São Leão Magno
Papa · Doutor da Igreja
Leão I (c. 400–461), o primeiro papa cognominado "Magno". Defensor incansável da unidade de Cristo em duas naturezas — sua Tomus ad Flavianum foi aclamada no Concílio de Calcedônia (451) como a voz de Pedro. Conteve Átila às portas de Roma e seus sermões são tesouros da liturgia da Encarnação.
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O que era previamente conhecido acerca da malícia dos judeus e o que fora propriamente decretado a respeito da paixão de Cristo eram coisas muito diversas e de todo contrárias. Pois a vontade de matar não procedia da mesma fonte que a vontade de morrer. Nem o seu crime hediondo e a paciência do Redentor nasceram de um único espírito. O nosso Senhor não fez com que as mãos ímpias dos seus agressores fossem lançadas sobre Ele; Ele o permitiu. Não forçou que aquilo que haveria de acontecer de fato acontecesse pelo simples fato de o prever. E, no entanto, foi para este fim que Ele assumira a carne, para que isto acontecesse. Enfim, tão díspares eram os motivos do Crucificado e dos que O crucificavam, que aquilo que foi empreendido por Cristo não podia ser abolido, ao passo que aquilo que fora cometido por aqueles outros bem poderia ter sido interrompido. Aquele que veio "para salvar os pecadores" não negou a sua misericórdia sequer aos seus próprios matadores, mas converteu a maldade dos ímpios em bem para os crentes.
Os desejos da congregação e o testemunho do povo devem certamente ser aguardados. As opiniões dos nobres e a escolha dos clérigos devem ser solicitadas. Estes são os procedimentos ordinariamente observados na consagração dos bispos por aqueles que conhecem os decretos dos Padres. Isso seria preservar em tudo a exigência estabelecida pela autoridade apostólica, a qual demanda que um bispo que há de presidir uma igreja seja sustentado não apenas pelo testemunho de sua congregação, mas também por boa reputação entre os de fora. Nenhuma ocasião para tal escândalo deve ser deixada. Aquele que há de ser mestre da paz é ele mesmo consagrado em paz e em harmonia agradável a Deus, mediante o esforço comum de todos.
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Não, na verdade, não é que Deus apenas recentemente tenha concebido um desígnio para cuidar dos assuntos humanos, nem que Lhe tenha custado tanto tempo mostrar compaixão. Antes, estabeleceu Ele, desde o próprio "fundamento do mundo", uma só e mesma "causa de salvação" para todos. Pois a graça de Deus — pela qual toda a assembleia dos santos sempre foi justificada — não teve início no tempo em que Cristo nasceu, mas foi aumentada. Este "mistério de grande compaixão", do qual agora se encheu o mundo inteiro, foi tão poderoso ainda em suas prefigurações, que os que nele creram quando prometido a ele chegaram não menos do que os que o receberam quando efetivamente dado.
A primeira causa do pecado insinuou-se pelo gozo do alimento. De que dom de Deus mais salutar se serve a nossa liberdade redimida do que este: que a vontade, a qual outrora não sabia refrear-se das coisas proibidas, saiba agora refrear-se das coisas lícitas? "Toda criatura de Deus é boa, e nada se deve rejeitar do que se recebe com ação de graças." Não fomos criados para buscar todas as riquezas do mundo com uma cobiça torpe e desavergonhada. Podemos abster-nos voluntariamente daquilo que é lícito.
Entre nossos irmãos negligentes e remissos há, geralmente, algo que requer correção mediante mais severa demonstração de autoridade. Mas a correção deve aplicar-se de modo a não destruir a caridade. Por isso, também o bem-aventurado apóstolo Paulo, instruindo Timóteo no governo da Igreja, diz: "Não repreendas asperamente o ancião, mas exorta-o como a pai, e aos jovens como a irmãos, às anciãs como a mães, às jovens como a irmãs, em toda castidade." Se, por instrução do apóstolo, esta moderação deve manifestar-se para com membros de grau inferior, quanto mais deverá mostrar-se, sem ofensa, para com nossos irmãos e coepíscopos? Cartas
Pois a paz e a ordem de toda a casa do Senhor serão abaladas, se aquilo que se requer no corpo não se encontrar na cabeça. Que é impor as mãos precipitadamente, senão conferir a dignidade sacerdotal a homens não provados, antes da idade própria, antes que houvesse tempo de os examinar?
