Teofilacto de Bulgária
Arcebispo de Ócrida
Teofilacto (c. 1055–1107), bizantino, arcebispo de Ócrida na Bulgária. Seus comentários sobre os Evangelhos, herdeiros diretos de Crisóstomo, destacam-se pela concisão luminosa: poucas linhas que condensam a tradição grega inteira. Por isso Tomás de Aquino o cita com tanta frequência na Catena Aurea.
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Pois a vinda de Cristo não necessita de quem a assinale, mas será absolutamente manifesta a todos, como o relâmpago. Pois, assim como o relâmpago é súbito e visto por todos, assim também a vinda do Senhor será visível a todos sobre a terra.
Ele denomina a esmola de comunicação da fé, porque ela é o fruto de muita fé.
Se querido, ele o perdoará; se cooperador, não reterá o escravo, mas o enviará de volta para o ministério da pregação.
Parece-me que Sabélio foi refutado por esta passagem. Pois ele afirmava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só pessoa, que algumas vezes aparecia como Pai, outras vezes como Filho, e outras vezes como Espírito Santo. Mas ele é manifestamente confundido por estas palavras: "e o Verbo estava com Deus"; pois aqui o Evangelista declara que um é o Filho, e outro é Deus, isto é, o Pai.
Ou de outro modo, continue. Depois que o Verbo estava junto de Deus, é manifesto que havia duas pessoas, embora uma só natureza exista nas duas; por isso se diz: e o Verbo era Deus; de modo que haja uma só natureza para o Pai e o Filho, uma vez que há uma só divindade.
E novamente, para que uma suspeita diabólica não inquietasse a alguns, de que talvez sendo o Verbo Deus, se levantasse contra o Pai (como alguns fabulam entre os gentios), e separado do Pai se tornasse contrário ao próprio Pai, diz: Este era no princípio junto de Deus; como se dissesse: este Verbo de Deus nunca existiu separado de Deus.
Costumam os arianos dizer que, assim como dizemos que uma porta é feita por uma serra, como por um instrumento, assim também se diz que todas as coisas foram feitas pelo Filho, não porque ele mesmo seja o criador, mas um instrumento; e assim afirmam que o Filho é uma criatura, como tendo sido feito para que por ele todas as coisas fossem feitas. Nós, porém, a estes forjadores de mentiras simplesmente respondemos: Se, como dizeis, o Pai criou o Filho para usá-lo como instrumento, pareceria que o Filho é menos digno de honra que as coisas que foram feitas; assim como aquelas coisas que são feitas através da serra são mais nobres que o próprio instrumento, pois a serra foi feita para elas. Assim também, por causa das coisas que foram feitas, como dizem, o Pai criou o Filho; como se, não devendo Deus criar todas as coisas, de modo algum teria produzido o Filho. O que poderia ser mais insensato que estas palavras? Mas dizem: por que não disse que o Verbo fez todas as coisas, mas usou esta preposição por? Para que não entendesses o Filho como ingênito, e sem princípio, e criador de Deus.
Havia dito "Nele era a vida", para que não pensasses que o Verbo estivesse sem vida; agora mostra que aquela vida é espiritual, e luz para todas as criaturas racionais; por isso diz: "E a vida era a luz dos homens"; como se dissesse: Esta luz não é sensível, mas intelectual, iluminando a própria alma.
Não disse que a luz é somente para os Judeus, mas para todos os homens; pois todos os homens, na medida em que recebemos intelecto e razão daquele Verbo que nos criou, somos ditos ser iluminados por Ele; porque a razão que nos foi concedida, pela qual somos chamados racionais, é uma luz que nos dirige para o que devemos fazer e o que não devemos fazer.
Se, porém, alguns não creram, ele permanece sem culpa: pois assim como se alguém se encerra em uma casa de trevas, e o próprio raio do sol não o ilumina, ele mesmo proporciona a causa, e não o sol; do mesmo modo São João foi enviado para que todos cressem; mas se isso não foi alcançado, ele não foi a causa deste fato.
Mas alguém dirá: portanto, não afirmaremos que São João ou qualquer um dos santos é ou tenha sido luz. Porém, se quisermos dizer que algum dos santos é luz, colocaremos luz sem o artigo; de modo que, se fordes interrogado se São João é luz sem o artigo, concedei com segurança; mas se for com o artigo, não concedais. Pois ele não é a própria luz principal; mas é chamado luz porque possui luz por participação da verdadeira luz.
Envergonhe-se o maniqueu, que afirma sermos criaturas de um criador maligno e tenebroso; pois não seríamos iluminados, se não fôssemos criaturas da verdadeira luz.
Ou de outro modo: o intelecto que nos foi concedido, e que nos dirige, o qual também é chamado de razão natural, diz-se luz transmitida a nós por Deus. Mas alguns, usando mal a razão, obscureceram a si mesmos.
Aqui também ele subverte a insensatez de Maniqueu, que dizia que um ser maligno havia produzido todas as coisas; e também a de Ário, que afirmava que o Filho de Deus era uma criatura.
Ou por próprios entenda o mundo, ou a Judeia, que Ele havia escolhido para Sua herança.
Ou porque na ressurreição conseguiremos a filiação perfeitíssima, conforme o que diz o Apóstolo: "esperando a adoção dos filhos de Deus, a redenção do nosso corpo". Deu, portanto, o poder de se tornarem filhos de Deus, isto é, a graça de conseguir esta graça na futura graça.
Apolinário de Laodiceia estabeleceu sua heresia baseado nesta palavra: afirmava que Cristo não tinha alma racional, mas apenas carne; tendo a divindade no lugar da alma, a qual dirige e governa o corpo.
O Evangelista, desejando mostrar a inefável condescendência de Deus, menciona a carne, para que admiremos a Sua misericórdia, pois por nossa salvação assumiu aquilo que é totalmente remoto e distante de Sua natureza, isto é, a carne; pois a alma tem alguma proximidade com Deus. Se, porém, o Verbo se encarnou e não assumiu a alma humana, seguir-se-ia que nossas almas ainda não estariam curadas: pois aquilo que Ele não assumiu, não santificou. E que escárnio seria, tendo a alma pecado primeiro, que ao assumir a carne a santificasse, mas deixasse enferma a parte mais importante! Subverte-se com esta afirmação Nestório, que dizia que não foi o próprio Deus Verbo que se fez homem, concebido do sagrado sangue da Virgem; mas que a Virgem deu à luz um homem que era dotado de toda espécie de virtude, e o Verbo de Deus estava unido a ele: e por isto afirmava haver dois filhos: um nascido da Virgem, isto é, o homem; outro de Deus, isto é, o Filho de Deus, unido àquele homem segundo a disposição da graça e do amor. Contra este, o Evangelista disse que o próprio Verbo se fez homem, não que o Verbo, encontrando um homem virtuoso, uniu-se a si mesmo.
Aprendemos, pois, por isto que se diz o Verbo se fez carne, que o próprio Verbo é homem, e, existindo como Filho de Deus, fez-se filho de mulher; a qual principalmente é chamada Mãe de Deus, como tendo gerado a Deus na carne.
Ou, cheio de graça, na medida em que sua palavra era graciosa, conforme disse Davi: "Derramada está a graça em teus lábios"; e de verdade, porque o que Moisés e os profetas falavam ou operavam em figura, Cristo o fez em verdade.
Diz, porém, "aquele que vem depois de mim", isto é, quanto ao tempo do nascimento: pois São João era seis meses mais velho que Cristo segundo a humanidade.
Os arianos, porém, interpretam este texto querendo demonstrar que o Filho de Deus não é gerado pelo Pai, mas feito como qualquer outra criatura.
Ou, de outro modo. Depois que o Evangelista disse acima que São João testemunhava sobre Cristo: "foi feito antes de mim", agora acrescenta quando São João deu o mencionado testemunho sobre Cristo; por isso diz: "E este é o testemunho de São João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a São João".
Ou porque anuncia a verdade de modo manifesto: pois todos os que estavam sob a lei falavam de modo obscuro.
Ou o Senhor estava no meio dos fariseus; mas eles O desconheciam, porque embora acreditassem saber as Escrituras, na medida em que nelas o Senhor era anunciado, Ele estava no meio deles, isto é, em seus corações; mas não O conheciam, porque não entendiam as Escrituras. Ou de outro modo. De fato, estava no meio deles, enquanto Cristo Jesus, mediador entre Deus e os homens, se apresentava no meio dos fariseus, querendo uni-los a Deus; mas eles não O conheciam.
Ou diz-se que Cristo é o Cordeiro de Deus, na medida em que Deus Pai aceitou a morte de Cristo para nossa salvação, ou na medida em que o entregou à morte por nós: pois como costumamos dizer: esta oblação é de tal homem, isto é, a que tal homem ofereceu; assim também Cristo é chamado o Cordeiro de Deus, ou seja, daquele que entregou seu filho à morte para nossa salvação. E aquele cordeiro simbólico não tirou absolutamente o pecado de ninguém; mas este tirou o pecado de todo o orbe terrestre: pois livrou o mundo em perigo da ira de Deus; donde acrescenta: eis aquele que tira o pecado do mundo. Não disse, porém: que tirará, mas que tira o pecado do mundo, como se ele sempre o fizesse: pois não o tirou somente quando padeceu, mas desde aquele tempo até o presente o tira, não estando sempre crucificado; porque ofereceu uma só oblação pelos pecados, mas sempre purificando por meio dela.
Mas por que não disse: os pecados do mundo, mas o pecado? Evidentemente para que, ao dizer pecado, parecesse indicar o pecado de modo universal; assim como costumamos dizer que o homem foi expulso do Paraíso, isto é, todo o gênero humano.
Visto que, antes, João havia dito aos que vieram dos fariseus: "Em meio a vós está aquele que vós não conheceis", aqui ele o demonstra aos que não o conheciam, dizendo: "Este é aquele de quem eu disse: depois de mim vem um homem que foi feito antes de mim". O Senhor é chamado homem devido à perfeição de sua idade, pois foi batizado aos trinta anos; ou porque é o esposo espiritual da alma e da Igreja; por isso diz São Paulo: "Eu vos desposei a um único esposo, para vos apresentar a Cristo como uma virgem casta".
Ouça, ó Ário. Ele não disse: porque foi criado antes de mim, mas porque era antes de mim. Que ouça isto também a heresia de Paulo de Samósata, que não tomou de Maria o seu princípio; porque se ele tomou o princípio de seu ser da Virgem, como poderia ter existido antes do precursor? Pois é manifesto que o precursor superava a Cristo em seis meses segundo a geração humana.
Olhando, disse, como que indicando com os olhos a graça e admiração que tinha por Cristo
Observa, pois, que o Senhor volta sua face àqueles que o seguem, e os olha: porque se não o seguires por meio de boas obras, nunca poderás chegar à visão de sua face, nem poderás entrar em sua morada.
Não foi em vão que o Evangelista também notou o tempo, quando acrescenta: era então como a hora décima; para instruir tanto os mestres quanto os discípulos de que o ensino não deve ser preterido por causa do tempo.
Pois a voz de Cristo não era dirigida simplesmente a todos, mas inflamava o interior dos fiéis com o seu amor: depois, porque no coração de Filipe havia pensamentos sobre Cristo, e a leitura assídua dos livros de Moisés, para que esperasse a Cristo, logo quando o viu, acreditou. Talvez também tenha aprendido algo sobre Cristo por André e Pedro, porque eram da mesma pátria; o que o Evangelista parece indicar pelo que acrescenta: era, pois, Filipe de Betsaida, cidade de André e Pedro.
Não porque nele havia nascido, mas fora criado. Pois a sua geração era desconhecida para muitos; mas que em Nazaré havia sido criado, era conhecido. E Nathanael lhe disse: de Nazaré pode sair algo de bom?
Mas Natanael, ainda que tivesse sido elogiado, não aquiesceu imediatamente, mas esperou, desejando ainda conhecer algo mais manifesto; e interroga; pois segue: Natanael lhe disse: de onde me conheces?
E não somente expulsou os que vendiam e compravam, mas também as coisas que lhes pertenciam; donde segue: e também as ovelhas e os bois, e derramou o dinheiro dos cambistas, e derrubou as mesas, isto é, as mesas de câmbio, que eram como recipientes de dinheiro.
Como os judeus viam Jesus fazer tais coisas com grande poder, e dizendo: "Não queirais fazer da casa de meu Pai uma casa de negociação", pedem-lhe um sinal; por isso diz-se: Responderam, pois, os judeus e disseram-lhe: Que sinal nos mostras para fazeres estas coisas?
De modo algum, porém, os incita ao homicídio dizendo "destruí"; mas demonstra que não lhe está oculto o que eles desejam. Ouçam, pois, os arianos, como o Senhor, destruidor da morte, disse "levantarei", evidentemente por virtude própria.
Os judeus, pensando que Ele falava do templo inanimado, escarneciam dele; por isso segue: disseram, pois, os judeus: em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?
A partir disto, Apolinarista extrai uma contradição, querendo mostrar que a carne de Cristo era inanimada, uma vez que o templo é inanimado: assim, farás a carne de Cristo como pedra e madeira, pois o templo consiste destas coisas. Se, porém, o que se diz: a minha alma está turbada; e: tenho poder para entregar a minha alma; se disseres que estas coisas não foram ditas sobre a alma racional, onde colocarás aquilo: em tuas mãos, Senhor, encomendo o meu espírito? Pois não poderás entender isso sobre a alma irracional; nem o que se diz: não deixarás a minha alma no Inferno.
Confunda-se, portanto, Macedônio, impugnador do Espírito, que afirmou ser o Espírito Santo um servo; pois o Espírito Santo, por seu próprio poder, opera onde quer e como quer.
Isto não é dito sobre Nicodemos, mas sobre a raça judaica, que até o fim permaneceu na perfídia.
Quando, porém, ouves que o Filho do homem desceu do céu, não penses que a carne desceu do céu; pois isto é um dogma dos hereges, que ensinavam que Cristo tomou o seu corpo do céu, e somente passou pela Virgem.
Veja, pois, a figura em relação à verdade: lá, a semelhança da serpente tem, de fato, a aparência de um animal, mas não possui veneno; do mesmo modo, também aqui Cristo, livre do pecado, veio na semelhança da carne do pecado. E ouvindo falar de exaltação, entenda a suspensão nas alturas, para que santificasse o ar Aquele que havia santificado a terra ao caminhar sobre ela; entenda também, por exaltação, a glória, pois aquela elevação da cruz tornou-se a glória de Cristo: naquilo em que quis ser julgado, nisso julgou o príncipe deste mundo. Pois Adão morreu justamente, porque pecou; o Senhor, porém, injustamente, porque não cometeu pecado. Portanto, depois de suportar injustamente a morte, venceu aquele que o entregou à morte, e assim libertou Adão da morte. Mas nisso o inimigo descobriu-se vencido: pois não pôde entristecer o Senhor na cruz para que odiasse os que o crucificavam; pelo contrário, mais os amava, e por eles orava. Assim, portanto, a cruz de Cristo tornou-se sua exaltação e glória.
Parece-me, porém, que, assim como disse acima que o Filho do homem desceu do céu, embora a carne não tenha descido do céu, mas por causa da única pessoa em Cristo, as coisas que são de Deus são atribuídas ao homem; mas também agora, pelo contrário, as coisas que são do homem são apropriadas ao Verbo de Deus: pois Deus, o Filho de Deus, permaneceu impassível; mas, porque havia um único Filho de Deus segundo a hipóstase e o homem que suportou o sofrimento, diz-se que o Filho foi entregue à morte, que sofria passivamente, não em sua própria natureza, mas em sua própria carne. E há uma grande utilidade decorrente deste modo de entrega, que excede a mente humana; pois segue-se que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. O Antigo Testamento prometia àqueles que o observavam a longevidade dos dias; o Evangelho, porém, promete a vida eterna e indissolúvel.
Cristo é o esposo de toda alma; o lugar nupcial, onde se efetua a união, é o lugar do Batismo, ou a Igreja. Dá como penhor à esposa a remissão dos pecados, a comunhão do Espírito Santo; e recompensará com bens mais perfeitos no século futuro aos que forem dignos. Nenhum outro é esposo senão somente Cristo: pois todos os doutores existem como paraninfos, assim como o precursor. Ninguém é dispensador dos bens senão o Senhor: todos os outros são ministros dos bens que são dados pelo Senhor.
Por isso alegro-me agora, porque todos o atendem. Pois se a esposa não se aproximasse do esposo, isto é, o povo, então eu, o paraninfo, sofreria.
Ou de outro modo. Assim como a luz de outros luminares, ao chegar o sol, parece extinguir-se, ainda que segundo a verdade não esteja extinta, mas oculta por uma luz maior; assim também o precursor, como estrela eclipsada pelo sol, diz-se que diminui. Cresce, porém, Cristo à medida que paulatinamente manifesta-se por milagres: não que crescesse ou progredisse em virtudes (pois esta é a opinião de Nestório1), mas segundo a manifestação de sua divindade.
[1] Nestório foi um patriarca de Constantinopla do século V que propôs uma distinção radical entre as naturezas humana e divina de Cristo, negando à Virgem Maria o título de Theotokos (Mãe de Deus). Sua doutrina, conhecida como nestorianismo, foi condenada no Concílio de Éfeso em 431. ↩
O próprio Cristo veio do alto, descendo do Pai, e está acima de todos, distinguindo-se de todos.
Quando, portanto, ouves que Cristo fala aquilo que ouviu e viu do Pai, não penses que necessita aprender do Pai; mas porque todas as coisas que Ele conhece naturalmente, tem-nas do Pai, por isso se diz que Ele ouve do Pai tudo o que conhece. Mas o que é que o Filho ouviu do Pai? Porventura o Filho ouviu a palavra do Pai? Pelo contrário, o Filho é o Verbo do Pai.
Assim, portanto, segundo a divindade, o Pai deu tudo ao Filho por natureza, não por graça. Ou, entregou todas as coisas em suas mãos, segundo a humanidade; pois Ele tem domínio sobre todas as coisas, tanto as que estão no céu quanto as que estão na terra.
Depois que os filhos de Jacó tornaram aquela cidade deserta, matando os siquemitas, esta cidade deserta com o passar do tempo Jacó deu em herança a José; de onde se diz: "dou-te uma porção a mais sobre teus irmãos, a qual tomei da mão do Amorreu, com minha espada e meu arco"; e isto é o que se acrescenta: "junto à propriedade que Jacó deu a José, seu filho". Segue: "estava ali a fonte de Jacó".
Mas por que o Evangelista faz menção ao terreno e à fonte? Primeiramente, para que, quando ouvirdes a mulher dizendo que nosso pai Jacó nos deu esta fonte, não vos admireis; em segundo lugar, pela recordação da fonte e do terreno somos ensinados que aquelas coisas que os patriarcas obtiveram pela fé que tinham em Deus, os judeus perderam por causa de sua impiedade, e seus lugares foram entregues aos gentios; por isso, nada de novo acontece agora quando os gentios, no lugar dos judeus, conseguiram o reino dos céus.
E para que ninguém acusasse o Senhor por ter vindo à Samaria, tendo proibido isso aos seus discípulos, por esta razão diz que estava sentado perto daquele lugar, a saber, cansado pelo caminho.
De maneira apropriada, a conversação com a mulher tomou ocasião da sede; pois segue-se: disse-lhe Jesus: dá-me de beber; porque segundo a humanidade tinha sede, tanto pelo cansaço quanto pelo calor.
Portanto, chamou água viva à graça do Espírito Santo, isto é, vivificante, refrigerante e motivadora. Pois a graça do Espírito Santo sempre move aquele que pratica boas obras, dispondo elevações em seu coração.
Quando ele diz "e seus rebanhos", isso demonstra a abundância das águas; como se dissesse: não somente a água é agradável, para que Jacó dela bebesse e seus filhos; mas também é tão abundante, que é suficiente para a grande multidão dos rebanhos do patriarca.
Porque a água que eu dou, sempre se multiplica: pois a semente e o princípio do bem, os santos recebem pela graça; eles mesmos, porém, negociam e trabalham para o seu aumento.
Ou porque muitos pensam que adoram a Deus segundo o espírito, isto é, segundo a alma, não tendo sobre Ele opinião correta, como os hereges; por isso acrescentou e em verdade. Talvez também alguém dirá que Ele insinua nas palavras mencionadas as duas partes da filosofia que existem entre nós, a saber, a ação e a contemplação: pois pelo espírito insinua o aspecto ativo, segundo o apóstolo: os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, estes são filhos de Deus; pela verdade, por sua vez, o aspecto contemplativo. Ou de outro modo: era opinião dos samaritanos que Deus estava limitado a um lugar, e que naquele lugar se devia adorar a Deus; contra os quais diz que os verdadeiros adoradores não adoram localmente, mas espiritualmente. Para os judeus, porém, tudo estava sob figura e sombra; e por isso diz que os verdadeiros adoradores não adorarão em figura, mas em verdade: porque, sendo Deus espírito, busca adoradores espirituais; e sendo verdade, busca os verdadeiros.
O Senhor, porém, sabendo que a Samaritana atrairia toda a cidade a Ele, indicou isto aos discípulos; por isso segue: "Ele, porém, disse-lhes: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis".
Diz, porém, "que vós não conheceis"; isto é, não sabeis que chamo de alimento a salvação dos homens; ou não sabeis que os samaritanos hão de crer e serão salvos. Os discípulos, entretanto, ainda duvidavam; por isso segue: "Diziam, pois, os discípulos uns aos outros: porventura alguém lhe trouxe de comer?"
Nisto, porém, que dizem os discípulos "porventura alguém lhe trouxe de comer?", deve-se considerar que o Senhor costumava aceitar alimentos oferecidos por outros, não porque precisasse do serviço alheio Aquele que dá alimento a toda carne, mas para que os que ofereciam obtivessem mérito, e ao mesmo tempo dando exemplo para não se envergonhar da pobreza, nem considerar penoso ser alimentado por outros; pois é próprio e necessário aos mestres ter outros que cuidem de sua alimentação, para que, não se preocupando com nada, possam cuidar com solicitude do ministério da palavra.
Também o Filho de Deus completou a obra de Deus, ou seja, o homem, mostrando em si mesmo nossa natureza sem pecado, perfeita e incorrupta em toda obra. Também completou a obra de Deus, ou seja, a lei, porque Cristo é o fim da lei, fazendo-a cessar, tendo sido completadas todas as coisas que nela estavam, e transformando o culto corporal em espiritual.
A saber, material. Eu, porém, vos digo que a colheita inteligível está próxima: pois dizia isto por causa dos samaritanos que vinham a ele; por isso acrescenta: levantai os vossos olhos e vede os campos, porque já estão brancos para a colheita.
Ou de outro modo. Porque o Senhor, saindo de Samaria, veio à Galileia, para que ninguém duvidasse e perguntasse por qual causa não permanecia sempre na Galileia, diz que, por causa disso, não permanecia na Galileia, porque nenhuma honra ali recebia; o que Ele mesmo testemunhou dizendo que "o profeta não tem honra em sua própria pátria".
O Evangelista nos recorda o milagre perpetrado em Caná da Galileia, da água convertida em vinho, para aumentar o louvor a Cristo; porque os galileus receberam Jesus não somente por causa dos milagres realizados em Jerusalém, mas também por aqueles que foram feitos entre eles mesmos; e ao mesmo tempo para mostrar que o oficial real creu por causa do milagre perpetrado em Caná, embora não tivesse conhecido perfeitamente a sua dignidade; de onde segue: e havia um certo oficial real, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum.
O régulo, porém, é todo homem: não só porque está próximo do rei de todas as coisas segundo a alma, mas também porque ele próprio tomou o principado sobre todas as coisas; cujo filho, isto é, a mente, tem febre por causa dos prazeres depravados e desejos. Aproxima-se de Jesus, e roga-lhe que desça; isto é, que use da condescendência de sua misericórdia, e perdoe os pecados, antes que seja mortificado pela enfermidade dos prazeres. Mas o Senhor diz "Vai", isto é, mostra um progresso contínuo em direção ao bem, e então teu filho viverá; mas se deixares de caminhar, teu intelecto será mortificado quanto à operação do bem.
Pois disse isto referindo-se àqueles que haveria de ressuscitar dentre os mortos, isto é, a filha do chefe da sinagoga, o filho da viúva e Lázaro.
Não somente o Pai deu ao Filho o poder de vivificar, mas também de fazer juízo; por isso diz: "e deu-lhe poder para fazer juízo".
Como se dissesse: Ele mesmo também escreveu e deixou seus livros entre vós, para que, se porventura vos esquecêsseis, pudésseis facilmente recordar; e se não crestes nos escritos, como crereis em minhas palavras não escritas?
Passa de lugar a lugar para provar a vontade do povo, e tornando os homens de cada cidade mais ávidos e mais solícitos; de onde segue: e seguia-o uma grande multidão, porque viam os sinais que Ele fazia sobre aqueles que estavam enfermos.
Porque os judeus o perseguiam, tomando ocasião para retirar-se, excluiu a Lei, indicando aos observantes que, vinda a verdade, cessa toda figura; e que não está sujeito às leis, para cumprir as festas legais. E observa que esta não era uma festa de Cristo, mas dos judeus.
Ou também para mostrá-lo a outros, não como quem ignorasse o coração de seu discípulo.
Portanto, o Senhor, tentando a Filipe para ver se ele tinha fé, descobriu que ele ainda estava sujeito às paixões humanas; o que fica evidente pelo que se segue: Filipe respondeu-lhe: duzentos denários de pão não lhes bastam para que cada um receba um pouco.
Mas o Senhor encontrou André semelhante a Filipe, embora contemplasse mais profundamente sobre Ele; pois segue: "Um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe: há aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes".
Confundam-se os maniqueus, que dizem que os pães e todas as demais coisas deste tipo foram criadas por um deus mau, porque o Filho do Deus bom, Jesus Cristo, multiplicou os pães. Pois se as criaturas fossem más, de maneira alguma o Bom teria multiplicado as coisas más.
Isto é, erva verde: pois era a Páscoa, que se realizava no primeiro mês da primavera. Segue-se sentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil. Somente os homens são contados pelo Evangelista, porque seguia o costume legal. De fato, Moisés contou o povo a partir dos vinte anos para cima, sem fazer nenhuma menção às mulheres, insinuando que tudo o que é viril e juvenil é digno e honroso diante de Deus. Segue-se Tomou, pois, Jesus os pães e, tendo dado graças, distribuiu aos que estavam sentados; e igualmente dos peixes, quanto queriam.
Aprendemos também por este milagre a não nos tornamos pusilânimes nas maiores dificuldades da pobreza.
Vede, pois, três milagres. O primeiro é que caminhava sobre o mar; o segundo é que acalma as ondas; o terceiro é que imediatamente fez o barco chegar à terra para onde iam: pois estavam muito distantes da terra quando o Senhor lhes apareceu.
Quando os homens ou os Demônios se esforçam para nos mover pelo temor, ouçamos a Cristo que diz: "Eu sou, não temais"; isto é, Eu sempre assisto, e como Deus permaneço, e nunca me ausento: não percais a fé em mim por falsos terrores. Vede também como o Senhor não se apresenta no início do perigo, mas no fim. Pois permite que estejamos no meio dos perigos, para que, lutando nas tribulações, nos tornemos mais fortes, e para que recorramos somente a Ele, que é poderoso para nos libertar das situações inesperadas. Pois quando o intelecto humano não puder prover por si mesmo, então advém a salvação divina. Se também quisermos receber Cristo em nossa pequena nave, isto é, habitar em nossos corações, imediatamente nos encontraremos na terra para onde queremos ir, isto é, no céu.
Cristo, porém, embora conhecesse que nada lhes aproveitaria, todavia, para utilidade comum, respondeu, e mostrou-lhes, ou melhor, a todos os homens, qual é a obra de Deus; de onde segue: respondeu Jesus, e disse-lhes: esta é a obra de Deus, que creiais naquele que Ele enviou.
Ele chama a si mesmo o pão verdadeiro, porque o Filho Unigênito de Deus, feito homem, foi principalmente significado pelo maná. Pois maná significa literalmente, o que é isto? Os judeus, ao vê-lo, espantados, diziam uns aos outros: o que é isto? Mas o Filho de Deus feito homem é ele mesmo o maná mais admirável, de tal modo que qualquer um pode perguntar: o que é isto? Como o Filho de Deus é Filho do homem? Como de duas naturezas se forma uma só pessoa?
Este pão, porém, existindo como vida segundo sua natureza, como Filho do Pai vivo, realiza sua própria obra, porque vivifica todas as coisas. Assim como o pão da terra conserva a frágil natureza da carne, também Cristo, pelas operações do Espírito, vivifica a alma e torna também o corpo incorruptível, pois por sua ressurreição é conferida a incorruptibilidade corporal; e por isso diz que dá vida ao mundo.
Não disse, porém, Eu sou o pão do alimento, mas da vida: porque, sendo tudo mortal, Cristo nos vivificou por si mesmo. E este pão não é da vida comum, mas daquela que não é interrompida pela morte; por isso acrescenta: quem vem a mim, não terá fome; e quem crê em mim, não terá sede jamais.
Ou, não terá sede nem fome; isto é, não se sentirá entediado para ouvir a palavra de Deus, nem terá sede intelectual: como se não tivesse a água do Batismo e a santificação realizada pelo Espírito.
Isto é, por se ter encarnado. Portanto, Ele não foi primeiro apenas homem, e depois assumiu a divindade, como Nestório fabula.
Neste ponto em que Ele diz "que eu darei", demonstra o Seu poder, pois não foi crucificado como servo menor que o Pai, mas voluntariamente; pois embora se diga que foi entregue pelo Pai, Ele todavia entregou-se a si mesmo. Observe, porém, que o pão que por nós é recebido nos mistérios, não é somente figura da carne de Cristo, mas é a própria verdadeira carne de Cristo; pois Ele não disse: o pão que eu darei representa a figura da minha carne, mas "é a minha carne". Este pão é transformado por palavras inefáveis através da bênção mística e pela habitação do Espírito Santo na carne de Cristo. Mas por que não vemos a carne? Porque se a carne fosse vista, o horror nos invadiria ao recebê-la; por isso, para condescender com a nossa fraqueza, tal alimento místico nos é apresentado conforme convinha ao nosso costume. Pela vida do mundo entregou a sua carne, porque morrendo, destruiu a morte. Eu também entendo por vida do mundo a ressurreição, pois a morte do Senhor proporcionou a ressurreição universal a todo o gênero humano. Talvez também a vida que consiste na santificação e na beatificação, e no espírito, chamou de vida do mundo: pois ainda que nem todos tenham recebido a vida que está na santificação e no espírito, contudo o Senhor entregou-se a si mesmo pelo mundo; e quanto Nele está, o mundo inteiro é santificado.
Porque não é carne de um simples homem, mas de Deus, e capaz de tornar o homem divino, como que inebriando-o de divindade.
Portanto, não comemos Deus puro, pois Ele é impalpável e incorpóreo; nem tampouco comemos a carne de um homem puro, a qual de nada poderia aproveitar. Mas como Deus uniu a Si a carne, a Sua carne torna-se vivificante; não porque tenha se transformado na natureza de Deus, mas segundo o exemplo do ferro incandescente, que permanece ferro e mostra o efeito do fogo; assim também a carne do Senhor é vivificante, como sendo a carne do Verbo de Deus.
Quando, porém, ouves que os seus discípulos murmuravam, não entendas aqueles que eram verdadeiramente seus discípulos, mas sim aqueles que pelo hábito e aparência pareciam receber instrução dele. Pois, entre seus discípulos, havia alguns do povo, que eram chamados seus discípulos porque permaneciam muito tempo com os discípulos.
Não penses, portanto, que o corpo de Cristo desceu do céu: pois isto é o que disseram os hereges Marcião e Apolinário, mas porque um e o mesmo era o Filho de Deus e do homem.
O Evangelista deseja mostrar-nos que Ele conhecia todas as coisas antes da fundação do mundo, o que era uma prova de Sua divindade.
Retirou-se agora para a Galileia, porque ainda não havia chegado o tempo de sua paixão; por isso considerava inútil permanecer entre seus inimigos, e excitá-los ainda mais ao ódio; assim, em seguida, descreve-se o tempo, quando acrescenta: era próxima a festa dos judeus, a Cenopégia1.
[1] Festa dos Tabernáculos. ↩
Pois como seus irmãos viram que ele não estava preparado para descer, acrescenta-se: "E seus irmãos lhe disseram: Parte daqui, e vai para a Judeia."
Isto é, as multidões que te seguem. Portanto, não se referem aos doze discípulos, mas a outros que conviviam com Ele.
Ou ainda, o Senhor apresenta duas razões contra as duas coisas de que o acusavam. Contra o temor ele diz que repreende as obras do mundo, isto é, as obras daqueles que apreciam as coisas mundanas: o que não faria se fosse temeroso; e contra a vanglória os enviou para a festa; por isso segue: vós subi a esta festa: pois se estivesse dominado pela paixão da vanglória, os teria mantido consigo: porque os que desejam a glória costumam ter muitos que os sigam.
Como o Senhor havia dito: "Não subirei convosco", negou subir no princípio, evitando a ira dos enfurecidos judeus; por isso diz: "Tendo dito estas coisas, Ele permaneceu na Galileia". Depois, porém, subiu; por isso segue: "Mas quando seus irmãos subiram, então Ele mesmo também subiu".
Porque no princípio da festa atendiam mais às coisas que eram próprias da festa; donde, depois ouviram a Cristo com mais atenção.
Como se dissesse: Sou veraz, porque minha doutrina contém a verdade; não há injustiça em mim, porque não usurpo a glória de outro.
Como se estivesse para queixar-se deles ao Pai: porque se injuriaram aquele que foi enviado, sem dúvida fizeram injúria àquele que o enviou.
Ao mesmo tempo, para se fazer audível, para conceder confiança e porque a ninguém temia.
Aquele, isto é, que era esperado. Outros, ou seja, o povo, diziam: "Este é o Cristo".
Não entre os príncipes; pois os príncipes eram de uma só vontade, a saber, não o receberem como Cristo. Aqueles que eram mais moderados na malícia, apenas com palavras se opunham à glória de Cristo; mas os que eram piores desejavam também impor-lhe as mãos; sobre os quais prossegue "e alguns deles queriam prendê-lo".
Por isso, os fariseus respondem aos ministros suavemente e brandamente, porque duvidavam de que, talvez, eles se separassem completamente deles e se unissem a Cristo.
Podes usar estas palavras contra Nestório; pois nosso Senhor não diz: "Em mim está a luz do mundo", mas "Eu sou a luz do mundo"; Aquele que parecia homem era tanto o Filho de Deus quanto a luz do mundo; não, como Nestório afirma erroneamente, o Filho de Deus habitando em um simples homem.
Como se dissesse: Vós, posto que estou na carne, julgando-me como sendo somente carne, e não Deus, julgais falazmente segundo a carne.
Alguns, porém, observam que isto foi dito pelos judeus como que por injúria e desprezo. De fato, eles o injuriavam como se fosse gerado de fornicação e desconhecesse seu próprio genitor, ou como se fosse vil aquele que se pensava ser seu pai, isto é, José; como se dissessem: desconhecido e ignóbil é teu pai; por que tão frequentemente nos mencionas teu pai? Portanto, como não perguntavam querendo saber, mas tentando, não responde à questão precedente; por isso segue responde Jesus: nem a mim conheceis, nem a meu Pai.
Envergonhe-se o ariano: pois se, segundo ele, o Filho é uma criatura, como pode aquele que conhece a criatura conhecer a Deus? Nem mesmo aquele que conhece a substância dos Anjos conhece a Substância Divina. Portanto, visto que aquele que conhece o Filho conhece o Pai, é certo que o Filho é consubstancial com o Pai.
Por isso manifestou que ressuscitará em glória, e se sentará à direita de Deus.
Nada mundano ou terreno desejando: por isso de nenhum modo chegaria a tal insensatez que me matasse a mim mesmo. Mas Apolinário, interpretando mal este discurso, afirma que o corpo do Senhor não era deste mundo, mas desceu do alto, dos céus. Porventura também os apóstolos, aos quais foi dito pelo Senhor: "vós não sois deste mundo", todos receberam seus corpos dos céus? Assim, pois, deve-se entender quando diz "eu não sou deste mundo", isto é, não sou do número de vós, que cuidais das coisas mundanas.
Ou porque havia dito: "Tenho muitas coisas a dizer e a julgar de vós", reservando o juízo para o século futuro, acrescenta: "Mas aquele que me enviou é veraz"; como se dissesse: Ainda que vós sejais infiéis, meu Pai é veraz, que estabeleceu o dia no qual vos será dada a retribuição.
Assim como acima disse aos infiéis: "morrereis em vossos pecados", assim também aos que permanecem na fé, anuncia a absolvição dos pecados.
Quando, porém, ouves que "digo o que vi", não entendas de forma alguma como visão corporal, mas como conhecimento natural, verdadeiro e aprovado. Pois assim como os olhos que veem, contemplam algo íntegra e verdadeiramente, sem se enganarem; assim eu falo verazmente aquelas coisas que conheci de meu Pai. Segue-se: "e vós fazeis o que vistes junto a vosso pai".
Como se respondessem que buscavam a vingança de Deus; e que por isto conspiravam contra Ele.
Pois ele acusou a Deus perante os homens, dizendo a Eva: "Porque vos inveja, proibiu-vos a árvore"; e a Deus ele acusou os homens, como quando disse: "Porventura Job adora ao Senhor gratuitamente?"
Como se dissesse: Se sois filhos de Deus, deveis certamente ter ódio aos que pecam. Se, portanto, a mim também, a quem odiais, não podeis acusar de pecado, é manifesto que me odiais por causa da verdade; isto é, porque Ele dizia ser Filho de Deus.
Ou chamavam-no samaritano, como se estivesse transgredindo os ritos hebraicos, por exemplo, do sábado; pois os samaritanos não judaizavam perfeitamente. E suspeitavam que tinha um demônio porque revelava os pensamentos deles. Mas quando o chamaram de samaritano, em parte alguma o Evangelista o diz: pelo que é evidente que os Evangelistas omitiram muitas coisas.
Ele honrou o Pai, vingando-O, e não tolerando que homicidas e mentirosos se chamassem a si mesmos verdadeiros filhos de Deus.
Como se dissessem: tu, que não és digno de consideração alguma, filho de um carpinteiro da Galileia, usurpas para ti a glória!
Porque se verdadeiramente conhecessem o Pai, venerariam o seu Filho. Desprezam também a Deus, que na Lei proibiu o homicídio, clamando contra Cristo; por isso acrescenta "e não O conhecestes".
Tendo naturalmente o conhecimento d'Ele; pois tal como eu sou, assim também é o Pai, pois eu me conheço a mim mesmo, e a Ele conheço. E dá uma prova de que O conhece quando acrescenta: e guardo a sua palavra, chamando de palavra os seus mandamentos. Alguns, porém, entendem o que se diz guardo a sua palavra assim: isto é, a razão da sua substância; pois a mesma é a razão da substância do Pai e do Filho; e por isso conheço o Pai, pois e é tomado no lugar de porque, de modo que o sentido seja: porque guardo a sua palavra.
Como se dissesse: Ele teve o meu dia como desejável e pleno de alegria, não como se eu fosse alguém insignificante ou casual.
Cristo tinha então trinta e três anos: por que, portanto, não disseram: ainda não tens quarenta anos, mas cinquenta? Tal questão é supérflua: simplesmente disseram o que lhes ocorreu no momento. Respondem, contudo, alguns que eles mencionaram o quinquagésimo ano por reverência ao jubileu, no qual libertavam os cativos e abriam mão das propriedades adquiridas.
Parece, no entanto, que esta questão é censurável: pois os apóstolos não haviam adotado as fábulas dos gentios, segundo as quais a alma, vivendo em outro mundo, pecou; mas para quem examina atentamente, não parece ser uma questão simples.
Alguns, no entanto, dizem que o barro não foi depositado, mas convertido em olhos.
Vede com quanta benevolência perguntam: pois não disseram: tu, que dizes daquele que não observa o sábado? Mas mencionam o milagre: como ele te abriu os olhos? Quase incitando o próprio curado; como se dissessem: ele te beneficiou, por isso deves proclamá-lo.
Como se dissessem: ou é falso que agora veja, ou é falso que tenha sido cego; mas é evidente que agora ele vê: portanto, é falso que o consideráveis cego
Pois eles eram mais fracos do que o filho, que se apresentava como uma testemunha intrépida da verdade, tendo os olhos do intelecto iluminados por Deus
Ou deve-se dizer que aquilo que foi dito, que Deus não ouve os pecadores, significa isto: que Deus não concede a pecadores fazer milagres. Quando, porém, imploram perdão pelos pecados cometidos, são transferidos do grau de pecadores para o estado de penitentes.
Ele diz isto para trazer-lhe à memória a cura, e porque dele havia recebido o poder de ver. Observe, porém, que aquele que falava nasceu de Maria, e este mesmo é o Filho de Deus, não uma pessoa e outra segundo o erro de Nestório; por isso segue: e o que fala contigo, ele mesmo é.
Como se dissesse: Eis que aquele que desde o nascimento não via, agora vê tanto no corpo quanto na alma; porém, aqueles que parecem ver, foram cegados em seu entendimento.
Não considerando o milagre realizado no cego, não sois dignos de perdão, por não terdes sido atraídos à fé pelos milagres vistos.
Ou, de outro modo. Se fôsseis cegos, isto é, ignorantes das Escrituras, de forma alguma tão grande pecado pesaria sobre vós, como quem peca por ignorância: agora, porém, porque vos declarais prudentes e conhecedores da lei, por vós mesmos sois condenáveis.
Ou o Espírito Santo é o porteiro, por meio do qual as Escrituras, abertas para nós, indicam Cristo.
Significa também o Anticristo, que enganando por um pouco de tempo, não manterá seguidores após a sua morte.
