a praia, dando ao vento as varas do leme: pois muitas vezes não o fazem deste modo. Eram levados, havendo soltado o cordame, isto é, as velas. E caindo num lugar onde dois mares se encontravam, encalharam a nave; e a proa, cravada, ficou imóvel, mas a popa se desfazia com a violência das ondas; pois quando há vento forte, esta é a consequência, suportando a popa o embate (da tempestade). E o conselho dos soldados foi matar os prisioneiros, para que nenhum deles, nadando, escapasse.
Notais que também neste particular lhes foi isto concedido por causa de Paulo? Pois foi por amor dele que o centurião não permitiu que fossem mortos. Tão manifestamente ímpios me parecem ter sido aqueles homens, que teriam preferido até matá-los; mas alguns nadaram até a praia, outros foram levados em tábuas, e todos assim foram salvos, e a profecia recebeu seu cumprimento — profecia esta que, ainda que não solene pela extensão do tempo, visto que não a proferira muitos anos antes, ateve-se de perto à natureza mesma das coisas: (ainda assim profecia foi,) pois tudo estava além do alcance da esperança. E foi precisamente por serem eles mesmos salvos que aprenderam quem era Paulo. Mas dirá alguém: por que não salvou ele o navio? Para que percebessem quão grande perigo haviam escapado, e para que todo o assunto dependesse não do auxílio humano, mas da mão de Deus que os salvava independentemente de um navio. De modo que os homens justos, ainda que estejam em tempestade, ou no mar, ou no abismo, nada sofrem de terrível, mas até salvam a outros juntamente consigo. Se aqui havia um navio em perigo e sofrendo naufrágio, e prisioneiros foram salvos por causa de Paulo, considerai quanta coisa é ter um homem santo numa casa: pois muitas são as tempestades que também nos assaltam, tempestades bem mais graves que estas (naturais), mas Ele pode também conceder-nos a libertação, se tão somente obedecermos aos homens santos como aqueles (no navio) obedeceram, se fizermos o que eles nos ordenam. Pois não são simplesmente salvos, mas eles mesmos também contribuíram para que outros homens cressem (πίστιν εἰσήνεγκαν). Ainda que o homem santo esteja em cadeias, realiza obras maiores que os que são livres. E vede como isto se deu aqui. O centurião livre teve necessidade de seu prisioneiro acorrentado: o hábil piloto necessitava daquele que não era piloto — antes, daquele que era o verdadeiro piloto. Pois ele pilotava, como piloto, não um navio desta espécie (terrena), mas a Igreja do mundo inteiro, tendo aprendido Daquele que é Senhor também do mar; (pilotava-a) não pela arte humana, mas pela sabedoria do Espírito. Neste navio há muitos naufrágios, muitas ondas, espíritos de maldade; de dentro há lutas, de fora há temores (2Co 7,5): de modo que ele era o verdadeiro piloto. Olhai toda a nossa vida: é exatamente como (foi esta viagem). Pois ora encontramos bonança, ora tempestade; ora por nossa própria falta de conselho, ora por nossa indolência, caímos em males sem número; por não escutarmos a Paulo, quando ansiamos ir a algum lugar aonde ele nos ordena não ir. Pois Paulo ainda hoje navega conosco, apenas não acorrentado como então: ele nos admoesta ainda agora, e diz aos que (navegam) neste mar: atendei a vós mesmos, pois depois de minha partida entrarão entre vós lobos vorazes (At 20,29); e novamente: nos últimos tempos sobrevirão tempos difíceis, e os homens serão amantes de si mesmos, amantes do dinheiro, arrogantes (2Tm 3,2). Isto é mais grave que todas as tempestades. Permaneçamos, pois, onde ele nos ordena — na fé, no porto seguro: escutemo-lo antes que ao piloto que está em nós, isto é, nossa própria razão. Não façamos logo o que esta possa sugerir; não o que sugere o dono do navio: não, mas o que Paulo sugere: ele atravessou muitas tempestades semelhantes. Não aprendamos (à nossa custa) pela experiência, mas antes da experiência evitemos tanto o dano quanto a perda. Ouvi o que ele diz: Os que querem enriquecer caem em tentação (1Tm 6,9). Obedeçamos-lhe, pois; do contrário, vede o que sofreram por não terem tomado seu conselho. E novamente ele diz em outro lugar o que causa os naufrágios: Os quais, diz ele, naufragaram quanto à fé. Mas persevera tu nas coisas que aprendeste e das quais foste assegurado (1Tm 1,19). Obedeçamos a Paulo: ainda que estejamos no meio de uma tempestade, seremos certamente livres dos perigos; ainda que permaneçamos sem alimento por catorze dias, ainda que a esperança de salvação nos tenha abandonado, ainda que estejamos em trevas e cerração, fazendo o que ele ordena, seremos livres dos perigos. Pensemos que o mundo inteiro é um navio, e nele os malfeitores e os que têm vícios sem número, alguns governantes, outros guardas, outros justos, como era Paulo, outros prisioneiros, os presos por seus pecados: se, pois, fizermos como Paulo nos ordena, não pereceremos em nossas cadeias, mas delas seremos libertados: Deus também nos dará a ele. Ou pensais que os pecados e as paixões não são cadeias graves? Pois não são apenas as mãos que ficam presas, mas o homem todo. Dizei-me: quando alguém que possui muito dinheiro não o usa nem o gasta, mas o guarda estreitamente, não está ele preso mais gravemente que qualquer prisioneiro, pela sua avareza, cadeia que não se pode romper? E quando um homem se entrega à crença no Fado, não está ele também acorrentado com outros grilhões? E quando se entrega às observações (dos tempos)? E quando aos augúrios? Não são estes mais graves que todas as cadeias? E quando se entrega a uma luxúria irracional e ao amor desordenado? Quem romperá em pedaços estas cadeias por vós? Há necessidade do auxílio de Deus para que sejam soltas. Mas quando há tanto cadeias quanto tempestade, pensai quão grande é a soma dos perigos. Pois qual delas não bastaria para destruir? A fome, a tempestade, a maldade dos que estavam a bordo, a inadequação da estação? Mas contra tudo isto, a glória de Paulo se manteve firme. Assim é agora: guardemos os santos perto de nós, e não haverá tempestade; ou antes, ainda que haja tempestade, haverá grande calma e tranquilidade, e liberdade dos perigos: pois aquela viúva teve o santo por seu amigo, e a morte de seu filho foi desfeita, e ela recebeu de volta seu filho vivo novamente (1Rs 17,17). Onde pisam os pés dos santos, nada haverá de doloroso; e se algo assim acontecer, é para nossa prova e para maior glória de Deus. Acostumai o piso de vossa casa a ser pisado por tais pés, e um espírito maligno não pisará ali. Pois assim como onde há um odor suave, ali não haverá mau odor... [truncado]
Novamente o diabo tenta impedir a profecia, e tiveram eles a intenção de matar alguns, mas o centurião não o permitiu, a fim de salvar a Paulo, tanto lhe era ele afeiçoado. Mas o centurião, querendo salvar a Paulo, impediu-os de seu propósito; e ordenou que os que soubessem nadar se lançassem primeiro ao mar e alcançassem a terra, e os demais, uns sobre tábuas, e outros sobre pedaços do navio. E assim sucedeu que todos escaparam salvos até a terra (vv. 43-44). E, quando escaparam, souberam então que a ilha se chamava Malta.
E os bárbaros nos mostraram não pouca bondade, pois acenderam uma fogueira e a todos nós receberam, por causa da chuva que caía e por causa do frio. E, tendo Paulo ajuntado um feixe de gravetos e posto sobre o fogo, saiu uma víbora do calor e prendeu-se-lhe à mão.
Mostraram, diz ele, não pouca bondade a nós — bárbaros que eram —, tendo acendido uma fogueira: doutro modo de nada valeria terem-lhes as vidas sido salvas, se o rigor invernal os houvesse de destruir. Então Paulo, tendo tomado gravetos, pô-los sobre o fogo. Vede quão ativo ele é; observai como em parte alguma o encontramos operando milagres pelo prazer de os operar, mas somente na necessidade. Tanto durante a tempestade, quando havia causa, profetizou ele, não pelo prazer de profetizar, como aqui novamente, no primeiro momento, ele lança gravetos: nada por vã ostentação, mas (com simples intuito) de que fossem preservados e desfrutassem de algum calor. Então uma víbora prendeu-se-lhe à mão. E, vendo os bárbaros o animal peçonhento pendente de sua mão, diziam entre si: Sem dúvida este homem é homicida, ao qual, ainda que tenha escapado do mar, a vingança não permite viver.
Notais que bem proveio da tempestade? Não era, pois, sinal de que fossem abandonados o haver-lhes sobrevindo a tempestade. Ora, o que sucedeu foi conforme a estação do ano; mas o prodígio é maior, que em tal estação foram salvos do meio dos perigos, tanto ele quanto, por causa dele, os demais, e isto ainda no Adriático. Eram duzentas e setenta e seis almas ao todo: coisa não pequena esta também, se de fato creram. A viagem foi feita em tempo impróprio. É natural supor que perguntassem a razão de navegarem, e que tudo aprendessem. Nem foi em vão que a viagem se prolongou tanto; ela deu a Paulo ocasião para ensinar.
"Mostraram", diz ele, "não pouca bondade a nós — bárbaros que eram —, tendo acendido uma fogueira": doutro modo de nada valeria terem-lhes as vidas sido salvas, se o rigor invernal os houvesse de destruir. Então Paulo, tendo tomado gravetos, pô-los sobre o fogo. Vede quão ativo ele é; observai como em parte alguma o encontramos operando milagres pelo prazer de os operar, mas somente na necessidade. Tanto durante a tempestade, quando havia causa, profetizou ele, não pelo prazer de profetizar, como aqui novamente, no primeiro momento, ele lança gravetos: nada por vã ostentação, mas (com simples intuito) de que fossem preservados e desfrutassem de algum calor. Então uma víbora "prendeu-se-lhe à mão. E, vendo os bárbaros o animal peçonhento pendente de sua mão, diziam entre si: Sem dúvida este homem é homicida, ao qual, ainda que tenha escapado do mar, a vingança não permite viver" (v. 4). Bem também foi isto permitido, que vissem eles a coisa e proferissem o pensamento, a fim de que, quando sobreviesse o resultado, não pudesse haver descrença no milagre. Observai o bom sentimento (para com os aflitos), em dizerem isto (não em voz alta, mas) entre si — observai (também) o juízo natural claramente expresso ainda entre bárbaros, e como não condenam sem atribuir uma razão. E também estes veem, para que se admirem ainda mais. "E ele, sacudindo o animal no fogo, nenhum mal padeceu. Eles, porém, esperavam que ele viesse a inchar, ou cair morto subitamente; mas, tendo esperado bastante e vendo que nenhum mal lhe sucedia, mudaram de parecer e diziam que ele era um deus" (vv. 5-6). Esperavam-no, diz, cair morto: e novamente, tendo visto que nada disso lhe sucedeu, disseram: Ele é um deus. Novamente (como em At 14,11), outro excesso da parte destes homens. "Ora, naqueles arredores havia propriedades do principal da ilha, chamado Públio, o qual nos recebeu e hospedou cortesmente por três dias. E aconteceu que o pai de Públio jazia enfermo de febre e disenteria; a quem Paulo entrou, e orou, e, impondo-lhe as mãos, o curou" (vv. 7-8). Eis novamente outro homem hospitaleiro, Públio, que era rico e de grandes posses: nada havia visto, mas puramente por compaixão de sua desgraça, os recebeu e deles cuidou. De modo que era digno de receber bondade: por isso Paulo, como retribuição por havê-los recebido, "o curou. Feito isto, vieram também os demais que na ilha tinham enfermidades, e foram curados: os quais também nos honraram com muitas honras; e, quando partimos, nos abasteceram do necessário" (vv. 9-10), tanto a nós quanto aos demais. Vede como, livres já da tempestade, não se tornaram mais negligentes, mas que liberal acolhida lhes foi dada por causa de Paulo: e três meses ali estiveram, todos providos de sustento. Vede como tudo isto se faz por causa de Paulo, a fim de que os prisioneiros cressem, e os soldados, e o centurião. Pois, ainda que fossem de pura pedra, todavia, pelo conselho que o ouviram dar, e pela predição que o ouviram fazer, e pelos milagres que sabiam ter ele operado, e pelo sustento que por seu intermédio desfrutavam, deviam ter formado dele altíssimo conceito. Vede como, quando o juízo é reto e não preocupado por alguma paixão, quão prontamente alcança retos julgamentos, e profere sãos veredictos. "E, passados três meses, partimos num navio de Alexandria que invernara na ilha, cuja insígnia era Castor e Pólux. E, chegando a Siracusa, ali ficamos três dias. E dali, costeando, viemos a Régio; e, soprando o vento sul um dia depois, chegamos no dia seguinte a Putéoli: onde encontramos irmãos, e fomos rogados a ficar com eles sete dias: e assim fomos até Roma. E dali, ouvindo os irmãos notícias nossas, saíram-nos ao encontro até o Foro de Ápio e as Três Vendas; e, ao vê-los Paulo, deu graças a Deus e cobrou ânimo" (vv. 11-15). Já a pregação havia chegado à Sicília: vede como percorrera (até aquelas terras): também em Putéoli encontraram alguns: outros também lhes saíram ao encontro. Tal era o fervor dos irmãos, que em nada os desconcertava estar Paulo em cadeias. Mas observai também como o próprio Paulo foi afetado à maneira dos homens. Pois diz: "cobrou ânimo, ao ver os irmãos". Ainda que tivesse operado tantos milagres, contudo, mesmo da visão recebeu um acréscimo (de confiança). Por isto aprendemos que ele era consolado tanto à maneira dos homens quanto ao contrário. "E, chegando a Roma, foi permitido a Paulo morar à parte, com o soldado que o guardava" (v. 16). Concedeu-se-lhe licença de morar à parte. Não pequena prova é também esta de ser tido em muita admiração: é claro que não o contavam entre os demais. "E aconteceu que, três dias depois, convocou ele os principais dos judeus." Três dias depois convocou os principais dos judeus, para que seus ouvidos não estivessem já preocupados. E que tinha ele em comum com eles? Pois de outro modo não seriam capazes de o acusar. Todavia, não era com isto que se importava; era com o ensino que se preocupava, e que o que tinha a dizer não os ofendesse. (Recapitulação.) "E os bárbaros", etc. (v. 2). Os judeus, então, vendo todos os muitos milagres que faziam, perseguiam e afligiam (a Paulo); mas os bárbaros, que nada haviam visto, meramente com base em sua desgraça, foram bondosos com ele. "Sem dúvida", dizem eles, "este homem é homicida" (v. 4). Não simplesmente proferem seu juízo, mas dizem "sem dúvida" (isto é), como qualquer um pode ver, "e a vingança", dizem, "não lhe permite viver". Por que, então, sustentavam também a doutrina de uma Providência, e estes bárbaros eram muito mais filósofos que os filósofos, os quais não permitem que o benefício de uma Providência se estenda às coisas "sublunares": ao passo que... [truncado]
Os judeus, então, vendo todos os muitos milagres que faziam, perseguiam e afligiam (a Paulo); mas os bárbaros, que nada haviam visto, meramente com base em sua desgraça, foram bondosos com ele. — Sem dúvida, dizem eles, este homem é homicida.
Não simplesmente proferem seu juízo, mas dizem "sem dúvida" (isto é), como qualquer um pode ver, "e a vingança", dizem, "não lhe permite viver". Por que, então, sustentavam também a doutrina de uma Providência, e estes bárbaros eram muito mais filósofos que os filósofos, os quais não permitem que o benefício de uma Providência se estenda às coisas abaixo da lua: ao passo que estes (bárbaros) supõem que Deus está presente em toda parte, e que, ainda que um homem (culpado) escape a muitos (perigos), não escapará ao fim. E não o atacam imediatamente, mas por algum tempo o respeitam por causa de sua desgraça; nem proclamam abertamente sua suspeita, mas a falam entre si: homicida; pois as cadeias os levaram a suspeitar disto. Mostraram não pequena bondade, e contudo (alguns dentre eles) eram prisioneiros. Envergonhem-se aqueles que dizem: Não façais bem aos que estão presos: envergonhem-nos estes bárbaros; pois não sabiam quem eram estes homens, mas simplesmente porque estavam em desgraça (foram bondosos): tanto perceberam, que eram seres humanos, e por isso julgaram que tinham direito à sua humanidade. E por longo tempo, diz, esperaram que ele morresse.
Bem foi também permitido que eles vissem a coisa e proferissem o pensamento, a fim de que, quando sobreviesse o resultado, não houvesse como descrer do milagre. Observa o seu bom sentimento para com o aflito, ao dizerem isto não em voz alta, mas entre si; observa também o juízo natural, claramente expresso ainda entre os bárbaros, e como não condenam sem apontar uma razão. E também estes contemplam, para que se admirem ainda mais. E ele sacudiu a fera no fogo, e não sofreu mal algum. Contudo, esperavam que ele inchasse, ou caísse morto de súbito; mas, depois de terem olhado por muito tempo e de não verem sobrevir-lhe mal nenhum, mudaram de parecer e disseram que ele era um deus.
Esperavam, diz, que ele caísse morto; e de novo, tendo visto que nada disso lhe aconteceu, disseram: É um deus. Novamente, como em At 14,11, outro excesso da parte destes homens. Naqueles arredores havia propriedades do homem principal da ilha, chamado Públio, o qual nos recebeu e por três dias nos hospedou cortesmente. E sucedeu que o pai de Públio jazia enfermo de febre e de disenteria; Paulo entrou a vê-lo, orou, impôs-lhe as mãos e o curou.
Mas quando sacudiu a mão e arremessou a fera, então viram e ficaram atônitos. E o milagre não se deu de súbito, mas os homens guiaram-se pela duração do tempo, depois de terem olhado por muito tempo — tão claramente não havia aqui engano nem precipitação. Públio, diz, hospedou-os cortesmente.
duzentas e setenta e seis pessoas. Considera quão grande foi o proveito da sua hospitalidade: não por necessidade, não de má vontade, mas reputando-o um ganho, hospedou-os por três dias; e depois, tendo encontrado a sua recompensa, naturalmente honrou muito mais a Paulo, quando também os outros receberam cura. Os quais também, diz, nos honraram com muitas honras.
Eis novamente outro homem hospitaleiro, Públio, que era ao mesmo tempo rico e de grandes posses: nada tinha visto, mas puramente por compaixão da desgraça deles, recebeu-os e cuidou deles. De modo que era digno de receber benefício; por isso Paulo, em retribuição por tê-los acolhido, o curou. Feito isto, também outros, que na ilha padeciam de enfermidades, vieram e foram curados; os quais também nos honraram com muitas honras; e, ao partirmos, proveram-nos do que era necessário.
não que ele recebesse salário — longe disso! —, mas, como está escrito: O trabalhador é digno do seu sustento (Mt 10,10). E, ao partirmos, proveram-nos do que era necessário. É claro que, tendo-os assim acolhido, receberam também a palavra da pregação; pois não se há de supor que, durante três meses inteiros, lhes fosse mostrada toda esta bondade, se estas pessoas não tivessem crido fortemente, manifestando nisto os frutos da sua conversão: de sorte que daqui podemos ver uma prova firme do grande número dos que creram. Isto bastava para firmar o crédito de Paulo junto àqueles seus companheiros de viagem. Observa como, em toda esta navegação, em parte alguma tocaram numa cidade, mas foram lançados numa ilha e passaram o inverno inteiro, ali ou navegando — estando nisto sob adestramento para a fé os seus companheiros de viagem. E, passados três meses, partimos num navio de Alexandria que invernara na ilha, o qual tinha por insígnia Castor e Pólux.
tanto a nós como aos demais. Vê como, uma vez livres da tempestade, não se tornaram mais negligentes, mas que generosa acolhida lhes foi dada por causa de Paulo: e três meses ali estiveram, todos providos de sustento. Vê como tudo isto se faz por causa de Paulo, para que cressem os prisioneiros, e os soldados, e o centurião. Pois, ainda que fossem de pedra, do conselho que o ouviram dar, e da predição que o ouviram fazer, e dos milagres que sabiam ter ele operado, e do sustento que por meio dele desfrutaram, hão de ter formado dele um conceito altíssimo. Vê como, quando o juízo é reto e não está tomado por alguma paixão, logo julga com acerto e profere sentenças sãs.
E, passados três meses, partimos num navio de Alexandria que invernara na ilha, o qual tinha por insígnia Castor e Pólux. E, aportando em Siracusa, ali nos detivemos três dias. Dali, costeando, chegamos a Régio; e, um dia depois, soprando o vento sul, chegamos no dia seguinte a Putéoli, onde encontramos irmãos e fomos rogados a ficar com eles sete dias; e assim fomos em direção a Roma. E dali, tendo os irmãos ouvido falar de nós, vieram ao nosso encontro até o Foro de Ápio e às Três Tavernas; e Paulo, ao vê-los, deu graças a Deus e cobrou ânimo.
Provavelmente isto estava nele pintado: tão dados eram aos seus ídolos. E, soprando o vento sul, chegamos no dia seguinte a Putéoli, onde encontramos irmãos e fomos rogados a ficar com eles sete dias; e assim fomos em direção a Roma.
Observa-os deter-se um pouco e de novo apressar-se adiante. E dali, tendo os irmãos ouvido falar de nós, vieram ao nosso encontro até o Foro de Ápio e às Três Tavernas.
Já a pregação chegara à Sicília: vê como se difundiu mesmo àquelas terras; também em Putéoli encontraram alguns; outros ainda vieram ao seu encontro. Tal era o ardor dos irmãos, que em nada os perturbava estar Paulo em cadeias. Mas observa também como o próprio Paulo se comoveu à maneira dos homens. Pois diz que cobrou ânimo ao ver os irmãos. Ainda que tivesse operado tantos milagres, contudo até da vista recebeu um acréscimo de confiança. Daqui aprendemos que ele foi consolado à maneira dos homens, e também o contrário. E, quando chegamos a Roma, foi permitido a Paulo morar à parte, com um soldado que o guardava.
não temendo o perigo. Paulo, pois, era agora tão respeitado, que lhe foi até permitido estar à parte; porque, se já antes o tratavam com bondade, muito mais agora. Foi-lhe permitido, diz, morar à parte, com um soldado que o guardava.
Para que também ali não fosse possível urdir-se contra ele nenhum ardil — pois já não se podia agora suscitar sedição. De sorte que, na verdade, não mantinham Paulo em custódia, mas o guardavam, para que nada de desagradável sucedesse; pois não era possível agora, em tão grande cidade, estando ali o Imperador e havendo a apelação de Paulo, que se fizesse algo contra a ordem. Assim é, com toda a certeza, que sempre, por meio das coisas que parecem ser contra nós, tudo redunda em nosso favor. Com o soldado — pois era o guarda de Paulo. E, tendo convocado os principais dos judeus…
Foi-lhe concedido morar à parte. Não é pequena prova, também esta, de ser ele tido em muita admiração: é claro que não o contavam entre os demais. E sucedeu que, três dias depois, convocou os que eram os principais dos judeus. Passados três dias, chamou os principais dos judeus, para que os seus ouvidos não estivessem prevenidos. E que tinha ele em comum com eles? Pois, de outro modo, não estariam eles em condição de acusá-lo. Contudo, não era com isto que se importava; o que lhe dava cuidado era o ensino, e que aquilo que tinha a dizer não os ofendesse.
Discorre a eles, os quais tanto partem contradizendo como são por ele repreendidos, e contudo não ousam dizer coisa alguma: pois não lhes era permitido tratar do caso dele a seu bel-prazer. Porque isto é maravilhoso: que não pelas coisas que parecem ser para a nossa segurança, mas pelos próprios contrários, tudo vem a redundar em nosso favor. E, para que o aprendas — Faraó ordenou que os meninos fossem lançados no rio (Ex 1,22). Se os meninos não tivessem sido expostos, Moisés não teria sido salvo, não teria sido criado no palácio. Quando estava seguro, não estava em honra; quando foi exposto, então esteve em honra. Mas Deus fez isto, para mostrar as suas riquezas de recurso e de indústria. O judeu ameaçou-o, dizendo: Queres matar-me? (Ex 2,14) — e também isto lhe foi de proveito. Foi da providência de Deus, a fim de que ele visse aquela visão no deserto, a fim de que se completasse o tempo devido, que aprendesse sabedoria no deserto e ali vivesse em segurança. E em todas as ciladas dos judeus contra ele sucede o mesmo: então se torna mais ilustre. Assim também no caso de Aarão: levantaram-se contra ele, e com isso o tornaram mais ilustre (Nm 16 e 17), de sorte que a sua ordenação ficasse fora de questão.
E, se quiseres, percorramos os mesmos exemplos desde o princípio. Caim matou o irmão, mas nisto antes o beneficiou; pois ouve o que diz a Escritura: A voz do sangue de teu irmão clama a mim (Gn 4,10); e de novo, noutro lugar: ao sangue que fala melhor do que o de Abel (Hb 12,24). Livrou-o da incerteza do futuro, aumentou-lhe a recompensa: todos aprendemos com isto quanto amor Deus lhe tinha. Pois em que foi ele prejudicado? Em nada, por ter recebido o seu fim mais cedo. Pois, dize, que ganham os que morrem mais lentamente? Nada; porque o ter dias felizes não depende de viver muitos ou poucos anos, mas de usar retamente a vida. Os Três Jovens foram lançados na fornalha, e por isto se tornaram mais ilustres; Daniel foi lançado na cova, e daí saiu mais afamado (Dn 3 e 6). Vês que as provações em todo caso produzem grande bem já nesta vida, e muito mais na vida futura. Quanto à malícia, dá-se o mesmo que se um homem, tendo um caniço, se pusesse a combater o fogo: parece de fato ferir o fogo, mas torna-o mais brilhante, e só a si mesmo consome. Pois a malícia dos maus torna-se alimento e ocasião de esplendor para a virtude: porque, convertendo Deus a injustiça em bem, o nosso caráter resplandece tanto mais.
De novo, quando o diabo obra algo desta espécie, torna mais ilustres os que perseveram. Como, então — dirás — não foi assim com Adão, mas, ao contrário, ele ficou mais desonrado? Ora, também neste caso, mais que em todos, Deus converteu em bem a malícia daquele maligno; mas, se Adão ficou pior por isso, foi ele que a si mesmo se prejudicou; pois são os males que outros nos fazem que se tornam meio de grande bem para nós, e não os males que fazemos a nós mesmos. E é justamente porque nos afligimos quando feridos por outros, e não quando nos ferimos a nós mesmos, que Deus mostra que aquele que padece injustamente às mãos de outrem ganha renome, ao passo que aquele que a si mesmo se fere recebe dano: para que suportemos os primeiros com ânimo, mas não os segundos. E, além disso, toda a coisa ali foi obra do próprio Adão. Por que fizeste o que a mulher te disse? (Gn 3,6) Por que, quando ela te aconselhou contra Deus, não a repeliste? Foste certamente tu mesmo a causa. Ou então, se o diabo foi a causa, a esse preço todos os que são tentados deveriam perecer; mas, se nem todos perecem, a causa está em nós mesmos.
Mas, dirás, todos os que são tentados deveriam então vencer. Não: pois a causa está em nós. A esse preço, deveria seguir-se que alguns pereçam sem que o diabo tenha nisto parte alguma. Sim: e de fato muitos perecem sem que o diabo esteja envolvido; pois certamente o diabo não produz todos os nossos males; não, muito provém também da nossa própria preguiça, por si só; e, se ele também nalgum ponto entra como causa, é por lhe oferecermos nós a ocasião. Pois, dize, por que prevaleceu o diabo no caso de Judas? Quando Satanás entrou nele (Jo 13,27), dirás. Sim, mas ouve a causa: foi porque era ladrão e tirava o que se punha na bolsa (Jo 12,6). Foi ele mesmo que deu ao diabo largo espaço para entrar nele: de sorte que não é o diabo que põe em nós o princípio, mas nós é que o recebemos e o convidamos. Mas, dirás, se não houvesse diabo, os males não se teriam tornado grandes. É verdade; mas então o nosso castigo não admitiria atenuante algum: ao passo que agora, amados, o nosso castigo é mais brando, ao passo que, se tivéssemos obrado os males de nós mesmos, os castigos seriam intoleráveis.
Não nos enganemos: o diabo não é a causa de tomarmos dano, se formos vigilantes; antes, o que ele faz é despertar-nos do nosso sono, mantém-nos alerta. Examinemos por um momento estas coisas: suponhamos que não houvesse feras, nem intempéries do ar, nem doenças, nem dores, nem tristezas, nem outra coisa dessa espécie: em que não se teria tornado o homem? Antes um porco do que um homem, comprazendo-se na gula e na embriaguez. Mas, como está, os cuidados e as ansiedades são um exercício e uma disciplina de sabedoria, o melhor dos métodos de adestramento. Assim, um corpo que está ocioso e sem movimento fica doentio e disforme; mas o que se exercita e suporta trabalhos e fadigas é mais formoso e são; e o mesmo acharíamos que vale também no caso da alma. O ferro, jazendo sem uso, arruína-se; mas, se trabalhado, resplandece; e do mesmo modo a alma que é mantida em movimento. Ora, estes reveses são precisamente o que mantém a alma em movimento.
Por esta razão os pobres são, na maior parte, mais sábios do que os ricos, como quem é impelido e agitado por muitas ondas. Não vês que exortamos as amas a não terem por hábito carregar sempre as crianças, para não as habituarem e assim as tornarem desvalidas? É boa coisa, mesmo a dor em medida; boa coisa, o cuidado; boa coisa, a necessidade; pois nos fazem fortes. Sabendo, pois, estas coisas, ponhamos a nossa alma em bom estado de saúde. Se aqueles necessitavam destas coisas, muito mais nós. Mas, se delas necessitamos, não nos entristeçamos, antes até nos alegremos nas nossas aflições. Pois estas são remédios, correspondentes às nossas feridas, umas amargas, outras brandas; mas cada uma por si só seria inútil. Demos, pois, graças a Deus por todas estas coisas: porque não permite que aconteçam ao acaso, mas para proveito das nossas almas. Portanto, manifestando a nossa gratidão, demos-lhe graças, glorifiquemo-lo, suportemos com ânimo, considerando que é só por um tempo, e estendendo as nossas mentes para as coisas futuras, para que suportemos com leveza as coisas presentes e sejamos dignos de alcançar os bens vindouros, pela graça e misericórdia de seu Filho Unigênito, com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo juntamente, seja glória, poder e honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Quis ele desculpar-se a si mesmo e aos outros: a si, para que não o acusassem e, ao fazê-lo, se prejudicassem; e àqueles, para que não parecesse que tudo fora obra deles. Pois era provável que corresse o boato de que fora entregue pelos judeus, e isto bastava para alarmá-los. A isto, pois, se dirige, e defende a própria conduta. «Como então é razoável — poder-se-ia dizer — que te entregassem sem causa?» Os governadores romanos, diz, dão-me testemunho, os quais quiseram soltar-me. «Como foi, então, que não te soltaram?» «Opondo-se os judeus», diz. Observa como atenua ao falar das acusações deles contra ele; pois, se quisesse agravar as coisas, poderia tê-las usado de modo a pesar mais duramente sobre eles. Por isso diz: Fui constrangido a apelar para César — de sorte que todo o seu discurso é de índole perdoadora. Que, então? Fizeste isto para acusá-los? Não, diz: Não que eu tivesse algo de que acusar a minha nação, mas para escapar ao perigo. Pois é por amor de vós que estou preso com esta cadeia. Tão longe estou, diz, de qualquer sentimento hostil para convosco.
Então também eles foram de tal modo abrandados pelo seu discurso, que igualmente se desculparam pelos da sua própria nação: E disseram-lhe: Nós não recebemos da Judeia cartas a teu respeito, nem veio algum dos irmãos que anunciasse ou dissesse mal de ti (v. 21). Nem por cartas, nem por homens, deram a conhecer mal algum de ti. Contudo, desejamos ouvir de ti mesmo: Mas queremos ouvir de ti o que pensas (v. 22); e então se anteciparam a ele manifestando os próprios sentimentos: Pois, quanto a esta seita, é-nos notório que em toda parte se fala contra ela. E, tendo-lhe marcado um dia, muitos vieram ter com ele à sua hospedaria, aos quais expunha e testemunhava o Reino de Deus, procurando persuadi-los acerca de Jesus, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas, desde a manhã até a tarde. E alguns criam no que se dizia, e outros não criam (vv. 23-24). Não disseram «nós falamos contra ela», mas «fala-se contra ela». Então ele não respondeu de imediato, mas deu-lhes um dia; e vieram ter com ele, e discorreu, diz, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas. E alguns criam, e outros não criam. E, como não concordassem entre si, retiraram-se, depois que Paulo disse uma só palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a este povo e dize: De ouvido ouvireis, e não entendereis; e, vendo, vereis, e não percebereis; porque o coração deste povo se endureceu (vv. 25-27).
Mas, ao retirarem-se, estando divididos entre si, então ele os repreende — não porque quisesse repreender aqueles que não criam, mas para confirmar estes que criam. Bem disse Isaías, diz-lhes. De modo que aos gentios é dado conhecer este mistério. Não é de admirar, pois, que contradissessem: isto fora predito desde o princípio. Então, de novo, move-lhes a inveja por causa dos gentios: Seja-vos, portanto, notório que aos gentios é enviada esta salvação de Deus, e eles a ouvirão. E, tendo ele dito estas palavras, retiraram-se os judeus, tendo entre si grande contenda. E Paulo permaneceu dois anos inteiros numa casa que alugara, e recebia a todos os que vinham ter com ele, pregando o Reino de Deus e ensinando as coisas concernentes ao Senhor Jesus Cristo, com toda a confiança, sem impedimento algum (vv. 28-31). Mostra a liberdade que agora tinha: sem impedimento em Roma, ele que fora impedido na Judeia; e ali permaneceu ensinando por dois anos.
Vê como não por milagres, mas pela Lei e pelos Profetas os põe em silêncio, e como sempre o encontramos a fazer isto. E, no entanto, poderia também ter operado sinais; mas então já não seria matéria de fé. De fato, isto mesmo era um grande sinal: discorrer ele a partir da Lei e dos Profetas. Vê também a ordem da Providência de Deus: Muitas vezes fui impedido de ir ter convosco… tendo grande desejo, há muitos anos, de ir ter convosco (Rm 15,22-23). Mas alimentava-os de esperanças. Repara como ele não previu tudo — aquela cabeça sagrada e divina, o homem mais alto que os céus, Paulo! O homem cujo próprio nome, para os que o conhecem, basta para despertar a alma, para a vigilância, para sacudir todo o sono! Roma recebeu-o preso, subindo do mar, salvo de um naufrágio — e foi salva do naufrágio do erro. Como um imperador que travou uma batalha naval e venceu, entrou naquela cidade imperialíssima. Estava agora mais perto da sua coroa. Roma recebeu-o preso, e viu-o coroado e proclamado vencedor.
Por que quiseste aprender o que aconteceu depois destes dois anos? Também esses são tais como estes: cadeias, tormentos, combates, prisões, ciladas, falsas acusações, mortes, dia após dia. Viste apenas uma pequena parte disso? Por muito que tenhas visto, tal é ele em todo o resto. Como no caso do céu, se vês uma parte dele, para onde quer que vás, vê-lo-ás assim; como sucede com o sol, ainda que vejas os seus raios só em parte, podes conjeturar o resto: assim é com Paulo. Os seus Atos viste em parte; tais são eles por toda a extensão, cheios de perigos. Era um céu, tendo em si o Sol da Justiça, não um sol como o que vemos: de sorte que aquele homem era melhor do que o próprio céu. A que se comparariam as suas palavras? Ao mar, ou até ao oceano? Mas nada as iguala. Mais copiosas do que este mar são as suas correntes; mais puras e mais fundas; de sorte que não erraria quem chamasse ao coração de Paulo ao mesmo tempo um mar e um céu: um, pela pureza; outro, pela profundidade. É um mar que tem por navegantes não os que velejam de cidade em cidade, mas os que vão da terra ao céu; se alguém navega neste mar, terá próspera travessia. Neste mar não são ventos, mas, em vez de ventos, o Santo e Divino Espírito conduz as almas que nele navegam: aqui não há ondas, nem rochedo, nem monstros: tudo é calmo.
Aquele que quer descer a este mar não precisa de mergulhadores, não precisa de óleo, mas de muito amor aos homens; achará nele todos os bens que há no Reino dos Céus. Aquele que navega neste mar nunca sofrerá naufrágio, mas conhecerá bem todas as coisas. E, para a compreensão das palavras de Paulo, é necessária também uma vida pura. Por isso ele disse: Tornastes-vos tais que necessitais de leite, porquanto vos fizestes tardos para ouvir (Hb 5,11-12). Pois há, há uma enfermidade do ouvir. Porque, assim como um estômago enfermo não pode receber o alimento sadio que lhe é de difícil digestão, assim uma alma que se tornou inchada e ardente, desafinada e relaxada, não poderia receber a palavra do Espírito. Ouve os discípulos a dizer: Dura é esta palavra: quem a pode ouvir? (Jo 6,60) Mas, se a alma for forte e sã, tudo é facílimo, tudo é leve; torna-se mais elevada e ágil, mais capaz de voar e de erguer-se ao alto. Sabendo, pois, estas coisas, ponhamos a nossa alma em estado de saúde; emulemos Paulo e imitemos aquela nobre, aquela adamantina alma: para que, avançando nas pegadas da sua vida, sejamos capazes de navegar pelo mar desta vida presente e de chegar ao porto onde não há ondas, e de alcançar os bens prometidos aos que O amam, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo juntamente, seja glória, poder e honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Quando aqueles deviam tê-lo resgatado, entregaram-no nas mãos dos romanos. E tal a superabundância, porque aqueles não tinham poder para condená-lo, mas o entregaram prisioneiro. Não que eu tenha algo de que acusar a minha nação,
eis por que vim. Vê que expressão afetuosa: a minha nação; não os tem por estranhos. Não diz «eu não acuso», mas «não tenho de que acusar» — ainda que houvesse sofrido tantos males às suas mãos. Mas nada de tudo isto diz, nem torna ofensivo o seu discurso; nem tampouco parece poupá-los a título de favor. Pois este era o ponto principal: mostrar que o entregaram prisioneiro aos romanos, quando aqueles deviam tê-lo condenado. Por esta causa, diz, quis ver-vos.
para que a ninguém fosse possível acusar-me e dizer o que naturalmente poderia ocorrer: que, tendo escapado das mãos deles, vim por isto — não para trazer males sobre outros, mas eu mesmo fugindo dos males. Fui constrangido a apelar para César. Observa como também eles lhe falam com mais brandura. Rogamos, dizem; e querem falar em desculpa daqueles de Jerusalém. Ao passo que deviam acusá-los, intercedem por eles: pelo próprio fato de os inocentarem, de fato os acusam. Pois esta mesma coisa era prova de que se sabiam em grande culpa. Se estivessem confiantes, ao menos teriam feito isto, de modo que ele não pudesse contar a sua história a seu modo; e, além disso, esquivaram-se de vir. Quanto a esta seita, é-nos notório, dizem, que em toda parte se fala contra ela.