Aqueles que desejam que Cristo os poupe, tenham compaixão dos pobres. Aqueles que desejam vínculo com a comunhão dos bem-aventurados, mostrem-se "prontamente dispostos" a alimentar os desventurados. Nenhum ser humano deve ser considerado desprezível por outro. A natureza que o Criador do universo fez sua não deve ser desprezada em ninguém.
Que se entende por «o depósito»? Aquilo que te foi confiado, não aquilo que por ti foi inventado. Aquilo que recebeste, não aquilo que engendraste. Coisa não de engenho, mas de doutrina; não de presunção privada, mas de tradição pública; coisa a ti trazida, não por ti produzida; na qual não deves ser autor, mas guardião; não guia, mas seguidor. Guarda o depósito.
Rogo-vos, pois, "pela misericórdia do Senhor", que ajudeis com vossas orações a quem votastes com vossos desejos. Orai para que o "Espírito" da graça "permaneça em mim" e para que não comeceis a reconsiderar vossa decisão. Aquele que vos infundiu ardente anseio de concórdia nos proveja a todos do bem comum da paz. Assim poderia eu ser feito apto para servir a Deus onipotente e para entregar-me a vós pelo resto de minha vida, suplicando ao Senhor com confiança: "Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste." Enquanto continuamente progredis em direção à salvação, poderia então "minha alma proclamar a grandeza do Senhor". Na retribuição do juízo que há de vir, poderia a conta do meu sacerdócio apresentar-se diante do justo Juiz de tal maneira que, por vossas boas obras, "vós" me fôsseis "alegria", e "vós, coroa". Já destes sincero testemunho acerca da vida presente por vossa boa vontade.
Honremos, pois, este dia sagrado, o dia em que apareceu o autor da nossa salvação. A quem os magos veneraram como criança no berço, adoremo-Lo como onipotente nos céus. Assim como eles ofereceram ao Senhor, de seus tesouros, dons de espécie mística, tragamos nós, de nossos corações, coisas que sejam dignas de Deus. Ainda que Ele mesmo conceda todos os bens, contudo pede o fruto do nosso esforço. Pois o reino dos céus não vem aos que dormem, mas aos que trabalham e vigiam segundo o mandamento do Senhor. Se não tornarmos ineficazes os Seus dons, poderemos merecer receber o que Ele prometeu por meio das próprias coisas que Ele nos deu.
Aquele que está alistado no exército de Deus não deve estar vinculado a outros, para que nenhum laço de obrigação o afaste do acampamento do Senhor, onde o seu nome está inscrito.
Nele, pois, está a nossa esperança de vida eterna, e nele também está o padrão de nossa paciência. "Se com ele sofremos, com ele também reinaremos", visto que, como diz o apóstolo, "aqueles que afirmam permanecer em Cristo devem eles mesmos andar assim como Cristo andou". Do contrário, aparecemos sob a semelhança de uma falsa profissão, se não seguimos os mandamentos daquele em cujo nome nos gloriamos. E estes, na verdade, não nos seriam pesados, e nos libertariam de todos os perigos, se apenas amássemos aquilo que ele nos manda amar.
Para enganar os primeiros seres humanos, o diabo tomou a serpente como seu instrumento. Assim também, para seduzir os corações dos ortodoxos, armou as línguas destes com o veneno de sua falsidade. Com solicitude pastoral, contudo, opomo-nos a essas ciladas, caríssimos, na medida em que o Senhor nos ajuda. Para que nenhuma da santa grei venha a perecer, exortamo-vos com admoestações paternas a que vos aparteis dos "lábios iníquos e da língua enganadora", dos quais o profeta pede que sua alma "seja guardada livre", visto que "sua conversa se arrasta como o caranguejo", como disse o bem-aventurado apóstolo. Eles se insinuam rente ao chão, agarram-se brandamente, apertam de leve e matam sem serem percebidos.