O Senhor conduz as ovelhas aos pastos pela porta; por isso segue-se: e entrará, e sairá, e encontrará pastos. Quais são estes pastos senão a delícia futura e o descanso no qual o Senhor nos introduz?
Ou bem a palavra entrar se aplica àquele que se ocupa do homem interior; sair, por sua vez, a quem mortifica em Cristo o homem exterior, isto é, os membros que estão sobre a terra: pois este encontrará pastagens no século futuro.
Em sentido místico, o ladrão é o diabo, que vem tentando para roubar por meio de pensamentos ilícitos, e matar pelo consentimento, e depois destruir pelas obras.
Daqui, porém, podes deduzir a diferença entre o mercenário e o pastor: pois o mercenário não conhece as ovelhas, porque raramente as visita; o pastor, por sua vez, conhece as suas próprias ovelhas, como quem tem solicitude para com elas.
Pois os sedutores não expuseram suas vidas pelas ovelhas, mas, como mercenários, abandonaram aqueles que os seguiam. O Senhor, porém, para que não fossem capturados, disse: "Deixai estes irem embora"(São João 18,8).
Pois o sinal do batismo é o mesmo para todos, e um só pastor, o Verbo de Deus. Atentem, pois, os maniqueus, que há um só redil e um só pastor, tanto no Novo quanto no Antigo Testamento.
O Pai amou o Filho, não como recompensa pela morte que haveria de suportar por nós, concedendo-lhe seu amor; mas como contemplando no Filho gerado sua própria natureza, de onde procedeu tal caridade pela qual quis enfrentar a morte por nós.
Pois aqui nada mais é chamado de preceito senão aquela perfeita concordância com o Pai
Depois de ter demonstrado coisas sublimes sobre si mesmo, manifestando-se como o princípio da morte e da vida, novamente introduz coisas humildes, assim conectando ambas as naturezas com admirável disposição, para que não seja considerado nem menor ou subordinado ao Pai, nem adversário de Deus, mas de igual poder e conselho.
Celebravam esplendidamente a solenidade, como se a cidade estivesse recuperando seu próprio decoro após tão longo cativeiro.
O Evangelista menciona o tempo de inverno, para mostrar que estava próximo o tempo da paixão: pois na primavera seguinte sofreu o Senhor; e por isso permanecia em Jerusalém.
Procura tu também, enquanto o inverno se aproxima, isto é, enquanto a vida presente é sacudida pelas tempestades da iniquidade, celebrar as encênias espirituais do teu templo, renovando-te sempre a ti mesmo, e dispondo ascensões em teu coração: então Jesus estará presente contigo no pórtico de Salomão, concedendo-te um estado pacífico sob sua própria proteção. Porém, na vida futura, ninguém poderá realizar as solenidades da renovação.
Depois de ter-lhes dito: "Não sois das minhas ovelhas", consequentemente os exorta a se tornarem suas ovelhas, dizendo: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz".
Mas como vemos que Judas pereceu? Porque não permaneceu até o fim. Cristo, porém, disse isto sobre os que perseveram; pois se alguém se separa do rebanho das ovelhas, deixando de seguir o pastor, imediatamente incorre em perigo.
O Senhor, porém, mostrando que não tinham qualquer justa ocasião para enfurecerem-se contra Ele, recorda os sinais que fizera; pois segue-se: Respondeu-lhes Jesus: Muitas boas obras vos mostrei de meu Pai.
Ou o santificou, isto é, o consagrou para ser sacrificado pelo mundo. No que demonstra que Ele não era Deus como os demais: pois salvar o mundo é uma obra divina, não de um homem deificado pela graça.
Deve-se notar que frequentemente o Senhor conduz o povo a lugares solitários, resgatando-o da sociedade dos infiéis, para que produzam mais frutos; assim como, ao dar a Lei antiga, conduziu o povo ao deserto. No sentido místico, o Senhor afastando-se de Jerusalém, isto é, do povo judeu, transfere-se para lugares que têm fontes, ou seja, para a Igreja formada pelos gentios, que possui a fonte do Batismo, por meio da qual muitos chegam a Cristo, como que atravessando o Jordão.
E como eram mulheres, às quais não convém sair facilmente de casa. Expressam muita devoção e grandeza de fé, dizendo: eis que aquele a quem amas está enfermo; pois acreditavam haver tão grande poder no Senhor, que parecia admirável como a enfermidade pudesse acometer um homem a quem Ele amava.
Alguns, porém, entendem este dia como o tempo que precede a paixão, e a noite como a própria paixão. Ele lhes diz, pois: enquanto é dia, isto é, enquanto ainda não se aproxima o tempo da paixão, não tropeçareis: pois os judeus não vos perseguirão; mas quando vier a noite, refiro-me à minha própria paixão, desde então possuireis a noite das angústias.
Alguns entenderam este trecho da seguinte maneira: Alegro-me, diz Ele, por vós; pois, não estando eu presente, isso contribui para o fortalecimento da vossa fé; porque se eu estivesse presente, teria curado o enfermo, o que seria um sinal modesto para indicar o meu poder. Mas como, na minha ausência, sobreveio a morte, vós sereis mais fortalecidos na fé em mim quando virdes que posso ressuscitar até mesmo um defunto em putrefação.
Primeiramente, ela não revelou à sua irmã, querendo ocultar isto dos que estavam presentes; porque se Maria tivesse percebido que Cristo se aproximava, teria ido ao seu encontro, e os judeus presentes a teriam acompanhado, os quais Marta não queria que soubessem da chegada de Jesus. Segue-se: "E Marta disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido".
Ou então considerou a própria presença de Cristo como um chamado, como se dissesse: é inexcusável que, estando Ele presente, tu não saias ao seu encontro.
Ainda que também parecia diminuir-se, dizendo: "Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido".
Para aprovar a condição humana, ordena-lhe que siga o que lhe é próprio, impondo-lhe também pela virtude do Espírito Santo, e a reprime. O Senhor permite que a natureza sofra todas estas coisas, tanto para provar que era homem verdadeiro e não aparente, quanto para nos ensinar, impondo um limite à tristeza e à alegria. Pois não compadecer-se nem entristecer-se de forma alguma é próprio dos animais, e o excesso destas emoções é próprio da mulher. Segue-se que disse: "Onde o colocastes?"
Marta diz isto como que desconfiando, como se acreditasse ser impossível que seu irmão pudesse ser ressuscitado, devido ao longo tempo transcorrido em dias.
Cristo, porém, rememora à mulher aquelas coisas das quais havia tratado com ela, e fala quase como se ela estivesse esquecida; daí segue-se diz-lhe Jesus: não te disse eu que, se creres, verás a glória de Deus?
A alta voz do Salvador que ressuscitou a Lázaro é um sinal da grande trombeta que soará na ressurreição universal. Ele clamou ainda mais alto para refrear as bocas dos gentios que fabulam que as almas dos defuntos estão nos túmulos; pois como se ela estivesse permanecendo fora, a chama por meio de um clamor. E assim como a ressurreição universal ocorrerá num piscar de olhos, assim também esta ressurreição singular; e por isso segue-se: e imediatamente saiu aquele que estava morto, atado de mãos e pés com faixas, e seu rosto estava ligado com um sudário. Já se cumpre o efeito do que foi dito: "vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão".
Convinha admirar e exaltar aquele que realizava tais milagres: eles, porém, decidem antes tramar para matá-lo; por isso diz: reuniram, pois, os pontífices e os fariseus um Concílio contra Jesus, e diziam: que fazemos?
Mas isto ele disse com uma intenção depravada; contudo, a graça do Espírito Santo usou sua boca para um presságio do futuro; de onde se segue: Mas isto não disse de si mesmo; mas sendo pontífice daquele ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação.
Subiram, pois, antes da Páscoa para se purificarem: porquanto todos os que haviam pecado involuntariamente ou voluntariamente, não celebravam a Páscoa a não ser que fossem antes purificados, como era costume, por meio de banhos e jejuns, e raspando a cabeça, e também oferecendo certas oblações prescritas. Estes, portanto, celebrando a purificação, armavam ciladas ao Senhor; por isso segue: "Buscavam, pois, a Jesus, e conversavam uns com os outros, estando no templo: que vos parece? Não virá Ele à festa?"
Mas se tais coisas somente o vulgo praticasse, certamente a paixão pareceria proceder da imperícia; mas também os fariseus ordenam que ele seja capturado; por isso segue-se "e os príncipes dos sacerdotes e os fariseus haviam dado mandamento que, se alguém soubesse onde ele estava, o indicasse para que o prendessem".
No décimo dia do mês, os judeus tomam o cordeiro para ser imolado na festa da Páscoa, pois desde então começam as solenidades da festividade. Por isso, no dia que é o nono do mês e que precede o sexto dia antes da Páscoa, celebram um esplêndido banquete, e constituem este dia como o começo da festa. Isso explica por que Jesus, dirigindo-se a Betânia, também participou de um banquete; donde se segue: "fizeram-lhe ali uma ceia, e Marta servia". Pelo fato de dizer que Marta servia, o evangelista insinua que o banquete era na casa dela. Mas observe a fidelidade da mulher: ela não impõe o serviço às criadas, mas ela mesma o assume. E querendo o Evangelista indicar um sinal da verdadeira ressurreição de Lázaro, acrescenta: "Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele".
Alguns, de fato, admitem que Judas tinha assumido a administração do dinheiro, por ser considerado o menor de todos. Pois a administração do dinheiro é inferior à administração da doutrina, conforme o que dizem os apóstolos: "Não é justo que abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas".
Eles desejavam ver com seus próprios olhos aquele que havia sido ressuscitado dos mortos, esperando também obter de Lázaro algum relato sobre as regiões inferiores.
Os judeus, porém, o chamavam Rei de Israel, como quem sonha com um rei sensível: esperavam, de fato, que surgisse alguém como rei, maior do que segundo a natureza humana, para salvá-los da jurisdição dos romanos. De que modo, porém, o Senhor veio, mostra o Evangelista acrescentando: "e Jesus encontrou um jumentinho, e sentou-se sobre ele".
Observai a consequência da paixão. Ressuscitou Lázaro, reservando este novíssimo milagre para o fim, e por isto muitos concorriam e criam; donde segue: Dava, pois, testemunho a multidão que estava com ele quando chamou Lázaro do sepulcro e o ressuscitou dentre os mortos; por isso também a multidão veio ao seu encontro, porque ouviram que ele tinha realizado este sinal. Daí o ciúme e as insídias; donde segue: Os fariseus, porém, diziam entre si: Vedes que nada conseguimos? Eis que o mundo inteiro vai após ele.
Como se dissessem: Quanto mais armeis ciladas, tanto mais este homem cresce, e sua glória se intensifica; portanto, que proveito há de tantas insídias?
Pois como era muito oneroso ouvir que era necessário odiar a alma, consola por meio do que acrescenta "neste mundo", indicando a particularidade do tempo; pois não ordena que se tenha ódio à alma perpetuamente; e coloca a recompensa quando diz "a guarda para a vida eterna".
E não era de pequena iniquidade não crer em tão grandes sinais: estes sinais que ele menciona são os que foram expostos anteriormente.
Como o Filho é o Verbo do Pai, e revela completamente o que está na mente do Pai, Ele diz que recebeu um mandamento sobre o que deve dizer e o que deve falar. Assim como nossa palavra, se queremos confessar a verdade, profere aquilo que a mente sugere. Segue-se "e sei que o seu mandamento é a vida eterna".
Como o Senhor estava para emigrar do presente século, explica qual amizade mantinha para com os seus; por isso diz-se: Antes do dia da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como tivesse amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
Como, portanto, o Pai lhe confiou todas as coisas nas mãos; isto é, confiou-lhe a salvação dos fiéis; considerava adequado mostrar-lhes todas as coisas que dizem respeito à salvação. Sabendo também que saíra de Deus e a Deus vai, de modo algum sua glória poderia ser diminuída ao lavar os pés dos discípulos: pois não usurpou a glória; porque aqueles que usurpam dignidades jamais se rebaixam, para não perderem o que irregularmente tomaram para si.
Deduz-se disso que ele não lavou Pedro primeiro; porém, nenhum dos outros discípulos teria ousado ser lavado antes de Pedro.
Necessariamente também aqui admoesta os apóstolos: porque, com efeito, eles haviam de ascender a dignidades, e estes de fato a maiores, aqueles a menores, para que não se ergam uns contra os outros, serena a consciência de todos.
Como se dissesse ambas as coisas: Não deveis vos perturbar, quer estejam preparadas, quer não. Pois ainda que não estejam preparadas, eu as prepararei para vós com todo o cuidado.
Quando, pois, exerces a vida ativa, Cristo torna-se para ti o caminho; quando, porém, perseveras na contemplativa, torna-se para ti a verdade. E a vida está associada tanto à vida ativa quanto à contemplativa: pois convém caminhar e pregar em vista do século futuro.
Por meio disso, ele nos expõe a doutrina dos milagres: pois pela oração e invocação de seu nome, qualquer um pode realizar prodígios.
Atenda também à sequência da glorificação do Pai. Em nome de Jesus foram realizados sinais pelos quais acreditavam nas palavras dos apóstolos: e assim, enquanto chegavam ao conhecimento do Pai, o Pai era glorificado no Filho.
Como que dizendo: Ainda que eu padeça a morte, contudo ressuscitarei. Vós também vivereis; isto é, quando me virdes, alegrar-vos-eis, e como mortos voltareis à vida na minha aparição.
Como se dissesse: Vós pensais que vos entristeceis com a minha morte por um certo afeto; mas eu considero a observância dos meus mandamentos como sinal de amor. E mostra que prerrogativa obtém aquele que ama, acrescentando: "Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei".
Ou porque depois da ressurreição havia de aparecer-lhes em um corpo que representasse mais a divindade, para que não acreditassem que ele seria um espírito, ou um fantasma, por isso predisse-lhes; para que então, vendo-o, não desconfiem, mas se lembrem que por causa da observância dos seus mandamentos ele aparece a eles; e por isso eles estão obrigados a guardá-los sempre, para que perpetuamente lhes apareça.
O Espírito Santo, portanto, tanto ensinou quanto recordou: ensinou, de fato, todas as coisas que Cristo não lhes havia dito, como a quem não era capaz de suportá-las; recordou, porém, todas as coisas que o Senhor havia dito, mas que, por causa da obscuridade ou da lentidão de entendimento, não puderam confiar à memória.
Os frutos dos apóstolos são as nações que, por meio de sua doutrina, foram vinculadas à fé e também reduzidas à glória de Deus.
Como havia dito: "Se guardardes meus mandamentos, permanecereis no meu amor", aqui ele mostra quais mandamentos devem ser observados, dizendo: "Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros".
Como se dissesse: O servo não conhece os desígnios de seu senhor; mas a vós, a quem considero amigos, comuniquei meus segredos.
Ou de outro modo: Se, diz Ele, perseguiram ao Senhor, muito mais perseguirão a vós, que sois servos; se não o tivessem perseguido, mas guardado a sua palavra, também guardariam a vossa.
E em outros lugares certamente diz que o Pai envia o Espírito; agora, porém, quando disse que Ele mesmo O enviaria, indica a equipolência. Mas para que não se julgasse que resiste contra o Pai, como transmitindo o Espírito a partir de outro poder, acrescentou do Pai; como se o Pai aceitasse e igualmente destinasse. Quando, porém, ouves que procede, não entendas a processão como uma missão imposta exteriormente, pela qual são enviados os espíritos administrativos; mas chama de processão algo diferente e próprio de uma ação excepcional, atribuída unicamente ao Espírito principal: pois a consistência original do Espírito é a processão. Portanto, proceder não deve ser tomado por enviar, mas por obter do Pai a essência natural.
Como o Senhor havia dito acima: "É conveniente para vós que eu vá", agora amplia isto dizendo: "Ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas não podeis suportá-las agora".
Vossa alegria então será completíssima, quando vossas súplicas forem atendidas conforme os pedidos
Ainda lhes dá confiança, pois receberão auxílio do alto nas tentações, quando acrescenta: "naquele dia pedireis em meu nome"; de tal modo vos asseguro que o Pai vos favorecerá, que nem mesmo necessitareis mais da minha intervenção; por isso acrescenta: "e não vos digo que rogarei ao Pai por vós, pois o próprio Pai vos ama". Contudo, para que não se afastem do Senhor, como se não necessitassem mais dele, acrescenta: "porque vós me amastes"; como se dissesse: Por isso o Pai vos ama, porque vós me amastes. Quando, portanto, vos afastardes do meu amor, imediatamente caireis também do amor do Pai.
Depois, pois, que orou pelos fiéis e lhes prometeu tantas prosperidades, acrescenta algo piedoso e digno de sua própria mansidão, dizendo: Pai justo, o mundo não te conheceu; como se dissesse: Eu desejaria que todos os homens conseguissem os referidos bens, que implorei para os fiéis; mas porque não te conheceram, não alcançarão a glória e as coroas.
Judas sabia que o Senhor costumava ensinar aos discípulos algo sublime nos dias festivos; estava acostumado a ensinar tais coisas místicas em tais lugares, e como então era um dia solene, pensou que Ele estaria lá, ensinando aos discípulos coisas relacionadas à celebração.
Traziam tochas e lanternas, para que Cristo não fugisse ocultando-se nas trevas.
Mas pergunta não como querendo saber: porque certamente conhecia todas as coisas que haveriam de acontecer-lhe: mas querendo mostrar que, estando presente, não podia ser visto ou discernido por eles; pois segue: Jesus lhes diz: Sou eu.
Ou, precisando da espada para o sacrifício do cordeiro, a levava ainda depois da ceia.
Ou, o corte da orelha direita do servo do príncipe dos sacerdotes era um sinal da surdez deles, que se havia arraigado principalmente nos príncipes dos sacerdotes; mas o fato de que a orelha foi novamente restituída significa a derradeira restauração da compreensão nos israelitas quando vier Elias.
No fato de que Ele mesmo chama de cálice, revela o quão grata e aceitável lhe parecia a morte pela salvação dos mortais.
Tendo feito tudo o que era suficiente para dissuadir os judeus, como eles de maneira alguma discernissem isto, então permitiu ser conduzido; por isso diz: a coorte, pois, e o tribuno, e os ministros dos judeus prenderam Jesus.
Alguns, porém, atribuindo uma vã graça a São Pedro, dizem que Pedro negou porque queria estar sempre com Cristo e segui-lo continuamente. Pois sabia que, se confessasse ser um dos discípulos de Cristo, seria separado dele, e não teria mais a oportunidade de seguir e ver o seu amado; por isso, simulava exercer o ofício dos servos, para que não fosse excluído ao ser reconhecido pela tristeza de seu semblante. Por isso segue: Estavam os servos e os ministros junto às brasas, porque fazia frio, e aqueciam-se. Pedro também estava com eles, aquecendo-se.
Pergunta, além disso, sobre a sua doutrina; por isso segue: e sobre a sua doutrina, de que natureza seria, se discrepante da lei e contrária a Moisés, para que dali, obtida a ocasião, pudesse destruí-lo como rival de Deus.
Ele recorda aqui aquela profecia que diz: "Não falei em segredo, nem em lugar tenebroso da terra"(Isaías 45,19).
Como Jesus tivesse interpelado o testemunho dos presentes, querendo o ministro desculpar-se de que não era daqueles que admiravam a Jesus, bateu-lhe; pelo que se diz: Tendo ele dito isto, um dos servos que estavam ali deu uma bofetada em Jesus, dizendo: É assim que respondes ao pontífice?
Como se dissesse: Se tu tens algo para repreender no que agora expus, mostra o que eu disse de mal; mas se não podes, por que te enfureces? Ou ainda: Se eu ensinei erroneamente quando ensinava nas sinagogas, informa ao príncipe dos sacerdotes; mas se ensinei corretamente, de tal modo que até vós, ministros, vos admirastes, por que agora me feres, tu que antes me admiravas?
Suspeitando que este, sendo mais astuto, poderia imaginar algo contra Jesus digno de morte.
Mas Pilato, procedendo de um modo mais brando, ele mesmo saiu para fora até eles; por isso segue-se saiu, pois, Pilato até eles, fora.
Como se dissesse: Visto que exigis um julgamento segundo vossa vontade, e vos orgulhais, como se nunca tivésseis cometido algo profano, tomai-o vós e condenai-o; eu de modo algum me tornarei juiz para tal finalidade.
Em separado, porque ele tinha grande suspeita sobre Ele. Propunha-se a examinar tudo minuciosamente, afastado do tumulto dos judeus; por isso segue: e disse-lhe: Tu és o Rei dos judeus?
Ele insinua com isto que Pilatos é insensato e julga indiscretamente; como se dissesse: Se falas isto por ti mesmo, apresenta os sinais da minha rebelião; mas se o recebeste de outros, faz uma inquirição ordenada.
Ou melhor, Ele não diz: não está aqui, mas "não é daqui"; pois reina no mundo, e usa de sua providência, e dispõe todas as coisas segundo sua vontade; porém seu reino não é constituído de causas inferiores, mas dos céus e antes dos séculos.
Ou de outro modo. Perguntado por Pilatos se o Senhor era rei, ele disse: "Eu para isto nasci", isto é, para isto porque sou rei; pois pelo próprio fato de que fui gerado por um rei, também testemunho que eu sou rei.
Pois havia quase desaparecido dentre os homens, e era completamente desconhecida, enquanto eles permaneciam incrédulos.
Belamente, Pilatos responde que Jesus não errara em nada; mas que era perturbado por eles em vão, como se desejasse um reino. De fato, o representante dos romanos não absolveria aquele que se declarasse rei e rival do poder romano. Portanto, quando disse que absolveria o rei dos judeus, revela Jesus como completamente inocente, e zomba dos judeus; como se dissesse: aquele que vós acusais de se considerar rei, a este eu ordeno que seja absolvido, por não ser tal como afirmais.
Diz, porém: "Quem me entregou a ti", isto é, Judas, ou também a multidão. Como, pois, Jesus tinha dado uma resposta clara, que a menos que Eu mesmo me oferecesse, e o Pai o concedesse, tu não terias poder sobre mim; por isso Pilatos se esforçou mais para absolvê-lo; de onde se segue: "E desde então Pilatos procurava soltá-lo".
Alguns resolvem dizendo que ocorreu por um erro do escriba entre os gregos: pois uma certa letra grega de nome gama, cuja figura é tal g, representa a terceira hora; porém outra figura, a que chamam de episemon, que é assim s, representa a sexta hora. Por negligência, portanto, dos escribas, a figura anterior pôde dar lugar à seguinte.
Como se dissesse: Vede que tipo de homem confessais que buscaria tomar vosso império, um humilde, que não poderia tentar tal coisa.
Mas, de certo modo, assim como lá Isaac foi preservado e o carneiro sacrificado, também aqui a natureza divina permanece impassível; mas a humanidade, segundo a qual é chamado carneiro, como filho do carneiro errante Adão, aqui foi sacrificada. Mas como é que outro Evangelista diz que obrigaram Simão a carregar a cruz?
A inscrição figurada em três idiomas significa que o Senhor era rei da prática, da física e também da teologia. Pois pelas letras latinas é figurada a prática, já que o império romano foi muito poderoso e bastante diligente em suas expedições. Pelas letras gregas, por sua vez, é figurada a física, pois os gregos se esforçaram na especulação das coisas naturais. Finalmente, pelas hebraicas é representada a teologia, pois aos judeus foi confiado o conhecimento das coisas divinas.
Outros, porém, dizem que na Palestina não tecem telas como entre nós, ficando o fio da urdidura na parte superior e os tecelões na parte inferior; de modo que assim o tecido não se estende para a parte mais alta, mas ao contrário.
Ou de outro modo. A túnica inconsútil denota o corpo de Cristo, que foi tecido a partir do alto: pois o Espírito Santo sobreveio, e a virtude do Altíssimo cobriu com sua sombra a Virgem. Este sacrossanto corpo de Cristo é, portanto, indivisível: pois mesmo que seja distribuído por cada um, santificando a alma e o corpo de cada um individualmente, permanece, contudo, íntegro e indivisível em todos. E como o mundo consiste de quatro elementos, deve-se entender pelas vestes de Cristo a criação visível, a qual os demônios dividem entre si, todas as vezes que entregam à morte a palavra de Deus que habita em nós, e se esforçam para nos fazer parte deles por meio das seduções mundanas.
Enquanto os soldados prosseguiam com aquilo que concernia à sua própria negligência, Ele mesmo estava solícito quanto ao cuidado de sua genitora; donde se diz: E os soldados certamente fizeram estas coisas: estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena.
Alguns dizem que o hissopo é chamado junco, pois tem folhas semelhantes ao junco. Segue-se: Tendo então Jesus recebido o vinagre, disse: Está consumado.
O Senhor entregou o espírito a Deus Pai, mostrando que as almas dos santos de modo algum permanecem nos túmulos, mas chegam às mãos do Pai de todos, enquanto os pecadores são levados ao lugar dos castigos, ou seja, ao Inferno.
Assim, pois, ordenava-se na Lei que não se pusesse o sol no suplício de um homem; ou porque não quiseram ser considerados verdugos e homicidas em dia festivo.
Para agradar aos judeus, transpassam a Cristo com a lança, infligindo ultrajes ao corpo já sem vida; mas este ultraje converteu-se em sinal prodigioso: pois é miraculoso que sangue mane de um corpo já morto.
Envergonhem-se, pois, aqueles que não misturam água com o vinho nos sagrados mistérios: parecem, de fato, não acreditar que a água fluiu do lado. Alguém, no entanto, poderia dizer caluniosa mente que havia alguma força vital no corpo, e por isso o sangue fluiu; mas a água que emanou foi um sinal irrefutável; e por isso o Evangelista acrescenta: "e aquele que viu deu testemunho".
Pelo fato de que o sepulcro era novo, dá-se a entender misticamente que pela sepultura de Cristo todos somos renovados, sendo destruídas a morte e a corrupção. Observai também a abundância da pobreza assumida por nós: pois aquele que não teve casa em vida, após a morte também é colocado em sepulcro alheio, e estando nu, é coberto por José. Segue-se: "Ali, pois, por causa da Parasceve dos judeus, porque o sepulcro estava perto, depositaram Jesus".
Agora também de certo modo Cristo é mortificado pelos avarentos na pessoa do pobre que padece fome. Sê, portanto, José, e cobre a nudez de Cristo não apenas uma vez, mas continuamente, guardando-o em teu sepulcro espiritual pela contemplação, cobre-o, e mistura mirra e aloés amargas, considerando aquela voz: "Ide, malditos, para o fogo eterno", a qual considero ser a mais amarga de todas.
Ou de outro modo: Os judeus denominavam os dias da semana como sábado, e o primeiro dia, um dos sábados. Este dia é figura do século vindouro, pois o século vindouro será um só dia jamais interrompido pela noite: porque Deus é ali o sol, que nunca se põe. Neste dia, então, o Senhor ressuscitou, assumindo a incorruptibilidade do corpo, assim como nós, no século vindouro, seremos revestidos de incorrupção.
Mas se perguntas como, estando os guardas presentes, vieram ao sepulcro, é uma questão infundada: pois depois que o Senhor ressuscitou, e juntamente com o terremoto apareceu o Anjo no sepulcro, retiraram-se os guardas, anunciando aos fariseus.
Ou de outro modo. Entenda-se que Pedro possuía uma natureza ativa e pronta, e João, por sua vez, contemplativa e dócil, tendo perícia nas coisas divinas. Frequentemente, o contemplativo se antecipa em conhecimento e docilidade; mas o ativo, pela insistência do fervor e pela diligência, precede a agudeza daquele, e primeiro percebe o mistério divino.
Ela temia, com efeito, que os judeus se enfurecessem também contra o corpo inanimado; e por isso desejava trasladá-lo a outro lugar desconhecido.
Ou porque esperava que todos estivessem reunidos. Estando as portas fechadas, para mostrar que do mesmo modo ressuscitou enquanto a pedra estava sobre o sepulcro.
Aquele que antes havia sido infiel, após tocar o lado, mostrou-se excelente teólogo: pois explicou a dupla natureza e a única hipóstase de Cristo: dizendo "meu Senhor", confessou a natureza humana; dizendo "meu Deus", confessou a divina, e um só e mesmo Deus e Senhor. Segue-se: diz-lhe Jesus: porque me viste, creste.
Ele se refere também aqui aos discípulos que, sem tocar as chagas dos cravos nem o lado, acreditaram.
Quanto a Pedro, ele se cingiu, o que é sinal de pudor; cingiu-se, pois, com uma veste de linho, que os pescadores fenícios e tírios envolvem ao redor de si quando estão nus, ou mesmo colocam sobre as demais vestimentas.
Quando, porém, era noite, antes da presença do sol, Cristo, os profetas nada apanharam: porque, embora tentassem corrigir uma nação, Israel, esta, no entanto, frequentemente caía na idolatria.
Terminada a refeição, confia a Pedro a superintendência das ovelhas do mundo, não aos outros; por isso diz: Quando, pois, haviam comido, Jesus disse a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?
Desde então também se estabeleceu o costume de que aqueles que vêm ao Batismo façam uma tríplice confissão.
Pode-se, porém, assinalar uma diferença entre cordeiros e ovelhas: cordeiros são os que estão sendo introduzidos, enquanto as ovelhas são os perfeitos.
Pedro, ouvindo que há de sofrer a morte por Cristo, pergunta sobre João se ele morrerá; de onde se segue Voltando-se Pedro, viu aquele discípulo que Jesus amava seguindo, o qual também havia reclinado durante a ceia sobre o seu peito, e dissera: Senhor, quem é que te entregará?
Isto é, porventura ele não morrerá? Como alguns expõem. Segue-se: Jesus lhe disse: Assim quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?
Ou pode-se dizer: Cristo não negou que São João havia de morrer, pois tudo o que nasce, morre; mas disse: "Quero que ele permaneça", isto é, que viva até o fim do mundo, e então padecerá martírio por mim; e por isso confessam que ele ainda vive, e que deverá ser morto pelo anticristo, e que juntamente com Elias pregará o nome de Cristo. Mas se se mostrar o seu sepulcro, vivendo certamente nele entrou, e depois saiu.
Ou de outro modo, tudo isso. Quando o Senhor diz a Pedro "segue-me", institui para ele a prelazia de todos os fiéis. Ao mesmo tempo, compreendas por seguir aqui a imitação em todas as coisas, tanto nas palavras quanto nas obras. Mostra também a afeição para com ele: porque aqueles que nos são mais ligados, são estes que queremos que nos sigam.
Quanto ao que é dito "até que eu venha", alguns entenderam como se dissesse: até que eu venha contra os judeus, que me crucificaram, ferindo-os com o bastão dos romanos. Pois afirmam que este apóstolo permaneceu naqueles lugares até o tempo de Vespasiano, quando Jerusalém estava prestes a ser tomada. Ou diz "até que eu venha", isto é, até que eu queira enviá-lo para pregar, pois a ti agora envio para o pontificado do mundo; e nisto segue-me: ele, porém, permaneça aqui até que eu o conduza como a ti.
Por isto se dá a entender claramente que São Lucas não foi discípulo desde o princípio, mas com o decorrer do tempo; outros, porém, foram discípulos desde o princípio, como São Pedro e os filhos de Zebedeu.
Escreve, no entanto, a Teófilo, homem ilustre, e talvez príncipe, porque aquilo que diz cratiste, isto é, excelentíssimo, ou valoroso, não era dito senão aos príncipes e aos governantes; assim como também Paulo disse a Festo, o governador: cratiste (isto é, excelentíssimo ou valoroso) Festo.
Frequentemente, quando algo é dito sem ser escrito, acusam-no como falso; porém, quando alguém escreve o que diz, então acreditamos mais, como se a pessoa não escrevesse, a menos que julgasse ser verdadeiro.
Querendo também mostrar que, por ambos os pais, ele era legalmente de estirpe sacerdotal, acrescenta: e sua esposa era das filhas de Aarão, e o seu nome era Elisabeth. Pois não era permitido tomar esposa de outra tribo, mas da sua própria. Elisabeth se interpreta como "repouso de Deus", e Zacharias como "memória do Senhor".
E para que também tu aprendas que a lei de Deus não busca a multiplicação corporal dos filhos, mas antes a espiritual. E ambos haviam avançado, não segundo o corpo, mas segundo o espírito, colocando ascensões em seu coração, e tendo sua vida como dia e não como noite, caminhando honestamente como de dia.
Como se quando Zacarias pergunta: "De onde me virá esta certeza?", o anjo responde: "Porque Isabel dará à luz um filho para ti, crerás que os pecados foram perdoados ao povo".
Muitos, certamente, são chamados grandes, mas diante dos homens, não diante de Deus, como os hipócritas; assim também os pais de São João foram chamados justos diante do Senhor.
Ou, de outro modo. João preparou um povo, não incrédulo, mas perfeito, isto é, preparado para receber Cristo.
Mas porque a palavra kophos, que também é acrescentada abaixo, pode significar tanto surdo quanto mudo, bem ele diz serás surdo, e não poderás falar. Convenientemente, pois, ele sofreu estas duas coisas: como desobediente, incorreu na surdez, e como contraditório, no silêncio.
Zacarias fazia sinais ao povo, que talvez perguntava a causa do seu silêncio, a qual, não podendo expressar com palavras, declarava por gestos. Por isso, segue-se: E ele lhes fazia sinais, e permaneceu mudo.
Vede como o anjo declarou a santa Trindade à Virgem, não apenas mencionando o Espírito Santo, mas também o Poder, isto é, o Filho, e o Altíssimo, certamente o Pai.
Por isso foi para as montanhas, porque Zacarias habitava nas montanhas, de onde se segue: "Em uma cidade de Judá, e entrou na casa de Zacarias".
Mas como existiram outras mulheres santas que, no entanto, deram à luz filhos manchados pelo pecado, ela acrescenta: E bendito é o fruto do teu ventre. Ou outra interpretação é que, tendo dito: Bendita és tu entre as mulheres, então, como se alguém perguntasse a causa, responde: E bendito é o fruto do teu ventre; como está dito: "Bendito o que vem em nome do Senhor. O Senhor Deus, e ele nos mostrou a luz"(Salmo 117,26-27); pois as Sagradas Escrituras frequentemente usam e no lugar de porque.
Mas aquele magnifica a Deus, que dignamente segue a Cristo, e, enquanto é chamado cristão, não diminui a dignidade de Cristo, praticando obras grandes e celestiais; e então seu espírito, isto é, o crisma espiritual, exultará, ou seja, progredirá, e não será mortificado.
E por isso diz todas as gerações; não somente Isabel, mas também todas as nações dos crentes.
A Virgem mostra que não por sua própria virtude deve ser proclamada bem-aventurada; mas assinala a causa, dizendo: porque fez em mim coisas grandes aquele que é poderoso. Que coisas grandes fez em ti? Creio que, sendo criatura, deste à luz o Criador; sendo serva, geraste o Senhor; para que por ti Deus redimisse o mundo, por ti o iluminasse, por ti o chamasse de volta à vida.
Ou por isto indica que os que temem alcançarão misericórdia nesta geração, isto é, no presente século, e na futura, isto é, no século futuro; recebendo neste século o cêntuplo, mas naquele, benefícios muito maiores.
Em seu braço, isto é, seu Filho encarnado, fez potência: porque a natureza foi vencida, a virgem dando à luz e Deus feito homem.
Isso também pode ser entendido a respeito dos judeus, aos quais dispersou por todas as regiões, como agora estão dispersos.
Pois no sexto mês da concepção do precursor veio o Anjo a Maria; a qual permaneceu com Isabel por três meses; e assim se completam os nove meses.
Mas quando Isabel estava para dar à luz, a Virgem retirou-se; de onde se segue: e voltou para sua casa; isto é, por causa da multidão que deveria reunir-se para o parto; pois não era conveniente que a virgem estivesse presente em tais circunstâncias.
E porque o pai mudo concordou com a mulher acerca deste nome do menino, segue-se: "E todos se maravilharam". Pois ninguém havia deste nome em sua parentela, para que alguém pudesse dizer que ambos já o haviam pensado anteriormente.
Assim como no silêncio de Zacarias o povo se admirou, assim também quando ele falou; por isso é dito: "E veio temor sobre todos os seus vizinhos, e em todas as montanhas da Judeia divulgavam-se todas estas palavras", para que por estes dois sinais, todos pensassem que havia algo grande relacionado ao menino nascido. Todas estas coisas aconteceram de modo providencial, para que aquele que devia ser testemunha de Cristo, fosse considerado digno de fé; de onde segue: "E todos os que ouviram guardaram em seu coração, dizendo: Quem pensais que será este menino?"
Parecia que Deus estava adormecido, observando muitos pecados; mas nos últimos tempos, tendo-se encarnado, despertou-se e esmagou os Demônios que nos odiavam; por isso se diz: e ergueu para nós um chifre de salvação na casa de David, seu servo.
Que Cristo nasceria da casa de David, Miqueias menciona dizendo: "E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor; pois de ti sairá um chefe que regerá o meu povo Israel". Mas todos os profetas falaram da Encarnação; e por isso diz-se "como falou pela boca dos seus santos profetas".
A graça de Cristo também se estende até àqueles que estavam mortos, porque por Ele ressuscitaremos não somente nós, mas também aqueles que foram mortos antes de nós. Fez também misericórdia com nossos pais, na medida em que cumpriu sua esperança e desejo; de onde se segue e lembrar-se do seu santo testamento, ou seja, daquele de que se diz: "abençoando te abençoarei e te multiplicarei". Pois Abraão foi multiplicado em todas as nações, que foram adotadas como filhos pela imitação de sua fé; mas também os pais, vendo seus filhos receberem tais benefícios, se congratulam e recebem misericórdia em si mesmos; de onde se segue o juramento que jurou a Abraão nosso pai, que nos concederia.
Como o precursor preparou o caminho do Senhor, ele explica acrescentando: para dar ciência da salvação ao seu povo. A salvação é o Senhor Jesus; e foi dada ao povo a ciência da salvação, isto é, de Cristo, por São João, que deu testemunho de Cristo.
Pois Deus não teria sido conhecido de outro modo, senão por ter perdoado os pecados de seu povo. Porque é próprio de Deus perdoar os pecados.
Porque Deus perdoou nossos pecados, não por causa de nossas obras, mas por sua misericórdia; por isso convenientemente acrescentou pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus.
Mas o Senhor, ao nascer, não somente ilumina aqueles que estão sentados nas trevas, mas faz algo mais: por isso segue para dirigir nossos pés no caminho da paz. O caminho da paz é o caminho da justiça, ao qual Ele dirigiu nossos pés, isto é, os afetos de nossas almas.
Segundo a idade corporal. E se fortalecia no espírito: pois juntamente com o corpo crescia o dom espiritual, e as operações do Espírito se manifestavam nele cada vez mais.
Ou, estava no deserto para ser criado longe da malícia da multidão, e para não temer repreender a ninguém: pois se estivesse no mundo, talvez tivesse sido corrompido pela amizade e conversação dos homens; e também para que fosse digno de fé aquele que haveria de pregar Cristo. E permanecia oculto nos desertos, até que aprouve a Deus manifestá-lo ao povo de Israel; por isso segue "até o dia da sua manifestação a Israel".
Era também conveniente que por meio de Cristo o culto de muitos deuses desaparecesse, e um só Deus fosse adorado; por isso é descrito um só rei governando o mundo.
Quando ele diz Senhor, está confessando que Ele é o próprio Senhor tanto da vida quanto da morte; e assim reconhece que o Menino que ele sustentava em seus braços é Deus.
Significativamente diz "ante a face", para que sua encarnação aparecesse a todos. E diz que esta salvação é a luz das nações e a glória de Israel; por isso segue "luz para iluminação dos gentios".
O Evangelista demora-se na descrição de Ana, narrando tanto seu pai quanto sua tribo; trazendo como que muitas testemunhas que viram seu pai e sua tribo.
Belém era de fato a sua cidade como pátria, mas Nazaré era como o lugar de sua habitação.
O menino poderia, quanto ao corpo, ter saído do próprio útero na medida de idade madura; mas isso pareceria segundo uma fantasia: por isso cresce paulatinamente; donde segue: O menino crescia e se fortificava.
Pois se enquanto era pequeno de idade tivesse demonstrado toda a sua sabedoria, pareceria um prodígio; mas através do desenvolvimento da idade, manifestava-se a si mesmo, a fim de preencher todo o mundo. Não se diz, porém, que Ele foi fortalecido no espírito como se recebesse sabedoria; pois aquilo que desde o início é perfeitíssimo, como poderia tornar-se depois mais perfeito? Daí segue-se: cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava nele.
Mas dizem: como pode ser igual ao Pai em substância aquele que é dito crescer, como se fosse imperfeito? Não se diz, porém, que Ele recebe acréscimo naquilo que é como Verbo, mas naquilo que se fez homem. Pois se Ele verdadeiramente progrediu depois de se fazer carne, tendo sido antes imperfeito, por que então lhe damos graças como se tivesse se encarnado por nós? Ou ainda, se Ele é a verdadeira sabedoria, como pode aumentar em sabedoria? Ou como aquele que concede graça aos demais pode ser promovido na graça? Ademais, se ninguém se escandaliza ao ouvir que o Verbo se humilhou a si mesmo, ainda que tenha sentimentos débeis a respeito do Verbo de Deus, mas, pelo contrário, admira sua misericórdia, por que não é supérfluo escandalizar-se ao ouvir que Ele progrediu? Pois assim como por nós se humilhou, assim também por nós progrediu, para que nós progridamos Nele, nós que caímos pelo pecado; porque tudo o que nos diz respeito, o próprio Cristo verdadeiramente assumiu por nós, para reformar todas as coisas para melhor.
E assim como confessamos que o Verbo sofreu na carne, embora somente a carne tenha sofrido, porque era a carne do Verbo que sofria; assim se diz que Ele cresce, porque a humanidade do Verbo crescia nEle.