E sucedeu que, três dias depois, Paulo convocou os principais dos judeus; e, tendo-se reunido, disse-lhes: Homens irmãos, embora eu nada tenha feito contra o povo ou os costumes de nossos pais, contudo, desde Jerusalém, fui entregue prisioneiro nas mãos dos romanos; os quais, tendo-me interrogado, quiseram soltar-me, porque não havia em mim causa de morte. Mas, opondo-se os judeus, fui constrangido a apelar para César — não que eu tivesse algo de que acusar a minha nação. Por esta causa, pois, vos chamei, para ver-vos e falar-vos; porque é pela esperança de Israel que estou preso com esta cadeia.
Quis ele desculpar-se a si mesmo e aos outros: a si, para que não o acusassem e, ao fazê-lo, se prejudicassem; e àqueles, para que não parecesse que tudo fora obra deles. Pois era provável que corresse o boato de que fora entregue pelos judeus, e isto bastava para alarmá-los. A isto, pois, se dirige, e defende a própria conduta. Como então é razoável — poder-se-ia dizer — que te entregassem sem causa? Os governadores romanos, diz, dão-me testemunho, os quais quiseram soltar-me. Como foi, então, que não te soltaram? Opondo-se os judeus, diz. Observa como atenua ao falar das acusações deles contra ele; pois, se quisesse agravar as coisas, poderia tê-las usado de modo a pesar mais duramente sobre eles. Por isso diz: Fui constrangido a apelar para César — de sorte que todo o seu discurso é de índole perdoadora. Que, então? Fizeste isto para acusá-los? Não, diz: Não que eu tivesse algo de que acusar a minha nação, mas para escapar ao perigo. Pois é por amor de vós que estou preso com esta cadeia. Tão longe estou, diz, de qualquer sentimento hostil para convosco. Então também eles foram de tal modo abrandados pelo seu discurso, que igualmente se desculparam pelos da sua própria nação: E disseram-lhe: Nós não recebemos da Judeia cartas a teu respeito, nem veio algum dos irmãos que anunciasse ou dissesse mal de ti.
É verdade, mas as pessoas também em toda parte são persuadidas (como, de fato, aqui): alguns foram persuadidos, e outros não creram. E, tendo-lhe marcado um dia, etc.
Nem por cartas, nem por homens, deram a conhecer mal algum a teu respeito. Contudo, desejamos ouvir de ti mesmo: Mas queremos ouvir de ti o que pensas.
e então se anteciparam a ele manifestando os próprios sentimentos. Pois, quanto a esta seita, é-nos notório que em toda parte se fala contra ela. E, tendo-lhe marcado um dia, muitos vieram ter com ele à sua hospedaria, aos quais expunha e testemunhava o Reino de Deus, procurando persuadi-los acerca de Jesus, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas, desde a manhã até a tarde. E alguns criam no que se dizia, e outros não criam (vv. 23-24). Não disseram «nós falamos contra ela», mas «fala-se contra ela». Então ele não respondeu de imediato, mas deu-lhes um dia; e vieram ter com ele, e discorreu, diz, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas. E alguns criam, e outros não criam. E, como não concordassem entre si, retiraram-se, depois que Paulo disse uma só palavra: Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías, dizendo: Vai a este povo e dize: De ouvido ouvireis, e não entendereis; e, vendo, vereis, e não percebereis; porque o coração deste povo se endureceu, e com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos; para que não vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, nem entendam com o coração, e se convertam, e eu os cure.
Vê de novo como não por milagres, mas pela Lei e pelos Profetas os reduz ao silêncio, e como sempre o encontramos a fazer isto. E, no entanto, poderia também ter operado sinais; mas então já não seria matéria de fé. De fato, isto mesmo era um grande sinal: discorrer ele a partir da Lei e dos Profetas. Então, para que não o julgues estranho o não terem crido, introduz a profecia que diz: De ouvido ouvireis, e não entendereis — mais agora do que então; e, vendo, vereis, e não percebereis.
mais agora do que então. Isto não se diz dos primeiros, mas dos incrédulos. Como, então? Foi contra a profecia terem aqueles crido? Vai, diz, a este povo — isto é, ao povo incrédulo. Não disse isto para insultá-los, mas para remover o escândalo. Seja-vos, pois, notório, diz, que aos gentios é enviada a salvação de Deus. Eles, diz, também a ouvirão.
Mas, ao retirarem-se, estando divididos entre si, então ele os repreende — não porque quisesse repreender aqueles que não criam, mas para confirmar estes que criam. Bem disse Isaías, diz-lhes. De modo que aos gentios é dado conhecer este mistério. Não é de admirar, pois, que contradissessem: isto fora predito desde o princípio. Então, de novo, move-lhes a inveja por causa dos gentios. Seja-vos, portanto, notório que aos gentios é enviada a salvação de Deus, e eles a ouvirão. E, tendo ele dito estas palavras, retiraram-se os judeus, tendo entre si grande contenda. E Paulo permaneceu dois anos inteiros numa casa que alugara, e recebia a todos os que vinham ter com ele, pregando o Reino de Deus e ensinando as coisas concernentes ao Senhor Jesus Cristo, com toda a confiança, sem impedimento algum. Amém.
Então por que discorres a nós? Não sabias isto? Sim, mas para que fôsseis persuadidos, e para que eu me desculpasse e não desse a ninguém azo contra mim. Os incrédulos foram os que se retiraram. Mas vê como já não tramam contra ele. Pois na Judeia tinham uma espécie de tirania. Por que, então, a Providência de Deus ordenou que ele para lá fosse, tendo o Senhor dito: Sai depressa de Jerusalém (At 22,18)? Para que tanto se mostrasse a maldade deles quanto se cumprisse a profecia de Cristo — que não suportariam ouvi-lo —, e para que todos aprendessem que ele estava pronto a padecer todas as coisas, e para que o acontecimento servisse de consolação aos da Judeia; pois também ali os irmãos sofriam muitos e graves males. Ora, se, pregando as doutrinas judaicas, assim padecia, tivesse ele pregado as doutrinas da glória de Cristo, como o suportariam? Enquanto se purificava (At 21,26) era intolerável — e como seria tolerável enquanto pregasse? Que lhe imputais? Que ouvistes? Nada de tal espécie falou. Foi simplesmente visto, e exasperou todos contra si. Bem podia, pois, ser posto à parte para os gentios; bem podia ser enviado para longe, ali também destinado a discorrer aos gentios. Primeiro chama os judeus; depois, tendo-lhes mostrado os fatos, vem aos gentios (At 24,18). Bem falou o Espírito Santo, etc. Mas este dizer, «Disse o Espírito», nada tem de admirável; pois também de um anjo se diz que diz o que o Senhor diz — mas d'Ele, o Espírito, não assim. Quando se fala das coisas ditas pelo anjo, não se diz «Bem disse o anjo», mas «Bem disse o Senhor». Bem disse o Espírito: como que a dizer: Não sou eu a quem descreis. Mas Deus previu isto desde o princípio. Discorria, diz, com desassombro, sem impedimento.
pois é possível falar com desassombro e, contudo, ser impedido. O seu desassombro nada o tolheu; mas, de fato, ele também falou sem impedimento. Discorria, diz, as coisas concernentes ao Reino de Deus: repara — nada das coisas dos sentidos, nada das coisas presentes. Mas dos seus feitos depois dos dois anos, que dizemos? O escritor deixa o ouvinte sequioso de mais: os autores pagãos fazem o mesmo nos seus escritos, pois saber tudo torna o leitor embotado e enfastiado. Ou então faz isto por não estar em seu poder expô-lo a partir do próprio conhecimento pessoal. Repara na ordem da Providência de Deus: Muitas vezes fui impedido de ir ter convosco… tendo grande desejo, há muitos anos, de ir ter convosco (Rm 15,22-23). Mas alimentava-os de esperanças: Apresso-me a ir à Espanha, e espero, diz, ver-vos de passagem e ser por vós encaminhado para lá, depois de ter gozado um pouco da vossa companhia (Rm 15,24). E disto diz: irei e descansarei convosco na plenitude da bênção do Evangelho (Rm 15,29); e de novo: vou a Jerusalém servir aos santos (Rm 15,25) — o que é o mesmo que disse aqui: Vim fazer esmolas à minha nação (At 24,17). Reparas como ele não previu tudo — aquela cabeça sagrada e divina, o homem mais alto que os céus, que tinha uma alma capaz de abarcar tudo de uma vez, o que ocupa o primeiro lugar, Paulo?
O homem cujo próprio nome, para os que o conhecem, basta para despertar a alma, para a vigilância, para sacudir todo o sono! Roma recebeu-o preso, subindo do mar, salvo de um naufrágio — e foi salva do naufrágio do erro. Como um imperador que travou uma batalha naval e venceu, entrou naquela cidade imperialíssima. Estava agora mais perto da sua coroa. Roma recebeu-o preso, e viu-o coroado e proclamado vencedor. Ali dissera: descansarei convosco; mas isto era o começo de uma nova corrida, e ele acrescentou troféus a troféus, homem invencível. Corinto reteve-o dois anos, e a Ásia três, e esta cidade dois desta vez; uma segunda vez de novo nela entrou, quando também foi consumado. Assim escapou então e, tendo enchido o mundo inteiro, deu assim fim à sua vida. Por que quiseste aprender o que aconteceu depois destes dois anos? Também esses são tais como estes: cadeias, tormentos, combates, prisões, ciladas, falsas acusações, mortes, dia após dia. Viste apenas uma pequena parte disso? Por muito que tenhas visto, tal é ele em todo o resto. Como no caso do céu, se vês uma parte dele, para onde quer que vás, vê-lo-ás assim; como sucede com o sol, ainda que vejas os seus raios só em parte, podes conjeturar o resto: assim é com Paulo. Os seus Atos viste em parte; tais são eles por toda a extensão, cheios de perigos. Era um céu, tendo em si o Sol da Justiça.
A que se comparariam as suas palavras? Ao mar, ou até ao oceano? Mas nada as iguala. Mais copiosas do que este mar são as suas correntes; mais puras e mais fundas; de sorte que não erraria quem chamasse ao coração de Paulo ao mesmo tempo um mar e um céu: um, pela pureza; outro, pela profundidade. É um mar que tem por navegantes não os que velejam de cidade em cidade, mas os que vão da terra ao céu; se alguém navega neste mar, terá próspera travessia. Neste mar não são ventos, mas, em vez de ventos, o Santo e Divino Espírito conduz as almas que nele navegam: aqui não há ondas, nem rochedo, nem monstros: tudo é calmo. Aquele que quer descer a este mar não precisa de mergulhadores, não precisa de óleo, mas de muito amor aos homens; achará nele todos os bens que há no Reino dos Céus. Aquele que navega neste mar nunca sofrerá naufrágio, mas conhecerá bem todas as coisas. Mas, assim como os inexperientes neste nosso mar visível se sufocam ao tentar mergulhar nele, assim é naquele outro mar: o que é precisamente o caso dos hereges, quando tentam coisas acima das suas forças. Convém, pois, conhecer a profundidade, ou então não se aventurar. Se havemos de navegar neste mar, venhamos bem cingidos. Não pude, diz, falar-vos como a espirituais, mas como a carnais (1Cor 3,1). Ninguém que seja sem perseverança navegue neste mar. Provejamo-nos de naves, isto é, de zelo, de diligência, de orações, para que atravessemos o mar em quietude.
Pois, na verdade, esta é a água viva. Como quem adquirisse uma boca de fogo, tal boca adquire aquele que conhece bem a Paulo; como quem tivesse uma espada afiada, assim de novo se torna tal homem invencível. E, para a compreensão das palavras de Paulo, é necessária também uma vida pura. Por isso ele disse: Tornastes-vos tais que necessitais de leite, porquanto vos fizestes tardos para ouvir (Hb 5,11-12). Pois há uma enfermidade do ouvir. Porque, assim como um estômago enfermo não pode receber o alimento sadio que lhe é de difícil digestão, assim uma alma que se tornou inchada e ardente, desafinada e relaxada, não poderia receber a palavra do Espírito. Ouve os discípulos a dizer: Dura é esta palavra: quem a pode ouvir? (Jo 6,60) Mas, se a alma for forte e sã, tudo é facílimo, tudo é leve; torna-se mais elevada e ágil, mais capaz de voar e de erguer-se ao alto. Sabendo, pois, estas coisas, ponhamos a nossa alma em estado de saúde; emulemos Paulo e imitemos aquela nobre, aquela adamantina alma: para que, avançando nas pegadas da sua vida, sejamos capazes de navegar pelo mar desta vida presente e de chegar ao porto onde não há ondas, e de alcançar os bens prometidos aos que O amam, pela graça e misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, com o qual, ao Pai e ao Espírito Santo juntamente, seja glória, poder e honra, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.
Mostra a liberdade que agora tinha: sem impedimento em Roma, ele que fora impedido na Judeia; e ali permaneceu ensinando por dois anos. E dos anos que se seguiram a estes, que dizer?
Seria prudente explicar de que modo descobrimos a ocasião e o assunto desta epístola, tal como os consideramos. Quais são eles, pois? Os colossenses costumavam aproximar-se de Deus por meio de anjos; seguiam numerosas observâncias judaicas e helênicas. Paulo está a corrigir estas práticas.
Santas são, na verdade, todas as Epístolas de Paulo; mas alguma vantagem têm aquelas que ele enviou depois de estar em cadeias: aquelas, por exemplo, aos Efésios e a Filemom; a Timóteo, a dos Filipenses, e esta que temos diante de nós; pois também esta foi enviada quando ele era prisioneiro, visto que nela escreve assim: pelo qual também estou em cadeias, para que eu o manifeste como devo falar (Cl 4,3-4). Mas esta Epístola parece ter sido escrita depois da que se enviou aos Romanos. Pois a que escreveu aos Romanos, escreveu-a antes de os ter visto; mas esta Epístola, depois; e já bem próximo do fim de sua pregação. E isto se evidencia por aqui: que na Epístola a Filemom diz, Sendo eu tal qual Paulo, o velho (Fm 9), e faz um pedido em favor de Onésimo; mas nesta envia o próprio Onésimo, como diz, Com Onésimo, o fiel e amado irmão (Cl 4,9): chamando-o fiel, amado e irmão. Por isso também diz ousadamente nesta Epístola: da esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado em toda a criação debaixo do céu (Cl 1,23). Pois já havia sido pregado por longo tempo. Penso, pois, que a Epístola a Timóteo foi escrita depois desta; e quando ele já havia chegado ao termo mesmo de sua vida, pois ali diz, pois eu já estou sendo oferecido (2Tm 4,6); esta, porém, é posterior à dos Filipenses, pois naquela Epístola ele apenas entrava em seu cárcere em Roma.
Mas por que digo que estas Epístolas têm, neste ponto, alguma vantagem sobre as demais, pelo fato de ele escrever estando em cadeias? Como se um campeão escrevesse em meio à carnificina e à vitória; assim também, na verdade, fez ele. Pois ele mesmo sabia que isto era coisa grande, pois, escrevendo a Filemom, diz, A quem gerei em minhas cadeias (Fm 10). E disse isto para que não nos abatêssemos na adversidade, mas antes nos alegrássemos. Neste lugar estava Filemom junto com estes (os Colossenses). Pois, na Epístola a ele, diz, E a Arquipo, nosso companheiro de milícia (Fm 2); e nesta, Dizei a Arquipo (Cl 4,17). Este homem parece-me ter sido encarregado de algum ofício na Igreja.
Mas ele não havia visto nem a estes, nem aos Romanos, nem aos Hebreus, quando lhes escreveu. Que isto é verdade quanto aos outros, ele o mostra em muitos lugares; quanto aos Colossenses, ouvi-o dizer, E a quantos não viram o meu rosto na carne (Cl 2,1-5); e ainda, Ainda que ausente na carne, estou, contudo, convosco em espírito. Tão grande coisa sabia ele ser a sua presença em toda parte. E sempre, ainda que ausente, ele se faz presente. Assim, ao punir o fornicador, vede como se coloca ele mesmo no tribunal; pois, diz, Eu, na verdade, ausente no corpo, mas presente em espírito, já julguei, como se estivesse presente (1Cor 5,3); e ainda, Virei a vós, e conhecerei não a palavra dos que andam inchados, mas o poder (1Cor 4,19); e ainda, Não somente quando estou presente convosco, mas muito mais agora, estando ausente (Fp 2,12; Gl 4,18).
Paulo, Apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus.
Convém também dizer o que, ao considerarmos esta Epístola, encontramos ser sua ocasião e seu assunto. Qual é, pois? Costumavam eles aproximar-se de Deus por meio de anjos; observavam muitos costumes judaicos e gregos. Estas coisas, pois, ele está corrigindo. Por isso, logo de início, diz: Pela vontade de Deus. Também aqui, novamente, usou a expressão por meio de. E Timóteo, o irmão, diz ele; logo, também este era Apóstolo, e provavelmente lhes era conhecido. Aos santos que estão em Colossos. Esta era uma cidade da Frígia, como é evidente por estar próxima de Laodiceia. E fiéis irmãos em Cristo (Cl 4:16). De onde, diz ele, foste feito santo? Dize-me. De onde és chamado fiel? Não é porque foste santificado por meio da morte? Não é porque tens fé em Cristo? De onde foste feito irmão? Pois nem por obra, nem por palavra, nem por façanha te mostraste fiel. Dize-me, de onde vem que te foram confiados tão grandes mistérios? Não é por causa de Cristo?
Qual é, pois, a fonte da graça para vós? E da paz? "Da parte de Deus nosso Pai", escreve Paulo. Neste lugar Paulo não menciona o nome de Cristo. Perguntarei àqueles que falam depreciativamente do Espírito: de que modo é Deus Pai de servos? Quem operou estas grandiosas façanhas? Quem vos fez santos? Quem, fiéis? Quem, filhos de Deus? Aquele que vos fez dignos de confiança é o mesmo que fez com que vos fosse confiado tudo.
Graça a vós e paz da parte de Deus nosso Pai. De onde vos vem a graça? De onde a paz? De Deus, diz ele, nosso Pai. Ainda que não use, neste lugar, o nome de Cristo.
Perguntarei àqueles que falam depreciativamente do Espírito: de onde é Deus Pai de servos? Quem operou estas grandiosas façanhas? Quem vos fez santos? Quem, fiéis? Quem, filhos de Deus? Aquele que vos fez dignos de confiança, esse mesmo é também a causa de vos ser confiado tudo.
Pois somos chamados fiéis não somente porque temos fé, mas também porque nos são confiados por Deus mistérios que nem os anjos conheceram antes de nós. Contudo, para Paulo era indiferente expressá-lo assim ou não.
Damos graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Parece-me que ele refere tudo ao Pai, para que aquilo que tem a dizer não os ofenda de imediato. Orando sempre por vós.
Ele mostra o seu amor não apenas dando graças, mas também pela oração contínua, pois aqueles que não via, trazia-os continuamente dentro de si mesmo.
Tendo ouvido falar da vossa fé em Cristo Jesus. Um pouco acima disse: nosso Senhor. Ele, diz, é Senhor, não os servos. De Jesus Cristo. Estes nomes são também símbolos do Seu benefício para conosco, pois significa que Ele há de salvar o Seu povo dos seus pecados [Mt 1,21].
Tendo ouvido falar da vossa fé em Cristo Jesus, e do amor que tendes para com todos os santos. Já os concilia. Foi Epafrodito quem lhe trouxe este relato. Mas envia a epístola por meio de Tíquico, retendo Epafrodito consigo. E do amor, diz ele, que tendes para com todos os santos, não para com este ou aquele: certamente, pois, também para conosco.
[Paulo] fala dos bens futuros. Tem em vista as tentações deles. Não deveriam buscar aqui o seu repouso... "Por causa da esperança", diz ele, "que vos está reservada". Mostra quão segura é esta esperança.
Ele fala dos bens futuros. Isto é em vista das tentações deles, para que não buscassem aqui o seu repouso. Pois, para que ninguém dissesse: "E onde está o proveito do amor deles para com os santos, se eles próprios estão em aflição?", ele diz: Alegramo-nos por estardes assegurando para vós mesmos uma nobre recepção nos céus. Por causa da esperança, diz ele, que vos está reservada. Mostra a sua segurança. Da qual antes ouvistes na palavra da verdade. Aqui a expressão é como se ele quisesse repreendê-los, por se terem desviado dela, tendo-a possuído por longo tempo.
Da qual, diz ele, antes ouvistes na palavra da verdade do Evangelho. E dá testemunho da sua verdade. Com boa razão, pois nele não há nada de falso.
Do Evangelho. Não diz "da pregação", mas o chama de Evangelho, recordando-lhes continuamente os benefícios de Deus. E, tendo primeiro os louvado, em seguida lhes recorda estes benefícios.
“Dando fruto.” Em obras. “Crescendo.” Pela vinda à fé de muitos, por tornar-se mais firme; pois as plantas então começam a engrossar quando se tornaram firmes.
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Paulo fala metaforicamente quando escreve “chegou”. Ele quer dizer que não chegou e se foi, mas que permaneceu e ali esteve. Muitas doutrinas são mais fortemente confirmadas quando são sustentadas em comum por muitos. Por isso Paulo acrescentou: “Assim como também em todo o mundo.” O evangelho está presente em toda parte, em toda parte vitorioso, em toda parte estabelecido.
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O qual chegou até vós, assim como também está em todo o mundo. Ele agora lhes concede louvor. “Chegou”, disse ele metaforicamente. Quer dizer que não chegou e se foi, mas que permaneceu e ali esteve. Depois, porque para a maioria a mais forte confirmação das doutrinas é sustentá-las em comum com muitos, acrescentou por isso: Assim como também em todo o mundo. Está presente em toda parte, em toda parte vitorioso, em toda parte estabelecido.
E vai dando fruto e crescendo, como também entre vós. Dando fruto. Em obras. Crescendo. Pelo acréscimo de muitos, por tornar-se mais firme; pois as plantas então começam a engrossar quando se tornaram firmes.
Como também entre vós, diz ele. Primeiro conquista o ouvinte com seus louvores, para que, ainda que relutante, não recuse ouvi-lo.
Desde o dia em que ouvistes. Maravilhoso! Que rapidamente a ela chegastes e crestes; e imediatamente, desde o primeiro momento, mostrastes seus frutos.
Desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade. Não em palavra, diz ele, nem em engano, mas em obras verdadeiras. Ora isto é o que ele quer dizer por dar fruto, ou então, os sinais e prodígios. Porque assim que a recebestes, logo conhecestes a graça de Deus. Ora, o que imediatamente deu provas de sua virtude inerente, não é coisa difícil que agora se descreia disso?
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Não duvideis, diz Paulo, da esperança que há de vir: vedes que o mundo está sendo convertido. E por que necessitamos referir-nos aos casos alheios? O que sucedeu em vosso próprio caso já é, por si só, fundamento suficiente para a crença, pois “conhecestes a graça de Deus em verdade”: isto é, em obras. De modo que estas duas coisas, a saber, a crença de todos e a vossa própria, confirmam as coisas que hão de vir. Nem foi uma coisa o fato, e outra o que Epafras disse... Se este homem é ministro de Cristo, como dizeis que vos aproximais de Deus por meio de anjos? “Ele nos deu a conhecer o vosso amor no Espírito.” Pois este amor é admirável e constante. Todo outro amor tem apenas o nome... Pois nada, nada é tão forte quanto o vínculo do Espírito.
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Mesmo como aprendestes de Epafras, nosso amado conservo.
Ele, é provável, havia pregado ali. Aprendestes o Evangelho. Depois, para mostrar a fidelidade do homem, ele diz: nosso conservo.
Que é fiel ministro de Cristo em vosso favor; o qual também nos declarou o vosso amor no Espírito.
Não duvideis, diz ele, da esperança que há de vir: vedes que o mundo se converte. E que necessidade há de alegar os casos de outros? O que aconteceu no vosso próprio caso já é, independentemente, fundamento suficiente para a crença, pois conhecestes a graça de Deus em verdade, isto é, em obras. De modo que estas duas coisas, a saber, a crença de todos e também a vossa própria, confirmam as coisas que hão de vir. Nem foi o fato uma coisa, e outra o que Epafras disse. Que é, diz ele, fiel, isto é, verdadeiro. Como, ministro em vosso favor? Em que fora até ele. O qual também nos declarou, diz ele, o vosso amor no Espírito, isto é, o amor espiritual que nos tendes. Se este homem é ministro de Cristo, como dizeis vós que vos aproximais de Deus por meio de anjos? O qual também nos declarou, diz ele, o vosso amor no Espírito. Pois este amor é maravilhoso e constante; todo outro não tem senão o nome. E há alguns que não são desta espécie, mas isto não é amizade, pelo que também se dissolve facilmente.
Há muitas causas que produzem a amizade; e passaremos por alto aquelas que são infames (pois ninguém levantará objeção contra nós em seu favor, visto que são más). Mas examinemos, se quiserdes, as que são naturais e as que nascem das relações da vida. Ora, do gênero social são estas, por exemplo: um recebe um benefício, ou herda um amigo dos antepassados, ou foi companheiro à mesa ou em viagem; ou é vizinho de outro (e estas são virtuosas); ou é do mesmo ofício, o que, contudo, não é sincero, pois vem acompanhado de certa emulação e inveja. Mas as naturais são tais como a do pai para com o filho, do filho para com o pai, do irmão para com o irmão, do avô para com o descendente, da mãe para com os filhos, e, se quiserdes, acrescentemos também a da esposa para com o marido, pois todos os afetos matrimoniais são também desta vida, e terrenos. Ora, estas últimas parecem mais fortes que as primeiras — parecem, digo, porque muitas vezes são superadas por elas. Pois os amigos têm, por vezes, mostrado disposição mais genuinamente benévola do que irmãos, ou do que filhos para com pais; e quando aquele a quem um homem gerou não quis socorrê-lo, alguém que não o conhecia se pôs ao seu lado e o socorreu. Mas o amor espiritual é mais elevado que todos, como que uma rainha governando seus súditos; e em sua forma é resplandecente, pois não tem, como o outro, coisa alguma da terra por progenitora, nem o trato habitual, nem os benefícios, nem a natureza, nem o tempo; mas desce do alto, do céu. E por que te admiras de que ela não necessite de benefícios para subsistir, vendo que tampouco por injúrias é derrubada?
Agora ouve o que Paulo diz, para saber que este amor é maior do que o outro: *Porque eu desejaria eu mesmo ser anátema de Cristo por amor de meus irmãos* (Rm 9,3). Que pai desejaria estar assim em tamanha desventura? E de novo: *Partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor; todavia, permanecer na carne é mais necessário por causa de vós* (Fp 1,23-24). Que mãe teria escolhido falar assim, sem consideração por si mesma? E ouve-o dizer ainda: *Privados de vós por breve tempo, de presença, não de coração* (1Ts 2,17). E aqui, na verdade, quando um pai é ultrajado, retira o seu amor; não assim, porém, ali, mas ele foi ao encontro daqueles que o apedrejavam, buscando fazer-lhes o bem. Pois nada, nada há tão forte quanto o vínculo do Espírito. Aquele que se tornou amigo por receber benefícios, caso estes cessem, tornar-se-á inimigo; aquele a quem o trato habitual fazia inseparável, quando se rompe o costume, deixará extinguir-se a amizade. A esposa, de novo, caso sobrevenha uma desavença, deixará o marido e retirará o afeto; o filho, quando vê o pai chegar a idade avançada, mostra-se descontente. Mas no caso do amor espiritual nada disto se dá. Pois por nenhuma destas coisas ele pode ser dissolvido, visto que não é composto delas. Nem o tempo, nem a longa distância, nem os maus-tratos, nem a maledicência, nem a ira, nem o ultraje, nem qualquer outra coisa o penetram, nem têm o poder de o dissolver. E para que saibais isto, Moisés foi apedrejado, e contudo intercedeu por eles (Êx 17,4). Que pai teria feito isto por quem o apedrejava, e não antes o teria apedrejado também até à morte?
Que sigamos, pois, na busca destas amizades que são do Espírito, porque são fortes e difíceis de dissolver-se, e não daquelas que nascem da mesa, pois estas nos é vedado levar Para Lá. Ouve, com efeito, o que diz Cristo no Evangelho: Não chames teus amigos nem teus vizinhos, quando fizeres um banquete, mas os coxos, os aleijados (Lc 14,12). E com razão: pois grande é a recompensa reservada a estes. Mas tu não podes, nem suportas banquetear-te com coxos e cegos; antes, julgas isto penoso e ofensivo, e recusas. Ora, o melhor seria de fato que não recusasses; contudo, não é necessário fazê-lo. Se não os assentas contigo, envia-lhes iguarias da tua própria mesa. Aquele que convida os seus amigos nada fez de grande, pois já recebeu aqui a sua recompensa. Mas aquele que chamou os aleijados e os pobres tem a Deus por seu Devedor. Não nos lamentemos, pois, quando não recebemos aqui a recompensa, mas sim quando a recebemos; porquanto nada mais teremos a receber Lá. De igual modo, se o homem retribui, Deus não retribui; se o homem não retribui, então Deus retribuirá. Não busquemos, pois, para nossos benefícios, àqueles que têm em seu poder retribuir-nos, nem concedamos nossos favores com tal expectativa: pensamento frio seria este. Se convidas um amigo, a gratidão dura até a noite; e por isso a amizade de ocasião se consome mais depressa do que se pagam as despesas. Mas se chamas o pobre e o aleijado, jamais perecerá a gratidão, pois Deus, que sempre se lembra e jamais esquece, Este mesmo tens por teu Devedor. Que delicadeza é esta, pergunto, que não podes sentar-te em companhia dos pobres? Que dizes? Que ele é imundo e sujo? Então lava-o, e conduze-o à tua mesa. Mas tem vestes sujas? Então muda-as, e dá-lhe traje limpo. Não vês quão grande é o ganho? Cristo vem a ti por meio dele, e tu fazes mesquinhos cálculos acerca de tais coisas? Quando convidas o Rei para a tua mesa, temes por causa de coisas como estas?
Suponhamos duas mesas, e que uma esteja repleta daqueles que têm cegos, coxos, aleijados de mão ou de perna, descalços, vestidos de uma única veste escassa e já gasta; mas que a outra tenha grandes senhores, generais, governadores, altos dignitários, ornados de vestes preciosas e de fino linho, cingidos com cinturões de ouro. Além disso, aqui, à mesa dos pobres, não haja nem prata, nem abundância de vinho, mas apenas o suficiente para reconfortar e alegrar, e que os copos e os demais vasos sejam feitos somente de vidro; mas ali, à mesa dos ricos, sejam todos os vasos de prata e ouro, e a mesa semicircular não tal que uma só pessoa possa levantar, mas que dois jovens a custo possam mover, e as ânforas de vinho jazam em ordem, resplandecendo com o ouro muito além da prata, e que o semicírculo esteja todo revestido suavemente de macias colgaduras. Aqui, ademais, haja muitos servos, em vestes não menos ornadas que as dos convivas, e ricamente ataviados, trajando amplos calções, homens formosos de ver, na própria flor da vida, robustos e bem dispostos; mas ali haja apenas dois servos, desdenhando toda essa soberba vaidade. E que estes tenham iguarias custosas, mas aqueles apenas o suficiente para aplacar a fome e infundir alegria. Terei dito o bastante? E ambas as mesas estão dispostas com suficiente minúcia? Falta algo? Creio que não. Pois percorri os convivas, e o custo tanto dos vasos, quanto do linho e das iguarias. Contudo, se houvermos omitido algo, o descobriremos ao prosseguirmos o discurso.
Vinde, pois, agora que traçamos corretamente cada mesa em seu devido contorno, vejamos junto a qual vos assentareis. Pois eu, de minha parte, irei àquela dos cegos e dos coxos, mas provavelmente a maior parte de vós escolherá a outra, a dos generais, tão vistosa e esplêndida. Vejamos, pois, qual delas mais abunda em prazer; pois, por ora, não examinemos ainda as coisas do porvir, uma vez que ao menos nestas esta minha mesa já leva a superioridade. Por quê? Porque esta tem Cristo assentado a ela, a outra, homens; esta tem o Senhor, aquela, os servos. Mas não falemos ainda destas coisas; vejamos antes qual tem mais prazer presente. E mesmo neste respeito, então, este prazer é maior, pois é mais prazeroso assentar-se com um Rei do que com seus servos. Mas retiremos também esta consideração; examinemos a questão simplesmente em si mesma. Eu, então, e aqueles que escolhem a mesa que escolho, com muita liberdade e desassombro de espírito tanto diremos quanto ouviremos tudo; mas vós, trementes e temerosos, e envergonhados diante daqueles com quem vos assentais, nem sequer tereis ânimo para estender as mãos, como se tivésseis chegado a uma escola, e não a um banquete, como se tremêsseis diante de temíveis mestres. Mas não assim eles. Mas, dirá alguém, a honra é grande. Não; eu, antes, estou em maior honra; pois vossa condição vil parece mais grandiosa quando, mesmo partilhando a mesma mesa, as palavras que proferis são as de escravos.
Servo, com efeito, mostra-se sobretudo tal quando se assenta com o seu amo; pois se acha então em lugar onde não deveria estar, e dessa familiaridade não lhe advém dignidade alguma, mas antes abatimento — porquanto se acha então sobremaneira abatido. E pode-se ver que o servo, por si mesmo, faz nobre figura, e que o pobre parece esplêndido por si só, mais do que quando caminha ao lado de um rico; pois o baixo, junto do elevado, então parece baixo, e a justaposição faz o baixo parecer mais baixo, e não mais elevado. Assim também o vosso assentar-vos com eles vos faz parecer de condição ainda mais vil. Mas não é assim conosco. Nestas duas coisas, pois, temos a vantagem: na liberdade e na honra, às quais nada se iguala em matéria de prazer. Pois eu, por mim, preferiria um mendrugo com liberdade a milhares de iguarias com escravidão. Pois, diz um, "Melhor é um repasto de hortaliças com amor e benevolência do que um boi cevado com ódio" (Pv 15,17). Pois, seja o que for que digam aqueles, os que ali se acham presentes hão de necessariamente louvá-lo, ou dar ofensa — assumindo assim a condição de parasitas, ou antes, sendo piores que eles. Pois os parasitas, com efeito, ainda que com vergonha e insulto, têm contudo liberdade de palavra; mas vós nem isto tendes. Vossa vileza, na verdade, é igualmente grande (pois temeis e vos encolheis), mas não assim vossa honra. Certamente, pois, aquela mesa se acha privada de todo prazer, mas esta se acha repleta de todo o deleite da alma.
Examinemos, porém, também a natureza dos próprios manjares. Pois ali é necessário fartar-se à força, ainda contra a própria vontade, com a grande quantidade de vinho, mas aqui ninguém que não o deseje precisa comer ou beber. De sorte que ali o prazer que provém da qualidade do alimento é anulado pela desonra que o precede e pelo desconforto que se segue à fartura. Pois não menos do que a fome, a fartura destrói e atormenta os nossos corpos; antes, bem mais gravemente; e a quem quer que me deis, mais facilmente o destruirei fazendo-o rebentar de fartura do que de fome. Pois esta última é mais fácil de suportar do que a outra; pois pode-se, com efeito, suportar a fome por vinte dias, mas a fartura não por tantos quanto sequer dois. E os camponeses, que perpetuamente lutam com a fome, são sãos e não necessitam de médicos; mas a outra, a fartura, digo, ninguém pode suportar sem estar perpetuamente a chamar médicos; antes, sua tirania tem amiúde frustrado até mesmo o esforço destes para socorrer.
No que toca, pois, ao prazer, esta [minha mesa] leva a vantagem. Pois se a honra tem mais prazer que a desonra, se a autoridade mais que a sujeição, e se a confiança viril mais que o tremor e o temor, e se o gozo do que basta mais que ser submergido nas profundezas da maré da luxúria — no tocante ao prazer, esta mesa é melhor que aquela. É, além disso, melhor quanto à despesa; pois aquela é dispendiosa, mas esta, não o é.
Mas quê? Será, pois, que somente aos convivas esta mesa é mais agradável, ou traz mais prazer, do que a outra, também àquele que os convida? Pois é precisamente isto que investigamos. Ora, aquele que convida estes últimos faz preparativos com muitos dias de antecedência, e é forçado a ter trabalho, pensamentos ansiosos e cuidados, não dormindo de noite, nem repousando de dia; mas urdindo consigo mesmo muitos planos, conversando com cozinheiros, confeiteiros, ornamentadores de mesas. Depois, chegado o próprio dia, pode-se vê-lo em maior temor do que os que vão travar um combate de pugilato, receoso de que algo saia diferente do esperado, receoso de ser atingido pelo olhar da inveja, receoso de com isso angariar para si uma multidão de acusadores. Mas o outro escapa a toda essa ansiosa preocupação e trabalho, improvisando sua mesa, e não se afadigando com ela por muitos dias antes. E então, na verdade, depois disto, o primeiro logo perdeu a retribuição grata; mas o outro tem a Deus por seu Devedor, e é alimentado com boas esperanças, sendo todo dia banqueteado a partir daquela mesa. Pois os manjares, na verdade, se consomem, mas o pensamento grato jamais se consome; antes, todo dia ele se regozija e exulta mais do que aqueles que se fartam com seu excesso de vinho. Pois nada assim nutre a alma como uma esperança virtuosa, e a expectativa de bens.