Admira-me que a vossa caridade esteja tão vencida pela tribulação proveniente de escândalos — não importa de que ocasião surjam — a ponto de dizerdes que desejais ser libertado dos labores do vosso episcopado e preferirdes viver em silêncio e ócio, em vez de continuar a tratar daqueles problemas que vos foram confiados. Mas, como disse o Senhor: "Bem-aventurado aquele que perseverar até o fim." De onde virá esta bem-aventurada perseverança senão da virtude da paciência? Pois, segundo o ensinamento do apóstolo: "Todos os que querem viver piedosamente em Cristo padecerão perseguição." A perseguição não deve ser considerada apenas aquela que se faz contra a piedade cristã pela espada, pelo fogo ou por quaisquer tormentos, pois os estragos da perseguição são também infligidos pelas diferenças de caráter, pela perversidade dos desobedientes e pelos dardos das línguas caluniadoras.
Pois o astuto Tentador, o Diabo, deleita-se grandemente em ferir os corações dos homens, sobretudo quando pode envenenar suas mentes incautas com erros opostos à Verdade Evangélica; devemos, pois, esforçar-nos, pelo poderoso ensinamento do Espírito Santo, para impedir que o conhecimento cristão seja pervertido pelas falsidades do Diabo.
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"Arrebatados" das potestades das trevas por tão grande "preço" e por tão grande "mistério", e libertos das cadeias do antigo cativeiro, cuidai, caríssimos, que o diabo não destrua com nenhum estratagema a integridade de vossas almas. Tudo quanto vos for imposto contrário à fé cristã, tudo quanto vos for apresentado contrário aos mandamentos de Deus, procede dos enganos daquele que, com múltiplas astúcias, se esforça por desviar-vos da vida eterna e que, aproveitando certas ocasiões da fraqueza humana, torna a conduzir às suas ciladas de morte as almas descuidadas e negligentes. Considerem, pois, todos os que renasceram pela água e pelo Espírito Santo, quem é aquele a quem renunciaram.
Que aqueles, pois, «que nasceram não do sangue, nem da vontade da carne, mas de Deus», ofereçam a Deus a concórdia como filhos amantes da paz. Que todos os membros adotados se unam naquele «primogênito» da nova «criação», que veio «não para fazer a sua própria vontade, mas a daquele que o enviou».
Abraçando, pois, caríssimos, o único penhor da esperança cristã, não nos deixemos arrancar da nossa fiel união ao corpo de Cristo, no qual, como diz o Apóstolo, «habita a plenitude da divindade corporalmente, e fostes preenchidos nele». Ora, sendo a substância de Deus incorpórea, como habita ela corporalmente em Cristo, senão porque a carne de nossa estirpe foi feita carne da divindade? Fomos preenchidos naquele Deus no qual fomos crucificados, no qual fomos sepultados, no qual fomos até mesmo ressuscitados.
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Como ínclito vencedor do diabo e poderosíssimo triunfador sobre os espíritos hostis, em admirável espetáculo, levou Ele o troféu de sua "vitória." Sobre os ombros de sua invicta constância, portou o sinal da salvação a ser adorado em todo reino. Já então animava a todos os seus imitadores com a visão de seu labor, dizendo: "Quem não toma a sua cruz e Me segue não é digno de Mim."
Ele "assumiu a forma de servo" sem a mácula do pecado, enobrecendo o humano sem diminuir o divino. Aquele esvaziamento pelo qual o Invisível ofereceu-Se para ser visto, e o Criador e Senhor de todas as coisas elegeu ser um entre os mortais, foi um soberano ato de condescendência em majestosa piedade, não um defeito de poder.
É Deus, porquanto "todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez." É homem, porquanto foi "feito de mulher, feito sob a lei." A natividade de sua carne demonstra sua natureza humana. O parto virginal é indício de sua natureza divina. Carta, A Flaviano
Caifás, porém, para exagerar a inveja do sermão que ouvira, rasgou as suas vestes; e sem saber o que significava esta insânia, privou-se da honra sacerdotal, esquecendo aquele preceito que se lê acerca do príncipe dos sacerdotes: "Não descobrirá a sua cabeça tirando a tiara, nem rasgará suas vestes"(Levítico 21,10). Pois segue-se: "O sumo sacerdote, rasgando suas vestes, disse: Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia: que vos parece?"