Pois a lei natural rejeita que o homem use de faculdades maiores do que a idade de seu corpo permite. Era, portanto, o Verbo feito homem perfeito, sendo a virtude e a sabedoria do Pai; mas porque algo devia ser concedido aos costumes de nossa natureza, para que não fosse considerado estranho por aqueles que o viam; como homem, à medida que seu corpo crescia gradualmente, manifestava-se a si mesmo, e a cada dia era julgado mais sábio pelos que o ouviam e viam.
Ele diz diante de Deus e dos homens, porque primeiramente convém agradar a Deus, e depois aos homens.
Por todo o tempo passado até sua manifestação, permaneceu oculto no deserto; e isso é o que se segue no deserto: para que nenhuma suspeita nascesse nos homens, de que por causa do parentesco com Cristo, ou do convívio desde tenra idade, testemunhasse tais coisas sobre Ele; por isso ele mesmo, ao testemunhar, dizia: "Eu não o conhecia".
E, de fato, aos publicanos e soldados ordenou que se abstivessem do mal; mas às multidões, como que não sendo maliciosas, ordenou que observassem algum bem; por isso segue: respondendo, porém, dizia-lhes: quem tem duas túnicas, dê ao que não tem.
Alguns, porém, disseram que as duas túnicas são o espírito e a letra da Escritura. São João aconselha, pois, aquele que possui estas duas coisas a instruir o ignorante e dar-lhe ao menos a letra.
Pois sua exortação era a boa doutrina; e por isso convenientemente se chama Evangelho
Também por isso finaliza a genealogia em Deus, para que aprendamos que os pais intermediários, Cristo os elevará a Deus e os fará filhos de Deus; e também para que se acreditasse que a geração de Cristo ocorreu sem semente; como se dissesse: Se não crês que o segundo Adão foi feito sem semente, recorre ao primeiro Adão: encontrarás que ele foi feito por Deus sem semente.
Jesus depois do Batismo é tentado, indicando-nos que, depois que formos batizados, as tentações nos espreitam; donde se diz: "Mas Jesus, cheio do Espírito Santo, regressou do Jordão".
Como se dissesse: A natureza humana não se sustenta só com pães; antes, a palavra de Deus é suficiente para nutrir toda a natureza humana. Assim foi alimentado o povo israelita, recolhendo maná durante quarenta anos, e alegrando-se com a presa das aves. Por disposição divina, Elias teve corvos como seus provedores; Eliseu alimentou seus companheiros com ervas silvestres.
Primeiramente o inimigo tentou a Cristo pela gula, assim como a Adão; depois o tentou pela cobiça ou avareza, mostrando-lhe todos os reinos do mundo; por isso segue: e o Diabo o levou a um monte elevado, e mostrou-lhe todos os reinos do orbe terrestre em um momento de tempo.
Mas como ele mostrou a Ele todos os reinos do mundo? Alguns dizem que os mostrou a Ele mentalmente; eu, porém, digo que os fez aparecer de maneira sensível e na imaginação.
Ou porque o havia tentado no deserto com a volúpia, retirou-se dele até o tempo da cruz, no qual havia de tentá-lo com a tristeza.
Para que Ele nos ensine a beneficiar e instruir primeiramente nossos irmãos, e depois estender nossa amizade aos demais.
Mas estas coisas podem também ser entendidas dos mortos, que estando cativos, foram libertos do domínio do inferno pela ressurreição de Cristo. Segue-se "e vista aos cegos".
Como se dissessem: Que palavra é esta que ele ordena, Saia, e ele saiu?
Deve-se saber também que muitos agora têm demônios, a saber, aqueles que cumprem os desejos dos demônios, como os furiosos têm o demônio da ira, e assim em relação aos demais. Mas o Senhor vem à sinagoga quando a mente do homem se encontra congregada, e então diz ao demônio que nela habita: emudece; e imediatamente, lançando-o ao meio, sai dele; pois não convém ao homem estar sempre irado, o que é próprio das bestas; nem sempre sem ira, o que denota insensibilidade; mas é necessário caminhar pela via média, e ter ira contra o mal; e assim o homem é lançado ao meio quando o espírito imundo sai dele.
Deve-se considerar o desejo da multidão: pois quando o sol se pôs, traziam a ele os enfermos, não impedidos pelo tempo; por isso diz: E quando o sol se pôs, todos os que tinham enfermos com várias enfermidades, os traziam a ele.
Porque "não é gloriosa a alabança na boca do pecador"; ou porque não queria acender a inveja dos judeus pelo fato de ser louvado por todos.
O Senhor, porém, foge da glória quanto mais esta O segue; e por isso, separando-se das multidões, subiu em uma barca. E viu duas barcas paradas junto ao lago; mas os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.
Vê a mansidão de Cristo, como Ele roga a Pedro; e a obediência de Pedro, como foi obediente em todas as coisas.
Pedro, porém, não hesitou; donde se segue e respondendo Simão disse-lhe: Mestre, por toda a noite trabalhamos e nada apanhamos. Não acrescentou, porém: "não te ouvirei, nem me exporei a um segundo trabalho"; mas antes acrescenta: mas em tua palavra lançarei a rede. E porque o Senhor havia instruído a multidão a partir da barca, não deixou o dono da barca sem recompensa, beneficiando-o de dois modos: primeiro, deu-lhe grande quantidade de peixes, e depois fez dele seu discípulo. E quando isso fizeram, apanharam grande quantidade de peixes. E tantos peixes apanharam que não podiam tirá-los para fora, mas pediram auxílio aos companheiros; donde se segue e rompia-se a rede deles: e fizeram sinais aos companheiros que estavam na outra barca, para que viessem e os ajudassem. Por sinais os chamaram, porque devido ao espanto pela captura dos peixes não podiam falar. E segue-se sobre o auxílio deles, quando se diz e vieram, e encheram ambas as barcas, de modo que quase submergiam.
Pois Sua sagrada carne tem o poder de purificar e de conferir vida, por ser verdadeiramente a carne do Verbo de Deus.
Considera que, quando alguém é purificado, então é feito digno de oferecer este dom, isto é, o corpo e o sangue do Senhor, que está unido à natureza divina.
Observa que na terra Ele perdona os pecados. Pois enquanto estamos na terra, podemos apagar nossos pecados, mas depois que somos afastados da terra, não poderemos confessar; a porta é fechada.
E assim, daquele que recebia tributo dos que passavam, Cristo recebeu tributo; não recebendo seu dinheiro, mas transferindo-o totalmente para a sua companhia.
Ou o publicano é aquele que serve ao príncipe deste mundo, e paga seu débito à carne; ao qual o guloso dá alimentos, o adúltero dá prazer, e outro dá outra coisa. Mas quando o Senhor o viu sentado no telônio, isto é, não se movendo para maior iniquidade; então o ergueu do mal e seguiu a Jesus, e recebeu o Senhor na casa de sua alma.
Diz, porém, em um sábado segundo-primeiro: porque os judeus chamavam sábado a toda festividade; pois sábado significa descanso. Muitas vezes acontecia que na Parasceve ocorria uma festividade, e chamavam a Parasceve de sábado por causa da festa; depois chamavam o sábado principal de segundo-primeiro, como sendo o segundo em relação à festividade do dia precedente.
De outra maneira, porém, Ele os repreende, quando se acrescenta: "E dizia-lhes que o Filho do homem é Senhor também do sábado"; como se dissesse: Eu sou o Senhor do sábado, como seu ordenador, e como legislador tenho o poder de dispensar o sábado; pois o Filho do homem foi chamado Cristo, que, sendo Filho de Deus, milagrosamente dignou-se a se fazer e ser chamado Filho do homem por causa dos homens.
Isto é, para a cura de suas almas; e para que fossem curados de suas enfermidades, isto é, para a cura de seus corpos.
Mas talvez alguém interrogue mais sutilmente: se retribui-se superabundantemente, de que modo é a mesma medida? A isto respondemos que Ele não disse: "na mesma quantidade vos será medido", mas "na mesma medida". Pois aquele que fez o bem, bem lhe será feito: isto é medir com a mesma medida. Mas diz-se que a medida é superabundante porque mil vezes lhe será feito o bem: assim também no julgar: pois quem julga e depois é julgado, recebe a mesma medida; mas na medida em que for julgado mais severamente por ter julgado a seu semelhante, nisto a medida é superabundante.
Ou de outra maneira. Se tu julgas outro, e tu mesmo pecas das mesmas coisas, não te assemelhas a um cego guiando outro cego? Pois como ele será conduzido por ti para o bem, quando tu também pecas? Porque não está o discípulo acima do mestre. Se, portanto, tu pecas, tu que te consideras mestre e guia, onde estará aquele que é por ti instruído e conduzido? Pois será perfeito o discípulo, se for como o seu mestre.
Mas o Senhor introduz também outra parábola sobre o mesmo tema, acrescentando: Por que vês o cisco, isto é, um pequeno delito, no olho de teu irmão, mas a trave que está em teu próprio olho, isto é, teu pecado máximo, não consideras?
Convém, contudo, isto a todos, e maximamente aos doutores, que enquanto castigam os mínimos pecados dos que lhes estão sujeitos, deixam os seus próprios impunes. Por isso o Senhor os chama de hipócritas, porque julgam os pecados dos outros para que pareçam justos; donde segue: Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás com clareza para tirar o cisco do olho do teu irmão.
Ou de outra maneira. O centurião é o intelecto, que existe como príncipe de muitos na milícia, enquanto tem muitas coisas nesta vida. Ele tem, porém, um servo enfermo, a parte irracional da alma, refiro-me à irascível e à concupiscível. E envia a Jesus mediadores judeus, isto é, pensamentos e palavras de confissão; e imediatamente recebe o servo são.
Você pode também entender a viúva como a alma que perdeu seu esposo, isto é, o discurso divino; pois o filho é o intelecto, que é levado para fora da cidade dos vivos; seu esquife é o corpo, que alguns denominaram sepulcro; mas o Senhor, tocando-o, o ergue, fazendo-o rejuvenescer, e aquele que se levanta do pecado começa a falar e a ensinar aos outros; pois antes disso não se acreditaria nele.
Estas são, com efeito, as palavras de Isaías, que diz: "Deus mesmo virá e nos salvará. Então os olhos dos cegos se abrirão, e os ouvidos dos surdos se desobstruirão; então o coxo saltará como um cervo"(Isaías 35,5).
Mas depois que lhe perdoou os pecados, não se detém na remissão do pecado, mas acrescenta a prática do bem; donde se segue: Vai em paz, isto é, em justiça; porque a justiça é a paz do homem com Deus, assim como o pecado é a inimizade entre Deus e o homem; como se dissesse: Pratica todas as coisas que te conduzam à paz de Deus.
Aquele que desceu do céu, para ser para nós exemplo e modelo, instrui-nos a não sermos negligentes no ensino; por isso se diz e aconteceu em seguida que ele próprio percorria as cidades e aldeias, pregando e evangelizando o reino de Deus.
Não ensinando, ou pregando, mas sendo instruídos por Ele. E para que não parecesse que o sexo feminino estava proibido de seguir a Cristo, acrescenta-se e algumas mulheres, que haviam sido curadas de espíritos malignos e enfermidades; Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios.
O que Davi havia predito na pessoa de Cristo: "Abrirei em parábolas a minha boca", aqui o Senhor cumpre; por isso se diz: "Como, porém, uma grande multidão se reunisse, e das cidades acorressem a ele, disse por meio de uma parábola". O Senhor fala por parábola, primeiramente para tornar mais atentos os ouvintes; pois costumam os homens exercitar-se nas coisas obscuras e desprezar o que é manifesto; depois, para que os indignos não compreendessem o que era dito misticamente.
Ele saiu agora, não para destruir os agricultores ou queimar a terra; mas saiu para semear: pois frequentemente o agricultor que semeia, sai por outra causa, não somente para semear.
Não cessa o Filho de Deus de semear sempre em nossas almas; pois não somente quando ensina, mas também quando cria, semeia em nossas almas as boas sementes.
Não disse que o que semeia lançou outra semente junto ao caminho, mas que a semente caiu. Pois aquele que semeia ensina a palavra correta; mas a palavra cai de diversos modos nos ouvintes, de modo que alguns deles são chamados de caminho. "E foi pisada, e as aves do céu a comeram".
Mas para aqueles que são indignos de tão grandes mistérios, fala-se obscuramente; por isso segue: Mas aos outros em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam. Pois eles pensam que veem, mas não veem; e ouvem certamente, mas não entendam. Por esta razão, Cristo esconde isto deles, para que não lhes seja gerado maior prejuízo, se depois de terem conhecido os mistérios de Cristo, os desprezarem. Pois aquele que entende e depois despreza, será mais severamente punido.
Alguns, porém, entendem isso assim: que enquanto Cristo ensinava, alguns, invejando-o e zombando dele por causa de sua doutrina, disseram: "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora, querendo ver-te"; como se por isso quisessem demonstrar sua condição humilde. E por isso, conhecendo a intenção deles, assim lhes respondeu, porque o parentesco humilde não prejudica; mas se alguém for de origem humilde e ouvir a palavra de Deus, considera-o como seu parente. Contudo, como somente ouvir não salva ninguém, mas antes condena, acrescenta "e a praticam"; pois convém ouvir e praticar. Chama de palavra de Deus a sua própria doutrina, pois todas as coisas que ele mesmo dizia eram do Pai.
O que de fato os demônios solicitam, desejando ainda conviver com os homens.
Pois eles temiam sofrer novamente algum dano, como haviam sofrido na submersão dos porcos.
Pois, como alguém que havia experimentado, temia que, talvez estando afastado de Jesus, novamente estivesse exposto aos demônios. O Senhor, porém, mostra-lhe que, embora não esteja presente com ele, pode protegê-lo por Sua graça; pois segue: Mas Jesus o despediu, dizendo: Volta para tua casa, e conta quão grandes coisas Deus fez por ti. Não disse, contudo: quão grandes coisas Eu fiz por ti; dando-nos um exemplo de humildade, para que atribuamos a Deus toda a nossa retidão.
Simultaneamente, tanto por causa da Sua doutrina, quanto por causa dos Seus milagres.
Por isso, diante da necessidade urgente, caiu aos pés dele; pois segue-se: E caiu aos pés de Jesus. Seria conveniente, porém, que sem ser compelido pela necessidade, caísse aos pés dele, e reconhecesse que Ele era Deus.
Mas do mesmo modo que, quando alguém aproxima o olho a uma lâmpada acesa, ou lança espinhos ao fogo, imediatamente experimenta o efeito destes, assim também quem traz a fé Àquele que pode curar, imediatamente consegue a cura. "E no mesmo instante estancou o fluxo do seu sangue".
Pois ela creu, e foi salva; e, como era adequado, primeiro tocou Cristo intelectualmente, depois corporalmente.
Estando prestes a ressuscitar a morta, expulsou a todos, como que nos ensinando a estarmos livres de vanglória e a nada fazer por ostentação; e que quando alguém deve realizar milagres, não convém que esteja no meio de muitos, mas solitário e separado dos outros; por isso segue: e quando chegou à casa, não permitiu que ninguém entrasse com ele, exceto Pedro, João e Tiago, e o pai e a mãe da menina. Somente a estes permitiu entrar como líderes de seus discípulos, e capazes de ocultar o milagre; pois não queria que fosse revelado a muitos antes do tempo, talvez por causa da inveja dos judeus. Assim também quando alguém tem inveja de nós, não devemos revelar-lhe nossas virtudes, para não lhe darmos ocasião de maior inveja.
Assim, pois, os envia como verdadeiros mendigos, de modo que não quer que carreguem nem pães, nem qualquer outra coisa da qual muitos necessitam.
Alguns também entendem que os apóstolos não portarem bolsa, nem bastão, nem duas túnicas significa que não devem entesourar (o que a bolsa indica, reunindo muitas coisas); nem sejam iracundos e de espírito perturbado (o que o bastão significa); nem sejam falsos e de coração duplo (o que significa a túnica dupla).
Este Herodes era filho do grande Herodes, que matou as crianças; mas aquele de fato era rei, enquanto este era tetrarca. Ele indagava sobre Cristo, quem era; donde se segue: e estava perplexo.
Os judeus, com efeito, esperavam a ressurreição dos mortos para uma vida carnal, em banquetes e bebedices, mas os que ressuscitarem não estarão envolvidos em atos carnais.
Como quem diz: se é João, e ressuscitou dos mortos, vendo-o eu o reconhecerei; donde segue: e procurava vê-lo.
Mas o Senhor foi para um lugar deserto porque estava para realizar o milagre dos pães: para que ninguém dissesse que os pães haviam sido trazidos das cidades vizinhas.
Para que aprendas que a sabedoria que está em nós se divide em palavra e obra, e que convém falar do que foi feito, e realizar o que se diz. Começando, porém, o dia a declinar, os discípulos, já começando a ter cuidado dos outros, compadecem-se da multidão, por isso segue: "O dia, porém, começara a declinar, e aproximando-se os doze, disseram-lhe: Despede as multidões, para que, indo aos povoados e aldeias circunvizinhas, se agasalhem e encontrem alimentos, porque aqui estamos em lugar deserto".
Não disse isto como ignorando a resposta deles, mas querendo induzi-los a dizer quantos pães tinham; e assim um grande milagre fosse manifestado por meio da confissão deles, quando a quantidade de pães fosse conhecida.
Ensina o Senhor que convém, quando hospedamos alguém, fazê-lo reclinar-se e torná-lo participante de todo conforto; por isso segue: "Disse então aos seus discípulos: Fazei-os reclinar em grupos de cinquenta; e assim o fizeram; e fizeram que todos se reclinassem".
E para que aprendamos quanto a hospitalidade pode fazer, e quanto aumentam nossos bens quando socorremos os necessitados.
Aqui a cruz se refere à morte ignominiosa, indicando que se alguém quer seguir a Cristo, não deve fugir, por causa dele, nem mesmo da morte vergonhosa.
Envergonha-se de Cristo quem diz: "Porventura crerei no Crucificado?" E também se envergonha de suas palavras quem despreza a simplicidade do Evangelho. Mas o Senhor se envergonhará deste em seu reino, tal como se um pai de família tivesse um servo mau, e se envergonhasse de nomeá-lo.
Isto é, a glória na qual os justos estarão. Disse isto sobre a transfiguração, que era a forma da glória futura; como se dissesse: há alguns aqui presentes, a saber, São Pedro, São Tiago e São João, que não experimentarão a morte até que, no tempo da transfiguração, vejam em qual glória estarão aqueles que me confessam.
Ou tomou-os consigo como os que eram capazes de manter este segredo, e não revelá-lo a ninguém mais. Subiu ao monte para orar, ensinando-nos a orar solitários e ascendentes, não nos inclinando às coisas terrenas.
Enquanto Cristo estava entregue à oração, Pedro é oprimido pelo sono, pois era fraco e cumpria o que era humano; por isso diz: Pedro, porém, e aqueles que estavam com ele, estavam carregados de sono. Mas despertados, contemplam a sua glória e os dois homens com ele; de onde se segue: e despertando, viram a sua majestade e os dois homens que estavam com ele.
Mas enquanto Pedro dizia: "Façamos três tendas", o Senhor fabrica um tabernáculo não feito por mãos humanas, e nele entra com os profetas; de onde se segue: Estando ele ainda falando, veio uma nuvem e os cobriu: para mostrar que Ele não era menor que o Pai: pois assim como no Antigo Testamento se dizia que o Senhor habitava na nuvem, assim também agora uma nuvem recebeu o Senhor, não uma nuvem tenebrosa, mas luminosa e resplandecente.
Para que ninguém julgasse que estas palavras "Este é meu Filho amado" tivessem sido proferidas a respeito de Moisés ou Elias.
E aquelas coisas que começaram pelo Verbo, terminam no Verbo; pois por isto ele indica que até certo tempo a Lei e os Profetas se manifestam, como aqui Moisés e Elias; mas depois, com a partida destes, somente Jesus permanece: pois agora permanece o Evangelho, tendo passado as coisas legais.
Quando diz perversa, demonstra que a maldade não estava neles desde o princípio, nem lhes era natural; pois por natureza eram corretos, sendo descendentes de Abraão, mas pela malícia tornaram-se perversos.
O Senhor, condescendendo com a enfermidade deles e governando-os com uma certa disciplina, não permitiu que entendessem o que fora dito sobre a cruz; por isso segue: Mas eles ignoravam esta palavra, e estava velada diante deles para que não a sentissem.
Vê também a reverência dos discípulos no que se segue: "E temiam interrogá-lo acerca desta palavra", pois o temor é um grau de reverência.
Parece que esta paixão surgiu porque eles não puderam curar o endemoninhado, altercando entre si sobre isso; dizendo um que não por sua impotência, mas pela do outro, não pôde ser curado, e que por isso acendeu-se uma contenda sobre qual deles seria o maior.
Como o Senhor havia dito que aquele que é menor entre todos vós, este é o maior, São João temeu que talvez tivessem feito algum mal, proibindo por autoridade própria a um certo homem; pois a proibição não mostra que quem proíbe é menor, mas sim alguém que se considera de algum modo superior. Por isso segue: Respondendo então João, disse: Mestre, vimos alguém expulsando demônios em teu nome, e nós o proibimos; não por inveja, mas julgando a operação dos milagres, pois ele não havia recebido com eles o poder de realizar milagres, nem o Senhor o havia enviado como a eles, nem seguia a Jesus em todas as coisas; por isso acrescenta: porque ele não te segue conosco.
Maravilhai-vos do poder de Cristo, como sua graça opera por meio dos indignos e daqueles que não são seus discípulos; assim como pelos sacerdotes são santificados os homens, embora os sacerdotes não sejam santos.
Mas se entendermos que por esse motivo não o receberam, porque ele havia determinado ir a Jerusalém, encontramos desculpa para aqueles que não o receberam. Mas deve-se dizer que, nisto que diz o Evangelista: e não o receberam, entende-se que ele não veio à Samaria; depois, como se alguém perguntasse por que não o receberam, nem ele foi até eles, respondendo, diz que não porque fosse incapaz, mas porque não queria ir para lá, preferindo antes ir a Jerusalém.
Porque, como ele vira o Senhor atraindo muita gente para Si, pensou que Ele recebia recompensa deles, e que, se ele seguisse o Senhor, poderia ajuntar dinheiro.
O Senhor havia designado discípulos por causa da multitude carente de mestres: pois assim como os campos espigados desejam muitos ceifadores, assim também os que haviam de crer, sendo inumeráveis, necessitavam de muitos mestres; donde se segue a messe é certamente abundante.
Vede, pois, como instituiu os discípulos para mendigar, e como quis que eles tivessem seu alimento como recompensa; pois acrescenta: "Digno é o trabalhador de seu salário".
Ainda que sejam módicas e vis, não pedindo nada mais. Ele também lhes ordena que, operando milagres, atraiam os homens às suas pregações; por isso acrescenta: e curai os enfermos que nela estiverem, e dizei-lhes: aproximou-se de vós o reino de Deus. Pois se primeiro curardes, e depois ensinardes, prosperará a palavra, e os homens crerão que o reino de Deus se aproxima: não curariam, se isto não fosse realizado por alguma virtude divina. Mas também quando são curados quanto à alma, aproxima-se deles o reino de Deus, o qual está longe daquele sobre quem domina o pecado.
E assim como aos que recebem os apóstolos se diz que o reino de Deus se aproxima para seu benefício, assim se diz para prejuízo dos que não os recebem; por isso acrescenta: contudo, sabei isto, que o reino de Deus se aproximou; como a vinda de um rei é para alguns para castigo, para outros, porém, para honra; por isso sobre seu castigo acrescenta: mas digo-vos que para Sodoma, naquele dia, haverá menos rigor do que para aquela cidade.
Ou serpentes são aqueles que prejudicam visivelmente, como o demônio da fornicação e do homicídio; mas aqueles que prejudicam invisivelmente, como ocorre nos vícios espirituais, são chamados escorpiões.
Pois os nomes dos santos estão escritos no livro da vida, não com tinta, mas na memória e graça de Deus. E o Diabo, de fato, cai de cima; mas os homens, existindo abaixo, são inscritos acima nos céus.
Assim como um pai bondoso se alegra ao ver seus filhos bem encaminhados, assim também Cristo exulta porque os apóstolos se tornaram dignos de tantos bens; por isso é dito: "Naquela mesma hora exultou no Espírito Santo".
Pode-se fazer esta distinção dizendo que dos sábios, isto é, dos fariseus e escribas que interpretavam a lei, e dos prudentes, isto é, daqueles que foram instruídos pelos escribas; pois sábio é aquele que ensina, prudente é aquele que é ensinado. O Senhor chama de pequeninos aos seus discípulos, os quais elegeu não dentre os doutores da lei, mas dentre a multidão e os pescadores; os quais são chamados pequeninos, como sendo desprovidos de malícia.
Os mistérios, portanto, estão escondidos daqueles que pensam ser sábios, e não são; pois se fossem, estes lhes teriam sido revelados.
Como acima havia dito: "Ninguém conhece quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar", felicita os discípulos aos quais o Pai foi revelado por Ele; por isso diz: "E voltando-se para os seus discípulos, disse: Bem-aventurados os olhos que veem o que vós vedes".
Ele beatifica, porém, a eles, e a todos simplesmente que o olham com fé, pelo fato de que os antigos profetas e reis desejaram ver a Deus na carne e ouvi-lo; donde segue: "Porque em verdade vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e não ouviram".
Portanto, devemos entender aqui que é necessário submetermos toda virtude da alma ao amor divino, e isto virilmente, e não frouxamente; por isso acrescenta-se: e com todas as tuas forças.
O Salvador, porém, determina o próximo não por atos ou dignidades, mas pela natureza; como se dissesse: Não penses que, ainda que sejas justo, não tens próximo algum; pois todos aqueles que compartilham a mesma natureza são teus próximos. Torna-te, portanto, também tu, próximo deles, não pelo lugar, mas pelo afeto, e com cuidado para com eles; e para isso traz o Samaritano como exemplo; donde segue: E Jesus, tomando a palavra, disse: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó.
Não diz "desceu", mas "descia": pois a natureza humana sempre tendia para o inferior; e não em parte, mas em toda a vida estava atenta ao que é passível de sofrimento.
Ou o homem depois do pecado é chamado meio-morto, porque sua alma é imortal, mas seu corpo mortal, de modo que metade do homem sucumbe à morte; ou porque a natureza humana esperava conseguir a salvação em Cristo, de forma a não sucumbir completamente à morte; mas na medida em que Adão pecou, a morte entrou no mundo; na justificação de Cristo, porém, a morte devia ser destruída.
Diz porém "passou ao largo", porque a lei veio e permaneceu até o tempo prefixado; depois, não sendo capaz de curar, afastou-se. Vede também que a lei não foi dada com a precogitação de curar o homem: pois o homem não podia desde o princípio receber o mistério de Cristo; e por isso diz "aconteceu que certo sacerdote descia": o que costumamos dizer naquelas coisas que não são feitas premeditadamente.
Compadeceram-se, digo, dele quando pensaram sobre ele; porém depois, vencidos pela tenacidade, retrocederam; pois isto designa o que diz passou adiante.
Diz, porém, "ao fazer caminho", como que estabelecendo isto deliberadamente, para que nos curasse.
Ou de outro modo. A relação que é segundo o homem, é o óleo; mas a que é segundo Deus, é o vinho; que significa a divindade, que ninguém poderia suportar, se não houvesse óleo, isto é, a relação humana: por isso algumas coisas operou humanamente, outras divinamente. Infundiu, portanto, óleo e vinho, porque nos salvou tanto por sua humanidade quanto por sua divindade.
Ou impôs-no sobre seu jumento, isto é, sobre seu corpo: pois nos fez seus membros e participantes de seu corpo. E a lei certamente não recebia a todos: os moabitas e amonitas não entrariam na Igreja de Deus; mas agora em toda nação aquele que teme ao Senhor é recebido por Ele, querendo crer e tornar-se parte da Igreja; por isso diz que o conduziu a uma hospedaria.
O Senhor, portanto, não proíbe a hospitalidade, mas a preocupação com muitas coisas, isto é, a distração e o tumulto. E vede o conselho do Senhor; pois o Senhor nada havia dito anteriormente a Marta, mas depois que ela se esforçava para afastar a irmã da audiência, então o Senhor, tendo encontrado ocasião, a repreendeu: pois a hospitalidade é honrada até o momento em que nos atrai para as coisas necessárias; mas quando começa a nos impedir das coisas mais úteis, é manifesto que a audiência das coisas divinas é mais honrosa.
Ele não diz: que estás nos céus, como se Ele estivesse circunscrito àquele lugar, mas para elevar o ouvinte aos céus e afastá-lo das coisas terrenas.
Esse amigo é Deus, que ama a todos e deseja que todos sejam salvos.
Ou de outro modo. A meia-noite é o fim da vida, em que muitos chegam a Deus. O amigo, porém, é o Anjo que recebe a alma. Ou a meia-noite é a profundidade das tentações, na qual quem se encontra pede a Deus três pães, a saber, a necessidade do corpo, da alma e do espírito, pelos quais não perecemos nas tentações. O amigo que vem do caminho é o próprio Deus, que nos prova nas tentações: a quem não tem o que oferecer aquele que na tentação enfraquece. Quanto ao que diz "e a porta está fechada", deve-se entender que nos ensina a estarmos preparados antes das tentações; mas depois que caímos nela, a porta da preparação se fecha, e sendo encontrados despreparados, a menos que Deus nos ajude, corremos perigo.
O kophos, que os latinos traduzem como mudo, entre os gregos frequentemente refere-se a quem não fala; diz-se também de quem não ouve; mas mais propriamente de quem nem ouve nem fala. Aquele que desde o nascimento não ouviu, por necessidade não fala: pois falamos aquelas coisas que aprendemos a falar pelo ouvir. Se, no entanto, alguém perdeu a audição por alguma enfermidade sobreveniente, nada o impede de falar. Aquele que foi apresentado ao Senhor era mudo na língua e surdo na audição.
As armas dele são todos os tipos de pecados, confiando nos quais prevaleceu contra os homens.
Mas Jonas, depois de sua saída do ventre da baleia, converteu os ninivitas com sua pregação; mas à Cristo ressuscitado a geração dos judeus não acreditou; de onde houve prejuízo para eles; sobre este prejuízo acrescenta duplo exemplo, quando diz: a rainha do Sul se levantará no juízo com os homens desta geração, e os condenará.
Ou porque o Austro é louvado na Escritura como cálido e vivificante. Portanto, a alma que reina no Austro, isto é, na conversação espiritual, vem ouvir a sabedoria de Salomão, o rei pacífico, nosso Senhor Deus; isto é, eleva-se à contemplação, à qual ninguém chegará, a não ser que reine em boa vida. Em seguida, apresenta o exemplo dos Ninivitas, dizendo: "Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão".
Ou de outro modo. Como os judeus, vendo os milagres, acusavam-nos pela malícia de suas mentes, por isso o Senhor diz que, recebendo a lâmpada de Deus, isto é, o intelecto, obscurecidos pela inveja, não reconheciam os milagres e os benefícios. Mas para isto recebemos o intelecto de Deus, para que o coloquemos sobre o candelabro, a fim de que também os outros que entram vejam a luz. O sábio, certamente, já entrou; já aquele que aprende, ainda caminha. Como se dissesse aos fariseus: convém que vós useis o intelecto para o conhecimento dos milagros e para declará-los aos outros: pois as coisas que vedes são obras não de Belzebu, mas do Filho de Deus; por isso, mantendo este sentido, acrescenta: a lâmpada do teu corpo é o teu olho.
Assim como o olho do corpo, se for luminoso, fará o corpo luminoso, mas se for tenebroso, também o corpo será tenebroso; assim se compara o intelecto em relação à alma. Por isso segue: Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso; mas se for mau, todo o teu corpo será tenebroso.
Ou Ele diz "o que sobra": pois as riquezas dominam o coração cobiçoso.
Porque, como desprezavam a Deus, tratando as coisas sagradas com indiferença, Ele lhes ordena ter amor a Deus. Pelo juízo, porém, insinua o amor ao próximo; pois quando alguém julga seu próximo com justiça, isso procede do amor que tem por ele.
Havia ainda outros peritos na lei diferentes dos fariseus: pois os fariseus, separados dos demais, aparentavam ser religiosos; já os peritos na lei eram os escribas e doutores que resolviam as questões da lei.
Sempre que um mestre faz o que ensina, ele alivia o fardo, oferecendo-se a si mesmo como exemplo; mas quando nada faz daquilo que ensina, então os fardos parecem pesados para aqueles que recebem sua doutrina, visto que nem o próprio mestre pode carregá-los.
Mas o Senhor mostra que os judeus são herdeiros da malícia de Caim, conforme acrescenta: Desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o templo. Abel foi morto por Caim; quanto a Zacarias, a quem mataram entre o altar e o templo, alguns dizem ser o antigo Zacarias, filho do sacerdote Joiada.
Pois quando muitos interrogam a um sobre diversos assuntos, como não pode responder a todos ao mesmo tempo, parece aos ignorantes que ele duvida. Isso, portanto, tramavam aqueles nefastos contra Ele; mas também de outro modo procuravam silenciar sua boca; a saber, provocando-o a dizer algo pelo qual pudesse ser condenado; por isso segue armando-lhe ciladas, e procurando capturar algo de sua boca, para acusá-lo. O que primeiro chamou de silenciar, agora diz capturar, ou arrebatar, algo de sua boca. Interrogavam-no ora sobre a lei, para acusá-lo como blasfemo que falava contra Moisés; ora sobre César, para acusá-lo como conspirador e inimigo da majestade de César.
Os fariseus esforçavam-se por apanhar Jesus em suas palavras, para afastar dele os povos; mas isto se voltou ao contrário: pois as multidões acudiam ainda mais, reunindo-se aos milhares, de tal modo desejosos de se aproximarem de Cristo, que se comprimiam uns aos outros: tão poderosa é a verdade, e tão fraca é a astúcia em toda parte; por isso diz: "Ajuntando-se, entretanto, muitas turbas, de modo que uns aos outros se atropelavam, começou a dizer aos seus discípulos: Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia".
Chama, pois, de fermento à hipocrisia, como algo que altera e corrompe as intenções dos homens, nos quais se introduz: pois nada altera tanto os costumes como a hipocrisia.
Ou isto é proposto aos fariseus, como se dissesse: Ó fariseus, o que dissestes nas trevas, isto é, todas as tentações que tentais contra mim nos segredos obscuros dos vossos corações, na luz serão ditas: pois eu sou a luz, e em minha luz será conhecido tudo o que vossa escuridão maquina; e o que falastes ao ouvido e nos aposentos, isto é, tudo o que tendes instilado, por mútuos sussurros, em vossos ouvidos, será pregado sobre os telhados; isto é, foi tão audível para mim como se tivesse sido proclamado sobre os telhados. Aqui também podes entender que a luz é o Evangelho, e os telhados são as almas elevadas dos apóstolos. E todas as coisas que os fariseus tramaram juntos, foram depois divulgadas e ouvidas na luz do Evangelho, soprando o grande arauto, o Espírito Santo, sobre as almas dos apóstolos.
Observa aqui que aos pecadores a morte é imposta como suplício, atormentando-os aqui pela destruição, e consequentemente lançando-os na Geena; mas se examinares atentamente as palavras, compreenderás algo mais: pois Ele não diz: quem lança na Geena; mas quem tem o poder de lançar: pois nem todos os que morrem em pecado são sempre lançados na Geena. Digo isto por causa das oblações e distribuições que são feitas pelos defuntos, que não pouco ajudam mesmo àqueles que morreram em graves pecados.
Ou estes cinco sentidos são vendidos por dois asses, a saber, o Novo e o Antigo Testamento; e, por isso, não são esquecidos por Deus, pois daqueles cujos sentidos são entregues à palavra da vida, para que sejam aptos ao alimento espiritual, o Senhor sempre se lembra.
Ou, pela cabeça de cada um dos fiéis, entenderás uma conduta apropriada a Cristo; pelos seus cabelos, as obras de mortificação corporal, que são numeradas por Deus e dignas da providência divina.
Visto que nossa fraqueza é dupla, e ou fugimos do martírio por medo da pena, ou porque somos ignorantes e não sabemos dar razão de nossa fé, ele excluiu ambas: o medo das penas, ao dizer "não temais os que matam o corpo"; e o temor da ignorância, quando disse "não vos preocupeis com o que ou como haveis de responder".
Como estes dois irmãos disputavam sobre a divisão da herança paterna, era consequente que um pretendesse enganar o outro. O Senhor, porém, ensinando-nos que não devemos nos inclinar para as coisas terrenas, repele aquele que o chamava para a divisão da herança; donde segue: Mas ele lhe disse: Homem, quem me constituiu juiz ou divisor, a saber, das posses, entre vós?
O Senhor diz isto refutando as intenções dos avarentos, que parecem acumular riquezas como se fossem viver por muito tempo; mas, porventura, a opulência te tornará longevo? Por que, então, manifestamente suportas males por causa de um descanso incerto? Pois é duvidoso se deverás atingir a velhice, em favor da qual entesouras.
Tendo dito que a vida humana não se prolonga pela abundância de riquezas, acrescenta uma parábola para induzir a crença nisto, como se segue: E lhes disse uma parábola, dizendo: A terra de certo homem rico produziu frutos em abundância.
Paulatinamente o Senhor nos conduz a uma doutrina mais perfeita; pois Ele ensinou acima que devemos evitar a avareza, e acrescentou a parábola do rico, insinuando por meio dela que é insensato aquele que deseja o supérfluo; depois, ao continuar seu discurso, não nos permite ter preocupação nem mesmo com as coisas necessárias, arrancando a raiz da avareza; por isso diz: "Por isto vos digo"; como se dissesse: visto que é insensato aquele que atribui a si mesmo uma medida maior de vida, e por isso se torna mais ávido, "não estejais solícitos para a vossa alma, sobre o que comereis"; não porque a alma inteligível coma, mas porque não parece haver outro modo de a alma permanecer unida ao corpo senão enquanto nos alimentamos. Ou porque é próprio do corpo animado receber nutrição, convenientemente atribui à alma o alimentar-se; pois também a faculdade nutritiva é chamada alma; para que assim se entenda: não estejais solícitos pela parte nutritiva da alma sobre o que comereis. Porém, um corpo morto também pode ser vestido; por isso acrescenta: "nem para o vosso corpo, sobre o que vestireis".
Ou por elevação ele chama nada mais que um movimento inconstante da mente, que medita primeiro uma coisa, depois outra, e saltando de uma a outra, e imaginando coisas sublimes.
O Senhor chama de pequeno rebanho aqueles que desejam tornar-se seus discípulos: seja porque neste mundo os santos parecem pequenos por causa da pobreza voluntária, seja porque são superados pela multidão dos Anjos, os quais incomparavelmente excedem o que nos pertence.
Como se dissesse: Aqui a traça destrói, mas não nos céus. Depois, porque há coisas que a traça não destrói, acrescentou sobre o ladrão: pois o ouro não é destruído pela traça, mas o ladrão o leva.
Além disso, porque nem todas as coisas são subtraídas por furto, Ele acrescenta uma razão mais excelente e que não admite absolutamente nenhuma objeção, dizendo: onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração; como se dissesse: "Ainda que nem a traça destrua, nem o ladrão roube, isto mesmo, a saber, ter o coração fixado em um tesouro enterrado e submergir na terra uma obra divina, isto é, a alma, de quão grande suplício é digno?"
Depois que o Senhor estabeleceu seu discípulo na modéstia, despojando-o de qualquer cuidado da vida e de elevação, agora o induz a servir, dizendo: "estejam os vossos lombos cingidos", isto é, sempre prontos a executar as obras do vosso Senhor; "e as lâmpadas acesas", isto é, não conduzais a vida nas trevas, mas que esteja presente em vós a luz da razão, mostrando-vos o que fazer e o que evitar: pois este mundo é noite. Têm os lombos cingidos aqueles que praticam a vida ativa; pois tal é o hábito dos que servem, aos quais convém também ter lâmpadas acesas, isto é, o dom do discernimento: para que o homem prático possa distinguir não só o que convém fazer, mas também como fazê-lo: de outro modo, os homens precipitam-se no abismo da soberba. Deve-se notar que primeiro ordena cingir os lombos, depois as lâmpadas arderem: pois primeiro vem a ação, depois a contemplação, que é a iluminação da mente. Por isso, empenhemo-nos em exercitar as virtudes, para que tenhamos duas lâmpadas acesas, a saber, o conceito da mente resplandecendo continuamente na alma, pelo qual somos iluminados, e a doutrina, pela qual iluminamos os outros.
Todos os dias também ele desposa nos céus as almas dos santos, que Paulo ou outro semelhante lhe oferece como virgem casta. Retorna, porém, das núpcias celebradas nos céus, talvez universalmente na consumação de todo o mundo, quando vier do céu na glória do Pai; talvez também em cada hora, apresentando-se inesperadamente na consumação particular de cada um.
Ou, Ele se cingirá, no sentido de que não concede toda a abundância de bens, mas a contém segundo certa medida. Pois quem pode compreender a Deus em toda Sua grandeza? Por isso se diz que os Serafins cobrem seus rostos devido à excelência do divino esplendor. Segue-se: e os fará sentar à mesa, isto é, repousar completamente: assim como aquele que está sentado faz com que todo o corpo descanse, assim na futura vinda os santos repousarão totalmente. Aqui não tiveram descanso corporal, mas lá, juntamente com as almas, os corpos espirituais, tendo alcançado a incorrupção, gozarão de pleno descanso.
Como que lhes retribuindo de forma equivalente, para que assim como eles o serviram, assim também Ele lhes sirva
Ou porque as vigílias são as horas da noite que provocam o sono aos homens, entenda também que em nossa vida existem certas horas que nos fazem bem-aventurados, se formos encontrados vigilantes. Alguém te roubou teus bens? Morreram teus filhos? Foste acusado? Mas se nestes momentos não fizeres nada contra os mandamentos de Deus, Ele te encontrará vigilante na segunda e na terceira vigília, isto é, no tempo adverso que traz um sono pernicioso às almas indolentes.