Mas agora consideremos o que se segue. Ali, na verdade, há flautas, harpas e caramelos; mas aqui não há música de sons impróprios; mas o quê? Hinos, salmodia. Ali, na verdade, são celebrados os Demônios; mas aqui, o Senhor de todas as coisas, Deus. Vedes de quanta gratidão este abunda, e de quanta ingratidão e insensibilidade aquele? Pois, dizei-me, quando Deus vos alimentou com Seus bens, e quando devêreis dar-Lhe graças depois de ser alimentados, introduzis ainda os Demônios? Pois estes cantos à lira não são outra coisa senão cantos aos Demônios. Quando devêreis dizer: Bendito sois Vós, ó Senhor, que me alimentastes com Vossos bens, não sequer assim, como um cão sem valor, sequer Vos recordais, mas, por cima disso, introduzis os Demônios? Antes, os cães, quer recebam algo, quer não, acariciam com afago aqueles que conhecem, mas tu nem isto fazes. O cão, ainda que nada receba, faz festas ao seu dono; mas tu, mesmo tendo recebido, latis contra Ele. De novo, o cão, ainda que seja bem tratado por um estranho, nem assim se reconciliará de seu ódio para com ele, nem se deixará atrair a fazer-se amigo dele; mas tu, ainda que sofrendo dano incalculável da parte dos Demônios, introduzi-los em teus banquetes. De modo que, em dois sentidos, és pior que o cão. E a menção que fiz agora dos cães é feliz, com respeito àqueles que só então dão graças quando recebem algum benefício. Envergonhai-vos, peço-vos, diante dos cães, os quais, ainda famintos, fazem festas a seus donos. Mas tu, se acaso ouviste que o Demônio curou alguém, logo abandonas teu Senhor; ó mais irracional que os cães!
Mas, diz alguém, as meretrizes são um deleite para os olhos. Que espécie de deleite é este? Ou antes, que infâmia não é este? Tua casa se tornou um bordel, loucura e furor; e não te envergonhas de chamar isto de prazer? Se, pois, é lícito usar delas, maior que todo prazer é a vergonha, e o desassossego que da vergonha provém, ao fazer da própria casa um bordel, como porcos a revolver-se na lama? Mas se somente até este ponto é permitido, o de vê-las, eis que a dor é ainda maior. Pois ver não é prazer algum, onde usar não é permitido; antes, a concupiscência apenas se torna maior, e a chama mais feroz.
Mas queres conhecer o desfecho? Aqueles, na verdade, quando se levantam da mesa, são semelhantes aos loucos e aos que perderam o juízo; temerários, contenciosos, motivo de riso até para os próprios escravos; e os servos, na verdade, se retiram sóbrios, mas eles, ébrios. Ó vergonha! Mas com o outro nada há disto; antes, encerrando a mesa com ação de graças, assim se retiram para suas casas, dormindo com prazer, despertando com prazer, livres de toda vergonha e acusação.
Se considerares também os próprios convidados, verás que uns são interiormente exatamente aquilo que os outros são exteriormente: cegos, aleijados, coxos; e tais como são os corpos destes, tais são as almas daqueles, padecendo de hidropisia e inflamação. Pois de tal natureza é a soberba; porque após o deleite luxurioso sobrevém uma mutilação; de tal natureza é a saciedade e a embriaguez, que fazem os homens coxos e aleijados. E verás também que estes têm almas semelhantes aos corpos daqueles outros, brilhantes, ornamentadas. Pois os que vivem em ação de graças, que nada buscam além do suficiente, aqueles cuja filosofia é desta espécie, estão em todo esplendor.
Mas vejamos o desfecho, tanto de um lado quanto de outro. Ali, na verdade, há prazer impuro, riso dissoluto, embriaguez, bufonaria, linguagem torpe (pois, como eles mesmos, em suas próprias pessoas, se envergonham de falar torpezas, isto se realiza por meio das meretrizes); mas aqui há amor ao gênero humano, mansidão. Perto daquele que convida os primeiros está a vanglória, a armá-lo; mas perto do outro, o amor ao próximo e a mansidão. Pois uma mesa o amor ao próximo prepara, mas a outra, a vanglória e a crueldade, nascidas da injustiça e da avareza. E aquela termina no que já disse, em perda do juízo, em delírio, em loucura (pois tais são os rebentos da vanglória); mas esta, em ação de graças e na glória de Deus. E também o louvor que provém dos homens acompanha mais abundantemente a esta; pois àquele até com olhar de inveja se olha, mas a este todos consideram como pai comum, mesmo os que de suas mãos benefício algum receberam. E assim como com o injuriado se compadecem até os que não foram injuriados, e todos em comum se tornam inimigos (do que injuria), assim também, quando alguns recebem benefícios, também os que nenhum receberam, não menos que os que receberam, louvam e admiram aquele que os concedeu. E ali, na verdade, há muita inveja, mas aqui, muita terna solicitude, muitas orações de todos.
Muito, pois, quanto a isto; mas Ali, quando Cristo houver vindo, este servo, por certo, permanecerá com grande ousadia, e ouvirá diante do mundo inteiro: Tive fome, e Me deste de comer; era estrangeiro, e Me hospedaste; estava nu, e Me vestiste (Mt 25,35); e todas as palavras semelhantes: mas o outro ouvirá o contrário: Servo mau e negligente (Mt 25,26); e ainda: Ai dos que se deitam em camas de marfim, e se estendem sobre os seus leitos, e comem os cordeiros do rebanho, e os bezerros tenros do meio da manada, e bebem vinho filtrado, e se ungem com os melhores unguentos; contavam com estas coisas como se permanecessem, e não como se fossem passageiras (Am 6,4-6, Septuaginta).
Não disse isto sem propósito, mas com o fito de mudar os vossos pensamentos, e para que nada façais que seja infrutífero. Que dizer, pois, replica alguém, do fato de eu fazer tanto uma coisa quanto a outra? Este argumento é muito usado por todos. E que necessidade há, dizei-me, quando tudo poderia ser feito com proveito, de fazer uma divisão, e gastar parte no que não é necessário, e mesmo sem propósito algum, e parte utilmente? Dizei-me: se, ao semear, tivésseis lançado parte sobre a rocha, e parte sobre terra muito boa, seria provável que vos contentásseis assim, e disséssemos: Que mal há, se lançamos parte sem proveito, e parte sobre terra muito boa? Pois por que não tudo sobre a terra muito boa? Por que diminuir o ganho? E se tiverdes ocasião de ajuntar dinheiro, não falareis desse modo, mas o ajuntareis de toda parte; mas no outro caso não procedeis assim. E se for para emprestar a juros, não direis: Por que daremos parte aos pobres, e parte aos ricos, mas tudo é dado aos primeiros: contudo, no caso presente, onde o ganho é tão grande, não fazeis assim o cálculo, e não desistis, enfim, de gastar sem propósito, e de despender sem retorno.
Mas, diz alguém, isto também traz ganho. De que espécie, dizei-me? Aumenta as amizades. Nada há mais frio que os homens que se fazem amigos por estas coisas, pela mesa e pela fartura. As amizades dos parasitas nascem somente dessa fonte.
Não injuries um sentimento tão maravilhoso como o amor, nem digas que esta seja a sua raiz. Como se alguém dissesse que uma árvore que produzisse ouro e pedras preciosas não tivesse sua raiz da mesma substância, mas que fora gerada da podridão; assim fazes também tu: pois ainda que a amizade nascesse daquela fonte, nada poderia haver mais frio. Mas aquelas outras mesas produzem amizade, não com o homem, mas com Deus; e uma amizade intensa, contanto que estejas empenhado em prepará-las. Pois quem despende parte de um modo e parte de outro, ainda que tenha dado muito, não fez grande coisa: mas quem despende tudo deste modo, ainda que tenha dado pouco, fez o todo. Pois o que se requer não é que demos muito ou pouco, mas não menos do que está em nosso poder. Pensemos naquele dos cinco talentos, e naquele dos dois (Mt 25,15). Pensemos naquela que lançou aquelas duas moedinhas (Mc 12,41). Pensemos na viúva nos dias de Elias. Aquela que lançou as duas moedinhas não disse: Que mal há em guardar uma moeda para mim e dar a outra? Mas deu todo o seu sustento (1 Rs 17). Tu, porém, no meio de tão grande abundância, és mais avaro do que ela. Não sejamos, pois, negligentes quanto à nossa própria salvação, mas apliquemo-nos à esmola. Pois nada há melhor do que isto, como o tempo vindouro há de mostrar; entretanto, o tempo presente já o mostra também. Vivamos, então, para a glória de Deus, e façamos as coisas que Lhe são agradáveis, para que sejamos julgados dignos dos bens prometidos; os quais possamos todos alcançar, pela graça e pelo amor ao homem de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual seja a glória, o poder e a honra, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
Não é por um dia que oramos por vós, nem por dois, nem por três. Com isto Paulo tanto mostra o seu amor quanto lhes dá uma suave advertência de que ainda não haviam chegado ao termo. Pois as palavras "para que sejais cheios" significam isto…. Ele diz "para que sejais cheios", e não "para que recebais", porque de fato já haviam recebido. "Para que sejais cheios" refere-se ao que ainda lhes faltava. Assim Paulo repreende sem ofender e louva sem gerar neles a preguiça, como se já estivessem completos.
Por esta causa. Que causa? Porque ouvimos falar de vossa fé e caridade, porque temos boas esperanças, é que temos esperança de pedir também as bênçãos futuras. Pois, assim como nos jogos aclamamos mais vivamente aqueles que estão próximos de alcançar a vitória, assim também Paulo exorta mais vivamente aqueles que já alcançaram a maior parte do caminho.
Diz ele: Desde o dia em que a ouvimos, não cessamos de orar por vós. Não é por um dia que oramos por vós, nem por dois, nem por três. Nisto ele tanto manifesta sua caridade quanto lhes dá uma suave advertência de que ainda não haviam chegado ao termo. Pois as palavras para que sejais cheios têm esta significação. E observai, peço-vos, a prudência deste bem-aventurado. Em parte alguma ele diz que estejam destituídos de tudo, mas que lhes falta algo; em toda parte as palavras para que sejais cheios mostram isto. E novamente, em tudo o que é agradável, em toda boa obra (Cl 1,11), e novamente, fortalecidos com todo o poder, e novamente, para toda paciência e longanimidade; pois o constante acréscimo de todo testemunha que faziam bem em parte, ainda que, porventura, não em tudo. E ele diz para que sejais cheios; não para que recebais, pois já haviam recebido; mas para que sejais cheios do que ainda faltava. Assim, tanto a repreensão foi dada sem ofensa, quanto o elogio não lhes permitiu decair e tornar-se indolentes, como se já estivesse completo. Mas o que significa para que sejais cheios do conhecimento de Sua vontade? Que por meio do Filho fôssemos conduzidos a Ele, e não mais por meio dos Anjos. Ora, que deveis ser conduzidos a Ele, já o aprendestes, mas resta-vos aprender isto, e por que Ele enviou o Filho. Pois, se fôssemos salvos pelos Anjos, Ele não O teria enviado, não O teria entregue. Em toda sabedoria espiritual, diz ele, e entendimento. Pois, uma vez que os filósofos os enganavam, quero, diz ele, que estejais em sabedoria espiritual, não segundo a sabedoria dos homens. Mas se, para conhecer a vontade de Deus, é necessária a sabedoria espiritual, para conhecer Sua Essência, o que ela é, há necessidade de orações contínuas.
Paulo mostra aqui que, desde aquele momento, ele tem orado, e ainda não prevaleceu, e contudo não desistiu; pois as palavras "desde o dia em que o ouvimos" mostram isso. Mas isso implica condenação para eles, se, desde aquele tempo, mesmo assistidos por orações, não se tivessem emendado. E fazendo a súplica, diz ele, com muita seriedade — pois é isso que a expressão "vós soubestes" mostra. Mas é necessário ainda saber algo mais. "Andar dignamente", diz ele, "do Senhor". Aqui fala ele da vida e de suas obras, pois assim procede também em toda parte: à fé associa sempre a conduta. "Em tudo agradando-lhe". E como, "em tudo agradando"? "Frutificando em toda boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus". Vede, diz ele, uma vez que Ele plenamente Se revelou a vós, e uma vez que recebestes conhecimento tão grande, mostrai vós então uma conduta digna da fé; pois isso requer conduta elevada, muito maior que a da antiga dispensação. Pois aquele que conheceu a Deus, e foi julgado digno de ser servo de Deus, ou antes, até mesmo Seu filho — vede quão grande virtude ele necessita. "Corroborados com toda fortaleza". Fala ele aqui das provações e perseguições. Oramos para que fôsseis cheios de fortaleza, para que não desfalecêsseis por tristeza, nem desespero. "Segundo a força de Sua glória". Mas para que retomásseis tal prontidão quanto convém à força de Sua glória dar. "Para toda paciência e longanimidade". O que ele diz é desta sorte. Em suma, diz ele, oramos para que leveis uma vida de virtude, e digna de vossa cidadania, e permaneçais firmes, sendo corroborados como é razoável sê-lo por Deus. Por esta causa ele ainda não toca nas doutrinas, mas se detém na vida, na qual nada tinha a lhes acusar, e tendo-os louvado onde o louvor era devido, desce então à acusação. E isto ele faz em toda parte: quando está por escrever a alguém tendo algo a censurar, e algo a louvar, primeiro os louva, e depois desce às suas acusações. Pois primeiro concilia o ouvinte, e livra sua acusação de toda suspeita, e mostra que, por sua própria parte, teria tido prazer em louvá-los inteiramente; mas pela necessidade do caso é forçado a dizer o que diz. E assim procede na primeira Epístola aos Coríntios. Pois depois de tê-los louvado excessivamente como amando-o, mesmo a partir do caso do fornicador, desce a acusá-los. Mas na aos Gálatas não assim, senão ao contrário. Ou antes, se alguém observasse de perto, mesmo ali a acusação segue-se ao louvor. Pois, uma vez que não tinha então boas obras suas de que falar, e a acusação era sobremaneira grave, e todos eles estavam corrompidos; e eram capazes de suportá-la porque eram fortes, ele começa com a acusação, dizendo: "Maravilho-me" (Gl 1,6). De modo que isto também é louvor. Mas depois ele os louva, não pelo que eram, mas pelo que tinham sido, dizendo: "Se possível fora, teríeis arrancado os vossos olhos, e mos teríeis dado" (Gl 4,15).
Aqui ele fala da vida e das suas obras, pois assim procede também em toda parte: à fé, Paulo sempre associa a conduta…. Em suma, afirma Paulo, oramos para que leveis uma vida de virtude, digna da vossa cidadania, e permaneçais firmes, sendo fortalecidos tal como é razoável sê-lo por Deus. Por esta razão Paulo ainda não se detém nos dogmas, mas se demora na vida.
Ao dizer "que nos fez dignos", Paulo ressalta um ponto de grande importância. Por exemplo, se alguém de baixa condição viesse a tornar-se rei, teria o poder de nomear governador a quem quisesse; e esta é a extensão do seu poder, a saber, que pode conferir tal dignidade. Não pode, contudo, tornar apto para o cargo aquele que escolheu, e muitas vezes a honra assim conferida torna a pessoa ridícula. Se, porém, alguém tanto conferiu a honra quanto tornou digno dela o escolhido, e capaz de exercê-la, então uma honra verdadeiramente grande foi conferida. Isto é o que Paulo aqui afirma: que Deus não apenas concedeu a honra, mas também nos fortaleceu para recebê-la.
Mas por que a chama de herança (ou sorte)? Para mostrar que por seus próprios méritos ninguém obtém o reino, mas, assim como a sorte é antes resultado de boa fortuna, assim também, em verdade, é o mesmo princípio aqui. Pois ninguém leva vida tão boa que seja considerado digno do reino, mas tudo é dom gratuito seu.
Tudo procede d'Ele, tanto a concessão destas coisas quanto daquelas; pois nenhuma conquista tem em nós a sua origem... Não foi, pois, somente para livrar o homem das trevas que Ele lhe manifestou o Seu amor. É, na verdade, coisa grande ter sido libertado das trevas; mas ter sido introduzido num reino é ainda muito maior.
Frutificando, diz ele: isto se refere às obras. Fortalecidos: isto se refere às provações. Para toda a paciência e longanimidade: longanimidade para com uns aos outros, paciência para com os que estão de fora. Pois a longanimidade se exerce para com aqueles a quem podemos retribuir, mas a paciência para com aqueles a quem não podemos. Por esta razão, o termo paciente jamais é aplicado a Deus, mas longânimo frequentemente; como este mesmo bem-aventurado diz noutro lugar de seus escritos: Ou desprezais as riquezas da Sua bondade, e da Sua tolerância, e da Sua longanimidade? Para todo agrado. Não, ora de um modo, ora de outro. Em toda sabedoria espiritual, diz ele, e entendimento. Pois de outro modo não é possível conhecer a Sua vontade. Ainda que, de fato, pensassem ter a Sua vontade; mas aquela sabedoria não era espiritual. Andar, diz ele, de modo digno do Senhor. Pois este é o caminho da melhor vida. Pois aquele que compreendeu o amor de Deus para com os homens (e ele o compreende, se viu o Filho entregue), terá maior prontidão. E, além disso, não oramos apenas para que conheçais, mas para que manifesteis o vosso conhecimento em obras; pois aquele que conhece sem praticar está já a caminho do castigo. Andar, diz ele, isto é, sempre, não uma vez, mas continuamente. Assim como andar nos é necessário, também o é viver retamente. E quando, sobre este assunto, ele emprega constantemente o termo andar, e com razão, mostra que tal é a vida proposta a nós. Mas não é dessa sorte a do mundo. E grande é também o louvor. Andar, diz ele, de modo digno do Senhor, e em toda boa obra, de sorte a estar sempre progredindo, e em parte alguma parando, e, com uma metáfora, frutificando e crescendo no conhecimento de Deus, para que fôsseis de tal modo fortalecidos, segundo o poder de Deus, quanto é possível ao homem sê-lo. Mediante o Seu poder, grande é a consolação. — Não disse força, mas poder, que é mais: mediante o poder, diz ele, da Sua glória, porque em toda parte a Sua glória tem poder. Assim consola aquele que está sob opróbrio: e novamente, andar de modo digno do Senhor. Diz, a respeito do Filho, que Ele tem o poder em toda parte, tanto no céu quanto na terra, porque a Sua glória reina em toda parte. Não diz simplesmente fortalecidos, mas de tal modo, como se esperaria que fossem aqueles que estão a serviço de um Senhor tão forte. No conhecimento de Deus. E ao mesmo tempo toca, de passagem, nos métodos do conhecimento; pois isto é estar em erro, não conhecer a Deus como se deve; ou ele quer dizer: de sorte a crescer no conhecimento de Deus. Pois se aquele que não conheceu o Filho não conhece tampouco o Pai, justamente há necessidade de conhecimento acrescido: pois não há proveito algum na vida sem isto. Para toda paciência e longanimidade, diz ele, com alegria, dando graças a Deus. Então, estando prestes a exortá-los, ele não faz menção do que futuramente lhes será reservado; contudo, aludiu a isto no início da Epístola, dizendo: Por causa da esperança que vos está reservada nos céus: mas neste lugar menciona as coisas que já eram deles, pois estas são as causas das outras. E faz o mesmo em muitos lugares. Pois aquilo que já sucedeu ganha crédito, e mais arrasta consigo o ouvinte. Com alegria, diz ele, dando graças a Deus. A conexão é esta: Não cessamos de orar por vós, e de dar graças pelos benefícios já recebidos.
Vedes como ele se deixa conduzir a falar do Filho? Pois, se damos graças com muita alegria, é coisa grande a que se refere. Porque é possível dar graças apenas por temor, é possível dar graças até mesmo na tristeza. Por exemplo: Jó, de fato, deu graças, mas na angústia; e disse: O Senhor deu, o Senhor tirou (Jó 1:21). Pois não diga ninguém que o que sucedera não lhe doeu, nem o revestiu de abatimento de alma; nem se tire ao justo o seu grande louvor. Mas quando é assim que damos graças, não é por temor, nem por Ele ser apenas Senhor, mas pela própria natureza das coisas em si mesmas. A Ele que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz. Disse coisa grande. O que foi dado, diz ele, é de tal natureza que Ele não somente deu, mas também nos fortaleceu para recebê-lo. Ora, ao dizer "que nos fez idôneos", mostrou que a coisa era de grande peso. Por exemplo: se algum homem de condição humilde viesse a tornar-se rei, está em seu poder dar um governo a quem quiser; e este é o limite do seu poder, dar a dignidade: não pode também tornar a pessoa apta para o cargo, e muitas vezes a honra torna ridículo até mesmo aquele que foi assim preferido. Se, porém, alguém tiver tanto conferido a outrem a dignidade quanto o tiver tornado apto para a honra e igual à administração, então sim a coisa é uma honra. Isto, pois, é o que ele também diz aqui: que Ele não somente nos deu a honra, mas também nos fez suficientemente fortes para recebê-la.
Pois a honra aqui é dupla: o dar e o tornar apto para o dom. Não disse simplesmente "deu", mas "fez-nos idôneos para participar da herança dos santos na luz", isto é, que nos designou um lugar com os santos. Mas não disse simplesmente que nos colocou, e sim que nos concedeu gozar das mesmíssimas coisas, pois o quinhão é aquilo que cada um recebe. Porquanto é possível estar na mesma cidade e, contudo, não gozar das mesmas coisas; mas ter o mesmo quinhão e, contudo, não gozar do mesmo é impossível. É possível estar na mesma herança e, contudo, não ter o mesmo quinhão; por exemplo, todos nós (os clérigos) estamos na herança, mas nem todos temos o mesmo quinhão. Mas aqui não é isto o que ele diz, senão que à herança acrescenta também o quinhão. Mas por que a chama herança (ou sorte)? Para mostrar que por seus próprios feitos ninguém obtém o reino, mas que, assim como a sorte é antes fruto da boa ventura, assim também é aqui, em verdade. Pois vida tão boa que a faça digna do reino ninguém a manifesta, mas tudo é fruto de Sua graça gratuita. Por isso diz Ele: Quando tiverdes feito tudo, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos o que era nosso dever fazer (Lc 17:10). "Participar da herança dos santos na luz" — ele quer dizer tanto a luz futura quanto a presente —, isto é, no conhecimento. Parece-me que ele fala ao mesmo tempo do presente e do futuro. Em seguida, mostra de que coisas fomos julgados dignos. Pois não é esta a única maravilha, sermos julgados dignos do reino; deve-se acrescentar também quem somos nós que assim somos julgados dignos, pois isto não é de pouca monta. E faz isto na Epístola aos Romanos, dizendo: Porque dificilmente alguém morrerá por um justo; pelo bom, porém, é possível que alguém ouse morrer (Rm 5:7).
Pois a palavra primogênito não exprime dignidade nem honra, nem qualquer outra coisa, senão apenas o tempo…. De fato, para que ninguém suponha que ele tenha uma origem mais recente no tempo — visto que, no passado, o acesso ao Pai se dava por meio dos anjos, mas agora se dá por meio de Cristo —, ele mostra primeiro que esses anjos não tinham poder algum (do contrário, Cristo não poderia ter nascido "das trevas" [v. ]); em seguida, Paulo mostra que Cristo também é anterior a eles.
De quem, pois, quereis que ele seja imagem? De Deus? Então ele é exatamente igual àquele a quem o atribuís. Se o comparardes a uma imagem humana, dizei-o, e terei terminado convosco como com um louco…. «A imagem do invisível» é também ela mesma invisível, e invisível do mesmo modo, pois de outro modo não seria imagem. Porque uma imagem, enquanto imagem, mesmo no plano humano, deve ser exatamente semelhante, como, por exemplo, quanto aos traços e à semelhança. Mas aqui entre nós isso de modo algum é possível, pois a arte humana falha em muitos aspectos, ou antes, falha em todos, se fizerdes um exame cuidadoso. Mas onde Deus está, não há erro, não há falha.
Hoje é necessário que eu pague a dívida que ontem adiei, a fim de que eu a expusesse às vossas mentes quando estivessem em pleno vigor. Paulo, discorrendo, como mostramos, sobre a dignidade do Filho, diz estas palavras: Que é a imagem do Deus invisível. De quem, pois, quereis vós que Ele seja imagem? De Deus? Então Ele é exatamente semelhante Àquele a quem O atribuís. Pois, se como imagem de um homem, dizei-o, e terei terminado convosco como com um louco. Mas se como Deus e Filho de Deus, imagem de Deus, Ele mostra a semelhança exata. Por que motivo, pois, nenhum Anjo jamais foi chamado imagem ou filho, mas o homem, ambas as coisas? Por quê? Porque, no primeiro caso, a excelência de sua natureza poderia logo ter precipitado a muitos nessa ímpia suposição; mas, no outro caso, a natureza humilde e baixa é penhor de segurança contra isso, e não permitirá a ninguém, ainda que o desejasse, suspeitar de tal coisa, nem rebaixar o Verbo a tal ponto. Por essa razão, onde a humildade é grande, a Escritura afirma ousadamente a honra; mas onde a natureza é mais elevada, ela se abstém. A imagem do Invisível é, ela também, invisível, e invisível do mesmo modo, pois do contrário não seria imagem. Pois uma imagem, enquanto imagem, mesmo entre nós, deve ser exatamente semelhante, como, por exemplo, quanto aos traços e à semelhança. Mas aqui, entre nós, isso de modo algum é possível, pois a arte humana falha em muitos aspectos, ou antes, falha em todos, se examinardes com exatidão. Mas onde Deus está, não há erro, não há falha.
Mas, se é criatura, como é Ele a Imagem do Criador? Pois nem o cavalo é imagem do homem. Se a Imagem não significa exata semelhança com o Invisível, que impede que também os Anjos sejam Sua Imagem? Pois também eles são invisíveis; mas não uns aos outros: ora, a alma é invisível; mas, por ser invisível, é ela simplesmente por isso imagem, e não do mesmo modo que ele e os anjos são imagens.
O Primogênito de toda a criação. Que, pois — diz alguém —, eis que Ele é criatura. Donde? Dize-me. Porque disse "Primogênito". Contudo, não disse primeiro criado, mas primogênito. Então seria razoável que Ele fosse chamado de muitas coisas. Pois há de ser chamado também irmão em todas as coisas (Hb 2:17). E devemos retirar-Lhe o ser Criador, e insistir em que nem em dignidade nem em qualquer outra coisa Ele é superior a nós? E quem, tendo entendimento, diria isso? Pois a palavra primogênito não exprime dignidade e honra, nem coisa alguma, senão apenas tempo. Que significa o primogênito? Que é criado, responde-se. Bem. Se, pois, assim é, tem também expressões congêneres. Mas, de outro modo, o primogênito é da mesma essência daqueles de quem é primogênito. Logo, Ele será o filho primogênito de todas as coisas — pois disse-se de toda criatura; logo, também das pedras, e de mim, é Deus o Verbo primogênito.
Mas, de novo, dize-me, de que são declarativas as palavras primogênito dentre os mortos (Cl 1:18; Rm 8:29)? Não que Ele primeiro ressuscitou; pois não disse simplesmente dentre os mortos, mas primogênito dentre os mortos, nem tampouco que primeiro morreu, mas que ressuscitou como primogênito dentre os mortos. De sorte que nada mais declaram senão isto: que Ele é as Primícias da Ressurreição. Certamente, então, também não no lugar que ora nos ocupa.
Em seguida, passa à própria doutrina. Pois, para que não pensassem que Ele fosse de existência mais recente, porque nos tempos antigos o acesso se dava por meio dos Anjos, mas agora por meio d'Ele, mostra primeiro que estes não tinham poder algum (pois de outro modo não teria sido das trevas, v. 13, que ele os trouxe), e, em seguida, que Ele é também anterior a eles. E usa como prova de Sua anterioridade a eles isto: que foram criados por Ele. Pois nEle, diz, foram criadas todas as coisas. Que dizem aqui os seguidores de Paulo de Samósata? As coisas nos céus. O que estava em questão, colocou primeiro; e as coisas sobre a terra. Depois diz, as coisas visíveis e invisíveis; invisíveis, como a alma, e tudo quanto veio a existir no céu; visíveis, como os homens, o sol, o céu. Sejam tronos. E o que é concedido, ele o deixa; mas o que é posto em dúvida, ele o afirma. Sejam tronos, ou dominações, ou principados, ou potestades. As palavras sejam, ou, abrangem a totalidade das coisas; mas, por meio das maiores, mostram-no também das menores. Mas o Espírito não está entre as potestades. Todas as coisas, diz, foram criadas por meio d'Ele, e para Ele. Eis que nEle é por meio d'Ele, pois, tendo dito nEle, acrescentou por meio d'Ele. Mas o que é para Ele? É isto: a subsistência de todas as coisas depende d'Ele. Não somente Ele mesmo as trouxe do nada ao ser, mas Ele mesmo agora as sustém, de modo que, se fossem separadas de Sua Providência, seriam de imediato desfeitas e destruídas. Mas não disse Ele as continua, o que teria sido modo de falar mais grosseiro, mas o que é mais sutil, que nEle elas dependem. Ter apenas relação com Ele basta para continuar qualquer coisa e mantê-la firmemente ligada. Assim também a palavra primogênito, no sentido de fundamento.
Mas isto não demonstra que as criaturas sejam consubstanciais com Ele; mas sim que todas as coisas subsistem por meio d'Ele, e n'Ele são mantidas. Pois também Paulo, quando diz em outro lugar: *lancei o fundamento* (1 Cor 3,10), fala não a respeito da substância, mas da operação. Porque, para que não penseis ser Ele um mero servidor, diz o Apóstolo que Ele as sustenta, o que não é menos do que fazê-las. Certamente, entre nós, isto é ainda maior: pois àquela primeira coisa a arte nos conduz; mas a esta segunda, não é assim — ela nem sequer detém uma coisa em sua decadência.
“Todas as coisas”, diz ele, “foram criadas por meio dele, e para ele”. Com efeito, “nele” é “por meio dele”, pois, tendo dito “nele”, Paulo acrescentou “por meio dele”. Mas que significa “para ele”? É isto: a subsistência de todas as coisas depende dele.
E Ele é antes de todas as coisas, diz ele. Isto convém a Deus. Onde está Paulo de Samósata? E nEle todas as coisas subsistem, isto é, foram criadas nEle. Repete estas expressões em sequência cerrada; com sua sucessão imediata, como que com golpes rápidos, arrancando pela raiz a doutrina mortífera. Pois, se mesmo depois de declaradas coisas tão grandes, ainda assim, passado tanto tempo, surgiu Paulo de Samósata, quanto mais [teria sucedido isto], não tivessem sido ditas antes estas coisas? E nEle, diz, todas as coisas subsistem. Como subsistiriam num que não existia? De modo que também as coisas feitas por meio dos Anjos são dEle.
Tendo então falado de sua dignidade, [Paulo] prossegue também a falar de seu amor pela humanidade. "Ele é", diz, "a cabeça do corpo, a igreja." Não disse "da plenitude" do universo (ainda que isto também esteja significado), por querer mostrar sua grande benevolência para conosco, no fato de que Aquele que está assim acima, e acima de todas as coisas, uniu-Se aos que estão abaixo.
E Ele é a cabeça do corpo, a Igreja. Tendo falado, pois, de Sua dignidade, fala em seguida também de Seu amor ao homem. Ele é, diz o Apóstolo, a Cabeça do corpo, a Igreja. E não disse "da plenitude" (ainda que isto também esteja significado), por querer mostrar Sua grande benevolência para conosco, no fato de que Aquele que está assim acima, e acima de tudo, uniu-Se aos que estão embaixo. Pois em toda parte Ele é o primeiro: primeiro acima; primeiro na Igreja, pois é a Cabeça; primeiro na Ressurreição. Isto é,
"Para que em tudo tivesse a primazia." De modo que também na geração Ele é o primeiro. E é isto o que Paulo se empenha sobretudo em mostrar. Pois, se isto se confirma — que Ele era antes de todos os anjos —, então se introduz juntamente com isso, como consequência, que Ele fazia as obras deles, comandando-os. E o que é de fato admirável, o Apóstolo se esforça por mostrar que Ele é o primeiro na geração posterior. Embora em outro lugar chame a Adão de primeiro (1 Cor 15,45), como de fato o é; mas aqui toma a Igreja por toda a raça humana. Pois Ele é o primeiro da Igreja; e o primeiro dos homens segundo a carne, como também da Criação. E por isso aqui usa a palavra "primogênito".
Qual é aqui o sentido de "Primogênito"? Aquele que foi criado primeiro, ou que ressuscitou antes de todos; assim como no lugar anterior significa Aquele que era antes de todas as coisas. E aqui, na verdade, usa a palavra "primícias", dizendo: Que é as Primícias, o Primogênito dentre os mortos, para que em tudo tivesse a primazia, mostrando que também os demais são tais como Ele; mas no lugar anterior não se trata das primícias da criação. E ali está: A Imagem do Deus invisível, e depois: Primogênito.
De modo que também na geração Ele é o primeiro. E é isto o que Paulo se empenha sobretudo em mostrar. Pois, se de fato Ele é o primogênito, que era antes de todos os anjos, então se introduz juntamente com isso, como consequência, que a obra realizada pelos anjos era, na verdade, por Ele comandada. E o que é de fato admirável, Paulo se esforça por mostrar que Cristo é o primeiro, ainda que tenha nascido de fato em forma humana em tempo relativamente posterior. Embora em outro lugar Paulo chame a Adão de primeiro, como de fato o é, aqui ele toma a igreja por toda a raça humana. Pois Ele é o primeiro da igreja, e o primeiro dos homens segundo a carne, como também da criação. E por isso Paulo aqui usa a palavra primogênito.
Tudo quanto é do Pai, isto diz ele que é também do Filho, e com maior intensidade ainda, porquanto Ele tanto se fez morto por nós quanto Se uniu a nós. Disse "Primícias", como das frutas. Não disse "Ressurreição", mas "Primícias", mostrando que a todos nós santificou, e nos ofereceu, por assim dizer, em sacrifício. O termo "plenitude" alguns o empregam da Divindade, como disse João: "De sua plenitude todos nós recebemos" (Jo 1,16). Isto é, o que quer que fosse o Filho, o Filho todo ali habitava, não uma espécie de energia, mas uma Substância.
Pelo termo "plenitude" alguns entendem a própria Divindade, como disse João: "De sua plenitude todos nós recebemos." Isto é, tudo o que era o Filho, o Filho inteiro ali habitava — não uma espécie de energia, mas uma Substância.
Aqui ele passa a mostrar que Ele reconciliou até mesmo aqueles que eram indignos de reconciliação. Pois, ao dizer que estavam sob o poder das trevas, mostra a calamidade em que se encontravam (Cl 1,13). Mas para que, ao ouvir falar do poder das trevas, não a consideres uma Necessidade, ele acrescenta: "e vós que éreis estranhos", de modo que, embora pareça dizer a mesma coisa, não é assim; pois não é o mesmo livrar dos males aquele que, por necessidade, veio a sofrê-los, e aquele que por vontade própria os suporta. O primeiro, com efeito, é digno de compaixão, mas o segundo, de aversão. Mas, ainda assim, diz ele, vós que não contra a vossa vontade, nem por compulsão, mas com vossa vontade e desejo, vos apartastes dele, e éreis indignos disso, Ele vos reconciliou. E, tendo mencionado as coisas nos céus, mostra que toda a inimizade teve ali sua origem, não aqui. Pois eles, com efeito, há muito o desejavam, e Deus também, mas vós não o quisestes.
E ao longo de todo o texto ele mostra que os Anjos nada podiam fazer no decorrer dos tempos sucessivos, porquanto os homens permaneciam inimigos; não podiam nem persuadi-los, nem, ainda que persuadidos, poderiam livrá-los do demônio. Pois de nada valeria persuadi-los, a menos que aquele que os detinha fosse atado; nem teria servido de nada atá-lo, a menos que aqueles a quem ele retinha estivessem dispostos a voltar. Mas ambas as coisas eram necessárias, e eles não podiam fazer nenhuma delas — Cristo, porém, fez ambas. De sorte que, ainda mais admirável que desatar a morte, é persuadi-los. Pois a primeira era inteiramente dele, e o poder residia inteiramente nele; mas a segunda, não somente nele, mas também em nós; e realizamos mais facilmente aquelas coisas cujo poder reside em nós mesmos. Por isso, sendo a maior, ele a coloca por último. E não disse simplesmente que eram inimigos, mas "estranhos", o que denota grande inimizade; nem tampouco apenas "estranhos", mas sem sequer esperança de retorno. "E inimigos em vosso entendimento", diz ele; então a alienação não havia procedido apenas do propósito — mas de quê? "também em vossas obras más." Éreis, diz ele, tanto inimigos, quanto praticáveis as obras de inimigos.
Mas o que são as "coisas nos céus"?… A terra estava separada do céu, os anjos haviam se tornado inimigos dos homens, ao verem o Senhor insultado… O que Cristo fez na cruz foi transladar para o céu a humanidade pecadora, ainda em cativeiro sob o maligno. Assim, ele, em efeito, levou aos anjos o inimigo, o odiado. Não apenas fez com que as coisas na terra se apaziguassem, mas lhes levou aquele que era seu inimigo e adversário. Aqui houve paz profunda. Os anjos novamente apareceram sobre a terra depois disso, porque a humanidade, de sua parte, havia aparecido no céu.
Ele não tem outra razão a alegar senão a vontade de Deus: pois este é o sentido de "aprouve a Deus... nEle". E "por Ele reconciliar consigo todas as coisas". Para que não penseis que Ele assumiu apenas o ofício de ministro, diz: consigo mesmo. 2 Coríntios 5:18. E, no entanto, alhures diz que Ele nos reconciliou com Deus, como na Epístola que escreveu aos Coríntios. E bem disse: "por Ele levar a termo a reconciliação"; pois já estavam reconciliados; mas completamente, diz ele, e de tal modo que não mais houvesse inimizade para com Ele. Como assim? Pois não somente foi exposta a reconciliação, mas também o modo da reconciliação. "Havendo feito a paz pelo sangue da Sua cruz." A palavra reconciliar mostra a inimizade; as palavras havendo feito a paz mostram a guerra. Pelo sangue da Sua cruz, por Si mesmo, quer as coisas sobre a terra, quer as coisas nos céus. Grande coisa é, na verdade, reconciliar; mas que isto se desse por Si mesmo é coisa ainda maior; e maior ainda — como, por Si mesmo? Pelo Seu sangue. Pelo Seu sangue; e não disse simplesmente Seu sangue, mas o que é ainda maior, pela cruz. De modo que as maravilhas são cinco: Ele nos reconciliou; com Deus; por Si mesmo; pela morte; pela cruz. Admirável, de novo, como as entrelaçou! Pois para que não penseis que se trata de uma coisa apenas, ou que a cruz seja algo por si mesma, diz: por Si mesmo. Como bem sabia ele que isto era coisa grande! Porque não falando palavras, mas entregando-Se a Si mesmo pela reconciliação, assim operou Ele tudo.