Nós, porém, não dizemos que Cristo é homem de tal modo que lhe falte algo que é certo pertencer à natureza humana, seja a alma, seja a mente racional, seja a carne, que não foi tomada de uma mulher, mas feita pelo Verbo convertido e transformado em carne. Estas três falsas proposições produziram as várias partes da heresia dos Apolinaristas.
Eutiques também escolheu o terceiro dogma de Apolinar, que, negando a verdade da carne e da alma humanas, sustentava que nosso Senhor Jesus Cristo era inteiramente de uma só natureza, como se a divindade do Verbo tivesse se transformado em carne e alma, e como se a concepção, o nascimento, o crescimento e outras coisas semelhantes tivessem sido sofridas apenas por aquela essência divina, a qual nada disso recebe em si sem a verdade da carne, pois a natureza do Unigênito é a natureza do Pai, a natureza do Espírito Santo, igualmente impassível e eterna. Mas se, para evitar ser levado à conclusão de que a divindade poderia sentir sofrimento e morte, este herege se afasta da corrupção de Apolinar, e ainda assim ousa afirmar que a natureza do Verbo encarnado, isto é, do Verbo e da carne, é a mesma, ele claramente cai na insanidade de Maniqueu e Marcião, e acredita que o Senhor Jesus Cristo realizou todas as suas ações com uma falsa aparência, que seu corpo não era um corpo humano, mas um fantasma, que enganou os olhos daqueles que o contemplavam.
Naquilo em que Eutiques, em juízo episcopal, ousou dizer que antes da encarnação havia duas naturezas em Cristo, mas após a encarnação apenas uma, foi necessário que ele fosse insistentemente pressionado por interrogações para dar razão de sua profissão de fé. Pois julgo que ele, ao falar tais coisas, estava persuadido de que a alma que o Salvador assumiu tinha habitado nos céus antes de nascer da Virgem Maria1. Mas as mentes e ouvidos católicos não toleram isso, pois o Senhor, vindo do céu, não trouxe consigo nada de nossa condição, nem recebeu uma alma que tivesse existido anteriormente, nem uma carne que não fosse do corpo materno. Por isso, aquilo que foi justamente condenado em Orígenes2, que afirmou que as almas, antes de serem inseridas nos corpos, não só possuíam admiráveis, mas também diversas ações, é necessário que seja castigado neste.
[1] Esta opinião, que envolve o Nestorianismo, o erro oposto ao Eutiquianismo ou Monofisismo, é imputada a Eutiques por Flaviano, ap. Leon. Ep. xxii. 3. Ephraem, Antioch, ap Phot. p. 805. Leont. de Sectis 7 init. ↩
[2] Vid. Origen in Joan. t. i. n. 37. t. xx. n. 17. Patriarch. ii. 6. n. 4. ix. Cels. i. 32, 33. ↩
Não te perturbe a concepção de Deus, nem te confunda o que ouves sobre o parto, pois a virgindade exime de tudo o que é pudor humano. Ou que ofensa ao recato existe aqui, onde a divindade estabelece uma aliança com a integridade que sempre lhe é querida, onde o Anjo é o intérprete, a fé é a madrinha, a castidade é o desposório, a virtude é o dom, a consciência é o juiz, Deus é a causa, a integridade é a concepção, a virgindade é o parto, e a virgem é mãe?
Ele foi concebido do Espírito Santo no ventre da Virgem Mãe, que o deu à luz preservando sua virgindade, assim como o concebeu preservando a virgindade.