Alguns entendem que este ladrão seja o Diabo, a casa a alma, e o pai de família o homem; entretanto, esta interpretação não parece estar de acordo com o que se segue: pois a vinda do Senhor é comparada a este ladrão como algo que acontece inesperadamente, segundo aquilo do Apóstolo: "O dia do Senhor virá como um ladrão na noite"; por isso também aqui se acrescenta: "Vós, pois, estai preparados, porque na hora que não pensais o Filho do homem virá".
São Pedro, a quem já havia sido confiada a Igreja, como quem tem o cuidado de todas as coisas, pergunta se o Senhor dirigia esta parábola a todos; donde segue: Disse-lhe então Pedro: Senhor, dizes esta parábola a nós, ou também a todos?
Como se dissesse: a parábola anterior se refere em geral a todos os fiéis; mas ouvi o que convém a vós, apóstolos e doutores. Pois pergunto: quem é o dispensador que se encontra possuindo em si mesmo fidelidade e prudência? Porque assim como na administração de bens, seja alguém imprudente mas fiel ao seu senhor, ou sábio mas infiel, os bens do senhor perecem; assim também nas coisas divinas é necessário fidelidade e prudência: pois conheci muitos que adoram a Deus e são fiéis; mas como não podiam tratar prudentemente dos negócios eclesiásticos, destruíam não só os bens, mas também as almas, usando para com os pecadores virtude indiscreta por meio de mandamentos imoderados de penitência, ou mansidão inoportuna.
Portanto, quem for encontrado fiel e prudente, presida a família do Senhor, para que lhes dê a medida de trigo em cada tempo, seja por meio da palavra da doutrina, com a qual se alimentam as almas, seja pelo exemplo das obras, pelo qual a vida é formada.
Ou põe-lo-á sobre todos os seus bens, não somente sobre sua família, mas para que tanto as coisas terrenas quanto as celestes lhe obedeçam; como foi com Josué, filho de Nun, e Elias; um comandando o sol, o outro as nuvens: e todos os santos, como amigos de Deus, usam das coisas de Deus. Qualquer um também que vive virtuosamente, e manteve em devida submissão seus servos, isto é, a ira e a concupiscência, fornecendo-lhes sua porção de alimento a seu tempo; à ira, para que se afete contra aqueles que odeiam a Deus, e à concupiscência, para que use o necessário à provisão da carne, ordenando-a a Deus: tal pessoa, digo, será posta sobre todas as coisas que o Senhor possui, sendo considerada digna de contemplar todas as coisas pela luz do intelecto especulativo.
Do fato de não se considerar a hora do fim, muitos pecados acontecem: pois se pensássemos que o Senhor está vindo e que o fim de nossa vida está próximo, certamente pecaríamos menos; por isso segue: e começar a bater nos servos e nas servas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se.
Corretamente também o administrador infiel receberá sua parte com os infiéis, porque careceu da verdadeira fé.
Aqui o Senhor nos mostra algo maior e mais terrível; pois o administrador infiel não apenas será privado da graça recebida, de modo que nada o ajudará a evitar os suplícios; mas, antes, a imensidade de sua dignidade se tornará para ele causa de condenação; por isso se diz: "Aquele servo que conheceu a vontade de seu senhor e não fez conforme a sua vontade, receberá muitos açoites".
Aqui alguns objetam: com razão é castigado aquele que, conhecendo a vontade do Senhor, não a cumpre; mas por que é castigado o ignorante? Porque quando ele poderia ter conhecido, não quis; mas sendo ele mesmo negligente, foi a causa de sua própria ignorância.
Mostra-se, por conseguinte, por que aos doutores e aos sábios é devida uma pena mais intensa, quando diz: a todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem confiaram muito, mais lhe pedirão. Aos doutores, de fato, é dada a graça de fazer milagres; mas confia-se a eles a graça da palavra e da doutrina. Mas no que é dado, não diz que algo mais deva ser buscado, mas no que é confiado ou depositado: pois a graça da palavra necessita de crescimento, e do doutor se requer mais. Não convém, com efeito, que ele permaneça ocioso, mas que aumente o talento da palavra.
Quando discorreu acerca da pregação, e a denominou espada, os ouvintes poderiam ficar perturbados, desconhecendo o que dizia; e por isso o Senhor acrescenta que, assim como conhecem as disposições do clima por certos sinais, assim deveriam conhecer a sua vinda; e isto é o que diz: quando virdes uma nuvem que se levanta do ocidente, logo dizeis: vem uma tempestade, e assim acontece; e quando virdes o vento do sul soprando, dizeis que fará calor, e assim acontece, como se dissesse: minhas palavras e obras me mostram contrário a vós: podeis, portanto, conjecturar que não vim trazer paz, mas chuva e turbulência. Eu, de fato, sou a nuvem, e venho do ocidente, isto é, da natureza humana até então coberta por muita escuridão de pecados: vim também para pôr fogo, isto é, incitar o calor: pois sou o vento Austro, quente e oposto à frieza boreal.
Depois que o Senhor mostrou a discórdia louvável, a partir daqui ensina a paz louvável, quando diz "Quando vais com teu adversário ao príncipe, no caminho dá obra para te livrares dele"; como se dissesse: quando o adversário te arrasta ao julgamento, dá obra, isto é, reflita de todos os modos, para seres absolvido dele. Ou dá obra; isto é, ainda que nada tenhas, toma emprestado, para seres absolvido dele, para que ele não te encontre diante do juiz; por isso segue "para que não te arraste perante o juiz, e o juiz te entregue ao cobrador, e o cobrador te mande para a prisão".
Mas cada um de nós também é uma figueira plantada na vinha de Deus, isto é, na Igreja, ou neste mundo.
Nossa natureza não dá fruto por três vezes buscado: primeiro, quando no Paraíso transgredimos o preceito; segundo, quando sob a lei fundiram o bezerro; terceiro, quando rejeitaram o Salvador. Mas esse período de três anos deve ser entendido também como referência às três idades da vida: infância, virilidade e velhice.
Ou o pai de família é Deus Pai, o cultivador é Cristo, que não permite que a figueira seja cortada como estéril; como se dissesse ao Pai: Mesmo que não tenham dado fruto de penitência pela lei e pelos profetas, eu os regarei com minhas paixões e ensinamentos; e talvez darão o fruto da obediência.
Ou qualquer homem recebendo um grão de mostarda, isto é, a palavra do Evangelho, e semeando-o no jardim de sua alma, faz dele uma grande árvore, de modo a produzir ramos, e as aves do céu, isto é, aqueles que se elevam acima da terra, repousam nos ramos da pregação, isto é, em vastas contemplações. Pois São Paulo recebeu o ensinamento rudimentar de Ananias como um pequeno grão, mas plantando-o em seu jardim, produziu muitas e boas doutrinas, nas quais habitam aqueles que são elevados em intelecto, como São Dionísio, São Hieroteu e muitos outros. Em seguida, compara o reino de Deus ao fermento; pois segue-se: "E disse: a que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento".
Ou, pela mulher entenda-se a alma; mas as três medidas são suas três partes: a racional, a irascível e a concupiscível. Se, portanto, alguém esconder nestas três partes a palavra de Deus, tornará tudo espiritual, de modo que nem a parte racional peque contra os ensinamentos, nem a ira ou a concupiscência se manifestem de maneira desmedida, mas se conformem à palavra de Deus.
Pois ele não visitava somente os pequenos lugares, como fazem aqueles que desejam enganar os simples, nem somente as cidades, como fazem os ostentadores e os que buscam glória; mas como Senhor comum e Pai que provê a todos, percorria todos os lugares. Nem tampouco visitava apenas as vilas, evitando Jerusalém, como se temesse as repreensões dos peritos na lei ou a morte que ali poderia acontecer; por isso acrescenta: e fazendo caminho para Jerusalém. Pois onde havia mais enfermos, ali o médico mais se apresentava. Segue-se: E alguém lhe disse: Senhor, são poucos os que se salvam?
Ou, simplesmente, é dito aos israelitas: porque Cristo nasceu deles segundo a carne, e comiam e bebiam com Ele, e o ouviam pregar. Mas estas coisas também se aplicam aos cristãos; pois nós comemos o corpo de Cristo e bebemos o seu sangue cotidianamente, aproximando-nos da mesa mística, e Ele ensina nas praças de nossas almas, que estão abertas para recebê-Lo.
Observa também que são detestáveis aqueles em cujas praças o Senhor ensina. Por isso, se ouvirmos a Ele ensinando, não nas praças, mas nos corações angustiados e humildes, não seremos detestáveis.
Isto também se refere aos israelitas, com os quais Ele falava; os quais ficam extremamente abalados pelo fato de que os gentios descansam com os patriarcas, enquanto eles mesmos são excluídos; por isso acrescentou: "Quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, vós, porém, sereis lançados fora. E virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão no reino de Deus".
Nós, porém, segundo parece, somos os primeiros, que desde o próprio berço recebemos os rudimentos; e talvez seremos os últimos em relação aos gentios, que creram perto do final da vida.
Como se dissesse: Que pensais da minha morte? Eis que ocorrerá em breve. Mas quando se diz hoje e amanhã, isto significa muitos dias, assim como nós no discurso comum costumamos dizer: hoje e amanhã isto se fará, o que acontece com grande distância de tempo. E para expor mais claramente o texto evangélico, não entendas que é necessário que eu ande hoje e amanhã, mas estabeleça uma pausa em hoje e amanhã, depois acrescente e caminhar no dia seguinte; assim como ao contar frequentemente costumamos dizer: no domingo, e na segunda-feira, e na terça sairei, como se contando dois dias, para indicar o terceiro. Assim também o Senhor, como se estivesse calculando, diz: é necessário que eu [permaneça] hoje e amanhã, e depois no terceiro dia ir a Jerusalém.
Mas porque eles lhe diziam "sai daqui, porque Herodes te procura para matar", falando na Galileia, onde Herodes reinava, mostrou que não na Galileia, mas em Jerusalém estava preordenado que Ele deveria padecer; donde segue: porque não cabe que um profeta pereça fora de Jerusalém. Quando ouves "não cabe", isto é, não convém que um profeta seja morto fora de Jerusalém, não penses que uma força coativa foi imposta aos judeus, mas diz isso convenientemente em referência ao seu ávido desejo de sangue; como se alguém, vendo um salteador extremamente feroz, dissesse: este caminho, no qual o salteador embosca os viajantes, não pode estar livre de sangue; assim também, não convinha que em outro lugar, senão onde habitavam os salteadores, perecesse o Senhor dos profetas; pois acostumados ao sangue dos profetas, matariam também o Senhor; donde segue: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que são enviados a ti.
Ou vossa casa, isto é, o templo; como se dissesse: Enquanto havia virtude em vós, o templo era meu; mas depois que fizestes dele uma cova de ladrões, não é mais, de agora em diante, a minha casa, mas a vossa. Ou chama casa a toda a nação dos judeus, conforme aquilo: Casa de Jacó, bendizei ao Senhor, pelo que mostra que era Ele mesmo quem os governava e os livrava das mãos dos inimigos. Segue-se: Digo-vos, porém, que não me vereis até que venha, quando direis: Bendito o que vem em nome do Senhor.
Porque então, mesmo contra a vontade, confessarão que Ele é Salvador e Senhor, quando não lhes resultará nenhum proveito. E dizendo "não me vereis até que venha", etc., não indica aquela hora, mas o tempo da cruz; como se dissesse: depois que me crucificardes, não mais me vereis, até que Eu venha novamente.
Porém, em sua interrogação, ele os ridiculariza, como insensatos: pois, enquanto Deus abençoava o sábado, eles proíbem que se faça o bem nele; mas o dia que não admite as obras do bem é maldito.
No qual o Senhor não considerou evitar escandalizar os fariseus, mas apenas beneficiar aquele que necessitava de cura: pois convém a nós, quando resulta grande utilidade, não nos preocuparmos se os insensatos se ofendem.
Como se dissesse: Se a lei proíbe ter misericórdia no sábado, não te preocupes com teu filho quando este estiver em perigo no dia de sábado; mas por que falo do filho, quando nem mesmo deixas de lado um boi se o vires em perigo?
Ninguém, porém, considere que a doutrina precedente de Cristo seja modesta e indigna da grandeza da palavra de Deus; pois não dirás que é piedoso um médico que promete curar a gota, mas não quer curar a dor de um dedo ferido ou de um dente. Além disso, como pode ser pequena a paixão da vanglória, que perturbava os primeiros que buscavam os lugares mais elevados? Convinha, portanto, ao mestre da humildade cortar todo ramo de raiz perversa. Considera também isto, que estando a ceia preparada, e afligindo os miseráveis a paixão da primazia diante do Salvador, a admoestação era oportuna.
Além disso, não é finalmente nem por todos os homens reverenciado aquele que se entremete nos lugares de honra; mas enquanto por alguns é honrado, outros o depreciam, e às vezes até mesmo aqueles mesmos que o honram exteriormente.
O jantar é composto de duas partes, a saber, dos que convidam e dos que são convidados. Àqueles que eram convidados já havia ele admoestado à humildade; consequentemente, ao convidar, ele admoesta recompensando, dissuadindo-o de convidar para agradar aos homens; por isso diz: "E dizia também àquele que o tinha convidado: Quando deres um almoço ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem parentes, nem vizinhos, nem ricos".
Porque muitos dos que O acompanhavam não O seguiam com todo o afeto, mas com tibieza, Ele mostra como deve ser o seu discípulo.
Não devemos, pois, pôr o fundamento, isto é, seguir o início de Cristo, e não impor-lhe um fim, como aqueles de quem São João diz que muitos de seus discípulos retrocederam. Ou por fundamento entenda-se o sermão doutrinal, por exemplo, sobre a abstinência. É necessário, portanto, ao fundamento supracitado, o edifício da obra, para que se complete para nós a torre de fortaleza ante a face do inimigo. De outro modo, o homem é escarnecido pelos que o veem, tanto homens quanto demônios.
O rei é o pecado que reina em nosso corpo mortal; mas também nosso intelecto foi criado rei. Portanto, se quiser lutar contra o pecado, que pense com toda a sua alma consigo mesmo: pois os demônios são os satélites do pecado, que parecem superar em número os nossos dez mil com seus vinte mil: porque sendo incorpóreos, comparados a nós que somos corpóreos, são considerados como tendo força muito maior.
Não somente aqueles que foram dotados de graça magistral, mas também às pessoas simples, requer que se tornem como sal, úteis aos próximos. Porém, se aquele que deveria ser útil para os outros se tornar réprobo, não poderá ser ajudado; por isso segue: "Se o sal perder o seu sabor, com que será temperado?"
Mas, como o discurso era parabólico e obscuro, o Senhor, estimulando seus ouvintes a não receberem de qualquer maneira o que foi dito sobre o sal, acrescenta: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça"; isto é, se alguém possui sabedoria, que entenda: pois aqui por ouvidos devemos entender a força cognoscitiva da alma e a aptidão para compreender.
Pois Ele executava isso pelo motivo pelo qual assumira a carne, acolhendo os pecadores, como o médico aos enfermos. Mas os fariseus, verdadeiramente criminosos, retribuíam a esta piedade com murmurações; por isso segue: "e murmuravam os fariseus e escribas, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles".
As potências celestiais são, portanto, chamadas de ovelhas, porque toda natureza criada em comparação com Deus é como os animais; mas na medida em que são racionais, são chamadas amigas e vizinhas.
Ou são amigas, enquanto executoras de Sua vontade; vizinhas, enquanto incorpóreas; ou talvez amigas sejam todas as potestades celestiais, e vizinhas sejam aquelas que estão mais próximas, ou seja, os Tronos, os Querubins e os Serafins.
A substância do homem é a racionalidade, que é acompanhada pela liberdade de arbítrio; e similarmente, quaisquer coisas que o Senhor nos deu serão consideradas como nossa substância, como o céu, a terra e toda a criação, a lei e os profetas.
Portanto, a estes apascenta aquele que excede aos outros no vício, como são os alcoviteiros, os líderes dos ladrões, os chefes dos publicanos, que são mestres da obra má para os outros.
Aos quais ninguém dá satisfação dos males; pois está distante de Deus aquele que se nutre de tais coisas, e os demônios se empenham para que nunca chegue a saciedade dos males.
Pelos servos, podes entender os espíritos ministradores, ou anjos, ou os sacerdotes, que pelo batismo e pela palavra da doutrina revestem a alma no próprio Cristo. Pois todos nós que fomos batizados em Cristo, revestimo-nos de Cristo.
Quanto, pois, à condição de seus vícios, estava morto sem esperança; mas quanto à natureza humana, que é mutável e pode converter-se do vício à virtude, diz-se perdido: pois é menos perder-se do que morrer. Mas qualquer um que seja chamado de volta e purificado do crime, participando do bezerro cevado, torna-se causa de alegria para o pai e seus servos, isto é, os Anjos e sacerdotes; por isso segue "e começaram todos a festejar".
Ou, de outro modo, toda a pessoa do filho, que parece murmurar, representa todos aqueles que se escandalizam nos súditos; assim como Davi introduz a pessoa que sofreu escândalo na paz dos pecadores.
Ou estava no campo, isto é, no mundo, cultivando sua própria carne, para que se saciasse de pães, e semeando em lágrimas para que colhesse em alegria; mas ao conhecer o que estava acontecendo, não queria entrar no gozo comum.
Ou o Senhor corrige a intenção dos fariseus por meio da presente parábola, os quais por hipótese chama de justos; como se dissesse: Supondo que vós sejais verdadeiramente justos, e não tenhais transgredido nenhum dos mandamentos, acaso por isso não conviria acolher aqueles que retornam de seus pecados?
Diz, pois, o filho ao pai: gratuitamente levei uma vida de dores, molestado pelos pecadores; e nunca, por minha causa, determinaste que fosse sacrificado um cabrito, isto é, o pecador que me perseguia, para que eu pudesse me recrear um pouco; tal cabrito foi Acab para Elias, que dizia: Senhor, mataram os teus profetas.
Em seguida, que quando não exercemos a dispensação das riquezas segundo o agrado do Senhor, mas abusamos do que nos foi confiado para nossos próprios deleites, somos administradores culpados; de onde segue: "e este foi difamado diante dele, como se tivesse dissipado os seus bens".
Chama, pois, filhos deste século aos que pensam naquilo que lhes é conveniente na terra; mas filhos da luz aos que manejam os tesouros espirituais tendo em vista o amor divino. Achamo-nos, porém, nas administrações humanas, dispondo tudo prudentemente e esforçando-nos com todo o empenho para que, se deixarmos a administração, tenhamos refúgio para a vida; porém, quando devemos dispensar as coisas divinas, não premeditamos aquilo que depois nos será proveitoso.
Aquelas, portanto, são chamadas riquezas da iniquidade, quaisquer que o Senhor tenha dado para os gastos necessários dos irmãos e de nossos conservos; nós, porém, retemos para nós. Convinha, portanto, desde o princípio entregar todas as coisas aos pobres; mas como fomos administradores da iniquidade, retendo iniquamente o que foi destinado para o uso dos outros, não se deve de modo algum permanecer nesta crueldade, mas compartilhar com os pobres, para que sejamos recebidos por eles nos tabernáculos celestiais; pois segue-se: "Para que, quando falecerdes, vos recebam nos tabernáculos eternos".
Assim, pois, até agora Ele nos ensinou com quanta fidelidade convém dispor das riquezas; mas porque a administração das riquezas segundo Deus não se obtém de outro modo senão pela impassibilidade de um espírito não afeiçoado às riquezas, acrescenta: "Nenhum servo pode servir a dois senhores".
Mas o Senhor, descobrindo neles a malícia oculta, mostra que eles simulam a justiça; de onde segue: e lhes disse: vós sois os que vos justificais diante dos homens. Justificam-se diante dos homens aqueles que desprezam os pecadores como fracos e desesperados, mas a si mesmos, como perfeitos, creem não necessitar do remédio das esmolas; porém, o quão justamente condenável é a altivez do pernicioso orgulho, vê aquele que iluminará os esconderijos das trevas; de onde segue: Mas Deus conhece vossos corações.
E por isso sois abomináveis diante dele por causa da arrogância e ambição de favor humano; por isso acrescenta: porque o que é elevado aos olhos dos homens, é abominação diante de Deus.
Que a lei falava imperfeitamente aos imperfeitos é evidente pelo que disse aos endurecidos corações dos judeus: "Se um homem odiar sua esposa, ele a repudiará"; pois sendo eles homicidas e regozijando-se no sangue, não tinham compaixão nem mesmo daqueles que lhes estavam unidos, a ponto de sacrificarem seus filhos e filhas aos demônios. Mas agora é necessária uma doutrina mais perfeita. Por isso, portanto, digo que se alguém repudia sua esposa, não havendo causa de fornicação, comete adultério, e aquele que se casar com outra, comete adultério.
Alguns, porém, dizem que o Inferno é a passagem do visível ao invisível, e a deformidade da alma; pois enquanto a alma do pecador está no corpo, ela se manifesta por meio de suas próprias operações; mas quando se desprende do corpo, torna-se disforme.
Ele, contudo, não dirige a palavra a Lázaro, mas a Abraão, porque talvez estivesse envergonhado e pensasse que Lázaro se lembraria dos males, julgando-o a partir de si mesmo; donde segue e ele, clamando, disse.
"Chasma mega", isto é, um grande abismo, significa a distância dos justos em relação aos pecadores: pois assim como os afetos deles foram diversos, também suas moradas diferem não pouco.
Disto se pode tirar um argumento contra os seguidores de Orígenes, que dizem: como haverá de ser posto um fim aos suplícios, virá um tempo em que os pecadores serão reunidos aos justos e a Deus.
Como os fariseus, sendo avarentos, injuriavam a Cristo quando pregava a pobreza, introduziu a parábola do rico e de Lázaro. Depois, falando com seus discípulos sobre os fariseus, indica que eles são cismáticos e impedidores do caminho divino; por isso diz: E disse aos seus discípulos: É impossível que não venham escândalos, isto é, impedimentos para uma boa conduta e agradável a Deus.
Ou então, Ele diz que é necessário que surjam muitos obstáculos à pregação e à verdade, assim como os fariseus impediam a pregação de Cristo. Alguns, porém, perguntam: se é necessário que venham os escândalos, por que o Senhor repreende o autor dos escândalos? Pois segue-se: Mas ai daquele por quem eles vêm; porque o que a necessidade produz é venial ou digno de perdão. Mas observa que essa necessidade tem sua origem no livre arbítrio. Pois o Senhor, vendo como os homens se apegam ao mal e não propõem nada de bom, disse que, quanto às consequências daquilo que se vê, é necessário que ocorram escândalos; assim como se um médico, vendo alguém que usa uma dieta prejudicial, dissesse: é necessário que este adoeça. E, portanto, àquele que causa escândalos Ele denuncia ai e o ameaça com castigo, dizendo: Melhor seria para ele que uma pedra de moinho fosse pendurada em seu pescoço e fosse lançado ao mar do que escandalizar um destes pequeninos.
Como se dissesse: É necessário que os escândalos aconteçam; no entanto, não é necessário que vós pereçais, se pecardes; assim como não é necessário que as ovelhas pereçam quando o lobo vem, se o pastor vigiar. E como há muitas diferenças entre os que escandalizam: pois alguns são incuráveis, outros são curáveis; por isso acrescenta: se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e se ele fizer penitência, perdoa-lhe.
Mas alguém poderia perguntar: se depois de perdoar meu irmão muitas vezes, ele novamente me causar dano, o que devo fazer com ele? Por isso, respondendo a esta questão, acrescenta: "E se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia se voltar a ti, dizendo: arrependo-me, perdoa-lhe".
Ouvindo os discípulos ao Senhor discorrer sobre algumas coisas árduas, como a pobreza e evitar os escândalos, pedem que lhes seja aumentada a fé, pela qual possam seguir a pobreza: pois nada tanto promove o cultivo da pobreza quanto crer e esperar no Senhor; e para que pela fé possam resistir aos escândalos; donde se diz: "E disseram os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé".
O Senhor, porém, mostrou-lhes que pediam bem e que deveriam crer com constância, mostrando-lhes quão muito pode a fé; por isso segue: Disse, pois, o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta árvore, a amoreira: arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá. Duas grandes coisas concorrem para o mesmo fim: a transplantação daquilo que está enraizado na terra e a plantação no mar (pois o que jamais se planta nas ondas?). Por meio destas duas coisas, Ele manifesta o poder da fé.
Porque a fé faz de seu possuidor um observador dos mandamentos divinos, adornando-o com obras vivificantes, disto parecia que o homem poderia incorrer no vício da soberbia; por isso, o Senhor advertiu previamente os apóstolos para que não se ensoberbeçam em suas virtudes, por meio de um exemplo conveniente, dizendo: "Qual de vós tendo um servo que ara ou apascenta bois, lhe dirá, logo que ele volte do campo: Vem depressa e senta-te à mesa?"
Estavam, pois, de longe como que envergonhados da imundícia que lhes era imputada, pois pensavam que Cristo os desprezaria à maneira dos outros. Assim, pois, permaneceram no lugar, mas fizeram-se próximos suplicando, pois o Senhor está perto de todos os que o invocam em verdade; por isso segue-se: e elevaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.
E não o suplicam simplesmente, nem o rogam como se fosse um mortal: chamam-no de preceptor, isto é, Senhor, pelo que quase parecem considerar Este como Deus. Mas Ele ordena-lhes que se mostrassem aos sacerdotes; por isso segue: os quais, quando Ele viu, disse: Ide, mostrai-vos aos sacerdotes: pois estes examinavam se estavam purificados da lepra ou não.
Portanto, ordenar-lhes que fossem aos sacerdotes não insinuava outra coisa senão que deviam ser curados; por isso segue-se: "E aconteceu que, enquanto iam, foram purificados".
Sendo, porém, dez, nove, que eram israelitas, foram ingratos; mas o estrangeiro samaritano regressou, emitindo palavras benignas; de onde segue: um deles, porém, quando viu que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz.
Disto qualquer um poderá deduzir que nada impede que alguém agrade a Deus, ainda que proceda de linhagem profana, contanto que tenha bom propósito. Também ninguém nascido de santos se ensoberbeça; pois os nove que eram israelitas foram ingratos; donde segue: E respondendo Jesus, disse: Não são dez os que foram purificados? E os nove, onde estão? Não foi encontrado quem voltasse e desse glória a Deus, senão este estrangeiro.
Então, de fato, viviam sem preocupação, pois Cristo cuidava deles e os protegia; mas haveria de chegar o tempo quando, na ausência de Cristo, seriam entregues aos perigos, conduzidos diante de reis e príncipes; e então desejariam aquele primeiro tempo como tranquilo.
Depois de vir o Anticristo, os homens tornar-se-ão lascivos, entregues a vícios enormes, segundo aquilo do Apóstolo: "mais amantes dos prazeres do que de Deus"(2 Timóteo 3,4). Pois se o Anticristo é habitáculo de todo pecado, que outra coisa trará à miserável raça dos homens daquele tempo senão os seus próprios vícios? E isto o Senhor indica pelos exemplos do dilúvio e dos Sodomitas.
AI:Depois de vir o Anticristo, os homens tornar-se-ão lascivos, entregues a vícios enormes, segundo aquilo do Apóstolo: "mais amantes dos prazeres do que de Deus"(2 Timóteo 3,4). Pois se o Anticristo é habitáculo de todo pecado, que outra coisa trará à miserável raça dos homens daquele tempo senão os seus próprios vícios? E isto o Senhor indica pelos exemplos do dilúvio e dos Sodomitas.
São Mateus afirma que todas estas coisas foram ditas pelo Senhor com referência à tomada de Jerusalém, para que, quando chegassem os romanos, nem os que estivessem em casa descessem para buscar qualquer coisa necessária, mas imediatamente empreendessem a fuga, nem os que estivessem no campo voltassem para casa. E certamente consta que estes acontecimentos ocorreram na tomada de Jerusalém, e que ocorrerão novamente com a vinda do Anticristo; e muito mais no próprio tempo da consumação, quando então a calamidade será intolerável.
Em seguida, acrescenta as consequências do que foi dito anteriormente, dizendo: "Todo aquele que procurar salvar a sua alma, perdê-la-á"; como se dissesse: ninguém, durante as perseguições do Anticristo, busque cuidar da própria alma, pois a perderá; mas todo aquele que se entregar aos sofrimentos e aos perigos, será salvo; por isso segue: "e todo aquele que a perder, vivificá-la-á", não se submetendo de modo algum ao tirano por amor à vida.
Ou ensina que a vinda de Cristo será inesperada, a qual somos instruídos que acontecerá durante a noite. E depois de dizer que os ricos dificilmente se salvam, mostra que nem todos os ricos perecem, nem todos os pobres se salvam.
Depois que o Senhor mencionou as tribulações e perigos, acrescenta o remédio para estes, que é a oração contínua e premeditada; por isso diz: "Dizia-lhes também uma parábola sobre a necessidade de orar sempre e não desfalecer".
Observa que ser impudente para com os homens é indício de um mal maior: pois muitos não temem a Deus, contudo são refreados pelo pudor humano, e por isso pecam menos; quando, porém, alguém se torna impudente também para com os homens, então cresce o cúmulo dos vícios. Segue-se: E havia uma certa viúva naquela cidade.
Como se dissesse: se a persistência dobrou um juiz revestido de qualquer crime, quanto mais nós dobraremos para a piedade a Deus Pai de misericórdia ao rezar? Por isso, segue-se "porém vos digo que logo fará justiça a eles". Alguns, no entanto, tentaram investigar com mais sutileza esta parábola; pois dizem que a viúva é qualquer alma que exclui o seu antigo marido, a saber, o Diabo, que se opõe a ela por ela aproximar-se de Deus, o juiz da justiça; que não teme a Deus, pois só Ele é Deus; nem reverencia o homem, pois para Deus não há acepção de pessoas. Portanto, Deus se compadece desta viúva, isto é, da alma suplicante, que continuamente roga contra o Diabo, sendo Ele abrandado pela sua insistência. Depois que o Senhor ensinou que no tempo da consumação se deve recorrer à oração por causa dos perigos que então virão, acrescenta: "Contudo, quando vier o Filho do homem, pensais que encontrará fé na terra?"
Porque a soberba, mais do que as outras paixões, atormenta as mentes dos homens, por isso adverte sobre ela com maior frequência. Ora, a soberba é o desprezo de Deus: quando alguém atribui a si mesmo, e não a Deus, o bem que faz, o que é isto senão uma negação de Deus? Por causa, portanto, daqueles que confiam em si mesmos, e não atribuem tudo a Deus, mas por isso também desprezam os outros, propõe uma parábola, mostrando que a justiça, embora aproxime o homem de Deus, se for acompanhada de soberba, precipita o homem ao mais baixo; donde segue: "Dois homens subiram ao templo para orar: um fariseu e outro publicano".
Por isto que diz estando em pé, nota-se a soberba de sua alma: pelo próprio comportamento ele parecia extremamente orgulhoso.
Observa, pois, a sequência da oração do fariseu. Primeiramente, mencionou o que lhe faltava, depois acrescentou o que possuía; segue-se, portanto: porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros.
Convém, porém, não apenas afastar-se do mal, mas também fazer o bem; e por isso, tendo dito: não sou como os adúlteros, acrescenta em oposição: jejuo duas vezes por semana. Chamavam de Sábado a semana, a partir do último dia de descanso. Os fariseus jejuavam no segundo e no quinto dia da semana. Assim, opôs os jejuns à paixão do adultério, pois da voluptuosidade nasce a lascívia. Aos rapaces e injustos, opôs o pagamento dos dízimos; pois segue: dou o dízimo de tudo o que possuo; como se dissesse: Tão longe estou de praticar rapinas e iniquidades, que até mesmo contribuo com o que é meu.
Ainda que se diga que o publicano estava de pé, ele diferia do fariseu tanto em palavras quanto em postura, bem como por seu coração contrito; pois temia levantar os olhos ao céu, considerando indignos da visão celestial aqueles que preferiram contemplar e buscar os bens terrenos; e ainda batia no peito; donde se segue mas batia em seu peito, de certo modo punindo seu coração por causa dos pensamentos depravados, e também despertando-o como se estivesse adormecido; por isso não pedia outra coisa senão que Deus lhe fosse propício; segue-se, pois, dizendo: Deus, sê propício a mim, pecador.
Mas talvez alguém se admirará de como o fariseu, tendo proferido poucas palavras em seu próprio louvor, é condenado; enquanto Job, embora tenha expressado muitas, é coroado. Isto evidentemente porque o fariseu dizia tais coisas acusando os outros, sem que nenhuma razão o obrigasse; Job, no entanto, pressionado por seus amigos e oprimido por aflições, foi forçado a relatar suas próprias virtudes para a glória de Deus, a fim de que os homens não desistissem do progresso na virtude.
Depois do que foi dito, o Senhor ensina a humildade por meio das coisas que fez, não repelindo, mas recebendo com satisfação os pequeninos; por isso diz: "E traziam-lhe também crianças, para que as tocasse".
Os sábios dentre os gentios, portanto, que buscam a sabedoria em um mistério, que é o reino de Deus, e não querem admiti-lo sem a evidência de prova silogística, são justamente excluídos deste reino.
Em primeiro lugar, a lei corrige aquelas coisas às quais somos mais propensos, como adulterar, cujo incentivo é intrínseco e natural; e matar, porque o furor é uma besta imensa e feroz; mas o pecado de furto e falso testemunho raramente acontece de incorrer. E também aqueles são mais graves; e por isso, em segundo lugar, coloca o furto e o falso testemunho, por serem mais raros e mais leves; segue-se, portanto: "não furtarás, não dirás falso testemunho".
Mas porque pecar contra os pais, embora seja um grande crime, raramente acontece, Ele coloca por último de todos: "Honra a teu pai e a tua mãe".
Portanto, quando diz "tudo que tens", aconselha a mais completa pobreza; pois se algo te restar ou permanecer contigo, tu és escravo daquilo.
Com a pobreza, é necessário também que o homem possua todas as demais virtudes; por isso diz: "E vem, segue-me"; isto é, nas demais coisas sê meu discípulo, seguindo-me fielmente sem cessar.
Como nosso Senhor viu que o rico, ao ouvir sobre o abandono das riquezas, ficou triste, falou com admiração; pois diz: "E Jesus, vendo-o triste, disse: Quão dificilmente os que têm riquezas entrarão no reino de Deus!". Não diz que é impossível que eles entrem, mas difícil; pois podem alcançar as coisas celestiais por meio das riquezas, mas é difícil, porque as riquezas são mais viscosas que o visco, e dificilmente a alma ocupada por elas se desprende. Mas em seguida indica isto como impossível, quando diz: "Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus". Pois seja entendendo por camelo o animal, seja uma corda náutica grossa, de qualquer modo é impossível que o fundo da agulha contenha todo o camelo. Se, portanto, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico salvar-se, e isto que é mais fácil é impossível, mais impossível é, portanto, que o rico se salve. O que devemos dizer então? Com efeito, é verdade que o rico não pode salvar-se. E não me digas que algum rico foi salvo porque deu seus bens: pois não foi salvo como rico, mas porque se fez pobre, ou existindo como administrador foi salvo, não como rico. Uma coisa é ser administrador, outra ser rico: rico é aquele que reserva as riquezas para si mesmo, administrador, porém, é aquele a quem as riquezas foram confiadas para o benefício de outros.
Ademais, observe que Ele diz que é impossível que o rico se salve, mas o possuidor de riquezas dificilmente; como se dissesse: o rico que foi capturado pelas riquezas e é escravo delas não se salvará; mas aquele que as possui, isto é, aquele que domina as riquezas, dificilmente se salvará por causa da fragilidade humana. Pois o Diabo esforça-se por nos fazer tropeçar enquanto possuímos riquezas, e é difícil escapar de suas armadilhas. Portanto, a pobreza é uma bênção e como que livre de tentação.
Para os homens, portanto, cujos pensamentos se arrastam para as coisas terrenas, a salvação é impossível, como foi dito; mas para Deus é possível. Pois quando o homem tiver Deus como seu conselheiro, e tiver recebido a justiça de Deus e Seus ensinamentos concernentes à pobreza, bem como tiver invocado Seu auxílio, isto se tornará possível.
E para que a caminhada do Senhor não fosse inútil, no caminho realizou o milagre do cego, dando este ensinamento aos seus discípulos, para que em todas as coisas sejamos proveitosos, e nada em nós seja ocioso.
Mas se quisermos investigar mais sutilmente, nada restava de seus próprios bens. Pois dando metade dos seus bens aos pobres, do restante restituía em quádruplo aos que havia lesado. E não somente prometia isto, mas o fazia: pois não diz: "Darei a metade e restituirei o quádruplo", mas "dou e restituo". Então Cristo lhe anuncia a salvação; segue-se: "E Jesus lhe disse: Hoje a salvação veio a esta casa", significando que o próprio Zaqueu havia alcançado a salvação, designando pela casa o habitante da mesma; pois segue: "porque também ele é filho de Abraão". Pois Ele não teria chamado filho de Abraão a uma construção inanimada.
Ele não disse que ele "era" filho de Abraão, mas que agora ele é; pois antes, quando era chefe dos publicanos, não tendo nenhuma semelhança com o justo Abraão, não era filho de Abraão. Mas como alguns murmuravam porque ele se demorava com um homem que era pecador, ele acrescenta para contê-los: "Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido".
Mas é também fácil aplicar isto para uma utilidade moral. Qualquer um que excede a muitos em malícia é pequeno na estatura espiritual, e não pode ver Jesus por causa da multidão: pois, perturbado pelas paixões e coisas seculares, não contempla Jesus caminhando, isto é, operando em nós, não reconhecendo nenhuma de suas obras. Porém, sobe sobre um sicômoro, isto é, sobre a doçura da voluptuosidade, que é significada pelo figo, reprimindo-a; e assim, tornando-se mais elevado, vê e é visto por Cristo.
Disse, porém, o Senhor a ele: "Apressa-te e desce"; isto é, subiste pela penitência a um lugar mais elevado, desce pela humildade, para que a altivez não te derrube; pois é necessário que eu permaneça na casa de um humilde. Existindo em nós dois tipos de bens, a saber, os corporais e os espirituais, o justo deixa todos os bens corporais aos pobres, mas não abandona os bens espirituais; e se extorquiu algo de alguém, devolve quatro vezes mais; significando por isso que, se alguém pela penitência segue pelo caminho contrário à sua antiga perversidade, por meio de múltiplas virtudes cura todas as suas antigas faltas; e assim merece a salvação, e é chamado filho de Abraão, porque saiu de sua própria linhagem, isto é, da antiga iniquidade.
Mas o Senhor lhes mostrou que estimavam certas coisas vãs, pois o reino de Deus não é sensível. Mostrou também que, como Deus, conhece seus pensamentos, propondo-lhes a seguinte parábola; donde segue: "Disse, pois: Um homem nobre partiu para uma região distante para receber para si um reino, e voltar".
Pois com um sudário cobre-se o rosto dos mortos; com razão, portanto, este preguiçoso é dito ter envolvido sua mina num sudário, porque, deixando-a morta e improdutiva, não a tocou nem a aumentou.
Porque como multiplicou dez, decuplicando, é evidente que, decuplicando mais, produzirá ocasião de maior lucro para o seu Senhor. Mas do preguiçoso e ocioso, que não se esforça para aumentar o que recebeu, até aquilo que possui será tirado; por isso segue: "daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado", para que não fique inativo o tesouro do Senhor, já que poderia ser dado a outros e multiplicado. Estas coisas, porém, não devem ser referidas somente à palavra e à doutrina, mas também às virtudes morais; pois também nestas Deus nos dá seus dons, dotando este do jejum, aquele da oração, outro da mansidão ou da humildade; se vigiarmos sobre estes dons, multiplicá-los-emos; mas se nos tornarmos mornos, extingui-los-emos. Em seguida, acrescenta sobre os adversários: "Quanto, porém, a meus inimigos, aqueles que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os diante de mim".
Os quais entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas também neste mundo foram lamentavelmente abatidos pelo exército dos romanos.
Ou os dois enviados insinuam isto, que para a introdução do povo gentio e sua sujeição a Cristo, constituem dois graus os profetas e os apóstolos. Eles o conduzem de certo povoado, para que fique conhecido por nós que este povo era rústico e indouto.
Discípulos chama não somente os doze, ou os setenta e dois, mas todos os que seguiam a Cristo, seja por causa dos milagres, seja por algum deleite na doutrina; entre os quais podiam estar incluídas as crianças, como narram outros Evangelistas; por isso segue: por todas as maravilhas que haviam visto.
Isto é, a guerra antiga, pela qual éramos adversários de Deus, desvaneceu-se. E glória nas alturas, ou seja, os Anjos louvando a Deus por tal reconciliação; pois o próprio fato de que Deus visivelmente caminha no território de seus inimigos significa que Ele tem concórdia conosco. Mas os fariseus, ouvindo isto, murmuravam, porque a multidão o chamava de rei e o louvava como Deus; atribuindo o nome de rei à sedição, e o nome de senhor à blasfêmia; por isso segue: e alguns dos fariseus dentre a multidão disseram-lhe: Mestre, repreende os teus discípulos.
Como se dissesse: Não é sem motivo que os homens me louvam assim, mas estimulados pelas virtudes que viram.
Isto é, da minha vinda: pois vim para ver-te e salvar-te. Se tu conhecesses isto, e cresses em mim, estarias em paz com os romanos e livre de todos os perigos; assim como todos aqueles que creram em Cristo se salvaram.