Mas o que são as coisas nos céus? Pois com razão, na verdade, se diz "as coisas sobre a terra", pois estas estavam cheias de inimizade, e multiplamente divididas, e cada um de nós estava totalmente em discórdia consigo mesmo e com os muitos; mas como fez Ele paz entre as coisas nos céus? Havia também ali guerra e batalha? Como, pois, oramos, dizendo: "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu"? Mateus 6:10. Que é isto, então? A terra estava dividida do céu, os anjos se haviam tornado inimigos dos homens, por verem o Senhor insultado. Em suma, diz ele, todas as coisas em Cristo, as coisas nos céus e as coisas sobre a terra. Efésios 1:10. Como? As coisas no céu, assim: Ele transladou para lá o Homem, Ele levou até eles o inimigo, o odiado. Não somente fez Ele que as coisas sobre a terra estivessem em paz, mas levou até eles aquele que lhes era inimigo e adversário. Aqui houve paz profunda. Os anjos, de novo, apareceram sobre a terra depois disso, porque também o Homem havia aparecido no céu. E parece-me que Paulo foi arrebatado por esta razão 2 Coríntios 12:2, e para mostrar que também o Filho fora ali recebido. Pois na terra, na verdade, a paz era dupla: com as coisas do céu, e consigo mesmos; mas no céu era simples. Pois se os anjos se regozijam por um só pecador que se arrepende, muito mais se regozijarão por tantos.
Tudo isto o poder de Deus operou. Por que, pois, depositais vossa confiança nos Anjos? diz ele. Pois longe estão eles de vos trazerem para perto, visto que sempre foram vossos inimigos, a não ser que o próprio Deus vos houvesse reconciliado com eles. Por que, pois, correis a eles? Quereis conhecer o ódio que os Anjos tinham contra nós, quão grande era; e quão avessos a nós sempre foram? Foram enviados para tomar vingança nos casos dos israelitas, de Davi, dos sodomitas, do Vale do pranto (Êx 23,20). Não é assim, porém, agora; antes, pelo contrário, cantaram sobre a terra (2Sm 24,16) com extrema alegria. E Ele fez descer estes até os homens (Gn 19,13), e fez subir os homens até eles.
Observai, peço-vos, a maravilha que há nisto: Ele fez descer primeiro estas coisas para baixo, e depois elevou o homem até elas; a terra tornou-se céu, porque o céu estava para receber as coisas da terra. Por isso, quando damos graças, dizemos: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra, boa vontade para com os homens. Eis, diz ele, que também os homens apareceram, dali em diante, bem-agradáveis a Ele. Que é boa vontade? Reconciliação (Ef 2,14; Dt 32,8, Septuaginta). Já não é o céu um muro de separação. No princípio, os Anjos eram segundo o número das nações; mas agora, não segundo o número das nações, mas segundo o dos crentes. De onde isto é evidente? Ouvi Cristo dizendo: Vede que não desprezeis um destes pequeninos, porque os seus Anjos sempre contemplam a face de Meu Pai que está nos céus (Mt 18,10). Pois cada crente tem um Anjo; visto que, já desde o princípio, cada um dos que eram aprovados tinha o seu Anjo, como diz Jacó: O Anjo que me apascenta, e me livra desde a minha mocidade (Gn 48,15-16, aproximadamente). Se, pois, temos Anjos, sejamos sóbrios, como se estivéssemos na presença de tutores; pois também está presente um demônio. Por isso oramos, pedindo o Anjo da paz, e em toda parte pedimos a paz (pois não há nada igual a ela); a paz, nas Igrejas, nas orações, nas súplicas, nas saudações; e uma vez, e duas, e três, e muitas vezes, dá-a aquele que preside a Igreja: Paz seja convosco. Por quê? Porque esta é a Mãe de todos os bens; este é o fundamento da alegria. Por isso Cristo também ordenou aos Apóstolos que, ao entrarem nas casas, dissessem logo isto, como uma espécie de símbolo dos bens; pois Ele diz: Quando entrardes nas casas, dizei: Paz seja convosco; pois onde isto falta, tudo é inútil. E aos Seus discípulos disse Cristo: A paz vos deixo, a Minha paz vos dou (Jo 14,27). Isto prepara o caminho para o amor. E aquele que preside a Igreja não diz, Paz seja convosco, simplesmente, mas Paz seja com todos. Pois de que serve, se com este homem temos paz, mas com outro, guerra e contenda? Qual é o proveito? Pois nem mesmo no corpo, se alguns dos seus membros estivessem em repouso e outros em estado de discórdia, seria possível que a saúde alguma vez se mantivesse; mas somente quando todos eles estão em boa ordem, e harmonia, e paz, e, a menos que todos estejam em repouso e permaneçam dentro dos seus limites próprios, tudo se transtornará. E, além disso, em nossas mentes, a menos que todos os nossos pensamentos estejam em repouso, a paz não existirá. Tão grande bem é a paz, que os que a fazem e produzem são chamados filhos de Deus (Mt 5,9), e com razão; porque o Filho de Deus, por esta causa, veio sobre a terra, para pôr em paz as coisas que estão na terra, e as que estão nos céus. Mas se os pacificadores são filhos de Deus, os que causam a discórdia são filhos do diabo.
Que dizeis? Suscitais contendas e lutas? E pergunta alguém quem é tão infeliz? Muitos há que se comprazem no mal, e que antes despedaçam o Corpo de Cristo do que o traspassaram os soldados com a lança, ou os judeus que o transfixaram com os cravos. Menor mal foi aquele do que este; pois aqueles membros, assim traspassados, novamente se uniram, mas estes, uma vez arrancados, se aqui não forem unidos, jamais se unirão, mas permanecerão apartados da Plenitude. Quando estiveres decidido a guerrear contra teu irmão, lembra-te de que guerreias contra os membros de Cristo, e cessa de tua loucura. Pois que importa que ele seja um proscrito? Que importa que seja vil? Que importa que esteja exposto ao desprezo? Assim diz Ele: Não é da vontade de meu Pai que um destes pequeninos pereça (Mt 18,14). E ainda: Seus anjos contemplam sempre a face de meu Pai que está nos céus (Mt 18,10). Deus, por causa dele e por causa de vós, fez-se até servo, e foi morto; e vós o considerais nada? Certamente também nisto guerreais contra Deus, pois proferis um juízo contrário ao Seu. Quando aquele que preside a Igreja entra, logo diz: Paz a todos; quando prega, Paz a todos; quando abençoa, Paz a todos; quando ordena que vos saudeis, Paz a todos; quando se termina o Sacrifício, Paz a todos; e ainda, no meio, Graça a vós e paz. Como, pois, não é monstruoso que, ouvindo tantas vezes que devemos ter paz, estejamos em estado de contenda uns com os outros; e, recebendo a paz e devolvendo-a, estejamos em guerra com aquele que no-la dá? Dizeis: E com o teu espírito. E, contudo, o caluniais fora? Ai de mim! Que os usos majestosos da Igreja se tenham tornado meras formas, e não verdade. Ai de mim! Que as palavras de ordem deste exército não passem de meras palavras. Donde também ignorais por que se diz: Paz a todos. Mas ouvi o que se segue, o que diz Cristo: E em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes... ao entrardes na casa, saudai-a; e, se a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne a vós a vossa paz (Mt 10,11-13). Somos, pois, ignorantes, porque olhamos isto apenas como figura de palavras, e não lhes damos assentimento em nosso espírito. Pois, sou eu quem dá a Paz? É Cristo quem se digna falar por nós. Ainda que em todos os outros momentos estejamos vazios de graça, não o estamos agora, por causa de vós. Pois, se a Graça de Deus operou numa jumenta e num adivinho, por causa de uma economia e para proveito dos israelitas (Nm 22), é bem claro que não se recusará a operar também em nós, mas, por causa de vós, suportará até isto.
Não digais, pois, que sou vil, e baixo, e digno de nenhuma consideração, e nessa disposição de ânimo me escuteis. Pois tal sou eu; mas o modo de Deus é sempre este: fazer-Se presente ainda a tais como eu, por causa da multidão. E, para que saibais isto, com Caim dignou-Se falar por causa de Abel (Gn 4), com o diabo por causa de Jó (Jó 1), com Faraó por causa de José (Gn 41), com Nabucodonosor por causa de Daniel (Dn 2 e Dn 4), com Baltasar, pelo mesmo Daniel (Dn 5). E os magos, ademais, obtiveram uma revelação (Mt 2); e Caifás profetizou, ainda que fosse matador de Cristo, e homem indigno, por causa da dignidade do sacerdócio (Jo 11,49). E se diz que por esta razão Arão não foi ferido de lepra. Pois, dizei-me, quando ambos haviam falado contra Moisés, por que sofreu ela sozinha o castigo? (Nm 12) Não vos maravilheis: pois se, nas dignidades mundanas, ainda que dez mil acusações sejam levantadas contra alguém, contudo não é ele levado a julgamento antes de haver deposto o seu cargo, para que este não seja desonrado juntamente com ele; muito mais no caso do ofício espiritual, seja quem for aquele que o exerce, a graça de Deus opera nele, pois de outro modo tudo se perderia; mas depois que o houver deposto, seja depois de partido, seja ainda aqui, então sim, então sofrerá castigo mais grave.
Não penseis, eu vo-lo peço, que estas coisas são ditas de nós mesmos; é a Graça de Deus que opera nos indignos, não por causa de nós, mas por causa de vós. Ouvi, pois, o que diz Cristo: Se a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz (Mt 10,13-15). E como se torna ela digna? Se vos receberem (Lc 10,8), diz Ele. Mas se não vos receberem, nem ouvirem as vossas palavras... em verdade vos digo que mais tolerável será, no dia do juízo, para a terra de Sodoma e Gomorra, do que para aquela cidade. De que aproveita, pois, que nos recebais e não ouçais o que dizemos? Que ganho há em que nos assistais e não deis atenção às coisas que vos são ditas? Isto será honra para nós, este o admirável serviço, proveitoso tanto para vós quanto para nós, se nos ouvirdes. Ouvi também Paulo dizendo: Não sabia, irmãos, que era ele o sumo sacerdote (At 23,5). Ouvi também Cristo dizendo: Tudo quanto vos disserem que observeis (Mt 23,3), observai-o e fazei-o. Não me desprezais a mim, mas ao Sacerdócio; quando me virdes despojado deste, então desprezai-me; então não mais suportarei impor mandamentos. Mas enquanto nos assentarmos neste trono, enquanto tivermos o primeiro lugar, temos tanto a dignidade quanto o poder, ainda que sejamos indignos. Se o trono de Moisés era de tal reverência que, por causa dele, deviam ser ouvidos, muito mais o trono de Cristo. A este, recebemo-lo por sucessão; deste falamos, desde que Cristo depositou em nós o ministério da reconciliação.
Embaixadores, de qualquer sorte que sejam, gozam de muita honra por causa da dignidade da embaixada. Pois observai: eles vão sozinhos ao coração da terra dos bárbaros, através do meio de tantos inimigos; e porque a lei da embaixada é de grande poder, todos os honram; todos os olham com respeito, todos os enviam com segurança. E nós agora recebemos uma palavra de embaixada, e viemos da parte de Deus, pois esta é a dignidade do Episcopado. Viemos a vós em embaixada, pedindo-vos que ponhais fim à guerra, e dizemos em que termos; não prometendo dar cidades, nem tantas ou quantas medidas de trigo, nem escravos, nem ouro; mas o reino dos céus, a vida eterna, a comunhão com Cristo, os demais bens, que nem sequer somos capazes de vos dizer, enquanto estamos nesta carne e na vida presente. Embaixadores somos, pois, e desejamos gozar de honra, não por causa de nós mesmos — longe disso, pois conhecemos sua inutilidade —, mas por causa de vós; para que ouçais com empenho as coisas que dizemos; para que sejais aproveitados, para que não com negligência ou indiferença atendais ao que se fala. Não vedes vós como todos cortejam os embaixadores? Nós somos embaixadores de Deus junto aos homens; mas, se isto vos ofende, não somos nós, mas o próprio Episcopado, não este ou aquele homem, mas o Bispo. Que ninguém ouça a mim, mas à dignidade. Façamos, pois, tudo segundo a vontade de Deus, para que vivamos para a glória de Deus, e sejamos julgados dignos dos bens prometidos àqueles que O amam, pela graça e benignidade, etc. etc.
De novo estabelece também o modo da reconciliação: que foi no Corpo, não por ter sido meramente golpeado, nem açoitado, nem vendido, mas até morrendo a morte mais vergonhosa. De novo faz menção da Cruz, e de novo estabelece outro benefício. Pois Ele não apenas libertou, mas, como diz acima, "que nos fez dignos" (Cl 1,12), ao mesmo alude aqui também. Mediante a Sua morte, diz ele, para vos apresentar santos, e imaculados, e irrepreensíveis diante d'Ele. Pois, na verdade, Ele não apenas libertou dos pecados, mas também colocou entre os aprovados. Pois não foi somente para nos libertar dos males que Ele sofreu coisas tão grandes, mas também para que alcançássemos as primeiras recompensas; como se alguém não apenas libertasse um condenado de sua pena, mas também o elevasse à honra. E Ele vos colocou na fileira daqueles que não pecaram, sim, mais ainda, não somente com os que não cometeram pecado algum, mas até mesmo com os que praticaram a maior justiça; e, o que é verdadeiramente grande, deu a santidade que está diante d'Ele, e o ser irrepreensível. Ora, um avanço sobre "sem culpa" é "irrepreensível", quando nada fizemos pelo qual sejamos condenados ou acusados. Mas, uma vez que atribuiu tudo a Ele, porque mediante a Sua morte alcançou estas coisas — que nos importa isso, dirá alguém? Não necessitamos de nada.
Mas, contudo, diz ele, vós que não agis contra a vossa vontade, nem por compulsão, mas com vossa vontade e vosso querer vos apartastes d'Ele, a vós Ele reconciliou, ainda que fôsseis indignos disso. E, tendo feito menção das "coisas nos céus", ele mostra que toda a inimizade teve sua origem de nossa parte, não dos habitantes do céu. Pois eles, de fato, há muito o desejavam, e Deus também, mas vós não o quiséeis. E, ao longo de tudo, ele mostra que os anjos não tinham nenhum poder no curso da história humana, na medida em que os seres humanos escolhiam permanecer inimigos. Os anjos não podiam persuadi-los, nem, ainda que os tivessem persuadido, poderiam libertar o gênero humano do diabo.
Aqui ele fere a indolência deles. E não disse simplesmente permanecei, pois é possível permanecer vacilando e oscilando; é possível estar de pé e permanecer, ainda que volteando para um lado e para outro. Se é que permaneceis, diz ele, fundados e firmes, e não removidos. Admirável! Que metáfora vigorosa ele emprega; não diz apenas não agitados de um lado para outro, mas nem sequer movidos. E observai que, até aqui, ele não impõe nada gravoso nem trabalhoso, senão fé e esperança; isto é, se permanecerdes crendo que a esperança das coisas que hão de vir é verdadeira. Pois isto, com efeito, é possível; mas, quanto à vida virtuosa, não é possível evitar ser abalado, ainda que pouco; de sorte que o que ele ordena não é penoso.
Da esperança do Evangelho, diz ele, que ouvistes, o qual foi pregado a toda criatura debaixo do céu. Mas que é a esperança do Evangelho, senão Cristo? Pois Ele mesmo é a nossa paz, que operou todas estas coisas; de modo que quem as atribui a outros é removido, pois perde tudo, a menos que creia em Cristo. O qual ouvistes, diz ele. E novamente traz a eles próprios como testemunhas, depois o mundo inteiro. Não diz que está sendo pregado, mas que já foi crido e pregado. Como fizera também no início, desejoso de firmar estes também pelo testemunho de muitos. Do qual eu, Paulo, fui feito ministro. Isto também contribui para dar credibilidade; eu, diz ele, Paulo, ministro. Pois grande era a sua autoridade, sendo já celebrado em toda parte e mestre do mundo.
Parece, na verdade, ser grande coisa o que Paulo disse, mas não procede de arrogância, longe disso. Antes, as palavras de Paulo brotam de seu profundo amor a Cristo. Pois ele não quer que os sofrimentos sejam seus, mas dEle, pelo desejo de reconciliar estas pessoas a Ele. E aquilo que sofro, diz ele, sofro por causa dEle. Portanto, não me agradeçais a mim, mas expressai a vossa gratidão a Cristo, pois é Ele mesmo quem sofre.
E ministro, diz ele, isto é, não trazendo nada de mim mesmo, mas anunciando o que é de outro. Creio de tal modo, que sofro até por causa dEle, e não apenas sofro, mas até me alegro no sofrimento, olhando para a esperança que há de vir, e não sofro por mim mesmo, mas por vós. E completo, diz ele, o que falta das aflições de Cristo em minha carne. Parece, com efeito, ser grande coisa o que disse; mas não é de arrogância, longe disso, mas antes de muito terno amor para com Cristo; pois ele não quer que os sofrimentos sejam seus, mas dEle, por desejo de reconciliar estas pessoas a Ele. E o que sofro, sofro, diz ele, por causa dEle: não a mim, portanto, exprimi vossa gratidão, mas a Ele, pois é Ele mesmo quem sofre. Assim como se alguém, enviado a uma pessoa, fizesse pedido a outrem, dizendo: rogo-te, vai por mim a esta pessoa, então o outro dissesse: é por causa dele que o faço. De modo que Ele não se envergonha de chamar também estes sofrimentos de seus. Pois Ele não somente morreu por nós, mas até depois de Sua morte está pronto a ser afligido por vossa causa. Ele está ardente e veementemente disposto a mostrar que ainda agora está exposto ao perigo em Seu próprio Corpo por causa da Igreja, e visa a este ponto, a saber: não sois trazidos a Deus por nós, mas por Ele, ainda que nós façamos estas coisas, pois não empreendemos obra nossa, mas dEle. E é o mesmo que se houvesse uma hoste que tivesse seu chefe designado para protegê-la, e ela estivesse em batalha, e então, tendo ele partido, seu lugar-tenente sucedesse em seus ferimentos até que a batalha se concluísse.
Em seguida, que também por causa dEle faz estas coisas, ouvi: Por causa de Seu Corpo, diz ele, decerto querendo dizer isto: não vos agrado a vós, mas a Cristo: pois o que Ele deveria ter sofrido, eu sofro em lugar dEle. Vede quantas coisas ele estabelece. Grande, ele mostra, é a reivindicação sobre o amor deles. Como em sua segunda Epístola aos Coríntios, ele escreveu, dizendo, ele nos confiou o ministério da reconciliação (2 Cor 5,20); e novamente, Somos embaixadores em nome de Cristo; como se Deus estivesse rogando por nosso intermédio. Assim também aqui ele diz, Por causa dEle sofro, para que mais os atraia a Ele. Isto é, ainda que Aquele que é vosso devedor tenha partido, contudo eu pago. Pois, por esta razão ele também disse, o que falta, para mostrar que nem ainda considera que Ele tenha sofrido tudo. Por vossa causa, diz ele, e mesmo depois de Sua morte Ele sofre; visto que ainda resta uma deficiência. A mesma coisa ele faz de outro modo na Epístola aos Romanos, dizendo, Que também intercede por nós (Rm 8,34), mostrando que Ele não Se satisfez apenas com Sua morte, mas ainda depois faz inúmeras coisas.
Não diz isto, pois, para exaltar-se a si mesmo, mas por desejo de mostrar que Cristo ainda agora cuida deles. E mostra ser digno de crédito o que diz, acrescentando: por causa do Seu Corpo. Pois que assim é, e que nisto não há nenhuma inverossimilhança, manifesto se torna do fato de que estas coisas se fazem por causa do Seu corpo. Vede como Ele nos uniu a Si mesmo. Por que, então, introduzir anjos no meio? Do qual fui feito, diz ele, ministro. Por que introduzir anjos além disso? Eu sou ministro. Em seguida mostra que ele mesmo nada fizera, ainda que seja ministro. Do qual fui feito, diz ele, ministro, segundo a dispensação de Deus que me foi dada para convosco, a fim de cumprir a palavra de Deus.
A dispensação. Ou quer dizer que Ele assim quis que, depois de Sua própria partida, nós sucedêssemos na dispensação, para que não vos sentísseis como que abandonados (pois é Ele mesmo quem padece, Ele mesmo quem é embaixador); ou quer dizer isto, a saber: a mim, que mais do que todos fui perseguidor, para este fim Ele permitiu que eu perseguisse, para que na minha pregação eu granjeasse crédito; ou por dispensação entende que Ele não exigia obras, nem ações, nem boas obras, mas fé e batismo. Pois de outro modo não teríeis recebido a palavra. Para vós, diz ele, a fim de cumprir a palavra de Deus. Fala dos gentios, mostrando que ainda vacilavam, pela expressão cumprir. Pois que os gentios, antes rejeitados, pudessem receber doutrinas tão elevadas, não proveio de Paulo, mas da dispensação de Deus; pois eu jamais teria tido tal poder, diz ele.
Havendo mostrado o que é maior — que os seus sofrimentos são de Cristo —, acrescenta em seguida o que é mais evidente, a saber, que isto também é de Deus: cumprir em vós a Sua palavra. E mostra aqui, encobertamente, que também isto é de dispensação: que se vos fala agora, quando estais em condição de ouvir, e não procede de negligência, mas para que o recebais. Pois Deus não faz todas as coisas de súbito, mas usa de condescendência por causa de Seu abundante amor para com os homens. E esta é a razão pela qual Cristo veio neste tempo, e não outrora. E mostra no Evangelho que, por esta razão, enviou primeiro os servos, para que não se apressassem a matar o Filho. Pois se não reverenciaram o Filho, ainda quando Ele veio depois dos servos, muito menos O teriam reverenciado se viesse antes; se não deram atenção aos preceitos menores, como a dariam aos maiores?
Que dizer, então, objeta alguém? Não há ainda hoje judeus e gregos que se encontram em condição bem imperfeita? Isto, porém, é excesso de indolência. Pois que, depois de tanto tempo, depois de tão grandes instruções, ainda permaneçam imperfeitos, é prova de grande estultícia.
Quando, pois, os gregos dizem: por que veio Cristo neste tempo? Não lhes permitamos falar assim, mas antes perguntemos-lhes se Ele não obteve êxito. Pois, assim como, se Ele tivesse vindo desde o primeiríssimo princípio e não tivesse obtido êxito, o tempo não nos teria servido de desculpa suficiente, do mesmo modo, vendo que Ele obteve êxito, não podemos com justiça ser chamados a prestar contas quanto ao tempo. Pois ninguém exige de um médico que removeu a doença e restituiu alguém à saúde que preste contas do seu tratamento, nem tampouco alguém examina de perto um general que obteve a vitória, perguntando por que neste tempo e por que neste lugar. Pois seria cabível perguntar essas coisas, se ele não tivesse tido êxito; mas, uma vez que teve êxito, elas devem antes ser tidas como certas. Pois, dize-me: o que é mais digno de crédito, o teu raciocínio e a tua calúnia, ou a perfeição do próprio feito? Venceu Ele, ou não venceu? Mostra-me isto. Prevaleceu Ele, ou não prevaleceu? Realizou Ele o que disse, ou não? Estes são os pontos da investigação. Dize-me, eu te peço. Concedes plenamente que Deus existe, ainda que não Cristo? Pergunto-te, pois: é Deus sem princípio? Dirás: Certamente. Dize-me então: por que não fez Ele os homens miríades de anos antes? Pois eles teriam vivido por um tempo mais longo. Foram eles, agora, prejudicados por aquele tempo durante o qual não existiram. Não, porém, não foram prejudicados; mas de que modo, só Aquele que os fez o sabe. De novo te pergunto: por que não fez Ele todos os homens de uma só vez? Ora, a alma daquele que foi feito primeiro possui tantos anos de existência, dos quais fica privada aquela que ainda não foi criada. Por que, pois, fez Ele que um fosse trazido primeiro a este mundo, e o outro depois?
Ainda que estas coisas sejam, na verdade, dignas de investigação, não o são, contudo, para uma curiosidade importuna; pois isto de modo algum é matéria de indagação. Direi, pois, a razão de que falei. Suponde a natureza humana como se fosse uma única vida contínua, e que, nos primeiros tempos, a nossa raça se achava na condição de infância; nos tempos que se seguiram, na condição de idade viril; e nestes que se aproximam da extrema velhice, na condição de ancião. Ora, quando a alma está em sua perfeição, quando os membros do corpo se acham distendidos, e a nossa guerra está terminada, é então que somos conduzidos à filosofia. Ao contrário, poder-se-ia dizer, ensinamos os meninos ainda quando jovens. Sim, mas não as grandes doutrinas, e sim a retórica e a destreza na linguagem; e o outro ensino, quando chegam à maturidade da idade. Vede que também Deus fez o mesmo com os judeus. Pois, como se os judeus fossem crianças pequenas, pôs sobre eles Moisés como pedagogo, e, como a crianças pequenas, dispôs-lhes estas coisas por meio de representações sombrias, à maneira como ensinamos as letras. Porque a lei tinha a sombra dos bens que haviam de vir, e não a própria imagem das coisas (Hb 10,1). Assim como também nós compramos bolos para as crianças e lhes damos moedas, exigindo delas uma só coisa, que por ora frequentem a escola; assim também Deus, naquele tempo, deu-lhes tanto riquezas como deleites, comprando delas, por meio desta grande indulgência, uma única coisa: que ouvissem a Moisés. Por isso os entregou a um pedagogo, para que não desprezassem a Ele mesmo como a um Pai terno e amoroso. Vede, pois, que temiam somente a ele; pois não diziam: Onde está Deus? Mas: Onde está Moisés? E a própria presença dele era temível. Assim, quando erravam, observai como ele os castigava. Pois Deus, na verdade, desejava rejeitá-los; mas ele não o permitia. Ou antes, tudo isto era obra de Deus; tal como quando um pai ameaça, enquanto o pedagogo o suplica, e diz: Perdoa-lhes, eu te peço, por causa de mim, e doravante eu me responsabilizo por eles. Deste modo, o deserto era uma escola. E assim como as crianças que há muito tempo estão na escola desejam deixá-la, assim também eles, naquele tempo, desejavam continuamente o Egito, e choravam, dizendo: Estamos perdidos, estamos inteiramente consumidos, estamos totalmente arruinados (Êx 16,3). E Moisés quebrou a tábua deles, tendo-lhes escrito, por assim dizer, certas palavras (Êx 32,19); tal como faria um pedagogo que, tomando a tábua de escrever e achando-a mal escrita, lança fora a própria tábua, querendo mostrar grande ira; e, se a quebrou, o pai não se ira contra ele. Pois ele, na verdade, estava ocupado em escrever, mas eles, não lhe prestando atenção, e voltando-se para outras direções, cometiam desordem. E assim como na escola eles se golpeiam uns aos outros, assim também, naquela ocasião, ele lhes ordenou que se golpeassem e se matassem uns aos outros. E, de novo, tendo-lhes dado, por assim dizer, lições para aprender, e depois pedindo-lhas, e achando que não as haviam aprendido, ele os castigava. Por exemplo: que escritos eram aqueles que denotavam o poder de Deus? Os acontecimentos no Egito? Sim, dirá alguém, mas esses escritos representavam as pragas, isto é, que Ele castiga os Seus inimigos. E para eles isto era uma escola. Pois que outra coisa era o castigo de vossos inimigos senão o vosso benefício? E também em outros aspectos Ele vos beneficiou. E era o mesmo que se alguém dissesse que conhecia as suas letras, mas, sendo interrogado de um lado e de outro, errasse, e fosse castigado. Assim também eles diziam, na verdade, que conheciam o poder de Deus, mas, sendo interrogados sobre o seu conhecimento de um lado e de outro, não o podiam dar, e por isso eram castigados.
Aviste a água? Deveis recordar-vos da água no Egito. Pois Aquele que da água fez sangue, também terá poder para fazer isto. Como também costumamos dizer amiúde às crianças: quando vedes, num livro, a letra A, lembrai-vos de que já a tínheis em vossa tabuinha. Aviste a fome? Lembrai-vos de que foi Ele quem destruiu as searas! Aviste as guerras? Lembrai-vos do afogamento! Aviste que são poderosos os que habitam a terra? Mas não mais poderosos que os egípcios. Aquele que vos tirou do meio deles, não vos salvará muito mais agora que estais fora? Mas eles não sabiam responder às suas letras fora de ordem, e por isso foram açoitados. Comeram, beberam e recalcitraram (Dt 32,15). Alimentados com o maná, não deveriam ter pedido regalias, visto que já conheciam os males que dele procedem. E agiram exatamente como se um filho livre, enviado à escola, pedisse para ser contado entre os escravos e servi-los — assim fizeram estes também ao buscarem o Egito — e, recebendo todo o sustento necessário, tal como convém a um homem livre, e assentado à mesa de seu pai, tivesse saudade daquela comida malcheirosa e barulhenta dos servos. E disseram a Moisés: Sim, Senhor, tudo o que disseste faremos, e seremos obedientes (Ex 24,7). E, como acontece com os filhos desesperadamente maus, que, quando o pai os quer castigar de morte, o preceptor insistentemente roga por eles, assim também aconteceu então.
Por que dissemos estas coisas? Porque em nada diferimos das crianças. Quereis ouvir também as suas doutrinas, que são as das crianças? Olho por olho, diz-se, e dente por dente (Lv 24,20). Pois nada é tão ávido de vingança quanto uma mente infantil. Pois, sendo esta uma paixão da irracionalidade, e havendo muita irracionalidade e grande falta de ponderação naquela idade, não é de admirar que a criança seja tiranizada pela ira; e tão grande é a tirania, que muitas vezes, depois de tropeçar e levantar-se de novo, batem no próprio joelho de raiva, ou derrubam o escabelo, e assim aplacam sua dor e extinguem sua fúria. De modo semelhante a este agiu também Deus para com eles, quando lhes permitiu golpear com Olho por olho, e dente por dente, e destruiu os egípcios e os amalecitas que os haviam afligido. E prometeu-lhes tais coisas; como se a alguém que dissesse: Pai, fulano me bateu, o pai então respondesse: Fulano é um homem mau, odiemo-lo. Assim também diz Deus: Serei inimigo dos vossos inimigos, e odiarei os que vos odeiam (Ex 23,22). E, de novo, quando Balaão orou, a condescendência que se usou para com eles foi infantil. Pois, assim como as crianças, quando se assustam com algo não assustador, como um floco de lã ou qualquer outra coisa semelhante, ficam subitamente alarmadas; para que o seu medo não permaneça nelas, aproximamo-lhes a coisa às mãos e fazemos com que suas amas lhas mostrem: assim também fez Deus; visto que o Profeta era para eles um terror, converteu o terror dele em confiança. E, como as crianças que ainda mamam têm toda sorte de coisas em pequenos cestos, assim também Ele lhes deu tudo, e iguarias em abundância. Ainda assim, a criança tem saudade do peito; assim também estes tinham saudade do Egito e da carne que ali havia.
Para que ninguém errasse ao chamar a Moisés simultaneamente de mestre, de ama-de-leite e de condutor (Êx 16.3; Nm 11.4-5), tão grande era a sabedoria daquele homem. Contudo, não é a mesma coisa guiar homens que já são filósofos e reger crianças desprovidas de razão. E, se estás disposto a ouvir ainda outro pormenor: assim como a ama diz à criança que, ao aliviar-se, recolha suas vestes, e que assim permaneça sentada enquanto necessário, assim também fez Moisés (Dt 23.13). Pois todas as paixões são tirânicas nas crianças — porquanto ainda não possuem aquilo que as refreie: a vanglória, a concupiscência, a irracionalidade, a ira, a inveja; e, tal como acontece entre crianças, assim prevaleceram elas: cuspiram em Moisés, bateram nele. E, assim como uma criança toma uma pedra e todos nós exclamamos "não a lances!", assim também eles tomaram pedras contra seu pai, e ele fugiu deles. E, tal como o filho, apreciando ornamentos, pede ao pai algum adorno que este possui, assim mesmo procedeu o partido de Datã e Abirão, quando se rebelaram pela posse do sacerdócio (Nm 16). E, além disso, eram, entre todos os povos, o mais invejoso, o mais mesquinho de ânimo e, em todos os aspectos, imperfeito.
Deveria, pois, dize-me, Cristo ter aparecido naquele tempo, naquele tempo ter dado a eles estes ensinamentos da verdadeira sabedoria, quando ardiam de concupiscência, quando eram como cavalos enlouquecidos por éguas, quando eram escravos do dinheiro e do ventre? De modo algum; Ele apenas teria desperdiçado suas lições de sabedoria discorrendo com aqueles que não tinham entendimento, e eles não teriam aprendido nem uma coisa nem outra. E, assim como aquele que ensina a ler antes de ter ensinado o alfabeto jamais ensinará sequer o alfabeto, assim teria sido também então. Mas não é assim agora, pois, pela graça de Deus, muita paciência, muita virtude, foi plantada em toda parte. Demos, pois, graças por todas as coisas, e não sejamos demasiadamente curiosos. Pois não somos nós que conhecemos o tempo devido, mas Ele, o Fazedor do tempo e o Criador dos séculos.
Em tudo, pois, cedamos a Ele: pois isto é glorificar a Deus, não exigir dEle contas do que faz. Desta maneira também Abraão deu glória a Deus; e, estando plenamente persuadido — lemos —, que aquilo que Ele havia prometido, era também poderoso para o cumprir (Rm 4.21). Ele nem sequer indagou acerca do futuro; nós, porém, esquadrinhamos até mesmo o relato do passado. Vede quão grande loucura, quão grande ingratidão há nisto. Mas cessemos, doravante, de assim proceder, pois disso nenhum proveito advém, mas antes muito dano; e sejam nossos ânimos dispostos com gratidão para com nosso Senhor, e enviemos glória a Deus, para que, oferecendo por todas as coisas uma oblação de ação de graças, sejamos julgados dignos de Sua benignidade, pela graça e pelo amor ao gênero humano de Seu Unigênito, com quem, etc.
Ou ele quer dizer que a vontade de Cristo era que, depois de sua partida, nós avançássemos ao nosso lugar próprio na dispensação, a fim de que não nos sentíssemos tão desamparados (visto que é o próprio Cristo quem desempenha o papel necessário daquele que sofre e é o embaixador vindo do céu). Ou ele quer dizer isto, a saber, que foi para este fim que ele permitiu que eu fosse perseguido, a fim de que, em minha pregação, eu pudesse obter crédito. Ou por "dispensação" ele entende que Deus não requeria feitos, nem ações, nem boas obras, mas fé e batismo. Pois de outro modo não teríeis recebido a palavra. "Para que vós", diz ele, "cumprísseis a palavra de Deus". Ele fala dos gentios... pois que os gentios, antes rejeitados, pudessem ter sido capazes de receber doutrinas tão elevadas não proveio, em última instância, da própria ação de Paulo, mas procedeu da dispensação de Deus.
Tendo dito aonde chegamos, e mostrado a benignidade de Deus e a honra, pela grandeza das coisas dadas, ele introduz ainda outra consideração que as engrandece, a saber, que ninguém, antes de nós, O conheceu. Como ele também faz na Epístola aos Efésios, dizendo que nem os Anjos, nem os principados, nem qualquer outro poder criado, mas somente o Filho de Deus conheceu. E disse, não simplesmente oculto, mas totalmente oculto, e que, ainda que apenas agora se tenha realizado, contudo é antigo, e desde o princípio Deus quis estas coisas, e assim foram planejadas; mas por que, ele ainda não diz. Desde as eras, desde o princípio, por assim dizer. E com razão ele chama de mistério aquilo que ninguém conheceu, senão Deus. E onde oculto? Em Cristo; como ele diz na Epístola aos Efésios, ou como quando o Profeta diz: "Desde a eternidade até a eternidade Vós sois". Mas agora, diz ele, foi manifestado aos seus santos. De modo que é inteiramente da dispensação de Deus. Mas agora foi manifestado, diz ele. Não diz "veio a acontecer", mas "foi manifestado aos seus santos". De sorte que ainda agora permanece oculto, visto que foi manifestado somente aos seus santos.
E com razão ele chama de mistério aquilo que ninguém conheceu, exceto Deus. E onde oculto? Em Cristo; como ele diz na Epístola aos Efésios... Mas agora foi manifestado, diz ele, "aos seus santos". Assim sabemos que é inteiramente da dispensação de Deus. "Mas agora foi manifestado", diz ele. Ele não diz "veio a acontecer", mas "foi manifestado aos seus santos". De sorte que ainda agora permanece oculto, visto que foi manifestado somente aos seus santos.
