São Máximo de Turim
Voz da tradição patrística presente na Catena Aurea (séc. IV–V). Biografia em preparação.
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O que se deu, como diz o Apóstolo, foi o mistério do batismo. Claramente isso foi uma espécie de batismo, em que a nuvem cobria o povo e a água os transportava. Mas o mesmo Cristo Senhor que operou todas estas coisas agora atravessa o batismo diante do povo cristão na coluna de Seu corpo — Ele que naquele tempo atravessou o mar diante dos filhos de Israel na coluna de fogo. … Por esta fé — como sucedeu com os filhos de Israel — aquele que caminha serenamente não temerá o Egito em perseguição.
Deseja, pois, que todas as nossas ações se cumpram tendo Cristo por companheiro e testemunha, a fim de que façamos o bem tendo-o por autor, e evitemos o mal por causa da Sua companhia. Aquele que sabe que Cristo é o seu companheiro tem vergonha de fazer o mal. Nas coisas boas, porém, Cristo é o nosso auxiliador, e diante das coisas más Ele é o nosso defensor.
Na ressurreição de Cristo, todos os seus membros necessariamente ressuscitaram com Ele. Pois, ao passar Ele das profundezas às alturas, fez-nos passar da morte para a vida.
Não se há, pois, de esperar em Cristo somente para esta vida, na qual os maus podem mais que os bons, na qual os mais ímprobos são mais felizes, e os que levam vida mais criminosa vivem mais prósperos.
Adão é formado do lodo pelas mãos de Deus. Cristo é formado no ventre pelo Espírito de Deus.
Mas também o bom lavrador, quando se dispõe a revolver a terra a fim de plantar os alimentos que sustentam a vida, não empreende isto senão pelo sinal da cruz. Pois, ao colocar o timão sobre o arado, ao fixar a aiveca e ao ajustar a rabiça, imita a forma da cruz, já que sua própria construção é como que uma semelhança da paixão do Senhor. Também o próprio céu está disposto na forma deste sinal, pois, sendo dividido em quatro partes — a saber, oriente, ocidente, sul e norte —, consiste em quatro quadrantes à semelhança da cruz. Até mesmo o porte de uma pessoa, quando ergue as mãos, descreve uma cruz; por isso nos é ordenado orar com as mãos levantadas, para que, pela própria postura de nosso corpo, confessemos a paixão do Senhor.
O santo apóstolo apresenta o testemunho dos profetas quando diz: "Num tempo aceitável te ouvi, e no dia da salvação te ajudei." E segue-se: "Eis agora o tempo aceitável; eis agora o dia da salvação." Por isso também vos testifico que estes são os dias da redenção, que este é, por assim dizer, o tempo da medicina celestial, quando poderemos curar toda mácula dos nossos vícios e todas as feridas dos nossos pecados. Assim o faremos se implorarmos fielmente o médico das nossas almas e não desprezarmos os Seus preceitos, como pessoas quase indignas de tal empresa. Pois o homem afligido pela sua enfermidade encontra a cura quando observa com o maior cuidado as ordens do seu médico; mas se faz uma coisa quando outra lhe é ordenada, então é o transgressor, e não o médico, o culpado, se a doença se agravar.
Bem-aventurada, pois, é a esmola, que tanto renova o que a recebe quanto alegra o que a dá, "porque Deus ama ao que dá com alegria", e por esta razão é melhor dar primeiramente a Ele. Alegre, portanto, e jubiloso é aquele que atende ao pobre. Bem manifestamente é ele alegre, porque por umas poucas e pequenas moedas adquire para si tesouros celestiais; ao contrário, aquele que paga tributos está sempre triste e abatido. Justamente está triste quem não é levado ao pagamento pelo amor, mas constrangido pelo temor. O devedor de Cristo, pois, é alegre, e o de César, triste, porque a um o amor impele ao pagamento, e ao outro a pena constrange; a um convidam as recompensas, ao outro compelem os castigos.
Os clérigos não parecem estar em serviço militar no mundo, contudo não deixam de ser soldados de Deus e do Senhor. Como diz o Apóstolo, Ninguém que milita para Deus se envolve nos negócios seculares. Nós parecemos, digo eu, não ser soldados em nossas túnicas soltas e fluentes, mas temos o nosso cinturão militar, pelo qual estamos vinculados a uma pureza interior.
Por meio da operação destas duas mós — o Antigo e o Novo Testamento —, a santa Igreja, então, age com incessante cuidado a fim de extrair a flor de farinha de um coração limpo dos pensamentos ocultos, uma vez dispersada a aspereza dos pecados, e produzir alimento espiritual dos grãos, quando estes tiverem sido purificados pelos mandamentos celestiais. Sobre este alimento diz o apóstolo Paulo: “Dei-vos a beber leite, e não alimento sólido”, e ainda: “O alimento sólido é para os perfeitos, que têm os sentidos exercitados pelo hábito”, e assim por diante. Purificando nossos corações de tudo quanto é humano, a alma fiel esforça-se por oferecer a Deus, por assim dizer, a mais fina flor de trigo, como diz o santo Davi: “O espírito quebrantado é sacrifício a Deus.” O evangelho, porém, avança com tal rapidez que somente os sábios conhecem o seu movimento. Sobre esta rapidez diz o bem-aventurado Paulo, com entendimento: “Que a palavra de Deus corra e seja glorificada em nós.” Mas aos olhos dos insensatos o evangelho parece deter-se — digo-o porque negligenciam os seus mandamentos, pois não creem que se cumprirá o que está escrito.
Pois o herege condena a si mesmo quando se lança para fora da Igreja Católica e, sem nenhuma coação, deixa a assembleia dos santos. Aquele que se separa de todos por juízo próprio manifesta aquilo que de todos merece. O próprio herege, digo eu, condena a si mesmo, porque, ainda que todos os ímpios sejam lançados fora da assembleia cristã pela sentença do bispo, o herege se retira por si mesmo, pelo juízo de sua própria vontade, antes que se manifestem os desígnios subsequentes de qualquer outro.