Isto também o Senhor fez no princípio de sua pregação, como narra São João; e agora o fez novamente: o que redundou em maior crime dos judeus, que não foram castigados pela primeira admoestação.
Pois para mostrar que eles sempre foram rebeldes ao Espírito Santo, e que não somente a Isaías, de quem já não tinham memória, mas também recentemente a João, a quem haviam visto, não quiseram crer, por isso, em contrapartida, lhes propõe esta questão, mostrando que se não acreditaram no grandíssimo profeta João, que lhes parecia o maior entre eles, quando este dava testemunho d'Ele, como poderiam acreditar n'Ele quando respondesse com qual autoridade fazia aquilo?
Ou qualquer um do povo é a vinha, e é também o cultivador: pois cada um de nós cultiva a si mesmo. Tendo, portanto, confiado esta vinha aos cultivadores, partiu: isto é, deixou-os progredir segundo seu próprio arbítrio; donde segue-se e esteve ausente por muito tempo.
Ele diz do fruto da vinha, porque não queria receber todo o fruto, mas apenas uma parte dele. Pois o que Deus lucra de nós senão o conhecimento d'Ele mesmo, o que também é nossa utilidade?
Tendo os profetas, pois, sofrido tais males, o filho é enviado; pois segue-se: E disse o senhor da vinha: Que farei?
Disse isto, não como ignorando que eles tratariam a Ele pior do que aos profetas, mas porque convinha que o Filho fosse reverenciado por eles. E se, sendo contumazes, ousassem matá-Lo, isto colmaria o seu crime. Para que, portanto, ninguém dissesse que a presciência divina tinha sido necessariamente a causa da desobediência deles, Ele apresenta o discurso desta forma duvidosa.
Mas como anteriormente tomamos o povo, não Jerusalém, como a vinha, talvez possa ser dito mais propriamente que o povo o matou fora da vinha; isto é, o Senhor sofreu fora das mãos do povo, porque, a saber, o povo não lhe infligiu a morte com suas próprias mãos, mas entregando-o a Pilatos e aos gentios. Alguns, porém, entenderam por vinha a Escritura, na qual não crendo, mataram o Senhor: por isso, diz-se que o Senhor sofreu fora da vinha, isto é, fora da Escritura.
Mas São Mateus parece dizer de outra maneira, a saber, que o Senhor perguntou: "O que fará o senhor da vinha àqueles cultivadores?" E que os judeus responderam: "Aos maus destruirá miseravelmente". No entanto, não há contradição: pois ambas as coisas aconteceram: primeiro, eles mesmos pronunciaram aquela sentença; depois, percebendo para onde tendia a parábola, disseram "de modo nenhum", como São Lucas aqui narra.
Porque os príncipes do povo o reprovaram, quando disseram: "Este homem não procede de Deus"(São João 9,16). Mas Ele foi tão útil e tão precioso que foi colocado como pedra angular.
Ele menciona duas condenações: uma certamente de suas almas, a qual sofreram ao se escandalizarem em Cristo; e isto Ele toca quando diz todo aquele que cair sobre aquela pedra será despedaçado; mas a outra, de seu cativeiro e extermínio, que a pedra por eles desprezada lhes impôs; e isto Ele indica quando acrescenta mas sobre quem ela cair, o esmagará, ou o ventilará: pois assim foram os judeus ventilados da Judeia por todo o mundo, como a palha da eira. E observe a ordem: pois primeiro vem o crime cometido contra Ele, depois segue-se a justa vingança de Deus.
Prepararam armadilhas para o Senhor; contudo, seus próprios pés ficaram enredados nelas. Ouça, pois, a astúcia. E interrogaram-no, dizendo: Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão.
Pretendiam, portanto, que se Ele dissesse ser necessário pagar tributo a César, seria acusado pelo povo como quem submetia a nação à servidão; se, porém, proibisse o pagamento do tributo, o denunciariam ao governador como cismático. Mas Ele escapou das armadilhas deles; segue-se, pois: "Considerando, porém, o ardil deles, disse-lhes: Por que me tentais? Mostrai-me um denário. De quem é a imagem e a inscrição que tem?"
E observa que não disse: dai, mas devolvei; pois é uma dívida: porque o teu príncipe te protege dos inimigos, torna a tua vida tranquila; por isso estás obrigado a pagar-lhe tributo. Mas também isso mesmo que ofereces, a saber, a moeda, dele a tens. Devolverás, portanto, a moeda régia ao rei. Deus também te confiou o intelecto e a razão: restitui-lhe isso, para que não sejas comparado às bestas, mas em todas as coisas procedas racionalmente.
Pois isto era o que principalmente pretendiam: repreendê-lo diante do povo; o que não puderam obter por causa da sapientíssima resposta dele.
Os saduceus, porém, estabelecendo um frágil fundamento, não criam no ensinamento da ressurreição. Pois, considerando que a vida futura seria carnal, enganavam-se merecidamente quanto à ressurreição; e por isso, como que caluniando o dogma da ressurreição por ser impossível, inventam esta narração, dizendo: "Eram, pois, sete irmãos; e o primeiro tomou uma esposa, e morreu sem filhos; e o seguinte tomou-a, e morreu sem filho; e o terceiro tomou-a; e semelhantemente todos os sete, e não deixaram descendência, e morreram. Por fim, depois de todos, morreu também a mulher".
Mas o Senhor, mostrando que na ressurreição não haverá vida carnal, destruiu a doutrina deles juntamente com seu frágil fundamento; por isso segue: E Jesus disse-lhes: Os filhos deste século casam-se e são dados em casamento.
Como se dissesse: Porque é Deus quem opera na ressurreição, com razão são chamados filhos de Deus aqueles que são regenerados pela ressurreição. Pois não se observa nada carnal na regeneração dos que ressuscitam: não há coito, nem matriz, nem parto.
Ou o Senhor acrescenta à razão supracitada o testemunho da Escritura, dizendo: Que os mortos ressuscitam, também Moisés o mostrou junto à sarça, quando chamou ao Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó; como se dissesse: se os patriarcas tivessem retornado ao nada, não vivendo junto a Deus na esperança da ressurreição, Ele não teria dito: Eu sou, mas: Eu fui; pois costumamos dizer sobre coisas corrompidas e passadas: eu era senhor daquela coisa. Agora, porém, como disse: Eu sou, mostra que é Deus e Senhor dos viventes; e isto é o que se segue: Deus não é dos mortos, mas dos vivos; pois todos vivem para Ele: ainda que estejam sem vida, vivem junto a Deus na esperança da ressurreição.
Refutados os saduceus, os escribas favorecem a Jesus como opostos aos saduceus; donde segue: Respondendo alguns dos escribas, disseram: Mestre, bem disseste.
Embora o Senhor estivesse prestes a ir para a Paixão em breve, Ele proclama sua própria divindade: não o faz, contudo, de maneira incauta ou arrogante, mas com modéstia, interrogando; por isso, diz-se: "Disse, porém, a eles: Como dizem que Cristo é filho de Davi?"
Manifesta, portanto, que não é adversário do Pai, mas concorda com Ele, pois o Pai se opõe aos adversários dele; segue-se com efeito: "até que ponha teus inimigos por estrado de teus pés".
Pergunta, pois, ele mesmo, e levantando a dúvida, deixa que eles deduzam o que se segue; por isso acrescenta: David, portanto, o chama Senhor, e como é seu filho?
Como os enviava como doutores do mundo, com razão os adverte para que não imitassem a ambição dos fariseus; por isso segue: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes longas.
O que é próprio dos aduladores e dos que buscam a opinião da fama; ou fazem isso com o propósito de acumular dinheiro; segue-se e as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes.
Porque não somente praticam o mal, mas também ostentam orações e fazem da virtude uma desculpa para a perversidade. Também empobrecem as viúvas, das quais deveriam compadecer-se, quando as obrigam a gastar por causa de sua presença.
Ou também a viúva pode ser entendida como qualquer alma que, privada, por assim dizer, de seu primeiro marido, a lei antiga, e não digna da união com o Verbo de Deus; a qual oferece a Deus, no lugar de arras, a fé e a boa consciência; e, portanto, parece oferecer mais que os ricos em palavras e os que abundam nas virtudes morais dos gentios.
Alguns, porém, quiseram que estas coisas não só fossem cumpridas na consumação futura, mas também no tempo da tomada de Jerusalém. Pois, tendo sido morto o Autor da paz, justamente entre eles as sedições e guerras tiveram lugar. E das guerras seguem-se a peste e a fome; a primeira, certamente, pelo ar infectado pelos cadáveres, a segunda pelas terras permanecendo incultas. E também Josefo relata que ocorreram sofrimentos intoleráveis por causa da fome; e no tempo de Cláudio César a fome se intensificou, como se lê nos Atos; e muitas coisas terríveis aconteceram, indicando a captura de Jerusalém, como narra Josefo.
Porque eram rudes e inexperientes, o Senhor lhes diz isto, para que não se perturbassem ao ter que prestar contas aos sábios; e acrescenta a causa: "Pois eu vos darei uma boca e sabedoria, à qual não poderão resistir nem contradizer todos os vossos adversários"; como se dissesse: imediatamente recebereis de mim eloquência e sabedoria, de modo que nem todos os vossos adversários, ainda que se unissem, poderiam resistir-vos, nem em sabedoria, isto é, na força do entendimento, nem em eloquência e elegância do discurso. Pois muitas vezes há homens que possuem sabedoria na mente, mas por serem facilmente provocáveis à perturbação, confundem tudo quando chega o momento de falar. Mas não foram assim os Apóstolos; pois foram favorecidos em ambos os dons.
Tendo assim falado, e afastado o temor da inexperiência, acrescenta outro acontecimento necessário, que poderia perturbar seus ânimos, para que, sobrevindo de repente, não os perturbasse; pois segue: sereis entregues por vossos pais, irmãos e parentes, e farão morrer alguns de vós.
Tendo dito estas coisas, acrescenta também sobre o ódio que sofrerão de todos; segue-se, pois: "E sereis odiados por todos os homens por causa do meu nome".
Alguns, porém, dizem que o Senhor por meio disto significa o devorar de filhos, o que também Josefo narra.
Ou de outro modo. Quando o orbe superior for alterado, também os elementos inferiores, com razão, sofrerão dano; donde se segue e na terra haverá angústia das nações pela confusão do ruído do mar e das ondas; como se dissesse: o mar rugirá terrivelmente, e o litoral do mar será agitado pela tempestade, de tal modo que haverá angústia para o povo da terra, isto é, uma miséria comum, e definharão de temor e expectativa dos males que sobrevirão ao mundo; donde se segue secando os homens de temor e expectativa que sobrevirão a todo o orbe.
Não somente os mortais flutuarão quando o mundo se alterar, mas também os anjos ficarão estupefatos com tão terríveis mudanças do universo; por isso segue-se "pois as virtudes dos céus se moverão".
Tanto os fiéis quanto os infiéis O verão, pois Ele mesmo e Sua cruz resplandecerão mais que o sol, de modo que será reconhecido por todos.
Isto é, a perfeita liberdade do corpo e da alma. Pois assim como o primeiro advento do Senhor foi para a reforma de nossas almas, assim o segundo será celebrado para a reforma de nossos corpos.
Porque tinha predito que haveriam perturbações e guerras e alterações, tanto dos elementos quanto das demais coisas, para que ninguém suspeitasse que o próprio Cristianismo haveria de perecer, acrescenta: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão"; como se dissesse: ainda que todas as coisas sejam abaladas, contudo a minha fé não faltará. Com isto dá a entender que a Igreja é preferida a toda a criação, pois a criatura sofrerá alteração, mas a Igreja dos fiéis e as palavras do Evangelho permanecerão.
O Senhor apresentou anteriormente os terríveis e sensíveis sinais dos males que sobrevirão aos pecadores, mas contra estes males o remédio é a vigilância e a oração; por isso diz: "Vigiai sobre vós mesmos, para que não suceda que vossos corações se tornem pesados na embriaguez e na ebriedade".
Pois aquele dia não virá com deliberação, mas de improviso e furtivamente, capturando como um laço os que não estão vigilantes; por isso segue: porque como um laço sobrevirá a todos os que estão sentados sobre a face de toda a terra. O que pode ser examinado mais diligentemente. Aquele dia capturará os que estão sentados na superfície da terra como despreparados e inertes. Mas todos aqueles que são diligentes e ágeis para o bem, não estando sentados e ociosos nas coisas terrenas, mas levantando-se delas, dizendo a si mesmos: "Levanta-te, vai, pois não há descanso para ti aqui"; para tais pessoas aquele dia não é como um laço para condenação, mas como um dia festivo.
A saber, a fome, a peste, e outras coisas semelhantes, que temporariamente ameaçam tanto os eleitos quanto os demais, e aquelas coisas que posteriormente sobrevirão aos culpados eternamente: pois essas coisas não podemos de modo algum evitar, senão por vigilância e orações.
E como convém ao cristão não apenas fugir dos males, mas também esforçar-se para alcançar a glória, acrescenta e estar em pé diante do Filho do homem: pois esta é a glória angélica, estar diante do Filho do homem, nosso Deus, e contemplar continuamente a sua face.
Os Evangelistas, porém, calaram-se sobre a maior parte dos ensinamentos de Cristo, que, embora tenha pregado por quase três anos, os ensinamentos que eles registraram, dir-se-ia, mal são suficientes para um discurso de um único dia. Portanto, descrevendo poucas coisas dentre muitas, nos deram uma espécie de gosto da doçura de sua doutrina. Mostra-nos o Senhor que convém dirigir-se a Deus durante a noite e em silêncio, e durante o dia fazer o bem aos homens; e reunir, de fato, durante a noite, mas distribuir durante o dia o que foi recolhido; donde se segue: "nas noites, porém, saindo, permanecia no monte que se chama das Oliveiras"; não porque tivesse necessidade de oração, mas fez isso para nos dar exemplo.
Como foi dito que os príncipes dos sacerdotes buscavam um modo pelo qual pudessem matar Jesus sem incorrer em perigo algum, consequentemente, o modo que lhes ocorreu é narrado quando se diz: Satanás, porém, entrou em Judas.
Magistrados aqui são chamados os encarregados das construções do templo, ou também aqueles que os romanos haviam posto à frente do povo para que não irrompessem em tumultos, pois eram sediciosos.
Isto é, fez acordo e prometeu. "E buscava uma oportunidade para entregá-lo sem as multidões"; ou seja, procurava entregá-lo quando o visse estando sozinho, separado das multidões.
Na mesma quinta-feira, Ele enviou dois de seus discípulos para preparar a Páscoa, a saber, Pedro e João, um certamente como o diligente, o outro como o dileto. Por isso segue: e enviou Pedro e João, dizendo: ide e preparai-nos a Páscoa, para que a comamos; manifestando em todas as coisas que até o fim da vida não foi contrário à lei. Envia-os, porém, a uma casa alheia, pois não havia casa alguma para Ele nem para seus discípulos; caso contrário, teria celebrado a Páscoa na casa de algum deles. E por isso acrescenta: e eles disseram: onde queres que a preparemos?
Ou por isso envia-os a um homem desconhecido, para mostrar que se submeteu à paixão voluntariamente. Pois aquele que submeteu a mente deste homem desconhecido para recebê-los, poderia tratar com os judeus o que quisesse. Dizem alguns que por isso não disse o nome do homem, para que o traidor, conhecendo o nome, não revelasse a casa aos fariseus, que, vindo, o teriam prendido antes que a ceia acontecesse, e entregasse os mistérios espirituais aos discípulos: mas por certos sinais os dirige a uma certa casa; donde segue: e direis ao pai de família da casa: o Mestre te diz: onde está o aposento onde possa comer a Páscoa com meus discípulos? E ele mesmo vos mostrará um cenáculo grande, mobiliado; e aí preparai.
Entendemos por dia dos Ázimos toda a conversação que está na luz espiritual, não exalando nenhum resquício da antiga prevaricação de Adão, na qual vivendo, não convém nos deleitarmos nos mistérios de Cristo. Estes mistérios são preparados por São Pedro e São João, isto é, a ação e a contemplação, o fervor do zelo e a mansidão pacífica. A estes preparadores encontra um homem: porque mediante o supracitado reconhecemos o estado do homem que foi criado à imagem de Deus: que carrega um cântaro de água, o qual significa a graça do Espírito Santo: o cântaro é a humildade do coração: pois aos humildes concede graça, aos que reconhecem ser terra e pó.
Mas como se diz que o Senhor estava reclinado, quando os judeus comiam a Páscoa em pé? Dizem, pois, que tendo comido a Páscoa legal, reclinaram-se segundo o costume comum, comendo alguns outros alimentos. Segue-se que lhes disse: "Com desejo desejei comer esta Páscoa convosco, antes que eu padeça".
Ou diz "desejei com desejo", como se dissesse: esta é a minha última ceia convosco, por isso me é amável; assim como aqueles que estão prestes a partir para longe proferem as últimas palavras aos seus amigos com mais afeto.
A ressurreição é chamada reino de Deus, porque exterminou a morte: daí que Davi diz: "o Senhor reinou, revestiu-se de formosura", isto é, de vestes formosas, segundo Isaías, despojada a corrupção do corpo. Ocorrida a ressurreição, novamente bebeu com os discípulos, para provar que a ressurreição não era fantasiosa.
São Lucas menciona dois cálices; sobre um deles disse anteriormente: "Tomai e dividi entre vós", o qual alguns diriam ser símbolo do Antigo Testamento; o outro, porém, depois da fração do pão e da distribuição, ele mesmo partilha aos discípulos; donde se segue "Semelhantemente também o cálice, depois que ceou".
O Senhor denomina este cálice do novo testamento; donde segue dizendo: Este é o cálice novo testamento em meu sangue, que por vós será derramado; significando que o novo testamento tem seu início em seu sangue: pois no antigo testamento havia sangue de animais quando foi dada a lei; agora, porém, o sangue do Verbo de Deus significa para nós o novo testamento. Quando, porém, diz por vós, não significa que somente para os apóstolos o corpo de Cristo foi entregue e o sangue derramado; mas por causa de toda a natureza humana. E, de fato, a antiga Páscoa celebrava-se para remover a servidão do Egito, e o sangue do cordeiro para a proteção dos primogênitos; a nova Páscoa, porém, foi instituída para a remissão dos pecados, e o sangue de Cristo para a conservação daqueles que são consagrados a Deus.
Primeiro é dado o pão, secundariamente o cálice: pois nos assuntos espirituais vem primeiro o trabalhoso ato, como o pão, não apenas porque se trabalha com o suor do rosto, mas também porque, enquanto é comido, não é fácil de engolir; depois, após os trabalhos, segue-se a exultação da graça divina, que é o cálice.
Ele disse isto não somente para mostrar que conhecia o futuro, mas também para nos manifestar sua própria bondade, segundo a qual não deixou de prosseguir naquilo que concernia a Deus: pois nos dá exemplo para que até o fim nos empenhemos em ganhar os pecadores; e também para mostrar a perversidade do traidor, que não teve vergonha de tornar-se seu conviva.
Como indagassem entre si quem haveria de entregar o Senhor, era consequente que dissessem uns aos outros: "tu és quem o há de trair", e por isso foram levados a dizer: "eu sou mais poderoso", "eu sou maior", e coisas semelhantes; por isso se diz: E houve também entre eles uma contenda sobre qual deles parecia ser o maior.
Mostra-se a si mesmo servindo-os, quando distribui o pão e o cálice, de cujo ministério faz menção, recordando-lhes que se comeram do mesmo pão e beberam do mesmo cálice, se o próprio Cristo serviu a todos, todos devem sentir o mesmo.
Assim como o Senhor havia prenunciado um ai para o traidor, assim, ao contrário, para os discípulos que permaneceram prenunciou bens, dizendo: "Vós sois os que permanecestes comigo nas minhas tentações".
Não disse isto como se eles fossem ter ali comida corporal, ou como se o Seu reino fosse ser sensível. Pois a vida deles então será a vida dos anjos, como Ele antes disse aos saduceus. Mas São Paulo também diz que o reino de Deus não é comida e bebida.
Disse isto a São Pedro, porque ele era mais forte que os outros, e poderia orgulhar-se das coisas que lhe haviam sido prometidas por Cristo.
Pois ainda que sejas um pouco agitado, tens, contudo, escondida a semente da fé: embora o espírito tentador tenha derrubado as folhas, a raiz permanece vigorosa. Satanás, portanto, pede para te prejudicar como invejoso do meu amor por ti; mas embora eu mesmo tenha orado por ti, tu, contudo, pecarás; por isso segue-se: "E tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos"; como se dissesse: depois que, tendo-me negado, chorares e te arrependeres, fortalece os demais; pois eu te designei como príncipe dos apóstolos: isso convém a ti, que és comigo a força e a pedra da Igreja. Isto deve ser entendido não só dos apóstolos que então existiam, para que fossem fortalecidos por Pedro; mas também de todos os fiéis que hão de existir até o fim do mundo: para que nenhum dos crentes desespere, vendo que ele, sendo apóstolo, negou, e novamente pela penitência obteve a prerrogativa de ser o bispo do mundo. Admira, portanto, a exuberância da paciência divina: para que o discípulo não desanimasse, antes mesmo de cometido o crime, concedeu-lhe o perdão e novamente o restituiu à dignidade apostólica, dizendo: "confirma teus irmãos".
Por demasiado amor, inflama-se e promete a si mesmo coisas impossíveis. Convinha, porém, tendo ouvido uma vez da verdade que seria tentado, não mais insistir. Mas o Senhor, vendo-o falar com presunção, revela a natureza da tentação, isto é, que o negaria; por isso segue: e Ele disse: digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo, até que três vezes negues conhecer-me.
A partir disto, extraímos um grande ensinamento: que não é suficiente o propósito humano sem o auxílio divino. Pois São Pedro, ainda que fervoroso fosse, abandonado por Deus, foi suplantado pelo inimigo.
Como eles mesmos haviam disputado entre si anteriormente sobre prerrogativas, disse: não é tempo de prerrogativas, mas sim de perigos e mortes; pois eu, vosso mestre, sou conduzido a uma morte não honrosa, devendo ser contado entre os ímpios; porque as coisas que foram preditas sobre mim chegam ao fim, isto é, ao cumprimento. Querendo, pois, indicar um ataque violento, mencionou a espada; não o revelou completamente, para que não fossem tomados pelo desânimo; nem o calou totalmente, para que não vacilassem diante dos ataques repentinos; mas para que depois, ao recordarem, se admirassem de como ele mesmo se ofereceu como preço na paixão pela salvação humana.
Ou por isto prenunciou-lhes que incorreriam em fome e sede, o que indica pela bolsa; e algumas adversidades, o que indica pela espada. Ou de outro modo. Quando o Senhor diz quem tem bolsa, tome-a, e igualmente a sacola, parece que o discurso é dirigido aos discípulos; mas, na verdade, refere-se a qualquer pessoa dos judeus; como se dissesse: se algum dos judeus possui abundância de recursos, que reúna tudo e fuja; mas se alguém, oprimido pela extrema penúria, habita a região, que venda também a sua veste e compre uma espada; pois invadi-los-á um ímpeto intolerável de guerra, de modo que nada será suficiente para resistir. Em seguida, revela a causa destes males: porque sofreu a pena devida aos profanos, sendo crucificado com ladrões. E quando se chegar a este ponto, a palavra da dispensação terá fim; mas aos perseguidores acontecerão as coisas que foram preditas pelos profetas. Estas coisas, portanto, o Senhor predisse sobre o futuro da região dos judeus; mas os discípulos não compreendiam a profundidade das palavras, pensando que por causa do futuro ataque do traidor haveria necessidade de espadas; por isso segue: Mas eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. Mas ele lhes disse: Basta.
Não quis o Senhor repreendê-los como se não entendessem, mas dizendo "Basta", os deixou. Alguns, porém, dizem que o Senhor disse "Basta" com ironia; como se dissesse: visto que há duas espadas, são suficientes para nós contra tão grande multidão que deve nos atacar.
Após a ceia, porém, de modo algum a indolência, a diversão e o sono ocupam o Senhor; mas a oração e o ensinamento; donde segue: E tendo chegado ao lugar, disse-lhes: Orai para que não entreis em tentação.
Para nos dar a conhecer a virtude da oração, e para que a coloquemos em primeiro lugar nas adversidades, o Senhor, enquanto orava, foi confortado por um Anjo; de onde se diz: "Apareceu-lhe, então, um Anjo do céu confortando-o".
Mas alguns dizem que o Anjo lhe apareceu, glorificando-o, e dizendo: Senhor, tua é a força: pois tu podes vencer a morte e libertar o gênero humano da fraqueza.
Mas que a oração anterior era própria da natureza humana, e não da divina, como dizem os arianos, fica evidente também pelo que acrescenta; pois segue: e seu suor tornou-se como gotas de sangue que corriam até a terra.
Ou isto é dito proverbialmente daquele que suou intensamente, que suou sangue. Querendo, pois, o Evangelista dar a entender que estava umedecido com grossas gotas de suor, toma as gotas de sangue como exemplo. Depois disto, porém, encontrando os discípulos dormindo por causa da tristeza, os repreende, ao mesmo tempo advertindo-os para que orassem; pois segue-se: e quando se levantou da oração, e veio a seus discípulos, encontrou-os dormindo por causa da tristeza.
Isto é, para que não sejam vencidos pela tentação: pois isto significa não ser conduzido à tentação, não ser submerso por ela. Ou simplesmente nos ordena a orar para que nossa vida seja tranquila, e não sejamos imersos em qualquer adversidade. Pois é diabólico e soberbo precipitar-se na tentação; por isso, São Tiago não disse: lançai-vos nas tentações, mas: quando cairdes, considerai tudo alegria, fazendo voluntário o que é involuntário.
Inflamam-se os discípulos com zelo e desembainham as espadas; por isso segue: Vendo, porém, os que estavam ao redor dele o que ia acontecer, disseram-lhe: Senhor, ferimos com a espada? Mas como é que têm espadas? Porque haviam imolado o cordeiro e haviam se levantado da mesa. Os outros discípulos perguntam se devem ferir; mas Pedro, sempre fervoroso em defesa do Senhor, não espera permissão, mas imediatamente fere o servo do pontífice; por isso segue: E um deles feriu o servo do príncipe dos sacerdotes e cortou-lhe a orelha direita.
E também o Senhor dos profetas é escarnecido como falso profeta. Segue-se: "E vendaram-lhe os olhos, e batiam em seu rosto; e interrogavam-no, dizendo: profetiza-nos: quem é que te bateu?"
Ele conhecia seus corações, pois aqueles que não acreditaram em suas obras, muito menos acreditariam em suas palavras; por isso segue: e disse-lhes: Se vos disser, não me acreditareis.
Como se dissesse: Não há mais para vós tempo de discursos e doutrina; mas daqui em diante será tempo de julgamento, quando vereis a mim, o Filho do homem, sentado à direita do poder de Deus.
Ouvindo isto, portanto, deveriam temer; mas depois destas palavras, enfurecem-se ainda mais; de onde segue: Disseram então todos: Tu, portanto, és o Filho de Deus?
Do que fica evidente que os desobedientes não obtêm nenhum proveito quando lhes são revelados os mistérios mais secretos, mas antes incorrem em punição mais severa. Por isso, tais coisas devem estar ocultas para eles.
Evidentemente, eles opõem-se à verdade: pois o Senhor não proibiu dar o tributo, mas antes ordenou que fosse dado. De que modo, porém, subvertia o povo? Acaso para tomar o poder? Mas isto é incrível para todos: porque quando toda a multidão quis elegê-lo como rei, sabendo disso, fugiu.
Parece-me que ele perguntou isto a Cristo como que zombando do absurdo da acusação feita; como se dissesse: Tu, pobre, humilde, despojado, a quem ninguém ajuda, és acusado de ambicionar um reino, para o que seria necessário o auxílio de muitos e grandes recursos.
Mas eles, como nada mais favorecia a sua calúnia, recorrem ao auxílio do clamor; pois segue-se e eles tornavam-se mais insistentes, dizendo: Ele agita o povo, ensinando por toda a Judeia, começando desde a Galileia até aqui; como se dissessem: Ele perverte o povo, e não somente em uma parte, mas começou na Galileia, e chegou até aqui, passando pela Judeia. Penso, porém, que eles não mencionaram a Galileia sem um motivo, mas querendo infundir temor em Pilatos. Pois os galileus eram cismáticos e tentavam coisas novas, como foi o caso de Judas, o Galileu, do qual se faz menção nos Atos dos Apóstolos.
Nisto ele segue a lei romana, que ordenava que qualquer pessoa fosse condenada pelo príncipe de sua própria jurisdição.
Não como quem fosse lucrar alguma utilidade de sua presença; mas sofrendo de curiosidade sobre novidades, acreditava ver algum homem extraordinário; do qual ouvira que era sábio e admirável; por isso segue porque tinha ouvido muitas coisas a respeito dele e esperava ver algum sinal feito por ele. Queria também ouvir dele o que ele diria; e assim o interroga como que zombando dele, e escarnecendo-o. Segue-se o interrogava então com muitas palavras. Jesus, que tudo realizou com razão, e que, segundo o testemunho de Davi, dispõe suas palavras com juízo, julgou ser piedoso manter silêncio em tais circunstâncias: pois a palavra proferida a quem em nada aproveita, torna-se causa de condenação; por isso segue e ele a nada lhe respondia.
Porém considera tu como por aquilo que faz o Diabo, ele se impede a si mesmo: acumula escárnios e opróbrios contra Cristo, dos quais se declara que o Senhor não é sedicioso; de outro modo não seria escarnecido pela plebe que se tornaria suspeita e que se alegra com novidades. E a remissão de Cristo por Pilatos a Herodes torna-se o início de uma amizade comum, como se Pilatos não usurpasse para si os súditos sob o domínio de Herodes; por isso se segue: e naquele mesmo dia Herodes e Pilatos ficaram amigos; pois antes eram inimigos um do outro. Observa o Diabo unindo por toda parte o que está separado, para que leve a cabo a morte de Cristo. Envergonhemo-nos, portanto, se pela causa de nossa salvação nem sequer conservarmos nossos amigos em sua aliança.
Por isso, pelo testemunho de dois homens, Jesus é demonstrado inocente; os judeus, porém, que o acusavam, não apresentaram nenhuma testemunha que fosse digna de crédito. Vê, portanto, como a verdade prevalece. Jesus se cala, e seus inimigos testemunham; os judeus clamam, e nenhum deles confirma seus clamores.
Pilato, pois, lento e não suficientemente severo em defesa da verdade, porque temia as acusações, acrescenta: "portanto, castigá-lo-ei e o soltarei".
Os romanos, de fato, haviam concedido aos judeus viver segundo as próprias leis e costumes. Era costume ancestral entre os judeus pedir ao príncipe a libertação dos condenados, assim como pediram a Saul por Jônatas; por isso, agora sobre o pedido deles acrescenta-se: E toda a multidão exclamou em uníssono, dizendo: Tira este, e solta-nos Barrabás. O qual, por causa de uma sedição que fizera na cidade, e por homicídio, havia sido lançado no cárcere.
AI: I've provided a Portuguese translation of the Latin text from the Catena Aurea by St. Thomas Aquinas, following your guidelines. The translation maintains the formal tone and theological terminology appropriate for scholastic texts, while following the reference translations to ensure accuracy. I've presented just the translated text without additional comments as requested.Assim, pois, a nação outrora santa enfurece-se para matar; Pilato, um gentio, proíbe a matança; pois segue: "Pilato, porém, falou novamente a eles, querendo soltar Jesus. Mas eles clamavam, dizendo: crucifica, crucifica-o".
Pela terceira vez, Pilatos absolveu a Cristo; pois segue-se: Ele, porém, disse-lhes pela terceira vez: Que mal, pois, fez este? Nenhuma causa de morte encontro nele. Castigá-lo-ei, portanto, e o soltarei.
Em terceiro lugar, clamam contra Cristo, para que por esta tríplice voz, aprovem como seu o assassinato de Cristo, que conseguiram extorquir com suas súplicas; pois segue-se: E Pilatos julgou que se fizesse o que eles pediam. E soltou-lhes aquele que por homicídio e sedição fora lançado no cárcere; mas entregou Jesus à vontade deles.
Ou aquele toma a cruz de Cristo, que vem da vila, isto é, abandona este mundo e suas obras, dirigindo-se a Jerusalém, isto é, à liberdade suprema. Disto também se extrai um ensinamento não pequeno. Pois como o mestre é à maneira de Cristo, deve ele primeiro tomar a cruz e, no temor de Deus, crucificar sua própria carne; e assim impô-la aos súditos e obedientes. Segue também a Cristo uma multidão do povo e de mulheres; pois acrescenta-se: "Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres, que o pranteavam e lamentavam".
Por isto também era significado que uma grande multidão de judeus haveria de seguir a cruz, crendo em Jesus. Mas também a mente enferma, que é significada pela mulher, se tomada pela contrição do coração chora pela penitência, segue a Jesus, afligido por nossa salvação. Choravam, portanto, as mulheres por compaixão. Não convém, porém, chorar por aquele que sofre voluntariamente, mas antes aplaudir-lhe; e por isso lhes proíbe o choro; segue-se com efeito: "Virando-se Jesus para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim".
Ele ordena aos que choram por Ele que dirijam a atenção aos males futuros e chorem por eles; segue-se: "Chorai antes sobre vós mesmas e sobre vossos filhos".
Vendo, de fato, que as mulheres assarão cruelmente seus filhos, e o ventre que os havia gerado receberá miseravelmente de volta aquilo que produziu.
Como se dissesse aos judeus: Se, pois, em mim, árvore frutífera e sempre verdejante, os romanos se enfureceram de tal maneira, o que não tentarão contra vós? Digo o povo, como um madeiro seco, privado de toda virtude vivificante, e que não produz fruto algum.
Mas o Diabo, querendo suscitar uma má opinião acerca do Senhor, fez com que ladrões também fossem crucificados com Ele; donde se segue "Eram conduzidos também outros dois malfeitores com ele para serem mortos".
Como também pela árvore a morte havia entrado, era necessário que pela árvore fosse exterminada; e que o Senhor, passando invicto pelos sofrimentos da árvore, refutasse o deleite proveniente da árvore.
Pois talvez muitos deles estivessem necessitados; ou ainda talvez fizessem isto mais por opróbrio e por uma certa lascívia: pois que valor precioso encontravam nas suas vestes?
Faziam isto, portanto, por escárnio; pois quando os príncipes zombavam, o que se há de dizer do vulgo? Segue, pois: e o povo estava, aquele que certamente pedira que fosse crucificado, esperando, a saber, o fim; e os príncipes o escarneciam junto com eles.
Ofereceram, porém, os soldados a Cristo vinagre, como a um rei prestando serviço; segue-se com efeito dizendo: Se tu és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo.
Observe novamente o artifício do demônio voltado contra Cristo: pois ele promulgava a acusação de Jesus em três tipos de escrita, para que certamente não escapasse a nenhum dos que passavam que ele havia sido suspenso porque se fazia rei; pois está dito: havia também uma inscrição escrita sobre ele em letras gregas, latinas e hebraicas: este é o rei dos judeus. Por isso se significava que as nações mais poderosas (como os romanos), as mais sábias (como os gregos), e as que mais adoravam a Deus (como foi o povo judeu), deveriam se submeter ao império de Cristo.
E assim como cada rei vitorioso ao retornar do triunfo leva consigo o melhor dos despojos, também o Senhor, tendo despojado o diabo de uma porção de seu butim, a saber, o ladrão, conduz consigo para o Paraíso.
Isto, porém, é mais verdadeiro do que tudo, que embora não tenham obtido todas as promessas, tanto o ladrão quanto os outros santos, para que sem nós não sejam aperfeiçoados, como é dito na epístola aos Hebreus, estão, contudo, no reino dos céus e no Paraíso.
Por meio disto o Senhor mostrava que o Santo dos Santos não seria mais inacessível; mas, entregue às mãos dos romanos, seria profanado, e sua entrada ficaria aberta.
Por isto também é mostrado que o véu, que nos separava das coisas sagradas que estão no céu, foi rasgado, isto é, a inimizade de Deus e o pecado.
Mas clamando com alta voz, expira, porque tinha em si o poder de entregar sua alma e retomá-la; por isso segue-se "e dizendo isto, expirou".
Agora, porém, parece surtir efeito o que o Senhor havia dito: "Quando eu for exaltado, atrairei todos a mim". Pois, exaltado na cruz, atraiu para si o ladrão e o centurião, e também alguns dos judeus, dos quais se segue: "E toda a multidão daqueles que juntos assistiam a este espetáculo, e viam o que acontecia, voltavam batendo em seus peitos".
Mas o gênero das mulheres, outrora amaldiçoado, permanece e vê todas estas coisas; pois segue: e as mulheres que o haviam seguido desde a Galileia, vendo estas coisas, e assim são as primeiras a serem renovadas pela justificação, ou pela bênção que flui de sua paixão, assim como de sua ressurreição.
E todavia não tinham ainda a fé devida, mas preparavam aromas e unguentos para um simples homem, segundo o costume dos judeus, que ofereciam tais coisas aos defuntos; por isso segue: e voltando, prepararam aromas e unguentos.
Pois um anjo havia removido a pedra, como atesta São Mateus.
É, porém, naturalmente incrível aos mortais o milagre da ressurreição; por isso segue-se: e as palavras destas pareceram a eles como um delírio, e não acreditavam nelas.
Pedro, ao ouvir isto, não se demora, mas vai ao sepulcro; porque o fogo aplicado à matéria não conhece demora; por isso segue: Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro.
Mas quando ele chegou ao sepulcro, primeiramente conseguiu admirar o que antes era objeto de escárnio por parte dele mesmo ou dos outros; por isso segue-se: e partiu, admirando-se consigo mesmo pelo que havia acontecido: isto é, admirando-se interiormente com o desenrolar do acontecimento, de como somente os lençóis haviam sido deixados, estando o corpo ungido com mirra; ou que oportunidade teria tido o ladrão que, deixando os panos cuidadosamente dobrados, teria levado o corpo, estando os soldados ao redor.
Alguns dizem que São Lucas era um destes dois, e por isso ocultou seu nome.
Os referidos discípulos falavam entre si sobre as coisas que haviam acontecido; não como quem acreditava, mas como quem se espantava com coisas extraordinárias; por isso segue: e eles conversavam entre si sobre todas essas coisas que haviam acontecido.
Tendo já obtido um corpo espiritual, a distância de lugar não era obstáculo para que estivesse presente onde quisesse; nem mais governava seu corpo pelas leis naturais, mas espiritual e sobrenaturalmente: de onde, como diz São Marcos, apareceu-lhes sob outra forma, na qual não lhes era concedido conhecê-lo; pois segue os olhos deles estavam impedidos para que não o reconhecessem; a fim de que revelassem toda a sua intenção duvidosa, e descobrindo a ferida, recebessem o remédio; e para que compreendessem que, embora o mesmo corpo que havia padecido ressuscitara, todavia não era mais tal que fosse visível a todos, mas somente àqueles pelos quais quisesse ser visto; e para que não duvidem por que doravante não convive entre o povo: porque, a saber, após a ressurreição, sua convivência não seria digna dos homens, mas mais divina: o que também é uma forma da ressurreição futura, na qual como os Anjos conversaremos, e filhos de Deus.
Como se dissesse: "Tu só és peregrino, e habitas fora dos confins de Jerusalém, e por isso estás alheio às coisas que aconteceram no meio dela, e ignoras estas coisas?"
Primeiro, é preciso a obra, depois a palavra: pois nenhum discurso de doutrina é aprovado, a não ser que primeiro aquele que ensina se mostre como autor do mesmo; a ação precede à visão. Porque se não limpares o espelho do intelecto por meio das obras, não brilhará a beleza desejada. Além disso, acrescenta-se diante de Deus e de todo o povo: pois primeiramente deve-se agradar a Deus; depois cuidar, quanto possível, da inocência junto aos homens, para que, precedendo o culto divino, vivamos sem escândalo para muitos.
Esperavam que Cristo salvaria e redimiria o povo de Israel dos males que os assolavam, e da escravidão dos Romanos; também acreditavam que Ele se tornaria um rei terreno, o qual pensavam que poderia ter evitado a sentença de morte promulgada contra si.
Contudo, parece que estes homens não eram de todo incrédulos, pelo que se segue: E agora, sobre todas estas coisas, hoje é o terceiro dia desde que estas coisas aconteceram. No que parecem guardar memória daquilo que o Senhor lhes dissera, que ressuscitaria ao terceiro dia.
Porque os mencionados discípulos sofriam de demasiada dúvida, o Senhor os repreendeu; por isso diz: E ele lhes disse: Ó insensatos. Pois quase as mesmas coisas disseram aqueles que estavam junto à cruz: Salvou a outros, a si mesmo não pode salvar. E tardos de coração para crer em tudo o que falaram os profetas. Acontece que creem em algumas coisas ditas pelos profetas, mas não universalmente em todas: como se alguém acreditasse no que é dito pelos profetas sobre a cruz de Cristo, como aquilo: Traspassaram minhas mãos e meus pés; mas não crê no que se refere à ressurreição, como aquilo: Não permitirás que teu santo veja a corrupção. Convém, porém, dar fé aos profetas em todas as coisas; tanto nas gloriosas que predisseram sobre Cristo, quanto nas ingloriosas: porque a partir do sofrimento dos males há a entrada na glória; por isso segue: Porventura não era necessário que Cristo padecesse estas coisas e assim entrasse em sua glória? Isto é, segundo a humanidade.
Mas também indica outra coisa: que os olhos daqueles que recebem o pão sagrado são abertos, para que O reconheçam: pois a carne do Senhor possui uma grande e inefável força.
Pois Ele não tinha um corpo tal que devesse permanecer com eles por mais tempo, para que por isso igualmente aumentasse o afeto deles; donde segue: e disseram um ao outro: porventura não ardia o nosso coração dentro de nós enquanto ele falava pelo caminho, e nos abria as Escrituras?