Pois a grande glória deste mistério manifesta-se também entre outros, mas muito mais entre estes [isto é, entre os gentios]. Pois, ter conduzido subitamente homens mais insensatos que as pedras à dignidade dos anjos, mediante simples palavras e a fé somente, sem grande labor ou esforço, mostra, de fato, a glória e as riquezas do mistério. É como se alguém tomasse um cão, inteiramente consumido pela fome e pela sarna, imundo e repugnante à vista, incapaz sequer de mover-se, jazendo abandonado, e o transformasse subitamente em homem, e o fizesse assentar sobre o trono real. Costumavam adorar pedras e a terra; mas aprenderam que eles próprios são melhores que o céu e o sol, e que o mundo inteiro os serve. Eram cativos e prisioneiros do diabo. Subitamente são colocados acima de sua cabeça, e lhe dão ordens, e o castigam. De cativos e escravos dos demônios, tornaram-se o corpo do Senhor dos anjos e arcanjos. De não saberem sequer o que é Deus, tornaram-se subitamente participantes até mesmo do trono de Deus... O mistério envolve todas estas coisas; todas provêm da presença de Cristo nos crentes de Colossos. "Se Cristo está em vós", pergunta Paulo, "por que buscais os anjos?" Comentário sobre Colossenses
Não vos deixeis, pois, enganar por outros, pois estes nada sabem. Por que a eles somente? Àqueles a quem Lhe aprouve, diz ele. Vede como, em toda parte, Ele tapa a boca das perguntas deles. Àqueles a quem aprouve a Deus revelar, diz ele. Contudo, a Sua vontade não é sem razão. A fim de tornar os homens devedores da graça, antes que lhes permitir ter altivos pensamentos, como se fosse obra de seu próprio mérito, disse ele: Àqueles a quem aprouve revelar. Qual é a riqueza da glória deste mistério entre os gentios. Falou ele de modo sublime, e acumulou ênfase, buscando, em seu grande fervor, amplificação sobre amplificação. Pois isto também é amplificação: dizer indefinidamente A riqueza da glória deste mistério entre os gentios. Pois é sobretudo entre os gentios que ela mais se manifesta, como também diz noutro lugar: E que os gentios glorificassem a Deus por Sua misericórdia (Rm 15,9). Pois a grande glória deste mistério manifesta-se também entre outros, mas muito mais entre estes. Pois, de repente, ter conduzido homens mais insensatos que as pedras à dignidade dos Anjos, mediante meras palavras e a fé somente, sem trabalho algum, é, na verdade, glória e riqueza de mistério: tal como se alguém tomasse um cão, todo consumido pela fome e pela sarna, imundo e repugnante à vista, e nem sequer capaz de mover-se, mas jazendo lançado fora, e o transformasse subitamente num homem, e o exibisse sobre o trono régio. Costumavam adorar pedras e a terra; mas aprenderam que eles mesmos são melhores tanto que o céu quanto que o sol, e que o mundo inteiro os serve; eram cativos e prisioneiros do diabo: de repente são colocados acima de sua cabeça, e lhe dão ordens e o açoitam: de cativos e escravos dos demônios, tornaram-se o corpo do Senhor dos Anjos e dos Arcanjos; de não saberem sequer o que é Deus, tornaram-se subitamente participantes até mesmo do trono de Deus. Quereis ver os inumeráveis degraus que transpuseram de um salto? Primeiro, tinham de aprender que as pedras não são deuses; segundo, que não somente não são deuses, mas inferiores até aos homens; terceiro, até aos brutos; quarto, até às plantas; quinto, reuniram os extremos: que não somente as pedras, mas nem a terra tampouco, nem os animais, nem as plantas, nem o homem, nem o céu; ou, para recomeçar, que nem as pedras, nem os animais, nem as plantas, nem os elementos, nem as coisas de cima, nem as coisas de baixo, nem o homem, nem os demônios, nem os Anjos, nem os Arcanjos, nem nenhuma daquelas Potestades de cima, devem ser adorados pela natureza do homem. Sendo, por assim dizer, tirados de algum abismo, tinham de aprender que o Senhor de todas as coisas, Ele é Deus, que só a Ele é lícito adorar; que a vida virtuosa é coisa boa; que esta morte presente não é morte, nem esta vida, vida; que o corpo é ressuscitado, que se torna incorruptível, que ascenderá aos céus, que obtém até a imortalidade, que permanece com os Anjos, que para ali é transportado. Mas Aquele que ali estava embaixo, tendo transposto de um salto todos estes degraus, colocou-O nas alturas, sobre o trono, tendo feito Àquele que era inferior às pedras, superior em domínio aos Anjos, e aos Arcanjos, e aos tronos, e aos domínios. Verdadeiramente, Qual é a riqueza da glória deste mistério? Tal como se alguém mostrasse um insensato subitamente tornado filósofo; ou antes, o que quer que se dissesse, seria como nada: pois até as palavras de Paulo são indefinidas.
Que é, diz ele, a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós? De novo, era necessário que aprendessem que Aquele que está acima, e que impera sobre os Anjos e domínios, e todas as demais Potestades, desceu para baixo, e fez-Se Homem, e padeceu inúmeras coisas, e ressuscitou, e foi recebido nas alturas.
Todas estas coisas pertenciam ao mistério; e ele as expõe juntamente com um elevado louvor, dizendo: Que é Cristo em vós? Mas, se Ele está em vós, por que buscais os Anjos? Deste mistério. Pois há também outros mistérios. Mas este é verdadeiramente um mistério, que ninguém conhecia, que é admirável, que está fora da expectativa comum, que estava oculto. Que é Cristo em vós, diz ele, a esperança da glória, a quem anunciamos, trazendo-O do alto. A quem nós, não os Anjos, anunciamos: ensinando e admoestando; não de modo imperioso, nem usando de constrangimento, pois também isto pertence à benignidade de Deus para com os homens, o não conduzi-los a Ele à maneira de um tirano. Vendo que era coisa grande o que dissera — ensinando —, acrescentou: admoestando, o que é próprio antes de um pai que de um mestre. A quem, diz ele, anunciamos, admoestando a todo homem, e ensinando a todo homem em toda sabedoria. De modo que é necessária toda a sabedoria. Isto é, dizendo todas as coisas com sabedoria. Pois a capacidade de aprender tais coisas não existe em todos. Para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo Jesus. Que dizes, todo homem? Sim; é isto o que ardentemente desejamos fazer, diz ele. Mas que importa, se isto não vier a suceder? O bem-aventurado Paulo esforçou-se. Perfeito. Esta, pois, é a perfeição; a outra é imperfeição: de sorte que, se alguém não tiver sequer toda a sabedoria, é imperfeito. Perfeito em Cristo Jesus, não na Lei, nem nos Anjos, pois isso não é perfeição. Em Cristo, isto é, no conhecimento de Cristo. Pois quem sabe o que Cristo fez terá pensamentos mais elevados do que contentar-se com os Anjos.
Pelo qual também trabalho, combatendo. E não disse: sou apenas desejoso, nem de modo indiferente algum, mas trabalho, combatendo, com grande empenho, com muita vigília. Se eu, para vosso proveito, assim velo, muito mais deveis vós. Depois, mostrando novamente que isto é de Deus, diz: segundo a Sua operação, que atua em mim poderosamente. Mostra que esta é a obra de Deus. Ora, Aquele que me faz forte para isto evidentemente o quer. Por isso também, ao começar, diz: Pela vontade de Deus (Cl 1,1). De sorte que não é apenas por modéstia que assim se expressa, mas também insistindo na verdade da Palavra. E combatendo. Ao dizer isto, mostra que muitos combatem contra ele. E, além disso, grande é a sua terna afeição.
Depois, para que isto não parecesse dever-se à sua peculiar fraqueza, associou-lhes também outros, e ainda não os condenou. Mas por que diz: e quantos não viram a minha face na carne? Mostra aqui, de modo divino, que eles o viam constantemente em espírito. E dá testemunho do grande amor deles.
Ora, doravante ele se apressa e está em dores para adentrar a doutrina, nem os acusando, nem os isentando de acusação. Eu combato, diz ele. Para quê? Para que sejam unidos. O que ele quer dizer é algo como isto: que permaneçam firmes na fé. Não se expressa, porém, deste modo; antes, atenua a matéria da acusação. Isto é, que sejam unidos com amor, não com necessidade nem com força. Pois, como já disse, ele sempre evita ofender, deixando-o a critério deles próprios; e por isso combatendo, porque desejo que seja com amor, e voluntariamente. Pois não desejo que seja apenas com os lábios, nem apenas que sejam reunidos, mas que os seus corações sejam consolados.
Estando unidos em amor, e em todas as riquezas da plena certeza do entendimento. Isto é, que não duvidem de coisa alguma, que estejam plenamente certos em todas as coisas. Mas eu quis dizer a plena certeza que vem pela fé, pois há uma plena certeza que vem por argumentos, mas essa não é digna de consideração alguma. Sei, diz ele, que credes, mas eu quereria que estivésseis plenamente certos: não apenas em riquezas, mas em todas as riquezas; que a vossa plena certeza seja intensa, tanto quanto em todas as coisas. E observai a sabedoria deste bem-aventurado. Não disse: fazeis mal em não estardes plenamente certos, nem os acusou; mas: não sabeis quão desejoso estou de que sejais plenamente certos, e não apenas isso, mas com entendimento. Pois, tendo falado de fé, não penseis, diz ele, que quis dizer isto de modo estéril e infrutífero, mas com entendimento e amor. Para que conheçam o mistério de Deus Pai e de Cristo. De sorte que este é o mistério de Deus: o serem conduzidos a Ele pelo Filho. E de Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Ora, se estão nEle, então também, sem dúvida, sabiamente Ele veio neste tempo. Por que, pois, alguns insensatos Lhe objetam? Vede como Ele discorre com os mais simples. Nos quais estão todos os tesouros. Ele mesmo conhece todas as coisas. Escondidos, para que não penseis, em verdade, que já possuís tudo; estão ocultos também até mesmo dos Anjos, não apenas de vós; de sorte que deveis pedir-Lhe todas as coisas. Ele mesmo dá sabedoria e conhecimento. Ora, ao dizer tesouros, mostra a sua grandeza; ao dizer todos, que Ele nada ignora; ao dizer escondidos, que só Ele sabe.
"Em quem estão todos os tesouros." O próprio Cristo conhece todas as coisas. "Escondidos" — pois não penseis que já possuís verdadeira e plenamente todas as coisas. Estas estão escondidas também até dos anjos, não só de vós; de modo que deveis pedir-lhe todas as coisas. Ele mesmo dá a sabedoria e o conhecimento. Ora, ao dizer "tesouros", mostra sua magnificência; ao dizer "todos", que nada ignora; ao dizer "escondidos", que só Ele conhece.
Vedes que ele diz: Disse, pois, isto, para que não o busqueis dos homens. Iluda-vos, diz ele, com a persuasão das palavras. Pois que importa se alguém fala, e fala persuasivamente?
Não somente, diz Paulo, não caístes, mas ninguém sequer vos lançou em desordem. Paulo colocou-se à frente deles, para que o temessem como se estivesse presente. Assim, tem Paulo o seu modo particular de preservar a ordem. Ele sustenta que da solidez decorre a firmeza. Produz-se a solidez, como no caso de um muro, quando, tendo reunido muitas pedras, as cimentais compacta e inseparavelmente. Em outro sentido, tal solidez é obra própria do amor; pois aqueles que estavam isolados, quando o amor os cimenta e entrelaça estreitamente, torna-os sólidos. E a fé, por sua vez, faz o mesmo, quando não permite que se intrometam as vãs proposições de questões sem resposta. Pois, assim como tais indagações dividem e abalam, assim a fé produz solidez e compacidade.
ainda que eu esteja ausente na carne, contudo, conheço os enganadores; mas ele terminou antes com louvor, Alegrando-me e contemplando a vossa ordem, e a firmeza da vossa fé em Cristo. Vossa ordem, ele quer dizer, vossa boa ordem. E a firmeza da vossa fé em Cristo. Isto é ainda mais no sentido de elogio. E ele não disse fé, mas firmeza, como se falasse de soldados postados em boa ordem e firmemente. Ora, aquilo que é firme, nem o engano nem a provação pode abalar. Não somente, diz ele, não caístes, mas ninguém sequer vos lançou em desordem. Ele se colocou à frente deles, para que o temam como se estivesse presente; pois assim se preserva a ordem. Da solidez segue-se a compacidade, pois produzireis então solidez, quando, tendo reunido muitas coisas, as cimentardes de modo compacto e inseparável; assim se produz uma solidez, como no caso de um muro. Mas esta é a obra peculiar do amor; pois aqueles que estavam por si mesmos, quando ele os cimenta e os une estreitamente, ele os torna sólidos. E a fé, por sua vez, faz a mesma coisa; quando não permite que raciocínios se introduzam. Pois assim como os raciocínios dividem e abalam, assim a fé produz solidez e compacidade.
Pois, vendo que Deus nos concedeu benefícios que ultrapassam o raciocínio humano, convenientemente Ele introduziu a fé. Não é possível ser firme, quando se exigem razões. Pois eis todas as nossas elevadas doutrinas, quão destituídas estão de raciocínios, e dependentes somente da fé. Deus não está em lugar algum, e está em toda parte. Que há de menos racional do que isto? Cada afirmação por si só está repleta de dificuldade. Pois, com efeito, Ele não está em lugar; nem há lugar algum em que Ele esteja. Ele não foi feito, Ele não se fez a Si mesmo, Ele jamais começou a ser. Que raciocínio admitirá isto, se não houver fé? Não parece isto ser inteiramente ridículo, e mais interminável que um enigma?
Ora, que Ele não tem princípio, e é incriado, e incircunscrito, e infinito, é, como dissemos, uma dificuldade manifesta; mas consideremos a Sua incorporeidade, se podemos perscrutar isto pelo raciocínio. Deus é incorpóreo. Que é incorpóreo? Uma palavra nua, e nada mais, pois a compreensão nada recebeu, nada imprimiu em si mesma; pois se imprimisse algo, chegaria à natureza, e àquilo que constitui o corpo. De modo que a boca de fato fala, mas o entendimento não sabe o que fala, salvo uma única coisa, que não é corpo, isto é tudo o que sabe. E por que falo eu de Deus? No caso da alma, que é criada, encerrada, circunscrita, que é a incorporeidade? Diga! Mostre! Não podeis. É ar? Mas o ar é corpo, ainda que não seja compacto, e é evidente por muitas provas que é um corpo cedente. O fogo é corpo, ao passo que a energia da alma é incorpórea. Por que razão? Porquanto ela penetra por toda parte. Se ela mesma não é corpo, então aquilo que é incorpóreo existe em lugar, portanto é circunscrito; e aquilo que é circunscrito tem figura; e as figuras são lineares, e as linhas pertencem aos corpos. Novamente, aquilo que é sem figura, que concepção admite? Não tem figura, nem forma, nem contorno. Vedes como o entendimento fica tonto?
Novamente, aquela Natureza [a saber, a de Deus] não é suscetível ao mal. Mas Ele é também bom por vontade própria; logo, é suscetível a ele. Mas não se pode dizer isso — longe disso! Novamente, foi Ele trazido ao ser, querendo-o, ou não o querendo? Mas tampouco se pode dizer isto. Novamente, circunscreve Ele o mundo, ou não? Se não o circunscreve, Ele próprio é circunscrito; mas se o circunscreve, é infinito em Sua natureza. Novamente, circunscreve Ele a Si mesmo? Se Ele circunscreve a Si mesmo, então Ele não é sem princípio para Si mesmo, mas para nós; logo, Ele não é, em Sua natureza, sem princípio. Em toda parte é preciso admitir contradições.
Vedes quão grande é a escuridão, e como em toda parte há necessidade de fé. É esta, a fé, que é sólida. Mas, se quiserdes, cheguemos a coisas menores que estas. Aquela substância tem uma operação. E o que é, em Seu caso, operação? É um certo movimento? Então Ele não é imutável: pois o que se move não é imutável, pois, de estar sem movimento, passa a estar em movimento. Mas, não obstante, Ele está em movimento, e jamais permanece parado. Mas que espécie de movimento, dizei-me; pois entre nós há sete espécies: para baixo, para cima, para dentro, para fora, para a direita, para a esquerda, circular, ou, se não esta, aumento, diminuição, geração, destruição, alteração. Mas não seria nenhuma destas o Seu movimento, e sim tal como se move a mente? Não, tampouco esta. Longe disso! Pois em muitas coisas a mente se move até absurdamente. Querer é o mesmo que operar, ou não? Se querer é operar, e Ele quer que todos os homens sejam bons e sejam salvos (1 Tm 2,4), como não se cumpre isso? Mas uma coisa é querer, outra é operar. Querer, portanto, não basta para operar. Como, pois, diz a Escritura: Ele fez tudo quanto quis (Sl 115,3)? E, novamente, o leproso diz a Cristo: Se quiseres, podes purificar-me (Mt 8,2). Pois se isto se segue em conjunto com a vontade, que se há de dizer? Quereis que eu mencione ainda outra coisa? Como foram feitas as coisas que são a partir das coisas que não são? Como se resolverão elas em nada? O que há acima do céu? E, novamente, o que há acima daquilo? E o que há acima daquilo? E além disso? E assim até o infinito. O que há abaixo da terra? O mar, e além deste, o quê? E além daquilo, novamente? Ora; à direita, e à esquerda, não há a mesma dificuldade?
Mas estas, na verdade, são coisas invisíveis. Quereis que eu conduza o discurso àquelas que são vistas; àquelas que já aconteceram? Dizei-me, como conteve a besta a Jonas em seu ventre, sem que ele perecesse? Não é ela desprovida de razão, e seus movimentos sem controle? Como poupou ela o justo? Como não o sufocou o calor? Como não o apodreceu? Pois se estar apenas no abismo já ultrapassa toda explicação, estar tanto nas entranhas da criatura quanto naquele calor é algo muitíssimo mais inexplicável. Se é do exterior que respiramos o ar, como bastou a respiração para dois animais? E como também o vomitou ela ileso? E como, ademais, falou ele? E como, ademais, estava ele em pleno domínio de si, e orava? Não são estas coisas incríveis? Se as examinarmos pelos raciocínios, são incríveis; se pela fé, são sobremodo dignas de crédito.
Direi algo mais do que isto? O trigo, no seio da terra, apodrece, e ressurge. Eis maravilhas opostas, cada qual superando a outra: maravilhoso é não se corromper; maravilhoso, depois de corrompido, é ressurgir. Onde estão os que zombam de tais coisas, e descrêem da Ressurreição, dizendo: Como se há de unir este osso àquele? E introduzem outras fábulas semelhantes e tolas. Dize-me: como subiu Elias num carro de fogo? O fogo costuma queimar, não elevar aos ares. Como vive ele por tão longo tempo? Em que lugar se encontra? Por que se fez isto? Para onde foi transladado Enoque? Vive ele do mesmo alimento que nós? E o que o impede de estar aqui? Ou, porventura, não come ele? E por que foi transladado? Vede como Deus nos instrui pouco a pouco. Transladou a Enoque; não era isto coisa tão grande. Isto nos preparou para a assunção de Elias. Encerrou a Noé na arca (Gn 7,7); tampouco é isto coisa muito grande. Isto nos preparou para o encerramento do profeta dentro da baleia. Assim, até as coisas antigas necessitavam de precursores e tipos. Pois, como numa escada, o primeiro degrau conduz ao segundo, e do primeiro não é possível saltar ao quarto — antes este conduz àquele, para que aquele seja o caminho para o seguinte —, e como tampouco é possível alcançar o segundo antes do primeiro, assim também sucede aqui.
E observai os sinais dos sinais, e discerni-lo-eis na escada que Jacó viu. Em cima, diz a Escritura, o Senhor estava firme, e embaixo os Anjos subiam e desciam (Gn 28,13). Profetizava-se que o Pai tem um Filho; era necessário que isto se cresse. De onde quereis que eu vos mostre os sinais disto? De cima para baixo? De baixo para cima? Porque Ele gera sem paixão, por esta razão a que era estéril foi a primeira a gerar. Subamos antes mais alto. Era necessário crer que Ele gerou de Si mesmo. Que, pois? A coisa sucede, na verdade, obscuramente, como em tipo e sombra, mas, ainda assim, sucede; e, à medida que avança, torna-se de algum modo mais clara. Uma mulher é formada do homem somente, e ele permanece íntegro e inteiro. De novo, era necessário que houvesse algum sinal seguro da Concepção de uma Virgem. Assim, a estéril gera, não uma só vez, mas uma segunda e uma terceira, e muitas vezes. Do Seu nascimento, pois, de uma Virgem, a estéril é tipo, e ela conduz a mente à fé. Além disso, isto era tipo de que Deus pode gerar sozinho. Pois, se o homem é o agente principal, e o nascimento se dá sem ele, de modo mais excelente, muito mais é Alguém gerado pelo Agente Supremo. Há ainda outra geração, que é tipo da Verdade — refiro-me à nossa, pelo Espírito. Desta, também, a estéril é tipo: o fato de não ser de sangue (Jo 1,13); isto se refere à geração de cima. Uma — como também os tipos — mostra que a geração há de ser sem paixão; a outra, que ela poderia proceder de Alguém que está acima.
Cristo está acima, governando todas as coisas: era necessário que isto se cresse. O mesmo se dá na terra com respeito ao homem. *Façamos o homem segundo a Nossa imagem e semelhança* (Gênesis 1:26), para domínio de todos os brutos. Assim Ele nos instruiu, não por palavras, mas por ações. O Paraíso mostrava a singularidade de sua natureza, e que o homem era a melhor de todas as coisas. Cristo haveria de ressuscitar; vede agora quantos sinais seguros havia: Enoque, Elias, Jonas, a fornalha ardente, o caso de Noé, o batismo, as sementes, as plantas, a nossa própria geração, e a de todos os animais. Pois, uma vez que nisto tudo estava em jogo, disto, mais que de qualquer outra coisa, houve abundância de tipos.
Que o Universo não carece de Providência podemos conjecturar a partir das coisas entre nós mesmos, pois nada continuará a existir se não for provido; mas até mesmo os rebanhos, e todas as demais coisas, necessitam de governo. E que o Universo não foi feito ao acaso, o Inferno é prova, e assim também o foi o dilúvio nos dias de Noé, o fogo, o afogamento dos egípcios no mar, as coisas que aconteceram no deserto.
Era necessário também que muitas coisas preparassem o caminho para o Batismo; sim, milhares de coisas; aquelas, por exemplo, no Antigo Testamento, aquelas na Piscina, a purificação daquele que não estava são de saúde, o próprio dilúvio, e todas as coisas que se fizeram na água, o batismo de João.
Era necessário crer-se que Deus entrega Seu Filho; um homem fez isto por antecipação, o Patriarca Abraão. Tipos, pois, de todas estas coisas, se assim quisermos, haveremos de encontrar perscrutando as Escrituras. Mas não nos cansemos, antes afinemo-nos por meio destas coisas. Guardemos firmemente a fé, e mostremos a rigor de vida: para que, tendo por todas as coisas rendido graças a Deus, sejamos julgados dignos dos bens prometidos àqueles que O amam, pela graça e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo, com quem, etc.
De novo, ele os previne com o próprio testemunho deles, dizendo: Assim, pois, como recebestes. Não introduzimos, diz ele, nenhum acréscimo estranho, nem tampouco o fazeis vós. Andai nele, pois Ele é o Caminho que conduz ao Pai: não nos anjos; esse caminho não conduz até lá. Arraigados, isto é, fixos; não indo ora por este caminho, ora por aquele, mas arraigados: ora, o que está arraigado, jamais pode remover-se. Observai quão apropriadas são as expressões que ele emprega. E edificados, isto é, alcançando-o pelo pensamento. E confirmados nele, isto é, retendo-o, edificados como sobre um fundamento. Mostra que eles haviam caído, pois a palavra edificados tem essa força. Pois a fé é, em verdade, um edifício; e necessita tanto de um fundamento forte quanto de uma construção segura. Pois, se alguém não edifica sobre um fundamento seguro, ruirá; e ainda que o faça, se não for firme, não se sustentará. Como fostes ensinados. De novo, a palavra Como. Abundando, diz ele, em ação de graças; pois isto é próprio das pessoas bem-dispostas — não digo simplesmente dar graças, mas com grande abundância, mais do que aprendestes, se possível, com muita ambição.
Vedes como ele o mostra ser ladrão, e estranho, e alguém que entra sorrateiramente? Pois já o representara como entrando. Vede. E bem disse: espolia. Como aquele que escava um monte por baixo pode não dar sinal perceptível, e contudo ele pouco a pouco desaba, assim também vede vós; pois este é o seu ponto principal, nem sequer deixar-se perceber. Como se alguém roubasse todos os dias, e ao dono da casa se dissesse: Vede que não haja alguém; e ele mostra o caminho — por este caminho — como se disséssemos, por esta câmara; assim, por meio da filosofia, diz ele.
Depois, porque o termo filosofia tem aparência de dignidade, acrescentou: e vã sedução. Pois há também uma boa sedução, com a qual muitos foram enganados, a qual nem sequer se deveria chamar sedução. Disso fala Jeremias: Senhor, tu me enganaste, e fui enganado; pois algo assim nem sequer se deveria chamar sedução; pois também Jacó enganou seu pai, mas isso não foi sedução, e sim economia. Por meio de sua filosofia, diz ele, e vã sedução, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo. Ora, ele passa a repreender a observância de dias particulares, entendendo por elementos do mundo o sol e a lua; como também disse na Epístola aos Gálatas: Como tornais outra vez aos fracos e pobres rudimentos? E não disse observâncias de dias, mas em geral do presente mundo, para mostrar sua inutilidade: pois, se o presente mundo é nada, muito mais o são os seus elementos. Tendo primeiro mostrado quão grandes benefícios e bondades haviam recebido, depois traz a sua acusação, para com isso mostrar sua maior gravidade, e convencer os seus ouvintes. Assim também fazem os Profetas. Sempre primeiro apontam os benefícios, e depois engrandecem a acusação; como diz Isaías: Gerei filhos, e os exaltei, mas eles me rejeitaram; e ainda: Povo meu, que te fiz eu, ou em que te contristei, ou em que te enfadei? e Davi; como quando diz: Ouvi-te no lugar secreto da tempestade; e ainda: Abre a tua boca, e eu a encherei. E em toda parte encontrareis o mesmo.
Isso, na verdade, seria antes de tudo o dever de cada um, não se deixar persuadir por eles, ainda que dissessem algo pertinente; como é, porém, à parte mesmo das obrigações, seria nosso dever evitar essas coisas. E não segundo Cristo, diz ele. Pois, ainda que fosse de tal modo uma coisa feita pela metade, que pudésseis servir a um e a outro, nem ainda assim deveríeis fazê-lo; como é, porém, ele não vos permite ser senão segundo Cristo. Essas coisas vos afastam dEle. Tendo primeiro despedaçado as observâncias gregas, ele em seguida derruba também as judaicas. Pois tanto gregos quanto judeus praticavam muitas observâncias, mas aqueles pela filosofia, estes pela Lei. Primeiro, então, ataca aqueles contra quem pesava a acusação mais grave. Como, não segundo Cristo?
Depois, porque o termo filosofia tem aparência de dignidade, Paulo acrescentou: "E vã sedução". Pois pode também haver uma piedosa sedução, com a qual muitos foram enganados, que não se deveria considerar uma verdadeira decepção. Jeremias observa que até mesmo Deus pode parecer enganar. "Senhor, tu me enganaste, e fui enganado"; neste exemplo nada temos que possamos descrever como sedução. Pois também Jacó enganou seu pai, mas isso não foi, afinal, uma sedução, e sim o modo próprio de agir na situação.
Observai como, ao acusar um, atravessa o outro, dando primeiro a solução e depois a objeção. Pois tal solução não é suspeita, e o ouvinte a aceita tanto mais quanto aquele que fala não faz dela o seu propósito. Naquele caso, com efeito, ele se empenharia em não sair vencido; mas neste, não é assim. «Pois nEle habita», isto é, porque Deus habita nEle. Mas para que não penseis que Ele está encerrado, como num corpo, diz: «toda a plenitude da Divindade corporalmente; e estais cheios nEle». Outros dizem que ele tem em vista a Igreja, preenchida por Sua Divindade, como diz noutro lugar, dAquele «que enche tudo em todos» (Ef 1,23), e que o termo «corporalmente» aqui se refere ao corpo na cabeça. Como é então que não acrescentou: «a qual é a Igreja»? Outros ainda dizem que se refere ao Pai, ao afirmar que a plenitude da Divindade habita nEle, mas erradamente. Primeiro, porque «habitar» não pode, em rigor, dizer-se de Deus; depois, porque a plenitude não é o que recebe, pois «do Senhor é a terra e a sua plenitude» (Sl 24,1); e ainda o Apóstolo: «até que a plenitude dos gentios haja entrado» (Rm 11,25). Por plenitude entende-se a totalidade. Que pretendia então a palavra «corporalmente»? Como numa cabeça. Mas por que repete a mesma coisa: «e estais cheios nEle»? Que significa isto, senão que nada vos falta em comparação com Ele? Como habitou nEle, assim também em vós. Pois Paulo esforça-se sempre por aproximar-nos de Cristo, como quando diz: «ressuscitou-nos com Ele e nos fez sentar com Ele» (Ef 2,6); e: «se perseverarmos, com Ele também reinaremos» (2Tm 2,12); e: «como não nos dará Ele, com Ele, gratuitamente todas as coisas?» (Rm 8,32); chamando-nos co-herdeiros. Depois, quanto à Sua dignidade: «e Ele é a cabeça de todo principado e potestade» (Ef 3,6). Aquele que está acima de tudo, a Causa, não é Ele consubstancial? Em seguida, acrescentou o benefício de modo admirável, e muito mais admirável do que na Epístola aos Romanos. Pois ali, com efeito, diz: «circuncisão do coração, no espírito, não na letra» (Rm 2,29); mas aqui, em Cristo.
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«Pois nele habita», isto é, porque Deus habita nele. Mas para que não penseis que ele está encerrado, como num corpo, Paulo escreve: «toda a plenitude da Divindade corporalmente; e estais cheios nele». Outros dizem que Paulo se refere à Igreja, preenchida por sua Divindade, como diz noutro lugar, «daquele que enche tudo em todos», e que emprega aqui o termo corporalmente, como o corpo na cabeça. Mas, se esta interpretação é verdadeira, por que não acrescentou «a qual é a Igreja»? Homilias sobre Colossenses
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Vede quão próximo chegou ele da coisa mesma. Diz ele: no despojamento total, não no mero deixar de lado. O corpo dos pecados. Ele quer dizer: a vida antiga. Ele volta continuamente a isto de diferentes modos, como disse acima: Que nos livrou do poder das trevas e nos reconciliou, a nós que estávamos alienados, para que fôssemos santos e irrepreensíveis. Não mais, diz ele, é a circuncisão feita com a faca, mas em Cristo mesmo; pois não é mão alguma que confere esta circuncisão, como ali sucede, mas o Espírito. Ele circuncida não uma parte, mas o homem todo. É o corpo, tanto num caso como no outro, mas num é circuncidado carnalmente, no outro espiritualmente; não, porém, como os judeus, pois não deixastes a carne, mas os pecados. Quando e onde? No Batismo. E o que ele chama circuncisão, chama de novo sepultamento. Observai como ele passa de novo ao tema das obras de justiça: dos pecados, diz ele, da carne, as coisas que haviam feito na carne. Ele fala de coisa maior que a circuncisão, pois não apenas lançaram fora aquilo de que foram circuncidados, mas o destruíram, o aniquilaram.
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A circuncisão já não se realiza com a faca, diz Paulo, mas em Cristo mesmo; pois não é mão humana que circuncida... mas o Espírito. O Espírito circuncida o homem todo, não simplesmente uma parte... Quando e onde? No batismo. E o que Paulo chama circuncisão, chama de novo sepultamento... Mas não é somente sepultamento: pois notai o que ele diz: "Nele também fostes ressuscitados, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos."
Mas não é somente sepultamento: pois eis o que ele diz: No qual também fostes ressuscitados com Ele, pela fé na operação de Deus, que O ressuscitou dentre os mortos. Bem disse: pela fé, pois tudo é de fé. Crestes que Deus é capaz de ressuscitar, e por isso fostes ressuscitados. Notai também, então, quão digno de crença é Aquele que O ressuscitou, diz ele, dentre os mortos.
Mostra agora a Ressurreição. E vós, que outrora estáveis mortos pelos vossos delitos e pela incircuncisão de vossa carne, vós, digo, Ele vivificou juntamente com Ele. Pois jazíeis sob a sentença da morte. Mas ainda que tivésseis morrido, foi morte proveitosa. Observai como de novo mostra o que mereciam nas palavras que acrescenta:
Havendo-nos perdoado, diz ele, todos os nossos delitos, aqueles mesmos que produziram tal morte. Que fez então? Permitiu que permanecessem? Não; antes os apagou totalmente; não os riscou apenas de leve, mas de modo que já não pudessem ser vistos. Nas doutrinas [ordenações], diz. Que doutrinas? A Fé. Basta crer. Não opôs obras a obras, mas obras à fé. E que mais? O apagar é um progresso em relação à remissão; diz ainda: E a tirou do meio. Nem sequer assim a conservou, mas antes a rasgou em pedaços, pregando-a à sua Cruz. Havendo despojado de si os principados e as potestades, os expôs abertamente, triunfando sobre eles nela. Em nenhum outro lugar falou em tom tão sublime.
Vede quão grande foi o Seu empenho em que a cédula da dívida fosse anulada? Ora, todos nós estávamos sob o pecado e sob a pena. Ele mesmo, sofrendo a pena, aboliu tanto o pecado quanto a pena, e foi castigado na Cruz. À Cruz, pois, a fixou; e, como quem tem poder, a rasgou ao meio. Que cédula? Refere-se ou àquilo que disseram a Moisés, a saber: "Tudo o que Deus disse faremos, e seremos obedientes" (Ex 24,3), ou, se não isso, ao fato de que devemos a Deus obediência; ou, se não isso, refere-se à cédula que o demônio detinha em sua posse, aquela que Deus redigiu contra Adão, dizendo: "No dia em que comeres da árvore, morrerás" (Gn 2,17). Esta cédula, pois, o demônio a detinha em sua posse. E Cristo não no-la entregou, mas Ele mesmo a rasgou em dois, agindo como quem remite com alegria.
Vede que não nos tornemos de novo devedores do antigo contrato. Cristo veio uma vez; encontrou a cédula de nossa dívida ancestral, que Adão escreveu e assinou. Adão contraiu a dívida; por nossos pecados subsequentes, aumentamos a soma devida. Neste contrato estão escritos a maldição, o pecado, a morte e a condenação da lei. Cristo tirou tudo isso e o perdoou. São Paulo brada e diz: "O decreto de nossos pecados que era contrário a nós, Ele o tirou inteiramente, cravando-o na cruz." Não disse "apagando o decreto", nem disse "riscando-o", mas "cravando-o na cruz", para que dele não restasse vestígio algum. Por isso não o apagou, mas o rasgou em pedaços.
Que cédula? Refere-se ou àquilo que disseram a Moisés, a saber: "Tudo o que Deus disse faremos, e seremos obedientes", ou, se não isso, ao fato de que devemos a Deus obediência; ou, se não isso, refere-se à cédula que o demônio detinha em sua posse, aquela que Deus redigiu contra Adão, dizendo: "No dia em que comeres da árvore, morrerás." Esta cédula, pois, o demônio a detinha em sua posse. E Cristo não no-la entregou, mas Ele mesmo a rasgou em dois, agindo como quem remite com alegria o que lhe devemos.
"Havendo despojado de si os principados e as potestades." Refere-se às potestades diabólicas; seja porque a natureza humana se revestira delas, seja porque estas tinham, por assim dizer, domínio sobre a natureza humana. Ao fazer-Se homem, Ele despojou de si esse domínio. Que significa "expô-las publicamente"? Bem fala Paulo nestas palavras. Jamais estivera o diabo em situação tão vergonhosa. Pois, esperando possuí-lO, perdeu até mesmo os que já possuía; e quando o corpo de Cristo foi pregado na cruz, os mortos ressuscitaram. Na cruz a morte recebeu sua ferida, tendo encontrado seu golpe mortal vindo de um corpo morto. E assim como o atleta que, julgando haver golpeado o adversário, ele mesmo se vê preso num abraço fatal, assim verdadeiramente também Cristo mostra que morrer com arrogância é a vergonha do diabo.
Tendo despojado de Si mesmo os principados e as potestades. Refere-se às potestades diabólicas; porque a natureza humana se havia revestido delas, ou porque estas tinham, por assim dizer, um domínio sobre ela, quando Ele Se fez Homem afastou de Si esse domínio. Que significa fez deles espetáculo? E bem disse assim; jamais estivera o diabo em tão vergonhosa condição. Pois, enquanto esperava possuí-Lo, perdeu até mesmo os que já possuía; e quando aquele Corpo foi pregado na Cruz, os mortos ressuscitaram. Ali recebeu a morte a sua ferida, tendo encontrado o seu golpe mortal vindo de um corpo morto. E como um atleta que, pensando ter golpeado o seu adversário, é ele mesmo colhido num abraço fatal, assim verdadeiramente também mostra Cristo que morrer com confiança é a vergonha do diabo.
Pois teria feito tudo para persuadir os homens de que Ele não morrera, se tivesse tido poder para tanto. Porquanto, vendo que da Sua Ressurreição todo o tempo subsequente seria prova demonstrativa, ao passo que da Sua morte nenhum outro tempo senão aquele em que ela sucedeu poderia jamais fornecer prova; por isso, pois, morreu Ele publicamente à vista de todos os homens, mas não ressuscitou publicamente, sabendo que o tempo vindouro daria testemunho da verdade. Pois que, estando o mundo a observar, fosse a serpente morta no alto, sobre a Cruz — nisto está a maravilha. Que não fez o diabo, para que Ele morresse em segredo? Ouve Pilatos dizendo: Tomai-O vós e crucificai-O, pois eu não acho nEle culpa alguma (Jo 19,6), e resistindo-lhes de mil modos. E de novo os judeus Lhe disseram: Se és o Filho de Deus, desce da Cruz (Mt 27,40). E ainda mais: quando Ele recebera o ferimento mortal e não descera, por isso foi também entregue à sepultura; pois em Seu poder estava ressuscitar imediatamente — mas não o fez, para que o fato fosse crido. E, contudo, em casos de morte particular é possível atribuí-los a um desmaio, mas aqui tampouco é possível fazer isso. Pois nem sequer os soldados Lhe quebraram as pernas, como às dos outros, para que ficasse manifesto que estava morto. E são conhecidos os que sepultaram o Corpo; e por isso mesmo os próprios judeus selam a pedra juntamente com os soldados. Pois o que mais se cuidava era precisamente isto: que não houvesse obscuridade alguma. E as testemunhas disso vêm dos inimigos, dos judeus. Ouve-os dizendo a Pilatos: Aquele enganador disse, ainda em vida: Depois de três dias ressuscito. Manda, pois, que o sepulcro (Mt 26,63-64) seja guardado pelos soldados. Assim se fez, selando-o eles mesmos também. Ouve-os ainda depois dizendo aos Apóstolos: Quereis lançar sobre nós o sangue deste Homem (At 5,28). Não permitiu Ele que a própria forma da Sua Cruz fosse envergonhada. Pois, uma vez que os Anjos nada sofreram semelhante a isto, Ele por isso faz tudo para mostrar que a Sua morte realizou uma grande obra. Houve, por assim dizer, um combate singular. A morte feriu a Cristo; mas Cristo, ferido, matou depois a morte. Aquele que parecia ser imortal foi destruído por um corpo mortal; e isto o mundo inteiro viu. E o que é verdadeiramente admirável é que Ele não confiou isto a outrem. Mas foi feito de novo um segundo laço, de espécie diversa do primeiro.