O próprio Cristo, expectativa das nações, a quem outrora foi prometida uma inumerável sucessão ao beatíssimo patriarca Abraão, não gerada pela semente da carne, mas pela fecundidade da fé; e por isso comparada à multidão das estrelas, para que do pai de todas as nações, não uma descendência terrena, mas celeste fosse esperada. Para acreditar, portanto, os herdeiros da posteridade prometida, designados nas estrelas, são despertados pelo surgimento de uma nova estrela, para que naquilo em que o céu foi apresentado como testemunho, o obséquio dos céus preste serviço.
Ou, para além daquela aparição da estrela que estimulou a visão corpórea, um raio mais resplandecente da verdade instruiu completamente seus corações; e isto, na verdade, pertencia à iluminação da fé.
Aquilo que eles haviam acreditado e compreendido deveria ter-lhes bastado para que não investigassem com o olhar corporal o que haviam contemplado com a visão plena da mente; mas a diligência de um ofício zeloso que perseverou até ver o menino servia aos homens do nosso tempo, para que assim como foi proveitoso para todos nós que, após a ressurreição do Senhor, a mão do apóstolo Tomé explorasse as marcas de suas feridas, da mesma forma, para nossa utilidade, contribuísse o fato de que o olhar dos magos comprovasse a infância dele; por isso dizem: "Viemos adorá-lo".
Tu te perturbas, Herodes, sem razão. Tua região não comporta Cristo, nem o Senhor do mundo se contenta com os estreitos limites do teu domínio. Aquele a quem não queres que reine na Judeia, reina em toda parte.
Herodes também representa a pessoa do Diabo, de quem como antes foi instigador, assim agora também é imitador incansável. Pois é atormentado pela vocação dos gentios, e aflige-se pela destruição diária de seu poder.
Os magos, segundo a compreensão humana, acreditaram que o nascimento do rei que lhes fora anunciado deveria ser procurado na cidade real. Mas Aquele que tomou a forma de servo, e não veio para julgar, mas para ser julgado, escolheu Belém para seu nascimento, Jerusalém para sua paixão.
Pequeno em tamanho, necessitando do auxílio alheio, incapaz de falar, e em nada diferente da condição geral da infância humana; porque assim como eram fiéis os testemunhos que nele demonstravam a majestade da divindade invisível, assim também deveria estar plenamente provado que aquela essência eterna do Filho de Deus assumiu verdadeiramente a natureza humana. Com Maria, sua mãe.
O jejum, com efeito, deve ser cumprido não somente pela parcimônia de alimentos, mas sobretudo pela privação dos vícios. Pois, uma vez que esta mortificação é assumida para que sejam removidos os incentivos dos desejos carnais, nenhuma outra condição de consciência deve ser mais buscada do que estar sempre sóbrio da vontade injusta e em jejum da ação desonesta; esta devoção não exclui os debilitados, porque mesmo num corpo enfermo pode-se encontrar a integridade da alma.
Providenciando, pois, os príncipes para que não se originasse tumulto no dia santo, não se dedicavam à festividade, mas ao crime; pois temiam que se fizessem sedições das turbas na principal solenidade, não para que o povo não pecasse, mas para que Cristo não escapasse.
Compreendemos ter sido disposto pelo divino conselho que os príncipes dos judeus, que muitas vezes haviam buscado ocasiões de enfurecer-se contra Cristo, não recebessem poder para exercer seu furor senão na solenidade pascal. Pois convinha que se cumprissem com efeito manifesto os mistérios prometidos que há muito haviam sido prefigurados, para que a verdadeira ovelha removesse a ovelha significativa, e em um único sacrifício se consumasse a diversidade das várias vítimas. Assim, para que as sombras cedessem ao corpo e cessassem as imagens na presença da verdade, a hóstia passa para outra hóstia, o sangue é suprimido pelo sangue, e a festividade legal, enquanto se transforma, se cumpre.
Aquele que não abandonou Cristo por perturbação do medo, mas o traiu por cobiça de dinheiro; pois por amor ao dinheiro todo sentimento é vil, e a alma sedenta de lucro não teme perecer mesmo por algo exíguo; e não há vestígio algum de justiça naquele coração onde a avareza faz sua habitação. O pérfido Judas, embriagado por este veneno, enquanto tinha sede de lucro, foi tão estupidamente ímpio que vendeu seu Senhor e Mestre. Por isso disse aos príncipes dos sacerdotes: "O que quereis me dar, e eu vo-lo entregarei?"