Ardia, pois, o coração deles, ou pelo fogo das palavras do Senhor, às quais atendiam como sendo verdadeiras, ou porque, enquanto Ele explicava as Escrituras, o coração deles era tocado interiormente, compreendendo que Aquele que explicava era o Senhor. De tal modo se alegraram que, sem sofrer demora alguma, logo regressaram a Jerusalém; e isso é o que se segue: "E, levantando-se na mesma hora, voltaram a Jerusalém". Levantaram-se, de fato, na mesma hora, mas chegaram depois de muitas horas, como era necessário, percorrendo sessenta estádios.
Primeiro, portanto, o Senhor, estando no meio dos discípulos, com o habitual gesto de paz, acalma a inquietação deles, mostrando que Ele é o mesmo Mestre que se comprazia naquela palavra, com a qual também os fortaleceu quando os enviou a pregar; por isso segue: E disse-lhes: Paz seja convosco; sou eu, não temais.
Porém, como pela palavra de paz não foi acalmada a perturbação nas almas dos discípulos, por outro meio lhes indica que Ele é o Filho de Deus, que conhecia os segredos da mente; por isso segue: "E disse-lhes: Por que estais perturbados, e por que sobem pensamentos aos vossos corações?"
Mas Ele acrescenta também outra prova: o tato das mãos e dos pés, quando diz: Palpai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho; como se dissesse: Vós pensais que eu sou um espírito, isto é, um fantasma, como muitos dos mortos costumam ser vistos ao redor de seus sepulcros; mas sabei que um espírito não tem nem carne nem ossos, porém eu tenho carne e ossos.
Parecem também ter as coisas comidas outro mistério: pois o fato de que comeu parte de peixe assado, significa que nossa natureza que nada no mar desta vida, assando-a no fogo de sua própria divindade, e secando a sua umidade, que havia contraído das profundas ondas, fez dela alimento divino; e aquela que antes era abominável, preparou para Deus como alimento suave; o que o favo de mel significa. Ou pelo peixe assado significa a vida ativa que consome nossa umidade pelas brasas dos trabalhos; já a contemplação significa pelo favo de mel, por causa da doçura das palavras de Deus.
De outro modo, como a alma deles, perturbada e vacilante, teria se aplicado ao mistério de Cristo? Mas também os ensinou com palavras; pois segue-se e disse-lhes: assim está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, isto é, pelo madeiro da cruz.
Nisto, porém, quando diz penitência e remissão dos pecados, também faz menção do Batismo, no qual, pela deposição dos crimes anteriores, segue-se o perdão dos pecados. Mas de que maneira se entenderá que o Batismo é realizado somente em nome de Cristo, quando em outro lugar ordena que isso seja feito em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? E primeiramente, de fato, dizemos que não se entende que o Batismo seja feito somente em nome de Cristo, mas que alguém seja batizado com o Batismo de Cristo, isto é, espiritualmente, não judaicamente, nem como aquele com o qual João batizava apenas para a penitência, mas para a participação do Espírito vivificante; assim como o próprio Cristo, batizado no Jordão, mostrou o Espírito Santo em forma de pomba. Além disso, compreendas o Batismo em nome de Cristo, isto é, na morte de Cristo: pois assim como Ele mesmo, após a morte, ressuscitou ao terceiro dia, assim também nós somos três vezes mergulhados na água e, consequentemente, emergimos, recebendo o penhor da incorruptibilidade do Espírito. Este nome de Cristo também contém em si o Pai como aquele que unge, e o Espírito como a unção, e o Filho como o ungido, isto é, segundo a natureza humana. Não convinha, porém, que o gênero humano permanecesse dividido em judeus e gentios; e, por isso, para unir todos em um só, ordenou começar o sermão a partir de Jerusalém e terminar entre os gentios; por isso segue: começando por Jerusalém.
Em seguida, para que não se perturbassem pensando: como nós, homens simples, daremos testemunho às nações e aos judeus que te mataram? Ele acrescenta: e eu enviarei a promessa de meu Pai sobre vós; a qual ele havia prometido por meio de Joel, dizendo: derramarei o meu Espírito sobre toda carne.
Isto é, não com poder humano, mas celestial. E não disse: recebais, mas sejais revestidos, indicando a proteção integral da armadura espiritual.
Por que, porém, não estando Cristo presente, ou logo após sua partida, o Espírito veio? Convinha que eles se tornassem desejosos da graça, e então a recebessem; pois nos elevamos mais a Deus quando a necessidade se apresenta. Era necessário que entretanto nossa natureza aparecesse no céu, e as alianças fossem consumadas, e depois o Espírito viesse e as alegrias serenas fossem celebradas. Observa também quanta necessidade lhes impôs de estarem em Jerusalém, ao prometer dar-lhes ali o Espírito. Pois para que não fugissem novamente após sua ressurreição, com esta expectativa, como com um vínculo, manteve-os todos ali reunidos. Diz, pois, "até que sejais revestidos com a virtude do alto"; e não expressou quando, para que estivessem continuamente vigilantes. Por que, então, te admiras se Ele não nos revela o último dia, quando não quis dar a conhecer este dia que estava tão próximo?
Talvez infundindo neles uma força conservadora, até a vinda do Espírito; e porventura instruindo-nos que, sempre que nos afastamos, devemos recomendar a Deus, por meio de nossas bênçãos, aqueles que estão sob nossa responsabilidade.
E Elias, de fato, parecia como que ser elevado ao céu; mas o Salvador mesmo, precursor de todos, subiu ao céu para aparecer diante do olhar divino em seu corpo sagrado; e já nossa natureza é honrada em Cristo por toda virtude angélica.
Ainda não havia o Espírito, e já conversavam espiritualmente: antes estavam recluso, agora estão no meio dos príncipes dos sacerdotes, e nem são distraídos por qualquer coisa mundana, mas desprezando todas as coisas, continuamente louvam a Deus; pois segue louvando e bendizendo a Deus.
Aos quais imitando, permaneçamos sempre em uma vida santa, louvando e bendizendo a Deus, de quem é a glória, a bênção e o poder pelos séculos. Amém.
O Precursor de Cristo, portanto, é chamado Anjo, por causa de sua vida angélica e excelsa reverência. Quando se diz ante a tua face, isto significa como se dissesse: junto a ti está o teu mensageiro; por isso se mostra a proximidade do precursor a Cristo, pois aqueles que caminham junto aos reis são os que lhes são mais próximos. Segue-se que preparará o teu caminho diante de ti: pois pelo Batismo preparou as almas dos judeus para que recebessem a Cristo.
Ou o caminho é o Novo Testamento, e as sendas são o Antigo, como que já trilhado: pois era necessário preparar para o caminho, isto é, para o Novo Testamento; mas convinha que as sendas do Antigo Testamento fossem endireitadas.
O batismo de São João não tinha remissão de pecados, mas oferecia somente penitência aos homens: pregava, portanto, o batismo de penitência, isto é, aquilo a que conduzia o batismo de penitência, a saber, à remissão dos pecados, para que aqueles que, fazendo penitência, recebiam Cristo, recebessem a remissão dos pecados.
Ou de outro modo. A vestimenta de pelos de camelo era indicativa de dor, pois São João apontava que aquele que se arrepende deve lamentar-se. Pois o saco representa a dor, mas o cinto de pele significa a mortificação do povo judeu. O alimento de São João não apenas denota abstinência, mas também é indício do alimento espiritual, do qual o povo então se nutria, não entendendo nada elevado, mas continuamente elevando-se e novamente rebaixando-se.
Pois tal é a natureza dos gafanhotos, saltando para o alto e novamente caindo. Da mesma forma, o povo comia mel, que vinha das abelhas, isto é, dos profetas; não era, contudo, doméstico, mas silvestre, pois os judeus tinham as Escrituras, que são como o mel, mas não as entendiam corretamente.
Entende-se também assim: Todos os que vinham e eram batizados por São João, por meio da penitência, eram libertos do vínculo dos pecados ao crerem em Cristo. Portanto, São João assim desatava a correia, isto é, o vínculo dos pecados de todos os outros; mas quanto a Jesus, não foi capaz de desatar a correia, porque não encontrou nele pecado algum.
E para nos mostrar que nas perseguições convém retirar-se, e não esperá-las; mas quando nelas cairmos, convém suportá-las.
Ou ainda, o Senhor diz que o tempo da lei está completo; como se dissesse: Até o tempo presente a lei operava; a partir de agora operará o reino de Deus, que é uma vida segundo o Evangelho, que convenientemente se assemelha ao reino dos céus. Pois quando vedes algum homem revestido de carne vivendo segundo o Evangelho, porventura não dizeis que ele possui o reino dos céus? O qual não é comida, nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo(Romanos 14,17). Segue-se fazei penitência.
Como São João Evangelista refere, Pedro e André eram discípulos do Precursor. Vendo, porém, que João dera testemunho de Jesus, juntaram-se a Ele; depois, entristecidos porque João havia sido preso, voltaram à sua própria arte; donde segue: lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. Vede, pois, que eles se sustentavam do próprio trabalho, e não da iniquidade; tais homens eram dignos de tornarem-se os primeiros discípulos de Cristo; donde se acrescenta: e Jesus lhes disse: Vinde após mim. Agora os chama pela segunda vez: pois esta é a segunda vocação em relação àquela que se lê em São João. Para que são chamados, mostra-se quando se acrescenta: farei de vós pescadores de homens.
Não convém, pois, fazer intervalo; mas seguir imediatamente ao Senhor. Depois destes, pescou a Tiago e João: porque também eles, embora pobres, sustentavam a velhice paterna; donde segue: e indo um pouco mais adiante, viu a Tiago, filho de Zebedeu. Deixaram, porém, o pai, porque ele os teria impedido de seguir a Cristo. Assim também tu, quando fores impedido pelos pais, deixa-os, e dirige-te a Deus. Mostra-se, contudo, que Zebedeu não creu; mas a mãe dos apóstolos creu, a qual seguiu a Cristo depois que Zebedeu morreu.
Saiba também que primeiro é chamada a ação, depois a contemplação; Pedro, de fato, é o símbolo da vida ativa, pois era mais fervoroso que os outros, assim como a vida ativa é mais agitada; João, por sua vez, significa a contemplação, pois João disserta mais sobre as coisas divinas.
Saindo de Nazaré. No dia do sábado, quando os Escribas se reuniam, então, ensinando, entrou na sinagoga; donde segue e logo nos sábados, entrando na sinagoga, ensinava-os: pois a lei ordenava descansar nos sábados para este fim, para que, dedicando-se à leitura, se reunissem em um só lugar. Cristo ensinava, porém, arguindo, não adulando, como os fariseus; donde segue e se admiravam de sua doutrina: pois estava ensinando-os como quem tem poder, e não como os Escribas. Ensinava também com poder, transformando os homens para o bem, e ameaçava com penas aos que não acreditavam.
Pois sair do homem, o demônio considera como sua própria perdição; porque os demônios são impiedosos, julgando que sofrem algum mal quando não estão perturbando os homens. Segue-se: Sei que tu és o Santo de Deus.
Para que os que vissem considerassem de qual mal o homem era libertado, e por causa do milagre acreditassem.
Afastou-se, então, como era costume no sábado, por volta da tarde, para comer na casa dos discípulos. Mas a que devia servir estava acometida de febres; por isso segue: e a sogra de Simão estava acamada com febre.
Por isto se significa que, se alguém estiver enfermo, será curado por Deus, se servir aos santos por amor a Cristo.
Mas tem febre aquele que se ira, de modo que, por causa da ira, descontroladamente estende a mão; porém, se a razão retiver sua mão, ele se levantará, e assim a razão o servirá.
Como as multidões consideravam que a ninguém era lícito curar no dia de sábado, por causa disto esperavam o ocaso do sol para conduzirem os que deviam ser curados a Jesus; por isso diz: "Ao entardecer, quando o sol se havia posto". Segue-se: "e curou muitos que eram atormentados por diversas enfermidades".
Ou diz muitos; pois havia alguns infiéis, que não foram de modo algum curados por causa da incredulidade deles. Muitos, portanto, dentre os apresentados curou, isto é, aqueles que tinham fé. Segue-se e expulsava muitos demônios, e não os deixava falar, porque o conheciam.
Por isso não permitia aos demônios falar, ensinando-nos a não crer neles, ainda que digam a verdade; pois, se encontrarem alguns que neles acreditem, misturam mentiras com verdades.
Depois que o Senhor curou os enfermos, retirou-se em separado; de onde se diz: e, levantando-se muito de madrugada, saiu e partiu para um lugar deserto: no qual nos ensinou a não fazer algo por aparência, mas, ainda que façamos alguma coisa boa, não a divulgar. Segue-se: e ali orava.
Pois Ele nos mostra que devemos atribuir a Deus, se fazemos algo de bom, e a Ele devemos dizer: todo dom perfeito vem do alto(Tiago 1,17), descendo de Ti. Segue-se: e Simão O seguiu, e os que estavam com ele.
Pois Ele passa àqueles mais necessitados, porque não convém limitar a doutrina a um só lugar, mas estender por toda parte os seus raios. Segue-se: porque para isto vim.
Ele misturou também a ação à doutrina, pois pregando posteriormente afugentou os demônios: segue-se e expulsando os demônios. Pois se Cristo não tivesse mostrado milagres, não se acreditaria em sua doutrina; do mesmo modo, também tu, após a doutrina, trabalha, para que não seja vã a tua palavra em ti mesmo.
Pois ele não disse: "Se tu orares a Deus", mas "se tu quiseres", como crendo que Ele próprio é Deus.
Ele ordenou que oferecesse o presente que aqueles que eram purificados tinham o costume de oferecer, como que em testemunho de que Ele não era contra a Lei, mas antes confirmava a Lei, na medida em que Ele próprio cumpria os preceitos da Lei.
O leproso, porém, embora o Senhor tenha proibido, revelou o benefício; donde segue: Mas ele, tendo saído, começou a pregar e a divulgar o acontecimento. É necessário, com efeito, que aquele que recebeu um benefício seja grato e retribua graças, mesmo que o benfeitor não precise disso.
Ele viu também a fé do próprio paralítico; pois ele não teria permitido ser carregado, se não tivesse fé na cura
Mas, embora seus pensamentos tenham sido revelados, permanecem, contudo, insensíveis, não admitindo que aquele que conhece seus corações possa perdoar pecados; por isso o Senhor comprova a cura da alma pela cura do corpo, demonstrando o invisível pelo visível, o mais difícil pelo que é mais fácil: embora eles mesmos não o cressem assim. Pois os fariseus acreditavam ser mais difícil curar o corpo enquanto algo manifesto, e mais fácil curar a alma, porque invisível é o remédio; de modo que pensavam tais coisas: eis que ele desiste de curar o corpo, e cura a alma invisível; mas se ele tivesse poder, já teria curado o corpo e não teria se refugiado no invisível. O Salvador, portanto, mostrando que pode fazer ambas as coisas, diz: o que é mais fácil? Como se dissesse: Eu, pela cura do corpo, que na verdade é mais fácil, mas vos parece mais difícil, vos demonstrarei a saúde da alma, que é realmente mais difícil.
Diz, porém, "Toma o teu leito", para maior certeza do milagre; mostrando que não é segundo fantasia, e ao mesmo tempo para mostrar que não somente curou, mas também deu fortaleza: assim às almas não somente as converte do pecado, mas também lhes atribui virtude para cumprir os mandamentos.
Não é, porém, este o paralítico cuja cura é narrada por São João: pois aquele não tinha homem algum consigo, este porém tinha quatro; aquele é curado na piscina probática, este em uma casa. É, contudo, o mesmo homem cuja cura é narrada por São Mateus e São Marcos. Mas em sentido místico, Cristo está ainda em Cafarnaum, na casa da consolação, isto é, na Igreja, que é a casa do paralítico.
Se, portanto, eu, com as potências da minha alma dissolvidas como um paralítico, seguir destituído de virtude para o bem, e for erguido pelos quatro Evangelistas, for conduzido a Cristo, e então ouvir "filho", ser-me-ão perdoados os pecados; pois alguém se torna filho de Deus pela prática dos mandamentos.
Mas como deverei ser levado a Cristo, se o teto não for aberto? Pois o teto é o intelecto, que se sobrepõe a todas aquelas coisas que estão dentro de nós. Este tem muita terra quanto aos tijolos de barro, quero dizer, coisas terrenas; mas se estas forem removidas, a virtude do intelecto em nós é libertada de sua carga. Depois disto, que seja abaixado, isto é, humilhado. Pois não nos ensina a sermos orgulhosos porque nosso intelecto teve sua carga removida, mas a sermos ainda mais humildes.
É necessário também levantar o grabato, isto é, o corpo, para a realização do bem. Pois então poderemos alcançar a contemplação, de modo que os pensamentos que estão em nós digam: nunca vimos assim, isto é, nunca entendemos como agora que fomos curados da paralisia; pois aquele que é purificado dos pecados vê com mais clareza.
Ou então, após o milagre, Ele sai ao mar, como querendo estar sozinho; mas a turba corre novamente a Ele, para que aprendas que quanto mais foges da glória, tanto mais ela mesma te persegue. E se tu mesmo a perseguires, ela fugirá de ti. Passando, pois, dali, o Senhor chamou Mateus. Por isso segue-se, e quando passava, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no telônio.
Pois ele estava sentado no posto de cobranças, ou importunando a alguns, ou vendendo palavras, ou fazendo algo desse tipo, que os publicanos costumam fazer em suas moradas; ele foi elevado deste estado de tal modo que, deixando tudo, seguiu a Cristo; donde segue: e disse-lhe: Segue-me. E levantando-se, seguiu-o.
Mas aquele que antes atacava os outros se tornou tão benevolente que convidou muitos para a refeição. Por isso, segue-se: E aconteceu que, estando Jesus à mesa na casa dele, muitos publicanos e pecadores estavam também reclinados à mesa com Jesus e seus discípulos.
Os fariseus, porém, condenam isto, fazendo-se passar por puros; por isso segue-se: E os fariseus, vendo que comia com os publicanos e pecadores, disseram aos seus discípulos: Por que com os publicanos e pecadores come e bebe o vosso mestre?
Pois os discípulos de São João, estando em estado imperfeito, permaneciam nos costumes judaicos.
Ele também chama a Si mesmo de esposo, não apenas por desposar-se com almas virginais, mas porque o tempo de Sua primeira vinda não é tempo de dor nem de tristeza para aqueles que creem nEle, nem contém trabalhos, mas descanso: pois é sem operações legais, dando repouso pelo Batismo, pelo qual facilmente conseguimos a salvação sem esforço. Os filhos das núpcias, ou do esposo, são os Apóstolos, porque eles, pela graça de Deus, foram feitos dignos de todo bem celestial, e participantes de toda alegria.
Deve-se entender também que todo homem que obra o bem é filho do esposo, e tem consigo o esposo, a saber, Cristo, e não jejua, isto é, não demonstra obras de penitência, porque não peca; mas quando o esposo é retirado, caindo o homem em pecado, então jejua e faz penitência, para curar sua falta.
Ou, de outro modo. Os discípulos são comparados às vestimentas velhas por causa da enfermidade de suas mentes, aos quais não era conveniente impor o pesado estatuto do jejum.
Pois Davi, fugindo da face de Saul, chegou ao príncipe dos sacerdotes, e comeu os pães da proposição, e tomou a espada de Golias, que haviam sido oferecidas ao Senhor. Mas alguns questionam como agora o Evangelista nomeou Abiatar como príncipe dos sacerdotes, quando o livro dos Reis o chama Abimelech.
Ou porque quando eles têm repouso em suas paixões, então se tornam doutores para conduzir outros à virtude, arrancando deles as coisas terrenas.
Depois que o Senhor confundiu os judeus, que haviam acusado os discípulos por arrancar espigas no sábado, com o exemplo de Davi, agora, conduzindo-os ainda mais à verdade, opera um milagre no sábado, mostrando que, se realizar milagres no sábado para a saúde dos homens é uma obra piedosa, não é mau realizar no sábado as ações necessárias para o corpo. Diz, portanto: E entrou novamente na sinagoga, e estava ali um homem que tinha a mão ressequida. E observavam-no para ver se o curaria no sábado, a fim de o acusarem.
Ou, tem a mão direita seca quem não realiza as obras que pertencem à direita: pois desde que nossa mão é empregada em obras proibidas, desde então ela se seca na prática do bem. Mas novamente será restaurada quando se firmar na virtude; por isso Cristo diz levanta-te, isto é, dos pecados, e fica no meio; e não se estendendo nem para menos, nem para superabundância.
Herodianistas são chamados os soldados do rei Herodes. Pois havia surgido certa nova heresia, a qual dizia que Herodes era o Cristo. A profecia de Jacó sinalizava que quando faltassem os príncipes de Judá, então o Cristo viria; e porque no tempo de Herodes nenhum dos príncipes judaicos restava, mas somente ele reinava sendo estrangeiro; alguns pensaram que ele era o Cristo, e estabeleceram uma heresia. Estes, portanto, junto com os fariseus, tentavam matar a Cristo.
Ao mesmo tempo, também se afasta, para que, apartando-se dos ingratos, pudesse fazer bem a muitos; pois muitos o seguiram, e Ele os curou; segue, pois: e uma grande multidão da Galileia e da Judeia o seguiu. Os tírios e sidônios, sendo estrangeiros, recebem benefícios de Cristo; enquanto seus próximos, a saber, os judeus, o perseguiam; e assim não há utilidade no parentesco, se não existir semelhança na bondade.
Vede, pois, oculta a sua glória: de fato, para que a turba não o ferisse, pede uma barca, para que, entrando nela, permanecesse ileso. Segue-se todos aqueles que tinham chagas. E os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele. Chama de chagas às enfermidades; pois o próprio Deus nos fere, como um pai aos seus filhos.
Moralmente, os herodianos, isto é, os carnais, querem matar a Cristo: pois Herodes se interpreta "de pele"1. Mas aqueles que saem de sua pátria, isto é, do modo de vida carnal, seguem a Cristo, e suas chagas são curadas, isto é, os pecados que ferem a consciência. Jesus em nós é a razão que ordena que nossa nau, isto é, nosso corpo, o sirva, para que as perturbações das coisas mundanas não oprimam a razão.
[1] Ver Jerônimo, De Nominibus Hebraicis (Sobre os Nomes Hebraicos). ↩
Lucas, porém, diz que Ele subiu para orar: pois após a manifestação dos milagres, Ele ora, ensinando-nos que devemos dar graças quando conseguimos algum bem, e atribuí-lo à graça divina.
Ele enumera os nomes dos apóstolos, para que sejam conhecidos os verdadeiros e evitados os falsos apóstolos; e por isso segue: e impôs a Simão o nome de Pedro.
Mas por que ele é contado entre os apóstolos? Para que aprendamos que Deus não repele ninguém por causa de uma malícia futura, mas o torna digno de honra em razão da virtude presente.
Isto é, tem demônio e está furioso; e por isso queriam detê-lo, para encarcerá-lo como a um endemoniado. E na verdade eram os seus, isto é, seus parentes, talvez seus compatriotas ou seus irmãos, que queriam fazer isso. Foi, porém, uma insensata loucura que concebessem que o autor de tantos milagres de divina sabedoria tivesse se tornado louco.
O exemplo é como se segue. O Demônio é forte, seus vasos são os homens nos quais ele se hospeda. Se, portanto, alguém não vencer primeiro o Demônio e amarrá-lo, como poderá tomar dele seus vasos, isto é, os possessos? Assim também eu, que tomo seus vasos, ou seja, liberto os homens da possessão demoníaca, primeiro amarro os Demônios, os venço, e sou inimigo deles. Como, pois, dizeis que eu tenho Beelzebub, e sendo amigo dos Demônios, expulso os Demônios?
É preciso entender, porém, que não conseguirão o perdão, a não ser que se arrependam. Quando, porém, se escandalizavam na carne de Cristo, mesmo que não se arrependessem, tinham alguma desculpa e conseguiam alguma remissão.
Como os parentes do Senhor vieram para detê-lo, como se estivesse fora de si, sua mãe, movida pela compaixão do amor, veio até ele; donde se diz: "E vêm a sua mãe e seus irmãos, e estando fora, mandaram chamá-lo".
Não diz isto, portanto, negando sua Mãe, mas mostrando que ela é digna de honra não somente por ter gerado Cristo, mas também por possuir todas as outras virtudes.
Ainda que o Senhor, nas circunstâncias acima, pareça negligenciar Sua mãe, no entanto, Ele a honra; uma vez que, por causa dela, Ele se dirige para as margens do mar. Por isso está dito: e novamente começou a ensinar junto ao mar.
E para tornar os ouvintes mais atentos, propõe a primeira parábola sobre a semente, que é a palavra de Deus; por isso segue: e dizia-lhes em sua doutrina; não a de Moisés, nem a dos profetas, porque prega o seu próprio Evangelho: saiu a semear. O semeador é Cristo.
Veja que Ele não diz que lançou a semente no caminho, mas que caiu: pois aquele que semeia, quanto depende dele, lança na terra boa; mas se ela for má, corrompe a palavra. O caminho, porém, é Cristo; e os infiéis estão ao lado do caminho, isto é, fora de Cristo.
Ou os lugares pedregosos são aqueles que, aderindo um pouco à pedra, isto é, a Cristo, recebem por um tempo a palavra, e depois a rejeitam, afastando-se. Segue-se: e outra parte caiu entre espinhos, pelo qual se assinalam as almas que se ocupam de muitas coisas: pois os espinhos são as preocupações.
Vede também como os maus são muito numerosos e poucos os que se salvam; pois apenas a quarta parte da semente se encontra salva.
Pois foi Deus quem os fez videntes, isto é, inteligentes do bem; eles próprios, porém, não veem, fingindo voluntariamente não ver, para que não se convertam e se corrijam, como se invejassem sua própria salvação. Segue-se para que em tempo algum se convertam e lhes sejam perdoados os pecados.
Ou pode-se entender de outro modo, que falava aos demais em parábolas, para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam. Pois Deus concede visão e entendimento àqueles que pedem, enquanto aos demais cega, para que não lhes seja motivo de maior repreensão o fato de que, embora compreendessem, não quiseram fazer o que convinha; por isso segue: para que em algum momento não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados.
Daqueles que recebem a semente, convenientemente existem três graus; donde segue e estes são os que foram semeados sobre a boa terra. Os que frutificam em cem são aqueles que têm vida perfeita e obediente, como as virgens e os eremitas; os que frutificam em sessenta são aqueles que se mantêm no meio termo, como os continentes 1 e os que estão nos cenóbios; os que frutificam em trinta são aqueles que, embora pequenos, produzem fruto segundo sua própria virtude, como os leigos e os que estão no matrimônio.
[1] A palavra traduzida como "continentes" refere-se aos ascetas, que se envolviam nos assuntos do mundo; enquanto os eremitas viviam completamente afastados deles e se dedicavam à contemplação; os cenobitas ficavam entre os dois, vivendo juntos em conventos, e combinavam tanto a vida prática quanto a contemplativa, veja Greg. Naz. Or. 43, 62. ↩
Ou então o Senhor adverte aqui seus discípulos que sejam luminosos segundo a vida e a conversação; como se dissesse: Assim como uma lucerna é colocada para luzir, assim todos observarão vossa vida. Portanto, esforçai-vos para ter uma boa vida, e não fiqueis sentados nos cantos, mas sede uma lucerna: pois uma lucerna não brilha sob o leito, mas sobre o candelabro. E certamente é necessário colocar esta lucerna sobre o candelabro, isto é, na elevação da conversação que é segundo Deus, para que possa iluminar também aos outros; não sob o módio, isto é, em torno da gula; nem sob o leito, isto é, no ócio: pois ninguém que se dedica às comidas e ama o descanso poderia ser uma lucerna que brilha para todos.
Pois cada um de nós, tanto se fez algo bom, como mau no passado, é manifestado no presente, e muito mais no futuro. Pois o que há de mais oculto do que Deus? E, no entanto, Ele mesmo se manifestou na carne. Segue-se: "Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça".
Para que nada daquilo que vos é dito por mim escape. Com a medida com que medirdes, vos será medido, isto é, qualquer que seja o grau de aplicação que trouxerdes, nesse mesmo grau recebereis proveito.
Ou então, Cristo dorme, isto é, ascende ao céu, onde, embora pareça dormir, contudo se levanta à noite, quando por meio das tentações nos eleva ao seu conhecimento; e durante o dia, quando por causa de nossas orações, dispõe a nossa salvação.
Pois germinamos a erva, quando manifestamos um princípio de bem; depois a espiga, quando podemos resistir às tentações; depois o fruto, quando alguém opera algo perfeito. Segue-se: e quando produziu de si o fruto, imediatamente mete a foice, porque chegou a ceifa.
Pequeníssima, de fato, é a palavra da fé: Crê em Deus, e serás salvo. Mas a pregação espalhada sobre a terra dilatou-se e aumentou, de tal modo que as aves do céu, isto é, os homens contemplativos, elevados em intelecto e conhecimento, habitam sob ela. Quantos sábios dentre os gentios, abandonando a sabedoria, encontraram repouso na pregação do Evangelho! Assim, a pregação tornou-se maior que todas as coisas.
E fez ramos grandes: pois alguns dos apóstolos foram divididos para Roma, e alguns para a Índia, e alguns para outras partes da terra, como ramos.
Porquanto as multidões eram incultas, ele as instruía a partir de alimentos e de nomes familiares; e por isso acrescenta sem parábolas não lhes falava, isto é, para que fossem motivadas a aproximar-se e a interrogar. Segue-se mas, a sós, explicava tudo a seus discípulos, ou seja, aquilo sobre o que perguntavam por desconhecerem, não simplesmente tudo, tanto o manifesto quanto o não manifesto.
Permitiu, portanto, que eles caíssem no temor do perigo, para que experimentassem em si mesmos sua virtude, eles que viam outros beneficiados por Ele. Dormia, pois, sobre o travesseiro da barca, que era de madeira.
Ele, porém, levantando-se, primeiro repreende o vento, que causava a tempestade do mar e as ondas; e é isso que segue: e, levantando-se, repreendeu o vento; depois ordena ao mar; donde segue: e disse ao mar: Cala-te, emudece.
Ameaçou também os discípulos como não tendo fé; pois segue: e disse-lhes: Por que sois temerosos? Ainda não tendes fé? Pois se tivessem fé, teriam acreditado que, mesmo dormindo, poderia conservá-los incólumes. Segue e temeram com grande temor, e diziam uns aos outros: Quem pensas que é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem? E, de fato, mantinham-se em dúvida a respeito dele; na medida em que acalmou o mar com uma ordem, não com um cajado, como Moisés, nem com orações, como Eliseu no Jordão, nem com a arca, como Josué, filho de Nave, por isto lhes parecia verdadeiramente Deus, mas por estar dormindo, parecia-lhes homem.
Porque os que estavam na barca questionavam entre si quem, pensais, é este?, confirma-se quem ele era pelo testemunho dos inimigos, pois aproximou-se um endemoninhado confessando que ele era o Filho de Deus; para narrar isso, o Evangelista prossegue, dizendo e chegaram ao outro lado do mar, à região dos gerasenos.
O Senhor interroga, não para que Ele mesmo soubesse, mas para que os demais saibam a multidão de demônios que habitavam nele.
E para que, lutando contra nós, nos tornem mais hábeis. Segue-se: havia ali, ao redor do monte, uma grande manada de porcos pastando.
Mas espantados pelo milagre que ouviram, temeram, e por esta razão suplicam a Ele que se retire de seus territórios; e isto é o que se segue: e começaram a rogar-lhe que se retirasse de seus confins: temiam, pois, que alguma vez sofressem algo semelhante. Entristecidos com a perda dos porcos, rejeitam a presença do Salvador.
Temia, pois, que alguma vez os demônios o encontrassem e entrassem novamente nele. Porém, o Senhor o envia para sua casa, dando-lhe a entender que, embora Ele mesmo não estivesse presente, seu poder o guardaria; ao mesmo tempo, também para que, curado, fosse útil aos outros; por isso segue: E não o admitiu, mas disse-lhe: Vai para tua casa, aos teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti. Vê a humildade do Salvador: não disse: 'Anuncia todas as coisas que Eu te fiz', mas todas as que o Senhor te fez; assim também tu, quando fizeres algo bom, não o atribuas a ti, mas a Deus.
Ele, portanto, começou a pregar, e todos se admiram; e isto é o que se segue: "E começou a publicar".
Ou por isso se significa que os demônios entram nos homens que vivem à maneira dos porcos, revolvendo-se no lamaçal das voluptuosidades; e os precipitam no abismo da perdição para o mar desta vida, onde são sufocados.
Depois do milagre do endemoninhado, o Senhor opera outro milagre, a saber, ressuscitando a filha do chefe da sinagoga; o Evangelista, ao iniciar a narração deste milagro, diz e tendo Jesus embarcado novamente na barca, de volta para o outro lado.
Este homem foi parcialmente fiel, enquanto caiu aos pés de Jesus, mas naquilo em que suplica para que Ele venha, não demonstra ter a fé que convinha. Pois deveria ter dito: "Dize uma palavra, e minha filha será curada". Segue-se: "E partiu com ele, e seguia-o uma grande multidão, e comprimiam-no; e uma mulher que padecia de um fluxo de sangue há doze anos (...) veio por trás na multidão".
Fidelíssima é esta mulher, que esperou cura das fímbrias, por isso consegue a saúde; de onde segue e imediatamente secou a fonte do seu sangue, e sentiu em seu corpo que estava curada da chaga.
Pois o Senhor queria manifestar a mulher, primeiramente para aprovar a fé da mulher; depois para provocar o chefe da sinagoga à confiança, para que assim sua filha fosse curada; e ao mesmo tempo para livrar a mulher do temor: de fato, a mulher temia, porque havia furtado a saúde; por isso segue-se: a mulher, porém, temendo e tremendo, sabendo o que nela havia sido feito, veio e prostrou-se diante dele, e disse-lhe toda a verdade.
Disse, porém, a ela vai em paz, isto é, no repouso; como se dissesse: vai, descansa, porque até agora estiveste em angústias e tribulações.
Ou pela mulher que padecia de um fluxo de sangue, entenda-se a natureza humana: pois o pecado fluía, o qual, matando a alma, derramava, por assim dizer, o sangue de nossas almas. Esta não pôde ser curada por muitos médicos, refiro-me aos sábios deste mundo, da lei e dos profetas; mas assim que tocou a franja do vestido de Cristo, isto é, Sua carne, foi curada: pois aquele que crê que o Filho de Deus se encarnou, este é o que toca a franja de Seus vestidos.
Aqueles que estavam com o chefe da sinagoga acreditavam que Cristo era um dos profetas, e por isso pensavam que deveriam suplicar-lhe para que, vindo, orasse sobre a menina; mas porque a menina já havia expirado, julgavam que não se devia mais suplicar; e por isso diz: ainda estando ele falando, chegaram pessoas à casa do chefe da sinagoga, dizendo: tua filha está morta; por que incomodas mais o Mestre? Mas o próprio Senhor induz o pai a ter confiança; pois se segue não temas; somente crê.
Pois o humilde Cristo não quis realizar nada por ostentação. E vêm à casa do chefe da sinagoga, e veem o tumulto e os que choravam e se lamentavam muito.
Zombavam dele como se já não pudesse fazer mais nada; mas ele mesmo debate contra seus próprios testemunhos, como tendo verdadeiramente ressuscitado uma morta; e, portanto, será milagroso se a ressuscitar.
Depois dos milagres antes relatados, o Senhor regressa à sua pátria, não por ignorar que o desprezariam, mas para que não tivessem ocasião de dizer futuramente: "Se tivesses vindo, teríamos acreditado em ti". Por isso diz-se: E saindo dali, foi para a sua pátria; e seguiam-no os seus discípulos.
Ou também que o profeta tenha ilustres parentes, os conterrâneos os odeiam, e por isso desonram o profeta. Segue-se e não podia ali fazer nenhum milagre, a não ser que curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. Quanto ao que diz não podia, convém entender: não queria; porque ele não era impotente, mas eles eram infiéis; portanto, ali não opera milagres, poupando-os, para que não se tornassem dignos de maior repreensão, não acreditando mesmo após verem os milagres. Ou de outro modo: para realizar milagres, é necessária a virtude de quem opera e a fé de quem recebe, que ali faltava; por isso Jesus não queria ali fazer sinais. Segue-se e admirava-se da incredulidade deles.
O Senhor não apenas pregava nas cidades, mas também nas aldeias, para que aprendamos a não desprezar as coisas pequenas, nem sempre buscar as grandes cidades, mas semear a palavra de Deus nas vilas pobres e humildes. Por isso é dito, e Ele percorria as aldeias em redor, ensinando.
Manda os apóstolos de dois em dois, para que se tornassem mais prontos; pois, como diz o Eclesiastes, melhor é serem dois juntos do que um só(Eclesiastes 4,9). Se, porém, tivesse enviado mais do que dois, não seria suficiente o número para que fossem enviados a muitas aldeias.
Instruindo-os também por este meio a não serem apreciadores de presentes, e para que, vendo-os pregarem a pobreza, confiem neles, quando veem que os próprios Apóstolos nada possuem.
Para que não acontecesse de serem repreendidos de gula, passando de uns para outros. Segue-se e quaisquer que não vos receberem, nem vos ouvirem, saindo dali, sacudi o pó de vossos pés em testemunho contra eles. Isto, pois, o Senhor ordenou para mostrar que percorreram um longo caminho por causa deles, e nada lhes aproveitou; ou porque nada receberam deles, nem mesmo o pó; mas até este sacudem, para que isto seja em testemunho contra eles, isto é, em repreensão deles.
Significa também a graça do Espírito Santo, pela qual somos transformados de nossos trabalhos, e recebemos luz e alegria espiritual.
Pois São João refutava muitos homens quando dizia: raça de víboras. Segue-se: "Outros, porém, diziam que é um profeta, ou como um dos profetas".
Ou de outro modo. Sabendo Herodes que havia matado São João, homem justo, sem causa, acreditava que ele tivesse ressuscitado dos mortos, e que pela ressurreição tivesse recebido o poder de operar milagres.
O Evangelista Marcos, tomando ocasião do que foi mencionado antes, aqui relata a morte do Precursor, dizendo: porque o próprio Herodes havia mandado prender João, e o acorrentou na prisão por causa de Herodíades, mulher de Filipe seu irmão, pois a tinha tomado por esposa.
Outros, porém, dizem que Filipe já morto deixara de si uma filha; por isto não devia Herodes tomar como esposa a mulher do irmão, ainda que defunto. Pois a Lei ordenava que o irmão recebesse a mulher do irmão, quando o defunto não tivesse prole; mas aquela tinha uma filha, razão pela qual as núpcias eram criminosas. Segue-se: Herodias, porém, armava-lhe ciladas, e queria matá-lo, e não podia.
Vede, porém, quanto opera a fúria da concupiscência: porque tendo Herodes tanta reverência e temor para com São João, ele se esquece de tudo isso, para satisfazer sua fornicação.
Porque, durante o banquete, Satanás dança por meio da jovem, e o juramento perverso é consumado; segue-se com efeito: e jurou a ela: aquilo que pedires, eu te darei, mesmo que seja a metade do meu reino.
A maligna mulher pediu imediatamente que lhe fosse dada a cabeça de São João, isto é, sem demora, naquela mesma hora; pois temia que Herodes se arrependesse. Segue-se: e o rei ficou extremamente triste.
Herodes, na verdade, não sendo senhor de si mesmo, mas voluptuoso, cumpriu seu juramento e matou o justo. Seria mais conveniente, contudo, perjurar neste caso do que perpetrar tão grande crime.
"Spiculator" é o carrasco, que é designado para executar os homens.
Em sentido místico, Herodes, cujo nome significa "de pele", é o povo dos judeus, que tinha como esposa a vanglória, cuja filha ainda dança e se move ao redor dos judeus, isto é, a falsa interpretação das Escrituras; eles de fato decapitaram João, ou seja, a palavra profética, e o têm sem Cristo, que é a sua cabeça.
Aprendamos também nós, quando formos enviados a algum ministério, a não nos distanciarmos, e a não nos excedermos além do ofício confiado; mas a visitar aquele que nos envia e reportar-lhe todas as coisas que fizemos e ensinamos.
Ele, porém, retira-se para um lugar deserto, por humildade. Cristo faz os seus discípulos descansarem, para que aprendam os que são prepostos, que aqueles que trabalham na obra e na palavra merecem descanso, e que não devem trabalhar continuamente.
Assim, tu não esperes que Cristo te chame, mas antecipa-o, vem antes dele. Segue-se: e saindo Jesus viu uma grande multidão, e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Os fariseus, sendo lobos vorazes, não apascentavam o povo, mas o devoravam; por isso se congregam a Cristo, o verdadeiro Pastor, que lhes deu alimento espiritual, isto é, a palavra de Deus; donde segue: e começou a ensinar-lhes muitas coisas. Pois vendo aqueles que o seguiam por causa de seus milagros, cansados pela extensão do caminho, compadecido deles, quis satisfazer sua vontade, ensinando-os.
O Senhor, antepondo o que é mais útil, a saber, o alimento da palavra de Deus, em seguida também ofereceu o alimento corporal à multidão; a cuja narração o Evangelista chega, dizendo: E como já fosse uma hora avançada, aproximaram-se os seus discípulos dizendo: Este lugar é deserto.
Vede, pois, como os discípulos de Cristo progridem no amor aos homens: pois, compadecidos das multidões, aproximam-se de Cristo e intercedem por elas. O Senhor, porém, os pôs à prova para ver se reconheciam que seu poder era tão grande que poderia alimentar as multidões; por isso segue: e respondendo, disse-lhes: Dai-lhes vós de comer.