Vede pois que não sejamos condenados por isto, depois de haver dito: Renuncio a Satanás, e me aliso a Vós, ó Cristo. Todavia isto não deve ser chamado vínculo, mas antes aliança. Pois vínculo é aquilo pelo qual alguém é responsabilizado por dívidas; mas isto é aliança. Não tem penalidade, nem diz: Se isto se fizer, ou se isto não se fizer; o que Moisés disse ao aspergir o sangue da aliança, por isso mesmo Deus também prometeu a vida eterna. Tudo isto é aliança. Ali era servo com senhor, aqui é amigo com amigo; ali se diz: No dia em que dele comerdes, morrereis (Gn 2,17), ameaça imediata; mas aqui não há nada semelhante. Deus se aproxima, e aqui há nudez, e ali havia nudez; ali, porém, o que pecara foi feito nu, porque pecou, mas aqui alguém é feito nu, para que seja libertado. Então, o homem despiu a glória que tinha; agora, ele despe o homem velho; e antes de subir ao combate, despe-o com a mesma facilidade com que se despem as vestes. Ele é ungido, como os atletas prestes a entrar na arena. Pois nasce imediatamente; e assim como foi aquele primeiro homem, não pouco a pouco, mas de uma só vez. É ungido, não como os sacerdotes de outrora, somente na cabeça, mas antes em medida mais abundante. Pois aquele era ungido na cabeça, na orelha direita, na mão (Lv 8,23-24), para excitá-lo à obediência e às boas obras; mas este, em todo o corpo. Pois não vem apenas para ser instruído, mas para lutar e para se exercitar; é conduzido a uma outra criação. Pois quando alguém confessa (sua crença) na vida eterna, confessou uma segunda criação. Tomou pó da terra, e formou o homem (Gn 2,7); mas agora, já não pó, mas o Espírito Santo; com Este é formado, com Este é harmonizado, assim como Ele mesmo esteve no ventre da Virgem. Não disse no Paraíso, mas no Céu. Pois não penseis que, porque a matéria é terra, isto se faz na terra; ele é removido para lá, para o Céu, ali se realizam estas coisas, no meio dos Anjos: Deus toma tua alma para o alto, no alto a harmoniza de novo, coloca-te junto ao Trono Régio. É formado na água, recebe o espírito em lugar de uma alma. E depois de ser formado, Ele lhe traz, não animais, mas demônios, e o seu príncipe, e diz: Pisai serpentes e escorpiões (Lc 10,19). Não diz: Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança (Gn 1,26), mas o quê? Concede-lhes tornarem-se filhos de Deus; mas de Deus, diz, eles nasceram (Jo 1,12-13). Então, para que não dês ouvidos à serpente, logo te ensina a dizer: Renuncio a ti, isto é, seja o que for que digas, não te ouvirei. Então, para que ele não te destrua por meio de outros, diz-se: e a tua pompa, e o teu serviço, e os teus anjos. Não o estabeleceu mais para guardar o Paraíso, mas para ter a sua cidadania nos céus. Pois logo quando sobe pronuncia estas palavras: Pai nosso, que estás nos Céus... Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu. A planície não se apresenta à tua vista, não vês árvore, nem fonte, mas logo recebes em ti o próprio Senhor, és misturado com o Seu Corpo, és intermisturado com aquele Corpo que repousa lá em cima, aonde o diabo não pode aproximar-se. Ali não há mulher, para que ele se aproxime, e a engane como a mais fraca; pois está dito: Não há nem mulher, nem varão (Gl 3,28). Se não desceres a ele, ele não terá poder de subir aonde estás; pois tu estás no Céu, e o Céu é inacessível ao diabo.
Como a árvore do conhecimento do bem e do mal, ele não a possui, mas apenas a Árvore da Vida. Não mais será a mulher formada do teu lado, mas todos nós somos um do lado de Cristo. Pois se aqueles que foram ungidos pelos homens não recebem dano das serpentes, tampouco tu receberás dano algum, enquanto estiveres ungido; a fim de que sejas capaz de apanhar a Serpente e sufocá-la, de pisar sobre serpentes e escorpiões (Lc 10,19). Mas, tão grandes quanto são os dons, tão grande é também o castigo. Não é possível àquele que caiu do Paraíso habitar diante do Paraíso (Gn 3,24), nem reascender àquele lugar de onde caímos. Mas o que vem depois disto? O inferno, e o verme que não morre. Mas longe esteja que algum de nós se torne sujeito a este castigo! Mas, vivendo virtuosamente, esforcemo-nos com afinco por fazer, em tudo, a Sua vontade. Tornemo-nos agradáveis a Deus, para que possamos tanto escapar do castigo quanto alcançar os bens eternos, dos quais possamos todos nós ser considerados dignos, pela graça e amor para com o homem, etc.
Vede como ele reduz o valor daquilo que os colossenses reputavam por importante? Se alcançastes coisas assim [isto é, a graça e a sabedoria por meio de Cristo], pergunta Paulo, por que vos fazeis, então, réus destas ninharias? E as despreza… Não suporteis os que vos julgam nestas considerações triviais.
Havendo primeiro dito de modo velado: Vede que ninguém vos faça presa sua, mediante a tradição dos homens (Cl 2,8); e ainda antes: Digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas (Cl 2,4); assim preparando de antemão a alma deles, e nela operando pensamentos ansiosos; em seguida, tendo inserido aqueles benefícios, e ampliado este efeito, ele traz então por último a sua repreensão, e diz: Ninguém, pois, vos julgue em comida, ou em bebida, ou a respeito de dia de festa, ou de lua nova, ou de sábado. Vede como ele os rebaixa? Se alcançastes coisas assim, diz ele, por que vos fazeis réus destas ninharias? E as despreza, dizendo, ou a respeito de dia de festa em parte, pois, na verdade, eles não guardavam toda a antiga regra, ou de lua nova, ou de sábado. Não disse: Não as observeis, mas: Ninguém vos julgue. Mostrou que eles estavam transgredindo e desfazendo, mas dirigiu a sua acusação contra outros. Não suporteis, diz ele, os que vos julgam; não, nem sequer isto tampouco, mas argumenta com essas pessoas, quase lhes fechando a boca, dizendo: Não deveis julgar. Mas não teria reprovado estas coisas. Não disse em puro e impuro, nem tampouco nas festas dos Tabernáculos, e dos Ázimos, e de Pentecostes, mas em parte de festa, pois eles não ousavam guardá-la por inteiro; e se a observavam, contudo não a ponto de celebrar a festa. Em parte, diz ele, mostrando que a maior parte já está abolida. Pois ainda que guardassem o sábado, não o faziam com exatidão. As quais são sombra das coisas vindouras; ele quer dizer, da Nova Aliança; mas o corpo é de Cristo. Alguns aqui pontuam assim: mas o corpo é de Cristo, isto é, a verdade veio com Cristo; outros assim: Que ninguém vos julgue quanto ao Corpo de Cristo, ou seja, que ninguém vos prive dele. O termo καταβραβευθῆναι é empregado quando a vitória é de uma parte e o prêmio de outra, quando, sendo vencedor, sois todavia frustrado. Estais acima do diabo e do pecado; por que vos sujeitais de novo ao pecado? Por isso disse que é devedor de cumprir toda a lei (Gl 5,3); e novamente: Acaso Cristo é ministro do pecado (Gl 2,17)? O que disse escrevendo aos gálatas. Depois de os haver enchido de indignação ao dizer vos prive, começa então: sendo voluntário, diz ele, em humildade e culto dos anjos, intrometendo-se em coisas que não viu, vaidosamente inchado pela sua mente carnal. Como em humildade, ou como inchado? Ele mostra que tudo isso procedia de vanglória. Mas qual é, afinal, o sentido geral do que se diz? Há alguns que sustentam que devemos ser aproximados por anjos, não por Cristo, que isto seria demasiado grande para nós. Por isso é que ele volta e revolve o que foi feito por Cristo, pelo Sangue da Sua Cruz (Cl 1,20); por isso diz que Ele padeceu por nós; que nos amou (1Pd 2,21). E, além disso, nessa mesma coisa, eles se elevavam de novo. E não disse introdução por, mas culto dos anjos. Intrometendo-se em coisas que não viu (Ef 2,4). Pois ele não viu anjos, e contudo se comporta como se os tivesse visto. Por isso diz: Inchado vaidosamente pela sua mente carnal, não a respeito de nenhum fato verdadeiro. Acerca desta doutrina, ele se incha, e ostenta uma aparência de humildade. Pela sua mente carnal, não espiritual; o seu raciocínio é humano. E não retendo a Cabeça, diz ele, da qual todo o corpo. Todo o corpo dali tem o seu ser e o seu bem-estar. Por que, largando a Cabeça, te apegas aos membros? Se caíste dela, estás perdido. Da qual todo o corpo. Cada um, seja quem for, dali tem não somente vida, mas também a própria coesão. Toda a Igreja, enquanto retém a Cabeça, cresce; porque aqui não há mais paixão de soberba e vanglória, nem invenção de fantasia humana.
Pois este homem não viu anjos, e todavia age como se os tivesse visto. Por isso diz Paulo: "vãmente inchado por sua mente carnal", não a respeito de fato algum verdadeiro. Acerca desta doutrina, ele se ensoberbece e apresenta uma falsa humildade. Age e pensa carnalmente, não espiritualmente. Seu raciocínio não é senão razão puramente humana.
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O termo que significa "roubar-vos o prêmio" emprega-se quando um homem é vitorioso, mas o prêmio da vitória é entregue a outro — quando, embora sendo vencedor, és despojado do prêmio do vencedor.
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Mas qual é o sentido geral das palavras de Paulo? Há alguns que sustentam que devemos ser aproximados por anjos, e não por Cristo, pois que Cristo o fizesse pareceria um ato demasiado grande em nosso favor. Paulo insiste continuamente naquilo que foi feito por Cristo.
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Nota de quem, referindo-se ao Filho. Por meio das juntas e ligaduras, diz ele, sendo supridos e unidos, cresce com o crescimento de Deus; quer dizer, aquele que é segundo Deus, o da melhor vida.
Não estais no mundo, diz Paulo. Como, pois, vos sujeitais aos seus elementos? E notai como ele zomba deles: "não toques, não manuseies, não proves", como se fossem covardes e se resguardassem de alguma grande questão, "coisas que perecem todas pelo uso"... De modo que, ainda que pareçam sábios, afastemo-nos deles. Pois pode alguém parecer religioso, e modesto, e ter desprezo pelo corpo... Desonram a carne, escreve Paulo, privando-a e despojando-a de sua liberdade, não permitindo que a governem segundo sua vontade. Mas Deus honrou a carne.
Para ser virgem, não basta ser apenas não-casado. É necessário haver castidade espiritual, e entendo por castidade não somente a ausência de desejo malvado e vergonhoso, a ausência de ornamentos e de cuidados supérfluos, mas também estar imaculado dos cuidados da vida. Sem isso, de que vale a pureza física?... [Os que não compreendem isto pertencem] aos mais fracos, que rastejam pela terra. Era impossível elevar de uma só vez almas assim dispostas ao argumento em favor da virgindade. Quem se deixou tão excitar pelas coisas mundanas e admirar tanto a vida presente pensará... que aquilo que é digno do céu e próximo do estado angélico [o chamado à virgindade] merece desprezo. Como poderia tal pessoa tolerar um conselho que promovesse este caminho? E então é de admirar que Paulo tenha adotado a mesma estratégia de argumentação no caso de algo que foi permitido, quando faz o mesmo no caso do que é proibido e contrário à lei? Por exemplo: as leis alimentares, a aceitação de alguns alimentos com a rejeição de outros, eram uma fraqueza judaica. Contudo, havia entre os romanos os que partilhavam desta mesma fraqueza. Paulo não somente os denunciou com veemência, mas faz algo mais do que isto. Desconsidera os que erram e repreende os que tentaram impedi-los, com as palavras: "Mas tu, como podes julgar teu irmão?". Todavia, não fez isto ao escrever aos Colossenses; antes, com grande autoridade os repreende e trata a questão filosoficamente: "Ninguém... é livre para vos julgar quanto ao que comeis ou bebeis". E ainda: "Se com Cristo morrestes para as forças cósmicas, por que vos sujeitais a preceitos que dizem: 'Não manuseies! Não proves! Não toques!', como se ainda vivêsseis uma vida limitada por este mundo? Tais prescrições tratam de coisas que perecem em seu próprio uso". Por que, então, procede ele assim? Porque os Colossenses eram fortes, mas os romanos ainda requeriam muita condescendência.
Coloca isto no meio, e de ambos os lados, expressões de maior veemência. Se morrestes com Cristo aos elementos do mundo, diz ele, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças? Esta não é a consequência lógica, pois o que deveria ter sido dito é: como, vivendo ainda, estais sujeitos a esses elementos? Mas, deixando isto de lado, que diz ele?
Não estais no mundo, diz ele, como é que estais sujeitos aos seus elementos? Como às suas observâncias? E note-se como ele zomba delas: não toques, não proves, não manuseies, como se fossem covardias, guardando-se de grandes coisas, sendo todas elas destinadas a perecer pelo uso. Ele derrubou a soberba da multidão, e acrescentou, segundo os preceitos e doutrinas dos homens. Que dizeis? Falais até mesmo da Lei? Doravante ela é apenas doutrina de homens, depois que veio o tempo. Ou, porque a adulteraram; ou então, ele alude às instituições gentílicas. A doutrina, diz ele, é inteiramente do homem.
As quais coisas têm, na verdade, aparência de sabedoria em culto voluntário, e humildade, e rigor para com o corpo; mas não têm valor algum contra a satisfação da carne.
Aparência, diz ele; não poder, não verdade. De modo que, ainda que tenham aparência de sabedoria, afastemo-nos delas. Pois este pode parecer um homem religioso, e modesto, e ter desprezo pelo corpo.
Não têm valor algum contra a satisfação da carne. Pois Deus lhe concedeu honra, mas eles não a usam com honra. Assim, quando se trata de uma doutrina, ele sabe chamá-la de honra. Eles desonram a carne, diz ele, privando-a e despojando-a de sua liberdade, não lhe concedendo licença para governá-la segundo sua vontade. Deus honrou a carne.
Vede a sabedoria do nosso mestre e a que altura ele imediatamente eleva os que o escutam. Abriu um caminho pelo meio de todos os anjos, arcanjos, tronos, dominações, principados, virtudes, todas aquelas potestades invisíveis, os querubins e serafins, e estabeleceu os pensamentos dos fiéis diante do próprio trono do Rei. Por seu ensino, persuadiu os que caminham sobre a terra a romper os laços do corpo, a alçar voo e a permanecer em espírito ao lado daquele que é o Senhor de todas as coisas.
Ele os reúne, havendo antes estabelecido que Ele morreu. Por isso diz: Se, pois, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são do alto. Ali não há observâncias. Onde Cristo está assentado à destra de Deus. Maravilhoso! Para onde elevou ele as nossas mentes! Como as encheu de grande aspiração! Não bastava dizer as coisas que são do alto, nem tampouco onde Cristo está, mas o quê? Assentado à destra de Deus. A partir desse ponto, ia ele preparando-os para doravante contemplarem a terra.
Não foi ociosa nem sem propósito a antecipação que fiz do acontecimento, nem sem propósito instruí a vossa dileta assembleia em todas estas coisas, mas assim procedi para que fôsseis levados pelas asas da esperança e desfrutásseis do prazer antes de desfrutardes o benefício efetivo. Fi-lo também para que adotásseis um propósito digno do rito, e, como exortou o bem-aventurado Paulo, "pensásseis nas coisas que são do alto" e mudásseis os vossos pensamentos da terra para o céu, das coisas visíveis para as invisíveis. E vemos os objetos da visão corporal mais claramente com os olhos do espírito.
Esta não é a vossa vida, diz ele, é alguma outra. Ele agora insiste em removê-los, e empenha-se em mostrar que estão assentados no alto, e que estão mortos; de ambas as considerações estabelecendo a proposição de que não devem buscar as coisas que aqui estão. Pois quer estejais mortos, não deveis buscá-las; quer estejais no alto, não deveis buscá-las. Aparece Cristo? Tampouco aparece a vossa vida. Ela está em Deus, no alto. Que fazer, pois? Quando viveremos? Quando Cristo se manifestar, que é a vossa vida; então buscai a glória, então a vida, então o gozo.
Isto é para preparar o caminho de afastá-los do prazer e do ócio... de modo que, agora, não apareceis. Vede como Paulo os transferiu para o próprio céu. Pois, como disse, ele está sempre empenhado em mostrar que eles possuem as mesmíssimas coisas que Cristo possui. Através de todas as suas epístolas, o teor é este: mostrar que em tudo são eles participantes com Ele. Por isso emprega os termos cabeça e corpo, e faz tudo para lhes transmitir isto.
Isto é para preparar o caminho de afastá-los do prazer e do ócio. Tal é o seu costume: ao estabelecer uma posição, salta prontamente para outra; como, por exemplo, ao discorrer sobre aqueles que na ceia se antecipavam uns aos outros, ele subitamente recai sobre a observância dos Mistérios. Pois há uma grande repreensão quando esta é administrada sem que se suspeite dela. "Está escondida", diz ele, "de vós". "Então também vós, com Ele, sereis manifestados." De modo que, agora, não apareceis. Vede como ele os removeu para o próprio céu. Pois, como disse, está ele sempre empenhado em mostrar que eles possuem as mesmíssimas coisas que Cristo possui; e através de todas as suas Epístolas, o teor é este: mostrar que em tudo são eles participantes com Ele. Por isso emprega os termos Cabeça e Corpo, e faz tudo para lhes transmitir isto.
Se então seremos manifestados, não nos entristeçamos, quando não desfrutarmos de honra: se esta vida não é vida, mas está oculta, devemos viver esta vida como se estivéssemos mortos. Então vós também, diz ele, sereis manifestados com Ele em glória. Em glória, disse ele, não simplesmente manifestados. Pois também a pérola permanece oculta enquanto está dentro da ostra. Se, pois, formos tratados com insulto, não nos entristeçamos; ou seja o que for que soframos; pois esta vida não é a nossa vida, somos estrangeiros e peregrinos. Pois morrestes, diz ele. Quem é tão insensato a ponto de, para um cadáver, morto e sepultado, comprar servos, ou construir casas, ou preparar vestes custosas? Ninguém. Nem vós, pois, o façais; mas, assim como buscamos uma só coisa, a saber, que não estejamos em estado de nudez, também aqui busquemos uma só coisa e nada mais. O nosso primeiro homem está sepultado: sepultado não na terra, mas na água; não destruído pela morte, mas sepultado pelo destruidor da morte, não pela lei da natureza, mas pelo mandamento soberano que é mais forte que a natureza. Pois o que foi feito pela natureza pode porventura ser desfeito; mas o que foi feito por Seu mandamento, jamais. Nada é mais bem-aventurado do que este sepultamento, no qual todos se regozijam, tanto os Anjos, quanto os homens, quanto o Senhor dos Anjos. Neste sepultamento, não há necessidade de vestes, nem de féretro, nem de qualquer outra coisa desse gênero. Quereis ver o símbolo disto? Mostrar-vos-ei um lago em que um foi sepultado, outro foi ressuscitado; no Mar Vermelho os egípcios foram afundados sob ele, mas os israelitas dele saíram; no mesmo ato ele sepulta um, gera o outro.
Não vos maravilheis de que geração e destruição se deem no Batismo; pois, dizei-me, dissolver e cimentar não são coisas opostas? É evidente a todos. Tal é o efeito do fogo; pois o fogo dissolve e destrói a cera, mas cimenta a terra metálica, e a transforma em ouro. Assim, em verdade, também aqui, a força do fogo, tendo apagado a estátua de cera, exibiu em seu lugar uma de ouro; pois em verdade, antes do Banho, éramos de barro, mas depois dele, de ouro. Donde é isto evidente? Ouvi-o dizer: O primeiro homem é da terra, terreno; o segundo homem é o Senhor do céu (1 Cor 15,47). Falei de uma diferença tão grande quanto a que há entre o barro e o ouro; mas ainda maior encontro a diferença entre o celestial e o terreno; não tão amplamente diferem o barro e o ouro, quanto diferem as coisas terrenas e as celestiais. Éramos de cera, e formados de barro. Pois a chama da concupiscência muito mais nos derretia do que o fogo derrete a cera, e qualquer tentação casual muito mais nos quebrava do que a pedra quebra as coisas de barro. E, se quiserdes, tracemos um esboço da vida anterior, e vejamos se tudo não era terra e água, e cheio de flutuação e pó, e instabilidade, e escoamento.
John Chrysóstomo, se assim o quiserdes, examinemos não as coisas de outrora, mas as presentes, e vejamos se não encontraremos que tudo quanto existe é mero pó e água. Pois que me direis? Autoridade e poder? Nada, com efeito, nesta vida presente, é tido por mais invejável do que estas coisas. Mas mais facilmente se encontraria o pó parado no ar do que estas coisas; especialmente agora. Pois a quem não estão elas sujeitas? Aos que as amam; aos eunucos; aos que tudo farão por causa do dinheiro; às paixões da populaça; à ira dos mais poderosos. Aquele que ontem estava no alto do seu tribunal, que tinha arautos a bradar com voz estridente, e muitos a correr-lhe à frente, e a abrir-lhe caminho pelo fórum com altivez, esse é hoje mesquinho e baixo, e despojado e nu de todas essas coisas, como pó levado pelo vento, como uma corrente que já passou. E assim como o pó é levantado por nossos pés, assim verdadeiramente também as magistraturas são produzidas por aqueles que se ocupam do dinheiro, e que em toda a vida têm a categoria e condição de pés; e assim como o pó, quando se levanta, ocupa uma grande porção do ar, embora ele mesmo seja um corpo pequeno, assim também o poder; e assim como o pó cega os olhos, assim também o orgulho do poder ofusca os olhos do entendimento.
Mas quê? Quereis que examinemos esse objeto de tantas preces, a riqueza? Vinde, examinemo-la em suas várias partes. Ela tem o luxo, tem as honras, tem o poder. Primeiramente, pois, se quiserdes, examinemos o luxo. Não é ele pó? Sim, antes, passa mais veloz que o pó, pois o prazer do viver luxuriante alcança somente a língua, e, uma vez cheio o ventre, nem sequer à língua chega mais. Mas, diz alguém, as honras são por si mesmas coisas agradáveis. Contudo, que há de menos agradável do que essa mesma honra, quando é prestada em vista do dinheiro? Quando não procede de livre escolha e de prontidão de ânimo, não és tu que colhes a honra, mas a tua riqueza. De sorte que isto mesmo torna o homem rico, mais que todos os homens, desonrado. Pois dize-me: se todos os homens honrassem a ti, que tivesses um amigo, confessando embora que tu, na verdade, para nada prestavas, mas que eram compelidos a honrar-te por causa dele — poderiam de algum outro modo ter-te desonrado tão gravemente? De sorte que a nossa riqueza é a causa da nossa desonra, visto que é mais honrada do que os próprios que a possuem, e prova antes de fraqueza que de poder. Como, pois, não é absurdo que não sejamos contados de tanto valor quanto a terra e a cinza (pois tal é o ouro), mas que sejamos honrados por causa dele? Com razão. Mas não assim aquele que despreza a riqueza; pois melhor fora não ser honrado de modo algum, do que ser assim honrado. Pois dize-me: se alguém te dissesse: "Não te considero digno de honra alguma, mas por causa de teus servos te honro" — poderia haver algo pior do que esta desonra? Ora, se ser honrado por causa dos servos, que são partícipes da mesma alma e natureza que nós, é uma vergonha, muito mais o é ainda ser honrado por causa de coisas mais vis, como as paredes e átrios das casas, e vasos de ouro, e vestes. Escárnio seria isto, na verdade, e vergonha; melhor morrer do que ser assim honrado. Pois dize-me: se estivesses em perigo nesse teu fausto, e alguma pessoa baixa e repugnante quisesse livrar-te do perigo, que poderia haver de pior do que isto? O que dizeis entre vós acerca da cidade, quero eu dizer-vos. Certa vez a nossa cidade ofendeu o Imperador, e ele deu ordem de que ela fosse inteiramente destruída, homens, crianças, casas, tudo (pois tal é a ira dos reis: exercem o seu poder tanto quanto lhes apraz — tão grande mal é o poder). Estava, pois, ela no extremo dos perigos. A cidade vizinha, todavia, esta que fica no litoral, foi e intercedeu junto ao rei em nosso favor; ao que os habitantes de nossa cidade disseram que isto era pior do que se a cidade tivesse sido arrasada até os alicerces. Assim, ser desse modo honrado é pior do que ser desonrado. Pois vede donde a honra tira a sua raiz. As mãos dos cozinheiros nos procuram ser honrados, de sorte que a eles devemos sentir gratidão; e os porqueiros, que nos fornecem mesa opulenta, e os tecelões, e os fiandeiros, e os artífices em metal, e os confeiteiros, e os que nos guarnecem a mesa.
Não seria, pois, melhor não ser honrado de modo algum, do que dever a estes a honra? E além disto, ainda mais, procurarei demonstrar claramente que a opulência é uma condição repleta de desonra; ela aviltece a alma; e o que há de mais desonroso do que isto? Pois dize-me: se alguém possuísse figura formosa, e superasse a todos em beleza, e a riqueza fosse a ele e lhe prometesse torná-lo disforme, e em vez de são, enfermo, em vez de fresco, inflamado; e, tendo enchido cada membro de hidropisia, tornasse o semblante intumescido, e o distendesse por inteiro; e inchasse os pés, tornando-os mais pesados que troncos, e inflasse o ventre, fazendo-o maior que qualquer tonel; e depois disto, prometesse não conceder sequer permissão para que fosse curado, àqueles que o desejassem fazer (pois tal é o costume do poder), mas lhe desse tanta liberdade quanto a de punir a quem quer que dele se aproximasse para afastá-lo daquilo que o prejudicava — pois bem, dize-me: quando a riqueza opera tais efeitos na alma, como pode ela ser honrosa?
Mas este poder é coisa mais grave que a própria enfermidade; assim como para um enfermo não ser obediente às prescrições do médico é mal mais sério do que estar enfermo, assim também sucede com a riqueza, visto que ela gera inflamação em cada parte da alma, e proíbe que os médicos dela se aproximem. Não felicitemos, pois, a estes pelo seu poder, mas antes compadeçamo-nos deles; pois nem sequer, ao ver um hidrópico deitado, e a ninguém proibindo-o de saciar-se de quaisquer bebidas que lhe aprouvessem e de alimentos nocivos, eu o felicitaria por causa de seu poder. Pois nem sempre o poder é coisa boa, nem tampouco as honras o são, pois também estas enchem a alma de muita arrogância. Mas se não escolherias que o corpo, juntamente com a riqueza, contraísse tal enfermidade, como é que negligencias a alma, quando ela contrai não somente este flagelo, mas também outro? Pois arde ela toda em febres abrasadoras e inflamações, e aquela febre ardente ninguém pode apagar, porque a riqueza não o permite, tendo-a persuadido de que são ganhos aquilo que na verdade são perdas, tais como não suportar ninguém e fazer tudo segundo a própria vontade. Pois nenhuma outra alma se encontrará tão repleta de concupiscências tão grandes e tão desmedidas quanto a daqueles que desejam ser ricos. Pois que frivolidades insensatas não imaginam eles para si mesmos! Pode-se vê-los conceber coisas mais extravagantes do que os pintores de hipocentauros, e de quimeras, e de seres de pés de dragão, e de Cilas, e de monstros. E se alguém quisesse retratar uma só concupiscência sua, nem Cila, nem quimera, nem hipocentauro pareceriam coisa alguma junto a tal prodígio; antes se descobriria que ela contém, de uma só vez, todas as feras selvagens.
E talvez alguém suponha que eu mesmo fui possuidor de muita riqueza, vendo quão fielmente descrevo o que dela realmente provém. Conta-se de um certo rei — pois primeiro confirmarei o que disse com as lendas dos gregos — conta-se entre eles que um certo rei chegou a tal insolência no luxo, que fez um plátano de ouro, e sobre ele um céu, e ali se assentava, e isto mesmo quando invadia um povo destro na guerra. Ora, não era esta paixão própria de um hipocentauro? Não era ela própria de Cila? Outro, por sua vez, costumava lançar homens dentro de um touro de madeira. Não era isto uma verdadeira Cila? E a este mesmo, o rei que há pouco mencionei, o guerreiro, a riqueza transformou, de homem, em mulher; de mulher, que direi? Em animal bruto, e ainda mais degradado que este; pois os animais, se se abrigam sob uma árvore, contentam-se com a natureza e nada mais buscam; mas o homem em questão ultrapassou a própria natureza dos animais.
Que coisa, pois, pode ser mais insensata que os ricos? E isto provém da avidez de seus desejos. Mas não há, acaso, muitos que o admiram? Por isso mesmo compartilham verdadeiramente do riso que ele provoca. Aquilo não manifestou sua riqueza, mas sua loucura. Quanto melhor que aquele plátano de ouro é o que a terra produz! Pois o natural é mais agradável que o antinatural. Mas que significava, ó insensato, aquele teu céu de ouro? Vedes como a riqueza, quando abundante, enlouquece os homens? Como os inflamou? Suponho que ele nem sequer conhecia o mar, e talvez estivesse a ponto de querer caminhar sobre ele. Ora, não é isto uma quimera? Não é isto um hipocentauro? Mas há também, ainda em nossos dias, alguns que em nada lhe ficam atrás, antes são muito mais insensatos. Pois, em ponto de insensatez, em que diferem, dizei-me, daquele plátano de ouro os que fazem jarros de prata, cântaros e frascos de perfume? E em que diferem aquelas mulheres — envergonho-me, é certo, mas é necessário dizê-lo — que fazem de prata utensílios de câmara? Vós é que devíeis envergonhar-vos, vós que sois os fabricantes destas coisas. Estando Cristo a morrer de fome, assim vos deleitais em luxo? Antes, assim fazeis loucura! Que castigo não hão de sofrer estes? E ainda perguntais por que há ladrões? Por que homicidas? Por que tais males? Quando o demônio assim vos fez ridículos. Pois o mero possuir vasos de prata já não convém a uma alma devotada à sabedoria, mas é de todo uma peça de luxo; mas fazer também de prata vasos imundos, será isto luxo? Não, não lhe chamarei luxo, mas insensatez; não, nem sequer isto, mas loucura; antes, algo pior ainda que a loucura.
Sei que muitas pessoas zombam de mim por causa disto; mas não lhes dou ouvidos, contanto que algum bem resulte daí. Em verdade, a riqueza faz os homens insensatos e loucos. Se o seu poder alcançasse tal excesso, teriam também a terra de ouro, e muros de ouro, e talvez até o céu, e o ar de ouro. Que loucura é esta, que iniquidade, que febre ardente! Outro, feito à imagem de Deus, perece de frio; e tu te enfeitas com tais coisas? Ó soberba insensata! Que mais teria feito um louco? Prestas tal honra aos teus excrementos, a ponto de recebê-los em vasilhas de prata? Sei que te escandalizas ao ouvir isto; mas deveriam escandalizar-se aquelas mulheres que mandam fazer tais coisas, e os maridos que servem a tais enfermidades. Pois isto é dissolução, e selvageria, e desumanidade, e brutalidade, e lascívia. Que Cila, que quimera, que dragão, ou antes que demônio, que diabo teria agido assim? Que proveito há em Cristo? Que proveito na Fé? Quando é preciso suportar homens que são pagãos — ou antes, não pagãos, mas demônios? Se não é lícito adornar a cabeça com ouro e pérolas, aquele que usa prata para serviço tão imundo, como obterá perdão? Não bastam as demais coisas, ainda que também elas sejam insuportáveis — cadeiras e escabelos todos de prata? Ainda que estas mesmas provenham da insensatez. Mas em toda parte há soberba excessiva; em toda parte, vanglória. Em parte alguma há uso, mas em toda parte, excesso.
Temo que, sob o ímpeto desta loucura, a raça das mulheres venha a assumir alguma forma monstruosa; pois é provável que desejem ter também os seus cabelos de ouro. Ou então declara que não foste de modo algum afetada pelo que se disse, nem te exaltaste grandemente, nem sentiste desejo, e que, se a vergonha não te retivesse, não o terias recusado. Pois se ousam fazer o que é ainda mais absurdo do que isto, muito mais, penso eu, hão de desejar que os seus cabelos, e lábios, e sobrancelhas, e cada parte do corpo sejam recobertos de ouro fundido.
Mas se és incrédula, e pensas que falo por gracejo, relatarei o que ouvi, ou antes, o que agora existe. O rei dos persas traz a barba dourada, enrolando os peritos em tal ofício folha de ouro em torno dos seus fios de cabelo, como em torno da trama de um tecido, e isto se guarda como um prodígio.
Glória a Ti, ó Cristo; de quantos bens nos encheste! Como proveste à nossa saúde! De quão grande monstruosidade, de quão grande insensatez nos livraste! Atenção! Eu vos previno, já não vos aconselho; mas ordeno e mando; obedeça quem quiser, e desobedeça quem não quiser; pois se vós, mulheres, continuardes a agir assim, não o tolerarei, nem vos receberei, nem vos permitirei atravessar este limiar. Pois que necessidade tenho eu de uma multidão de gente enferma? E que importa se, ao vos instruir, não proíbo o que não é excessivo? E, no entanto, Paulo proibiu tanto o ouro quanto as pérolas (1 Tm 2,9). Somos ridicularizados pelos gregos, a nossa religião parece uma fábula.
E aos homens dou este conselho: Vindes à escola para serdes instruídos na filosofia espiritual? Despojai-vos dessa soberba! Este é o meu conselho tanto para os homens quanto para as mulheres; e se alguém agir de outro modo, doravante não o tolerarei. Os discípulos eram apenas doze, e ouvi o que Cristo lhes diz: Quereis vós também retirar-vos? (Jo 6:67). Pois, se continuarmos para sempre a lisonjear-vos, quando havemos de reclamar-vos? Quando havemos de vos prestar serviço? Mas, diz alguém, há outras seitas, e as pessoas passam para elas. Este é um argumento frio: Melhor é o que faz a vontade do Senhor do que dez mil transgressores (Eclo 16:3). Pois, dizei-me, que escolheríeis vós mesmos: ter dez mil servos que fossem fugitivos e ladrões, ou um único que vos amasse? Eis que vos admoesto e ordeno que desfaçais tanto esses vistosos adornos para o rosto quanto os vasos que descrevi, e que os deis aos pobres, e que não sejais tão insensatos.
Que aquele a quem apraz me abandone imediatamente; que aquele a quem apraz me acuse — não o tolerarei em ninguém. Quando eu estiver para ser julgado no Tribunal de Cristo, vós estareis longe, e também o vosso favor, enquanto eu presto as minhas contas. Essas palavras arruinaram tudo! Diz-se: "que ele não vá transferir-se para outra seita!" Não! Ele é fraco! Condescendei com ele! Até que ponto? Até quando? Uma vez, e duas, e três, mas não perpetuamente.
Eis que vos admoesto de novo, e protesto segundo o exemplo do bem-aventurado Paulo, que, se eu vier outra vez, não pouparei (2Cor 13:2). Mas, quando houverdes feito o que deveis, então sabereis quão grande é o ganho, quão grande é a vantagem. Sim! Eu vos rogo e suplico, e não recusaria abraçar os vossos joelhos e implorar-vos nesta causa. Que branda molície é esta! Que luxo, que dissolução! Isto não é luxo, mas dissolução. Que insensatez é esta! Que loucura! Tantos pobres se detêm ao redor da Igreja; e, embora a Igreja tenha tantos filhos, e tão ricos, não pode socorrer sequer a um único pobre; mas um tem fome, e outro está embriagado (1Cor 11:21); um deposita os seus excrementos até em vasos de prata, outro não tem sequer pão! Que loucura! Que brutalidade tão grande quanto esta? Jamais cheguemos à prova de processar os desobedientes, nem à indignação que a permissão destas práticas nos causaria; mas que, de bom grado e com paciência, evitemos tudo isto, para que vivamos para a glória de Deus, e sejamos livres do castigo no outro mundo, e alcancemos os bens prometidos aos que O amam, pela graça e amor para com os homens, etc.
Escreve Paulo como se estas coisas ainda estivessem em nós? Não há contradição. É semelhante a alguém que tenha polido uma estátua imunda, refundido-a, e a exiba agora nova e resplandecente, explicando que a ferrugem foi corroída e destruída. Ainda assim, recomenda diligência em remover a ferrugem futura. Não se contradiz, pois não é aquela ferrugem que ele poliu que recomenda seja removida, mas a que crescer depois. Assim, não é daquele morrer anterior que ele fala aqui, nem daquelas fornicações, mas das que depois crescem.
Sei que muitos se ofendem com o discurso precedente, mas que posso eu fazer? Ouvistes o que o Senhor ordenou. Serei eu o culpado? Que farei? Não vistes os credores, quando os devedores são obstinados, como lhes põem coleiras ao pescoço? Ouvistes o que Paulo proclamou hoje? Fazei morrer, diz ele, os vossos membros que estão sobre a terra: fornicação, imundícia, paixão, mau desejo e avareza, que é idolatria. Que há de pior que tal avareza? Esta é pior que qualquer desejo. É ainda mais grave do que aquilo de que eu falava, a loucura, e a néscia fraqueza pela prata. E a avareza, diz ele, que é idolatria. Vede em que termina o mal. Não tomeis a mal, peço-vos, o que disse, pois não é por vontade própria, nem sem razão, que eu haveria de ter inimigos; mas desejava que alcançásseis tal virtude, que eu pudesse ouvir de vós as coisas que devo. De modo que não o disse por autoridade, nem por imperiosidade, mas por dor e por tristeza. Perdoai-me, perdoai! Não tenho vontade de violar a decência discorrendo sobre tais assuntos, mas a isso sou compelido.
Não é por causa das dores dos pobres que digo estas coisas, mas por vossa salvação; pois hão de perecer, hão de perecer, os que não alimentaram a Cristo. Pois de que vale, se alimentas algum pobre? Enquanto viveres tão voluptuosa e luxuriosamente, tudo é em vão. Pois o que se requer não é dar muito, mas não dar muito pouco em relação aos bens que possuis; do contrário, é apenas fingir que se dá.
Fazei morrer, portanto, diz ele, os vossos membros que estão sobre a terra. Que dizes? Não foste tu que disseste: estais sepultados; estais sepultados juntamente com Ele; estais circuncidados; despojamo-nos do corpo dos pecados da carne (cf. Cl 2,11-12; Rm 6,4)? Como, pois, dizes de novo: fazei morrer? Estás a brincar? Discorres assim, como se aquelas coisas ainda estivessem em nós? Não há contradição; mas, como se alguém, tendo limpado inteiramente uma estátua que estava imunda, ou antes, tendo-a refundido, e exibindo-a de novo resplandecente, dissesse que a ferrugem foi corroída e destruída, e ainda assim recomendasse novamente diligência em remover a ferrugem, não se contradiz, pois não é aquela ferrugem que ele poliu que recomenda seja removida, mas a que cresceu depois; assim, não é daquele morrer anterior que ele fala, nem daquelas fornicações, mas das que depois crescem.
Disse que esta não é a nossa vida, mas outra, aquela que está nos céus. Dizei-me agora. Quando disse: fazei morrer os vossos membros que estão sobre a terra, é então também a terra acusada? Ou fala ele das coisas sobre a terra como se fossem elas mesmas pecados?