Em isto mostrou que conhecia a consciência de seu traidor, não confundindo o ímpio com uma repreensão áspera e aberta, mas convencendo-o com uma advertência leve e tácita, para que o arrependimento corrigisse mais facilmente aquele que nenhuma rejeição deformara.
Não excluindo o traidor deste mistério, para que se manifestasse que Judas não havia sido provocado por injúria alguma, mas que havia sido previsto em sua voluntária impiedade.
Esta voz da cabeça é a salvação de todo o corpo; esta voz instrui todos os fiéis, inflama todos os confessores, coroa todos os mártires. Pois quem poderia superar os ódios do mundo, quem as tempestades das tentações, quem poderia vencer os terrores dos perseguidores, se Cristo em todos e por todos não dissesse ao Pai: "faça-se a tua vontade"? Aprendam, portanto, esta voz todos os filhos da Igreja; para que quando sobrevier a adversidade de alguma violenta tentação, superado o temor do medo, recebam a tolerância do sofrimento.
O Senhor, porém, não permite que o piedoso impulso do zeloso Apóstolo avance além; por isso segue: então Jesus lhe diz: coloca tua espada em seu lugar. Pois era contrário ao sacramento de nossa redenção que, Aquele que viera para morrer por todos, não quisesse ser capturado. Dá, portanto, aos que se enfurecem contra Ele, licença para ensanhar-se, para que não se retardasse o triunfo da gloriosa cruz, nem se prolongasse a dominação diabólica, nem se tornasse mais duradoura a escravidão humana.
Por esta razão, como parece, foi permitido que ele vacilasse, para que no príncipe da Igreja fosse estabelecido o remédio da penitência, e ninguém ousasse confiar em sua própria virtude, quando nem mesmo o bem-aventurado Pedro pôde escapar do perigo da mutabilidade.
Felizes lágrimas, ó santo Apóstolo, que tiveram a virtude do sagrado Batismo para lavar a culpa da negação. Pois a mão direita do Senhor Jesus Cristo interveio, a qual te susteve antes que caísses completamente; e recuperaste a firmeza de permanecer de pé no próprio momento do perigo de queda. Rapidamente, pois, Pedro retornou à solidez, como quem recobra a fortaleza; para que aquele que então se havia atemorizado na paixão de Cristo, depois não temesse em seu próprio suplício, mas permanecesse constante.
Dizendo, todavia: "Pequei, entregando sangue justo", persistiu na perfídia de sua impiedade, pois acreditou que Jesus não era o Filho de Deus, mas apenas um homem de nossa mesma condição, mesmo nos extremos perigos de sua morte; cuja misericórdia teria alcançado, se não tivesse negado sua onipotência.
Excedeu, portanto, à culpa de Pilatos o crime dos judeus; mas ele mesmo escapou da acusação, que abandonou seu próprio julgamento, e transferiu-se para o crime alheio; pois segue: "então soltou-lhes Barrabás, e Jesus, tendo sido flagelado, entregou-o a eles, para que fosse crucificado".
Dois ladrões, um à direita e um à esquerda, são crucificados, para que na própria forma do patíbulo fosse mostrada aquela separação de todos os homens que será feita em seu julgamento. A Paixão de Cristo, portanto, contém o sacramento de nossa salvação; e do instrumento que a iniquidade dos judeus preparou para o castigo, o poder do Redentor fez um degrau para a glória.
De que fonte de erro, ó judeus, bebestes o veneno de tais blasfêmias? Quem foi vosso mestre? Que doutrina vos persuadiu que devíeis acreditar ser aquele o rei de Israel, aquele o Filho de Deus, que ou não se permitiria ser crucificado, ou libertaria seu corpo da fixação dos cravos? Não foram os mistérios da lei nem as palavras dos profetas que vos anunciaram isto, mas verdadeiramente lestes: "Não afastei minha face da confusão dos escarros". E ainda: "Transpassaram minhas mãos e meus pés; contaram todos os meus ossos". Acaso lestes: "o Senhor desceu da cruz"? Mas lestes: "O Senhor reinou desde o madeiro"1.