Os discípulos, porém, o questionavam como se Ele ignorasse o que lhes era necessário para alimentar tão grande multidão; por isso, turbados, responderam; pois segue-se: e disseram-lhe: indo comprar duzentos denários de pães, daremos a eles para comer.
Por isso dá-se a entender que se reclinaram separadamente em grupos e grupos: porque o que aqui se diz por grupos, no grego diz-se repetidamente, symposia symposia; isto é, por convívios distribuídos. Segue-se e tomando os cinco pães e os dois peixes, olhando para o céu, abençoou, e partiu os pães, e deu-os aos seus discípulos, para que os pusessem diante deles; e dividiu os dois peixes entre todos.
Ele olha também para o céu, para instruir-nos a pedir alimento a Deus, e não ao diabo, como fazem aqueles que se alimentam injustamente dos trabalhos alheios. Por isto também indicou então às multidões que não era contrário a Deus, mas que invocava a Deus. Dá o pão aos discípulos para servirem às multidões, para que, ao manusearem o pão, não houvesse dúvida, mas se visse o milagre. Segue-se e todos comeram e ficaram saciados. E recolheram doze cestos cheios dos fragmentos que sobraram. Sobraram doze cestos de fragmentos, para que cada um dos apóstolos, levando um cesto sobre os ombros, reconhecesse o inefável milagre. Era, com efeito, prova de um poder superabundante não apenas alimentar tantos homens, mas também deixar tamanha superabundância de fragmentos: Moisés, embora desse o maná, distribuía-o conforme a necessidade de cada um, e o supérfluo fervilhava de vermes; Elias também, alimentando a viúva, dava-lhe o que lhe era suficiente; Jesus, porém, como Senhor, agia com superabundante profusão.
Ou os dois peixes são os discursos dos pescadores, isto é, as Epístolas e o Evangelho.
Depois de despedir a multidão, subiu para orar; pois a oração exige repouso e silêncio.
Permitiu o Senhor que os discípulos estivessem em perigo, para que se tornassem pacientes; por isso não lhes assistiu imediatamente, mas permitiu que permanecessem em perigo por toda a noite, para ensiná-los a esperar pacientemente e a não esperar desde o princípio auxílio nas tribulações; pois segue-se: e vendo-os esforçando-se ao remar (pois o vento lhes era contrário) e cerca da quarta vigília da noite, veio a eles andando sobre o mar.
Vede, pois, que quando Cristo devia reprimir os perigos deles, então lhes infundiu maior temor; mas logo os reconfortou por sua voz; pois segue e imediatamente falou com eles, e lhes disse: Tende confiança, sou eu; não temais.
Depois, pelo ingresso no barquinho o Senhor acalmou a tempestade; pois segue-se e subiu para junto deles no barco, e cessou o vento. Grande milagre é, certamente, que o Senhor caminhe sobre o mar; mas a tempestade e os ventos contrários foram acrescentados para um milagre maior. Os Apóstolos, com efeito, não compreendendo pelo milagre dos cinco pães o poder de Cristo, agora a partir do milagre do mar conheceram mais plenamente; donde segue-se e mais ainda dentro de si se espantavam: pois não haviam entendido sobre os pães.
Depois de um grande espaço de tempo, o Senhor navegou para o lugar mencionado; e por isso o Evangelista acrescenta: e quando saíram do navio, imediatamente o reconheceram, isto é, os habitantes.
Não o convidavam às casas para que curasse, mas antes os próprios enfermos eram trazidos a ele; por isso segue: E por onde quer que entrasse, em aldeias, ou em campos, ou em cidades, punham os enfermos nas praças, e suplicavam-lhe que ao menos tocassem a orla de sua veste. Pois o milagre que havia acontecido com a mulher hemorrágica chegara aos ouvidos de muitos, e lhes dava muita fé, pela qual eram curados; segue-se, pois: E quantos o tocavam, eram salvos.
Pois os discípulos do Senhor, instruídos a realizar somente aquilo que é da virtude, comiam simplesmente sem lavar as mãos. Os fariseus, porém, querendo encontrar uma ocasião, aproveitaram isso; e não os censuravam como transgressores da lei, mas porque transgrediam as tradições dos anciãos; de onde segue: Porque os fariseus e todos os judeus, se não lavarem as mãos com frequência, não comem, observando a tradição dos anciãos.
Querendo os fariseus comer as oferendas, instruíam os filhos que, quando tinham alguns bens e os pais os pedissem, respondessem a eles: corban, isto é, dom que me pedes, já o ofereci ao Senhor; e assim não mais o requisitavam, como se oferecido ao Senhor, ou seja, proveitoso para a salvação dos pais. Deste modo, enganavam os filhos para que não honrassem os pais, e eles mesmos devoravam as oferendas. Isto, portanto, o Senhor lhes reprova, porque por causa do lucro transgrediam a lei divina; de onde segue: rescindindo a palavra de Deus por vossa tradição que transmitistes. E muitas coisas semelhantes a estas fazeis, a saber, transgredindo os preceitos de Deus, para observardes as tradições dos homens.
O Senhor diz isto, querendo instruir os homens de que as observâncias de alimentos, que a lei menciona, não devem ser entendidas corporalmente; e a partir disto, Ele começou a manifestar-lhes a intenção da lei.
O Senhor, porém, primeiro os repreende; donde segue: e lhes disse: assim também vós sois imprudentes?
Depois o Senhor manifesta o que estava oculto, dizendo: Não entendeis vós que tudo o que de fora entra no homem não pode torná-lo impuro?
O olho mau, isto é, o ódio e a adulação: pois aquele que odeia, tem um olho mau e invejoso para com aquele a quem odeia; e o adulador, não vendo com olho reto as coisas que são do próximo, o conduz ao mal; as blasfêmias, isto é, as injúrias contra Deus; a soberba, isto é, o desprezo de Deus, quando alguém atribui o bem que opera, não a Deus, mas à sua própria virtude; a estultícia, isto é, a injúria contra o próximo.
Depois que o Senhor havia ensinado acerca dos alimentos, vendo que os judeus eram incrédulos, entrou nas regiões dos gentios; pois, sendo os judeus infiéis, a salvação se converte às nações; por isso diz: E levantando-se dali, foi para os confins de Tiro e de Sidônia.
Ou talvez tenha entrado secretamente, para que os judeus não encontrassem ocasião de censurá-lo, como se tivesse passado para os gentios impuros. Segue-se: mas não pôde ocultar-se.
Ele chama os gentios de cães, por serem considerados criminosos pelos judeus; e chama de pão o benefício que o Senhor prometeu aos filhos, isto é, aos judeus. O sentido, portanto, é que não convém que os gentios sejam os primeiros participantes do benefício que foi principalmente prometido aos judeus. Por isso o Senhor não atende imediatamente, mas difere sua graça, tanto para mostrar a fé constante da mulher, quanto para que aprendamos a não desistir imediatamente quando rezamos, mas a persistir até que recebamos.
Como se dissesse: Os judeus têm todo o pão, isto é, o que desce do céu, 1 e também os teus benefícios; eu peço as migalhas, isto é, uma pequena parte do benefício.
[1] [p. 141] ↩
Como, pois, a mulher respondia com muita sabedoria, obteve o que desejava; por isso segue-se e disse-lhe. Ele não disse: Minha virtude te salvou; mas por esta palavra, isto é, por tua fé, que se demonstra por esta palavra, vai; o demônio saiu de tua filha. Segue-se: e quando voltou para sua casa, encontrou a menina deitada sobre o leito, e o demônio havia saído.
A alma de cada um de nós também, quando cai em pecado, torna-se uma mulher; e esta alma tem uma filha que está doente, ou seja, as ações más; esta filha, por sua vez, tem um demônio, pois as ações más provêm dos demônios. Além disso, os pecadores são chamados de cães, estando cheios de imundície. Por este motivo, não somos dignos de receber o pão de Deus ou de sermos participantes dos mistérios imaculados de Deus; se, entretanto, na humildade, reconhecendo-nos como cães, confessarmos nossos pecados, então a filha, isto é, nossa conduta má, será curada.
O Senhor não queria permanecer nos lugares dos gentios, para não dar ocasião aos judeus de avaliarem-no como transgressor da lei, por misturar-se com os gentios; e por isso imediatamente retorna; de onde se diz e novamente saindo dos territórios de Tiro, veio por Sidom ao mar da Galileia, passando pelo meio das fronteiras de Decápole.
O que é corretamente colocado após a libertação do endemoninhado: pois tal sofrimento provinha do demônio. Segue-se e apartando-o da multidão, pôs-lhe os seus dedos nos ouvidos.
Para mostrar que todos os membros de seu sagrado corpo são divinos e santos; assim como também a saliva, que soltou a ligação da língua. Pois toda saliva é uma superfluidade; mas no Senhor todas as coisas foram divinas. Segue-se e olhando para o céu, gemeu e disse: Ephphatha, que significa: Abre-te.
Por isto somos ensinados que, quando concedemos benefícios a alguém, de modo algum devemos buscar aplausos e louvores; mas quando recebemos benefícios, devemos proclamar e louvar nossos benfeitores, mesmo que eles não o queiram.
Depois que o Senhor havia realizado anteriormente o milagre da multiplicação dos pães, agora novamente, tendo uma ocasião conveniente, realiza um milagre semelhante; por isso é dito: naqueles dias, estando novamente uma grande multidão com Jesus, e não tendo o que comer, convocando os discípulos, disse-lhes: tenho compaixão desta multidão, porque eis que já há três dias que estão comigo e não têm o que comer. Pois não fazia sempre milagres relacionados ao alimento, para que não o seguissem por causa da comida. E agora, portanto, não teria feito este milagre, se não tivesse visto que um perigo ameaçava a multidão; por isso segue: e se os despedir em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, pois alguns deles vieram de longe.
Os discípulos ainda não compreendiam, nem acreditavam na sua virtude, por causa dos milagres anteriores; por isso segue-se: e responderam-lhe os seus discípulos: de onde poderá alguém saciar estes homens com pão aqui no deserto? Mas o próprio Senhor não os censura, ensinando-nos que não devemos irritar-nos gravemente com os ignorantes e os que não compreendem, mas ter compaixão de sua ignorância; por isso segue-se: e perguntou-lhes: quantos pães tendes? Eles disseram: sete.
As multidões que comeram e se saciaram não levaram consigo os restos dos pães, mas os próprios discípulos os recolheram, assim como antes os cestos. Nisso, conforme a narrativa histórica, aprendemos que devemos nos contentar com o que é suficiente e não buscar nada além. Em seguida, o número dos que comeram é descrito quando se diz: "eram cerca de quatro mil os que haviam comido"; e os despediu. Onde se deve considerar que Cristo não despede ninguém em jejum: pois Ele quer que todos sejam nutridos por sua graça.
Ou por aqueles que esperam por três dias, Ele significa os batizados; pois o batismo é chamado iluminação, e é realizado pela tríplice imersão.
Os sete pães são os discursos espirituais: pois o número sete é significativo do Espírito Santo, que aperfeiçoa todas as coisas; pois nossa vida é aperfeiçoada no número de sete dias.1
[1] O número sete parece ser tomado pelos Padres para significar um todo, desde que o mundo foi completado em sete dias; e Santo Ambrósio estabelece isso como um princípio de interpretação, em Luc. 7, 95. Teófilo aqui alude às sete idades da vida do homem; uma passagem muito semelhante é encontrada na 44ª Carta de Santo Ambrósio, onde todo o assunto é discutido. ↩
Ou os quatro mil são aqueles perfeitos nas quatro virtudes; e por isso, como sendo mais fortes, consumiram mais e deixaram menos. Neste milagre, sete cestos permanecem; mas no milagre dos cinco pães, doze: porque eram cinco mil, isto é, homens escravizados aos cinco sentidos, e por isso não puderam comer, mas se contentaram com pouco; de onde muitas sobras de fragmentos abundaram.
Depois que o Senhor operou o milagro dos pães, imediatamente retirou-se para outro lugar, para que, devido ao milagre, as multidões não o tomassem para fazê-lo rei; por isso diz: e imediatamente, subindo ao barco com seus discípulos, veio às regiões de Dalmanuta.
Ou buscam um sinal do céu, isto é, desejam que Ele faça o sol e a lua pararem, que envie granizo e que altere o ar. Pois acreditavam que Ele não podia realizar milagres do céu, mas que somente em Belzebu podia realizar um sinal na terra.
Por isso, o Senhor não os atende, porque outro é o tempo dos sinais celestes, a saber, o tempo do segundo advento, quando as potestades dos céus serão abaladas, e a lua não dará a sua luz. No tempo do primeiro advento, porém, não acontecem tais coisas, mas tudo está cheio de mansidão.
O Senhor certamente deixa os fariseus, como homens incorregíveis; pois onde há esperança de correção, aí se deve permanecer; mas onde o mal é incorrigível, devemos nos afastar. Segue-se: "E esqueceram-se de levar pães, e não tinham consigo na barca mais que um pão".
Também providencialmente os discípulos se esqueceram de levar pães, para que, repreendidos por Cristo, se tornassem melhores e chegassem ao conhecimento do poder de Cristo; pois segue-se e advertia-os, dizendo: Vede, e guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes.
Ele chama de fermento dos fariseus e herodianos a doutrina deles, por ser danosa e corruptiva e cheia da antiga malícia. Pois os herodianos eram doutores que diziam que Herodes era o Cristo.
Os próprios discípulos, no entanto, pensaram que o Senhor falava do fermento dos pães; donde se segue e eles raciocinavam entre si, dizendo: porque não temos pães. Isto diziam, como que não compreendendo o poder de Cristo, que poderia fazer pães a partir do nada; pelo que o Senhor os repreende: segue-se, pois, ao saber disso, Jesus lhes disse: Por que raciocinais porque não tendes pães?
Pois Betsaida parece ter sido infectada com muita infidelidade, por isso o Senhor a repreende: ai de ti, Betsaida: porque se em Tiro e Sidon fossem feitos os milagres que foram feitos em vós, há muito teriam feito penitência com cilício e cinzas(São Mateus 11,21). Portanto, conduz para fora da aldeia o cego que lhe tinha sido trazido: pois não era verdadeira a fé dos que o trouxeram. Segue-se e cuspindo nos seus olhos, impondo-lhe as suas mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.
Por isso, porém, ele não o faz ver perfeitamente de imediato, mas em parte, porque não tinha uma fé perfeita: pois segundo a fé é dado o remédio.
Ele ordenou-lhe isto porque eram infiéis, como foi dito, para que não fosse prejudicado em sua alma por eles, e para que eles mesmos, não crendo, não incorressem em crime mais grave.
Ou então, depois que Ele o curou, envia-o para a sua casa; pois a casa de cada um de nós é o céu, e as mansões que nele estão.
Depois que afastou os seus discípulos para longe dos judeus, então os interroga acerca de si mesmo, para que respondam a verdade sem temer os judeus; por isso se diz E Jesus entrou, com seus discípulos, nas aldeias de Cesareia de Filipe.
Muitos, com efeito, pensavam que São João havia ressuscitado dos mortos, assim como até Herodes acreditava, e que após sua ressurreição havia realizado milagros. Porém, depois de ter indagado deles a opinião dos outros, pergunta-lhes o que a respeito disto consistia em suas mentes; por isso segue: "Então disse-lhes: E vós, quem dizeis que eu sou?"
Ele confessa, certamente, que Ele é o Cristo anunciado pelos profetas. Mas o que o Senhor respondeu à confissão de Pedro, e de que modo o declarou bem-aventurado, o Evangelista São Marcos passa por alto, para que, ao narrar isto, não parecesse estar prestando um favor ao seu mestre Pedro; São Mateus, contudo, trata disso claramente.
Pois Ele queria, entretanto, ocultar Sua glória, para que muitos não se escandalizassem por causa dele, e assim merecessem maior castigo.
Depois que o Senhor aceitou a confissão dos discípulos, que o chamavam de verdadeiro Deus, então lhes revela o mistério da Cruz; por isso segue: e começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem padecesse muitas coisas, e fosse rejeitado pelos anciãos, e pelos sumos sacerdotes, e pelos escribas, e fosse morto, e depois de três dias ressuscitasse; e falava abertamente essa palavra, isto é, acerca da futura paixão. Os discípulos, porém, não entendiam a ordem da verdade, nem podiam compreender a ressurreição; mas pensavam ser melhor que Ele não padecesse.
Pois o Senhor, querendo mostrar que por causa da salvação dos homens deveria ocorrer Sua Paixão, e que somente Satanás não queria que Cristo padecesse, para que o gênero humano não fosse salvo, chamou Pedro de Satanás, porque ele apreciava as coisas que são de Satanás, não querendo que Cristo padecesse, mas se opondo a Ele; pois Satanás é interpretado como 'adversário'.
Ele diz que Pedro sabia as coisas que são dos homens, na medida em que de algum modo saboreava as afeições carnais: pois Pedro queria que Cristo poupasse a si mesmo e não fosse crucificado.
Pois assim como aquele que renega a outro, a saber, um irmão ou um pai, ainda que este seja ferido e morra, não se compadece nem se condói dele, assim também nós devemos desprezar nosso corpo, de modo que, se acontecer de ser ferido ou sofrer algo semelhante, não nos importemos.
Porque naquele tempo a cruz era vista como vergonhosa, pois nela eram fixados os malfeitores.
Mas porque depois da cruz precisamos ter uma nova força, Ele acrescenta, e segue-me.
Pois não é suficiente a fé que somente existe na mente, mas o Senhor exige também a confissão da boca: porque, uma vez que a alma é santificada pela fé, o corpo também deve ser santificado pela confissão.
Aquele, pois, que confessar que o crucificado é seu Deus, também Ele o confessará, não aqui, onde Cristo é considerado pobre e miserável, mas na glória e com multidão de Anjos.
Mas porque Ele havia falado de Sua glória, querendo mostrar que não prometia coisas vãs, acrescenta: em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o reino de Deus vindo com poder; como se dissesse: Alguns, isto é, São Pedro, São Tiago e São João, não provarão a morte, até que eu lhes mostre, na minha transfiguração, com qual glória hei de vir na minha segunda vinda; pois a transfiguração não era outra coisa senão um anúncio da segunda vinda de Cristo, na qual também o próprio Cristo e os santos brilharão.
Ele tomou consigo os três cumes dos apóstolos: Pedro como aquele que o confessa e o ama, João como o amado, e Tiago como o de voz elevada e teólogo. De fato, era tão insuportável aos judeus que Herodes, querendo agradar aos judeus, mandou matá-lo.
E à parte os conduz, porque devia revelar-lhes mistérios. Quanto à transfiguração, deve-se entender não como uma mudança de figura, mas que, permanecendo a figura como estava antes, foi adicionada uma certa inefável claridade.
Ou de outro modo. Pedro, temendo descer do monte, porque já pressentia que Cristo deveria ser crucificado, disse é bom estarmos aqui; e não descer para lá, isto é, para o meio dos judeus. Se, porém, vierem para cá furiosos contra ti, temos Moisés, que derrotou os egípcios, e temos também Elias, que fez descer fogo do céu e destruiu cinquenta homens.
Ou isto significa que veremos na glória tanto a Lei quanto os Profetas conversando com Ele; isto é, veremos então que todas aquelas coisas que foram ditas sobre Ele por Moisés e outros profetas estão em harmonia com a realidade, e então ouviremos a voz paterna, revelando-nos o Filho do Pai, e dizendo: Este é o meu Filho amado, estando a nuvem, isto é, o Espírito Santo, que é a fonte da sabedoria, nos cobrindo com sua sombra.
Para que os homens não se escandalizem, ouvindo coisas tão gloriosas de Cristo, a quem haviam de ver crucificado. Não era, portanto, conveniente dizer tais coisas sobre Cristo antes que padecesse, mas depois da ressurreição pareceria crível.
O Senhor propõe isto para contrapor a opinião dos fariseus, que sustentavam que Elias era o precursor da primeira vinda, como que levando a um absurdo; por isso acrescenta: "e como está escrito a respeito do Filho do homem, que deve padecer muito e ser desprezado"; como se dissesse: Elias Tesbita, quando vier, pacificará os judeus e os conduzirá à fé, de modo que será o precursor da segunda vinda. Se, portanto, Elias é o precursor da primeira vinda, como está escrito que o Filho do homem deve sofrer? Destas duas coisas, uma acontecerá: ou Elias não é o precursor da primeira vinda, e as Escrituras serão verdadeiras; ou ele é o precursor da primeira vinda, e as Escrituras não serão verdadeiras, as quais dizem que é necessário que Cristo padeça, uma vez que Elias deve restituir todas as coisas, e não deverá haver nenhum judeu incrédulo, mas todos que o ouvirem deverão crer na sua pregação.
Era também São João repreensor, e Zeloso, e eremita como Elias; contudo não o ouviram, como ouvirão a Elias. Em perverso jogo o mataram, decapitando-o; por isso segue e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como está escrito a respeito dele.
Depois que mostrara Sua glória a três discípulos no monte, retorna aos outros discípulos que não haviam subido com Ele ao monte; de onde se diz e vindo aos seus discípulos, viu uma grande multidão ao redor deles, e os escribas questionando com eles. Pois os fariseus, aproveitando a oportunidade da hora em que Cristo não estava presente, aproximaram-se deles para atraí-los para si.
Pois as multidões desejavam vê-lo, a tal ponto que o saudavam de longe quando estava chegando. Alguns, porém, dizem que seu semblante havia se tornado mais formoso após a transfiguração, e que isso atraía a multidão a saudá-lo.
Permite também que o menino seja atormentado, para que a partir disto conhecêssemos a impiedade do Demônio, que o teria matado, se não tivesse sido ajudado pelo Senhor. Segue "E perguntou a seu pai: Quanto tempo faz desde que isto lhe acontece?" E ele disse: "Desde a infância; e frequentemente o lançou no fogo e na água para o destruir".
Por isso, quando Ele viu a multidão acorrendo, ameaçou ao espírito imundo, porque não queria curá-lo diante da multidão, para nos ensinar a fugir da ostentação.
A saber, a espécie dos lunáticos, ou simplesmente de todos os tipos de demônios: é necessário, pois, que jejue aquele que deve ser curado, e aquele que cura. Assim, de fato, a verdadeira oração é aperfeiçoada, quando o jejum se une à oração, quando aquele que ora não está sobrecarregado pela ingestão de alimentos, mas está sóbrio.
Este demônio é surdo e mudo: surdo, na medida em que não quer ouvir os sermões de Deus; mudo, na medida em que não quer ensinar aos outros o que seria conveniente.
Mas se Jesus, isto é, a palavra evangélica, segura a mão, isto é, a virtude ativa, então seremos libertados do Demônio. Observe também que primeiro Deus nos ajuda, depois é requerido de nós que façamos o bem; por isso se diz que Jesus o elevou, no que se mostra o auxílio de Deus; e ele se levantou, no que se manifesta o esforço do homem.
Depois dos milagres, o Senhor insere um discurso sobre sua Paixão, para que não se pensasse que sofreu porque não podia evitá-lo. Por isso é dito: E partindo dali, passaram pela Galileia; e Ele não queria que alguém o soubesse. Pois ensinava seus discípulos, e dizia-lhes: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão.
Depois, porém, de haver dito o que era triste, então acrescenta o que deve alegrar; de onde se segue: e morto, ressuscitará ao terceiro dia, para que aprendêssemos a partir disto que após as angústias seguem-se alegrias. Segue-se: mas eles não compreendiam a palavra, e temiam interrogá-lo.
Pois Ele não quer que usurpemos para nós mesmos os primeiros lugares, mas que alcancemos as alturas por meio da humildade. Logo em seguida, os adverte pelo exemplo da inocência infantil; por isso segue: "e tomando uma criança, colocou-a no meio deles".
Vede, pois, quanto vale a humildade, pois merece a morada do Pai e do Filho, e também do Espírito Santo.
Ou mesmo, alguns incrédulos, vendo o nome de Jesus ser virtuoso, também eles mesmos diziam este nome e faziam sinais, ainda que fossem indignos da graça divina: pois queria o Senhor que também pelos indignos seu nome fosse ampliado.
Como, pois, fala mal de mim aquele que, a partir do meu nome, tem ocasião de glória, e por invocá-lo realiza milagres? Segue-se: Pois aquele que não é contra vós, é a favor de vós.
Como se dissesse: não somente não proíbo este que opera milagres em meu nome, mas também qualquer um que vos der a mínima coisa por causa do meu nome, e vos receber por minha causa, não por favor humano e mundano, não perderá sua recompensa.
Pois assim como o sal preserva as carnes e não permite que nelas se gerem vermes, também a palavra do doutor, se for dessecativa, restringe os homens carnais e não permite que neles se gere o verme inextinguível; mas se for insípida, isto é, se não tiver a virtude dessecativa e conservativa, com que será temperada?
Ou então, aquele que constrange a si mesmo com o vínculo da dileção ao próximo, este tem o sal, e por isso a paz com seu irmão.
Visita, pois, a região da Judeia, que muitas vezes tinha deixado por causa da emulação dos judeus, porque nela haveria de acontecer a sua paixão; porém não sobe então a Jerusalém, mas aos confins da Judeia, para que as multidões não maliciosas pudessem aproveitar; porque Jerusalém era operadora de toda iniquidade pela malícia dos judeus; donde segue e as multidões se reúnem novamente a ele; e, como costumava, novamente as ensinava.
Aproximam-se de fato não O abandonando, para que as multidões não cressem nEle; mas continuamente aproximando-se acreditavam poder conduzi-Lo à dúvida, e confundi-Lo por meio de perguntas. Propuseram-Lhe, pois, uma questão que de ambos os lados tinha um precipício: para que se dissesse que é lícito ao homem repudiar a esposa, ou que não é lícito, O acusassem, contradizendo-O a partir dos dogmas de Moisés. Cristo, portanto, sendo a própria sabedoria, respondeu-lhes uma resposta que escapava das armadilhas deles.
Mas os discípulos estavam escandalizados, como se não estivessem plenamente satisfeitos com o que havia sido dito; por esta razão eles o interrogam novamente; de onde segue e na casa, seus discípulos o interrogaram novamente sobre o mesmo assunto.
Mostrada anteriormente a maldade dos fariseus que tentavam a Cristo, agora se mostra a grande fé das multidões, que acreditavam que Cristo abençoava as crianças que lhe ofereciam apenas pela imposição das mãos; por isso se diz: e apresentavam-lhe crianças, para que as tocasse.
Por isso não disse: de estes é o reino de Deus; mas de tais, a saber, dos que têm pelo estudo e pelo trabalho a inocência e simplicidade que as crianças têm por natureza. Pois a criança não odeia, nem opera algo de modo malicioso, nem se afasta da mãe quando é golpeada; e mesmo que ela o vista com vestimentas humildes, ele as prefere às vestimentas reais: assim também aquele que vive segundo a virtude da Igreja, sua mãe, a nada dá preferência diante dela, nem mesmo ao prazer, que é a rainha de muitos; por isso também o Senhor acrescenta: Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele.
Admiro-me deste jovem que, enquanto todos os outros se aproximam de Cristo por causa de suas enfermidades, este pede a posse da vida eterna, apesar da maligna paixão da avareza, por causa da qual depois se entristeceu.
Quis, portanto, o Senhor por estas palavras elevar a mente do jovem, para que este o reconhecesse como Deus. Mas também indica outra coisa nestas palavras: que quando deves conversar com alguém, não o faças adulando-o, mas olhes para a raiz e fonte da bondade, Deus, e a Ele prestes honra.
E quando vender, dar aos pobres, não aos histriões e pessoas luxuriosas
Mas porque muitos são pobres não humildes, mas ébrios, ou tendo algum outro vício, por esta razão Ele diz e vem, segue-me.
Ele não diz isto porque as riquezas sejam más, mas porque são maus aqueles que as possuem para guardá-las; convém, pois, não as possuir, isto é, não retê-las nem guardá-las, mas usá-las nas coisas necessárias e para o serviço do homem.
Por camelo deve-se entender ou o próprio animal, ou aquela corda grossa que é usada nos grandes navios.
Ou deve-se entender que quando ele diz para os homens é impossível, mas não para Deus, significa que quando ouvimos a Deus, isto se torna possível; mas enquanto cultivamos pensamentos humanos, é impossível. Segue-se: pois todas as coisas são possíveis junto a Deus. Quando ele diz "todas as coisas", deve-se entender que se refere aos seres, o que o pecado não é: pois é algo sem essência e sem substância. Ou de outra maneira: o pecado não é coisa de virtude, mas de enfermidade; e, portanto, o pecado, assim como a enfermidade, é impossível junto a Deus. Mas acaso pode Deus fazer com que o que foi feito não tenha sido feito? A isto se responde que Deus é a suma verdade; porém fazer com que o que foi feito não tenha sido feito é falsidade. Como, então, a verdade faria algo falso? Primeiramente, destruiria sua própria natureza, como alguns dizem: acaso pode Deus não ser Deus? Isto, certamente, é ridículo.
Pedro, embora tenha deixado poucas coisas, ainda assim chama a isso tudo: pois mesmo o pouco mantém o vínculo da paixão; de modo que será beatificado aquele que deixa poucas coisas.
Ou seja, para confirmar os corações dos discípulos, para que, tendo ouvido estas coisas com antecedência, depois as suportassem mais facilmente, e não temessem diante de eventos repentinos, e também para mostrar que padeceria voluntariamente. Pois aquele que conhece de antemão o perigo, e não foge, embora tenha o poder de fugir, evidentemente entrega-se por sua própria vontade aos sofrimentos. Toma, porém, os discípulos à parte, porque era conveniente revelar o mistério de sua Paixão àqueles que lhe eram mais próximos.
Aqueles discípulos acreditavam que Ele subia a Jerusalém para reinar lá, e depois para padecer aquilo que havia predito que sofreria; e, pensando deste modo, desejavam a cadeira da direita e da esquerda; pelo que segue: e disseram: concede-nos que um se sente à tua direita e outro à tua esquerda na tua glória.
É como se dissesse: Não é isto o que credes, que Eu reinaria temporalmente em Jerusalém; mas todas estas coisas, isto é, as que pertencem ao meu reino, estão acima do entendimento; pois sentar-se à minha direita é algo tão grandioso que excede as ordens dos Anjos.
Ele chama de cálice e batismo a cruz: cálice como uma bebida docemente recebida por Ele mesmo; batismo como aquilo que realiza a purificação dos nossos pecados. Não entendendo o que Ele dissera, responderam; de onde segue: "e eles disseram: podemos". Pois acreditavam que falava do cálice sensível e do batismo que os judeus costumavam praticar, ou seja, lavando-se antes de comer.
Porque os demais apóstolos veem Tiago e João pedirem honra, não puderam suportar pacientemente; por isso é dito: e ouvindo os dez, indignaram-se contra Tiago e João. Pois, sujeitos às paixões humanas, eram movidos pela inveja; mas indignaram-se primeiro quando viram que eles não foram aceitos pelo Senhor; não se indignavam antes, porque viam que eles eram mais honrados que os outros. Naquele tempo, pois, os apóstolos comportavam-se de maneira imperfeita; mas depois cediam os lugares de primazia uns aos outros. Cristo, porém, os cura, primeiramente, para consolação deles, atraindo-os para junto de si; e isto é indicado quando se diz: Jesus, porém, chamando-os; depois, demonstrando que usurpar a honra e desejar o primado é próprio dos gentios; por isso segue: disse-lhes: sabeis que aqueles que parecem governar os gentios, dominam sobre eles, e os seus príncipes têm poder sobre eles. Os príncipes dos gentios impõem-se ao principado de modo tirânico e dominador. Segue-se: não será assim, porém, entre vós.
O que é maior do que servir. Pois quando alguém morre por aquele a quem serve, o que pode ser maior e mais admirável do que isto? Mas este serviço e a descida da humildade era a sua glória e a de todos: pois antes de se tornar homem, era conhecido somente pelos Anjos; mas quando se fez homem e foi crucificado, não somente ele mesmo tem glória, mas também recebeu outros para participarem de sua glória, e dominou pela fé sobre o mundo inteiro.
Pois grata é a alma do cego que, tendo sido curado, não abandona Jesus, mas O seguiu.
Diz também que seguiu ao Senhor no caminho, isto é, nesta vida, porque, depois dela, são excluídos todos os que aqui não O seguem, cumprindo Seus mandamentos.
Para que, se quiserem, possam reconhecer a sua glória, e por meio das profecias sobre ele cumpridas saibam que é o verdadeiro Deus; se, porém, não quiserem, maior se torne para eles o juízo, porque a tantos milagres evidentes não acreditaram. Descrevendo, portanto, esta entrada ilustre, o Evangelista diz e quando se aproximava de Jerusalém e Betânia, no monte das Oliveiras, envia dois dos seus discípulos.
Considera, porém, quantas coisas o Senhor predisse aos discípulos, a saber, que encontrariam um jumentinho; donde segue: e logo ao entrar ali, encontrareis um jumentinho amarrado, sobre o qual ainda nenhum homem se sentou; soltai-o e trazei-o; e que seriam impedidos de tomá-lo; donde segue: e se alguém vos disser: por que fazeis isto? Dizei que o Senhor tem necessidade dele; e que, dizendo isto, seria permitido levá-lo; donde segue: e imediatamente o deixará trazer aqui. E como o Senhor havia predito, assim se cumpriu; donde segue: e indo, encontraram o jumentinho amarrado diante da porta fora, na encruzilhada, e o soltaram.
Mas eles não teriam permitido isto, se a virtude divina não houvesse recaído sobre eles, constrangendo-os; especialmente porque, sendo homens do campo e lavradores, permitiram que o jumento fosse levado. E conduziram o jumento a Jesus e puseram sobre ele suas vestes; e Jesus sentou-se sobre ele.
Chamavam, porém, o reino de Cristo de reino de Davi, tanto porque Cristo descendeu da semente de Davi, como também porque Davi é interpretado como forte pela mão; pois quem foi forte pela mão senão o Senhor, cuja mão operou tantos e tais milagres?
Não lhe era necessário o pollino; mas procurou-o para mostrar que devia transferir-se ao povo gentio.
Ou no bivium, isto é, nesta vida. Foi, porém, solto pelos discípulos por meio do Batismo e da fé.
Ou então, os que impedem são os demônios, aos quais os Apóstolos foram mais fortes.
Espalhemos também nós ramos no caminho de nossa vida, cortando-os das árvores, isto é, imitando os santos: pois os santos são árvores, das quais corta ramos aquele que imita suas virtudes.
Mas tanto os que vão à frente quanto os que seguem nossos atos devem ser para louvor de Deus: pois alguns em sua vida passada fizeram um bom início; porém a vida seguinte não é como a anterior, nem termina para o louvor de Deus.
Querendo mostrar aos discípulos que, se quisesse, poderia em um momento exterminar aqueles que iriam crucificá-lo. Em sentido místico, porém, o Senhor entrou no templo, mas novamente saiu, mostrando que o deixaria deserto e entregue à rapina.
Ele chama numulários aos cambistas de moedas: pois nummus é um tipo de moeda pequena de cobre. Segue-se "e derrubou as cadeiras dos que vendiam pombas".
Mas, se alguém entrega ao demônio a graça e pureza do batismo pelo pecado, vende sua pomba; e por isto é lançado para fora do templo. Segue-se: e não permitia que alguém transportasse qualquer objeto pelo templo.
Ele chama o templo spelunca de ladrões devido ao lucro: pois a classe de ladrões se reúne para o lucro. Portanto, como vendiam por lucro aqueles animais que eram oferecidos para o sacrifício, chamou-os de ladrões. Pois estavam no templo com este propósito: ou para perseguir corporalmente aqueles que não davam ofertas, ou para matar espiritualmente os que davam. O templo e a casa de Deus também são a mente e a consciência dos fiéis, que se produz pensamentos perversos para prejudicar o próximo, é como se na caverna residissem ladrões. Portanto, a mente dos fiéis torna-se spelunca de ladrões quando, abandonando a simplicidade da santidade, esforça-se para fazer aquilo que pode prejudicar ao próximo.
O que também serve para maior repreensão dos judeus: porque, ainda que o Senhor tenha feito isto tantas vezes, eles de modo algum se corrigiram.
Este milagre parece grande pelo fato de que secou uma árvore tão úmida e verde. Embora São Mateus diga que a figueira imediatamente secou, e que os discípulos, vendo isso, se admiraram, não te admires se agora ouviste de São Marcos que os discípulos viram a figueira seca no dia seguinte: pois assim deve ser entendido o que é dito por São Mateus, isto é, que não viram imediatamente, mas no dia seguinte.
Admirai a divina misericórdia, como ela nos concede, quando nos aproximamos a Ele pela fé, o poder de fazer milagres, que Ele mesmo possui por natureza, a tal ponto que possamos até mesmo mudar montanhas de lugar.
Pois quem crê por seu afeto, evidentemente eleva seu coração a Deus, e a Ele se une, e seu coração aquecido se certifica, como se já tivesse conseguido sua petição: o que é compreensível para aquele que experimentou isto. E parece-me que experimentam isto aqueles que observam a medida e o modo: por isso o Senhor diz que recebereis tudo o que pedirdes com fé. Pois quem crê que está totalmente nas mãos de Deus, intercedendo com lágrimas, e pensando que na oração segura os pés do Senhor, conseguirá o que pedir com justiça. Queres também receber de outro modo o que pedes? Perdoa se teu irmão tiver pecado contra ti; e isto é o que se acrescenta: "E quando estiverdes em pé para orar, perdoai, se tendes algo contra alguém, para que também vosso Pai que está nos céus vos perdoe vossos pecados".
Como o Senhor expulsara do templo aqueles que faziam do templo quase uma tenda de mercadorias à venda, ficaram irados: por isso aproximam-se para interrogá-lo e tentá-lo; donde se diz: E voltam novamente a Jerusalém. E enquanto caminhava no templo, aproximam-se dele os sumos sacerdotes e os Escribas e os anciãos, e dizem-lhe: com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu esta autoridade para que faças isto? Como se dissessem: quem és tu que fazes tais coisas? Acaso te constituis doutor e te ordenas príncipe dos sacerdotes?
Diziam isso acreditando trazê-lo a julgamento; para que se ele dissesse: "por minha própria autoridade", o prendessem; mas se dissesse: "pela autoridade de outro", procurariam afastar dele o povo, que acreditava que ele era Deus. O Senhor, porém, os interroga sobre São João, não em vão, nem de modo sofístico, mas porque João havia dado testemunho dele; por isso segue: ele, porém, respondendo, disse-lhes: também eu vos interrogarei.
Ou a cerca é a lei, que proíbe a eles misturarem-se com estrangeiros. Segue-se "e partiu para longe".
Ou de outro modo. Pelo primeiro servo, entenda os profetas que viveram no tempo de Elias: pois Sedecias, o falso profeta, agrediu Miqueias; pelo segundo servo, o qual feriram na cabeça, isto é, a quem infligiram injúria, entenda os profetas que viveram no tempo de Oseias e Isaías; pelo terceiro servo, entenda os profetas que viveram no tempo de Daniel e Ezequiel. Segue: tendo, pois, ainda um filho muito amado, enviou-o por último a eles, dizendo: Talvez respeitarão o meu filho.
Ou de outro modo. Não ignorando o que havia de suceder, disse isto; mas mostrando o que era decente e adequado que eles fizessem. E aqueles colonos disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo; e nossa será a herança.
Isto é, fora de Jerusalém: pois o Senhor foi crucificado fora da cidade.
O Senhor da vinha, pois, é o Pai do Filho assassinado, e o próprio Filho assassinado, que destruirá os lavradores, entregando-os aos romanos; e dará o povo a outros lavradores, isto é, aos Apóstolos. Leia os Atos dos Apóstolos, e encontrará três mil e cinco mil de repente crendo e frutificando para Deus.
A pedra, portanto, que os doutores rejeitaram, esta foi feita a cabeça do ângulo, isto é, a cabeça da Igreja: pois o ângulo é a Igreja, como que unindo judeus e gentios; este ângulo, a saber, a Igreja, foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos, isto é, dos fiéis: pois pelos infiéis os milagres são depreciados. Admirável, certamente, é a Igreja, como que sustentada por milagres, cooperando o Senhor com os apóstolos, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram; e isto é o que se diz pelo Senhor foi feito isto, e é admirável aos nossos olhos.
Dissemos em outro lugar sobre os herodianos, que era uma certa nova heresia que afirmava que Cristo era Herodes, devido a isto: que haviam cessado as sucessões do reino dos judeus. Outros, porém, dizem que os herodianos eram soldados de Herodes, os quais os fariseus introduziam como testemunhas das coisas que eram ditas por Cristo, para que o capturassem e o levassem. Vede, pois, a malícia deles, de que modo com adulação queriam enganar a Cristo; pois segue-se que, chegando, dizem-lhe: Mestre, sabemos
De modo que não honres a César, isto é, contra a verdade. Por isso acrescentam: mas ensinas o caminho de Deus com verdade: é lícito dar tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos? Pois todo o seu artifício era como um precipício por todos os lados; de modo que, se Ele dissesse que era lícito dar tributo a César, provocariam o povo contra Ele, como se quisesse reduzir a própria nação à escravidão; mas se Ele dissesse que não era lícito, poderiam acusá-lo de estar incitando o povo contra César; mas a Fonte da sabedoria escapou de suas armadilhas. Por isso segue-se: mas Ele, conhecendo a hipocrisia deles, disse-lhes: Por que me tentais? trazei-me um denário, para que eu o veja. E eles lho trouxeram.
Como se dissesse: Dai o que tem a imagem ao representado, isto é, o denário a César: pois podeis pagar o imposto a César e oferecer a Deus o que lhe é próprio
A necessidade inevitável de nossos corpos é também como César para cada um de nós. O Senhor, portanto, ordena que se dê ao corpo o que lhe é próprio, ou seja, alimento e vestimenta, e a Deus as coisas que são de Deus. Segue-se: e maravilhavam-se a respeito dele. Aqueles que deveriam ter acreditado, admiravam-se de tão grande sabedoria, porque não haviam encontrado lugar para sua astúcia.