Fornicação, imundícia, diz ele. Passou por cima das ações que nem sequer é decente mencionar, e pela imundícia exprimiu tudo em conjunto.
Paixão, disse ele, mau desejo.
Eis que exprimiu o todo por meio do gênero. Pois inveja, ira, tristeza, tudo é mau desejo.
E a avareza, diz ele, que é idolatria. Por causa destas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.
Por muitas coisas os vinha ele desviando: pelos benefícios já concedidos, pelos males vindouros dos quais fomos libertos, sendo quem éramos e por que motivo; e todas aquelas considerações, como, por exemplo, quem éramos, e em que circunstâncias, e que fomos libertos disso, como, e de que maneira, e sob que condições. Estas coisas bastariam para dele nos afastar; mas esta é de força maior que todas — desagradável, na verdade, de dizer, não, porém, prejudicial, mas antes proveitosa. Por causa destas coisas vem, diz ele, a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Não disse: sobre vós, mas: sobre os filhos da desobediência.
Nas quais também vós andastes outrora, quando vivíeis nelas. A fim de os envergonhar, diz: quando vivíeis nelas, dando a entender louvor, como já não vivendo assim: naquele tempo, podíeis.
Mas agora rejeitai também todas estas coisas. Ele fala sempre tanto de modo universal quanto particular; mas isto procede do zelo.
Ira, cólera, malícia, maledicência, palavra torpe saída da vossa boca. Não mintais uns aos outros.
Palavra torpe, diz ele, saída da vossa boca, indicando claramente que ela a contamina.
A escolha moral, mais do que a natureza humana, é o fator determinante, e constitui antes “a condição humana” do que os determinantes naturais. Pois a própria natureza humana não lança ninguém no inferno, nem conduz ninguém ao reino, mas isto se dá pelos próprios homens. Nós não amamos nem odiamos ninguém enquanto homem, mas enquanto tal ou qual homem. Se, pois, a nossa essência real como seres humanos fosse o corpo, o qual em todo caso não pode ser responsável, como se poderia dizer que o corpo é mau? Mas que diz Paulo? “Com os seus feitos.” Ele quer dizer a liberdade de escolha, com os atos que a acompanham.
Vale a pena aqui indagar qual possa ser a razão pela qual ele chama de membros, e de homem, e de corpo, a vida corrupta, e, novamente, chama do mesmo modo a vida virtuosa. E, se por homem se entendem os pecados, como é que diz, com os seus feitos? Pois já antes disse o velho homem, mostrando que este não é o homem, mas o outro. A escolha moral, sim, determina o homem, mais do que a substância, e é ela, antes que aquela, o homem. Pois a sua substância não o lança no inferno, nem o conduz ao reino, mas os próprios homens; e nós não amamos nem odiamos ninguém enquanto homem, mas enquanto tal ou qual homem. Se, pois, a substância for o corpo, e este, em qualquer dos casos, não pode ser responsável, como diz ele que é mau? Mas o que quer dizer com, com os seus feitos? Ele quer dizer a escolha, com os atos. E o chama de velho, de propósito, para mostrar sua deformidade, e hediondez, e imbecilidade; e novo, como que a dizer: Não esperes que com este seja como com aquele, mas o contrário: pois, quanto mais avança, tanto menos se apressa para a velhice, mas para uma juventude maior que a precedente. Pois, quando recebeu um conhecimento mais pleno, é tido por digno de coisas maiores, e está em maturidade mais perfeita, em vigor mais alto; e isto, não da juventude apenas, mas também daquela semelhança, segundo a qual é. Eis que a melhor vida se diz uma criação, segundo a imagem de Cristo: pois este é o sentido de, segundo a imagem daquele que o criou; pois Cristo também não chegou, por fim, à velhice, mas foi tão belo quanto nem sequer é possível dizer.
Eis aqui um terceiro encômio deste homem. Com ele, não se admite diferença alguma, nem de nação, nem de posição, nem de linhagem, visto que ele nada tem de exterior, nem disso necessita; pois todas as coisas exteriores são estas: circuncisão e incircuncisão, servo, livre, grego, isto é, prosélito, e judeu, por seus antepassados. Se tiverdes somente este homem, obtereis as mesmas coisas que os outros que o têm.
Mas Cristo, diz ele, é tudo, e em todos: Cristo vos será tudo, tanto posição, quanto linhagem, e Ele mesmo em todos vós. Ou diz ainda outra coisa, a saber, que todos vós vos tornastes um só Cristo, sendo o Seu corpo.
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Revesti-vos, portanto, como eleitos de Deus, santos e amados. Ele mostra a facilidade da virtude, para que a possuíssem continuamente, e a usassem como o maior ornamento. A exortação vem também acompanhada de louvor, pois assim sua força é maior. Pois antes haviam sido santos, mas não eleitos; agora, porém, são eleitos, e santos, e amados.
Entranhas de misericórdia. Não disse misericórdia, mas com maior ênfase usou as duas palavras. E não disse que fosse como para com irmãos, mas como pais para com filhos. Pois não me digas que ele pecou; por isso disse entranhas. E não disse compaixão, para que não os tivesse em pouca estima, mas entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade; suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixa contra outro: assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.
Novamente, ele fala segundo a ordem, e sempre o faz assim; pois da benignidade vem a humildade de espírito, e desta, a longanimidade. Suportando, diz ele, uns aos outros, isto é, passando por alto as coisas. E vede como mostrou que isto não é nada, chamando-o de queixa, e dizendo: assim como Cristo vos perdoou. Grande é o exemplo! E assim ele sempre procede; exorta-os segundo Cristo. Queixa, ele o chama. Nestas palavras, na verdade, mostrou que se trata de coisa pequena; mas quando nos pôs diante o exemplo, persuadiu-nos de que, ainda que tivéssemos acusações graves a fazer, deveríamos perdoar. Pois a expressão assim como Cristo significa isto, e não somente isto, mas também com todo o coração; e não somente isto, mas que devemos até amar. Pois Cristo, sendo posto no meio, traz consigo todas estas coisas: que, ainda que os assuntos sejam grandes, e ainda que não tenhamos sido nós os primeiros a ofender, ainda que sejamos de grande conta, e eles de pequena, ainda que hajam de nos insultar depois, devemos dar a vida por eles (pois as palavras assim como o exigem); e que não somente até a morte se deve parar, mas, se possível, ir ainda além da morte.
Ora, o que Paulo quer dizer é que não há proveito algum nessas coisas, pois todas elas se desfazem, a menos que sejam feitas com amor. Este é o amor que a todas vincula. Seja qual for o bem que menciones, se lhe faltar o amor, é nada, esvai-se. A analogia é como a de um navio: ainda que seu cordame seja grande, se lhe faltarem as cordas que o cingem, de nada serve. Ou é semelhante a uma casa: se não há vigas de amarração, de que serve a casa? Pensa num corpo: ainda que seus ossos sejam grandes, se lhe faltarem os ligamentos, os ossos não podem sustentar o corpo. Do mesmo modo, todo o bem que nossas obras possuam se dissipará por completo, se lhes faltar o amor.
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Vês que ele diz isto? Pois, uma vez que é possível que aquele que perdoa não ame, sim, diz ele, é preciso que também o ames, e ele aponta um caminho pelo qual se torna possível perdoar. Pois é possível ser-se bondoso, e manso, e humilde de coração, e paciente, e contudo não ser afetuoso. E por isso disse primeiro: um coração de compaixão, tanto o amor quanto a piedade. E, acima de todas essas coisas, o amor, que é o vínculo da perfeição. Ora, o que ele quer dizer é isto: que não há proveito algum nessas coisas, pois todas elas se desfazem, a menos que se façam com amor; é este que a todas aperta e une; seja qual for o bem que menciones, se lhe faltar o amor, é nada, esvai-se. E é como num navio: ainda que seu cordame seja grande, se não há cordas que o cinjam, de nada serve; e numa casa, o mesmo, se não há vigas de amarração; e num corpo, ainda que os ossos sejam grandes, se não há ligamentos, de nada servem. Pois todas as boas obras que alguém possua se dissipam, se ali não estiver o amor. Não disse que é o cume, mas o que é maior: o vínculo; este é mais necessário que aquele. Pois o cume é, na verdade, a intensidade da perfeição, mas o vínculo é o manter unidas firmemente as coisas que produzem a perfeição; é, por assim dizer, a raiz.
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A paz de Deus é aquilo que é firme e constante. Se, na verdade, por causa do homem tens paz, ela logo se dissolve; mas se por causa de Deus, jamais. Embora tivesse falado do amor universalmente, ele volta novamente ao particular. Pois há também um amor que é desmedido; por exemplo, quando por excesso de amor alguém faz acusações sem razão, e se envolve em contendas, e contrai aversões. Não é isto, diz ele, não é isto que desejo; não o exagero, mas assim como Deus fez paz convosco, fazei-a também vós. Como fez Ele a paz? Por Sua própria vontade, não tendo recebido nada de vós. Que é isto? Que a paz de Deus impere em vossos corações. Se dois pensamentos combatem entre si, não ponhas a ira, não ponhas a maldade a reter o prêmio, mas a paz; por exemplo, suponde que alguém tenha sido injustamente insultado; do insulto nascem dois pensamentos, um ordenando-lhe vingar-se, o outro suportar; e estes lutam entre si: se a Paz de Deus se adianta como árbitro, ela concede o prêmio ao que ordena suportar, e envergonha o outro. Como? Persuadindo-o de que Deus é Paz, que Ele fez paz conosco. Não sem razão ele mostra a grande luta que há nesta matéria. Que não seja a ira, diz ele, o árbitro, nem a contenda, nem a paz humana, pois a paz humana provém de vingar-se, de não sofrer mal terrível algum. Mas não é isto que pretendo, diz ele, senão aquilo que Ele mesmo deixou.
Ele representou uma arena interior, nos pensamentos, e um combate, e uma luta, e um árbitro. Depois, novamente, a exortação: para a qual fostes chamados, diz ele, isto é, para a qual fostes chamados. Ele lhes recordou de quantos bens a paz é a causa; por causa disto Ele vos chamou, para isto Ele vos chamou, a fim de receberdes um prêmio digno. Pois por que nos fez Ele um só corpo? Não foi para que ela reinasse? Não foi para que tivéssemos ocasião de estar em paz? Por que somos todos um só corpo? E agora somos um só corpo? Por causa da paz somos um só corpo, e porque somos um só corpo, estamos em paz. Mas por que não disse ele: Que a paz de Deus seja vitoriosa, mas sim: seja árbitro? Ele a fez mais honrosa. Ele não quis que o pensamento mau viesse lutar com ela, mas que ficasse abaixo. E o próprio nome prêmio animava o ouvinte. Pois se ela tiver dado o prêmio ao pensamento bom, por mais impudentemente que o outro se comporte, isto depois de nada serve. E além disso, sabendo o outro que, quaisquer que sejam os feitos que realize, não há de receber o prêmio, por mais que se enfune, e tente ainda ataques mais veementes, desistiria por trabalhar sem proveito. E bem acrescentou: E sede agradecidos. Pois isto é ser agradecido, e muito eficazmente, tratar seus conservos como Deus trata a si mesmo, submeter-se ao Senhor, obedecer; exprimir sua gratidão por todas as coisas, ainda que alguém o insulte, ou o fira.
Pois, na verdade, aquele que confessa dever gratidão a Deus pelo que sofre, não se vingará daquele que lhe fez o mal, visto que ao menos aquele que se vinga, não reconhece gratidão alguma. Mas não sigamos nós a este (que exigiu) os cem denários, para que não ouçamos: Servo mau, pois nada é pior do que esta ingratidão. De modo que os que se vingam são ingratos.
Mas por que começou ele sua enumeração pela fornicação? Pois tendo dito: Fazei morrer os vossos membros que estão sobre a terra (Cl 3,5), logo em seguida diz: fornicação; e assim procede quase em toda parte. Porque esta paixão exerce o maior domínio. Pois também ao escrever sua Epístola aos Tessalonicenses fez o mesmo (1Ts 4,3). E que maravilha? Visto que a Timóteo mesmo diz: Conserva-te puro (1Tm 5,22); e ainda em outro lugar: Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12,14). Fazei morrer, diz ele, os vossos membros. Sabeis de que espécie é aquilo que está morto, a saber, odiado, repugnante, caindo em decomposição. Se fazeis morrer alguma coisa, ela não permanece morta ao ficar morta, mas logo se corrompe, como o corpo. Extingui, pois, o calor; e nada do que está morto permanecerá. Ele mostra que tem em mãos a mesma obra que Cristo operou no Lavacro; por isso também os chama membros, como que introduzindo algum atleta, dando assim maior ênfase ao seu discurso. E bem disse: Que estão sobre a terra, pois aqui é que permanecem, e aqui é que se corrompem, muito mais do que estes nossos membros. De sorte que não é tão verdadeiramente da terra o corpo, quanto é terreno o pecado, pois aquele às vezes parece até formoso, mas estes membros jamais. E aqueles membros cobiçam todas as coisas que estão sobre a terra. Se o olho é assim, não vê as coisas nos céus; se o ouvido, se a mão, se qualquer outro membro que menciones. O olho vê corpos, e formosuras, e riquezas; estas são as coisas da terra, com elas se deleita: o ouvido, com melodias suaves, e cítara, e flauta, e conversação torpe; estas são coisas que dizem respeito à terra.
Quando, pois, colocou seus ouvintes no alto, junto ao trono, então diz: Fazei morrer os vossos membros que estão sobre a terra. Pois não é possível permanecer no alto com estes membros; porque ali não há nada sobre que possam operar. E este barro é pior que aquele, pois aquele barro de fato se torna ouro, pois este corruptível, diz ele, deve revestir-se de incorruptibilidade (1Cor 15,53), mas este barro jamais poderá ser retemperado de novo. De modo que estes membros estão antes sobre a terra do que aqueles. Por isso não disse: da terra, mas: que estão sobre a terra, pois é possível que estes não estejam sobre a terra. Porque é necessário que estes estejam sobre a terra, mas que aqueles estejam, não é necessário. Pois quando o ouvido nada ouve do que aqui se profere, mas somente o que está nos céus, quando o olho nada vê do que aqui existe, mas somente o que está acima, ele não está sobre a terra; quando a boca nada fala das coisas daqui, ela não está sobre a terra; quando a mão não faz coisa má alguma — estas não são coisas que estão sobre a terra, mas daquelas que estão nos céus.
Assim também diz Cristo: Se o teu olho direito te faz tropeçar, isto é, se olhares impudicamente, arranca-o (Mt 5,29), isto é, o teu mau pensamento. E parece-me que ele (Paulo) fala da fornicação, da impureza, da paixão, do desejo como sendo a mesma coisa, a saber, a fornicação: por meio de todas essas expressões, afastando-nos daquela coisa. Pois, na verdade, isto é uma paixão; e assim como o corpo está sujeito a qualquer afecção, seja à febre, seja a ferimentos, assim também é com esta. E ele não disse Reprimir, mas Mortificar (fazer morrer), para que nunca mais se levantem, e as ponhamos de lado. Aquilo que está morto, nós o pomos de lado; por exemplo, se houver calosidades no corpo, esse tecido está morto, e nós o removemos. Ora, se cortas naquilo que é vivo, isso produz dor, mas se naquilo que está morto, nem sequer o sentimos. Assim, na verdade, é com as paixões; elas tornam impura a alma; elas fazem com que a alma, que é imortal, se torne passível.
Como a cobiça é chamada idolatria, já o explicamos muitas vezes. Pois as coisas que mais dominam o gênero humano são estas: a cobiça, a impureza e o mau desejo. Por causa destas coisas, diz ele, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. Filhos da desobediência ele os chama, para lhes tirar toda desculpa, e para mostrar que foi por não quererem ser obedientes que se achavam naquela condição. Nas quais também vós, diz ele, andastes outrora, e depois vos tornastes obedientes. Ele os aponta como ainda nelas, e os elogia, dizendo: Mas agora despojai-vos também de todas estas coisas: ira, cólera, malícia, maledicência, palavras vergonhosas. Mas contra outros ele dirige o seu discurso. Sob o título de paixão e maledicência ele entende as injúrias, assim como sob ira ele entende a maldade. E em outro lugar, para os envergonhar, diz: porque somos membros uns dos outros (Ef 4,25). Ele os representa como que fabricantes de homens; lançando fora este, e recebendo aquele. Falou dos membros de um homem (Cl 3,5); aqui diz, todos. Falou do seu coração, da ira, da boca, da blasfêmia, dos olhos, da fornicação, da cobiça, das mãos e dos pés, da mentira, do próprio entendimento e da velha mente. Uma forma régia ele possui, a saber, a de Cristo. Aqueles que ele tem em vista parecem-me antes ser dentre os gentios. Pois, assim como a terra, sendo apenas areia, ainda que uma parte seja maior, outra menor, perdendo a sua forma anterior, depois se torna ouro; e assim como a lã, seja qual for a sua espécie, recebe outro aspecto, e oculta o anterior: assim verdadeiramente é também com os fiéis. Suportando-vos, diz ele, uns aos outros; ele mostra o que é justo. Tu o suportas, e ele a ti; e assim diz na Epístola aos Gálatas: Levai as cargas uns dos outros (Gl 6,2). E sede agradecidos, diz ele. Pois isto é o que ele por toda parte busca especialmente; a principal das coisas boas.
Demos, pois, graças em todas as coisas, qualquer que seja o que tenha acontecido; pois isto é o que constitui a ação de graças. Fazê-lo na prosperidade, com efeito, não é grande coisa, pois a própria natureza das circunstâncias a isso impele; mas, quando estamos em extremidades, damos graças — então, sim, é admirável. Pois, quando, em circunstâncias sob as quais outros blasfemam e exclamam descontentes, nós damos graças, vede quão grande é aqui a filosofia. Primeiro, alegraste a Deus; depois, envergonhaste o diabo; terceiro, reduziste a nada o próprio infortúnio que sucedeu; pois de uma só vez tu dás graças, e Deus abrevia a dor, e o diabo se retira. Porque, se tivesses exclamado com descontentamento, ele, tendo obtido o que desejava, permanece junto de ti, e Deus, sendo blasfemado, te abandona, e a tua calamidade se agrava; mas, se deste graças, ele, nada tendo alcançado, se retira, e Deus, sendo honrado, te retribui com maior honra. E não é possível que um homem que dá graças por seus males sinta neles pesar. Pois a sua alma se alegra, por fazer o que é justo; imediatamente a sua consciência se ilumina, exulta em seu próprio louvor; e essa alma, que está luminosa, não pode de modo algum ter o semblante triste. Mas no outro caso, junto com o infortúnio, também a consciência o assalta com o seu açoite; ao passo que, neste, ela o coroa e o proclama.
Nada há mais santo do que essa língua que, nos males, dá graças a Deus; em nada, na verdade, é inferior à dos mártires; ambas igualmente são coroadas, tanto esta quanto aquelas. Pois também sobre esta se põe o carrasco a forçá-la a negar a Deus mediante a blasfêmia; o diabo se põe sobre ela, atormentando-a com pensamentos carrascos, escurecendo-a com abatimentos. Se, pois, alguém suporta as suas aflições e dá graças, alcançou uma coroa de martírio. Por exemplo: está doente o seu filho pequeno, e ela dá graças a Deus? Isto lhe é uma coroa. Que tortura há tão má que o abatimento não seja pior? Ainda assim, não a força a proferir uma palavra amarga. Ele morre: de novo ela deu graças. Tornou-se filha de Abraão. Pois, se não sacrificou com sua própria mão, contudo se comprazeu no sacrifício, o que é o mesmo; não sentiu indignação quando lhe foi tirado o dom.
Novamente, está o filho dela doente? Ela não fez amuletos. Isso lhe é imputado como martírio, pois ela sacrificou o filho em sua resolução. Pois ainda que essas coisas sejam inúteis, e mera fraude e zombaria, houve, contudo, os que a persuadiram de que elas eram eficazes; e ela preferiu ver o filho morto a suportar a idolatria. Assim, como esta é mártir, quer se trate do seu próprio caso, quer do de seu filho — visto que assim procedeu —, ou do de seu marido, ou de qualquer outro dos que lhe são mais caros; assim aquela outra é idólatra. Pois é evidente que ela teria oferecido sacrifício, se lhe fosse permitido oferecer sacrifício; ou antes, ela já realizou de fato o ato do sacrifício. Pois quanto a esses amuletos, ainda que os que deles tiram proveito estejam sempre a raciocinar a respeito, dizendo: "invocamos a Deus, e nada fazemos de extraordinário", e coisas semelhantes; e a velha é cristã, diz ele, e uma das fiéis; a coisa é idolatria. És tu uma das fiéis? Faze o sinal da Cruz; dize: "esta tenho por única arma, esta por remédio; e outra não conheço". Dize-me: se um médico viesse a alguém e, negligenciando os remédios próprios de sua arte, se valesse de encantamento, chamaríamos a esse homem médico? De modo nenhum; pois não vemos aí os medicamentos da arte de curar; assim tampouco, neste caso, vemos os do cristianismo.
Outras mulheres, por sua vez, atam sobre si nomes de rios, e se aventuram a inúmeras coisas de natureza semelhante. Eis que digo, e a todos vós advirto de antemão: se alguma for surpreendida, não mais a pouparei, quer tenha feito amuleto, quer encantamento, quer qualquer outra coisa de arte tal como esta. Que fazer, pois, diz alguém, há de morrer o filho? Se viveu por este meio, na verdade então morreu; mas se morreu sem este meio, então na verdade viveu. Ora, se o vês apegado a meretrizes, desejas que esteja sepultado, e dizes: "ora, que bem lhe faz viver?"; mas quando o vês em perigo de sua salvação, desejas vê-lo viver? Não ouviste Cristo dizer: Quem perder a sua vida, achá-la-á; e quem a achar, perdê-la-á (Mt 16,25)? Crês nestas palavras, ou te parecem fábulas? Dize-me agora: se alguém dissesse, "leva-o ao templo do ídolo, e viverá", suportarias tu isso? "Não!", ela responde. Por quê? "Porque", diz ela, "ele me impele a cometer idolatria; mas aqui não há idolatria, senão simples encantamento": este é o artifício de Satanás, esta é aquela astúcia do demônio para encobrir o engano, e ministrar a droga nociva no mel. Depois que ele viu que não podia prevalecer contra ti por aquele outro caminho, tomou este rumo: aos amuletos costurados e às fábulas de velhas; e a Cruz, na verdade, é desonrada, e esses amuletos são preferidos a ela. Cristo é lançado fora, e uma velha embriagada e insensata é introduzida. Aquele nosso mistério é pisado aos pés, e a impostura do demônio dança.
Por que, pois, diz alguém, não repreende Deus o socorro vindo de tais fontes? Muitas vezes já o repreendeu, e contudo não te persuadiu; Ele agora te deixa entregue ao teu erro, pois diz a Escritura: Deus os entregou a um sentimento reprovado (Rm 1,28). Estas coisas, ademais, nem mesmo um grego dotado de entendimento poderia suportar. Certo demagogo em Atenas, conta-se, uma vez trouxe consigo tais coisas penduradas sobre si: um filósofo, seu mestre, ao vê-las, repreendeu-o, exprobrou-o, satirizou-o, dele fez escárnio. Pois em tão miserável condição nos achamos, que até nestas coisas cremos!
Ora, pergunta alguém, por que não há hoje aqueles que ressuscitam mortos e realizam curas? Sim, pois eu pergunto: por que não há hoje aqueles que têm desprezo por esta vida presente? Servimos nós a Deus por salário? Quando a natureza humana era mais fraca, quando a Fé precisava ser plantada, houve mesmo muitos assim; mas agora Ele não quer que fiquemos dependurados nesses sinais, e sim que estejamos prontos para a morte. Por que então te apegas à vida presente? Por que não olhas para a futura? E por causa desta, na verdade, podes suportar até cometer idolatria, mas por causa daquela outra não consegues sequer conter a tristeza? Por esta razão é que não há hoje tais sinais: porque aquela vida (futura) nos pareceu sem honra, visto que por sua causa nada fazemos, ao passo que por esta não há nada que recusemos suportar. E por que também aquela outra farsa, cinzas, e fuligem, e sal? E de novo a velha trazida? Uma farsa, verdadeiramente, e uma vergonha! E então, dizem eles, um olho capturou a criança.
Onde irão terminar estas práticas satânicas? Como não hão de rir os gregos? Como não hão de escarnecer quando lhes dizemos: Grande é a virtude da Cruz; como se hão de converter, quando nos veem recorrer a essas coisas, das quais eles mesmos zombam com desprezo? Foi para isto que Deus deu médicos e remédios? Que, então? Suponde que não o curem, mas a criança parta. Para onde partirá? Dize-me, ó infeliz e desventurada! Partirá para os demônios? Partirá para algum tirano? Não partirá ela para o céu? Não partirá ela para o seu próprio Senhor? Por que então te afliges? Por que choras? Por que te lamentas? Por que amas mais o teu filhinho do que ao teu Senhor? Não é por meio d'Ele que também tens este dom? Por que és ingrata? Amas mais o dom do que o Doador? Mas eu sou fraca, ela responde, e não posso suportar o temor de Deus. Pois bem: se nos males corporais o maior encobre o menor, muito mais na alma o temor destrói o temor, e a tristeza, a tristeza. Era a criança formosa? Mas, seja como for, não é ela mais formosa que Isaque; e este também era filho único. Nasceu ela na tua velhice? Assim também aquele. Mas é ela bela? Pois bem: por mais bela que seja, não é mais amável que Moisés (At 7,20), que atraiu até os olhos dos bárbaros a um terno amor por ele, e isto ainda numa idade em que a beleza não se manifesta plenamente; e, no entanto, esta coisa amada os pais a lançaram ao rio. Tu, na verdade, tanto vês a criança amortalhada, como a entregas à sepultura, e vais ao seu túmulo; mas eles nem sequer sabiam se ela seria alimento para os peixes, ou para os cães, ou para outras feras que devoram no mar; e isto fizeram, não conhecendo ainda nada do Reino, nem da Ressurreição.
Mas suponde que não seja filho único; que, tendo já perdido muitos, este também partiu. Mas não é tão súbita a tua calamidade quanto foi a de Jó, nem de aspecto mais triste? Não é quando um teto desabou, não é enquanto banqueteavam, não é na sequência de notícias de outras calamidades.
Mas era ele amado por ti? Mas não o era mais do que José, o devorado pelas feras; e, contudo, o pai suportou aquela calamidade, e a que se lhe seguiu, e ainda a seguinte a esta. Chorou, mas não agiu com impiedade; lamentou-se, mas não proferiu descontentamento, antes se deteve nestas palavras, dizendo: José não é mais, Simeão não é mais, e quereis ainda levar Benjamim? Todas estas coisas são contra mim (Gn 42.36). Vês como o constrangimento da fome prevaleceu sobre ele, a ponto de o fazer desprezar seus filhos? E não prevalecerá sobre ti o temor de Deus tanto quanto a fome?
Chora: não to proíbo; mas nada de blasfemo digas nem faças. Seja teu filho quem for, não é ele como Abel; e, contudo, nada disto disse Adão; ainda que aquela calamidade fosse penosíssima, a de que seu irmão o houvesse matado. Mas lembro-me também de outros que mataram seus irmãos; quando, por exemplo, Absalão matou Amnom, o primogênito (2 Sm 13), e o rei Davi amava a seu filho, e sentou-se, na verdade, em saco e cinza, mas não recorreu a adivinhos nem a encantadores (ainda que os havia então, como o mostra Saul), antes fez súplica a Deus. Faze tu, pois, o mesmo: como fez aquele justo, assim faze tu também; dize tu as mesmas palavras, quando teu filho morrer: Eu irei a ele, mas ele não voltará a mim (2 Sm 12.23). Esta é a verdadeira sabedoria, este é o verdadeiro afeto. Por mais que ames a teu filho, não o amarás tanto quanto ele então amou. Pois, ainda que seu filho fosse nascido de adultério, o amor daquele bem-aventurado pela mãe estava então em seu auge, e sabes que a prole participa do amor dos pais. E tão grande era o seu amor para com ele, que chegou a desejar que vivesse, ainda que este houvesse de ser seu próprio acusador; mas, ainda assim, deu graças a Deus. Que sofreu, pensas tu, Rebeca, quando o irmão ameaçava a Jacó, e ela não afligiu a seu marido, mas o persuadiu a enviar seu filho para longe? (Gn 27.46; 28.1). Quando houveres sofrido alguma calamidade, pensa no que é pior do que ela; e terás consolação suficiente; e considera contigo mesmo: que seria se ele houvesse morrido em batalha? Que seria se no fogo? E, sejam quais forem os nossos sofrimentos, pensemos em coisas ainda mais terríveis, e teremos consolo suficiente, e olhemos sempre ao redor de nós para os que padeceram coisas mais terríveis, e se nós mesmos já sofremos calamidades mais pesadas. Assim também nos exorta Paulo; como quando diz: Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado (Hb 12.4); e outra vez: Não vos sobreveio tentação que não fosse humana (1 Cor 10.13). Sejam, pois, os nossos sofrimentos quais forem, olhemos ao redor para o que é pior (pois o encontraremos), e assim seremos agradecidos. E, sobretudo, demos graças por todas as coisas continuamente; pois assim tanto se aliviarão estas dores, quanto viveremos para a glória de Deus, e alcançaremos os bens prometidos, aos quais possamos todos nós chegar, pela graça e amor para com os homens, etc.
Nada há mais sábio do que aquele que vive virtuosamente. Observa quão sábio ele é, diz alguém. Dá o que possui, é compassivo, é afetuoso para com todos. Compreendeu bem que compartilha com os outros uma natureza humana comum. Ponderou bem como usar sabiamente sua riqueza. Percebe que a posição da riqueza não o torna ninguém de especial. Sabe que os corpos de seus parentes valem mais que sua riqueza. Aquele que despreza a glória é inteiramente sábio, pois compreende as coisas humanas. Esta é a verdadeira filosofia: o conhecimento das coisas divinas e humanas. Assim, pois, compreende quais coisas são divinas e quais são humanas. Das primeiras se guarda, e às segundas dedica seus trabalhos. E sabe também dar graças a Deus em todas as coisas. Considera a vida presente como nada; por isso não se deleita na prosperidade, nem se aflige com a condição oposta.
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Havendo-os exortado a serem gratos, mostra-lhes também o caminho, aquele mesmo de que há pouco vos discorri. E que diz ele? Que a palavra de Cristo habite em vós ricamente; ou antes, não somente deste modo, mas também de outro. Pois eu, na verdade, disse que devemos enumerar aqueles que padeceram coisas mais terríveis, e os que suportaram sofrimentos mais penosos que os nossos, e dar graças por não nos ter cabido tal sorte; mas que diz ele? Que a palavra de Cristo habite em vós; isto é, o ensino, os dogmas, a exortação, na qual Ele diz que a vida presente nada é, nem tampouco os seus bens (Mt 6,25). Que habite em vós, diz ele, ricamente, não simplesmente habite, mas com grande abundância. Ouvi, quantos sois mundanos, e tendes o cuidado da esposa e dos filhos; como também a vós ele confia especialmente a leitura das Escrituras, e isso não para ser feito levianamente, nem de qualquer maneira, mas com muito empenho. Pois assim como o rico em dinheiro pode suportar multas e prejuízos, também aquele que é rico nos dogmas da filosofia suportará facilmente não somente a pobreza, mas também todas as calamidades, sim, mais facilmente que aquele. Pois quanto a este, pagando a multa, o homem rico necessariamente se empobrece, e se vê diminuído, e, se com frequência sofrer desse modo, não mais poderá suportá-lo; mas neste outro caso não é assim, pois nem sequer despendemos os nossos salutares pensamentos quando nos é necessário suportar algo que não escolheríamos, mas eles permanecem conosco continuamente. E notai a sabedoria deste bem-aventurado varão. Não disse ele: Que a palavra de Cristo esteja em vós, simplesmente, mas o quê? Habite em vós, e ricamente.
Em toda sabedoria, ensinando e admoestando uns aos outros. Em toda, diz ele. À virtude chama de sabedoria, e a humildade de espírito é sabedoria, e a esmola, e outras coisas semelhantes a estas, são sabedoria; assim como os seus contrários são loucura, pois também a crueldade provém da loucura. Donde, em muitos lugares, chama a todo o pecado de loucura. Disse o insensato em seu coração: Não há Deus (Sl 14,1); e ainda: As minhas chagas cheiram mal e estão corrompidas por causa da minha insensatez (Sl 38,5, Septuaginta). Pois que há, dizei-me, mais insensato do que aquele que, envolvendo-se em suas próprias vestes, não atenta para os seus irmãos que estão nus; que alimenta os cães, e não se importa que a imagem de Deus esteja a perecer de fome; que apenas está persuadido de que as coisas humanas nada são, e contudo a elas se apega como se fossem imortais? Como, pois, nada há mais insensato que tal homem, assim nada há mais sábio que aquele que pratica a virtude. Pois notai quão sábio é ele, diz alguém. Reparte de sua substância, é compassivo, é amigo dos homens, tem bem considerado que participa com eles de uma natureza comum; tem bem considerado o uso da riqueza, que ela não é digna de nenhuma estima; que se deve poupar antes os corpos que nos são aparentados do que a riqueza. Aquele que despreza a glória é inteiramente sábio, pois conhece as coisas humanas; o conhecimento das coisas divinas e humanas é a filosofia. Assim, pois, sabe ele quais coisas são divinas e quais são humanas, e de umas se aparta, nas outras emprega o seu esforço. E sabe também dar graças a Deus em todas as coisas; considera a vida presente como nada; por isso, nem se deleita na prosperidade, nem se aflige com a condição contrária.
Não vos demoreis, rogo-vos, esperando que outrem vos ensine; tendes convosco os oráculos de Deus. Ninguém vos ensina como eles; pois aquele outro amiúde inveja muito, por vanglória e por inveja. Ouvi-me, rogo-vos, todos vós que estais preocupados com esta vida, e procurai livros que sejam remédios para a alma. Se não quiserdes nenhum outro, ao menos adquiri o Novo Testamento — as Epístolas Apostólicas, os Atos, os Evangelhos — como vossos mestres constantes. Se a tristeza vos sobrevier, mergulhai neles como num cofre de remédios; tomai daí consolo para vossa tribulação, seja perda, seja morte, seja privação de parentes; ou antes, não mergulheis neles apenas, mas tomai-os inteiramente para vós; guardai-os na mente.
Esta é a causa de todos os males: não conhecer as Escrituras. Vamos à batalha sem armas, e como poderíamos sair a salvo? Bem contentes deveríamos estar se pudéssemos estar a salvo com elas, quanto mais sem elas. Não lanceis todo o peso sobre nós! Ovelhas sois, mas não sem razão, antes racionais; Paulo confia muito também a vós. Os que estão sob instrução não aprendem para sempre; pois então não são ensinados. Se estais sempre aprendendo, nunca aprendereis. Não venhais assim, como tencionando estar sempre aprendendo (pois assim jamais conhecereis), mas de modo a concluir a aprendizagem, e a ensinar outros. Nas artes, não permanecem todas as pessoas por tempos determinados — nas ciências, e, em uma palavra, em todas as artes? Assim, todos nós fixamos definitivamente certo tempo conhecido; mas se estais sempre aprendendo, é prova certa de que nada aprendestes.
Esta repreensão Deus proferiu contra os judeus: "Carregados desde o ventre, e instruídos até a velhice" (Is 46,3-4, Septuaginta). Se não estivésseis sempre esperando isto, todas as coisas não teriam retrocedido deste modo. Fosse assim, que alguns houvessem concluído a aprendizagem, e outros estivessem prestes a concluí-la, nossa obra estaria adiantada; vós daríeis lugar a outros, e também nos ajudaríeis. Dizei-me: se alguns fossem a um gramático e continuassem sempre a aprender suas letras, não dariam a seu mestre muito trabalho? Até quando terei de discorrer convosco acerca da vida? Nos tempos dos Apóstolos não era assim, mas eles continuamente saltavam de lugar em lugar, constituindo aqueles que primeiro haviam aprendido como mestres de quaisquer outros que estivessem sob instrução. Assim puderam circundar o mundo, por não estarem presos a um só lugar. Quanta instrução, pensais, necessitam vossos irmãos no campo, [eles] e seus mestres? Mas vós me mantendes preso aqui, rigidamente. Pois, antes que a cabeça esteja corrigida, é supérfluo proceder ao resto do corpo. Lançais tudo sobre nós. Vós somente devíeis aprender de nós, e vossas mulheres de vós, vossos filhos de vós; mas deixais tudo a nós. Por isso nosso labor é excessivo.
Ensinando, diz ele, e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais. Notai também a consideração de Paulo. Vendo que a leitura é penosa, e grande o seu enfado, não os conduziu a histórias, mas a salmos, para que ao mesmo tempo deleitásseis vossa alma com o canto e suavemente aliviásseis vossos trabalhos. Hinos, diz ele, e cânticos espirituais. Mas agora vossos filhos proferem cantos e danças de Satanás, como cozinheiros, e provedores de banquetes, e músicos; ninguém conhece salmo algum, antes isso parece coisa de que se deva envergonhar, e motivo de zombaria, e de escárnio. Aí está o tesouro de todos esses males. Pois qual for o solo em que a planta se assenta, tal é o fruto que produz; se em solo arenoso e salgado, semelhante é o seu fruto; se em solo doce e fértil, semelhante é também. Assim, a matéria da instrução é como que uma fonte. Ensinai-o a cantar aqueles salmos que estão tão repletos do amor à sabedoria; como logo, acerca da castidade, ou antes, antes de tudo, de não se acompanhar com os ímpios, já desde o próprio início do livro (pois foi por isso que o profeta começou assim: Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios, Sl 1,1; e novamente: Não me assentei no conselho da vaidade, Sl 26,4 (LXX); e ainda: diante dele é desprezado o malfeitor, mas ele honra aos que temem ao Senhor, Sl 15,4 (LXX)) de se acompanhar com os bons (e encontrareis ali esses assuntos em abundância), de refrear o ventre, de refrear a mão, de abster-se do excesso, de não usurpar; que o dinheiro nada é, nem a glória, e outras coisas semelhantes a estas.
Quando nestas coisas o tiverdes conduzido desde a infância, pouco a pouco o levareis adiante, até mesmo às coisas mais elevadas. Os Salmos contêm todas as coisas, mas os Hinos, por sua vez, nada têm de humano. Depois de instruído pelos Salmos, conhecerá então também os hinos, como algo mais divino. Pois as Potestades do alto entoam hinos, não salmos. Porquanto o hino, diz um, não é decoroso na boca do pecador, Eclo 15,9; e ainda: Meus olhos estarão sobre os fiéis da terra, para que se assentem comigo, Sl 101,6-7 (LXX); e ainda: aquele que pratica a soberba não habitou no meio da minha casa; e ainda: Aquele que anda por caminho irrepreensível, esse me servia, Sl 101,6 (LXX).