[1] Salmo 95,10. "Dominus regnavit a ligno", na antiga versão Itálica; e assim Tertuliano adv. Marc. iii. A Vulgata segue o Hebraico. ↩
É suficiente como testemunho da sua venerável Paixão a súbita perturbação dos elementos; por isso segue-se: "e a terra tremeu, e as pedras se fenderam, e os sepulcros se abriram".
Com o exemplo, portanto, do centurião, trema diante do suplício do seu Redentor a substância terrena, rompam-se as pedras das mentes infiéis, e os que estavam sepultados nos sepulcros da mortalidade, removidos os obstáculos que os detinham, ressurjam; apareçam também agora na cidade santa, isto é, na Igreja de Deus, os sinais da futura ressurreição; e o que deve ser acreditado nos corpos, faça-se nos corações. Segue-se: "estavam ali muitas mulheres de longe, que tinham seguido Jesus desde a Galileia, servindo-o".
Pois aquele que subiu aos céus, não abandona seus adotados, e Ele mesmo, de cima, fortalece para a paciência aqueles a quem convida para a glória; desta glória nos faça participantes o próprio Cristo, Rei da glória, que é Deus bendito pelos séculos. Amém.
Se o verdadeiro sumo sacerdote não expia por nós, valendo-se da natureza que nos é própria, e se o verdadeiro sangue do Cordeiro imaculado não nos purifica, então não existe, de modo algum, verdadeiro sacerdócio nem verdadeiros sacrifícios na Igreja de Deus, que é o corpo de Cristo. Ainda que esteja assentado à direita do Pai, Ele realiza o sacramento da expiação naquela mesma carne que assumiu da Virgem Maria.
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O vínculo da nossa unidade não pode ser firme, a não ser que o vínculo da caridade nos tenha atado em indivisível solidariedade... É a conexão de todo o corpo que constitui uma só saúde, uma só beleza. E esta conexão requer a unanimidade de todo o corpo, mas exige sobretudo a concórdia entre os bispos.
Visto que a misericórdia será exaltada sobre a condenação e que os dons da clemência hão de superar toda justa retribuição, todas as vidas conduzidas pelos mortais e todas as diversas espécies de ações serão avaliadas sob o critério de uma única regra. Nenhuma acusação se levantará onde se encontrarem obras de compaixão em reconhecimento ao Criador.
Ainda que a fé forneça o fundamento das obras, é somente nas obras que se manifesta a força da fé.
Também a nossa paz tem os seus perigos, caríssimos. Em vão os homens se sentem seguros por causa da liberdade concedida à sua fé, se não resistirem aos desejos do vício. Pela qualidade das obras se conhece o coração humano, e as ações exteriores revelam a beleza das almas. Há alguns, como diz o apóstolo, que "professam conhecer a Deus, mas O negam com as obras." Verdadeiramente se incorre na culpa da negação quando os ouvidos ouviram o que é bom, mas a consciência não o retém. A fragilidade da condição humana facilmente resvala para o pecado.
É, pois, com uma ternura inconfundível que tão grande riqueza da bondade divina foi derramada sobre nós, caríssimos. Não somente a utilidade dos exemplos precedentes serviu para nos chamar à eternidade, mas a própria Verdade "apareceu" em um corpo visível. Devemos, então, celebrar este dia do nascimento do Senhor com nenhuma alegria indolente e mundana.
Pela demora da sua obra salvífica, Ele nos fez mais bem dispostos a aceitar o seu chamado. Nisto se mostra a "bondade e benignidade de Deus". Por este meio, o que fora predito através de tantas eras por numerosos sinais, numerosas palavras e numerosos mistérios não mais estaria sujeito à dúvida nestes dias do evangelho. Assim, o nascimento do Salvador — que havia de exceder todas as maravilhas e toda a medida da inteligência humana — havia de engendrar em nós uma fé tanto mais firme quanto mais vezes e mais cedo houvesse sido de antemão anunciado.