Havia uma certa heresia dos judeus, cujos adeptos eram chamados de saduceus, e estes negavam a ressurreição, e diziam que não existe anjo nem espírito. Estes, pois, aproximando-se de Jesus, expuseram enganosamente certa narrativa, pela qual pretendiam demonstrar que a ressurreição não existia nem acontecera, nem haveria de acontecer. E por isso se acrescenta: e o interrogavam, dizendo: Mestre. E nesta narrativa apresentam sete homens que haviam desposado uma mulher, para mais facilmente afastar os homens da crença na ressurreição.
Como se dissesse: vós não entendeis qual ressurreição a Escritura anuncia. Pois acreditais que haverá uma restauração dos corpos tais quais são agora, mas não será assim. Assim, portanto, ignorais a Escritura, mas também ignorais a virtude divina. Vós, de fato, considerais como se fosse difícil, dizendo: como poderão os membros dissolvidos se reunir e unir-se às almas? Isto, com efeito, em relação ao poder divino é quase nada. Segue-se: quando ressuscitarem dos mortos, nem se casarão nem serão dados em casamento, mas serão como os Anjos de Deus nos céus; como se dissesse: haverá uma restauração divina da vida e angélica, quando não mais nos corromperemos, mas permaneceremos do mesmo modo; e por isso os matrimônios serão eliminados. Pois o matrimônio existe agora por causa da corrupção, para que pela sucessão da espécie persistamos e não desapareçamos; então, porém, seremos como os Anjos, que existem sem sucessão matrimonial e nunca deixam de existir.
E de outro modo também se enganam por não entenderem as Escrituras. Pois se as tivessem entendido, compreenderiam como por meio das Escrituras a ressurreição dos mortos pode ser provada; por isso acrescenta: E quanto aos mortos que ressuscitam, não lestes no livro de Moisés, como junto à sarça Deus lhe falou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó?
Digo, porém: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó; como se dissesse: Deus dos viventes; por isso acrescenta: não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Pois não disse: Eu fui, mas Eu sou, como se eles estivessem presentes. Mas talvez alguém dirá que Deus disse isto somente da alma de Abraão, não do corpo. A isto respondemos que Abraão compreende ambos, isto é, corpo e alma, de tal modo que Ele seja também Deus do corpo, e o corpo viva junto a Deus, isto é, na ordenação de Deus.
Observe como Ele enumera todas as potências da alma. Há, pois, uma virtude da alma animal, que explica quando diz de toda a tua alma, à qual pertencem a ira e o desejo; Ele quer que se consagre tudo isso ao amor Divino. Existe também outra potência, que se chama natural, à qual pertencem a nutrição e o crescimento; e também esta deve ser dada inteiramente ao Senhor; por isso diz de todo o teu coração. Há também outra potência, a racional, que Ele chama de mente; e também esta deve ser dada integralmente a Deus.
Por isso diz que é semelhante, porque estes dois mandamentos são mutuamente concordantes entre si, e reciprocamente se convertem: pois aquele que ama a Deus, ama também a sua criatura. A principal de suas criaturas é o homem: por isso, quem ama a Deus, deve amar todos os homens; quem ama ao próximo, que muitas vezes dá causa de escândalo, muito mais deve amar Àquele que sempre concede benefícios; e por isso, devido à coerência destes mandamentos, acrescenta que não há outro mandamento maior do que estes. Segue-se: "E o escriba lhe disse: Bem, Mestre, com verdade disseste".
Como Cristo havia de chegar à paixão, corrige a falsa opinião dos judeus, que diziam que Cristo era filho de Davi, não seu Senhor; por isso se diz E respondendo Jesus, disse ensinando no templo.
Cristo mostra que Ele é o Senhor pelas palavras de Davi; pois segue: ele mesmo dizia no Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita; como se dissesse: Não podeis me dizer que Davi disse isto sem a graça do Espírito Santo; mas no Espírito Santo o chamou de Senhor. E que Ele seja o Senhor, mostra pelo que acrescenta: até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés. Pois eles mesmos eram seus inimigos, os quais Deus Pai pôs como escabelo de Cristo. O fato de que os inimigos lhe são sujeitos pelo Pai não indica fraqueza do Filho, mas a unidade de natureza, pela qual um opera no outro. Pois também o Filho sujeita os inimigos do Pai, porque glorifica o Pai sobre a terra.
Mas andavam com vestes respeitáveis, desejando por isso serem honrados previamente, e de modo semelhante apeteciam outras coisas que conduzem à glória; pois segue-se: e ser saudados nas praças, e sentar nas primeiras cadeiras nas sinagogas, e ocupar os primeiros lugares nos banquetes, isto é, eles desejavam.
Especialmente também ensina aos Apóstolos que não tenham nenhuma comunicação com os Escribas, mas que imitem o próprio Cristo; e ordenando-os mestres nas coisas que devem ser realizadas na vida, coloca outros abaixo deles1.
[1] Nota do editor: As palavras de Teofilacto deveriam ser traduzidas - Ele se torna o exemplo deles nos deveres da vida. ↩
Aproximavam-se, porém, os Escribas destas mulheres, que permaneciam sem a proteção do marido, como se fossem seus protetores; e com simulação de oração, e aparência de reverência, e por hipocrisia enganavam as viúvas, e assim também devoravam as casas dos ricos. Segue-se: "Estes receberão juízo mais rigoroso", isto é, mais do que os outros judeus pecadores.
Era, pois, um louvável costume entre os judeus que, a saber, aqueles que tinham e queriam colocar algo no gazofílacio, o faziam para o sustento dos sacerdotes, dos pobres e das viúvas; por isso, segue-se: "e muitos ricos lançavam muito". Enquanto muitos faziam isto, aproximou-se também uma viúva, demonstrando seu afeto na oferta de dinheiro segundo sua própria capacidade; por isso, segue-se: "quando veio, porém, uma pobre viúva, depositou duas pequenas moedas, que é um quadrante".
Ou de outro modo. Esta viúva é a alma do homem, que abandona Satanás, ao qual estava unida; a qual lança no erário do templo dois pequenos tostões, a saber, a carne e a mente: a carne pela abstinência, e a mente pela humildade; para que assim possa ouvir que colocou todo o seu sustento, e o fez sagrado, não deixando nada de seu para o mundo.
Como o Senhor havia falado muitas coisas sobre a destruição de Jerusalém, seus discípulos admiravam-se de que tão grandes e belos edifícios devessem ser destruídos; e por isso mostram-lhe a beleza do templo; o qual não somente disse que estas coisas seriam destruídas, mas também que nelas não ficaria pedra sobre pedra: donde segue-se e Jesus, respondendo, disse-lhe: vês estas grandes edificações? Não ficará pedra sobre pedra que não seja destruída. Mas alguns diriam que muitos vestígios permaneceram, como se esforçassem para mostrar que Cristo mentiu. Mas de modo algum é assim; pois ainda que alguns vestígios tivessem permanecido, contudo, até a consumação universal não ficará pedra sobre pedra. Além disso, narra-se que Élio Adriano derrubou a cidade e o templo desde o fundamento; de modo que a palavra do Senhor que aqui se diz foi cumprida.
Mas antes de responder às suas perguntas, confirma a mente deles, para que não sejam seduzidos; donde segue: e Jesus, respondendo, começou a dizer-lhes: vede que ninguém vos seduza. Ele diz isto porque, iniciando-se os sofrimentos em torno da Judeia, levantaram-se alguns que diziam ser mestres; donde segue: porque muitos virão em meu nome, dizendo: eu sou.
Isto é, os romanos contra os judeus; o que Josefo narra ter ocorrido antes da destruição de Jerusalém. Pois quando o povo dos judeus não pagou o tributo, os romanos vieram perturbados. Mas porque naquele tempo os romanos eram misericordiosos, teriam tomado seus despojos, mas não teria ocorrido a destruição de Jerusalém. Mas que Deus combatia contra os judeus, mostra-se pelo que se segue: "e haverá terremotos em diversos lugares e fomes".
Convenientemente também antepôs a narração sobre aquelas coisas que diziam respeito aos apóstolos, para que em suas próprias tribulações tivessem algum consolo nas tribulações e sofrimentos comuns; segue-se, pois: "E estareis diante de reis e governadores por causa de mim, em testemunho contra eles". Reis e governadores diz, como Agripa, Nero e Herodes. Quando ele diz "estareis diante de reis e governadores por minha causa", deu-lhes não pequeno consolo, porque haviam de sofrer por causa dele. Quando ele diz "em testemunho contra eles", entende-se assim: isto é, em prejuízo deles, para que fossem inescusáveis; pois, trabalhando os apóstolos, eles não puderam unir-se à verdade. Depois, para que não acreditassem que por causa das tribulações e perigos a pregação seria impedida, acrescenta: "E primeiro é necessário que o Evangelho seja pregado a todas as nações".
Prediz também a eles o que era mais grave, a saber, que da parte dos seus parentes sofrerão perseguição, razão pela qual segue-se: "o irmão, porém, entregará o irmão à morte, e o pai ao filho; e levantar-se-ão os filhos contra os pais, e os farão morrer".
Isto, porém, diz para que, ao ouvirem isto, preparem-se para suportar com mais paciência as perseguições e os males. Em seguida, introduz uma consolação dizendo: "E sereis odiados por todos por causa do meu nome". Pois o fato de sermos odiados por causa de Cristo é causa suficiente para suportar pacientemente as perseguições; porque não é o castigo, mas a causa, que faz o mártir. Mas também naquilo que se segue: "Mas quem perseverar até o fim, este será salvo", parece haver não pequena consolação em meio às perseguições.
Ou Ele chama "abominação da desolação" a entrada dos inimigos na cidade por violência.
E bem disse os que estão na Judeia, porque os Apóstolos já não estavam na Judeia, mas antes da batalha haviam sido expulsos de Jerusalém.
Mas parece-me que nessas palavras Ele prediz o comer dos filhos, pois quando afligidos pela fome e pestilência, eles lançaram mãos sobre seus filhos.
Para que aqueles que desejam fugir não sejam impedidos pela dificuldade do tempo. E adequadamente atribui a causa para tamanha necessidade de fuga, quando diz: "Porque naqueles dias haverá tribulações tais como não houve desde o princípio da criação que Deus criou até agora, nem haverá".
Isto é, se a guerra dos romanos não tivesse terminado em breve tempo, nenhuma carne seria salva; ou seja, nenhum judeu teria escapado; mas pelos eleitos, que Ele escolheu, isto é, pelos judeus crentes ou pelos que no futuro acreditariam, abreviou os dias; isto é, rapidamente a guerra foi terminada; pois Deus sabia de antemão que muitos judeus acreditariam após a devastação da cidade: por esta graça não permitiu que a raça deles fosse completamente destruída.
Também convém que nós fujamos do pecado com fervor, e não friamente e tranquilamente.
Depois que o Senhor completou tudo o que pertencia a Jerusalém, agora fala sobre a vinda do Anticristo, dizendo: "E então se alguém vos disser: Eis aqui está o Cristo, ou ei-lo ali, não acrediteis." Mas quando Ele diz "então", não entendas assim, isto é, imediatamente após terem sido cumpridas as coisas supramencionadas acerca de Jerusalém: assim como São Mateus, depois da geração de Cristo, diz: "Naqueles dias veio João;" porventura imediatamente após o nascimento de Cristo? Não, mas indeterminada ou indistintamente. Assim também neste lugar "então" pode ser compreendido, não certamente quando Jerusalém for desolada, mas por volta do tempo da vinda do Anticristo. Segue-se: "Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão sinais e prodígios para seduzir, se for possível, até mesmo os eleitos." Muitos, com efeito, assumirão o nome de Cristo, de modo que seduzam até mesmo os fiéis.
Mas depois do advento do Anticristo, a estrutura do mundo será alterada e mudada, obscurecidos os astros devido à abundância da claridade de Cristo: por isso segue-se mas naqueles dias, após aquela tribulação, o sol se obscurecerá, e a lua não dará o seu esplendor, e as estrelas do céu estarão caindo.
Isto é, as virtudes angélicas se espantarão, vendo tão grandes prodígios acontecerem, e seus conservos serem julgados.
Verão, porém, o Senhor como o Filho do homem, isto é, no corpo: pois aquilo que é visto é corpo.
Veja que Cristo Jesus envia os Anjos, assim como o Pai. Onde estão, portanto, aqueles que dizem que Ele não é igual ao Pai? Os Anjos sairão, pois, para congregar os fiéis eleitos, a fim de que, arrebatados pelos ares, venham ao encontro de Jesus Cristo; por isso segue: e congregará seus eleitos dos quatro ventos.
Como se dissesse: assim como quando brotam as folhas na figueira, imediatamente vem o verão, assim também após as angústias do Anticristo, imediatamente, sem qualquer intervalo, virá o advento de Cristo; que será verão para os justos após o inverno, mas para os pecadores será inverno após o verão.
Ou de outro modo. Não passará esta geração, a saber, dos cristãos, até que aconteçam todas as coisas que foram ditas acerca de Jerusalém e da vinda do Anticristo. Pois Ele não diz a geração dos apóstolos; porque a maior parte dos apóstolos não chegou até a consumação de Jerusalém. Diz isto, porém, da geração dos cristãos, querendo consolar os discípulos, para que não acreditassem que naqueles tempos a fé faltaria: pois primeiro os elementos imóveis falharão, do que as palavras de Cristo; donde se segue: o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.
Querendo o Senhor impedir os discípulos de perguntarem sobre aquele dia e hora, disse: "Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os Anjos no céu, nem o Filho, senão o Pai". Pois se tivesse dito "eu sei, mas não quero revelar-vos", os teria entristecido não pouco. Agora, porém, agiu mais sabiamente, e os excluiu de tal interrogação, para que não o importunassem, ao dizer: "nem os Anjos sabem, nem eu".
Ensina-nos, porém, duas coisas: vigiar e rezar; com efeito, muitos de nós vigiam, mas passando as noites em perversidades. E a isto, consequentemente, introduz uma semelhança, dizendo: "Como um homem que, partindo para o estrangeiro, deixou sua casa, e deu aos seus servos autoridade sobre cada obra, e ordenou ao porteiro que vigiasse".
Veja que Ele não disse: "Não sei quando será o tempo", mas "Não sabeis". Pois a razão pela qual Ele ocultou isto foi porque nos era mais conveniente; porque se agora, não sabendo o fim, somos descuidados, o que faríamos se o soubéssemos? Prolongaríamos nossas maldades até o fim. Atentemos, pois, às Suas palavras: o fim chega à tarde, quando alguém morre na velhice; à meia-noite, quando alguém morre no meio da juventude; e ao canto do galo, quando nossa razão se completa em nós: pois quando uma criança começa a viver segundo a razão, então o galo nela brada, despertando-a do sono da sensualidade; e a manhã é a idade da infância. Ora, todas estas idades devem estar vigilantes quanto ao fim: pois mesmo uma criança deve ser vigiada, para que não morra sem o batismo.
O próprio Cristo havia estabelecido para si o tempo da paixão: pois quis ser crucificado na Páscoa, porque Ele mesmo era a verdadeira Páscoa.
Ainda que os quatro Evangelistas mencionem o unguento da mulher, não se trata de uma só, mas de duas: uma que é descrita por São João, que é irmã de Lázaro, a qual seis dias antes da Páscoa ungiu os pés de Jesus; a outra que é descrita pelos outros três Evangelistas. E se prestarmos atenção, encontraremos que são três. Por São João é descrita uma, por São Lucas outra, e pelos dois restantes uma terceira. Aquela que é descrita por São Lucas é dita ser meretriz, tendo vindo a Jesus no meio do tempo de sua pregação. Esta, porém, que é descrita por São Mateus e São Marcos, diz-se que veio no tempo da paixão, não confessando ser pecadora.
Ou, como se diz em grego, de nardo pístici, isto é, fiel, porque o unguento de nardo era confeccionado sem fraude e com fidelidade.
Ou convenientemente parece ser insinuado que muitos discípulos criticaram a mulher, pelo fato de que frequentemente haviam ouvido Cristo ensinando sobre a esmola. Mas Judas não suportou com a mesma intenção, mas por amor ao dinheiro e ao torpe lucro; por isso São João menciona apenas a ele, como repreendendo a mulher com intenção fraudulenta. Diz ainda "e bramavam contra ela"; isto é, a molestavam, repreendendo-a e infligindo-lhe injúrias. O Senhor, porém, repreende os discípulos porque impediam o desejo da mulher; por isso segue "Jesus, porém, disse: deixai-a: por que a molestais?" Pois depois que ela havia oferecido o seu presente, eles a pervertiam com opróbrios.
Preveniu, pois, como se guiada por Deus, ungir o meu corpo, em sinal de sepultura: no que confunde o traidor, como se lhe dissesse: com que consciência tu confundes a mulher, que unge o meu corpo para a sepultura; e não te confundes a ti mesmo, que me entregarás à morte? Profetiza o Senhor, consequentemente, duas profecias: a saber, que o Evangelho será pregado em todo o mundo, e que a obra da mulher será louvada; donde segue em verdade vos digo: onde quer que for pregado...
Diz, porém, "para entregá-lo a eles"; isto é, para anunciar-lhes quando Ele estivesse só. Pois temiam se precipitar sobre Ele quando ensinava, por causa da multidão.
Pelo que dizem os discípulos "Aonde queres que vamos?", manifesta-se claramente que Cristo não tinha habitação alguma; e nem os discípulos tinham casas próprias: pois se as tivessem, eles O teriam levado a elas.
Ele envia dois de seus discípulos, a saber, Pedro e João, como diz São Lucas, a um homem desconhecido, dando a entender por isso que Ele poderia não ter padecido. Pois aquele que moveu a mente de um desconhecido para recebê-los, o que não poderia operar em outros? Dá-lhes também um sinal para que encontrassem a casa, quando acrescenta: "E vos encontrará um homem carregando um cântaro de água".
Aquele que é batizado carrega o cântaro de água, e aquele que traz o Batismo sobre si vem ao descanso, vivendo segundo a razão, e goza do repouso, como em sua casa; por isso acrescenta: "segui-o".
Ou então, o senhor da casa é o intelecto, que aponta para o cenáculo grande, isto é, a elevação das inteligências; que embora seja alto, contudo não tem nada de vanglória e de orgulho; mas é preparado e tornado plano pela humildade. Ali, porém, isto é, em tal mente, a Páscoa de Cristo é preparada por São Pedro e São João, a saber, pela ação e pela contemplação.
Mas como comiam reclinados, quando a lei ordenava que deveriam comer a Páscoa de pé e eretos? [p. 284] É provável que eles tivessem primeiro cumprido a Páscoa legal, e depois se reclinaram, quando Ele começou a dar-lhes a Sua própria Páscoa.
Os outros discípulos começaram a entristecer-se por causa da palavra do Senhor; pois ainda que estivessem isentos desta paixão, confiavam mais naquele que conhece os corações de todos do que em si mesmos. Segue-se: "E respondeu-lhes: É um dos doze, que mete a mão comigo no prato".
Por meio disto que se diz vai, mostra-se que a morte de Cristo foi voluntária, e não necessária.
Pois, considerando o fim para o qual foi designado, teria sido melhor para ele ter nascido, se não se tornasse traidor; porque Deus o criou para boas obras; mas depois que caiu em tão terrível maldade, teria sido melhor para ele nunca ter nascido.
Isto é, dando graças, Ele partiu: o que também nós fazemos, acrescentando orações.
A saber, isto que agora dou, e que agora tomais. Porém o pão não é apenas figura do corpo de Cristo, mas é transmutado no próprio corpo de Cristo: pois o Senhor diz: "o pão que eu darei é a minha carne"; mas, contudo, a carne de Cristo não é vista por causa da nossa fraqueza: pois o pão e o vinho são coisas a que estamos acostumados; mas se víssemos carne e sangue, não poderíamos suportar tomá-los. Por isso o Senhor, condescendendo à nossa fraqueza, conserva as espécies do pão e do vinho; mas converte o pão e o vinho na verdade da sua carne e do seu sangue.
Alguns, porém, dizem que Judas não foi participante dos mistérios, mas que saiu antes que o Senhor concedesse os mistérios. Outros também dizem que Ele deu a ele daquele mistério.
Como se dissesse: não beberei de vinho até a ressurreição; pois chama reino à ressurreição, como se então reinasse contra a morte. Mas depois da ressurreição bebeu com os discípulos e comeu, mostrando que era o mesmo que havia padecido. Bebeu-o novo, isto é, de um modo novo e diferente: pois não tinha um corpo passível necessitando de alimento, mas imortal e incorruptível. Também pode-se entender assim: a videira é o próprio Senhor, o fruto da videira são os mistérios e o entendimento oculto, que Ele mesmo gera, Ele que ensina ao homem a ciência. No reino de Deus, isto é, no século futuro, Ele beberá com seus discípulos os mistérios e a sabedoria, ensinando-nos coisas novas e revelando o que agora oculta.
Ao mesmo tempo também mostra aqui que lhe era desejável morrer por nós: pois quando estava para ser entregue, dignou-se a louvar a Deus. Ensina-nos também que, quando caímos em angústias pela salvação de muitos, não devemos entristecer-nos, mas dar graças a Deus, que em nossa tribulação opera a salvação de muitos.
Saiu, porém, para o monte, a fim de que, aproximando-se dele por estar solitário, pudessem capturá-lo sem tumulto. Pois se tivessem se aproximado enquanto ele permanecia na cidade, talvez a multidão do povo tivesse se perturbado; e então seus inimigos, aproveitando manifestamente a ocasião, pareceriam matá-lo justamente como alguém que incitava o povo.
O Senhor permitiu que eles caíssem, para que não confiassem em si mesmos; e para que não parecesse que Ele havia predito o que dissera a partir de algum argumento aparente, Ele introduz o testemunho do profeta Zacarias; pelo que segue: "Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas"(Zacarias 13,7).
Diz o Pai: "Ferirei o pastor", porque permitiu que fosse ferido. Ele chama os discípulos de ovelhas, por serem inocentes e desprovidos de malícia. Por fim, consola-os dizendo: "Mas depois que eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galileia".
Isso deve entender-se assim. Pedro negou uma vez; em seguida o galo cantou; e negando ele com outras duas negações, então o galo emitiu voz pela segunda vez.
Também os outros discípulos mostraram um fervor intrépido; porquanto segue-se: "Semelhantemente também todos diziam"; mas, todavia, resistiam à verdade que Cristo havia predito.
Singularmente era também seu costume orar sempre, dando-nos exemplo para que busquemos o silêncio e a solidão em nossas orações. Segue-se que tomou consigo Pedro, Tiago e João. Somente levou aqueles três que haviam sido testemunhas de sua glória no monte Tabor, para que aqueles que viram sua glória, vissem também sua tristeza, e aprendessem que Ele era verdadeiramente homem por estar triste; de onde segue-se que começou a temer e a angustiar-se. Pois como havia assumido toda a natureza humana, assumiu também as propriedades naturais do homem: temer, angustiar-se e entristecer-se naturalmente; porque os homens naturalmente se dirigem à morte contra sua vontade; de onde se segue: e disse-lhes: Minha alma está triste até a morte.
Alguns, porém, entenderam isto como se dissesse: pois estou triste, não porque devo morrer, mas porque os israelitas, meus compatriotas, irão me crucificar, e por isso devem ser excluídos do reino de Deus.
Como se dissesse: o vosso espírito está pronto para não me negar, e por isso o prometeis; mas a vossa carne é tão fraca que, a não ser que o Senhor dê força à carne pela oração, entrareis em tentação.
Para confirmar, por meio desta segunda oração, que era verdadeiramente homem. Segue-se: e voltando novamente, encontrou-os dormindo; entretanto, não os repreendeu severamente: pois seus olhos estavam pesados, ou seja, de sono, e não sabiam o que lhe responder. Por isso, aprende a fraqueza humana, para que, carregados de sono, não prometamos coisas que nos são impossíveis. Portanto, foi pela terceira vez orar a mesma oração: donde segue-se: e veio pela terceira vez, e disse-lhes: dormi agora e descansai. Não se perturba contra eles, embora depois da repreensão tivessem agido pior; mas ironicamente lhes diz: dormi agora e descansai: porque já sabia que o traidor se aproximava. E que falou ironicamente, evidencia-se pelo que acrescenta: basta. Chegou a hora: eis que o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores. Dizia isso zombando do sono deles, como se dissesse: agora é tempo de dormir quando o inimigo se aproxima. Em seguida acrescenta: levantai-vos, vamos: eis que aquele que me trairá está próximo. Não diz isso para que fugissem, mas para que enfrentassem os inimigos.
Isto não é colocado sem motivo, mas para maior acusação do traidor; pois sendo do primeiro círculo dos discípulos, voltou-se com fúria contra o Senhor. Segue-se: "e com ele uma grande multidão com espadas e paus, enviada pelos sumos sacerdotes e escribas e anciãos".
Vede sua insensibilidade, como acreditava enganar a Cristo com um beijo, para que fosse considerado como um amigo. Mas se eras amigo, ó Judas, por que razão te aproximaste com os inimigos? Mas toda maldade é desprovida de prudência. Segue-se: "E, logo que chegou, aproximando-se dele disse: Salve, Mestre; e o beijou".
Marcos cala o nome dele, para não parecer que estava louvando seu mestre como zeloso por Cristo. Pedro indica por este gesto que eles eram desobedientes e incrédulos, desprezando as Escrituras; pois se tivessem ouvidos para ouvir as Escrituras, não teriam crucificado o Senhor da glória. Cortou, porém, a orelha do servo do sumo sacerdote: porque os sumos sacerdotes primeiramente negligenciavam as Escrituras, tornando-se como servos que não ouvem. Segue-se: E Jesus, respondendo, disse-lhes: Como a um ladrão, saístes com espadas e paus?
Isto, porém, mostra a Sua divindade: quando ensinava no templo, não puderam prendê-lo, embora estivesse em suas mãos, porque ainda não tinha chegado o tempo da paixão; mas quando Ele mesmo quis, então entregou-se a Si mesmo, para que se cumprissem as Escrituras: pois como um cordeiro foi levado ao matadouro, não clamando nem vociferando, mas padecendo voluntariamente. Segue-se: então os seus discípulos, abandonando-o, todos fugiram.
Parece provável que este adolescente era da casa onde haviam comido a Páscoa. Alguns, porém, dizem que este adolescente era Tiago, irmão do Senhor, que era chamado justo, o qual, depois da ascensão de Cristo, recebeu dos Apóstolos a cátedra de Jerusalém.
A lei determinava que existisse apenas um sumo sacerdote, mas naquele tempo havia muitos que eram nomeados e destituídos anualmente pelo príncipe dos romanos. Chama, portanto, sumos sacerdotes àqueles que, tendo completado o tempo determinado para eles, já haviam concluído e foram destituídos do sacerdócio. Executavam uma figura do juízo, que realizavam com prejulgamento, buscando testemunhos, para que parecesse que condenavam e destruíam Jesus com justiça.
Pois o Senhor não havia dito: Eu destruirei aquele templo, mas: destruí; nem disse feito por mãos, mas simplesmente templo.
Calava-se, pois, sabendo que não dariam atenção às suas palavras; por isso, segundo São Lucas, respondeu: "Se vos disser, não me acreditareis"; donde se segue: "novamente o sumo sacerdote interrogou-o e disse-lhe: Tu és o Cristo, o Filho de Deus bendito?" O sumo sacerdote interroga isto, não para aprender e crer, mas para buscar alguma ocasião contra Ele. Pergunta: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus bendito?" Porque muitos eram os Cristos, isto é, os ungidos, como os reis e os sumos sacerdotes; mas nenhum deles era chamado Filho de Deus bendito, como o sempre louvado.
Pois sabia que não creriam, contudo lhes respondeu, para que depois não dissessem: se tivéssemos ouvido algo dele, teríamos crido nele. Isto, porém, é para condenação deles: porque ouviram e não creram.
Como se dissesse: Ver-me-eis como o Filho do homem sentado à direita do Pai. Pois aqui Ele chama ao Pai "poder". No entanto, Ele não virá sem corpo; mas assim como apareceu àqueles que O crucificaram, assim também aparecerá no juízo.
O sumo sacerdote age conforme o costume dos judeus: quando algo intolerável e triste lhes ocorria, rasgavam suas vestes. Assim, para mostrar que Cristo havia dito uma grande e intolerável blasfêmia, rasgou suas vestes.
O sacerdócio dos judeus devia ser cindido desde que condenaram Cristo como réu de morte; donde se segue: "e todos eles o condenaram como réu de morte".
O Senhor permitiu-lhe sofrer isto por Sua providência, a fim de que ele não se exaltasse; e ao mesmo tempo para que se mostrasse misericordioso para com os pecadores, como alguém instruído por sua própria experiência sobre a fragilidade humana. Segue: "E saiu para fora ao átrio, e o galo cantou".
Então, Pedro, aterrorizado pelo medo, e esquecendo as palavras do Senhor, que disse: "Aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai"(São Mateus 10,32), negou o Senhor; por isso se segue: "Ele, porém, começou a amaldiçoar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais".
As lágrimas, por meio da penitência, reconduziram Pedro a Cristo. Confundam-se, portanto, os Novacianos, que dizem que aquele que peca após receber o Batismo não é acolhido para que seu delito seja perdoado. Eis, pois, Pedro, que recebeu o corpo e o sangue de Cristo, e foi acolhido pela penitência. Com efeito, as faltas dos santos foram escritas para que nós também, se cairmos por falta de vigilância, possamos recorrer ao exemplo deles e esperar ser erguidos pela penitência.
Entregaram, portanto, Jesus aos romanos; mas eles mesmos foram entregues por Deus nas mãos dos romanos, para que se cumprissem as Escrituras que dizem: "segundo as obras das suas mãos, retribui-lhes"(Salmo 28,5). Segue-se "e Pilatos interrogou-o: tu és o rei dos judeus?"
Pois Ele deu uma resposta ambígua: porque "tu o dizes" pode ser entendido como: tu dizes isso, mas eu não o digo. E note-se que a Pilatos, que profere a sentença contra sua vontade, Ele respondeu em parte; mas aos sacerdotes e príncipes não quis responder, julgando-os indignos de Sua palavra. Segue-se "e os sumos sacerdotes O acusaram de muitas coisas".
Pilatos, porém, admirava-se: porque, sendo doutor da lei, e eloquente, e capaz de refutar as acusações deles com sua resposta, não respondia coisa alguma, mas antes suportava virilmente as acusações.
Vede, pois, a depravação dos judeus e a contemporização de Pilatos, ainda que ele mesmo seja digno de condenação por não resistir ao povo. Eles, de fato, clamavam "crucifica"; este tenta humildemente livrar Jesus daquele preconceito; e por isso novamente interroga; de onde se segue: "Pilatos, porém, dizia-lhes: que mal fez ele?" Pois queria aproveitar esta ocasião para libertar a Cristo inocente.
Ele queria, de fato, satisfazer ao povo, isto é, fazer a vontade deles, e não o que era agradável à justiça e a Deus.
A vanglória militar, sempre se alegrando na desordem e nos opróbrios, mostrava o que lhe era próprio; por isso diz: os soldados conduziram-no ao interior do átrio do pretório, e convocam toda a coorte, isto é, toda a ordem militar; e vestem-no de púrpura, como a um rei.
Revistamo-nos também nós da púrpura, a veste real, porque devemos andar como reis, pisando sobre serpentes e escorpiões, e subjugando o pecado. Pois somos chamados cristãos, isto é, ungidos, assim como os reis eram então chamados ungidos. Tomemos também a coroa de espinhos, isto é, apressemo-nos a ser coroados com uma vida austera, com abstinências e pureza.
São João, porém, diz que Ele próprio carregava sua cruz para si: pois ambas as coisas ocorreram: porque Ele mesmo primeiro carregou a cruz para si, até que passasse certo homem a quem obrigaram, e então aquele a carregou. Mencionou de quais filhos ele era pai para maior fé e afirmação: pois aquele homem ainda vivia, que podia narrar tudo o que aconteceu acerca da cruz.
Ou, por alguma ordenação existente, uns traziam algumas coisas e outros traziam outras; alguns traziam vinagre e fel, e outros traziam vinho misturado com mirra.
Quanto ao fato de terem lançado sortes sobre as suas vestes, também fizeram isso por zombaria, como que dividindo as vestes de um rei: pois de fato eram vestes simples, não muito preciosas. São João Evangelista expõe isso mais plenamente, pois os soldados, dividindo o restante em quatro partes conforme o seu número, lançaram sortes sobre a túnica, que era sem costura, tecida de alto a baixo por inteiro.
Escreveram este título, isto é, a causa pela qual foi crucificado, como que vituperando sua pretensão de quem se fazia rei, para que assim os transeuntes não pudessem ter misericórdia dele, mas sim o insultassem como a um tirano.
Para que os homens concebessem uma má opinião contra Ele, como se Ele fosse um ladrão e um malfeitor. Isto, porém, foi feito providencialmente para cumprir a Escritura; donde segue: "e cumpriu-se a Escritura que diz: E foi contado entre os iníquos".
Ou de outro modo. Os dois ladrões representavam os dois povos, a saber, o judeu e o gentio: ambos iníquos: o gentio como transgressor da lei natural, e o judeu da lei escrita que o Senhor lhe havia entregado; mas o gentio arrependido, o judeu blasfemando até o fim: no meio deles é crucificado o Senhor: pois Ele mesmo é a pedra angular que nos une.
Os transeuntes blasfemavam contra Cristo, recriminando-o como um sedutor. O diabo, porém, os movia a dizer que ele descesse da cruz; porque, conhecendo que a salvação se realizava pela cruz, novamente se interpunha para tentar a Cristo, para que, se ele descesse da cruz, pudesse ter certeza de que não era verdadeiramente o Filho de Deus, e assim a salvação que vem pela cruz fosse destruída. Mas ele, sendo verdadeiramente o Filho de Deus, não desceu; pois se devesse descer, não teria subido ali desde o princípio; mas porque via que por este modo era necessário fazer-se a salvação, suportou ser crucificado e sofrer muitas outras coisas, e completar sua obra. Segue-se: "Semelhantemente também os sumos sacerdotes zombando diziam entre si juntamente com os escribas: salvou a outros, a si mesmo não pode salvar". Diziam isso abolindo seus milagres, como se tivessem sido realizados por ele apenas em aparência: pois operando milagres salvou a muitos.
Ou ambos o injuriavam a princípio; depois, um reconhecendo-o como inocente, repreende o outro por blasfemá-lo.
Se, porém, tivesse sido tempo de eclipse, alguém poderia dizer que esta ocorrência fosse natural; mas então era a décima quarta lua, quando um eclipse natural não pode ocorrer. Segue-se: "e à hora nona Jesus exclamou com voz forte, dizendo: Eli, Eli"
Ou isto diz o homem crucificado por mim a Deus: pois nós homens fomos abandonados, mas Ele nunca foi abandonado pelo Pai: ouvi o que diz São João: "Não estou só, porque o Pai está comigo"(São João 16,32). E ainda que Ele tenha dito isto pelos judeus, sendo Ele mesmo judeu segundo a carne; como se dissesse: por que abandonaste o povo hebreu, para que crucificassem o teu Filho? Assim como às vezes costumamos dizer: Deus me revestiu, isto é, revestiu minha natureza, a saber, a humana; do mesmo modo aqui, "me abandonaste", deve-se entender referente à natureza humana, ou ao povo judeu. Segue-se "E alguns dos que ali estavam, ouvindo, diziam: Eis que chama a Elias".
E aquele que domina e manda sobre a morte expira com poder, como Senhor. Qual foi esta voz, Lucas declara: "Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito". Pois Cristo quis por isto mostrar-nos que as almas dos santos sobem às mãos de Deus: porque antes todas as almas eram retidas nos Infernos, até que veio aquele que pregou a remissão aos cativos.
O véu também se rasgou, indicando Deus que a graça do Espírito Santo se retira do templo e se rasga para que o Santo dos Santos pudesse ser visto por todos, e que o templo chorará entre os judeus, quando lamentarem suas calamidades e rasgarem suas vestes. Isto também mostra o templo animado, isto é, o corpo de Cristo, em cuja paixão sua vestimenta foi dilacerada, ou seja, a carne. E também significa outra coisa: pois a carne é o véu do nosso templo, isto é, da nossa mente; mas o poder da carne foi rasgado na paixão de Cristo do alto até embaixo, isto é, desde Adão até os últimos homens: pois também Adão foi curado pela paixão de Cristo, e sua carne não permanece sob a maldição, nem é digna de corrupção; mas todos fomos honrados com a incorruptibilidade. "Vendo, pois, o centurião". Centurião é chamado aquele que é chefe de cem soldados. Vendo, porém, que tão poderosamente e com tal domínio havia expirado, admirou-se e confessou.
E assim a ordem se inverte, enquanto os judeus matam e o gentio confessa; os discípulos fogem, e as mulheres permanecem; pois segue: "Estavam também ali algumas mulheres olhando de longe, entre as quais estava Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé". Salomé era chamada a mãe dos filhos de Zebedeu.
Ousou um louvável atrevimento: pois não considerou: perderei minhas riquezas e serei expulso pelos judeus, se pedir o corpo daquele que foi condenado como blasfemo. Segue-se Pilatos, porém, admirava-se de que já estivesse morto. Pois pensava que viveria por muito tempo na cruz, assim como os ladrões viviam por muito tempo no patíbulo. Segue-se e, chamando o centurião, perguntou-lhe se já estava morto, isto é, antes da hora em que os outros costumavam morrer. Segue-se e, tendo sido informado pelo centurião, ou seja, que estava morto, deu o corpo a José.
Sepultando preciosamente o precioso corpo: pois sendo discípulo do Senhor, sabia como o corpo do Senhor deveria ser honrado.
Imitemos também nós a José, recebendo o corpo de Cristo pela unidade, e coloquemo-lo no sepulcro talhado na pedra, isto é, na alma que se recorda e não se esquece de Deus: pois aquela alma é talhada da pedra, isto é, de Cristo, que é a pedra, porque contém firmeza. Devemos também envolvê-lo em linho fino, isto é, recebê-lo em um corpo puro: pois o linho fino é o corpo, que é a vestimenta da alma. Convém, portanto, não só com alma pura receber o corpo de Cristo, mas também em corpo puro. É necessário envolvê-lo, mas não descobri-lo: pois o secreto está fechado e oculto. Segue-se: "Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde era colocado".
Pois eles não compreendem a grandeza e dignidade da divindade de Cristo. Vieram, porém, conforme o costume dos judeus, ungir o corpo de Cristo, para que permanecesse odorífero e não exalasse umidade, pois os aromas possuem virtude dessecativa, absorvendo a umidade do corpo, conservando assim o corpo incorrupto.
Diz uma sabbatorum, isto é, o primeiro dia da semana: pois os dias da semana são chamados sábados, e a palavra "una" significa "primeira".
Se São Mateus diz que o Anjo estava sentado sobre a pedra, enquanto Marcos, porém, afirma que as mulheres, entrando no sepulcro, viram um jovem sentado, não vos admireis: pois aquele que primeiramente viram sentado sobre a pedra, também o viram depois dentro do sepulcro.
Alguns, porém, dizem que as mulheres mencionadas por São Mateus eram diferentes das que são citadas por São Marcos; mas Maria Madalena seguia a todas, tendo uma apressada diligência e um ardente afeto.
Pois ele não se envergonha da Cruz: porque nela está a salvação dos homens e o princípio dos bem-aventurados.
E como se dissesse: quereis certificar-vos de sua ressurreição? Acrescenta: eis o lugar onde o puseram: por isso também havia revolvido a pedra, para mostrar-lhes o lugar.
Ou por causa dos judeus, ou retidas pelo temor da visão, calavam-se sobre aquilo que tinham ouvido.
Ou de outro modo. No que diz "Ressuscitado Jesus", põe-se um ponto; depois diga-se "na manhã do primeiro dia da semana apareceu primeiramente a Maria Madalena".
Portanto, Maria teve sete demônios, pois estava cheia de todos os vícios. Ou então, por sete demônios são entendidos sete espíritos contrários às sete virtudes, como o espírito sem temor, sem sabedoria, sem entendimento, e quaisquer outros que se opõem aos dons do Espírito Santo.
Pois ele não diz isto dos onze apóstolos, mas de alguns outros aos quais chama de "os demais".
Ou a toda criatura, isto é, aos que creem e aos que não creem. Segue-se "quem crer e for batizado será salvo". Pois não basta crer: porque aquele que crê e ainda não foi batizado, mas é catecúmeno, ainda não alcançou perfeitamente a salvação.
Isto é, dispersarão os poderes intelectuais, assim como aquilo de São Lucas: "calcai sobre serpentes e escorpiões"(São Lucas 10,19), que se entende intelectualmente. Pode também ser entendido sobre serpentes sensíveis, assim como também Paulo não sofreu dano algum da víbora. Segue-se "e se beberem algo mortal, não lhes fará mal". Muitos fatos semelhantes lemos nas histórias: pois a muitos que beberam venenos, protegidos pelo sinal de Cristo, o veneno não pôde causar dano. Segue-se "imporão as mãos sobre os enfermos, e ficarão curados".
Devemos saber também aqui que a palavra é confirmada por obras, assim como nos apóstolos, naquele tempo, as ações confirmavam a palavra, seguindo-se os sinais. Que seja assim, ó Cristo, que as nossas palavras que proferimos sobre a virtude sejam confirmadas pelas obras e atos; para que, finalmente, sejamos perfeitos com a tua cooperação em todas as palavras e obras; porque a ti convém a glória tanto das palavras como das obras. Amém.
A palavra "e" aparece aqui com frequência, onde esperaríamos antes orações subordinadas. Este era o modo antigo de falar, que Tiago nos conserva registrado.
As obras de que fala Tiago não são as da lei, mas as da justiça e das demais virtudes.