De sorte que deveis guardá-los com segurança de se misturarem, não apenas com os amigos, mas até mesmo com os servos. Pois incalculável é o dano causado aos livres, quando sobre eles colocamos escravos corruptos. Porque, se mesmo desfrutando de todo o benefício do afeto e da sabedoria paterna, dificilmente podem ser preservados incólumes até o fim, quando os entregamos à inescrupulosidade dos servos, estes os tratam como inimigos, cuidando que se lhes mostrarão senhores mais brandos quando os tiverem tornado perfeitos tolos, e fracos, e dignos de nenhum respeito.
Mais, pois, que a todas as outras coisas juntas, apliquemo-nos com seriedade a isto. Amei, diz ele, os que amam a tua lei (Sl 119,165, citação não exata). A este homem, pois, emulemos também nós, e a tais amemos. E para que os jovens sejam ainda instruídos na castidade, ouçam o Profeta dizer: Os meus lombos estão cheios de ilusões (Sl 38,7, Septuaginta); e ouçam-no ainda dizer: Tu destruirás totalmente todo aquele que se prostitui, apartando-se de Ti (Sl 73,27, Septuaginta). E que convém refrear o ventre, ouçam ainda: E matou, diz ele, a maior parte deles enquanto a carne ainda estava em suas bocas (Sl 78,30, Septuaginta). E que devem estar acima do suborno: Se as riquezas abundarem, não ponhais nelas o coração (Sl 62,10); e que devem manter a glória em sujeição: Nem a sua glória descerá com ele (Sl 49,17). E que não devem invejar os ímpios: Não tenhas inveja dos que praticam a iniquidade (Sl 37,1). E a ter o poder em nada: Vi o ímpio em excelsa altura, e a elevar-se como os cedros do Líbano; e passei, e eis que já não era (Sl 37,35). E a ter em nada as coisas presentes: Chamaram feliz o povo que está em tal condição; feliz o povo cujo auxiliador é o Senhor seu Deus (Sl 144,15, Septuaginta). Que não pecamos sem que disso se tome nota, mas que há retribuição, pois, diz ele, Tu retribuirás a cada um segundo as suas obras (Sl 62,12, Septuaginta). Mas por que Ele não os retribui assim dia a dia? Deus é juiz, diz ele, justo, forte e longânimo (Sl 7,11). Que a humildade de espírito é boa: Senhor, diz ele, o meu coração não se ensoberbeceu (Sl 131,1); que a soberba é má: Por isso, disse ele, a soberba os possuiu inteiramente (Sl 73,6, Septuaginta); e ainda: O Senhor resiste aos soberbos; e ainda: A iniquidade deles sairá como que da gordura. Que a esmola é boa: Espalhou, deu aos necessitados, a sua justiça permanece para sempre (Pv 3,34). E que compadecer-se é louvável: Homem bom é o que se compadece e empresta (Sl 73,7, Septuaginta). E ali encontrareis muitas outras doutrinas além destas, cheias de verdadeira filosofia; tais como esta, que não se deve falar mal do próximo: Ao que às escondidas difama o seu próximo, a esse eu expulsei de mim (Sl 112,9).
Qual é o hino daqueles que estão nas alturas? Os fiéis o sabem. Que dizem os querubins lá em cima? Que dizem os Anjos? Glória a Deus nas alturas (Sl 112,5). Por isso, depois da salmodia vêm os hinos, como algo de maior perfeição. Com salmos, diz ele, com hinos, com cânticos espirituais, com graça cantando em vossos corações a Deus (Sl 101,5, Septuaginta). Ele quer dizer ou isto, que Deus, por graça, nos deu estas coisas; ou, com os cânticos na graça; ou, admoestando-vos e ensinando-vos uns aos outros na graça; ou, que possuíam estes dons na graça; ou é uma epexegese, e ele quer dizer: pela graça do Espírito. Cantando em vossos corações a Deus. Não simplesmente com a boca, quer ele dizer, mas com atenção vigilante. Pois isto é cantar a Deus; aquilo, porém, é cantar ao ar, pois a voz se dispersa sem proveito. Não para exibição, quer ele dizer. E ainda que estejas na praça, podes recolher-te em ti mesmo e cantar a Deus, sem que ninguém te ouça. Pois também Moisés orou desta maneira, e foi ouvido; porquanto Ele diz: Por que clamas a Mim? (Êx 14,15) — embora nada dissesse, mas clamasse no pensamento; por isso também só Deus o ouviu — com um coração contrito. Pois não é vedado a ninguém, mesmo enquanto caminha, orar em seu coração e habitar nas alturas.
Porque, se assim procedermos, nada haverá de manchado, nada de impuro, onde quer que Cristo seja invocado. Se comes, se bebes, se te casas, se viajas, faze tudo em nome de Deus, isto é, invocando-O em teu auxílio: em tudo, ora primeiro, depois conduze teus negócios.
Porque, se assim procedermos, nada haverá de manchado, nada de impuro, onde quer que Cristo seja invocado. Se comes, se bebes, se te casas, se viajas, faze tudo em Nome de Deus, isto é, invocando-O em teu auxílio: orando-Lhe primeiro em tudo, assim toma em mãos teus negócios. Queres dizer algo? Põe isto à frente. Por esta razão também colocamos à frente de nossas epístolas o Nome do Senhor. Onde quer que esteja o Nome de Deus, tudo é auspicioso. Pois, se os nomes dos Cônsules dão segurança aos escritos, muito mais o faz o Nome de Cristo. Ou ele quer dizer isto: depois de Deus, dizei e fazei tudo, não introduzais além disso os anjos. Comes? Dá graças a Deus tanto antes quanto depois. Dormes? Dá graças a Deus tanto antes quanto depois. Lanças-te ao foro? Faze o mesmo — nada de mundano, nada desta vida. Faze tudo em Nome do Senhor, e tudo te será próspero. Onde quer que o Nome seja posto, ali tudo é auspicioso. Se expulsa demônios, se afasta enfermidades, muito mais torna fáceis os negócios.
E que é fazer em palavra ou em obra? Ou pedir ou realizar seja o que for. Ouve como, em Nome de Deus, Abraão enviou seu servo; Davi, em Nome de Deus, matou Golias. Maravilhoso é o Seu Nome, e grande. Novamente, Jacó, enviando seus filhos, diz: Meu Deus vos dê graça diante daquele homem (Gn 43,14). Pois aquele que assim faz tem por aliado a Deus, sem o qual nada ousaria fazer. Honrado, pois, por ser invocado, Ele por sua vez honrará, tornando fáceis os seus negócios. Invoca o Filho, dá graças ao Pai. Pois, quando o Filho é invocado, o Pai é invocado, e quando Ele é agradecido, o Filho foi agradecido.
Aprendamos estas coisas, não somente quanto às palavras, mas para cumpri-las também por obras. Nada se iguala a este Nome, maravilhoso é ele em toda parte. Teu Nome, diz ele, é como óleo derramado (Ct 1,3). Aquele que o pronunciou logo se enche de fragrância. Ninguém, está dito, pode chamar Jesus Senhor, senão pelo Espírito Santo (1 Cor 12,3). Tão grandes coisas opera este Nome. Se disseste, em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, com fé, cumpriste tudo. Vede quão grandes coisas fizeste! Criaste um homem, e operaste tudo o mais que provém do Batismo! Assim, quando usado para comandar as enfermidades, terrível é o Nome. Por isso o diabo introduziu os dos anjos, invejando-nos a honra. Tais encantamentos são para os demônios. Ainda que seja Anjo, ainda que seja Arcanjo, ainda que seja Querubim, não o permitas; pois nem essas Potestades aceitarão tais invocações, antes as lançarão de si, ao verem o seu Senhor desonrado. Eu te honrei, diz Ele, e disse: Invoca-Me; e tu O desonras? Se cantares este encantamento com fé, afugentarás tanto enfermidades quanto demônios, e ainda que não tenhas conseguido afugentar a enfermidade, isto não provém de falta de poder, mas porque assim convém que seja. Segundo a Tua grandeza, diz ele, assim também é o Teu louvor (Sl 48,10). Por este Nome foi o mundo convertido, dissolvida a tirania, pisado o diabo, abertos os céus. Fomos regenerados por este Nome. Se o temos, resplandecemos; este faz tanto mártires quanto confessores; guardemo-lo como um grande dom, para que vivamos em glória, e sejamos agradáveis a Deus, e sejamos julgados dignos dos bens prometidos aos que O amam, pela graça e benignidade, etc.
Isto é, sê sujeita por causa de Deus, porque isto vos adorna, diz ele, não a eles. Pois não me refiro àquela sujeição devida a um senhor, nem tampouco somente à que é da natureza, mas à que se dá por causa de Deus.
Isto é, sê sujeita por causa de Deus, porque isto vos adorna, diz Paulo, não a eles. Pois não me refiro àquela sujeição devida a um senhor, nem tampouco somente à que é da natureza, mas à que se oferece por causa de Deus.
Por que não dá ele estes preceitos em toda parte, e em todas as Epístolas, mas somente aqui, e na aos Efésios, e na a Timóteo, e na a Tito? Porque provavelmente havia dissensões nestas cidades; ou talvez estivessem corretos quanto ao mais, de modo que convinha que ouvissem acerca destas coisas. Antes, porém, o que diz a estes, diz a todos. Ora, também nisto esta Epístola tem grande semelhança com a aos Efésios, seja porque não convinha escrever sobre estas coisas a homens já em paz, que precisavam ser instruídos nas altas doutrinas que ainda lhes faltavam, seja porque, para pessoas que haviam sido consoladas sob as provações, fosse supérfluo ouvir sobre estes assuntos. De sorte que conjecturo que, neste lugar, a Igreja estava já bem fundada, e que estas coisas são ditas como em conclusão.
Vede como ele novamente exortou à reciprocidade. Assim como no outro caso recomenda o temor e o amor, também aqui o faz. Pois é possível que até mesmo aquele que ama seja amargo. O que ele diz, pois, é isto: não combatais; porquanto nada é mais amargo que esta contenda, quando ocorre da parte do marido para com a esposa. Pois as contendas que sucedem entre pessoas amadas, essas são amargas; e ele mostra que isso provém de grande amargura quando, diz ele, alguém está em discórdia com o seu próprio membro. Amar, portanto, é a parte do marido; ceder pertence à outra parte. Se, pois, cada um contribui com a sua parte, tudo permanece firme. Por ser amada, a esposa também se torna amante; e por sua submissão, o marido se torna cedente. E vede como também na natureza foi assim ordenado, que um ame e o outro obedeça. Pois quando o que governa ama o governado, então tudo permanece firme. O amor da parte do governado não é tão necessário quanto da parte do que governa para com o governado; pois deste é devida a obediência. Que a mulher tenha beleza e o homem desejo não mostra outra coisa senão que, por causa do amor, assim foi disposto. Não, pois, porque tua esposa te está sujeita, exerças o despotismo; nem porque teu marido te ama, te ensoberbeças. Que nem o amor do marido exalte a esposa, nem a sujeição da esposa ensoberbeça o marido. Por esta causa Ele a sujeitou a ti, para que seja mais amada. Por esta causa Ele te fez ser amado, ó esposa, para que suportes com facilidade a tua sujeição. Não temas em seres sujeita, pois a sujeição a quem te ama não tem dureza. Não temas em amar, pois a tens submissa. De nenhum outro modo, pois, poderia haver vínculo. Tens, então, tua autoridade por necessidade, procedente da natureza; guarda também o vínculo que procede do amor, pois este torna suportável a parte mais fraca.
Vede outra vez um mistério do amor! Se os dois não se tornam um, enquanto permanecem dois, não têm filhos; mas quando se unem, resultam muitos filhos. Que aprendemos disto? Que o poder da união é grande. No princípio, o sábio conselho de Deus dividiu o uno em dois; e, no entanto, mesmo depois dessa divisão, Deus quis mostrar que a humanidade ainda era uma só. Para isso, determinou que a procriação humana não pudesse realizar-se por uma só pessoa... Pois marido e mulher não são dois homens, mas uma só humanidade... Se ele é a cabeça, e ela o corpo, como são dois?... Além disso, pela própria formação de seu corpo, pode-se ver que são um, pois ela foi feita do seu lado, e são, por assim dizer, duas metades... O filho é como que uma ponte, de modo que os três se tornam uma só carne, unindo o filho a ambos os lados, um ao outro. Pois assim como duas cidades separadas por um rio podem unir-se por uma ponte, assim é neste caso; e a realidade é mais que a analogia, pois a própria ponte, neste caso, é formada da substância de cada um.
Observai novamente que Paulo exortou maridos e esposas à reciprocidade. Assim como às esposas para com os maridos, também aqui recomenda o temor e o amor. Pois é possível que até mesmo aquele que ama seja amargo. O que Paulo diz, pois, é isto: não combatais; porquanto nada é mais amargo que a contenda no matrimônio, quando ocorre da parte do marido para com a esposa. Pois as disputas entre os que se amam são amargas. Estas provêm de grande amargura quando, diz Paulo, alguém está em desacordo com o seu próprio membro. Amar, portanto, é a parte do marido; ceder pertence à outra parte. Se, pois, cada um contribui com a sua parte, ambos permanecem firmes. Por ser amada, a esposa também se torna amante; e por sua submissão, o marido aprende a ceder.
Novamente Paulo escreveu "no Senhor", estabelecendo de uma só vez as leis da obediência e produzindo neles vergonha. Pois isto, diz ele, é agradável ao Senhor. Vede como Paulo quer que vivamos não somente segundo os princípios da natureza, mas, antes disso, segundo o que é agradável a Deus. Deste modo, também alcançamos recompensa.
De novo ele colocou "no Senhor", estabelecendo de uma só vez as leis da obediência, envergonhando-os e abatendo-os. Pois isto, diz ele, é agradável ao Senhor. Vede como ele quer que façamos tudo não somente pela natureza, mas, antes disso, pelo que é agradável a Deus, para que também tenhamos recompensa.
Aqui novamente Paulo menciona a submissão e o amor. E não disse: "Amai a vossos filhos", pois isso seria supérfluo, visto que a própria natureza nos leva a isso. Antes, corrigiu o que precisava de correção; que o amor demonstrado neste caso fosse muito mais forte, porque a obediência ordenada é maior. Aqui Paulo não usa o exemplo do marido e da mulher. Em vez disso, ouve o profeta dizendo: "Como um pai se compadece de seus filhos, assim se compadeceu o Senhor dos que o temem."
Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos, para que não se desanimem. Eis que também aqui há submissão e amor. E não disse: Amai a vossos filhos, pois isso seria supérfluo, visto que a própria natureza a isso constrange; mas corrigiu o que precisava de correção; que o amor, também neste caso, fosse mais veemente, porquanto a obediência é maior. Pois em nenhuma parte estabelece como exemplo a relação entre marido e mulher; mas o quê? Ouve o profeta dizendo: Como um pai se compadece de seus filhos, assim se compadeceu o Senhor dos que o temem (Sl 103,13, Septuaginta). E ainda Cristo diz: Qual homem há dentre vós que, pedindo-lhe o filho pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? (Mt 7,9).
Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos, para que não se desanimem. Estabeleceu aquilo que sabia ter o maior poder de os cativar; e, ao ordená-los, falou antes como amigo; e em nenhuma parte menciona a Deus, pois queria vencer os pais e curvar sua terna afeição. Isto é: Não os torneis mais contenciosos; há ocasiões em que deveis até ceder.
Em seguida, passa ao terceiro gênero de autoridade. Há também aqui certo amor, mas este já não procede da natureza, como no caso anterior, e sim do hábito, da própria autoridade e das obras realizadas. Vendo, pois, que neste caso o âmbito do amor se estreita, ao passo que o da obediência se amplia, detém-se nisso, querendo dar a estes, por sua obediência, o que os primeiros têm por natureza. De modo que aquilo que discorre com os servos sozinhos não é apenas por causa de seus senhores, mas também por eles mesmos, para que se façam objeto da terna afeição de seus senhores. Mas não expõe isto abertamente; pois assim os teria, sem dúvida, tornado negligentes.
Há também certo gênero de amor que não procede da natureza, como nos exemplos anteriores de Paulo, mas do hábito e da própria natureza da autoridade... Nessas relações, o âmbito do amor se estreita, ao passo que o da obediência se amplia.
E vede como sempre estabelece os nomes — esposas, filhos, servos —, sendo isto, ao mesmo tempo, uma justa reivindicação de sua obediência. Mas, para que ninguém se afligisse, acrescentou: a vossos senhores segundo a carne. A vossa parte melhor, a alma, é livre, diz ele; o vosso serviço é por um tempo. Sujeitai-vos, pois, a isto, para que o vosso serviço não seja mais por constrangimento. Não servindo à vista, como para agradar aos homens. Fazei, diz ele, que o vosso serviço, que é conforme a lei, proceda do temor de Cristo. Pois, se quando o vosso senhor não vos vê, cumpris o vosso dever e o que é para sua honra, é manifesto que o fazeis por causa do Olho que jamais dorme. Não servindo à vista, diz ele, como para agradar aos homens; dando assim a entender que sereis vós mesmos a sustentar o dano. Pois ouve o profeta dizendo: Deus espalhou os ossos dos que agradam aos homens (Sl 53,6, Septuaginta). Vede, pois, como os poupa, e ao mesmo tempo os conduz à ordem. Mas em singeleza de coração, diz ele, temendo a Deus. Pois não é singeleza, mas hipocrisia, sustentar uma coisa e praticar outra; parecer de um modo quando o senhor está presente, e de outro quando ausente. Por isso não disse simplesmente em singeleza de coração, mas temendo a Deus. Pois isto é temer a Deus: quando, ainda que ninguém veja, nada fazemos de mau; mas, se o fazemos, não tememos a Deus, e sim os homens. Vedes como os conduz à ordem?
Deseja tê-los libertos não só da hipocrisia, mas também da indolência. Fê-los, em lugar de escravos, livres, visto que não necessitam da vigilância do senhor; pois a expressão de coração significa precisamente isto: com boa vontade, não por necessidade servil, mas com liberdade e por escolha. E qual é a recompensa?
Sabendo, diz ele, que do Senhor recebereis a recompensa da herança; pois servis ao Senhor Cristo.
Pois também por Ele se manifesta que recebereis a recompensa. E que servis ao Senhor, nisto se evidencia.
Aqui confirma o que antes afirmara. Pois, para que suas palavras não parecessem de lisonja, diz que receberá o mal que fez, isto é, sofrerá também o castigo, porquanto não há acepção de pessoas. Pois que importa seres servo? Não é vergonha para ti. E, na verdade, poderia ter dito isto aos senhores, como fez na Epístola aos Efésios. Mas aqui parece-me que alude aos senhores gregos. Pois, que importa se ele é grego e tu, cristão? Não se examinam as pessoas, mas as ações, de modo que, ainda neste caso, deves servir com boa vontade e de coração.
Que é o justo? Que é o equânime? Colocá-los em abundância de tudo, e não permitir que necessitem de outros, mas recompensá-los por seus trabalhos. Pois, porque eu disse que eles têm sua recompensa da parte de Deus, não os prives tu, por isso, dela. E em outro lugar diz, evitando a ameaça, querendo torná-los mais brandos; pois aqueles eram homens perfeitos; isto é, com a medida com que medirdes, sereis medidos. E as palavras não há acepção de pessoas são ditas tendo estes em vista, mas são atribuídas aos outros, para que estes as recebam. Pois, quando dissemos a uma pessoa o que se aplica a outra, não corrigimos tanto a esta, quanto àquele que está em falta. Vós também, juntamente com eles, diz ele. Tornou aqui comum o serviço, pois diz: sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus.
Paulo percebe que a perseverança na oração pode frequentemente produzir inquietação. Por isso escreve "vigiando", isto é, sede sóbrios, evitai o vaguear. Pois o diabo sabe, sim, ele sabe quão grande bem é a oração. Por isso, pesa fortemente sobre nós quando oramos. E Paulo sabe também quão negligentes são muitos ao orar. Assim, diz "perseverai" na oração, como algo que exige árduo trabalho, "vigiando nela com ação de graças". Pois que isto, diz Paulo, seja a vossa obra: dar graças em vossas orações tanto pelo que se vê quanto pelo que não se vê, pelos benefícios d'Ele para com os que O querem e para com os que não O querem, pelo reino, pelo inferno, pela tribulação e pelo refrigério. É assim que os santos costumam orar, dando graças pelos benefícios comuns a todos.
Pois, visto que a perseverança nas orações frequentemente torna as pessoas negligentes, por isso diz: vigiando, isto é, sóbrios, não vagueando. Pois o diabo sabe, ele sabe, quão grande bem é a oração; por isso pesa fortemente. E Paulo sabe também quão negligentes são muitos ao orar, pelo que diz: perseverai na oração, como coisa algo laboriosa, vigiando nela com ação de graças. Pois que isto, diz ele, seja a vossa obra: dar graças em vossas orações tanto pelo que se vê quanto pelo que não se vê, e pelos benefícios d'Ele para com os que O querem e os que não O querem, e pelo reino, e pelo inferno, e pela tribulação, e pelo refrigério. Pois assim é costume dos Santos orar, e dar graças pelos benefícios comuns a todos.
Conheço certo homem santo que ora assim. Não costumava dizer nada antes destas palavras, mas assim: Damos-Vos graças por todos os Vossos benefícios concedidos a nós, os indignos, desde o primeiro dia até o presente, pelo que sabemos e pelo que não sabemos, pelo que se vê e pelo que não se vê, pelos feitos em obra, pelos feitos em palavra, pelos que se deram segundo a nossa vontade, pelos que se deram contra a nossa vontade, por tudo o que foi concedido a nós, os indignos; pelas tribulações, pelos refrigérios, pelo inferno, pelo castigo, pelo reino dos céus. Suplicamos-Vos que guardeis a nossa alma santa, tendo uma consciência pura; um fim digno de Vossa benignidade. Vós que nos amastes a ponto de dar por nós o Vosso Unigênito, concedei-nos tornarmo-nos dignos do Vosso amor; dai-nos sabedoria em Vossa palavra e em Vosso temor. Cristo Unigênito, inspirai a força que vem de Vós. Vós que destes o Unigênito por nós, e enviastes o Vosso Espírito Santo para a remissão dos nossos pecados, se em algo transgredimos, voluntária ou involuntariamente, perdoai, e não no-lo imputeis. Lembrai-Vos de todos os que invocam o Vosso Nome em verdade; lembrai-Vos de todos os que nos querem bem, ou o contrário, pois todos somos homens. Depois, tendo acrescentado a Oração dos Fiéis, ali terminava; tendo feito daquela oração como que um coroamento, e um vínculo para todas as demais. Pois muitos benefícios Deus nos concede mesmo contra a nossa vontade; e muitos mais ainda, sem sequer o sabermos. Pois quando oramos por uma coisa, e Ele nos faz o contrário, é evidente que Ele nos faz bem mesmo quando não o sabemos.
Deus poderia abrir-nos uma porta para a palavra, a fim de falarmos o mistério de Cristo. Ele se refere a uma entrada, e a uma ousadia no falar. Coisa admirável! O grande atleta não disse que fosse libertado de suas cadeias, mas, estando em cadeias, exortava aos outros; e os exortava com vistas a um grande objetivo, a saber, que ele mesmo obtivesse ousadia para falar. Ambas as coisas são grandes, tanto a qualidade da pessoa quanto a da coisa. Coisa admirável! Quão grande é a dignidade! O mistério, diz ele, de Cristo. Ele mostra que nada lhe era mais caramente desejado do que isto, falar. Por causa do qual também estou em cadeias, a fim de que eu o manifeste, como devo falar (Col 4,4). Ele quer dizer, com muita ousadia de fala, e sem nada reter. Suas cadeias o exibem, não o obscurecem. Com muita ousadia, ele quer dizer. Dize-me, estás tu em cadeias, e ainda assim exortas a outros? Sim, minhas cadeias me dão maior ousadia; mas oro pelo auxílio de Deus, pois ouvi a voz de Cristo dizendo: Quando vos entregarem, não vos inquieteis de como ou o que haveis de falar (Mt 10,19). E vede como ele se exprimiu por metáfora, que Deus poderia abrir-nos uma porta para a palavra (vede quão despretensioso ele é; até mesmo em suas cadeias, como se exprime); isto é, que Ele abrandasse os corações deles. Contudo, ele não disse assim; mas, que Ele nos desse ousadia; por humildade assim falou, e aquilo que já possuía, pede para receber.
Ele mostra, nesta Epístola, por que Cristo não veio naqueles tempos, na medida em que chama as coisas antigas de sombra, mas o corpo, diz ele, é de Cristo. De modo que era necessário que fossem formados em hábitos sob a sombra. Ao mesmo tempo, ele também exibe a maior prova do amor que lhes tem; a fim de que vós, diz ele, ouçais, por essa razão, que "estou em cadeias". Novamente ele nos põe diante daquelas suas cadeias; as quais eu tanto amo, as quais despertam meu coração, e sempre me atraem ao anelo de ver Paulo atado, e em suas cadeias escrevendo, e pregando, e batizando, e catequizando. Em suas cadeias era ele requisitado em favor das Igrejas em toda parte; em suas cadeias edificava incalculavelmente. Então estava ele antes em liberdade. Pois ouvi-o dizer: De modo que a maioria dos irmãos, tendo confiança por causa de minhas cadeias, são mais abundantemente ousados para falar a palavra sem temor (Fl 1,14). E de novo ele faz a mesma confissão de si mesmo, dizendo: Pois quando sou fraco, então sou forte (2 Cor 12,10). Por isso disse também: Mas a palavra de Deus não está presa (2 Tm 2,9). Foi atado com malfeitores, com prisioneiros, com assassinos; ele, o mestre do mundo, ele que subira ao terceiro céu, que ouvira palavras inefáveis, foi atado (2 Cor 12,4). Mas então era mais veloz o seu curso. Aquele que estava atado, agora estava solto; aquele que estava solto, estava atado. Pois ele, na verdade, fazia o que queria; ao passo que o outro não o impedia, nem realizava o seu próprio propósito.
Que estás a fazer, ó insensato? Pensas que ele é um corredor carnal? Compete ele em nosso estádio? Seu curso de vida está nos céus; a quem corre no céu, as coisas da terra não podem atar nem reter. Não vês este sol? Cerca os seus raios com grilhões! Detém-no de seu curso! Não podes. Logo, tampouco podes a Paulo! Sim, muito menos a este do que àquele, pois este goza de mais Providência do que aquele, visto que nos traz luz, não tal como aquela, mas a verdadeira.
Onde estão agora aqueles que não estão dispostos a sofrer coisa alguma por Cristo? Mas por que digo sofrer, se sequer estão dispostos a abrir mão de suas riquezas? No passado, também Paulo costumava prender e lançar no cárcere; mas, desde que se tornou servo de Cristo, não mais se gloria em fazer, mas em sofrer. E isto, além disso, é admirável na Pregação, que assim seja erguida e aumentada pelos próprios sofredores, e não pelos perseguidores. Onde já se viram contendas semelhantes a esta? Aquele que padece o mal vence; aquele que faz o mal é vencido. Mais resplandecente é este do que aquele. Foi através das prisões que a Pregação entrou. Não me envergonho (Rm 1,16), sim, glorio-me até, diz ele, em pregar O Crucificado. Pois considerai, peço-vos: o mundo inteiro abandonou os que estavam livres e passou para os que estavam presos; afastando-se dos que aprisionavam, honra os carregados de correntes; odiando os que crucificavam, adora o Crucificado.
Não é a única maravilha que os pregadores fossem pescadores, que fossem ignorantes; mas que houvesse também outros obstáculos, obstáculos até mesmo por natureza; e ainda assim o crescimento foi tanto mais abundante. Não somente a ignorância deles não foi obstáculo, mas ela mesma fez com que a Pregação se manifestasse. Pois ouvi Lucas dizendo: E, percebendo que eram homens sem letras e ignorantes, maravilharam-se (At 4,13). Não somente as prisões não foram obstáculo, mas isto mesmo, por si só, os tornou mais confiantes. Não eram os discípulos tão ousados quando Paulo estava livre, como quando estava preso. Pois diz ele: são mais abundantemente ousados para falar a palavra de Deus sem temor (Fl 1,14). Onde estão os que contradirão a divindade da Pregação? Não bastava a ignorância deles para lhes obter condenação? Não os teria também neste caso amedrontado? Pois sabeis que por estas duas paixões a maioria é possuída: a vanglória e a covardia. Suponde que a ignorância não os deixasse sentir vergonha; ainda assim os perigos deveriam tê-los posto em temor.
Mas, diz alguém, eles operavam milagres. Credes, então, que operavam milagres. Mas não operavam eles milagres? Este é um milagre maior do que operá-los, se os homens foram atraídos a eles sem milagres. Também Sócrates, entre os gregos, foi posto em prisão. E então? Não fugiram logo seus discípulos para Mégara? Certamente, por que não? Eles admitiam os argumentos dele acerca da imortalidade. Mas vede aqui. Paulo foi posto em prisão, e seus discípulos tornaram-se mais confiantes, e com razão, pois viam que a Pregação não era impedida. Pois, podeis colocar a língua em prisão? É por meio dela que principalmente ela corre. Pois assim como, a menos que tenhais atado os pés de um corredor, não o impedistes de correr, assim também, a menos que tenhais atado a língua de um evangelista, não o impedistes de correr. E, assim como aquele, se lhe atardes os lombos, corre ainda mais e é sustentado, também este prega ainda mais, e com maior ousadia.
Um prisioneiro teme quando não há nada além dos grilhões; mas aquele que despreza a morte, como poderia ser aprisionado? Fizeram o mesmo que se tivessem posto grilhões na sombra de Paulo, e amordaçado sua boca. Pois era uma luta contra sombras; porquanto ele era, ao mesmo tempo, mais ternamente saudoso a seus amigos, e mais reverenciado por seus inimigos, como quem carregava o prêmio da coragem em suas cadeias. E uma coroa cinge a cabeça; mas não a desonra, antes a faz resplandecer. Contra sua própria vontade, coroaram-no com sua corrente. Pois dizei-me: seria possível que temesse o ferro aquele que enfrentara com bravura os portões adamantinos da morte? Vinde, amados, emular estas cadeias. Quantas de vós, mulheres, vos enfeitais com bugigangas de ouro, aspirai antes às cadeias de Paulo. Não brilha tanto o colar em torno de vosso pescoço, quanto resplandecia a graça destas cadeias de ferro em torno de sua alma! Se alguém anseia por aquelas, que odeie estas. Pois que comunhão há entre a suavidade e a coragem; entre o adorno do corpo e a filosofia? Àquelas cadeias os Anjos reverenciam; destas, antes zombam; àquelas cadeias costumam elevar da terra ao céu; estas cadeias arrastam do céu para a terra. Pois, em verdade, estas é que são cadeias, não aquelas; aquelas são ornamento, estas são cadeias; estas, juntamente com o corpo, afligem também a alma; aquelas, juntamente com o corpo, adornam também a alma.
Quereis vos convencer de que aquelas são ornamento? Dizei-me: qual delas mais teria atraído a atenção dos espectadores? Tu, ou Paulo? E por que digo "tu"? Nem a própria rainha, toda adornada de ouro, teria atraído tanto os espectadores; mas se acaso Paulo em suas cadeias e a rainha tivessem entrado ao mesmo tempo na Igreja, todos teriam desviado os olhos dela para ele; e com razão. Pois ver um homem de natureza maior que a humana, e que nada tem de homem, mas é um anjo sobre a terra, é mais admirável do que ver uma mulher adornada de enfeites. Pois isto, na verdade, pode-se ver tanto nos teatros, quanto nos espetáculos, e nos banhos, e em muitos lugares; mas quem vê um homem com cadeias sobre si, e que se considera possuidor do maior dos ornamentos, e que não sucumbe sob suas cadeias, não contempla um espetáculo da terra, mas um digno dos céus. A alma que se atavia daquela maneira olha ao redor — quem viu? Quem não viu? — enche-se de orgulho, é possuída de pensamentos ansiosos, é atada com inúmeras outras paixões; mas aquele que tem estas cadeias sobre si está isento de orgulho: sua alma exulta, é libertada de toda ansiedade, é jubilosa, tem seu olhar fixo no céu, está revestida de asas. Se alguém me desse a escolher entre ver Paulo inclinando-se dos céus e proferindo sua voz, ou saindo da prisão, eu escolheria a prisão. Pois os que habitam os céus o visitam quando ele está na prisão. As cadeias de Paulo eram o vínculo da Pregação, aquela sua corrente era o seu fundamento. Ansiemos por aquelas cadeias!
Como pode ser isto, dirá alguém? Se rompermos e despedaçarmos estas. Nenhum bem nos advém destes laços, mas antes dano. Estes hão de mostrar-nos como prisioneiros Ali; mas os laços de Paulo desatarão aqueles laços; ela que aqui é presa com estes, com aqueles laços imortais também será presa Ali, tanto as mãos quanto os pés; ela que foi presa com os de Paulo, os terá naquele dia como um ornamento em torno de si. Livrai a vós mesma dos vossos laços, e ao pobre da sua fome. Por que remachais as cadeias dos vossos pecados? Dirá alguém: como? Quando trazes ouro enquanto outro perece, quando tu, para alcançar vanglória, tomas tanto ouro, enquanto outro não tem sequer o que comer, não tens tu cravado bem fundo os teus pecados? Vesti-vos de Cristo, e não de ouro; onde está Mamom, ali não está Cristo; onde está Cristo, ali não está Mamom. Não quererias vestir-te do próprio Rei de todos? Se alguém te houvesse oferecido a púrpura e o diadema, não os terias tomado antes de todo o ouro do mundo? Não vos dou os ornamentos régios, mas vos ofereço vestir o próprio Rei. E como pode alguém vestir-se de Cristo, dirá alguém? Ouvi Paulo dizendo: Todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos vestistes (Gl 3,27). Ouvi o preceito apostólico: Não vos preocupeis com a carne, para satisfazer as suas concupiscências (Rm 13,14). Assim se veste alguém de Cristo, se não prover para a carne segundo as suas concupiscências. Se vos vestistes de Cristo, até os demônios vos temerão; mas se de ouro, até os homens vos escarnecerão: se vos vestistes de Cristo, também os homens vos reverenciarão.
Quererias parecer bela e formosa? Contentai-vos com a obra do Criador. Por que sobrepondes estes pedaços de ouro, como se estivésseis a corrigir a criação de Deus? Quererias parecer formosa? Vesti-vos de esmola; vesti-vos de benevolência; vesti-vos de modéstia, de humildade. Estas são todas mais preciosas que o ouro; estas tornam ainda mais formosa até a que é bela; estas fazem bem formada até a que é malformada. Pois quando alguém contempla um rosto com boa vontade, dá o seu juízo a partir do amor; mas a mulher má, ainda que seja bela, ninguém pode chamar de bela; pois, turvado o entendimento, não profere corretamente a sua sentença.
Aquela egípcia de outrora estava adornada; José também estava adornado; qual dos dois era o mais belo? Não digo quando ela estava no palácio e ele no cárcere. Ele estava nu, mas revestido com as vestes da castidade; ela estava vestida, mas mais indecorosa do que se estivesse nua, pois não tinha pudor. Quando te adornas excessivamente, ó mulher, então te tornas mais indecorosa do que a nua, pois te despojaste de teu belo adorno. Eva também estava nua; mas quando se vestiu, então esteve mais indecorosa, pois, quando estava de fato nua, estava adornada com a glória de Deus; mas quando se revestiu com a veste do pecado, então esteve indecorosa. E tu, quando te ataviares com a veste do enfeite estudado, então aparecerás mais indecorosa. Pois aquela suntuosidade não basta para tornar alguém belo, mas é possível até mesmo à que está ataviada ser mais indecorosa do que se estivesse nua; dize-me agora: se alguma vez tivesses vestido os trajes de um flautista ou de um tocador de flauta, não seria isso indecoroso? E, contudo, esses trajes são de ouro; mas justamente por isso seria indecoroso, porque são de ouro. Pois a suntuosidade convém bem às pessoas do palco, aos trágicos, aos histriões, aos mimos, aos dançarinos, aos lutadores com feras; mas à mulher que é crente são dadas outras vestes, da parte de Deus, do próprio Filho Unigênito de Deus. Pois, diz ele, todos quantos foram batizados em Cristo, de Cristo se revestiram (Gl 3,27). Dize-me: se alguém te tivesse dado vestes régias, e tu tivesses tomado o traje de um mendigo e o vestisses por cima daquelas, não terias, além da indecência, também sido punida por isso? Vestiste o Senhor do Céu e dos Anjos, e ainda te ocupas com a terra?
Falei assim porque o amor ao ornamento é em si mesmo um grande mal, ainda que dele não nascesse outro, e fosse possível cultivá-lo sem perigo (pois incita à vanglória e à soberba); mas agora muitos outros males nascem da ostentação: suspeitas más, gastos intempestivos, maledicências, ocasiões de rapina. Pois por que te adornas? Dize-me. É para agradar a teu marido? Então faze-o em casa. Mas aqui o contrário é que se dá. Pois, se quiseres agradar a teu próprio marido, não agrades a outros; mas, se agradas a outros, não poderás agradar ao teu próprio. De modo que deverias despir todos os teus ornamentos quando fores ao fórum ou te dirigires à igreja. Além disso, não agrades a teu marido pelos meios que as meretrizes usam, mas antes por aqueles que empregam as esposas livres. Pois em que, dize-me, difere uma esposa de uma meretriz? Nisto: que uma atenta a uma só coisa, a saber, que pela beleza de seu corpo possa atrair a si aquele a quem ama; enquanto a outra tanto governa a casa quanto participa dos filhos e de todas as demais coisas.
Tens uma filhinha? Cuida para que ela não herde esse mal, pois costumam formar seus costumes segundo a criação que receberam, e imitar o comportamento de suas mães. Sê para tua filha um modelo de modéstia, adorna-te com aquele ornamento, e cuida de desprezar o outro; pois aquele é, na verdade, um adorno, este uma deformidade. Basta o que foi dito. Agora, que Deus, que fez o mundo e nos deu o ornamento da alma, nos adorne e nos revista de Sua própria glória, para que, todos resplandecendo em boas obras e vivendo para Sua glória, possamos enviar glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo, agora e sempre, etc.
"Remindo", diz ele, "o tempo": isto é,